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Numa noite de setembro...

Shadows on Bali

Karen Van der Zee

Conseguiriam vencer a distância que havia entre eles? "Você me ama demais, me sufoca!", Nick havia dito a Meggy, antes de abandoná-la. Aquelas palavras a feriram e lhe martelaram a mente durante dias, meses... a ponto de ela achar que não suportaria a dor. Com o passar do tempo conseguira se refazer, só não esperava reencontrá-lo. Mas era inevitável. Tinham os mesmos amigos, freqüentavam os mesmos ambientes... e agora via-o a poucos metros, acompanhado por uma linda morena. Meggy pensou em fugir dali, mas mudou de idéia. Iria enfrentar o desafio e dar uma boa lição a Nick!

Digitalização Joyce Revisão: Crysty CAPÍTULO I

"È bom demais para ser verdade", pensou Meggy ao terminar de ler os papéis espalhados sobre a mesa. Um trabalho maravilhoso, um projeto maravilhoso, um lugar maravilhoso. Quem não gostaria de passar dois anos em Bali? Era uma ilha paradisíaca, e o cargo parecia criado especialmente para ela. Sim, devia haver algo errado, concluiu preocupada, juntando as folhas para ler pela segunda vez: "Bali — Projeto de Casas Populares". A idéia do projeto, a descrição... tudo tinha um toque familiar, mas ela não conseguira ainda definir o quê. Bem, o mais importante é que significava uma oportunidade maravilhosa para sua carreira. E não iria perdê-la por nada desse mundo. Claro que teria uma responsabilidade enorme — afinal caberia a ela pesquisar o modo de vida da região, o tipo de casa que mais agradaria à população, escolher a área ideal, além de orientar os engenheiros. Mas sabia que poderia assumir tudo isso. Já enfrentara projetos difíceis em lugares pouco favoráveis, com ótimos resultados. Agora, surgia essa chance incrível de ser consultora numa obra internacional. Ela bem que merecia, concluiu olhando para o relógio e levando um susto. Nossa! Oito e dez! Levantou-se correndo e seguiu para o quarto, tirando a roupa para tomar banho. Por um instante teve vontade de desistir da festa e ficar em casa. Mas havia trabalhado como louca a semana inteira e sair agora só lhe faria bem. Quarenta minutos mais tarde estava pronta. Olhou para o espelho e ficou satisfeita com o que viu: a roupa lhe caia com perfeição e o cabelo castanho cortado curto emoldurava o rosto de olhos castanho-escuros, que brilhavam de excitação diante da perspectiva do novo trabalho. Corina, a dona da casa, veio recebê-la com entusiasmo. Havia gente por toda parte, conversando animadamente. — Pegue uma bebida — disse a amiga. — Há um bufe na sala de jantar, sirva-se à vontade. — Obrigada — disse Meggy com sinceridade. Só agora percebia que esquecera de jantar. Entrou no living, na esperança de encontrar alguém conhecido. Seus olhos percorreram aquele amontoado de estranhos que vestiam desde jeans desbotados até lamê dourado. "As festas mudaram muito", pensou, olhando em volta, divertida. Até que subitamente o seu coração pareceu parar. Do outro lado da sala um homem a fixava com seus inconfundíveis olhos azuis. O rosto era o mesmo: másculo, de traços um pouco rudes, mas harmoniosos. Seu olhar penetrante continuava a encará-la, enquanto Meggy sentia o sangue gelar. Meu Deus, suas pernas pareciam incapazes de dar um passo!

Afinal, encontrara um rosto conhecido, pensou com ironia. Mais conhecido do que qualquer outro. Só que era o único que não desejava ver. Nick. Nick Donovan. Ele não mudara nada. Alto, ombros largos, cabelos negros um pouco rebeldes, pele bronzeada, o mesmo queixo quadrado que lhe dava um ar agressivo. Bem, um dia isso iria acontecer. Meggy sabia, e várias vezes se preparara mentalmente para esse momento. Mas agora, a única coisa que conseguia sentir era pânico. Fez um grande esforço, virou-se e voltou para o hall. — Com licença — murmurou entre as pessoas, seguindo para o banheiro. Trancou a porta, encostando-se nela, trêmula. Nick estava ali! Não o via há dois anos. Os dois anos mais terríveis da sua vida. Não sabia que voltara para Washington. A última vez que tivera notícias dele, estava na Tailândia. Foi até a pia, abriu a torneira e deixou a água fria cair sobre suas mãos e pulsos. Finalmente chegara o momento. Era inevitável, estavam destinados a encontrar-se novamente, algum dia, em algum lugar, pois freqüentavam os mesmos ambientes, tinham amigos em comum. Agora, teria que enfrentar a situação. Provar a si mesma e a ele que não significava mais nada para ela. Não, era melhor ir embora, pensou, imaginando que desculpa daria a Corina. Não conseguiria encarar Nick. Estava tremendo incontrolavelmente. Era uma covarde, isso sim! E se Nick tivesse voltado para ficar? O que faria? Ficaria trancada em casa para sempre? Nunca mais iria a uma festa de amigos? Nesse momento a idéia pareceu-lhe maravilhosa. Mas uma voz interior lhe dizia: vá e enfrente-o. Faça o que se prometeu: seja fria e indiferente, mostre que não morreu de coração partido, que está viva e muito bem. Decidida, respirou fundo, endireitou-se e saiu do banheiro. Nick agora estava logo ali no hall, conversando com uma mulher. Novamente o coração de Meggy começou a bater descontrolado. Será que havia percebido que ela se escondera no banheiro? "Calma", ordenou-se, observando a morena que o acompanhava. Ela usava um vestido moldando o corpo esguio e bem-feito e tinha um corpo bonito, olhos cinzentos e expressivos. Seria o novo amor de Nick? Sentiu como se uma faca a atingisse no peito. — Olá, Meggy. — A mão dele se estendia firme em sua direção. — Olá, Nick.

obrigada — respondeu calmamente. obrigada — conseguiu dizer. esta é Meggy Opperman. respondendo ao Nick prendeu a sua mão e observou-a. cheia de amargura. Então sua nova aparência o agradara. Meggy. Leslie Goodwin. — Eu soube que esteve por um ano na África. Leslie observou-a por alguns instantes e depois voltou-se para Nick. Se podia escolher essa roupa. Já Meggy não era a mesma. Nick encostou-se na parede. E você. pensou. dirigindo-se para a sala de jantar. voltaria para lá amanhã. — Preciso achar Richard. — Muita areia. sofisticado e moderno. — Já faz muito tempo. Muitas vezes imaginei como você estaria. Vestia calça cinza e um suéter de cashmere. se pudesse. Vejo você depois — falou. tornara-se mais forte. nisso não havia mudado. interior e exteriormente. com um sorriso nos lábios. então ele imaginou! Que preocupação tocante! Ela teve vontade de virar as costas e deixá-lo falando sozinho. nunca usava terno e gravata. Pelo visto. No Chad. Pareceu uma eternidade até que soltasse a sua mão. Talvez continuasse o mesmo em tudo. — Deixe-me apresentá-las — disse voltando-se para a mulher ao seu lado. Bem. não foi? — Sim. como foi de Tailândia? — Fascinante.— Como vai? — Estou cumprimento. a preocupação evaporar. decidida a não demonstrar tensão. O mesmo sorriso irresistível que sempre fazia sua raiva desaparecer. . — Meggy e eu trabalhamos na mesma empresa — explicou Nick. — Estou ótima. O seu cabelo agora era curto. Pelo menos era o que pensara até rever Nick. — Gostou? — Ele a olhava fixamente. menos vulnerável. O seu coração não era mais meigo e sentimental. — Leslie. Elas apertaram as mãos e sorriram educadamente. — Isso já faz muito tempo — acrescentou Meggy. que importância tinha isso? — Obrigada. bem. — Você está linda — disse ele. Ah.

Não sei por que você se envolve com esses tipos. Pegou o casaco rapidamente e saiu da festa sem se despedir de Corina. Ainda sentia as pernas trêmulas. Como era mesmo o nome dele? Donald? Agora esse insípido. O recheio é do outro mundo. — Acho que vou pegar algo para beber. Primeiro aquele sujeito do Departamento de Estado. — Jason é muito bom para mim.Meggy não tinha a intenção de continuar a conversa. — Ele está bem — disse seco. Laurie riu.. Que terrível mês de novembro! — O que pretende fazer no Dia de Ação de Graças? — Trabalhar e lavar as minhas roupas. deve haver alguém melhor do que Jason para você. Nick ficou tenso. — Você me convenceu. Quando Jason vai voltar? — Na próxima semana. obrigada — Meggy respondeu. olhando a chuva pela janela. Meggy. — Eu não aceitei o convite. o sorriso desaparecendo. — Ele é bobo — respondeu Laurie.. Meggy sentiu pena do velho que nunca perdoara o filho por não querer ficar com o negócio que ele construíra. — Fica só a duas horas daqui e minha mãe adora receber convidados! — Não. Pelo visto. alguém pediu licença para passar e ela aproveitou a chance para afastar-se. Já cumprira sua obrigação. — Estarei aí na segunda-feira às sete da noite — disse Laurie.. também irá. que está se formando em Medicina. Só queria arranjar uma boa desculpa para sair dali o mais depressa possível.. — Ele fora para Nova York para uma conferência. Perguntara como ele estava. Com o maior esforço. — Minha mãe prepara um peru incrível. Nesse instante.. e estava fora já há alguns dias. nada mudara no relacionamento entre os dois. . — O meu lindo irmão. Oh. Mal chegou ao apartamento o telefone tocou. — Como está seu pai? Imediatamente. se gostava da Tailândia e pedira notícias do pai. A torta de maçãs é a melhor da cidade.. Olhou à sua volta na esperança de encontrar alguém que a tirasse dali. lembrou Meggy. lembrando que sua mãe fora para a Califórnia passar o feriado com o filho. — Esqueça isso e vamos para casa de minha família — convidou a amiga. sorriu para ele. — Meggy? É Laurie.

.. — Pelo menos era um homem interessante! — Você quer me fazer um favor. da embaixada. O que há de errado com o amor. — Meggy! Eu não a entendo quando se trata de homens. — Por quê? — É um projeto para casas populares em Bali. Eu deveria ficar zangada com você.. mas. francês? — Canadense. — Ele era muito simpático. Phillip Durand... Mas o que há de novo? Não conversamos há séculos. — Uma esposa perfeita.. Laurie? — Já sei. e ainda não foi aprovado. — Simpático? O homem era tudo o que qualquer mulher sonha encontrar! — Acho que estava interessado demais. mas queria lhe pedir que não comentasse com ninguém. o que ele era. A amiga pareceu não ouvir. Laurie. Laurie fez uma pausa... mas só saíram algumas vezes e você não quis mais saber. Faz caldo de galinha quando estou doente. — ironizou a amiga.— Ele é gentil e cuida de mim. na vida amorosa. Leva a roupa ao tintureiro. Em tudo o que ela fazia havia entusiasmo. — Está bem.. e a paixão? Laurie gostava de se apaixonar. gesticulando muito. Só que não são para mim. — Isso mesmo. — Bali! Por que nunca me mandam para lugares como esse? . é melhor cuidar da minha vida.. Meggy suspirou. e Meggy podia imaginá-la do outro lado da linha: os cabelos ruivos em desalinho. — Não há nada de errado com essas coisas. — Estou pensando numa nova proposta. no trabalho. — Está insultando o meu homem. — Ele estava interessado em você. — Por que escolhe homens como Donald e Jason? Não faz sentido! E aquele rapaz alto que tinha sotaque.

Provavelmente nem precisaria falar com ele. — Perfeito. . Fez um esforço para se controlar. — Ou melhor. Meggy mordeu o lábio. Sabe quem é. Ela pigarreou. — Pode ser às duas horas? — perguntou a secretária. despedindo-se depressa. Por um momento não conseguiu respirar. Claro que muitas vezes ouvira falar dele. justamente a que devia mencionar o nome do autor. nem mesmo Nick Donovan. tentou se convencer. O projeto não era muito importante. Ficara dois anos sem ver Nick. Porém.. Como não reconhecera na hora? Foi até a mesa e examinou as folhas com atenção. — Sim. incluindo a Tailândia. Ele que fosse para o inferno! Não ia se importar. esqueci algo no fogo. Bem. — Por quê? — Na verdade. Na segunda-feira logo cedo ligou para a diretoria. conheço a pessoa que fez o projeto. Faltava uma página. Se importa se continuarmos a conversa na viagem? — disse. — Tenho certeza de que dará. Isso não a surpreendia. queria aquele trabalho. Precisava marcar uma entrevista para discutir o projeto. — Ah. havia pouca coisa que a amiga não soubesse. conheço o projeto — explicou Laurie. Encolheu os ombros. sei quem é. Ninguém. também não sei se vai dar certo. iria impedi-la de aceitá-lo..Meggy riu. não foi fácil pegar no sono. não? O coração de Meggy disparou. — Porque sabem que você nunca voltaria. Com quem devo falar? — Nick Donovan. Trabalhavam na mesma empresa. — Sua voz soou estranha. a Consultoria de Engenharia Americana. principalmente quando se tratava do Extremo Oriente. Trabalhando no Departamento de Obras no Exterior. Sabia que ele passara um ano no Paquistão e viajara por muitos países do Extremo Oriente. Nick Donovan. e alguém com a experiência e a posição de Nick não trataria pessoalmente do assunto. Então era isso! Não achara algo familiar no projeto? Nick tinha um estilo muito pessoal. Bem que ela achara tudo bom demais para ser verdade.

Nick percebeu a sua presença e por um segundo a encarou. Como ela gostaria que seu coração não disparasse. — Olá. afastando-os da testa. Ficara a manhã inteira imaginando . Mas não. pensou Meggy. os olhos azuis fuzilando o homem à sua frente.— Obrigada. Talvez devesse desistir de tudo. procurando se acalmar. Donovan está à sua espera — informou a recepcionista. sentando-se também. ele ainda a perturbava demais. Ele sempre sabia o que queria e como consegui-lo. Meggy podia vê-lo: o cabelo escuro caindo na testa.. Imagine! Nick nunca se sentia embaraçado. voltou a olhar para o homem à sua frente. Meggy andou devagar e ao se aproximar viu que a porta estava aberta. Uma delas era de Nick. decidida. fria. visivelmente irritado. interrompendo o que dizia. Isso não vai dar certo. por favor. — Minha decisão é definitiva. Assim que o homem saiu. Como uma profissional. Nesse instante. Será que Nick sabia que iria falar com ela? Era impossível que não soubesse o nome das pessoas que tinham sido indicadas para o projeto. — Sente-se. — A sala dele fica no fim do hall. Passou a mão pelos cabelos. Afinal. E agora. Três minutos antes das duas. Ele nunca a vira vestida daquela forma. De onde estava. Nick fazia parte do passado. terceira porta à esquerda.. Está fazendo o gênero homem de negócios. ela usava roupas bem mais simples e menos elegantes. olhando-a de alto a baixo com aprovação. Só havia um modo de resolver o assunto. — E tornou a repetir: — Não quero o meu nome ligado a esse projeto. ela chegava elegantíssima no andar da diretoria. Levantou a cabeça e olhou-a de maneira indiferente. num gesto estranhamente familiar. Talvez ele também esteja embaraçado. Meggy — disse calmamente. tenho uma entrevista. pensou ela. — Fez um sinal para Meggy. Quantas vezes o vira fazer isso? Por um instante Nick ficou olhando para os papéis à sua frente. — Indicou uma cadeira para ela. Claro que devia saber. Mas a verdade é que mesmo após dois anos e meio de separação. uma mulher de negócios saída das páginas de uma revista. — Desligou o aparelho e ficou parada. queira me desculpar. — Eu não quero. Nick fechou a porta. por favor. — O sr. Ia entrar quando ouviu vozes. Depois do breve silêncio. Quando se conheceram. — Entre.

mas não há explicação sobre o modelo das construções nem sobre as plantas. — Ela alugara uma moto e visitara a ilha. tem estado muito ocupada nestes últimos dois anos. Até que finalmente conseguira controlar-se. O que pouca gente sabia é que também gostava de ser brincalhão e alegre. um mapa-múndi. Um computador sobre uma mesa num canto. — Obrigada — disse com voz calma. num quarto de hotel em Sierra Leone. Temos que pensar nos outros aspectos também. Oh. no chão. um ano no Chad. — Já esteve em Bali? — Só de passagem. — O seu currículo está ótimo. Uma noite. Estive uma semana em Denpaar com uma amiga. — Conte-me sobre sua experiência no Chad. vários trabalhos no Caribe. e não suportava incompetência. o que achou? — Eu gosto da idéia. decidida a manter ó tom frio e profissional. Havia livros e papéis por toda a parte. ela chegara a desmaiar. era exigente e eficiente. mesas. Felizmente. apaixonando-se por ela. sozinha. Colaborei o mais que pude e fiquei cada vez mais envolvida. prateleiras. um mapa da África. em pastas. Chorara e se desesperara durante dias e noites que pareciam não ter fim. Numa das paredes. muito consciente do olhar intenso de Nick. Ele concordou. Aceitou um contrato para trabalhar no Chad e foi em frente. — Na realidade. — Meggy continuou explicando. A sua personalidade tinha múltiplas facetas. ele estava satisfeito? O que esperava? O trabalho fora a única coisa que lhe restara. Ela olhou em volta.como ele iria tratá-la nesse encontro. a oportunidade surgiu quando um dos consultores ficou doente e foi preciso substituí-lo. . depois que ele fora embora. Pelo visto. o modo de vida da população e o material mais adequado à região. — E quanto ao projeto. Levantar apenas quatro paredes e chamá-las de casas é um grande erro. — Este será um dos seus trabalhos. que tem sido repetido com freqüência. — Nick voltou a olhar o currículo. Com ele nunca se sabia. estivera muito ocupada. Três meses em Sierra Leone. que pontos você considera importante? — Acho imprescindível levar em conta o tipo de habitação tradicional. — E quanto a Bali. Em outra. Sim. — Estou satisfeito em ver que progrediu tanto.

depois concentrou-se novamente nos papéis à sua frente. trabalhei com ele em Sierra Leone. — Bem. Se quiser. a minha participação nesse projeto fosse confidencial. o emprego é seu. — Vai entrevistar mais alguém para a área de arquitetura? Ele sorriu. Você foi escolhida. — Naturalmente — disse Nick. Meggy sentiu uma onda de emoção. — Há uma coisa que eu queria saber. — Ótimo. — Adoraria trabalhar com Tom novamente. Nós também já temos o analista financeiro e agora estamos procurando um engenheiro. Naquela noite. Isso explicava a falta da folha com o nome do autor do projeto!. por enquanto. na festa. Isso pode acontecer dentro de dois ou três meses. Houve uma época em que se conheciam muito bem. — E Jason Michaels? Como soubera sobre Jason? — Jason Michaels não tem nada a ver com o meu trabalho — falou com voz controlada. Olhou-a com curiosidade. você sabia que eu havia sido indicada para esse trabalho? — Sim. É ótimo! — Por um momento Meggy esqueceu seu comportamento frio e profissional. Apenas gostaria que. — Não. — E já pensou em alguém para dirigir o projeto? Ele olhou para ela fixamente. Precisamos ainda entrevistar várias pessoas.A entrevista continuou dentro do mais puro profissionalismo. — Por que não disse nada? — Preferi que tomasse sua decisão sem saber que eu estava envolvido. — Não há nada que possa levá-la a desistir na metade do contrato? — Não. mas agora eram apenas dois estranhos tratando de negócios. então só nos resta esperar que assinem o contrato conosco. . — Falei com Tom Marsden. Você o conhece? — Tom? — Não conseguiu disfarçar a satisfação. Você teria disponibilidade para viajar no mês seguinte? — Sim. — Você sabe que é um contrato para dois ou provavelmente três anos — disse Nick. pensou Meggy preferindo não comentar esse detalhe. — Sim.

O aquecedor do carro não estava funcionando e ela não via a hora de chegar à casa da mãe da amiga para poder aquecer os pés gelados. e ele a encarava como que esperando alguma reação. juntando os papéis numa pasta e colocando-a sobre uma pilha de outras. Ele encolheu os ombros. Nick ficou de pé e estendeu-lhe a mão. — Seu toque era firme.. "Maldição!". Você sabe como sou boa para deduzir coisas. antes. no sábado à noite. — De onde tirou essa idéia? — Meggy se encolheu mais ainda dentro do casaco. Meggy. . não claramente. pois não gostava de festas. — Você sabe como é. — Ela pegou a bolsa e levantou-se. ansiosa. Só quando saiu e enfrentou o ar frio da rua é que Meggy se deu conta do quanto estava tensa. sou muito criativa — brincou Laurie. fria e profissional.— Obrigada. e concluir e enfeitar coisas — ironizou Meggy. Era estranho.. — Como surgiu a indicação de meu nome para esse trabalho? — perguntou. — Do próprio Nick. tentando relaxar enquanto ia até o estacionamento para apanhar o carro. pensou. Eu deduzi. ela parecia estar disposta a se divertir. — Bem. É difícil encontrar pessoas com a experiência necessária — disse. No meio disso tudo. Mas. pedimos referências. Uma festa na sexta. dirigindo devagar pela noite escura e chuvosa. você parecia a melhor candidata. — Obrigada. — Eu a avisarei quando tiver mais alguma informação. Conseguira parecer calma. Adeus. soube que a velha e conhecida dor estava de volta. — E para imaginar. — Ele disse isso? — exclamou Meggy. — Foi um prazer revê-la. ele ainda conseguia fazê-la sofrer. ouvimos indicações. Nick. — É. mais do que nunca. Nós conversamos com muitos profissionais. Puxa. — É verdade que você e Nick Donovan tiveram um caso alguns anos atrás? — perguntou Laurie. Ela apenas forçou um sorriso. Respirou fundo. outra no sábado. — Depois olhou-o. consultamos arquivos. — Onde você conversou com Nick? — Numa festa. — Aguardo um novo contato. Comportara-se muito bem durante a entrevista.

Não o conhece direito. Não é essa a impressão que tenho. — Logo. Não mudou muito. — Você está louca — disse por fim. num fio de voz. sentindose a mulher mais amada do mundo. você está com raiva! Ainda o ama? — Você está louca! — É claro que não. irresistível e exasperante que já conhecera. espero. — Oh! — Laurie desviou os olhos da estrada e olhou para Meggy rapidamente. A não ser por um pouco de cabelo grisalho que. — Sam? Ah. envolvendo-a com aquele sorriso que tinha o dom de fazê-la esquecer toda mágoa. — Quanto tempo durou o romance? — Um ano e meio. — Nada. séria. espirituoso. Laurie e ela eram amigas há apenas um ano. — Por que nunca me contou sobre isso? — Porque não valia a pena falar de alguém como ele. — Não. embora às vezes tivesse a impressão de que se conhecessem a vida toda. Laurie. Por que você terminou com ele? — Eu não terminei. ele voltava a ser comunicativo e divertido. — Agora sou eu quem não concorda. — É claro que não concorda. Meggy ficou em silêncio. Nick era tudo isso também. Meggy sorriu. seja conseqüência de algum sofrimento. Quantas vezes se sentira abandonada e magoada com sua atitude fria e distante. insensível e arrogante. . logo Sam vai fazer você sorrir e esquecer tudo isso. — Nossa! E o que você achou dele agora? Meggy encolheu os ombros. uma das coisas que mais a incomodava. o quase-médico — Meggy comentou. — Mas a verdade é que concordava. Aí. — Estranho. — Não concordo. inteligente.— É um homem muito interessante. — Laurie falou.. — Ei.. Sem falar de quando ficava tão envolvido com o trabalho que nada mais parecia existir no mundo. Foi ele quem terminou. Nick nunca revelava seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. O homem mais intrigante. E qual é? — Acho Nick encantador. É um egoísta. quando ela pensava em desistir. — Você ama esse homem. — Chegaremos daqui a meia hora — falou Laurie para quebrar a tensão que se seguira.

Ele é apenas do tipo sossegado. — E ela tem razão? — Sam insistiu. — Não. — Sim. não? Ele sorriu. — Ria o tempo todo. Sam brincou. só para vê-la sorrir.. — Pobre moça! — Pobre Sam.. brilhante ou artista é idiota. — Bem. trouxe um drinque e sentouse ao seu lado examinando-a dos pés à cabeça. mas nunca são formidáveis e lindas como ela promete. — Vai ver que tinha uma personalidade interessante. — Sua irmã resolveu me salvar. mas o que vamos fazer? — Como assim? — Sobre os planos de Laurie para nós. na opinião de sua irmã. — Não conheço nenhuma amiga de Laurie que seja assim. — O que acha que devemos fazer? Ele riu. Laurie não o conhece direito. isso sim! Eu é que tive de sair com ela. rica. — Estou contente que desta vez minha irmã tenha dito a verdade. — Como assim? — Ela vive trazendo amigas para cá. ela me disse que seu atual namorado é um chato. Meggy olhou para ele com ironia.. qualquer pessoa que não seja famosa. E. . Não gosta dos homens que escolho e acha que pode mudar isso. Sam olhava para os seus lábios.. Depois indicou-lhe um sofá diante da lareira. — Realmente. eu estava inventando. desses que usam óculos e dão aulas de inglês. Mas tem muito senso de humor.Foi o próprio Sam quem abriu a porta e carregou suas malas quando chegaram. A última tinha enormes olhos claros e parecia um cocker spaniel. Meggy tomou mais um gole do seu drinque. Meggy riu. — Sei. Era alto e loiro e lhe deu um aperto de mão que quase lhe quebrou os ossos. — Você sabe que Laurie tem um plano para nós.

Só que não posso demorar. onde o tempo estava péssimo. — Com Jason Michaels? — Acho que não importa com quem seja — disse. Mal terminou de falar com Nick. como se fosse abraçá-la. depois discutira com o chefe e. Ela voltara dias antes do Caribe onde fora estudar um plano para a reconstrução de casas destruídas por um furacão. A autoconfiança nunca lhe faltara. — Eu bem que tentei. Naquela manhã tudo prometia dar errado: primeiro. A que horas? — Logo que terminarmos o expediente. Com a mesma facilidade com que se livrava do que não queria. e mudou de assunto.— Acho que devemos fazer tudo para deixá-la feliz. atrasando o seu relatório. E agora isso! Seria mesmo a voz de Nick no telefone? Seu coração batia tão forte que ele seria capaz de ouvir! — Estava pensando em tomarmos um drinque depois do trabalho — disse ele. — Parece que ela não quer. — Ele se aproximou mais. — Está bem. mas Meggy não quer cooperar. — Não seria melhor esperar até confirmar a assinatura do contrato? — O contrato será nosso. doutor. Tenho um compromisso para jantar às oito e meia. o telefone tocou novamente. Nesse momento Laurie entrou na sala. — Combinado. — Onde marcamos? — Conhece o Exchange. Era Jason. — Está bem.. Ele fez uma careta para a irmã e deu de ombros. — Por quê? — ela imediatamente se arrependeu da pergunta. tivera que parar o carro várias vezes por causa da neve nas estradas. avisando que surgira um imprevisto e não poderia jantar com ela.. Foi apenas no fim de janeiro que Meggy falou novamente com Nick Donovan. por último. seca. Foi um choque deixar o sol da ilha do Pacífico e voltar para Washington. Sempre conseguia o que queria. então. — Precisamos tratar de alguns assuntos antes de você viajar. mas Meggy afastou-o. o computador quebrara. estou certo. não? Espero-a lá às seis e quinze. . Ela suspirou.

