1

osebodigital.blogspot.com

2

CARL OGLESBY E EICHARD SHAULL

REAÇÃO E MUDANÇA
Introdução de Leon Howell Tradução de Eglê Malheiros

PAZ E TERRA
3

4

Introdução
Os dois ensaios que compõem este livro, debatendo a revolução no mundo de hoje, diferem tão profundamente em análise, preceito e resposta quanto as experiências e pontos de vista dos próprios escritores. Contudo, uma preocupação comum pelo papel da América nesta revolução, internamente e no exterior, liga os dois trabalhos. Este livro começou em fevereiro de 1966, quando os dois homens participaram de uma discussão sem formalidade destas questões, no Union Theological Seminary, em New York. Jamais haviam se encontrado antes. Um se envolvera no movimento doméstico americano em prol de uma sociedade mais justa; o outro passara muitos anos na América Latina, intimamente ligado aos movimentos estudantis católico e protestante. As conversas em público e em particular, daquela noite, revelaram uma identidade de interesses e uma diferença de perspectiva que abriam caminho para uma confrontação e discussão interessantes. Ansiando por colocar essas discussões à disposição de uma audiência muito mais vasta, o University Christian Movement pediu-lhes que expusessem suas idéias em ensaios. São aqui apresentados como dois esforços para entender e responder a um problema crucial de nosso tempo, na esperança de encorajar um diálogo mais amplo. Leon Howell University Christian Movement
5

6 .

PRIMEIRA PARTE Vietnã: Prova Decisiva UM ENSAIO A RESPEITO DAS SIGNIFICAÇÕES DA GUERRA FRIA CARL OGLESBY 7 .

8 .

Porém o Vietnã não é Berlim. Não são só seus soldados-filhos que enfrentam armadilhas e estacas “punji” naquelas selvas. e no fumo que ascende da incisão sacrifical no Sul do Mar da China ela lê seu passado e vê presságios do seu futuro não tão obscuramente quanto poderia desejar. É esta nossa América Ocidental. Francis Bacon Os antigos oráculos do Ocidente mediterrâneo abriam o ventre de bois e compreendiam o passado e anteviam o futuro na fumaça de suas entranhas ardentes. A América moderna. fruto da mesma linha ocidental. tendo em nosso tempo a emergência se tornado o estado comum do homem. e o alargamento das fronteiras do império humano. estes últimos vinte anos tinham aparentemente nos insensibilizado para as crises. que foi emboscada na Ásia pelo seu próprio passado oracular. O Vietnã prende-nos com uma nova garra. É claro que há outros fatos que 9 .I Ocidente Encontra Ocidente: o Nexo do Vietnã O destino ocidental é “o conhecimento das causas e movimentos secretos das coisas. Coréia ou China. Crise após crise. convence-nos de que esta guerra é o acontecimento mais importante e prenhe de significado e consequência. a sua confusão não de todo oculta por sua fúria. inventou agora de abrir o ventre da velha-jovem Ásia. para a realização de todas as coisas possíveis”. toca um nervo novo.

Não é a primeira de sua espécie. seria ominosa bastante. precisamente quando nossos líderes pedem mais unidade. que outrora produziu tão convincentes e úteis definições de vitória e derrota. global e doméstica. A miséria urbana se intensifica precisamente quando nossos líderes a atacam de frente com sua melhor determinação e ingenuidade. precisamente quando nossos líderes se acham mais sozinhos na grandiosa defesa da liberdade ocidental. Talvez agora lá parece não mais haver tempo para adiamento ou quarentena. não mais desculpas para não se chegar à uma opinião. O liberalismo ocidental. Um novo sectarismo faz com que nos voltemos raivosamente uns contra os outros. Por que agora estas explicações parecem tão banais e inapropriadas. começamos a indagar. desde que nem no Vietnã nem no Mississipi os velhos remédios de prazer-dor resolvem nossos problemas. se lançou em uma marcha da antiga guerra santa contra o totalitarismo? Por que tantos de nós não mais nos sentimos rejuvenescidos pelos velhos contos? Não podem ser as asperezas da guerra a razão da diferença. em nossa história. os americanos tendo estado sempre prontos a fazer o que é necessário para ganhar o que deve ser ganho. mais uma vez. nem o contínuo eludir da vitória. O problema parece ser o de não mais estarmos certos do que significa “vitória”. só ela. Desde que as velhas verdades se recusam a funcionar. e os Estados do ocidente europeu começam a se individualizar dentro da Aliança. Todos são forçados a admitir que ela parece ser “um poço sem fundo” — uma guerra eterna. Homens já morreram antes. se realmente jamais haviam resolvido algo antes. tão bem estudada: uma nação inteira 10 . Talvez estes sucessos do passado fossem apenas adiamentos ou quarentenas. também. permanece mudo. em maior número ainda — não estão satisfeitos em ouvir que o ocidente liberal. Esta guerra está agindo. Acelera-se a militarização de nossa economia política. em uma direção única. no fundo de nossas mentes. tão indignas do momento? Por que tantos americanos — e. Por que o Vietnã romperia tão profundamente a tranquilidade ocidental? Temos para esta guerra as mesmas explicações que tivemos para todas as outras. Mas é a primeira a ser tão grande. acima de tudo. confrontado com esta guerra. europeus.contribuem para esta convicção. tão prolongada e. em nossa pátria. Porém a guerra. nunca tendo os americanos se assustado com as asperezas da violência. Ninguém pretende mais conhecer seus limites. Os problemas raciais americanos pioram precisamente quando nossos líderes tentam duramente pôr-lhes fim.

de forma tão específica. Foi o Ocidente que inventou o pretencioso e arrogante conceito do “selvagem”. não poderemos adorar de novo na velha igreja. Dificilmente poderia ser de outro modo. o processo pelo qual vim a ser a espécie particular de partidário que sou. momento algum em que o povo do Ocidente. no essencial. Com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas de qualquer outra pessoa. Eu as abandono de imediato. Com esta guerra a história se torna assunto íntimo de cada um de nós. explicações que eu considero ser. Recebe-se certos padrões. mais bem consubstanciadas sobre a Guerra Fria e os conflitos a longo-prazo dentro do Ocidente e entre o Ocidente e o Oriente. a quem de hábito era permitida a moratória da ignorância. portanto. Este ensaio sobre o Vietnã é. O esforço é no sentido de provar o específico pelo princípio que ele incorpora e o falso pela verdade que ele encobre. porque agora não podemos negar que há sangue no altar e que as mãos dos sacerdotes não são puras. em algum tempo futuro. em parte porque já foram discutidas bas11 . tivesse sido. de uma evidente inconveniência. tenta-se aplicá-los com honestidade e com toda perícia que se possa exibir e procura-se ter a coragem de aceitar todos os mandamentos pessoais que possam implicar das conclusões. Não se nasce com uma tarefa política. antes. Não houve. Assim. encontrar conforto em velhas verdades. antes. colocado ante uma visão clara da capacidade de sua cultura para a violência. O tipo de argumento neste ensaio segue. foi o Ocidente que deu ao próprio horizonte um significado caracteristicamente político.observa-se a si própria neste ato — o ato sendo (contra toda justiça) a incineração de toda uma outra nação. através dos lugares-comuns superficiais sobre o Vietnã. Alguma outra civilização já se destruiu a si própria tão abertamente — tão carnalmente — como o faz agora a nossa? Dificilmente poderemos voltar imutados deste espetáculo para sonhar velhos sonhos. destruído por ele. ou. o capítulo seguinte se dedica a uma breve escaramuça com as explicações oficiais de nossa guerra de “Mundo Livre” pelo Vietnã. um ato privado. civilizado por ele. sustentando que o que ainda não podia ser vislumbrado existia. até generalizações mais sólidas. a fim de ser submetido por ele. chegar. se considerado um obstáculo para seu “alargamento das fronteiras do império humano”. escrevo como um partidário que foi educado por outros partidários. a fim de se tornar visível a ele. do qual cada um de nós terá que prestar contas pessoalmente. do qual a Guerra Fria aparece como o episódio presente e culminante. um ensaio sobre o Ocidente. Nenhuma civilização foi mais violenta do que a nossa civilização ocidental.

porém muito mais sólida. visando descobrir não só os erros históricos que contém. O VI Capítulo se transporta ao outro lado da linha de combate. 12 . o que é mais importante. caso seu compromisso com as banalidades pontificais não o silenciasse. um argumento que o bom Guerreiro da Guerra Fria teria apresentado.tante por agora. as verdades políticas que aqueles erros devem ocultar. O propósito principal do II Capítulo é reelaborar aquele argumento. é uma tentativa de reconstituir as linhas mestras das principais questões que os ocidentais poderiam tentar confrontar — uma tentativa. a ideologia do anticomunismo da Guerra Fria. A reinterpretação da Guerra Fria (IV Capítulo) daí resultante é aplicada no V Capítulo ao caso do Vietnã. numa tentativa de desnudar. porque sufocam uma linha de argumento menos piedosa. de tornar mais explícito o tema geral que eu já sugerira: a guerra do Vietnã é uma crise revelatória da Guerra Fria. ele encontra a si mesmo. baseado naquilo que o precede. à força. mas principalmente. portanto. na realidade. porém. O III Capítulo é uma análise crítica da melhor história do Guerreiro da Guerra Fria. o seu intuito é revestir de alguma carne humana o inimigo por demais abstrato que tão precipitadamente condenamos — o rebelde. e a própria Guerra Fria é a crise final da identidade ocidental. o Oriente que o Ocidente enfrenta no Vietnã. O último capítulo. Não é. que jaz sob eles.

então ele deve ter sido convencido por outros argumentos. haver numerosos graus e variedades de raisons de guerrilla que se sobrepõem umas às outras como tantos estratos geológicos. onde razões de guerra menos piedosas. e pensar: Estas razões são tão ruins que devemos ter caído nas mãos de loucos. Parece. devem pensar: Estas razões são tão ruins que deve haver outras razões. Este é o objetivo deste capítulo: levar o foco analítico através das mentiras brancas da política de guerra até o substrato ideológico. devemos fazer alguma mineração. e a mais dura. também. a mais forte. Acorde com o Senador Case. O segundo pensamento é melhor. por que continua ele a dizer isto? Senador Clifford Case1 Pode-se ponderar as razões oficiais que Washington dá para nossa luta no Vietnã. mais honestas. mas outros.II A História do Guerreiro da Guerra Fria O Secretário Rusk não é tolo. a razão mais fraca à superfície. debaixo dela. na verdade. Se Rusk pretende estar convencido por argumentos que não convenceriam ninguém tão inteligente como ele. descascar a camada superior de propaganda para revelar as camadas inferiores mais tenazes de ideologia. Existem outras razões. que por algum motivo prefere não 13 . estão encravadas. Desta forma. que dão à propaganda sua base e desígnio. não desejo concluir que Dean Rusk é um tolo.

A única questão é: Que espécie de reputação desejamos para nosso país? Resistimos a uma invasão: a) A Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul é uma criatura política do Vietnã do Norte. O melhor desenvolvimento deste argumento pode ser encontrado num longo e detalhado ensaio na edição de abril de 1966 de Foreign Affairs.expor. a história do Guerreiro da Guerra Fria pode ser recomposta. mais ou menos. Carver Jr. E a afirmação da CIA.. seria de se estranhar que seu trabalho não fosse. É óbvio que não há acordos tão indiscutivelmente comprometedores. Estamos legalmente obrigados a lutar. Nossa reputação global está em jogo. apresentados por ela aos analistas do Departamento de Estado e da Casa Branca. Talvez esteja. se não percebermos que o propósito da CIA era envolver os Estados Unidos numa situação da qual poucos governos podiam ter decidido se 14 . É ainda mais óbvio que nenhum estado forte hesitará um momento sequer em violar um tratado que julgasse prejudicial aos interesses nacionais. um documento da CIA. Tendo em vista a intimidade notória do AID como a CIA no Vietnã e a abundância de dados que parecem ser altamente confidenciais a que teve acesso Carver. Mas antes tem de ser esclarecida sua propaganda. Ouvimos falar apenas daquela elite vietnamita. em Saigon. de que adianta o ceticismo num caso em * Várias amostras da historiografia da CIA podem ser citadas. O autor. George A. e não porque tenhamos sido apanhados por um instrumento legal. supostamente objetiva. 1964) constataram que a CIA maldosamente alterou os textos dos discursos de Castro. Jamais ouvimos falar do povo vietnamita. sobre a qual nossos mentores políticos estavam baseando seus planos. Mas este argumento é faca de dois gumes. o qual definem de modo diverso. de que o povo cubano estava se preparando para um levante contra Castro. Uma vez que pode ser justamente isto. e talvez isso seja importante. Tanto quanto o Presidente Johnson. Penso que os argumentos mais convincentes podem ser reconstruídos. a CIA aparece como tendo conscientemente falsificado a informação. é bizarra. é identificado como um antigo oficial AID. simpática bastante à nossa própria política para julgar chegada a sua hora no Palácio Presidencial de Saigon. “O Vietcong sem Rosto”. Se lutamos deve ser porque pensamos que devemos lutar. precisamente antes da invasão. os dissidentes consideram-se partidários do prestígio da América.* Porém. Uma. Estamos respondendo a um apelo de emergência do povo vietnamita. tendo o pacto da SEATO ainda mais cláusulas de escape do que o da NATO. a Baía de los Cochinos: Murray Zeitlin e Robert Sheer (Cuba: Tragedy in Our Hemisphere. isto é. é medida de prudência mantermo-nos céticos a respeito dos “fatos” de Carver.

com aquela viciosa habilidade pela qual reconhecemos nosso Inimigo. de 6 a 10 por cento. Ngo Dinh Nhu. que ele pode ter sido treinado por pessoal das Forças Especiais dos EE. Fali. exceto que estava dirigindo operações paramilitares no Vietnã do Norte.S.UU. a não conceder grandes créditos de exportação a U. em julho de 1965. tenha intrigado para criar e deter o controle da FLN. de fevereiro de 1966. Outro exemplo. em Saigon e Hue.que os “fatos” são tão inacessíveis? Pelo que podemos saber com certeza. 1964) escreve que este informe foi amplamente interpretado como uma tentativa de influenciar os aliados dos E.R.** Não há saber no mundo que nos esclareça qual dessas duas “criaturas de libertação” foi inventada primeiro. de novembro de 1956. U.S.5 por cento. A que provas podemos submetê-la? Podemos comparar a versão de Carver com a de Wilfred Burchett. e aquela outra organização “criatura”.UU. que pode ter sido financiado diretamente pela CIA. Paul Blackstock (The Strategy of Subversion. E. e todos os três descrevem a FLN de maneira que difere muito mais de Carver do que de Burchett. o Comitê pela Libertação do Vietnã do Norte. U. a elaborada descrição que Carver faz da gênese da Frente de Libertação Nacional (FLN) pode ser pouco mais que uma fantasia à Borges. contudo. Philippe Devillers e Jean Lacouture são mais fidedignos dentro de um corrente critério acadêmico. em 1956.S. Esta concessão nos permite indagar a Carver o que sabe ele sobre aquele outro intrigante. que estava infiltrado no Vietnã do Sul (com passaportes civis) pela metade da década de cinquenta.S. Conjetura-se. 15 . Donald Duncan. a CIA filtrou a “informação’’ de que a taxa de crescimento anual da U. Concedamos que Hanói. Que fazer com uma “prova” que não pode ser testada? Aceitá-la. qual foi o primeiro golpe e qual o contragolpe. declínio considerado inacreditável pela maioria dos especialistas ocidentais. Os estudiosos franceses Bernard B. em janeiro de 1964. pode também ser verdade completa e perfeita. em Ramparts. está documentado na memória do ex-membro das Forças Especiais. e que pode ter estado envolvido na famosa rebelião dos fazendeiros de Vinh. de Nhu. Porém muito mais importante do que questões sobre as origens burocráticas da FLN é a questão: Por que ela cresceu? Suponhamos que desvencilhar. caíra em 1962-1963 a 2. logo após a consolidação do poder feita por Ngo Dinh Diem.2 porém Burchett é tão partidário quanto Carver.R. Sei muito pouco sobre este misterioso e injustamente ignorado comitê. Minha outra informação sobre o comitê de Nhu foi obtida em palestras com oficiais americanos e com um vietnamita antigo membro dele. mas podem estar errados. ** O pormenor sobre a infiltração militar dos EE.

e tornou-se. Diem reagrupou a matriz político-cultural da qual brotava o movimento Vietminh. jamais produtos de uma diplomacia sombria. por que só num surtiu efeito? Se. pela guerra popular que agora devasta o Vietnã. Aquela supressão forçou os episódios iniciais de insurreição defensiva. mas com as elites dos salões da Riviera Francesa. o Departamento de Estado e a Casa Branca. muito provavelmente. alienação e miséria populares. Guerras populares são fenômenos culturais. que tinham lutado ao lado dos franceses. a uma crescente ajuda militar dos Estados Unidos. sabem que a emanação de ordens em Hanói tem muito pouco a ver com a maneira 16 . Passo a passo. Na passada década de 1950. E. Diem agiu no sentido de despedaçar a tradicional base aldeã da sociedade vietnamita. sabemos algo sobre guerras populares (aprenderíamos muito com um estudo de nossa própria revolução) é que elas não podem ser forçadas a existir por meio de decretos burocráticos remotos. tal oficial seria o falecido Ngo Dinh Diem mesmo. na medida em que se deva atribuir a algum oficial governamental o crédito. como se fora esta sua real intenção. pela imposição dos famosos programas de recolonização. bem como. mesmo estratégica. em ambos os lados. ou não pôde resistir. foi sentida por tantos sul-vietnamitas como uma revolução inteiramente legítima vinda de dentro? Por haver terror? Havia terror em ambos os lados. mais brancos e melhor arrumados do que seus predecessores franceses. por igual. Diem desejou. às vezes. simultaneamente.o regime norte-vietnamita promulgasse certos decretos. ou a culpa. Tais decretos podem dar-lhes forma tática e. afinal. vinda de fora. chegando mesmo ao detalhe de rodear-se de oficiais vietnamitas. através de um movimento subterrâneo no Vietnã do Sul: Por que tanta gente sul-vietnamita correspondeu? Como foi que esta invasão ilegítima. o Presidente Diem suprimiu pela violência toda oposição política. sabem melhor do que ninguém (voltaremos a isso) o que cria guerras populares. a CIA. e das classes superiores católicas. George Carver. na certa. ele reconstruía a oligarquia latifundiária e as classes compradoras que o Vietminh derrubara. mas sua substância e seu impulso são os maciços ressentimentos. não com os camponeses do Vietnã. fora de dúvida. associado dos bem-intencionados americanos. que há gerações se identificavam. ou tolerou. como só num surtiu efeito? Será por que havia uma organização secreta ferreamente organizada? Havia organizações secretas. que eram ainda mais altos. Este novo imperialismo transformou a revolução social numa guerra patriótica de libertação. comunista ou não-comunista. de disciplina férrea. Este novo feudalismo transformou a insurreição inicial numa revolução social.

Dizse que os americanos são um pequeno número e que ajudam com umas armas. tal como na guerra da Coréia. em si. preparamo-nos para tomar conhecimento de que nosso inimigo é constituído na maior parte por tropas nortistas. a força total da FLN era oficialmente estimada em 282 000 homens. Há outros números. aquela evidência não parece justificar o nível de nossas próprias forças. mal chegam a 18 por cento do total das forças da FLN. os argumentos sutis de Carver sobre organizações “títeres” e “criaturas” perdem toda substância. 17 . pelo que vem depois. Destes 282 000. Porém. um aumento de 52 000. Porém. e muito antes de haver qualquer base para a acusação de infiltração por parte do norte. ficamos sem a explicação de “agressor-externo” para pelo menos quatro de cada cinco partidários militares ativos da revolução. afinal de contas. bem antes de haver terminado o período de controle francês. Frente ao fato concreto de que o Vietnã do Sul se revoltou. é politicamente ameaçador.pela qual tais ordens vão ter repercussão no Vietnã do Sul. mesmo não o tendo sido. e nem pode ser desculpado. os norte-vietnamitas. começado em fevereiro de 1965. o maior total já alcançado num período de seis meses. incidentalmente. a mais desonesta de todas. Não basta. com ordens ou sem elas. cerca de 50 000 supõe-se ser infiltrados nortistas — e a grande maioria destes 50 000 se pretende tenham vindo para o sul a partir do sistemático bombardeio americano do Vietnã do Norte. outros fatos. Mas o caso parece ser outro. No solstício do verão de 1966. muito mais surpreendente do que esta omissão é a inconcludência das estatísticas da infiltração. desde o início do ano4 (Este número. O argumento da invasão parece minado por sua melhor evidência. Resistimos a uma invasão: b) Tropas norte-vietnamitas estão lutando no sul. que teriam uma boa razão para lutar. é que nossa militarização do Vietnã do Sul estava em pleno processo pelos fins de 1954. mesmo na falta de maiores informações. A velha fórmula se repete: Quantos mais são os que morrem. se não é necessária.3 O que vem antes não pode ter sido causado. mais vêm lutar). frente a outros problemas estatísticos (as já faladas “mortes”. que agora ultrapassam as forças “invasoras” do Vietnã do Norte em mais de 6 para 1. Com todo o furor oficial. proclamávamos 31 571 “mortes”. Linha de argumento bastante forçada. No mesmo período. Um. é. Assim. Se a revolta é necessária ela virá. não haverá no mundo ordens capazes de instigá-la. O comportamento da Administração. por exemplo) não nos permite acreditar que a estimativa não tenha sido inflacionada para um maior efeito político. Por certo.

A primeira é de que é espúrio um exército pretender o status revolucionário nacionalista. assim como a Alemanha para a Tchecoslováquia de 1938. esta necessidade e esta correção. Ela dissimula duas suposições decisivas. A segunda suposição dissimulada no argumento da invasão é a de ser possível uma invasão politicamente comum entre o Vietnã do Norte e do Sul.Devemos repisar um pouco a estratégia política desta preocupação com tropas “estrangeiras”. com a confusão à Munich. se suas tropas forem estrangeiras. e correta bastante caso necessária. combateu e derrotou a frota britânica que protegia a retaguarda de Cornwallis. em apoio a nossa causa revolucionária. A lei serve ao poder. no terreno político. dizer que as revoluções americana e vietnamita são semelhantes. porque de Grasse perseguiu. É só para notar que a presença de tropas de fora. um dos quais pode agredir o território do outro. com canhões. isso não torna Hitler um revolucionário tcheco. mais tarde. Alguns tchecos apoiaram a Wehrmacht de Hitler. seja a divisão defensável ou não. Isto é. porém. nós americanos devíamos saber isso. porque o Almirante de Grasse prometeu navegar das Índias Ocidentais para desembarcar 3 000 soldados franceses. isso não faz de Tho um agente agressor. Relembremos que as tropas do General Washington eram superadas. Isto é. O Vietnã está hoje dividido. Relembremos os 3 000 cargueiros britânicos que os franceses ajudaram a pôr a pique. ou o estabelecimento de alianças. pelo número de seus camaradas franceses. que as duas metades do Vietnã estão uma para outra. Relembremos que Washington decidiu travar a batalha de Yorktown. isto é claramente incorreto. Não queremos com isso. Alguns terceiros partidos apoiaram a FLN de Nguyen Huu Tho. nada provam a respeito da natureza política interna do conflito. e. Espanha e Holanda. e indiretamente. Examinaremos muito de perto. ou a interferência em qualquer lado de estados do terceiro-partido. em James Island. certa 18 . em grande parte. em Yorktown. Relembremos em que extensão nossa própria revolução foi apoiada direta. o argumento pressupõe que há dois Vietnãs. comandados por Rochambeau. Relembremos nosso sentimento nacional por Lafayette. pela França. a Administração tem descrito o paralelo 17 a “linha de demarcação militar temporária” da Conferência de Genebra de 1954 — como uma fronteira nacional permanente. e que Washington venceu aquela batalha. Os Guerreiros da Guerra Fria podem argumentar que uma tal divisão é legal bastante caso seja correta. de todos os povos. separados e soberanos. permanece incorreto dizer. Porém. permanente pelo menos enquanto dure a Guerra Fria. é claro. em grande parte.

mas teriam que ser. O rei ficou indignado. é primitiva. dependentes da América do Norte. era dispendiosa demais e devia ser sustada: dever-se-ia garantir aos americanos sua independência. estaremos tratando este argumento muito seriamente de uma forma muito elaborada. O rei tornou claro para North que se a América obtivesse êxito. Se não formos capazes de conte-los aqui. Lord North chegou à conclusão de que a tentativa da Inglaterra para submeter os americanos já fora bastante longe. então esta Ilha seria reduzida a ela mesma e logo seria uma pobre ilha.ou erradamente. A descrição implícita da teoria. e os americanos em particular. pois. Em 1799. paranóica e mecanicista. “as Índias Ocidentais teriam de segui-la. no sentido pelo qual a demanda de mudança emerge e é moldada pelos acontecimentos internacionais. que os Estados Unidos achavam aterradora. a Irlanda em breve seguiria o mesmo plano e seria um estado separado. precisam tanto de esclarecimento. de todas as questões sociais realmente importantes a respeito das quais os ocidentais em geral. por seu próprio interesse. teremos que conte-los em algum outro lugar. Respondeu que a contenda americana era a mais importante em que jamais estivera envolvido qualquer país e censurou North por “pesar tais eventos ao modo de um negociante atrás de seu balcão”. com furiosa arrogância despreza o Vietnã e todas as outras peças do jogo como possessões do Mundo Livre (leia. não [para] a independência. prejudicados em seu comércio. só precisamos notar que sua versão popular dá como esclarecidas. 19 . ou limita a visão.5 Todo senhor de um império mundial desde então encontrou ocasião de desempoeirar o que agora chamamos a teoria do dominó. extremamente avançadas. Porém sua suposição mais importante ainda parece válida: o nacionalismo é uma traição ao imperialismo. sem dúvida. Pelo fim do IV Capítulo. Por agora. É a estabilidade mais importante do que a justiça social? Pode a mudança ser realizada dentro do status quo? Pode a aquisição ocidental de hegemonia econômica global coexistir com as justas aspirações dos pequenos estados? Pode o progresso daquela aquisição ser invertido sem violência? A teoria do dominó nada tem a dizer a respeito das verdadeiras condições e problemas que lhes dão a vida estropiada que têm. Pretende que não há de forma alguma indagações a fazer sobre nossas posições internacionais. os mercadores se retirariam com seus bens para climas mais favoráveis. estritamente devido a insistência dos Estados Unidos e estritamente porque havia uma revolução na China. North comunicou a George III estes sentimentos. e multidões de manufatureiros deixariam este país pelo novo Império”.

pedindo emprestado a Walter Lippmann e George Ball. um difuso. Mesmo quando nos tornamos críticos. comprovar-lhes. nacionalismo toma forma e apaixona. Não tendo sido dada chance a um bom povo de imaginar quem é seu inimigo e porque seu inimigo luta. o nascimento da rebelião e sua propagação. Que quer Ho Chi Minh exatamente? Le Duan é mais forte do que Vo Nguyen Giap ou Pham Van Dong? Que facções se degladiam dentro da FLN? Mao está vivo. a América permanece pouco mais que indiferente na serena ingenuidade de seu propósito. não lhe tendo sido dado tempo de pensar em meio às aturdidoras implicações de uma política externa que se enredou nele. segredos e profecias. põe fora da lei implicitamente a rebelião. Os “slogans” fazem também algo de mais sutil: fixam nossa atenção no próprio Vietnã. sem ser explicada ou debatida. uma política externa que Gary Porter. os jovens são convocados. nomes e datas? O que fará a Ásia? No entretempo. Geralmente. e estamos em guerra. Por meio destes “slogans”. com estatísticas. apregoando suas mercadorias ao dinheiro público. evoca as imagens de uma ameaça muito lendária. um executivo federal desenfreado. e. satirizar certas eminências-pardas e apiedarmo-nos de outros. aprofundar o sentido de Hoa Hao e observar a linha de Cao Dai. Porém os teóricos do dominó soam os tambores do anticomunismo. Nós. estas razões para guerra são pouco mais do que os “slogans” de uma campanha de vendas de mercadorias encalhadas. os heróis condecorados. E é preciso entender essa luta. convidam-nos a reencenar na solidão. seu desejo elementar de justiça. debatemos e debatemos. Tal luta envolve muito a América. negando implicitamente que os homens se revoltam pela causa humana. faz-nos acreditar que há um Portão e que o Inimigo está ante ele — ou prestes a estar. e às vezes leviano. os mortos sepultados.6 Desde “luta pela liberdade” até “detê-los agora”. Há uma luta no mundo. sendo dominadas por nós são nossas para que percam. americanos. (senão) diabólico. o coração da pátria é aquecido para o sacrifício. em aturdidor contraste com este problema para um cálculo não descoberto. estes “slogans” manipulam nossos pensamentos. como um todo criminoso. Mesmo os críticos não discutem muito a idéia de que justiça é o 20 . laborar nos significados sutis de tratados e suas cláusulas.Estados Unidos) as quais. moribundo ou morto? Que novas formas tomará no futuro este confete de estatísticas. denominou com justeza “globalismo — a ideologia do envolvimento do mundo todo”. sempre tragados de novo por aquele turbilhão do Sudeste Asiático. como se a única parte difícil de sua política no Vietnã fosse a tarefa puramente técnica de aplicar à turbulência da Ásia.

vezes sem conta. por Stálin em 1945 do que por Hitler em 1940. do que para dissipar. ao exame cada vez mais acurado do quebra-cabeças do Vietnã. nas décadas de vinte e trinta. Basta apenas recapitular as duas últimas décadas. dedicamse. a exausta União Soviética também se sentiu ameaçada. Iugoslávia e França havia personagens poderosas que por certo não se satisfariam com a derrota do Eixo e em voltar à ordem social de pré-guerra. aprofundá-lo e usá-lo. a ideologia política dominante da América. O que é que o bom Guerreiro americano da Guerra Fria deve ver atrás da propaganda? O que o persuade a enganar outros americanos? Por que o Secretário Rusk. convencida de que fora oferecida em sacrifício à Wehrmacht por meio da política de apaziguamento de Chamberlain. O assunto básico de uma análise política séria do Vietnã é a América. Condenada pelo Ocidente desde os primeiros anos de sua revolução. parecia. as vigas-mestras das instituições sociais. estava o Partido Comunista. De seu lado. uma burocracia internacional centralizada. talvez mais ameaçadoramente. colocada no ostracismo em relação aos negócios políticos e econômicos da Europa. Queriam mudança social. vítima de uma intervenção militar ocidental maciça. homens bons. Ela vencera estas guerras simultâneas tão só para ver aqueles valores ameaçados outra vez. enganados em nossa escolha dos beneficiários vietnamitas. Turquia. que não é tolo. Grécia. Os Estados Unidos viam o Comunismo Soviético como ameaçando a Europa com outra longa convulsão revolucionária. cujos elementos europeus estavam sob a disciplina de Moscou. Itália.que a América deseja. guiados nessa recapitulação pelos raciocínios mais lugar-comum do anticomunismo da Guerra Fria. vergastada internamente durante quatro anos pelo assalto do poderio de Hitler e sem auxí21 . sua duradoura e aparentemente bem fundada desconfiança mútua. que só prolongou e adensou os horrores de sua guerra civil. quase por toda parte. A guerra longa havia quebrado. instruídos. Dois inimigos se defrontavam por sobre uma Europa devastada. Pensemos em 1945. Na Europa Oriental. A América derramara seu sangue e tesouros pela Europa e Ásia. Em vez disso. ou não. A aliança de guerra fizera talvez muito mais para aprofundar. tentando. o melhor meio de provar a alguém se nós fomos. para preservar certos valores e instituições e uma concepção de sociedade que simplesmente não eram sem interesse para ela. Isto é errado. No centro do desespero da Europa. “continua a dizer isto”? Isto pode ser respondido.

via o ajuntamento calculado em suas fronteiras políticas de uma aliança militar totalmente envolvente e a crescente influência. lançara as bases de uma diplomacia ocidental sustentável: comunismo não era fascismo. Foi transfigurada. suas principais cidades fumegando e suas terras aráveis devastadas.. de que aqueles cinco anos de guerra mostrar-se-iam mero prelúdio daquela. ela olhava através daquela Alemanha cuja invasão tinha tão custosamente repelido. justo quando a Alemanha nazista estava para cair. o famoso artigo “X” de George F. ele não afirmava a inevitabilidade de conflito nacionalista. Kennan. dentro da Europa Oriental. segundo as palavras de Franz Borkenau. E o horror da Rússia deve ter sido pelo menos tão grande quando observava a Nova Alemanha surgir viva com aço e armas. Por volta de 1950. a que precisava ser travada para fazer o mundo todo seguro afinal para o capitalismo democrático.. dos mais audazes advogados da “volta atrás” e “libertação”. sua indústria arruinada pela guerra e seu povo confuso e paralisado com o sofrimento. no campo de sua inimiga. precisava 22 . porém. Polônia e Hungria ficaram de pé só para serem subjugadas. A guerra que não aconteceu tornou-se um modo de vida. Em 1947. levado a efeito por Churchill. este mais poderoso do que o primeiro.lio pelo atraso do segundo fronte. mesmo o mais desinteressado e inocente aprendeu como viver em alerta.. o Ocidente democrático observou horrorizado como a Alemanha Oriental. De ambos os lados da fronteira. A despeito da camaradagem da Grande Aliança. seriam permitidos. antes. Os ajustes de Stálin. à catástrofe total não só para o regime terrorista. O Ocidente colocaria seu próprio ferro através da cortina e esperaria sua oportunidade.. mesmo legitimados. não se considerava comprometido com um horário para a conquista. convencido. mas também para a nação governada por ele. as linhas territoriais da Guerra Fria Européia tinham sido convenientemente acertadas pelas duas potências magnas. tão só para ver outro inimigo. fatal e “histórica” das guerras. E correu pela Europa o rumor. em documentos oficiais — pelo menos por algum tempo. portanto. para construir uma zona tampão contra a agressão de uma Alemanha reconstruida. de que “a lei interna do terror stalinista [deveria] conduzir a Rússia de Stálin. com mais de 20 milhões deles mortos e cinco vezes este número aviltados pela ocupação nazista. a mais fundamental. quem desconhecia o que estava para vir? Mas a guerra russo-americana não foi travada. a inevitabilidade da decadência capitalista autoprovocada.”7 Pela década seguinte.

porém talvez 1962 seja. a América aceitou. em termos talvez condicionais. a nuclearização da Alemanha Ocidental por nós. aparentemente sem grande preocupação. pelo menos. e de uma política externa americana. É difícil fixar uma data para o que não é um evento. Foi naquele ano que se tornou inegável um equilíbrio de poderio estratégico Oriente-Ocidente.tão só levar em conta tempo e lógica econômica para fazer seu trabalho. impedir negligência e oportunismo. já que os marxistas estavam errados. surpresas muitas vezes. Era apenas importante permanecer em vigilância. Certos duetos-chave foram cantados em certos cemitérios: Em abril de 1947. as leis de economia. Hoje. Mas. Não era preciso guerra preventiva. sob certos aspectos. que pode mesmo ser pilhada a lançar olhares furtivos para a União Soviética como uma possível mediadora 23 . também. a grosso modo. e a onda do futuro. era paciente. somos as testemunhas. um divisor de águas. em tempo de guerra. a humilhação da prova decisiva dos mísseis cubanos. O capitalismo podia muito bem tomar conta de si. e que os chineses desfecharam seu maciço ataque ideológico contra a União Soviética. em comum acordo estavam para acertar o limitado tratado de proscrição das provas atômicas. recolocar a linha de demarcação. igualmente bizarra segundo os padrões da Guerra Fria. no começo de 1948. que pode aplaudir os soviéticos por seus êxitos diplomáticos em Tashkent. e ambos os lados. que os russos haviam empurrado. numa mensagem-relatório ao Congresso [State of the Union message]. persuadido de que a maldade do outro lado cegava-o para as lições da história. que pode propugnar abertamente. os fatos da natureza humana. a direita húngara ficou com as consequências. era possível dizer que o metabolismo da Guerra Fria mudara. o Plano Marshall atraiu a Tchecoslováquia de uma órbita para outra. e em maio. o cauteloso entendimento dos nossos próprios dias tomava forma. e sim um processo. E de crise em crise. Assim o Ocidente capitalista devia ser paciente. por maior comércio com o bloco vermelho europeu (oferecendo mesmo a estes países tratamento de nação mais favorecida). a Doutrina Truman condenou a esquerda grega. Naquele ano os soviéticos aceitaram o que parecia ser. a permanência da revolução cubana. e o golpe vermelho de fevereiro seguiu-se como um reflexo. cada lado pelo menos pretendendo permanecer confiante na vitória final. nossa violência crescente no Vietnã e nosso roubo dominicano. para sua posição primitiva e assim mantê-la até que a tolice comunista finalmente se refutasse a si mesma. de uma política exterior soviética que pode tolerar.

O relacionamento não mais se define por sua ira e incertezas.L. Na União Soviética não mais se antecipa todo dia o Grande Colapso Capitalista: as heresias de Eugene Varga na metade da década de quarenta transformaram-se tranquilamente nas ortodoxias da década de sessenta. Em geral. Com a União Soviética nós fomos do confronto hostil à détente. comparada com a Rússia. insultou com acinte os economistas marxistas em seu antro. A Guerra Fria européia não mais encontra russos e americanos se observando pelas miras de fuzis. quando esta mesma União Soviética empreende o aparelhamento bélico de nosso inimigo norte-vietnamita. Permitem-nos pensar que Brejhnev e Kosygin são capacitados técnicos burocráticos. ameaça militar aos Estados Unidos. O encontro militar direto é temido e evitado igualmente por ambos os lados. Tudo isto está evidentemente muito de acordo conosco. e promete na conferência Tri-Continental de Havana.C. não diz absolutamente nada. Em vez disso. base ou porto em terras estrangeiras. de forma alguma. em nome da motivação do lucro. Sua amargura perdeu a intensidade. tornou-se embotada pelas garantias mundanas de uso diário. as crises são atribuídas a elementos extremados em vez de a estados-maiores. uma potência. uma espécie diferente dos diabos da véspera.8 E. faz as mais enérgicas e efetivas incursões diplomáticas em nossa esfera asiática de influência. talvez em perfeito acordo sobre a questão da China. por trás disso. faz quase nada pelos vietnamitas. Congratulamonos mutuamente de forma rotineira por nossas explorações supercientíficas na proclamada vizinhança não política da lua. A respeito. tivemos a experiência de programas de ajuda virtualmente integrados no Afganistão e Índia. Contam-nos como um professor Libermann. pois temos alguns sinais de que uma Propaganda Avançada está em curso. Estamos em solidariedade declarada na vexatória questão do Kashmir e.em um acordo com o Vietnã e que. entrementes. mas faz discursos. jamais 24 . é evidente que nossos próprios cognoscenti políticos receberam um novo aviso. e que não representa. num movimento tortuoso. Nossa cólera está agora reservada para a China — a mesma China que. não tem um único soldado.9 Foi encontrado evidentemente um substituto para a guerra. Sulzberger de The New York Times — uma fonte de informação privilegiada — indagou se a animosidade soviético-americana explícita não se tornou tão só uma fachada para uma aliança implícita mais importante. fornecer armas aos revolucionários latino-americanos. para ser exato. e às vezes a gente imagina se não há algo ainda mais surpreendente no ar: uma lenta convergência de objetivos políticos.

você chega a certas conclusões racionais. uma vez que aquilo que uma guerra poderá ganhar é. largamente sustentado. Isto não foi mera renovação da política de esfera-de-influência do século dezenove.* Esta premissa tem de ser estabelecida. O objetivo agora foi ideado como “controle de conflito”. sem dúvida. Uma vez que você toma consciência disto. pode-se generalizar nossa experiência ali em termos de uma teoria de contrôle-de-conflito. sob qualquer aspecto. não há uma exposição definitiva. às vezes. e também exibindo esse poder ante os olhos das imprudentes que não podem mal interpretar a mensagem: Você pagará caro qualquer loucura. Em nosso tempo a política perdeu sua teologia. de que os objetivos. que consiste em quatro proposições básicas. pág. * Por exemplo. são o evitar a guerra e a criação de uma sociedade global estável em que predominem os valores liberais. torna-se essencial para as nações sábias gerar a consciência desse fato entre as imprudentes. cada lado deve se colocar no ponto de vista de que a guerra global é um meio insatisfatório para assegurar objetivos globais. nações pouco sábias podem não entender isso. O fato de a guerra aparentemente predestinada não se ter travado é talvez o que agora nos intriga. de Stewart Alsop. A força. Porém. mutuamente interinfluentes. Como manejamos para conseguir isso? Que sorte ou sabedoria reduziu a problemático o inevitável? A improvável o problemático? Acima de tudo. As posições tornaram-se negociáveis. ) 25 . Porém podemos partir do raciocínio. Primeiro. sem dúvida muito menos do que ela com toda certeza perderá. As demandas de poder lentamente perderam seu status quase metafísico. e os antagonismos condicionais em vez de absolutos. as palavras do Secretário McNamara: “Agora o povo toma consciência do que dificilmente alguém perceberia cinco anos atrás — de que é impossível vencer um embate nuclear total. 21 de maio de 1966. mais a verossimilhança de seu uso.se propôs entender-se claramente sob novos aspectos. podemos nós desvendar os segredos desta alquimia que mudou túmulos em abrigos de proteção antiaérea. 30. As sábias fazem isto elaborando poder militar. tornou-se secular e pragmática. as atitudes mutáveis.” (Citado em “His Business is War”. ser explicadas de várias diferentes maneiras. Pela dedução de que a perseguição destes alvos está nitidamente menos obstruida na atual détente européia. e abrigos antiaéreos em casas? As intuições políticas produzidas em nossos estadistas por vinte anos de Guerra Fria européia podem. cujo alvo era a dominação. Saturday Evening Post. Assim. propôs-se sim a aceitar sob novos aspectos a existência de outra potência.

é através do processo de definição e garantia de segurança de trégua que as potências rivais armazenam informações uma sobre a outra. Acuramos a sensibilidade para seus problemas internos especiais e começamos mesmo a possuir favoritos dentro de sua casa. lealdade tribal. mas entendemos. durante esta fase. o mais importante é o que se passa em silêncio entre os dois lados. irregular. Segundo. Ocasionalmente vemo-lo retornar ao templo de seus mitos nacionais e lá representar em benefício das massas insuspeitosas — e daqueles ascetas de vista estreita. mas que permanecerá território proibido para a principal potência oposta). os generais — o eterno drama de seu patriotismo. heroísmo. os dividendos desta paciência são que os interesses comuns. a quieta e inapregoada consciência de que esta experiência de adversidade é compartilhada. Finalmente. Ouvimos palavras ásperas. é claro. pode-se permitir que caia uma posição de nosso próprio lado da linha. Somos todos homens do mesmo mundo. O estabelecimento e manutenção desta linha são matérias de alta prioridade. de fato. Em quase todas as circunstâncias. Talvez. O Comando Estratégico do Ar não pretendia ser irônico quando elaborou seu lema “A paz é nossa profissão”. Esta experiência gradualmente constrói um fulcro para um novo equilíbrio de confiança. Deve-se estar preparado mesmo para ir à guerra para mantê-la intacta. (As duas crises cubanas podem significar que em algumas regiões geopolíticas. ele está a proteger seu orçamento. Começamos a aprender como dançar com ele. tão necessários a relações mais produtivas. e começam a criar um sistema de comunicação — inicialmente. desenvolvem e habituam-se a um “modus vivendi”. amplo e seguro. Em suas ações reconhecemos nossos motivos. O outro lado deve entender isso. nossos nomes de permeio. uma linha global de trégua precisa ser claramente traçada. Começamos a conhecer este nosso inimigo. Começamos a confiar nele e a não esperar demasiado. Há uma fé subjacente de que os homens serão capa26 . não convencional e não digno de confiança — que com o tempo se torna mais fidedigno. de que o que assusta os diplomatas de uma nação assusta os de outra. neutralizando um oponente. que torna todas as nações pacifistas e cria tempo e espaço para manobras diplomáticas. certas ameaças e acusações começam a ter um estilo periódico. terão tempo para incubar.tem como resultado poder dissuassório. Este é o ponto crucial da compreensão distintamente liberal da política de potência. nenhum objetivo é tão importante como sua proteção. pugnando pelo poder. Terceiro.

por causa disso. assim com o Japão e a China no Pacífico. o Mar Amarelo. Voltem-se agora para a Ásia à luz desta sabedoria. mas. Vezes sem conta. Tal como interrompemos nossa quarentena da Rússia para fazer causa comum contra a Alemanha nazista. Não é visão desagradável. resistiram-lhes e controlaram-nos. em ambos os lados. Se a história é uma interrupção da guerra por tréguas. um cessar-fogo e manter-posições. Deve haver uma calmaria entre nós. apareceram oportunidades que tentaram ambos os lados no sentido de romper o encanto artificial. então. o Mar do Japão. Tal como nosso principal inimigo europeu tornou-se na derrota nosso principal amigo. uma suspensão daquelas forças que mantinham a roda em seu triste movimento. há ainda outros que enfraquecem quando as tensões são grandes. os homens-chave. proveitosamente. por sobre o Estreito de Formosa. ou se é a reconfiguração contínua de fronteiras e o conjunto de poder que elas representam. Porém. começa a haver uma chispa de esperança. Tal como cooperamos com as outras democracias ocidentais. em troca. em que a história cessará de repeti-los insistentemente. pode-se imaginar-se assim — sugere um meio pelo qual a previsão pode ser realizada em toda parte: Cuidem-se para não haver grandes guerras. por certo. assim tentamos (e com mais empenho) anular a Revolução Chinesa. 27 . assim tentamos combinar os exércitos comunista e nacionalista chineses para ação comum contra o Japão fascista. de um jeito ou de outro. Em ambos os lados. aprendam várias coisas um sobre o outro. parem de sonhar sonhos apocalípticos. E. esta chispa de esperança. um crepúsculo dirigido em que o movimento é restringido.zes de trabalhar juntos. e nosso principal amigo de tempo de guerra tornou-se na vitória nosso principal opositor. então a Guerra Fria é um tempo em que não acontece história. Há de haver um tempo. na tentativa de fazer voltar atrás a Revolução Russa. há aqueles que vivem em um estado de perpétua. desde que escapem aos santo-e-senha do passado humano. nestes vinte anos. não há dúvidas. desenfreada entrega a esta tentação. Talvez haja mesmo um pouco mais de esperança do que merecemos. parem de pregar o milênio. olhem de frente o fato de que o futuro não é propriedade privada de uma nação — e assim façam a paz. tracem claramente na boa e honesta argila do mundo uma linha que não se violará nem se deixará violar. Assim mesmo parece haver algo familiar na situação. Somos inimigos. A China Vermelha e a América olham-se ferozmente através do Pacífico — melhor. na supervisão conjunta dessa linha. o rumo das relações soviético-americanas a partir da II Guerra Mundial — pelo menos.

no Congresso. houve um crepúsculo político no mundo. 28 . Foi aplicado o primeiro princípio da sabedoria européia: Não travaremos guerra com a China. e acalentando uma feia vergonha por haver falhado. mas gradualmente encontramos sua Gestalt. deveria ser tratada da mesma maneira. nos anos da Guerra da Coréia. mas não fazemos um movimento para intervir: o Tibet se torna a Hungria asiática. Pequim pode confiar que não faremos movimentos súbitos contra a metade norte do Vietnã. fragmentada de maneira pior. ante este teste Rorschach geo-político. Queimaram-se reputações num exorcismo de extinção lenta cuja recrudescência parece permanecer uma possibilidade permanente entre nós. é a única esperança que temos de que o povo chinês daqui a umas décadas possa. Em alemão no original. * Gestalt — figura. e cautelosamente fez-se desaparecer a Guerra da Coréia. a causa primária sendo (com a Rússia também?) por seu exército ser tão grande e sua terra tão vasta. algum tempo. foi retirado o General MacArthur. Por volta de 1954. eles de lá. espalhada por todo Pacífico. Chiang Kai-shek continua presente. é certo. por fim. Porém. mas que não haja perturbações na Tailândia. Deixe-se o Cambodja “inclinar-se para um lado” em seu neutralismo. pessoa. da Coréia ao Paquistão Ocidental. Discordância era heresia. no Departamento de Estado e um anticomunismo militante. finalmente. Não deve ser cometida violência contra esta linha. Aguentamos daqui. faça-se com que não haja incursões neste limite.* fomos capazes de discernir sua forma e significado. Nós nos angustiamos pelo rico clero dominante do Tibet. fizemos frente. Para provar que pensávamos o que dizíamos. estávamos copiando na Ásia nossa política européia. Deixe-se o governo socialista de lá fazer o que pode de suas oportunidades. Só a Coréia permanece dividida. A Europa Ocidental asiática era. apertar as mãos do povo americano. Devemos aniquilar a China Vermelha? Ou deveremos ter também uma Guerra Fria asiática? Por um curto lapso. A China era exatamente outra Rússia. presença. do Japão à Nova Zelândia e se esticando ao longo da borda do continente. mas tolhido. a uma questão quase igual à questão européia de 1946. bastião por bastião. Estonteamo-nos perplexos. Agora devia ser estabelecido o segundo princípio: Tinha de ser fixada a linha de trégua. Esta linha deve ser mantida. Nem deve esta linha representar uma divisão injustamente unilateral. O auge do debate da China coincidiu com um pietismo vingativo a respeito do Mundo Livre. Mas. tratado por tratado.De novo frustrados em nossa segunda tentativa de uma contra-revolução de grande porte. nos vimos de posse de uma Guerra Fria do Pacífico.

força organizada de negócio público ou privado. Pensa que sou idiota?” Informamo-lo de que seus bombardeios no campo e o abandono de bordel nas cidades estão devastando aquela nação. poderá com facilidade haver uma détente asiática também. Ao Guerreiro da Guerra Fria. devemos desculpar sua exasperação com a China e o movimento de paz americano. poderá dizer a nós. afinal.* onde. por uma psicologia conhecida. e que aquela matança física e cultural.Aceita esta linha. Talvez ele deseje dizer: “Nada mais óbvio. Sei disso. de tua participação nas conferências de desarmamento. contudo. ) 29 . e prefere a vida à morte. ao mesmo tempo. ninguém tem direito algum de concluir que ele fique menos angustiado do que outro homem pela visão de terra escalvada. do T. aparelhamento. críticos. — (N. cuja sociedade era. por algumas razões. os informamos de que sua guerra não está ajudando os vietnamitas. de um arranjo econômico um tanto mais livre com nossos pupilos industriais no Japão. talvez nos respondesse: “Claro. este dialético da Guerra Fria. Não se precisa recordar -lhe a carnificina no Vietnã. Muitos de sua espécie viram-na muito mais de perto do que jamais a verão os insangrentos “peaceniks”. que encara os negócios asiáticos deste ponto de vista. Luto com este problema dia e noite. e poderemos começar a falar de outros assuntos — de doutores e jornalistas permutados. uma vez que establishment indica: sistema. supomos ser melhor a visibilidade. lugar de residência ou negócio com sua área. Ele é. Até ser aceito o fato. e mesmo de teu ingresso nas Nações Unidas. Mas com um pouco de paciência e habilidade. é que a linha de trégua na Guerra Fria asiática não deve ser rompida. Mas é isto. madura e um milhão de vezes mais integrada do que a do Vietnã? Não temos nós um precedente perfeito na Coréia? Esta fina fatia de um país que tem sido dividido a maior parte de sua vida — uma vez em três partes pelos franceses e. Mas por que não vê”. tem filhos e filhas. um homem. carne queimada e tortura. há pouca utilidade em conversar sobre o futuro. corpo de empregados. Não estivesse ele engasgado com a pretensão oficial de que a mesma está ajudando. nós. afinal. China Vermelha. do lado de fora do Establishment. Por certo. na verdade. críticos. A condição intocável de qualquer prospectiva. só faz com que mais vietnamitas tornem-se comunistas. antes. haverá dificuldades. mais do que a história exigiu dos alemães. “que a China Vermelha tem que se submeter à divisão do Vietnã? Claro que isso é difícil de aceitar para muitos vietnamitas. em centenas de partes por seus próprios senhores-da-guerra — é sua presente divisão * A palavra portuguesa estabelecimento não corresponde por completo. De nosso posto de observação.

da Colúmbia University. a criação da estabilidade.temporária um preço na verdade tão alto a pagar. pode haver agora uma resposta muito intrigante.” O objetivo foi estabelecido por Zbigniew Brzezinski. mas aqui em casa temos também de proteger os miolos moles de vocês que querem uma paz impossível e aqueles cabeças-duras lá adiante que querem uma guerra inimaginável. e a ordem internacional necessita. se em troca dele nós entregarmos a estabilidade na Ásia? E se o preço da recusa da divisão é a corrosão daquela linha de trégua sobre a qual edificamos todas as nossas esperanças de uma reconciliação Oriental? “Sejam realistas”. no fundo. em tornando a paz prática. diretor do Instituto de Pesquisa sobre Negócios Comunistas. Os soviéticos aprenderam mais dolorosamente essa lição em Cuba. sensível à história do Vietnã.10 Alguns de nós objetam: Você não provou que esta guerra do Vietnã é culpa da China. para um tal argumento. consultor do Departamento de Estado para planificação política. a causa do ajustamento internacional. Ninguém. mas eu creio que a causa da paz. Porém. Longe disso. e acontece que a história está toda contra nós. Essa lição ainda está para ser aprendida em muitas partes do mundo. antes de tudo. uma revolução. diz para nós idealistas. pode jamais duvidar disso. primeiro. na era nuclear. e a estabilidade na Ásia não será alcançada pelo não envolvimento americano ou pela expansão chinesa. Esta guerra no Vietnã é. a causa da reconciliação global. a despeito de nossa política de libertação. Ainda agora. “Este não é de forma alguma um mundo perfeito. não só desafiando a China e estas guerrilhas vietnamitas escandalosamente persistentes. na fronteira de Yunnan. Estamos fazendo tudo que sabemos fazer para mudar o destino do homem. Refreamo-nos de fazer isso na Hungria. e vem. mas do torpe feudalismo colonial daquela sociedade. não do comissariado de exportação da China. dizemos. 30 . requer. Fazemos isto. a acusação mais grave se refere a alguns aviões voando de Hanói e a uns poucos mil técnicos que só consertam estradas bombardeadas pelos americanos. nenhum lado pode mudar o status quo político através da força ou através do desafio direto a outro lado. Só podemos criar a estabilidade internacional se todas as grandes potências no mundo aceitarem o princípio de que. e um dos mais destacados estudiosos de nossa Guerra Fria: O longo caminho para a moralidade internacional passa pela criação da ordem internacional. da criação da estabilidade internacional.

é sua incapacidade para julgar o grau da influência de Hanói sobre o Vietcong. sob o arrasante peso do arsenal americano. com frequência insinuada. não que Hanói comandou e está dirigindo o desempenho de um títere no sul. mesmo se o desejar. de The New York Times. Não seria que a China tem culpa direta nesta guerra. Juntemo-las. em vez de ser revolucionária. ainda que suas falas demonstrassem fúria. Bernard B. pela pura alegria de ser ajudado. pode Hanói achar a tarefa difícil. que não inspira confiança”. Tendo já liquidado o movimento de guerrilha duas vezes.12 E sobre o mesmo assunto. Há dúvidas entre muitos observadores se a aparente intransigência de Hanói não esconde de fato sua relativa inabilidade em “entregar” a FLN de mãos e pés atados em uma problemática mesa de conferência. e quando Taylor se mostra cético outros devem estar fortemente descrentes.13 A segurança da linha de propaganda oficial de invasão-vinda-do-norte requer discrição oficial a respeito. Durante a “ofensiva de paz” da estação de férias 1965-1966. o altamente respeitado Max Frankel.. “Para Hanói”. meramente cumprindo a decisão final de um longínquo aparelho partidário. é só um novo modelo de força invasora. não que a FLN. Fall: Não se luta por oito longos anos.. não que Hanói age sob ordens diretas de Pequim. e torna-se claro que o Estado-Maior deve muito bem sa31 . mas não sabem se o Vietnã do Norte pode negociar um fim das hostilidades. jamais provada. O ceticismo se estende também àquele outro elo. em 1954 e 1956. esclarecia de Washington: Ainda mais surpreendente para os oficiais. bem como ninguém luta para algum burocrata em Hanói. se não de todo impossível. mas ocorrem escorregadelas. aqui. Julgam ser essa influência muito considerável em termos militaristas. por fim. declarou ele aos Rotarianos de New York.É importante deixar antes claro o que a resposta não seria. “a China é o inimigo tradicional. Maxwell Taylor foi ainda mais explícito a respeito da alegada relação senhor-títere entre a China e o Vietnã do Norte. agira muito “conservadoramente” e com grande “coibição”. No primeiro ponto temos a evidência indireta da palavra repetida do Secretário Rusk de que a China. no início de 1966. o que de ordinário se vê entre Hanói e os rebeldes sulistas. napalm.11 Isto significa que ele é pelo menos cético a respeito da teoria de custódia. bombardeiros a jato e. gases vomitivos.

em que o povo nada mais tivera senão miséria e injustiça. — (N. por má sorte. o mais categorizado companheiro de Mao Tse Tung”. Se Ho é Benedict Arnold* — uma estranha idéia — então quem é George Washington? Podíamos sentir-nos tentados a especular sobre um certo texano. “Os comunistas soltaram uma idéia revolucionária no Vietnã”. traidor (1741-1801). “Ele pensa. por certo. Ele e seus superiores. enquanto o emprego de tropa se acelerou e a carga de guerra cresceu em milhões de toneladas e nossos programas de “reforma social” persistiram em seus esforços de enriquecer os ricos.) 32 . A idéia foi muito bem explicada por um dos diretores do campo. esclareceu. Idéias não morrem desse modo. de fato. publicara um relatório grandemente revelador no Foreign Affairs. já há anos. o General Edward Lansdale. sob orientação da CIA em Vung Tau. nosso ás da contra-insurreição e uma das figuras-chave de nossa equipe do Vietnã. bombardeada ou sufocada por nós.ber o que os batedores sabem: Defrontamo-nos com uma revolução. A mais flagrante evidência disso é o termo-nos convencido de que devemos pôr em campo uma força rebelde própria. Assim atendem aos comunistas. bem antes disso. Capitão Le Xuam Mai. cerca de 42 000 “quadros revolucionários” vêm sendo treinados por uma guarda avançada.” Tudo que Lansdale parecia. “Ela não morrerá pelo fato de ser ignorada. do T. O alvo dos quadros que estamos treinando aqui é justa* General americano da Revolução. disse: “No sudeste da Ásia. Jacques. Num país atrasado como o Vietnã. não com uma invasão. Em fevereiro de 1966. número de outubro de 1964. tinham “chegado à conclusão de que o povo do Vietnã está entregue à revolução. o Embaixador Lodge. escreveu ele. pôr na servidão os pobres e modernizar o feudalismo oligárquico do Vietnã do Sul. por exemplo. acontece ser o velho refúgio francês de Cap St. Para este fim. é que eles estão destinados a traí-la: “A tragédia da guerra revolucionária do Vietnã pela independência foi que seu “Benedict Arnold” teve êxito. em Ho Chi Minh. está ele preparado para ouvir quaisquer promessas de uma vida melhor.”14 Porém. a única gente que vem fazendo alguma coisa com referência ao homenzinho da plebe — para elevá-lo — tem sido os comunistas. Não tiveram alternativa.” A máxima profundidade oficial sobre esta guerra é constatar que a mesma é “política” e não militar — profundo discernimento que nos tem sido explicado ano após ano. que. mas Lansdale cortou a esperança: “Os vietnamitas necessitam de uma causa e nós não a propusemos. ter contra os comunistas que soltaram esta revolução.

A explicação foi que Mai era insuficientemente leal e por demais rápido em acusar o governo central de corrupção e de indiferença para com o povo. então. e através desses meios espera-se que “agarrem a revolução” tirando-a da liderança da FLN. são exercitados em sessões de autocrítica de grupo. A resposta deverá simplesmente ser: Então e daí? Ora. A China é a ameaça. tal como a FLN? De graça. quer esta revolução seja uma cópia intencional ou acidental da política da China ou a coisa em si. é este: Se os chineses controlassem Hanói e por meio de Hanói a Frente de Libertação Nacional. tem que reagir aos acontecimentos. tal como a FLN? Dirão também eles “O Vietnã para os vietnamitas”. a seguir? 33 . iguais aos da FLN.mente esse — realizar as promessas dos comunistas. Descrito por Saigon como um “nacionalista de terceira força”. Quer enfrentemos no Vietnã uma réplica ou uma extensão da vontade chinesa. igual a FLN. as quais os mesmos não estão desejando manter!15 Os deslocamentos psicológicos que esse programa cria devem ser enormes. exato ter o Camarada Mao feito uma decisão secreta anos atrás e passado a mesma através das portas montanhosas da Província de Yunnan para as mãos de Ho Chi Minh. O fato muito claro. O aparecimento de seu espírito dentro da zona proibida. onde os velhos fuzis Vietminh aguardavam ansiosos o grande sinal de fogo. Mai foi dispensado e Saigon tirou o projeto Ving Tau das mãos da CIA. Assassinarão eles também os odiados chefes de aldeia designados por Saigon. que a enviou para o sul a um quartel-general secreto no interior de Nam-Bo. no lado errado da linha global de * Após ter sido escrito o meu texto. e combaterão os novos cara-pálidas altos para provar o que querem dizer? Então quem é o inimigo? Quem é o amigo? De quem são os pijamas pretos que o Capitão Mai está realmente usando?* Deixando de lado tais quebra-cabeças devemos pelo menos ter encontrado um quadro diferente das convicções de Washington sobre a guerra. acontece que isto não importa! A política americana não pode agir segundo especulações sobre estruturas de cadeias-de-comando. tal como a FLN? Expulsarão eles os grandes latifundiários e distribuirão suas terras entre os lavradores. não faz absolutamente diferença nenhuma. ensinados a montar governos de aldeia. Onde será descoberto Mai. Pode na realidade não ser. Estes “quadros revolucionários” nossos usam pijamas pretos. aconteceu que o pijama preto era o dele mesmo. tal como a FLN. como a FLN. sobre a matéria. então a situação no Vietnã apresentar-se-ia exatamente como a de agora.

. então Subsecretário de Estado disse: “Um foco principal da luta [Oriente-Ocidente] foi deslocado recentemente da Europa para a Ásia. menos certeza sobre as tendências e inclinações das forças diplomáticas do outro lado no sentido de serem mais cautelosas.trégua. A China deve aprender a fazer garantias similares. à moda chinesa genuína. ou tão só provocar alguns bons estouros de sabotagem junto a ele. os meios pelos quais pode ser manejado o conflito deixam de existir. começou a ter um interesse no status quo. e os estadistas enfrentam um ambiente imprevisível. mostra-se quase um ato diplomático de raro brilho. Sem tal controle. esta guerra permanece indistinguível da guerra que os chineses querem. por exemplo. talvez. mas não irá mais longe. O propósito da contenção violenta da China Comunista é induzi-la a uma mudança similar em sua perspectiva. a qualquer tempo e através de quaisquer meios. ao contrário. Chang roncará de barriga cheia em Taipeh. Mas em 30 de janeiro de 1966. tendo se tornado poderosa. em nome da paz. que a China cometa o crime expansionista de que é acusada. queixa de que mesmo que a China não controle Hanói e a FLN. no que foi descrito com um “magno” discurso sobre política externa. se torna essencial. Com toda sua velha amargura para com a Alemanha Ocidental. a União Soviética sem dúvida ficaria horrorizada ao descobrir um complô na Alemanha Oriental para ir além do Muro. Menos controle significa menos estabilidade e portanto maior perigo para todos. 34 . mas não obstante inteiramente razoável. Nós garantimos isto. em aspiração e em efeito. restritivas e impacientes. falar das “origens” históricas da guerra é politicamente frívolo. porque a União Soviética. Esta é a saída no Vietnã. Para um grande estado é indesculpável não deter o controle sobre os estados confederados menores. Isto nos conduz à inesperada. George Ball. Em substância. Por certo isto soa por demais maquiavélico.. A política de manutenção da paz da Guerra Fria torna essencial às grandes potências controlar os acontecimentos dentro de sua esfera de influência. uma tentativa dissimulada de estender uma autoridade chinesa responsável ao Vietnã do Norte e sobre os partidos comunistas ao sul. E a recusa americana em aceitar a FLN como o agente responsável nesta guerra começa a não aparecer de todo tão obtusa. tem de ser recusada. Por isto estamos lutando. A consequência é que deve ser tratada como se fosse uma guerra chinesa. Assim pois. Portanto. Vale o mesmo para nós: Park ficará muito bem estabelecido na Coréia do Sul. pois esta recusa é. permanece contudo verdadeiro que ela poderia os estar controlando.

Paquistão e Índia. estavam-se guerreando mutuamente com armas e suprimentos de manufatura americana. Ou a China não percebeu a mensagem. ou (b) que a China. ou percebeu-a e nada pode fazer a respeito. aquele velho e verdadeiro estudioso que conhece todas as regras. O mediador natural de uma disputa entre eles seriam os Estados Unidos. Examinemos a esta luz a questão do Kashmir em 1965. da ajuda econômica e militar americana. se não os Estados Unidos. A Rússia. percebeu-a mas prefere ignorá-la. quer os controle. então as Nações Unidas. À China. Tendo se mostrado ineducável. tem a responsabilidade básica por seu comportamento. O que nos deixa a segunda. foi dada oportunidade sobre oportunidade para se demonstrar uma potência mundial realística e responsável — indício atrás de indício cuja significação ela é ou por demais inexperiente para entender ou por demais insana para aceitar. Informar a China de que ela é responsável por estes acontecimentos vietnamitas é quase abertamente pedir à China que exerça o controle sobre aqueles que os fazem. Talvez a Inglaterra também considerasse a questão delicada demais. Ambos os beligerantes.16 Ninguém combateria rebeldes vietnamitas a fim de “induzir a uma mudança” na perspectiva da China a menos que acreditasse ou (a) que a China. mesmo irresolúvel. são estados da Comunidade Britânica. Isto é. numa conferência realizada em Tashkent. Estas incertezas levam-nos a fazer uma especulação final: de que um objetivo subjacente da política americana pode de fato estimular a penetração da influência soviética no Sudeste da Ásia. não tendo assimilado a gramática da moderna política de poder. Ambos. aceitar a disciplina da Guerra Fria. numa disputa de fronteira à antiga. Mas um russo faz a paz de Kashmir. e assim preferiram que outro se encarregasse desta tarefa. Porém. Mas a guerra continua. e impor essa disciplina a seus amigos vietnamitas. caso não a Inglaterra. A Índia é um grande recipiente. controlava aqueles rebeldes. prossigamos com o raciocínio. Talvez os Estados Unidos estivessem temerosos das consequências de pôr a perder uma mediação. na Ásia Soviética. não pode ser acreditada. Já notamos que Washington provavelmente refuta a primeira premissa. a longo prazo.Por isto estamos aqui. então a Inglaterra. estas explicações 35 . Talvez a maquinaria da ONU fosse muito emperrada para uma tal crise. deve ser chamada para salvar a situação crescentemente grave. nossa política no Vietnã adverte a China de que deve expandir sua influência. O Paquistão é um aliado formal nosso. quer não.

não esclarecem o grau em que os Estados Unidos. De maneira não crítica. eram elas permutáveis. E também me arrepio. A guerra pode agora parecer ser meramente prática.. mas ruidosamente aplaudiram a diplomacia soviética.” O movimento de Ho tinha o desígnio de “acrescentar um outro dado à mão que Stálin está fechando em volta da China”. mas tudo a respeito dela parece brilhar com claridade: o lento. de que. Não é absurdo conjeturar que esta Rússia. “Recentemente”. o Embaixador William C. não só aceitaram. Vejo a mesma maturidade em cada face. e teremos um documento contemporâneo. medido estalido dos saltos no mármore. num sentido realmente humano. Bullitt argumentava no passado 1947 que quaisquer promessas feitas por Ho Chi Minh “seriam quebradas logo que recebesse ordens de Moscou para quebrá-las. cada um sem dúvida remotamente cônscio de que um acidente de local de nascimento dera a ambos sua política e missão. aceitamos os mais elementares pressupostos ocidentais sobre a origem e progresso da Guerra Fria. a mão é tão boa quanto nova. Substitua-se Pequim por Moscou. idênticos franzir de sobrolhos preocupados. Mao por Stálin. Nós muito certamente temos nossas próprias boas razões para desejar que o prestígio da Rússia cresça na Ásia. “um oficial eminente do estado comunista me disse que o problema mais sério no mundo de hoje é como conseguir que Pequim se incline para uma política de coexistência pacífica. e Sudeste Asiático por China. a mão de um ao cotovelo do outro. suas cabeças levemente inclinadas juntas. Eu lanço um suspiro de alívio. todos os fortes e todos os fracos. 36 . enquanto entre eles flui a certeza de que todas as categorias de homens querem realmente a mesma coisa — todos os homens ricos e todos os homens pobres. só pertence a outro braço. Exploramos uma camada da história do Guerreiro da Guerra Fria do Vietnã e descobrimos um recanto mais protegido do compartimento da propaganda.”17 É fácil retratar aquela conversa entre dois cavalheiros adversários. Vinte anos mais tarde. Se a Guerra Fria é realmente o que a maioria dos americanos pen* Por exemplo. a quem já acusamos de empreender a guerra da Indochina como parte do ardil para tomar a China* — esta mesma Rússia que torna os céus do Vietnã do Norte mais perigosos para nossos pilotos — é tranquilamente convidada a servir de mediadora. Pode-se entreouvir sua conversação íntima de uma distância que poderia bem ser galática. encontramo-nos de posse de um conflito que não mais parece tão insensatamente santo.. Manipulando por meio desta ideologia as principais características políticas da guerra pelo Vietnã do Sul. disse o Secretário Rusk em seu informe de março de 1966 sobre a China.

então a Guerra Fria é necessária.sam ser. Por isso devemos penetrar as nossas verdades de Guerra Fria para ver se elas não ocultam algumas outras verdades. Se é necessária. então pode muito bem ser necessário para a América manter seu controle sobre o Vietnã do Sul. Devemos ser muito cândidos e perguntar: Afinal de contas o que é esta Guerra Fria? E é ela realmente necessária? 37 .

