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Usando a mitologia e a psicologia do inconsciente, Kelmer nos oferece uma visão diferente de Matrix, o filme que revolucionou o cinema

, lotou salas em todo o mundo e tornou-se um fenômeno cultural, conquistando milhões de admiradores e instigando intensas discussões. Em linguagem descontraída, o autor nos revela a estrutura mitológica do enredo de Matrix, mostrando-o como uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói, e o compara ao processo individual de autorrealização, do qual fazem parte as crises do despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, as autossabotagens, a experiência do amor, a morte e o renascer. Podemos ser muito mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, o grande herói de nossas próprias vidas.

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RICARDO KELMER

e o despertar do herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas

1ª edição impressa: jul/2005 - 3ª edição para PDF: jun/2012 Capa: Miragem São Paulo-SP - Brasil - Terra, 3ª Pedra do Sol

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O filme Matrix chegou aos cinemas em 1999, ou seja, é um filme do século passado. Entretanto, as ideias que ele trouxe estão cada vez mais vivas no mundo do século 21: tecnologia, dominação, liberdade, a natureza da realidade... Este livro, porém, põe de lado os aspectos mais óbvios nas discussões sobre Matrix e foca naquilo que, para o autor, é o grande motivo do sucesso do filme: os fundamentos mitológicos de seu enredo, mais especificamente o mito da jornada do herói. Contado durante séculos ao redor de fogueiras, esse mito continua a ser contado e recontado, agora nos livros e nas salas de cinema, para que sua mensagem principal nunca se perca: o herói é aquele que se realiza a si mesmo. Em que parte do roteiro de sua jornada você se encontra agora? A sociedade já sabe que você é o Escolhido? Onde estão o Morfeu e a Trinity para ajudá-lo? O traidor já apareceu? Seja bem-vindo novamente à fascinante aventura de Neo. Dessa vez, porém, você o acompanhará sob a luz da mitologia e da moderna psicologia do inconsciente. E verá que, na verdade, o herói está do outro lado da tela. É o mesmo que agora lê estas palavras.

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Então os deuses, após criarem a raça humana, entraram numa discussão a respeito de onde esconder as respostas para as questões da vida, para que os seres humanos se vissem forçados a procurá-las. "Podemos escondê-las no topo de uma montanha de difícil acesso" – disse um deus. "Não" – disseram os outros.  "Eles logo as encontrarão". "Podemos ocultá-las no centro da Terra"  sugeriu outro deus. "Não"  replicaram os outros. "Eles logo as encontrarão". Outro deus propôs escondê-las no fundo do mar. "Lá também eles logo as encontrarão"  disseram os outros. Todos se calaram... Depois de algum tempo outro deus sugeriu: "Devemos colocar as respostas às questões da vida dentro dos seres humanos. Eles nunca irão procurar lá". E assim fizeram.

A você que um dia também se fez a perguntinha safada

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ÍNDICE

Apresentação 07 I - Cinema, mito e psicologia 09 II - Toc, toc, toc... Acorde, Neo! 29 III - Não existe colher ... 45 IV - Morrendo para vencer ... 69 V - Matrix Reloaded e Matrix Revolutions 90 VI - Os personagens 100 VII - Quadro comparativo 104

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APRESENTAÇÃO

Maio de 1999. O filme Matrix estreia no Brasil e eu, com quinze minutos de exibição, encontro-me atônito, como se uma força emanasse da tela e me espremesse contra a poltrona. Apesar da supervalorização dos efeitos especiais e das armas, sinto que estou diante de muito mais que um grande filme de aventura e ficção futurista. Percebo que o enredo tem profundas bases mitológicas e é formado por importantes arquétipos do inconsciente coletivo. Saio do cinema atordoado, envolto em mil pensamentos, preciso ver este filme de novo... De fato, voltei mais vezes ao cinema e vi e revi o filme na TV. Um dia deu-se o clarão: a história de Matrix podia perfeitamente ser compreendida como metáfora do processo de individuação (neste livro chamarei de autorrealização) de que nos fala a psicologia junguiana. Se os irmãos diretores tinham ou não ciência disso quando criaram o enredo, não importa. O processo todo está lá, camuflado em obra de ficção. O sucesso mundial reforçou minha primeira impressão: Matrix é mesmo um fenômeno cultural, lotando cinemas, influenciando comportamentos e provocando discussões sobre tecnologia, dominação cultural, controle social, religião e natureza da realidade. Jamais uma obra artística unira entretenimento, tecnologia e filosofia em tais dimensões e provocara tanto a mente das pessoas no mundo inteiro. Decidi expressar minha interpretação da obra e, ainda em 1999, comecei a escrever artigos para jornais e sites na internet, procurando discutir aspectos sobre os quais o filme nos fazia pensar como mitologia, psicologia, filosofia, religião, misticismo e tecnologia. Em 2000 fui convidado a falar sobre Matrix durante o Encontro da Nova Consciência*. Falei sobre a aventura de Neo para um público de quinhentas pessoas, comparando-a ao mito da jornada do herói e ao processo de autorrealização do ser humano, que Jung, o notável pesquisador da alma, descobriu em seus estudos e no atendimento psicológico a seus pacientes e denominou “processo de individuação”. Desde então recebo convites de variados lugares para falar sobre o filme dentro dessa visão mitológico-psicológica, o que
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confirma que Matrix exerce um notável fascínio sobre muitas pessoas, jovens e adultos, não apenas fãs de ficção futurista ou maníacos por computadores. Como o segundo e o terceiro filmes da série não trouxeram muitos elementos novos para a análise que faremos aqui, nós nos concentraremos mais no filme inicial pois ele contém os elementos principais da ideia sobre a qual fala este livro. Minha intenção é utilizar a estrutura mitológica do enredo de Matrix (a jornada do herói) para falar de um tema que considero imprescindível nas discussões mais profundas sobre o ser humano: a questão do autoconhecimento psicológico como fator indispensável para a verdadeira realização pessoal. Pretendo, dessa forma, mostrar às pessoas que podemos sim, cada um de nós, sermos os grandes heróis de nossas próprias vidas, ou seja, nos realizarmos da forma mais íntima e verdadeira possível. Para isso, porém, precisaremos fazer como Neo em Matrix: despertar, conhecer nossas possibilidades e assumir nosso destino. Usando um filme que é sucesso mundial, além de ser considerado um marco na história do cinema, creio que fica mais fácil levar esta questão ao grande público e não somente aos que se interessam por mitologia e psicologia. Espero que meu livro possa lhe ser útil.

RK Rio de Janeiro, maio de 2005

* Festival multicultural que acontece anualmente nos dias de carnaval em Campina Grande, Paraíba, e que reúne representantes de diversas áreas da ciência, da arte, da filosofia e das tradições espirituais.

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I Cinema, mito e psicologia

resumo do filme
No futuro a Inteligência Artificial, uma avançada geração de máquinas pensantes, entra em guerra contra os humanos e vence. Como praticamente não há mais fontes de energia no planeta, os corpos dos humanos sobreviventes são usados para manter as máquinas funcionando. Para que eles não percebam o que acontece, a Inteligência Artificial faz uso da Matrix, um superprograma de realidade virtual ao qual são conectadas as mentes dos humanos. Dessa forma, adormecidos e indefesos, os humanos dormem e vivem um sonho coletivo onde o mundo é como era no final do século 20. Um grupo de humanos, porém, despertou e mantém-se fora da realidade virtual. Eles se escondem das máquinas, invadem o sistema e tentam fazer as pessoas despertarem. Esses rebeldes creem na profecia do Oráculo que diz que o Predestinado um dia virá para destruir a Matrix e libertar a espécie humana de sua prisão mental. Eles acreditam que Neo, um jovem que vive na Matrix, é o Predestinado. Neo de fato desconfia que há algo errado com a realidade mas não pode aceitar que ele seja o tão aguardado salvador. Começa então sua guerra, contra a Matrix e contra si próprio.

escravos da própria criação O filme Matrix entra para a história como uma das obras que mais simbolizam o espírito de nossa época, onde a espécie humana festeja e glorifica a suprema tecnologia mas ao mesmo tempo começa a despontar no horizonte uma ameaça que nos aterroriza: a possibilidade de nos tornarmos escravos de nossa própria criação. De certa forma já somos escravos. A tecnologia atual nos faz
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depender das máquinas para quase tudo no dia a dia, desde o momento em que acordamos até a hora de dormir. Muitos inclusive só conseguem dormir se houver ar condicionado, ventilador, calefação, música no rádio ou com a TV ligada. Faça um teste: da próxima vez que faltar energia elétrica, perceba como as pessoas se comportam. É como se de repente a vida ficasse suspensa. Muitos simplesmente não sabem o que fazer e andam de um lado para outro feito zumbis, como se aguardassem uma ordem para voltar a funcionar. Outros saem no escuro à procura de fósforos ou isqueiros, praguejam por ter esquecido onde guardaram aquele resto de vela e chegam ao cúmulo de pressionar o interruptor de luz quando entram na cozinha para procurar fósforos, tão automático esse gesto se tornou. Panes elétricas geram sérios contratempos, é verdade, mas até mesmo elas podem trazer benefícios. Lá em casa, por exemplo, quando faltava luz, íamos para o quintal e deitávamos no chão para olhar o céu e procurar estrelas cadentes. Meu pai e eu discutíamos sobre o Universo ser ou não infinito, a velocidade da luz, as galáxias... A imensidão do Cosmos nos inspirava certa reverência, nos fazendo lembrar do quão pequenos somos. Quando a energia voltava eu sempre estava mais calmo. Às vezes, naqueles poucos minutos, conversávamos mais que durante o mês inteiro. A pane elétrica, ironicamente, forçava a família a se reunir. O desenvolvimento tecnológico é importante. A espécie humana só sobreviveu até os dias de hoje porque desenvolveu tecnologia suficiente para superar todas as dificuldades que surgiram, desde a necessidade de fabricar machadinhas de pedra até a criação de vacinas e satélites que viajam além do sistema solar. O problema é que a tecnologia ocupa cada vez mais espaço em nossas vidas. Transformamos a ciência numa espécie de deus e nos convencemos religiosamente de que a tecnologia pode nos salvar de todo perigo. Infelizmente não pode. Aliás, é justamente por causa dela que a espécie ameaça destruir o planeta e se extinguir. O desequilíbrio ecológico e as guerras biológicas estão aí para confirmar o perigo do uso descontrolado do saber científico. Como tudo que existe tem dois lados, a tecnologia tanto pode criar como destruir. Em Matrix os avanços tecnológicos chegaram a tal ponto que as máquinas se tornaram independentes e escravizaram, literalmente, a mente dos humanos, algo que, de certo modo, já ocor10

re hoje. Podemos fazer algo para essa possibilidade sombria não se tornar realidade? Sim. Podemos, por exemplo, lidar com a tecnologia de um modo menos dependente, equilibrando necessidades e facilidades tecnológicas com uma vida mais ligada à Natureza (inclusive a natureza humana) e às coisas simples. Podemos também, desde já, ensinar às nossas crianças que a tecnologia existe para nos servir e não para nos escravizar. E podemos também dar mais atenção às necessidades da alma, entendendo que o sentido da vida é nos autorrealizarmos, da forma mais verdadeira possível, nos tornando pessoas mais livres e harmonizadas com a vida. Isso a tecnologia não pode fazer em nosso lugar. A verdadeira autorrealização é uma conquista individual, uma jornada mítica que cada um deve empreender em sua própria vida. É aqui, neste ponto, que podemos aprender com os mitos, essa coisa tão arcaica e que a mentalidade racional trata com tanto desdém, repetindo sempre que “é só um mito”, desprezando sua importância e vendo-os apenas como histórias exóticas de povos primitivos ou como religiões estranhas que insistem em sobreviver junto à nossa religião. É como se disséssemos: “Somos mais evoluídos. Não precisamos de mitos”. Mitos jamais serão “apenas” mitos pois são eles que formam a estrutura da alma e também das sociedades. Assim como os ossos sustentam o corpo físico, os mitos sustentam a psique humana. Entender como eles agem em nossas vidas é fundamental para compreendermos melhor a nós mesmos e ao mundo que nos cerca. o mito Mitos são formas de interpretação da realidade, compostas de narrativas simbólicas e imagens metaforizadas, que estruturam e orientam as sociedades e guiam os indivíduos no crescimento psíquico. Eles não são deliberadamente criados por alguém mas nascem espontaneamente da alma coletiva da espécie, a psique, que os faz emergir das profundezas do inconsciente geral da espécie e se sedimentar, geração após geração, na cultura dos povos, para conduzi-los a novos níveis em sua relação com o mistério da vida e em sua organização social, assim como na evolução de toda a espécie humana. A mentalidade atual costuma entender os mitos como mentiri11

nhas ingênuas. Mito não é mentira, é metáfora. Uma metáfora não é uma mentira mas um modo simbólico de expressar uma verdade. Por esse motivo a metáfora é a língua nativa dos mitos pois por trás deles há sempre um símbolo carregado de mistério e numinosidade e a melhor forma de expressá-lo será sempre a linguagem figurada. A fotografia é tão-somente um processo químico usado para captar e expressar visualmente a realidade e nem por isso uma foto é uma mentira. Assim como a ciência e a arte, o mito expressa a realidade à sua maneira própria, metaforicamente, que não é nem mais nem menos verdadeira. Se a ciência usa a razão lógica para explicar a vida e a arte usa a beleza e a harmonia para expressar o que sentimos, o mito se utiliza dos símbolos para nos provocar e nos ligar aos mistérios da existência, que estão além da linguagem da ciência, da arte e da filosofia. As explicações dos mitos não podem satisfazer ao intelecto, nem deveriam, mas os símbolos que eles contêm possuem o poder de nos situar no contexto geral do Cosmos, alinhando nossas vidas com uma ordem maior e ligando a consciência individual a um sentido mais amplo e coletivo. Podemos dizer que, além de fornecer explicações para o mistério da vida e da criação do mundo, o mito exerce duas funções principais, sendo uma de ordem social e outra individual. Como nos ensinou Joseph Campbell, o famoso mitologista irlandês-estadunidense que ajudou a reacender o interesse pela mitologia no século 20 e nos incentivou a olhar para dentro e seguir nossa bem-aventurança, os mitos não só expressam a realidade: eles são o fundamento de toda sociedade. Não seria nenhum exagero afirmar que toda nossa vida, desde os menores detalhes até questões como arte, ciência, política e economia, tudo são formas rituais baseadas nos símbolos que os mitos expressam. Não há nada que não esteja sob uma espécie, digamos assim, de jurisdição simbólica dos mitos pois, explicando a vida, eles estão também endossando e justificando todos os aspectos culturais de uma sociedade, desde instituições como casamentos, ritos como funerais até o padrão de comportamento de homens e mulheres e a criação de religiões. No plano individual o mito atua guiando o indivíduo pelas diversas fases de sua vida, fornecendo-lhe imagens e narrativas ricas de significado para auxiliá-lo em sua jornada rumo à maturidade psicológica. Sim, os mitos descrevem ocorrências exteriores, referentes a algum tempo e lugar distantes – no entanto isso é só aparência pois
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o plano real dos acontecimentos é interior, é justamente a dimensão psicológica humana. É na alma e não no mundo externo que se desenrolam os dramas metaforizados pelos mitos. Dessa forma, o mito grego de Saturno, que devora os próprios filhos, nos ensina sobre o perigo da estagnação e o eterno medo da renovação, e o mito cristão da expulsão de Adão e Eva do Paraíso nos diz sobre as dores inerentes ao despertar da autoconsciência, ao crescimento psicológico. Infelizmente o desprezo da mentalidade racional pelo mito nos impede de captar esses importantes significados, tão úteis à vida. o mito da jornada do herói Um dos motivos pelos quais o filme Matrix fez e continua fazendo um sucesso danado pelo mundo inteiro é o seu enredo: ele tem profundas bases mitológicas e as pessoas se identificam com essas obras porque elas vivem, em sua própria vida, os temas contidos no filme. O mito é como o leito de um rio antigo e eu, você e todas as pessoas somos a água que corre por ele: é através da experiência de nossas vidas individuais que o mito está sempre se renovando. Existem muitos e muitos mitos, cada um relativo a um determinado aspecto da existência, e mesmo sem conhecê-los (e às vezes mesmo pertencendo a outra cultura), nós os vivemos, cada um de nós, em diversos momentos da vida. Nossas águas estão sempre a percorrer o leito de algum mito, embora quase sempre estejamos inconscientes disso. Conhecendo os mitos e olhando-os pela ótica da psicologia do inconsciente, podemos compará-los com nossas vidas, perceber de que modo os vivemos e, assim, saber para onde se dirigem nossas águas, evitando possíveis desastres. A história de Neo, que procura incessantemente uma resposta para a pergunta que o move (o que é a Matrix?) nos lembra Percival, o jovem cavaleiro do Rei Artur, buscando saber para quem serve o cálice do Graal. Neo e Percival são versões modernas do mito da jornada do herói, presente há milhares de anos na cultura e religião dos diversos povos da Terra. As histórias variam mas a essência é a mesma: o herói é alguém que larga a segurança de sua terra ou família e parte em busca de algo difícil e precioso, enfrentando incertezas, sofrimentos, perigos e arriscando a própria vida para, no fim, retornar transformado e vitorioso, mais forte, experiente e seguro, para
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guiar ou salvar seu povo, casar-se com a princesa ou substituir um velho rei injusto ou doente. Com algumas variações este tema se repete em nossas lendas, contos de fada, religiões e obras artísticas desde que aprendemos a contar histórias ao redor das fogueiras. Esse é o modo pelo qual os humanos conseguem, através de metáforas e sem muita consciência disso, passar para as gerações seguintes algo vital para a sobrevivência da espécie: os segredos da autorrealização. Nossos ancestrais escutavam as histórias dos heróis com respeito e assombro, envolvidos por rituais que se transmitiam pelas gerações. E hoje, no terceiro milênio da era cristã, nós continuamos repassando o mesmo costume, com a diferença que, em lugar das fogueiras nos reunimos no escuro dos cinemas, compenetrados e reverentes, para escutar a mesma história, para não esquecermos que a vida tem um segredo: cada um de nós precisa realizar a si próprio. Por isso quando o segredo é recontado nos filmes, disfarçado em dramas, romances, aventuras e comédias, nós nos identificamos, algo dentro de nós se agita e de repente a vida faz mais sentido: é o mágico efeito que os mitos provocam. Em algum momento da vida o mito da jornada do herói (o mito da autorrealização) é reativado na psique individual, em toda sua força. Vemo-nos então como o herói de Matrix, insatisfeitos com os velhos papéis reservados para nós pela sociedade e em conflito com nós mesmos. Despertamos da letargia, somos obrigados a largar as certezas de nossos valores atuais e partimos rumo ao desconhecido em busca de algo que nos completará, arriscando a segurança e enfrentando medos, dúvidas, sofrimentos e até a autossabotagem. Se persistirmos na jornada interior alcançaremos nossa essência e atingiremos novos níveis de autoconhecimento e harmonia com a vida, realizando nosso potencial, alcançando a bem-aventurança e, inclusive, gerando benefícios para a sociedade. É assim que vivemos o mito da autorrealização em nossas vidas, encarnando em nós a antiga jornada do herói. Como vivemos em grupo, toda vez que alguém alcança a verdadeira realização pessoal, de algum modo seu exemplo influencia outras pessoas e assim a espécie como um todo também avança. Por isso se diz que a autorrealização é a melhor forma de contribuirmos, individualmente, para o desenvolvimento coletivo da humanidade. E é justamente por essa razão que continuamos a contar para
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as novas gerações, nos cinemas, nos livros e teatros, com roupagem moderna e efeitos especiais, as aventuras míticas dos heróis. Fazemos isso para não esquecer que o sentido da vida é seguirmos a nossa bem-aventurança e realizarmos quem verdadeiramente somos. Uma aventura heróica, sim, mas ao alcance de cada um. Ao seu alcance. Jesus Cristo super-herói Matrix tem muitos elementos que remetem à literatura, à cultura pop e ao próprio cinema, a diversas tradições religiosas, místicas e filosóficas, assim como analogias a teorias ligadas a vários ramos da ciência como psicologia, antropologia e sociologia. Pouquíssimas obras de ficção despertaram tantas interpretações diferentes envolvendo tantas áreas do conhecimento humano. Alguns argumentam que Matrix não passa de um borrão de tinta no qual cada um vê o que quer ver, um argumento que também mostra a riqueza da história e de seus fundamentos arquetípicos pois poucas obras artísticas fornecem tantas e diversas visões. Na filosofia as analogias são muitas. É óbvia a parábola da caverna de Platão (parábola ou alegoria, e não mito), onde as pessoas veem apenas as sombras da realidade e as tomam como a própria realidade, tornando suas vidas limitadas. Muitos abordam o filme usando ideias de Sócrates, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Laplace, Nietzsche, Sartre, Dostoievski, Marx e Baudrillard para discutir coisas como natureza da realidade, metafísica da mente, materialismo, tecnologia, livre-arbítrio, destino e onisciência. No campo das tradições místicas e religiosas pode-se ver em Matrix a ideia hinduísta de maya, ou seja, a ilusão na qual vivemos e que nos cega para a verdade maior. Pode-se ver também a ideia taoísta da unicidade de tudo que existe, de se tornar uno com o mundo e assim harmonizar-se com os ritmos naturais da vida. A iluminação de que nos fala o budismo, com sua ênfase na libertação da mente dos padrões a que ela se acorrentou, é uma constante durante toda a história. Pode-se falar também da ideia gnóstica do demiurgo, o arquiteto deste mundo, um falso deus que governa a realidade humana. Os planos astrais e suas entidades, ideias presentes em tantas correntes espiritualistas, também podem ser vistas no filme. A mitologia grega é representada na história pelo nome de
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personagens como Morfeu (o deus dos sonhos), que auxilia Neo a despertar de seu sono na Matrix. Há também Perséfone, esposa de Hades e rainha do submundo, que ajuda os humanos quando esses descem ao inferno, e que em Matrix é esposa de Merovíngio e também dá uma forcinha aos humanos. A mitologia cristã também está lá, emprestando sua rica simbologia. A trajetória de Neo tem tantos pontos em comum com a vida de Cristo que é improvável que sejam apenas coincidências. Comecemos pelo nome de Neo na Matrix, Thomas Anderson. Anderson, de procedência nórdica, significa originalmente “o filho do homem”, uma das expressões que Cristo utiliza para se referir a si. No início do filme o amigo que faz uma visita a Neo se refere a ele, literalmente, como “Jesus Cristo” e “meu salvador pessoal”. Assim como Cristo, Neo é tentado e torturado, morre, ressuscita e sobe aos céus. O nome da personagem Trinity remete à trindade cristã (Pai, Filho e Espírito Santo). Merovíngio, o poderoso chefe dos programas rebeldes, é uma referência aos reis merovíngios, da idade média, que se acreditavam descendentes da linhagem real proveniente de Cristo. A nave Nabucodonossor traz a inscrição MARK III, no 11, que pode ser uma referência ao evangelho de Marcos, capítulo 3, versículo 11: “Os espíritos imundos, quando o viam, prostravam-se diante dele, e gritavam, dizendo: Tu és o filho de Deus.” No entanto, e é isso que mais nos interessa, há algo além das religiões e filosofias que liga a história de Neo com a vida de Cristo e no qual ambas se inspiram. Este elo é justamente o mito da jornada do herói, bem mais antigo que os dois e que pode funcionar como uma espécie de roteiro para entendermos, psicologicamente, suas trajetórias. Jesus Cristo é o grande herói da mitologia cristã. Não é relevante aqui se ele de fato existiu ou não ou se era ou não o legítimo filho de Deus. Para o estudo da psicologia do inconsciente aplicada à mitologia, o que importa é o que sua história tem a nos oferecer em termos psicológicos. O que vale é o leito do rio, a estrutura do mito, e de que modo as pessoas o preenchem com as experiências de suas vidas. Cristo viveu, a seu modo, a clássica trajetória do herói. Abandonou a segurança do lar e das tradições, empreendeu uma longa e difícil jornada de autoaceitação, sofreu as dúvidas, tentações e dores inerentes aos conflitos de quem reluta em assumir seu destino e, por fim, submeteu-se à sua verdade mais íntima, ao seu destino, ou seja,
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ao fato de que, sim, ele era o filho enviado por Deus Pai para redimir a humanidade. Igual a Cristo, muitas lendas em variadas culturas, até mesmo mais antigas, contam histórias muito parecidas, com personagens de trajetórias similares, contadas e recontadas através dos séculos. O que torna a história de Cristo tão especial é o fato dela ter inspirado o nascimento de uma religião que atualmente, incluindo suas subdivisões, é seguida por aproximadamente um terço da população do mundo. Não fosse isso, talvez a história do galileu que obrava milagres, arrebanhou seguidores, incomodou líderes políticos e religiosos e morreu crucificado chegaria à nossa época como apenas uma lenda, da mesma forma que tantas outras. Quinhentos anos antes da era cristã, na Índia, um príncipe muito rico abdicou do conforto de sua vida e foi para a floresta viver de esmolas e meditar sobre o sentido da existência. No momento em que a compreendeu, tornou-se um iluminado, um Buda, perfeitamente integrado à Natureza, capaz de fazer milagres e de ensinar as pessoas a encontrarem também a iluminação e se libertarem das prisões mentais. A mitologia cristã possui tantas semelhanças com a vida do Buda e com outros mitos de outras culturas que é como se uma única história estivesse sendo contada em variadas sociedades sob diversas versões, sob as características próprias de cada cultura e baseada em suas necessidades espirituais específicas. De fato, é sempre a mesma história: o mito da jornada do herói. Neo, Buda e Cristo, assim como Percival, são heróis porque realizaram a si mesmos, concretizando seu potencial, vivendo profundamente seu mito pessoal e cumprindo seu destino. Cada um deles viveu, a seu modo, o roteiro que marca a jornada mítica do herói. herói e sociedade: um motocontínuo Tudo que existe já traz em si a semente daquilo que o destruirá. A sociedade instintivamente sabe dessa lei universal e por isso sempre verá com desconfiança o indivíduo, ele e seu perigoso potencial de transformá-la. Mais cedo ou mais tarde ele a transformará e os dois prosseguirão num novo nível, ela tentando manter as coisas como estão, ele a desafiando com sua diferenciação. É um motocontínuo. Assim como o impulso evolutivo faz com que a consciência
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individual evolua numa espiral, passando pelos mesmos pontos em novos níveis, a consciência da espécie também age assim, tendo de um lado da espiral a sociedade e do outro a individualidade. Nascemos imersos na sociedade e durante a vida inteira ela exerce sua força coesiva sobre nós – mas do outro lado da espiral a individualidade nos atrai. Para os que a alcançam, ela fornece a diferenciação e a força necessária para prosseguir no caminho legítimo da alma. Seu impulso, porém, obviamente conduz o indivíduo ao outro lado da espiral, de volta à sociedade. Isso significa que a mesma sociedade que segurou o quanto pôde o impulso diferenciador do indivíduo e o rejeitou, mais tarde assimilará os novos valores que ele traz e assim ela se enriquece, se renova e forma novos indivíduos que, por sua vez, serão também atraídos para o outro lado da espiral e, caso prossigam, levarão a sociedade a novos níveis de evolução. É assim que a espécie evolui, fazendo com que o conflito entre individualidade e sociedade seja o motor do movimento contínuo. Atualmente a autorrealização psíquica não se contenta apenas em se diferenciar do bando, como nos dias em que éramos semimacacos, ou adquirir identidade própria, como nos estágios seguintes da história humana. A autorrealização agora exige mais, exige que alcancemos o ponto mais verdadeiro do que somos para que o potencial que está lá, adormecido, possa se realizar em toda sua plenitude. O novo nível de individualidade que temos de alcançar determina que atinjamos nosso centro mas para isso precisamos, é claro, conhecer o nosso todo e o todo inclui não só a superfície mas o que está dentro. Isso significa que temos de conhecer o interior de nós mesmos, profundamente, do modo mais verdadeiro possível, se quisermos alcançar nosso centro mais legítimo. Quando Neo finalmente consegue compreender quem ele é, entende seu papel no contexto da existência humana e faz o que deve fazer. É assim que ele salva a humanidade e renova as esperanças do planeta que agora, suspenso o conflito entre humanos e máquinas, pode enfim se recuperar. monitorando Neo O enredo de Matrix será aqui utilizado para ilustrar o processo de autorrealização do ser humano e mostrar que podemos deixar de ser meros personagens para ser os grandes heróis de nossas próprias
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vidas. Para isso usaremos como guia o primeiro filme da trilogia, onde mora a essência da história, e alguns trechos dos outros dois. Seguiremos cronologicamente, descrevendo as cenas mais importantes e comparando-as com a referida etapa do processo, usando exemplos da vida cotidiana, sempre dentro do contexto do processo de autorrealização. Agiremos mais ou menos como os agentes da Matrix, que prenderam Neo e lhe implantaram um rastreador para não perdê-lo de vista. Em nosso caso, seguiremos Neo durante sua perigosa e emocionante jornada porque sua história é a história de cada um de nós. A aventura do guerreiro cibernético vivido pelo bonitão Keanu Reeves é uma metáfora de nossa jornada pessoal rumo à mais verdadeira realização de nós mesmos. A diferença é que Neo é um personagem de ficção e só existe nas telas, enquanto nós, eu e você, existimos aqui no mundo real, na tridimensionalidade do dia a dia, pegando ônibus lotado, suando para pagar as contas, sofrendo por nossos relacionamentos e pelo time que vai mal no campeonato, batalhando arduamente pelo que acreditamos e ainda procurando um sentido maior no meio desse grande caos da existência. Ufa! Merecemos um Oscar pelo conjunto da obra, não? Monitoraremos Neo para, através de sua trajetória mítica, ver como nós mesmos nos comportamos em nosso processo de autorrealização. Será como um jogo onde o que virmos na tela será transplantado para a vida prática. Definiremos as regras do jogo a seguir mas não há nada de muito complicado. Lidaremos com noções de mitologia e psicologia do inconsciente mas tudo será feito de forma leve e descontraída. Bem, de fato não é fácil traduzir em simples palavras e rápidas explicações o profundo, complexo e misterioso universo da alma. É como traduzir em linguagem racional e científica coisas que são do reino dos sonhos e da intuição. Porém, felizmente existe a arte e seu poder mágico de tocar as pessoas. Existem filmes como Matrix, que já trazem em si, metaforicamente, muito daquilo que os profissionais da psicologia e psicoterapia se esforçam para explicar em seus livros, palestras e consultórios. A metáfora facilita as coisas, levando ao entendimento imediato e instintivo do que realmente interessa, o centro da questão, o símbolo. Por esse motivo é que a psique faz uso da metáfora dos mitos para comunicar suas verdades. Pois bem. O plano é usar esse incrível filme como instrumento
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para que nós mesmos apliquemos as verdades mitológicas em nossas vidas e, assim, possamos nos compreender melhor e nos libertarmos um pouco mais. Mas... libertar-se de quê? Libertar-se daquilo que nos mantém presos e que nos impede de ser quem verdadeiramente somos e de seguir a nossa bem-aventurança. E isso somente cada um de nós será capaz de descobrir o que seja. Esta é a nossa missão, a sagrada missão de cada um de nós. você se conhece? Já vimos que, em termos psicológicos, a aventura de Neo pode ser entendida como uma reedição moderna da jornada humana rumo à autorrealização. Certo. Mas o que exatamente vem a ser isso? Autorrealização é a efetivação do que há de mais profundo e verdadeiro em cada um de nós. Feito uma potencialidade existente no mais profundo do eu, ela nos impulsiona a um processo contínuo de autoconhecimento onde integramos os conteúdos do ser e rumamos para a mais íntima realização pessoal: a concretização da personalidade total. Autorrealizar-se significa desenvolver o potencial adormecido e nos tornarmos quem somos destinados a ser porque é isso o que sempre fomos: a semente que já traz em si a árvore futura. É impossível autorrealizar-se sem conhecer as próprias possibilidades e torná-las reais. Seria impossível para Neo fazer tudo o que fez sem antes se convencer que, de fato, podia fazê-lo. Você lembra quando ele decide voltar à Matrix para resgatar Morfeu, mesmo sabendo que jamais alguém fez isso antes? Pois é. Nesse momento Neo está, pela primeira vez, convencido de seu potencial e, por isso, consegue fazer o impossível. Uma pessoa autorrealizada é uma pessoa equilibrada, física e psicologicamente, que se conhece a fundo e por isso é senhora de seus atos. Está consciente das necessidades do corpo e da mente, da linguagem das emoções e do espírito. Em outras palavras, todas as dimensões de seu ser estão harmonizadas. Por conta desse elevado grau de autoconhecimento, é alguém que sabe de seu potencial e o utiliza do melhor modo, sem desperdícios nem autoenganações. É alguém que, mesmo vivendo em meio ao grande caos do mundo, está em harmonia com ele e não se abala facilmente com imprevistos e
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derrotas. Uma pessoa autorrealizada venceu os desafios mais importantes que a vida lhe impôs e não mais precisa lutar contra seus demônios internos pois um dia teve a coragem de encará-los, conseguindo assim que eles passassem para o seu lado, herdando deles a força contra a qual tanto lutava. Para atingir esse ponto, porém, a pessoa tem antes de despertar e se diferenciar da mentalidade comum, como Neo despertou da Matrix, como nossos antepassados peludos se diferenciaram do bando e inauguraram o novo ramo evolutivo que seria a espécie humana. Isso é necessário para que a individualidade se manifeste e a pessoa possa realmente conhecer quem é, buscando suas verdades dentro de si mesma. Quem sou eu?  tudo começa com essa perguntinha safada. Nada disso é fácil ou rápido. Mas aqui precisamos entender algo muito importante: o que verdadeiramente interessa não é alcançar a meta. Parece contraditório empreender uma jornada onde não há chegada mas é assim que funciona pois o que interessa realmente nessa jornada é estar no caminho. A essência da autorrealização não é chegar mas manter-se em movimento, até porque talvez não exista uma chegada definitiva na evolução psíquica. É mais ou menos como encontrar um grande amor: quando isso acontece, não importa o que exatamente vamos fazer ou até onde estaremos com a outra pessoa. Fixar-se nisso é perder a noção do mais importante, que é estar junto e viver o amor a cada dia, sem se preocupar mais que o necessário com o seu futuro. A alma é a dimensão interna da vida, uma dimensão absolutamente fascinante e também libertadora. Porém, a maior parte das pessoas nunca chega realmente a se aventurar pelo universo de sua alma, preferindo a experiência de vida em níveis mais superficiais do ser. O motivo disso é que a nossa cultura não nos incentiva a olhar para dentro e, além disso, lá dentro é escuro e, você sabe, do escuro sempre podem vir coisas perigosas... Geralmente na primeira metade da vida gastamos a maior parte de nossa energia correndo de um lado para outro em busca de emprego, aceitação social, conquistas sexuais, brincadeiras e aventuras por toda parte. Mesmo que o mundo interno nos chame a atenção, ele frequentemente é relegado a segundo plano. Algumas pessoas sentem cedo esse chamado mas a maioria só vai escutá-lo a partir da metade da vida, quando começa a fazer falta um sentido maior. Muitas percebem que o tudo que conquistaram não as fez realizadas –
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nem livres. Aliás, é comum as pessoas chegarem a esse ponto se sentindo sufocadas: pelo tempo, pelo trabalho, pela família, pelas exigências sociais e até por suas próprias ideias e atitudes que durante muito tempo foram úteis mas agora não têm mais o mesmo valor. É em momentos assim que a vida nos faz lembrar que temos uma missão sagrada e que só poderemos cumpri-la se nos voltarmos para a dimensão interna da nossa vida. A história de Neo é a nossa história: alguém que um dia se incomoda com a vida que vive, não se conforma e busca uma verdade maior. Assim sendo, a partir de agora olhemos para o filme com outros olhos. Para monitorar o herói em sua jornada de autorrealização, precisamos ver o filme sob um ângulo psicológico, onde Matrix passa a ser a história de uma pessoa, apenas uma pessoa, no caso Neo, e onde todas as situações do filme se referem diretamente ao herói, à sua psique. Por isso todos os personagens, a partir de agora, representarão aspectos psicológicos do próprio Neo. Acho que não entendi bem..., você pode estar pensando. Não se preocupe. Vamos treinar nosso olhar um pouco mais antes de começarmos o monitoramento de Neo. Vamos falar sobre essa coisa misteriosa e fascinante que é a psique. o organismo psíquico A cada dia novas descobertas tornam menos precisas as fronteiras entre mente e corpo, mostrando que as duas coisas talvez não sejam tão distintas como julgamos. Mas, para efeito didático, ainda precisamos explicar separadamente essas dimensões do ser. Assim como possuímos um conjunto de órgãos, um organismo, que age dentro de leis físicas, químicas e biológicas, possuímos também um “organismo psicológico” que atua seguindo suas próprias leis. Esse segundo organismo é a psique e, assim como o corpo físico, ela também regula a si mesma, podendo adoecer mas também promover a própria cura. Para entendermos melhor a psique, temos de vê-la como algo vivo e possuidor de uma espécie de inteligência própria e capaz de se autorregular. Nesse ponto ela é como a Terra, um superorganismo que mantém a vida em si através do equilíbrio entre seus órgãos minerais, vegetais e animais. Bem, é verdade que o Homo sapiens, um dos órgãos animais, ultimamente tem se esforçado bastante para desequilibrar tudo mas isso é outra história.
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A psique é formada pela consciência e pelo inconsciente. A consciência é a área superficial da psique, ou seja, o nosso conhecimento imediato sobre nós mesmos. O centro da consciência é o ego e é através dele que manifestamos nossa vontade, articulamos os pensamentos e analisamos as coisas. Por ele ser o centro da personalidade consciente, é justamente através do ego que temos consciência do que somos ou não somos. Mal comparando, o ego é como a pele pois ela é o elemento de comunicação mais visível e imediato do corpo com o ambiente externo. Mas a pele não é o corpo inteiro: do lado de dentro há outros elementos que atuam o tempo todo, estruturando o corpo, mantendo-o vivo e influenciando nosso comportamento, mesmo que não o percebamos. Ver o ego como a personalidade total equivale a confundir a pele com o corpo inteiro. O conhecimento do ego sobre a psique ou a personalidade total, da qual ele é apenas uma parte, só alcança que está na consciência, aquilo que se pode distinguir com a luz do discernimento da personalidade consciente. O que está além da fronteira da consciência, ou seja, o que faz parte do inconsciente, está na escuridão e não pode ser percebido pelo ego. Por conta do posto que ocupa, de “representante autorizado” da psique para o mundo externo, o ego tende sempre a se considerar o eu psíquico total. Mas não é. Esta é a sua velha ilusão: ele acha que está sempre no controle da situação. Não está porque os elementos do inconsciente influenciam no comportamento da pessoa. E influenciam sem o ego se dar conta pois ele só admite a existência do que está em sua área, a consciência. Para o ego, reconhecer o inconsciente é reconhecer que não está sozinho no controle  e isso é sempre um golpe no orgulho egóico. Às vezes dizemos: “Eu tenho umas coisas que não entendo...” ou “Não sei o que deu em mim para fazer aquilo...” ou “Eu estava fora de mim.” Em momentos assim estamos pressentindo que não somos apenas o ego, ou seja, que somos algo mais que apenas a nossa percepção consciente de nós mesmos. Estamos quase admitindo que existem outros aspectos de nós e que não os conhecemos muito bem nem temos controle total sobre eles. Quando surgem essas incertezas é sinal que conteúdos do ser, antes totalmente inconscientes, se aproximam da fronteira da consciência. O ego já os pressente e se incomoda. Esses conteúdos estão saindo das sombras do inconsciente e forçam saída rumo à luz da consciência, querendo ser integrados à personalidade consciente. O melhor a fazer é ir ao encontro deles an23