. A música tocava suave. — Apenas mais velha — Meggy respondeu formalmente. Sofisticado.. — Pensei que tivesse casado — disse um pouco depois. Assim que Meggy chegou.. Nick não respondeu. — Eu vou de uísque com pouco gelo. pensou. me surpreendo ao constatar como está diferente — comentou. Apenas encarou-a com uma expressão indecifrável. — enquadro no perfil do "príncipe encantado". Ele devia estar brincando! Meggy olhou-o com desafio. A garçonete aproximou-se para anotar o pedido. pensou ao desligar o telefone.. mas ela caminhou segura. — Ele sacudiu a cabeça. pensando onde ele estaria querendo chegar com aquela conversa. e. — Ainda com seu velho uísque. — Pois eu tinha certeza de que você não estaria. — Cada vez que a vejo. Logo em seguida. — Estou certo de que concorda que não sou o tipo ideal para disse Nick. As pernas de Meggy fraquejaram. — Prefiro xerez. instável. seu olhar triste. — Egoísta. sempre viajando. Seu coração bateu descompassado. evitando compromissos. — Olá. — Olá. Se é que ainda estaria disposta a ver alguma coisa depois de um encontro com Nick. — Martíni? — perguntou Nick. viu Nick numa mesa de fundo. não acha? casar — laços e pareceu Não me — Acho — Meggy respondeu. O Exchange era um piano-bar de decoração agradável e aconchegante.. lembrando da bebida favorita dela no tempo em que estavam juntos. Seria uma forma de se desculpar depois de dois anos? Ele encarou-a. O rosto dele imediatamente ficou tenso. porém. — Você não mudou — comentou Meggy assim que a garçonete se afastou. tentando não se contagiar pelo olhar sedutor que ele lhe dirigiu. ao perceber que ele acabara de olhar em sua direção. — Ela sentou. "Calma!". voltou a expressar indiferença. — Xerez. por instantes. — Nick levantou e puxou a cadeira para ela."Pronto". Mais uma noite diante da televisão. não? — comentou com ironia.

Será que ainda a estava testando para ver se era a pessoa certa para o cargo? Não disse nada.. Ou lhe falado por telefone. Meggy olhou-o friamente. contratou Tom Marsden para dirigir o projeto? Nick pareceu pouco à vontade. — Trouxe vários currículos e queria a sua opinião. Ele encarou-a com ar indecifrável. Uma esposa ideal. perguntou intrigada: — E afinal. Em vez disso. Uma casa cheia de plantas. — Ele sorriu. — Bem. não? Meggy encolheu os ombros.. ainda está interessada? — Seria louca se não estivesse interessada. — Não. Você disse que precisávamos conversar sobre o projeto. — Quem? — Eu. Pensei que estivesse lavando fraldas e cantando canções de ninar. — Está bem. — Por isso fiquei surpreso ao saber que não se casou. CAPÍTULO II . — Ele cruzou os braços e apoiou-se na mesa. transformou-se numa mulher dedicada à carreira.— O oposto de você. Organizada e metódica. — Interessante. — E quanto a nossa proposta de trabalho.E já encontrou outra pessoa para substituí-lo? — Sim. —. — Tomou mais um gole. Nick ficou sério por alguns segundos e depois falou repentinamente: — Eu a magoei muito. — Não me lembro. Ele concordou. já faz tempo. O que significava aquilo? Ele poderia ter enviado aquela papelada pelo correio. apenas examinou os papéis. almofadas aconchegantes e música romântica. pegando uma pasta que estava sobre a cadeira ao lado. acho que não estamos aqui para falar sobre isso. Depois de alguns instantes. Ele aceitou uma oferta para um alto posto do Banco Mundial.

A verdade é que eu preciso de uma mudança. — Estamos correndo contra o tempo. Romance nunca fora uma prioridade na vida de Nick. — Não me diga que vai acrescentar pontos à sua carreira. A realidade é que ele iria. Fazia sentido. em se tratando de você.. esperando que ele continuasse. Será que não existiria mais ninguém competente além dele e Tom? Pelo jeito. Ela concordou com um gesto de cabeça. era a última coisa que esperava ouvir. — Mudança? Do quê? Das tarefas de grande responsabilidade. Calmamente. — Você não está qualificado demais para esse trabalho? E o salário estará à sua altura? Ele encolheu os ombros. — Você dirigir o projeto? — O seu tom de voz revelava o quanto a notícia a perturbava. — Digamos que Bali é um lugar muito romântico. indicando os nomes dos profissionais que a estariam chefiando. Nick tomou mais um gole do seu uísque. Sem dúvida. — Tudo indica que não há outra saída. Nick a julgava uma tola. — É um pedaço de paraíso. Precisávamos apresentar a proposta. — Sem dúvida. Ter Nick como chefe seria uma verdadeira tortura para seus sentimentos.O coração de Meggy pareceu parar. Nick sorriu. Teve vontade de dizer que não estava mais interessada. E isso mudava muita coisa para ela. Meggy olhou-o. — Ele parecia se divertir com a reação dela. — Meggy se perguntava o que isso tinha a ver com o trabalho. como que esperando uma boa justificativa para aquela decisão. — Sim. da tensão a que sempre se submetia? Não importava.. Não teria condições de conviver .. Não tínhamos outros candidatos de imediato. mas por que exatamente você? — Não acreditava que esses motivos fossem suficientemente fortes para fazê-lo deixar tudo ali para assumir em Bali. mas Meggy sabia que ele estava mentindo. Sua mente já não conseguia pensar com frieza.. — Sou autor do projeto e não quero um incompetente estragando tudo... de deixar de lado sua carreira. — Está bem. Só não conseguia saber por quê. — Não é motivo suficiente? — Não acho.

Nick. estou certa de que pode encontrar outra pessoa. — Por um instante. hoje ela não era mais aquela tola sentimental que sonhara com abraços e beijos. E dizendo que não suportava sentir-se preso.. precisava do seu emprego para viver. — Você acha que será um problema trabalharmos juntos? — ele perguntou. Meggy ficara desesperada. Bem. . me ama demais". Pensei que poderia atrapalhar nosso trabalho.. — Imagino — disse.. — Não achei que ainda estivesse sofrendo por minha causa. — Meggy conseguiu falar com calma e indiferença. — Não. não foi tão trágico assim.. — Acho que está se superestimando. Além disso. — Problemas aparecem em qualquer trabalho. — Estou certa de que não haverá problemas — disse Meggy com ironia. — Não me referi ao plano profissional. certo? Agora. Meggy. tive receio de que você desistisse. Os sonhos acabaram com a partida de Nick. — Não vamos prejudicar o projeto por causa de um incidente do passado. Eu quero você. será impossível evitarmos o lado pessoal. Meggy. champanhe na cama e lindas frases de amor. tomando um gole de seu drinque. Depois fui a uma festa e conheci outra pessoa. Ela o amava tanto! Fora terrível saber que o melhor que tinha para oferecer não era o que Nick Donovan desejava. não é? Mas como as lembranças ainda doíam! "Você me sufoca. Ela encolheu os ombros com indiferença. jantares românticos. seco. — Mesmo assim não tinha certeza de que concordaria em trabalhar comigo. adivinhando-lhe os pensamentos. Dois anos era muito tempo. ele vivia se queixando. — Como vê. Você me deixou há dois anos.. — Claro que sofri durante um tempo.. O que Nick pensaria se desistisse agora? Iria achar que ainda estava muito ligada ao passado e a ele. — Ela sorriu. O que sente por mim hoje não me favorece nem um pouco. — Não — ele disse devagar. se você não se sente à vontade com essa situação. acabara partindo. Chorei quase uma semana inteira. Numa ilha pequena como Bali.com ele durante os próximos dois ou três anos! Mas o orgulho lutava com o seu bom senso. Não pensa que ainda estou sofrendo.

Nada mais do que isso. — Não. e Meggy odiou-se por isso. As palavras podiam ter muitos significados. Tudo indicava que Leslie era muito competente. — Há um restaurante gostoso. O lugar estava ficando lotado. — Parecem ótimos. — Também acho — disse Nick pedindo mais dois drinques. Olhou para Nick. será que precisa me tratar assim? Ela se esforçou para não perder o controle. — Agora. Subitamente ele se pôs de pé. não? — Não. Meggy só deu mais um gole em seu xerez. Ele a queria para aquele trabalho. foi cancelado. — E eu quero fazer esse trabalho. Ele consultou o relógio. — Então vamos nos esforçar para que dê tudo certo. — Como sugere que seja? — Estou convidando-a para jantar. — Então. e Leslie Goodwin. engenheiro civil. Já participara de vários projetos na empresa. — Meggy sorriu e continuou a examinar os currículos de outros dois candidatos que tomariam parte da segunda fase do trabalho. Ia pegar a bolsa quando Nick segurou-lhe a mão. — A amargura transpareceu em sua voz.O coração de Meggy se apertou ante essa declaração. — Obrigada pelos drinques — disse. todos com sucesso em sua área. Do seu rosto. — Imediatamente ela se arrependeu do que disse. Preciso ir para casa. obrigada. não acha? Deveríamos ser capazes de falar sobre coisas que não envolvessem . — Meggy. Era isso. obrigada. dos olhos cinzentos muito calmos. Por que não aceita? — E depois? Vamos falar sobre o passado? Não. levantando. tenho uma porção de coisas para fazer. — Negócio fechado. Será que estava incluída no projeto por ser uma boa profissional ou apenas por que Nick a queria por perto? Continuou lendo. — Após dois anos deveríamos poder jantar sem ficarmos nos agredindo. jante comigo — pediu num tom que a perturbou. Meggy soltou a mão e engoliu em seco. aqui perto. — Está atrasada para o seu jantar. — Pegou a bolsa e o casaco. analista financeira. Devolveu a pasta a Nick. preciso ir. Havia John Petterson. à sua frente. mas sua expressão era indecifrável. Lembrava-se de Leslie.

.nosso passado. — Falo com você depois. assim que entrou. — Desculpe-me ter invadido assim a sua casa. hambúrgueres e batatas fritas. — Tenho certeza que sim. colocando-o sobre uma cadeira. Estava chovendo e ventando muito. — Entrega a domicílio — disse estendendo-lhe o pacote. o mesmo Volvo azul que tinha há dois anos... típicos das Antilhas. — Percebi. Por que se mudou? Meggy olhou-o sem responder. — Nick pagou a conta. abrindo o pacote. mas hoje é impossível. — Muito à vontade. passou por ela e fechou a porta. mas achei que era a única forma de entrar. Tirou o casaco. — Apartamento agradável. observando a decoração bonita e confortável. mais me convenço que devemos aparar nossas diferenças antes de tomarmos o avião para Bali. — Nick fez uma pausa. Nick retomou o controle. Vasculhava o freezer em busca de algo que lhe apetecesse quando ouviu a campainha soar. Bali. — Boa noite. por favor. — Jantar para dois. Agora. Ao abrir a porta. Mas quanto mais penso. — Que falta de imaginação! Hambúrgueres a domicílio — Meggy comentou com ironia. Ele a acompanhou até o carro. no tapete chinês e na mesa antiga que iria restaurar um dia. sorria e coma algo antes que esfrie — falou. — Poderíamos falar sobre o tempo. Olhou para a sala. — Ela ligou o motor e saiu devagar. Pelo espelho retrovisor. deparou com Nick carregando um saco de papel e um sorriso encantador. de onde tirou guardanapos. Detevese nos quadros coloridos. enrolou uma toalha sobre os cabelos molhados e foi procurar algo para comer. — Posso tirar o casaco? — Eu não o convidei para entrar — disse Meggy com frieza. Boa noite. pegou suas coisas e acompanhoua até a saída. Nick. O apartamento estava quente e. Meggy tirou a roupa e tomo um banho. e sentou-se. viu-o entrar em seu próprio carro. — Como quiser. Será que não era óbvio que não conseguira ficar no apartamento onde vivera com ele? Nick parecia calmo. Vestiu um caftan. política.

— Aceita um? — disse. Ele fez um gesto. — Sim. preocupado. sem tirar os olhos dela. Por um instante. sentou-se e começou a comer. é a primeira vez que trabalharemos juntos... — Meggy procurava manter a conversa no plano profissional. . apontando o outro hambúrguer. Levantou-se de repente e foi para a cozinha fazer café. Meggy ligou a televisão e sentou no sofá. Ficou quieta.— Havia coisa melhor por aqui? — ele revidou. Depois franziu a testa e olhou para ela. Como antes. — Ele parecia absolutamente calmo. — Não. vamos conversar? — Sobre o quê? — Sobre nós. Não queria pensar nisso agora. Estamos começando um novo capítulo. Quando voltou Nick estava deitado no sofá. Ele a estava provocando. Mas isso fora há muito tempo. indicando que lembrava que cozinha não era o forte de Meggy. não é? Meggy acabou sorrindo. — Boa menina! Assim que terminou seu sanduíche. colocando as xícaras com mãos trêmulas sobre a mesinha. Ela lembrou que costumavam ficar deitados juntos vendo seus programas preferidos.. — E não acha que sua visível hostilidade pode atrapalhar esse trabalho? — Nick tomou um gole de café. — E então. este é um capítulo encerrado. — No que me diz respeito. e o seu sorriso era prova disso. — Finalmente. — Não se você não invadir a minha casa com hambúrgueres para o jantar. o passado parecia ter voltado. Ele se serviu de um sanduíche. Sentou-se e encarou-a. — Obrigado. — Puro engano. Sem dúvida. estava de bom humor. observando-o comer.. Mas Meggy não estava disposta a se deixar envolver... — Pode estar certa de que não acontecerá novamente. Não há hambúrgueres em Bali. — Você não se transformou numa adepta da comida natural. Nick seguiu-a.

Sou uma profissional. Jason. mas o impulso foi o de arrancar-lhe o jornal das mãos e gritar! Será que ele não ouvira o que ela acabara de dizer? Que estava indo embora? Chocou-se com tanta indiferença. grandes envolvimentos emocionais. nos encontraremos sempre. Não sei por que está insistindo tanto no assunto. Dizem que Bali é um lugar maravilhoso. Ele tinha razão.. Ele estava lendo jornal e afastou as páginas para olhá-la com o rosto impassível. sentindo seus joelhos tremerem. Haveria festas. entendo. desejo realizar esse trabalho e não pretendo deixar que problemas pessoais me atrapalhem. Meggy fechou a porta e ficou ali encostada. E Nick Donovan não iria mudar isso. Meggy Opperman sempre enfrentara desafios. lágrimas ou noites insones. mas não era isso que ela esperava de um relacionamento? Nada de compromissos.— Preste atenção. No dia seguinte conversou com Jason sobre a proposta que recebera de ficar dois ou três anos em Bali. — Talvez esteja certa. Mas não. — Meggy não sabia o que pensar. Só um mês e meio mais tarde recebeu o telefonema informando-a de que o projeto fora assinado e as passagens para ela e Nick estavam sendo providenciadas. — Parece um trabalho feito para mim. Ele ficou em silêncio por instantes. — Ele voltou ao jornal.. Mas. — Abriu a porta e parou como se fosse dizer alguma coisa. Bem.. jantares. Há poucos habitantes e. — Ok. — Espero que dê tudo certo. mesmo fora do trabalho. — Acabou de tomar o café. — Por que sentia necessidade de justificar-se? De que se sentia culpada? Não havia promessas nem compromissos entre eles. A intuição avisava-a para desistir de tudo enquanto era tempo. Nunca fora covarde. É superimportante para minha carreira.. Ele a fitou muito sério. e sofrera demais. pense bem: estaremos numa ilha pequena. Nick. — Claro. — Obrigado pelo cafezinho. Devia sentir-se aliviada por ele não ter-se chateado. Uma vez se entregara de corpo e alma. levantou-se e apanhou o casaco. querendo ou não. . dizendo boa noite. mas logo saiu. No fundo. reuniões. achava que Jason se importava com ela. — Não vejo problema nenhum isso.

uma vez que dentro de uma semana ele seria o seu chefe. No meio da semana. não está exagerando um pouco? — Achei que devia compensá-la pelos hambúrgueres da outra noite. — Gostaria de conhecer suas razões durante o jantar. — Para um simples jantar de negócios.. — Tive informações sobre casas pré-fabricadas na Austrália.Imediatamente. se vier por via marítima podemos ter problemas. — Uma empresa de Perth nos propôs trabalhar com nossas plantas. O restaurante era luxuoso e Nick estava vestido à altura.. — Na minha opinião. Passo no seu apartamento às sete.. Havia tanta coisa que todas as noites caía na cama exausta. elegantíssimo num terno escuro. . seria mais sensato usar os materiais disponíveis em Bali e construir casas do tipo comum na região. — Eu não acho que. Pediram os drinques enquanto examinavam o cardápio.? — Negócios. — Deve sair muito caro — ela comentou. principalmente porque não lhe restava outra alternativa: tinha que ir. naturalmente — ele respondeu. — Mas é preciso levar em conta o tempo que vai demorar para o material chegar lá. Além disso. Estão dispostos a mandar uma equipe para treinar os operários. ou modificar as já existentes. — Só que levará dez vezes mais tempo. Meggy organizou uma lista do que tinha para resolver. Nick lhe telefonou.. — Acho péssimo trabalhar com casas pré-fabricadas. As pré-fabricadas são levantadas em questão de dias. — Tem tempo para um drinque ou um jantar? — Para falar sobre. e gostaria que você opinasse a respeito. — Que lugar maravilhoso — Meggy comentou ao sentar-se. acordando várias vezes durante a madrugada. — Que história é essa de casas pré-fabricadas da Austrália? — perguntou assim que o garçom anotou o pedido. — ia terminar a frase quando ouviu o clique do telefone. seco. preocupada com o futuro. Acredite. Meggy ficou furiosa. já tive experiências desse tipo.

para pesquisar uns projetos. Se tivesse um pingo de juízo. — Pois já quis várias vezes desistir de tudo. parece uma situação superinteressante. Nick encarou-a com a expressão indecifrável. Meggy fez uma careta e sentou em frente à amiga. Há vários projetos de casas de baixo custo em Java. — Meggy? Aqui é Sam. ou se tornarão ótimos amigos ou terão se matado. Passaremos primeiro por Jacarta. mas não conseguiu reprimir a raiva.O jantar foi servido. — Pois para mim. — De quem foi a idéia? — ela perguntou. mas em nenhum momento deixaram de falar sobre o trabalho. vamos ter que rodar uma semana em Java. — Como se não bastasse ele ser o meu chefe. para conhecer esses projetos e ver até que ponto podemos aproveitar as técnicas usadas. querida. A situação se complicava cada vez mais. Uma semana sozinha num barco com Nick! Tinha que se controlar. — Acho melhor esperar para estudar a situação quando estivermos em Bali — concluiu Nick. Isso deverá nos ocupar por cerca de uma semana. pense assim: depois de uma semana juntos. — E isso nos leva para outro aspecto da questão. — Sinto muito se a idéia não lhe agrada. Meggy tomou um gole de café. — Minha. onde o escritório da CE. . Depois seguiremos de barco para Bali. — Ora. Acho que será uma experiência importante para nosso trabalho. tente não me odiar tanto. se possível. servindo-lhe um prato de sopa. Rodaremos pela ilha. não permitir que isso a afetasse. sobre a almofada no chão. também posso tomar um avião e voltar.A providenciará um carro. voltaria atrás e recusaria esse emprego. — Quebrar o contrato não será bom para sua carreira. — E. — E desistir antes de começar não é do meu feitio. A conversa foi interrompida pelo telefone. Não vou deixar de fazer o que deve ser feito. — Uma oportunidade que parecia tão boa acabou se transformando em pesadelo — Meggy disse a Laurie. — É. Laurie arregalou os olhos. Era impossível negar que ele tinha razão. — Obrigado — disse com frieza. — Estou a serviço da empresa.

— Não faça isso. tive que usar de todo meu autocontrole para não me atirar em seus braços — ela brincou. — É — ela respondeu. está sem sorte. Ele suspirou. — Isso não interessa. razões particulares. . Nick lhe telefonou. seca. a qualquer hora. vejo que me tornei inesquecível — disse ele rindo. Tinha mil coisas a fazer: preparar a mudança. — Puxa.. sabia? — ele continuava a brincadeira para provocá-la. — O professor? — perguntou Sam. — Não é contra o regulamento da Associação Médica? — ela ironizou. — Vou estar em Washington na próxima semana e esperava convidá-la para jantar. Se for passar por aqui perto e puder trazê-las.. — Puxa. — Não vai dar mesmo. — Então acho que já estou doente. — E se Laurie vier para nos vigiar? — Nem assim. derrotado. é um perigo. alugar o apartamento. Se prefere.— Sam? — Sam Stuart. Meggy não poderia... Quero saber se é contra o regulamento de Meggy Opperman. Atendo a domicílio. agradeço. você é difícil! Meggy olhou rindo para Laurie. mas agradeço o convite. pode vir pegar tudo amanhã. o quase-médico — ela piscou para Laurie. Você quer vir buscá-las ou prefere que eu as deixe aí? — Por que não manda pelo correio? — Só porque é arriscado. — Já chegaram suas passagens e as reservas de hotel.. pode ficar gravemente enferma.. — Ah! sim. Poucos dias antes da viagem... — Sim. — Hum. — Você nem imagina quanto. — Não. — Talvez eu devesse consultá-la.

Deu-lhe o remédio e um copo de água. Encontrou-a tomando café e separando livros. Nos encontraremos no hotel. ele já estava sem a jaqueta. muito mansas. Meggy deu de ombros. e não irei para casa tão cedo. — Não custa tentar — respondeu. — Desculpe. — Os porcos de Bali são muito feios. Já eram mais de nove quando Nick chegou. — Tem um comprimido? Estou com uma dor de cabeça terrível. o restante seria enviado para Bali por via aérea e marítima. Você pode arranjar um de estimação. — Não estou mesmo. Prefiro as vacas.— Irei lá pelas nove. Pelo menos por um tempo não teria que sofrer com a presença dele. — Mas se tivesse provavelmente saberia criá-los direitinho — ele brincou. o rosto contraído. . — Ele passou a mão pela testa. Nick sorriu. Pequenas e marrons. folheando espantado um dos livros que tinha como título: "Como criar porcos". Ele passou novamente a mão pela testa. São engraçadinhas. — Quer um pouco de café também? Às vezes ajuda. — Sem dúvida — ela resolveu entrar na brincadeira. — Está bem. Meggy sentiu um imenso alívio. — Isso é seu? — perguntou surpreso. — Engraçadinhas? As vacas? — Nick soltou uma gargalhada. Nunca tive porcos. em Jacarta. — Claro. — Não viajaremos juntos. engraçadinhas. É bom conferir. Há muitos porcos em Bali. — Não parece nem um pouco desapontada — ele comentou. — Talvez surja uma chance. — Tirou os papéis do bolso da jaqueta. muito à vontade. — Puxa. enquanto tomava o comprimido. — Eu nem tive tempo de começar. — Aqui estão. Nick. — Não é meu primeiro trabalho no exterior. Pare de me tratar como estagiária. você já arrumou quase tudo — disse olhando em volta. A maioria das coisas ficaria num guarda-móveis. Tenho que passar antes em Hong Kong para tratar de um outro contrato. A sala parecia vazia sem os quadros e os tapetes enrolados. — Sim. Quando voltou com o café. — Não tenho a mínima idéia de como veio parar aqui. Sente-se que vou buscar.

— É... nunca as olhei sob este prisma, mas talvez você tenha razão — ele falou, forçando um tom solene. Meggy procurou mudar de assunto. — E quanto às nossas acomodações, já tem alguma informação? — Sim, recebi hoje um telegrama confirmando. Uma casa para você, outra para mim, e um escritório num edifício do governo. Ah, e as casas são mobiliadas. — Ótimo. Estava com medo de ter que acampar debaixo de uma palmeira. — Podia até ser divertido. — Nick tomou mais um gole de café e encaroua. — Tenho mais uma coisa para lhe dizer. Concluí que estava com razão quanto às casas pré-fabricadas na Austrália. — É mesmo? Ele sorriu e engrossou a voz. — Seu grande chefe índio se enganou. Você, pequena índia, estava certa. — Milagre é você admitir isso! — Ora, não seja maldosa! — Ele tomou o último gole de café e colocou a xícara sobre a mesa. — Fiz um levantamento sobre os custos. Seriam bem altos. E além do mais, levaria muito tempo para o material chegar. Meggy não pôde esconder a sensação de vitória. — Estou contente. Pelo menos, não precisaremos mais discutir sobre isso. Nick levantou-se e colocou a jaqueta. — Seria ótimo se não precisássemos discutir sobre coisa alguma, mas acho que é pedir demais. Meggy levantou-se. — Também acho. — Bem, obrigado pelos remédios e o café. — Imagine... Ele sorriu e Meggy sentiu seu rosto queimar sob o olhar que Nick lhe dirigia. De repente, ele tomou o seu rosto entre as mãos e tocou seus lábios num beijo rápido e suave. — Boa noite, garota. Encontro-a em Jacarta. Meggy encostou na parede, o coração disparado. Olhou para a porta fechada, pensando como seria difícil trabalhar ao lado dele durante os próximos dois anos.