38 .

segundo. Esta é provavelmente a premissa central. A primeira é de que Stálin deu início à Guerra Fria. girava em torno de uma única suposição básica: que os Estados Unidos não devem ser responsabilizados pela atual defrontação agressiva Oriente-Ocidente. Nos trechos que se seguem deste capítulo desejo elaborar duas heresias interligadas: primeiro. Bispo Berkeley A guerra fria é uma seção da história tornada coerente por um arcabouço ideológico de crenças implícitas e explícitas sobre história e valores.. Dominós que Caem O curso do império se processa para o oeste.. do Plano Marshall à Aliança para o Progresso. e mais sustentada. do anticomunismo de Guerra Fria da América. mediante o qual se infunde forma e inteligibilidade aos eventos. Esta suposição de inocência é apoiada por duas crenças interrelacionadas a respeito da história recente. nossa política prestou homenagem àquela premissa e dela tirou sua legitimidade. a heresia de que ambas essas crenças são falsas. O mais nobre rebento do tempo é o último.. a heresia de que nossa política externa de Guerra Fria visando a contenção 39 . Da Doutrina Truman à guerra do Vietnã. do capítulo precedente. A segunda é de que os Estados Unidos nada tinham a ganhar com a Guerra Fria e nada fizeram para provocá-la. A história do Guerreiro da Guerra Fria.III Portas Abertas.

o zoneamento da Europa Central era um problema óbvio da guerra e da paz. com alguns fatos elementares: a política stalinista européia de após-guerra não foi arquitetada nem em segredo nem unilateralmente. simplesmente devemos enfrentar o fato — costumamos nos sentir perturbados com ele — de que o comportamento ocidental de entre-guerras tinha dado à URSS muito pouca evidência das boas intenções do Ocidente. Sob pressão ocidental. O Embate Russo-Americano Nosso exame pode ser breve. e aparentemente a principal utilidade de saber algo sobre ele é ser posto em guarda contra a sabedoria comum que julga terem as relações Estados Unidos-União Soviética se iniciado por volta de 1945 e que sustenta terem sido as incorporações territoriais de Stálin. Estas incorporações. um nervosismo momentâneo referente ao Irã e aos Dardanelos. Acima de tudo. resistir ou restringir aquela arremetida expansionista a longo prazo do Ocidente sobre o Oriente. havendo o império entrado em derrocada interna. em conjunto. influenciaram os ressentimentos populares e assim fixaram a base para a Revolução Bolchevista. derrotado grande parte do poderio de Hitler. Confrontemos esta crença. Está bem atrás de nós. estarem tentando nos conter.é mais fundamentalmente uma resposta ao fato de as culturas políticas não-Ocidentais. e a comunização da China são os crimes originais pelos quais a União Soviética é condenada como um agressor imperialista. em primeiro lugar. tendo a I Guerra Mundial pulverizado sua casca. este passado mutante. a reabsorção dos estados bálticos do império czarista. dificilmente se poderia esperar que a Rússia tivesse enfrentado por quatro anos selvagens e depois. o governo social-democrata de Kerensky decidiu sustentar a parte da Rússia na guerra. o ato deflagrador da Guerra Fria. mediante imenso sacrifício humano. um golpe de paço relativamente in40 . sua solução foi forjada de forma muito corrente pelas potências da Grande Aliança. consideramos nossos objetivos como defensivos e nossa violência ocasional como provocada. Uma rápida recapitulação: O Czar caiu em 1917. a despeito de suas tropas estarem sendo enviadas a combate empunhando cacetes. pela primeira vez. Pelo fato de supormos ter nossa política externa tomado forma como resposta a uma ameaça. que é o tema viga-mestra da história moderna. e a de transferir a convocação da Duma. sem conquistar o direito àquela segurança de fronteiras que era um objetivo russo tradicional (de nenhum modo “comunista”). Esta decisão. na Europa oriental.

a oposição ocidental ainda não acabou. romenos. Mas o desafogo ocidental logo se tornou ansiedade. Toda a Europa foi abalada pela Revolução Russa. Seis meses após o armistício europeu. na Hungria. uma revolta maciça de legionários tchecos. até que o extremo anticomunista chegou ao poder em janeiro de 1933. abandonando a Liga das Nações. No Báltico. De abril de 1920 a março de 1921 os poloneses estiveram combatendo na Ucrânia. Outubro de 1933: a Alemanha segue o Japão. Sob circunstâncias confusas. britânicos. o bloqueio naval do Conselho de Guerra Supremo Aliado privou o governo Vermelho do uso de todos os seus portos marítimos. quando não mais poderia o Ocidente pretender que seu alvo era sustentar aberta a frente oriental. as fábricas de munição já bramindo. Kolchak recebeu ajuda material da Grã-Bretanha no valor de meio bilhão de dólares. para assegurar “o permanente enfraquecimento da Rússia”. Esta foi a prática ocidental durante o período crucial em que a Revolução Russa lutava para consolidar-se e iniciava o processo de criar. Lênin rapidamente concluiu o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha. quando pareceu que para este Hitler havia mais do que um incêndio no Reichstag. um total de 5 500 soldados americanos e 37 000 britânicos garantiram o regime Branco. a nacionalidade soviética e modernizar a economia. No norte da Rússia. italianos. Por volta de março de 1919 os franceses.cruento. sob a direção do Ministro da Guerra Winston Churchill. Quase um ano mais tarde: 41 . difícil mesmo sob as melhores circunstâncias. quase fizeram conexão com o exército de Kolchak. como uma pedra de jogo insegura. tendo muito cedo usado seus consideráveis recursos econômicos para aniquilar o governo Vermelho de Bela Kun. conduziu finalmente à formação de um governo anti-soviético em Omsk. em particular a Alemanha balançou. Meramente lançou ela mão de outros instrumentos. as ferramentas da quarentena política e do isolamento econômico. Quando a intervenção ocidental de cinco frentes obteve como resultado tão só a reconstrução do exército soviético e a garantia de que o governo soviético seria profundamente totalitário. em seu caminho da Rússia para a frente ocidental ainda aberta. sérvios e gregos haviam espalhado um efetivo de 850 000 contra-revolucionários no Sul da Rússia. sob a direção do monarquista Almirante Aleksander Kolchak. de tempos em tempos. e. os comandantes e tanques britânicos e a gasolina americana quase tornaram um sucesso a campanha dos Brancos contra a praça-forte soviética de Petrogrado. Por todo este tempo. a intervenção ocidental maciça em favor da contra-revolução branca foi em força total.

tardios e perniciosos “ajuda” e “conselho”. As democracias impõem embargos de armas por igual. (Summer Welles disse: “Quando a União Soviética entrou na Liga. violando a um tempo o Tratado de Versalhes e o de Locarno. a quem foi permitido ouvir o próprio destino.1) Um mês mais tarde: o Ministro do Exterior francês. protestam. onde são feitas certas negociações famosas. Iugoslávia e Rumânia (o que talvez seja irônico). em ambos os lados. algo de novo acontece: o Presidente Eduard Benes ordena a mobilização parcial das tropas tchecas contra a concentração nazista em suas fronteiras. que podem ter prejudicado sua causa tanto quanto a “neutralidade” das democracias. A teoria prevalente era de que o Lebensraum* da Alemanha ficava só para o oriente. Stálin tinha sido convencido de que a única esperança de sobrevivência para a Rússia estava não na segurança coletiva com o Ocidente. E apoiado pela Polônia. a URSS. Os tchecos. para ganhar tempo com * Lebensraum — espaço vital. tendo um mês antes Neville Chamberlain tornado bem clara a posição de seu governo.a Liga aceita um novo membro. mesmo os mais obstinados foram forçados a admitir que era ela a única grande potência que parecia tomar a Liga a sério”. Março de 1938: Hitler assalta a Áustria. Na Liga. Chamberlain boceja. Maxim Litvinov. Seu erro é corrigido por aqueles mais maduros do que ele no setembro seguinte. a Etiópia cai nas mãos de Mussolini. A resposta de Londres é um tratado naval com Hitler que permite à Alemanha a construção de uma frota de submarinos do tamanho da britânica. Março de 1936: Hitler ocupa e remilitariza o Rhine-land.”2 Em maio de 1938. mas em algumas acomodações. é esmagar o comunismo. Tchecoslováquia. 42 . A Grã-Bretanha vota Não. Março de 1935: a Alemanha decreta a conscrição militar universal. Julho de 1936: começa o lento assassinato da Espanha Republicana. e praticam a “não-intervenção” nesta “guerra-civil” travada com aviões militaristas alemães e 100. em Munich. Por esta época. um forte e por outro lado solitário proponente da segurança coletiva é assassinado em Marselha. Menos de um ano mais tarde. o que conduziu a que Stálin concedesse aos Legalistas aqueles magros. ao dizer: “Não devemos tentar enganar nações pequenas e fracas para que pensem que serão protegidas pela Liga contra a agressão. pede imediatos arranjos de segurança coletiva. Explica-se no Ocidente que o “Alvo Real” de Hitler é bom. Litvinov — uma triste figura — ainda mendiga a ação da Liga.000 soldados italianos. Jean Louis Barthou. o Comissário para Assuntos Estrangeiros da Rússia. Hitler se retira! As democracias se põem a reprovar Benes por sua inflexão.

nem Marshall. mais de dois anos após o prazo em que deveria ter sido aberta a frente ocidental. estavam afinal se batendo com a força total da potência germânica. logo atraída para a luta. Contra tal pano de fundo. Fleming sugere. talvez mesmo o Danúbio. colocaria os exércitos ocidentais na Europa oriental. Recordemos que a teoria leninista do desenvolvimento econômico tinha como consequência levado a URSS para uma política doméstica semi-autárquica e por isso para uma política externa semi-isolacionista. Os russos. exigiu um ataque ao “macio baixo-ventre” do Continente. o que não era desejado nem por Roosevelt. montou poderosa produção ofensiva e desenvolveu planos para a abertura de uma frente Ocidental contra Hitler. cujo colapso fora predito pela Inteligência britânica para dentro de seis semanas após o ataque de Hitler. se bem sucedida. Porém. alcançaram a terrível vitória da batalha de Stalingrado. que faremos da política externa stalinista de após-guerra na Europa? Recordemos que as políticas externas das nações-estados são essencialmente continuações de suas políticas domésticas. mas sim em Munich.Hitler. Churchill.* Em Brest-Litovsk. a NEP reconheceu a importância do “setor de capital privado” interno (que por volta de 1924 representava 40 por cento do comércio doméstico) e externamente considerou concessões a capitalistas estrangeiros. Talvez mais longe. Segue-se depois a longa e sangrenta luta subindo a península da Itália. Lênin tinha entregue um terço da área de colheitas da Rússia. nem Stimson. Seja como for. de seu plano para investimento na Rússia e de 43 . Churchill ainda estava exigindo uma campanha turca.3 Vem a guerra. Mas o raciocínio britânicofrances de que a NEP era uma volta termidoreana à normalidade capitalista foi esvaziada pela rejeição. Uma generosa América. E os mesmos cinco anos tinham convencido muitos na Europa Oriental de que o Ocidente não era aliado deles: tal como D.F. que a Europa de após-guerra foi partilhada. Por certo. em junho de 1944. os aliados transferiram a guerra para o Norte da África. até o último momento antes da invasão da França. por parte dos bolcheviques. Tal estratégia. O Estado-Maior Geral Americano considerou que tal estratégia seria militarmente errada. talvez tenha sido não em Yalta. pensando cada vez mais na configuração política da Europa de após-guerra. Onde estava a prometida ajuda da segunda frente na França? Graças a Churchill. impedindo a crescente probabilidade de um Exército Vermelho cruzando os montes Cárpatos. mais da me* A Nova Política Econômica (NEP) de 1921 não foi a volta atrás neste propósito de auto-suficiência. cujo acerto militar também era dúbio. no final de 1942 ou na primavera de 1943.

os planejadores soviéticos tinham que acrescentar a de reconstrução maciça. apesar da hipocrisia sobre o “expansionismo da China comunista”.5 e o ingresso da URSS na Liga em 1934 foi menos a exposição de um novo internacionalismo positivo do que uma nova resposta à ameaça que Hitler representava à solidão russa. Além da necessidade já existente de modernizar e desenvolver. e temporário exagero. a doutrina política de coexistência emergiu. no teatro da política internacional. e uma grande quantidade de sangue humano venha a ser desnecessariamente derramado. embora um grande número de aventuras sem utilidade venham a ser representadas ao longo do caminho. em que a Alemanha insinuava reconhecimento das nacionalizações bolcheviques. a “desisolada” União Soviética. e intensificou. a necessidade de desenvolvimento econômico era para a Rússia maior do que nunca. Impedindo a guerra. 44 . por mais abrupta que fosse essa mudança. o mesmo processo-avanço econômico do estado atrasado. que arrancou a URSS de sua concha e forçou-a a representar aquele papel de grande potência para o qual parecia ter sido tão mal preparada. este círculo é na realidade uma roda que gira em ambas as direções: À medida que a economia soviética amadureceu e os planejadores soviéticos ganharam confiança. A violência da Alemanha produziu numerosas mudanças radicais na Europa. Porém. a hostilidade ocidental contra ambos os regimes revolucionários expressou-se como uma quarentena que cooperou de fato com. e um povo faminto. e 62 milhões de pessoas. e devagar o Ocidente começou a abandonar sua quarentena econômica e política. Ironicamente. em 1922. Consideremos que a única e exclusiva base da autoridade internacional de Stálin nas consequências da guerra era o Exército Vermelho.tade de sua força industrial. Uma: todas as velhas potências foram seriamente rebaixadas e os Estados Unidos ascenderam a uma posição de influência política e econômica indiscutível. Foi o ataque que Hitler lhe fez e o fracasso de Hitler em tornar tal ataque vitorioso. desmoralizado e desorientado. O que era inteiramente original e muito mais profundo era o aparecimento compulsório. de um processo já em pleno curso. Porém para a URSS ainda combatente. seu esforço pela auto-suficiência. Isto novo negado pelo Tratado de Rapallo. esta necessidade agora estava situada num meio político inteiramente novo. daquela nova potência mundial.4 Um isolacionismo autárquico similar é evidentemente praticado pela China revolucionária. Ao final da II Guerra Mundial. tolerância política — poderá perfeitamente determinar a evolução das relações Estados Unidos-China. que flexionou seus músculos por sobre uma economia soviética rural e urbana bombardeada. a fim de ser deixado sozinho pela Alemanha. Claro. as vias de comércio começaram a se tornar mais amplas. era talvez afinal nada mais que um aceleramento. reconciliação comercial.

a vacilante política a respeito dos empréstimos de reconstrução vindos dos Estados Unidos. a nação-estado da URSS consistia em um exército e nada mais. As condições básicas sob as quais teria que perseguir esses objetivos eram a fraqueza da URSS frente um Ocidente unido. reconstituir a força de trabalho soviética era uma necessidade urgente — e portanto desmobilizar. Industrial. o abandono a seus próprios desígnios (e pior) dos revolucionários e movimentos de resistência de liderança comunista em outros países europeus. Mas talvez mesmo este fato a apoie: um exército sem uma base industrial não é bem um exército. que Stálin propôs receber e distribuir numa base de Quatro 45 . nos ajude a dar maior senso às excêntricas voltas que dá a diplomacia soviética — o namoro com as idéias mais não-marxistas de Eugene Varga referentes a viver com um Ocidente capitalista (uma espécie de “desvio de direita”). e sob importantes aspectos contraditórios — reconstrução e desenvolvimento interno e segurança territorial — que dirigiram a política externa de Stálin. Como poderia Stálin conseguir capital de desenvolvimento. devastada. no imediato período de após-guerra. de certa maneira. Talvez a compreensão do peculiar caráter aéreo do poder soviético.nos põe ante uma das maiores anomalias políticas da história moderna do Ocidente. era também uma necessidade soviética (tradicional. e em segundo. Assim. Em Potsdam descobriu que não haveria tal empréstimo. O único acontecimento que parece contrariar mais a opinião de que o poder de Stálin era exclusivamente militar foi a nitidamente rápida desmobilização do Exército Vermelho. Foram estes dois objetivos interligados. esperava. Pode ser um exagero revelador dizer que em 1945. Porém isto em si não representava a ruína. Aquele exército era a única fonte de força diplomática de Stálin. a rearticulação e instalação no poder de partidos políticos da ala direita na Europa oriental. Ao mesmo tempo. ou pelo menos. porém muito intensificada pelas lembranças de Hitler ainda vívidas) garantir segurança territorial — e portanto não desmobilizar. tempo e segurança política? Sabemos que desejava. agrícola e socialmente sua nação — e estava muito próxima de nem mais nação ser — não podia ser comparada com os estados Ocidentais. nos defrontamos com o súbito aparecimento de uma “grande potência” cuja base industrial em primeiro lugar era imatura. conseguir dos Estados Unidos (isto foi discutido em Yalta) um empréstimo maciço para o desenvolvimento. Havia outra fonte provável de grande capital de reconstrução — reparações de guerra da Alemanha. Numa cultura em que o poder político internacional tradicionalmente decorre de uma avançada base industrial.

e perguntou se a Grécia pertenceria à Grã-Bretanha. em julho de 1945. O seguinte diálogo em Potsdam.. O Premier Stálin aquiesceu. se opuseram a isto.. Os Estados Unidos contudo. Se era assim. [O Secretário do Exterior Britânico] Bevin disse que concordava. sem dividir a Alemanha). Bevin era se a pretensão dos russos se limitava à zona ocupada pelo exército russo.7 O diálogo subsequente de Stálin com Truman não é menos claro: Premier Stálin: .6 As indenizações alemãs à Rússia seriam portanto financiadas pelos Estados Unidos.Potências (isto é. Molotov: Entendo. e os Estados Unidos não tinham o propósito de financiar a revolução. O Presidente Truman disse que concordava com a proposta soviética. O Premier Stálin respondeu afirmativamente. Sr. O Sr. por uma razão muito boa. Muito cedo e muito claramente. O Premier Stálin sugeriu que os Aliados aceitassem dividir a Iugoslávia e a Áustria em zonas.. Stálin dizer “sim”. Secretário Byrnes. ele estava pronto a concordar. A pergunta do Sr.. é claro quanto às implicações políticas deste acordo: Sr. Molotov disse: Não significaria a sugestão do Secretário que cada país teria carta branca em sua própria zona e agiria inteiramente independente dos outros? O Secretário disse que em essência isto era verdadeiro. A isso entendeu o Sr. Assim fez-se um acordo.. segundo o qual cada uma das potências aliadas cobraria reparações da zona particular ocupada por seu exército.8 Portanto a Rússia devia cobrar indenizações da mais pobre das 46 .. que o senhor tem em mente a proposta de que cada país deveria cobrar indenizações de sua própria zona. visando interesses e investimentos estrangeiros. talvez as linhas de demarcação entre as zonas Soviética e Ocidental de ocupação possam ser tomadas como linhas de divisão. e tudo a oeste dessa linha iria para os Aliados e tudo a leste dela para os russos. Byrnes disse pensar ser importante haver um acerto de idéias. O Presidente [Truman] inquiriu se ele [Stálin] se referia a uma linha que se estendia do Báltico ao Adriático. O Secretário [Byrnes]: Sim. havíamos percebido nossa própria futura necessidade econômica de um mercado refeito na Europa.

Argumentar que Stálin estava inclinado à conquistar e assim manobrar.9 Parece agora que tais objetivos se contrariavam e prejudicavam. o Navegador. Infante D. Truman e Byrnes. e portanto fechava para o Ocidente seu “livre acesso ao Vale do Danúbio e à Europa Oriental dos bens e capitais dos países ocidentais”. que em Potsdam sabiam do sucesso do Projeto Manhattan. na famosa frase de Stimson. ela foi empurrada para cima dele. que não podemos minimizar. “francamente desvantajosa para nós” — nossa posição a respeito das indenizações alemãs para a Rússia teria sido mais acomodatícia. teria um poder político coercitivo (que afinal mostrou não ter). a uma porta do leste europeu menos hermeticamente aferrolhada. Isto excluía o domínio da Alemanha pelas Quatro Potências. a simultânea hegemonia política que Molotov deve ter imaginado ao usar frases tais como “carta branca em sua própria zona” e “inteiramente independente dos outros”. o fracasso ocidental em internacionalizar o desenvolvimento da economia da região do Danúbio conduzia à reconstrução da economia soviética: deixava Stálin de mãos livres para manipular os recursos da Europa do leste a serviço das necessidades econômicas russas. de Stálin na verdade. no mínimo. Mas nossa diplomacia de negociar-pela-fôrça parece ter alimentado com vigor a desconfiança de Stálin — e a Guerra Fria iniciouse irreversivelmente na Europa. Não quero dizer que ele não a desejasse. e a autoridade fiscal que este acordo conferia ao governo russo de ocupação tornava necessária. os soviéticos seriam incapazes de conter a imensa autoridade industrial e econômica dos Estados Unidos. Pode-se também querer o que se é forçado a pegar. negando à Rússia as indenizações alemãs com base no vale do Ruhr. para obter a hegemonia 47 . A Europa oriental não foi só oferecida a Stálin. de forma absoluta. ou demorar. Acomodação neste assunto poderia conduzir. uma vez forçados a abrir a porta da Europa oriental. como Byrnes informaria mais tarde ao Congresso. e há uma possibilidade. Para impedir a reconstrução russa era preciso serem negadas as indenizações da Alemanha Ocidental.duas metades da Europa. estavam agindo talvez na suposição de que o monopólio da bomba-A. Sem a Bomba. ter-se visto como um construtor de impérios na grande e confusa tradição de César. “a manutenção de uma porta aberta nos Balcãs”. implicitamente requeria partilha da Europa.10 Por outro lado. Os objetivos americanos parecem ter sido duplos. Porém. Henrique. e que. a Rainha Virgem e Napoleão. por parte da América. e segundo. que outro tente prová-lo. a reconstrução da economia russa. obstruir. primeiro. financiadas pelos americanos. Isabel de Espanha.

este Comintern. foi batida pelos senhores feudais suecos.. pelo atraso agrícola.na Europa oriental. foi batida pelos capitalistas anglo-franceses. foi batida pelos barões japoneses. Estamos cinquenta ou cem anos atrás dos países adiantados. tal no trecho seguinte (1931): Retardar o passo significa ficar para trás. é preferir a uma realidade muito rica um mito tão importuno como banal. era para ele uma retórica. então.. do homem moderno).. À sua frente erguia-se altaneiro * Stálin era melhor em profecia do que em história.. foi batida pela gentry polono-lituana. foi só uma arma do Ministério do Exterior Soviético (a propósito. foi batida por todos devido a seu atraso. foi batida pelos Beis turcos. Stálin não parece ter sido nem um imperialista nem muito menos um marxista.. mas êle esqueceu as guerras vitoriosas da Velha Rússia. Para ele. Vós recordais as palavras do poeta pré -revolucionário: “Tu és pobre e tu és opulenta.. e sob seu controle a Terceira Internacional de Lênin. um amontoado de frases a serem usadas sem rebuços. Stálin na realidade só se mostra um homem dotado de alguma paixão genuína. 48 . pelo atraso cultural. a qual finalmente adquiriu. uma corporação cuja subserviência às ferozes vicissitudes da Realpolitik soviética fez da sua uma das mais ridículas histórias que se conhece. Foi batida. porque batê-la era proveitoso e ficava sem castigo. Pelo atraso militar. “dez anos” estava absolutamente correto. Não queremos ser batidos. como se figurava o mundo de 1945 do ponto de vista deste nacionalista russo. Por certo não era revolucionário. tu és poderosa e tu és desamparada. um político prático como sempre o foi. foi sem cessar batida por causa de seu atraso. O idealismo bolchevique. e aqueles que ficam para trás são batidos. quando fala como um nacionalista russo. Foi batida pelos Cas Mongóis. Stálin era um nacionalista.11* Tentemos imaginar. às vezes banal e às vezes cheio de vida. e não é pela aplicação dos postulados do marxismo-leninismo revolucionário que podemos melhor esclarecer sua diplomacia. A Velha Rússia. Temos que superar este desnível em dez anos. pelo atraso político. o sonho de uma sociedade socialista universal nem de perto tinha tanta compulsão como a perspectiva de uma nação-estado soviética industrializada e unitária. quando serviam ou cooperavam com as necessidades nacionais (como ele as via) e descartadas sem cerimônia em caso contrário. Ou o fazemos ou nos esmagam. Mãe Rússia”. pelo atraso industrial. longe de ser uma força para iniciar a revolução em escala mundial.

Atrás dele. Duas alternativas sem recurso.UU. Em sua mente. ) a qualquer governo cuja defesa o presidente julgasse vital para a defesa dos EE. o reforçamento da unificação nacional e a reparação econômica em ritmo forçado. Nagasaki. Hiroshima. nada fazer para fechar a porta da Europa oriental. tal como a paz tinha sido do interesse da Rússia em 1918 e 1905. Punha uma Europa Oriental sem defesa (se necessária) à disposição de Moscou. na plenitude de seu superpoder. Consideradas a diplomacia ocidental desde 1918 e indicações correntes. UU. jaziam os corpos sepultados de 20 milhões de russos e as fazendas incendiadas e as fábricas estripadas da economia soviética. Dresden. aviões. sobre cuja política e economia poderia exercer algum controle. que acabou por dominar a política da Europa. bases de suprimento. alimentos e serviços (empréstimo e conserto de barcos. levando em conta simpaticamente as necessidades econômicas e sensibilidades políticas da URSS. Que outra alternativa lhe restava? Ao que parece duas: (1) Podia aceitar o plano americano de divisão da Europa. matérias-primas.— sem paralelo). etc. do T. a tensão internacional que por certo geraria iria justificar a consolidação do poder do estado-policial de Stálin. o que não acontecia com o primeiro. a primeira estava provavelmente fora de questão (por isso. Destinava a Rússia a um conflito com os Estados Unidos.um Estados Unidos exigente. ou (2) podia aceitar a divisão e fechar a porta. Mas este caminho pelo menos oferecia algumas vantagens. Dividiu a Europa. a mais violenta nação da história (Hamburg. e (2) porque a configuração peculiar das fraquezas e forças soviéticas e ocidentais limitava suas possibilidades àquele único caminho. se Stálin aceitou a amarga contenda Estados Unidos-URSS. Portanto. Tóquio. numa época em que a URSS tinha interesse numa Alemanha reconstruída. porém (1) porque desejava proteger a União Soviética do colapso. tais como o fim abrupto dos efeitos do Lend-Lease Act* para a Rússia (mas não para a França e Grã-Bretanha). sua posterior recusa da ajuda do Plano Marshall e sua rejeição talvez desastrada da proposta Baruch de energia atômica). também. — (N. e esperar que a inevitável penetração americana na economia da região do Danúbio fosse concretizada. A segunda alternativa era também má. a memória da inequívoca oposição ocidental à União Soviética. Kassel. para fornecer tanques. armamentos.) 49 . Isto é. não foi porque gostasse de submeter os poloneses ou os tchecos à servidão. num tempo em que relações pacíficas eram muito mais do interesse prático da Rússia. tendo o Ocidente recusado a ajuda e rejeitado o tratamento de Quatro Potências para a * Lend-Lease Act (11 de março de 1941) — concedia poderes ao presidente dos EE.

V) é aplicável aqui: Habitualmente nem homens nem nações fazem. com momentos de ferocidade e falsidade que serviram para validar o estereótipo dele apresentado pela América. rondando à procura de sangue e pilhagem imperialista. sua tolerância ante o desmembramento da Revolução Grega por parte da Grã-Bretanha e América. em último lugar. porém tão só religar essa abstração a algumas das realidades concretas mais importantes daquele tempo. pelo menos parcialmente. é menos a de um monstro de contos de fadas. sádico. como podemos ver agora. pelo bem ou pelo mal. dessa oposição elementar.12 O Ocidente uniformemente poderoso queria — e acreditava. em uma situação difícil e perigosa. Meu objetivo não é nem condenar nem absolver esta figura. ele a empreendeu. sua cínica manipulação dos Legalistas Espanhóis. no fundamental. por certo. parecia a Stálin só haver uma alternativa política que satisfez. Os alvos de ambos os lados estavam concentrados em idéias opostas sobre o controle da Alemanha. Um princípio que desenvolveremos ao discutirmos a rebelião (no Cap. e essa política era a criação de um sistema não belicoso. Aceitando-a. A Guerra Fria na Europa emerge. A menos poderosa União Soviética queria capital de desenvolvimento sem condições. com todo seu complexo cortejo de acontecimentos. Alguns. a tentada destruição da Revolução Chinesa. mais do que crêem devam fazer. e então sugerir que a folha de serviço de Stálin. pelas potências que detinham a iniciativa e comandavam os limites extremos. nos anos que se seguiram.Alemanha. para reabilitar Stálin. de longe à frente. havendo excessivos estigmas de vergonha na história desse homem: o triste espetáculo dos expurgos. os objetivos e exigências básicas do nacionalismo russo. Parece ter tido pouca escolha. tais potências eram a Inglaterra. Os termos desta fantástica batalha foram ditados. que para nós é quase uma distante abstração moral. ter de obtê-la — uma garantia contra a expansão da revolução (o que vou apresentar é em grande parte o outro lado da mesma moeda) uma garantia de acesso econômico e político a toda Europa. Mas isto não prova que ele tenha criado a Guerra Fria. no começo da Guerra Fria. frio e muito prático nacionalista. e os Estados Unidos. sua complacência em observar. verão nisto uma tentativa esquerdizante. e mesmo auxiliar. O Leão es50 . Mesmo se alguém se dispusesse a tentá-la. realmente controlados pela URSS. sua matança dos kulaks. senão de esquerda. do que a de um pequeno. maquinaria pesada alemã e um descanso do wagnerismo militante. violentamente estabilizado de satélites tributários de proteção. tal coisa seria tarefa de milagreiro. porém não provocativos para os Estados Unidos. Stálin aceitou a Guerra Fria.

mesmo agora. E mesmo hoje. de Byrnes a Rusk. em última análise. é porque a contenção fracassou. possivelmente. Não precisamos compor. e seu coração em Paris. Ademais: No decorrer dos anos de Eisenhower-Dulles. de que a contenção na Europa foi só uma política para o ínterim. e através de nossas propostas sem fim.tava seguramente satisfeito. Se agora nos vemos começando a coexistir na Europa. Fracassou. porque sua retaguarda caiu em Moscou. e o Urso não estava morto. seja como for. A mesma angustiante salvação pode ser lançada sobre nós via Pe51 . que dirigiu brutalmente a recuperação russa. em prol de uma força nuclear multilateral continuamos a perpetuar nossa exigência de uma Europa ocidental eriçada de hostilidade atômica contra o Oriente. ou de Truman a Johnson. não fazemos jus à história da Guerra Fria que só imaginamos ser a nossa. E se fracassou. aceitá-lo então teria sido o mesmo que aceitar a hegemonia econômica e. estamos representando. sempre reataviadas. Do ponto de vista de Stálin. alcançaram. continuamos a tentar a total integração militar do concerto Atlântico. sem motivos defensivos. Mas veio tarde demais. Em poucas palavras. nos anos de sessenta. A contenção às vezes tendeu a se tornar libertação. quando ninguém clama que a “ameaça” está aumentando na Europa. Já que sendo assim tinha de recusá-lo. a qualquer momento a “libertação” poderia ter irrompido. posta em prática o tempo todo visando optar pela coexistência. quando o reverso é obviamente o verdadeiro. o mesmo papel constrangido e heróico. política dos Estados Unidos na Eurásia. quando seu tempo de preceito tivesse passado. e já que provavelmente acreditava que os Estados Unidos esperavam que o recusasse. ele devia encarar o Plano Marshall como nada mais do que uma contribuição americana para a ressurreição de uma superpotência na Alemanha — o velho inimigo rearmado. A Doutrina Truman de 1947. na Ásia. o erro das passadas décadas de quarenta e cinquenta mediante a pretensão. e de que. não parece ter sido pelo fato de alguém ter decretado seu fracasso. O Plano Marshall foi oferecido à União Soviética sem implicações e. mas por terra. no dizer claro dos Secretários Stimson e Wallace. a quem as notícias dessa recuperação. não estava muito longe de um ato de guerra. a política dos Estados Unidos de “contenção-defensiva” permaneceu coerente a ponto de realizar suas piores implicações. continuamos nossos esforços para fazer essa integração em termos de um eixo Washington-Bonn. Que o Guerreiro da Guerra Fria consiga nos convencer que o Urso ditava as leis. a Águia voando altaneira em sua plenitude. como o faz nosso bom Guerreiro da Guerra Fria.

quim e Tóquio. Porém, em primeiro lugar, esperar por uma tal salvação não é modo de vida, e, em segundo, as grandes desvantagens e percalços com que a humanidade se defrontou na Europa, nada eram comparadas com as da Ásia. Os pacificadores europeus, os homens racionais da Europa, jamais tiveram que se ver com uma guerra do Vietnã. Além do que, nós americanos, conhecíamos a Europa de uma forma que provavelmente jamais conheceremos a Ásia; estávamos culturalmente ligados à Europa, e talvez em parte suspeitando, durante todo o tempo, que os russos eram, de coração, tão europeus e brancos como nós. Na Ásia, ainda menos informados do que na primeira Guerra Fria, continuamos, sem critério, inculpando Mao Tse-Tung de todos os crimes de Guerra Fria cometidos por Stálin, os verdadeiros e os lendários; e cada encolerizado patriota asiático, esfomeado, subjugado pelo senhor feudal, que ousa se contrapor a nosso sonho a um Mundo Livre de domínio benigno, reacende nosso pietismo violento, nossa política de ressentimentos e frustrações confusos. E não há ninguém, em toda aquela parte misteriosa do mundo, para servir de mediador no conflito — ninguém senão nós e o povo amarelo. O problema com a Ásia é que lá ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Por que julgamos essa salvação tão difícil até para começar a tentá -la? Por que nós, americanos superpráticos, continuamos tentando navegar pelo território asiático desconhecido com um mapa europeu errado? Mas, talvez haja algo mais referente à Guerra Fria do que erros bem intencionados de história. Talvez estes erros sejam propositais, com a intenção tão só de servir de paliativo para uma verdade inconveniente. Talvez nossa ideologia de anticomunismo de Guerra Fria seja um sinal de beleza.*

A Fronteira em Torno de nós
Grandes propósitos e má supervisão fazem parceiros tranquilos, mas não proporcionam campo para agnosticismo em face do desastre. Admitamos que a história americana esteja sujeita, como todas as histórias nacionais, às forças acidentais, dispersivas e excêntricas que às vezes tomam conta dos acontecimentos e os levam para direções imprevisíveis. E, mais importante, admitamos que a nossa não é a única história no planeta. Nosso governo e nosso povo não encenaram o drama da Europa na* No original “Beauty mark’’ — sinal, pinta. 52

poleónica. Mas esse drama possibilitou a cena na qual os emissários que Jefferson enviou à França, com o único propósito de conseguir New Orleans e o direito de navegação no rio Mississipi, se viram de volta para casa a cambalear com todo o Território de Louisiana nas costas. Não foram nosso governo e nosso povo que encenaram o drama da Rússia leninista e stalinista. Mas essa Rússia tem sido a principal preocupação da América por, pelo menos, o passado quarto de século. Nossa própria história é atingida, e não pouco, pela história independente de outros. Não obstante, temos um estilo nacional, um sistema de motivos e esperanças próprios que predetermina, no fundamental, nossa resposta a nossas oportunidades e problemas. Meu argumento é que este sistema é hoje, basicamente, o que sempre foi; que nossa história é orgânica e tematicamente contínua; que apesar de nossa capacidade de elaboração e surpresa, temos contudo tido um, e apenas um, centro metabólico; e que se quisermos entender a Guerra Fria, temos antes que compreender esse centro. Em seu jornal Common Sense, de 10 de janeiro de 1776, escreveu Thomas Paine:
“Não está ao alcance da Grã-Bretanha fazer justiça a este continente; seus negócios em breve serão por demais pesados e intrincados para serem dirigidos, com um certo grau tolerável de conveniência, por uma potência tão distante de nós... Estar sempre a correr três ou quatro mil milhas com um informe ou uma petição, esperar quatro ou cinco meses por uma resposta, que, quando obtida, requer cinco ou seis meses a mais para explicá-la, será em poucos anos encarado como loucura e infantilidade... Tenho escutado asserções de alguns de que, como a América floresceu sob sua anterior conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para assegurar sua felicidade futura... Respondo seguramente que a América teria florescido tanto, e provavelmente mais, se nenhuma potência européia tivesse tomado conhecimento dela. O comércio pelo qual ela tem enriquecido são as necessidades da vida, e sempre haverá um mercado enquanto comer for o costume da Europa.13

Não se tratava simplesmente de que podíamos prosseguir sozinhos. Nossa relação colonial com a Grã-Bretanha mercantil punha um tal futuro promissor tão longe do alcance que, ou prosseguiríamos sozinhos, ou não o alcançaríamos de modo algum. A natureza exploradora do controle britânico tinha sido mascarada durante a Guerra Francesa e Indiana pelo influxo, para as colônias, do bom dinheiro de guerra e pela camaradagem
53

de combate contra os então desprezados Gens de mauvaise Foy e, de forma também tão importante, contra aquelas tribos de pele vermelha, que continuamente se aliavam com quem quer que estivesse mais contra seus competidores caras-pálidas no comércio de peles. Porém, quer artesão ou homem de negócios, quer fazendeiro ou caçador, o pioneiro americano tinha sempre em mente a procura de oportunidade em direção ao oeste; e os obstáculos que os refreavam eram principalmente os colocados em seu caminho pela terra mãe. Quando os mercantilistas britânicos debateram a questão do desenvolvimento do Vale do Mississipi, por exemplo, uma importante ordem de argumentos era de que os colonos deviam ser vigiados muito cuidadosamente. O General Thomas Gage, Real Governador de Massachusetts, salientava que era do “interesse [da Grã-Bretanha] manter os colonos dentro dos limites da Costa Marítima o quanto pudermos; e constranger seu comércio tão longe quanto o possa ser feito com prudência. Cidades florescem e aumentam pelo comércio extensivo... e eles logo virão a produzir por si mesmos o que costumavam importar. Eu tenho visto este Incremento e asseguro a Vossa Alteza que se estabelecem em Philadelphia Fundações que devem provocar ciúme em um inglês”.14 A “guerra de libertação do povo” americano travou-se porque os colonos americanos queriam expandir-se pelo continente norte-americano e desenvolver sua riqueza por si mesmos, e, como um corolário, porque não mais podiam tolerar sua dívida para com a Inglaterra e as restrições que a mesma mais tarde lhes imporia. Não é acidental George Washington ter sido um dos mais ricos plantadores das colônias e um dos mais profundamente endividados com os interesses mercantis britânicos. Os radicais Paine, Sam Adams e Jefferson formularam poderosos argumentos referentes à liberdade nacional e escravidão nacional; mas foi o argumento mais prático sobre dinheiro e terra que conquistou para a Revolução o apoio decisivo dos precoces conservadores americanos. Essa foi a causa unificadora e dominadora. A presidência de Jefferson talvez tenha representado, a um tempo, a última oportunidade para a democracia agrária auto-refreada e o mergulho final em nossa própria forma de mercantilismo expansionista: a mesma Aquisição da Louisiana, que dobrou nosso espaço de crescimento continental e forneceu terra para uma nação de fazendeiros voltados para o interior, também tornou certo de que teríamos muito o que vender para o resto do mundo. Foi a terra dos proprietários de plantação que criou o mar dos capitães mercantes. A dinâmica da grande vaga de ressentimen54

to, convulsão, incerteza e decisão está muito clara nesta passagem do historiador Curtis P. Nettels:
“Se após 1763 o Império Britânico não lhes permitisse crescer e expandir-se, se não providenciasse uma solução do problema central da economia americana, os colonos teriam que tomar a si o direito e o poder de guiar seu desenvolvimento econômico. Considerariam necessário criar uma nova autoridade que encorajasse a navegação e o comércio americanos, tornasse possível o contínuo crescimento das indústrias manufatureiras domésticas. Portanto uma Outra consequência do mercantilismo inglês foi a Revolução Americana e a criação, depois disso, de um novo estado mercantilista deste lado do Atlântico.15

O idealismo de Jefferson tinha representado o único desafio forte àquele novo mercantilismo. A expansão física era necessária para obter novas terras para fazendas, mas ele queria que o país não buscasse territórios cuja proteção requeresse uma marinha. Marinhas (ele haveria de sentir o mesmo a respeito das forças aéreas) são dispendiosas demais — “uma perversa dissipação das energias de nossos concidadãos”16 — elas produziam burocracias propensas à política, e tendiam a se ligar muito intimamente com os interesses comerciais que as abasteciam. Isto é, como Eisenhower alguns 150 anos mais tarde, Jefferson temia o crescimento de um complexo militar-industrial. Porém seu idealismo democrático, talvez comprometido internamente com o que Alfred Beveridge chamaria sua “volúpia pela terra”, não era, em última análise, bom parceiro para sua imaginação prática: Jefferson entendia muito bem as necessidades de um povo agressivamente comercial e aqueles acontecimentos, na Europa, que pareciam justificar nosso desdém pelos intrigantes e falcões guerreiros do Velho Mundo, ao mesmo tempo que nosso comércio com eles nos estava tornando ricos. A posição internacionalista foi tomada uma vez e por todas. Certo, penetramos avidamente o continente em direção ao oeste, chacinando e defraudando índios como nunca nem Henrik Verwoerd ou Ian Smith chacinaram ou defraudaram os negros da África. Mas alcançamos aquela fronteira de cabeça erguida, olhar voltado sempre para nossas posições comerciais, primeiro na Europa e, não muito mais tarde, no Pacífico. A Guerra de 1812 não concretizou nossas grandiosas ambições concernentes ao Canadá, mas garantiu nosso acesso ao mar e nossas reivindicações às terras a oeste do Mississipi, comercialmente estratégico. Em 1819, John Quincy Adams afirmava que “os Estados Unidos e a América do Nor55

te são idênticos”. No mesmo ano, finalmente obtivemos êxito anexando a Flórida. Por volta da metade do século, tínhamos tomado um grande pedaço do México e das terras do Oregon e nos fizéramos senhores de toda a massa de terra. Na década de 1860, preparados para isto pelo compromisso de Missouri, pelos Atos de Kansas e Nebraska e pela guerra civil de Kansas, sofremos o nosso trauma nacional máximo ao pôr fim à disputa entre plantadores e industriais referente a como deveria ser desenvolvido o Oeste e, no fundo, quem iria dirigir o país. Expandimo-nos. Explodimos. A mesma energia que nos levou através de rios, pradarias e cadeias de montanhas também nos levou através dos oceanos. Nunca estivemos isolados e nunca fomos isolacionistas. Desde o começo, tivemos um Departamento de Estado e sempre estivemos diretamente interessados nas disputas de poder dos estados comerciais europeus. O tratado de John Jay de 1794, cuja concordância com os interesses navais britânicos tinha certas implicações neocolonialistas, representou uma contracorrente, que quase custou a George Washington sua reputação.* Foi um engano logo corrigido e que não seria repetido com frequência. Em 1823, a famosa doutrina de Monroe lançava a base de manobras para a hegemonia americana na América Latina. Três anos após, o Secretário de Estado Clay afirmava “um interesse vital na execução do trabalho” de fazer “um corte ou canal para fim de navegação em algum ponto do istmo que liga as duas Américas, para unir os oceanos Pacífico e Atlântico...”17 Em 1854, o Manifesto de Ostend, ressaltando que a “autopreservação é a primeira lei da natureza”, declarava que “Cuba é tão necessária para a República Norte-Americana como qualquer de seus membros atuais”, não meramente porque guardava “a saída natural e principal para os produtos desta população inteira, a estrada real de seu intercâmbio direto entre os estados do Atlântico e do Pacífico”, mas também porque havia um Perigo em movimento no Mundo. O Manifesto tornava este perigo claro, suas repercussões na ideologia atual tornam-no de interesse especial:
* Frank Monagham relata que “a ira dos republicanos era sem peia”. Sem esquecer “aquele maldito arqui-traidor, John Jay’’, cumulavam Washington de insultos como o homem que “tinha completado a destruição da liberdade americana”... Em Virgínia, foi brindada “uma rápida Morte para o General Washington”; em New York, a Proclamação do Dia de Ação de Graças do Governador Jay foi acusada, porque se aventurou a incluir a preservação “da valiosa e útil vida do Presidente dos Estados Unidos”, como um dos pontos merecedores de uma oração de graças...’’ (Em The Shaping of American Diplomacy, de Rand Mac Nally, Chicago, pág. 68.) 56

em plantações e ferrovias. minerações e outros negócios. onde anexamos o 57 . “antiimperialista” como era. abertamente.. embora talvez seja só porque podemos ver 1854 com mais clareza do que nosso próprio tempo. montava a aproximadamente 96 000 000..Nós devemos. e cometer uma traição básica contra nossa posteridade. Em ambos os casos.. que em 1889 montava a cerca de 64 000 000 de dólares.. não tivemos tempo para parolagens pietistas. com todos seus horrores atinentes à raça branca. provocaria a séria atenção do Governo e do povo dos Estados Unidos em quaisquer circunstâncias. o espectro de uma Ameaça invasora é usado como escudo moral para uma muito simples ambição de negócios. ou verdadeiramente consumindo. Uma estimativa razoável é de que pelo menos 30 000 000 a 50 000 000 de dólares de capital americano estão investidos na ilha. Em dezembro de 1896. ser desleais para com nossos deveres. depois nos voltando contra os revolucionários de ambos os países. e “Mundo Livre” pelo menos eufemístico “raça branca” e teremos uma declaração que é não só contemporânea mas quase de última hora. Cuba e Filipinas. no negócio de proteger negócios. Se há uma diferença importante entre então e agora. ano anterior à eclosão da atual insurreição.19 O nosso controle. O volume de comércio entre os Estados Unidos e Cuba. primeiro apoiando. quando afinal chegamos a estouros com a Espanha no final do século. da economia cubana e nossa anexação de Porto Rico não eram diversos. subiu em 1893 para cerca de 103 000 000. devemos permitir que Cuba seja africanizada e se torne um segundo São Domingos. e suportar as chamas se estenderem às nossas próprias praias vizinhas. ser irrespeitosos para com nossos nobres antepassados. obtido mediante guerra. Foi um vento das pradarias que soprou aqueles veleiros ianques através do Pacífico. ligação de nenhum modo de caráter inteiramente sentimental ou filantrópico. ameaçando seriamente. Porém. e em 1894. “comunizado” por “africanizado”. De fato.18 Basta-nos ler “São Domingos” por “Cuba” e vice-versa. analisou a crise cubana em desenvolvimento da seguinte maneira: O espetáculo da ruína total de um país confiante.. eles se sentem a ele ligados. o Presidente Cleveland. a limpa estrutura de nossa União. estávamos. é que este “antiafricanismo” do Manifesto de Ostend é mais obviamente um pretexto do que o anticomunismo da Doutrina Truman.. Nosso presente interesse pecuniário nele é só superado pelo do povo e Governo da Espanha. mas sim parte e parcela de nosso desenvolvimento interno.

21 No início dos anos de 1900. Peabody. É ainda concebível que os ingleses e americanos que se empenharam para concretizar uma situação de livre comércio. França (algumas das províncias sulistas). e a American Asiatic Association. contudo. É pelo menos concebível que. Deixando de lado tais especulações. e dar os nomes daqueles cujo controle do monopólio turco do ópio tornou ricos é nomear a mais brilhante fieira de traficantes de drogas jamais vista: Astor. com a dominação do Levante Boxer por trás de nós. se ligara à American-China Development Company para promover vigoroso apoio governamental à Política de Livre Comércio. Não há necessidade aqui de debater o intento real das notas sobre livre comércio de John Hay. “e sereis bem-vindos”. Kung.. se preocupassem com o povo chinês. Chegamos quase a anexar as Ilhas do Havaí como uma estação na rota para a China. inspirada pela necessidade de obter depósitos carboníferos para os novos navios a vapor na longa viagem para os portos chineses.. banqueiros de New York e variados empreiteiros. uma combinação de intermediários sulistas. Pelos meados do décimo nono século. Cabot. como não o fariam de novo até seu final. a Política de Livre Comércio pudesse ter tornado o imperialismo ocidental mais tolerável para o povo chinês. praticada muito bem pela Grã-Bretanha (as províncias do Yang-Tse). Perkins. e a expedição do Comodoro Perry para obter o livre ingresso no Japão foi. sempre singrando o que muito mais tarde o General McArthur iria chamar nosso “lago pacífico”. Sturges. Aquele grande país permanecia a chave para os interesses expansionistas do período.Havaí e as Filipinas. mesmo até os portos da Velha Catai. escreve Foster Rhea Dulles. havia superentusiastas que já haviam solicitado a anexação de Formosa. ficamos com três difíceis realidades comerciais. nossos capitalistas tinham feito penetrações formidáveis nas economias do Japão e Coréia. Alemanha 58 .) “Os americanos se voltavam para a Ásia na metade do século”. todos eles bons e limpos puritanos bostonianos. disse o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da China. A segunda é que queríamos ali nos aprofundar. o algodão superara o ópio como nosso produto máximo de exportação para a China. A terceira é que a diplomacia de esfera-de-influência. se tivesse sido realmente executada por todos os estados europeus envolvidos na violação da China. no mundo do Pacífico. A primeira é que estávamos na China. em parte. moleiros de New England.20 (“Levai para longe vosso ópio e vossos missionários”.

nas ilhas do oriente. colonização e expansão não igualado por nenhum povo no século XIX. tão só para corrompermo -nos em nosso próprio egoísmo? .. e Rússia (a península de Liaotung) deixou-nos inquietos no referente à nossa posição e sua extensão futura. no momento. e deve ser a bandeira que Taylor desfraldou no Texas e Frémont conduziu para a costa. até que o império de nossos princípios esteja estabelecido nos corações de toda humanidade? . A América tinha se tornado o que chamamos uma Grande Potência Mundial e estava bem preparada para agir como tal. Porto Rico está para tornar-se nosso pelas orações de seu povo.. A Política de Livre Comércio. Cumulou-nos Deus com dádivas para além de nossos merecimentos e marcou-nos como o povo de seu especial favor. Talvez um dos mais claros fosse o Senador Henry Cabot Lodge. e mesmo ardente.. mesmo às portas da Ásia. Seu princípio exterior era que os negócios americanos poder-se-iam sustentar em qualquer competição limpa num mercado livre. Não estamos para ser refreados agora. até o menor de todos. Beveridge. Cuba finalmente será nossa. meramente admoestava os mercantilistas europeus para que abandonassem aqueles privilégios garantidos por canhões que acontecera não partilharmos. Havaí é nossa.. Não nos podemos surpreender em ter nossos campeões de um imperialismo claro.. no extremo limite do rol das concessões..Para o bem de nossa supremacia comercial no Pacífico. devemos controlar as ilhas do Havaí e manter nossa influência em Samoa. que disse era 1895: Temos um recorde de conquista..(Shantung).. a bandeira do governo liberal está para flutuar sobre as Filipinas. Seu princípio profundo era que acontecia os negócios americanos encontrarem-se. A Oposição nos diz que não devemos governar um povo sem seu 59 . . cuja prosa é tão maravilhosa que não pode deixar de ser citada por inteiro (1898): Deve o povo americano continuar sua marcha para a supremacia comercial do mundo? Devem as instituições livres alargar seu reino bendito. enquanto os filhos da liberdade crescem em força. depósitos de carvão serão nossos. em seus pontos essenciais.22 Mais direto e brilhante do que Lodge foi o Senador Albert J. A Política de Livre Comércio — exatamente como acontece com nossa oposição de duplo critério ao “nacionalismo econômico” — era um meio politicamente oportuno para formular nosso objetivo expansionista asiático.

É tarefa deles cuidar de vossos interesses e defender vossos direitos. Secretário de Estado William Jennings Bryan. que informou aos homens de negócios que “abrir as portas de todos os países mais fracos a uma invasão de capital e empresas americanas”.24 Em maio de 1914. e as portas das nações que estão fechadas devem ser demolidas. e os manufatureiros insistem em ter o mundo como mercado. Cuba não contígua! Porto Rico não contíguo! Havaí e a Filipinas não contíguos! Os oceanos os tornam contíguos. Bem mais surpreendente — mesmo impressionante — é a passagem seguinte. governamos nossos filhos sem o consentimento deles. os embaixadores. ele sublinhou: “Meu Departamento é vosso departamento. E nossa Marinha os fará contíguos. nos mercados do mundo para conseguir nossa parte”. declarava ante o National Council of Foreign Trade [Conselho Nacional de Comércio Exterior]. Eu respondo: A regra de liberdade. a eletricidade nos aproxima — os próprios elementos fazem liga com nosso destino. os ministros e os cônsules são todos vossos. William Redfield. o controle do desenvolvimento dos vastos e densamente povoados países não-desenvolvidos era visto de maneira constante como a chave de nossa própria realização plena — em parte por causa de suas riquezas em recursos naturais. em parte devido 60 ..”26 A ênfase de Bryan sobre as portas dos países mais fracos.23 Todas as nações e todos os movimentos produzem seus ferra-brases. Para o caso de não perceberem bem. Embora nem ao menos uma vez tenhamos abandonado nossos interesses cruciais e sempre crescentes na Europa. escrita por um de nossos maiores estadistas liberais. segundo a qual todo governo justo deriva sua autoridade do consentimento dos governados. O vapor nos aproxima. imagináramos ser o pobre mundo nossa ostra. de 1907. “Porque somos fortes. você e eu. estamos entrando.. Distância e oceanos não são argumentos. a bandeira de sua nação precisa segui-lo. Governamos os indígenas sem o consentimento deles. era a política oficial da América. o Secretário do Comércio de Wilson.25 Redfield foi seguido na tribuna por um antigo membro da Liga Antiimperialista.. aplica-se somente àqueles que são capazes de autodeterminação. é significativa. Woodrow Wilson: Uma vez que o comércio ignora fronteiras nacionais..consentimento. Por muito tempo.

numa declaração política importante. (Devido 61 . Europa e finalmente América. já que o Japão exibia uma crença persistente de que a história estava em suas mãos.27 Assim. em uma escala continental. aconteceu que a roda estava simplesmente em outra ciranda. não nas nossas. do Secretário de Comércio Hoover. o Norte da África e a Ásia que mais incendiavam a imaginação expansionista da América. é natural. sem dúvida. auxiliar principal. cujo progresso copiou. algum debate sobre qual o novo pioneiro que iria levar as boas novas à China. justamente porque eles eram mais adaptáveis à nossa vontade do que o eram os ricos estados industriais. sem dúvida. era contada em nítido movimento de fronteira para o oeste. e o arquétipo do país pobre era. e mesmo embora alguns de nossos estadistas e homens de negócios tentassem arrumar um comissariado associado com ele. a mais antiga e a mais nova área de comércio. que iria ver por longo tempo a abolição de fronteiras e a conquista de “selvagens” por “civilizados”? De forma alguma. Uma era. a última grande fronteira foi conquistada. seu modelo global. Grécia. tanto quanto a história do próprio mundo. Houve. ao mesmo tempo. (Não nos tornamos efetivamente anticolonialistas no referente a impérios de outros senão depois da II Guerra Mundial. também.seu mercado potencial a longo termo. A conclusão lógica dificilmente poderia faltar: Agora o círculo está completo. ou quando clama que “concessões obtidas por financistas devem ser salvaguardadas por ministros de estado. durante a Administração Coolidge. mesmo se a soberania de nações relutantes seja ultrajada no processo”. e em parte. ele por certo não está pensando na porta de um estado como a França ou na soberania de um estado como a Alemanha. Roma. Julius Klein. A América. Expôs que a história dos Estados Unidos. talvez. Descreveu como a fronteira do mundo moveu -se da China através da Ásia Central. deu às nossas inclinações orientais uma fraseologia quase mística. Quando Wilson fala de pôr abaixo portas fechadas. chamada “A Tendência da Fronteira é Mover-se para Oeste”. está encarando através do Pacífico o que é.) Eram a América Latina. uma guerra do Pacífico teve afinal de ser travada para aclarar de vez estas ambiguidades do Destino. por exemplo. e chegamos a uma nova era da história do mundo. com uma organização econômica e industrial que é o fruto de séculos de progresso mundial. a China.

O contrato. Lucros futuros irão para as firmas que se mostram hoje empreendedoras e previdentes.28 A publicação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.. foi entregue àquele famoso historiador. O expansionismo da América não é debatível. em 1962. estão sendo criadas oportunidades de negócios. Uma firma americana. de 29 de abril de 1965. é difícil deixar de especular: Precisa-se de serviços e materiais para realizar para o Exército um estudo de pesquisa intitulado “Pax Americana”. cuja perícia empresarial. Commerce Business Daily. apresenta anúncios de contratos governamentais que estão abertos para licitação do “setor privado”.. os líderes americanos mantiveram sua opinião sobre a importância da retaguarda. no qual a opinião tradicional é agora expressa: Os negócios [americanos] devem expandir seu atual papel importante na economia mundial. consistindo num estudo básico sobre o seguinte: (a) elementos de Poderio Nacional. a Douglas Aircraft Company. esta disputa permanece sem solução. Trataremos disto melhor no capítulo IV.) Através de tudo isso. os próprios chineses. para ser usada como uma base para os EE. porém. aparecido no Business Daily. (c) uma variedade de configurações de poderio mundial. argúcia política e cuja contribuição para o desenvolvimento ganhem a confiança de uma nação em desenvolvimento.UU. Enquanto as nações se desenvolvem. poderá estar em posição invejável. Há fortes incentivos para firmas americanas apresentarem agora suas reivindicações nestes grandes mercados em potencial [dos países em desenvolvimento]. a longo prazo. As nações em desenvolvimento representam um desafio clássico à empresa privada americana. incidentalmente (no montante de 89 000 dólares — barato para hegemonia mundial). à National Business Advisory Council [Junta Conselheira dos Negócios Nacionais] é típica do estilo burocrático menos colorido.a chegada de um terceiro candidato. (b) habilidade de nações selecionadas em aplicar os elementos de Poderio Nacional. Pode ser que não haja absolutamente ligação entre a atitude exemplificada pela declaração de Rusk e a exemplificada no anúncio que se segue. A seguinte passagem da fala do Secretário de Estado Dean Rusk. O dinamismo que tem sido central no desenvolvimento dos Estados Unidos deve agora ser empregado em escala global. É uma condição dinâmica que descreve nossa carreira nacional melhor do que qualquer outro 62 . manterem hegemonia mundial no futuro. lá estão as oportunidades. Lá estão os riscos.

para ser mais concreto a respeito. as que resultam dos impulsos monopolistas-corporativos de um capitalismo que há muito tempo escapuliu-se dos velhos e frágeis grilhões públicos. Americanos modernos. Porém. Podemos gozar todos os nossos direitos de pessoa só porque nosso sistema de livre empresa garante nossos direitos de propriedade — e portanto nosso direito de explorar a propriedade para fins comerciais. não são de nenhum modo um povo “possuidor de propriedades”. De um lado. o individualismo do qual temos sido tão orgulhosos — têm sido vistos pertinentemente como virtudes justificadas pelo oposto. Esta teoria produziu as mais calmantes devoções sociais que o mundo conhece. aquelas liberdades — as liberdades e direitos civis. quando provém da ação pública. isto é. Não se trata de ser cínico. mas tão só de fazer a tradução óbvia. mais ou menos explicitamente. E esta liberdade econômica. Porém. observar que a fórmula sobre “fazer o mundo seguro para a democracia” na realidade. ainda permanece para nós um tema do cerimonial mais alto dizer que temos liberdade pessoal porque temos liberdade econômica. claro é simplesmente a liberdade de os homens de negócio americanos expandirem suas operações comerciais. Visto que estando o mundo seguro para nossos capitalistas incorporados a democracia política também está segura. Os filósofos do capitalismo democrático tentaram. e de outro. é celebrado. De momento. que permanecerão de certa forma em risco até que sua prática seja universal. necessariamente resulta em decréscimo da liberdade pessoal. Todas essas exortações a respeito da necessidade de difundir o Modo Americano de Vida não são de nenhum modo gracejos — são exortações verdadeiras. não é muito difícil entender esta omissão. Muito raramente este tipo de raciocínio faz um esforço para levar em conta decréscimos de liberdade econômica (ou as perdas de propriedade) que provêm da ação privada. Não é dissimulado. e que qualquer decréscimo de liberdade econômica. Precisamos examinar isso. significa fazê-lo seguro para o capitalismo — e. Já que liberdade econômica é a liberdade 63 . estáse processando em colisão com dois desenvolvimentos relacionados: a burocratização incorporada do empresário e a privatização virtual do assim chamado setor público. e vêm de uma cultura que realmente pensa que sua sobrevivência requer mais e mais conversos.termo singular. nossos princípios de negócio. ultrapassando mesmo o marxismo de clube juvenil em sua habilidade de tornar lugar comum o irreal. fazê-lo seguro para nossos próprios capitalistas incorporados. mostrar que liberdade pessoal e liberdade econômica são interdependentes.

e portanto da liberdade pessoal expandida. De maneira importante. Pedir ao membro da corporação que imagine que seu monopólio recentemente conquistado na verdade limita a liberdade econômica. ele subverteu e traiu essa revolução. e a conquistar aos empurrões uma posição. Se as duas são de fato interdependentes. infestados de ratos em todas 64 . quando os grandes homens de negócio são livres. qualquer expansão de negócios realizada é simplesmente a materialização concreta da liberdade econômica expandida. de uma maneira nem sempre destrutiva. Que nossos astronautas olhem para baixo. Como pode a liberdade ser negação de liberdade? Como pode a liberdade vir da escravidão? Um crítico aponta o conluio dos altos negócios e governo. Todos os argumentos sobre cultura. estradas de alta velocidade. A melhor coisa. então uma cresce quando a outra cresce. vendo alojamentos. liberdade e os direitos do homem parecem ser nada mais do que posições táticas que podem sempre. subúrbios e guetos para Dar es Salaam. deste ponto de vista pelo menos. ensinamos o nativo iletrado a admirar as obras de Doris Day. o que é bom para a América é bom para o mundo. curamos o doente. é pedir-lhe que enlouqueça. que (caso o admitam) só vêem neste conluio uma vitória da liberdade. ele pode de fato apontar a virtual identidade deles. Porém a implicação disso se perde nos altos negócios. ou pedir-lhe que se submeta a controles sob a razão de que eles aumentam a liberdade. arranha-céus. e. a ser dita sobre o capitalismo corporativo é que ele planejou relacionar-se. então mais liberdade é melhor.de expandir atividades de negócios. bem igual a Chicago. que se coloca sob a abundância notória do mundo do Atlântico Norte. se necessário. é estável. Intelectuais de negócio contemporâneos podem fornecer justificativas sem fim para a marcha expansionista de nosso sistema: democratizamos o mundo. com aquela revolução tecnológica bem independente e a longo prazo. ser trocadas por outras (tal como barrar o comunismo). e possivelmente arrasadora. Mas todas estas virtudes parecem incidentais. um dia. o escravo tem submetido seu senhor. todos são livres. Levantar uma dúvida sobre a habilidade exclusiva do capitalismo corporativo em fazer o povo mais livre e dar-lhe melhor vida não é levantar uma dúvida na mente capitalista sobre a mais primitiva virtude de seu sistema: que é simplesmente ser ele o seu sistema. provavelmente. Porque quando os negócios têm submetido o governo. a ambicionar o aparelho de TV colorida. o que é bom para a General Motors é bom para a América. e se alguma liberdade é bom. modernizamos o que está em atraso. que ele o liberta. sem desesperar.

em comparação com a abundância que ele produz. A ciência. deve agora ser esclarecido de que o capitalismo tornou possível o progresso tecnológico. em nosso tempo. e boa parte dela é não-produtiva. e de que é preciso uma para fazer a outra. Porém o que dizer daquele outro título máximo.) Após estar sendo reformado todos esses anos. tão convincentemente como sempre. o que glorifica o capitalismo como o modernizador do mundo? Não há como ser enganado sobre isso. pelo menos. dispersou-se em cápsulas espaciais. Foi esta tecnologia revolucionadora do trabalho. liberdade econômica? Em comparação com outros o trabalhador americano está em bela condição financeira. o sistema de capitalismo “moderno” ainda prova. aquelas observações muito de antanho. Para alguns marxistas.as nossas famosas cidades modernas. que produziu abundância — uma abundância. contudo. as formas pelas quais o ato competitivo básico e livremente iniciado possa ser renovado de maneira contínua. O ponto a destacar é que as duas defesas sociais mais celebradas do moderno capitalismo ocidental são dúbias. Produz ele liberdade pessoal? Por muito tempo. por sinal. induzindo a ciência ao serviço da burocracia das finanças. que o trabalho teve de se bater ferozmente para partilhar. reflete um desarranjo social por demais imenso para o entendimento do cérebro comum. foi pelo contrário famoso por não produzir nem mesmo um cenário no qual a liberdade pessoal pudesse ter um significado. os fatos decisivos sobre o ato de competição de livre empresa são que alguém ganha e alguém perde. de que riqueza e pobreza se engendram. barbatanas de cauda e espalhadores de creme de barbear. dentro da praça de mercado. e uma vez que seu racionalismo intrínseco pode. sua chegada pode ser mais prenhe de mudanças do que agora o imaginam certas casas de investimento da livre empresa. E do outro lado da medalha. e (para generalizar o precedente) simplesmente que o capitalismo não foi capaz de conceber. representar alguma vantagem social. porém. de que o poder financeiro (e portanto político) infalivelmente se condensa em torno de grupos exclusivos de elite cujos interesses são crescentemente coordenados. ela alcançou o mundo. e menos ainda institucionalizar. Então produziu. que ganhadores tendem a permanecer ganhando e perdedores a permanecer perdendo. Porém isto é enganador e 65 . (Muita “competição” agora é dentro de corporações. ele trabalha horas demais por dia e anos demais de sua vida para alcançar um poder aquisitivo pequeno demais. Deformada e desperdiçada como é. e mais ainda neo-Smithianos. basicamente. O crescimento do estado capitalista resultou daquela chuva científica que chamamos a revolução tecnológica.

na aparência. Por enquanto. e que o problema de produção excedente tem sido. algo está errado com o sistema de repartição de recursos e distribuição de riqueza. e a ciência é ideologicamente cega. a saber. para os quais foi dirigido o Sherman Act. O que seria levantado em 1917 como uma firme conjetura pode ser hoje afirmado. A ciência produz e mobiliza riqueza. Como veremos. que é calculadamente afastado do mercado através do sistema de patentes e práticas tais como obsoletismo planejado. roubados e ladrões do mesmo modo (um ponto da maior importância a que voltaremos mais tarde). ou progresso material. que a revolução tecnológica se propagará indiscriminadamente através de qualquer sistema suficientemente coerente de comunicações sociais. a enfrentar o conceito realmente surpreendente de “produto excedente”. em oposição a estes ventos tão contrários. quedas de preço intencionais. surge uma versão deste mesmo argumento de capitalismo-para-o-progresso que está sendo apresentado correntemente em defesa da moderna corporação americana (com frequência multinacional). é claro. quando as necessidades têm sido menos satisfeitas. Porém. e “técnica de vendas” — práticas que são. evidentemente. como uma verdade demonstrada. não o outro ponto em torno. pretendendo ser analítica. em conformidade. cinquenta anos mais tarde. É uma afirmação puramente histórica. e seus apologistas talvez estejam certos em proclamar que alguns dos temores originais de gi66 . esse incremento de riqueza útil. diferente dos monopólios da era dos Alegres Noventa. o mundo do Atlântico Norte considera tão desagradável a respeito das revoluções russa e chinesa. de fato. a solução deste problema doméstico tornou-se uma tarefa primária da política externa americana. Este excedente era.paralelo ao assunto. O clero das finanças foi obrigado. peculiares do Ocidente e das quais o Ocidente precisa se envergonhar. mais agudo. há o fato embaraçoso de que o capitalismo não parece saber ainda com exatidão como lutar contra esta abundância que supostamente inventou. aparentemente. riqueza bruta e força de trabalho. A enorme e crescente corporação é. Parece que o homem e a máquina produziram demais. Além disto. Quando os frutos apodrecem nas árvores e homens desempregados andam famintos. Relacionado com o problema do produto excedente temos o problema do excedente tecnológico. Que isto esteja agora provado é o que. nada senão um furto que ameaçava a todos destruir. observamos somente que não podia haver propriamente excedente até estarem satisfeitas as necessidades.

e mais ainda fascistas. existem. é por certo capaz de cometer os velhos pecados usuais dos trustes. existem porque a promiscuidade do mercado abundante (“hiper-elasticidade de demanda”) pode ser estimulada e controlada somente através de uma diversidade técnica por demais dispendiosa para pequenas firmas. que alguns socialistas. Gigantismo pode não ser a mesma coisa que ruindade. pelos resultados prováveis da cibernetização. limitar a produção e conspirar para distribuir mercados não foram exatamente esquecidos. há muitas outras e melhores medidas de valor. vinham pondo em prática há longo tempo. e porque ela está condenada a considerar sua administração dessa riqueza como boa ou má. medida em dinheiro. A grande corporação. eles não tinham meio de conhecer um louco.* Os velhos truques de fixar preços. não é para cometer tais pecados que a corporação passa a existir. Se esta nova criatura de nosso sistema capitalista pudesse realmente inovar. então nossa prodigiosa riqueza nacional teria. O que pode ser bom na grande corporação é sua habilidade de inovar. Porém.gantismo são agora deslocados. desde que a corporação é o repositório principal de nossa riqueza nacional. e muito mais para ser censurada por suas “cidades internas” do que admirada por seus aeroportos. quanto atraída. de provocar ou absorver mudanças e de injetálas na economia. A corporação existe. enganar o consumidor. horizontais e conglomerados (havia 2 100 em 1965). e não seria preciso destrui-la para assegurar que tais crimes não sejam cometidos. Porém. Mas o que certamente é mau. temos uma sociedade industrial que é tão perturbada.” Além de empunhar machados e auferir lucros. Isto não é socialmente racional. no referente à grande corporação. porque os valores de troca no mercado abundante tornou lucrativas uma flexibilidade. desde muito. é que seu imenso poder inovativo é mutilado por lhe ser fundamental consagrar-se a obter proveitos financeiros. em geral. é bom notar. * Os escândalos das indústrias farmacêuticas e eletrônicas são famosos. 67 . na dependência do montante de lucro que auferir. Sua rentabilidade. formada por meio de fusões verticais. A observação de Robert Frost sobre os dois vagabundos vem-nos à mente: “A menos que um homem pudesse empunhar um machado. simplesmente porque uma movimentação mais global de recursos é mais racional — ponto. é o único critério básico pelo qual ela avalia o desempenho deles. É uma espécie de vodu. uma habilidade de reencaminhar recursos que as pequenas firmas de produto determinado não parecem ser capazes de exibir. O negócio da GM não é carros mas sim lucros.

Temos dito. que arde em chamas. em termos de uma ideologia claramente imperialista. porque outros devem ter a ocasião de compartilhar de sua bondade. mesmo quando esses hospedeiros não estão eles próprios disso convencidos. registradas principalmente por guarda-livros e comemoradas principalmente na nostalgia dos vendedores. ao dar a esse progresso uma orientação mais atraentemente social. Quiséramos saber que promessas podemos esperar que este sistema cumpra. o argumento é circular e tomou-se por verdadeiro o ainda não provado. Agora queremos perguntar: Por que expansão? Algumas vezes — mais marcadamente no período de 1895 a 1905 — explicamos nossas expedições. Expandimo-nos para modernizar o mundo? Nossos antecedentes domésticos não nos levam à conclusão de que o podemos. e nos expandimos pelo mundo. tanto comerciais como militares. Não nos expandimos por nenhuma destas razões. e talvez mesmo melhores. ou não. Este exame do capitalismo americano não é gratuito. consideramos nosso sistema econômico-político como sendo a única esperança do mundo. outros sistemas são pelo menos tão capazes de conduzir progresso tecnológico quanto o nosso. com uma imodéstia mais ou menos dissimulada. ser bom: O precedente deve ter indicado pelo menos porque é saudável entreter certas dúvidas: Expandimo-nos para tornar os homens livres? Se isso quer significar uma versão liberatória da liberdade pessoal. Mais frequentemente. Temos justificado nossa presença em amplitude mundial encarando-a como um favor a nossos hospedeiros. Se a gerência de nossos recursos fosse realmente integrada e realmente racional. então a medida de nosso desempenho empresarial não seria a eficiência financeira. dentro de nossas próprias fronteiras. Se se pensa numa versão capitalista de liberdade econômica. mas a qualidade da vida social. Nosso sistema pode. continuamos a nos desonrar com esta inventividade estouvada. Voltaremos a isso no trecho que se segue.erradicado a pobreza e o sem número de males sociais que a pobreza produz. porém porque nossos homens de negócio o quiseram. E durante todo o tempo em que falamos de forma tão audaciosa sobre nossos planos para desenvolver o mundo em atraso. Como tal não acontece. Sabemos que nosso sistema é expansionista. como tantos cristãos. o argumento é claramente errado (veja a América Latina). de modo tão firme quanto nossos 68 . em aflição e amargura. cujas realizações são aquilatadas principalmente por contadores. nosso sistema é um bom sistema. desprezamos o fato de que nos mostramos — sejamos generosos — inábeis para desenvolver o mundo em atraso.