tes que esses danados imprevisíveis provoquem confusões maiores. Isso é investigar-se psicologicamente, dar atenção ao mundo interno. Isso é autoconhecimento. O ego, portanto, é uma espécie de gerente da psique, incumbido de facilitar o fluxo de conteúdos entre a consciência e o inconsciente, fluxo este que visa enriquecer a ambos e manter o equilíbrio psíquico, vital para a saúde do indivíduo. Um ego imaturo, porém, está sempre tão preocupado em manter a ilusão de se achar mais do que é no contexto geral da empresa que não consegue perceber a existência de certos problemas na empresa. É exatamente por causa dessa negligência que os problemas se acumulam, ou seja, o fluxo entre consciência e inconsciente fica travado. Para esse gerente inflado de orgulho, a prioridade não é o crescimento psíquico (crescimento da empresa) mas segurar seu cargo, manter as coisas como estão, empurrando com a barriga, adiando, fingindo não ver. Se o ego não desempenha bem sua função gerenciadora da psique total, ignorando o inconsciente e fazendo a pessoa viver a si mesma de modo unilateral, os interesses egóicos se chocam com os interesses do eu total e as forças autorreguladoras da psique interveem, queira o ego ou não. E aí surgem as crises. o inconsciente Mas... e o inconsciente, de que é feito exatamente? Podemos, a princípio, resumi-lo como o conjunto de tudo aquilo que não sabemos sobre nós mesmos. No inconsciente vivem, vamos chamar assim, complexos energéticos que possuem certo grau de independência, como se fossem entidades de vontade própria dentro de nós mesmos. Enquanto esses conteúdos inconscientes não forem percebidos e devidamente assimilados pelo ego, estarão sempre agindo na surdina, influenciando o comportamento, nos impedindo de sermos melhor do que somos, levando-nos muitas vezes a fazer coisas das quais nós mesmo nos envergonhamos e ocasionando males diversos. É um monstro terrível esse inconsciente, um Godzilla que sempre destrói os planos da personalidade consciente? Não é bem assim. O inconsciente é imenso como o mar, é escuro como a noite  mas não é bom nem mau. Ele não tem moral e tudo que deseja, e vai conseguir de um modo ou de outro, é se manifestar, assim como a consciência, no mundo externo do indivíduo. O inconsciente possui
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conteúdos positivos e negativos, que podem ajudar ou prejudicar, dependendo da atenção que lhes dê o ego. Se o ego for um bom gerente, o inconsciente se tornará um importante aliado da personalidade consciente vida afora. Você já comeu o corpo de um inimigo vencido? Não? Eu também não. Mas algumas tribos guerreiras tinham esse hábito de, após vencer uma batalha, comer os corpos dos inimigos mais valentes. Nojento? Para nós pode ser mas, agindo assim, eles acreditavam incorporar a coragem e a destreza do inimigo e, com isso, tornavam-se guerreiros mais fortes. Você pode não agir assim com seus inimigos de carne e osso, porém é isso que ocorre quando vencemos os desafios internos de nossa personalidade: o que antes era um inimigo traiçoeiro a nos emboscar no escuro do inconsciente finalmente junta-se a nós e nos engrandece, nos equilibra e nos faz mais fortes e capazes. hoje tem espetáculo Talvez a analogia com as tribos guerreiras não tenha feito bem a seu estômago. Tentemos então pelo lado da arte. Imaginemos a psique como um grupo teatral, composto de vários atores. Quando a cortina se abre, porém, no palco há somente um único ator sob um facho de luz concentrada. O ator é o ego e a luz é a consciência. A consciência ilumina tudo o que toca, permitindo que o ego, que está sempre em seu centro, veja, descrimine o que existe e decida o que fazer com o que descobriu. O próprio ego dirige o foco de luz da consciência, formando com ela quase que uma só entidade. Quase pois em certos momentos ela ilumina um pouco mais do que ele gostaria de ver. O ego acha que está só no palco, realizando seu monólogo mas, atrás dele, na penumbra do fundo do palco, existem outros atores, uns quietos, outros a se movimentar, mexer na cortina. São os outros aspectos do ser. Estão lá, no escuro, porque lá a luz da consciência ainda não chegou e o ego, por isso, não reconhece sua existência. São aspectos da personalidade que ainda não foram devidamente integrados à consciência. São conteúdos inconscientes porque o ego está inconsciente deles. Pode ser a agressividade ou um grande medo não reconhecido, pode ser um trauma da infância, uma grande culpa ou a sexualidade não assumida. Pode ser muita coisa  mas o ego
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não sabe desses aspectos ou finge não saber pois em algum momento decidiu que seria melhor não conviver com eles. Esses atores da escuridão sabem que o ego é o ator principal mas eles também querem participar mais ativamente do espetáculo. Mesmo que não sejam oficialmente reconhecidos pelo ego, eles se movimentam na penumbra e isso mais cedo ou mais tarde acabará interferindo no andamento da peça. Quando isso ocorrer o ego terá a primeira noção de que não está sozinho no palco. Mas poderá insistir em continuar desprezando os colegas, fingindo que nada aconteceu. Quanto mais os desprezar, mais eles se esforçarão para aparecer, podendo forçar a barra e chegar ao cúmulo de se adiantar no palco e dividir a luz do refletor com o ego, para surpresa e embaraço deste. O ego, coitado, que em nenhum momento teve controle total sobre os rumos da peça, agora é obrigado a admitir abertamente que existe outros outros atores e terá forçosamente de incluí-los em sua própria história. Isso é apenas uma comparação, claro, mas é o que ocorre diariamente em nossas vidas. Pensamos que estamos agindo sozinhos mas outros aspectos que fazem parte de nosso eu total estão atuando também, algumas vezes contribuindo e outras vezes atrapalhando e até mesmo sabotando os planos de nossa personalidade consciente. A necessidade de autoconhecimento leva o ego a ampliar a luz da consciência a fim de atingir outros pontos da psique total, à procura do que mais possa estar ali. É um trabalho delicado e custoso pois requer a coragem de encarar o que não se conhece em si próprio. Isso trará mudanças, inevitavelmente, e o ego não é muito chegado a mudanças, preferindo sempre manter as coisas como estão. Mas não há outra forma da psique se equilibrar e da personalidade consciente ter mais controle sobre a própria vida. O ego precisará se transformar e, para isso, terá de ter grande honestidade consigo mesmo, paciência e perseverança. Jogar a luz da consciência sobre nossos conteúdos inconscientes significa assumir outras partes de nós mesmos. Significa chamar os outros atores da peça para a luz dos refletores. Algumas dessas partes já suspeitamos que existem e, bem ou mal, convivemos com elas em nosso cotidiano. Outras partes, porém, por algum motivo, em algum momento da vida decidimos mantê-las na escuridão – são essas as mais difíceis de lidar pois, se por um lado essa decisão permitiu ao ego levar a vida como se essas partes não existissem, por outro
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lado lhes proporcionou a oportunidade de crescer e se desenvolver sem serem incomodadas. Por conta disso o ego sempre se assusta ao vê-las sair das sombras, crescidas e cheias de vontade, e vir dividir com ele a atenção da plateia. tornar-se o próprio herói Uma pessoa consciente de seu caminho de autorrealização sabe perfeitamente que o processo exige um contínuo transformar-se e toda transformação traz algum tipo de crise. Essa pessoa sabe que dialogar com suas outras partes e reconhecer que elas fazem parte do eu total não é trabalho fácil pois traz incertezas e angústias. Mas o processo de autorrealização da psique exige que a consciência se amplie para que a pessoa pare de brigar com seu próprio inconsciente, ou seja, com ela mesma. Deixando de brigar com o que reprime dentro do ser, a pessoa se torna mais autoconsciente e equilibrada. Mais ou menos como Neo que, à medida que conhece seu potencial, vai treinando suas capacidades e assim consegue se movimentar melhor na Matrix. Por outro lado, se a pessoa tem medo do que possa vir do escuro do ser e continua reprimindo a própria natureza, a psique cedo ou tarde cobrará tal negligência, atrapalhando os planos do ego, forçando-o a gafes e atitudes cada vez mais constrangedoras ou até mesmo provocando insucessos, acidentes e doenças – isso tudo para forçar o ego a parar um pouco e olhar para dentro. Esses mecanismos psíquicos fazem parte da capacidade de autorregulação do eu total, que só tem um único objetivo: realizar-se em sua inteireza, tornar-se a árvore futura. Mas isso será impossível se consciência e inconsciente não estiverem em harmonia. O processo de autorrealização leva a consciência, necessariamente, a se ampliar. O que antes era um fio de superfície se transforma numa área maior, trazendo à luz conteúdos inconscientes que levavam vida independente mas que agora estão bem integrados à consciência. Ao longo do processo a pessoa lidará mais harmoniosamente com o mundo, com as outras pessoas e consigo mesmo. Será como Neo que, a partir do momento em que entende verdadeiramente quem é, deixa de ser iludido pela Matrix e percebe que, em vez de ser manipulado, pode fazer o que bem quiser. O nosso objetivo é o mesmo de Neo: tornarmo-nos os grandes
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heróis de nossas próprias vidas. Devemos descobrir quem somos e o que devemos fazer – isso é o processo de autorrealização. E ele é como as melhores aventuras do cinema: tem um enredo criativo e cheio de reviravoltas, um herói cativante, inimigos terríveis, perigos e armadilhas por todo lado, suspense de arrepiar, romances... E o que é mais incrível: é real! Não está acontecendo na tela mas em nossas próprias vidas! Mas antes é preciso despertar. Abrir a porta que dá para o mundo interior. Seguir o coelho branco. Bem, acho que basta de treinamento. Já estamos prontos para monitorar nosso herói. Então vamos lá. As luzes já foram apagadas. Desligue o celular e se acomode na poltrona. O filme vai começar.

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II Toc, toc, toc... Acorde, Neo!

seguindo o coelho branco
A primeira cena de Neo o mostra em seu pequeno apartamento, adormecido sobre a mesa. Um ruído no computador chama sua atenção. Sonolento, ele observa que alguém tenta se comunicar. A mensagem na tela diz: “Acorde, Neo...” Ele não entende. Surge outra mensagem: “Siga o coelho branco”. Intrigado, hesita ante o teclado e lê a mensagem seguinte: “Toc, toc, toc...”. Neo escuta batidas na porta e, confuso, vai abrir. São amigos que foram buscar uma encomenda e o convidam para uma festa. Ele pensa em recusar mas vê um coelho branco tatuado nas costas da garota e aceita. Na festa uma desconhecida chamada Trinity se aproxima e, sussurrando em seu ouvido, diz que sabe de suas noites mal-dormidas, de suas dúvidas e da pergunta que o move. Neo escuta surpreso. Como ela sabe tanto sobre sua vida?

O processo de autorrealização é um impulso natural da psique. De modo geral, ele se manifesta primeiramente através de algum tipo de curiosidade, dúvida ou insatisfação pessoal. É preciso que haja algum incômodo para que o indivíduo se sinta impulsionado a agir. Esta é a isca que a psique utiliza para atrair a atenção do ego, a personalidade consciente, para a questão. Um ego acomodado em seu mundinho de interesses imediatistas jamais terá motivação para buscar outros níveis do eu total. É necessário que uma força maior que o e29

go, justamente o eu total, agite as águas do fundo do oceano inconsciente e faça com que as ondinhas cheguem até a superfície da consciência, incomodando o ego. É preciso sacudir o ego e despertá-lo. É hora de ação. É preciso transformação! No caso de Neo, ele desconfia que há algo errado com a realidade. Em suas buscas na internet, colhe pistas vagas sobre a existência de uma tal Matrix e tem curiosidade sobre um sujeito chamado Morfeu, que é considerado um perigoso fora-da-lei. Algo o atrai e fascina nesse homem: ele parece ser forte, inteligente e destemido e desafia as autoridades em ações ousadas, sempre desaparecendo em seguida. Depois surgem aquelas mensagens no computador, a coincidência do coelho branco tatuado... E agora essa intrigante garota Trinity que sabe muita coisa sobre ele. Afinal, o que está acontecendo? A curiosidade em relação ao que seja essa tal Matrix traz inquietação à vida de Neo. É a imagem do Graal que surge para os cavaleiros de Artur, impelindo-os a buscá-lo na floresta. É o início do processo. E é assim que também ocorre com todos nós. As mensagens de Trinity no computador representam, no processo de autoinvestigação psicológica, o primeiro contato com o inconsciente. Todo início é assim, confuso e feito de pistas e indícios sem consistência. São ideias sobre nós mesmos e nossas vidas que surgem no pensamento e ficam a nos instigar. Se até então o ego nunca precisou voltar a atenção a outros aspectos do ser, agora, porém, ele tem de abandonar seu mundo seguro se quiser descobrir o que o inquieta. É bastante significativo o fato de que a primeira cena de Neo o mostra em seu quarto, pequeno e fechado, um ambiente escuro e claustrofóbico. Em nossas vidas é exatamente assim que o ego se comporta, fechado e acomodado em si mesmo. O ego tende a ser egocêntrico. O processo do despertar, porém, exige que o ego abandone a segurança do quarto em que sempre viveu e saia para conhecer o mundo, ou seja, outros aspectos do ser total. Visto por este ângulo, torna-se bem emblemática a primeira frase dirigida ao nosso herói: “Acorde, Neo!” Então começam as transformações para o ego. De repente a vida não é mais tão tranquila como antes, as certezas já não são tão certas e algumas coisas não funcionam tão bem quanto funcionavam. De repente nos sentimos incomodados, agindo de modo estranho e desconfiando de certas ideias que sempre foram indiscutíveis. A no30

ção que temos de nós mesmos, segura e inquestionável, começa a se mostrar não tão verdadeira assim. De repente parece que há algo errado com o mundo. Na verdade nada está errado com o mundo. O mundo é o que é. Nós é que estamos diferentes e, exatamente por isso, começamos a entender o mundo de maneira diferente. É bom nos acostumarmos logo: cada vez que nos transformamos, o mundo também se transforma. Nada mais natural, afinal fazemos parte do mundo, não é? É como se tudo fossem espelhos a se refletirem o tempo todo: por menor que seja nossa mudança pessoal, ela será refletida pelos outros. Uma vez que o processo de autorrealização começa a se manifestar, será impossível prosseguir sem se transformar pois para atingir novos níveis de realização, teremos de descobrir quem na verdade somos. Não poderemos mais nos enganar em relação a nós mesmos. Quem se descobre, naturalmente se transforma. Em certos casos é uma relação amorosa que provoca esse incômodo inicial pois o parceiro parece possuir uma certa capacidade de nos fazer descobrir coisas desagradáveis sobre nós mesmos. Isso nos indispõe com ele mas por mais que arrumemos um culpado para nosso mal-estar, já não é mais possível fazer de conta que ele não existe. O incômodo está lá, feito um espinho em algum lugar da alma, e é uma questão de tempo entendermos que o que verdadeiramente incomoda está em nós mesmos e não em outra pessoa ou em certas situações. Você já experimentou uma sensação parecida com essa, lembra? Foi na adolescência, quando começou a deixar de ser criança e estava se transformando em algo diferente. Tudo mudava em você, seu corpo, suas ideias, as atitudes e a própria maneira de ver o mundo. Era como se você estivesse deixando de ser você para ser um outro você, sem no entanto deixar de ser você mesmo. A adolescência é um bom exemplo do tipo de transformação que aguarda aqueles que seguirão o coelho branco em suas vidas. A diferença é que enquanto na adolescência estamos construindo verdades e conceitos que a partir daí nortearão nossas vidas, agora o chamado interior do autoconhecimento exige que nos desfaçamos de nossas próprias verdades se quisermos prosseguir. A pessoa precisa reconhecer outros aspectos do ser mas se o fizer deixará de ser quem sempre foi. Isso soa como morte para o ego. Exatamente por esse motivo é que nunca aceitamos muito bem a
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própria transformação. primeiras repressões
Na manhã seguinte Neo acorda tarde e chega atrasado ao trabalho. Seu superior o repreende e o aconselha a se adequar às normas da empresa. Ele o acusa de se achar melhor que os outros e ter problemas com a autoridade e o ameaça de demissão. Neo escuta e, temeroso, nada responde. Na janela, pelo lado de fora, um funcionário limpa a vidraça.

