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CARL OGLESBY E EICHARD SHAULL

REAÇÃO E MUDANÇA
Introdução de Leon Howell Tradução de Eglê Malheiros

PAZ E TERRA
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Introdução
Os dois ensaios que compõem este livro, debatendo a revolução no mundo de hoje, diferem tão profundamente em análise, preceito e resposta quanto as experiências e pontos de vista dos próprios escritores. Contudo, uma preocupação comum pelo papel da América nesta revolução, internamente e no exterior, liga os dois trabalhos. Este livro começou em fevereiro de 1966, quando os dois homens participaram de uma discussão sem formalidade destas questões, no Union Theological Seminary, em New York. Jamais haviam se encontrado antes. Um se envolvera no movimento doméstico americano em prol de uma sociedade mais justa; o outro passara muitos anos na América Latina, intimamente ligado aos movimentos estudantis católico e protestante. As conversas em público e em particular, daquela noite, revelaram uma identidade de interesses e uma diferença de perspectiva que abriam caminho para uma confrontação e discussão interessantes. Ansiando por colocar essas discussões à disposição de uma audiência muito mais vasta, o University Christian Movement pediu-lhes que expusessem suas idéias em ensaios. São aqui apresentados como dois esforços para entender e responder a um problema crucial de nosso tempo, na esperança de encorajar um diálogo mais amplo. Leon Howell University Christian Movement
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PRIMEIRA PARTE Vietnã: Prova Decisiva UM ENSAIO A RESPEITO DAS SIGNIFICAÇÕES DA GUERRA FRIA CARL OGLESBY 7 .

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para a realização de todas as coisas possíveis”. Porém o Vietnã não é Berlim. É claro que há outros fatos que 9 . e o alargamento das fronteiras do império humano. e no fumo que ascende da incisão sacrifical no Sul do Mar da China ela lê seu passado e vê presságios do seu futuro não tão obscuramente quanto poderia desejar. que foi emboscada na Ásia pelo seu próprio passado oracular. Não são só seus soldados-filhos que enfrentam armadilhas e estacas “punji” naquelas selvas. fruto da mesma linha ocidental. Crise após crise. A América moderna. Francis Bacon Os antigos oráculos do Ocidente mediterrâneo abriam o ventre de bois e compreendiam o passado e anteviam o futuro na fumaça de suas entranhas ardentes. O Vietnã prende-nos com uma nova garra. inventou agora de abrir o ventre da velha-jovem Ásia. estes últimos vinte anos tinham aparentemente nos insensibilizado para as crises. Coréia ou China. tendo em nosso tempo a emergência se tornado o estado comum do homem. toca um nervo novo. a sua confusão não de todo oculta por sua fúria.I Ocidente Encontra Ocidente: o Nexo do Vietnã O destino ocidental é “o conhecimento das causas e movimentos secretos das coisas. É esta nossa América Ocidental. convence-nos de que esta guerra é o acontecimento mais importante e prenhe de significado e consequência.

tão indignas do momento? Por que tantos americanos — e.contribuem para esta convicção. em nossa história. precisamente quando nossos líderes se acham mais sozinhos na grandiosa defesa da liberdade ocidental. tão bem estudada: uma nação inteira 10 . Porém a guerra. no fundo de nossas mentes. desde que nem no Vietnã nem no Mississipi os velhos remédios de prazer-dor resolvem nossos problemas. em nossa pátria. Mas é a primeira a ser tão grande. começamos a indagar. Talvez estes sucessos do passado fossem apenas adiamentos ou quarentenas. Por que agora estas explicações parecem tão banais e inapropriadas. seria ominosa bastante. Todos são forçados a admitir que ela parece ser “um poço sem fundo” — uma guerra eterna. confrontado com esta guerra. também. Talvez agora lá parece não mais haver tempo para adiamento ou quarentena. que outrora produziu tão convincentes e úteis definições de vitória e derrota. Desde que as velhas verdades se recusam a funcionar. tão prolongada e. Os problemas raciais americanos pioram precisamente quando nossos líderes tentam duramente pôr-lhes fim. se realmente jamais haviam resolvido algo antes. europeus. os americanos tendo estado sempre prontos a fazer o que é necessário para ganhar o que deve ser ganho. O problema parece ser o de não mais estarmos certos do que significa “vitória”. Esta guerra está agindo. permanece mudo. A miséria urbana se intensifica precisamente quando nossos líderes a atacam de frente com sua melhor determinação e ingenuidade. Homens já morreram antes. Não é a primeira de sua espécie. Um novo sectarismo faz com que nos voltemos raivosamente uns contra os outros. nunca tendo os americanos se assustado com as asperezas da violência. nem o contínuo eludir da vitória. mais uma vez. global e doméstica. se lançou em uma marcha da antiga guerra santa contra o totalitarismo? Por que tantos de nós não mais nos sentimos rejuvenescidos pelos velhos contos? Não podem ser as asperezas da guerra a razão da diferença. em uma direção única. só ela. O liberalismo ocidental. Acelera-se a militarização de nossa economia política. Ninguém pretende mais conhecer seus limites. não mais desculpas para não se chegar à uma opinião. e os Estados do ocidente europeu começam a se individualizar dentro da Aliança. precisamente quando nossos líderes pedem mais unidade. Por que o Vietnã romperia tão profundamente a tranquilidade ocidental? Temos para esta guerra as mesmas explicações que tivemos para todas as outras. acima de tudo. em maior número ainda — não estão satisfeitos em ouvir que o ocidente liberal.

tivesse sido. porque agora não podemos negar que há sangue no altar e que as mãos dos sacerdotes não são puras. mais bem consubstanciadas sobre a Guerra Fria e os conflitos a longo-prazo dentro do Ocidente e entre o Ocidente e o Oriente. a quem de hábito era permitida a moratória da ignorância. destruído por ele. um ato privado. em algum tempo futuro. Foi o Ocidente que inventou o pretencioso e arrogante conceito do “selvagem”. O esforço é no sentido de provar o específico pelo princípio que ele incorpora e o falso pela verdade que ele encobre. a fim de ser submetido por ele. de uma evidente inconveniência. o capítulo seguinte se dedica a uma breve escaramuça com as explicações oficiais de nossa guerra de “Mundo Livre” pelo Vietnã. chegar. O tipo de argumento neste ensaio segue. através dos lugares-comuns superficiais sobre o Vietnã. Este ensaio sobre o Vietnã é. Dificilmente poderia ser de outro modo. civilizado por ele. no essencial. o processo pelo qual vim a ser a espécie particular de partidário que sou. do qual cada um de nós terá que prestar contas pessoalmente. até generalizações mais sólidas. foi o Ocidente que deu ao próprio horizonte um significado caracteristicamente político. escrevo como um partidário que foi educado por outros partidários. tenta-se aplicá-los com honestidade e com toda perícia que se possa exibir e procura-se ter a coragem de aceitar todos os mandamentos pessoais que possam implicar das conclusões. antes. explicações que eu considero ser. de forma tão específica. se considerado um obstáculo para seu “alargamento das fronteiras do império humano”. Com esta guerra a história se torna assunto íntimo de cada um de nós. não poderemos adorar de novo na velha igreja. Nenhuma civilização foi mais violenta do que a nossa civilização ocidental. um ensaio sobre o Ocidente.observa-se a si própria neste ato — o ato sendo (contra toda justiça) a incineração de toda uma outra nação. em parte porque já foram discutidas bas11 . portanto. Eu as abandono de imediato. encontrar conforto em velhas verdades. sustentando que o que ainda não podia ser vislumbrado existia. Com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas de qualquer outra pessoa. colocado ante uma visão clara da capacidade de sua cultura para a violência. a fim de se tornar visível a ele. momento algum em que o povo do Ocidente. Alguma outra civilização já se destruiu a si própria tão abertamente — tão carnalmente — como o faz agora a nossa? Dificilmente poderemos voltar imutados deste espetáculo para sonhar velhos sonhos. Não houve. Assim. antes. Não se nasce com uma tarefa política. ou. Recebe-se certos padrões. do qual a Guerra Fria aparece como o episódio presente e culminante.

12 . de tornar mais explícito o tema geral que eu já sugerira: a guerra do Vietnã é uma crise revelatória da Guerra Fria. é uma tentativa de reconstituir as linhas mestras das principais questões que os ocidentais poderiam tentar confrontar — uma tentativa. mas principalmente. a ideologia do anticomunismo da Guerra Fria. O VI Capítulo se transporta ao outro lado da linha de combate.tante por agora. que jaz sob eles. e a própria Guerra Fria é a crise final da identidade ocidental. porque sufocam uma linha de argumento menos piedosa. portanto. ele encontra a si mesmo. O último capítulo. caso seu compromisso com as banalidades pontificais não o silenciasse. O III Capítulo é uma análise crítica da melhor história do Guerreiro da Guerra Fria. porém muito mais sólida. numa tentativa de desnudar. um argumento que o bom Guerreiro da Guerra Fria teria apresentado. o seu intuito é revestir de alguma carne humana o inimigo por demais abstrato que tão precipitadamente condenamos — o rebelde. o Oriente que o Ocidente enfrenta no Vietnã. à força. as verdades políticas que aqueles erros devem ocultar. visando descobrir não só os erros históricos que contém. O propósito principal do II Capítulo é reelaborar aquele argumento. baseado naquilo que o precede. na realidade. A reinterpretação da Guerra Fria (IV Capítulo) daí resultante é aplicada no V Capítulo ao caso do Vietnã. Não é. o que é mais importante. porém.

que por algum motivo prefere não 13 . descascar a camada superior de propaganda para revelar as camadas inferiores mais tenazes de ideologia. mas outros.II A História do Guerreiro da Guerra Fria O Secretário Rusk não é tolo. O segundo pensamento é melhor. e pensar: Estas razões são tão ruins que devemos ter caído nas mãos de loucos. estão encravadas. devemos fazer alguma mineração. Existem outras razões. a razão mais fraca à superfície. onde razões de guerra menos piedosas. Este é o objetivo deste capítulo: levar o foco analítico através das mentiras brancas da política de guerra até o substrato ideológico. Se Rusk pretende estar convencido por argumentos que não convenceriam ninguém tão inteligente como ele. Parece. a mais forte. por que continua ele a dizer isto? Senador Clifford Case1 Pode-se ponderar as razões oficiais que Washington dá para nossa luta no Vietnã. Acorde com o Senador Case. Desta forma. haver numerosos graus e variedades de raisons de guerrilla que se sobrepõem umas às outras como tantos estratos geológicos. que dão à propaganda sua base e desígnio. devem pensar: Estas razões são tão ruins que deve haver outras razões. não desejo concluir que Dean Rusk é um tolo. e a mais dura. então ele deve ter sido convencido por outros argumentos. na verdade. debaixo dela. mais honestas. também.

E a afirmação da CIA. precisamente antes da invasão. supostamente objetiva. Estamos respondendo a um apelo de emergência do povo vietnamita.* Porém. Mas antes tem de ser esclarecida sua propaganda.expor. Uma. é identificado como um antigo oficial AID. A única questão é: Que espécie de reputação desejamos para nosso país? Resistimos a uma invasão: a) A Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul é uma criatura política do Vietnã do Norte. Se lutamos deve ser porque pensamos que devemos lutar. Tendo em vista a intimidade notória do AID como a CIA no Vietnã e a abundância de dados que parecem ser altamente confidenciais a que teve acesso Carver. os dissidentes consideram-se partidários do prestígio da América. Tanto quanto o Presidente Johnson. o qual definem de modo diverso. de que o povo cubano estava se preparando para um levante contra Castro. de que adianta o ceticismo num caso em * Várias amostras da historiografia da CIA podem ser citadas. é bizarra. apresentados por ela aos analistas do Departamento de Estado e da Casa Branca. a CIA aparece como tendo conscientemente falsificado a informação. em Saigon. Estamos legalmente obrigados a lutar. Nossa reputação global está em jogo. a Baía de los Cochinos: Murray Zeitlin e Robert Sheer (Cuba: Tragedy in Our Hemisphere. O autor. simpática bastante à nossa própria política para julgar chegada a sua hora no Palácio Presidencial de Saigon. é medida de prudência mantermo-nos céticos a respeito dos “fatos” de Carver. Uma vez que pode ser justamente isto. sobre a qual nossos mentores políticos estavam baseando seus planos. seria de se estranhar que seu trabalho não fosse. 1964) constataram que a CIA maldosamente alterou os textos dos discursos de Castro. É ainda mais óbvio que nenhum estado forte hesitará um momento sequer em violar um tratado que julgasse prejudicial aos interesses nacionais. Jamais ouvimos falar do povo vietnamita. O melhor desenvolvimento deste argumento pode ser encontrado num longo e detalhado ensaio na edição de abril de 1966 de Foreign Affairs. tendo o pacto da SEATO ainda mais cláusulas de escape do que o da NATO. e talvez isso seja importante.. George A. e não porque tenhamos sido apanhados por um instrumento legal. Penso que os argumentos mais convincentes podem ser reconstruídos. um documento da CIA. isto é. É óbvio que não há acordos tão indiscutivelmente comprometedores. “O Vietcong sem Rosto”. Carver Jr. Mas este argumento é faca de dois gumes. Ouvimos falar apenas daquela elite vietnamita. Talvez esteja. mais ou menos. a história do Guerreiro da Guerra Fria pode ser recomposta. se não percebermos que o propósito da CIA era envolver os Estados Unidos numa situação da qual poucos governos podiam ter decidido se 14 .

Os estudiosos franceses Bernard B. Conjetura-se. E. 1964) escreve que este informe foi amplamente interpretado como uma tentativa de influenciar os aliados dos E. contudo. que ele pode ter sido treinado por pessoal das Forças Especiais dos EE. a CIA filtrou a “informação’’ de que a taxa de crescimento anual da U. ** O pormenor sobre a infiltração militar dos EE. exceto que estava dirigindo operações paramilitares no Vietnã do Norte. o Comitê pela Libertação do Vietnã do Norte. Que fazer com uma “prova” que não pode ser testada? Aceitá-la. 15 . está documentado na memória do ex-membro das Forças Especiais. em Ramparts. logo após a consolidação do poder feita por Ngo Dinh Diem. pode também ser verdade completa e perfeita. A que provas podemos submetê-la? Podemos comparar a versão de Carver com a de Wilfred Burchett. de 6 a 10 por cento. de fevereiro de 1966.2 porém Burchett é tão partidário quanto Carver.S. a elaborada descrição que Carver faz da gênese da Frente de Libertação Nacional (FLN) pode ser pouco mais que uma fantasia à Borges. qual foi o primeiro golpe e qual o contragolpe. Porém muito mais importante do que questões sobre as origens burocráticas da FLN é a questão: Por que ela cresceu? Suponhamos que desvencilhar. Ngo Dinh Nhu. Esta concessão nos permite indagar a Carver o que sabe ele sobre aquele outro intrigante. Concedamos que Hanói. de novembro de 1956. em janeiro de 1964.S. Minha outra informação sobre o comitê de Nhu foi obtida em palestras com oficiais americanos e com um vietnamita antigo membro dele. tenha intrigado para criar e deter o controle da FLN. e aquela outra organização “criatura”.S. Sei muito pouco sobre este misterioso e injustamente ignorado comitê. Paul Blackstock (The Strategy of Subversion. Outro exemplo.5 por cento. mas podem estar errados.R.UU.que os “fatos” são tão inacessíveis? Pelo que podemos saber com certeza. em julho de 1965. de Nhu. a não conceder grandes créditos de exportação a U.UU. U.** Não há saber no mundo que nos esclareça qual dessas duas “criaturas de libertação” foi inventada primeiro. Donald Duncan. em Saigon e Hue. com aquela viciosa habilidade pela qual reconhecemos nosso Inimigo. e todos os três descrevem a FLN de maneira que difere muito mais de Carver do que de Burchett. caíra em 1962-1963 a 2. que pode ter sido financiado diretamente pela CIA. Philippe Devillers e Jean Lacouture são mais fidedignos dentro de um corrente critério acadêmico. e que pode ter estado envolvido na famosa rebelião dos fazendeiros de Vinh. Fali.R. declínio considerado inacreditável pela maioria dos especialistas ocidentais.S. em 1956. U. que estava infiltrado no Vietnã do Sul (com passaportes civis) pela metade da década de cinquenta.

jamais produtos de uma diplomacia sombria. de disciplina férrea. na certa. na medida em que se deva atribuir a algum oficial governamental o crédito. pela imposição dos famosos programas de recolonização. a CIA. comunista ou não-comunista. ou a culpa. mas com as elites dos salões da Riviera Francesa. Diem reagrupou a matriz político-cultural da qual brotava o movimento Vietminh. ou não pôde resistir. ele reconstruía a oligarquia latifundiária e as classes compradoras que o Vietminh derrubara. sabemos algo sobre guerras populares (aprenderíamos muito com um estudo de nossa própria revolução) é que elas não podem ser forçadas a existir por meio de decretos burocráticos remotos. Na passada década de 1950. Passo a passo. como se fora esta sua real intenção. sabem melhor do que ninguém (voltaremos a isso) o que cria guerras populares. mas sua substância e seu impulso são os maciços ressentimentos. pela guerra popular que agora devasta o Vietnã. mesmo estratégica. e tornou-se. foi sentida por tantos sul-vietnamitas como uma revolução inteiramente legítima vinda de dentro? Por haver terror? Havia terror em ambos os lados. chegando mesmo ao detalhe de rodear-se de oficiais vietnamitas. Guerras populares são fenômenos culturais. não com os camponeses do Vietnã. mais brancos e melhor arrumados do que seus predecessores franceses. a uma crescente ajuda militar dos Estados Unidos. Tais decretos podem dar-lhes forma tática e. associado dos bem-intencionados americanos. o Presidente Diem suprimiu pela violência toda oposição política.o regime norte-vietnamita promulgasse certos decretos. às vezes. ou tolerou. por igual. simultaneamente. Diem desejou. que eram ainda mais altos. em ambos os lados. tal oficial seria o falecido Ngo Dinh Diem mesmo. Este novo imperialismo transformou a revolução social numa guerra patriótica de libertação. por que só num surtiu efeito? Se. muito provavelmente. como só num surtiu efeito? Será por que havia uma organização secreta ferreamente organizada? Havia organizações secretas. George Carver. afinal. E. o Departamento de Estado e a Casa Branca. Diem agiu no sentido de despedaçar a tradicional base aldeã da sociedade vietnamita. alienação e miséria populares. através de um movimento subterrâneo no Vietnã do Sul: Por que tanta gente sul-vietnamita correspondeu? Como foi que esta invasão ilegítima. sabem que a emanação de ordens em Hanói tem muito pouco a ver com a maneira 16 . que tinham lutado ao lado dos franceses. Aquela supressão forçou os episódios iniciais de insurreição defensiva. bem como. e das classes superiores católicas. que há gerações se identificavam. Este novo feudalismo transformou a insurreição inicial numa revolução social. vinda de fora. fora de dúvida.

o maior total já alcançado num período de seis meses. um aumento de 52 000. Por certo. desde o início do ano4 (Este número. é politicamente ameaçador. outros fatos. preparamo-nos para tomar conhecimento de que nosso inimigo é constituído na maior parte por tropas nortistas. mais vêm lutar). pelo que vem depois. proclamávamos 31 571 “mortes”. Mas o caso parece ser outro. Porém. a mais desonesta de todas. No mesmo período. por exemplo) não nos permite acreditar que a estimativa não tenha sido inflacionada para um maior efeito político. O argumento da invasão parece minado por sua melhor evidência. Porém. Resistimos a uma invasão: b) Tropas norte-vietnamitas estão lutando no sul. Com todo o furor oficial. muito mais surpreendente do que esta omissão é a inconcludência das estatísticas da infiltração. incidentalmente. Há outros números. e muito antes de haver qualquer base para a acusação de infiltração por parte do norte. O comportamento da Administração. Assim. em si.3 O que vem antes não pode ter sido causado. Se a revolta é necessária ela virá. os norte-vietnamitas. Dizse que os americanos são um pequeno número e que ajudam com umas armas. afinal de contas. não haverá no mundo ordens capazes de instigá-la. mesmo na falta de maiores informações. que agora ultrapassam as forças “invasoras” do Vietnã do Norte em mais de 6 para 1. Destes 282 000.pela qual tais ordens vão ter repercussão no Vietnã do Sul. tal como na guerra da Coréia. No solstício do verão de 1966. cerca de 50 000 supõe-se ser infiltrados nortistas — e a grande maioria destes 50 000 se pretende tenham vindo para o sul a partir do sistemático bombardeio americano do Vietnã do Norte. 17 . aquela evidência não parece justificar o nível de nossas próprias forças. frente a outros problemas estatísticos (as já faladas “mortes”. ficamos sem a explicação de “agressor-externo” para pelo menos quatro de cada cinco partidários militares ativos da revolução. bem antes de haver terminado o período de controle francês. é. a força total da FLN era oficialmente estimada em 282 000 homens. Um. que teriam uma boa razão para lutar. mal chegam a 18 por cento do total das forças da FLN. se não é necessária. começado em fevereiro de 1965. com ordens ou sem elas. A velha fórmula se repete: Quantos mais são os que morrem. Frente ao fato concreto de que o Vietnã do Sul se revoltou. Não basta. é que nossa militarização do Vietnã do Sul estava em pleno processo pelos fins de 1954. os argumentos sutis de Carver sobre organizações “títeres” e “criaturas” perdem toda substância. e nem pode ser desculpado. Linha de argumento bastante forçada. mesmo não o tendo sido.

O Vietnã está hoje dividido. com canhões. Relembremos que as tropas do General Washington eram superadas. isto é claramente incorreto. em apoio a nossa causa revolucionária. Isto é. é claro. Porém. É só para notar que a presença de tropas de fora.Devemos repisar um pouco a estratégia política desta preocupação com tropas “estrangeiras”. o argumento pressupõe que há dois Vietnãs. com a confusão à Munich. Examinaremos muito de perto. pela França. a Administração tem descrito o paralelo 17 a “linha de demarcação militar temporária” da Conferência de Genebra de 1954 — como uma fronteira nacional permanente. isso não faz de Tho um agente agressor. no terreno político. Isto é. e que Washington venceu aquela batalha. pelo número de seus camaradas franceses. esta necessidade e esta correção. ou o estabelecimento de alianças. e correta bastante caso necessária. de todos os povos. dizer que as revoluções americana e vietnamita são semelhantes. assim como a Alemanha para a Tchecoslováquia de 1938. Ela dissimula duas suposições decisivas. A lei serve ao poder. Espanha e Holanda. combateu e derrotou a frota britânica que protegia a retaguarda de Cornwallis. permanece incorreto dizer. Alguns terceiros partidos apoiaram a FLN de Nguyen Huu Tho. seja a divisão defensável ou não. em grande parte. Relembremos que Washington decidiu travar a batalha de Yorktown. e indiretamente. porque o Almirante de Grasse prometeu navegar das Índias Ocidentais para desembarcar 3 000 soldados franceses. um dos quais pode agredir o território do outro. porque de Grasse perseguiu. separados e soberanos. ou a interferência em qualquer lado de estados do terceiro-partido. em James Island. nada provam a respeito da natureza política interna do conflito. em Yorktown. isso não torna Hitler um revolucionário tcheco. porém. permanente pelo menos enquanto dure a Guerra Fria. Relembremos em que extensão nossa própria revolução foi apoiada direta. que as duas metades do Vietnã estão uma para outra. Não queremos com isso. e. Relembremos nosso sentimento nacional por Lafayette. nós americanos devíamos saber isso. Relembremos os 3 000 cargueiros britânicos que os franceses ajudaram a pôr a pique. em grande parte. se suas tropas forem estrangeiras. Os Guerreiros da Guerra Fria podem argumentar que uma tal divisão é legal bastante caso seja correta. certa 18 . mais tarde. A primeira é de que é espúrio um exército pretender o status revolucionário nacionalista. Alguns tchecos apoiaram a Wehrmacht de Hitler. A segunda suposição dissimulada no argumento da invasão é a de ser possível uma invasão politicamente comum entre o Vietnã do Norte e do Sul. comandados por Rochambeau.

por seu próprio interesse.5 Todo senhor de um império mundial desde então encontrou ocasião de desempoeirar o que agora chamamos a teoria do dominó. prejudicados em seu comércio. dependentes da América do Norte. É a estabilidade mais importante do que a justiça social? Pode a mudança ser realizada dentro do status quo? Pode a aquisição ocidental de hegemonia econômica global coexistir com as justas aspirações dos pequenos estados? Pode o progresso daquela aquisição ser invertido sem violência? A teoria do dominó nada tem a dizer a respeito das verdadeiras condições e problemas que lhes dão a vida estropiada que têm. de todas as questões sociais realmente importantes a respeito das quais os ocidentais em geral. só precisamos notar que sua versão popular dá como esclarecidas. mas teriam que ser. estaremos tratando este argumento muito seriamente de uma forma muito elaborada. com furiosa arrogância despreza o Vietnã e todas as outras peças do jogo como possessões do Mundo Livre (leia. que os Estados Unidos achavam aterradora. Porém sua suposição mais importante ainda parece válida: o nacionalismo é uma traição ao imperialismo. ou limita a visão. 19 . O rei ficou indignado. paranóica e mecanicista. pois. então esta Ilha seria reduzida a ela mesma e logo seria uma pobre ilha. era dispendiosa demais e devia ser sustada: dever-se-ia garantir aos americanos sua independência. “as Índias Ocidentais teriam de segui-la. estritamente devido a insistência dos Estados Unidos e estritamente porque havia uma revolução na China. O rei tornou claro para North que se a América obtivesse êxito. precisam tanto de esclarecimento. não [para] a independência. é primitiva. Respondeu que a contenda americana era a mais importante em que jamais estivera envolvido qualquer país e censurou North por “pesar tais eventos ao modo de um negociante atrás de seu balcão”. Se não formos capazes de conte-los aqui. A descrição implícita da teoria. sem dúvida. Por agora. extremamente avançadas. Em 1799. os mercadores se retirariam com seus bens para climas mais favoráveis. Pelo fim do IV Capítulo. teremos que conte-los em algum outro lugar. no sentido pelo qual a demanda de mudança emerge e é moldada pelos acontecimentos internacionais. Pretende que não há de forma alguma indagações a fazer sobre nossas posições internacionais. e os americanos em particular. North comunicou a George III estes sentimentos. a Irlanda em breve seguiria o mesmo plano e seria um estado separado. e multidões de manufatureiros deixariam este país pelo novo Império”. Lord North chegou à conclusão de que a tentativa da Inglaterra para submeter os americanos já fora bastante longe.ou erradamente.

Mesmo quando nos tornamos críticos. debatemos e debatemos. Há uma luta no mundo. o nascimento da rebelião e sua propagação. Mesmo os críticos não discutem muito a idéia de que justiça é o 20 . sendo dominadas por nós são nossas para que percam. faz-nos acreditar que há um Portão e que o Inimigo está ante ele — ou prestes a estar. um executivo federal desenfreado. e estamos em guerra. sem ser explicada ou debatida. negando implicitamente que os homens se revoltam pela causa humana. o coração da pátria é aquecido para o sacrifício. estas razões para guerra são pouco mais do que os “slogans” de uma campanha de vendas de mercadorias encalhadas. e às vezes leviano. aprofundar o sentido de Hoa Hao e observar a linha de Cao Dai. sempre tragados de novo por aquele turbilhão do Sudeste Asiático. nacionalismo toma forma e apaixona. americanos. comprovar-lhes. (senão) diabólico. Não tendo sido dada chance a um bom povo de imaginar quem é seu inimigo e porque seu inimigo luta. com estatísticas. Os “slogans” fazem também algo de mais sutil: fixam nossa atenção no próprio Vietnã. laborar nos significados sutis de tratados e suas cláusulas. pedindo emprestado a Walter Lippmann e George Ball. estes “slogans” manipulam nossos pensamentos. seu desejo elementar de justiça. os mortos sepultados. nomes e datas? O que fará a Ásia? No entretempo. como um todo criminoso. E é preciso entender essa luta. denominou com justeza “globalismo — a ideologia do envolvimento do mundo todo”. evoca as imagens de uma ameaça muito lendária.6 Desde “luta pela liberdade” até “detê-los agora”. apregoando suas mercadorias ao dinheiro público. Tal luta envolve muito a América. um difuso. como se a única parte difícil de sua política no Vietnã fosse a tarefa puramente técnica de aplicar à turbulência da Ásia. moribundo ou morto? Que novas formas tomará no futuro este confete de estatísticas. os jovens são convocados. uma política externa que Gary Porter. Geralmente. não lhe tendo sido dado tempo de pensar em meio às aturdidoras implicações de uma política externa que se enredou nele. põe fora da lei implicitamente a rebelião. em aturdidor contraste com este problema para um cálculo não descoberto.Estados Unidos) as quais. e. Nós. Porém os teóricos do dominó soam os tambores do anticomunismo. convidam-nos a reencenar na solidão. a América permanece pouco mais que indiferente na serena ingenuidade de seu propósito. Que quer Ho Chi Minh exatamente? Le Duan é mais forte do que Vo Nguyen Giap ou Pham Van Dong? Que facções se degladiam dentro da FLN? Mao está vivo. satirizar certas eminências-pardas e apiedarmo-nos de outros. segredos e profecias. Por meio destes “slogans”. os heróis condecorados.

Queriam mudança social. homens bons.que a América deseja. ou não. Ela vencera estas guerras simultâneas tão só para ver aqueles valores ameaçados outra vez. instruídos. colocada no ostracismo em relação aos negócios políticos e econômicos da Europa. Turquia. talvez mais ameaçadoramente. que só prolongou e adensou os horrores de sua guerra civil. vezes sem conta. Os Estados Unidos viam o Comunismo Soviético como ameaçando a Europa com outra longa convulsão revolucionária. dedicamse. guiados nessa recapitulação pelos raciocínios mais lugar-comum do anticomunismo da Guerra Fria. convencida de que fora oferecida em sacrifício à Wehrmacht por meio da política de apaziguamento de Chamberlain. Basta apenas recapitular as duas últimas décadas. estava o Partido Comunista. Em vez disso. vergastada internamente durante quatro anos pelo assalto do poderio de Hitler e sem auxí21 . a ideologia política dominante da América. cujos elementos europeus estavam sob a disciplina de Moscou. De seu lado. No centro do desespero da Europa. O que é que o bom Guerreiro americano da Guerra Fria deve ver atrás da propaganda? O que o persuade a enganar outros americanos? Por que o Secretário Rusk. A aliança de guerra fizera talvez muito mais para aprofundar. uma burocracia internacional centralizada. Grécia. por Stálin em 1945 do que por Hitler em 1940. Dois inimigos se defrontavam por sobre uma Europa devastada. Pensemos em 1945. quase por toda parte. vítima de uma intervenção militar ocidental maciça. as vigas-mestras das instituições sociais. parecia. Na Europa Oriental. Isto é errado. que não é tolo. o melhor meio de provar a alguém se nós fomos. a exausta União Soviética também se sentiu ameaçada. “continua a dizer isto”? Isto pode ser respondido. sua duradoura e aparentemente bem fundada desconfiança mútua. para preservar certos valores e instituições e uma concepção de sociedade que simplesmente não eram sem interesse para ela. aprofundá-lo e usá-lo. tentando. Itália. A guerra longa havia quebrado. do que para dissipar. ao exame cada vez mais acurado do quebra-cabeças do Vietnã. Iugoslávia e França havia personagens poderosas que por certo não se satisfariam com a derrota do Eixo e em voltar à ordem social de pré-guerra. Condenada pelo Ocidente desde os primeiros anos de sua revolução. O assunto básico de uma análise política séria do Vietnã é a América. enganados em nossa escolha dos beneficiários vietnamitas. A América derramara seu sangue e tesouros pela Europa e Ásia. nas décadas de vinte e trinta.

convencido. dos mais audazes advogados da “volta atrás” e “libertação”. Por volta de 1950. quem desconhecia o que estava para vir? Mas a guerra russo-americana não foi travada. A guerra que não aconteceu tornou-se um modo de vida. via o ajuntamento calculado em suas fronteiras políticas de uma aliança militar totalmente envolvente e a crescente influência. mesmo o mais desinteressado e inocente aprendeu como viver em alerta. suas principais cidades fumegando e suas terras aráveis devastadas. as linhas territoriais da Guerra Fria Européia tinham sido convenientemente acertadas pelas duas potências magnas. mesmo legitimados.”7 Pela década seguinte. E correu pela Europa o rumor.. A despeito da camaradagem da Grande Aliança. de que aqueles cinco anos de guerra mostrar-se-iam mero prelúdio daquela. levado a efeito por Churchill. o famoso artigo “X” de George F. o Ocidente democrático observou horrorizado como a Alemanha Oriental. ela olhava através daquela Alemanha cuja invasão tinha tão custosamente repelido. este mais poderoso do que o primeiro. dentro da Europa Oriental. Kennan. Foi transfigurada. tão só para ver outro inimigo. sua indústria arruinada pela guerra e seu povo confuso e paralisado com o sofrimento.lio pelo atraso do segundo fronte. à catástrofe total não só para o regime terrorista. fatal e “histórica” das guerras. de que “a lei interna do terror stalinista [deveria] conduzir a Rússia de Stálin. ele não afirmava a inevitabilidade de conflito nacionalista. a mais fundamental. E o horror da Rússia deve ter sido pelo menos tão grande quando observava a Nova Alemanha surgir viva com aço e armas. Polônia e Hungria ficaram de pé só para serem subjugadas. lançara as bases de uma diplomacia ocidental sustentável: comunismo não era fascismo. justo quando a Alemanha nazista estava para cair. a inevitabilidade da decadência capitalista autoprovocada. porém.. precisava 22 . antes. não se considerava comprometido com um horário para a conquista. Em 1947. De ambos os lados da fronteira. segundo as palavras de Franz Borkenau.. em documentos oficiais — pelo menos por algum tempo.. a que precisava ser travada para fazer o mundo todo seguro afinal para o capitalismo democrático. mas também para a nação governada por ele. Os ajustes de Stálin. com mais de 20 milhões deles mortos e cinco vezes este número aviltados pela ocupação nazista. seriam permitidos. portanto. O Ocidente colocaria seu próprio ferro através da cortina e esperaria sua oportunidade. no campo de sua inimiga. para construir uma zona tampão contra a agressão de uma Alemanha reconstruida.

Mas. Era apenas importante permanecer em vigilância. era paciente. Foi naquele ano que se tornou inegável um equilíbrio de poderio estratégico Oriente-Ocidente. a permanência da revolução cubana. a humilhação da prova decisiva dos mísseis cubanos. cada lado pelo menos pretendendo permanecer confiante na vitória final. em comum acordo estavam para acertar o limitado tratado de proscrição das provas atômicas. E de crise em crise. e o golpe vermelho de fevereiro seguiu-se como um reflexo. a nuclearização da Alemanha Ocidental por nós. É difícil fixar uma data para o que não é um evento. que os russos haviam empurrado. um divisor de águas. para sua posição primitiva e assim mantê-la até que a tolice comunista finalmente se refutasse a si mesma. de uma política exterior soviética que pode tolerar. aparentemente sem grande preocupação. o cauteloso entendimento dos nossos próprios dias tomava forma. Hoje. e de uma política externa americana. igualmente bizarra segundo os padrões da Guerra Fria. já que os marxistas estavam errados. a Doutrina Truman condenou a esquerda grega. Assim o Ocidente capitalista devia ser paciente.tão só levar em conta tempo e lógica econômica para fazer seu trabalho. Naquele ano os soviéticos aceitaram o que parecia ser. no começo de 1948. numa mensagem-relatório ao Congresso [State of the Union message]. também. somos as testemunhas. porém talvez 1962 seja. sob certos aspectos. o Plano Marshall atraiu a Tchecoslováquia de uma órbita para outra. as leis de economia. em termos talvez condicionais. Não era preciso guerra preventiva. e ambos os lados. nossa violência crescente no Vietnã e nosso roubo dominicano. a grosso modo. a América aceitou. e que os chineses desfecharam seu maciço ataque ideológico contra a União Soviética. que pode mesmo ser pilhada a lançar olhares furtivos para a União Soviética como uma possível mediadora 23 . que pode aplaudir os soviéticos por seus êxitos diplomáticos em Tashkent. persuadido de que a maldade do outro lado cegava-o para as lições da história. por maior comércio com o bloco vermelho europeu (oferecendo mesmo a estes países tratamento de nação mais favorecida). recolocar a linha de demarcação. em tempo de guerra. e sim um processo. Certos duetos-chave foram cantados em certos cemitérios: Em abril de 1947. surpresas muitas vezes. era possível dizer que o metabolismo da Guerra Fria mudara. que pode propugnar abertamente. impedir negligência e oportunismo. O capitalismo podia muito bem tomar conta de si. a direita húngara ficou com as consequências. e a onda do futuro. e em maio. pelo menos. os fatos da natureza humana.

as crises são atribuídas a elementos extremados em vez de a estados-maiores. tivemos a experiência de programas de ajuda virtualmente integrados no Afganistão e Índia. A respeito. por trás disso. para ser exato. base ou porto em terras estrangeiras. entrementes. faz as mais enérgicas e efetivas incursões diplomáticas em nossa esfera asiática de influência. faz quase nada pelos vietnamitas. jamais 24 . Em vez disso. e que não representa. Com a União Soviética nós fomos do confronto hostil à détente.9 Foi encontrado evidentemente um substituto para a guerra. pois temos alguns sinais de que uma Propaganda Avançada está em curso. A Guerra Fria européia não mais encontra russos e americanos se observando pelas miras de fuzis. comparada com a Rússia. Permitem-nos pensar que Brejhnev e Kosygin são capacitados técnicos burocráticos. Contam-nos como um professor Libermann.L. mas faz discursos. uma espécie diferente dos diabos da véspera. é evidente que nossos próprios cognoscenti políticos receberam um novo aviso. Estamos em solidariedade declarada na vexatória questão do Kashmir e. tornou-se embotada pelas garantias mundanas de uso diário. quando esta mesma União Soviética empreende o aparelhamento bélico de nosso inimigo norte-vietnamita. insultou com acinte os economistas marxistas em seu antro. O encontro militar direto é temido e evitado igualmente por ambos os lados. não diz absolutamente nada. não tem um único soldado. num movimento tortuoso. Sua amargura perdeu a intensidade. Tudo isto está evidentemente muito de acordo conosco. de forma alguma.8 E. uma potência. Na União Soviética não mais se antecipa todo dia o Grande Colapso Capitalista: as heresias de Eugene Varga na metade da década de quarenta transformaram-se tranquilamente nas ortodoxias da década de sessenta. e às vezes a gente imagina se não há algo ainda mais surpreendente no ar: uma lenta convergência de objetivos políticos. Em geral. Nossa cólera está agora reservada para a China — a mesma China que.C. Sulzberger de The New York Times — uma fonte de informação privilegiada — indagou se a animosidade soviético-americana explícita não se tornou tão só uma fachada para uma aliança implícita mais importante. em nome da motivação do lucro. O relacionamento não mais se define por sua ira e incertezas.em um acordo com o Vietnã e que. talvez em perfeito acordo sobre a questão da China. Congratulamonos mutuamente de forma rotineira por nossas explorações supercientíficas na proclamada vizinhança não política da lua. fornecer armas aos revolucionários latino-americanos. e promete na conferência Tri-Continental de Havana. ameaça militar aos Estados Unidos.

mutuamente interinfluentes. não há uma exposição definitiva. as atitudes mutáveis. torna-se essencial para as nações sábias gerar a consciência desse fato entre as imprudentes. 21 de maio de 1966. às vezes. você chega a certas conclusões racionais. Uma vez que você toma consciência disto. e também exibindo esse poder ante os olhos das imprudentes que não podem mal interpretar a mensagem: Você pagará caro qualquer loucura. podemos nós desvendar os segredos desta alquimia que mudou túmulos em abrigos de proteção antiaérea. Isto não foi mera renovação da política de esfera-de-influência do século dezenove. tornou-se secular e pragmática. ser explicadas de várias diferentes maneiras. as palavras do Secretário McNamara: “Agora o povo toma consciência do que dificilmente alguém perceberia cinco anos atrás — de que é impossível vencer um embate nuclear total. O fato de a guerra aparentemente predestinada não se ter travado é talvez o que agora nos intriga. Assim. sob qualquer aspecto.* Esta premissa tem de ser estabelecida. largamente sustentado. pode-se generalizar nossa experiência ali em termos de uma teoria de contrôle-de-conflito. 30. nações pouco sábias podem não entender isso. de Stewart Alsop. mais a verossimilhança de seu uso. uma vez que aquilo que uma guerra poderá ganhar é. são o evitar a guerra e a criação de uma sociedade global estável em que predominem os valores liberais. de que os objetivos. Em nosso tempo a política perdeu sua teologia. Porém. * Por exemplo. As posições tornaram-se negociáveis. Primeiro. e abrigos antiaéreos em casas? As intuições políticas produzidas em nossos estadistas por vinte anos de Guerra Fria européia podem. A força. ) 25 .se propôs entender-se claramente sob novos aspectos. Pela dedução de que a perseguição destes alvos está nitidamente menos obstruida na atual détente européia. As demandas de poder lentamente perderam seu status quase metafísico. sem dúvida. cujo alvo era a dominação. e os antagonismos condicionais em vez de absolutos. pág. Porém podemos partir do raciocínio. Saturday Evening Post. O objetivo agora foi ideado como “controle de conflito”.” (Citado em “His Business is War”. que consiste em quatro proposições básicas. cada lado deve se colocar no ponto de vista de que a guerra global é um meio insatisfatório para assegurar objetivos globais. propôs-se sim a aceitar sob novos aspectos a existência de outra potência. sem dúvida muito menos do que ela com toda certeza perderá. As sábias fazem isto elaborando poder militar. Como manejamos para conseguir isso? Que sorte ou sabedoria reduziu a problemático o inevitável? A improvável o problemático? Acima de tudo.

terão tempo para incubar. amplo e seguro. Talvez. O outro lado deve entender isso. Somos todos homens do mesmo mundo. desenvolvem e habituam-se a um “modus vivendi”. Terceiro. Começamos a confiar nele e a não esperar demasiado. Ocasionalmente vemo-lo retornar ao templo de seus mitos nacionais e lá representar em benefício das massas insuspeitosas — e daqueles ascetas de vista estreita. lealdade tribal. Acuramos a sensibilidade para seus problemas internos especiais e começamos mesmo a possuir favoritos dentro de sua casa. Em quase todas as circunstâncias. ele está a proteger seu orçamento. nossos nomes de permeio. tão necessários a relações mais produtivas. Segundo. Começamos a conhecer este nosso inimigo. mas entendemos. uma linha global de trégua precisa ser claramente traçada. neutralizando um oponente. Finalmente. Esta experiência gradualmente constrói um fulcro para um novo equilíbrio de confiança. de fato. Em suas ações reconhecemos nossos motivos. de que o que assusta os diplomatas de uma nação assusta os de outra. não convencional e não digno de confiança — que com o tempo se torna mais fidedigno. pugnando pelo poder. Ouvimos palavras ásperas. pode-se permitir que caia uma posição de nosso próprio lado da linha.tem como resultado poder dissuassório. heroísmo. é através do processo de definição e garantia de segurança de trégua que as potências rivais armazenam informações uma sobre a outra. O estabelecimento e manutenção desta linha são matérias de alta prioridade. (As duas crises cubanas podem significar que em algumas regiões geopolíticas. Há uma fé subjacente de que os homens serão capa26 . O Comando Estratégico do Ar não pretendia ser irônico quando elaborou seu lema “A paz é nossa profissão”. Este é o ponto crucial da compreensão distintamente liberal da política de potência. o mais importante é o que se passa em silêncio entre os dois lados. Começamos a aprender como dançar com ele. mas que permanecerá território proibido para a principal potência oposta). certas ameaças e acusações começam a ter um estilo periódico. Deve-se estar preparado mesmo para ir à guerra para mantê-la intacta. os dividendos desta paciência são que os interesses comuns. nenhum objetivo é tão importante como sua proteção. durante esta fase. irregular. e começam a criar um sistema de comunicação — inicialmente. que torna todas as nações pacifistas e cria tempo e espaço para manobras diplomáticas. a quieta e inapregoada consciência de que esta experiência de adversidade é compartilhada. os generais — o eterno drama de seu patriotismo. é claro.

parem de sonhar sonhos apocalípticos. esta chispa de esperança. Tal como interrompemos nossa quarentena da Rússia para fazer causa comum contra a Alemanha nazista. olhem de frente o fato de que o futuro não é propriedade privada de uma nação — e assim façam a paz. pode-se imaginar-se assim — sugere um meio pelo qual a previsão pode ser realizada em toda parte: Cuidem-se para não haver grandes guerras. 27 . resistiram-lhes e controlaram-nos. Se a história é uma interrupção da guerra por tréguas. começa a haver uma chispa de esperança. A China Vermelha e a América olham-se ferozmente através do Pacífico — melhor. uma suspensão daquelas forças que mantinham a roda em seu triste movimento. apareceram oportunidades que tentaram ambos os lados no sentido de romper o encanto artificial. na supervisão conjunta dessa linha.zes de trabalhar juntos. então. por sobre o Estreito de Formosa. assim com o Japão e a China no Pacífico. E. nestes vinte anos. por certo. em que a história cessará de repeti-los insistentemente. então a Guerra Fria é um tempo em que não acontece história. há aqueles que vivem em um estado de perpétua. desde que escapem aos santo-e-senha do passado humano. um cessar-fogo e manter-posições. o rumo das relações soviético-americanas a partir da II Guerra Mundial — pelo menos. Há de haver um tempo. Voltem-se agora para a Ásia à luz desta sabedoria. Somos inimigos. Tal como cooperamos com as outras democracias ocidentais. Talvez haja mesmo um pouco mais de esperança do que merecemos. Tal como nosso principal inimigo europeu tornou-se na derrota nosso principal amigo. Em ambos os lados. o Mar Amarelo. Porém. assim tentamos combinar os exércitos comunista e nacionalista chineses para ação comum contra o Japão fascista. e nosso principal amigo de tempo de guerra tornou-se na vitória nosso principal opositor. na tentativa de fazer voltar atrás a Revolução Russa. o Mar do Japão. Vezes sem conta. proveitosamente. em ambos os lados. um crepúsculo dirigido em que o movimento é restringido. há ainda outros que enfraquecem quando as tensões são grandes. Não é visão desagradável. os homens-chave. aprendam várias coisas um sobre o outro. Assim mesmo parece haver algo familiar na situação. desenfreada entrega a esta tentação. não há dúvidas. parem de pregar o milênio. Deve haver uma calmaria entre nós. em troca. mas. de um jeito ou de outro. por causa disso. assim tentamos (e com mais empenho) anular a Revolução Chinesa. tracem claramente na boa e honesta argila do mundo uma linha que não se violará nem se deixará violar. ou se é a reconfiguração contínua de fronteiras e o conjunto de poder que elas representam.

eles de lá. ante este teste Rorschach geo-político. Estonteamo-nos perplexos. Para provar que pensávamos o que dizíamos. mas que não haja perturbações na Tailândia. fragmentada de maneira pior. no Departamento de Estado e um anticomunismo militante. Discordância era heresia. mas gradualmente encontramos sua Gestalt. é certo. e acalentando uma feia vergonha por haver falhado. Porém. fizemos frente. deveria ser tratada da mesma maneira.* fomos capazes de discernir sua forma e significado. O auge do debate da China coincidiu com um pietismo vingativo a respeito do Mundo Livre. Deixe-se o governo socialista de lá fazer o que pode de suas oportunidades. Devemos aniquilar a China Vermelha? Ou deveremos ter também uma Guerra Fria asiática? Por um curto lapso. da Coréia ao Paquistão Ocidental. Só a Coréia permanece dividida. faça-se com que não haja incursões neste limite. Esta linha deve ser mantida. e cautelosamente fez-se desaparecer a Guerra da Coréia.De novo frustrados em nossa segunda tentativa de uma contra-revolução de grande porte. tratado por tratado. Não deve ser cometida violência contra esta linha. apertar as mãos do povo americano. Aguentamos daqui. Foi aplicado o primeiro princípio da sabedoria européia: Não travaremos guerra com a China. a causa primária sendo (com a Rússia também?) por seu exército ser tão grande e sua terra tão vasta. * Gestalt — figura. houve um crepúsculo político no mundo. bastião por bastião. 28 . nos anos da Guerra da Coréia. foi retirado o General MacArthur. mas tolhido. Em alemão no original. Queimaram-se reputações num exorcismo de extinção lenta cuja recrudescência parece permanecer uma possibilidade permanente entre nós. estávamos copiando na Ásia nossa política européia. Nós nos angustiamos pelo rico clero dominante do Tibet. A China era exatamente outra Rússia. presença. nos vimos de posse de uma Guerra Fria do Pacífico. do Japão à Nova Zelândia e se esticando ao longo da borda do continente. finalmente. Por volta de 1954. mas não fazemos um movimento para intervir: o Tibet se torna a Hungria asiática. pessoa. Nem deve esta linha representar uma divisão injustamente unilateral. Pequim pode confiar que não faremos movimentos súbitos contra a metade norte do Vietnã. algum tempo. no Congresso. Deixe-se o Cambodja “inclinar-se para um lado” em seu neutralismo. Agora devia ser estabelecido o segundo princípio: Tinha de ser fixada a linha de trégua. Mas. A Europa Ocidental asiática era. é a única esperança que temos de que o povo chinês daqui a umas décadas possa. por fim. a uma questão quase igual à questão européia de 1946. Chiang Kai-shek continua presente. espalhada por todo Pacífico.

haverá dificuldades.* onde. por uma psicologia conhecida. de um arranjo econômico um tanto mais livre com nossos pupilos industriais no Japão. Pensa que sou idiota?” Informamo-lo de que seus bombardeios no campo e o abandono de bordel nas cidades estão devastando aquela nação. A condição intocável de qualquer prospectiva. Até ser aceito o fato. contudo. cuja sociedade era. Luto com este problema dia e noite. e mesmo de teu ingresso nas Nações Unidas. Mas por que não vê”. aparelhamento. ao mesmo tempo. em centenas de partes por seus próprios senhores-da-guerra — é sua presente divisão * A palavra portuguesa estabelecimento não corresponde por completo. Mas com um pouco de paciência e habilidade. tem filhos e filhas. do T. que encara os negócios asiáticos deste ponto de vista. Não estivesse ele engasgado com a pretensão oficial de que a mesma está ajudando. lugar de residência ou negócio com sua área. Por certo. afinal. Ele é. este dialético da Guerra Fria. De nosso posto de observação. há pouca utilidade em conversar sobre o futuro. e prefere a vida à morte. nós. devemos desculpar sua exasperação com a China e o movimento de paz americano. Não se precisa recordar -lhe a carnificina no Vietnã. “que a China Vermelha tem que se submeter à divisão do Vietnã? Claro que isso é difícil de aceitar para muitos vietnamitas. críticos. corpo de empregados. um homem. é que a linha de trégua na Guerra Fria asiática não deve ser rompida. por algumas razões. e que aquela matança física e cultural. e poderemos começar a falar de outros assuntos — de doutores e jornalistas permutados. China Vermelha. força organizada de negócio público ou privado. Mas é isto. carne queimada e tortura. críticos. antes. poderá com facilidade haver uma détente asiática também. Sei disso. do lado de fora do Establishment. só faz com que mais vietnamitas tornem-se comunistas. supomos ser melhor a visibilidade. de tua participação nas conferências de desarmamento. poderá dizer a nós. mais do que a história exigiu dos alemães. Talvez ele deseje dizer: “Nada mais óbvio. uma vez que establishment indica: sistema. ninguém tem direito algum de concluir que ele fique menos angustiado do que outro homem pela visão de terra escalvada. na verdade. Ao Guerreiro da Guerra Fria.Aceita esta linha. afinal. talvez nos respondesse: “Claro. os informamos de que sua guerra não está ajudando os vietnamitas. Muitos de sua espécie viram-na muito mais de perto do que jamais a verão os insangrentos “peaceniks”. — (N. madura e um milhão de vezes mais integrada do que a do Vietnã? Não temos nós um precedente perfeito na Coréia? Esta fina fatia de um país que tem sido dividido a maior parte de sua vida — uma vez em três partes pelos franceses e. ) 29 .

primeiro. Os soviéticos aprenderam mais dolorosamente essa lição em Cuba. e a estabilidade na Ásia não será alcançada pelo não envolvimento americano ou pela expansão chinesa. a causa da reconciliação global. mas do torpe feudalismo colonial daquela sociedade. na era nuclear. para um tal argumento. 30 . em tornando a paz prática. a despeito de nossa política de libertação. Essa lição ainda está para ser aprendida em muitas partes do mundo. e acontece que a história está toda contra nós. se em troca dele nós entregarmos a estabilidade na Ásia? E se o preço da recusa da divisão é a corrosão daquela linha de trégua sobre a qual edificamos todas as nossas esperanças de uma reconciliação Oriental? “Sejam realistas”. Ninguém. “Este não é de forma alguma um mundo perfeito. e vem. não só desafiando a China e estas guerrilhas vietnamitas escandalosamente persistentes. uma revolução. consultor do Departamento de Estado para planificação política. e um dos mais destacados estudiosos de nossa Guerra Fria: O longo caminho para a moralidade internacional passa pela criação da ordem internacional. a criação da estabilidade. Longe disso. Esta guerra no Vietnã é. e a ordem internacional necessita. antes de tudo. pode jamais duvidar disso. sensível à história do Vietnã.temporária um preço na verdade tão alto a pagar. diz para nós idealistas. Fazemos isto. nenhum lado pode mudar o status quo político através da força ou através do desafio direto a outro lado. a acusação mais grave se refere a alguns aviões voando de Hanói e a uns poucos mil técnicos que só consertam estradas bombardeadas pelos americanos. da Colúmbia University. mas eu creio que a causa da paz. dizemos. Porém. a causa do ajustamento internacional.10 Alguns de nós objetam: Você não provou que esta guerra do Vietnã é culpa da China. Refreamo-nos de fazer isso na Hungria. Ainda agora. requer. Estamos fazendo tudo que sabemos fazer para mudar o destino do homem. na fronteira de Yunnan. diretor do Instituto de Pesquisa sobre Negócios Comunistas.” O objetivo foi estabelecido por Zbigniew Brzezinski. pode haver agora uma resposta muito intrigante. mas aqui em casa temos também de proteger os miolos moles de vocês que querem uma paz impossível e aqueles cabeças-duras lá adiante que querem uma guerra inimaginável. não do comissariado de exportação da China. Só podemos criar a estabilidade internacional se todas as grandes potências no mundo aceitarem o princípio de que. no fundo. da criação da estabilidade internacional.

Fall: Não se luta por oito longos anos. Bernard B. e quando Taylor se mostra cético outros devem estar fortemente descrentes. esclarecia de Washington: Ainda mais surpreendente para os oficiais. de The New York Times. Tendo já liquidado o movimento de guerrilha duas vezes. bem como ninguém luta para algum burocrata em Hanói. é só um novo modelo de força invasora. não que Hanói comandou e está dirigindo o desempenho de um títere no sul. agira muito “conservadoramente” e com grande “coibição”. Maxwell Taylor foi ainda mais explícito a respeito da alegada relação senhor-títere entre a China e o Vietnã do Norte. bombardeiros a jato e. pode Hanói achar a tarefa difícil.12 E sobre o mesmo assunto. Há dúvidas entre muitos observadores se a aparente intransigência de Hanói não esconde de fato sua relativa inabilidade em “entregar” a FLN de mãos e pés atados em uma problemática mesa de conferência. se não de todo impossível. o que de ordinário se vê entre Hanói e os rebeldes sulistas. “a China é o inimigo tradicional. é sua incapacidade para julgar o grau da influência de Hanói sobre o Vietcong. aqui. sob o arrasante peso do arsenal americano. pela pura alegria de ser ajudado. que não inspira confiança”.13 A segurança da linha de propaganda oficial de invasão-vinda-do-norte requer discrição oficial a respeito. em 1954 e 1956.. mas ocorrem escorregadelas. gases vomitivos. napalm. mesmo se o desejar. mas não sabem se o Vietnã do Norte pode negociar um fim das hostilidades. o altamente respeitado Max Frankel..11 Isto significa que ele é pelo menos cético a respeito da teoria de custódia. O ceticismo se estende também àquele outro elo. e torna-se claro que o Estado-Maior deve muito bem sa31 . no início de 1966. jamais provada. por fim. ainda que suas falas demonstrassem fúria. “Para Hanói”. Durante a “ofensiva de paz” da estação de férias 1965-1966.É importante deixar antes claro o que a resposta não seria. com frequência insinuada. meramente cumprindo a decisão final de um longínquo aparelho partidário. em vez de ser revolucionária. Julgam ser essa influência muito considerável em termos militaristas. Juntemo-las. No primeiro ponto temos a evidência indireta da palavra repetida do Secretário Rusk de que a China. não que a FLN. Não seria que a China tem culpa direta nesta guerra. declarou ele aos Rotarianos de New York. não que Hanói age sob ordens diretas de Pequim.

a única gente que vem fazendo alguma coisa com referência ao homenzinho da plebe — para elevá-lo — tem sido os comunistas. nosso ás da contra-insurreição e uma das figuras-chave de nossa equipe do Vietnã. em que o povo nada mais tivera senão miséria e injustiça. que. ter contra os comunistas que soltaram esta revolução. Capitão Le Xuam Mai. acontece ser o velho refúgio francês de Cap St. Não tiveram alternativa.” A máxima profundidade oficial sobre esta guerra é constatar que a mesma é “política” e não militar — profundo discernimento que nos tem sido explicado ano após ano. Ele e seus superiores. Se Ho é Benedict Arnold* — uma estranha idéia — então quem é George Washington? Podíamos sentir-nos tentados a especular sobre um certo texano. bombardeada ou sufocada por nós. o Embaixador Lodge. o mais categorizado companheiro de Mao Tse Tung”. está ele preparado para ouvir quaisquer promessas de uma vida melhor. por exemplo. “Ela não morrerá pelo fato de ser ignorada. de fato. por má sorte. A idéia foi muito bem explicada por um dos diretores do campo. A mais flagrante evidência disso é o termo-nos convencido de que devemos pôr em campo uma força rebelde própria. “Os comunistas soltaram uma idéia revolucionária no Vietnã”. Num país atrasado como o Vietnã.” Tudo que Lansdale parecia. traidor (1741-1801). é que eles estão destinados a traí-la: “A tragédia da guerra revolucionária do Vietnã pela independência foi que seu “Benedict Arnold” teve êxito. Idéias não morrem desse modo. publicara um relatório grandemente revelador no Foreign Affairs.ber o que os batedores sabem: Defrontamo-nos com uma revolução. mas Lansdale cortou a esperança: “Os vietnamitas necessitam de uma causa e nós não a propusemos. tinham “chegado à conclusão de que o povo do Vietnã está entregue à revolução. escreveu ele. bem antes disso. número de outubro de 1964. não com uma invasão. sob orientação da CIA em Vung Tau. do T. cerca de 42 000 “quadros revolucionários” vêm sendo treinados por uma guarda avançada. Assim atendem aos comunistas. — (N. já há anos. em Ho Chi Minh. pôr na servidão os pobres e modernizar o feudalismo oligárquico do Vietnã do Sul. enquanto o emprego de tropa se acelerou e a carga de guerra cresceu em milhões de toneladas e nossos programas de “reforma social” persistiram em seus esforços de enriquecer os ricos. Jacques.”14 Porém. “Ele pensa.) 32 . por certo. Em fevereiro de 1966. O alvo dos quadros que estamos treinando aqui é justa* General americano da Revolução. o General Edward Lansdale. esclareceu. Para este fim. disse: “No sudeste da Ásia.

acontece que isto não importa! A política americana não pode agir segundo especulações sobre estruturas de cadeias-de-comando. tem que reagir aos acontecimentos. Assassinarão eles também os odiados chefes de aldeia designados por Saigon. é este: Se os chineses controlassem Hanói e por meio de Hanói a Frente de Libertação Nacional. a seguir? 33 . tal como a FLN? De graça.mente esse — realizar as promessas dos comunistas. exato ter o Camarada Mao feito uma decisão secreta anos atrás e passado a mesma através das portas montanhosas da Província de Yunnan para as mãos de Ho Chi Minh. as quais os mesmos não estão desejando manter!15 Os deslocamentos psicológicos que esse programa cria devem ser enormes. O fato muito claro. então a situação no Vietnã apresentar-se-ia exatamente como a de agora. sobre a matéria. A resposta deverá simplesmente ser: Então e daí? Ora. onde os velhos fuzis Vietminh aguardavam ansiosos o grande sinal de fogo. e combaterão os novos cara-pálidas altos para provar o que querem dizer? Então quem é o inimigo? Quem é o amigo? De quem são os pijamas pretos que o Capitão Mai está realmente usando?* Deixando de lado tais quebra-cabeças devemos pelo menos ter encontrado um quadro diferente das convicções de Washington sobre a guerra. O aparecimento de seu espírito dentro da zona proibida. como a FLN. que a enviou para o sul a um quartel-general secreto no interior de Nam-Bo. iguais aos da FLN. Pode na realidade não ser. no lado errado da linha global de * Após ter sido escrito o meu texto. ensinados a montar governos de aldeia. são exercitados em sessões de autocrítica de grupo. Quer enfrentemos no Vietnã uma réplica ou uma extensão da vontade chinesa. tal como a FLN. igual a FLN. Onde será descoberto Mai. tal como a FLN? Expulsarão eles os grandes latifundiários e distribuirão suas terras entre os lavradores. não faz absolutamente diferença nenhuma. e através desses meios espera-se que “agarrem a revolução” tirando-a da liderança da FLN. Descrito por Saigon como um “nacionalista de terceira força”. aconteceu que o pijama preto era o dele mesmo. Mai foi dispensado e Saigon tirou o projeto Ving Tau das mãos da CIA. Estes “quadros revolucionários” nossos usam pijamas pretos. então. quer esta revolução seja uma cópia intencional ou acidental da política da China ou a coisa em si. tal como a FLN? Dirão também eles “O Vietnã para os vietnamitas”. A explicação foi que Mai era insuficientemente leal e por demais rápido em acusar o governo central de corrupção e de indiferença para com o povo. A China é a ameaça.

então Subsecretário de Estado disse: “Um foco principal da luta [Oriente-Ocidente] foi deslocado recentemente da Europa para a Ásia. mostra-se quase um ato diplomático de raro brilho. Para um grande estado é indesculpável não deter o controle sobre os estados confederados menores. Portanto. em aspiração e em efeito. Esta é a saída no Vietnã. pois esta recusa é. esta guerra permanece indistinguível da guerra que os chineses querem. permanece contudo verdadeiro que ela poderia os estar controlando. Assim pois. que a China cometa o crime expansionista de que é acusada. porque a União Soviética. à moda chinesa genuína.trégua. mas não irá mais longe. no que foi descrito com um “magno” discurso sobre política externa. a qualquer tempo e através de quaisquer meios. mas não obstante inteiramente razoável. O propósito da contenção violenta da China Comunista é induzi-la a uma mudança similar em sua perspectiva.. Com toda sua velha amargura para com a Alemanha Ocidental. Sem tal controle. Chang roncará de barriga cheia em Taipeh. os meios pelos quais pode ser manejado o conflito deixam de existir.. George Ball. Mas em 30 de janeiro de 1966. Por isto estamos lutando. Em substância. tendo se tornado poderosa. queixa de que mesmo que a China não controle Hanói e a FLN. talvez. Nós garantimos isto. se torna essencial. A consequência é que deve ser tratada como se fosse uma guerra chinesa. Vale o mesmo para nós: Park ficará muito bem estabelecido na Coréia do Sul. E a recusa americana em aceitar a FLN como o agente responsável nesta guerra começa a não aparecer de todo tão obtusa. ou tão só provocar alguns bons estouros de sabotagem junto a ele. uma tentativa dissimulada de estender uma autoridade chinesa responsável ao Vietnã do Norte e sobre os partidos comunistas ao sul. tem de ser recusada. começou a ter um interesse no status quo. A política de manutenção da paz da Guerra Fria torna essencial às grandes potências controlar os acontecimentos dentro de sua esfera de influência. A China deve aprender a fazer garantias similares. por exemplo. a União Soviética sem dúvida ficaria horrorizada ao descobrir um complô na Alemanha Oriental para ir além do Muro. Por certo isto soa por demais maquiavélico. e os estadistas enfrentam um ambiente imprevisível. em nome da paz. Menos controle significa menos estabilidade e portanto maior perigo para todos. ao contrário. falar das “origens” históricas da guerra é politicamente frívolo. restritivas e impacientes. Isto nos conduz à inesperada. menos certeza sobre as tendências e inclinações das forças diplomáticas do outro lado no sentido de serem mais cautelosas. 34 .

