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03/11/12

Integração Terapêutica e Terapia Comportamental

Integração Terapêutica e Terapia Comportamental
Autora: Maria Ester Rodrigues A literatura em clínica psicológica relata algumas tentativas de aproximação entre diferentes abordagens teóricas, na criação de uma prática clínica que contenha elementos comuns. Tais tentativas estão ligadas a um movimento denominado Integração Terapêutica. Esse tema é bastante controvertido e apresenta de um lado, defensores dedicados e de outro, críticos severos. Para Goldfried (1982), a esperança de encontrar um modo de integrar várias abordagens de psicoterapia, data dos anos 30. Uma das primeiras tentativas encontradas na revisão de literatura realizada por Goldfried, foi a discussão de French na Reunião da Associação Americana de Psiquiatria em 1932, sobre a similaridade do conceito psicanalítico de repressão e os conceitos Pavlovianos de extinção e inibição. Goldfried prossegue citando vários autores que compararam, desde então, até o final da década de sessenta, terapia comportamental e terapias psicodinâmicas, verificando seus antecedentes históricos, bases teóricas e procedimentos práticos. O conceito de ecletismo técnico foi introduzido em 1967 por Lazarus, que afirmou ser possível usar técnicas vindas de diferentes sistemas terapêuticos sem aceitar, necessariamente, as bases teóricas associadas a estes métodos, atendendo a critérios de utilidade baseados em terreno empírico e não teórico. Nos anos 70, florescem os relatos de casos clínicos ilustrando uma potencial integração entre terapia comportamental e teoria psicodinâmica. A diferença entre terapias dinâmicas e comportamentais representariam simplesmente diferentes técnicas, com suas diferenças baseadas em parte por seus objetivos e em parte sobre seus pressupostos sobre a natureza da psicopatologia. Proliferam as integrações entre procedimentos comportamentais e orientados por Insight. Como exemplo, Helen Kaplan e seu livro A Nova Terapia do Sexo, com edição original em 1974. O livro foi traçado como uma abordagem psicodinâmica de terapia, podendo ser integrada com métodos baseados em comportamento ou performance. Outro exemplo de integração foi a publicação de Lazarus em 1976, do livro Terapia Multimodal do Comportamento, que estendeu o espectro de comportamentos a serem considerados pela terapia comportamental, como afetos, sensações, imagens, cognições, relacionamentos interpessoais e estados fisiológicos. Nesse momento de intercâmbio entre conceitos teóricos e tecnologia, surgem reações como a citada por Goldfried (1982), em que um trabalho com o título: Estão os Psicanalistas se tornando Terapeutas Cognitivos do Comportamento, ou os terapeutas comportamentais se tornando Psicanalistas?, foi apresentado em 1978 na Convenção da Associação Americana de Terapia Comportamental. Nos anos 80, os clínicos apresentam uma tendência crescente a olharem em direção a fatores comuns a todas as escolas de pensamento, bem como a incorporar procedimentos vindos de outras orientações terapêuticas. Na Terapia Comportamental, teóricos como Bandura e Meichenbaun, desenvolveram técnicas e conceitos cognitivos que foram amplamente incorporados à área. Dentro da literatura da área, além da aproximação entre diversas abordagens teóricas, houveram também discussões sobre a possibilidade de criação de uma linguagem comum, aliando-se a isso um certo ecletismo na aplicação de técnicas (e por vezes de conceitos teóricos) provenientes de várias teorias. Partindo do pressuposto de que os processos terapêuticos em geral, incluem a aquisição, extinção e/ou modificação de comportamentos (públicos e privados), é possível que um teste empírico possa verificar processos básicos de comportamento em ação; o que mudaria nas diferentes abordagens seriam as interpretações sobre o ocorrido. É possível que as ações dos terapeutas carreguem portanto, princípios semelhantes, pouco observados e descritos pelos mesmos. O ecletismo em Psicoterapia, ou mesmo termos como integracionismo ou convergência terapêutica, são percebidos como adesão a uma abordagem não sistemática e caótica. Segundo Woolfolk (1992), a integração psicoterapêutica é um complexo movimento que têm múltiplas causas. Para ele, iintegracionismo e ecletismo seriam uma espécie de