O processo já foi iniciado. As águas profundas do inconsciente já foram agitadas e as ondinhas alcançaram a praia da consciência. Incomodado, o ego agora terá de abandonar sua antiga e tranquila posição caso deseje satisfazer a curiosidade, dissipar suas dúvidas ou parar com seu sofrimento. Se a autorrealização é um impulso natural da psique, por outro lado existe uma força que vem da própria sociedade e que sempre tenta barrar esse impulso, desaconselhando, a princípio sutilmente, aqueles que começam a se diferenciar e agir fora do padrão. Mas que amiga da onça! Por que ela faz isso? Por uma questão de sobrevivência da própria sociedade pois é melhor que todos ajam e pensem de forma parecida, feito uma boiada  assim é mais fácil se organizar. Tal estratégia repressora é natural e eficiente para a sobrevivência de qualquer espécie mas tem um custo: a anulação do indivíduo e a negação de sua singularidade. Para a sociedade o que importa é que o indivíduo se comporte como uma peça da engrenagem social e cumpra com seu papel para que ela funcione perfeitamente e se mantenha a si mesma. Quando ocorre o impulso da diferenciação temos então um encontro de forças, uma vindo do indivíduo e a outra da sociedade, em forma de cultura, leis e padrões de comportamento. O conflito é inevitável. O indivíduo que tenta se diferenciar age como o náufrago que quer escapar da correnteza do mar: ele deve alcançar as ondas que o levarão à terra firme mas a tarefa é difícil pois terá que lutar contra o oceano que o puxa para si, contra o medo de desafiar algo tão grande e contra seu próprio cansaço. Aqui, mais uma vez, nos lembramos da adolescência quando usávamos roupas e penteados diferentes para, inconscientemente, desafiar os mais velhos. Queríamos ser diferentes deles e, ao mesmo tempo, precisávamos ser iguais aos da nossa turma. Essa procura por identidade leva os adolescentes a criar padrões de comportamento
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que os ajudam a se estabelecer no meio cultural em que vivem. É um tipo de diferenciação, sim, mas ainda não se trata da diferenciação psíquica de que estamos falando. O adolescente está construindo sua identidade própria e para isso precisa copiar dos outros, de preferência de seus amigos e seus ídolos, o que faz com que ele entre para uma turma que se veste, fala e se comporta igual, um grupo que o aceita e se reforça com sua presença  uma onda a qual o adolescente se une. Por outro lado, a pessoa adulta que, obedecendo ao primeiro impulso rumo à autorrealização, tenta se diferenciar da massa, não tem como prioridade construir uma identidade pois, bem ou mal, já a possui. Seu objetivo é escapar do movimento quase hipnótico da massa para poder, com calma, avaliar melhor o que está ocorrendo em sua alma e analisar suas inquietações. Por isso é que ela precisa fugir da correnteza que a faz girar e girar sem se questionar. A correnteza é a cultura. Nascido dentro dela, o indivíduo está impregnado, até o último fio de cabelo, de leis, ideias padronizadas e modelos de comportamento. Para se dedicar mais a seu mundo interno e dar atenção ao que inquieta seu espírito, ele terá necessariamente de sair da onda, se afastar um pouco do mundo exterior. Para isso, terá de mudar de hábitos. Terá de se transformar. Mas não será fácil. Aqui surgem as primeiras dificuldades pois a sociedade age como a Matrix, acionando suas forças repressoras e detectando com rapidez aqueles indivíduos que começam a se diferenciar e se movimentar fora do movimento padrão da massa. É como se eles representassem um perigo para o funcionamento normal da engrenagem  o que é verdade. A repressão, a princípio, costuma vir em forma de recados sutis: são os olhares desconfiados, as desaprovações e as censuras. É como se sociedade nos repreendesse: “Para que fazer diferente se até agora a coisa vem funcionando?” Se continuarmos, os recados voltarão mais fortes. Podemos desafiá-los abertamente ou sermos mais sutis. Neo prefere a segunda opção. Isso não significa que ele desistiu, apenas que entendeu as regras do jogo. O herói começa a enxergar o mundo através de janelas mais limpas. Dessa vez o herói se safou, o preço a pagar não foi tão alto. Mas o impulso da diferenciação continuará, cada vez mais forte. E o preço subirá.

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seguindo a intuição
Após escutar a ameaça de seu superior, Neo vai para sua sala e recomeça o trabalho. Um funcionário lhe entrega uma encomenda. É um celular que, para sua surpresa, logo toca. Neo atende e descobre que quem fala é Morfeu, por quem tem tanta curiosidade e fascínio. Morfeu o avisa do perigo que corre e o orienta para que possa fugir dos agentes. Neo está confuso mas obedece. Morfeu explica que ele tem duas opções: ou tentar escapar pela janela ou se entregar aos agentes. Angustiado, Neo anda pelo parapeito mas olha para baixo e a vertigem o domina. O celular cai de sua mão. De repente percebe a grande loucura que está fazendo e se entrega, sem saber por que estão à sua procura.

Durante a jornada de autorrealização nos encontraremos muitas vezes em situações onde é a intuição que nos aponta o caminho a seguir. O caminho é novo e desconhecido e olhamos para ele com medo pois jamais o percorremos antes. De um lado a sociedade nos aconselha com suas regras tradicionais mas, por outro lado, a intuição sussurra que nosso caminho é outro. O ego se vê num dilema. Estamos em conflito com nós mesmos pois uma parte de nós sabe que precisamos arriscar e a outra parte tem medo. Intuímos o que temos de fazer mas nos faltam forças. Nesse momento crucial o ego está sendo testado: uma viagem, uma troca de curso ou emprego, um término de relacionamento, uma atitude diferente... O ego se encontra diante de um portal e a intuição lhe diz que deve cruzá-lo, que isso é muito importante... Muitos até que tentam, pondo em risco coisas importantes, mas, da mesma forma que Neo, sentem uma espécie de vertigem e recuam, preferindo voltar. Vertigem é medo de altura. É isso que ocorre nesses momentos: temos medo de nos soltar das amarras das seguranças já conquistadas e, com isso, não alçamos vôo. O ego está inseguro no início da jornada e desiste logo às primeiras dificuldades, preferindo não arriscar o novo e desconhecido. A pessoa retorna aos afazeres cotidianos e tenta esquecer a sensação de derrota, abrigando-se na segurança do que já conhece. O portal se abriu mas o vislumbre da liberdade que esse momento oferece às vezes nos é assustador. Liberdade requer responsabilidade e é por isso que a maioria desiste pois ser livre tem seu preço e nem todos estão dispostos a pagar. Mas o portal se abrirá outra vez.
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Neo não vê quem lhe fala. É apenas uma voz misteriosa mas que soa amigável e parece querer orientá-lo – uma analogia perfeita para a intuição e seu modo de trabalhar. A intuição é uma das funções psicológicas de que dispomos para nos guiar vida afora, nos permitindo perceber as possibilidades inerentes à situação. É uma função irracional pois apreende a realidade instintivamente, através do inconsciente, sem a participação do pensamento lógico consciente. É a intuição que nos fornece súbitas revelações, perspectivas diferentes sobre a realidade. De repente intuímos, sem uma lógica aparente, que é melhor seguir por aqui e não por ali e isso, depois, se revela a decisão correta. Qual foi a sensação, o pensamento ou o sentimento que nos levou a tomar tal decisão? Nenhum deles. Foi outra coisa. Foi um entendimento súbito e instintivo da totalidade da questão. Diante da necessidade de escolha, geralmente decidimos seguindo a lógica do pensamento racional: irei por esta calçada pois assim caminharei na sombra. Às vezes, porém, algo parece nos impelir na direção contrária à lógica racional, como se uma parte de nós captasse algum aspecto importante, mas invisível, da questão. Se a razão enxerga parte por parte, separando, discriminando e julgando, a intuição apreende o todo de uma vez. É como se ela estivesse em contato com todos os aspectos da questão mas não pudesse explicar um por um: ela passa um entendimento instantâneo e geral. Podemos dizer que a intuição é uma função psicológica de caráter holístico pois nos conecta com o todo, ou seja, a totalidade ao redor (pessoas, coisas, fatos etc.) e também a totalidade de nós mesmos. Ao redor, a intuição percebe aspectos que o pensamento, as sensações ou os sentimentos não captam e nos fornece dados valiosos para a nossa decisão. E em relação a nós mesmos, a intuição nos faz considerar aspectos do ser que estão além da percepção do ego, da mente racional. Dessa forma, pensamos e agimos de acordo com tudo o que somos, consciência e inconsciente. Isso significa que a intuição nos ajuda a ser mais abrangentes e verdadeiros com nós mesmos e, assim, nos faz agir mais harmoniosamente com o mundo ao redor. Confiar e agir seguindo a intuição não significa desprezar o pensamento lógico, os sentimentos e as sensações pois eles também são importantes. O que ocorre é que às vezes essas funções são insuficientes e, por isso, nos levam a tomar a decisão errada, ou se con35

tradizem, nos deixando em cruéis dilemas. É nesses momentos que a intuição pode ajudar, ainda que pareça um salto no escuro. Infelizmente nossa cultura supervaloriza o pensamento racional e desdenha da intuição, atrofiando-a a cada dia e nos fazendo guardá-la quietinha no porão da psique, feito um objeto sem serventia quando, na verdade, ela precisa ser desenvolvida para podermos sempre reconhecer sua voz e segui-la. Neo está metido numa situação incrivelmente estranha. De um lado está sendo perseguido por policiais e sujeitos estranhos, com jeitão de mafiosos, sem ter a mínima ideia do motivo. De outro lado um tal Morfeu, que ele nunca viu antes, aconselha-o, pelo telefone, a se esconder e arriscar a vida no alto do prédio. Neo fica dividido mas algo lhe diz que deve obedecer a Morfeu. Logo depois, porém, sente medo de cair e desiste, preferindo se entregar a seus perseguidores. Sim, o herói deve sempre seguir sua intuição mas isso requer uma coragem que nem mesmo os maiores heróis possuem o tempo inteiro. repressão e tortura
Neo está numa espécie de sala de interrogatório e os agentes mostram que sabem praticamente tudo sobre sua vida. Eles querem sua cooperação para capturar Morfeu. Mas Neo se nega a ajudar. Os agentes o torturam e lhe inserem um aparelho rastreador para que ele, sem saber, os leve até Morfeu.

O que teria acontecido se Neo continuasse seguindo as recomendações de Morfeu? Teria escapado dos agentes? Ou teria despencado do alto do prédio e morrido na contramão, atrapalhando o tráfego? Não podemos saber. Sabemos apenas que o medo o faz desistir de seguir as orientações da voz. Ele de repente dá por si e percebe a loucura que está fazendo, como se estivesse possuído por algo insano que o leva a se arriscar e seguir uma voz interior que quer conduzi-lo para... para onde mesmo? Neo prefere se entregar do que continuar seguindo a tal voz. Mas, por não aceitar entregar Morfeu, ele é torturado. O primeiro preço a pagar pela diferenciação foi apenas um sermão e uma ameaça de demissão, nada que impedisse o herói de continuar seguindo a intuição. Agora, porém, o preço a pagar pelo nível seguinte de individualidade é bem mais alto. A sociedade age parecido, exigindo que desprezemos a intuição e desistamos daquilo que tanto buscamos. É
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um tipo de acordo, muito comum: nós entregamos os nossos sonhos mais íntimos e em troca a sociedade nos deixará em paz. Será que você alguma vez na vida não aceitou esse acordo? Diferenciar-se custa caro. Tentar ser livre sempre nos levará a situações arriscadas pois a sociedade, através de seus agentes repressores, dificultará o caminho. Ela nos interrogará e humilhará, tentando nos convencer a seguir suas regras. A sociedade nem sempre é tão direta quanto os agentes da Matrix mas é igualmente eficiente. Cabe a nós decidir: compactuamos com ela ou continuamos seguindo o impulso da diferenciação? Os que seguem o impulso devem estar preparados para retaliações – é o jeitinho que a sociedade tem de punir seus membros rebeldes. Assim, aquele que, em vez de se acomodar num emprego seguro, busca um trabalho mais condizente com seus interesses e habilidades, certamente terá dificuldades financeiras. Aquele que assume sua sexualidade ou um estilo de vida diferente da maioria sofre com o preconceito. Aquele que questiona o modo como as coisas funcionam é visto com desconfiança e pode ter seu trabalho sabotado. Aquele que tenta apresentar novos modos de entender o mundo sofre resistência por parte de amigos, familiares, colegas, professores, chefes, líderes religiosos e autoridades e pode ter problemas com a lei. Os agentes repressores da diferenciação psíquica não são necessariamente pessoas cruéis: são geralmente pessoas comuns que não têm consciência do papel que representam, são apenas seres humanos inseridos numa cultura que os leva a agir assim, sem questionar. No final deste livro, quando analisarmos a reinserção do Predestinado na Matrix, veremos que até mesmo os que se diferenciam estão, com isso, contribuindo também, mesmo que a princípio não pareça, para o fortalecimento da cultura. Trinity, o princípio yin
Neo acorda em sua cama, assustado com o pesadelo que teve, onde homens lhe prendiam e lhe metiam um bicho nojento barriga adentro. O telefone toca. É Morfeu. Ele diz que foi sorte os agentes terem-no subestimado e marca um encontro. Na cena seguinte está chovendo e Neo, sob uma ponte, vê o carro preto dos rebeldes parar à sua frente. Ele entra e senta ao lado de Trinity, sempre desconfiado. Do banco da frente Switch lhe aponta uma arma e ele se assusta. Neo pede que parem o carro pois está farto disso tudo. Trinity olha para ele com ternura e gentilmente o convence a ficar. Neo é submetido a uma rápida e delicada operação para retirada do rastre37

ador de seu corpo. Agora ele já não pode mais ser localizado pelos agentes.

O portal se abre novamente para Neo, o novo lhe concede uma segunda chance. Ele segue sua intuição e vai ao encontro. Dentro do carro o medo o domina mais uma vez e ele quase desiste. Quase pois a doçura com que Trinity lida com a situação o faz superar o medo e a desconfiança e assim ele prossegue rumo ao novo que o chama. Trinity é uma personagem feminina e ao longo do filme veremos que ela representa os aspectos femininos da psique do herói que ele deve reconhecer em si mesmo e assimilar, integrando-os à personalidade consciente. Trinity é o princípio yin de que fala a filosofia oriental. Intuição, sentimento, cuidado, paciência, maleabilidade, doçura e amor  esses são os valores que Neo precisa reconhecer e desenvolver em sua própria personalidade, caso contrário não se transformará suficientemente e não conseguirá vencer os desafios. Isso também é válido se o herói é uma mulher pois as mulheres também possuem sua contraparte masculina e necessitam conhecê-la e equilibrá-la dentro de si. Durante o processo de autoconhecimento do homem, a contraparte feminina vai ensiná-lo a ser doce, paciente e sutil nos momentos em que a força e a pressa nada resolvem. Vai ensiná-lo a expor seus sentimentos e não ter vergonha deles. Vai ensiná-lo que o amor é importante e é como uma flor que deve ser cuidada dia a dia. Vai fazê-lo entender que os relacionamentos devem sempre ser valorizados pois o crescimento pessoal passa necessariamente pelo tipo de relações que se desenvolve na vida. Quando, porém, os valores yin ocupam mais espaço do que deveriam na psique masculina, ocorre o desequilíbrio e o homem fica como que tomado por humores instáveis, torna-se melindroso, faz-se de vítima e apela para chantagens emocionais quando tem seus interesses contrariados. É como se estivesse possuído por uma entidade interna que o tiraniza sem ele ter consciência disso, uma entidade que o faz parecer uma bisonha caricatura da mulher, prejudicando-o em seus relacionamentos, nos negócios e em outros aspectos da vida. Ela só deixará de prejudicá-lo quando ele, conscientemente, se voltar para seu interior e buscar um diálogo com esses conteúdos sobre os quais ainda não tem controle  um desafio de todos os homens.

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a pílula vermelha
Trinity leva Neo a um prédio. Ele é apresentado a Morfeu, que lhe fala sobre a Matrix, sobre ser escravo, e que ninguém pode dizer o que é a Matrix. ”Você tem que vê-la por seus próprios olhos”, Morfeu diz e, por fim, lhe oferece duas pílulas, uma azul e outra vermelha. A azul fará com que Neo acorde em seu apartamento, seguro, e aquela estranha aventura terminará. A vermelha o levará adiante. Neo escolhe a pílula vermelha.

Quando começamos a nos interessar por nosso mundo interior, é comum que surja a curiosidade por temas ligados a psicologia e espiritualidade. Há pessoas que entram para seitas esotéricas, escolas místicas e leem livros e frequentam palestras e cursos. A curiosidade é normal pois o mundo interior, em toda sua vastidão, é realmente fascinante e envolvente. Porém aqui há outra armadilha do caminho. Por mais livros e cursos que acumulemos, nada disso terá muito valor se a transformação não for vivida na própria carne. Em outras palavras, não adianta se tornar especialista em algum assunto, fazer curso de xamanismo, entrar para uma seita esotérica, contatar extraterrestres ou guias espirituais, lembrar de vidas passadas ou desenvolver capacidades paranormais se tais coisas não contribuem para que a pessoa se conheça melhor e se relacione melhor com o mundo, com os outros e consigo mesma. A espiritualidade que não gera o sadio intercâmbio entre consciência e inconsciente tende apenas a inflar o ego. Aliás, o mundo da espiritualidade e da religião às vezes mais parece um espetáculo de enormes balões coloridos a desfilar no céu... O mundo interior é como uma caverna escura e cheia de labirintos. O explorador pode facilmente ser seduzido por qualquer um de seus encantos e mistérios e esquecer que precisa prosseguir e viver os desafios seguintes de sua transformação pessoal. É justamente assim, seduzida pelos conhecimentos que as religiões, seitas e os mais diversos ismos e logias oferecem, que a pessoa se acomoda em algum tipo de explicação da realidade e “autoriza” que alguma ideologia faça o trabalho por ela. A própria pessoa é quem tem de percorrer seu caminho e viver em si mesma a alquimia que a transformará num novo ser. Saberes intelectuais e dons paranormais, por si só, nada valem na jornada do verdadeiro autoconhecimento e não significam necessariamente percorrer o caminho interior. Morfeu certamente concorda com isso pois
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em certo ponto da história ele diz a Neo: “Há uma diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho”. Assim como Neo terá que ver a Matrix com os próprios olhos e entendê-la por si mesmo, nós também teremos que ver a verdade através de nossa própria vivência individual, que se parece com o convite para aquela festa chique: é pessoal e intransferível. Ninguém pode viver nossa própria verdade por nós e nem podemos verdadeiramente compreendê-la sem passar pela experiência. Livros e cursos explicam com detalhes mas tudo fica no plano do entendimento intelectual. Esse tipo de conhecimento muitas vezes é uma casca bonita que nada contém – não é isso que transforma. É mais ou menos como planejar uma viagem e estudar a região pelo guia, decorando pontos turísticos, preços de pousadas e nomes de ruas. Tanta preparação só valerá mesmo se a viagem for posta em prática. E, ainda assim, a gente sabe que na prática a coisa geralmente não sai como planejada... É só o que tem por aí: frequentadores de cursos e catedráticas dos assuntos da alma. Muitos têm gurus, sabem botar cartas. Muitos até escrevem livros. Mas não vivenciam em suas próprias vidas a transformação necessária que os conduzirá ao nível seguinte de autoconhecimento e realização pessoal. Estão empacados em algum ponto de seu crescimento interior, repetindo fórmulas e orações decoradas. Têm na ponta da língua o versículo para cada ocasião, conhecem a hierarquia dos seres ascensionados e recitam suas vidas passadas como quem narra as férias em Canoa Quebrada. Putz, de que vale mesmo tudo isso? Assim como Morfeu não explica para Neo o que é a Matrix, nenhum livro, curso, religião ou guru pode viver por nós aquilo que nós mesmos temos de viver. Se desejamos avançar no conhecimento do mundo interior e, com isso, nos libertar do que nos escraviza, só há um jeito: tomar a pílula vermelha. E ver a verdade com nossos olhos, vivê-la na própria pele. Mesmo que doa. o despertar
Depois de tomar a pílula vermelha, Neo é conectado aos aparelhos para finalizar seu processo de desligamento da Matrix. Ele estica a mão e o espelho à sua frente engole seus dedos. De repente a superfície do espelho sobe pelo seu braço, feito um gel prateado, envolvendo cada vez mais seu corpo. Ele entra em pânico e desmaia. 40

Então Neo desperta. Está numa espécie de casulo, imerso num líquido avermelhado, e de seu corpo nu saem cabos conectores. Ele olha impressionado para as enormes construções ao redor, centenas delas, cada uma com milhares de casulos como o dele, cada casulo abrigando um corpo humano. De repente um robô se aproxima, observa-o e desconecta os cabos, fazendo Neo escorregar por um longo tubo e cair num esgoto, de onde é resgatado pelos rebeldes.

Esta cena tem forte carga dramática e certamente é a mais impressionante de todo o filme. Mostra o momento exato em que Neo desperta para o mundo real, acordando de um sonho no qual viveu durante toda a vida. Em nossas vidas não acordamos em casulos gosmentos, ainda bem, mas o drama do despertar da consciência é sempre intenso e carregado de fortes sensações e emoções. O mito do despertar da consciência está espalhado em diversas culturas. Na mitologia cristã ele aparece na metáfora da árvore do bem e do mal cujo fruto faz com que Adão e Eva adquiram consciência de si próprios. Despertos, eles são expulsos do Paraíso e daí em diante terão de trabalhar duro para se sustentar. Em linguagem psicológica isso significa que o indivíduo atingiu um certo grau no conhecimento de si mesmo e já não pode mais permanecer na comodidade em que estava, com as velhas ideias e atitudes perante a vida. Nesse momento as forças psíquicas forçam o ego a deixar seus limites de autopercepção e a ele não restará outra alternativa senão buscar novos níveis de compreensão de si mesmo. Mas o despertar não é um processo que ocorre magicamente de um momento para o outro: ele é feito de acontecimentos que precedem as revelações transformadoras. Para Neo, o despertar começa com o estranhamento que sente em relação à realidade e com as incríveis façanhas de um tal homem chamado Morfeu. Depois vêm as estranhas mensagens no computador, o encontro com Trinity, o telefonema de Morfeu, o encontro com os agentes, mais um encontro com Trinity e, por fim, com Morfeu. O herói precisa ser devidamente iniciado e passar por pequenos testes para que possa suportar a grande revelação que terá. Não pensemos também que o despertar é uma experiência única, no sentido de que uma vez desperto, sempre desperto. Não é as41

sim. O processo de autorrealização é feito de muitos despertares, cada um levando o indivíduo a um novo nível de autoconhecimento que, por sua vez, o leva a um novo nível de relação com mundo e isso força sua consciência a nova mudança e assim por diante. Em nossas vidas o despertar acontece quando passamos por uma experiência forte o bastante para mexer com nossa noção da realidade ou de nós mesmos. Experiências fortes existem aos montes: basta ir ao parque de diversão, ao futebol, a uma festa, tomar alguma droga ou receber a fatura do cartão de crédito do fim do ano. Porém, a experiência que leva ao despertar é especial porque transforma a pessoa para sempre, mudando sua autoimagem. O terremoto interno que o despertar provoca muda a pessoa para sempre. Se na adolescência precisávamos construir uma imagem de nós mesmos, agora precisamos desconstruir. Precisamos matar o que éramos para que o novo eu possa nascer, com outros valores. Precisamos passar pelo fogo da transformação e isso envolve dor, conflitos internos, insegurança e medo. Separações, insucessos, acidentes, doenças e até a morte podem servir de catalisador para o despertar porque fornecem o choque necessário para que a pessoa pare e se concentre um pouco mais em seu mundo interno, repense os valores que até então a guiaram e perceba finalmente que a vida está lhe exigindo uma nova postura diante dela. Na jornada de autodescoberta nós despertamos um pouco mais cada vez que assumimos certas coisas sobre nós mesmos. Podem ser boas ou ruins mas sempre são coisas que não sabíamos ou não admitíamos. Neo precisa acordar de um longo sonho senão jamais se tornará o Predestinado de que fala a profecia. Nós precisaremos acordar também, não exatamente de um sonho, mas de uma falsa ou limitada compreensão de nós mesmos. Precisaremos nos desconectar dos valores que nos guiaram até agora mas que não são mais úteis ao crescimento pessoal, assim como Neo teve que se desconectar dos cabos que o mantinham preso ao casulo. O verdadeiro autoconhecer-se dói porque implica necessariamente enfrentar o que se teme, tornar-se o que se evita ser, entrar no fogo dos piores medos. Dói admitir que estávamos errados, que as coisas não são bem como sempre pensamos e que nós mesmos não somos quem sempre consideramos ser. A sensação de desamparo e solidão nos atinge como um raio. Sentimo-nos impotentes, humilhados e não vemos saída para nosso sofrimento. Se pudéssemos, aper42

taríamos um botão, desceríamos pelo ralo e morreríamos no esgoto. E tudo estaria finalmente terminado, a dor, a decepção, a solidão. Ponto final. Bem, de fato todo despertar da consciência exige uma morte. Mas aqui trata-se de uma morte simbólica: a morte do ego. O velho ego morre, ele e seus valores ultrapassados, para que um novo ego possa tomar seu lugar, mais forte, mais sábio e capaz de mediar os mundos interno e externo do indivíduo, gerenciando as necessidades dos dois lados. Um ego que possa conduzir o herói adiante em sua jornada. os sonhos e a morte Se nós tivéssemos o hábito de atentar e registrar nossos sonhos, veríamos que durante todo o tempo eles refletiam o próprio processo que vivíamos. É assim, através dos sonhos, que a psique individual retrata a si mesma, seus movimentos, suas transformações. Além de servir de espelho para a realidade psíquica do sonhador, os sonhos também podem orientar, mostrando o caminho que se deve tomar. Por virem diretamente do inconsciente, os sonhos falam a mesma linguagem do mito, ou seja, falam pela imagem, pelos símbolos. Por isso é que eles têm fama de incompreensíveis e até mesmo de absolutamente ilógicos. Os sonhos têm uma lógica, sim, mas para captá-la precisamos ser mais íntimos de sua linguagem simbólica. Sim, é verdade que ainda temos muito que aprender sobres os sonhos mas já sabemos que as situações que eles trazem podem se referir a aspectos do ser, cada figura representando algo em nós mesmos, em nossa vida. Se quisermos compreender mais os nossos sonhos e, consequentemente, a nós mesmos, temos que olhar para eles como estamos olhando agora para o filme Matrix, monitorando o personagem principal através de seus vários aspectos, analisando as situações pelas quais ele passa como metáforas de seu próprio processo interior de autorrealização. Infelizmente no corre-corre do cotidiano não sobra tempo suficiente para nos dedicarmos ao nosso mundo interno. Acordamos já apressados e os nossos sonhos se dissipam no ar, levando embora as importantes mensagens que a psique elaborou durante a noite, mensagens que poderiam facilitar a vida, fornecendo respostas para ques43

tões difíceis e apontando o melhor caminho. Certamente gostaríamos de saber o que nossa parte mais sábia tem a nos dizer mas infelizmente estamos atrasados, um monte de coisa a resolver, o aluguel está vencido, não há tempo. Um psicólogo experiente, que sabe reconhecer as nuances do processo de autorrealização, pode facilitar nosso contato com os sonhos e suas mensagens. Para isso temos também de fazer nossa parte, registrando os sonhos e nos mantendo vigilantes em relação a nós mesmos, comprometidos com o processo, sendo honestos com nossas verdades interiores. Desconfie dos livros que oferecem fáceis interpretações dos sonhos pois apesar de certos símbolos serem coletivos, sempre haverá detalhes do universo onírico estreitamente ligados à vida individual do sonhador, à sua história. Se, nesse ponto decisivo do processo, o herói se torna mais íntimo de seu mundo onírico, ele capta a mensagem e entende que a morte está se anunciando em seus sonhos, sim, mas representa a profunda transformação pela qual ele passa. Imagens de mares revoltos, catástrofes, documentos perdidos ou desorientação na floresta indicam, em metáforas, o que está ocorrendo em sua vida: o herói está perdido pois sua noção de si mesmo, sua preciosa identidade, ruiu feito um prédio que desaba e agora ele se sente acuado por forças que ameaçam matá-lo. Mas a morte é simbólica e o herói não precisa ter tanto medo assim. Nós também não precisamos temer. Veja o exemplo das serpentes: elas se tornaram símbolos da vida que se renova. Por quê? Justamente porque trocam de pele de tempos em tempos e com isso se tornam mais resistentes. Encarar nosso sofrimento como uma troca de pele, um sacrifício necessário, pois não há crescimento possível sem dor. Grandes conquistas exigem grandes sacrifícios. E o que de maior podemos entregar senão a nossa própria noção de eu?

