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CARL OGLESBY E EICHARD SHAULL

REAÇÃO E MUDANÇA
Introdução de Leon Howell Tradução de Eglê Malheiros

PAZ E TERRA
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Introdução
Os dois ensaios que compõem este livro, debatendo a revolução no mundo de hoje, diferem tão profundamente em análise, preceito e resposta quanto as experiências e pontos de vista dos próprios escritores. Contudo, uma preocupação comum pelo papel da América nesta revolução, internamente e no exterior, liga os dois trabalhos. Este livro começou em fevereiro de 1966, quando os dois homens participaram de uma discussão sem formalidade destas questões, no Union Theological Seminary, em New York. Jamais haviam se encontrado antes. Um se envolvera no movimento doméstico americano em prol de uma sociedade mais justa; o outro passara muitos anos na América Latina, intimamente ligado aos movimentos estudantis católico e protestante. As conversas em público e em particular, daquela noite, revelaram uma identidade de interesses e uma diferença de perspectiva que abriam caminho para uma confrontação e discussão interessantes. Ansiando por colocar essas discussões à disposição de uma audiência muito mais vasta, o University Christian Movement pediu-lhes que expusessem suas idéias em ensaios. São aqui apresentados como dois esforços para entender e responder a um problema crucial de nosso tempo, na esperança de encorajar um diálogo mais amplo. Leon Howell University Christian Movement
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PRIMEIRA PARTE Vietnã: Prova Decisiva UM ENSAIO A RESPEITO DAS SIGNIFICAÇÕES DA GUERRA FRIA CARL OGLESBY 7 .

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Crise após crise.I Ocidente Encontra Ocidente: o Nexo do Vietnã O destino ocidental é “o conhecimento das causas e movimentos secretos das coisas. toca um nervo novo. a sua confusão não de todo oculta por sua fúria. tendo em nosso tempo a emergência se tornado o estado comum do homem. É claro que há outros fatos que 9 . A América moderna. que foi emboscada na Ásia pelo seu próprio passado oracular. Não são só seus soldados-filhos que enfrentam armadilhas e estacas “punji” naquelas selvas. convence-nos de que esta guerra é o acontecimento mais importante e prenhe de significado e consequência. e no fumo que ascende da incisão sacrifical no Sul do Mar da China ela lê seu passado e vê presságios do seu futuro não tão obscuramente quanto poderia desejar. Francis Bacon Os antigos oráculos do Ocidente mediterrâneo abriam o ventre de bois e compreendiam o passado e anteviam o futuro na fumaça de suas entranhas ardentes. Coréia ou China. e o alargamento das fronteiras do império humano. O Vietnã prende-nos com uma nova garra. fruto da mesma linha ocidental. É esta nossa América Ocidental. inventou agora de abrir o ventre da velha-jovem Ásia. estes últimos vinte anos tinham aparentemente nos insensibilizado para as crises. Porém o Vietnã não é Berlim. para a realização de todas as coisas possíveis”.

permanece mudo. precisamente quando nossos líderes se acham mais sozinhos na grandiosa defesa da liberdade ocidental. Ninguém pretende mais conhecer seus limites. não mais desculpas para não se chegar à uma opinião. Os problemas raciais americanos pioram precisamente quando nossos líderes tentam duramente pôr-lhes fim. se realmente jamais haviam resolvido algo antes. tão indignas do momento? Por que tantos americanos — e. os americanos tendo estado sempre prontos a fazer o que é necessário para ganhar o que deve ser ganho. precisamente quando nossos líderes pedem mais unidade. no fundo de nossas mentes. se lançou em uma marcha da antiga guerra santa contra o totalitarismo? Por que tantos de nós não mais nos sentimos rejuvenescidos pelos velhos contos? Não podem ser as asperezas da guerra a razão da diferença. em nossa história. O problema parece ser o de não mais estarmos certos do que significa “vitória”. Por que agora estas explicações parecem tão banais e inapropriadas. Desde que as velhas verdades se recusam a funcionar. global e doméstica. Homens já morreram antes. só ela. Por que o Vietnã romperia tão profundamente a tranquilidade ocidental? Temos para esta guerra as mesmas explicações que tivemos para todas as outras. desde que nem no Vietnã nem no Mississipi os velhos remédios de prazer-dor resolvem nossos problemas. Todos são forçados a admitir que ela parece ser “um poço sem fundo” — uma guerra eterna. tão prolongada e. acima de tudo. europeus. em maior número ainda — não estão satisfeitos em ouvir que o ocidente liberal. Um novo sectarismo faz com que nos voltemos raivosamente uns contra os outros. O liberalismo ocidental. Mas é a primeira a ser tão grande. confrontado com esta guerra. que outrora produziu tão convincentes e úteis definições de vitória e derrota. e os Estados do ocidente europeu começam a se individualizar dentro da Aliança.contribuem para esta convicção. nunca tendo os americanos se assustado com as asperezas da violência. mais uma vez. em nossa pátria. seria ominosa bastante. tão bem estudada: uma nação inteira 10 . Talvez agora lá parece não mais haver tempo para adiamento ou quarentena. em uma direção única. Não é a primeira de sua espécie. Talvez estes sucessos do passado fossem apenas adiamentos ou quarentenas. nem o contínuo eludir da vitória. também. Porém a guerra. Acelera-se a militarização de nossa economia política. A miséria urbana se intensifica precisamente quando nossos líderes a atacam de frente com sua melhor determinação e ingenuidade. Esta guerra está agindo. começamos a indagar.

Alguma outra civilização já se destruiu a si própria tão abertamente — tão carnalmente — como o faz agora a nossa? Dificilmente poderemos voltar imutados deste espetáculo para sonhar velhos sonhos. o processo pelo qual vim a ser a espécie particular de partidário que sou. do qual cada um de nós terá que prestar contas pessoalmente. a fim de ser submetido por ele. mais bem consubstanciadas sobre a Guerra Fria e os conflitos a longo-prazo dentro do Ocidente e entre o Ocidente e o Oriente. encontrar conforto em velhas verdades. em algum tempo futuro. Não houve. colocado ante uma visão clara da capacidade de sua cultura para a violência. antes. escrevo como um partidário que foi educado por outros partidários. Este ensaio sobre o Vietnã é. através dos lugares-comuns superficiais sobre o Vietnã. chegar. em parte porque já foram discutidas bas11 . destruído por ele. Eu as abandono de imediato. Nenhuma civilização foi mais violenta do que a nossa civilização ocidental. explicações que eu considero ser. a fim de se tornar visível a ele. civilizado por ele. sustentando que o que ainda não podia ser vislumbrado existia. o capítulo seguinte se dedica a uma breve escaramuça com as explicações oficiais de nossa guerra de “Mundo Livre” pelo Vietnã. do qual a Guerra Fria aparece como o episódio presente e culminante. Não se nasce com uma tarefa política. Com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas de qualquer outra pessoa. a quem de hábito era permitida a moratória da ignorância. de uma evidente inconveniência. no essencial. não poderemos adorar de novo na velha igreja. Dificilmente poderia ser de outro modo. porque agora não podemos negar que há sangue no altar e que as mãos dos sacerdotes não são puras. Com esta guerra a história se torna assunto íntimo de cada um de nós. de forma tão específica. Foi o Ocidente que inventou o pretencioso e arrogante conceito do “selvagem”. momento algum em que o povo do Ocidente. foi o Ocidente que deu ao próprio horizonte um significado caracteristicamente político. O tipo de argumento neste ensaio segue.observa-se a si própria neste ato — o ato sendo (contra toda justiça) a incineração de toda uma outra nação. até generalizações mais sólidas. O esforço é no sentido de provar o específico pelo princípio que ele incorpora e o falso pela verdade que ele encobre. portanto. antes. ou. um ato privado. Assim. tivesse sido. Recebe-se certos padrões. se considerado um obstáculo para seu “alargamento das fronteiras do império humano”. um ensaio sobre o Ocidente. tenta-se aplicá-los com honestidade e com toda perícia que se possa exibir e procura-se ter a coragem de aceitar todos os mandamentos pessoais que possam implicar das conclusões.

numa tentativa de desnudar. Não é. ele encontra a si mesmo. porque sufocam uma linha de argumento menos piedosa. porém muito mais sólida. 12 .tante por agora. mas principalmente. a ideologia do anticomunismo da Guerra Fria. A reinterpretação da Guerra Fria (IV Capítulo) daí resultante é aplicada no V Capítulo ao caso do Vietnã. e a própria Guerra Fria é a crise final da identidade ocidental. O último capítulo. um argumento que o bom Guerreiro da Guerra Fria teria apresentado. porém. à força. o Oriente que o Ocidente enfrenta no Vietnã. é uma tentativa de reconstituir as linhas mestras das principais questões que os ocidentais poderiam tentar confrontar — uma tentativa. baseado naquilo que o precede. o que é mais importante. na realidade. as verdades políticas que aqueles erros devem ocultar. portanto. O VI Capítulo se transporta ao outro lado da linha de combate. O propósito principal do II Capítulo é reelaborar aquele argumento. o seu intuito é revestir de alguma carne humana o inimigo por demais abstrato que tão precipitadamente condenamos — o rebelde. visando descobrir não só os erros históricos que contém. que jaz sob eles. caso seu compromisso com as banalidades pontificais não o silenciasse. O III Capítulo é uma análise crítica da melhor história do Guerreiro da Guerra Fria. de tornar mais explícito o tema geral que eu já sugerira: a guerra do Vietnã é uma crise revelatória da Guerra Fria.

devem pensar: Estas razões são tão ruins que deve haver outras razões. que dão à propaganda sua base e desígnio. a mais forte. a razão mais fraca à superfície. na verdade. Este é o objetivo deste capítulo: levar o foco analítico através das mentiras brancas da política de guerra até o substrato ideológico. Acorde com o Senador Case. haver numerosos graus e variedades de raisons de guerrilla que se sobrepõem umas às outras como tantos estratos geológicos. não desejo concluir que Dean Rusk é um tolo. estão encravadas. por que continua ele a dizer isto? Senador Clifford Case1 Pode-se ponderar as razões oficiais que Washington dá para nossa luta no Vietnã. debaixo dela. Se Rusk pretende estar convencido por argumentos que não convenceriam ninguém tão inteligente como ele. O segundo pensamento é melhor. mais honestas. Existem outras razões. também. Parece. descascar a camada superior de propaganda para revelar as camadas inferiores mais tenazes de ideologia. mas outros. devemos fazer alguma mineração. e a mais dura. então ele deve ter sido convencido por outros argumentos. e pensar: Estas razões são tão ruins que devemos ter caído nas mãos de loucos. Desta forma. que por algum motivo prefere não 13 .II A História do Guerreiro da Guerra Fria O Secretário Rusk não é tolo. onde razões de guerra menos piedosas.

Nossa reputação global está em jogo. apresentados por ela aos analistas do Departamento de Estado e da Casa Branca. isto é. É óbvio que não há acordos tão indiscutivelmente comprometedores. a história do Guerreiro da Guerra Fria pode ser recomposta. Mas este argumento é faca de dois gumes. Penso que os argumentos mais convincentes podem ser reconstruídos. Uma. Tendo em vista a intimidade notória do AID como a CIA no Vietnã e a abundância de dados que parecem ser altamente confidenciais a que teve acesso Carver. Mas antes tem de ser esclarecida sua propaganda. seria de se estranhar que seu trabalho não fosse. Estamos respondendo a um apelo de emergência do povo vietnamita. e talvez isso seja importante. A única questão é: Que espécie de reputação desejamos para nosso país? Resistimos a uma invasão: a) A Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul é uma criatura política do Vietnã do Norte. de que adianta o ceticismo num caso em * Várias amostras da historiografia da CIA podem ser citadas. O melhor desenvolvimento deste argumento pode ser encontrado num longo e detalhado ensaio na edição de abril de 1966 de Foreign Affairs.. a Baía de los Cochinos: Murray Zeitlin e Robert Sheer (Cuba: Tragedy in Our Hemisphere. de que o povo cubano estava se preparando para um levante contra Castro. tendo o pacto da SEATO ainda mais cláusulas de escape do que o da NATO. é bizarra. Jamais ouvimos falar do povo vietnamita. mais ou menos. E a afirmação da CIA. O autor. em Saigon. o qual definem de modo diverso. 1964) constataram que a CIA maldosamente alterou os textos dos discursos de Castro.* Porém. Carver Jr. um documento da CIA. a CIA aparece como tendo conscientemente falsificado a informação. é identificado como um antigo oficial AID. supostamente objetiva. “O Vietcong sem Rosto”. é medida de prudência mantermo-nos céticos a respeito dos “fatos” de Carver. Se lutamos deve ser porque pensamos que devemos lutar. e não porque tenhamos sido apanhados por um instrumento legal. Tanto quanto o Presidente Johnson. simpática bastante à nossa própria política para julgar chegada a sua hora no Palácio Presidencial de Saigon. precisamente antes da invasão. George A. os dissidentes consideram-se partidários do prestígio da América. Uma vez que pode ser justamente isto. Estamos legalmente obrigados a lutar. É ainda mais óbvio que nenhum estado forte hesitará um momento sequer em violar um tratado que julgasse prejudicial aos interesses nacionais. se não percebermos que o propósito da CIA era envolver os Estados Unidos numa situação da qual poucos governos podiam ter decidido se 14 . Talvez esteja. Ouvimos falar apenas daquela elite vietnamita.expor. sobre a qual nossos mentores políticos estavam baseando seus planos.

logo após a consolidação do poder feita por Ngo Dinh Diem. Sei muito pouco sobre este misterioso e injustamente ignorado comitê. a elaborada descrição que Carver faz da gênese da Frente de Libertação Nacional (FLN) pode ser pouco mais que uma fantasia à Borges. com aquela viciosa habilidade pela qual reconhecemos nosso Inimigo.S. a CIA filtrou a “informação’’ de que a taxa de crescimento anual da U. 15 .S. e aquela outra organização “criatura”. Conjetura-se. em julho de 1965. pode também ser verdade completa e perfeita. está documentado na memória do ex-membro das Forças Especiais. Minha outra informação sobre o comitê de Nhu foi obtida em palestras com oficiais americanos e com um vietnamita antigo membro dele. Philippe Devillers e Jean Lacouture são mais fidedignos dentro de um corrente critério acadêmico. 1964) escreve que este informe foi amplamente interpretado como uma tentativa de influenciar os aliados dos E. Ngo Dinh Nhu. U. a não conceder grandes créditos de exportação a U. Esta concessão nos permite indagar a Carver o que sabe ele sobre aquele outro intrigante. E. declínio considerado inacreditável pela maioria dos especialistas ocidentais. Os estudiosos franceses Bernard B.que os “fatos” são tão inacessíveis? Pelo que podemos saber com certeza. exceto que estava dirigindo operações paramilitares no Vietnã do Norte. em janeiro de 1964. em 1956. de Nhu. de fevereiro de 1966. caíra em 1962-1963 a 2. Fali. que pode ter sido financiado diretamente pela CIA. em Ramparts. de novembro de 1956. em Saigon e Hue. de 6 a 10 por cento. Outro exemplo.2 porém Burchett é tão partidário quanto Carver.S. Donald Duncan. ** O pormenor sobre a infiltração militar dos EE. U.R. contudo. Concedamos que Hanói. qual foi o primeiro golpe e qual o contragolpe.** Não há saber no mundo que nos esclareça qual dessas duas “criaturas de libertação” foi inventada primeiro. Paul Blackstock (The Strategy of Subversion. Porém muito mais importante do que questões sobre as origens burocráticas da FLN é a questão: Por que ela cresceu? Suponhamos que desvencilhar. tenha intrigado para criar e deter o controle da FLN. e todos os três descrevem a FLN de maneira que difere muito mais de Carver do que de Burchett.UU.R.UU. e que pode ter estado envolvido na famosa rebelião dos fazendeiros de Vinh. que estava infiltrado no Vietnã do Sul (com passaportes civis) pela metade da década de cinquenta. Que fazer com uma “prova” que não pode ser testada? Aceitá-la. A que provas podemos submetê-la? Podemos comparar a versão de Carver com a de Wilfred Burchett.5 por cento. mas podem estar errados. o Comitê pela Libertação do Vietnã do Norte.S. que ele pode ter sido treinado por pessoal das Forças Especiais dos EE.

chegando mesmo ao detalhe de rodear-se de oficiais vietnamitas. bem como. sabemos algo sobre guerras populares (aprenderíamos muito com um estudo de nossa própria revolução) é que elas não podem ser forçadas a existir por meio de decretos burocráticos remotos. o Departamento de Estado e a Casa Branca.o regime norte-vietnamita promulgasse certos decretos. muito provavelmente. comunista ou não-comunista. como se fora esta sua real intenção. afinal. jamais produtos de uma diplomacia sombria. simultaneamente. por que só num surtiu efeito? Se. mesmo estratégica. foi sentida por tantos sul-vietnamitas como uma revolução inteiramente legítima vinda de dentro? Por haver terror? Havia terror em ambos os lados. e tornou-se. mas com as elites dos salões da Riviera Francesa. George Carver. Guerras populares são fenômenos culturais. ou tolerou. mas sua substância e seu impulso são os maciços ressentimentos. mais brancos e melhor arrumados do que seus predecessores franceses. ou não pôde resistir. não com os camponeses do Vietnã. sabem melhor do que ninguém (voltaremos a isso) o que cria guerras populares. Diem desejou. E. e das classes superiores católicas. Este novo feudalismo transformou a insurreição inicial numa revolução social. Aquela supressão forçou os episódios iniciais de insurreição defensiva. Tais decretos podem dar-lhes forma tática e. associado dos bem-intencionados americanos. a CIA. que eram ainda mais altos. ou a culpa. Diem reagrupou a matriz político-cultural da qual brotava o movimento Vietminh. Na passada década de 1950. tal oficial seria o falecido Ngo Dinh Diem mesmo. de disciplina férrea. Diem agiu no sentido de despedaçar a tradicional base aldeã da sociedade vietnamita. Passo a passo. sabem que a emanação de ordens em Hanói tem muito pouco a ver com a maneira 16 . Este novo imperialismo transformou a revolução social numa guerra patriótica de libertação. como só num surtiu efeito? Será por que havia uma organização secreta ferreamente organizada? Havia organizações secretas. ele reconstruía a oligarquia latifundiária e as classes compradoras que o Vietminh derrubara. fora de dúvida. alienação e miséria populares. a uma crescente ajuda militar dos Estados Unidos. vinda de fora. em ambos os lados. na certa. por igual. através de um movimento subterrâneo no Vietnã do Sul: Por que tanta gente sul-vietnamita correspondeu? Como foi que esta invasão ilegítima. que tinham lutado ao lado dos franceses. que há gerações se identificavam. o Presidente Diem suprimiu pela violência toda oposição política. às vezes. na medida em que se deva atribuir a algum oficial governamental o crédito. pela imposição dos famosos programas de recolonização. pela guerra popular que agora devasta o Vietnã.

Se a revolta é necessária ela virá. com ordens ou sem elas. frente a outros problemas estatísticos (as já faladas “mortes”. que teriam uma boa razão para lutar. A velha fórmula se repete: Quantos mais são os que morrem.pela qual tais ordens vão ter repercussão no Vietnã do Sul. é. um aumento de 52 000. mal chegam a 18 por cento do total das forças da FLN. em si. Resistimos a uma invasão: b) Tropas norte-vietnamitas estão lutando no sul. é que nossa militarização do Vietnã do Sul estava em pleno processo pelos fins de 1954. Há outros números. mesmo na falta de maiores informações. aquela evidência não parece justificar o nível de nossas próprias forças.3 O que vem antes não pode ter sido causado. Por certo. Com todo o furor oficial. a mais desonesta de todas. Frente ao fato concreto de que o Vietnã do Sul se revoltou. Destes 282 000. cerca de 50 000 supõe-se ser infiltrados nortistas — e a grande maioria destes 50 000 se pretende tenham vindo para o sul a partir do sistemático bombardeio americano do Vietnã do Norte. tal como na guerra da Coréia. No mesmo período. Um. os argumentos sutis de Carver sobre organizações “títeres” e “criaturas” perdem toda substância. a força total da FLN era oficialmente estimada em 282 000 homens. que agora ultrapassam as forças “invasoras” do Vietnã do Norte em mais de 6 para 1. No solstício do verão de 1966. o maior total já alcançado num período de seis meses. e muito antes de haver qualquer base para a acusação de infiltração por parte do norte. O comportamento da Administração. bem antes de haver terminado o período de controle francês. não haverá no mundo ordens capazes de instigá-la. incidentalmente. ficamos sem a explicação de “agressor-externo” para pelo menos quatro de cada cinco partidários militares ativos da revolução. pelo que vem depois. proclamávamos 31 571 “mortes”. 17 . os norte-vietnamitas. mesmo não o tendo sido. Mas o caso parece ser outro. Linha de argumento bastante forçada. mais vêm lutar). muito mais surpreendente do que esta omissão é a inconcludência das estatísticas da infiltração. afinal de contas. desde o início do ano4 (Este número. O argumento da invasão parece minado por sua melhor evidência. preparamo-nos para tomar conhecimento de que nosso inimigo é constituído na maior parte por tropas nortistas. Porém. Dizse que os americanos são um pequeno número e que ajudam com umas armas. outros fatos. e nem pode ser desculpado. Porém. Não basta. por exemplo) não nos permite acreditar que a estimativa não tenha sido inflacionada para um maior efeito político. é politicamente ameaçador. se não é necessária. começado em fevereiro de 1965. Assim.

Relembremos nosso sentimento nacional por Lafayette. porque o Almirante de Grasse prometeu navegar das Índias Ocidentais para desembarcar 3 000 soldados franceses. e. pela França. no terreno político. mais tarde. Não queremos com isso. Relembremos os 3 000 cargueiros britânicos que os franceses ajudaram a pôr a pique. Porém. porque de Grasse perseguiu. nós americanos devíamos saber isso. e que Washington venceu aquela batalha. Espanha e Holanda. pelo número de seus camaradas franceses. comandados por Rochambeau. Relembremos em que extensão nossa própria revolução foi apoiada direta. O Vietnã está hoje dividido. ou o estabelecimento de alianças. Alguns tchecos apoiaram a Wehrmacht de Hitler. Alguns terceiros partidos apoiaram a FLN de Nguyen Huu Tho. com canhões. Isto é. Examinaremos muito de perto. isto é claramente incorreto. dizer que as revoluções americana e vietnamita são semelhantes. seja a divisão defensável ou não. em grande parte. separados e soberanos. combateu e derrotou a frota britânica que protegia a retaguarda de Cornwallis. permanece incorreto dizer. em James Island. certa 18 . um dos quais pode agredir o território do outro. em Yorktown. isso não torna Hitler um revolucionário tcheco. Os Guerreiros da Guerra Fria podem argumentar que uma tal divisão é legal bastante caso seja correta. se suas tropas forem estrangeiras. permanente pelo menos enquanto dure a Guerra Fria. É só para notar que a presença de tropas de fora. em grande parte. é claro. isso não faz de Tho um agente agressor. A segunda suposição dissimulada no argumento da invasão é a de ser possível uma invasão politicamente comum entre o Vietnã do Norte e do Sul. nada provam a respeito da natureza política interna do conflito. em apoio a nossa causa revolucionária. de todos os povos. A lei serve ao poder. esta necessidade e esta correção.Devemos repisar um pouco a estratégia política desta preocupação com tropas “estrangeiras”. assim como a Alemanha para a Tchecoslováquia de 1938. ou a interferência em qualquer lado de estados do terceiro-partido. Relembremos que Washington decidiu travar a batalha de Yorktown. o argumento pressupõe que há dois Vietnãs. e correta bastante caso necessária. que as duas metades do Vietnã estão uma para outra. Ela dissimula duas suposições decisivas. e indiretamente. A primeira é de que é espúrio um exército pretender o status revolucionário nacionalista. a Administração tem descrito o paralelo 17 a “linha de demarcação militar temporária” da Conferência de Genebra de 1954 — como uma fronteira nacional permanente. com a confusão à Munich. porém. Isto é. Relembremos que as tropas do General Washington eram superadas.

Respondeu que a contenda americana era a mais importante em que jamais estivera envolvido qualquer país e censurou North por “pesar tais eventos ao modo de um negociante atrás de seu balcão”. prejudicados em seu comércio. então esta Ilha seria reduzida a ela mesma e logo seria uma pobre ilha. com furiosa arrogância despreza o Vietnã e todas as outras peças do jogo como possessões do Mundo Livre (leia. Pelo fim do IV Capítulo. O rei ficou indignado. Em 1799. e os americanos em particular. paranóica e mecanicista. dependentes da América do Norte. Lord North chegou à conclusão de que a tentativa da Inglaterra para submeter os americanos já fora bastante longe. é primitiva. extremamente avançadas. mas teriam que ser. É a estabilidade mais importante do que a justiça social? Pode a mudança ser realizada dentro do status quo? Pode a aquisição ocidental de hegemonia econômica global coexistir com as justas aspirações dos pequenos estados? Pode o progresso daquela aquisição ser invertido sem violência? A teoria do dominó nada tem a dizer a respeito das verdadeiras condições e problemas que lhes dão a vida estropiada que têm. ou limita a visão. estaremos tratando este argumento muito seriamente de uma forma muito elaborada. A descrição implícita da teoria. a Irlanda em breve seguiria o mesmo plano e seria um estado separado. sem dúvida. por seu próprio interesse. Se não formos capazes de conte-los aqui. os mercadores se retirariam com seus bens para climas mais favoráveis. O rei tornou claro para North que se a América obtivesse êxito. Porém sua suposição mais importante ainda parece válida: o nacionalismo é uma traição ao imperialismo. North comunicou a George III estes sentimentos. estritamente devido a insistência dos Estados Unidos e estritamente porque havia uma revolução na China.5 Todo senhor de um império mundial desde então encontrou ocasião de desempoeirar o que agora chamamos a teoria do dominó. e multidões de manufatureiros deixariam este país pelo novo Império”. teremos que conte-los em algum outro lugar. pois. Por agora. de todas as questões sociais realmente importantes a respeito das quais os ocidentais em geral. era dispendiosa demais e devia ser sustada: dever-se-ia garantir aos americanos sua independência. no sentido pelo qual a demanda de mudança emerge e é moldada pelos acontecimentos internacionais.ou erradamente. 19 . não [para] a independência. precisam tanto de esclarecimento. Pretende que não há de forma alguma indagações a fazer sobre nossas posições internacionais. só precisamos notar que sua versão popular dá como esclarecidas. “as Índias Ocidentais teriam de segui-la. que os Estados Unidos achavam aterradora.

aprofundar o sentido de Hoa Hao e observar a linha de Cao Dai. e estamos em guerra. em aturdidor contraste com este problema para um cálculo não descoberto. os jovens são convocados. Mesmo quando nos tornamos críticos. (senão) diabólico. debatemos e debatemos. segredos e profecias. uma política externa que Gary Porter. faz-nos acreditar que há um Portão e que o Inimigo está ante ele — ou prestes a estar. E é preciso entender essa luta. Por meio destes “slogans”. nomes e datas? O que fará a Ásia? No entretempo. põe fora da lei implicitamente a rebelião. estas razões para guerra são pouco mais do que os “slogans” de uma campanha de vendas de mercadorias encalhadas. como um todo criminoso. sempre tragados de novo por aquele turbilhão do Sudeste Asiático. o coração da pátria é aquecido para o sacrifício. estes “slogans” manipulam nossos pensamentos. pedindo emprestado a Walter Lippmann e George Ball. um executivo federal desenfreado. nacionalismo toma forma e apaixona. Não tendo sido dada chance a um bom povo de imaginar quem é seu inimigo e porque seu inimigo luta. Porém os teóricos do dominó soam os tambores do anticomunismo. moribundo ou morto? Que novas formas tomará no futuro este confete de estatísticas. negando implicitamente que os homens se revoltam pela causa humana. sem ser explicada ou debatida. Mesmo os críticos não discutem muito a idéia de que justiça é o 20 . os heróis condecorados. não lhe tendo sido dado tempo de pensar em meio às aturdidoras implicações de uma política externa que se enredou nele. Os “slogans” fazem também algo de mais sutil: fixam nossa atenção no próprio Vietnã. denominou com justeza “globalismo — a ideologia do envolvimento do mundo todo”. como se a única parte difícil de sua política no Vietnã fosse a tarefa puramente técnica de aplicar à turbulência da Ásia. convidam-nos a reencenar na solidão. e às vezes leviano. evoca as imagens de uma ameaça muito lendária. satirizar certas eminências-pardas e apiedarmo-nos de outros. laborar nos significados sutis de tratados e suas cláusulas. Tal luta envolve muito a América. Geralmente. Nós.Estados Unidos) as quais. um difuso. apregoando suas mercadorias ao dinheiro público. americanos. com estatísticas. os mortos sepultados. Que quer Ho Chi Minh exatamente? Le Duan é mais forte do que Vo Nguyen Giap ou Pham Van Dong? Que facções se degladiam dentro da FLN? Mao está vivo. e.6 Desde “luta pela liberdade” até “detê-los agora”. sendo dominadas por nós são nossas para que percam. comprovar-lhes. Há uma luta no mundo. a América permanece pouco mais que indiferente na serena ingenuidade de seu propósito. seu desejo elementar de justiça. o nascimento da rebelião e sua propagação.

do que para dissipar. O assunto básico de uma análise política séria do Vietnã é a América. cujos elementos europeus estavam sob a disciplina de Moscou. Pensemos em 1945. que não é tolo.que a América deseja. por Stálin em 1945 do que por Hitler em 1940. enganados em nossa escolha dos beneficiários vietnamitas. estava o Partido Comunista. colocada no ostracismo em relação aos negócios políticos e econômicos da Europa. o melhor meio de provar a alguém se nós fomos. guiados nessa recapitulação pelos raciocínios mais lugar-comum do anticomunismo da Guerra Fria. Iugoslávia e França havia personagens poderosas que por certo não se satisfariam com a derrota do Eixo e em voltar à ordem social de pré-guerra. nas décadas de vinte e trinta. as vigas-mestras das instituições sociais. O que é que o bom Guerreiro americano da Guerra Fria deve ver atrás da propaganda? O que o persuade a enganar outros americanos? Por que o Secretário Rusk. sua duradoura e aparentemente bem fundada desconfiança mútua. vítima de uma intervenção militar ocidental maciça. dedicamse. parecia. convencida de que fora oferecida em sacrifício à Wehrmacht por meio da política de apaziguamento de Chamberlain. De seu lado. ou não. ao exame cada vez mais acurado do quebra-cabeças do Vietnã. que só prolongou e adensou os horrores de sua guerra civil. para preservar certos valores e instituições e uma concepção de sociedade que simplesmente não eram sem interesse para ela. A aliança de guerra fizera talvez muito mais para aprofundar. Queriam mudança social. Basta apenas recapitular as duas últimas décadas. a ideologia política dominante da América. tentando. quase por toda parte. aprofundá-lo e usá-lo. Em vez disso. Grécia. Os Estados Unidos viam o Comunismo Soviético como ameaçando a Europa com outra longa convulsão revolucionária. Turquia. Ela vencera estas guerras simultâneas tão só para ver aqueles valores ameaçados outra vez. Isto é errado. A guerra longa havia quebrado. Itália. a exausta União Soviética também se sentiu ameaçada. Condenada pelo Ocidente desde os primeiros anos de sua revolução. A América derramara seu sangue e tesouros pela Europa e Ásia. instruídos. No centro do desespero da Europa. talvez mais ameaçadoramente. Na Europa Oriental. uma burocracia internacional centralizada. vergastada internamente durante quatro anos pelo assalto do poderio de Hitler e sem auxí21 . vezes sem conta. Dois inimigos se defrontavam por sobre uma Europa devastada. homens bons. “continua a dizer isto”? Isto pode ser respondido.

.. no campo de sua inimiga. A despeito da camaradagem da Grande Aliança. A guerra que não aconteceu tornou-se um modo de vida. de que “a lei interna do terror stalinista [deveria] conduzir a Rússia de Stálin. E o horror da Rússia deve ter sido pelo menos tão grande quando observava a Nova Alemanha surgir viva com aço e armas. o Ocidente democrático observou horrorizado como a Alemanha Oriental. mas também para a nação governada por ele. dos mais audazes advogados da “volta atrás” e “libertação”. ele não afirmava a inevitabilidade de conflito nacionalista. fatal e “histórica” das guerras. as linhas territoriais da Guerra Fria Européia tinham sido convenientemente acertadas pelas duas potências magnas. em documentos oficiais — pelo menos por algum tempo. Em 1947. O Ocidente colocaria seu próprio ferro através da cortina e esperaria sua oportunidade. o famoso artigo “X” de George F. quem desconhecia o que estava para vir? Mas a guerra russo-americana não foi travada. segundo as palavras de Franz Borkenau. convencido. a mais fundamental. este mais poderoso do que o primeiro. De ambos os lados da fronteira. lançara as bases de uma diplomacia ocidental sustentável: comunismo não era fascismo. Por volta de 1950. não se considerava comprometido com um horário para a conquista. a inevitabilidade da decadência capitalista autoprovocada.. E correu pela Europa o rumor.. ela olhava através daquela Alemanha cuja invasão tinha tão custosamente repelido. com mais de 20 milhões deles mortos e cinco vezes este número aviltados pela ocupação nazista.”7 Pela década seguinte. precisava 22 . para construir uma zona tampão contra a agressão de uma Alemanha reconstruida. Os ajustes de Stálin. via o ajuntamento calculado em suas fronteiras políticas de uma aliança militar totalmente envolvente e a crescente influência. Polônia e Hungria ficaram de pé só para serem subjugadas. à catástrofe total não só para o regime terrorista. suas principais cidades fumegando e suas terras aráveis devastadas. de que aqueles cinco anos de guerra mostrar-se-iam mero prelúdio daquela. levado a efeito por Churchill. porém. mesmo legitimados. justo quando a Alemanha nazista estava para cair. portanto. dentro da Europa Oriental.lio pelo atraso do segundo fronte. tão só para ver outro inimigo. a que precisava ser travada para fazer o mundo todo seguro afinal para o capitalismo democrático. Kennan. mesmo o mais desinteressado e inocente aprendeu como viver em alerta. antes. sua indústria arruinada pela guerra e seu povo confuso e paralisado com o sofrimento. Foi transfigurada. seriam permitidos.

nossa violência crescente no Vietnã e nosso roubo dominicano. a Doutrina Truman condenou a esquerda grega. por maior comércio com o bloco vermelho europeu (oferecendo mesmo a estes países tratamento de nação mais favorecida). e que os chineses desfecharam seu maciço ataque ideológico contra a União Soviética. Assim o Ocidente capitalista devia ser paciente. a nuclearização da Alemanha Ocidental por nós. somos as testemunhas. Foi naquele ano que se tornou inegável um equilíbrio de poderio estratégico Oriente-Ocidente. no começo de 1948. e a onda do futuro. também. a permanência da revolução cubana. Mas.tão só levar em conta tempo e lógica econômica para fazer seu trabalho. em tempo de guerra. Naquele ano os soviéticos aceitaram o que parecia ser. que pode propugnar abertamente. persuadido de que a maldade do outro lado cegava-o para as lições da história. impedir negligência e oportunismo. e o golpe vermelho de fevereiro seguiu-se como um reflexo. Não era preciso guerra preventiva. de uma política exterior soviética que pode tolerar. o cauteloso entendimento dos nossos próprios dias tomava forma. os fatos da natureza humana. recolocar a linha de demarcação. sob certos aspectos. em comum acordo estavam para acertar o limitado tratado de proscrição das provas atômicas. a América aceitou. era paciente. O capitalismo podia muito bem tomar conta de si. cada lado pelo menos pretendendo permanecer confiante na vitória final. e sim um processo. que pode aplaudir os soviéticos por seus êxitos diplomáticos em Tashkent. E de crise em crise. Hoje. pelo menos. porém talvez 1962 seja. e ambos os lados. em termos talvez condicionais. igualmente bizarra segundo os padrões da Guerra Fria. a grosso modo. surpresas muitas vezes. o Plano Marshall atraiu a Tchecoslováquia de uma órbita para outra. numa mensagem-relatório ao Congresso [State of the Union message]. era possível dizer que o metabolismo da Guerra Fria mudara. que os russos haviam empurrado. um divisor de águas. aparentemente sem grande preocupação. e em maio. Era apenas importante permanecer em vigilância. que pode mesmo ser pilhada a lançar olhares furtivos para a União Soviética como uma possível mediadora 23 . e de uma política externa americana. Certos duetos-chave foram cantados em certos cemitérios: Em abril de 1947. a direita húngara ficou com as consequências. a humilhação da prova decisiva dos mísseis cubanos. já que os marxistas estavam errados. para sua posição primitiva e assim mantê-la até que a tolice comunista finalmente se refutasse a si mesma. É difícil fixar uma data para o que não é um evento. as leis de economia.

O relacionamento não mais se define por sua ira e incertezas. Contam-nos como um professor Libermann. quando esta mesma União Soviética empreende o aparelhamento bélico de nosso inimigo norte-vietnamita. por trás disso. Permitem-nos pensar que Brejhnev e Kosygin são capacitados técnicos burocráticos. as crises são atribuídas a elementos extremados em vez de a estados-maiores.L. comparada com a Rússia. pois temos alguns sinais de que uma Propaganda Avançada está em curso. de forma alguma. ameaça militar aos Estados Unidos. Em vez disso. num movimento tortuoso. Tudo isto está evidentemente muito de acordo conosco. não tem um único soldado. O encontro militar direto é temido e evitado igualmente por ambos os lados. não diz absolutamente nada. faz as mais enérgicas e efetivas incursões diplomáticas em nossa esfera asiática de influência. Sulzberger de The New York Times — uma fonte de informação privilegiada — indagou se a animosidade soviético-americana explícita não se tornou tão só uma fachada para uma aliança implícita mais importante.8 E. é evidente que nossos próprios cognoscenti políticos receberam um novo aviso.em um acordo com o Vietnã e que. para ser exato. faz quase nada pelos vietnamitas. Com a União Soviética nós fomos do confronto hostil à détente. talvez em perfeito acordo sobre a questão da China. Na União Soviética não mais se antecipa todo dia o Grande Colapso Capitalista: as heresias de Eugene Varga na metade da década de quarenta transformaram-se tranquilamente nas ortodoxias da década de sessenta. uma potência. e às vezes a gente imagina se não há algo ainda mais surpreendente no ar: uma lenta convergência de objetivos políticos.C. A respeito. tornou-se embotada pelas garantias mundanas de uso diário. Sua amargura perdeu a intensidade. Estamos em solidariedade declarada na vexatória questão do Kashmir e.9 Foi encontrado evidentemente um substituto para a guerra. jamais 24 . Nossa cólera está agora reservada para a China — a mesma China que. tivemos a experiência de programas de ajuda virtualmente integrados no Afganistão e Índia. entrementes. fornecer armas aos revolucionários latino-americanos. A Guerra Fria européia não mais encontra russos e americanos se observando pelas miras de fuzis. e que não representa. em nome da motivação do lucro. base ou porto em terras estrangeiras. uma espécie diferente dos diabos da véspera. insultou com acinte os economistas marxistas em seu antro. Em geral. mas faz discursos. Congratulamonos mutuamente de forma rotineira por nossas explorações supercientíficas na proclamada vizinhança não política da lua. e promete na conferência Tri-Continental de Havana.

Em nosso tempo a política perdeu sua teologia. cujo alvo era a dominação. que consiste em quatro proposições básicas. sob qualquer aspecto. mutuamente interinfluentes. Uma vez que você toma consciência disto. às vezes. tornou-se secular e pragmática.se propôs entender-se claramente sob novos aspectos. O objetivo agora foi ideado como “controle de conflito”. torna-se essencial para as nações sábias gerar a consciência desse fato entre as imprudentes. e também exibindo esse poder ante os olhos das imprudentes que não podem mal interpretar a mensagem: Você pagará caro qualquer loucura. sem dúvida muito menos do que ela com toda certeza perderá. 30. Isto não foi mera renovação da política de esfera-de-influência do século dezenove. ) 25 . nações pouco sábias podem não entender isso. Pela dedução de que a perseguição destes alvos está nitidamente menos obstruida na atual détente européia. pág. sem dúvida. pode-se generalizar nossa experiência ali em termos de uma teoria de contrôle-de-conflito. Primeiro. As sábias fazem isto elaborando poder militar. Porém. não há uma exposição definitiva. Porém podemos partir do raciocínio. as palavras do Secretário McNamara: “Agora o povo toma consciência do que dificilmente alguém perceberia cinco anos atrás — de que é impossível vencer um embate nuclear total. O fato de a guerra aparentemente predestinada não se ter travado é talvez o que agora nos intriga. ser explicadas de várias diferentes maneiras. propôs-se sim a aceitar sob novos aspectos a existência de outra potência. são o evitar a guerra e a criação de uma sociedade global estável em que predominem os valores liberais. 21 de maio de 1966. e os antagonismos condicionais em vez de absolutos. mais a verossimilhança de seu uso. Saturday Evening Post. As demandas de poder lentamente perderam seu status quase metafísico. A força. e abrigos antiaéreos em casas? As intuições políticas produzidas em nossos estadistas por vinte anos de Guerra Fria européia podem. largamente sustentado. podemos nós desvendar os segredos desta alquimia que mudou túmulos em abrigos de proteção antiaérea. uma vez que aquilo que uma guerra poderá ganhar é. * Por exemplo. cada lado deve se colocar no ponto de vista de que a guerra global é um meio insatisfatório para assegurar objetivos globais. Assim.* Esta premissa tem de ser estabelecida.” (Citado em “His Business is War”. de que os objetivos. de Stewart Alsop. As posições tornaram-se negociáveis. Como manejamos para conseguir isso? Que sorte ou sabedoria reduziu a problemático o inevitável? A improvável o problemático? Acima de tudo. as atitudes mutáveis. você chega a certas conclusões racionais.

os generais — o eterno drama de seu patriotismo. Em suas ações reconhecemos nossos motivos. ele está a proteger seu orçamento. Deve-se estar preparado mesmo para ir à guerra para mantê-la intacta.tem como resultado poder dissuassório. terão tempo para incubar. Começamos a conhecer este nosso inimigo. durante esta fase. Segundo. e começam a criar um sistema de comunicação — inicialmente. Finalmente. Há uma fé subjacente de que os homens serão capa26 . nossos nomes de permeio. Acuramos a sensibilidade para seus problemas internos especiais e começamos mesmo a possuir favoritos dentro de sua casa. nenhum objetivo é tão importante como sua proteção. irregular. O outro lado deve entender isso. uma linha global de trégua precisa ser claramente traçada. Em quase todas as circunstâncias. Este é o ponto crucial da compreensão distintamente liberal da política de potência. mas entendemos. pode-se permitir que caia uma posição de nosso próprio lado da linha. Começamos a confiar nele e a não esperar demasiado. é claro. Ouvimos palavras ásperas. Talvez. heroísmo. Começamos a aprender como dançar com ele. de que o que assusta os diplomatas de uma nação assusta os de outra. lealdade tribal. desenvolvem e habituam-se a um “modus vivendi”. a quieta e inapregoada consciência de que esta experiência de adversidade é compartilhada. O Comando Estratégico do Ar não pretendia ser irônico quando elaborou seu lema “A paz é nossa profissão”. Terceiro. amplo e seguro. certas ameaças e acusações começam a ter um estilo periódico. mas que permanecerá território proibido para a principal potência oposta). de fato. neutralizando um oponente. tão necessários a relações mais produtivas. Esta experiência gradualmente constrói um fulcro para um novo equilíbrio de confiança. pugnando pelo poder. Somos todos homens do mesmo mundo. é através do processo de definição e garantia de segurança de trégua que as potências rivais armazenam informações uma sobre a outra. O estabelecimento e manutenção desta linha são matérias de alta prioridade. Ocasionalmente vemo-lo retornar ao templo de seus mitos nacionais e lá representar em benefício das massas insuspeitosas — e daqueles ascetas de vista estreita. (As duas crises cubanas podem significar que em algumas regiões geopolíticas. o mais importante é o que se passa em silêncio entre os dois lados. os dividendos desta paciência são que os interesses comuns. não convencional e não digno de confiança — que com o tempo se torna mais fidedigno. que torna todas as nações pacifistas e cria tempo e espaço para manobras diplomáticas.

Tal como interrompemos nossa quarentena da Rússia para fazer causa comum contra a Alemanha nazista. Talvez haja mesmo um pouco mais de esperança do que merecemos. 27 . por certo. assim com o Japão e a China no Pacífico. desenfreada entrega a esta tentação. Somos inimigos. e nosso principal amigo de tempo de guerra tornou-se na vitória nosso principal opositor.zes de trabalhar juntos. então a Guerra Fria é um tempo em que não acontece história. em ambos os lados. apareceram oportunidades que tentaram ambos os lados no sentido de romper o encanto artificial. Não é visão desagradável. Deve haver uma calmaria entre nós. ou se é a reconfiguração contínua de fronteiras e o conjunto de poder que elas representam. Tal como cooperamos com as outras democracias ocidentais. pode-se imaginar-se assim — sugere um meio pelo qual a previsão pode ser realizada em toda parte: Cuidem-se para não haver grandes guerras. Há de haver um tempo. Assim mesmo parece haver algo familiar na situação. E. Em ambos os lados. o rumo das relações soviético-americanas a partir da II Guerra Mundial — pelo menos. em que a história cessará de repeti-los insistentemente. em troca. há aqueles que vivem em um estado de perpétua. o Mar do Japão. parem de pregar o milênio. proveitosamente. um crepúsculo dirigido em que o movimento é restringido. assim tentamos combinar os exércitos comunista e nacionalista chineses para ação comum contra o Japão fascista. começa a haver uma chispa de esperança. uma suspensão daquelas forças que mantinham a roda em seu triste movimento. Tal como nosso principal inimigo europeu tornou-se na derrota nosso principal amigo. Se a história é uma interrupção da guerra por tréguas. A China Vermelha e a América olham-se ferozmente através do Pacífico — melhor. Porém. olhem de frente o fato de que o futuro não é propriedade privada de uma nação — e assim façam a paz. nestes vinte anos. então. Voltem-se agora para a Ásia à luz desta sabedoria. o Mar Amarelo. um cessar-fogo e manter-posições. de um jeito ou de outro. na supervisão conjunta dessa linha. por sobre o Estreito de Formosa. Vezes sem conta. na tentativa de fazer voltar atrás a Revolução Russa. há ainda outros que enfraquecem quando as tensões são grandes. desde que escapem aos santo-e-senha do passado humano. parem de sonhar sonhos apocalípticos. resistiram-lhes e controlaram-nos. os homens-chave. por causa disso. aprendam várias coisas um sobre o outro. mas. não há dúvidas. assim tentamos (e com mais empenho) anular a Revolução Chinesa. esta chispa de esperança. tracem claramente na boa e honesta argila do mundo uma linha que não se violará nem se deixará violar.

Em alemão no original. presença. nos vimos de posse de uma Guerra Fria do Pacífico. mas tolhido. no Departamento de Estado e um anticomunismo militante. Foi aplicado o primeiro princípio da sabedoria européia: Não travaremos guerra com a China. O auge do debate da China coincidiu com um pietismo vingativo a respeito do Mundo Livre. mas não fazemos um movimento para intervir: o Tibet se torna a Hungria asiática. por fim. * Gestalt — figura. Porém. Nós nos angustiamos pelo rico clero dominante do Tibet. Pequim pode confiar que não faremos movimentos súbitos contra a metade norte do Vietnã. espalhada por todo Pacífico. A Europa Ocidental asiática era. Deixe-se o governo socialista de lá fazer o que pode de suas oportunidades. e cautelosamente fez-se desaparecer a Guerra da Coréia. Aguentamos daqui. mas gradualmente encontramos sua Gestalt. fizemos frente. e acalentando uma feia vergonha por haver falhado. tratado por tratado. Agora devia ser estabelecido o segundo princípio: Tinha de ser fixada a linha de trégua. Não deve ser cometida violência contra esta linha. é certo. Esta linha deve ser mantida. Queimaram-se reputações num exorcismo de extinção lenta cuja recrudescência parece permanecer uma possibilidade permanente entre nós. a causa primária sendo (com a Rússia também?) por seu exército ser tão grande e sua terra tão vasta. foi retirado o General MacArthur. Deixe-se o Cambodja “inclinar-se para um lado” em seu neutralismo. algum tempo.* fomos capazes de discernir sua forma e significado. ante este teste Rorschach geo-político. 28 . Mas. eles de lá. deveria ser tratada da mesma maneira. do Japão à Nova Zelândia e se esticando ao longo da borda do continente. Estonteamo-nos perplexos. é a única esperança que temos de que o povo chinês daqui a umas décadas possa. nos anos da Guerra da Coréia.De novo frustrados em nossa segunda tentativa de uma contra-revolução de grande porte. pessoa. mas que não haja perturbações na Tailândia. apertar as mãos do povo americano. Por volta de 1954. Discordância era heresia. faça-se com que não haja incursões neste limite. a uma questão quase igual à questão européia de 1946. da Coréia ao Paquistão Ocidental. Só a Coréia permanece dividida. A China era exatamente outra Rússia. Devemos aniquilar a China Vermelha? Ou deveremos ter também uma Guerra Fria asiática? Por um curto lapso. estávamos copiando na Ásia nossa política européia. fragmentada de maneira pior. no Congresso. Nem deve esta linha representar uma divisão injustamente unilateral. houve um crepúsculo político no mundo. Chiang Kai-shek continua presente. finalmente. Para provar que pensávamos o que dizíamos. bastião por bastião.

poderá dizer a nós. ) 29 . críticos. ninguém tem direito algum de concluir que ele fique menos angustiado do que outro homem pela visão de terra escalvada. cuja sociedade era. Por certo. Ao Guerreiro da Guerra Fria. mais do que a história exigiu dos alemães. madura e um milhão de vezes mais integrada do que a do Vietnã? Não temos nós um precedente perfeito na Coréia? Esta fina fatia de um país que tem sido dividido a maior parte de sua vida — uma vez em três partes pelos franceses e. uma vez que establishment indica: sistema. carne queimada e tortura. supomos ser melhor a visibilidade. tem filhos e filhas. de tua participação nas conferências de desarmamento. críticos. ao mesmo tempo. Não estivesse ele engasgado com a pretensão oficial de que a mesma está ajudando. afinal. por uma psicologia conhecida. Sei disso. Talvez ele deseje dizer: “Nada mais óbvio. contudo. A condição intocável de qualquer prospectiva. aparelhamento. corpo de empregados. em centenas de partes por seus próprios senhores-da-guerra — é sua presente divisão * A palavra portuguesa estabelecimento não corresponde por completo. os informamos de que sua guerra não está ajudando os vietnamitas. Não se precisa recordar -lhe a carnificina no Vietnã. — (N. Muitos de sua espécie viram-na muito mais de perto do que jamais a verão os insangrentos “peaceniks”. China Vermelha. Mas por que não vê”. é que a linha de trégua na Guerra Fria asiática não deve ser rompida. na verdade.* onde. Pensa que sou idiota?” Informamo-lo de que seus bombardeios no campo e o abandono de bordel nas cidades estão devastando aquela nação. Ele é. nós. força organizada de negócio público ou privado. talvez nos respondesse: “Claro. poderá com facilidade haver uma détente asiática também. por algumas razões. Mas é isto. devemos desculpar sua exasperação com a China e o movimento de paz americano. haverá dificuldades. este dialético da Guerra Fria. e poderemos começar a falar de outros assuntos — de doutores e jornalistas permutados. e mesmo de teu ingresso nas Nações Unidas. há pouca utilidade em conversar sobre o futuro.Aceita esta linha. afinal. De nosso posto de observação. de um arranjo econômico um tanto mais livre com nossos pupilos industriais no Japão. “que a China Vermelha tem que se submeter à divisão do Vietnã? Claro que isso é difícil de aceitar para muitos vietnamitas. Até ser aceito o fato. lugar de residência ou negócio com sua área. e prefere a vida à morte. Luto com este problema dia e noite. Mas com um pouco de paciência e habilidade. que encara os negócios asiáticos deste ponto de vista. do T. do lado de fora do Establishment. um homem. antes. e que aquela matança física e cultural. só faz com que mais vietnamitas tornem-se comunistas.

mas do torpe feudalismo colonial daquela sociedade. antes de tudo. na era nuclear. em tornando a paz prática. uma revolução. Estamos fazendo tudo que sabemos fazer para mudar o destino do homem. requer. consultor do Departamento de Estado para planificação política. Refreamo-nos de fazer isso na Hungria. e acontece que a história está toda contra nós. a causa do ajustamento internacional.10 Alguns de nós objetam: Você não provou que esta guerra do Vietnã é culpa da China. a despeito de nossa política de libertação.temporária um preço na verdade tão alto a pagar. não só desafiando a China e estas guerrilhas vietnamitas escandalosamente persistentes. a causa da reconciliação global. Só podemos criar a estabilidade internacional se todas as grandes potências no mundo aceitarem o princípio de que. diretor do Instituto de Pesquisa sobre Negócios Comunistas. a acusação mais grave se refere a alguns aviões voando de Hanói e a uns poucos mil técnicos que só consertam estradas bombardeadas pelos americanos. não do comissariado de exportação da China. Essa lição ainda está para ser aprendida em muitas partes do mundo. nenhum lado pode mudar o status quo político através da força ou através do desafio direto a outro lado. 30 . pode jamais duvidar disso. para um tal argumento. a criação da estabilidade. mas eu creio que a causa da paz. dizemos. e um dos mais destacados estudiosos de nossa Guerra Fria: O longo caminho para a moralidade internacional passa pela criação da ordem internacional. mas aqui em casa temos também de proteger os miolos moles de vocês que querem uma paz impossível e aqueles cabeças-duras lá adiante que querem uma guerra inimaginável. e vem. “Este não é de forma alguma um mundo perfeito. pode haver agora uma resposta muito intrigante.” O objetivo foi estabelecido por Zbigniew Brzezinski. no fundo. da Colúmbia University. e a ordem internacional necessita. se em troca dele nós entregarmos a estabilidade na Ásia? E se o preço da recusa da divisão é a corrosão daquela linha de trégua sobre a qual edificamos todas as nossas esperanças de uma reconciliação Oriental? “Sejam realistas”. Fazemos isto. e a estabilidade na Ásia não será alcançada pelo não envolvimento americano ou pela expansão chinesa. Os soviéticos aprenderam mais dolorosamente essa lição em Cuba. diz para nós idealistas. Porém. sensível à história do Vietnã. primeiro. da criação da estabilidade internacional. na fronteira de Yunnan. Ninguém. Longe disso. Ainda agora. Esta guerra no Vietnã é.

em 1954 e 1956. “a China é o inimigo tradicional. e quando Taylor se mostra cético outros devem estar fortemente descrentes. napalm. ainda que suas falas demonstrassem fúria. não que a FLN. em vez de ser revolucionária. mas não sabem se o Vietnã do Norte pode negociar um fim das hostilidades. gases vomitivos. o que de ordinário se vê entre Hanói e os rebeldes sulistas. pela pura alegria de ser ajudado. mas ocorrem escorregadelas. bombardeiros a jato e. não que Hanói age sob ordens diretas de Pequim. jamais provada.12 E sobre o mesmo assunto. No primeiro ponto temos a evidência indireta da palavra repetida do Secretário Rusk de que a China. O ceticismo se estende também àquele outro elo.11 Isto significa que ele é pelo menos cético a respeito da teoria de custódia. e torna-se claro que o Estado-Maior deve muito bem sa31 . bem como ninguém luta para algum burocrata em Hanói. que não inspira confiança”. é só um novo modelo de força invasora.. declarou ele aos Rotarianos de New York. pode Hanói achar a tarefa difícil. esclarecia de Washington: Ainda mais surpreendente para os oficiais. Maxwell Taylor foi ainda mais explícito a respeito da alegada relação senhor-títere entre a China e o Vietnã do Norte. de The New York Times. “Para Hanói”. Bernard B. não que Hanói comandou e está dirigindo o desempenho de um títere no sul. agira muito “conservadoramente” e com grande “coibição”. mesmo se o desejar. no início de 1966. é sua incapacidade para julgar o grau da influência de Hanói sobre o Vietcong. Há dúvidas entre muitos observadores se a aparente intransigência de Hanói não esconde de fato sua relativa inabilidade em “entregar” a FLN de mãos e pés atados em uma problemática mesa de conferência. Tendo já liquidado o movimento de guerrilha duas vezes. aqui. por fim..É importante deixar antes claro o que a resposta não seria. com frequência insinuada. Não seria que a China tem culpa direta nesta guerra. Durante a “ofensiva de paz” da estação de férias 1965-1966. Fall: Não se luta por oito longos anos. Juntemo-las. o altamente respeitado Max Frankel. meramente cumprindo a decisão final de um longínquo aparelho partidário. sob o arrasante peso do arsenal americano. se não de todo impossível. Julgam ser essa influência muito considerável em termos militaristas.13 A segurança da linha de propaganda oficial de invasão-vinda-do-norte requer discrição oficial a respeito.

Capitão Le Xuam Mai. “Os comunistas soltaram uma idéia revolucionária no Vietnã”. Assim atendem aos comunistas. Num país atrasado como o Vietnã. enquanto o emprego de tropa se acelerou e a carga de guerra cresceu em milhões de toneladas e nossos programas de “reforma social” persistiram em seus esforços de enriquecer os ricos. o General Edward Lansdale. por certo.”14 Porém. está ele preparado para ouvir quaisquer promessas de uma vida melhor. “Ela não morrerá pelo fato de ser ignorada. tinham “chegado à conclusão de que o povo do Vietnã está entregue à revolução. nosso ás da contra-insurreição e uma das figuras-chave de nossa equipe do Vietnã. Ele e seus superiores. A mais flagrante evidência disso é o termo-nos convencido de que devemos pôr em campo uma força rebelde própria. que. sob orientação da CIA em Vung Tau. bem antes disso.) 32 . o Embaixador Lodge. Idéias não morrem desse modo. cerca de 42 000 “quadros revolucionários” vêm sendo treinados por uma guarda avançada. Para este fim. em que o povo nada mais tivera senão miséria e injustiça. — (N. escreveu ele.” A máxima profundidade oficial sobre esta guerra é constatar que a mesma é “política” e não militar — profundo discernimento que nos tem sido explicado ano após ano. Em fevereiro de 1966. A idéia foi muito bem explicada por um dos diretores do campo. mas Lansdale cortou a esperança: “Os vietnamitas necessitam de uma causa e nós não a propusemos. Se Ho é Benedict Arnold* — uma estranha idéia — então quem é George Washington? Podíamos sentir-nos tentados a especular sobre um certo texano. o mais categorizado companheiro de Mao Tse Tung”. por exemplo. por má sorte.” Tudo que Lansdale parecia. acontece ser o velho refúgio francês de Cap St.ber o que os batedores sabem: Defrontamo-nos com uma revolução. disse: “No sudeste da Ásia. ter contra os comunistas que soltaram esta revolução. “Ele pensa. O alvo dos quadros que estamos treinando aqui é justa* General americano da Revolução. publicara um relatório grandemente revelador no Foreign Affairs. é que eles estão destinados a traí-la: “A tragédia da guerra revolucionária do Vietnã pela independência foi que seu “Benedict Arnold” teve êxito. em Ho Chi Minh. Não tiveram alternativa. não com uma invasão. do T. já há anos. a única gente que vem fazendo alguma coisa com referência ao homenzinho da plebe — para elevá-lo — tem sido os comunistas. pôr na servidão os pobres e modernizar o feudalismo oligárquico do Vietnã do Sul. número de outubro de 1964. de fato. Jacques. bombardeada ou sufocada por nós. esclareceu. traidor (1741-1801).

aconteceu que o pijama preto era o dele mesmo. acontece que isto não importa! A política americana não pode agir segundo especulações sobre estruturas de cadeias-de-comando. como a FLN. a seguir? 33 . e através desses meios espera-se que “agarrem a revolução” tirando-a da liderança da FLN. A explicação foi que Mai era insuficientemente leal e por demais rápido em acusar o governo central de corrupção e de indiferença para com o povo. A China é a ameaça. são exercitados em sessões de autocrítica de grupo. Quer enfrentemos no Vietnã uma réplica ou uma extensão da vontade chinesa. então a situação no Vietnã apresentar-se-ia exatamente como a de agora. onde os velhos fuzis Vietminh aguardavam ansiosos o grande sinal de fogo. no lado errado da linha global de * Após ter sido escrito o meu texto. tal como a FLN. exato ter o Camarada Mao feito uma decisão secreta anos atrás e passado a mesma através das portas montanhosas da Província de Yunnan para as mãos de Ho Chi Minh. ensinados a montar governos de aldeia. tal como a FLN? Dirão também eles “O Vietnã para os vietnamitas”. igual a FLN. Descrito por Saigon como um “nacionalista de terceira força”. Pode na realidade não ser. O fato muito claro. quer esta revolução seja uma cópia intencional ou acidental da política da China ou a coisa em si. Onde será descoberto Mai. Estes “quadros revolucionários” nossos usam pijamas pretos. que a enviou para o sul a um quartel-general secreto no interior de Nam-Bo. e combaterão os novos cara-pálidas altos para provar o que querem dizer? Então quem é o inimigo? Quem é o amigo? De quem são os pijamas pretos que o Capitão Mai está realmente usando?* Deixando de lado tais quebra-cabeças devemos pelo menos ter encontrado um quadro diferente das convicções de Washington sobre a guerra.mente esse — realizar as promessas dos comunistas. então. Mai foi dispensado e Saigon tirou o projeto Ving Tau das mãos da CIA. é este: Se os chineses controlassem Hanói e por meio de Hanói a Frente de Libertação Nacional. O aparecimento de seu espírito dentro da zona proibida. não faz absolutamente diferença nenhuma. as quais os mesmos não estão desejando manter!15 Os deslocamentos psicológicos que esse programa cria devem ser enormes. tal como a FLN? Expulsarão eles os grandes latifundiários e distribuirão suas terras entre os lavradores. sobre a matéria. iguais aos da FLN. tal como a FLN? De graça. Assassinarão eles também os odiados chefes de aldeia designados por Saigon. tem que reagir aos acontecimentos. A resposta deverá simplesmente ser: Então e daí? Ora.

Mas em 30 de janeiro de 1966. por exemplo. mostra-se quase um ato diplomático de raro brilho. mas não irá mais longe. George Ball. E a recusa americana em aceitar a FLN como o agente responsável nesta guerra começa a não aparecer de todo tão obtusa.trégua. Assim pois. Por isto estamos lutando. ao contrário. os meios pelos quais pode ser manejado o conflito deixam de existir. esta guerra permanece indistinguível da guerra que os chineses querem.. em aspiração e em efeito. Em substância. Portanto. Por certo isto soa por demais maquiavélico. a União Soviética sem dúvida ficaria horrorizada ao descobrir um complô na Alemanha Oriental para ir além do Muro. permanece contudo verdadeiro que ela poderia os estar controlando. tem de ser recusada. se torna essencial. e os estadistas enfrentam um ambiente imprevisível. à moda chinesa genuína. uma tentativa dissimulada de estender uma autoridade chinesa responsável ao Vietnã do Norte e sobre os partidos comunistas ao sul. então Subsecretário de Estado disse: “Um foco principal da luta [Oriente-Ocidente] foi deslocado recentemente da Europa para a Ásia. Nós garantimos isto. Chang roncará de barriga cheia em Taipeh. falar das “origens” históricas da guerra é politicamente frívolo. Com toda sua velha amargura para com a Alemanha Ocidental. Vale o mesmo para nós: Park ficará muito bem estabelecido na Coréia do Sul. mas não obstante inteiramente razoável. a qualquer tempo e através de quaisquer meios. ou tão só provocar alguns bons estouros de sabotagem junto a ele. menos certeza sobre as tendências e inclinações das forças diplomáticas do outro lado no sentido de serem mais cautelosas. Esta é a saída no Vietnã. Menos controle significa menos estabilidade e portanto maior perigo para todos. queixa de que mesmo que a China não controle Hanói e a FLN. 34 . Para um grande estado é indesculpável não deter o controle sobre os estados confederados menores. restritivas e impacientes. que a China cometa o crime expansionista de que é acusada. A consequência é que deve ser tratada como se fosse uma guerra chinesa. pois esta recusa é. talvez. tendo se tornado poderosa. O propósito da contenção violenta da China Comunista é induzi-la a uma mudança similar em sua perspectiva. no que foi descrito com um “magno” discurso sobre política externa.. Isto nos conduz à inesperada. começou a ter um interesse no status quo. em nome da paz. A China deve aprender a fazer garantias similares. A política de manutenção da paz da Guerra Fria torna essencial às grandes potências controlar os acontecimentos dentro de sua esfera de influência. porque a União Soviética. Sem tal controle.

16 Ninguém combateria rebeldes vietnamitas a fim de “induzir a uma mudança” na perspectiva da China a menos que acreditasse ou (a) que a China.Por isto estamos aqui. O mediador natural de uma disputa entre eles seriam os Estados Unidos. Talvez a Inglaterra também considerasse a questão delicada demais. caso não a Inglaterra. na Ásia Soviética. foi dada oportunidade sobre oportunidade para se demonstrar uma potência mundial realística e responsável — indício atrás de indício cuja significação ela é ou por demais inexperiente para entender ou por demais insana para aceitar. estas explicações 35 . são estados da Comunidade Britânica. ou percebeu-a e nada pode fazer a respeito. prossigamos com o raciocínio. ou (b) que a China. Isto é. então a Inglaterra. numa conferência realizada em Tashkent. se não os Estados Unidos. Ambos os beligerantes. estavam-se guerreando mutuamente com armas e suprimentos de manufatura americana. numa disputa de fronteira à antiga. nossa política no Vietnã adverte a China de que deve expandir sua influência. aceitar a disciplina da Guerra Fria. não pode ser acreditada. Tendo se mostrado ineducável. Já notamos que Washington provavelmente refuta a primeira premissa. Porém. Paquistão e Índia. e assim preferiram que outro se encarregasse desta tarefa. quer não. O que nos deixa a segunda. controlava aqueles rebeldes. a longo prazo. percebeu-a mas prefere ignorá-la. e impor essa disciplina a seus amigos vietnamitas. Estas incertezas levam-nos a fazer uma especulação final: de que um objetivo subjacente da política americana pode de fato estimular a penetração da influência soviética no Sudeste da Ásia. A Rússia. da ajuda econômica e militar americana. quer os controle. Informar a China de que ela é responsável por estes acontecimentos vietnamitas é quase abertamente pedir à China que exerça o controle sobre aqueles que os fazem. tem a responsabilidade básica por seu comportamento. A Índia é um grande recipiente. À China. Mas um russo faz a paz de Kashmir. deve ser chamada para salvar a situação crescentemente grave. então as Nações Unidas. aquele velho e verdadeiro estudioso que conhece todas as regras. Ambos. Examinemos a esta luz a questão do Kashmir em 1965. O Paquistão é um aliado formal nosso. Talvez os Estados Unidos estivessem temerosos das consequências de pôr a perder uma mediação. Mas a guerra continua. mesmo irresolúvel. Talvez a maquinaria da ONU fosse muito emperrada para uma tal crise. não tendo assimilado a gramática da moderna política de poder. Ou a China não percebeu a mensagem.

A guerra pode agora parecer ser meramente prática. Vejo a mesma maturidade em cada face.” O movimento de Ho tinha o desígnio de “acrescentar um outro dado à mão que Stálin está fechando em volta da China”. encontramo-nos de posse de um conflito que não mais parece tão insensatamente santo. mas ruidosamente aplaudiram a diplomacia soviética. eram elas permutáveis. Se a Guerra Fria é realmente o que a maioria dos americanos pen* Por exemplo.não esclarecem o grau em que os Estados Unidos. idênticos franzir de sobrolhos preocupados. Vinte anos mais tarde. não só aceitaram. só pertence a outro braço. Substitua-se Pequim por Moscou. aceitamos os mais elementares pressupostos ocidentais sobre a origem e progresso da Guerra Fria. o Embaixador William C. Nós muito certamente temos nossas próprias boas razões para desejar que o prestígio da Rússia cresça na Ásia. Mao por Stálin.”17 É fácil retratar aquela conversa entre dois cavalheiros adversários. de que. Bullitt argumentava no passado 1947 que quaisquer promessas feitas por Ho Chi Minh “seriam quebradas logo que recebesse ordens de Moscou para quebrá-las. 36 . Exploramos uma camada da história do Guerreiro da Guerra Fria do Vietnã e descobrimos um recanto mais protegido do compartimento da propaganda... a quem já acusamos de empreender a guerra da Indochina como parte do ardil para tomar a China* — esta mesma Rússia que torna os céus do Vietnã do Norte mais perigosos para nossos pilotos — é tranquilamente convidada a servir de mediadora. Não é absurdo conjeturar que esta Rússia. Eu lanço um suspiro de alívio. Manipulando por meio desta ideologia as principais características políticas da guerra pelo Vietnã do Sul. medido estalido dos saltos no mármore. “um oficial eminente do estado comunista me disse que o problema mais sério no mundo de hoje é como conseguir que Pequim se incline para uma política de coexistência pacífica. “Recentemente”. Pode-se entreouvir sua conversação íntima de uma distância que poderia bem ser galática. e teremos um documento contemporâneo. num sentido realmente humano. De maneira não crítica. a mão é tão boa quanto nova. enquanto entre eles flui a certeza de que todas as categorias de homens querem realmente a mesma coisa — todos os homens ricos e todos os homens pobres. suas cabeças levemente inclinadas juntas. e Sudeste Asiático por China. disse o Secretário Rusk em seu informe de março de 1966 sobre a China. cada um sem dúvida remotamente cônscio de que um acidente de local de nascimento dera a ambos sua política e missão. todos os fortes e todos os fracos. a mão de um ao cotovelo do outro. mas tudo a respeito dela parece brilhar com claridade: o lento. E também me arrepio.

então pode muito bem ser necessário para a América manter seu controle sobre o Vietnã do Sul. Se é necessária.sam ser. então a Guerra Fria é necessária. Por isso devemos penetrar as nossas verdades de Guerra Fria para ver se elas não ocultam algumas outras verdades. Devemos ser muito cândidos e perguntar: Afinal de contas o que é esta Guerra Fria? E é ela realmente necessária? 37 .

38 .