E mais importante ainda. Era o que contava a história sangrenta da Europa da metade do século. em 1846. excedentes. de seu ponto de vista. Por uma razão. já tínhamos uma apreciável parte do mercado da China. Pittsburgh. Aflição econômica e violência consciente de classe nunca foram desconhecidas na América. e ressentimento das massas à luta de classes. No fundo da consciência política da América estavam o uso de tropas. E muito. Não seria ingênuo afirmar que. em 1892. pelo menos ao primeiro relance. a Greve de Homestead. como estabilizar em um nível elevado de emprego e consumo.estadistas acreditaram que tínhamos de fazê-lo. perturbações econômicas e sociais: de que maneira fugir ao ciclo valorização acelerada-depressão. mas indispensável à sobrevivência. como resolver o pro69 . este comércio não era apenas bom. fervilhava a penosa competição de esfera de influência com as potências européias. era fundamental a importuna inabilidade da América em resolver. desemprego ao ressentimento das massas. Mas isto não era só derrotista. em 1895: “Precisamos ter o mercado da China”. O Senador William Frye expôs o problema. era suicida. Mas Frye expressou sua opinião de maneira tão brutal porque. o Pânico de 1893 e a subsequente depressão. e o massacre de Chicago. nossas exportações cresciam. Reduções conduziriam ao desemprego. para reprimir os trabalhadores irlandeses grevistas de New York. em mãos dos rebeldes. com nobre simplicidade. “ou teremos revolução”. de Martinsburg. disse. assim dizia. em 1886. para a possibilidade desta violência. O que podia ser feito? Uma alternativa óbvia seria reduzir a produção. quando fez sua sombria predição. revolução. Não era tolice pensar que mais e maior violência podia vir. Reading. também a história sangrenta da América do século XIX — história que deve ter estado muito presente na mente do Senador. quando se viu soldados passarem para o lado dos trabalhadores ferroviários e a queda virtual.29 Esta idéia pode hoje parecer divertida. o Grande Levante de 1877. Porém não seria risível àquele tempo. Estes bens excedentes dificilmente podiam ficar a apodrecer nos armazéns. com constância. Era da natureza do sistema econômico americano produzir mais bens do que podiam ser vendidos aos americanos — ele produzia. em primeiro plano. as duas depressões que ultrapassaram a violência maciça da Guerra Civil. que surgiu da Greve de Pullman em 1894. o Motim de Haymarket. O raciocínio não podia ser mais simples. de algum modo. e precisamente quando a vantagem de maior penetração ganhava adeptos entre nossos homens de negócio.

havia outra solução: vender maior quantidade de mercadorias no exterior. nos estabelecêramos como nação exportadora e tínhamos dado início a uma economia de mercado. Tudo na experiência daqueles que tomavam as decisões apontava para os oceanos como a saída. Estávamos desfazendo aos poucos a dívida que acumuláramos na Europa. Tornáramo-nos os primeiros manufatureiros do mundo. Talvez essa proposta estivesse muito bem para algum outro cosmos. naqueles dias. cujas origens estão principalmente em outra ilha. perturbada. produção elevada e acesso. Dadas nossas origens. esta era uma formulação invencível. e que também tentou livrar-se de seus problemas econômico-sociais pela exportação de seu produto industrial excedente. se torna cada vez menor — os senhores dos trustes — e de que modo fazer estas coisas sem mudar fundamentalmente a natureza do próprio sistema. a fim de ter produção elevada. resolvido por meio da redistribuição do poder econômico. é claro. Assim devíamos ter produção elevada e não revolução. sucedeu que ela punha ante seus juizes a solicitação de que se condenassem a si próprios: algo que juiz algum jamais fez. e acesso aos mercados externos.blema de concentração de poder nas mãos de um grupo de homens que. porém genuína. sendo o problema artificial. Tirava só um 70 . ter topado Marx e caído morto do choque de auto-reconhecimento. e acesso e não revolução. com constância. Ninguém podia antever. sobre os quais estava baseada nossa república. a solução final. nossa experiência de fronteira. Porém certas condições teriam que ser encontradas antes de esse sonho se tornar verdadeiro. a fim de ter acesso. em cuja primeira parte tínhamos pedido emprestado e comprado no exterior mais do que vendêramos. durante o século precedente. não revolução. Pela década de 1890. também levou em conta o Continente. de fato. nossa moralidade de negócio. como a descrição modelo o fez) em uma nação credora. uma heresia contra aqueles direitos divinos de possuir e explorar propriedade. uma que também navegou. Um livre empresário americano poderia. Como poderia ser diferente em se tratando de um povo ilhéu? Um povo ilhéu. Queríamos ter produção elevada. A resposta que os socialistas apresentavam era controle popular da riqueza da nação. do excedente. O socialismo era ofensivo às ventas dos deuses. Porém já estava claro que ser credora fazia parte dos planos. Além disso. que não estávamos nem a um quarto de século da guerra mundial que nos transformaria por fim (quase numa noite. Mas aqui. a fim de não ter revolução. Cada uma dessas condições eram diretamente interligadas e se reforçavam.

quer interna ou externa: Os grandes homens de negócio americanos e seus as71 . e de que a construção de marinhas. Os populistas nunca teriam oportunidade contra esse tipo de poder de fogo.31 Por que remexer nestes velhos ossos? Porque estes velhos ossos estão em nossa carne nacional. multiplicou-se e adquiriu toda a força que teve. homens da classe média nas ruas. e que. Porém. o Olympia em 1892. de que mais comércio marítimo precisaria de uma marinha maior. Se as coisas estão bastante diferentes entre nós agora. que ele tinha comprado por trinta e três centavos. onde se colocava o Poder. tal como aquele cavalheiro cristão George Pullman protegeu e cuidou de seus trabalhadores. vivendo na cidade “modelo” de sua companhia. não podia deixar de ser claro para ninguém que o povo americano tinha boas razões para estar zangado. em uma luta muito amarga. o afrouxamento da servidão do trabalho sempre tinha de ser forçado. Tem de ser aceito. pelos quais ele pagara quatro centavos. porém pelos cavalheiros cristãos a quem Deus deu o controle dos direitos de propriedade do país. a atitude típica era a de George Baer. Na verdade. quando raciocinamos. liberais. em nosso país.25 dólares por mil pés de gás. a injustiça realmente elementar do comportamento do grande capital era sempre protegida. 2. compreendido. presidente da Philadelphia and Reading Railroad. revolucionários. Este é um fato político decisivo. o New York em 1891. e que sua raiva era socialmente explosiva. proprietária de minas. apesar do que pensara Jefferson. Foi nas ruas que nasceu o progressismo americano. que recebiam de quatro a dezesseis centavos por hora. deve-se supor. pagavam-lhe dez centavos por mil galões de água. o Oregon em 1893. por muito tempo. lembrado e aplicado de maneira inflexível. era boa para os negócios. ou negada. Porém lá em cima e no centro da cidade. Na passagem do século. as propostas mais moderadamente progressistas eram sempre atacadas. É claro que havia reformadores. que se expressou da forma seguinte sobre a greve dos trabalhadores da mina em 1902: Os direitos e interesses do homem trabalhador serão protegidos e cuidados — não pelos agitadores trabalhistas.30 Protegidos e cuidados. claros mesmo então. O Maine tinha sido lançado em 1890. não haveria oportunidade para nem mesmo uma resposta nominalmente liberal-reformista.encanto a mais dos fatos. para fazê-las diferentes. é tão só porque uma boa quantidade de homens morreu. radicais. sobre política americana. anarquistas.

O. Mas. Pois os conflitos do futuro deverão ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. de Jefferson e Grant. sabiam muito bem que havia argumentos e argumentos. manufatureiros. e em termos de outros Eldorados — ou quem sabe deveríamos dizer outras Fontes da Juventude. Tacher testemunhou.. S. Portanto precisamos achar novos mercados para nossa produção. senão abertamente cristã. Há mais trabalhadores do que trabalho para eles fazerem. é claro. Ainda Beveridge: Não havia motivo para a volúpia pela terra de nossos estadistas. .. com tais idéias. razões e razões. hoje.sociados nos departamentos de Comércio e Estado. Por exemplo. às portas da Ásia — Ásia. o grosso do comércio oriental será nosso. Dentro de cinco décadas.. a cujo comércio centenas de milhares de mercadores. Devemos ter permanentemente em conta de que eram tais homens.... as Ladrones outra.. ante um subcomitê do Comitê do Senado para Relações Exteriores. uma viagem mais adiante. Assim o Havaí nos fornece uma base naval no coração do Pacífico. Porém. E a regra de ouro da paz é a inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. estamos produzindo mais do que podemos consumir. caracteristicamente. A supremacia comercial desta República significa que esta Nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. outra. não se abstêm de explorar o que quer que não lhes tenha sido proibido explorar por qualquer outro poder. a não ser o profeta e o Saxão que existiam dentro deles. eles sempre tentaram dar ao nosso espansionismo um halo de cruzada humanitária. Ásia. no teor que se segue.. fazendeiros americanos têm tanto direito como os da Alemanha ou França ou Rússia ou Inglaterra. fazendo mais do que podemos usar.Em cada setor * Em 1938. Tal como Beveridge. cujas portas não devem ser fechadas ao comércio americano. em abril de 1886 (apenas poucos dias antes do Motim de Haymarket): A visão industrial de nossa terra não é por completo cor-de-rosa. como Beveridge também.32* Já se tratara anteriormente do assunto. que estavam para difundir no exterior aquelas “instituições livres” que o Senador Beveridge saudava com tanto orgulho em 1898. Qualquer outra visão de nossos “líderes” é uma alucinação sentimentalóide que leva muito pouco em conta aquela “dureza” pela qual eles tanto estimam a si próprios. e que algumas certezas eram mais certas que outras. Manila. 5 por cento de nossas importações de matérias-primas vinham da Ásia 72 .

. uma tentativa de revigorá-la de dentro. A reconstrução do 73 . os projetos financiados pelo governo não eram considerados como mudança estrutural. proclamou uma importante variação do tema principal: “Devemos financiar nossas exportações emprestando aos estrangeiros o dinheiro necessário para pagá-las. Roosevelt.”37 Talvez em parte por não ter sido levado em conta tal aviso. como nunca antes.. Franklin D.. os menos desenvolvidos). presidente da Associação Nacional de Manufatureiros: “Muitos de nossos manufatureiros ultrapassaram seus mercados internos.33 Nada mais comum em nossa mentalidade econômica.. voltamos os olhos para qualquer outra parte do mundo em busca de um povo que. nosso progresso. Em vão. Search. forjas e poços de óleos minerais [aquilo] que somos capazes de produzir e dispensar. Vejamos só como a mesma fala é feita sempre e sempre: em 1897. Porém. de uma vez. Nossos mercados internos não mais são suficientes. em 1928: “Precisamos achar um mercado lucrativo para nossos excedentes. vieram dias negros para a América — e com eles. por Theodore C. tapa-buraco. não só oferecem os mais lucrativos mercados para onde encaminhar nossa produção excessiva.”35 O Presidente Herbert Hoover. mesmo para o “New Deal”. precise e esteja querendo tirar de nossas fazendas. nada mais constante em nossa política externa. e de que a solução básica para esse problema. e a expansão de nosso comércio exterior é sua única promessa de alívio.”36 Nesse mesmo ano.. teares.”34 Woodrow Wilson durante sua campanha para a Presidência.da vida industrial há produção além do consumo. paz e tranquilidade futuros dependem de encontrar mais consumidores para o que temos para vender. eram meramente conserto estrutural. a essencial e única anodina. está em nossa penetração de mercados externos — mais especialmente os mercados daquelas terras que agora classificamos como países subdesenvolvidos (ou segundo o novo eufemismo do Departamento de Estado. em 1912: “Nossas indústrias se expandiram a tal ponto que estourarão se não pudermos achar uma livre passagem para os mercados do mundo. No total. As nações da América Central e do Sul. como também são o único campo existente. marginal ou temporário — até a revivificação do comércio exterior do país dramaticamente deprimido. um renomado advogado de Washington e amigo do Leste Longínquo. John Foster Dulles. Precisamos de mercados externos.. O “New Deal” parece ser encarado agora como uma tentativa de aplicar estímulos internos à economia. do que esta convicção de que o problema básico do sistema de negócios americano é a riqueza domesticamente indistribuível.

As exportações americanas haviam caído de mais de 5 bilhões de dólares. Não há outro caminho. Sayre pôs a claro a sombria significação deste declínio: “Lembrem-se disto: Redução no comércio mundial significa redução na produção mundial. sem apelação. para sua existência continuada. em 1929 para 1. o Secretário de Estado Adjunto Francis B..6 bilhões de dólares.“New Deal” girou em torno do liberalizante Ato de Acordos de Comércio de 1934 (e. e destas espalharia os danos por todo nosso país.]39 74 . certos produtos básicos regionais. se não permanentemente prejudicada. e redução na produção mundial significa. anulação do protecionista Smoot-Hawley Tariffs) como um meio de restaurar a capacidade da Europa para comprar-nos o que queríamos vender-lhe. O fracasso em vender estes excedentes no exterior significariam desastre inevitável para grandes setores agrícolas de nosso país. reajustamentos sociais e desemprego. e a vida cultural de setores inteiros do país golpeada. em 1933. desemprego. [Ênfase incluída. as rendas dos impostos deverão ser diminuídas. de março de 1934. Tal miséria e desastre econômico não ficariam confinados aos próprios produtores.” Ninguém mais do que o próprio Roosevelt poderia ter concordado em que as coisas estavam más e que a única resposta era mais comércio exterior. os bancos ameaçados. Sem os rendimentos das vendas destes excedentes. caso os produtores americanos se disponham a reconstruir uma economia interna plena e duradoura para nosso povo. se quisermos evitar dolorosos desacertos econômicos. Suprima-se estes mercados externos. dependem de uma exportação muito acima de um décimo. sofrimento e miséria humana. é claro. Num discurso radiofônico.38 A linguagem dificilmente poderia ter sido mais acabrunhantemente apocalíptica — tudo para o ouvido de gente que já conhecia muito bem “desemprego. contudo. através da diminuição da capacidade aquisitiva. e o resultado inevitável é desemprego. os valores imóveis cairão abruptamente. sofrimento e miséria humana. Transmitir-se-ia... Em 1935 ele disse: Os mercados externos devem ser reconquistados.” O tom de Sayre revela muito bem a intensidade dos sentimentos do “New Deal” sobre o comércio exterior: O que significa realmente este decréscimo no comércio americano para a vida de nossos fazendeiros e manufatureiros? Embora seja verdade que os Estados Unidos normalmente exportam só cerca de um décimo de sua produção total.. à vida dos negócios de cada cidade e vila nas áreas produtoras.

. a acumulação de imensas reservas de capital). ele disse.”40 Não só pedimos e conseguimos livre acesso às colônias do Eixo. “As velhas fronteiras devem ser refeitas”. na qualidade de Secretário de Estado de Truman. ao mesmo tempo. se poderia usar toda a produção do país nos Estados Unidos. a urgência desta necessidade.”42 O Secretário de Estado Adjunto Dean Acheson. Já destacamos a declaração do Secretário de Estado Byrnes. mas não suprimiu.. Podemos debater por um bom espaço de tempo que neste país. avanço tecnológico. sob um sistema diferente. perante o Comitê Especial do Congresso sobre Política Econômica e Planejamento de após-guerra. sustentada por toda parte. Já em 1940 Cordell Hull tornou claro que nosso “objetivo primário é. e proclamou que nossa expansão para os países pobres representava nossa “ilimitada nova fronteira de oportunidades.”41 Há virtualmente um consenso universal inviolado sobre este ponto. somente acrescentou mais força e outras dimensões à convicção já forte.” Mais tarde.. O importante é mercados.A guerra adiou. Aceito que 75 . reabrir as velhas saídas e buscar novas para nossa produção excedente. de que a América não podia sobreviver sem o que bem pode ser chamado de colônias comerciais. em 1944. não duvidava que “a empresa privada nos Estados Unidos só pode sobreviver se se expandir e crescer”.. como os dez anos do final da década de vinte e início da de trinta. Os Estados Unidos têm energia criadora ilimitada. mas também usamos nossa força econômica contra o necessitado aliado britânico.” Acheson então detalhava: Não temos um problema de produção. Byrnes completou o argumento já conhecido com tal objetivo: “Os Estados Unidos não podem alcançar e manter o alto nível de emprego que estabelecemos como nosso alvo a menos que as vias de escoamento [externas] para nossa produção sejam maiores do que jamais tenham sido antes. para abrir à força a porta para as suas colônias. de que um objetivo importante de após-guerra era “a manutenção da porta aberta nos Bálcãs. por um período muito difícil. em tempo de paz. Mesmo o Secretário do Comércio Henry Wallace. “parece claro que nela permaneceremos.. que acabou rompendo com Truman devido a questão de nossa política de após-guerra referente à Rússia. Não podemos atravessar outros dez anos. argumentou que se a América do após-guerra devesse cair de novo na depressão da anteguerra. sem ter consequências do mais longo alcance sobre nosso sistema econômico e social.. e então intensificou. depondo. O crescimento que ela estimulou nos negócios americanos (expansão industrial e agrícola. tal como a I Guerra Mundial.

Assim. expectantes. Isto é bom.43 Reduzamos tudo isto a seus elementos. Assim tem que haver uma fonte de riqueza externa. mas minha opinião é de que não podemos ter pleno emprego e prosperidade nos Estados Unidos sem mercados externos. a história de mais de 110 bilhões de dólares que. Que esta riqueza externa independentemente produzida tenha que ser produzida aqui e controlada por nós é. acelera. Porém tem que ser feito corretamente. é invocada a teoria da especialização internacional do trabalho. então todos os argumentos pecam pela base. melhor funciona. segue em frente para o futuro. Ele não deve manter um livro para cada parceiro comercial. Numa escala mais civilizada. garantido por nossa exigência de que outros “multilateralizem” suas contas comerciais. recriar o problema original? Na escala mais primitiva. assim. isto é. Em relação a isto. é claro. esperamos que ele financie a compra feita a nós por meio de balanços favoráveis obtidos de outros. liberdade humana. percebemos que precisamos buscar outros mercados e esses mercados estão no exterior. Um. maior seu excedente.. de 1945 a 1962. em várias categorias de assistência financeira. nós desembolsamos no exterior. a máquina abaixa sua grande cabeça de aço. Quanto maior seu mercado externo. Se estou errado a esse respeito. isto é. maior é sua necessidade de um mercado externo. produzida independentemente. ulcerados. Se se quiser controlar toda a vida do povo. (Supõe-se os capitalistas ansiosos. deve ter um para todos. se converte num padrão de vida em constante ascensão. dizemos. é provável que se possa estabelecer este controle de modo a que tudo o que seja produzido aqui seja consumido aqui..a União Soviética possa usar toda a sua produção internamente. há uma pergunta muito simples: Como é que a importância com a qual deve ser financiada a venda externa do excedente não irá simplesmente substituir o excedente interno e. a exportação deste excedente tem que ser financiada. Há. não a valores de 76 . e é sempre justamente este lado a ficar fora de equilíbrio. à qual tenham acesso nossos comerciantes.) A teoria é de que o desequilíbrio expansionista. E ninguém pretende isso. alguns problemas clássicos. corretamente controlado. nossas exatas concepções de lei. Nosso sistema econômico funciona num estado de desequilíbrio contínuo. Portanto. e corre. e o suspense é temível. Quanto melhor funciona. basicamente. porém isso mudaria por completo nossa Constituição. Escarnecemos do europeu que quer uma relação importação-exportação equilibrada conosco. nossas relações com propriedade. A exigência se aferra às coisas.

Ambos sabem que ele existe: Era de 2. Mas eles não são. quando o “boom” preocupou a todos. Em 1964. excederá o fluxo conjugado para dentro. A grosso modo. o dólar de alguém investido no exterior faz dinheiro — como veremos depois. e portanto pedirá dinheiro emprestado. e portanto levantar taxas e o valor do rendimento do dinheiro. então contará ter um emprego e uma renda no próximo ano. mas. o continuar da alta demanda inflacionará a circulação. bastante curiosamente. assim se pensa. Um outro problema. Desceu. de forma mais fundamental. reais. a preocupação central da política americana.”44) Se nada é feito para deter o fluxo expansionista de capital para o exterior. Se o operário da linha de montagem de autos crê que a GM pode vender todos os carros que ele monta. para. no fundo. o excedente comercial de 1965 cai para o que Fortune chama “o insignificante valor de 1. (De fato.4 bilhões de dólares. em período durante o qual nossa costumeira balança comercial favorável era desapontadoramente baixa. confiantes. através do programa “temporário” de restrições “voluntárias”. em qualquer período de expansão. A gente de negócios o considera de pequeno alcance. (A razão é que dois sistemas de contabilidade igualmente bons podem ser usados para apresentá-lo. brota do fato de que uma economia capitalista a toda força produz uma espécie diferente de artigo de exportação — o próprio dinheiro. afinal. o mais baixo da década de 1960. para 1. e essa diferença levará a um deficit de dólar que.dólares. E esse problema primeiro — o osso mais duro de roer da política externa americana desde seus dias mais remotos — é assegurar a utilização de fronteiras férteis para os negócios americanos. se o problema primeiro for resolvido. de que será capaz de fazer frente aos pagamentos. O fluxo conjugado para fora. só 5 por cento de deficit foi convertido em ouro. e sua resolução requer grande habilidade. mais moderno e mais difícil. em 1965. o ano das restrições. cresce o deficit de dólar. digamos. é a um tempo de pequeno alcance e permanente. é uma simples confiança no futuro. boa quantidade. e os possuidores de dólares no exterior reagem trocando dólares por ouro. 77 . Porém. Estes são problemas difíceis. Sempre poderão ser resolvidos. A alma do capitalismo é a dívida particular. ele e o banco. mais do que 90 por cento foi convertido. estava de novo em ascensão no primeiro trimestre de 1966. apresentado pela Administração. porém se o governo quer retardá-lo.5 bilhões de dólares. Em 1965. uma câmara japonesa.) A gente do governo o chama caracteristicamente de permanente.8 bilhões de dólares em 1964. este problema é manejado pelo que. se subtrairmos do total nossas exportações subvencionadas pelos Estados Unidos.

nos melhores termos possíveis. que galvanizou nossas melhores mãos. O que foi a alma desta Renascença? Foi Florença a arte de Leonardo. por certo. terra. Tais expressões tornam o Homem da Guerra Fria mais satisfeito consigo próprio. deve ter sido empreendido. depois daquele — Espanha. Queremos paz. primeiramente sob a liderança imperial deste poderoso estado. muito mais importante e épico do que bolsas de mortais. América — laborou para fazer seu domínio universal. tem que ter algo mais dentro de si do que esta volúpia primitiva. Todas as nações querem paz. com democracia ou progresso. mesmo vil. se for preciso. Esta luta imensamente violenta que divide o mundo deve ser referente a algo muito maior. França. Não foi. finalmente. a paz afinal existirá quando o mundo estiver garantido. a fim de que realizem seus negócios em qualquer parte. a sobrevivência de nosso sistema depende disso. de que tratamos no Capítulo II mudou por completo as coisas. Não quero resmungar contra sua satisfação. a qual tem muito pouco a ver com deixar vizinhos a sós. Inglaterra. por aqueles oligárquicos e repressivos. porém. por exemplo da Renascença. o Grande. O que nossa cultura ocidental mais claramente anuncia ao mundo é que coisas — povo. ou o controle financeiro de Lourenço.As portas econômicas devem ser abertas. Isto é incorreto. na sua melhor e mais elevada forma conhecida de cultura humana — em nome. o Magnífico? Foi Veneza Ticiano ou os mercadores que a governaram com tal comedimento? O herói de Isabel foi Bermejo ou Colombo — ou o Arcebispo de Toledo? Quem era mais caro ao coração da Inglaterra elizabetana. Shakespeare ou Francis Drake? Pode-se falar de culturas à vontade. parece. é certo. para fazer a pilhagem sozinho que o Ocidente. Essa ideologia sustenta que a paz perseguida pelos líderes americanos era de uma espécie nítida. Este trabalho. caso o pânico acertar num lugar vital. A ideologia da Guerra Fria. O olhar penetrante do homem 78 . Mas uma tal formulação parece sem dúvida crua demais. oceanos — devem ser definidas por seus usos e pelo tipo de direito de propriedade ao qual elas se submetem. Falemos sem rodeios: Para nós. natural. pelos velhos diplomados estrangeiros de Fort Bragg. uma simples paz na qual nações em boa-vizinhança deixam ao abandono umas às outras. ou por nossos próprios fuzileiros. para os homens de negócio americanos. em nome da civilização ocidental. Mas nós queremos uma certa espécie de paz. em ambientes orientados por governos da classe média nativa de preferência. porém só desejo saber se ele não deve tentar entender um pouco melhor suas bases. pelo lucro a qualquer preço.

trabalho. distribuição e mercados. racionalizado para dirigir sob a orientação de sua própria gente de negócios. As questões denominadoras de nossa cultura são: De quem é isto? Para que serve isto? Quem vai lucrar com isto? A filosofia da cultura não transcende o motivo de lucro. 79 . produção. O Ocidente quer um mundo que seja integrado e (no sentido de Max Weber) racionalizado em termos de estabilidade de recursos. Na qualidade de líder do Ocidente. No Oriente eles adquiriram forças de resistência. a América quer esse mundo integrado. Tão só revela a transcendência do motivo de lucro. Portanto há uma luta Oriente-Ocidente chamada em nosso tempo Guerra Fria. Os outros não querem.ocidental percebe que o mundo gira em torno da propriedade.

80 .

Mostra81 . quer não. Porém imperialismo tem muitos métodos operacionais. de Conrad. um libertador. 1904 Nem a América. fundamentalmente. Aplicadas à política internacional estas virtudes reclamam imperialismo. em Nostromo. serão corretamente entendidas enquanto não se entender que a livre empresa é.IV Império do Mundo Livre Mesmo os antiimperialistas aceitam com satisfação uma política Imperial que não vise outras conquistas que não as do comércio. Londres. a condução violenta (ainda que indireta) da política econômica de um estado por outro estado. que ela se baseia numa premissa ética de conflito. um acirrado antiimperialista um anticomunista. O mundo não pode impedi-lo — nem nós. Times. mais basicamente. O homem de negócios do mundo americano pode muito bem julgar-se um liberal. nem a tradição ocidental que a América levou à maturidade. e que seu sistema de virtude confere estima e privilégio. não ao humanitário (ainda que o humanismo não seja excluído) mas ao obstinado e implacável. 19001 Nós americanos dirigiremos o mundo dos negócios quer o mundo goste. ao poderoso. uma teoria política. eu espero. Holroyd.

Mas também observamos que se considera este Mundo Livre como incluindo mais do que as democracias ocidentais. rios. a liberdade expressa por este “Mundo Livre” tem de ser diferente. que deve ser aquela parte da terra em que os homens gozam de direitos e liberdades civis. As colônias criaram uma hoste de feios e desnecessários problemas — centralmente.) Esta idéia recoloca o centro do impulso imperial (banindo expressões bombásticas tais como “a carga do homem branco”) e define mais agudamente as dimensões da vitória imperial. neste sentido. é mais livre do que o mundo não -ocidental. qualquer que seja sua conotação. e descontinuidades raciais e éticas) era a idéia do mercado livre (definido por riqueza real e em potencial. de antemão. O Mundo Livre. cadeias de montanhas. Tailândia e Formosa. Muito melhor do que a idéia de colônia imperial (definida por coordenadas de terra. Moçambique e África do Sul. na raiz. O Mundo Livre mesmo é o Império Americano. o problema do nacionalismo colonial. Inclui: Espanha e Portugal. é contudo. É a palavra “livre” que por certo é tão enganadora. empenha seu apoio para a manutenção e ampliação do Mundo Livre. que sempre ameaçou culminar em motim e rebelião e portanto ameaçava a segurança dos mecanismos de controle econômico. Simplesmente acrescente a isto a observação que a América é a líder do Mundo Livre e teremos aprendido o essencial do imperialismo à Mundo Livre da América. O Mundo Livre é a área econômica do mundo na qual o homem de negócios americano goza a maior liberdade de manobra comercial. O Mundo Livre. a zona basicamente integrada da hegemonia americana. que são a um só tempo mais praticados e mais praticáveis no Ocidente do que em qualquer outra parte. porém profunda. ao mesmo tempo. e que sua existência está intimamente ligada à existência do capitalismo ocidental.nos que não tem bandeira e armas de comércio. e não se sente em contradição quando. pleno de situações especiais. reservas de trabalho. são verdades historicamente indiscutíveis. Assim. assegura-nos que só deseja a oportunidade de negociar. Paraguai e Argentina. etc. redes de navegação e distribuição. A contribuição da América para a arte firmemente evolutiva do império ocidental é simples. Supõe-se. Que estes direitos e liberdades pertencem a tradição liberal ocidental mais do que a outra qualquer. desuniforme e continuamente em fluxo. Pode representar apenas liberdade de acesso do capital. Quase ao acaso a América armou um processo de eficiência contra o imperialismo colonial. Toma as culturas em termos de seus componentes econômicos e dá menos atenção 82 .

não como uma entidade geopolítica unitária a ser conquistada como um todo. Um exemplo imperfeito (imperfeito porque ele finalmente chegou por si mesmo a um militarismo quase ritual) é a doutrina de pré-guerra do Japão referente à Esfera da Coprosperidade da Ásia do Leste Maior. primeira edição em 1921. mas pelo contrário. porque tinha chegado atrasada à mesa. é claro.a hábitos políticos e aspectos geográficos. A colônia. um terceiro refinando o aço. A idéia de nação. em conjunto com outras fontes e mercados. a resposta da Europa do Leste ao Mercado Comum. Economias eram para ser organizadas horizontalmente com outras economias. os comerciantes americanos monopolizam o ópio turco. em vez de verticalmente com seu meio cultural nacional. a colônia européia à moda antiga. permutam-no por seda chinesa e trazem a seda para a América. o imperialismo de Mundo Livre substitui pela de sistema econômico globalmente integrado. Isto proveio do modelo mais autárquico empregado por volta de 1955. torna-se o lugar de uma aberta competição de livre empresa — a qual. é uma elaboração interessante e autorizada do tema de edificação de sistemas econômicos. encontrando os lugares privilegiados já ocupados. com frequência ao longo de uma especialização global de trabalho. um país produzindo os alimentos. Nosso anticolonialismo de meio século pode ter originado uma como que exigência ressentida de acesso às esferas imperiais já estabelecidas * O Comecon.** A América produziu esta teoria. Em um velho e famoso exemplo. é uma tentativa de bloco para “racionalizar” uma economia internacional ao longo destas linhas. a China faz seda.2 ** Thorstein Veblen: “The Engineers and the Price System” (Harbinger 1963). Economia transnacional substitui política nacional. ópio. a Turquia. torna-se uma fonte de materiais e um mercado a ser desenvolvido. como um específico modelo ímpar de recursos econômicos e potenciais. uma esfera econômica cujas fronteiras não mais são vistas como principalmente territoriais. e esta proveniência é uma das razões das dificuldades da Rumania com a URSS: a Rumania defendeu uma preferência básica pela auto-suficiência nacional contra a interdependência do bloco. na qual a China era encarada. destinada a ser desviada.* Da posição política local da Turquia ou China é importante somente que não obstrua o desenvolvimento ordenado do todo sistematizado. 83 . ou esfera de influência. outro explorando os minérios. será vencida pela potência econômica líder. Para a idéia de conquistador objetivando fronteiras territoriais oferece como substitutivo a idéia de idealizador visando componentes econômicos entrelaçados. cuja relação mais estratégica era com outros sistemas semelhantes. pelo menos em parte. Na revisão pragmática e oportunista das formas de império feita pela América.

tendo desastrosos resultados. wilsoniano. anticolonial. protecionismo colonial] têm suas contrapartes nos Estados Unidos”. não permanecendo ali necessidade de humilhar e enfurecer povos nativos com status colonial. A Política de Mercado Livre afirmava a prioridade de nossa economia sobre a política deles. com efeito. em 1885: “Destruímos o passado e nada o substituiu. os bens sem o ato aberto de saque. enquanto a América continuava a se esforçar para obter acesso às colônias da Europa. William L. Comparemo-la com a tentativa francesa de afrancesar suas colônias. uma expansão limitada ao comércio.(em especial na China) pelas potências européias e asiáticas.3 84 . Levado de volta àquele tempo. Seu anticomunismo selvagem é uma espécie de evidência de que falhou.* O imperialismo de Mundo Livre reage ao problema do nacionalismo de pequeno estado argumentando que o governo nativo de colaboração é.”4 O que a França conseguiu em troca do seu transtorno foi uma grande quantidade de borracha a um preço muito bom e uma mancheia de soberbos eruditos asiáticos. justificando isto com a mesma retórica à livre mercado. para a vida do colonizado e a tranquilidade do colon. de Mundo Livre da América e que preferiu não ser imperialismo. que não se imiscuísse do ponto de vista cultural. o orientador político de Roosevelt. uma das mais tristes características do imperialismo de porta aberta. * E durante a II Guerra Mundial. e.. que fosse mesmo de ajuda para o hospedeiro. O governador colonial e a Legião Estrangeira tornaram-se simultaneamente obsoletos. um consultor americano teria salientado que aqueles preços eram atingíveis sem o esforço mal orientado de transformar Hanói numa espécie de Paris. O governador colonial está de volta chamando-se agora embaixador e nossos Legionários Estrangeiros usam boinas verdes. Clayton disse: “A verdade é que. de livre-mercado. por meio de uma ferroada bem colocada. um específico para as exigências comerciais americanas. e que através do uso elaborado e requintado de pressão econômica e induzimento (às vezes chamado “educação”) os governos nativos podem ser persuadidos a tomar todas as decisões corretas. chegaremos à conclusão que muitos dos pecados de que livremente criticamos outros países por praticarem [i. de forma alguma surpreendentes. Tal como o primeiro governador civil da Indochina Francesa confessou. Isto é. mais estável do que domínio estrangeiro. Essa era uma idéia nova. a América quis a substância sem a aparência. se quisermos ser honestos conosco mesmos. Tal a vespa que domina mas não mutila sua presa. parecemos ter desejado um resultado diferente. de transportar formas culturais francesas para a cultura nativa a qualquer preço. Mas quer seja por ingenuidade. ou por um estratagema quase inacreditável.

Porém, pouco valendo suas afetações de não intervenção cultural e política, o imperialismo americano de Mundo Livre foi tão completamente pernicioso e tão plenamente predatório. A vida econômica de uma cultura não pode ser mudada sem consequências para cada um dos outros aspectos de cultura. O dinheiro se propaga. Sistemas econômicos ocidentais precisam de infra-estruturas econômicas ocidentalizadas, de um aparelho legal ocidentalizado, e fundamentalmente de uma tendência política ocidental. Impacto comercial é impacto total. É este mesmo impacto do Ocidente sobre o Oriente, tão frequentemente uma mescla de culturas elaboradas e requintadas, mas antidinâmicas, que os explicadores do imperialismo do mundo livre apresentam como um fenômeno em si saudável. Explicam e tornam a explicar ao bom povo americano, de quem aparentemente suspeitam como guardando uma antipatia residual em relação à injustiça, que tais fissuras sociais, se de um lado podem provocar a agonia de países “em desenvolvimento” são para-produtos inteiramente naturais da “revolução de modernização” (ou “de esperanças em ascensão” ), que é descrita como basicamente independente de causas externas: um processo histórico que se desenrola por si mesmo, quando povos adormecidos despertam. Dificilmente poderia ser mais claro que esta “modernização” é tão só um nome polido para o rude e chocante impacto das culturas tecnológicas sobre as não tecnológicas. Porém teorias oficiais fazem variações deturpadoras em torno da responsabilidade americana em relação aos deslocamentos induzidos pela expansão americana, e a idéia de que a traumatização quase ubíqua do Terceiro Mundo possa ter algo a ver com um específico lucro em dinheiro contado é mesmo muito raramente abordado. Representativas deste ponto de vista, as passagens seguintes são do famoso discurso de Walt Whitman Rostow à classe dos Graduandos de 1961 da Escola de Guerra Especial Fort Bragg [Fort Bragg Special Warfare School], do Exército (Rostow é o principal conselheiro de política exterior do Presidente Johnson e, provavelmente, o mais destacado teórico da Guerra Fria da América):
O que está acontecendo por toda a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia é isto: Velhas sociedades estão mudando seus rumos a fim de criar e manter uma personalidade nacional na cena mundial e trazer para seus povos os benefícios que a moderna tecnologia pode oferecer. Este processo é certamente revolucionário... Como todas as revoluções, a revolução de modernização é per85

turbadora... Homens e mulheres nas aldeias e cidades, sentindo que os velhos modos de vida estão abalados, e que novas possibilidades estão abertas para eles, expressam velhos ressentimentos e novas esperanças... Esta é a grande arena de mudança revolucionária que os comunistas estão explorando com tão grande energia... Nós, americanos, estamos confiantes de que, se a independência deste processo puder ser mantida através dos anos e décadas vindouras, estas sociedades escolherão sua própria versão do que podemos reconhecer como uma sociedade democrática e aberta... Portanto, nossa tarefa central nas áreas subdesenvolvidas... é proteger a independência do processo revolucionário agora em curso... A difusão do poder é base para a liberdade dentro de nossa própria sociedade, e não temos razão para temê-la na cena mundial. Porém esta consequência seria uma derrota para o comunismo... [Os comunistas] estão destinados no fim, pela natureza de seu sistema, a violar a independência das nações... Nós estamos lutando para manter um ambiente na cena mundial que permita à nossa sociedade aberta sobreviver e florescer.5

Os elementos-chave da visão principal e profunda de Rostow são os seguintes: 1. Recusa tácita da responsabilidade ocidental por essa “turbulência”, que é causada primariamente pela intromissão ocidental — comercial, ideológica, militar — no Leste e Sul. 2. A pretensão de que o propósito da América é a criação de sociedades livres, independentes e (o que não é tão óbvio) tecnológicas. 3. Repúdio à possibilidade de que “comunismo” (o qual para Rostow, provavelmente vale para qualquer violência política oposicionista) possa também ser um nacionalismo. Isto é, a linguagem de Rostow nos põe frente àquela velha imagem familiar do comunista como um homem sem uma pátria, alguém que sempre aparece de algum outro lugar, e cuja lealdade sempre está alhures. (Comunistas, diz, são “carniceiros” e comunismo é uma “moléstia de transição”.) O que uma tal descrição tem a seu favor é a teoria de alguns ideólogos bolchevistas, principalmente trotskistas, de que a revolução proletária seria internacional (a classe acima da bandeira) e que teria de resultar na decomposição da nação-estado, uma instituição burguesa. O que ela tem contra é cerca de duzentos anos de
86

história. Tendo por trás de nós as revoluções americana, francesa, russa, chinesa e cubana, resolvidas de maneira tão vária, somos obrigados a concluir que revoluções populares, quaisquer que tenham sido sua fuzilaria e retórica de inauguração, são sem exceção nacionalistas. O único grupo genuinamente internacional (melhor, transnacional) no mundo moderno é o que Marx chamou a classe dominante; Veblen, os capitães das finanças; Mili, a elite do poder; e os órgãos de nossa cultura popular, o “jet set” [grupo que lança as decisões] . Rostow não dá atenção a nada disto. É um trotskista às avessas.* 4. A declaração virtualmente explícita de que a América deve ser o único juiz da permissibilidade de mudança social em toda a parte, de que a América se autoconfere (como líder do Mundo Livre) todos os direitos de intervenção prioritária no processo de mudança, e de que a América exige emergência básica de sociedades “independentes e modernas”. Tanto a prática como a ideologia americanas levam-nos a assumir que isto significa economias de porta aberta. Portanto, a América pede, e só tolerará, “revoluções” tais que ampliem o império do Mundo Livre. 5. Insistência (um tema tradicional) de que o aparecimento final de sociedades de porta aberta é indispensável a sobrevivência da América. A arrogância à Santo Império Romano desta vontade se mostra ainda mais sufocante quando refletimos sobre a aflitiva inabilidade desta América juiz, júri e carrasco em resolver seus próprios problemas in* Em seu Prospectes for Communist China (M.I.T. Press, Cambridge, 1954, págs. 27-28), Rostow enfrenta o problema: Por que os comunistas chineses preferiram a coalizão militar com as forças nacionalistas de Chiang contra os invasores japoneses? Por que não preferiram continuar a guerra civil? De esforço em esforço, num desempenho intelectual que me impressiona por ser tão bizarro como brilhante, Rostow põe a descoberto uma imensa dissimulação vermelha: eles queriam a coalizão porque a Rússia queria o Japão detido, porque queriam que Chiang se esgotasse contra os japoneses, porque queriam parecer patriotas para o povo, porque a coalizão oferecia canais de propaganda, porque isto lhes permitiria estender sua adiministração civil. Para Rostow, não é nem mesmo uma possibilidade a ser apontada e refutada, que os vermelhos pudessem também ser gente chinesa que se preocupava com a China, e que por razões patrióticas usuais queriam bater os invasores usando tudo que a China pudesse juntar. Para êle, o comunista é um marciano político. Rostow é meu Guerreiro da Guerra Fria favorito.
87

ternos. Racismo americano cada vez se tornando pior, pobreza, Grande Irmandade, e oligarquismo militarista dão ao mundo o direito de se pasmar conosco. Como pode uma América que não é capaz de desenvolver o leste do Kentucky ou pacificar o Harlem, desenvolver a Índia e pacificar o Vietnã? Porém devemos analisar a questão mais a fundo. A tese rostowiana pode ser dissecada em duas grandes proposições; a saber, o que ele chama nossa “proteção da independência da modernização revolucionária” e o que eu chamo nosso imperialismo de Mundo Livre. 1. desenvolve o subdesenvolvido; e 2. promove sua liberdade, significando a) que seus governos são independentes, e b) que seus povos gozam de direitos e liberdades civis básicas. Estas são pretensões concretas e podem ser concretamente examinadas. O que se segue é primeiro, um esboço estatístico e detalhado da corporação americana, cujo impacto, por bem ou por mal, está sendo sentido pelos países subdesenvolvidos; a seguir, olhando para alguns dos considerados como pertencendo ao domínio dos resgatados e protegidos, devemos perguntar: Suas economias estão se desenvolvendo? São seus governos independentes de outros governos? A liberdade de seu povo aumenta, e seu crescimento está sendo estimulado? A super corporação americana não mais é definida principalmente por seu produto. Ela combina em si as funções básicas que antes distinguiam finanças e indústria como esferas separadas. Congrega e coordena os atos econômicos de acumulação e dispersão de capital (atividade bancária), inovação tecnológica (“inventores”), produção (construção de maquinismos e direção), distribuição (função de intermediário), e orientação de demanda (o mercado livre). Por persuasão e manobra, conquistou a cooperação das burocracias trabalhistas, cuja responsabilidade incorporada é garantir a estabilidade da força de trabalho da nação. Entre direção e trabalho organizado não há questões fundamentalmente divisórias de valores ou objetivos; são membros desiguais da mesma entidade incorporada. Com o apoio ativo ou passivo do trabalho e do governo, a direção coordena centralmente todas as operações na corrente do produto da
88

fonte-para-o-consumidor, sendo a integração vertical, crucial para a eficiência. A tomada-de-decisões é científica e centralizada. A imensidade e o poder da super corporação podem ser sugeridos pela seguinte passagem de In Few Hands [“Em poucas mãos”] (Penguin, 1965), relatório publicado postumamente, das investigações antitruste de Estes Kefauver no comitê do Senado:
Em 1962 as 20 maiores corporações manufatureiras tinham sozinhas 73.8 bilhões de dólares em fundos, ou cerca de um quarto do total de fundos das companhias manufatureiras dos Estados Unidos. Em troca, as 50 maiores companhias detinham 36 por cento; as 100 maiores, 46 por cento; as 200 maiores, 56 por cento; e as 1000 maiores, perto de 75 por cento.

Engrenadas direta ou indiretamente com os principais centros financeiros e industriais da Europa, inspiraram o Presidente da Corporação para Desenvolvimento e Recursos, David E. Lilienthal (diretor da TVA para Roosevelt, diretor da AEC para Truman) a cunhar o termo agora padrão de “corporação multinacional”.6 Junto com os grandes bancos igualmente globalizados, com os quais estão encadeadas, as corporações multinacionais são as fontes principais do capital de investimento de ultramar americano. O valor do investimento direto dos EE.UU. no exterior, menos de 25 bilhões de dólares em 1955, era cerca de 50 bilhões de dólares uma década mais tarde e aumentando numa taxa de cerca de 10 milhões de dólares por dia.7 O total dos investimentos externos dos EE.UU, diretos e “portfolio”* era de cerca de 135 bilhões de dólares em 1965, dos quais mais de 30 por cento, era petróleo.8 Do total de 50 bilhões de dólares de investimento externo, 60 por cento é investido no Canadá e Europa; dos 40 por cento investidos nos países subdesenvolvidos, metade o é na América Latina.9 A corporação multinacional não exporta meramente seus produtos e dinheiro; ela se transplanta. Em 1965, cerca de 2 000 firmas americanas estavam fazendo negócios no exterior, e de suas vendas externas líquidas montando a 110 bilhões de dólares, só um quinto desse total vinha da venda de mercadorias e produtos enviados dos Estados Unidos. Exemplos extremos de transplante ocorrem na indústria automobilística. Em 1965,
* O investimento direto dá ao investidor direito de opinar, às vezes controlar, na direção da empresa. Os investimentos “portfolio” usualmente não. 89

”12 Com ele faz eco Gaston Deferre: “A invasão econômica por parte dos Estados Unidos é um perigo claro e presente.a General Motors construiu 20 por cento de seus carros fora dos Estados Unidos.. antigo delegado diretor da Administração de Cooperação Internacional dos Estados Unidos [United States International Cooperation Administration]. Fitzgerald.UU. em bases tanto nacionais como continentais. controlam quase toda a indústria eletrônica da França. evitaram efetivamente o alcance das leis antitruste de qualquer país tomado em separado. A direção do crescimento do controle incorporado americano não é mais fácil de predizer do que a de seu processo interno. As vendas conjuntas da Volkswagen.11 Louis Armand disse: “A menos que a Europa reaja.. a Chrysler. são o início da colonização de nossa economia. mas complementar.UU. O governo dos EE. O poder econômico americano. Fiat. corporações de negócio americanas e outras. o poder dinâmico de seus grandes negócios e a forma de seus investimentos na Europa. A. Uma. distribuem 65 por cento de seu petróleo e manufaturam 65 por cento de sua maquinaria agrícola.. produzem 90 por cento de sua borracha sintética.15* Por outro lado. em 1975. no qual produzem ou vendem suas mercadorias. coopera de várias diferentes maneiras. só um terço das da GM..14 A expansão ultramarina da América das corporações tem o apoio do governo americano. oferece uma conjetura de especialista: “Por meio do funcionamento multinacional.. 30 por cento e a Ford. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. e se organize. estamos nos condenando à colonização industrial. da AID veja-se esta declaração de D. 300 corporações. Com bases em recentes experiências.”13 Representantes do governo alemão e indústria reagem incentivando a fusão de firmas européias. Barber. controlarão mais de 75 por cento de todos os fundos industriais. mas Richard J. o gover* Para um enfoque diferente. 85 por cento são gastos nos Estados Unidos com produtos americanos e matérias-primas. Daimler-Benz.. Firmas dos EE. opera a Agência pelo Desenvolvimento [Internacional Agency for International Development] que Forbes chama “a principal agência por meio da qual o governo dos Estados Unidos financia negócios no exterior. Destes. “Uma boa 90 . conselheiro especial para os Subcomitês do Senado sobre Antitruste e Monopólio.10 A Europa está apreensiva. 40 por cento. British Motors e Renault são só dois terços das vendas da Ford. especialmente de aço e carros. se não do francês.

contra perdas causadas por inconversibilidade de dinheiro. ou impedir uma nação de se afastar. insiste em que os lucros dos EE. imagine-se uma corporação na qual a unidade de produção. tais como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento [Internacional Bank for Reconstruction and Development] (o Banco Mundial). pelo financiamento do desenvolvimento daquelas infra -estruturas — estradas. do Chile.. ou qualquer de várias outras razões’’. estimular o crescimento da prosperidade material e o avanço dos valores democráticos nos países hospedeiros. sido moderadamente bem sucedidos [dá-lhes cerca de 13 por cento].. Podem ser apresentados números para apoiar esta assertiva. a AID procedeu a seu maior plano de ação particular. na América Latina não são usualmente grandes: “Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina têm. guerra e revolução. expropriação. ou impedir alguns países de dar direitos às bases aéreas russas. Pelo fim do ano de 1965. David Rockfeller.UU. o Banco de Exportação e Importação [Export-Import Bank]. compra seu material parte da crítica sobre ajuda externa é devido o crítico pensar que o objetivo era alcançar crescimento econômico e este não era o objetivo de modo algum. analisaremos isto brevemente. o Fundo de Desenvolvimento Ultramarino [Overseas Development Bank]. não pode dispensar e merece ter. e a Associação do Desenvolvimento Internacional [International Development Association] todas as quais (mas principalmente o Banco Mundial e o Ex-Im Bank) existem para servir ao interesse internacional da corporação multinacional dominada pelos americanos. docas. seja por financiamento direto de certas especulações ou. 179 bilhões de dólares para garantir a expansão da International Telephone Telegraph. De modo algum é fácil determinar a rentabilidade absoluta de nossas operações ultramarinas. felizmente. Mas não há dúvida de que esta expansão é altamente lucrativa para as próprias corporações.16 A AID também usa o dinheiro público para assegurar as operações ultramarinas das companhias americanas.17 91 . de maneira mais importante. Presidente do Chase Manhattan Bank. ou não.18 Esta corporação expansionista pode. ou conseguir um voto favorável na ONU. mas dificilmente podem ser chamados de “exploradores”. com base no país natal. O objetivo pode ter sido comprar um arrendamento. a Corporação Internacional de Finanças [International Finance Corporation].no dos Estados Unidos ajuda a capitalizar e dirigir instituições financeiras do Mundo Livre. ferrovias. usinas de força — que o capital privado acha que não tem recursos para construir. o Banco de Desenvolvimento Interamericano [Inter-American Development Bank]. Uma razão disto é que uma variedade de técnicas de contabilidade dissimulantes estão à disposição do escrivão imperial. Um exemplo simples e básico.19 Não é uma dissimulação por completo aérea.

de unidades extrativas, com base no exterior. A direção da corporação pode orientar a última para manter seus preços baixos, uma vez que lucros baixos contabilizados resultarão em vantagens nos impostos locais, e, em qualquer caso serão compensados no fim da produção. Porém ainda é possível obter uma boa idéia geral do imenso valor do lucro das aventuras exteriores de nossas corporações. “De indústria após indústria”, disse o Business Week em 1963, “as companhias dos Estados Unidos achavam que seus ganhos ultramarinos eram elavadíssimos, e que seus dividendos em investimentos fora eram frequentemente muito mais altos do que nos Estados Unidos. Quando os ganhos no exterior começaram a se elevar, as margens de lucro para operações domésticas começaram a reduzir... Esta é a combinação que forçou o desenvolvimento da campanha multinacional.”20 Os dados do Departamento de Comércio mostram que no período 1950-61 havia um fluxo de investimento externo direto americano de 13,7 bilhões de dólares. No mesmo período os rendimentos que retornaram eram de 23,2 bilhões de dólares, um lucro de 9,5 bilhões de dólares.21 Um levantamento feito pelo First National City Bank concluiu que os “dividendos remetidos [i.e., lucros repatriados] do investimento privado no exterior são atualmente o mais rendoso artigo de nossa receita internacional fora a exportação de mercadorias.”22 Um levantamento britânico, em 1961, mostrou que as companhias americanas fazendo negócios na Inglaterra obtiveram um lucro de 17 por cento em seus investimentos, duas vezes mais alto do que o lucro médio nos Estados Unidos.23 Para rentabilidade o mundo subdesenvolvido é pelo menos igual à Europa, provavelmente superior. A Standard Oil of New Jersey declara um lucro de 17,6 por cento em seu investimento na América Latina e um lucro de 15 por cento nos investimentos do Hemisfério Leste, para 1962, comparados com um lucro de 7,4 por cento nos domésticos.24 Os dados do Departamento de Comércio mostram os americanos empregando 516 milhões de dólares na Europa (novos investimentos e ganhos não devolvidos) em 1956, e trazendo para casa 280 milhões de dólares. Por volta de 1961, a razão entre lucros e investimentos, quase de 2 para 1, ficou em 3 para 1: 1,5 bilhões de dólares em novos investimentos, 525 milhões de dólares em ganhos trazidos de volta. Compare-se os dados para a América Latina, lembrando que aqui as cifras são na realidade a riqueza e o trabalho verdadeiros do povo da América Latina, e não apenas alguns números num livro: Em 1956, investimos 500 milhões de dólares, e trouxemos de volta um lucro de mais de 50 por cento, 770 milhões de dólares; para a
92

América Latina uma perda líquida de 220 milhões de dólares.25 Esta estatística fria e silenciosa de lucro e perda é uma declaração sobre a felicidade de alguém e o sofrimento de outrem, as espécies desiguais de vida de homens e mulheres. Precisa ser trabalhada, mineirada, posta a claro. Tendo já uma idéia geral do que a corporação americana multinacional está fazendo para si mesma, iremos agora examinar as condições de seus hospedeiros. A expansão global do estado comercial americano desenvolve o subdesenvolvido? Democratiza a vida pública do homem? Faz com que as nações, nas palavras de Rostow, “fiquem firmes de pé” e sejam “fortes, positivas e independentes”? Alguns casos: O Brasil figura em primeiro lugar entre os recebedores de ajuda militar dos Estados Unidos (206 milhões de dólares durante 1963), em terceiro na assistência econômica dos Estados Unidos (172,6 milhões de dólares, mais 1,4 bilhões de dólares nos empréstimos do Banco Mundial e Ex-Im Bank) e só fica atrás da Venezuela nos investimentos diretos dos Estados Unidos (mais de 1 bilhão de dólares).26 É o maior, mais populoso e potencialmente o mais rico de todos os países sul-americanos; sob qualquer interpretação a longo termo, a chave do desenvolvimento econômico e político do continente. Isto faz juz a um estudo mais demorado. A revolução do Brasil tem estado pulsando intermitentemente desde 1930, quando Getúlio D. Vargas, do Partido Trabalhista, chegou ao poder, primeiro como presidente provisório (1930-33), depois como presidente eleito (1933) .27 Atacado uma vez pela esquerda e três vezes pela direita, foi finalmente deposto em 1945 por uma junta militar direitista, que se chamou a si mesma democrática e revolucionária, anulou suas medidas reformistas moderadas, e trouxe salários em depressão, alto desemprego, inflação crescente — mais corporações dos Estados Unidos. As eleições de 1950 devolveram Vargas ao poder, convencido mais do que nunca da necessidade de direção nacional dos recursos nacionais e do domínio brasileiro do Brasil. Criou a Petrobrás (petróleo nacional) e a Electrobrás (força), e em agosto de 1954, desesperado da luta contra o que sua carta chamou “o saque de grupos financeiros e econômicos internacionais”, ele se suicidou. Após um ano de ditadura de rotina sob Café Filho (mais decadência social, mais dinheiro estrangeiro), veio a presidência de Juscelino Kubitschek, que fundou a capital interiorana de Brasília, um ato de visionário, mas que não pôde resistir à ulterior penetração da economia do Brasil pelos fortes interesses do Norte. Foi seguido, em 1961, por Jânio Qua93

dros, vencedor pela mais ampla margem de votos jamais recebida por um presidente brasileiro. Quadros era um conservador autoritário. Dominou levantes de fome no sofredor e rico nordeste por meio do Quarto Exército e agitações estudantis com a polícia. Mas ele era também um nacionalista. Ele viu um Brasil que liderava o mundo em exportação de café, que tinha mais terra arável do que toda a Europa, 15 por cento das florestas mundiais, 35 por cento de seus depósitos de ferro, e um de seus potenciais hidrelétricos mais altos. Que um tal país fosse pobre era uma desgraça. Que ele devesse permanecer pobre era um crime. Quadros dis -pôs-se a mudar o Brasil. “Por que podem os Estados Unidos comerciar com a Rússia e seus satélites”, disse, “mas insistem que o Brasil comercie só com os Estados Unidos?”28 Reatou relações com a União Soviética, fez acordos comerciais com países comunistas, e tratou Castro como sendo aquele revolucionário nacionalista cuja motivação era tão fácil de apreender do ponto estratégico das favelas do Rio. Os barões da ala direitista, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda eram vistos a lançar escuros olhares de intimidade para o Norte. Em agosto de 1961, Quadros foi longe demais: uma demonstração de independência em Punta Del Este, na fundação da Aliança para o Progresso; a Cruzeiro do Sul para “Che” Guevara; o vice-presidente João Goulart em Pequim, numa missão comercial; pior de tudo, um novo projeto sobre impostos destinado a fortalecer o orçamento federal, estimular o investimento no Nordeste, e a reter, para uso do Brasil, uma porção maior dos lucros remetidos para fora do país. Por uns dias o exército manteve a “renúncia” de Quadros em suas mãos. Mas os planos Barros-Lacerda, de um governo de junta à moda antiga, sofreram a resistência do povo, que exigiu que a sucessão legal fosse mantida e que Goulart subisse à presidência. Alguns argumentam agora que, naquele momento, o milionário liberal Goulart devia ter quebrado o domínio dos plutocratas uma vez por todas. O exército estava dividido e o povo o apoiava, camponeses e trabalhadores, estudantes e classe média, esquerdistas e nacionalistas, juntos na resistência constitucionalista chamada a Legalidade. Porém Goulart era indeciso. Ele escolheu negociar com os direitistas e aceitou sua exigência de uma função presidencial enfraquecida. Após um ano e meio de estagnação, um plebiscito restaurou o poder presidencial pleno por voto de 6 a 1. Goulart, contudo, ignorou o mandato. Seus discursos cintilavam com a promessa de mudança social, mas nenhuma de suas propostas de reforma alcançou o Congresso. O Banco do Brasil continuou a imprimir o dinheiro aguado com o qual os
94

monopólios financiavam a própria ineficiência; a dispendiosa manutenção do preço do café nunca foi tocada. O General Peri Bevilacqua usou tropas para dissolver demonstrações populares que não pediam nada mais do que o cumprimento do próprio programa de Goulart; Bevilacqua foi feito chefe do Estado-Maior. Mais concessões foram outorgadas a firmas americanas de petróleo e minerais. Havendo se aproximado do dólar, 600 para 1 no tempo do plebiscito, o cruzeiro caiu a 1 700 para 1. Exasperados, progressistas e nacionalistas, começaram a pressionar mais forte pedindo ação, e talvez Goulart estivesse por fim começando a responder. Subitamente ei-lo desafiando a América na questão de Cuba, de desarmamento e comércio. Falou de sufrágio para analfabetos (metade do povo) e existência legal para o amolecido e conservador Partido Comunista. Revelou suas tendências socialistas pela expropriação de algumas empresas de petróleo (brasileiras, não americanas) . Em 17 de janeiro de 1964, ele cometeu de novo o mais criminoso dos crimes, ao atacar os lucros americanos. “Os novos regulamentos”, escreveu, do Rio, Juan de Onis, “limitam a remessa legal de lucros para o exterior a 10 por cento ao ano, sobre o investimento externo real de uma companhia, em equipamentos e capital.” “Encaradas como hostis ao capital estrangeiro”, as novas leis de restrição de lucros eram uma resposta “às exigências nacionalistas de controles mais efetivos dos investidores estrangeiros.” (NYT, 18 de janeiro de 1964.) Isto finalmente engatilhou a resposta de um grupo conspirador paulista, o qual Philip Siekman do Fortune (“Quando Executivos se tornam Revolucionários”, setembro de 1964) diz que estava em crescimento desde a metade da década de cinqüenta. Conhecidos quer como os Paulistas (de sua cidade) quer como os Mesquitas (de seu líder Júlio de Mesquita Filho, proprietário de um jornal conservador de São Paulo, O Estado de São Paulo), o grupo era constituído por importantes homens de negócios de São Paulo, como Paulo Ayres Filho (fundador e a certo tempo cabeça do Banco do Brasil), Flávio Galvão, Luís Werneck e João Adelino Prado Neto (editor do jornal de Mesquita) . Em 1964 o grupo conquistara o apoio de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e comandante daquela milícia estadual de quarenta mil homens; Carlos Lacerda, governador da Guanabara; e a Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial ), que lhe deu acesso a importantes membros da elite militar. Bem no início de 1964, escreve Siekman — talvez esporeados pelo vigor reformista de último momento de Goulart — o grupo Mesquita enviou um emissário para perguntar ao Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon qual seria
95

a posição dos Estados Unidos caso estalasse a guerra civil. O emissário relatou de volta que Gordon fora cauteloso e diplomático, mas deixara a impressão de que se os Paulistas se aguentassem por quarenta e oito horas obteriam o reconhecimento e a ajuda dos EE.UU.29 Acontecimento se seguia a acontecimento. A 14 de março a direita brasileira põe-se a planejar processos de “impeachement” contra Goulart (NYT, 16 de março de 1964) . A 15 de março Goulart lança apelo por novos dispositivos constitucionais para “libertar as energias esmagadas pela estreiteza de uma estrutura econômica ultrapassada, que serve somente aos interesses de grupos privilegiados”, (NYT, 16 de março de 1964) . No mesmo dia, os delegados latinos à conferência de terceiro aniversário da Aliança para o Progresso, reuniam-se em Washington. No ar estavam a disputa panamenha ainda não solucionada, a viagem triunfante de De Gaulle ao México, os rumores de desassossego na Colômbia, novos êxitos eleitorais esquerdistas no Chile, o maior comércio de grão da China com a Argentina prestes a ser anunciado, e acima de tudo o que Tad Szulc chamou “o estado pré-revolucionário” do Brasil (NYT, 15 de março de 1964) — tumultos pró-Goulart em Brasília, demonstrações anti-Goulart em São Paulo e a promessa do candidato à presidência, Kubitschek, de fazer a Aliança “murchar como uma flor” (NYT, 19 de março de 1964). A 16 de março, o Presidente Johnson dirigiu-se aos delegados da Aliança: “Mas eu hoje asseguro que a força total dos Estados Unidos está pronta para atender qualquer país cuja liberdade esteja ameaçada por força dirigida de além-praias deste [sic!] continente. “A 18 de março, o Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Interamericanos, Thomas C. Mann, conferenciou privadamente com os diplomatas latino-americanos nos EE.UU., e o artigo de primeira página de Tad Szulc, no Times do dia seguinte, tinha como manchete: “Os Estados Unidos Deverão Abandonar os Esforços para Dissuadir Ditadores Latinos”. Szulc escreveu: “As opiniões de Mr. Mann foram consideradas como representando uma modificação radical da orientação política da administração Kennedy” (NYT, 19 de março de 1964) . A 19 de março o porta-voz do Departamento de Estado, Richard I. Phillips, veio a público negar uma mudança política mas parecia de fato confirmá-la. Aludindo à Doutrina Estrado (reconhecimento diplomático baseado no controle, não na política), Phillips expôs que “a política dos Estados Unidos em relação a governos inconstitucionais será, como no passado, guiada pelo interesse nacional e pelas circunstâncias peculiares a cada situação em que surge.” (NYT, 20 de março de 1964.) Parece que toda a América Latina compreendeu de imediato o que
96

Enquanto escrevemos isto. o governo anunciou um novo projeto de impostos destinado a financiar um aumento de 35 por cento nos salários militares. Leonel Brizola (então um admirador de JFK. os ativistas estudantis começam a gozar mais e mais do apoio popular. que em breve seria consolidado em torno do General Humberto Castelo Branco (eleito presidente a 11 de abril de 1964) e proclamaria seu amor pela democracia e revolução. toma uma avançada posição antigovêrno. hoje no exílio) conclamou o povo para se preparar para uma nova Legalidade. A 25 de novembro de 1964 o governo aprisionou uma centena de antigos auxiliares do governador de Goiás. e Castelo Branco age para fazer essencialmente o que os da linha-dura queriam em primeiro lugar. Neste jogo. e duas semanas após a fala de Johnson. antigamente reacionária. Não há no momento razão para acreditar que a “eleição” do linha-dura General Costa e Silva não se processe segundo o plano. a 10 de abril. e Carlos Lacerda. Talvez a elite eclesiástica tenha sido realmente convertida ao Cristianismo e talvez tenham salvo Lacerda. Mas talvez a fuga oligárquica só acrescente uma nova variação. Goulart foi quase ritualisticamente afastado do governo pela maquinação Barros-Lacerda-Mesquita. Castelo Branco responde que eles estão indo longe demais.* À 22 de julho o Congresso votou a prorrogação do termo do mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967. o Ato Institucional n0 2 foi promulgado. Menos do que vinte e quatro horas depois as notícias do golpe alcançaram Washington. democracia. além dos já programados fundos da Aliança para o Progresso. 97 . todo mundo fica impressionado com a posição corajosa de Castelo Branco. os Estados Unidos tinham dramatizado seu entusiasmo pelo novo regime através de um empréstimo de 400 milhões de dólares. os generais pedem fascismo. nacionalizações. 400 milhões de dólares podem ser reduzidos a 40 milhões de dólares e então anunciados com um arrogante bilhão. A 27 de outubro de 1965. o Presidente Johnson telegrafa “os mais calorosos bons votos da América” para o novo governo. ) ** A propósito.30** Castelo Branco foi rápido em revelar sua compreensão e gratidão.escutara. (Enquanto era escrito o precedente êle foi nomeado para um mandato de quatro anos. Quatro meses mais tarde uma nova lei tornou possível a demorada prisão de indivíduos sem declaração do crime ou formação de culpa. o povo brasileiro está mostrando uma resistência sólida e surpreendente. entre todos. e antes mesmo de já ser sabido que Goulart deixara a capital. Durante o mesmo período. Por novembro de 1964. banindo * Castelo Branco leva a efeito um jogo intrigante com os generais da assim chamada linha-dura. o idealista governador do Rio Grande do Sul. e dentro desta turbulência outras surpresas se revelam: a hierarquia católica. Os comunistas brasileiros saíram para a cidade do México. numa vaga acusação de subversão. talvez orquestre a si mesma com novos instrumentos de sopro. manifesta-se por reforma agrária. etc.

desde que feito por gente que teve seus direitos políticos suspensos? * Esta citação e o material que se segue são da edição em língua inglesa de Revolution. “Digam o que quiserem”. para explicar as cláusulas do ato e “decretos complementares”. um para servir como “oposição leal”. ou a publicação de notícias que incitem o povo a se opor ao governo.32 Um mês após isso. certamente.todos os treze partidos políticos existentes e criando dois novos. Magalhães informou a imprensa de que o governo não mais permitiria: a) a publicação de entrevistas com aqueles que tivessem tido seus mandatos cassados ou seus direitos políticos anulados. pela razão óbvia de que aqueles que supostamente tomaram parte nele condenariam a si mesmos admitindo que êle aconteceu. por qualquer meio. Castelo Branco defendeu seu governo contra a acusação de que era ditatorial. um encontro no Rio com um seleto grupo de editores e publicistas brasileiros. Juraci Magalhães. se não secreto. e. O último ponto provocou a seguinte conversação: Danton Jobim (de Ultima Hora): Vossa Excelência quer dizer que não podemos publicar nenhum pronunciamento. c) ajuda à subversão. declarou.. A verificação do diálogo de Magalhães é impossível. Revolução. b) nenhuma ameaça ou provocação ao governo revolucionário. O encontro foi privado.. não podem negar o fato de que aqui no Brasil nós temos em pleno funcionamento as duas maiores e mais básicas expressões de uma democracia verdadeira: o Congresso Nacional e a liberdade de imprensa.. falando em Belo Horizonte. tal como referir-se a ele como uma ditadura. para ser mais tarde impressa no movimento subterrâneo cristão brasileiro. o que tornou automaticamente todas as greves e manifestações nas docas crimes militares. o jornal (mimeo) do movimento subterrâneo cristão brasileiro. mas uma transcrição literal foi feita e contrabandeada. 98 . Seguem-se trechos da transcrição. no dia após a decretação do Segundo Ato Institucional. para não ser divulgado..31 Pela mesma época as tentativas do governo para sanear a faculdade da Universidade de Brasília provocam protestos dos estudantes da faculdade.. é atribuído ao Ministro da Justiça... “os adversários da revolução. A 27 de janeiro de 1966 todos os portos foram declarados zonas de segurança nacional..”* Quatro meses antes. demissões em massa e finalmente o virtual fechamento dela. d) a publicação de artigos escritos por jornalistas que tenham perdido seus direitos políticos.

Ambos são responsáveis. De qualquer maneira. Tudo isso para o fomento da democracia de Mundo Livre de Rostow. João Dantas (Diário de Notícias): Como espera que saibamos se alguém é o porta-voz de alguém que perdeu seus direitos políticos? Como pensa que nos defenderemos contra isso? Magalhães: Serão capazes de sabê-lo pela leitura do material que o porta-voz lhes entrega. Magalhães: E se a fizer de novo será punido. o governo Mann-Gordon-Castelo tinha elaborado uma série de decretos interrompendo a construção de novas usinas de aço e autorizando Castelo Branco a vender um interesse majoritário em qualquer indústria nacional. A Consultec. Está claro? Jobim: Muito claro. mas será punido se desobedecer. Roberto Marinho (Globo): eu não concordo que um jornalista que tenha perdido seus direitos políticos deva ser punido. Nascimento Brito (Jornal do Brasil): Como podemos saber se estamos ameaçando o governo? Quer isto dizer que não podemos comentar os atos do governo? Magalhães: Não. Se a fizer de novo será punido de acordo com a lei. Eu assumo a responsabilidade — a inteira responsabilidade por tudo que é publicado em meu jornal. mas de previnir a subversão. a maioria destes porta-vozes é bem conhecida de todos vós. Uma Pessoa Não Identificada: Gostaria de aproveitar a ocasião para fazer algumas perguntas. Nós temos um critério para decidir o que constitui provocação. E protestarei veementemente se você tentar me fazer despedir alguns dos jornalistas que trabalham para mim e que perderam seus direitos políticos. Há uma nova lista de pessoas que perderão seus direitos políticos? Magalhães: Este é um bom exemplo do tipo de perguntas que consideramos provocadoras. E a respeito de desenvolver o subdesenvolvido? No decurso do ano. Mesma Pessoa: Não me interprete mal. e nos ateremos estritamente a ele. não tomaremos conhecimento disso. Você e o jornalista serão punidos. a assessoria técnica do gover99 . Magalhães: A lei será cumprida. É simplesmente isso. Marinho: Oh! Está bem. O governo não tem a intenção de restringir vossa liberdade. Marinho: Mesmo se o artigo não for assinado? Magalhães: Não. Estou só fazendo uma pergunta.Magalhães: Isto é exatamente o que eu disse. A lei considera que estes jornalistas que perderam seus direitos políticos não podem usar a imprensa para provocar ou ameaçar o governo ou difundir subversão. Você é um velho amigo meu. É óbvio que se ele escreve um artigo não assinado.