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III Não existe colher

crises do despertar
Neo é resgatado pelos rebeldes. Pela primeira vez em toda a vida sua mente está fora da Matrix, no mundo real. Muito debilitado pelos anos em que seu corpo ficou imobilizado no casulo, cedendo energia para as máquinas, Neo dorme e a tripulação cuida dele. Ele acorda e pergunta por que seus olhos doem. Morfeu responde que é porque ele nunca os usou. E finaliza: “Descanse, Neo. As respostas estão vindo”.

O indivíduo jamais sai impune de sua diferenciação da sociedade pois a conquista da individualidade sempre cobra seu preço. As crises que envolvem o despertar deixam o ego fragilizado pois pode ser bem doloroso encarar a verdade sobre nós mesmos. É comum que tais descobertas abalem tanto o ego que a pessoa, num primeiro momento, adoeça, precisando de um tempo para se recuperar e retomar os afazeres normais do dia a dia. A psique, em sua capacidade autorreguladora, força a pessoa a diminuir o ritmo e cuidar de si nessa fase delicada. Em certos casos o corpo segue a mente e expressa o sofrimento do ser, somatizando o conflito interno e refletindo fisicamente o que se passa na dimensão da alma. Vêm daí certas doenças que devem ser entendidas num contexto mais amplo, como sintomas da crise psíquica. Infelizmente a maioria dos nossos médicos ignora essa dimensão psíquica do ser e por isso se concentra nos cuidados físicos e neurológicos, comprometendo o processo de cura com sua compreensão restrita da natureza humana. Nessas ocasiões o médico geral45

mente não encontra causa alguma para a doença. Ora, não encontra porque procura no lugar errado. A doença física, aqui, é um sintoma localizado do desequilíbrio psíquico pois o ego está sendo confrontado por conteúdos inconscientes e isso ocorre porque o ego precisa evoluir, a pessoa precisa se tornar mais adulta. Por ignorar a realidade objetiva da psique, o médico também ignora que esse doloroso confronto é vital ao desenvolvimento do ego e, consequentemente, à saúde do ser total. Quando o médico desconhece que a doença já faz parte da cura, suas tentativas de exterminá-la a todo custo poderão também anular o potencial curativo que a doença oferece. Esta noção mais ampla da saúde ainda é rara entre médicos, enfermeiros e psiquiatras, profissionais formados por escolas que tendem a ignorar a dimensão psíquica do ser. Felizmente já existem profissionais que levam a sério essa dimensão, compreendendo o ser de um modo holístico, o que os torna mais capacitados para ajudar as pessoas a entender melhor as razões de seus males. Isso nos dá esperança de que num futuro próximo as crises do despertar da consciência (e as crises psíquicas em geral) possam ser tratadas não como meras doenças, à base de comprimidos, mas como manifestações físicas e psicológicas de um processo de cura e crescimento que envolve todo o ser. os olhos veem Estamos num momento decisivo do processo. No começo eram indícios vagos e confusos, mensagens sutis vindas do inconsciente que inquietaram o ego, forçando-o a sair de seu quartinho. O ego começou a desconfiar que havia algo além do que sabia sobre si mesmo e passou a se investigar. Vieram daí as dificuldades mas o ego persistiu em seu caminho de autodescobertas. Vieram novas dificuldades e a coisa ficou mais séria. É como se a vida dissesse: “Não era você quem queria ver o que há do outro lado de sua dúvida? Pois agora veja.” Diante do perigo, o ego hesita. Ele pode recuar, levando a pessoa a se convencer de que essas coisas não têm importância, que é melhor não mexer na ferida... Infelizmente, às vezes basta um vislumbre do que estamos por descobrir sobre nós para nos afastar do caminho. A jornada da autorrealização não é para fracos. Somente os
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que vencem o medo de se conhecer podem realizar a si próprios. Neo já sentiu esse medo quando tentou andar pelo parapeito e quase caiu. Sentiu pavor quando foi torturado pelos agentes. E, diante da estranha proposta de Morfeu, parou para avaliar se valeria mesmo a pena prosseguir... O herói decidiu pagar para ver. E tomou sua pílula vermelha. O ego decidiu prosseguir e aceitou ver o que vinha do escuro do inconsciente. Isso fez o herói finalmente se confrontar com a realidade. E a visão dela foi tão dolorosa que o ego não resistiu e começou a morrer. E não poderia ser de outro jeito. Da mesma forma que os olhos de Neo doem por ele nunca ter usado antes, nós também sofremos por estarmos, pela primeira vez, olhando diretamente para dentro. Mas o que exatamente pode ser tão doloroso assim em nós mesmos? Tudo aquilo que incomoda e envergonha – mas que agora somos forçados a admitir como parte integrante de nossa personalidade. Assumir que somos fracos, mesquinhos, mentirosos, medrosos, covardes, ciumentos, violentos, desonestos, enfim, assumir coisas que sempre julgamos inexistentes em nós é tarefa das mais difíceis. O ator principal tem de descer do pedestal de sua autoimportância, desculpar-se com a plateia e apresentar a ela os outros atores da peça, que ele antes desprezava. O ator se sente humilhado. Na vida real a plateia não são as pessoas ao redor mas a nossa própria consciência. Podemos até enganar os outros mas agora já não podemos seguir mentindo para nós mesmos. O ego está frente a frente com outros aspectos do ser e é impossível prosseguir ignorando-os pois agora eles se comportam feito funcionários em greve que simplesmente paralisam as atividades e impedem o funcionamento normal da empresa, levando o ego-gerente ao desespero. A pessoa estará impossibilitada de viver sua vida normal enquanto se mantiver o caos psíquico. Só há uma saída: o ego tem de assimilar o que vem do inconsciente e integrar essas novidades à consciência. No início é doloroso mas logo os conteúdos assimilados fazem o ego mais forte e a psique finalmente se equilibra. Por isso que é difícil para o indivíduo se desgarrar da sociedade: a floresta lá fora é escura. Poucos avançam quando o ego é chamado ao confronto com seus aspectos sombrios. O comum é tomar a pílula azul e tratar de esquecer certos assuntos. Os horizontes de
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quem não arrisca são menores, sim, mas no mundo das ilusões ao menos não temos de encarar a incômoda verdade sobre nós mesmos. No entanto sempre há quem tome a pílula vermelha, testando seus limites e assumindo todos os riscos da aventura de se conhecer. Fazem isso porque têm coragem, sim, mas também porque sentem que não podem deixar de fazê-lo, que morrerão frustrados se desistirem nesse ponto. Então dão o passo à frente. Você já ouviu falar de Alexandre o Grande? Ele foi rei da Macedônia (atual região da Grécia) e viveu no século 4 antes da era cristã. À frente de seus soldados conquistou reinos da Europa, África e Ásia, promovendo uma intensa troca cultural entre Ocidente e Oriente. Alexandre é considerado um dos maiores estrategistas militares da história. Uma das lendas a seu respeito diz que ele desembarcava seu exército na praia inimiga, retirava dos navios as armas e a comida, reunia os soldados à beira-mar e mandava atear fogo nos próprios navios. Então, diante das chamas, gritava para a tropa: “Se quiserem voltar para casa e rever suas famílias, só temos uma opção: vencer a guerra e voltar nos navios do inimigo.” História interessante... Mas o que isso tem a ver com o processo de autorrealização? Tudo. Alexandre, ao queimar os próprios navios, tomava sua pílula vermelha, ou seja, tomava uma atitude drástica em relação a seu destino, obrigando a si mesmo a avançar e dar o melhor que pudesse. Para voltar para casa, seus soldados não tinham outra opção a não ser dar tudo de si, lutar com todas as forças que tivessem e algo mais. Eles eram obrigados a se superar. Por isso venciam. Neo, ao aceitar a pílula vermelha, não age com excesso de confiança ou soberba. É justamente o contrário: ele está assustado e tem medo. Se soubesse o que o aguarda, talvez preferisse a pílula azul, como logo veremos. Nada lhe garante sucesso mas ele, sentado naquela poltrona, parece escutar a intuição lhe sussurrar ao ouvido que sim, ele deve prosseguir, que somente assim saberá onde vai dar a toca do coelho. Somente dando esse terrível salto no escuro é que o herói conhecerá o fim de sua própria história. mais crises
Neo acorda de seu sono profundo. Sente-se melhor. Morfeu lhe explica: “Você acredita que o ano é 1997 mas é mais provável que estejamos em 2197.” Neo diz que isso é impossível. Morfeu continua: “Eu prometi a verda48

de a você e a verdade é que o mundo em que você vivia era uma mentira”. Neo e Morfeu são conectados a um programa de realidade virtual onde Neo fica sabendo sobre a Inteligência Artificial, a guerra, a Matrix e o que aconteceu com o planeta. Neo reluta em aceitar que toda sua vida foi apenas um sonho gerado e mantido por máquinas pensantes. Angustia-se e é retirado do programa. Ele vomita e vai para seu aposento descansar. Aos poucos se recupera do choque e começa, finalmente, a aceitar a verdade.

Os acontecimentos que nos fazem encarar a verdade sobre nós mesmos têm força suficiente para desestruturar a vida. A verdade está à frente e não podemos mais fingir que ela não existe. Ou podemos? Assim como Neo, mesmo desperto da Matrix, ainda reluta em aceitar a verdade, nós às vezes demoramos a reconhecer aquilo que já é evidente. Por quê? Simplesmente porque o velho ego ainda não morreu de todo e seus espasmos continuam. Neurose. É o nome dessa tensão entre nossa verdadeira natureza e os interesses superficiais do ego ou os papéis a que sociedade nos obriga. As neuroses se manifestam porque já não é mais possível manter no inconsciente certos aspectos do ser e, ainda assim, a personalidade consciente insiste em não reconhecê-los. Quanto mais tempo se prolongar essa tensão, mais a Pessoa sofrerá até tornar a vida algo muito difícil de suportar. Devemos ver a neurose com olhos mais otimistas – ela é um sinal de que estamos lidando com nossos conteúdos inconscientes, com a nossa própria natureza. Isso quer dizer que a psique está tentando se equilibrar entre seus opostos. Passamos maus bocados toda vez que o ego demora a reconhecer o que precisa ser reconhecido mas tudo isso faz parte do processo. O ego necessita de tempo para assimilar o que descobriu. Os mecanismos autorreguladores da psique têm sua sabedoria própria e por isso as descobertas do mundo interior se fazem aos poucos, para podermos digerir bem as novas informações, cada uma em seu devido tempo. Morfeu tem de aguardar Neo se recuperar do choque causado pelo desligamento da Matrix para só então levá-lo a um programa de realidade virtual a fim de que ele entenda o que houve com o planeta e a humanidade. E ainda assim, com todos esses cuidados, Neo sofre bastante e precisa de mais tempo para aceitar, chegando a perguntar a Morfeu se ainda pode voltar à Matrix. Nós também demoramos a aceitar o que somos. O mundo, po49

rém, sempre trata de nos mostrar a verdade. Certos comentários a nosso respeito nos irritam? Aí está uma boa pista a seguir. Se tais comentários nos tiram do sério, talvez eles queiram nos dizer algo importante sobre quem somos mas nós receamos admitir. Quem está seguro em seu caminho não tem porque se incomodar com o que falam mas, por outro lado, quem esconde algo de si mesmo será constantemente lembrado disso através de outras pessoas que, de alguma maneira, conscientes ou não, porão o dedo bem na ferida. Outra boa pista é atentar para o que nos incomoda profundamente nos outros. Como projetamos inconscientemente aquilo que é incômodo dentro de nós, é nos outros que o veremos claramente e não em nós mesmos. Ter de conviver com essas pessoas parece um castigo mas, na verdade, é uma ótima oportunidade para reconhecer nossas falhas. A agressividade que não reconhecemos em nós mesmos, nós a detectaremos em alguém e isso poderá nos incomodar a tal ponto que não conseguiremos conviver com tal pessoa pois ela é muito agressiva, ou seja, ela sempre nos faz lembrar do que somos mas queremos esquecer. O ego imaturo não permite que esses conteúdos inconscientes sejam reconhecidos pela consciência e assim eles prosseguem agindo na surdina, influenciando a personalidade. Mas um ego maduro esquece o orgulho e reconhece, através de suas projeções, as falhas de sua própria personalidade. O autoconhecimento faz com que todas as pessoas sejam mestres para nós, nos ensinando o que precisamos saber sobre nós mesmos. Mas para isso precisamos de autocrítica e humildade em relação a nós e de paciência e compreensão em relação aos outros. Precisamos treinar essas capacidades em nós para podermos praticá-las naturalmente sempre que a vida exigir que avancemos ao nível seguinte de autorrealização. Neo treina com Morfeu
Após finalmente aceitar a verdade e se recuperar, Neo inicia seu treinamento para saber agir na Matrix. Ele é inserido num programa que simula a realidade da Matrix e lá consegue superar o mestre Morfeu. Depois, aprendendo a saltar prédios, falha e cai, despencando sobre o asfalto.

O percurso rumo à autorrealização envolve várias situações em que será preciso admitir que o que se vivia era apenas uma ilusão. Para evitar lidar com a verdade, nós fugimos de nós mesmos. Essa
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fuga constante requer muita energia por parte do ego: ele se esforça a cada minuto do dia para manter as aparências, não somente para os outros mas principalmente para si mesmo. Nós fingimos que somos o que não somos e reprimimos o que na verdade sempre fomos. Ignoramos a voz interior que nos chama para uma conversa e quanto mais ela insiste, mais abafamos sua voz com qualquer coisa que estiver à mão: trabalho, diversão, consumo desenfreado, sexo, drogas e ocupações superficiais. Para não olhar para onde realmente interessa, construímos um mundo ao nosso redor feito de coisas agradáveis. A energia que o ego gasta com tudo isso é enorme. Com o tempo, essa tática acabará obstruindo o fluxo natural do crescimento e a crise virá num vendaval que arrancará as máscaras que o ego construiu com tanto esmero para si. O mundo de superficialidades se mostrará um cenário de papelão, os relacionamentos perderão a graça e muitas coisas que ocupavam tanto espaço na vida deixarão de fazer sentido. Teremos de admitir que vivíamos uma mentira, uma grande Matrix criada e mantida por nós mesmos, em nossa ânsia de fugir do que nos chamava. É um momento perigoso para o herói. Para se proteger dos escombros de seu mundo que desmorona, muitos se refugiam em qualquer lugar que lhes acene com segurança. Muitos recorrem à religião ou procuram as drogas. Há também aqueles que sucumbem ao cinismo e adotam uma postura sarcástica perante a vida, como se tivessem sofrido uma grande decepção amorosa. Há também aqueles que perdem o prumo e têm sua vida desorganizada a tal ponto que nunca mais a organizam de forma satisfatória. Há os que enlouquecem. E há os que desistem de viver. Descobrir que a própria vida é uma mentira pode ser insuportável. Mas muitos conseguem assimilar a descoberta e prosseguir com suas vidas sem se entregar a novas mentiras. Buscam e encontram dentro de si mesmos o sentido maior para o sofrimento por que passam e assim superam a crise. A experiência da dor e da superação os torna mais fortes e mais capazes e eles prosseguem cada vez mais firmes rumo à concretização de suas potencialidades. Neo aprende a lutar nos programas de simulação e termina por vencer o próprio mestre. Após nos livrarmos das mentiras que só consumiam nossa energia, podemos agora, como Neo, fazer o que realmente importa, nos capacitando a viver de modo verdadeiro, in51

vestindo em nossas vocações e lutando pelos sonhos mais íntimos. Sem o peso das mentiras que usávamos para nos proteger de nós mesmos, agora somos mais ágeis, nos movimentamos melhor pela vida. Estamos mais preparados. Mas o aprendizado não terminou. Falta, por exemplo, saber saltar prédios. Morfeu, o princípio yang Se Trinity representa valores mais femininos, Morfeu é a personificação do masculino na psique do herói. Morfeu é o princípio yang da personalidade: força criativa, liderança, incentivo, agressividade e capacidade de realizar. Morfeu é o líder da tripulação e foi ele quem libertou os colegas. Foi ele quem descobriu Neo na Matrix e primeiramente acreditou que ele era o Predestinado. Foi Morfeu quem enviou Trinity para contatar Neo. Foi ele quem mostrou a dolorosa realidade para Neo. Agora é ele quem o treina para lutar contra a Matrix. O herói precisa desse aspecto Morfeu do ser. Todos nós precisamos crer que somos capazes senão nada conseguiremos realizar. Precisamos buscar nossa própria força para fazer o que devemos fazer. É esse importante aspecto da psique que nos mantém acreditando em nossos sonhos, por mais improváveis que sejam. Às vezes, quando tudo diz que não conseguiremos, é justamente o Morfeu que existe em nós que temos de localizar e fazer agir pois ele não medirá esforços em lutar por nós. Ele é feito de fé, a inabalável fé que diz que nós somos predestinados. A natureza agressiva do aspecto yang é bem visível nos homens, criados desde bebês para lidar com valores como força, liderança e empreendorismo. Mas eles precisam equilibrá-los com os valores femininos de sua psique senão se tornam seres psicologicamente desajustados, incapazes de levar adiante o processo de autorrealização. Com as mulheres ocorre o mesmo, de modo inverso. Elas precisam de sua contraparte masculina para se equilibrar e serem mais coesas. A vida moderna exige das mulheres força e capacidade de liderança nos negócios mas, infelizmente, muitas se deixam seduzir e ficam possuídas pelos valores masculinos. O que se vê então são mulheres exageradamente competitivas, cheias de opiniões e posturas rígidas demais, obcecadas em ter razão, sedentas de poder, superva52

lorizando o dinheiro, desprezando os sentimentos e surdas aos melhores conselhos. De tão masculinizadas tornam-se caricaturas do homem. Nelas a feminilidade foi reprimida e será preciso resgatá-la através do autoconhecimento para que a psique se reequilibre. Confiar na vida e no próprio processo de crescimento é uma qualidade vital, forjada principalmente nos fracassos pois são as derrotas que revelam os que são dignos de prosseguir no caminho. Nas situações difíceis, quando as incertezas e o sofrimento nos abatem, quando nada dá certo, lembre-se das lendas e dos mitos: as terríveis provas do herói jamais são à toa. É justamente o sofrimento que faz o herói amadurecer e se transformar, conseguindo assim, mais tarde, realizar o que antes lhe seria impossível. É preciso confiar no processo e isso inclui confiar inclusive no sofrimento pessoal pois ele tem um propósito que mais adiante saberemos entender. É esta a lição de Morfeu: confie na vida, acredite em você e faça. negar os instintos
Os tripulantes estão reunidos para comer. Dozer explica que as refeições da nave não são gostosas mas são feitas de proteína unicelular, combinada com aminoácidos, vitaminas e minerais sintéticos e que isso é tudo que o corpo precisa. Mouse, o mais novo, discorda: “Não é tudo o que o corpo precisa.” A seguir Mouse comenta com Neo sobre a mulher de vestido vermelho do programa de simulação da Matrix. Afirma que foi ele quem o construiu e pergunta se Neo não gostaria de um encontro a sós com a mulher. Trinity graceja: “O cafetão digital em ação...”. “Não ligue. São hipócritas”, prossegue Mouse. “Negar nossos instintos é negar o que nos faz humanos”.