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As muitas críticas a tal proliferação e tentativas de integração são descritas pelos autores como insultos pueris baseados em rivalidade. afirma que o terapeuta www. não são de natureza diferente dos demais.Integração implicaria em alguma forma de integração teórica ou conceitual. Esse relativismo tende a promover pluralismo teórico e metodológico. envolve uma grande dificuldade de avaliação. o que um terapeuta eclético realmente faz. A simples combinação ou integração de técnicas e abordagens psicodinâmicas. sistemas ou estilos.htm 2/5 . pressupostos e conceitos. talvez. Wolfe e Goldfried (1988).com/artpsico50. Beitman. Goldfried e Norcross (1989). ainda que encobertos. não podemos afirmar que afetos e cognições não possam também ser considerados comportamentos. De fato existem diferenças entre pressupostos e até em objetivos de terapias comportamentais e psicodinâmicas. humanísticas ou quaisquer outras. ou seja. a literatura aponta para a não utilização do referencial Behaviorista Radical. embora os comportamentos possam ser. Existem. mas que o primeiro se refere mais ao ecletismo técnico. 1989). baseada no uso não sitemático de estrátegias supostamente eficazes independente de suas origens teóricas. inúmeras barreiras para uma integração teórica entre psicoterapias. Goldfried e Norcross. organizações e conferências.03/11/12 Integração Terapêutica e Terapia Comportamental ecumenismo terapêutico que floresceu no relativismo do corrente Zeitgeist. afirmam que há uma tendência crescente entre psicoterapeutas em ignorar as barreiras ideológicas que dividem as escolas de psicoterapia e em definir o que elas têm em comum e o que pode ser útil em cada uma delas. No entanto. visões de mundo. O mesmo acontece com terapeutas estritamente ligados a uma identidade teórica e competindo por um melhor conjunto de regras (entre eles. 1986 (apud Beitman. Entre as barreiras para a consecução de tal empreendimento. melhor operacionalizados. em terapias psicodinâmicas. mas dentro de um referencial de Behaviorismo Radical. tal definição não nos diz.prof ala. como um dos principais fatores relacionados à tendência ao integracionismo entre esses terapeutas. O estado atual da arte na clínica. não nos esclarece sobre quais seriam as variáveis comuns à maior parte das psicoterapias e mais ainda. Existem inúmeras maneiras de correlacionar o observado com possíveis interpretações dentro de infinitos contextos. Beitman. para escolher o que há de melhor em diversas fontes. está justamente a barreira da(s) linguagem(gens). antipatias mútuas e descrédito. Como exemplo de integrações terapêuticas bem sucedidas. sobre os procedimentos utilizados. não associado a nenhuma escola particular e não detalhada na literatura. Duas organizações interdisciplinares e supostamente não ideológicas também surgiram: Society for the exploration of Psychotherapy Integration e o International Academy of Ecletic Psychotherapists. da ciência e filosofia. também os terapeutas ecléticos e integracionistas). Tal abertura para contribuições de diversas fontes têm florescido em publicações. promoveriam a interação entre aspectos como Cognição. Apesar disso teria surgido uma espécie de underground terapêutico. Ecletismo é frequentemente visto como sinônimo de visão aberta e percepção não seletiva. como padrões de ação do paciente na terapia comportamental e aspectos afetivos. Branch (1987). contou mais de 400 escolas de psicoterapia. no entanto. Karasu. No caso específico da terapia comportamental. uma revista internacional e muitos artigos devotados ao tema apareceram na década de 80. por ser tão variável. ao invés de enfatizarem diferentes aspectos do funcionamento do paciente. Essa questão é extensamente analisada na história do conhecimento. Esse exemplo apresenta algumas implicações que contém a problemática que sustenta as principais críticas ao movimento integracionista: a confusão teórico-epistemológica. Permanece a dúvida sobre o que realmente fazem. Existem duas possíveis limitações para uma abordagem eclética: não representa uma única e operacionalizada abordagem (pode designar qualquer combinação de procedimentos) e consequentemente. mostra que o movimento ecumênico em psicoterapia pode trazer mais dúvidas do que soluções. o uso de procedimentos potencialmente eficazes provenientes de diferentes abordagens. Goldfried e Norcross (1989). Afetos e Comportamento. comportamentais. relatam que os termos ecletismo e integração têm sido usados como sinônimos. citam os procedimentos teórico-técnicos que.