Bispo Berkeley A guerra fria é uma seção da história tornada coerente por um arcabouço ideológico de crenças implícitas e explícitas sobre história e valores. segundo. girava em torno de uma única suposição básica: que os Estados Unidos não devem ser responsabilizados pela atual defrontação agressiva Oriente-Ocidente.. a heresia de que ambas essas crenças são falsas.. Dominós que Caem O curso do império se processa para o oeste. e mais sustentada. A história do Guerreiro da Guerra Fria. Da Doutrina Truman à guerra do Vietnã. Esta é provavelmente a premissa central. A segunda é de que os Estados Unidos nada tinham a ganhar com a Guerra Fria e nada fizeram para provocá-la.III Portas Abertas. nossa política prestou homenagem àquela premissa e dela tirou sua legitimidade. A primeira é de que Stálin deu início à Guerra Fria. Nos trechos que se seguem deste capítulo desejo elaborar duas heresias interligadas: primeiro.. a heresia de que nossa política externa de Guerra Fria visando a contenção 39 . do anticomunismo de Guerra Fria da América. do capítulo precedente. do Plano Marshall à Aliança para o Progresso. O mais nobre rebento do tempo é o último. mediante o qual se infunde forma e inteligibilidade aos eventos. Esta suposição de inocência é apoiada por duas crenças interrelacionadas a respeito da história recente.

e a comunização da China são os crimes originais pelos quais a União Soviética é condenada como um agressor imperialista. havendo o império entrado em derrocada interna. o zoneamento da Europa Central era um problema óbvio da guerra e da paz. Está bem atrás de nós. a despeito de suas tropas estarem sendo enviadas a combate empunhando cacetes.é mais fundamentalmente uma resposta ao fato de as culturas políticas não-Ocidentais. Acima de tudo. Sob pressão ocidental. um nervosismo momentâneo referente ao Irã e aos Dardanelos. Uma rápida recapitulação: O Czar caiu em 1917. Pelo fato de supormos ter nossa política externa tomado forma como resposta a uma ameaça. derrotado grande parte do poderio de Hitler. Esta decisão. Confrontemos esta crença. e a de transferir a convocação da Duma. este passado mutante. que é o tema viga-mestra da história moderna. o ato deflagrador da Guerra Fria. estarem tentando nos conter. sua solução foi forjada de forma muito corrente pelas potências da Grande Aliança. resistir ou restringir aquela arremetida expansionista a longo prazo do Ocidente sobre o Oriente. a reabsorção dos estados bálticos do império czarista. influenciaram os ressentimentos populares e assim fixaram a base para a Revolução Bolchevista. consideramos nossos objetivos como defensivos e nossa violência ocasional como provocada. em conjunto. pela primeira vez. na Europa oriental. O Embate Russo-Americano Nosso exame pode ser breve. tendo a I Guerra Mundial pulverizado sua casca. em primeiro lugar. com alguns fatos elementares: a política stalinista européia de após-guerra não foi arquitetada nem em segredo nem unilateralmente. um golpe de paço relativamente in40 . o governo social-democrata de Kerensky decidiu sustentar a parte da Rússia na guerra. e aparentemente a principal utilidade de saber algo sobre ele é ser posto em guarda contra a sabedoria comum que julga terem as relações Estados Unidos-União Soviética se iniciado por volta de 1945 e que sustenta terem sido as incorporações territoriais de Stálin. mediante imenso sacrifício humano. sem conquistar o direito àquela segurança de fronteiras que era um objetivo russo tradicional (de nenhum modo “comunista”). dificilmente se poderia esperar que a Rússia tivesse enfrentado por quatro anos selvagens e depois. simplesmente devemos enfrentar o fato — costumamos nos sentir perturbados com ele — de que o comportamento ocidental de entre-guerras tinha dado à URSS muito pouca evidência das boas intenções do Ocidente. Estas incorporações.

abandonando a Liga das Nações. em seu caminho da Rússia para a frente ocidental ainda aberta. como uma pedra de jogo insegura. o bloqueio naval do Conselho de Guerra Supremo Aliado privou o governo Vermelho do uso de todos os seus portos marítimos. em particular a Alemanha balançou. a nacionalidade soviética e modernizar a economia. Por volta de março de 1919 os franceses. No norte da Rússia. Quase um ano mais tarde: 41 . quando pareceu que para este Hitler havia mais do que um incêndio no Reichstag. a oposição ocidental ainda não acabou. Toda a Europa foi abalada pela Revolução Russa. as ferramentas da quarentena política e do isolamento econômico. No Báltico. e. romenos. uma revolta maciça de legionários tchecos. conduziu finalmente à formação de um governo anti-soviético em Omsk. Kolchak recebeu ajuda material da Grã-Bretanha no valor de meio bilhão de dólares. sob a direção do monarquista Almirante Aleksander Kolchak. Seis meses após o armistício europeu.cruento. Outubro de 1933: a Alemanha segue o Japão. a intervenção ocidental maciça em favor da contra-revolução branca foi em força total. quando não mais poderia o Ocidente pretender que seu alvo era sustentar aberta a frente oriental. De abril de 1920 a março de 1921 os poloneses estiveram combatendo na Ucrânia. difícil mesmo sob as melhores circunstâncias. na Hungria. para assegurar “o permanente enfraquecimento da Rússia”. Lênin rapidamente concluiu o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha. tendo muito cedo usado seus consideráveis recursos econômicos para aniquilar o governo Vermelho de Bela Kun. Mas o desafogo ocidental logo se tornou ansiedade. sob a direção do Ministro da Guerra Winston Churchill. Meramente lançou ela mão de outros instrumentos. quase fizeram conexão com o exército de Kolchak. as fábricas de munição já bramindo. Quando a intervenção ocidental de cinco frentes obteve como resultado tão só a reconstrução do exército soviético e a garantia de que o governo soviético seria profundamente totalitário. Esta foi a prática ocidental durante o período crucial em que a Revolução Russa lutava para consolidar-se e iniciava o processo de criar. italianos. Sob circunstâncias confusas. de tempos em tempos. Por todo este tempo. um total de 5 500 soldados americanos e 37 000 britânicos garantiram o regime Branco. até que o extremo anticomunista chegou ao poder em janeiro de 1933. britânicos. sérvios e gregos haviam espalhado um efetivo de 850 000 contra-revolucionários no Sul da Rússia. os comandantes e tanques britânicos e a gasolina americana quase tornaram um sucesso a campanha dos Brancos contra a praça-forte soviética de Petrogrado.

(Summer Welles disse: “Quando a União Soviética entrou na Liga.000 soldados italianos. Chamberlain boceja. Litvinov — uma triste figura — ainda mendiga a ação da Liga. Março de 1936: Hitler ocupa e remilitariza o Rhine-land. tardios e perniciosos “ajuda” e “conselho”. Março de 1938: Hitler assalta a Áustria. tendo um mês antes Neville Chamberlain tornado bem clara a posição de seu governo. violando a um tempo o Tratado de Versalhes e o de Locarno. um forte e por outro lado solitário proponente da segurança coletiva é assassinado em Marselha. é esmagar o comunismo. em ambos os lados. Iugoslávia e Rumânia (o que talvez seja irônico). Tchecoslováquia. a URSS. Março de 1935: a Alemanha decreta a conscrição militar universal.a Liga aceita um novo membro. o que conduziu a que Stálin concedesse aos Legalistas aqueles magros. mas em algumas acomodações.1) Um mês mais tarde: o Ministro do Exterior francês. pede imediatos arranjos de segurança coletiva. protestam. Menos de um ano mais tarde. A Grã-Bretanha vota Não. algo de novo acontece: o Presidente Eduard Benes ordena a mobilização parcial das tropas tchecas contra a concentração nazista em suas fronteiras. mesmo os mais obstinados foram forçados a admitir que era ela a única grande potência que parecia tomar a Liga a sério”. Julho de 1936: começa o lento assassinato da Espanha Republicana.”2 Em maio de 1938. o Comissário para Assuntos Estrangeiros da Rússia. E apoiado pela Polônia. A teoria prevalente era de que o Lebensraum* da Alemanha ficava só para o oriente. Os tchecos. Explica-se no Ocidente que o “Alvo Real” de Hitler é bom. As democracias impõem embargos de armas por igual. que podem ter prejudicado sua causa tanto quanto a “neutralidade” das democracias. ao dizer: “Não devemos tentar enganar nações pequenas e fracas para que pensem que serão protegidas pela Liga contra a agressão. para ganhar tempo com * Lebensraum — espaço vital. A resposta de Londres é um tratado naval com Hitler que permite à Alemanha a construção de uma frota de submarinos do tamanho da britânica. Na Liga. a quem foi permitido ouvir o próprio destino. Seu erro é corrigido por aqueles mais maduros do que ele no setembro seguinte. Hitler se retira! As democracias se põem a reprovar Benes por sua inflexão. Stálin tinha sido convencido de que a única esperança de sobrevivência para a Rússia estava não na segurança coletiva com o Ocidente. em Munich. onde são feitas certas negociações famosas. Jean Louis Barthou. Por esta época. Maxim Litvinov. 42 . a Etiópia cai nas mãos de Mussolini. e praticam a “não-intervenção” nesta “guerra-civil” travada com aviões militaristas alemães e 100.

Fleming sugere. alcançaram a terrível vitória da batalha de Stalingrado. nem Stimson.Hitler. a NEP reconheceu a importância do “setor de capital privado” interno (que por volta de 1924 representava 40 por cento do comércio doméstico) e externamente considerou concessões a capitalistas estrangeiros. que a Europa de após-guerra foi partilhada. mas sim em Munich. que faremos da política externa stalinista de após-guerra na Europa? Recordemos que as políticas externas das nações-estados são essencialmente continuações de suas políticas domésticas. o que não era desejado nem por Roosevelt. montou poderosa produção ofensiva e desenvolveu planos para a abertura de uma frente Ocidental contra Hitler. até o último momento antes da invasão da França. em junho de 1944. nem Marshall. talvez mesmo o Danúbio. no final de 1942 ou na primavera de 1943. E os mesmos cinco anos tinham convencido muitos na Europa Oriental de que o Ocidente não era aliado deles: tal como D. mais de dois anos após o prazo em que deveria ter sido aberta a frente ocidental. se bem sucedida. Lênin tinha entregue um terço da área de colheitas da Rússia. pensando cada vez mais na configuração política da Europa de após-guerra.* Em Brest-Litovsk. Recordemos que a teoria leninista do desenvolvimento econômico tinha como consequência levado a URSS para uma política doméstica semi-autárquica e por isso para uma política externa semi-isolacionista. Seja como for. O Estado-Maior Geral Americano considerou que tal estratégia seria militarmente errada.F. talvez tenha sido não em Yalta. Onde estava a prometida ajuda da segunda frente na França? Graças a Churchill. Talvez mais longe. Segue-se depois a longa e sangrenta luta subindo a península da Itália. exigiu um ataque ao “macio baixo-ventre” do Continente. cujo acerto militar também era dúbio. por parte dos bolcheviques. mais da me* A Nova Política Econômica (NEP) de 1921 não foi a volta atrás neste propósito de auto-suficiência. Os russos. Contra tal pano de fundo. Uma generosa América. Churchill ainda estava exigindo uma campanha turca. Churchill. Mas o raciocínio britânicofrances de que a NEP era uma volta termidoreana à normalidade capitalista foi esvaziada pela rejeição. Tal estratégia. Porém. colocaria os exércitos ocidentais na Europa oriental. Por certo. cujo colapso fora predito pela Inteligência britânica para dentro de seis semanas após o ataque de Hitler.3 Vem a guerra. estavam afinal se batendo com a força total da potência germânica. os aliados transferiram a guerra para o Norte da África. de seu plano para investimento na Rússia e de 43 . impedindo a crescente probabilidade de um Exército Vermelho cruzando os montes Cárpatos. logo atraída para a luta.

A violência da Alemanha produziu numerosas mudanças radicais na Europa. a necessidade de desenvolvimento econômico era para a Rússia maior do que nunca. a fim de ser deixado sozinho pela Alemanha. os planejadores soviéticos tinham que acrescentar a de reconstrução maciça. era talvez afinal nada mais que um aceleramento. a “desisolada” União Soviética. embora um grande número de aventuras sem utilidade venham a ser representadas ao longo do caminho. Isto novo negado pelo Tratado de Rapallo. e uma grande quantidade de sangue humano venha a ser desnecessariamente derramado. Impedindo a guerra. e temporário exagero. Além da necessidade já existente de modernizar e desenvolver. Claro. a doutrina política de coexistência emergiu. apesar da hipocrisia sobre o “expansionismo da China comunista”. desmoralizado e desorientado. em que a Alemanha insinuava reconhecimento das nacionalizações bolcheviques. Uma: todas as velhas potências foram seriamente rebaixadas e os Estados Unidos ascenderam a uma posição de influência política e econômica indiscutível. de um processo já em pleno curso. a hostilidade ocidental contra ambos os regimes revolucionários expressou-se como uma quarentena que cooperou de fato com.4 Um isolacionismo autárquico similar é evidentemente praticado pela China revolucionária. tolerância política — poderá perfeitamente determinar a evolução das relações Estados Unidos-China. que arrancou a URSS de sua concha e forçou-a a representar aquele papel de grande potência para o qual parecia ter sido tão mal preparada. e devagar o Ocidente começou a abandonar sua quarentena econômica e política.5 e o ingresso da URSS na Liga em 1934 foi menos a exposição de um novo internacionalismo positivo do que uma nova resposta à ameaça que Hitler representava à solidão russa. Foi o ataque que Hitler lhe fez e o fracasso de Hitler em tornar tal ataque vitorioso. em 1922.tade de sua força industrial. este círculo é na realidade uma roda que gira em ambas as direções: À medida que a economia soviética amadureceu e os planejadores soviéticos ganharam confiança. O que era inteiramente original e muito mais profundo era o aparecimento compulsório. Porém. Porém para a URSS ainda combatente. e um povo faminto. por mais abrupta que fosse essa mudança. as vias de comércio começaram a se tornar mais amplas. e 62 milhões de pessoas. seu esforço pela auto-suficiência. no teatro da política internacional. o mesmo processo-avanço econômico do estado atrasado. Consideremos que a única e exclusiva base da autoridade internacional de Stálin nas consequências da guerra era o Exército Vermelho. 44 . Ao final da II Guerra Mundial. e intensificou. esta necessidade agora estava situada num meio político inteiramente novo. Ironicamente. daquela nova potência mundial. que flexionou seus músculos por sobre uma economia soviética rural e urbana bombardeada. reconciliação comercial.

As condições básicas sob as quais teria que perseguir esses objetivos eram a fraqueza da URSS frente um Ocidente unido.nos põe ante uma das maiores anomalias políticas da história moderna do Ocidente. conseguir dos Estados Unidos (isto foi discutido em Yalta) um empréstimo maciço para o desenvolvimento. a rearticulação e instalação no poder de partidos políticos da ala direita na Europa oriental. ou pelo menos. Foram estes dois objetivos interligados. a nação-estado da URSS consistia em um exército e nada mais. Talvez a compreensão do peculiar caráter aéreo do poder soviético. Havia outra fonte provável de grande capital de reconstrução — reparações de guerra da Alemanha. a vacilante política a respeito dos empréstimos de reconstrução vindos dos Estados Unidos. que Stálin propôs receber e distribuir numa base de Quatro 45 . Mas talvez mesmo este fato a apoie: um exército sem uma base industrial não é bem um exército. Em Potsdam descobriu que não haveria tal empréstimo. de certa maneira. no imediato período de após-guerra. e em segundo. Numa cultura em que o poder político internacional tradicionalmente decorre de uma avançada base industrial. o abandono a seus próprios desígnios (e pior) dos revolucionários e movimentos de resistência de liderança comunista em outros países europeus. O único acontecimento que parece contrariar mais a opinião de que o poder de Stálin era exclusivamente militar foi a nitidamente rápida desmobilização do Exército Vermelho. Porém isto em si não representava a ruína. Pode ser um exagero revelador dizer que em 1945. agrícola e socialmente sua nação — e estava muito próxima de nem mais nação ser — não podia ser comparada com os estados Ocidentais. era também uma necessidade soviética (tradicional. reconstituir a força de trabalho soviética era uma necessidade urgente — e portanto desmobilizar. porém muito intensificada pelas lembranças de Hitler ainda vívidas) garantir segurança territorial — e portanto não desmobilizar. Como poderia Stálin conseguir capital de desenvolvimento. Ao mesmo tempo. e sob importantes aspectos contraditórios — reconstrução e desenvolvimento interno e segurança territorial — que dirigiram a política externa de Stálin. Industrial. devastada. esperava. nos ajude a dar maior senso às excêntricas voltas que dá a diplomacia soviética — o namoro com as idéias mais não-marxistas de Eugene Varga referentes a viver com um Ocidente capitalista (uma espécie de “desvio de direita”). Assim. nos defrontamos com o súbito aparecimento de uma “grande potência” cuja base industrial em primeiro lugar era imatura. tempo e segurança política? Sabemos que desejava. Aquele exército era a única fonte de força diplomática de Stálin.

O Premier Stálin sugeriu que os Aliados aceitassem dividir a Iugoslávia e a Áustria em zonas. Se era assim.Potências (isto é.7 O diálogo subsequente de Stálin com Truman não é menos claro: Premier Stálin: . Molotov: Entendo. Muito cedo e muito claramente. em julho de 1945.. talvez as linhas de demarcação entre as zonas Soviética e Ocidental de ocupação possam ser tomadas como linhas de divisão. O Sr.. O Presidente Truman disse que concordava com a proposta soviética. que o senhor tem em mente a proposta de que cada país deveria cobrar indenizações de sua própria zona. por uma razão muito boa. A pergunta do Sr. ele estava pronto a concordar. havíamos percebido nossa própria futura necessidade econômica de um mercado refeito na Europa. e tudo a oeste dessa linha iria para os Aliados e tudo a leste dela para os russos.. O Premier Stálin respondeu afirmativamente. Sr. O Presidente [Truman] inquiriu se ele [Stálin] se referia a uma linha que se estendia do Báltico ao Adriático. Byrnes disse pensar ser importante haver um acerto de idéias. O seguinte diálogo em Potsdam. Os Estados Unidos contudo. O Premier Stálin aquiesceu. Stálin dizer “sim”.8 Portanto a Rússia devia cobrar indenizações da mais pobre das 46 ... Molotov disse: Não significaria a sugestão do Secretário que cada país teria carta branca em sua própria zona e agiria inteiramente independente dos outros? O Secretário disse que em essência isto era verdadeiro. A isso entendeu o Sr. sem dividir a Alemanha). visando interesses e investimentos estrangeiros. Bevin era se a pretensão dos russos se limitava à zona ocupada pelo exército russo. O Secretário [Byrnes]: Sim. e os Estados Unidos não tinham o propósito de financiar a revolução.. [O Secretário do Exterior Britânico] Bevin disse que concordava.6 As indenizações alemãs à Rússia seriam portanto financiadas pelos Estados Unidos. Assim fez-se um acordo. segundo o qual cada uma das potências aliadas cobraria reparações da zona particular ocupada por seu exército. é claro quanto às implicações políticas deste acordo: Sr. e perguntou se a Grécia pertenceria à Grã-Bretanha. Secretário Byrnes. se opuseram a isto.

Pode-se também querer o que se é forçado a pegar.9 Parece agora que tais objetivos se contrariavam e prejudicavam. estavam agindo talvez na suposição de que o monopólio da bomba-A. ter-se visto como um construtor de impérios na grande e confusa tradição de César. obstruir. de forma absoluta. ela foi empurrada para cima dele. a Rainha Virgem e Napoleão. Sem a Bomba. financiadas pelos americanos. na famosa frase de Stimson. Infante D. que não podemos minimizar. no mínimo. Acomodação neste assunto poderia conduzir. Os objetivos americanos parecem ter sido duplos. ou demorar. a simultânea hegemonia política que Molotov deve ter imaginado ao usar frases tais como “carta branca em sua própria zona” e “inteiramente independente dos outros”. “a manutenção de uma porta aberta nos Balcãs”. Isto excluía o domínio da Alemanha pelas Quatro Potências. “francamente desvantajosa para nós” — nossa posição a respeito das indenizações alemãs para a Rússia teria sido mais acomodatícia.duas metades da Europa. Para impedir a reconstrução russa era preciso serem negadas as indenizações da Alemanha Ocidental. de Stálin na verdade. Não quero dizer que ele não a desejasse. Mas nossa diplomacia de negociar-pela-fôrça parece ter alimentado com vigor a desconfiança de Stálin — e a Guerra Fria iniciouse irreversivelmente na Europa. como Byrnes informaria mais tarde ao Congresso. Truman e Byrnes. e segundo. a reconstrução da economia russa.10 Por outro lado. que em Potsdam sabiam do sucesso do Projeto Manhattan. e que. Henrique. uma vez forçados a abrir a porta da Europa oriental. o fracasso ocidental em internacionalizar o desenvolvimento da economia da região do Danúbio conduzia à reconstrução da economia soviética: deixava Stálin de mãos livres para manipular os recursos da Europa do leste a serviço das necessidades econômicas russas. por parte da América. teria um poder político coercitivo (que afinal mostrou não ter). para obter a hegemonia 47 . e a autoridade fiscal que este acordo conferia ao governo russo de ocupação tornava necessária. implicitamente requeria partilha da Europa. Argumentar que Stálin estava inclinado à conquistar e assim manobrar. a uma porta do leste europeu menos hermeticamente aferrolhada. e portanto fechava para o Ocidente seu “livre acesso ao Vale do Danúbio e à Europa Oriental dos bens e capitais dos países ocidentais”. primeiro. A Europa oriental não foi só oferecida a Stálin. o Navegador. e há uma possibilidade. Porém. Isabel de Espanha. os soviéticos seriam incapazes de conter a imensa autoridade industrial e econômica dos Estados Unidos. que outro tente prová-lo. negando à Rússia as indenizações alemãs com base no vale do Ruhr.

este Comintern.na Europa oriental. Pelo atraso militar. foi batida pelos Beis turcos. Stálin na realidade só se mostra um homem dotado de alguma paixão genuína. pelo atraso agrícola. Para ele. foi batida por todos devido a seu atraso. Foi batida. foi batida pelos barões japoneses. Ou o fazemos ou nos esmagam.. longe de ser uma força para iniciar a revolução em escala mundial. Estamos cinquenta ou cem anos atrás dos países adiantados. mas êle esqueceu as guerras vitoriosas da Velha Rússia. a qual finalmente adquiriu. À sua frente erguia-se altaneiro * Stálin era melhor em profecia do que em história. um político prático como sempre o foi. Por certo não era revolucionário. foi batida pelos senhores feudais suecos. Stálin não parece ter sido nem um imperialista nem muito menos um marxista. Não queremos ser batidos. e aqueles que ficam para trás são batidos. A Velha Rússia. quando fala como um nacionalista russo. o sonho de uma sociedade socialista universal nem de perto tinha tanta compulsão como a perspectiva de uma nação-estado soviética industrializada e unitária. e sob seu controle a Terceira Internacional de Lênin.. um amontoado de frases a serem usadas sem rebuços. Stálin era um nacionalista. pelo atraso industrial. foi batida pela gentry polono-lituana.11* Tentemos imaginar. é preferir a uma realidade muito rica um mito tão importuno como banal. porque batê-la era proveitoso e ficava sem castigo. quando serviam ou cooperavam com as necessidades nacionais (como ele as via) e descartadas sem cerimônia em caso contrário. “dez anos” estava absolutamente correto.. às vezes banal e às vezes cheio de vida. foi só uma arma do Ministério do Exterior Soviético (a propósito. e não é pela aplicação dos postulados do marxismo-leninismo revolucionário que podemos melhor esclarecer sua diplomacia. Temos que superar este desnível em dez anos. Foi batida pelos Cas Mongóis. era para ele uma retórica. foi batida pelos capitalistas anglo-franceses. tu és poderosa e tu és desamparada. foi sem cessar batida por causa de seu atraso. pelo atraso cultural. O idealismo bolchevique.. 48 . tal no trecho seguinte (1931): Retardar o passo significa ficar para trás. então. Mãe Rússia”.. pelo atraso político. uma corporação cuja subserviência às ferozes vicissitudes da Realpolitik soviética fez da sua uma das mais ridículas histórias que se conhece. do homem moderno). como se figurava o mundo de 1945 do ponto de vista deste nacionalista russo.. Vós recordais as palavras do poeta pré -revolucionário: “Tu és pobre e tu és opulenta.

sua posterior recusa da ajuda do Plano Marshall e sua rejeição talvez desastrada da proposta Baruch de energia atômica). Destinava a Rússia a um conflito com os Estados Unidos. matérias-primas. Hiroshima. Portanto. tendo o Ocidente recusado a ajuda e rejeitado o tratamento de Quatro Potências para a * Lend-Lease Act (11 de março de 1941) — concedia poderes ao presidente dos EE. tal como a paz tinha sido do interesse da Rússia em 1918 e 1905. Dresden. Dividiu a Europa. para fornecer tanques. na plenitude de seu superpoder. ) a qualquer governo cuja defesa o presidente julgasse vital para a defesa dos EE. A segunda alternativa era também má.UU. e esperar que a inevitável penetração americana na economia da região do Danúbio fosse concretizada. a primeira estava provavelmente fora de questão (por isso. Tóquio.um Estados Unidos exigente. Atrás dele. Kassel. Que outra alternativa lhe restava? Ao que parece duas: (1) Podia aceitar o plano americano de divisão da Europa. numa época em que a URSS tinha interesse numa Alemanha reconstruída. nada fazer para fechar a porta da Europa oriental. o reforçamento da unificação nacional e a reparação econômica em ritmo forçado. levando em conta simpaticamente as necessidades econômicas e sensibilidades políticas da URSS. também. não foi porque gostasse de submeter os poloneses ou os tchecos à servidão. alimentos e serviços (empréstimo e conserto de barcos. Consideradas a diplomacia ocidental desde 1918 e indicações correntes. ou (2) podia aceitar a divisão e fechar a porta. Duas alternativas sem recurso.— sem paralelo). etc. Isto é. tais como o fim abrupto dos efeitos do Lend-Lease Act* para a Rússia (mas não para a França e Grã-Bretanha). se Stálin aceitou a amarga contenda Estados Unidos-URSS. Em sua mente. a memória da inequívoca oposição ocidental à União Soviética. sobre cuja política e economia poderia exercer algum controle. o que não acontecia com o primeiro. Mas este caminho pelo menos oferecia algumas vantagens. — (N. porém (1) porque desejava proteger a União Soviética do colapso. que acabou por dominar a política da Europa. bases de suprimento. num tempo em que relações pacíficas eram muito mais do interesse prático da Rússia. a tensão internacional que por certo geraria iria justificar a consolidação do poder do estado-policial de Stálin. do T. aviões. armamentos. Punha uma Europa Oriental sem defesa (se necessária) à disposição de Moscou. e (2) porque a configuração peculiar das fraquezas e forças soviéticas e ocidentais limitava suas possibilidades àquele único caminho. jaziam os corpos sepultados de 20 milhões de russos e as fazendas incendiadas e as fábricas estripadas da economia soviética.) 49 . a mais violenta nação da história (Hamburg. Nagasaki. UU.

com momentos de ferocidade e falsidade que serviram para validar o estereótipo dele apresentado pela América. no fundamental. Stálin aceitou a Guerra Fria. Mesmo se alguém se dispusesse a tentá-la. Alguns. porém tão só religar essa abstração a algumas das realidades concretas mais importantes daquele tempo. sádico.12 O Ocidente uniformemente poderoso queria — e acreditava. pelas potências que detinham a iniciativa e comandavam os limites extremos. maquinaria pesada alemã e um descanso do wagnerismo militante. Parece ter tido pouca escolha. os objetivos e exigências básicas do nacionalismo russo. ter de obtê-la — uma garantia contra a expansão da revolução (o que vou apresentar é em grande parte o outro lado da mesma moeda) uma garantia de acesso econômico e político a toda Europa. pelo bem ou pelo mal. porém não provocativos para os Estados Unidos. sua matança dos kulaks. tais potências eram a Inglaterra. sua cínica manipulação dos Legalistas Espanhóis. sua complacência em observar. Mas isto não prova que ele tenha criado a Guerra Fria. para reabilitar Stálin. ele a empreendeu. com todo seu complexo cortejo de acontecimentos. havendo excessivos estigmas de vergonha na história desse homem: o triste espetáculo dos expurgos. rondando à procura de sangue e pilhagem imperialista. V) é aplicável aqui: Habitualmente nem homens nem nações fazem. Aceitando-a. realmente controlados pela URSS. parecia a Stálin só haver uma alternativa política que satisfez. em último lugar. sua tolerância ante o desmembramento da Revolução Grega por parte da Grã-Bretanha e América. que para nós é quase uma distante abstração moral. violentamente estabilizado de satélites tributários de proteção. é menos a de um monstro de contos de fadas. A menos poderosa União Soviética queria capital de desenvolvimento sem condições. no começo da Guerra Fria. nos anos que se seguiram. e essa política era a criação de um sistema não belicoso. Meu objetivo não é nem condenar nem absolver esta figura. Os termos desta fantástica batalha foram ditados. do que a de um pequeno. e os Estados Unidos. e então sugerir que a folha de serviço de Stálin. A Guerra Fria na Europa emerge. mais do que crêem devam fazer. frio e muito prático nacionalista. em uma situação difícil e perigosa. Os alvos de ambos os lados estavam concentrados em idéias opostas sobre o controle da Alemanha. por certo. a tentada destruição da Revolução Chinesa. senão de esquerda. O Leão es50 . e mesmo auxiliar.Alemanha. dessa oposição elementar. tal coisa seria tarefa de milagreiro. de longe à frente. como podemos ver agora. pelo menos parcialmente. verão nisto uma tentativa esquerdizante. Um princípio que desenvolveremos ao discutirmos a rebelião (no Cap.

E se fracassou. não estava muito longe de um ato de guerra. sem motivos defensivos. que dirigiu brutalmente a recuperação russa. e o Urso não estava morto. porque sua retaguarda caiu em Moscou. continuamos a tentar a total integração militar do concerto Atlântico. Se agora nos vemos começando a coexistir na Europa. Em poucas palavras. em última análise. Ademais: No decorrer dos anos de Eisenhower-Dulles. alcançaram. mesmo agora. a qualquer momento a “libertação” poderia ter irrompido. Não precisamos compor. no dizer claro dos Secretários Stimson e Wallace. o mesmo papel constrangido e heróico. como o faz nosso bom Guerreiro da Guerra Fria. nos anos de sessenta. O Plano Marshall foi oferecido à União Soviética sem implicações e. A Doutrina Truman de 1947. na Ásia. a política dos Estados Unidos de “contenção-defensiva” permaneceu coerente a ponto de realizar suas piores implicações. Já que sendo assim tinha de recusá-lo. A mesma angustiante salvação pode ser lançada sobre nós via Pe51 . posta em prática o tempo todo visando optar pela coexistência. A contenção às vezes tendeu a se tornar libertação. a quem as notícias dessa recuperação. seja como for. de Byrnes a Rusk. Fracassou. ele devia encarar o Plano Marshall como nada mais do que uma contribuição americana para a ressurreição de uma superpotência na Alemanha — o velho inimigo rearmado. continuamos nossos esforços para fazer essa integração em termos de um eixo Washington-Bonn. não parece ter sido pelo fato de alguém ter decretado seu fracasso. quando ninguém clama que a “ameaça” está aumentando na Europa. e seu coração em Paris. de que a contenção na Europa foi só uma política para o ínterim. quando seu tempo de preceito tivesse passado. ou de Truman a Johnson. e através de nossas propostas sem fim. é porque a contenção fracassou. em prol de uma força nuclear multilateral continuamos a perpetuar nossa exigência de uma Europa ocidental eriçada de hostilidade atômica contra o Oriente. e já que provavelmente acreditava que os Estados Unidos esperavam que o recusasse. sempre reataviadas. a Águia voando altaneira em sua plenitude. mas por terra.tava seguramente satisfeito. o erro das passadas décadas de quarenta e cinquenta mediante a pretensão. E mesmo hoje. estamos representando. Mas veio tarde demais. aceitá-lo então teria sido o mesmo que aceitar a hegemonia econômica e. e de que. Que o Guerreiro da Guerra Fria consiga nos convencer que o Urso ditava as leis. quando o reverso é obviamente o verdadeiro. não fazemos jus à história da Guerra Fria que só imaginamos ser a nossa. possivelmente. Do ponto de vista de Stálin. política dos Estados Unidos na Eurásia.

quim e Tóquio. Porém, em primeiro lugar, esperar por uma tal salvação não é modo de vida, e, em segundo, as grandes desvantagens e percalços com que a humanidade se defrontou na Europa, nada eram comparadas com as da Ásia. Os pacificadores europeus, os homens racionais da Europa, jamais tiveram que se ver com uma guerra do Vietnã. Além do que, nós americanos, conhecíamos a Europa de uma forma que provavelmente jamais conheceremos a Ásia; estávamos culturalmente ligados à Europa, e talvez em parte suspeitando, durante todo o tempo, que os russos eram, de coração, tão europeus e brancos como nós. Na Ásia, ainda menos informados do que na primeira Guerra Fria, continuamos, sem critério, inculpando Mao Tse-Tung de todos os crimes de Guerra Fria cometidos por Stálin, os verdadeiros e os lendários; e cada encolerizado patriota asiático, esfomeado, subjugado pelo senhor feudal, que ousa se contrapor a nosso sonho a um Mundo Livre de domínio benigno, reacende nosso pietismo violento, nossa política de ressentimentos e frustrações confusos. E não há ninguém, em toda aquela parte misteriosa do mundo, para servir de mediador no conflito — ninguém senão nós e o povo amarelo. O problema com a Ásia é que lá ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Por que julgamos essa salvação tão difícil até para começar a tentá -la? Por que nós, americanos superpráticos, continuamos tentando navegar pelo território asiático desconhecido com um mapa europeu errado? Mas, talvez haja algo mais referente à Guerra Fria do que erros bem intencionados de história. Talvez estes erros sejam propositais, com a intenção tão só de servir de paliativo para uma verdade inconveniente. Talvez nossa ideologia de anticomunismo de Guerra Fria seja um sinal de beleza.*

A Fronteira em Torno de nós
Grandes propósitos e má supervisão fazem parceiros tranquilos, mas não proporcionam campo para agnosticismo em face do desastre. Admitamos que a história americana esteja sujeita, como todas as histórias nacionais, às forças acidentais, dispersivas e excêntricas que às vezes tomam conta dos acontecimentos e os levam para direções imprevisíveis. E, mais importante, admitamos que a nossa não é a única história no planeta. Nosso governo e nosso povo não encenaram o drama da Europa na* No original “Beauty mark’’ — sinal, pinta. 52

poleónica. Mas esse drama possibilitou a cena na qual os emissários que Jefferson enviou à França, com o único propósito de conseguir New Orleans e o direito de navegação no rio Mississipi, se viram de volta para casa a cambalear com todo o Território de Louisiana nas costas. Não foram nosso governo e nosso povo que encenaram o drama da Rússia leninista e stalinista. Mas essa Rússia tem sido a principal preocupação da América por, pelo menos, o passado quarto de século. Nossa própria história é atingida, e não pouco, pela história independente de outros. Não obstante, temos um estilo nacional, um sistema de motivos e esperanças próprios que predetermina, no fundamental, nossa resposta a nossas oportunidades e problemas. Meu argumento é que este sistema é hoje, basicamente, o que sempre foi; que nossa história é orgânica e tematicamente contínua; que apesar de nossa capacidade de elaboração e surpresa, temos contudo tido um, e apenas um, centro metabólico; e que se quisermos entender a Guerra Fria, temos antes que compreender esse centro. Em seu jornal Common Sense, de 10 de janeiro de 1776, escreveu Thomas Paine:
“Não está ao alcance da Grã-Bretanha fazer justiça a este continente; seus negócios em breve serão por demais pesados e intrincados para serem dirigidos, com um certo grau tolerável de conveniência, por uma potência tão distante de nós... Estar sempre a correr três ou quatro mil milhas com um informe ou uma petição, esperar quatro ou cinco meses por uma resposta, que, quando obtida, requer cinco ou seis meses a mais para explicá-la, será em poucos anos encarado como loucura e infantilidade... Tenho escutado asserções de alguns de que, como a América floresceu sob sua anterior conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para assegurar sua felicidade futura... Respondo seguramente que a América teria florescido tanto, e provavelmente mais, se nenhuma potência européia tivesse tomado conhecimento dela. O comércio pelo qual ela tem enriquecido são as necessidades da vida, e sempre haverá um mercado enquanto comer for o costume da Europa.13

Não se tratava simplesmente de que podíamos prosseguir sozinhos. Nossa relação colonial com a Grã-Bretanha mercantil punha um tal futuro promissor tão longe do alcance que, ou prosseguiríamos sozinhos, ou não o alcançaríamos de modo algum. A natureza exploradora do controle britânico tinha sido mascarada durante a Guerra Francesa e Indiana pelo influxo, para as colônias, do bom dinheiro de guerra e pela camaradagem
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de combate contra os então desprezados Gens de mauvaise Foy e, de forma também tão importante, contra aquelas tribos de pele vermelha, que continuamente se aliavam com quem quer que estivesse mais contra seus competidores caras-pálidas no comércio de peles. Porém, quer artesão ou homem de negócios, quer fazendeiro ou caçador, o pioneiro americano tinha sempre em mente a procura de oportunidade em direção ao oeste; e os obstáculos que os refreavam eram principalmente os colocados em seu caminho pela terra mãe. Quando os mercantilistas britânicos debateram a questão do desenvolvimento do Vale do Mississipi, por exemplo, uma importante ordem de argumentos era de que os colonos deviam ser vigiados muito cuidadosamente. O General Thomas Gage, Real Governador de Massachusetts, salientava que era do “interesse [da Grã-Bretanha] manter os colonos dentro dos limites da Costa Marítima o quanto pudermos; e constranger seu comércio tão longe quanto o possa ser feito com prudência. Cidades florescem e aumentam pelo comércio extensivo... e eles logo virão a produzir por si mesmos o que costumavam importar. Eu tenho visto este Incremento e asseguro a Vossa Alteza que se estabelecem em Philadelphia Fundações que devem provocar ciúme em um inglês”.14 A “guerra de libertação do povo” americano travou-se porque os colonos americanos queriam expandir-se pelo continente norte-americano e desenvolver sua riqueza por si mesmos, e, como um corolário, porque não mais podiam tolerar sua dívida para com a Inglaterra e as restrições que a mesma mais tarde lhes imporia. Não é acidental George Washington ter sido um dos mais ricos plantadores das colônias e um dos mais profundamente endividados com os interesses mercantis britânicos. Os radicais Paine, Sam Adams e Jefferson formularam poderosos argumentos referentes à liberdade nacional e escravidão nacional; mas foi o argumento mais prático sobre dinheiro e terra que conquistou para a Revolução o apoio decisivo dos precoces conservadores americanos. Essa foi a causa unificadora e dominadora. A presidência de Jefferson talvez tenha representado, a um tempo, a última oportunidade para a democracia agrária auto-refreada e o mergulho final em nossa própria forma de mercantilismo expansionista: a mesma Aquisição da Louisiana, que dobrou nosso espaço de crescimento continental e forneceu terra para uma nação de fazendeiros voltados para o interior, também tornou certo de que teríamos muito o que vender para o resto do mundo. Foi a terra dos proprietários de plantação que criou o mar dos capitães mercantes. A dinâmica da grande vaga de ressentimen54

to, convulsão, incerteza e decisão está muito clara nesta passagem do historiador Curtis P. Nettels:
“Se após 1763 o Império Britânico não lhes permitisse crescer e expandir-se, se não providenciasse uma solução do problema central da economia americana, os colonos teriam que tomar a si o direito e o poder de guiar seu desenvolvimento econômico. Considerariam necessário criar uma nova autoridade que encorajasse a navegação e o comércio americanos, tornasse possível o contínuo crescimento das indústrias manufatureiras domésticas. Portanto uma Outra consequência do mercantilismo inglês foi a Revolução Americana e a criação, depois disso, de um novo estado mercantilista deste lado do Atlântico.15

O idealismo de Jefferson tinha representado o único desafio forte àquele novo mercantilismo. A expansão física era necessária para obter novas terras para fazendas, mas ele queria que o país não buscasse territórios cuja proteção requeresse uma marinha. Marinhas (ele haveria de sentir o mesmo a respeito das forças aéreas) são dispendiosas demais — “uma perversa dissipação das energias de nossos concidadãos”16 — elas produziam burocracias propensas à política, e tendiam a se ligar muito intimamente com os interesses comerciais que as abasteciam. Isto é, como Eisenhower alguns 150 anos mais tarde, Jefferson temia o crescimento de um complexo militar-industrial. Porém seu idealismo democrático, talvez comprometido internamente com o que Alfred Beveridge chamaria sua “volúpia pela terra”, não era, em última análise, bom parceiro para sua imaginação prática: Jefferson entendia muito bem as necessidades de um povo agressivamente comercial e aqueles acontecimentos, na Europa, que pareciam justificar nosso desdém pelos intrigantes e falcões guerreiros do Velho Mundo, ao mesmo tempo que nosso comércio com eles nos estava tornando ricos. A posição internacionalista foi tomada uma vez e por todas. Certo, penetramos avidamente o continente em direção ao oeste, chacinando e defraudando índios como nunca nem Henrik Verwoerd ou Ian Smith chacinaram ou defraudaram os negros da África. Mas alcançamos aquela fronteira de cabeça erguida, olhar voltado sempre para nossas posições comerciais, primeiro na Europa e, não muito mais tarde, no Pacífico. A Guerra de 1812 não concretizou nossas grandiosas ambições concernentes ao Canadá, mas garantiu nosso acesso ao mar e nossas reivindicações às terras a oeste do Mississipi, comercialmente estratégico. Em 1819, John Quincy Adams afirmava que “os Estados Unidos e a América do Nor55

te são idênticos”. No mesmo ano, finalmente obtivemos êxito anexando a Flórida. Por volta da metade do século, tínhamos tomado um grande pedaço do México e das terras do Oregon e nos fizéramos senhores de toda a massa de terra. Na década de 1860, preparados para isto pelo compromisso de Missouri, pelos Atos de Kansas e Nebraska e pela guerra civil de Kansas, sofremos o nosso trauma nacional máximo ao pôr fim à disputa entre plantadores e industriais referente a como deveria ser desenvolvido o Oeste e, no fundo, quem iria dirigir o país. Expandimo-nos. Explodimos. A mesma energia que nos levou através de rios, pradarias e cadeias de montanhas também nos levou através dos oceanos. Nunca estivemos isolados e nunca fomos isolacionistas. Desde o começo, tivemos um Departamento de Estado e sempre estivemos diretamente interessados nas disputas de poder dos estados comerciais europeus. O tratado de John Jay de 1794, cuja concordância com os interesses navais britânicos tinha certas implicações neocolonialistas, representou uma contracorrente, que quase custou a George Washington sua reputação.* Foi um engano logo corrigido e que não seria repetido com frequência. Em 1823, a famosa doutrina de Monroe lançava a base de manobras para a hegemonia americana na América Latina. Três anos após, o Secretário de Estado Clay afirmava “um interesse vital na execução do trabalho” de fazer “um corte ou canal para fim de navegação em algum ponto do istmo que liga as duas Américas, para unir os oceanos Pacífico e Atlântico...”17 Em 1854, o Manifesto de Ostend, ressaltando que a “autopreservação é a primeira lei da natureza”, declarava que “Cuba é tão necessária para a República Norte-Americana como qualquer de seus membros atuais”, não meramente porque guardava “a saída natural e principal para os produtos desta população inteira, a estrada real de seu intercâmbio direto entre os estados do Atlântico e do Pacífico”, mas também porque havia um Perigo em movimento no Mundo. O Manifesto tornava este perigo claro, suas repercussões na ideologia atual tornam-no de interesse especial:
* Frank Monagham relata que “a ira dos republicanos era sem peia”. Sem esquecer “aquele maldito arqui-traidor, John Jay’’, cumulavam Washington de insultos como o homem que “tinha completado a destruição da liberdade americana”... Em Virgínia, foi brindada “uma rápida Morte para o General Washington”; em New York, a Proclamação do Dia de Ação de Graças do Governador Jay foi acusada, porque se aventurou a incluir a preservação “da valiosa e útil vida do Presidente dos Estados Unidos”, como um dos pontos merecedores de uma oração de graças...’’ (Em The Shaping of American Diplomacy, de Rand Mac Nally, Chicago, pág. 68.) 56

devemos permitir que Cuba seja africanizada e se torne um segundo São Domingos. embora talvez seja só porque podemos ver 1854 com mais clareza do que nosso próprio tempo. eles se sentem a ele ligados. obtido mediante guerra. não tivemos tempo para parolagens pietistas. o Presidente Cleveland. primeiro apoiando. e “Mundo Livre” pelo menos eufemístico “raça branca” e teremos uma declaração que é não só contemporânea mas quase de última hora.. provocaria a séria atenção do Governo e do povo dos Estados Unidos em quaisquer circunstâncias. montava a aproximadamente 96 000 000. ser desleais para com nossos deveres.19 O nosso controle. no negócio de proteger negócios. ou verdadeiramente consumindo. ameaçando seriamente. ser irrespeitosos para com nossos nobres antepassados. e suportar as chamas se estenderem às nossas próprias praias vizinhas. Em dezembro de 1896. Uma estimativa razoável é de que pelo menos 30 000 000 a 50 000 000 de dólares de capital americano estão investidos na ilha. a limpa estrutura de nossa União. mas sim parte e parcela de nosso desenvolvimento interno. Nosso presente interesse pecuniário nele é só superado pelo do povo e Governo da Espanha. Porém. estávamos. onde anexamos o 57 . quando afinal chegamos a estouros com a Espanha no final do século. e cometer uma traição básica contra nossa posteridade. Em ambos os casos. minerações e outros negócios. Cuba e Filipinas. Foi um vento das pradarias que soprou aqueles veleiros ianques através do Pacífico. De fato. abertamente. com todos seus horrores atinentes à raça branca. ligação de nenhum modo de caráter inteiramente sentimental ou filantrópico. Se há uma diferença importante entre então e agora. em plantações e ferrovias. da economia cubana e nossa anexação de Porto Rico não eram diversos. O volume de comércio entre os Estados Unidos e Cuba.. “comunizado” por “africanizado”.. depois nos voltando contra os revolucionários de ambos os países. analisou a crise cubana em desenvolvimento da seguinte maneira: O espetáculo da ruína total de um país confiante.. subiu em 1893 para cerca de 103 000 000.Nós devemos. que em 1889 montava a cerca de 64 000 000 de dólares.. o espectro de uma Ameaça invasora é usado como escudo moral para uma muito simples ambição de negócios. e em 1894. “antiimperialista” como era. ano anterior à eclosão da atual insurreição. é que este “antiafricanismo” do Manifesto de Ostend é mais obviamente um pretexto do que o anticomunismo da Doutrina Truman.18 Basta-nos ler “São Domingos” por “Cuba” e vice-versa..

“e sereis bem-vindos”. o algodão superara o ópio como nosso produto máximo de exportação para a China. Chegamos quase a anexar as Ilhas do Havaí como uma estação na rota para a China. no mundo do Pacífico.. A terceira é que a diplomacia de esfera-de-influência. É pelo menos concebível que..20 (“Levai para longe vosso ópio e vossos missionários”. com a dominação do Levante Boxer por trás de nós. e dar os nomes daqueles cujo controle do monopólio turco do ópio tornou ricos é nomear a mais brilhante fieira de traficantes de drogas jamais vista: Astor. se preocupassem com o povo chinês. se tivesse sido realmente executada por todos os estados europeus envolvidos na violação da China. Pelos meados do décimo nono século. sempre singrando o que muito mais tarde o General McArthur iria chamar nosso “lago pacífico”. É ainda concebível que os ingleses e americanos que se empenharam para concretizar uma situação de livre comércio. mesmo até os portos da Velha Catai. Aquele grande país permanecia a chave para os interesses expansionistas do período. e a American Asiatic Association. Perkins. Kung. escreve Foster Rhea Dulles.21 No início dos anos de 1900. A segunda é que queríamos ali nos aprofundar. como não o fariam de novo até seu final. Não há necessidade aqui de debater o intento real das notas sobre livre comércio de John Hay. uma combinação de intermediários sulistas. Alemanha 58 . a Política de Livre Comércio pudesse ter tornado o imperialismo ocidental mais tolerável para o povo chinês. Sturges. França (algumas das províncias sulistas). banqueiros de New York e variados empreiteiros. ficamos com três difíceis realidades comerciais. contudo. em parte. Peabody. todos eles bons e limpos puritanos bostonianos. A primeira é que estávamos na China. inspirada pela necessidade de obter depósitos carboníferos para os novos navios a vapor na longa viagem para os portos chineses. e a expedição do Comodoro Perry para obter o livre ingresso no Japão foi. Cabot. praticada muito bem pela Grã-Bretanha (as províncias do Yang-Tse). se ligara à American-China Development Company para promover vigoroso apoio governamental à Política de Livre Comércio.Havaí e as Filipinas.) “Os americanos se voltavam para a Ásia na metade do século”. disse o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da China. nossos capitalistas tinham feito penetrações formidáveis nas economias do Japão e Coréia. moleiros de New England. Deixando de lado tais especulações. havia superentusiastas que já haviam solicitado a anexação de Formosa.

. e deve ser a bandeira que Taylor desfraldou no Texas e Frémont conduziu para a costa.... até o menor de todos. cuja prosa é tão maravilhosa que não pode deixar de ser citada por inteiro (1898): Deve o povo americano continuar sua marcha para a supremacia comercial do mundo? Devem as instituições livres alargar seu reino bendito. Seu princípio exterior era que os negócios americanos poder-se-iam sustentar em qualquer competição limpa num mercado livre. colonização e expansão não igualado por nenhum povo no século XIX. A América tinha se tornado o que chamamos uma Grande Potência Mundial e estava bem preparada para agir como tal. Seu princípio profundo era que acontecia os negócios americanos encontrarem-se. Beveridge. .. devemos controlar as ilhas do Havaí e manter nossa influência em Samoa..Para o bem de nossa supremacia comercial no Pacífico... que disse era 1895: Temos um recorde de conquista. Cuba finalmente será nossa. enquanto os filhos da liberdade crescem em força. Não estamos para ser refreados agora. tão só para corrompermo -nos em nosso próprio egoísmo? . Talvez um dos mais claros fosse o Senador Henry Cabot Lodge. mesmo às portas da Ásia. e mesmo ardente. A Política de Livre Comércio. Havaí é nossa. A Política de Livre Comércio — exatamente como acontece com nossa oposição de duplo critério ao “nacionalismo econômico” — era um meio politicamente oportuno para formular nosso objetivo expansionista asiático. nas ilhas do oriente. A Oposição nos diz que não devemos governar um povo sem seu 59 . em seus pontos essenciais. e Rússia (a península de Liaotung) deixou-nos inquietos no referente à nossa posição e sua extensão futura. Porto Rico está para tornar-se nosso pelas orações de seu povo. no extremo limite do rol das concessões. no momento. meramente admoestava os mercantilistas europeus para que abandonassem aqueles privilégios garantidos por canhões que acontecera não partilharmos.22 Mais direto e brilhante do que Lodge foi o Senador Albert J. a bandeira do governo liberal está para flutuar sobre as Filipinas.(Shantung). até que o império de nossos princípios esteja estabelecido nos corações de toda humanidade? . Não nos podemos surpreender em ter nossos campeões de um imperialismo claro. depósitos de carvão serão nossos. Cumulou-nos Deus com dádivas para além de nossos merecimentos e marcou-nos como o povo de seu especial favor.

25 Redfield foi seguido na tribuna por um antigo membro da Liga Antiimperialista.consentimento. estamos entrando. era a política oficial da América. a bandeira de sua nação precisa segui-lo. Para o caso de não perceberem bem. Distância e oceanos não são argumentos. Cuba não contígua! Porto Rico não contíguo! Havaí e a Filipinas não contíguos! Os oceanos os tornam contíguos. a eletricidade nos aproxima — os próprios elementos fazem liga com nosso destino. e as portas das nações que estão fechadas devem ser demolidas. E nossa Marinha os fará contíguos. governamos nossos filhos sem o consentimento deles. e os manufatureiros insistem em ter o mundo como mercado. Por muito tempo. William Redfield. os ministros e os cônsules são todos vossos. o Secretário do Comércio de Wilson... você e eu. é significativa. declarava ante o National Council of Foreign Trade [Conselho Nacional de Comércio Exterior]. Secretário de Estado William Jennings Bryan. Embora nem ao menos uma vez tenhamos abandonado nossos interesses cruciais e sempre crescentes na Europa.23 Todas as nações e todos os movimentos produzem seus ferra-brases. nos mercados do mundo para conseguir nossa parte”. escrita por um de nossos maiores estadistas liberais.. Governamos os indígenas sem o consentimento deles. imagináramos ser o pobre mundo nossa ostra. os embaixadores. em parte devido 60 .”26 A ênfase de Bryan sobre as portas dos países mais fracos. aplica-se somente àqueles que são capazes de autodeterminação.24 Em maio de 1914. Bem mais surpreendente — mesmo impressionante — é a passagem seguinte. que informou aos homens de negócios que “abrir as portas de todos os países mais fracos a uma invasão de capital e empresas americanas”. o controle do desenvolvimento dos vastos e densamente povoados países não-desenvolvidos era visto de maneira constante como a chave de nossa própria realização plena — em parte por causa de suas riquezas em recursos naturais. de 1907. Woodrow Wilson: Uma vez que o comércio ignora fronteiras nacionais. “Porque somos fortes. ele sublinhou: “Meu Departamento é vosso departamento. É tarefa deles cuidar de vossos interesses e defender vossos direitos.. segundo a qual todo governo justo deriva sua autoridade do consentimento dos governados. Eu respondo: A regra de liberdade. O vapor nos aproxima.

27 Assim. Europa e finalmente América. está encarando através do Pacífico o que é. talvez.seu mercado potencial a longo termo. durante a Administração Coolidge. ao mesmo tempo. mesmo se a soberania de nações relutantes seja ultrajada no processo”. a China. com uma organização econômica e industrial que é o fruto de séculos de progresso mundial. uma guerra do Pacífico teve afinal de ser travada para aclarar de vez estas ambiguidades do Destino. também. Houve. auxiliar principal. o Norte da África e a Ásia que mais incendiavam a imaginação expansionista da América. sem dúvida. tanto quanto a história do próprio mundo. A conclusão lógica dificilmente poderia faltar: Agora o círculo está completo. do Secretário de Comércio Hoover. Quando Wilson fala de pôr abaixo portas fechadas. (Devido 61 . cujo progresso copiou. Julius Klein. Descreveu como a fronteira do mundo moveu -se da China através da Ásia Central. Roma. justamente porque eles eram mais adaptáveis à nossa vontade do que o eram os ricos estados industriais. sem dúvida. e mesmo embora alguns de nossos estadistas e homens de negócios tentassem arrumar um comissariado associado com ele. é natural. era contada em nítido movimento de fronteira para o oeste. que iria ver por longo tempo a abolição de fronteiras e a conquista de “selvagens” por “civilizados”? De forma alguma. seu modelo global. por exemplo. a mais antiga e a mais nova área de comércio.) Eram a América Latina. Grécia. algum debate sobre qual o novo pioneiro que iria levar as boas novas à China. não nas nossas. numa declaração política importante. em uma escala continental. Uma era. e o arquétipo do país pobre era. (Não nos tornamos efetivamente anticolonialistas no referente a impérios de outros senão depois da II Guerra Mundial. ou quando clama que “concessões obtidas por financistas devem ser salvaguardadas por ministros de estado. aconteceu que a roda estava simplesmente em outra ciranda. e chegamos a uma nova era da história do mundo. ele por certo não está pensando na porta de um estado como a França ou na soberania de um estado como a Alemanha. A América. chamada “A Tendência da Fronteira é Mover-se para Oeste”. deu às nossas inclinações orientais uma fraseologia quase mística. a última grande fronteira foi conquistada. Expôs que a história dos Estados Unidos. já que o Japão exibia uma crença persistente de que a história estava em suas mãos. e em parte.

O contrato. As nações em desenvolvimento representam um desafio clássico à empresa privada americana. a longo prazo. A seguinte passagem da fala do Secretário de Estado Dean Rusk. esta disputa permanece sem solução. os próprios chineses. para ser usada como uma base para os EE. é difícil deixar de especular: Precisa-se de serviços e materiais para realizar para o Exército um estudo de pesquisa intitulado “Pax Americana”. a Douglas Aircraft Company. porém. manterem hegemonia mundial no futuro.) Através de tudo isso. Há fortes incentivos para firmas americanas apresentarem agora suas reivindicações nestes grandes mercados em potencial [dos países em desenvolvimento]. argúcia política e cuja contribuição para o desenvolvimento ganhem a confiança de uma nação em desenvolvimento.. apresenta anúncios de contratos governamentais que estão abertos para licitação do “setor privado”. Lá estão os riscos.UU. É uma condição dinâmica que descreve nossa carreira nacional melhor do que qualquer outro 62 . foi entregue àquele famoso historiador.a chegada de um terceiro candidato. Enquanto as nações se desenvolvem. poderá estar em posição invejável. à National Business Advisory Council [Junta Conselheira dos Negócios Nacionais] é típica do estilo burocrático menos colorido. estão sendo criadas oportunidades de negócios. em 1962. O dinamismo que tem sido central no desenvolvimento dos Estados Unidos deve agora ser empregado em escala global. (c) uma variedade de configurações de poderio mundial.. cuja perícia empresarial. consistindo num estudo básico sobre o seguinte: (a) elementos de Poderio Nacional. Pode ser que não haja absolutamente ligação entre a atitude exemplificada pela declaração de Rusk e a exemplificada no anúncio que se segue. no qual a opinião tradicional é agora expressa: Os negócios [americanos] devem expandir seu atual papel importante na economia mundial. O expansionismo da América não é debatível. Lucros futuros irão para as firmas que se mostram hoje empreendedoras e previdentes. Uma firma americana. incidentalmente (no montante de 89 000 dólares — barato para hegemonia mundial). (b) habilidade de nações selecionadas em aplicar os elementos de Poderio Nacional.28 A publicação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Commerce Business Daily. aparecido no Business Daily. de 29 de abril de 1965. Trataremos disto melhor no capítulo IV. os líderes americanos mantiveram sua opinião sobre a importância da retaguarda. lá estão as oportunidades.

observar que a fórmula sobre “fazer o mundo seguro para a democracia” na realidade. quando provém da ação pública. E esta liberdade econômica. Os filósofos do capitalismo democrático tentaram. estáse processando em colisão com dois desenvolvimentos relacionados: a burocratização incorporada do empresário e a privatização virtual do assim chamado setor público. ainda permanece para nós um tema do cerimonial mais alto dizer que temos liberdade pessoal porque temos liberdade econômica. ultrapassando mesmo o marxismo de clube juvenil em sua habilidade de tornar lugar comum o irreal. necessariamente resulta em decréscimo da liberdade pessoal. Muito raramente este tipo de raciocínio faz um esforço para levar em conta decréscimos de liberdade econômica (ou as perdas de propriedade) que provêm da ação privada. Visto que estando o mundo seguro para nossos capitalistas incorporados a democracia política também está segura. e que qualquer decréscimo de liberdade econômica. Porém. e vêm de uma cultura que realmente pensa que sua sobrevivência requer mais e mais conversos. Precisamos examinar isso.termo singular. mais ou menos explicitamente. o individualismo do qual temos sido tão orgulhosos — têm sido vistos pertinentemente como virtudes justificadas pelo oposto. fazê-lo seguro para nossos próprios capitalistas incorporados. claro é simplesmente a liberdade de os homens de negócio americanos expandirem suas operações comerciais. Americanos modernos. Já que liberdade econômica é a liberdade 63 . nossos princípios de negócio. isto é. Não é dissimulado. De um lado. significa fazê-lo seguro para o capitalismo — e. Não se trata de ser cínico. para ser mais concreto a respeito. Podemos gozar todos os nossos direitos de pessoa só porque nosso sistema de livre empresa garante nossos direitos de propriedade — e portanto nosso direito de explorar a propriedade para fins comerciais. não é muito difícil entender esta omissão. aquelas liberdades — as liberdades e direitos civis. Todas essas exortações a respeito da necessidade de difundir o Modo Americano de Vida não são de nenhum modo gracejos — são exortações verdadeiras. mostrar que liberdade pessoal e liberdade econômica são interdependentes. De momento. as que resultam dos impulsos monopolistas-corporativos de um capitalismo que há muito tempo escapuliu-se dos velhos e frágeis grilhões públicos. não são de nenhum modo um povo “possuidor de propriedades”. Esta teoria produziu as mais calmantes devoções sociais que o mundo conhece. e de outro. mas tão só de fazer a tradução óbvia. Porém. que permanecerão de certa forma em risco até que sua prática seja universal. é celebrado.

Se as duas são de fato interdependentes. o que é bom para a América é bom para o mundo. é pedir-lhe que enlouqueça. um dia. Mas todas estas virtudes parecem incidentais. sem desesperar. bem igual a Chicago. curamos o doente. liberdade e os direitos do homem parecem ser nada mais do que posições táticas que podem sempre. com aquela revolução tecnológica bem independente e a longo prazo. a ambicionar o aparelho de TV colorida. Todos os argumentos sobre cultura. que ele o liberta. A melhor coisa. ser trocadas por outras (tal como barrar o comunismo). provavelmente. a ser dita sobre o capitalismo corporativo é que ele planejou relacionar-se. de uma maneira nem sempre destrutiva. arranha-céus. qualquer expansão de negócios realizada é simplesmente a materialização concreta da liberdade econômica expandida. ou pedir-lhe que se submeta a controles sob a razão de que eles aumentam a liberdade. se necessário. e portanto da liberdade pessoal expandida. quando os grandes homens de negócio são livres. Pedir ao membro da corporação que imagine que seu monopólio recentemente conquistado na verdade limita a liberdade econômica. deste ponto de vista pelo menos. ensinamos o nativo iletrado a admirar as obras de Doris Day.de expandir atividades de negócios. Intelectuais de negócio contemporâneos podem fornecer justificativas sem fim para a marcha expansionista de nosso sistema: democratizamos o mundo. modernizamos o que está em atraso. Que nossos astronautas olhem para baixo. e. e a conquistar aos empurrões uma posição. todos são livres. que (caso o admitam) só vêem neste conluio uma vitória da liberdade. estradas de alta velocidade. Porém a implicação disso se perde nos altos negócios. Porque quando os negócios têm submetido o governo. então uma cresce quando a outra cresce. e possivelmente arrasadora. que se coloca sob a abundância notória do mundo do Atlântico Norte. ele subverteu e traiu essa revolução. então mais liberdade é melhor. Como pode a liberdade ser negação de liberdade? Como pode a liberdade vir da escravidão? Um crítico aponta o conluio dos altos negócios e governo. De maneira importante. infestados de ratos em todas 64 . é estável. o que é bom para a General Motors é bom para a América. o escravo tem submetido seu senhor. vendo alojamentos. e se alguma liberdade é bom. Levantar uma dúvida sobre a habilidade exclusiva do capitalismo corporativo em fazer o povo mais livre e dar-lhe melhor vida não é levantar uma dúvida na mente capitalista sobre a mais primitiva virtude de seu sistema: que é simplesmente ser ele o seu sistema. ele pode de fato apontar a virtual identidade deles. subúrbios e guetos para Dar es Salaam.

Foi esta tecnologia revolucionadora do trabalho. Porém o que dizer daquele outro título máximo. os fatos decisivos sobre o ato de competição de livre empresa são que alguém ganha e alguém perde. que produziu abundância — uma abundância. em comparação com a abundância que ele produz.as nossas famosas cidades modernas. aquelas observações muito de antanho. ela alcançou o mundo. representar alguma vantagem social. Deformada e desperdiçada como é. porém. que o trabalho teve de se bater ferozmente para partilhar. E do outro lado da medalha. A ciência. e de que é preciso uma para fazer a outra. O ponto a destacar é que as duas defesas sociais mais celebradas do moderno capitalismo ocidental são dúbias. Então produziu. por sinal. deve agora ser esclarecido de que o capitalismo tornou possível o progresso tecnológico. Porém isto é enganador e 65 . de que riqueza e pobreza se engendram. contudo. basicamente. tão convincentemente como sempre. que ganhadores tendem a permanecer ganhando e perdedores a permanecer perdendo.) Após estar sendo reformado todos esses anos. e (para generalizar o precedente) simplesmente que o capitalismo não foi capaz de conceber. e mais ainda neo-Smithianos. de que o poder financeiro (e portanto político) infalivelmente se condensa em torno de grupos exclusivos de elite cujos interesses são crescentemente coordenados. sua chegada pode ser mais prenhe de mudanças do que agora o imaginam certas casas de investimento da livre empresa. dispersou-se em cápsulas espaciais. ele trabalha horas demais por dia e anos demais de sua vida para alcançar um poder aquisitivo pequeno demais. e uma vez que seu racionalismo intrínseco pode. induzindo a ciência ao serviço da burocracia das finanças. O crescimento do estado capitalista resultou daquela chuva científica que chamamos a revolução tecnológica. barbatanas de cauda e espalhadores de creme de barbear. liberdade econômica? Em comparação com outros o trabalhador americano está em bela condição financeira. Para alguns marxistas. as formas pelas quais o ato competitivo básico e livremente iniciado possa ser renovado de maneira contínua. Produz ele liberdade pessoal? Por muito tempo. pelo menos. e boa parte dela é não-produtiva. e menos ainda institucionalizar. dentro da praça de mercado. o que glorifica o capitalismo como o modernizador do mundo? Não há como ser enganado sobre isso. em nosso tempo. o sistema de capitalismo “moderno” ainda prova. (Muita “competição” agora é dentro de corporações. reflete um desarranjo social por demais imenso para o entendimento do cérebro comum. foi pelo contrário famoso por não produzir nem mesmo um cenário no qual a liberdade pessoal pudesse ter um significado.

A ciência produz e mobiliza riqueza. Parece que o homem e a máquina produziram demais. a saber. para os quais foi dirigido o Sherman Act. quedas de preço intencionais. esse incremento de riqueza útil. Quando os frutos apodrecem nas árvores e homens desempregados andam famintos. Como veremos. peculiares do Ocidente e das quais o Ocidente precisa se envergonhar. cinquenta anos mais tarde. de fato. quando as necessidades têm sido menos satisfeitas. em conformidade. diferente dos monopólios da era dos Alegres Noventa. ou progresso material. pretendendo ser analítica. e seus apologistas talvez estejam certos em proclamar que alguns dos temores originais de gi66 . surge uma versão deste mesmo argumento de capitalismo-para-o-progresso que está sendo apresentado correntemente em defesa da moderna corporação americana (com frequência multinacional). Porém. a solução deste problema doméstico tornou-se uma tarefa primária da política externa americana. não o outro ponto em torno. há o fato embaraçoso de que o capitalismo não parece saber ainda com exatidão como lutar contra esta abundância que supostamente inventou. como uma verdade demonstrada. roubados e ladrões do mesmo modo (um ponto da maior importância a que voltaremos mais tarde). e a ciência é ideologicamente cega. Por enquanto. observamos somente que não podia haver propriamente excedente até estarem satisfeitas as necessidades. que a revolução tecnológica se propagará indiscriminadamente através de qualquer sistema suficientemente coerente de comunicações sociais. aparentemente. o mundo do Atlântico Norte considera tão desagradável a respeito das revoluções russa e chinesa. Que isto esteja agora provado é o que. O que seria levantado em 1917 como uma firme conjetura pode ser hoje afirmado. e que o problema de produção excedente tem sido. evidentemente. É uma afirmação puramente histórica. Este excedente era. a enfrentar o conceito realmente surpreendente de “produto excedente”. em oposição a estes ventos tão contrários. O clero das finanças foi obrigado.paralelo ao assunto. A enorme e crescente corporação é. algo está errado com o sistema de repartição de recursos e distribuição de riqueza. que é calculadamente afastado do mercado através do sistema de patentes e práticas tais como obsoletismo planejado. mais agudo. é claro. nada senão um furto que ameaçava a todos destruir. e “técnica de vendas” — práticas que são. Relacionado com o problema do produto excedente temos o problema do excedente tecnológico. riqueza bruta e força de trabalho. na aparência. Além disto.