A espécie humana é apenas uma ramificação da longa cadeia evolutiva que teve início com organismos minúsculos e se diversificou pelo planeta em milhões de espécies. A maioria desapareceu pelo caminho e entre as que chegaram vivas nos dias de hoje está o Homo sapiens, descendente direto de outras espécies de hominídeos que, por sua vez, descenderam dos macacos. Nossa espécie adquiriu elevado grau de autoconsciência e, por isso, deixou de ser guiada unicamente por seus instintos, construindo cultura. Sua mente refinouse e adquiriu habilidades que levaram-na a dominar outras espécies e agora seu impulso de conquistas segue rumo ao espaço sideral.
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O Homo sapiens é o maior conquistador da história mas não tem poder sobre toda a Natureza e sequer consegue controlar a si mesmo. Nossos cientistas desvendam os segredos do Cosmos e nós não sabemos quem somos. Apesar de todo o conhecimento adquirido, o ser humano permanece um grande mistério para si próprio. A mentalidade científica nos fez pedantes e hoje nos cremos separados da Natureza, olhando para tudo ao redor com ar de superioridade. Mas o buraco é mais embaixo. Apesar de toda a cultura que construímos e de todos os avanços tecnológicos, ainda somos animais e, por isso, feitos de instintos. Continuamos fazendo parte da Natureza, assim como nossos peludos antepassados milhões de anos atrás. Ironicamente é a própria ciência que nos faz cair desse pedestal de soberba. Primeiro descobrimos que somos todos descendentes de macacos e formamos com eles uma única família chamada primata. Depois as pesquisas revelaram que 97% de nossa constituição genética é igual a de alguns deles. Isso tudo contradiz nosso sentimento de superioridade e a crença que, por sermos dotados de razão e pensamento abstrato, não mais fazemos parte da Natureza nem somos guiados por instintos como os bichos. Os instintos são nossa ligação direta com a Natureza, inclusive a natureza humana. Negá-los é negar as nossas raízes, é fugir do que somos. Em Matrix os humanos rebeldes resistem a fazer parte do mundo das máquinas e, assim, valorizar as características humanas faz parte da resistência. Máquinas não têm instintos (pelo menos ainda) e, como veremos quando o agente Smith expuser suas opiniões sobre os humanos, elas de certa forma se orgulham dessa autonomia em relação aos impulsos naturais. Para Mouse, porém, admitir os próprios instintos é justamente um modo de se diferenciar do mundo mecânico e previsível das máquinas e elevar a categoria humana. Reconhecer a própria humanidade é uma questão de sobrevivência. Para que haja equilíbrio psíquico é preciso reconhecer a dimensão instintiva do ser e assimilar o que é natural em nós, aquilo que herdamos e transmitiremos a nossos descendentes, queiramos ou não. Se, ao contrário, reprimimos os instintos no inconsciente, nas regiões escuras que a luz da consciência não alcança, os instintos se desenvolvem sem o olhar crítico da consciência e ganham força para influenciar o comportamento de modo negativo e até destrutivo. A discussão entre Mouse e os outros tripulantes pode ser vista
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como mais uma edição da velha discussão sobre corpo e espírito. Apoc, Switch e Dozer criticam a sexualidade do jovem Mouse, certamente pensando que um humano liberto da Matrix deve concentrar sua energia no trabalho de salvar outros humanos, nas missões dentro do sistema e na luta contra as máquinas. É como se o interesse pelo sexo pudesse lhes desviar da prioridade e demonstrasse fraqueza de caráter. Ideias desse tipo são comuns nos caminhos do autoconhecimento, principalmente quando há algum tipo de religiosidade envolvida. Para alguns a energia sexual deve ser reprimida para que a pessoa se concentre apenas no caminho da salvação. Mas, afinal, que diabo de salvação é esta que exclui algo tão natural e legítimo como o sexo? Não podemos cair no erro de ter vergonha do corpo e dos instintos apenas porque almejamos nos tornar pessoas mais equilibradas ou espiritualizadas. Corpo e espírito são dimensões através das quais o ser atua e reprimir um ou outro sempre traz problemas. A consciência, mesmo ampliada, não deve se desgarrar de sua base instintiva sob o risco da psique se desequilibrar. O corpo tem suas necessidades e elas devem ser atendidas de forma saudável, caso contrário ele adoece. Não podemos nunca esquecer que também somos corpo e temos de entender sua linguagem, suas necessidades e nos tornarmos íntimos dele. Sidarta também teve de entender isso antes de se tornar o Buda. Após anos de jejuns e privações numa severa vida de austeridade, ele arrasta seu fiapo de corpo sujo e mal-cheiroso até o rio e se banha. Depois aceita a tigela de arroz que lhe oferecem. Seus discípulos o abandonam, julgando-o traidor da causa ascética. Sidarta limpa seu corpo, aplaca sua fome e tem prazer nisso. Ele então entende que se sua antiga vida de príncipe era um exagero, a vida de negação ao corpo era o outro extremo do exagero. Para atingir a iluminação, ele precisou transcender aos dois extremos. A sexualidade é um instinto que nos liga à nossa natureza animal. Se a reprimirmos, cedo ou tarde ela nos cobrará tal negligência, podendo se manifestar de forma descontrolada, irrompendo do inconsciente e fazendo o indivíduo se comportar “como um animal”. Devidamente reconhecida e assimilada pela consciência, a sexualidade pode ser vivida de forma sadia e equilibrada, ampliando ainda mais a consciência de si, o mesmo ocorrendo com outros instintos
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como a fome, a autopreservação, o impulso religioso, a busca de significado e o instinto criativo, que leva à arte. É possível usar até mesmo a sexualidade para alcançar novos níveis do espírito. A energia sexual nos faz sentir mais vivos, mais integrados com as leis naturais. Enquanto há sexo, há vida. Por isso é um alívio ver sexo em Matrix. Aplausos para Mouse e sua linda loira de vermelho. Um brinde à dança sensual dos corpos na festa de Zion. Viva o tesão urgente de Neo e Trinity no elevador! o Oráculo Mas que diabos um oráculo, coisa tão arcaica e misteriosa, está fazendo num filme como Matrix, num ambiente tão moderno e tecnológico? O Oráculo é um dos personagens mais instigantes do filme. Sua participação na trama é fundamental e por isso vale a pena nos debruçarmos um pouco mais sobre ele. Oráculo é um instrumento (ou alguém ou um lugar) através do qual formulamos perguntas e recebemos respostas para as mais variadas questões. Mas de quem ou de onde vêm as respostas? De alguma divindade, de algum aspecto mais sábio de nós mesmos ou da própria Natureza, conforme a crença do consulente. Eles são comumente usados para esclarecer fatos do presente, para previsões do futuro ou como instrumento de autoinvestigação psicológica. Concentra-se, formula-se a questão e obtém-se a resposta. Enquanto processamos a ritualística do oráculo, qualquer que seja ele (tarô, I Ching, runas etc.), o silêncio age em nossa mente, isolando-nos das preocupações cotidianas, e nos põe em contato com o essencial da questão. Oráculos são utilizados por diversas culturas há milhares de anos. Como surgiram? Não se sabe ao certo mas, olhando para a evolução histórica da consciência, é óbvio que não há necessidade de oráculo enquanto a espécie humana ainda está no estágio de indiferenciação psíquica, ou seja, ainda não existe a autoconsciência e, por isso, não há a separação conceitual entre o “eu” e o mundo exterior. Nesse ponto do processo evolutivo hominídeos e Natureza coexistem num estado de total comunhão mística e tudo é uma coisa só, um imenso inconsciente. Como não existe ainda um “eu” para avaliar e entender o mundo, também não há necessidade de comunicação. Entretanto, à medida que a espécie evolui, a consciência emerge e se diferencia do profundo oceano inconsciente, feito uma frágil
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ilhota, e a realidade se divide entre o eu e o não-eu. A espécie começa a se entender de forma distinta da Natureza e, consequentemente, pela primeira vez “olha” para o mundo e o interpreta. A Natureza, em suas diversas formas e manifestações, é para esses hominídeos algo imenso e assombroso, muito além da compreensão. Deve ser mais ou menos nesse ponto que são desenvolvidas as primeiras formas de oráculos. Nossos antepassados, cada vez mais sentindo-se diferenciados da Natureza (ou expulsos do paraíso, como prefere a linguagem mitológica cristã), sentem necessidade de criar instrumentos para se comunicar com ela e entender seus humores e, assim, começam a “ler” a Natureza no comportamento dos bichos, no movimento das nuvens, nas folhas das árvores, nos sulcos da terra e, dessa forma, compreendendo o funcionamento do mundo, podem se proteger das feras, prever eventos e programar migrações. Os primeiros oráculos são isso: a observação e interpretação primitiva do mundo em toda sua imensidão e mistério. Mas essa observação tem um caráter sagrado, numinoso, pois a Natureza aqui é uma divindade viva e, como tal, é reverenciada com o mais profundo respeito. A Natureza é a Mãe Terra, a generosa doadora da vida e sua mantenedora, o lugar de onde vêm e para onde voltam todos os seres. Quanto mais a consciência se diferencia do inconsciente e o ser se firma em sua individualidade, mais a espécie se distingue da Natureza, entendendo-se como algo separado. Os oráculos surgem então, digamos assim, como um paliativo para compensar aquele perfeito estado natural de interação entre a espécie e o mundo, estado que fica irremediavelmente para trás com o advento da autoconsciência. Atualmente utilizamos oráculos modernos como as medições meteorológicas por aparelhos. Ah, mas isso é ciência!, você pode dizer. Sim, é ciência, mas só difere dos oráculos primitivos por envolver tecnologia pois a motivação e os resultados são os mesmos. Os primeiros instrumentos oraculares eram um modo primitivo de fazer ciência e nem por isso menos certo que o atual. Nossos antepassados estavam muito mais próximos da sabedoria natural do planeta e por isso sabiam se comunicar com ele. Nós é que nos afastamos tanto da Natureza que agora, para entendê-la, apelamos a uma parafernália de instrumentos que nem sempre traduzem corretamente os humores do planeta. Além disso, a Natureza perdeu seu caráter sagrado e por isso não vemos nenhum problema em desrespeitá-la e violentá-la todos os
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dias. Para entender a Natureza, nossos cientistas, vestidos em seus paletós engomados e do alto dos pedestais acadêmicos, gastam fortunas construindo aparelhos sofisticados. Para fazer a mesma coisa, nossos antepassados se acocoravam no chão e cutucavam a terra. oráculos da alma Num determinado momento nossos antepassados percebem que os oráculos podem ajudá-los não somente a entender o funcionamento do mundo como também compreender a eles mesmos. Descobrem que, compreendendo melhor sua própria natureza individual, podem viver melhor. Nada mais natural pois se os oráculos servem para entender a Natureza e, da mesma forma que plantas, nuvens e bichos, nós também fazemos parte dela, por que os oráculos não poderiam nos auxiliar a desvendar a nós mesmos? Foram então criados oráculos, digamos, artificiais, voltados para temas relativos à alma, como o tarô moderno que é uma evolução das cartas que já circulavam no século 14. Contrário ao que muitos pensam, a função principal do tarô não é dizer se vamos casar com o Adalberto ou se vamos passar no concurso do Banco do Brasil. Ele pode até nos responder sobre questões como essas mas, na verdade, a estrutura de suas cartas nos revela algo mais profundo... Analisando o tarô à luz do que hoje se sabe sobre a psique e dos arquétipos, suas cartas revelam uma espécie de mapa do caminho de autocompreensão, feito de imagens arquetípicas que funcionam como símbolos ou marcos desse caminho, indicando experiências pelas quais temos de passar durante a vida. As estranhas cartas do tarô são, assim, uma metáfora do processo de autorrealização, um espelho do mundo inconsciente. As pessoas que possuem sensibilidade e intimidade com o mundo simbólico podem “ler” a vida através das cartas ou dos hexagramas do I Ching, assim como nossos antepassados liam a Natureza por suas manifestações. Em muitas culturas os sonhos também são vistos como oráculos e ainda hoje os governantes consultam pessoas para a interpretação de seus sonhos. Hoje a psicologia do inconsciente, principalmente a junguiana, entende os sonhos como a autoexpressão da psique, um drama que se desenrola do ponto de vista do inconsciente e que visa levar ao ponto de vista do ego informações,
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em forma de símbolos, sobre o eu total, promovendo assim a autorregulação psíquica. Vistos dessa ótica, os sonhos são, de fato, oráculos pois através deles podemos ler a natureza humana. Os oráculos, no século 20, se tornaram populares no Ocidente por conta do modismo esotérico que leva as pessoas a comprar tudo que lhes promete fornecer o sentido que falta às suas vidas. É mais uma das tantas armadilhas de nossa cultura consumista pois o sentido da vida é algo que se descobre por si só e não que se compra na lojinha mística do bairro para pagar de três vezes no cartão. O fato de se consultar um oráculo não significa, por si só, que se está apto a captar o sentido da mensagem recebida. Para isso a pessoa deve se livrar dos bloqueios e autoenganações que a impedirão de compreender, verdadeiramente, a resposta do oráculo. No filme Matrix o Oráculo soa como um contrassenso: num mundo supertecnológico e racional que importância teria uma senhora vidente, cheia de mistérios e profecias? Muita importância. O Oráculo no filme representa o sagrado em nossas vidas, o numinoso, um mistério que é maior e mais antigo que nós e pelo qual nutrimos profunda fé e respeito. Pode ser uma religião formal ou uma crença religiosa particular. Pode ser o amor, a arte ou uma conexão intuitiva com a Natureza, o Cosmos, a humanidade... Mas sempre será algo diante do qual baixamos a cabeça reverentes  justamente porque nos sentimos ligados a esse mistério maior. O sagrado é obscuro, misterioso, arredio ao intelecto e jamais o definiremos com exatidões científicas  mas sem ele podemos ficar à deriva no grande caos da existência. Perder de vista nossos valores mais sagrados pode nos desequilibrar. Que seria dos resistentes de Matrix sem a confiança no Oráculo? Eles o consultam e respeitam suas mensagens e previsões porque ele é a âncora com o sagrado em suas vidas e é isso que os mantêm fortes, unidos e esperançosos. voltando à Matrix
Morfeu leva Neo de volta à Matrix para consultar o Oráculo. Durante o percurso pelas ruas, dentro do carro, Neo olha silencioso pela janela e comenta que costumava comer num restaurante daquela rua.

Já passamos pelo choque de descobrir a verdade sobre quem somos. Passamos também pela crise que envolve esse momento deli59

cado: adoecemos, tivemos a vida virada de cabeça para baixo, fomos tentados a voltar atrás e, por fim, assimilamos bem tudo que descobrimos sobre nós mesmos. Agora estamos recuperados do choque e aos poucos a vida retoma seu curso normal. Voltamos ao cotidiano sabendo um pouco mais quem somos e o que queremos. Estamos mais fortes e mais equilibrados. No entanto, como a evolução da consciência se faz em espiral, será inevitável que passemos pelo mesmo ponto, num outro nível. Isso significa que poderemos ser envolvidos novamente nas mesmas situações de antes e, se não estivermos suficientemente preparados, haverá um grande perigo de cairmos em tentação e falharmos. Na Matrix o carro segue pelas ruas e Neo observa em silêncio a cidade, as pessoas nas calçadas... Parece vagamente saudoso de sua vida anterior, esse tempo em que ele ainda não conhecia a verdade, e chega a comentar que comia muito bem num restaurante daquela rua, certamente um macarrão ao molho bem mais gostoso que a ração servida na nave. Aqui, do lado de fora da tela, na vida real de cada um de nós, também passamos por situações como a de Neo, obrigados a vivenciar novamente situações que vivíamos antes do despertar, lugares e pessoas que parecem pertencer a uma época anterior de nossas vidas. Isso funciona como teste para o ego, que se vê envolvido pelo clima dos antigos valores. É comum que o ego sinta certa nostalgia de quando não tinha tantas responsabilidades para consigo mesmo, um tempo sem compromisso com o autoconhecimento. Podemos comparar com a sensação que nos passam as crianças, elas e sua inocência, sua despreocupação com as coisas do mundo, algo que nos dá uma espécie de saudade. Mas isso faz parte da jornada. Após despertos, precisamos voltar ao mundo para viver nossa vida, com toda a intensidade que for necessária, e isso nos obrigará a lidar com as mesmas situações de antes. Podemos ir aos mesmos lugares e estar com as mesmas pessoas de antes e até fazer tudo que fazíamos. Agora, porém, tudo é diferente pois nós estamos diferentes. Nossa consciência se encontra num outro nível da espiral. entortando a colher
Enquanto aguarda ser atendido, Neo observa uma garotinha careca vestida

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como monge budista. Ela entorta uma colher sem tocá-la e depois lhe pede que faça o mesmo. Enquanto Neo a segura, ela diz: “Não tente entortar a colher. Isso é impossível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade.” “Que verdade?”, pergunta Neo, curioso. “Não existe colher. Então verá que não é a colher que entorta. É você mesmo.”

Entortar a colher é o primeiro feito extraordinário de Neo na Matrix. Aliás, frente aos que ele ainda realizará, este é bem modesto. Mas o que importa aqui é que, pela primeira vez, Neo quebra as regras, ou seja, contraria as leis que regem o mundo na Matrix. Ele, porém, só realiza este pequeno milagre porque compreendeu, de verdade, que ele e a colher são a mesma coisa, a mesma realidade. Ele não apenas concordou com a ideia e pensou que pode ser assim. Não. É algo mais profundo: ele de repente soube que é verdade. Há milhares de anos que os místicos de diversas tradições espirituais, como o taoísmo e o budismo, insistem que a separação que vemos entre as coisas é apenas aparente. Na verdade, tudo que existe, objetos, pessoas, animais e plantas, tudo está unido de uma forma que nossos sentidos não captam e é justamente por causa dessa unicidade que os místicos sempre ensinaram: para mudar o mundo, mude a você mesmo. Se nós e o mundo que nos cerca somos a mesma coisa, então o que fizermos a nós estaremos fazendo ao mundo. Se tudo que existe está interconectado, então nada escapa à ação de algo. Se Neo e a colher são a mesma coisa, não é necessário entortar a colher: basta que Neo mova a si mesmo. Essa verdade, que era exclusiva do misticismo, passou a ser compartilhada no século 20, por incrível que pareça, pela ciência. Descobertas em diversas áreas parecem concordar com a ideia da unicidade cósmica. Na física os cientistas, pesquisando o estranho mundo do interior do átomo, constataram que as partículas, de algum modo ainda obscuro, se comunicam entre si. A física quântica chocou os próprios cientistas ao concluir que não existe a tal neutralidade científica pois para se determinar a profunda natureza de qualquer objeto, o observador deve incluir na análise o próprio ato de observar, o que inevitavelmente envolve observador e observado no mesmo fenômeno. Em outras palavras: a realidade em si não existe. O que existe é a nossa interação com ela.
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Outras descobertas rumam para a mesma conclusão. Na ecologia já se trabalha com a teoria que a Terra é um imenso organismo vivo, dotado de inteligência própria, e tudo que nela existe, seres, plantas e minerais, são como órgãos desse imenso organismo. A psicologia, com Jung, apresentou ao público a ideia de inconsciente coletivo e sincronicidade, ou seja, a união de todos os inconscientes, através do qual pode se processar a comunicação e os acontecimentos se relacionam significativamente entre si em forma de coincidências. Tudo se influencia porque tudo faz parte de uma coisa só. Essa verdade cabe bem no mundo globalizado de hoje, onde as economias dos países se afetam umas às outras instantaneamente e as pessoas estão interligadas por seus computadores. A tecnologia parece confirmar, à sua maneira própria, o que as milenares tradições místicas sempre afirmaram: tudo é uma coisa só. Se tudo está mesmo interconectado, inclusive as pessoas e suas mentes, então seria possível fazer o que Neo fez com a colher. E por que eu tento e não consigo?, você pode perguntar. Certamente porque você, em seu íntimo, não acredita nisso, não sabe disso. Seria fácil demais se nos bastasse dizer para nós mesmos que podemos desviar aquela bola para o gol para que, efetivamente, nós a desviássemos. Infelizmente isso não basta. “Não pense que é, saiba que é”, diz Morfeu para Neo a certa altura do filme. Está justamente nesse detalhe a chave do enigma. Precisamos não apenas concordar com essa verdade mas vivê-la profundamente, em nossa mente, em cada átomo de nosso corpo. Precisamos saber que é real em vez de apenas concordar que pode ser. Em outra cena Morfeu ensina Neo a saltar entre prédios. Tudo que ele precisa é saber que aquilo não é real, ou melhor, que ele está num programa e por isso pode burlar suas regras. Neo se concentra, diz para si mesmo que está entendendo, corre e salta, todo confiante. E cai lá de cima, direto no asfalto. Por que não conseguiu? Porque sua mente ainda funcionava dentro das tradicionais leis físicas e é como se elas, no instante do salto, lembrassem seu corpo que a gravidade existe e ela sempre o levará para baixo. Mudarmos a nós mesmos para mudar o mundo – esta é a lição que Neo começa a aprender com a garotinha. A mesma lição com que todos nós teremos de lidar na jornada em busca da completude.

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o mistério do Oráculo
O Oráculo examina Neo e diz que ele tem o dom mas parece esperar por algo, talvez sua próxima vida. Neo ainda acha que não é o Predestinado.

Quando Neo ainda se recupera em seu aposento na nave, tentando assimilar a terrível verdade que lhe foi revelada, Morfeu lhe conta sobre o surgimento da Matrix e a profecia do Oráculo que diz que um dia alguém surgirá para libertar a humanidade de sua prisão mental. Depois diz que embora eles, os resistentes, não costumem despertar alguém após certa idade porque a mente simplesmente se recusa a aceitar a realidade, ele decidiu correr o risco com Neo porque acredita que sua busca finalmente terminou. Neo fica encucado com essa história de Predestinado. Depois Tank, o operador da nave, comenta: “Cara, se você for mesmo quem dizem que é...” Neo fica cada vez mais confuso. Por fim, Morfeu diz que irá levá-lo para que o Oráculo o veja. Essas atitudes mostram que os rebeldes valorizam bastante o Oráculo e têm por ele forte respeito. Enquanto seguem no carro para o encontro, Neo pergunta a Trinity sobre o que lhe dissera o Oráculo. O assunto parece incomodá-la e ela não responde. O mistério em torno do Oráculo aumenta. Neo e Morfeu chegam ao prédio. É um lugar simples e um tanto sujo. Tomam o elevador, compenetrados, e à porta do apartamento Morfeu lembra: “Eu disse que o levaria até a porta. Você é quem tem de abri-la.” Neo pensa um pouco. O espectador também: o que acontecerá dessa vez? Neo estica o braço mas a porta se abre antes que ele a toque. Mais tarde entenderemos que Neo ainda não está preparado para aceitar a si mesmo, para abrir a porta que o levará à sua verdade mais íntima. Uma mulher os saúda e diz que logo serão atendidos. Na sala crianças brincam de entortar e fazer levitar objetos: são mentes com potencial para despertar da Matrix. Elas já sabem manipular os códigos do sistema e assim alteram as leis físicas da Matrix. Quando enfim Neo se encontra com o Oráculo, descobre-se que o Oráculo não tem nada demais. É uma senhora negra, de meia idade, que o atende na cozinha, de avental, e está ocupada com os biscoitos no forno. Simpática, ela acende um cigarro e dá um gole em algo que lembra uma caipirinha caseira.
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“Não se preocupe com o vaso”, ela diz. Neo não entende: “Que vaso?” Quando se vira para procurá-lo, seu braço bate num vaso sobre o móvel e o derruba ao chão, estilhaçando-o. Confuso, pergunta como ela sabia que ele o derrubaria. E ela: “O que vai encucálo mesmo é isso: você o teria quebrado se eu não houvesse falado nada?” Ela olha atentamente para Neo: “Você é mais bonito do que eu pensava. Agora entendo porque ela gosta de você”. Ele pergunta: “Ela quem?” Ela sorri e diz: “Mas não é muito esperto.” A senhora põe o óculos e pede para examiná-lo: olha seu rosto, abre sua boca, pede que diga “Aaah...” como num exame médico. Isso nos faz lembrar, por contraste, da frieza da medicina tecnológica atual, do distanciamento dos médicos que, em sua soberba, não se importam se sua grafia nas receitas não são entendidas e às vezes sequer olham para seu paciente. Ela olha suas mãos: “Muito interessante mas...” Neo, curioso, pergunta: “Mas o quê?” Ela responde: “Mas é claro que você sabe o que vou dizer”. Neo então entende ao seu modo e conclui: “Não sou o escolhido”. O Oráculo larga suas mãos: “Sinto muito. Você tem o dom mas parece que está esperando algo.” Ele pergunta o que pode ser e ela responde: “Sua próxima vida, quem sabe.” profecias É interessante o modo como foi conduzida a questão do oráculo. Primeiro os rebeldes o citam e o espectador fica curioso. Depois a expectativa cresce quando falam da profecia sobre o Predestinado. O silêncio de Trinity só aumenta o mistério. De repente, o Oráculo não é nada do que se podia esperar mas, ainda assim, surpreende com sua aparência e atitudes. A conversa entre Neo e o Oráculo é perfeita: mostra que oráculos, na verdade, não dão resposta alguma mas apenas servem de instrumento para que enxerguemos a resposta dentro de nós mesmos. Se não conseguimos olhar o suficiente para dentro, jamais entenderemos o significado mais profundo da resposta. Assim sendo, as mensagens de um oráculo só fazem sentido se entendidas dentro do próprio universo cognitivo de quem pergunta. Numa consulta a qualquer oráculo é determinante a posição do consulente pois a resposta só será compreendida se a mente estiver
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receptiva, sem verdades preconcebidas e falsas expectativas. A resposta sempre vem mas nem sempre se está preparado para compreendê-la. No estado em que se encontra, confuso e temeroso de assumir a grande responsabilidade de um salvador da humanidade, qualquer resposta de qualquer oráculo seria também entendida por Neo como um “você não é o escolhido”. Neo parece sentir alívio com a declaração. Depois fala de Morfeu e o Oráculo diz que todos lhe devem muito, que ele é muito importante. E profetiza: “Ele crê tanto nisso que se sacrificará por você. E você terá que escolher: numa mão terá sua vida e na outra, Morfeu. Um dos dois morrerá”. No final todas as profecias do Oráculo se realizam: o Predestinado veio, Trinity apaixonou-se por ele, Morfeu sacrificou-se e Neo teve de escolher entre salvar a si e ao amigo. Escolheu o amigo ao decidir retornar à Matrix. E por causa disso morreu. Morreu mas ressuscitou. “Quem sabe numa outra vida...”, dissera o Oráculo. Na cena do helicóptero Neo está pendurado por uma corda e segura Morfeu. Numa mão ele segura a si próprio e na outra o amigo: é a profecia que se cumpre literalmente. As profecias sempre nos intrigaram. Será mesmo possível prever o futuro? Como saber sobre algo que ainda não aconteceu? Isso nos remete à natureza do tempo, essa coisa tão impalpável e escorregadia. Nós sabemos o que o tempo é mas só quando não pensamos pois logo que pensamos nele, já não sabemos mais. Se é possível prever o futuro, então automaticamente abre-se a possibilidade de alterá-lo. Se há a alteração, então o futuro previsto não acontece. Se ele não acontece, então não era o futuro. O que era então? Isso nos remete a outros aspectos da questão: os futuros hipotéticos. Talvez existam várias possibilidades de futuro e elas possam ser acessadas, nos permitindo participar no processo de determinação do futuro que efetivamente acontecerá. Ou seja: o futuro, assim como o tempo em si, necessita da consciência para existir. Veja o vaso que Neo quebra. Exercitemos as possibilidades da questão. Ele o teria quebrado se o Oráculo nada falasse? Isso não podemos saber. Mas analisemos. O Oráculo conhece o futuro. Assim sendo, se ele sabe que Neo quebrará o vaso, então não precisa falar para que o destino se cumpra. Ou precisa? O fato é que fala. Por quê? Será que quer apenas mostrar suas capacidades, feito um cartão de apresentação? E se sabe mesmo do futuro, por que não retira o vaso
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ou alerta Neo de forma mais cautelosa? Bem, se assim fizer, o futuro que ele previu não se cumprirá e dessa forma o Oráculo agirá contra si mesmo, o que não faz sentido. Como explicar as profecias que se cumprem? Seria tudo mero acaso, coincidência? Talvez a profecia em si mesma seja justamente a força que leva os acontecimentos a se realizarem de forma a cumpri-la, uma espécie de autossugestão, ou seja, o futuro passa a existir potencialmente porque foi anunciado. Ou não? Será que o futuro realmente já está escrito? Há quem entenda as profecias como autênticos flagrantes de falhas no entendimento unidimensional do tempo, comprovando que o tempo não é algo linear que vem do futuro, passa pelo presente e segue para o passado ou, como queira, é algo que vem do passado, passa pelo presente e se abre em perspectivas de futuro. Em vez de uma linha reta, talvez o tempo esteja mais para uma teia, algo que só faz sentido se for entendido em seu todo. Para entender o fenômeno das profecias talvez seja necessário pensá-las não em termos de causa e efeito mas como ocorrências sincrônicas que se explicam mutuamente, algo cujas partes se sustentam umas às outras ao mesmo tempo e não podem ser totalmente entendidas separadamente. Neo quebrou o vaso porque o Oráculo falou e o Oráculo, por sua vez, fala justamente porque Neo quebrará o vaso. o tempo Está vendo? Conjeturar sobre o tempo é um exercício que, em vez de nos trazer certezas, nos deixa com mais dúvidas. Entretanto, para o nosso estudo, gostaria apenas de fazer mais uma breve reflexão. Se o tempo futuro ainda não existe e o tempo passado não existe mais, o que existe então? O tempo presente, você pode dizer. Certo. Mas quanto tempo dura o presente? Um minuto? Um segundo? Mas um segundo pode ser dividido em várias partes. E cada uma dessas em infinitas outras partes. Em qual delas estaria o tempo presente? Não importa em quantas zilionésimas partes dividamos o tempo. Sempre poderemos dividi-lo em partes menores e assim jamais localizaremos seu núcleo final onde poderia estar o agora. Simplesmente porque o agora não existe, assim como não existe o futuro e nem o passado: é tudo abstração. O tempo é como alguém que virá ou que já se foi, jamais alguém que está. Nós nos posicionamos para
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flagrar o momento exato de sua passagem e quando nos damos conta... o tempo já passou. Agora danou-se. Se o tempo não existe, o que existe então? A psique. É ela que inventa o tempo. E o faz no momento em que a consciência nasce do inconsciente atemporal pois, para se manifestar, a consciência precisa de um veículo, o corpo, que por sua vez precisa de um plano formado de três dimensões espaciais (altura, largura e profundidade) e uma temporal. É o cruzamento dessas dimensões, o espaço-tempo, que fornece as coordenadas exatas para a manifestação da consciência. Quanto o ser se dá conta que existe, ou seja, quando surge a autoconsciência, automaticamente surge o tempo. Porém, se a consciência se detém sobre a natureza do tempo, pode perceber que ele na verdade só existe como uma dimensão necessária para que ela possa atuar e que talvez seja mesmo possível à consciência ir além da dimensão temporal à qual está limitada e acessar o inconsciente atemporal de onde veio e, assim, distinguir informações do passado ou do futuro e, inclusive, fazer profecias. Putz, o cara viajou... Viajou no tempo. Pois é. Se é possível uma máquina do tempo, o meu palpite de viajandão é que ela já existe. Já está construída. Ou em contínua construção. É a consciência. autoconfiança O fato de Neo não acreditar que é o Predestinado é compreensível, afinal trata-se de uma responsabilidade imensa, terrivelmente incômoda, principalmente para alguém que até pouco tempo atrás ainda vivia na Matrix, imerso num mundo de ilusões. Coisa parecida ocorre no caminho da autorrealização. Sentimo-nos capazes de realizar muitas coisas mas ao mesmo tempo nos retraímos, desconfiados de nós mesmos, temerosos de assumir responsabilidades. Os amigos confiam em nós. As pessoas dizem que temos talento. E nós, o que pensamos sobre nós? Até nos convencermos de toda nossa potencialidade e mostrarmos a nós próprios que somos capazes, muita água rolará por baixo da ponte. Teremos muitas noites mal dormidas, envoltos em dúvidas e hesitações. Rezaremos pedindo luz, procuraremos oráculos, insistiremos em receber a aprovação das pessoas para nossos projetos... Nada, porém, poderá fazer o trabalho por nós. E o trabalho
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consiste em nós mesmos nos convencermos de quem somos. Mas não adianta pressa pois cada um tem seu próprio tempo. A convicção amadurece em nosso ser à medida que nos mantemos atentos ao caminho e fazemos o que deve ser feito. Cada autodescoberta nos faz mais fortes e mais cientes de que estamos no caminho certo. À medida que o herói avança e vence os obstáculos, mais capaz ele se torna. A sociedade repressora já tentou de tudo mas o indivíduo prossegue rumo à sua individualidade. Cada vez menos ela pode contra ele.

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IV Morrendo para vencer

Cypher entrega os companheiros
Quando estão prestes a retornar à nave, após a visita de Neo ao Oráculo, os rebeldes são surpreendidos numa emboscada. Estão presos num prédio sem saída e cercados por muitos soldados armados. Foram traídos por Cypher, companheiro da própria resistência.