Herbert Hoover Jr. contudo. Gabriel Passos cancelou três das concessões da Hanna sobre reservas estimadas em quatro bilhões de toneladas de hematita de teor excepcionalmente alto (65 por cento de ferro) . St. que o Brasil teria um déficit de 350 a 400 milhões de dólares nas necessidades de trocas externas no período de 1964-65. nacionalizadas sob Kubitschek. ao mesmo tempo. Kubitschek e Passos foram. engenheiro de minas). o Hague-Paris Club* foi dispersado. França. voltaram a seus donos particulares. anunciou que o governo estava reconsiderando seus regulamentos de remessa de lucros à luz das necessidades “realísticas” dos homens de negócio estrangeiros (NYT. durante a presidência de Juscelino Kubitschek. As indústrias do aço e ferro. filho do falecido Secretário de Estado (NYT. e o Banco Mun* O Presidente Goulart havia informado abruptamente aos credores externos do Brasil. com a maior parte de seus direitos de concessionaria ainda em vigor. anunciou que o Brasil devia abandonar. os direitos de desenvolver uma nova estrada de ferro e facilidades portuárias na Baía de Sepetiba. o novo ministro das Finanças. Grã-Bretanha. 16 de junho de 1966) . John d’el Rey. com a deliberação própria a acontecimentos decisivos. os estados credores estavam preparando generosamente o refinanciamento do débito brasileiro. num esforço para anular este cancelamento e adquirir. Alema100 .33 A mais pungente destas histórias de êxito diz respeito à Hanna Mining Companing. A Hanna lançou mão de influências. algumas milhas ao sul do Rio. No começo da década de sessenta. de Cleveland. e John Dulles.000 toneladas de minério de ferro por ano através do Rio e proclamando que não estava fazendo dinheiro. e daquele tempo em diante cultivara um interesse epicurista nos imensos depósitos de ferro do Brasil. seus esforços de industrialização independente e concentrar-se na produção de alimentos e na extração de matérias-primas para exportação. 18 de junho de 1964). Passo a passo. a Hanna estava exportando por via marítima 400. o Ministro de Minas. O golpe de abril de 1964 mudou o quadro. ou transferir indefinidamente. e Roberto Campos. situados principalmente no estado de Minas Gerais. (como seu pai. o antigo Secretário do Tesouro George Humphrey.34 Em 1935 a Hanna comprara o controle de uma firma de mineração britânica. Motivado por este realismo. Em 1958. Em junho de 1964 os Paulistas-Mesquitas estavam em New York para explicar a nova amistosidade do Brasil em relação ao capital estrangeiro. Os Estados Unidos. a Hanna tornou a reivindicar sua posse. Os grandes pistolões da Hanna eram seu presidente. irredutíveis e a tentada recuperação da Hanna afundou-se nas cortes do Brasil.no.

) 101 . governador de Minas Gerais. que durara quatorze anos. A 6 de novembro de 1964.. Tinham vindo. Porém. O outro era John J. McCloy”. narrou The New York Times. O outro pesado oponente era José Magalhães Pinto. (NYT. relata The New York Times. Um era o impetuoso Governador Carlos Lacerda. o Presidente Castelo Branco recebeu um telefonema de dois famosos cavalheiros.dial estava para pôr fim ao virtual boicote do Brasil. Suíça. Castelo Branco estava sendo pressionado internamente por pelo menos dois fortes Mesquitas. ao mesmo tempo.” “Após apresentar Mr. Encontros posteriores se processaram em Paris (daí “o Hague-Paris Club”) e foram também assistidos pela Áustria. “para discutir os planos da companhia para desenvolver os depósitos de minério de ferro estimados num total de quatro bilhões de toneladas” e “a proposta da Hanna. Um era o Embaixador dos EE. Países Baixos. onde ficavam as concessões disputadas. capital da Guanabara. Itália e Japão tinham por isso se reunido em Haya (daí. a não aceder aos pedidos da Hanna. os membros do clube decidiram tratar individualmente com o Brasil. “o embaixador Gordon fez ao Presidente Castelo Branco uma segunda visita. Bélgica. e queria que todo o embarque de minério de ferro na área continuasse sendo feito pelo Rio. que tinha planos de construir uma usina de aço estatal no estado da Guanabara. nha Ocidental. também se opunha aos propósitos da Hanna (NYT. comandante do Exército de São Paulo. Após o golpe de abril. em seu despacho de 7 de novembro. 2 de julho de 1964. Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. onde a reivindicação da Hanna estava para ser negada). 2 de outubro de 1964). Lincoln Gordon.UU.” A posição de Castelo Branco não deve ter sido fácil! De maneira clara os Estados Unidos estavam pressionando pela liberação das concessões da Hanna (então sob litígio na Corte de Apelações Federal do Brasil. mas na ocasião empregado como representante da Hanna Mining Company. há muito apresentada. o refinanciamento de seu débito. evidentemente baseados no saudável princípio de que Castelo Branco não era Goulart. antigo Alto Comissário dos Estados Unidos na Alemanha. “o Hague Club”) aparentemente para determinar uma política coletiva em relação ao devedor comum. 24 de dezembro de 1964). enviando uma missão de vinte homens (“a maior jamais vista”) numa missão de sete semanas pelo interior do Potencial Redimido (NYT. O General Peri Bevilacqua. de construir um porto de embarque de minério de ferro na Baía de Sepetiba. Mais animador para os novos realistas era talvez o propósito do Brasil de discutir a legislação sob a qual o governo brasileiro garantiria os investimentos estrangeiros. delineando a missão econômica e financeira dos Estados Unidos junto ao Brasil. McCloy.

O Tesouro dos EE. O Export-Import Bank “dá” ao Brasil 30 milhões de dólares — sob forma de débito de 1965 reescalonado.Não se sabe o que Gordon contou a Castelo Branco em sua segunda visita naquele dia. Castelo Branco promulgou “um decreto presidencial [que] incentivava a concorrência privada para o desenvolvimento das vastas reservas de minério de ferro do Brasil e ordenava o desencorajamento de qualquer monopólio pelo estado ou outras empresas. e (b) é o lugar das pretensões da Hanna. mas podemos aceitar que as concessões são boas e honestas concessões. da doação em alimentos.”* E pouco mais de uma semana após (NYT. 24 de dezembro de 1964). do Banco Interamericano de Desenvolvimento (ditto). Mas dentro de duas semanas. 15 de dezembro de 1964). Mais. como foi notado acima. não dá). continua o artigo do Times.” Em cerca de dois meses (NYT. e investidores privados (que tendem a obter grandes lucros nos países pobres. são depositados no Brasil (onde ganham juros) a fim de ajudar a fortalecer o inflacionado cruzeiro. Um mês mais tarde (NYT. a este Brasil sem fôlego é “dado’’ o direito de comprar o equivalente a 90 milhões de dólares em excedentes de utilidades americanas — o preço não é sem dúvida exato. The New York Times (23 de novembro de 1964) falou de planos de ajuda não confirmados. Parecia que Lacerda e Cia. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda. surge a feliz fabulação: “Os EE. 27 de fevereiro de 1965). por certo. “virão do Banco Mundial (que só empresta. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda”. estavam perdendo. mas é sempre um preço.) Olhemos de novo a ampla manchete cinza do Times: “EE. é a função básica da AID). acrescentado]. a região que (a) é já mais desenvolvida. O verdadeiro valor de mercado. qualquer um pode imaginar.UU. meramente um empréstimo que o Brasil deverá pagar com juros. a AID “dá” 150 milhões de dólares em investimentos orçamentários — isto é. * Aqui temos como inventar um bilhão de dólares: Segundo a citada história do Times.UU. Portanto temos aqui um total de 40 milhões de dólares em bens e serviços que podem ser chamados apropriadamente de “presentes”. O dinheiro deveria ser empregado para ajudar o programa de estabilização monetária do país e financiar importações (financiamento de vendas americanas no exterior.UU. Uma fonte não declarada (provavelmente o Banco Mundial) “dá” 100 milhões de dólares para desenvolver a infra-estrutura econômica necessária aos negócios — um “presente” que é. Finalmente. Isto nos coloca com os outros itens arrolados num nível de 550 milhões de dólares. “Os restantes 450 milhões de dólares”. 102 . o Banco Mundial tinha concedido 80 milhões de dólares para o desenvolvimento da força hidrelétrica na região centro -sul — isto é. “programados para o próximo ano [ital. no montante de 400 milhões de dólares “para reconstruir a deteriorada posição econômica do país”. o relato do Times arrola uma doação de 25 milhões de dólares em alimentos e 15 milhões de dólares em concessões determinadas para “agricultura e educação”. do Fundo Monetário Internacional (ditto). A mesma espécie de “presente” vem na importância de 90 milhões de dólares de países europeus e Japão — que devem ter achado engraçado ver seus favores incorporados à beneficência americana. UU. “dá” 50 milhões de dólares para atender a necessidades de troca — que importa numa extensão de crédito. dólares dos EE.

cinco novos “revolucionários” eram admitidos no Tribunal (NYT. A eleição de outubro resultou em importantes vitórias para a oposição de esquerda. O Senador William Fullbright. ele respondeu à crise da “revolução” com a publicação do Ato Institucional n0 2. Mas sua fé no hábil Castelo Branco devia ter sido mais firme. isto é. explicou que os investidores americanos estavam esperando ver se o Brasil se tornaria realmente a democracia que seus governantes prometiam solenemente estarem fazendo. o Ministro das Finanças Campos estava se lastimando de os investidores dos EE. respaldado no exército) de manejar a corte suprema. não estarem exatamente voando para o Rio. Ele esperara 150 milhões de dólares em investimento americano e vira menos do que 20 milhões (NYT. A 27 de outubro. Por mais de quinze anos. Disse The New York Times (ibid. tem esta* No original “Mills of the fods”. perto da boca do Amazonas. que teria de decidir sua reivindicação de concessões e que estava ainda dominada por juizes “esquerdistas” nomeados por Goulart. 3 de novembro de 1965). “A impressão é que a incerteza política sobre a continuação das atuais orientações por parte de um governo eleito está impedindo investidores potenciais.” Os temores dos homens de negócios americanos a respeito do povo brasileiro têm se mostrado em geral bem fundados. no Brasil com uma missão americana de estudo. A 2 de novembro. que estava na mesma missão. 10 de agosto de 1965). mais recentemente. (quem espera sempre alcança!)* a 15 de junho de 1966. e. a suprema corte devolveu à Hanna seus quatro bilhões de toneladas de minério de ferro e o “váem-frente” para o projeto da baía de Sepetiba (nyt. 16 de junho de 1966).Porém a Hanna ainda enfrentava o obstáculo da Suprema Corte do Brasil. que não só teve o efeito de anular a eleição mas que também o dotou com o direito (auto-conferido. sendo sócia menor (49 por cento das ações) do magnata do aço brasileiro Augusto Antunes.). menos frívola. Antunes tem também 51 por cento na Bethlehem Steel de Rockefeller.). O ressentimento nacionalista em relação à posição privilegiada da Hanna foi talvez um tanto obscurecido pelo acordo da Hanna em fazer sociedade. parece ter sugerido uma teoria bem diferente. a ICOMI tem mineirado manganês no Território do Amapá. 103 . Sete meses mais tarde. que detém 51 por cento das ações na nova companhia de desenvolvimento United Brazilian Mining (ibid. Por volta de agosto de 1965. seriam mesmo realizadas as eleições escaladas para outubro? Mas Thomas Mann.UU. que estava provocando um tal aborrecimento para a Hanna. que tem 49 por cento da Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI).

greves e sabotagem”.C. Esta firma foi apadrinhada em 1949 com empréstimos para construção de ferrovias concedidos pelo Banco Mundial e pelo Ex-Im Bank. Por este ato. o governo brasileiro comprometeu-se (1) a nunca expropriar uma firma americana. esta mesma ICOMI é citada. seu lucro total durante oito anos é de 235 milhões de dólares. acordo que certos brasileiros cínicos apregoam ter sido redigido em Washington D. que tiveram permissão de fazer uma incursão de 250 milhões de dólares na indústria de petroquímicos (Time. do Chase Manhattan. 28 de dezembro de 1965). tem estado girando um lucro anual de 12 a 15 milhões de dólares. tem sido invadida pela Gulf e Esso. Se pensarmos que Rockefeller e Fortune tinham acesso a dados da maior parte de 1965. A economia do Brasil estava paralisada. às cegas. revolucionárias e patrióticas da economia brasileira: a inflação tinha de ser detida. oito anos. 15 de outubro de 1965. Fortune diz. Tomados os números de Fortune. durante oito anos. mas um elevadíssimo — e quiçás “explorador”? — 46 por cento.5 milhões de dólares por ano. 13 de fevereiro de 1965. 104) . anteriormente domínio reservado da Petrobrás. em seu artigo Foreign Affairs. e (3) permitir que firmas americanas invistam no Brasil sob os regulamentos das leis americanas (NYT. pode-se pensar. um rico minério atômico.” Os números de Rockefeller acima citados são líquido anual. A aprovação. Mas talvez — quem sabe realmente? — eles sejam ainda mais altos. na América Latina. Segundo o jornal clandestino brasileiro Revolução. e êle cita um estudo que mostra serem os lucros norte-americanos. foi o argumento pelo qual o golpe de abril se anunciou e explicou. por volta de 13 ou 14 por cento. “O que a livre empresa significa para a América Latina”. em 1957. não um meramente robusto 14 por cento. Neste mesmo artigo discute a questão: São os lucros americanos altos demais na América Latina? Sua resposta é a caráter. na mesma área. nióbio. insurreição. Tal. revolução. de abril de 1966.* A produção de fertilizantes. No perfil de Antunes. então o tempo medido é. pág. as operações menos rendosas na indústria de petróleo. é claro. pelo Congresso Nacional. o lucro da ICOMI é portanto. a Petrobrás foi no essencial afastada do refino e vendas em meados de 1966 e viu-se limitada à exploração e extração. no Fortune de abril de 1966. em caos e * É como fala David Rockefeller. um argumento para estas alterações democráticas. Há. Bastante altos. Desde seus primeiros embarques de manganês em 1957. (2) pagar quaisquer danos causados a empresas americanas por “guerra. seu total de lucros até 1965 é de 108 milhões de dólares.do tirando. as especulações comerciais totalizaram 235 milhões de dólares. do Acordo de Garantia de Investimentos foi crucial para este “desenvolvimento” da economia subdesenvolvida do Brasil. Se a ICOMI tem líquido uma média de 13. 104 . exceto com a “total e completa concordância” desta firma. “Desde que os embarques se iniciaram. no entanto. em grosso.

assim as poluições da fábrica muito cedo mataram os peixes e os caranguejos do Pirapanga e do Jaboatão. uma região notória por sua pobreza. 3 de fevereiro de 1966. fazem duplamente no Brasil para os rios brasileiros. De janeiro a junho de 1966 o custo de vida já crescera de 25 por cento (NYT. Mas o desespero faz engenho. e (assim era explicado) era tudo pelo bem da estabilidade fiscal. e The New York Times. tribunais controlados. É sobre duas vilas costeiras no Nordeste do Brasil. diante dos 80 por cento de 1964. na maior parte habitadas por negros. os dissidentes esmagados. as indústrias brasileiras nacionais dizimadas. uma estimativa para menos. confessou um aumento real de mais de 45 por cento. e dois padres indagaram: Que acham de uma * NYT. dava como título de seu artigo sobre o Brasil “preços nas alturas. que greves eram postas fora de lei. provavelmente. o Pirapanga e o Jaboatão. Tendo o governo predito um aumento de custo de vida de 25 por cento para 1965. há pouco tempo. Uma vila é Ponte de Carvalhos. a reforma do Nordeste abandonada. Mandaram emissários fazer apelo às autoridades. em outros tempos podiam subsistir pobremente dos peixes e caranguejos de água doce dos dois rios. de 13 de março de 1965 (“Quando o Cruzeiro faz Espiral. É portanto duplamente irônico o fato de a inflação estar pior do que nunca. O Business Week.corretivos extremos eram necessários. Foi explicado ao povo que esta fábrica representava “desenvolvimento” e “progresso”. importações em declínio”. a Union Carbide Company da América veio para as margens do Pirapanga e construiu para si uma cintilante fábrica de produtos químicos. portas largamente abertas ao capital estrangeiro. Pense em Dólares”) relata que muitos negócios brasileiros estavam automaticamente aumentando seus preços em 7 por cento cada mês. a outra. * Porém ele não está desanimado. Mas o que as fábricas de produtos químicos americanos fazem na América para os rios americanos. salários congelados. 11 de julho de 1966). Uma vez que os habitantes das vilas viam agora a morte à sua frente. 105 . é claro. no governo de Castelo Branco. mas explicaram que não tinham autoridade. mesmo na empauperada América Latina. de 4 de outubro de 1966. acharam que deviam fazer alguma coisa. o soldo do exército aumentado. que são ligados pelo preamar. o desemprego calculado num crescimento para 15 por cento. A polícia não queria saber disso. As autoridades sentiram pena deles. escolas fechadas. Então um dia. Pontezinha. Então a gente das vilas decidiu que teria de fazer uma demonstração. Ambas as vilas. Perto delas correm dois rios. Uma história brasileiro-americana final. de fato prossegue sua revolução democrática com confiança inabalável. Mas é. Este número representa vantagem.

Verwoerd.. Esta usina não está sozinha em sua quietude. aglomeraram-se. despejando de volta no rio envenenado aquilo que tomara sem veneno da terra. disse a polícia. O povo das duas vilas está morrendo quietamente. Strijdom. mais de 2 000 pescadores e suas mulheres e filhos marcharam vinte milhas. A Pirapanga River da Union Carbide Company continuou tranquilamente a fabricar produtos químicos para alguns. Eis a hora em que viemos pedir a solução. G. cada um escutando os outros dizerem o que cada um sabia que o outro já sabia. no calor do verão equatorial. não tendo nunca havido tal coisa em nenhuma das duas obscuras aldeias de pescadores. Ninguém sabia se a procissão seria ou não entendida e seguida. um fugitivo da inquieta. Além da polícia que viera garantir contra perturbações. doutra maneira dirigida. não havia assistentes. e alguns fizeram discursos. sempre na direção dos tanques e pipas suavemente brilhantes em seu alumínio. Puxando a marcha vinha um homem carregando uma grande cruz de madeira.e.”36 Estadistas americanos afirmaram seu interesse pelo avanço mate106 .procissão? Isso é diferente. por sobre a ardente estrada principal. ou quietamente se juntando ao padre revolucionário Alípio de Freitas. o africano. no atrasado Nordeste. seu sucessor: “Não há lugar para ele. onde alguns doze milhões de negros são os escravos culturais do crescente fascismo “afrikaaner” de três e meio milhões de brancos. padres e pescadores. O desenvolvimento é a favor ou contra nós? Progresso que traz miséria não presta. F. raça -superior] e. e retortas gigantes e redomas. o segundo Primeiro -Ministro da África do Sul: “Se rejeitarmos a idéia de Herenvolk [i.. por que era automatizada. e se os não europeus forem desenvolvidos na mesma base que os europeus. Atrás dele o povo carregava cartazes cujos dizeres contavam muito bem sua história: O rio é nosso pão. Ou consideraremos a África do Sul.. revolução de Castelo Branco. na comunidade européia acima do nível de certas formas de trabalho. Porém. Homens e peixes vivem e morrem juntos. Disse J. que está trabalhando quietamente no campo. pertencente à Union Carbide Company. se o direito de voto estiver para ser estendido a não europeus. como poderão os europeus permanecer Baas [senhor]?”35 Disse o falecido H. Sobre a cruz drapejava uma rede de pescar. em 16 de agosto de 1965. da usina química Pirapanga River. Chegaram à fábrica..

Naquele tempo cerca de oitenta firmas americanas tinham investimentos substanciais na África do Sul.) 107 . era combinada e direta.. As firmas americanas aumentaram seus investimentos em 23 milhões de dólares (para cerca de 442 milhões de dólares em 196239). Não há caso mais claro de bloqueio desse avanço e desses valores do que o caso da África do Sul. foi Secretário do Tesouro sob Kennedy e Johnson e passou desde então para o Conselho do Chase Manhattan. Um é a firma bancária de investimento de Dillon. os Babe Ruths.37 Estadistas americanos periodicamente fazem violentos discursos — na ONU. A partir daquela crise. — (N. que é proprietário da maior mina da África sudoeste (que a África do Sul considera como sua “quinta província”). temores de que uma rebelião sul-africana pudesse estar fermentando. porém onde cada uma de três crianças negras morre de subnutrição antes do primeiro ano de vida e 60 por cento de todos os pretos vivem sem possibilidade de adquirir o pão.* os Cavaleiros do Apocalipse do Dólar.40 A situação estava salva.38 Deviam decidir se continuavam ou recuavam. Douglas Dillon. Read & Co. C. o número de companhias americanas investindo no futuro da África do Sul quase triplicou. sendo 5 milhões de dólares de parte do First National Bank. e um consórcio financeiro ad hoc concedeu um empréstimo de 150 milhões de dólares ao governo. 38 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional. Os gigantes estão lá. do T. Assim indagamos: Neste menos ambíguo de todos os casos qual a natureza material da resposta americana? O massacre de Shapeville ocorreu a 21 de março de 1960. 10 milhões de dólares do Chase Manhattan Bank. entre alguns investidores estrangeiros. Um imenso consumidor do urânio da África do Sul (que fi* Célebre “gangster” americano. até 1953. cujo presidente. 28 milhões de dólares do Banco Mundial e 70 milhões de dólares de “emprestadores norte-americanos não identificados publicamente”. o governo se declarou uma república e abandonou o padrão esterlino. e quando.rial de todos os homens e pela prosperidade dos valores democráticos. nas aulas inaugurais das grandes universidades — contra esta África do Sul apartheid. Mas todo mundo compreende que discursos não são ações. o capital europeu ficou o suficientemente nervoso para ameaçar a estabilidade econômica do regime. porque quando veio a ação em 1961. Surgiram logo. subsequentemente.41 Outro é o American Metal Clímax. Aparentemente foram mantidos alguns encontros em certos centros financeiros. onde os brancos têm o quarto nível de vida mais alto do mundo.

) A CAST pagou sob protesto. De novo.gurou em perto de 40 por cento de nossas importações sul-africanas em 1961). Inferno para milhões. 15 minas de ouro. De quando em quando. Manufacturers Hanover Trust. A vitória não foi. Arthur H. a ponto de humilhar a imaginação de um Dante. completa. Bankers Trust. que pôs à disposição da África do Sul um fundo de crédito móvel (o capital sendo automaticamente reposto pelo pagamento dos juros) que alcança agora cerca de 50 milhões de dólares. tinha direitos exclusivos sobre o diamante de toda Serra Leoa. 22 firmas indus* Até 1955. o AMC fornece cerca de 10 por cento da produção total dos EE. e só na África.UU. Dean. tão imensos pelo que diz respeito à escala. 11 “outras” minas. 5 minas de cobre. (o antigo vice-presidente da AMC e atual membro do conselho. porque transcende a todos os povos e a todas as ligas. intrincados pelo que diz respeito às operações e absolutos pelo que diz respeito ao poder. Consolidated Gold Fields of South Africa Ltd. é claro. um elemento da Anglo-American. First National City.. (A própria CAST é só um corpo de quarta ordem na hierarquia da Anglo-American. 11 operações de prospecção. Sierre Leone Selection Trust. Bank of America. retendo a SLST direitos ilimitados sobre profundos depósitos. 17 minas de carvão. que está colaborando com Allis-Chalmers para levar o benefício da força nuclear para a África do Sul. Por si. idéias brilhantes ou ira de qualquer tribo ou nação. Morgan Guaranty Trust. Os participantes deste consórcio incluem as caixas fortes da finança incorporada americana.* Mas a longo prazo não é simplesmente objeto dos caprichos. em 1963. e a Anglo American Corporation. Paraíso para centenas. Naquele ano um protesto nacionalista levou o governo a reduzir a área de concessão da SLST às 209 milhas quadradas que estavam sendo trabalhadas (incluindo a rica área de Konor). a Anglo-American representa 8 minas de diamantes. estas duas corporações dominam totalmente a vida econômica da África sub-sahariana. organização origem da SLST. Serra Leoa exigiu uma taxa de serviço da Consolidated African Selection Trust Ltda. Chase Manhattan.45 108 . nem um ponto abaixo da retribuição do ano precedente. um fragmento deste cosmos pode ser forçado a se submeter a alguns ímpios africanos. e coletando 4 milhões de dólares de Serra Leoa como compensação por suas “oportunidades perdidas”.43 Outro é o consórcio formal dos bancos americanos. Irving Trust e Continental Bank and Trust. First National of Chicago.42) Outro é a própria Comissão de Energia Atômica. mas a despeito da taxa pagou um dividendo de 70 por cento para aquele ano.44 Os super-gigantes são os impérios gêmeos de Harry Oppenheimer. por exemplo. Purgatório para milhares. é uma figura destacada na orientação das medidas de controle das armas nucleares americanas. globais pelo que diz respeito à extensão. Não há nenhum corpo legislativo ou judicial que possa enfrentá-la.

um dos “bush colleges”* apartheid Fort Hare. crescera para 3. 946. da Englehard Industries e da Anglo-American doméstica. Se quer dizer que estas forças induzem à violência revolucionária. Em dez anos a matrícula caíra para uma centena e a média prévia anual de 60 graduações B. são pelo impulso forças libertadoras. do Native Recruiting Corporation (que importa mão-de-obra negra para o trabalho na mina). os números tendo sensivelmente declinado nos anos intervenientes.A. 33 000 frequentavam universidades.9 passaram nas provas. só 17. Em 1965.3 por cento dos africanos que fizeram o exame de admissão ao colégio passaram. concentrados em manufaturas (192 milhões de dólares) e minas (68 milhões de dólares). cujo relatório aos acionistas de 1965 devota uma única sentença às operações africanas. Em 1964. 7 centros de negócios imobiliários e 31 casas de financiamento e investimento. Roma e Londres. Em 1953. Envolvido também em indústrias de mineração canadenses. Naquele ano o hiper-segregacionista Bantu Education Act foi posto em prática. do governo. de 12 milhões de pretos. caíra para 13. um diretor da Chamber of Mines (que determina níveis para salários nas minas e condições de trabalho) e é um membro da ainda mais exclusiva United States Foreign Policy Association. 47. Em 1954. O fascismo “afrikaaner” mais forte cresce. de 3. O mineiro africano fez em média. e com casas de distribuição em Paris.49 Em 1935.46 O embaixador da América junto a Oppenheimerdom é Charles Englehard. do T. o imperialista liberal parece horrivelmente certo. 203 dólares. e a resultante transformação da sociedade que esta expansão acelera. o vencimento médio anual de um trabalhador branco das minas era de 2. No fim de 1964.214 dólares. Se quer dizer que o processo imperialista é ele próprio progressista.47 O que o imperialista liberal apregoa — Englehard. e mais desinibidas crescem suas mutilações raciais. Em 1960. tinha uma matrícula de 374 estudantes. em 1935. 196 em 1960.triais. é um diretor do Witwatersrand Native Labour Association. um amigo íntimo de Hubert Humphrey.) 109 .264 dólares. está redondamente errado.4 milhões de brancos. 41 milhões de dólares * Na África do Sul. australianas e colombianas. escolas para selvagens (“bush”). Englehard detém direções de 23 companhias sul-africanas.50 Os lucros das minas andaram perto de 400 milhões de dólares. os investimentos diretos americanos na África do Sul eram de 467 milhões de dólares. é um bom espécime48 — é que a expansão da indústria. — (N. Lucros líquidos nestes investimentos foram 87 milhões de dólares.

em que a renda “per capita” é de 95 dólares. espantou-se ao saber que os gases venenosos somam.em manufaturas e 20 milhões em minas.55 Consideremos o Paraguai do Mundo Livre. havia 700 em 1965. pode muito bem valer alguns escrúpulos num país que absorve uns extremamente lucrativos 4 bilhões de dólares em investimentos diretos americano. Foi este totalitarismo pelo menos materialmente eficiente? Em 1940. Em 1955 o índice agrícola 110 . as forças armadas sul-africanas voam em 36 interceptores F-86 Sabrejet (para interceptar quem?). cuja política é “não exportar para a África do Sul armas que poderiam ajudar a reforçar a política de apartheid. com ou sem embargo. forneceu 16 bombardeiros leves Buccaneer. Impôs um embargo para armas no começo de 1964 (sob pressão dos países africanos independentes) e. é um jogo do Mundo Livre. não importa às expensas de quem ou de qual causa de ira. Bélgica e Holanda combinadas. transportes C-47 e C-130B (para suprir que fronte?) e cerca de 30 helicópteros Sikorsky (para alcançar rápido a cena de que insurreição?). britânico. e provavelmente o melhor símbolo isolado da democracia crescente de seu regime seja Peña Hermosa. A França. A Grã-Bretanha. francês e alemão.51 De público. o Paraguai tinha mais de 2500 firmas industriais.56 Alfredo Stroessner detém poder ditatorial absoluto desde 1954. à Dinamarca. o campo de prisioneiros da ilha do Chaco. e licença para a produção dos carros blindados Panhard.54 e que produz 70 por cento do ouro do Mundo Livre. A taxa de lucro era portanto de 20 por cento em geral. nosso governo deplora o racismo “afrikaaner”.53 Porém manter paz e quietude. 16 bombardeiros leves Camberra B-12. cerca de 30 helicópteros Alouette. 24 por cento na manufatura e 31 por cento nas minas. 7 bombardeiros de reconhecimento de longo curso Shackleton.52 Mas. cuja política é não fornecer armas “que possam ser usadas em defesa de apartheid” forneceu 16 bombardeiros a jato Mirage III C (Mach 2) com mísseis “air-to-surface” AS-30. e 25 famílias possuem terras iguais em área. não há dúvida. que oferece quase em duplo a média mundial em taxa de lucros de investimentos. onde seus desditosos oponentes políticos estão sendo permanentemente reabilitados. este não é um jogo só americano. Contudo. 30 jatos subsônicos Vampire e cerca de 500 aviões leves Harvard com uma carga de ataque “per-plane” de 8 bombas de fragmentação antipessoal de 19 libras. sarin e tabun estavam sendo manufaturados em grande quantidade na África do Sul.

Carlos Pastore. um anticomunista firme. sendo a seguinte mais baixa a da Bolívia 20. Tem pouco mais de dois milhões de habitantes em 4 500 milhas quadradas. um rico próamericano auto-exilado no Uruguai.” Gerassi escreve: Quando repeti isto aos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção.. Duvalier recebeu mais de 57 milhões de dólares em ajuda da AID e quase tanto em empréstimos dos iguais ao Banco Mundial e o Ex-Im Bank. a democracia ainda seria passível de salvação amanhã. o menor número de leitos hospitalares e de médicos por habitante. em 1965. disse para John Gerassi: “Se toda a ajuda dos Estados Unidos a Stroessner parasse hoje. é uma grande exportadora de açúcar. tem um turismo que lhe é muito rendoso.UU.6. e.era 113.”58 Ou o Mundo Livre do Haiti. e. da qual 111 . responderam: “Mas Stroessner é anticomunista. e a exportação de madeira em 1956 foi de 229 000 toneladas. as exportações eram pouco mais da metade daquela. não importa quão desprezível.” O argumento de que os açougueiros anticomunistas aceleram a chegada ao poder dos comunistas pareceu não ter peso. mais importante. só um por cento da terra era cultivado e o índice era 77. A Jamaica poderia ser para os jamaicanos aquela ilha paradisíaca que as propagandas de viagem apregoam ser para os outros.59 alguns poucos haitianos são muito ricos. o povo haitiano tem a mais baixa frequência escolar do hemisfério (5. é a maior fornecedora mundial de bauxita. pode seguir o caminho de Cuba.9 por cento). em 1961. por outro lado.60 Os americanos democráticos podiam preferir que sua ajuda financeira mostrasse melhores resultados sociais do que o tirano Duvalier se mostra capaz de obter. “Em última análise” foi-me dito “a nossa política é de sobrevivência.5. mas os Guerreiros da Guerra Fria americanos. que resguarda a zona estratégica do Canal do Panamá. Duvalier tem segurança pessoal garantida por 20 000 homens da guarda do palácio treinados pelos marines dos EE.57 O presidente do Partido Liberal. por outro lado. e a mais baixa renda “per capita” (70 dólares) da América Latina. e sem seu Duvalier. ainda outro segmento do arquipélago das Grandes Antilhas. podem temer que um Haiti sem seus dólares venha a ser um Haiti sem seu Duvalier. Assim. embora a demanda haja se intensificado. que pode se virar contra nós. é melhor do que um reformador. Três quartos da terra são florestas de madeiras.7 por cento. não importa quão honesto.

É sem dúvida verdadeiro que a venda per capita da Venezuela é a mais alta da América Latina. de Rockefeler. que absorveu bem mais de 3 bilhões de dólares em investimento direto dos EE. com 93 por cento de seu povo ganhando menos do que 480 dólares por ano? A Jamaica podia ser — pelo menos — a Suíça dos caraibanos. Porém não o é. O petróleo e o ferro venezuelanos têm um valor médio anual “dockside” de cerca de 4 bilhões de dólares — uma sólida base econômica. infelizmente. A Creole Petroleum Corporation. muito difícil de calcular para qualquer país e quase impossível para os subdesenvolvidos. a Mobil. então tem de ser válida para a Venezuela. a Mene Grande Oil. com 15 por cento. cufa renda “per capita” é de 1800 dólares — à frente do Canadá (1600 dólares). Kaiser e Reinolds. por exemplo. Inglaterra e Alemanha). para um país de uns oito milhões de habitantes (três por cento dos quais. dos dados ao pro* Partindo dos números de renda “per capita”. Como é que com base em tal riqueza este país está em débito com estrangeiros. Alcoa. Porém o rendimento anual da Venezuela nos 3 bilhões de dólares em petróleo que ela transporta por mar cada ano é somente de 800 dólares — renda coletada dos estrangeiros que controlam o petróleo. que não é de propriedade da Jamaica. nem se encaminha para isso. 112 . Alcoa. (atrás somente do Canadá. de Mellon. contudo. e Royal-Dutch Shell. Alcan. os recursos médios. conta com mais de 40 por cento da produção total e volume de vendas. Suíça (1400 dólares). e que tem sido o território favorito dos modernizadores de Rockefeller desde o início do século. mas sim da Alcan. Suécia (1300 dólares) e Grã-Bretanha (1100 dólares) e não muito atrás dos Estados Unidos (2300 dólares). seria a distribuição da renda. com a maior parte do restante. porém é. Encaminha-se na direção de dívida maior com estrangeiros. E enquanto a pobreza da Jamaica fica pior.provêm todas as utilidades do alumínio.UU. poder-se-ia concluir que o segundo lugar mais adorável do mundo para se viver é o Kuwait. Kaiser e Reinolds continuam a transportar para o norte a bauxita jamaicana.62 O grupo venezuelano que detém o governo tem “direitos de concessão” em menos de um por cento das reservas de petróleo e é por demais subfinanciado para fazer operações lucrativas.61 A Venezuela pertence ao mesmo campo. Se a pretensão de que a livre empresa americana colabora com a revolução de esperanças em ascensão acabará por fim sendo válida. com 5 por cento. pode parecer. possuem 90 por cento da terra). também verdade que ela é só de 800 dólares e que os dados “per capita” de modo algum representam a verdadeira riqueza nacional ou sua distribuição* e que.63 O dado mais revelador.

eleito democraticamente. Sendo dos cinco maiores exportadores de petróleo entre os países subdesenvolvidos (os outros são Kuwait. a Venezuela tem à um tempo as menores reservas e a mais alta taxa de produção anual.66 Ou deveríamos examinar a Guatemala de 1954. porque ele advogava para o Irã o neutralismo ante a Guerra Fria e ameaçava nacionalizar as concessionárias estrangeiras de petróleo. a Venezuela com reservas de 17 bilhões de barris. onde em 1953 a CIA e a Inteligência Britânica conspiraram para depor o Premier Mohammed Mossadeg. Mas as extrações de petróleo estão longe de serem diminuídas. Alguém pode por certo dizer que a Venezuela está sendo “desenvolvida”. seria prudente diminuir a extração de petróleo e se concentrar agora em desenvolver uma economia urbano-rural diversificada. O Kuwait. Irã e Iraque). bem mais de um terço são exportações. através do período do golpe em si. e que o lucro petrolífero é monopolizado efetivamente por interesses americanos e europeus. Deveríamos seguir a carreira do James Bond daquela operação. Precisaríamos focalizar o Irã. as perspectivas da Venezuela. com reservas de 62 bilhões de barris em 1960. Kermit Roosevelt. e a subsequente redistribuição dos direitos iranianos sobre petróleo em favor de companhias americanas (Standard e Gulf).65 O fato é que não compete à Venezuela tomar a decisão. da CIA. porque seu modesto programa de reforma agrária ameaçava as terras de cultivo não Uma parte considerável da maior parte da população de países subdesenvolvidos ainda não está na economia monetária. Arábia Saudita. parecem ainda mais negras: as reservas conhecidas de petróleo estarão extintas dentro de aproximadamente quinze anos.64 Além do mais. equilibrada e essencialmente auto-suficiente. produziu 601 milhões de barris. Uma vez que o mercado mundial de petróleo apresenta um abarrotamento prolongado. As taxas de produção são determinadas pelas firmas estrangeiras que detêm os direitos de concessão — direitos que estão marcados para expirar em 1984. produziu um bilhão. onde a CIA ajudou a derrubar o Presidente Arbenz.duto nacional bruto sobre o qual é calculada. 113 . prosseguindo por 1958 quando a Gulf o fez seu homem “de contato com o governo” e até 1960 quando se tornou um vice-presidente. mais de 90 por cento desse terço é só em petróleo. Alguém então pergunta: Por quem? E para servir as necessidades de quem? O rol é longo. a longo prazo.

de fevereiro de 1966. de o então Diretor da CIA. Adolf Berle Jr. conduziu à abertura explícita da porta ghanense aos negócios dos EE. desde 1946. 114 . cerca de um dólar diário. Joseph Farland. Harriman). ser dono de cerca de 10 por cento da National Sugar. cujo golpe anti-Nkrumah.utilizadas da United Fruit Company.UU. cujas plantações de borracha deram à Firestone um lucro líquido médio de três vezes o montante de toda a renda nacional da Libéria. do embaixador itinerante Averell Harriman. redigida nos EE. e o qual. e de o antigo embaixador junto à República Dominicana. de a casa de investimento privado (Brown Bros.69 Ou a Libéria. ser importante acionista da United Fruit Company.70 Ou a malfadada Ghana. na República Dominicana e demonstrar o fato de seu planejador principal. outra filha do humanismo americano. da Suprema Corte de Justiça e um destacado retórico do liberalismo incorporado. foram concedidos a interesses privados europeus e americanos (Bethlehem Steel)... ter sido presidente da United Fruit Company.. criança mimada do anticolonialismo americano. ser um membro do conselho da National Sugar Refining Company.)68 Ou precisaríamos examinar as Filipinas. o Embaixador da Organização dos Estados Americanos. cuja “emenda de paridade”. obstrui efetivamente o desenvolvimento de uma classe empresarial filipina independente. de o predecessor de Dulles na direção da CIA. pertencer ao conselho da South Puerto Rico Sugar Company. que importa melaço da República Dominicana.67 Ou precisaríamos olhar para nossa intervenção de 1965. John Moors Cabot. na cadeia de Mimba. e ao colapso dos esforços ghanenses para alcançar auto-suficiência diversificada. que detém acesso privilegiado ao açúcar dominicano. que possui 275 000 acres da melhor terra de plantação na República Dominicana e que é o maior empregador da ilha (salário médio dos dominicanos.UU. Abe Fortas. pertencerem. Allan Dulles. e cujos ricos depósitos de ferro. ter redigido os acordos de 1930 e 1936 da United Fruit Company com a Guatemala. Ellsworth Bunker Jr. ao conselho da Sucrest Company. Deveríamos examinar detidamente as implicações do fato de o escritório de advocacia. do então Secretário de Estado John Foster Dulles. de qualquer modo. de o então Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Inter-americanos. da constituição “nacional” proíbe os filipinos de proteger seus mercados e recursos internos contra a penetração comercial americana — isto é. estar para se tornar um vice-presidente da United Fruit Company. de o amigo íntimo do Presidente Johnson. parece ter tido apoio da CIA. General Walter Beddel Smith.

N.71 Ou a Índia.73 Porém a lista não tem fim. nossa política de negócios pode justamente pretender ter excitado as crescentes exigências revolucionárias do mundo subdesenvolvido.UU. para esta mesma política. Porém. Teremos de tentar uma generalização. onde o mais aterrador banho de sangue da história e a devolução ou “aquisição” das concessões americanas de borracha e petróleo. o principal funcionário econômico do novo regime. Os Estados Unidos mostraram na Europa que sabem como reconstruir as economias capitalistas destruídas pelas bombas. de tempo e liberdade para cultivar um estilo econômico nacional.” A título de atrativo Omaboe oferecia isenção de impostos por dez anos. o ajuste seria arbitrado pelo Banco Mundial. Omaboe. conduziram diretamente ao reinício da ajuda dos EE. da Câmara de Comércio Africano -Americana. de isenção ante a Guerra Fria. Preocupado com a extração de riquezas para exportação e a imediata exploração de todas as oportunidades. o esforço aparentemente genuíno de alguma gente da AID (e mesmo da CIA) para encorajar a reforma social sob condições frustrantes e muitas vezes perigosas. sem olhar para os danos que isto causa aos outros. anteriormente nacionalizadas. em uma reunião em New York. em 20 de maio de 1966: “Queremos que os pescadores da Nova Inglaterra e Califórnia pesquem em nossas costas e montem fábricas de conservas. há o Peace Corps. no caso extremo de uma desapropriação. feita pelo novo governo.72 Ou a Indonésia. de independência política. por pior que tenha sido empregado. onde não há estrutura de classe capitalista. de cujo numerário dois terços são controlados pelo governo dos Estados Unidos. Há. não passa de algaravia desejar que aprove estas exigências — as exigências de oportunidade aberta para desenvolver a riqueza natural da nação. nem tendência interna para estilos de vida capitalistas. por exemplo. sem dúvida materializa um 115 . A América não é ingênua como um bebê e seu imperialismo tem outras modulações. Porém não mostraram no Terceiro Mundo que podem desenvolver economias políticas no estilo ocidental: nos países pré-industriais.Como falou E. que usou desta força de coação para ajudar a persuadir Madame Ghandhi de que fábricas de fertilizantes movidas pelo dispendioso óleo de Rockefeller eram melhores para a Índia do que fábricas de fertilizantes movidas pelo barato gás iraniano. importação de materiais livre de taxas e uma garantia de que. que. a chegada do corporativista americano é de fato um desastre.

frustrada e assustadora cujos motivos fundamentais parecem tão compulsivos e cujas reivindicações fundamentais parecem tão justas. o Rice Institute estão apenas desempenhando papéis marginais e auxiliares. “viram os preços de exportação de seus metais descerem de 40 a 50 por cento durante os últimos anos. as descrições mais perceptivas e realistas dos efeitos do imperialismo de Mundo Livre nas regiões atrasadas.. que o mundo em crescimento experimenta mais profundamente. P. a força impulsora principal da política externa americana. um esforço conjunto das fundações Ford e Rockefeller. Ao mesmo tempo. ele mesmo reconheceu que “sermões sobre a importância da empresa e investimento privados e a utilidade do capital estrangeiro [nos países subdesenvolvidos] são. há o Asian Rice Institute. de fato. Grace Jr.. custa anualmente 4. México e Bolívia”. o preço médio que a América Latina paga por suas importações dos Estados Unidos subiu cerca de 11 por cento. [os países subdesenvolvidos] têm 116 . Pode-se desejar que o Peace Corps fosse o Departamento de Estado. pode mesmo incrementar a produção. Peru. que tem sido um analista simpaticamente perspicaz do corporativismo americano. Gerassi cita a declaração que J. desde 1951. Se estes representassem a essência do comportamento. Mas todos os imperialismos produziram seus anjos de misericórdia. Adolf Berle Jr. cujos lucros latino-americanos são imensos. É com frequência deles que conseguimos..5 bilhões de dólares em juros e taxas e consome um oitavo de todos seus ganhos no comércio externo. e deve-se concluir que a boa gente da AID.desejo popular americano de servir de ajuda a outro povo. Porém preocupados capitalistas incorporados não são tão difíceis de achar. A América não é a amiga. Ele não é nem mesmo um igual da terceira linha da CIA.74 Pode parecer estranho ouvir isto justamente do Berle. que se pode mostrar muito valioso para o povo da Ásia. Marines [fuzileiros]. um humanista político poderia se esforçar decididamente seguindo essa política sem muita hesitação. um pouco tolos. da pilhagem fria e da força do napalm. nas Filipinas. é a América da United Fruit e dos U.. e mesmo assim deixar as massas num estado tão mau como sempre”. disse Grace.S.”75 Os editores de Fortune mostraram que a dívida a longo prazo dos países subdesenvolvidos. mas a inimiga daquela revolução deformada.. Presidente de Grace e Co. A América. o Peace Corps.. Investimento estrangeiro e/ou privado pode industrializar. É difícil entender como poderia ser diferente com o estado incorporado. alguns 40 bilhões de dólares em 1966. fez em 1958: “Chile. “Para conseguir suficiente câmbio externo para o que importam. desigual.

enfrentem a possibilidade nítida.7 bilhões de dólares este ano [1966]. Contudo. Porém há só uma diferença de tom. destacou o mesmo ponto: “Só a amortização da dívida [da América Latina] requer 1. Muitos diplomatas e economistas consideraram as implicações como preponderantemente — e perigosamente — políticas. em parte preponderante.” “Todos os demais” inclui aproximadamente dois terços da população da terra.”77 Josué de Castro. nas palavras de Miss Ward. Colonialismo é a única causa da fome na América Latina.. Parece ser sem dúvida verdadeiro que muitos aspectos do problema do desenvolvimento podiam ser resolvidos por essa figura — bastaria que ele se afastasse do quadro. e isto não é uma herança realmente confortável para deixar aos filhos de alguém. o que por sua vez significa que terão de enfrentar maiores custos e encargos. estes analistas temem que os Estados Unidos. as reservas do grupo menos desenvolvido não só pararam de crescer. Mas como será ele persuadido a fazer 117 . internacional. Ao mesmo tempo. escreveu que ela “nada mais é senão puro colonialismo.”76 Sanz de Santamaria.. altamente burguesa.. de que este problema [em vez do comunismo] seja o que está por detrás da revolução do Terceiro Mundo. Para analistas tais como [Barbara] Ward de Grã-Bretanha. complacente.”78 Isso podia parecer um amargo exagero. não de substância. espalhados através de cerca de 100 nações. a significação de tais estatísticas é clara: o abismo econômico está se alargando rapidamente “entre uma muito pequena elite do Atlântico Norte. A menos que possa ser revertido o presente declínio. “de uma espécie de guerra de classes.. e outras ricas potências industriais do Ocidente. há sempre uma sugestão implícita de que o homem que melhor pode solucionar este problema não é outro senão o próprio capitalista do Mundo Livre. de que seja. entre aquele raciocínio e as seguintes passagens da página editorial do Wall Street Journal: As nações industriais acrescentaram perto de 2 bilhões de dólares a suas reservas. portanto pré-anulando 16 por cento de todos os ganhos de exportação. muito rica e todos os demais. um dos mais destacados economistas do Brasil e um antigo presidente da Food and Agriculture Organization [Organização para Alimentos e Agricultura] da ONU. branca. presidente da assembléia do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso.que pedir emprestado mais.”79 Mas há raramente uma indicação de que este problema seja causado por alguém. mas declinaram alguns 200 milhões de dólares. causado pelas corporações americanas.

Sem a AID e o Banco Mundial. isso só acontecerá através da ação competitiva independente de outros capitalistas. Sem a campanha de venda da Guerra Fria do Departamento de Estado. como alcançar seu descompromisso de um governo que sempre considerou os sucessos dele no estrangeiro como sendo sucessos privados da América. emergem decididamente para criar e controlar nova força. contudo é assim que se supõe operar o sistema: novos empresários. novos capitalistas. exercendo a regulamentação da indústria. e o vencedor fica mais forte. comércio e finanças. O poder se condensa nas mãos de grupos vitoriosos cada vez menores. e sem as mãos protetoras dos Departamentos de Comércio e Estado. rígida censura e supressão da oposição pela força. cada vez mais integrados e colaborativos. não engloba um compromisso com outros capitalistas. centralizado. e o perdedor fica mais fraco. Porém constatamos um problema: Mesmo em nossa economia. e que está inalteravelmente comprometido com a ideologia política da livre-emprêsa? Considere-se que o compromisso do capitalista com o capitalismo. e a ajuda ativa dos mascates de armamentos do Departamento de Defesa. suas vitórias contidas.isso? Entregar em nome de quem quer que seja os imensos lucros que ele considera sua principal função fazer? Além do mais. autocrático. Fascismo — um termo extravagante? A definição do Webster’s: “um regime nacional. há um rompimento em aceleração deste sistema de limites baseados na competição teoricamente circunscrita ao país. Sem as Forças Especiais e Fuzileiros do governo federal. com os negócios públicos severamente orientados pelo nacionalismo. perdida. Sem grande governo. supostamente modelo. e portanto reconstituir a dinâmica do mercado aberto e livre.” Nas últimas duas 118 . as companhias de açúcar não podiam enfiar sua garra letal nas economias dos pequenos estados desde o Caribe ao Pacífico Central. Se sua dominação estiver para ser restringida. e a moralidade decorrente obriga-o a ganhar o quanto possa. A ideologia obriga-o só a competir. Sem os subsídios ao açúcar do governo federal. A competição é ganha. e permanente. a General Dynamics não podia continuar a engordar com vendas de armas à Europa. o grande negócio estaria perdido. Vê-se na América o surgimento (talvez seja tarde demais para tal palavra) do que só podemos descrever como estado fascista um pouco mais tolerável e domesticamente benigno. agora se torna seu deliciado e delicioso parceiro. E o governo federal. as corporações não podiam se multinacionalizar. não há muito tempo atrás o arqui-inimigo do homem de negócios americano. Em teoria. a United Fruit não podia dominar a Guatemala.

Deverá ser estabelecido através de competição com outros capitalistas. E o ato normativo de competição. quase empacotada. onde estão os capitalistas competitivos do Terceiro Mundo? E como estão para ser produzidos? E quem os produzirá? Nada do que o homem de negócios americano possa ver no passado. o nacionalismo sofisticado de nossa política externa. poder adiar o julgamento. eu espero não esperançosamente demais. mas quem vencerá a ocupação dos presentes lugares de poder. não ocorre entre grupos empresariais independentes e aparentemente não é travado em termos da superioridade do produto de um homem sobre o de outro (a “superioridade” de produto sendo agora comprada. mas muito real e muito burocrático. Mas centralização nas decisões econômicas e políticas básicas. a competição crucial se processa no interior de um monolito comercial. homogêneo e irregular. combinado com responsabilidade social para com a comunidade como um todo. Pretenderá alguém que o apetite de dominação que estimulou o crescimento deste estado incorporado vá se restringir a si mesmo. Ao contrário. Então. baseado no conceito de um lucro justo para a livre empresa. presente ou futuro o persuadirá de deixar passar quaisquer vantagens comerciais que possam chegar-lhe às mãos.considerações. Governo forte e grandes negócios são em essência a mesma coisa. 119 . de uma agência de propaganda). não há necessidade de omitir uma já inofensiva dissensão. porque o homem de negócios que fizer isso.”80 E pode ele muito bem desejar que alguém aceite seu conselho. A idéia do capitalismo é que o “lucro justo” não deverá ser determinado por um capitalista cristão sozinho. pode (às vezes sim. de alto-abaixo da indústria. Por que devemos querer mudar isso? A United Fruit Company pode ser “esclarecida”. com sua moralidade. o Terceiro Mundo é uma vantagem comercial. este mesmo Rockefeller esmagará. e o fim supremo dessa competição é a sucessão interna de poder e autoridade: não onde o poder será deslocado. mas a aquisição de poder dentro do sistema fechado que o comanda. E para ele. comércio e finanças — são estes muito claramente os aspectos dominantes de nosso sistema. De qualquer forma. O Terceiro Mundo é aquela mina de ouro exposta e desprotegida onde seus investimentos em dólares rendem melhor do que em qualquer outra parte. que agora é levado a efeito. não a reorganização de poder no mercado. quando prossegue em cruzeiros externos? David Rockefeller pode muito bem exortar seus companheiros homens de negócios a “demonstrar [aos latino-americanos] que um novo tipo de capitalismo evolveu. a “regulamentação” (nossa palavra é racionalização) de facto.

Os realizadores do progresso social são aqueles cuja condição o requer. aquele Brasil dinâmico e à feição de livre-emprêsa. americanizado.às vezes não) construir estradas. Teria de suplantar sua ética do dinheiro por meio de uma ética social. Os agentes de mudança neste mundo são hoje. Para as coisas se apresentarem diferentes. que podem algum dia tornar-se bastante fortes para oferecer-lhe alguma competição? Desde quando é o capitalista o guarda de seu colega? Como homens comuns. escolas e hospitais em cidadesmodelos da companhia. e tomar partido contra ele mesmo. inteligentes. A revolução é a livre-emprêsa coletiva dos coletivamente despojados. no melhor sentido. teria de se tornar um socialista revolucionário. E no fundo. aqueles cujas vidas combalidas estão mais necessitadas de mudança. como sempre foram. de trabalhar em favor de sua competição. os corporativistas americanos podem enxergar a verdade tão bem como qualquer outra pessoa. Teria de mudar inteiramente seu estilo de pensamento e ação. não manipulados. o livre-empresário ianque teria. não pode ser tarefa de capitalistas americanos. dentro de suas plantações nas “repúblicas das bananas”. não hostilizados. e podem mesmo ter uma preferência ideológica. Porém construir aquele Vietnã “americano”. 120 . Podem mesmo se sentir compungidos com as sangrentas implicações do que vêem. esta revolução nada mais é do que o surgimento de competidores que empregam os únicos meios de competição disponíveis para eles. Teria de reconhecer a diferença de interesses. impessoal por um Terceiro Mundo. pela primeira vez em sua vida. casas. Porém. Em uma palavra. porque deve ela desejar entregar a posição privilegiada que ocupa ali. tudo em nome de algum empoeirado ideal humanitário? Ou por que devia ela se regozijar em ver o surgimento de capitalistas locais. ao dar uma vista d’olhos no resto do mundo. cujo objetivo fosse a destruição da atual hegemonia americana. tanto como a construção da nação americana não podia ter sido tarefa dos mercantilistas britânicos. aquela Guatemala de classe média — se isso afinal é o que aqueles países querem — aquela é tarefa de vietnamitas. Não tenho motivos para supor que uma tal metamorfose esteja para transfigurar este ianque. um bem econômico dual. brasileiros e guatemaltecos independentes.

e por quem. Senador Albert J. naquela parte do mundo. mas controle externo versus controle local do Vietnã — isto é. então se pode ser capaz de mostrar. crucial para a segurança e progresso do estado comercial americano. É precisamente neste ponto que a teoria do imperialismo se defronta com uma simples e séria objeção. Pois as lutas do futuro devem ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. que a questão na guerra do Vietnã não é liberdade Ocidental versus escravidão Oriental. Bevebidge.V O Caso do Vietnã A supremacia comercial da República significa que esta nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. tão pobre e tão atrasada. São os interesses comerciais americanos. E a regra de ouro da paz é inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. 1898 Se o anticomunismo da Guerra Fria é mais basicamente uma máscara ideológica para o imperialismo de Mundo Livre. E uma vez que os Estados Unidos se comprometeram tão sem reservas com a salvação à Mundo Livre do Vietnã. esta linha de análise é também obrigada a mostrar que o Vietnã é. a economia política vitnamita será desenvolvida. mostrar que a guerra está sendo travada para determinar como. de algum modo. de alguma forma. substanciais ao ponto de justificar uma guerra assim perigosa e ilimitada? A guerra agora 121 .

apareceu no número de março de 1966 do Fortune. nos leva a abandonar a teoria imperialista (pelo menos para esta guerra) e voltar a uma explicação mais puramente “política” e não comercial.UU.” Um trabalho similar. ambos os quais agora importa. escreveu Faltermayer. Há quatro pontos importantes debatidos abaixo. e poderia facilmente ultrapassar esse recorde sob condições normais. população ou semelhante. em ordem crescente de importância: Primeiro. a “tijela de arroz” que agora produz cerca de quatro milhões de toneladas * Desenvolvimento rápido de valor. estes artigos — e em especial o de Faltermayer — devem ter convencido muitos de que o Vietnã do Sul é um petisco delicioso bastante para valer a pena ser salvo. Mas investiguemos o caso com maior curiosidade. recursos. que exportou um recorde de 83 000 toneladas de borracha. Em seu número de 1 de janeiro de 1966. sob o título “As Surpreendentes Vantagens da Economia do Vietnã do Sul. Talvez fossem divulgados para incentivar o entusiasmo da comunidade dos negócios por uma guerra que cria alguns aborrecimentos internos (p. — (N. é também um clímax. é um paradigma dele. existe um interesse comercial americano direto no Vietnã.ex. no caso. em 1961.” Há a possibilidade de ambos os artigos terem sido um tanto planejados ou calculados. Newsweek traz um ensaio chamado: “Saigon: Uma Cidade Boom* para os Homens de Negócios dos EE.está custando aos americanos acima de 20 bilhões de dólares por ano. do T.” Ele nota que o país poderia se tornar um exportador de açúcar e algodão. “tem o potencial para se tornar uma das mais ricas nações do Sudeste da Ásia.) 122 . “Um Vietnã do Sul protegido do comunismo”. e que em sua fusão de motivo imperialista e ideologia anticomunista. Faltermayer. Porém qualquer que seja o motivo. escassez de mão de obra em algumas áreas-chave de especialização. a guerra não é somente exemplar. com seu aspecto tão persuasivo. Esta observação de inteiro senso-comum. Encontraremos que a política da América no Vietnã não ilustra meramente o imperialismo americano. crédito mais restrito). inflação. Quantos anos levará um Vietnã “salvo” para começar a pagar dividendos para essa espécie de investimento militar? O guarda-livros observará que salvar o Vietnã está nos custando muito mais do que o que possa jamais ser igualado por qualquer vantagem “colonial” resultante. impostos mais altos. que o delta do Mekong. rápida valorização no mercado de valores e títulos. de Edmund K.

.1 O gigante é RMK-BRJ. Outra indústria têxtil foi parcialmente financiada pela Johnson International Corporation. Dairies. um combinado de construção formado por Raymond International. a primeira do país. ramis e “kenaf” — virão saltando do solo para os porões dos navios cargueiros. A situação. Não é por mágica que o arroz. A Esso e a Caltex. seja do tipo socialista. pode mudar radicalmente nos próximos anos. Porém a mesquinharia desse total é em si um engodo claro: Há uma nova fronteira de oportunidades. poderia produzir de 12 a 15 milhões de toneladas. seguiram suas [sic!] tropas na guerra em tal escala”. com 25 000 trabalhadores em sua lista de pagamento. A American Trading Co. Jones Construction. a borracha. Para isso será preciso capital. seja do capitalista. anualmente. “os homens de negócios dos EE. Morrison-Knudsen. ele diz. tem interesse controlador em uma nova fábrica de leite condensado e meio-interêsse em uma nova indústria têxtil. em média. Até março de 1966. Parsons & Whittemore. controla 18 por cento de interesse numa fábrica de papel dirigida por americanos. A Shell Oil e o governo sul-vietnamita participaram da especulação. A RMK-BRJ é a principal contratante do enorme programa de construção militar. estão vendendo e fazendo a manutenção de equipamento pesado — “bulldozers”. e planeja um incremento de mais 75 000. Os pioneiros capitalistas já estão firmando suas pretensões. não mais de 6 milhões de dólares. e a refinaria poderia ser incluída no proposto complexo industrial de Cam Ranh Bay. Enfatiza que nosso investimento direto total no Vietnã é. da Califórnia. “Nunca antes”.. A firma de New York. tratores. portos e estradas (“infra -estrutura” econômica) e seus contratos devem eventualmente atingir 700 milhões de dólares. O Chase Manhattan e o Bank of America abriram filiais em Saigon. amplamente aberta no Vietnã. e J. que inclui bases aéreas. já era o maior empregador privado no país. juta.UU. o açúcar e o algodão — e as promissoras colheitas industriais. 20 a 30 por cento em seus investimentos. A. estão estudando propostas para construir uma refinaria de petróleo no valor de 16 milhões de dólares. e Brownell Lane Engineering Co. Faltermayer procura não exagerar a importância da presente jogada. 123 . no momento. Brown & Root. caminhões e locomotivas de estrada de ferro — e lucrando. com um capital de 5 milhões de dólares em Bien Hoa. disse Newsweek.de arroz.

financia negócios no exterior. Fuller diz: “Podemos obter de volta nosso investimento em dois anos. de 16 milhões de dólares. É difícil considerar es124 . alcançam um quarto: 550 milhões de dólares. Faltermayer oferece um forte candidato na pessoa de um empresário de New York.. em produtos americanos e matérias-primas: “Em 1966.UU. que acrescentou à história uma nota tocante: “Há forte evidência de que o governo americano “convidou com urgência” as companhias petrolíferas a realizar o contrato a fim de mostrar a confiança americana no futuro do Vietnã. por certo. e que os homens de negócio pudessem de imediato ocupar. Os planos da mesma refinaria. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. E então? por que é tão errado nossos homens de negócio estarem logo atrás de “suas” tropas? Não há nada estranho na busca de lucro e oportunidade. as parcelas da AID entregues ao Vietnã eram perto de um sexto dos 2 bilhões totais.UU. Fuller mais uma vez leva à frente seus planos porque julga que os Estados Unidos agora têm o encargo de salvar o Vietnã. como devem fazêlo mais cedo ou mais tarde. 85 por cento é gasto nos EE. chamado Herbert Fuller. Em 1967. a doação de dólares americanos para financiar a importação vietnamita de mercadorias americanas. Já citamos Forbes (que se intitula uma “ferramenta capitalista”) sobre a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID): “é a principal agência por meio da qual o governo dos EE. segundo o erudito da Indochina Bernard B. um passo atrás delas.(É surpreendente. Destes. o Vietnã do Sul deve se alinhar entre nossos dez maiores compradores. Fali. que Faltermayer apresente esta “especulação” como algo novo. Ou quer? Deparamo-nos com um problema de visão. já estavam “em estudo” em abril de 1962. cabeça de um grupo investidor que desde 1958 tem estado promovendo uma usina de açúcar de 10 milhões de dólares para a cidade costeira de Tuy Hoa: Quando as tropas chegarem para limpar a área. contudo.”2) Um importante aspecto do quadro comercial é. “Estou nisso por dinheiro”. colonizar e começar a desenvolver o chão há pouco limpo por nossas tropas não quer significar que seja por eles que as tropas lá estão. Todas as novas fronteiras precisam de seus Paul Bunyans.. este capitalista americano estará literalmente. Se 85 por cento disso é dispendido em exportações americanas.” Como todos os homens de empresa.

ou não serão. quer imediatas quer a longo termo. são livres para nele fazer negócios. Leve-se em conta que desde 1946 o governo federal tem dedicado cerca de 60 por cento de seu orçamento para apoio do complexo militar industrial. “capitalista americano”. ele e a região para Fuller. como colônia de conflito. Porém. Em 1959. dependendo da nossa possibilidade de fazer negócios nelas. Segundo. que nem Fuller. livre-emprêsa e liberdade. Não há dúvida de que a importância do Vietnã está muito mais basicamente em sua posição geográfica e histórica do que em suas potencialidades comerciais inerentes. ajuda a guiar esta roda. Portanto. como veremos. diz Arthur Tunnell. mas não especialmente significativo. do escritório de Saigon da Investors Overseas Services. ninguém pensa que os fuzileiros renunciariam à conquista de Tuy Hoa. A definição diz que um país é livre quando americanos. Sem dúvida. elas próprias “livres”. a economia militarizada pede uma política militarizada. Mas o que julgamos que “liberdade” significa? E qual é o propósito real em manter os comunistas afastados? Nossa definição funcional de um país livre fica clara perante nosso comportamento. “Após a guerra”. Se Fuller decidisse que o projeto de Tuy Hoa era uma aposta má e voltasse para New York. “haverá aqui um grande futuro para os homens de negócios americanos. quando Khruschev veio a Camp David e a Guerra Fria parecia suspensa para reavaliação. E livre quando lá há livre-emprêsa. e que serão. em 20 anos um total de mais de 850 bilhões de dólares. A guerra seria a mesma com ou sem eles.”3 Analisemos por alto a visão que essa afirmativa torna concreta e obteremos uma exaustiva descrição ideológica da guerra do Vietnã. se tiverem a habilidade e a capacidade para fazê-los. O Vietnã. assim é tão só porque se imagina ser o Vietnã a chave para áreas maiores — áreas cuja acessibilidade comercial é importante para nós.tes homens de negócios particulares como sendo de qualquer modo cruciais para o drama do Vietnã. o mercado de ações teve sua baixa mais 125 . ao estilo ocidental — porque os dois últimos são considerados como se definindo mutuamente. quando Faltermayer fala de “salvar o Vietnã” está falando ao mesmo tempo de salvar ambos. Está sendo travada pela liberdade ou para afastar os comunistas. e o primeiro é uma instância da realização deles. Quando não há livre-emprêsa o país é comunista. Não está sendo travada em favor deste Herbert Fuller. uma política militarizada pede uma economia militarizada. Seu aparecimento nele parece incidental — talvez importante. uma outra cidade costeira. Este é um fato político.

Confessou mesmo que a economia o fazia pensar em 1929. Os efeitos econômicos da guerra são tudo menos sem ambiguidade. foram drenadas para fora aos bocados e pedaços. a guerra é boa para a economia porque a economia sofre o acréscimo de subsídio federal. a página financeira do New York Times tinha como cabeçalho “Fracasso da Cúpula um Tônico para o Mercado. eis que de súbito aparece um herói inesperado que ninguém ficou realmente surpreso de ver. O herói era a guerra: Não seria encurtada. começou a dizer em altas vozes. notícias de um debate importante no “santo dos santos”. A Administração parecia tender para a confiança. quer para o limbo dos silos do governo. Eisenhower voltou de Paris devido aquele U-2 abatido (uma novidade Lockheed). William McChesney Martin Jr. que não estava convencido de que as coisas estivessem tão bem quanto deviam estar. Não se dá o caso de os americanos fazerem filas para comprar 126 . Por mais nervosa que permanecesse. uma vez que é tão antieconômica. Porém o então presidente da Junta Federal de Reserva [Federal Reserve Board]. em 1960. Aqueles que argumentam que devemos ter sido forçados a travar a guerra do Vietnã. então. e logo se soube que seus custos diretos iriam pelo menos a 21 bilhões de dólares por ano.. sobre o metabolismo nacional. porque aquilo que uma economia de alto emprego produz tem de ser vendido. muito menos terminaria em breve. depois voto de confiança. Consideremos. Isto foi chamado do “nervosismo de paz” (peace jitters). um fato econômico chave referente à defesa do produto: Não é produzido à custa de necessidades domésticas reconhecidas. sabia como reagir a este “crack”. Era profundo? Havia perigo real? Uma agitação de discreta incerteza se fazia presente. em lugares públicos. no geral. e subsídio militar. Tendo se jogado para o futuro num ato de fé. os que emprestam e os que tomam emprestado e seus analistas começaram a murmurar inquietamente. nada percebem da economia de capitalismo de estado.violenta em cerca de quatro anos. Ninguém. Porém. como é muito bem sabido. Nesta atmosfera controlada de “Perils-of-Pauline”. no particular. Quer vá para a vida mansa. Quando. o produto tem de ir para algum lugar e tem de ser pago. no consenso do especialista. Parece que temos de gastar. certas pessoas bem informadas estavam de novo aborrecidas com a economia nacional. a especulação altista ganhara sua moratória.”4 Durante o verão de 1965. A guerra gera muitos problemas reais de administração fiscal e anomalias perturbadoras nos padrões do câmbio externo. acima de tudo.

a legislação capacitadora para a orientação da conversão industrial de defesa-para-civil? Quem está quebrando cabeça com as respostas? Temos uma quantidade de variadas comissões fita-azul de cientistas. que não poderia alcançar de outro modo. empurrando-o de tempos em tempos. Talvez mesmo de natureza revolucionária. porque só cercam o rochedo. O oposto é verdade: mais comércio com o Leste da Europa e com a URSS. Todavia nesta atmosfera de calma e confiança.automóveis que. os grandes debates no Congresso. Não se pretende que a guerra do Vietnã tenha sido determinada só para animar uma economia superdesenvolvida e inflexível por meio daquele mercado “externo” e “expandido”. administradores e operários da linha de montagem que emprega? Ou das dezenas de milhares de lojistas. que é o de não estarmos em perigo real de ser abandonados por esta “ameaça” que conserva o estado corporativo em sua disposição de luta. esmaecesse até que um dia alguém notasse que desaparecera? O que seria desta gargantuesca Lockheed. participamos todos como cúmplices do grande segredo de estado. olhando para ele fixa e solenemente. e o de Ceausescu no Oriente. por causa dos tanques. Eles são um pouco mais espertos do que Sísifo. que todo mundo sabe muito bem não serem a sério. intermediários. o de De Gaulle no Ocidente. bem na superfície da intuição. após vários anos de pregação e aparente prática de coexistência. Afinal não tão profundamente. conduz em ambos os lados da Cortina (dos quais. técnicos. onde estariam os viciados? Obviamente: nos hospitais. não são fabricados. com seus 500 milhões de dólares só em pesquisas e contratos de desenvolvimento? O que seria dos altamente especializados cientistas. os mísseis — onde estaria a economia? O que equivale à pergunta: Se não fosse pela heroína. onde não se pretende que a “ameaça” esteja aumentando. engenheiros. os submarinos. Mas o que seria se a guerra do Vietnã terminasse e a China dissesse: sigam em frente? O que seria se a Guerra Fria esmaecesse. são somente os mais dramáticos) a impulsionar a Europa em direção ao acordo e integração. sofrendo terapia muito dolorosa. qual é a política da América referente à militarização da Europa? Durante os passados quinze anos 127 . Que mais? São tolos. economistas e homens de negócios. emprestadores e fornecedores que seus salários mantêm em atividade? Onde estão os planos concretos. Observe-se a Europa. O oposto está muito mais perto da realidade: Se não se gastasse com os tanques. economia e negócios? Realmente parece não importar. os aviões. estes homens de ciência.