Mas a guerra continua. e assim preferiram que outro se encarregasse desta tarefa. Informar a China de que ela é responsável por estes acontecimentos vietnamitas é quase abertamente pedir à China que exerça o controle sobre aqueles que os fazem. então as Nações Unidas. da ajuda econômica e militar americana.16 Ninguém combateria rebeldes vietnamitas a fim de “induzir a uma mudança” na perspectiva da China a menos que acreditasse ou (a) que a China. Isto é. O mediador natural de uma disputa entre eles seriam os Estados Unidos. aceitar a disciplina da Guerra Fria. ou (b) que a China. numa disputa de fronteira à antiga. na Ásia Soviética. quer não. mesmo irresolúvel. Já notamos que Washington provavelmente refuta a primeira premissa. caso não a Inglaterra. se não os Estados Unidos.Por isto estamos aqui. não pode ser acreditada. Ambos. deve ser chamada para salvar a situação crescentemente grave. a longo prazo. Porém. Talvez os Estados Unidos estivessem temerosos das consequências de pôr a perder uma mediação. Ambos os beligerantes. são estados da Comunidade Britânica. Estas incertezas levam-nos a fazer uma especulação final: de que um objetivo subjacente da política americana pode de fato estimular a penetração da influência soviética no Sudeste da Ásia. A Índia é um grande recipiente. quer os controle. À China. Talvez a Inglaterra também considerasse a questão delicada demais. numa conferência realizada em Tashkent. Talvez a maquinaria da ONU fosse muito emperrada para uma tal crise. e impor essa disciplina a seus amigos vietnamitas. aquele velho e verdadeiro estudioso que conhece todas as regras. estavam-se guerreando mutuamente com armas e suprimentos de manufatura americana. Ou a China não percebeu a mensagem. Paquistão e Índia. Mas um russo faz a paz de Kashmir. A Rússia. não tendo assimilado a gramática da moderna política de poder. Tendo se mostrado ineducável. foi dada oportunidade sobre oportunidade para se demonstrar uma potência mundial realística e responsável — indício atrás de indício cuja significação ela é ou por demais inexperiente para entender ou por demais insana para aceitar. percebeu-a mas prefere ignorá-la. ou percebeu-a e nada pode fazer a respeito. então a Inglaterra. nossa política no Vietnã adverte a China de que deve expandir sua influência. O Paquistão é um aliado formal nosso. estas explicações 35 . tem a responsabilidade básica por seu comportamento. prossigamos com o raciocínio. O que nos deixa a segunda. controlava aqueles rebeldes. Examinemos a esta luz a questão do Kashmir em 1965.

a mão de um ao cotovelo do outro. mas ruidosamente aplaudiram a diplomacia soviética. E também me arrepio. 36 . todos os fortes e todos os fracos. “um oficial eminente do estado comunista me disse que o problema mais sério no mundo de hoje é como conseguir que Pequim se incline para uma política de coexistência pacífica. Pode-se entreouvir sua conversação íntima de uma distância que poderia bem ser galática. o Embaixador William C.” O movimento de Ho tinha o desígnio de “acrescentar um outro dado à mão que Stálin está fechando em volta da China”. e Sudeste Asiático por China. só pertence a outro braço. num sentido realmente humano. aceitamos os mais elementares pressupostos ocidentais sobre a origem e progresso da Guerra Fria. e teremos um documento contemporâneo.não esclarecem o grau em que os Estados Unidos. a mão é tão boa quanto nova. suas cabeças levemente inclinadas juntas. Nós muito certamente temos nossas próprias boas razões para desejar que o prestígio da Rússia cresça na Ásia.”17 É fácil retratar aquela conversa entre dois cavalheiros adversários. mas tudo a respeito dela parece brilhar com claridade: o lento. Substitua-se Pequim por Moscou. Vejo a mesma maturidade em cada face. encontramo-nos de posse de um conflito que não mais parece tão insensatamente santo. Eu lanço um suspiro de alívio. Mao por Stálin. enquanto entre eles flui a certeza de que todas as categorias de homens querem realmente a mesma coisa — todos os homens ricos e todos os homens pobres. de que. Não é absurdo conjeturar que esta Rússia. Exploramos uma camada da história do Guerreiro da Guerra Fria do Vietnã e descobrimos um recanto mais protegido do compartimento da propaganda. idênticos franzir de sobrolhos preocupados. De maneira não crítica.. eram elas permutáveis. disse o Secretário Rusk em seu informe de março de 1966 sobre a China. Manipulando por meio desta ideologia as principais características políticas da guerra pelo Vietnã do Sul. medido estalido dos saltos no mármore.. “Recentemente”. Se a Guerra Fria é realmente o que a maioria dos americanos pen* Por exemplo. cada um sem dúvida remotamente cônscio de que um acidente de local de nascimento dera a ambos sua política e missão. Bullitt argumentava no passado 1947 que quaisquer promessas feitas por Ho Chi Minh “seriam quebradas logo que recebesse ordens de Moscou para quebrá-las. a quem já acusamos de empreender a guerra da Indochina como parte do ardil para tomar a China* — esta mesma Rússia que torna os céus do Vietnã do Norte mais perigosos para nossos pilotos — é tranquilamente convidada a servir de mediadora. A guerra pode agora parecer ser meramente prática. Vinte anos mais tarde. não só aceitaram.

Devemos ser muito cândidos e perguntar: Afinal de contas o que é esta Guerra Fria? E é ela realmente necessária? 37 . então pode muito bem ser necessário para a América manter seu controle sobre o Vietnã do Sul. então a Guerra Fria é necessária. Por isso devemos penetrar as nossas verdades de Guerra Fria para ver se elas não ocultam algumas outras verdades.sam ser. Se é necessária.

38 .

. A segunda é de que os Estados Unidos nada tinham a ganhar com a Guerra Fria e nada fizeram para provocá-la. do capítulo precedente. A primeira é de que Stálin deu início à Guerra Fria. Nos trechos que se seguem deste capítulo desejo elaborar duas heresias interligadas: primeiro. mediante o qual se infunde forma e inteligibilidade aos eventos. a heresia de que ambas essas crenças são falsas.III Portas Abertas. A história do Guerreiro da Guerra Fria. Da Doutrina Truman à guerra do Vietnã. e mais sustentada. a heresia de que nossa política externa de Guerra Fria visando a contenção 39 . Bispo Berkeley A guerra fria é uma seção da história tornada coerente por um arcabouço ideológico de crenças implícitas e explícitas sobre história e valores. nossa política prestou homenagem àquela premissa e dela tirou sua legitimidade. segundo... O mais nobre rebento do tempo é o último. do anticomunismo de Guerra Fria da América. girava em torno de uma única suposição básica: que os Estados Unidos não devem ser responsabilizados pela atual defrontação agressiva Oriente-Ocidente. Esta suposição de inocência é apoiada por duas crenças interrelacionadas a respeito da história recente. do Plano Marshall à Aliança para o Progresso. Dominós que Caem O curso do império se processa para o oeste. Esta é provavelmente a premissa central.

um golpe de paço relativamente in40 .é mais fundamentalmente uma resposta ao fato de as culturas políticas não-Ocidentais. influenciaram os ressentimentos populares e assim fixaram a base para a Revolução Bolchevista. com alguns fatos elementares: a política stalinista européia de após-guerra não foi arquitetada nem em segredo nem unilateralmente. Sob pressão ocidental. Esta decisão. na Europa oriental. consideramos nossos objetivos como defensivos e nossa violência ocasional como provocada. sem conquistar o direito àquela segurança de fronteiras que era um objetivo russo tradicional (de nenhum modo “comunista”). e aparentemente a principal utilidade de saber algo sobre ele é ser posto em guarda contra a sabedoria comum que julga terem as relações Estados Unidos-União Soviética se iniciado por volta de 1945 e que sustenta terem sido as incorporações territoriais de Stálin. que é o tema viga-mestra da história moderna. tendo a I Guerra Mundial pulverizado sua casca. Estas incorporações. pela primeira vez. dificilmente se poderia esperar que a Rússia tivesse enfrentado por quatro anos selvagens e depois. o ato deflagrador da Guerra Fria. este passado mutante. O Embate Russo-Americano Nosso exame pode ser breve. em primeiro lugar. derrotado grande parte do poderio de Hitler. estarem tentando nos conter. a despeito de suas tropas estarem sendo enviadas a combate empunhando cacetes. a reabsorção dos estados bálticos do império czarista. Uma rápida recapitulação: O Czar caiu em 1917. e a de transferir a convocação da Duma. o zoneamento da Europa Central era um problema óbvio da guerra e da paz. Acima de tudo. um nervosismo momentâneo referente ao Irã e aos Dardanelos. mediante imenso sacrifício humano. e a comunização da China são os crimes originais pelos quais a União Soviética é condenada como um agressor imperialista. Confrontemos esta crença. sua solução foi forjada de forma muito corrente pelas potências da Grande Aliança. o governo social-democrata de Kerensky decidiu sustentar a parte da Rússia na guerra. havendo o império entrado em derrocada interna. resistir ou restringir aquela arremetida expansionista a longo prazo do Ocidente sobre o Oriente. Está bem atrás de nós. simplesmente devemos enfrentar o fato — costumamos nos sentir perturbados com ele — de que o comportamento ocidental de entre-guerras tinha dado à URSS muito pouca evidência das boas intenções do Ocidente. Pelo fato de supormos ter nossa política externa tomado forma como resposta a uma ameaça. em conjunto.

um total de 5 500 soldados americanos e 37 000 britânicos garantiram o regime Branco. Por volta de março de 1919 os franceses. quase fizeram conexão com o exército de Kolchak. na Hungria. as ferramentas da quarentena política e do isolamento econômico. quando não mais poderia o Ocidente pretender que seu alvo era sustentar aberta a frente oriental. para assegurar “o permanente enfraquecimento da Rússia”. Kolchak recebeu ajuda material da Grã-Bretanha no valor de meio bilhão de dólares. em particular a Alemanha balançou. Seis meses após o armistício europeu. a intervenção ocidental maciça em favor da contra-revolução branca foi em força total. No Báltico. italianos. Quando a intervenção ocidental de cinco frentes obteve como resultado tão só a reconstrução do exército soviético e a garantia de que o governo soviético seria profundamente totalitário. e. uma revolta maciça de legionários tchecos. sob a direção do monarquista Almirante Aleksander Kolchak. Meramente lançou ela mão de outros instrumentos. em seu caminho da Rússia para a frente ocidental ainda aberta. Toda a Europa foi abalada pela Revolução Russa. De abril de 1920 a março de 1921 os poloneses estiveram combatendo na Ucrânia.cruento. abandonando a Liga das Nações. Outubro de 1933: a Alemanha segue o Japão. britânicos. No norte da Rússia. as fábricas de munição já bramindo. Sob circunstâncias confusas. Mas o desafogo ocidental logo se tornou ansiedade. os comandantes e tanques britânicos e a gasolina americana quase tornaram um sucesso a campanha dos Brancos contra a praça-forte soviética de Petrogrado. tendo muito cedo usado seus consideráveis recursos econômicos para aniquilar o governo Vermelho de Bela Kun. de tempos em tempos. Lênin rapidamente concluiu o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha. sérvios e gregos haviam espalhado um efetivo de 850 000 contra-revolucionários no Sul da Rússia. sob a direção do Ministro da Guerra Winston Churchill. o bloqueio naval do Conselho de Guerra Supremo Aliado privou o governo Vermelho do uso de todos os seus portos marítimos. a oposição ocidental ainda não acabou. Quase um ano mais tarde: 41 . conduziu finalmente à formação de um governo anti-soviético em Omsk. Por todo este tempo. romenos. a nacionalidade soviética e modernizar a economia. como uma pedra de jogo insegura. até que o extremo anticomunista chegou ao poder em janeiro de 1933. Esta foi a prática ocidental durante o período crucial em que a Revolução Russa lutava para consolidar-se e iniciava o processo de criar. difícil mesmo sob as melhores circunstâncias. quando pareceu que para este Hitler havia mais do que um incêndio no Reichstag.

1) Um mês mais tarde: o Ministro do Exterior francês. tendo um mês antes Neville Chamberlain tornado bem clara a posição de seu governo. e praticam a “não-intervenção” nesta “guerra-civil” travada com aviões militaristas alemães e 100. Março de 1935: a Alemanha decreta a conscrição militar universal. a Etiópia cai nas mãos de Mussolini. em ambos os lados. Por esta época. ao dizer: “Não devemos tentar enganar nações pequenas e fracas para que pensem que serão protegidas pela Liga contra a agressão. Jean Louis Barthou. é esmagar o comunismo. Maxim Litvinov. Tchecoslováquia. As democracias impõem embargos de armas por igual. Hitler se retira! As democracias se põem a reprovar Benes por sua inflexão. Março de 1938: Hitler assalta a Áustria.”2 Em maio de 1938. para ganhar tempo com * Lebensraum — espaço vital. violando a um tempo o Tratado de Versalhes e o de Locarno. protestam. Chamberlain boceja. Litvinov — uma triste figura — ainda mendiga a ação da Liga. E apoiado pela Polônia.000 soldados italianos. a quem foi permitido ouvir o próprio destino. (Summer Welles disse: “Quando a União Soviética entrou na Liga. algo de novo acontece: o Presidente Eduard Benes ordena a mobilização parcial das tropas tchecas contra a concentração nazista em suas fronteiras. A teoria prevalente era de que o Lebensraum* da Alemanha ficava só para o oriente. a URSS. mesmo os mais obstinados foram forçados a admitir que era ela a única grande potência que parecia tomar a Liga a sério”.a Liga aceita um novo membro. onde são feitas certas negociações famosas. Março de 1936: Hitler ocupa e remilitariza o Rhine-land. Stálin tinha sido convencido de que a única esperança de sobrevivência para a Rússia estava não na segurança coletiva com o Ocidente. pede imediatos arranjos de segurança coletiva. um forte e por outro lado solitário proponente da segurança coletiva é assassinado em Marselha. tardios e perniciosos “ajuda” e “conselho”. Os tchecos. Julho de 1936: começa o lento assassinato da Espanha Republicana. Menos de um ano mais tarde. 42 . o Comissário para Assuntos Estrangeiros da Rússia. mas em algumas acomodações. Na Liga. Explica-se no Ocidente que o “Alvo Real” de Hitler é bom. que podem ter prejudicado sua causa tanto quanto a “neutralidade” das democracias. em Munich. A resposta de Londres é um tratado naval com Hitler que permite à Alemanha a construção de uma frota de submarinos do tamanho da britânica. o que conduziu a que Stálin concedesse aos Legalistas aqueles magros. A Grã-Bretanha vota Não. Seu erro é corrigido por aqueles mais maduros do que ele no setembro seguinte. Iugoslávia e Rumânia (o que talvez seja irônico).

F. E os mesmos cinco anos tinham convencido muitos na Europa Oriental de que o Ocidente não era aliado deles: tal como D. mais de dois anos após o prazo em que deveria ter sido aberta a frente ocidental. pensando cada vez mais na configuração política da Europa de após-guerra. Recordemos que a teoria leninista do desenvolvimento econômico tinha como consequência levado a URSS para uma política doméstica semi-autárquica e por isso para uma política externa semi-isolacionista. estavam afinal se batendo com a força total da potência germânica. logo atraída para a luta. Churchill. Os russos. até o último momento antes da invasão da França. Talvez mais longe. no final de 1942 ou na primavera de 1943.Hitler. Lênin tinha entregue um terço da área de colheitas da Rússia. talvez tenha sido não em Yalta. Segue-se depois a longa e sangrenta luta subindo a península da Itália. em junho de 1944. talvez mesmo o Danúbio. que faremos da política externa stalinista de após-guerra na Europa? Recordemos que as políticas externas das nações-estados são essencialmente continuações de suas políticas domésticas. Uma generosa América. alcançaram a terrível vitória da batalha de Stalingrado. Churchill ainda estava exigindo uma campanha turca. o que não era desejado nem por Roosevelt. que a Europa de após-guerra foi partilhada. se bem sucedida. nem Marshall. de seu plano para investimento na Rússia e de 43 . exigiu um ataque ao “macio baixo-ventre” do Continente. Fleming sugere. Onde estava a prometida ajuda da segunda frente na França? Graças a Churchill. Seja como for. mas sim em Munich. cujo acerto militar também era dúbio. Porém.* Em Brest-Litovsk. montou poderosa produção ofensiva e desenvolveu planos para a abertura de uma frente Ocidental contra Hitler. por parte dos bolcheviques.3 Vem a guerra. os aliados transferiram a guerra para o Norte da África. Mas o raciocínio britânicofrances de que a NEP era uma volta termidoreana à normalidade capitalista foi esvaziada pela rejeição. mais da me* A Nova Política Econômica (NEP) de 1921 não foi a volta atrás neste propósito de auto-suficiência. colocaria os exércitos ocidentais na Europa oriental. impedindo a crescente probabilidade de um Exército Vermelho cruzando os montes Cárpatos. Tal estratégia. Por certo. a NEP reconheceu a importância do “setor de capital privado” interno (que por volta de 1924 representava 40 por cento do comércio doméstico) e externamente considerou concessões a capitalistas estrangeiros. O Estado-Maior Geral Americano considerou que tal estratégia seria militarmente errada. Contra tal pano de fundo. cujo colapso fora predito pela Inteligência britânica para dentro de seis semanas após o ataque de Hitler. nem Stimson.

O que era inteiramente original e muito mais profundo era o aparecimento compulsório. a hostilidade ocidental contra ambos os regimes revolucionários expressou-se como uma quarentena que cooperou de fato com. e devagar o Ocidente começou a abandonar sua quarentena econômica e política. tolerância política — poderá perfeitamente determinar a evolução das relações Estados Unidos-China. e uma grande quantidade de sangue humano venha a ser desnecessariamente derramado. era talvez afinal nada mais que um aceleramento. a fim de ser deixado sozinho pela Alemanha. Além da necessidade já existente de modernizar e desenvolver. que flexionou seus músculos por sobre uma economia soviética rural e urbana bombardeada. em que a Alemanha insinuava reconhecimento das nacionalizações bolcheviques. desmoralizado e desorientado. embora um grande número de aventuras sem utilidade venham a ser representadas ao longo do caminho. e temporário exagero. este círculo é na realidade uma roda que gira em ambas as direções: À medida que a economia soviética amadureceu e os planejadores soviéticos ganharam confiança.5 e o ingresso da URSS na Liga em 1934 foi menos a exposição de um novo internacionalismo positivo do que uma nova resposta à ameaça que Hitler representava à solidão russa. que arrancou a URSS de sua concha e forçou-a a representar aquele papel de grande potência para o qual parecia ter sido tão mal preparada. e intensificou. o mesmo processo-avanço econômico do estado atrasado. e 62 milhões de pessoas. no teatro da política internacional. Impedindo a guerra. Uma: todas as velhas potências foram seriamente rebaixadas e os Estados Unidos ascenderam a uma posição de influência política e econômica indiscutível. seu esforço pela auto-suficiência. Porém. A violência da Alemanha produziu numerosas mudanças radicais na Europa. esta necessidade agora estava situada num meio político inteiramente novo. de um processo já em pleno curso. Porém para a URSS ainda combatente. Consideremos que a única e exclusiva base da autoridade internacional de Stálin nas consequências da guerra era o Exército Vermelho. Claro. a necessidade de desenvolvimento econômico era para a Rússia maior do que nunca. Ironicamente. apesar da hipocrisia sobre o “expansionismo da China comunista”. os planejadores soviéticos tinham que acrescentar a de reconstrução maciça. por mais abrupta que fosse essa mudança. a doutrina política de coexistência emergiu. as vias de comércio começaram a se tornar mais amplas. Ao final da II Guerra Mundial. Isto novo negado pelo Tratado de Rapallo.4 Um isolacionismo autárquico similar é evidentemente praticado pela China revolucionária. reconciliação comercial. em 1922.tade de sua força industrial. 44 . e um povo faminto. daquela nova potência mundial. a “desisolada” União Soviética. Foi o ataque que Hitler lhe fez e o fracasso de Hitler em tornar tal ataque vitorioso.

Talvez a compreensão do peculiar caráter aéreo do poder soviético. no imediato período de após-guerra. porém muito intensificada pelas lembranças de Hitler ainda vívidas) garantir segurança territorial — e portanto não desmobilizar. e sob importantes aspectos contraditórios — reconstrução e desenvolvimento interno e segurança territorial — que dirigiram a política externa de Stálin. era também uma necessidade soviética (tradicional. a nação-estado da URSS consistia em um exército e nada mais. o abandono a seus próprios desígnios (e pior) dos revolucionários e movimentos de resistência de liderança comunista em outros países europeus. reconstituir a força de trabalho soviética era uma necessidade urgente — e portanto desmobilizar. devastada. nos defrontamos com o súbito aparecimento de uma “grande potência” cuja base industrial em primeiro lugar era imatura. Havia outra fonte provável de grande capital de reconstrução — reparações de guerra da Alemanha. tempo e segurança política? Sabemos que desejava. Numa cultura em que o poder político internacional tradicionalmente decorre de uma avançada base industrial. Aquele exército era a única fonte de força diplomática de Stálin. e em segundo. a vacilante política a respeito dos empréstimos de reconstrução vindos dos Estados Unidos. Em Potsdam descobriu que não haveria tal empréstimo. Assim. a rearticulação e instalação no poder de partidos políticos da ala direita na Europa oriental. que Stálin propôs receber e distribuir numa base de Quatro 45 . de certa maneira. nos ajude a dar maior senso às excêntricas voltas que dá a diplomacia soviética — o namoro com as idéias mais não-marxistas de Eugene Varga referentes a viver com um Ocidente capitalista (uma espécie de “desvio de direita”). ou pelo menos.nos põe ante uma das maiores anomalias políticas da história moderna do Ocidente. O único acontecimento que parece contrariar mais a opinião de que o poder de Stálin era exclusivamente militar foi a nitidamente rápida desmobilização do Exército Vermelho. Como poderia Stálin conseguir capital de desenvolvimento. As condições básicas sob as quais teria que perseguir esses objetivos eram a fraqueza da URSS frente um Ocidente unido. Ao mesmo tempo. esperava. Porém isto em si não representava a ruína. Pode ser um exagero revelador dizer que em 1945. conseguir dos Estados Unidos (isto foi discutido em Yalta) um empréstimo maciço para o desenvolvimento. Industrial. Mas talvez mesmo este fato a apoie: um exército sem uma base industrial não é bem um exército. agrícola e socialmente sua nação — e estava muito próxima de nem mais nação ser — não podia ser comparada com os estados Ocidentais. Foram estes dois objetivos interligados.

em julho de 1945.Potências (isto é. talvez as linhas de demarcação entre as zonas Soviética e Ocidental de ocupação possam ser tomadas como linhas de divisão. O Premier Stálin sugeriu que os Aliados aceitassem dividir a Iugoslávia e a Áustria em zonas. O Presidente Truman disse que concordava com a proposta soviética. O Presidente [Truman] inquiriu se ele [Stálin] se referia a uma linha que se estendia do Báltico ao Adriático.. se opuseram a isto. Stálin dizer “sim”. A isso entendeu o Sr. Molotov: Entendo. é claro quanto às implicações políticas deste acordo: Sr. O Secretário [Byrnes]: Sim. e perguntou se a Grécia pertenceria à Grã-Bretanha. havíamos percebido nossa própria futura necessidade econômica de um mercado refeito na Europa. Assim fez-se um acordo. por uma razão muito boa. sem dividir a Alemanha)... A pergunta do Sr. Bevin era se a pretensão dos russos se limitava à zona ocupada pelo exército russo. O seguinte diálogo em Potsdam.. O Premier Stálin aquiesceu.7 O diálogo subsequente de Stálin com Truman não é menos claro: Premier Stálin: . que o senhor tem em mente a proposta de que cada país deveria cobrar indenizações de sua própria zona. Os Estados Unidos contudo.6 As indenizações alemãs à Rússia seriam portanto financiadas pelos Estados Unidos. Se era assim. segundo o qual cada uma das potências aliadas cobraria reparações da zona particular ocupada por seu exército. Byrnes disse pensar ser importante haver um acerto de idéias. Muito cedo e muito claramente. ele estava pronto a concordar. Molotov disse: Não significaria a sugestão do Secretário que cada país teria carta branca em sua própria zona e agiria inteiramente independente dos outros? O Secretário disse que em essência isto era verdadeiro. e tudo a oeste dessa linha iria para os Aliados e tudo a leste dela para os russos.. visando interesses e investimentos estrangeiros. Sr. [O Secretário do Exterior Britânico] Bevin disse que concordava. Secretário Byrnes. e os Estados Unidos não tinham o propósito de financiar a revolução. O Sr. O Premier Stálin respondeu afirmativamente..8 Portanto a Rússia devia cobrar indenizações da mais pobre das 46 .

Porém. negando à Rússia as indenizações alemãs com base no vale do Ruhr. ter-se visto como um construtor de impérios na grande e confusa tradição de César. Argumentar que Stálin estava inclinado à conquistar e assim manobrar. o Navegador. os soviéticos seriam incapazes de conter a imensa autoridade industrial e econômica dos Estados Unidos. ela foi empurrada para cima dele. e a autoridade fiscal que este acordo conferia ao governo russo de ocupação tornava necessária. Os objetivos americanos parecem ter sido duplos. obstruir. estavam agindo talvez na suposição de que o monopólio da bomba-A.10 Por outro lado. Para impedir a reconstrução russa era preciso serem negadas as indenizações da Alemanha Ocidental. e há uma possibilidade. e portanto fechava para o Ocidente seu “livre acesso ao Vale do Danúbio e à Europa Oriental dos bens e capitais dos países ocidentais”. ou demorar.9 Parece agora que tais objetivos se contrariavam e prejudicavam. e segundo. de Stálin na verdade. para obter a hegemonia 47 . Truman e Byrnes. A Europa oriental não foi só oferecida a Stálin. Henrique. Infante D. financiadas pelos americanos. que outro tente prová-lo. de forma absoluta.duas metades da Europa. Isto excluía o domínio da Alemanha pelas Quatro Potências. Pode-se também querer o que se é forçado a pegar. como Byrnes informaria mais tarde ao Congresso. a Rainha Virgem e Napoleão. Mas nossa diplomacia de negociar-pela-fôrça parece ter alimentado com vigor a desconfiança de Stálin — e a Guerra Fria iniciouse irreversivelmente na Europa. a uma porta do leste europeu menos hermeticamente aferrolhada. na famosa frase de Stimson. implicitamente requeria partilha da Europa. uma vez forçados a abrir a porta da Europa oriental. que não podemos minimizar. Não quero dizer que ele não a desejasse. Isabel de Espanha. Sem a Bomba. Acomodação neste assunto poderia conduzir. teria um poder político coercitivo (que afinal mostrou não ter). a reconstrução da economia russa. a simultânea hegemonia política que Molotov deve ter imaginado ao usar frases tais como “carta branca em sua própria zona” e “inteiramente independente dos outros”. por parte da América. primeiro. que em Potsdam sabiam do sucesso do Projeto Manhattan. e que. “francamente desvantajosa para nós” — nossa posição a respeito das indenizações alemãs para a Rússia teria sido mais acomodatícia. no mínimo. o fracasso ocidental em internacionalizar o desenvolvimento da economia da região do Danúbio conduzia à reconstrução da economia soviética: deixava Stálin de mãos livres para manipular os recursos da Europa do leste a serviço das necessidades econômicas russas. “a manutenção de uma porta aberta nos Balcãs”.

Foi batida.. pelo atraso cultural. tal no trecho seguinte (1931): Retardar o passo significa ficar para trás. Mãe Rússia”. Para ele. foi batida pelos capitalistas anglo-franceses.. Não queremos ser batidos. longe de ser uma força para iniciar a revolução em escala mundial. como se figurava o mundo de 1945 do ponto de vista deste nacionalista russo. foi batida pela gentry polono-lituana. quando serviam ou cooperavam com as necessidades nacionais (como ele as via) e descartadas sem cerimônia em caso contrário.. este Comintern. Vós recordais as palavras do poeta pré -revolucionário: “Tu és pobre e tu és opulenta. o sonho de uma sociedade socialista universal nem de perto tinha tanta compulsão como a perspectiva de uma nação-estado soviética industrializada e unitária. e não é pela aplicação dos postulados do marxismo-leninismo revolucionário que podemos melhor esclarecer sua diplomacia. Foi batida pelos Cas Mongóis. A Velha Rússia. um amontoado de frases a serem usadas sem rebuços. Stálin era um nacionalista. Pelo atraso militar. porque batê-la era proveitoso e ficava sem castigo. e sob seu controle a Terceira Internacional de Lênin. e aqueles que ficam para trás são batidos. Por certo não era revolucionário. pelo atraso agrícola. foi só uma arma do Ministério do Exterior Soviético (a propósito. quando fala como um nacionalista russo. pelo atraso industrial.11* Tentemos imaginar. um político prático como sempre o foi. a qual finalmente adquiriu. então. Temos que superar este desnível em dez anos. foi batida pelos barões japoneses. Ou o fazemos ou nos esmagam. é preferir a uma realidade muito rica um mito tão importuno como banal.na Europa oriental. pelo atraso político. O idealismo bolchevique. do homem moderno). À sua frente erguia-se altaneiro * Stálin era melhor em profecia do que em história. uma corporação cuja subserviência às ferozes vicissitudes da Realpolitik soviética fez da sua uma das mais ridículas histórias que se conhece. Stálin não parece ter sido nem um imperialista nem muito menos um marxista. foi sem cessar batida por causa de seu atraso.. 48 .. foi batida pelos senhores feudais suecos. foi batida por todos devido a seu atraso. foi batida pelos Beis turcos. tu és poderosa e tu és desamparada. Stálin na realidade só se mostra um homem dotado de alguma paixão genuína. Estamos cinquenta ou cem anos atrás dos países adiantados. mas êle esqueceu as guerras vitoriosas da Velha Rússia. “dez anos” estava absolutamente correto. era para ele uma retórica.. às vezes banal e às vezes cheio de vida.

o que não acontecia com o primeiro. também. bases de suprimento.UU. na plenitude de seu superpoder. Dresden. Em sua mente. Nagasaki. ) a qualquer governo cuja defesa o presidente julgasse vital para a defesa dos EE. A segunda alternativa era também má. UU. aviões. alimentos e serviços (empréstimo e conserto de barcos. nada fazer para fechar a porta da Europa oriental. Dividiu a Europa.— sem paralelo). num tempo em que relações pacíficas eram muito mais do interesse prático da Rússia.) 49 . a memória da inequívoca oposição ocidental à União Soviética. armamentos. jaziam os corpos sepultados de 20 milhões de russos e as fazendas incendiadas e as fábricas estripadas da economia soviética. matérias-primas. para fornecer tanques. ou (2) podia aceitar a divisão e fechar a porta. e esperar que a inevitável penetração americana na economia da região do Danúbio fosse concretizada. a tensão internacional que por certo geraria iria justificar a consolidação do poder do estado-policial de Stálin. Kassel. numa época em que a URSS tinha interesse numa Alemanha reconstruída. tais como o fim abrupto dos efeitos do Lend-Lease Act* para a Rússia (mas não para a França e Grã-Bretanha). Portanto. o reforçamento da unificação nacional e a reparação econômica em ritmo forçado. tendo o Ocidente recusado a ajuda e rejeitado o tratamento de Quatro Potências para a * Lend-Lease Act (11 de março de 1941) — concedia poderes ao presidente dos EE. não foi porque gostasse de submeter os poloneses ou os tchecos à servidão. que acabou por dominar a política da Europa. tal como a paz tinha sido do interesse da Rússia em 1918 e 1905. — (N. a primeira estava provavelmente fora de questão (por isso. sua posterior recusa da ajuda do Plano Marshall e sua rejeição talvez desastrada da proposta Baruch de energia atômica). Que outra alternativa lhe restava? Ao que parece duas: (1) Podia aceitar o plano americano de divisão da Europa. Hiroshima.um Estados Unidos exigente. etc. Duas alternativas sem recurso. levando em conta simpaticamente as necessidades econômicas e sensibilidades políticas da URSS. a mais violenta nação da história (Hamburg. Tóquio. Destinava a Rússia a um conflito com os Estados Unidos. Isto é. se Stálin aceitou a amarga contenda Estados Unidos-URSS. Mas este caminho pelo menos oferecia algumas vantagens. e (2) porque a configuração peculiar das fraquezas e forças soviéticas e ocidentais limitava suas possibilidades àquele único caminho. Consideradas a diplomacia ocidental desde 1918 e indicações correntes. Punha uma Europa Oriental sem defesa (se necessária) à disposição de Moscou. porém (1) porque desejava proteger a União Soviética do colapso. do T. sobre cuja política e economia poderia exercer algum controle. Atrás dele.

Mas isto não prova que ele tenha criado a Guerra Fria. pelas potências que detinham a iniciativa e comandavam os limites extremos.Alemanha. senão de esquerda. pelo bem ou pelo mal. Os alvos de ambos os lados estavam concentrados em idéias opostas sobre o controle da Alemanha. frio e muito prático nacionalista. ele a empreendeu. e mesmo auxiliar. mais do que crêem devam fazer. O Leão es50 . no fundamental. V) é aplicável aqui: Habitualmente nem homens nem nações fazem. para reabilitar Stálin. realmente controlados pela URSS. sua cínica manipulação dos Legalistas Espanhóis. em uma situação difícil e perigosa. com todo seu complexo cortejo de acontecimentos. com momentos de ferocidade e falsidade que serviram para validar o estereótipo dele apresentado pela América. e então sugerir que a folha de serviço de Stálin. Alguns. Mesmo se alguém se dispusesse a tentá-la. sádico. Stálin aceitou a Guerra Fria. sua complacência em observar. por certo. A Guerra Fria na Europa emerge. A menos poderosa União Soviética queria capital de desenvolvimento sem condições. em último lugar. e essa política era a criação de um sistema não belicoso. rondando à procura de sangue e pilhagem imperialista. tal coisa seria tarefa de milagreiro. sua matança dos kulaks. do que a de um pequeno. sua tolerância ante o desmembramento da Revolução Grega por parte da Grã-Bretanha e América. os objetivos e exigências básicas do nacionalismo russo. Um princípio que desenvolveremos ao discutirmos a rebelião (no Cap. havendo excessivos estigmas de vergonha na história desse homem: o triste espetáculo dos expurgos. ter de obtê-la — uma garantia contra a expansão da revolução (o que vou apresentar é em grande parte o outro lado da mesma moeda) uma garantia de acesso econômico e político a toda Europa. no começo da Guerra Fria. e os Estados Unidos. porém não provocativos para os Estados Unidos. tais potências eram a Inglaterra. Parece ter tido pouca escolha. parecia a Stálin só haver uma alternativa política que satisfez. nos anos que se seguiram. porém tão só religar essa abstração a algumas das realidades concretas mais importantes daquele tempo. verão nisto uma tentativa esquerdizante. maquinaria pesada alemã e um descanso do wagnerismo militante. violentamente estabilizado de satélites tributários de proteção. que para nós é quase uma distante abstração moral. como podemos ver agora. dessa oposição elementar. de longe à frente. pelo menos parcialmente. Aceitando-a. Meu objetivo não é nem condenar nem absolver esta figura. é menos a de um monstro de contos de fadas. a tentada destruição da Revolução Chinesa. Os termos desta fantástica batalha foram ditados.12 O Ocidente uniformemente poderoso queria — e acreditava.

na Ásia. e de que. estamos representando. E se fracassou. é porque a contenção fracassou. Mas veio tarde demais. a Águia voando altaneira em sua plenitude. Se agora nos vemos começando a coexistir na Europa. o mesmo papel constrangido e heróico. E mesmo hoje. em prol de uma força nuclear multilateral continuamos a perpetuar nossa exigência de uma Europa ocidental eriçada de hostilidade atômica contra o Oriente. política dos Estados Unidos na Eurásia. e já que provavelmente acreditava que os Estados Unidos esperavam que o recusasse. Não precisamos compor. posta em prática o tempo todo visando optar pela coexistência. mesmo agora. O Plano Marshall foi oferecido à União Soviética sem implicações e. A Doutrina Truman de 1947. possivelmente. de que a contenção na Europa foi só uma política para o ínterim. a política dos Estados Unidos de “contenção-defensiva” permaneceu coerente a ponto de realizar suas piores implicações. mas por terra. Ademais: No decorrer dos anos de Eisenhower-Dulles. porque sua retaguarda caiu em Moscou. no dizer claro dos Secretários Stimson e Wallace. nos anos de sessenta. ou de Truman a Johnson.tava seguramente satisfeito. alcançaram. não estava muito longe de um ato de guerra. sempre reataviadas. e seu coração em Paris. Do ponto de vista de Stálin. quando ninguém clama que a “ameaça” está aumentando na Europa. Fracassou. em última análise. que dirigiu brutalmente a recuperação russa. Que o Guerreiro da Guerra Fria consiga nos convencer que o Urso ditava as leis. Já que sendo assim tinha de recusá-lo. ele devia encarar o Plano Marshall como nada mais do que uma contribuição americana para a ressurreição de uma superpotência na Alemanha — o velho inimigo rearmado. A contenção às vezes tendeu a se tornar libertação. como o faz nosso bom Guerreiro da Guerra Fria. quando seu tempo de preceito tivesse passado. continuamos a tentar a total integração militar do concerto Atlântico. continuamos nossos esforços para fazer essa integração em termos de um eixo Washington-Bonn. A mesma angustiante salvação pode ser lançada sobre nós via Pe51 . e através de nossas propostas sem fim. não fazemos jus à história da Guerra Fria que só imaginamos ser a nossa. aceitá-lo então teria sido o mesmo que aceitar a hegemonia econômica e. sem motivos defensivos. de Byrnes a Rusk. e o Urso não estava morto. o erro das passadas décadas de quarenta e cinquenta mediante a pretensão. quando o reverso é obviamente o verdadeiro. seja como for. a qualquer momento a “libertação” poderia ter irrompido. a quem as notícias dessa recuperação. Em poucas palavras. não parece ter sido pelo fato de alguém ter decretado seu fracasso.

quim e Tóquio. Porém, em primeiro lugar, esperar por uma tal salvação não é modo de vida, e, em segundo, as grandes desvantagens e percalços com que a humanidade se defrontou na Europa, nada eram comparadas com as da Ásia. Os pacificadores europeus, os homens racionais da Europa, jamais tiveram que se ver com uma guerra do Vietnã. Além do que, nós americanos, conhecíamos a Europa de uma forma que provavelmente jamais conheceremos a Ásia; estávamos culturalmente ligados à Europa, e talvez em parte suspeitando, durante todo o tempo, que os russos eram, de coração, tão europeus e brancos como nós. Na Ásia, ainda menos informados do que na primeira Guerra Fria, continuamos, sem critério, inculpando Mao Tse-Tung de todos os crimes de Guerra Fria cometidos por Stálin, os verdadeiros e os lendários; e cada encolerizado patriota asiático, esfomeado, subjugado pelo senhor feudal, que ousa se contrapor a nosso sonho a um Mundo Livre de domínio benigno, reacende nosso pietismo violento, nossa política de ressentimentos e frustrações confusos. E não há ninguém, em toda aquela parte misteriosa do mundo, para servir de mediador no conflito — ninguém senão nós e o povo amarelo. O problema com a Ásia é que lá ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Por que julgamos essa salvação tão difícil até para começar a tentá -la? Por que nós, americanos superpráticos, continuamos tentando navegar pelo território asiático desconhecido com um mapa europeu errado? Mas, talvez haja algo mais referente à Guerra Fria do que erros bem intencionados de história. Talvez estes erros sejam propositais, com a intenção tão só de servir de paliativo para uma verdade inconveniente. Talvez nossa ideologia de anticomunismo de Guerra Fria seja um sinal de beleza.*

A Fronteira em Torno de nós
Grandes propósitos e má supervisão fazem parceiros tranquilos, mas não proporcionam campo para agnosticismo em face do desastre. Admitamos que a história americana esteja sujeita, como todas as histórias nacionais, às forças acidentais, dispersivas e excêntricas que às vezes tomam conta dos acontecimentos e os levam para direções imprevisíveis. E, mais importante, admitamos que a nossa não é a única história no planeta. Nosso governo e nosso povo não encenaram o drama da Europa na* No original “Beauty mark’’ — sinal, pinta. 52

poleónica. Mas esse drama possibilitou a cena na qual os emissários que Jefferson enviou à França, com o único propósito de conseguir New Orleans e o direito de navegação no rio Mississipi, se viram de volta para casa a cambalear com todo o Território de Louisiana nas costas. Não foram nosso governo e nosso povo que encenaram o drama da Rússia leninista e stalinista. Mas essa Rússia tem sido a principal preocupação da América por, pelo menos, o passado quarto de século. Nossa própria história é atingida, e não pouco, pela história independente de outros. Não obstante, temos um estilo nacional, um sistema de motivos e esperanças próprios que predetermina, no fundamental, nossa resposta a nossas oportunidades e problemas. Meu argumento é que este sistema é hoje, basicamente, o que sempre foi; que nossa história é orgânica e tematicamente contínua; que apesar de nossa capacidade de elaboração e surpresa, temos contudo tido um, e apenas um, centro metabólico; e que se quisermos entender a Guerra Fria, temos antes que compreender esse centro. Em seu jornal Common Sense, de 10 de janeiro de 1776, escreveu Thomas Paine:
“Não está ao alcance da Grã-Bretanha fazer justiça a este continente; seus negócios em breve serão por demais pesados e intrincados para serem dirigidos, com um certo grau tolerável de conveniência, por uma potência tão distante de nós... Estar sempre a correr três ou quatro mil milhas com um informe ou uma petição, esperar quatro ou cinco meses por uma resposta, que, quando obtida, requer cinco ou seis meses a mais para explicá-la, será em poucos anos encarado como loucura e infantilidade... Tenho escutado asserções de alguns de que, como a América floresceu sob sua anterior conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para assegurar sua felicidade futura... Respondo seguramente que a América teria florescido tanto, e provavelmente mais, se nenhuma potência européia tivesse tomado conhecimento dela. O comércio pelo qual ela tem enriquecido são as necessidades da vida, e sempre haverá um mercado enquanto comer for o costume da Europa.13

Não se tratava simplesmente de que podíamos prosseguir sozinhos. Nossa relação colonial com a Grã-Bretanha mercantil punha um tal futuro promissor tão longe do alcance que, ou prosseguiríamos sozinhos, ou não o alcançaríamos de modo algum. A natureza exploradora do controle britânico tinha sido mascarada durante a Guerra Francesa e Indiana pelo influxo, para as colônias, do bom dinheiro de guerra e pela camaradagem
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de combate contra os então desprezados Gens de mauvaise Foy e, de forma também tão importante, contra aquelas tribos de pele vermelha, que continuamente se aliavam com quem quer que estivesse mais contra seus competidores caras-pálidas no comércio de peles. Porém, quer artesão ou homem de negócios, quer fazendeiro ou caçador, o pioneiro americano tinha sempre em mente a procura de oportunidade em direção ao oeste; e os obstáculos que os refreavam eram principalmente os colocados em seu caminho pela terra mãe. Quando os mercantilistas britânicos debateram a questão do desenvolvimento do Vale do Mississipi, por exemplo, uma importante ordem de argumentos era de que os colonos deviam ser vigiados muito cuidadosamente. O General Thomas Gage, Real Governador de Massachusetts, salientava que era do “interesse [da Grã-Bretanha] manter os colonos dentro dos limites da Costa Marítima o quanto pudermos; e constranger seu comércio tão longe quanto o possa ser feito com prudência. Cidades florescem e aumentam pelo comércio extensivo... e eles logo virão a produzir por si mesmos o que costumavam importar. Eu tenho visto este Incremento e asseguro a Vossa Alteza que se estabelecem em Philadelphia Fundações que devem provocar ciúme em um inglês”.14 A “guerra de libertação do povo” americano travou-se porque os colonos americanos queriam expandir-se pelo continente norte-americano e desenvolver sua riqueza por si mesmos, e, como um corolário, porque não mais podiam tolerar sua dívida para com a Inglaterra e as restrições que a mesma mais tarde lhes imporia. Não é acidental George Washington ter sido um dos mais ricos plantadores das colônias e um dos mais profundamente endividados com os interesses mercantis britânicos. Os radicais Paine, Sam Adams e Jefferson formularam poderosos argumentos referentes à liberdade nacional e escravidão nacional; mas foi o argumento mais prático sobre dinheiro e terra que conquistou para a Revolução o apoio decisivo dos precoces conservadores americanos. Essa foi a causa unificadora e dominadora. A presidência de Jefferson talvez tenha representado, a um tempo, a última oportunidade para a democracia agrária auto-refreada e o mergulho final em nossa própria forma de mercantilismo expansionista: a mesma Aquisição da Louisiana, que dobrou nosso espaço de crescimento continental e forneceu terra para uma nação de fazendeiros voltados para o interior, também tornou certo de que teríamos muito o que vender para o resto do mundo. Foi a terra dos proprietários de plantação que criou o mar dos capitães mercantes. A dinâmica da grande vaga de ressentimen54

to, convulsão, incerteza e decisão está muito clara nesta passagem do historiador Curtis P. Nettels:
“Se após 1763 o Império Britânico não lhes permitisse crescer e expandir-se, se não providenciasse uma solução do problema central da economia americana, os colonos teriam que tomar a si o direito e o poder de guiar seu desenvolvimento econômico. Considerariam necessário criar uma nova autoridade que encorajasse a navegação e o comércio americanos, tornasse possível o contínuo crescimento das indústrias manufatureiras domésticas. Portanto uma Outra consequência do mercantilismo inglês foi a Revolução Americana e a criação, depois disso, de um novo estado mercantilista deste lado do Atlântico.15

O idealismo de Jefferson tinha representado o único desafio forte àquele novo mercantilismo. A expansão física era necessária para obter novas terras para fazendas, mas ele queria que o país não buscasse territórios cuja proteção requeresse uma marinha. Marinhas (ele haveria de sentir o mesmo a respeito das forças aéreas) são dispendiosas demais — “uma perversa dissipação das energias de nossos concidadãos”16 — elas produziam burocracias propensas à política, e tendiam a se ligar muito intimamente com os interesses comerciais que as abasteciam. Isto é, como Eisenhower alguns 150 anos mais tarde, Jefferson temia o crescimento de um complexo militar-industrial. Porém seu idealismo democrático, talvez comprometido internamente com o que Alfred Beveridge chamaria sua “volúpia pela terra”, não era, em última análise, bom parceiro para sua imaginação prática: Jefferson entendia muito bem as necessidades de um povo agressivamente comercial e aqueles acontecimentos, na Europa, que pareciam justificar nosso desdém pelos intrigantes e falcões guerreiros do Velho Mundo, ao mesmo tempo que nosso comércio com eles nos estava tornando ricos. A posição internacionalista foi tomada uma vez e por todas. Certo, penetramos avidamente o continente em direção ao oeste, chacinando e defraudando índios como nunca nem Henrik Verwoerd ou Ian Smith chacinaram ou defraudaram os negros da África. Mas alcançamos aquela fronteira de cabeça erguida, olhar voltado sempre para nossas posições comerciais, primeiro na Europa e, não muito mais tarde, no Pacífico. A Guerra de 1812 não concretizou nossas grandiosas ambições concernentes ao Canadá, mas garantiu nosso acesso ao mar e nossas reivindicações às terras a oeste do Mississipi, comercialmente estratégico. Em 1819, John Quincy Adams afirmava que “os Estados Unidos e a América do Nor55

te são idênticos”. No mesmo ano, finalmente obtivemos êxito anexando a Flórida. Por volta da metade do século, tínhamos tomado um grande pedaço do México e das terras do Oregon e nos fizéramos senhores de toda a massa de terra. Na década de 1860, preparados para isto pelo compromisso de Missouri, pelos Atos de Kansas e Nebraska e pela guerra civil de Kansas, sofremos o nosso trauma nacional máximo ao pôr fim à disputa entre plantadores e industriais referente a como deveria ser desenvolvido o Oeste e, no fundo, quem iria dirigir o país. Expandimo-nos. Explodimos. A mesma energia que nos levou através de rios, pradarias e cadeias de montanhas também nos levou através dos oceanos. Nunca estivemos isolados e nunca fomos isolacionistas. Desde o começo, tivemos um Departamento de Estado e sempre estivemos diretamente interessados nas disputas de poder dos estados comerciais europeus. O tratado de John Jay de 1794, cuja concordância com os interesses navais britânicos tinha certas implicações neocolonialistas, representou uma contracorrente, que quase custou a George Washington sua reputação.* Foi um engano logo corrigido e que não seria repetido com frequência. Em 1823, a famosa doutrina de Monroe lançava a base de manobras para a hegemonia americana na América Latina. Três anos após, o Secretário de Estado Clay afirmava “um interesse vital na execução do trabalho” de fazer “um corte ou canal para fim de navegação em algum ponto do istmo que liga as duas Américas, para unir os oceanos Pacífico e Atlântico...”17 Em 1854, o Manifesto de Ostend, ressaltando que a “autopreservação é a primeira lei da natureza”, declarava que “Cuba é tão necessária para a República Norte-Americana como qualquer de seus membros atuais”, não meramente porque guardava “a saída natural e principal para os produtos desta população inteira, a estrada real de seu intercâmbio direto entre os estados do Atlântico e do Pacífico”, mas também porque havia um Perigo em movimento no Mundo. O Manifesto tornava este perigo claro, suas repercussões na ideologia atual tornam-no de interesse especial:
* Frank Monagham relata que “a ira dos republicanos era sem peia”. Sem esquecer “aquele maldito arqui-traidor, John Jay’’, cumulavam Washington de insultos como o homem que “tinha completado a destruição da liberdade americana”... Em Virgínia, foi brindada “uma rápida Morte para o General Washington”; em New York, a Proclamação do Dia de Ação de Graças do Governador Jay foi acusada, porque se aventurou a incluir a preservação “da valiosa e útil vida do Presidente dos Estados Unidos”, como um dos pontos merecedores de uma oração de graças...’’ (Em The Shaping of American Diplomacy, de Rand Mac Nally, Chicago, pág. 68.) 56

depois nos voltando contra os revolucionários de ambos os países. quando afinal chegamos a estouros com a Espanha no final do século. da economia cubana e nossa anexação de Porto Rico não eram diversos. é que este “antiafricanismo” do Manifesto de Ostend é mais obviamente um pretexto do que o anticomunismo da Doutrina Truman. ou verdadeiramente consumindo. o espectro de uma Ameaça invasora é usado como escudo moral para uma muito simples ambição de negócios.. onde anexamos o 57 . e “Mundo Livre” pelo menos eufemístico “raça branca” e teremos uma declaração que é não só contemporânea mas quase de última hora. eles se sentem a ele ligados. provocaria a séria atenção do Governo e do povo dos Estados Unidos em quaisquer circunstâncias. e cometer uma traição básica contra nossa posteridade..19 O nosso controle. minerações e outros negócios. Em ambos os casos. Uma estimativa razoável é de que pelo menos 30 000 000 a 50 000 000 de dólares de capital americano estão investidos na ilha. com todos seus horrores atinentes à raça branca. subiu em 1893 para cerca de 103 000 000. Cuba e Filipinas.. O volume de comércio entre os Estados Unidos e Cuba. a limpa estrutura de nossa União. estávamos. que em 1889 montava a cerca de 64 000 000 de dólares.18 Basta-nos ler “São Domingos” por “Cuba” e vice-versa. Porém. “antiimperialista” como era... “comunizado” por “africanizado”. Foi um vento das pradarias que soprou aqueles veleiros ianques através do Pacífico. primeiro apoiando. ser desleais para com nossos deveres. obtido mediante guerra. ser irrespeitosos para com nossos nobres antepassados.Nós devemos. abertamente. e em 1894. Se há uma diferença importante entre então e agora.. analisou a crise cubana em desenvolvimento da seguinte maneira: O espetáculo da ruína total de um país confiante. e suportar as chamas se estenderem às nossas próprias praias vizinhas. devemos permitir que Cuba seja africanizada e se torne um segundo São Domingos. no negócio de proteger negócios. Nosso presente interesse pecuniário nele é só superado pelo do povo e Governo da Espanha. mas sim parte e parcela de nosso desenvolvimento interno. Em dezembro de 1896. embora talvez seja só porque podemos ver 1854 com mais clareza do que nosso próprio tempo. ligação de nenhum modo de caráter inteiramente sentimental ou filantrópico. em plantações e ferrovias. ameaçando seriamente. o Presidente Cleveland. não tivemos tempo para parolagens pietistas. montava a aproximadamente 96 000 000. ano anterior à eclosão da atual insurreição. De fato.