A primeira cena do filme é o diálogo telefônico entre Cypher e Trinity. Na tela as fileiras de caracteres (os códigos da Matrix) deslizam enquanto Trinity, na Matrix, diz que logo entrará em contato com aquele que Morfeu acredita ser o escolhido. Cypher pergunta se ela também acredita. Ela desconversa. Ele insiste mas ela não responde. Ouve-se um ruído na ligação. “Esta linha é mesmo segura?”, ela pergunta. Cypher confirma. Mas não é. Depois entenderemos que Cypher já age aí como informante dos agentes da Matrix e, através dessa ligação, está entregando Trinity às autoridades do mundo virtual. Não fica claro para o espectador que assiste pela primeira vez mas começa aí a traição de Cypher, um dos elementos fundamentais da história de Matrix. Mais tarde, na nave, quando Trinity leva o jantar para Neo, que ainda se recupera de seu despertar, Cypher a aborda e comenta, aparentemente enciumado, que ela nunca fez isso para ele. Em outras cenas Cypher volta a testar e zombar da crença de Trinity no Predestinado, coisa em que ele, particularmente, não consegue acreditar.
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O comportamento de Cypher intriga o espectador, aumentando sua desconfiança, até a cena em que fica claro que ele é um traidor: Cypher está num restaurante, na Matrix, a negociar com o agente Smith a entrega do líder Morfeu. Então sabemos que ele cansou da vida de resistente e sente falta da realidade virtual, onde pode, por exemplo, degustar uma picanha suculenta como a que está saboreando. Ele exige condições para entregar o líder: quer ser reinserido na Matrix como alguém rico e famoso e nada quer lembrar de sua vida anterior. Smith concorda, satisfeito. Cypher é a traição que nasce dentro da própria resistência, lembrando com isso que aqueles que lutam pela libertação da espécie humana são humanos, com todos os seus defeitos. Cypher não compartilha da crença no Predestinado. Pensando bem, é difícil mesmo crer que alguém possa destruir a tão poderosa Matrix e que esse alguém nascerá dentro dela própria. Cypher está cansado da vida desconfortável, de comer alimentos sem gosto, de fugir e se esconder, de lutar por algo que não acredita. Mesmo sendo um dos que conseguiram despertar, já não tem forças para continuar resistindo. Some-se a isso seu interesse velado por Trinity, seu ciúme por sabê-la interessada em Neo e, pronto, a traição já tem todos os ingredientes para se consumar. Cypher é o Judas Iscariotes de Matrix. O espectador é levado a desprezá-lo como o traidor que de fato é mas observe-se: sem ele não haveria final feliz. Cypher e sua traição são necessários para que Neo finalmente se convença de que é o Predestinado. Se Morfeu não houvesse sido entregue por Cypher, Neo não teria porque voltar à Matrix, arriscando tudo pelo amigo. É arriscando sua própria vida, e morrendo, que Neo atinge mais um nível em sua autoconscientização. É voltando aos perigos da Matrix que Neo enfim pode se experimentar em toda sua potencialidade e cumprir o que profetizara o Oráculo: que ele morreria e que na outra vida seria o Predestinado. Sem a traição de Cypher nada disso poderia ocorrer. No romance O Encontro Marcado, de Fernando Sabino, o protagonista diz, para espanto do padre diretor do colégio, que o grande medo de Jesus Cristo era que Judas não o traísse pois se ele não o fizesse, como Jesus cumpriria seu destino? Sem a traição de Judas, Jesus teria que tentar outros meios de morrer pela humanidade. O que seria de Jesus sem Judas? O que seria do cristianismo sem seu beijo entreguista? Esse é um dos paralelos de Matrix com a mitologia cris70

tã. Aliás, o nome Cypher lembra Lúcifer. o sabotador interno No âmbito psicológico Cypher representa o componente de autossabotagem da psique. Cypher tem medo de arriscar o novo e prefere a segurança do velho, o que provoca estagnação e crise. Ele preferiria não saber o que sabe. O lema desse nosso companheiro interno é: “a ignorância é uma bênção”. Cypher existe em todos nós: é a força retrógrada em eterno combate com o impulso progressista. De onde pode vir a verdadeira traição senão de dentro de nós mesmos? Isso nos lembra que o grande inimigo a vencer não se encontra lá fora: ele está dentro de cada um de nós e age na escuridão do inconsciente, sem ser molestado, dissimulando-se em nossos medos e bloqueios mais íntimos. Preferimos não encará-lo, é mais cômodo. E assim ele prossegue nos sabotando. Há sempre um preço a pagar quando insistimos em não olhar para o que nos chama atenção em nós mesmos. O que é rejeitado na psique cresce silencioso e esse é o pior dos inimigos: um dia ele se manifestará e estará tão forte que não haverá como deter sua traição. Por isso os terapeutas insistem na necessidade do autoconhecimento psicológico  ele ainda é a melhor prevenção contra os Cyphers da vida. O sabotador interno sente falta do tempo em que tínhamos menos autoconsciência e, exatamente por isso, menos responsabilidades. Cypher está no poder quando desistimos de lutar e achamos mais cômodo permanecer onde estamos, sem nos comprometer com mudanças pessoais, fingindo esquecer do que realmente devemos fazer em nossas vidas. Cypher age toda vez que desistimos de lutar por nossos sonhos ou insistimos em padrões destrutivos de comportamento. Quer ver Cypher no comando? É só olhar para aquela garota que sempre dá um jeito de estragar seus relacionamentos porque no fundo acha que não merece ser feliz. Ela age de forma a ser rejeitada e quando de fato é rejeitada, confirma para si mesmo sua visão pessimista da vida, maldizendo o amor, as pessoas... Com Cypher no comando há uma tendência para sarcasmos, ressentimentos, ódios encobertos e toda uma gama de sentimentos
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negativos. Além de não suportarmos ter de prosseguir lutando, também é insuportável ver os outros firmes em seu caminho e realizando seus sonhos. Para o Cypher que existe em nós, o que lhe resta é sabotar tudo o que nosso Morfeu planeja, numa vingança por se achar enganado e injustiçado pela vida. Enquanto Cypher não for chamado à conversa franca, não precisaremos de inimigo algum: seguiremos nós mesmos, sem perceber, sabotando nossos planos de felicidade, muitas vezes no último instante. O exemplo de Cypher serve também para nunca esquecermos que na jornada do autoconhecimento ninguém está livre das tentações. A cada avanço, novos desafios se apresentam. O conhecimento e a experiência adquiridos nos dão poder, sim, mas o poder pode corromper o ego, fechando-nos ao aprendizado. A ampliação da consciência deve prosseguir e, para isso, novos aspectos do ser devem ser integrados. A verdade liberta, sim, mas a cada nível de liberdade alcançado, um novo nível se apresenta e não podemos nos acomodar pois a tentação de desistir estará sempre presente, feito um diabinho a nos cutucar com seu tridente. Feito a picanha suculenta no garfo de Cypher. a fé em si mesmo
Morfeu é capturado pelos agentes da Matrix mas Neo, Trinity, Apoc, Switch e Cypher conseguem escapar do prédio. Cypher é o primeiro a retornar à nave e, prosseguindo em sua traição, atira nos dois operadores. Podendo decidir sobre a vida e a morte dos colegas que ainda estão na Matrix, elimina Apoc e Switch, desconectando-os de seus corpos. Depois, pelo telefone, zomba da crença de Trinity no Predestinado e, por fim, quando se prepara para matar Neo, é morto por Tank, o operador que sobrevivera a seu ataque.

Antes de desconectar Trinity e Neo, Cypher deseja brincar com os sentimentos e a fé de Trinity e diz, sarcástico, pelo telefone: “Se ele é mesmo o Predestinado, então algo deverá acontecer e me impedir de puxar este cabo.” O suspense é insuportável. Trinity e Neo, na Matrix, se olham assustados, impotentes diante da traição do colega que prossegue, perverso: “Vamos, Trinity, olhe nos olhos dele e me diga: você ainda acredita que ele é o Predestinado? Sim ou não?” Trinity olha para Neo e, assustada mas convicta, com o celular
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ao ouvido, responde: “Sim.” Nesse momento Tank surge e, mesmo ferido gravemente, atira em Cypher, impedindo-o de matar Neo. Atente para o drama de Trinity. Se dissesse que acreditava, Cypher puxaria o cabo e mataria Neo, mostrando que, de fato, ele não era o Predestinado, e assim ridicularizaria Trinity e sua crença e ainda zombaria de sua paixão, da qual tinha ciúme. Porém, para Trinity havia ainda outra opção: dizer que não acreditava, poupando a si mesma do sarcasmo de Cypher. Entretanto, agindo assim ela não estaria sendo verdadeira consigo mesma pois negaria sua própria fé. Então, mesmo numa situação terrivelmente desfavorável, onde tudo parece perdido e só um milagre pode salvá-los, ela prefere assumir sua crença a qualquer custo. O que pode levar alguém a manter sua fé mesmo quando tudo aponta que ela é vã? Na jornada da autorrealização, quando parece que já fomos suficientemente testados e que a vida não tem mais porque duvidar de nosso sincero esforço e honestidade em relação às nossas crenças pessoais, eis que nos vemos numa situação como a de Trinity. É como se uma força maior armasse toda a cena somente para testar, de forma definitiva, nossa fé naquilo que dizemos acreditar. Nós acreditamos em nosso potencial, lutamos por nossos sonhos, temos fé que conseguiremos. Estamos certos disso tudo, não há dúvida. Mas isso não basta pois um belo dia a vida nos pede para... saltar no escuro. Não é possível. Simplesmente não acreditamos no que está acontecendo. Parece uma brincadeira do destino. Bem, não deixa de ser pois, apesar da fama de difícil, a vida tem um ótimo senso de humor. Nesse ponto muitos desistem. De repente acham que não vale a pena arriscar tudo que conquistaram e decidem voltar. Arranjarão mil desculpas e tentarão se convencer que fizeram o certo  mas ficará sempre a sombra do arrependimento, para alguns sutil, para outros impossível de ser ignorada. Sutil ou não, o arrependimento de não haver tentado pode encher a vida de frustração. Ninguém poderá decidir por nós quando esse difícil momento surgir. Só nós mesmos, por nossas atitudes, é que podemos mostrar o quanto confiamos no processo. Teremos que saltar no escuro para poder descobrir se o que nos aguarda é o terrível abismo ou se, na verdade, o chão sempre esteve a um palmo de nossos pés. Somente seguindo nossa fé mais íntima e dizendo um sim verdadeiro aos nossos sonhos é que saberemos se eles realmente fazem parte de nosso
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destino. Somente dizendo sim, como Trinity, é que pode acontecer um milagre. Neo decide resgatar Morfeu
Neo e Trinity retornam à nave, salvos. Tank lhes comunica que terá que sacrificar Morfeu pois ele está na Matrix, sendo torturado pelos agentes, e a qualquer momento cansará e revelará os códigos de Zion, permitindo assim que as máquinas destruam a cidade. Neo, porém, interrompe Tank, decidido a voltar à Matrix e resgatar Morfeu. Trinity tenta impedi-lo, dizendo que Morfeu se sacrificou para que eles pudessem salvar o Predestinado. Neo explica que Morfeu estava enganado pois acreditava que ele é algo que, na verdade, não é: “Não sou o Predestinado, Trinity. O Oráculo me disse.” “Não. Tem de ser você.” “Sinto muito. Sou um cara comum”. “Não é verdade, Neo. Não pode ser verdade.” “Por que não?”, Neo indaga e Trinity não responde.

Este é um momento bastante significativo da história. Neo, pela primeira vez, sente que é capaz de lutar contra a Matrix. Até então ele apenas treinou com Morfeu e entortou uma colher mas agora, na iminência da morte do homem que tanto acreditou e tanto fez por ele, Neo é tomado de súbita autoconfiança. Uma nova força parece brotar dentro dele, tão poderosa que o faz crer ser capaz de voltar à Matrix, lutar contra os agentes e resgatar Morfeu, algo que ninguém jamais conseguiu fazer. Apesar disso tudo Neo ainda não acredita que é o Predestinado. Ele se sente impulsionado a realizar algo grandioso e sabe que é perfeitamente capaz mas essa convicção não vem do fato de se saber o Predestinado pois ele continua negando. De onde então vêm essa força e essa certeza imensas? Aqui o herói está no limiar de uma profunda transformação interior, o momento em que um fenômeno muito importante começa a se produzir: o indivíduo se sente tomado pela força irresistível que já aponta no horizonte da consciência. A personalidade consciente ainda não admite a verdade mas ela é tão poderosa que avança do in74

consciente para a consciência, encurralando as defesas do ego. Nós nos transformamos através do autoconhecimento e chegamos até esse ponto mais cientes de nossas capacidades, sabendo que somos capazes. Ao mesmo tempo, porém, insistimos em negar certas coisas a nosso respeito, apesar delas estarem obviamente estampadas em nossas ideias e atitudes. É o último baluarte de resistência do velho ego que se mantém firme. Por quê? Porque ainda estamos apegados a uma velha verdade sobre nós mesmos. Admitir isso significaria assumir uma responsabilidade definitiva sobre nossas vidas, algo que mudará tudo, inclusive nosso conceito sobre nós mesmos. Outras pessoas ao redor já sabem ou desconfiam disso mas nós insistimos em negar. São os resquícios do velho ego que, apesar das transformações já ocorridas, ainda se recusa a morrer inteiramente. É a percepção que temos de nós mesmos agarrando-se o quanto pode à comodidade que representa o nãoassumir-se. A história bíblica de Jonas, que é engolido por uma baleia, nos mostra o quanto é vão negarmos e fugirmos de nós mesmos, do nosso destino. Não adianta Jonas fugir no barco, ir para bem longe. Aquilo que o aguarda irá buscá-lo seja onde for e assim, enquanto nega para si mesmo e se esforça no rumo contrário, Jonas apenas adia o que precisa acontecer. Ele cairá ao mar, será engolido pela baleia e ela o vomitará numa praia, exatamente o lugar que ele tanto evitava ir. Porque é isso que aguarda o herói: o seu próprio destino de herói. O ego sempre resiste. A autopercepção nunca abre caminho facilmente a novas formas de entender a si próprio. Mas a psique é muito maior e poderosa que o ego e tem mecanismos para nos forçar a avançar em nosso caminho de autorrealização, rumo ao que sempre fomos destinados a ser. E a psique é muito criativa, não duvide. Ela pode inventar acontecimentos repentinos, iscas bem camufladas ou até mesmo uma baleia. unindo os opostos
Neo se prepara para voltar à Matrix. Trinity diz que vai com ele. Neo não concorda. Trinity, então, usa de sua autoridade como oficial da nave e, resoluta, diz que ou ela irá junto ou ele não irá. Neo tem de aceitar e os dois, então, são enviados de volta à Matrix. Eles invadem um prédio de segurança máxima, lutam contra soldados, usam um helicóptero e, por fim, libertam Morfeu. 75

A prática contínua do autoconhecimento nos torna confiantes em nós mesmos. Se sabemos quem somos, logo sabemos de nossas possibilidades. A autoconfiança é atingida quando deixamos de ser desconhecidos para nós mesmos e ficamos íntimos da nossa própria verdade. Após confrontar o inconsciente e assimilar aquilo que por muito tempo evitamos reconhecer em nossa personalidade total, eliminamos o inimigo interno, a força retrógrada, e podemos finalmente concentrar os esforços em outras frentes. “Neo, ninguém nunca fez isso”, Trinity o adverte. Mas ele está inteiramente convicto: “É por isso que vai dar certo.” Neo sente que é capaz de realizar o impossível. Sua audácia surpreende os companheiros mas ele está tão decidido que só lhes resta concordar. Ocorre o mesmo quando atingimos esse ponto do autoconhecimento: fazemos coisas que antes eram impossíveis, superando os limites pessoais e surpreendendo a todos, até a nós mesmos. Aqui, porém, cabe uma advertência. A autoconfiança é necessária para realizar grandes feitos, sim. No entanto, se o ego acha que conseguirá fazer tudo sozinho, acabará sofrendo amarga decepção. Autoconfiança nem sempre quer dizer autossuficiência. Apesar de agora se entender melhor com o inconsciente e ter assimilado os conteúdos que antes só atrapalhavam, a personalidade consciente precisa estar bem equilibrada para dar o grande salto. O herói necessita reunir todas as suas forças para o embate. No caso de Neo, ele reluta em admitir a presença de Trinity na perigosa missão de resgate pois se considera capaz de resolver a parada sozinho. Mas tem de render-se à autoridade de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a atuação do aspecto feminino do herói. É esse aspecto que, mais uma vez, e dessa vez num nível mais profundo, exige ser devidamente reconhecido e integrado à consciência. No início do filme, quando os resistentes ainda tentavam despertar Neo, foi Trinity quem manteve com ele o primeiro contato, cuidadosa, pelo computador, e depois na festa, sussurrando em seu ouvido. Depois foi ela quem o convenceu, delicadamente, a ficar no carro e permitir a retirada do aparelho rastreador. Em todos esses momentos Trinity agiu com cuidado para não afugentá-lo de vez. Precisou ser calma, doce, compreensiva e paciente, conquistando-lhe a confiança. Agora é diferente. Ela sabe que Neo, sozinho, não conseguirá salvar Morfeu. Ela sabe que sua repentina e enorme autocon76

fiança o cega para o risco e pode pôr tudo a perder. A natureza feminina no homem, assim como a natureza masculina na mulher, é chamada a intervir em momentos cruciais onde a consciência corre o risco de se tornar unilateral, levando-nos a agir desequilibradamente. Sabemos que somos capazes, e de fato somos, mas só conseguiremos êxito se unirmos o que somos, masculino e feminino, força e delicadeza, razão e sentimento, yin e yang. Somente assim, finalmente equilibrados entre nossos opostos, é que seremos realmente capazes de fazer o impossível acontecer. Sem essa união, apenas um lado da força atuaria, e, certamente, não seria suficiente. É sempre bom parar um pouco antes de dar o primeiro passo rumo a uma grande conquista e sentir se estamos suficientemente equilibrados para a missão. Mas, num mundo regido pela pressa do relógio, parar e dedicar um tempo a nós mesmos soa como um luxo impensável e muitas pessoas chegam a sentir culpa se não estão ocupadas trabalhando, produzindo, correndo de um lado para o outro. Muitas até adoram mostrar que estão sempre lotadas de trabalho, mesmo quando não estão. Se precisamos empreender uma grande tarefa, que exige todo o nosso esforço e atenção e envolve enormes riscos, nada melhor que, antes de começar, reunir todas as forças, tudo o que somos. Quem se conhece mais, sempre tem mais chances de obter êxito no que faz. Quem não se conhece, pode até ter a força ou a delicadeza necessárias, mas sem unir harmoniosamente esses aspectos, ficará sempre a um passo de tudo aquilo que poderia realizar. No filme é Trinity quem pilota o helicóptero e impede que um agente mate Neo. Por outro lado, é ele quem segura Morfeu pela mão e é ele também quem segura o cabo para que Trinity escape do helicóptero que cai. Sozinhos, nenhum dos dois conseguiria resgatar Morfeu. Juntos, não apenas o fazem como também reafirmam a atração que já sentiam um pelo outro, fortalecendo os sentimentos que mais tarde permitirão a Neo ressuscitar e se tornar, definitivamente, aquilo a que estava, desde o início, predestinado a ser. humanos e vírus A cena da tortura de Morfeu é muito interessante pelo fato de apresentar a visão das máquinas sobre a espécie humana. Enquanto
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aguarda que Morfeu canse e finalmente lhe revele os códigos de Zion, o agente Smith fala de uma curiosa conclusão a que chegou: “Percebi que os seres humanos não são mais mamíferos. Todo mamífero deste planeta instintivamente desenvolve um equilíbrio natural com o meio ambiente. Os humanos não. Vocês se mudam para um lugar, se multiplicam até que todos os recursos naturais sejam consumidos e a única maneira de continuar sobrevivendo é mudar para outro lugar. Existe outro organismo que segue o mesmo padrão. É o vírus.” O raciocínio do agente Smith é, para nós humanos, desconcertantemente lógico. Smith é o vilão que detesta a espécie humana e tudo fará para destruir Zion. Ele é o mal personificado, um programa de computador cujo objetivo é coordenar missões de captura de humanos dentro da Matrix e eliminá-los, custe o que custar. Apesar de tudo isso, o espectador é levado a admitir, a contragosto, que são sábias as suas palavras. Smith tem toda razão: a espécie humana se comporta como os vírus, exatamente como os organismos que tanto tememos e combatemos. Até poucos séculos atrás, porém, o Homo sapiens mantinha uma relação simbiótica com o meio, respeitando as leis naturais e convivendo em harmonia com animais, vegetais e minerais. Havia o sentimento do sagrado em relação à Natureza pois instintivamente nos sentíamos unidos a ela e sabíamos que precisávamos dela para sobreviver, verdade que os índios sempre tentaram, e ainda tentam, nos mostrar. Infelizmente o advento da civilização, a industrialização e agora a tecnologização mudaram isso. Hoje, desligados de nossas raízes e desconectados das leis naturais que regem a vida, tornamo-nos peritos em violentar a Natureza e não acordamos para o fato de que nós e a Natureza somos a mesma coisa pois compomos o mesmo planeta e dependemos dele. Sem Natureza não há planeta e sem planeta nós não existimos. A Natureza é o planeta inteiro, inclusive nós. É uma verdade que de tão óbvia não precisaria ser lembrada mas que fazemos questão de desconsiderar e até negar. “Vocês são o mal, o câncer deste planeta. Vocês são a praga. E nós somos... a cura.” As palavras do agente Smith são duras. Dói na consciência e é desconfortável reconhecer que ele está certo: a espécie humana é a grande praga da Terra, ela e sua cegueira absurda. Somos a peste
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humana que, por onde passa, deixa atrás de si um rastro de destruição. Já não destruímos apenas a Natureza: agora destruímos também culturas inteiras, dizimando seus valores. Destruindo o ambiente em que vivemos, estamos destruindo também a nós mesmos, condenando à morte todos os dias milhares de pessoas, inclusive crianças, vítimas da ganância capitalista, do fanatismo religioso, do medo do diferente e da insaciável sede de poder. Será que um dia, como em Matrix, as máquinas se rebelarão e, feito justiceiras do planeta, nos escravizarão, interrompendo assim a ação do câncer que tão bem representamos? Talvez isso não ocorra. Talvez seja a própria Terra que, em sua capacidade autorregulativa e cansada de ser agredida, decida sacrificar nossa espécie para que a vida no planeta possa prosseguir. De qualquer forma, talvez ainda haja tempo de reverter o processo. Isso dependeria de que uma parcela considerável da humanidade acordasse para o perigo que criamos. Dependeria de que pessoas simples, como eu e você, lembrassem da verdade mais óbvia. Neo versus Smith
Morfeu volta à nave, seguido por Trinity. Neo, porém, é impedido de voltar pelo agente Smith, que surge no metrô. Ele pensa em correr mas volta-se e decide enfrentar Smith, contrariando a regra básica dos resistentes, que diz que jamais se deve lutar contra um agente pois até então todos os que tentaram, morreram.

Os agentes são programas criados para capturar e eliminar humanos intrusos no sistema. Não podem ser mortos. No máximo são “expulsos” do corpo humano que provisoriamente ocupam na Matrix para, ato contínuo, assumirem outro corpo, retornando para prosseguir a luta, sem um arranhão, sem cansaço. Eles não são apenas mais fortes que qualquer humano, são invencíveis. Por isso a recomendação: quando vir um agente, fuja o mais rápido que puder. O agente Smith é o líder dos agentes. Quando Neo, no metrô, desobedece às recomendações de fugir e volta-se para lutar com Smith, o espectador já sabe tudo sobre os agentes e por isso sabe que Neo não pode destruí-lo. Como então ele poderá vencer? Em termos psicológicos, o agente Smith representa algo muito difícil de ser assimilado pela consciência, um conteúdo inconsciente
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que se manteve intocado durante longo tempo, apesar de toda a ampliação da consciência. É algo que nos mete muito medo e do qual sempre fugimos, o que fez com que crescesse e se tornasse extremamente poderoso. Um dia, porém, quando mais uma vez já estamos nos preparando para fugir, algo ocorre e decidimos ficar e encarar o que tanto evitávamos ver dentro de nós mesmos. É uma atitude de grande coragem e que só ocorre quando a consciência se encontra num elevado grau de ampliação. Aceitar o confronto com o mais poderoso dos inimigos internos não é para qualquer um mas somente para quem já encarou e venceu muitos outros, tendo disciplinado a força interior de tal forma que o embate se faz necessário e já não se pode mais adiá-lo. Neo, através de sua parceria com Trinity, já aprendeu a equilibrar os opostos e se tornou ainda mais forte e capaz. Agora a prova final surge bem à sua frente. Ele tem a opção de fugir e mais uma vez adiar o confronto, nada o impede. Mas em seu íntimo o herói sempre sabe quando chegou a hora. Neo sabe que não pode mais adiar a resolução da questão que o aflige desde que despertou da Matrix. Ser ou não o Predestinado tornou-se uma pressão constante em sua mente e ele tem de esclarecer isso de uma vez por todas se quiser ter alguma paz. Smith nunca foi vencido, Neo sabe, mas é exatamente por isso que deve enfrentá-lo pois somente indo ao limite extremo das possibilidades é que saberá o que pode e não pode fazer. Se prosseguirmos no caminho do autoconhecimento, superando dificuldade após dificuldade, um dia certamente também teremos de testar, num nível extremo, nossos limites de coragem, resistência e honestidade para com nossa verdade mais legítima. E o que exatamente enfrentaremos? Bem, o inimigo somos nós mesmos, sempre foi assim. Ele mora na escuridão do ser e somente se revelará por inteiro no instante em que decidirmos conhecê-lo de verdade. Até lá poderemos fazer suposições, desconfiar e teorizar sobre muitas coisas. Entretanto, quando o momento chegar, sempre estaremos desprevenidos. Quando a hora da verdade soar no relógio de nossa jornada, descobriremos essa nova entidade dentro de nós. Tudo o que vivemos até então poderá nos ajudar, sim, mas agora trata-se de um fator inteiramente novo na história e para ele não poderia ter havido qualquer preparação conveniente. Estaremos sós diante de nossa outra
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parte, aquela que sempre existiu, dividindo conosco o espaço do nosso próprio ser mas levando uma vida autônoma. Ela é mais forte que nós. Porque ela faz parte do que nos tornaremos. E agora? Fazemos como Neo, que decidiu lutar contra algo que é invencível? Ou fugimos? Por um lado, lutar se mostrará um esforço vão e, por outro, fugir apenas adiará o confronto inevitável. E agora, como escapar desse dilema? meu nome é Neo
Neo e o agente Smith se posicionam um frente ao outro como nas cenas clássicas dos filmes de bang-bang. Eles avançam atirando mas não se acertam. Esmurram-se e rolam pelo chão da estação, medindo forças. A luta é equilibrada mas aos poucos Smith leva vantagem e consegue jogar Neo nos trilhos do metrô. Enquanto o trem se aproxima, Smith, imobilizando a Neo pelo pescoço, diz: “Está ouvindo, sr. Anderson? É o som do inevitável. O som de sua morte. Adeus.” Neo, sufocado, cerra os dentes e responde: “Meu nome é... Neo!” E, num impulso, solta-se do abraço de Smith, deixando-o nos trilhos para ser esmagado pelo trem. Neo sai caminhando, julgando-se vitorioso, mas logo adiante o trem pára, as portas se abrem e Smith reaparece, renovado, pronto para prosseguir a luta.