General Dynamics. Tal demora pode ter algo a ver com a recessão e problemas orçamentários da Alemanha. Kuss Jr. uma outra parte de nosso governo oferecerá um empréstimo com cláusulas favoráveis.. Mas pouco temos com isso. Muito conveniente o fato de as “necessidades” militares da Alemanha serem tão próximas de nossas despesas. Mas a Alemanha parece relutante em comprar o que insistimos não poder ela dispensar. Para compensar estes pagamentos dos EE.. Lockheed e McDonnell. e a grande razão foi o atraso da Alemanha em dar o “de acordo” para as compras. e se tivessem de alguma forma qualquer efeito no mais amplo 128 .nós demos. Mas o exame mais elementar do que está acontecendo agora na política européia tornará claro que armamentos — em ambos os lados — são crescentemente irrelevantes para a paz e estabilidade. Desde a metade de 1961. Em maio de 1965.UU. se a ameaça está diminuindo? Acontece por que nossas vendas militares no exterior representam uma de nossas maiores ajudas em nosso deficit crônico de balança de pagamentos. que a Guerra Fria degele se quiser. prosseguirão naquela escala elevada num futuro previsível. no período 1966-67. Estas vendas são promovidas ativamente pelo Pentágono. Argumenta-se que estes armamentos estabilizam o mundo e fazem a paz. as vendas de exportação militar subiram a mais de 9 bilhões de dólares e o lucro dos fornecedores de defesa americanos totaliza cerca de 1 bilhão de dólares — belamente concentrado nas mãos de três grandes e altamente influentes firmas. Precisamos nos livrar destes bens.3 bilhões de dólares. equipamento militar no valor de 35 bilhões de dólares. As vendas militares externas no primeiro trimestre de 1966 foram as mais baixas desde 1964. como se as vantagens financeiras que nos vêm de sua venda fossem só um feliz incidente. ou vendemos.5 Por que tal acontece. em reconhecimento ao “intensivo esforço de vendas” de sua seção. As vendas militares ultramarinas para 1965 eram cerca de 2 bilhões de dólares e.”6 Eis um exemplo de primeira: a Alemanha ganha cerca de 675 milhões de dólares por ano das tropas americanas ali estacionadas. que parece ter um pouco mais de cuidado com a necessidade e capacidade de pagar dos compradores do que qualquer vendedor de carros usados comum: A boa qualidade das armas é uma necessidade bastante válida e se o preço parece alto. não se preocupe. O vendedor número um — o Pentágono chama -o “negociador” — é Henry J. Delegado do Secretário Adjunto de Defesa para Negociações Logísticas Internacionais. a Alemanha “tem sido encorajada” a adquirir materiais militares americanos no valor de 1. Kuss foi condecorado com a medalha “Meritorius Civilian Service.

Permite-se portanto à Inglaterra fazer ofertas para os contratos de munição americanos. o Departamento de Estado anunciou um acordo para vender à Jordânia (que já possuía tanques americanos) “um número limitado” de avançados aviões bombardeiros de combate. convencida de que estará em perigo enquanto não tiver uma grande frota 129 . caso vencesse tais lances.”7 Por pior que tenha sido — e ainda pode ser de novo o embate Índia-Paquistão nada será comparado com o que poderá irromper a qualquer momento no Próximo e Médio Oriente. O antigo Embaixador na Índia. o Pentágono dá um jeito de achar as propostas inglesas não inteiramente segundo o modelo. que “as armas que fornecemos. Fora da Europa. causaram a guerra entre a Índia e o Paquistão. com um PNB “per capita” anual de 233 dólares.”9 Ênfase acrescentada. O Senador Eugene McCarthy comentou: “Não fica claro como a Jordânia. Se não tivéssemos fornecido armas. é sem dúvida um importante fator.UU. seria um negativo e obstrutivo. Assim. Os vendedores americanos estão contentes. assim o fazemos por trás do muro o quanto podemos — mas o fazemos.. John Kenneth Galbraith. é um negócio embaraçoso. e que se tem mostrado dependente das doações militares e ajuda econômica dos EE. Vender armas para Israel e o mundo Árabe.. Vem à cena a Arábia Saudita. Porém. apesar disso. e era uma vez a política americana (tal como foi esclarecida por Rusk recentemente em janeiro de 1966). isto resultaria numa perda de mercado para os fabricantes de munição americanos. em 25 de abril de 1966. Mas a Grã-Bretanha ainda tem seu deficit.UU. pagará estes aeroplanos. nem a vendetta de Nasser com a Arábia Saudita. ou através dos montes Kopet. que custam 2 000 000 de dólares a unidade. Tendo concordado. Uma sequência interessante tem início com o nosso pedido para a Inglaterra comprar aviões de combate americanos. de maneira ainda mais ominosa. o Paquistão não teria buscado uma solução militar para a disputa do Kashmir. declaradamente os Lockheed F-104. testemunhou ante o Comitê de Relações Exteriores. ao mesmo tempo. a Inglaterra agora necessita fazer vendas para “contrabalançar” seu desequilíbrio.. A eficácia do crédito para compra de armas dos EE.”8 Pouco mais de dois meses após essa declaração.padrão da reintegração européia. ninguém pensa que os russos estão para vir rugindo Cáspio abaixo.. porque supomos que temos de fazê-lo.. a realidade contradiz a tese de armas para a estabilidade. “não para estimular e promover a corrida armamentista no Oriente Próximo e nem para encorajá-la por nossa participação direta. Nem a guerra Árabe com Israel. têm qualquer coisa a ver com a Guerra Fria.

acelera o progresso tecnológico e assim ajuda o país a levantar seu padrão de vida. A Grã-Bretanha. 7 000 foguetes nucleares de longo alcance. seu poder de inspirar nosso capitalismo declinar. Porém. nós temos ameaças preventivas.10 E assim são as coisas. E nós. os engenheiros militares precisam desenhar. vende à Arábia Saudita o que ela quer — aviões de combate supersônicos no valor de 400 milhões de dólares. Sumner Slichter. economista de Harvard. pelo qual falam. ele disse. só na Europa Ocidental. estes polidos aviões de combate. não havendo perdido nenhum mercado no qual poderíamos ter entrado graciosamente. seria para nós politicamente arriscado atendê-la — pelo menos abertamente. os executivos precisam existir. Por trás dos executivos o sistema de crescimento e valorização intensos para o qual trabalham. contamos esta venda britânica de aviões para a Arábia Saudita como o fator de equilíbrio compensador de nossas vendas anteriores de aviões para a Grã-Bretanha. “incentiva a demanda de bens. mas que podemos fazer? Lá se erguem os brilhantes armamentos numa fileira. os executivos que servem em comissões presidenciais e viajam. no qual têm sua razão de ser. Por trás dos engenheiros. os melhores. estamos vendo a glória da Rússia esmaecer. para a capital. numa palestra para um grupo de banqueiros. os rebitadores precisam rebitar. ajuda a manter um alto nível de emprego. Queria-os americanos.. Atrás deles postam-se seus engenheiros. Por isso persuadimos a Arábia Saudita de que os nossos não são os únicos aviões do mundo a voarem tão bem e que ela também vai ficar muito satisfeita com uma marca britânica. A Guerra Fria. e os luzentes armamentos precisam portanto ser negociados. quando pusemos.”11 Triste dizer. Na aparência não estamos realmente orgulhosos com este tipo de coisas. Desta forma devemos agradecer aos russos por ajudarem a fazer o capitalismo nos Estados Unidos funcionar melhor do que nunca. contra o pano de fundo da política americana em Israel.12 talvez tenhamos começado a saturar um bom 130 . Quem poderia negociar aspirina se não houvesse dor de cabeça? Todavia o que é mais anti-dor-de-cabeça do que a aspirina? Aspirina preventiva. explicou o sistema de modo muito comovedor em 1949. em consequência disso. o suficientemente grandes para pôr um fim às coisas e proteger o sistema de se tornar supérfluo. O sistema precisa crescer e se valorizar altissonantemente.. Além disso. com frequência. Assim para prosseguir com esta beleza conceitual chamada “guerra preventiva”. Mas o mundo não devia esquecer o que é uma dor de cabeça.de aviões de combate. uma pequena tensão e ansiedade. E essa negociação é mais fácil se há uma certa inquietação no mundo.

Para um exemplo mais de dentro de casa. pois novos russos continuam entrando no mercado da Guerra Fria. A questão para a diplomacia era como fazê-las entrar. e usualmente não o é. Havia-se tornado essencial para nós que nossos mercados externos não fossem perturbados. podiam proteger a segurança da eco131 .13) Porém a opinião que veio a ser a dominante foi de que os problemas de agressão de potências avançadas e revolução de estados atrasados tinham de ser resolvidos. O mundo necessitava de um acordo de gigantes industriais. a crença geral era de que a combinação adequada consistiria nos Estados Unidos. por isso. por exemplo. A Suíça neutralista. Como deviam ser conquistadas a estabilidade e liberdade necessárias? Uma opinião distintamente minoritária era de que não podiam ser: As velhas nações estavam resolvidas também a se conquistar mutuamente. O neutralismo pode ser isolacionista. é tudo menos isolacionista. E o Terceiro Mundo está pululando de gente da CIA e Forças Especiais. A América devia. ao mesmo tempo: nosso comércio com Alemanha. Desta forma a Rússia revolucionária podia ser isolada e as Grandes Potências. Wilson reviu explicitamente esta perspectiva. há o período de pré-guerra do “New Deal”. Não é isolacionista. podiam ser resolvidos e seriam resolvidos por meio de algumas combinações das potências adiantadas. quando fomos internacionalistas. ser neutra e comerciar com todos que quisessem comerciar em termos justos. Terceiro. cuja força. Já pela metade da década de 1890 nos havíamos tornado os primeiros manufatureiros do mundo e portanto internacionalistas a despeito próprio. E nos flancos. agindo coordenadamente. sustentando que a Alemanha e o Japão agora deveriam ser integrados no acordo Atlântico. Antes da I Guerra Mundial. De maneira crescente. Itália e Japão permaneceu basicamente sólido nos anos 1933-40. mas não precisa sê-lo. estrelinhas de amanhã — Guatemala? Filipinas? Irã? — estão desde agora experimentando suas vestes de pijama negro campesino e ensaiando suas mais rabujentas imprecações marxistas.mercado. a partir do começo do século. é neutralista. Grã-Bretanha e França. descobridores de talentos. (Esta é uma das assim chamadas posições isolacionistas. A questão para os estadistas foi quais potências deveriam pertencer ao clube. Agora temos a China — e portanto o Vietnã. Porém temos sorte. Após a guerra. vontade e prestígio coletivos haveria de restringir as agressões e suprimir as revoluções. a política americana tem estado preocupada com o problema de pacificar o meio comercial global. politicamente partidários e economicamente neutralistas. o cerne estratégico do assunto.

e talvez (é passível de debate) o gaullismo represente. estabelecer aquela integração política das Grandes Potências que por fim foi estabelecida pelo menos temporariamente — como um dos principais resultados da II Guerra Mundial. Estávamos tentando com determinação. e em 1922 (o Tratado das Nove Potências) levou o Japão pelas orelhas a um moderno acordo à portas-abertas com a desventurada China. Tal como a Alemanha é o estado pivô do domínio Atlântico. França. Alemanha e Itália). A França de De Gaulle hoje pressagia mudança. manobrou por paus e pedras durante a maior parte desse período para assegurar uma acomodação da China com o Japão. O primeiro ponto é que o Japão é um comerciante tradicionalmente poderoso. o Atlântico e o Pacífico. É a situação deste Japão que examinaremos agora mais detidamente.e. Chamberlain lutou com toda a considerável ansiedade sob seu comando. idéias diferentes sobre como o poder europeu possa ser organizado e quais devam ser seus objetivos fundamentais. Alemanha e Japão.5 bilhões de dólares. pelo menos bem até a metade dos anos de sessenta. de maneira genuína. Assim. Grã-Bretanha. isto é. O “New Deal” não muito mais esclarecido pela invasão japonesa da Mandchúria do que o foi a Inglaterra pela remilitarização do Rhimeland. Este sistema tem dois domínios separados mais integrados. Quando as dificuldades começaram a fermentar. enquanto o com a China cerca de 1.5 bilhões de dólares). por parte da Alemanha.nomia política do mundo. o volume total com o Japão era cerca de 3. na década de 1930. o mundo de após-guerra foi dominado por alianças explícitas ou implícitas que ligaram umas às outras as economias dos Estados Unidos. nos anos de 1920 os Estados Unidos subscreveram a reconstrução da estrutura industrial de pré-guerra da Alemanha. e todos eles mais ou menos querendo aceitar e apoiar nossas opiniões sobre a ameaça comunista. nosso volume total de comércio com o Japão só foi ultrapassado por nosso comércio com o Canadá e a GrãBretanha. assim o Japão é o pivô do Pacífico. Nossa perspectiva da distinção do Japão está refletida no fato de que além dos casos muito especiais do Vietnã. Coréia e Formosa. nenhum país fora da Europa recebeu tanta assistência dos Estados Unidos 132 . Porém. crescentemente integrada. De 1929 até 1940. com uma constância realmente notável. para estabelecer a hegemonia de Quatro Potências na Europa (i. França. Grã-Bretanha. O muito cobiçado comércio com a China não era nem metade tão importante (por aquele período. um que há muito tem sido importante para o comércio dos Estados Unidos. todos os nossos parceiros compartilhando nossa crença numa filosofia política democrático-liberal.

a “invasão” tibetana. judicial e de propaganda. Sua recuperação no período de após-guerra foi rápida e firme. orientado para o Ocidente. na qual não tinha de nenhum modo o pior argumento. da Tchecoslováquia. (8. ao mesmo tempo com os Estados Unidos e o mundo. Benes.)14 O segundo ponto é que um Japão saudável. França e Canadá. é claro.) 133 . Os Estados Unidos “contiveram” o crescimento do comunismo interno por meio de um programa de sistemática hostilização legislativa. colocando-a à frente da Itália entre os realizadores de negócios do mundo. pode ser política e legalistica.4 bilhões de dólares. Mas também não se pode duvidar de duas outras coisas. Ele pode. Podemos oferecer uma galeria de tais situações diferentes e definir para cada uma diferente forma de contenção. é tão decisivo para a contenção da China quanto a contenção da China o é para a saúde e orientação ocidental do Japão. como resultado de uma muito comum disputa de fronteira. Em 1965. A característica comum seria que. atrás dos Estados Unidos. Inglaterra.3 de dólares de importações. Por volta de 1961. que é graduada especificamente para a natureza da ameaça e que não se propõe à liquidação final e direta da ameaça. Para entender as essências desta dinâmica temos que analisar a significação deste conceito “contenção”.5 bilhões de dólares de exportações vs. neste caso. estava perto de 17 bilhões de dólares (mais do dobro do volume de 1960). significar várias coisas. Por um período pateticamente breve.5 bilhões de dólares e comprou-nos 2.(alguns 4 bilhões de dólares pelo período 1945-63). a “invasão” indiana. Não se pode duvidar do poder da China para agredir seus vizinhos. a ameaça não é basicamente militar. só com o Canadá à frente. vendeu-nos 2. Nunca foi ameaça real. só após um claro motim da teocracia. há uma forma de contenção que é claramente militar. em 1965. Alemanha Ocidental. Assim. Contenção que. é de que ela jamais atacou para saques ou sem provocação (A “invasão” coreana só se deu após repetidos bombardeios americanos na Mandchúria. alcançara o segundo lugar entre nossos parceiros de comércio. Seu volume de comércio. Qual a natureza da ameaça Comunista Chinesa? Como deve estar perfeitamente claro. alcançando pela primeira vez uma balança de comércio favorável. O outro. a percepção de uma ameaça ativa desperta uma contramedida. 8. Uma é de que ela estaria quase indefesa ante a espécie de ataque nuclear estratégico que um ato claro de agressão certamente provocaria. em cada caso. “conteve” Hitler respondendo à concentração alemã de tropas em sua fronteira com uma mobilização militar.

que qualquer China que se pudesse organizar seria deveras uma China.A ameaça é política. ninguém parece estar realmente seguro de como medir o desempenho de uma economia planejada imatura. um sentido de unidade nacional.” Tem ela o povo. O que lhe faltou por séculos foi ordem. no Oriente. E como no caso de qualquer ameaça política. entre vários. precisamente tomando em consideração o estado realmente caótico das condições iniciais. Imaginemos um mundo no qual a ação criadora — econômica. e que esta economia estabeleceu contato com o potencial intrínseco da terra e do povo. alguns estudiosos apresentando uma interpretação de “catástrofe”. Mas há acordo geral de que o desenvolvimento foi vigoroso. haver algo como uma nação chinesa. outros pretendendo que o fracasso. tal nossos estadistas por certo o fazem. Pensemos então. dependendo do especialista que se aceite. na China de aqui há cem e mesmo cinquenta anos. um mundo no qual exista uma Ásia independente e dinâmica. e controle positivo de seus recursos inerentes. O povo industrioso — e a terra rica — lá têm permanecido. que o tempo inevitavelmente trará. Para que se ouse dizer alguma coisa de conclusivo sobre a economia da China ter-se-á que basear-se numa demorada análise. política. esperando por algum cabeça dura Johnny Applessed. é tão grande como precisa ser. a energia e a ingenuidade para ser o quê? Garantida a equidade que o tempo pode obter. cultural — não mais esteja tão densa e desproporcionalmente concentrada no âmago global do Atlântico Norte — isto é. pela primeira vez em séculos. seu miolo é econômico. Por muito tempo tem sido sabedoria de estadista julgar. e a razão principal de sua demora seria a necessidade de explicar porque nada de exatamente conclusivo pode ser dito. e que o crescimento industrial básico permaneceu saudável. Mas aqui não precisamos ser tão técnicos. Deixado de lado o problema de dados insuficientes. a observação de Lênin de que “para o comunismo mundial o caminho para Paris passa por Pequim e Calcutá. A taxa de crescimento nos primeiros dez anos seguintes à fuga de Chiang para Formosa foi entre 15 a 30 por cento. a China se poderia tornar uma igual da América. O importante é que ninguém nega. Esse potencial. Avaliações da experiência do Grande Salto variam ainda “mais largamente. Europa e URSS. Recordemos só as palavras de Napoleão sobre o gigante adormecido que acordará para sacudir o mundo. infestado como é por dificuldades naturais e políticas. foi principalmente agrícola. que ela tem uma economia. agora na maior parte recuperado. Nossa resposta ao fato gigantesco da revolução chinesa — algo que 134 . os recursos.

Quais são as opções do Japão? Isolacionismo em relação à China nunca pôde nem ser pensado. quando e em que termos. que gira por meio de fios. E ela não morreu. 245 milhões de dólares em 1965. de que a Economia Mais Alta * As vendas do Japão à China. As notícias eram diferentes.7). E o povo não se levantou. tudo isso era trabalho de Joe Stálin e de certos inconfidentes do Departamento de Estado.4 (74. Meramente para lhes dar ânimo. Contudo.5 (46. estão subindo anualmente numa média só ultrapassada por suas compras da China. Exportações (e importações) em seu comércio com a China. pedindo capitalismo e Chiang Kai-shek.9). Estranhos caminhos do Oriente! Nesse meio tempo. de 1960 a 1965. política e história. 152. aquele dervixe de Formosa. estranha se tentasse isso.0 (30. bastante habilmente. Mais especificamente: o Japão planejará manter sua presente inclinação política pró-americana? Submeter-se-á ele à mais comum das leis da história mundial. Seria uma economia. As únicas questões que estão de todo abertas são quanto. Claro. destruir com certeza o maior dentre todos os totalitarismos.UU. Meramente para dar à sua autodestruição uma pequena cotovelada. são as seguintes (em milhões de dólares dos EE.* ultrapassando mesmo a União Soviética (com quem. Não é como se o Japão fingisse que a China não estivesse lá. Extenuamo-nos em contos jocosos sobre os erros crassos. 245. Quer coagido por apreensões políticas futuras ou seduzido por oportunidades comerciais presentes. o Japão já é o mais destacado parceiro comercial da China. Reputações foram arrasadas. um aríete). completamente sem forças para se mover. bem no limite da península industrial mandchuriana. estabelecemos um embargo. um pequeno impulso. os homens de negócios do Japão estão também ajustando comércio crescente). armamos ostentosamente seu real e verdadeiro herói.8). 62.7). porém antes com a organização independente da China e sua aquisição de ardor moderno — não tem sido propriamente pragmática. em tempo. 16.6). E lá está o Japão. Então adotamos a opinião de que seu próprio demônio interior haveria de. (Uma comparação grosseira de situação seria a Inglaterra encontrar-se politicamente mal aliada contra uma Europa unida aos Urais.3 (244. Primeiro preferimos acreditar que ela não estava acontecendo. nossas recriminações eram sem fim. se aproximando como um trem de carga. 38.8 (157.0). Porém então certamente o povo chinês deve se levantar contra o “perigo amarelo” interno. a China ainda estava lá.): 2.7 (20. tristezas e sofrimento epidêmico da nova China e nos equilibramos para o próximo despacho de últimas notícias.15 135 . porque ele nos diria do fim deste erro extravagante.não tem nada a ver com comunismo.

à qual se opõem três quartos de seu povo: os elementos do antiamericanismo japonês subsistem. em certa medida. sua taxa de desenvolvimento e portanto seu poder geral. O Japão compreende que sua nova economia foi construída por nós. Precisam de mercados.9 bilhões de dólares. do total de 7. cuja melhoria de acesso acelerará. pelo contrário. em 1963. Só não fará o que não puder fazer.3 bilhões de dólares (17 por cento) foram em alimentos. humilhante a respeito do Tratado de Segurança Mútua de 1960. A urbanização do trabalho reduzirá a colheita das fazendas não mecanizadas. em 1962. Do total de 5. tanto proporcionalmente como no total. (2) Os dois principais produtos de exportação de um Vietnã do Sul normalizado serão borracha e arroz. estando suas importações de alimentos em ascensão. sabendo bem (como notou um japonês) que pontes são trilhadas? Deve ser claro o que os Estados Unidos esperam que o Japão faça. aço e 136 . a pedra de toque de nosso perímetro de contenção asiático. (16 por cento) foram em alimentos. cabe a ela concretizar sua possibilidade. tentará o caminho grego da mediação prudente e fará de si próprio uma ponte entre os dois super-gigantes. Agora perguntamos: o Vietnã interfere materialmente neste drama? Os fatos-chave parecem ser os seguintes: (1) Duas das principais necessidades de importação da China são borracha e arroz.6 bilhões de dólares de importações. 700 milhões de dólares (12 por cento) foram em alimentos. ao mesmo tempo que o mais alto poder de compra resultante aumentará a demanda. (3) A cifra de desemprego do Japão é uma irreduzível um por cento. assustador a respeito de nossa guerra do Vietnã. Mas quanta pressão podemos pedir a essa nação que suporte em nosso nome. do total de 6. 1. nação cujas principais cidades atomizamos? O Japão compreende que bombardeou Pearl Harbour sem grandes escrúpulos. A China precisa de barcos. O Japão. e está-se tornando um dos maiores. pelo qual Kishi teve de pagar com a vida.determina a Política mais Baixa e assim arranjar-se com Pequim? Ou. em 1964.16 (5) Os japoneses são os mais destacados construtores navais do mundo e estão entre seus mais importantes fabricantes de aço e tecidos.7 milhões de dólares. enfurecedor a respeito de nossa colonização aberta de Okinawa e da cadeia de Ryukyu. deve fazer o que pode para permanecer nosso associado. (4) O Japão é tradicionalmente um importador de alimentos. insensível a respeito de nossas aparições nucleares em seus portos de pesca. A industrialização intensificada atrairá mais trabalhadores da fazenda para a fábrica. Se a América tem certas esperanças. Mas há algo de especialmente memorável a respeito dessa Bomba. 1 bilhão de dólares.

Um Vietnã em desenvolvimento certamente quererá aço e provavelmente navios. O Japão. um propósito direto primário de contenção da China é a salvaguarda de nosso interesse comercial no Japão. [a perda da Indochina] afastaria essa região. com o Japão. maquinaria de todos os tipos e quatro navios cargueiros de longo curso de 5 000 toneladas e um de 2 000 toneladas. quando o Japão decidiu só pagar reparações de guerra ao Vietnã do Sul. Ficando somente atrás do Canadá entre nossos parceiros comerciais. Norte Vietnamita. Bernard B. para mais de 40 milhões de dólares.17 A observação foi feita pelo Presidente Eisenhower. Juntemos um fato final com uma observação profissional. Eisenhower. tanto para os vendedores japoneses como para os compradores chineses. o Presidente acrescentou. quase exatamente um mês antes do colapso francês em Dien Bien Phu e da abertura da Conferência de Genebra sobre a Indochina. O comércio subiu de cerca de 10 milhões de dólares. 3. 137 . ou isso forçaria o Japão a voltar-se para a China ou Mandchúria. As notas estenográficas rezam: Em seus aspectos econômicos. 2. e compreende itens tais como produtos químicos. de 7 de abril de 1954. O fato é narrado pelo erudito da Indochina. disse Mr.18 Todo o precedente precisava ser apresentado para apoiar as seguintes proposições: 1. tem alcançado proporções importantes que bem podem provocar preocupações nos Estados Unidos. ou para as áreas comunistas. em sua entrevista com a imprensa. Fall: O comércio do DRVN. é ao mesmo tempo o bastião da luta de contenção de expansão e o prêmio da vitória. em 1959. O Japão é o bastião. mas pode estar inclinado a proteger sua indústria têxtil. isto é pago pelo Vietnã do Norte em matérias-primas. As consequências possíveis da perda [do Japão] para o mundo livre são quase incalculáveis. O Vietnã do Sul é uma importante área em perspectiva para comércio. o Japão é da maior importância comercial para nós. após um período de esfriamento. principalmente carvão. De fato. portanto. em 1961-62. a fim de viver.tecidos. A força econômica do Japão é o elemento crucial da política americana de contenção da China e manutenção da paz na Ásia. que o Japão deve ter como uma área de comércio.

Venezuela e Alemanha). A América a sente mais agudamente porque. a Índia se mostra quase inerte ante as mais desesperadas provocações ocidentais. agora enterrados. uma única coisa.. será deixado sem uma alternativa para uma orientação progressivamente mais pró-chinesa. de Washington. No primeiro. (b) que deve incluir o Japão. exercerão uma grande influência no Japão. porque seu investimento 138 . No segundo. Se o Japão e a China desenvolverem interdependência econômica — e.UU. e (c) que pode quase naturalmente ser dominado pela China. Os tesouros do Vietnã do Sul. como estão as coisas agora. como maior parceiro comercial do Japão durante a próxima década. 6. Esta é a “ameaça”. Sul e Sudeste da Ásia. esperam que o Bloco Comunista supere os EE. abundâncias de recursos e o fato da guerra o ter feito central. Se o Japão não tem alternativa a longo termo para o comércio maciço com a China. para uma alternativa. Podemos simplificar isto. No terceiro. e não pode deixar de se tornar crescentemente magnética.) 5. ouvem o mesmo tique-taquear de relógio. a posição da América é tradicionalmente privilegiada.5 bilhões de dólares. de cerca de 1. baías. de uma usina de aço para a China desarma mais ainda o argumento ideológico contra comércio continental e só pode aguçar o apetite comercial do homem de negócios japonês.UU. prende-se aos mercados em desenvolvimento mais lento e menos organizáveis do Pacífico Sul. goza agora a posição econômica dominante lá no Pacífico. Mas a China é também um importante parceiro comercial do Japão. O bastião e o prêmio. O que o Ocidente depara no Pacífico é a formação de um sistema econômico regional (a) cujo potencial e força são inerentes à própria situação do Pacífico.” (A venda. A única oportunidade remota (é remota) do Japão. sem considerar quem o desenvolve. só perturbações frustrantes podem ainda adiar isso — então a matemática bruta da relação condenará o Japão à inferioridade (tanto como a Grã-Bretanha estaria em posição inferior ante um continente europeu economicamente integrado). O autorizado Finance (junho de 1966) disse: “Alguns especialistas em comércio. a posição do Vietnã do Sul é central devido suas costas. o Comerciante. especialmente nas estratégicas Filipinas (onde o nacionalismo econômico está crescendo) e na Austrália (onde os investimentos diretos dos EE. são maiores do que em todos os outros países salvo Canadá. significam que seus mercados. a longo termo ante o mercado da China em desenvolvimento. entre as potências ocidentais. uma vez desenvolvidos. por parte da Alemanha Ocidental. Grã -Bretanha.4.

intitulado experimentalmente Conselho de Cooperação Pacífica Asiática [Asian and Pacific Cooperation Council] (para poder ser chamado ASPAC — “um nome atrativo com um som viril”. O repórter do New York Times. Filipinas. Isto nos conduz a uma conclusão final: O alvo da economia política do Atlântico Norte é frustrar a organização independente da economia política do Pacífico. Assim. uma Ásia asiática — sendo seu argumento mais direto não poder haver integração uniforme das várias esferas globais (isto é. Nova Zelândia. Assim. e porque é sob qualquer medida o mais internacional dos estados internacionais. Nem importa muito que uma tal política tenha. promovida pelos Estados Unidos. Tal tem sido a política tradicional da Europa na África. A significação mais elementar da caótica. disse o Ministro do Exterior da Tailândia. Robert Trumbull. sido tornada explícita e levada a efeito consciamente. uma África africana. citou o chefe de uma delegação como dizendo que “embora de início a organização seja puramente para cooperação econômica p. e hostilizar e dispensar o que não podem. é excessivo. tem sido hábito inveterado das potências ocidentais absorver e integrar o que podem comandar. Austrália. e sob muitos aspectos cronicamente malformada. relatando o importante nascimento da ASPAC em Seul. o Banco Asiático e o novo. Tal tem sido a política tradicional dos Estados Unidos na América Latina. pode agora ser acrescentado um terceiro caminho: uma América do Sul sul-americana. revolução do mundo pobre é que às alternativas tradicionais de integração subserviente e hostilização. na Ásia. E assim. De fato. então. Tal tem sido a política asiática tradicional das potências atlânticas em conjunto. pela imposição de barricadas políticas e militares entre seus elementos e pelo oferecimento da alternativa de outras configurações econômicas. Nosso propósito.. é frustrar o delineamento deste sistema geo-econômico. a Organização do Tratado do Nordeste da Ásia [Northeast Asia Treaty Organization] (NEATO). um banco regional para ajudar o desenvolvimento do arroz e outros produtos. Thant Khoman19). Uns eloquentes dois e meio séculos de ações ocidentais inúteis.”20 Os nove membros são Coréia do Sul. por toda a parte. 139 . no pobre mundo.asiático de após-guerra em sangue e bens. não pode evitar o fortalecimento das políticas destes países não-comunistas e anticomunistas. ou não. que morreu recém-nascida. contam a história bastante claramente. China Nacionalista.ex. e um pool técnico internacional. em junho de 1966. a luta para conservar o Vietnã do Sul. para observações mais recentes e sensíveis. Malásia. Vietnã do Sul e Japão.

O napalm destrói mais aldeias do que forças combatentes. O quarto ponto — por seus poderes de explicação sobre nossa civilização. “The Destruction of Conscience in Viet-Nam”. mas da própria cultura. No sul. o que quer que se pense do motivo político. Relatórios cheios de sofismas sobre nossa guerra terrestre argumentam mais persuasivamente (embora às vezes sem intenção) que ela é travada sem padrão relevante e sem efeito significativo. tigres e civis do que vietcongs. Ou o estudo acurado de Marshall Sahlins sobre as operações das Forças Especiais. Qualquer um pode ver que os raides aéreos sobre o Vietnã do Norte. de fevereiro de 1966. este é o testamento de revolução.onde há paz) enquanto não houver uma equidade econômica e política aproximada entre elas. New Jersey. L. jan-fev. A. por meio de panegíricos sobre democracia e diatribes igualmente irrevelantes contra o comunismo. e embora dissimulemos as raízes de nosso antagonismo para com ele. e contra isto é que estamos lutando para resistir. com nosso isolamento da China. um ensaio de desastre cuja mensagem de entrelinhas é precisa e aflitiva. Salvar o Vietnã ao preço de espalhar alguns 600 especialistas de guerrilha das Forças Especiais. descritos oficialmente como o melhor meio para deter a infiltração. cuja mobilidade não é da máquina. Quer aconteça gostarmos disso ou não. de S. além de ser militarmente ineficaz. Que Treinaram para a Guerra e Que A Encontraram no Vietnã do Sul Cinqüenta Dias Mais Tarde”]. de John Sack. parece-me de longe o mais importante — está embaralhado num quebra-cabeças não muito intrigante. Ou um dos estudos psicológicos realmente poderosos sobre a guerra terrestre. quarentena de Cuba e pacificação no Vietnã.* E. de custo-condicional controlável. esta destruição cobra uma taxa decididamente muito alta dessa boa vontade política da qual a América de Johnson tem miseravelmente tão * Veja por exemplo “I Quit!” [“Eu Paro!”] do veterano das Forças Especiais Donald Duncan em Ramparts. Ou uma peça da autoria de um protagonista da guerra. Who Trained for War and Who Found It in South Viet-Nam Fifty Days Later” [“M. “The Death of a Platoon’’ [“A Morte de um Pelotão”]. [“A Destruição da Consciência no Vietnã”]. os B-52 matam mais macacos. parece pelo menos ser um ato proporcionado. An Account of One Company of American Soldiers in Fort Dix. 1966. New Jersey. Porém meio milhão de homens? Que aparentemente deverá se tornar um milhão? Além do mais. Marshall. ou ainda 16 000 “conselheiros” da Marinha. de outubro de 1966: “M. as guerrilhas. em Dissent. 140 . no Esquire. Um Relato Sobre uma Companhia de Soldados Americanos em Forte Dix. nossas forças mecanizadas sendo incapazes de combater de qualquer modo durável e decisivo. esta “solução militar” desde há muito provou não ser solução nenhuma. conduziram somente à infiltração paulatina.

A economia política das Filipinas está estagnada e os Huks estão de novo em ascensão.pequeno suprimento. Podia-se supor que um imperialista racional pudesse inventar outros meios. e pode começar a arruinar nossa posição política na Ásia. e os proeminentes do leste do mundo Ocidental.21 uma energia que temos visto ser. mais sensíveis. Tailândia. cujo maior crime é denunciar a fraqueza do imperador. os líderes da América parecem ter duvidado que seus filhos tivessem estômago para uma guerra contra-revolucionária repressiva e imperialista. nós mesmos já glorificamos a revolução — a nossa própria. Significa décadas. a Índia será comunista dentro de duas décadas. Por que acontece isto? Isto acontece porque a ideologia que pediu e reivindicou este ato de guerra “necessário” continua a pedir e reivindicar o ato. Aquilo que a força ocidental enfrenta é a revolução social antiimperialista do pobre. Sem um inteiramente novo tipo de vontade e sabedoria ocidentais concentradas. em desenvolvimento econômico e independência política. toda a Ásia mesmo a Europa do Oeste começa a ter ânsias. Acima de tudo há o que Stillman e Pfaff chamaram. de maneira estranha. O nordeste da Tailândia permanece tão vulnerável como sempre ante aqueles “agitadores de fora”. realmente importantes e passíveis de defesa — Índia. a Coréia do Sul fica mais atrás da Coréia do Norte. que nossos orientadores políticos dificilmente podem deixar de ver. carregada com significados políticos da maior gravidade. num tempo em que os liberais ocidentais se desvalorizam por meio de seu próprio manhoso humanismo-cum-política realista. de antiamericanismo no Vietnã. para proteger os abalados dominós do Pacífico — e. Em suma: A solução militar para o problema do Vietnã não está dando resultado. de fato. maldizemos o imperialismo — o imperialismo mais primitivo de outros. o resto da Indochina. em outros tempos. Japão — flutuam cada dia um pouco mais para perto daquele futuro nitidamente oriental. Uma vez que tivesse de 141 . Coréia. Cada dia. a tentativa de levar a efeito uma tal solução piora. que pudesse ver ali problemas que fazem da “salvação” do Vietnã um assunto sem importância. na verdade. Talvez por causa disto. irracional. Porém. “a furiosa energia material e a fantástica passividade política do Japão contemporâneo”. em seus próprios termos. essa posição não é fácil de transformar-se em lema. Nós mesmos. senão séculos. Filipinas. Os calculistas do governo não têm representado proteção contra uma perda de controle que pode muito bem ser sem paralelo. mesmo depois de ele ter ultrapassado sua necessidade e ter-se tornado.

coordenado internacionalmente — uma opinião que é inteiramente correta.ser travada. pateticamente inábeis. governos centrais autoritários. Esta teoria da Conspiração Internacional Comunista não é a solteirona histérica que muitos esquerdistas parecem pensar que é. E se não. programas de acumulação de riqueza em ritmo forçado e o violento desmantelamento de elites ricas.A. uma tal guerra teria de ser adoçada com um nome diferente. agem assim. Não há nenhuma utilidade em ser enganado a respeito disso. Em certo sentido menos técnico esta revolução é “comunista”. marrom e amarelo para vermelho de diabo. Há uma revolução que é internacional — uma pessoa tem apenas que contar as perturbações e o olhar em um mapa para ver o bastante. mas cujas cores têm sido trocadas de humanos preto. ambição sem propósito e desapiedada. essa nuvem de diabolismo que nada tem a ver com a própria força sustentadora da revolução.S. se entendermos por isso que provavelmente não produzirá economias capitalistas. num bobo. quando fala. Mas o que é acrescentado para puro efeito político é essa feia faceta de clandestinidade. a questão suprema da justiça da rebelião. uma pretensão que automaticamente implica em América. a revolução tem de dirigir-se à América — ou melhor. a teoria desorganiza e desgoverna brutalmente a história bem real que lhe permite sobreviver. em linhas gerais. fazem um esforço para se coordenar entre si. Englehard. a causa da cólera. e cujo fundo tem sido inteiramente apagado. ele mesmo. U. O imperialismo é por isso recristianizado como anticomunismo. 142 . os diversos movimentos de libertação nacional. E o que é subtraído da realidade — muito mais importante — é a fonte do fermento. se dentro do poder de uma idéia se inclui perverter a generosidade de uma nação e amaldiçoar seus filhos. e nosso inimigo é transformado de um ser humano em um mero peão. especialmente nos estágios primeiros. O que esta teoria nos dá é um retrato que. não é irreal. de que provavelmente criasse economias autárquicas e controladas. por quaisquer meios melodramáticamente conspiratórios. se dirige a uma América que a maior parte dos americanos esqueceu: Rockefeller. Teve íntima ligação com a realidade e tem alguma história em mente. E na medida em que esta revolução pretende terminar o domínio do rico. porque consideram ser seu inimigo. ou em perfeito agente de coração duro da Conspiração Internacional Comunista. cujo objetivo central (assim temos certeza) é a conquista da América. Portanto. E. então a aceitação americana generalizada desta opinião sobre revolução pode prenunciar um amargo futuro para todos nós.

Birmingham. com muito sucesso. Não é possível imaginar que um tal objetivo possa ser limitado ou anulado. mesmo por um momento. sabemos que jamais ficará satisfeito com Moscou ou Pequim. sua oposição ao difuso e desigual movimento por independência do Terceiro Mundo. tem-se de dizer desta ideologia que é agora mais eficaz do que nunca. É um imperativo. Ele não é o revolucionário que pretende ser. Os verdadeiros revolucionários sociais. Todos sabem que algumas pessoas neste país.É por meio da ideologia de anticomunismo de Guerra Fria (Cold War anticomunismo — um cínico pode abreviá-lo CWAC e chamá-lo “cwackery”) que os senhores do poder americano justificaram e dissimularam. Se sua visão da 143 . O que quer que possa pensar. Havana ou Àlger. familiar para os americanos só o quanto a bem controlada média de massa considera conveniente tornar assim. e aplicada agora a um mundo remoto. Ela reorganiza inteiramente os termos morais do embate entre o rico e o pobre. Esta ideologia é a descendente absoluta daquela ideologia com a qual os pais daqueles mesmos senhores uma vez pretenderam destruir o movimento trabalhista americano. e a mesma sorte de mentiras. que possuía no longo e amargo período entre a Guerra Civil e a II Guerra Mundial. quer não. Ele quer nos agarrar — Kansas City. Se é uma boa teoria. e. Tem agora a mesma espécie de verdade.C. A explicação permanecerá correta sem considerar quão duro possa ser levar a cabo suas ordens implícitas. por qualquer outro objetivo. Se é correto dizer que nosso bem-estar nacional requer a derrota da FLN. então é boa de maneira absoluta. Este outro é uma fraude. cuja esperança real. de um só golpe. acontece nós sabermos que é um impostor. parece. quer voluntariamente assim. Donde se segue que o tema profundo. um intruso na cena de mudança social. Washington D. somos nós. Caracas ou Saigon. priva o revolucionário de seu direito legítimo a se denominar e explicar. e. A aterradora consequência disto é que qualquer luta que seja justificada em seu nome é uma da qual não podemos escapar. Ele já está denominado — um criminoso. já explicado — um inimigo. algumas delas poderosas. Preservar o bem -estar de uma nação é um objetivo que dispensa considerações e é transcendente. então a FLN tem de ser derrotada. central e condutor do drama que está sendo representado nas jângals do Vietnã é nada menos que a questão de nossa própria sobrevivência nacional. quer ele saiba ou não. Após anos de aperfeiçoamento. Esta é a teoria pela qual a guerra nos tem sido explicada. verdadeiro objetivo — é a destruição de nosso país. pedem com insistência que usemos toda força necessária para levar esta guerra a uma “conclusão rápida e favorável”.

ao contrário. nada mais do que uma estação no caminho de conquistas para este nosso Xanadu. os covardes de coração vazio. mas. então o povo tem todo o direito de perguntar. porém caracterizálas como ultraconservadoras. que de suas janelas olham boquiabertos a atrocidade. um a um. Lembremos que o governo fala a seu povo com uma dimensão de autoridade. Quando este mesmo governo fidedigno informa o povo de que a guerra se trava porque agentes da tirania que quer devorar o mundo chegaram a uma feliz terra no exterior e se puseram a agitar. Há um homicídio se processando lá na rua: Um homem. porque seu assassinato não apaziguará. A principal coisa errada com este “gavião de guerra ultraconservador” pode de fato nada ter a ver com conservadorismo ou belicosidade. Cuba. Assim. Por que não agir agora? Tomado em si. e que pretende alcançar tudo isto por meio da conquista gradativa de estados crescentemente menos marginais. porque é uma vítima inocente e não a defender é desonroso. inclusive nós. mas só aguçará o apetite do matador. depois de acabar com ela. Que há de “conservador” em querer lutar nesta situação? Que espécie de lunático lamuriento pensa ser traficância de guerra intervir sob tais circunstâncias? A maior acusação a ser feita contra esses nossos reacionários é serem eles tão ávidos em acredi144 . mostrando que. a coisa certa a fazer é acorrer agora em sua defesa. então o povo tem todo o direito de perguntar: Por que não atacar esta ameaça em sua fonte? Quando nosso acreditado governo nos explica que a tomada vermelha do Vietnã (Laos. subverter. pretende invadir o próprio edifício de apartamentos e matar. fazer propaganda. é não entender clara e totalmente o que fazem. então seu sistema moral o é. se alguém não o detiver. Hispaniola. parece-me que isto tem muito pouco a ver com conservadorismo. Primeiro. ódio e munição. inclusive nós. ele em breve estará pondo seus dentes em nós. o Congo) é meramente secundária. e nós temos diante de nós uma realidade americana oficial. O povo não espera que ele minta. que planeja impor a este mundo aprisionado. é claro. com uma faca. a teoria de que há uma Conspiração Comunista Internacional que ameaça dominar o mundo. com sua aceitação sem reservas de uma teoria que a administração liberal americana tem estado batucando em sua cabeça há pelo menos um quarto de século — a saber. os cabeças ocas. O povo acredita nele. aterrorizar e espalhar o caos. distorça ou engane. a mais escura tirania que a história jamais viu. como um problema de sobrevivência nacional. está matando Kitty Genovese. Segundo. tentar apagar seus argumentos chamandolhes nomes tais como traficantes de guerra.história não é atrasada.

Uma grande minoria de americanos algum dia será traída. é prático. Aqui estamos num duelo de morte com um inimigo mais implacável. tão absurdo como perguntar o valor do rei num jogo de xadrez. A ponte ideológica entre o fato e a fantasia está-se tornando hoje insegura para a América.tar naquilo que os liberais vêm lhes fornecendo. a condução da guerra já parece um ato de loucura. Precisamos compreender (embora Johnson e Rostow nos deixem inseguros a esse respeito) que os técnicos políticos dos Departamentos de Estado e Defesa só fornecem. o que Eisenhower e Kennedy permitiram-lhes acreditar. Isso não ajudará aqueles a quem fizeram crédulos partidários dela. como talvez nunca antes. a doutrina quase religiosa da Grande Conspiração. A guerra foge à relatividade política para se tornar transcendente e sublime. e veja só. Vamos para o Vietnã para manter um segmento da esfera de influência da comunidade Ocidental do Atlântico Norte — um objetivo que. senão de perfídia. e portanto no impulsionamento da política nacional. “Estamos em guerra total desde agora”. mas eles mesmos não usam. uma grande quantidade de gente boa e forte encontrar-se-á atolada no irreal. porque justificaram esta aventura em termos da ideologia do anticomunismo. que disparate é falar sobre uma guerra “limitada” com objetivos “limitados”. Em termos dessa crença. Isto é uma aflição do povo. um que é objeto de uma contabilidade de custo e para o qual deve haver um preço excessivo para pagar. O direitista aceita a descrição política. nas garras dessa ideologia. objetivam resolver a tensão que existe entre as descrições política e militar mais comuns da guerra. Porém. definido e talvez não de todo sem limites. em seus próprios termos. concreto. Uma ideologia que tem origem numa distorção da história adquire um poder intrínseco para apoiar e ajudar distorções históricas. Para eles. E quando ela desabar. nós a controlar os socos! As duas críticas básicas à guerra que têm correlação com as dissensões de esquerda e direita. Indagar qual é o valor de manter o Vietnã se torna. nossos líderes são obrigados a insistir que estamos no Vietnã para proteger nossos órgãos vitais de incremento nacional — um objetivo que não é prático e condicionado ao custo. o que as homílias de Johnson convenceram-nos de novo. dizem os direitistas — tão só apresentando de modo mais suscinto o que Truman lhes disse. O esquerdista repudia essa descrição política. e por conseguinte quer que a guerra seja empreendida com mais violência. mas absoluto e sagrado. Sua cólera sacudirá a nação. Adquire uma autoridade independente na explicação de eventos. e por conseguinte quer que a 145 .

. na academia militar.guerra seja suspensa. que era necessária a desocupação. Imaginemos um bom. que é só confundido e enganado pelo seu próprio cacarejar dissimulador. “que um brilhante jovem cadete de St. Ambos têm uma linha de argumento muito mais sólida do que o centro. A OAS objetivava nada menos que um coup d’état. De certa forma este gavião de guerra é ainda mais humano do que os advogados da morte lenta. cavalos de pernas quebradas. o Capitão Estoup. Cyr. o coração do humanismo europeu? Os liberais do Ocidente têm sobre isso uma teoria que lhes restaura a confiança: A OAS aconteceu porque havia fascistas no exército francês que queriam que ela acontecesse. para os líderes da França. porque ele pode pelo menos reivindicar a severa compaixão de Macbeth: “Se tivesse de ser feito quando foi feito. A primeiro de agosto de 1962. não será para estes nossos “moderados” que virá a mais profunda e acabrunhante agonia. O exemplo da experiência francesa na Argélia é totalmente instrutivo. Mas examinemos de novo — não a América para encontrar fascistas. A OAS era só o último estertor dos velhos colaboracionistas nazistas. um 146 . A Organização do Exército Secreto (OAS) foi formada para resistir ao que seus membros sentiam ser a traição da nação. que meramente tem substituído uma maldição. perguntou. quando chegar o tempo de arcar com as consequências. com um coração cheio de bravura. louro e honesto moço. a França justificou a guerra colonial em termos de imperativos coloniais transcendentes. sumarizou assim sua defesa de um dos conspiradores da OAS: “Como pode acontecer”. então estaria bem que fosse feito com rapidez. A França lutou para manter seu controle colonial da Argélia por muitas razões semelhantes às que mobilizam hoje a América no Vietnã. porém para além do próprio labéu fascista.. Ambos objetivam uma posição mais racional. de ombros largos. de sua miséria.” Se temos de destruir o Vietnã. importantes elementos do exército francês se sentiram ultrajados. Quando ficou claro. E a muito triste verdade é que. então tenhamos a misericórdia de fazê-lo com urgência e tirar aquela pobre gente. hoje aqui se poste acusado [de traição] ante uma corte militar?”22 Prestemos atenção no correspondente americano deste “brilhante jovem cadete” antes de prosseguirmos. um dos mais destacados moços. Não há nada parecido na América. e sua existência criou para a França o mais doloroso tormento interno.. perante um alto tribunal militar francês. Como a América.. Como aconteceu isso na França. onde é exigida uma explicação. um advogado do Primeiro Regimento de Pára-quedistas da Legião Estrangeira.

eu não sei que tipo de perturbação mental deve sofrer alguém que dá uma ordem como esta. em cujo nome a justiça está agora sendo feita. para a borda deste abismo de destruição. os graciosos olmos. que estava em jogo a vitória da França. Era obrigação do cadete obter informação vital sobre o inimigo — “por todos os meios possíveis”.23 Ninguém melhor do que o próprio torturador sabe o que a tortura significa. Se os meios são justificados só pelo fim. Na análise final. nada é deixado senão uma amostra insensata de sujas manchas indeléveis. Tinha sido provado a ele que o desfecho da batalha dependia da informação que obtivesse. o algodão doce e as suaves noites de primavera e a namorada que deixou atrás dele. Isto é. Sua voz é bem modulada. Se não o é. por aqueles que detinham autoridade. diz Estoup. fazendo seu último e desesperado esforço para se vingar do demônio que as atraiu para o inferno.graduado de West Point de um lugar bem americano tal como Colorado Springs ou Trenton ou Seattle — na expressão de E. melhor do que quem mata. sua conduta talvez um tanto retraída. Não tem monóculo nem bigodes. Devemos imaginar os bailes em que dançou. de sua Boina Verde.. Tudo isso. O povo da França. Preferia estar em casa. interior. mas eu conheço a sensação de choque e reação sofrida por aqueles que têm de executá-la.. É testemunho meu que. E. Cyr de Wyoming — que cabiam as mais odientas e perigosas tarefas. Está orgulhoso. mas não arrogante. morte. Ninguém compreende o bombardeio melhor do que o bombardeador. Todas as belas idéias e ilusões do jovem cadete de St. armas de fogo. Há. as sólidas velhas casas de madeira. para a maior parte. Tal é o vilão de peça: o traidor. o motivo verdadeiro para as ações dos conspiradores era uma determinação secreta... atormentadora de não ter cometido crimes sem alcançar o objetivo.. Cummings “um orgulho de olhos azuis de um nação saudosa”. “Eu não sei”. estas são ações das almas danadas. um trabalho a ser feito. Mas vós direis. Não está feliz por se encontrar no Vietnã. que o acusado era impelido.. Cyr a cumprir a ordem?” Porque o fim básico tinha sido descrito a ele de tal forma que pareceu justificar os meios. melhor do que o atirador. os amplos gramados verdes das quietas ruas de onde veio. Estoup continua a explicar que era aos membros das forças de elite — homens como nosso jovem cadete de St. não há justificação alguma a menos que o fim seja alcançado. contudo. ele foi instruído para usar tortura. “Então por que não se recusou o jovem cadete de St. Não precisa informar a este rapaz de Wyoming que suas 147 . precisa saber que era em seu nome. Não há Mein Kampf escondido em seu baú. e por seu bem. silente. Cyr desmoronam.

será com tais mãos que crianças serão acalentadas. em cujo nome a culpa presente é carregada. poemas escritos. O sacrifício é redimido pelo renascimento para o qual ele prepara a terra conquistada. amigos saudados. 148 . Nos futuros gestos destas mãos — isto é realmente muito simples — nós observaremos um aspecto da vingança do Vietnã. o nariz apertado em meditação. na América. Precisamos ser capazes de entender uma coisa muito simples: De agora em diante. aquela inocência adiada. não será? As sujas manchas indeléveis um dia serão removidas? A água purificadora é a vitória. a Hóstia depositada na língua e coroas nos túmulos. Ele é o especialista nisto. coquetéis batidos. amor feito. Mas o sangue será lavado. se evapora do futuro. E o que acontece com este estranho sangue selvagem? Ele se gruda permanentemente à pele das mãos que o derramaram.mãos estão sangrentas. Mas se não é trazida a água. memorandos de escritório assinados.

este. É um mundo. no mundo rico. nós só acreditamos nele. . na medida em que o usamos para culpá-lo de certos aborrecimentos nossos. . É o “chão de origem”. nem mencionar os cerca de 149 . têm escutado que há um outro mundo longínquo. daqueles descontentamentos que nos perseguem. Todos os países são diferentes e o progresso devia ser alcançado por meios pacíficos sempre que possível. Che Guevara1 Os jovens ao ingressarem nela [a FLN] estão sendo atraídos pelo excitamento da vida guerrilheira. McNamara2 Todos. onde dois terços de todos nós estamos vivendo. um mundo que é fundamentalmente implausível. quase fora de vista. onde Mozart não tem sido amplamente ouvido. este pobre mundo. que é majoritária. que. nem Platão e Shakespeare muito estudados. dizemos (um termo favorito.VI O Revoltado Matar é mau. deve ser o exagero de alguém. onde miséria e violência são rotina. A maior parte da gente comum do mundo rico preferiria muito mais nunca ter ao menos escutado falar do Vietnã ou Moçambique. de acordo com as instituições da maioria da classe média americana. Para a maior parte. envolvido com conotações de praga). Robert S.

Após a batalha de Piei Me em 1965. do pioneiro automatizado — como podem as coisas ser vistas de outro modo? A classe média americana é a nação para a qual o obsoletismo vindouro da escolha moral tem sido revelada. uma viva aragem a seguir.” A América classe-média se vê como a Solução Final. além nosso horizonte. quer a persuasão da AID. estúpidos. onde insurreições a longo prazo estão a caminho. inteligentes. e mandamos um cheque à CARE. como acontece de quando em quando. O fato correspondente sobre a maior parte dos americanos é que eles se sentem insultados por esse pedido. nossos inimigos têm de ser injustos. podemos ver isto. para animar. das Forças Especiais. Enquanto à espera de nossos bombardeiros. corajosos e corretos — Quem pode pensar tal coisa? Já que amamos roseiras e belas moças. O que deve ser difícil para qualquer nação parece fora de discussão para nós: Imaginar que podemos. Alguém poderá citar a Aliança para o Progresso. Quando as estatísticas são recitadas pelo fogo das armas do homem pobre. meneamos a cabeça. É ruim estar faminto. o Major Charles Beckwith. Mas é melhor ser faminto e paciente do que faminto e Vermelho. podemos responder de várias maneiras características. honestos. quer os batistas. porque ser Vermelho nos prova que toda esta fome era na realidade apenas um embuste. Às vezes estralamos a língua. do homem de fronteira habitante de escritório. Um ponto aqui e ali. e poderemos aportar agora a qualquer tempo neste “Século da América. Tais concepções são às vezes abaladas. um leme firme. um pouco de denodo. desonestos.trinta outros estados do mundo. desenvolvemos nossa teoria dos pobres diabos. Na terra da aventura de contrôle-remoto. de tempos em tempos. Mas o que dizer da força moral do pedido? Quando as estatísticas da pobreza mundial nos alcançam. segundo a qual os miseráveis têm sido enganados por homens-do-contra comunistas. E outro poderá tossir. O fato principal sobre o revolucionário é que ele pede mudança total. A América classe-média é a condição mental que supõe ter sido avistado um novo e plástico Éden. sobre um oceano calmo. ser os inimigos de homens que são justos. descreveu os 150 . Às vezes contamos histórias sobre bravos missionários. Provavelmente se dá o caso de um comunista não ter fome. somos mais decididos. Seu desejo mais intenso é não ser molestada por loucos que discordem disso. covardes e errados.

aqueles que (como colocou Brecht) abraçaram primeiro a revolução com as mãos e só mais tarde com a mente. outro americano disse de um vietcong capturado: “Devíamos pôr este cara no muro norte e dispensar estas tropas do Governo. Por que homens se rebelam? Tentemos descobrir o que pode possivelmente estar tão errado. Se pudéssemos conseguir mais dois. Ele é politicamente extraordinário.” Após a mesma batalha. Gostaria que pudéssemos recrutá-los. eu considero que o rebelde é muito parecido comigo. homens não põem em perigo suas vidas. primeiro. podem ser persuadidos. por exemplo. não precisava materialmente da Revolução Russa. para que possam lutar tão inflexivelmente para ficar do lado de fora do Éden. O camponês que compara sua pobreza com a riqueza de outra pessoa está habilitado a 151 . Primeiro. Mas não estou tentando descrever os Lênins. que pensamos estar-lhes oferecendo. tornou-se um rebelde. Menos obviamente. Segundo. Terceiro.combatentes da guerrilha da FLN como “os melhores soldados que jamais vi no mundo. cada um que hoje é um rebelde. evidentemente. Seu compromisso foi baseado em princípios e originou-se de um desapego básico. Provavelmente poderia protegê-lo sozinho. Estou atrás daqueles anônimos. Faço três suposições. mas para quem os Lênins deviam ter permanecido somente filósofos. Há sempre uns poucos que. com tantos homens e mulheres do mundo. Minha suposição é que o que não pudesse me mover ao ato de rebelião não moveria outro homem. é boa. e de outros. isso também implica em que a privação só pode ser política se não for universal. uma vez foi uma criança que não falava de política. a expor suas vidas. excetuados os americanos. São hábeis guarda-livros da causa de permanecer vivos.”3 Essa curiosidade. na linha de fogo. O rebelde é alguém que mudou.” O Major Beckwith estava intrigado com a “elevada motivação” e a “elevada dedicação” desta força inimiga e sugeriu uma explicação: “Queria saber com que os estavam drogando para fazê-los lutar assim. alguém a quem posso entender. por alguma combinação de estatísticas e princípios. É fora de dúvida. teríamos todos os muros [do campo triangular] bem vigiados. Isto não significa que psicologicamente seja assim. Lênin. por razões fúteis. pelo menos. que potencial revolucionário existe só nas sociedades onde a miséria humana material é o termo denominador da maioria das relações sociais. Ninguém pensa que banqueiros irão fazer distúrbios nas ruas. Quando fazem algo perigoso é porque foram convencidos que não fazê-lo seria mais perigoso.

O senhor branco. será a violência exacerbada do senhor que confronta o escravo com a autenticidade incorrigível de seu ato escravo. a fim de colocar um realce físico entre ele próprio e os olhos dos outros. Um homem negro canta “blues” sobre sua impotência. e mesmo se o senhor olhar. só na medida em que é um fingimento. à força. Ele quer. sua qualidade de vítima. A mais antiga máscara. essa humilhação. está 152 . uma identidade social. Dizer que a fome não se torna uma sensação de rebelião até que coexista com comida é dizer que rebelião tem menos a ver com penúria do que com má distribuição. ou de alguma forma aliviem. sua solidão. antes de tudo. mas pela compreensão da injustiça. Tal ato seria imediatamente punido. contava o escravo negro. “e Ele nunca disse uma palavra resmungada”. desperta a reação do escravo. o escravo escapa por detrás da imagem. às vezes. do negro americano. E. uma réplica exata de si próprio. impede-o de contar a verdade. atenciosa e atraente. Com mais frequência. Isto estabelece um tema central: a cólera revolucionária não é produzida por privação. por conseguinte. em meio a canção tira-lhe a guitarra.conceber que sua pobreza é especial. às vezes a descoberta acidental de alguma força insuspeitada nele próprio. A realidade profunda da vítima mentirosa. em escolhendo representar o que ele é. dentro do espaço de sua auto-imagem. Ao contrário. Não é que ele pretenda ser outra coisa que não um escravo. desempenha o papel de sofredor e humilhado. refugiou-se por trás daquela imagem perfeita dele mesmo. Um momento crucial vem quando alguma coisa rompe esta fina membrana de fingimento. sem motivo. Sua realidade exterior. coloca sua realidade à distância de um fingimento que difere das realidades. “Eles o açoitaram morro acima”. pretende ser o que ele mesmo sabe ser. quebra-a. O escravo cria. pretende ter em suas mãos a verdade e julgá-la. ele disfarça de si mesmo o fato de que não teve escolha. desse escravo que ele é. o escravo desempenha o seu próprio papel e desta forma escapa. para a inspeção do senhor. O que pode fazer isso? Um lampejo de fraqueza em seu senhor. impede-o contar um mentira. um homem que quer simplesmente rejeitar sua humilhação. É. ou a violência agudamente ritualizada das quadrilhas do gueto são mentiras intencionais que intencionalmente contam a verdade. O escravo é naquele momento colocado. recriar seu mundo por intermédio de pantomimas sociais que transfigurem. Em tal canção. Porém a vítima auto-reconhecida não é desde logo seu próprio vingador. Essa reticência divina se propõe claramente a servir de exemplo. seu pedido de liberdade. Mas faz também muito mais. Portanto ele pretende a verdade.

o que parecera dado por Deus é feito pelo homem. Então. de que. que o que parecera qualidade é mera condição sua. Agora não pode se representar. não precisava e não queria permitir. o “Sheriff” de Nottingham está bem arranjado. Este encontro despoja a vida de sua formalidade e a devolve à pura substância primitiva. sua política ingênua: Talvez ele só quisesse um diferente senhor rural. e sabe melhor do que qualquer outro que é uma pessoa sem importância. não lhe sendo permitido nem representar o horror da situação de vítima pelo gesto que o expressa. Ele vive totalmente agora em seu espaço de vítima. de forma alguma. é um acidente haver tantas diferenças entre sua vida e a vida do homem completo. quem está para ser o agente desta mudança? Por certo não a própria vítima. Ao contrário. Tornada menos ocasional. Quando a vítima vê que o que parecera universal é local. mas a nítida existência da idéia de que pode sobrevir uma mudança. da reencenação da realidade. Estando pela primeira vez de posse da idéia integral de que sua vida podia ser diferente não fosse pelos outros. contudo. Ele já teve prova suficiente de sua impotência. E. ele é solitário. vestido de branco. Sua visão de mudança será nesta ocasião estreita e mundana.psicologicamente fundido com este seu fingimento contador-de-verdade. um diferente xerife. sem meios. Isto é. ao mesmo tempo. ele é impotente. na grande casa da encosta da colina. O que o compele à esperança. ele é pela primeira vez alguém que pode agir. descobre que também pode acusar. um diferente prefeito. por enquanto. rara. uma opressão que a Alta Autoridade não pretendia inflingir. (Uma vez que Robin Hood encontre o Rei Richard. ou a complexidade de sua visão. é a vaga noção que seu algoz é responsável.) Encontramos nisto a política de apelo ao poder mais alto. ele deve ser aquele homem sobre o qual tentara cantar. ante uma autoridade mais alta e distante. Acareada a cada instante por essa coerência. Redescobre a idéia do sistema de força. Agora ele nada mais é senão o foco de injustiça. a injustiça fica mais coerente. Para a vítima não há mais nem mesmo a fuga frágil. O elemento importante não é o escopo. este xerife representa somente um desacerto local dentro de um sistema que a vítima apenas percebe e certamente não acusa. permanente imobilidade desaparece permanentemente. não à condição de xerife. que con153 . Ele começa a se sentir escolhido pessoalmente. a vítima pode achar que já não é tão fácil evitar a verdade de que seu sofrimento é causado. esta conduta ultrajante do xerife pertence estritamente a este xerife particular.

o lutador. 154 . ocupando e violentamente protegendo seus centros de controle. Em vez de meramente escrever a história do agravo. mais politicamente agressiva petição de massa ao rei. impetuosamente militantes. Porém este desespero contém o presságio daquela destrutiva reconstituição final do espírito que preparará o descontente. estas demonstrações. Ele descobre que o inimigo não é um punhado de homens mas todo um sistema. mais frequentemente. e a responder. esta defrontação mais violenta permanece basicamente uma espécie de entretenimento. aparentemente. ONU. Eles sabem distin* O que não era novo era a maneira pela qual estas formas alargaram o conceito de petição. revolução. uma presunção central dela é que o rei não é mau. Acontece que o poderoso sabe perfeitamente bem quem são suas vítimas e porque deve haver vítimas. cujos agentes saturam a sociedade. Bobby Kennedy — a fazer algo. em 1963. Sua condição de oração permanece básica. Os discursos que elas ocasionam podem. as ocupações não-violentas e as várias marchas para o “Deep South” tinham origem na mesma crença: havia ainda um poder alto que era responsável e decente. Sugeriu o assim chamado Manifesto dos Dezoito. o criminoso para a mudança em direção à insurreição. parece não haver outra espécie. mesmo quando está elaborada dentro da. só desinformado. de fato dramatizam e exageram sua força. Longe de pôr em dúvida a autoridade mais alta. na verdade. e que não tem intenção de mudar nada. Ele é desviado por um desespero mais realista. Porém. As Marchas pela Liberdade. Acontece que o rei está do lado deles. reproduziam o próprio agravo em cenários que forçaram todos a observá-lo.duziu a alguns momentos pungentes da história. Porém. Ele entretivera certas esperanças sobre os poderosos. Este reconhecimento é da maior importância. Xerifes maus existem por toda parte.* Algumas vezes a secular prece baseada na massa tem resultado em mudança. Esta linha de pensamento levou os camponeses e padres ao massacre da Praça do Kremlim em 1905. parecer peculiarmente combativos. às vezes. A idéia principal tem sido sempre persuadir a autoridade mais alta — Congresso. sem dúvida o ponto espiritual mais primário da educação do revolucionário em surgimento. enquanto o movimento antiguerra não fôr capaz de imaginar uma ameaça que possa realmente valer. rebelião. publicado por destacados intelectuais vietnamitas em 1960. tem somente mostrado aos peticionários-vitimas que o problema é mais grave e a mudança mais difícil de obter do que tinham imaginado. inclusive o czar. que a maquinaria administrativa e coercitivo-punitiva do estado existe precisamente para servir os influentes. As demonstrações de protesto contra a guerra do Vietnã não são diferentes. deu as razões da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade. É a mesma coisa que uma prece.

Ele próprio é imoderado e não conciliatório. um homem do mundo como ele próprio. Isto restaura explicitamente a legitimidade da mesma autoridade com que o rebelde se define pelo repúdio. A resposta se destina principalmente a acabar com a conferência. Mas o salto para a revolução deixou estas “soluções” para trás. os que são vítimas — devem ter todo. não apenas uma chispa de orgulho. talvez intimidado senhor. “O que quer?” indaga o aborrecido. apoiando a primeira. absolver e suspender a execução de um inimigo que já foi sentenciado. embora revisada. o poder ao qual agora se opõe. estão dispostos a mudar. Antes de poder ver as coisas de outro modo. O homem que acredita que mudança só pode vir de sua própria iniciativa não será inclinado a pensar que a mudança possa ser parcial. realista. Porém a mais importante. Para ele. sendo este repúdio total. Está agora instruído de que estas esperanças são extravagantes. “Que posso lhe dar?” interroga. a mais ardilosa feição desta imoderação é que ele pode ser impotente para mudá-la. nem mesmo em parte. “Eu não posso ser negociado”. todas as “soluções” pela única exigência irredutível de que a mudança seja total. Mas o rebelde não consegue ver o significado real desta palavra dar. Ele só pode transigir com a autoridade anti-rebelados se estiver de posse de “soluções” específicas para aqueles “problemas” que finalmente o conduziram à revolta. teria de aceitar de certa forma. O rebelde é um absolutista incorrigível. a um certo nível. No âmago de seu desespero está a nova certeza de que não haverá mudança que não seja produzida por ele mesmo. Informa ao senhor que ele não mais existe. Em outro nível. Os compromissos que forem tomados por agora serão acertados por seus líderes tranquilamente “realistas” e serão apresentados a ele como uma vitória total. Portanto responde.guir justiça de injustiça. sem a qual um compromisso não é nem mesmo tecnicamente possível. contudo. porque derrubou e redefiniu por completo os “problemas” aos quais se referiam. nem mesmo o motivo — para criar aquela conversação. desejando ter encontrado neste rebelde uma pessoa responsável. Então que significado terá falar de compromisso? Compromisso é de certa forma. e que aqueles que agora não tem nenhum — o povo. De outro modo nada há para discutir. todas as diagnoses da moléstia por um certificado final de óbito. é um comentário fundamental. não deixa exatamente motivo — de novo. mudança total significa só que aqueles que agora detêm todo o poder não mais devem ter nenhum. esta resposta nada mais é que uma eva155 . que substitui todos os “problemas” pela grande pretensão única de que o sistema todo é um erro. Mas.

mas de algo que não mais deve estar lá.” Acontece que pelo menos o espírito de socialismo estará implicado pela dinâmica interna da revolta de massa: O que foi ganho coletivamente deve ser possuído coletivamente. “Mude isto!” ele grita. ideal.” O motivo revolucionário fundamental não é construir um Paraíso. Em tempo idéias utópicas aparecerão. nem um político. disseram: “O que temos aqui como modo de vida não pode mais ser tolerado. menos ainda de um Brezhnev. diz o revolucionário. Isto é sempre uma ilusão produzida pela analítica social prognosticadora. Indústria? Agricultura? Comércio exterior? Não são tais assuntos que o impulsionam e preocupam. que intelectuais revolucionários pretendem ter tomado emprestado da história. nem um filósofo social. por mais agudo que se venha a tornar. não mais existam. É o sofrimento. Algo melhor. Seu bom mundo futuro é descrito elementarmente por espaços vazios: a falta de um proprietário. Quem ou o quê substituirá o proprietário. Pode tornar-se isto. Não é o futuro que o torna vítima. jogaremos tudo ao vento e arriscaremos nossos pescoços. Podemos estar certos de que o povo não disse: “Eis um plano para uma vida melhor — socialismo. segue. um Castro. em última instância deve. a falta de um dono de mina. sua resposta é clara: “Então teremos de continuar a revolução. o xerife? Não importa. olhando de soslaio por cima dos ombros. ou ainda a causam. Mas nunca será por demais enfatizado que o interesse em desenvolver outras formas especiais. Portanto. Ele nos provou que é bom. O senhor parece ter solicitado as idéias do rebelde sobre a sociedade revolucionária. um Mao. ou mesmo que elas a precedem e ativam. no momento. pode parecer que elas surgem no mesmo instante que a cólera destrutiva. a falta de um xerife. Não é uma utopia antecipada que o impele a arriscar sua vida. Porque o mundo tem agora um passado revolucionário. a explosão do fundo d’alma 156 . É o presente. O rebelde ficaria embaraçado em confessar a verdade: que ele não tem tais idéias. O futuro vitorioso é. Montes o chamou. mas destruir um Inferno. O revolucionário não é do tipo de um Lênin. Em seu favor. O rebelde luta por algo que não será como isto. Não é nem um economista. porque não pode mais suportá-lo como é. Se é então advertido de que este “algo” indefinido pode acabar por fazer as coisas piores. qualquer sociedade na qual certos indivíduos não mais tenham poder. Não pode responder a pergunta sobre o futuro porque esta não é sua questão. Mas sua visão motivadora de mudança é na raiz uma visão de algo ausente — não de algo que deve estar lá. devemos nos defender.” Pelo contrário. o dono.são. não precede.