A grande corporação. em geral. Sua rentabilidade.gantismo são agora deslocados. e mais ainda fascistas. é bom notar. e não seria preciso destrui-la para assegurar que tais crimes não sejam cometidos. formada por meio de fusões verticais. e porque ela está condenada a considerar sua administração dessa riqueza como boa ou má. na dependência do montante de lucro que auferir. é que seu imenso poder inovativo é mutilado por lhe ser fundamental consagrar-se a obter proveitos financeiros. medida em dinheiro. porque os valores de troca no mercado abundante tornou lucrativas uma flexibilidade. de provocar ou absorver mudanças e de injetálas na economia. horizontais e conglomerados (havia 2 100 em 1965). O que pode ser bom na grande corporação é sua habilidade de inovar. A observação de Robert Frost sobre os dois vagabundos vem-nos à mente: “A menos que um homem pudesse empunhar um machado. limitar a produção e conspirar para distribuir mercados não foram exatamente esquecidos. 67 . quanto atraída. desde que a corporação é o repositório principal de nossa riqueza nacional. temos uma sociedade industrial que é tão perturbada. há muitas outras e melhores medidas de valor. existem. O negócio da GM não é carros mas sim lucros. não é para cometer tais pecados que a corporação passa a existir. vinham pondo em prática há longo tempo. no referente à grande corporação. eles não tinham meio de conhecer um louco.” Além de empunhar machados e auferir lucros. enganar o consumidor. Porém. uma habilidade de reencaminhar recursos que as pequenas firmas de produto determinado não parecem ser capazes de exibir. A corporação existe. Isto não é socialmente racional. pelos resultados prováveis da cibernetização. e muito mais para ser censurada por suas “cidades internas” do que admirada por seus aeroportos. É uma espécie de vodu. existem porque a promiscuidade do mercado abundante (“hiper-elasticidade de demanda”) pode ser estimulada e controlada somente através de uma diversidade técnica por demais dispendiosa para pequenas firmas. Gigantismo pode não ser a mesma coisa que ruindade. Se esta nova criatura de nosso sistema capitalista pudesse realmente inovar. então nossa prodigiosa riqueza nacional teria. é o único critério básico pelo qual ela avalia o desempenho deles. Porém. é por certo capaz de cometer os velhos pecados usuais dos trustes. desde muito. que alguns socialistas. * Os escândalos das indústrias farmacêuticas e eletrônicas são famosos. simplesmente porque uma movimentação mais global de recursos é mais racional — ponto. Mas o que certamente é mau.* Os velhos truques de fixar preços.

mesmo quando esses hospedeiros não estão eles próprios disso convencidos. Agora queremos perguntar: Por que expansão? Algumas vezes — mais marcadamente no período de 1895 a 1905 — explicamos nossas expedições. tanto comerciais como militares. Mais frequentemente. porém porque nossos homens de negócio o quiseram. ou não. e nos expandimos pelo mundo. dentro de nossas próprias fronteiras. com uma imodéstia mais ou menos dissimulada. ser bom: O precedente deve ter indicado pelo menos porque é saudável entreter certas dúvidas: Expandimo-nos para tornar os homens livres? Se isso quer significar uma versão liberatória da liberdade pessoal. porque outros devem ter a ocasião de compartilhar de sua bondade. desprezamos o fato de que nos mostramos — sejamos generosos — inábeis para desenvolver o mundo em atraso. Expandimo-nos para modernizar o mundo? Nossos antecedentes domésticos não nos levam à conclusão de que o podemos. mas a qualidade da vida social. então a medida de nosso desempenho empresarial não seria a eficiência financeira. ao dar a esse progresso uma orientação mais atraentemente social. Temos dito. o argumento é circular e tomou-se por verdadeiro o ainda não provado. Sabemos que nosso sistema é expansionista. Como tal não acontece. E durante todo o tempo em que falamos de forma tão audaciosa sobre nossos planos para desenvolver o mundo em atraso. cujas realizações são aquilatadas principalmente por contadores. consideramos nosso sistema econômico-político como sendo a única esperança do mundo. Voltaremos a isso no trecho que se segue. Se se pensa numa versão capitalista de liberdade econômica. nosso sistema é um bom sistema. Quiséramos saber que promessas podemos esperar que este sistema cumpra. como tantos cristãos.erradicado a pobreza e o sem número de males sociais que a pobreza produz. registradas principalmente por guarda-livros e comemoradas principalmente na nostalgia dos vendedores. continuamos a nos desonrar com esta inventividade estouvada. Temos justificado nossa presença em amplitude mundial encarando-a como um favor a nossos hospedeiros. Não nos expandimos por nenhuma destas razões. em termos de uma ideologia claramente imperialista. de modo tão firme quanto nossos 68 . Se a gerência de nossos recursos fosse realmente integrada e realmente racional. Nosso sistema pode. e talvez mesmo melhores. outros sistemas são pelo menos tão capazes de conduzir progresso tecnológico quanto o nosso. o argumento é claramente errado (veja a América Latina). que arde em chamas. Este exame do capitalismo americano não é gratuito. em aflição e amargura.

de Martinsburg. excedentes. com constância. de algum modo. quando se viu soldados passarem para o lado dos trabalhadores ferroviários e a queda virtual. Era o que contava a história sangrenta da Europa da metade do século. pelo menos ao primeiro relance.estadistas acreditaram que tínhamos de fazê-lo. Pittsburgh. em 1892. o Motim de Haymarket. em 1886. como estabilizar em um nível elevado de emprego e consumo. Por uma razão. disse. também a história sangrenta da América do século XIX — história que deve ter estado muito presente na mente do Senador. Não seria ingênuo afirmar que. já tínhamos uma apreciável parte do mercado da China. Não era tolice pensar que mais e maior violência podia vir. E muito. era fundamental a importuna inabilidade da América em resolver. que surgiu da Greve de Pullman em 1894. e ressentimento das massas à luta de classes. revolução. Era da natureza do sistema econômico americano produzir mais bens do que podiam ser vendidos aos americanos — ele produzia. com nobre simplicidade. em 1895: “Precisamos ter o mercado da China”. como resolver o pro69 . desemprego ao ressentimento das massas. o Grande Levante de 1877. e o massacre de Chicago. de seu ponto de vista. Mas isto não era só derrotista. mas indispensável à sobrevivência. “ou teremos revolução”. em mãos dos rebeldes. O que podia ser feito? Uma alternativa óbvia seria reduzir a produção. E mais importante ainda. Reading. e precisamente quando a vantagem de maior penetração ganhava adeptos entre nossos homens de negócio. era suicida. este comércio não era apenas bom. quando fez sua sombria predição. a Greve de Homestead. perturbações econômicas e sociais: de que maneira fugir ao ciclo valorização acelerada-depressão. nossas exportações cresciam. O raciocínio não podia ser mais simples. para reprimir os trabalhadores irlandeses grevistas de New York. Aflição econômica e violência consciente de classe nunca foram desconhecidas na América. Estes bens excedentes dificilmente podiam ficar a apodrecer nos armazéns. O Senador William Frye expôs o problema. Reduções conduziriam ao desemprego. Porém não seria risível àquele tempo. para a possibilidade desta violência. em primeiro plano. em 1846.29 Esta idéia pode hoje parecer divertida. Mas Frye expressou sua opinião de maneira tão brutal porque. fervilhava a penosa competição de esfera de influência com as potências européias. o Pânico de 1893 e a subsequente depressão. as duas depressões que ultrapassaram a violência maciça da Guerra Civil. No fundo da consciência política da América estavam o uso de tropas. assim dizia.

a solução final. Tirava só um 70 . nos estabelecêramos como nação exportadora e tínhamos dado início a uma economia de mercado. esta era uma formulação invencível. que não estávamos nem a um quarto de século da guerra mundial que nos transformaria por fim (quase numa noite. Porém já estava claro que ser credora fazia parte dos planos. e acesso e não revolução. como a descrição modelo o fez) em uma nação credora. sobre os quais estava baseada nossa república. Mas aqui. Tornáramo-nos os primeiros manufatureiros do mundo. nossa moralidade de negócio. porém genuína. perturbada. Tudo na experiência daqueles que tomavam as decisões apontava para os oceanos como a saída. Pela década de 1890. A resposta que os socialistas apresentavam era controle popular da riqueza da nação. durante o século precedente. produção elevada e acesso. Assim devíamos ter produção elevada e não revolução. Como poderia ser diferente em se tratando de um povo ilhéu? Um povo ilhéu. Cada uma dessas condições eram diretamente interligadas e se reforçavam. Estávamos desfazendo aos poucos a dívida que acumuláramos na Europa. Talvez essa proposta estivesse muito bem para algum outro cosmos. também levou em conta o Continente. Ninguém podia antever. O socialismo era ofensivo às ventas dos deuses. Dadas nossas origens. sendo o problema artificial. e acesso aos mercados externos. do excedente. havia outra solução: vender maior quantidade de mercadorias no exterior. de fato. a fim de não ter revolução. cujas origens estão principalmente em outra ilha. Um livre empresário americano poderia.blema de concentração de poder nas mãos de um grupo de homens que. uma heresia contra aqueles direitos divinos de possuir e explorar propriedade. Porém certas condições teriam que ser encontradas antes de esse sonho se tornar verdadeiro. e que também tentou livrar-se de seus problemas econômico-sociais pela exportação de seu produto industrial excedente. se torna cada vez menor — os senhores dos trustes — e de que modo fazer estas coisas sem mudar fundamentalmente a natureza do próprio sistema. uma que também navegou. resolvido por meio da redistribuição do poder econômico. em cuja primeira parte tínhamos pedido emprestado e comprado no exterior mais do que vendêramos. não revolução. Além disso. a fim de ter acesso. ter topado Marx e caído morto do choque de auto-reconhecimento. naqueles dias. nossa experiência de fronteira. sucedeu que ela punha ante seus juizes a solicitação de que se condenassem a si próprios: algo que juiz algum jamais fez. é claro. com constância. Queríamos ter produção elevada. a fim de ter produção elevada.

não podia deixar de ser claro para ninguém que o povo americano tinha boas razões para estar zangado. que se expressou da forma seguinte sobre a greve dos trabalhadores da mina em 1902: Os direitos e interesses do homem trabalhador serão protegidos e cuidados — não pelos agitadores trabalhistas. quer interna ou externa: Os grandes homens de negócio americanos e seus as71 . onde se colocava o Poder. de que mais comércio marítimo precisaria de uma marinha maior. Os populistas nunca teriam oportunidade contra esse tipo de poder de fogo. proprietária de minas. homens da classe média nas ruas. para fazê-las diferentes. lembrado e aplicado de maneira inflexível. e que. o New York em 1891. as propostas mais moderadamente progressistas eram sempre atacadas. anarquistas. que recebiam de quatro a dezesseis centavos por hora. radicais. porém pelos cavalheiros cristãos a quem Deus deu o controle dos direitos de propriedade do país. ou negada. o Oregon em 1893. Na verdade. Este é um fato político decisivo. a injustiça realmente elementar do comportamento do grande capital era sempre protegida. Se as coisas estão bastante diferentes entre nós agora. e que sua raiva era socialmente explosiva. sobre política americana.encanto a mais dos fatos. vivendo na cidade “modelo” de sua companhia.25 dólares por mil pés de gás. em uma luta muito amarga. deve-se supor. claros mesmo então. pelos quais ele pagara quatro centavos. compreendido. tal como aquele cavalheiro cristão George Pullman protegeu e cuidou de seus trabalhadores. presidente da Philadelphia and Reading Railroad. era boa para os negócios. Porém. a atitude típica era a de George Baer. O Maine tinha sido lançado em 1890. quando raciocinamos. Tem de ser aceito. apesar do que pensara Jefferson. revolucionários. e de que a construção de marinhas. Foi nas ruas que nasceu o progressismo americano. Na passagem do século. em nosso país.31 Por que remexer nestes velhos ossos? Porque estes velhos ossos estão em nossa carne nacional. 2. pagavam-lhe dez centavos por mil galões de água. É claro que havia reformadores. multiplicou-se e adquiriu toda a força que teve. o Olympia em 1892. não haveria oportunidade para nem mesmo uma resposta nominalmente liberal-reformista.30 Protegidos e cuidados. Porém lá em cima e no centro da cidade. é tão só porque uma boa quantidade de homens morreu. liberais. o afrouxamento da servidão do trabalho sempre tinha de ser forçado. por muito tempo. que ele tinha comprado por trinta e três centavos.

o grosso do comércio oriental será nosso. Tacher testemunhou. que estavam para difundir no exterior aquelas “instituições livres” que o Senador Beveridge saudava com tanto orgulho em 1898. manufatureiros. Por exemplo. sabiam muito bem que havia argumentos e argumentos. O. e em termos de outros Eldorados — ou quem sabe deveríamos dizer outras Fontes da Juventude. Assim o Havaí nos fornece uma base naval no coração do Pacífico.. Devemos ter permanentemente em conta de que eram tais homens. ante um subcomitê do Comitê do Senado para Relações Exteriores. Ásia. Pois os conflitos do futuro deverão ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. e que algumas certezas eram mais certas que outras. como Beveridge também.sociados nos departamentos de Comércio e Estado. uma viagem mais adiante. razões e razões. com tais idéias. . senão abertamente cristã. E a regra de ouro da paz é a inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento.. cujas portas não devem ser fechadas ao comércio americano. Qualquer outra visão de nossos “líderes” é uma alucinação sentimentalóide que leva muito pouco em conta aquela “dureza” pela qual eles tanto estimam a si próprios. Manila.. estamos produzindo mais do que podemos consumir. Tal como Beveridge.. Dentro de cinco décadas.Em cada setor * Em 1938.. às portas da Ásia — Ásia. outra. não se abstêm de explorar o que quer que não lhes tenha sido proibido explorar por qualquer outro poder. a cujo comércio centenas de milhares de mercadores. a não ser o profeta e o Saxão que existiam dentro deles. no teor que se segue.. as Ladrones outra..32* Já se tratara anteriormente do assunto. 5 por cento de nossas importações de matérias-primas vinham da Ásia 72 . de Jefferson e Grant. fazendo mais do que podemos usar. Portanto precisamos achar novos mercados para nossa produção. caracteristicamente. fazendeiros americanos têm tanto direito como os da Alemanha ou França ou Rússia ou Inglaterra. A supremacia comercial desta República significa que esta Nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. S.. em abril de 1886 (apenas poucos dias antes do Motim de Haymarket): A visão industrial de nossa terra não é por completo cor-de-rosa. é claro. Há mais trabalhadores do que trabalho para eles fazerem. hoje. Porém. eles sempre tentaram dar ao nosso espansionismo um halo de cruzada humanitária. Mas. Ainda Beveridge: Não havia motivo para a volúpia pela terra de nossos estadistas.

como também são o único campo existente.”35 O Presidente Herbert Hoover. Nossos mercados internos não mais são suficientes. em 1912: “Nossas indústrias se expandiram a tal ponto que estourarão se não pudermos achar uma livre passagem para os mercados do mundo. os projetos financiados pelo governo não eram considerados como mudança estrutural. voltamos os olhos para qualquer outra parte do mundo em busca de um povo que. Roosevelt. A reconstrução do 73 . teares.. tapa-buraco. marginal ou temporário — até a revivificação do comércio exterior do país dramaticamente deprimido. vieram dias negros para a América — e com eles. Porém. Vejamos só como a mesma fala é feita sempre e sempre: em 1897. John Foster Dulles. a essencial e única anodina. Search. e de que a solução básica para esse problema. Franklin D.. está em nossa penetração de mercados externos — mais especialmente os mercados daquelas terras que agora classificamos como países subdesenvolvidos (ou segundo o novo eufemismo do Departamento de Estado. mesmo para o “New Deal”. por Theodore C. As nações da América Central e do Sul. não só oferecem os mais lucrativos mercados para onde encaminhar nossa produção excessiva. proclamou uma importante variação do tema principal: “Devemos financiar nossas exportações emprestando aos estrangeiros o dinheiro necessário para pagá-las. No total. presidente da Associação Nacional de Manufatureiros: “Muitos de nossos manufatureiros ultrapassaram seus mercados internos. nada mais constante em nossa política externa. uma tentativa de revigorá-la de dentro. em 1928: “Precisamos achar um mercado lucrativo para nossos excedentes. forjas e poços de óleos minerais [aquilo] que somos capazes de produzir e dispensar.. e a expansão de nosso comércio exterior é sua única promessa de alívio..”34 Woodrow Wilson durante sua campanha para a Presidência.. de uma vez. nosso progresso. paz e tranquilidade futuros dependem de encontrar mais consumidores para o que temos para vender.”36 Nesse mesmo ano. Precisamos de mercados externos. como nunca antes.da vida industrial há produção além do consumo. um renomado advogado de Washington e amigo do Leste Longínquo. O “New Deal” parece ser encarado agora como uma tentativa de aplicar estímulos internos à economia. precise e esteja querendo tirar de nossas fazendas. os menos desenvolvidos). eram meramente conserto estrutural.”37 Talvez em parte por não ter sido levado em conta tal aviso. do que esta convicção de que o problema básico do sistema de negócios americano é a riqueza domesticamente indistribuível. Em vão..33 Nada mais comum em nossa mentalidade econômica.

reajustamentos sociais e desemprego.]39 74 . se quisermos evitar dolorosos desacertos econômicos.. As exportações americanas haviam caído de mais de 5 bilhões de dólares.6 bilhões de dólares. certos produtos básicos regionais. Transmitir-se-ia. [Ênfase incluída. sofrimento e miséria humana. as rendas dos impostos deverão ser diminuídas. sofrimento e miséria humana. dependem de uma exportação muito acima de um décimo. à vida dos negócios de cada cidade e vila nas áreas produtoras. Suprima-se estes mercados externos. Sayre pôs a claro a sombria significação deste declínio: “Lembrem-se disto: Redução no comércio mundial significa redução na produção mundial. o Secretário de Estado Adjunto Francis B. sem apelação. anulação do protecionista Smoot-Hawley Tariffs) como um meio de restaurar a capacidade da Europa para comprar-nos o que queríamos vender-lhe. Tal miséria e desastre econômico não ficariam confinados aos próprios produtores. e a vida cultural de setores inteiros do país golpeada.38 A linguagem dificilmente poderia ter sido mais acabrunhantemente apocalíptica — tudo para o ouvido de gente que já conhecia muito bem “desemprego. caso os produtores americanos se disponham a reconstruir uma economia interna plena e duradoura para nosso povo. os valores imóveis cairão abruptamente. e destas espalharia os danos por todo nosso país. os bancos ameaçados.. Num discurso radiofônico.. de março de 1934. e o resultado inevitável é desemprego. e redução na produção mundial significa. Em 1935 ele disse: Os mercados externos devem ser reconquistados. é claro. em 1933. O fracasso em vender estes excedentes no exterior significariam desastre inevitável para grandes setores agrícolas de nosso país. se não permanentemente prejudicada. desemprego. para sua existência continuada.” O tom de Sayre revela muito bem a intensidade dos sentimentos do “New Deal” sobre o comércio exterior: O que significa realmente este decréscimo no comércio americano para a vida de nossos fazendeiros e manufatureiros? Embora seja verdade que os Estados Unidos normalmente exportam só cerca de um décimo de sua produção total. Não há outro caminho.. em 1929 para 1. através da diminuição da capacidade aquisitiva. Sem os rendimentos das vendas destes excedentes.“New Deal” girou em torno do liberalizante Ato de Acordos de Comércio de 1934 (e.” Ninguém mais do que o próprio Roosevelt poderia ter concordado em que as coisas estavam más e que a única resposta era mais comércio exterior. contudo.

argumentou que se a América do após-guerra devesse cair de novo na depressão da anteguerra. ele disse.. em 1944.A guerra adiou. Byrnes completou o argumento já conhecido com tal objetivo: “Os Estados Unidos não podem alcançar e manter o alto nível de emprego que estabelecemos como nosso alvo a menos que as vias de escoamento [externas] para nossa produção sejam maiores do que jamais tenham sido antes.”41 Há virtualmente um consenso universal inviolado sobre este ponto. a urgência desta necessidade. não duvidava que “a empresa privada nos Estados Unidos só pode sobreviver se se expandir e crescer”. ao mesmo tempo. a acumulação de imensas reservas de capital).. avanço tecnológico.” Mais tarde. mas não suprimiu. “As velhas fronteiras devem ser refeitas”. “parece claro que nela permaneceremos. de que um objetivo importante de após-guerra era “a manutenção da porta aberta nos Bálcãs.. para abrir à força a porta para as suas colônias. sem ter consequências do mais longo alcance sobre nosso sistema econômico e social. somente acrescentou mais força e outras dimensões à convicção já forte. sob um sistema diferente.”42 O Secretário de Estado Adjunto Dean Acheson. por um período muito difícil. de que a América não podia sobreviver sem o que bem pode ser chamado de colônias comerciais. sustentada por toda parte. e então intensificou.” Acheson então detalhava: Não temos um problema de produção..”40 Não só pedimos e conseguimos livre acesso às colônias do Eixo. Os Estados Unidos têm energia criadora ilimitada. Já destacamos a declaração do Secretário de Estado Byrnes. Podemos debater por um bom espaço de tempo que neste país. que acabou rompendo com Truman devido a questão de nossa política de após-guerra referente à Rússia. O crescimento que ela estimulou nos negócios americanos (expansão industrial e agrícola. Mesmo o Secretário do Comércio Henry Wallace.. reabrir as velhas saídas e buscar novas para nossa produção excedente.. tal como a I Guerra Mundial. mas também usamos nossa força econômica contra o necessitado aliado britânico. se poderia usar toda a produção do país nos Estados Unidos. Já em 1940 Cordell Hull tornou claro que nosso “objetivo primário é. perante o Comitê Especial do Congresso sobre Política Econômica e Planejamento de após-guerra. Não podemos atravessar outros dez anos. Aceito que 75 . na qualidade de Secretário de Estado de Truman. O importante é mercados. como os dez anos do final da década de vinte e início da de trinta. depondo. em tempo de paz. e proclamou que nossa expansão para os países pobres representava nossa “ilimitada nova fronteira de oportunidades.

recriar o problema original? Na escala mais primitiva. isto é. mas minha opinião é de que não podemos ter pleno emprego e prosperidade nos Estados Unidos sem mercados externos. a máquina abaixa sua grande cabeça de aço. liberdade humana. produzida independentemente. há uma pergunta muito simples: Como é que a importância com a qual deve ser financiada a venda externa do excedente não irá simplesmente substituir o excedente interno e. Assim tem que haver uma fonte de riqueza externa. Se estou errado a esse respeito. basicamente.. melhor funciona. Escarnecemos do europeu que quer uma relação importação-exportação equilibrada conosco. e o suspense é temível. Porém tem que ser feito corretamente. é invocada a teoria da especialização internacional do trabalho. é provável que se possa estabelecer este controle de modo a que tudo o que seja produzido aqui seja consumido aqui. nossas exatas concepções de lei. maior é sua necessidade de um mercado externo. é claro. alguns problemas clássicos. ulcerados. acelera. Em relação a isto. nós desembolsamos no exterior. corretamente controlado. E ninguém pretende isso. Se se quiser controlar toda a vida do povo. Ele não deve manter um livro para cada parceiro comercial. porém isso mudaria por completo nossa Constituição. Quanto maior seu mercado externo.a União Soviética possa usar toda a sua produção internamente. Assim. Que esta riqueza externa independentemente produzida tenha que ser produzida aqui e controlada por nós é. expectantes. Numa escala mais civilizada. a história de mais de 110 bilhões de dólares que. não a valores de 76 . e é sempre justamente este lado a ficar fora de equilíbrio. segue em frente para o futuro. esperamos que ele financie a compra feita a nós por meio de balanços favoráveis obtidos de outros. deve ter um para todos.) A teoria é de que o desequilíbrio expansionista. dizemos. em várias categorias de assistência financeira. e corre. Nosso sistema econômico funciona num estado de desequilíbrio contínuo. assim. à qual tenham acesso nossos comerciantes. maior seu excedente. então todos os argumentos pecam pela base.. A exigência se aferra às coisas. (Supõe-se os capitalistas ansiosos. Quanto melhor funciona. percebemos que precisamos buscar outros mercados e esses mercados estão no exterior. garantido por nossa exigência de que outros “multilateralizem” suas contas comerciais. Um. se converte num padrão de vida em constante ascensão. nossas relações com propriedade. Há. de 1945 a 1962. Portanto. isto é.43 Reduzamos tudo isto a seus elementos. a exportação deste excedente tem que ser financiada. Isto é bom.

se subtrairmos do total nossas exportações subvencionadas pelos Estados Unidos. mais do que 90 por cento foi convertido. em qualquer período de expansão. afinal.”44) Se nada é feito para deter o fluxo expansionista de capital para o exterior. este problema é manejado pelo que. e os possuidores de dólares no exterior reagem trocando dólares por ouro. O fluxo conjugado para fora. Porém. uma câmara japonesa. E esse problema primeiro — o osso mais duro de roer da política externa americana desde seus dias mais remotos — é assegurar a utilização de fronteiras férteis para os negócios americanos. Estes são problemas difíceis. Um outro problema. apresentado pela Administração.4 bilhões de dólares. de que será capaz de fazer frente aos pagamentos. A gente de negócios o considera de pequeno alcance. o ano das restrições. excederá o fluxo conjugado para dentro. Desceu. estava de novo em ascensão no primeiro trimestre de 1966. brota do fato de que uma economia capitalista a toda força produz uma espécie diferente de artigo de exportação — o próprio dinheiro. no fundo. bastante curiosamente. Em 1965. de forma mais fundamental. cresce o deficit de dólar.) A gente do governo o chama caracteristicamente de permanente. Sempre poderão ser resolvidos. Em 1964. A grosso modo. e essa diferença levará a um deficit de dólar que. se o problema primeiro for resolvido. mais moderno e mais difícil. e sua resolução requer grande habilidade. assim se pensa. (A razão é que dois sistemas de contabilidade igualmente bons podem ser usados para apresentá-lo. o dólar de alguém investido no exterior faz dinheiro — como veremos depois. ele e o banco. através do programa “temporário” de restrições “voluntárias”. porém se o governo quer retardá-lo. 77 . reais. boa quantidade. o continuar da alta demanda inflacionará a circulação. é a um tempo de pequeno alcance e permanente. e portanto pedirá dinheiro emprestado. é uma simples confiança no futuro. para. quando o “boom” preocupou a todos. em período durante o qual nossa costumeira balança comercial favorável era desapontadoramente baixa. o mais baixo da década de 1960. Ambos sabem que ele existe: Era de 2. para 1. Mas eles não são. o excedente comercial de 1965 cai para o que Fortune chama “o insignificante valor de 1. em 1965. a preocupação central da política americana. Se o operário da linha de montagem de autos crê que a GM pode vender todos os carros que ele monta. mas. A alma do capitalismo é a dívida particular. digamos. confiantes.dólares. então contará ter um emprego e uma renda no próximo ano.8 bilhões de dólares em 1964. (De fato. e portanto levantar taxas e o valor do rendimento do dinheiro.5 bilhões de dólares. só 5 por cento de deficit foi convertido em ouro.

Tais expressões tornam o Homem da Guerra Fria mais satisfeito consigo próprio. nos melhores termos possíveis. para fazer a pilhagem sozinho que o Ocidente. deve ter sido empreendido. por exemplo da Renascença. Essa ideologia sustenta que a paz perseguida pelos líderes americanos era de uma espécie nítida. mesmo vil. primeiramente sob a liderança imperial deste poderoso estado. o Magnífico? Foi Veneza Ticiano ou os mercadores que a governaram com tal comedimento? O herói de Isabel foi Bermejo ou Colombo — ou o Arcebispo de Toledo? Quem era mais caro ao coração da Inglaterra elizabetana. finalmente. a sobrevivência de nosso sistema depende disso. parece. Esta luta imensamente violenta que divide o mundo deve ser referente a algo muito maior. América — laborou para fazer seu domínio universal. em ambientes orientados por governos da classe média nativa de preferência. oceanos — devem ser definidas por seus usos e pelo tipo de direito de propriedade ao qual elas se submetem. porém só desejo saber se ele não deve tentar entender um pouco melhor suas bases. Mas uma tal formulação parece sem dúvida crua demais. por certo. Isto é incorreto. que galvanizou nossas melhores mãos. depois daquele — Espanha. Não foi. a fim de que realizem seus negócios em qualquer parte. Shakespeare ou Francis Drake? Pode-se falar de culturas à vontade. ou por nossos próprios fuzileiros. muito mais importante e épico do que bolsas de mortais. em nome da civilização ocidental. terra. caso o pânico acertar num lugar vital. O que foi a alma desta Renascença? Foi Florença a arte de Leonardo. a paz afinal existirá quando o mundo estiver garantido. com democracia ou progresso. tem que ter algo mais dentro de si do que esta volúpia primitiva. França. de que tratamos no Capítulo II mudou por completo as coisas. A ideologia da Guerra Fria. Este trabalho. por aqueles oligárquicos e repressivos. Falemos sem rodeios: Para nós. ou o controle financeiro de Lourenço. para os homens de negócio americanos. o Grande. uma simples paz na qual nações em boa-vizinhança deixam ao abandono umas às outras. Queremos paz. é certo. na sua melhor e mais elevada forma conhecida de cultura humana — em nome. pelos velhos diplomados estrangeiros de Fort Bragg.As portas econômicas devem ser abertas. pelo lucro a qualquer preço. O que nossa cultura ocidental mais claramente anuncia ao mundo é que coisas — povo. Não quero resmungar contra sua satisfação. porém. Inglaterra. Mas nós queremos uma certa espécie de paz. se for preciso. Todas as nações querem paz. a qual tem muito pouco a ver com deixar vizinhos a sós. natural. O olhar penetrante do homem 78 .

Os outros não querem. Tão só revela a transcendência do motivo de lucro. distribuição e mercados. O Ocidente quer um mundo que seja integrado e (no sentido de Max Weber) racionalizado em termos de estabilidade de recursos. racionalizado para dirigir sob a orientação de sua própria gente de negócios. a América quer esse mundo integrado. 79 . Portanto há uma luta Oriente-Ocidente chamada em nosso tempo Guerra Fria.ocidental percebe que o mundo gira em torno da propriedade. trabalho. produção. Na qualidade de líder do Ocidente. As questões denominadoras de nossa cultura são: De quem é isto? Para que serve isto? Quem vai lucrar com isto? A filosofia da cultura não transcende o motivo de lucro. No Oriente eles adquiriram forças de resistência.

80 .

19001 Nós americanos dirigiremos o mundo dos negócios quer o mundo goste. O mundo não pode impedi-lo — nem nós. O homem de negócios do mundo americano pode muito bem julgar-se um liberal. Porém imperialismo tem muitos métodos operacionais. Times. Holroyd. a condução violenta (ainda que indireta) da política econômica de um estado por outro estado.IV Império do Mundo Livre Mesmo os antiimperialistas aceitam com satisfação uma política Imperial que não vise outras conquistas que não as do comércio. eu espero. de Conrad. Mostra81 . quer não. Londres. fundamentalmente. 1904 Nem a América. ao poderoso. não ao humanitário (ainda que o humanismo não seja excluído) mas ao obstinado e implacável. em Nostromo. um acirrado antiimperialista um anticomunista. mais basicamente. um libertador. que ela se baseia numa premissa ética de conflito. Aplicadas à política internacional estas virtudes reclamam imperialismo. uma teoria política. e que seu sistema de virtude confere estima e privilégio. nem a tradição ocidental que a América levou à maturidade. serão corretamente entendidas enquanto não se entender que a livre empresa é.

Supõe-se. reservas de trabalho. Muito melhor do que a idéia de colônia imperial (definida por coordenadas de terra.) Esta idéia recoloca o centro do impulso imperial (banindo expressões bombásticas tais como “a carga do homem branco”) e define mais agudamente as dimensões da vitória imperial. é mais livre do que o mundo não -ocidental. O Mundo Livre é a área econômica do mundo na qual o homem de negócios americano goza a maior liberdade de manobra comercial. rios. a liberdade expressa por este “Mundo Livre” tem de ser diferente. desuniforme e continuamente em fluxo. que são a um só tempo mais praticados e mais praticáveis no Ocidente do que em qualquer outra parte.nos que não tem bandeira e armas de comércio. Assim. Inclui: Espanha e Portugal. Moçambique e África do Sul. porém profunda. a zona basicamente integrada da hegemonia americana. Paraguai e Argentina. Simplesmente acrescente a isto a observação que a América é a líder do Mundo Livre e teremos aprendido o essencial do imperialismo à Mundo Livre da América. O Mundo Livre. ao mesmo tempo. O Mundo Livre mesmo é o Império Americano. Mas também observamos que se considera este Mundo Livre como incluindo mais do que as democracias ocidentais. cadeias de montanhas. É a palavra “livre” que por certo é tão enganadora. Que estes direitos e liberdades pertencem a tradição liberal ocidental mais do que a outra qualquer. são verdades historicamente indiscutíveis. e que sua existência está intimamente ligada à existência do capitalismo ocidental. Tailândia e Formosa. etc. e não se sente em contradição quando. que deve ser aquela parte da terra em que os homens gozam de direitos e liberdades civis. Quase ao acaso a América armou um processo de eficiência contra o imperialismo colonial. o problema do nacionalismo colonial. de antemão. qualquer que seja sua conotação. e descontinuidades raciais e éticas) era a idéia do mercado livre (definido por riqueza real e em potencial. Toma as culturas em termos de seus componentes econômicos e dá menos atenção 82 . As colônias criaram uma hoste de feios e desnecessários problemas — centralmente. redes de navegação e distribuição. que sempre ameaçou culminar em motim e rebelião e portanto ameaçava a segurança dos mecanismos de controle econômico. assegura-nos que só deseja a oportunidade de negociar. pleno de situações especiais. empenha seu apoio para a manutenção e ampliação do Mundo Livre. é contudo. neste sentido. na raiz. A contribuição da América para a arte firmemente evolutiva do império ocidental é simples. Pode representar apenas liberdade de acesso do capital. O Mundo Livre.

torna-se uma fonte de materiais e um mercado a ser desenvolvido. como um específico modelo ímpar de recursos econômicos e potenciais. torna-se o lugar de uma aberta competição de livre empresa — a qual.a hábitos políticos e aspectos geográficos. cuja relação mais estratégica era com outros sistemas semelhantes. será vencida pela potência econômica líder. é claro. a China faz seda. permutam-no por seda chinesa e trazem a seda para a América. na qual a China era encarada.2 ** Thorstein Veblen: “The Engineers and the Price System” (Harbinger 1963). com frequência ao longo de uma especialização global de trabalho. 83 . Isto proveio do modelo mais autárquico empregado por volta de 1955. um terceiro refinando o aço. uma esfera econômica cujas fronteiras não mais são vistas como principalmente territoriais. primeira edição em 1921. A colônia. A idéia de nação. o imperialismo de Mundo Livre substitui pela de sistema econômico globalmente integrado. ou esfera de influência. Nosso anticolonialismo de meio século pode ter originado uma como que exigência ressentida de acesso às esferas imperiais já estabelecidas * O Comecon. a Turquia. a colônia européia à moda antiga. os comerciantes americanos monopolizam o ópio turco. Economias eram para ser organizadas horizontalmente com outras economias. pelo menos em parte. porque tinha chegado atrasada à mesa. ópio.* Da posição política local da Turquia ou China é importante somente que não obstrua o desenvolvimento ordenado do todo sistematizado. Para a idéia de conquistador objetivando fronteiras territoriais oferece como substitutivo a idéia de idealizador visando componentes econômicos entrelaçados.** A América produziu esta teoria. Na revisão pragmática e oportunista das formas de império feita pela América. Em um velho e famoso exemplo. um país produzindo os alimentos. outro explorando os minérios. não como uma entidade geopolítica unitária a ser conquistada como um todo. Um exemplo imperfeito (imperfeito porque ele finalmente chegou por si mesmo a um militarismo quase ritual) é a doutrina de pré-guerra do Japão referente à Esfera da Coprosperidade da Ásia do Leste Maior. e esta proveniência é uma das razões das dificuldades da Rumania com a URSS: a Rumania defendeu uma preferência básica pela auto-suficiência nacional contra a interdependência do bloco. mas pelo contrário. em conjunto com outras fontes e mercados. Economia transnacional substitui política nacional. é uma elaboração interessante e autorizada do tema de edificação de sistemas econômicos. a resposta da Europa do Leste ao Mercado Comum. em vez de verticalmente com seu meio cultural nacional. destinada a ser desviada. é uma tentativa de bloco para “racionalizar” uma economia internacional ao longo destas linhas. encontrando os lugares privilegiados já ocupados.

que fosse mesmo de ajuda para o hospedeiro.(em especial na China) pelas potências européias e asiáticas. de transportar formas culturais francesas para a cultura nativa a qualquer preço. os bens sem o ato aberto de saque. em 1885: “Destruímos o passado e nada o substituiu. com efeito.. Comparemo-la com a tentativa francesa de afrancesar suas colônias. anticolonial. protecionismo colonial] têm suas contrapartes nos Estados Unidos”. O governador colonial está de volta chamando-se agora embaixador e nossos Legionários Estrangeiros usam boinas verdes. tendo desastrosos resultados. Isto é. um específico para as exigências comerciais americanas. a América quis a substância sem a aparência. e que através do uso elaborado e requintado de pressão econômica e induzimento (às vezes chamado “educação”) os governos nativos podem ser persuadidos a tomar todas as decisões corretas. mais estável do que domínio estrangeiro. uma das mais tristes características do imperialismo de porta aberta. A Política de Mercado Livre afirmava a prioridade de nossa economia sobre a política deles. parecemos ter desejado um resultado diferente. wilsoniano. chegaremos à conclusão que muitos dos pecados de que livremente criticamos outros países por praticarem [i. não permanecendo ali necessidade de humilhar e enfurecer povos nativos com status colonial. por meio de uma ferroada bem colocada. uma expansão limitada ao comércio.3 84 . e. Tal a vespa que domina mas não mutila sua presa. que não se imiscuísse do ponto de vista cultural. Clayton disse: “A verdade é que. se quisermos ser honestos conosco mesmos. Tal como o primeiro governador civil da Indochina Francesa confessou. de forma alguma surpreendentes.* O imperialismo de Mundo Livre reage ao problema do nacionalismo de pequeno estado argumentando que o governo nativo de colaboração é. de Mundo Livre da América e que preferiu não ser imperialismo. o orientador político de Roosevelt. O governador colonial e a Legião Estrangeira tornaram-se simultaneamente obsoletos. para a vida do colonizado e a tranquilidade do colon. ou por um estratagema quase inacreditável. Essa era uma idéia nova. William L. * E durante a II Guerra Mundial. enquanto a América continuava a se esforçar para obter acesso às colônias da Europa. um consultor americano teria salientado que aqueles preços eram atingíveis sem o esforço mal orientado de transformar Hanói numa espécie de Paris.”4 O que a França conseguiu em troca do seu transtorno foi uma grande quantidade de borracha a um preço muito bom e uma mancheia de soberbos eruditos asiáticos. Levado de volta àquele tempo. Seu anticomunismo selvagem é uma espécie de evidência de que falhou. Mas quer seja por ingenuidade. de livre-mercado. justificando isto com a mesma retórica à livre mercado.

Porém, pouco valendo suas afetações de não intervenção cultural e política, o imperialismo americano de Mundo Livre foi tão completamente pernicioso e tão plenamente predatório. A vida econômica de uma cultura não pode ser mudada sem consequências para cada um dos outros aspectos de cultura. O dinheiro se propaga. Sistemas econômicos ocidentais precisam de infra-estruturas econômicas ocidentalizadas, de um aparelho legal ocidentalizado, e fundamentalmente de uma tendência política ocidental. Impacto comercial é impacto total. É este mesmo impacto do Ocidente sobre o Oriente, tão frequentemente uma mescla de culturas elaboradas e requintadas, mas antidinâmicas, que os explicadores do imperialismo do mundo livre apresentam como um fenômeno em si saudável. Explicam e tornam a explicar ao bom povo americano, de quem aparentemente suspeitam como guardando uma antipatia residual em relação à injustiça, que tais fissuras sociais, se de um lado podem provocar a agonia de países “em desenvolvimento” são para-produtos inteiramente naturais da “revolução de modernização” (ou “de esperanças em ascensão” ), que é descrita como basicamente independente de causas externas: um processo histórico que se desenrola por si mesmo, quando povos adormecidos despertam. Dificilmente poderia ser mais claro que esta “modernização” é tão só um nome polido para o rude e chocante impacto das culturas tecnológicas sobre as não tecnológicas. Porém teorias oficiais fazem variações deturpadoras em torno da responsabilidade americana em relação aos deslocamentos induzidos pela expansão americana, e a idéia de que a traumatização quase ubíqua do Terceiro Mundo possa ter algo a ver com um específico lucro em dinheiro contado é mesmo muito raramente abordado. Representativas deste ponto de vista, as passagens seguintes são do famoso discurso de Walt Whitman Rostow à classe dos Graduandos de 1961 da Escola de Guerra Especial Fort Bragg [Fort Bragg Special Warfare School], do Exército (Rostow é o principal conselheiro de política exterior do Presidente Johnson e, provavelmente, o mais destacado teórico da Guerra Fria da América):
O que está acontecendo por toda a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia é isto: Velhas sociedades estão mudando seus rumos a fim de criar e manter uma personalidade nacional na cena mundial e trazer para seus povos os benefícios que a moderna tecnologia pode oferecer. Este processo é certamente revolucionário... Como todas as revoluções, a revolução de modernização é per85

turbadora... Homens e mulheres nas aldeias e cidades, sentindo que os velhos modos de vida estão abalados, e que novas possibilidades estão abertas para eles, expressam velhos ressentimentos e novas esperanças... Esta é a grande arena de mudança revolucionária que os comunistas estão explorando com tão grande energia... Nós, americanos, estamos confiantes de que, se a independência deste processo puder ser mantida através dos anos e décadas vindouras, estas sociedades escolherão sua própria versão do que podemos reconhecer como uma sociedade democrática e aberta... Portanto, nossa tarefa central nas áreas subdesenvolvidas... é proteger a independência do processo revolucionário agora em curso... A difusão do poder é base para a liberdade dentro de nossa própria sociedade, e não temos razão para temê-la na cena mundial. Porém esta consequência seria uma derrota para o comunismo... [Os comunistas] estão destinados no fim, pela natureza de seu sistema, a violar a independência das nações... Nós estamos lutando para manter um ambiente na cena mundial que permita à nossa sociedade aberta sobreviver e florescer.5

Os elementos-chave da visão principal e profunda de Rostow são os seguintes: 1. Recusa tácita da responsabilidade ocidental por essa “turbulência”, que é causada primariamente pela intromissão ocidental — comercial, ideológica, militar — no Leste e Sul. 2. A pretensão de que o propósito da América é a criação de sociedades livres, independentes e (o que não é tão óbvio) tecnológicas. 3. Repúdio à possibilidade de que “comunismo” (o qual para Rostow, provavelmente vale para qualquer violência política oposicionista) possa também ser um nacionalismo. Isto é, a linguagem de Rostow nos põe frente àquela velha imagem familiar do comunista como um homem sem uma pátria, alguém que sempre aparece de algum outro lugar, e cuja lealdade sempre está alhures. (Comunistas, diz, são “carniceiros” e comunismo é uma “moléstia de transição”.) O que uma tal descrição tem a seu favor é a teoria de alguns ideólogos bolchevistas, principalmente trotskistas, de que a revolução proletária seria internacional (a classe acima da bandeira) e que teria de resultar na decomposição da nação-estado, uma instituição burguesa. O que ela tem contra é cerca de duzentos anos de
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história. Tendo por trás de nós as revoluções americana, francesa, russa, chinesa e cubana, resolvidas de maneira tão vária, somos obrigados a concluir que revoluções populares, quaisquer que tenham sido sua fuzilaria e retórica de inauguração, são sem exceção nacionalistas. O único grupo genuinamente internacional (melhor, transnacional) no mundo moderno é o que Marx chamou a classe dominante; Veblen, os capitães das finanças; Mili, a elite do poder; e os órgãos de nossa cultura popular, o “jet set” [grupo que lança as decisões] . Rostow não dá atenção a nada disto. É um trotskista às avessas.* 4. A declaração virtualmente explícita de que a América deve ser o único juiz da permissibilidade de mudança social em toda a parte, de que a América se autoconfere (como líder do Mundo Livre) todos os direitos de intervenção prioritária no processo de mudança, e de que a América exige emergência básica de sociedades “independentes e modernas”. Tanto a prática como a ideologia americanas levam-nos a assumir que isto significa economias de porta aberta. Portanto, a América pede, e só tolerará, “revoluções” tais que ampliem o império do Mundo Livre. 5. Insistência (um tema tradicional) de que o aparecimento final de sociedades de porta aberta é indispensável a sobrevivência da América. A arrogância à Santo Império Romano desta vontade se mostra ainda mais sufocante quando refletimos sobre a aflitiva inabilidade desta América juiz, júri e carrasco em resolver seus próprios problemas in* Em seu Prospectes for Communist China (M.I.T. Press, Cambridge, 1954, págs. 27-28), Rostow enfrenta o problema: Por que os comunistas chineses preferiram a coalizão militar com as forças nacionalistas de Chiang contra os invasores japoneses? Por que não preferiram continuar a guerra civil? De esforço em esforço, num desempenho intelectual que me impressiona por ser tão bizarro como brilhante, Rostow põe a descoberto uma imensa dissimulação vermelha: eles queriam a coalizão porque a Rússia queria o Japão detido, porque queriam que Chiang se esgotasse contra os japoneses, porque queriam parecer patriotas para o povo, porque a coalizão oferecia canais de propaganda, porque isto lhes permitiria estender sua adiministração civil. Para Rostow, não é nem mesmo uma possibilidade a ser apontada e refutada, que os vermelhos pudessem também ser gente chinesa que se preocupava com a China, e que por razões patrióticas usuais queriam bater os invasores usando tudo que a China pudesse juntar. Para êle, o comunista é um marciano político. Rostow é meu Guerreiro da Guerra Fria favorito.
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ternos. Racismo americano cada vez se tornando pior, pobreza, Grande Irmandade, e oligarquismo militarista dão ao mundo o direito de se pasmar conosco. Como pode uma América que não é capaz de desenvolver o leste do Kentucky ou pacificar o Harlem, desenvolver a Índia e pacificar o Vietnã? Porém devemos analisar a questão mais a fundo. A tese rostowiana pode ser dissecada em duas grandes proposições; a saber, o que ele chama nossa “proteção da independência da modernização revolucionária” e o que eu chamo nosso imperialismo de Mundo Livre. 1. desenvolve o subdesenvolvido; e 2. promove sua liberdade, significando a) que seus governos são independentes, e b) que seus povos gozam de direitos e liberdades civis básicas. Estas são pretensões concretas e podem ser concretamente examinadas. O que se segue é primeiro, um esboço estatístico e detalhado da corporação americana, cujo impacto, por bem ou por mal, está sendo sentido pelos países subdesenvolvidos; a seguir, olhando para alguns dos considerados como pertencendo ao domínio dos resgatados e protegidos, devemos perguntar: Suas economias estão se desenvolvendo? São seus governos independentes de outros governos? A liberdade de seu povo aumenta, e seu crescimento está sendo estimulado? A super corporação americana não mais é definida principalmente por seu produto. Ela combina em si as funções básicas que antes distinguiam finanças e indústria como esferas separadas. Congrega e coordena os atos econômicos de acumulação e dispersão de capital (atividade bancária), inovação tecnológica (“inventores”), produção (construção de maquinismos e direção), distribuição (função de intermediário), e orientação de demanda (o mercado livre). Por persuasão e manobra, conquistou a cooperação das burocracias trabalhistas, cuja responsabilidade incorporada é garantir a estabilidade da força de trabalho da nação. Entre direção e trabalho organizado não há questões fundamentalmente divisórias de valores ou objetivos; são membros desiguais da mesma entidade incorporada. Com o apoio ativo ou passivo do trabalho e do governo, a direção coordena centralmente todas as operações na corrente do produto da
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fonte-para-o-consumidor, sendo a integração vertical, crucial para a eficiência. A tomada-de-decisões é científica e centralizada. A imensidade e o poder da super corporação podem ser sugeridos pela seguinte passagem de In Few Hands [“Em poucas mãos”] (Penguin, 1965), relatório publicado postumamente, das investigações antitruste de Estes Kefauver no comitê do Senado:
Em 1962 as 20 maiores corporações manufatureiras tinham sozinhas 73.8 bilhões de dólares em fundos, ou cerca de um quarto do total de fundos das companhias manufatureiras dos Estados Unidos. Em troca, as 50 maiores companhias detinham 36 por cento; as 100 maiores, 46 por cento; as 200 maiores, 56 por cento; e as 1000 maiores, perto de 75 por cento.

Engrenadas direta ou indiretamente com os principais centros financeiros e industriais da Europa, inspiraram o Presidente da Corporação para Desenvolvimento e Recursos, David E. Lilienthal (diretor da TVA para Roosevelt, diretor da AEC para Truman) a cunhar o termo agora padrão de “corporação multinacional”.6 Junto com os grandes bancos igualmente globalizados, com os quais estão encadeadas, as corporações multinacionais são as fontes principais do capital de investimento de ultramar americano. O valor do investimento direto dos EE.UU. no exterior, menos de 25 bilhões de dólares em 1955, era cerca de 50 bilhões de dólares uma década mais tarde e aumentando numa taxa de cerca de 10 milhões de dólares por dia.7 O total dos investimentos externos dos EE.UU, diretos e “portfolio”* era de cerca de 135 bilhões de dólares em 1965, dos quais mais de 30 por cento, era petróleo.8 Do total de 50 bilhões de dólares de investimento externo, 60 por cento é investido no Canadá e Europa; dos 40 por cento investidos nos países subdesenvolvidos, metade o é na América Latina.9 A corporação multinacional não exporta meramente seus produtos e dinheiro; ela se transplanta. Em 1965, cerca de 2 000 firmas americanas estavam fazendo negócios no exterior, e de suas vendas externas líquidas montando a 110 bilhões de dólares, só um quinto desse total vinha da venda de mercadorias e produtos enviados dos Estados Unidos. Exemplos extremos de transplante ocorrem na indústria automobilística. Em 1965,
* O investimento direto dá ao investidor direito de opinar, às vezes controlar, na direção da empresa. Os investimentos “portfolio” usualmente não. 89

Destes.10 A Europa está apreensiva. produzem 90 por cento de sua borracha sintética. só um terço das da GM. opera a Agência pelo Desenvolvimento [Internacional Agency for International Development] que Forbes chama “a principal agência por meio da qual o governo dos Estados Unidos financia negócios no exterior.. antigo delegado diretor da Administração de Cooperação Internacional dos Estados Unidos [United States International Cooperation Administration]. Fiat. “Uma boa 90 . em 1975. Com bases em recentes experiências. mas Richard J. Fitzgerald. O poder econômico americano.. mas complementar. especialmente de aço e carros. 300 corporações. O governo dos EE. o poder dinâmico de seus grandes negócios e a forma de seus investimentos na Europa. 30 por cento e a Ford. controlarão mais de 75 por cento de todos os fundos industriais. 85 por cento são gastos nos Estados Unidos com produtos americanos e matérias-primas. Firmas dos EE. distribuem 65 por cento de seu petróleo e manufaturam 65 por cento de sua maquinaria agrícola. corporações de negócio americanas e outras..UU. oferece uma conjetura de especialista: “Por meio do funcionamento multinacional. As vendas conjuntas da Volkswagen.14 A expansão ultramarina da América das corporações tem o apoio do governo americano. Barber. em bases tanto nacionais como continentais. da AID veja-se esta declaração de D. Daimler-Benz.. A direção do crescimento do controle incorporado americano não é mais fácil de predizer do que a de seu processo interno. a Chrysler. evitaram efetivamente o alcance das leis antitruste de qualquer país tomado em separado. conselheiro especial para os Subcomitês do Senado sobre Antitruste e Monopólio. British Motors e Renault são só dois terços das vendas da Ford.. coopera de várias diferentes maneiras. o gover* Para um enfoque diferente.. controlam quase toda a indústria eletrônica da França.a General Motors construiu 20 por cento de seus carros fora dos Estados Unidos. Uma.”13 Representantes do governo alemão e indústria reagem incentivando a fusão de firmas européias. 40 por cento.15* Por outro lado.”12 Com ele faz eco Gaston Deferre: “A invasão econômica por parte dos Estados Unidos é um perigo claro e presente.UU.11 Louis Armand disse: “A menos que a Europa reaja. e se organize. se não do francês. A. são o início da colonização de nossa economia. no qual produzem ou vendem suas mercadorias. estamos nos condenando à colonização industrial. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano.

compra seu material parte da crítica sobre ajuda externa é devido o crítico pensar que o objetivo era alcançar crescimento econômico e este não era o objetivo de modo algum. usinas de força — que o capital privado acha que não tem recursos para construir.18 Esta corporação expansionista pode. ou qualquer de várias outras razões’’. O objetivo pode ter sido comprar um arrendamento. de maneira mais importante. com base no país natal. De modo algum é fácil determinar a rentabilidade absoluta de nossas operações ultramarinas. guerra e revolução. o Banco de Exportação e Importação [Export-Import Bank]. contra perdas causadas por inconversibilidade de dinheiro. analisaremos isto brevemente. David Rockfeller. seja por financiamento direto de certas especulações ou. docas. Um exemplo simples e básico.no dos Estados Unidos ajuda a capitalizar e dirigir instituições financeiras do Mundo Livre. Mas não há dúvida de que esta expansão é altamente lucrativa para as próprias corporações. Presidente do Chase Manhattan Bank.16 A AID também usa o dinheiro público para assegurar as operações ultramarinas das companhias americanas. a Corporação Internacional de Finanças [International Finance Corporation].17 91 . Podem ser apresentados números para apoiar esta assertiva. a AID procedeu a seu maior plano de ação particular. estimular o crescimento da prosperidade material e o avanço dos valores democráticos nos países hospedeiros. sido moderadamente bem sucedidos [dá-lhes cerca de 13 por cento]. mas dificilmente podem ser chamados de “exploradores”. pelo financiamento do desenvolvimento daquelas infra -estruturas — estradas. felizmente. 179 bilhões de dólares para garantir a expansão da International Telephone Telegraph. ferrovias.UU. ou impedir alguns países de dar direitos às bases aéreas russas. ou não.. expropriação. ou impedir uma nação de se afastar. Uma razão disto é que uma variedade de técnicas de contabilidade dissimulantes estão à disposição do escrivão imperial. ou conseguir um voto favorável na ONU. imagine-se uma corporação na qual a unidade de produção. do Chile. o Banco de Desenvolvimento Interamericano [Inter-American Development Bank]. na América Latina não são usualmente grandes: “Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina têm. tais como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento [Internacional Bank for Reconstruction and Development] (o Banco Mundial). não pode dispensar e merece ter.19 Não é uma dissimulação por completo aérea. Pelo fim do ano de 1965. o Fundo de Desenvolvimento Ultramarino [Overseas Development Bank]. insiste em que os lucros dos EE.. e a Associação do Desenvolvimento Internacional [International Development Association] todas as quais (mas principalmente o Banco Mundial e o Ex-Im Bank) existem para servir ao interesse internacional da corporação multinacional dominada pelos americanos.

de unidades extrativas, com base no exterior. A direção da corporação pode orientar a última para manter seus preços baixos, uma vez que lucros baixos contabilizados resultarão em vantagens nos impostos locais, e, em qualquer caso serão compensados no fim da produção. Porém ainda é possível obter uma boa idéia geral do imenso valor do lucro das aventuras exteriores de nossas corporações. “De indústria após indústria”, disse o Business Week em 1963, “as companhias dos Estados Unidos achavam que seus ganhos ultramarinos eram elavadíssimos, e que seus dividendos em investimentos fora eram frequentemente muito mais altos do que nos Estados Unidos. Quando os ganhos no exterior começaram a se elevar, as margens de lucro para operações domésticas começaram a reduzir... Esta é a combinação que forçou o desenvolvimento da campanha multinacional.”20 Os dados do Departamento de Comércio mostram que no período 1950-61 havia um fluxo de investimento externo direto americano de 13,7 bilhões de dólares. No mesmo período os rendimentos que retornaram eram de 23,2 bilhões de dólares, um lucro de 9,5 bilhões de dólares.21 Um levantamento feito pelo First National City Bank concluiu que os “dividendos remetidos [i.e., lucros repatriados] do investimento privado no exterior são atualmente o mais rendoso artigo de nossa receita internacional fora a exportação de mercadorias.”22 Um levantamento britânico, em 1961, mostrou que as companhias americanas fazendo negócios na Inglaterra obtiveram um lucro de 17 por cento em seus investimentos, duas vezes mais alto do que o lucro médio nos Estados Unidos.23 Para rentabilidade o mundo subdesenvolvido é pelo menos igual à Europa, provavelmente superior. A Standard Oil of New Jersey declara um lucro de 17,6 por cento em seu investimento na América Latina e um lucro de 15 por cento nos investimentos do Hemisfério Leste, para 1962, comparados com um lucro de 7,4 por cento nos domésticos.24 Os dados do Departamento de Comércio mostram os americanos empregando 516 milhões de dólares na Europa (novos investimentos e ganhos não devolvidos) em 1956, e trazendo para casa 280 milhões de dólares. Por volta de 1961, a razão entre lucros e investimentos, quase de 2 para 1, ficou em 3 para 1: 1,5 bilhões de dólares em novos investimentos, 525 milhões de dólares em ganhos trazidos de volta. Compare-se os dados para a América Latina, lembrando que aqui as cifras são na realidade a riqueza e o trabalho verdadeiros do povo da América Latina, e não apenas alguns números num livro: Em 1956, investimos 500 milhões de dólares, e trouxemos de volta um lucro de mais de 50 por cento, 770 milhões de dólares; para a
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América Latina uma perda líquida de 220 milhões de dólares.25 Esta estatística fria e silenciosa de lucro e perda é uma declaração sobre a felicidade de alguém e o sofrimento de outrem, as espécies desiguais de vida de homens e mulheres. Precisa ser trabalhada, mineirada, posta a claro. Tendo já uma idéia geral do que a corporação americana multinacional está fazendo para si mesma, iremos agora examinar as condições de seus hospedeiros. A expansão global do estado comercial americano desenvolve o subdesenvolvido? Democratiza a vida pública do homem? Faz com que as nações, nas palavras de Rostow, “fiquem firmes de pé” e sejam “fortes, positivas e independentes”? Alguns casos: O Brasil figura em primeiro lugar entre os recebedores de ajuda militar dos Estados Unidos (206 milhões de dólares durante 1963), em terceiro na assistência econômica dos Estados Unidos (172,6 milhões de dólares, mais 1,4 bilhões de dólares nos empréstimos do Banco Mundial e Ex-Im Bank) e só fica atrás da Venezuela nos investimentos diretos dos Estados Unidos (mais de 1 bilhão de dólares).26 É o maior, mais populoso e potencialmente o mais rico de todos os países sul-americanos; sob qualquer interpretação a longo termo, a chave do desenvolvimento econômico e político do continente. Isto faz juz a um estudo mais demorado. A revolução do Brasil tem estado pulsando intermitentemente desde 1930, quando Getúlio D. Vargas, do Partido Trabalhista, chegou ao poder, primeiro como presidente provisório (1930-33), depois como presidente eleito (1933) .27 Atacado uma vez pela esquerda e três vezes pela direita, foi finalmente deposto em 1945 por uma junta militar direitista, que se chamou a si mesma democrática e revolucionária, anulou suas medidas reformistas moderadas, e trouxe salários em depressão, alto desemprego, inflação crescente — mais corporações dos Estados Unidos. As eleições de 1950 devolveram Vargas ao poder, convencido mais do que nunca da necessidade de direção nacional dos recursos nacionais e do domínio brasileiro do Brasil. Criou a Petrobrás (petróleo nacional) e a Electrobrás (força), e em agosto de 1954, desesperado da luta contra o que sua carta chamou “o saque de grupos financeiros e econômicos internacionais”, ele se suicidou. Após um ano de ditadura de rotina sob Café Filho (mais decadência social, mais dinheiro estrangeiro), veio a presidência de Juscelino Kubitschek, que fundou a capital interiorana de Brasília, um ato de visionário, mas que não pôde resistir à ulterior penetração da economia do Brasil pelos fortes interesses do Norte. Foi seguido, em 1961, por Jânio Qua93

dros, vencedor pela mais ampla margem de votos jamais recebida por um presidente brasileiro. Quadros era um conservador autoritário. Dominou levantes de fome no sofredor e rico nordeste por meio do Quarto Exército e agitações estudantis com a polícia. Mas ele era também um nacionalista. Ele viu um Brasil que liderava o mundo em exportação de café, que tinha mais terra arável do que toda a Europa, 15 por cento das florestas mundiais, 35 por cento de seus depósitos de ferro, e um de seus potenciais hidrelétricos mais altos. Que um tal país fosse pobre era uma desgraça. Que ele devesse permanecer pobre era um crime. Quadros dis -pôs-se a mudar o Brasil. “Por que podem os Estados Unidos comerciar com a Rússia e seus satélites”, disse, “mas insistem que o Brasil comercie só com os Estados Unidos?”28 Reatou relações com a União Soviética, fez acordos comerciais com países comunistas, e tratou Castro como sendo aquele revolucionário nacionalista cuja motivação era tão fácil de apreender do ponto estratégico das favelas do Rio. Os barões da ala direitista, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda eram vistos a lançar escuros olhares de intimidade para o Norte. Em agosto de 1961, Quadros foi longe demais: uma demonstração de independência em Punta Del Este, na fundação da Aliança para o Progresso; a Cruzeiro do Sul para “Che” Guevara; o vice-presidente João Goulart em Pequim, numa missão comercial; pior de tudo, um novo projeto sobre impostos destinado a fortalecer o orçamento federal, estimular o investimento no Nordeste, e a reter, para uso do Brasil, uma porção maior dos lucros remetidos para fora do país. Por uns dias o exército manteve a “renúncia” de Quadros em suas mãos. Mas os planos Barros-Lacerda, de um governo de junta à moda antiga, sofreram a resistência do povo, que exigiu que a sucessão legal fosse mantida e que Goulart subisse à presidência. Alguns argumentam agora que, naquele momento, o milionário liberal Goulart devia ter quebrado o domínio dos plutocratas uma vez por todas. O exército estava dividido e o povo o apoiava, camponeses e trabalhadores, estudantes e classe média, esquerdistas e nacionalistas, juntos na resistência constitucionalista chamada a Legalidade. Porém Goulart era indeciso. Ele escolheu negociar com os direitistas e aceitou sua exigência de uma função presidencial enfraquecida. Após um ano e meio de estagnação, um plebiscito restaurou o poder presidencial pleno por voto de 6 a 1. Goulart, contudo, ignorou o mandato. Seus discursos cintilavam com a promessa de mudança social, mas nenhuma de suas propostas de reforma alcançou o Congresso. O Banco do Brasil continuou a imprimir o dinheiro aguado com o qual os
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monopólios financiavam a própria ineficiência; a dispendiosa manutenção do preço do café nunca foi tocada. O General Peri Bevilacqua usou tropas para dissolver demonstrações populares que não pediam nada mais do que o cumprimento do próprio programa de Goulart; Bevilacqua foi feito chefe do Estado-Maior. Mais concessões foram outorgadas a firmas americanas de petróleo e minerais. Havendo se aproximado do dólar, 600 para 1 no tempo do plebiscito, o cruzeiro caiu a 1 700 para 1. Exasperados, progressistas e nacionalistas, começaram a pressionar mais forte pedindo ação, e talvez Goulart estivesse por fim começando a responder. Subitamente ei-lo desafiando a América na questão de Cuba, de desarmamento e comércio. Falou de sufrágio para analfabetos (metade do povo) e existência legal para o amolecido e conservador Partido Comunista. Revelou suas tendências socialistas pela expropriação de algumas empresas de petróleo (brasileiras, não americanas) . Em 17 de janeiro de 1964, ele cometeu de novo o mais criminoso dos crimes, ao atacar os lucros americanos. “Os novos regulamentos”, escreveu, do Rio, Juan de Onis, “limitam a remessa legal de lucros para o exterior a 10 por cento ao ano, sobre o investimento externo real de uma companhia, em equipamentos e capital.” “Encaradas como hostis ao capital estrangeiro”, as novas leis de restrição de lucros eram uma resposta “às exigências nacionalistas de controles mais efetivos dos investidores estrangeiros.” (NYT, 18 de janeiro de 1964.) Isto finalmente engatilhou a resposta de um grupo conspirador paulista, o qual Philip Siekman do Fortune (“Quando Executivos se tornam Revolucionários”, setembro de 1964) diz que estava em crescimento desde a metade da década de cinqüenta. Conhecidos quer como os Paulistas (de sua cidade) quer como os Mesquitas (de seu líder Júlio de Mesquita Filho, proprietário de um jornal conservador de São Paulo, O Estado de São Paulo), o grupo era constituído por importantes homens de negócios de São Paulo, como Paulo Ayres Filho (fundador e a certo tempo cabeça do Banco do Brasil), Flávio Galvão, Luís Werneck e João Adelino Prado Neto (editor do jornal de Mesquita) . Em 1964 o grupo conquistara o apoio de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e comandante daquela milícia estadual de quarenta mil homens; Carlos Lacerda, governador da Guanabara; e a Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial ), que lhe deu acesso a importantes membros da elite militar. Bem no início de 1964, escreve Siekman — talvez esporeados pelo vigor reformista de último momento de Goulart — o grupo Mesquita enviou um emissário para perguntar ao Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon qual seria
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a posição dos Estados Unidos caso estalasse a guerra civil. O emissário relatou de volta que Gordon fora cauteloso e diplomático, mas deixara a impressão de que se os Paulistas se aguentassem por quarenta e oito horas obteriam o reconhecimento e a ajuda dos EE.UU.29 Acontecimento se seguia a acontecimento. A 14 de março a direita brasileira põe-se a planejar processos de “impeachement” contra Goulart (NYT, 16 de março de 1964) . A 15 de março Goulart lança apelo por novos dispositivos constitucionais para “libertar as energias esmagadas pela estreiteza de uma estrutura econômica ultrapassada, que serve somente aos interesses de grupos privilegiados”, (NYT, 16 de março de 1964) . No mesmo dia, os delegados latinos à conferência de terceiro aniversário da Aliança para o Progresso, reuniam-se em Washington. No ar estavam a disputa panamenha ainda não solucionada, a viagem triunfante de De Gaulle ao México, os rumores de desassossego na Colômbia, novos êxitos eleitorais esquerdistas no Chile, o maior comércio de grão da China com a Argentina prestes a ser anunciado, e acima de tudo o que Tad Szulc chamou “o estado pré-revolucionário” do Brasil (NYT, 15 de março de 1964) — tumultos pró-Goulart em Brasília, demonstrações anti-Goulart em São Paulo e a promessa do candidato à presidência, Kubitschek, de fazer a Aliança “murchar como uma flor” (NYT, 19 de março de 1964). A 16 de março, o Presidente Johnson dirigiu-se aos delegados da Aliança: “Mas eu hoje asseguro que a força total dos Estados Unidos está pronta para atender qualquer país cuja liberdade esteja ameaçada por força dirigida de além-praias deste [sic!] continente. “A 18 de março, o Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Interamericanos, Thomas C. Mann, conferenciou privadamente com os diplomatas latino-americanos nos EE.UU., e o artigo de primeira página de Tad Szulc, no Times do dia seguinte, tinha como manchete: “Os Estados Unidos Deverão Abandonar os Esforços para Dissuadir Ditadores Latinos”. Szulc escreveu: “As opiniões de Mr. Mann foram consideradas como representando uma modificação radical da orientação política da administração Kennedy” (NYT, 19 de março de 1964) . A 19 de março o porta-voz do Departamento de Estado, Richard I. Phillips, veio a público negar uma mudança política mas parecia de fato confirmá-la. Aludindo à Doutrina Estrado (reconhecimento diplomático baseado no controle, não na política), Phillips expôs que “a política dos Estados Unidos em relação a governos inconstitucionais será, como no passado, guiada pelo interesse nacional e pelas circunstâncias peculiares a cada situação em que surge.” (NYT, 20 de março de 1964.) Parece que toda a América Latina compreendeu de imediato o que
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além dos já programados fundos da Aliança para o Progresso. os Estados Unidos tinham dramatizado seu entusiasmo pelo novo regime através de um empréstimo de 400 milhões de dólares. Enquanto escrevemos isto. etc. hoje no exílio) conclamou o povo para se preparar para uma nova Legalidade. Por novembro de 1964. nacionalizações. a 10 de abril. e Carlos Lacerda. Talvez a elite eclesiástica tenha sido realmente convertida ao Cristianismo e talvez tenham salvo Lacerda. os generais pedem fascismo. Neste jogo. e Castelo Branco age para fazer essencialmente o que os da linha-dura queriam em primeiro lugar. Leonel Brizola (então um admirador de JFK. democracia. banindo * Castelo Branco leva a efeito um jogo intrigante com os generais da assim chamada linha-dura. A 27 de outubro de 1965. toma uma avançada posição antigovêrno.escutara. o Presidente Johnson telegrafa “os mais calorosos bons votos da América” para o novo governo.30** Castelo Branco foi rápido em revelar sua compreensão e gratidão. 97 . Quatro meses mais tarde uma nova lei tornou possível a demorada prisão de indivíduos sem declaração do crime ou formação de culpa. Castelo Branco responde que eles estão indo longe demais. todo mundo fica impressionado com a posição corajosa de Castelo Branco. Mas talvez a fuga oligárquica só acrescente uma nova variação.* À 22 de julho o Congresso votou a prorrogação do termo do mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967. Não há no momento razão para acreditar que a “eleição” do linha-dura General Costa e Silva não se processe segundo o plano. e duas semanas após a fala de Johnson. o povo brasileiro está mostrando uma resistência sólida e surpreendente. Menos do que vinte e quatro horas depois as notícias do golpe alcançaram Washington. Os comunistas brasileiros saíram para a cidade do México. ) ** A propósito. que em breve seria consolidado em torno do General Humberto Castelo Branco (eleito presidente a 11 de abril de 1964) e proclamaria seu amor pela democracia e revolução. manifesta-se por reforma agrária. o idealista governador do Rio Grande do Sul. (Enquanto era escrito o precedente êle foi nomeado para um mandato de quatro anos. talvez orquestre a si mesma com novos instrumentos de sopro. 400 milhões de dólares podem ser reduzidos a 40 milhões de dólares e então anunciados com um arrogante bilhão. numa vaga acusação de subversão. e dentro desta turbulência outras surpresas se revelam: a hierarquia católica. o governo anunciou um novo projeto de impostos destinado a financiar um aumento de 35 por cento nos salários militares. antigamente reacionária. o Ato Institucional n0 2 foi promulgado. Durante o mesmo período. os ativistas estudantis começam a gozar mais e mais do apoio popular. A 25 de novembro de 1964 o governo aprisionou uma centena de antigos auxiliares do governador de Goiás. e antes mesmo de já ser sabido que Goulart deixara a capital. entre todos. Goulart foi quase ritualisticamente afastado do governo pela maquinação Barros-Lacerda-Mesquita.

. é atribuído ao Ministro da Justiça. A 27 de janeiro de 1966 todos os portos foram declarados zonas de segurança nacional. “Digam o que quiserem”. 98 .. mas uma transcrição literal foi feita e contrabandeada. desde que feito por gente que teve seus direitos políticos suspensos? * Esta citação e o material que se segue são da edição em língua inglesa de Revolution.todos os treze partidos políticos existentes e criando dois novos. se não secreto. tal como referir-se a ele como uma ditadura.”* Quatro meses antes. O último ponto provocou a seguinte conversação: Danton Jobim (de Ultima Hora): Vossa Excelência quer dizer que não podemos publicar nenhum pronunciamento. A verificação do diálogo de Magalhães é impossível. d) a publicação de artigos escritos por jornalistas que tenham perdido seus direitos políticos.31 Pela mesma época as tentativas do governo para sanear a faculdade da Universidade de Brasília provocam protestos dos estudantes da faculdade. um encontro no Rio com um seleto grupo de editores e publicistas brasileiros. por qualquer meio. Revolução. Castelo Branco defendeu seu governo contra a acusação de que era ditatorial. para explicar as cláusulas do ato e “decretos complementares”. para ser mais tarde impressa no movimento subterrâneo cristão brasileiro. b) nenhuma ameaça ou provocação ao governo revolucionário.. e. declarou. no dia após a decretação do Segundo Ato Institucional. Juraci Magalhães. um para servir como “oposição leal”. certamente.. ou a publicação de notícias que incitem o povo a se opor ao governo.. Seguem-se trechos da transcrição.. o que tornou automaticamente todas as greves e manifestações nas docas crimes militares. Magalhães informou a imprensa de que o governo não mais permitiria: a) a publicação de entrevistas com aqueles que tivessem tido seus mandatos cassados ou seus direitos políticos anulados. c) ajuda à subversão. não podem negar o fato de que aqui no Brasil nós temos em pleno funcionamento as duas maiores e mais básicas expressões de uma democracia verdadeira: o Congresso Nacional e a liberdade de imprensa.32 Um mês após isso. falando em Belo Horizonte.. pela razão óbvia de que aqueles que supostamente tomaram parte nele condenariam a si mesmos admitindo que êle aconteceu. demissões em massa e finalmente o virtual fechamento dela.. o jornal (mimeo) do movimento subterrâneo cristão brasileiro. “os adversários da revolução. O encontro foi privado. para não ser divulgado.