O que parece simples frase de efeito, um desses batidos clichês de cinema, é na verdade o melhor modo de mostrar que Neo, nesse ponto decisivo de sua trajetória, está ciente de sua identidade e sua força. “Meu nome é Neo” encerra em poucas palavras todo o caminho por ele percorrido, as dúvidas vividas e os desafios superados. Ao recusar-se a ser chamado pelo nome que foi inicialmente batizado na Matrix, Neo, simbolicamente, rompe ainda mais sua ligação com o mundo das ilusões, rompimento iniciado ao criar o codinome Neo para atuar como pirata no mundo dos computadores. A criação do codinome, ainda na Matrix, inaugura o desenvolvimento de sua nova identidade. Ao insistir em ser chamado pelo novo nome, Neo confirma sua identidade e resiste à morte. Porém, apesar de confiar em sua força, Neo ainda não se convenceu de que é o Predestinado, caso contrário não precisaria de tanto esforço, como veremos na cena do embate final com Smith. Ele precisa, primeiramente, “saber” que é o Predestinado. Enquanto isso não ocorrer, ele seguirá lutando e lutando contra algo que não pode
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derrotar. Muitas pessoas mudam de nome quando casam ou ingressam em nova religião. É uma forma simbólica de cortar os laços que as prendiam a seu antigo mundo, aos velhos valores que norteavam a vida. É um modo de recomeçar, com uma nova identidade. Isso não quer dizer que precisamos comparecer ao cartório toda vez que nos transformamos. O que interessa é a mudança interior e não o nome. Se mudamos por dentro, nosso mundo em volta também muda pois como tudo está interligado, nada fica imune ao que se transforma. Ao resistir à morte e insistir por sua vida, Neo está, na verdade, apegando-se ao que ele sabe de si próprio, à sua autopercepção. Porém, nesse momento sua autopercepção é limitada pois ele ainda não admite que é o Predestinado e somente o Predestinado pode vencer a Matrix. Assim sendo, sua luta contra Smith é, na verdade, a luta de Neo contra si mesmo, contra o que ele é e sempre foi (o Predestinado) mas ainda não consegue reconhecer. Mas, então, o que Neo deveria fazer?, você pode estar se perguntando. Chamar Smith para um cafezinho? Seria ótimo se não precisássemos confrontar nossas partes não reconhecidas. Seria menos doloroso se pudéssemos nos entender pacificamente com nosso eu maldito. Mas não é assim que se dá o crescimento psíquico pois a consciência só evolui quando é intimada a largar sua cômoda posição e ir em frente. Entretanto, o ego, o velho ego, sempre se apega ao que ele é e sempre esquece que só é o que é porque um dia deixou de ser o que era para ser o que agora é. O ego resiste mas é necessário que morra mais uma vez. Ele precisa passar a gerência do ser para um outro ego mais capaz. Neo precisa morrer para que morram junto os últimos resquícios de um Neo que ainda não crê que é o Predestinado. Por mais que afirme que é Neo e se aproxime da verdade que tanto evitou, se não morrer inteiramente para a antiga vida jamais chegará de fato à verdade e jamais será concretizado o que ele é em seu íntimo. Neo mudou e está mais forte mas ainda não mudou o suficiente pois continua tentando derrotar Smith e Smith não pode ser derrotado pois ele é o próprio Neo não reconhecido. É um paradoxo de fritar neurônio mas é assim que funciona: quanto mais Neo se fortalecer, mais forte Smith será. Quanto mais Neo insistir em viver, outra vez a porta do trem abrirá e Smith ressurgirá, renovado, pronto para prosseguir a luta. Nós também agimos
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como Neo quando estamos no limiar da grande transformação e julgamos que é nosso dever matar a nossa outra parte, aquela de quem fugimos a vida inteira. É engano. Não conseguiremos derrotá-la por mais que lutemos pois ela é mais forte que nós. O que temos de fazer é admiti-la em nossa natureza pois ela é justamente o que nos falta para sermos inteiros. Smith não morre porque Neo ainda não aceita que é o Predestinado. Como o Predestinado tem que morrer (“sua próxima vida, quem sabe...”, dissera o Oráculo), Neo evita o sacrifício. Pretende alcançar o máximo de si sem morrer. Obviamente não conseguirá. Ninguém consegue. Em sua última noite antes de ser preso pelos romanos, Cristo, no jardim do Getsêmani, desesperou-se ante a visão do destino que o aguardava: sangue, humilhação, crucificação, dores terríveis e morte. Desejou que não precisasse passar por tudo aquilo e lutou, intimamente, contra o que tenebrosamente se aproximava. Agiu como Neo, tentando evitar o inevitável. Mas Cristo compreendeu que ao Predestinado é impossível vir a sê-lo sem antes padecer e morrer. Então entregou-se ao destino e abraçou com firmeza sua cruz. Então Neo deveria ele mesmo jogar-se sob o trem a fim de apressar a chegada do novo nível de consciência? Também não. Neo tem de ir até o limite de suas forças e de seu sofrimento. Tem de aceitar seu fardo como nós também teremos de aceitar quando chegar nossa hora. Infelizmente não nos é dado saltar etapas. Nem Cristo conseguiu. o herói morre
Neo, percebendo enfim que não conseguirá derrotar Smith, começa a correr. Liga para a nave, implorando uma saída, rápido. Tank lhe indica a sala de um hotel e ele corre para lá a fim de atender a ligação telefônica, enquanto os três agentes o perseguem. Depois de correr pelas ruas, subir escadas, saltar muros e invadir apartamentos, Neo corre por um corredor enquanto o telefone toca bem próximo. Ele abre a porta e dá de cara com Smith apontando-lhe uma arma. Um tiro é disparado à queima-roupa. Neo é atingido mas continua de pé, sem se mexer. Leva a mão à barriga e constata que está sangrando. Está tão surpreso que parece não sentir dor alguma, como se não acreditasse que tudo isso de fato está acontecendo. Enquanto o telefone continua tocando, Smith dispara uma segunda vez. 83

Neo cambaleia para trás e se apoia na parede do corredor. Olha para Smith e parece que fará algo mas Smith atira mais oito vezes. Seu corpo escorrega e tomba para o lado. Os agentes o examinam e confirmam: “Ele se foi”. Smith, imperturbável, fala: “Adeus, sr. Anderson.”

Façamos um pequeno exercício de imaginação. O que aconteceria se Neo tivesse atendido à chamada e, assim, retornasse a salvo para a nave, livre da perseguição dos agentes? Teria escapado de morrer, sim. Continuaria vivo, junto com seus companheiros. Talvez fosse levado a Zion. Talvez voltasse outro dia à Matrix, para ajudar outros humanos a despertar. Entretanto, continuaria sendo Neo  e não o Predestinado. Não teria os poderes que somente sendo o Predestinado poderia ter. Não poderia manipular os códigos da Matrix e quebrar as regras do sistema como somente o Predestinado pode fazer. Se retornasse à nave, Neo não passaria pela última e decisiva transformação, aquela que é imprescindível ao herói: a morte. Não é fácil encarar a morte, nós sabemos. Morte biológica ou morte como símbolo máximo de profunda transformação, nunca é fácil vivenciá-la. Mas não há outro modo de cruzar o portal. Somente com a morte do ego, ou seja, do nível de autopercepção em nos encontramos, é que chegaremos ao nível seguinte de ampliação da consciência. Enquanto não morremos, ficamos presos à fase na qual estamos, essa fase que já não tem nada de novo a nos oferecer. Morrer então significa, vamos dizer desta forma, saltar do nível 1 para o nível 2. Por outro lado, recusar-se a morrer significa botar uma vírgula depois do 1 e, por meio desse movimento ilusório, enganar-se com o 1,1 e mais adiante com o 1,15, depois com o 1,157 e assim sucessivamente. A vida prosseguirá nessa dízima e nós nos movimentaremos, sim, mas não será um movimento para frente, em direção do novo, ao 2, e sim um mergulhar cada vez mais fundo na fase atual, totalmente apegados a ela: 1,157 e depois 1,1574 e depois 1,15748 e a enrolação não tem fim. Se Neo voltasse à nave, estaria apenas adiando seu confronto com Smith. Seria perda de tempo, o mesmo tempo que perdemos toda vez que não aceitamos a mudança necessária. Neo já morreu uma vez, na Matrix, e continuou vivo, na verdade mais vivo ainda. Ele já experimentou a morte de suas ilusões e venceu. Por que então sente medo de morrer mais uma vez? Aqui o medo é justamente o que nos indica a necessidade de
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transformação. Ele, em si, não é algo ruim. Sentir medo é natural, faz parte do instinto de autopreservação. Ao perceber que novos conteúdos estão para vir à tona da consciência e que poderão desestabilizálo, o ego tende a se esforçar para impedir. O ego sente de longe o cheiro da mudança e quando ela está bem próxima ele usa de toda sua força para se manter no controle dos fatos pois sente que vai morrer. A fuga de Neo pelas ruas é a fuga que a autopercepção empreende para não morrer e, assim, não dar vez à nova autopercepção que surgirá. O esforço desesperado do herói para atender à chamada que o levará de volta à segurança da nave é o mesmo esforço que todos nós empreendemos, inconscientemente, para escapar daquilo que nos aguarda: o nosso eu legítimo, nosso eu cada vez mais verdadeiro, aquele que desde o início estava predestinado a ser, feito uma antiga profecia. Não adianta fugir. O medo do que nos libertará nos levará a fazer isso e aquilo, sempre justificando nossos atos, e a desenvolver mil estratégias para evitar sermos apanhados pela transformação. Mas para onde nos virarmos... lá estará o agente Smith, lá estará a morte nos espreitando. Insistir demais na velha fase transformará nossa vida no joguinho do Pac-man: viveremos num cruel labirinto, correndo alucinados, cercados de problemas, insucessos e sofrimentos. No joguinho do crescimento psíquico o único modo de escapar é desistir da luta contra nós mesmos e aceitar a transformação. Muitas vezes agimos como Neo quando recebe o primeiro tiro e quase se convence de que isso não pode estar acontecendo. É por pouco. O herói está a um passo de finalmente alcançar a verdade mas não consegue pois ainda está perdido no labirinto, apegado à velha vida. o amor libertador
Na nave, Morfeu, Tank e Trinity acompanham o que se passa na Matrix e ficam chocados ao ver que Neo morreu. Morfeu murmura, sem acreditar: “Não é possível...” Trinity se aproxima do corpo inerte de Neo e, calmamente, sussurra em seu ouvido: “Neo, eu já não sinto medo. O Oráculo me disse que eu me apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Sendo assim você não pode estar morto pois eu te amo.” Ela beija a boca de Neo e seu corpo estremece, voltando à vida. “Agora levante”, ela diz. Na Matrix Neo desperta.

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É bem significativo que venha de Trinity a ordem para que Neo desperte. Poderia ter vindo de Morfeu, o líder, mas veio de Trinity. Temos aqui, mais uma vez, a presença decisiva do feminino na jornada do nosso herói. Ele já havia se entendido com alguns aspectos yin de sua psique e, graças a essa união dos contrários, fortaleceu-se e conseguiu resgatar Morfeu, e tornou-se tão ágil que Smith não pôde derrotá-lo na luta. Agora, porém, Neo está morto e Trinity, pela primeira vez, declara seu amor por ele, sussurrando em seu ouvido o que ela sempre mantivera em segredo, escondendo dele, dos colegas e, principalmente, dela mesma. Você certamente lembra que na cabine telefônica do metrô, prestes a voltar à nave, Trinity fala para Neo que tem algo importante a dizer mas tem medo do que pode ocorrer se disser. Ela então fala que tudo que o Oráculo lhe disse aconteceu, menos isso. Isso o quê?, o espectador se indaga. Não fica claro pois Trinity retorna à nave antes que possa revelar o teor exato da profecia mas no fim do filme saberemos: ela se referia ao fato do Oráculo ter lhe dito que ela se apaixonaria por um homem morto e que ele seria o Predestinado. Ali, no metrô, Trinity está apaixonada por Neo mas ele... é um homem vivo! Ela está confusa: isso significa que o Oráculo errou? Ou que Neo não é o Predestinado? Pobre Trinity, não deve ter sido fácil conviver com tantas dúvidas. Na nave, o gesto final de Trinity aciona de vez a profecia e desperta Neo, fazendo nascer o Predestinado. O sussurro de Trinity é o pneuma, o sopro milagroso da vida, o mesmo sopro com que Ísis ressuscita Osiris na mitologia egípcia. Ao nosso herói, faltava o amor para que ele se completasse e pudesse enfim ser ele mesmo em todo seu potencial. Quando tudo parecia perdido, o componente yin de sua psique entrou em ação, ocupando seu devido lugar na personalidade consciente. A recusa de Trinity em dividir seus sentimentos com os companheiros significa a recusa do indivíduo em aceitar a realidade de seus sentimentos. Fixando-se mais em outras dimensões do ser, como a intelectual, o ego despreza a dimensão dos sentimentos que, assim, torna-se para ele um aspecto ameaçador. O ego pressente e tudo faz para não encarar o que o destruirá. Bem, Trinity podia aos poucos ter assimilado seus próprios sentimentos e assim não deixaria tudo para ser perigosamente resol86

vido no último instante. Sim, poderia. Mas para assimilar os sentimentos é preciso, antes, reconhecê-los. Trinity os reprimia, tinha medo do que eles podiam significar, sequer falava deles. Como a consciência pode trabalhar algo que finge não existir? É exatamente assim que o último inimigo se esconde da consciência, cresce na surdina e mais tarde irrompe, exigindo reconhecimento urgente. O ego não tem como vencer algo tão mais forte que ele. Então o ego morre, derrotado por aquilo que a consciência a todo custo evitou integrar a si mesma. Neo morre porque não há outra maneira do Predestinado nascer. O ego morre porque somente um novo ego, que reconheça os conteúdos que exigem participação na consciência, pode comandar a jornada do eu total rumo à autorrealização. O amor de Neo e Trinity, que os guia rumo à vitória final, é o mesmo amor romântico que guiou a mentalidade medieval, mostrando-se como imprescindível na busca moderna do indivíduo por sua essência mais legítima. É a misteriosa lógica alquímica que une duas pessoas e as transforma numa terceira, o casal, levando a individualidade a um novo nível. Neo é o Predestinado
Neo desperta, abrindo os olhos devagar. Parece surpreso por estar vivo mas está muito tranquilo. Põe-se de pé e olha ao redor. Os agentes percebem, sacam suas armas e atiram. “Não...”, Neo diz baixinho, sem se abalar, e estende o braço, detendo as balas no ar. Ele agora enxerga a Matrix através de todos os seus códigos, como os rebeldes a veem nos monitores da nave, mas com muito mais nitidez. Surpreso, Smith larga a arma e avança para Neo que se defende dos golpes com incrível facilidade. Neo então corre e salta para dentro de Smith, fazendo-o explodir. Depois reaparece, de pé, calmo e respirando profundamente. Os outros dois agentes saem correndo.

Com a aceitação do amor, Neo alcança mais um nível do despertar. É a consciência que se amplia ao integrar os derradeiros conteúdos que não admitia. Mas isso tudo só aconteceu porque o ego morreu, o velho ego que há tempos se agarrava obstinadamente ao comando da consciência. O novo ego faz de nós pessoas mais equilibradas e mais cientes de nossas possibilidades. Além disso, a consciência ampliada nos
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propicia uma visão mais clara da realidade, fazendo-nos ver o mundo além das aparências, assim como Neo passa a ver a Matrix através de seus códigos, limpidamente. Agora já não podemos ser enganados como antes pois enxergamos tudo sem disfarces, principalmente a nós mesmos. É bom deixar claro que a aceitação e a vivência do amor é o derradeiro inimigo que Neo tem de enfrentar para que possa se tornar, de fato, o Predestinado – mas para outras pessoas o último inimigo pode ser outro aspecto do ser. Seja qual for, será sempre algo que até o fim evitamos admitir em nós mesmos. O taoísmo, milenar filosofia oriental, nos fala do Tao, o ritmo do Universo, o indetível escoamento da realidade. Para o taoísmo, sábio é aquele que capta esse ritmo e assim entende o equilíbrio dinâmico do crescimento e os ciclos de fluxo e refluxo da vida, harmonizando-se com ela. Isso é tornar-se um com o Tao, uno com tudo ao redor. Agindo assim o sábio pratica um dos princípios básicos do taoísmo: a unicidade. Ele torna-se uno com a vida porque, na verdade, é o que sempre foi mas não percebia. Neo harmonizou-se totalmente com sua própria natureza isso se refletiu automaticamente no mundo externo: ele passou a ser um com a realidade. Isso fica bem ilustrado na cena em que, após invadir o corpo de Smith e fazê-lo explodir, Neo respira fundo e a Matrix, ao seu redor, respira junto com ele, num movimento harmônico de contração e expansão. Quem poderá ser mais forte que aquele que é um com a realidade? Neo consegue harmonizar-se com a Matrix de tal modo que nada mais é impossível para ele. Assim ocorre quando, após finalmente nos entendermos com o inconsciente, adquirimos um profundo grau de integração com a vida, nos conectando aos seus ciclos e respeitando as leis naturais. É mais ou menos como pegar onda: para chegar à praia, deve-se harmonizar os movimentos do corpo com o ritmo da onda, confiando no processo e abandonando-se ao sentido da força maior  tornando-se uno com ela. Desse modo as coisas se tornam mais fluídas e a vida mais simples. As dificuldades continuam, é claro, mas nós agora as vemos não como obstáculos mas como forças que, feito as ondas, podem nos conduzir à praia. E é por compreendermos as coisas desse novo modo que a vida se transforma no que há de melhor para nós. É a isso que nos conduz a autorrealização: à efetivação do que
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somos e à harmonia com a vida. Não são todos os que a atingem. Na verdade são poucos pois a grande maioria desiste ante as primeiras dificuldades e se convence que é impossível. A maioria toma a pílula azul. Porém, o impulso para a autorrealização está presente em todos nós. O que faremos com ele é que determinará se realmente nos tornaremos os heróis de nossas próprias vidas. * * *

As luzes se acendem e os créditos na tela já estão subindo. O lanterninha vem nos avisar que o filme terminou e só então nos damos conta. Levantamos meio atordoados e saímos, envoltos em mil pensamentos. Teremos muitas coisas em que pensar nos próximos dias. Na rua as pessoas voltam para a realidade de sua vida cotidiana. E, no interior de cada uma delas, o mito prossegue, vivo e pulsante, guardando o símbolo sagrado da autorrealização sob a mais importante de todas perguntas: “Quem sou eu?”

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V Matrix Reloaded e Matrix Revolutions

paralelos com o processo de autorrealização O processo de autorrealização está perfeitamente ilustrado no enredo de Matrix, o filme inicial da trilogia. Nele acompanhamos o herói desde o início de sua aventura: as crises que levam ao despertar, o autoconhecimento, os conflitos internos, a assimilação dos conteúdos inconscientes, a autossabotagem, a experiência do amor, a morte e o renascimento. Em poucos filmes vemos a estrutura do mito da jornada do herói de modo tão preciso. O filme inicial se fecha em si mesmo, no sentido de mostrar a trajetória completa do herói que se autorrealiza. Neo torna-se o Predestinado porque enfim se convence que sempre o fora. Em termos psicológicos: a consciência assimilou os conteúdos inconscientes que agiam livres, limitando a atuação do indivíduo, e equilibrou-se entre seus opostos, ampliando-se, permitindo a realização do potencial adormecido e levando o indivíduo a harmonizar-se consigo e o mundo à sua volta. Vale a pena, porém, nos determos um pouco sobre os dois outros filmes da trilogia. Eles possuem alguns pontos interessantes que podem enriquecer nosso estudo. Zion A única cidade humana da história é Zion. É lá onde vivem os
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humanos que nascem fora da Matrix e os que se libertam dela. É lá onde se concentra a resistência contra a Inteligência Artificial. Zion fica no centro do planeta e somente os comandantes das naves possuem seus códigos de acesso. Na psicologia junguiana há o conceito de Self, ou Si-mesmo, que significa a totalidade e ao mesmo tempo o centro regulador da psique. É no Si-mesmo que a consciência se espelha para crescer e se tornar mais ampliada pois ele é como a semente que traz em si o modelo da árvore futura. Assim como o ego é o centro da consciência, o Si-mesmo é o centro da psique total, uma espécie de, digamos assim, eu superior. É lá onde estão guardadas todas as potencialidades do ser, feito um código que necessita ser ativado para que se efetive aquilo que por enquanto é apenas potencial. Neo e o Arquiteto Em Matrix Reloaded, ao se encontrar pela segunda vez com o Oráculo, Neo fica sabendo que deve se dirigir à Fonte, ao núcleo da Matrix. “A Fonte é o fim do caminho do Predestinado”, diz o Oráculo. Neo vai até lá e encontra o Arquiteto, a imagem digital da Inteligência Artificial, criadora da Matrix. Sentado tranquilo em sua poltrona, o Arquiteto explica a Neo muitas coisas e o diálogo é um dos mais interessantes da trilogia. Entre várias revelações, Neo descobre que antes dele existiram cinco Predestinados. Entende também que a Matrix foi criada inicialmente representando um mundo perfeito, onde ninguém sofreria e todos seriam felizes. Mantendo os humanos nesse eterno estado idílico de sonho, a Inteligência Artificial seguiria no controle total. Entretanto os humanos, mesmo adormecidos, rejeitavam o programa, causando-lhe instabilidade. A Inteligência Artificial insistiu mas todas as suas tentativas falharam, levando à perda de “safras inteiras” de humanos. Entendendo que o problema era decorrente da falibilidade humana, que não tolera a perfeição, a Matrix então foi transformada: no lugar de um mundo perfeito, a ilusão coletiva passou a ser ambientada numa réplica do mundo como ele era no final do século 20, com todas as suas imperfeições e injustiças. Mesmo assim as mentes humanas ainda não o aceitaram e o programa continuou instável. Como resolver o problema? Como fazer com que a men91

te humana aceitasse devidamente a realidade ilusória da Matrix e as pessoas pudessem ser mantidas escravas? Foi então desenvolvido um programa “intuitivo”, chamado Oráculo, cuja tarefa era estudar profundamente a psique humana. A solução encontrada pelo Oráculo foi oferecer aos humanos uma possibilidade de não aceitar a realidade virtual, ainda que apenas num nível inconsciente. Eles continuariam adormecidos e escravos mas saberiam, de modo inconsciente, que poderiam despertar e se libertar. Oferecer aos humanos essa opção de saber que podiam se libertar era perigoso pois alguns deles poderiam efetivamente se libertar e, mesmo significando 0,01 da população, poderiam ameaçar a segurança do sistema. O jeito seria ter que reforçar a segurança. A estratégia funcionou perfeitamente. A quase totalidade das mentes humanas aceitava o programa e o sistema se estabilizou. E as mentes que não aceitavam a ilusão da Matrix? Essa diminuta parcela dos humanos despertava do sonho coletivo e se libertava, formando a resistência. Eles então passavam a invadir o sistema e ajudar outros humanos a se libertar, causando certa instabilidade à Matrix. Para o sistema, porém, essa instabilidade era prevista e esses humanos eram uma anomalia inevitável, o preço a pagar pelo máximo possível de estabilização do sistema. Entretanto, o preço incluía algo mais: dentro da anomalia haveria sempre a eventualidade matemática de uma anomalia maior, o supra-sumo anômalo, digamos assim. Periodicamente, entre esses humanos que se libertavam, haveria um com capacidades excepcionais, que aprenderia a agir dentro da Matrix melhor que todos, detectaria suas falhas e poderia provocar o colapso total do sistema: esse seria o Predestinado. Tudo estava matematicamente previsto desde o início: a parcela de humanos que não aceitaria o programa e também os resistentes que sempre fugiriam para o centro da Terra e reconstruiriam Zion, a cidade humana, que funcionaria como centro da resistência. Por fim, o surgimento do Predestinado estava igualmente previsto pois ele era, segundo o próprio arquiteto, “uma soma de um resíduo de uma equação desequilibrada inerente à programação da Matrix”. Mas como lidar com ele?

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Matrix: o sistema (quase) perfeito Embora tenha programado a Matrix para lutar ferrenhamente contra todos os que a desafiam, a Inteligência Artificial sabia que mais cedo ou mais tarde o Predestinado sempre surgiria. Assim, restou lidar com ele da melhor forma possível: se não pode com seu inimigo, una-se a ele. Como o Predestinado conhece as falhas do sistema melhor que o próprio sistema, sabe de seus pontos vulneráveis e aprende a burlar todas as suas regras, modificando a programação à sua vontade, o ideal então seria fazê-lo se reinserir no sistema, reprogramando a Matrix com os novos dados que ele traria. Fazendo isso, a anomalia reinsere a programação que traz consigo (sua experiência de vida, seus conhecimentos e todos os dados coletados sobre as falhas do sistema) e possibilita a atualização, um upgrade, da Matrix. Mas como garantir que isso aconteça? Por que o Predestinado, inimigo da Matrix, aceitaria uma coisa dessa? Para reconhecer a anomalia máxima, a Matrix está sempre a vasculhar a si própria a fim de localizar e eliminar todas as prováveis anomalias até que, dentre elas, sobreviva apenas aquela que, de fato, tem o poder de destruir, ou aperfeiçoar, o sistema. Após isso a anomalia deverá ser convencida a não destruir mas, em vez disso, aceitar ser reinserida no sistema. Os próprios humanos rebeldes, sem saber, ajudam a Matrix a controlar o Predestinado pois creem nele, necessitam dele e sempre o levam ao Oráculo. Este, por sua vez, sempre incentiva o Predestinado a se dirigir à Fonte. Ao alcançá-la, o Predestinado sempre encontra o Arquiteto que lhe fala sobre a Matrix e ao final lhe apresenta duas opções: ou continua sua luta contra as máquinas ou se sacrifica, reinserindo-se no sistema. Se as opções são essas, por que o Predestinado sempre se entrega? Porque não vale a pena continuar lutando. Vejamos. Se o Predestinado prossegue a luta, Zion é destruída pois a Inteligência Artificial cedo ou tarde saberá sua localização e tem tecnologia suficiente. Mais importante que isso, porém, é o fato de que, sem se atualizar, a Matrix entra em colapso, causando a morte de todos os humanos ligados ao sistema, o que, junto à destruição de Zion, significa a extinção da espécie humana. Quanto à vida da Inteligência Artificial, mesmo sem sua fonte principal de energia, os corpos humanos, ela
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ainda sobreviveria e recomeçaria tudo outra vez. Bem, isso é o que diz o Arquiteto. Será que é um blefe? Por via das dúvidas, o Predestinado nunca arrisca. Por outro lado, aceitando reinserir-se no sistema, o Predestinado pode escolher 23 pessoas na Matrix para serem libertadas – elas fugirão para o centro da Terra e reconstruirão Zion, prosseguindo com a resistência. Ele se sacrifica pela humanidade mas os humanos continuam vivos. É verdade que a quase totalidade continuará escravizada, com seus corpos imersos em casulos e as mentes conectadas a uma ilusão coletiva. Mas esta opção não é pior que a extinção da espécie. É por isso que os Predestinados anteriores a Neo se sacrificaram pela humanidade, reinserindo-se no sistema. Disseminando seus códigos, reintroduziram o programa principal e assim o sistema foi reiniciado, num nível mais avançado ainda. Dessa forma tudo prossegue como antes: a Inteligência Artificial dominando o planeta, a Matrix aperfeiçoada mantendo os humanos aprisionados e os humanos de Zion resistindo, tentando libertar mais humanos e, além disso, acreditando na profecia do Oráculo que um dia virá o Predestinado... As máquinas, a Matrix, os humanos e o Predestinado formam assim um sistema só, autossustentável, cujas imperfeições são na verdade mecanismos imprescindíveis à harmonia maior. O que parece ameaça à Matrix é, na verdade, a garantia da estabilização e do aperfeiçoamento do sistema. O Predestinado é, assim, apenas mais uma peça na engrenagem. Ele toma conhecimento disso somente no final, quando chega à Fonte, mas então é levado, por seu amor à humanidade, a sacrificar-se, salvando a Matrix e permitindo à Inteligência Artificial continuar dominando o planeta e escravizando os humanos. Perfeito. Na verdade, quase perfeito. Porque com Neo é diferente. Além do amor impessoal pela humanidade, característica de todos os Predestinados, ele ama Trinity. É justamente o amor romântico, além do amor fraternal, que o mantém disposto a lutar e desafiar as possibilidades, somente para continuar com ela, mesmo que isso ponha em risco toda a espécie humana. É um fator absolutamente novo, tão novo que a Inteligência Artificial não o previu. E nem tinha como, coitada. Talvez as máquinas jamais consigam decifrar, calcular e prever o amor, essa força tão imensa, poderosa, insana e contraditória, essa equação tão desequilibrada e impre94