Sabe muito bem que não é em seu nome que a virtude está sendo usada desta maneira. es cierto!” Sim. o campesino fixa os olhos com espanto não envergonhado nestes arranha-céus. dos esquifes das crianças. Temos um homem que certamente não intervirá num incidente de rua em benefício 157 . da arrogância do patron. É esta fala muito antiga. absorve tudo à vista.contra a injustiça. para “propaganda armada”. esta alienação radical da autoridade passada e presente. Logo deixa de se impressionar e se torna apático ante a Grandeza Ocidental. pela primeira vez. Não adianta falar a ele na necessidade de proteger tradições e preservar instituições. Algo terá de ser feito. um que voga dentro de uma vida que será memorável principalmente por suas humilhações. o patron pertence à United Fruit Company. dos altos preços. que. São todos possuídos por outro. Quando Turcios leva seu bando rebelde a uma aldeia da Guatemala. dos poucos centavos pagos pelo árduo trabalho diário. Coney Island e Lincoln Center. Um compromisso com a violência apenas se tornou possível neste ponto. A boa terra que o campesino trabalha pertence à hacienda. cuja irresponsabilidade foi decretada por outros. Consciência revolucionária existirá. o homem que está ficando revoltado vê alguma coisa que não é sua. Nenhuma porta pública é marcada durante a noite com o aviso que permite sua sobrevivência. Alguém se ajoelha no centro do círculo e começa a falar de sua vida. é verdade. “Si. O rebelde é um homem irresponsável. Nada no mundo social do senhor é poupado do desprezo desta definição. no momento em que a vítima elabore sua experiência de injustiça dentro de uma definição que inclua a sociedade na qual vive. não conduz diretamente à ação política. ou a ajudar a sociedade a evoluir sistematicamente para algo melhor. Quase sempre. Apesar da justiça que lhe prometem. O rebelde é alguém que não tem o que perder. Onde quer que olhe. É um número desnecessário. vistos da rua 137. Esta pertence ao patron. O rebelde é alguém para o qual injustiça e impiedade são apenas palavras diferentes para a mesma coisa. são muito parecidos. desafortunadamente sempre nova — que finalmente põe o círculo a retumbar com o grito desafiante. Não é culpa dele estar sua fantasia repleta agora de explosões e ardentes rendas espanholas. podem ser igualmente outros tantos escolhos. Mas esta nova consciência. pouco a pouco. não é preciso falar de sociedades sem classes. E aquele primeiro acionador não acionado pertence a nada. Só por um breve momento. O escritório do usurário e o Chase Manhattan Bank. que é a única redenção do danado. desde que existe.

Isto não é irresolução. no fundo. Em momentos excepcionais tolerará falar de reforma. Mas onde está a liberdade deste ex-escravo que. De fato. Quer dizer que o escravo morre também e que o homem livre se materializa em seu lugar. Prossegue até a vitrina de uma agência de fuga. escolheu a nova. Ele portanto contemporiza com a liberdade. Seu desejo de uma vida privada independente tem sido intensificado por toda parte pelas condições que a proíbem.“da lei e da ordem”. significam uma coisa: Ele quer ser livre. a liquidez de escolha. está desaparecendo em outra 158 . Ele para à vitrina de um vendedor de armas de fogo. O que há de errado com este homem que pensa que as coisas podem mudar sem serem mudadas? Que sabe tudo e nada faz? Nada está errado com ele a não ser o fato de que é um ser humano. cuidadosamente racionalizados. Quem sabe as coisas entregues a si mesmas andarão melhor. está agora afiando facas? Que ele se tenha mudado de uma disciplina para outra não esconde o fato de que permanece sob disciplina. Pode ser dito que. em vez de cortar cana. é liberdade. quando toma o rifle e muda Eu hei de por Eu sou este homem. Sabe que está sendo solicitado a se tornar um objeto histórico. raciocina Sartre. a imagem é quase preponderante. Entendeu sua situação e as exigências que ela faz. Ele pode mesmo denunciar um movimento de tropas governamentais ou abrigar um “fora da lei”. onde tinha havido antes só sossego e rotina. pode-se dizer que escolheu sua escravidão. não foi? É a nova dedução de rebelião em verdade tão diferente. pelo menos. Mas pode também achar uma razão tática para se incorporar a uma marcha “moderada” ou aplaudir um discurso “razoável” ou não fazer nada em absoluto. que foi por um momento uma profusa nebulosa de possibilidade. Por toda parte viu comoção e incerteza. Isto não o torna menos escravo. Todas estas desculpas. Mas parece reconhecer nesta solicitação uma velha presença familiar. Muito bem. desempenhando um novo papel? Quando o escravo mata o senhor. da qual se considera a maior vítima. estes cuidados e demoras. o homem livre foi divisado só no momento em que ele disse: Eu posso! Eu hei de! Naquele momento o mundo todo foi abalado por sua exultação. da velha coerção da escravatura? Não estão sua vida privada e sua liberdade preenchidas igualmente por ambas? É o rebelde algo mais do que o mesmo objeto cativo em roupas diferentes. Não entra. Foi tragado antes por esta história. uma liberdade transitória. Quando o escravo concebe a rebelião e permanece escravo. Mas isso não diminuiu a servidão. nem mais homem livre. dois homens morrem. Manterá a conversação aberta e a navalha fechada. Quando ele muda Eu posso por Eu hei de.

“carrasco privilegiado”. com frequência cita como ilustrações de estudo de casos os L’Être et le Néant [O Ser e o Nada] de Sartre. ele não é seu próprio dono. Temos que surpreender o recuo. Para ele. mas a ser este rebelde. aqueles momentos em que ele inexplicavelmente se desvia. assim o rebelde se encontra isolado dela pela decisão a que sua vida o forçou. Para o escravo não há simplesmente meio de pôr um fim à sua servidão habitual. De toda a gente. não a meramente deixar de ser um escravo.atitude. Não devemos meter em nossas cabeças que o rebelde deseja ser um rebelde. Eu penso que Camus não percebeu isto. que esteve por um momento dissolvido. seu futuro. mais nobres e mais baixos. Uma vez mais. nos quais pode ser perdida. muito menos com um sorriso afetado no rosto. Lutará para fugir a esta encruzilhada. Não devemos pensar que ele lança seu coquetel Molotov com um uivo de júbilo. A vítima não pertence àquela categoria de homens para quem a ação pode ser regulada por tal conselho. Isto é excelente aviso para o carrasco. Uma vez mais. livrar-se destes títulos. Não fiquem desiludidos pelo racionalismo destes conceitos. Ele só está livre para escolher entre dois duros senhores. exceto mudá-la por outra. Doutra forma não posso entender como pode acreditar estar estabelecendo um útil e relevante ponto moral. o titubeio. para equilibrarse no extremo entre eles. Não é como se suas sutilezas limitassem sua influência aos burgueses radicais que as analisam e denominam. na Lexington Avenue. quando afirma que homens não podem ser “nem vítimas nem carrascos”. Mas sempre ele está para ser varrido para fora. Como o escravo se encontrou isolado da liberdade pela força do senhor. Liberdade não é algo que somente certos homens descobrirão. Liberdade não é um êxtase reservado aos europeus esclarecidos. está transformando a si próprio em outra imagem: a do rebelde. concretizou-se num objeto específico. talvez mesmo além de sua profundidade. Ele não está em liberdade para ser somente um não escravo. Sartre devia ter estado suficientemente distante de seu partidarismo para ver que neste caso liberdade era somente a possibilidade de transição de um contrato obrigatório para outro — e portanto não liberdade. e seus benefícios não são limitados pelo fato bem conhecido de que há caminhos melhores e piores. são sacudidos e iluminados por este tormento. É menos esclarecedor para a vítima. O apêndice psiquiátrico ao The Wretched of the Earth [O Miserável da Terra] de Fanon. de um lado ou outro. somente sob certas condições. é um caso claro de ou/ou. muito 159 . Isto não significa que ele se reconhecerá como o objeto do brilhante epíteto de Camus. Vagabundos.

Ser “frio” é flutuar sobre as próprias decisões. Logo que o escravo se define como outro que não o escravo. Pelo contrário. de fato. Porém a evasão é somente uma forma mais precária da antiga auto-representação ritualizada. Nada quer senão liberdade. O escravo rebelde se evade de ambos os cativeiros por meio da recusa em destruir um ou outro. Essa simples reivindicação coloca-o contra a injustiça de ser definido pelo senhor. O que é tão pungente no referente à vítima. que está em perigo de transformar-se nela — de transformar-se num revoltado. Ser “frio” é usar a liberdade sem negar de modo algum que há um logro envolvido. é o desespero com o qual ela tenta pertencer àquela categoria. A escolha parece jazer entre se 160 . É cruel pretender que nós não. Já que quer ser livre. ao mesmo tempo nunca deixando qualquer um esquecer a fatalidade da própria situação. Também o coloca contra as forças internas e externas que o pressionam a se definir. porém outros. Afetará por muito tempo uma espécie de reserva. Já que não pode renunciar à rebelião. já se definiu como rebelde. não permitirá a perda do que Harlem chamou sua “frieza”. Essa tensão só pode ser controlada pela ironia. uma vez que o escravo é precisamente aquela pessoa que não pode de modo algum se definir sem cometer o ato de rebelião. suspira famintamente por liberdade. são de tal forma espantosamente estranhos a ponto de escolher vidas despedaçadas. como se perseguição. pode também estar mais alarmado por ver que está para ser reduzido àquela revulsão. para desviar a nova versão da velha ameaça. e se condena a si própria. O rebelde terá resistido ferozmente à sua rebelião. No momento em que ele é mais apressado por sua revulsão.menos que. prefira ser uma tal coisa. É tentalizar-se com a possibilidade de que ninguém pode fazer nada. A mesma agilidade interior que protegera seu espírito da subjugação do seu corpo. de algum modo. tornar-se útil para Camus. vingança. permanecer localizado exatamente apenas atrás dos próprios compromissos. o escravo não pode renunciar à rebelião. pois esta é a categoria de homens livres. um revolucionário. sofrer hostilização constituíssem uma carreira. o mesmo bom estratagema que guardou-o de se tornar para si mesmo aquele escravo que ele não podia impedir de ser para outros — este talento para a sobrevivência interior agora está de pé. Como se pode considerar que faz uma escolha quando escolher alguma coisa já é demonstrar rebelião? O dilema deste homem quase pode ser tocado com as mãos. uma palavra que apenas poderia ser traduzida para os idiomas de gente oprimida — “línguas nativas”.

Ambos os enfoques estão errados. realçando suas ações. frios bastante para fazerem sem remorso o que eles são capazes de fazer (cortar gargantas). Com menos simpatia. podemos então decidir que ele é trágico. ou ele esqueceu a maneira como veio ou deixou de ver que negar uma coisa não é o mesmo que afirmar o 161 . alguém levado a desfigurar o que preza mais altamente. escreve alguém do movimento subterrâneo brasileiro. seu tom de voz atribui a ele mesmo uma decisão que se originou alhures. Nós somos absolutamente fervorosos. A liberdade está sempre lhe escapando por sua cólera ou sua fadiga. podemos encontrar nele o hipócrita criminoso que cinicamente pretende que a morte é só relativamente má. pode ser levantada numa íntima saudação para a “humanidade”? Daí o retrato que o rebelde traça de si mesmo: um soldado absolutamente fervoroso da humanidade do homem. está sempre redescobrindo que isto só será possível se ele trocar variedade por concentração. Desejando somente que sua vida objetiva possa ter um pouco da variedade e elasticidade de uma vida subjetiva. Na situação crítica em que estamos vivendo agora. e o bastante ponderados na turbulência de suas vidas para manter a aspiração e o ato a um tempo. O revolucionário é alguém que não é nada mais a fim de ser tudo o mais.submeter a matar e cometer suicídio. Quando o “criminoso” afirma que ele é “absolutamente fervoroso”. De modo mais simpático. Se o acompanhamos na aceitação desse retrato. Quando a figura “trágica” afirma que sua causa é “a humanidade do homem”. “Chegamos ao ponto”. se tomamos o machismo do rebelde tal é oferecido. Como podem homens comuns ser a um tempo calorosos bastante para quererem o que os revolucionários dizem querer (humanidade). e das lágrimas de uma terceira. há toda a diferença do mundo entre os dois.” Quem quer que deseje saber de onde vem a estranha capacidade da revolução para o terror e a inocência encontrará a resposta vibrando entre estas duas últimas sentenças. integrados e distintos? Como é que uma destas paixões não invade e devora a outra? Como é que a faca que ainda está úmida do sangue de uma pessoa. realçando suas aspirações. então provavelmente nos convenceremos de que caiu na armadilha de uma completa contradição moral que pode ser resolvida só de uma ou duas maneiras. “de fazer uma vigorosa distinção entre ser esquerdista — mesmo radicalmente esquerdista — e ser revolucionário. elasticidade por disciplina. ‘’Absolutamente fervoroso” é um eufemismo para “desesperado”. Em jogo está a humanidade do homem.

moçambicanos. De alguém cuja reação à sua própria condição de vítima era resignação e fuga ritual. e portanto aquele orgulho dele. Foi empurrado contra a parede. O rebelde é alguém que aceitou a morte. É oblíquo. não sua pessoa. reserva. tornou-se uma vítima auto-consciente que entende que ninguém mudará as coisas para ele. A despeito dele próprio. irônico. Estão mesmo tentando triturá-lo contra ela. alguém cujo desprendimento procura não se tornar perfídia. “A humanidade do homem” é um eufemismo para “sobrevivência”. Mas não é ainda um homem revolucionário. está em seu ato de ter. de prisioneiro a condenado. Alípio nas montanhas e aqueles de pensamento semelhante que permaneceram espectadores nas aldeias? Qual a diferença entre o “revolucionário” o “esquerdista radical”. A aparente estranha liberdade do rebelde. Tornou-se a peçonha da qual tentou ficar afastado. e que há algo como revolução. sua situação. um dilúvio psíquico que encharca tudo à sua frente. O que o impele para a linha divisória? Qual a diferença entre os lavradores guatemaltecos. hostilização. e portanto sob sua orientação. Mas isto muda. elegante e tem sangue-frio. brasileiros que se juntaram a Turcios. Foi reduzido de escravo a prisioneiro. Não se trata mais de estar diante de dois objetos e escolher o que ele será. ambiguidade. Sua cólera. que ele próprio deve encetar a ação. Pode muito bem compor todo um hábito de vida sem hesitação. cuja simpatia tenta não se tornar envolvimento irreversível. que o brasileiro nos informa ser tão crítica? Se estou certo em pensar que os homens resistem ao perigo e querem liberdade de todas as servidões. Está fundido com ela — com a pobreza. Mondlane. finalmente. é empurrado para o mesmo espaço que anteriormente separara para sua cólera. nada há. afirmado a única vida que é valiosa para ele. O rebelde é alguém que não mais é livre para escolher nem mesmo sua própria dócil servidão. É esta privação de escolha que faz a diferença entre o “revolucioná162 . Este homem abstrato atravessou um bom número de mudanças. ausência de futuro que deram a ela seu conteúdo mortal. Possuído totalmente por seu dilema.oposto. foi por um tempo ainda algo que podia deixar a seu lado e contemplar ou representar. não é mais capaz de fazer nem mesmo uma distinção subjetiva entre o dilema e ele próprio. como sua humilhação precedente. então se segue que rebelião não se concretiza até que se tenha tornado compulsória. Exceto a rebelião. O homem miserável chegou à beira da violência. que é tão enorme que chega a ponto de apequenar tudo o mais.

Inocentemente. neste caso. longe disso. pondera delicadamente que há grão sem uso nos silos e terra sem lavrar. Eis aqui outro. faz uma modesta sugestão. acreditando que os homens eram bons. observou seu mundo. Isto nos permite distinguir com a nossa piedade aquelas “mulheres e crianças inocentes” que nossas bombas também destroem. Impotente para não agir assim. para ver alguém enforcado por idéias perigosas. Deixem que morra. Seu filho é arrancado da cama na madrugada seguinte. achou-se de posse de certas conclusões: Aqui não há justiça. e incapaz de se desfazer deles. Porém esta distinção. e ser logo rodeado pelos homens brancos que diziam: “Vejam como se torce. Quem determinou que acontecesse esta das mais severas e absolutas reduções? Nós ocidentais satisfeitos pensamos que seja o próprio rebelde. uma definição para pôr do lado daquela que reservamos para nós mesmos. que pode não ser de todo “radical”. Outro que acompanhou uma marcha da liberdade. Sem dúvida esperou vagamente que lhe agradecessem por isto. Foi-lhe segredado que deve esconder-se. se apresenta ante os poderosos. agora que 163 . e o “radical” que pode nunca se tornar “revolucionário”. mas parece que ninguém aceitará suas desculpas. Um dia ele emerge de sua educação . este viu um velho negro cair devido ao calor. honra aquilo. Foi sistematicamente metido em sua cabeça que justiça é tal e tal. não pensando em fazer mal. Um sujeito pacato que falava pela paz entre a cidade e o campo. será para nós o verdadeiro escravo assustador que descobriu sua força para sair da escravidão. obriga-nos a inventar uma segunda definição. Era educado. Isto aconteceu. totalmente nova. Um terceiro falou de uma união. Isto aconteceu. como se não houvesse nada errado em matar rebeldes homens adultos.rio”.” Isto é memorável. verdade isto. O rebelde. a policia tem seu nome. falou os nomes dos culpados. Eis aqui alguém que estava feliz. Para onde irá este sujeito pacato. Barriga roncando mas de chapéu na mão. Não tendo outros conceitos senão aqueles que foram marteladas em seu cérebro. Sobreviveu à bomba que destruiu sua família. Há uma explicação mais mundana. que se congratulassem com ele por ter ingressado no campo de Sócrates e Bruno. porque pressupõe que o rebelde teve uma escolha. Isto nos dá o direito de ameaçá-lo como um criminoso. As coisas eram diferentes e agora ele está na prisão fazendo planos. cometeu o crime do neutralismo. uma pessoa mais humilde. de homem. não os acusa de serem poderosos.

” Exasperado. Não há prisões. Como se estivesse de fato tentando produzir a colérica chicotada de resposta. Um grupo propõe reformular a idéia de não violência. Contudo. murmura entredentes o escravo. e que não está sendo incubada aqui nenhuma ameaça à paz. Um dia o telefone de alguém revela um estalido peculiar. A facção retrógrada tira disto prova convincente de que sua avaliação da situação tinha sido correta: “Estão vendo esta docilidade? Afinal. Ocorrem pancadarias de natureza política entre bandos.é um criminoso? Um estudioso especula num artigo público que certos aspectos do sistema de comércio exterior de sua nação são desvantajosos para o desenvolvimento. Não há condenações. senhor”. Mas o senhor parece se tornar menos e menos confiante com cada uma de suas vitórias. olhando de soslaio entre as duas grosseiras botas. pensando roubar um 164 . a facção avançada apressa-se com uma censura sentenciosa: “Tática ruim! Não há jeito de mudar os corações humanos!” É quase cômico. “Eu te amo. Duas bombas explodem em San Francisco. o escravo se submete. porque só está tentando satisfazer seu agora insaciável apetite de segurança. Tentando só reduzir sua dor por um momento. o chicote é o melhor pacificador. Agora exige que o escravo afirme sua felicidade. Seus partidários o abandonam. A paz precisa ser mantida. Afinal a estabilidade deve ser assegurada. Suspeita de infelicidade no escravo torna-se base para sua detenção. Uma semana mais tarde vem a saber que seu nome foi ligado ao de certos inimigos da sociedade. um apetite que na realidade se tornou um vício. em New York. Quer ver o escravo beijando suas cadeias. O senhor está inseguro a respeito de algo. o senhor empurra a face do escravo cada vez mais profundamente para dentro das realidades de sua situação. A polícia está confusa. Dois pacifistas são alvejados em Richmond. se não amado. Chocado por descobrir que um escravo pode ter aprendido a praguejar. infelicidade provada constitui um assalto criminoso contra a paz. Não se encontram indícios. Uma outra semana e descobre que não pode mais ensinar. A taxa de assassinatos em Dixie cresce de ano para ano. Seus partidários estão alarmados. Outro grupo se arma. o senhor deve ser desculpado. que as coisas ficam como devem. o escravo cospe uma praga. Só quer saber que ainda é respeitado.

O homem a quem a América reclama o direito de matar. Sem causar surpresa verdadeira em ninguém. Mentirosos não merecem confiança e são perigosos. Tem de ter sido. A explicação do senhor soa verdadeira: “Era um mentiroso.momento de descanso. O rebelde é também o homem a quem a América chamou “o comunista” e considerou inimigo.” O rebelde é o homem para quem foi decretado que só há uma saída. 165 . é prontamente alvejado.

166 .

a Inglaterra na América do Norte. a constante denominadora da história moderna. sua abundância material. a França na África do Norte e toda a apavorante armada das potências européias. Tendo ocupado o continente norteamericano e reunido e centralizado seu poder. A grandeza do liberalismo ocidental. Fredrick Jackson Turner1 Se as guerras travadas para a aquisição do império são politicamente o mesmo que guerras travadas para a proteção de impérios já adquiridos. na velha Ásia. em conjunto. a dinâmica expansionista da cultura comercial Ocidental tem sido a raiz. sua dolorosa construção de democracia constitucional — estas realizações interligadas têm sido financiadas pelo roubo assegurado chamado imperialismo. 167 . a história mais ampla e geral dos imperialismos transoceânicos. em escala continental.VII Duas Questões Revistas Podemos traçar a contenda entre o capitalista e o pioneiro democrático desde os mais remotos dias coloniais. Desde o tempo da decadência do Império Islâmico e o empalidecer da Idade Média. desde o início da grande Renascença comercial do norte. então não há diferença radical entre a política que os Estados Unidos emprega no Vietnã e a política que a Espanha empregou no México. o florescimento de suas artes e ciências. O épico da fronteira americana copiou.

ao contrário. Brota. em vez de repetitiva. em torno daquelas técnicas. os americanos terão de fazer uma escolha entre continuar o roubo ou pará-lo. agora chamada “responsabilidade do Mundo Livre”. Primeira questão revista: Em vez de uma escolha entre liberdade e tirania. ao sul para o Caribe. nas quais talvez o homem será um dia como os camponeses no antigo Estado Egípcio. a leste para as Filipinas. E se a história é cumulativa. derrotar os Pagãos (Bárbaros. da consolidação. Por volta do final do século XIX. do desenvolvimento de técnicas que tornam possível uma tal racionalização. burocratizados. como de costume. fez uma estranha profecia: Junto com a máquina. esta ainda mais pessoal. de grupos profissionais de elite. administração oficial racional e provisão — se torna o valor único e final. Max Weber. Não importa muito se estas estruturas de poder chamam-se “públicas” ou “privadas”. incorporadas. institucionais. na Universidade de Freiburg. como têm sido de nosso lamentável passado. cujo interesse especial se torna a extensão do uso de suas técnicas. justificado. conquista da região inculta. para se perpetuar e estender o território social no qual sua influência é dominante.2 O impulso para a “racionalização” do estado não é o produto desta ou daquela filosofia política. Selvagens). uma figura que agora é posta em voga se secularizada como a Ameaça Vermelha — igual aos pele vermelhas. mais íntima para os americanos do que a primeira. por algumas combinações dos três elementos tradicionais da ideologia imperialista ortodoxa: manter a paz. só mais feroz e mais resistente e astuto. aquiescente e impotente enquanto um bem puramente técnico — isto é. gargantuesco agora. 168 . Pugnam. As guerras do tipo vietnamita serão tão típicas de nosso futuro cada vez pior. em qualquer caso. e da coordenação de tais grupos dentro das estruturas de poder maiores. então há uma segunda questão a ser revista. O mesmo saque contínuo.sem hesitação os Estados Unidos seguiram seu próprio rumo de construção de império. a organização burocracia está empenhada em erguer as casas de servidão do futuro. que soberanamente decide a direção de seus negócios. em sua aula inaugural. agora chamada “desenvolver o subdesenvolvido”. este Vermelho. o Japão e o continente da Ásia. um dos maiores economistas sociais modernos do Ocidente.

cujo trabalho é controlar a estratégia da produção. Cada ano o sistema de negócios grita mais alto aos homens de independência e caráter para tomar em suas mãos maciça carga nova de decisão. cuja supervisão constante é indispensável para o devido funcionamento do sistema industrial. A tendência para se conglomerar permite que o capital incorporado.. tenha liberdade na utilização de seus recursos disponíveis em materiais. que pelo treino.. ou a habilidade de direção... equipamento e mão de obra. Os especialistas tecnológicos. levando a efeito uma sociedade inovadora...4 À luz das precedentes passagens citadas. sem levar em conta quaisquer pretensões nacionais ou quaisquer interesses investidos. constituem o estado-maior geral da indústria.. Vejamos se o sistema que ele prediz. é assim tão diferente do solicitado por Thorstein Veblen. de um ponto de vista “tecnocrático-socialista”. e manter uma supervisão das táticas de produção.e. enquanto conservamos vivos na política antitruste uma coleção de ideais derivados da forma de conservadorismo de Bryan-Brandeis (sic) que denigre o sistema de negócios que temos. Entre os federalistas. em particular. a direção dos negócios públicos devia considerá-las bem-vindas. de um forte governo central] se não tivessem recebido a ativa e determinada cooperação de 169 . Mas isto nunca teria sucedido ao se efetuar o estabelecimento da Constituição [i.. escrita por Charles Francis Adams. no geral.Examinemos de novo a profecia de Weber. de um ponto de vista “capitalista”.. reflitamos sobre a seguinte. No que diz respeito a fusões conglomeradas. e um grande número dos cidadãos abastados dentro da linha das cidades costeiras e regiões populosas. É essencial que este corpo de especialistas tecnológicos.3 Ou vejamos se o mesmo tipo de espírito cultural não anima a seguinte passagem de uma recente polêmica de Fortune contra o antitruste. O verdadeiro perigo “social e moral” para esta sociedade é nós continuarmos a seguir nossa presente linha de desenvolvimento econômico. quase todos os oficiais generais que sobreviveram à guerra. visão e interesse formam o estado-maior da indústria.. sejam aplicados em novos mercados que podiam de outro modo fenecer por falta destes ingredientes. podia ser encontrado um grande grupo dos patriotas da Revolução. da biografia de seu avô John Quincy Adams.

Fraca consolação. isto não quer dizer nem que se mostrou à prova dele. exato como o faziam os antigos romanos.5 O modelo simples se desdobra sem cessar. nada menos. Sendo agora global o escopo do comércio americano. do que ao 1984. os grandes negócios pediram.tudo que fora deixado na América de ligação à pátria mãe. as dimensões se alargando determinadamente. de nosso tempo. Se ele se torna. salmodiando “paz. e do fenômeno do McCarthysmo. Porém dificilmente podemos esquecer que o impulso para estatismo policial tem estado conosco pelo menos desde os tempos do Alien and Sediction Act [Decreto sobre Estrangeiros e Sedição] o predecessor do McCaran Act. nem que continuará a resistir a ele no futuro. podemos ser capazes também de ver que a sociedade totalitária é a essência lógica do estado imperialista. Uma sociedade totalitária não precisa ser um estado abertamente policial. do que ordem total. ordem”. Uma vez lançadas as bases do estado total. bem como do interesse endinheirado que sempre aponta para governo forte tão seguramente como a agulha para o pólo. Se nossa sociedade tem na maior parte resistido a este impulso. o escopo do governo federal deve também ser global. de Orwell. um forte governo central para protegêlos contra os estados indóceis da antiga Confederação. Sem as forças intervencionistas americanas em contínuo alerta. E enquanto negócios e governo cooperam para racionalizar e dominar a economia política do mundo. a probabilidade de male170 . controle total — o estado total do mundo total. Há a possibilidade de que o estado total americano vá se assemelhar mais ao Admirável Mundo Novo de Huxley. dependerá de suas tradições e do caráter da resistência que o povo seja capaz de conceber e expressar. Tal como em 1789. assim em nosso tempo pedem um governo federal para proteção contra os estados indóceis do mundo. os interesses americanos em frutas não podiam saquear as “repúblicas das bananas” e a oligarquia brasileira não podia sem medo ignorar as necessidades econômicas e sociais mais elementares do povo brasileiro. grandes negócios fazem governo poderoso e negócios multinacionais globalizam-no. e conseguiram. contra a vontade evidente do povo americano. O imperialismo é o acessório público nacional do expansionismo comercial privado. as formas retendo sua identidade. lei. quer esse estado no princípio seja benevolentemente administrado. assim cooperam para racionalizar e dominar a economia política interna. Assim. ou não. A solicitação básica é de. claramente como podemos ver hoje que a Inquisição era tão só as Cruzadas ao avesso.

pode significar que a cultura não será capaz de tolerar com facilidade outra de sua espécie. “derrota” é também inconcebível sem um imenso abalo na autoconfiança e consciência americanas. pelo menos um grande segmento da sociedade. a terceira administração a partir de agora se encontrará de posse de um cadáver — uma previsão que supõe. a economia de guerra tem o efeito de elevar cada vez mais 171 . dois acontecimentos marcadamente indesejáveis. imóvel. é que um certo número de forças interligadas parecem inclinadas a estimular cooperativamente a tendência para a totalitarização da sociedade econômica e política. Neste caso. e segundo os termos pelos quais a guerra tem sido explicada ao povo americano. uma frustração que começa a parecer impenetrável. Quem tem uma clara idéia de vitória que não seja também absurda? No melhor dos casos. Terceiro. a única saída para aqueles a quem o poder fez responsáveis reside na supressão do acontecimento final. Primeiro. a primeira que todo mundo tem olhado de perto na intimidade de suas salas-de-estar. Ao mesmo tempo. Cuba. é entretanto a primeira de sua espécie a ser tão prolongada. sobre outros aspectos. nada menos que a vitória pode sustentar a legitimidade presente do estado. De nenhum modo a primeira de sua espécie (México. não há solução que não venha a traumatizar. e dado o sofrimento que sem dúvida ainda o espera. a primeira a ser travada sob palavras de ordem tão claramente hipócritas. Segundo. a requerer tanto esforço americano para alcançar mesmo um acordo ambíguo. de alguma forma. a crise do Vietnã é sem paralelo. as Filipinas). quer por meio da dissimulação ou superação por um fato maior (como guerra com a China). O que se mostra especialmente ominoso. a situação histórica desta guerra pode torná-la um clímax. ou pelo cancelamento violento dela da história atual. no referente à situação atual da América. precariamente. a primeira em que a reputação do estado tem sido posta em causa tão incondicional.volencia totalitária básica existe. que as administrações a se suceder manterão a obstinação da presente e que a história permanecerá. Mesmo uma manobra política soberbamente habilidosa não poderia apresentar um “compromisso” como uma “vitória” (tal na Coréia). repetida e publicamente. através do silenciar da crítica histórica. Sua iniciação nos limites é enfurecedora e sua compostura vacila. Se a vitória não pode ser alcançada e a derrota não pode ser dissimulada. a América moderna experimenta pela primeira vez. Na crista de seu poder relativo.

Aqueles que administram estes interesses. — o poder reúne-se nas mãos daqueles cujos interesses especiais os inclinam para maior belicosidade no exterior e formas mais diretas de restrição política no país. que toma as decisões. é menos capaz de opor-se à declaração de gastos de defesa. junto geralmente com incorporadores multinacionais. as agonias da guerra se mesclam psicologicamente com as agonias da decadência urbana e da turbulência racial. será mais uma vez feita pelo grupo que tem mais a ganhar com a guerra e mais a perder com a depressão. se a decisão clássica entre a guerra e depressão precisar de novo ser feita. a crescente influência dos militaristas dentro da crescentemente militarizada economia política. a elevação simultânea do desassossego racial e classista. tudo se combina para estimular os impulsos inerentes da sociedade corporativa para a reação totalitária. o aparato por meio do qual a sociedade pode ser totalitarizada existe e está em andamento. apenas a espécie que serviu de tentação a outros autoritários para fazer experiências com democracia ou tolerância ou liberdade política. constituem a oligarquia política americana. controle exclusivo dos gânglios principais de poder político e econômico. podem montar a mais de um quarto do produto nacional bruto da nação. a classe prestigiosa. Portanto. e acesso 172 . no fim de contas. O estado corporativo tem controle efetivo de elementos-chave do sistema de comunicações. Há uma clara conexão mecânica entre a guerra e os problemas dos guetos americanos. o estado do bem-estar tendo sido podado para dar lugar ao estado guerreiro. Finalmente. a guerra aprofunda e intensifica a já avançada dependência da economia em relação aos subsídios de defesa federais. Portanto. ou através do efeito multiplicador. Em suma. A América negra. Mais importante ainda é a conexão espiritual. a resistência militar incomum e a notabilidade moral do inimigo. e nunca seu poder foi menos sujeito a controle ou veto popular do que agora. Relacionadamente. está no momento sendo levada para a alienação total do poder branco e total solidariedade contra um sistema cujas hipocrisias nunca estiveram antes tão nuamente à vista. cujas ações políticas têm um impacto complexo sobre a América do branco pobre. Os problemas que se agigantam ante nós agora são. no exato momento em que a economia se coloca na “necessidade” mais clara de guerra — ou de modo contrário. Além do mais. que diretamente.o poder dos generais guerreiros e aqueles grupos de interesse individual que têm mais a ganhar com as despesas bélicas. a virtual impossibilidade de resolver o conflito dentro do atual meio político da América.

Mas o estado não pode dar liberdade política. nem na natureza do estado poder dar liberdade política. então encenar uma batida policial para descobrir esta dinamite. segurança e ordem. isto já foi feito. A única questão básica que os americanos têm agora para formular a si mesmos é se querem. da pesquisa pura. A casa imperial de servidão pode lhes dar riqueza. Eles tramarão de qualquer forma fazer o que determinarem deva ser feito. nem na natureza da liberdade política poder ser dada. isso já foi feito. Se a feição central do estado fascista é a aliança política ou identidade do governo poderoso e grandes negócios. então é usar eufemismo dizer que é impossível um fascismo americano.a uma ideologia nacionalista amadurecida. então encenar uma batida policial para descobrir estes narcóticos. O superestado pode mesmo voltar um ouvido meio preocupado para os murmúrios dos desprovidos. O fato é que seu estilo será determinado essencialmente pela vontade incontrolada de seus dirigentes. isso já foi feito. O que pode ser feito? A questão central deve ser compreendida. Não é uma dádiva. ou não. Pode mesmo ter a graça de deixar alguma gente viver numa ausência subsectária da sociedade política. e então encarcerar manifestantes. do sexo suburbano. Um tal fascismo pode ser. pode dar-lhes vitórias e atestar que estas vitórias são autenticamente gloriosas. sequestrada da história nos subterrâneos do LSD. violento internamente. ou das pequenas revistas originais de dissensões provisórias. Está sozinho nas alturas controladoras do poder. Liberdade política não é uma licença a ser negociada ou requerida a um poder mais alto. Pode se recusar a entregar assassinos racistas à justiça e assim produzir um Terror efetivamente patrocinado pelo estado. Pode colocar narcótico num escritório do SDS. e o poder de uma tal aliança política ou aliança de manejar sua vontade sem outras restrições significativas do que aquelas que escolhe se auto-impor. pode dar de sua generosidade para aqueles que se humilharem ritualmente ante ele. Pode tacitamente determinar a seus policiais direitistas que permitam por um pouco que uma quadrilha direitista assalte alguns manifestantes contra a guerra. Não existe como um fundo sob a superintendên173 . ou não. isto já foi feito. pode fazê-lo sem controle ou embaraço. O que quer que o estado decida fazer. O estado corporativo pode esconder dinamite num escritório do SNCC. ser politicamente livres. anonimamente em solidão com solitários igualmente ardentes. Não está. prenhe de violência e capaz de justificar qualquer ação razoavelmente envolta em sofismas ou ação autoritária direta contra dissenção organizada.

e o liberal pró-estado-do-bem-comum são todos igualmente capazes de nos conduzir na direção da sociedade totalitarizada. democrática. é obscurecida. não os estados. e sem América totalitária não poderá haver império americano. e motiva seu trabalho. não-executiva. mas o estado não pode nem tomá-la nem dá-la. o principio básico da política radicalmente humanista é este: Qualquer decisão que não for tomada pelo povo em livre associação. Somente homens. pelo debate americano tradicional sobre socialismo versus capitalismo versus a economia mesclada Keynesiana. em sua vida. podem produzir e exibir liberdade. por nossas categorias políticas comuns de esquerda. possuir. William Appleman Williams coloca-a desta maneira: 174 . Se o planejamento central deve ser coordenado pelo governo ou por mãos corporativas é uma questão cujo realismo desapareceu. O radical socialista. lhes dá estilo. A questão urgente é sobre a localização do poder na comunidade: Está ele no estado ou está no povo? E em nosso tempo americano. A liberdade política está no homem político. Esta questão central não é aclarada. podem ser livres.” Diz ao contrário: “Insistiremos na prioridade da liberdade do homem e basearemos nossa invenção social na ética do contrato social livremente feito.” A tarefa primária do humanista é descrever e ajudar a realizar aqueles atos políticos através dos quais o poder do monolito autoritário central possa ser rompido e a vida política do homem reconstituída na base da comunidade associativa. qualquer que seja o conteúdo dessa decisão. Se os americanos escolhem ou não ser livres é a questão política transcendente.cia de escritórios privilegiados. o conservador corporativista. nosso lugar americano. a única questão que coordena e resume todas as áridas questões da política externa e interna. é apesar disso esse princípio básico que estabelece seus objetivos. é esse princípio que o humanista continua a elaborar e enriquecer por meio de intercâmbio humano no contexto de situações humanas. um princípio tão escorregadio como a liberdade política dos homens. não pode ser boa. porque não figura entre as capacidades do estado deter. Se os americanos escolherem a liberdade não poderá haver América totalitária. não é aclarada. é obscurecida. Se o humanista americano deve abrandar sua intransigência e sair de seu princípio utópico e ir de encontro às realidades da vida tecnológica. direita e centro. É uma condição elementar da vontade individual. O humanista não deve dizer: “Aceitaremos esta sombria casa de servidão e trataremos de redecorá-la. O estado pode negá-la ou obstruir seu curso. e existe quando ele a exige.

Estes valores radicais podem ser realizados mais facilmente através da descentralização e através da criação de muitas comunidades verdadeiramente humanas. com o precedente histórico.Os ideais e valores radicais essenciais de comunidade. A ala direitista na América está presentemente num estado de quase assustadora confusão espiritual.. Tal descentralização é tecnológica e economicamente possível. fins ideológicos têm sido sempre invocados. Estes dois grupos possivelmente não podiam ter menos em comum. Três explosões de candura exemplar neste ponto: Primeiro. Por que os libertários concederam a liderança aos conservadores? Por que os oponentes tradicionais do grande e militarizado governo autoritário central agora somam forças com os mais audaciosos advogados de um tal governo? Agiram assim porque foram persuadidos de que há um perigo claro e presente que necessita uma digressão temporária dos valores finais. autoritária e mesmo monarquista. e individualismo de mercado livre. Tal descentralização é essencial se é para a democracia ser mantida e ampliada. Deviam saber que. goza da fraternidade da ala direita libertária do laissez-faire. Por mais que esteja na fibra do populismo democrático americano está também na fibra da direita liberatória americana. Sob uma única e mesma bandeira. que é preeminentemente através da ideologia da Ameaça Estrangeira. democracia e humanidade simplesmente não podem ser realizados e mantidos no futuro — nem podem ser tentados — através de mais centralização e consolidação. sem dúvida. rindo entredentes através das páginas da National Review. igualdade. reunindo a John Birch Society. há sempre um perigo claro e presente. na linha de tiro com os Minutemen. Qualquer possível guerra futura se conformará. todas as guerras têm sido travadas por razões econômicas. a ala direita conservadora de tendência imperialista. para os imperialistas totalitários. Para torná-las política e socialmente agradáveis. Nossa humanidade está sendo golpeada e espremida para fora de nós pelo poder consolidado de um capitalismo nacionalista bélico corporativo. autorizado pelo Escritório do Serviço Secreto Naval dos Estados Unidos: “Realisticamente..8 Isto não é meramente um desafio de esquerdista para outro esquerdista. do mito do tigre nos portões.”7 175 . E tal descentralização é psicológica e moralmente compulsória. de um relatório de 1938. que o imperialismo de fronteira e global e o autoritarismo interno sempre se justificaram. Deviam saber melhor.

9 Seria um fato de grandiosa boa sorte para a América e o mundo se a direita libertária pudesse ser lembrada de que além do Republicanismo viciado dos Knowlands e Judds há uma outra tradição valiosa para ela a sua própria: a tradição do Congressista Howard Buffett.Segundo. que atacou a Doutrina Truman com as palavras: “Nossos ideais cristãos não podem ser exportados para outras terras por meio de dólares e armas. Na verdade.”12 Mais atraente é a direita do tenaz Garet Garrett. Embora uma tal economia possa produzir uma sensação de aparente prosperidade pelo momento. Não podemos praticar domínio e força no exterior e conservar liberdade em casa.. o testemunho do General Douglas MacArthur: Falar de ameaça iminente à nossa segurança nacional através da aplicação de força externa é pura falta de senso.”11 E de Dean Russel. que os eventos dos anos intervenientes tornaram a comprovar. em 1952. abandono de uma identidade nacio176 .13 Começando com as palavras: “Cruzamos a fronteira que fica entre República e Império”. Não podemos falar de cooperação e praticar política de força. que apresentou. ascensão da influência militar.. a crença do Senador Arthur Vandenburg de que para obter sua aceitação de uma militante e dispendiosa política de Guerra Fria seria necessário “assustar com o inferno o povo americano”. estão advogando só uma coisa: a abolição da liberdade. o panfleto de Garrett indica infalivelmente os traços da patologia imperial: dominação do executivo nacional sobre o Congresso. mais insidiosamente. orientador da campanha do Senador Taft. um complexo de arrogância e medo em relação aos “bárbaros”... a fim de preservá-la permanentemente. e. no meio-oeste. subordinação da política interna à política externa. faz parte da forma geral de política mal orientada nosso país ser agora orientado para uma economia armada que foi criada em uma psicose artificialmente induzida de história de guerra e nutrida com uma incessante propaganda de medo. Estamos nos tornando rapidamente uma caricatura da coisa que professamos odiar. uma rápida análise do impulso totalitário do imperialismo. em 1952. descansa em uma base ilusória de desconfiança completa e ocasiona entre nossos líderes políticos quase um medo maior de paz do que seu medo da guerra. corte e Constituição. cuja resposta à Ameaça Vermelha interna era abruptamente decisiva: “O meio de ficar livre de comunistas nos empregos do governo é abolir os empregos.8 Terceiro. a criação de satélites políticos e militares.”10 Há a direita de Frank Chodorov. que escreveu em 1955: “Aqueles que advogam a perda temporária de nossa liberdade.

Aqui está o moderno humanista ocidental. imaginando o que deveria dizer sobre tecnocracia e Stálin. e é só através deles que a tradição libertária é ativada e mantida viva. o subumano poder camisa-parda de militante do estado jacobino. E alguém terá de fazer finalmente a observação de que o sonho americano não se tornou verdade. o estado de aço possuído por sua própria glória retumbante. auto-satisfeito nas ruínas de suas promessas à moda antiga. Eles são da fibra do individualismo humanista americano e da ação associativa voluntarista. inutilizado já talvez por aquela racionalidade não-sentimental que ele se mostrou por tanto tempo satisfeito em honrar. que tem mostrado sua coragem de Lowndes Country a Berkeley. A Nova Esquerda pode se perder nos debates de esquerda importados. Crescentemente afastado daquelas imagens de homem que uma vez sustentaram seu trabalho e deram forma às esperanças. enraizadamente americano. Contudo sua intersecção pode ser perdida. se pavoneando através de cemitérios exóticos que ele preencheu e onde ousa pousar coroas. então este novo humanismo político. O superestado deslizará adiante em seu esplendor de aço e vinil. se as novas realidades não forem penetradas e uma reorganização ideológica fundamental não se realizar. Sua união potencialmente redentora pode acabar inatingida e irrealizada.nal por uma identidade internacionalista e “histórica” — a república é livre. Este estilo de pensamento político. o capricho desenfreado do Estado. a Velha Direita e a Nova Esquerda estão moral e politicamente coordenadas. A direita libertária pode permanecer hipnoticamente encantada pelo imperialismo autoritário. que talvez ele fosse um sonho ocioso afinal e que o povo realmente nunca teve uma oportunidade. fruto de uma longa linha. cujo único e básico amor é Poder. ele para sua fantasia por um momento a fim de imaginar se não há algum meio fácil para recapturar o que parece ter sido tão facilmente 177 . Se isto acontecer. do tipo dos anos trinta. o império é refém da história. é abraçado hoje pelo movimento negro de libertação e pelo movimento estudantil contra o imperialismo de Grande Sociedade-Mundo Livre. recrutando-nos com seus computadores. se mostrará sem dúvida indigno de mais do que uma nota de pé de página nas histórias carniceiras de nosso tempo. etiquetando-nos e numerandonos com seus testes científicos. feitas a si mesmo. Que estes movimentos sejam chamados de esquerdistas nada significa. que tinham o homem como centro. De ambos os lados pode ser cortada a visão por meio de respostas habituais para labéus ultrapassados. Num sentido saudável. mas talvez já um item sem uso e arcaico.

178 .perdido. nem botões para achar e premir. Só o povo deve. contudo. Só o povo americano pode fazê-lo. De nada adianta imaginar. como de hábito. Compete aos americanos reivindicar de novo e tentar reformar seu país. O povo está sozinho. Não há meio fácil para fazer o velho sonho respirar neste novo ar. chegou a um fim. consigo próprio. Não há mais bárbaros para justificar as conquistas básicas e salvar a consciência. O que parece perdido não foi realmente perdido. As fronteiras se foram.

1963.. de Wilfred Burchett. 11 NYT. ed.. Pall Mall Press. Fall. pag. pag. 10 Political Science Quarterly. 2 Vietnam. 13 Fall. 1 de Janeiro de 1966. pag. 1965. eds. Inside Story of the Guerrilla War. 1964. pag. em Raskin and Fall ads. de Eric Robson. pags. Marcus G. The American Revolution. New York. London. International Publishers. New York. Random House (Vintage book). 109-194. 7 Em Stalin. Frederick A. 5 “The Namierist School”. George Athan Billias. 1960. 1963. Random House (Vintage Russian Library). 9 NYT. Goldbloom. Fall. 24. esp. Praeger. 3 The Two Viet-Nams. 1965. de Bernard B. The Viet -Nam Reader. 12 NYT. 10 de agosto de 1966. ed. 1965. Magazine. de Maurice J. 4 The New York Times (NYT). 261 179 . New York. 1 de fevereiro de 1966. 1966. Commentary. A Political Biography. Holt. 16 de Janeiro de 1966. 30 de Janeiro de 1966. 318. 322.Notas Capítulo II: A HISTORIA DO GUERREIRO DA GUERRA FRIA 1 Citado em “The Fullbright Revolt”. abril de 1965. “Globalism — The Ideology of Total World Involvement”. XI. New York. setembro de 1966. Raskin e Bernard B. New York. Rinehart & Winston. “Viet-Cong — The Unseen Enemy in Viet-Nam”. de Isaac Deutscher. 8 NYT. rev. pag. 6 Gary Porter.

Ann Arbor. 1962.. pág. 328. 315. Fleming. 16 Ibid. 53. N... F. 8 Ibid.. 249. 1956.. Mich. 18 Ibid. pág. 110-122. Prentice-Hall. 2 Ibid. 503. pág. 251.14 NYT. 19 Ibid... 258. Rand Mc Nally 7 Co. A History of Civilization... 1960.. 482. 17.. 82 (Louis M. pág. Nottels. 12 (Curtis P. pág. DOMINÓS QUE CAEM 1 Em The Cold War and Its Origins. Stelle. Doll Publishing Co. 1 de fevereiro de 1966. Sears. págs. pág. pág. (Nas seguintes citações deste livro imensamente útil.. pág. 68.. 1961. vol.. págs. Chicago. Sahlins et al. 2 vols. pág. (Daqui em diante citado como Shaping. 27 de fevereiro de 1966. Williams cita sem datar um editorial do Times de Londres. 13 William Appleman Williams. 217-224 (Charles C. 20 Ibid.. de D. 15 (Max Savelle. 79. Englewood Cliffs. The University of Michigan Press.J. pág. 235-237 (Daqui em diante citado como Tragedy.. Doubleday & Company. pág. Evolution and Culture. 15 Ibid. pág. 1917-1960. New York. The Tragedy of American Diplomacy. “Jefferson and the Embargo”). 180 . eu só forneço os números de páginas tirados da parte “documentos”. 35.) É um maciço compêndio de “Readings and Documents in American Foreign Relations 1750-1955”.. 2 vols. 10 Ibid. 16 NYT. pág.) 7 Ibid. 258. pág.. Na citação de historiadores o autor e o título são dados entre parênteses. New York. 9 Ibid. 11 Citado em Deutscher.’ 197-200. 17 NYT. 13 de fevereiro de 1966. 3 Ibid. The Shaping of American Diplomacy. 6 William Appleman Williams. 15 NYT. “The Appearence of an American Attitude Toward External Affairs. 427. 2. Capítulo III: PORTAS ABERTAS.) 14 Ibid. 1750-1775”).. editado por e com extensos comentários de Williams. “American Trade in Opium to China. 1955. 17 Ibid. 12 Para um desenvolvimento “antropolítico” deste ponto ver Marshall D. pág. págs.. “British Mercantilism and the Economic Development on the Thirteen Colonies’’). 4 Crane Brinton et al. 5 Fleming.. 17 de abril de 1966. págs. 252. pág.

3 Tragedy. 27 Ibid. Mass. New York.. pag. 22 Tragedy.. 1963. League for Industrial Democracy.. 23 Shaping. 1-70. Barber. 41 Ibid. 5 de novembro de 1962. pág. 44 Fortune.. 235. pag. 37 Ibid. Roosevelt. 6 David E. pág.... pag. Capítulo IV: IMPERIO DO MUNDO LIVRE 1 Tragedy. Random House. 382. pag. pag. 239. New York. 19. MIT Press. págs. pägs. 28 Department of State Bulletin. 26. 5 W. 433-434. 233. 1938. junho. 66. 7 Richard J. 33 Ibid. pag. pag. 39 The Public Papers and Addresses of Franklin D. pag. Lilienthal. pag. 17. 40 Tragedy. pag. 110-112. Bigger. 30 Thomas R. To Build a New World. 32 Shaping. eds. 237. Cambridge. 24 Tragedy. pag.1821-39”). 78. The Polities of Hystoria. 133. 97. 224 (Foster Rhea Dulles. “Guerrilla Warfare in Underdeveloped Areas”.. 26. 38 Department of State Commercial Policy Series. 123. pág. 4 Em Edmund Stillman e William Pfaff.. 66. 1966. 42 Ibid. 1934-41. 21 Ibid. 35 Ibid. pag. 31 Ibid. pag. pag. comunicação feita ao Carnegie Institute of Technology. The Communist Foreign Trade System. vol. Pryor. W. New 181 . Rostow. Brooks. 2 Frederic L. 36 Ibid.. pag. pág. pags. 234.. pag.. 26 Ibid. 29 Tragedy. pág. 25 Ibid. panfleto sem data. em Raskin and Fall. 434. 34 Tragedy. 683-688. New York. 1964. “The Multinational Corporation”. “American Interest in China”). “Big. 18. 463. Harpers & Row (Colophon book). 27. 43 Ibid. 4 (1935). Biggest: American Business Goes Global”. abril de 1960.

13 Citado em Marshall Windmiller. 1965.. Business Week. 354. 12 Barber. pág. 28 de Janeiro de 1966. 25 de novembro de 1964. 28 Ibid. por Morris Forgash. abril de 1966. 25 Gerassi. Calif. setembro de 1964. 19 David Rockefeller. 21 de março de 1965. 83. Berkeley. 9 Barber. 20 “Special Report of Multinational Companies”. 32 NYT. Holt. Fortune. de abril de 1966. The Commentary of Marshall Windmiller.. National Industrial Conference Board e Newsweek. The Great Fear in Latin America. “Viet-Nam and the Power Elite”. págs. 2 de outubro de 1964. Monthly Review. cit.. Rinehart & Winston. U. 30 de abril de 1966. 1 de abril de 1966. da Standard. “Notes on the Theory of Imperialism”. 15 Forbes. 10 Ibid. The Macmillan Company (Collier book). 16 Seymour Melman. pág.) 27 Gerassi. Foreign Affairs. publicado como Apêndice D. em Foreign Affairs. 11 Newsweek. 150. “What Free Enterprise Means to Latin America”. Our Depleted Society. 18 Para uma boa pequena revisão destas instituições e seus defeitos.S. 26 The Economic Almanac 1964. (Citado daqui por diante como Almanac. págs. 23 de novembro de 1964. 1964. 22 John Gerassi. 355. New York. Companies Are Doing Abroad”. págs. 31 NYT. março de 1966. 17 “What U. pág. 480. 21 Paul Baran e Paul Sweezy.S. TLD Press. presidente da United States Freight Company. 511. 33 NYT. os seguintes artigos de revistas for182 . News & World Report. 30 NYT. no texto. em Melman. 14 Barber. 20 de abril de 1963. 490. “When Executives Turned Revolutionaries”. pág. 24 de janeiro de 1966. New York. 23 Ibid. 29 Philip Siekman. 1965. A citação é do artigo de Déferre. New York. pág. 8 de novembro de 1965. 477. 24 de dezembro de 1964. 28 de outubro de 1965. 8 de março de 1965. 8 de fevereiro de 1966. loc. 276. ver o memorandum “A Bank for Economic Acceleration of Backward Countries”. 31 de março de 1966. 342-352. 8 Wall Street Journal. 11 de outubro de 1965. 24 Baran e Sweezy citam 1962 Annual Report. 34 Além das citações do NYT.Republic. 76-99.

pág. The Last Stage of Imperialism. 1965. Alexander Defense Committee.S. New York. dezembro de 1965. Corporations in South Africa”. Adelphi Papers. págs. Students for a Democratic Society. The Institute for Strateguc Studies. pág. que foi fechado depois do golpe de fevereiro de 1966.J. “The Englehard Touch”. 36 Ibid. 41 Booth e Robson. págs. Booth e Robson. Fortune. Fortune. News & World Report. “South Africa”. pág. 19. 183 . 49 Lee. 211 East 43rd Street.” Exemplares deste número podem ser obtidas do American Committee on Africa. 22 de fevereiro de 1965. 43 U. Anatomy of Apartheid in Southern Africa. London. Veja também New Republic. Lincoln Gordon. abril de 1966. 104. 1 de agosto de 1965.Y. 47 Ibid. New York. “Military Assistance to Independent African States”. — Brazilian Guaranty Pact to Stimulate Private Investment”. Veja também New Republic. Lee é um refugiado político sul-africano.. em Chicago. 51 Ibid. Africa Today. 39 Ibid. International Publishers Co... “Brazil: Some Success. 127-136. Department of State Bulletin. págs. so 50 Ibid.S. U. A pesquisa deste livro. 42 Kwame Nkrumah. 1965-1966. The Institute for Strategic Studies. 52 Lee. pág. 36. dezembro de 1964. abril de 1965. 17. pág. 14.S. London. 1965. 44 Booth e Robson. 122.V.. feita por membros da SDS e o American Committee da África. e podem ser consultados se requeridos. pág. 37 Ibid. Contudo. “Brazil-United States: Partners in Progress”. “Brazil. 10017.S. “U. 27 de março de 1965. sobre o assunto. Business Week. Business Week. 35 Franz Lee. New York. foi seguramente conduzida pelos estudiosos do Ideological Institute em Wineba. 40 Ibid.necem boas informações recentes e antecedentes gerais no caso da Hanna Mining: Fortune.. a melhor fonte singular e mais conveniente é o número de janeiro de 1966 de Africa Today.. 32. “Brazil’s Chief Miner”. Much Work to Do”. International Commerce. “A Special Report on American Involvement in the South African Economy. Este relatório resume pesquisa primária continuada sobre os interesses corporativos americanos na África do Sul. pág. 48 Forbes. 13 de agosto de 1966. pág. 53 The Military Balance. 45 Nkrumah. 22 de novembro de 1965. 12. Neo-Colonialism. “Information on Involvement of U. 13 de agosto de 1966. fria e minuciosa. 1966. Hanna’s Immovable Mountains”.. Hobson. 38 Paul Booth e Christopher Z. 147-149. 46 Ibid. “Brazil’s Battle with Inflation”. M. N. Africa Today. 27-28. Chicago. 18 de abril de 1966. Bell. 1966. 22 de janeiro de 1966. Os dados são acumulados continuamente no Escritório Nacional da SDS. “Harsh Curbs Generate Growing Discontent”. Africa Today.

Sobre Fortas. 34 Lee. 1. págs.. 116-121. “Abe. Gerassi. págs. 77 Economic Affairs. 73 NYT. New York. págs. 56 Gerassi. págs.. pág. 127. “Richter Sweet”. “Bunker Hits the Trail Again”. Seib e Alan I. Blackstock. 60 Gerassi. 28. 505. Agradeço a Michael Locker de SDS por estes dados. 68 Sobre os interesses dominicanos de Bunker e National Sugar. pág. Barron’s.. 75 Ibid. 241. 126. 275. 12 de maio de 1965.pág.. 67 Ibid. 66 Ross e Wise. Otten. págs. 155-166. 63 Almanac. pág. 79 Wall Street Journal. pág. 14. 42. Chicago. 184 . 165. Commodity Year Book (anual) e International Sugar Journal (mensal). 80 Rockfeller. págs. pág. The Invisible Government. cit. 71 NYT. 57 Ibid. Quadrangle Books. ed. 1964. Help — LBJ”. 66. Sobre Harriman e National. 490. pág. 60. 19 de junho de 1966. Berle e Sucrets veja Charles B. “The Philippines”. Orlov. 192. 76 Fortune. 69 A. 27 de setembro de 1965. The Strategy of Subversion.° de junho de 1966.. junho de 1966. pág. novembro de 1965. 70 Nkrumah. 368.. 191. pág.. International Affairs. 64 Gerassi. 27 de Janeiro de 1957. 20. Danna L. 1965. 74 Gerassi. 492. 263. ver Joseph P. loc. Sobre Farland veja o Annual Report de 1965 de South Puerto Rico. 32. 125-126. 8 de abril de 1966. pág. pág. pág.. 72 NYT. 78 Gerassi. pág. 61 Ibid. Who’s Who in America. Standard and Poor’s “Sugar-Basic Survey” e “Sugar-Company Survey” for 1963-1965. 21 de maio de 1966. junho de 1965. 58 Ibid. Sucrest Annual Report. New York Post. Thomas. Bantam. 55 Almanac. 367-372. Paul W. veja Standard and Poor’s Register of Directors and Officers (anual) e qualquer Annual Report recente da National. 62 Ibid. 488. Lash. 65 Ibid. 59 Almanac. pág. Esquire.

quoted in Cook. 18 de setembro de 1966. 126 (93). Md. 5 de março de 1966.S. 47 (52). 58 (41). pág. 1964. 185 . 17 Fall. 21 Stillman and Pfaff. 10 U. 45. pág. 59 (40). pág. New Republic. 13 Almanac. pág. dollars): Alemanha 140 (78). 9 Ibid.S. 15 International Monetary Fund. Itália: 61 (39). New York. 107 (65). 11 New York Herald Tribune. Para uma análise especializada de tais números de comércio. 12 NYT. 20 Ibid. 181. “The U. 18 Shaping. 19 NYT. 8 Ibid. Capítulo VI: O REVOLTADO 1 Gerassi. 2 Fall.S. pág. 1963. 194.. Torture: Cancer of a Democracy. pág. 1966. Japão: 143 (128). 26 de outubro de 1949. veja Alexander Eckstein. 22 Pierre Vidal-Naquet. 40. 18 Direction of World Trade. e 0. McCarthy. Direction of World Trade (mensal). 9 de julho de 1966. “Japan Plays the Field”. março de 1966. The Warfare State. Penguin Books. pág. Cook.2 (5). pág. 200-212. Os números de exportação (e importação) dos U. 470. 23 Ibid. 77 (48). News & World Report.Capítulo V: O CASO DO VIETNÃ 1 Newsweek. e 51 (23). 232 (161). 183. 304. 3 Fortune. 6 Ibid. Baltimore. Communist Chinas Economic Growth and Foreign Trade. 1 de janeiro de 1966. 4 Fred J. 240 (27). 16 de junho de 1966. 11 de julho de 1966.: Supplier of Weapons to the World’’. 288 (204).S. 7 Ibid. Mac Graw-Hill Book Company. The Macmillan Company (Collier book). 5 Eugene J. 14 Alex Campbell. 1119. New York. 194. Saturday Review. págs. pág. para 1933 e 1937-40 são os seguintes (em milhões de U. e 227 (158).

Idaho. 3 NYT. “Response to Aggression” (discurso pronunciado em 26 de março de 1964). 3 Thorstein Vehlen. The Caxton Printers. National Guardian. 9 Garet Garrett. março de 1956.. New York. 4 Max Ways. pág. 8 Tragedy. in Raskin and Fall. págs. “The Transformation of the American Right”. Primavera de 1966. 13 Garret. 10 Murray Rothbard. 5 Beard. New York. Harcourt. 11 Ibid. 186 . 8 William Appleman Williams. 27 de novembro de 1965. “Policy for U. 1965 (publicado pela primeira vez em 1915). Capítulo VII: DUAS QUESTÕES REVISTAS 1 Citado como epígrafe em Charles A. 2 Max Weber. 12 Ibid. McNamara. Caldwell. “Revisionism: A Key to Peace”. The Engineers and the Price System. pág. 8. eds. Beard. Fortune. pág. Radicals”. 1963. Rampart Journal. Politics as a Vocation. “Antitrust in an Era of Radical Change”. The Free Press. 201. 240. 72-73.2 Robert S. 28 de outubro de 1965. 7 Harry Elmer Barnes. Continuum. Economic Origins of Jeffersonian Democracy. 1953. The People’s Pottage (“The Rise of Empire”). Brace & World (Harbinger book).S.

SEGUNDA PARTE Revolução: Herança e Opção Contemporânea RICHARD SHAUL 187 .

188 .

temos os recursos e o poder para criar o tipo de sociedade que desejamos. antes aceitos como inevitáveis. para as novas possibilidades à sua frente. pode também trazer com elas novas formas de dominação social e limitar. e a distância entre o padrão de vida das nações ricas e o das pobres torna-se maior cada ano. ainda mais do que no passa189 . Porém não cria automaticamente uma sociedade que ofereça crescentes oportunidades. podem agora ser superados pelo esforço humano organizado. os avanços tecnológicos serviram para acordar todas as classes e raças. quer para o bem-estar material quer para a libertação humana. pelo mundo afora. criando assim um estado d’alma de esperanças em ascensão. especialmente entre os desprovidos. Por certo muita gente conheceu uma acentuada melhoria em sua situação econômica no curso de algumas décadas. contudo. Males sociais. A tecnologia tende a destruir velhas formas de organização social e causar mudanças constantes em nosso modo de vida. cerca de um quarto de nossa própria população está ainda abaixo da linha de pobreza. Além do mais.I Introdução Progressos recentes em nossa sociedade tecnológica levaram o homem a um novo estágio em sua luta para criar condições mais favoráveis para a vida através da ordenação de sua existência social. Está agora claro que o mesmo desenvolvimento que conduz a melhorias em nossa condição econômica.

e a fim de manter alguma semelhança de ordem. a fim de suprimir descontentamento e revolta. outros têm sido jogados para o conhecimento através dos contatos com os desprovidos em nosso próprio país. não estão dispostos a tomar iniciativa nesta luta. Este problema constitui um dos maiores desafios com que nos defrontamos hoje. no momento. estruturas. 190 . está passando por um processo gradual de despertar. o mais rapidamente possível. nossa participação no processo de tomada de decisões que determina nosso futuro. Esperanças. Além do mais. isto é o resultado da reflexão sobre os mais recentes progressos em nossa sociedade industrial. que serviram como um instrumento efetivo para mudança social no passado. Há alguma possibilidade de que possamos responder a este desafio? Temos pouca evidência. bem como oportunidades crescentes para a libertação humana. uma vez tornadas obsoletas pelos acontecimentos. aquele progresso que torna as velhas estruturas sociais obsoletas também lhes fornece poder quase ilimitado para a autopreservação. e serão atraídos para a resignação ou atos de desespero. não parecem estar numa posição de agir mais assim. não podem ser suprimidas com facilidade. Os que se beneficiam mais do sistema presente. as perspectivas para o futuro serão na verdade sombrias. uma vez surgidas. aqueles que se tornaram cientes do caráter desumanizante de uma tal ordem perderão toda a confiança nas instituições de sua sociedade. tal uso dele é quase inevitável. e que são mais influenciados por sua ideologia secreta.do. de qualquer despertar difundido referente às exigências que nos faz. Aqueles que estão no poder serão tentados a desenvolver sistemas mais efetivos de dominação. Por outro lado. como mudanças fundamentais podem ser levadas a efeito nas estruturas de nossa sociedade. Do contrário. na medida em que o avanço tecnológico é incorporado ao ethos agora dominante em nossa sociedade. tais como organizações de trabalhadores. Para alguns. De fato. Nossa única esperança está em descobrir. E a média de massa oferece possibilidades sem precedentes para manter um estado de espírito de relativa conformidade entre a grande maioria do povo. um significativo número de pessoas. de diferentes idades e classes sociais. e como os recursos da tecnologia podem ser usados para produzir melhoria significativa no lote dos desprovidos. Outros grupos. na medida em que o poder da sociedade tecnológica é grandemente concentrado nas mãos daqueles que mais lucram com a ordem estabelecida. Contudo. mostram-se cada vez mais inadequadas à medida em que o tempo passa.

podemos terminar nos retirando de uma luta que não conseguimos entender. mesmo desta minoria. pode nunca ir além de uma atitude de rebelião e uma precoce conformidade com a ordem estabelecida. Se nossa análise da presente crise está correta. Os novos revolucionários não estão provavelmente mais preocupados com o mundo e o povo que sofre nele do que o estavam suas contrapartes de uma década atrás. não estamos por meio disto pronunciando julgamento sobre um. Para aqueles de nós que pertencem à geração mais velha. Eu me refiro aos novos revolucionários e aos novos movimentos nos quais estão envolvidos. nem afirmando a superioridade moral do outro. Se aqui os distinguimos e os colocamos em contraste com os progressistas de uma geração mais antiga. da parte de uma nova geração. têm sido levados a tomar uma posição revolucionária. com frequência. cujos membros não só entendem o problema e estão convencidos de que mudanças radicais são necessárias urgentemente. eles não podem estar mais ansiosos em mudar a sociedade do que nós temos estado. Mas não devemos esperar demais. Mas eles representam a resposta. Se os acontecimentos agora revelam que nossa perspectiva é inadequada e que nossa estratégia é ineficaz. Os mais progressistas dentre nós têm pensado sobre a sociedade em termos menos radicais e têm trabalhado para a mudança social de maneira mais moderada. mas estão também dispostos a trabalhar por tais mudanças e procurando uma estratégia com a qual conseguir isto. são livres para entender o problema e fazer algo a respeito. Há. não só em casa mas também no Terceiro Mundo. então esta escolha deliberada da revolução pode tornar-se um ponto decisivo na história de nosso país. sei disto.ou com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Pode fornecer uma ocasião para a redescoberta de nossa herança revolucionária americana. E o surgimento de movimentos revolucionários aqui 191 . Em seus esforços para expressar sua preocupação pelo homem e para mudar a sociedade. este despertar é. a uma nova situação histórica. saindo desta mesma matriz de frustração e angústia. e têm gradualmente elaborado as implicações dela para sua compreensão do mundo moderno e a definição de sua responsabilidade nele. Muitos jovens. uma experiência traumatizante. Por mais prometedora que seja a nova consciência entre a juventude. e de sua relevância em relação aos problemas com que agora nos defrontamos. ou nos empenhar em esforços que nunca têm relação com os verdadeiros fins. que ainda não têm posição no sistema e estão insatisfeitos com o mundo à volta deles. Uma nova comunidade está emergindo. um prometedor sinal de um novo dia.

África e América Latina e libertar-nos para participar criadoramente do “século do Terceiro Mundo”. Em todas estas áreas. acredito. não tenho desejo de forçar a realidade contemporânea num estreito e rígido esquema racional. o combate à pobreza ou o movimento pela liberdade da palavra e também descobriram. e de que a única resposta autêntica ao desafio de nosso tempo é a que os revolucionários estão dando. que têm sido formados por sua participação na luta pelos direitos civis ou nos novos movimentos no campus da universidade. é muito difundido. como resultado do envolvimento norte-americano no Vietnã e na República Dominicana. tais como América Latina. hoje.podem quebrar nosso presente impulso para alienação crescente dos povos da Ásia. deste fenômeno. É este fato novo. seria absurdo supor que todas as situações são revolucionárias. em perspectiva e interesse. Gastei também a maior parte de duas décadas na América Latina em íntimo contato com uma situação revolucionária lá existente e fui forçado a chegar a um acordo com ela. eu tive de tentar tirar algum sentido do que está acontecendo no mundo. encontro-me na posição não invejável de estar de cer192 . ficaram envolvidos na luta pelos direitos civis. de minha parte. pode ser encontrado o novo estado de espírito revolucionário. Portanto. Muitos jovens. Estas experiências me levaram a certas conclusões sobre o significado da revolução e a contribuição que aqueles que tomam esta posição podem dar à nossa sociedade neste tempo. a revolução que está em processo nas relações entre as nações ricas e pobres. já descobriram que estão identificados. A fim de viver e agir. Porém. esta escolha de uma posição revolucionária — e suas implicações para a participação americana no século do Terceiro Mundo — que aqui nos interessa. Mas não escondo ter chegado a uma análise desprendida puramente empírica. estudantes e escritores nos países comunistas. com um crescente número de homens e mulheres em muitas partes do mundo e em situações largamente diferentes: estudantes revolucionários nas nações em desenvolvimento. Eu. é somente nos Estados Unidos que nos defrontamos simultaneamente com o impacto pleno das várias revoluções magnas de nosso tempo — quando jovens conduzidos à linha de frente da revolução tecnológico-cibernética. em alguns lugares. Tentaremos examiná-lo sem cair em generalizações indevidas. No tipo de mundo dinâmico e pluralístico no qual vivemos agora. em número de gente incomum em quase todas as esferas de vida na Europa Ocidental. à luz de nossa própria história. por estranho que isto possa parecer de início.

sou agora obrigado a dar prioridade à revolução. Tendo gasto a maior parte de minha vida trabalhando por reforma dentro da ordem estabelecida. feita de uma tal posição ambivalente. E por mais que simpatize com o novo estado de espírito da nova geração. a entender melhor o que estes movimentos representam. que estão confusos e transtornados pelos progressos revolucionários. Tenho tentado transformar esta desvantagem em uma vantagem. não posso esquecer o fato de que pertenço a uma outra. 193 . tomando a tarefa de interpretação e mediação.ta forma preso entre dois mundos. Talvez desta posição estratégica seja possível ajudar alguns daqueles. possa trazer alguma pequena contribuição aos presentes esforços de parte dos novos revolucionários para encontrar uma base sólida para pensamento e ação fecundos. E ousamos esperar que a reflexão sobre revolução.