É simplesmente isso. não tomaremos conhecimento disso. Mesma Pessoa: Não me interprete mal. e nos ateremos estritamente a ele. É óbvio que se ele escreve um artigo não assinado. Você é um velho amigo meu. Magalhães: E se a fizer de novo será punido. Marinho: Mesmo se o artigo não for assinado? Magalhães: Não. E a respeito de desenvolver o subdesenvolvido? No decurso do ano. E protestarei veementemente se você tentar me fazer despedir alguns dos jornalistas que trabalham para mim e que perderam seus direitos políticos.Magalhães: Isto é exatamente o que eu disse. Nós temos um critério para decidir o que constitui provocação. Ambos são responsáveis. Se a fizer de novo será punido de acordo com a lei. De qualquer maneira. A lei considera que estes jornalistas que perderam seus direitos políticos não podem usar a imprensa para provocar ou ameaçar o governo ou difundir subversão. mas será punido se desobedecer. a maioria destes porta-vozes é bem conhecida de todos vós. Está claro? Jobim: Muito claro. mas de previnir a subversão. A Consultec. Você e o jornalista serão punidos. Estou só fazendo uma pergunta. O governo não tem a intenção de restringir vossa liberdade. Tudo isso para o fomento da democracia de Mundo Livre de Rostow. Roberto Marinho (Globo): eu não concordo que um jornalista que tenha perdido seus direitos políticos deva ser punido. Uma Pessoa Não Identificada: Gostaria de aproveitar a ocasião para fazer algumas perguntas. Magalhães: A lei será cumprida. o governo Mann-Gordon-Castelo tinha elaborado uma série de decretos interrompendo a construção de novas usinas de aço e autorizando Castelo Branco a vender um interesse majoritário em qualquer indústria nacional. João Dantas (Diário de Notícias): Como espera que saibamos se alguém é o porta-voz de alguém que perdeu seus direitos políticos? Como pensa que nos defenderemos contra isso? Magalhães: Serão capazes de sabê-lo pela leitura do material que o porta-voz lhes entrega. a assessoria técnica do gover99 . Marinho: Oh! Está bem. Eu assumo a responsabilidade — a inteira responsabilidade por tudo que é publicado em meu jornal. Nascimento Brito (Jornal do Brasil): Como podemos saber se estamos ameaçando o governo? Quer isto dizer que não podemos comentar os atos do governo? Magalhães: Não. Há uma nova lista de pessoas que perderão seus direitos políticos? Magalhães: Este é um bom exemplo do tipo de perguntas que consideramos provocadoras.

voltaram a seus donos particulares.000 toneladas de minério de ferro por ano através do Rio e proclamando que não estava fazendo dinheiro. O golpe de abril de 1964 mudou o quadro. Grã-Bretanha. França. de Cleveland. St.no. Os grandes pistolões da Hanna eram seu presidente. Kubitschek e Passos foram. 16 de junho de 1966) . situados principalmente no estado de Minas Gerais. e daquele tempo em diante cultivara um interesse epicurista nos imensos depósitos de ferro do Brasil. irredutíveis e a tentada recuperação da Hanna afundou-se nas cortes do Brasil. (como seu pai. Alema100 . o novo ministro das Finanças. a Hanna estava exportando por via marítima 400. A Hanna lançou mão de influências. algumas milhas ao sul do Rio. e o Banco Mun* O Presidente Goulart havia informado abruptamente aos credores externos do Brasil. filho do falecido Secretário de Estado (NYT. nacionalizadas sob Kubitschek. e Roberto Campos. ao mesmo tempo. com a maior parte de seus direitos de concessionaria ainda em vigor. No começo da década de sessenta. Em junho de 1964 os Paulistas-Mesquitas estavam em New York para explicar a nova amistosidade do Brasil em relação ao capital estrangeiro. durante a presidência de Juscelino Kubitschek. Herbert Hoover Jr. 18 de junho de 1964). a Hanna tornou a reivindicar sua posse. os direitos de desenvolver uma nova estrada de ferro e facilidades portuárias na Baía de Sepetiba.33 A mais pungente destas histórias de êxito diz respeito à Hanna Mining Companing. Gabriel Passos cancelou três das concessões da Hanna sobre reservas estimadas em quatro bilhões de toneladas de hematita de teor excepcionalmente alto (65 por cento de ferro) . o Hague-Paris Club* foi dispersado. os estados credores estavam preparando generosamente o refinanciamento do débito brasileiro. Motivado por este realismo. o antigo Secretário do Tesouro George Humphrey. e John Dulles. John d’el Rey.34 Em 1935 a Hanna comprara o controle de uma firma de mineração britânica. o Ministro de Minas. num esforço para anular este cancelamento e adquirir. ou transferir indefinidamente. com a deliberação própria a acontecimentos decisivos. Em 1958. seus esforços de industrialização independente e concentrar-se na produção de alimentos e na extração de matérias-primas para exportação. engenheiro de minas). anunciou que o Brasil devia abandonar. que o Brasil teria um déficit de 350 a 400 milhões de dólares nas necessidades de trocas externas no período de 1964-65. Os Estados Unidos. contudo. Passo a passo. anunciou que o governo estava reconsiderando seus regulamentos de remessa de lucros à luz das necessidades “realísticas” dos homens de negócio estrangeiros (NYT. As indústrias do aço e ferro.

Castelo Branco estava sendo pressionado internamente por pelo menos dois fortes Mesquitas. ao mesmo tempo. Encontros posteriores se processaram em Paris (daí “o Hague-Paris Club”) e foram também assistidos pela Áustria. Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. o Presidente Castelo Branco recebeu um telefonema de dois famosos cavalheiros. capital da Guanabara. também se opunha aos propósitos da Hanna (NYT. McCloy”. a não aceder aos pedidos da Hanna. O outro era John J. Mais animador para os novos realistas era talvez o propósito do Brasil de discutir a legislação sob a qual o governo brasileiro garantiria os investimentos estrangeiros. “para discutir os planos da companhia para desenvolver os depósitos de minério de ferro estimados num total de quatro bilhões de toneladas” e “a proposta da Hanna. evidentemente baseados no saudável princípio de que Castelo Branco não era Goulart. há muito apresentada. narrou The New York Times. que tinha planos de construir uma usina de aço estatal no estado da Guanabara. Lincoln Gordon. enviando uma missão de vinte homens (“a maior jamais vista”) numa missão de sete semanas pelo interior do Potencial Redimido (NYT. Bélgica. O outro pesado oponente era José Magalhães Pinto. governador de Minas Gerais. (NYT. Um era o impetuoso Governador Carlos Lacerda. “o Hague Club”) aparentemente para determinar uma política coletiva em relação ao devedor comum. Após o golpe de abril. mas na ocasião empregado como representante da Hanna Mining Company. Porém. relata The New York Times. onde ficavam as concessões disputadas. Itália e Japão tinham por isso se reunido em Haya (daí.) 101 . 2 de outubro de 1964). Um era o Embaixador dos EE.” A posição de Castelo Branco não deve ter sido fácil! De maneira clara os Estados Unidos estavam pressionando pela liberação das concessões da Hanna (então sob litígio na Corte de Apelações Federal do Brasil. nha Ocidental. comandante do Exército de São Paulo. Suíça. de construir um porto de embarque de minério de ferro na Baía de Sepetiba. 24 de dezembro de 1964).dial estava para pôr fim ao virtual boicote do Brasil. antigo Alto Comissário dos Estados Unidos na Alemanha. os membros do clube decidiram tratar individualmente com o Brasil. McCloy. em seu despacho de 7 de novembro. Países Baixos.UU. “o embaixador Gordon fez ao Presidente Castelo Branco uma segunda visita. onde a reivindicação da Hanna estava para ser negada). Tinham vindo. A 6 de novembro de 1964. que durara quatorze anos. 2 de julho de 1964.. e queria que todo o embarque de minério de ferro na área continuasse sendo feito pelo Rio.” “Após apresentar Mr. O General Peri Bevilacqua. delineando a missão econômica e financeira dos Estados Unidos junto ao Brasil. o refinanciamento de seu débito.

continua o artigo do Times. Parecia que Lacerda e Cia. O Tesouro dos EE. a este Brasil sem fôlego é “dado’’ o direito de comprar o equivalente a 90 milhões de dólares em excedentes de utilidades americanas — o preço não é sem dúvida exato. 15 de dezembro de 1964). O verdadeiro valor de mercado. “dá” 50 milhões de dólares para atender a necessidades de troca — que importa numa extensão de crédito. meramente um empréstimo que o Brasil deverá pagar com juros.”* E pouco mais de uma semana após (NYT. mas é sempre um preço.Não se sabe o que Gordon contou a Castelo Branco em sua segunda visita naquele dia. O dinheiro deveria ser empregado para ajudar o programa de estabilização monetária do país e financiar importações (financiamento de vendas americanas no exterior. não dá). A mesma espécie de “presente” vem na importância de 90 milhões de dólares de países europeus e Japão — que devem ter achado engraçado ver seus favores incorporados à beneficência americana. dólares dos EE. a AID “dá” 150 milhões de dólares em investimentos orçamentários — isto é. o Banco Mundial tinha concedido 80 milhões de dólares para o desenvolvimento da força hidrelétrica na região centro -sul — isto é. e investidores privados (que tendem a obter grandes lucros nos países pobres. “Os restantes 450 milhões de dólares”. Uma fonte não declarada (provavelmente o Banco Mundial) “dá” 100 milhões de dólares para desenvolver a infra-estrutura econômica necessária aos negócios — um “presente” que é.UU. são depositados no Brasil (onde ganham juros) a fim de ajudar a fortalecer o inflacionado cruzeiro. “programados para o próximo ano [ital. do Banco Interamericano de Desenvolvimento (ditto). UU. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda. “virão do Banco Mundial (que só empresta. Um mês mais tarde (NYT.” Em cerca de dois meses (NYT. a região que (a) é já mais desenvolvida. O Export-Import Bank “dá” ao Brasil 30 milhões de dólares — sob forma de débito de 1965 reescalonado. * Aqui temos como inventar um bilhão de dólares: Segundo a citada história do Times. do Fundo Monetário Internacional (ditto). surge a feliz fabulação: “Os EE. estavam perdendo.) Olhemos de novo a ampla manchete cinza do Times: “EE. da doação em alimentos. acrescentado]. Finalmente. mas podemos aceitar que as concessões são boas e honestas concessões. 27 de fevereiro de 1965). 24 de dezembro de 1964). como foi notado acima.UU. Portanto temos aqui um total de 40 milhões de dólares em bens e serviços que podem ser chamados apropriadamente de “presentes”. 102 .UU. no montante de 400 milhões de dólares “para reconstruir a deteriorada posição econômica do país”. e (b) é o lugar das pretensões da Hanna. Isto nos coloca com os outros itens arrolados num nível de 550 milhões de dólares. o relato do Times arrola uma doação de 25 milhões de dólares em alimentos e 15 milhões de dólares em concessões determinadas para “agricultura e educação”. Castelo Branco promulgou “um decreto presidencial [que] incentivava a concorrência privada para o desenvolvimento das vastas reservas de minério de ferro do Brasil e ordenava o desencorajamento de qualquer monopólio pelo estado ou outras empresas. Mas dentro de duas semanas. The New York Times (23 de novembro de 1964) falou de planos de ajuda não confirmados. qualquer um pode imaginar. por certo. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda”. Mais. é a função básica da AID).

” Os temores dos homens de negócios americanos a respeito do povo brasileiro têm se mostrado em geral bem fundados. cinco novos “revolucionários” eram admitidos no Tribunal (NYT. parece ter sugerido uma teoria bem diferente. Disse The New York Times (ibid. 103 . Mas sua fé no hábil Castelo Branco devia ter sido mais firme. sendo sócia menor (49 por cento das ações) do magnata do aço brasileiro Augusto Antunes. Ele esperara 150 milhões de dólares em investimento americano e vira menos do que 20 milhões (NYT.). ele respondeu à crise da “revolução” com a publicação do Ato Institucional n0 2. 16 de junho de 1966). que teria de decidir sua reivindicação de concessões e que estava ainda dominada por juizes “esquerdistas” nomeados por Goulart. A 2 de novembro. Antunes tem também 51 por cento na Bethlehem Steel de Rockefeller. explicou que os investidores americanos estavam esperando ver se o Brasil se tornaria realmente a democracia que seus governantes prometiam solenemente estarem fazendo. A eleição de outubro resultou em importantes vitórias para a oposição de esquerda.UU. Por mais de quinze anos. não estarem exatamente voando para o Rio. seriam mesmo realizadas as eleições escaladas para outubro? Mas Thomas Mann. Sete meses mais tarde. O ressentimento nacionalista em relação à posição privilegiada da Hanna foi talvez um tanto obscurecido pelo acordo da Hanna em fazer sociedade. mais recentemente. respaldado no exército) de manejar a corte suprema. O Senador William Fullbright. perto da boca do Amazonas. tem esta* No original “Mills of the fods”. que não só teve o efeito de anular a eleição mas que também o dotou com o direito (auto-conferido. que detém 51 por cento das ações na nova companhia de desenvolvimento United Brazilian Mining (ibid. que tem 49 por cento da Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI). menos frívola. que estava na mesma missão. Por volta de agosto de 1965. “A impressão é que a incerteza política sobre a continuação das atuais orientações por parte de um governo eleito está impedindo investidores potenciais. que estava provocando um tal aborrecimento para a Hanna. A 27 de outubro. o Ministro das Finanças Campos estava se lastimando de os investidores dos EE. (quem espera sempre alcança!)* a 15 de junho de 1966. isto é. 3 de novembro de 1965).Porém a Hanna ainda enfrentava o obstáculo da Suprema Corte do Brasil.). a ICOMI tem mineirado manganês no Território do Amapá. e. no Brasil com uma missão americana de estudo. 10 de agosto de 1965). a suprema corte devolveu à Hanna seus quatro bilhões de toneladas de minério de ferro e o “váem-frente” para o projeto da baía de Sepetiba (nyt.

às cegas. Neste mesmo artigo discute a questão: São os lucros americanos altos demais na América Latina? Sua resposta é a caráter. mas um elevadíssimo — e quiçás “explorador”? — 46 por cento. 15 de outubro de 1965. A aprovação. revolucionárias e patrióticas da economia brasileira: a inflação tinha de ser detida. foi o argumento pelo qual o golpe de abril se anunciou e explicou. pág. no Fortune de abril de 1966. na América Latina. greves e sabotagem”. em 1957. durante oito anos. um rico minério atômico. o governo brasileiro comprometeu-se (1) a nunca expropriar uma firma americana. Mas talvez — quem sabe realmente? — eles sejam ainda mais altos. em seu artigo Foreign Affairs. é claro. A economia do Brasil estava paralisada.” Os números de Rockefeller acima citados são líquido anual.* A produção de fertilizantes. Esta firma foi apadrinhada em 1949 com empréstimos para construção de ferrovias concedidos pelo Banco Mundial e pelo Ex-Im Bank. Segundo o jornal clandestino brasileiro Revolução. seu lucro total durante oito anos é de 235 milhões de dólares. Fortune diz. revolução. então o tempo medido é. tem estado girando um lucro anual de 12 a 15 milhões de dólares. Tomados os números de Fortune.5 milhões de dólares por ano. “O que a livre empresa significa para a América Latina”. Tal. a Petrobrás foi no essencial afastada do refino e vendas em meados de 1966 e viu-se limitada à exploração e extração. Por este ato. (2) pagar quaisquer danos causados a empresas americanas por “guerra. que tiveram permissão de fazer uma incursão de 250 milhões de dólares na indústria de petroquímicos (Time. as operações menos rendosas na indústria de petróleo. do Acordo de Garantia de Investimentos foi crucial para este “desenvolvimento” da economia subdesenvolvida do Brasil. exceto com a “total e completa concordância” desta firma. Se a ICOMI tem líquido uma média de 13. pelo Congresso Nacional. em caos e * É como fala David Rockefeller. em grosso. de abril de 1966. o lucro da ICOMI é portanto. 104 . as especulações comerciais totalizaram 235 milhões de dólares. e êle cita um estudo que mostra serem os lucros norte-americanos. e (3) permitir que firmas americanas invistam no Brasil sob os regulamentos das leis americanas (NYT. Bastante altos. 13 de fevereiro de 1965. por volta de 13 ou 14 por cento. esta mesma ICOMI é citada. 104) . um argumento para estas alterações democráticas. Se pensarmos que Rockefeller e Fortune tinham acesso a dados da maior parte de 1965. No perfil de Antunes. pode-se pensar. tem sido invadida pela Gulf e Esso. no entanto. acordo que certos brasileiros cínicos apregoam ter sido redigido em Washington D. anteriormente domínio reservado da Petrobrás.do tirando. insurreição.C. Desde seus primeiros embarques de manganês em 1957. seu total de lucros até 1965 é de 108 milhões de dólares. do Chase Manhattan. oito anos. na mesma área. 28 de dezembro de 1965). nióbio. Há. não um meramente robusto 14 por cento. “Desde que os embarques se iniciaram.

11 de julho de 1966). Mandaram emissários fazer apelo às autoridades. importações em declínio”. De janeiro a junho de 1966 o custo de vida já crescera de 25 por cento (NYT. diante dos 80 por cento de 1964. em outros tempos podiam subsistir pobremente dos peixes e caranguejos de água doce dos dois rios. a outra. é claro. Mas o desespero faz engenho. que greves eram postas fora de lei. acharam que deviam fazer alguma coisa. no governo de Castelo Branco. salários congelados. fazem duplamente no Brasil para os rios brasileiros. Então a gente das vilas decidiu que teria de fazer uma demonstração. que são ligados pelo preamar. 105 . de 4 de outubro de 1966. e dois padres indagaram: Que acham de uma * NYT. dava como título de seu artigo sobre o Brasil “preços nas alturas. a Union Carbide Company da América veio para as margens do Pirapanga e construiu para si uma cintilante fábrica de produtos químicos. escolas fechadas. de 13 de março de 1965 (“Quando o Cruzeiro faz Espiral. as indústrias brasileiras nacionais dizimadas.corretivos extremos eram necessários. Pense em Dólares”) relata que muitos negócios brasileiros estavam automaticamente aumentando seus preços em 7 por cento cada mês. o soldo do exército aumentado. uma estimativa para menos. É portanto duplamente irônico o fato de a inflação estar pior do que nunca. os dissidentes esmagados. Este número representa vantagem. Uma história brasileiro-americana final. e (assim era explicado) era tudo pelo bem da estabilidade fiscal. assim as poluições da fábrica muito cedo mataram os peixes e os caranguejos do Pirapanga e do Jaboatão. Tendo o governo predito um aumento de custo de vida de 25 por cento para 1965. Uma vila é Ponte de Carvalhos. 3 de fevereiro de 1966. Uma vez que os habitantes das vilas viam agora a morte à sua frente. Então um dia. o Pirapanga e o Jaboatão. Pontezinha. As autoridades sentiram pena deles. provavelmente. É sobre duas vilas costeiras no Nordeste do Brasil. Mas o que as fábricas de produtos químicos americanos fazem na América para os rios americanos. mas explicaram que não tinham autoridade. há pouco tempo. de fato prossegue sua revolução democrática com confiança inabalável. mesmo na empauperada América Latina. Ambas as vilas. A polícia não queria saber disso. e The New York Times. portas largamente abertas ao capital estrangeiro. uma região notória por sua pobreza. tribunais controlados. Perto delas correm dois rios. o desemprego calculado num crescimento para 15 por cento. Mas é. na maior parte habitadas por negros. a reforma do Nordeste abandonada. Foi explicado ao povo que esta fábrica representava “desenvolvimento” e “progresso”. O Business Week. * Porém ele não está desanimado. confessou um aumento real de mais de 45 por cento.

aglomeraram-se.procissão? Isso é diferente. Atrás dele o povo carregava cartazes cujos dizeres contavam muito bem sua história: O rio é nosso pão. o segundo Primeiro -Ministro da África do Sul: “Se rejeitarmos a idéia de Herenvolk [i. Homens e peixes vivem e morrem juntos. Eis a hora em que viemos pedir a solução. doutra maneira dirigida. Verwoerd. Puxando a marcha vinha um homem carregando uma grande cruz de madeira.. raça -superior] e. revolução de Castelo Branco. disse a polícia.. se o direito de voto estiver para ser estendido a não europeus. O desenvolvimento é a favor ou contra nós? Progresso que traz miséria não presta. não tendo nunca havido tal coisa em nenhuma das duas obscuras aldeias de pescadores. um fugitivo da inquieta. Sobre a cruz drapejava uma rede de pescar. onde alguns doze milhões de negros são os escravos culturais do crescente fascismo “afrikaaner” de três e meio milhões de brancos. o africano. padres e pescadores. por sobre a ardente estrada principal. Disse J. F. que está trabalhando quietamente no campo. Ninguém sabia se a procissão seria ou não entendida e seguida. Strijdom. Esta usina não está sozinha em sua quietude. não havia assistentes. pertencente à Union Carbide Company. e retortas gigantes e redomas.”36 Estadistas americanos afirmaram seu interesse pelo avanço mate106 . Chegaram à fábrica. e alguns fizeram discursos. O povo das duas vilas está morrendo quietamente. Porém... sempre na direção dos tanques e pipas suavemente brilhantes em seu alumínio. despejando de volta no rio envenenado aquilo que tomara sem veneno da terra. por que era automatizada. G. ou quietamente se juntando ao padre revolucionário Alípio de Freitas. no atrasado Nordeste. cada um escutando os outros dizerem o que cada um sabia que o outro já sabia. na comunidade européia acima do nível de certas formas de trabalho. mais de 2 000 pescadores e suas mulheres e filhos marcharam vinte milhas. e se os não europeus forem desenvolvidos na mesma base que os europeus. seu sucessor: “Não há lugar para ele. A Pirapanga River da Union Carbide Company continuou tranquilamente a fabricar produtos químicos para alguns.e. em 16 de agosto de 1965. da usina química Pirapanga River. Ou consideraremos a África do Sul. no calor do verão equatorial. como poderão os europeus permanecer Baas [senhor]?”35 Disse o falecido H. Além da polícia que viera garantir contra perturbações.

até 1953. entre alguns investidores estrangeiros.* os Cavaleiros do Apocalipse do Dólar. e quando.) 107 . os Babe Ruths. Os gigantes estão lá. Um é a firma bancária de investimento de Dillon.40 A situação estava salva. 38 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional. onde os brancos têm o quarto nível de vida mais alto do mundo. que é proprietário da maior mina da África sudoeste (que a África do Sul considera como sua “quinta província”).37 Estadistas americanos periodicamente fazem violentos discursos — na ONU. As firmas americanas aumentaram seus investimentos em 23 milhões de dólares (para cerca de 442 milhões de dólares em 196239). sendo 5 milhões de dólares de parte do First National Bank. C. e um consórcio financeiro ad hoc concedeu um empréstimo de 150 milhões de dólares ao governo.41 Outro é o American Metal Clímax. nas aulas inaugurais das grandes universidades — contra esta África do Sul apartheid. Read & Co. Douglas Dillon.38 Deviam decidir se continuavam ou recuavam. temores de que uma rebelião sul-africana pudesse estar fermentando. — (N. o governo se declarou uma república e abandonou o padrão esterlino. 10 milhões de dólares do Chase Manhattan Bank. cujo presidente. porque quando veio a ação em 1961. Surgiram logo. 28 milhões de dólares do Banco Mundial e 70 milhões de dólares de “emprestadores norte-americanos não identificados publicamente”. o capital europeu ficou o suficientemente nervoso para ameaçar a estabilidade econômica do regime. Naquele tempo cerca de oitenta firmas americanas tinham investimentos substanciais na África do Sul. A partir daquela crise.. era combinada e direta. Aparentemente foram mantidos alguns encontros em certos centros financeiros. foi Secretário do Tesouro sob Kennedy e Johnson e passou desde então para o Conselho do Chase Manhattan.rial de todos os homens e pela prosperidade dos valores democráticos. Um imenso consumidor do urânio da África do Sul (que fi* Célebre “gangster” americano. Mas todo mundo compreende que discursos não são ações. subsequentemente. do T. Assim indagamos: Neste menos ambíguo de todos os casos qual a natureza material da resposta americana? O massacre de Shapeville ocorreu a 21 de março de 1960. Não há caso mais claro de bloqueio desse avanço e desses valores do que o caso da África do Sul. o número de companhias americanas investindo no futuro da África do Sul quase triplicou. porém onde cada uma de três crianças negras morre de subnutrição antes do primeiro ano de vida e 60 por cento de todos os pretos vivem sem possibilidade de adquirir o pão.

Bankers Trust. mas a despeito da taxa pagou um dividendo de 70 por cento para aquele ano. 11 “outras” minas. First National City.) A CAST pagou sob protesto. tinha direitos exclusivos sobre o diamante de toda Serra Leoa.gurou em perto de 40 por cento de nossas importações sul-africanas em 1961). 22 firmas indus* Até 1955. Não há nenhum corpo legislativo ou judicial que possa enfrentá-la.. a ponto de humilhar a imaginação de um Dante. retendo a SLST direitos ilimitados sobre profundos depósitos. De novo. 5 minas de cobre. completa. Por si. e só na África. 17 minas de carvão. nem um ponto abaixo da retribuição do ano precedente. Purgatório para milhares. Os participantes deste consórcio incluem as caixas fortes da finança incorporada americana. De quando em quando. por exemplo. Morgan Guaranty Trust.* Mas a longo prazo não é simplesmente objeto dos caprichos. Consolidated Gold Fields of South Africa Ltd.45 108 . intrincados pelo que diz respeito às operações e absolutos pelo que diz respeito ao poder. globais pelo que diz respeito à extensão. 11 operações de prospecção. e a Anglo American Corporation. (o antigo vice-presidente da AMC e atual membro do conselho. Serra Leoa exigiu uma taxa de serviço da Consolidated African Selection Trust Ltda. porque transcende a todos os povos e a todas as ligas.44 Os super-gigantes são os impérios gêmeos de Harry Oppenheimer. Manufacturers Hanover Trust. e coletando 4 milhões de dólares de Serra Leoa como compensação por suas “oportunidades perdidas”.43 Outro é o consórcio formal dos bancos americanos. estas duas corporações dominam totalmente a vida econômica da África sub-sahariana. Bank of America. um fragmento deste cosmos pode ser forçado a se submeter a alguns ímpios africanos. Arthur H. Inferno para milhões. o AMC fornece cerca de 10 por cento da produção total dos EE. A vitória não foi. Naquele ano um protesto nacionalista levou o governo a reduzir a área de concessão da SLST às 209 milhas quadradas que estavam sendo trabalhadas (incluindo a rica área de Konor). é uma figura destacada na orientação das medidas de controle das armas nucleares americanas. tão imensos pelo que diz respeito à escala. Sierre Leone Selection Trust. organização origem da SLST. um elemento da Anglo-American. que pôs à disposição da África do Sul um fundo de crédito móvel (o capital sendo automaticamente reposto pelo pagamento dos juros) que alcança agora cerca de 50 milhões de dólares.UU. é claro. que está colaborando com Allis-Chalmers para levar o benefício da força nuclear para a África do Sul. Dean. em 1963. (A própria CAST é só um corpo de quarta ordem na hierarquia da Anglo-American. 15 minas de ouro. a Anglo-American representa 8 minas de diamantes. First National of Chicago. idéias brilhantes ou ira de qualquer tribo ou nação. Chase Manhattan. Paraíso para centenas.42) Outro é a própria Comissão de Energia Atômica. Irving Trust e Continental Bank and Trust.

33 000 frequentavam universidades.264 dólares. 7 centros de negócios imobiliários e 31 casas de financiamento e investimento. australianas e colombianas. de 12 milhões de pretos. o imperialista liberal parece horrivelmente certo. concentrados em manufaturas (192 milhões de dólares) e minas (68 milhões de dólares). em 1935. crescera para 3. e a resultante transformação da sociedade que esta expansão acelera. 203 dólares. Se quer dizer que estas forças induzem à violência revolucionária.) 109 . Em 1953.47 O que o imperialista liberal apregoa — Englehard. é um diretor do Witwatersrand Native Labour Association.46 O embaixador da América junto a Oppenheimerdom é Charles Englehard.214 dólares. Roma e Londres. cujo relatório aos acionistas de 1965 devota uma única sentença às operações africanas. os investimentos diretos americanos na África do Sul eram de 467 milhões de dólares. 47. Lucros líquidos nestes investimentos foram 87 milhões de dólares.49 Em 1935. 196 em 1960. Em 1965. e com casas de distribuição em Paris. Em 1954. No fim de 1964. do Native Recruiting Corporation (que importa mão-de-obra negra para o trabalho na mina). um dos “bush colleges”* apartheid Fort Hare. Englehard detém direções de 23 companhias sul-africanas.4 milhões de brancos. está redondamente errado. do T. 41 milhões de dólares * Na África do Sul. tinha uma matrícula de 374 estudantes. Se quer dizer que o processo imperialista é ele próprio progressista. e mais desinibidas crescem suas mutilações raciais. do governo. O mineiro africano fez em média.50 Os lucros das minas andaram perto de 400 milhões de dólares.A.triais.9 passaram nas provas. O fascismo “afrikaaner” mais forte cresce. é um bom espécime48 — é que a expansão da indústria. da Englehard Industries e da Anglo-American doméstica. caíra para 13. — (N. o vencimento médio anual de um trabalhador branco das minas era de 2. Em 1964. 946. os números tendo sensivelmente declinado nos anos intervenientes. Em dez anos a matrícula caíra para uma centena e a média prévia anual de 60 graduações B. um diretor da Chamber of Mines (que determina níveis para salários nas minas e condições de trabalho) e é um membro da ainda mais exclusiva United States Foreign Policy Association. Envolvido também em indústrias de mineração canadenses. escolas para selvagens (“bush”). de 3. só 17. são pelo impulso forças libertadoras. Naquele ano o hiper-segregacionista Bantu Education Act foi posto em prática.3 por cento dos africanos que fizeram o exame de admissão ao colégio passaram. um amigo íntimo de Hubert Humphrey. Em 1960.

transportes C-47 e C-130B (para suprir que fronte?) e cerca de 30 helicópteros Sikorsky (para alcançar rápido a cena de que insurreição?). 7 bombardeiros de reconhecimento de longo curso Shackleton. que oferece quase em duplo a média mundial em taxa de lucros de investimentos. não há dúvida. é um jogo do Mundo Livre.53 Porém manter paz e quietude. 16 bombardeiros leves Camberra B-12.54 e que produz 70 por cento do ouro do Mundo Livre.55 Consideremos o Paraguai do Mundo Livre. este não é um jogo só americano. cuja política é não fornecer armas “que possam ser usadas em defesa de apartheid” forneceu 16 bombardeiros a jato Mirage III C (Mach 2) com mísseis “air-to-surface” AS-30. e licença para a produção dos carros blindados Panhard. francês e alemão. as forças armadas sul-africanas voam em 36 interceptores F-86 Sabrejet (para interceptar quem?). onde seus desditosos oponentes políticos estão sendo permanentemente reabilitados. Em 1955 o índice agrícola 110 .56 Alfredo Stroessner detém poder ditatorial absoluto desde 1954. Bélgica e Holanda combinadas. britânico. espantou-se ao saber que os gases venenosos somam. 30 jatos subsônicos Vampire e cerca de 500 aviões leves Harvard com uma carga de ataque “per-plane” de 8 bombas de fragmentação antipessoal de 19 libras. cerca de 30 helicópteros Alouette. não importa às expensas de quem ou de qual causa de ira. Foi este totalitarismo pelo menos materialmente eficiente? Em 1940. pode muito bem valer alguns escrúpulos num país que absorve uns extremamente lucrativos 4 bilhões de dólares em investimentos diretos americano. sarin e tabun estavam sendo manufaturados em grande quantidade na África do Sul. A taxa de lucro era portanto de 20 por cento em geral.em manufaturas e 20 milhões em minas. Impôs um embargo para armas no começo de 1964 (sob pressão dos países africanos independentes) e. A França. forneceu 16 bombardeiros leves Buccaneer. havia 700 em 1965. nosso governo deplora o racismo “afrikaaner”. cuja política é “não exportar para a África do Sul armas que poderiam ajudar a reforçar a política de apartheid. 24 por cento na manufatura e 31 por cento nas minas. o Paraguai tinha mais de 2500 firmas industriais. A Grã-Bretanha. o campo de prisioneiros da ilha do Chaco. com ou sem embargo. Contudo.52 Mas. e provavelmente o melhor símbolo isolado da democracia crescente de seu regime seja Peña Hermosa. em que a renda “per capita” é de 95 dólares.51 De público. à Dinamarca. e 25 famílias possuem terras iguais em área.

não importa quão desprezível. da qual 111 . e. que pode se virar contra nós. disse para John Gerassi: “Se toda a ajuda dos Estados Unidos a Stroessner parasse hoje.UU. pode seguir o caminho de Cuba.57 O presidente do Partido Liberal.”58 Ou o Mundo Livre do Haiti.” O argumento de que os açougueiros anticomunistas aceleram a chegada ao poder dos comunistas pareceu não ter peso. e a mais baixa renda “per capita” (70 dólares) da América Latina.6. um rico próamericano auto-exilado no Uruguai. tem um turismo que lhe é muito rendoso. mais importante. por outro lado. responderam: “Mas Stroessner é anticomunista. Duvalier recebeu mais de 57 milhões de dólares em ajuda da AID e quase tanto em empréstimos dos iguais ao Banco Mundial e o Ex-Im Bank. é uma grande exportadora de açúcar.7 por cento. Carlos Pastore.59 alguns poucos haitianos são muito ricos. por outro lado. podem temer que um Haiti sem seus dólares venha a ser um Haiti sem seu Duvalier. o povo haitiano tem a mais baixa frequência escolar do hemisfério (5.60 Os americanos democráticos podiam preferir que sua ajuda financeira mostrasse melhores resultados sociais do que o tirano Duvalier se mostra capaz de obter.5. o menor número de leitos hospitalares e de médicos por habitante.” Gerassi escreve: Quando repeti isto aos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção. Duvalier tem segurança pessoal garantida por 20 000 homens da guarda do palácio treinados pelos marines dos EE. Tem pouco mais de dois milhões de habitantes em 4 500 milhas quadradas.era 113. em 1965. e sem seu Duvalier. A Jamaica poderia ser para os jamaicanos aquela ilha paradisíaca que as propagandas de viagem apregoam ser para os outros. Três quartos da terra são florestas de madeiras. mas os Guerreiros da Guerra Fria americanos. só um por cento da terra era cultivado e o índice era 77.9 por cento).. as exportações eram pouco mais da metade daquela. ainda outro segmento do arquipélago das Grandes Antilhas. um anticomunista firme. e. e a exportação de madeira em 1956 foi de 229 000 toneladas. não importa quão honesto. sendo a seguinte mais baixa a da Bolívia 20. que resguarda a zona estratégica do Canal do Panamá. “Em última análise” foi-me dito “a nossa política é de sobrevivência. é a maior fornecedora mundial de bauxita. Assim. a democracia ainda seria passível de salvação amanhã. é melhor do que um reformador. em 1961. embora a demanda haja se intensificado.

possuem 90 por cento da terra). Kaiser e Reinolds. mas sim da Alcan. Alcoa. Porém o rendimento anual da Venezuela nos 3 bilhões de dólares em petróleo que ela transporta por mar cada ano é somente de 800 dólares — renda coletada dos estrangeiros que controlam o petróleo. Como é que com base em tal riqueza este país está em débito com estrangeiros. e Royal-Dutch Shell.UU. poder-se-ia concluir que o segundo lugar mais adorável do mundo para se viver é o Kuwait. 112 . O petróleo e o ferro venezuelanos têm um valor médio anual “dockside” de cerca de 4 bilhões de dólares — uma sólida base econômica.63 O dado mais revelador. Kaiser e Reinolds continuam a transportar para o norte a bauxita jamaicana. contudo. Suíça (1400 dólares). a Mobil. por exemplo. Se a pretensão de que a livre empresa americana colabora com a revolução de esperanças em ascensão acabará por fim sendo válida. que absorveu bem mais de 3 bilhões de dólares em investimento direto dos EE. porém é. A Creole Petroleum Corporation.provêm todas as utilidades do alumínio.62 O grupo venezuelano que detém o governo tem “direitos de concessão” em menos de um por cento das reservas de petróleo e é por demais subfinanciado para fazer operações lucrativas. E enquanto a pobreza da Jamaica fica pior. cufa renda “per capita” é de 1800 dólares — à frente do Canadá (1600 dólares). Alcan. de Rockefeler. dos dados ao pro* Partindo dos números de renda “per capita”. para um país de uns oito milhões de habitantes (três por cento dos quais. com 15 por cento. e que tem sido o território favorito dos modernizadores de Rockefeller desde o início do século. pode parecer. Suécia (1300 dólares) e Grã-Bretanha (1100 dólares) e não muito atrás dos Estados Unidos (2300 dólares). então tem de ser válida para a Venezuela. a Mene Grande Oil. com 5 por cento. Porém não o é. infelizmente. também verdade que ela é só de 800 dólares e que os dados “per capita” de modo algum representam a verdadeira riqueza nacional ou sua distribuição* e que. muito difícil de calcular para qualquer país e quase impossível para os subdesenvolvidos. com a maior parte do restante. seria a distribuição da renda. Inglaterra e Alemanha). Encaminha-se na direção de dívida maior com estrangeiros. nem se encaminha para isso. (atrás somente do Canadá. conta com mais de 40 por cento da produção total e volume de vendas. de Mellon. os recursos médios. É sem dúvida verdadeiro que a venda per capita da Venezuela é a mais alta da América Latina. que não é de propriedade da Jamaica.61 A Venezuela pertence ao mesmo campo. com 93 por cento de seu povo ganhando menos do que 480 dólares por ano? A Jamaica podia ser — pelo menos — a Suíça dos caraibanos. Alcoa.

mais de 90 por cento desse terço é só em petróleo. seria prudente diminuir a extração de petróleo e se concentrar agora em desenvolver uma economia urbano-rural diversificada.66 Ou deveríamos examinar a Guatemala de 1954. Arábia Saudita. as perspectivas da Venezuela. Deveríamos seguir a carreira do James Bond daquela operação. através do período do golpe em si. Irã e Iraque). 113 . Precisaríamos focalizar o Irã.64 Além do mais. eleito democraticamente. Alguém pode por certo dizer que a Venezuela está sendo “desenvolvida”. parecem ainda mais negras: as reservas conhecidas de petróleo estarão extintas dentro de aproximadamente quinze anos.65 O fato é que não compete à Venezuela tomar a decisão. com reservas de 62 bilhões de barris em 1960. produziu 601 milhões de barris. a Venezuela tem à um tempo as menores reservas e a mais alta taxa de produção anual. onde em 1953 a CIA e a Inteligência Britânica conspiraram para depor o Premier Mohammed Mossadeg. Sendo dos cinco maiores exportadores de petróleo entre os países subdesenvolvidos (os outros são Kuwait. O Kuwait.duto nacional bruto sobre o qual é calculada. As taxas de produção são determinadas pelas firmas estrangeiras que detêm os direitos de concessão — direitos que estão marcados para expirar em 1984. a longo prazo. porque ele advogava para o Irã o neutralismo ante a Guerra Fria e ameaçava nacionalizar as concessionárias estrangeiras de petróleo. onde a CIA ajudou a derrubar o Presidente Arbenz. a Venezuela com reservas de 17 bilhões de barris. Uma vez que o mercado mundial de petróleo apresenta um abarrotamento prolongado. e que o lucro petrolífero é monopolizado efetivamente por interesses americanos e europeus. da CIA. porque seu modesto programa de reforma agrária ameaçava as terras de cultivo não Uma parte considerável da maior parte da população de países subdesenvolvidos ainda não está na economia monetária. prosseguindo por 1958 quando a Gulf o fez seu homem “de contato com o governo” e até 1960 quando se tornou um vice-presidente. produziu um bilhão. bem mais de um terço são exportações. equilibrada e essencialmente auto-suficiente. e a subsequente redistribuição dos direitos iranianos sobre petróleo em favor de companhias americanas (Standard e Gulf). Mas as extrações de petróleo estão longe de serem diminuídas. Kermit Roosevelt. Alguém então pergunta: Por quem? E para servir as necessidades de quem? O rol é longo.

parece ter tido apoio da CIA. pertencerem. conduziu à abertura explícita da porta ghanense aos negócios dos EE. pertencer ao conselho da South Puerto Rico Sugar Company. cujo golpe anti-Nkrumah. e ao colapso dos esforços ghanenses para alcançar auto-suficiência diversificada.UU. Deveríamos examinar detidamente as implicações do fato de o escritório de advocacia. Joseph Farland. e de o antigo embaixador junto à República Dominicana. ao conselho da Sucrest Company. cerca de um dólar diário. na cadeia de Mimba.UU. cujas plantações de borracha deram à Firestone um lucro líquido médio de três vezes o montante de toda a renda nacional da Libéria. General Walter Beddel Smith. cuja “emenda de paridade”. foram concedidos a interesses privados europeus e americanos (Bethlehem Steel).69 Ou a Libéria. que possui 275 000 acres da melhor terra de plantação na República Dominicana e que é o maior empregador da ilha (salário médio dos dominicanos. da constituição “nacional” proíbe os filipinos de proteger seus mercados e recursos internos contra a penetração comercial americana — isto é. Adolf Berle Jr. e o qual. obstrui efetivamente o desenvolvimento de uma classe empresarial filipina independente... de o então Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Inter-americanos. de o então Diretor da CIA. do embaixador itinerante Averell Harriman. ser um membro do conselho da National Sugar Refining Company. 114 . ter sido presidente da United Fruit Company. estar para se tornar um vice-presidente da United Fruit Company. na República Dominicana e demonstrar o fato de seu planejador principal.70 Ou a malfadada Ghana. ser dono de cerca de 10 por cento da National Sugar. desde 1946. redigida nos EE. outra filha do humanismo americano. ter redigido os acordos de 1930 e 1936 da United Fruit Company com a Guatemala.utilizadas da United Fruit Company. Allan Dulles.67 Ou precisaríamos olhar para nossa intervenção de 1965. que detém acesso privilegiado ao açúcar dominicano. de qualquer modo. o Embaixador da Organização dos Estados Americanos. da Suprema Corte de Justiça e um destacado retórico do liberalismo incorporado. John Moors Cabot. ser importante acionista da United Fruit Company. de fevereiro de 1966. de a casa de investimento privado (Brown Bros.. Ellsworth Bunker Jr. e cujos ricos depósitos de ferro. de o amigo íntimo do Presidente Johnson. do então Secretário de Estado John Foster Dulles. Harriman). que importa melaço da República Dominicana.)68 Ou precisaríamos examinar as Filipinas. de o predecessor de Dulles na direção da CIA. Abe Fortas. criança mimada do anticolonialismo americano.

feita pelo novo governo. de cujo numerário dois terços são controlados pelo governo dos Estados Unidos.71 Ou a Índia. N. em uma reunião em New York. onde não há estrutura de classe capitalista. Teremos de tentar uma generalização.73 Porém a lista não tem fim. há o Peace Corps. da Câmara de Comércio Africano -Americana. por exemplo. nossa política de negócios pode justamente pretender ter excitado as crescentes exigências revolucionárias do mundo subdesenvolvido. a chegada do corporativista americano é de fato um desastre. de isenção ante a Guerra Fria. importação de materiais livre de taxas e uma garantia de que. conduziram diretamente ao reinício da ajuda dos EE. no caso extremo de uma desapropriação. onde o mais aterrador banho de sangue da história e a devolução ou “aquisição” das concessões americanas de borracha e petróleo. por pior que tenha sido empregado.UU. Porém.” A título de atrativo Omaboe oferecia isenção de impostos por dez anos.Como falou E. o principal funcionário econômico do novo regime. que. A América não é ingênua como um bebê e seu imperialismo tem outras modulações.72 Ou a Indonésia. de tempo e liberdade para cultivar um estilo econômico nacional. de independência política. Há. para esta mesma política. Porém não mostraram no Terceiro Mundo que podem desenvolver economias políticas no estilo ocidental: nos países pré-industriais. sem dúvida materializa um 115 . Omaboe. o ajuste seria arbitrado pelo Banco Mundial. Os Estados Unidos mostraram na Europa que sabem como reconstruir as economias capitalistas destruídas pelas bombas. anteriormente nacionalizadas. que usou desta força de coação para ajudar a persuadir Madame Ghandhi de que fábricas de fertilizantes movidas pelo dispendioso óleo de Rockefeller eram melhores para a Índia do que fábricas de fertilizantes movidas pelo barato gás iraniano. o esforço aparentemente genuíno de alguma gente da AID (e mesmo da CIA) para encorajar a reforma social sob condições frustrantes e muitas vezes perigosas. sem olhar para os danos que isto causa aos outros. em 20 de maio de 1966: “Queremos que os pescadores da Nova Inglaterra e Califórnia pesquem em nossas costas e montem fábricas de conservas. não passa de algaravia desejar que aprove estas exigências — as exigências de oportunidade aberta para desenvolver a riqueza natural da nação. nem tendência interna para estilos de vida capitalistas. Preocupado com a extração de riquezas para exportação e a imediata exploração de todas as oportunidades.

É difícil entender como poderia ser diferente com o estado incorporado. o Peace Corps. Mas todos os imperialismos produziram seus anjos de misericórdia. Investimento estrangeiro e/ou privado pode industrializar.. e deve-se concluir que a boa gente da AID. Presidente de Grace e Co. é a América da United Fruit e dos U. um pouco tolos.. ele mesmo reconheceu que “sermões sobre a importância da empresa e investimento privados e a utilidade do capital estrangeiro [nos países subdesenvolvidos] são.. fez em 1958: “Chile.desejo popular americano de servir de ajuda a outro povo. “viram os preços de exportação de seus metais descerem de 40 a 50 por cento durante os últimos anos.. alguns 40 bilhões de dólares em 1966. desde 1951. desigual. cujos lucros latino-americanos são imensos. disse Grace.”75 Os editores de Fortune mostraram que a dívida a longo prazo dos países subdesenvolvidos. e mesmo assim deixar as massas num estado tão mau como sempre”. um humanista político poderia se esforçar decididamente seguindo essa política sem muita hesitação.74 Pode parecer estranho ouvir isto justamente do Berle. Adolf Berle Jr.5 bilhões de dólares em juros e taxas e consome um oitavo de todos seus ganhos no comércio externo. Porém preocupados capitalistas incorporados não são tão difíceis de achar. o Rice Institute estão apenas desempenhando papéis marginais e auxiliares. mas a inimiga daquela revolução deformada. Pode-se desejar que o Peace Corps fosse o Departamento de Estado. Ele não é nem mesmo um igual da terceira linha da CIA. custa anualmente 4. [os países subdesenvolvidos] têm 116 . Se estes representassem a essência do comportamento. há o Asian Rice Institute. de fato. frustrada e assustadora cujos motivos fundamentais parecem tão compulsivos e cujas reivindicações fundamentais parecem tão justas. É com frequência deles que conseguimos. México e Bolívia”. as descrições mais perceptivas e realistas dos efeitos do imperialismo de Mundo Livre nas regiões atrasadas. Peru. que o mundo em crescimento experimenta mais profundamente.. da pilhagem fria e da força do napalm. a força impulsora principal da política externa americana. “Para conseguir suficiente câmbio externo para o que importam. Marines [fuzileiros]. Gerassi cita a declaração que J. Ao mesmo tempo. A América. o preço médio que a América Latina paga por suas importações dos Estados Unidos subiu cerca de 11 por cento. um esforço conjunto das fundações Ford e Rockefeller. Grace Jr. A América não é a amiga.. nas Filipinas. que tem sido um analista simpaticamente perspicaz do corporativismo americano. pode mesmo incrementar a produção.S. que se pode mostrar muito valioso para o povo da Ásia. P.

A menos que possa ser revertido o presente declínio. branca. e isto não é uma herança realmente confortável para deixar aos filhos de alguém.. Parece ser sem dúvida verdadeiro que muitos aspectos do problema do desenvolvimento podiam ser resolvidos por essa figura — bastaria que ele se afastasse do quadro.”76 Sanz de Santamaria. portanto pré-anulando 16 por cento de todos os ganhos de exportação. não de substância. em parte preponderante. de que seja. muito rica e todos os demais. complacente. causado pelas corporações americanas. as reservas do grupo menos desenvolvido não só pararam de crescer. entre aquele raciocínio e as seguintes passagens da página editorial do Wall Street Journal: As nações industriais acrescentaram perto de 2 bilhões de dólares a suas reservas. altamente burguesa. mas declinaram alguns 200 milhões de dólares. escreveu que ela “nada mais é senão puro colonialismo. o que por sua vez significa que terão de enfrentar maiores custos e encargos. e outras ricas potências industriais do Ocidente.7 bilhões de dólares este ano [1966].. um dos mais destacados economistas do Brasil e um antigo presidente da Food and Agriculture Organization [Organização para Alimentos e Agricultura] da ONU. Porém há só uma diferença de tom.” “Todos os demais” inclui aproximadamente dois terços da população da terra.”77 Josué de Castro. internacional. Colonialismo é a única causa da fome na América Latina.”79 Mas há raramente uma indicação de que este problema seja causado por alguém. Mas como será ele persuadido a fazer 117 .. há sempre uma sugestão implícita de que o homem que melhor pode solucionar este problema não é outro senão o próprio capitalista do Mundo Livre.”78 Isso podia parecer um amargo exagero. Muitos diplomatas e economistas consideraram as implicações como preponderantemente — e perigosamente — políticas. a significação de tais estatísticas é clara: o abismo econômico está se alargando rapidamente “entre uma muito pequena elite do Atlântico Norte. Para analistas tais como [Barbara] Ward de Grã-Bretanha. presidente da assembléia do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso. espalhados através de cerca de 100 nações. nas palavras de Miss Ward. Ao mesmo tempo. de que este problema [em vez do comunismo] seja o que está por detrás da revolução do Terceiro Mundo..que pedir emprestado mais. “de uma espécie de guerra de classes. destacou o mesmo ponto: “Só a amortização da dívida [da América Latina] requer 1. Contudo. estes analistas temem que os Estados Unidos. enfrentem a possibilidade nítida.

não há muito tempo atrás o arqui-inimigo do homem de negócios americano.” Nas últimas duas 118 . e portanto reconstituir a dinâmica do mercado aberto e livre. Sem as Forças Especiais e Fuzileiros do governo federal. e permanente. com os negócios públicos severamente orientados pelo nacionalismo. comércio e finanças. A competição é ganha. a General Dynamics não podia continuar a engordar com vendas de armas à Europa. não engloba um compromisso com outros capitalistas. como alcançar seu descompromisso de um governo que sempre considerou os sucessos dele no estrangeiro como sendo sucessos privados da América. Em teoria. há um rompimento em aceleração deste sistema de limites baseados na competição teoricamente circunscrita ao país. e que está inalteravelmente comprometido com a ideologia política da livre-emprêsa? Considere-se que o compromisso do capitalista com o capitalismo. e o vencedor fica mais forte. Fascismo — um termo extravagante? A definição do Webster’s: “um regime nacional. novos capitalistas. autocrático. Sem grande governo. isso só acontecerá através da ação competitiva independente de outros capitalistas. exercendo a regulamentação da indústria. E o governo federal. Se sua dominação estiver para ser restringida. Vê-se na América o surgimento (talvez seja tarde demais para tal palavra) do que só podemos descrever como estado fascista um pouco mais tolerável e domesticamente benigno. rígida censura e supressão da oposição pela força. Porém constatamos um problema: Mesmo em nossa economia. suas vitórias contidas. Sem a AID e o Banco Mundial. emergem decididamente para criar e controlar nova força. A ideologia obriga-o só a competir. a United Fruit não podia dominar a Guatemala. e o perdedor fica mais fraco. as corporações não podiam se multinacionalizar. e a moralidade decorrente obriga-o a ganhar o quanto possa. Sem a campanha de venda da Guerra Fria do Departamento de Estado. o grande negócio estaria perdido. e a ajuda ativa dos mascates de armamentos do Departamento de Defesa. Sem os subsídios ao açúcar do governo federal. perdida. centralizado. supostamente modelo. as companhias de açúcar não podiam enfiar sua garra letal nas economias dos pequenos estados desde o Caribe ao Pacífico Central. O poder se condensa nas mãos de grupos vitoriosos cada vez menores. e sem as mãos protetoras dos Departamentos de Comércio e Estado. contudo é assim que se supõe operar o sistema: novos empresários.isso? Entregar em nome de quem quer que seja os imensos lucros que ele considera sua principal função fazer? Além do mais. cada vez mais integrados e colaborativos. agora se torna seu deliciado e delicioso parceiro.

poder adiar o julgamento. Por que devemos querer mudar isso? A United Fruit Company pode ser “esclarecida”. porque o homem de negócios que fizer isso. de alto-abaixo da indústria. De qualquer forma. presente ou futuro o persuadirá de deixar passar quaisquer vantagens comerciais que possam chegar-lhe às mãos. Ao contrário. quase empacotada. não a reorganização de poder no mercado. mas quem vencerá a ocupação dos presentes lugares de poder. não há necessidade de omitir uma já inofensiva dissensão. O Terceiro Mundo é aquela mina de ouro exposta e desprotegida onde seus investimentos em dólares rendem melhor do que em qualquer outra parte.considerações. Então. 119 . E o ato normativo de competição. e o fim supremo dessa competição é a sucessão interna de poder e autoridade: não onde o poder será deslocado. com sua moralidade. onde estão os capitalistas competitivos do Terceiro Mundo? E como estão para ser produzidos? E quem os produzirá? Nada do que o homem de negócios americano possa ver no passado. combinado com responsabilidade social para com a comunidade como um todo. E para ele. não ocorre entre grupos empresariais independentes e aparentemente não é travado em termos da superioridade do produto de um homem sobre o de outro (a “superioridade” de produto sendo agora comprada. A idéia do capitalismo é que o “lucro justo” não deverá ser determinado por um capitalista cristão sozinho. este mesmo Rockefeller esmagará. que agora é levado a efeito. Governo forte e grandes negócios são em essência a mesma coisa. comércio e finanças — são estes muito claramente os aspectos dominantes de nosso sistema. Mas centralização nas decisões econômicas e políticas básicas. homogêneo e irregular. eu espero não esperançosamente demais. Deverá ser estabelecido através de competição com outros capitalistas. a “regulamentação” (nossa palavra é racionalização) de facto. pode (às vezes sim. baseado no conceito de um lucro justo para a livre empresa. de uma agência de propaganda). o Terceiro Mundo é uma vantagem comercial. mas a aquisição de poder dentro do sistema fechado que o comanda. quando prossegue em cruzeiros externos? David Rockefeller pode muito bem exortar seus companheiros homens de negócios a “demonstrar [aos latino-americanos] que um novo tipo de capitalismo evolveu. Pretenderá alguém que o apetite de dominação que estimulou o crescimento deste estado incorporado vá se restringir a si mesmo. mas muito real e muito burocrático.”80 E pode ele muito bem desejar que alguém aceite seu conselho. o nacionalismo sofisticado de nossa política externa. a competição crucial se processa no interior de um monolito comercial.

não pode ser tarefa de capitalistas americanos. Os realizadores do progresso social são aqueles cuja condição o requer. Para as coisas se apresentarem diferentes. Teria de mudar inteiramente seu estilo de pensamento e ação. porque deve ela desejar entregar a posição privilegiada que ocupa ali. dentro de suas plantações nas “repúblicas das bananas”. um bem econômico dual. no melhor sentido. de trabalhar em favor de sua competição. aqueles cujas vidas combalidas estão mais necessitadas de mudança. tudo em nome de algum empoeirado ideal humanitário? Ou por que devia ela se regozijar em ver o surgimento de capitalistas locais. e tomar partido contra ele mesmo. americanizado. esta revolução nada mais é do que o surgimento de competidores que empregam os únicos meios de competição disponíveis para eles. aquele Brasil dinâmico e à feição de livre-emprêsa. inteligentes. Porém. E no fundo. Porém construir aquele Vietnã “americano”. não manipulados. o livre-empresário ianque teria. tanto como a construção da nação americana não podia ter sido tarefa dos mercantilistas britânicos. os corporativistas americanos podem enxergar a verdade tão bem como qualquer outra pessoa. aquela Guatemala de classe média — se isso afinal é o que aqueles países querem — aquela é tarefa de vietnamitas. Não tenho motivos para supor que uma tal metamorfose esteja para transfigurar este ianque. ao dar uma vista d’olhos no resto do mundo. Os agentes de mudança neste mundo são hoje. Em uma palavra. Podem mesmo se sentir compungidos com as sangrentas implicações do que vêem. casas.às vezes não) construir estradas. A revolução é a livre-emprêsa coletiva dos coletivamente despojados. escolas e hospitais em cidadesmodelos da companhia. Teria de reconhecer a diferença de interesses. cujo objetivo fosse a destruição da atual hegemonia americana. Teria de suplantar sua ética do dinheiro por meio de uma ética social. impessoal por um Terceiro Mundo. pela primeira vez em sua vida. que podem algum dia tornar-se bastante fortes para oferecer-lhe alguma competição? Desde quando é o capitalista o guarda de seu colega? Como homens comuns. 120 . brasileiros e guatemaltecos independentes. teria de se tornar um socialista revolucionário. não hostilizados. e podem mesmo ter uma preferência ideológica. como sempre foram.

Bevebidge. esta linha de análise é também obrigada a mostrar que o Vietnã é.V O Caso do Vietnã A supremacia comercial da República significa que esta nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. e por quem. Senador Albert J. 1898 Se o anticomunismo da Guerra Fria é mais basicamente uma máscara ideológica para o imperialismo de Mundo Livre. substanciais ao ponto de justificar uma guerra assim perigosa e ilimitada? A guerra agora 121 . Pois as lutas do futuro devem ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. É precisamente neste ponto que a teoria do imperialismo se defronta com uma simples e séria objeção. então se pode ser capaz de mostrar. de alguma forma. São os interesses comerciais americanos. que a questão na guerra do Vietnã não é liberdade Ocidental versus escravidão Oriental. E uma vez que os Estados Unidos se comprometeram tão sem reservas com a salvação à Mundo Livre do Vietnã. a economia política vitnamita será desenvolvida. mostrar que a guerra está sendo travada para determinar como. tão pobre e tão atrasada. E a regra de ouro da paz é inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. naquela parte do mundo. crucial para a segurança e progresso do estado comercial americano. de algum modo. mas controle externo versus controle local do Vietnã — isto é.

a “tijela de arroz” que agora produz cerca de quatro milhões de toneladas * Desenvolvimento rápido de valor. Newsweek traz um ensaio chamado: “Saigon: Uma Cidade Boom* para os Homens de Negócios dos EE. estes artigos — e em especial o de Faltermayer — devem ter convencido muitos de que o Vietnã do Sul é um petisco delicioso bastante para valer a pena ser salvo. no caso. a guerra não é somente exemplar.” Um trabalho similar. recursos. sob o título “As Surpreendentes Vantagens da Economia do Vietnã do Sul. Porém qualquer que seja o motivo. população ou semelhante. com seu aspecto tão persuasivo. existe um interesse comercial americano direto no Vietnã. impostos mais altos.está custando aos americanos acima de 20 bilhões de dólares por ano. e que em sua fusão de motivo imperialista e ideologia anticomunista. nos leva a abandonar a teoria imperialista (pelo menos para esta guerra) e voltar a uma explicação mais puramente “política” e não comercial. Esta observação de inteiro senso-comum. escreveu Faltermayer. rápida valorização no mercado de valores e títulos. crédito mais restrito). em 1961. Mas investiguemos o caso com maior curiosidade. — (N. que exportou um recorde de 83 000 toneladas de borracha. Encontraremos que a política da América no Vietnã não ilustra meramente o imperialismo americano. Faltermayer. apareceu no número de março de 1966 do Fortune. Talvez fossem divulgados para incentivar o entusiasmo da comunidade dos negócios por uma guerra que cria alguns aborrecimentos internos (p. ambos os quais agora importa.) 122 . “tem o potencial para se tornar uma das mais ricas nações do Sudeste da Ásia. “Um Vietnã do Sul protegido do comunismo”. Há quatro pontos importantes debatidos abaixo.” Há a possibilidade de ambos os artigos terem sido um tanto planejados ou calculados.” Ele nota que o país poderia se tornar um exportador de açúcar e algodão. de Edmund K.ex. Quantos anos levará um Vietnã “salvo” para começar a pagar dividendos para essa espécie de investimento militar? O guarda-livros observará que salvar o Vietnã está nos custando muito mais do que o que possa jamais ser igualado por qualquer vantagem “colonial” resultante. inflação. é também um clímax. escassez de mão de obra em algumas áreas-chave de especialização.UU. do T. em ordem crescente de importância: Primeiro. que o delta do Mekong. e poderia facilmente ultrapassar esse recorde sob condições normais. é um paradigma dele. Em seu número de 1 de janeiro de 1966.

poderia produzir de 12 a 15 milhões de toneladas. e a refinaria poderia ser incluída no proposto complexo industrial de Cam Ranh Bay. O Chase Manhattan e o Bank of America abriram filiais em Saigon. já era o maior empregador privado no país. 20 a 30 por cento em seus investimentos. “Nunca antes”. caminhões e locomotivas de estrada de ferro — e lucrando. Até março de 1966.1 O gigante é RMK-BRJ. pode mudar radicalmente nos próximos anos. Outra indústria têxtil foi parcialmente financiada pela Johnson International Corporation. juta.UU. tem interesse controlador em uma nova fábrica de leite condensado e meio-interêsse em uma nova indústria têxtil. 123 . e planeja um incremento de mais 75 000. anualmente. Jones Construction. Brown & Root. seguiram suas [sic!] tropas na guerra em tal escala”. um combinado de construção formado por Raymond International. disse Newsweek. Porém a mesquinharia desse total é em si um engodo claro: Há uma nova fronteira de oportunidades. seja do capitalista. com 25 000 trabalhadores em sua lista de pagamento. estão estudando propostas para construir uma refinaria de petróleo no valor de 16 milhões de dólares. Os pioneiros capitalistas já estão firmando suas pretensões. Morrison-Knudsen. Parsons & Whittemore. Enfatiza que nosso investimento direto total no Vietnã é. A American Trading Co. amplamente aberta no Vietnã. que inclui bases aéreas. e J. A firma de New York. “os homens de negócios dos EE. da Califórnia. A Esso e a Caltex. controla 18 por cento de interesse numa fábrica de papel dirigida por americanos. em média. o açúcar e o algodão — e as promissoras colheitas industriais. não mais de 6 milhões de dólares. estão vendendo e fazendo a manutenção de equipamento pesado — “bulldozers”. a borracha. Para isso será preciso capital. e Brownell Lane Engineering Co. Dairies. seja do tipo socialista. portos e estradas (“infra -estrutura” econômica) e seus contratos devem eventualmente atingir 700 milhões de dólares.de arroz. no momento. Faltermayer procura não exagerar a importância da presente jogada. a primeira do país. ele diz.. com um capital de 5 milhões de dólares em Bien Hoa. A RMK-BRJ é a principal contratante do enorme programa de construção militar. A Shell Oil e o governo sul-vietnamita participaram da especulação. A. A situação. ramis e “kenaf” — virão saltando do solo para os porões dos navios cargueiros. Não é por mágica que o arroz. tratores..

É difícil considerar es124 .UU. Faltermayer oferece um forte candidato na pessoa de um empresário de New York. colonizar e começar a desenvolver o chão há pouco limpo por nossas tropas não quer significar que seja por eles que as tropas lá estão.(É surpreendente. em produtos americanos e matérias-primas: “Em 1966. a doação de dólares americanos para financiar a importação vietnamita de mercadorias americanas. chamado Herbert Fuller. Fuller mais uma vez leva à frente seus planos porque julga que os Estados Unidos agora têm o encargo de salvar o Vietnã. já estavam “em estudo” em abril de 1962. financia negócios no exterior. E então? por que é tão errado nossos homens de negócio estarem logo atrás de “suas” tropas? Não há nada estranho na busca de lucro e oportunidade. 85 por cento é gasto nos EE. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. Todas as novas fronteiras precisam de seus Paul Bunyans.UU. contudo. segundo o erudito da Indochina Bernard B. Destes. como devem fazêlo mais cedo ou mais tarde. um passo atrás delas. Ou quer? Deparamo-nos com um problema de visão. por certo. que acrescentou à história uma nota tocante: “Há forte evidência de que o governo americano “convidou com urgência” as companhias petrolíferas a realizar o contrato a fim de mostrar a confiança americana no futuro do Vietnã. Em 1967. as parcelas da AID entregues ao Vietnã eram perto de um sexto dos 2 bilhões totais.. alcançam um quarto: 550 milhões de dólares. o Vietnã do Sul deve se alinhar entre nossos dez maiores compradores. Se 85 por cento disso é dispendido em exportações americanas. cabeça de um grupo investidor que desde 1958 tem estado promovendo uma usina de açúcar de 10 milhões de dólares para a cidade costeira de Tuy Hoa: Quando as tropas chegarem para limpar a área. este capitalista americano estará literalmente.. Fuller diz: “Podemos obter de volta nosso investimento em dois anos. Já citamos Forbes (que se intitula uma “ferramenta capitalista”) sobre a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID): “é a principal agência por meio da qual o governo dos EE. de 16 milhões de dólares. Os planos da mesma refinaria. que Faltermayer apresente esta “especulação” como algo novo. Fali. e que os homens de negócio pudessem de imediato ocupar.”2) Um importante aspecto do quadro comercial é. “Estou nisso por dinheiro”.” Como todos os homens de empresa.

Segundo. que nem Fuller. quer imediatas quer a longo termo. em 20 anos um total de mais de 850 bilhões de dólares. Quando não há livre-emprêsa o país é comunista. como colônia de conflito. livre-emprêsa e liberdade. uma política militarizada pede uma economia militarizada. Portanto. Em 1959. são livres para nele fazer negócios. dependendo da nossa possibilidade de fazer negócios nelas. ajuda a guiar esta roda.tes homens de negócios particulares como sendo de qualquer modo cruciais para o drama do Vietnã. e que serão. ou não serão. Este é um fato político. Não há dúvida de que a importância do Vietnã está muito mais basicamente em sua posição geográfica e histórica do que em suas potencialidades comerciais inerentes. como veremos. Mas o que julgamos que “liberdade” significa? E qual é o propósito real em manter os comunistas afastados? Nossa definição funcional de um país livre fica clara perante nosso comportamento. a economia militarizada pede uma política militarizada. A guerra seria a mesma com ou sem eles. Sem dúvida. O Vietnã. quando Khruschev veio a Camp David e a Guerra Fria parecia suspensa para reavaliação. Está sendo travada pela liberdade ou para afastar os comunistas.”3 Analisemos por alto a visão que essa afirmativa torna concreta e obteremos uma exaustiva descrição ideológica da guerra do Vietnã. “Após a guerra”. o mercado de ações teve sua baixa mais 125 . Seu aparecimento nele parece incidental — talvez importante. diz Arthur Tunnell. uma outra cidade costeira. quando Faltermayer fala de “salvar o Vietnã” está falando ao mesmo tempo de salvar ambos. ele e a região para Fuller. “haverá aqui um grande futuro para os homens de negócios americanos. ao estilo ocidental — porque os dois últimos são considerados como se definindo mutuamente. mas não especialmente significativo. E livre quando lá há livre-emprêsa. Não está sendo travada em favor deste Herbert Fuller. ninguém pensa que os fuzileiros renunciariam à conquista de Tuy Hoa. se tiverem a habilidade e a capacidade para fazê-los. Porém. elas próprias “livres”. A definição diz que um país é livre quando americanos. e o primeiro é uma instância da realização deles. do escritório de Saigon da Investors Overseas Services. “capitalista americano”. Se Fuller decidisse que o projeto de Tuy Hoa era uma aposta má e voltasse para New York. Leve-se em conta que desde 1946 o governo federal tem dedicado cerca de 60 por cento de seu orçamento para apoio do complexo militar industrial. assim é tão só porque se imagina ser o Vietnã a chave para áreas maiores — áreas cuja acessibilidade comercial é importante para nós.

violenta em cerca de quatro anos. Quando. os que emprestam e os que tomam emprestado e seus analistas começaram a murmurar inquietamente. foram drenadas para fora aos bocados e pedaços. A guerra gera muitos problemas reais de administração fiscal e anomalias perturbadoras nos padrões do câmbio externo. porque aquilo que uma economia de alto emprego produz tem de ser vendido. depois voto de confiança. Nesta atmosfera controlada de “Perils-of-Pauline”.. Tendo se jogado para o futuro num ato de fé. em 1960. Quer vá para a vida mansa. Ninguém. a especulação altista ganhara sua moratória. o produto tem de ir para algum lugar e tem de ser pago. um fato econômico chave referente à defesa do produto: Não é produzido à custa de necessidades domésticas reconhecidas. começou a dizer em altas vozes. Parece que temos de gastar. uma vez que é tão antieconômica. notícias de um debate importante no “santo dos santos”. Por mais nervosa que permanecesse. Consideremos. acima de tudo. O herói era a guerra: Não seria encurtada. no consenso do especialista. A Administração parecia tender para a confiança. que não estava convencido de que as coisas estivessem tão bem quanto deviam estar. Porém o então presidente da Junta Federal de Reserva [Federal Reserve Board]. Eisenhower voltou de Paris devido aquele U-2 abatido (uma novidade Lockheed). certas pessoas bem informadas estavam de novo aborrecidas com a economia nacional. Porém. muito menos terminaria em breve. então. nada percebem da economia de capitalismo de estado. Não se dá o caso de os americanos fazerem filas para comprar 126 . e subsídio militar. sabia como reagir a este “crack”. Isto foi chamado do “nervosismo de paz” (peace jitters). Confessou mesmo que a economia o fazia pensar em 1929. e logo se soube que seus custos diretos iriam pelo menos a 21 bilhões de dólares por ano. Era profundo? Havia perigo real? Uma agitação de discreta incerteza se fazia presente. sobre o metabolismo nacional. a guerra é boa para a economia porque a economia sofre o acréscimo de subsídio federal. no geral. em lugares públicos. como é muito bem sabido. Os efeitos econômicos da guerra são tudo menos sem ambiguidade. quer para o limbo dos silos do governo. William McChesney Martin Jr.”4 Durante o verão de 1965. no particular. a página financeira do New York Times tinha como cabeçalho “Fracasso da Cúpula um Tônico para o Mercado. eis que de súbito aparece um herói inesperado que ninguém ficou realmente surpreso de ver. Aqueles que argumentam que devemos ter sido forçados a travar a guerra do Vietnã.

