Crónica Nº 68 – Retalhos VIII

Por Henrique de Almeida Cayolla Hoje teremos aqui dois textos alusivos a: tipo de respostas que se “esticam” demasiado, e aos pontapés na gramática que gente famosa continua a dar.

1 - “Eu perguntei as horas…”
…. NÃO PEDI PARA ME EXPLICAR COMO É FEITO O RELÓGIO! Esquisito o título, não é? E logo a seguir, também a frase que o complementa! Com esta introdução, pretende-se chamar a atenção e trazer aqui para reflexão, uma situação que surge com muita frequência, em qualquer contacto profissional ou não. Há pessoas que têm uma tendência manifesta para se desviarem do assunto principal, quando lhes é feita uma pergunta, ou também, para se alongarem em demasia, na resposta. Quando colocamos uma questão concreta será desejável que a resposta seja objectiva, directa e esclarecedora, e não que o nosso interlocutor vá divagar por matérias que, muitas vezes, pouco terão a ver com a resposta que queremos ou precisamos de obter. Está a fazer-nos perder tempo! Mas deveremos saber “ vermo-nos ao espelho”pois o mesmo será verdadeiro em sentido contrário, isto é, quando nos fazem uma pergunta, e nós não respondemos directamente, começando a vaguear, e a filosofar sobre o tema, estaremos a cair no mesmo erro que não gostamos que os outros façam. Há muita gente que tem um vício de verborreia, ou até mesmo, numa linguagem mais rude, de autêntica “ diarreia mental”, despejando uma caterva de informações que não nos interessam. Se formos nós a cometer o erro, é desagradável sujeitarmo-nos a sermos chamados à atenção pelo nosso interlocutor, e se o erro é da outra parte, também é desagradável termos que atalhar a conversa. Tenha-se pois presente, que perguntar, é uma coisa, e conversar, é outra.

2 – Livro de Lauro Portugal “ Gente famosa continua a dar pontapés na gramática”.
De entre as muitas apreciações feitas no lançamento deste livro em 2004, refiro a do Jornal de Letras, que passo a citar: “…este livro é, antes de mais, um manual da língua portuguesa…” De facto assim é, pelo que depois de em tempos o ter comprado, tenho-o sempre à mão para evitar cometer erros, ou melhor, para não dar pontapés na gramática.

É um autêntico «Manual de erros e correcções de linguagem», no qual o estudioso da Língua Portuguesa e defensor do correcto falar e escrever, Lauro Portugal, teve um trabalho insano, pois não só mostra o que está mal, e localiza no tempo e no espaço, como também apresenta logo a correcção, devidamente explicada e justificada. Vale a pena adquirir este livro, e igualmente outro que o antecedeu, com um título muito parecido “ Gente famosa também dá pontapés na gramática”. Não recebi sermão de quem quer que seja para o que vou dizer a seguir, mas, de facto, tratam-se de duas preciosas aquisições, que nos ajudam a lidar melhor com a nossa língua, a aumentar a nossa cultura, e até uns manuais de boa disposição, pois não conseguimos, durante a consulta dos mesmos, deixar de rir a bom rir, com tanta ignorância e com tantos chorrilhos de disparates. De algumas passagens contidas no livro referido em título, vou extrair dois exemplos, para espicaçar os leitores, para consultarem o dito livro. A IMPORTÂNCIA DE UM SINALZINHO – – Na página 35, a certa altura lê-se:” O desleixo da não dar vida aos sinais de pontuação, ou a premeditada ausência deles, transforma o texto num desencorajador emaranhado de ideias. Vejam do que são capazes uns simples sinais numa frase: D. Genoveva, de cuja fortuna alguém jamais beneficiara, ela inclusivé, milagrosamente foi acometida por uma réstia de contrição e bondade, momentos antes de entrar no mundo onde não se amealha dinheiro, e escreveu: A riqueza que deixo é para a minha prima não é para o meu afilhado nem pensar para os meus cunhados sem dúvida nunca deve ser para a minha criada. Como a falta de clareza gera discórdia, foi no tribunal que os presumíveis herdeiros tentaram fazer valer as suas razões. A PRIMA não teve dúvidas quanto à pontuação:” A riqueza que deixo é para a minha prima, não é para o meu afilhado. Nem pensar para os meus cunhados. Sem dúvida, nunca deve ser para a minha criada. O AFILHADO pontuou da seguinte forma: “ A riqueza que deixo é para a minha prima? Não. É para o meu afilhado. Nem pensar para os meus cunhados. Sem dúvida, nunca deve ser para a minha criada”. Os CUNHADOS alteraram os pontos a seu jeito:” A riqueza que deixo é para a minha prima? Não. É para o meu afilhado? Nem pensar. Para os meus cunhados? Sem dúvida. Nunca deve ser para a minha criada”. Diferente ideia sobre como dispor os sinais de pontuação teve a CRIADA: “ A riqueza que deixo é para a minha prima? Não. É para o meu afilhado? Nem pensar. Para os meus cunhados? Sem dúvida, nunca. Deve ser para a minha criada”. DESTE EXº SE PODE INFERIR DA VALIA DOS MINÚSCULOS SINAIS GRÁFICOS NUMA ESCRITA. IMAGINE-SE, ENTÃO, O VALOR DOS DEMAIS ELEMENTOS! PARA REFLEXÃO – UMA FINALIDADE INTRÍNSECA AO OBJECTIVO PRIMORDIAL DESTA OBRA. MENTES “ BRILHANTES”. – Página 27. Segue-se o relato de cena verídica. O palco é uma escola de Lisboa, em plena época 2004/2005. Perante uma turma do 7º ano, a professora, depois de aturado esforço, consegue finalmente fazer-se ouvir:

- Houve um filósofo grego que disse: “ Só sei que nada sei”. Alguém me sabe explicar o sentido dessas palavras? Prossegue o falatório. Responde ninguém. – Só sei que nada sei – quase é obrigada a gritar a docente. - Calem-se e pensem um pouco. O que é que ele quereria dizer com isso? Contínuo burburinho. Até que, finalmente, um “iluminado” consegue fazer-se ouvir: Queria dizer que não sabia nada! E agora comenta o autor do livro: «As salas de aula abarrotam de mentes “brilhantes” como esta. Em que a iliteracia – incapacidade de entender um discurso ou uma leitura – é indestronável. Em que o esforço não tem qualquer lugar. Onde a busca, a pesquisa, o querer compreender não têm sentido. Não existe a mínima preocupação em exercitar o espírito. Partindo deste presente, o que nos reserva o futuro? Futuro que não está assim tão distante, é já ali ao virar da esquina! Se estes alunos chegarem a concluir um curso, como serão as empresas, as escolas, as instituições de que serão parte integrante, as bancadas dos que governam o país?» REPARE-SE QUANDO ESTE COMENTÁRIO FOI EFECTUADO, EM 2004! E OITO ANOS VOLVIDOS, TUDO FOI PIORANDO! POBRE SINA A NOSSA!

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