Nos últimos dias que antecederam sua partida, Meggy percebeu que Jason ficava cada vez mais calado. Estranho, a princípio ele não parecera preocupado com a separação. Será que se enganara? Uma noite, no restaurante, ele acabou desabafando: — Droga! Você só fala nesse trabalho e sua carreira! E eu? — Nunca lhe prometi nada, Jason — ela falou baixo, não querendo chamar a atenção de outras pessoas. — Não estou falando de promessas, estou falando de sentimentos! Não sente nada por mim? — É claro que sinto. — Mas não o suficiente para ficar. Era a primeira vez que ela o via nervoso. — Sempre coloquei minha carreira em primeiro lugar, Jason. Pensei que isso estivesse claro. Ele fechou os olhos, tentando se acalmar. — Sim, estava claro, mas... — Sempre soubemos que nosso relacionamento não tinha futuro. Você mesmo quis que fosse assim. Falava sempre nisso, não se lembra? Nada de laços nem promessas. Ela tinha achado ótimo. Também não queria compromissos, e eles se davam bem. Tinham sempre alguém com quem almoçar ou jantar, ir a uma festa, assistir a uma nova peça. Mas nada de expectativas e cobranças. Não se amavam e pronto! Quando se conheceram ele acabara de sair de um casamento fracassado, porém Meggy nunca tocara no assunto. Aliás, não queria mesmo saber. Também lhe contara pouco sobre si mesma e ele nada perguntara. Tinha sido tão diferente com Nick! Ele sabia tudo sobre ela. Como fora sua infância na pequena cidade do Maine, a perda do pai, o pior momento na escola, seu lindo cachorro, o primeiro namorado. Também sabia tudo a respeito dele. Onde estudara, o que fazia quando criança, como era sua família. Conhecera seu pai, vira suas fotos de quando era garoto. Jason olhava com tristeza para a comida que esfriava em seu prato. — A verdade é que eu não esperava me apegar tanto a você... Apegar! A gente se apega a bichos, a objetos, pensou Meggy. Era um relacionamento conveniente, nada mais. — Sinto muito, Jason. — Sente mesmo?

— Bem, de qualquer forma, não queria que nenhum de nós sofresse. Fizemos tudo para que isso não acontecesse. — Pelo menos aprendi que não se pode controlar os sentimentos — Jason disse com amargura. — Esse foi meu erro. Pensei que pudesse fazer isso. — Não comece a imaginar que me ama, porque não é verdade. Ele apenas a olhou em silêncio e, depois de acompanhá-la até o apartamento, saiu com um seco boa noite. Não o encontrou mais. Apenas recebeu uma caixa com livros e um bilhete desejando-lhe sucesso e felicidade. O trajeto até o Borobudur Hotel de Jacarta foi assustador. O trânsito estava totalmente congestionado, e o táxi em que viajava era muito velho e mesmo assim desafiava os outros veículos a toda velocidade. O calor era insuportável, e Meggy sentia o suor escorrer-lhe pelas costas, o vestido colando no corpo. Abriu a janela, na esperança de respirar um pouco de ar fresco. Mas só conseguiu receber fumaça misturada com o cheiro de esgoto e lixo. Quando chegou ao hotel, sentiu-se num outro mundo. Luxuoso e sofisticado, era um verdadeiro oásis, no meio do calor daquela cidade cinzenta e superpopulosa. Parecia uma mini-cidade, com lojas, restaurantes e bares, salas de reuniões, quadras de tênis, pista de cooper, um campo de golfe e uma enorme piscina com restaurante ao ar livre. Um carregador acompanhou-a até a suíte toda forrada de tapetes espessos, com uma confortável cama de casal e um lindo banheiro. Da janela podia avistar os lindos jardins Kintamani, com suas palmeiras e primaveras em flor. A piscina, muito azul, parecia convidar a um mergulho. Mais adiante, porém, viam-se as casas com seus telhados precários, cercados por nuvens de poluição. Estava exausta depois da longa viagem de avião, mas mesmo assim resolveu dar um mergulho antes de se atirar na cama para dormir um pouco. Seria o seu único tempo livre e devia aproveitar. Nick chegaria no dia seguinte e logo começariam a trabalhar. Meggy tomou um banho rápido e colocou um maio. Olhou-se no espelho. O bronzeado que ganhara no Caribe já desaparecera. E o maio preto fazia com que sua pele parecesse ainda mais branca. Felizmente havia só três pessoas na piscina e foi delicioso usufruir de todo aquele espaço para nadar. Quando saiu da água, deitou-se numa das espreguiçadeiras e pediu um suco de laranja.

enquanto admirava o maravilhoso cenário à sua volta: as plantas tropicais. Ela fechou os olhos. consciente do quanto a atraía.Na sombra. Tomou o suco devagar. quando acordar. Nick — disse calçando as sandálias. E a tensão voltou a perturbar sua paz. Seu coração quase parou ao som daquela voz. — Não estou com a mínima fome. Descanse apenas para se adaptar ao novo fuso horário. Olhou para ele sem conseguir falar. — Olá. — Vejo você amanhã. Já ia subir para deitar. — Levantou-se e pegou a toalha. as palmeiras. — Aproximou-se tanto que Meggy podia sentir o aroma da colônia que usava. claro que usei a minha influência. Decidi vir direto para cá. — Onde pretende jantar esta noite? Ela nem lembrara do jantar. mas sem dúvida queria evitar a visão do corpo de Nick. — E a suíte? — É muito confortável. A pessoa que eu ia encontrar em Hong Kong sofreu um acidente de carro e está hospitalizada. Abriu os olhos e deparou com Nick. Como está a água? — Ótima — respondeu apenas. as árvores. — Não é a primeira vez que enfrento essa situação. Tudo que tinha a fazer agora era ficar ali deitada e relaxar. constrangendo-a. Não sabia que a empresa escolhia hotéis cinco estrelas para seus empregados. . a temperatura era agradável. — Bem. O brilho do sol a incomodava. Precisava olhar para ela daquele jeito? — Seria melhor não dormir muito. peço algo por telefone. Por uns momentos pensou como devia ser bom ser uma milionária e viver sempre assim. Nick deu um de seus largos sorrisos. Sentia Nick analisando-a de alto a baixo. os jasmins brancos e amarelos. Mais tarde. CAPÍTULO III — Achei que só chegaria amanhã! — Meggy disse com visível nervosismo. vestindo apenas um calção azul. Houve um imprevisto. Meggy. — Sinto desapontá-la.

— Estou morrendo de pena de você! — Ora. Você é apenas meu chefe. entrou. Quanto antes fizer isso. pegando-a pelo braço e levando-a até o banheiro. — Não faça essa cara. — Já disse que para se adaptar ao novo horário terá que jantar e se deitar na hora local. enrolou uma toalha no corpo e. Meggy estava furiosa demais para falar. — Não! . sem pedir licença. a gente não tem ninguém para comentar sobre o vinho. — Na verdade. — Não posso acreditar no que vejo. — Vamos. — Não contratei nenhum tutor! — falou irritada. — Meggy! Ela abriu os olhos. semi-adormecida. Lembre-se de que teremos de viajar bastante nos próximos dias. — E. um banho gostoso e vamos para o restaurante. eu tinha outras intenções. — Nada. assustada.. Você sabe como é. cambaleando.Ele não respondeu e ela se afastou. menina. Meggy olhava-o boquiaberta. num gesto só. — Sorriu.. Abriu o chuveiro e depois. Ele apenas sorriu. tome uma xícara de café para despertar. — Não percebe que não o quero mais? Ao mesmo tempo ouvia um barulho um tanto forte. tirou a toalha que lhe protegia o corpo. sentindo-o acompanhar cada um de seus passos. foi atender. tomando consciência de que as batidas eram reais. E sou perfeitamente capaz de lidar com o fuso horário de qualquer país! Nick encolheu os ombros. Virou-se na cama. melhor. — O que houve? — perguntou ao deparar com Nick com uma bandeja na mão. sorrindo conformado. — Vá embora — ela respondia. não brinque. Tome um café. — Entre! — ordenou. Estava apenas tentando acordá-la e trazer-lhe um cafezinho. e só fica vendo os outros se divertindo. colocou a bandeja sobre a mesa e fechou a porta. Detesto jantar sozinho em hotéis. — Eu preferia que você fosse para o inferno! — É uma boa idéia para mais tarde — ele brincou. Meggy teve um sono inquieto e sonhou que Nick a estava chamando. como de alguém batendo com insistência na porta. Sentou-se na cama.

enquanto cobria o corpo com a toalha. o calor de seus beijos excitando-a e levando-a a corresponder. — Por quê? Não encontrou ninguém que o quisesse depois que se cansou de mim? — Subitamente lembrou-se de Leslie Goodwin. Eu é que não me interessei. Por um momento ela não conseguiu falar. Meggy. Meggy — murmurou enquanto a envolvia nos braços e a surpreendia com um beijo voraz. sem forças para reagir. Mas isso pertence ao . a respiração ofegante. Meggy. o único som que ouviram foi o da água que corria do chuveiro e enchia o banheiro de vapor. deixou-se ficar nos braços de Nick. Lembranças adormecidas voltaram à tona e. todos são descartáveis? — Houve quem me quisesse. — Tire as mãos de cima de mim! — ela gritou. Nick notou a súbita tensão de Meggy. afinal. Imagino que nenhuma mulher está à sua altura. Ele a estava provocando. as mãos dele conheciam a sua intimidade. Uma onda de dor e desejo invadiu-a. — Nunca mais faça isso! Nunca mais ou eu tomo o primeiro avião e volto para Washington. Sabia o quanto a atraía. — Claro. — Quero deixar uma coisa bem clara — ela disse. Durante um instante. — Houve um tempo em que compartilhamos uma cama e um banheiro. Ele passou ás mãos pelos cabelos. — O que aconteceu com você? — ela perguntou com raiva. sem qualquer explicação. Afastou-a e encostou-se na porta. — Não consegue mais controlar os seus instintos? — Acho que não. — Sempre gostei de beijá-la. Pena que não seja mais assim. Ele a olhou sem responder. os punhos cerrados. — Você é um cínico! — Não. e achei que gostava também. — Para você. Nick compartilhara a sua vida durante um ano e meio.Nick colocou as mãos sobre seus ombros e então tocou-lhe o rosto. fitando-o com um misto de raiva e desespero. Mas Nick era também o homem que inesperadamente. — Você continua linda como antes — ele disse com voz meiga. a abandonara numa fria noite de setembro. os olhos percorrendo-lhe o corpo.

Como se não conseguisse entender praticamente nada e só estivesse entediada de ficar sozinha no quarto. — Desculpe — disse Nick. — Tem algum plano para o jantar? — perguntou Nick enquanto pegavam as chaves dos quartos. fechando a porta.passado. Meggy entrou na banheira. Aos poucos. furiosa. As lágrimas continuavam. e ela não tentou contê-las. Quando finalmente parou de chorar. resolveu apagar a luz e dormir. — Não. Tomaram um táxi para ir ao escritório e ali organizaram o roteiro do dia seguinte. mas aliviada. A cena que vivera momentos atrás fora um terrível pesadelo. imaginando o que estaria pensando. Era demais! Meggy amassou o papel e jogou-o no cesto. Nick. Não tem direito de ficar aí parado. Nick passou o tempo todo sério e distante. Não. e termina aí o nosso relacionamento. O tempo todo estivera fingindo. Será que ele pensava realmente que iria dominá-la? Pois que esperasse para ver. que apresentava o noticiário local. Dois anos não tinham sido o bastante para tirá-lo de sua vida. sentiu a tensão se desfazendo e finalmente conseguiu chorar. ela estava ansiosa para tomar um refresco e mergulhar na piscina. e você não tem mais direito a esse privilégio. Depois saiu.. sr. . Eu a espero no Toba às oito". Donovan — falou em voz alta. Na manhã seguinte Nick nada comentou sobre o fato de ela faltar ao encontro. reprimindo seus sentimentos. assistiu TV.. enquanto comia. o que para Meggy foi um alívio. mergulhou num sono profundo. e estranhamente forte. Parecia um convite formal. — Jantar com você não está no meu programa. Não tem direito de entrar no meu quarto quando não estou vestida. Só que depois da mágoa que lhe causara. — Quer jantar comigo? Meggy observou-o por um momento. Trêmula. me olhando quando estou nua! Tem que respeitar a minha privacidade. Ao entrar no quarto encontrou um bilhete sobre a penteadeira: "Por favor. Agora é apenas o meu chefe. sentia-se exausta. — Nada feito. nunca mais confiaria nele. com um estranho olhar. Por sorte. jante comigo. Nunca mais. Ainda o amava muito. Quando voltaram para o hotel à tarde. Precisava desabafar. Pediu um lanche leve pelo telefone e.

sorrindo. — Isso o incomoda? — Não. sabia como agradar uma mulher. Pouco depois resolviam jantar num dos restaurantes do hotel. Meggy examinou o cardápio. capaz de estabelecer suas próprias regras. Meggy deu de ombros... Não queria saber se ele estava aprendendo coisas sobre ela ou não. Tinha que fazer o possível para não se deixar afetar pelo que ele dizia. indiferente. — Não tenho a mínima idéia. Ao menos nisso você não mudou. Nick sugeriu o mais luxuoso de todos. — Irei apanhá-la às oito.. A iluminação era suave e as toalhas de linho branco faziam fundo para requintados talheres de prata. gostaria. — Estou aprendendo.. — Sim. não me interessa. Só me deixa curioso.— Está bem. Não se parecia em nada com a Meggy que ele conhecera. decidida a vencer com calma e frieza.. sofisticada. — Um xerez — completou Nick. — Foi por isso que provocou aquela cena no banheiro ontem? Estava querendo ver o que havia restado da jovem deslumbrada que eu era? Ele sorriu. e foi visível a surpresa e admiração no olhar dele ao observá-la dos pés à cabeça. . E a conhecia.. — Você está.. Nick não podia estar mais atraente usando aquela calça de linho bege e a camisa aberta no peito. — Teimosa. fria. Estava perfeita no vestido verde de seda que delineava seu corpo com suavidade. — Talvez. Mas seja qual for. Meggy! — Obrigada. Nick. Era um homem experiente. iria encontrar uma adversária diferente agora. Estava pronta quando Nick bateu à porta. — Você parece ter mudado muito: está diferente. — Eu não sei que tipo de jogo está fazendo. Só que se ele estava jogando. ao invés de ir até a cidade. — Prefere tomar algo antes? — ele perguntou. — Ela conteve a vontade de retribuir o elogio.. linda. — Há mais coisas que posso aprender sobre você? — O olhar dele era insinuante.

Ela sabia o que ele queria dizer. — Ela olhou para as linhas vermelhas traçadas por Nick através da ilha. Talvez não sejam muito confortáveis. obrigada. Se gostaria de dar um passeio com ele sob o luar nos jardins tropicais Kintamani? Nunca! — Não. mas logo repreendeuse. havia amadurecido.Ela apertou os lábios e não respondeu. Mas já viajara e trabalhara muito. passearam pela rua cheia de lojas admirando as peças belíssimas do artesanato local. Já esteve em Java? — Não. Vou subir. manter um tom impessoal. Após deixarem o restaurante. capazes de carícias tão deliciosas! Por um instante fechou os olhos. Tomava o xerez enquanto observava a mão de Nick movendo-se sobre o mapa. Mas a ilha é muito populosa e os javaneses são muito amáveis. Ela encarou-o. Da forma como estava vestida dava a impressão de ser uma dondoca rica e fútil. — Você está bem? — Claro que sim — disse irritada. — Não sei nada sobre os hotéis. Em seguida. Ele tinha mãos bonitas. ninguém diria que é assim. muito prestativos. Não havia dúvida de que ele estava intrigado com seu comportamento. Ele sorriu. não? — Consegui sobreviver a todos. Nick pegou um mapa da ilha de Java. olhando novamente para o mapa.. Mas creio que em suas outras viagens de trabalho já se hospedou em lugares simples. — Você gostava de passeios à noite. — A paisagem é deslumbrante. quentes. Tinha que parar com isso. Ao abri-los viu que ele a observava.. . mas fingia não notar. Às vezes percebia o olhar surpreso de Nick. — Olhando para você. Meggy procurou. Ela esperava que sim. Aqui está o itinerário.. o tempo todo. — Eu gostava de uma porção de coisas antes — disse com firmeza. Acho que será uma viagem agradável. Nunca gritei ao ver uma barata ou lagartixa. Quando o jantar foi servido continuaram falando sobre a viagem.. — Que tal uma volta pelo jardim? — perguntou Nick ao ver que se aproximavam da recepção do hotel. — Vamos sair o mais cedo possível amanhã.

sedutor.. viu um casal de indonésios de mãos dadas. nada. Eis algo que não queria que Nick descobrisse. Às vezes o chá esfriava ao lado da cama. enquanto faziam amor. e pelo menos não faz mal. e ela não pôde evitar de pensar em Nick. — O que é? — Quer que eu suba para cobri-la depois que adormecer? — sugeriu. — Você e seu chá — ele dizia. sacudindo a cabeça. trancou a porta e ainda passou a corrente. — Ele estava tentando perturbá-la.— Uma outra mulher! — ele brincou.. Entrou no quarto. e ela sabia por quê.. Ela ignorou a provocação. Tirou a roupa. — Acho que é uma boa idéia. Do que estava se escondendo. conversando baixinho. — Meggy? Ela olhou para trás. — O quê? — Nick a olhou desconfiado. — Boa noite. A cena romântica a perturbou. — Nem vou responder... — Acho que a viagem vai ser muito interessante. Pior se fosse um conhaque... Lembrava-se de como ele zombava dessa sua mania. ou rum. Olhou-o furiosa. Nick sempre gostara de desafios. e ver uma mulher indiferente aos seus encantos provavelmente o intrigava. Sem leite e sem açúcar. Vejo você de manhã. Mesmo sendo uma mulher que ele já rejeitara uma vez. removeu a maquiagem e preparou-se para repetir o ritual de todas as noites: tomar chá e ler antes de dormir. No caminho para sua suíte. — Nada.. — Eu gosto. impaciente. . — Gostaria que me mandassem uma xícara de chá. afinal? Nervosa. discando o número da copa. — Se eu não tomar um avião para casa antes — murmurou baixinho. foi direto para o telefone. — Você é perfeita.

e não sabe trocar um pneu. — E se não conseguir dormir? — Com você aqui. — Pode me ajudar? — ele pediu. — Não. enquanto continuavam abraçados. fazendo-a voltar à realidade. com a floresta de um lado e do outro as plantações de arroz junto às montanhas.. certa de que nunca desejaria outro homem a não ser ele. — Ela se agarrava ao corpo quente e forte. — Eu? Não entendo nada de pneus. Meggy seguiu-o. Depois. uma mulher dos anos oitenta. não me importo. Estavam numa parte reta da estrada. faz sentido. o que faria? — Provavelmente iria até a beira da estrada. — Ele abriu a porta e saiu. O carro deu um solavanco. — O que aconteceu? — O pneu furou. — Vá buscar o estepe — pediu. por quê? Nick observou-a divertido. Nick parou no acostamento. — É. levantaria a saia para mostrar as pernas e esperaria Robert Redford parar para me ajudar — ela ironizou. .. O livro caiu no chão. depois desviou para o lado. — Aí está você. — Deixou o olhar deslizar pelo corpo esguio. — Há muitos homens na mesma situação. os dedos dele brincando com os cabelos dela. — Não. Por um momento ela fechou os olhos. com uma bela carreira. Essas lembranças a atormentavam. — E se estivesse sozinha. — Não sabe trocar um pneu? Meggy olhou-o ofendida. — Vai discutir por causa disso? Ela sorriu. foi até o banco do carro pegar as ferramentas.— Quer que eu vá buscar uma outra xícara? — perguntava Nick ao seu ouvido. Estava frio. — Onde está? — Não sei! Procure! — Você quer dizer que não verificou quando saímos? — Não! — ele gritou. Queria tanto parar de pensar! Pegou a xícara de chá ao lado da cama e começou a torná-lo. Irritado.

— Acho que não poderá contar com Robert Redford em Java. por favor — ele pediu. meu amor. acho. — Para seu azar. Meggy tirou várias fotos. — E você. em seu fraco javanês: — Bisa foto? Todos riram. — Venha até aqui e aproveite para aprender alguma coisa.. por acaso sabe pregar um botão ou fazer a barra de uma calça? Nick olhou-a e sorriu. sei sim. limpando as mãos num pedaço de pano que encontrara no carro. com a colaboração das crianças.— Vou. Estava descalça e usava um vestido desbotado. por que não lhe havia dito? Sentiu um nó na garganta e virou-se. deixá-lo feliz. Estava sempre tão ansiosa para fazer tudo por mim. que não me dava chance de fazer nada. Sem responder. — Terimah kasih — agradeceu. Ou que esteja furado também. Pode ser que não haja estepe. — É mais do que sabia dois anos atrás.. — Sua voz era calma. encontrou o pneu e pegou-o. Tudo o que desejava era agradá-lo. pôs-se a observar Nick. você não se saiu nada bem. — Você acha que sou burra por não saber fazer isso. Meggy pegou a máquina fotográfica e falou. Uma menina de cerca de cinco anos carregava um bebe nas costas. — Pegue a água. — Bisa — disse a menina mais velha. Estava em perfeito estado. amá-lo. . grande demais para seu corpo frágil. Então. "Estava sempre tão ansiosa para fazer tudo por mim. observando um grupo de crianças que se aproximavam curiosas. não? — Sim. Mas se ele não gostava. Meggy entregou os pontos. — É mais do que você achava que eu sabia dois anos atrás. Não demorou muito para que ele executasse a troca de pneu e guardasse as ferramentas. ele abriu o porta-malas. Para alguém que vive criticando os outros. — Por quê? — Desafiou-o sabendo que o estava provocando à-toa. mas as palavras atingiram o alvo com precisão." Era verdade.

mas Nick preferira guiar ele mesmo. de calçadas largas. Seria mais fácil treinar em Bali. cheias de curvas e poeira. . Estavam na estrada desde manhã cedo e não fora um dia fácil. com telhados de sapé. numa rua asfaltada. — Salamat sore — saudou-as.— Só temos para beber — disse Meggy. havia tido uma infância ainda mais privilegiada. argumentando que ela não estava habituada a dirigir carros com direção à direita e que uma estrada em Java não era o lugar ideal para praticar. Pelo visto os javaneses gostavam de cores vivas. Seu pai era muito rico. Havia muito movimento nas estradas estreitas. rosa ou violeta. e as crianças brincavam sob a sombra das palmeiras.aproximaram. Outras mais vieram. Nick. As crianças acenaram e gritaram em despedida. Seus olhos brilhavam de curiosidade. — Mais! Ela obedeceu. Vai buscar ou não? Ela pegou a garrafa. — Salamat sore — responderam em coro. Galinhas. por sua vez. — Vou ter que usá-la. especialmente as pequenas casas com estrutura de cimento e tijolos misturadas com as tradicionais de madeira e bambu. Nick sorriu para elas. atraídas pela cena daqueles dois estrangeiros. Que diferença do lugar onde ela crescera. Meggy observava tudo à sua volta. — Acho que agora está bem. Mais risos. Entraram no carro e Nick deu a partida. vermelho. lembrando que a garrafa térmica que trouxera do hotel já estava pela metade. Uma casa ampla cercada de flores e com balanço no quintal. quando não havia a combinação de duas ou três cores. Tivera que concordar com ele. — E como vamos fazer se tivermos sede? — Isto não é o deserto do Saara. O silêncio que se seguiu foi tenso. Muitas casas eram pintadas de azul. rindo. Era costume na Indonésia alugarem o carro com um motorista. turquesa. abriu-a e jogou um pouco de água sobre as mãos dele. As crianças se. Também recusara a oferta de Meggy para revezá-lo. pelo amor de Deus! Encontraremos alguma coisa para beber. cabras e cachorros andavam livremente entre as casas.

Talvez porque ela tivesse perdido o pai aos nove anos. mas lhe deu uns trocados e comprou um mapa da cidade oferecido por um terceiro garoto. — Vamos embora. Pela expressão que mostrava agora. — O meu pai é problema meu — Nick explodira um dia. — Água mineral. A ambição de Nick era maior. — Vamos tomar algo. — Você viu seu pai antes de partir? — Sim. valorizasse tanto os laços de família.Lembrou-se do sr. — Meu Deus. Meggy olhou para ele. Logo depois apareceu outro garoto para lustrar seus sapatos. o problema permanecia sem solução. Esses garotos devem ter um radar que detecta turistas a milhas de distância. Continuaram em silêncio até que Nick anunciou estarem próximos de uma cidadezinha. Parecia cansado. Ele olhou-a irritado e tomou um último gole de cerveja. Bem que ela tentara aproximar pai e filho. esses meninos sabem levar você na conversa — ela comentou. e nunca mais ela tocara no assunto. Por um momento Meggy teve vontade de tocarlhe o rosto e suavizar-lhe a expressão com um carinho. Donovan! Tivera só um filho. Nick tomou a cerveja também quente. — O tom indicava que não desejava falar sobre o assunto. O cabelo caía-lhe na testa e havia sulcos profundos em seu rosto. Havia algumas mesas sob o teto de zinco. Tinha cerca de oito anos e carregava um monte de jornais. por favor. Nick deu-lhe uma moeda e mandou-o embora. sem comentários. — Não posso acreditar. que se recusou a trabalhar com ele. Nick recusou. Não culpava Nick por desejar seguir o seu próprio caminho. A água estava praticamente morna. — O que você quer tomar? Vou pedir cerveja. Pararam num restaurante à beira da estrada. Um rapaz anotou o pedido e voltou momentos depois trazendo as bebidas. só não entendia o rancor que existia entre eles. Não demorou muito para um pequeno vendedor descobri-los. Donovan apenas algumas vezes e gostara dele. pasma. Meggy vira o sr. . porém todos os seus esforços haviam sido em vão. Nick.

Ele leu o cardápio. devido ao cansaço. Não havia ar condicionado. Às sete horas está bem? — Perfeito. — Vamos buscar a bagagem e depois sair para comer alguma coisa. O chão estava todo riscado e os móveis velhos. — Deixo a seu critério. — Isso é ótimo. Iriam apenas visitar um conjunto habitacional e almoçar com empresários locais. rã. — Está preparada para comer algo quente e picante? — Nick perguntou. Não havia chuveiro. e enxugou-se com a . pensou Meggy. apenas uma tina com água fria sobre um piso de cerâmica com um ralo. — Estou morta de fome. Foram a um warung. — Então encontro-a de manhã. Era uma construção colonial. eles comeram quase em silêncio. caranguejo. Não era fácil tomar banho naquele hotel. pintada de branco e com portões de ferro. Gosto de tudo. lhes mostrava as acomodações. televisão ou telefone. — Ainda é cedo — disse Nick. vestido com roupa típica. Serviram uma variedade de pratos e. pendurada por um fio que saía direto do teto. Meggy jogou água sobre o seu corpo. — O que acha? — perguntou Nick enquanto o proprietário. peixe. e o homem desapareceu pelo corredor escuro. — Está ótimo. Mas o lençol sobre o colchão e as toalhas estavam impecavelmente limpas. — Há alguma coisa que gostaria de fazer? — Vou me deitar e ler um pouco. arranje mais um lençol — disse Nick. Nick sorriu. A luz vinha de uma lâmpada solitária. Ainda bem que não teriam de viajar no dia seguinte. Principalmente para quem de repente tem um trabalho para fazer num país tão diferente do nosso. — Deve enrolar-se no sarongue. um restaurante ao ar livre. — Por favor. Quando terminou estava tremendo de frio. — Meggy olhou para o pequeno quarto. — Tem toda espécie de carnes: frango. — Não tenho sarongue. Pode escolher. — Eu gostaria de ter mais um lençol.Chegaram a Cilipcop ao anoitecer e pararam num pequeno hotel na estrada principal. Ensaboou-se e repetiu o processo até tirar toda a espuma.