Afinal não tão profundamente. Observe-se a Europa. não são fabricados. e o de Ceausescu no Oriente. os aviões.automóveis que. onde não se pretende que a “ameaça” esteja aumentando. Eles são um pouco mais espertos do que Sísifo. por causa dos tanques. economia e negócios? Realmente parece não importar. Mas o que seria se a guerra do Vietnã terminasse e a China dissesse: sigam em frente? O que seria se a Guerra Fria esmaecesse. O oposto é verdade: mais comércio com o Leste da Europa e com a URSS. os submarinos. bem na superfície da intuição. os mísseis — onde estaria a economia? O que equivale à pergunta: Se não fosse pela heroína. participamos todos como cúmplices do grande segredo de estado. com seus 500 milhões de dólares só em pesquisas e contratos de desenvolvimento? O que seria dos altamente especializados cientistas. esmaecesse até que um dia alguém notasse que desaparecera? O que seria desta gargantuesca Lockheed. olhando para ele fixa e solenemente. são somente os mais dramáticos) a impulsionar a Europa em direção ao acordo e integração. estes homens de ciência. porque só cercam o rochedo. Que mais? São tolos. onde estariam os viciados? Obviamente: nos hospitais. técnicos. Talvez mesmo de natureza revolucionária. que é o de não estarmos em perigo real de ser abandonados por esta “ameaça” que conserva o estado corporativo em sua disposição de luta. economistas e homens de negócios. a legislação capacitadora para a orientação da conversão industrial de defesa-para-civil? Quem está quebrando cabeça com as respostas? Temos uma quantidade de variadas comissões fita-azul de cientistas. empurrando-o de tempos em tempos. o de De Gaulle no Ocidente. emprestadores e fornecedores que seus salários mantêm em atividade? Onde estão os planos concretos. sofrendo terapia muito dolorosa. engenheiros. após vários anos de pregação e aparente prática de coexistência. que não poderia alcançar de outro modo. administradores e operários da linha de montagem que emprega? Ou das dezenas de milhares de lojistas. O oposto está muito mais perto da realidade: Se não se gastasse com os tanques. qual é a política da América referente à militarização da Europa? Durante os passados quinze anos 127 . que todo mundo sabe muito bem não serem a sério. intermediários. os grandes debates no Congresso. Todavia nesta atmosfera de calma e confiança. conduz em ambos os lados da Cortina (dos quais. Não se pretende que a guerra do Vietnã tenha sido determinada só para animar uma economia superdesenvolvida e inflexível por meio daquele mercado “externo” e “expandido”.

em reconhecimento ao “intensivo esforço de vendas” de sua seção. uma outra parte de nosso governo oferecerá um empréstimo com cláusulas favoráveis. Kuss Jr. no período 1966-67. e se tivessem de alguma forma qualquer efeito no mais amplo 128 . Argumenta-se que estes armamentos estabilizam o mundo e fazem a paz.. Em maio de 1965. Kuss foi condecorado com a medalha “Meritorius Civilian Service. O vendedor número um — o Pentágono chama -o “negociador” — é Henry J. a Alemanha “tem sido encorajada” a adquirir materiais militares americanos no valor de 1.nós demos. Lockheed e McDonnell. Muito conveniente o fato de as “necessidades” militares da Alemanha serem tão próximas de nossas despesas. Delegado do Secretário Adjunto de Defesa para Negociações Logísticas Internacionais. que parece ter um pouco mais de cuidado com a necessidade e capacidade de pagar dos compradores do que qualquer vendedor de carros usados comum: A boa qualidade das armas é uma necessidade bastante válida e se o preço parece alto. ou vendemos. que a Guerra Fria degele se quiser. Tal demora pode ter algo a ver com a recessão e problemas orçamentários da Alemanha. equipamento militar no valor de 35 bilhões de dólares.. General Dynamics. Precisamos nos livrar destes bens. as vendas de exportação militar subiram a mais de 9 bilhões de dólares e o lucro dos fornecedores de defesa americanos totaliza cerca de 1 bilhão de dólares — belamente concentrado nas mãos de três grandes e altamente influentes firmas. As vendas militares externas no primeiro trimestre de 1966 foram as mais baixas desde 1964.”6 Eis um exemplo de primeira: a Alemanha ganha cerca de 675 milhões de dólares por ano das tropas americanas ali estacionadas.UU. não se preocupe. prosseguirão naquela escala elevada num futuro previsível. Mas o exame mais elementar do que está acontecendo agora na política européia tornará claro que armamentos — em ambos os lados — são crescentemente irrelevantes para a paz e estabilidade. Estas vendas são promovidas ativamente pelo Pentágono. Para compensar estes pagamentos dos EE. Mas pouco temos com isso.5 Por que tal acontece. como se as vantagens financeiras que nos vêm de sua venda fossem só um feliz incidente.3 bilhões de dólares. Desde a metade de 1961. se a ameaça está diminuindo? Acontece por que nossas vendas militares no exterior representam uma de nossas maiores ajudas em nosso deficit crônico de balança de pagamentos. e a grande razão foi o atraso da Alemanha em dar o “de acordo” para as compras. As vendas militares ultramarinas para 1965 eram cerca de 2 bilhões de dólares e. Mas a Alemanha parece relutante em comprar o que insistimos não poder ela dispensar.

”8 Pouco mais de dois meses após essa declaração. O Senador Eugene McCarthy comentou: “Não fica claro como a Jordânia. e era uma vez a política americana (tal como foi esclarecida por Rusk recentemente em janeiro de 1966). Nem a guerra Árabe com Israel. Mas a Grã-Bretanha ainda tem seu deficit. ou através dos montes Kopet.. porque supomos que temos de fazê-lo. Permite-se portanto à Inglaterra fazer ofertas para os contratos de munição americanos. o Departamento de Estado anunciou um acordo para vender à Jordânia (que já possuía tanques americanos) “um número limitado” de avançados aviões bombardeiros de combate. Porém. a Inglaterra agora necessita fazer vendas para “contrabalançar” seu desequilíbrio. e que se tem mostrado dependente das doações militares e ajuda econômica dos EE. ao mesmo tempo. com um PNB “per capita” anual de 233 dólares.UU. pagará estes aeroplanos. convencida de que estará em perigo enquanto não tiver uma grande frota 129 . “não para estimular e promover a corrida armamentista no Oriente Próximo e nem para encorajá-la por nossa participação direta. caso vencesse tais lances. o Paquistão não teria buscado uma solução militar para a disputa do Kashmir. ninguém pensa que os russos estão para vir rugindo Cáspio abaixo. causaram a guerra entre a Índia e o Paquistão. que “as armas que fornecemos. Fora da Europa.”9 Ênfase acrescentada. Se não tivéssemos fornecido armas. declaradamente os Lockheed F-104.. é um negócio embaraçoso. testemunhou ante o Comitê de Relações Exteriores.padrão da reintegração européia. O antigo Embaixador na Índia. que custam 2 000 000 de dólares a unidade. o Pentágono dá um jeito de achar as propostas inglesas não inteiramente segundo o modelo. assim o fazemos por trás do muro o quanto podemos — mas o fazemos.”7 Por pior que tenha sido — e ainda pode ser de novo o embate Índia-Paquistão nada será comparado com o que poderá irromper a qualquer momento no Próximo e Médio Oriente. têm qualquer coisa a ver com a Guerra Fria. a realidade contradiz a tese de armas para a estabilidade. Uma sequência interessante tem início com o nosso pedido para a Inglaterra comprar aviões de combate americanos.. John Kenneth Galbraith. de maneira ainda mais ominosa. Tendo concordado. nem a vendetta de Nasser com a Arábia Saudita. isto resultaria numa perda de mercado para os fabricantes de munição americanos. em 25 de abril de 1966.UU.. apesar disso. Vem à cena a Arábia Saudita. seria um negativo e obstrutivo.. Assim. é sem dúvida um importante fator. Os vendedores americanos estão contentes. Vender armas para Israel e o mundo Árabe. A eficácia do crédito para compra de armas dos EE.

contra o pano de fundo da política americana em Israel. no qual têm sua razão de ser. em consequência disso. Quem poderia negociar aspirina se não houvesse dor de cabeça? Todavia o que é mais anti-dor-de-cabeça do que a aspirina? Aspirina preventiva. Por trás dos executivos o sistema de crescimento e valorização intensos para o qual trabalham. numa palestra para um grupo de banqueiros. os melhores. Por trás dos engenheiros. mas que podemos fazer? Lá se erguem os brilhantes armamentos numa fileira. os engenheiros militares precisam desenhar.12 talvez tenhamos começado a saturar um bom 130 . A Guerra Fria. O sistema precisa crescer e se valorizar altissonantemente. com frequência. Além disso. Sumner Slichter. seu poder de inspirar nosso capitalismo declinar.. seria para nós politicamente arriscado atendê-la — pelo menos abertamente. Queria-os americanos. nós temos ameaças preventivas. Atrás deles postam-se seus engenheiros.. “incentiva a demanda de bens. os executivos precisam existir. Porém. estes polidos aviões de combate. não havendo perdido nenhum mercado no qual poderíamos ter entrado graciosamente. os rebitadores precisam rebitar. E nós.”11 Triste dizer. Assim para prosseguir com esta beleza conceitual chamada “guerra preventiva”. só na Europa Ocidental. 7 000 foguetes nucleares de longo alcance.de aviões de combate. ele disse. Por isso persuadimos a Arábia Saudita de que os nossos não são os únicos aviões do mundo a voarem tão bem e que ela também vai ficar muito satisfeita com uma marca britânica. para a capital. quando pusemos. vende à Arábia Saudita o que ela quer — aviões de combate supersônicos no valor de 400 milhões de dólares. explicou o sistema de modo muito comovedor em 1949. uma pequena tensão e ansiedade. estamos vendo a glória da Rússia esmaecer. pelo qual falam. ajuda a manter um alto nível de emprego. Mas o mundo não devia esquecer o que é uma dor de cabeça.10 E assim são as coisas. acelera o progresso tecnológico e assim ajuda o país a levantar seu padrão de vida. os executivos que servem em comissões presidenciais e viajam. e os luzentes armamentos precisam portanto ser negociados. Na aparência não estamos realmente orgulhosos com este tipo de coisas. o suficientemente grandes para pôr um fim às coisas e proteger o sistema de se tornar supérfluo. Desta forma devemos agradecer aos russos por ajudarem a fazer o capitalismo nos Estados Unidos funcionar melhor do que nunca. E essa negociação é mais fácil se há uma certa inquietação no mundo. economista de Harvard. contamos esta venda britânica de aviões para a Arábia Saudita como o fator de equilíbrio compensador de nossas vendas anteriores de aviões para a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha.

por exemplo.13) Porém a opinião que veio a ser a dominante foi de que os problemas de agressão de potências avançadas e revolução de estados atrasados tinham de ser resolvidos. há o período de pré-guerra do “New Deal”. pois novos russos continuam entrando no mercado da Guerra Fria. A questão para a diplomacia era como fazê-las entrar. O mundo necessitava de um acordo de gigantes industriais. A América devia. Havia-se tornado essencial para nós que nossos mercados externos não fossem perturbados. A questão para os estadistas foi quais potências deveriam pertencer ao clube. (Esta é uma das assim chamadas posições isolacionistas. Já pela metade da década de 1890 nos havíamos tornado os primeiros manufatureiros do mundo e portanto internacionalistas a despeito próprio. podiam ser resolvidos e seriam resolvidos por meio de algumas combinações das potências adiantadas. a crença geral era de que a combinação adequada consistiria nos Estados Unidos. é neutralista. descobridores de talentos. Não é isolacionista. Itália e Japão permaneceu basicamente sólido nos anos 1933-40. vontade e prestígio coletivos haveria de restringir as agressões e suprimir as revoluções. Wilson reviu explicitamente esta perspectiva. Como deviam ser conquistadas a estabilidade e liberdade necessárias? Uma opinião distintamente minoritária era de que não podiam ser: As velhas nações estavam resolvidas também a se conquistar mutuamente. é tudo menos isolacionista. a partir do começo do século. podiam proteger a segurança da eco131 .mercado. Para um exemplo mais de dentro de casa. A Suíça neutralista. Agora temos a China — e portanto o Vietnã. ser neutra e comerciar com todos que quisessem comerciar em termos justos. E o Terceiro Mundo está pululando de gente da CIA e Forças Especiais. Desta forma a Rússia revolucionária podia ser isolada e as Grandes Potências. estrelinhas de amanhã — Guatemala? Filipinas? Irã? — estão desde agora experimentando suas vestes de pijama negro campesino e ensaiando suas mais rabujentas imprecações marxistas. agindo coordenadamente. sustentando que a Alemanha e o Japão agora deveriam ser integrados no acordo Atlântico. Grã-Bretanha e França. cuja força. De maneira crescente. quando fomos internacionalistas. mas não precisa sê-lo. Porém temos sorte. ao mesmo tempo: nosso comércio com Alemanha. por isso. O neutralismo pode ser isolacionista. E nos flancos. politicamente partidários e economicamente neutralistas. e usualmente não o é. o cerne estratégico do assunto. a política americana tem estado preocupada com o problema de pacificar o meio comercial global. Terceiro. Após a guerra. Antes da I Guerra Mundial.

e talvez (é passível de debate) o gaullismo represente. Estávamos tentando com determinação. pelo menos bem até a metade dos anos de sessenta. assim o Japão é o pivô do Pacífico. de maneira genuína.nomia política do mundo. com uma constância realmente notável. todos os nossos parceiros compartilhando nossa crença numa filosofia política democrático-liberal. Este sistema tem dois domínios separados mais integrados. Quando as dificuldades começaram a fermentar. nosso volume total de comércio com o Japão só foi ultrapassado por nosso comércio com o Canadá e a GrãBretanha. Assim. O muito cobiçado comércio com a China não era nem metade tão importante (por aquele período. e em 1922 (o Tratado das Nove Potências) levou o Japão pelas orelhas a um moderno acordo à portas-abertas com a desventurada China. Tal como a Alemanha é o estado pivô do domínio Atlântico. É a situação deste Japão que examinaremos agora mais detidamente. França. De 1929 até 1940. Porém. Alemanha e Japão. Grã-Bretanha. para estabelecer a hegemonia de Quatro Potências na Europa (i. manobrou por paus e pedras durante a maior parte desse período para assegurar uma acomodação da China com o Japão. O primeiro ponto é que o Japão é um comerciante tradicionalmente poderoso. crescentemente integrada. por parte da Alemanha. e todos eles mais ou menos querendo aceitar e apoiar nossas opiniões sobre a ameaça comunista. estabelecer aquela integração política das Grandes Potências que por fim foi estabelecida pelo menos temporariamente — como um dos principais resultados da II Guerra Mundial.e. Coréia e Formosa. nos anos de 1920 os Estados Unidos subscreveram a reconstrução da estrutura industrial de pré-guerra da Alemanha. O “New Deal” não muito mais esclarecido pela invasão japonesa da Mandchúria do que o foi a Inglaterra pela remilitarização do Rhimeland. o Atlântico e o Pacífico. Grã-Bretanha. na década de 1930. A França de De Gaulle hoje pressagia mudança. Nossa perspectiva da distinção do Japão está refletida no fato de que além dos casos muito especiais do Vietnã. Alemanha e Itália). nenhum país fora da Europa recebeu tanta assistência dos Estados Unidos 132 . o mundo de após-guerra foi dominado por alianças explícitas ou implícitas que ligaram umas às outras as economias dos Estados Unidos. França.5 bilhões de dólares). o volume total com o Japão era cerca de 3. idéias diferentes sobre como o poder europeu possa ser organizado e quais devam ser seus objetivos fundamentais.5 bilhões de dólares. enquanto o com a China cerca de 1. Chamberlain lutou com toda a considerável ansiedade sob seu comando. isto é. um que há muito tem sido importante para o comércio dos Estados Unidos.

alcançara o segundo lugar entre nossos parceiros de comércio. Nunca foi ameaça real.3 de dólares de importações. vendeu-nos 2. Uma é de que ela estaria quase indefesa ante a espécie de ataque nuclear estratégico que um ato claro de agressão certamente provocaria. em cada caso. França e Canadá. pode ser política e legalistica. a percepção de uma ameaça ativa desperta uma contramedida. “conteve” Hitler respondendo à concentração alemã de tropas em sua fronteira com uma mobilização militar. estava perto de 17 bilhões de dólares (mais do dobro do volume de 1960). Seu volume de comércio. Contenção que. ao mesmo tempo com os Estados Unidos e o mundo. é tão decisivo para a contenção da China quanto a contenção da China o é para a saúde e orientação ocidental do Japão. Sua recuperação no período de após-guerra foi rápida e firme. significar várias coisas. 8. é de que ela jamais atacou para saques ou sem provocação (A “invasão” coreana só se deu após repetidos bombardeios americanos na Mandchúria. Alemanha Ocidental. A característica comum seria que. Benes. orientado para o Ocidente. que é graduada especificamente para a natureza da ameaça e que não se propõe à liquidação final e direta da ameaça.)14 O segundo ponto é que um Japão saudável.5 bilhões de dólares e comprou-nos 2. atrás dos Estados Unidos. Mas também não se pode duvidar de duas outras coisas. (8. colocando-a à frente da Itália entre os realizadores de negócios do mundo. a “invasão” tibetana. Qual a natureza da ameaça Comunista Chinesa? Como deve estar perfeitamente claro. Por volta de 1961. Ele pode. há uma forma de contenção que é claramente militar. da Tchecoslováquia. Em 1965. Inglaterra. judicial e de propaganda. Assim. só com o Canadá à frente. neste caso. Podemos oferecer uma galeria de tais situações diferentes e definir para cada uma diferente forma de contenção. só após um claro motim da teocracia. Para entender as essências desta dinâmica temos que analisar a significação deste conceito “contenção”. é claro. a “invasão” indiana. em 1965.(alguns 4 bilhões de dólares pelo período 1945-63). Os Estados Unidos “contiveram” o crescimento do comunismo interno por meio de um programa de sistemática hostilização legislativa. na qual não tinha de nenhum modo o pior argumento. como resultado de uma muito comum disputa de fronteira. Não se pode duvidar do poder da China para agredir seus vizinhos. a ameaça não é basicamente militar.) 133 . O outro. alcançando pela primeira vez uma balança de comércio favorável.4 bilhões de dólares. Por um período pateticamente breve.5 bilhões de dólares de exportações vs.

ninguém parece estar realmente seguro de como medir o desempenho de uma economia planejada imatura. Avaliações da experiência do Grande Salto variam ainda “mais largamente. a energia e a ingenuidade para ser o quê? Garantida a equidade que o tempo pode obter. esperando por algum cabeça dura Johnny Applessed. O importante é que ninguém nega. pela primeira vez em séculos. Deixado de lado o problema de dados insuficientes. Nossa resposta ao fato gigantesco da revolução chinesa — algo que 134 . os recursos. que o tempo inevitavelmente trará. haver algo como uma nação chinesa. A taxa de crescimento nos primeiros dez anos seguintes à fuga de Chiang para Formosa foi entre 15 a 30 por cento. O povo industrioso — e a terra rica — lá têm permanecido. e que o crescimento industrial básico permaneceu saudável. seu miolo é econômico. Por muito tempo tem sido sabedoria de estadista julgar. outros pretendendo que o fracasso. Pensemos então. dependendo do especialista que se aceite. no Oriente. Europa e URSS. Imaginemos um mundo no qual a ação criadora — econômica. que qualquer China que se pudesse organizar seria deveras uma China. infestado como é por dificuldades naturais e políticas. tal nossos estadistas por certo o fazem. na China de aqui há cem e mesmo cinquenta anos. agora na maior parte recuperado.” Tem ela o povo. Mas aqui não precisamos ser tão técnicos. alguns estudiosos apresentando uma interpretação de “catástrofe”. cultural — não mais esteja tão densa e desproporcionalmente concentrada no âmago global do Atlântico Norte — isto é. é tão grande como precisa ser. a China se poderia tornar uma igual da América. O que lhe faltou por séculos foi ordem. Mas há acordo geral de que o desenvolvimento foi vigoroso. e que esta economia estabeleceu contato com o potencial intrínseco da terra e do povo. entre vários. e a razão principal de sua demora seria a necessidade de explicar porque nada de exatamente conclusivo pode ser dito.A ameaça é política. foi principalmente agrícola. que ela tem uma economia. a observação de Lênin de que “para o comunismo mundial o caminho para Paris passa por Pequim e Calcutá. Recordemos só as palavras de Napoleão sobre o gigante adormecido que acordará para sacudir o mundo. um sentido de unidade nacional. Para que se ouse dizer alguma coisa de conclusivo sobre a economia da China ter-se-á que basear-se numa demorada análise. política. e controle positivo de seus recursos inerentes. um mundo no qual exista uma Ásia independente e dinâmica. Esse potencial. E como no caso de qualquer ameaça política. precisamente tomando em consideração o estado realmente caótico das condições iniciais.

o Japão já é o mais destacado parceiro comercial da China. destruir com certeza o maior dentre todos os totalitarismos. política e história. Contudo. Meramente para dar à sua autodestruição uma pequena cotovelada. estão subindo anualmente numa média só ultrapassada por suas compras da China. 152.UU. Meramente para lhes dar ânimo. os homens de negócios do Japão estão também ajustando comércio crescente). 16. bem no limite da península industrial mandchuriana.8 (157.0). armamos ostentosamente seu real e verdadeiro herói.3 (244.8). As notícias eram diferentes. Exportações (e importações) em seu comércio com a China.* ultrapassando mesmo a União Soviética (com quem. tudo isso era trabalho de Joe Stálin e de certos inconfidentes do Departamento de Estado. Extenuamo-nos em contos jocosos sobre os erros crassos.6).7). Claro.7 (20. Quer coagido por apreensões políticas futuras ou seduzido por oportunidades comerciais presentes. As únicas questões que estão de todo abertas são quanto. E o povo não se levantou.15 135 . Reputações foram arrasadas. quando e em que termos. E lá está o Japão. Porém então certamente o povo chinês deve se levantar contra o “perigo amarelo” interno. nossas recriminações eram sem fim. de que a Economia Mais Alta * As vendas do Japão à China. 245 milhões de dólares em 1965. de 1960 a 1965. estabelecemos um embargo.4 (74.7). porém antes com a organização independente da China e sua aquisição de ardor moderno — não tem sido propriamente pragmática. (Uma comparação grosseira de situação seria a Inglaterra encontrar-se politicamente mal aliada contra uma Europa unida aos Urais.5 (46.9). são as seguintes (em milhões de dólares dos EE. Estranhos caminhos do Oriente! Nesse meio tempo. 245. Primeiro preferimos acreditar que ela não estava acontecendo.0 (30. em tempo. estranha se tentasse isso. tristezas e sofrimento epidêmico da nova China e nos equilibramos para o próximo despacho de últimas notícias. 38. aquele dervixe de Formosa. a China ainda estava lá. E ela não morreu.): 2. porque ele nos diria do fim deste erro extravagante. Quais são as opções do Japão? Isolacionismo em relação à China nunca pôde nem ser pensado. completamente sem forças para se mover.não tem nada a ver com comunismo. que gira por meio de fios. pedindo capitalismo e Chiang Kai-shek. bastante habilmente. um pequeno impulso. se aproximando como um trem de carga. Seria uma economia. Então adotamos a opinião de que seu próprio demônio interior haveria de. um aríete). Mais especificamente: o Japão planejará manter sua presente inclinação política pró-americana? Submeter-se-á ele à mais comum das leis da história mundial. 62. Não é como se o Japão fingisse que a China não estivesse lá.

6 bilhões de dólares de importações. do total de 7. cabe a ela concretizar sua possibilidade. O Japão compreende que sua nova economia foi construída por nós. humilhante a respeito do Tratado de Segurança Mútua de 1960. Precisam de mercados. 700 milhões de dólares (12 por cento) foram em alimentos. O Japão. A urbanização do trabalho reduzirá a colheita das fazendas não mecanizadas. (3) A cifra de desemprego do Japão é uma irreduzível um por cento. (16 por cento) foram em alimentos. tanto proporcionalmente como no total. em certa medida. assustador a respeito de nossa guerra do Vietnã. em 1963.16 (5) Os japoneses são os mais destacados construtores navais do mundo e estão entre seus mais importantes fabricantes de aço e tecidos. pelo qual Kishi teve de pagar com a vida. Agora perguntamos: o Vietnã interfere materialmente neste drama? Os fatos-chave parecem ser os seguintes: (1) Duas das principais necessidades de importação da China são borracha e arroz. tentará o caminho grego da mediação prudente e fará de si próprio uma ponte entre os dois super-gigantes. Mas há algo de especialmente memorável a respeito dessa Bomba. Se a América tem certas esperanças. do total de 6. nação cujas principais cidades atomizamos? O Japão compreende que bombardeou Pearl Harbour sem grandes escrúpulos.3 bilhões de dólares (17 por cento) foram em alimentos.7 milhões de dólares. A China precisa de barcos. Do total de 5. Só não fará o que não puder fazer. cuja melhoria de acesso acelerará. deve fazer o que pode para permanecer nosso associado. aço e 136 . ao mesmo tempo que o mais alto poder de compra resultante aumentará a demanda. A industrialização intensificada atrairá mais trabalhadores da fazenda para a fábrica. sua taxa de desenvolvimento e portanto seu poder geral. estando suas importações de alimentos em ascensão. sabendo bem (como notou um japonês) que pontes são trilhadas? Deve ser claro o que os Estados Unidos esperam que o Japão faça.determina a Política mais Baixa e assim arranjar-se com Pequim? Ou. pelo contrário. à qual se opõem três quartos de seu povo: os elementos do antiamericanismo japonês subsistem. 1 bilhão de dólares. (2) Os dois principais produtos de exportação de um Vietnã do Sul normalizado serão borracha e arroz. insensível a respeito de nossas aparições nucleares em seus portos de pesca. 1.9 bilhões de dólares. em 1962. e está-se tornando um dos maiores. enfurecedor a respeito de nossa colonização aberta de Okinawa e da cadeia de Ryukyu. em 1964. (4) O Japão é tradicionalmente um importador de alimentos. a pedra de toque de nosso perímetro de contenção asiático. Mas quanta pressão podemos pedir a essa nação que suporte em nosso nome.

com o Japão. Juntemos um fato final com uma observação profissional. O Japão é o bastião. em 1959. após um período de esfriamento. Eisenhower. De fato. quase exatamente um mês antes do colapso francês em Dien Bien Phu e da abertura da Conferência de Genebra sobre a Indochina. Um Vietnã em desenvolvimento certamente quererá aço e provavelmente navios. O Japão. A força econômica do Japão é o elemento crucial da política americana de contenção da China e manutenção da paz na Ásia. [a perda da Indochina] afastaria essa região. quando o Japão decidiu só pagar reparações de guerra ao Vietnã do Sul. 2. de 7 de abril de 1954. Norte Vietnamita. em 1961-62.17 A observação foi feita pelo Presidente Eisenhower. o Presidente acrescentou. a fim de viver. Fall: O comércio do DRVN. em sua entrevista com a imprensa. O fato é narrado pelo erudito da Indochina. O Vietnã do Sul é uma importante área em perspectiva para comércio. 137 . maquinaria de todos os tipos e quatro navios cargueiros de longo curso de 5 000 toneladas e um de 2 000 toneladas. e compreende itens tais como produtos químicos. Ficando somente atrás do Canadá entre nossos parceiros comerciais. um propósito direto primário de contenção da China é a salvaguarda de nosso interesse comercial no Japão. que o Japão deve ter como uma área de comércio. ou para as áreas comunistas. isto é pago pelo Vietnã do Norte em matérias-primas. As consequências possíveis da perda [do Japão] para o mundo livre são quase incalculáveis. As notas estenográficas rezam: Em seus aspectos econômicos.tecidos. disse Mr. tem alcançado proporções importantes que bem podem provocar preocupações nos Estados Unidos. Bernard B. O comércio subiu de cerca de 10 milhões de dólares. 3. principalmente carvão. tanto para os vendedores japoneses como para os compradores chineses. mas pode estar inclinado a proteger sua indústria têxtil. o Japão é da maior importância comercial para nós. é ao mesmo tempo o bastião da luta de contenção de expansão e o prêmio da vitória. portanto. ou isso forçaria o Japão a voltar-se para a China ou Mandchúria. para mais de 40 milhões de dólares.18 Todo o precedente precisava ser apresentado para apoiar as seguintes proposições: 1.

Mas a China é também um importante parceiro comercial do Japão. como estão as coisas agora. sem considerar quem o desenvolve. significam que seus mercados. Os tesouros do Vietnã do Sul. O bastião e o prêmio. Grã -Bretanha.UU. Podemos simplificar isto. A América a sente mais agudamente porque. por parte da Alemanha Ocidental. 6. de cerca de 1. será deixado sem uma alternativa para uma orientação progressivamente mais pró-chinesa. abundâncias de recursos e o fato da guerra o ter feito central.UU. uma vez desenvolvidos. a longo termo ante o mercado da China em desenvolvimento. Se o Japão e a China desenvolverem interdependência econômica — e.4. porque seu investimento 138 . Se o Japão não tem alternativa a longo termo para o comércio maciço com a China. só perturbações frustrantes podem ainda adiar isso — então a matemática bruta da relação condenará o Japão à inferioridade (tanto como a Grã-Bretanha estaria em posição inferior ante um continente europeu economicamente integrado). prende-se aos mercados em desenvolvimento mais lento e menos organizáveis do Pacífico Sul. ouvem o mesmo tique-taquear de relógio. e não pode deixar de se tornar crescentemente magnética. baías. de uma usina de aço para a China desarma mais ainda o argumento ideológico contra comércio continental e só pode aguçar o apetite comercial do homem de negócios japonês. O que o Ocidente depara no Pacífico é a formação de um sistema econômico regional (a) cujo potencial e força são inerentes à própria situação do Pacífico. de Washington. a Índia se mostra quase inerte ante as mais desesperadas provocações ocidentais. No terceiro. exercerão uma grande influência no Japão. esperam que o Bloco Comunista supere os EE.5 bilhões de dólares. (b) que deve incluir o Japão. são maiores do que em todos os outros países salvo Canadá. Venezuela e Alemanha). No primeiro. No segundo. goza agora a posição econômica dominante lá no Pacífico.. A única oportunidade remota (é remota) do Japão. entre as potências ocidentais. agora enterrados. e (c) que pode quase naturalmente ser dominado pela China. especialmente nas estratégicas Filipinas (onde o nacionalismo econômico está crescendo) e na Austrália (onde os investimentos diretos dos EE. O autorizado Finance (junho de 1966) disse: “Alguns especialistas em comércio.” (A venda. a posição da América é tradicionalmente privilegiada. uma única coisa. o Comerciante.) 5. a posição do Vietnã do Sul é central devido suas costas. como maior parceiro comercial do Japão durante a próxima década. para uma alternativa. Esta é a “ameaça”. Sul e Sudeste da Ásia.

é excessivo. contam a história bastante claramente. sido tornada explícita e levada a efeito consciamente. Tal tem sido a política tradicional da Europa na África. Malásia. Isto nos conduz a uma conclusão final: O alvo da economia política do Atlântico Norte é frustrar a organização independente da economia política do Pacífico. uma África africana.asiático de após-guerra em sangue e bens. pela imposição de barricadas políticas e militares entre seus elementos e pelo oferecimento da alternativa de outras configurações econômicas. é frustrar o delineamento deste sistema geo-econômico. Tal tem sido a política tradicional dos Estados Unidos na América Latina. tem sido hábito inveterado das potências ocidentais absorver e integrar o que podem comandar. Austrália. 139 . ou não. não pode evitar o fortalecimento das políticas destes países não-comunistas e anticomunistas. no pobre mundo. relatando o importante nascimento da ASPAC em Seul. disse o Ministro do Exterior da Tailândia. e sob muitos aspectos cronicamente malformada. e porque é sob qualquer medida o mais internacional dos estados internacionais. e hostilizar e dispensar o que não podem. a luta para conservar o Vietnã do Sul. Robert Trumbull. Filipinas. para observações mais recentes e sensíveis.. em junho de 1966. citou o chefe de uma delegação como dizendo que “embora de início a organização seja puramente para cooperação econômica p. Assim. Nosso propósito. Vietnã do Sul e Japão. E assim. o Banco Asiático e o novo. um banco regional para ajudar o desenvolvimento do arroz e outros produtos. Uns eloquentes dois e meio séculos de ações ocidentais inúteis. e um pool técnico internacional. revolução do mundo pobre é que às alternativas tradicionais de integração subserviente e hostilização. A significação mais elementar da caótica. promovida pelos Estados Unidos. Assim. China Nacionalista.”20 Os nove membros são Coréia do Sul. O repórter do New York Times. uma Ásia asiática — sendo seu argumento mais direto não poder haver integração uniforme das várias esferas globais (isto é. Nova Zelândia. intitulado experimentalmente Conselho de Cooperação Pacífica Asiática [Asian and Pacific Cooperation Council] (para poder ser chamado ASPAC — “um nome atrativo com um som viril”. De fato. pode agora ser acrescentado um terceiro caminho: uma América do Sul sul-americana. por toda a parte. Thant Khoman19). a Organização do Tratado do Nordeste da Ásia [Northeast Asia Treaty Organization] (NEATO). Nem importa muito que uma tal política tenha. na Ásia. então. que morreu recém-nascida.ex. Tal tem sido a política asiática tradicional das potências atlânticas em conjunto.

jan-fev. Relatórios cheios de sofismas sobre nossa guerra terrestre argumentam mais persuasivamente (embora às vezes sem intenção) que ela é travada sem padrão relevante e sem efeito significativo. Que Treinaram para a Guerra e Que A Encontraram no Vietnã do Sul Cinqüenta Dias Mais Tarde”]. conduziram somente à infiltração paulatina. 140 . de John Sack. mas da própria cultura. de S. por meio de panegíricos sobre democracia e diatribes igualmente irrevelantes contra o comunismo. “The Death of a Platoon’’ [“A Morte de um Pelotão”]. Marshall. L. parece-me de longe o mais importante — está embaralhado num quebra-cabeças não muito intrigante. as guerrilhas. 1966. um ensaio de desastre cuja mensagem de entrelinhas é precisa e aflitiva. New Jersey. esta destruição cobra uma taxa decididamente muito alta dessa boa vontade política da qual a América de Johnson tem miseravelmente tão * Veja por exemplo “I Quit!” [“Eu Paro!”] do veterano das Forças Especiais Donald Duncan em Ramparts. Um Relato Sobre uma Companhia de Soldados Americanos em Forte Dix.* E. e embora dissimulemos as raízes de nosso antagonismo para com ele. no Esquire. e contra isto é que estamos lutando para resistir. Who Trained for War and Who Found It in South Viet-Nam Fifty Days Later” [“M.onde há paz) enquanto não houver uma equidade econômica e política aproximada entre elas. este é o testamento de revolução. An Account of One Company of American Soldiers in Fort Dix. além de ser militarmente ineficaz. New Jersey. O napalm destrói mais aldeias do que forças combatentes. cuja mobilidade não é da máquina. A. tigres e civis do que vietcongs. com nosso isolamento da China. parece pelo menos ser um ato proporcionado. O quarto ponto — por seus poderes de explicação sobre nossa civilização. nossas forças mecanizadas sendo incapazes de combater de qualquer modo durável e decisivo. Qualquer um pode ver que os raides aéreos sobre o Vietnã do Norte. os B-52 matam mais macacos. [“A Destruição da Consciência no Vietnã”]. “The Destruction of Conscience in Viet-Nam”. ou ainda 16 000 “conselheiros” da Marinha. descritos oficialmente como o melhor meio para deter a infiltração. Ou um dos estudos psicológicos realmente poderosos sobre a guerra terrestre. Ou o estudo acurado de Marshall Sahlins sobre as operações das Forças Especiais. esta “solução militar” desde há muito provou não ser solução nenhuma. de custo-condicional controlável. Quer aconteça gostarmos disso ou não. o que quer que se pense do motivo político. quarentena de Cuba e pacificação no Vietnã. Porém meio milhão de homens? Que aparentemente deverá se tornar um milhão? Além do mais. de outubro de 1966: “M. Ou uma peça da autoria de um protagonista da guerra. em Dissent. Salvar o Vietnã ao preço de espalhar alguns 600 especialistas de guerrilha das Forças Especiais. No sul. de fevereiro de 1966.

para proteger os abalados dominós do Pacífico — e. e pode começar a arruinar nossa posição política na Ásia. mais sensíveis. de maneira estranha. Significa décadas. a tentativa de levar a efeito uma tal solução piora. Acima de tudo há o que Stillman e Pfaff chamaram. Nós mesmos. que nossos orientadores políticos dificilmente podem deixar de ver. num tempo em que os liberais ocidentais se desvalorizam por meio de seu próprio manhoso humanismo-cum-política realista.pequeno suprimento. Os calculistas do governo não têm representado proteção contra uma perda de controle que pode muito bem ser sem paralelo. de fato. realmente importantes e passíveis de defesa — Índia. e os proeminentes do leste do mundo Ocidental. Coréia. cujo maior crime é denunciar a fraqueza do imperador. Sem um inteiramente novo tipo de vontade e sabedoria ocidentais concentradas. Em suma: A solução militar para o problema do Vietnã não está dando resultado. em outros tempos. “a furiosa energia material e a fantástica passividade política do Japão contemporâneo”. a Coréia do Sul fica mais atrás da Coréia do Norte. Porém. essa posição não é fácil de transformar-se em lema. na verdade. carregada com significados políticos da maior gravidade. em desenvolvimento econômico e independência política. maldizemos o imperialismo — o imperialismo mais primitivo de outros. nós mesmos já glorificamos a revolução — a nossa própria. Uma vez que tivesse de 141 . mesmo depois de ele ter ultrapassado sua necessidade e ter-se tornado. o resto da Indochina. que pudesse ver ali problemas que fazem da “salvação” do Vietnã um assunto sem importância. O nordeste da Tailândia permanece tão vulnerável como sempre ante aqueles “agitadores de fora”. Tailândia. de antiamericanismo no Vietnã. em seus próprios termos.21 uma energia que temos visto ser. Por que acontece isto? Isto acontece porque a ideologia que pediu e reivindicou este ato de guerra “necessário” continua a pedir e reivindicar o ato. Filipinas. a Índia será comunista dentro de duas décadas. A economia política das Filipinas está estagnada e os Huks estão de novo em ascensão. toda a Ásia mesmo a Europa do Oeste começa a ter ânsias. irracional. os líderes da América parecem ter duvidado que seus filhos tivessem estômago para uma guerra contra-revolucionária repressiva e imperialista. Aquilo que a força ocidental enfrenta é a revolução social antiimperialista do pobre. Cada dia. Talvez por causa disto. Podia-se supor que um imperialista racional pudesse inventar outros meios. senão séculos. Japão — flutuam cada dia um pouco mais para perto daquele futuro nitidamente oriental.

governos centrais autoritários. fazem um esforço para se coordenar entre si. num bobo. Esta teoria da Conspiração Internacional Comunista não é a solteirona histérica que muitos esquerdistas parecem pensar que é. uma pretensão que automaticamente implica em América.A. E na medida em que esta revolução pretende terminar o domínio do rico. mas cujas cores têm sido trocadas de humanos preto. Englehard. cujo objetivo central (assim temos certeza) é a conquista da América. uma tal guerra teria de ser adoçada com um nome diferente. agem assim. O imperialismo é por isso recristianizado como anticomunismo. ou em perfeito agente de coração duro da Conspiração Internacional Comunista. ambição sem propósito e desapiedada. E. E o que é subtraído da realidade — muito mais importante — é a fonte do fermento. se dentro do poder de uma idéia se inclui perverter a generosidade de uma nação e amaldiçoar seus filhos. porque consideram ser seu inimigo.S. coordenado internacionalmente — uma opinião que é inteiramente correta. por quaisquer meios melodramáticamente conspiratórios. se entendermos por isso que provavelmente não produzirá economias capitalistas. Há uma revolução que é internacional — uma pessoa tem apenas que contar as perturbações e o olhar em um mapa para ver o bastante.ser travada. a teoria desorganiza e desgoverna brutalmente a história bem real que lhe permite sobreviver. e nosso inimigo é transformado de um ser humano em um mero peão. a causa da cólera. quando fala. Em certo sentido menos técnico esta revolução é “comunista”. e cujo fundo tem sido inteiramente apagado. de que provavelmente criasse economias autárquicas e controladas. O que esta teoria nos dá é um retrato que. ele mesmo. então a aceitação americana generalizada desta opinião sobre revolução pode prenunciar um amargo futuro para todos nós. a revolução tem de dirigir-se à América — ou melhor. especialmente nos estágios primeiros. essa nuvem de diabolismo que nada tem a ver com a própria força sustentadora da revolução. em linhas gerais. marrom e amarelo para vermelho de diabo. Teve íntima ligação com a realidade e tem alguma história em mente. se dirige a uma América que a maior parte dos americanos esqueceu: Rockefeller. a questão suprema da justiça da rebelião. Mas o que é acrescentado para puro efeito político é essa feia faceta de clandestinidade. U. E se não. os diversos movimentos de libertação nacional. programas de acumulação de riqueza em ritmo forçado e o violento desmantelamento de elites ricas. Portanto. pateticamente inábeis. não é irreal. Não há nenhuma utilidade em ser enganado a respeito disso. 142 .

sabemos que jamais ficará satisfeito com Moscou ou Pequim. cuja esperança real. Ela reorganiza inteiramente os termos morais do embate entre o rico e o pobre. e a mesma sorte de mentiras. Esta ideologia é a descendente absoluta daquela ideologia com a qual os pais daqueles mesmos senhores uma vez pretenderam destruir o movimento trabalhista americano.É por meio da ideologia de anticomunismo de Guerra Fria (Cold War anticomunismo — um cínico pode abreviá-lo CWAC e chamá-lo “cwackery”) que os senhores do poder americano justificaram e dissimularam. um intruso na cena de mudança social. então a FLN tem de ser derrotada. O que quer que possa pensar. quer não. então é boa de maneira absoluta. quer ele saiba ou não. Washington D. parece. Ele já está denominado — um criminoso. acontece nós sabermos que é um impostor. Havana ou Àlger. Não é possível imaginar que um tal objetivo possa ser limitado ou anulado. Caracas ou Saigon. quer voluntariamente assim. algumas delas poderosas. Os verdadeiros revolucionários sociais. central e condutor do drama que está sendo representado nas jângals do Vietnã é nada menos que a questão de nossa própria sobrevivência nacional. priva o revolucionário de seu direito legítimo a se denominar e explicar.C. de um só golpe. por qualquer outro objetivo. verdadeiro objetivo — é a destruição de nosso país. e. e. Após anos de aperfeiçoamento. A explicação permanecerá correta sem considerar quão duro possa ser levar a cabo suas ordens implícitas. tem-se de dizer desta ideologia que é agora mais eficaz do que nunca. já explicado — um inimigo. A aterradora consequência disto é que qualquer luta que seja justificada em seu nome é uma da qual não podemos escapar. Todos sabem que algumas pessoas neste país. que possuía no longo e amargo período entre a Guerra Civil e a II Guerra Mundial. Donde se segue que o tema profundo. É um imperativo. Ele quer nos agarrar — Kansas City. Tem agora a mesma espécie de verdade. pedem com insistência que usemos toda força necessária para levar esta guerra a uma “conclusão rápida e favorável”. somos nós. Esta é a teoria pela qual a guerra nos tem sido explicada. Se é uma boa teoria. sua oposição ao difuso e desigual movimento por independência do Terceiro Mundo. Se sua visão da 143 . com muito sucesso. Este outro é uma fraude. mesmo por um momento. familiar para os americanos só o quanto a bem controlada média de massa considera conveniente tornar assim. Preservar o bem -estar de uma nação é um objetivo que dispensa considerações e é transcendente. e aplicada agora a um mundo remoto. Se é correto dizer que nosso bem-estar nacional requer a derrota da FLN. Birmingham. Ele não é o revolucionário que pretende ser.

Por que não agir agora? Tomado em si. um a um. e que pretende alcançar tudo isto por meio da conquista gradativa de estados crescentemente menos marginais. O povo acredita nele. se alguém não o detiver. porque é uma vítima inocente e não a defender é desonroso. que de suas janelas olham boquiabertos a atrocidade. ódio e munição. parece-me que isto tem muito pouco a ver com conservadorismo. depois de acabar com ela. é não entender clara e totalmente o que fazem.história não é atrasada. inclusive nós. e nós temos diante de nós uma realidade americana oficial. como um problema de sobrevivência nacional. A principal coisa errada com este “gavião de guerra ultraconservador” pode de fato nada ter a ver com conservadorismo ou belicosidade. com sua aceitação sem reservas de uma teoria que a administração liberal americana tem estado batucando em sua cabeça há pelo menos um quarto de século — a saber. Cuba. distorça ou engane. os covardes de coração vazio. tentar apagar seus argumentos chamandolhes nomes tais como traficantes de guerra. aterrorizar e espalhar o caos. os cabeças ocas. mas só aguçará o apetite do matador. mas. Quando este mesmo governo fidedigno informa o povo de que a guerra se trava porque agentes da tirania que quer devorar o mundo chegaram a uma feliz terra no exterior e se puseram a agitar. o Congo) é meramente secundária. a mais escura tirania que a história jamais viu. a teoria de que há uma Conspiração Comunista Internacional que ameaça dominar o mundo. Que há de “conservador” em querer lutar nesta situação? Que espécie de lunático lamuriento pensa ser traficância de guerra intervir sob tais circunstâncias? A maior acusação a ser feita contra esses nossos reacionários é serem eles tão ávidos em acredi144 . subverter. então o povo tem todo o direito de perguntar. Segundo. a coisa certa a fazer é acorrer agora em sua defesa. Hispaniola. mostrando que. ele em breve estará pondo seus dentes em nós. Primeiro. Assim. está matando Kitty Genovese. Há um homicídio se processando lá na rua: Um homem. então o povo tem todo o direito de perguntar: Por que não atacar esta ameaça em sua fonte? Quando nosso acreditado governo nos explica que a tomada vermelha do Vietnã (Laos. porém caracterizálas como ultraconservadoras. então seu sistema moral o é. nada mais do que uma estação no caminho de conquistas para este nosso Xanadu. que planeja impor a este mundo aprisionado. ao contrário. é claro. O povo não espera que ele minta. pretende invadir o próprio edifício de apartamentos e matar. fazer propaganda. Lembremos que o governo fala a seu povo com uma dimensão de autoridade. inclusive nós. com uma faca. porque seu assassinato não apaziguará.

é prático. Adquire uma autoridade independente na explicação de eventos. O direitista aceita a descrição política. nossos líderes são obrigados a insistir que estamos no Vietnã para proteger nossos órgãos vitais de incremento nacional — um objetivo que não é prático e condicionado ao custo. Para eles. nós a controlar os socos! As duas críticas básicas à guerra que têm correlação com as dissensões de esquerda e direita. porque justificaram esta aventura em termos da ideologia do anticomunismo. Isso não ajudará aqueles a quem fizeram crédulos partidários dela. Uma grande minoria de americanos algum dia será traída. e portanto no impulsionamento da política nacional. Uma ideologia que tem origem numa distorção da história adquire um poder intrínseco para apoiar e ajudar distorções históricas. que disparate é falar sobre uma guerra “limitada” com objetivos “limitados”. A guerra foge à relatividade política para se tornar transcendente e sublime. E quando ela desabar. e por conseguinte quer que a guerra seja empreendida com mais violência. o que as homílias de Johnson convenceram-nos de novo. Porém. a condução da guerra já parece um ato de loucura. Aqui estamos num duelo de morte com um inimigo mais implacável. o que Eisenhower e Kennedy permitiram-lhes acreditar. uma grande quantidade de gente boa e forte encontrar-se-á atolada no irreal. dizem os direitistas — tão só apresentando de modo mais suscinto o que Truman lhes disse. e veja só. definido e talvez não de todo sem limites. Em termos dessa crença. Indagar qual é o valor de manter o Vietnã se torna. Isto é uma aflição do povo. um que é objeto de uma contabilidade de custo e para o qual deve haver um preço excessivo para pagar. e por conseguinte quer que a 145 . mas eles mesmos não usam. objetivam resolver a tensão que existe entre as descrições política e militar mais comuns da guerra. Sua cólera sacudirá a nação. tão absurdo como perguntar o valor do rei num jogo de xadrez. mas absoluto e sagrado. a doutrina quase religiosa da Grande Conspiração. como talvez nunca antes. Precisamos compreender (embora Johnson e Rostow nos deixem inseguros a esse respeito) que os técnicos políticos dos Departamentos de Estado e Defesa só fornecem. concreto. “Estamos em guerra total desde agora”. senão de perfídia. nas garras dessa ideologia. O esquerdista repudia essa descrição política. em seus próprios termos. Vamos para o Vietnã para manter um segmento da esfera de influência da comunidade Ocidental do Atlântico Norte — um objetivo que. A ponte ideológica entre o fato e a fantasia está-se tornando hoje insegura para a América.tar naquilo que os liberais vêm lhes fornecendo.

“que um brilhante jovem cadete de St. cavalos de pernas quebradas. um dos mais destacados moços. onde é exigida uma explicação. que meramente tem substituído uma maldição. A primeiro de agosto de 1962. com um coração cheio de bravura. Mas examinemos de novo — não a América para encontrar fascistas.. o coração do humanismo europeu? Os liberais do Ocidente têm sobre isso uma teoria que lhes restaura a confiança: A OAS aconteceu porque havia fascistas no exército francês que queriam que ela acontecesse. Ambos têm uma linha de argumento muito mais sólida do que o centro. que era necessária a desocupação. Cyr. A Organização do Exército Secreto (OAS) foi formada para resistir ao que seus membros sentiam ser a traição da nação. e sua existência criou para a França o mais doloroso tormento interno. que é só confundido e enganado pelo seu próprio cacarejar dissimulador. Como aconteceu isso na França. de ombros largos. um advogado do Primeiro Regimento de Pára-quedistas da Legião Estrangeira. Imaginemos um bom. perguntou.” Se temos de destruir o Vietnã. Não há nada parecido na América. um 146 . De certa forma este gavião de guerra é ainda mais humano do que os advogados da morte lenta. perante um alto tribunal militar francês. A França lutou para manter seu controle colonial da Argélia por muitas razões semelhantes às que mobilizam hoje a América no Vietnã. na academia militar. de sua miséria. A OAS era só o último estertor dos velhos colaboracionistas nazistas. não será para estes nossos “moderados” que virá a mais profunda e acabrunhante agonia.. o Capitão Estoup. então estaria bem que fosse feito com rapidez. a França justificou a guerra colonial em termos de imperativos coloniais transcendentes. importantes elementos do exército francês se sentiram ultrajados. Ambos objetivam uma posição mais racional. louro e honesto moço.guerra seja suspensa. então tenhamos a misericórdia de fazê-lo com urgência e tirar aquela pobre gente. sumarizou assim sua defesa de um dos conspiradores da OAS: “Como pode acontecer”. Quando ficou claro. Como a América. porque ele pode pelo menos reivindicar a severa compaixão de Macbeth: “Se tivesse de ser feito quando foi feito.. O exemplo da experiência francesa na Argélia é totalmente instrutivo. A OAS objetivava nada menos que um coup d’état.. E a muito triste verdade é que. quando chegar o tempo de arcar com as consequências. para os líderes da França. hoje aqui se poste acusado [de traição] ante uma corte militar?”22 Prestemos atenção no correspondente americano deste “brilhante jovem cadete” antes de prosseguirmos. porém para além do próprio labéu fascista.

Há. Está orgulhoso. É testemunho meu que. em cujo nome a justiça está agora sendo feita. O povo da França.. ele foi instruído para usar tortura. Devemos imaginar os bailes em que dançou. para a maior parte. o motivo verdadeiro para as ações dos conspiradores era uma determinação secreta. Tinha sido provado a ele que o desfecho da batalha dependia da informação que obtivesse.23 Ninguém melhor do que o próprio torturador sabe o que a tortura significa. as sólidas velhas casas de madeira. precisa saber que era em seu nome. Todas as belas idéias e ilusões do jovem cadete de St. armas de fogo. Tal é o vilão de peça: o traidor. Não tem monóculo nem bigodes. não há justificação alguma a menos que o fim seja alcançado. mas não arrogante. melhor do que quem mata. Cyr a cumprir a ordem?” Porque o fim básico tinha sido descrito a ele de tal forma que pareceu justificar os meios. Mas vós direis. que o acusado era impelido. e por seu bem. atormentadora de não ter cometido crimes sem alcançar o objetivo. eu não sei que tipo de perturbação mental deve sofrer alguém que dá uma ordem como esta. Não há Mein Kampf escondido em seu baú. mas eu conheço a sensação de choque e reação sofrida por aqueles que têm de executá-la. melhor do que o atirador.. de sua Boina Verde.. por aqueles que detinham autoridade. fazendo seu último e desesperado esforço para se vingar do demônio que as atraiu para o inferno.. o algodão doce e as suaves noites de primavera e a namorada que deixou atrás dele. Cyr desmoronam. Cummings “um orgulho de olhos azuis de um nação saudosa”. Ninguém compreende o bombardeio melhor do que o bombardeador. Não precisa informar a este rapaz de Wyoming que suas 147 . que estava em jogo a vitória da França. contudo. Estoup continua a explicar que era aos membros das forças de elite — homens como nosso jovem cadete de St. Cyr de Wyoming — que cabiam as mais odientas e perigosas tarefas. Se não o é. interior. os graciosos olmos. Se os meios são justificados só pelo fim. Não está feliz por se encontrar no Vietnã. diz Estoup. estas são ações das almas danadas.. sua conduta talvez um tanto retraída. “Então por que não se recusou o jovem cadete de St. Sua voz é bem modulada. Preferia estar em casa. morte. para a borda deste abismo de destruição. os amplos gramados verdes das quietas ruas de onde veio. um trabalho a ser feito. silente. Era obrigação do cadete obter informação vital sobre o inimigo — “por todos os meios possíveis”. E. Tudo isso. Isto é. nada é deixado senão uma amostra insensata de sujas manchas indeléveis.graduado de West Point de um lugar bem americano tal como Colorado Springs ou Trenton ou Seattle — na expressão de E.. “Eu não sei”. Na análise final.

Mas o sangue será lavado. não será? As sujas manchas indeléveis um dia serão removidas? A água purificadora é a vitória. poemas escritos. coquetéis batidos. se evapora do futuro. em cujo nome a culpa presente é carregada. Precisamos ser capazes de entender uma coisa muito simples: De agora em diante. na América. 148 . Mas se não é trazida a água. amor feito. Nos futuros gestos destas mãos — isto é realmente muito simples — nós observaremos um aspecto da vingança do Vietnã. O sacrifício é redimido pelo renascimento para o qual ele prepara a terra conquistada. Ele é o especialista nisto. o nariz apertado em meditação. a Hóstia depositada na língua e coroas nos túmulos. amigos saudados.mãos estão sangrentas. E o que acontece com este estranho sangue selvagem? Ele se gruda permanentemente à pele das mãos que o derramaram. memorandos de escritório assinados. aquela inocência adiada. será com tais mãos que crianças serão acalentadas.

envolvido com conotações de praga). um mundo que é fundamentalmente implausível. McNamara2 Todos. este pobre mundo. este. dizemos (um termo favorito. É um mundo. É o “chão de origem”. que é majoritária. Robert S. nós só acreditamos nele.VI O Revoltado Matar é mau. na medida em que o usamos para culpá-lo de certos aborrecimentos nossos. que. Che Guevara1 Os jovens ao ingressarem nela [a FLN] estão sendo atraídos pelo excitamento da vida guerrilheira. nem Platão e Shakespeare muito estudados. de acordo com as instituições da maioria da classe média americana. quase fora de vista. têm escutado que há um outro mundo longínquo. . onde Mozart não tem sido amplamente ouvido. Para a maior parte. Todos os países são diferentes e o progresso devia ser alcançado por meios pacíficos sempre que possível. onde miséria e violência são rotina. onde dois terços de todos nós estamos vivendo. nem mencionar os cerca de 149 . no mundo rico. . A maior parte da gente comum do mundo rico preferiria muito mais nunca ter ao menos escutado falar do Vietnã ou Moçambique. daqueles descontentamentos que nos perseguem. deve ser o exagero de alguém.

um leme firme. O que deve ser difícil para qualquer nação parece fora de discussão para nós: Imaginar que podemos. Quando as estatísticas são recitadas pelo fogo das armas do homem pobre. podemos ver isto. Enquanto à espera de nossos bombardeiros. ser os inimigos de homens que são justos. desenvolvemos nossa teoria dos pobres diabos. Alguém poderá citar a Aliança para o Progresso. nossos inimigos têm de ser injustos. É ruim estar faminto. além nosso horizonte.” A América classe-média se vê como a Solução Final. segundo a qual os miseráveis têm sido enganados por homens-do-contra comunistas. honestos. Provavelmente se dá o caso de um comunista não ter fome. sobre um oceano calmo. e poderemos aportar agora a qualquer tempo neste “Século da América. o Major Charles Beckwith. estúpidos. corajosos e corretos — Quem pode pensar tal coisa? Já que amamos roseiras e belas moças.trinta outros estados do mundo. do pioneiro automatizado — como podem as coisas ser vistas de outro modo? A classe média americana é a nação para a qual o obsoletismo vindouro da escolha moral tem sido revelada. de tempos em tempos. Tais concepções são às vezes abaladas. podemos responder de várias maneiras características. Às vezes contamos histórias sobre bravos missionários. quer a persuasão da AID. das Forças Especiais. somos mais decididos. Às vezes estralamos a língua. como acontece de quando em quando. onde insurreições a longo prazo estão a caminho. desonestos. O fato correspondente sobre a maior parte dos americanos é que eles se sentem insultados por esse pedido. do homem de fronteira habitante de escritório. para animar. Um ponto aqui e ali. covardes e errados. E outro poderá tossir. inteligentes. Mas o que dizer da força moral do pedido? Quando as estatísticas da pobreza mundial nos alcançam. O fato principal sobre o revolucionário é que ele pede mudança total. um pouco de denodo. Na terra da aventura de contrôle-remoto. porque ser Vermelho nos prova que toda esta fome era na realidade apenas um embuste. e mandamos um cheque à CARE. uma viva aragem a seguir. Seu desejo mais intenso é não ser molestada por loucos que discordem disso. quer os batistas. descreveu os 150 . meneamos a cabeça. A América classe-média é a condição mental que supõe ter sido avistado um novo e plástico Éden. Após a batalha de Piei Me em 1965. Mas é melhor ser faminto e paciente do que faminto e Vermelho.

” O Major Beckwith estava intrigado com a “elevada motivação” e a “elevada dedicação” desta força inimiga e sugeriu uma explicação: “Queria saber com que os estavam drogando para fazê-los lutar assim. teríamos todos os muros [do campo triangular] bem vigiados. Menos obviamente. outro americano disse de um vietcong capturado: “Devíamos pôr este cara no muro norte e dispensar estas tropas do Governo. Terceiro. uma vez foi uma criança que não falava de política.” Após a mesma batalha. aqueles que (como colocou Brecht) abraçaram primeiro a revolução com as mãos e só mais tarde com a mente. para que possam lutar tão inflexivelmente para ficar do lado de fora do Éden. que potencial revolucionário existe só nas sociedades onde a miséria humana material é o termo denominador da maioria das relações sociais. Se pudéssemos conseguir mais dois. homens não põem em perigo suas vidas. por exemplo. Gostaria que pudéssemos recrutá-los. podem ser persuadidos. cada um que hoje é um rebelde. Ele é politicamente extraordinário. alguém a quem posso entender. por alguma combinação de estatísticas e princípios. Provavelmente poderia protegê-lo sozinho. São hábeis guarda-livros da causa de permanecer vivos. evidentemente. Quando fazem algo perigoso é porque foram convencidos que não fazê-lo seria mais perigoso. O camponês que compara sua pobreza com a riqueza de outra pessoa está habilitado a 151 . É fora de dúvida. não precisava materialmente da Revolução Russa. Lênin. eu considero que o rebelde é muito parecido comigo. Mas não estou tentando descrever os Lênins. com tantos homens e mulheres do mundo. excetuados os americanos. Isto não significa que psicologicamente seja assim. que pensamos estar-lhes oferecendo.”3 Essa curiosidade. mas para quem os Lênins deviam ter permanecido somente filósofos. primeiro. Segundo. Estou atrás daqueles anônimos. Primeiro. isso também implica em que a privação só pode ser política se não for universal. O rebelde é alguém que mudou. na linha de fogo.combatentes da guerrilha da FLN como “os melhores soldados que jamais vi no mundo. a expor suas vidas. Minha suposição é que o que não pudesse me mover ao ato de rebelião não moveria outro homem. por razões fúteis. Ninguém pensa que banqueiros irão fazer distúrbios nas ruas. e de outros. tornou-se um rebelde. Seu compromisso foi baseado em princípios e originou-se de um desapego básico. é boa. Há sempre uns poucos que. Faço três suposições. Por que homens se rebelam? Tentemos descobrir o que pode possivelmente estar tão errado. pelo menos.

antes de tudo. coloca sua realidade à distância de um fingimento que difere das realidades. o escravo escapa por detrás da imagem. à força. sua qualidade de vítima. contava o escravo negro. Dizer que a fome não se torna uma sensação de rebelião até que coexista com comida é dizer que rebelião tem menos a ver com penúria do que com má distribuição. desse escravo que ele é. Isto estabelece um tema central: a cólera revolucionária não é produzida por privação. Tal ato seria imediatamente punido. Mas faz também muito mais. só na medida em que é um fingimento. será a violência exacerbada do senhor que confronta o escravo com a autenticidade incorrigível de seu ato escravo. em escolhendo representar o que ele é. recriar seu mundo por intermédio de pantomimas sociais que transfigurem. a fim de colocar um realce físico entre ele próprio e os olhos dos outros. A mais antiga máscara. está 152 . em meio a canção tira-lhe a guitarra. O escravo é naquele momento colocado. A realidade profunda da vítima mentirosa. um homem que quer simplesmente rejeitar sua humilhação. mas pela compreensão da injustiça. Ele quer. O escravo cria. Sua realidade exterior. É. pretende ter em suas mãos a verdade e julgá-la. uma réplica exata de si próprio. às vezes. Não é que ele pretenda ser outra coisa que não um escravo. Essa reticência divina se propõe claramente a servir de exemplo. Com mais frequência. por conseguinte. ele disfarça de si mesmo o fato de que não teve escolha. Portanto ele pretende a verdade. Ao contrário. dentro do espaço de sua auto-imagem. desperta a reação do escravo. do negro americano. impede-o de contar a verdade. o escravo desempenha o seu próprio papel e desta forma escapa. pretende ser o que ele mesmo sabe ser. quebra-a. O que pode fazer isso? Um lampejo de fraqueza em seu senhor. sem motivo.conceber que sua pobreza é especial. Um momento crucial vem quando alguma coisa rompe esta fina membrana de fingimento. Porém a vítima auto-reconhecida não é desde logo seu próprio vingador. Em tal canção. Um homem negro canta “blues” sobre sua impotência. “Eles o açoitaram morro acima”. sua solidão. “e Ele nunca disse uma palavra resmungada”. desempenha o papel de sofredor e humilhado. e mesmo se o senhor olhar. atenciosa e atraente. ou de alguma forma aliviem. impede-o contar um mentira. O senhor branco. seu pedido de liberdade. E. ou a violência agudamente ritualizada das quadrilhas do gueto são mentiras intencionais que intencionalmente contam a verdade. refugiou-se por trás daquela imagem perfeita dele mesmo. essa humilhação. para a inspeção do senhor. uma identidade social. às vezes a descoberta acidental de alguma força insuspeitada nele próprio.

Tornada menos ocasional.psicologicamente fundido com este seu fingimento contador-de-verdade.) Encontramos nisto a política de apelo ao poder mais alto. por enquanto. ante uma autoridade mais alta e distante. Ele já teve prova suficiente de sua impotência. Ao contrário. permanente imobilidade desaparece permanentemente. uma opressão que a Alta Autoridade não pretendia inflingir. da reencenação da realidade. Para a vítima não há mais nem mesmo a fuga frágil. de que. rara. ele é pela primeira vez alguém que pode agir. ao mesmo tempo. Redescobre a idéia do sistema de força. um diferente xerife. Acareada a cada instante por essa coerência. Agora ele nada mais é senão o foco de injustiça. sua política ingênua: Talvez ele só quisesse um diferente senhor rural. E. ele deve ser aquele homem sobre o qual tentara cantar. este xerife representa somente um desacerto local dentro de um sistema que a vítima apenas percebe e certamente não acusa. a vítima pode achar que já não é tão fácil evitar a verdade de que seu sofrimento é causado. contudo. quem está para ser o agente desta mudança? Por certo não a própria vítima. descobre que também pode acusar. Estando pela primeira vez de posse da idéia integral de que sua vida podia ser diferente não fosse pelos outros. e sabe melhor do que qualquer outro que é uma pessoa sem importância. o que parecera dado por Deus é feito pelo homem. o “Sheriff” de Nottingham está bem arranjado. um diferente prefeito. Agora não pode se representar. é a vaga noção que seu algoz é responsável. (Uma vez que Robin Hood encontre o Rei Richard. ele é impotente. Isto é. a injustiça fica mais coerente. não precisava e não queria permitir. que o que parecera qualidade é mera condição sua. vestido de branco. Ele começa a se sentir escolhido pessoalmente. não à condição de xerife. O elemento importante não é o escopo. ele é solitário. Sua visão de mudança será nesta ocasião estreita e mundana. Quando a vítima vê que o que parecera universal é local. sem meios. mas a nítida existência da idéia de que pode sobrevir uma mudança. O que o compele à esperança. que con153 . Então. não lhe sendo permitido nem representar o horror da situação de vítima pelo gesto que o expressa. Ele vive totalmente agora em seu espaço de vítima. é um acidente haver tantas diferenças entre sua vida e a vida do homem completo. ou a complexidade de sua visão. na grande casa da encosta da colina. Este encontro despoja a vida de sua formalidade e a devolve à pura substância primitiva. esta conduta ultrajante do xerife pertence estritamente a este xerife particular. de forma alguma.

Bobby Kennedy — a fazer algo. inclusive o czar.* Algumas vezes a secular prece baseada na massa tem resultado em mudança. ONU. cujos agentes saturam a sociedade.duziu a alguns momentos pungentes da história. mais politicamente agressiva petição de massa ao rei. esta defrontação mais violenta permanece basicamente uma espécie de entretenimento. só desinformado. mesmo quando está elaborada dentro da. e a responder. A idéia principal tem sido sempre persuadir a autoridade mais alta — Congresso. e que não tem intenção de mudar nada. Porém. Acontece que o rei está do lado deles. Xerifes maus existem por toda parte. tem somente mostrado aos peticionários-vitimas que o problema é mais grave e a mudança mais difícil de obter do que tinham imaginado. estas demonstrações. Ele entretivera certas esperanças sobre os poderosos. uma presunção central dela é que o rei não é mau. Ele é desviado por um desespero mais realista. parece não haver outra espécie. revolução. o lutador. Em vez de meramente escrever a história do agravo. Eles sabem distin* O que não era novo era a maneira pela qual estas formas alargaram o conceito de petição. 154 . Porém. ocupando e violentamente protegendo seus centros de controle. sem dúvida o ponto espiritual mais primário da educação do revolucionário em surgimento. aparentemente. impetuosamente militantes. Sugeriu o assim chamado Manifesto dos Dezoito. Longe de pôr em dúvida a autoridade mais alta. as ocupações não-violentas e as várias marchas para o “Deep South” tinham origem na mesma crença: havia ainda um poder alto que era responsável e decente. rebelião. de fato dramatizam e exageram sua força. Porém este desespero contém o presságio daquela destrutiva reconstituição final do espírito que preparará o descontente. enquanto o movimento antiguerra não fôr capaz de imaginar uma ameaça que possa realmente valer. As demonstrações de protesto contra a guerra do Vietnã não são diferentes. reproduziam o próprio agravo em cenários que forçaram todos a observá-lo. parecer peculiarmente combativos. Ele descobre que o inimigo não é um punhado de homens mas todo um sistema. mais frequentemente. Acontece que o poderoso sabe perfeitamente bem quem são suas vítimas e porque deve haver vítimas. deu as razões da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade. É a mesma coisa que uma prece. As Marchas pela Liberdade. publicado por destacados intelectuais vietnamitas em 1960. às vezes. Esta linha de pensamento levou os camponeses e padres ao massacre da Praça do Kremlim em 1905. que a maquinaria administrativa e coercitivo-punitiva do estado existe precisamente para servir os influentes. na verdade. o criminoso para a mudança em direção à insurreição. Este reconhecimento é da maior importância. Os discursos que elas ocasionam podem. em 1963. Sua condição de oração permanece básica.

a um certo nível. a mais ardilosa feição desta imoderação é que ele pode ser impotente para mudá-la. porque derrubou e redefiniu por completo os “problemas” aos quais se referiam. Isto restaura explicitamente a legitimidade da mesma autoridade com que o rebelde se define pelo repúdio. Antes de poder ver as coisas de outro modo. Mas o salto para a revolução deixou estas “soluções” para trás. realista. Para ele. Mas. que substitui todos os “problemas” pela grande pretensão única de que o sistema todo é um erro. desejando ter encontrado neste rebelde uma pessoa responsável. estão dispostos a mudar. nem mesmo o motivo — para criar aquela conversação. não deixa exatamente motivo — de novo. Está agora instruído de que estas esperanças são extravagantes. mudança total significa só que aqueles que agora detêm todo o poder não mais devem ter nenhum. nem mesmo em parte. O rebelde é um absolutista incorrigível. Informa ao senhor que ele não mais existe. apoiando a primeira. No âmago de seu desespero está a nova certeza de que não haverá mudança que não seja produzida por ele mesmo. sem a qual um compromisso não é nem mesmo tecnicamente possível. Os compromissos que forem tomados por agora serão acertados por seus líderes tranquilamente “realistas” e serão apresentados a ele como uma vitória total. e que aqueles que agora não tem nenhum — o povo. embora revisada. Porém a mais importante. O homem que acredita que mudança só pode vir de sua própria iniciativa não será inclinado a pensar que a mudança possa ser parcial. Então que significado terá falar de compromisso? Compromisso é de certa forma. teria de aceitar de certa forma. De outro modo nada há para discutir. Ele só pode transigir com a autoridade anti-rebelados se estiver de posse de “soluções” específicas para aqueles “problemas” que finalmente o conduziram à revolta. “Eu não posso ser negociado”. Em outro nível. todas as “soluções” pela única exigência irredutível de que a mudança seja total. Portanto responde. “Que posso lhe dar?” interroga. contudo. esta resposta nada mais é que uma eva155 . é um comentário fundamental. A resposta se destina principalmente a acabar com a conferência. não apenas uma chispa de orgulho. um homem do mundo como ele próprio. todas as diagnoses da moléstia por um certificado final de óbito. sendo este repúdio total. o poder ao qual agora se opõe. Ele próprio é imoderado e não conciliatório. os que são vítimas — devem ter todo. talvez intimidado senhor. absolver e suspender a execução de um inimigo que já foi sentenciado. Mas o rebelde não consegue ver o significado real desta palavra dar.guir justiça de injustiça. “O que quer?” indaga o aborrecido.

Pode tornar-se isto. Não é nem um economista. que intelectuais revolucionários pretendem ter tomado emprestado da história. mas de algo que não mais deve estar lá. Porque o mundo tem agora um passado revolucionário. ou mesmo que elas a precedem e ativam. diz o revolucionário. disseram: “O que temos aqui como modo de vida não pode mais ser tolerado. Se é então advertido de que este “algo” indefinido pode acabar por fazer as coisas piores.” O motivo revolucionário fundamental não é construir um Paraíso. menos ainda de um Brezhnev. nem um político.são. mas destruir um Inferno. É o presente. um Castro. O revolucionário não é do tipo de um Lênin. a falta de um xerife. não mais existam. jogaremos tudo ao vento e arriscaremos nossos pescoços. Mas nunca será por demais enfatizado que o interesse em desenvolver outras formas especiais. olhando de soslaio por cima dos ombros. porque não pode mais suportá-lo como é. segue. É o sofrimento. Quem ou o quê substituirá o proprietário. Não é o futuro que o torna vítima. sua resposta é clara: “Então teremos de continuar a revolução. por mais agudo que se venha a tornar. O futuro vitorioso é. O rebelde luta por algo que não será como isto. Ele nos provou que é bom. Indústria? Agricultura? Comércio exterior? Não são tais assuntos que o impulsionam e preocupam. Em seu favor. a explosão do fundo d’alma 156 . em última instância deve. Em tempo idéias utópicas aparecerão. “Mude isto!” ele grita. ou ainda a causam. Não é uma utopia antecipada que o impele a arriscar sua vida. O rebelde ficaria embaraçado em confessar a verdade: que ele não tem tais idéias. qualquer sociedade na qual certos indivíduos não mais tenham poder. Podemos estar certos de que o povo não disse: “Eis um plano para uma vida melhor — socialismo. no momento. O senhor parece ter solicitado as idéias do rebelde sobre a sociedade revolucionária. pode parecer que elas surgem no mesmo instante que a cólera destrutiva. o dono. Seu bom mundo futuro é descrito elementarmente por espaços vazios: a falta de um proprietário. o xerife? Não importa. Portanto. não precede. Mas sua visão motivadora de mudança é na raiz uma visão de algo ausente — não de algo que deve estar lá. Não pode responder a pergunta sobre o futuro porque esta não é sua questão. Montes o chamou. a falta de um dono de mina. um Mao. nem um filósofo social.” Pelo contrário.” Acontece que pelo menos o espírito de socialismo estará implicado pela dinâmica interna da revolta de massa: O que foi ganho coletivamente deve ser possuído coletivamente. Algo melhor. devemos nos defender. Isto é sempre uma ilusão produzida pela analítica social prognosticadora. ideal.