Chegamos quase a anexar as Ilhas do Havaí como uma estação na rota para a China. contudo.21 No início dos anos de 1900. É ainda concebível que os ingleses e americanos que se empenharam para concretizar uma situação de livre comércio. e a American Asiatic Association. A primeira é que estávamos na China. sempre singrando o que muito mais tarde o General McArthur iria chamar nosso “lago pacífico”. Kung. e dar os nomes daqueles cujo controle do monopólio turco do ópio tornou ricos é nomear a mais brilhante fieira de traficantes de drogas jamais vista: Astor. se tivesse sido realmente executada por todos os estados europeus envolvidos na violação da China.Havaí e as Filipinas. nossos capitalistas tinham feito penetrações formidáveis nas economias do Japão e Coréia.) “Os americanos se voltavam para a Ásia na metade do século”. inspirada pela necessidade de obter depósitos carboníferos para os novos navios a vapor na longa viagem para os portos chineses. banqueiros de New York e variados empreiteiros. praticada muito bem pela Grã-Bretanha (as províncias do Yang-Tse). ficamos com três difíceis realidades comerciais. todos eles bons e limpos puritanos bostonianos.. se preocupassem com o povo chinês. Sturges. Aquele grande país permanecia a chave para os interesses expansionistas do período. escreve Foster Rhea Dulles. em parte. havia superentusiastas que já haviam solicitado a anexação de Formosa. o algodão superara o ópio como nosso produto máximo de exportação para a China.20 (“Levai para longe vosso ópio e vossos missionários”. Pelos meados do décimo nono século. É pelo menos concebível que. Perkins. Peabody. disse o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da China. como não o fariam de novo até seu final. moleiros de New England. a Política de Livre Comércio pudesse ter tornado o imperialismo ocidental mais tolerável para o povo chinês. uma combinação de intermediários sulistas. A terceira é que a diplomacia de esfera-de-influência. e a expedição do Comodoro Perry para obter o livre ingresso no Japão foi. mesmo até os portos da Velha Catai. Cabot. se ligara à American-China Development Company para promover vigoroso apoio governamental à Política de Livre Comércio. “e sereis bem-vindos”. Alemanha 58 . no mundo do Pacífico. França (algumas das províncias sulistas).. Não há necessidade aqui de debater o intento real das notas sobre livre comércio de John Hay. com a dominação do Levante Boxer por trás de nós. Deixando de lado tais especulações. A segunda é que queríamos ali nos aprofundar.

que disse era 1895: Temos um recorde de conquista. Beveridge.Para o bem de nossa supremacia comercial no Pacífico. Seu princípio exterior era que os negócios americanos poder-se-iam sustentar em qualquer competição limpa num mercado livre. Talvez um dos mais claros fosse o Senador Henry Cabot Lodge. no momento... A Política de Livre Comércio. enquanto os filhos da liberdade crescem em força. e mesmo ardente. no extremo limite do rol das concessões..22 Mais direto e brilhante do que Lodge foi o Senador Albert J. depósitos de carvão serão nossos. nas ilhas do oriente. Cumulou-nos Deus com dádivas para além de nossos merecimentos e marcou-nos como o povo de seu especial favor. até o menor de todos. Porto Rico está para tornar-se nosso pelas orações de seu povo. cuja prosa é tão maravilhosa que não pode deixar de ser citada por inteiro (1898): Deve o povo americano continuar sua marcha para a supremacia comercial do mundo? Devem as instituições livres alargar seu reino bendito. meramente admoestava os mercantilistas europeus para que abandonassem aqueles privilégios garantidos por canhões que acontecera não partilharmos... Cuba finalmente será nossa. tão só para corrompermo -nos em nosso próprio egoísmo? . e deve ser a bandeira que Taylor desfraldou no Texas e Frémont conduziu para a costa. Havaí é nossa. devemos controlar as ilhas do Havaí e manter nossa influência em Samoa.. e Rússia (a península de Liaotung) deixou-nos inquietos no referente à nossa posição e sua extensão futura.. Não nos podemos surpreender em ter nossos campeões de um imperialismo claro. . colonização e expansão não igualado por nenhum povo no século XIX.(Shantung). até que o império de nossos princípios esteja estabelecido nos corações de toda humanidade? . A América tinha se tornado o que chamamos uma Grande Potência Mundial e estava bem preparada para agir como tal.. Não estamos para ser refreados agora. em seus pontos essenciais. A Oposição nos diz que não devemos governar um povo sem seu 59 . mesmo às portas da Ásia. a bandeira do governo liberal está para flutuar sobre as Filipinas. A Política de Livre Comércio — exatamente como acontece com nossa oposição de duplo critério ao “nacionalismo econômico” — era um meio politicamente oportuno para formular nosso objetivo expansionista asiático. Seu princípio profundo era que acontecia os negócios americanos encontrarem-se.

nos mercados do mundo para conseguir nossa parte”. Secretário de Estado William Jennings Bryan. O vapor nos aproxima. era a política oficial da América. e as portas das nações que estão fechadas devem ser demolidas. Woodrow Wilson: Uma vez que o comércio ignora fronteiras nacionais. ele sublinhou: “Meu Departamento é vosso departamento.”26 A ênfase de Bryan sobre as portas dos países mais fracos. “Porque somos fortes. Eu respondo: A regra de liberdade. segundo a qual todo governo justo deriva sua autoridade do consentimento dos governados. você e eu. aplica-se somente àqueles que são capazes de autodeterminação.. os ministros e os cônsules são todos vossos. Governamos os indígenas sem o consentimento deles. e os manufatureiros insistem em ter o mundo como mercado. Por muito tempo. Distância e oceanos não são argumentos. a bandeira de sua nação precisa segui-lo. É tarefa deles cuidar de vossos interesses e defender vossos direitos. o Secretário do Comércio de Wilson. E nossa Marinha os fará contíguos. governamos nossos filhos sem o consentimento deles. estamos entrando.. Para o caso de não perceberem bem. o controle do desenvolvimento dos vastos e densamente povoados países não-desenvolvidos era visto de maneira constante como a chave de nossa própria realização plena — em parte por causa de suas riquezas em recursos naturais. os embaixadores. Bem mais surpreendente — mesmo impressionante — é a passagem seguinte. Embora nem ao menos uma vez tenhamos abandonado nossos interesses cruciais e sempre crescentes na Europa.. escrita por um de nossos maiores estadistas liberais..24 Em maio de 1914. de 1907. que informou aos homens de negócios que “abrir as portas de todos os países mais fracos a uma invasão de capital e empresas americanas”.23 Todas as nações e todos os movimentos produzem seus ferra-brases. declarava ante o National Council of Foreign Trade [Conselho Nacional de Comércio Exterior]. em parte devido 60 . a eletricidade nos aproxima — os próprios elementos fazem liga com nosso destino. Cuba não contígua! Porto Rico não contíguo! Havaí e a Filipinas não contíguos! Os oceanos os tornam contíguos.consentimento. imagináramos ser o pobre mundo nossa ostra. William Redfield.25 Redfield foi seguido na tribuna por um antigo membro da Liga Antiimperialista. é significativa.

o Norte da África e a Ásia que mais incendiavam a imaginação expansionista da América. Quando Wilson fala de pôr abaixo portas fechadas. Descreveu como a fronteira do mundo moveu -se da China através da Ásia Central. sem dúvida. não nas nossas. talvez. (Devido 61 . Roma. era contada em nítido movimento de fronteira para o oeste. algum debate sobre qual o novo pioneiro que iria levar as boas novas à China. a China. a mais antiga e a mais nova área de comércio. do Secretário de Comércio Hoover.) Eram a América Latina. Houve. e o arquétipo do país pobre era. ao mesmo tempo. ou quando clama que “concessões obtidas por financistas devem ser salvaguardadas por ministros de estado. A América.seu mercado potencial a longo termo. Uma era. é natural. ele por certo não está pensando na porta de um estado como a França ou na soberania de um estado como a Alemanha. Europa e finalmente América. cujo progresso copiou. Julius Klein. durante a Administração Coolidge. seu modelo global. deu às nossas inclinações orientais uma fraseologia quase mística. (Não nos tornamos efetivamente anticolonialistas no referente a impérios de outros senão depois da II Guerra Mundial. está encarando através do Pacífico o que é. aconteceu que a roda estava simplesmente em outra ciranda. a última grande fronteira foi conquistada. que iria ver por longo tempo a abolição de fronteiras e a conquista de “selvagens” por “civilizados”? De forma alguma. chamada “A Tendência da Fronteira é Mover-se para Oeste”. numa declaração política importante. com uma organização econômica e industrial que é o fruto de séculos de progresso mundial. por exemplo.27 Assim. também. e chegamos a uma nova era da história do mundo. auxiliar principal. sem dúvida. já que o Japão exibia uma crença persistente de que a história estava em suas mãos. tanto quanto a história do próprio mundo. Grécia. A conclusão lógica dificilmente poderia faltar: Agora o círculo está completo. uma guerra do Pacífico teve afinal de ser travada para aclarar de vez estas ambiguidades do Destino. e mesmo embora alguns de nossos estadistas e homens de negócios tentassem arrumar um comissariado associado com ele. justamente porque eles eram mais adaptáveis à nossa vontade do que o eram os ricos estados industriais. e em parte. Expôs que a história dos Estados Unidos. mesmo se a soberania de nações relutantes seja ultrajada no processo”. em uma escala continental.

poderá estar em posição invejável. em 1962. manterem hegemonia mundial no futuro.28 A publicação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos.) Através de tudo isso. O contrato. de 29 de abril de 1965. aparecido no Business Daily. é difícil deixar de especular: Precisa-se de serviços e materiais para realizar para o Exército um estudo de pesquisa intitulado “Pax Americana”.. Trataremos disto melhor no capítulo IV. apresenta anúncios de contratos governamentais que estão abertos para licitação do “setor privado”. Lucros futuros irão para as firmas que se mostram hoje empreendedoras e previdentes. Enquanto as nações se desenvolvem. para ser usada como uma base para os EE. estão sendo criadas oportunidades de negócios. no qual a opinião tradicional é agora expressa: Os negócios [americanos] devem expandir seu atual papel importante na economia mundial. à National Business Advisory Council [Junta Conselheira dos Negócios Nacionais] é típica do estilo burocrático menos colorido.. incidentalmente (no montante de 89 000 dólares — barato para hegemonia mundial). Lá estão os riscos. A seguinte passagem da fala do Secretário de Estado Dean Rusk.a chegada de um terceiro candidato. os líderes americanos mantiveram sua opinião sobre a importância da retaguarda. foi entregue àquele famoso historiador. a longo prazo. Uma firma americana. a Douglas Aircraft Company. Commerce Business Daily.UU. porém. os próprios chineses. lá estão as oportunidades. O dinamismo que tem sido central no desenvolvimento dos Estados Unidos deve agora ser empregado em escala global. (c) uma variedade de configurações de poderio mundial. argúcia política e cuja contribuição para o desenvolvimento ganhem a confiança de uma nação em desenvolvimento. consistindo num estudo básico sobre o seguinte: (a) elementos de Poderio Nacional. O expansionismo da América não é debatível. Há fortes incentivos para firmas americanas apresentarem agora suas reivindicações nestes grandes mercados em potencial [dos países em desenvolvimento]. É uma condição dinâmica que descreve nossa carreira nacional melhor do que qualquer outro 62 . Pode ser que não haja absolutamente ligação entre a atitude exemplificada pela declaração de Rusk e a exemplificada no anúncio que se segue. esta disputa permanece sem solução. cuja perícia empresarial. (b) habilidade de nações selecionadas em aplicar os elementos de Poderio Nacional. As nações em desenvolvimento representam um desafio clássico à empresa privada americana.

isto é. fazê-lo seguro para nossos próprios capitalistas incorporados. é celebrado. aquelas liberdades — as liberdades e direitos civis. Precisamos examinar isso. E esta liberdade econômica. nossos princípios de negócio. quando provém da ação pública. que permanecerão de certa forma em risco até que sua prática seja universal. Porém.termo singular. De momento. Não é dissimulado. Americanos modernos. Porém. estáse processando em colisão com dois desenvolvimentos relacionados: a burocratização incorporada do empresário e a privatização virtual do assim chamado setor público. e que qualquer decréscimo de liberdade econômica. mas tão só de fazer a tradução óbvia. ainda permanece para nós um tema do cerimonial mais alto dizer que temos liberdade pessoal porque temos liberdade econômica. observar que a fórmula sobre “fazer o mundo seguro para a democracia” na realidade. não é muito difícil entender esta omissão. Visto que estando o mundo seguro para nossos capitalistas incorporados a democracia política também está segura. Os filósofos do capitalismo democrático tentaram. Todas essas exortações a respeito da necessidade de difundir o Modo Americano de Vida não são de nenhum modo gracejos — são exortações verdadeiras. ultrapassando mesmo o marxismo de clube juvenil em sua habilidade de tornar lugar comum o irreal. o individualismo do qual temos sido tão orgulhosos — têm sido vistos pertinentemente como virtudes justificadas pelo oposto. e vêm de uma cultura que realmente pensa que sua sobrevivência requer mais e mais conversos. necessariamente resulta em decréscimo da liberdade pessoal. Já que liberdade econômica é a liberdade 63 . claro é simplesmente a liberdade de os homens de negócio americanos expandirem suas operações comerciais. significa fazê-lo seguro para o capitalismo — e. Podemos gozar todos os nossos direitos de pessoa só porque nosso sistema de livre empresa garante nossos direitos de propriedade — e portanto nosso direito de explorar a propriedade para fins comerciais. não são de nenhum modo um povo “possuidor de propriedades”. Esta teoria produziu as mais calmantes devoções sociais que o mundo conhece. as que resultam dos impulsos monopolistas-corporativos de um capitalismo que há muito tempo escapuliu-se dos velhos e frágeis grilhões públicos. Muito raramente este tipo de raciocínio faz um esforço para levar em conta decréscimos de liberdade econômica (ou as perdas de propriedade) que provêm da ação privada. para ser mais concreto a respeito. e de outro. mais ou menos explicitamente. De um lado. Não se trata de ser cínico. mostrar que liberdade pessoal e liberdade econômica são interdependentes.

e. Intelectuais de negócio contemporâneos podem fornecer justificativas sem fim para a marcha expansionista de nosso sistema: democratizamos o mundo. que ele o liberta. arranha-céus. qualquer expansão de negócios realizada é simplesmente a materialização concreta da liberdade econômica expandida. modernizamos o que está em atraso. é estável. e a conquistar aos empurrões uma posição. Pedir ao membro da corporação que imagine que seu monopólio recentemente conquistado na verdade limita a liberdade econômica. Porque quando os negócios têm submetido o governo. Mas todas estas virtudes parecem incidentais. curamos o doente. Porém a implicação disso se perde nos altos negócios. todos são livres. De maneira importante. A melhor coisa. ser trocadas por outras (tal como barrar o comunismo). então uma cresce quando a outra cresce. então mais liberdade é melhor. se necessário. com aquela revolução tecnológica bem independente e a longo prazo. bem igual a Chicago. infestados de ratos em todas 64 . e se alguma liberdade é bom. a ambicionar o aparelho de TV colorida. um dia.de expandir atividades de negócios. e portanto da liberdade pessoal expandida. que (caso o admitam) só vêem neste conluio uma vitória da liberdade. ou pedir-lhe que se submeta a controles sob a razão de que eles aumentam a liberdade. que se coloca sob a abundância notória do mundo do Atlântico Norte. liberdade e os direitos do homem parecem ser nada mais do que posições táticas que podem sempre. ensinamos o nativo iletrado a admirar as obras de Doris Day. vendo alojamentos. Se as duas são de fato interdependentes. o que é bom para a General Motors é bom para a América. a ser dita sobre o capitalismo corporativo é que ele planejou relacionar-se. é pedir-lhe que enlouqueça. estradas de alta velocidade. Que nossos astronautas olhem para baixo. Levantar uma dúvida sobre a habilidade exclusiva do capitalismo corporativo em fazer o povo mais livre e dar-lhe melhor vida não é levantar uma dúvida na mente capitalista sobre a mais primitiva virtude de seu sistema: que é simplesmente ser ele o seu sistema. de uma maneira nem sempre destrutiva. o que é bom para a América é bom para o mundo. ele subverteu e traiu essa revolução. e possivelmente arrasadora. deste ponto de vista pelo menos. subúrbios e guetos para Dar es Salaam. Todos os argumentos sobre cultura. ele pode de fato apontar a virtual identidade deles. sem desesperar. provavelmente. o escravo tem submetido seu senhor. Como pode a liberdade ser negação de liberdade? Como pode a liberdade vir da escravidão? Um crítico aponta o conluio dos altos negócios e governo. quando os grandes homens de negócio são livres.

tão convincentemente como sempre. O crescimento do estado capitalista resultou daquela chuva científica que chamamos a revolução tecnológica. e menos ainda institucionalizar. E do outro lado da medalha. o sistema de capitalismo “moderno” ainda prova. foi pelo contrário famoso por não produzir nem mesmo um cenário no qual a liberdade pessoal pudesse ter um significado. os fatos decisivos sobre o ato de competição de livre empresa são que alguém ganha e alguém perde. aquelas observações muito de antanho. Foi esta tecnologia revolucionadora do trabalho. que produziu abundância — uma abundância. contudo. de que o poder financeiro (e portanto político) infalivelmente se condensa em torno de grupos exclusivos de elite cujos interesses são crescentemente coordenados. deve agora ser esclarecido de que o capitalismo tornou possível o progresso tecnológico. de que riqueza e pobreza se engendram. Porém o que dizer daquele outro título máximo. e boa parte dela é não-produtiva. Para alguns marxistas. basicamente. que ganhadores tendem a permanecer ganhando e perdedores a permanecer perdendo. o que glorifica o capitalismo como o modernizador do mundo? Não há como ser enganado sobre isso. barbatanas de cauda e espalhadores de creme de barbear. que o trabalho teve de se bater ferozmente para partilhar.) Após estar sendo reformado todos esses anos. e de que é preciso uma para fazer a outra. sua chegada pode ser mais prenhe de mudanças do que agora o imaginam certas casas de investimento da livre empresa. reflete um desarranjo social por demais imenso para o entendimento do cérebro comum. O ponto a destacar é que as duas defesas sociais mais celebradas do moderno capitalismo ocidental são dúbias. (Muita “competição” agora é dentro de corporações. dispersou-se em cápsulas espaciais. pelo menos. as formas pelas quais o ato competitivo básico e livremente iniciado possa ser renovado de maneira contínua. representar alguma vantagem social.as nossas famosas cidades modernas. e mais ainda neo-Smithianos. A ciência. e (para generalizar o precedente) simplesmente que o capitalismo não foi capaz de conceber. Então produziu. Porém isto é enganador e 65 . porém. dentro da praça de mercado. ele trabalha horas demais por dia e anos demais de sua vida para alcançar um poder aquisitivo pequeno demais. liberdade econômica? Em comparação com outros o trabalhador americano está em bela condição financeira. em nosso tempo. por sinal. Deformada e desperdiçada como é. Produz ele liberdade pessoal? Por muito tempo. em comparação com a abundância que ele produz. induzindo a ciência ao serviço da burocracia das finanças. ela alcançou o mundo. e uma vez que seu racionalismo intrínseco pode.

a solução deste problema doméstico tornou-se uma tarefa primária da política externa americana. roubados e ladrões do mesmo modo (um ponto da maior importância a que voltaremos mais tarde). A ciência produz e mobiliza riqueza. nada senão um furto que ameaçava a todos destruir. O clero das finanças foi obrigado. Além disto. evidentemente. a saber. de fato. o mundo do Atlântico Norte considera tão desagradável a respeito das revoluções russa e chinesa. quando as necessidades têm sido menos satisfeitas. O que seria levantado em 1917 como uma firme conjetura pode ser hoje afirmado. é claro. como uma verdade demonstrada. aparentemente. esse incremento de riqueza útil. que a revolução tecnológica se propagará indiscriminadamente através de qualquer sistema suficientemente coerente de comunicações sociais. ou progresso material. Parece que o homem e a máquina produziram demais. em oposição a estes ventos tão contrários. Que isto esteja agora provado é o que. e seus apologistas talvez estejam certos em proclamar que alguns dos temores originais de gi66 . surge uma versão deste mesmo argumento de capitalismo-para-o-progresso que está sendo apresentado correntemente em defesa da moderna corporação americana (com frequência multinacional). pretendendo ser analítica. É uma afirmação puramente histórica. algo está errado com o sistema de repartição de recursos e distribuição de riqueza. Porém. quedas de preço intencionais. para os quais foi dirigido o Sherman Act. Por enquanto. há o fato embaraçoso de que o capitalismo não parece saber ainda com exatidão como lutar contra esta abundância que supostamente inventou. riqueza bruta e força de trabalho. cinquenta anos mais tarde. A enorme e crescente corporação é. Como veremos. Este excedente era. em conformidade. que é calculadamente afastado do mercado através do sistema de patentes e práticas tais como obsoletismo planejado. e “técnica de vendas” — práticas que são. e que o problema de produção excedente tem sido. na aparência. e a ciência é ideologicamente cega. peculiares do Ocidente e das quais o Ocidente precisa se envergonhar. a enfrentar o conceito realmente surpreendente de “produto excedente”.paralelo ao assunto. Quando os frutos apodrecem nas árvores e homens desempregados andam famintos. mais agudo. observamos somente que não podia haver propriamente excedente até estarem satisfeitas as necessidades. não o outro ponto em torno. diferente dos monopólios da era dos Alegres Noventa. Relacionado com o problema do produto excedente temos o problema do excedente tecnológico.

então nossa prodigiosa riqueza nacional teria. simplesmente porque uma movimentação mais global de recursos é mais racional — ponto. e não seria preciso destrui-la para assegurar que tais crimes não sejam cometidos. é que seu imenso poder inovativo é mutilado por lhe ser fundamental consagrar-se a obter proveitos financeiros. Mas o que certamente é mau. é por certo capaz de cometer os velhos pecados usuais dos trustes. É uma espécie de vodu. A observação de Robert Frost sobre os dois vagabundos vem-nos à mente: “A menos que um homem pudesse empunhar um machado. não é para cometer tais pecados que a corporação passa a existir. quanto atraída. A grande corporação. em geral. O negócio da GM não é carros mas sim lucros. porque os valores de troca no mercado abundante tornou lucrativas uma flexibilidade. Porém. de provocar ou absorver mudanças e de injetálas na economia. e porque ela está condenada a considerar sua administração dessa riqueza como boa ou má. existem. A corporação existe. enganar o consumidor. 67 . Porém. temos uma sociedade industrial que é tão perturbada. que alguns socialistas. pelos resultados prováveis da cibernetização. limitar a produção e conspirar para distribuir mercados não foram exatamente esquecidos. há muitas outras e melhores medidas de valor. é bom notar. * Os escândalos das indústrias farmacêuticas e eletrônicas são famosos. e mais ainda fascistas. eles não tinham meio de conhecer um louco. Se esta nova criatura de nosso sistema capitalista pudesse realmente inovar. formada por meio de fusões verticais. O que pode ser bom na grande corporação é sua habilidade de inovar. uma habilidade de reencaminhar recursos que as pequenas firmas de produto determinado não parecem ser capazes de exibir. no referente à grande corporação.” Além de empunhar machados e auferir lucros. horizontais e conglomerados (havia 2 100 em 1965).* Os velhos truques de fixar preços. e muito mais para ser censurada por suas “cidades internas” do que admirada por seus aeroportos. medida em dinheiro. é o único critério básico pelo qual ela avalia o desempenho deles. Sua rentabilidade. Gigantismo pode não ser a mesma coisa que ruindade. na dependência do montante de lucro que auferir. Isto não é socialmente racional. vinham pondo em prática há longo tempo. desde que a corporação é o repositório principal de nossa riqueza nacional.gantismo são agora deslocados. existem porque a promiscuidade do mercado abundante (“hiper-elasticidade de demanda”) pode ser estimulada e controlada somente através de uma diversidade técnica por demais dispendiosa para pequenas firmas. desde muito.

outros sistemas são pelo menos tão capazes de conduzir progresso tecnológico quanto o nosso. Temos justificado nossa presença em amplitude mundial encarando-a como um favor a nossos hospedeiros. Como tal não acontece. continuamos a nos desonrar com esta inventividade estouvada. Não nos expandimos por nenhuma destas razões. desprezamos o fato de que nos mostramos — sejamos generosos — inábeis para desenvolver o mundo em atraso. ou não. Mais frequentemente. Se se pensa numa versão capitalista de liberdade econômica. Sabemos que nosso sistema é expansionista. ao dar a esse progresso uma orientação mais atraentemente social. que arde em chamas. porém porque nossos homens de negócio o quiseram. mas a qualidade da vida social. então a medida de nosso desempenho empresarial não seria a eficiência financeira. Temos dito. dentro de nossas próprias fronteiras. nosso sistema é um bom sistema. em termos de uma ideologia claramente imperialista. de modo tão firme quanto nossos 68 . e talvez mesmo melhores. com uma imodéstia mais ou menos dissimulada. o argumento é circular e tomou-se por verdadeiro o ainda não provado. porque outros devem ter a ocasião de compartilhar de sua bondade. Se a gerência de nossos recursos fosse realmente integrada e realmente racional. E durante todo o tempo em que falamos de forma tão audaciosa sobre nossos planos para desenvolver o mundo em atraso. Nosso sistema pode. cujas realizações são aquilatadas principalmente por contadores. registradas principalmente por guarda-livros e comemoradas principalmente na nostalgia dos vendedores. Expandimo-nos para modernizar o mundo? Nossos antecedentes domésticos não nos levam à conclusão de que o podemos. em aflição e amargura. o argumento é claramente errado (veja a América Latina). consideramos nosso sistema econômico-político como sendo a única esperança do mundo. mesmo quando esses hospedeiros não estão eles próprios disso convencidos. ser bom: O precedente deve ter indicado pelo menos porque é saudável entreter certas dúvidas: Expandimo-nos para tornar os homens livres? Se isso quer significar uma versão liberatória da liberdade pessoal. como tantos cristãos. e nos expandimos pelo mundo. Este exame do capitalismo americano não é gratuito. Voltaremos a isso no trecho que se segue. Agora queremos perguntar: Por que expansão? Algumas vezes — mais marcadamente no período de 1895 a 1905 — explicamos nossas expedições. Quiséramos saber que promessas podemos esperar que este sistema cumpra. tanto comerciais como militares.erradicado a pobreza e o sem número de males sociais que a pobreza produz.

Não seria ingênuo afirmar que. as duas depressões que ultrapassaram a violência maciça da Guerra Civil. era suicida. também a história sangrenta da América do século XIX — história que deve ter estado muito presente na mente do Senador. para a possibilidade desta violência. Era da natureza do sistema econômico americano produzir mais bens do que podiam ser vendidos aos americanos — ele produzia. o Motim de Haymarket. Mas Frye expressou sua opinião de maneira tão brutal porque. desemprego ao ressentimento das massas. E muito. para reprimir os trabalhadores irlandeses grevistas de New York. já tínhamos uma apreciável parte do mercado da China. Reading. O que podia ser feito? Uma alternativa óbvia seria reduzir a produção. revolução. com nobre simplicidade. o Pânico de 1893 e a subsequente depressão. com constância. disse. Estes bens excedentes dificilmente podiam ficar a apodrecer nos armazéns. quando fez sua sombria predição. “ou teremos revolução”. que surgiu da Greve de Pullman em 1894. E mais importante ainda. o Grande Levante de 1877.estadistas acreditaram que tínhamos de fazê-lo. este comércio não era apenas bom. e ressentimento das massas à luta de classes.29 Esta idéia pode hoje parecer divertida. No fundo da consciência política da América estavam o uso de tropas. assim dizia. em mãos dos rebeldes. Era o que contava a história sangrenta da Europa da metade do século. perturbações econômicas e sociais: de que maneira fugir ao ciclo valorização acelerada-depressão. e o massacre de Chicago. de seu ponto de vista. em 1886. era fundamental a importuna inabilidade da América em resolver. Pittsburgh. fervilhava a penosa competição de esfera de influência com as potências européias. em 1846. como resolver o pro69 . nossas exportações cresciam. Mas isto não era só derrotista. Porém não seria risível àquele tempo. pelo menos ao primeiro relance. quando se viu soldados passarem para o lado dos trabalhadores ferroviários e a queda virtual. como estabilizar em um nível elevado de emprego e consumo. Por uma razão. em 1892. Reduções conduziriam ao desemprego. de algum modo. e precisamente quando a vantagem de maior penetração ganhava adeptos entre nossos homens de negócio. excedentes. O Senador William Frye expôs o problema. de Martinsburg. em primeiro plano. a Greve de Homestead. Não era tolice pensar que mais e maior violência podia vir. em 1895: “Precisamos ter o mercado da China”. mas indispensável à sobrevivência. Aflição econômica e violência consciente de classe nunca foram desconhecidas na América. O raciocínio não podia ser mais simples.

esta era uma formulação invencível. durante o século precedente. porém genuína. naqueles dias. e acesso aos mercados externos. Como poderia ser diferente em se tratando de um povo ilhéu? Um povo ilhéu. A resposta que os socialistas apresentavam era controle popular da riqueza da nação. em cuja primeira parte tínhamos pedido emprestado e comprado no exterior mais do que vendêramos. uma heresia contra aqueles direitos divinos de possuir e explorar propriedade. nossa experiência de fronteira. uma que também navegou. nossa moralidade de negócio. Assim devíamos ter produção elevada e não revolução. Talvez essa proposta estivesse muito bem para algum outro cosmos. a solução final. cujas origens estão principalmente em outra ilha. a fim de não ter revolução. perturbada. Além disso. Tudo na experiência daqueles que tomavam as decisões apontava para os oceanos como a saída. de fato. com constância. Ninguém podia antever. é claro. a fim de ter acesso. sendo o problema artificial. sucedeu que ela punha ante seus juizes a solicitação de que se condenassem a si próprios: algo que juiz algum jamais fez. e acesso e não revolução. resolvido por meio da redistribuição do poder econômico. do excedente. a fim de ter produção elevada. Estávamos desfazendo aos poucos a dívida que acumuláramos na Europa. O socialismo era ofensivo às ventas dos deuses. Tornáramo-nos os primeiros manufatureiros do mundo.blema de concentração de poder nas mãos de um grupo de homens que. ter topado Marx e caído morto do choque de auto-reconhecimento. Um livre empresário americano poderia. nos estabelecêramos como nação exportadora e tínhamos dado início a uma economia de mercado. Cada uma dessas condições eram diretamente interligadas e se reforçavam. também levou em conta o Continente. e que também tentou livrar-se de seus problemas econômico-sociais pela exportação de seu produto industrial excedente. Dadas nossas origens. produção elevada e acesso. havia outra solução: vender maior quantidade de mercadorias no exterior. que não estávamos nem a um quarto de século da guerra mundial que nos transformaria por fim (quase numa noite. Queríamos ter produção elevada. Mas aqui. Porém certas condições teriam que ser encontradas antes de esse sonho se tornar verdadeiro. como a descrição modelo o fez) em uma nação credora. se torna cada vez menor — os senhores dos trustes — e de que modo fazer estas coisas sem mudar fundamentalmente a natureza do próprio sistema. Pela década de 1890. Porém já estava claro que ser credora fazia parte dos planos. Tirava só um 70 . não revolução. sobre os quais estava baseada nossa república.

o Oregon em 1893. para fazê-las diferentes. onde se colocava o Poder. Se as coisas estão bastante diferentes entre nós agora. claros mesmo então. Na passagem do século. em nosso país. que se expressou da forma seguinte sobre a greve dos trabalhadores da mina em 1902: Os direitos e interesses do homem trabalhador serão protegidos e cuidados — não pelos agitadores trabalhistas. quando raciocinamos. o New York em 1891. anarquistas. homens da classe média nas ruas. deve-se supor.encanto a mais dos fatos. 2.25 dólares por mil pés de gás. porém pelos cavalheiros cristãos a quem Deus deu o controle dos direitos de propriedade do país. que recebiam de quatro a dezesseis centavos por hora. radicais. vivendo na cidade “modelo” de sua companhia. Foi nas ruas que nasceu o progressismo americano. Este é um fato político decisivo. É claro que havia reformadores. Tem de ser aceito. o Olympia em 1892. apesar do que pensara Jefferson. Na verdade. tal como aquele cavalheiro cristão George Pullman protegeu e cuidou de seus trabalhadores.30 Protegidos e cuidados. multiplicou-se e adquiriu toda a força que teve. e que sua raiva era socialmente explosiva. Os populistas nunca teriam oportunidade contra esse tipo de poder de fogo. ou negada. as propostas mais moderadamente progressistas eram sempre atacadas. sobre política americana. o afrouxamento da servidão do trabalho sempre tinha de ser forçado. pelos quais ele pagara quatro centavos. proprietária de minas. Porém. que ele tinha comprado por trinta e três centavos. não podia deixar de ser claro para ninguém que o povo americano tinha boas razões para estar zangado. era boa para os negócios. e de que a construção de marinhas. Porém lá em cima e no centro da cidade. a injustiça realmente elementar do comportamento do grande capital era sempre protegida. lembrado e aplicado de maneira inflexível. presidente da Philadelphia and Reading Railroad. a atitude típica era a de George Baer. quer interna ou externa: Os grandes homens de negócio americanos e seus as71 . por muito tempo. em uma luta muito amarga. O Maine tinha sido lançado em 1890. compreendido. de que mais comércio marítimo precisaria de uma marinha maior. é tão só porque uma boa quantidade de homens morreu. liberais. revolucionários. não haveria oportunidade para nem mesmo uma resposta nominalmente liberal-reformista.31 Por que remexer nestes velhos ossos? Porque estes velhos ossos estão em nossa carne nacional. pagavam-lhe dez centavos por mil galões de água. e que.

que estavam para difundir no exterior aquelas “instituições livres” que o Senador Beveridge saudava com tanto orgulho em 1898. o grosso do comércio oriental será nosso. e que algumas certezas eram mais certas que outras. fazendeiros americanos têm tanto direito como os da Alemanha ou França ou Rússia ou Inglaterra. Manila.. Devemos ter permanentemente em conta de que eram tais homens. estamos produzindo mais do que podemos consumir. Pois os conflitos do futuro deverão ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. fazendo mais do que podemos usar. E a regra de ouro da paz é a inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. em abril de 1886 (apenas poucos dias antes do Motim de Haymarket): A visão industrial de nossa terra não é por completo cor-de-rosa. Há mais trabalhadores do que trabalho para eles fazerem.. como Beveridge também. as Ladrones outra. Dentro de cinco décadas. é claro. A supremacia comercial desta República significa que esta Nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. S. O. cujas portas não devem ser fechadas ao comércio americano. Porém. caracteristicamente.. Qualquer outra visão de nossos “líderes” é uma alucinação sentimentalóide que leva muito pouco em conta aquela “dureza” pela qual eles tanto estimam a si próprios.sociados nos departamentos de Comércio e Estado. com tais idéias. Mas. ante um subcomitê do Comitê do Senado para Relações Exteriores. Ásia.. não se abstêm de explorar o que quer que não lhes tenha sido proibido explorar por qualquer outro poder. Portanto precisamos achar novos mercados para nossa produção. hoje.. manufatureiros. 5 por cento de nossas importações de matérias-primas vinham da Ásia 72 .. eles sempre tentaram dar ao nosso espansionismo um halo de cruzada humanitária. outra. Por exemplo. sabiam muito bem que havia argumentos e argumentos. no teor que se segue. a não ser o profeta e o Saxão que existiam dentro deles.Em cada setor * Em 1938. às portas da Ásia — Ásia. Tacher testemunhou. Assim o Havaí nos fornece uma base naval no coração do Pacífico.32* Já se tratara anteriormente do assunto. razões e razões. Ainda Beveridge: Não havia motivo para a volúpia pela terra de nossos estadistas. a cujo comércio centenas de milhares de mercadores.. Tal como Beveridge. senão abertamente cristã. de Jefferson e Grant. e em termos de outros Eldorados — ou quem sabe deveríamos dizer outras Fontes da Juventude. .. uma viagem mais adiante.

. Precisamos de mercados externos. Em vão. uma tentativa de revigorá-la de dentro. nada mais constante em nossa política externa. Search.33 Nada mais comum em nossa mentalidade econômica. Roosevelt. John Foster Dulles. voltamos os olhos para qualquer outra parte do mundo em busca de um povo que. em 1928: “Precisamos achar um mercado lucrativo para nossos excedentes. precise e esteja querendo tirar de nossas fazendas. marginal ou temporário — até a revivificação do comércio exterior do país dramaticamente deprimido. os projetos financiados pelo governo não eram considerados como mudança estrutural.. a essencial e única anodina.. Vejamos só como a mesma fala é feita sempre e sempre: em 1897. como nunca antes. A reconstrução do 73 . eram meramente conserto estrutural. paz e tranquilidade futuros dependem de encontrar mais consumidores para o que temos para vender.da vida industrial há produção além do consumo. do que esta convicção de que o problema básico do sistema de negócios americano é a riqueza domesticamente indistribuível.. teares. de uma vez.”35 O Presidente Herbert Hoover.”37 Talvez em parte por não ter sido levado em conta tal aviso.”34 Woodrow Wilson durante sua campanha para a Presidência... presidente da Associação Nacional de Manufatureiros: “Muitos de nossos manufatureiros ultrapassaram seus mercados internos. em 1912: “Nossas indústrias se expandiram a tal ponto que estourarão se não pudermos achar uma livre passagem para os mercados do mundo. os menos desenvolvidos). está em nossa penetração de mercados externos — mais especialmente os mercados daquelas terras que agora classificamos como países subdesenvolvidos (ou segundo o novo eufemismo do Departamento de Estado.”36 Nesse mesmo ano. como também são o único campo existente. O “New Deal” parece ser encarado agora como uma tentativa de aplicar estímulos internos à economia. proclamou uma importante variação do tema principal: “Devemos financiar nossas exportações emprestando aos estrangeiros o dinheiro necessário para pagá-las. mesmo para o “New Deal”. nosso progresso. e a expansão de nosso comércio exterior é sua única promessa de alívio. Nossos mercados internos não mais são suficientes. Porém. Franklin D. vieram dias negros para a América — e com eles. As nações da América Central e do Sul. não só oferecem os mais lucrativos mercados para onde encaminhar nossa produção excessiva. tapa-buraco. No total. por Theodore C. um renomado advogado de Washington e amigo do Leste Longínquo. e de que a solução básica para esse problema. forjas e poços de óleos minerais [aquilo] que somos capazes de produzir e dispensar.

através da diminuição da capacidade aquisitiva. sem apelação. certos produtos básicos regionais. as rendas dos impostos deverão ser diminuídas. o Secretário de Estado Adjunto Francis B. e destas espalharia os danos por todo nosso país. Tal miséria e desastre econômico não ficariam confinados aos próprios produtores. e o resultado inevitável é desemprego...” O tom de Sayre revela muito bem a intensidade dos sentimentos do “New Deal” sobre o comércio exterior: O que significa realmente este decréscimo no comércio americano para a vida de nossos fazendeiros e manufatureiros? Embora seja verdade que os Estados Unidos normalmente exportam só cerca de um décimo de sua produção total. Sayre pôs a claro a sombria significação deste declínio: “Lembrem-se disto: Redução no comércio mundial significa redução na produção mundial. Transmitir-se-ia. Suprima-se estes mercados externos. os bancos ameaçados.. As exportações americanas haviam caído de mais de 5 bilhões de dólares. Sem os rendimentos das vendas destes excedentes. desemprego. sofrimento e miséria humana.6 bilhões de dólares. é claro. se não permanentemente prejudicada. Em 1935 ele disse: Os mercados externos devem ser reconquistados. de março de 1934. à vida dos negócios de cada cidade e vila nas áreas produtoras. Não há outro caminho. e redução na produção mundial significa. em 1929 para 1. contudo.]39 74 . O fracasso em vender estes excedentes no exterior significariam desastre inevitável para grandes setores agrícolas de nosso país. em 1933. caso os produtores americanos se disponham a reconstruir uma economia interna plena e duradoura para nosso povo. Num discurso radiofônico. dependem de uma exportação muito acima de um décimo. sofrimento e miséria humana.38 A linguagem dificilmente poderia ter sido mais acabrunhantemente apocalíptica — tudo para o ouvido de gente que já conhecia muito bem “desemprego.“New Deal” girou em torno do liberalizante Ato de Acordos de Comércio de 1934 (e. anulação do protecionista Smoot-Hawley Tariffs) como um meio de restaurar a capacidade da Europa para comprar-nos o que queríamos vender-lhe.” Ninguém mais do que o próprio Roosevelt poderia ter concordado em que as coisas estavam más e que a única resposta era mais comércio exterior. [Ênfase incluída. os valores imóveis cairão abruptamente. se quisermos evitar dolorosos desacertos econômicos. para sua existência continuada. reajustamentos sociais e desemprego.. e a vida cultural de setores inteiros do país golpeada.

a acumulação de imensas reservas de capital). Já em 1940 Cordell Hull tornou claro que nosso “objetivo primário é. na qualidade de Secretário de Estado de Truman.”40 Não só pedimos e conseguimos livre acesso às colônias do Eixo. que acabou rompendo com Truman devido a questão de nossa política de após-guerra referente à Rússia. sustentada por toda parte. avanço tecnológico. O importante é mercados. ele disse. por um período muito difícil. Byrnes completou o argumento já conhecido com tal objetivo: “Os Estados Unidos não podem alcançar e manter o alto nível de emprego que estabelecemos como nosso alvo a menos que as vias de escoamento [externas] para nossa produção sejam maiores do que jamais tenham sido antes. mas também usamos nossa força econômica contra o necessitado aliado britânico. e proclamou que nossa expansão para os países pobres representava nossa “ilimitada nova fronteira de oportunidades. a urgência desta necessidade. Aceito que 75 . e então intensificou. não duvidava que “a empresa privada nos Estados Unidos só pode sobreviver se se expandir e crescer”.. em tempo de paz.” Acheson então detalhava: Não temos um problema de produção.. “As velhas fronteiras devem ser refeitas”. para abrir à força a porta para as suas colônias. tal como a I Guerra Mundial. argumentou que se a América do após-guerra devesse cair de novo na depressão da anteguerra... ao mesmo tempo. “parece claro que nela permaneceremos. Mesmo o Secretário do Comércio Henry Wallace. Não podemos atravessar outros dez anos. como os dez anos do final da década de vinte e início da de trinta.A guerra adiou. Os Estados Unidos têm energia criadora ilimitada. perante o Comitê Especial do Congresso sobre Política Econômica e Planejamento de após-guerra. se poderia usar toda a produção do país nos Estados Unidos. de que a América não podia sobreviver sem o que bem pode ser chamado de colônias comerciais. mas não suprimiu. depondo. somente acrescentou mais força e outras dimensões à convicção já forte. reabrir as velhas saídas e buscar novas para nossa produção excedente. sem ter consequências do mais longo alcance sobre nosso sistema econômico e social. O crescimento que ela estimulou nos negócios americanos (expansão industrial e agrícola. Já destacamos a declaração do Secretário de Estado Byrnes.”41 Há virtualmente um consenso universal inviolado sobre este ponto.. sob um sistema diferente.” Mais tarde. Podemos debater por um bom espaço de tempo que neste país.. de que um objetivo importante de após-guerra era “a manutenção da porta aberta nos Bálcãs.”42 O Secretário de Estado Adjunto Dean Acheson. em 1944.

Se se quiser controlar toda a vida do povo. é provável que se possa estabelecer este controle de modo a que tudo o que seja produzido aqui seja consumido aqui. E ninguém pretende isso. isto é. a máquina abaixa sua grande cabeça de aço. Que esta riqueza externa independentemente produzida tenha que ser produzida aqui e controlada por nós é. Quanto melhor funciona. Se estou errado a esse respeito. Numa escala mais civilizada. basicamente. Quanto maior seu mercado externo. ulcerados. Escarnecemos do europeu que quer uma relação importação-exportação equilibrada conosco. nós desembolsamos no exterior. garantido por nossa exigência de que outros “multilateralizem” suas contas comerciais. Ele não deve manter um livro para cada parceiro comercial.43 Reduzamos tudo isto a seus elementos. e é sempre justamente este lado a ficar fora de equilíbrio. e o suspense é temível. Assim tem que haver uma fonte de riqueza externa. a história de mais de 110 bilhões de dólares que. se converte num padrão de vida em constante ascensão.a União Soviética possa usar toda a sua produção internamente. expectantes.. Em relação a isto. porém isso mudaria por completo nossa Constituição. (Supõe-se os capitalistas ansiosos. há uma pergunta muito simples: Como é que a importância com a qual deve ser financiada a venda externa do excedente não irá simplesmente substituir o excedente interno e. nossas relações com propriedade. melhor funciona. nossas exatas concepções de lei. esperamos que ele financie a compra feita a nós por meio de balanços favoráveis obtidos de outros. acelera.) A teoria é de que o desequilíbrio expansionista. de 1945 a 1962.. dizemos. Isto é bom. Assim. produzida independentemente. e corre. assim. maior é sua necessidade de um mercado externo. liberdade humana. é invocada a teoria da especialização internacional do trabalho. em várias categorias de assistência financeira. Portanto. Há. Nosso sistema econômico funciona num estado de desequilíbrio contínuo. Porém tem que ser feito corretamente. à qual tenham acesso nossos comerciantes. deve ter um para todos. então todos os argumentos pecam pela base. A exigência se aferra às coisas. corretamente controlado. percebemos que precisamos buscar outros mercados e esses mercados estão no exterior. recriar o problema original? Na escala mais primitiva. a exportação deste excedente tem que ser financiada. maior seu excedente. isto é. Um. não a valores de 76 . segue em frente para o futuro. alguns problemas clássicos. é claro. mas minha opinião é de que não podemos ter pleno emprego e prosperidade nos Estados Unidos sem mercados externos.

para 1. Mas eles não são. Um outro problema. digamos. bastante curiosamente. Ambos sabem que ele existe: Era de 2. A alma do capitalismo é a dívida particular. para. confiantes. o continuar da alta demanda inflacionará a circulação. e os possuidores de dólares no exterior reagem trocando dólares por ouro. e portanto pedirá dinheiro emprestado. Em 1964. O fluxo conjugado para fora.) A gente do governo o chama caracteristicamente de permanente.dólares. afinal. boa quantidade. este problema é manejado pelo que. brota do fato de que uma economia capitalista a toda força produz uma espécie diferente de artigo de exportação — o próprio dinheiro. em período durante o qual nossa costumeira balança comercial favorável era desapontadoramente baixa. é a um tempo de pequeno alcance e permanente.4 bilhões de dólares.”44) Se nada é feito para deter o fluxo expansionista de capital para o exterior. em 1965. quando o “boom” preocupou a todos. é uma simples confiança no futuro. mais do que 90 por cento foi convertido. só 5 por cento de deficit foi convertido em ouro. o ano das restrições. Porém. de forma mais fundamental. mas. ele e o banco. e portanto levantar taxas e o valor do rendimento do dinheiro. e sua resolução requer grande habilidade. porém se o governo quer retardá-lo. mais moderno e mais difícil. apresentado pela Administração. se o problema primeiro for resolvido.8 bilhões de dólares em 1964. em qualquer período de expansão. o excedente comercial de 1965 cai para o que Fortune chama “o insignificante valor de 1. através do programa “temporário” de restrições “voluntárias”. uma câmara japonesa. de que será capaz de fazer frente aos pagamentos. o mais baixo da década de 1960. estava de novo em ascensão no primeiro trimestre de 1966. (A razão é que dois sistemas de contabilidade igualmente bons podem ser usados para apresentá-lo. assim se pensa. Desceu. excederá o fluxo conjugado para dentro.5 bilhões de dólares. Estes são problemas difíceis. no fundo. reais. cresce o deficit de dólar. A grosso modo. 77 . Em 1965. a preocupação central da política americana. (De fato. e essa diferença levará a um deficit de dólar que. Sempre poderão ser resolvidos. A gente de negócios o considera de pequeno alcance. se subtrairmos do total nossas exportações subvencionadas pelos Estados Unidos. E esse problema primeiro — o osso mais duro de roer da política externa americana desde seus dias mais remotos — é assegurar a utilização de fronteiras férteis para os negócios americanos. o dólar de alguém investido no exterior faz dinheiro — como veremos depois. Se o operário da linha de montagem de autos crê que a GM pode vender todos os carros que ele monta. então contará ter um emprego e uma renda no próximo ano.

para fazer a pilhagem sozinho que o Ocidente. ou o controle financeiro de Lourenço. para os homens de negócio americanos. O olhar penetrante do homem 78 . a fim de que realizem seus negócios em qualquer parte. o Grande. porém só desejo saber se ele não deve tentar entender um pouco melhor suas bases. de que tratamos no Capítulo II mudou por completo as coisas. tem que ter algo mais dentro de si do que esta volúpia primitiva. primeiramente sob a liderança imperial deste poderoso estado. A ideologia da Guerra Fria. Essa ideologia sustenta que a paz perseguida pelos líderes americanos era de uma espécie nítida. pelos velhos diplomados estrangeiros de Fort Bragg. que galvanizou nossas melhores mãos. na sua melhor e mais elevada forma conhecida de cultura humana — em nome. pelo lucro a qualquer preço. finalmente. parece. O que foi a alma desta Renascença? Foi Florença a arte de Leonardo. com democracia ou progresso. caso o pânico acertar num lugar vital. em nome da civilização ocidental. América — laborou para fazer seu domínio universal. nos melhores termos possíveis.As portas econômicas devem ser abertas. O que nossa cultura ocidental mais claramente anuncia ao mundo é que coisas — povo. deve ter sido empreendido. Tais expressões tornam o Homem da Guerra Fria mais satisfeito consigo próprio. depois daquele — Espanha. Mas nós queremos uma certa espécie de paz. Todas as nações querem paz. muito mais importante e épico do que bolsas de mortais. por exemplo da Renascença. Este trabalho. Queremos paz. Isto é incorreto. oceanos — devem ser definidas por seus usos e pelo tipo de direito de propriedade ao qual elas se submetem. Esta luta imensamente violenta que divide o mundo deve ser referente a algo muito maior. porém. natural. por certo. em ambientes orientados por governos da classe média nativa de preferência. a qual tem muito pouco a ver com deixar vizinhos a sós. se for preciso. a paz afinal existirá quando o mundo estiver garantido. Não quero resmungar contra sua satisfação. o Magnífico? Foi Veneza Ticiano ou os mercadores que a governaram com tal comedimento? O herói de Isabel foi Bermejo ou Colombo — ou o Arcebispo de Toledo? Quem era mais caro ao coração da Inglaterra elizabetana. por aqueles oligárquicos e repressivos. Não foi. é certo. a sobrevivência de nosso sistema depende disso. mesmo vil. França. Falemos sem rodeios: Para nós. ou por nossos próprios fuzileiros. Shakespeare ou Francis Drake? Pode-se falar de culturas à vontade. uma simples paz na qual nações em boa-vizinhança deixam ao abandono umas às outras. Mas uma tal formulação parece sem dúvida crua demais. Inglaterra. terra.

No Oriente eles adquiriram forças de resistência. Os outros não querem. O Ocidente quer um mundo que seja integrado e (no sentido de Max Weber) racionalizado em termos de estabilidade de recursos. Tão só revela a transcendência do motivo de lucro. Na qualidade de líder do Ocidente. Portanto há uma luta Oriente-Ocidente chamada em nosso tempo Guerra Fria. a América quer esse mundo integrado. produção. distribuição e mercados. racionalizado para dirigir sob a orientação de sua própria gente de negócios. As questões denominadoras de nossa cultura são: De quem é isto? Para que serve isto? Quem vai lucrar com isto? A filosofia da cultura não transcende o motivo de lucro. trabalho. 79 .ocidental percebe que o mundo gira em torno da propriedade.

80 .

IV Império do Mundo Livre Mesmo os antiimperialistas aceitam com satisfação uma política Imperial que não vise outras conquistas que não as do comércio. nem a tradição ocidental que a América levou à maturidade. O mundo não pode impedi-lo — nem nós. um acirrado antiimperialista um anticomunista. Mostra81 . Aplicadas à política internacional estas virtudes reclamam imperialismo. que ela se baseia numa premissa ética de conflito. de Conrad. 19001 Nós americanos dirigiremos o mundo dos negócios quer o mundo goste. serão corretamente entendidas enquanto não se entender que a livre empresa é. a condução violenta (ainda que indireta) da política econômica de um estado por outro estado. quer não. uma teoria política. um libertador. Times. e que seu sistema de virtude confere estima e privilégio. mais basicamente. Porém imperialismo tem muitos métodos operacionais. 1904 Nem a América. eu espero. em Nostromo. Londres. Holroyd. fundamentalmente. não ao humanitário (ainda que o humanismo não seja excluído) mas ao obstinado e implacável. ao poderoso. O homem de negócios do mundo americano pode muito bem julgar-se um liberal.

são verdades historicamente indiscutíveis. que sempre ameaçou culminar em motim e rebelião e portanto ameaçava a segurança dos mecanismos de controle econômico. neste sentido. e que sua existência está intimamente ligada à existência do capitalismo ocidental. Moçambique e África do Sul. Assim. Supõe-se. a liberdade expressa por este “Mundo Livre” tem de ser diferente. rios. a zona basicamente integrada da hegemonia americana. Mas também observamos que se considera este Mundo Livre como incluindo mais do que as democracias ocidentais. desuniforme e continuamente em fluxo. na raiz. é mais livre do que o mundo não -ocidental. Quase ao acaso a América armou um processo de eficiência contra o imperialismo colonial.nos que não tem bandeira e armas de comércio. As colônias criaram uma hoste de feios e desnecessários problemas — centralmente. Que estes direitos e liberdades pertencem a tradição liberal ocidental mais do que a outra qualquer. O Mundo Livre. Pode representar apenas liberdade de acesso do capital. cadeias de montanhas.) Esta idéia recoloca o centro do impulso imperial (banindo expressões bombásticas tais como “a carga do homem branco”) e define mais agudamente as dimensões da vitória imperial. O Mundo Livre mesmo é o Império Americano. qualquer que seja sua conotação. e não se sente em contradição quando. O Mundo Livre. O Mundo Livre é a área econômica do mundo na qual o homem de negócios americano goza a maior liberdade de manobra comercial. Tailândia e Formosa. que deve ser aquela parte da terra em que os homens gozam de direitos e liberdades civis. reservas de trabalho. Toma as culturas em termos de seus componentes econômicos e dá menos atenção 82 . Inclui: Espanha e Portugal. Simplesmente acrescente a isto a observação que a América é a líder do Mundo Livre e teremos aprendido o essencial do imperialismo à Mundo Livre da América. pleno de situações especiais. É a palavra “livre” que por certo é tão enganadora. assegura-nos que só deseja a oportunidade de negociar. Muito melhor do que a idéia de colônia imperial (definida por coordenadas de terra. porém profunda. etc. A contribuição da América para a arte firmemente evolutiva do império ocidental é simples. Paraguai e Argentina. redes de navegação e distribuição. ao mesmo tempo. é contudo. empenha seu apoio para a manutenção e ampliação do Mundo Livre. de antemão. o problema do nacionalismo colonial. e descontinuidades raciais e éticas) era a idéia do mercado livre (definido por riqueza real e em potencial. que são a um só tempo mais praticados e mais praticáveis no Ocidente do que em qualquer outra parte.

destinada a ser desviada. é claro. torna-se uma fonte de materiais e um mercado a ser desenvolvido. um terceiro refinando o aço. ópio. pelo menos em parte. encontrando os lugares privilegiados já ocupados. a colônia européia à moda antiga. a Turquia.* Da posição política local da Turquia ou China é importante somente que não obstrua o desenvolvimento ordenado do todo sistematizado. mas pelo contrário.** A América produziu esta teoria. permutam-no por seda chinesa e trazem a seda para a América. A idéia de nação. e esta proveniência é uma das razões das dificuldades da Rumania com a URSS: a Rumania defendeu uma preferência básica pela auto-suficiência nacional contra a interdependência do bloco. será vencida pela potência econômica líder. outro explorando os minérios. como um específico modelo ímpar de recursos econômicos e potenciais. em conjunto com outras fontes e mercados. na qual a China era encarada. primeira edição em 1921. Na revisão pragmática e oportunista das formas de império feita pela América. não como uma entidade geopolítica unitária a ser conquistada como um todo. Economia transnacional substitui política nacional. é uma tentativa de bloco para “racionalizar” uma economia internacional ao longo destas linhas. um país produzindo os alimentos. é uma elaboração interessante e autorizada do tema de edificação de sistemas econômicos. Em um velho e famoso exemplo. Isto proveio do modelo mais autárquico empregado por volta de 1955. ou esfera de influência. o imperialismo de Mundo Livre substitui pela de sistema econômico globalmente integrado. os comerciantes americanos monopolizam o ópio turco. a resposta da Europa do Leste ao Mercado Comum. Para a idéia de conquistador objetivando fronteiras territoriais oferece como substitutivo a idéia de idealizador visando componentes econômicos entrelaçados. cuja relação mais estratégica era com outros sistemas semelhantes. com frequência ao longo de uma especialização global de trabalho. em vez de verticalmente com seu meio cultural nacional. Nosso anticolonialismo de meio século pode ter originado uma como que exigência ressentida de acesso às esferas imperiais já estabelecidas * O Comecon. 83 . porque tinha chegado atrasada à mesa. A colônia. uma esfera econômica cujas fronteiras não mais são vistas como principalmente territoriais. Economias eram para ser organizadas horizontalmente com outras economias. torna-se o lugar de uma aberta competição de livre empresa — a qual.2 ** Thorstein Veblen: “The Engineers and the Price System” (Harbinger 1963). a China faz seda. Um exemplo imperfeito (imperfeito porque ele finalmente chegou por si mesmo a um militarismo quase ritual) é a doutrina de pré-guerra do Japão referente à Esfera da Coprosperidade da Ásia do Leste Maior.a hábitos políticos e aspectos geográficos.

a América quis a substância sem a aparência. justificando isto com a mesma retórica à livre mercado. Seu anticomunismo selvagem é uma espécie de evidência de que falhou. uma expansão limitada ao comércio. chegaremos à conclusão que muitos dos pecados de que livremente criticamos outros países por praticarem [i. o orientador político de Roosevelt. anticolonial. para a vida do colonizado e a tranquilidade do colon. Comparemo-la com a tentativa francesa de afrancesar suas colônias.”4 O que a França conseguiu em troca do seu transtorno foi uma grande quantidade de borracha a um preço muito bom e uma mancheia de soberbos eruditos asiáticos. em 1885: “Destruímos o passado e nada o substituiu. um consultor americano teria salientado que aqueles preços eram atingíveis sem o esforço mal orientado de transformar Hanói numa espécie de Paris. de Mundo Livre da América e que preferiu não ser imperialismo. com efeito. A Política de Mercado Livre afirmava a prioridade de nossa economia sobre a política deles. protecionismo colonial] têm suas contrapartes nos Estados Unidos”.. de forma alguma surpreendentes. Mas quer seja por ingenuidade. e que através do uso elaborado e requintado de pressão econômica e induzimento (às vezes chamado “educação”) os governos nativos podem ser persuadidos a tomar todas as decisões corretas. Essa era uma idéia nova. de livre-mercado.(em especial na China) pelas potências européias e asiáticas. que não se imiscuísse do ponto de vista cultural. os bens sem o ato aberto de saque. O governador colonial está de volta chamando-se agora embaixador e nossos Legionários Estrangeiros usam boinas verdes. mais estável do que domínio estrangeiro. ou por um estratagema quase inacreditável. que fosse mesmo de ajuda para o hospedeiro. uma das mais tristes características do imperialismo de porta aberta. Isto é. e. se quisermos ser honestos conosco mesmos. não permanecendo ali necessidade de humilhar e enfurecer povos nativos com status colonial. wilsoniano. de transportar formas culturais francesas para a cultura nativa a qualquer preço. tendo desastrosos resultados. por meio de uma ferroada bem colocada. parecemos ter desejado um resultado diferente. Levado de volta àquele tempo. O governador colonial e a Legião Estrangeira tornaram-se simultaneamente obsoletos.* O imperialismo de Mundo Livre reage ao problema do nacionalismo de pequeno estado argumentando que o governo nativo de colaboração é. um específico para as exigências comerciais americanas. Tal a vespa que domina mas não mutila sua presa. William L. * E durante a II Guerra Mundial.3 84 . enquanto a América continuava a se esforçar para obter acesso às colônias da Europa. Tal como o primeiro governador civil da Indochina Francesa confessou. Clayton disse: “A verdade é que.