Para Addis (1993). a necessidade de assumir uma posição teórica não se resume a produzir conforto intelectual. mas também a saber porque as técnicas utilizadas podem ser efetivas. as pesquisas dos behavioristas radicais falharam em fornecer termos úteis para clínicos sobre formulações mais sofisticadas dos processos operantes.htm 3/5 . pode ter gerado uma busca de respostas advindas de outras fontes. Autores como Kohlenberg & Tsai e Jacobson. teriam forte simpatia com o Behaviorismo e a teoria da aprendizagem. No entanto. quando as teorias e tratamentos cognitivos ganharam espaço no campo da Terapia Comportamental. Essa "pseudo integração" resultou em divisões e debates. Diferencia portanto. Krasner & Houts.com/artpsico50. Coloca ainda que. uma história de desencaminhamento conceitual.03/11/12 Integração Terapêutica e Terapia Comportamental comportamental é frequentemente descrito pelos demais ou por si próprio como "eclético" em orientação. principalmente os envolvidos em linguagem e pensamento. nem o condicionamento clássico e nem o operante estavam suficientemente avançados e desenvolvidos no final dos anos 70. o Behaviorismo radical tem um grande poder explicativo sobre o comportamento humano. por vezes parece pouco clara e varia de acordo com o tipo de terapia comportamental. Tal questão é extensamente analisada por Hayes e Hayes (1992) que discutem a existência de duas maneiras de interpretação para o Behaviorismo Radical. Plaud & Vogeltanz www. A adesão a uma teoria epistemológica em particular não é. a sua posição sobre a questão. a menos que seja por uma opção estética/afetiva ou por mera comodidade linguística. entre pesquisa básica e pesquisa aplicada. em comparação com psicólogos comportamentais. A posição teórica frequentemente apontada como base para a terapia comportamental é a Análise Experimental do Comportamento. as contribuições teóricas e tecnológicas sobre comportamento humano complexo. uma mudança de paradigma. a relação entre o Behaviorismo e terapia comportamental. Em 1989. aponta para o fato de muitos terapeutas comportamentais não considerarem como comportamentos os encobertos. Não houve. Seus desenvolvimentos recentes são complexos e abarcam aspectos extremamente relevantes para a compreensão das mais sofisticadas formas de comportamento. O conhecimento de seus fundamentos torna desnecessária a divisão de comportamentos entre subjetivos (cognitivos) e objetivos. tendendo a advogar uma epistemologia mais naturalística. pensamentos e sentimentos. escreveu um artigo intitulado: O descarrilhamento da terapia comportamental. produzidas pelo Behaviorismo Radical. o ecletismo técnico do ecletismo teórico. definidas respectivamente como mecanicista e contextual. apud O’Donohue&Smith (1992). em consequência. O comportamento humano é influenciado por processos simbólicos e verbais não suficientemente explorados na época. citados por Hayes & Hayes (1992). Para suprir a lacuna adotou-se a vaga noção sobre o "controle cognitivo" de emoções e comportamento. É possível que a perda de conexão entre Terapia Comportamental e pesquisa básica tenha ocorrido porque os primeiros modelos de condicionamento eram limitados para a prática clínica. rivalizado apenas pela teoria psicanalítica. havendo também um compasso de espera entre os avanços da teoria behaviorista e as urgências de aplicação de soluções na prática clínica. 1993). A questão da integração teórica entre terapia comportamental e cognitivismo é analisada entre outros. Os terapeutas comportamentais seriam relativamente empiricistas em sua epistemologia.prof ala. Os autores acreditam que os desenvolvimentos da Terapia Comportamental foram mais acelerados que o desenvolvimento filosófico do Behaviorismo. mas talvez uma espécie de empréstimo teórico. além de recorrerem a construtos mentalistas explicativos para comportamento encoberto ou privado. no sentido de não ter uma posição teórica em particular. portanto. portanto. e aplica ambas as análises ao problema da cognição. Bry (1991). Para Eifert. Forsyth e Schauss (1993). frequentemente associado a problemas vários. Não utilizam portanto. crenças. embasada conceitualmente pelo Behaviorismo Radical. a saber. no aguardo de uma base teórica mais satisfatória O descompasso entre o tempo de construção e desenvolvimento da filosofia Behaviorista Radical e a urgência na resolução de problemas clínicos por terapeutas comportamentais. característica definidora da terapia comportamental. por Wolpe (1989. deixando já impressa no título do trabalho. pesquisaram essa questão e encontraram dados que endossam a afirmação de que Terapeutas Comportamentais concordam com mais ítens anti-racionalistas do que com anti-empíricos.