— Apenas lembrei do seu chá. sem saber pacientemente que ela o convidasse a entrar. — Pare de se comportar como uma neurótica. obrigada. Deixe-me passar. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou. Dez minutos depois bateram à porta. — Estou cansado de sua hostilidade. Agora tinha que conseguir uma xícara de chá quente. Ela se afastou mas manteve a porta aberta. — Posso tomar o chá com você? — Prefiro ficar sozinha. olhando em seus olhos. De qualquer maneira.pequena toalha que lhe deixaram no quarto. obrigando-a a sentar-se. Nick esperou CAPÍTULO IV Nick pegou Meggy pelo braço e levou-a até a cama. Vestiu seu roupão macio e saiu pelo corredor iluminado apenas por uma lâmpada fraca. — Pelo amor de Deus. Não convinha ficar perambulando no hotel naquele traje. Ele suspirou. Meggy continuou onde estava. Desistiu do chá e voltou para o quarto. Ao abrir a porta viu que ele trazia uma pequena bandeja com dois copos de chá quente. — Ponha-o sobre a mesa. Mas logo mudou de idéia. Sente-se e vamos tomar seu maldito chá! o que dizer. Não queria que ele entrasse. Meggy ficou perplexa. mulher. — Tirou a mão dela da maçaneta da porta. Ele obedeceu e depois olhou para ela. — Obrigada — ela disse finalmente. Foi muita gentileza sua. — Não aconteceu nada — ele disse sorridente. pensou. . — Deixe-me colocar isso em algum lugar. Nick parou diante dela. — Quem é? — Nick.

— Muito bem. falei com você. — Ah. Meggy. É sempre assim quando estamos juntos. O mínimo que espero é um pouco de colaboração. — Não tente se enganar. Tentando.. Você pode me odiar. A menos que espere uma troca de favores. — E colaborar significa tomar chá com você no meu quarto. mas sabe tanto quanto eu que ainda sentimos uma grande atração um pelo outro. Sente exatamente o que eu sinto. comi com você. Não era o que eu estava pensando. Pode não gostar do fato de hoje eu Ser o seu chefe no trabalho mais importante da sua carreira. A sua hostilidade é apenas uma defesa para não aceitar a verdade.— Não pode negar que estou tentando ser gentil com você. Acha que sou tão ingênua assim? — Obviamente não tão ingênua como era — disse friamente.. de todas as formas.. — Alguma vez a forcei no passado? Alguma vez fez amor comigo sem ter vontade? — parecia magoado. ter um caso e depois dar um adeus amigável quando o projeto terminar? — Não. criar uma espécie de harmonia entre nós. Meggy inclinou a cabeça para o lado e sorriu com ironia.. — Você está sonhando! — Não estou sonhando. conversar sobre os acontecimentos do dia e depois você dizer boa noite e ir embora. — Quase aconteceu. . espero tudo de você. Então pode desistir. tirar a sua liberdade. Freud. não? — Como assim? — perguntou surpreso. — Não sei o que mais quer de mim! Passei o dia todo com você.. sabe disso.. eu sei que não é fácil para você passar esse tempo comigo. Vejo que ainda não. para não tornar essa viagem um sacrifício. como nos velhos tempos. olhei para você. — Seria muito arriscado para você. E em que isso vai ajudar? Está tentando me convencer de que talvez devêssemos ceder aos nossos impulsos. — Meggy. Será que não posso ficar sozinha à noite? Não precisa ser gentil e vir me trazer chá. Viajamos lado a lado. aquele dia no banheiro! — disse Meggy furiosa. — Acha que eu seria capaz de obrigá-la a fazer amor comigo? — Depois daquela cena no banheiro do hotel. dr. eu poderia sufocá-lo novamente. e começarmos onde terminamos dois anos atrás? Está pensando que podíamos aproveitar estarmos numa ilha.

mas estava trêmula e descontrolada. sua voz tremeu e as lágrimas estavam prestes a cair. Do jeito que estava me sentindo nunca teria dado certo entre nós. — Meggy — disse com voz suave. — Para seu desespero. Por que dissera aquilo? Fora uma idiota em deixar que ele percebesse o quanto as lembranças ainda doíam. peça teh pahit. — Não acredito! Venho aqui com as melhores das intenções e já estamos em guerra. sinceramente. Engoliu em seco.. Encolheu os ombros.— Pare! Que tal. — Finalmente encontrei uma garota de uns quatorze anos que concordou. uma palavra. Se não. que é o costume daqui. — Eu também lembro. Meggy sentiu uma pontada no peito. E prefiro esquecer. examinar a sua cabeça? Ele fechou os olhos. Tudo o que eu fiz foi trazer um inocente copo de chá porque lembrei que. Queria vê-lo saindo do quarto. até uma xícara de chá! Nick afastou-se e sentou-se na única cadeira que havia no quarto. mas logo conseguiu se controlar e ficar fria e indiferente novamente. . — Você pode não acreditar. — Foi uma dificuldade encontrar alguém que fizesse um chá por aqui — explicou Nick. — Acho bobagem falarmos sobre isso agora. Queria tanto que fosse diferente! Queria tanto agir como se nada tivesse existido entre eles. disposto a fazê-la falar com ele. — Eu sei. Eu era jovem e boba. — Eu tinha que ser honesto comigo mesmo e com você. — Tentava parecer indiferente. — É um chá da região. mas achou o gosto estranho. Eu não merecia que me deixasse daquela forma. — Só que magoou. Sinto muito.. mudando de assunto. em vez de ficar me analisando. procurando manter uma conversa amistosa. mas parecia impossível. Só ia pôr açúcar demais. — Agora não importa mais. mas eu não quis magoá-la. cansado. Meggy também pegou o seu. Gostou? — perguntou. — Estava sentada na beirada da cama. — Acho que já esfriou o suficiente — disse. e foi há muito tempo. — É diferente. incapaz de relaxar. que quer dizer chá amargo. Um gesto. Se quiser outro. A todo momento acontecia algo que trazia o passado de volta. eles colocarão dez colheres de açúcar. mas vou acabar me acostumando. Nick pegou o copo de chá e tomou um gole.

Boa noite. — ela respondeu. bicicletas pintadas em cores berrantes. Vejo-a às sete. e pequenos vilarejos. sem mágoas ou barreiras. Mas lá as fotos saíram péssimas. Ele sorriu. carros de boi. usando grandes chapéus para proteger-se do sol.. . — Procurei descobrir o que servem no café da manhã — continuou Nick. que cheiravam a comida muito condimentada e pareciam verdadeiros quadros multicoloridos. — Quando começou a se interessar por isso? — Há uns dois anos. — Não sabia que você também era fotógrafa — Nick comentou um dia quando a viu perder dez minutos para tirar uma única foto. crianças brincando. teria que viver o que sofrera novamente.. suas mãos. Meggy aproveitou para tirar muitas fotos: barcos pesqueiros. — Tudo bem. — Abriu a porta e saiu. — Meggy não tinha ânimo para conversar. Ele ligou o motor mas teve que esperar passar o caminhão carregado de cestas de palha cheias de galinhas. amá-lo novamente.. Atravessaram verdadeiras florestas de seringueiras e canaviais. e galinhas e cabras interrompiam calmamente o trânsito da estrada. Meggy evitava seu olhar. Ele se levantou e fez o mesmo. sem dúvida com intenção de ser gentil. — Entrou areia.— Teh pahit — ela repetiu. Já terminara o chá e colocara o copo na bandeja. ou pão e margarina. consciente de que estavam outra vez tentando manter uma conversa educada. Nick fazia o possível para quebrar suas barreiras e deixá-la à vontade. templos antigos. — Parece que é arroz frito. onde as crianças acenavam. — Tentarei me lembrar. mas instintivamente os olhos percorriam seu rosto. — Obrigada por ter parado. Antes de ir para o Chad.. — Vou indo. Por um instante desejou poder voltar no tempo. É difícil fotografar o deserto. — É. — É uma paixão recente — Meggy explicou ao entrar no carro. e talvez fosse melhor assim. Também conheceram cidades maiores-. Senão. Ela olhou para os dois copos vazios sobre a mesa e subitamente sentiu uma enorme tristeza. Nos dias seguintes tiveram que viajar centenas de quilômetros. Passaram por infindáveis plantações de arroz onde as mulheres trabalhavam. Mas era impossível trazer o passado de volta.

Viajavam horas seguidas.. Cada noite dormiam num lugar diferente. Felizmente a viagem já . — Você está quieta demais hoje — comentou ele no terceiro dia. — Não fique sentado aí. — Ela tentou parecer natural. foi o dia em que. — O que quer que eu faça? Meggy olhou para a fila interminável de carros. mas de repente a barreira ressurgia e a tensão voltava entre eles. — Só espero que onde vamos dormir hoje tenha colchões melhores. Às vezes ficavam quase uma hora sem dizer palavra. Lembra-se daquela noite em que ficamos acordados até. — Nesse caso é melhor não dizer nada mesmo. — Sim. apreciando a paisagem ou dormia. com a cabeça apoiada sobre uma toalha dobrada. Mas sempre antes de adormecer ouvia o som metálico das músicas típicas. — Ela bocejou... — Não há nada para dizer. após um de seus longos silêncios. Ele sorriu. Já haviam rodado bastante. Meggy gostava das manhãs e das noites. Era quando ficava só e relaxava da tensão que a companhia de Nick causava. — Poderia apertar um botão e voarmos — ela brincou. — Infelizmente não trouxe meu carro superequipado. — Você é criativa. participavam de reuniões. gosto disso. Ela olhava pela janela. — É claro que lembra. Mas você não era assim. Já fazia mais de meia hora que estavam ali esperando pela retirada de algum obstáculo bem adiante.— Aposto que fez boas fotos agora — ele comentou. faça alguma coisa! Nick encarou-a surpreso. Por que ele estava sempre trazendo o passado à tona? Às vezes ele conseguia pegá-la de surpresa e acabavam conversando amigavelmente. visitavam conjuntos habitacionais. Minha coluna está nas últimas. o que a deixara empoeirada e suada. Todos parados sem ter por onde fugir do congestionamento.. às vezes em hotéis com algum conforto. — Não.. Às vezes em quartos minúsculos com apenas uma cama e uma cadeira. — Você jamais poderia ser James Bond! — Tem razão. De manhã era despertada pelo canto dos pássaros.. Meggy estava com fome e sede. — Acho melhor prestar atenção na estrada. — Meggy virou o rosto e fechou os olhos. Ao contrário.

Nick olhou-o surpreso. se é que conseguiriam sair dali. No dia seguinte. — Está bem. — Você está na contra-mão! — gritou em inglês. calmo. mas depois acalmou-se ao ver que não havia sido muito grave. — Mal acabou de falar um carro saiu da fila.. o que lhes deu um imenso alívio. Seu carro sofrera danos maiores: farol quebrado. Ela olhou para a estrada. Logo outro o seguiu. poderia fazer as suas refeições sozinha. provavelmente dirigia-se para um importante compromisso. Estava furioso. manobrou e voltou na contra-mão. Um barulho de metal.. conhecendo outros povos e culturas. O coração de Meggy subiu à garganta. E pensar que no passado sonhara trabalhar com ele. — Exatamente como você. Peia roupa impecável. uma porta amassada. Desceram para ver os estragos. pensou com ironia. — Eu quero fazer ocorrência — disse o homem ignorando o argumento de Nick. — Nos encontraremos no posto policial! — E tomou nota do número da placa do carro deles. E. Bem. principalmente. Lá teria uma casa com suas coisas. Mas o dono da Mercedes não reagiu da mesma forma. — Provavelmente também vamos encontrar uma enorme confusão. — Ele deve saber que será considerado culpado — disse Meggy. O dono de uma Mercedes saiu da fila sem olhar para trás e bateu direto na lateral do carro deles. um lugar para ficar longe de Nick. — Não há movimento na outra pista. fazendo o mesmo. E não é que tinha conseguido?. A confusão que ele previra estava mais perto do que podiam esperar. uma praga de Nick quando brecou e os dois carros pararam. É sinal que o tráfego realmente está interrompido. tomariam a balsa e seguiriam para Bali.chegava ao fim. vamos tentar — disse Nick. mas qualquer coisa é melhor do que ficar aqui. E com uma pequena ajuda da polícia vai nos obrigar a pagar. ao menos durante uma parte do dia. . — Por que quer ir à polícia? — Porque somos estrangeiros. — O senhor deveria ter olhado para trás antes de entrar — disse Nick. viajarem para países distantes. Não havia sangue nem algum ferido gritando. Um pequeno arranhão na lateral. O homem não respondeu e voltou para verificar melhor os estragos.

quando a telefonista do hotel ligou para lhe dar um recado de Nick. ela tomou o café e foi andar pela cidade. — Também acho. Nas ruas via-se todo tipo de veículo: ônibus. No dia seguinte sabia que iriam para Ubud. jasmins. estudantes. Ele não poderia vir e só estaria de volta no fim da tarde. Ao passarem pelo posto policial. os altares cheios de oferendas ao longo da estrada. Foi quando notou que o carro dele não tinha espelho retrovisor. Ela sorriu orgulhosa. quando acordou. Bali era tão maravilhosa quanto Meggy lembrava: um verde maravilhoso no campo. motos. Tinham passado o dia na estrada e. Mulheres carregando trouxas na cabeça. pois ele só a encontraria no almoço. Meggy entrou no carro e encontrou Nick sorrindo para ela. — Não foi ela. para conhecerem suas respectivas casas e o escritório. As cores brilhantes dos sarongues. bicicletas. tirou várias fotos. turistas. Bateu outra foto. Gente por toda a parte. encontrou um bilhete de Nick dizendo para aproveitar a parte da manhã para passear. — A idéia das fotos foi brilhante. não havia sinal da Mercedes nem do homem esperando por eles. e por um momento Meggy experimentou uma felicidade que não sentia havia muito tempo.Subitamente Meggy teve uma idéia. carroças. observando o movimento das ruas e visitando as lojas. vendedores de gelo. Mal ligou o carro a fila começou a se movimentar lentamente e eles voltaram para a pista correia. quando chegaram ao hotel. as montanhas. — A minha máquina salvou o dia — disse Meggy. o riso das crianças. ela não ficaria tão nervosa. Meggy dormiu pesadamente e. ignorando o olhar furioso do homem da Mercedes. foi você. uma pequena cidade próxima da capital. afastando-se apenas na hora em que o homem ligou o motor e saiu. O que estaria fazendo? E o que ela deveria fazer? Ficar no hotel esperando? . de esculturas em madeira. as plantações de arroz. Denpaar era uma cidade cheia de vida. Meggy e Nick estavam cansados. de balões. Se ele tivesse dito onde estava. Pegou a máquina fotográfica e. Mais que depressa. o canto dos pássaros exóticos. Estava se preparando para o almoço. — Eu os encontro no posto rodoviário! — gritou pela janela. Os sons dos riachos. jantaram rapidamente e foram para suas suítes. — Nick sorria.

. — Mas você disse que estava tudo certo. — Olá — disse. — O que é? — Você não poderá mudar já. Retirei-as e já estão no carro. Esposa preocupada! Aquilo não podia tê-la irritado mais! — É que você não disse que tinha algum compromisso. — E isso levou o dia inteiro. Meggy almoçou e depois resolveu dar um cochilo. O morador atual pediu para prorrogar por um mês a sua permanência devido a uma emergência no trabalho. Felizmente. — Que problema? — Meggy não estava gostando. — Ah. — Também quer um pedaço de bolo? — Não. peio amor de Deus! — Calma! Ainda tem chá para mim? — Ele olhou para o bule e imediatamente uma garçonete se aproximou. foi para o terraço do bar tomar seu chá e ali Nick a encontrou. — Está parecendo uma esposa preocupada! Pensei que estivesse feliz por se livrar de mim. depois querem nos apresentar a outras pessoas. Mais tarde. — Por favor. sim! A respeito da minha saída de hoje: primeiro fui ao aeroporto para saber sobre nossas coisas. obrigado. Depois estive no Ministério do Exterior para tratar da burocracia de nossa chegada. — Sobre a sua casa. tentei resolver um problema para você. Ao acordar.Claro que havia coisas piores do que ficar esperando Nick num hotel tão bonito e confortável. — Mais chá? — perguntou com sua voz doce e melodiosa. — Sentiu-se abandonada? — Ai. Finalmente fui me informar sobre as casas alugadas para nós. — Você sabe como é — disse com uma calma irritante. — A moça se afastou e Nick olhou para Meggy. Surgiu uma dificuldade inesperada. Nick. — A pessoa com quem a gente quer falar não está. Aí chega mais alguém e temos que aceitar um convite para o almoço. tinham chegado em perfeita ordem. sentando-se. — Onde esteve? Ele a olhou com ironia.

fiquei sabendo que você era o autor. pois acabamos de chegar e concluí que devia concordar. pode até ser interessante. Não bastasse isso. Sabe qual a primeira coisa que pensei quando li o projeto? É bom demais para ser verdade.. — Durante um mês? Sinto muito. É apenas por um mês. Meggy olhou para ele furiosa. A minha casa é grande. — Acho que há uma praga sobre esse meu trabalho. Não me pareceu justo fazer isso. Só que o Ministério da Agricultura. e agora fico sem casa. e ainda nem comecei a trabalhar! Nem posso imaginar o que me espera! — Acho que. — Por que não? — Ele parecia estar achando graça. .. — Ânimo. Estamos em Bali para aproveitar e nos divertir. — Resolveu concordar? Como você é compreensivo! E o que devo fazer enquanto espero? — Ficar morando na minha casa. teríamos que viajar juntos por toda a Java. Meggy. Então eu fico no hotel. eles concordaram. que alugou a casa. — Não seja infantil. resolveu chefiar pessoalmente o projeto. com um pouco de criatividade. Ela respirou fundo. Achei que era melhor não discutir. contando com a nossa compreensão. pediu ao Ministério da Habitação para deixar o seu funcionário ficar por mais este mês. — Qual é o problema? Parece que a casa é suficientemente grande para nos acomodar durante um mês. E. Puxa. — Não quero nem pensar nisso. Aí. Três crianças pequenas e um bebê. Certamente poderemos nos acomodar confortavelmente. desanimada. — Claro que você está brincando! Ele deu de ombros. Um daqueles pequenos losmens.. Ele devia saber que nenhuma casa seria suficientemente grande para isso! — E por que você não propôs para essa pessoa mudar para um hotel até terminar o tal trabalho? — Ele mora com a família. mas este gasto não estava previsto no orçamento.. Ela percebeu o brilho em seus olhos. Meggy teve que admitir que estava certo.— E estava. apesar de ser diretor da empresa. — Posso encontrar outro lugar. querida. naturalmente. — Está bem. E era mesmo! Só depois que aceitei. também.

— Do chá ou de mim? — De ambos! Nick olhou para a garçonete. — Não abuse. mas ela não gosta de mim — ele brincou. — Não. A jovem olhou para Meggy espantada. — Acho que estava. — Você ouviu. — Sorriu para Nick e se afastou. — Você sabe sobre o quê. mas não conseguiu mais se conter e riu. Ele recostou na cadeira. com um olhar irresistível. — Não vá. bonito. Parece ser bom? Os olhos da garçonete brilharam. depois para Nick. — Desviou o olhar. — Certa sobre o quê? Nick inclinou-se sobre a mesa. . está rindo! Agora diga-me. — Você está fazendo tudo para não rir — provocou-a. não é? É melhor não ficar zangada comigo — disse ele. — Ele é misterioso — Meggy olhou para a jovem.— Não me chame de querida! — Ela começou a afastar a cadeira para se levantar. Para mim chega. — Tome uma xícara de chá comigo. sem saber o que dizer. — Está sempre zangada comigo. — A moça está zangada — disse. convencido. desanimado. forte. — Viu? — disse ele triunfante. ela estava certa? Ela continuou sorrindo.. — Não é um bom rapaz. Nesse momento a garçonete chegou com o bule de chá e mais uma xícara. — disse Nick. — É preciso ser uma mulher inteligente para admitir um erro. não estou. não sei.. E muito. É melhor não zangar com ele. — Não. — Ele é. obrigada. — Você acredita? Sou um rapaz tão bom. Meggy mordeu o lábio para não rir... — Ah. — Não. — E então? Ela estava certa? — ele perguntou.

ele parou e lentamente pegou seu rosto entre as mãos. Ele estava muito atraente com a camisa aberta no peito. Preferia não se sentir assim. — Parece uma jovem da ilha — disse Nick. — Bali é um lugar romântico — disse. Seu coração começou a bater descompassado. — E você é a mulher bonita que estou levando para jantar em nossa primeira noite aqui. Ponha-a no cabelo e vamos descer para jantar. E combinava perfeitamente com o vestido branco. Não esperava que ele lhe oferecesse uma flor. e neste momento era tudo que ela queria que ele fizesse. Meggy aproximou a cadeira novamente da mesa e levantou a xícara. tão romântico para um homem como você.Ele sorriu e pegou o bule de chá. entregando-a. Nunca fizera isso antes. com pétalas aveludadas. Achou melhor ser sincera. — O que está pensando? — ele perguntou. — Gostaria de saber — disse com voz suave. — Eu a roubei do jardim. A flor vermelha contrastava com seu cabelo castanho. mas ela' não conseguiu ficar indiferente ao calor de sua mão. é linda — disse. pensou. Nick . Ele ia beijá-la. Um hibisco vermelho. os olhos azuis brilhantes. Os olhos azuis de Nick a encaravam.. — Está bem. Como gostaria que ele não a olhasse daquele jeito! A flor era perfeita. — Parece uma boa razão — respondeu. — Vamos tentar não brigar mais? — perguntou sério. Sabia que era apenas um gesto casual. Ela fez o que ele pedira. provocante. — Agora tome mais uma xícara. Nick sorriu para Meggy. Então. Quando estendeu a mão para abrir a porta. Parece. seus olhos se encontraram. e ela desejou que por um instante pudesse ler os seus pensamentos. Era a primeira vez que a tocava assim. surpresa. pegando a bolsa. — Obrigada. Parecia hipnotizada por aqueles olhos azuis e lábios provocantes. revelando sua capacidade de perceber o que se passava com ela. — Nada.. — Estava pensando por que me deu essa flor. Era a magia de Bali. olhando-se no espelho da penteadeira. sentindo-se de repente leve e relaxada. Meggy não conseguiu se mover. Nick colocou a mão sobre o seu ombro enquanto caminhavam até a porta.

Entraram no elevador e Meggy olhou para o homem moreno ao seu lado. e deixando claro que sempre esteve escondido lá dentro. — Você é mesmo uma romântica. não pude resistir — murmurou. — Onde quer jantar? — perguntou. Aqueles bares na calçada onde se vê o mundo desfilar. com jacintos florescendo na janela. Andando pelo corredor. "Não pude resistir". pensou com desespero. com medo que ele percebesse o quanto estava desapontada e odiando-se por se sentir assim. sorrindo. retomando o controle. Adoro comer ao ar livre — disse. Depois. Um simples beijo e já estava totalmente confusa. Ele sorriu. — Ficou feliz por sua voz sair natural. — Desculpe. — No terraço ou no salão interno? — No terraço. repentinamente. — É o que mais gosto na Europa. CAPÍTULO V — Você não faz idéia de como lhe fico grata — disse Kathy Ingram sorrindo para Meggy. fazendo seu sangue correr mais rápido. Prefiro ficar aqui no hotel. — No hotel ou prefere outro lugar? Ela lhe evitou o olhar. ele dissera. — Não tenho vontade de entrar no carro novamente. imaginando o que sentia quando lembrava da jovem que ela fora havia dois anos. Ao ouvi-lo falar assim era como se estivesse se introduzindo em sua mente. porque não podia esperar pela primavera? Parecia tão estranho ele falar sobre aquilo! Pensava que aquelas lembranças eram só suas. Ele se afastou quase imediatamente. que dão para respirar a natureza. . sempre foi. Lembra que fez jacintos florescerem antes do tempo na janela da cozinha. abriu a porta e saíram. Ou os pequenos restaurantes no campo. Foi um beijo suave mas cheio de sensualidade. um calor que se espalhou pelo corpo todo. Claro que ela também não.aproximou o rosto até sentir o calor dos seus lábios. ele parecia novamente indiferente.

A sala era feia. O marido havia ido para a obra. Estava tudo escuro e Nick ausente. fogão e geladeira. É linda e tranqüila. Meggy então decidira ver sua futura casa e se apresentar à atual moradora. pois tenho Ariaso. e depois quero que fique para tomar um chá. E a de Nick era uma delas. trabalhando no fim de semana para terminar o projeto dentro do prazo previsto e não chegaria até a noite. Adorei morar aqui. — Também gostaria de ter uma pessoa para fazer isso. Era em estilo rústico. instalados da melhor maneira possível. — Entre. — Kathy parecia triste. escura e precisara de uma boa decoração. rodeada por um lindo jardim tropical com altas palmeiras. um banheiro confortável e três dormitórios. Não sei se vou me acostumar em Sídnei novamente. tendo apenas a pia. ocupando um andar do prédio do Ministério e entrevistado e contratado uma secretária e um motorista. A cozinha não é grande coisa para nossos padrões. A vida lá é tão agitada! Tomaram chá na varanda que dava para o jardim. uma mesa. e fizemos ótimos amigos. era pequena. — Realmente. Estava sozinha com o bebê. As casas próximas ficavam quase totalmente escondidas pela vegetação. agora que vamos embora.. Acendeu as luzes e andou pelos . — Gosto de Bali. com tijolo aparente e. — Mas quase não fico aqui. — Se quiser. que Meggy não teve coragem de lhe dizer da ansiedade de ir para lá. Haviam iniciado o trabalho. olhe à vontade — disse Kathy —. Ariaso ficará com você. Eram quase nove horas quando Meggy finalmente decidiu voltar para casa. e ela aceitou com prazer. mas é muito aconchegante. telhado vermelho. — É muito maior do que meu apartamento em Washington — disse Meggy. pois as crianças mais velhas brincavam na casa de uma amiga. De um lado havia bananeiras e mamoeiros que prometiam muitos frutos. living. ela convidou Meggy para jantar. — Adoro espaço. Tinha sala de jantar.. Ela está procurando um emprego. Ele havia ido até Denpaar comprar ferramentas e material elétrico. Já estavam na cidade havia cinco dias.— Não é nada. A casa de meu chefe é bem grande. — Eu não sou chegada em cozinha — disse Meggy. afastando-se de Nick. — Não é nada luxuoso e está precisando de uma pintura. realmente. — Kathy estava tão feliz pelo fato de ficar mais um mês. Depois do chá. Kathy ficara encantada. uma excelente cozinheira — explicou Kathy. bem perto dali. Meggy adorou a idéia e o resto da casa.