visível. Tão imprevisível que a fragrância do amor de Neo e Trinity sensibiliza até o Oráculo e o leva a ajudar Neo mais do que deveria, arriscando o equilíbrio do sistema. Tão imprevisível que em troca de um beijo de Neo (mais um beijo traidor) Perséfone trai os interesses do marido Merovíngio e permite aos rebeldes o acesso ao Chaveiro e a posterior chegada de Neo à Fonte. Um beijo. Ai, ai, apenas um beijo... Um simples toque de lábios faz Perséfone sentir novamente a doce e inebriante sensação de estar amando. A ela bastou apenas o gostinho da sensação perdida, do amor que um dia encheu de sentido os seus dias, bastou isso para Perséfone. Como quantificar, equacionar e programar o amor? psique artificial A Matrix é tão-somente um sistema de simulação da realidade, feito de muitos programas integrados, mas se parece bem mais com os humanos do que a Inteligência Artificial certamente gostaria de admitir. Aliás, em certos aspectos a Matrix parece uma imitação da psique humana. Podemos até falar de consciência e inconsciente, por mais estranho que pareça. Consciência e inconsciente na Matrix? Antes que você feche o livro e diga que eu já estou forçando a barra, me dê só mais alguns parágrafos, por favor. Obrigado. Veja só. A Matrix sabe tudo sobre si mesma? Não pois o sistema possui os seus próprios guetos virtuais, onde se escondem os programas rebeldes que seriam desativados. Além disso ela nem sempre sabe quando os humanos a invadem nem onde se encontram nem o que irão fazer. Os programas rebeldes até que não causam problemas sérios – mas os humanos invasores, estes sim dão uma dor de cabeça danada pois além do sistema não ter controle sobre eles, os humanos desejam destruí-lo. São os conteúdos inconscientes da Matrix. Sem falar em Smith que também sairá do controle do sistema. A Matrix tem consciência de si através de seu programa gerenciador, que utiliza eficazes mecanismos de defesa (agentes) para perseguir e eliminar humanos invasores pois sabe que dentre eles pode surgir a anomalia prevista. Para o programa a anomalia representa o risco de morte do sistema mas na verdade será a sua própria continuação, num nível mais avançado. O programa, porém, não entende assim, e faz de tudo para que o sistema sobreviva. Parece até um ve95

lho conhecido nosso, não? Isso mesmo, o programa gerenciador do sistema parece o ego. O ego da Matrix é igual a todos os egos: não quer morrer jamais. Mas não tem jeito, o Predestinado sempre vem. O programa gerenciador não sabe que o que morrerá é a versão antiga do sistema, obsoleta, uma versão incapaz de lidar com as novas exigências, com a agilidade e conhecimento do novo Predestinado. A Matrix, se entregando, se une a seu pior inimigo, e ressurge atualizada, mais poderosa ainda. Viu? É a Matrix assimilando conteúdos inconscientes... Smith personifica com perfeição o desastre que um ego inflado pode causar à psique. Na Matrix, ele é o representante do sistema e existe tão-somente para gerenciar a relação delicada entre o sistema e os humanos, reprimindo a ação destes. Smith não aceita a derrota, não quer ser deletado: é o egão que resiste, orgulhoso. A Inteligência Artificial, na pessoa do Arquiteto, já sabe que precisa se entender com o Predestinado para que o sistema passe para um novo nível  mas o diabo do Smith não quer saber de conversa. Sua teimosia é uma ameaça crescente ao próprio sistema e ele se torna mais perigoso até mesmo que Neo. Então, para manter o próprio equilíbrio, a Inteligência Artificial ajuda Neo a derrotar Smith. Assim também faz o Si-mesmo na psique quando o ego está inflado demais e compromete o equilíbrio do eu total: ele permite que os conteúdos inconscientes se manifestem tão fortemente que a vida sai do controle, vêm os desastres e insucessos e o ego, humilhado e impotente, não resiste e morre. Uma psique artificial, com seu equilíbrio dinâmico e seus próprios ciclos de morte e renascimento – assim é a Matrix, por mais blasfemo que pareça. Senão vejamos: trata-se de um sistema autoconsciente mas não totalmente, que será sempre ameaçado e sabotado por seus próprios componentes indesejados, que um dia será por eles desestabilizado e, num processo de integração simbiótica, se unirá a eles para renovar a si mesmo e continuar vivo, mais forte e capaz – e então novos componentes indesejados surgirão e assim por diante. O centro desse sistema possui todas as informações e conhece perfeitamente o processo pois é ele que o comanda. Além disso essa espécie de Si-mesmo do sistema já o viu passar por tudo aquilo várias vezes, todos aqueles conflitos, e sabe que apesar de tudo o sistema sobreviverá. Psique artificial, máquinas assimilando conteúdos inconscien96

tes... Bem, é só uma comparação, claro, mas esse exercício de imaginação pode nos ajudar a vislumbrar como seria uma psicologia das máquinas. Sim, por que elas, sendo capazes de pensar por si próprias, não haveriam de ter uma psicologia? Talvez já seja hora de começar a pensar nessa possibilidade. Aliás, o que Jung diria se soubesse que um dia suas ideias seriam utilizadas para explicar o comportamento das máquinas? Consideraria uma blasfêmia? Não sei. Talvez ele desse uma daquelas suas boas risadas: “Bem, chame uma delas qualquer dia para tomar um chá comigo à beira do lago...” retribuindo à sociedade A engenhosidade de toda a trama de Matrix merece um prêmio. O segundo episódio, Matrix Reloaded, nos mostra a chegada do Predestinado à Fonte da Matrix e sua posterior reinserção no sistema. Ao nosso estudo, isso é mais um paralelo com o processo de autorrealização, mais precisamente o aspecto final do processo: a absorção, pela sociedade, da rica experiência do indivíduo que se autorrealiza. É o mito do herói revivido, o herói que se isola para depois retornar e salvar seu povo. É a volta do indivíduo ao outro lado da espiral indivíduo-sociedade após ter feito o percurso completo. Vimos que o processo de autorrealização exige que o indivíduo se diferencie. Essa diferenciação tem vários níveis e começa logo após a concepção, quando óvulo e espermatozóide se unem para formar uma terceira substância. O novo ser é uma porção do inconsciente coletivo da espécie que se destaca, feito uma erupção vulcânica no fundo do oceano, e que formará, com suas experiências individuais, um inconsciente individual. Uma segunda diferenciação ocorre após o nascimento, quando desse inconsciente pessoal se destaca uma nova porção: a consciência. Ela ainda é apenas um pedaço de terra submersa no grande oceano inconsciente, forçando passagem rumo à superfície, mas já revela as características que farão do indivíduo aquilo que ele potencialmente é. A consciência é, assim, uma parte diferenciada do inconsciente individual que se destacou do inconsciente geral da espécie – é uma ilha de individualidade. Mais tarde, como vimos, o indivíduo precisa se diferenciar ainda mais, dessa vez qualitativamente, destacando-se da massa com
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os quais divide valores, ideias e regras de comportamento. Vimos que isso desestabiliza a ordem social e faz a sociedade reprimir a diferenciação. Entretanto, há um ponto do processo em que a sociedade não só não consegue mais reprimir como é influenciada pelo indivíduo que se diferencia e se autorrealiza. Nesse ponto ocorre, numa analogia ao filme, a atualização do sistema. A força da autorrealização é tamanha que a sociedade é naturalmente levada a absorver as experiências do indivíduo, incorporando os novos valores e ideias que ele representa. O que antes era perigo à cultura, mostra-se agora seu próprio alimento, aquilo que lhe permite se enriquecer e sobreviver. A cultura se torna mais complexa mas só o consegue porque há indivíduos que se diferenciam e a desafiam. É como se o indivíduo se “redimisse” de seu afastamento do grupo, pagando sua diferenciação com benfeitorias culturais à espécie. No Budismo, aquele que alcança a iluminação está livre dos problemas do mundo e nada mais pode perturbá-lo. Seu corpo está aqui mas sua consciência voa por outros níveis, além dos níveis cotidianos. A consciência atingiu tal grau de maturidade e interação com a realidade que está livre para mover-se, livre das dimensões do tempo e do espaço. Buda e outros que alcançaram a iluminação poderiam ter deixado que sua consciência partisse, finalmente liberta do corpo físico e das limitações terrenas. Mas preferiram ficar até o fim, até onde o corpo suportasse. Por quê? Para ensinar o que aprenderam. Esse é o exemplo de suprema compaixão do Bodhisattva, o ser que após uma vida inteira de busca finalmente atinge a iluminação – mas aceita permanecer nas limitações do mundo, como Buda fez, pondo à disposição da humanidade o seu conhecimento e toda a sua experiência. Assim como o Bodhisattva, aquele que atinge a autorrealização está livre das pressões do mundo. O ser autorrealizado atingiu o equilíbrio entre consciência e inconsciente e nada mais o desequilibra. Ele agora pode finalmente descansar da longa jornada, esconderse até o fim de seus dias num sitiozinho no alto da serra da Ibiapaba, sem TV e sem telefone, e aproveitar a paz de espírito que conquistou, longe do trânsito maluco, da poluição e dos operadores de telemarketing. Mas muitos não o fazem. Preferem continuar no mundo e contribuir com sua experiência para um mundo melhor. Reinserem-se no sistema, transbordantes de humildade e amor pela causa humana.
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Essa reinserção contém certa dose de ironia pois o indivíduo autorrealizado que agora contribui para a sociedade é o mesmo que, no início de seu processo de diferenciação, era visto como ameaça à própria sociedade, com suas ideias diferentes e atitudes subversivas, e por isso foi bastante reprimido. Apesar da intensa repressão que leva a maioria a desistir, sempre haverá os que se diferenciam, desafiando e incomodando a sociedade. São as anomalias que o sistema se esforça em evitar. Mas são anomalias previstas e, além disso, necessárias ao sistema. São como profecias que aguardam, pacientemente, que cada um de nós, predestinados que somos, decida realmente despertar.

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VI Os personagens

Os personagens de Matrix, seu papel no filme e os aspectos psicológicos que representam no processo de autorrealização

PAPEL NO FILME NEO - Personagem principal. Nascido na Matrix, Neo desconfia que há algo errado com a realidade, busca respostas e é localizado pelos rebeldes. Desperta e une-se a eles para ajudar os humanos na luta contra a Inteligência Artificial. Alguns dos rebeldes consideram que ele é o Predestinado de que fala a profecia do Oráculo e que salvará a humanidade. Neo é pressionado pelo dilema de ser ou não o Escolhido e luta contra sua própria natureza. O PREDESTINADO - Aquele que virá e, com seus poderes, libertará os seres humanos da Matrix. Não se sabe exatamente como ele é nem o que fará mas sua vinda foi profetizada pelo Oráculo. TRINITY - Principal personagem feminina. Oficial da nave Nabucodonossor. Reservada e discreta quanto aos sentimentos, ela é avisada pelo Oráculo que se apaixonará por um homem morto e que ele será o Predestinado. Trinity localiza Neo na Matrix e o convence a seguir os rebeldes, levando-o ao líder Morfeu. Somente no final, quando
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Neo está morto, é que ela revela seus sentimentos e o que lhe dissera o Oráculo. MORFEU - Comandante da nave Nabucodonossor. Acredita firmemente na profecia do Oráculo, que diz que um dia o Predestinado virá para libertar a humanidade da Matrix. Ele busca e encontra Neo, um jovem que vive na Matrix. Morfeu está certo de que Neo é o Predestinado e por isso o liberta, treina-o para lutar contra os agentes e se sacrifica por ele. AGENTES - Programas criados para capturar e eliminar humanos livres que invadem a Matrix. Podem tomar o corpo de qualquer pessoa e apresentam-se sempre de paletó e gravata e óculos escuros. São fortes, ágeis e extremamente frios e controlados. E invencíveis. AGENTE SMITH - Líder dos agentes. Tem especial antipatia pelos humanos rebeldes pois é por causa deles que está preso à Matrix. Mata Neo com dez tiros à queima-roupa mas em seguida é por ele destruído no final do primeiro filme. Reaparece no segundo filme, mais poderoso e podendo atuar também fora da Matrix. Evolui tanto que, igual ao Predestinado, foge do controle da própria Matrix. CYPHER - Membro da tripulação da nave que está cansado de lutar contra as máquinas e entra em acordo com os agentes da Matrix para entregar o líder Morfeu. Deseja esquecer tudo o que viveu e recomeçar a vida na Matrix. Para ele, ignorância é felicidade. Trai os colegas, mata três deles mas é morto quando se prepara para eliminar Neo. ORÁCULO - Programa intuitivo desenvolvido pela Inteligência Artificial para estudar a psique humana e auxiliar na estabilização do sistema. O Oráculo profetiza aos resistentes que Morfeu encontrará o Predestinado, que Trinity se apaixonará por ele e que Morfeu por ele se sacrificará.

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PAPEL NA PSIQUE NEO - O ego. Centro da consciência. Tem a função de gerenciar o fluxo dos conteúdos entre a consciência e o inconsciente, entre os mundos interno e externo do indivíduo. Apesar do ego ser apenas uma parte do eu psíquico total, é com ele que o indivíduo tende a se identificar, considerando o ego e o eu total como absolutamente iguais. O impulso natural de autorrealização da psique, porém, leva o indivíduo a ampliar sua noção do eu através de um longo e contínuo processo de autoconhecimento, integrando conteúdos inconscientes à personalidade consciente. O processo exige o abandono de antigos valores, honestidade para consigo mesmo, coragem para enfrentar o que se desconhece de si próprio, perseverança e confiança no processo. O ego precisa morrer várias vezes para que um novo ego surja, mais capacitado para conduzir a consciência rumo a novos níveis de realização. O PREDESTINADO - Realização da psique em toda a sua potencialidade. Culminação do processo de ampliação da consciência pelo conhecimento de si próprio e equilíbrio entre consciência e inconsciente. Efetivação do eu potencial em toda sua totalidade, capacitando o indivíduo a viver, finalmente, suas verdades mais íntimas e se harmonizar consigo mesmo, com as outras pessoas e toda a realidade. TRINITY - Aspectos femininos da psique (yin), ligados ao cuidado, à maleabilidade, à paciência, aos sentimentos e à valorização dos relacionamentos. Representa a experiência enriquecedora do amor, que age confrontando o indivíduo com a verdade sobre ele mesmo e levando o ego a amadurecer, ampliando a consciência. MORFEU - Aspectos masculinos da psique (yang), ligados à força criativa, autoconfiança, liderança, agressividade e capacidade de empreender. Representa a fé em todo o processo, o impulso e a força progressista da psique. AGENTES - Conteúdos inconscientes (medos, traumas e bloqueios) dos quais o ego foge, evitando o confronto. Se não forem devidamente assimilados pela consciência causarão desequilíbrio psíquico, ocasionando gafes, fracassos, doenças e até mesmo a morte.
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AGENTE SMITH - Conteúdo de dificílima assimilação por parte da consciência e que, por permanecer inconsciente durante muito tempo, cresce e se torna extremamente poderoso e perigoso, pondo em risco o processo de autorrealização. CYPHER - Aspectos negativos da psique ligados ao cansaço, desilusão, cinismo e acomodação. É o componente de autossabotagem, a força retrógrada que impede a ampliação da consciência, constituindo-se no impulso oposto à autorrealização. É o traidor interno, sempre fugindo de responsabilidades e saudoso de um tempo em que havia menos autoconsciência e nenhum comprometimento com a transformação pessoal. ORÁCULO - Representa o sagrado, o numinoso, o mistério, uma força maior à qual o indivíduo se submete com reverência. Pode ser uma religião formal, uma antiga tradição mística, uma poderosa verdade íntima, a ligação com as tradições ou o próprio sentimento religioso de estar unido a algo maior e mais antigo. Pode ser uma conexão intuitiva com a Natureza, com o Universo, com a humanidade. A conexão com o sagrado é arredia ao intelecto racional mas dá segurança e fornece um sentido para a vida.

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VII Quadro comparativo
Paralelos entre a aventura de Neo e o processo de autorrealização

Neo acorda em seu quarto e lê as estranhas mensagens no computador. Neo encontra Trinity.

Início do despertar. O inconsciente se agita e seus conteúdos atingem a consciência, forçando o ego à autoinvestigação. Primeiro ciclo de confrontos. Dúvidas e inquietações. Primeiras dificuldades. A sociedade reprime a diferenciação, desestimulando o autoconhecimento, dificultando a libertação dos padrões de comportamento coletivo. O ego segue a intuição, que atua como guia em substituição à lógica racional. A sociedade intensifica a repressão e o indivíduo paga com sofrimento sua busca pela autorrealização. O ego começa a assimilar os conteúdos inconscientes e se fortalece. O indivíduo está mais autoconsciente e ganha mais discernimento e autonomia.

Neo chega ao trabalho atrasado e é repreendido pelo chefe.

Guiado por Morfeu, pelo celular, Neo tenta fugir mas é detido pelos agentes que o torturam e lhe inserem um dispositivo rastreador.

Trinity convence Neo a seguir com os resistentes. O rastreador é retirado.

Neo encontra Morfeu, toma a pílula vermelha e inicia seu processo de desconexão da Matrix.

Dilemas e encruzilhadas no caminho. O indivíduo precisa mostrar que está realmente disposto a prosseguir. Novo ciclo de confrontos. O ego é violentamente abalado pelos conteúdos inconscientes e a verdade sobre si mesmo desestrutura o indivíduo. Desequilíbrio psíquico. Crise existencial profunda. O ego sofre com a morte de velhos valores e padrões de comportamento. A psique conduz o ego no processo de autocura. Dúvidas, medo e dor no processo de morte e renascimento. Aceitação da transformação interior. As novas informações sobre si mesmo são devidamente assimiladas pelo ego, que se torna mais forte, capaz e ciente de suas possibilidades. A força progressista da psique é ativada. O indivíduo se diferencia da massa e amadurece. A vida ganha sentido e se torna mais harmoniosa. O ego é testado em sua nova fase, vivenciando situações que põem à prova sua transformação. O indivíduo está mais autoconsciente porém ainda não acredita plenamente em seu potencial. Ainda relutante em assumir certas responsabilidades, o ego sabota a si mesmo, atraindo insucessos. A força retrógrada está no comando. Perigos da jornada. O ego é constantemente posto à prova. A fé e a confiança no processo são fundamentais. 105

Neo desperta no casulo, fora da Matrix. É desconectado do sistema e jogado no esgoto.

Neo se recupera na nave. Os tripulantes cuidam de Neo.

Morfeu mostra a Neo o que aconteceu com a Terra. Neo reluta em aceitar a verdade. Neo treina com Morfeu em programas de simulação para saber agir dentro da Matrix.

Neo é levado de volta à Matrix para consultar o Oráculo.

O Oráculo examina Neo, que ainda não acredita ser o Predestinado.

Os resistentes são traídos por Cypher. Morfeu é capturado pelos agentes.

Cypher mata os companheiros, zomba da crença de Trinity no Predestinado e ameaça matar Neo.

Morfeu é torturado pelos agentes.

A necessidade de liberar o potencial criativo e incorporá-lo definitivamente à consciência. O indivíduo precisa assumir novas e importantes responsabilidades. É necessária a união dos opostos psíquicos.

Neo e Trinity voltam à Matrix, enfrentam soldados e resgatam Morfeu.

Neo decide lutar contra o agente Smith. Neo foge mas é encurralado e morto.

Mais fortalecido, o ego passa por novo ciclo de confrontos com o inconsciente. Crise. Novos aspectos do ser devem ser urgentemente reconhecidos. Após longo e difícil confronto, o ego enfim assimila os novos conteúdos. Velhos valores morrem. A consciência é ampliada e a psique se equilibra. O indivíduo emerge da crise renascido e ainda mais forte, autoconsciente, capaz e em harmonia consigo mesmo, com os outros e com o mundo ao redor. A diferenciação atinge o ponto culminante. O potencial criativo está inteiramente ativado. O avançado nível de autorrealização do indivíduo faz com que a sociedade reconheça e assimile sua experiência pessoal, incorporandoa aos valores coletivos e enriquecendo a cultura.

Trinity declara seu amor por Neo e ele ressuscita na Matrix. Neo detém as balas no ar e elimina o agente Smith. Neo volta à nave e impede sua destruição pelas sentinelas.

Os Predestinados alcançam o centro de controle da Matrix e se reinserem no sistema

SOBRE O AUTOR
Ricardo Kelmer nasceu em Fortaleza, em 1964. Mora atualmente na cidade de São Paulo. Cursou Letras e Comunicação Social, atuou em rádio e na produção de eventos, foi redator de publicidade e dono do bar Badauê na Praia de Iracema. Integrou as bandas Os The Breg Brothers e Intocáveis Putz Band. Como produtor cultural, atua no espetáculo Viniciarte - Vida, música e poesia de Vinicius de Moraes, de sua autoria, e produz a festa Cabaré Soçaite. Publicou seu primeiro livro em 1995. Também é roteirista, letrista musical e palestrante. Blog do Kelmer - blogdokelmer.wordpress.com

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LIVROS

O Irresistível Charme da Insanidade
(Romance - Editora Arte Paubrasil) Luca é um músico, obcecado pelo controle da vida, que se envolve com Isadora, uma viajante taoísta que afirma ser ele a reencarnação de seu mestre-amante do século 16. Ele inicia uma estranha aventura onde somem os limites entre sanidade e loucura, real e imaginário e, por fim, descobre que para merecer a mulher que ama, terá antes de saber quem na verdade ele é. Nesta insólita história de amor, que acontece simultaneamente na Espanha quinhentista e no Brasil do século 21, os déjà-vu (sensação de já ter vivido certa situação) são portais do tempo através dos quais temos contato com nossas outras vidas. Blues, sexo e uísques duplos. Sonhos, experiências místicas e ordens secretas. Este romance exercita, numa história divertida e emocionante, intrigantes possibilidades da vida, do amor, do tempo e do que seja o "eu".

Vocês Terráqueas
Seduções e perdições do feminino (Contos/crônicas - Miragem Editorial) Nos contos e crônicas deste livro, Kelmer mistura humor e erotismo para celebrar o Feminino em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido... Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério... e inspiração.

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Guia do Escritor Independente
Como publicar seus livros e gerenciar a carreira literária As novas tecnologias possibilitam cada vez mais aos escritores a oportunidade de desenvolver suas carreiras sem necessariamente estarem ligados a alguma editora. Hoje é possível publicar, divulgar e vender os próprios livros usando-se a internet e outros meios alternativos, baratos e eficientes. Com sua experiência no mercado editorial oficial e alternativo, o autor resume neste livro as idéias que divulga em suas palestras e oficinas, mostrando que os novos autores podem gerenciar a própria carreira independente, publicando e vendendo seus livros, conquistando seu público leitor e realizando, assim, o velho sonho de ser escritor.

Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
(Contos) O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

Matrix e o Despertar do Herói
A jornada mítica de autorrealização em Matrix e em nossas vidas (Ensaio) Utilizando a mitologia e a psicologia do inconsciente numa linguagem simples e descontraída, Kelmer investiga o filme Matrix e nos oferece uma visão diferente da obra que revolucionou o cinema e é considerada um fenômeno cultural, lotando salas no mundo todo, conquistando admiradores e instigando intensas discussões por onde passa. Neste livro vemos que Matrix é uma reedição moderna do antigo mito da jornada do herói e sua história nos fala, metaforicamente, do processo de autorrealização do ser humano, com suas crises que levam ao despertar, o autoconhecer-se, os conflitos internos, a relação com o inconsciente, a autossabotagem, a experiência do amor, a morte e o renascer. Nós podemos ser bem mais que meras peças autômatas de uma engrenagem, dirigidos pelas circunstâncias, sem consciência do processo que vivemos. Em vez disso, podemos seguir os passos de Neo e todos os heróis míticos: despertarmos, assumirmos nosso destino e nos tornarmos, finalmente, os grandes heróis de nossas próprias vidas.

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Baseado Nisso
Liberando o bom humor da maconha (Contos/glossário) Os pais que decidem fumar um com o filho, ETs preocupados com a maconha terráquea, a loja que vende as mais loucas ideias... Nesses contos estão reunidos aspectos engraçados e pitorescos do universo dos usuários de maconha, a planta mais polêmica do planeta. Inclui glossário de termos e expressões canábicos. O Ministério da Saúde adverte: o consumo excessivo deste livro após o almoço dá um bode desgraçado.

Blues da Vida Crônica
(Crônicas) Sociedade, relacionamentos, arte, internet, drogas, futebol, política, misticismo, Natureza, erotismo, mulher... O velho olhar kelmérico, agudo e bem-humorado, está de volta nesta seleção de 46 crônicas, boa parte publicada em sua coluna de jornal. Elas compõem o melhor da produção de crônicas do autor entre 2003 e 2006.

A Arte Zen de Tanger Caranguejos
(Crônicas) Em sua maior parte publicados em jornais, revistas e sites na Internet, as crônicas e artigos deste livro trazem o sagrado e o profano tão típicos do estilo de Ricardo Kelmer. Feito caranguejos tangidos na mesma direção, aqui estão reunidos os vários Ricardos: o cronista gozador, o observador irônico e debochado dos costumes, o ousado viajante dos mistérios e também o pensador inquieto a desenrolar o novelo infinito das possibilidades filosóficas e existenciais.

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PALESTRAS
para colégios, faculdades e empresas

O DESPERTAR DO HERÓI A jornada sagrada de autorrealização nos mitos, no cinema e em nossas vidas RK fala de Mitologia, Psicologia, Autoconhecimento e Realização Pessoal em linguagem simples e descontraída para mostrar que o mito da Jornada do Herói, presente nas histórias de tantas culturas, é uma metáfora do processo de autorrealização, a jornada individual de todos nós rumo à nossa essência mais verdadeira e profunda. Podemos ver esse mito em lendas, livros e filmes, como se fosse um precioso segredo – que muitos infelizmente esquecem e assim se perdem de sua essência mais legítima. Assim como os heróis dos mitos e do cinema, cada um de nós está predestinado a se realizar verdadeiramente e, com isso, tornar-se o grande Herói de sua própria vida. Mas antes é preciso, como o herói de Matrix, despertar, distinguir-se da massa, conhecer-se e assumir a tarefa que dará sentido à existência. FILME DE APOIO: Matrix Esta palestra é um resumo do livro "Matrix e o despertar do herói".

ESCRITOR DO SÉCULO 21 Livros e mercado literário na era da internet Para pessoas interessadas em publicar seus livros ou para aqueles que desejam seguir a carreira literária. RK mostra sua experiência de 20 anos com jornais, revistas, sites e blogs, com as editoras que teve e como autor independente. O objetivo não é ensinar a escrever mas mostrar como é o ofício de escritor e que é possível ao autor, mesmo sem ter uma editora, publicar seus livros e conquistar seu próprio público. ASSUNTOS: Vantagens e dificuldades da carreira - Mercado editorial oficial e alternativo - Alternativas de trabalho - Gráfica tradicional e gráfica rápida, custos, tiragens - Apoios e patrocínios - Divulgação, distribuição e venda - Internet como ferramenta de venda, divulgação e contato com leitores. Esta palestra é um resumo do livro Guia do Escritor Independente. Este tema também pode ser desenvolvido em forma de oficina.

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