prof ala. Behavior Analysis: a Conceptual and Empirical base for Behavior Therapy. Journal of Behavior Therapy & Experimental Psychiatry. n. Norcross. Aprendendo nas Trincheiras: A prespectiva de um estudante sobre o debate Cognitivo versus Radical.14. and Schauss.03/11/12 Integração Terapêutica e Terapia Comportamental (1993). (Tradução da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental). Joseph J. www.Revisão: Dra. 1991. Nancy D. & Hayes. com referência à sua aplicação na solução de problemas clínicos. 1992. resta a dúvida sobre as nossas ações. p. no IV Encontro Paranaense de Psicologia. Behavior Therapy. Esses breves comentários mostram que evidentemente.. Arnold. v. n. Philosophical and Psychological Epistemologies in Behaviorism and Behavior Therapy. Brenna H. p.. v. Georg H. n. Marvin R. The Behavior Therapist.9-10. as nossas visões e interpretações da realidade não são independentes do paradigma que escolhemos. p. John C. p. John P. A Nova Terapia do Sexo. O que fazem efetivamente. Linda J. R. Meyer (1990). Goldfried.B.: Manole. Helen.101-105. Plaud.138-147. 24. Marvin R. Kaplan. Michael E. Unifying the Field: Developing an Integrative Paradigm for Behavior Therapy. Hayes. 107-118. and Vogeltanz.2. Form Behavior Theory to Behavior Therapy: The Contributions of Behavioral Theories and Research to the advancement of Behavior Therapy. 173-194.79-84. (Tradução da Associação Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental). Some Clinical Implications of Contextualistic Behaviorism: The Example of Cognition. Eifert & Plaud (1993).. 1993. p.htm 4/5 . S. 4. 1977 Lazarus. n. Behavior Therapy.225-249. American Journal of Psychiatry. 146. 572-593. p. 1992. 1993. têm considerado o valor do Behaviorismo Radical e da Análise Experimental do Comportamento como um conjunto de pressupostos ordenador do desenvolvimento da Terapia Comportamental. de 22 a 25 de Agosto de 1990. n. 1982. 23. Scott L. p. Behavior Therapy and the Experimental Analysis of Behavior: Contributions of the Science of Human Behavior and Radical Behavioral Philosophy. Laurence D. On the History of Therapeutic Integration. Branch (1987) entre outros. Bry.2.com/artpsico50.: Nova Fronteira. Skinner para Terapeutas Comportamentais. p. The Movement Toward Integrating the Psychotherapies: An Overview. The Behavior Therapist. 16.P. v. Journal of Behavior Therapy & Experimental Psychiatry. Joseph J. 1993. (Tradução Experimental: Veronica Bender Haydu .1. Terapia Multimodal do Comportamento. 24. Steven C. Branch. Eifert. Journal of Behavior Therapy & Experimental Psychiatry. p. 119-127.2. 23. The Behavior Therapist. Bernard D. Forsyth. psicoterapeutas? Existem diferenças entre ações observáveis de psicoterapeutas de abordagens diferenciadas? As diferenças são apenas teóricas? São indagações que temos feito ao longo de nossa trajetória e que somente a observação empírica poderá responder.F. and Plaud. Eifert. n. 1987. p. Sônia B. v. v. Behavior Therapy. Georg H. v. 55-56. v.13. Goldfried. 1989.2.2. Elsa Mendes Pessoa Pullin). sem ser necessário recorrer a outras teorias que suplantem as supostas deficiências do cenário teórico e filosófico do Behaviorismo nos anos 70. Beitman. William and Smith. Marc N. 1980 Meyer. Quais os requisitos para que uam terapia seja considerada Comportamental? Mesa Redonda: "Tópicos Avançados em Terapia Comportamental". 24. (Texto Não Pulicado) O’Donohue. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Addis.J.

Marvin R.448-451. 1993. Joseph. 1989 Woolfolk. The Derailment of ehavior Therapy: A Tale of Conceptual Misdirection.com/artpsico50. Joseph.3-15. realizada na Universidade Federal do Paraná. Hermeneutics. n.03/11/12 Integração Terapêutica e Terapia Comportamental 1993. 56. Journal of Behavior Therapy & Experimental Psychiatry. p.prof ala.htm 5/5 . n. v. Maria Ester é Professora da Unioeste .Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Wolpe.3. Imprimir o Artigo www. Wolpe. Commentary: The Cognitivist Oversell and Comments on Symposium Contributions.141147. Robert L. 213-223. 1992. Social Constructionism and Other Items of Intellectual Fashion: Intimations for Clinical Science. & Goldfried. 1988. Behavior Therapy. Barry E. Wolfe. n.24. 20. Journal of Consulting and Clinical Psychology.Modalidade Behaviorismo. Artigo baseado em Monografia de Especialização em Psicologia Clínica . Research on Psychotherapy Integration: Recomendations and Conclusions from an NIMH Workshop. v. 23. p. v.1. p.2. Journal of Behavior Therapy & Experimental Psychiatry.