— Nick! — Onde você se meteu? — ele gritou enquanto entrava mancando. Já comera quase a metade dos biscoitos quando ouviu o barulho de um carro. Ela abriu a porta. Voltei para cá às nove. Aprontou-se para dormir. Guiar à noite não era nada recomendável por ali. — O que aconteceu? — Onde você estava? — ele repetiu. Ele andou devagar até uma poltrona e sentou-se. Pulei para o lado e pronto! Tropecei na calçada e caí. Nick Donovan sabia muito bem tomar conta de si mesmo. Meggy vestiu um robe. Não tinha por que se preocupar. Pegou a lata de biscoitos que comprara na cidade e voltou para a cama. pois dissera que estaria de volta lá pelas seis. bati a cabeça e o joelho. Talvez estivesse no bar do hotel com alguma mulher. com vários ferimentos na testa.cômodos vazios. — Oh. — Pode me dizer o que aconteceu? — Eu caí na rua. Já eram quase dez horas. Mas foi inútil. Não era sua esposa e não estava preocupada. machuquei às costelas. Era um táxi. Bem. — Fui até a casa de Kathy Ingram. rasgada no joelho. Uma moto com mãe. filho e bebezinho amontoados ultrapassou o farol vermelho. Não parecia o dele. Provavelmente não voltara por um bom motivo. — Tentei falar com você a tarde inteira e à noite! Onde esteve? Meggy tentou se controlar. Nenhum telefonema. imaginando por que ele não teria chegado. Ao olhá-lo. e nada de ele aparecer. assustou-se. com uma expressão de dor. . talvez tivesse encontrado algum conhecido na cidade e ficara para jantar. Se bem que isso não fazia seu gênero. correu e olhou pela janela. não! Mas como? — Estava atravessando a rua. fez um chá e tentou ler. Ou quem sabe o carro quebrara. Um homem com o braço numa tipóia. nenhum recado. repetia a si mesma enquanto se dirigia para a cozinha procurando algo para comer. pai. Mas fora isso. obrigado. furioso. Quebrei o braço. estou bem. e um homem vinha mancando em direção a casa. Tomamos chá e depois ela me convidou para jantar. estar ferido! Ou morto! Tinha que parar com isso. Meggy ficou parada diante dele. Poderia ter sofrido um acidente. Seu braço estava enfaixado e a calça. Estava terrivelmente pálido.

É uma fratura simples e vão esperar desinchar primeiro. Fui ficando desesperado. quebrar o braço. — É melhor agora eu ir para a cama. enfaixaram meu braço. me anestesiaram. — Então alguém teria me levado para o hospital. porque estava preocupado com você. ligava. mulheres e crianças que estavam na rua. me colocaram na cama.— Você quebrou o braço? Mas por que não está engessado? — Vai ser engessado na segunda-feira. Nick. — E por que não ficou lá? — Em primeiro lugar. dizendo para dormir. — Isso é loucura! — Não pedi a sua opinião — falou com voz suave. — E o pessoal da moto? — Acho que nem percebeu o que aconteceu. — Oh. Ligava. Eu ligava para cá e ninguém atendia. neste lugar? Por um momento um sorriso apareceu em seu rosto. Andou comendo? . me anestesiado. — Não antes de me trazerem um teh pahiú. — Você não pode estar falando sério. — E naturalmente você teria obedecido. depois levantou-se e foi mancando até a porta. — Alguém veio ajudá-lo? — Todos os homens. Você deve estar se sentindo péssimo. Estava muito perto dela. Queria que tomasse um táxi e fosse me tirar do hospital. Teriam tirado radiografias. bater a cabeça e o joelho. — Naturalmente. — Uma migalha. Por que se preocupou tanto? O que poderia me acontecer aqui. — Você poderia cair na calçada. e nada. Sinto muito. encostado na porta. Tiraram radiografias. — Levantou a mão e passou o polegar pelo seu queixo. dizendo para ficar quieto e dormir. — Há algo. Fui a atração do dia! Alguém me levou de carro para o hospital. — Não tão mal — assegurou-lhe secamente. — Como saiu do hospital? Fugiu? — Sim.. — Ele sorriu.. enfaixado meu braço e me levado para a cama. olhando-a com um leve sorriso. machucar as costelas. Meggy olhou-o incrédula.

— É. — Não há perigo. e o sussurro das palmeiras tocadas pela brisa. Acho que engordei uns três quilos. A camisa estava aberta. um armário e uma cômoda. Mas comendo. Queria só um pouco de gelo para colocar no braço. me tornei totalmente inofensivo. — Você não se parece em nada com um Romeu esta noite! Ele riu. Ele moveu o braço esquerdo e examinou-o. — Estava. coberto de pêlos escuros. Ouviu o murmúrio suave do riacho que passava no fundo do jardim. sem cortinas. enquanto esperava por você. Faça alguma coisa — disse ele. Nick acendeu a luz e sentou-se na beira da cama. E preciso de ajuda para tirar a camisa. — Não acha que a preocupação que temos um pelo outro é comovente? — O que eu acho é que você deve ir já para a cama. — Você ainda está com um braço — ela comentou com ironia. — Estava esperando por mim? Se eu soubesse. como no seu também. — Não diga bobagens. Ele sorriu e seus olhos azuis brilharam como antigamente. não? — disse provocando-a. — Estava só preocupada com o que poderia ter acontecido. com essa cara de virgem assustada. Ela olhou-o friamente. — Não fique parada aí. Apenas uma cama. As janelas. Isso foi um convite? .— Biscoitos. estavam abertas e o luar prateado iluminava a cama.. Meggy seguiu-o até o quarto. Ele abriu o último botão. Com as costelas machucadas e um braço quebrado. Seus olhos azuis repentinamente a encararam. afinal não estou tão inofensivo assim. Meggy o observava enquanto ele desabotoava a camisa com a mão esquerda. Precisa de alguma coisa? Um analgésico? — Talvez mais tarde. Ele encaroua. — Então não me olhe assim. — Pensei que estivesse na cama. Havia poucos móveis.. — Excitante. Por culpa sua. — Como conseguiu vesti-la? — Não olhe para mim assim! Uma das enfermeiras cortou a manga para ficar mais fácil vestir. revelando o peito bronzeado. mas acho que tirar não vai ser tão simples.

continuou no mesmo lugar. com o rosto bem junto ao seu. — O que estou fazendo? — Você sabe o que está fazendo. por quê? — Os olhos dele procuravam os seus. Puxara o lençol até a cintura. — Por quê? Está com medo? — Por que deveria estar? — Fez um esforço para parecer calma. Ele estava perto demais. deveria estar furiosa consigo mesma por se permitir sentir aquelas velhas sensações. — Solte-me. embora estivesse trêmula. Mas não. não faça isso. — Por favor. Finalmente. com receio de olhar para Nick. Não gostava que ele tivesse o poder de provocá-la assim apenas com um olhar. — Vou buscar o gelo. Seus lábios encontraram os dela num toque suave e sensual. apenas um pedaço do passado. ou ficar aí parada admirando o meu peito? Com o coração batendo forte. Mal acabou de fazê-lo. Era um beijo pleno de ternura. Nick.— Não! Ele riu. Ela trouxera os cubos de gelo dentro de um saco plástico. Mas foi suficiente para fazê-la sentir-se uma frágil prisioneira. Nick. um gesto. Notou que estava pálido e parecia exausto. sem olhar para ele. — Este braço está muito bem. uma palavra. — Obrigado. Quando voltou. Sabia que. talvez esse gesto fosse. — É mesmo. . — Você tem razão — disse ele. Nick havia se deitado. Não gostava do que estava acontecendo com ela. fazendo-a perder o equilíbrio e cair sentada ao lado dele na cama. ao contrário do que esperava. e parecia fazer seu corpo despertar novamente para a vida. passou uma toalha em volta e colocou sobre seu braço. também para ele. Ela engoliu em seco. Como poderia odiá-lo diante da suave ternura daquele beijo? Ele a amara uma vez. O coração de Meggy batia descontrolado. na verdade. sentiu um braço em torno dos seus ombros. Meggy se levantou. — Vai me ajudar a tirar a camisa. — Ela sentiu o rosto queimando. Meggy fechou os olhos e se viu correspondendo com toda a intensidade àquele contato. Quando ele a soltou. Meggy tirou a camisa devagar.

chame. — ela lembrou. que daqui a pouco eu levo o gelo. Preferia que nada tivesse acontecido entre eles. Acho que foi um caso de orgulho. Só podia ser Nick. Há muito tempo não o via assim. — Você teria vindo? — É claro que sim. Dez minutos depois Meggy estava deitada em seu quarto. Tentei tirá-los com a mão esquerda. Havia cubos de gelos espalhados pelo chão e ele tentava pegá-los. mas foi tudo para o chão. — Gosto quando fica enérgica assim — murmurou. O que poderia ser? Meggy prestava atenção. Você deveria agradecer aos céus e aproveitar. Na verdade. — Sabe muito bem o que eu quis dizer! — ela acrescentou.— Está doendo muito? — Agora sim. — Não precisa exagerar. Alguém estava na cozinha. e você tem razão. provocando aquela mistura de sensações inexplicáveis. . — É claro que sei. Pelo amor de Deus. Ele riu. Encontrou-o na cozinha. Eu devia tê-la chamado. É melhor tomar outro antes que piore. malicioso.. — Nick sentou-se. colocou o penhoar e foi ver o que estava acontecendo. — Vá para a cama. — Por que não me chamou? Nick olhou-a irônico. usando apenas uma cueca. você quebrou um braço! E por acaso estou morando nesta casa. Ela agachou e começou a ajudá-lo. Acho que está acabando o efeito do analgésico. mas quando ela encostou o gelo em seu braço. Nick estava deitado. e saiu mancando da cozinha. — O que houve? — Estou pegando cubos de gelo! — respondeu irritado. ele abriu os olhos. desejou nunca ter vindo para Bali. — Aqueles derreteram e vim buscar mais. que não a tivesse beijado. Ela colocou água nas gavetas para fazer mais gelo e levou o saco plástico com os cubos para o quarto. E se precisar de mais alguma coisa. Saiu da cama. mas não conseguia dormir.. Um estranho ruído a acordou no meio da noite. — Idiotice. de olhos fechados.

Não poderei guiar. A cama é grande e estou inofensivo. Nick contratara uma empregada para limpar e cozinhar. — Ele olhou para o braço esquerdo. Já tomei analgésico. — Daremos um jeito. — Desde quando? — Cale a boca e durma. Ela trouxe os pratos para o terraço e os dois comeram em silêncio. Ele riu. vendo o dia amanhecer naquele verdadeiro paraíso. — O amanhecer é a melhor hora do dia. Ainda não tinha amanhecido completamente. — Vou preparar ovos mexidos com torradas. Não era maior do que a da casa dos Ingram. Dormiu profundamente por umas duas horas. e ela não podia culpá-lo. ou escrever. — Boa noite. Isso era tudo o que eu precisava. Fez café e levou a xícara para a varanda. — Ele estava malhumorado. — Sou uma mulher séria e comportada. — Duvido que consiga. mas ela só começaria na segunda-feira. Meggy não se deu ao trabalho de responder e foi para a porta. Preciso dormir. — Puxa. — Pode dormir aqui. — Onde deixou o carro? — Em Jalan Surapati. Meggy foi até a cozinha. quase. isto é. a uma quadra do Hotel Horizon. você levantou cedo. — Quer um café? Ou um analgésico? — Quero café. Ele resmungou alguma coisa e recostou-se na cadeira.— Que roupa séria e comportada você está usando — disse observando seu conjunto de dormir. Talvez um deles possa ser útil. — Nick apareceu na varanda. mas também bem equipada. Um braço quebrado ao iniciar um novo trabalho. mas parecia preocupado demais para apreciá-la. Por que não me faz companhia? — Meus cuidados não chegam a tanto. está bem? — Ótimo. acordando com o canto dos pássaros lá fora. Amanhã devem vir dois motoristas para serem entrevistados. Como está? — Péssimo. — Ele olhava a paisagem.. . Usava apenas um short branco. Vestiu um short branco e uma camiseta vermelha. sentando-se com dificuldade na cadeira de vime perto dela..

— Pelo amor de Deus.— Então. pare de me tratar como uma criança. Estão no meu quarto. — Hoje é domingo e tem pouco trânsito. sobre a cômoda. Logo encontrou o carro. deu uma olhada no mapa. Nick apertou os lábios. — Meggy. hoje seria sua vez. vou buscá-lo. — Não. Já estive em muitos lugares onde não falava o idioma e sempre me saí bem. — Obrigada. estendendo a mão. Abriu a porta. — Mas só porque você não está em condições. Foi num pequeno furgão que só tinha dois bancos. Ele sorriu. — Para quê. e não para ser pajeada. — Mas não em Denpaar! — rebateu Nick. um de frente para o outro. ligou o motor e resolveu dar uma volta pela cidade. Já andei de carro o suficiente com você para me acostumar a guiar no lado esquerdo da estrada! — ela reclamou. Nick encarou-a. Acho que ainda estou com o conceito de que é uma frágil garota. Teve que andar um bom trecho a pé para pegar uma condução. — Não desisti. Morro de medo que você esbarre em Robert Redford e me esqueça aqui — ele brincou. — É. Ele suspirou. Depois de arrumar a cozinha. Pelo menos pode me "pajear" — ironizou. você não está acostumada com esse tipo de carro e não fala o idioma local. A estrada era estreita e . irritado. — Acredito. — Onde estão as chaves? — insistiu. Ela levantou e pegou os pratos. Vim para Bali a trabalho. Meggy voltou ao terraço. Não vai. — Onde estão as chaves? — disse. — Estou feliz que esteja aqui comigo. — Cuidado com os pneus. se posso fazer isso hoje? Ele olhou-a irritado. Pelo certo. Na segunda-feira mando um motorista até lá. — Está bem. tem razão. — Vou lavar a louça — disse friamente. Meggy fuzilou-o com os olhos antes de sair com as chaves na mão.

Mas Meggy não reclamou. — E não é que você conseguiu? — disse ele. cara nova na cidade! — Ela deparou com dois lindos olhos verdes e um sorriso perfeito de dentes muito brancos que contrastavam com os cabelos castanhos. Não foi nada fácil para Nick cumprir a promessa durante as semanas seguintes. — Peter Strauss. Meggy procurava fingir que não percebia o quanto isso o deixava nervoso. ainda encontrou Nick sentado na varanda. quase não havia trânsito e o passeio foi muito agradável. estava começando um novo trabalho e muito tensa. Havia gente de vários países. arranhões ou pneus furados. não acha? Afinal. Que decepção. todos morando em Bali a trabalho. O gesso incomodava demais. — E o seu braço. Não vá embora! Não vou mais me queixar. — Por favor! — Ele forçou um sorriso. . mas muitas vezes ela própria quase se viu perdendo o controle. — Promete? — Prometo. e seu humor não poderia estar pior. Encantado em conhecê-la. — Eles não estão aqui para trabalhar nem têm um braço quebrado. — Srta. estamos em Bali. — Se vai começar a sentir pena de você. O grupo era muito animado e logo se sentiu à vontade. fingindo surpresa. Tinha que pedir a sua ajuda o tempo todo. o paraíso na terra. juro que vou embora. lendo. Adorou quando foram convidados para a festa de despedida dos Ingram. quando parou o carro. Também tinha seus desafios a enfrentar. lembra-se? Por toda parte há turistas se divertindo a valer. Não via a hora de conhecer o pessoal estrangeiro que vivia na região. Otimista! — Alguém tem que ser otimista por aqui. — Oba. Meggy ignorou o comentário.atravessava pequenos vilarejos e antigos templos hindus. Afinal. Como esperava. hein? — Não seja maldosa. de repente depender dos outros para tudo não era fácil para ninguém. e muito menos para um homem com o temperamento dele. como está? — Podia ser pior. — É uma boa forma de encarar o problema. — Estou tão desamparado. Uma hora depois. e pareciam muito unidos. — Sem acidentes. Ele olhou-a aborrecido.

Só que estão morando na mesma casa. — Colocou-a ao lado de Nick. Assim que Meggy viu a atenção deles desviada. Nick já estava lá conversando com Brian Williams. Opperman. Não saia daqui por favor. mas Meggy ficou visivelmente embaraçada. srta. — Bem-vinda. Meggy olhou surpresa para Peter.— Meggy Opperman. aproximem-se. Nick Donovan e srta. por sinal. Meggy Opperman. sr. estejam certos. Nick colocou o braço esquerdo sobre o ombro de Meggy e lançou-lhe um olhar insinuante. Meggy e Nick. — brincou. — Senhoras e senhores! — ele falou bem alto. tirando o braço do seu ombro! — Não precisa fazer isso! — O quê? . — É uma espécie de relações-públicas do pessoal estrangeiro que trabalha em Bali.. Como vocês interpretam isso? — Era evidente que tudo não passava de uma brincadeira. — Isso mesmo. Ela sorriu. — Quero lhes apresentar dois americanos recém-chegados. furiosa. formam um lindo casal. Todos aplaudiram e se uniram ao cumprimento. — Por favor.. que lhes desejamos sinceras boas-vindas! — discursou o "Sultão". e todos aplaudiram rindo. um neo-zelandês corpulento <que fumava charuto e vestia uma vistosa camisa havaiana. — Ele diz que é apenas seu chefe — continuou o "Sultão". — Veio para um projeto de engenharia na área de habitação. — Isso já sei. — O que será? Peter encolheu os ombros e seguiu-a até o outro lado da sala. — Que Bali inspire seus corações. E que. e depois voltaram a bebericar e conversar.À parte a brincadeira. — O apelido dele é "Sultão" — informou Peter. —. o que só serviu para deixála tensa.. aqueça suas almas e só lhes dê alegria. — As novidades voam.. virou-se para Nick. — Atenção! Atenção! — alguém chamou. — Ela diz que apenas trabalha para ele. O "Sultão" puxou-a pela mão e mostrou lhe o melhor dos sorrisos.

— Sou um autêntico alemão. Estou esperando pela casa dos Ingram. — Mais uma poção mágica aqui para a moça — pediu Peter. — Keith? Imagine que a profissão dele é contador! Mas quando faz coquetéis é um verdadeiro mágico. — Acho que é uma boa idéia. não sei. — Não imagino os alemães como sendo românticos. adquirir equipamentos. de cerca de quarenta anos. Gosto de saber onde estou pisando antes de me apaixonar. — E ele é só seu chefe mesmo ou existe algo mais? — Você está sendo indiscreto. Wagner? . — Sou consultor numa escola técnica. Heine. Ajudo a organizar classes. voltando-se para Peter. — Hum. Foi uma mistura misteriosa preparada pelo barman. afastando-se. apenas prevenido. Mal deu alguns passos. — O que você estava bebendo? — Para falar a verdade. Peter apareceu ao seu lado. deixando o "barman" feliz. — Pegou a mão de Meggy e sorriu. — Que tal mais um drinque? — Ele olhou para o copo vazio em sua mão. — Não. Meggy tomou mais um gole do drinque. — Relaxe. colocando o braço em meus ombros! Ele riu. Conversaram sobre o trabalho dele e a vida em Bali até que ele resolveu perguntar: — E esse Nick Donovan? Você mora com ele? — Por enquanto. Venha comigo. Keith era um canadense grisalho. — O que faz em Bali? — perguntou. Foi só uma brincadeira. Keith preparou tudo rapidamente. ótimo — Meggy aprovou depois do primeiro gole. — Talvez para você tenha sido engraçado — disse. esse tipo de coisa. — Mas você me conhece há vinte minutos! — Para mim não precisa mais do que isso — ele disse sério.— Reforçar as insinuações daquele imbecil. Meggy. — Não quero perdê-la. — Não? Que tal Goethe.

— Peter sorriu. Virou-se para Peter. Existe alguma coisa entre você e Donovan? — É apenas meu chefe e um dos donos da empresa em que trabalho. ou vou ter uma "conversinha" com Tony. — Meggy sorriu. por favor — ironizou. pode ficar tranqüila — falou. estou diante de um conquistador. Vagamente ouviu-o falar sobre um plano de corrupção que ele descobrira.. já estou de saída. — Que tal ir à praia comigo amanhã? — Acho que não vai dar. Meggy — disse apontando para Tony —. — Sou Pam McGregor. Pam. enquanto conversava com os Ingram. — Meggy não pretendia se envolver com aquele paquerador alemão. colocando um braço sobre seus ombros com familiaridade. cumprimentando-a. — Olá. — Ela sorria e lhe estendia a mão. Depois pensou mais um pouquinho. — Cuidado com ele. — Então. Ele quer ir embora. — Está bem. Olha lá o Tony me fazendo sinal. — Está bem — disse. sei me defender. — Só fiquei com pena da pobre moça. despedindo-se de Pam. — Não esquecerei. aproximando-se. obrigada. Afinal. — Não a leve a sério. Pammy. — E aí.. Dali em diante ficou difícil para ela prestar atenção na história que Peter lhe contava. Pam riu. está bem. — Ele sorriu feliz. — Pode deixar. aquele ali é meu. Por que deveria contar a esse estranho que já tinha sido apaixonada por Nick e isso ainda a fazia sofrer? — Ainda bem. brincando. Mais um drinque? — Já bebi o suficiente. Estava pensando em ir embora quando Nick apareceu ao seu lado. Aliás. — Ih! Chegou a salvadora! — disse. acho que estão um pouco velhos agora — ela brincou. Tenho milhões de coisas a fazer.— Bem. — Maldosa como sempre. . — Saia daqui. você não respondeu à minha pergunta. que a observava. e sem querer olhou para Nick. — Então o Peter já está tentando se encarregar de você — disse uma loira alta. estava há três semanas em Bali e ainda não vira o mar.

prefiro! Estou cansada de ter você interferindo em minha vida! Parece que esqueceu que é apenas o meu chefe! Estamos compartilhando o mesmo escritório. ele a soltou. E também não precisa responder as perguntas por mim. — Já conhece Nick Donovan? Os dois apertaram as mãos. mas é bom você lembrar que eu. mas falaria sobre isso depois.. Meggy não estava gostando nada do clima e achou a atitude de Nick muito antipática. Seus joelhos e pernas pareciam enfraquecer cada vez mais e seus lábios corresponderam ao apelo mudo de Nick. . Meggy parou e encarou Nick.. — Cale-se! — Ele puxou-a com toda força com o braço esquerdo e beijoua. a mesma casa e passamos muito tempo juntos.. — Se quiser ficar. Vejo você amanhã. Você não tem que dizer o que devo fazer. De repente. recebendo em troca o olhar irritado de Nick. Peter. E sei me defender muito bem sozinha. — O que há? — perguntou. A noite estava quente. não é da sua conta. — Prefiro ir agora. — Está bem. Mas estava tão cansada... Finalmente. — Sim.— Vamos para casa? — sugeriu. Andaram em silêncio durante um certo tempo. — Meggy imitou seu modo de falar. De repente. — Se prefere assim. mas Nick logo segurou o braço de Meggy. — Nada. — E daí? Talvez eu estivesse gostando! De qualquer forma. — Não.. mas infelizmente estamos de saída — disse para Peter com ar absolutamente formal. ela vai comigo. — Ela olhou para Peter. — Vamos. Meggy sentiu o corpo dominado por um desejo traiçoeiro. Ela vai comigo". Aquele sujeito parecia ter grudado em você. Passo lá às oito. desta vez com uma inesperada paixão.. perfumada e convidava a uma caminhada.. Por quê? — Já não gostei quando deixou todos pensarem que temos um caso e depois ainda vem com aquele "Vamos para casa. — Muito prazer. Abraçou-o e se rendeu sem barreiras às sensações que a invadiam. com um ar autoritário que a desagradou. — Só quis ajudá-la. — Não gostei nem um pouco. posso levá-la mais tarde — sugeriu o bonito alemão.

Você só quer me levar para a cama. — Eu te odeio — ela murmurou com voz embargada. Não queria olhar para ele. — Não. — Até certo ponto. Seus nervos estavam à flor da pele. não agüento mais! Sabia que a tensão entre eles estava aumentando cada vez mais. — Meggy? — Vá embora! Nick entrou no quarto e sentou-se na beira da cama. Ouviu-o bater na porta. Não se esqueça de que a conheço muito bem. — Meggy! Ela correu às cegas. — Eu disse para você ir embora! — Sua voz estava abafada contra. Meggy. raiva ou medo. sério e calmo. Nick a desejava. atirando-se na cama. — Meu Deus. Meggy. não odeia. furiosa. Não sou idiota! Não sou cega! Mas pode desistir! . A questão é: o que vamos fazer a respeito? Ela o olhou com ódio profundo. num gesto ou numa lembrança qualquer. — Não! Ele forçou-a a virar o corpo. e acabava se descontrolando por qualquer bobagem. odiando-se também. É isso desde que começamos este trabalho. Virou-se e começou a correr. Meggy. Vamos conversar — pediu. Abriu a porta e seguiu para o seu quarto.— Não tente mentir para você — disse com calma. claro que sim. — Acha que conhece? Então o que pensa que eu sinto por você? Paixão? — Que tal conversarmos sem rancores? — Não há nada para conversar.o travesseiro. E. até chegar em casa. — Não tenho direito à minha privacidade? Você tem sempre que invadir o meu espaço? — Sente-se. — Não tente fingir que não existe nada entre nós. Isso ficava sempre evidente num olhar. Meggy soluçava. e sabe que não é ódio. pior. sem poder evitar que as lágrimas enchessem seus olhos. Você sente o mesmo que eu. E ela também o desejava. Não importava se era ódio. — Seu monstro! — ela murmurou. — Agora você também pode adivinhar o que se passa dentro da minha cabeça? — perguntou.

— Você nunca vai me perdoar. — Gostaria que tentássemos ser amigos. — Tente de novo! Não há nada neste mundo que fará me envolver outra vez com você. Mas não acho que estamos prontos para isso. Apenas não acho que esteja sendo sincero. — Nunca. — É pedir demais? — Não. — Vá embora — sua voz parecia vir de longe. — Eu não estou. Não queria encará-lo. CAPÍTULO VI — Meggy — disse Nick após uma pausa. — Meggy. A não ser que quiséssemos ir para a cama. Ele se levantou. — Amigos? Meggy concordou. — ela se revoltou. Era difícil não lembrar quantas vezes fizeram amor. Ela sentou-se e o encarou. Meggy. não é? Ela o encarou com firmeza. — Não quer ser minha amiga ao menos? — Ele encarou-a.. Claro que não era. duvido que meu desejo seja maior do que o seu. Ela o amara uma vez. Nós estávamos conseguindo. Amigos! Não sabia como iria consegui-lo. Virou o rosto. — Tão sincero quanto possível. Não queria admitir que ele tinha razão. — Talvez eu também não esteja. Meggy estava na praia e deixava o sol bronzear sua pele enquanto tomava uma coca. Os vendedores invadiam a praia oferecendo desde . Para quê? Para tudo terminar quando acabar o contrato de trabalho? — Você não está sendo justa.. Meggy. — Não sou cego nem imbecil. e era difícil não lembrar disso. — É o que você quer acreditar. não? Podemos tentar de novo.— Já tentei. — Não quero. sem olhar para ele. Ele sorriu. — Nick olhou-a por um momento. mas sem dúvida era melhor do que serem inimigos. — Justa? Olha só quem está falando em justiça! O olhar de Nick estava triste.

— Sentimento de privacidade? — Peter riu.refrigerantes até conchas exóticas. . Era comum em Bali.. Meggy negou com a cabeça. Havia tentado ensiná-la. cada uma com uma lata de óleo de bronzear nas mãos. — Oi. Peter nunca perde tempo. — Ora. mas não a atraía nem um pouco. — Acho que as ''mulheres americanas" não estão nem um pouco interessadas na sua opinião.. mas não se sentia preparada para a experiência de tirar a parte superior do biquíni e deixar uma velha massagear cada polegada do seu corpo numa praia pública. Ela olhou para a água. Via Peter caminhando em sua direção. — Por quê? Está com receio de mostrar os seios? — Ele riu. mas deveria ter adivinhado. Era um homem de corpo bonito e viril.. aproveite. Peter olhou-a aborrecido. Pam. Eu já disse a elas que não. — ele insistiu. Talvez o que temos seja um forte sentimento de privacidade. mas as duas não desistem. biquínis e bijuterias artesanais. não? Ela sorriu. — Quer fazer massagem? — perguntou.. ainda são muito puritanas. observando muitas jovens de topless sendo massageadas. É relaxante.. — Não entendo isso. — Não a reconheci pelas costas. — Não. sem sucesso. — Peter! Meggy virou a cabeça e viu uma loira alta. pingando de água do mar.. — Vocês americanas são realmente estranhas. — Tidak mau — disse. com um maio inteiriço marcando o corpo bem-feito... vestidos. se é assim que você quer encarar a coisa. — O corpo é uma propriedade particular. — Massagem? Quer uma massagem? — Duas senhoras de sarongue a olhavam cheias de esperança. — Mas eu gostaria de saber qual é a sua. Meggy! — A moça riu. — Olá. — Não quero — disse com firmeza. Apesar de tantas conquistas e liberação. Ele jogou a prancha de surf na areia e olhou para as massagistas que ainda estavam ali paradas. — Está bem. Peter estava surfando.

É melhor passar algum produto para queimadura. e depois olhou-a preocupado. quieto. Ele era magro e alto. Não usou protetor solar? — Claro que usei. — Além da variedade de pratos indonésios. sentiu a pele ardendo bastante. Podemos ir ao Murni's Warung — sugeriu Nick. vendo Tony se aproximar. que fingia não perceber. me diverti. Depois vamos almoçar. Pam falava e brincava o tempo todo. Tony era o típico escocês.— Onde está Tony? — Comprando outra esteira. As árvores formavam uma sombra gostosa e deixavam o ar mais fresco. tinha uns cinqüenta anos e vinha todos os dias com o tradicional sarongue e o cabelo preso num coque. jogando indiretas para Peter. Costumava trabalhar até aos domingos. Eu diria que conseguiu uma bela cor de lagosta. Ela o conhecia suficientemente bem.. Meggy olhou para os braços. fazendo todos rirem às gargalhadas. — Tentei até surfar. Almoçamos num restaurante perto da praia e comi carne de tartaruga.. mas foi um fracasso total. — O domingo era o dia de folga da empregada. Nick estava na varanda. para saber o quanto não gostara de ela ter saído com Peter. — ele comentou. — Acho que se queimou demais. — Não se preocupe com o jantar. — Tudo indica que se divertiu. . examinando uma pasta cheia de documentos. esperando que não tivesse se queimado demais. — Pois não. Por que não vêm conosco? — Ótima idéia — Meggy respondeu. Murni's Warung também tinha "autênticos hambúrgueres" e "doces de chocolate mais gostosos do que os de San Francisco". — Sim. doutor. — Na minha opinião. — Boa idéia. e não estou tão queimada assim. Ibu era nativa. mas quando dava algum aparte era sempre inteligente e espirituoso. vai ficar mal. Quando Meggy voltou para casa no fim da tarde. Já provou? — Já — respondeu secamente. Não sabia se era verdade. Foram num dos pequenos restaurantes de beira de estrada que tinha mesinhas ao ar livre. observando-a dos pés a cabeça. com uma ponta de ironia. o rosto sério. um alívio depois do sol escaldante da praia. Mas antes vou tomar um banho e preparar algo para comermos. mas dava para matar a saudade de seu país. — Encarou-o com ar de desafio.

não? — Sim. Ele estava preparando um drinque. Colocou um vestido bem leve de algodão e foi ao encontro de Nick. porque era impossível alcançar as costas. São as costas. mas cada vez que se mexia. não estava. — Deve estar mesmo. — Você não quer que eu encoste em você. — Posso entrar? — Não! — Ainda estava nua. Não passou nada nas costas? — Não precisou. — Sorriu malicioso. Não seja boba. eu estou bem. na esperança de que a água fria refrescasse suas costas. No restaurante. . Levantou.. você está bem? — Sim. suas costas estão piores do que o resto do corpo. Meggy.. Parece que estou desidratada.— Se precisar de ajuda para passar o produto para a queimadura é só chamar — ele ofereceu. Meggy. Acordou no meio da noite e não conseguiu mais dormir. — É muito bom. Sabe que ao me aproximar muito meus hormônios explodem. Ela ficou parada olhando. Sei que é um problema. — Ora. sentada na cama. não via a hora de terminar o jantar e voltar para casa. passou mais loção para queimadura e deitou. Mas vou passar o remédio bem depressa. Eu ouvi o chuveiro. — Trouxe um remédio. — Meggy. — Ele mostrou um vidro de loção. não se preocupe. Mas foi só se enxugar para começar a doer novamente. — Não seja infantil.. — Xerez? — Prefiro soda com limão. Nick entrou assim mesmo. — Consigo me virar sozinha — respondeu. mas não conseguiu. Na verdade. lutando para dominar qualquer pensamento sensual. Ao chegar.. foi tomar um banho. Desanimada. — Eu disse para não entrar! — Ela cobriu-se com o lençol. Parecia um grande alívio. Nick bateu na porta. — Pelo que vejo. sentia muitas dores na pele quente. foi direto para a cama. Contém anestésico.

— Aquele Strauss é muito apressado. — Não é porque você pensa assim que todos os homens.— Muito engraçadinho! Vamos. Para dizer a verdade. Estava muito bom. sua mão se movendo com sensualidade sobre suas costas. e não de alguém fazendo um favor. Era a mão de um amante. — Acredito — ele disse secamente. cobrindo-se da cintura para baixo. — Ficou com uma marca branca — Nick comentou. Ele parecia totalmente concentrado em aliviá-la da dor. Preferia não falar sobre isso porque o assunto já foi discutido hoje — falou com raiva. — Já chega! Ele riu. não fora fácil. não é? — perguntou Meggy. espalhando suavemente a loção nas áreas queimadas. Bom demais. Provavelmente estava esperando que você tirasse tudo. — Ela deitou de bruços. A mão que agora passava o remédio em suas costas se movimentava de forma diferente. — Você não gosta dele.. mas o toque de sua mão fazia o sangue de Meggy correr mais quente. ela deu um grito. — Por quê? — Ela tentava distraí-lo com a conversa. — Não seja ingênua. Nick riu. querida. mas ficou evidentemente muito frustrado. do sol e de Peter. mas ele insistia para que terminassem o dia juntos. — Assim que encostou a mão na pele.. Sou uma representante do' 'puritanismo americano''. Ele encolheu os ombros. — Ai. — Por que não tirou a parte superior do biquíni? — Porque não quis. — Vou passar em toda as partes das costas. — Não me chame de querida. — Não. — Nick puxou o lençol um pouco mais para baixo. ... é gelado esse remédio! — Por isso vai fazer bem — Nick explicou. passe logo o tal remédio. A dor foi aliviando e a tensão desaparecendo. Até fiquei surpreso ao vê-la voltar tão cedo para casa. já pedi! Por que pensa que Peter é apressado? — Porque não nasci ontem. Custou convencê-lo a levá-la para casa. — Boa menina. Às quatro horas já estava cansada da praia.

Meggy sorriu e deu uma volta pela casa. Era uma empregada sorridente e gentil. Irrita porque está interessado em mim. encostando seus lábios junto à sua orelha num toque suave e meigo. — Obrigada. Meggy — ele disse.. — Como é. — Boa noite. Gesticulando muito. Nick tocou seus cabelos e novamente ela ficou tensa. — Acho que vai melhorar com isso. mas achou melhor não fazer comentários. descobriu também que estava faltando o ventilador do living. De repente. — Gostaria mais se tivesse uma geladeira e um ventilador. ouviu seus passos atravessando o quarto e depois a porta fechando. Ele fechou os olhos demonstrando cansaço. mas não conseguiria relaxar completamente enquanto ele estivesse no quarto.— Ele me irrita. Pam". — É apenas um beijo de amigo. mas Meggy não entendeu quase nada. sem dúvida. — Odeio essas coisas! É uma mesquinharia. Na manhã seguinte. até chegar à cozinha. que se achou no direito de retirá-las com a mudança do funcionário. Haviam levado a geladeira! Além do mais. o coração disparando.. a empresa nos prometeu casas totalmente mobiliadas — reclamou. Estava bem melhor. — Além disso. . Ariaso procurou explicar o que acontecera. — Mas a empresa não tem culpa. David Ingram trabalhava para o Ministério da Agricultura. sendo recebida por Ariaso. Ela percebeu que ele sorria. — Acho que sei o que houve. Logo que os Ingram partiram. — Meggy fechou os olhos. Mostrou-lhe o vaso de flores que chegara com um cartão: "Bem-vinda à nova casa! Venha jantar comigo hoje. Em seguida. Meggy fez as malas e se mudou. ela pensou. gostou da casa? — perguntou Pam. ela comentou o problema com Nick. — Não faça isso! — ela pediu. encontrando tudo limpo e em ordem. — Ele disse e imediatamente retirou a mão fazendo-a sentir um estranho vazio. assim que ela chegou para o jantar. pois seus conhecimentos de indonésio não eram suficientes. e não temos previsão para este tipo de gasto. Aposto como essas coisas foram compradas pelo Ministério.

Conseguirei o dinheiro de alguma maneira.— Só sei que preciso de uma geladeira. você vai e comprai — Não há meio de contentá-lo. encontrou Nick concentrado no trabalho. O pior é que Nick ficava irritado cada vez que ela tocava o assunto. — Tenho coisas mais importantes para fazer do que correr atrás de uma maldita geladeira! — explodiu um dia. quando ouviu baterem na porta. — O que está fazendo? — ele perguntou ao entrar. comprou um ventilador e uma pequena geladeira com seu próprio dinheiro. — Fui ao banco. bateu a porta e saiu. onde ela faria uma reunião com os candidatos às novas casas. — Não precisa mais se preocupar com a geladeira e o ventilador — anunciou com satisfação. — Sinto muito incomodá-lo com isso. Logo encontrou Atjin. Agora. Eu é que tenho de dar um jeito. Ele levantou a cabeça e olhou-a espantado. Nick. Foram até uma favela. — Eu disse que estou tratando do caso. — Depois de todo o barulho que eu tive tentando conseguir essas malditas coisas. retirei dinheiro e comprei o ventilador e a geladeira. — Eu mesma os comprei. Ela o estava aborrecendo com "coisinhas"? Então resolveria o problema a seu modo. não é? Estou errada se faço e estou errada se não faço! — Pegou a bolsa. trocando a tomada do abajur que trouxera de casa. Duas semanas depois nada estava resolvido. Nick olhou-a irritado. E não acho que um ventilador vá abalar o orçamento. Fez várias pesquisas e dali foi direto para casa. espere! Ela ficou furiosa. mas a empresa não vai querer resolver esses problemas. — Você o quê? Meggy encarou-o. — Concordo. não é? — Virou as costas e afastou-se. — Obrigada — disse magoada. pois já passara de seu horário. esperando por ela. — Entre. Quando chegou ao escritório na manhã seguinte. Pegou o carro e foi até Denpaar. mas você é o diretor. . pelo amor de Deus. Estava na sala. o motorista. — Meggy? Sou eu.

brincalhão. também queria pedir desculpas pelo meu mau humor por causa da geladeira e do ventilador. porque veio até aqui? Ele a encarou. Ele continuou sorrindo. Precisa de algo? — Sim. — Há ratos aqui? — Só um bem grande. — Ora. — Naturalmente. ainda vou ao supermercado hoje. — Não estou com vontade — ela mentiu. — Bem. se eu não conseguir chegar a tempo. — Se der. — Bem. — Meggy arregalou os olhos. e o abajur iluminou a sala. — Estou impressionado — disse ele secamente. Outra coisa: quero lembrá-la de que amanhã vou tirar o gesso e você precisará estar no escritório às duas para a reunião. — Afinal. no escritório. Senta nessa cadeira e me deixa furiosa. não está vendo? E já terminei.. . — Ela ligou-a na parede com ar de triunfo. — Pois sua intuição é tão ruim quanto você. — Poderia muito bem me perguntar isso amanhã. acho que sim. — concordou sarcástica. não vai consertar seu liquidificador. Ela o olhou surpresa.. naturalmente pensei que não soubesse trocar tomadas. — Pensou que eu não seria capaz? — Como você não sabe trocar um pneu. — Assim você acaba destruindo o meu ego — ele disse bem-humorado. por que veio? — Queria saber como foi o seu dia na favela. —Ele sempre volta. provocante. Era difícil ficar séria com ele olhando-a daquela maneira. e a TV? — Idiota! — falou rindo.— Trocando uma tomada. — Estarei lá. — Minha intuição me dizia que você estava correndo um perigo mortal — falou dramaticamente. — Então sorria! — ordenou Nick. Meggy sorriu. pare com isso! — começou a rir. — Assim está melhor. — E agora. Aceita minhas desculpas? — Pensando bem. Veneno para rato.

Ele entrou e sentou-se à sua frente. — Claro que é — Meggy adotou um tom amável. — O que acha? — ele perguntou. Um abraço de amigo.. Sentiu o seu cheiro. Lembrou que seu irmão dava-lhe abraços de urso que quase a esmagavam. Sabia que estava se arriscando. — Você nunca conseguiu me dar um abraço de amigo ou de irmão. satisfeito. — Nem do seu irmão? Meggy fechou os olhos e riu. mas calou-se ao sentir-se enlaçada por ele. mas não se afastou. acho que é caso de dose dupla — disse ele rindo. Os braços a envolveram com delicadeza como se tivesse medo de machucá-la. — Por quê? — Não confio em você. Obviamente não sou bem-vindo nesta casa. — ela começou a falar. — Você tem razão. até que enfim uma trégua! Nick chegou do hospital exatamente quando a reunião ia começar. O coração de Meggy disparou. mostrando-lhe o braço.. Não confio nesse seu olhar. — Puxa.— Então. Ele se levantou e foi até a porta. de irmão. Vou preparar um drinque para nós. Por que seria assim agora? — Porque é só o que é permitido. Seu rosto estava quase encostado no peito dele. a voz baixa e rouca. De repente. Chegue mais perto — ele convidou. — Sente-se. — Sou um homem inteiro novamente — Nick estendeu os dois braços. não? — Nick. ele continuou a andar em sua direção. — Gostaria de testá-los. — Nunca recebi um abraço assim. Após a reunião os dois voltaram a ficar a sós. — Acho melhor ir embora. — Não. — Não acho uma boa idéia. — Parabéns. . — Estou com a melhor das intenções.

e o beijo. Os lábios de Nick queimaram contra os seus. Olhou para Nick.— Então você terá de me ensinar como é abraço de. Queria que ele continuasse assim.irmão. primitivos. tentando retomar seu controle. — Sim — respondeu com voz trêmula. Estava de volta ao mundo real. você não quer que a solte. — Vá testar os seus braços em outra pessoa! As semanas voaram. encarando-se em silêncio. — Provavelmente um pássaro que bateu contra o vidro. trêmula. com dias cheios de trabalho. — O que foi? — perguntou Meggy. abraçou-a com força e voltou a beijá-la. Meggy deu um passo para trás. pensou e respirou fundo. É melhor me soltar. — Não acho necessário. reuniões com representantes do governo e moradores da vila. — Vá embora. Meggy quase não conseguia respirar. Já deu para perceber que seus braços estão funcionando muito bem. — É melhor voltar ao trabalho — disse. por favor — murmurou. Por que ele fazia isso com ela? Uma vez no banheiro do hotel. Nick. Um ruído na janela fez com que voltassem à realidade. Ela não resistiu. Foi um desejo tão forte que ela fechou os olhos e apoiou as mãos em seu peito. Depois. Uma grande mentira. Os conflitos e . — Pobre pássaro. Separaram-se ofegantes. pegando a pasta. deixando que ele deslizasse a boca por seu rosto até chegar aos lábios. Era mentira. — Não fique zangada — implorou Nick. Ele pegou as mãos de Meggy e colocou-as ao redor do seu pescoço. — "Pobre de mim". Meggy desviou o olhar. despertando-lhe desejos loucos. Nick encostou o queixo em seus cabelos. — Não. Você sabe como eu sou. Que a abraçasse e também a beijasse. agora no escritório. Sentiu a garganta apertada e controlou-se para não chorar. E por que ela não conseguia resistir? Respirou fundo novamente. — Não pude resistir. — Quer mesmo que a solte? — sussurrou. O seu relacionamento com Nick melhorara muito desde que mudara para sua própria casa. com suas mesas e arquivos. que começara suave. outra na beirada da cama. era agora uma procura urgente que a deixava sem resistência. ao escritório. — Beijou-lhe a testa e apertou-a ainda mais contra o corpo.

Já não tentava se enganar mais. Ele a olhou preocupada. Lembrava sempre do estranho olhar que às vezes surpreendia observando-a. — Mas você é o diretor do projeto. A primeira parte do trabalho estava chegando ao fim. Não tem que entregá-lo pessoalmente? . engenheiro civil. e nos domingos ia à praia com amigos. Discussões sobre plantas das casas. Aliás. Mas nenhum dos dois se enganava com esse falso clima amigável. deviam chegar no dia seguinte para participar da apresentação do projeto. Mas mesmo com toda essa louca atividade. geralmente para jantar em pequenos restaurantes onde o peixe era fresco e a cerveja. e para se distrair procurava estudar a cultura rica e diferente daquele povo. — Poderíamos ir mais cedo e aproveitar para fazer compras. — É. Ela queria o amor de Nick. Isso seria fácil. que a princípio parecia decidido a conquistá-la. Ela concordou. materiais etc. gelada. o problema é que desejava o seu amor para sempre. Acho que você poderia fazer isso por mim. acabara desistindo e agora andava com uma professora balinesa. Aos sábados. Ela fizera novas amizades. — Não pode esperar até que John e Leslie tenham ido embora? — Claro que posso. um mês ou mesmo um ano. e Leslie. Ele parou e pensou por um momento. depois também preciso ir a Jacarta. analista de custos. Nick não lhe saía da cabeça. estou mesmo precisando comprar algumas coisas. visitava pessoas. Meggy não perdia uma festa local. Meu passaporte está para vencer e vou tirar uns dias de licença. Não só por uma noite. — Eu também teria de ir a Jacarta para levar o plano a Lester Howard. Jamais participaria de um tradicional projeto de vida a dois. John. vôlei. Os dois consultores. ia a jantares ou jogar cartas. — Você vai comigo ao aeroporto buscá-los? — perguntou Nick quando se preparavam para fechar o escritório. Meggy não sabia se um dia conseguiria se sentir realmente à vontade ao lado de Nick.os desentendimentos se limitavam ao trabalho. Peter. Mas sabia que um homem como Nick fazia questão de sua liberdade.

e ela foi no banco traseiro com John. uma dor cortante. Tinha chalés com telhados de sapé e uma piscina com águas que vinham de um riacho. cuja nascente era na montanha. A moça estava muito elegante e. Meggy não conseguia evitar uma sensação de mal-estar na presença de Leslie Goodwin. Leslie fez uma careta. Mostrar alguns pontos turísticos e depois jantar no Poppies. uma raiva que não conseguia controlar. Meggy ficou em silêncio deixando a conversa por conta deles. na praia de Kuta. Mas sei que não faria isso. Leslie se acomodou no carro ao lado de Nick. O trabalho antes do prazer. — Pior do que o da Tailândia? — Pior — ele concordou. O pior é que não poderia culpá-lo se isso acontecesse. mesmo assim sentia alguma coisa no ar. — O Poppies era um dos restaurantes preferidos de Meggy. muito sorridente. virou-se para Meggy e John. Fora bem clara quando lhe dissera: "Não quero nada com você". como sempre. Os recém-chegados ficaram em um pequeno e gracioso hotel da cidade. — Meggy pegou a bolsa e olhou em volta para ver se não tinha esquecido nada. E Lester Howard não é um dos meus favoritos. — O que você está planejando fazer no domingo para nossos hóspedes? — Pensei em levá-los à praia. Nunca trabalhei tanto em minha vida. — Vocês precisavam vê-lo na Tailândia. — Tudo bem. —Olhe só para esse bronzeado! Está trabalhando ou passa os dias na praia? — Infelizmente passo o tempo todo no escritório mais horrível que você já viu. A última coisa que queria era ver Nick apaixonado por Leslie. — Então deveria passar os dias na praia. e servia pratos maravilhoso de frutos do mar. Sabia que ela ficaria apenas três semanas. — Que bom vê-lo de novo — abraçou Nick com entusiasmo. Prefiro não vê-lo. eu levo. Ficava num jardim. Era uma sensação horrível. — Finalmente. Meggy estava impaciente quando John e Leslie chegaram. No sétimo dia teve outro choque: estava morta de ciúmes. No quarto dia descobriu o que era: Leslie estava apaixonada por Nick.— Não creio que faça diferença. apesar do avião ter atrasado em uma hora. . que apesar dos seus cinqüenta anos tinha o porte de um atleta. — Parece bom.

Estou feliz que desta vez tenha lembrado de mim. almoçavam e passavam as horas de folga juntos. um jantar delicioso na casa de Laurie. CAPÍTULO VII — O que está fazendo por aqui? — perguntou espantada. Os dois formavam uma excelente dupla de trabalho. A sua imaginação voava. a cozinheira de Nick. Gostara dos projetos apresentados por Meggy. caminhando em direção ao jardim de sua casa. Meggy observava Leslie e Nick. Às vezes ia para casa deixando os dois ainda nos computadores resolvendo questões financeiras. pensou Meggy. Ele riu. Abriu a porta. mas logo parou espantada ao ver um homem sentado numa cadeira do terraço. evitando que saíssem para comer. pensou. já que Meggy e Nick os levavam para conhecer as atrações da ilha. Lembrava-se vagamente de uma lareira. Ibu. Leslie era simpática. — Sam? — perguntou finalmente.Além do mais. — Eu mesmo. Ela olhou-o. Faltavam duas semanas para ela ir embora. seria apenas por mais uma semana! Mais alguns dias e eles iriam embora. fazendo pouquíssimas modificações. Eles trabalhavam. elegante. Meggy não conseguia achar nenhum motivo para odiá-la. O que faziam quando ficavam a sós? Será que Leslie jantava lá? Será que passavam a noite juntos? Felizmente. Contavam piadas. não querendo acreditar. Era óbvio que se conheciam muito bem. sofrendo com a sua amizade e sentindo-se cada vez mais infeliz. pois era mais fresco e confortável do que a pequena e atravancada sala do prédio do governo. riam e falavam sobre pessoas e coisas que Meggy não conhecia. e duas semanas pareciam uma eternidade. Sentia-se excluída e magoada. Meggy. — Olá. John também era um profissional dedicado. e Sam olhando-a apaixonadamente. atraente. Nick sugerira que transferissem o escritório temporariamente para a sua casa. — Levantou-se sorrindo e estendeu-lhe a mão. numa fria noite de novembro. Fora uma ótima idéia. servia-lhes as refeições. .

— Ela afastou o prato. — Acha que poderia recusar? — perguntou. — Farei um coelho. entregando-lhe o presente. — Não mesmo. — Ela já se sentia mais à vontade. — Mas não conte a ninguém.. obrigado. montando uma clínica numa pequena. — Você não me leva a sério. — Esperava por uma recepção mais calorosa. — Para mantê-la feliz e alegre — disse. seu jantar está garantido. — É um segredo — sussurrou. — Nada. manga. eu fiquei apaixonadíssimo por você? — Não. — Tive um dia péssimo. não é? Ela sorriu. É que sou um feiticeiro. lhe oferecera de presente uma viagem ao redor do mundo. — Um dia péssimo? Não permitimos dias péssimos em Bali. — Um cachorro é suficiente. já que é feiticeiro. Ela olhou-o desanimada. mas fiquei na índia por mais tempo. se me convidar para jantar. Aí o seu avô. se transformou num alegre cachorrinho. Acho que vai ser um pediatra maravilhoso. — Levo sim.Ele aproximou-se mais e seus olhos brilhavam. comendo na sua mesa. Sam parecia magoado. mamão. Talvez tenha uma palavra mágica para me salvar. — Você acredita que desde quando minha irmã a levou lá para casa. — Não estava sendo amável e tentou se desculpar. jogando a bolsa sobre uma poltrona. Digo uma palavra mágica e pronto! Apareço no lugar que desejar. Depois a Tailândia. — Enfiou a mão no bolso e tirou um pedaço de borracha cor de laranja que.. quando ele assoprou. Malásia. mas próspera cidade. Durante o delicioso jantar servido pela sorridente Ariaso. — E aqui estou eu. Fizera sociedade com um outro médico. Comecei pela Europa. Meggy não pôde evitar um sorriso. — Sinto muito. pois achei-a fascinante. — Quer sobremesa? Temos salada de frutas. — Não quer mais arroz? — Meggy perguntou formalmente. . Sam contou que começaria a trabalhar no outono. abacaxi. Java e agora sentado na sua casa. que era milionário. — Estou espantada — disse ao examinar o brinquedo. — Forçou um sorriso. um gato ou o que você quiser.

colocam o corpo. Como saem caro. — Não deve perder mesmo. onde ela o deixaria. E. Estou certa que já devem ter chorado muito a sua morte. — É a pura verdade.. — Ficou surpresa com a amargura em sua voz. tinha que admitir que estava sendo divertido. — Nada muito grave. — Você está bem de vida. — O que é? Problemas no paraíso? Ela encolheu os ombros. Sam observou a empregada se afastar com toda a louça. O funeral é para libertar a alma do seu corpo aqui na Terra. — Ingresso para um funeral? — Aqui os funerais são verdadeiras festas e atraem muitos turistas. — Não posso perder isso! — Sam se entusiasmou. Apenas não é o que eu esperava. eles cobram. . Eles constroem uma espécie de torre muito enfeitada. Mas pelo que ouvi dizer a cerimônia será de um velho que morreu há meses. Sam logo percebeu algo errado e encarou-a. Tem uma casa.. ou o que restou dele. Meggy esteve com Sam várias vezes na semana seguinte. Ria muito e assim ela esquecia um pouco Leslie e Nick. e acabaram envolvidos pelo colorido e pela alegria da festa. bem perto do mar. uma empregada. tinha tudo para estar feliz. se quiser provar que esteve em Bali. — Mas por quê? Eles ficam contentes em perder os parentes? — Não. Ariaso discretamente apareceu na porta. Sam era do tipo despreocupado e a fazia sentir-se quase feliz. — Na semana que vem haverá um funeral em Ubud — disse Meggy quando voltaram para o hotel em Kuta. e queimam tudo para que a alma vá para o mundo dos espíritos. apesar de tudo. um emprego era Bali! — É. Ao passarem por um vilarejo participaram de uma cerimônia num templo. — Terminamos — disse Meggy. Geralmente o encontrava à sua espera quando voltava do trabalho. No sábado eles passearam pela ilha. — Você está brincando! — disse duvidando.— Onde está hospedado? — Num hotelzinho na praia de Kuta. — Quer que eu lhe arranje um ingresso? Ele a olhou espantado.

Depois. Você tem estado de péssimo humor nestas últimas semanas. azul e branco. menos demora. É competente e uma ótima pessoa. Ela e Nick tinham mais uma semana para fazer a revisão final do projeto. — Eu também. pulando e rodando. — Nick segurou-lhe o braço. Estou precisando. estampado de verde. — Dancem. Serra Leone? — Estou espantada com os seus conhecimentos sobre moda — ela respondeu. Começaram a dançar. com sua camisa estampada e charuto. e ela estava querendo mesmo se distrair. não acha? Meggy concordou. — Ele seguiu-a até o bar e encheu o copo. — Sim. juntando-se a outros casais. — Já percebi. Haveria uma festa naquela noite. — Pensei que fosse ficar deprimido com a partida de Leslie. Seus olhos azuis brilhavam enquanto admirava o seu vestido. e quanto menos gente. escovou os cabelos e olhou para o seu reflexo no espelho com satisfação. Procurou um vestido para usar na festa. no Departamento Americano para o Desenvolvimento. Escolheu um modelo exótico. iria levá-lo para Jacarta. senhoras e senhores. — É melhor obedecer. Mas logo tudo estará terminado. Adoro trabalhar com ela. — Você está maravilhosa! — Nick cumprimentou-a assim que entrou. e Meggy levou apenas alguns minutos para chegar. Começaram a tocar música. — A estampa é africana. que comprara em Serra Leone.A semana chegara ao fim e Leslie partira com John de Denpaar. — Mais uma semana! Não sei se vou sobreviver. e alguns davam verdadeiros shows abaixando-se. no sábado à tarde. A música era movimentada. — Vou buscar uma bebida. — Vamos brindar ao sucesso do nosso projeto. — Ela ficou lá seis meses. relatórios. Deixe-me adivinhar. . Meggy suspirou. Não via a hora de se livrar dessa burocracia toda e começar a construção das casas. Vestiu-o. dancem! — Era Brian Williams outra vez. — E fiquei. orçamentos. — Ela me contou que vocês já trabalharam num projeto na Tailândia. — Não poderia dizer o contrário. Meggy suspirou de alívio. Eu detesto papelada. Não sei o que teria feito sem ela. A festa era numa casa bem próxima. John e Leslie já partiram.

e Meggy o faria sentir isso. Ela sentiu que Nick ficou tenso. — Não o convidou? — Não. Ela reagiu imediatamente à proximidade de Nick. não se intrometa! Nick riu.. — Ele não é o seu tipo. . pensou com ciúme. e aproveitou para vir me visitar. — Sam é muito divertido. um velho namorado. havia um preço a pagar por sua liberdade. que foi recebida com algumas vaias. e foi ótimo. Ela fechou os olhos. é? — ele perguntou. Seu braço apertou-a mais. Ele mesmo admitira que ainda a desejava. — Ah. Como também não gostara de vê-la saindo com Peter. — Sam fora a uma festa típica na praça da cidade. Ficou tensa. procurando não demonstrar sua irritação. — Temos algo para os saudosistas. senhoras e senhores — anunciou o "Sultão" quando a música terminou. mas todos acabaram dançando. — Sam está fazendo uma viagem ao redor do mundo. Nick sorriu para Meggy. Contudo. Era uma melodia lenta e romântica.. com os lábios encostados em seu rosto. — Isso é o que eu chamo de dançar — murmurou ao encostar o corpo no seu.. Mas queria a sua liberdade acima de tudo. ele não estava gostando de vê-la sair com Sam. — respondeu secamente. — Onde está o jovem loiro da moto? — Nick perguntou de repente. — Não é o meu tipo? Eu não diria isso — ela falou. passeamos por toda a ilha.". "Ela adoraria que você a segurasse assim. obrigando-a a encostar a cabeça em seu ombro. — Relaxe — ele sussurrou. — Quem é ele? Um novo namorado? — Um amigo dos Estados Unidos.— E agora. teve vontade de dizer. pondo o braço em torno de sua cintura. Evidentemente. Divertir-se com Leslie e ficar com ela também.. — Ora. Fomos à praia. "Que pena Leslie ter ido embora". resistindo à pressão da mão dele e tentando manter uma certa distância. — O que ele está fazendo em Bali? — Por que todo esse interesse? Ele deu de ombros. — É só para conversar.

seguida por Pam. desejando que a música terminasse logo. Se conhecem há muito tempo. É médico pediatra. — São velhos amigos." Ela detestava essa condescendência. Bom divertimento! Meggy resolveu calar-se. — Estou precisando de um drinque — disse Meggy. Pam sorriu. — Ora. Não pensei que gostasse de gente assim. "Acalme-se. . Começou outra música romântica. Quer um drinque? — Meggy dirigiu-se ao bar. Meggy voltou para o bar. Finalmente terminou e ela afastou-se rapidamente.. — Andou brigando com o seu chefe? — Pam olhava para ela. Alguém tocou em seu braço. irmão de uma amiga.. Quem — E quem acha que faz o meu tipo? — perguntou friamente. Só estava fazendo um comentário porque não imaginei que fosse o seu tipo. — E de umas férias para sair desta ilha. — Nada! Absolutamente nada. muito íntima de Nick. Acreditei que pudesse arranjar coisa melhor. Quando voltar para casa vai começar a clinicar e será um sucesso! Deixe-me dizer-lhe mais uma coisa: gosto de Sam. e tomou mais um drinque. Só observei o casal algumas vezes. — Parece uma contradição. Está dando uma volta ao mundo. Pediu outro em seguida. O que há de errado nisso? Ele olhou-a com uma expressão inocente. Sam é maravilhoso. acalme-se. A música começou novamente e Peter a tirou para dançar. Pam perguntou: — Quem é o bonitão da moto? — Um americano. pensava que era? Meggy. Depois do primeiro gole. Ela parecia ser. Meggy. Nick apareceu e a puxou pelo braço. Você não sabe que as pessoas vêm para cá justamente para passar férias? Qual é o problema? Leslie Goodwin? Meggy olhou-a surpresa. — Eu não preciso de coisa melhor! — falou mais alto do que pretendia.. estou me divertindo com ele..— Acho que é um desocupado. O drinque fez Meggy se sentir melhor. — O que você sabe sobre Leslie? — Nada. — Você? Pois deixe-me dizer-lhe uma coisa. digamos.

— Gosto de dançar com você — ele disse. A música era suave e Meggy fechou os olhos... abraçados. como se pudesse ler os seus pensamentos. a boca. — Foi muito especial. o rosto. — Espero que também não queira mais beber. querida. Sou o seu chefe. Ele lhe beijara os olhos. a garrafa de champanhe sobre a penteadeira. a deixava excitada. um longo e delicioso tempo até que finalmente dançaram nus. O drinque a relaxara. — Eu também senti. Não queria" lembrar do amor que uma vez sentira por ele. — Eu a estou observando e acho que exagerou um pouco. beijando-se e acariciando-se.. e com a mão sob a blusa. Tudo isso fora muito tempo atrás e Meggy não queria lembrar agora. tirando uma peça de roupa de cada vez. lhe acariciou as costas nuas. Ela fazia a mesma coisa com ele. Eles se amoldavam tão bem! A sensação do corpo de Nick junto ao seu. a música suave e Nick abraçando-a ao som da música. Não quero mais. sua mão lentamente desabotoando a blusa. A cama é grande demais sem você. Ele fez com que descesse do banco e tomou-a em seus braços. mas agora ela aflorou. — Por favor. Havia apenas a impaciência e o arrebatamento da paixão reprimida... — Eu gosto de lembrar daquela noite — disse ele. Lembra-se da noite em que voltei.— Vamos dançar? — Não. lembra-se? Meggy apertou os lábios. Nick segurava-a bem junto ao seu corpo. Nick afastou-se e olhou seu rosto. depois de ter estado fora seis semanas para. o seu calor. —Ela fechou os olhos para afastar aquela lembrança. depois de uma pausa. Levou um longo tempo. Despiu-a. Odeio acordar sozinha. — Se fizer é problema meu! — Não. A sua cabeça estava girando. cheio de flores. — Não fale sobre isso — Meggy disse com voz trêmula.. Então ele a levara até a cama e toda a sua suavidade desaparecera. — O quê. É meu também. — Senti muita falta de você — ele sussurrara. . beijando-a e dançando ao mesmo tempo. — Sempre gostei de dançar com você. vívida: o quarto. obrigada. Se tomar mais uma dose acabará fazendo besteira. Eu nunca tinha dançado com uma mulher nua em meus braços.

Está apaixonadíssima por você e não negue isso! Não que eu me importe. — Não conseguiu continuar. ela empurrou-o. Começou a chorar e tentou fugir dos braços dele. — Eu não amo Leslie — Nick interrompeu-a com raiva. Você pode ter todas as mulheres que quiser. Nick continuou prendendo-a. com o pouco de força que lhe restava. — Ela engoliu em seco. Talvez por causa dos drinques.. Quero você! — Então. de antigamente. e pensava que me amasse também. mas ele a agarrou. Eu odeio o que está fazendo comigo! — O que estou fazendo? — Você sabe o que está fazendo. — Mas ela. .. Não se importava se agora todos ouvissem. — Meggy afastou-se. Ele a olhou em silêncio por um momento. — Sensibilidade! A única coisa que você quer é me levar para a cama. Não se importava mais com nada. — E nunca a amei. — Por acaso você é sensível aos meus? — Nunca achei que você os tivesse! — Então devia prestar um pouco mais de atenção.Não sabia por quê. — Eu o odeio. Uma boa amiga e nada mais.. — Isso machuca! Não entende? Me machuca lembrar o tempo em que eu o amava... a fazer isso? Como.. Não quero Leslie. — Nada de namoro no escuro! Há alguém aqui à sua procura. menos eu! — Só que não quero outras mulheres. Ela é uma amiga. pois a mim não pode ter.. beijando-a com violência. — Donovan! — Ouviu-se uma voz vindo de dentro da casa. Está fazendo isso deliberadamente.. — Você. — Como se atreve a. até o jardim.. — Amiga coisa nenhuma. — Solte-me! — ela gritou. mas levou-a para fora. — Leslie não tem nada a ver com isso. Coisas de. — Solte-me! — falou alto. não sei por quê! Você poderia ser um pouco mais sensível e respeitar meus sentimentos. sinto muito.. Leslie acabou de ir embora e você já está outra vez atrás de mim. mas de repente algo rompeu dentro dela. — Monstro! — disse com raiva. as lágrimas escorrendo pelas faces. mas Nick segurava-a com força. Depois. Talvez pela tensão que crescera durante as últimas três semanas ao vê-lo com Leslie. Está sempre trazendo lembranças de volta.

Mas Nick entrou também. Saiu pelo portão dos fundos. Sam. — Você levava todo o seu dinheiro no bolso? — Achei mais seguro do que deixar no quarto do hotel. — Estava esperando você. como aconteceu isso? É melhor você entrar. tudo. Fechou o portão e seguiu em frente. — Virou-se e foi embora batendo o portão. Parecia um garotinho perdido. — E o passaporte? — Este ainda está comigo. — Quero falar com você. sem dinheiro. — Você tem companhia. — Meggy! Não respondeu. — Você não vai acreditar. esta tarde. Ele adormecera na praia. ouviu passos. Ele perdeu a chave? Não quero atrasá-la. Meggy soltou um suspiro de alívio. Mas antes de chegar ao portão de sua casa. Sam levantou-se devagar. e percebeu a sombra de Sam na porta da frente. — Olhou-o preocupada. com as pernas trêmulas e o rosto ainda pegando fogo. Perdi todo o meu dinheiro. Sam sorriu agradecido. ora — disse friamente. — Graças a Deus! Teria sido pior. — Ora. — Meu Deus. O que está fazendo aqui? Ele enfiou as mãos nos bolsos do short e parecia embaraçado. — Acho que peguei no sono — disse. — Meggy pegou a chave e abriu a porta. — Já passa da meia-noite. Fique aqui até resolver o problema. — Vá embora! — gritou furiosa.Ele olhou para Meggy ainda furioso e caminhou em direção a casa. Meggy não pretendia voltar para a festa. Sam então contou-lhe toda a história. Cheques de viagem. você não terá onde se hospedar. e alguém tirara a sua carteira do bolso do short. — Não temos nada a dizer! Ele segurou-a pelo braço. passando as mãos pelos cabelos. . mas fui roubado na praia. — Não me toque! Foi então que Nick viu a moto encostada ao lado da casa. — Suponho que. bocejando.

Meggy tomou um longo banho de chuveiro. usara o carro sem autorização para namorar e batera num muro. lendo e relendo o texto. — Quer vir comigo? — perguntou. o segundo à esquerda. — Obrigado. seu estilo. ouviu uma batida na porta e levantou-se para atender. — Ela passou a mão na testa. olhar furioso. Depois ficava horas ignorandoa. — Onde está ele? — Quem? . Finalmente. — Quero falar com você. Era Nick. Vou pedir ao banco para mandar-me algum dinheiro. O problema é que o trabalho não estava indo bem. — Sinto muito. entrou na sala. E se ela não fizesse objeção. Meggy não via a hora da semana terminar. pois queria ver o espetáculo de sombras Wayang Kulit. pois quase não entendo o idioma. mas não poderia lhe explicar nada. o motorista. Há um quarto no fim do corredor. mostrou triunfante um maço de notas e disse que partiria na manhã seguinte. terminando o relatório. Como o rapaz já fora repreendido duas vezes por usar o carro sem autorização. — Talvez assim possa me explicar algo. Estava com uma dor de cabeça terrível. Sam levou vários dias para resolver tudo. mergulhado num silêncio absoluto. mesmo que atravessassem o fim de semana no escritório. Sam pegou sua moto e foi assistir o Wayang Kuli. Nick teve de despedi-lo. Mas não posso fazer nada até segunda-feira de manhã. Além disso. Quando estava acabando de colocar a camisola. Sua cabeça e olhos doíam depois de passar os últimos dias diante da tela do computador. ficaria só mais aquela noite. — Vou buscar lençóis e uma toalha de banho. não ficaria pronto antes da segunda-feira. Além disso Atjin. Se não conseguissem apressar o ritmo. não posso ficar acordada a noite toda. numa cidade vizinha. Ela riu. Nick estava de péssimo humor. para vir com mais alterações. criticando tudo: sua redação. — Está bem. — Ela estava exausta. na quarta-feira à noite. pegar a correspondência e fazer outros serviços.— Prometo que sairei o mais depressa possível. Com lábios apertados. E tudo o que queria agora era uma boa noite de sono. E aí ficara sem ninguém para levar os recados. durante o jantar. Depois do jantar. cabelos caindo sobre a testa. e ver se consigo reaver os cheques de viagem.

É destrutiva. — Isso parece uma cena de ciúme. Meggy poderia lhe dizer que ele não tinha o direito de exigir que ela mandasse Sam embora. Sam não sei o quê? — Não acho que seja da sua conta. Ficaram na casa de Nick. Ela o olhou em silêncio. trabalharam o dia inteiro. que partira na quinta-feira de manhã. — Eu quero que ele vá embora — Nick disse com determinação. — Mas esta é minha casa — E eu não o quero aqui dentro. — Não é uma emoção bonita — ele disse com voz rouca. Nos dias que se seguiram eles trabalharam até oito ou nove da noite. — Ótimo. Ela ficou parada. não é. depois virou-se e saiu. — É irracional. preparadas por uma Ibu muito preocupada.— Aquele rapaz. Realmente estava. — Realmente seu olhar era furioso. mas o ambiente ainda estava tenso. Nick encarou-a. Não parava de dizer que iam ficar doidos de tanto trabalho. e Meggy fazia lá suas refeições. — Eu estou com ciúme. Quero esse rapaz fora daqui. Podia ver isso na expressão dos seus olhos. na tensão do seu corpo. Ela o encarou e sorriu. E às nove da noite ainda não tinham terminado. É primitiva. Que suma daqui e continue a sua viagem pelo mundo. mas não consegui evitar. — O que é isso. — Quero que saia desta casa. Mas aquela confissão inesperada acabou com toda sua indignação. Nick nunca mais falara sobre Sam. Lutei contra isso. Não tinha direito algum sobre ela ou o que fazia. Nick estava com ciúme. embora menos explosivo do que no início da semana. uma piada? — Não. Simplesmente não conseguia acreditar no que acontecera e o que aquilo tudo significava. . sei de tudo isso. Meggy ficou surpresa com a inesperada confissão. Também no sábado. — Olhou-a por um momento. — Ele vai embora amanhã — ela revelou. ou eu não serei responsável pelos meus atos. — Você deve estar brincando! — Não estou brincando.

— Vamos ter que deixar o restante para amanhã — disse Nick. retribuiu o sorriso. — Tomou um gole do gin tônica e depois quase o copo todo. Apertou o botão e computador começou a imprimir. Quatro horas e quatro xícaras de café depois. estava suada e cansada. e o trabalho começou a render bem agora. — É. eu estou oferecendo. Ela soltou um suspiro de satisfação recostou-se na cadeira. sorrindo para Nick. Sentia calor.. Ele sorriu. Meggy lhe entregou a pilha de papéis com uma reverência. — Por que ela não se movia? Por que continuava parada ali. Nick concordou e lhe ofereceu um drinque. — Prefiro ficar e trabalhar até terminar. — Aqui está o trabalho. Ambos sorriram. Um pouco mais tarde juntou o relatório impresso. — Posso fazer outro. É uma hora da manhã. E não poderia ter feito isso sem você. — É muito tarde. jogando a caneta sobre a mesa.. pretendo dormir até o meio-dia de amanhã. Vamos ao próximo? Nas horas que se seguiram trabalharam bastante. encarando-o como uma idiota? o o e e . — Não! — protestou Meggy. — É verdade. Percebeu um brilho nos olhos de Nick. — É você que vai levá-lo. Depois. Um momento depois o papel apareceu e som que enchia a sala parecia música. — Estou precisando mesmo. apesar do cansaço.. — Não posso exigir isso de você. — Não pensei que estivesse com tanta sede. Arranje-me uma xícara de café. mas subitamente Meggy ficou séria. — Vou buscar algo para bebermos. — Estamos no item sete.. — E também de um bom banho. — Olhou para o seu vestido todo amassado e fez uma careta. Agora leve-o para o governo. — disse ele com voz suave. — Obrigado pela ajuda. meu senhor. eu tinha esquecido. Seu coração disparou. — Encostou-se na cadeira. Não quero perder meu domingo. — Você não está exigindo. — Conseguimos! — A voz de Meggy era triunfante. Ele parecia cansado mas aliviado. — É a melhor coisa que já foi feita no Oriente. um olhar que reconhecia. estava tudo pronto. — Não é maravilhoso? — Sentia-se eufórica. — Colocou os papéis sobre a mesa.

Umedeceu os lábios. — Não. tocando o rosto quente de Meggy. Mas não conseguia. consciente de que estava perdendo o juízo. Sentiu as mãos dele acariciando seus olhos.. seu rosto. mas pegou a sua mão e guiou-a até a cama. Um longo silêncio se seguiu. os braços não se moviam. — Está bem. Nick lhe tocou os cabelos e ela não se mexeu. Ela sentiu o sangue latejar nas têmporas. beijá-lo. como se não tivesse vida. Não havia passado nem futuro. Ele não acendeu as luzes. Depois ele a beijou. enquanto Nick lhe acariciava a mão. o polegar desenhando o contorno dos seus lábios. Seus lábios não retribuíam os beijos. — Sente-se — disse Nick. — À nossa felicidade! — disse ele. CAPÍTULO VIII O quarto estava fresco. Teve vontade de abraçá-lo. — sussurrou. Isso a incomoda? — Acho que não. Havia só o momento presente e o homem que amava. iluminado apenas pelo luar.Nick pegou as suas mãos. Não há nada lá fora. . O vinho era bom e ela o sorveu devagar. Nick afastou-se um pouco. tocá-lo e fazer amor com ele.. — Por favor. — Você não colocou cortinas? — perguntou. Só conseguia olhar para aqueles olhos azuis. A brisa entrava pelas janelas abertas. mas sentia a garganta seca. entregando-lhe um dos copos de vinho que trouxera. Ele sorriu. — Meggy? Ela queria dizer alguma coisa para quebrar a tensão que surgira. Mantinha os braços ao longo do corpo. ela conseguiu encará-lo. fique comigo esta noite. um desejo profundo e insuportável se apoderar de seu corpo. — Meggy — ele murmurou contra os seus lábios. lutando contra as emoções e desejos que ameaçavam dominá-la. Finalmente. Fechou os olhos. erguendo o copo e tomando um gole.

Ele sorriu. quentes e ainda úmidos. sem esperar pela resposta. Logo o desejo foi mais forte e a paixão dominou-o. que nunca mais queria sair de perto dele. da virilidade exposta pela nudez de Nick. levando-o a penetrá-la numa súbita e louca entrega. enquanto ela continuava deitada. Meggy não se lembrava de como chegaram até o banheiro. e ela passou as mãos pelo peito másculo. Entreabriu os lábios e sentiu quando a língua de Nick tocou a sua. um resquício do . Então tudo ficou quieto novamente. Ela sentia o calor espalhando-se pelo corpo. aqui nesta cama. afastou-se e olhou para o rosto moreno ao seu lado no travesseiro. Tenho a impressão de estar dormindo ao ar livre. e nem a água quente conseguia abrandar o seu desejo. Nick abriu os olhos por instantes e estendeu a mão. — Talvez eu seja. Um medo. nos braços de Nick. — Em tê-la em meus braços. correspondendo com paixão àquele beijo. — Sonhei tanto em fazer amor com você outra vez — sussurrou. e de manhã os pássaros me acordam. Um despia o outro com mãos trêmulas. — Fique aqui. Meggy mergulhou os dedos nos cabelos escuros. O corpo de Nick brilhava à luz do luar. Ele ainda a abraçava. — Você parece muito romântico — Meggy comentou rindo. sentindo o gosto de vinho. — Ainda quer tomar um banho? Ela fez que sim com a cabeça. sentindo o seu coração batendo forte. — Você é linda — disse beijando-lhe os seios e excitando-a mais e mais. e moveu os lábios contra os dele. ofegante e trêmula. Momentos depois estavam na cama. quente e ávida. as mãos acariciando os seios através do vestido fino.. os lábios ansiosos tocando a pele que ia se expondo. Nick afastou-se. Ele gemeu e. — Beijou-a. ouvir a água e b vento..— Só a noite. — Que tal comigo? — E começou a lhe desabotoar o vestido. — Quero que demore — Nick pediu suavemente. Daqui posso ver as estrelas e as palmeiras. abraçandose e roçando seus corpos. perto de mim. Sentiu o braço de Nick relaxar. Tudo parecia irreal. Só estava consciente da presença dele. Ela olhou o rosto apaixonado e puxou-o para junto de si. Só depois de algum tempo Meggy pareceu voltar à realidade. mas algo a impediu. Meggy teve vontade de abraçá-lo e dizer que o amava. — Ele tirou o copo vazio de suas mãos.

— Venha cá. começou a soluçar. tenho que ir pois vou levantar cedo. Não sou uma dessas. Quando voltou ao quarto. — Que banho demorado — disse ele. estendendo a mão. — Meggy. Não queria que Nick ouvisse. — Não quero que vá. É melhor eu ir embora. — O que houve? — Ele tocou seu rosto. Levantou-se e foi ao banheiro. Irei com Pam ao mercado tirar umas fotos — mentiu. está fazendo o seu café da manhã. — Não estou preocupado. antes que você perceba. Era isso que esperara durante todos esses meses? Nick abraçando-a e fazendo amor com ela novamente? Aquela era só mais uma noite de paixão perfeita. pare com isso! — Ele se levantou. Sabe como é certo tipo de mulher: você pede para ela passar a noite e. já se mudou. abraçou-a e olhou para o seu rosto. não foi? Ela concordou. — É só para você saber. — Ela pegou as roupas que estavam no chão. — Nada. Queria fugir dali o mais rápido possível. Depois de trancar a porta. Abriu o chuveiro.. Mas sentiu um aperto na garganta e uma imensa vontade de chorar. — Foi maravilhoso. ainda marcado pelo choro. ficou grata pela escuridão da noite. Eu não quero ficar. Assim ele não podia ver o seu rosto. Nick ficou em silêncio. — De qualquer forma.passado voltou junto com a lembrança do que ele dissera um dia: "Você me ama demais. Me sufoca". — Não. Mas não se preocupe. Meggy desviou os olhos. — O que há? Ela se afastou enquanto colocava o sutiã e a calcinha. Ao menos umas duas horas. quando vê.. entrou embaixo da água e chorou desesperadamente. Nick sentou-se e acendeu a luz de cabeceira. Falava o que lhe vinha à cabeça. Quero que fique aqui comigo. Depois começa a deixar algumas roupas e. Apenas isso. na minha cama. — Preciso dormir. — Nada. — Esteve chorando? . Meggy. — Colocou o vestido. Toda a sua alegria se esvaiu.