Sabe muito bem que não é em seu nome que a virtude está sendo usada desta maneira. não é preciso falar de sociedades sem classes. são muito parecidos.contra a injustiça. esta alienação radical da autoridade passada e presente. Onde quer que olhe. desafortunadamente sempre nova — que finalmente põe o círculo a retumbar com o grito desafiante. Um compromisso com a violência apenas se tornou possível neste ponto. “Si. Quando Turcios leva seu bando rebelde a uma aldeia da Guatemala. Coney Island e Lincoln Center. es cierto!” Sim. absorve tudo à vista. que é a única redenção do danado. Nenhuma porta pública é marcada durante a noite com o aviso que permite sua sobrevivência. A boa terra que o campesino trabalha pertence à hacienda. que. O rebelde é um homem irresponsável. Consciência revolucionária existirá. É esta fala muito antiga. É um número desnecessário. ou a ajudar a sociedade a evoluir sistematicamente para algo melhor. podem ser igualmente outros tantos escolhos. O rebelde é alguém que não tem o que perder. Quase sempre. Não adianta falar a ele na necessidade de proteger tradições e preservar instituições. Só por um breve momento. Não é culpa dele estar sua fantasia repleta agora de explosões e ardentes rendas espanholas. desde que existe. pela primeira vez. Mas esta nova consciência. Esta pertence ao patron. Algo terá de ser feito. é verdade. O escritório do usurário e o Chase Manhattan Bank. Temos um homem que certamente não intervirá num incidente de rua em benefício 157 . vistos da rua 137. dos altos preços. Alguém se ajoelha no centro do círculo e começa a falar de sua vida. pouco a pouco. da arrogância do patron. Logo deixa de se impressionar e se torna apático ante a Grandeza Ocidental. São todos possuídos por outro. para “propaganda armada”. no momento em que a vítima elabore sua experiência de injustiça dentro de uma definição que inclua a sociedade na qual vive. Nada no mundo social do senhor é poupado do desprezo desta definição. o campesino fixa os olhos com espanto não envergonhado nestes arranha-céus. o patron pertence à United Fruit Company. dos esquifes das crianças. E aquele primeiro acionador não acionado pertence a nada. um que voga dentro de uma vida que será memorável principalmente por suas humilhações. o homem que está ficando revoltado vê alguma coisa que não é sua. cuja irresponsabilidade foi decretada por outros. dos poucos centavos pagos pelo árduo trabalho diário. não conduz diretamente à ação política. O rebelde é alguém para o qual injustiça e impiedade são apenas palavras diferentes para a mesma coisa. Apesar da justiça que lhe prometem.

estes cuidados e demoras. Mas parece reconhecer nesta solicitação uma velha presença familiar. Mas pode também achar uma razão tática para se incorporar a uma marcha “moderada” ou aplaudir um discurso “razoável” ou não fazer nada em absoluto. em vez de cortar cana. significam uma coisa: Ele quer ser livre. Muito bem. pelo menos. Quem sabe as coisas entregues a si mesmas andarão melhor. Ele para à vitrina de um vendedor de armas de fogo. Em momentos excepcionais tolerará falar de reforma. Seu desejo de uma vida privada independente tem sido intensificado por toda parte pelas condições que a proíbem. Não entra. escolheu a nova. Entendeu sua situação e as exigências que ela faz. dois homens morrem. Mas onde está a liberdade deste ex-escravo que. pode-se dizer que escolheu sua escravidão. Pode ser dito que. O que há de errado com este homem que pensa que as coisas podem mudar sem serem mudadas? Que sabe tudo e nada faz? Nada está errado com ele a não ser o fato de que é um ser humano. uma liberdade transitória. Prossegue até a vitrina de uma agência de fuga. desempenhando um novo papel? Quando o escravo mata o senhor. o homem livre foi divisado só no momento em que ele disse: Eu posso! Eu hei de! Naquele momento o mundo todo foi abalado por sua exultação. Quer dizer que o escravo morre também e que o homem livre se materializa em seu lugar. Isto não o torna menos escravo. é liberdade. Todas estas desculpas. cuidadosamente racionalizados. Foi tragado antes por esta história. a imagem é quase preponderante. nem mais homem livre.“da lei e da ordem”. Isto não é irresolução. onde tinha havido antes só sossego e rotina. Quando ele muda Eu posso por Eu hei de. que foi por um momento uma profusa nebulosa de possibilidade. está desaparecendo em outra 158 . De fato. Sabe que está sendo solicitado a se tornar um objeto histórico. a liquidez de escolha. está agora afiando facas? Que ele se tenha mudado de uma disciplina para outra não esconde o fato de que permanece sob disciplina. não foi? É a nova dedução de rebelião em verdade tão diferente. da velha coerção da escravatura? Não estão sua vida privada e sua liberdade preenchidas igualmente por ambas? É o rebelde algo mais do que o mesmo objeto cativo em roupas diferentes. raciocina Sartre. Por toda parte viu comoção e incerteza. Quando o escravo concebe a rebelião e permanece escravo. Ele pode mesmo denunciar um movimento de tropas governamentais ou abrigar um “fora da lei”. Ele portanto contemporiza com a liberdade. da qual se considera a maior vítima. Manterá a conversação aberta e a navalha fechada. no fundo. Mas isso não diminuiu a servidão. quando toma o rifle e muda Eu hei de por Eu sou este homem.

Ele não está em liberdade para ser somente um não escravo. que esteve por um momento dissolvido. Para ele. Como o escravo se encontrou isolado da liberdade pela força do senhor. Liberdade não é um êxtase reservado aos europeus esclarecidos. Para o escravo não há simplesmente meio de pôr um fim à sua servidão habitual. seu futuro. Não devemos pensar que ele lança seu coquetel Molotov com um uivo de júbilo. Ele só está livre para escolher entre dois duros senhores. mas a ser este rebelde. O apêndice psiquiátrico ao The Wretched of the Earth [O Miserável da Terra] de Fanon. Não devemos meter em nossas cabeças que o rebelde deseja ser um rebelde. são sacudidos e iluminados por este tormento. Isto é excelente aviso para o carrasco. muito 159 . não a meramente deixar de ser um escravo. com frequência cita como ilustrações de estudo de casos os L’Être et le Néant [O Ser e o Nada] de Sartre. é um caso claro de ou/ou. ele não é seu próprio dono. e seus benefícios não são limitados pelo fato bem conhecido de que há caminhos melhores e piores. Isto não significa que ele se reconhecerá como o objeto do brilhante epíteto de Camus. A vítima não pertence àquela categoria de homens para quem a ação pode ser regulada por tal conselho. muito menos com um sorriso afetado no rosto. Uma vez mais. exceto mudá-la por outra. somente sob certas condições. quando afirma que homens não podem ser “nem vítimas nem carrascos”. Uma vez mais. De toda a gente.atitude. Não é como se suas sutilezas limitassem sua influência aos burgueses radicais que as analisam e denominam. Não fiquem desiludidos pelo racionalismo destes conceitos. Eu penso que Camus não percebeu isto. talvez mesmo além de sua profundidade. Mas sempre ele está para ser varrido para fora. concretizou-se num objeto específico. assim o rebelde se encontra isolado dela pela decisão a que sua vida o forçou. o titubeio. Vagabundos. aqueles momentos em que ele inexplicavelmente se desvia. Sartre devia ter estado suficientemente distante de seu partidarismo para ver que neste caso liberdade era somente a possibilidade de transição de um contrato obrigatório para outro — e portanto não liberdade. de um lado ou outro. “carrasco privilegiado”. Liberdade não é algo que somente certos homens descobrirão. É menos esclarecedor para a vítima. na Lexington Avenue. Lutará para fugir a esta encruzilhada. livrar-se destes títulos. mais nobres e mais baixos. nos quais pode ser perdida. Doutra forma não posso entender como pode acreditar estar estabelecendo um útil e relevante ponto moral. para equilibrarse no extremo entre eles. Temos que surpreender o recuo. está transformando a si próprio em outra imagem: a do rebelde.

ao mesmo tempo nunca deixando qualquer um esquecer a fatalidade da própria situação. permanecer localizado exatamente apenas atrás dos próprios compromissos.menos que. uma palavra que apenas poderia ser traduzida para os idiomas de gente oprimida — “línguas nativas”. pois esta é a categoria de homens livres. Já que não pode renunciar à rebelião. não permitirá a perda do que Harlem chamou sua “frieza”. É tentalizar-se com a possibilidade de que ninguém pode fazer nada. prefira ser uma tal coisa. suspira famintamente por liberdade. Nada quer senão liberdade. Também o coloca contra as forças internas e externas que o pressionam a se definir. um revolucionário. tornar-se útil para Camus. para desviar a nova versão da velha ameaça. A escolha parece jazer entre se 160 . Afetará por muito tempo uma espécie de reserva. como se perseguição. o escravo não pode renunciar à rebelião. e se condena a si própria. Já que quer ser livre. O rebelde terá resistido ferozmente à sua rebelião. É cruel pretender que nós não. porém outros. sofrer hostilização constituíssem uma carreira. A mesma agilidade interior que protegera seu espírito da subjugação do seu corpo. Essa simples reivindicação coloca-o contra a injustiça de ser definido pelo senhor. uma vez que o escravo é precisamente aquela pessoa que não pode de modo algum se definir sem cometer o ato de rebelião. o mesmo bom estratagema que guardou-o de se tornar para si mesmo aquele escravo que ele não podia impedir de ser para outros — este talento para a sobrevivência interior agora está de pé. são de tal forma espantosamente estranhos a ponto de escolher vidas despedaçadas. Essa tensão só pode ser controlada pela ironia. de algum modo. Ser “frio” é usar a liberdade sem negar de modo algum que há um logro envolvido. que está em perigo de transformar-se nela — de transformar-se num revoltado. No momento em que ele é mais apressado por sua revulsão. O escravo rebelde se evade de ambos os cativeiros por meio da recusa em destruir um ou outro. Porém a evasão é somente uma forma mais precária da antiga auto-representação ritualizada. O que é tão pungente no referente à vítima. Ser “frio” é flutuar sobre as próprias decisões. pode também estar mais alarmado por ver que está para ser reduzido àquela revulsão. Pelo contrário. Como se pode considerar que faz uma escolha quando escolher alguma coisa já é demonstrar rebelião? O dilema deste homem quase pode ser tocado com as mãos. vingança. de fato. é o desespero com o qual ela tenta pertencer àquela categoria. já se definiu como rebelde. Logo que o escravo se define como outro que não o escravo.

A liberdade está sempre lhe escapando por sua cólera ou sua fadiga. Com menos simpatia. Na situação crítica em que estamos vivendo agora. podemos encontrar nele o hipócrita criminoso que cinicamente pretende que a morte é só relativamente má. Quando o “criminoso” afirma que ele é “absolutamente fervoroso”. De modo mais simpático. se tomamos o machismo do rebelde tal é oferecido. está sempre redescobrindo que isto só será possível se ele trocar variedade por concentração. então provavelmente nos convenceremos de que caiu na armadilha de uma completa contradição moral que pode ser resolvida só de uma ou duas maneiras. “de fazer uma vigorosa distinção entre ser esquerdista — mesmo radicalmente esquerdista — e ser revolucionário. alguém levado a desfigurar o que preza mais altamente. realçando suas aspirações. integrados e distintos? Como é que uma destas paixões não invade e devora a outra? Como é que a faca que ainda está úmida do sangue de uma pessoa. Desejando somente que sua vida objetiva possa ter um pouco da variedade e elasticidade de uma vida subjetiva. ou ele esqueceu a maneira como veio ou deixou de ver que negar uma coisa não é o mesmo que afirmar o 161 . Como podem homens comuns ser a um tempo calorosos bastante para quererem o que os revolucionários dizem querer (humanidade). pode ser levantada numa íntima saudação para a “humanidade”? Daí o retrato que o rebelde traça de si mesmo: um soldado absolutamente fervoroso da humanidade do homem. O revolucionário é alguém que não é nada mais a fim de ser tudo o mais. Se o acompanhamos na aceitação desse retrato. realçando suas ações.submeter a matar e cometer suicídio. e das lágrimas de uma terceira. há toda a diferença do mundo entre os dois. “Chegamos ao ponto”. elasticidade por disciplina. escreve alguém do movimento subterrâneo brasileiro. e o bastante ponderados na turbulência de suas vidas para manter a aspiração e o ato a um tempo. frios bastante para fazerem sem remorso o que eles são capazes de fazer (cortar gargantas).” Quem quer que deseje saber de onde vem a estranha capacidade da revolução para o terror e a inocência encontrará a resposta vibrando entre estas duas últimas sentenças. Ambos os enfoques estão errados. podemos então decidir que ele é trágico. Quando a figura “trágica” afirma que sua causa é “a humanidade do homem”. Em jogo está a humanidade do homem. ‘’Absolutamente fervoroso” é um eufemismo para “desesperado”. Nós somos absolutamente fervorosos. seu tom de voz atribui a ele mesmo uma decisão que se originou alhures.

Não se trata mais de estar diante de dois objetos e escolher o que ele será. ambiguidade. Mas isto muda. um dilúvio psíquico que encharca tudo à sua frente. não sua pessoa. é empurrado para o mesmo espaço que anteriormente separara para sua cólera. finalmente. A despeito dele próprio. É esta privação de escolha que faz a diferença entre o “revolucioná162 . está em seu ato de ter. reserva. O rebelde é alguém que aceitou a morte. Está fundido com ela — com a pobreza. A aparente estranha liberdade do rebelde. que o brasileiro nos informa ser tão crítica? Se estou certo em pensar que os homens resistem ao perigo e querem liberdade de todas as servidões. alguém cujo desprendimento procura não se tornar perfídia. “A humanidade do homem” é um eufemismo para “sobrevivência”. Tornou-se a peçonha da qual tentou ficar afastado. e que há algo como revolução. Foi empurrado contra a parede. Exceto a rebelião. brasileiros que se juntaram a Turcios. e portanto sob sua orientação. Mondlane. Mas não é ainda um homem revolucionário. moçambicanos. ausência de futuro que deram a ela seu conteúdo mortal. Pode muito bem compor todo um hábito de vida sem hesitação. e portanto aquele orgulho dele. então se segue que rebelião não se concretiza até que se tenha tornado compulsória. O que o impele para a linha divisória? Qual a diferença entre os lavradores guatemaltecos. hostilização. como sua humilhação precedente. Foi reduzido de escravo a prisioneiro. que é tão enorme que chega a ponto de apequenar tudo o mais. irônico. O rebelde é alguém que não mais é livre para escolher nem mesmo sua própria dócil servidão.oposto. Este homem abstrato atravessou um bom número de mudanças. cuja simpatia tenta não se tornar envolvimento irreversível. elegante e tem sangue-frio. O homem miserável chegou à beira da violência. não é mais capaz de fazer nem mesmo uma distinção subjetiva entre o dilema e ele próprio. É oblíquo. de prisioneiro a condenado. tornou-se uma vítima auto-consciente que entende que ninguém mudará as coisas para ele. sua situação. nada há. Alípio nas montanhas e aqueles de pensamento semelhante que permaneceram espectadores nas aldeias? Qual a diferença entre o “revolucionário” o “esquerdista radical”. Estão mesmo tentando triturá-lo contra ela. Possuído totalmente por seu dilema. que ele próprio deve encetar a ação. De alguém cuja reação à sua própria condição de vítima era resignação e fuga ritual. Sua cólera. afirmado a única vida que é valiosa para ele. foi por um tempo ainda algo que podia deixar a seu lado e contemplar ou representar.

Há uma explicação mais mundana. Sobreviveu à bomba que destruiu sua família. Inocentemente. Era educado. Outro que acompanhou uma marcha da liberdade. agora que 163 . que pode não ser de todo “radical”. pondera delicadamente que há grão sem uso nos silos e terra sem lavrar. para ver alguém enforcado por idéias perigosas. O rebelde. cometeu o crime do neutralismo. que se congratulassem com ele por ter ingressado no campo de Sócrates e Bruno. e incapaz de se desfazer deles. verdade isto. este viu um velho negro cair devido ao calor. se apresenta ante os poderosos. faz uma modesta sugestão. de homem. Isto aconteceu. não os acusa de serem poderosos. e o “radical” que pode nunca se tornar “revolucionário”. Seu filho é arrancado da cama na madrugada seguinte. será para nós o verdadeiro escravo assustador que descobriu sua força para sair da escravidão. honra aquilo. não pensando em fazer mal. mas parece que ninguém aceitará suas desculpas. As coisas eram diferentes e agora ele está na prisão fazendo planos. Isto nos permite distinguir com a nossa piedade aquelas “mulheres e crianças inocentes” que nossas bombas também destroem. como se não houvesse nada errado em matar rebeldes homens adultos.rio”. Um terceiro falou de uma união. acreditando que os homens eram bons. uma definição para pôr do lado daquela que reservamos para nós mesmos. Foi sistematicamente metido em sua cabeça que justiça é tal e tal. Um dia ele emerge de sua educação . Quem determinou que acontecesse esta das mais severas e absolutas reduções? Nós ocidentais satisfeitos pensamos que seja o próprio rebelde. Porém esta distinção. neste caso. Não tendo outros conceitos senão aqueles que foram marteladas em seu cérebro. Impotente para não agir assim. Foi-lhe segredado que deve esconder-se. observou seu mundo. uma pessoa mais humilde. a policia tem seu nome. Eis aqui alguém que estava feliz. Barriga roncando mas de chapéu na mão. falou os nomes dos culpados. porque pressupõe que o rebelde teve uma escolha. totalmente nova.” Isto é memorável. Deixem que morra. obriga-nos a inventar uma segunda definição. Para onde irá este sujeito pacato. achou-se de posse de certas conclusões: Aqui não há justiça. Isto aconteceu. Eis aqui outro. Um sujeito pacato que falava pela paz entre a cidade e o campo. longe disso. Sem dúvida esperou vagamente que lhe agradecessem por isto. Isto nos dá o direito de ameaçá-lo como um criminoso. e ser logo rodeado pelos homens brancos que diziam: “Vejam como se torce.

Mas o senhor parece se tornar menos e menos confiante com cada uma de suas vitórias. Uma outra semana e descobre que não pode mais ensinar.é um criminoso? Um estudioso especula num artigo público que certos aspectos do sistema de comércio exterior de sua nação são desvantajosos para o desenvolvimento. A polícia está confusa. murmura entredentes o escravo. o escravo se submete. Um dia o telefone de alguém revela um estalido peculiar. o escravo cospe uma praga. que as coisas ficam como devem. Ocorrem pancadarias de natureza política entre bandos. o senhor deve ser desculpado.” Exasperado. A taxa de assassinatos em Dixie cresce de ano para ano. Seus partidários estão alarmados. Não há condenações. Só quer saber que ainda é respeitado. Contudo. o chicote é o melhor pacificador. A paz precisa ser mantida. em New York. Como se estivesse de fato tentando produzir a colérica chicotada de resposta. Afinal a estabilidade deve ser assegurada. Suspeita de infelicidade no escravo torna-se base para sua detenção. Um grupo propõe reformular a idéia de não violência. senhor”. porque só está tentando satisfazer seu agora insaciável apetite de segurança. Agora exige que o escravo afirme sua felicidade. Chocado por descobrir que um escravo pode ter aprendido a praguejar. A facção retrógrada tira disto prova convincente de que sua avaliação da situação tinha sido correta: “Estão vendo esta docilidade? Afinal. Outro grupo se arma. Seus partidários o abandonam. Duas bombas explodem em San Francisco. Uma semana mais tarde vem a saber que seu nome foi ligado ao de certos inimigos da sociedade. se não amado. infelicidade provada constitui um assalto criminoso contra a paz. pensando roubar um 164 . olhando de soslaio entre as duas grosseiras botas. o senhor empurra a face do escravo cada vez mais profundamente para dentro das realidades de sua situação. “Eu te amo. Tentando só reduzir sua dor por um momento. Dois pacifistas são alvejados em Richmond. e que não está sendo incubada aqui nenhuma ameaça à paz. Quer ver o escravo beijando suas cadeias. Não há prisões. O senhor está inseguro a respeito de algo. um apetite que na realidade se tornou um vício. Não se encontram indícios. a facção avançada apressa-se com uma censura sentenciosa: “Tática ruim! Não há jeito de mudar os corações humanos!” É quase cômico.

é prontamente alvejado.momento de descanso. Tem de ter sido. Mentirosos não merecem confiança e são perigosos. A explicação do senhor soa verdadeira: “Era um mentiroso. O homem a quem a América reclama o direito de matar. Sem causar surpresa verdadeira em ninguém. O rebelde é também o homem a quem a América chamou “o comunista” e considerou inimigo.” O rebelde é o homem para quem foi decretado que só há uma saída. 165 .

166 .

sua abundância material. em conjunto. desde o início da grande Renascença comercial do norte. sua dolorosa construção de democracia constitucional — estas realizações interligadas têm sido financiadas pelo roubo assegurado chamado imperialismo.VII Duas Questões Revistas Podemos traçar a contenda entre o capitalista e o pioneiro democrático desde os mais remotos dias coloniais. 167 . a Inglaterra na América do Norte. a constante denominadora da história moderna. Desde o tempo da decadência do Império Islâmico e o empalidecer da Idade Média. em escala continental. Fredrick Jackson Turner1 Se as guerras travadas para a aquisição do império são politicamente o mesmo que guerras travadas para a proteção de impérios já adquiridos. a França na África do Norte e toda a apavorante armada das potências européias. a história mais ampla e geral dos imperialismos transoceânicos. na velha Ásia. A grandeza do liberalismo ocidental. então não há diferença radical entre a política que os Estados Unidos emprega no Vietnã e a política que a Espanha empregou no México. a dinâmica expansionista da cultura comercial Ocidental tem sido a raiz. o florescimento de suas artes e ciências. Tendo ocupado o continente norteamericano e reunido e centralizado seu poder. O épico da fronteira americana copiou.

este Vermelho. do desenvolvimento de técnicas que tornam possível uma tal racionalização. 168 . em sua aula inaugural. na Universidade de Freiburg. cujo interesse especial se torna a extensão do uso de suas técnicas. de grupos profissionais de elite. um dos maiores economistas sociais modernos do Ocidente. E se a história é cumulativa. que soberanamente decide a direção de seus negócios. aquiescente e impotente enquanto um bem puramente técnico — isto é.2 O impulso para a “racionalização” do estado não é o produto desta ou daquela filosofia política. As guerras do tipo vietnamita serão tão típicas de nosso futuro cada vez pior. administração oficial racional e provisão — se torna o valor único e final. os americanos terão de fazer uma escolha entre continuar o roubo ou pará-lo. e da coordenação de tais grupos dentro das estruturas de poder maiores. gargantuesco agora. Por volta do final do século XIX. a leste para as Filipinas. Pugnam. em torno daquelas técnicas. Primeira questão revista: Em vez de uma escolha entre liberdade e tirania. por algumas combinações dos três elementos tradicionais da ideologia imperialista ortodoxa: manter a paz. só mais feroz e mais resistente e astuto. Brota. esta ainda mais pessoal. nas quais talvez o homem será um dia como os camponeses no antigo Estado Egípcio. incorporadas. derrotar os Pagãos (Bárbaros. O mesmo saque contínuo. da consolidação. fez uma estranha profecia: Junto com a máquina. em qualquer caso. conquista da região inculta. uma figura que agora é posta em voga se secularizada como a Ameaça Vermelha — igual aos pele vermelhas.sem hesitação os Estados Unidos seguiram seu próprio rumo de construção de império. como têm sido de nosso lamentável passado. mais íntima para os americanos do que a primeira. o Japão e o continente da Ásia. institucionais. agora chamada “desenvolver o subdesenvolvido”. para se perpetuar e estender o território social no qual sua influência é dominante. Não importa muito se estas estruturas de poder chamam-se “públicas” ou “privadas”. em vez de repetitiva. justificado. a organização burocracia está empenhada em erguer as casas de servidão do futuro. então há uma segunda questão a ser revista. como de costume. ao sul para o Caribe. burocratizados. ao contrário. Max Weber. Selvagens). agora chamada “responsabilidade do Mundo Livre”.

Entre os federalistas.4 À luz das precedentes passagens citadas. é assim tão diferente do solicitado por Thorstein Veblen.. O verdadeiro perigo “social e moral” para esta sociedade é nós continuarmos a seguir nossa presente linha de desenvolvimento econômico. reflitamos sobre a seguinte. da biografia de seu avô John Quincy Adams.. cujo trabalho é controlar a estratégia da produção. constituem o estado-maior geral da indústria. enquanto conservamos vivos na política antitruste uma coleção de ideais derivados da forma de conservadorismo de Bryan-Brandeis (sic) que denigre o sistema de negócios que temos. Mas isto nunca teria sucedido ao se efetuar o estabelecimento da Constituição [i. No que diz respeito a fusões conglomeradas. podia ser encontrado um grande grupo dos patriotas da Revolução. que pelo treino.e. Os especialistas tecnológicos. levando a efeito uma sociedade inovadora... Cada ano o sistema de negócios grita mais alto aos homens de independência e caráter para tomar em suas mãos maciça carga nova de decisão. sem levar em conta quaisquer pretensões nacionais ou quaisquer interesses investidos. a direção dos negócios públicos devia considerá-las bem-vindas. de um ponto de vista “capitalista”. A tendência para se conglomerar permite que o capital incorporado..3 Ou vejamos se o mesmo tipo de espírito cultural não anima a seguinte passagem de uma recente polêmica de Fortune contra o antitruste. escrita por Charles Francis Adams.. tenha liberdade na utilização de seus recursos disponíveis em materiais. Vejamos se o sistema que ele prediz. em particular. É essencial que este corpo de especialistas tecnológicos... equipamento e mão de obra. quase todos os oficiais generais que sobreviveram à guerra. e manter uma supervisão das táticas de produção. visão e interesse formam o estado-maior da indústria.Examinemos de novo a profecia de Weber. de um forte governo central] se não tivessem recebido a ativa e determinada cooperação de 169 . cuja supervisão constante é indispensável para o devido funcionamento do sistema industrial. sejam aplicados em novos mercados que podiam de outro modo fenecer por falta destes ingredientes.. de um ponto de vista “tecnocrático-socialista”. e um grande número dos cidadãos abastados dentro da linha das cidades costeiras e regiões populosas.. no geral. ou a habilidade de direção.

Porém dificilmente podemos esquecer que o impulso para estatismo policial tem estado conosco pelo menos desde os tempos do Alien and Sediction Act [Decreto sobre Estrangeiros e Sedição] o predecessor do McCaran Act. os interesses americanos em frutas não podiam saquear as “repúblicas das bananas” e a oligarquia brasileira não podia sem medo ignorar as necessidades econômicas e sociais mais elementares do povo brasileiro. assim cooperam para racionalizar e dominar a economia política interna. o escopo do governo federal deve também ser global. quer esse estado no princípio seja benevolentemente administrado. ordem”. grandes negócios fazem governo poderoso e negócios multinacionais globalizam-no. Há a possibilidade de que o estado total americano vá se assemelhar mais ao Admirável Mundo Novo de Huxley. Fraca consolação.5 O modelo simples se desdobra sem cessar. um forte governo central para protegêlos contra os estados indóceis da antiga Confederação. do que ordem total. podemos ser capazes também de ver que a sociedade totalitária é a essência lógica do estado imperialista. de Orwell. e do fenômeno do McCarthysmo. Tal como em 1789.tudo que fora deixado na América de ligação à pátria mãe. Uma sociedade totalitária não precisa ser um estado abertamente policial. e conseguiram. Assim. Uma vez lançadas as bases do estado total. a probabilidade de male170 . lei. bem como do interesse endinheirado que sempre aponta para governo forte tão seguramente como a agulha para o pólo. Se ele se torna. E enquanto negócios e governo cooperam para racionalizar e dominar a economia política do mundo. de nosso tempo. claramente como podemos ver hoje que a Inquisição era tão só as Cruzadas ao avesso. as formas retendo sua identidade. nada menos. ou não. contra a vontade evidente do povo americano. nem que continuará a resistir a ele no futuro. Sem as forças intervencionistas americanas em contínuo alerta. O imperialismo é o acessório público nacional do expansionismo comercial privado. assim em nosso tempo pedem um governo federal para proteção contra os estados indóceis do mundo. do que ao 1984. exato como o faziam os antigos romanos. isto não quer dizer nem que se mostrou à prova dele. Sendo agora global o escopo do comércio americano. salmodiando “paz. A solicitação básica é de. os grandes negócios pediram. controle total — o estado total do mundo total. dependerá de suas tradições e do caráter da resistência que o povo seja capaz de conceber e expressar. as dimensões se alargando determinadamente. Se nossa sociedade tem na maior parte resistido a este impulso.

dois acontecimentos marcadamente indesejáveis. ou pelo cancelamento violento dela da história atual. Ao mesmo tempo. a única saída para aqueles a quem o poder fez responsáveis reside na supressão do acontecimento final. é entretanto a primeira de sua espécie a ser tão prolongada. a crise do Vietnã é sem paralelo. pelo menos um grande segmento da sociedade. através do silenciar da crítica histórica.volencia totalitária básica existe. uma frustração que começa a parecer impenetrável. a primeira em que a reputação do estado tem sido posta em causa tão incondicional. sobre outros aspectos. e segundo os termos pelos quais a guerra tem sido explicada ao povo americano. pode significar que a cultura não será capaz de tolerar com facilidade outra de sua espécie. nada menos que a vitória pode sustentar a legitimidade presente do estado. Quem tem uma clara idéia de vitória que não seja também absurda? No melhor dos casos. não há solução que não venha a traumatizar. a primeira que todo mundo tem olhado de perto na intimidade de suas salas-de-estar. Terceiro. imóvel. a economia de guerra tem o efeito de elevar cada vez mais 171 . a situação histórica desta guerra pode torná-la um clímax. de alguma forma. Primeiro. O que se mostra especialmente ominoso. quer por meio da dissimulação ou superação por um fato maior (como guerra com a China). Neste caso. repetida e publicamente. que as administrações a se suceder manterão a obstinação da presente e que a história permanecerá. “derrota” é também inconcebível sem um imenso abalo na autoconfiança e consciência americanas. De nenhum modo a primeira de sua espécie (México. precariamente. Se a vitória não pode ser alcançada e a derrota não pode ser dissimulada. no referente à situação atual da América. Na crista de seu poder relativo. Cuba. é que um certo número de forças interligadas parecem inclinadas a estimular cooperativamente a tendência para a totalitarização da sociedade econômica e política. a primeira a ser travada sob palavras de ordem tão claramente hipócritas. as Filipinas). e dado o sofrimento que sem dúvida ainda o espera. a requerer tanto esforço americano para alcançar mesmo um acordo ambíguo. Segundo. a terceira administração a partir de agora se encontrará de posse de um cadáver — uma previsão que supõe. a América moderna experimenta pela primeira vez. Sua iniciação nos limites é enfurecedora e sua compostura vacila. Mesmo uma manobra política soberbamente habilidosa não poderia apresentar um “compromisso” como uma “vitória” (tal na Coréia).

Finalmente. apenas a espécie que serviu de tentação a outros autoritários para fazer experiências com democracia ou tolerância ou liberdade política. Relacionadamente. cujas ações políticas têm um impacto complexo sobre a América do branco pobre. Aqueles que administram estes interesses. e nunca seu poder foi menos sujeito a controle ou veto popular do que agora. está no momento sendo levada para a alienação total do poder branco e total solidariedade contra um sistema cujas hipocrisias nunca estiveram antes tão nuamente à vista. Há uma clara conexão mecânica entre a guerra e os problemas dos guetos americanos. — o poder reúne-se nas mãos daqueles cujos interesses especiais os inclinam para maior belicosidade no exterior e formas mais diretas de restrição política no país. que diretamente. constituem a oligarquia política americana. A América negra. se a decisão clássica entre a guerra e depressão precisar de novo ser feita. a resistência militar incomum e a notabilidade moral do inimigo. junto geralmente com incorporadores multinacionais. no fim de contas. a virtual impossibilidade de resolver o conflito dentro do atual meio político da América. a crescente influência dos militaristas dentro da crescentemente militarizada economia política. ou através do efeito multiplicador. Os problemas que se agigantam ante nós agora são. controle exclusivo dos gânglios principais de poder político e econômico. Mais importante ainda é a conexão espiritual. Portanto. que toma as decisões.o poder dos generais guerreiros e aqueles grupos de interesse individual que têm mais a ganhar com as despesas bélicas. Portanto. as agonias da guerra se mesclam psicologicamente com as agonias da decadência urbana e da turbulência racial. O estado corporativo tem controle efetivo de elementos-chave do sistema de comunicações. podem montar a mais de um quarto do produto nacional bruto da nação. a guerra aprofunda e intensifica a já avançada dependência da economia em relação aos subsídios de defesa federais. tudo se combina para estimular os impulsos inerentes da sociedade corporativa para a reação totalitária. no exato momento em que a economia se coloca na “necessidade” mais clara de guerra — ou de modo contrário. será mais uma vez feita pelo grupo que tem mais a ganhar com a guerra e mais a perder com a depressão. a elevação simultânea do desassossego racial e classista. o estado do bem-estar tendo sido podado para dar lugar ao estado guerreiro. a classe prestigiosa. e acesso 172 . o aparato por meio do qual a sociedade pode ser totalitarizada existe e está em andamento. Além do mais. Em suma. é menos capaz de opor-se à declaração de gastos de defesa.

ou das pequenas revistas originais de dissensões provisórias. pode dar de sua generosidade para aqueles que se humilharem ritualmente ante ele. sequestrada da história nos subterrâneos do LSD. O que pode ser feito? A questão central deve ser compreendida. Não existe como um fundo sob a superintendên173 . O que quer que o estado decida fazer. Está sozinho nas alturas controladoras do poder. e então encarcerar manifestantes. O fato é que seu estilo será determinado essencialmente pela vontade incontrolada de seus dirigentes. Não está. O estado corporativo pode esconder dinamite num escritório do SNCC. A única questão básica que os americanos têm agora para formular a si mesmos é se querem. ou não. anonimamente em solidão com solitários igualmente ardentes. Um tal fascismo pode ser. Liberdade política não é uma licença a ser negociada ou requerida a um poder mais alto. nem na natureza da liberdade política poder ser dada. então é usar eufemismo dizer que é impossível um fascismo americano. Pode tacitamente determinar a seus policiais direitistas que permitam por um pouco que uma quadrilha direitista assalte alguns manifestantes contra a guerra. isto já foi feito. Pode se recusar a entregar assassinos racistas à justiça e assim produzir um Terror efetivamente patrocinado pelo estado. Pode mesmo ter a graça de deixar alguma gente viver numa ausência subsectária da sociedade política. Eles tramarão de qualquer forma fazer o que determinarem deva ser feito. então encenar uma batida policial para descobrir esta dinamite. nem na natureza do estado poder dar liberdade política. ser politicamente livres. isso já foi feito. e o poder de uma tal aliança política ou aliança de manejar sua vontade sem outras restrições significativas do que aquelas que escolhe se auto-impor. então encenar uma batida policial para descobrir estes narcóticos. ou não. da pesquisa pura. segurança e ordem. Se a feição central do estado fascista é a aliança política ou identidade do governo poderoso e grandes negócios. Não é uma dádiva. pode dar-lhes vitórias e atestar que estas vitórias são autenticamente gloriosas. violento internamente. isto já foi feito. Pode colocar narcótico num escritório do SDS. isso já foi feito. A casa imperial de servidão pode lhes dar riqueza. do sexo suburbano.a uma ideologia nacionalista amadurecida. prenhe de violência e capaz de justificar qualquer ação razoavelmente envolta em sofismas ou ação autoritária direta contra dissenção organizada. O superestado pode mesmo voltar um ouvido meio preocupado para os murmúrios dos desprovidos. pode fazê-lo sem controle ou embaraço. Mas o estado não pode dar liberdade política.

é obscurecida. o principio básico da política radicalmente humanista é este: Qualquer decisão que não for tomada pelo povo em livre associação. é obscurecida. e existe quando ele a exige. Esta questão central não é aclarada. e sem América totalitária não poderá haver império americano. O radical socialista. mas o estado não pode nem tomá-la nem dá-la. por nossas categorias políticas comuns de esquerda. William Appleman Williams coloca-a desta maneira: 174 . o conservador corporativista. podem ser livres. democrática.” Diz ao contrário: “Insistiremos na prioridade da liberdade do homem e basearemos nossa invenção social na ética do contrato social livremente feito. A liberdade política está no homem político. Se os americanos escolhem ou não ser livres é a questão política transcendente. É uma condição elementar da vontade individual. e motiva seu trabalho. Se os americanos escolherem a liberdade não poderá haver América totalitária. não os estados. é esse princípio que o humanista continua a elaborar e enriquecer por meio de intercâmbio humano no contexto de situações humanas. qualquer que seja o conteúdo dessa decisão. podem produzir e exibir liberdade. O humanista não deve dizer: “Aceitaremos esta sombria casa de servidão e trataremos de redecorá-la. Se o humanista americano deve abrandar sua intransigência e sair de seu princípio utópico e ir de encontro às realidades da vida tecnológica. nosso lugar americano. é apesar disso esse princípio básico que estabelece seus objetivos. não é aclarada. Se o planejamento central deve ser coordenado pelo governo ou por mãos corporativas é uma questão cujo realismo desapareceu.” A tarefa primária do humanista é descrever e ajudar a realizar aqueles atos políticos através dos quais o poder do monolito autoritário central possa ser rompido e a vida política do homem reconstituída na base da comunidade associativa.cia de escritórios privilegiados. em sua vida. e o liberal pró-estado-do-bem-comum são todos igualmente capazes de nos conduzir na direção da sociedade totalitarizada. lhes dá estilo. não pode ser boa. a única questão que coordena e resume todas as áridas questões da política externa e interna. Somente homens. pelo debate americano tradicional sobre socialismo versus capitalismo versus a economia mesclada Keynesiana. O estado pode negá-la ou obstruir seu curso. direita e centro. possuir. não-executiva. porque não figura entre as capacidades do estado deter. um princípio tão escorregadio como a liberdade política dos homens. A questão urgente é sobre a localização do poder na comunidade: Está ele no estado ou está no povo? E em nosso tempo americano.

que o imperialismo de fronteira e global e o autoritarismo interno sempre se justificaram. a ala direita conservadora de tendência imperialista. Por mais que esteja na fibra do populismo democrático americano está também na fibra da direita liberatória americana.”7 175 . para os imperialistas totalitários. todas as guerras têm sido travadas por razões econômicas.8 Isto não é meramente um desafio de esquerdista para outro esquerdista. Tal descentralização é essencial se é para a democracia ser mantida e ampliada. A ala direitista na América está presentemente num estado de quase assustadora confusão espiritual. Para torná-las política e socialmente agradáveis. que é preeminentemente através da ideologia da Ameaça Estrangeira. na linha de tiro com os Minutemen. autoritária e mesmo monarquista.. e individualismo de mercado livre. sem dúvida. com o precedente histórico. Deviam saber que. Sob uma única e mesma bandeira. reunindo a John Birch Society. Por que os libertários concederam a liderança aos conservadores? Por que os oponentes tradicionais do grande e militarizado governo autoritário central agora somam forças com os mais audaciosos advogados de um tal governo? Agiram assim porque foram persuadidos de que há um perigo claro e presente que necessita uma digressão temporária dos valores finais.. do mito do tigre nos portões. igualdade. E tal descentralização é psicológica e moralmente compulsória. Estes valores radicais podem ser realizados mais facilmente através da descentralização e através da criação de muitas comunidades verdadeiramente humanas. Tal descentralização é tecnológica e economicamente possível. Nossa humanidade está sendo golpeada e espremida para fora de nós pelo poder consolidado de um capitalismo nacionalista bélico corporativo. de um relatório de 1938. fins ideológicos têm sido sempre invocados. Deviam saber melhor. goza da fraternidade da ala direita libertária do laissez-faire. Qualquer possível guerra futura se conformará. democracia e humanidade simplesmente não podem ser realizados e mantidos no futuro — nem podem ser tentados — através de mais centralização e consolidação. Estes dois grupos possivelmente não podiam ter menos em comum. há sempre um perigo claro e presente. autorizado pelo Escritório do Serviço Secreto Naval dos Estados Unidos: “Realisticamente. rindo entredentes através das páginas da National Review.Os ideais e valores radicais essenciais de comunidade. Três explosões de candura exemplar neste ponto: Primeiro.

em 1952. a fim de preservá-la permanentemente. ascensão da influência militar. que apresentou.. no meio-oeste. faz parte da forma geral de política mal orientada nosso país ser agora orientado para uma economia armada que foi criada em uma psicose artificialmente induzida de história de guerra e nutrida com uma incessante propaganda de medo. mais insidiosamente. Não podemos praticar domínio e força no exterior e conservar liberdade em casa. o testemunho do General Douglas MacArthur: Falar de ameaça iminente à nossa segurança nacional através da aplicação de força externa é pura falta de senso. a criação de satélites políticos e militares. corte e Constituição. Na verdade.9 Seria um fato de grandiosa boa sorte para a América e o mundo se a direita libertária pudesse ser lembrada de que além do Republicanismo viciado dos Knowlands e Judds há uma outra tradição valiosa para ela a sua própria: a tradição do Congressista Howard Buffett.Segundo.”10 Há a direita de Frank Chodorov. uma rápida análise do impulso totalitário do imperialismo. em 1952.13 Começando com as palavras: “Cruzamos a fronteira que fica entre República e Império”.”11 E de Dean Russel. orientador da campanha do Senador Taft.”12 Mais atraente é a direita do tenaz Garet Garrett. descansa em uma base ilusória de desconfiança completa e ocasiona entre nossos líderes políticos quase um medo maior de paz do que seu medo da guerra. que atacou a Doutrina Truman com as palavras: “Nossos ideais cristãos não podem ser exportados para outras terras por meio de dólares e armas.. estão advogando só uma coisa: a abolição da liberdade. abandono de uma identidade nacio176 .. que escreveu em 1955: “Aqueles que advogam a perda temporária de nossa liberdade. que os eventos dos anos intervenientes tornaram a comprovar.. Embora uma tal economia possa produzir uma sensação de aparente prosperidade pelo momento. subordinação da política interna à política externa.8 Terceiro. Estamos nos tornando rapidamente uma caricatura da coisa que professamos odiar. e. cuja resposta à Ameaça Vermelha interna era abruptamente decisiva: “O meio de ficar livre de comunistas nos empregos do governo é abolir os empregos. um complexo de arrogância e medo em relação aos “bárbaros”. a crença do Senador Arthur Vandenburg de que para obter sua aceitação de uma militante e dispendiosa política de Guerra Fria seria necessário “assustar com o inferno o povo americano”. o panfleto de Garrett indica infalivelmente os traços da patologia imperial: dominação do executivo nacional sobre o Congresso. Não podemos falar de cooperação e praticar política de força.

se pavoneando através de cemitérios exóticos que ele preencheu e onde ousa pousar coroas. que tinham o homem como centro.nal por uma identidade internacionalista e “histórica” — a república é livre. então este novo humanismo político. se as novas realidades não forem penetradas e uma reorganização ideológica fundamental não se realizar. imaginando o que deveria dizer sobre tecnocracia e Stálin. A Nova Esquerda pode se perder nos debates de esquerda importados. o subumano poder camisa-parda de militante do estado jacobino. do tipo dos anos trinta. Eles são da fibra do individualismo humanista americano e da ação associativa voluntarista. o império é refém da história. fruto de uma longa linha. se mostrará sem dúvida indigno de mais do que uma nota de pé de página nas histórias carniceiras de nosso tempo. a Velha Direita e a Nova Esquerda estão moral e politicamente coordenadas. é abraçado hoje pelo movimento negro de libertação e pelo movimento estudantil contra o imperialismo de Grande Sociedade-Mundo Livre. Contudo sua intersecção pode ser perdida. Crescentemente afastado daquelas imagens de homem que uma vez sustentaram seu trabalho e deram forma às esperanças. inutilizado já talvez por aquela racionalidade não-sentimental que ele se mostrou por tanto tempo satisfeito em honrar. e é só através deles que a tradição libertária é ativada e mantida viva. E alguém terá de fazer finalmente a observação de que o sonho americano não se tornou verdade. ele para sua fantasia por um momento a fim de imaginar se não há algum meio fácil para recapturar o que parece ter sido tão facilmente 177 . que talvez ele fosse um sonho ocioso afinal e que o povo realmente nunca teve uma oportunidade. que tem mostrado sua coragem de Lowndes Country a Berkeley. O superestado deslizará adiante em seu esplendor de aço e vinil. feitas a si mesmo. cujo único e básico amor é Poder. enraizadamente americano. Se isto acontecer. etiquetando-nos e numerandonos com seus testes científicos. auto-satisfeito nas ruínas de suas promessas à moda antiga. mas talvez já um item sem uso e arcaico. Este estilo de pensamento político. recrutando-nos com seus computadores. De ambos os lados pode ser cortada a visão por meio de respostas habituais para labéus ultrapassados. A direita libertária pode permanecer hipnoticamente encantada pelo imperialismo autoritário. o estado de aço possuído por sua própria glória retumbante. Num sentido saudável. o capricho desenfreado do Estado. Sua união potencialmente redentora pode acabar inatingida e irrealizada. Que estes movimentos sejam chamados de esquerdistas nada significa. Aqui está o moderno humanista ocidental.

Compete aos americanos reivindicar de novo e tentar reformar seu país. como de hábito.perdido. Só o povo deve. Não há mais bárbaros para justificar as conquistas básicas e salvar a consciência. De nada adianta imaginar. As fronteiras se foram. O povo está sozinho. contudo. 178 . consigo próprio. O que parece perdido não foi realmente perdido. Não há meio fácil para fazer o velho sonho respirar neste novo ar. nem botões para achar e premir. Só o povo americano pode fazê-lo. chegou a um fim.

Raskin e Bernard B. 2 Vietnam. Holt. 13 Fall. 5 “The Namierist School”. rev. 12 NYT. 1 de Janeiro de 1966. “Viet-Cong — The Unseen Enemy in Viet-Nam”. Rinehart & Winston. 261 179 . 10 Political Science Quarterly. 24. 6 Gary Porter. Marcus G. 4 The New York Times (NYT). 322. 16 de Janeiro de 1966. Fall. 11 NYT. XI. New York. pag. Praeger. de Wilfred Burchett. 1965. pag. The American Revolution. New York. ed.Notas Capítulo II: A HISTORIA DO GUERREIRO DA GUERRA FRIA 1 Citado em “The Fullbright Revolt”. 109-194. 7 Em Stalin. George Athan Billias. 3 The Two Viet-Nams. 9 NYT. New York. Random House (Vintage book). 1 de fevereiro de 1966.. New York. 8 NYT. de Isaac Deutscher. em Raskin and Fall ads. 1963. Goldbloom. pag. Magazine. abril de 1965. pag. 30 de Janeiro de 1966. 1966. esp. Inside Story of the Guerrilla War. 1965. 1965. The Viet -Nam Reader. ed. de Eric Robson. de Bernard B. Commentary. pags. “Globalism — The Ideology of Total World Involvement”. 318. International Publishers. London. 10 de agosto de 1966. 1964. 1963. A Political Biography. eds. setembro de 1966. pag. Fall.. Pall Mall Press. Frederick A. 1960. New York. Random House (Vintage Russian Library). de Maurice J.

. Sahlins et al. pág. The University of Michigan Press. 2 Ibid. 17. F. 27 de fevereiro de 1966. pág. “British Mercantilism and the Economic Development on the Thirteen Colonies’’). 315. The Shaping of American Diplomacy. 19 Ibid.. pág. 15 NYT. New York. Englewood Cliffs... Sears. págs. pág. 249. 503. pág. “The Appearence of an American Attitude Toward External Affairs. New York. 17 NYT. 16 NYT. 16 Ibid. págs.. 1750-1775”).) É um maciço compêndio de “Readings and Documents in American Foreign Relations 1750-1955”. pág. Na citação de historiadores o autor e o título são dados entre parênteses. “American Trade in Opium to China. (Nas seguintes citações deste livro imensamente útil. 258. pág. 12 Para um desenvolvimento “antropolítico” deste ponto ver Marshall D.J. 68. Fleming.. 252. 17 Ibid. 3 Ibid. Stelle..) 14 Ibid.. 20 Ibid. pág. 13 de fevereiro de 1966. Williams cita sem datar um editorial do Times de Londres. 235-237 (Daqui em diante citado como Tragedy. Nottels. pág. págs. de D.’ 197-200.. 1917-1960. Rand Mc Nally 7 Co. 2. 35. pág. 258. Doubleday & Company. DOMINÓS QUE CAEM 1 Em The Cold War and Its Origins. 15 (Max Savelle. 13 William Appleman Williams.. Capítulo III: PORTAS ABERTAS. 217-224 (Charles C. (Daqui em diante citado como Shaping.14 NYT. pág.. 53. 79. 18 Ibid. 2 vols. 9 Ibid. 427. 180 .. 1956. N.. eu só forneço os números de páginas tirados da parte “documentos”.. 11 Citado em Deutscher. The Tragedy of American Diplomacy. 2 vols. 15 Ibid. 1961. 1 de fevereiro de 1966. Prentice-Hall. “Jefferson and the Embargo”).. 5 Fleming. vol... Ann Arbor. editado por e com extensos comentários de Williams. pág. Chicago. 82 (Louis M. 110-122. 4 Crane Brinton et al. 6 William Appleman Williams. 1962. págs. 482. pág.) 7 Ibid. pág. Doll Publishing Co. Evolution and Culture. 251..... 8 Ibid. 10 Ibid. pág. 1960. 1955. 17 de abril de 1966. pág. A History of Civilization. 12 (Curtis P. 328. Mich.

Mass. Harpers & Row (Colophon book). 38 Department of State Commercial Policy Series. pág. 2 Frederic L. junho. 1963.. Brooks. pag. 28 Department of State Bulletin. 3 Tragedy. New York.1821-39”). eds. 1964. pag. 29 Tragedy. 5 de novembro de 1962. panfleto sem data.. 133... pag. 237. 110-112. pag.. 35 Ibid.. pág. 32 Shaping. Cambridge. 31 Ibid. pag. “Big.. Random House. 7 Richard J. 224 (Foster Rhea Dulles. 1938. 34 Tragedy. abril de 1960. 24 Tragedy. 463. pag. pag. 66. pägs.. 26 Ibid. 239. Pryor. Biggest: American Business Goes Global”. 382. The Communist Foreign Trade System. 21 Ibid. To Build a New World. 41 Ibid.. 123. 42 Ibid. 434. pag. “Guerrilla Warfare in Underdeveloped Areas”. 433-434. 30 Thomas R. 17. 18. Lilienthal. pág. Capítulo IV: IMPERIO DO MUNDO LIVRE 1 Tragedy. 40 Tragedy. 25 Ibid. 44 Fortune.. pag. 234. 233. pag. 27 Ibid. pag. 37 Ibid. Barber. “American Interest in China”). Roosevelt. 683-688. 235. pág. New 181 . 4 (1935). New York. 1-70.. pag. 43 Ibid. 5 W. 26. 66. The Polities of Hystoria. pag. pag. 27. 6 David E. Bigger. League for Industrial Democracy. “The Multinational Corporation”. New York. 97. em Raskin and Fall. pág. 36 Ibid. MIT Press. 1966.. 26. 1934-41. pags. 23 Shaping. vol. págs. 4 Em Edmund Stillman e William Pfaff. Rostow. 33 Ibid. 22 Tragedy. pag. 78. 19. W. 39 The Public Papers and Addresses of Franklin D. comunicação feita ao Carnegie Institute of Technology. pag.

Republic. The Great Fear in Latin America. em Foreign Affairs. 76-99. Calif. 150. 24 de janeiro de 1966. 1965. os seguintes artigos de revistas for182 . 23 Ibid. publicado como Apêndice D. por Morris Forgash. presidente da United States Freight Company. News & World Report.. 14 Barber. 30 de abril de 1966.. 18 Para uma boa pequena revisão destas instituições e seus defeitos. 20 “Special Report of Multinational Companies”. loc. “Viet-Nam and the Power Elite”. 23 de novembro de 1964. 31 NYT. 511. (Citado daqui por diante como Almanac. 480. 83. 20 de abril de 1963. TLD Press. 28 de outubro de 1965. “When Executives Turned Revolutionaries”. National Industrial Conference Board e Newsweek. 26 The Economic Almanac 1964. 276. cit. The Macmillan Company (Collier book). A citação é do artigo de Déferre. 1965. 33 NYT. pág.) 27 Gerassi. 8 Wall Street Journal. 10 Ibid. 29 Philip Siekman.. Rinehart & Winston. Berkeley. setembro de 1964. 21 de março de 1965. “What Free Enterprise Means to Latin America”.S. em Melman. 34 Além das citações do NYT. 21 Paul Baran e Paul Sweezy. 28 Ibid. 11 Newsweek. Business Week. Foreign Affairs. pág. abril de 1966. pág. 354. págs. 16 Seymour Melman. 8 de março de 1965. 477. 30 NYT. 1964. 31 de março de 1966. março de 1966. 342-352. 25 Gerassi. U.S. da Standard. pág. New York. 19 David Rockefeller. 32 NYT. pág. 1 de abril de 1966. Companies Are Doing Abroad”. Monthly Review. New York. “Notes on the Theory of Imperialism”. 9 Barber. 11 de outubro de 1965. 24 de dezembro de 1964. 15 Forbes. 2 de outubro de 1964. 8 de fevereiro de 1966. 12 Barber. págs. 24 Baran e Sweezy citam 1962 Annual Report. 28 de Janeiro de 1966. The Commentary of Marshall Windmiller. Holt. de abril de 1966. Fortune. 8 de novembro de 1965. págs. no texto. New York. 22 John Gerassi. 13 Citado em Marshall Windmiller. ver o memorandum “A Bank for Economic Acceleration of Backward Countries”. 355. 17 “What U. Our Depleted Society. 490. 25 de novembro de 1964.

— Brazilian Guaranty Pact to Stimulate Private Investment”. Africa Today. pág.. 52 Lee. Bell. “Harsh Curbs Generate Growing Discontent”. A pesquisa deste livro. “South Africa”. págs. M. 211 East 43rd Street. 17. 1 de agosto de 1965. 46 Ibid. pág. 104.V. 44 Booth e Robson. N. New York. 37 Ibid. 1965-1966. pág. London. “Information on Involvement of U. feita por membros da SDS e o American Committee da África. 27 de março de 1965. New York. 42 Kwame Nkrumah. fria e minuciosa. foi seguramente conduzida pelos estudiosos do Ideological Institute em Wineba. dezembro de 1965. New York. pág. págs. 14. Este relatório resume pesquisa primária continuada sobre os interesses corporativos americanos na África do Sul. Contudo. págs. pág. 39 Ibid. e podem ser consultados se requeridos. 12. 47 Ibid.J. The Last Stage of Imperialism. 127-136. em Chicago. News & World Report. 10017. Lincoln Gordon. 13 de agosto de 1966. “A Special Report on American Involvement in the South African Economy. 45 Nkrumah. Fortune.S. Chicago. 22 de novembro de 1965. pág. 147-149. International Publishers Co. “Military Assistance to Independent African States”. pág. so 50 Ibid. 51 Ibid.S. Fortune. Business Week. Department of State Bulletin. International Commerce. 32. 27-28. 35 Franz Lee.. Os dados são acumulados continuamente no Escritório Nacional da SDS. sobre o assunto.. The Institute for Strategic Studies.S. Lee é um refugiado político sul-africano.S. 1965. “Brazil: Some Success. Veja também New Republic.. 183 .. 36 Ibid. 38 Paul Booth e Christopher Z. “Brazil’s Battle with Inflation”. “Brazil’s Chief Miner”. 53 The Military Balance. U. London. Alexander Defense Committee. The Institute for Strateguc Studies.necem boas informações recentes e antecedentes gerais no caso da Hanna Mining: Fortune. que foi fechado depois do golpe de fevereiro de 1966. 40 Ibid. Much Work to Do”. Business Week. abril de 1965. 49 Lee. 22 de janeiro de 1966. 1965. “Brazil-United States: Partners in Progress”. Students for a Democratic Society. 48 Forbes. Corporations in South Africa”.. abril de 1966. Veja também New Republic. “The Englehard Touch”. 19. Adelphi Papers. Neo-Colonialism. “U..Y. 1966. Anatomy of Apartheid in Southern Africa. dezembro de 1964. “Brazil. Africa Today. Hobson. pág. 13 de agosto de 1966. a melhor fonte singular e mais conveniente é o número de janeiro de 1966 de Africa Today.” Exemplares deste número podem ser obtidas do American Committee on Africa. 41 Booth e Robson. 122. 22 de fevereiro de 1965. 18 de abril de 1966. 43 U. Hanna’s Immovable Mountains”. 1966. 36. Africa Today. Booth e Robson.

The Strategy of Subversion. novembro de 1965. Gerassi. 191. Chicago. 61 Ibid. 1965. 62 Ibid. Sobre Harriman e National. 127. 184 . 488. 56 Gerassi. 263. pág. 492. Orlov. 69 A. pág. 71 NYT. 368... ed. Thomas. pág. págs. 21 de maio de 1966. 77 Economic Affairs. pág. 490. 60 Gerassi. “The Philippines”. Paul W. pág. Standard and Poor’s “Sugar-Basic Survey” e “Sugar-Company Survey” for 1963-1965. pág. Sobre Fortas. 59 Almanac. Esquire. 55 Almanac.. 60.. junho de 1966. International Affairs. 64 Gerassi. “Richter Sweet”. 68 Sobre os interesses dominicanos de Bunker e National Sugar. 57 Ibid. pág. loc. págs. pág. Sucrest Annual Report. Seib e Alan I. 76 Fortune. 32. 72 NYT. 66 Ross e Wise. pág. 116-121. Lash. 165. 73 NYT. pág. 70 Nkrumah.pág. 42. pág. 58 Ibid. New York. ver Joseph P.. 241. Agradeço a Michael Locker de SDS por estes dados. págs. 66. 67 Ibid. 75 Ibid.. 125-126. págs. Otten. 192. Berle e Sucrets veja Charles B. 19 de junho de 1966. 126. Commodity Year Book (anual) e International Sugar Journal (mensal). Who’s Who in America. Barron’s. pág. Quadrangle Books. 8 de abril de 1966. 63 Almanac. 65 Ibid. cit. 12 de maio de 1965. 20. 1. págs. pág. 27 de Janeiro de 1957.. Help — LBJ”. 74 Gerassi. New York Post. 27 de setembro de 1965. Sobre Farland veja o Annual Report de 1965 de South Puerto Rico. junho de 1965..° de junho de 1966. 367-372. “Abe. 28. págs. 34 Lee. 1964. veja Standard and Poor’s Register of Directors and Officers (anual) e qualquer Annual Report recente da National. 80 Rockfeller. 79 Wall Street Journal. 275. Blackstock. “Bunker Hits the Trail Again”. The Invisible Government. Danna L. 155-166. 14. 505. Bantam. 78 Gerassi.

9 Ibid. Baltimore. The Macmillan Company (Collier book). Communist Chinas Economic Growth and Foreign Trade. Penguin Books. pág. Cook. 12 NYT. 194. 5 de março de 1966. Para uma análise especializada de tais números de comércio. 200-212. 77 (48). 8 Ibid.2 (5). 304. 107 (65). 470. pág. e 0. 26 de outubro de 1949. 20 Ibid.: Supplier of Weapons to the World’’.S. pág. 21 Stillman and Pfaff. 1964. e 227 (158). 10 U. 11 de julho de 1966. Md. 183. pág. 15 International Monetary Fund. “The U. 19 NYT. 181. Itália: 61 (39). e 51 (23). 16 de junho de 1966. 185 . 126 (93). 18 Direction of World Trade. 9 de julho de 1966. 59 (40). 1963. março de 1966.S. 58 (41). 194. “Japan Plays the Field”. Japão: 143 (128). 4 Fred J. 1 de janeiro de 1966. 14 Alex Campbell. 11 New York Herald Tribune. Saturday Review. New York. 1119. New Republic. Os números de exportação (e importação) dos U. 6 Ibid.S. para 1933 e 1937-40 são os seguintes (em milhões de U. 18 de setembro de 1966. 13 Almanac. quoted in Cook.S. dollars): Alemanha 140 (78). Capítulo VI: O REVOLTADO 1 Gerassi. Torture: Cancer of a Democracy.Capítulo V: O CASO DO VIETNÃ 1 Newsweek. News & World Report. 22 Pierre Vidal-Naquet. New York. 2 Fall. 23 Ibid. pág. Mac Graw-Hill Book Company. 1966. 240 (27). pág.. pág. 18 Shaping. The Warfare State. pág. 5 Eugene J. 47 (52). veja Alexander Eckstein. 232 (161). 3 Fortune. pág. McCarthy. págs. 7 Ibid. 17 Fall. 40. 288 (204). 45. Direction of World Trade (mensal).

11 Ibid. 3 NYT. Fortune. 72-73. “Antitrust in an Era of Radical Change”. 1963. março de 1956. 201. 1965 (publicado pela primeira vez em 1915). Radicals”. New York. McNamara. Caldwell. The Caxton Printers. National Guardian.2 Robert S. 8 Tragedy. Politics as a Vocation. Continuum. págs. 10 Murray Rothbard. 12 Ibid. The Engineers and the Price System. pág. eds. 1953. Primavera de 1966. 240. “Revisionism: A Key to Peace”. 27 de novembro de 1965. 2 Max Weber. 28 de outubro de 1965. Idaho.S. 5 Beard. in Raskin and Fall. “The Transformation of the American Right”. 3 Thorstein Vehlen. 186 . 4 Max Ways. Brace & World (Harbinger book). 7 Harry Elmer Barnes. 9 Garet Garrett. Harcourt. Capítulo VII: DUAS QUESTÕES REVISTAS 1 Citado como epígrafe em Charles A. Beard. “Policy for U. Economic Origins of Jeffersonian Democracy. Rampart Journal. The People’s Pottage (“The Rise of Empire”). “Response to Aggression” (discurso pronunciado em 26 de março de 1964). pág. 13 Garret. 8. New York.. 8 William Appleman Williams. pág. The Free Press.

SEGUNDA PARTE Revolução: Herança e Opção Contemporânea RICHARD SHAUL 187 .

188 .

A tecnologia tende a destruir velhas formas de organização social e causar mudanças constantes em nosso modo de vida. Por certo muita gente conheceu uma acentuada melhoria em sua situação econômica no curso de algumas décadas. Porém não cria automaticamente uma sociedade que ofereça crescentes oportunidades. contudo. criando assim um estado d’alma de esperanças em ascensão. pode também trazer com elas novas formas de dominação social e limitar. para as novas possibilidades à sua frente. quer para o bem-estar material quer para a libertação humana.I Introdução Progressos recentes em nossa sociedade tecnológica levaram o homem a um novo estágio em sua luta para criar condições mais favoráveis para a vida através da ordenação de sua existência social. Males sociais. podem agora ser superados pelo esforço humano organizado. temos os recursos e o poder para criar o tipo de sociedade que desejamos. especialmente entre os desprovidos. os avanços tecnológicos serviram para acordar todas as classes e raças. e a distância entre o padrão de vida das nações ricas e o das pobres torna-se maior cada ano. pelo mundo afora. cerca de um quarto de nossa própria população está ainda abaixo da linha de pobreza. ainda mais do que no passa189 . Está agora claro que o mesmo desenvolvimento que conduz a melhorias em nossa condição econômica. antes aceitos como inevitáveis. Além do mais.

bem como oportunidades crescentes para a libertação humana. Para alguns. isto é o resultado da reflexão sobre os mais recentes progressos em nossa sociedade industrial. E a média de massa oferece possibilidades sem precedentes para manter um estado de espírito de relativa conformidade entre a grande maioria do povo. Nossa única esperança está em descobrir. Aqueles que estão no poder serão tentados a desenvolver sistemas mais efetivos de dominação. De fato. o mais rapidamente possível. Além do mais. que serviram como um instrumento efetivo para mudança social no passado. na medida em que o poder da sociedade tecnológica é grandemente concentrado nas mãos daqueles que mais lucram com a ordem estabelecida. não estão dispostos a tomar iniciativa nesta luta. nossa participação no processo de tomada de decisões que determina nosso futuro. Este problema constitui um dos maiores desafios com que nos defrontamos hoje. mostram-se cada vez mais inadequadas à medida em que o tempo passa. e a fim de manter alguma semelhança de ordem. e serão atraídos para a resignação ou atos de desespero. Do contrário. e como os recursos da tecnologia podem ser usados para produzir melhoria significativa no lote dos desprovidos.do. e que são mais influenciados por sua ideologia secreta. uma vez surgidas. Os que se beneficiam mais do sistema presente. Contudo. não podem ser suprimidas com facilidade. de qualquer despertar difundido referente às exigências que nos faz. aquele progresso que torna as velhas estruturas sociais obsoletas também lhes fornece poder quase ilimitado para a autopreservação. Por outro lado. a fim de suprimir descontentamento e revolta. como mudanças fundamentais podem ser levadas a efeito nas estruturas de nossa sociedade. aqueles que se tornaram cientes do caráter desumanizante de uma tal ordem perderão toda a confiança nas instituições de sua sociedade. está passando por um processo gradual de despertar. tal uso dele é quase inevitável. estruturas. não parecem estar numa posição de agir mais assim. uma vez tornadas obsoletas pelos acontecimentos. um significativo número de pessoas. Esperanças. Outros grupos. outros têm sido jogados para o conhecimento através dos contatos com os desprovidos em nosso próprio país. Há alguma possibilidade de que possamos responder a este desafio? Temos pouca evidência. tais como organizações de trabalhadores. 190 . na medida em que o avanço tecnológico é incorporado ao ethos agora dominante em nossa sociedade. no momento. as perspectivas para o futuro serão na verdade sombrias. de diferentes idades e classes sociais.

Muitos jovens. e têm gradualmente elaborado as implicações dela para sua compreensão do mundo moderno e a definição de sua responsabilidade nele. saindo desta mesma matriz de frustração e angústia. sei disto. com frequência. Uma nova comunidade está emergindo. Mas eles representam a resposta. cujos membros não só entendem o problema e estão convencidos de que mudanças radicais são necessárias urgentemente. têm sido levados a tomar uma posição revolucionária. Há. Os mais progressistas dentre nós têm pensado sobre a sociedade em termos menos radicais e têm trabalhado para a mudança social de maneira mais moderada. não só em casa mas também no Terceiro Mundo. Por mais prometedora que seja a nova consciência entre a juventude. são livres para entender o problema e fazer algo a respeito. Se aqui os distinguimos e os colocamos em contraste com os progressistas de uma geração mais antiga. e de sua relevância em relação aos problemas com que agora nos defrontamos. mesmo desta minoria. Em seus esforços para expressar sua preocupação pelo homem e para mudar a sociedade. Eu me refiro aos novos revolucionários e aos novos movimentos nos quais estão envolvidos. Se os acontecimentos agora revelam que nossa perspectiva é inadequada e que nossa estratégia é ineficaz.ou com a luta dos povos do Terceiro Mundo. pode nunca ir além de uma atitude de rebelião e uma precoce conformidade com a ordem estabelecida. a uma nova situação histórica. Mas não devemos esperar demais. não estamos por meio disto pronunciando julgamento sobre um. um prometedor sinal de um novo dia. então esta escolha deliberada da revolução pode tornar-se um ponto decisivo na história de nosso país. da parte de uma nova geração. E o surgimento de movimentos revolucionários aqui 191 . que ainda não têm posição no sistema e estão insatisfeitos com o mundo à volta deles. eles não podem estar mais ansiosos em mudar a sociedade do que nós temos estado. Se nossa análise da presente crise está correta. este despertar é. Os novos revolucionários não estão provavelmente mais preocupados com o mundo e o povo que sofre nele do que o estavam suas contrapartes de uma década atrás. Pode fornecer uma ocasião para a redescoberta de nossa herança revolucionária americana. podemos terminar nos retirando de uma luta que não conseguimos entender. Para aqueles de nós que pertencem à geração mais velha. nem afirmando a superioridade moral do outro. ou nos empenhar em esforços que nunca têm relação com os verdadeiros fins. uma experiência traumatizante. mas estão também dispostos a trabalhar por tais mudanças e procurando uma estratégia com a qual conseguir isto.

Muitos jovens. como resultado do envolvimento norte-americano no Vietnã e na República Dominicana. Portanto. o combate à pobreza ou o movimento pela liberdade da palavra e também descobriram. tais como América Latina. Mas não escondo ter chegado a uma análise desprendida puramente empírica. é somente nos Estados Unidos que nos defrontamos simultaneamente com o impacto pleno das várias revoluções magnas de nosso tempo — quando jovens conduzidos à linha de frente da revolução tecnológico-cibernética. A fim de viver e agir. acredito. ficaram envolvidos na luta pelos direitos civis. hoje. deste fenômeno. por estranho que isto possa parecer de início. Gastei também a maior parte de duas décadas na América Latina em íntimo contato com uma situação revolucionária lá existente e fui forçado a chegar a um acordo com ela. não tenho desejo de forçar a realidade contemporânea num estreito e rígido esquema racional. Eu. No tipo de mundo dinâmico e pluralístico no qual vivemos agora. Porém. a revolução que está em processo nas relações entre as nações ricas e pobres. pode ser encontrado o novo estado de espírito revolucionário. eu tive de tentar tirar algum sentido do que está acontecendo no mundo. em número de gente incomum em quase todas as esferas de vida na Europa Ocidental. já descobriram que estão identificados. com um crescente número de homens e mulheres em muitas partes do mundo e em situações largamente diferentes: estudantes revolucionários nas nações em desenvolvimento. e de que a única resposta autêntica ao desafio de nosso tempo é a que os revolucionários estão dando. em perspectiva e interesse. seria absurdo supor que todas as situações são revolucionárias. esta escolha de uma posição revolucionária — e suas implicações para a participação americana no século do Terceiro Mundo — que aqui nos interessa. É este fato novo. é muito difundido. estudantes e escritores nos países comunistas. Em todas estas áreas. à luz de nossa própria história. Estas experiências me levaram a certas conclusões sobre o significado da revolução e a contribuição que aqueles que tomam esta posição podem dar à nossa sociedade neste tempo. Tentaremos examiná-lo sem cair em generalizações indevidas. em alguns lugares. África e América Latina e libertar-nos para participar criadoramente do “século do Terceiro Mundo”. de minha parte. encontro-me na posição não invejável de estar de cer192 .podem quebrar nosso presente impulso para alienação crescente dos povos da Ásia. que têm sido formados por sua participação na luta pelos direitos civis ou nos novos movimentos no campus da universidade.

a entender melhor o que estes movimentos representam. Tenho tentado transformar esta desvantagem em uma vantagem. Talvez desta posição estratégica seja possível ajudar alguns daqueles. Tendo gasto a maior parte de minha vida trabalhando por reforma dentro da ordem estabelecida. 193 . E por mais que simpatize com o novo estado de espírito da nova geração. E ousamos esperar que a reflexão sobre revolução. não posso esquecer o fato de que pertenço a uma outra. possa trazer alguma pequena contribuição aos presentes esforços de parte dos novos revolucionários para encontrar uma base sólida para pensamento e ação fecundos. sou agora obrigado a dar prioridade à revolução. feita de uma tal posição ambivalente. que estão confusos e transtornados pelos progressos revolucionários. tomando a tarefa de interpretação e mediação.ta forma preso entre dois mundos.