194 .

tem mais do caráter de uma afirmação de fé. África e América Latina descobriram a inautenticidade de uma forma de vida importada do Ocidente e por ele imposta. com frequência.II A Busca de um Novo Estilo de Vida Um dos focos principais de preocupação. E os povos da Ásia. e de que só se se desenvolver logo um novo estilo de vida o homem moderno será capaz de encontrar significado em sua existência e agir com responsabilidade. Qualquer tentativa de traçar 195 . Há uma crescente certeza de que o contexto em que a vida humana é moldada mudou. O existencialismo desenvolveu seus próprios modelos para a nova humanidade e os russos falam constantemente de “o novo homem soviético”. Tenho consciência de que isto não pode ser demonstrado empiricamente. incapazes de articular mesmo o que é mais central em sua própria existência. em nosso mundo moderno. Muitos daqueles que são mais ativos nestes movimentos estão bastante confusos e são. O aparecimento de “beatniks” e rebeldes em muitas culturas diferentes atesta a seriedade do problema. O ideal do “homem burguês” perdeu muito de sua força. é a busca de um novo estilo de existência humana. O novo revolucionário está numa posição avançada nesta busca devido sua sensibilidade ao que está acontecendo em volta dele e seu envolvimento responsável onde as questões decisivas sobre o futuro do homem estão sendo levantadas.

em profundidade. Muita atenção tem sido dada ao processo de secularização. Nesta situação. O novo revolucionário tem uma elevada consciência disto. o homem tem a liberdade e responsabilidade para determinar seu próprio destino . tal como se desenvolveu no mundo ocidental em séculos recentes. cujas linhas principais são claras: 1. então o futuro está aberto. Seu envolvimento em movimentos revolucionários com rapidez pôs a nu a irrelevância da visão universal metafísica tradicional. e sua transformação. à luz de certos alvos pré-determinados. expressado pela intensidade de preocupação. necessariamente participamos. Não é mais possível adotar o papel indiferente e dissociado do ocidental letrado. Se estes absolutos se evaporaram. pôr a própria vida na linha de combate. tem seu paralelo na experiência de estudantes católicos e protestantes na América Latina. Tal como Marshall McLuhan destaca em seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (Média de Compreensão: As Ampliações do Homem): Numa idade elétrica. Contudo. A mudança que ocorreu nas atitudes dos ativistas do SNCC (Student Non-violent Coordinating Committee). ao mesmo tempo sua participação real na luta revolucionária intensifica seu interesse pelo homem e pelo que lhe acontece dentro de um processo histórico concreto. só é natural que tanta gente. no Mississipi. com a existência dentro da história. e forçou-os a reconhecer que os velhos conceitos abstratos não mais significavam algo para eles. de parte do homem moderno.os elementos principais desta nova posição revolucionária não oferecerá provavelmente uma descrição adequada de nenhum grupo particular. cuja atitude anterior fora de um frio desligamento. agir mesmo quando não se pode estar inteira196 . quando nosso sistema nervoso central é tecnologicamente ampliado para nos envolver na humanidade total e para incorporar a humanidade total em nós. tenha agora um novo senso de compromisso. das consequências de cada uma de nossas ações. é o importante. e que alcançou um clímax.1 Viver responsavelmente significa tomar uma posição. Nação e comunidade fornecem o contexto para a realização humana. minha experiência em situações revolucionárias muito diversas indica que um estilo específico está surgindo. Aqui a experiência do revolucionário é acentuada pela atmosfera que acompanha recentes progressos na tecnologia.

Se a experiência de gerações passadas e as perspectivas humanas mais vastas devem significar algo. tal como são levantados ali. nos novos movimentos revolucionários. Decisões devem ser tomadas de dentro da situação. se ele não é livre para entrar na situação e compreender seus dilemas éticos. Só assim pode o trabalho acadêmico ser uma excitante aventura em vez de uma carga sem significado.mente certo dos resultados da própria ação. É só de dentro da situação. não é suficiente apresentá-las em livros ou cursos universitários. e do tipo de maturidade que repudiará todas as relações paternalísticas tradicionais. estão a caminho da descoberta do autêntico eu. Numa situação dinâmica. e ajuda na tomada de decisões só pode vir dos que estão de alguma forma identificados com ela. ou garantir seu sucesso. Quando uma visão universal metafísica perde sua autoridade sobre nós. que podemos elaborar nossa perspectiva ou levar a cabo reflexões sérias. não deve ficar surpreso se ninguém lhe der atenção. Pensamento criador sobre um problema não pode vir unicamente de sua análise racional abstrata. Aqui um dos desenvolvimentos interessantes. a natureza do esforço intelectual é redefinida. por que deve alguém tomá-lo a sério? Além do mais. com toda probabilidade suas opiniões serão de pouca ajuda. deve ser feita também a tentativa de relacioná-las com o momento presente. na qual a essência concreta da realidade está constantemente mudando. Gente jovem das classes elevadas e média tornou-se cônscia da tremenda carga de sofrimento e injustiça no mundo e da situação desumanizante na qual está presa tanta gente. se movendo para o futuro. Ao longo desta estrada de participação. A procura da verdade é uma questão de encontrar algumas formas de significação na riqueza e variedade de elementos que tornam concreta a realidade. é a revolta contra as estruturas de autoridade e o repúdio a qualquer coisa que cheire a paternalismo. Se ele não está querendo pagar o preço da luta. o passado pode oferecer recursos para nossa orientação. mas não nos pode impor suas soluções. é o resultado quase inevitável do processo que descrevemos. e para alguns o mais perturbador. Esta concentração na existência histórica é a fonte da vigorosa ênfase humanística. todas as formas de autoridade que dependem dela estão abolidas. Conhecer o Negro como um ser humano. é conhecer 197 . Quando gente jovem ou os não privilegiados começam a tomar iniciativas para mudar sua sociedade. Isto não nos devia surpreender. Quando alguém que não compartilha deste envolvimento toma a si proteger de perigos e oferecer conselho.

fornecem o contexto. Portanto. A promessa de bem-estar material é uma coisa. a maneira pela qual a ordem econômica opera é outra. nos anos vindouros. Tomar a sério os novos progressos na revolução tecnológica significa ver as novas possibilidades e ameaças para a vida humana que estão latentes neles. como entre os desprovidos em nosso próprio país. Um sinal pungente deste mal-estar é uma breve passagem de um recente romance russo. Ação é urgentemente necessária e não pode ser postergada indefinidamente. Estabelecer contato com os camponeses na América Latina é ficar chocado por sua existência subumana. Para muitos pertencentes às classes privilegiadas nos países mais avançados. por questões de cálculos prudentes. Entre os povos coloniais do mundo. eles ainda não têm o apoio de grande número. Ser realista não pode significar se limitar ao que agora parece politicamente possível. Muitos daqueles que tomaram a sério sua participação na existência histórica e estão preocupados com o homem e seu futuro têm ficado chocados ao descobrir que a ordem sob a qual vivem é quase intolerável. isto tem significado uma nítida certeza de sua própria exclusão do gozo dos benefícios e experiências que nossa sociedade considera mais importantes. embora não possam enfrentar o fato de sua vacuidade. Contudo.as situações desumanizantes sob as quais ele vive. não só para o desenvolvimento de um novo estilo de vida. têm tido êxito em muitas instâncias em ganhar aqueles jovens que são mais sensíveis à situação humana e que estão preparados para fazer algo sobre isto. as duras realidades do poder político são algo diferente. uma profunda paixão moral é o elemento principal na posição revolucionária. Os mitos sobre uma sociedade democrática são encantadores. falhou em prover a possibilidade de uma vida rica e significativa. Não temos meios de saber se este humanismo continuará a desempenhar um papel central nestes movimentos. e especialmente a geração mais velha. 2. Nem sabemos se nossa cultura pode fornecer os recursos necessários para apoiar tal ação. tão nitidamente necessária no tempo atual. citado no The New York Times Magazine: 198 . Assim. essa insatisfação tem outra dimensão: o sentimento de que a sociedade. mas também para a formação de uma liderança dinâmica. mas empreender o impossível numa atitude de bravura e de confiança. Mas uma das razões porque os novos movimentos revolucionários são tão importantes para nossa sociedade é que eles encarnam esta preocupação.

do que ser um menino toda a vida.“Sua vida. trabalhador científico júnior. “2 O que é impressionante a respeito deste depoimento é que ele é tão intimamente semelhante ao que muitos dos líderes da nova esquerda estudantil. o mesmo protesto contra uma sociedade que. Victor. mestre em artes. um homem morto. as quais não se pode realmente emendar” e o “futuro” e “carreiras” para os quais os estudantes americanos agora se preparam são na maior parte terras devastadas intelectuais e morais”. na qual todas as regras do jogo “tendo sido estabelecidas. em nosso próprio país. estudante graduado. membro da academia. são defrontados por um sistema total — um complexo de atitudes. nas áreas rurais. possuindo tal potencial extraordinário. é sua descoberta de que quando começam a trabalhar por mudança. Nenhuma vez em sua vida você tomou uma decisão realmente importante.3 Expressam a mesma rebelião contra serem tratados como crianças indefinidamente. O que torna a presente situação tão revolucionária. nenhuma vez correu um risco. em qualquer ponto específico. Isto os leva a reconhecer que se defrontam com um sistema feudal-colonial. só em chegando às raízes do problema pode alguma mudança significativa vir a se dar. e então . 199 . relações e alinhamento de poder — que bloqueia as mudanças fundamentais na sociedade. trabalhador científico sênior. foi determinada por papai e mamãe. levando a efeito as decisões de outros.4 A profunda insatisfação com o status quo é. estão dizendo. nós na América somos parte de uma ordem automatizada e esterilizada. Que vá tudo para o inferno! É melhor ser um vagabundo e falhar. nas favelas. doutor em filosofia. respeitado por todos. “simplesmente não é mais excitante”. Os estudantes católicos na América Latina respondem à incrível pobreza das massas pelo início de programas de serviço social. um mundo que a seus olhos as gerações precedentes estropiaram”. apenas suficiente para produzir revolução.. Cedo acordam para o fato de que todos estes esforços são paliativos ineficazes. instituições. pode criar um novo sentido de urgência sobre mudança social e um desejo de caminhar mais rapidamente para soluções.. entre a geração mais jovem. o mesmo sentimento de que o mundo no qual vivem “é uma completa porcaria. ou projetos de alfabetização. A juventude negra. quando você ainda estava no berço. uma estrela no colégio. em si. e de que só uma mudança fundamental na natureza e direção daquele sistema tornará possível solucionar estes problemas. Uma estrela na escola. No máximo. Como Mário Savio o coloca.

Como podemos explicar de outra forma a facilidade com que alguns de nossos líderes políticos mais liberais falam de influência comunista entre aqueles que protestaram contra a aceleração da guerra no Vietnã? Enquanto esta situação continuar a existir.no Sul. Como declarou um estudante de Berkeley. e que é esta ordem que deve ser mudada. que são encorajados a tomar iniciativas para solver seus problemas. se for para o negro ocupar um novo lugar na sociedade. Certos pressupostos básicos. e jovens idealistas sociais serão transformados rapidamente em revolucionários. Em outras palavras. uma vez que racionalizações hábeis são fornecidas para justificar a preservação do status quo. um processo de radicalização para os assim envolvidos. não mais é evidente. E os que tentam fazer alguma coisa. participação em movimentos por mudança social levam muitos jovens a tomar posição revolucionária vis à vis de toda ordem estabelecida. é considerado como constituindo uma ameaça que deve ser neutralizada. Os pobres. Mas. Vêem a íntima identidade de inte200 . os militares e o Departamento de Estado estão de várias maneiras trabalhando juntos para preservar a atual situação. Em muitos lugares. percebe que se levanta contra todo um modo de vida que deve ser mudado. que mantinha certas estruturas abertas. e quando qualquer grupo significativo de estudantes ousa agir assim. a antiga dispersão e equilíbrio de poder. toma parte em várias demonstrações. o que sobressai é a maneira pela qual tudo isto está oculto por ideologias e mitos que tornam impossível para nós ver o que está acontecendo. Quando o faz. admitir a verdade que ele encerra. em si. julga-se. referente à nossa política oficial perante às nações pobres do mundo. mas uma coerente estrutura de classe dominante. no interesse da paz e da justiça. e lutar honestamente com ele. Sob estas circunstâncias. a participação na luta por uma sociedade melhor constituirá. então nossa situação podia não ser tão explosiva. não podem ser desafiados.” Se aqueles que ocupam posições de poder em nossa sociedade estivessem preparados para compreender este fenômeno. o mais rápido possível. com demasiada frequência. e não mais acreditarem nos meios tradicionais de trabalhar para transformação social. nos “slums” do Norte. não podem ignorar por muito tempo que capital e trabalho. não devemos ficar surpreendidos se os novos revolucionários concluírem que a ordem estabelecida é incapaz de levar a efeito as mudanças agora requeridas. compreendem que não encontrarão solução para eles até que ocorram mudanças básicas na ordem econômica. sua experiência deixou exposta “não meramente uma vasta e inepta burocracia.

como indicou Carl Oglesby. o que é ainda mais assustador. Como o coloca Mário Savio. podem oferecer uma oportunidade para trabalhar de dentro por sua renovação. Aquelas que são abertas e flexíveis bastante para se ajustar rapidamente às novas condições. nos Estados Unidos. Em muitas das nações em desenvolvimento. de seu lado. não ocupam mais esta posição. ou desafiá-las de fora. Se queremos servir à causa que elas representam. para preservar o sistema presente.resses das grandes corporações. De uma perspectiva revolucionária. A intensa consciência desta situação só pode ter consequências drásticas na orientação dos jovens e dos desprovidos em nosso próprio país e alhures no mundo. a nova liderança. que tentaria preservar. tradicionalmente concentrado nas mãos de uma minoria muito pequena — para a quase completa exclusão de outras classes — parece agora estar ainda mais forte com o apoio dos alinhamentos econômicos e políticos ocidentais. a tecnologia provê recursos extraordinários que podem ser. nas “cidades interiores”. que se efetua sob o nome de “consenso político”. Novos progressos em tecnologia em nossa sociedade produziram uma situação na qual o cidadão médio ou trabalhador é crescentemente excluído de participação significativa no processo de tomada de decisões dentro daquelas instituições que determinam seu destino. 201 . estudantes universitários indagam se eles podem estar confiantes na sociedade dentro da qual nasceram. o poder político. há a possibilidade da Pax RussoAmericana. Dentro da ordem atual. na universidade. podemos servir melhor o futuro permitindo-lhes morrer. no momento em que mudanças fundamentais são desesperadamente necessárias. para uma quase completa quebra de confiança nas instituições da sociedade à qual pertencem. Só aquelas cuja sobrevivência e renovação desejamos. os povos coloniais não se sentem atraídos pelo modo de vida ocidental. trabalho e governo. mais ou menos. Ao mesmo tempo. Os jovens negros não mais estão interessados em imitar os brancos. as presentes relações entre nações ricas e pobres. e estão sendo usados. aquelas forças novas que podem dar a maior contribuição para mudança social descobrem que têm sido efetivamente excluídas do exercício do poder político: os estudantes. os pobres. então devemos ser chamados a fazer um esforço conjugado para subvertê-las de dentro. nas nações em desenvolvimento. pode simplesmente não valer o esforço. E. Conduz. instituições que antes eram objeto de lealdade indiscutida. e os pobres nas cidades não se querem tornar classe média. Do contrário. Trabalhar da mesma maneira pela transformação daquelas que são mais rígidas.

Para o revolucionário. de Port Huron. e muitos de nossos intelectuais mais destacados refletem um estado d’alma de cinismo e desespero. mais a disposição constante de arriscar tudo. Neste sentido. ou pelo menos evitar a comunidade adulta. contudo. e assim por diante.3.5 esta tradição representa a coincidência da idéia de liberdade e da experiência de um novo começo. a vontade de agir num tal sentido que nos possibilite construir uma nova sociedade. É uma tentativa de libertar o homem e construir uma nova ordem — a novus ordo saeclorum — por meio de iniciativa humana ousada. O novo revolucionário está muito mais cônscio das falhas da natureza humana e da força do mal na sociedade. o que é exigido é criatividade e imaginação. daquilo que tem sido mais central na tradição revolucionária ocidental. Na Declaração dos Estudantes em prol de uma Sociedade Democrática. E o rompimento de todas as velhas estruturas de autoridade força-nos para a liberdade em determinar a forma de futuro.” 202 . Neste contexto. A coisa mais surpreendente é que isto ocorreu no exato momento em que todas as utopias foram postas a nu e todas as visões de uma nova ordem desmascaradas. Nossos mitos dominantes são aqueles de alienação. Muitos jovens que foram levados a esta conclusão adotam agora uma atitude de derrota ou rebelião. em nosso tempo. e o único meio de agir inteligente e responsavelmente é repudiar estreitos cálculos racionais sobre que coisas podem e não podem ser feitas. Deixar a política ser determinada pelo que parece possível significa limitar nossas possibilidades e tornar a luta política mesquinha e desinteressante. Mas também é confrontado com o fato de que a tecnologia moderna deu ao homem os recursos de que precisa para criar o tipo de sociedade que deseja. Presentemente. enquanto nossa geração é infectada por programa sem visão. se for vista como uma volta a um tipo antigo de otimismo superficial e liberalismo. a Utopia se torna uma força explosiva. ou não. as consequências desta posição ineficaz são reconhecidas e repudiadas: “Tem sido dito que nossos predecessores liberais e socialistas eram infectados por visão sem programa. Admirável Mundo Novo. não de esperança — 1984. não pode evitar vêlos. ou põem grande ênfase no cálculo realista do possível como a única base para ação. A questão é se temos. tentam encontrar algum meio de escapar de um mundo impossível. ele é a expressão autêntica. em seu livro On Revolution. Esta preocupação com uma nova ordem não pode ser entendida. esta situação é a ocasião para dar forma a uma nova visão de uma nova ordem social. Tal como é descrito por Hannah Arendt.

E. e deve. no poder público. sem consequências desastrosas. e nos empenharmos no tipo de experimentação que iluminará o caminho para o futuro. Um destes é a crescente convicção de que a sociedade pode. Hannah Arendt encara isto como a ênfase principal que emergiu espontaneamente nas revoluções do Ocidente. para criar novos modelos para a direção da vida econômica pela sociedade.”6 O reconhecimento deste fato é hoje quase universal. determinando os objetivos do desenvolvimento econômico. estão agora começando a ver que são parte de uma história na 203 . Ao invés de perder ainda mais tempo no debate banal e estéril entre capitalismo e socialismo. e de que ninguém pode ser chamado quer de feliz quer de livre sem participar e ter uma parte. ao contrário de atenção às necessidades mais básicas do homem e da sociedade. ela destaca que foi sua convicção de que ninguém pode ser chamado de feliz sem sua parte na felicidade pública. mas no sentido mais básico do próprio conceito: controle da ordem econômica pela própria sociedade. de que ninguém pode ser chamado de livre sem sua experiência na liberdade pública. devemos fazer face ao desafio de hoje. e especialmente no processo de tomada de decisões pelo qual seu futuro será determinado. não em termos da adoção da filosofia marxista. a construção de uma nova ordem envolve um certo grau de socialismo. não obstante. grupos e raças que estiveram marginalizados no passado. Está agora claro que o domínio econômico não é uma misteriosa ordem da natureza a que podemos deixar seguir seu próprio caminho. Um segundo elemento na visão revolucionária da nova sociedade está indicado pela ênfase posta na participação de todos os grupos e classes na vida da comunidade e da nação. o diagrama de uma nova sociedade está gradualmente tomando forma. e os meios pelos quais estes podem ser melhor alcançados. Por conseguinte. assumir responsabilidade pela ordenação de sua vida econômica. Classes. é simplesmente uma daquelas estruturas que uma comunidade pode usar para os fins que determina. a pobreza material que ainda existe é um mal que não mais precisamos tolerar. na qual certos elementos específicos já podem ser distinguidos. Em sua análise do ponto de vista revolucionário de Jefferson. Certamente está condicionada pelo caráter específico de cada luta revolucionária.Esta visão revolucionária de uma nova sociedade pode estar ainda um tanto enevoada. Com os recursos agora à nossa disposição. A devastação do sistema de livre empresa — mesmo com as restrições que agora lhe são feitas — e sua orientação para a produção pelo lucro. uma. representam luxos que não podemos permitir. por muito mais tempo.

gradualmente entendem que só podem ter uma vida plena de significação se se tornarem participantes desta história. Estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem internacional. Novos problemas pedem novas soluções. que tomam consciência 204 . numerosas pessoas do Ocidente. dentro das instituições nas quais vivem suas vidas: as estruturas políticas das comunidades locais e da nação. as limitações de muitas das nossas assim chamadas instituições democráticas têm sido reveladas. e a fábrica ou o escritório no qual trabalham. A nova sociedade democrática deve ser uma na qual jovens e estudantes. Muita gente pode ser muito feliz sem esta oportunidade. Terceiro. Quando acordam para esta realidade. e nenhuma organização será capaz de oferecer um perfeito equilíbrio entre as exigências de ordem e eficiência e tal participação. Nossos recursos econômicos são tais que podemos encorajar e ajudar novos modelos de desenvolvimento nas nações menos avançadas.qual alguma coisa tem estado. Nas nações mais jovens estão surgindo líderes que foram treinados na tecnologia do Ocidente e estão livres para trabalhar por soluções autênticas para seus problemas nacionais. e que os programas de assistência que desenvolvemos tanto não são bastantes. e de que sua situação só pode ser alterada se tomarem parte na luta para mudá-la. e está. tanto como naqueles mais avançados. a paz e a estabilidade internacionais serão impossíveis. Nos países em desenvolvimento. acontecendo agora. o novo revolucionário está chegando gradualmente a compreender que uma mudança básica precisa ocorrer na relação entre nações ricas e nações pobres. tanto os desprovidos como os cidadãos comuns. Porém não estão inclinados a aceitar a posição periférica a que seus países foram condenados durante o período colonial. e imaginação e criatividade humanas podem progredir muito por meio da abertura de novas possibilidades de participação nestas esferas. Nossas tentativas de obter um ajuste entre nosso auto-interêsse nacional (como entendido agora) e o interesse das nações em desenvolvimento são altamente ideológicas. e a situação dos povos pobres do mundo se tornará mais desesperada cada ano. agora. possam ter uma parte no uso do poder público. Porém nossas estruturas atuais são deploravelmente inadequadas. e experimentar novas formas de relações-econômicas e políticas — com eles. e completamente eivadas de mitos e ilusões. Sobre estas bases. Pode ver que quase todas nossas atitudes e opiniões formadas estão viciadas pelo paternalismo. Nesta luta estão se juntando a eles.

Novas idéias sobre sociedade devem ser acompanhadas por nova politica. A tecnologia moderna tornou possível e necessária uma nova ordem internacional e criou uma situação de desassossego. disto advém uma intensificação da autoconsciência humana. pode também repudiar o materialismo da sociedade burguesa. Podemos não saber quais devem ser estas regras. O novo revolucionário percebe corretamente que nossa experiência histórica não esgotou todas as possibilidades que existem para a organização da sociedade. Mas uma coisa está clara: Construir uma nova sociedade requer um “novo começo”. Ele despreza nossa complacência e nos desafia a forjar novos modelos e a responder ao impacto do futuro. o revolucionário está buscando uma nova forma de existência pessoal para si próprio e para outros. mas para os lutadores pelos direitos civis no Mississipi. esperança e interdependência que podem ser satisfeitos somente se uma tal ordem tomar forma.de que natureza têm sido nossas relações econômicas e políticas com os povos coloniais. Não é de surpreender que ambos. Uma nova geração pede uma visão de existência pessoal que vá além de ambos estes sistemas. Devemos desenvolver novas idéias e perspectivas de vida e sociedade pelo cultivo da imaginação criadora. esta conclusão representa um choque. criam também condições nunca antes imaginadas para a liberdade. ao mesmo tempo. Cria uma situação dentro da qual muitos dos que estão trabalhando pelos mesmos objetivos que os revolucionários acham 205 . capitalismo e comunismo. Tudo isto não quer significar que ninguém tenha uma clara imagem do futuro. O pensamento social de muitos de nós tem sido tão frequentemente estéril porque nos permitimos ser encaixados por uma lógica de nossa própria fabricação. um novo jogo exige novas regras. está por completo claro que as velhas regras não são mais suficientes. ou para os que tentam provocar mudanças fundamentais na sociedade urbana. Isto conduz ao paradoxo de que o revolucionário. a existência pessoal plena envolve muito mais do que a satisfação destas necessidades. tenham perdido sua atração. que se entrega à luta por melhor condição econômica do pobre. o relacionamento humano e a auto-realização. Permanecemos presos por pressuposições que não mais são válidas. Basicamente. Tanto para o liberal como para o conservador. O reino da história tornou-se o centro de sua preocupação. e somos lentos em encontrar alternativas para formas institucionais obsoletas. Está dentro de nossas forças satisfazer as necessidades materiais básicas de cada um. Tecnologia e burocracia constituem uma tremenda ameaça para o homem.

No fim das contas. podemos esperar ter uma sociedade estável e mais humana. Sair fora do Establishment e atacá-lo de cabeça também ajudará muito pouco. Só se forem orientadas mais para o futuro do que para o passado. e quase impossível participar com eles da mesma luta. um novo movimento trabalhista. Só uma mudança fundamental nesta estrutura pode abrir o caminho para uma aproximação plena dos alvos revolucionários. tem também certeza de que o status quo está em aguda contradição com ela e representa uma ordem integrada com o grande poder. sabedoria e persistência dela requeridas. Tentar desenvolver novas instituições para substituir aquelas agora existentes em cada área importante da sociedade — um novo sistema religioso ou universitário. que foram mais radicais durante seus anos de juventude. As lutas revolucionárias de hoje podem ser um fator importante no provocar uma tal mudança. Mas a alternativa lógica para esta estratégia parece ainda menos promissora. Foi cativado pela visão de uma sociedade diferente. Apesar dos recursos pessoais exigidos para este esforço. O novo revolucionário está convencido de que isto não produzirá resultados bastante rápidos. e se tiverem construído dentro delas a maquinaria de constante auto-renovação. Não podem compreender que profundas mudanças nas décadas recentes podem exigir um rompimento ainda mais decisivo com os antigos métodos de ação. Mesmo se uma tal empresa tivesse êxito. Aqui ele enfrenta um sério dilema.difícil comunicar-se com eles. de acordo com as regras estabelecidas. mas não há caminho óbvio pelo qual tal mudança possa ser feita. o revolucionário se encontra preso de uma tensão quase insuportável. não há garantia de que fosse produzir instituições menos rígidas ou mais abertas para o futuro do que aquelas que agora existem. Devido a natureza de sua visão e compromisso. uma solução satisfatória deste problema depende de uma transformação básica na estrutura de nossas instituições. enquanto outros. novos partidos políticos — seria uma tarefa impossível. Uma geração precedente de reformadores trabalhou pela renovação da sociedade servindo às estruturas dadas. a menos que o revolucionário tenha uma estratégia claramente definida com a qual possa esperar produzir mudanças significativas. abandonaram a luta e se concentraram em sua vida e carreiras 206 . Uns poucos se espantam de que tantos jovens tomem uma atitude de rebelião. se esta geração de revolucionários tiver a coragem. não é ele passível de êxito. Aqueles que vivem segundo as velhas regras rapidamente esquecem que sua maneira de agir já foi uma ofensa à geração que os precedeu.

que seriam quase impossíveis dentro do Partido Democrático. Neste estágio do desenvolvimento de uma sociedade tecnológica. Muitos exemplos da eficiência desta maneira de agir podem ser mencionados. pode transformar uma grande organização. quase espontaneamente. que tornam possível avançar para novas frentes sempre que bloqueado. quer baseados dentro ou fora de uma instituição. Uma das razões para o surpreendente sucesso de alguns aspectos do movimento pelos direitos civis é que ele tende a irromper em tempos e lugares onde é menos esperado. flexibilidade e liberdade de operação. Isto pode ser alcançado por uma variedade de técnicas: a concentração de esforço em objetivos limitados. Instituições que. sob certas circunstâncias. Por meio de muitos ataques limitados a vários pontos. a guerra de guerrilhas mostrou-se. com uma certa dose de autonomia e liberdade. por um curto período.pessoais. efetiva. em parte devido sua origem. a manutenção de iniciativa e o elemento de surpresa. para serviço mais efetivo. cuja importância temos sido vagarosos para entender. Um pequeno grupo. são incapazes de agir de novas maneiras podem apoiar movimentos que têm a liberdade de agir assim. O que é necessário é reflexão mais sistemática sobre a significação destes acontecimentos. seu equivalente político pode oferecer um instrumento valioso para provocar mudanças em nossas instituições magnas. e uma compreensão mais 207 . Em face do poder militar maciço de uma ordem estabelecida. O Freedom Democratic Party pode ser capaz de provocar mudanças na ordem política do Mississipi. Porém a estratégia da guerra de guerrilhas precisa não ser restringida à sua expressão militar. como um todo. A participação do pobre e desprovido nos projetos de renovação urbana podem ter consequências imprevistas na vida e política da cidade. e deslocar-se para novas fronteiras onde quer que seja detido em algum ponto particular. Movimentos revolucionários neste país desenvolveram. enquanto que a renovação de uma instituição no centro da sociedade pode afetar outras relacionadas com ela. uma variedade de táticas de guerrilha que se mostraram mais ou menos eficientes. e a tentativa de provocar aquelas mudanças relativamente pequenas que colocarão em movimento um processo muito mais amplo. um pequeno grupo de pessoas pode ser capaz de livrar grandes instituições. Aqui o foco consiste na formação de pequenos grupos e movimentos que. forcem-na a acelerar sua própria renovação. A moderna experiência revolucionária desenvolveu outra estratégia.

trabalhando de fora dela. e que representa um tipo de pensamento e ação que se coloca em agudo contraste com nossos antigos caminhos de reforma. completa subserviência a ela. com profunda suspeita. Mas ele não irá embora. nem há nenhuma virtude particular em manter a própria independência. bem como a situação específica em que vivem.clara dos melhores meios para tirar vantagem do potencial aqui utilizável para mudança social. dentro deste arcabouço. No tempo atual. contribuir para a renovação da instituição que está sendo servida. Aqueles que estão acostumados com uma forma mais tradicional de lealdade institucional provavelmente olharão para a estratégia que sugerimos. Em alguns casos. o essencial. A questão é. e viver como “exilados” dentro da sociedade à qual pertencem. contudo. isto pode ser alcançado melhor de dentro. Servir no arcabouço de uma instituição particular não pede. como. Fazem frente a difíceis problemas humanos e devem descobrir como agir com responsabilidade em relação a eles. um processo dinâmico pode ser posto em movimento. à questão da relação daqueles a trabalhar por mudança radical com as instituições da ordem estabelecida. Assim devem ser capazes de correr os riscos de estar “nas” mas não ser “das” estruturas. possam ser mudadas. em outros. Porém para aqueles comprometidos com a revolução. em cada situação particular. a escolha de revolução é o único caminho para existência autêntica e responsável. ao contrário. em nosso mundo de hoje. podemos descobrir eventualmente que. e não temos outra escolha senão tentar entendê-lo e lidar com ele. Suas próprias preocupações e atitudes. O que tentamos indicar aqui é que. Voltaremos a esta questão mais tarde. Hoje. têm sido moldadas por uma herança cultural e espiritual particular. desta maneira. De fato. um expressivo número de pessoas está deliberadamente escolhendo um estilo de vida revolucionário. as formas pelas quais essa herança é expressa estão tão identificadas com a velha ordem que o revolucionário encontra pouco 208 . necessariamente. ela pode ser uma base para a esperança de que poderosas instituições interdependentes. é preservar um certo grau de identidade de grupo. para aqueles que adotaram uma posição revolucionária. Para muitos outros. Para muitos é este um desenvolvimento desastroso que ameaça toda nossa estrutura social. processo que provocará transformações mais fundamentais do que as que ocorreram como resultado de formas anteriores de revolução. de uma sociedade tecnológica. Maior atenção devia ser dada. Os que dão este passo enfrentam uma tarefa muito diferente.

et al — falharam por completo nisso. que agora aparece como um câncer virulento ameaçando nos destruir? Ou representa a floração natural de certos ideais e esperanças que estão no coração daquela tradição? 209 . a questão da relação entre a posição revolucionária e nossa herança cultural ocidental. família. deve merecer nossa atenção.ou nenhum significado nela. igreja. Quando não é este o caso. Se desejamos nos entender e viver responsavelmente nesta nova era. aquelas instituições que podem desempenhar esta tarefa mediadora — escola. É este espírito de revolta um tumor externo. refletem com frequência a mesma incerteza e confusão que a geração mais jovem conhece tão bem. E o que é ainda mais sério. Em certos casos parecem existir a fim de preservar as velhas formas.

210 .

III Revolução Social e Tecnologia: o Paradoxo de Nossa Herança
O novo revolucionário surgiu no momento do avanço mais extraordinário em tecnologia. Assim temos dois protótipos do novo homem que está surgindo em nosso tempo: o revolucionário e o tecnocrata. Eles contemplam o mundo moderno de perspectivas muito diferentes e representam dois estilos de vida claramente contrastantes; e ambos são produtos de nossa história ocidental. Não existiram sempre lado a lado em nossa civilização, nem suas posições são de igual força. Qualquer que tenha sido o papel da revolução, em nossa história anterior, nas décadas recentes a tecnologia dominou a cena. Nossas reações a ela têm sido variadas. Para muitos cientistas, bem como para os tecnocratas, a tecnologia oferece possibilidades quase ilimitadas para um novo e brilhante futuro. Nas mentes de outros, evocou visões apocalípticas de “1984” e do “Admirável Mundo Novo”. Nos últimos anos, contudo, chegou uma nova geração que não está contente em observar e lamentar estas perspectivas para o futuro. Decidiu desafiar diretamente a ideologia oculta do sistema, enfrentá-la de peito aberto numa luta revolucionária. E isto está acontecendo precisamente nos Estados Unidos, onde a tecnologia é mais avançada e onde a ideologia de uma sociedade tecnocrática penetrou tanto nosso pensamento
211

que é quase tomada como certa. Até aqui a luta é muito desigual. É difícil imaginar um contraste mais agudo do que aquele entre o Secretário de Defesa e os estudantes que queimam seus cartões de alistamento ou organizam demonstrações de protesto contra a política dos Estados Unidos no Vietnã. O Sr. Mc Namara é a própria imagem da autoconfiança. Está convencido da correção de sua causa, é o senhor de uma vasta soma de informações, e tem à sua disposição poder quase ilimitado. Os estudantes, de outro lado, são na aparência muito fracos, todos muito cônscios das limitações de seu conhecimento, perplexos e confusos em face das forças irracionais que não podem esperar entender ou controlar. Agora que esta fenda em nossa alma foi exposta, só seremos capazes de viver com nós mesmos, como indivíduos e como uma nação, se encontrarmos algum meio de lidar com ela honesta e abertamente. Agir assim significa basicamente chegar a um acordo com nossa própria história; isto é, com as forças saídas de nosso próprio passado que nos fizeram o que somos. É este um projeto a longo prazo, que só pode ser levado a efeito se aqueles que se encontram envolvidos existencialmente nesta situação estiverem munidos de recursos adequados para tal reflexão. É, primariamente, uma tarefa para o intelectual e para a universidade, uma tarefa que, em grande parte, ainda permanece para ser feita. A maior parte de nós, no entretempo, deve chegar a certa espécie de conclusões preliminares que nos permitirão dar sentido à nossa própria situação, e nos preparar para agir responsavelmente nela. Nas minhas próprias tentativas para fazer isto, fui grandemente influenciado por um sábio holandês, Arendt van Leeuwen, cujo recente livro, Cristianismo na História Mundial,1 produziu grande impacto em alguns círculos. Ele argumenta que algo único aconteceu na história ocidental, que preparou o caminho tanto para a tecnologia como para a revolução, e que uma melhor compreensão desta história nos libertaria para relacionar criadoramente estas forças entre si e encontrar um caminho para fora de nosso impasse atual. Como um estudioso de culturas e religiões antigas, chegou à conclusão de que elas eram todas dominadas, em larga escala, por uma compreensão “ontocrática” da vida e realidade. Com isto ele quer significar que elas concebiam todos os aspectos da realidade — natureza e sociedade, o temporal e o eterno, o divino e o humano — como partes de uma ordem cósmica total. Neste arcabouço, a natureza, bem como todos os aspectos principais da existência histórica do homem, eram essencialmente identificados com o divino, e portanto
212

sagrados. Rei e pai, a ordem política e social, possuíam uma autoridade absoluta com a qual não se podia interferir. Sob estas condições, a vida era estável e segura; era também relativamente estática. As estruturas sociais eram rígidas e o passado dominava o presente e o futuro. Na experiência antiga do povo de Israel, contudo, algo aconteceu que desafiava todo este ponto de vista, e que abria o caminho para um enfoque diferente da realidade. Quando tentaram tirar um sentido do que lhes estava acontecendo na vida de cada dia, cresceu entre eles a convicção de que estavam constantemente se opondo a um Poder que era ativo em seu meio. Não podiam evitar a conclusão de que esta realidade era pessoal em caráter, e de que Ele os estava chamando para realizar uma missão particular dentro da história. Da intensidade desta experiência, chegaram gradualmente a outras conclusões, de consequências profundas. O interesse da religião foi mudado do reino eterno para o temporal, e focalizado mais para a existência social e histórica do que para a experiência interior do indivíduo. A relação deste poder soberano para com a ordem temporal só podia ser concebida como a de um Criador para com Sua criatura, e assim tanto a natureza como a sociedade perderam seu caráter sagrado. Como este Deus continuou a ser ativo na história, Ele se ergueu contra toda ordem estabelecida e destruiu todas as pretensões de legisladores e de instituições sociais. Esta nova atitude não alcançou uma vitória fácil nos círculos judeus ou, mais tarde, nos cristãos. O Velho Testamento narra a história de uma luta longa e amarga, de parte dos profetas, contra as tentativas repetidas para reverter aos velhos caminhos. Muito mais tarde, o Domínio Cristão medieval representou um esforço extraordinário para estabelecer um compromisso entre as perspectivas teocrática e ontocrática. Não obstante, quando esta revolução hebraica se expandiu e penetrou a cultura européia ocidental, foram criadas condições que contribuíram para o surgimento da ciência e da tecnologia. O reino da natureza, bem como a ordem social, eram vistos como realidades temporais que o homem era livre para estudar e entender. Podia subjugar a natureza para servi-lo e moldar instituições sociais de acordo com os objetivos que ele determinava. Dois outros elementos na tradição judeo-cristã desempenharam importantes papéis no desenvolvimento de nosso mundo moderno. Um destes é a corrente oculta messiânica que surgiu muitas vezes através dos séculos. Sua origem é encontrada na primitiva experiência israelita do Êxodo e Terra Prometida. A partir dela concluíram que o seu Deus condu213

zia-os para um novo dia, no qual encontrariam novas oportunidades para a realização humana dentro de uma nova ordem social. Assim o domínio da visão cíclica da história foi rompido, e os homens eram livres para olhar em direção ao futuro esperançosamente, como o lugar onde novas coisas podiam acontecer a qualquer momento. Intimamente associada a isto estava a convicção israelita de sua vocação como um “povo escolhido”. Esta nova ordem não viria espontaneamente. Seria o resultado de um esforço disciplinado, feito com o apoio de um povo notável, a quem sua missão histórica tinha sido assegurada. E por causa deste fato, a nação eleita só seria capaz de viver consigo própria e encontrar significação em sua existência histórica quando ela fosse fiel a esta vocação. Em nossa perspectiva norte-americana mais comum sobre a vida e o mundo, uma síntese um tanto espantosa destes três motivos ocorreu, na qual a tecnologia não só é central mas tem sido completada pela ajuda de uma poderosa ideologia. Nossa maneira pragmática e funcional de lidar com a realidade tem sido envolvida por uma crença no poder da tecnologia para criar possibilidades quase ilimitadas para o melhoramento da vida humana, e pela convicção de que a América foi “escolhida” para a missão de levar estes benefícios ao resto do mundo. Não estamos interessados aqui em discutir a importância relativa desta herança judeo-cristã na formação de nossa sociedade, como mais decisiva do que outras forças culturais. E certamente não defenderíamos esta presente síntese como uma expressão fiel dessa herança. Estamos somente tentando destacar o fato de que estes elementos foram importantes na moldagem de nossa autocompreensão e de que devem ser examinadas com muito mais cuidado, se desejarmos responder produtivamente aos problemas com que agora nos defrontamos. Doutra sorte, concentraremos nossa atenção no pragmático e tecnológico, embora ignorando o contexto no qual surgiram e se desenvolveram. E permitiremos a nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico prosseguir dentro de uma estrutura altamente ideológica, que é mais perigosa por não estarmos bem cônscios dela. Se somos livres, no entanto, para refletir sobre estes elementos centrais em nossa própria história, descobriremos logo que nenhum de tais raciocínios ingênuos redunda em dificuldade séria. Pelo menos, isto foi o que aconteceu entre os israelitas. A mesma experiência de ser um povo escolhido, que tornou possível, para muitos, não só justificar o status quo, mas também sentir-se orgulhoso dele, produziu alguns caracteres muito perturbadores. Para estes homens, a libertação de velhas au214

toridades, a preocupação com a emancipação humana, e um sentido de destino levou-os a olhar criticamente sua própria sociedade e a se tornar muito insatisfeitos com ela. Viram que, quando foi rompido o poder da forma ontocrática, os homens ficaram livres não só para criar uma nova ordem; podiam também usar esta liberdade para satisfazer seu próprio individualismo e ambições coletivas, de uma maneira que não era possível numa sociedade mais controlada. Tornaram-se conscientes de que o messianismo pode, facilmente, ser pervertido para servir a outros objetivos que não a emancipação do homem, e que, se um povo escolhido é necessário para a transformação do mundo, ele pode facilmente se tornar um obstáculo a ela. Por mais desagradáveis que fossem estas conclusões, foram decisivamente fortalecidas pelos acontecimentos históricos. Se Israel tinha sido tirada da escravidão no Egito para a Terra Prometida para o bem “da restauração das nações”, na aparência algo andara errado. A nova era que eles haviam esperado inaugurar não apareceu; e o povo escolhido encontrou-se envolvido em conflito social e guerra contínua, que terminaram, afinal, em aniquilação política. Porém da profunda crise de autocompreensão que isto produziu, emergiu a visão profética. Para estes homens, a soberania de Deus implicava não só em liberdade mas também em julgamento. Quando estruturas criadas para servir ao homem tornam-se rígidas e impedem o caminho da realização humana, devem ser demolidas. Só no seu colapso e através dele pode ser construída uma nova ordem. Quando um povo escolhido, mesmo após sua chegada à Terra Prometida, é desobediente, será dispersado — para redescobrir seu destino na Diáspora. Em outras palavras, os profetas tornaram-se os primeiros revolucionários. E o que ainda é mais importante para nossa discussão aqui, a mesma atitude para com a realidade que, ao tomar forma entre o povo de Israel, abriu caminho para o desenvolvimento eventual da ciência e tecnologia, também preparou o caminho para a revolução. Não importa quão tenazmente tentemos ignorar este segundo elemento, não podemos esperar ter êxito, pois ele é uma fonte integral do complexo de idéias e atitudes, preocupações e esperanças, que nos fazem o que somos. Aqueles aspectos da herança judeo-cristã que mencionamos foram incorporados em nossa cultura ocidental, desenvolvidos e reformulados por ela. Como resultado, tecnologia e revolução não só existem uma ao lado da outra, mas agem uma sobre a outra, num estado constante de tensão dinâmica. Sempre que a tecnologia se permite ser dominada por um messianismo herético, surge um revolucionário para
215

Em simultaneidade com isto. é a revolução social que cria o tipo de sociedade aberta. De outro lado. Num interessante capítulo de “O Ocidente Revolucionário”. em seu lugar. e. não nas sociedades ontocráticas do Oriente. E se o mito secularizado do povo eleito fornece àqueles no poder um sentido de destino. foram gradualmente minados 216 . A destruição da ordem ontocrática que torna a tecnologia possível — e que também é impulsionada para a frente pela tecnologia — leva os homens a discutir a autoridade de todas as estruturas. a maior floração da tecnologia ocorreu. temos aqueles progressos associados com tecnologia. o Professor van Leeuwen traça seu desenvolvimento. Objetiva a subversão de toda a velha ordem a fim de construir uma nova que criará novas oportunidades para a emancipação e bem-estar humanos. A mesma oculta corrente messiânica que produz em alguns uma paixão por uma sociedade tecnocrática pode levar outros a denunciar e desafiar seus elementos desumanizantes. De um lado. no período antigo e medieval da história ocidental. que tornou a revolução possível. numa relação de apoio e tensão mútua. foi produzida pela tecnologia. atingindo novas classes. e os deixa livres para mudá-las. também torna possível para aqueles empenhados em construir uma nova ordem lutar com uma convicção similar de vocação. Porém podemos afirmar sem perigo que nenhuma seria o que é agora sem a outra. estabelecem uma ênfase sobre funcionalidade e racionalidade na ordem de uma esfera da vida após outra. o império e o sistema feudal. sua marcha triunfal através do mundo todo. Ele argumenta que os dois maiores símbolos de uma sociedade ontocrática. instituições e povos. Revolução é a força que despedaça as velhas ideologias que se colocam no caminho do avanço tecnológico. Este processo também parece desdobrar-se em círculos cada vez mais amplos. nos tempos modernos. mas naqueles países em que o espírito revolucionário produziu um impacto profundo. em tensão mútua.desmascará-la precisamente naqueles pontos em que a tecnologia causou o maior impacto. mas. desde o tempo do Império Romano ao presente. De fato. que gradualmente minam todas as estruturas de autoridade e todas as velhas bases de estabilidade. Um dos temas centrais na história ocidental é o gradual funcionamento e universalização daqueles dois processos. Tecnologia e revolução podem representar perspectivas contrastantes. na qual o avanço tecnológico pode prosseguir e mais contribuir para o bem-estar humano. O impulso original para a dessacralização de um mundo ontocrático pode ter vindo de uma mensagem judeo-cristã. a luta revolucionária prossegue.

e que desejavam controlar sua própria vida política e concentrar sua atenção no desenvolvimento racional do comércio e da indústria. O processo de secularização pôs abaixo todas as velhas estruturas de autoridade e abriu todas as áreas da vida. e abrindo caminho para surgir o novo. os cidadãos da nação afirmaram sua soberania. Com o passar do tempo. Além do mais. insistiram que o povo deve ter garantido o direito de exercer certos direitos inalienáveis. mas também o proletariado externo do mundo ocidental as vastas populações da Ásia. explodindo as pretensões à divindade de parte de velhas autoridades e instituições. que inclui não só os desprovidos e classes marginalizadas em nossas sociedades. a luta por estes objetivos conduziu à revolução. O grupo de idéias acima referidas agiam “como uma carga de dinamite”. A esperança de libertação e realização. Disto vieram novas idéias e instituições que revolucionaram o Ocidente. Na Inglaterra. e distribuir os recursos econômicos e o poder político como quiser. o espírito revolucionário tornou-se universal. apareceram cidades novas e independentes. transformou a revolução em algo total. Estão certos de que uma tal vida é possível. atingiu agora todos os povos. Ao mesmo tempo. América do Norte e França. Está em seu poder moldar a sociedade de acordo com sua vontade. bem como sua vocação para fazer de sua nação um instrumento de libertação universal. Na ordem política. o desenvolvimento do Ocidente e seu impacto sobre o resto do mundo atingiu um clímax. a luta por emancipação e racionalidade expressou-se na esfera econômica através do desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial. a revolução ocidental avançou mais um passo. a tecnologia. e estão descobrindo gradualmente que devem tomar a iniciativa na luta para alcançá-la. Novas nações-estados se levantaram para desafiar a desfalecente autoridade do Sacro Império Romano e dar uma oportunidade aos principais grupos étnicos da Europa para organizar sua vida da mesma maneira. Com isto. cujos cidadãos eram emancipados do domínio da velha ordem. de modo que elas possam ser racionalmente dirigidas pelo homem. A tecnologia forneceu os meios pelos quais o homem pode criar o futuro que deseja. de bem-estar econômico e uma oportunidade para participar no uso do poder público. A fim de realizar esta vocação. No tempo atual. Temos portanto à nossa frente possibilidades quase ilimitadas para 217 .por forças trabalhando internamente. África e América Latina. Seu ponto central é agora a emancipação do proletariado. pela destruição de todas as estruturas autocráticas e pela criação de uma situação de interdependência de todas as áreas da vida e de todas as partes do mundo. Ao final do período medieval.

as perspectivas não são brilhantes. e para criar conflito. nosso progresso tecnológico está intimamente relacionado com o fato de a revolução ter tido um lugar tão central em nossa história. maior cuidado pela transformação de nossas estruturas econômicas e políticas. conduzindo a revolução que ele impôs ao resto do mundo? Por certo. Nossa existência como uma nação e nossas instituições políticas básicas foram moldadas numa luta revolucionária que constituiu uma tão grande ameaça à ordem estabelecida daquele tempo quanto as novas revoluções representam para o nosso. não podemos esperar resolver o atual impasse ou evitar o desastre final. A despeito de todas as mudanças que se efetuaram em nosso mundo. e quer continuar a desempenhar um papel decisivo na luta humana tal como é definida agora. Metternich. no presente. Mas dificilmente temos começado a imaginar o que seria exigido de nós se acatarmos seriamente seu pedido de uma nova relação econômica conosco e de um novo papel nos negócios internacionais. Muitos dos primeiros colonos foram produto do movimento puritano na Inglaterra. de nós. ao final da era colonial. chamado a construir uma nova ordem e a ser agente de emancipação universal. nosso poder é maior. com o aparecimento de novas nações independentes na Ásia e África. Porém será o Ocidente capaz de aceitar as consequências de sua própria história. a tarefa parece ainda mais aflitiva. compreendeu isto quando declarou: 218 . Devido o fato de a tecnologia ter avançado em tão grande escala em nossa sociedade. Não é difícil para aqueles de nós que são norte-americanos tomar consciência de que a escolha está colocada para nós de modo mais agudo. Falando historicamente. bem-estar e renovação urbana. pois isto requereria apoio benevolente daqueles que optaram pela revolução. como um povo eleito. Aceitamos o fim da era colonial num sentido político. o Ocidente ainda detém tremendo poder econômico. e arrojadas iniciativas novas em educação. o estadista austríaco do século XIX.provocar mudança social e transformar a vida de um lado. e as nações que estão ansiosas por acelerar seu próprio desenvolvimento dependem de um modo ou de outro. político e militar. Até que descubramos como inverter a tendência pela qual cada ano aumenta a distância entre as nações ricas e as pobres. Não só adotaram uma atitude revolucionária em relação à sociedade. caos e desintegração social. e fazer sua parte. de outro. mas vieram para a América como que predestinados. Em relação ao mundo em desenvolvimento.

aparecemos ao povo. No passado fomos capazes de responder a novos desafios devido a existência de uma vanguarda liberal em nosso meio. nos países em desenvolvimento. expressou este fracasso de nossos líderes liberais e sua reação a ele. o que seria de nossas instituições religiosas e políticas. nestes termos: Seus temas têm o propósito de ser diferentes. Enquanto nossa presente situação se torna mais revolucionária.. as causas apaixonantes do homem nada mais são do que perigosas bebedeiras psíquicas. do Iluminismo ao século vinte. onde quer que se mostrem. ideais têm pouco lugar na política — devemos. que nos ajudou a interpretar acontecimentos e forneceu uma base de poder político para mudança. mas sempre surgem as mesmas impressões: O homem é inerentemente incapaz de construir uma boa sociedade. que é tão evidente entre os jovens progressistas em nosso próprio país. e esta ideologia agora nos cega para acontecimentos em volta de nós. que produzirão o máximo que é realmente possível. Tom Hayden. Consequentemente. . Permitimos que nossa compreensão de tecnologia fosse dominada por uma ideologia herética de messianismo.Estes Estados Unidos da América deixaram atônita a Europa com um novo ato de revolta. em vez disso.. as ideologias liberais parecem menos capazes de enfrentar o desafio. traçar programas efetivos.. se não impossível. contudo. e não menos perigoso do que o anterior.. um dos líderes da nova esquerda estudantil... Aqui se encontra uma das maiores razões para a crise de confiança em nossa sociedade. 219 . nas nações em desenvolvimento. responsáveis. Achamos difícil. tão cheio de audácia. como o símbolo de anti-revolução. mais espontâneo. Quando a situação se torna mais revolucionária. compreender a dinâmica contemporânea de revolução — em casa ou fora — e por conseguinte somos incapazes de responder a seu desafio. falsos liberais estão sofrendo o fracasso de seus sonhos juvenis. da força moral de nossos governos e do sistema conservador que salvou a Europa da dissolução completa?2 Mas algo andou errado. lamentar por aquelas que falharam.. Encorajar as revoluções. e que está no âmago do pessimismo em relação à nossa liderança no mundo de hoje. somos considerados em parte responsáveis pelas frustrações que sentem quando são incapazes para mudar as estruturas de sua sociedade. estender mão amiga àquelas que parecem prosperar dá nova força aos apóstolos da sedição. Se esta maré de exemplo pernicioso viesse a se estender por toda a América. e reanima a coragem de cada conspirador. estão eviscerando a grande tradição otimista do liberalismo. Vocês.

220 . afinal. algo a contribuir para o seu êxito.3 Contra este fundo.estão justificando o desinteresse pela moralidade. hoje. Mas. Eles nos oferecem uma nova oportunidade para entender o desafio contemporâneo com que deparamos. A questão verdadeira é se. específica. a batalha pelo futuro do homem se focaliza às vezes nas fronteiras da revolução. discordância. Quando isso acontece. Cada luta revolucionária traz tanto a possibilidade de uma ordem mais humana como de novas ameaças de desumanização. temos. que aqui apresentamos. na perspectiva baseada na história ocidental. afronta e. estão eliminando emoção. o desenvolvimento espontâneo de novos movimentos revolucionários. A nova ordem para a qual o revolucionário está se encaminhando não pode ser identificada com nenhuma estrutura política ou social. pelo contrário. pode bem ser um dos acontecimentos mais significativos neste estágio de nossa história nacional. a fonte perene da própria vida. Esta ênfase na importância da revolução neste momento histórico particular não implica em que toda a ação revolucionária seja boa e tudo o mais mau. e responder a ele criadoramente. não devemos perder nosso tempo tentando decidir se apoiaremos ou não a revolução. sim. bem como para serem incorporados mais uma vez em nossa própria revolução e para explicar nossa vocação no mundo em relação a ele.

à solução de magnos problemas sociais e criará possibilidades de uma vida melhor para um crescente número de pessoas. bem como sua aplicação. Tomando conhecimento de minha tese de que era necessária uma nova liderança radical para a construção de uma nova sociedade na América Latina. O que é importante. E seus esforços são apoiados por uma ideologia que torna possível para ele pensar que a aplicação continuada da tecnologia conduzirá. Por estas medidas. Com isto virá a industrialização e a criação de uma forte classe média. capaz de tal liderança. não só romper com esta ideologia. insistiu em que eu estava preocupado com a questão errada. é fornecer força nuclear em grande quantidade para a produção de eletricidade nos países subdesenvolvidos.IV Ideologia e Teologia O tecnocrata moderno não precisa estar indevidamente perplexo com os acontecimentos em nossa sociedade. o problema será resolvido. nem com a natureza de sua própria responsabilidade. mas 221 . Isto me foi exposto recentemente. na Universidade de Michigan. Aqueles que escolhem a senda da revolução não terão tal facilidade. por um jovem cientista atômico. disse. numa sociedade relativamente estável. Precisam ter uma compreensão do que está acontecendo hoje e que tornará possível para eles. com nitidez. Está comprometido com o uso do método científico para a expansão constante de conhecimento sobre a natureza e a sociedade.

mas também chegar a conclusões definidas sobre o futuro bem como sobre os melhores meios de avançar em sua direção. que era baseada nos pressupostos de que a realidade era fundamentalmente racional e de que o homem. com frequência. não só era possível formular uma opinião geral do homem e da sociedade. Raciocinamos logicamente que. ser-lhes-á necessário pensar sobre velhos problemas de novas maneiras. pragmática e empírica. em todo o mundo. mas também na transformação da sociedade. especialmente para o revolucionário. contudo. não só em conhecimento. Hoje. e formular novas perguntas. Se quiserem chegar a alguma parte. Não mais estamos certos de que a realidade é racional. os mais seguros desta responsabilidade não vêem modo claro de realizá-la. Por séculos. mesmo ali. e ficar contentes com o que oferece para a ordenação de nossa sociedade. podia desvendar seus mistérios. Esta é uma tarefa formidável.também desenvolver uma perspectiva de opção. Dentro desta estrutura. nossa ação na sociedade foi orientada por uma visão-universal filosófica geral. Afirmando que a ideologia não é mais necessária. caiu vítima de um ethos ideológi222 . por novas maneiras de abordar a realidade histórica. Mais do que isso. gradualmente. também deixa muito a desejar. contudo. Isto é mais ainda complicado pelo fato de que. estamos agora certos de que a qualidade concreta da realidade social nunca se ajustará por completo a tais esquemas abstratos. indicam claramente que as velhas fórmulas perderam muito de sua força e que estão sendo substituidas. Devem estar preparados para definir seus objetivos. Desta maneira. sugerir como estes objetivos podem ser atingidos e prover uma base razoável para a esperança de que tal transformação social é possível. porém útil. e de que a marcha acelerada da mudança social os torna obsoletos na época em que são formulados. Novos movimentos nos círculos intelectuais marxistas. Hoje. esta abordagem tem sérias limitações. e temos ainda menos confiança na habilidade da razão humana para alcançar uma síntese fidedigna dela. todas estas perspectivas metafísicas perderam sua atração para nós. se é impossível para nós encontrar respostas para questões básicas ou ter uma visão-universal integrada total. pelo uso da razão. a situação está mudando. Esta atitude serviu para livrar homens de velhos modos de pensar e tem aberto o caminho para avanços. Nossa abordagem norte-americana do problema. então o que deve nos interessar é o estudo empírico de esferas restritas ou fragmentos de realidade. podemos chegar a conhecimento limitado. O marxismo ortodoxo representa o último grande esforço para organizar a sociedade segundo esta visão-universal total.

para terminar subordinando nossas preocupações científicas a uma visão restrita de auto-interêsse individual e nacional. aqueles que se sentem orgulhosos de sua pesquisa científica nãoideológica permitam a si próprios ser utilizados pelo governo ou pela CIA para propósitos ideológicos muito definidos. nossa sociedade produzirá “especialistas sem espírito ou visão e pessoas voluptuosas sem coração”. pelo artista e filósofo. limita as indagações que fazemos. na qual as promessas humanas ficam irrealizadas. Tecnologia e ciência tornam -se ferramentas com que conflitos são manobrados e gente jovem é mantida sob custódia até que esteja sem paixão. Quando isto acontece. muito provavelmente. resta só um pequeno passo até o ponto em que. na Ciência Social e Política Social”. E. No último caso. encoberta por uma espécie de sentido convulsivo de auto-importância”. Weber prediz que virá um tempo em que isto será absolutamente essencial. o povo cessa de esperar qualquer coisa além do mal necessário”. e aceitar as intuições fornecidas por nossa experiência histórica. como Tom Hayden o colocou. e pode fechar nossos olhos para a série de possibilidades latentes numa situação. os sonhos morrem. Em sua Sociologia da Religião declara que só duas alternativas ainda estão abertas para a sociedade ocidental: uma renovação espiritual — provocada por profetas inteiramente novos ou por uma poderosa renascença de velhas idéias e ideais — ou “petrificação mecanizada. e estamos. esta distorção ideológica de nossa perspectiva é inevitável. A análise de Max Weber das consequências desta abordagem diz respeito a nós. Escreve: 223 . e para onde vamos. Quando nossa investigação científica da ordem social não está relacionada com uma tentativa para entender quem somos como seres humanos. e ao mesmo tempo fazer o uso máximo dela. o moralista e o teólogo? No parágrafo de conclusão de seu ensaio sobre “Objetividade.co oculto que restringe nossas áreas de interesse. a fim de entender nossa experiência social? Podemos ser agnósticos sobre a natureza básica da realidade social e ainda ser livres para fazer tudo dentro de nossas forças para mudá-la? Podemos descobrir um meio de pensar sobre nossa existência social e nossas probabilidades para o futuro que combine ser o mais completamente aberto para a complexidade e a qualidade concreta de uma situação sempre mutante. uma sociedade manobrada “é uma paralisada. observada empiricamente. Há alguma saída para este impasse? É possível para nós reconhecer as limitações da razão.

oferece a possibilidade de explicar algo do significado latente na história que está para ser feita. dentro do contexto de sua mais ampla experiência histórica e humana. considerará a análise dos dados como um fim em si mesmo. Mas vem um momento em que a atmosfera muda. ou grupo de valores básicos. Pois ideologia é o produto do pensamento sobre a qualidade concreta da vida do homem no mundo. A luz dos grandes problemas culturais circula. Mas não possuímos sistema filosófico. também. Representa uma tentativa de examinar progressos sociais particulares. Porque a ideologia fornece uma oportunidade para tal autocompreensão — por parte de indivíduo. Não possuímos muita experiência deste tipo de esforço intelectual. Pensamento ideológico dá ênfase ao envolvimento numa situação particular como uma condição essencial para chegar a uma intuição verdadeira. O tipo de análise e entendimento que agora necessitamos só pode ser fornecido por ideologia. da qual as massas podem também participar e contribuir para um processo gradual de despertar social e reflexão. torna-se satisfeito com suas conclusões primeiras. numa idade de especialização. bem como do futuro. e acaba repetindo clichês irrelevantes. a fim de definir objetivos e trabalhar por mudança. Segue aquelas estrelas que sozinhas são capazes de dar significação e direção e seus trabalhos . e podemos não estar desejosos de aceitar a disciplina que exige. uma busca de compreensão. Está bem que seja assim. mas logo se cansa do esforço.1 Hoje. à luz do passado. Cessará de avaliar a importância dos fatos individuais em termos de suas relações com valôres-idéias básicos. ao mesmo tempo que serve como um fator dinâmico na luta social. A significação dos pontos-de-vista usados irrefletidamente torna-se incerta e o caminho se perde no crepúsculo. Tais progressos ideológicos positivos não ocorrerão espontaneamente. para mudar seu ponto-de-vista e seu aparelho analítico e para investigar as correntes de acontecimentos das culminâncias do pensamento. As 224 . Então a ciência se prepara. Um movimento revolucionário pode começar com reflexão criadora sobre os eventos de que participa. que sejam capazes de fazer isto. é o resultado de uma empresa coletiva. uma vez que seja orientada para um assunto dado através de colocações particulares de problemas e tenha estabelecido seus princípios metodológicos.Toda pesquisa nas ciências culturais. grupo e nação — pode ajudar a manter aqueles ameaçados de mudança. perderá sua consciência de seu enraizamento básico nos valôres-idéias em geral. Na verdade. precisamos demais de tais “culminâncias do pensamento” e “estrelas” para dar significação e direção a nossos trabalhos.

com sua ênfase no desenvolvimento. Num recente ensaio “O Sacerdote e o Brincalhão”. Este fato tem estado no fundo de tudo que tem sido escrito até aqui. Um exame mais profundo de nossa história ocidental pareceria indicar que certos elementos na tradição judeo-cristã nos impulsionam para outra direção. É amplamente reconhecido que nossa perspectiva ocidental da história. Como o leitor está bem certo. Quando isto acontece. que nada pode ser realizado tentando ocultá-las. A questão que nos pode preocupar é se aqueles dedicados ao estudo empírico de nossa sociedade. só podemos confessar o que um estudante asiático descreveu recentemente como a “profunda humilhação” do cristão no meio da revolução moderna.exigências de uma luta revolucionária pode tentar seus líderes a tornar absoluta sua própria posição. E ainda mais. Leszek Kolakowski. a ideologia faz parte do tipo de compreensão social que constituiu sua razão original para existir. que muitos revolucionários modernos sentiram-se compelidos a se tornar ateus. especialmente quando não há alternativa clara. estarão abertos a — e têm à sua disposição — todas as análises e experiências que podem oferecer indícios para a compreensão do homem e sua história. bem como aqueles dedicados à tarefa de sua renovação. A posição conservadora da igreja e a irrelevância de muita teologia são tão evidentes. progresso e mudança social. Foi deste conceito que se desenvolveu meu envolvimento na revolução. Na era em que estamos vivendo. Ernst 225 . está intimamente relacionada com esta corrente teológica subterrânea. a igreja e seu pensamento têm sido tão identificados com a velha ordem. agora tratarei dele mais explicitamente. e transtornam a estabilidade interior do pensamento e vida cristãos de tempos em tempos. a natureza da realização humana. O fato de existirem estes perigos não é razão suficiente para abandonar o esforço. mostra como todas as questões básicas sobre o homem e a sociedade que agora requerem nossa atenção são reformulações de questões teológicas. isto não é toda a história. e as prospectivas futuras para a empresa humana. De fato.2 um jovem filósofo polonês. minha abordagem do problema é feita da perspectiva da teologia. E o importante filósofo marxista. ou nos lançamos corajosamente à tarefa de produzir as melhores ideologias que podemos ou ficaremos escravizados pelo ethos ideológico inconsciente que nos cerca. bem como minhas tentativas para refletir sobre sua significação. Estou bem certo de que a maior parte das pessoas não está inclinada a seguir esta direção para a orientação da revolução.

A teologia tenta examinar nossa experiência histórica à luz de uma história particular — a do povo de Israel. organização e disciplina modernas para a revolução social. Isto implica em que a fé cristã atribui uma significação especial a certos eventos do passado. no movimento puritano. The Revolution of the Saints. E isto está muito perto do que diz respeito a uma ideologia de revolução. Mas podem ajudar -nos a perceber algo que podia. um jovem professor de política na Universidade de Princeton. não provam que a teologia tenha alguma contribuição a fazer na presente situação. do status quo político. Esta posição revolucionária foi a expressão autêntica de sua teologia. e romper com a estrutura metafísica na qual a velha ordem estava estabelecida. Isto. ver através de pretensões de instituições sociais e políticas. VII). as primeiras ideologia. Uma destas revoluções é cuidadosamente analisada e apreciada num fascinante livro. minou “toda autoridade terrena” e impulsionou “a desvalorização radical do mundo convencional. Estes exemplos históricos. bem como às revoluções que encontraram sua inspiração primária no Cristianismo. 100). deu uma grande dose de atenção aos elementos proféticos e apocalípticos na Bíblia.Bloch. segundo Walzer. e refletir sobre as possibilidades abertas para a realização humana à luz da humanidade de um homem — Jesus de Nazaré — e daqueles mais diretamente influenciados por ele. de outro modo. Com isto não 226 . possuem o caráter de uma “revelação”. legal e intelectual” (pág. Ele é o destruidor de uma velha ordem da qual não há necessidade de se sentir nostálgico” (p.. que todas as aspirações utópicas dos grandes movimentos de libertação humana se derivam do Êxodo e das partes messiânicas da Bíblia”. Disto surgiram. é claro. A tônica calvinista sobre a soberania de Deus em toda vida e história deixou o puritano livre para tornar relativas todas as lealdades menos importantes..3 por Michael Walzer. o que permanece é uma perspectiva da história e das possibilidades para a realização da vida humana. Chega a declarar que “mesmo os cristãos sabem. continuar desconhecido: Quando afastamos aquelas camadas de metafísica e religiosidade por trás das quais a fé cristã está com tanta frequência escondida. Walzer chegou à conclusão inesperada de que ele representou “a mais antiga forma de radicalismo político”: “O Santo calvinista me parece agora o primeiro daqueles agentes autodisciplinados de reconstrução social e política que apareceram tão frequentemente na história moderna. que está radicalmente orientada em direção ao futuro. Propondo -se examinar o Puritanismo como um movimento político.

e que deve ser objeto de constante reexame e revisão. Portanto. nem que a crença em sua significação deva conduzir a pretensões de superioridade deste dogma ou religião. Só seremos capazes de conduzir um diálogo significativo.queremos dizer que uma experiência passada foi tornada absoluta. do nosso presente estado para a nova humanidade. Quando olhamos para a realidade contemporânea partindo desta perspectiva. O que pode fazer é nos fornecer um meio de considerar sobre as questões concretas que enfrentamos ao elaborar uma ideologia de revolução que possamos usar aberta e livremente. que tal reflexão sobre o passado oferece. Estes são instrumentos mais adequados para comunicar a variedade e riqueza de existência histórica dinâmica. se possuirmos alguns princípios de interpretação. e para apreender as reais possibilidades abertas para o futuro. mas nos colocam também ante um difícil problema. no meio da qual o homem é repetidamente surpreendido por novas possibilidades de significação e realização — na vida individual e coletiva. muitos elementos surgem que me parecem particularmente relevantes para nossas reflexões 227 . está um movimento do primeiro para o segundo Adão. para entender o que está acontecendo agora. de interpretar o que está acontecendo no mundo. será indicada pela possibilidade. Qualquer tentativa semelhante. Se esta perspectiva é válida. Isto sugere que a existência histórica é uma luta contínua em prol da libertação. No centro do Velho Testamento está a peregrinação do povo de Israel do Êxodo e escravidão à Terra Prometida e liberdade. No Novo. O trato com problemas sociais à luz desta perspectiva não precisa nos levar a defender nossa própria teologia ou insistir que todos adotem nossa visão total. pode dificilmente ser expressa num sistema teológico abstrato. Se há alguma verdade na reivindicação cristã. A idéia básica de revelação é a de “remover o véu” por trás do qual a realidade está oculta. imagens e parábolas. alguma formulação conceptual da significação principal daquela experiência em relação à nossa própria. então proporcionará apreciações sobre o dilema humano e possibilidades que podem ser aceitas por aqueles que não partilham as mesmas pressuposições. entre uma experiência histórica prévia e a presente situação. reconhecendo que nenhum princípio semelhante será inteiramente adequado. experiências específicas e sua interpretação. A própria Bíblia nos fornece uma vasta variedade de conceitos e símbolos. a despeito da tendência dos teólogos para fazer exatamente isso. precisamos correr o risco de desenvolver um princípio hermenêutico.