O pequeno avião parecia velho demais com seus assentos estreitos. Lembrou de Nick dizendo que essas geringonças eram fortes e chegariam inteiras no próximo século. — Prefiro ir para a minha casa. — Não acha certo? — Ele soltou-a e seus olhos tornaram-se subitamente frios. que devia estar esperando-a. uma senhora de meia-idade apareceu para acompanhá-la até Lester. Era Tom Marsden. o cabelo grisalho. mas não foi nada agradável desembarcar naquela Jacarta quente e movimentada. Cumprimentou o homem do outro lado da mesa. E você? . Meggy sentiu o coração apertado no peito. — Pensei que tivesse sido muito especial. — Deu-lhe um rápido beijo no rosto e saiu depressa. — E foi muito especial. Meggy ficou imaginando se afinal alguém iria ler aquilo que lhes custara tanto esforço nas últimas semanas. Ela tentou sorrir. Já ia sair quando um homem forte e atraente entrou na sala. esperando que o aparelho decolasse. — Por quê? Ela engoliu em seco. o sorriso surgiu em seu rosto... Cinco minutos depois. O encontro não durou mais do que alguns minutos. séria. que a princípio fora convidado para o projeto. — Também não sei se consigo. Meggy olhou-o.. de estofamento gasto e pouco limpo. Nunca mais o vira depois daquela madrugada de domingo. ligando para Lester Howard. Assim que a viu.— Não. Os olhos castanhos. Nick. entregou-lhe o relatório. Recebi um telex de Washington. que foi recebido com total falta de interesse. O aparelho decolou e fez uma boa viagem. Um oficial da embaixada a recebeu. E agora me diga a verdade: por que não quer ficar comigo? Sem inventar histórias. — Meggy! — exclamou — Como vai você? — Muito bem. Meggy sentou-se. — Les? Desculpe interromper. — Porque não acho certo ficar aqui com você. Meggy ficou agradavelmente surpresa ao reconhecê-lo. — Você está mentindo.. Mas não queria pensar em Nick... — Não consigo te entender.

— Que tal almoçar comigo? Você tem tempo? — Gostaria muito. — É estranho que um homem com o prestígio e a experiência dele recusasse um cargo no Banco Mundial para ir a Bali. Então. fazendo um levantamento no Ministério. — Ah.. Mas. Nick mentira para ela. Mas não me fez nenhuma proposta. para dizer a verdade. Acabei de entregar o relatório do projeto habitacional de Bali.. — Como assim? — Não se lembra? Tinha sido indicado por Nick Donovan para dirigir o projeto. é? Não sabia. — Nicki Por que iria deixar a direção da empresa para fazer isso? — Tom parecia pensativo. — Acho que entendi mal. achei que você seria meu chefe de novo. Vejo-o amanhã. — Ele disse que queria um trabalho diferente. não queria acreditar em suas suspeitas. Ela se esforçou para sorrir. Estou aqui por pouco tempo. Ou melhor. curiosa para ver a reação do colega. Tom olhou-a surpreso. Ele virou-se para Lester Howard. — Olhou para o relógio. Tom riu. — Inclusive ele também teve uma oferta do Banco. A princípio. E você. Nem parecia que estavam na Indonésia. — Meggy não conseguia entender. melhor do que a minha. — Lembro de ter conversado com ele sobre isso. — O próprio Nick Donovan — disse ela. Ele parecia muito surpreso. não ficara chocada. — Vou almoçar. Ele não comentou nada. o que está fazendo por aqui? — Vim só por dois dias.. Já terminei o que tinha a fazer. — Por Nick Donovan? — Ele parecia tão confuso que Meggy começou a ficar pouco à vontade. por algum estranho motivo. . — Exato. depois de terem escolhido os pratos. Aliás.— Não podia estar melhor. — Olhou para o cardápio. A lanchonete era tipicamente americana e a maioria freqüentadores também. — E quem é o chefe do projeto? — perguntou Tom. de seus — O que faz em Jacarta? A última vez que ouvi falar em você soube que estava no Banco Mundial — disse ela..

esperando a resposta.. já tive atritos com ele — disse. — E deve ter lhe contado que nunca o chamei para dirigir o projeto. Ele sacudiu a cabeça e sorriu. antes de começar a comer. não menti. assim que chegaram. Também quero falar com você. Estava lá de passagem. Parece gostar do que está fazendo. — Claro. — Ele me contou outra coisa. "Motivo oculto". — Como estava a cidade grande? se dirigiam ao estacionamento.— Se você acredita nisso. Não gostei daquele homem. — Tom Marsden. Aparentemente um cargo muito bom. então deve acreditar também em Papai Noel. — É verdade. pensou. O garçom apareceu colocando os pratos à sua frente. — Muito bem. e não uma ordem. Meggy pensava se devia ou não lhe contar que vira Tom Marsden. Almoçamos na lanchonete da embaixada. — É complicado. enquanto — Não troco por Bali.. Ela foi até a cozinha e preparou um drinque para eles. Meggy olhou para o seu prato. — Na verdade. quase humilde. perguntou. mas posso entrar para conversar? — ele disse. — Você devia ser político. Enquanto seguiam pela estrada escura. — Tomou um gole da bebida. .. "Eu!" Nick veio buscá-la no aeroporto. pois só dei a entender que o fiz. Era um pedido. Entreguei o relatório a Lester Howard. — Ele deve ter tido um motivo oculto — comentou Tom. — Sim. não me deu a mínima atenção. Disse que você recusou uma oferta no Banco Mundial. Era estranho vê-lo assim. — Adivinhe quem eu encontrei em Jacarta? — perguntou ao lhe entregar o copo. — Como vai ele? — perguntou Nick. ligando o carro. — Eu sei que está cansada.. Nick a observou. — Conseguiu fazer tudo o que precisava? — Sim. Nick nem desligara o motor.

. O tempo todo acompanhei sua carreira. — E foi mesmo. Os olhos azuis fixavam-na. — Não poderia ter feito isso em Washington? — Não coincidia estarmos lá na mesma época. ter filhos. por que daria agora? — Estamos mais velhos e experientes. — Venha comigo. Meggy encostou o rosto em seu ombro. Deixe-me abraçá-la. — E não queria que eu soubesse. ainda restavam dúvidas e temores. Quando vi a descrição do projeto. não sei mais o que sinto por você. Sabia onde estava. — Ele encolheu os ombros. Não queria casar. — Eu te amo. Depois comecei a pesquisar algo em que pudéssemos trabalhar juntos.. mas depois. §e é amor. atração física. Queria que você se apaixonasse por mim novamente.. Queria uma outra chance. — Nick aproximou-se e lhe pegou as mãos. — Mas sabendo de seu empenho para tê-la de volta. Parecia feito para mim. E aprendi algumas verdades nestes dois últimos anos. achando que não aceitaria o trabalho. Meggy sentiu a garganta seca. — Não. Meggy. eu achei que era bom demais para ser verdade. — Teria aceitado? Ela sorriu. Ele sorriu. Troquei por você. — Você não foi feliz comigo antes — disse ela. Os olhos de Meggy se encheram de lágrimas.. quero casar com você. Ele sorriu com malícia. — Acho que o que estamos fazendo não é certo. — Casar? — Ela se afastou para olhar o seu rosto. — Oh. — Não. Nick. — E o velho humor brilhou em seus olhos. Meggy pensou que seu coração fosse parar. — Você disse uma vez que não queria saber de vida doméstica. sentindo-se muito confusa.— Trocou por esse pequeno projeto em Bali? Nick encarou-a. . — Nem quer ficar comigo a noite inteira! Levanta e vai para casa. Para tentar reconquistá-la... ou saudades de algo que passou ou só. e não terminou a frase. — Queria você de volta. o que fazia. Às vezes tinha a impressão de que ainda me amava. — Se não deu certo. Isso era tudo. — É verdade.

e cobrindo-lhe os lábios num beijo apaixonado. provocando-os. — E se depois de um tempo tiver uma "recaída de liberdade"? — ela brincou. resolvi corrigilo. — Louca. . por favor. roçando-os.— Naquela época não queria. Vou fazer amor com você até que implore por misericórdia — ele disse. — Estou certo de que não vai acontecer. inclusive os conhecidos e o pessoal do projeto. Era um terrível egoísta. Não conseguiram um casamento rápido e simples. Todos se envolveram na cerimônia. depois o outro. Ela riu. Sempre amara e amaria. Nick sacudiu a cabeça. Ela amava esse homem. Meggy viu-o aproximar-se e logo sentiu o calor dos lábios de Nick em seus seios. — Sinto-me uma louca. as dúvidas. sentindo cada toque daquelas mãos sobre sua pele. Nadavam. Erótica. incrivelmente sensual. — Eu a quero de novo — ele sussurrou. Quer casar comigo? Ela esqueceu o passado. — Meggy. Meggy agradeceu aos céus o fato de o "Sultão" estar na Nova Zelândia. deitando-se sobre ela. De alguma maneira. Uma semana cheia de alegria* e paixão. Faziam amor até ficarem exaustos. os temores. acariciando suavemente um. quando descobri meu erro. Sentia-se a mulher mais feliz do mundo. brincando nas ondas como crianças. não. Aí. Era o último dia da semana. — Não quero ir embora — disse Meggy tomando banho de sol nua. Passaram uma semana de lua-de-mel num chalé de uma praia totalmente isolada. Pela manhã faziam longos passeios pela areia catando conchas e pequenos pedaços de coral. tentadora. deitada nua nesta praia. Tinha a coisa mais preciosa da minha vida e a perdi. depois subindo até os seios. — Podemos voltar para cá outras vezes — disse Nick. — Quero — murmurou. Em Bali era impossível. Meggy ficava quieta. traçando círculos sobre seu corpo. senão iria querer transformar tudo num "acontecimento histórico". ao se afastar. antes de se entregarem à paixão daquele momento. — Ele ergueu o rosto de Meggy e beijou-a com tanta ternura que foi impossível resistir. — Agora não tem mais marcas — ele disse passando a mão pelo corpo todo. — Está inteiramente bronzeada.

A construção das casas começara. foi até o banheiro e. emocionada. como se esperasse alguma coisa. Ou talvez fosse só imaginação? Uma semana depois ele lhe trouxe flores. e quando o encarou percebeu que a observava com um olhar estranho. Desde que voltaram da viagem. — Olá — disse Meggy sorrindo. Dedicava-se inteiramente ao trabalho. Entrou e começou a se trocar. quando o ouviu chegar. — Algum problema? — Não. encostando o queixo em seus cabelos. — Obrigada. Ele parou na porta e ficou olhando para ela. — O homem das flores está aqui.Ela sentiu um arrepio de prazer. São lindas. como sempre. Nick". gostava do que estava fazendo e empregava toda sua energia nisso. — Como foi o encontro com o governador? — Muito interessante. Nick teve um encontro com o governador e na segunda-feira chegou tarde em casa. Ela guardou a máquina fotográfica. Quer comprar flores para a casa? — Não. estendeu a mão para ela. mas não se importava. quando voltou. — Vamos — disse em seguida. me acompanha? — É claro. como para afastar um mau pensamento. até que ele lhe ergueu o rosto e a beijou. Não sabia de onde surgira o "sra. Nick? Meggy levantou os olhos e viu Ibu parada na porta da sala. obrigada — disse. Nick continuou parado na porta. — Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça. Ficaram assim durante um tempo. — Vou adorar! — Sra. Meggy pegou as flores. Três grandes orquídeas cor-derosa. — Uma para cada mês que estamos casados — disse sorrindo. Nick abraçou-a. . Nunca recebi orquídeas antes. — Vou tomar um drinque. Meggy estava no quarto colocando filme na máquina. ela não tinha vontade nenhuma de fazer nada por sua casa. Colocou um short e uma camiseta. Parecia cansado e triste. consciente de que estava sofrendo um estranho bloqueio.

. O medo perseguiu-a nos dias que se seguiram. Então era algo em relação a ela. As perguntas giravam em sua cabeça. com voz embargada. — Vou colocá-las na água — disse indo em direção à cozinha. concluiu. Na cama se comportava com o mesmo ardor e paixão da lua-de-mel. — Venha cá — falou.. — Sinto muito. sentiu-se embaraçada. Meggy. Sem saber por quê. chegando a assustá-la. Meggy sentia um crescente embaraço diante do estranho comportamento de Nick. Não lembrava exatamente quando começara ou o que a causara. Ele passou a mão pelos cabelos. — Depois afastou-se um pouco e olhou em seus olhos. Meggy. esforçava-se para agradá-la. — Te amo. Algo mudara. Ele não ria como antes. — Beije-me. Beijou-o suavemente e por um momento ele ficou imóvel. nas suas palavras. mas algo estava diferente. Meggy também não sabia dizer o que estava acontecendo. Apertava-a com tanta força que a estava machucando. Prestava atenção nos gestos do marido. — Eu te amo — ele gemeu. A princípio pensou que fosse imaginação. Não conseguia perceber o que estava acontecendo. Quando se afastaram. e todo o medo de perdê-lo voltou.Havia uma expressão impenetrável em seus olhos enquanto ele a olhava. Nick continuava atencioso. pois tudo corria bem. CAPÍTULO IX . estava retraído. sem corresponder. abraçando-a. Não sei o que aconteceu comigo. Nick segurou-a pelo braço. Não era nada em relação ao trabalho. E então beijou-a com violência. Por quê? Porque a tristeza. ficaram em silêncio. e isto estava cada vez mais evidente. os sulcos ao lado da boca? Por que não estava feliz? À noite ela sofria. e depois lentamente colocou o braço em torno do seu pescoço. depois apertou-a com violência. Nas últimas semanas notara uma grande tristeza nos olhos dele. Ela o encarou segurando as flores. Só constatava que ele não estava feliz. mas agora percebia que não era.

. Naquela noite. Meggy olhou para a comida em seu prato. Por que ele vinha agindo tão estranhamente? Por que não fazia mais amor com ela? Não a procurava há quase duas semanas. — Nunca me toca e não vejo desejo em seu olhar. — Seus olhos diziam tudo. Nick sacudiu a cabeça. — Você não me deseja mais. que parecia concentrado no livro. "Nunca mais me toca. a cada dia. Talvez não a amasse mais e tivesse concluído que tudo fora um engano. — Isso não é verdade. abraçá-lo. — Meggy. você não me ocultava nada. Tinha que fazer algo! Mas não sabia o quê. — Não a entendo mais. Meggy olhou-o surpresa. Nick estava lendo ou fingindo também. Meggy olhou para Nick. Ela tinha vontade de tocá-lo.. ficou deitada ao lado dele. Talvez estivesse arrependido de ter se casado. mas sentia-se paralisada. Não havia vento. — Você também quase não comeu no almoço — disse Nick. — Eu não sabia se você queria. por medo de ouvir as respostas. fácil de entender. não é a jovem que conheci. Não tinha coragem de fazer perguntas. seu medo aumentava. — Você está infeliz — ele disse. Não estava e sabia disso. Estava coberto só até a cintura.. Agora se reprime e nunca mais me toca. — Não fazemos amor já há duas semanas. — A lembrança fez com que sorrisse. O quarto parecia estranhamente silencioso. — Sim. Há vários dias não tinha apetite. — Não tenho fome. com o peito nu.— Você não comeu nada. Meggy — havia desespero em sua voz." Meggy ficou quieta. . e até O ruído da água do riacho parecia abafado. e olhou-a com atenção. Nick levantou os olhos e se encararam num silêncio cheio de tensão. estou. Ia acabar ficando doente de tanta preocupação. pedir para fazer amor com ela. Como podia pensar isso? — Por que chegou a essa conclusão? — Por que você nunca diz que me quer.. Costumava ser simples. E. fingindo ler. você está bem? Ela encolheu os ombros. — Fez um gesto de desânimo.

— Lembro-me de quando você pegava a minha mão, ou simplesmente me beijava por nada. Tocava o meu braço quando passava por mim, ou sorria, e havia sempre amor em seus olhos. Ela lembrava. Lembrava muito bem. Mas lembrava de muitas coisas mais. "Você me ama demais. Você me sufoca." Havia jurado que isso não aconteceria de novo. Não o amaria demais. Não o sufocaria. Será que agora estava pedindo o que um dia rejeitara? Ele virou o rosto, olhando para um ponto indeterminado. — Lembro-me do dia em que me você me trouxe rosas — disse. — Um buquê de pequenas rosas vermelhas. Me senti culpado por que nunca lhe trouxera rosas e não soube o que fazer, mas você interpretou como se eu não tivesse gostado de uma mulher me dar flores. Ficou zangada, me chamou de porco chauvinista, e depois chorou. Meggy ficou em silêncio. Uma tristeza enorme sufocava aquelas palavras. — Quando chego em casa e sei que você está, abro a porta esperando que venha ao meu encontro e me abrace como antigamente. Mas não. Só me sorri e pergunta como foi o meu dia. Não me beija e nem me toca. — Ainda tenho medo — ela confessou, com voz trêmula. — Medo de quê? — Dos meus próprios sentimentos. — Meggy fechou os olhos e pensou, para se expressar corretamente. — Sei o que sinto por você, e é o que sempre senti. Eu te amo, mas... tenho medo de sofrer de novo: Tenho medo de demonstrar demais o meu amor e você... não gostar. Sentir-se sufocado. — Ela mordeu o lábio, tentando segurar as lágrimas. — Tenho medo que me deixe novamente. — Meggy! — ele disse com súbita violência. — Cometi um erro terrível três anos atrás... deveria ter percebido o que estava jogando fora! E quero tudo de volta. Tenho medo de ter destruído algo em você para sempre. Está mudada. Não é mais a mulher afetuosa, apaixonada e espontânea, exceto... exceto quando fazemos amor. Aí tudo fica tão perfeito entre nós. Eu espero sempre que as coisas mudem, mas há sempre uma distância que não consigo vencer. — Ele encostou-se novamente no travesseiro e cobriu o rosto com o braço. Meggy percebeu o quanto estava tenso. As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto. — Sinto muito tê-lo decepcionado. — A culpa não é sua. — Ele virou-se para ela. — Não chore. — Prendeu-a em seus braços, mas não disse que não a amava, e nem fizeram amor.

No dia seguinte Meggy chegou em casa mais cedo. Nick não estava. Ela foi até a cozinha para falar com Ibu. — Esqueci de lhe dizer o que fazer para o jantar — disse Megg. — Não faz mal. — Ibu sorriu. — Estou fazendo bakmigoreng. Gosta de macarrão frito? — Gosto de tudo que faz, Ibu, e você sabe disso. — Não atualmente. Não anda comendo nada. — Não por causa de sua comida. Tenho estado muito... ocupada. — Precisa comer para ficar forte. — Estou bem, Ibu. Não se preocupe. Meggy tomou um banho, trocou-se, serviu-se de um copo de xerez e foi até a varanda. Sentou numa das cadeiras e tentou relaxar, mas estava tensa demais. Geralmente gostava dessa hora do dia, quando o sol se punha e o mundo ficava com um brilho dourado, mas hoje não via nada disso. Havia só a lembrança da noite que passara em claro e a tristeza entre ela e Nick. Ouviu o carro de Nick chegar e sentiu o estômago contrair-se. Percebeu os passos dele pela casa e foi procurá-lo. Ele estava no quarto, sentado na beira da cama, com a cabeça entre as mãos. O medo dominou-a. — Nick? O que houve? Ele levantou os olhos e a tristeza que viu neles partiu seu coração. — Acabei de receber um telegrama. Meu pai morreu. Um enfarte fulminante. — Oh, não! — exclamou. Nick levantou-se, e quando passou as mãos pelos cabelos, pôde ver como tremiam. — Tenho que voltar para casa e resolver as coisas. — Ele olhou ao redor, desorientado. — Você sabe onde estão as malas? — No armário do quarto de hóspedes. Vou buscá-las. Conseguiu marcar um avião? — Só para amanhã cedo. — Ele olhou-a, estava muito pálido. — Acha que pode cuidar de tudo sozinha durante uma semana? Ela assentiu, as lágrimas lhe enchendo os olhos. — Oh, Nick! — Aproximou-se dele e abraçou-o, encostando a cabeça em seu peito. — Sinto muito. Sinto tanto!

Ele tremia quando a abraçou com força, como se fosse sua tábua de salvação. Deram alguns passos e sentaram-se na beira da cama. Meggy ficou imaginando o que estaria sentindo. Remorso, arrependimento, culpa? Tinha medo de perguntar. Finalmente ele levantou a cabeça. — Tentei fazer as pazes com o meu pai. Você acredita que eu tentei, não é? Ela encostou a cabeça em seu ombro. — Você está se sentindo culpado. Meggy não disse nada, apenas abraçou-o, e ele parecia só querer ficar sentado ali em seus braços. Uma batida na porta interrompeu o silêncio, e Ibu avisou que o jantar estava servido. Nick se afastou com relutância e levantou-se, estendendo a mão para ela. Nick já estava fora há dez dias e o tempo se arrastava. À noite Meggy ficava acordada pensando nele, a cama parecendo tão vazia... Sabia que o amava e que não estava feliz com ele. "Tenho medo de ter destruído para sempre algo em você. Não é mais a mulher afetuosa, apaixonada e espontânea." Lembrou de que o abraçara e consolara antes dele viajar. E ele lhe dissera "obrigado"! Um marido agradecendo por um simples abraço. Era patético. Será que ele mudara tanto assim? Realmente a queria como ela era antigamente? Como a jovem que rejeitara? Bem, casara-se com ela. Fizera tudo para conseguir isso. Criara um emprego para ela numa ilha exótica para que ficassem juntos, para recomeçarem. Haveria maior prova de amor do que essa? Ele colocara sua carreira em segundo plano para ficar com ela. Para reconquistá-la. Pedia que fosse como antes... Será que ela seria capaz de ser novamente? O tempo passara, tivera outras experiências. A antiga Meggy poderia estar escondida em algum cantinho e reaparecer? Por medo negara a sua verdadeira personalidade, mas claro que ela ainda existia. E sabia que, se quisesse tornar Nick feliz, havia somente uma coisa a fazer. Reencontrar-se consigo mesma. Meggy chegara cedo ao aeroporto. O avião estava atrasado e a espera parecia interminável. Depois finalmente ela o viu, e seu coração disparou. Alto, ombros largos, os olhos azuis à sua procura. Um sorriso apareceu em seu rosto.

— Como era de se esperar. Vai dar certo. Como o amava! — Como foram as coisas? — perguntou. — Teria preferido que deixasse para outra pessoa? — Talvez. — Tem confiança em mim? Ele sorriu. aquele sorriso. — Bem-vindo à nossa casa! — Ficou parada diante dele. Não havia ninguém em casa quando chegaram. ficar perto dele. E de repente achou tão fácil! A coisa mais fácil do mundo! Beijou-o ansiosa. Nick encolheu os ombros. mais envelhecido.. Voltará amanhã. — Confiou? — ela perguntou sorrindo. Não esta noite. — Por que não toma um banho? Enquanto . — Senti tanta falta — disse junto ao seu rosto. pôs os braços em torno do seu pescoço e beijou-o. reunião com advogados e diretores. — Dei-lhe uma folga. depois encheu-se de coragem e correu ao seu encontro.. Pegaram a bagagem e foram até o estacionamento. queria senti-lo. — Ela pegou a direção. Agarrou-se nele. não sei. — O que pretende fazer? — Deixei tudo nas mãos do gerente. — Está muito cansado? — perguntou Meggy. abraçando-o.. — Então eu dirijo. Não queria ninguém. Entraram e Nick logo viu a surpresa: flores por toda parte. Ele me deixou a firma de herança. segurálo. — Onde está Ibu? — perguntou Nick olhando para os lados. com aqueles olhos claros. depois afastou-se para olhá-lo. Nick olhou para ela. Funeral. observando o rosto cansado.Por um momento ela ficou parada.. — Mais ou menos. — Apenas lhe confiei minha vida. românticas velas para serem acesas. Ele estava maravilhoso. — Também estou feliz por estar de volta — disse emocionado e lhe beijou os olhos. — Que bom que voltou — disse com os olhos cheios de lágrimas.

— O que você prefere? . os olhos cheios de amor. com um arranjo de orquídeas e velas brancas. mas abraçou-a e beijou-a com tanta paixão. Após o jantar. — Vamos brindar a um feliz casamento. que ela quase perdeu o equilíbrio. Comprara até uma garrafa de champanhe. ela parecia — Nunca mais tive isso desde que. caminhando para a mesa. e quando ele levantou os olhos para profundamente emocionado. Ele parou na porta e observou a sala.. está bem? Seu coração disparou ao ouvir os passos de Nick. eu a deixei — falou com a voz embargada.. Ele concordou. ela se levantou e foi até ele. — Maravilhoso — disse.. — Quer tomar um café agora? Ele afastou a cadeira e lhe pegou a mão. Levou os drinques para a varanda. — Estou com cheiro melhor agora? — perguntou. — Ele sorriu. Depois abriu a garrafa de champanhe e encheu as taças. Ele não respondeu. — Daqui a cinco minutos você entra. Depois soltou-a. pegou o drinque e suspirou profundamente. o champanhe. — Você está em Bali. talvez pudéssemos começar de novo. as flores. — A casa da geme é onde está o coração. — Ela aspirou fundo e riu. Nick veio logo depois. quando se inclinou para beijá-la. — Mmm. Meggy engoliu em seco. Sentaram-se. — Talvez. — Está com cheiro de avião. estendendo a mão para pegar a dela. — Que bom estar em casa.. Meggy foi para a cozinha preparar o prato favorito de Nick. muito. A mesa estava linda. as velas.isso preparo um drinque e depois o jantar.. apanhou a mala e foi para o quarto sem dizer uma palavra. Sorrindo.. — À nossa felicidade — disse. — Vou pôr o jantar — disse Meggy ao terminar seu drinque. Ele se sentou.

cheio de desejo —.Meggy sentou-se no colo dele. Meggy — sussurrou. — Está bem. — Mas às vezes eu queria que você me procurasse em vez de esperar minha iniciativa. e o enlaçou pelo pescoço. vamos para a cama. — Sim. . — Tive medo de nunca mais ouvi-la dizer isso. te desejo e quero fazer amor com você. — Quero você — disse junto ao seu ouvido. Nick levantou-lhe o queixo e olhou bem fundo em seus olhos. Como precisava ouvir! Como precisava saber se você se entregava porque eu a provocava ou porque você queria. — Estou tomando a iniciativa agora. Ele a apertou nos braços. — Sempre adorei fazer amor com você. — Subitamente os olhos azuis se encheram de felicidade. — Eu te amo.

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