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incapazes de articular mesmo o que é mais central em sua própria existência. com frequência. é a busca de um novo estilo de existência humana. Qualquer tentativa de traçar 195 . em nosso mundo moderno. O aparecimento de “beatniks” e rebeldes em muitas culturas diferentes atesta a seriedade do problema. O ideal do “homem burguês” perdeu muito de sua força. O existencialismo desenvolveu seus próprios modelos para a nova humanidade e os russos falam constantemente de “o novo homem soviético”. Há uma crescente certeza de que o contexto em que a vida humana é moldada mudou.II A Busca de um Novo Estilo de Vida Um dos focos principais de preocupação. África e América Latina descobriram a inautenticidade de uma forma de vida importada do Ocidente e por ele imposta. O novo revolucionário está numa posição avançada nesta busca devido sua sensibilidade ao que está acontecendo em volta dele e seu envolvimento responsável onde as questões decisivas sobre o futuro do homem estão sendo levantadas. Muitos daqueles que são mais ativos nestes movimentos estão bastante confusos e são. E os povos da Ásia. Tenho consciência de que isto não pode ser demonstrado empiricamente. e de que só se se desenvolver logo um novo estilo de vida o homem moderno será capaz de encontrar significado em sua existência e agir com responsabilidade. tem mais do caráter de uma afirmação de fé.

quando nosso sistema nervoso central é tecnologicamente ampliado para nos envolver na humanidade total e para incorporar a humanidade total em nós. agir mesmo quando não se pode estar inteira196 . cuja atitude anterior fora de um frio desligamento. ao mesmo tempo sua participação real na luta revolucionária intensifica seu interesse pelo homem e pelo que lhe acontece dentro de um processo histórico concreto. necessariamente participamos. cujas linhas principais são claras: 1. minha experiência em situações revolucionárias muito diversas indica que um estilo específico está surgindo. de parte do homem moderno. Nesta situação. Nação e comunidade fornecem o contexto para a realização humana. Seu envolvimento em movimentos revolucionários com rapidez pôs a nu a irrelevância da visão universal metafísica tradicional. e sua transformação. à luz de certos alvos pré-determinados. e que alcançou um clímax.os elementos principais desta nova posição revolucionária não oferecerá provavelmente uma descrição adequada de nenhum grupo particular. pôr a própria vida na linha de combate. Aqui a experiência do revolucionário é acentuada pela atmosfera que acompanha recentes progressos na tecnologia. é o importante. tem seu paralelo na experiência de estudantes católicos e protestantes na América Latina. tal como se desenvolveu no mundo ocidental em séculos recentes. no Mississipi. das consequências de cada uma de nossas ações. em profundidade. então o futuro está aberto.1 Viver responsavelmente significa tomar uma posição. só é natural que tanta gente. O novo revolucionário tem uma elevada consciência disto. com a existência dentro da história. A mudança que ocorreu nas atitudes dos ativistas do SNCC (Student Non-violent Coordinating Committee). tenha agora um novo senso de compromisso. e forçou-os a reconhecer que os velhos conceitos abstratos não mais significavam algo para eles. Não é mais possível adotar o papel indiferente e dissociado do ocidental letrado. Muita atenção tem sido dada ao processo de secularização. Tal como Marshall McLuhan destaca em seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (Média de Compreensão: As Ampliações do Homem): Numa idade elétrica. expressado pela intensidade de preocupação. Se estes absolutos se evaporaram. o homem tem a liberdade e responsabilidade para determinar seu próprio destino . Contudo.

e para alguns o mais perturbador. Gente jovem das classes elevadas e média tornou-se cônscia da tremenda carga de sofrimento e injustiça no mundo e da situação desumanizante na qual está presa tanta gente. na qual a essência concreta da realidade está constantemente mudando. Conhecer o Negro como um ser humano. é o resultado quase inevitável do processo que descrevemos. Pensamento criador sobre um problema não pode vir unicamente de sua análise racional abstrata. é conhecer 197 . deve ser feita também a tentativa de relacioná-las com o momento presente. A procura da verdade é uma questão de encontrar algumas formas de significação na riqueza e variedade de elementos que tornam concreta a realidade. Ao longo desta estrada de participação. Quando uma visão universal metafísica perde sua autoridade sobre nós. É só de dentro da situação. Se ele não está querendo pagar o preço da luta. por que deve alguém tomá-lo a sério? Além do mais. que podemos elaborar nossa perspectiva ou levar a cabo reflexões sérias. todas as formas de autoridade que dependem dela estão abolidas. Isto não nos devia surpreender. não deve ficar surpreso se ninguém lhe der atenção. Aqui um dos desenvolvimentos interessantes. se ele não é livre para entrar na situação e compreender seus dilemas éticos. ou garantir seu sucesso. nos novos movimentos revolucionários. Se a experiência de gerações passadas e as perspectivas humanas mais vastas devem significar algo. o passado pode oferecer recursos para nossa orientação. Numa situação dinâmica. Só assim pode o trabalho acadêmico ser uma excitante aventura em vez de uma carga sem significado. mas não nos pode impor suas soluções. com toda probabilidade suas opiniões serão de pouca ajuda. estão a caminho da descoberta do autêntico eu.mente certo dos resultados da própria ação. Esta concentração na existência histórica é a fonte da vigorosa ênfase humanística. tal como são levantados ali. a natureza do esforço intelectual é redefinida. é a revolta contra as estruturas de autoridade e o repúdio a qualquer coisa que cheire a paternalismo. e ajuda na tomada de decisões só pode vir dos que estão de alguma forma identificados com ela. não é suficiente apresentá-las em livros ou cursos universitários. Decisões devem ser tomadas de dentro da situação. Quando gente jovem ou os não privilegiados começam a tomar iniciativas para mudar sua sociedade. se movendo para o futuro. e do tipo de maturidade que repudiará todas as relações paternalísticas tradicionais. Quando alguém que não compartilha deste envolvimento toma a si proteger de perigos e oferecer conselho.

mas também para a formação de uma liderança dinâmica. a maneira pela qual a ordem econômica opera é outra. Portanto. não só para o desenvolvimento de um novo estilo de vida. como entre os desprovidos em nosso próprio país. Muitos daqueles que tomaram a sério sua participação na existência histórica e estão preocupados com o homem e seu futuro têm ficado chocados ao descobrir que a ordem sob a qual vivem é quase intolerável. falhou em prover a possibilidade de uma vida rica e significativa. uma profunda paixão moral é o elemento principal na posição revolucionária.as situações desumanizantes sob as quais ele vive. Tomar a sério os novos progressos na revolução tecnológica significa ver as novas possibilidades e ameaças para a vida humana que estão latentes neles. por questões de cálculos prudentes. 2. eles ainda não têm o apoio de grande número. Não temos meios de saber se este humanismo continuará a desempenhar um papel central nestes movimentos. isto tem significado uma nítida certeza de sua própria exclusão do gozo dos benefícios e experiências que nossa sociedade considera mais importantes. citado no The New York Times Magazine: 198 . Estabelecer contato com os camponeses na América Latina é ficar chocado por sua existência subumana. Contudo. Ação é urgentemente necessária e não pode ser postergada indefinidamente. Assim. têm tido êxito em muitas instâncias em ganhar aqueles jovens que são mais sensíveis à situação humana e que estão preparados para fazer algo sobre isto. nos anos vindouros. as duras realidades do poder político são algo diferente. Para muitos pertencentes às classes privilegiadas nos países mais avançados. tão nitidamente necessária no tempo atual. A promessa de bem-estar material é uma coisa. Entre os povos coloniais do mundo. e especialmente a geração mais velha. Ser realista não pode significar se limitar ao que agora parece politicamente possível. Mas uma das razões porque os novos movimentos revolucionários são tão importantes para nossa sociedade é que eles encarnam esta preocupação. embora não possam enfrentar o fato de sua vacuidade. Nem sabemos se nossa cultura pode fornecer os recursos necessários para apoiar tal ação. Um sinal pungente deste mal-estar é uma breve passagem de um recente romance russo. fornecem o contexto. essa insatisfação tem outra dimensão: o sentimento de que a sociedade. Os mitos sobre uma sociedade democrática são encantadores. mas empreender o impossível numa atitude de bravura e de confiança.

“simplesmente não é mais excitante”. ou projetos de alfabetização. relações e alinhamento de poder — que bloqueia as mudanças fundamentais na sociedade. um homem morto. apenas suficiente para produzir revolução. em si. levando a efeito as decisões de outros. do que ser um menino toda a vida. um mundo que a seus olhos as gerações precedentes estropiaram”. Victor. Isto os leva a reconhecer que se defrontam com um sistema feudal-colonial. em qualquer ponto específico. trabalhador científico júnior. entre a geração mais jovem. O que torna a presente situação tão revolucionária. nós na América somos parte de uma ordem automatizada e esterilizada. estudante graduado. as quais não se pode realmente emendar” e o “futuro” e “carreiras” para os quais os estudantes americanos agora se preparam são na maior parte terras devastadas intelectuais e morais”. possuindo tal potencial extraordinário. respeitado por todos. No máximo. quando você ainda estava no berço. Uma estrela na escola. A juventude negra. nas áreas rurais. Nenhuma vez em sua vida você tomou uma decisão realmente importante. nas favelas. em nosso próprio país. são defrontados por um sistema total — um complexo de atitudes. na qual todas as regras do jogo “tendo sido estabelecidas. 199 . membro da academia. trabalhador científico sênior. instituições. mestre em artes. o mesmo sentimento de que o mundo no qual vivem “é uma completa porcaria.3 Expressam a mesma rebelião contra serem tratados como crianças indefinidamente. Os estudantes católicos na América Latina respondem à incrível pobreza das massas pelo início de programas de serviço social.. “2 O que é impressionante a respeito deste depoimento é que ele é tão intimamente semelhante ao que muitos dos líderes da nova esquerda estudantil. nenhuma vez correu um risco.4 A profunda insatisfação com o status quo é. só em chegando às raízes do problema pode alguma mudança significativa vir a se dar. o mesmo protesto contra uma sociedade que. uma estrela no colégio.“Sua vida. foi determinada por papai e mamãe. pode criar um novo sentido de urgência sobre mudança social e um desejo de caminhar mais rapidamente para soluções. Como Mário Savio o coloca. estão dizendo. Que vá tudo para o inferno! É melhor ser um vagabundo e falhar. doutor em filosofia. e então .. e de que só uma mudança fundamental na natureza e direção daquele sistema tornará possível solucionar estes problemas. Cedo acordam para o fato de que todos estes esforços são paliativos ineficazes. é sua descoberta de que quando começam a trabalhar por mudança.

Em outras palavras. Como podemos explicar de outra forma a facilidade com que alguns de nossos líderes políticos mais liberais falam de influência comunista entre aqueles que protestaram contra a aceleração da guerra no Vietnã? Enquanto esta situação continuar a existir. Vêem a íntima identidade de inte200 . toma parte em várias demonstrações. a antiga dispersão e equilíbrio de poder. um processo de radicalização para os assim envolvidos. no interesse da paz e da justiça. mas uma coerente estrutura de classe dominante. não mais é evidente.no Sul. Quando o faz. sua experiência deixou exposta “não meramente uma vasta e inepta burocracia. então nossa situação podia não ser tão explosiva. que são encorajados a tomar iniciativas para solver seus problemas. o mais rápido possível.” Se aqueles que ocupam posições de poder em nossa sociedade estivessem preparados para compreender este fenômeno. Mas. admitir a verdade que ele encerra. não podem ignorar por muito tempo que capital e trabalho. não podem ser desafiados. e quando qualquer grupo significativo de estudantes ousa agir assim. os militares e o Departamento de Estado estão de várias maneiras trabalhando juntos para preservar a atual situação. é considerado como constituindo uma ameaça que deve ser neutralizada. julga-se. em si. e não mais acreditarem nos meios tradicionais de trabalhar para transformação social. participação em movimentos por mudança social levam muitos jovens a tomar posição revolucionária vis à vis de toda ordem estabelecida. uma vez que racionalizações hábeis são fornecidas para justificar a preservação do status quo. com demasiada frequência. compreendem que não encontrarão solução para eles até que ocorram mudanças básicas na ordem econômica. se for para o negro ocupar um novo lugar na sociedade. o que sobressai é a maneira pela qual tudo isto está oculto por ideologias e mitos que tornam impossível para nós ver o que está acontecendo. Sob estas circunstâncias. percebe que se levanta contra todo um modo de vida que deve ser mudado. a participação na luta por uma sociedade melhor constituirá. referente à nossa política oficial perante às nações pobres do mundo. nos “slums” do Norte. e que é esta ordem que deve ser mudada. E os que tentam fazer alguma coisa. Certos pressupostos básicos. que mantinha certas estruturas abertas. Como declarou um estudante de Berkeley. Em muitos lugares. não devemos ficar surpreendidos se os novos revolucionários concluírem que a ordem estabelecida é incapaz de levar a efeito as mudanças agora requeridas. e jovens idealistas sociais serão transformados rapidamente em revolucionários. Os pobres. e lutar honestamente com ele.

as presentes relações entre nações ricas e pobres. estudantes universitários indagam se eles podem estar confiantes na sociedade dentro da qual nasceram. Conduz. Trabalhar da mesma maneira pela transformação daquelas que são mais rígidas. Dentro da ordem atual. a tecnologia provê recursos extraordinários que podem ser. A intensa consciência desta situação só pode ter consequências drásticas na orientação dos jovens e dos desprovidos em nosso próprio país e alhures no mundo. de seu lado. E. Novos progressos em tecnologia em nossa sociedade produziram uma situação na qual o cidadão médio ou trabalhador é crescentemente excluído de participação significativa no processo de tomada de decisões dentro daquelas instituições que determinam seu destino. o que é ainda mais assustador. trabalho e governo. e estão sendo usados. nos Estados Unidos. os povos coloniais não se sentem atraídos pelo modo de vida ocidental. nas nações em desenvolvimento. a nova liderança. há a possibilidade da Pax RussoAmericana. não ocupam mais esta posição. 201 .resses das grandes corporações. instituições que antes eram objeto de lealdade indiscutida. e os pobres nas cidades não se querem tornar classe média. aquelas forças novas que podem dar a maior contribuição para mudança social descobrem que têm sido efetivamente excluídas do exercício do poder político: os estudantes. Os jovens negros não mais estão interessados em imitar os brancos. nas “cidades interiores”. tradicionalmente concentrado nas mãos de uma minoria muito pequena — para a quase completa exclusão de outras classes — parece agora estar ainda mais forte com o apoio dos alinhamentos econômicos e políticos ocidentais. podem oferecer uma oportunidade para trabalhar de dentro por sua renovação. que se efetua sob o nome de “consenso político”. Como o coloca Mário Savio. Se queremos servir à causa que elas representam. então devemos ser chamados a fazer um esforço conjugado para subvertê-las de dentro. Ao mesmo tempo. Do contrário. na universidade. podemos servir melhor o futuro permitindo-lhes morrer. Só aquelas cuja sobrevivência e renovação desejamos. como indicou Carl Oglesby. Aquelas que são abertas e flexíveis bastante para se ajustar rapidamente às novas condições. De uma perspectiva revolucionária. no momento em que mudanças fundamentais são desesperadamente necessárias. para uma quase completa quebra de confiança nas instituições da sociedade à qual pertencem. Em muitas das nações em desenvolvimento. os pobres. para preservar o sistema presente. mais ou menos. pode simplesmente não valer o esforço. que tentaria preservar. o poder político. ou desafiá-las de fora.

e o único meio de agir inteligente e responsavelmente é repudiar estreitos cálculos racionais sobre que coisas podem e não podem ser feitas. não de esperança — 1984. tentam encontrar algum meio de escapar de um mundo impossível. Deixar a política ser determinada pelo que parece possível significa limitar nossas possibilidades e tornar a luta política mesquinha e desinteressante. Neste contexto. Esta preocupação com uma nova ordem não pode ser entendida. o que é exigido é criatividade e imaginação. a Utopia se torna uma força explosiva. Nossos mitos dominantes são aqueles de alienação. ou não. em nosso tempo. enquanto nossa geração é infectada por programa sem visão. Admirável Mundo Novo. ou pelo menos evitar a comunidade adulta. É uma tentativa de libertar o homem e construir uma nova ordem — a novus ordo saeclorum — por meio de iniciativa humana ousada.3.5 esta tradição representa a coincidência da idéia de liberdade e da experiência de um novo começo. Neste sentido. E o rompimento de todas as velhas estruturas de autoridade força-nos para a liberdade em determinar a forma de futuro. não pode evitar vêlos. e muitos de nossos intelectuais mais destacados refletem um estado d’alma de cinismo e desespero. Tal como é descrito por Hannah Arendt. A coisa mais surpreendente é que isto ocorreu no exato momento em que todas as utopias foram postas a nu e todas as visões de uma nova ordem desmascaradas. mais a disposição constante de arriscar tudo. O novo revolucionário está muito mais cônscio das falhas da natureza humana e da força do mal na sociedade. Presentemente. Para o revolucionário. a vontade de agir num tal sentido que nos possibilite construir uma nova sociedade.” 202 . Muitos jovens que foram levados a esta conclusão adotam agora uma atitude de derrota ou rebelião. Mas também é confrontado com o fato de que a tecnologia moderna deu ao homem os recursos de que precisa para criar o tipo de sociedade que deseja. A questão é se temos. ele é a expressão autêntica. e assim por diante. contudo. de Port Huron. Na Declaração dos Estudantes em prol de uma Sociedade Democrática. ou põem grande ênfase no cálculo realista do possível como a única base para ação. se for vista como uma volta a um tipo antigo de otimismo superficial e liberalismo. as consequências desta posição ineficaz são reconhecidas e repudiadas: “Tem sido dito que nossos predecessores liberais e socialistas eram infectados por visão sem programa. daquilo que tem sido mais central na tradição revolucionária ocidental. esta situação é a ocasião para dar forma a uma nova visão de uma nova ordem social. em seu livro On Revolution.

Com os recursos agora à nossa disposição. por muito mais tempo. Um segundo elemento na visão revolucionária da nova sociedade está indicado pela ênfase posta na participação de todos os grupos e classes na vida da comunidade e da nação. e de que ninguém pode ser chamado quer de feliz quer de livre sem participar e ter uma parte. e deve. ao contrário de atenção às necessidades mais básicas do homem e da sociedade. Em sua análise do ponto de vista revolucionário de Jefferson. representam luxos que não podemos permitir.Esta visão revolucionária de uma nova sociedade pode estar ainda um tanto enevoada. e especialmente no processo de tomada de decisões pelo qual seu futuro será determinado. Por conseguinte. de que ninguém pode ser chamado de livre sem sua experiência na liberdade pública. determinando os objetivos do desenvolvimento econômico. Um destes é a crescente convicção de que a sociedade pode. uma. grupos e raças que estiveram marginalizados no passado. para criar novos modelos para a direção da vida econômica pela sociedade. Certamente está condicionada pelo caráter específico de cada luta revolucionária. Está agora claro que o domínio econômico não é uma misteriosa ordem da natureza a que podemos deixar seguir seu próprio caminho.”6 O reconhecimento deste fato é hoje quase universal. estão agora começando a ver que são parte de uma história na 203 . a pobreza material que ainda existe é um mal que não mais precisamos tolerar. mas no sentido mais básico do próprio conceito: controle da ordem econômica pela própria sociedade. A devastação do sistema de livre empresa — mesmo com as restrições que agora lhe são feitas — e sua orientação para a produção pelo lucro. devemos fazer face ao desafio de hoje. ela destaca que foi sua convicção de que ninguém pode ser chamado de feliz sem sua parte na felicidade pública. a construção de uma nova ordem envolve um certo grau de socialismo. sem consequências desastrosas. é simplesmente uma daquelas estruturas que uma comunidade pode usar para os fins que determina. o diagrama de uma nova sociedade está gradualmente tomando forma. não em termos da adoção da filosofia marxista. na qual certos elementos específicos já podem ser distinguidos. no poder público. assumir responsabilidade pela ordenação de sua vida econômica. Hannah Arendt encara isto como a ênfase principal que emergiu espontaneamente nas revoluções do Ocidente. Classes. E. não obstante. e nos empenharmos no tipo de experimentação que iluminará o caminho para o futuro. e os meios pelos quais estes podem ser melhor alcançados. Ao invés de perder ainda mais tempo no debate banal e estéril entre capitalismo e socialismo.

Pode ver que quase todas nossas atitudes e opiniões formadas estão viciadas pelo paternalismo. tanto como naqueles mais avançados. Nos países em desenvolvimento. Sobre estas bases. Nas nações mais jovens estão surgindo líderes que foram treinados na tecnologia do Ocidente e estão livres para trabalhar por soluções autênticas para seus problemas nacionais. e que os programas de assistência que desenvolvemos tanto não são bastantes. tanto os desprovidos como os cidadãos comuns. e nenhuma organização será capaz de oferecer um perfeito equilíbrio entre as exigências de ordem e eficiência e tal participação. Nesta luta estão se juntando a eles. Estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem internacional. que tomam consciência 204 . A nova sociedade democrática deve ser uma na qual jovens e estudantes. Terceiro. acontecendo agora. Muita gente pode ser muito feliz sem esta oportunidade. Nossos recursos econômicos são tais que podemos encorajar e ajudar novos modelos de desenvolvimento nas nações menos avançadas. e completamente eivadas de mitos e ilusões. Novos problemas pedem novas soluções. possam ter uma parte no uso do poder público. e está. numerosas pessoas do Ocidente. Porém nossas estruturas atuais são deploravelmente inadequadas. e imaginação e criatividade humanas podem progredir muito por meio da abertura de novas possibilidades de participação nestas esferas. e a situação dos povos pobres do mundo se tornará mais desesperada cada ano.qual alguma coisa tem estado. e experimentar novas formas de relações-econômicas e políticas — com eles. as limitações de muitas das nossas assim chamadas instituições democráticas têm sido reveladas. o novo revolucionário está chegando gradualmente a compreender que uma mudança básica precisa ocorrer na relação entre nações ricas e nações pobres. Quando acordam para esta realidade. a paz e a estabilidade internacionais serão impossíveis. e a fábrica ou o escritório no qual trabalham. gradualmente entendem que só podem ter uma vida plena de significação se se tornarem participantes desta história. Porém não estão inclinados a aceitar a posição periférica a que seus países foram condenados durante o período colonial. agora. dentro das instituições nas quais vivem suas vidas: as estruturas políticas das comunidades locais e da nação. e de que sua situação só pode ser alterada se tomarem parte na luta para mudá-la. Nossas tentativas de obter um ajuste entre nosso auto-interêsse nacional (como entendido agora) e o interesse das nações em desenvolvimento são altamente ideológicas.

esta conclusão representa um choque. Devemos desenvolver novas idéias e perspectivas de vida e sociedade pelo cultivo da imaginação criadora. tenham perdido sua atração. O reino da história tornou-se o centro de sua preocupação. Ele despreza nossa complacência e nos desafia a forjar novos modelos e a responder ao impacto do futuro. ao mesmo tempo. pode também repudiar o materialismo da sociedade burguesa. criam também condições nunca antes imaginadas para a liberdade. que se entrega à luta por melhor condição econômica do pobre. O pensamento social de muitos de nós tem sido tão frequentemente estéril porque nos permitimos ser encaixados por uma lógica de nossa própria fabricação. ou para os que tentam provocar mudanças fundamentais na sociedade urbana. capitalismo e comunismo. Não é de surpreender que ambos. e somos lentos em encontrar alternativas para formas institucionais obsoletas. mas para os lutadores pelos direitos civis no Mississipi. o relacionamento humano e a auto-realização. Mas uma coisa está clara: Construir uma nova sociedade requer um “novo começo”. O novo revolucionário percebe corretamente que nossa experiência histórica não esgotou todas as possibilidades que existem para a organização da sociedade. está por completo claro que as velhas regras não são mais suficientes. Uma nova geração pede uma visão de existência pessoal que vá além de ambos estes sistemas. Isto conduz ao paradoxo de que o revolucionário. Permanecemos presos por pressuposições que não mais são válidas.de que natureza têm sido nossas relações econômicas e políticas com os povos coloniais. Está dentro de nossas forças satisfazer as necessidades materiais básicas de cada um. disto advém uma intensificação da autoconsciência humana. A tecnologia moderna tornou possível e necessária uma nova ordem internacional e criou uma situação de desassossego. um novo jogo exige novas regras. a existência pessoal plena envolve muito mais do que a satisfação destas necessidades. o revolucionário está buscando uma nova forma de existência pessoal para si próprio e para outros. Cria uma situação dentro da qual muitos dos que estão trabalhando pelos mesmos objetivos que os revolucionários acham 205 . Tanto para o liberal como para o conservador. Tecnologia e burocracia constituem uma tremenda ameaça para o homem. Novas idéias sobre sociedade devem ser acompanhadas por nova politica. Podemos não saber quais devem ser estas regras. Basicamente. esperança e interdependência que podem ser satisfeitos somente se uma tal ordem tomar forma. Tudo isto não quer significar que ninguém tenha uma clara imagem do futuro.

Uma geração precedente de reformadores trabalhou pela renovação da sociedade servindo às estruturas dadas. uma solução satisfatória deste problema depende de uma transformação básica na estrutura de nossas instituições. Não podem compreender que profundas mudanças nas décadas recentes podem exigir um rompimento ainda mais decisivo com os antigos métodos de ação. e se tiverem construído dentro delas a maquinaria de constante auto-renovação. Sair fora do Establishment e atacá-lo de cabeça também ajudará muito pouco. tem também certeza de que o status quo está em aguda contradição com ela e representa uma ordem integrada com o grande poder. Foi cativado pela visão de uma sociedade diferente. As lutas revolucionárias de hoje podem ser um fator importante no provocar uma tal mudança. O novo revolucionário está convencido de que isto não produzirá resultados bastante rápidos. enquanto outros. Mesmo se uma tal empresa tivesse êxito. podemos esperar ter uma sociedade estável e mais humana. um novo movimento trabalhista. Só se forem orientadas mais para o futuro do que para o passado. Uns poucos se espantam de que tantos jovens tomem uma atitude de rebelião. Devido a natureza de sua visão e compromisso. novos partidos políticos — seria uma tarefa impossível. não há garantia de que fosse produzir instituições menos rígidas ou mais abertas para o futuro do que aquelas que agora existem. abandonaram a luta e se concentraram em sua vida e carreiras 206 . sabedoria e persistência dela requeridas. a menos que o revolucionário tenha uma estratégia claramente definida com a qual possa esperar produzir mudanças significativas. Apesar dos recursos pessoais exigidos para este esforço. que foram mais radicais durante seus anos de juventude. se esta geração de revolucionários tiver a coragem. Só uma mudança fundamental nesta estrutura pode abrir o caminho para uma aproximação plena dos alvos revolucionários. mas não há caminho óbvio pelo qual tal mudança possa ser feita. Tentar desenvolver novas instituições para substituir aquelas agora existentes em cada área importante da sociedade — um novo sistema religioso ou universitário. Aqui ele enfrenta um sério dilema. de acordo com as regras estabelecidas. o revolucionário se encontra preso de uma tensão quase insuportável. No fim das contas. Mas a alternativa lógica para esta estratégia parece ainda menos promissora.difícil comunicar-se com eles. e quase impossível participar com eles da mesma luta. Aqueles que vivem segundo as velhas regras rapidamente esquecem que sua maneira de agir já foi uma ofensa à geração que os precedeu. não é ele passível de êxito.

Movimentos revolucionários neste país desenvolveram. Porém a estratégia da guerra de guerrilhas precisa não ser restringida à sua expressão militar. e deslocar-se para novas fronteiras onde quer que seja detido em algum ponto particular. seu equivalente político pode oferecer um instrumento valioso para provocar mudanças em nossas instituições magnas. um pequeno grupo de pessoas pode ser capaz de livrar grandes instituições. para serviço mais efetivo. Em face do poder militar maciço de uma ordem estabelecida. que tornam possível avançar para novas frentes sempre que bloqueado. quase espontaneamente. quer baseados dentro ou fora de uma instituição. A participação do pobre e desprovido nos projetos de renovação urbana podem ter consequências imprevistas na vida e política da cidade. cuja importância temos sido vagarosos para entender.pessoais. O que é necessário é reflexão mais sistemática sobre a significação destes acontecimentos. são incapazes de agir de novas maneiras podem apoiar movimentos que têm a liberdade de agir assim. uma variedade de táticas de guerrilha que se mostraram mais ou menos eficientes. Uma das razões para o surpreendente sucesso de alguns aspectos do movimento pelos direitos civis é que ele tende a irromper em tempos e lugares onde é menos esperado. a guerra de guerrilhas mostrou-se. enquanto que a renovação de uma instituição no centro da sociedade pode afetar outras relacionadas com ela. a manutenção de iniciativa e o elemento de surpresa. em parte devido sua origem. e uma compreensão mais 207 . efetiva. Neste estágio do desenvolvimento de uma sociedade tecnológica. Aqui o foco consiste na formação de pequenos grupos e movimentos que. como um todo. Por meio de muitos ataques limitados a vários pontos. O Freedom Democratic Party pode ser capaz de provocar mudanças na ordem política do Mississipi. Instituições que. forcem-na a acelerar sua própria renovação. flexibilidade e liberdade de operação. Isto pode ser alcançado por uma variedade de técnicas: a concentração de esforço em objetivos limitados. e a tentativa de provocar aquelas mudanças relativamente pequenas que colocarão em movimento um processo muito mais amplo. Muitos exemplos da eficiência desta maneira de agir podem ser mencionados. pode transformar uma grande organização. A moderna experiência revolucionária desenvolveu outra estratégia. sob certas circunstâncias. por um curto período. Um pequeno grupo. que seriam quase impossíveis dentro do Partido Democrático. com uma certa dose de autonomia e liberdade.

nem há nenhuma virtude particular em manter a própria independência. para aqueles que adotaram uma posição revolucionária. um processo dinâmico pode ser posto em movimento. e não temos outra escolha senão tentar entendê-lo e lidar com ele. Servir no arcabouço de uma instituição particular não pede. Em alguns casos. Para muitos outros. as formas pelas quais essa herança é expressa estão tão identificadas com a velha ordem que o revolucionário encontra pouco 208 . têm sido moldadas por uma herança cultural e espiritual particular. De fato. Assim devem ser capazes de correr os riscos de estar “nas” mas não ser “das” estruturas. contribuir para a renovação da instituição que está sendo servida. a escolha de revolução é o único caminho para existência autêntica e responsável. em outros. de uma sociedade tecnológica. com profunda suspeita. em cada situação particular. trabalhando de fora dela. como. Suas próprias preocupações e atitudes. ao contrário. Porém para aqueles comprometidos com a revolução. Aqueles que estão acostumados com uma forma mais tradicional de lealdade institucional provavelmente olharão para a estratégia que sugerimos. isto pode ser alcançado melhor de dentro. O que tentamos indicar aqui é que. e viver como “exilados” dentro da sociedade à qual pertencem. Fazem frente a difíceis problemas humanos e devem descobrir como agir com responsabilidade em relação a eles. bem como a situação específica em que vivem. desta maneira. dentro deste arcabouço. Os que dão este passo enfrentam uma tarefa muito diferente. Hoje. completa subserviência a ela. contudo. Mas ele não irá embora.clara dos melhores meios para tirar vantagem do potencial aqui utilizável para mudança social. em nosso mundo de hoje. No tempo atual. necessariamente. Para muitos é este um desenvolvimento desastroso que ameaça toda nossa estrutura social. Maior atenção devia ser dada. A questão é. e que representa um tipo de pensamento e ação que se coloca em agudo contraste com nossos antigos caminhos de reforma. podemos descobrir eventualmente que. à questão da relação daqueles a trabalhar por mudança radical com as instituições da ordem estabelecida. é preservar um certo grau de identidade de grupo. o essencial. processo que provocará transformações mais fundamentais do que as que ocorreram como resultado de formas anteriores de revolução. um expressivo número de pessoas está deliberadamente escolhendo um estilo de vida revolucionário. possam ser mudadas. ela pode ser uma base para a esperança de que poderosas instituições interdependentes. Voltaremos a esta questão mais tarde.

família. É este espírito de revolta um tumor externo. aquelas instituições que podem desempenhar esta tarefa mediadora — escola. Se desejamos nos entender e viver responsavelmente nesta nova era. Em certos casos parecem existir a fim de preservar as velhas formas. E o que é ainda mais sério. et al — falharam por completo nisso. Quando não é este o caso.ou nenhum significado nela. refletem com frequência a mesma incerteza e confusão que a geração mais jovem conhece tão bem. deve merecer nossa atenção. igreja. que agora aparece como um câncer virulento ameaçando nos destruir? Ou representa a floração natural de certos ideais e esperanças que estão no coração daquela tradição? 209 . a questão da relação entre a posição revolucionária e nossa herança cultural ocidental.

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III Revolução Social e Tecnologia: o Paradoxo de Nossa Herança
O novo revolucionário surgiu no momento do avanço mais extraordinário em tecnologia. Assim temos dois protótipos do novo homem que está surgindo em nosso tempo: o revolucionário e o tecnocrata. Eles contemplam o mundo moderno de perspectivas muito diferentes e representam dois estilos de vida claramente contrastantes; e ambos são produtos de nossa história ocidental. Não existiram sempre lado a lado em nossa civilização, nem suas posições são de igual força. Qualquer que tenha sido o papel da revolução, em nossa história anterior, nas décadas recentes a tecnologia dominou a cena. Nossas reações a ela têm sido variadas. Para muitos cientistas, bem como para os tecnocratas, a tecnologia oferece possibilidades quase ilimitadas para um novo e brilhante futuro. Nas mentes de outros, evocou visões apocalípticas de “1984” e do “Admirável Mundo Novo”. Nos últimos anos, contudo, chegou uma nova geração que não está contente em observar e lamentar estas perspectivas para o futuro. Decidiu desafiar diretamente a ideologia oculta do sistema, enfrentá-la de peito aberto numa luta revolucionária. E isto está acontecendo precisamente nos Estados Unidos, onde a tecnologia é mais avançada e onde a ideologia de uma sociedade tecnocrática penetrou tanto nosso pensamento
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que é quase tomada como certa. Até aqui a luta é muito desigual. É difícil imaginar um contraste mais agudo do que aquele entre o Secretário de Defesa e os estudantes que queimam seus cartões de alistamento ou organizam demonstrações de protesto contra a política dos Estados Unidos no Vietnã. O Sr. Mc Namara é a própria imagem da autoconfiança. Está convencido da correção de sua causa, é o senhor de uma vasta soma de informações, e tem à sua disposição poder quase ilimitado. Os estudantes, de outro lado, são na aparência muito fracos, todos muito cônscios das limitações de seu conhecimento, perplexos e confusos em face das forças irracionais que não podem esperar entender ou controlar. Agora que esta fenda em nossa alma foi exposta, só seremos capazes de viver com nós mesmos, como indivíduos e como uma nação, se encontrarmos algum meio de lidar com ela honesta e abertamente. Agir assim significa basicamente chegar a um acordo com nossa própria história; isto é, com as forças saídas de nosso próprio passado que nos fizeram o que somos. É este um projeto a longo prazo, que só pode ser levado a efeito se aqueles que se encontram envolvidos existencialmente nesta situação estiverem munidos de recursos adequados para tal reflexão. É, primariamente, uma tarefa para o intelectual e para a universidade, uma tarefa que, em grande parte, ainda permanece para ser feita. A maior parte de nós, no entretempo, deve chegar a certa espécie de conclusões preliminares que nos permitirão dar sentido à nossa própria situação, e nos preparar para agir responsavelmente nela. Nas minhas próprias tentativas para fazer isto, fui grandemente influenciado por um sábio holandês, Arendt van Leeuwen, cujo recente livro, Cristianismo na História Mundial,1 produziu grande impacto em alguns círculos. Ele argumenta que algo único aconteceu na história ocidental, que preparou o caminho tanto para a tecnologia como para a revolução, e que uma melhor compreensão desta história nos libertaria para relacionar criadoramente estas forças entre si e encontrar um caminho para fora de nosso impasse atual. Como um estudioso de culturas e religiões antigas, chegou à conclusão de que elas eram todas dominadas, em larga escala, por uma compreensão “ontocrática” da vida e realidade. Com isto ele quer significar que elas concebiam todos os aspectos da realidade — natureza e sociedade, o temporal e o eterno, o divino e o humano — como partes de uma ordem cósmica total. Neste arcabouço, a natureza, bem como todos os aspectos principais da existência histórica do homem, eram essencialmente identificados com o divino, e portanto
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sagrados. Rei e pai, a ordem política e social, possuíam uma autoridade absoluta com a qual não se podia interferir. Sob estas condições, a vida era estável e segura; era também relativamente estática. As estruturas sociais eram rígidas e o passado dominava o presente e o futuro. Na experiência antiga do povo de Israel, contudo, algo aconteceu que desafiava todo este ponto de vista, e que abria o caminho para um enfoque diferente da realidade. Quando tentaram tirar um sentido do que lhes estava acontecendo na vida de cada dia, cresceu entre eles a convicção de que estavam constantemente se opondo a um Poder que era ativo em seu meio. Não podiam evitar a conclusão de que esta realidade era pessoal em caráter, e de que Ele os estava chamando para realizar uma missão particular dentro da história. Da intensidade desta experiência, chegaram gradualmente a outras conclusões, de consequências profundas. O interesse da religião foi mudado do reino eterno para o temporal, e focalizado mais para a existência social e histórica do que para a experiência interior do indivíduo. A relação deste poder soberano para com a ordem temporal só podia ser concebida como a de um Criador para com Sua criatura, e assim tanto a natureza como a sociedade perderam seu caráter sagrado. Como este Deus continuou a ser ativo na história, Ele se ergueu contra toda ordem estabelecida e destruiu todas as pretensões de legisladores e de instituições sociais. Esta nova atitude não alcançou uma vitória fácil nos círculos judeus ou, mais tarde, nos cristãos. O Velho Testamento narra a história de uma luta longa e amarga, de parte dos profetas, contra as tentativas repetidas para reverter aos velhos caminhos. Muito mais tarde, o Domínio Cristão medieval representou um esforço extraordinário para estabelecer um compromisso entre as perspectivas teocrática e ontocrática. Não obstante, quando esta revolução hebraica se expandiu e penetrou a cultura européia ocidental, foram criadas condições que contribuíram para o surgimento da ciência e da tecnologia. O reino da natureza, bem como a ordem social, eram vistos como realidades temporais que o homem era livre para estudar e entender. Podia subjugar a natureza para servi-lo e moldar instituições sociais de acordo com os objetivos que ele determinava. Dois outros elementos na tradição judeo-cristã desempenharam importantes papéis no desenvolvimento de nosso mundo moderno. Um destes é a corrente oculta messiânica que surgiu muitas vezes através dos séculos. Sua origem é encontrada na primitiva experiência israelita do Êxodo e Terra Prometida. A partir dela concluíram que o seu Deus condu213

zia-os para um novo dia, no qual encontrariam novas oportunidades para a realização humana dentro de uma nova ordem social. Assim o domínio da visão cíclica da história foi rompido, e os homens eram livres para olhar em direção ao futuro esperançosamente, como o lugar onde novas coisas podiam acontecer a qualquer momento. Intimamente associada a isto estava a convicção israelita de sua vocação como um “povo escolhido”. Esta nova ordem não viria espontaneamente. Seria o resultado de um esforço disciplinado, feito com o apoio de um povo notável, a quem sua missão histórica tinha sido assegurada. E por causa deste fato, a nação eleita só seria capaz de viver consigo própria e encontrar significação em sua existência histórica quando ela fosse fiel a esta vocação. Em nossa perspectiva norte-americana mais comum sobre a vida e o mundo, uma síntese um tanto espantosa destes três motivos ocorreu, na qual a tecnologia não só é central mas tem sido completada pela ajuda de uma poderosa ideologia. Nossa maneira pragmática e funcional de lidar com a realidade tem sido envolvida por uma crença no poder da tecnologia para criar possibilidades quase ilimitadas para o melhoramento da vida humana, e pela convicção de que a América foi “escolhida” para a missão de levar estes benefícios ao resto do mundo. Não estamos interessados aqui em discutir a importância relativa desta herança judeo-cristã na formação de nossa sociedade, como mais decisiva do que outras forças culturais. E certamente não defenderíamos esta presente síntese como uma expressão fiel dessa herança. Estamos somente tentando destacar o fato de que estes elementos foram importantes na moldagem de nossa autocompreensão e de que devem ser examinadas com muito mais cuidado, se desejarmos responder produtivamente aos problemas com que agora nos defrontamos. Doutra sorte, concentraremos nossa atenção no pragmático e tecnológico, embora ignorando o contexto no qual surgiram e se desenvolveram. E permitiremos a nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico prosseguir dentro de uma estrutura altamente ideológica, que é mais perigosa por não estarmos bem cônscios dela. Se somos livres, no entanto, para refletir sobre estes elementos centrais em nossa própria história, descobriremos logo que nenhum de tais raciocínios ingênuos redunda em dificuldade séria. Pelo menos, isto foi o que aconteceu entre os israelitas. A mesma experiência de ser um povo escolhido, que tornou possível, para muitos, não só justificar o status quo, mas também sentir-se orgulhoso dele, produziu alguns caracteres muito perturbadores. Para estes homens, a libertação de velhas au214

toridades, a preocupação com a emancipação humana, e um sentido de destino levou-os a olhar criticamente sua própria sociedade e a se tornar muito insatisfeitos com ela. Viram que, quando foi rompido o poder da forma ontocrática, os homens ficaram livres não só para criar uma nova ordem; podiam também usar esta liberdade para satisfazer seu próprio individualismo e ambições coletivas, de uma maneira que não era possível numa sociedade mais controlada. Tornaram-se conscientes de que o messianismo pode, facilmente, ser pervertido para servir a outros objetivos que não a emancipação do homem, e que, se um povo escolhido é necessário para a transformação do mundo, ele pode facilmente se tornar um obstáculo a ela. Por mais desagradáveis que fossem estas conclusões, foram decisivamente fortalecidas pelos acontecimentos históricos. Se Israel tinha sido tirada da escravidão no Egito para a Terra Prometida para o bem “da restauração das nações”, na aparência algo andara errado. A nova era que eles haviam esperado inaugurar não apareceu; e o povo escolhido encontrou-se envolvido em conflito social e guerra contínua, que terminaram, afinal, em aniquilação política. Porém da profunda crise de autocompreensão que isto produziu, emergiu a visão profética. Para estes homens, a soberania de Deus implicava não só em liberdade mas também em julgamento. Quando estruturas criadas para servir ao homem tornam-se rígidas e impedem o caminho da realização humana, devem ser demolidas. Só no seu colapso e através dele pode ser construída uma nova ordem. Quando um povo escolhido, mesmo após sua chegada à Terra Prometida, é desobediente, será dispersado — para redescobrir seu destino na Diáspora. Em outras palavras, os profetas tornaram-se os primeiros revolucionários. E o que ainda é mais importante para nossa discussão aqui, a mesma atitude para com a realidade que, ao tomar forma entre o povo de Israel, abriu caminho para o desenvolvimento eventual da ciência e tecnologia, também preparou o caminho para a revolução. Não importa quão tenazmente tentemos ignorar este segundo elemento, não podemos esperar ter êxito, pois ele é uma fonte integral do complexo de idéias e atitudes, preocupações e esperanças, que nos fazem o que somos. Aqueles aspectos da herança judeo-cristã que mencionamos foram incorporados em nossa cultura ocidental, desenvolvidos e reformulados por ela. Como resultado, tecnologia e revolução não só existem uma ao lado da outra, mas agem uma sobre a outra, num estado constante de tensão dinâmica. Sempre que a tecnologia se permite ser dominada por um messianismo herético, surge um revolucionário para
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é a revolução social que cria o tipo de sociedade aberta. a luta revolucionária prossegue. instituições e povos. Ele argumenta que os dois maiores símbolos de uma sociedade ontocrática. atingindo novas classes. em tensão mútua. De fato. Porém podemos afirmar sem perigo que nenhuma seria o que é agora sem a outra. não nas sociedades ontocráticas do Oriente. também torna possível para aqueles empenhados em construir uma nova ordem lutar com uma convicção similar de vocação. Num interessante capítulo de “O Ocidente Revolucionário”. foram gradualmente minados 216 . Tecnologia e revolução podem representar perspectivas contrastantes. a maior floração da tecnologia ocorreu. Um dos temas centrais na história ocidental é o gradual funcionamento e universalização daqueles dois processos. Revolução é a força que despedaça as velhas ideologias que se colocam no caminho do avanço tecnológico. no período antigo e medieval da história ocidental. que gradualmente minam todas as estruturas de autoridade e todas as velhas bases de estabilidade. foi produzida pela tecnologia. O impulso original para a dessacralização de um mundo ontocrático pode ter vindo de uma mensagem judeo-cristã. temos aqueles progressos associados com tecnologia. Este processo também parece desdobrar-se em círculos cada vez mais amplos. e. De outro lado. na qual o avanço tecnológico pode prosseguir e mais contribuir para o bem-estar humano. nos tempos modernos. e os deixa livres para mudá-las. o império e o sistema feudal. mas naqueles países em que o espírito revolucionário produziu um impacto profundo. mas. E se o mito secularizado do povo eleito fornece àqueles no poder um sentido de destino. Em simultaneidade com isto. o Professor van Leeuwen traça seu desenvolvimento. desde o tempo do Império Romano ao presente. A destruição da ordem ontocrática que torna a tecnologia possível — e que também é impulsionada para a frente pela tecnologia — leva os homens a discutir a autoridade de todas as estruturas. Objetiva a subversão de toda a velha ordem a fim de construir uma nova que criará novas oportunidades para a emancipação e bem-estar humanos. numa relação de apoio e tensão mútua. em seu lugar. De um lado. sua marcha triunfal através do mundo todo. A mesma oculta corrente messiânica que produz em alguns uma paixão por uma sociedade tecnocrática pode levar outros a denunciar e desafiar seus elementos desumanizantes. estabelecem uma ênfase sobre funcionalidade e racionalidade na ordem de uma esfera da vida após outra.desmascará-la precisamente naqueles pontos em que a tecnologia causou o maior impacto. que tornou a revolução possível.

Seu ponto central é agora a emancipação do proletariado. Temos portanto à nossa frente possibilidades quase ilimitadas para 217 . Novas nações-estados se levantaram para desafiar a desfalecente autoridade do Sacro Império Romano e dar uma oportunidade aos principais grupos étnicos da Europa para organizar sua vida da mesma maneira. América do Norte e França. atingiu agora todos os povos. os cidadãos da nação afirmaram sua soberania. Está em seu poder moldar a sociedade de acordo com sua vontade. o espírito revolucionário tornou-se universal. No tempo atual. A esperança de libertação e realização. A fim de realizar esta vocação. O grupo de idéias acima referidas agiam “como uma carga de dinamite”. Na Inglaterra. África e América Latina. que inclui não só os desprovidos e classes marginalizadas em nossas sociedades. cujos cidadãos eram emancipados do domínio da velha ordem. Com isto. de modo que elas possam ser racionalmente dirigidas pelo homem. a revolução ocidental avançou mais um passo. O processo de secularização pôs abaixo todas as velhas estruturas de autoridade e abriu todas as áreas da vida. e que desejavam controlar sua própria vida política e concentrar sua atenção no desenvolvimento racional do comércio e da indústria. bem como sua vocação para fazer de sua nação um instrumento de libertação universal. Ao mesmo tempo. e abrindo caminho para surgir o novo. insistiram que o povo deve ter garantido o direito de exercer certos direitos inalienáveis. a luta por estes objetivos conduziu à revolução. Ao final do período medieval. e estão descobrindo gradualmente que devem tomar a iniciativa na luta para alcançá-la. explodindo as pretensões à divindade de parte de velhas autoridades e instituições. Estão certos de que uma tal vida é possível. transformou a revolução em algo total. a tecnologia. Além do mais. o desenvolvimento do Ocidente e seu impacto sobre o resto do mundo atingiu um clímax.por forças trabalhando internamente. mas também o proletariado externo do mundo ocidental as vastas populações da Ásia. Com o passar do tempo. apareceram cidades novas e independentes. pela destruição de todas as estruturas autocráticas e pela criação de uma situação de interdependência de todas as áreas da vida e de todas as partes do mundo. Na ordem política. de bem-estar econômico e uma oportunidade para participar no uso do poder público. e distribuir os recursos econômicos e o poder político como quiser. a luta por emancipação e racionalidade expressou-se na esfera econômica através do desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial. A tecnologia forneceu os meios pelos quais o homem pode criar o futuro que deseja. Disto vieram novas idéias e instituições que revolucionaram o Ocidente.

e fazer sua parte. Porém será o Ocidente capaz de aceitar as consequências de sua própria história. mas vieram para a América como que predestinados. ao final da era colonial.provocar mudança social e transformar a vida de um lado. a tarefa parece ainda mais aflitiva. conduzindo a revolução que ele impôs ao resto do mundo? Por certo. como um povo eleito. Aceitamos o fim da era colonial num sentido político. A despeito de todas as mudanças que se efetuaram em nosso mundo. Muitos dos primeiros colonos foram produto do movimento puritano na Inglaterra. caos e desintegração social. Devido o fato de a tecnologia ter avançado em tão grande escala em nossa sociedade. chamado a construir uma nova ordem e a ser agente de emancipação universal. e quer continuar a desempenhar um papel decisivo na luta humana tal como é definida agora. Não é difícil para aqueles de nós que são norte-americanos tomar consciência de que a escolha está colocada para nós de modo mais agudo. Falando historicamente. o estadista austríaco do século XIX. Em relação ao mundo em desenvolvimento. o Ocidente ainda detém tremendo poder econômico. Até que descubramos como inverter a tendência pela qual cada ano aumenta a distância entre as nações ricas e as pobres. no presente. Metternich. bem-estar e renovação urbana. com o aparecimento de novas nações independentes na Ásia e África. compreendeu isto quando declarou: 218 . não podemos esperar resolver o atual impasse ou evitar o desastre final. político e militar. de nós. de outro. e arrojadas iniciativas novas em educação. e para criar conflito. as perspectivas não são brilhantes. Nossa existência como uma nação e nossas instituições políticas básicas foram moldadas numa luta revolucionária que constituiu uma tão grande ameaça à ordem estabelecida daquele tempo quanto as novas revoluções representam para o nosso. nosso poder é maior. Não só adotaram uma atitude revolucionária em relação à sociedade. Mas dificilmente temos começado a imaginar o que seria exigido de nós se acatarmos seriamente seu pedido de uma nova relação econômica conosco e de um novo papel nos negócios internacionais. e as nações que estão ansiosas por acelerar seu próprio desenvolvimento dependem de um modo ou de outro. nosso progresso tecnológico está intimamente relacionado com o fato de a revolução ter tido um lugar tão central em nossa história. maior cuidado pela transformação de nossas estruturas econômicas e políticas. pois isto requereria apoio benevolente daqueles que optaram pela revolução.

aparecemos ao povo. que é tão evidente entre os jovens progressistas em nosso próprio país. nestes termos: Seus temas têm o propósito de ser diferentes. Consequentemente. . Permitimos que nossa compreensão de tecnologia fosse dominada por uma ideologia herética de messianismo. em vez disso. do Iluminismo ao século vinte.. lamentar por aquelas que falharam. expressou este fracasso de nossos líderes liberais e sua reação a ele.. e esta ideologia agora nos cega para acontecimentos em volta de nós. que nos ajudou a interpretar acontecimentos e forneceu uma base de poder político para mudança. Tom Hayden. mais espontâneo.. que produzirão o máximo que é realmente possível. tão cheio de audácia. da força moral de nossos governos e do sistema conservador que salvou a Europa da dissolução completa?2 Mas algo andou errado. como o símbolo de anti-revolução. Se esta maré de exemplo pernicioso viesse a se estender por toda a América. estão eviscerando a grande tradição otimista do liberalismo. somos considerados em parte responsáveis pelas frustrações que sentem quando são incapazes para mudar as estruturas de sua sociedade. compreender a dinâmica contemporânea de revolução — em casa ou fora — e por conseguinte somos incapazes de responder a seu desafio. o que seria de nossas instituições religiosas e políticas. Encorajar as revoluções. responsáveis. as causas apaixonantes do homem nada mais são do que perigosas bebedeiras psíquicas. 219 . estender mão amiga àquelas que parecem prosperar dá nova força aos apóstolos da sedição. onde quer que se mostrem.. e que está no âmago do pessimismo em relação à nossa liderança no mundo de hoje.. e não menos perigoso do que o anterior. nas nações em desenvolvimento. No passado fomos capazes de responder a novos desafios devido a existência de uma vanguarda liberal em nosso meio. Vocês. se não impossível. falsos liberais estão sofrendo o fracasso de seus sonhos juvenis. nos países em desenvolvimento. ideais têm pouco lugar na política — devemos. mas sempre surgem as mesmas impressões: O homem é inerentemente incapaz de construir uma boa sociedade. Enquanto nossa presente situação se torna mais revolucionária. um dos líderes da nova esquerda estudantil. Achamos difícil.. contudo. as ideologias liberais parecem menos capazes de enfrentar o desafio. e reanima a coragem de cada conspirador. Aqui se encontra uma das maiores razões para a crise de confiança em nossa sociedade. Quando a situação se torna mais revolucionária. traçar programas efetivos..Estes Estados Unidos da América deixaram atônita a Europa com um novo ato de revolta.

a batalha pelo futuro do homem se focaliza às vezes nas fronteiras da revolução. Eles nos oferecem uma nova oportunidade para entender o desafio contemporâneo com que deparamos.estão justificando o desinteresse pela moralidade. estão eliminando emoção. discordância. na perspectiva baseada na história ocidental. o desenvolvimento espontâneo de novos movimentos revolucionários. A nova ordem para a qual o revolucionário está se encaminhando não pode ser identificada com nenhuma estrutura política ou social.3 Contra este fundo. sim. a fonte perene da própria vida. e responder a ele criadoramente. pode bem ser um dos acontecimentos mais significativos neste estágio de nossa história nacional. Mas. Cada luta revolucionária traz tanto a possibilidade de uma ordem mais humana como de novas ameaças de desumanização. A questão verdadeira é se. afronta e. Quando isso acontece. hoje. pelo contrário. algo a contribuir para o seu êxito. não devemos perder nosso tempo tentando decidir se apoiaremos ou não a revolução. Esta ênfase na importância da revolução neste momento histórico particular não implica em que toda a ação revolucionária seja boa e tudo o mais mau. que aqui apresentamos. bem como para serem incorporados mais uma vez em nossa própria revolução e para explicar nossa vocação no mundo em relação a ele. afinal. 220 . temos. específica.

Isto me foi exposto recentemente. Tomando conhecimento de minha tese de que era necessária uma nova liderança radical para a construção de uma nova sociedade na América Latina. insistiu em que eu estava preocupado com a questão errada. à solução de magnos problemas sociais e criará possibilidades de uma vida melhor para um crescente número de pessoas. Precisam ter uma compreensão do que está acontecendo hoje e que tornará possível para eles. por um jovem cientista atômico. na Universidade de Michigan. não só romper com esta ideologia. Aqueles que escolhem a senda da revolução não terão tal facilidade. Por estas medidas. bem como sua aplicação. o problema será resolvido. mas 221 .IV Ideologia e Teologia O tecnocrata moderno não precisa estar indevidamente perplexo com os acontecimentos em nossa sociedade. disse. O que é importante. é fornecer força nuclear em grande quantidade para a produção de eletricidade nos países subdesenvolvidos. capaz de tal liderança. Está comprometido com o uso do método científico para a expansão constante de conhecimento sobre a natureza e a sociedade. Com isto virá a industrialização e a criação de uma forte classe média. E seus esforços são apoiados por uma ideologia que torna possível para ele pensar que a aplicação continuada da tecnologia conduzirá. numa sociedade relativamente estável. nem com a natureza de sua própria responsabilidade. com nitidez.

os mais seguros desta responsabilidade não vêem modo claro de realizá-la. que era baseada nos pressupostos de que a realidade era fundamentalmente racional e de que o homem. Nossa abordagem norte-americana do problema. também deixa muito a desejar. contudo. Afirmando que a ideologia não é mais necessária. indicam claramente que as velhas fórmulas perderam muito de sua força e que estão sendo substituidas. ser-lhes-á necessário pensar sobre velhos problemas de novas maneiras.também desenvolver uma perspectiva de opção. porém útil. contudo. todas estas perspectivas metafísicas perderam sua atração para nós. Hoje. pragmática e empírica. caiu vítima de um ethos ideológi222 . e de que a marcha acelerada da mudança social os torna obsoletos na época em que são formulados. sugerir como estes objetivos podem ser atingidos e prover uma base razoável para a esperança de que tal transformação social é possível. Isto é mais ainda complicado pelo fato de que. nossa ação na sociedade foi orientada por uma visão-universal filosófica geral. mas também na transformação da sociedade. Raciocinamos logicamente que. Esta é uma tarefa formidável. Hoje. Desta maneira. Não mais estamos certos de que a realidade é racional. Novos movimentos nos círculos intelectuais marxistas. não só em conhecimento. especialmente para o revolucionário. e formular novas perguntas. e ficar contentes com o que oferece para a ordenação de nossa sociedade. Se quiserem chegar a alguma parte. e temos ainda menos confiança na habilidade da razão humana para alcançar uma síntese fidedigna dela. estamos agora certos de que a qualidade concreta da realidade social nunca se ajustará por completo a tais esquemas abstratos. podia desvendar seus mistérios. mas também chegar a conclusões definidas sobre o futuro bem como sobre os melhores meios de avançar em sua direção. O marxismo ortodoxo representa o último grande esforço para organizar a sociedade segundo esta visão-universal total. Devem estar preparados para definir seus objetivos. Dentro desta estrutura. pelo uso da razão. se é impossível para nós encontrar respostas para questões básicas ou ter uma visão-universal integrada total. gradualmente. esta abordagem tem sérias limitações. Por séculos. não só era possível formular uma opinião geral do homem e da sociedade. por novas maneiras de abordar a realidade histórica. a situação está mudando. mesmo ali. com frequência. em todo o mundo. Esta atitude serviu para livrar homens de velhos modos de pensar e tem aberto o caminho para avanços. Mais do que isso. então o que deve nos interessar é o estudo empírico de esferas restritas ou fragmentos de realidade. podemos chegar a conhecimento limitado.

nossa sociedade produzirá “especialistas sem espírito ou visão e pessoas voluptuosas sem coração”. limita as indagações que fazemos. Escreve: 223 . esta distorção ideológica de nossa perspectiva é inevitável. A análise de Max Weber das consequências desta abordagem diz respeito a nós. na qual as promessas humanas ficam irrealizadas. Quando isto acontece. Em sua Sociologia da Religião declara que só duas alternativas ainda estão abertas para a sociedade ocidental: uma renovação espiritual — provocada por profetas inteiramente novos ou por uma poderosa renascença de velhas idéias e ideais — ou “petrificação mecanizada. e ao mesmo tempo fazer o uso máximo dela. o moralista e o teólogo? No parágrafo de conclusão de seu ensaio sobre “Objetividade. Weber prediz que virá um tempo em que isto será absolutamente essencial. na Ciência Social e Política Social”. para terminar subordinando nossas preocupações científicas a uma visão restrita de auto-interêsse individual e nacional. encoberta por uma espécie de sentido convulsivo de auto-importância”. como Tom Hayden o colocou. e pode fechar nossos olhos para a série de possibilidades latentes numa situação. aqueles que se sentem orgulhosos de sua pesquisa científica nãoideológica permitam a si próprios ser utilizados pelo governo ou pela CIA para propósitos ideológicos muito definidos. observada empiricamente. E. o povo cessa de esperar qualquer coisa além do mal necessário”. muito provavelmente. e aceitar as intuições fornecidas por nossa experiência histórica. e estamos. pelo artista e filósofo. Quando nossa investigação científica da ordem social não está relacionada com uma tentativa para entender quem somos como seres humanos. No último caso. a fim de entender nossa experiência social? Podemos ser agnósticos sobre a natureza básica da realidade social e ainda ser livres para fazer tudo dentro de nossas forças para mudá-la? Podemos descobrir um meio de pensar sobre nossa existência social e nossas probabilidades para o futuro que combine ser o mais completamente aberto para a complexidade e a qualidade concreta de uma situação sempre mutante. uma sociedade manobrada “é uma paralisada. Há alguma saída para este impasse? É possível para nós reconhecer as limitações da razão. Tecnologia e ciência tornam -se ferramentas com que conflitos são manobrados e gente jovem é mantida sob custódia até que esteja sem paixão. e para onde vamos.co oculto que restringe nossas áreas de interesse. os sonhos morrem. resta só um pequeno passo até o ponto em que.

torna-se satisfeito com suas conclusões primeiras. Na verdade. numa idade de especialização. Porque a ideologia fornece uma oportunidade para tal autocompreensão — por parte de indivíduo. é o resultado de uma empresa coletiva. Mas não possuímos sistema filosófico. que sejam capazes de fazer isto. O tipo de análise e entendimento que agora necessitamos só pode ser fornecido por ideologia. Cessará de avaliar a importância dos fatos individuais em termos de suas relações com valôres-idéias básicos. ao mesmo tempo que serve como um fator dinâmico na luta social. dentro do contexto de sua mais ampla experiência histórica e humana. considerará a análise dos dados como um fim em si mesmo. ou grupo de valores básicos. uma busca de compreensão.Toda pesquisa nas ciências culturais. As 224 . oferece a possibilidade de explicar algo do significado latente na história que está para ser feita. mas logo se cansa do esforço. grupo e nação — pode ajudar a manter aqueles ameaçados de mudança. também. Pois ideologia é o produto do pensamento sobre a qualidade concreta da vida do homem no mundo. Representa uma tentativa de examinar progressos sociais particulares. A significação dos pontos-de-vista usados irrefletidamente torna-se incerta e o caminho se perde no crepúsculo. para mudar seu ponto-de-vista e seu aparelho analítico e para investigar as correntes de acontecimentos das culminâncias do pensamento. à luz do passado. Pensamento ideológico dá ênfase ao envolvimento numa situação particular como uma condição essencial para chegar a uma intuição verdadeira. Então a ciência se prepara. precisamos demais de tais “culminâncias do pensamento” e “estrelas” para dar significação e direção a nossos trabalhos. Mas vem um momento em que a atmosfera muda. uma vez que seja orientada para um assunto dado através de colocações particulares de problemas e tenha estabelecido seus princípios metodológicos. e podemos não estar desejosos de aceitar a disciplina que exige. Não possuímos muita experiência deste tipo de esforço intelectual. e acaba repetindo clichês irrelevantes. Segue aquelas estrelas que sozinhas são capazes de dar significação e direção e seus trabalhos . da qual as massas podem também participar e contribuir para um processo gradual de despertar social e reflexão. Tais progressos ideológicos positivos não ocorrerão espontaneamente.1 Hoje. Um movimento revolucionário pode começar com reflexão criadora sobre os eventos de que participa. bem como do futuro. A luz dos grandes problemas culturais circula. a fim de definir objetivos e trabalhar por mudança. perderá sua consciência de seu enraizamento básico nos valôres-idéias em geral. Está bem que seja assim.

progresso e mudança social. e as prospectivas futuras para a empresa humana. especialmente quando não há alternativa clara. E ainda mais. que nada pode ser realizado tentando ocultá-las. É amplamente reconhecido que nossa perspectiva ocidental da história. a ideologia faz parte do tipo de compreensão social que constituiu sua razão original para existir. mostra como todas as questões básicas sobre o homem e a sociedade que agora requerem nossa atenção são reformulações de questões teológicas. Este fato tem estado no fundo de tudo que tem sido escrito até aqui. só podemos confessar o que um estudante asiático descreveu recentemente como a “profunda humilhação” do cristão no meio da revolução moderna. ou nos lançamos corajosamente à tarefa de produzir as melhores ideologias que podemos ou ficaremos escravizados pelo ethos ideológico inconsciente que nos cerca. bem como aqueles dedicados à tarefa de sua renovação. A questão que nos pode preocupar é se aqueles dedicados ao estudo empírico de nossa sociedade. bem como minhas tentativas para refletir sobre sua significação. A posição conservadora da igreja e a irrelevância de muita teologia são tão evidentes. estarão abertos a — e têm à sua disposição — todas as análises e experiências que podem oferecer indícios para a compreensão do homem e sua história. Leszek Kolakowski.2 um jovem filósofo polonês. isto não é toda a história. Foi deste conceito que se desenvolveu meu envolvimento na revolução. Quando isto acontece. De fato. que muitos revolucionários modernos sentiram-se compelidos a se tornar ateus. com sua ênfase no desenvolvimento. Como o leitor está bem certo. está intimamente relacionada com esta corrente teológica subterrânea. a igreja e seu pensamento têm sido tão identificados com a velha ordem. Ernst 225 . minha abordagem do problema é feita da perspectiva da teologia. Um exame mais profundo de nossa história ocidental pareceria indicar que certos elementos na tradição judeo-cristã nos impulsionam para outra direção. Na era em que estamos vivendo. Estou bem certo de que a maior parte das pessoas não está inclinada a seguir esta direção para a orientação da revolução. a natureza da realização humana. agora tratarei dele mais explicitamente. e transtornam a estabilidade interior do pensamento e vida cristãos de tempos em tempos. E o importante filósofo marxista. O fato de existirem estes perigos não é razão suficiente para abandonar o esforço.exigências de uma luta revolucionária pode tentar seus líderes a tornar absoluta sua própria posição. Num recente ensaio “O Sacerdote e o Brincalhão”.

Isto. Isto implica em que a fé cristã atribui uma significação especial a certos eventos do passado. o que permanece é uma perspectiva da história e das possibilidades para a realização da vida humana. é claro. continuar desconhecido: Quando afastamos aquelas camadas de metafísica e religiosidade por trás das quais a fé cristã está com tanta frequência escondida. E isto está muito perto do que diz respeito a uma ideologia de revolução. legal e intelectual” (pág. segundo Walzer. A tônica calvinista sobre a soberania de Deus em toda vida e história deixou o puritano livre para tornar relativas todas as lealdades menos importantes. Ele é o destruidor de uma velha ordem da qual não há necessidade de se sentir nostálgico” (p. as primeiras ideologia. organização e disciplina modernas para a revolução social. Mas podem ajudar -nos a perceber algo que podia. Walzer chegou à conclusão inesperada de que ele representou “a mais antiga forma de radicalismo político”: “O Santo calvinista me parece agora o primeiro daqueles agentes autodisciplinados de reconstrução social e política que apareceram tão frequentemente na história moderna. A teologia tenta examinar nossa experiência histórica à luz de uma história particular — a do povo de Israel. que está radicalmente orientada em direção ao futuro. não provam que a teologia tenha alguma contribuição a fazer na presente situação. VII). The Revolution of the Saints. Com isto não 226 . Uma destas revoluções é cuidadosamente analisada e apreciada num fascinante livro. bem como às revoluções que encontraram sua inspiração primária no Cristianismo. Disto surgiram. Esta posição revolucionária foi a expressão autêntica de sua teologia. e refletir sobre as possibilidades abertas para a realização humana à luz da humanidade de um homem — Jesus de Nazaré — e daqueles mais diretamente influenciados por ele.Bloch.3 por Michael Walzer. e romper com a estrutura metafísica na qual a velha ordem estava estabelecida. Estes exemplos históricos. do status quo político.. deu uma grande dose de atenção aos elementos proféticos e apocalípticos na Bíblia. Chega a declarar que “mesmo os cristãos sabem.. que todas as aspirações utópicas dos grandes movimentos de libertação humana se derivam do Êxodo e das partes messiânicas da Bíblia”. ver através de pretensões de instituições sociais e políticas. no movimento puritano. possuem o caráter de uma “revelação”. 100). Propondo -se examinar o Puritanismo como um movimento político. de outro modo. um jovem professor de política na Universidade de Princeton. minou “toda autoridade terrena” e impulsionou “a desvalorização radical do mundo convencional.

Isto sugere que a existência histórica é uma luta contínua em prol da libertação. imagens e parábolas. experiências específicas e sua interpretação. A idéia básica de revelação é a de “remover o véu” por trás do qual a realidade está oculta. O trato com problemas sociais à luz desta perspectiva não precisa nos levar a defender nossa própria teologia ou insistir que todos adotem nossa visão total. reconhecendo que nenhum princípio semelhante será inteiramente adequado. está um movimento do primeiro para o segundo Adão. então proporcionará apreciações sobre o dilema humano e possibilidades que podem ser aceitas por aqueles que não partilham as mesmas pressuposições. se possuirmos alguns princípios de interpretação.queremos dizer que uma experiência passada foi tornada absoluta. será indicada pela possibilidade. Se esta perspectiva é válida. O que pode fazer é nos fornecer um meio de considerar sobre as questões concretas que enfrentamos ao elaborar uma ideologia de revolução que possamos usar aberta e livremente. para entender o que está acontecendo agora. de interpretar o que está acontecendo no mundo. pode dificilmente ser expressa num sistema teológico abstrato. que tal reflexão sobre o passado oferece. Estes são instrumentos mais adequados para comunicar a variedade e riqueza de existência histórica dinâmica. A própria Bíblia nos fornece uma vasta variedade de conceitos e símbolos. e que deve ser objeto de constante reexame e revisão. entre uma experiência histórica prévia e a presente situação. alguma formulação conceptual da significação principal daquela experiência em relação à nossa própria. No centro do Velho Testamento está a peregrinação do povo de Israel do Êxodo e escravidão à Terra Prometida e liberdade. do nosso presente estado para a nova humanidade. Quando olhamos para a realidade contemporânea partindo desta perspectiva. Portanto. No Novo. mas nos colocam também ante um difícil problema. no meio da qual o homem é repetidamente surpreendido por novas possibilidades de significação e realização — na vida individual e coletiva. Qualquer tentativa semelhante. Só seremos capazes de conduzir um diálogo significativo. nem que a crença em sua significação deva conduzir a pretensões de superioridade deste dogma ou religião. muitos elementos surgem que me parecem particularmente relevantes para nossas reflexões 227 . precisamos correr o risco de desenvolver um princípio hermenêutico. Se há alguma verdade na reivindicação cristã. e para apreender as reais possibilidades abertas para o futuro. a despeito da tendência dos teólogos para fazer exatamente isso.

O marxismo tem uma resposta clara. Mas não vê possibilidade de significação no processo histórico. e. Dentro das limitações que a filosofia moderna se impôs. Porém é por demais esquemático e rígido. Fala da configuração do futuro com confiança. a atitude cristã para com a realidade abriu o caminho para o desenvolvimento de uma perspectiva incomum da história. tornou possível assumir uma atitude de confiança em face de acontecimentos espantosos e complexos. contribuirá para o bemestar do homem sem aguardar até que toda evidência se mostre. Messianismo e Poder na Formação da História Para os que estão procurando alguma perspectiva na história como uma base para sua reflexão sobre revolução. Mesmo uma leitura superficial destes estudos.presentes sobre revolução. deposita confiança demais na racionalidade da história. e termina por ser essencialmente determinista. Neste contexto. e afirma a liberdade do homem. e fornece fortes bases racionais. Implicou em que o homem pode adquirir alguma compreensão do que está sucedendo em volta dele e portanto trabalhar por maior inteligibilidade sem necessitar recair numa visão-universal total. e de que erros podem ser corrigidos. por conseguinte. Jaspers. Pode agir de um modo que. é sensível à grande complexidade de cada situação histórica. por segurança. O existencialismo também luta com o problema. que nos interessam ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações. Como foi sugerido antes. os quadros imediatos não são encorajadores. Butterfield — trabalharam neste problema e nos apresentam uma variedade de perspectivas. em certo grau. para sua interpretação histórica. A ação pode ser empreendida na certeza de que nova apreciação virá ao longo do caminho. não há muito espaço para lidar com esta questão. Bloch. afirma que a história está inevitavelmente caminhando para uma maior humanização. é possível ser realista sobre a natureza humana e sobre qualquer situação 228 . Um certo número de filósofos e historiadores — Toynbee. um fator nas tentativas contemporâneas para responder nossas questões mais prementes. revela que a perspectiva judeo-cristã sobre história desempenhou um papel importante em nossa autocompreensão ocidental e é ainda. e sem um esquema total de fatos para garantir os resultados de seus esforços. ele espera. e não proporciona base sólida para esperança quer no presente quer no futuro. Expressou a convicção de que alguma coisa de positivo estava acontecendo no processo histórico. no entanto.

de remover alguém que se tornou uma ameaça à ordem estabelecida. para usar as palavras de alguns dos escritores bíblicos. é uma luta que se está dirigindo para seu objetivo. os esforços para chegar à idade messiânica e estabelecer uma nova ordem constantemente acabavam em perturbação. aparentemente simples. Na perspectiva messiânica. não havia meio de saber ao certo quando e onde ele viria. piedade e religião se combinaram para se livrar de alguém aceito por muitos como o Messias. Isto significava quebrar seu poder e autoridade fundamentais sobre o homem. Por mais que o povo judeu quisesse acreditar que o favor de Deus significaria crescentes segurança e prosperidade nacionais. a história não é meramente uma luta constante pela libertação humana. Sua vida inteira como nação estava orientada para a vinda do Messias. Esta tarefa. e nem método seguro para garantir seu aparecimento final. uma tal idéia ingênua estava sempre sendo desmentida pelos acontecimentos. Em vez de estarem contentes com um papel limitado. após todas as possibilidades humanas terem sido esgotadas. no entanto.particular. Naquele momento. A esperança messiânica. e os recursos da lei. porque mantinham a sociedade unida e preveniam o caos. De fato. faziam reivindicações imperiosas para elas e pretendiam dar significação básica à vida. o rei messiânico surgiria depois de a Casa de Davi ter sido destruída. a luta contra estas forças intensificou-se. produziu resultados inesperados. O problema era elas estarem sempre escapando ao controle. No âmago desta perspectiva está o que melhor pode ser descrito como messianismo completo. Porém se a esperançosa espera do Messias era o elemento central da fé. Na escala política estes termos se referiam àquelas estruturas da sociedade que eram essenciais para a existência humana. Portanto. Principados e potestades. aparecem novas possibilidades para a vida humana na história.4 Quando o povo de Israel refletiu sobre o significado de sua experiência. 229 . chegou à conclusão de que a história estava indo para algum lugar. funcional. um soberano cujo aparecimento podia significar o estabelecimento de uma nova ordem no mundo. Quando a ação messiânica se tornou mais claramente definida e intensa. não foi idêntica à nossa doutrina liberal de progresso. ele era o novo rebento que brotaria de um tronco morto. A tremenda seriedade desta luta está caracterizada na crucificação de Jesus. estado e igreja juntaram forças. e todavia não tombar vítima de desespero. Não era uma questão de romper com elas. mas de forçá-las a aceitar seu devido lugar como serviçais em vez de senhores. sempre achavam o meio.

equilibrá-los e usá-los para objetivos específicos. Não é esta a maneira pela qual políticos e estadistas usualmente olham para o mundo à sua volta. então. A revolução no pensamento. é a matriz da qual uma visão revolucionária de história pode emergir finalmente. No contexto da teologia cristã a crença de que Deus estava agindo desta maneira significou que a realidade histórica funcionou nestes termos. que possam contribuir para o bem-estar social. qualquer grupo que represente uma preocupação messiânica e que queira mudar a ordem social no interesse da emancipação humana é algo como um aborrecimento. pode ser constatada desta maneira: Se quisermos entender o que realmente está acontecendo na história. Ele “fez deles um espetáculo público” (Colossianos 2:15) — expulsou-os do cargo. Jesus é visto como tendo “se descartado dos poderes e autoridades cósmicos como uma vestimenta”. O fato notável sobre tal afirmação é que foi feita em um tempo em que parecia completamente claro para todos os demais que os poderes tinham obtido sucesso e que o movimento messiânico fora destruído por completo. Estão empenhados num esforço de avaliar corretamente os poderes como imagens dos interesses de grupos diversos na sociedade. Perturba os cálculos prudentes de políticos e pode facilmente ser considerado subversivo. Portanto. transformar-se em derrota. enquanto fraqueza e derrota podem ser o caminho para a vitória final. mesmo represen230 . em qualquer momento particular. De fato. devemos focalizar nossa atenção naqueles pontos onde movimentos messiânicos estão em ascensão e desafiando as estruturas de poder da sociedade. ou estimar corretamente o impacto do futuro sobre ele. os fariseus. era que aparências são enganadoras. O que aqui temos. nesta luta. mas as melhores: o Império Romano como imagem de lei e ordem. impediu-lhes o caminho. Especialmente onde está envolvido poder. que isto ocasionou. em essência.5 E o que é ainda mais surpreendente. os poderes eram desmascarados e vencidos. o que os primeiros cristãos estavam dizendo. A agudeza e maneira vívida da descrição que o Novo Testamento faz disto é extraordinária. e ainda representa. a longo termo. Dentro deste arcabouço. a religião do povo eleito de Deus. os poderes aqui postos a nu e vencidos não são as piores instituições da sociedade. Também se convenceram de que. e a piedade de sua seita mais devota. que uma tal visão da história era a mais realista e fornecia a melhor oportunidade para entender o que traria o futuro. uma vitória arrasadora pode.Aqueles que haviam se colocado ao lado do Messias concluíram que esta luta entre os poderes e o Messias lhes fornecia um indício do que estava acontecendo na história.

dentro do país. Mais importante é o fato de não estarmos obrigados a agir do mesmo modo que agimos até agora. Em uma sociedade na qual estes movimentos de libertação humana são uma força dinâmica e o povo é confrontado com um claro testemunho da relação estranha e paradoxal entre força e fraqueza. Se estamos interessados em saber quais são as possibilidades de a América responder produtivamente ao desafio de revolução mundial. cuja preocupação por emancipação humana torna sua participação. na moldagem da política de comunidade e nação. e lidar com ele numa perspectiva que lhe possa dar sentido.tantes mais progressistas do Establishment não são de modo algum capazes de entender porque tais grupos estão em volta ou o que fazer com eles. que deixe de tomar seriamente estas correntes de messianismo. Qualquer política nacional estreitamente definida nestes termos também acaba por alienar aqueles grupos. é sempre útil olhar para nosso passado e tentar descobrir ali aqueles elementos que nos dão certa segurança de que podemos entender e tratar com uma tal realidade. Podemos. quando estudantes neste país vão ao Mississipi trabalhar lá com os negros. nenhum país ou comunidade pode ser entendido meramente em termos de seu passado. continuar a agir politicamente dentro de um arcabouço de compreensão que exclui esta dimensão. Quando jovens de ricas famílias aristocráticas no Brasil abraçam a causa de empobrecidos camponeses. e igualmente importante a longo prazo. Num mundo em que nações pobres estão fervendo em revolução por causa de sua pobreza e sua exclusão dos centros de vida internacional. Em oposição a ele. Podemos responder diferentemente a um novo desafio quando é levado a nós através de contatos sem precedentes com o mundo subdesenvolvido e pela constante confrontação com as pequenas comunidades messiânicas em nosso meio. qualquer definição de nosso auto-interêsse nacional. com frequência. urgente e necessária. é o fato de comunidade e nação existirem. Por mais decisivo que o auto-interêsse seja. num mundo no qual as acomodações de auto-interêsses são continuamente perturbadas por pressões externas e protestos internos. novas 231 . não é todo o quadro. dentro das estruturas de poder da sociedade. Porém também podemos aceitar a possibilidade de poucas coisas serem mais importantes para estadistas e políticos que querem agir de modo realista do que levar este humanismo messiânico em conta. trabalha contra nosso próprio interesse. é claro. ou ministros presbiterianos tomam a iniciativa em organização comunitária nos guetos urbanos nortistas. a reação é. No contexto do messianismo. similar.

numa sociedade segregada. ou decide que não há outro modo de ali trabalhar por mudança que não seja a participação em movimentos de guerrilha. quando adolescentes negros estão querendo arriscar violência e prisão para protestar contra ela. O negro. políticas e sociais do status quo têm tremendo poder. aqueles que vêem necessidade urgente de mudança perdem gradualmente sua confiança na velha ordem e se recusam a aceitar sua autoridade sobre eles. a precariedade de sua situação se torna evidente. A vida e ensinamentos de Jesus puseram a nu a bancarrota moral. a inadequação espiritual e as consequências desumanizantes fundamentais do legalismo e da devoção de seu tempo. de súbito. porém. Enquanto permanecem indesafiadas. Podemos aceitar. violência e assassínio para se proteger de tais ameaças. o camponês brasileiro. não está longe de começarmos a ter dúvidas sobre a estabilidade e poder da ordem atual. Torna-se evidente que se excederam em seu mandato e que por esta razão estão em chão instável. Mas têm também uma tendência para se mostrar mais poderosas do que realmente são.possibilidades se revelam para compreender o que está acontecendo na história. não é mais dominado pelos velhos moldes de relação que aceitara como certos. entre o que dizem oferecer e o que realmente fazem para a vida humana. Então. num pequeno país do Caribe. Hoje algo similar acontece quando aparecem movimentos messiânicos. que visam à forma real do humano. e fazer exigências que são injustificadas.000 soldados e a apoiar uma elite militar que atira em trabalhadores e estudantes indefesos. a política de nosso governo na América Latina e seu apoio ali aos regimes mais reacionários. Uma sociedade segregada pode manter toda espécie de mitos sobre si mesma por longo tempo. As estruturas econômicas. e de nada adianta subestimá-las.— até o momento em que significativo número de estudantes católicos abandona tudo para organizar ligas camponesas. quando movimentos de emancipação humana surgem. sem questionar. e para estimar as perspectivas de mudança revolucionária. começam a enxergar através dos clichês vazios usados para defender uma tal política. E quando esta sociedade acha necessário confiar em ódio. algumas pessoas pelo menos. Os poderes não podem mais esconder a diferença entre suas pretensões e o que realmente são. podem manter esta ilusão. Como este processo continua. Porém. estes poderes são desmascarados. vê que não precisa estar amarrado por todo o ethos do sistema 232 . nos leva a mandar 12. Quando uma revolução relativamente sob controle. estes mitos são cortados pela base. o estudante universitário aprende a discutir suas anteriores atitudes em relação à autoridade.

Tendo de fazer frente a este desmascaramento de suas pretensões. pode perceber que esta confiança no poder esconde a inabilidade da velha ordem para responder de maneira fecunda a novos desafios. e para agir de acordo. devido ao uso de seu poder de desmascarar o velho sistema. que só podem se mostrar destrutivas. e que perseguição. Sua liberdade para tomar uma tal atitude de confiança em relação ao futuro. e põem em movimento forças que lhes será cada vez mais difícil controlar. em autodefesa. e dão passos que revelam a um crescente número de pessoas quão desumanizante é toda a ordem. um dos elementos mais importantes numa luta revolucionária é a presença de pequenas comunidades de homens e mulheres que estão empenhados numa ação parabólica. Este mesmo revolucionário está também numa posição única para ver a instabilidade da velha ordem e reconhecer que ela está travando uma batalha sem esperança. Quando escolhem este segundo caminho. E. o revolucionário estará bem seguro da fraqueza de sua própria posição e descobrirá que seu movimento está destinado a sofrer uma derrota sobre a outra. E alguns daqueles que mais desesperadamente desejam preservar o status quo percebem que estes poderes os estão conduzindo a um beco sem saída e fazendo-lhes exigências extremas. pode ser um fator importante para determinar o resultado da luta. com frequência. e torna possível para ele concentrar-se no trabalho a ser feito. De outro lado. manter a situação sob controle e eliminar todas as ameaças imediatas. Podem ser objeto do ódio e fúria de homens desesperados. os poderes podem. seu esforço para impedir mudança torna quase inevitável uma solução mais radical. ou usar o poder que têm. aqueles que estão trabalhando por mudança encontram-se numa situação paradoxal. Com isto quero dizer que eles 233 . podem. Uma vez que são os que revelaram a instabilidade da velha ordem e seu caráter desumanizante. tornam o problema pior. que dominou a vida rural por séculos. Devido sua sensibilidade para prever o que virá. sofrimento e derrota contribuem para a vitória decisiva. podem esperar ser atacados violentamente pelos detentores do poder. O revolucionário pode descobrir que sua própria fraqueza é mais forte do que imaginava. Reagindo exageradamente à situação. ou aceitar este julgamento e se ajustar à nova realidade. Como a maior parte de nós não está inclinada a pensar sobre história nestes termos. uma vez que libera o revolucionário de preocupação excessiva com o futuro imediato e com o que lhe está acontecendo. Ao final. mostram quão inseguros são. vão a extremos que provocam oposição mais esclarecida e organizada. Porém. em assim agindo.patriarcal.

de tal maneira. oferece-nos uma saída do impasse ideológico ao qual estamos agora presos neste país. Quanto mais rígida for uma instituição. e que este modo de lidar com violência pode tornar mais provável uma solução violenta. acredito. O fato de os liberais parecerem tão propensos a cair presas dela quanto os conservadores torna o problema ainda mais urgente. Geralmente. ao mesmo tempo. e querer chegar a qualquer medida para eliminar a ameaça de violência — exceto em se tratando da defesa da ordem estabelecida. que bloqueia indefinidamente a mudança. com ainda mais tristes consequências. maior a probabilidade de eventual descontinuidade institucional. que outros são supridos de sinais que sugerem como as coisas andarão. sua destruição pode ser necessária. Nossa atual política é parcialmente motivada por um legítimo interesse em estabilidade e ordem. Até aqui. não é a mudança. Aqueles que ajudam a preservar uma sociedade segregada neste país. Porém este cuidado está dominado por uma perspectiva ideológica que distorce todo o quadro.examinam minuciosamente esta perspectiva em seus mais importantes limites. são os verdadeiros inimigos da estabilidade. O resultado final desta cegueira ideológica é nosso fracasso em ver que uma tal tônica sobre estabilidade pode tornar uma situação explosiva mais instável. não os revolucionários. dada a situação revolucionária que enfrentamos internamente. Isto deve também levar aqueles que são mais conservadores a se pôr em con234 . que constitui a maior ameaça à ordem e estabilidade. estabilidade e ordem tomam forma do outro lado da mudança. a ponto de levar a uma obsessão com estabilidade. um interesse autêntico pela ordem deve encorajar-nos a correr os riscos de mudança e tomar consciência de que quanto mais cedo isto for feito melhor. Esta perspectiva da história. minimizar a necessidade de mudança. Quando qualquer estrutura particular da sociedade se torna tão rígida. Na perspectiva do messianismo bíblico. é muito possível que muitos queiram recorrer à mesma ideologia. e o reconhecimento de que desintegração social e violência podem. o desenvolvimento econômico e a melhoria da sorte das massas empobrecidas. com facilidade. mas a oposição a ela. as consequências disto têm sido as mais evidentes em nossa política para as nações em desenvolvimento. numa sociedade dinâmica. Portanto. em nossos esforços para lidar com duas questões fundamentais: a relação entre estabilidade e mudança e o papel da violência na transformação social. preparar o caminho para o totalitarismo e atrasar. ou as formas de exploração feudal-colonial na América Latina.

Nossa influência ocidental no resto do mundo criou uma situação que agora parecemos incapazes de entender ou de ajudar outros a entender. de tempos em tempos. ou se apoiar em ocupação militar maciça de nossos “slums”. Aqueles que são chamados a lidar com este problema só serão capazes de fazê-lo de modo sábio se forem livres para encará-lo abertamente e entender suas dimensões plenas. que necessariamente implica numa “violação” da velha. Ajudamos a transformar as forças armadas tradicionais. esforços não violentos para mudança e temos ajudado a criar uma situação — na América Latina. ao mesmo tempo. Em nossa própria sociedade. tanto para bloquear a mudança como para produzi-la. Mas. e envolvemos nossos próprios militares e mesmo cientistas sociais neste esforço. naqueles pontos onde a situação é mais desesperada. onde a necessidade de revolução é maior. para remover o problema que lá existe. pelo menos — em que um crescente número daqueles mais cônscios do que está acontecendo concluem que a guerra de guerrilhas oferece a única esperança de mudança social básica. efetivamente. Cria uma sensibilidade para o caráter desumanizante da luta violenta. no meio da revolução. o povo.tato com o encorajar aqueles que estão trabalhando por mudança. sério e complicado. agimos de maneira muito diferente. É nosso ponto de vista que a perspectiva messiânica que indicamos aqui oferece tal possibilidade. Podemos aceitar o fato de que nossa nação nasceu em um ato de violência. está constantemente pressionando para uma nova ordem. ele. o problema de violência não é. de que o negro foi emancipado e nossa unidade 235 . em unidades anti-subversão. Numa sociedade estática. aceitamos a possibilidade de que a violência possa irromper. em muitos países. na América Latina. Como resultado fortalecemos grandemente aqueles grupos no poder que têm bloqueado. onde não há pressões messiânicas por mudança. temos a liberdade para entender nossa própria história. a violência pode ser um importante elemento. Quando tal expectativa se torna mais universal. para lidar com agitação interna. Nesta situação paradoxal. bem como em outras partes do mundo. usualmente. Pelo menos nosso governo não decidiu ainda que deve treinar uma grande parte das forças armadas. e também enfrentar de modo realista as opções à nossa frente. porque só este tipo de relação e esforço pelo diálogo pode contribuir para a estabilidade do tipo de sociedade em que agora vivemos. abre nossos olhos para a necessidade urgente de movimentos que violentem a velha ordem. Porém. em um mundo no qual o povo acordou para a esperança.

Há um elemento adicional em nossa compreensão da história que influenciará nossas ideologias políticas. toda 236 . nenhum código moral ou legal. e está munido de um crescente número de elementos que contribuem para isto. os pobres não confiam no cuidado paternalista dos ricos e poderosos. Começamos por aceitá-lo. podemos concentrar-nos no tipo de estudo e ação que ajudará a minimizar a necessidade de violência e limitar sua destrutividade no processo de mudança social. podem manter a ordem na base da confiança implícita e respeito por ele. Nosso mundo está se tornando crescentemente pluralístico e interdependente. Ao mesmo tempo. podemos chegar a afirmar que a história ocidental recente torna nossa escolha mais clara e mais inescapável: entre caos e novos esforços por integração social. e param nisso. e em quase todos os países. A crença cristã na criação e na subordinação de toda natureza. De fato. Como resultado. povos de todas as classes são confrontados diretamente com indivíduos e comunidades representando outras línguas. Jovens não aceitam mais. testemunhamos a rápida deterioração de todas as estruturas de autoridade. outros corajosamente afirmam sua singularidade e independência. é a pré-condição essencial para a realização messiânica. sem pôr em questão. Este desenvolvimento não é um fim em si mesmo. Estamos livres para admitir a possibilidade de que atos de violência possam ter lugar na luta dos povos desprovidos. em termos por completo diferentes daqueles do passado. ethos ou visão-universal comum. Ao mesmo tempo. porque vemos aqui o trabalho de Deus. este processo todo parece muito diferente. a constante expansão de conhecimento e experiência nos leva na direção oposta.nacional preservada por meio de violência. atitudes e ideologias. culturas. Do ponto de vista de uma teologia do messianismo. Gradualmente esta influência penetrou cada vez mais fundo na sociedade e também na autocompreensão do homem. e vêem só caos pela frente. Todos os povos do mundo estão em contato entre si e são dependentes uns dos outros. dessacralizou todas estas esferas e minou todas as estruturas de autoridade. em nossos guetos urbanos e no mundo subdesenvolvido. a autoridade de seus pais. Nenhum grupo ou classe de povo. e o proletariado externo do mundo ocidental rebelou-se contra seu status colonial. Ao contrário. Se todas as autoridades estão perdendo seu poder básico. O homem tem sido deixado livre para prosseguir em direção à nova humanidade. Esta inter-relação forçada não é apoiada por uma história. história e vida humanas a uma soberania primeira. muitos desesperam de qualquer possibilidade de integração social. de fato.

ao contrário da supressão de conflito. mas podem travar diálogo sobre as possibilidades de realização humana que estão à sua frente. Podemos ser a favor de sistemas econômicos diferentes. experiências e culturas muito diferentes. a menos que esteja relacionado diretamente com a história mais imediata de que somos parte. Porém disciplina. Numa tal sociedade. tal reflexão deve sempre estar buscando significado numa situação dinâmica e flexível. abre caminho para novas relações e novas riquezas de vida individual e social. que nos dá nova liberdade para entender o que está acontecendo à nossa volta e para responder a isto mais criadoramente. Neste processo vamos descobrir que reconciliação. isto não é uma barreira insuperável para o reconhecimento de que agora não temos escolha senão determinar como melhor desenvolver nossos recursos e distribuir os bens que produzimos. portanto deve permanecer sempre experimental e aberta para 237 . porém podemos participar de um esforço comum. Para o indivíduo. em que diferença.vida e sociedade precisa ser ordenada pelo futuro em vez de pelo passado. para definir o tipo de relações políticas mais adequadas para a situação em que nos encontramos e empenharmo-nos numa procura comum de novos modelos e novas estratégias políticas. representa o esforço que está querendo dispender e o preço que está querendo pagar. que objetivos estabelecerá para o futuro. para a comunidade. Deve vir como o resultado de uma conversação sem interrupção entre nossa herança teológica e os acontecimentos de nosso tempo. Estudiosos podem nos fornecer análises das formas de entendimento histórico encontradas na Bíblia e nos trabalhos dos grandes teólogos. As pessoas vêm de passados. Uma nação ou uma comunidade deve decidir que tipo de mundo quer. a fim de se adiantar para os objetivos que ela estabeleceu. e ficar unidas nas experiências e esperanças de onde uma nova direção de vida surgirá. na mais estreita aproximação do bem comum. Disciplina é essencial. Por sua real natureza. é uma questão de querer ordenar assim a própria vida no presente. Isto não pode ser feito hoje por uma mistura de teologia e filosofia em algum novo sistema. quando estiver querendo se tornar algo como uma ideologia em si. Porém tudo isto representa muito pouco para nós. Tudo isto pode justificar uma observação conclusiva: a reflexão teológica sobre história será mais relevante para a luta ideológica. podemos aceitá-los pelo que são e trabalhar constantemente por reconciliação. Nossa base e teorias políticas podem ser amplamente divergentes. e então reunir-se num esforço comum para alcançá-los. como de manter a porta aberta para mais ampla realização no futuro. tensão e conflito são inevitáveis.

O Messias veio no passado. uma figura revolucionária — é o instrumento de emancipação humana. uma realidade e uma possibilidade para a qual nos estamos encaminhando. de fato. A despeito de tudo que os teólogos fizeram para obscurecer o fato. o segun238 . em quem temos uma indicação concreta do que pode significar uma nova humanidade. nossa esperança de libertação é realizada dentro e através de luta e sofrimento. quer seja um líder natural dos oprimidos em sua luta por emancipação. Além do mais. Um dos produtos mais comuns e infelizes disto é o desiludido e amargurado ex-revolucionário. que é realização. Jesus. o Messias — um político. O Messias foi crucificado. portanto. quer um membro de outra classe que decidiu fundir sua sorte com a dos sofredores e explorados. É muito fácil estar intensamente preocupado com o bem-estar do homem e ser cego para o que está acontecendo para homens e mulheres. A liberdade de cristãos para revisar sua própria ideologia de história pode. e que provavelmente nunca será completamente resolvida. Ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. E o Messias crucificado é o novo homem. em meio a uma luta assim ambígua na história. quando nossos esforços messiânicos para construir uma nova ordem são frustrados. que se manifesta frequentemente na vida revolucionária e na história da revolução. Isto é o que pode caracterizar ideologia. contudo ainda continua sua obra. E a ideologia com que esperamos orientar nossa ação revolucionária deve dar atenção a este problema. afinal. ser seu testemunho mais significativo. para aqueles empenhados na luta ideológica. de que há tantos exemplos hoje. Revolução Social e Realização Humana As expressões acima sugerem uma tensão interior. há algo referente à respeito da luta revolucionária em si que é desumanizante. libertação é.revisão constante. O revolucionário. a teologia está interessada em interpretar certos acontecimentos e imagens que testemunham sobre a libertação do homem e a renovação da vida humana. Porém a dinâmica peculiar desta posição é o resultado da associação desta esperança para o homem com uma pessoa histórica particular. com frequência tem um profundo interesse humano que é a força impulsionadora principal em sua vida. algo parece acontecer no meio do processo revolucionário que embota este interesse. e que libera forças que trabalham contra os objetivos previamente estabelecidos. Afirma que a existência histórica do homem é um movimento para a libertação. Jesus de Nazaré.

psicanálise e média de massa como instrumentos com os quais o povo é ajudado a se ajustar a uma ordem social desumanizante. ele representa uma nova forma de existência humana no mundo. é essencialmente uma traição ao homem. nossas experiências mais profundas de significação e realização nos vêm em meio a esta luta. porque o processo todo de secularização destruiu nossa 239 . A atenção é focalizada no que Paul Lehmann descreveu como “o caráter político da atividade divina”. Tão logo confiemos nelas. nós damos lugar no mundo para maior realização humana. Realização humana em meio ao sofrimento e a derrota é uma realidade. para responder às questões fundamentais sobre a vida e sua significação. postas em debandada e forçadas a se reorganizar. Nestas circunstâncias. A nova humanidade toma forma. também se torna claro que. portanto. é também o novo homem. Por conseguinte. Dentro deste arcabouço. É.do Adão. quando menos as esperamos e estamos preocupados com outras coisas. num mundo onde a batalha pelo homem está sendo travada contra os poderes. passamos a fazer exigências à ordem política que ela não pode satisfazer. Esta tentação é hoje especialmente séria para nós. Preocupação verdadeira com o bem-estar interior da pessoa deve portanto conduzir a ação que vise controlar e usar o poder político a fim de dar lugar para maior liberdade no meio comunitário. sem ser desafiado a mudá-la. o homem encontra a liberdade para desenvolver novas formas de vida. política e revolução são colocadas num contexto em que podem contribuir para o bem-estar humano. como servidores da nova humanidade. No decorrer deste caminho de envolvimento político. e de que quem perde sua vida a achará. Quando estas forças são desafiadas. e portanto a pervertê-la. o interesse nesta pessoa e a reação a ela levaram homens e mulheres a uma aposta. ocorreu na vida de um homem e está agora à nossa disposição. com frequência. e a significação de nosso tempo presente em relação a ele. insensatez falar sobre a renovação espiritual e moral do homem sem dar a devida atenção a este elemento. Do tempo dos primeiros discípulos até hoje. O uso de religião. o Messias. somente se forem mantidas em seu próprio lugar. a tensão entre revolução e humanização está definida e acentuada de maneira extraordinária. Esta figura política. visando os aspectos básicos para a existência do homem. somos lembrados de que quem procura salvar sua vida a perderá. Quando estes poderes são mantidos sob controle e obrigados a servir aqueles objetivos que lhes estabelecemos. Todos estes esforços contribuem para uma situação em que os poderes gradualmente aumentam seu controle destrutivo.

e o próprio processo revolucionário não segue um curso inevitável. por meio dos quais uma vez vivemos. É. Até aqui. todo determinismo é destruído. e é muito mais fácil para nós fazer um ídolo de nossa luta política do que aprender a viver precariamente sem ídolos. a política não pode contribuir para a libertação pessoal. para a humanização da sociedade contemporânea. e a ação política efetiva pode criar o tipo de sociedade em que a política se torne menos importante. A longo prazo. êxitos significativos na luta revolucionária tendem a diminuir a importância da revolução.e. tiveram sucessos tão limitados. contudo. as revoluções modernas não se distinguiram neste ponto e. para a realização humana — se aqueles que dele participam. Especialmente no tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. Com frequência. talvez por esta razão. a menos que reconheçamos suas limitações e deixemos espaço. A crucificação ocorre ao longo do caminho para o surgimento da nova humanidade. para aquelas instituições e forças que satisfazem outras necessidades humanas. mesmo em meio a uma luta revolucionária. A associação das imagens messiânicas do Velho Testamento com a pessoa histórica de Jesus de Nazaré conduz a uma afirmação adicional: O Messias crucificado é o novo homem. Na verdade. quando descobrem um novo reino de liberdade pessoal na obediência a uma lealdade mais alta. e assim contribuir. a participação na revolução é um meio pelo qual as pessoas são capazes de transcender mesquinhas ansiedades pessoais e problemas. Um movimento político só será capaz de contribuir para o objetivo fundamental do autêntico messianismo — i. Nesta perspectiva. Só o revolucionário cujos compromissos políticos estão relacionados com uma visão mais ampla da vida humana e da história pode lutar com esta situação.confiança nos velhos absolutos. É isto que abre o caminho para uma combinação incomum de sensibilidade para a profunda ambiguidade presente em cada luta revolucionária e a esperança em relação a seu resultado. Uma revolução oferece a oportunidade para construir uma nova ordem social — na crista da desintegração social — e pode também abrir o caminho para novas manifes240 . de maneira significativa. esta mesma experiência que pode também aumentar sua dependência da ordem política e levar a uma fácil desilusão com os movimentos políticos. Os melhores revolucionários são os que são homens livres no sentido de que sua auto-identidade e estabilidade pessoal não dependem de seu papel político. dele não esperarem demais. pelo menos. as mais avassalantes concentrações de poder não podem ter êxito em seus esforços para preservar o status quo.

serve como parteira necessária de uma nova ordem social. Isto sugere que não devemos ter ilusões sobre movimentos políticos ou seus líderes. sob outras. podemos descobrir que alguns dos avanços mais significativos ocorrem sob circunstâncias difíceis e ambíguas. frustrações e sofrimentos são parte de nosso destino. Esperanças irrealizadas.tações de mal social. Assim. tornar-se rígido e extremista. Numa situação opressiva. E o fato de que a própria luta revolucionária se torna desumanizante em certos momentos não é razão suficiente para abandonála. ao mesmo tempo. se desenrola através da história. e contribui para este objetivo. um movimento de integração racial pode. mesmo a vitória 241 . Mas se a crucificação é um elemento inevitável na transformação social. sobre revoluções ou sobre revolucionários. Contudo um tal movimento pode ser o instrumento com que essa sociedade é forçada a se abrir e começa a se encaminhar para um maior grau de justiça. e que. à luz do futuro. tirar vantagem de cada nova ocasião para progredir rumo os objetivos básicos da revolução social. é possível ser inteiramente realista sobre o que está acontecendo e. A violência é sempre destrutiva. então somos livres para aceitar este fato e prosseguir com o trabalho. a fraqueza humana é tão prevalente entre eles como em qualquer outro grupo. quando tentamos avaliar as alternativas à nossa frente em termos de sua contribuição potencial para um futuro mais largo e mais justo. Sob certas circunstâncias. sem perder a esperança. mesmo quando a causa da revolução triunfa. Porém a iluminação que buscamos pode vir. tanto na ordem social que surge da revolução quanto na velha ordem que a precedeu. Líderes revolucionários equivocam-se sobre a situação e fazem erros de julgamento e estratégia. A crucificação do Messias também nos lembra que a luta. O Messias foi crucificado por Seu próprio povo — aqueles em posição de poder na sociedade messiânica e aqueles que pugnavam mais intensamente para criar a nova era — e foi abandonado por Seus discípulos no momento de maior necessidade. entre a velha ordem e a nova. Em certos momentos. Ao mesmo tempo. Podemos pôr a nu constantemente e desmascarar coisas que ameaçam a causa revolucionária. torna-se terrivelmente desumanizante. Nenhum conjunto abstrato de princípios ou valores será de muita ajuda na tomada de decisão em tal situação. a luta revolucionária pode ser tão desumanizante quanto a velha ordem. em que todos os esforços de mudança são facilmente bloqueados. com facilidade. Porém a coisa importante é que este processo tão ambíguo propicia oportunidades sucessivas para a formação de formas novas e mais humanas de organização social.

que surgiu como resultado da síntese da filosofia grega e teologia cristã. Colocar a tônica no funcional e operacional pode facilmente conduzir a uma visão de realidade em que dimensões inteiras são perdidas. Quando isto é acompanhado por uma ideologia de racionalidade. e protestos contra a escravização do homem não nos fará seres humanos livres. O repúdio de velhos tipos de pensamento sobre política externa norte-americana não nos dará as ferramentas para forjar uma nova. podemos rapidamente ficar sobrecarregados com o peso morto da velha ordem. Precisamos é dos 242 . o revolucionário então enfrenta o perigo de ser escravizado por sua própria ideologia. orientada para a preservação da ordem estabelecida. esta atitude de transgressão e transcendência contra a sociedade em que o homem se encontra não é uma ocorrência muito comum. Porém rebelião em si não pode produzir o novo nem libertar o homem. e.parcial pode se mostrar um importante lucro para a causa do homem. enquanto a presente tendência nas ciências empíricas não nos fornece racionais nem claros com que a teoria crítica possa transcender esta sociedade. em nome da nova. e pela feliz consciência que não tem sentido de culpa radical ou julgamento. embora não tendo base da qual desafiá-la. deparamos com um novo e difícil desafio. Transgressão e Transcendência Há um outro complexo de problemas que representa pesada carga para a ideologia revolucionária. com seu desaparecimento. e suas consequências. possam ser evitadas. vida e sociedade humanas estão relacionadas com uma ordem de ser que transcende o finito. e todas as instituições sociais são julgadas e reformadas por uma ordem ideal à qual devem se conformar. até aqui. Os que vêem através de tudo isto podem rebelar-se. uma recusa “em aceitar o universo dado de fato como o contexto final de validação”. Por sua própria natureza. e uma tentativa para “ultrapassar o universo estabelecido de negociação e ação para suas alternativas históricas”. Como vimos antes. pode ser só um sinal negativo de sua escravização à ordem estabelecida. No Ocidente. Nesta estrutura. foi o produto de uma visão-universal metafísica. A história da revolução moderna.6 Se este esforço hercúleo tem êxito. O Eterno se opõe ao temporal. fornece pequena evidência de que tal idolatria. revolução implica em uma “violação” da velha ordem. nem base para mudança qualitativa. Estas entidades metafísicas se foram. Revolução. Exige uma crítica transcendente do status quo.

O que sobressai aqui é a qualidade concreta de nossos objetivos para o futuro. Realidade é a que está-vindo-a-ser quando nossa existência histórica se move para o futuro: como o diz Ernst Bloch. O tipo de transcendência que encontramos na Bíblia é mais escatológico do que metafísico: refere-se não tanto à Ordem Eterna acima do homem. São definidos. quando empenhados num constante esforço para criar novos “projetos” e pugnar para fazê-lo realidade. A suprema realidade na história é o Reino de Deus que está vindo e que é presente agora como uma força explosiva em nosso meio. podem aparecer no caminho do futuro. e dados de maneira concreta. mas de objetivos tecnológicos e políticos muito específicos. mas podemos confiar que novas e surpreendentes possibilidades. A verdade é que esta íntima identificação com uma ordem metafísica não é tanto uma indicação da natureza da teologia como o é de um avançado estágio de aculturação do Cristianismo em uma era anterior.” A vinda do Reino é uma questão da reordenação das relações humanas e estruturas sociais. “O que existe não pode ser verdade. Com facilidade traímos e limitamos a realidade quando restringimos nosso entendimento ao real. o julgamento do futuro sobre o presente não é um assunto de pretendida fidelidade a certos valores e ideais abstratos. se pudermos pesquisá-la sem a visão-universal com que tem sido associada. Somente somos capazes de alcançar o possível se empreendemos o impossível.recursos para transcendência radical: aquele discernimento profundo e perspectivas sobre vida e sociedade que rompem o poder do velho. “Valores” são transformados em necessidades humanas. A potencialidade se coloca em aguda tensão com realidade porque o potencial é uma possibilidade histórica. como ao futuro que transgride contra. acima de tudo o mais. mudanças específicas necessárias e possíveis na 243 . uma dimensão religiosa e sugerem que a teologia pode fazer alguma contribuição para este ponto. e transcende. agimos com mais responsabilidade. portanto. tal como é observado empiricamente. para a ordenação da vida e sociedade humanas. Não mais acreditamos em Utopia. As palavras transgressão e transcendência têm. fazem o julgamento do status quo e nos fornecem um universo de discussão em que novos modelos e novos “projetos” podem se desenvolver. eternos. no meio do diálogo entre nossa visão do homem e o que ele pode se tornar e a situação em que nos encontramos. literatura e drama. na confiança de que o futuro está livre. Aqui filosofia e arte. Neste caso. o estímulo e enriquecimento da memória histórica. o presente. tudo tem seu lugar.

Para eles. O objeto de lealdade não é algum elemento do finito que foi absolutizado. os homens são mais livres para lutar pelo melhoramento da condição humana. Basicamente. vamos de encontro a tremendas dificuldades. tem sido alimentado por uma certa maneira de pensar sobre a realidade. a história é o reino da liberdade e responsabilidade. a Igreja Cristã não tem demonstrado sempre esta liberdade para romper com o que “é” por lealdade ao que está vindo-a-ser. onde comunidades humanas estão sendo constantemente confrontadas com novos horizontes para o futuro. No momento em que pensamos nestes termos. inverte todo este processo. entenderam com clareza. O mais paradoxal de tudo. isto é. quando é perturbado por uma consciência infeliz. A história é compreendida como não sendo autocontida. quando não atribuem valor absoluto ao que estão fazendo. afinal. Porém. possibilidades técnicas específicas que agora temos diante de nós. Quando isto tem ocorrido. esta transcendência e transgressão radical pode ter só uma de duas fontes: Pode vir como resultado da atribuição de um valor infinito a um aspecto da realidade finita. sugerida pelas imagens cristãs de transcendência. Ao contrário. quando é vivida em resposta a uma lealdade mais alta do que a própria. que torna rela244 . Em cada esfera de existência coletiva. como os escritores bíblicos e especialmente os profetas do Velho Testamento. Se reunimos estes elementos num quadro mais compreensível de nossos objetivos. mas o Criador. representa uma aposta de que estes símbolos e conceitos fornecem um indício para o que realmente está sucedendo no mundo e. quando se compenetra de que é chamado a um modo de vida e um padrão de ação que é como um castigo. o futuro rompe a imutabilidade de nossas estruturas e instituições atuais e abre caminho para o crescente uso da tecnologia a serviço do homem. aponte o caminho para uma vida significativa e responsável. Reconhecidamente. não é determinada por leis absolutas que se efetuam inevitavelmente.sociedade. e quando expressa a confiança de que a realidade — vir-a-ser-é basicamente favorável ao homem. o homem é livre para ser um transgressor da ordem em que vive. É uma criação humana que tende a violar a realidade e assim escravizar aqueles que lhe são mais leais. expressa numa variedade de conceitos e imagens teológicas. A segunda alternativa. A vida humana é vista como mais humana. falha porque é idólatra. por conseguinte. Esta lealdade absoluta a um novo ideal ou visão de uma nova ordem social pode fornecer a base para ação revolucionária dinâmica.

e a luta para mudar o mundo faz sentido. Os profetas compreenderam muito bem que a linha entre idolatria e confiança na soberania é. e que homens e nações podem criar novos modelos de uma nova sociedade. que somos livres para ser transgressores caso isso seja útil para nosso vizinho. Ainda é possível fazer esta aposta. E seria fútil gastar nosso tempo discutindo o caso da transcendência cristã. no tempo mesmo em que novos recursos para transgressão e transcendência são indispensáveis para a luta revolucionária. em desespero. seria fatal virar-se. contudo insistem que ela representou a escolha fundamental que determina o destino humano. e fazer algo efetivo para transformá-los em realidade. para novos ídolos. podemos eventualmente ficar surpresos e chocados por uma nova linguagem e imagens de transcendência que podem ter implicações de longo alcance para a renovação da sociedade. na verdade.tiva e ao mesmo tempo apoia toda realidade criada. muito tênue. Somos desafiados a confiar num propósito e numa iniciativa. Quando a fazemos. Nesta situação. Estamos muito cônscios de que nossos ídolos têm pés de barro. 245 . e também de que todos os símbolos de transcendência teológica perderam sua significação e força. Hoje nos defrontamos com uma situação incomum. em ação na vida e na história em relação ao qual a vida é livre. Porém as velhas imagens bíblicas afirmam que a história está receptiva a um futuro mais promissor.

246 .

O máximo que pode esperar é participar de um diálogo mais amplo sobre estes problemas centrais — o que não é possível aqui. bem como dos resultados disso. Mas não está preparado para discutir estas questões porque requerem um tipo de análise social e política de que não é capaz. Portanto não temos escolha senão fazer pelo menos algumas observações preliminares sobre as perspectivas atuais da luta revolucionária. Ao mesmo tempo. Contudo. se abandonarem a luta ou forem levados a agir irresponsavelmente. a menos que possamos dar alguma indicação concreta de como os objetivos da revolução podem ser alcançados.V Uma Palavra Sobre Estratégia e Tática O fato de este ensaio já estar longo podia fornecer uma saída para um difícil dilema: Devido a seu interesse na realização de certos objetivos para o homem e a sociedade. temos parte da responsabilidade de sua frustração e desespero. não temos o direito de apressar o povo a se tornar revolucionário. o teólogo não pode ficar indiferente a questões de estratégia e tática revolucionárias. esta inte247 . De outro modo. Nos anos recentes. tenho ficado impressionado pela maneira com que o rápido avanço da tecnologia parece criar ou intensificar certos paradoxos em nossa sociedade: 1. como aprendi há tempos na América Latina. provê a ordem estabelecida com poder quase ilimitado de autopreservação. Pela integração de sistemas.

usualmente em uma esfera restrita da sociedade. Isto oferece uma oportunidade única para construir uma nova sociedade. Frequentemente há muita gente. A mesma tecnologia cria uma situação social dinâmica. não é tanto de substituir o sistema total do presente por um sistema totalmente novo. seja qual for a classe a que pertencem. no sentido lato. 3. bem como outros. No passado. A tentativa de mudar a sociedade. líderes. mas a de rebentar as instituições sociais e mantê-las em movimento. pode não ser somente uma tarefa cada vez mais difícil. então uma nova estratégia de revolução é urgentemente necessária. para alcançar os objetivos dos re248 . As recentes repercussões de uma cruzada individual por auto-segurança é apenas um exemplo disto. A tecnologia cria uma mentalidade que está interessada na análise e controle da ordem dada. o mais improvável. Neste esforço. Se estes progressos estão se processando.gração de sistemas representa um equilíbrio muito precário. Isto. Mas estes mesmos progressos significam que a revolução também pode causar desintegração social total e tornar necessárias novas formas de arregimentação. e as mudanças produzidas pela tecnologia parecem contribuir para o surgimento de forças que tentam transtornálo. mas também um meio. porém. e que fornece o poder e técnicas por meio das quais isto pode ser feito. hoje. que pode com facilidade ser perturbado. que podem responder ao desafio do novo ou que já o fizeram. antes que velhas estabilidades mais uma vez se firmassem. revolução pode representar uma constante ameaça de caos por um longo período de tempo. pela destruição de toda a estrutura de poder e substituí-la por uma nova. a revolução tinha que realizar mudanças rápidas. a fim de que possam servir melhor o homem quando enfrentem novas realidades. a tarefa do revolucionário. O colapso das estruturas de autoridade e a dinâmica de mudança social criam agora uma situação em que a mudança pode afetar todas as áreas da sociedade e penetrar muito profundamente nela. Sob tais circunstâncias. No passado. pode prejudicar a execução dos objetivos revolucionários. 2. As linhas estão traçadas mais claramente entre os que entendem o que está acontecendo e correspondem. dentro do Establishment. mas são incapazes de agir devido a inércia das instituições a que servem. que só pode ser compreendida à luz do futuro e torna ineficazes todas as instituições que não se podem adaptar ao novo. revolução com luta de classes só tem um lugar relativo. e aqueles que não o fazem. a autoridade e estabilidade das estruturas sociais significavam que mesmo a revolução violenta só podia causar um impacto limitado.

Em vez de revolução total. Nosso objetivo não é. Se a ação do revolucionário está de acordo com a realidade. Nossos esforços não serão tão orientados para um momento de vitória total. mais apropriadas para tal tarefa. o despertar de gente de diferentes classes sociais para o que está acontecendo em volta deles e para ação responsável. terão de ser inventadas. o de forçá-las a ser mais arejadas e flexíveis. e o início daquelas mudanças que fornecerão o maior potencial para mudança ulterior. novas estratégias e táticas. e produzir o tipo de mudanças que impulsionarão o processo revolucionário para novos estágios. que já está invadindo o presente. Uma pequena vitória prepara o caminho 249 . Podemos cooperar com o futuro que se está tornando uma realidade em nosso meio. na velha ordem.volucionários. Estes novos fatores sugerem as linhas principais de uma estratégia alternada e ajudam a criar as condições para seu sucesso. pelo contrário. no decorrer do caminho. pela qual a estrutura inteira é atingida por um número cada vez maior de desafios àqueles pontos onde mudanças são mais imperativas. algum dia. quer se incluam em nossas ideologias e esquemas. de ataques de surpresa e a escolha de lugares e momentos estratégicos para cada batalha. e de seu fracasso em solucionar as novas questões básicas que pedem atenção. O que se torna importante é o desmascaramento de injustiças específicas. no sentido de um assalto frontal a toda a estrutura da ordem estabelecida. que acontece tão frequentemente com os defensores do status quo. mas para um grande número de pequenas vitórias. Durante todo este estudo sugerimos que a perspectiva teológica de revolução nos liberta do determinismo histórico. o de subverter as estruturas atuais mas. então ele tem as vantagens de iniciativa e criatividade. ou mesmo do território sob nosso controle. Mas se esperamos contribuir efetivamente para a transformação da sociedade tecnológica avançada. Por esta razão. primariamente. ao mesmo tempo assegura-nos que somos parte de um processo revolucionário se encaminhando para um objetivo. nossa ação deve possuir algo equivalente a um testemunho do futuro. em total receptividade às suas exigências concretas. Há algumas situações em que a rigidez da velha ordem e sua resistência à mudança não permitam outra alternativa. quer não. no distante futuro. e a reagir aos novos problemas de forma mais criadora. que podem perturbar o equilíbrio precario de poder onde ele não estiver afinado com a realidade. podemos trabalhar por revolução permanente. Nossa crença de que o futuro está do lado da mudança revolucionária nos liberta de obsessão com a defesa de nossos sistemas e ideologias.

Hoje parece ainda mais difícil responder. quando sugerimos que hoje estratégia e tática de revolução podem concentrar-se no desenvolvimento de um equipamento político da guerra de guerrilhas. de dentro ou de fora das estruturas.para uma luta mais avançada. em duas ou três novas frentes. gostaria de discutir brevemente a relação desta abordagem com várias questões que têm surgido. evitar as armadilhas em que tantas revoluções passadas caíram e perseverar durante uma longa e árdua luta. Desde que uma tal tentativa tenha êxito. 1. Não temos garantias de que uma tal estratégia alcance êxito. tendo em vista a solidez e criatividade potencial de nossa sociedade. com otimismo a respeito das perspectivas para revolução. o resultado básico não será necessariamente o controle de certas esferas da sociedade por movimentos revolucionários. Isto é o que tínhamos em mente no primeiro capítulo. A verificação desta hipótese. Em conclusão. com frequência. O tipo de instituições e a concentra250 . Argumentar que ela tem uma chance representa uma profissão de fé. flexibilidade e resposta às necessidades dos homens — que podem eventualmente tornar a revolução desnecessária. em movimentos revolucionários e que se nos apresentam agora. dependerá dos que têm os meios de análise social e a experiência revolucionária para fazê-lo. Uma empresa deste tipo pede movimentos revolucionários que estejam livres para explorar novos caminhos. e a derrota em um esforço específico é a ocasião para um reagrupamento de forças. A questão de saber se é melhor trabalhar por renovação social. o revolucionário pode achar possível travar uma difícil luta com a esperança. Só pode ocorrer em uma sociedade que seja capaz de reagir a novos desafios em vez de se refugiar em tentativas desesperadas de resistir à mudança. nossa sociedade pode descobrir que mudanças profundas e necessárias na ordem social podem ser realizadas sem a ameaça de total desintegração social. a qualquer preço. sempre afligiu os reformadores. que podem ser coordenadas numa estratégia geral sem destruir a iniciativa local. Ao longo deste caminho. mas a marca de mudança em instituições sociais — para a receptividade. Se esta estratégia tem êxito. bem como o efeito de suas implicações. Estamos munidos de uma estratégia baseada na reação espontânea de pequenos grupos em várias fronteiras diferentes. existe a possibilidade de combinar realismo a respeito da sociedade e a respeito do poder das forças que bloqueiam a mudança. confirmados cada vez mais por pequenas vitórias e a aceleração do processo de mudança.

e podem terminar à margem da luta por mudança. Nossa experiência hoje na igreja não é. contra que se rebelaram originalmente.ção de poder que cada uma representa criam uma situação em que é muito difícil fazer qualquer coisa efetiva a não ser de dentro. no governo ou mundo de negócios. Este é um engano. nada mais do que uma seita ineficaz. só para descobrir que seus esforços quase não alcançaram aqueles pontos onde mudanças fundamentais eram mais urgentemente necessárias. exatamente pelas questões que mais os preocupavam. Nesta perspectiva a coisa importante não é se um grupo está trabalhando por mudança radical. onde isto é possível — de onde prosseguir com o trabalho. se travara alhures. e inserir certas pequenas esferas de relativa liberdade — dentro da estrutura. sua própria auto-identidade e base de operação. mas se tem. podem descobrir que logo são ameaçados pela mesma tendência para a inércia e inflexibilidade. podem afinal acordar para descobrir que a batalha. pode ser capaz de desafiar uma organização a fazer o que precisa ser feito. muito diferente daquela de gente de outras instituições: Vemos pouca possibilidade de fazer alguma coisa efetiva trabalhando de dentro das estruturas burocráticas atuais. dentro ou fora da estrutura. ter uma idéia mais clara dos objetivos para os quais estão trabalhando e preservar sua integridade como movimentos revolucionários. não terão base para operações efetivas. para tais grupos. ou não. É possível. Por outro lado. Mesmo se se tornarem poderosos bastante para causar um impacto. provavelmente. de fora das estruturas. tudo milita contra uma ação rápida e efetiva por mudança. provavelmente. De fato. o peso do passado e a relativa inércia de grandes estruturas burocráticas. De uma tal base. que seria. as pressões para o conformismo e a necessidade de jogar o jogo conforme as regras pré-estabelecidas. Muitas pessoas têm dado os melhores anos de suas vidas para uma tal luta. uma clara definição de seus objetivos. não são mais encorajadoras. A estratégia de ação de guerrilha oferece a possibilidade para uma redefinição do problema. muito cedo. mas poucas perspectivas são menos prometedoras do que a de começar uma nova igreja. tomar uma posição mais radical. Porém as perspectivas de executar qualquer coisa. em qualquer outra parte. Aqui a coisa mais importante para os que estão mais empenhados 251 . que a geração mais nova não está inclinada a cometer. na universidade ou na igreja. Mas. e um plano relevante de ação — mais do que sua relação com uma instituição particular de sua posição perante ela.

não há mérito especial em estar fora das estruturas. e escolherá outra alternativa. desenvolver uma nova perspectiva dela. Em algumas instituições há líderes que vêem a necessidade de mudança e que serão capazes de agir mais corajosamente devido a existência de movimentos que criam novas pressões por mudança. que é livre para trabalhar em um sério problema. dentro de seu meio. estas estruturas venham a tomar a iniciativa de fazer as mudanças necessárias. Uma organização pode dar seu apoio oficial a um novo projeto que está tentando resolver um problema social urgente. O revolucionário contemporâneo se sentirá inclinado a duvidar da possibilidade de assim trabalhar por uma mudança efetiva. Onde as estruturas são suficientemente abertas e flexíveis para corresponder criadoramente a novos desafios. mas em formar um pequeno núcleo. contribuem para sua própria renovação e armam o revolucionário com os canais mais apropriados para a realização final dos objetivos. criar novos modelos e elaborar uma estratégia efetiva para a ação. Esta estratégia de colocar a tônica sobre pequenos grupos radicais. dentro das estruturas. ou pode tolerar a existência. não podem ser condenados tão só porque escolheram este caminho. deve ser livre para admitir o fracasso e começar de novo em qualquer outro lugar. isto é. Tal abordagem deve evitar atitudes doutrinárias. sempre que isto é possível.em trabalhar por mudança em nossa sociedade é ter sua própria autoidentidade. Para ele. movimentos revolucionários não são justificados. pesquisar novas soluções e desenvolver uma nova estratégia 252 . a prioridade precisa agora ser dada ao desenvolvimento de novas perspectivas. Devemos ter muito pouca esperança de que. com sua própria auto-identidade e programa. Só quando isto acontece será possível analisar uma situação específica. no futuro imediato. Estes povos que escolheram travar a batalha por renovação de posições de poder. Mas em alguns pontos podem ser usadas efetivamente. Quando um esforço para fazer isto falha. Para os que fazem isto. O importante é usá-las para os propósitos de transformação social. à criação de novos modelos e à liberdade de ampla experimentação. de grupos que estão trabalhando de maneira criadora e dinâmica. age quase contra a unanimidade da opinião política. regras e pressões na área em que estão trabalhando. estarem relacionados um com o outro de tal maneira que possam tomar uma posição contra a ideologia. Não está interessada primariamente em unir grandes grupos na base do mais baixo denominador comum. Na medida em que as instituições sociais permitem hoje que tais grupos funcionem dentro delas.

no entanto. Há muita gente e muitas organizações diferentes interessadas em mudá-la. Camponeses. Alguns dos trabalhadores que migram das áreas rurais acham sua situação 253 . Os revolucionários modernos não têm tido muito êxito em resolver o problema da participação das massas no processo revolucionário. É mais improvável que esta tarefa possa ser empreendida por um grupo vasto e heterogêneo. contudo é preciso não haver ilusões sobre sua fidelidade nem exigir delas mais do que estão preparadas para dar. não. são com frequência dominados pelas formas de autoridade e pelo ethos paternalista da velha sociedade. Neste estágio. mesmo nas mais desesperadoras situações. comunas e sovietes — uma expressão de seu profundo anelo de participação no poder público. Contudo tais grupos não têm usualmente sido encorajados ou tolerados por governos revolucionários. a menos que esteja autenticamente relacionada com as massas e apoiada por elas. que podem ser usadas como um instrumento eficiente para a mudança social. procurará e aceitará o apoio de todos aqueles que podem. O que agora é preciso. Um grupo que realiza isto ficará interessado em encontrar o maior número possível de aliados para um programa específico de ação. os que mais lucrarão com a revolução são incapazes de entendê-la e medrosos ou indesejosos de apoiá-la. cooperar em objetivos limitados.de ação. desenvolver uma nova perspectiva dele e fornecer novas sugestões para satisfazer o presente desafio. Frequentemente. os revolucionários naturalmente supõem que seus esforços devam ser apoiados pelas massas. Quando isto acontece. isto aconteceu. por qualquer razão. 2. Por outro lado. em outros. Se o elemento central na estratégia revolucionaria é a formação de pequenas unidades para uma luta política do tipo-guerrilha. muitos indivíduos e grupos diferentes podem ser agrupados para estudar e apoiar pelo menos alguns itens em um novo programa. Uma estratégia política que depende de pequenas unidades de guerrilha não pode ter êxito. as revoluções modernas têm sido a ocasião para o aparecimento espontâneo de toda sorte de organizações de trabalhadores e camponeses em ligas. Um exemplo do que desejo dizer é fornecido pelos atuais esforços para fazer algo sobre a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. teremos alguma possibilidade de romper o velho impasse. é o tipo de estudo e reflexão que possa chegar ao âmago do assunto. Em alguns casos. Uma vez que estão trabalhando para o melhoramento da sorte das classes não-privilegiadas. é importante encontrar os que são livres para explorar novos caminhos.

mas. isto requer um processo longo e intensivo de despertar de homens e mulheres para a situação sócio-histórica em que vivem e para a natureza de sua responsabilidade para com ela. todo o processo eleitoral é viciado e limitada sua significação para a mudança social. Por tanto tempo a sociedade tem tido tal êxito em esconder o sofrimento e descontentamento dos não-privilegiados e cobrir a violência dos detentores do poder. 3. facilmente voltam-se para. avançar para a criação de novas instituições políticas. e apoiam. ao contrário. nas nações em desenvolvimento bem como em nosso próprio país. o contexto para um processo educacional em que um novo sentido de auto-identidade e uma nova visão do futuro podem tomar forma. nos fizeram encarar esta realidade — e deixaram muitos perturbados com o que viram. De fato. outros estão de tal modo ameaçados pela insegurança total em que vivem. Uma vez que estas pessoas tenham sido alienadas do que está acontecendo. Subitamente cônscios da instabilidade da sociedade hodierna e do seu potencial de conflito. portanto. Em anos recentes. o problema básico não é hoje conseguir que as massas participem mais ativamente da ordem política atual. isto provavelmente só pode ocorrer em grupos muito diferentes da organização política tradicional. Tais organizações políticas elementares fornecem. Onde quer que os recursos da média de massa são usados para controlar “democraticamente” eleições. Na maioria dos casos. ou mesmo transferir o poder político de um grupo para outro.tão melhor do que a antiga. Talvez venha a usar de movimentos com este sentido de identidade e relativa independencia das estruturas políticas atuais para provocar alguma mudança significativa nelas. que não estão inclinados à revolução. e excluídas do processo de tomada-de-decisão. e só será eficaz em larga escala se estiver relacionado com estas estruturas maiores — e se contribuir para sua transformação. atenção à formação daquelas organizações políticas mais básicas que possam ser a expressão autêntica da participação de grupos e classes diversas de pessoas na transformação de sua sociedade. Para isto acontecer será necessário dar. que muita gente tem ficado insegura sobre o papel do conflito na vida social. primeiramente. ou onde a estrutura política não permite uma escolha real entre diferentes ideologias e grupos dominantes. A revolução trouxe a questão do conflito e sua resolução mais uma vez para o centro da atenção. que pagarão quase qualquer preço por uma pequena garantia de estabilidade. aqueles movimentos políticos que prometem eliminar o proble254 . explosões periódicas de violência. e não está preparada para lidar com ele.

Não crê que a ordem social deva inevitavelmente cair. mas por sua integração numa estratégia de reconciliação. relativamente cedo. sua tendência pode ser formular uma ideologia de conflito que exagera sua importância e conceber revolução em termos de luta total. O realismo bíblico é livre para ver o lugar do conflito na sociedade e aceitá-lo. acredito. o conflito é controlado.ma pela supressão efetiva dos elementos subversivos. Como a violência é usada contra eles e eles descobrem quão difícil é conseguir mudança sob tais circunstâncias. de parte da ordem estabelecida que protela a execução dos objetivos da revolução. Os revolucionários. e que aqueles que estão contra esta mudança podem ser levados a aceitar aquelas mais 255 . o movimento pelos direitos civis pode bem fornecer numerosos exemplos disto. Conflito não é básico. de ambos os lados de uma luta revolucionária. um tipo de realismo que não pode conceber paz e estabilidade independentemente de justiça reconhece que. indicar uma alternativa. em certas situações. por outro lado. podem também estar despreparados e não equipados para seu embate com conflito. quando se permite que o conflito se manifeste. mas mesmo encorajado. o conflito é aceito simplesmente pelo que é: um elemento essencial em certas situações. e não a sua eliminação. caso novas relações estejam para ser estabelecidas entre grupos e classes na sociedade. em satisfazer as exigências mais urgentes do negro neste país. Estão completamente cientes dele. Uma perspectiva teológica conjugaria esforços nesta mesma direção. A menos que obtenhamos êxito. Esta mesma abordagem teológica coloca todo conflito no contexto de um movimento para reconciliação. pode tornar possível evitar uma ideologia de conflito total. Portanto. E a reconciliação envolve o estabelecimento de novas relações em e através do conflito. para a resolução do conflito através de entendimento e diálogo. e. É só assim que aqueles que desejam mudança podem saber o que é possível num momento particular. porque sua luta o traz à superfície. o conflito deve não só ser permitido. não por tentativas constantes de suprimi-lo ou limitá-lo. Isto implica em que. Em fornecendo um instrumento eficaz para o uso de conflito limitado. as pessoas tenham a liberdade de distinguir as oportunidades e delas tirar vantagem. Fundamentalmente. Na atual luta revolucionária. assim. De fato. não pode ser um fim em si mesmo. uma estratégia coordenada de ação de guerrilha numa variedade de frentes pode. salvar-nos do tipo de desintegração social ou resistência total a mudança.

Estes fatores são muitos. Neste arcabouço. as imagens bíblicas sugerem uma abordagem bem diferente. Passa a ver mais claramente a importância e significação de sua opção pela revolução. A possibilidade de combinar participação nos esforços para transformar a sociedade com uma atitude de re256 . Um grupo de ideais e valores éticos gerais têm muito pouca significação. e. poucas coisas são mais importantes do que a maior exploração das possibilidades que oferece uma estratégia de reconciliação. desenvolve uma maior sensibilidade para aqueles fatores externos e internos que bloqueiam a execução dos objetivos da revolução. e. as pessoas podem se dedicar a uma busca de novos meios de reflexão sobre um problema específico e sobre novas soluções para ele. e o fato de que. A pessoa que vive este diálogo logo se torna consciente de uma tensão a crescer dentro de si própria. A despeito do fato de esta ênfase nos ideais e princípios ser um apelo especial para as pessoas religiosas. Hoje. e avança para um maior envolvimento nela. as agudas e difíceis questões éticas que surgem. a exigência de idéias e regras novas. As novas regras necessárias não podem ser elaboradas abstratamente. o revolucionário mais autêntico é o que pode conjugar compromisso pleno e um certo grau de afastamento. a tendência inevitável de movimentos deste tipo para absolutizarem sua posição e se mostrarem desinteressados de julgamentos críticos sobre seu ponto de vista e seu trabalho. Entre os que hoje estão preocupados com mudança social. No passado. isto podia ser em parte alcançado por meio da insistência em certos ideais éticos que expressavam o tipo de sociedade pela qual a revolução estava lutando e os meios pelos quais ele podia ser atingido. que pode manter um senso de humor que lhe permite rir de si mesmo. desta maneira. o pensamento criador requer um contínuo processo de revisão ideológica. Em outras palavras. pelos movimentos a ela dedicados. Ao mesmo tempo. na situação dinâmica em que nos encontramos hoje. começar a avançar confiantemente para o futuro. a mais importante questão referente à estratégia pode muito bem ser de outra ordem. entre eles: a tremenda carga da tarefa em si. de ambos os lados da luta. estes elementos ajudam menos. e que pode manter uma atitude crítica em relação a todo pensamento e ação revolucionários. exceto se se tornarem mais concretos em situações históricas particulares.urgentes. os impasses criados em situações de conflito podem ser superados. Para aqueles que estão dispostos a combinar um compromisso com a revolução e um diálogo com a teologia.

com a participação daqueles que mais possam contribuir para o seu êxito. servindo-o em liberdade. pode oferecer um novo modelo para o tipo de comunidade que estamos sugerindo. constantemente receptivo ao “Reino de Deus” que está agora “acontecendo” em nosso meio. hoje. Contudo. a razão original para e o propósito da igreja foi precisamente este: ser um povo chamado para a existência e tirado do seu contexto atual. Se este plano puder ser levado à frente. Para os que são cristãos ou têm algum interesse no diálogo com a 257 . inteiramente envolvido “no” mas não inteiramente “do” mundo. Talvez hoje o centro de estudos e núcleos similares em escala local indiquem uma possibilidade. nem como por completo indispensáveis. A forma exata de tais comunidades terá de ser determinada por estudo e experimentação.lativa liberdade e julgamento crítico vem de ser parte de uma comunidade que tem um ponto de referência além da luta social imediata. Por mais surpreendente que isto possa parecer a muita gente hoje. e propicia um laboratório em que seus diversos aspectos podem ser trabalhados experimentalmente. mas de uma comunidade viva. em meio à luta revolucionária. Um dos sinais mais encorajadores de um desenvolvimento deste tipo é o plano do Projeto de Educação Radical dos Estudantes para uma Sociedade Democrática. uma tal comunidade revela. Além do mais. um “povo eleito”. precisam dar lugar em sua estratégia para algum tipo de comunidade que possa se empenhar nesta tarefa e fornecer o arcabouço para reflexão. que expressa e ao mesmo tempo indica a nova realidade de existência social. em termos bíblicos. e aqueles movimentos que são os mais importantes instrumentos de mudança social não são vistos nem como perfeitos. as possibilidades ali existentes e o meio pelo qual podem se tornar realidade. a fim de estar ali para o homem. Quando isto acontece. põe em dúvida as mais altas realizações humanas. e a melhor estratégia para chegar a este objetivo. É óbvio que. de um jeito ou de outro. regional e nacional. o estudo e a reflexão constantes sobre o que está acontecendo hoje na América. o tipo de sociedade que pode e deve ser edificada no futuro. Propõe-se a encorajar. a forma da nova ordem se torna mais clara através não da definição de um grupo de ideais. sejam cristãos ou não. o quadro que se desdobra da nova ordem. crítica e liberdade. em escalas local. um programa maciço de desenvolvimento da igreja não realizaria este propósito na revolução contemporânea. Numa tal comunidade. e dentro de uma abertura radical para a confrontação ideológica e livre discussão entre os comprometidos com a revolução social. todos os revolucionários e movimentos revolucionários.

é preciso acrescentar uma palavra final. não sem alguns resultados encorajadores. Qualquer esperança de uma contribuição cristã significativa às lutas revolucionárias em processo no mundo dependerá. 258 . É bem possível que em tais comunidades débeis e sem forma específica possam tomar forma idéias e questões novas que serão de importância para o movimento revolucionário como um todo. nem excluir ninguém interessado em seus objetivos. do surgimento de novas formas de comunidade cristã nas linhas de frente da revolução. Têm estado empenhadas numa longa e difícil luta.teologia. Minha própria convicção sobre isto é o resultado de alguns anos de trabalho com os Movimentos Cristãos de Estudantes Latino-Americanos e a Comissão sobre Igreja e Sociedade na América Latina. Porém podem oferecer o contexto para um contínuo colóquio entre nossa herança teológica e ética e as principais questões humanas que se apresentam. Em ambas as organizações. e os recursos utilizáveis em uma tal luta podem se tornar mais visíveis através de um tal esforço. ambas as organizações tendo estado trabalhando na tarefa de criar tais comunidades nas fronteiras revolucionárias. numerosas pessoas e movimentos sem especial interesse ou relação com a comunidade religiosa Protestante reconheceram a significação do trabalho destes grupos para eles e para a luta em que estão envolvidos. não precisam fazer exigências de autoridade especial. Tais grupos não podem ter a pretensão de ser movimentos políticos. tem oferecido uma oportunidade para análise da situação latino-americana e reflexão sobre ela e tem ajudado a apoiar aqueles que estão empenhados na presente luta. acredito. na tentativa de transformar a sociedade. bem como a estruturação de contatos muito mais amplos. a formação de pequenos núcleos em escala local. Mais do que isto.

Wolin.O.M. 88. pág. eds. “The Man from S. 1966). pág. 3 Veja. 1965.G. 219... “Thoughts of the Young Radicals” [“Pensamentos dos Jovens Radicais”] uma coleção de artigos recentes do New Republic. págs. como exemplo. 2 Citado por Deming Brown. The Berkeley Student Revolt [A Revolta Estudantil de Berkeley] (New York: Doubleday. eds. 5 New York: Viking Press. 1965). 4 “An End to History” [“Um Fim para a História”] em Seymour Martin Lipret e Sheldon S.Notas Capítulo II A BUSCA DE UM NOVO ESTILO DE VIDA 1 New York: McGraw-Hill. 4. Capítulo III REVOLUÇÃO SOCIAL E TECNOLOGIA: O PARADOXO DE NOSSA HERANÇA 259 . 1963. The New Student Left [A Nova Esquerda Estudantil] (Boston: Beacon Press. Também Mitchell Cohen e Dennis Hale. pág.. 258-259. 20 de março de 1966. 6 Ibid.”.

cit. Para envergonhar o sábio. pág. 1961). e a divina fraqueza mais forte que a força do homem. Mas o conceito é importante. op. meros nadas. Talvez o tempo venha a reabilitar a palavra e distinguir entre autêntico e falso messianismo. 1963).1 New York: Scribners. Capítulo IV IDEOLOGIA E TEOLOGIA 1 In Methodology of the Social Sciences (New York: The Free Press. 1964). entre os movimentos que são os mensageiros do humanismo messiânico e os que são “messiânicos” num sentido diferente. 3 “A Letter to the New (Young) Left”. em uma passagem do primeiro capítulo de Corintios I: “Os judeus pedem milagres. The Modem Polish Mind (New York: Grosset & Dunlap.. para subverter a ordem existente” (V. em sua própria maneira decisiva.. os gregos buscam sabedoria. 2 Citado por Dexter Perkins em The United States and Latin America (Baton Rouge: Louisiana State University Press. o poder de Deus e a sabedoria de Deus. A divina loucura é mais sábia do que a sabedoria do homem. Deus escolheu o que o mundo considera fraqueza. 1965. 1965. 46-47. pág... 4. One-Dimensional Man (Boston: Beacon Press. em Cohen and Hale. Escolheu coisas baixas e desprezíveis. págs... 112. 1964). 3 Cambridge: Harvard University Press. Cristo pregado na cruz —. ed. um livro que tem algumas coisas importantes a dizer sobre este problema. 2 Em Maria Kuncewicz. 4 Estou bem certo de que esta palavra nos sugere usualmente algo muito diferente de seu significado original. e não conheço outro meio de expressá-lo. 22-29). 5 O Apóstolo Paulo expressou isto. 260 . mas nós proclamamos Cristo — sim. 6 Estas expressões são do livro de Herbert Marcuse.

261 .

262 .