Messianismo e Poder na Formação da História Para os que estão procurando alguma perspectiva na história como uma base para sua reflexão sobre revolução. Porém é por demais esquemático e rígido. e sem um esquema total de fatos para garantir os resultados de seus esforços. e termina por ser essencialmente determinista. em certo grau. Mesmo uma leitura superficial destes estudos. é sensível à grande complexidade de cada situação histórica. por segurança. e. que nos interessam ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações.presentes sobre revolução. Expressou a convicção de que alguma coisa de positivo estava acontecendo no processo histórico. Mas não vê possibilidade de significação no processo histórico. revela que a perspectiva judeo-cristã sobre história desempenhou um papel importante em nossa autocompreensão ocidental e é ainda. tornou possível assumir uma atitude de confiança em face de acontecimentos espantosos e complexos. Pode agir de um modo que. para sua interpretação histórica. Como foi sugerido antes. e afirma a liberdade do homem. um fator nas tentativas contemporâneas para responder nossas questões mais prementes. Um certo número de filósofos e historiadores — Toynbee. e de que erros podem ser corrigidos. O existencialismo também luta com o problema. e fornece fortes bases racionais. Jaspers. Neste contexto. Dentro das limitações que a filosofia moderna se impôs. e não proporciona base sólida para esperança quer no presente quer no futuro. A ação pode ser empreendida na certeza de que nova apreciação virá ao longo do caminho. a atitude cristã para com a realidade abriu o caminho para o desenvolvimento de uma perspectiva incomum da história. ele espera. é possível ser realista sobre a natureza humana e sobre qualquer situação 228 . Fala da configuração do futuro com confiança. Implicou em que o homem pode adquirir alguma compreensão do que está sucedendo em volta dele e portanto trabalhar por maior inteligibilidade sem necessitar recair numa visão-universal total. Bloch. Butterfield — trabalharam neste problema e nos apresentam uma variedade de perspectivas. O marxismo tem uma resposta clara. deposita confiança demais na racionalidade da história. não há muito espaço para lidar com esta questão. por conseguinte. afirma que a história está inevitavelmente caminhando para uma maior humanização. contribuirá para o bemestar do homem sem aguardar até que toda evidência se mostre. os quadros imediatos não são encorajadores. no entanto.

sempre achavam o meio. Em vez de estarem contentes com um papel limitado. funcional. não havia meio de saber ao certo quando e onde ele viria. uma tal idéia ingênua estava sempre sendo desmentida pelos acontecimentos. O problema era elas estarem sempre escapando ao controle. para usar as palavras de alguns dos escritores bíblicos. Naquele momento. porque mantinham a sociedade unida e preveniam o caos. os esforços para chegar à idade messiânica e estabelecer uma nova ordem constantemente acabavam em perturbação. Por mais que o povo judeu quisesse acreditar que o favor de Deus significaria crescentes segurança e prosperidade nacionais. o rei messiânico surgiria depois de a Casa de Davi ter sido destruída. e os recursos da lei. A esperança messiânica. estado e igreja juntaram forças. a luta contra estas forças intensificou-se. Na perspectiva messiânica. Na escala política estes termos se referiam àquelas estruturas da sociedade que eram essenciais para a existência humana. Principados e potestades. piedade e religião se combinaram para se livrar de alguém aceito por muitos como o Messias. de remover alguém que se tornou uma ameaça à ordem estabelecida. mas de forçá-las a aceitar seu devido lugar como serviçais em vez de senhores. Portanto. é uma luta que se está dirigindo para seu objetivo. aparentemente simples. não foi idêntica à nossa doutrina liberal de progresso.particular. e todavia não tombar vítima de desespero. Sua vida inteira como nação estava orientada para a vinda do Messias. Porém se a esperançosa espera do Messias era o elemento central da fé. faziam reivindicações imperiosas para elas e pretendiam dar significação básica à vida. e nem método seguro para garantir seu aparecimento final. No âmago desta perspectiva está o que melhor pode ser descrito como messianismo completo. 229 . Isto significava quebrar seu poder e autoridade fundamentais sobre o homem. Esta tarefa. ele era o novo rebento que brotaria de um tronco morto. De fato. um soberano cujo aparecimento podia significar o estabelecimento de uma nova ordem no mundo. A tremenda seriedade desta luta está caracterizada na crucificação de Jesus. Não era uma questão de romper com elas. a história não é meramente uma luta constante pela libertação humana. produziu resultados inesperados. no entanto. aparecem novas possibilidades para a vida humana na história. Quando a ação messiânica se tornou mais claramente definida e intensa. chegou à conclusão de que a história estava indo para algum lugar.4 Quando o povo de Israel refletiu sobre o significado de sua experiência. após todas as possibilidades humanas terem sido esgotadas.

uma vitória arrasadora pode. O que aqui temos. qualquer grupo que represente uma preocupação messiânica e que queira mudar a ordem social no interesse da emancipação humana é algo como um aborrecimento. Estão empenhados num esforço de avaliar corretamente os poderes como imagens dos interesses de grupos diversos na sociedade. Jesus é visto como tendo “se descartado dos poderes e autoridades cósmicos como uma vestimenta”. devemos focalizar nossa atenção naqueles pontos onde movimentos messiânicos estão em ascensão e desafiando as estruturas de poder da sociedade. Não é esta a maneira pela qual políticos e estadistas usualmente olham para o mundo à sua volta. que isto ocasionou. os poderes eram desmascarados e vencidos. Dentro deste arcabouço. mesmo represen230 . e a piedade de sua seita mais devota. os poderes aqui postos a nu e vencidos não são as piores instituições da sociedade.5 E o que é ainda mais surpreendente. que uma tal visão da história era a mais realista e fornecia a melhor oportunidade para entender o que traria o futuro. equilibrá-los e usá-los para objetivos específicos. em essência. a longo termo. o que os primeiros cristãos estavam dizendo. impediu-lhes o caminho. pode ser constatada desta maneira: Se quisermos entender o que realmente está acontecendo na história. Também se convenceram de que. mas as melhores: o Império Romano como imagem de lei e ordem. nesta luta. A agudeza e maneira vívida da descrição que o Novo Testamento faz disto é extraordinária. transformar-se em derrota. O fato notável sobre tal afirmação é que foi feita em um tempo em que parecia completamente claro para todos os demais que os poderes tinham obtido sucesso e que o movimento messiânico fora destruído por completo. A revolução no pensamento. a religião do povo eleito de Deus. Perturba os cálculos prudentes de políticos e pode facilmente ser considerado subversivo. é a matriz da qual uma visão revolucionária de história pode emergir finalmente. então. ou estimar corretamente o impacto do futuro sobre ele.Aqueles que haviam se colocado ao lado do Messias concluíram que esta luta entre os poderes e o Messias lhes fornecia um indício do que estava acontecendo na história. No contexto da teologia cristã a crença de que Deus estava agindo desta maneira significou que a realidade histórica funcionou nestes termos. enquanto fraqueza e derrota podem ser o caminho para a vitória final. De fato. Portanto. Ele “fez deles um espetáculo público” (Colossianos 2:15) — expulsou-os do cargo. era que aparências são enganadoras. e ainda representa. os fariseus. que possam contribuir para o bem-estar social. Especialmente onde está envolvido poder. em qualquer momento particular.

e igualmente importante a longo prazo.tantes mais progressistas do Establishment não são de modo algum capazes de entender porque tais grupos estão em volta ou o que fazer com eles. quando estudantes neste país vão ao Mississipi trabalhar lá com os negros. Qualquer política nacional estreitamente definida nestes termos também acaba por alienar aqueles grupos. urgente e necessária. trabalha contra nosso próprio interesse. Por mais decisivo que o auto-interêsse seja. No contexto do messianismo. Em uma sociedade na qual estes movimentos de libertação humana são uma força dinâmica e o povo é confrontado com um claro testemunho da relação estranha e paradoxal entre força e fraqueza. Porém também podemos aceitar a possibilidade de poucas coisas serem mais importantes para estadistas e políticos que querem agir de modo realista do que levar este humanismo messiânico em conta. não é todo o quadro. a reação é. Podemos responder diferentemente a um novo desafio quando é levado a nós através de contatos sem precedentes com o mundo subdesenvolvido e pela constante confrontação com as pequenas comunidades messiânicas em nosso meio. nenhum país ou comunidade pode ser entendido meramente em termos de seu passado. ou ministros presbiterianos tomam a iniciativa em organização comunitária nos guetos urbanos nortistas. dentro das estruturas de poder da sociedade. Mais importante é o fato de não estarmos obrigados a agir do mesmo modo que agimos até agora. é sempre útil olhar para nosso passado e tentar descobrir ali aqueles elementos que nos dão certa segurança de que podemos entender e tratar com uma tal realidade. Podemos. novas 231 . na moldagem da política de comunidade e nação. cuja preocupação por emancipação humana torna sua participação. similar. é o fato de comunidade e nação existirem. Quando jovens de ricas famílias aristocráticas no Brasil abraçam a causa de empobrecidos camponeses. Se estamos interessados em saber quais são as possibilidades de a América responder produtivamente ao desafio de revolução mundial. e lidar com ele numa perspectiva que lhe possa dar sentido. que deixe de tomar seriamente estas correntes de messianismo. continuar a agir politicamente dentro de um arcabouço de compreensão que exclui esta dimensão. dentro do país. Em oposição a ele. num mundo no qual as acomodações de auto-interêsses são continuamente perturbadas por pressões externas e protestos internos. qualquer definição de nosso auto-interêsse nacional. é claro. Num mundo em que nações pobres estão fervendo em revolução por causa de sua pobreza e sua exclusão dos centros de vida internacional. com frequência.

a inadequação espiritual e as consequências desumanizantes fundamentais do legalismo e da devoção de seu tempo. Uma sociedade segregada pode manter toda espécie de mitos sobre si mesma por longo tempo. não é mais dominado pelos velhos moldes de relação que aceitara como certos. políticas e sociais do status quo têm tremendo poder. numa sociedade segregada. estes poderes são desmascarados. Como este processo continua. Mas têm também uma tendência para se mostrar mais poderosas do que realmente são. E quando esta sociedade acha necessário confiar em ódio. de súbito. o estudante universitário aprende a discutir suas anteriores atitudes em relação à autoridade. aqueles que vêem necessidade urgente de mudança perdem gradualmente sua confiança na velha ordem e se recusam a aceitar sua autoridade sobre eles. Torna-se evidente que se excederam em seu mandato e que por esta razão estão em chão instável. quando adolescentes negros estão querendo arriscar violência e prisão para protestar contra ela.000 soldados e a apoiar uma elite militar que atira em trabalhadores e estudantes indefesos. vê que não precisa estar amarrado por todo o ethos do sistema 232 . e fazer exigências que são injustificadas. o camponês brasileiro. podem manter esta ilusão. As estruturas econômicas. O negro. sem questionar. Hoje algo similar acontece quando aparecem movimentos messiânicos. A vida e ensinamentos de Jesus puseram a nu a bancarrota moral. Porém. quando movimentos de emancipação humana surgem. num pequeno país do Caribe. Podemos aceitar. estes mitos são cortados pela base. começam a enxergar através dos clichês vazios usados para defender uma tal política. violência e assassínio para se proteger de tais ameaças. a precariedade de sua situação se torna evidente. e de nada adianta subestimá-las.— até o momento em que significativo número de estudantes católicos abandona tudo para organizar ligas camponesas. entre o que dizem oferecer e o que realmente fazem para a vida humana. e para estimar as perspectivas de mudança revolucionária. Então. a política de nosso governo na América Latina e seu apoio ali aos regimes mais reacionários. algumas pessoas pelo menos. Enquanto permanecem indesafiadas. Quando uma revolução relativamente sob controle.possibilidades se revelam para compreender o que está acontecendo na história. não está longe de começarmos a ter dúvidas sobre a estabilidade e poder da ordem atual. porém. que visam à forma real do humano. Os poderes não podem mais esconder a diferença entre suas pretensões e o que realmente são. nos leva a mandar 12. ou decide que não há outro modo de ali trabalhar por mudança que não seja a participação em movimentos de guerrilha.

seu esforço para impedir mudança torna quase inevitável uma solução mais radical. e para agir de acordo. Quando escolhem este segundo caminho. E alguns daqueles que mais desesperadamente desejam preservar o status quo percebem que estes poderes os estão conduzindo a um beco sem saída e fazendo-lhes exigências extremas. sofrimento e derrota contribuem para a vitória decisiva. ou usar o poder que têm. ou aceitar este julgamento e se ajustar à nova realidade. o revolucionário estará bem seguro da fraqueza de sua própria posição e descobrirá que seu movimento está destinado a sofrer uma derrota sobre a outra. que só podem se mostrar destrutivas. uma vez que libera o revolucionário de preocupação excessiva com o futuro imediato e com o que lhe está acontecendo. podem. que dominou a vida rural por séculos. os poderes podem. pode perceber que esta confiança no poder esconde a inabilidade da velha ordem para responder de maneira fecunda a novos desafios. mostram quão inseguros são. em autodefesa. aqueles que estão trabalhando por mudança encontram-se numa situação paradoxal. Uma vez que são os que revelaram a instabilidade da velha ordem e seu caráter desumanizante. Ao final. Porém. vão a extremos que provocam oposição mais esclarecida e organizada. Com isto quero dizer que eles 233 . Reagindo exageradamente à situação. e que perseguição. Como a maior parte de nós não está inclinada a pensar sobre história nestes termos. Tendo de fazer frente a este desmascaramento de suas pretensões. e põem em movimento forças que lhes será cada vez mais difícil controlar. podem esperar ser atacados violentamente pelos detentores do poder.patriarcal. Sua liberdade para tomar uma tal atitude de confiança em relação ao futuro. Este mesmo revolucionário está também numa posição única para ver a instabilidade da velha ordem e reconhecer que ela está travando uma batalha sem esperança. manter a situação sob controle e eliminar todas as ameaças imediatas. e torna possível para ele concentrar-se no trabalho a ser feito. um dos elementos mais importantes numa luta revolucionária é a presença de pequenas comunidades de homens e mulheres que estão empenhados numa ação parabólica. Podem ser objeto do ódio e fúria de homens desesperados. Devido sua sensibilidade para prever o que virá. pode ser um fator importante para determinar o resultado da luta. De outro lado. e dão passos que revelam a um crescente número de pessoas quão desumanizante é toda a ordem. O revolucionário pode descobrir que sua própria fraqueza é mais forte do que imaginava. E. tornam o problema pior. com frequência. em assim agindo. devido ao uso de seu poder de desmascarar o velho sistema.

estabilidade e ordem tomam forma do outro lado da mudança. ou as formas de exploração feudal-colonial na América Latina. Na perspectiva do messianismo bíblico. as consequências disto têm sido as mais evidentes em nossa política para as nações em desenvolvimento. sua destruição pode ser necessária. de tal maneira. Geralmente. Até aqui. que constitui a maior ameaça à ordem e estabilidade. Isto deve também levar aqueles que são mais conservadores a se pôr em con234 . Aqueles que ajudam a preservar uma sociedade segregada neste país. a ponto de levar a uma obsessão com estabilidade. preparar o caminho para o totalitarismo e atrasar. que bloqueia indefinidamente a mudança. e querer chegar a qualquer medida para eliminar a ameaça de violência — exceto em se tratando da defesa da ordem estabelecida.examinam minuciosamente esta perspectiva em seus mais importantes limites. são os verdadeiros inimigos da estabilidade. Quanto mais rígida for uma instituição. mas a oposição a ela. um interesse autêntico pela ordem deve encorajar-nos a correr os riscos de mudança e tomar consciência de que quanto mais cedo isto for feito melhor. Porém este cuidado está dominado por uma perspectiva ideológica que distorce todo o quadro. o desenvolvimento econômico e a melhoria da sorte das massas empobrecidas. dada a situação revolucionária que enfrentamos internamente. minimizar a necessidade de mudança. com ainda mais tristes consequências. acredito. e que este modo de lidar com violência pode tornar mais provável uma solução violenta. numa sociedade dinâmica. não é a mudança. maior a probabilidade de eventual descontinuidade institucional. com facilidade. que outros são supridos de sinais que sugerem como as coisas andarão. Portanto. e o reconhecimento de que desintegração social e violência podem. oferece-nos uma saída do impasse ideológico ao qual estamos agora presos neste país. em nossos esforços para lidar com duas questões fundamentais: a relação entre estabilidade e mudança e o papel da violência na transformação social. Quando qualquer estrutura particular da sociedade se torna tão rígida. é muito possível que muitos queiram recorrer à mesma ideologia. Nossa atual política é parcialmente motivada por um legítimo interesse em estabilidade e ordem. O resultado final desta cegueira ideológica é nosso fracasso em ver que uma tal tônica sobre estabilidade pode tornar uma situação explosiva mais instável. Esta perspectiva da história. não os revolucionários. O fato de os liberais parecerem tão propensos a cair presas dela quanto os conservadores torna o problema ainda mais urgente. ao mesmo tempo.

Como resultado fortalecemos grandemente aqueles grupos no poder que têm bloqueado. na América Latina. de que o negro foi emancipado e nossa unidade 235 . Ajudamos a transformar as forças armadas tradicionais. Em nossa própria sociedade. em muitos países. o problema de violência não é. de tempos em tempos. ou se apoiar em ocupação militar maciça de nossos “slums”. É nosso ponto de vista que a perspectiva messiânica que indicamos aqui oferece tal possibilidade. está constantemente pressionando para uma nova ordem. Nossa influência ocidental no resto do mundo criou uma situação que agora parecemos incapazes de entender ou de ajudar outros a entender. Mas. Quando tal expectativa se torna mais universal. Aqueles que são chamados a lidar com este problema só serão capazes de fazê-lo de modo sábio se forem livres para encará-lo abertamente e entender suas dimensões plenas. para remover o problema que lá existe. Numa sociedade estática. para lidar com agitação interna. agimos de maneira muito diferente. abre nossos olhos para a necessidade urgente de movimentos que violentem a velha ordem. naqueles pontos onde a situação é mais desesperada. onde não há pressões messiânicas por mudança. no meio da revolução. sério e complicado. efetivamente. esforços não violentos para mudança e temos ajudado a criar uma situação — na América Latina. em um mundo no qual o povo acordou para a esperança. pelo menos — em que um crescente número daqueles mais cônscios do que está acontecendo concluem que a guerra de guerrilhas oferece a única esperança de mudança social básica. o povo. bem como em outras partes do mundo. que necessariamente implica numa “violação” da velha. Pelo menos nosso governo não decidiu ainda que deve treinar uma grande parte das forças armadas. ele. e também enfrentar de modo realista as opções à nossa frente. usualmente. temos a liberdade para entender nossa própria história. Porém. tanto para bloquear a mudança como para produzi-la. Nesta situação paradoxal. Cria uma sensibilidade para o caráter desumanizante da luta violenta. ao mesmo tempo. a violência pode ser um importante elemento. porque só este tipo de relação e esforço pelo diálogo pode contribuir para a estabilidade do tipo de sociedade em que agora vivemos. onde a necessidade de revolução é maior. Podemos aceitar o fato de que nossa nação nasceu em um ato de violência.tato com o encorajar aqueles que estão trabalhando por mudança. e envolvemos nossos próprios militares e mesmo cientistas sociais neste esforço. em unidades anti-subversão. aceitamos a possibilidade de que a violência possa irromper.

muitos desesperam de qualquer possibilidade de integração social. Nenhum grupo ou classe de povo. e está munido de um crescente número de elementos que contribuem para isto. podemos chegar a afirmar que a história ocidental recente torna nossa escolha mais clara e mais inescapável: entre caos e novos esforços por integração social. dessacralizou todas estas esferas e minou todas as estruturas de autoridade. Todos os povos do mundo estão em contato entre si e são dependentes uns dos outros. De fato. Se todas as autoridades estão perdendo seu poder básico. Gradualmente esta influência penetrou cada vez mais fundo na sociedade e também na autocompreensão do homem. Este desenvolvimento não é um fim em si mesmo. ethos ou visão-universal comum. este processo todo parece muito diferente. nenhum código moral ou legal. a autoridade de seus pais. e param nisso. culturas. é a pré-condição essencial para a realização messiânica. Ao mesmo tempo. os pobres não confiam no cuidado paternalista dos ricos e poderosos. sem pôr em questão. toda 236 . em nossos guetos urbanos e no mundo subdesenvolvido. Esta inter-relação forçada não é apoiada por uma história. outros corajosamente afirmam sua singularidade e independência. Há um elemento adicional em nossa compreensão da história que influenciará nossas ideologias políticas.nacional preservada por meio de violência. testemunhamos a rápida deterioração de todas as estruturas de autoridade. Começamos por aceitá-lo. povos de todas as classes são confrontados diretamente com indivíduos e comunidades representando outras línguas. podem manter a ordem na base da confiança implícita e respeito por ele. a constante expansão de conhecimento e experiência nos leva na direção oposta. Como resultado. Nosso mundo está se tornando crescentemente pluralístico e interdependente. atitudes e ideologias. de fato. A crença cristã na criação e na subordinação de toda natureza. Do ponto de vista de uma teologia do messianismo. e o proletariado externo do mundo ocidental rebelou-se contra seu status colonial. porque vemos aqui o trabalho de Deus. podemos concentrar-nos no tipo de estudo e ação que ajudará a minimizar a necessidade de violência e limitar sua destrutividade no processo de mudança social. e em quase todos os países. Ao contrário. O homem tem sido deixado livre para prosseguir em direção à nova humanidade. história e vida humanas a uma soberania primeira. Ao mesmo tempo. em termos por completo diferentes daqueles do passado. Jovens não aceitam mais. e vêem só caos pela frente. Estamos livres para admitir a possibilidade de que atos de violência possam ter lugar na luta dos povos desprovidos.

a fim de se adiantar para os objetivos que ela estabeleceu. Uma nação ou uma comunidade deve decidir que tipo de mundo quer.vida e sociedade precisa ser ordenada pelo futuro em vez de pelo passado. mas podem travar diálogo sobre as possibilidades de realização humana que estão à sua frente. Disciplina é essencial. Para o indivíduo. Deve vir como o resultado de uma conversação sem interrupção entre nossa herança teológica e os acontecimentos de nosso tempo. que nos dá nova liberdade para entender o que está acontecendo à nossa volta e para responder a isto mais criadoramente. que objetivos estabelecerá para o futuro. e ficar unidas nas experiências e esperanças de onde uma nova direção de vida surgirá. Numa tal sociedade. isto não é uma barreira insuperável para o reconhecimento de que agora não temos escolha senão determinar como melhor desenvolver nossos recursos e distribuir os bens que produzimos. é uma questão de querer ordenar assim a própria vida no presente. Porém disciplina. podemos aceitá-los pelo que são e trabalhar constantemente por reconciliação. para definir o tipo de relações políticas mais adequadas para a situação em que nos encontramos e empenharmo-nos numa procura comum de novos modelos e novas estratégias políticas. quando estiver querendo se tornar algo como uma ideologia em si. na mais estreita aproximação do bem comum. Isto não pode ser feito hoje por uma mistura de teologia e filosofia em algum novo sistema. tal reflexão deve sempre estar buscando significado numa situação dinâmica e flexível. Estudiosos podem nos fornecer análises das formas de entendimento histórico encontradas na Bíblia e nos trabalhos dos grandes teólogos. abre caminho para novas relações e novas riquezas de vida individual e social. Porém tudo isto representa muito pouco para nós. e então reunir-se num esforço comum para alcançá-los. portanto deve permanecer sempre experimental e aberta para 237 . representa o esforço que está querendo dispender e o preço que está querendo pagar. a menos que esteja relacionado diretamente com a história mais imediata de que somos parte. Podemos ser a favor de sistemas econômicos diferentes. Nossa base e teorias políticas podem ser amplamente divergentes. porém podemos participar de um esforço comum. tensão e conflito são inevitáveis. em que diferença. As pessoas vêm de passados. para a comunidade. Neste processo vamos descobrir que reconciliação. ao contrário da supressão de conflito. experiências e culturas muito diferentes. Por sua real natureza. como de manter a porta aberta para mais ampla realização no futuro. Tudo isto pode justificar uma observação conclusiva: a reflexão teológica sobre história será mais relevante para a luta ideológica.

com frequência tem um profundo interesse humano que é a força impulsionadora principal em sua vida. a teologia está interessada em interpretar certos acontecimentos e imagens que testemunham sobre a libertação do homem e a renovação da vida humana. uma realidade e uma possibilidade para a qual nos estamos encaminhando. uma figura revolucionária — é o instrumento de emancipação humana. de fato. É muito fácil estar intensamente preocupado com o bem-estar do homem e ser cego para o que está acontecendo para homens e mulheres. nossa esperança de libertação é realizada dentro e através de luta e sofrimento. e que libera forças que trabalham contra os objetivos previamente estabelecidos. há algo referente à respeito da luta revolucionária em si que é desumanizante. Isto é o que pode caracterizar ideologia. E a ideologia com que esperamos orientar nossa ação revolucionária deve dar atenção a este problema. O revolucionário. algo parece acontecer no meio do processo revolucionário que embota este interesse. O Messias foi crucificado. Jesus de Nazaré. ao mesmo tempo. quer um membro de outra classe que decidiu fundir sua sorte com a dos sofredores e explorados. contudo ainda continua sua obra. Além do mais. O Messias veio no passado. que é realização. Porém a dinâmica peculiar desta posição é o resultado da associação desta esperança para o homem com uma pessoa histórica particular. o segun238 . quando nossos esforços messiânicos para construir uma nova ordem são frustrados. A despeito de tudo que os teólogos fizeram para obscurecer o fato. em meio a uma luta assim ambígua na história. e que provavelmente nunca será completamente resolvida. afinal. Afirma que a existência histórica do homem é um movimento para a libertação. Um dos produtos mais comuns e infelizes disto é o desiludido e amargurado ex-revolucionário. Revolução Social e Realização Humana As expressões acima sugerem uma tensão interior. que se manifesta frequentemente na vida revolucionária e na história da revolução. ser seu testemunho mais significativo. E o Messias crucificado é o novo homem. A liberdade de cristãos para revisar sua própria ideologia de história pode. portanto. Ao mesmo tempo. o Messias — um político. de que há tantos exemplos hoje. para aqueles empenhados na luta ideológica. Jesus. quer seja um líder natural dos oprimidos em sua luta por emancipação.revisão constante. em quem temos uma indicação concreta do que pode significar uma nova humanidade. libertação é.

Realização humana em meio ao sofrimento e a derrota é uma realidade. O uso de religião. nossas experiências mais profundas de significação e realização nos vêm em meio a esta luta. porque o processo todo de secularização destruiu nossa 239 . Esta figura política. a tensão entre revolução e humanização está definida e acentuada de maneira extraordinária. postas em debandada e forçadas a se reorganizar. A atenção é focalizada no que Paul Lehmann descreveu como “o caráter político da atividade divina”. com frequência. e a significação de nosso tempo presente em relação a ele. Tão logo confiemos nelas. psicanálise e média de massa como instrumentos com os quais o povo é ajudado a se ajustar a uma ordem social desumanizante. ocorreu na vida de um homem e está agora à nossa disposição.do Adão. Nestas circunstâncias. Dentro deste arcabouço. sem ser desafiado a mudá-la. No decorrer deste caminho de envolvimento político. passamos a fazer exigências à ordem política que ela não pode satisfazer. Do tempo dos primeiros discípulos até hoje. é também o novo homem. ele representa uma nova forma de existência humana no mundo. A nova humanidade toma forma. Esta tentação é hoje especialmente séria para nós. Todos estes esforços contribuem para uma situação em que os poderes gradualmente aumentam seu controle destrutivo. Quando estes poderes são mantidos sob controle e obrigados a servir aqueles objetivos que lhes estabelecemos. o Messias. para responder às questões fundamentais sobre a vida e sua significação. política e revolução são colocadas num contexto em que podem contribuir para o bem-estar humano. insensatez falar sobre a renovação espiritual e moral do homem sem dar a devida atenção a este elemento. quando menos as esperamos e estamos preocupados com outras coisas. Quando estas forças são desafiadas. portanto. é essencialmente uma traição ao homem. É. como servidores da nova humanidade. o homem encontra a liberdade para desenvolver novas formas de vida. o interesse nesta pessoa e a reação a ela levaram homens e mulheres a uma aposta. somos lembrados de que quem procura salvar sua vida a perderá. e portanto a pervertê-la. Preocupação verdadeira com o bem-estar interior da pessoa deve portanto conduzir a ação que vise controlar e usar o poder político a fim de dar lugar para maior liberdade no meio comunitário. nós damos lugar no mundo para maior realização humana. também se torna claro que. e de que quem perde sua vida a achará. somente se forem mantidas em seu próprio lugar. num mundo onde a batalha pelo homem está sendo travada contra os poderes. visando os aspectos básicos para a existência do homem. Por conseguinte.

e. dele não esperarem demais. Um movimento político só será capaz de contribuir para o objetivo fundamental do autêntico messianismo — i. tiveram sucessos tão limitados. quando descobrem um novo reino de liberdade pessoal na obediência a uma lealdade mais alta. mesmo em meio a uma luta revolucionária. É. as revoluções modernas não se distinguiram neste ponto e. e a ação política efetiva pode criar o tipo de sociedade em que a política se torne menos importante. Especialmente no tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. É isto que abre o caminho para uma combinação incomum de sensibilidade para a profunda ambiguidade presente em cada luta revolucionária e a esperança em relação a seu resultado. de maneira significativa. êxitos significativos na luta revolucionária tendem a diminuir a importância da revolução. Nesta perspectiva. as mais avassalantes concentrações de poder não podem ter êxito em seus esforços para preservar o status quo. e assim contribuir. pelo menos. talvez por esta razão. e é muito mais fácil para nós fazer um ídolo de nossa luta política do que aprender a viver precariamente sem ídolos. para a humanização da sociedade contemporânea. a menos que reconheçamos suas limitações e deixemos espaço. por meio dos quais uma vez vivemos. A associação das imagens messiânicas do Velho Testamento com a pessoa histórica de Jesus de Nazaré conduz a uma afirmação adicional: O Messias crucificado é o novo homem. Na verdade. a política não pode contribuir para a libertação pessoal. a participação na revolução é um meio pelo qual as pessoas são capazes de transcender mesquinhas ansiedades pessoais e problemas. Só o revolucionário cujos compromissos políticos estão relacionados com uma visão mais ampla da vida humana e da história pode lutar com esta situação. Com frequência. para a realização humana — se aqueles que dele participam. A crucificação ocorre ao longo do caminho para o surgimento da nova humanidade. contudo. para aquelas instituições e forças que satisfazem outras necessidades humanas. esta mesma experiência que pode também aumentar sua dependência da ordem política e levar a uma fácil desilusão com os movimentos políticos. todo determinismo é destruído. Até aqui. Os melhores revolucionários são os que são homens livres no sentido de que sua auto-identidade e estabilidade pessoal não dependem de seu papel político. e o próprio processo revolucionário não segue um curso inevitável. Uma revolução oferece a oportunidade para construir uma nova ordem social — na crista da desintegração social — e pode também abrir o caminho para novas manifes240 .confiança nos velhos absolutos. A longo prazo.

tirar vantagem de cada nova ocasião para progredir rumo os objetivos básicos da revolução social. Podemos pôr a nu constantemente e desmascarar coisas que ameaçam a causa revolucionária.tações de mal social. Porém a coisa importante é que este processo tão ambíguo propicia oportunidades sucessivas para a formação de formas novas e mais humanas de organização social. Mas se a crucificação é um elemento inevitável na transformação social. ao mesmo tempo. se desenrola através da história. em que todos os esforços de mudança são facilmente bloqueados. mesmo quando a causa da revolução triunfa. a luta revolucionária pode ser tão desumanizante quanto a velha ordem. serve como parteira necessária de uma nova ordem social. A violência é sempre destrutiva. com facilidade. sobre revoluções ou sobre revolucionários. torna-se terrivelmente desumanizante. Isto sugere que não devemos ter ilusões sobre movimentos políticos ou seus líderes. Esperanças irrealizadas. Sob certas circunstâncias. sem perder a esperança. Assim. A crucificação do Messias também nos lembra que a luta. um movimento de integração racial pode. tanto na ordem social que surge da revolução quanto na velha ordem que a precedeu. Contudo um tal movimento pode ser o instrumento com que essa sociedade é forçada a se abrir e começa a se encaminhar para um maior grau de justiça. e contribui para este objetivo. entre a velha ordem e a nova. tornar-se rígido e extremista. Numa situação opressiva. e que. O Messias foi crucificado por Seu próprio povo — aqueles em posição de poder na sociedade messiânica e aqueles que pugnavam mais intensamente para criar a nova era — e foi abandonado por Seus discípulos no momento de maior necessidade. Porém a iluminação que buscamos pode vir. sob outras. podemos descobrir que alguns dos avanços mais significativos ocorrem sob circunstâncias difíceis e ambíguas. E o fato de que a própria luta revolucionária se torna desumanizante em certos momentos não é razão suficiente para abandonála. Em certos momentos. frustrações e sofrimentos são parte de nosso destino. Ao mesmo tempo. à luz do futuro. quando tentamos avaliar as alternativas à nossa frente em termos de sua contribuição potencial para um futuro mais largo e mais justo. mesmo a vitória 241 . a fraqueza humana é tão prevalente entre eles como em qualquer outro grupo. Líderes revolucionários equivocam-se sobre a situação e fazem erros de julgamento e estratégia. Nenhum conjunto abstrato de princípios ou valores será de muita ajuda na tomada de decisão em tal situação. então somos livres para aceitar este fato e prosseguir com o trabalho. é possível ser inteiramente realista sobre o que está acontecendo e.

revolução implica em uma “violação” da velha ordem. em nome da nova. com seu desaparecimento. fornece pequena evidência de que tal idolatria. foi o produto de uma visão-universal metafísica. Revolução. Precisamos é dos 242 . e protestos contra a escravização do homem não nos fará seres humanos livres. embora não tendo base da qual desafiá-la. Colocar a tônica no funcional e operacional pode facilmente conduzir a uma visão de realidade em que dimensões inteiras são perdidas. O Eterno se opõe ao temporal. nem base para mudança qualitativa. pode ser só um sinal negativo de sua escravização à ordem estabelecida. e pela feliz consciência que não tem sentido de culpa radical ou julgamento. vida e sociedade humanas estão relacionadas com uma ordem de ser que transcende o finito. e uma tentativa para “ultrapassar o universo estabelecido de negociação e ação para suas alternativas históricas”. orientada para a preservação da ordem estabelecida. uma recusa “em aceitar o universo dado de fato como o contexto final de validação”. deparamos com um novo e difícil desafio. enquanto a presente tendência nas ciências empíricas não nos fornece racionais nem claros com que a teoria crítica possa transcender esta sociedade.6 Se este esforço hercúleo tem êxito. Como vimos antes. Nesta estrutura. possam ser evitadas. até aqui. e todas as instituições sociais são julgadas e reformadas por uma ordem ideal à qual devem se conformar. Transgressão e Transcendência Há um outro complexo de problemas que representa pesada carga para a ideologia revolucionária. podemos rapidamente ficar sobrecarregados com o peso morto da velha ordem. Por sua própria natureza. No Ocidente. que surgiu como resultado da síntese da filosofia grega e teologia cristã. e. Quando isto é acompanhado por uma ideologia de racionalidade. Estas entidades metafísicas se foram. Exige uma crítica transcendente do status quo. O repúdio de velhos tipos de pensamento sobre política externa norte-americana não nos dará as ferramentas para forjar uma nova. Os que vêem através de tudo isto podem rebelar-se. esta atitude de transgressão e transcendência contra a sociedade em que o homem se encontra não é uma ocorrência muito comum. Porém rebelião em si não pode produzir o novo nem libertar o homem. o revolucionário então enfrenta o perigo de ser escravizado por sua própria ideologia.parcial pode se mostrar um importante lucro para a causa do homem. A história da revolução moderna. e suas consequências.

Aqui filosofia e arte. agimos com mais responsabilidade. quando empenhados num constante esforço para criar novos “projetos” e pugnar para fazê-lo realidade. na confiança de que o futuro está livre. “O que existe não pode ser verdade. como ao futuro que transgride contra. Neste caso.” A vinda do Reino é uma questão da reordenação das relações humanas e estruturas sociais. A suprema realidade na história é o Reino de Deus que está vindo e que é presente agora como uma força explosiva em nosso meio. fazem o julgamento do status quo e nos fornecem um universo de discussão em que novos modelos e novos “projetos” podem se desenvolver. o julgamento do futuro sobre o presente não é um assunto de pretendida fidelidade a certos valores e ideais abstratos. para a ordenação da vida e sociedade humanas. no meio do diálogo entre nossa visão do homem e o que ele pode se tornar e a situação em que nos encontramos. O que sobressai aqui é a qualidade concreta de nossos objetivos para o futuro. Não mais acreditamos em Utopia. tudo tem seu lugar. podem aparecer no caminho do futuro. Realidade é a que está-vindo-a-ser quando nossa existência histórica se move para o futuro: como o diz Ernst Bloch. “Valores” são transformados em necessidades humanas. portanto. Com facilidade traímos e limitamos a realidade quando restringimos nosso entendimento ao real. mas podemos confiar que novas e surpreendentes possibilidades. eternos. O tipo de transcendência que encontramos na Bíblia é mais escatológico do que metafísico: refere-se não tanto à Ordem Eterna acima do homem. e dados de maneira concreta. A potencialidade se coloca em aguda tensão com realidade porque o potencial é uma possibilidade histórica. As palavras transgressão e transcendência têm. A verdade é que esta íntima identificação com uma ordem metafísica não é tanto uma indicação da natureza da teologia como o é de um avançado estágio de aculturação do Cristianismo em uma era anterior. literatura e drama. o estímulo e enriquecimento da memória histórica.recursos para transcendência radical: aquele discernimento profundo e perspectivas sobre vida e sociedade que rompem o poder do velho. acima de tudo o mais. São definidos. mas de objetivos tecnológicos e políticos muito específicos. e transcende. Somente somos capazes de alcançar o possível se empreendemos o impossível. tal como é observado empiricamente. o presente. mudanças específicas necessárias e possíveis na 243 . se pudermos pesquisá-la sem a visão-universal com que tem sido associada. uma dimensão religiosa e sugerem que a teologia pode fazer alguma contribuição para este ponto.

aponte o caminho para uma vida significativa e responsável. isto é. falha porque é idólatra. Quando isto tem ocorrido. inverte todo este processo. e quando expressa a confiança de que a realidade — vir-a-ser-é basicamente favorável ao homem. O mais paradoxal de tudo. tem sido alimentado por uma certa maneira de pensar sobre a realidade. Ao contrário. possibilidades técnicas específicas que agora temos diante de nós. Esta lealdade absoluta a um novo ideal ou visão de uma nova ordem social pode fornecer a base para ação revolucionária dinâmica. a história é o reino da liberdade e responsabilidade. A vida humana é vista como mais humana. Em cada esfera de existência coletiva. representa uma aposta de que estes símbolos e conceitos fornecem um indício para o que realmente está sucedendo no mundo e. expressa numa variedade de conceitos e imagens teológicas. Basicamente. Para eles. É uma criação humana que tende a violar a realidade e assim escravizar aqueles que lhe são mais leais. os homens são mais livres para lutar pelo melhoramento da condição humana. quando é vivida em resposta a uma lealdade mais alta do que a própria. No momento em que pensamos nestes termos. O objeto de lealdade não é algum elemento do finito que foi absolutizado. que torna rela244 . esta transcendência e transgressão radical pode ter só uma de duas fontes: Pode vir como resultado da atribuição de um valor infinito a um aspecto da realidade finita. sugerida pelas imagens cristãs de transcendência. mas o Criador. quando é perturbado por uma consciência infeliz. a Igreja Cristã não tem demonstrado sempre esta liberdade para romper com o que “é” por lealdade ao que está vindo-a-ser. A história é compreendida como não sendo autocontida. por conseguinte. A segunda alternativa. entenderam com clareza. Se reunimos estes elementos num quadro mais compreensível de nossos objetivos. afinal. Reconhecidamente. como os escritores bíblicos e especialmente os profetas do Velho Testamento. onde comunidades humanas estão sendo constantemente confrontadas com novos horizontes para o futuro. o futuro rompe a imutabilidade de nossas estruturas e instituições atuais e abre caminho para o crescente uso da tecnologia a serviço do homem. quando não atribuem valor absoluto ao que estão fazendo. o homem é livre para ser um transgressor da ordem em que vive.sociedade. vamos de encontro a tremendas dificuldades. quando se compenetra de que é chamado a um modo de vida e um padrão de ação que é como um castigo. não é determinada por leis absolutas que se efetuam inevitavelmente. Porém.

tiva e ao mesmo tempo apoia toda realidade criada. e a luta para mudar o mundo faz sentido. no tempo mesmo em que novos recursos para transgressão e transcendência são indispensáveis para a luta revolucionária. Quando a fazemos. em desespero. e que homens e nações podem criar novos modelos de uma nova sociedade. Ainda é possível fazer esta aposta. na verdade. Nesta situação. em ação na vida e na história em relação ao qual a vida é livre. Estamos muito cônscios de que nossos ídolos têm pés de barro. Somos desafiados a confiar num propósito e numa iniciativa. contudo insistem que ela representou a escolha fundamental que determina o destino humano. que somos livres para ser transgressores caso isso seja útil para nosso vizinho. seria fatal virar-se. muito tênue. Os profetas compreenderam muito bem que a linha entre idolatria e confiança na soberania é. Hoje nos defrontamos com uma situação incomum. E seria fútil gastar nosso tempo discutindo o caso da transcendência cristã. 245 . Porém as velhas imagens bíblicas afirmam que a história está receptiva a um futuro mais promissor. para novos ídolos. e também de que todos os símbolos de transcendência teológica perderam sua significação e força. e fazer algo efetivo para transformá-los em realidade. podemos eventualmente ficar surpresos e chocados por uma nova linguagem e imagens de transcendência que podem ter implicações de longo alcance para a renovação da sociedade.

246 .

o teólogo não pode ficar indiferente a questões de estratégia e tática revolucionárias. tenho ficado impressionado pela maneira com que o rápido avanço da tecnologia parece criar ou intensificar certos paradoxos em nossa sociedade: 1. a menos que possamos dar alguma indicação concreta de como os objetivos da revolução podem ser alcançados. Portanto não temos escolha senão fazer pelo menos algumas observações preliminares sobre as perspectivas atuais da luta revolucionária. Mas não está preparado para discutir estas questões porque requerem um tipo de análise social e política de que não é capaz. O máximo que pode esperar é participar de um diálogo mais amplo sobre estes problemas centrais — o que não é possível aqui. Ao mesmo tempo. Contudo. Nos anos recentes. De outro modo. Pela integração de sistemas. bem como dos resultados disso. não temos o direito de apressar o povo a se tornar revolucionário.V Uma Palavra Sobre Estratégia e Tática O fato de este ensaio já estar longo podia fornecer uma saída para um difícil dilema: Devido a seu interesse na realização de certos objetivos para o homem e a sociedade. esta inte247 . como aprendi há tempos na América Latina. se abandonarem a luta ou forem levados a agir irresponsavelmente. provê a ordem estabelecida com poder quase ilimitado de autopreservação. temos parte da responsabilidade de sua frustração e desespero.

Sob tais circunstâncias. A mesma tecnologia cria uma situação social dinâmica. pode não ser somente uma tarefa cada vez mais difícil. e as mudanças produzidas pela tecnologia parecem contribuir para o surgimento de forças que tentam transtornálo. 3. usualmente em uma esfera restrita da sociedade. mas também um meio. Se estes progressos estão se processando. O colapso das estruturas de autoridade e a dinâmica de mudança social criam agora uma situação em que a mudança pode afetar todas as áreas da sociedade e penetrar muito profundamente nela. que só pode ser compreendida à luz do futuro e torna ineficazes todas as instituições que não se podem adaptar ao novo. dentro do Establishment. Neste esforço. a revolução tinha que realizar mudanças rápidas. pela destruição de toda a estrutura de poder e substituí-la por uma nova. 2. No passado. As linhas estão traçadas mais claramente entre os que entendem o que está acontecendo e correspondem. que podem responder ao desafio do novo ou que já o fizeram. bem como outros. revolução com luta de classes só tem um lugar relativo. seja qual for a classe a que pertencem. pode prejudicar a execução dos objetivos revolucionários. e que fornece o poder e técnicas por meio das quais isto pode ser feito. não é tanto de substituir o sistema total do presente por um sistema totalmente novo. que pode com facilidade ser perturbado. porém. Mas estes mesmos progressos significam que a revolução também pode causar desintegração social total e tornar necessárias novas formas de arregimentação. a tarefa do revolucionário. Isto oferece uma oportunidade única para construir uma nova sociedade. No passado. Isto. e aqueles que não o fazem. no sentido lato. a fim de que possam servir melhor o homem quando enfrentem novas realidades. revolução pode representar uma constante ameaça de caos por um longo período de tempo. A tecnologia cria uma mentalidade que está interessada na análise e controle da ordem dada. a autoridade e estabilidade das estruturas sociais significavam que mesmo a revolução violenta só podia causar um impacto limitado. hoje. então uma nova estratégia de revolução é urgentemente necessária. As recentes repercussões de uma cruzada individual por auto-segurança é apenas um exemplo disto. líderes. A tentativa de mudar a sociedade. Frequentemente há muita gente. para alcançar os objetivos dos re248 .gração de sistemas representa um equilíbrio muito precário. mas a de rebentar as instituições sociais e mantê-las em movimento. antes que velhas estabilidades mais uma vez se firmassem. o mais improvável. mas são incapazes de agir devido a inércia das instituições a que servem.

O que se torna importante é o desmascaramento de injustiças específicas. que já está invadindo o presente. pelo contrário. podemos trabalhar por revolução permanente. e produzir o tipo de mudanças que impulsionarão o processo revolucionário para novos estágios. e o início daquelas mudanças que fornecerão o maior potencial para mudança ulterior. Em vez de revolução total. que podem perturbar o equilíbrio precario de poder onde ele não estiver afinado com a realidade. então ele tem as vantagens de iniciativa e criatividade. Nossos esforços não serão tão orientados para um momento de vitória total. algum dia. o de subverter as estruturas atuais mas. Estes novos fatores sugerem as linhas principais de uma estratégia alternada e ajudam a criar as condições para seu sucesso. Uma pequena vitória prepara o caminho 249 . no decorrer do caminho. mas para um grande número de pequenas vitórias. Há algumas situações em que a rigidez da velha ordem e sua resistência à mudança não permitam outra alternativa. no distante futuro. e de seu fracasso em solucionar as novas questões básicas que pedem atenção. Se a ação do revolucionário está de acordo com a realidade. novas estratégias e táticas. Mas se esperamos contribuir efetivamente para a transformação da sociedade tecnológica avançada. primariamente. Nosso objetivo não é. pela qual a estrutura inteira é atingida por um número cada vez maior de desafios àqueles pontos onde mudanças são mais imperativas. em total receptividade às suas exigências concretas. quer se incluam em nossas ideologias e esquemas. Durante todo este estudo sugerimos que a perspectiva teológica de revolução nos liberta do determinismo histórico. Podemos cooperar com o futuro que se está tornando uma realidade em nosso meio. nossa ação deve possuir algo equivalente a um testemunho do futuro. ao mesmo tempo assegura-nos que somos parte de um processo revolucionário se encaminhando para um objetivo. terão de ser inventadas. no sentido de um assalto frontal a toda a estrutura da ordem estabelecida. o despertar de gente de diferentes classes sociais para o que está acontecendo em volta deles e para ação responsável. ou mesmo do território sob nosso controle. que acontece tão frequentemente com os defensores do status quo. mais apropriadas para tal tarefa.volucionários. quer não. na velha ordem. de ataques de surpresa e a escolha de lugares e momentos estratégicos para cada batalha. Por esta razão. Nossa crença de que o futuro está do lado da mudança revolucionária nos liberta de obsessão com a defesa de nossos sistemas e ideologias. o de forçá-las a ser mais arejadas e flexíveis. e a reagir aos novos problemas de forma mais criadora.

quando sugerimos que hoje estratégia e tática de revolução podem concentrar-se no desenvolvimento de um equipamento político da guerra de guerrilhas. Ao longo deste caminho. que podem ser coordenadas numa estratégia geral sem destruir a iniciativa local. Estamos munidos de uma estratégia baseada na reação espontânea de pequenos grupos em várias fronteiras diferentes. Se esta estratégia tem êxito. dependerá dos que têm os meios de análise social e a experiência revolucionária para fazê-lo. Uma empresa deste tipo pede movimentos revolucionários que estejam livres para explorar novos caminhos. de dentro ou de fora das estruturas.para uma luta mais avançada. Desde que uma tal tentativa tenha êxito. tendo em vista a solidez e criatividade potencial de nossa sociedade. existe a possibilidade de combinar realismo a respeito da sociedade e a respeito do poder das forças que bloqueiam a mudança. A questão de saber se é melhor trabalhar por renovação social. Isto é o que tínhamos em mente no primeiro capítulo. 1. a qualquer preço. bem como o efeito de suas implicações. com frequência. em movimentos revolucionários e que se nos apresentam agora. gostaria de discutir brevemente a relação desta abordagem com várias questões que têm surgido. Não temos garantias de que uma tal estratégia alcance êxito. sempre afligiu os reformadores. com otimismo a respeito das perspectivas para revolução. em duas ou três novas frentes. nossa sociedade pode descobrir que mudanças profundas e necessárias na ordem social podem ser realizadas sem a ameaça de total desintegração social. A verificação desta hipótese. flexibilidade e resposta às necessidades dos homens — que podem eventualmente tornar a revolução desnecessária. evitar as armadilhas em que tantas revoluções passadas caíram e perseverar durante uma longa e árdua luta. o revolucionário pode achar possível travar uma difícil luta com a esperança. Hoje parece ainda mais difícil responder. confirmados cada vez mais por pequenas vitórias e a aceleração do processo de mudança. e a derrota em um esforço específico é a ocasião para um reagrupamento de forças. Argumentar que ela tem uma chance representa uma profissão de fé. Só pode ocorrer em uma sociedade que seja capaz de reagir a novos desafios em vez de se refugiar em tentativas desesperadas de resistir à mudança. o resultado básico não será necessariamente o controle de certas esferas da sociedade por movimentos revolucionários. O tipo de instituições e a concentra250 . Em conclusão. mas a marca de mudança em instituições sociais — para a receptividade.

tomar uma posição mais radical. e inserir certas pequenas esferas de relativa liberdade — dentro da estrutura. De uma tal base. pode ser capaz de desafiar uma organização a fazer o que precisa ser feito. Aqui a coisa mais importante para os que estão mais empenhados 251 . podem afinal acordar para descobrir que a batalha. contra que se rebelaram originalmente. e um plano relevante de ação — mais do que sua relação com uma instituição particular de sua posição perante ela. mas se tem. Nossa experiência hoje na igreja não é. não são mais encorajadoras. Porém as perspectivas de executar qualquer coisa. no governo ou mundo de negócios. Este é um engano. Muitas pessoas têm dado os melhores anos de suas vidas para uma tal luta. podem descobrir que logo são ameaçados pela mesma tendência para a inércia e inflexibilidade. tudo milita contra uma ação rápida e efetiva por mudança. para tais grupos. em qualquer outra parte. se travara alhures. A estratégia de ação de guerrilha oferece a possibilidade para uma redefinição do problema. mas poucas perspectivas são menos prometedoras do que a de começar uma nova igreja. muito cedo. nada mais do que uma seita ineficaz. só para descobrir que seus esforços quase não alcançaram aqueles pontos onde mudanças fundamentais eram mais urgentemente necessárias. ou não. É possível. uma clara definição de seus objetivos. Por outro lado. e podem terminar à margem da luta por mudança. exatamente pelas questões que mais os preocupavam. as pressões para o conformismo e a necessidade de jogar o jogo conforme as regras pré-estabelecidas.ção de poder que cada uma representa criam uma situação em que é muito difícil fazer qualquer coisa efetiva a não ser de dentro. na universidade ou na igreja. não terão base para operações efetivas. provavelmente. Mas. que seria. dentro ou fora da estrutura. Nesta perspectiva a coisa importante não é se um grupo está trabalhando por mudança radical. que a geração mais nova não está inclinada a cometer. provavelmente. ter uma idéia mais clara dos objetivos para os quais estão trabalhando e preservar sua integridade como movimentos revolucionários. o peso do passado e a relativa inércia de grandes estruturas burocráticas. de fora das estruturas. muito diferente daquela de gente de outras instituições: Vemos pouca possibilidade de fazer alguma coisa efetiva trabalhando de dentro das estruturas burocráticas atuais. De fato. Mesmo se se tornarem poderosos bastante para causar um impacto. sua própria auto-identidade e base de operação. onde isto é possível — de onde prosseguir com o trabalho.

e escolherá outra alternativa. O revolucionário contemporâneo se sentirá inclinado a duvidar da possibilidade de assim trabalhar por uma mudança efetiva. com sua própria auto-identidade e programa. de grupos que estão trabalhando de maneira criadora e dinâmica. deve ser livre para admitir o fracasso e começar de novo em qualquer outro lugar. Na medida em que as instituições sociais permitem hoje que tais grupos funcionem dentro delas. Devemos ter muito pouca esperança de que. Onde as estruturas são suficientemente abertas e flexíveis para corresponder criadoramente a novos desafios. Mas em alguns pontos podem ser usadas efetivamente. Em algumas instituições há líderes que vêem a necessidade de mudança e que serão capazes de agir mais corajosamente devido a existência de movimentos que criam novas pressões por mudança. mas em formar um pequeno núcleo. Estes povos que escolheram travar a batalha por renovação de posições de poder. pesquisar novas soluções e desenvolver uma nova estratégia 252 . no futuro imediato. dentro de seu meio. estas estruturas venham a tomar a iniciativa de fazer as mudanças necessárias. Esta estratégia de colocar a tônica sobre pequenos grupos radicais. Não está interessada primariamente em unir grandes grupos na base do mais baixo denominador comum. que é livre para trabalhar em um sério problema. O importante é usá-las para os propósitos de transformação social. Uma organização pode dar seu apoio oficial a um novo projeto que está tentando resolver um problema social urgente. isto é. à criação de novos modelos e à liberdade de ampla experimentação. age quase contra a unanimidade da opinião política. contribuem para sua própria renovação e armam o revolucionário com os canais mais apropriados para a realização final dos objetivos. Só quando isto acontece será possível analisar uma situação específica. Para ele. movimentos revolucionários não são justificados. desenvolver uma nova perspectiva dela. estarem relacionados um com o outro de tal maneira que possam tomar uma posição contra a ideologia. a prioridade precisa agora ser dada ao desenvolvimento de novas perspectivas. Tal abordagem deve evitar atitudes doutrinárias. dentro das estruturas. Para os que fazem isto.em trabalhar por mudança em nossa sociedade é ter sua própria autoidentidade. sempre que isto é possível. não há mérito especial em estar fora das estruturas. Quando um esforço para fazer isto falha. ou pode tolerar a existência. regras e pressões na área em que estão trabalhando. criar novos modelos e elaborar uma estratégia efetiva para a ação. não podem ser condenados tão só porque escolheram este caminho.

isto aconteceu. Uma vez que estão trabalhando para o melhoramento da sorte das classes não-privilegiadas. os que mais lucrarão com a revolução são incapazes de entendê-la e medrosos ou indesejosos de apoiá-la. em outros. Um grupo que realiza isto ficará interessado em encontrar o maior número possível de aliados para um programa específico de ação. contudo é preciso não haver ilusões sobre sua fidelidade nem exigir delas mais do que estão preparadas para dar. são com frequência dominados pelas formas de autoridade e pelo ethos paternalista da velha sociedade. Um exemplo do que desejo dizer é fornecido pelos atuais esforços para fazer algo sobre a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. as revoluções modernas têm sido a ocasião para o aparecimento espontâneo de toda sorte de organizações de trabalhadores e camponeses em ligas. por qualquer razão. os revolucionários naturalmente supõem que seus esforços devam ser apoiados pelas massas. Em alguns casos. muitos indivíduos e grupos diferentes podem ser agrupados para estudar e apoiar pelo menos alguns itens em um novo programa. Frequentemente. Neste estágio. Contudo tais grupos não têm usualmente sido encorajados ou tolerados por governos revolucionários. que podem ser usadas como um instrumento eficiente para a mudança social.de ação. procurará e aceitará o apoio de todos aqueles que podem. Camponeses. 2. Alguns dos trabalhadores que migram das áreas rurais acham sua situação 253 . O que agora é preciso. é o tipo de estudo e reflexão que possa chegar ao âmago do assunto. Quando isto acontece. teremos alguma possibilidade de romper o velho impasse. não. Por outro lado. cooperar em objetivos limitados. Os revolucionários modernos não têm tido muito êxito em resolver o problema da participação das massas no processo revolucionário. Uma estratégia política que depende de pequenas unidades de guerrilha não pode ter êxito. é importante encontrar os que são livres para explorar novos caminhos. É mais improvável que esta tarefa possa ser empreendida por um grupo vasto e heterogêneo. Se o elemento central na estratégia revolucionaria é a formação de pequenas unidades para uma luta política do tipo-guerrilha. a menos que esteja autenticamente relacionada com as massas e apoiada por elas. desenvolver uma nova perspectiva dele e fornecer novas sugestões para satisfazer o presente desafio. no entanto. Há muita gente e muitas organizações diferentes interessadas em mudá-la. comunas e sovietes — uma expressão de seu profundo anelo de participação no poder público. mesmo nas mais desesperadoras situações.

Subitamente cônscios da instabilidade da sociedade hodierna e do seu potencial de conflito. 3. ou onde a estrutura política não permite uma escolha real entre diferentes ideologias e grupos dominantes. De fato. atenção à formação daquelas organizações políticas mais básicas que possam ser a expressão autêntica da participação de grupos e classes diversas de pessoas na transformação de sua sociedade. o contexto para um processo educacional em que um novo sentido de auto-identidade e uma nova visão do futuro podem tomar forma. e apoiam. Na maioria dos casos. avançar para a criação de novas instituições políticas. e excluídas do processo de tomada-de-decisão. portanto. isto provavelmente só pode ocorrer em grupos muito diferentes da organização política tradicional. nas nações em desenvolvimento bem como em nosso próprio país. primeiramente. isto requer um processo longo e intensivo de despertar de homens e mulheres para a situação sócio-histórica em que vivem e para a natureza de sua responsabilidade para com ela. todo o processo eleitoral é viciado e limitada sua significação para a mudança social. que muita gente tem ficado insegura sobre o papel do conflito na vida social. outros estão de tal modo ameaçados pela insegurança total em que vivem. Uma vez que estas pessoas tenham sido alienadas do que está acontecendo.tão melhor do que a antiga. ou mesmo transferir o poder político de um grupo para outro. o problema básico não é hoje conseguir que as massas participem mais ativamente da ordem política atual. facilmente voltam-se para. Em anos recentes. Por tanto tempo a sociedade tem tido tal êxito em esconder o sofrimento e descontentamento dos não-privilegiados e cobrir a violência dos detentores do poder. Onde quer que os recursos da média de massa são usados para controlar “democraticamente” eleições. ao contrário. Para isto acontecer será necessário dar. aqueles movimentos políticos que prometem eliminar o proble254 . explosões periódicas de violência. que não estão inclinados à revolução. Tais organizações políticas elementares fornecem. mas. e não está preparada para lidar com ele. nos fizeram encarar esta realidade — e deixaram muitos perturbados com o que viram. Talvez venha a usar de movimentos com este sentido de identidade e relativa independencia das estruturas políticas atuais para provocar alguma mudança significativa nelas. e só será eficaz em larga escala se estiver relacionado com estas estruturas maiores — e se contribuir para sua transformação. A revolução trouxe a questão do conflito e sua resolução mais uma vez para o centro da atenção. que pagarão quase qualquer preço por uma pequena garantia de estabilidade.

Uma perspectiva teológica conjugaria esforços nesta mesma direção. o conflito é aceito simplesmente pelo que é: um elemento essencial em certas situações.ma pela supressão efetiva dos elementos subversivos. de parte da ordem estabelecida que protela a execução dos objetivos da revolução. em satisfazer as exigências mais urgentes do negro neste país. Na atual luta revolucionária. e não a sua eliminação. de ambos os lados de uma luta revolucionária. porque sua luta o traz à superfície. o movimento pelos direitos civis pode bem fornecer numerosos exemplos disto. e. indicar uma alternativa. o conflito deve não só ser permitido. Estão completamente cientes dele. em certas situações. e que aqueles que estão contra esta mudança podem ser levados a aceitar aquelas mais 255 . podem também estar despreparados e não equipados para seu embate com conflito. Fundamentalmente. as pessoas tenham a liberdade de distinguir as oportunidades e delas tirar vantagem. Esta mesma abordagem teológica coloca todo conflito no contexto de um movimento para reconciliação. Em fornecendo um instrumento eficaz para o uso de conflito limitado. quando se permite que o conflito se manifeste. mas mesmo encorajado. o conflito é controlado. sua tendência pode ser formular uma ideologia de conflito que exagera sua importância e conceber revolução em termos de luta total. Isto implica em que. não por tentativas constantes de suprimi-lo ou limitá-lo. salvar-nos do tipo de desintegração social ou resistência total a mudança. E a reconciliação envolve o estabelecimento de novas relações em e através do conflito. De fato. Conflito não é básico. assim. acredito. para a resolução do conflito através de entendimento e diálogo. um tipo de realismo que não pode conceber paz e estabilidade independentemente de justiça reconhece que. uma estratégia coordenada de ação de guerrilha numa variedade de frentes pode. mas por sua integração numa estratégia de reconciliação. Os revolucionários. caso novas relações estejam para ser estabelecidas entre grupos e classes na sociedade. É só assim que aqueles que desejam mudança podem saber o que é possível num momento particular. por outro lado. não pode ser um fim em si mesmo. Não crê que a ordem social deva inevitavelmente cair. pode tornar possível evitar uma ideologia de conflito total. O realismo bíblico é livre para ver o lugar do conflito na sociedade e aceitá-lo. relativamente cedo. Portanto. A menos que obtenhamos êxito. Como a violência é usada contra eles e eles descobrem quão difícil é conseguir mudança sob tais circunstâncias.

as agudas e difíceis questões éticas que surgem. e avança para um maior envolvimento nela. o pensamento criador requer um contínuo processo de revisão ideológica. Entre os que hoje estão preocupados com mudança social. entre eles: a tremenda carga da tarefa em si. Em outras palavras. os impasses criados em situações de conflito podem ser superados. desenvolve uma maior sensibilidade para aqueles fatores externos e internos que bloqueiam a execução dos objetivos da revolução. a mais importante questão referente à estratégia pode muito bem ser de outra ordem. começar a avançar confiantemente para o futuro. as imagens bíblicas sugerem uma abordagem bem diferente. na situação dinâmica em que nos encontramos hoje. e que pode manter uma atitude crítica em relação a todo pensamento e ação revolucionários. poucas coisas são mais importantes do que a maior exploração das possibilidades que oferece uma estratégia de reconciliação. que pode manter um senso de humor que lhe permite rir de si mesmo. A pessoa que vive este diálogo logo se torna consciente de uma tensão a crescer dentro de si própria. As novas regras necessárias não podem ser elaboradas abstratamente. desta maneira. Estes fatores são muitos. Passa a ver mais claramente a importância e significação de sua opção pela revolução. isto podia ser em parte alcançado por meio da insistência em certos ideais éticos que expressavam o tipo de sociedade pela qual a revolução estava lutando e os meios pelos quais ele podia ser atingido. pelos movimentos a ela dedicados. o revolucionário mais autêntico é o que pode conjugar compromisso pleno e um certo grau de afastamento. e o fato de que. Hoje. Ao mesmo tempo. as pessoas podem se dedicar a uma busca de novos meios de reflexão sobre um problema específico e sobre novas soluções para ele. a exigência de idéias e regras novas. e. A despeito do fato de esta ênfase nos ideais e princípios ser um apelo especial para as pessoas religiosas. estes elementos ajudam menos. Para aqueles que estão dispostos a combinar um compromisso com a revolução e um diálogo com a teologia. No passado. de ambos os lados da luta. A possibilidade de combinar participação nos esforços para transformar a sociedade com uma atitude de re256 . e.urgentes. a tendência inevitável de movimentos deste tipo para absolutizarem sua posição e se mostrarem desinteressados de julgamentos críticos sobre seu ponto de vista e seu trabalho. Um grupo de ideais e valores éticos gerais têm muito pouca significação. Neste arcabouço. exceto se se tornarem mais concretos em situações históricas particulares.

a fim de estar ali para o homem. o quadro que se desdobra da nova ordem. pode oferecer um novo modelo para o tipo de comunidade que estamos sugerindo. que expressa e ao mesmo tempo indica a nova realidade de existência social. hoje. regional e nacional. o tipo de sociedade que pode e deve ser edificada no futuro. Contudo. em meio à luta revolucionária. um “povo eleito”. as possibilidades ali existentes e o meio pelo qual podem se tornar realidade. Talvez hoje o centro de estudos e núcleos similares em escala local indiquem uma possibilidade. Quando isto acontece. Propõe-se a encorajar. põe em dúvida as mais altas realizações humanas. A forma exata de tais comunidades terá de ser determinada por estudo e experimentação. um programa maciço de desenvolvimento da igreja não realizaria este propósito na revolução contemporânea. e a melhor estratégia para chegar a este objetivo. Um dos sinais mais encorajadores de um desenvolvimento deste tipo é o plano do Projeto de Educação Radical dos Estudantes para uma Sociedade Democrática. Numa tal comunidade. a forma da nova ordem se torna mais clara através não da definição de um grupo de ideais. Por mais surpreendente que isto possa parecer a muita gente hoje. Para os que são cristãos ou têm algum interesse no diálogo com a 257 . É óbvio que. sejam cristãos ou não.lativa liberdade e julgamento crítico vem de ser parte de uma comunidade que tem um ponto de referência além da luta social imediata. o estudo e a reflexão constantes sobre o que está acontecendo hoje na América. com a participação daqueles que mais possam contribuir para o seu êxito. todos os revolucionários e movimentos revolucionários. de um jeito ou de outro. mas de uma comunidade viva. e aqueles movimentos que são os mais importantes instrumentos de mudança social não são vistos nem como perfeitos. Além do mais. nem como por completo indispensáveis. servindo-o em liberdade. em escalas local. constantemente receptivo ao “Reino de Deus” que está agora “acontecendo” em nosso meio. inteiramente envolvido “no” mas não inteiramente “do” mundo. e dentro de uma abertura radical para a confrontação ideológica e livre discussão entre os comprometidos com a revolução social. crítica e liberdade. uma tal comunidade revela. e propicia um laboratório em que seus diversos aspectos podem ser trabalhados experimentalmente. Se este plano puder ser levado à frente. em termos bíblicos. precisam dar lugar em sua estratégia para algum tipo de comunidade que possa se empenhar nesta tarefa e fornecer o arcabouço para reflexão. a razão original para e o propósito da igreja foi precisamente este: ser um povo chamado para a existência e tirado do seu contexto atual.

na tentativa de transformar a sociedade. não sem alguns resultados encorajadores. é preciso acrescentar uma palavra final. Em ambas as organizações. Porém podem oferecer o contexto para um contínuo colóquio entre nossa herança teológica e ética e as principais questões humanas que se apresentam. bem como a estruturação de contatos muito mais amplos. Tais grupos não podem ter a pretensão de ser movimentos políticos. Minha própria convicção sobre isto é o resultado de alguns anos de trabalho com os Movimentos Cristãos de Estudantes Latino-Americanos e a Comissão sobre Igreja e Sociedade na América Latina. numerosas pessoas e movimentos sem especial interesse ou relação com a comunidade religiosa Protestante reconheceram a significação do trabalho destes grupos para eles e para a luta em que estão envolvidos. Qualquer esperança de uma contribuição cristã significativa às lutas revolucionárias em processo no mundo dependerá. a formação de pequenos núcleos em escala local. Mais do que isto. e os recursos utilizáveis em uma tal luta podem se tornar mais visíveis através de um tal esforço. acredito.teologia. não precisam fazer exigências de autoridade especial. tem oferecido uma oportunidade para análise da situação latino-americana e reflexão sobre ela e tem ajudado a apoiar aqueles que estão empenhados na presente luta. Têm estado empenhadas numa longa e difícil luta. É bem possível que em tais comunidades débeis e sem forma específica possam tomar forma idéias e questões novas que serão de importância para o movimento revolucionário como um todo. nem excluir ninguém interessado em seus objetivos. do surgimento de novas formas de comunidade cristã nas linhas de frente da revolução. 258 . ambas as organizações tendo estado trabalhando na tarefa de criar tais comunidades nas fronteiras revolucionárias.

págs. como exemplo. 4. “The Man from S.O. 1966).. 1965). 258-259. pág. 20 de março de 1966. The New Student Left [A Nova Esquerda Estudantil] (Boston: Beacon Press. pág. Também Mitchell Cohen e Dennis Hale. eds. 1963.Notas Capítulo II A BUSCA DE UM NOVO ESTILO DE VIDA 1 New York: McGraw-Hill. pág. 3 Veja. 4 “An End to History” [“Um Fim para a História”] em Seymour Martin Lipret e Sheldon S. Wolin.”. 2 Citado por Deming Brown. 1965. 5 New York: Viking Press. 88. “Thoughts of the Young Radicals” [“Pensamentos dos Jovens Radicais”] uma coleção de artigos recentes do New Republic. The Berkeley Student Revolt [A Revolta Estudantil de Berkeley] (New York: Doubleday.G.M... Capítulo III REVOLUÇÃO SOCIAL E TECNOLOGIA: O PARADOXO DE NOSSA HERANÇA 259 . 219. eds. 6 Ibid.

46-47. 3 “A Letter to the New (Young) Left”.. The Modem Polish Mind (New York: Grosset & Dunlap. 2 Citado por Dexter Perkins em The United States and Latin America (Baton Rouge: Louisiana State University Press. 22-29). os gregos buscam sabedoria. pág.. cit... Talvez o tempo venha a reabilitar a palavra e distinguir entre autêntico e falso messianismo. 1961). 260 . Escolheu coisas baixas e desprezíveis. e a divina fraqueza mais forte que a força do homem. um livro que tem algumas coisas importantes a dizer sobre este problema. 4 Estou bem certo de que esta palavra nos sugere usualmente algo muito diferente de seu significado original. 4.. o poder de Deus e a sabedoria de Deus. A divina loucura é mais sábia do que a sabedoria do homem. Deus escolheu o que o mundo considera fraqueza. 3 Cambridge: Harvard University Press.1 New York: Scribners. Para envergonhar o sábio. 1965. entre os movimentos que são os mensageiros do humanismo messiânico e os que são “messiânicos” num sentido diferente. 6 Estas expressões são do livro de Herbert Marcuse. 1964). 5 O Apóstolo Paulo expressou isto. em uma passagem do primeiro capítulo de Corintios I: “Os judeus pedem milagres. 1963). para subverter a ordem existente” (V. 1965.. Cristo pregado na cruz —. em sua própria maneira decisiva. Capítulo IV IDEOLOGIA E TEOLOGIA 1 In Methodology of the Social Sciences (New York: The Free Press. meros nadas. 112. One-Dimensional Man (Boston: Beacon Press. 1964). 2 Em Maria Kuncewicz. mas nós proclamamos Cristo — sim. e não conheço outro meio de expressá-lo. Mas o conceito é importante. pág. ed. op. em Cohen and Hale. págs.

261 .

262 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful