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SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão, São Luís

), novembro de 2010

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Vertentes do jornalismo econômico no telejornalismo brasileiro: as colunas de Míriam Leitão e Joelmir Beting
Edna de Mello Silva 1
Resumo: O artigo se propõe a trazer uma breve revisão de literatura sobre o histórico, a linguagem e os desafios do jornalismo econômico no Brasil. Enfatiza o desafio de articular a prática jornalística com a notícia econômica, e em especial, a presença do comentarista econômico nos telejornais brasileiros. Traz como recorte de pesquisa a análise das colunas de Míriam Leitão, no Telejornal “Bom Dia Brasil”, exibido às 7 da manhã, pela Rede Globo de Televisão e de Joelmir Beting, no Telejornal “Jornal da Noite”, exibido pela Rede Bandeirantes de Televisão. Os resultados encontrados apontam para as diferenças: na linguagem adotada por cada comentarista e do julgamento de valor apresentado pelos jornalistas, o que pode denotar linhas editoriais e posicionamentos políticos diferenciados (em oposição) em cada um dos programas. Palavras-chave: telejornalismo; jornalismo econômico; comentarista econômico;linguagem jornalística.

1. Jornalismo e Economia: entre a história e o conceito
A área do jornalismo econômico sempre desempenhou um papel importante para a sociedade brasileira. Desde o surgimento do jornalismo impresso, as discussões sobre as políticas econômicas praticadas pelo governo ganham espaço entre as notícias de destaque. O próprio jornal de Hipólito da Costa, “Correio Brazilienze”, considerado o primeiro jornal impresso brasileiro, fundado em junho de 1808, já trazia análises e críticas sobre a política de cobrança de impostos adotada pela Corte portuguesa, recémchegada ao Brasil à época.
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Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista diplomada, professora adjunta do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins (UFT), pesquisadora do NUPEJOR (Núcleo de Pesquisa e Estudos em Jornalismo e Multimídia). Email: prof.ednamello@gmail.com

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em 1963. Com a moeda estabilizada e o processo de globalização já consolidados são outras as preocupações dos brasileiros. Primeiro. de forma crítica e independente. notícias que falam de consumo. “o jornalismo econômico tem a mesma idade da imprensa.1 . Nos dias de hoje. porque a televisão continua sendo o principal veículo em que as pessoas procuram informação. economia. é essencial para que o telespectador possa praticar sua cidadania. Merece destaque a figura do comentarista econômico. jornalista responsável por traduzir o chamado “economês” para as pessoas comuns. 1. Segundo.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. quando a inflação chegou à casa dos 239% e a simples ação de ir ao supermercado comprar mantimentos exigia do consumidor uma análise sobre os preços. 71) atribui ao Jornal do Brasil. a incorporação da temática econômica às pautas cotidianas: A deflação que se seguiu à „Revolução‟ de 1964 e a fase de reorganização de nossa vida econômica que a ela se seguiu.Precedentes históricos Para Caldas (2003. É um projeto entrelaçado à pesquisa coordenada pelo Prof. porque os telejornais trazem relatos. Já Dines (1986. Saber os limites entre o que é a interpretação das relações do mercado referentes à economia e o que é simplesmente uma matéria de consumo. políticas governamentais. como as decisões políticas ligadas ao universo financeiro repercutiriam no dia-a-dia do brasileiro. p. 11). novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Na televisão. Antonio Pedroso Neto (financiada pelo CNPq) que se intitula: “O jornalismo econômico no Brasil: entre a economia e a política” (Nupejor/CNpq/UFT). Não há registro de um jornal sem notícias de fatos econômicos”. numa sucessão de dados que mistura informação e entretenimento. Ainda que no 2 . especialmente em meados dos anos 80. crimes e lazer. Este artigo traz os primeiros resultados da pesquisa “Vertentes do Jornalismo Econômico no Jornalismo Televisivo Brasileiro” que integra um dos trabalhos do Núcleo de Pesquisa e Estudos em Jornalismo e Multimídia da Universidade Federal do Tocantins. p. São Luís). trouxeram ao nível do leitor médio os assuntos que se circunscreviam aos órgãos especializados. o jornalismo encontrou o desafio de explicar a um público massivo. Estudar quais são as práticas do jornalismo econômico neste contexto é de fundamental importância para o campo do jornalismo. o jornalismo econômico tem desafios de outra natureza.

p. esse tipo 3 . 48) entende que até 1950 a imprensa divulgava pequenas notas e questões relacionadas aos interesses do comércio e dos cafeicultores. p. a cobertura do noticiário econômico era voltado mais para a divulgação de informações financeiras e comerciais como cotações da bolsa. Para Calais (2006. (DINES. com informações sobre taxas cambiais e movimentos de exportação. Vilas Boas (2006. principalmente porque “até a década de 1960.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. 11) corrobora essa avaliação e defende que . o desempenho jornalístico daquele período de desenvolvimento econômico resumiu-se aos aspectos espetaculares. defesa do consumidor e outros assuntos do interesse de indivíduos de classe média desorientados com a deterioração diária de seus ganhos”. nas câmaras do comércio ou no Ministério da Fazenda. 1986. a política sempre foi a dona dos principais espaços dos jornais .mesmo porque a economia brasileira ainda se mostrava titubeante e apenas no início de seu processo de modernização. Com a ditadura militar vivida no país. p. Os temas econômicos são tratados pelos jornais sem qualquer distinção das demais notícias e há uma nítida preferência pelo noticiário da área política. 71). impostos e taxas escolares. p. em decorrência do fenômeno da hiperinflação vivenciada até 1994.” Lene (2007. do câmbio e de preços de produtos agrícolas. É acompanhado por reduzido grupo de interessados. São Luís). 155) entende que até a década de 70. 19) que considera que a editoria de economia passa a se especializar e ganhar espaço no período de restrição ao livre exercício do jornalismo imposto pelos generais militares. custo de vida. p. p. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: governo Kubitschek o famoso binômio energia-transporte tenha popularizado alguns temas econômicos. Para o autor. Quintão (1987. os temas relacionados à política foram fortemente censurados e deram lugar à cobertura econômica. Esse noticiário é originado nas agências estrangeiras de informação. a cobertura dos fatores econômicos passa a ser produzida com o formato de “jornalismo de serviço: com informações práticas sobre aplicações. 52) a cobertura da economia nem sempre teve destaque nos noticiários. a partir de meados dos anos 60 do século XX. Teriam nascido também no período da primeira fase da ditadura militar os jornais e as revistas especializadas em economia. prestações de casa própria. Essa idéia também é compartilhada por Caldas (2005.

Somente em 1970. Essa característica aliada ao uso de gráficos e tabelas para ilustrar as informações tornariam o texto do jornalismo econômico menos atrativo e técnico: Enfim. São Luís). novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: de jornalismo está radicalizado no Brasil. Como a linguagem utilizada pelo Jornalismo Econômico é híbrida . um dos principais problemas de linguagem está no fato de ele se dirigir a pelo menos dois públicos bem diferenciados. apesar disso. o jornalista deve “decifrar” essa linguagem e adaptála ao vocabulário do público (leitor/telespectador) que não é homogêneo. e sem violar os conceitos criados pela linguagem dos economistas.] O desafio do jornalista está em reportar e analisar. p. 1996. ficando disperso em meio às outras notícias do cotidiano. Quintão (1987. (KUCINSKI. de gírias. 104) assinala que a linguagem jornalística de Economia envolve a introdução de explicações. com o sucesso de Joelmir Beting nos impressos (jornais e revistas). a linguagem técnica elitiza a informação prestada pelo Jornalista de Economia que. p. as informações provenientes das fontes trazem jargões e termos próprios da área econômica que não fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas comuns. [.. que se comunicam por códigos próprios: de um lado.um pouco de jargões das operações de mercado e um pouco de categorias da ciência econômica - 4 . especialistas. grandes empresários e profissionais de mercado: de outro. das revistas ou nos boletins (newsletters) notícias cujos textos tornam possível ao leitor comum entender a informação. na Tv Gazeta de São Paulo. O programa era semanal. o grande público e os pequenos empresários.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão.Os desafios da notícia econômica Sem dúvida. com ênfase no mercado financeiro (Tramontina. 1.. neologismos e siglas. Caldas. tinha a duração de 2 horas e trazia notícias. sem usar linguagem que as pessoas comuns não entendam. Muitas vezes. o noticiário econômico não tinha grande destaque na televisão. 2005). Entre as décadas de 50 e 60. 1996. No jornalismo dedicado à economia.168). O programa “A Multiplicação do Dinheiro” é considerado a primeira experiência de jornalismo econômico na televisão. entrevistas e debates. Será comum encontrar nas páginas dos jornais. um dos desafios do jornalista especializado em economia diz respeito ao uso da linguagem. Resende.2 . assim como matérias que não levam em conta a conexão entre a política e a economia. Por sua vez. transmitir opiniões de economistas e governo. 2005. do século XX. insiste em usá-la. ele passa a apresentar sua coluna de economia em programas jornalísticos de televisão.

p.] lidos três ou quatro jornais.A autora também defende que o jornalista deve possuir um acervo pessoal de informações a que possa recorrer para analisar uma notícia e indicar tendências. dezenas de fax e boletins.89). Aí surgem as expressões em voga: „o Governo vai adotar medidas para agilizar o mercado‟. ele mesmo liga para sua fonte.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. Segundo Francisco (2006.) correndo o risco de ter seu trabalho 5 . “o jornalista vive o paradoxo: escrever logo e publicar para não correr o risco de se furado. São Luís). expressões que não dizem nada porque não interessa dizer nada. já que ele não tem tempo de estudar..” (TRAMONTINA. o excesso de trabalho e a falta de tempo para apurar a notícia: “Isso levou a duas distorções que considero a praga do jornalismo: o primeiro. em suma. ser recebido e desfrutar do privilégio de obter para si as informações”. o que exige muito trabalho de filtragem e apuração das informações a serem divulgadas.. o release.” O autor considera ainda que “um dos males do jornalista econômico foi identificar-se demasiado com os porta-vozes. p. p. 118) existem alguns entraves na produção da notícia da área econômica que devem ser considerados como obstáculos para a obtenção do conhecimento e entendimento da informação por parte do leitor.] A respeito das dificuldades enfrentadas no âmbito profissional pelo jornalismo especializado em economia Biondi (197?. o que para Biondi (197?. [.. 16) alerta sobre os salários baixos. analisados documentos.. Caldas (2005. „novos patamares‟.. ou escrever e apurar melhor a matéria (.. na forma de releases fornecidos por empresas de divulgação e assessorias de imprensa.] (mesa) ocupada quase que totalmente por várias pilhas com centenas de recortes de jornais e revistas. Aquele é o material recente usado como fonte de pesquisa. Se ainda restou alguma dúvida ou precisa de um esclarecimento qualquer. e em segundo a fonte que torna o repórter depende dela. o que leva os profissionais a se esquecerem de que estão escrevendo para o público e muitas vezes fazerem o uso do “economês”. 65) evidencia que há uma grande oferta de pautas que chegam todos os dias aos e-mails dos jornalistas especializados em economia. estudos especiais sobre empresas e setores variados da economia. p. 1996. p. ele está quase pronto.. 20) seria um “problema não deliberado de elitismo”. documentos e artigos. O primeiro deles seria a falta de tempo para apurar melhor a notícia e para construir o texto. Tramontina (1996) ao relatar o cotidiano de Joelmir Beting cita uma situação semelhante: “[.. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: alguns textos representativos das operações de mercado não são devidamente compreendidos nem mesmo pelos economistas [. Segundo a pesquisadora.

A pesquisa é descritiva e a técnica de Análise de Conteúdo deu suporte para as análises dos telejornais (BARDIN. 2009). 2006.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. repleta de jargões e dados. O segundo aspecto refere-se ao fato do jornalista utilizar muitas fontes oficiais. que dividem a bancada do telejornal e o cenário de sala de visitas em que costumam dialogar com eventuais convidados ou com os comentaristas especializados em esporte e economia. Seu trabalho é trazer para o telespectador comum. tabelas. o que na visão da autora. Diz ela: “são dados. através da análise das notícias e da participação dos comentaristas especializados na área. p. que tentam a seu modo explicar o que acontece no mercado econômico. transmitindo a visão de suas entidades”. e retransmitido pelas afiliadas em rede nacional no horário das 7h00 da manhã. enfatizando o estudo sobre as colunas de Economia nos Telejornais “Bom Dia Brasil” (Rede Globo de Televisão) e “Jornal da Noite” (Rede Bandeirantes de Televisão). A jornalista Míriam Leitão é a comentarista de Economia que participa quase que diariamente do telejornal. O telejornal “Bom Dia Brasil” é veiculado pela Rede Globo de Televisão. ainda 6 . “são as assessorias de imprensa e diretores das grandes federações e associações. Uma característica do programa é o tom informal da linguagem utilizada nas notícias e a presença dos apresentadores Renato Machado e Renata Vasconcellos. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: perdido”. utilizada na construção da notícia.118). é por meio de siglas ou termos que fazem parte do jargão econômico. números e percentuais na maioria das vezes não traduzidos ou explicados ao leitor ou espectador e. além de economistas. Primeiras leituras: as colunas de Economia nos telejornais A pesquisa “Vertentes do Jornalismo Econômico no telejornalismo brasileiro” pretende perceber a configuração atual do jornalismo econômico no telejornalismo brasileiro. 2. mas distantes do vocabulário ou do conhecimento de mundo de grande parte do público (FRANCISCO. quando são feitos. no canal aberto.1977. São Luís). SILVA. O terceiro entrave para a compreensão da informação por parte do leitor seria a linguagem inadequada. A escolha dos telejornais se deve à presença dos comentaristas econômicos nas edições regulares dos programas. Este artigo apresenta uma parte das primeiras leituras sobre o tema. Míriam Leitão no “Bom Dia Brasil” e Joelmir Beting no “Jornal da Noite”.

nos momentos de diálogo com os apresentadores e planos mais fechados (médio ou próximo). A estrutura freqüente dos comentários o Telejornal “Bom Dia Brasil” é a apresentação da cabeça da notíecia. No momento seguinte. a jornalista se dirige inicialmente aos apresentadores respondendo ao comentário ou questionamento que lhe foi impetrado por um deles. os desdobramentos das notícias econômicas do dia anterior ou a agenda das decisões que influenciarão o dia-a-dia do cidadão ao longo do dia ou da semana. apresentado por Boris Casoy. ainda no momento de sua explanação. gralmente em forma de uma pergunta para a jornalista. em linguagem coloquial e sem o apoio do teleprompter. O comentário de Joelmir Beting é apresentado durante o telejornal “Jornal da Noite”. Uma característica interessante dos comentários de Míriam é a situação de diálogo que é criada com os apresentadores do telejornal no momento da apresentação de suas apreciações sobre a economia. dirigindo-se para a câmera. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: no início do dia. Os enquadramentos utilizados nas cenas intercalam-se entre plano de conjunto. a bancada tendo ao fundo um cenário que remete à idéia de uma redação de jornalismo. Toda apresentação do comentário é feita ao vivo. O apresentador Boris Casoy fala o título/assunto da notícia e em seguida chama o comentarista Joelmir Beting. intercalando seu olhar para câmeras diferentes na troca de assuntos/notícias. Na sequência. A jornalista faz uso de recursos expressivos como gestos com as mãos e meneios de cabeça para enfatizar seus argumentos. pela Rede Bandeirantes de Televisão. É comum que o assunto debatido pela comentarista tenha sido precedido por reportagem que introduz a discussão do tema. situações comuns num diálogo normal. Uma característi7 . São Luís). Na apresentação dos comentários de Míriam Leitão são freqüentes interpelações ou questionamentos feitos pelos apresentadores durante sua exposição. Boris Casoy apresenta o telejornal sozinho na bancada. ora dirigindo-se para a uma câmera (que simula o olhar para o telespectador).sentado. o telespectador vê entre em quadro o jornalista Joelmir Beting. Tanto o cenário quanto o enquadramento são fixos. a jornalista intercala o seu olhar. há sobreposição de vozes e gaguejos.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. Durante os comentários de Míriam Leitão. ora dirigindo-se aos colegas apresentadores. A jornalista em muitos momentos é interrompida. em plano médio. A estrutura de apresentação do comentário é fixa. seguida pelo comentário de Míriam.

Análise do Comentário de Míriam Leitão . como se estivesse fitando e conversando com o telespectador.Telejornal “Bom Dia Brasil” Data: 20/07/2010 O tema do comentário de Míriam Leitão foi a reunião do Banco Central para definição da taxa de juros. Míriam continua: A BOA NOTICIA É QUE NAS ÚLTIMAS HORAS OS BANCOS. VAMOS FALAR COM A MÍRIAM LEITÃO. No comentário de Joelmir Beting o olhar do jornalista é dirigido diretamente para a câmera. 2. o telespectador tem uma idéia positiva sobre o anúncio da taxa de juros pelo Banco Central. A PRÓPRIA INFLAÇÃO ESTÁ CEDENDO E AQUELE MEDO DE QUE O PAÍS ESTIVESSE CRESCENDO ALÉM DA CONTA NO COMEÇO DO ANO ESTÁ COMEÇANDO A CEDER. São Luís). Cabeça: Apresentador Renato Machado: VAMOS FALAR DE BANCOS. MIRIAM LEITÃO.1 . Pelo comentário de Míriam Leitão. O QUE É QUE VAI ACONTECER? Na fala de Machado. E AÍ? A TAXA SOBE. é possível perceber inflexões de ironia em sua voz. Um telespectador atento pode perceber isso. o tom otimista do comentário também é mantido: AÍ É QUE ESTÁ A BOA NOTÍCIA. AS CONSULTORIAS. FICA ONDE ESTÁ. MESMO ASSIM OS JUROS SÃO ALTÍSSIMOS . Mais adiante. Seu timbre de voz é forte e compassado. SOBRE BANCOS E SOBRE O BANCO CENTRAL QUE SE REUNE HOJE PRA DEFINIR A TAXA DE JUROS. Míriam salienta que a inflação “está cedendo” e que o “medo” da inflação também começa a ceder.75 PONTOS PERCENTUAL E AGORA VÁRIOS ESTÃO ACHANDO QUE PODE SUBIR MEIO PONTO. A BOA NOTÍCIA É QUE PRIMEIRO AS PREVISÕES DE INFLAÇÃO ESTÃO CAINDO. ELES ESTAVAM ACHANDO QUE IA SUBIR 0. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: ca importante da participação de Beting é que o quadro é gravado. Apesar da ressalva de que os “juros são altíssimos”. é o Banco Central a fonte da informação que Míriam iria comentar. Por vezes. pelo fato de que um selo escrito “Ao vivo” é retirado da tela durante a exposição do comentarista.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. A jornalista cita como exemplo a compra de um aparelho de 8 . TEM FEITO UMA REVISÃO DAS PREVISÕES.

2. fala de uma “elevação” da taxa de juros num tom alarmista. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: televisão para assistir aos jogos da Copa para ilustrar um situação de consumo que contribuiu para a queda da previsão da taxa de juros. São Luís).“Jornal da Noite” Data: 22/07/2010 O tema do comentário de Joelmir foi o anúncio do aumento da taxa de juros. que é atenuado pela afirmação de que já era esperado pelo mercado. introduz a idéia de que o vice-presidente não concordaria com a conduta adota pela equipe econômica do governo. Bóris anuncia: A PARTIR DE AMANHÃ. CONFIRMADO. Míriam concorda com esta posição e afirma que o “Brasil não poupa e investe pouco” e por isso pode ficar vulnerável a crises externas. No decorrer do comentário. Já no início de sua explanação. 9 .Análise do comentário de Joelmir Beting . De certa forma. JOELMIR BETiNG COMENTA. O PAÍS TEM UMA NOVA TAXA BÁSICA DE JUROS. uma preocupação de emprestar um tom de conversa à análise. A SELIC COMO JÁ ERA ESPERADO POR DOIS TERÇOS DOS ANALISTAS E TAMBÉM DOS RENTISTAS. O BANCO CENTRAL DECRETOU NOVA ELEVAÇÃO NA TAXA BÁSICA DE JUROS. o apresentador Renato Machado fala de uma conversa que teria tido com um amigo economista alertando de que o Brasil pode ser afetado por uma crise externa. A TAXA SOIBE NESTA QUINTA-FEIRA MEIO PONTO PERCENTUAL . Joelmir dá o tom de sua avaliação. Percebe-se durante o comentário de Míriam. afirmando que outros segmentos da sociedade também estão insatisfeitos com o aumento da taxa de juros.2 . E mais adiante faz uma avaliação crítica. DE DEZ E VINTE E CINCO PARA DEZ E SETENTA E CINCO POR CENTO AO ANO. O COPOM DECIDIU ESTA NOITE AUMENTAR A SELIC EM MEIO PONTO PERCENTUAL. trazendo exemplos (como a compra do aparelho de TV) que pudessem ser entendidos pelo telespectador comum.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão.

o que fez com que o juros só aumentasse “somente zero ponto cinco pontos percentuais”. Beting evidencia o despreparo e a situação “única” de um devedor que aumenta os juros da própria dívida. reforça uma situação de que o governo não teria competência para administrar o país: “um caso único: o devedor eleva o juros da própria dívida”. TRABALHADORES. num tom de voz que se assemelha ao sarcamo: PARA AZAR DO PRÓPRIO GOVERNO. 10 . ele cita um “amigo economista”. Conclusões preliminares É notória a diferença de abordagem sobre o tema do anúncio do aumento da taxa de juros entre os dois comentaristas. mas presente. A idéia que é trazida pelo texto “sentado numa dívida pública” é de um governo inoperante e estagnado. Na visão de Míriam Leitão. São Luís). SENTADO NUMA DÍVIDA PÚBLICA DA ORDEM DE UM TRILHÃO E MEIO DE REAIS. A ECONOMIA EM ACOMODAÇÃO. VALEM POR UMA OVERDOSE DE ARROJO MONETÁRIO NA CATEGORIA DO MAL DESNECESSÁRIO COMO REPETE A TODO HORA O VICE PRESIDENTE JOSÉ ALENCAR. houve uma melhora na situação vivida no país. Beting faz uma crítica velada ao governo. Na fala de Renato. Em seu texto. É nítida também a postura crítica de Joelmir Beting em relação à equipe do governo federal responsável pela política econômica do país. A INFLAÇÃO ESTÁ EM DESACELERAÇÃO. ENTÃO JUROS NO ALTO E EM ALTA. É UM CASO ÚNICO (RISADA SARCASTICA): O DEVEDOR ELEVA O JUROS DA PRÓPRIA DÍVIDA PARA ALEGRIA DE SEUS CREDORES. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: ESSE NOVO AUMENTO É CRITICADO POR EMPRESARIOS. No fechamento do comentário.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. O riso sarcástico dissimulado. que nada faz para mudar a situação. abaixo do previsto anteriormente. Não está evidente em nenhum dos comentários quais foram as fontes utilizadas para a apuração das informações. Já na avaliação de Joelmir o aumento reflete a inoperância do governo e afirma categoricamente que setores da sociedade (empresários. trabalhadores e consumidores) fizeram críticas contra o aumento. CONSUMIDORES.

Bóris fala do Copom e da taxa SELIC. 1977. Bernardo. Há uma falta de precisão na identificação dos atores que circulam no processo. o telespectador que por ventura tenha assistido ao Telejornal “Bom Dia Brasil” no dia 20/07/2010 e ao telejornal “Jornal da Noite”. N. Kárita Cristina. Análise de Conteúdo. é contextualizada a informação sobre a relação dos órgãos citados com a informação fornecida. 197?. 2. Em nenhum momento. CALDAS. São Paulo: Summus Editorial. 117-125. Alexandre. São Luís). Laurence. In: VILAS BOAS. Págs. Formação & Informação econômica: jornalismo para iniciados e leigos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Suely. 1996. O caráter informativo que caracterizaria a presença de um comentário econômico inserido no telejornal não cumpriria o seu papel fundamental. Barreiras na produção de conhecimento pelo jornalismo econômico. Jornalismo econômico. 15-20. Os dados coletados ainda não são suficientes para uma análise conjuntural da presença do jornalismo econômico no telejornalismo. Joelmir menciona “empresários. Estudos em Jornalismo e Mídia. V. Referências BARDIN. Alberto. Empresas & Negócios. Jornalismo econômico. 11 . Porto Alegre: UFSC. Na cabeça. porém ninguém nomeia as pessoas envolvidas. CALAIS. O papel do jornal: uma releitura. De toda forma.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. São Paulo: Contexto. A pesquisa encontra-se em fase inicial. A linguagem na reportagem econômica. 2006. Lisboa: Edições 70. teria dúvidas em relação à interpretação da taxa de juros em seu cotidiano. São Paulo: Summus Editorial. Sergio. DINES. III. Rio de Janeiro: ABI. 2006. nem das linhas editoriais adotadas pelos programas ou pelos comentaristas. novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: Míriam fala do “Banco Central”. P. porém as primeiras leituras efetuadas já denunciam que o tema proposto pode revelar muito sobre a cobertura jornalística da área econômica no telejornalismo brasileiro e possivelmente as construções de sentido que podem ser apresentadas pelo texto jornalístico. BIONDI. 1986. FRANCISCO. I Seminário de Técnica de Jornalismo. enquanto Renato Machado cita o Banco Central. 2003. trabalhadores e consumidores”. em 22/07/2010. Aloysio. KUCINSKI.

Construtores do Jornalismo Econômico: da cotação do boi ao congelamento de preços.SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo VIII Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (Universidade Federal do Maranhão. São Luís). José Venâncio. Propostas Metodológicas para a Análise de Telejornais. 2009. Entrevista: a arte e as histórias dos maiores entrevistadores da televisão brasileira. Formação & Informação econômica: jornalismo para iniciados e leigos.Curitiba. São Paulo: Globo. VILAS BOAS. 2005. CD ROM. Carlos. Edna de Mello.São Paulo: Ícone 2005. 2006. XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação . novembro de 2010 :::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::: _________. Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética. TRAMONTINA. SILVA.). Sérgio (org. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo: Editora UNESP. 12 . RESENDE. 1996. São Paulo: Summus Editorial.