Porém, pouco valendo suas afetações de não intervenção cultural e política, o imperialismo americano de Mundo Livre foi tão completamente pernicioso e tão plenamente predatório. A vida econômica de uma cultura não pode ser mudada sem consequências para cada um dos outros aspectos de cultura. O dinheiro se propaga. Sistemas econômicos ocidentais precisam de infra-estruturas econômicas ocidentalizadas, de um aparelho legal ocidentalizado, e fundamentalmente de uma tendência política ocidental. Impacto comercial é impacto total. É este mesmo impacto do Ocidente sobre o Oriente, tão frequentemente uma mescla de culturas elaboradas e requintadas, mas antidinâmicas, que os explicadores do imperialismo do mundo livre apresentam como um fenômeno em si saudável. Explicam e tornam a explicar ao bom povo americano, de quem aparentemente suspeitam como guardando uma antipatia residual em relação à injustiça, que tais fissuras sociais, se de um lado podem provocar a agonia de países “em desenvolvimento” são para-produtos inteiramente naturais da “revolução de modernização” (ou “de esperanças em ascensão” ), que é descrita como basicamente independente de causas externas: um processo histórico que se desenrola por si mesmo, quando povos adormecidos despertam. Dificilmente poderia ser mais claro que esta “modernização” é tão só um nome polido para o rude e chocante impacto das culturas tecnológicas sobre as não tecnológicas. Porém teorias oficiais fazem variações deturpadoras em torno da responsabilidade americana em relação aos deslocamentos induzidos pela expansão americana, e a idéia de que a traumatização quase ubíqua do Terceiro Mundo possa ter algo a ver com um específico lucro em dinheiro contado é mesmo muito raramente abordado. Representativas deste ponto de vista, as passagens seguintes são do famoso discurso de Walt Whitman Rostow à classe dos Graduandos de 1961 da Escola de Guerra Especial Fort Bragg [Fort Bragg Special Warfare School], do Exército (Rostow é o principal conselheiro de política exterior do Presidente Johnson e, provavelmente, o mais destacado teórico da Guerra Fria da América):
O que está acontecendo por toda a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia é isto: Velhas sociedades estão mudando seus rumos a fim de criar e manter uma personalidade nacional na cena mundial e trazer para seus povos os benefícios que a moderna tecnologia pode oferecer. Este processo é certamente revolucionário... Como todas as revoluções, a revolução de modernização é per85

turbadora... Homens e mulheres nas aldeias e cidades, sentindo que os velhos modos de vida estão abalados, e que novas possibilidades estão abertas para eles, expressam velhos ressentimentos e novas esperanças... Esta é a grande arena de mudança revolucionária que os comunistas estão explorando com tão grande energia... Nós, americanos, estamos confiantes de que, se a independência deste processo puder ser mantida através dos anos e décadas vindouras, estas sociedades escolherão sua própria versão do que podemos reconhecer como uma sociedade democrática e aberta... Portanto, nossa tarefa central nas áreas subdesenvolvidas... é proteger a independência do processo revolucionário agora em curso... A difusão do poder é base para a liberdade dentro de nossa própria sociedade, e não temos razão para temê-la na cena mundial. Porém esta consequência seria uma derrota para o comunismo... [Os comunistas] estão destinados no fim, pela natureza de seu sistema, a violar a independência das nações... Nós estamos lutando para manter um ambiente na cena mundial que permita à nossa sociedade aberta sobreviver e florescer.5

Os elementos-chave da visão principal e profunda de Rostow são os seguintes: 1. Recusa tácita da responsabilidade ocidental por essa “turbulência”, que é causada primariamente pela intromissão ocidental — comercial, ideológica, militar — no Leste e Sul. 2. A pretensão de que o propósito da América é a criação de sociedades livres, independentes e (o que não é tão óbvio) tecnológicas. 3. Repúdio à possibilidade de que “comunismo” (o qual para Rostow, provavelmente vale para qualquer violência política oposicionista) possa também ser um nacionalismo. Isto é, a linguagem de Rostow nos põe frente àquela velha imagem familiar do comunista como um homem sem uma pátria, alguém que sempre aparece de algum outro lugar, e cuja lealdade sempre está alhures. (Comunistas, diz, são “carniceiros” e comunismo é uma “moléstia de transição”.) O que uma tal descrição tem a seu favor é a teoria de alguns ideólogos bolchevistas, principalmente trotskistas, de que a revolução proletária seria internacional (a classe acima da bandeira) e que teria de resultar na decomposição da nação-estado, uma instituição burguesa. O que ela tem contra é cerca de duzentos anos de
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história. Tendo por trás de nós as revoluções americana, francesa, russa, chinesa e cubana, resolvidas de maneira tão vária, somos obrigados a concluir que revoluções populares, quaisquer que tenham sido sua fuzilaria e retórica de inauguração, são sem exceção nacionalistas. O único grupo genuinamente internacional (melhor, transnacional) no mundo moderno é o que Marx chamou a classe dominante; Veblen, os capitães das finanças; Mili, a elite do poder; e os órgãos de nossa cultura popular, o “jet set” [grupo que lança as decisões] . Rostow não dá atenção a nada disto. É um trotskista às avessas.* 4. A declaração virtualmente explícita de que a América deve ser o único juiz da permissibilidade de mudança social em toda a parte, de que a América se autoconfere (como líder do Mundo Livre) todos os direitos de intervenção prioritária no processo de mudança, e de que a América exige emergência básica de sociedades “independentes e modernas”. Tanto a prática como a ideologia americanas levam-nos a assumir que isto significa economias de porta aberta. Portanto, a América pede, e só tolerará, “revoluções” tais que ampliem o império do Mundo Livre. 5. Insistência (um tema tradicional) de que o aparecimento final de sociedades de porta aberta é indispensável a sobrevivência da América. A arrogância à Santo Império Romano desta vontade se mostra ainda mais sufocante quando refletimos sobre a aflitiva inabilidade desta América juiz, júri e carrasco em resolver seus próprios problemas in* Em seu Prospectes for Communist China (M.I.T. Press, Cambridge, 1954, págs. 27-28), Rostow enfrenta o problema: Por que os comunistas chineses preferiram a coalizão militar com as forças nacionalistas de Chiang contra os invasores japoneses? Por que não preferiram continuar a guerra civil? De esforço em esforço, num desempenho intelectual que me impressiona por ser tão bizarro como brilhante, Rostow põe a descoberto uma imensa dissimulação vermelha: eles queriam a coalizão porque a Rússia queria o Japão detido, porque queriam que Chiang se esgotasse contra os japoneses, porque queriam parecer patriotas para o povo, porque a coalizão oferecia canais de propaganda, porque isto lhes permitiria estender sua adiministração civil. Para Rostow, não é nem mesmo uma possibilidade a ser apontada e refutada, que os vermelhos pudessem também ser gente chinesa que se preocupava com a China, e que por razões patrióticas usuais queriam bater os invasores usando tudo que a China pudesse juntar. Para êle, o comunista é um marciano político. Rostow é meu Guerreiro da Guerra Fria favorito.
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ternos. Racismo americano cada vez se tornando pior, pobreza, Grande Irmandade, e oligarquismo militarista dão ao mundo o direito de se pasmar conosco. Como pode uma América que não é capaz de desenvolver o leste do Kentucky ou pacificar o Harlem, desenvolver a Índia e pacificar o Vietnã? Porém devemos analisar a questão mais a fundo. A tese rostowiana pode ser dissecada em duas grandes proposições; a saber, o que ele chama nossa “proteção da independência da modernização revolucionária” e o que eu chamo nosso imperialismo de Mundo Livre. 1. desenvolve o subdesenvolvido; e 2. promove sua liberdade, significando a) que seus governos são independentes, e b) que seus povos gozam de direitos e liberdades civis básicas. Estas são pretensões concretas e podem ser concretamente examinadas. O que se segue é primeiro, um esboço estatístico e detalhado da corporação americana, cujo impacto, por bem ou por mal, está sendo sentido pelos países subdesenvolvidos; a seguir, olhando para alguns dos considerados como pertencendo ao domínio dos resgatados e protegidos, devemos perguntar: Suas economias estão se desenvolvendo? São seus governos independentes de outros governos? A liberdade de seu povo aumenta, e seu crescimento está sendo estimulado? A super corporação americana não mais é definida principalmente por seu produto. Ela combina em si as funções básicas que antes distinguiam finanças e indústria como esferas separadas. Congrega e coordena os atos econômicos de acumulação e dispersão de capital (atividade bancária), inovação tecnológica (“inventores”), produção (construção de maquinismos e direção), distribuição (função de intermediário), e orientação de demanda (o mercado livre). Por persuasão e manobra, conquistou a cooperação das burocracias trabalhistas, cuja responsabilidade incorporada é garantir a estabilidade da força de trabalho da nação. Entre direção e trabalho organizado não há questões fundamentalmente divisórias de valores ou objetivos; são membros desiguais da mesma entidade incorporada. Com o apoio ativo ou passivo do trabalho e do governo, a direção coordena centralmente todas as operações na corrente do produto da
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fonte-para-o-consumidor, sendo a integração vertical, crucial para a eficiência. A tomada-de-decisões é científica e centralizada. A imensidade e o poder da super corporação podem ser sugeridos pela seguinte passagem de In Few Hands [“Em poucas mãos”] (Penguin, 1965), relatório publicado postumamente, das investigações antitruste de Estes Kefauver no comitê do Senado:
Em 1962 as 20 maiores corporações manufatureiras tinham sozinhas 73.8 bilhões de dólares em fundos, ou cerca de um quarto do total de fundos das companhias manufatureiras dos Estados Unidos. Em troca, as 50 maiores companhias detinham 36 por cento; as 100 maiores, 46 por cento; as 200 maiores, 56 por cento; e as 1000 maiores, perto de 75 por cento.

Engrenadas direta ou indiretamente com os principais centros financeiros e industriais da Europa, inspiraram o Presidente da Corporação para Desenvolvimento e Recursos, David E. Lilienthal (diretor da TVA para Roosevelt, diretor da AEC para Truman) a cunhar o termo agora padrão de “corporação multinacional”.6 Junto com os grandes bancos igualmente globalizados, com os quais estão encadeadas, as corporações multinacionais são as fontes principais do capital de investimento de ultramar americano. O valor do investimento direto dos EE.UU. no exterior, menos de 25 bilhões de dólares em 1955, era cerca de 50 bilhões de dólares uma década mais tarde e aumentando numa taxa de cerca de 10 milhões de dólares por dia.7 O total dos investimentos externos dos EE.UU, diretos e “portfolio”* era de cerca de 135 bilhões de dólares em 1965, dos quais mais de 30 por cento, era petróleo.8 Do total de 50 bilhões de dólares de investimento externo, 60 por cento é investido no Canadá e Europa; dos 40 por cento investidos nos países subdesenvolvidos, metade o é na América Latina.9 A corporação multinacional não exporta meramente seus produtos e dinheiro; ela se transplanta. Em 1965, cerca de 2 000 firmas americanas estavam fazendo negócios no exterior, e de suas vendas externas líquidas montando a 110 bilhões de dólares, só um quinto desse total vinha da venda de mercadorias e produtos enviados dos Estados Unidos. Exemplos extremos de transplante ocorrem na indústria automobilística. Em 1965,
* O investimento direto dá ao investidor direito de opinar, às vezes controlar, na direção da empresa. Os investimentos “portfolio” usualmente não. 89

Com bases em recentes experiências. As vendas conjuntas da Volkswagen. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. Destes.a General Motors construiu 20 por cento de seus carros fora dos Estados Unidos.”13 Representantes do governo alemão e indústria reagem incentivando a fusão de firmas européias. Firmas dos EE. O governo dos EE. Barber. British Motors e Renault são só dois terços das vendas da Ford. 300 corporações. antigo delegado diretor da Administração de Cooperação Internacional dos Estados Unidos [United States International Cooperation Administration]. “Uma boa 90 .UU.UU.15* Por outro lado. especialmente de aço e carros. coopera de várias diferentes maneiras. só um terço das da GM. o gover* Para um enfoque diferente. Fiat. 40 por cento. corporações de negócio americanas e outras... se não do francês. controlarão mais de 75 por cento de todos os fundos industriais. Daimler-Benz.. conselheiro especial para os Subcomitês do Senado sobre Antitruste e Monopólio. mas Richard J.14 A expansão ultramarina da América das corporações tem o apoio do governo americano. são o início da colonização de nossa economia. e se organize.. Fitzgerald. em bases tanto nacionais como continentais. estamos nos condenando à colonização industrial.”12 Com ele faz eco Gaston Deferre: “A invasão econômica por parte dos Estados Unidos é um perigo claro e presente. controlam quase toda a indústria eletrônica da França. opera a Agência pelo Desenvolvimento [Internacional Agency for International Development] que Forbes chama “a principal agência por meio da qual o governo dos Estados Unidos financia negócios no exterior. 30 por cento e a Ford.11 Louis Armand disse: “A menos que a Europa reaja. em 1975. produzem 90 por cento de sua borracha sintética. a Chrysler. O poder econômico americano. evitaram efetivamente o alcance das leis antitruste de qualquer país tomado em separado. no qual produzem ou vendem suas mercadorias. 85 por cento são gastos nos Estados Unidos com produtos americanos e matérias-primas.. oferece uma conjetura de especialista: “Por meio do funcionamento multinacional.. Uma. A. distribuem 65 por cento de seu petróleo e manufaturam 65 por cento de sua maquinaria agrícola. A direção do crescimento do controle incorporado americano não é mais fácil de predizer do que a de seu processo interno. da AID veja-se esta declaração de D. o poder dinâmico de seus grandes negócios e a forma de seus investimentos na Europa. mas complementar.10 A Europa está apreensiva.

179 bilhões de dólares para garantir a expansão da International Telephone Telegraph. sido moderadamente bem sucedidos [dá-lhes cerca de 13 por cento]. Pelo fim do ano de 1965. a Corporação Internacional de Finanças [International Finance Corporation]. imagine-se uma corporação na qual a unidade de produção. o Banco de Exportação e Importação [Export-Import Bank]. compra seu material parte da crítica sobre ajuda externa é devido o crítico pensar que o objetivo era alcançar crescimento econômico e este não era o objetivo de modo algum. ou qualquer de várias outras razões’’. Podem ser apresentados números para apoiar esta assertiva. na América Latina não são usualmente grandes: “Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina têm. docas. insiste em que os lucros dos EE. mas dificilmente podem ser chamados de “exploradores”. tais como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento [Internacional Bank for Reconstruction and Development] (o Banco Mundial). Mas não há dúvida de que esta expansão é altamente lucrativa para as próprias corporações. Um exemplo simples e básico. seja por financiamento direto de certas especulações ou. ou impedir alguns países de dar direitos às bases aéreas russas.19 Não é uma dissimulação por completo aérea. David Rockfeller. pelo financiamento do desenvolvimento daquelas infra -estruturas — estradas. não pode dispensar e merece ter.16 A AID também usa o dinheiro público para assegurar as operações ultramarinas das companhias americanas. e a Associação do Desenvolvimento Internacional [International Development Association] todas as quais (mas principalmente o Banco Mundial e o Ex-Im Bank) existem para servir ao interesse internacional da corporação multinacional dominada pelos americanos. Presidente do Chase Manhattan Bank. expropriação. de maneira mais importante. ou impedir uma nação de se afastar. analisaremos isto brevemente. usinas de força — que o capital privado acha que não tem recursos para construir. a AID procedeu a seu maior plano de ação particular. ou conseguir um voto favorável na ONU. ferrovias. o Banco de Desenvolvimento Interamericano [Inter-American Development Bank].17 91 . De modo algum é fácil determinar a rentabilidade absoluta de nossas operações ultramarinas.. contra perdas causadas por inconversibilidade de dinheiro. ou não. o Fundo de Desenvolvimento Ultramarino [Overseas Development Bank]. felizmente.no dos Estados Unidos ajuda a capitalizar e dirigir instituições financeiras do Mundo Livre. do Chile. guerra e revolução.. com base no país natal. Uma razão disto é que uma variedade de técnicas de contabilidade dissimulantes estão à disposição do escrivão imperial.UU.18 Esta corporação expansionista pode. estimular o crescimento da prosperidade material e o avanço dos valores democráticos nos países hospedeiros. O objetivo pode ter sido comprar um arrendamento.

de unidades extrativas, com base no exterior. A direção da corporação pode orientar a última para manter seus preços baixos, uma vez que lucros baixos contabilizados resultarão em vantagens nos impostos locais, e, em qualquer caso serão compensados no fim da produção. Porém ainda é possível obter uma boa idéia geral do imenso valor do lucro das aventuras exteriores de nossas corporações. “De indústria após indústria”, disse o Business Week em 1963, “as companhias dos Estados Unidos achavam que seus ganhos ultramarinos eram elavadíssimos, e que seus dividendos em investimentos fora eram frequentemente muito mais altos do que nos Estados Unidos. Quando os ganhos no exterior começaram a se elevar, as margens de lucro para operações domésticas começaram a reduzir... Esta é a combinação que forçou o desenvolvimento da campanha multinacional.”20 Os dados do Departamento de Comércio mostram que no período 1950-61 havia um fluxo de investimento externo direto americano de 13,7 bilhões de dólares. No mesmo período os rendimentos que retornaram eram de 23,2 bilhões de dólares, um lucro de 9,5 bilhões de dólares.21 Um levantamento feito pelo First National City Bank concluiu que os “dividendos remetidos [i.e., lucros repatriados] do investimento privado no exterior são atualmente o mais rendoso artigo de nossa receita internacional fora a exportação de mercadorias.”22 Um levantamento britânico, em 1961, mostrou que as companhias americanas fazendo negócios na Inglaterra obtiveram um lucro de 17 por cento em seus investimentos, duas vezes mais alto do que o lucro médio nos Estados Unidos.23 Para rentabilidade o mundo subdesenvolvido é pelo menos igual à Europa, provavelmente superior. A Standard Oil of New Jersey declara um lucro de 17,6 por cento em seu investimento na América Latina e um lucro de 15 por cento nos investimentos do Hemisfério Leste, para 1962, comparados com um lucro de 7,4 por cento nos domésticos.24 Os dados do Departamento de Comércio mostram os americanos empregando 516 milhões de dólares na Europa (novos investimentos e ganhos não devolvidos) em 1956, e trazendo para casa 280 milhões de dólares. Por volta de 1961, a razão entre lucros e investimentos, quase de 2 para 1, ficou em 3 para 1: 1,5 bilhões de dólares em novos investimentos, 525 milhões de dólares em ganhos trazidos de volta. Compare-se os dados para a América Latina, lembrando que aqui as cifras são na realidade a riqueza e o trabalho verdadeiros do povo da América Latina, e não apenas alguns números num livro: Em 1956, investimos 500 milhões de dólares, e trouxemos de volta um lucro de mais de 50 por cento, 770 milhões de dólares; para a
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América Latina uma perda líquida de 220 milhões de dólares.25 Esta estatística fria e silenciosa de lucro e perda é uma declaração sobre a felicidade de alguém e o sofrimento de outrem, as espécies desiguais de vida de homens e mulheres. Precisa ser trabalhada, mineirada, posta a claro. Tendo já uma idéia geral do que a corporação americana multinacional está fazendo para si mesma, iremos agora examinar as condições de seus hospedeiros. A expansão global do estado comercial americano desenvolve o subdesenvolvido? Democratiza a vida pública do homem? Faz com que as nações, nas palavras de Rostow, “fiquem firmes de pé” e sejam “fortes, positivas e independentes”? Alguns casos: O Brasil figura em primeiro lugar entre os recebedores de ajuda militar dos Estados Unidos (206 milhões de dólares durante 1963), em terceiro na assistência econômica dos Estados Unidos (172,6 milhões de dólares, mais 1,4 bilhões de dólares nos empréstimos do Banco Mundial e Ex-Im Bank) e só fica atrás da Venezuela nos investimentos diretos dos Estados Unidos (mais de 1 bilhão de dólares).26 É o maior, mais populoso e potencialmente o mais rico de todos os países sul-americanos; sob qualquer interpretação a longo termo, a chave do desenvolvimento econômico e político do continente. Isto faz juz a um estudo mais demorado. A revolução do Brasil tem estado pulsando intermitentemente desde 1930, quando Getúlio D. Vargas, do Partido Trabalhista, chegou ao poder, primeiro como presidente provisório (1930-33), depois como presidente eleito (1933) .27 Atacado uma vez pela esquerda e três vezes pela direita, foi finalmente deposto em 1945 por uma junta militar direitista, que se chamou a si mesma democrática e revolucionária, anulou suas medidas reformistas moderadas, e trouxe salários em depressão, alto desemprego, inflação crescente — mais corporações dos Estados Unidos. As eleições de 1950 devolveram Vargas ao poder, convencido mais do que nunca da necessidade de direção nacional dos recursos nacionais e do domínio brasileiro do Brasil. Criou a Petrobrás (petróleo nacional) e a Electrobrás (força), e em agosto de 1954, desesperado da luta contra o que sua carta chamou “o saque de grupos financeiros e econômicos internacionais”, ele se suicidou. Após um ano de ditadura de rotina sob Café Filho (mais decadência social, mais dinheiro estrangeiro), veio a presidência de Juscelino Kubitschek, que fundou a capital interiorana de Brasília, um ato de visionário, mas que não pôde resistir à ulterior penetração da economia do Brasil pelos fortes interesses do Norte. Foi seguido, em 1961, por Jânio Qua93

dros, vencedor pela mais ampla margem de votos jamais recebida por um presidente brasileiro. Quadros era um conservador autoritário. Dominou levantes de fome no sofredor e rico nordeste por meio do Quarto Exército e agitações estudantis com a polícia. Mas ele era também um nacionalista. Ele viu um Brasil que liderava o mundo em exportação de café, que tinha mais terra arável do que toda a Europa, 15 por cento das florestas mundiais, 35 por cento de seus depósitos de ferro, e um de seus potenciais hidrelétricos mais altos. Que um tal país fosse pobre era uma desgraça. Que ele devesse permanecer pobre era um crime. Quadros dis -pôs-se a mudar o Brasil. “Por que podem os Estados Unidos comerciar com a Rússia e seus satélites”, disse, “mas insistem que o Brasil comercie só com os Estados Unidos?”28 Reatou relações com a União Soviética, fez acordos comerciais com países comunistas, e tratou Castro como sendo aquele revolucionário nacionalista cuja motivação era tão fácil de apreender do ponto estratégico das favelas do Rio. Os barões da ala direitista, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda eram vistos a lançar escuros olhares de intimidade para o Norte. Em agosto de 1961, Quadros foi longe demais: uma demonstração de independência em Punta Del Este, na fundação da Aliança para o Progresso; a Cruzeiro do Sul para “Che” Guevara; o vice-presidente João Goulart em Pequim, numa missão comercial; pior de tudo, um novo projeto sobre impostos destinado a fortalecer o orçamento federal, estimular o investimento no Nordeste, e a reter, para uso do Brasil, uma porção maior dos lucros remetidos para fora do país. Por uns dias o exército manteve a “renúncia” de Quadros em suas mãos. Mas os planos Barros-Lacerda, de um governo de junta à moda antiga, sofreram a resistência do povo, que exigiu que a sucessão legal fosse mantida e que Goulart subisse à presidência. Alguns argumentam agora que, naquele momento, o milionário liberal Goulart devia ter quebrado o domínio dos plutocratas uma vez por todas. O exército estava dividido e o povo o apoiava, camponeses e trabalhadores, estudantes e classe média, esquerdistas e nacionalistas, juntos na resistência constitucionalista chamada a Legalidade. Porém Goulart era indeciso. Ele escolheu negociar com os direitistas e aceitou sua exigência de uma função presidencial enfraquecida. Após um ano e meio de estagnação, um plebiscito restaurou o poder presidencial pleno por voto de 6 a 1. Goulart, contudo, ignorou o mandato. Seus discursos cintilavam com a promessa de mudança social, mas nenhuma de suas propostas de reforma alcançou o Congresso. O Banco do Brasil continuou a imprimir o dinheiro aguado com o qual os
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monopólios financiavam a própria ineficiência; a dispendiosa manutenção do preço do café nunca foi tocada. O General Peri Bevilacqua usou tropas para dissolver demonstrações populares que não pediam nada mais do que o cumprimento do próprio programa de Goulart; Bevilacqua foi feito chefe do Estado-Maior. Mais concessões foram outorgadas a firmas americanas de petróleo e minerais. Havendo se aproximado do dólar, 600 para 1 no tempo do plebiscito, o cruzeiro caiu a 1 700 para 1. Exasperados, progressistas e nacionalistas, começaram a pressionar mais forte pedindo ação, e talvez Goulart estivesse por fim começando a responder. Subitamente ei-lo desafiando a América na questão de Cuba, de desarmamento e comércio. Falou de sufrágio para analfabetos (metade do povo) e existência legal para o amolecido e conservador Partido Comunista. Revelou suas tendências socialistas pela expropriação de algumas empresas de petróleo (brasileiras, não americanas) . Em 17 de janeiro de 1964, ele cometeu de novo o mais criminoso dos crimes, ao atacar os lucros americanos. “Os novos regulamentos”, escreveu, do Rio, Juan de Onis, “limitam a remessa legal de lucros para o exterior a 10 por cento ao ano, sobre o investimento externo real de uma companhia, em equipamentos e capital.” “Encaradas como hostis ao capital estrangeiro”, as novas leis de restrição de lucros eram uma resposta “às exigências nacionalistas de controles mais efetivos dos investidores estrangeiros.” (NYT, 18 de janeiro de 1964.) Isto finalmente engatilhou a resposta de um grupo conspirador paulista, o qual Philip Siekman do Fortune (“Quando Executivos se tornam Revolucionários”, setembro de 1964) diz que estava em crescimento desde a metade da década de cinqüenta. Conhecidos quer como os Paulistas (de sua cidade) quer como os Mesquitas (de seu líder Júlio de Mesquita Filho, proprietário de um jornal conservador de São Paulo, O Estado de São Paulo), o grupo era constituído por importantes homens de negócios de São Paulo, como Paulo Ayres Filho (fundador e a certo tempo cabeça do Banco do Brasil), Flávio Galvão, Luís Werneck e João Adelino Prado Neto (editor do jornal de Mesquita) . Em 1964 o grupo conquistara o apoio de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e comandante daquela milícia estadual de quarenta mil homens; Carlos Lacerda, governador da Guanabara; e a Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial ), que lhe deu acesso a importantes membros da elite militar. Bem no início de 1964, escreve Siekman — talvez esporeados pelo vigor reformista de último momento de Goulart — o grupo Mesquita enviou um emissário para perguntar ao Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon qual seria
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a posição dos Estados Unidos caso estalasse a guerra civil. O emissário relatou de volta que Gordon fora cauteloso e diplomático, mas deixara a impressão de que se os Paulistas se aguentassem por quarenta e oito horas obteriam o reconhecimento e a ajuda dos EE.UU.29 Acontecimento se seguia a acontecimento. A 14 de março a direita brasileira põe-se a planejar processos de “impeachement” contra Goulart (NYT, 16 de março de 1964) . A 15 de março Goulart lança apelo por novos dispositivos constitucionais para “libertar as energias esmagadas pela estreiteza de uma estrutura econômica ultrapassada, que serve somente aos interesses de grupos privilegiados”, (NYT, 16 de março de 1964) . No mesmo dia, os delegados latinos à conferência de terceiro aniversário da Aliança para o Progresso, reuniam-se em Washington. No ar estavam a disputa panamenha ainda não solucionada, a viagem triunfante de De Gaulle ao México, os rumores de desassossego na Colômbia, novos êxitos eleitorais esquerdistas no Chile, o maior comércio de grão da China com a Argentina prestes a ser anunciado, e acima de tudo o que Tad Szulc chamou “o estado pré-revolucionário” do Brasil (NYT, 15 de março de 1964) — tumultos pró-Goulart em Brasília, demonstrações anti-Goulart em São Paulo e a promessa do candidato à presidência, Kubitschek, de fazer a Aliança “murchar como uma flor” (NYT, 19 de março de 1964). A 16 de março, o Presidente Johnson dirigiu-se aos delegados da Aliança: “Mas eu hoje asseguro que a força total dos Estados Unidos está pronta para atender qualquer país cuja liberdade esteja ameaçada por força dirigida de além-praias deste [sic!] continente. “A 18 de março, o Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Interamericanos, Thomas C. Mann, conferenciou privadamente com os diplomatas latino-americanos nos EE.UU., e o artigo de primeira página de Tad Szulc, no Times do dia seguinte, tinha como manchete: “Os Estados Unidos Deverão Abandonar os Esforços para Dissuadir Ditadores Latinos”. Szulc escreveu: “As opiniões de Mr. Mann foram consideradas como representando uma modificação radical da orientação política da administração Kennedy” (NYT, 19 de março de 1964) . A 19 de março o porta-voz do Departamento de Estado, Richard I. Phillips, veio a público negar uma mudança política mas parecia de fato confirmá-la. Aludindo à Doutrina Estrado (reconhecimento diplomático baseado no controle, não na política), Phillips expôs que “a política dos Estados Unidos em relação a governos inconstitucionais será, como no passado, guiada pelo interesse nacional e pelas circunstâncias peculiares a cada situação em que surge.” (NYT, 20 de março de 1964.) Parece que toda a América Latina compreendeu de imediato o que
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nacionalizações. que em breve seria consolidado em torno do General Humberto Castelo Branco (eleito presidente a 11 de abril de 1964) e proclamaria seu amor pela democracia e revolução. além dos já programados fundos da Aliança para o Progresso. Durante o mesmo período. antigamente reacionária. Talvez a elite eclesiástica tenha sido realmente convertida ao Cristianismo e talvez tenham salvo Lacerda. e antes mesmo de já ser sabido que Goulart deixara a capital. 400 milhões de dólares podem ser reduzidos a 40 milhões de dólares e então anunciados com um arrogante bilhão. talvez orquestre a si mesma com novos instrumentos de sopro. Mas talvez a fuga oligárquica só acrescente uma nova variação. banindo * Castelo Branco leva a efeito um jogo intrigante com os generais da assim chamada linha-dura. os ativistas estudantis começam a gozar mais e mais do apoio popular.escutara. o Ato Institucional n0 2 foi promulgado. e duas semanas após a fala de Johnson.30** Castelo Branco foi rápido em revelar sua compreensão e gratidão. hoje no exílio) conclamou o povo para se preparar para uma nova Legalidade. Os comunistas brasileiros saíram para a cidade do México. Menos do que vinte e quatro horas depois as notícias do golpe alcançaram Washington.* À 22 de julho o Congresso votou a prorrogação do termo do mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967. o Presidente Johnson telegrafa “os mais calorosos bons votos da América” para o novo governo. A 25 de novembro de 1964 o governo aprisionou uma centena de antigos auxiliares do governador de Goiás. Goulart foi quase ritualisticamente afastado do governo pela maquinação Barros-Lacerda-Mesquita. e dentro desta turbulência outras surpresas se revelam: a hierarquia católica. Quatro meses mais tarde uma nova lei tornou possível a demorada prisão de indivíduos sem declaração do crime ou formação de culpa. Castelo Branco responde que eles estão indo longe demais. entre todos. os Estados Unidos tinham dramatizado seu entusiasmo pelo novo regime através de um empréstimo de 400 milhões de dólares. a 10 de abril. o povo brasileiro está mostrando uma resistência sólida e surpreendente. numa vaga acusação de subversão. Enquanto escrevemos isto. o idealista governador do Rio Grande do Sul. e Carlos Lacerda. toma uma avançada posição antigovêrno. Leonel Brizola (então um admirador de JFK. Não há no momento razão para acreditar que a “eleição” do linha-dura General Costa e Silva não se processe segundo o plano. Neste jogo. manifesta-se por reforma agrária. Por novembro de 1964. democracia. A 27 de outubro de 1965. 97 . os generais pedem fascismo. (Enquanto era escrito o precedente êle foi nomeado para um mandato de quatro anos. o governo anunciou um novo projeto de impostos destinado a financiar um aumento de 35 por cento nos salários militares. todo mundo fica impressionado com a posição corajosa de Castelo Branco. ) ** A propósito. etc. e Castelo Branco age para fazer essencialmente o que os da linha-dura queriam em primeiro lugar.

. é atribuído ao Ministro da Justiça.32 Um mês após isso. o que tornou automaticamente todas as greves e manifestações nas docas crimes militares. para ser mais tarde impressa no movimento subterrâneo cristão brasileiro. 98 . no dia após a decretação do Segundo Ato Institucional. c) ajuda à subversão. d) a publicação de artigos escritos por jornalistas que tenham perdido seus direitos políticos. para não ser divulgado. um para servir como “oposição leal”. Juraci Magalhães. b) nenhuma ameaça ou provocação ao governo revolucionário. por qualquer meio. o jornal (mimeo) do movimento subterrâneo cristão brasileiro. Magalhães informou a imprensa de que o governo não mais permitiria: a) a publicação de entrevistas com aqueles que tivessem tido seus mandatos cassados ou seus direitos políticos anulados.. mas uma transcrição literal foi feita e contrabandeada. demissões em massa e finalmente o virtual fechamento dela. para explicar as cláusulas do ato e “decretos complementares”. ou a publicação de notícias que incitem o povo a se opor ao governo. Revolução. pela razão óbvia de que aqueles que supostamente tomaram parte nele condenariam a si mesmos admitindo que êle aconteceu.. O encontro foi privado.. falando em Belo Horizonte. um encontro no Rio com um seleto grupo de editores e publicistas brasileiros... se não secreto.. tal como referir-se a ele como uma ditadura. A 27 de janeiro de 1966 todos os portos foram declarados zonas de segurança nacional. O último ponto provocou a seguinte conversação: Danton Jobim (de Ultima Hora): Vossa Excelência quer dizer que não podemos publicar nenhum pronunciamento. “os adversários da revolução. Seguem-se trechos da transcrição.. certamente. Castelo Branco defendeu seu governo contra a acusação de que era ditatorial. não podem negar o fato de que aqui no Brasil nós temos em pleno funcionamento as duas maiores e mais básicas expressões de uma democracia verdadeira: o Congresso Nacional e a liberdade de imprensa. desde que feito por gente que teve seus direitos políticos suspensos? * Esta citação e o material que se segue são da edição em língua inglesa de Revolution.todos os treze partidos políticos existentes e criando dois novos.”* Quatro meses antes. “Digam o que quiserem”. e.31 Pela mesma época as tentativas do governo para sanear a faculdade da Universidade de Brasília provocam protestos dos estudantes da faculdade. A verificação do diálogo de Magalhães é impossível. declarou.

Nós temos um critério para decidir o que constitui provocação. Você é um velho amigo meu. mas de previnir a subversão. É simplesmente isso. Estou só fazendo uma pergunta. Se a fizer de novo será punido de acordo com a lei. É óbvio que se ele escreve um artigo não assinado. Tudo isso para o fomento da democracia de Mundo Livre de Rostow. mas será punido se desobedecer.Magalhães: Isto é exatamente o que eu disse. Eu assumo a responsabilidade — a inteira responsabilidade por tudo que é publicado em meu jornal. a maioria destes porta-vozes é bem conhecida de todos vós. Roberto Marinho (Globo): eu não concordo que um jornalista que tenha perdido seus direitos políticos deva ser punido. E a respeito de desenvolver o subdesenvolvido? No decurso do ano. Uma Pessoa Não Identificada: Gostaria de aproveitar a ocasião para fazer algumas perguntas. Está claro? Jobim: Muito claro. Ambos são responsáveis. De qualquer maneira. Marinho: Oh! Está bem. o governo Mann-Gordon-Castelo tinha elaborado uma série de decretos interrompendo a construção de novas usinas de aço e autorizando Castelo Branco a vender um interesse majoritário em qualquer indústria nacional. João Dantas (Diário de Notícias): Como espera que saibamos se alguém é o porta-voz de alguém que perdeu seus direitos políticos? Como pensa que nos defenderemos contra isso? Magalhães: Serão capazes de sabê-lo pela leitura do material que o porta-voz lhes entrega. A Consultec. Marinho: Mesmo se o artigo não for assinado? Magalhães: Não. a assessoria técnica do gover99 . E protestarei veementemente se você tentar me fazer despedir alguns dos jornalistas que trabalham para mim e que perderam seus direitos políticos. A lei considera que estes jornalistas que perderam seus direitos políticos não podem usar a imprensa para provocar ou ameaçar o governo ou difundir subversão. Você e o jornalista serão punidos. não tomaremos conhecimento disso. Magalhães: E se a fizer de novo será punido. e nos ateremos estritamente a ele. Nascimento Brito (Jornal do Brasil): Como podemos saber se estamos ameaçando o governo? Quer isto dizer que não podemos comentar os atos do governo? Magalhães: Não. Mesma Pessoa: Não me interprete mal. Magalhães: A lei será cumprida. O governo não tem a intenção de restringir vossa liberdade. Há uma nova lista de pessoas que perderão seus direitos políticos? Magalhães: Este é um bom exemplo do tipo de perguntas que consideramos provocadoras.

o Ministro de Minas. irredutíveis e a tentada recuperação da Hanna afundou-se nas cortes do Brasil. ou transferir indefinidamente. situados principalmente no estado de Minas Gerais. John d’el Rey. 16 de junho de 1966) . a Hanna tornou a reivindicar sua posse.33 A mais pungente destas histórias de êxito diz respeito à Hanna Mining Companing. Gabriel Passos cancelou três das concessões da Hanna sobre reservas estimadas em quatro bilhões de toneladas de hematita de teor excepcionalmente alto (65 por cento de ferro) . Herbert Hoover Jr. de Cleveland. o novo ministro das Finanças. seus esforços de industrialização independente e concentrar-se na produção de alimentos e na extração de matérias-primas para exportação. os direitos de desenvolver uma nova estrada de ferro e facilidades portuárias na Baía de Sepetiba. No começo da década de sessenta. e daquele tempo em diante cultivara um interesse epicurista nos imensos depósitos de ferro do Brasil. Os grandes pistolões da Hanna eram seu presidente. (como seu pai. Motivado por este realismo. França. com a maior parte de seus direitos de concessionaria ainda em vigor. Os Estados Unidos. Kubitschek e Passos foram. o Hague-Paris Club* foi dispersado. O golpe de abril de 1964 mudou o quadro. o antigo Secretário do Tesouro George Humphrey. contudo. St. ao mesmo tempo. e Roberto Campos. anunciou que o Brasil devia abandonar.34 Em 1935 a Hanna comprara o controle de uma firma de mineração britânica. e o Banco Mun* O Presidente Goulart havia informado abruptamente aos credores externos do Brasil. anunciou que o governo estava reconsiderando seus regulamentos de remessa de lucros à luz das necessidades “realísticas” dos homens de negócio estrangeiros (NYT. 18 de junho de 1964). A Hanna lançou mão de influências. As indústrias do aço e ferro. Em junho de 1964 os Paulistas-Mesquitas estavam em New York para explicar a nova amistosidade do Brasil em relação ao capital estrangeiro. durante a presidência de Juscelino Kubitschek. a Hanna estava exportando por via marítima 400. com a deliberação própria a acontecimentos decisivos. Alema100 . que o Brasil teria um déficit de 350 a 400 milhões de dólares nas necessidades de trocas externas no período de 1964-65. e John Dulles. Passo a passo. engenheiro de minas).000 toneladas de minério de ferro por ano através do Rio e proclamando que não estava fazendo dinheiro. nacionalizadas sob Kubitschek. voltaram a seus donos particulares.no. filho do falecido Secretário de Estado (NYT. num esforço para anular este cancelamento e adquirir. Grã-Bretanha. os estados credores estavam preparando generosamente o refinanciamento do débito brasileiro. algumas milhas ao sul do Rio. Em 1958.

Suíça. evidentemente baseados no saudável princípio de que Castelo Branco não era Goulart. mas na ocasião empregado como representante da Hanna Mining Company. McCloy”. antigo Alto Comissário dos Estados Unidos na Alemanha. governador de Minas Gerais. a não aceder aos pedidos da Hanna. onde ficavam as concessões disputadas. Um era o Embaixador dos EE. “o embaixador Gordon fez ao Presidente Castelo Branco uma segunda visita. O General Peri Bevilacqua. e queria que todo o embarque de minério de ferro na área continuasse sendo feito pelo Rio. que durara quatorze anos.” A posição de Castelo Branco não deve ter sido fácil! De maneira clara os Estados Unidos estavam pressionando pela liberação das concessões da Hanna (então sob litígio na Corte de Apelações Federal do Brasil. Lincoln Gordon. Um era o impetuoso Governador Carlos Lacerda. O outro era John J. McCloy. O outro pesado oponente era José Magalhães Pinto. Encontros posteriores se processaram em Paris (daí “o Hague-Paris Club”) e foram também assistidos pela Áustria. Porém. comandante do Exército de São Paulo. “o Hague Club”) aparentemente para determinar uma política coletiva em relação ao devedor comum. Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. que tinha planos de construir uma usina de aço estatal no estado da Guanabara. 24 de dezembro de 1964).dial estava para pôr fim ao virtual boicote do Brasil. delineando a missão econômica e financeira dos Estados Unidos junto ao Brasil. relata The New York Times. Países Baixos. onde a reivindicação da Hanna estava para ser negada). o Presidente Castelo Branco recebeu um telefonema de dois famosos cavalheiros. Após o golpe de abril. nha Ocidental.” “Após apresentar Mr.) 101 . também se opunha aos propósitos da Hanna (NYT. Itália e Japão tinham por isso se reunido em Haya (daí. Mais animador para os novos realistas era talvez o propósito do Brasil de discutir a legislação sob a qual o governo brasileiro garantiria os investimentos estrangeiros. (NYT. Tinham vindo. 2 de outubro de 1964). A 6 de novembro de 1964. ao mesmo tempo. de construir um porto de embarque de minério de ferro na Baía de Sepetiba. há muito apresentada. em seu despacho de 7 de novembro. Bélgica. os membros do clube decidiram tratar individualmente com o Brasil.UU. 2 de julho de 1964. Castelo Branco estava sendo pressionado internamente por pelo menos dois fortes Mesquitas. o refinanciamento de seu débito. “para discutir os planos da companhia para desenvolver os depósitos de minério de ferro estimados num total de quatro bilhões de toneladas” e “a proposta da Hanna. enviando uma missão de vinte homens (“a maior jamais vista”) numa missão de sete semanas pelo interior do Potencial Redimido (NYT. capital da Guanabara.. narrou The New York Times.

Não se sabe o que Gordon contou a Castelo Branco em sua segunda visita naquele dia. é a função básica da AID). são depositados no Brasil (onde ganham juros) a fim de ajudar a fortalecer o inflacionado cruzeiro. Uma fonte não declarada (provavelmente o Banco Mundial) “dá” 100 milhões de dólares para desenvolver a infra-estrutura econômica necessária aos negócios — um “presente” que é. mas podemos aceitar que as concessões são boas e honestas concessões. Mas dentro de duas semanas. O Export-Import Bank “dá” ao Brasil 30 milhões de dólares — sob forma de débito de 1965 reescalonado. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda”. do Banco Interamericano de Desenvolvimento (ditto). continua o artigo do Times. do Fundo Monetário Internacional (ditto). a região que (a) é já mais desenvolvida. Um mês mais tarde (NYT. o relato do Times arrola uma doação de 25 milhões de dólares em alimentos e 15 milhões de dólares em concessões determinadas para “agricultura e educação”. “virão do Banco Mundial (que só empresta. “Os restantes 450 milhões de dólares”.”* E pouco mais de uma semana após (NYT. Portanto temos aqui um total de 40 milhões de dólares em bens e serviços que podem ser chamados apropriadamente de “presentes”. por certo. 102 . A mesma espécie de “presente” vem na importância de 90 milhões de dólares de países europeus e Japão — que devem ter achado engraçado ver seus favores incorporados à beneficência americana. da doação em alimentos. estavam perdendo. o Banco Mundial tinha concedido 80 milhões de dólares para o desenvolvimento da força hidrelétrica na região centro -sul — isto é.UU. a AID “dá” 150 milhões de dólares em investimentos orçamentários — isto é. meramente um empréstimo que o Brasil deverá pagar com juros. e investidores privados (que tendem a obter grandes lucros nos países pobres. não dá). qualquer um pode imaginar. como foi notado acima. O verdadeiro valor de mercado.UU. UU. no montante de 400 milhões de dólares “para reconstruir a deteriorada posição econômica do país”. 15 de dezembro de 1964).” Em cerca de dois meses (NYT.) Olhemos de novo a ampla manchete cinza do Times: “EE.UU. Mais. O dinheiro deveria ser empregado para ajudar o programa de estabilização monetária do país e financiar importações (financiamento de vendas americanas no exterior. “programados para o próximo ano [ital. a este Brasil sem fôlego é “dado’’ o direito de comprar o equivalente a 90 milhões de dólares em excedentes de utilidades americanas — o preço não é sem dúvida exato. acrescentado]. Parecia que Lacerda e Cia. 24 de dezembro de 1964). Isto nos coloca com os outros itens arrolados num nível de 550 milhões de dólares. 27 de fevereiro de 1965). mas é sempre um preço. e (b) é o lugar das pretensões da Hanna. Castelo Branco promulgou “um decreto presidencial [que] incentivava a concorrência privada para o desenvolvimento das vastas reservas de minério de ferro do Brasil e ordenava o desencorajamento de qualquer monopólio pelo estado ou outras empresas. The New York Times (23 de novembro de 1964) falou de planos de ajuda não confirmados. * Aqui temos como inventar um bilhão de dólares: Segundo a citada história do Times. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda. surge a feliz fabulação: “Os EE. Finalmente. dólares dos EE. O Tesouro dos EE. “dá” 50 milhões de dólares para atender a necessidades de troca — que importa numa extensão de crédito.

o Ministro das Finanças Campos estava se lastimando de os investidores dos EE. (quem espera sempre alcança!)* a 15 de junho de 1966. Antunes tem também 51 por cento na Bethlehem Steel de Rockefeller. não estarem exatamente voando para o Rio.Porém a Hanna ainda enfrentava o obstáculo da Suprema Corte do Brasil. explicou que os investidores americanos estavam esperando ver se o Brasil se tornaria realmente a democracia que seus governantes prometiam solenemente estarem fazendo. que não só teve o efeito de anular a eleição mas que também o dotou com o direito (auto-conferido. Disse The New York Times (ibid. “A impressão é que a incerteza política sobre a continuação das atuais orientações por parte de um governo eleito está impedindo investidores potenciais.). a ICOMI tem mineirado manganês no Território do Amapá. Sete meses mais tarde. que estava provocando um tal aborrecimento para a Hanna. menos frívola. que detém 51 por cento das ações na nova companhia de desenvolvimento United Brazilian Mining (ibid. Por mais de quinze anos.” Os temores dos homens de negócios americanos a respeito do povo brasileiro têm se mostrado em geral bem fundados. Mas sua fé no hábil Castelo Branco devia ter sido mais firme. A 27 de outubro. parece ter sugerido uma teoria bem diferente. 3 de novembro de 1965). seriam mesmo realizadas as eleições escaladas para outubro? Mas Thomas Mann. 16 de junho de 1966). isto é.). A 2 de novembro. Ele esperara 150 milhões de dólares em investimento americano e vira menos do que 20 milhões (NYT. mais recentemente. cinco novos “revolucionários” eram admitidos no Tribunal (NYT. ele respondeu à crise da “revolução” com a publicação do Ato Institucional n0 2. tem esta* No original “Mills of the fods”. perto da boca do Amazonas. O Senador William Fullbright. Por volta de agosto de 1965.UU. 103 . e. respaldado no exército) de manejar a corte suprema. a suprema corte devolveu à Hanna seus quatro bilhões de toneladas de minério de ferro e o “váem-frente” para o projeto da baía de Sepetiba (nyt. 10 de agosto de 1965). que tem 49 por cento da Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI). no Brasil com uma missão americana de estudo. sendo sócia menor (49 por cento das ações) do magnata do aço brasileiro Augusto Antunes. que estava na mesma missão. que teria de decidir sua reivindicação de concessões e que estava ainda dominada por juizes “esquerdistas” nomeados por Goulart. A eleição de outubro resultou em importantes vitórias para a oposição de esquerda. O ressentimento nacionalista em relação à posição privilegiada da Hanna foi talvez um tanto obscurecido pelo acordo da Hanna em fazer sociedade.

às cegas. acordo que certos brasileiros cínicos apregoam ter sido redigido em Washington D. pode-se pensar. Mas talvez — quem sabe realmente? — eles sejam ainda mais altos. na mesma área. seu lucro total durante oito anos é de 235 milhões de dólares. as operações menos rendosas na indústria de petróleo. “O que a livre empresa significa para a América Latina”. “Desde que os embarques se iniciaram. na América Latina. 104) . seu total de lucros até 1965 é de 108 milhões de dólares. mas um elevadíssimo — e quiçás “explorador”? — 46 por cento. esta mesma ICOMI é citada. por volta de 13 ou 14 por cento. a Petrobrás foi no essencial afastada do refino e vendas em meados de 1966 e viu-se limitada à exploração e extração. no entanto. revolução. 13 de fevereiro de 1965. Há. exceto com a “total e completa concordância” desta firma. pág. tem estado girando um lucro anual de 12 a 15 milhões de dólares. greves e sabotagem”. Neste mesmo artigo discute a questão: São os lucros americanos altos demais na América Latina? Sua resposta é a caráter. em grosso. durante oito anos. Se pensarmos que Rockefeller e Fortune tinham acesso a dados da maior parte de 1965.do tirando. anteriormente domínio reservado da Petrobrás. Esta firma foi apadrinhada em 1949 com empréstimos para construção de ferrovias concedidos pelo Banco Mundial e pelo Ex-Im Bank. oito anos. um rico minério atômico. 15 de outubro de 1965. no Fortune de abril de 1966. em seu artigo Foreign Affairs. então o tempo medido é. foi o argumento pelo qual o golpe de abril se anunciou e explicou. do Chase Manhattan. nióbio. Fortune diz. Tal. 28 de dezembro de 1965). e (3) permitir que firmas americanas invistam no Brasil sob os regulamentos das leis americanas (NYT. o governo brasileiro comprometeu-se (1) a nunca expropriar uma firma americana. A economia do Brasil estava paralisada. Bastante altos.” Os números de Rockefeller acima citados são líquido anual. não um meramente robusto 14 por cento. Segundo o jornal clandestino brasileiro Revolução. em 1957. que tiveram permissão de fazer uma incursão de 250 milhões de dólares na indústria de petroquímicos (Time. de abril de 1966. tem sido invadida pela Gulf e Esso. No perfil de Antunes. (2) pagar quaisquer danos causados a empresas americanas por “guerra. pelo Congresso Nacional. Desde seus primeiros embarques de manganês em 1957. 104 . Se a ICOMI tem líquido uma média de 13.C.* A produção de fertilizantes. insurreição. Por este ato. o lucro da ICOMI é portanto.5 milhões de dólares por ano. um argumento para estas alterações democráticas. as especulações comerciais totalizaram 235 milhões de dólares. em caos e * É como fala David Rockefeller. A aprovação. Tomados os números de Fortune. e êle cita um estudo que mostra serem os lucros norte-americanos. é claro. do Acordo de Garantia de Investimentos foi crucial para este “desenvolvimento” da economia subdesenvolvida do Brasil. revolucionárias e patrióticas da economia brasileira: a inflação tinha de ser detida.

Tendo o governo predito um aumento de custo de vida de 25 por cento para 1965. de 13 de março de 1965 (“Quando o Cruzeiro faz Espiral. fazem duplamente no Brasil para os rios brasileiros. Perto delas correm dois rios. as indústrias brasileiras nacionais dizimadas. é claro. Uma história brasileiro-americana final. uma estimativa para menos. e (assim era explicado) era tudo pelo bem da estabilidade fiscal. Mas o desespero faz engenho. Mas o que as fábricas de produtos químicos americanos fazem na América para os rios americanos. Pense em Dólares”) relata que muitos negócios brasileiros estavam automaticamente aumentando seus preços em 7 por cento cada mês. dava como título de seu artigo sobre o Brasil “preços nas alturas. o desemprego calculado num crescimento para 15 por cento. 3 de fevereiro de 1966. na maior parte habitadas por negros. tribunais controlados. De janeiro a junho de 1966 o custo de vida já crescera de 25 por cento (NYT. Mandaram emissários fazer apelo às autoridades. As autoridades sentiram pena deles. Pontezinha. A polícia não queria saber disso. 11 de julho de 1966). que greves eram postas fora de lei. a reforma do Nordeste abandonada.corretivos extremos eram necessários. mesmo na empauperada América Latina. mas explicaram que não tinham autoridade. Uma vez que os habitantes das vilas viam agora a morte à sua frente. Este número representa vantagem. a outra. salários congelados. o Pirapanga e o Jaboatão. Então a gente das vilas decidiu que teria de fazer uma demonstração. assim as poluições da fábrica muito cedo mataram os peixes e os caranguejos do Pirapanga e do Jaboatão. os dissidentes esmagados. * Porém ele não está desanimado. de 4 de outubro de 1966. Ambas as vilas. e dois padres indagaram: Que acham de uma * NYT. acharam que deviam fazer alguma coisa. É portanto duplamente irônico o fato de a inflação estar pior do que nunca. É sobre duas vilas costeiras no Nordeste do Brasil. Então um dia. uma região notória por sua pobreza. portas largamente abertas ao capital estrangeiro. O Business Week. em outros tempos podiam subsistir pobremente dos peixes e caranguejos de água doce dos dois rios. diante dos 80 por cento de 1964. Mas é. confessou um aumento real de mais de 45 por cento. de fato prossegue sua revolução democrática com confiança inabalável. provavelmente. escolas fechadas. importações em declínio”. no governo de Castelo Branco. Uma vila é Ponte de Carvalhos. e The New York Times. 105 . a Union Carbide Company da América veio para as margens do Pirapanga e construiu para si uma cintilante fábrica de produtos químicos. há pouco tempo. Foi explicado ao povo que esta fábrica representava “desenvolvimento” e “progresso”. o soldo do exército aumentado. que são ligados pelo preamar.

não tendo nunca havido tal coisa em nenhuma das duas obscuras aldeias de pescadores.. pertencente à Union Carbide Company. no calor do verão equatorial. e se os não europeus forem desenvolvidos na mesma base que os europeus. no atrasado Nordeste. disse a polícia. sempre na direção dos tanques e pipas suavemente brilhantes em seu alumínio. O povo das duas vilas está morrendo quietamente. Eis a hora em que viemos pedir a solução. seu sucessor: “Não há lugar para ele. Porém.procissão? Isso é diferente. Atrás dele o povo carregava cartazes cujos dizeres contavam muito bem sua história: O rio é nosso pão. como poderão os europeus permanecer Baas [senhor]?”35 Disse o falecido H. o segundo Primeiro -Ministro da África do Sul: “Se rejeitarmos a idéia de Herenvolk [i. da usina química Pirapanga River. Homens e peixes vivem e morrem juntos. aglomeraram-se. F. por sobre a ardente estrada principal. um fugitivo da inquieta. cada um escutando os outros dizerem o que cada um sabia que o outro já sabia. Disse J. raça -superior] e. Puxando a marcha vinha um homem carregando uma grande cruz de madeira. onde alguns doze milhões de negros são os escravos culturais do crescente fascismo “afrikaaner” de três e meio milhões de brancos.. e alguns fizeram discursos. padres e pescadores. em 16 de agosto de 1965. despejando de volta no rio envenenado aquilo que tomara sem veneno da terra. Strijdom. doutra maneira dirigida. e retortas gigantes e redomas. revolução de Castelo Branco. Sobre a cruz drapejava uma rede de pescar. Esta usina não está sozinha em sua quietude. Ou consideraremos a África do Sul. que está trabalhando quietamente no campo. na comunidade européia acima do nível de certas formas de trabalho.. G. O desenvolvimento é a favor ou contra nós? Progresso que traz miséria não presta. Chegaram à fábrica. não havia assistentes. mais de 2 000 pescadores e suas mulheres e filhos marcharam vinte milhas. se o direito de voto estiver para ser estendido a não europeus.. Ninguém sabia se a procissão seria ou não entendida e seguida.e. ou quietamente se juntando ao padre revolucionário Alípio de Freitas. Além da polícia que viera garantir contra perturbações. por que era automatizada.”36 Estadistas americanos afirmaram seu interesse pelo avanço mate106 . o africano. A Pirapanga River da Union Carbide Company continuou tranquilamente a fabricar produtos químicos para alguns. Verwoerd.

e quando. — (N.40 A situação estava salva. temores de que uma rebelião sul-africana pudesse estar fermentando. Aparentemente foram mantidos alguns encontros em certos centros financeiros. o número de companhias americanas investindo no futuro da África do Sul quase triplicou. 10 milhões de dólares do Chase Manhattan Bank. subsequentemente.. Surgiram logo.* os Cavaleiros do Apocalipse do Dólar. e um consórcio financeiro ad hoc concedeu um empréstimo de 150 milhões de dólares ao governo. Read & Co. Douglas Dillon.37 Estadistas americanos periodicamente fazem violentos discursos — na ONU.rial de todos os homens e pela prosperidade dos valores democráticos.) 107 . 28 milhões de dólares do Banco Mundial e 70 milhões de dólares de “emprestadores norte-americanos não identificados publicamente”. onde os brancos têm o quarto nível de vida mais alto do mundo. Um imenso consumidor do urânio da África do Sul (que fi* Célebre “gangster” americano. Assim indagamos: Neste menos ambíguo de todos os casos qual a natureza material da resposta americana? O massacre de Shapeville ocorreu a 21 de março de 1960. o governo se declarou uma república e abandonou o padrão esterlino. foi Secretário do Tesouro sob Kennedy e Johnson e passou desde então para o Conselho do Chase Manhattan. nas aulas inaugurais das grandes universidades — contra esta África do Sul apartheid. o capital europeu ficou o suficientemente nervoso para ameaçar a estabilidade econômica do regime. entre alguns investidores estrangeiros. As firmas americanas aumentaram seus investimentos em 23 milhões de dólares (para cerca de 442 milhões de dólares em 196239). era combinada e direta.41 Outro é o American Metal Clímax. Um é a firma bancária de investimento de Dillon. sendo 5 milhões de dólares de parte do First National Bank. os Babe Ruths.38 Deviam decidir se continuavam ou recuavam. Os gigantes estão lá. até 1953. do T. Não há caso mais claro de bloqueio desse avanço e desses valores do que o caso da África do Sul. que é proprietário da maior mina da África sudoeste (que a África do Sul considera como sua “quinta província”). C. cujo presidente. 38 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional. A partir daquela crise. porém onde cada uma de três crianças negras morre de subnutrição antes do primeiro ano de vida e 60 por cento de todos os pretos vivem sem possibilidade de adquirir o pão. Mas todo mundo compreende que discursos não são ações. porque quando veio a ação em 1961. Naquele tempo cerca de oitenta firmas americanas tinham investimentos substanciais na África do Sul.

idéias brilhantes ou ira de qualquer tribo ou nação.) A CAST pagou sob protesto. o AMC fornece cerca de 10 por cento da produção total dos EE. estas duas corporações dominam totalmente a vida econômica da África sub-sahariana. porque transcende a todos os povos e a todas as ligas. é claro. Irving Trust e Continental Bank and Trust. retendo a SLST direitos ilimitados sobre profundos depósitos. Paraíso para centenas. que pôs à disposição da África do Sul um fundo de crédito móvel (o capital sendo automaticamente reposto pelo pagamento dos juros) que alcança agora cerca de 50 milhões de dólares. a Anglo-American representa 8 minas de diamantes. Dean. um fragmento deste cosmos pode ser forçado a se submeter a alguns ímpios africanos. Morgan Guaranty Trust. 11 “outras” minas. De novo. mas a despeito da taxa pagou um dividendo de 70 por cento para aquele ano. 17 minas de carvão. um elemento da Anglo-American. por exemplo. Por si. tão imensos pelo que diz respeito à escala. Chase Manhattan. (A própria CAST é só um corpo de quarta ordem na hierarquia da Anglo-American. First National City. Bankers Trust. a ponto de humilhar a imaginação de um Dante. Serra Leoa exigiu uma taxa de serviço da Consolidated African Selection Trust Ltda. First National of Chicago. De quando em quando. intrincados pelo que diz respeito às operações e absolutos pelo que diz respeito ao poder. nem um ponto abaixo da retribuição do ano precedente. Consolidated Gold Fields of South Africa Ltd.* Mas a longo prazo não é simplesmente objeto dos caprichos. 15 minas de ouro. que está colaborando com Allis-Chalmers para levar o benefício da força nuclear para a África do Sul. Purgatório para milhares. Os participantes deste consórcio incluem as caixas fortes da finança incorporada americana.UU. globais pelo que diz respeito à extensão. A vitória não foi. Naquele ano um protesto nacionalista levou o governo a reduzir a área de concessão da SLST às 209 milhas quadradas que estavam sendo trabalhadas (incluindo a rica área de Konor). e coletando 4 milhões de dólares de Serra Leoa como compensação por suas “oportunidades perdidas”. e só na África. é uma figura destacada na orientação das medidas de controle das armas nucleares americanas.gurou em perto de 40 por cento de nossas importações sul-africanas em 1961). 22 firmas indus* Até 1955.. tinha direitos exclusivos sobre o diamante de toda Serra Leoa.42) Outro é a própria Comissão de Energia Atômica. Não há nenhum corpo legislativo ou judicial que possa enfrentá-la. Manufacturers Hanover Trust. (o antigo vice-presidente da AMC e atual membro do conselho. Bank of America. organização origem da SLST. 11 operações de prospecção. em 1963.45 108 . Sierre Leone Selection Trust. 5 minas de cobre.44 Os super-gigantes são os impérios gêmeos de Harry Oppenheimer. Arthur H. e a Anglo American Corporation. Inferno para milhões.43 Outro é o consórcio formal dos bancos americanos. completa.

Englehard detém direções de 23 companhias sul-africanas.264 dólares. tinha uma matrícula de 374 estudantes. Em dez anos a matrícula caíra para uma centena e a média prévia anual de 60 graduações B. Se quer dizer que o processo imperialista é ele próprio progressista. está redondamente errado. escolas para selvagens (“bush”). e com casas de distribuição em Paris. 946. o imperialista liberal parece horrivelmente certo. 47. concentrados em manufaturas (192 milhões de dólares) e minas (68 milhões de dólares).3 por cento dos africanos que fizeram o exame de admissão ao colégio passaram. da Englehard Industries e da Anglo-American doméstica.50 Os lucros das minas andaram perto de 400 milhões de dólares. Em 1953. os investimentos diretos americanos na África do Sul eram de 467 milhões de dólares. o vencimento médio anual de um trabalhador branco das minas era de 2. do governo. Se quer dizer que estas forças induzem à violência revolucionária. 41 milhões de dólares * Na África do Sul. e mais desinibidas crescem suas mutilações raciais. Lucros líquidos nestes investimentos foram 87 milhões de dólares. um amigo íntimo de Hubert Humphrey. é um diretor do Witwatersrand Native Labour Association. Em 1964. são pelo impulso forças libertadoras.46 O embaixador da América junto a Oppenheimerdom é Charles Englehard. 203 dólares. um dos “bush colleges”* apartheid Fort Hare.214 dólares. Naquele ano o hiper-segregacionista Bantu Education Act foi posto em prática. O fascismo “afrikaaner” mais forte cresce. só 17.9 passaram nas provas.triais. um diretor da Chamber of Mines (que determina níveis para salários nas minas e condições de trabalho) e é um membro da ainda mais exclusiva United States Foreign Policy Association. cujo relatório aos acionistas de 1965 devota uma única sentença às operações africanas. — (N.4 milhões de brancos. Em 1965. os números tendo sensivelmente declinado nos anos intervenientes.) 109 .A. No fim de 1964. e a resultante transformação da sociedade que esta expansão acelera. O mineiro africano fez em média. Em 1960. 33 000 frequentavam universidades. em 1935. Roma e Londres.49 Em 1935.47 O que o imperialista liberal apregoa — Englehard. é um bom espécime48 — é que a expansão da indústria. de 3. de 12 milhões de pretos. Em 1954. do Native Recruiting Corporation (que importa mão-de-obra negra para o trabalho na mina). Envolvido também em indústrias de mineração canadenses. crescera para 3. australianas e colombianas. caíra para 13. 196 em 1960. 7 centros de negócios imobiliários e 31 casas de financiamento e investimento. do T.

sarin e tabun estavam sendo manufaturados em grande quantidade na África do Sul.54 e que produz 70 por cento do ouro do Mundo Livre. Impôs um embargo para armas no começo de 1964 (sob pressão dos países africanos independentes) e. francês e alemão. e 25 famílias possuem terras iguais em área. 24 por cento na manufatura e 31 por cento nas minas. 30 jatos subsônicos Vampire e cerca de 500 aviões leves Harvard com uma carga de ataque “per-plane” de 8 bombas de fragmentação antipessoal de 19 libras. este não é um jogo só americano. Bélgica e Holanda combinadas. cuja política é não fornecer armas “que possam ser usadas em defesa de apartheid” forneceu 16 bombardeiros a jato Mirage III C (Mach 2) com mísseis “air-to-surface” AS-30. nosso governo deplora o racismo “afrikaaner”. 16 bombardeiros leves Camberra B-12. 7 bombardeiros de reconhecimento de longo curso Shackleton. as forças armadas sul-africanas voam em 36 interceptores F-86 Sabrejet (para interceptar quem?). não há dúvida. o Paraguai tinha mais de 2500 firmas industriais. e licença para a produção dos carros blindados Panhard. britânico. transportes C-47 e C-130B (para suprir que fronte?) e cerca de 30 helicópteros Sikorsky (para alcançar rápido a cena de que insurreição?). A taxa de lucro era portanto de 20 por cento em geral.52 Mas. em que a renda “per capita” é de 95 dólares. onde seus desditosos oponentes políticos estão sendo permanentemente reabilitados. e provavelmente o melhor símbolo isolado da democracia crescente de seu regime seja Peña Hermosa. à Dinamarca. pode muito bem valer alguns escrúpulos num país que absorve uns extremamente lucrativos 4 bilhões de dólares em investimentos diretos americano. forneceu 16 bombardeiros leves Buccaneer. Contudo. não importa às expensas de quem ou de qual causa de ira. cuja política é “não exportar para a África do Sul armas que poderiam ajudar a reforçar a política de apartheid. espantou-se ao saber que os gases venenosos somam. cerca de 30 helicópteros Alouette. que oferece quase em duplo a média mundial em taxa de lucros de investimentos. A França.53 Porém manter paz e quietude.55 Consideremos o Paraguai do Mundo Livre. havia 700 em 1965. o campo de prisioneiros da ilha do Chaco. é um jogo do Mundo Livre. Foi este totalitarismo pelo menos materialmente eficiente? Em 1940. A Grã-Bretanha.51 De público. Em 1955 o índice agrícola 110 .em manufaturas e 20 milhões em minas.56 Alfredo Stroessner detém poder ditatorial absoluto desde 1954. com ou sem embargo.

e sem seu Duvalier. podem temer que um Haiti sem seus dólares venha a ser um Haiti sem seu Duvalier. o menor número de leitos hospitalares e de médicos por habitante. Duvalier tem segurança pessoal garantida por 20 000 homens da guarda do palácio treinados pelos marines dos EE.5. pode seguir o caminho de Cuba. Assim.9 por cento).7 por cento. o povo haitiano tem a mais baixa frequência escolar do hemisfério (5. Duvalier recebeu mais de 57 milhões de dólares em ajuda da AID e quase tanto em empréstimos dos iguais ao Banco Mundial e o Ex-Im Bank. embora a demanda haja se intensificado. responderam: “Mas Stroessner é anticomunista. é uma grande exportadora de açúcar.6. que resguarda a zona estratégica do Canal do Panamá. só um por cento da terra era cultivado e o índice era 77. é melhor do que um reformador. um rico próamericano auto-exilado no Uruguai. Carlos Pastore. e. mas os Guerreiros da Guerra Fria americanos. não importa quão honesto. e a exportação de madeira em 1956 foi de 229 000 toneladas.” Gerassi escreve: Quando repeti isto aos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção. em 1965.” O argumento de que os açougueiros anticomunistas aceleram a chegada ao poder dos comunistas pareceu não ter peso. tem um turismo que lhe é muito rendoso. as exportações eram pouco mais da metade daquela. e. não importa quão desprezível. e a mais baixa renda “per capita” (70 dólares) da América Latina.60 Os americanos democráticos podiam preferir que sua ajuda financeira mostrasse melhores resultados sociais do que o tirano Duvalier se mostra capaz de obter. um anticomunista firme. Tem pouco mais de dois milhões de habitantes em 4 500 milhas quadradas. que pode se virar contra nós. “Em última análise” foi-me dito “a nossa política é de sobrevivência.”58 Ou o Mundo Livre do Haiti. A Jamaica poderia ser para os jamaicanos aquela ilha paradisíaca que as propagandas de viagem apregoam ser para os outros. por outro lado.59 alguns poucos haitianos são muito ricos. mais importante. sendo a seguinte mais baixa a da Bolívia 20. ainda outro segmento do arquipélago das Grandes Antilhas.57 O presidente do Partido Liberal.UU. da qual 111 . é a maior fornecedora mundial de bauxita.. Três quartos da terra são florestas de madeiras. a democracia ainda seria passível de salvação amanhã.era 113. em 1961. por outro lado. disse para John Gerassi: “Se toda a ajuda dos Estados Unidos a Stroessner parasse hoje.

com 93 por cento de seu povo ganhando menos do que 480 dólares por ano? A Jamaica podia ser — pelo menos — a Suíça dos caraibanos. Encaminha-se na direção de dívida maior com estrangeiros. com 5 por cento.62 O grupo venezuelano que detém o governo tem “direitos de concessão” em menos de um por cento das reservas de petróleo e é por demais subfinanciado para fazer operações lucrativas.61 A Venezuela pertence ao mesmo campo.63 O dado mais revelador. conta com mais de 40 por cento da produção total e volume de vendas. que absorveu bem mais de 3 bilhões de dólares em investimento direto dos EE. O petróleo e o ferro venezuelanos têm um valor médio anual “dockside” de cerca de 4 bilhões de dólares — uma sólida base econômica. com a maior parte do restante. Como é que com base em tal riqueza este país está em débito com estrangeiros. infelizmente. os recursos médios. Se a pretensão de que a livre empresa americana colabora com a revolução de esperanças em ascensão acabará por fim sendo válida. A Creole Petroleum Corporation. E enquanto a pobreza da Jamaica fica pior. então tem de ser válida para a Venezuela. Suíça (1400 dólares). cufa renda “per capita” é de 1800 dólares — à frente do Canadá (1600 dólares). É sem dúvida verdadeiro que a venda per capita da Venezuela é a mais alta da América Latina. muito difícil de calcular para qualquer país e quase impossível para os subdesenvolvidos. por exemplo. 112 .UU. Porém não o é. Alcoa. pode parecer. porém é. também verdade que ela é só de 800 dólares e que os dados “per capita” de modo algum representam a verdadeira riqueza nacional ou sua distribuição* e que. a Mene Grande Oil. seria a distribuição da renda. Kaiser e Reinolds continuam a transportar para o norte a bauxita jamaicana. poder-se-ia concluir que o segundo lugar mais adorável do mundo para se viver é o Kuwait. para um país de uns oito milhões de habitantes (três por cento dos quais. Alcan. a Mobil. contudo. Inglaterra e Alemanha). Alcoa.provêm todas as utilidades do alumínio. de Mellon. e Royal-Dutch Shell. e que tem sido o território favorito dos modernizadores de Rockefeller desde o início do século. mas sim da Alcan. nem se encaminha para isso. que não é de propriedade da Jamaica. Suécia (1300 dólares) e Grã-Bretanha (1100 dólares) e não muito atrás dos Estados Unidos (2300 dólares). Porém o rendimento anual da Venezuela nos 3 bilhões de dólares em petróleo que ela transporta por mar cada ano é somente de 800 dólares — renda coletada dos estrangeiros que controlam o petróleo. (atrás somente do Canadá. com 15 por cento. Kaiser e Reinolds. dos dados ao pro* Partindo dos números de renda “per capita”. de Rockefeler. possuem 90 por cento da terra).

onde a CIA ajudou a derrubar o Presidente Arbenz. Precisaríamos focalizar o Irã. Mas as extrações de petróleo estão longe de serem diminuídas. através do período do golpe em si. a longo prazo. Irã e Iraque). porque seu modesto programa de reforma agrária ameaçava as terras de cultivo não Uma parte considerável da maior parte da população de países subdesenvolvidos ainda não está na economia monetária. as perspectivas da Venezuela. e que o lucro petrolífero é monopolizado efetivamente por interesses americanos e europeus. com reservas de 62 bilhões de barris em 1960. eleito democraticamente. a Venezuela tem à um tempo as menores reservas e a mais alta taxa de produção anual.64 Além do mais. produziu 601 milhões de barris. Uma vez que o mercado mundial de petróleo apresenta um abarrotamento prolongado. As taxas de produção são determinadas pelas firmas estrangeiras que detêm os direitos de concessão — direitos que estão marcados para expirar em 1984. 113 . seria prudente diminuir a extração de petróleo e se concentrar agora em desenvolver uma economia urbano-rural diversificada. e a subsequente redistribuição dos direitos iranianos sobre petróleo em favor de companhias americanas (Standard e Gulf). prosseguindo por 1958 quando a Gulf o fez seu homem “de contato com o governo” e até 1960 quando se tornou um vice-presidente. porque ele advogava para o Irã o neutralismo ante a Guerra Fria e ameaçava nacionalizar as concessionárias estrangeiras de petróleo. Alguém então pergunta: Por quem? E para servir as necessidades de quem? O rol é longo. da CIA. Sendo dos cinco maiores exportadores de petróleo entre os países subdesenvolvidos (os outros são Kuwait. a Venezuela com reservas de 17 bilhões de barris. equilibrada e essencialmente auto-suficiente. O Kuwait.duto nacional bruto sobre o qual é calculada. parecem ainda mais negras: as reservas conhecidas de petróleo estarão extintas dentro de aproximadamente quinze anos. Arábia Saudita. Deveríamos seguir a carreira do James Bond daquela operação. Kermit Roosevelt. Alguém pode por certo dizer que a Venezuela está sendo “desenvolvida”. produziu um bilhão. onde em 1953 a CIA e a Inteligência Britânica conspiraram para depor o Premier Mohammed Mossadeg.66 Ou deveríamos examinar a Guatemala de 1954. bem mais de um terço são exportações.65 O fato é que não compete à Venezuela tomar a decisão. mais de 90 por cento desse terço é só em petróleo.

ser um membro do conselho da National Sugar Refining Company. conduziu à abertura explícita da porta ghanense aos negócios dos EE.67 Ou precisaríamos olhar para nossa intervenção de 1965. e cujos ricos depósitos de ferro. de o então Diretor da CIA. Abe Fortas. cerca de um dólar diário. do embaixador itinerante Averell Harriman. foram concedidos a interesses privados europeus e americanos (Bethlehem Steel). de a casa de investimento privado (Brown Bros.)68 Ou precisaríamos examinar as Filipinas. outra filha do humanismo americano. redigida nos EE. Adolf Berle Jr.UU.utilizadas da United Fruit Company. Joseph Farland. e o qual. de o amigo íntimo do Presidente Johnson. de o predecessor de Dulles na direção da CIA. ser dono de cerca de 10 por cento da National Sugar. de qualquer modo. pertencer ao conselho da South Puerto Rico Sugar Company. parece ter tido apoio da CIA. desde 1946. na cadeia de Mimba. Ellsworth Bunker Jr. estar para se tornar um vice-presidente da United Fruit Company. da Suprema Corte de Justiça e um destacado retórico do liberalismo incorporado. pertencerem.. e ao colapso dos esforços ghanenses para alcançar auto-suficiência diversificada. Harriman). Deveríamos examinar detidamente as implicações do fato de o escritório de advocacia. de o então Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Inter-americanos. que importa melaço da República Dominicana. que possui 275 000 acres da melhor terra de plantação na República Dominicana e que é o maior empregador da ilha (salário médio dos dominicanos. cujas plantações de borracha deram à Firestone um lucro líquido médio de três vezes o montante de toda a renda nacional da Libéria.70 Ou a malfadada Ghana. Allan Dulles. criança mimada do anticolonialismo americano. ao conselho da Sucrest Company. ter sido presidente da United Fruit Company.UU. o Embaixador da Organização dos Estados Americanos. de fevereiro de 1966. na República Dominicana e demonstrar o fato de seu planejador principal. que detém acesso privilegiado ao açúcar dominicano. John Moors Cabot. ser importante acionista da United Fruit Company. do então Secretário de Estado John Foster Dulles. 114 . cujo golpe anti-Nkrumah. General Walter Beddel Smith... e de o antigo embaixador junto à República Dominicana. ter redigido os acordos de 1930 e 1936 da United Fruit Company com a Guatemala. obstrui efetivamente o desenvolvimento de uma classe empresarial filipina independente. cuja “emenda de paridade”.69 Ou a Libéria. da constituição “nacional” proíbe os filipinos de proteger seus mercados e recursos internos contra a penetração comercial americana — isto é.

Omaboe. Porém não mostraram no Terceiro Mundo que podem desenvolver economias políticas no estilo ocidental: nos países pré-industriais. anteriormente nacionalizadas. para esta mesma política. que usou desta força de coação para ajudar a persuadir Madame Ghandhi de que fábricas de fertilizantes movidas pelo dispendioso óleo de Rockefeller eram melhores para a Índia do que fábricas de fertilizantes movidas pelo barato gás iraniano. de isenção ante a Guerra Fria. há o Peace Corps. onde o mais aterrador banho de sangue da história e a devolução ou “aquisição” das concessões americanas de borracha e petróleo. no caso extremo de uma desapropriação. da Câmara de Comércio Africano -Americana. sem olhar para os danos que isto causa aos outros. o principal funcionário econômico do novo regime. Teremos de tentar uma generalização. o esforço aparentemente genuíno de alguma gente da AID (e mesmo da CIA) para encorajar a reforma social sob condições frustrantes e muitas vezes perigosas. Os Estados Unidos mostraram na Europa que sabem como reconstruir as economias capitalistas destruídas pelas bombas. Há.73 Porém a lista não tem fim. de cujo numerário dois terços são controlados pelo governo dos Estados Unidos. por exemplo. nem tendência interna para estilos de vida capitalistas.72 Ou a Indonésia. de independência política. em 20 de maio de 1966: “Queremos que os pescadores da Nova Inglaterra e Califórnia pesquem em nossas costas e montem fábricas de conservas. em uma reunião em New York. nossa política de negócios pode justamente pretender ter excitado as crescentes exigências revolucionárias do mundo subdesenvolvido. Preocupado com a extração de riquezas para exportação e a imediata exploração de todas as oportunidades.UU. A América não é ingênua como um bebê e seu imperialismo tem outras modulações. sem dúvida materializa um 115 . a chegada do corporativista americano é de fato um desastre.” A título de atrativo Omaboe oferecia isenção de impostos por dez anos. Porém.Como falou E. de tempo e liberdade para cultivar um estilo econômico nacional. não passa de algaravia desejar que aprove estas exigências — as exigências de oportunidade aberta para desenvolver a riqueza natural da nação. o ajuste seria arbitrado pelo Banco Mundial. N. por pior que tenha sido empregado. onde não há estrutura de classe capitalista. conduziram diretamente ao reinício da ajuda dos EE. importação de materiais livre de taxas e uma garantia de que.71 Ou a Índia. que. feita pelo novo governo.

S. alguns 40 bilhões de dólares em 1966. Peru. e mesmo assim deixar as massas num estado tão mau como sempre”. que se pode mostrar muito valioso para o povo da Ásia.. o Peace Corps.5 bilhões de dólares em juros e taxas e consome um oitavo de todos seus ganhos no comércio externo. México e Bolívia”. o Rice Institute estão apenas desempenhando papéis marginais e auxiliares. É com frequência deles que conseguimos. desigual. Presidente de Grace e Co. um pouco tolos. P. Investimento estrangeiro e/ou privado pode industrializar. cujos lucros latino-americanos são imensos. Mas todos os imperialismos produziram seus anjos de misericórdia. [os países subdesenvolvidos] têm 116 .74 Pode parecer estranho ouvir isto justamente do Berle. “Para conseguir suficiente câmbio externo para o que importam. “viram os preços de exportação de seus metais descerem de 40 a 50 por cento durante os últimos anos. que tem sido um analista simpaticamente perspicaz do corporativismo americano. o preço médio que a América Latina paga por suas importações dos Estados Unidos subiu cerca de 11 por cento. Adolf Berle Jr. um humanista político poderia se esforçar decididamente seguindo essa política sem muita hesitação. as descrições mais perceptivas e realistas dos efeitos do imperialismo de Mundo Livre nas regiões atrasadas. que o mundo em crescimento experimenta mais profundamente. é a América da United Fruit e dos U. Se estes representassem a essência do comportamento. frustrada e assustadora cujos motivos fundamentais parecem tão compulsivos e cujas reivindicações fundamentais parecem tão justas.”75 Os editores de Fortune mostraram que a dívida a longo prazo dos países subdesenvolvidos. a força impulsora principal da política externa americana. um esforço conjunto das fundações Ford e Rockefeller. de fato.. pode mesmo incrementar a produção. Ele não é nem mesmo um igual da terceira linha da CIA. Porém preocupados capitalistas incorporados não são tão difíceis de achar. É difícil entender como poderia ser diferente com o estado incorporado. desde 1951. fez em 1958: “Chile. Pode-se desejar que o Peace Corps fosse o Departamento de Estado.. e deve-se concluir que a boa gente da AID..desejo popular americano de servir de ajuda a outro povo. A América. mas a inimiga daquela revolução deformada. custa anualmente 4. ele mesmo reconheceu que “sermões sobre a importância da empresa e investimento privados e a utilidade do capital estrangeiro [nos países subdesenvolvidos] são. Gerassi cita a declaração que J.. A América não é a amiga. há o Asian Rice Institute.. Grace Jr. da pilhagem fria e da força do napalm. Marines [fuzileiros]. disse Grace. nas Filipinas. Ao mesmo tempo.

”77 Josué de Castro. Ao mesmo tempo. Mas como será ele persuadido a fazer 117 . mas declinaram alguns 200 milhões de dólares. o que por sua vez significa que terão de enfrentar maiores custos e encargos. e isto não é uma herança realmente confortável para deixar aos filhos de alguém. nas palavras de Miss Ward. destacou o mesmo ponto: “Só a amortização da dívida [da América Latina] requer 1. branca. A menos que possa ser revertido o presente declínio. e outras ricas potências industriais do Ocidente. Muitos diplomatas e economistas consideraram as implicações como preponderantemente — e perigosamente — políticas. de que seja. as reservas do grupo menos desenvolvido não só pararam de crescer.” “Todos os demais” inclui aproximadamente dois terços da população da terra. espalhados através de cerca de 100 nações. complacente. internacional. Parece ser sem dúvida verdadeiro que muitos aspectos do problema do desenvolvimento podiam ser resolvidos por essa figura — bastaria que ele se afastasse do quadro.”79 Mas há raramente uma indicação de que este problema seja causado por alguém. entre aquele raciocínio e as seguintes passagens da página editorial do Wall Street Journal: As nações industriais acrescentaram perto de 2 bilhões de dólares a suas reservas. não de substância. muito rica e todos os demais.”76 Sanz de Santamaria.7 bilhões de dólares este ano [1966]. um dos mais destacados economistas do Brasil e um antigo presidente da Food and Agriculture Organization [Organização para Alimentos e Agricultura] da ONU.. Colonialismo é a única causa da fome na América Latina. há sempre uma sugestão implícita de que o homem que melhor pode solucionar este problema não é outro senão o próprio capitalista do Mundo Livre.. “de uma espécie de guerra de classes. portanto pré-anulando 16 por cento de todos os ganhos de exportação.que pedir emprestado mais. escreveu que ela “nada mais é senão puro colonialismo. estes analistas temem que os Estados Unidos. em parte preponderante. de que este problema [em vez do comunismo] seja o que está por detrás da revolução do Terceiro Mundo. Porém há só uma diferença de tom. altamente burguesa. a significação de tais estatísticas é clara: o abismo econômico está se alargando rapidamente “entre uma muito pequena elite do Atlântico Norte. causado pelas corporações americanas. presidente da assembléia do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso.. Contudo.. Para analistas tais como [Barbara] Ward de Grã-Bretanha.”78 Isso podia parecer um amargo exagero. enfrentem a possibilidade nítida.

A ideologia obriga-o só a competir.” Nas últimas duas 118 . Porém constatamos um problema: Mesmo em nossa economia. O poder se condensa nas mãos de grupos vitoriosos cada vez menores.isso? Entregar em nome de quem quer que seja os imensos lucros que ele considera sua principal função fazer? Além do mais. e a moralidade decorrente obriga-o a ganhar o quanto possa. autocrático. não engloba um compromisso com outros capitalistas. isso só acontecerá através da ação competitiva independente de outros capitalistas. Sem os subsídios ao açúcar do governo federal. A competição é ganha. a United Fruit não podia dominar a Guatemala. e o vencedor fica mais forte. agora se torna seu deliciado e delicioso parceiro. Sem as Forças Especiais e Fuzileiros do governo federal. com os negócios públicos severamente orientados pelo nacionalismo. novos capitalistas. e que está inalteravelmente comprometido com a ideologia política da livre-emprêsa? Considere-se que o compromisso do capitalista com o capitalismo. Sem grande governo. e portanto reconstituir a dinâmica do mercado aberto e livre. as corporações não podiam se multinacionalizar. suas vitórias contidas. a General Dynamics não podia continuar a engordar com vendas de armas à Europa. cada vez mais integrados e colaborativos. e a ajuda ativa dos mascates de armamentos do Departamento de Defesa. Vê-se na América o surgimento (talvez seja tarde demais para tal palavra) do que só podemos descrever como estado fascista um pouco mais tolerável e domesticamente benigno. e sem as mãos protetoras dos Departamentos de Comércio e Estado. Se sua dominação estiver para ser restringida. supostamente modelo. rígida censura e supressão da oposição pela força. e o perdedor fica mais fraco. Fascismo — um termo extravagante? A definição do Webster’s: “um regime nacional. exercendo a regulamentação da indústria. não há muito tempo atrás o arqui-inimigo do homem de negócios americano. centralizado. Em teoria. Sem a campanha de venda da Guerra Fria do Departamento de Estado. E o governo federal. o grande negócio estaria perdido. e permanente. as companhias de açúcar não podiam enfiar sua garra letal nas economias dos pequenos estados desde o Caribe ao Pacífico Central. há um rompimento em aceleração deste sistema de limites baseados na competição teoricamente circunscrita ao país. comércio e finanças. Sem a AID e o Banco Mundial. perdida. emergem decididamente para criar e controlar nova força. contudo é assim que se supõe operar o sistema: novos empresários. como alcançar seu descompromisso de um governo que sempre considerou os sucessos dele no estrangeiro como sendo sucessos privados da América.

a competição crucial se processa no interior de um monolito comercial. que agora é levado a efeito. poder adiar o julgamento. não ocorre entre grupos empresariais independentes e aparentemente não é travado em termos da superioridade do produto de um homem sobre o de outro (a “superioridade” de produto sendo agora comprada. mas a aquisição de poder dentro do sistema fechado que o comanda. onde estão os capitalistas competitivos do Terceiro Mundo? E como estão para ser produzidos? E quem os produzirá? Nada do que o homem de negócios americano possa ver no passado. com sua moralidade. Pretenderá alguém que o apetite de dominação que estimulou o crescimento deste estado incorporado vá se restringir a si mesmo. a “regulamentação” (nossa palavra é racionalização) de facto. 119 . Governo forte e grandes negócios são em essência a mesma coisa. mas quem vencerá a ocupação dos presentes lugares de poder. o Terceiro Mundo é uma vantagem comercial. E para ele. mas muito real e muito burocrático. E o ato normativo de competição. Mas centralização nas decisões econômicas e políticas básicas. este mesmo Rockefeller esmagará. eu espero não esperançosamente demais. Então. quase empacotada. pode (às vezes sim. não há necessidade de omitir uma já inofensiva dissensão. combinado com responsabilidade social para com a comunidade como um todo. quando prossegue em cruzeiros externos? David Rockefeller pode muito bem exortar seus companheiros homens de negócios a “demonstrar [aos latino-americanos] que um novo tipo de capitalismo evolveu. presente ou futuro o persuadirá de deixar passar quaisquer vantagens comerciais que possam chegar-lhe às mãos. O Terceiro Mundo é aquela mina de ouro exposta e desprotegida onde seus investimentos em dólares rendem melhor do que em qualquer outra parte. porque o homem de negócios que fizer isso. baseado no conceito de um lucro justo para a livre empresa. De qualquer forma.”80 E pode ele muito bem desejar que alguém aceite seu conselho. A idéia do capitalismo é que o “lucro justo” não deverá ser determinado por um capitalista cristão sozinho. de uma agência de propaganda). não a reorganização de poder no mercado. homogêneo e irregular. de alto-abaixo da indústria.considerações. Por que devemos querer mudar isso? A United Fruit Company pode ser “esclarecida”. o nacionalismo sofisticado de nossa política externa. Ao contrário. e o fim supremo dessa competição é a sucessão interna de poder e autoridade: não onde o poder será deslocado. Deverá ser estabelecido através de competição com outros capitalistas. comércio e finanças — são estes muito claramente os aspectos dominantes de nosso sistema.

Teria de suplantar sua ética do dinheiro por meio de uma ética social.às vezes não) construir estradas. aquela Guatemala de classe média — se isso afinal é o que aqueles países querem — aquela é tarefa de vietnamitas. dentro de suas plantações nas “repúblicas das bananas”. aquele Brasil dinâmico e à feição de livre-emprêsa. impessoal por um Terceiro Mundo. tudo em nome de algum empoeirado ideal humanitário? Ou por que devia ela se regozijar em ver o surgimento de capitalistas locais. um bem econômico dual. pela primeira vez em sua vida. ao dar uma vista d’olhos no resto do mundo. escolas e hospitais em cidadesmodelos da companhia. de trabalhar em favor de sua competição. que podem algum dia tornar-se bastante fortes para oferecer-lhe alguma competição? Desde quando é o capitalista o guarda de seu colega? Como homens comuns. não pode ser tarefa de capitalistas americanos. tanto como a construção da nação americana não podia ter sido tarefa dos mercantilistas britânicos. não hostilizados. e podem mesmo ter uma preferência ideológica. cujo objetivo fosse a destruição da atual hegemonia americana. Porém construir aquele Vietnã “americano”. Os realizadores do progresso social são aqueles cuja condição o requer. Em uma palavra. e tomar partido contra ele mesmo. E no fundo. Podem mesmo se sentir compungidos com as sangrentas implicações do que vêem. não manipulados. aqueles cujas vidas combalidas estão mais necessitadas de mudança. 120 . americanizado. Porém. esta revolução nada mais é do que o surgimento de competidores que empregam os únicos meios de competição disponíveis para eles. Os agentes de mudança neste mundo são hoje. Teria de reconhecer a diferença de interesses. Para as coisas se apresentarem diferentes. casas. teria de se tornar um socialista revolucionário. inteligentes. no melhor sentido. Não tenho motivos para supor que uma tal metamorfose esteja para transfigurar este ianque. Teria de mudar inteiramente seu estilo de pensamento e ação. A revolução é a livre-emprêsa coletiva dos coletivamente despojados. porque deve ela desejar entregar a posição privilegiada que ocupa ali. brasileiros e guatemaltecos independentes. como sempre foram. os corporativistas americanos podem enxergar a verdade tão bem como qualquer outra pessoa. o livre-empresário ianque teria.

e por quem. de algum modo. Pois as lutas do futuro devem ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. a economia política vitnamita será desenvolvida. crucial para a segurança e progresso do estado comercial americano. São os interesses comerciais americanos.V O Caso do Vietnã A supremacia comercial da República significa que esta nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. mostrar que a guerra está sendo travada para determinar como. esta linha de análise é também obrigada a mostrar que o Vietnã é. de alguma forma. É precisamente neste ponto que a teoria do imperialismo se defronta com uma simples e séria objeção. mas controle externo versus controle local do Vietnã — isto é. E a regra de ouro da paz é inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. E uma vez que os Estados Unidos se comprometeram tão sem reservas com a salvação à Mundo Livre do Vietnã. naquela parte do mundo. então se pode ser capaz de mostrar. substanciais ao ponto de justificar uma guerra assim perigosa e ilimitada? A guerra agora 121 . que a questão na guerra do Vietnã não é liberdade Ocidental versus escravidão Oriental. Senador Albert J. tão pobre e tão atrasada. Bevebidge. 1898 Se o anticomunismo da Guerra Fria é mais basicamente uma máscara ideológica para o imperialismo de Mundo Livre.

“Um Vietnã do Sul protegido do comunismo”.UU. e que em sua fusão de motivo imperialista e ideologia anticomunista. Talvez fossem divulgados para incentivar o entusiasmo da comunidade dos negócios por uma guerra que cria alguns aborrecimentos internos (p. recursos. Em seu número de 1 de janeiro de 1966. sob o título “As Surpreendentes Vantagens da Economia do Vietnã do Sul. população ou semelhante. com seu aspecto tão persuasivo.está custando aos americanos acima de 20 bilhões de dólares por ano. Há quatro pontos importantes debatidos abaixo. que o delta do Mekong. a guerra não é somente exemplar.) 122 . em 1961. inflação. escassez de mão de obra em algumas áreas-chave de especialização. e poderia facilmente ultrapassar esse recorde sob condições normais. Faltermayer. do T. Quantos anos levará um Vietnã “salvo” para começar a pagar dividendos para essa espécie de investimento militar? O guarda-livros observará que salvar o Vietnã está nos custando muito mais do que o que possa jamais ser igualado por qualquer vantagem “colonial” resultante.ex. apareceu no número de março de 1966 do Fortune. nos leva a abandonar a teoria imperialista (pelo menos para esta guerra) e voltar a uma explicação mais puramente “política” e não comercial. no caso. Esta observação de inteiro senso-comum. existe um interesse comercial americano direto no Vietnã. rápida valorização no mercado de valores e títulos. ambos os quais agora importa. — (N. crédito mais restrito).” Um trabalho similar. Newsweek traz um ensaio chamado: “Saigon: Uma Cidade Boom* para os Homens de Negócios dos EE. “tem o potencial para se tornar uma das mais ricas nações do Sudeste da Ásia. a “tijela de arroz” que agora produz cerca de quatro milhões de toneladas * Desenvolvimento rápido de valor.” Ele nota que o país poderia se tornar um exportador de açúcar e algodão.” Há a possibilidade de ambos os artigos terem sido um tanto planejados ou calculados. Mas investiguemos o caso com maior curiosidade. Encontraremos que a política da América no Vietnã não ilustra meramente o imperialismo americano. impostos mais altos. em ordem crescente de importância: Primeiro. que exportou um recorde de 83 000 toneladas de borracha. é também um clímax. estes artigos — e em especial o de Faltermayer — devem ter convencido muitos de que o Vietnã do Sul é um petisco delicioso bastante para valer a pena ser salvo. é um paradigma dele. de Edmund K. Porém qualquer que seja o motivo. escreveu Faltermayer.

amplamente aberta no Vietnã. pode mudar radicalmente nos próximos anos. em média. A Esso e a Caltex.UU. com 25 000 trabalhadores em sua lista de pagamento. ramis e “kenaf” — virão saltando do solo para os porões dos navios cargueiros. um combinado de construção formado por Raymond International. e Brownell Lane Engineering Co. Os pioneiros capitalistas já estão firmando suas pretensões. juta. A American Trading Co. Jones Construction. 123 . o açúcar e o algodão — e as promissoras colheitas industriais. no momento. A RMK-BRJ é a principal contratante do enorme programa de construção militar. e J.de arroz. a borracha. Faltermayer procura não exagerar a importância da presente jogada. 20 a 30 por cento em seus investimentos. caminhões e locomotivas de estrada de ferro — e lucrando. não mais de 6 milhões de dólares. Para isso será preciso capital. “os homens de negócios dos EE. Morrison-Knudsen. Outra indústria têxtil foi parcialmente financiada pela Johnson International Corporation. Brown & Root. O Chase Manhattan e o Bank of America abriram filiais em Saigon.. A firma de New York. A Shell Oil e o governo sul-vietnamita participaram da especulação. disse Newsweek. e a refinaria poderia ser incluída no proposto complexo industrial de Cam Ranh Bay. Enfatiza que nosso investimento direto total no Vietnã é. ele diz. A. seja do tipo socialista. estão vendendo e fazendo a manutenção de equipamento pesado — “bulldozers”. e planeja um incremento de mais 75 000. Parsons & Whittemore. estão estudando propostas para construir uma refinaria de petróleo no valor de 16 milhões de dólares. da Califórnia. Porém a mesquinharia desse total é em si um engodo claro: Há uma nova fronteira de oportunidades. a primeira do país. “Nunca antes”. seja do capitalista. seguiram suas [sic!] tropas na guerra em tal escala”.1 O gigante é RMK-BRJ. portos e estradas (“infra -estrutura” econômica) e seus contratos devem eventualmente atingir 700 milhões de dólares. tratores. Não é por mágica que o arroz. poderia produzir de 12 a 15 milhões de toneladas. já era o maior empregador privado no país. A situação. Dairies. Até março de 1966. que inclui bases aéreas. controla 18 por cento de interesse numa fábrica de papel dirigida por americanos.. anualmente. tem interesse controlador em uma nova fábrica de leite condensado e meio-interêsse em uma nova indústria têxtil. com um capital de 5 milhões de dólares em Bien Hoa.

a doação de dólares americanos para financiar a importação vietnamita de mercadorias americanas.. como devem fazêlo mais cedo ou mais tarde. Em 1967. as parcelas da AID entregues ao Vietnã eram perto de um sexto dos 2 bilhões totais. Fuller mais uma vez leva à frente seus planos porque julga que os Estados Unidos agora têm o encargo de salvar o Vietnã. Fali.(É surpreendente. Destes. contudo. o Vietnã do Sul deve se alinhar entre nossos dez maiores compradores. que Faltermayer apresente esta “especulação” como algo novo. “Estou nisso por dinheiro”. este capitalista americano estará literalmente. um passo atrás delas. Fuller diz: “Podemos obter de volta nosso investimento em dois anos. por certo. Ou quer? Deparamo-nos com um problema de visão. financia negócios no exterior.. É difícil considerar es124 . Todas as novas fronteiras precisam de seus Paul Bunyans. alcançam um quarto: 550 milhões de dólares. Já citamos Forbes (que se intitula uma “ferramenta capitalista”) sobre a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID): “é a principal agência por meio da qual o governo dos EE. segundo o erudito da Indochina Bernard B. que acrescentou à história uma nota tocante: “Há forte evidência de que o governo americano “convidou com urgência” as companhias petrolíferas a realizar o contrato a fim de mostrar a confiança americana no futuro do Vietnã. E então? por que é tão errado nossos homens de negócio estarem logo atrás de “suas” tropas? Não há nada estranho na busca de lucro e oportunidade. de 16 milhões de dólares. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. chamado Herbert Fuller. em produtos americanos e matérias-primas: “Em 1966.UU.”2) Um importante aspecto do quadro comercial é. Faltermayer oferece um forte candidato na pessoa de um empresário de New York. colonizar e começar a desenvolver o chão há pouco limpo por nossas tropas não quer significar que seja por eles que as tropas lá estão. Os planos da mesma refinaria. 85 por cento é gasto nos EE. já estavam “em estudo” em abril de 1962. e que os homens de negócio pudessem de imediato ocupar. Se 85 por cento disso é dispendido em exportações americanas. cabeça de um grupo investidor que desde 1958 tem estado promovendo uma usina de açúcar de 10 milhões de dólares para a cidade costeira de Tuy Hoa: Quando as tropas chegarem para limpar a área.UU.” Como todos os homens de empresa.

Se Fuller decidisse que o projeto de Tuy Hoa era uma aposta má e voltasse para New York. livre-emprêsa e liberdade. “capitalista americano”. ou não serão. dependendo da nossa possibilidade de fazer negócios nelas. que nem Fuller. ajuda a guiar esta roda. quando Faltermayer fala de “salvar o Vietnã” está falando ao mesmo tempo de salvar ambos. Este é um fato político. ele e a região para Fuller. mas não especialmente significativo. A definição diz que um país é livre quando americanos.”3 Analisemos por alto a visão que essa afirmativa torna concreta e obteremos uma exaustiva descrição ideológica da guerra do Vietnã. quer imediatas quer a longo termo. uma outra cidade costeira. Sem dúvida. ao estilo ocidental — porque os dois últimos são considerados como se definindo mutuamente. diz Arthur Tunnell. quando Khruschev veio a Camp David e a Guerra Fria parecia suspensa para reavaliação. Não há dúvida de que a importância do Vietnã está muito mais basicamente em sua posição geográfica e histórica do que em suas potencialidades comerciais inerentes. uma política militarizada pede uma economia militarizada. “haverá aqui um grande futuro para os homens de negócios americanos. Segundo. Não está sendo travada em favor deste Herbert Fuller. “Após a guerra”. Está sendo travada pela liberdade ou para afastar os comunistas. são livres para nele fazer negócios. e o primeiro é uma instância da realização deles. Mas o que julgamos que “liberdade” significa? E qual é o propósito real em manter os comunistas afastados? Nossa definição funcional de um país livre fica clara perante nosso comportamento. em 20 anos um total de mais de 850 bilhões de dólares. Seu aparecimento nele parece incidental — talvez importante. o mercado de ações teve sua baixa mais 125 . do escritório de Saigon da Investors Overseas Services. Leve-se em conta que desde 1946 o governo federal tem dedicado cerca de 60 por cento de seu orçamento para apoio do complexo militar industrial. E livre quando lá há livre-emprêsa. assim é tão só porque se imagina ser o Vietnã a chave para áreas maiores — áreas cuja acessibilidade comercial é importante para nós. Em 1959. se tiverem a habilidade e a capacidade para fazê-los. a economia militarizada pede uma política militarizada. A guerra seria a mesma com ou sem eles. elas próprias “livres”. como colônia de conflito. e que serão. O Vietnã.tes homens de negócios particulares como sendo de qualquer modo cruciais para o drama do Vietnã. Portanto. como veremos. Quando não há livre-emprêsa o país é comunista. ninguém pensa que os fuzileiros renunciariam à conquista de Tuy Hoa. Porém.

foram drenadas para fora aos bocados e pedaços. e subsídio militar. depois voto de confiança. notícias de um debate importante no “santo dos santos”. um fato econômico chave referente à defesa do produto: Não é produzido à custa de necessidades domésticas reconhecidas. o produto tem de ir para algum lugar e tem de ser pago. como é muito bem sabido. sabia como reagir a este “crack”. Quando. Não se dá o caso de os americanos fazerem filas para comprar 126 . Confessou mesmo que a economia o fazia pensar em 1929. uma vez que é tão antieconômica. William McChesney Martin Jr. no consenso do especialista. Aqueles que argumentam que devemos ter sido forçados a travar a guerra do Vietnã. porque aquilo que uma economia de alto emprego produz tem de ser vendido. eis que de súbito aparece um herói inesperado que ninguém ficou realmente surpreso de ver. Parece que temos de gastar.. A Administração parecia tender para a confiança. A guerra gera muitos problemas reais de administração fiscal e anomalias perturbadoras nos padrões do câmbio externo. acima de tudo. Porém o então presidente da Junta Federal de Reserva [Federal Reserve Board]. nada percebem da economia de capitalismo de estado. Nesta atmosfera controlada de “Perils-of-Pauline”. muito menos terminaria em breve. O herói era a guerra: Não seria encurtada. a página financeira do New York Times tinha como cabeçalho “Fracasso da Cúpula um Tônico para o Mercado. a especulação altista ganhara sua moratória. Ninguém. Quer vá para a vida mansa. certas pessoas bem informadas estavam de novo aborrecidas com a economia nacional. Era profundo? Havia perigo real? Uma agitação de discreta incerteza se fazia presente. Por mais nervosa que permanecesse. no geral. Porém. começou a dizer em altas vozes. Isto foi chamado do “nervosismo de paz” (peace jitters).violenta em cerca de quatro anos. Os efeitos econômicos da guerra são tudo menos sem ambiguidade. no particular. em 1960. sobre o metabolismo nacional. então. Eisenhower voltou de Paris devido aquele U-2 abatido (uma novidade Lockheed). e logo se soube que seus custos diretos iriam pelo menos a 21 bilhões de dólares por ano.”4 Durante o verão de 1965. Tendo se jogado para o futuro num ato de fé. em lugares públicos. a guerra é boa para a economia porque a economia sofre o acréscimo de subsídio federal. que não estava convencido de que as coisas estivessem tão bem quanto deviam estar. quer para o limbo dos silos do governo. Consideremos. os que emprestam e os que tomam emprestado e seus analistas começaram a murmurar inquietamente.

Eles são um pouco mais espertos do que Sísifo. engenheiros. esmaecesse até que um dia alguém notasse que desaparecera? O que seria desta gargantuesca Lockheed. Todavia nesta atmosfera de calma e confiança. os aviões. bem na superfície da intuição. emprestadores e fornecedores que seus salários mantêm em atividade? Onde estão os planos concretos. estes homens de ciência. que não poderia alcançar de outro modo. são somente os mais dramáticos) a impulsionar a Europa em direção ao acordo e integração. após vários anos de pregação e aparente prática de coexistência. sofrendo terapia muito dolorosa. O oposto está muito mais perto da realidade: Se não se gastasse com os tanques. economistas e homens de negócios. participamos todos como cúmplices do grande segredo de estado. onde não se pretende que a “ameaça” esteja aumentando. olhando para ele fixa e solenemente. Não se pretende que a guerra do Vietnã tenha sido determinada só para animar uma economia superdesenvolvida e inflexível por meio daquele mercado “externo” e “expandido”. qual é a política da América referente à militarização da Europa? Durante os passados quinze anos 127 . Que mais? São tolos. Talvez mesmo de natureza revolucionária. Observe-se a Europa.automóveis que. com seus 500 milhões de dólares só em pesquisas e contratos de desenvolvimento? O que seria dos altamente especializados cientistas. administradores e operários da linha de montagem que emprega? Ou das dezenas de milhares de lojistas. Mas o que seria se a guerra do Vietnã terminasse e a China dissesse: sigam em frente? O que seria se a Guerra Fria esmaecesse. que todo mundo sabe muito bem não serem a sério. intermediários. o de De Gaulle no Ocidente. que é o de não estarmos em perigo real de ser abandonados por esta “ameaça” que conserva o estado corporativo em sua disposição de luta. técnicos. a legislação capacitadora para a orientação da conversão industrial de defesa-para-civil? Quem está quebrando cabeça com as respostas? Temos uma quantidade de variadas comissões fita-azul de cientistas. Afinal não tão profundamente. economia e negócios? Realmente parece não importar. os mísseis — onde estaria a economia? O que equivale à pergunta: Se não fosse pela heroína. porque só cercam o rochedo. os grandes debates no Congresso. não são fabricados. por causa dos tanques. conduz em ambos os lados da Cortina (dos quais. O oposto é verdade: mais comércio com o Leste da Europa e com a URSS. os submarinos. empurrando-o de tempos em tempos. onde estariam os viciados? Obviamente: nos hospitais. e o de Ceausescu no Oriente.

a Alemanha “tem sido encorajada” a adquirir materiais militares americanos no valor de 1. se a ameaça está diminuindo? Acontece por que nossas vendas militares no exterior representam uma de nossas maiores ajudas em nosso deficit crônico de balança de pagamentos. Para compensar estes pagamentos dos EE. Delegado do Secretário Adjunto de Defesa para Negociações Logísticas Internacionais.nós demos. Desde a metade de 1961. Estas vendas são promovidas ativamente pelo Pentágono..3 bilhões de dólares. Mas pouco temos com isso. Em maio de 1965. que a Guerra Fria degele se quiser. ou vendemos. em reconhecimento ao “intensivo esforço de vendas” de sua seção. Precisamos nos livrar destes bens. uma outra parte de nosso governo oferecerá um empréstimo com cláusulas favoráveis. e a grande razão foi o atraso da Alemanha em dar o “de acordo” para as compras. O vendedor número um — o Pentágono chama -o “negociador” — é Henry J.5 Por que tal acontece. não se preocupe. Mas a Alemanha parece relutante em comprar o que insistimos não poder ela dispensar. Muito conveniente o fato de as “necessidades” militares da Alemanha serem tão próximas de nossas despesas. que parece ter um pouco mais de cuidado com a necessidade e capacidade de pagar dos compradores do que qualquer vendedor de carros usados comum: A boa qualidade das armas é uma necessidade bastante válida e se o preço parece alto. As vendas militares ultramarinas para 1965 eram cerca de 2 bilhões de dólares e. as vendas de exportação militar subiram a mais de 9 bilhões de dólares e o lucro dos fornecedores de defesa americanos totaliza cerca de 1 bilhão de dólares — belamente concentrado nas mãos de três grandes e altamente influentes firmas. Kuss Jr. As vendas militares externas no primeiro trimestre de 1966 foram as mais baixas desde 1964. General Dynamics. Mas o exame mais elementar do que está acontecendo agora na política européia tornará claro que armamentos — em ambos os lados — são crescentemente irrelevantes para a paz e estabilidade. Kuss foi condecorado com a medalha “Meritorius Civilian Service. Argumenta-se que estes armamentos estabilizam o mundo e fazem a paz. equipamento militar no valor de 35 bilhões de dólares. Lockheed e McDonnell. no período 1966-67.. prosseguirão naquela escala elevada num futuro previsível. e se tivessem de alguma forma qualquer efeito no mais amplo 128 . Tal demora pode ter algo a ver com a recessão e problemas orçamentários da Alemanha.UU. como se as vantagens financeiras que nos vêm de sua venda fossem só um feliz incidente.”6 Eis um exemplo de primeira: a Alemanha ganha cerca de 675 milhões de dólares por ano das tropas americanas ali estacionadas.

Mas a Grã-Bretanha ainda tem seu deficit. e era uma vez a política americana (tal como foi esclarecida por Rusk recentemente em janeiro de 1966). seria um negativo e obstrutivo. Uma sequência interessante tem início com o nosso pedido para a Inglaterra comprar aviões de combate americanos. Vender armas para Israel e o mundo Árabe.padrão da reintegração européia. convencida de que estará em perigo enquanto não tiver uma grande frota 129 . Os vendedores americanos estão contentes. de maneira ainda mais ominosa. com um PNB “per capita” anual de 233 dólares. Porém.. causaram a guerra entre a Índia e o Paquistão. testemunhou ante o Comitê de Relações Exteriores. isto resultaria numa perda de mercado para os fabricantes de munição americanos. Fora da Europa. Se não tivéssemos fornecido armas. ao mesmo tempo. caso vencesse tais lances. declaradamente os Lockheed F-104. e que se tem mostrado dependente das doações militares e ajuda econômica dos EE. O antigo Embaixador na Índia.”8 Pouco mais de dois meses após essa declaração. o Pentágono dá um jeito de achar as propostas inglesas não inteiramente segundo o modelo. pagará estes aeroplanos. O Senador Eugene McCarthy comentou: “Não fica claro como a Jordânia. o Departamento de Estado anunciou um acordo para vender à Jordânia (que já possuía tanques americanos) “um número limitado” de avançados aviões bombardeiros de combate.. têm qualquer coisa a ver com a Guerra Fria. em 25 de abril de 1966.”9 Ênfase acrescentada..”7 Por pior que tenha sido — e ainda pode ser de novo o embate Índia-Paquistão nada será comparado com o que poderá irromper a qualquer momento no Próximo e Médio Oriente.. porque supomos que temos de fazê-lo. que “as armas que fornecemos. ninguém pensa que os russos estão para vir rugindo Cáspio abaixo. é um negócio embaraçoso. assim o fazemos por trás do muro o quanto podemos — mas o fazemos. a Inglaterra agora necessita fazer vendas para “contrabalançar” seu desequilíbrio. Permite-se portanto à Inglaterra fazer ofertas para os contratos de munição americanos. apesar disso.. que custam 2 000 000 de dólares a unidade. é sem dúvida um importante fator.UU. Vem à cena a Arábia Saudita. “não para estimular e promover a corrida armamentista no Oriente Próximo e nem para encorajá-la por nossa participação direta. A eficácia do crédito para compra de armas dos EE. Nem a guerra Árabe com Israel. Tendo concordado. nem a vendetta de Nasser com a Arábia Saudita.UU. Assim. o Paquistão não teria buscado uma solução militar para a disputa do Kashmir. a realidade contradiz a tese de armas para a estabilidade. ou através dos montes Kopet. John Kenneth Galbraith.

ele disse. e os luzentes armamentos precisam portanto ser negociados. economista de Harvard. quando pusemos. Queria-os americanos. os executivos precisam existir. Porém. seria para nós politicamente arriscado atendê-la — pelo menos abertamente.”11 Triste dizer. Sumner Slichter.de aviões de combate. numa palestra para um grupo de banqueiros. contamos esta venda britânica de aviões para a Arábia Saudita como o fator de equilíbrio compensador de nossas vendas anteriores de aviões para a Grã-Bretanha.. em consequência disso. acelera o progresso tecnológico e assim ajuda o país a levantar seu padrão de vida. para a capital. o suficientemente grandes para pôr um fim às coisas e proteger o sistema de se tornar supérfluo. “incentiva a demanda de bens. E essa negociação é mais fácil se há uma certa inquietação no mundo. contra o pano de fundo da política americana em Israel. no qual têm sua razão de ser. Além disso.. E nós. só na Europa Ocidental. ajuda a manter um alto nível de emprego. pelo qual falam. estes polidos aviões de combate. Atrás deles postam-se seus engenheiros. Por trás dos executivos o sistema de crescimento e valorização intensos para o qual trabalham. vende à Arábia Saudita o que ela quer — aviões de combate supersônicos no valor de 400 milhões de dólares. os melhores. O sistema precisa crescer e se valorizar altissonantemente. Assim para prosseguir com esta beleza conceitual chamada “guerra preventiva”. mas que podemos fazer? Lá se erguem os brilhantes armamentos numa fileira. A Guerra Fria. Na aparência não estamos realmente orgulhosos com este tipo de coisas. Desta forma devemos agradecer aos russos por ajudarem a fazer o capitalismo nos Estados Unidos funcionar melhor do que nunca. explicou o sistema de modo muito comovedor em 1949. não havendo perdido nenhum mercado no qual poderíamos ter entrado graciosamente. Quem poderia negociar aspirina se não houvesse dor de cabeça? Todavia o que é mais anti-dor-de-cabeça do que a aspirina? Aspirina preventiva. Por trás dos engenheiros. com frequência.10 E assim são as coisas. os rebitadores precisam rebitar. Mas o mundo não devia esquecer o que é uma dor de cabeça. 7 000 foguetes nucleares de longo alcance. os executivos que servem em comissões presidenciais e viajam. os engenheiros militares precisam desenhar. A Grã-Bretanha. uma pequena tensão e ansiedade. estamos vendo a glória da Rússia esmaecer. nós temos ameaças preventivas.12 talvez tenhamos começado a saturar um bom 130 . seu poder de inspirar nosso capitalismo declinar. Por isso persuadimos a Arábia Saudita de que os nossos não são os únicos aviões do mundo a voarem tão bem e que ela também vai ficar muito satisfeita com uma marca britânica.

Havia-se tornado essencial para nós que nossos mercados externos não fossem perturbados. E nos flancos. Para um exemplo mais de dentro de casa. quando fomos internacionalistas. há o período de pré-guerra do “New Deal”. Terceiro. por isso. A Suíça neutralista. O neutralismo pode ser isolacionista. Já pela metade da década de 1890 nos havíamos tornado os primeiros manufatureiros do mundo e portanto internacionalistas a despeito próprio.13) Porém a opinião que veio a ser a dominante foi de que os problemas de agressão de potências avançadas e revolução de estados atrasados tinham de ser resolvidos. pois novos russos continuam entrando no mercado da Guerra Fria. ao mesmo tempo: nosso comércio com Alemanha. Desta forma a Rússia revolucionária podia ser isolada e as Grandes Potências. Porém temos sorte. vontade e prestígio coletivos haveria de restringir as agressões e suprimir as revoluções. é neutralista. A questão para a diplomacia era como fazê-las entrar. E o Terceiro Mundo está pululando de gente da CIA e Forças Especiais. A América devia. cuja força. O mundo necessitava de um acordo de gigantes industriais. a política americana tem estado preocupada com o problema de pacificar o meio comercial global. Não é isolacionista. a partir do começo do século. ser neutra e comerciar com todos que quisessem comerciar em termos justos. podiam proteger a segurança da eco131 . Após a guerra. Wilson reviu explicitamente esta perspectiva. a crença geral era de que a combinação adequada consistiria nos Estados Unidos. sustentando que a Alemanha e o Japão agora deveriam ser integrados no acordo Atlântico.mercado. Como deviam ser conquistadas a estabilidade e liberdade necessárias? Uma opinião distintamente minoritária era de que não podiam ser: As velhas nações estavam resolvidas também a se conquistar mutuamente. A questão para os estadistas foi quais potências deveriam pertencer ao clube. mas não precisa sê-lo. Itália e Japão permaneceu basicamente sólido nos anos 1933-40. Agora temos a China — e portanto o Vietnã. o cerne estratégico do assunto. e usualmente não o é. por exemplo. é tudo menos isolacionista. politicamente partidários e economicamente neutralistas. De maneira crescente. agindo coordenadamente. Antes da I Guerra Mundial. estrelinhas de amanhã — Guatemala? Filipinas? Irã? — estão desde agora experimentando suas vestes de pijama negro campesino e ensaiando suas mais rabujentas imprecações marxistas. (Esta é uma das assim chamadas posições isolacionistas. podiam ser resolvidos e seriam resolvidos por meio de algumas combinações das potências adiantadas. Grã-Bretanha e França. descobridores de talentos.

nenhum país fora da Europa recebeu tanta assistência dos Estados Unidos 132 . manobrou por paus e pedras durante a maior parte desse período para assegurar uma acomodação da China com o Japão. para estabelecer a hegemonia de Quatro Potências na Europa (i. Coréia e Formosa. nos anos de 1920 os Estados Unidos subscreveram a reconstrução da estrutura industrial de pré-guerra da Alemanha. Alemanha e Japão. Este sistema tem dois domínios separados mais integrados. França. Nossa perspectiva da distinção do Japão está refletida no fato de que além dos casos muito especiais do Vietnã. e talvez (é passível de debate) o gaullismo represente. o volume total com o Japão era cerca de 3. com uma constância realmente notável. A França de De Gaulle hoje pressagia mudança. Porém. e todos eles mais ou menos querendo aceitar e apoiar nossas opiniões sobre a ameaça comunista. Assim.nomia política do mundo. O “New Deal” não muito mais esclarecido pela invasão japonesa da Mandchúria do que o foi a Inglaterra pela remilitarização do Rhimeland. todos os nossos parceiros compartilhando nossa crença numa filosofia política democrático-liberal. França. crescentemente integrada. de maneira genuína. nosso volume total de comércio com o Japão só foi ultrapassado por nosso comércio com o Canadá e a GrãBretanha. idéias diferentes sobre como o poder europeu possa ser organizado e quais devam ser seus objetivos fundamentais. pelo menos bem até a metade dos anos de sessenta.e. um que há muito tem sido importante para o comércio dos Estados Unidos. na década de 1930. O muito cobiçado comércio com a China não era nem metade tão importante (por aquele período.5 bilhões de dólares). O primeiro ponto é que o Japão é um comerciante tradicionalmente poderoso. enquanto o com a China cerca de 1. o Atlântico e o Pacífico. Tal como a Alemanha é o estado pivô do domínio Atlântico. e em 1922 (o Tratado das Nove Potências) levou o Japão pelas orelhas a um moderno acordo à portas-abertas com a desventurada China. por parte da Alemanha. assim o Japão é o pivô do Pacífico.5 bilhões de dólares. Quando as dificuldades começaram a fermentar. o mundo de após-guerra foi dominado por alianças explícitas ou implícitas que ligaram umas às outras as economias dos Estados Unidos. isto é. Chamberlain lutou com toda a considerável ansiedade sob seu comando. Alemanha e Itália). Grã-Bretanha. estabelecer aquela integração política das Grandes Potências que por fim foi estabelecida pelo menos temporariamente — como um dos principais resultados da II Guerra Mundial. De 1929 até 1940. Estávamos tentando com determinação. É a situação deste Japão que examinaremos agora mais detidamente. Grã-Bretanha.

“conteve” Hitler respondendo à concentração alemã de tropas em sua fronteira com uma mobilização militar. Sua recuperação no período de após-guerra foi rápida e firme. a percepção de uma ameaça ativa desperta uma contramedida. a “invasão” tibetana. Inglaterra. colocando-a à frente da Itália entre os realizadores de negócios do mundo. França e Canadá. orientado para o Ocidente. O outro. Podemos oferecer uma galeria de tais situações diferentes e definir para cada uma diferente forma de contenção. A característica comum seria que.5 bilhões de dólares e comprou-nos 2. Contenção que. estava perto de 17 bilhões de dólares (mais do dobro do volume de 1960). há uma forma de contenção que é claramente militar. Alemanha Ocidental. Uma é de que ela estaria quase indefesa ante a espécie de ataque nuclear estratégico que um ato claro de agressão certamente provocaria. Benes. Seu volume de comércio. atrás dos Estados Unidos.) 133 . ao mesmo tempo com os Estados Unidos e o mundo.4 bilhões de dólares. é claro. Não se pode duvidar do poder da China para agredir seus vizinhos. Nunca foi ameaça real. a “invasão” indiana. significar várias coisas. pode ser política e legalistica. em 1965. que é graduada especificamente para a natureza da ameaça e que não se propõe à liquidação final e direta da ameaça. Por volta de 1961. a ameaça não é basicamente militar. 8.5 bilhões de dólares de exportações vs. só após um claro motim da teocracia. Qual a natureza da ameaça Comunista Chinesa? Como deve estar perfeitamente claro. na qual não tinha de nenhum modo o pior argumento. alcançara o segundo lugar entre nossos parceiros de comércio. Em 1965. alcançando pela primeira vez uma balança de comércio favorável. judicial e de propaganda.(alguns 4 bilhões de dólares pelo período 1945-63). Ele pode.)14 O segundo ponto é que um Japão saudável. Assim. Mas também não se pode duvidar de duas outras coisas. em cada caso. Os Estados Unidos “contiveram” o crescimento do comunismo interno por meio de um programa de sistemática hostilização legislativa. neste caso. é tão decisivo para a contenção da China quanto a contenção da China o é para a saúde e orientação ocidental do Japão. (8. só com o Canadá à frente. Por um período pateticamente breve. como resultado de uma muito comum disputa de fronteira. vendeu-nos 2.3 de dólares de importações. da Tchecoslováquia. Para entender as essências desta dinâmica temos que analisar a significação deste conceito “contenção”. é de que ela jamais atacou para saques ou sem provocação (A “invasão” coreana só se deu após repetidos bombardeios americanos na Mandchúria.

e que esta economia estabeleceu contato com o potencial intrínseco da terra e do povo. esperando por algum cabeça dura Johnny Applessed. a China se poderia tornar uma igual da América. Recordemos só as palavras de Napoleão sobre o gigante adormecido que acordará para sacudir o mundo. E como no caso de qualquer ameaça política. um mundo no qual exista uma Ásia independente e dinâmica. Para que se ouse dizer alguma coisa de conclusivo sobre a economia da China ter-se-á que basear-se numa demorada análise. na China de aqui há cem e mesmo cinquenta anos. Esse potencial. entre vários. O povo industrioso — e a terra rica — lá têm permanecido. política. e controle positivo de seus recursos inerentes. a observação de Lênin de que “para o comunismo mundial o caminho para Paris passa por Pequim e Calcutá. cultural — não mais esteja tão densa e desproporcionalmente concentrada no âmago global do Atlântico Norte — isto é. Por muito tempo tem sido sabedoria de estadista julgar. alguns estudiosos apresentando uma interpretação de “catástrofe”. A taxa de crescimento nos primeiros dez anos seguintes à fuga de Chiang para Formosa foi entre 15 a 30 por cento. é tão grande como precisa ser. Mas há acordo geral de que o desenvolvimento foi vigoroso. infestado como é por dificuldades naturais e políticas. O importante é que ninguém nega. que qualquer China que se pudesse organizar seria deveras uma China. seu miolo é econômico. a energia e a ingenuidade para ser o quê? Garantida a equidade que o tempo pode obter. tal nossos estadistas por certo o fazem. Imaginemos um mundo no qual a ação criadora — econômica. outros pretendendo que o fracasso. Pensemos então.” Tem ela o povo. Nossa resposta ao fato gigantesco da revolução chinesa — algo que 134 . precisamente tomando em consideração o estado realmente caótico das condições iniciais. no Oriente. foi principalmente agrícola. agora na maior parte recuperado. Europa e URSS. dependendo do especialista que se aceite.A ameaça é política. Mas aqui não precisamos ser tão técnicos. O que lhe faltou por séculos foi ordem. ninguém parece estar realmente seguro de como medir o desempenho de uma economia planejada imatura. os recursos. que o tempo inevitavelmente trará. haver algo como uma nação chinesa. um sentido de unidade nacional. Deixado de lado o problema de dados insuficientes. e a razão principal de sua demora seria a necessidade de explicar porque nada de exatamente conclusivo pode ser dito. pela primeira vez em séculos. que ela tem uma economia. e que o crescimento industrial básico permaneceu saudável. Avaliações da experiência do Grande Salto variam ainda “mais largamente.

): 2. que gira por meio de fios. Meramente para dar à sua autodestruição uma pequena cotovelada. Mais especificamente: o Japão planejará manter sua presente inclinação política pró-americana? Submeter-se-á ele à mais comum das leis da história mundial. bem no limite da península industrial mandchuriana. porque ele nos diria do fim deste erro extravagante. são as seguintes (em milhões de dólares dos EE. destruir com certeza o maior dentre todos os totalitarismos. E ela não morreu. E o povo não se levantou.não tem nada a ver com comunismo.7). um pequeno impulso.3 (244. estabelecemos um embargo.7). Seria uma economia. os homens de negócios do Japão estão também ajustando comércio crescente). tudo isso era trabalho de Joe Stálin e de certos inconfidentes do Departamento de Estado. Quer coagido por apreensões políticas futuras ou seduzido por oportunidades comerciais presentes. o Japão já é o mais destacado parceiro comercial da China. estranha se tentasse isso. Claro. um aríete). se aproximando como um trem de carga. quando e em que termos. Porém então certamente o povo chinês deve se levantar contra o “perigo amarelo” interno. 245 milhões de dólares em 1965.8). nossas recriminações eram sem fim. 245. em tempo. pedindo capitalismo e Chiang Kai-shek. bastante habilmente. a China ainda estava lá. 62. Não é como se o Japão fingisse que a China não estivesse lá. Meramente para lhes dar ânimo. política e história. E lá está o Japão. 152. porém antes com a organização independente da China e sua aquisição de ardor moderno — não tem sido propriamente pragmática. Reputações foram arrasadas. Então adotamos a opinião de que seu próprio demônio interior haveria de. de que a Economia Mais Alta * As vendas do Japão à China.9). Contudo. tristezas e sofrimento epidêmico da nova China e nos equilibramos para o próximo despacho de últimas notícias.7 (20. Quais são as opções do Japão? Isolacionismo em relação à China nunca pôde nem ser pensado.4 (74. de 1960 a 1965. Primeiro preferimos acreditar que ela não estava acontecendo.0).6).8 (157. aquele dervixe de Formosa. 16. 38. estão subindo anualmente numa média só ultrapassada por suas compras da China.5 (46. As notícias eram diferentes. Estranhos caminhos do Oriente! Nesse meio tempo. completamente sem forças para se mover.15 135 .0 (30. Exportações (e importações) em seu comércio com a China.UU. armamos ostentosamente seu real e verdadeiro herói. As únicas questões que estão de todo abertas são quanto.* ultrapassando mesmo a União Soviética (com quem. (Uma comparação grosseira de situação seria a Inglaterra encontrar-se politicamente mal aliada contra uma Europa unida aos Urais. Extenuamo-nos em contos jocosos sobre os erros crassos.

A industrialização intensificada atrairá mais trabalhadores da fazenda para a fábrica. A China precisa de barcos. cabe a ela concretizar sua possibilidade. Se a América tem certas esperanças.3 bilhões de dólares (17 por cento) foram em alimentos. (4) O Japão é tradicionalmente um importador de alimentos.9 bilhões de dólares. (3) A cifra de desemprego do Japão é uma irreduzível um por cento. Precisam de mercados. pelo qual Kishi teve de pagar com a vida.7 milhões de dólares. (2) Os dois principais produtos de exportação de um Vietnã do Sul normalizado serão borracha e arroz. aço e 136 . A urbanização do trabalho reduzirá a colheita das fazendas não mecanizadas.16 (5) Os japoneses são os mais destacados construtores navais do mundo e estão entre seus mais importantes fabricantes de aço e tecidos. tentará o caminho grego da mediação prudente e fará de si próprio uma ponte entre os dois super-gigantes. em certa medida.determina a Política mais Baixa e assim arranjar-se com Pequim? Ou. do total de 6. 1 bilhão de dólares.6 bilhões de dólares de importações. e está-se tornando um dos maiores. insensível a respeito de nossas aparições nucleares em seus portos de pesca. 700 milhões de dólares (12 por cento) foram em alimentos. do total de 7. cuja melhoria de acesso acelerará. O Japão. enfurecedor a respeito de nossa colonização aberta de Okinawa e da cadeia de Ryukyu. 1. deve fazer o que pode para permanecer nosso associado. assustador a respeito de nossa guerra do Vietnã. em 1962. ao mesmo tempo que o mais alto poder de compra resultante aumentará a demanda. em 1963. Mas há algo de especialmente memorável a respeito dessa Bomba. O Japão compreende que sua nova economia foi construída por nós. humilhante a respeito do Tratado de Segurança Mútua de 1960. à qual se opõem três quartos de seu povo: os elementos do antiamericanismo japonês subsistem. Agora perguntamos: o Vietnã interfere materialmente neste drama? Os fatos-chave parecem ser os seguintes: (1) Duas das principais necessidades de importação da China são borracha e arroz. Do total de 5. estando suas importações de alimentos em ascensão. (16 por cento) foram em alimentos. tanto proporcionalmente como no total. sua taxa de desenvolvimento e portanto seu poder geral. Só não fará o que não puder fazer. sabendo bem (como notou um japonês) que pontes são trilhadas? Deve ser claro o que os Estados Unidos esperam que o Japão faça. pelo contrário. em 1964. a pedra de toque de nosso perímetro de contenção asiático. nação cujas principais cidades atomizamos? O Japão compreende que bombardeou Pearl Harbour sem grandes escrúpulos. Mas quanta pressão podemos pedir a essa nação que suporte em nosso nome.

um propósito direto primário de contenção da China é a salvaguarda de nosso interesse comercial no Japão. quase exatamente um mês antes do colapso francês em Dien Bien Phu e da abertura da Conferência de Genebra sobre a Indochina. e compreende itens tais como produtos químicos. que o Japão deve ter como uma área de comércio. mas pode estar inclinado a proteger sua indústria têxtil.18 Todo o precedente precisava ser apresentado para apoiar as seguintes proposições: 1. O fato é narrado pelo erudito da Indochina. O Vietnã do Sul é uma importante área em perspectiva para comércio. Um Vietnã em desenvolvimento certamente quererá aço e provavelmente navios. 3. o Presidente acrescentou. maquinaria de todos os tipos e quatro navios cargueiros de longo curso de 5 000 toneladas e um de 2 000 toneladas. em sua entrevista com a imprensa. é ao mesmo tempo o bastião da luta de contenção de expansão e o prêmio da vitória. de 7 de abril de 1954. 137 . em 1961-62. portanto. isto é pago pelo Vietnã do Norte em matérias-primas. O comércio subiu de cerca de 10 milhões de dólares. [a perda da Indochina] afastaria essa região. tanto para os vendedores japoneses como para os compradores chineses. 2. De fato. após um período de esfriamento. O Japão é o bastião. As notas estenográficas rezam: Em seus aspectos econômicos. para mais de 40 milhões de dólares. quando o Japão decidiu só pagar reparações de guerra ao Vietnã do Sul. principalmente carvão. O Japão. disse Mr. Juntemos um fato final com uma observação profissional. As consequências possíveis da perda [do Japão] para o mundo livre são quase incalculáveis. ou isso forçaria o Japão a voltar-se para a China ou Mandchúria. A força econômica do Japão é o elemento crucial da política americana de contenção da China e manutenção da paz na Ásia. em 1959.tecidos. Ficando somente atrás do Canadá entre nossos parceiros comerciais. tem alcançado proporções importantes que bem podem provocar preocupações nos Estados Unidos. Norte Vietnamita. Bernard B. a fim de viver. Fall: O comércio do DRVN. ou para as áreas comunistas. o Japão é da maior importância comercial para nós. com o Japão. Eisenhower.17 A observação foi feita pelo Presidente Eisenhower.

O bastião e o prêmio.5 bilhões de dólares. e (c) que pode quase naturalmente ser dominado pela China. goza agora a posição econômica dominante lá no Pacífico. esperam que o Bloco Comunista supere os EE. como maior parceiro comercial do Japão durante a próxima década.) 5. de Washington. O autorizado Finance (junho de 1966) disse: “Alguns especialistas em comércio. o Comerciante. de cerca de 1. significam que seus mercados. baías..” (A venda. para uma alternativa. Sul e Sudeste da Ásia. A única oportunidade remota (é remota) do Japão. uma única coisa. só perturbações frustrantes podem ainda adiar isso — então a matemática bruta da relação condenará o Japão à inferioridade (tanto como a Grã-Bretanha estaria em posição inferior ante um continente europeu economicamente integrado). Se o Japão não tem alternativa a longo termo para o comércio maciço com a China. Mas a China é também um importante parceiro comercial do Japão. de uma usina de aço para a China desarma mais ainda o argumento ideológico contra comércio continental e só pode aguçar o apetite comercial do homem de negócios japonês.UU. porque seu investimento 138 . (b) que deve incluir o Japão. especialmente nas estratégicas Filipinas (onde o nacionalismo econômico está crescendo) e na Austrália (onde os investimentos diretos dos EE. ouvem o mesmo tique-taquear de relógio. a posição do Vietnã do Sul é central devido suas costas. O que o Ocidente depara no Pacífico é a formação de um sistema econômico regional (a) cujo potencial e força são inerentes à própria situação do Pacífico. abundâncias de recursos e o fato da guerra o ter feito central. Podemos simplificar isto. entre as potências ocidentais. prende-se aos mercados em desenvolvimento mais lento e menos organizáveis do Pacífico Sul. Venezuela e Alemanha). a longo termo ante o mercado da China em desenvolvimento. sem considerar quem o desenvolve.UU. a Índia se mostra quase inerte ante as mais desesperadas provocações ocidentais. a posição da América é tradicionalmente privilegiada. Os tesouros do Vietnã do Sul. por parte da Alemanha Ocidental. Se o Japão e a China desenvolverem interdependência econômica — e. Esta é a “ameaça”. como estão as coisas agora. No segundo. uma vez desenvolvidos. são maiores do que em todos os outros países salvo Canadá. A América a sente mais agudamente porque. No terceiro. será deixado sem uma alternativa para uma orientação progressivamente mais pró-chinesa. 6. No primeiro. agora enterrados.4. Grã -Bretanha. e não pode deixar de se tornar crescentemente magnética. exercerão uma grande influência no Japão.

o Banco Asiático e o novo.. relatando o importante nascimento da ASPAC em Seul. De fato. Malásia. por toda a parte. disse o Ministro do Exterior da Tailândia.ex. Tal tem sido a política tradicional dos Estados Unidos na América Latina. na Ásia. que morreu recém-nascida. Nova Zelândia. Assim. China Nacionalista. Thant Khoman19). contam a história bastante claramente. para observações mais recentes e sensíveis. Filipinas. citou o chefe de uma delegação como dizendo que “embora de início a organização seja puramente para cooperação econômica p. Nosso propósito. então. ou não. uma África africana. Austrália. Isto nos conduz a uma conclusão final: O alvo da economia política do Atlântico Norte é frustrar a organização independente da economia política do Pacífico. A significação mais elementar da caótica.asiático de após-guerra em sangue e bens. a luta para conservar o Vietnã do Sul. Nem importa muito que uma tal política tenha.”20 Os nove membros são Coréia do Sul. Tal tem sido a política asiática tradicional das potências atlânticas em conjunto. Uns eloquentes dois e meio séculos de ações ocidentais inúteis. uma Ásia asiática — sendo seu argumento mais direto não poder haver integração uniforme das várias esferas globais (isto é. Assim. 139 . no pobre mundo. em junho de 1966. Vietnã do Sul e Japão. a Organização do Tratado do Nordeste da Ásia [Northeast Asia Treaty Organization] (NEATO). Robert Trumbull. é frustrar o delineamento deste sistema geo-econômico. tem sido hábito inveterado das potências ocidentais absorver e integrar o que podem comandar. O repórter do New York Times. revolução do mundo pobre é que às alternativas tradicionais de integração subserviente e hostilização. um banco regional para ajudar o desenvolvimento do arroz e outros produtos. sido tornada explícita e levada a efeito consciamente. pela imposição de barricadas políticas e militares entre seus elementos e pelo oferecimento da alternativa de outras configurações econômicas. E assim. é excessivo. e hostilizar e dispensar o que não podem. não pode evitar o fortalecimento das políticas destes países não-comunistas e anticomunistas. intitulado experimentalmente Conselho de Cooperação Pacífica Asiática [Asian and Pacific Cooperation Council] (para poder ser chamado ASPAC — “um nome atrativo com um som viril”. e sob muitos aspectos cronicamente malformada. pode agora ser acrescentado um terceiro caminho: uma América do Sul sul-americana. Tal tem sido a política tradicional da Europa na África. e porque é sob qualquer medida o mais internacional dos estados internacionais. e um pool técnico internacional. promovida pelos Estados Unidos.

onde há paz) enquanto não houver uma equidade econômica e política aproximada entre elas. Que Treinaram para a Guerra e Que A Encontraram no Vietnã do Sul Cinqüenta Dias Mais Tarde”]. conduziram somente à infiltração paulatina. Ou o estudo acurado de Marshall Sahlins sobre as operações das Forças Especiais. jan-fev. os B-52 matam mais macacos. [“A Destruição da Consciência no Vietnã”]. este é o testamento de revolução. de fevereiro de 1966. O napalm destrói mais aldeias do que forças combatentes. Marshall. mas da própria cultura. de outubro de 1966: “M. tigres e civis do que vietcongs. “The Death of a Platoon’’ [“A Morte de um Pelotão”]. as guerrilhas. no Esquire. New Jersey. Um Relato Sobre uma Companhia de Soldados Americanos em Forte Dix. de S. de custo-condicional controlável. nossas forças mecanizadas sendo incapazes de combater de qualquer modo durável e decisivo.* E. de John Sack. Relatórios cheios de sofismas sobre nossa guerra terrestre argumentam mais persuasivamente (embora às vezes sem intenção) que ela é travada sem padrão relevante e sem efeito significativo. A. parece pelo menos ser um ato proporcionado. e contra isto é que estamos lutando para resistir. por meio de panegíricos sobre democracia e diatribes igualmente irrevelantes contra o comunismo. Ou um dos estudos psicológicos realmente poderosos sobre a guerra terrestre. esta destruição cobra uma taxa decididamente muito alta dessa boa vontade política da qual a América de Johnson tem miseravelmente tão * Veja por exemplo “I Quit!” [“Eu Paro!”] do veterano das Forças Especiais Donald Duncan em Ramparts. O quarto ponto — por seus poderes de explicação sobre nossa civilização. Salvar o Vietnã ao preço de espalhar alguns 600 especialistas de guerrilha das Forças Especiais. o que quer que se pense do motivo político. Ou uma peça da autoria de um protagonista da guerra. quarentena de Cuba e pacificação no Vietnã. Quer aconteça gostarmos disso ou não. um ensaio de desastre cuja mensagem de entrelinhas é precisa e aflitiva. descritos oficialmente como o melhor meio para deter a infiltração. com nosso isolamento da China. em Dissent. e embora dissimulemos as raízes de nosso antagonismo para com ele. No sul. L. ou ainda 16 000 “conselheiros” da Marinha. cuja mobilidade não é da máquina. além de ser militarmente ineficaz. parece-me de longe o mais importante — está embaralhado num quebra-cabeças não muito intrigante. 1966. Who Trained for War and Who Found It in South Viet-Nam Fifty Days Later” [“M. New Jersey. 140 . An Account of One Company of American Soldiers in Fort Dix. Qualquer um pode ver que os raides aéreos sobre o Vietnã do Norte. Porém meio milhão de homens? Que aparentemente deverá se tornar um milhão? Além do mais. esta “solução militar” desde há muito provou não ser solução nenhuma. “The Destruction of Conscience in Viet-Nam”.

Uma vez que tivesse de 141 .pequeno suprimento. Acima de tudo há o que Stillman e Pfaff chamaram. mais sensíveis. Por que acontece isto? Isto acontece porque a ideologia que pediu e reivindicou este ato de guerra “necessário” continua a pedir e reivindicar o ato. Podia-se supor que um imperialista racional pudesse inventar outros meios. de antiamericanismo no Vietnã. “a furiosa energia material e a fantástica passividade política do Japão contemporâneo”. Sem um inteiramente novo tipo de vontade e sabedoria ocidentais concentradas. em desenvolvimento econômico e independência política. maldizemos o imperialismo — o imperialismo mais primitivo de outros. Significa décadas. Porém. num tempo em que os liberais ocidentais se desvalorizam por meio de seu próprio manhoso humanismo-cum-política realista. O nordeste da Tailândia permanece tão vulnerável como sempre ante aqueles “agitadores de fora”. senão séculos. que nossos orientadores políticos dificilmente podem deixar de ver. cujo maior crime é denunciar a fraqueza do imperador. carregada com significados políticos da maior gravidade. mesmo depois de ele ter ultrapassado sua necessidade e ter-se tornado. Filipinas. em outros tempos. e os proeminentes do leste do mundo Ocidental. o resto da Indochina.21 uma energia que temos visto ser. irracional. os líderes da América parecem ter duvidado que seus filhos tivessem estômago para uma guerra contra-revolucionária repressiva e imperialista. de maneira estranha. A economia política das Filipinas está estagnada e os Huks estão de novo em ascensão. Talvez por causa disto. na verdade. realmente importantes e passíveis de defesa — Índia. Nós mesmos. Coréia. a Coréia do Sul fica mais atrás da Coréia do Norte. Japão — flutuam cada dia um pouco mais para perto daquele futuro nitidamente oriental. a Índia será comunista dentro de duas décadas. em seus próprios termos. Tailândia. e pode começar a arruinar nossa posição política na Ásia. para proteger os abalados dominós do Pacífico — e. Os calculistas do governo não têm representado proteção contra uma perda de controle que pode muito bem ser sem paralelo. Aquilo que a força ocidental enfrenta é a revolução social antiimperialista do pobre. essa posição não é fácil de transformar-se em lema. a tentativa de levar a efeito uma tal solução piora. nós mesmos já glorificamos a revolução — a nossa própria. que pudesse ver ali problemas que fazem da “salvação” do Vietnã um assunto sem importância. de fato. Em suma: A solução militar para o problema do Vietnã não está dando resultado. Cada dia. toda a Ásia mesmo a Europa do Oeste começa a ter ânsias.

Englehard. por quaisquer meios melodramáticamente conspiratórios. fazem um esforço para se coordenar entre si. uma tal guerra teria de ser adoçada com um nome diferente. pateticamente inábeis. E o que é subtraído da realidade — muito mais importante — é a fonte do fermento. então a aceitação americana generalizada desta opinião sobre revolução pode prenunciar um amargo futuro para todos nós. E se não. Em certo sentido menos técnico esta revolução é “comunista”. ou em perfeito agente de coração duro da Conspiração Internacional Comunista. ambição sem propósito e desapiedada. uma pretensão que automaticamente implica em América.S. ele mesmo. porque consideram ser seu inimigo. marrom e amarelo para vermelho de diabo.ser travada. mas cujas cores têm sido trocadas de humanos preto. Há uma revolução que é internacional — uma pessoa tem apenas que contar as perturbações e o olhar em um mapa para ver o bastante. governos centrais autoritários. Não há nenhuma utilidade em ser enganado a respeito disso. de que provavelmente criasse economias autárquicas e controladas. os diversos movimentos de libertação nacional. essa nuvem de diabolismo que nada tem a ver com a própria força sustentadora da revolução. especialmente nos estágios primeiros. num bobo. e nosso inimigo é transformado de um ser humano em um mero peão. O imperialismo é por isso recristianizado como anticomunismo. quando fala. O que esta teoria nos dá é um retrato que. se dirige a uma América que a maior parte dos americanos esqueceu: Rockefeller. se dentro do poder de uma idéia se inclui perverter a generosidade de uma nação e amaldiçoar seus filhos. não é irreal. cujo objetivo central (assim temos certeza) é a conquista da América. e cujo fundo tem sido inteiramente apagado. a questão suprema da justiça da rebelião. em linhas gerais. a revolução tem de dirigir-se à América — ou melhor. se entendermos por isso que provavelmente não produzirá economias capitalistas. agem assim. Teve íntima ligação com a realidade e tem alguma história em mente. 142 . E na medida em que esta revolução pretende terminar o domínio do rico. E. a teoria desorganiza e desgoverna brutalmente a história bem real que lhe permite sobreviver. coordenado internacionalmente — uma opinião que é inteiramente correta. U. Portanto. a causa da cólera. Mas o que é acrescentado para puro efeito político é essa feia faceta de clandestinidade. programas de acumulação de riqueza em ritmo forçado e o violento desmantelamento de elites ricas.A. Esta teoria da Conspiração Internacional Comunista não é a solteirona histérica que muitos esquerdistas parecem pensar que é.

sua oposição ao difuso e desigual movimento por independência do Terceiro Mundo. Se é correto dizer que nosso bem-estar nacional requer a derrota da FLN. pedem com insistência que usemos toda força necessária para levar esta guerra a uma “conclusão rápida e favorável”. tem-se de dizer desta ideologia que é agora mais eficaz do que nunca. quer não. quer voluntariamente assim.C. Caracas ou Saigon. cuja esperança real. então é boa de maneira absoluta. Havana ou Àlger. Se sua visão da 143 . mesmo por um momento. um intruso na cena de mudança social. Esta é a teoria pela qual a guerra nos tem sido explicada. por qualquer outro objetivo. já explicado — um inimigo. então a FLN tem de ser derrotada.É por meio da ideologia de anticomunismo de Guerra Fria (Cold War anticomunismo — um cínico pode abreviá-lo CWAC e chamá-lo “cwackery”) que os senhores do poder americano justificaram e dissimularam. Este outro é uma fraude. Tem agora a mesma espécie de verdade. É um imperativo. Donde se segue que o tema profundo. Ela reorganiza inteiramente os termos morais do embate entre o rico e o pobre. Ele não é o revolucionário que pretende ser. Não é possível imaginar que um tal objetivo possa ser limitado ou anulado. Se é uma boa teoria. Esta ideologia é a descendente absoluta daquela ideologia com a qual os pais daqueles mesmos senhores uma vez pretenderam destruir o movimento trabalhista americano. com muito sucesso. Os verdadeiros revolucionários sociais. Ele já está denominado — um criminoso. Ele quer nos agarrar — Kansas City. algumas delas poderosas. central e condutor do drama que está sendo representado nas jângals do Vietnã é nada menos que a questão de nossa própria sobrevivência nacional. de um só golpe. A explicação permanecerá correta sem considerar quão duro possa ser levar a cabo suas ordens implícitas. Após anos de aperfeiçoamento. parece. O que quer que possa pensar. quer ele saiba ou não. e. Preservar o bem -estar de uma nação é um objetivo que dispensa considerações e é transcendente. Todos sabem que algumas pessoas neste país. e a mesma sorte de mentiras. acontece nós sabermos que é um impostor. priva o revolucionário de seu direito legítimo a se denominar e explicar. e. familiar para os americanos só o quanto a bem controlada média de massa considera conveniente tornar assim. e aplicada agora a um mundo remoto. sabemos que jamais ficará satisfeito com Moscou ou Pequim. somos nós. que possuía no longo e amargo período entre a Guerra Civil e a II Guerra Mundial. A aterradora consequência disto é que qualquer luta que seja justificada em seu nome é uma da qual não podemos escapar. Birmingham. Washington D. verdadeiro objetivo — é a destruição de nosso país.

então o povo tem todo o direito de perguntar. inclusive nós. com sua aceitação sem reservas de uma teoria que a administração liberal americana tem estado batucando em sua cabeça há pelo menos um quarto de século — a saber. O povo não espera que ele minta.história não é atrasada. subverter. Há um homicídio se processando lá na rua: Um homem. está matando Kitty Genovese. ao contrário. a teoria de que há uma Conspiração Comunista Internacional que ameaça dominar o mundo. Que há de “conservador” em querer lutar nesta situação? Que espécie de lunático lamuriento pensa ser traficância de guerra intervir sob tais circunstâncias? A maior acusação a ser feita contra esses nossos reacionários é serem eles tão ávidos em acredi144 . fazer propaganda. porém caracterizálas como ultraconservadoras. e nós temos diante de nós uma realidade americana oficial. o Congo) é meramente secundária. Quando este mesmo governo fidedigno informa o povo de que a guerra se trava porque agentes da tirania que quer devorar o mundo chegaram a uma feliz terra no exterior e se puseram a agitar. pretende invadir o próprio edifício de apartamentos e matar. porque seu assassinato não apaziguará. aterrorizar e espalhar o caos. como um problema de sobrevivência nacional. a mais escura tirania que a história jamais viu. então seu sistema moral o é. que planeja impor a este mundo aprisionado. Por que não agir agora? Tomado em si. Primeiro. mostrando que. os cabeças ocas. A principal coisa errada com este “gavião de guerra ultraconservador” pode de fato nada ter a ver com conservadorismo ou belicosidade. Hispaniola. se alguém não o detiver. distorça ou engane. Cuba. é não entender clara e totalmente o que fazem. tentar apagar seus argumentos chamandolhes nomes tais como traficantes de guerra. O povo acredita nele. e que pretende alcançar tudo isto por meio da conquista gradativa de estados crescentemente menos marginais. que de suas janelas olham boquiabertos a atrocidade. depois de acabar com ela. Segundo. nada mais do que uma estação no caminho de conquistas para este nosso Xanadu. parece-me que isto tem muito pouco a ver com conservadorismo. a coisa certa a fazer é acorrer agora em sua defesa. um a um. ele em breve estará pondo seus dentes em nós. ódio e munição. inclusive nós. Assim. mas. é claro. então o povo tem todo o direito de perguntar: Por que não atacar esta ameaça em sua fonte? Quando nosso acreditado governo nos explica que a tomada vermelha do Vietnã (Laos. os covardes de coração vazio. com uma faca. Lembremos que o governo fala a seu povo com uma dimensão de autoridade. mas só aguçará o apetite do matador. porque é uma vítima inocente e não a defender é desonroso.

mas absoluto e sagrado. A guerra foge à relatividade política para se tornar transcendente e sublime. nossos líderes são obrigados a insistir que estamos no Vietnã para proteger nossos órgãos vitais de incremento nacional — um objetivo que não é prático e condicionado ao custo. Precisamos compreender (embora Johnson e Rostow nos deixem inseguros a esse respeito) que os técnicos políticos dos Departamentos de Estado e Defesa só fornecem. Aqui estamos num duelo de morte com um inimigo mais implacável. Isto é uma aflição do povo. em seus próprios termos.tar naquilo que os liberais vêm lhes fornecendo. e por conseguinte quer que a 145 . Porém. Indagar qual é o valor de manter o Vietnã se torna. nas garras dessa ideologia. uma grande quantidade de gente boa e forte encontrar-se-á atolada no irreal. e por conseguinte quer que a guerra seja empreendida com mais violência. é prático. e portanto no impulsionamento da política nacional. como talvez nunca antes. Adquire uma autoridade independente na explicação de eventos. Isso não ajudará aqueles a quem fizeram crédulos partidários dela. E quando ela desabar. Em termos dessa crença. Uma ideologia que tem origem numa distorção da história adquire um poder intrínseco para apoiar e ajudar distorções históricas. definido e talvez não de todo sem limites. um que é objeto de uma contabilidade de custo e para o qual deve haver um preço excessivo para pagar. e veja só. porque justificaram esta aventura em termos da ideologia do anticomunismo. O direitista aceita a descrição política. “Estamos em guerra total desde agora”. que disparate é falar sobre uma guerra “limitada” com objetivos “limitados”. dizem os direitistas — tão só apresentando de modo mais suscinto o que Truman lhes disse. A ponte ideológica entre o fato e a fantasia está-se tornando hoje insegura para a América. concreto. Sua cólera sacudirá a nação. o que Eisenhower e Kennedy permitiram-lhes acreditar. objetivam resolver a tensão que existe entre as descrições política e militar mais comuns da guerra. a condução da guerra já parece um ato de loucura. senão de perfídia. Uma grande minoria de americanos algum dia será traída. tão absurdo como perguntar o valor do rei num jogo de xadrez. o que as homílias de Johnson convenceram-nos de novo. O esquerdista repudia essa descrição política. a doutrina quase religiosa da Grande Conspiração. Vamos para o Vietnã para manter um segmento da esfera de influência da comunidade Ocidental do Atlântico Norte — um objetivo que. Para eles. mas eles mesmos não usam. nós a controlar os socos! As duas críticas básicas à guerra que têm correlação com as dissensões de esquerda e direita.

um 146 . não será para estes nossos “moderados” que virá a mais profunda e acabrunhante agonia. perante um alto tribunal militar francês. de sua miséria.. de ombros largos. um dos mais destacados moços. Como a América. que meramente tem substituído uma maldição. Ambos objetivam uma posição mais racional. A OAS objetivava nada menos que um coup d’état. cavalos de pernas quebradas. louro e honesto moço. A primeiro de agosto de 1962. um advogado do Primeiro Regimento de Pára-quedistas da Legião Estrangeira. quando chegar o tempo de arcar com as consequências. porque ele pode pelo menos reivindicar a severa compaixão de Macbeth: “Se tivesse de ser feito quando foi feito. o Capitão Estoup.” Se temos de destruir o Vietnã. Como aconteceu isso na França. “que um brilhante jovem cadete de St. a França justificou a guerra colonial em termos de imperativos coloniais transcendentes. então estaria bem que fosse feito com rapidez. Cyr. De certa forma este gavião de guerra é ainda mais humano do que os advogados da morte lenta. na academia militar. então tenhamos a misericórdia de fazê-lo com urgência e tirar aquela pobre gente. Não há nada parecido na América.guerra seja suspensa. perguntou. para os líderes da França. que era necessária a desocupação. e sua existência criou para a França o mais doloroso tormento interno. Ambos têm uma linha de argumento muito mais sólida do que o centro. o coração do humanismo europeu? Os liberais do Ocidente têm sobre isso uma teoria que lhes restaura a confiança: A OAS aconteceu porque havia fascistas no exército francês que queriam que ela acontecesse. A Organização do Exército Secreto (OAS) foi formada para resistir ao que seus membros sentiam ser a traição da nação.. E a muito triste verdade é que. A OAS era só o último estertor dos velhos colaboracionistas nazistas. Quando ficou claro. importantes elementos do exército francês se sentiram ultrajados. A França lutou para manter seu controle colonial da Argélia por muitas razões semelhantes às que mobilizam hoje a América no Vietnã. sumarizou assim sua defesa de um dos conspiradores da OAS: “Como pode acontecer”.. Mas examinemos de novo — não a América para encontrar fascistas. hoje aqui se poste acusado [de traição] ante uma corte militar?”22 Prestemos atenção no correspondente americano deste “brilhante jovem cadete” antes de prosseguirmos. com um coração cheio de bravura.. Imaginemos um bom. O exemplo da experiência francesa na Argélia é totalmente instrutivo. que é só confundido e enganado pelo seu próprio cacarejar dissimulador. porém para além do próprio labéu fascista. onde é exigida uma explicação.

“Eu não sei”. Era obrigação do cadete obter informação vital sobre o inimigo — “por todos os meios possíveis”.. Há. Todas as belas idéias e ilusões do jovem cadete de St. Sua voz é bem modulada. os graciosos olmos. Não há Mein Kampf escondido em seu baú. interior. Cummings “um orgulho de olhos azuis de um nação saudosa”. Cyr de Wyoming — que cabiam as mais odientas e perigosas tarefas. Mas vós direis. ele foi instruído para usar tortura.graduado de West Point de um lugar bem americano tal como Colorado Springs ou Trenton ou Seattle — na expressão de E. Não tem monóculo nem bigodes. Não precisa informar a este rapaz de Wyoming que suas 147 . Devemos imaginar os bailes em que dançou. Cyr desmoronam. por aqueles que detinham autoridade. É testemunho meu que. os amplos gramados verdes das quietas ruas de onde veio. eu não sei que tipo de perturbação mental deve sofrer alguém que dá uma ordem como esta. mas não arrogante. Tal é o vilão de peça: o traidor. armas de fogo. o motivo verdadeiro para as ações dos conspiradores era uma determinação secreta. para a borda deste abismo de destruição. e por seu bem. E. Tudo isso. Na análise final. Se os meios são justificados só pelo fim. Estoup continua a explicar que era aos membros das forças de elite — homens como nosso jovem cadete de St. morte. Tinha sido provado a ele que o desfecho da batalha dependia da informação que obtivesse. contudo.. mas eu conheço a sensação de choque e reação sofrida por aqueles que têm de executá-la.. em cujo nome a justiça está agora sendo feita. Cyr a cumprir a ordem?” Porque o fim básico tinha sido descrito a ele de tal forma que pareceu justificar os meios. Isto é. que o acusado era impelido. as sólidas velhas casas de madeira. “Então por que não se recusou o jovem cadete de St. silente. precisa saber que era em seu nome.. não há justificação alguma a menos que o fim seja alcançado. Se não o é. um trabalho a ser feito. atormentadora de não ter cometido crimes sem alcançar o objetivo. nada é deixado senão uma amostra insensata de sujas manchas indeléveis. para a maior parte..23 Ninguém melhor do que o próprio torturador sabe o que a tortura significa. Ninguém compreende o bombardeio melhor do que o bombardeador. melhor do que o atirador.. melhor do que quem mata. Preferia estar em casa. o algodão doce e as suaves noites de primavera e a namorada que deixou atrás dele. diz Estoup. estas são ações das almas danadas. sua conduta talvez um tanto retraída. Está orgulhoso. fazendo seu último e desesperado esforço para se vingar do demônio que as atraiu para o inferno. de sua Boina Verde. que estava em jogo a vitória da França. Não está feliz por se encontrar no Vietnã. O povo da França.

a Hóstia depositada na língua e coroas nos túmulos. aquela inocência adiada. E o que acontece com este estranho sangue selvagem? Ele se gruda permanentemente à pele das mãos que o derramaram. Nos futuros gestos destas mãos — isto é realmente muito simples — nós observaremos um aspecto da vingança do Vietnã. na América. amigos saudados. Ele é o especialista nisto. amor feito. se evapora do futuro. o nariz apertado em meditação. não será? As sujas manchas indeléveis um dia serão removidas? A água purificadora é a vitória. 148 . O sacrifício é redimido pelo renascimento para o qual ele prepara a terra conquistada.mãos estão sangrentas. será com tais mãos que crianças serão acalentadas. Precisamos ser capazes de entender uma coisa muito simples: De agora em diante. poemas escritos. Mas o sangue será lavado. coquetéis batidos. memorandos de escritório assinados. em cujo nome a culpa presente é carregada. Mas se não é trazida a água.

que é majoritária. daqueles descontentamentos que nos perseguem. A maior parte da gente comum do mundo rico preferiria muito mais nunca ter ao menos escutado falar do Vietnã ou Moçambique. quase fora de vista. onde miséria e violência são rotina. este pobre mundo. têm escutado que há um outro mundo longínquo. deve ser o exagero de alguém. dizemos (um termo favorito. na medida em que o usamos para culpá-lo de certos aborrecimentos nossos. Che Guevara1 Os jovens ao ingressarem nela [a FLN] estão sendo atraídos pelo excitamento da vida guerrilheira. Para a maior parte. McNamara2 Todos. Todos os países são diferentes e o progresso devia ser alcançado por meios pacíficos sempre que possível. nós só acreditamos nele. onde Mozart não tem sido amplamente ouvido. . Robert S. este. nem mencionar os cerca de 149 . nem Platão e Shakespeare muito estudados. no mundo rico. que. É o “chão de origem”. . onde dois terços de todos nós estamos vivendo.VI O Revoltado Matar é mau. É um mundo. de acordo com as instituições da maioria da classe média americana. envolvido com conotações de praga). um mundo que é fundamentalmente implausível.

um leme firme. desenvolvemos nossa teoria dos pobres diabos. E outro poderá tossir. um pouco de denodo. Às vezes contamos histórias sobre bravos missionários. covardes e errados. como acontece de quando em quando. Após a batalha de Piei Me em 1965. além nosso horizonte. estúpidos. quer os batistas. para animar. É ruim estar faminto. O fato correspondente sobre a maior parte dos americanos é que eles se sentem insultados por esse pedido. desonestos. Quando as estatísticas são recitadas pelo fogo das armas do homem pobre. Mas o que dizer da força moral do pedido? Quando as estatísticas da pobreza mundial nos alcançam. quer a persuasão da AID. do pioneiro automatizado — como podem as coisas ser vistas de outro modo? A classe média americana é a nação para a qual o obsoletismo vindouro da escolha moral tem sido revelada. das Forças Especiais. o Major Charles Beckwith. e mandamos um cheque à CARE. corajosos e corretos — Quem pode pensar tal coisa? Já que amamos roseiras e belas moças.trinta outros estados do mundo. sobre um oceano calmo. meneamos a cabeça. Mas é melhor ser faminto e paciente do que faminto e Vermelho. descreveu os 150 . porque ser Vermelho nos prova que toda esta fome era na realidade apenas um embuste. Alguém poderá citar a Aliança para o Progresso. inteligentes. Na terra da aventura de contrôle-remoto. do homem de fronteira habitante de escritório. Seu desejo mais intenso é não ser molestada por loucos que discordem disso. de tempos em tempos. podemos ver isto. uma viva aragem a seguir. somos mais decididos.” A América classe-média se vê como a Solução Final. O que deve ser difícil para qualquer nação parece fora de discussão para nós: Imaginar que podemos. Enquanto à espera de nossos bombardeiros. e poderemos aportar agora a qualquer tempo neste “Século da América. Provavelmente se dá o caso de um comunista não ter fome. ser os inimigos de homens que são justos. segundo a qual os miseráveis têm sido enganados por homens-do-contra comunistas. honestos. Às vezes estralamos a língua. Tais concepções são às vezes abaladas. O fato principal sobre o revolucionário é que ele pede mudança total. onde insurreições a longo prazo estão a caminho. podemos responder de várias maneiras características. A América classe-média é a condição mental que supõe ter sido avistado um novo e plástico Éden. Um ponto aqui e ali. nossos inimigos têm de ser injustos.

Primeiro. na linha de fogo. homens não põem em perigo suas vidas. Ele é politicamente extraordinário. por razões fúteis. Se pudéssemos conseguir mais dois. Menos obviamente. Mas não estou tentando descrever os Lênins. Segundo. outro americano disse de um vietcong capturado: “Devíamos pôr este cara no muro norte e dispensar estas tropas do Governo.” O Major Beckwith estava intrigado com a “elevada motivação” e a “elevada dedicação” desta força inimiga e sugeriu uma explicação: “Queria saber com que os estavam drogando para fazê-los lutar assim. Lênin. com tantos homens e mulheres do mundo. isso também implica em que a privação só pode ser política se não for universal. tornou-se um rebelde. Por que homens se rebelam? Tentemos descobrir o que pode possivelmente estar tão errado. Isto não significa que psicologicamente seja assim. por alguma combinação de estatísticas e princípios. uma vez foi uma criança que não falava de política. eu considero que o rebelde é muito parecido comigo. evidentemente.”3 Essa curiosidade. que pensamos estar-lhes oferecendo. para que possam lutar tão inflexivelmente para ficar do lado de fora do Éden. que potencial revolucionário existe só nas sociedades onde a miséria humana material é o termo denominador da maioria das relações sociais. Há sempre uns poucos que. Provavelmente poderia protegê-lo sozinho. teríamos todos os muros [do campo triangular] bem vigiados. e de outros. Seu compromisso foi baseado em princípios e originou-se de um desapego básico. Estou atrás daqueles anônimos. O rebelde é alguém que mudou. aqueles que (como colocou Brecht) abraçaram primeiro a revolução com as mãos e só mais tarde com a mente. O camponês que compara sua pobreza com a riqueza de outra pessoa está habilitado a 151 .combatentes da guerrilha da FLN como “os melhores soldados que jamais vi no mundo. é boa. É fora de dúvida. Minha suposição é que o que não pudesse me mover ao ato de rebelião não moveria outro homem. Terceiro. alguém a quem posso entender. podem ser persuadidos. mas para quem os Lênins deviam ter permanecido somente filósofos. primeiro. excetuados os americanos. não precisava materialmente da Revolução Russa.” Após a mesma batalha. Faço três suposições. pelo menos. Gostaria que pudéssemos recrutá-los. Ninguém pensa que banqueiros irão fazer distúrbios nas ruas. São hábeis guarda-livros da causa de permanecer vivos. Quando fazem algo perigoso é porque foram convencidos que não fazê-lo seria mais perigoso. cada um que hoje é um rebelde. a expor suas vidas. por exemplo.

Portanto ele pretende a verdade. uma réplica exata de si próprio. desperta a reação do escravo. Sua realidade exterior. pretende ser o que ele mesmo sabe ser.conceber que sua pobreza é especial. sem motivo. Essa reticência divina se propõe claramente a servir de exemplo. impede-o de contar a verdade. A realidade profunda da vítima mentirosa. às vezes. e mesmo se o senhor olhar. ele disfarça de si mesmo o fato de que não teve escolha. será a violência exacerbada do senhor que confronta o escravo com a autenticidade incorrigível de seu ato escravo. ou de alguma forma aliviem. Ao contrário. seu pedido de liberdade. pretende ter em suas mãos a verdade e julgá-la. “Eles o açoitaram morro acima”. desempenha o papel de sofredor e humilhado. O escravo é naquele momento colocado. Ele quer. um homem que quer simplesmente rejeitar sua humilhação. mas pela compreensão da injustiça. quebra-a. O senhor branco. às vezes a descoberta acidental de alguma força insuspeitada nele próprio. Tal ato seria imediatamente punido. dentro do espaço de sua auto-imagem. antes de tudo. por conseguinte. desse escravo que ele é. Mas faz também muito mais. “e Ele nunca disse uma palavra resmungada”. em escolhendo representar o que ele é. Em tal canção. impede-o contar um mentira. ou a violência agudamente ritualizada das quadrilhas do gueto são mentiras intencionais que intencionalmente contam a verdade. Isto estabelece um tema central: a cólera revolucionária não é produzida por privação. a fim de colocar um realce físico entre ele próprio e os olhos dos outros. Dizer que a fome não se torna uma sensação de rebelião até que coexista com comida é dizer que rebelião tem menos a ver com penúria do que com má distribuição. sua qualidade de vítima. E. o escravo escapa por detrás da imagem. Um homem negro canta “blues” sobre sua impotência. A mais antiga máscara. essa humilhação. coloca sua realidade à distância de um fingimento que difere das realidades. Com mais frequência. está 152 . só na medida em que é um fingimento. Um momento crucial vem quando alguma coisa rompe esta fina membrana de fingimento. O que pode fazer isso? Um lampejo de fraqueza em seu senhor. Não é que ele pretenda ser outra coisa que não um escravo. Porém a vítima auto-reconhecida não é desde logo seu próprio vingador. O escravo cria. sua solidão. à força. É. para a inspeção do senhor. o escravo desempenha o seu próprio papel e desta forma escapa. em meio a canção tira-lhe a guitarra. recriar seu mundo por intermédio de pantomimas sociais que transfigurem. refugiou-se por trás daquela imagem perfeita dele mesmo. do negro americano. contava o escravo negro. uma identidade social. atenciosa e atraente.

ante uma autoridade mais alta e distante. ao mesmo tempo. O que o compele à esperança. um diferente prefeito. o que parecera dado por Deus é feito pelo homem. um diferente xerife. Estando pela primeira vez de posse da idéia integral de que sua vida podia ser diferente não fosse pelos outros. uma opressão que a Alta Autoridade não pretendia inflingir. esta conduta ultrajante do xerife pertence estritamente a este xerife particular. ele é impotente. não precisava e não queria permitir. Tornada menos ocasional. e sabe melhor do que qualquer outro que é uma pessoa sem importância. não lhe sendo permitido nem representar o horror da situação de vítima pelo gesto que o expressa. Este encontro despoja a vida de sua formalidade e a devolve à pura substância primitiva. ou a complexidade de sua visão. Acareada a cada instante por essa coerência.) Encontramos nisto a política de apelo ao poder mais alto. descobre que também pode acusar. Ele já teve prova suficiente de sua impotência. Quando a vítima vê que o que parecera universal é local. E. Agora não pode se representar. Sua visão de mudança será nesta ocasião estreita e mundana. Ao contrário. Ele começa a se sentir escolhido pessoalmente. O elemento importante não é o escopo.psicologicamente fundido com este seu fingimento contador-de-verdade. mas a nítida existência da idéia de que pode sobrevir uma mudança. sua política ingênua: Talvez ele só quisesse um diferente senhor rural. que o que parecera qualidade é mera condição sua. de que. vestido de branco. rara. este xerife representa somente um desacerto local dentro de um sistema que a vítima apenas percebe e certamente não acusa. Agora ele nada mais é senão o foco de injustiça. a injustiça fica mais coerente. ele é solitário. da reencenação da realidade. permanente imobilidade desaparece permanentemente. é a vaga noção que seu algoz é responsável. de forma alguma. Para a vítima não há mais nem mesmo a fuga frágil. (Uma vez que Robin Hood encontre o Rei Richard. a vítima pode achar que já não é tão fácil evitar a verdade de que seu sofrimento é causado. é um acidente haver tantas diferenças entre sua vida e a vida do homem completo. ele deve ser aquele homem sobre o qual tentara cantar. quem está para ser o agente desta mudança? Por certo não a própria vítima. o “Sheriff” de Nottingham está bem arranjado. ele é pela primeira vez alguém que pode agir. na grande casa da encosta da colina. Isto é. contudo. Redescobre a idéia do sistema de força. que con153 . não à condição de xerife. Ele vive totalmente agora em seu espaço de vítima. Então. sem meios. por enquanto.

As demonstrações de protesto contra a guerra do Vietnã não são diferentes. A idéia principal tem sido sempre persuadir a autoridade mais alta — Congresso. às vezes. mesmo quando está elaborada dentro da. aparentemente.* Algumas vezes a secular prece baseada na massa tem resultado em mudança. tem somente mostrado aos peticionários-vitimas que o problema é mais grave e a mudança mais difícil de obter do que tinham imaginado. Acontece que o rei está do lado deles. mais frequentemente. Ele descobre que o inimigo não é um punhado de homens mas todo um sistema. estas demonstrações. e a responder. Porém este desespero contém o presságio daquela destrutiva reconstituição final do espírito que preparará o descontente. Ele é desviado por um desespero mais realista. Esta linha de pensamento levou os camponeses e padres ao massacre da Praça do Kremlim em 1905. na verdade. uma presunção central dela é que o rei não é mau. Porém. Em vez de meramente escrever a história do agravo. as ocupações não-violentas e as várias marchas para o “Deep South” tinham origem na mesma crença: havia ainda um poder alto que era responsável e decente. 154 . e que não tem intenção de mudar nada. sem dúvida o ponto espiritual mais primário da educação do revolucionário em surgimento. Sua condição de oração permanece básica. que a maquinaria administrativa e coercitivo-punitiva do estado existe precisamente para servir os influentes. enquanto o movimento antiguerra não fôr capaz de imaginar uma ameaça que possa realmente valer. reproduziam o próprio agravo em cenários que forçaram todos a observá-lo.duziu a alguns momentos pungentes da história. Eles sabem distin* O que não era novo era a maneira pela qual estas formas alargaram o conceito de petição. Longe de pôr em dúvida a autoridade mais alta. o criminoso para a mudança em direção à insurreição. publicado por destacados intelectuais vietnamitas em 1960. Os discursos que elas ocasionam podem. impetuosamente militantes. parecer peculiarmente combativos. Acontece que o poderoso sabe perfeitamente bem quem são suas vítimas e porque deve haver vítimas. ocupando e violentamente protegendo seus centros de controle. Xerifes maus existem por toda parte. É a mesma coisa que uma prece. em 1963. As Marchas pela Liberdade. Porém. deu as razões da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade. mais politicamente agressiva petição de massa ao rei. revolução. o lutador. rebelião. inclusive o czar. cujos agentes saturam a sociedade. ONU. só desinformado. Sugeriu o assim chamado Manifesto dos Dezoito. Este reconhecimento é da maior importância. de fato dramatizam e exageram sua força. esta defrontação mais violenta permanece basicamente uma espécie de entretenimento. Ele entretivera certas esperanças sobre os poderosos. Bobby Kennedy — a fazer algo. parece não haver outra espécie.

nem mesmo em parte. os que são vítimas — devem ter todo. desejando ter encontrado neste rebelde uma pessoa responsável. mudança total significa só que aqueles que agora detêm todo o poder não mais devem ter nenhum. O homem que acredita que mudança só pode vir de sua própria iniciativa não será inclinado a pensar que a mudança possa ser parcial. a um certo nível. que substitui todos os “problemas” pela grande pretensão única de que o sistema todo é um erro. Portanto responde. absolver e suspender a execução de um inimigo que já foi sentenciado. não deixa exatamente motivo — de novo. Para ele. teria de aceitar de certa forma. “Que posso lhe dar?” interroga. contudo. Está agora instruído de que estas esperanças são extravagantes. Os compromissos que forem tomados por agora serão acertados por seus líderes tranquilamente “realistas” e serão apresentados a ele como uma vitória total. sendo este repúdio total. A resposta se destina principalmente a acabar com a conferência. Porém a mais importante. porque derrubou e redefiniu por completo os “problemas” aos quais se referiam.guir justiça de injustiça. Então que significado terá falar de compromisso? Compromisso é de certa forma. talvez intimidado senhor. um homem do mundo como ele próprio. sem a qual um compromisso não é nem mesmo tecnicamente possível. Mas. não apenas uma chispa de orgulho. estão dispostos a mudar. nem mesmo o motivo — para criar aquela conversação. “O que quer?” indaga o aborrecido. e que aqueles que agora não tem nenhum — o povo. esta resposta nada mais é que uma eva155 . embora revisada. a mais ardilosa feição desta imoderação é que ele pode ser impotente para mudá-la. O rebelde é um absolutista incorrigível. Isto restaura explicitamente a legitimidade da mesma autoridade com que o rebelde se define pelo repúdio. é um comentário fundamental. todas as “soluções” pela única exigência irredutível de que a mudança seja total. Mas o salto para a revolução deixou estas “soluções” para trás. Antes de poder ver as coisas de outro modo. Mas o rebelde não consegue ver o significado real desta palavra dar. apoiando a primeira. No âmago de seu desespero está a nova certeza de que não haverá mudança que não seja produzida por ele mesmo. Informa ao senhor que ele não mais existe. Em outro nível. “Eu não posso ser negociado”. o poder ao qual agora se opõe. De outro modo nada há para discutir. Ele só pode transigir com a autoridade anti-rebelados se estiver de posse de “soluções” específicas para aqueles “problemas” que finalmente o conduziram à revolta. Ele próprio é imoderado e não conciliatório. realista. todas as diagnoses da moléstia por um certificado final de óbito.

um Mao. o xerife? Não importa. o dono. É o presente. Indústria? Agricultura? Comércio exterior? Não são tais assuntos que o impulsionam e preocupam.são. Em seu favor. no momento. não precede. olhando de soslaio por cima dos ombros. a falta de um xerife. Não é nem um economista. O rebelde luta por algo que não será como isto. um Castro.” Acontece que pelo menos o espírito de socialismo estará implicado pela dinâmica interna da revolta de massa: O que foi ganho coletivamente deve ser possuído coletivamente. O senhor parece ter solicitado as idéias do rebelde sobre a sociedade revolucionária. que intelectuais revolucionários pretendem ter tomado emprestado da história. nem um político. ou mesmo que elas a precedem e ativam. diz o revolucionário. a explosão do fundo d’alma 156 . Se é então advertido de que este “algo” indefinido pode acabar por fazer as coisas piores. O revolucionário não é do tipo de um Lênin. pode parecer que elas surgem no mesmo instante que a cólera destrutiva. disseram: “O que temos aqui como modo de vida não pode mais ser tolerado. qualquer sociedade na qual certos indivíduos não mais tenham poder. por mais agudo que se venha a tornar. ou ainda a causam. mas destruir um Inferno.” O motivo revolucionário fundamental não é construir um Paraíso. Não é o futuro que o torna vítima. O rebelde ficaria embaraçado em confessar a verdade: que ele não tem tais idéias. Pode tornar-se isto. Quem ou o quê substituirá o proprietário. Isto é sempre uma ilusão produzida pela analítica social prognosticadora. Em tempo idéias utópicas aparecerão. não mais existam. Podemos estar certos de que o povo não disse: “Eis um plano para uma vida melhor — socialismo. jogaremos tudo ao vento e arriscaremos nossos pescoços. Seu bom mundo futuro é descrito elementarmente por espaços vazios: a falta de um proprietário. Mas nunca será por demais enfatizado que o interesse em desenvolver outras formas especiais. menos ainda de um Brezhnev.” Pelo contrário. em última instância deve. O futuro vitorioso é. Portanto. mas de algo que não mais deve estar lá. Porque o mundo tem agora um passado revolucionário. sua resposta é clara: “Então teremos de continuar a revolução. Algo melhor. Ele nos provou que é bom. ideal. Não pode responder a pergunta sobre o futuro porque esta não é sua questão. a falta de um dono de mina. Não é uma utopia antecipada que o impele a arriscar sua vida. “Mude isto!” ele grita. devemos nos defender. segue. porque não pode mais suportá-lo como é. Montes o chamou. Mas sua visão motivadora de mudança é na raiz uma visão de algo ausente — não de algo que deve estar lá. É o sofrimento. nem um filósofo social.

da arrogância do patron. Logo deixa de se impressionar e se torna apático ante a Grandeza Ocidental. É esta fala muito antiga. não é preciso falar de sociedades sem classes. não conduz diretamente à ação política. Quase sempre. é verdade. O escritório do usurário e o Chase Manhattan Bank. desde que existe. dos esquifes das crianças. Não é culpa dele estar sua fantasia repleta agora de explosões e ardentes rendas espanholas. cuja irresponsabilidade foi decretada por outros. dos poucos centavos pagos pelo árduo trabalho diário. O rebelde é alguém para o qual injustiça e impiedade são apenas palavras diferentes para a mesma coisa. es cierto!” Sim. “Si. que. para “propaganda armada”. O rebelde é um homem irresponsável. desafortunadamente sempre nova — que finalmente põe o círculo a retumbar com o grito desafiante. vistos da rua 137. Nenhuma porta pública é marcada durante a noite com o aviso que permite sua sobrevivência. o homem que está ficando revoltado vê alguma coisa que não é sua. no momento em que a vítima elabore sua experiência de injustiça dentro de uma definição que inclua a sociedade na qual vive. Nada no mundo social do senhor é poupado do desprezo desta definição.contra a injustiça. pouco a pouco. Não adianta falar a ele na necessidade de proteger tradições e preservar instituições. ou a ajudar a sociedade a evoluir sistematicamente para algo melhor. O rebelde é alguém que não tem o que perder. Apesar da justiça que lhe prometem. São todos possuídos por outro. Esta pertence ao patron. absorve tudo à vista. Quando Turcios leva seu bando rebelde a uma aldeia da Guatemala. Onde quer que olhe. dos altos preços. Sabe muito bem que não é em seu nome que a virtude está sendo usada desta maneira. são muito parecidos. E aquele primeiro acionador não acionado pertence a nada. que é a única redenção do danado. Alguém se ajoelha no centro do círculo e começa a falar de sua vida. A boa terra que o campesino trabalha pertence à hacienda. É um número desnecessário. o patron pertence à United Fruit Company. pela primeira vez. esta alienação radical da autoridade passada e presente. Coney Island e Lincoln Center. Um compromisso com a violência apenas se tornou possível neste ponto. podem ser igualmente outros tantos escolhos. um que voga dentro de uma vida que será memorável principalmente por suas humilhações. Temos um homem que certamente não intervirá num incidente de rua em benefício 157 . o campesino fixa os olhos com espanto não envergonhado nestes arranha-céus. Mas esta nova consciência. Consciência revolucionária existirá. Só por um breve momento. Algo terá de ser feito.

nem mais homem livre. escolheu a nova. cuidadosamente racionalizados. onde tinha havido antes só sossego e rotina. não foi? É a nova dedução de rebelião em verdade tão diferente. O que há de errado com este homem que pensa que as coisas podem mudar sem serem mudadas? Que sabe tudo e nada faz? Nada está errado com ele a não ser o fato de que é um ser humano. significam uma coisa: Ele quer ser livre. dois homens morrem. Mas isso não diminuiu a servidão.“da lei e da ordem”. Todas estas desculpas. a liquidez de escolha. Seu desejo de uma vida privada independente tem sido intensificado por toda parte pelas condições que a proíbem. Quando ele muda Eu posso por Eu hei de. Manterá a conversação aberta e a navalha fechada. Isto não o torna menos escravo. Mas parece reconhecer nesta solicitação uma velha presença familiar. Foi tragado antes por esta história. Ele portanto contemporiza com a liberdade. Entendeu sua situação e as exigências que ela faz. Ele pode mesmo denunciar um movimento de tropas governamentais ou abrigar um “fora da lei”. Quando o escravo concebe a rebelião e permanece escravo. Quem sabe as coisas entregues a si mesmas andarão melhor. está agora afiando facas? Que ele se tenha mudado de uma disciplina para outra não esconde o fato de que permanece sob disciplina. que foi por um momento uma profusa nebulosa de possibilidade. da velha coerção da escravatura? Não estão sua vida privada e sua liberdade preenchidas igualmente por ambas? É o rebelde algo mais do que o mesmo objeto cativo em roupas diferentes. Mas onde está a liberdade deste ex-escravo que. da qual se considera a maior vítima. Quer dizer que o escravo morre também e que o homem livre se materializa em seu lugar. é liberdade. Mas pode também achar uma razão tática para se incorporar a uma marcha “moderada” ou aplaudir um discurso “razoável” ou não fazer nada em absoluto. Não entra. uma liberdade transitória. Sabe que está sendo solicitado a se tornar um objeto histórico. o homem livre foi divisado só no momento em que ele disse: Eu posso! Eu hei de! Naquele momento o mundo todo foi abalado por sua exultação. em vez de cortar cana. Pode ser dito que. pelo menos. raciocina Sartre. quando toma o rifle e muda Eu hei de por Eu sou este homem. desempenhando um novo papel? Quando o escravo mata o senhor. está desaparecendo em outra 158 . a imagem é quase preponderante. pode-se dizer que escolheu sua escravidão. Ele para à vitrina de um vendedor de armas de fogo. Por toda parte viu comoção e incerteza. Em momentos excepcionais tolerará falar de reforma. estes cuidados e demoras. Prossegue até a vitrina de uma agência de fuga. Isto não é irresolução. De fato. Muito bem. no fundo.

mais nobres e mais baixos. Isto é excelente aviso para o carrasco. na Lexington Avenue. Mas sempre ele está para ser varrido para fora. De toda a gente. É menos esclarecedor para a vítima. livrar-se destes títulos. Ele só está livre para escolher entre dois duros senhores. Ele não está em liberdade para ser somente um não escravo. Não devemos pensar que ele lança seu coquetel Molotov com um uivo de júbilo. A vítima não pertence àquela categoria de homens para quem a ação pode ser regulada por tal conselho. o titubeio. Isto não significa que ele se reconhecerá como o objeto do brilhante epíteto de Camus. seu futuro. concretizou-se num objeto específico. Não devemos meter em nossas cabeças que o rebelde deseja ser um rebelde. Sartre devia ter estado suficientemente distante de seu partidarismo para ver que neste caso liberdade era somente a possibilidade de transição de um contrato obrigatório para outro — e portanto não liberdade. Lutará para fugir a esta encruzilhada. está transformando a si próprio em outra imagem: a do rebelde. com frequência cita como ilustrações de estudo de casos os L’Être et le Néant [O Ser e o Nada] de Sartre. Não é como se suas sutilezas limitassem sua influência aos burgueses radicais que as analisam e denominam. O apêndice psiquiátrico ao The Wretched of the Earth [O Miserável da Terra] de Fanon. mas a ser este rebelde. assim o rebelde se encontra isolado dela pela decisão a que sua vida o forçou. Como o escravo se encontrou isolado da liberdade pela força do senhor. muito 159 . talvez mesmo além de sua profundidade. “carrasco privilegiado”. exceto mudá-la por outra. Eu penso que Camus não percebeu isto. é um caso claro de ou/ou. ele não é seu próprio dono. nos quais pode ser perdida. Liberdade não é um êxtase reservado aos europeus esclarecidos. Uma vez mais. Para o escravo não há simplesmente meio de pôr um fim à sua servidão habitual. Doutra forma não posso entender como pode acreditar estar estabelecendo um útil e relevante ponto moral. e seus benefícios não são limitados pelo fato bem conhecido de que há caminhos melhores e piores. são sacudidos e iluminados por este tormento. Não fiquem desiludidos pelo racionalismo destes conceitos. Uma vez mais. para equilibrarse no extremo entre eles. de um lado ou outro.atitude. muito menos com um sorriso afetado no rosto. Para ele. somente sob certas condições. Temos que surpreender o recuo. não a meramente deixar de ser um escravo. quando afirma que homens não podem ser “nem vítimas nem carrascos”. Liberdade não é algo que somente certos homens descobrirão. que esteve por um momento dissolvido. Vagabundos. aqueles momentos em que ele inexplicavelmente se desvia.

É cruel pretender que nós não. Já que quer ser livre. porém outros. O escravo rebelde se evade de ambos os cativeiros por meio da recusa em destruir um ou outro. Essa tensão só pode ser controlada pela ironia. ao mesmo tempo nunca deixando qualquer um esquecer a fatalidade da própria situação. uma vez que o escravo é precisamente aquela pessoa que não pode de modo algum se definir sem cometer o ato de rebelião. Como se pode considerar que faz uma escolha quando escolher alguma coisa já é demonstrar rebelião? O dilema deste homem quase pode ser tocado com as mãos. É tentalizar-se com a possibilidade de que ninguém pode fazer nada. como se perseguição. A mesma agilidade interior que protegera seu espírito da subjugação do seu corpo. já se definiu como rebelde. No momento em que ele é mais apressado por sua revulsão. permanecer localizado exatamente apenas atrás dos próprios compromissos. A escolha parece jazer entre se 160 . Já que não pode renunciar à rebelião. é o desespero com o qual ela tenta pertencer àquela categoria. Pelo contrário. Nada quer senão liberdade. sofrer hostilização constituíssem uma carreira. Logo que o escravo se define como outro que não o escravo. Ser “frio” é usar a liberdade sem negar de modo algum que há um logro envolvido. para desviar a nova versão da velha ameaça. O que é tão pungente no referente à vítima. de algum modo. O rebelde terá resistido ferozmente à sua rebelião. um revolucionário. tornar-se útil para Camus. pode também estar mais alarmado por ver que está para ser reduzido àquela revulsão. e se condena a si própria. Também o coloca contra as forças internas e externas que o pressionam a se definir. uma palavra que apenas poderia ser traduzida para os idiomas de gente oprimida — “línguas nativas”. Essa simples reivindicação coloca-o contra a injustiça de ser definido pelo senhor. não permitirá a perda do que Harlem chamou sua “frieza”. que está em perigo de transformar-se nela — de transformar-se num revoltado. de fato. o escravo não pode renunciar à rebelião. Afetará por muito tempo uma espécie de reserva. Porém a evasão é somente uma forma mais precária da antiga auto-representação ritualizada. vingança. pois esta é a categoria de homens livres. Ser “frio” é flutuar sobre as próprias decisões.menos que. o mesmo bom estratagema que guardou-o de se tornar para si mesmo aquele escravo que ele não podia impedir de ser para outros — este talento para a sobrevivência interior agora está de pé. prefira ser uma tal coisa. são de tal forma espantosamente estranhos a ponto de escolher vidas despedaçadas. suspira famintamente por liberdade.

Na situação crítica em que estamos vivendo agora. “Chegamos ao ponto”. escreve alguém do movimento subterrâneo brasileiro. De modo mais simpático. há toda a diferença do mundo entre os dois. Desejando somente que sua vida objetiva possa ter um pouco da variedade e elasticidade de uma vida subjetiva. realçando suas aspirações. Nós somos absolutamente fervorosos. Com menos simpatia. Como podem homens comuns ser a um tempo calorosos bastante para quererem o que os revolucionários dizem querer (humanidade). seu tom de voz atribui a ele mesmo uma decisão que se originou alhures. está sempre redescobrindo que isto só será possível se ele trocar variedade por concentração.” Quem quer que deseje saber de onde vem a estranha capacidade da revolução para o terror e a inocência encontrará a resposta vibrando entre estas duas últimas sentenças. se tomamos o machismo do rebelde tal é oferecido. alguém levado a desfigurar o que preza mais altamente. pode ser levantada numa íntima saudação para a “humanidade”? Daí o retrato que o rebelde traça de si mesmo: um soldado absolutamente fervoroso da humanidade do homem. Em jogo está a humanidade do homem.submeter a matar e cometer suicídio. realçando suas ações. O revolucionário é alguém que não é nada mais a fim de ser tudo o mais. podemos então decidir que ele é trágico. Se o acompanhamos na aceitação desse retrato. ‘’Absolutamente fervoroso” é um eufemismo para “desesperado”. então provavelmente nos convenceremos de que caiu na armadilha de uma completa contradição moral que pode ser resolvida só de uma ou duas maneiras. frios bastante para fazerem sem remorso o que eles são capazes de fazer (cortar gargantas). Quando a figura “trágica” afirma que sua causa é “a humanidade do homem”. integrados e distintos? Como é que uma destas paixões não invade e devora a outra? Como é que a faca que ainda está úmida do sangue de uma pessoa. “de fazer uma vigorosa distinção entre ser esquerdista — mesmo radicalmente esquerdista — e ser revolucionário. ou ele esqueceu a maneira como veio ou deixou de ver que negar uma coisa não é o mesmo que afirmar o 161 . A liberdade está sempre lhe escapando por sua cólera ou sua fadiga. elasticidade por disciplina. podemos encontrar nele o hipócrita criminoso que cinicamente pretende que a morte é só relativamente má. e das lágrimas de uma terceira. Ambos os enfoques estão errados. e o bastante ponderados na turbulência de suas vidas para manter a aspiração e o ato a um tempo. Quando o “criminoso” afirma que ele é “absolutamente fervoroso”.

É esta privação de escolha que faz a diferença entre o “revolucioná162 . “A humanidade do homem” é um eufemismo para “sobrevivência”. ambiguidade. Estão mesmo tentando triturá-lo contra ela. Tornou-se a peçonha da qual tentou ficar afastado. O rebelde é alguém que não mais é livre para escolher nem mesmo sua própria dócil servidão. e que há algo como revolução. um dilúvio psíquico que encharca tudo à sua frente. hostilização. Mas não é ainda um homem revolucionário. tornou-se uma vítima auto-consciente que entende que ninguém mudará as coisas para ele. Foi reduzido de escravo a prisioneiro. Possuído totalmente por seu dilema. não sua pessoa. brasileiros que se juntaram a Turcios. sua situação. e portanto sob sua orientação. irônico. Não se trata mais de estar diante de dois objetos e escolher o que ele será. De alguém cuja reação à sua própria condição de vítima era resignação e fuga ritual. Mondlane. Exceto a rebelião. A despeito dele próprio. O homem miserável chegou à beira da violência. ausência de futuro que deram a ela seu conteúdo mortal. não é mais capaz de fazer nem mesmo uma distinção subjetiva entre o dilema e ele próprio. foi por um tempo ainda algo que podia deixar a seu lado e contemplar ou representar. como sua humilhação precedente. está em seu ato de ter. A aparente estranha liberdade do rebelde. Mas isto muda. É oblíquo. de prisioneiro a condenado. Sua cólera. que ele próprio deve encetar a ação. cuja simpatia tenta não se tornar envolvimento irreversível. moçambicanos. O que o impele para a linha divisória? Qual a diferença entre os lavradores guatemaltecos. que o brasileiro nos informa ser tão crítica? Se estou certo em pensar que os homens resistem ao perigo e querem liberdade de todas as servidões.oposto. O rebelde é alguém que aceitou a morte. Alípio nas montanhas e aqueles de pensamento semelhante que permaneceram espectadores nas aldeias? Qual a diferença entre o “revolucionário” o “esquerdista radical”. alguém cujo desprendimento procura não se tornar perfídia. é empurrado para o mesmo espaço que anteriormente separara para sua cólera. nada há. afirmado a única vida que é valiosa para ele. Foi empurrado contra a parede. e portanto aquele orgulho dele. elegante e tem sangue-frio. então se segue que rebelião não se concretiza até que se tenha tornado compulsória. finalmente. reserva. que é tão enorme que chega a ponto de apequenar tudo o mais. Este homem abstrato atravessou um bom número de mudanças. Está fundido com ela — com a pobreza. Pode muito bem compor todo um hábito de vida sem hesitação.

não pensando em fazer mal. Foi-lhe segredado que deve esconder-se. Isto aconteceu. porque pressupõe que o rebelde teve uma escolha. Inocentemente. mas parece que ninguém aceitará suas desculpas. e ser logo rodeado pelos homens brancos que diziam: “Vejam como se torce. que pode não ser de todo “radical”. de homem. Um dia ele emerge de sua educação . Para onde irá este sujeito pacato. acreditando que os homens eram bons. Deixem que morra. totalmente nova. agora que 163 . Um terceiro falou de uma união. será para nós o verdadeiro escravo assustador que descobriu sua força para sair da escravidão. observou seu mundo. Porém esta distinção. longe disso. Outro que acompanhou uma marcha da liberdade. uma pessoa mais humilde. Era educado. neste caso. cometeu o crime do neutralismo. Um sujeito pacato que falava pela paz entre a cidade e o campo. Isto nos dá o direito de ameaçá-lo como um criminoso. se apresenta ante os poderosos. e incapaz de se desfazer deles. faz uma modesta sugestão. obriga-nos a inventar uma segunda definição. para ver alguém enforcado por idéias perigosas. que se congratulassem com ele por ter ingressado no campo de Sócrates e Bruno. a policia tem seu nome. verdade isto. Seu filho é arrancado da cama na madrugada seguinte. este viu um velho negro cair devido ao calor. As coisas eram diferentes e agora ele está na prisão fazendo planos. O rebelde. Sobreviveu à bomba que destruiu sua família. Eis aqui outro. Isto aconteceu. Impotente para não agir assim. Há uma explicação mais mundana. Barriga roncando mas de chapéu na mão. Isto nos permite distinguir com a nossa piedade aquelas “mulheres e crianças inocentes” que nossas bombas também destroem. achou-se de posse de certas conclusões: Aqui não há justiça. e o “radical” que pode nunca se tornar “revolucionário”. como se não houvesse nada errado em matar rebeldes homens adultos. pondera delicadamente que há grão sem uso nos silos e terra sem lavrar. Eis aqui alguém que estava feliz. uma definição para pôr do lado daquela que reservamos para nós mesmos.” Isto é memorável. Quem determinou que acontecesse esta das mais severas e absolutas reduções? Nós ocidentais satisfeitos pensamos que seja o próprio rebelde.rio”. honra aquilo. não os acusa de serem poderosos. Foi sistematicamente metido em sua cabeça que justiça é tal e tal. Sem dúvida esperou vagamente que lhe agradecessem por isto. Não tendo outros conceitos senão aqueles que foram marteladas em seu cérebro. falou os nomes dos culpados.

o escravo cospe uma praga. Uma outra semana e descobre que não pode mais ensinar. Não há condenações. infelicidade provada constitui um assalto criminoso contra a paz. Contudo. porque só está tentando satisfazer seu agora insaciável apetite de segurança. Seus partidários o abandonam. Um grupo propõe reformular a idéia de não violência. Como se estivesse de fato tentando produzir a colérica chicotada de resposta. Só quer saber que ainda é respeitado. Quer ver o escravo beijando suas cadeias. Afinal a estabilidade deve ser assegurada. murmura entredentes o escravo. se não amado. Mas o senhor parece se tornar menos e menos confiante com cada uma de suas vitórias. Não se encontram indícios. “Eu te amo. a facção avançada apressa-se com uma censura sentenciosa: “Tática ruim! Não há jeito de mudar os corações humanos!” É quase cômico. o senhor empurra a face do escravo cada vez mais profundamente para dentro das realidades de sua situação. A taxa de assassinatos em Dixie cresce de ano para ano. A paz precisa ser mantida. O senhor está inseguro a respeito de algo. A polícia está confusa. Seus partidários estão alarmados. senhor”. o chicote é o melhor pacificador. Tentando só reduzir sua dor por um momento. Duas bombas explodem em San Francisco. Outro grupo se arma. Uma semana mais tarde vem a saber que seu nome foi ligado ao de certos inimigos da sociedade. Agora exige que o escravo afirme sua felicidade. pensando roubar um 164 . Um dia o telefone de alguém revela um estalido peculiar. Não há prisões. um apetite que na realidade se tornou um vício. o escravo se submete.é um criminoso? Um estudioso especula num artigo público que certos aspectos do sistema de comércio exterior de sua nação são desvantajosos para o desenvolvimento. que as coisas ficam como devem. Chocado por descobrir que um escravo pode ter aprendido a praguejar. A facção retrógrada tira disto prova convincente de que sua avaliação da situação tinha sido correta: “Estão vendo esta docilidade? Afinal. em New York. e que não está sendo incubada aqui nenhuma ameaça à paz. olhando de soslaio entre as duas grosseiras botas.” Exasperado. Dois pacifistas são alvejados em Richmond. Ocorrem pancadarias de natureza política entre bandos. o senhor deve ser desculpado. Suspeita de infelicidade no escravo torna-se base para sua detenção.

O rebelde é também o homem a quem a América chamou “o comunista” e considerou inimigo.momento de descanso. é prontamente alvejado. A explicação do senhor soa verdadeira: “Era um mentiroso. O homem a quem a América reclama o direito de matar.” O rebelde é o homem para quem foi decretado que só há uma saída. Tem de ter sido. Sem causar surpresa verdadeira em ninguém. 165 . Mentirosos não merecem confiança e são perigosos.

166 .

em conjunto. a constante denominadora da história moderna. sua dolorosa construção de democracia constitucional — estas realizações interligadas têm sido financiadas pelo roubo assegurado chamado imperialismo. sua abundância material. Desde o tempo da decadência do Império Islâmico e o empalidecer da Idade Média. a Inglaterra na América do Norte. O épico da fronteira americana copiou. o florescimento de suas artes e ciências. Tendo ocupado o continente norteamericano e reunido e centralizado seu poder. Fredrick Jackson Turner1 Se as guerras travadas para a aquisição do império são politicamente o mesmo que guerras travadas para a proteção de impérios já adquiridos. então não há diferença radical entre a política que os Estados Unidos emprega no Vietnã e a política que a Espanha empregou no México. a França na África do Norte e toda a apavorante armada das potências européias. em escala continental.VII Duas Questões Revistas Podemos traçar a contenda entre o capitalista e o pioneiro democrático desde os mais remotos dias coloniais. desde o início da grande Renascença comercial do norte. 167 . a história mais ampla e geral dos imperialismos transoceânicos. na velha Ásia. A grandeza do liberalismo ocidental. a dinâmica expansionista da cultura comercial Ocidental tem sido a raiz.

justificado. As guerras do tipo vietnamita serão tão típicas de nosso futuro cada vez pior. ao contrário. institucionais. burocratizados. então há uma segunda questão a ser revista. a leste para as Filipinas. Selvagens). fez uma estranha profecia: Junto com a máquina. Brota. agora chamada “desenvolver o subdesenvolvido”. cujo interesse especial se torna a extensão do uso de suas técnicas. mais íntima para os americanos do que a primeira. do desenvolvimento de técnicas que tornam possível uma tal racionalização.2 O impulso para a “racionalização” do estado não é o produto desta ou daquela filosofia política. ao sul para o Caribe. de grupos profissionais de elite. agora chamada “responsabilidade do Mundo Livre”. E se a história é cumulativa. em sua aula inaugural. aquiescente e impotente enquanto um bem puramente técnico — isto é. da consolidação. o Japão e o continente da Ásia. nas quais talvez o homem será um dia como os camponeses no antigo Estado Egípcio. esta ainda mais pessoal. e da coordenação de tais grupos dentro das estruturas de poder maiores. como de costume.sem hesitação os Estados Unidos seguiram seu próprio rumo de construção de império. Pugnam. gargantuesco agora. a organização burocracia está empenhada em erguer as casas de servidão do futuro. derrotar os Pagãos (Bárbaros. conquista da região inculta. na Universidade de Freiburg. administração oficial racional e provisão — se torna o valor único e final. 168 . que soberanamente decide a direção de seus negócios. em torno daquelas técnicas. um dos maiores economistas sociais modernos do Ocidente. Max Weber. em qualquer caso. uma figura que agora é posta em voga se secularizada como a Ameaça Vermelha — igual aos pele vermelhas. por algumas combinações dos três elementos tradicionais da ideologia imperialista ortodoxa: manter a paz. só mais feroz e mais resistente e astuto. os americanos terão de fazer uma escolha entre continuar o roubo ou pará-lo. Por volta do final do século XIX. este Vermelho. Primeira questão revista: Em vez de uma escolha entre liberdade e tirania. O mesmo saque contínuo. para se perpetuar e estender o território social no qual sua influência é dominante. em vez de repetitiva. Não importa muito se estas estruturas de poder chamam-se “públicas” ou “privadas”. como têm sido de nosso lamentável passado. incorporadas.

. visão e interesse formam o estado-maior da indústria. de um ponto de vista “capitalista”.. No que diz respeito a fusões conglomeradas.. Vejamos se o sistema que ele prediz. da biografia de seu avô John Quincy Adams.e.4 À luz das precedentes passagens citadas.. É essencial que este corpo de especialistas tecnológicos. sem levar em conta quaisquer pretensões nacionais ou quaisquer interesses investidos.. Mas isto nunca teria sucedido ao se efetuar o estabelecimento da Constituição [i. de um forte governo central] se não tivessem recebido a ativa e determinada cooperação de 169 . Os especialistas tecnológicos. reflitamos sobre a seguinte. enquanto conservamos vivos na política antitruste uma coleção de ideais derivados da forma de conservadorismo de Bryan-Brandeis (sic) que denigre o sistema de negócios que temos. é assim tão diferente do solicitado por Thorstein Veblen.. quase todos os oficiais generais que sobreviveram à guerra. e um grande número dos cidadãos abastados dentro da linha das cidades costeiras e regiões populosas. levando a efeito uma sociedade inovadora. escrita por Charles Francis Adams. sejam aplicados em novos mercados que podiam de outro modo fenecer por falta destes ingredientes.. podia ser encontrado um grande grupo dos patriotas da Revolução. A tendência para se conglomerar permite que o capital incorporado. cujo trabalho é controlar a estratégia da produção.Examinemos de novo a profecia de Weber. Cada ano o sistema de negócios grita mais alto aos homens de independência e caráter para tomar em suas mãos maciça carga nova de decisão. ou a habilidade de direção. equipamento e mão de obra. Entre os federalistas. tenha liberdade na utilização de seus recursos disponíveis em materiais. cuja supervisão constante é indispensável para o devido funcionamento do sistema industrial.3 Ou vejamos se o mesmo tipo de espírito cultural não anima a seguinte passagem de uma recente polêmica de Fortune contra o antitruste. constituem o estado-maior geral da indústria. de um ponto de vista “tecnocrático-socialista”.. a direção dos negócios públicos devia considerá-las bem-vindas. no geral. e manter uma supervisão das táticas de produção. O verdadeiro perigo “social e moral” para esta sociedade é nós continuarmos a seguir nossa presente linha de desenvolvimento econômico. que pelo treino. em particular...

assim em nosso tempo pedem um governo federal para proteção contra os estados indóceis do mundo. isto não quer dizer nem que se mostrou à prova dele. Fraca consolação. as dimensões se alargando determinadamente. grandes negócios fazem governo poderoso e negócios multinacionais globalizam-no. claramente como podemos ver hoje que a Inquisição era tão só as Cruzadas ao avesso. nem que continuará a resistir a ele no futuro. ordem”. Se nossa sociedade tem na maior parte resistido a este impulso. Sem as forças intervencionistas americanas em contínuo alerta. Uma vez lançadas as bases do estado total. o escopo do governo federal deve também ser global. nada menos. Tal como em 1789. salmodiando “paz. E enquanto negócios e governo cooperam para racionalizar e dominar a economia política do mundo. e do fenômeno do McCarthysmo. as formas retendo sua identidade. a probabilidade de male170 . Uma sociedade totalitária não precisa ser um estado abertamente policial. controle total — o estado total do mundo total.5 O modelo simples se desdobra sem cessar.tudo que fora deixado na América de ligação à pátria mãe. um forte governo central para protegêlos contra os estados indóceis da antiga Confederação. ou não. do que ao 1984. contra a vontade evidente do povo americano. os interesses americanos em frutas não podiam saquear as “repúblicas das bananas” e a oligarquia brasileira não podia sem medo ignorar as necessidades econômicas e sociais mais elementares do povo brasileiro. A solicitação básica é de. de Orwell. bem como do interesse endinheirado que sempre aponta para governo forte tão seguramente como a agulha para o pólo. Se ele se torna. e conseguiram. O imperialismo é o acessório público nacional do expansionismo comercial privado. Há a possibilidade de que o estado total americano vá se assemelhar mais ao Admirável Mundo Novo de Huxley. assim cooperam para racionalizar e dominar a economia política interna. lei. exato como o faziam os antigos romanos. do que ordem total. Assim. Sendo agora global o escopo do comércio americano. de nosso tempo. os grandes negócios pediram. dependerá de suas tradições e do caráter da resistência que o povo seja capaz de conceber e expressar. podemos ser capazes também de ver que a sociedade totalitária é a essência lógica do estado imperialista. quer esse estado no princípio seja benevolentemente administrado. Porém dificilmente podemos esquecer que o impulso para estatismo policial tem estado conosco pelo menos desde os tempos do Alien and Sediction Act [Decreto sobre Estrangeiros e Sedição] o predecessor do McCaran Act.

quer por meio da dissimulação ou superação por um fato maior (como guerra com a China). Mesmo uma manobra política soberbamente habilidosa não poderia apresentar um “compromisso” como uma “vitória” (tal na Coréia). e segundo os termos pelos quais a guerra tem sido explicada ao povo americano. a primeira a ser travada sob palavras de ordem tão claramente hipócritas. de alguma forma. a requerer tanto esforço americano para alcançar mesmo um acordo ambíguo. a primeira em que a reputação do estado tem sido posta em causa tão incondicional. a única saída para aqueles a quem o poder fez responsáveis reside na supressão do acontecimento final. Segundo. uma frustração que começa a parecer impenetrável. Na crista de seu poder relativo. a América moderna experimenta pela primeira vez. a crise do Vietnã é sem paralelo. é que um certo número de forças interligadas parecem inclinadas a estimular cooperativamente a tendência para a totalitarização da sociedade econômica e política. dois acontecimentos marcadamente indesejáveis. Primeiro. “derrota” é também inconcebível sem um imenso abalo na autoconfiança e consciência americanas. a situação histórica desta guerra pode torná-la um clímax. sobre outros aspectos.volencia totalitária básica existe. Sua iniciação nos limites é enfurecedora e sua compostura vacila. através do silenciar da crítica histórica. O que se mostra especialmente ominoso. a primeira que todo mundo tem olhado de perto na intimidade de suas salas-de-estar. não há solução que não venha a traumatizar. no referente à situação atual da América. Terceiro. nada menos que a vitória pode sustentar a legitimidade presente do estado. imóvel. Neste caso. pode significar que a cultura não será capaz de tolerar com facilidade outra de sua espécie. que as administrações a se suceder manterão a obstinação da presente e que a história permanecerá. a economia de guerra tem o efeito de elevar cada vez mais 171 . Se a vitória não pode ser alcançada e a derrota não pode ser dissimulada. precariamente. Ao mesmo tempo. De nenhum modo a primeira de sua espécie (México. e dado o sofrimento que sem dúvida ainda o espera. ou pelo cancelamento violento dela da história atual. Cuba. Quem tem uma clara idéia de vitória que não seja também absurda? No melhor dos casos. pelo menos um grande segmento da sociedade. é entretanto a primeira de sua espécie a ser tão prolongada. as Filipinas). a terceira administração a partir de agora se encontrará de posse de um cadáver — uma previsão que supõe. repetida e publicamente.

Há uma clara conexão mecânica entre a guerra e os problemas dos guetos americanos. que toma as decisões. A América negra. que diretamente. tudo se combina para estimular os impulsos inerentes da sociedade corporativa para a reação totalitária. Mais importante ainda é a conexão espiritual. ou através do efeito multiplicador. a elevação simultânea do desassossego racial e classista. as agonias da guerra se mesclam psicologicamente com as agonias da decadência urbana e da turbulência racial. a guerra aprofunda e intensifica a já avançada dependência da economia em relação aos subsídios de defesa federais. a virtual impossibilidade de resolver o conflito dentro do atual meio político da América. controle exclusivo dos gânglios principais de poder político e econômico. no exato momento em que a economia se coloca na “necessidade” mais clara de guerra — ou de modo contrário. e acesso 172 . Finalmente. — o poder reúne-se nas mãos daqueles cujos interesses especiais os inclinam para maior belicosidade no exterior e formas mais diretas de restrição política no país. a classe prestigiosa. Relacionadamente. se a decisão clássica entre a guerra e depressão precisar de novo ser feita. apenas a espécie que serviu de tentação a outros autoritários para fazer experiências com democracia ou tolerância ou liberdade política. no fim de contas. está no momento sendo levada para a alienação total do poder branco e total solidariedade contra um sistema cujas hipocrisias nunca estiveram antes tão nuamente à vista. é menos capaz de opor-se à declaração de gastos de defesa. a resistência militar incomum e a notabilidade moral do inimigo. Além do mais.o poder dos generais guerreiros e aqueles grupos de interesse individual que têm mais a ganhar com as despesas bélicas. Portanto. Em suma. constituem a oligarquia política americana. Os problemas que se agigantam ante nós agora são. será mais uma vez feita pelo grupo que tem mais a ganhar com a guerra e mais a perder com a depressão. Portanto. cujas ações políticas têm um impacto complexo sobre a América do branco pobre. o estado do bem-estar tendo sido podado para dar lugar ao estado guerreiro. O estado corporativo tem controle efetivo de elementos-chave do sistema de comunicações. a crescente influência dos militaristas dentro da crescentemente militarizada economia política. Aqueles que administram estes interesses. o aparato por meio do qual a sociedade pode ser totalitarizada existe e está em andamento. e nunca seu poder foi menos sujeito a controle ou veto popular do que agora. podem montar a mais de um quarto do produto nacional bruto da nação. junto geralmente com incorporadores multinacionais.

O superestado pode mesmo voltar um ouvido meio preocupado para os murmúrios dos desprovidos. isto já foi feito. Não existe como um fundo sob a superintendên173 . e então encarcerar manifestantes. prenhe de violência e capaz de justificar qualquer ação razoavelmente envolta em sofismas ou ação autoritária direta contra dissenção organizada. Não está. nem na natureza da liberdade política poder ser dada. Está sozinho nas alturas controladoras do poder. O que quer que o estado decida fazer. ser politicamente livres. isso já foi feito. e o poder de uma tal aliança política ou aliança de manejar sua vontade sem outras restrições significativas do que aquelas que escolhe se auto-impor. segurança e ordem. Não é uma dádiva. pode fazê-lo sem controle ou embaraço.a uma ideologia nacionalista amadurecida. O estado corporativo pode esconder dinamite num escritório do SNCC. violento internamente. pode dar de sua generosidade para aqueles que se humilharem ritualmente ante ele. ou não. ou das pequenas revistas originais de dissensões provisórias. Pode colocar narcótico num escritório do SDS. ou não. Pode tacitamente determinar a seus policiais direitistas que permitam por um pouco que uma quadrilha direitista assalte alguns manifestantes contra a guerra. Pode mesmo ter a graça de deixar alguma gente viver numa ausência subsectária da sociedade política. O que pode ser feito? A questão central deve ser compreendida. isso já foi feito. A casa imperial de servidão pode lhes dar riqueza. do sexo suburbano. Um tal fascismo pode ser. pode dar-lhes vitórias e atestar que estas vitórias são autenticamente gloriosas. anonimamente em solidão com solitários igualmente ardentes. Eles tramarão de qualquer forma fazer o que determinarem deva ser feito. da pesquisa pura. nem na natureza do estado poder dar liberdade política. Se a feição central do estado fascista é a aliança política ou identidade do governo poderoso e grandes negócios. Mas o estado não pode dar liberdade política. sequestrada da história nos subterrâneos do LSD. então é usar eufemismo dizer que é impossível um fascismo americano. Liberdade política não é uma licença a ser negociada ou requerida a um poder mais alto. A única questão básica que os americanos têm agora para formular a si mesmos é se querem. então encenar uma batida policial para descobrir esta dinamite. Pode se recusar a entregar assassinos racistas à justiça e assim produzir um Terror efetivamente patrocinado pelo estado. O fato é que seu estilo será determinado essencialmente pela vontade incontrolada de seus dirigentes. isto já foi feito. então encenar uma batida policial para descobrir estes narcóticos.

Somente homens. o conservador corporativista. é obscurecida. possuir. Se os americanos escolherem a liberdade não poderá haver América totalitária. e sem América totalitária não poderá haver império americano.” A tarefa primária do humanista é descrever e ajudar a realizar aqueles atos políticos através dos quais o poder do monolito autoritário central possa ser rompido e a vida política do homem reconstituída na base da comunidade associativa. podem ser livres. o principio básico da política radicalmente humanista é este: Qualquer decisão que não for tomada pelo povo em livre associação.” Diz ao contrário: “Insistiremos na prioridade da liberdade do homem e basearemos nossa invenção social na ética do contrato social livremente feito. Se o planejamento central deve ser coordenado pelo governo ou por mãos corporativas é uma questão cujo realismo desapareceu. em sua vida. democrática. Se os americanos escolhem ou não ser livres é a questão política transcendente. O estado pode negá-la ou obstruir seu curso. porque não figura entre as capacidades do estado deter. e motiva seu trabalho. não pode ser boa. e existe quando ele a exige. não os estados. direita e centro. é esse princípio que o humanista continua a elaborar e enriquecer por meio de intercâmbio humano no contexto de situações humanas. podem produzir e exibir liberdade. não é aclarada. O radical socialista. A questão urgente é sobre a localização do poder na comunidade: Está ele no estado ou está no povo? E em nosso tempo americano. pelo debate americano tradicional sobre socialismo versus capitalismo versus a economia mesclada Keynesiana. é apesar disso esse princípio básico que estabelece seus objetivos. e o liberal pró-estado-do-bem-comum são todos igualmente capazes de nos conduzir na direção da sociedade totalitarizada. É uma condição elementar da vontade individual. a única questão que coordena e resume todas as áridas questões da política externa e interna. um princípio tão escorregadio como a liberdade política dos homens. O humanista não deve dizer: “Aceitaremos esta sombria casa de servidão e trataremos de redecorá-la. A liberdade política está no homem político. não-executiva.cia de escritórios privilegiados. Se o humanista americano deve abrandar sua intransigência e sair de seu princípio utópico e ir de encontro às realidades da vida tecnológica. lhes dá estilo. Esta questão central não é aclarada. qualquer que seja o conteúdo dessa decisão. William Appleman Williams coloca-a desta maneira: 174 . é obscurecida. por nossas categorias políticas comuns de esquerda. mas o estado não pode nem tomá-la nem dá-la. nosso lugar americano.

. Estes valores radicais podem ser realizados mais facilmente através da descentralização e através da criação de muitas comunidades verdadeiramente humanas. autorizado pelo Escritório do Serviço Secreto Naval dos Estados Unidos: “Realisticamente. reunindo a John Birch Society. Tal descentralização é tecnológica e economicamente possível.. Por que os libertários concederam a liderança aos conservadores? Por que os oponentes tradicionais do grande e militarizado governo autoritário central agora somam forças com os mais audaciosos advogados de um tal governo? Agiram assim porque foram persuadidos de que há um perigo claro e presente que necessita uma digressão temporária dos valores finais. sem dúvida. A ala direitista na América está presentemente num estado de quase assustadora confusão espiritual. Deviam saber melhor. a ala direita conservadora de tendência imperialista. todas as guerras têm sido travadas por razões econômicas. Três explosões de candura exemplar neste ponto: Primeiro. rindo entredentes através das páginas da National Review. democracia e humanidade simplesmente não podem ser realizados e mantidos no futuro — nem podem ser tentados — através de mais centralização e consolidação. Sob uma única e mesma bandeira. Qualquer possível guerra futura se conformará. com o precedente histórico. autoritária e mesmo monarquista. goza da fraternidade da ala direita libertária do laissez-faire. Deviam saber que.Os ideais e valores radicais essenciais de comunidade. fins ideológicos têm sido sempre invocados. do mito do tigre nos portões. Tal descentralização é essencial se é para a democracia ser mantida e ampliada. que é preeminentemente através da ideologia da Ameaça Estrangeira. igualdade. E tal descentralização é psicológica e moralmente compulsória. Nossa humanidade está sendo golpeada e espremida para fora de nós pelo poder consolidado de um capitalismo nacionalista bélico corporativo. e individualismo de mercado livre. há sempre um perigo claro e presente.”7 175 . para os imperialistas totalitários. na linha de tiro com os Minutemen. Por mais que esteja na fibra do populismo democrático americano está também na fibra da direita liberatória americana. Estes dois grupos possivelmente não podiam ter menos em comum.8 Isto não é meramente um desafio de esquerdista para outro esquerdista. que o imperialismo de fronteira e global e o autoritarismo interno sempre se justificaram. Para torná-las política e socialmente agradáveis. de um relatório de 1938.

a crença do Senador Arthur Vandenburg de que para obter sua aceitação de uma militante e dispendiosa política de Guerra Fria seria necessário “assustar com o inferno o povo americano”.. corte e Constituição. Não podemos praticar domínio e força no exterior e conservar liberdade em casa.13 Começando com as palavras: “Cruzamos a fronteira que fica entre República e Império”. que atacou a Doutrina Truman com as palavras: “Nossos ideais cristãos não podem ser exportados para outras terras por meio de dólares e armas. no meio-oeste. o panfleto de Garrett indica infalivelmente os traços da patologia imperial: dominação do executivo nacional sobre o Congresso. que escreveu em 1955: “Aqueles que advogam a perda temporária de nossa liberdade. o testemunho do General Douglas MacArthur: Falar de ameaça iminente à nossa segurança nacional através da aplicação de força externa é pura falta de senso. a criação de satélites políticos e militares. subordinação da política interna à política externa. um complexo de arrogância e medo em relação aos “bárbaros”. e.”12 Mais atraente é a direita do tenaz Garet Garrett. mais insidiosamente. uma rápida análise do impulso totalitário do imperialismo. Estamos nos tornando rapidamente uma caricatura da coisa que professamos odiar. a fim de preservá-la permanentemente. abandono de uma identidade nacio176 . estão advogando só uma coisa: a abolição da liberdade. orientador da campanha do Senador Taft.8 Terceiro. em 1952.”10 Há a direita de Frank Chodorov..9 Seria um fato de grandiosa boa sorte para a América e o mundo se a direita libertária pudesse ser lembrada de que além do Republicanismo viciado dos Knowlands e Judds há uma outra tradição valiosa para ela a sua própria: a tradição do Congressista Howard Buffett. faz parte da forma geral de política mal orientada nosso país ser agora orientado para uma economia armada que foi criada em uma psicose artificialmente induzida de história de guerra e nutrida com uma incessante propaganda de medo. Não podemos falar de cooperação e praticar política de força.. que os eventos dos anos intervenientes tornaram a comprovar. Na verdade..”11 E de Dean Russel. Embora uma tal economia possa produzir uma sensação de aparente prosperidade pelo momento. descansa em uma base ilusória de desconfiança completa e ocasiona entre nossos líderes políticos quase um medo maior de paz do que seu medo da guerra. que apresentou. em 1952. cuja resposta à Ameaça Vermelha interna era abruptamente decisiva: “O meio de ficar livre de comunistas nos empregos do governo é abolir os empregos. ascensão da influência militar.Segundo.

Que estes movimentos sejam chamados de esquerdistas nada significa. A Nova Esquerda pode se perder nos debates de esquerda importados. que tinham o homem como centro. auto-satisfeito nas ruínas de suas promessas à moda antiga. o subumano poder camisa-parda de militante do estado jacobino. Este estilo de pensamento político. o estado de aço possuído por sua própria glória retumbante. se mostrará sem dúvida indigno de mais do que uma nota de pé de página nas histórias carniceiras de nosso tempo. enraizadamente americano. inutilizado já talvez por aquela racionalidade não-sentimental que ele se mostrou por tanto tempo satisfeito em honrar. Aqui está o moderno humanista ocidental. feitas a si mesmo. é abraçado hoje pelo movimento negro de libertação e pelo movimento estudantil contra o imperialismo de Grande Sociedade-Mundo Livre. Sua união potencialmente redentora pode acabar inatingida e irrealizada. Crescentemente afastado daquelas imagens de homem que uma vez sustentaram seu trabalho e deram forma às esperanças. então este novo humanismo político. ele para sua fantasia por um momento a fim de imaginar se não há algum meio fácil para recapturar o que parece ter sido tão facilmente 177 . o capricho desenfreado do Estado. mas talvez já um item sem uso e arcaico. recrutando-nos com seus computadores. o império é refém da história. que tem mostrado sua coragem de Lowndes Country a Berkeley. E alguém terá de fazer finalmente a observação de que o sonho americano não se tornou verdade. O superestado deslizará adiante em seu esplendor de aço e vinil. a Velha Direita e a Nova Esquerda estão moral e politicamente coordenadas. Num sentido saudável. se as novas realidades não forem penetradas e uma reorganização ideológica fundamental não se realizar. De ambos os lados pode ser cortada a visão por meio de respostas habituais para labéus ultrapassados. imaginando o que deveria dizer sobre tecnocracia e Stálin.nal por uma identidade internacionalista e “histórica” — a república é livre. A direita libertária pode permanecer hipnoticamente encantada pelo imperialismo autoritário. etiquetando-nos e numerandonos com seus testes científicos. Eles são da fibra do individualismo humanista americano e da ação associativa voluntarista. do tipo dos anos trinta. que talvez ele fosse um sonho ocioso afinal e que o povo realmente nunca teve uma oportunidade. Contudo sua intersecção pode ser perdida. se pavoneando através de cemitérios exóticos que ele preencheu e onde ousa pousar coroas. Se isto acontecer. e é só através deles que a tradição libertária é ativada e mantida viva. fruto de uma longa linha. cujo único e básico amor é Poder.

como de hábito. Não há meio fácil para fazer o velho sonho respirar neste novo ar. O povo está sozinho. contudo.perdido. De nada adianta imaginar. consigo próprio. O que parece perdido não foi realmente perdido. 178 . Só o povo americano pode fazê-lo. Não há mais bárbaros para justificar as conquistas básicas e salvar a consciência. Compete aos americanos reivindicar de novo e tentar reformar seu país. nem botões para achar e premir. Só o povo deve. As fronteiras se foram. chegou a um fim.

New York. The American Revolution. 10 de agosto de 1966. pag. 6 Gary Porter. abril de 1965. 322. 7 Em Stalin. Commentary. “Viet-Cong — The Unseen Enemy in Viet-Nam”. 4 The New York Times (NYT). Holt. 24. 13 Fall. 1960. de Isaac Deutscher. “Globalism — The Ideology of Total World Involvement”. 1966. pags. 1 de fevereiro de 1966. 1 de Janeiro de 1966. XI. Random House (Vintage Russian Library). Marcus G. New York. Raskin e Bernard B.. eds. pag. 1963. Rinehart & Winston. setembro de 1966. ed. New York. A Political Biography. 109-194. pag. Pall Mall Press. de Wilfred Burchett. de Eric Robson. esp. New York. Random House (Vintage book). 30 de Janeiro de 1966. Praeger. 8 NYT. Magazine. 1963. 318.Notas Capítulo II: A HISTORIA DO GUERREIRO DA GUERRA FRIA 1 Citado em “The Fullbright Revolt”. pag. International Publishers. 1965. Goldbloom. 1965. 5 “The Namierist School”. Frederick A. em Raskin and Fall ads. London. 11 NYT. George Athan Billias. 9 NYT. 16 de Janeiro de 1966. 12 NYT. Fall. ed. 261 179 . rev. de Bernard B. 10 Political Science Quarterly.. 1965. pag. 1964. de Maurice J. 2 Vietnam. The Viet -Nam Reader. 3 The Two Viet-Nams. New York. Inside Story of the Guerrilla War. Fall.

F. (Daqui em diante citado como Shaping.. pág. pág. pág.. pág. 2 Ibid.) 7 Ibid.. eu só forneço os números de páginas tirados da parte “documentos”.) É um maciço compêndio de “Readings and Documents in American Foreign Relations 1750-1955”. The University of Michigan Press. de D. 53. 217-224 (Charles C. pág. 16 NYT. Na citação de historiadores o autor e o título são dados entre parênteses. 17 de abril de 1966. págs. New York.. 315. 15 (Max Savelle. Doubleday & Company. 2 vols. pág. 1956. 1960. 19 Ibid.. págs. 2. 15 NYT. 258. 12 Para um desenvolvimento “antropolítico” deste ponto ver Marshall D. 13 de fevereiro de 1966. Nottels. 328. The Shaping of American Diplomacy. Stelle.. A History of Civilization.. págs. 1955. 1 de fevereiro de 1966. 1917-1960.. 13 William Appleman Williams. 252.. Ann Arbor. 27 de fevereiro de 1966.’ 197-200. (Nas seguintes citações deste livro imensamente útil.. Rand Mc Nally 7 Co. 68. 82 (Louis M. 4 Crane Brinton et al. pág. pág. Mich. 427. 235-237 (Daqui em diante citado como Tragedy. Doll Publishing Co. pág.. pág. 18 Ibid. 3 Ibid. 1962. 110-122. 503.. Fleming. 180 . 9 Ibid. págs. Prentice-Hall.J. vol. pág. New York. Evolution and Culture. 5 Fleming. 12 (Curtis P. 6 William Appleman Williams. N. 35.. 251. 20 Ibid. The Tragedy of American Diplomacy. 482.. Williams cita sem datar um editorial do Times de Londres. “The Appearence of an American Attitude Toward External Affairs... Sears. 1750-1775”). Chicago.. DOMINÓS QUE CAEM 1 Em The Cold War and Its Origins. pág. Sahlins et al. 258. pág. “British Mercantilism and the Economic Development on the Thirteen Colonies’’). Capítulo III: PORTAS ABERTAS. 2 vols. 15 Ibid. editado por e com extensos comentários de Williams. 17 Ibid. 8 Ibid. 17 NYT..14 NYT. 17.. pág. pág. 1961. “Jefferson and the Embargo”). “American Trade in Opium to China. 249. 11 Citado em Deutscher.. Englewood Cliffs. 10 Ibid..) 14 Ibid. 16 Ibid. pág. 79.

1938. págs. vol. 26. 133. New York..1821-39”). League for Industrial Democracy. 43 Ibid. Rostow.. 463. 36 Ibid. 237. pägs. 41 Ibid. 235. Harpers & Row (Colophon book). pag. 35 Ibid. 38 Department of State Commercial Policy Series. Brooks. pág. 26. pag. Capítulo IV: IMPERIO DO MUNDO LIVRE 1 Tragedy. Bigger. pág. pag. Mass. 7 Richard J. pag. 4 (1935). The Polities of Hystoria. New 181 . 239.. 33 Ibid. 4 Em Edmund Stillman e William Pfaff. 3 Tragedy. 31 Ibid. “American Interest in China”). pag. 27 Ibid. 5 de novembro de 1962. 19. 234. 30 Thomas R. New York. 683-688.. pag. pag. 22 Tragedy. comunicação feita ao Carnegie Institute of Technology. Random House. pag. Lilienthal. 110-112. 5 W. 434. 66. pag. 1-70. 1963.. 1934-41. Roosevelt. 224 (Foster Rhea Dulles. “Guerrilla Warfare in Underdeveloped Areas”. pág. 25 Ibid. 28 Department of State Bulletin. 29 Tragedy.. 1966. 34 Tragedy. “The Multinational Corporation”. Pryor. 23 Shaping. em Raskin and Fall.. The Communist Foreign Trade System. abril de 1960. Biggest: American Business Goes Global”... pag. 2 Frederic L. MIT Press. W. 233. 42 Ibid. pág. pags. pag. Barber. 26 Ibid. To Build a New World. 1964. 21 Ibid. pag. 39 The Public Papers and Addresses of Franklin D. pag. Cambridge. 40 Tragedy. 32 Shaping. “Big. pág. junho.. 18. 37 Ibid. 433-434.. 78. pag. 6 David E. 17. eds. 97. 44 Fortune. New York. 66.. 27. 24 Tragedy. 382. 123. pag. pag. panfleto sem data.

9 Barber. pág. 24 Baran e Sweezy citam 1962 Annual Report. pág. 15 Forbes. 490. em Foreign Affairs. 23 Ibid. 30 de abril de 1966. 83. 31 de março de 1966. 28 de Janeiro de 1966. abril de 1966. 480. 24 de dezembro de 1964. 22 John Gerassi. de abril de 1966. New York. 511. 21 Paul Baran e Paul Sweezy. presidente da United States Freight Company. 25 Gerassi. Monthly Review. 19 David Rockefeller. loc. 30 NYT. 477. News & World Report. 355. 20 “Special Report of Multinational Companies”. março de 1966. “When Executives Turned Revolutionaries”. New York. págs. 1 de abril de 1966. 26 The Economic Almanac 1964. Foreign Affairs. no texto.S. setembro de 1964. ver o memorandum “A Bank for Economic Acceleration of Backward Countries”. The Macmillan Company (Collier book). 31 NYT. U. 8 Wall Street Journal. New York.Republic. 354. 150. Rinehart & Winston. “Notes on the Theory of Imperialism”. os seguintes artigos de revistas for182 .) 27 Gerassi. Holt. 11 Newsweek. publicado como Apêndice D.S. págs. pág.. 10 Ibid. TLD Press. 24 de janeiro de 1966. Fortune. 8 de fevereiro de 1966. pág. 29 Philip Siekman. 1965. National Industrial Conference Board e Newsweek. em Melman. 14 Barber. por Morris Forgash. 8 de março de 1965. 18 Para uma boa pequena revisão destas instituições e seus defeitos. 1965. 16 Seymour Melman. 1964. 34 Além das citações do NYT. pág. 13 Citado em Marshall Windmiller. “Viet-Nam and the Power Elite”. The Commentary of Marshall Windmiller. 28 Ibid. Our Depleted Society. 276. 2 de outubro de 1964. 17 “What U. 8 de novembro de 1965. “What Free Enterprise Means to Latin America”. 342-352. 12 Barber. cit. Business Week. 28 de outubro de 1965. Berkeley. The Great Fear in Latin America. 23 de novembro de 1964.. (Citado daqui por diante como Almanac. 21 de março de 1965. da Standard. 76-99. Companies Are Doing Abroad”. 20 de abril de 1963. Calif. A citação é do artigo de Déferre. 33 NYT. 11 de outubro de 1965. 32 NYT. págs. 25 de novembro de 1964..

necem boas informações recentes e antecedentes gerais no caso da Hanna Mining: Fortune.Y. New York. 17. 1965-1966. pág. Booth e Robson. 12. 44 Booth e Robson.S. The Institute for Strateguc Studies.” Exemplares deste número podem ser obtidas do American Committee on Africa. 14. “Harsh Curbs Generate Growing Discontent”. The Institute for Strategic Studies. em Chicago. 10017. 13 de agosto de 1966. Anatomy of Apartheid in Southern Africa. — Brazilian Guaranty Pact to Stimulate Private Investment”. Africa Today. 104. “Brazil. “Brazil: Some Success. 38 Paul Booth e Christopher Z. Hobson.. Hanna’s Immovable Mountains”. 46 Ibid. The Last Stage of Imperialism. N. 40 Ibid. sobre o assunto. 51 Ibid. U.. 36. Veja também New Republic. Lincoln Gordon. dezembro de 1964. e podem ser consultados se requeridos. foi seguramente conduzida pelos estudiosos do Ideological Institute em Wineba. 1 de agosto de 1965. Adelphi Papers.S. dezembro de 1965. Business Week. “Brazil-United States: Partners in Progress”. 48 Forbes. 13 de agosto de 1966. Students for a Democratic Society. 35 Franz Lee. 147-149. New York. pág. 22 de novembro de 1965. 53 The Military Balance..S. 1965.V. Bell. feita por membros da SDS e o American Committee da África. 127-136.S. a melhor fonte singular e mais conveniente é o número de janeiro de 1966 de Africa Today. Neo-Colonialism. abril de 1966. abril de 1965. Department of State Bulletin. que foi fechado depois do golpe de fevereiro de 1966. News & World Report. “U. pág.. Chicago. Africa Today. Lee é um refugiado político sul-africano. Veja também New Republic. M. 37 Ibid. 42 Kwame Nkrumah. 49 Lee. 52 Lee. 1966. Business Week. 122. pág.. págs. 27-28. London. “The Englehard Touch”. 1966. págs.. pág. 41 Booth e Robson. Alexander Defense Committee. 22 de janeiro de 1966. International Commerce. Africa Today. 36 Ibid. pág.J. “A Special Report on American Involvement in the South African Economy.. “Information on Involvement of U. Contudo. Much Work to Do”. pág. 19. Fortune. 43 U. A pesquisa deste livro. “South Africa”. 39 Ibid. Fortune. 47 Ibid. Os dados são acumulados continuamente no Escritório Nacional da SDS. 27 de março de 1965. 32. Este relatório resume pesquisa primária continuada sobre os interesses corporativos americanos na África do Sul. International Publishers Co. “Brazil’s Chief Miner”. London. fria e minuciosa. so 50 Ibid. New York. 45 Nkrumah. “Brazil’s Battle with Inflation”. 211 East 43rd Street. 1965. 18 de abril de 1966. 183 . pág. “Military Assistance to Independent African States”. Corporations in South Africa”. págs. 22 de fevereiro de 1965.

Thomas. 67 Ibid. 184 . ed. 77 Economic Affairs. Agradeço a Michael Locker de SDS por estes dados. 62 Ibid. 66 Ross e Wise. pág.. “The Philippines”. Commodity Year Book (anual) e International Sugar Journal (mensal). pág. pág. 127. Lash. 76 Fortune. 74 Gerassi. págs. Danna L. pág. Chicago. 64 Gerassi. Bantam. 490. 1965. pág.° de junho de 1966. Berle e Sucrets veja Charles B. cit. New York. 27 de setembro de 1965. 27 de Janeiro de 1957. 71 NYT. Esquire. pág. pág. 155-166. Barron’s. Sobre Farland veja o Annual Report de 1965 de South Puerto Rico. 59 Almanac. 191. 492. Who’s Who in America. 368. 57 Ibid. 78 Gerassi.. págs.. 263. Otten. 125-126. 63 Almanac. “Richter Sweet”. Seib e Alan I. Sobre Fortas. 70 Nkrumah. Sucrest Annual Report. págs. pág. 60 Gerassi. Paul W. New York Post. Blackstock. 65 Ibid. págs. 56 Gerassi.pág. loc. 42. 69 A.. junho de 1966. pág. veja Standard and Poor’s Register of Directors and Officers (anual) e qualquer Annual Report recente da National. 192. 32. Help — LBJ”. págs. Gerassi. novembro de 1965.... 75 Ibid. pág. 28. Quadrangle Books. 68 Sobre os interesses dominicanos de Bunker e National Sugar. 126. 241. Orlov. ver Joseph P. 72 NYT. 505. 8 de abril de 1966. 61 Ibid. pág. 80 Rockfeller. 488. 367-372. 19 de junho de 1966.. 1. 12 de maio de 1965. Standard and Poor’s “Sugar-Basic Survey” e “Sugar-Company Survey” for 1963-1965. pág. The Strategy of Subversion. 1964. 14. “Abe. 55 Almanac. 20. The Invisible Government. junho de 1965. 79 Wall Street Journal. 21 de maio de 1966. 165. 60. 73 NYT. págs. “Bunker Hits the Trail Again”. 34 Lee. 66. International Affairs. 275. Sobre Harriman e National. 116-121. 58 Ibid. pág.

2 (5). New York. “Japan Plays the Field”. 14 Alex Campbell. 23 Ibid. 107 (65). 232 (161). para 1933 e 1937-40 são os seguintes (em milhões de U.Capítulo V: O CASO DO VIETNÃ 1 Newsweek. 181. 470. Os números de exportação (e importação) dos U. 58 (41). McCarthy. 304. 11 New York Herald Tribune. 59 (40). 1963. 194. quoted in Cook. 47 (52). pág. 18 Direction of World Trade. 16 de junho de 1966. 200-212. pág. 1119. Penguin Books. “The U.S. Capítulo VI: O REVOLTADO 1 Gerassi. Japão: 143 (128). pág. veja Alexander Eckstein.: Supplier of Weapons to the World’’. New York. Direction of World Trade (mensal). 77 (48). pág. 15 International Monetary Fund. 26 de outubro de 1949. 9 Ibid. 18 de setembro de 1966. pág. 19 NYT. 2 Fall. 288 (204). pág. 40.S. dollars): Alemanha 140 (78). 21 Stillman and Pfaff. Communist Chinas Economic Growth and Foreign Trade. e 51 (23). págs. 17 Fall. 6 Ibid. Md.S. 1964. 12 NYT. 1 de janeiro de 1966. pág. 45. 126 (93). e 0. 3 Fortune. 7 Ibid. 5 Eugene J. 183. Saturday Review. 9 de julho de 1966. Cook. 1966. 240 (27). Itália: 61 (39).S. The Warfare State. New Republic. março de 1966. 5 de março de 1966. 13 Almanac.. Para uma análise especializada de tais números de comércio. 11 de julho de 1966. 18 Shaping. 8 Ibid. 185 . e 227 (158). 194. The Macmillan Company (Collier book). Baltimore. 20 Ibid. pág. 10 U. Torture: Cancer of a Democracy. Mac Graw-Hill Book Company. News & World Report. 4 Fred J. 22 Pierre Vidal-Naquet. pág.

5 Beard. 11 Ibid. 12 Ibid. pág. 186 .S. “The Transformation of the American Right”. 3 Thorstein Vehlen. Primavera de 1966. The Engineers and the Price System. “Revisionism: A Key to Peace”.2 Robert S. 201. The Free Press. Continuum. Capítulo VII: DUAS QUESTÕES REVISTAS 1 Citado como epígrafe em Charles A. pág. 10 Murray Rothbard. Rampart Journal. págs. 28 de outubro de 1965. 13 Garret. Caldwell. The Caxton Printers. “Response to Aggression” (discurso pronunciado em 26 de março de 1964). 7 Harry Elmer Barnes. 1965 (publicado pela primeira vez em 1915). “Antitrust in an Era of Radical Change”. The People’s Pottage (“The Rise of Empire”). pág. New York. 1963. Fortune. 240. New York. 3 NYT. 8 William Appleman Williams. março de 1956. in Raskin and Fall. 8. Brace & World (Harbinger book). Harcourt. Radicals”. 2 Max Weber. 8 Tragedy. 4 Max Ways. Idaho. 72-73. Beard. McNamara. “Policy for U. 1953.. Economic Origins of Jeffersonian Democracy. 9 Garet Garrett. National Guardian. eds. Politics as a Vocation. 27 de novembro de 1965.

SEGUNDA PARTE Revolução: Herança e Opção Contemporânea RICHARD SHAUL 187 .

188 .

temos os recursos e o poder para criar o tipo de sociedade que desejamos. para as novas possibilidades à sua frente.I Introdução Progressos recentes em nossa sociedade tecnológica levaram o homem a um novo estágio em sua luta para criar condições mais favoráveis para a vida através da ordenação de sua existência social. antes aceitos como inevitáveis. Além do mais. quer para o bem-estar material quer para a libertação humana. especialmente entre os desprovidos. Por certo muita gente conheceu uma acentuada melhoria em sua situação econômica no curso de algumas décadas. pode também trazer com elas novas formas de dominação social e limitar. A tecnologia tende a destruir velhas formas de organização social e causar mudanças constantes em nosso modo de vida. podem agora ser superados pelo esforço humano organizado. pelo mundo afora. cerca de um quarto de nossa própria população está ainda abaixo da linha de pobreza. contudo. Males sociais. Porém não cria automaticamente uma sociedade que ofereça crescentes oportunidades. os avanços tecnológicos serviram para acordar todas as classes e raças. Está agora claro que o mesmo desenvolvimento que conduz a melhorias em nossa condição econômica. ainda mais do que no passa189 . criando assim um estado d’alma de esperanças em ascensão. e a distância entre o padrão de vida das nações ricas e o das pobres torna-se maior cada ano.

como mudanças fundamentais podem ser levadas a efeito nas estruturas de nossa sociedade. bem como oportunidades crescentes para a libertação humana. as perspectivas para o futuro serão na verdade sombrias. e a fim de manter alguma semelhança de ordem. outros têm sido jogados para o conhecimento através dos contatos com os desprovidos em nosso próprio país. uma vez tornadas obsoletas pelos acontecimentos. estruturas. a fim de suprimir descontentamento e revolta. Outros grupos. mostram-se cada vez mais inadequadas à medida em que o tempo passa. Além do mais. 190 . Aqueles que estão no poder serão tentados a desenvolver sistemas mais efetivos de dominação. que serviram como um instrumento efetivo para mudança social no passado. E a média de massa oferece possibilidades sem precedentes para manter um estado de espírito de relativa conformidade entre a grande maioria do povo. Os que se beneficiam mais do sistema presente. no momento. um significativo número de pessoas. Este problema constitui um dos maiores desafios com que nos defrontamos hoje. não estão dispostos a tomar iniciativa nesta luta.do. e que são mais influenciados por sua ideologia secreta. tais como organizações de trabalhadores. não podem ser suprimidas com facilidade. aquele progresso que torna as velhas estruturas sociais obsoletas também lhes fornece poder quase ilimitado para a autopreservação. e serão atraídos para a resignação ou atos de desespero. de qualquer despertar difundido referente às exigências que nos faz. e como os recursos da tecnologia podem ser usados para produzir melhoria significativa no lote dos desprovidos. Contudo. está passando por um processo gradual de despertar. Há alguma possibilidade de que possamos responder a este desafio? Temos pouca evidência. o mais rapidamente possível. isto é o resultado da reflexão sobre os mais recentes progressos em nossa sociedade industrial. na medida em que o avanço tecnológico é incorporado ao ethos agora dominante em nossa sociedade. Do contrário. Para alguns. Esperanças. uma vez surgidas. tal uso dele é quase inevitável. aqueles que se tornaram cientes do caráter desumanizante de uma tal ordem perderão toda a confiança nas instituições de sua sociedade. não parecem estar numa posição de agir mais assim. Nossa única esperança está em descobrir. de diferentes idades e classes sociais. na medida em que o poder da sociedade tecnológica é grandemente concentrado nas mãos daqueles que mais lucram com a ordem estabelecida. De fato. Por outro lado. nossa participação no processo de tomada de decisões que determina nosso futuro.

este despertar é. Pode fornecer uma ocasião para a redescoberta de nossa herança revolucionária americana. pode nunca ir além de uma atitude de rebelião e uma precoce conformidade com a ordem estabelecida. então esta escolha deliberada da revolução pode tornar-se um ponto decisivo na história de nosso país. um prometedor sinal de um novo dia. saindo desta mesma matriz de frustração e angústia. Para aqueles de nós que pertencem à geração mais velha. Os novos revolucionários não estão provavelmente mais preocupados com o mundo e o povo que sofre nele do que o estavam suas contrapartes de uma década atrás. podemos terminar nos retirando de uma luta que não conseguimos entender. Mas eles representam a resposta. e têm gradualmente elaborado as implicações dela para sua compreensão do mundo moderno e a definição de sua responsabilidade nele. que ainda não têm posição no sistema e estão insatisfeitos com o mundo à volta deles. Mas não devemos esperar demais. Se os acontecimentos agora revelam que nossa perspectiva é inadequada e que nossa estratégia é ineficaz. não só em casa mas também no Terceiro Mundo. Uma nova comunidade está emergindo. mesmo desta minoria. uma experiência traumatizante. Se nossa análise da presente crise está correta. sei disto. não estamos por meio disto pronunciando julgamento sobre um. eles não podem estar mais ansiosos em mudar a sociedade do que nós temos estado. ou nos empenhar em esforços que nunca têm relação com os verdadeiros fins. E o surgimento de movimentos revolucionários aqui 191 . Os mais progressistas dentre nós têm pensado sobre a sociedade em termos menos radicais e têm trabalhado para a mudança social de maneira mais moderada. são livres para entender o problema e fazer algo a respeito. nem afirmando a superioridade moral do outro. Muitos jovens. têm sido levados a tomar uma posição revolucionária.ou com a luta dos povos do Terceiro Mundo. com frequência. mas estão também dispostos a trabalhar por tais mudanças e procurando uma estratégia com a qual conseguir isto. e de sua relevância em relação aos problemas com que agora nos defrontamos. Eu me refiro aos novos revolucionários e aos novos movimentos nos quais estão envolvidos. da parte de uma nova geração. Se aqui os distinguimos e os colocamos em contraste com os progressistas de uma geração mais antiga. Em seus esforços para expressar sua preocupação pelo homem e para mudar a sociedade. Por mais prometedora que seja a nova consciência entre a juventude. Há. cujos membros não só entendem o problema e estão convencidos de que mudanças radicais são necessárias urgentemente. a uma nova situação histórica.

estudantes e escritores nos países comunistas. ficaram envolvidos na luta pelos direitos civis. Portanto. Em todas estas áreas. em perspectiva e interesse. é somente nos Estados Unidos que nos defrontamos simultaneamente com o impacto pleno das várias revoluções magnas de nosso tempo — quando jovens conduzidos à linha de frente da revolução tecnológico-cibernética. A fim de viver e agir. por estranho que isto possa parecer de início. tais como América Latina. o combate à pobreza ou o movimento pela liberdade da palavra e também descobriram. Tentaremos examiná-lo sem cair em generalizações indevidas. à luz de nossa própria história. com um crescente número de homens e mulheres em muitas partes do mundo e em situações largamente diferentes: estudantes revolucionários nas nações em desenvolvimento. que têm sido formados por sua participação na luta pelos direitos civis ou nos novos movimentos no campus da universidade. África e América Latina e libertar-nos para participar criadoramente do “século do Terceiro Mundo”. No tipo de mundo dinâmico e pluralístico no qual vivemos agora. É este fato novo. Porém. não tenho desejo de forçar a realidade contemporânea num estreito e rígido esquema racional. acredito. é muito difundido. esta escolha de uma posição revolucionária — e suas implicações para a participação americana no século do Terceiro Mundo — que aqui nos interessa. hoje. deste fenômeno. e de que a única resposta autêntica ao desafio de nosso tempo é a que os revolucionários estão dando. Mas não escondo ter chegado a uma análise desprendida puramente empírica. em alguns lugares. de minha parte. Gastei também a maior parte de duas décadas na América Latina em íntimo contato com uma situação revolucionária lá existente e fui forçado a chegar a um acordo com ela. Eu. como resultado do envolvimento norte-americano no Vietnã e na República Dominicana. seria absurdo supor que todas as situações são revolucionárias. pode ser encontrado o novo estado de espírito revolucionário. já descobriram que estão identificados. encontro-me na posição não invejável de estar de cer192 .podem quebrar nosso presente impulso para alienação crescente dos povos da Ásia. a revolução que está em processo nas relações entre as nações ricas e pobres. Muitos jovens. Estas experiências me levaram a certas conclusões sobre o significado da revolução e a contribuição que aqueles que tomam esta posição podem dar à nossa sociedade neste tempo. eu tive de tentar tirar algum sentido do que está acontecendo no mundo. em número de gente incomum em quase todas as esferas de vida na Europa Ocidental.

Talvez desta posição estratégica seja possível ajudar alguns daqueles. possa trazer alguma pequena contribuição aos presentes esforços de parte dos novos revolucionários para encontrar uma base sólida para pensamento e ação fecundos. tomando a tarefa de interpretação e mediação. 193 . que estão confusos e transtornados pelos progressos revolucionários. E ousamos esperar que a reflexão sobre revolução. Tenho tentado transformar esta desvantagem em uma vantagem. Tendo gasto a maior parte de minha vida trabalhando por reforma dentro da ordem estabelecida.ta forma preso entre dois mundos. não posso esquecer o fato de que pertenço a uma outra. feita de uma tal posição ambivalente. a entender melhor o que estes movimentos representam. sou agora obrigado a dar prioridade à revolução. E por mais que simpatize com o novo estado de espírito da nova geração.

194 .

O existencialismo desenvolveu seus próprios modelos para a nova humanidade e os russos falam constantemente de “o novo homem soviético”. em nosso mundo moderno. Muitos daqueles que são mais ativos nestes movimentos estão bastante confusos e são. tem mais do caráter de uma afirmação de fé. Tenho consciência de que isto não pode ser demonstrado empiricamente. Há uma crescente certeza de que o contexto em que a vida humana é moldada mudou. O aparecimento de “beatniks” e rebeldes em muitas culturas diferentes atesta a seriedade do problema. incapazes de articular mesmo o que é mais central em sua própria existência. e de que só se se desenvolver logo um novo estilo de vida o homem moderno será capaz de encontrar significado em sua existência e agir com responsabilidade. Qualquer tentativa de traçar 195 . África e América Latina descobriram a inautenticidade de uma forma de vida importada do Ocidente e por ele imposta. O ideal do “homem burguês” perdeu muito de sua força. com frequência. O novo revolucionário está numa posição avançada nesta busca devido sua sensibilidade ao que está acontecendo em volta dele e seu envolvimento responsável onde as questões decisivas sobre o futuro do homem estão sendo levantadas. é a busca de um novo estilo de existência humana. E os povos da Ásia.II A Busca de um Novo Estilo de Vida Um dos focos principais de preocupação.

Contudo. de parte do homem moderno. só é natural que tanta gente. Não é mais possível adotar o papel indiferente e dissociado do ocidental letrado. expressado pela intensidade de preocupação. Muita atenção tem sido dada ao processo de secularização. tenha agora um novo senso de compromisso. no Mississipi. Nesta situação. das consequências de cada uma de nossas ações. tal como se desenvolveu no mundo ocidental em séculos recentes. e sua transformação. cujas linhas principais são claras: 1. quando nosso sistema nervoso central é tecnologicamente ampliado para nos envolver na humanidade total e para incorporar a humanidade total em nós. Tal como Marshall McLuhan destaca em seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (Média de Compreensão: As Ampliações do Homem): Numa idade elétrica. agir mesmo quando não se pode estar inteira196 . necessariamente participamos. O novo revolucionário tem uma elevada consciência disto. tem seu paralelo na experiência de estudantes católicos e protestantes na América Latina. minha experiência em situações revolucionárias muito diversas indica que um estilo específico está surgindo. A mudança que ocorreu nas atitudes dos ativistas do SNCC (Student Non-violent Coordinating Committee). é o importante. pôr a própria vida na linha de combate. Seu envolvimento em movimentos revolucionários com rapidez pôs a nu a irrelevância da visão universal metafísica tradicional. e forçou-os a reconhecer que os velhos conceitos abstratos não mais significavam algo para eles. e que alcançou um clímax. à luz de certos alvos pré-determinados.1 Viver responsavelmente significa tomar uma posição. o homem tem a liberdade e responsabilidade para determinar seu próprio destino . então o futuro está aberto.os elementos principais desta nova posição revolucionária não oferecerá provavelmente uma descrição adequada de nenhum grupo particular. em profundidade. cuja atitude anterior fora de um frio desligamento. Aqui a experiência do revolucionário é acentuada pela atmosfera que acompanha recentes progressos na tecnologia. Nação e comunidade fornecem o contexto para a realização humana. ao mesmo tempo sua participação real na luta revolucionária intensifica seu interesse pelo homem e pelo que lhe acontece dentro de um processo histórico concreto. Se estes absolutos se evaporaram. com a existência dentro da história.

É só de dentro da situação. e ajuda na tomada de decisões só pode vir dos que estão de alguma forma identificados com ela. todas as formas de autoridade que dependem dela estão abolidas. se movendo para o futuro. estão a caminho da descoberta do autêntico eu. Aqui um dos desenvolvimentos interessantes. Esta concentração na existência histórica é a fonte da vigorosa ênfase humanística. e para alguns o mais perturbador. é o resultado quase inevitável do processo que descrevemos. Quando alguém que não compartilha deste envolvimento toma a si proteger de perigos e oferecer conselho. não deve ficar surpreso se ninguém lhe der atenção. por que deve alguém tomá-lo a sério? Além do mais. tal como são levantados ali. Se a experiência de gerações passadas e as perspectivas humanas mais vastas devem significar algo. a natureza do esforço intelectual é redefinida. o passado pode oferecer recursos para nossa orientação. ou garantir seu sucesso. Gente jovem das classes elevadas e média tornou-se cônscia da tremenda carga de sofrimento e injustiça no mundo e da situação desumanizante na qual está presa tanta gente. Conhecer o Negro como um ser humano. Se ele não está querendo pagar o preço da luta. Isto não nos devia surpreender. mas não nos pode impor suas soluções. Pensamento criador sobre um problema não pode vir unicamente de sua análise racional abstrata. Decisões devem ser tomadas de dentro da situação. e do tipo de maturidade que repudiará todas as relações paternalísticas tradicionais. é conhecer 197 . se ele não é livre para entrar na situação e compreender seus dilemas éticos. é a revolta contra as estruturas de autoridade e o repúdio a qualquer coisa que cheire a paternalismo.mente certo dos resultados da própria ação. com toda probabilidade suas opiniões serão de pouca ajuda. Quando gente jovem ou os não privilegiados começam a tomar iniciativas para mudar sua sociedade. deve ser feita também a tentativa de relacioná-las com o momento presente. nos novos movimentos revolucionários. Quando uma visão universal metafísica perde sua autoridade sobre nós. Numa situação dinâmica. não é suficiente apresentá-las em livros ou cursos universitários. na qual a essência concreta da realidade está constantemente mudando. que podemos elaborar nossa perspectiva ou levar a cabo reflexões sérias. Só assim pode o trabalho acadêmico ser uma excitante aventura em vez de uma carga sem significado. Ao longo desta estrada de participação. A procura da verdade é uma questão de encontrar algumas formas de significação na riqueza e variedade de elementos que tornam concreta a realidade.

Tomar a sério os novos progressos na revolução tecnológica significa ver as novas possibilidades e ameaças para a vida humana que estão latentes neles. Estabelecer contato com os camponeses na América Latina é ficar chocado por sua existência subumana. mas também para a formação de uma liderança dinâmica. as duras realidades do poder político são algo diferente. a maneira pela qual a ordem econômica opera é outra. eles ainda não têm o apoio de grande número. como entre os desprovidos em nosso próprio país. Assim. Para muitos pertencentes às classes privilegiadas nos países mais avançados. Ação é urgentemente necessária e não pode ser postergada indefinidamente. Mas uma das razões porque os novos movimentos revolucionários são tão importantes para nossa sociedade é que eles encarnam esta preocupação. mas empreender o impossível numa atitude de bravura e de confiança. 2. essa insatisfação tem outra dimensão: o sentimento de que a sociedade. Ser realista não pode significar se limitar ao que agora parece politicamente possível. falhou em prover a possibilidade de uma vida rica e significativa. Não temos meios de saber se este humanismo continuará a desempenhar um papel central nestes movimentos. têm tido êxito em muitas instâncias em ganhar aqueles jovens que são mais sensíveis à situação humana e que estão preparados para fazer algo sobre isto. Portanto. citado no The New York Times Magazine: 198 . Um sinal pungente deste mal-estar é uma breve passagem de um recente romance russo. Muitos daqueles que tomaram a sério sua participação na existência histórica e estão preocupados com o homem e seu futuro têm ficado chocados ao descobrir que a ordem sob a qual vivem é quase intolerável. A promessa de bem-estar material é uma coisa. Nem sabemos se nossa cultura pode fornecer os recursos necessários para apoiar tal ação. tão nitidamente necessária no tempo atual. por questões de cálculos prudentes. fornecem o contexto. Os mitos sobre uma sociedade democrática são encantadores. nos anos vindouros. embora não possam enfrentar o fato de sua vacuidade. não só para o desenvolvimento de um novo estilo de vida. Contudo.as situações desumanizantes sob as quais ele vive. isto tem significado uma nítida certeza de sua própria exclusão do gozo dos benefícios e experiências que nossa sociedade considera mais importantes. Entre os povos coloniais do mundo. e especialmente a geração mais velha. uma profunda paixão moral é o elemento principal na posição revolucionária.

trabalhador científico júnior. ou projetos de alfabetização. estão dizendo. em si. Uma estrela na escola. instituições. e então . doutor em filosofia. trabalhador científico sênior. Como Mário Savio o coloca.4 A profunda insatisfação com o status quo é. relações e alinhamento de poder — que bloqueia as mudanças fundamentais na sociedade. levando a efeito as decisões de outros. Cedo acordam para o fato de que todos estes esforços são paliativos ineficazes. um mundo que a seus olhos as gerações precedentes estropiaram”. “2 O que é impressionante a respeito deste depoimento é que ele é tão intimamente semelhante ao que muitos dos líderes da nova esquerda estudantil. mestre em artes. “simplesmente não é mais excitante”. A juventude negra. só em chegando às raízes do problema pode alguma mudança significativa vir a se dar. o mesmo protesto contra uma sociedade que. as quais não se pode realmente emendar” e o “futuro” e “carreiras” para os quais os estudantes americanos agora se preparam são na maior parte terras devastadas intelectuais e morais”. 199 . foi determinada por papai e mamãe. quando você ainda estava no berço. do que ser um menino toda a vida. são defrontados por um sistema total — um complexo de atitudes.“Sua vida. é sua descoberta de que quando começam a trabalhar por mudança. estudante graduado. Os estudantes católicos na América Latina respondem à incrível pobreza das massas pelo início de programas de serviço social. pode criar um novo sentido de urgência sobre mudança social e um desejo de caminhar mais rapidamente para soluções. e de que só uma mudança fundamental na natureza e direção daquele sistema tornará possível solucionar estes problemas. em nosso próprio país. membro da academia. O que torna a presente situação tão revolucionária. Isto os leva a reconhecer que se defrontam com um sistema feudal-colonial. em qualquer ponto específico.. nós na América somos parte de uma ordem automatizada e esterilizada. No máximo. respeitado por todos. Nenhuma vez em sua vida você tomou uma decisão realmente importante.3 Expressam a mesma rebelião contra serem tratados como crianças indefinidamente. um homem morto. apenas suficiente para produzir revolução. uma estrela no colégio.. na qual todas as regras do jogo “tendo sido estabelecidas. Que vá tudo para o inferno! É melhor ser um vagabundo e falhar. nas áreas rurais. nas favelas. possuindo tal potencial extraordinário. o mesmo sentimento de que o mundo no qual vivem “é uma completa porcaria. Victor. nenhuma vez correu um risco. entre a geração mais jovem.

E os que tentam fazer alguma coisa. a antiga dispersão e equilíbrio de poder. percebe que se levanta contra todo um modo de vida que deve ser mudado. e jovens idealistas sociais serão transformados rapidamente em revolucionários. os militares e o Departamento de Estado estão de várias maneiras trabalhando juntos para preservar a atual situação. com demasiada frequência. se for para o negro ocupar um novo lugar na sociedade. uma vez que racionalizações hábeis são fornecidas para justificar a preservação do status quo. participação em movimentos por mudança social levam muitos jovens a tomar posição revolucionária vis à vis de toda ordem estabelecida. compreendem que não encontrarão solução para eles até que ocorram mudanças básicas na ordem econômica. o que sobressai é a maneira pela qual tudo isto está oculto por ideologias e mitos que tornam impossível para nós ver o que está acontecendo. Como podemos explicar de outra forma a facilidade com que alguns de nossos líderes políticos mais liberais falam de influência comunista entre aqueles que protestaram contra a aceleração da guerra no Vietnã? Enquanto esta situação continuar a existir. que são encorajados a tomar iniciativas para solver seus problemas. Certos pressupostos básicos. toma parte em várias demonstrações. Como declarou um estudante de Berkeley. não podem ser desafiados. o mais rápido possível. admitir a verdade que ele encerra. Quando o faz. a participação na luta por uma sociedade melhor constituirá.no Sul. um processo de radicalização para os assim envolvidos. não podem ignorar por muito tempo que capital e trabalho. e quando qualquer grupo significativo de estudantes ousa agir assim. no interesse da paz e da justiça. Em muitos lugares. e lutar honestamente com ele. Em outras palavras. não devemos ficar surpreendidos se os novos revolucionários concluírem que a ordem estabelecida é incapaz de levar a efeito as mudanças agora requeridas. e não mais acreditarem nos meios tradicionais de trabalhar para transformação social. sua experiência deixou exposta “não meramente uma vasta e inepta burocracia. Os pobres. referente à nossa política oficial perante às nações pobres do mundo. julga-se. nos “slums” do Norte. e que é esta ordem que deve ser mudada. não mais é evidente. Sob estas circunstâncias. então nossa situação podia não ser tão explosiva. Mas. Vêem a íntima identidade de inte200 . é considerado como constituindo uma ameaça que deve ser neutralizada. em si.” Se aqueles que ocupam posições de poder em nossa sociedade estivessem preparados para compreender este fenômeno. que mantinha certas estruturas abertas. mas uma coerente estrutura de classe dominante.

o poder político. não ocupam mais esta posição. a nova liderança. então devemos ser chamados a fazer um esforço conjugado para subvertê-las de dentro. E. podem oferecer uma oportunidade para trabalhar de dentro por sua renovação. Aquelas que são abertas e flexíveis bastante para se ajustar rapidamente às novas condições. e os pobres nas cidades não se querem tornar classe média. as presentes relações entre nações ricas e pobres. Trabalhar da mesma maneira pela transformação daquelas que são mais rígidas. Como o coloca Mário Savio. nos Estados Unidos. A intensa consciência desta situação só pode ter consequências drásticas na orientação dos jovens e dos desprovidos em nosso próprio país e alhures no mundo. no momento em que mudanças fundamentais são desesperadamente necessárias. pode simplesmente não valer o esforço. de seu lado. estudantes universitários indagam se eles podem estar confiantes na sociedade dentro da qual nasceram. Só aquelas cuja sobrevivência e renovação desejamos. 201 . Ao mesmo tempo. ou desafiá-las de fora. Novos progressos em tecnologia em nossa sociedade produziram uma situação na qual o cidadão médio ou trabalhador é crescentemente excluído de participação significativa no processo de tomada de decisões dentro daquelas instituições que determinam seu destino.resses das grandes corporações. para preservar o sistema presente. que se efetua sob o nome de “consenso político”. Conduz. nas “cidades interiores”. a tecnologia provê recursos extraordinários que podem ser. instituições que antes eram objeto de lealdade indiscutida. mais ou menos. Se queremos servir à causa que elas representam. os pobres. trabalho e governo. Dentro da ordem atual. na universidade. Do contrário. Em muitas das nações em desenvolvimento. tradicionalmente concentrado nas mãos de uma minoria muito pequena — para a quase completa exclusão de outras classes — parece agora estar ainda mais forte com o apoio dos alinhamentos econômicos e políticos ocidentais. os povos coloniais não se sentem atraídos pelo modo de vida ocidental. que tentaria preservar. o que é ainda mais assustador. como indicou Carl Oglesby. podemos servir melhor o futuro permitindo-lhes morrer. Os jovens negros não mais estão interessados em imitar os brancos. e estão sendo usados. nas nações em desenvolvimento. De uma perspectiva revolucionária. aquelas forças novas que podem dar a maior contribuição para mudança social descobrem que têm sido efetivamente excluídas do exercício do poder político: os estudantes. há a possibilidade da Pax RussoAmericana. para uma quase completa quebra de confiança nas instituições da sociedade à qual pertencem.

Neste contexto. em seu livro On Revolution. É uma tentativa de libertar o homem e construir uma nova ordem — a novus ordo saeclorum — por meio de iniciativa humana ousada. tentam encontrar algum meio de escapar de um mundo impossível. ele é a expressão autêntica. Para o revolucionário. de Port Huron. Admirável Mundo Novo. Muitos jovens que foram levados a esta conclusão adotam agora uma atitude de derrota ou rebelião. daquilo que tem sido mais central na tradição revolucionária ocidental. Deixar a política ser determinada pelo que parece possível significa limitar nossas possibilidades e tornar a luta política mesquinha e desinteressante. ou põem grande ênfase no cálculo realista do possível como a única base para ação. as consequências desta posição ineficaz são reconhecidas e repudiadas: “Tem sido dito que nossos predecessores liberais e socialistas eram infectados por visão sem programa. em nosso tempo. Esta preocupação com uma nova ordem não pode ser entendida. contudo. e muitos de nossos intelectuais mais destacados refletem um estado d’alma de cinismo e desespero. Neste sentido. O novo revolucionário está muito mais cônscio das falhas da natureza humana e da força do mal na sociedade. ou não.5 esta tradição representa a coincidência da idéia de liberdade e da experiência de um novo começo. Nossos mitos dominantes são aqueles de alienação. Presentemente. e assim por diante. o que é exigido é criatividade e imaginação. enquanto nossa geração é infectada por programa sem visão. não de esperança — 1984. mais a disposição constante de arriscar tudo. Na Declaração dos Estudantes em prol de uma Sociedade Democrática. a vontade de agir num tal sentido que nos possibilite construir uma nova sociedade. se for vista como uma volta a um tipo antigo de otimismo superficial e liberalismo. e o único meio de agir inteligente e responsavelmente é repudiar estreitos cálculos racionais sobre que coisas podem e não podem ser feitas. esta situação é a ocasião para dar forma a uma nova visão de uma nova ordem social. A coisa mais surpreendente é que isto ocorreu no exato momento em que todas as utopias foram postas a nu e todas as visões de uma nova ordem desmascaradas. a Utopia se torna uma força explosiva. E o rompimento de todas as velhas estruturas de autoridade força-nos para a liberdade em determinar a forma de futuro. não pode evitar vêlos.” 202 . Mas também é confrontado com o fato de que a tecnologia moderna deu ao homem os recursos de que precisa para criar o tipo de sociedade que deseja. ou pelo menos evitar a comunidade adulta. Tal como é descrito por Hannah Arendt.3. A questão é se temos.

Um segundo elemento na visão revolucionária da nova sociedade está indicado pela ênfase posta na participação de todos os grupos e classes na vida da comunidade e da nação. a construção de uma nova ordem envolve um certo grau de socialismo. a pobreza material que ainda existe é um mal que não mais precisamos tolerar. sem consequências desastrosas. é simplesmente uma daquelas estruturas que uma comunidade pode usar para os fins que determina. e deve. não em termos da adoção da filosofia marxista.Esta visão revolucionária de uma nova sociedade pode estar ainda um tanto enevoada. representam luxos que não podemos permitir. Hannah Arendt encara isto como a ênfase principal que emergiu espontaneamente nas revoluções do Ocidente. e de que ninguém pode ser chamado quer de feliz quer de livre sem participar e ter uma parte. Classes. Em sua análise do ponto de vista revolucionário de Jefferson. assumir responsabilidade pela ordenação de sua vida econômica. e os meios pelos quais estes podem ser melhor alcançados. e nos empenharmos no tipo de experimentação que iluminará o caminho para o futuro. devemos fazer face ao desafio de hoje. no poder público. Certamente está condicionada pelo caráter específico de cada luta revolucionária. Um destes é a crescente convicção de que a sociedade pode. Com os recursos agora à nossa disposição. Por conseguinte. uma. de que ninguém pode ser chamado de livre sem sua experiência na liberdade pública. Ao invés de perder ainda mais tempo no debate banal e estéril entre capitalismo e socialismo. grupos e raças que estiveram marginalizados no passado. o diagrama de uma nova sociedade está gradualmente tomando forma. por muito mais tempo. E. Está agora claro que o domínio econômico não é uma misteriosa ordem da natureza a que podemos deixar seguir seu próprio caminho. ao contrário de atenção às necessidades mais básicas do homem e da sociedade. na qual certos elementos específicos já podem ser distinguidos. A devastação do sistema de livre empresa — mesmo com as restrições que agora lhe são feitas — e sua orientação para a produção pelo lucro.”6 O reconhecimento deste fato é hoje quase universal. determinando os objetivos do desenvolvimento econômico. para criar novos modelos para a direção da vida econômica pela sociedade. mas no sentido mais básico do próprio conceito: controle da ordem econômica pela própria sociedade. ela destaca que foi sua convicção de que ninguém pode ser chamado de feliz sem sua parte na felicidade pública. não obstante. e especialmente no processo de tomada de decisões pelo qual seu futuro será determinado. estão agora começando a ver que são parte de uma história na 203 .

Porém não estão inclinados a aceitar a posição periférica a que seus países foram condenados durante o período colonial. possam ter uma parte no uso do poder público. Nesta luta estão se juntando a eles. e a situação dos povos pobres do mundo se tornará mais desesperada cada ano. tanto os desprovidos como os cidadãos comuns. tanto como naqueles mais avançados. Estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem internacional. gradualmente entendem que só podem ter uma vida plena de significação se se tornarem participantes desta história. dentro das instituições nas quais vivem suas vidas: as estruturas políticas das comunidades locais e da nação. a paz e a estabilidade internacionais serão impossíveis. e está. e experimentar novas formas de relações-econômicas e políticas — com eles. Quando acordam para esta realidade. Nos países em desenvolvimento. agora. Terceiro. numerosas pessoas do Ocidente. e completamente eivadas de mitos e ilusões. e a fábrica ou o escritório no qual trabalham. Novos problemas pedem novas soluções. Pode ver que quase todas nossas atitudes e opiniões formadas estão viciadas pelo paternalismo. A nova sociedade democrática deve ser uma na qual jovens e estudantes. Porém nossas estruturas atuais são deploravelmente inadequadas. Nas nações mais jovens estão surgindo líderes que foram treinados na tecnologia do Ocidente e estão livres para trabalhar por soluções autênticas para seus problemas nacionais. e que os programas de assistência que desenvolvemos tanto não são bastantes. e nenhuma organização será capaz de oferecer um perfeito equilíbrio entre as exigências de ordem e eficiência e tal participação. Muita gente pode ser muito feliz sem esta oportunidade. as limitações de muitas das nossas assim chamadas instituições democráticas têm sido reveladas. Nossas tentativas de obter um ajuste entre nosso auto-interêsse nacional (como entendido agora) e o interesse das nações em desenvolvimento são altamente ideológicas. e de que sua situação só pode ser alterada se tomarem parte na luta para mudá-la. Nossos recursos econômicos são tais que podemos encorajar e ajudar novos modelos de desenvolvimento nas nações menos avançadas. Sobre estas bases. que tomam consciência 204 .qual alguma coisa tem estado. e imaginação e criatividade humanas podem progredir muito por meio da abertura de novas possibilidades de participação nestas esferas. o novo revolucionário está chegando gradualmente a compreender que uma mudança básica precisa ocorrer na relação entre nações ricas e nações pobres. acontecendo agora.

Isto conduz ao paradoxo de que o revolucionário. disto advém uma intensificação da autoconsciência humana. Novas idéias sobre sociedade devem ser acompanhadas por nova politica. o revolucionário está buscando uma nova forma de existência pessoal para si próprio e para outros. Ele despreza nossa complacência e nos desafia a forjar novos modelos e a responder ao impacto do futuro. ao mesmo tempo. O reino da história tornou-se o centro de sua preocupação. Tudo isto não quer significar que ninguém tenha uma clara imagem do futuro. Cria uma situação dentro da qual muitos dos que estão trabalhando pelos mesmos objetivos que os revolucionários acham 205 . a existência pessoal plena envolve muito mais do que a satisfação destas necessidades. capitalismo e comunismo. ou para os que tentam provocar mudanças fundamentais na sociedade urbana. Está dentro de nossas forças satisfazer as necessidades materiais básicas de cada um. e somos lentos em encontrar alternativas para formas institucionais obsoletas. criam também condições nunca antes imaginadas para a liberdade. Tecnologia e burocracia constituem uma tremenda ameaça para o homem. Mas uma coisa está clara: Construir uma nova sociedade requer um “novo começo”. pode também repudiar o materialismo da sociedade burguesa. um novo jogo exige novas regras. O novo revolucionário percebe corretamente que nossa experiência histórica não esgotou todas as possibilidades que existem para a organização da sociedade. Devemos desenvolver novas idéias e perspectivas de vida e sociedade pelo cultivo da imaginação criadora. O pensamento social de muitos de nós tem sido tão frequentemente estéril porque nos permitimos ser encaixados por uma lógica de nossa própria fabricação. está por completo claro que as velhas regras não são mais suficientes. o relacionamento humano e a auto-realização. Podemos não saber quais devem ser estas regras. Uma nova geração pede uma visão de existência pessoal que vá além de ambos estes sistemas. Basicamente. que se entrega à luta por melhor condição econômica do pobre. Permanecemos presos por pressuposições que não mais são válidas. tenham perdido sua atração. Tanto para o liberal como para o conservador. esperança e interdependência que podem ser satisfeitos somente se uma tal ordem tomar forma. esta conclusão representa um choque. mas para os lutadores pelos direitos civis no Mississipi. Não é de surpreender que ambos.de que natureza têm sido nossas relações econômicas e políticas com os povos coloniais. A tecnologia moderna tornou possível e necessária uma nova ordem internacional e criou uma situação de desassossego.

No fim das contas. de acordo com as regras estabelecidas. a menos que o revolucionário tenha uma estratégia claramente definida com a qual possa esperar produzir mudanças significativas. Só se forem orientadas mais para o futuro do que para o passado. As lutas revolucionárias de hoje podem ser um fator importante no provocar uma tal mudança. Apesar dos recursos pessoais exigidos para este esforço. não é ele passível de êxito. abandonaram a luta e se concentraram em sua vida e carreiras 206 . não há garantia de que fosse produzir instituições menos rígidas ou mais abertas para o futuro do que aquelas que agora existem. Devido a natureza de sua visão e compromisso. e se tiverem construído dentro delas a maquinaria de constante auto-renovação. Só uma mudança fundamental nesta estrutura pode abrir o caminho para uma aproximação plena dos alvos revolucionários. enquanto outros. Tentar desenvolver novas instituições para substituir aquelas agora existentes em cada área importante da sociedade — um novo sistema religioso ou universitário. podemos esperar ter uma sociedade estável e mais humana. sabedoria e persistência dela requeridas. se esta geração de revolucionários tiver a coragem. Mas a alternativa lógica para esta estratégia parece ainda menos promissora. Não podem compreender que profundas mudanças nas décadas recentes podem exigir um rompimento ainda mais decisivo com os antigos métodos de ação. Sair fora do Establishment e atacá-lo de cabeça também ajudará muito pouco. Foi cativado pela visão de uma sociedade diferente. O novo revolucionário está convencido de que isto não produzirá resultados bastante rápidos. mas não há caminho óbvio pelo qual tal mudança possa ser feita. que foram mais radicais durante seus anos de juventude. novos partidos políticos — seria uma tarefa impossível. tem também certeza de que o status quo está em aguda contradição com ela e representa uma ordem integrada com o grande poder. Uma geração precedente de reformadores trabalhou pela renovação da sociedade servindo às estruturas dadas. o revolucionário se encontra preso de uma tensão quase insuportável.difícil comunicar-se com eles. e quase impossível participar com eles da mesma luta. Uns poucos se espantam de que tantos jovens tomem uma atitude de rebelião. Mesmo se uma tal empresa tivesse êxito. um novo movimento trabalhista. uma solução satisfatória deste problema depende de uma transformação básica na estrutura de nossas instituições. Aqui ele enfrenta um sério dilema. Aqueles que vivem segundo as velhas regras rapidamente esquecem que sua maneira de agir já foi uma ofensa à geração que os precedeu.

forcem-na a acelerar sua própria renovação. em parte devido sua origem. sob certas circunstâncias. quer baseados dentro ou fora de uma instituição. Uma das razões para o surpreendente sucesso de alguns aspectos do movimento pelos direitos civis é que ele tende a irromper em tempos e lugares onde é menos esperado. que seriam quase impossíveis dentro do Partido Democrático. por um curto período. como um todo. pode transformar uma grande organização. A moderna experiência revolucionária desenvolveu outra estratégia. O que é necessário é reflexão mais sistemática sobre a significação destes acontecimentos. enquanto que a renovação de uma instituição no centro da sociedade pode afetar outras relacionadas com ela. e a tentativa de provocar aquelas mudanças relativamente pequenas que colocarão em movimento um processo muito mais amplo. para serviço mais efetivo. Aqui o foco consiste na formação de pequenos grupos e movimentos que. a manutenção de iniciativa e o elemento de surpresa. que tornam possível avançar para novas frentes sempre que bloqueado. um pequeno grupo de pessoas pode ser capaz de livrar grandes instituições. com uma certa dose de autonomia e liberdade. Em face do poder militar maciço de uma ordem estabelecida. O Freedom Democratic Party pode ser capaz de provocar mudanças na ordem política do Mississipi. efetiva. Neste estágio do desenvolvimento de uma sociedade tecnológica. e deslocar-se para novas fronteiras onde quer que seja detido em algum ponto particular. seu equivalente político pode oferecer um instrumento valioso para provocar mudanças em nossas instituições magnas. quase espontaneamente. Um pequeno grupo. flexibilidade e liberdade de operação. são incapazes de agir de novas maneiras podem apoiar movimentos que têm a liberdade de agir assim. Muitos exemplos da eficiência desta maneira de agir podem ser mencionados. cuja importância temos sido vagarosos para entender. Movimentos revolucionários neste país desenvolveram. a guerra de guerrilhas mostrou-se. Instituições que. e uma compreensão mais 207 . Por meio de muitos ataques limitados a vários pontos.pessoais. Porém a estratégia da guerra de guerrilhas precisa não ser restringida à sua expressão militar. Isto pode ser alcançado por uma variedade de técnicas: a concentração de esforço em objetivos limitados. uma variedade de táticas de guerrilha que se mostraram mais ou menos eficientes. A participação do pobre e desprovido nos projetos de renovação urbana podem ter consequências imprevistas na vida e política da cidade.

De fato. e não temos outra escolha senão tentar entendê-lo e lidar com ele. Servir no arcabouço de uma instituição particular não pede. o essencial. Mas ele não irá embora. trabalhando de fora dela. em nosso mundo de hoje. e viver como “exilados” dentro da sociedade à qual pertencem. Hoje. podemos descobrir eventualmente que. em outros. contudo. dentro deste arcabouço. A questão é. Porém para aqueles comprometidos com a revolução. é preservar um certo grau de identidade de grupo. Fazem frente a difíceis problemas humanos e devem descobrir como agir com responsabilidade em relação a eles. um expressivo número de pessoas está deliberadamente escolhendo um estilo de vida revolucionário. Em alguns casos. No tempo atual. de uma sociedade tecnológica. as formas pelas quais essa herança é expressa estão tão identificadas com a velha ordem que o revolucionário encontra pouco 208 . possam ser mudadas. Suas próprias preocupações e atitudes. Voltaremos a esta questão mais tarde. isto pode ser alcançado melhor de dentro. processo que provocará transformações mais fundamentais do que as que ocorreram como resultado de formas anteriores de revolução. bem como a situação específica em que vivem. ao contrário. à questão da relação daqueles a trabalhar por mudança radical com as instituições da ordem estabelecida. Para muitos outros. ela pode ser uma base para a esperança de que poderosas instituições interdependentes. com profunda suspeita. desta maneira. contribuir para a renovação da instituição que está sendo servida. Aqueles que estão acostumados com uma forma mais tradicional de lealdade institucional provavelmente olharão para a estratégia que sugerimos. O que tentamos indicar aqui é que. e que representa um tipo de pensamento e ação que se coloca em agudo contraste com nossos antigos caminhos de reforma.clara dos melhores meios para tirar vantagem do potencial aqui utilizável para mudança social. Assim devem ser capazes de correr os riscos de estar “nas” mas não ser “das” estruturas. Os que dão este passo enfrentam uma tarefa muito diferente. em cada situação particular. como. nem há nenhuma virtude particular em manter a própria independência. Para muitos é este um desenvolvimento desastroso que ameaça toda nossa estrutura social. completa subserviência a ela. a escolha de revolução é o único caminho para existência autêntica e responsável. um processo dinâmico pode ser posto em movimento. têm sido moldadas por uma herança cultural e espiritual particular. Maior atenção devia ser dada. para aqueles que adotaram uma posição revolucionária. necessariamente.

família. a questão da relação entre a posição revolucionária e nossa herança cultural ocidental. refletem com frequência a mesma incerteza e confusão que a geração mais jovem conhece tão bem. deve merecer nossa atenção. Se desejamos nos entender e viver responsavelmente nesta nova era.ou nenhum significado nela. aquelas instituições que podem desempenhar esta tarefa mediadora — escola. Em certos casos parecem existir a fim de preservar as velhas formas. Quando não é este o caso. E o que é ainda mais sério. et al — falharam por completo nisso. que agora aparece como um câncer virulento ameaçando nos destruir? Ou representa a floração natural de certos ideais e esperanças que estão no coração daquela tradição? 209 . igreja. É este espírito de revolta um tumor externo.

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III Revolução Social e Tecnologia: o Paradoxo de Nossa Herança
O novo revolucionário surgiu no momento do avanço mais extraordinário em tecnologia. Assim temos dois protótipos do novo homem que está surgindo em nosso tempo: o revolucionário e o tecnocrata. Eles contemplam o mundo moderno de perspectivas muito diferentes e representam dois estilos de vida claramente contrastantes; e ambos são produtos de nossa história ocidental. Não existiram sempre lado a lado em nossa civilização, nem suas posições são de igual força. Qualquer que tenha sido o papel da revolução, em nossa história anterior, nas décadas recentes a tecnologia dominou a cena. Nossas reações a ela têm sido variadas. Para muitos cientistas, bem como para os tecnocratas, a tecnologia oferece possibilidades quase ilimitadas para um novo e brilhante futuro. Nas mentes de outros, evocou visões apocalípticas de “1984” e do “Admirável Mundo Novo”. Nos últimos anos, contudo, chegou uma nova geração que não está contente em observar e lamentar estas perspectivas para o futuro. Decidiu desafiar diretamente a ideologia oculta do sistema, enfrentá-la de peito aberto numa luta revolucionária. E isto está acontecendo precisamente nos Estados Unidos, onde a tecnologia é mais avançada e onde a ideologia de uma sociedade tecnocrática penetrou tanto nosso pensamento
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que é quase tomada como certa. Até aqui a luta é muito desigual. É difícil imaginar um contraste mais agudo do que aquele entre o Secretário de Defesa e os estudantes que queimam seus cartões de alistamento ou organizam demonstrações de protesto contra a política dos Estados Unidos no Vietnã. O Sr. Mc Namara é a própria imagem da autoconfiança. Está convencido da correção de sua causa, é o senhor de uma vasta soma de informações, e tem à sua disposição poder quase ilimitado. Os estudantes, de outro lado, são na aparência muito fracos, todos muito cônscios das limitações de seu conhecimento, perplexos e confusos em face das forças irracionais que não podem esperar entender ou controlar. Agora que esta fenda em nossa alma foi exposta, só seremos capazes de viver com nós mesmos, como indivíduos e como uma nação, se encontrarmos algum meio de lidar com ela honesta e abertamente. Agir assim significa basicamente chegar a um acordo com nossa própria história; isto é, com as forças saídas de nosso próprio passado que nos fizeram o que somos. É este um projeto a longo prazo, que só pode ser levado a efeito se aqueles que se encontram envolvidos existencialmente nesta situação estiverem munidos de recursos adequados para tal reflexão. É, primariamente, uma tarefa para o intelectual e para a universidade, uma tarefa que, em grande parte, ainda permanece para ser feita. A maior parte de nós, no entretempo, deve chegar a certa espécie de conclusões preliminares que nos permitirão dar sentido à nossa própria situação, e nos preparar para agir responsavelmente nela. Nas minhas próprias tentativas para fazer isto, fui grandemente influenciado por um sábio holandês, Arendt van Leeuwen, cujo recente livro, Cristianismo na História Mundial,1 produziu grande impacto em alguns círculos. Ele argumenta que algo único aconteceu na história ocidental, que preparou o caminho tanto para a tecnologia como para a revolução, e que uma melhor compreensão desta história nos libertaria para relacionar criadoramente estas forças entre si e encontrar um caminho para fora de nosso impasse atual. Como um estudioso de culturas e religiões antigas, chegou à conclusão de que elas eram todas dominadas, em larga escala, por uma compreensão “ontocrática” da vida e realidade. Com isto ele quer significar que elas concebiam todos os aspectos da realidade — natureza e sociedade, o temporal e o eterno, o divino e o humano — como partes de uma ordem cósmica total. Neste arcabouço, a natureza, bem como todos os aspectos principais da existência histórica do homem, eram essencialmente identificados com o divino, e portanto
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sagrados. Rei e pai, a ordem política e social, possuíam uma autoridade absoluta com a qual não se podia interferir. Sob estas condições, a vida era estável e segura; era também relativamente estática. As estruturas sociais eram rígidas e o passado dominava o presente e o futuro. Na experiência antiga do povo de Israel, contudo, algo aconteceu que desafiava todo este ponto de vista, e que abria o caminho para um enfoque diferente da realidade. Quando tentaram tirar um sentido do que lhes estava acontecendo na vida de cada dia, cresceu entre eles a convicção de que estavam constantemente se opondo a um Poder que era ativo em seu meio. Não podiam evitar a conclusão de que esta realidade era pessoal em caráter, e de que Ele os estava chamando para realizar uma missão particular dentro da história. Da intensidade desta experiência, chegaram gradualmente a outras conclusões, de consequências profundas. O interesse da religião foi mudado do reino eterno para o temporal, e focalizado mais para a existência social e histórica do que para a experiência interior do indivíduo. A relação deste poder soberano para com a ordem temporal só podia ser concebida como a de um Criador para com Sua criatura, e assim tanto a natureza como a sociedade perderam seu caráter sagrado. Como este Deus continuou a ser ativo na história, Ele se ergueu contra toda ordem estabelecida e destruiu todas as pretensões de legisladores e de instituições sociais. Esta nova atitude não alcançou uma vitória fácil nos círculos judeus ou, mais tarde, nos cristãos. O Velho Testamento narra a história de uma luta longa e amarga, de parte dos profetas, contra as tentativas repetidas para reverter aos velhos caminhos. Muito mais tarde, o Domínio Cristão medieval representou um esforço extraordinário para estabelecer um compromisso entre as perspectivas teocrática e ontocrática. Não obstante, quando esta revolução hebraica se expandiu e penetrou a cultura européia ocidental, foram criadas condições que contribuíram para o surgimento da ciência e da tecnologia. O reino da natureza, bem como a ordem social, eram vistos como realidades temporais que o homem era livre para estudar e entender. Podia subjugar a natureza para servi-lo e moldar instituições sociais de acordo com os objetivos que ele determinava. Dois outros elementos na tradição judeo-cristã desempenharam importantes papéis no desenvolvimento de nosso mundo moderno. Um destes é a corrente oculta messiânica que surgiu muitas vezes através dos séculos. Sua origem é encontrada na primitiva experiência israelita do Êxodo e Terra Prometida. A partir dela concluíram que o seu Deus condu213

zia-os para um novo dia, no qual encontrariam novas oportunidades para a realização humana dentro de uma nova ordem social. Assim o domínio da visão cíclica da história foi rompido, e os homens eram livres para olhar em direção ao futuro esperançosamente, como o lugar onde novas coisas podiam acontecer a qualquer momento. Intimamente associada a isto estava a convicção israelita de sua vocação como um “povo escolhido”. Esta nova ordem não viria espontaneamente. Seria o resultado de um esforço disciplinado, feito com o apoio de um povo notável, a quem sua missão histórica tinha sido assegurada. E por causa deste fato, a nação eleita só seria capaz de viver consigo própria e encontrar significação em sua existência histórica quando ela fosse fiel a esta vocação. Em nossa perspectiva norte-americana mais comum sobre a vida e o mundo, uma síntese um tanto espantosa destes três motivos ocorreu, na qual a tecnologia não só é central mas tem sido completada pela ajuda de uma poderosa ideologia. Nossa maneira pragmática e funcional de lidar com a realidade tem sido envolvida por uma crença no poder da tecnologia para criar possibilidades quase ilimitadas para o melhoramento da vida humana, e pela convicção de que a América foi “escolhida” para a missão de levar estes benefícios ao resto do mundo. Não estamos interessados aqui em discutir a importância relativa desta herança judeo-cristã na formação de nossa sociedade, como mais decisiva do que outras forças culturais. E certamente não defenderíamos esta presente síntese como uma expressão fiel dessa herança. Estamos somente tentando destacar o fato de que estes elementos foram importantes na moldagem de nossa autocompreensão e de que devem ser examinadas com muito mais cuidado, se desejarmos responder produtivamente aos problemas com que agora nos defrontamos. Doutra sorte, concentraremos nossa atenção no pragmático e tecnológico, embora ignorando o contexto no qual surgiram e se desenvolveram. E permitiremos a nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico prosseguir dentro de uma estrutura altamente ideológica, que é mais perigosa por não estarmos bem cônscios dela. Se somos livres, no entanto, para refletir sobre estes elementos centrais em nossa própria história, descobriremos logo que nenhum de tais raciocínios ingênuos redunda em dificuldade séria. Pelo menos, isto foi o que aconteceu entre os israelitas. A mesma experiência de ser um povo escolhido, que tornou possível, para muitos, não só justificar o status quo, mas também sentir-se orgulhoso dele, produziu alguns caracteres muito perturbadores. Para estes homens, a libertação de velhas au214

toridades, a preocupação com a emancipação humana, e um sentido de destino levou-os a olhar criticamente sua própria sociedade e a se tornar muito insatisfeitos com ela. Viram que, quando foi rompido o poder da forma ontocrática, os homens ficaram livres não só para criar uma nova ordem; podiam também usar esta liberdade para satisfazer seu próprio individualismo e ambições coletivas, de uma maneira que não era possível numa sociedade mais controlada. Tornaram-se conscientes de que o messianismo pode, facilmente, ser pervertido para servir a outros objetivos que não a emancipação do homem, e que, se um povo escolhido é necessário para a transformação do mundo, ele pode facilmente se tornar um obstáculo a ela. Por mais desagradáveis que fossem estas conclusões, foram decisivamente fortalecidas pelos acontecimentos históricos. Se Israel tinha sido tirada da escravidão no Egito para a Terra Prometida para o bem “da restauração das nações”, na aparência algo andara errado. A nova era que eles haviam esperado inaugurar não apareceu; e o povo escolhido encontrou-se envolvido em conflito social e guerra contínua, que terminaram, afinal, em aniquilação política. Porém da profunda crise de autocompreensão que isto produziu, emergiu a visão profética. Para estes homens, a soberania de Deus implicava não só em liberdade mas também em julgamento. Quando estruturas criadas para servir ao homem tornam-se rígidas e impedem o caminho da realização humana, devem ser demolidas. Só no seu colapso e através dele pode ser construída uma nova ordem. Quando um povo escolhido, mesmo após sua chegada à Terra Prometida, é desobediente, será dispersado — para redescobrir seu destino na Diáspora. Em outras palavras, os profetas tornaram-se os primeiros revolucionários. E o que ainda é mais importante para nossa discussão aqui, a mesma atitude para com a realidade que, ao tomar forma entre o povo de Israel, abriu caminho para o desenvolvimento eventual da ciência e tecnologia, também preparou o caminho para a revolução. Não importa quão tenazmente tentemos ignorar este segundo elemento, não podemos esperar ter êxito, pois ele é uma fonte integral do complexo de idéias e atitudes, preocupações e esperanças, que nos fazem o que somos. Aqueles aspectos da herança judeo-cristã que mencionamos foram incorporados em nossa cultura ocidental, desenvolvidos e reformulados por ela. Como resultado, tecnologia e revolução não só existem uma ao lado da outra, mas agem uma sobre a outra, num estado constante de tensão dinâmica. Sempre que a tecnologia se permite ser dominada por um messianismo herético, surge um revolucionário para
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De outro lado. mas naqueles países em que o espírito revolucionário produziu um impacto profundo. o império e o sistema feudal.desmascará-la precisamente naqueles pontos em que a tecnologia causou o maior impacto. a luta revolucionária prossegue. a maior floração da tecnologia ocorreu. numa relação de apoio e tensão mútua. que tornou a revolução possível. em seu lugar. Um dos temas centrais na história ocidental é o gradual funcionamento e universalização daqueles dois processos. Revolução é a força que despedaça as velhas ideologias que se colocam no caminho do avanço tecnológico. é a revolução social que cria o tipo de sociedade aberta. Este processo também parece desdobrar-se em círculos cada vez mais amplos. De fato. não nas sociedades ontocráticas do Oriente. A destruição da ordem ontocrática que torna a tecnologia possível — e que também é impulsionada para a frente pela tecnologia — leva os homens a discutir a autoridade de todas as estruturas. E se o mito secularizado do povo eleito fornece àqueles no poder um sentido de destino. instituições e povos. o Professor van Leeuwen traça seu desenvolvimento. Em simultaneidade com isto. também torna possível para aqueles empenhados em construir uma nova ordem lutar com uma convicção similar de vocação. Num interessante capítulo de “O Ocidente Revolucionário”. que gradualmente minam todas as estruturas de autoridade e todas as velhas bases de estabilidade. foram gradualmente minados 216 . foi produzida pela tecnologia. De um lado. A mesma oculta corrente messiânica que produz em alguns uma paixão por uma sociedade tecnocrática pode levar outros a denunciar e desafiar seus elementos desumanizantes. sua marcha triunfal através do mundo todo. estabelecem uma ênfase sobre funcionalidade e racionalidade na ordem de uma esfera da vida após outra. atingindo novas classes. e os deixa livres para mudá-las. mas. O impulso original para a dessacralização de um mundo ontocrático pode ter vindo de uma mensagem judeo-cristã. em tensão mútua. nos tempos modernos. desde o tempo do Império Romano ao presente. na qual o avanço tecnológico pode prosseguir e mais contribuir para o bem-estar humano. e. Ele argumenta que os dois maiores símbolos de uma sociedade ontocrática. temos aqueles progressos associados com tecnologia. Porém podemos afirmar sem perigo que nenhuma seria o que é agora sem a outra. Tecnologia e revolução podem representar perspectivas contrastantes. Objetiva a subversão de toda a velha ordem a fim de construir uma nova que criará novas oportunidades para a emancipação e bem-estar humanos. no período antigo e medieval da história ocidental.

mas também o proletariado externo do mundo ocidental as vastas populações da Ásia. A fim de realizar esta vocação. a revolução ocidental avançou mais um passo. o desenvolvimento do Ocidente e seu impacto sobre o resto do mundo atingiu um clímax. e distribuir os recursos econômicos e o poder político como quiser. A esperança de libertação e realização.por forças trabalhando internamente. os cidadãos da nação afirmaram sua soberania. Na ordem política. de modo que elas possam ser racionalmente dirigidas pelo homem. explodindo as pretensões à divindade de parte de velhas autoridades e instituições. Na Inglaterra. a tecnologia. a luta por emancipação e racionalidade expressou-se na esfera econômica através do desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial. Temos portanto à nossa frente possibilidades quase ilimitadas para 217 . Está em seu poder moldar a sociedade de acordo com sua vontade. cujos cidadãos eram emancipados do domínio da velha ordem. No tempo atual. pela destruição de todas as estruturas autocráticas e pela criação de uma situação de interdependência de todas as áreas da vida e de todas as partes do mundo. Com isto. África e América Latina. a luta por estes objetivos conduziu à revolução. Ao mesmo tempo. que inclui não só os desprovidos e classes marginalizadas em nossas sociedades. e abrindo caminho para surgir o novo. O grupo de idéias acima referidas agiam “como uma carga de dinamite”. e estão descobrindo gradualmente que devem tomar a iniciativa na luta para alcançá-la. insistiram que o povo deve ter garantido o direito de exercer certos direitos inalienáveis. de bem-estar econômico e uma oportunidade para participar no uso do poder público. bem como sua vocação para fazer de sua nação um instrumento de libertação universal. atingiu agora todos os povos. o espírito revolucionário tornou-se universal. Além do mais. apareceram cidades novas e independentes. O processo de secularização pôs abaixo todas as velhas estruturas de autoridade e abriu todas as áreas da vida. Estão certos de que uma tal vida é possível. e que desejavam controlar sua própria vida política e concentrar sua atenção no desenvolvimento racional do comércio e da indústria. Novas nações-estados se levantaram para desafiar a desfalecente autoridade do Sacro Império Romano e dar uma oportunidade aos principais grupos étnicos da Europa para organizar sua vida da mesma maneira. transformou a revolução em algo total. A tecnologia forneceu os meios pelos quais o homem pode criar o futuro que deseja. América do Norte e França. Seu ponto central é agora a emancipação do proletariado. Com o passar do tempo. Ao final do período medieval. Disto vieram novas idéias e instituições que revolucionaram o Ocidente.

e arrojadas iniciativas novas em educação. de nós. conduzindo a revolução que ele impôs ao resto do mundo? Por certo. Falando historicamente. Devido o fato de a tecnologia ter avançado em tão grande escala em nossa sociedade. e as nações que estão ansiosas por acelerar seu próprio desenvolvimento dependem de um modo ou de outro. Metternich. político e militar. de outro. como um povo eleito. não podemos esperar resolver o atual impasse ou evitar o desastre final. compreendeu isto quando declarou: 218 . e para criar conflito. Mas dificilmente temos começado a imaginar o que seria exigido de nós se acatarmos seriamente seu pedido de uma nova relação econômica conosco e de um novo papel nos negócios internacionais. o Ocidente ainda detém tremendo poder econômico. no presente. e fazer sua parte. chamado a construir uma nova ordem e a ser agente de emancipação universal. bem-estar e renovação urbana. Em relação ao mundo em desenvolvimento. com o aparecimento de novas nações independentes na Ásia e África.provocar mudança social e transformar a vida de um lado. Porém será o Ocidente capaz de aceitar as consequências de sua própria história. Nossa existência como uma nação e nossas instituições políticas básicas foram moldadas numa luta revolucionária que constituiu uma tão grande ameaça à ordem estabelecida daquele tempo quanto as novas revoluções representam para o nosso. nosso poder é maior. nosso progresso tecnológico está intimamente relacionado com o fato de a revolução ter tido um lugar tão central em nossa história. maior cuidado pela transformação de nossas estruturas econômicas e políticas. a tarefa parece ainda mais aflitiva. Até que descubramos como inverter a tendência pela qual cada ano aumenta a distância entre as nações ricas e as pobres. caos e desintegração social. mas vieram para a América como que predestinados. pois isto requereria apoio benevolente daqueles que optaram pela revolução. Aceitamos o fim da era colonial num sentido político. o estadista austríaco do século XIX. as perspectivas não são brilhantes. e quer continuar a desempenhar um papel decisivo na luta humana tal como é definida agora. Muitos dos primeiros colonos foram produto do movimento puritano na Inglaterra. Não é difícil para aqueles de nós que são norte-americanos tomar consciência de que a escolha está colocada para nós de modo mais agudo. A despeito de todas as mudanças que se efetuaram em nosso mundo. Não só adotaram uma atitude revolucionária em relação à sociedade. ao final da era colonial.

No passado fomos capazes de responder a novos desafios devido a existência de uma vanguarda liberal em nosso meio. responsáveis. aparecemos ao povo. como o símbolo de anti-revolução. e reanima a coragem de cada conspirador. 219 . traçar programas efetivos. o que seria de nossas instituições religiosas e políticas.. Se esta maré de exemplo pernicioso viesse a se estender por toda a América. tão cheio de audácia. ideais têm pouco lugar na política — devemos. e esta ideologia agora nos cega para acontecimentos em volta de nós. as ideologias liberais parecem menos capazes de enfrentar o desafio. estão eviscerando a grande tradição otimista do liberalismo.. lamentar por aquelas que falharam. nos países em desenvolvimento. Quando a situação se torna mais revolucionária. em vez disso. onde quer que se mostrem. Permitimos que nossa compreensão de tecnologia fosse dominada por uma ideologia herética de messianismo. as causas apaixonantes do homem nada mais são do que perigosas bebedeiras psíquicas. nestes termos: Seus temas têm o propósito de ser diferentes. Consequentemente. um dos líderes da nova esquerda estudantil. e que está no âmago do pessimismo em relação à nossa liderança no mundo de hoje. Enquanto nossa presente situação se torna mais revolucionária.Estes Estados Unidos da América deixaram atônita a Europa com um novo ato de revolta. que produzirão o máximo que é realmente possível.. Vocês. estender mão amiga àquelas que parecem prosperar dá nova força aos apóstolos da sedição. mais espontâneo. do Iluminismo ao século vinte. Aqui se encontra uma das maiores razões para a crise de confiança em nossa sociedade. nas nações em desenvolvimento. que é tão evidente entre os jovens progressistas em nosso próprio país.... contudo. Tom Hayden. somos considerados em parte responsáveis pelas frustrações que sentem quando são incapazes para mudar as estruturas de sua sociedade.. mas sempre surgem as mesmas impressões: O homem é inerentemente incapaz de construir uma boa sociedade. expressou este fracasso de nossos líderes liberais e sua reação a ele. falsos liberais estão sofrendo o fracasso de seus sonhos juvenis. Encorajar as revoluções. Achamos difícil. que nos ajudou a interpretar acontecimentos e forneceu uma base de poder político para mudança. e não menos perigoso do que o anterior. se não impossível. . compreender a dinâmica contemporânea de revolução — em casa ou fora — e por conseguinte somos incapazes de responder a seu desafio. da força moral de nossos governos e do sistema conservador que salvou a Europa da dissolução completa?2 Mas algo andou errado.

estão justificando o desinteresse pela moralidade. A questão verdadeira é se. discordância. que aqui apresentamos. temos. o desenvolvimento espontâneo de novos movimentos revolucionários. Eles nos oferecem uma nova oportunidade para entender o desafio contemporâneo com que deparamos. afinal. Esta ênfase na importância da revolução neste momento histórico particular não implica em que toda a ação revolucionária seja boa e tudo o mais mau. sim. na perspectiva baseada na história ocidental. Mas. afronta e. não devemos perder nosso tempo tentando decidir se apoiaremos ou não a revolução. específica. pelo contrário. algo a contribuir para o seu êxito. estão eliminando emoção.3 Contra este fundo. bem como para serem incorporados mais uma vez em nossa própria revolução e para explicar nossa vocação no mundo em relação a ele. A nova ordem para a qual o revolucionário está se encaminhando não pode ser identificada com nenhuma estrutura política ou social. a fonte perene da própria vida. a batalha pelo futuro do homem se focaliza às vezes nas fronteiras da revolução. pode bem ser um dos acontecimentos mais significativos neste estágio de nossa história nacional. e responder a ele criadoramente. hoje. Quando isso acontece. 220 . Cada luta revolucionária traz tanto a possibilidade de uma ordem mais humana como de novas ameaças de desumanização.

Isto me foi exposto recentemente. por um jovem cientista atômico. mas 221 . O que é importante. Precisam ter uma compreensão do que está acontecendo hoje e que tornará possível para eles. bem como sua aplicação. nem com a natureza de sua própria responsabilidade. Tomando conhecimento de minha tese de que era necessária uma nova liderança radical para a construção de uma nova sociedade na América Latina. numa sociedade relativamente estável. insistiu em que eu estava preocupado com a questão errada.IV Ideologia e Teologia O tecnocrata moderno não precisa estar indevidamente perplexo com os acontecimentos em nossa sociedade. o problema será resolvido. na Universidade de Michigan. Com isto virá a industrialização e a criação de uma forte classe média. E seus esforços são apoiados por uma ideologia que torna possível para ele pensar que a aplicação continuada da tecnologia conduzirá. Está comprometido com o uso do método científico para a expansão constante de conhecimento sobre a natureza e a sociedade. disse. com nitidez. Aqueles que escolhem a senda da revolução não terão tal facilidade. à solução de magnos problemas sociais e criará possibilidades de uma vida melhor para um crescente número de pessoas. Por estas medidas. não só romper com esta ideologia. capaz de tal liderança. é fornecer força nuclear em grande quantidade para a produção de eletricidade nos países subdesenvolvidos.

Desta maneira. podemos chegar a conhecimento limitado. porém útil. nossa ação na sociedade foi orientada por uma visão-universal filosófica geral. pelo uso da razão. e temos ainda menos confiança na habilidade da razão humana para alcançar uma síntese fidedigna dela. esta abordagem tem sérias limitações. os mais seguros desta responsabilidade não vêem modo claro de realizá-la. Não mais estamos certos de que a realidade é racional. mas também na transformação da sociedade. ser-lhes-á necessário pensar sobre velhos problemas de novas maneiras. então o que deve nos interessar é o estudo empírico de esferas restritas ou fragmentos de realidade. podia desvendar seus mistérios. pragmática e empírica. Nossa abordagem norte-americana do problema. Dentro desta estrutura. e de que a marcha acelerada da mudança social os torna obsoletos na época em que são formulados. também deixa muito a desejar. O marxismo ortodoxo representa o último grande esforço para organizar a sociedade segundo esta visão-universal total. Hoje. Isto é mais ainda complicado pelo fato de que. por novas maneiras de abordar a realidade histórica. e ficar contentes com o que oferece para a ordenação de nossa sociedade. não só era possível formular uma opinião geral do homem e da sociedade. não só em conhecimento. Afirmando que a ideologia não é mais necessária. se é impossível para nós encontrar respostas para questões básicas ou ter uma visão-universal integrada total. Se quiserem chegar a alguma parte. mas também chegar a conclusões definidas sobre o futuro bem como sobre os melhores meios de avançar em sua direção. a situação está mudando. Hoje. mesmo ali.também desenvolver uma perspectiva de opção. especialmente para o revolucionário. Esta atitude serviu para livrar homens de velhos modos de pensar e tem aberto o caminho para avanços. gradualmente. Esta é uma tarefa formidável. contudo. estamos agora certos de que a qualidade concreta da realidade social nunca se ajustará por completo a tais esquemas abstratos. Raciocinamos logicamente que. e formular novas perguntas. que era baseada nos pressupostos de que a realidade era fundamentalmente racional e de que o homem. Por séculos. caiu vítima de um ethos ideológi222 . Mais do que isso. indicam claramente que as velhas fórmulas perderam muito de sua força e que estão sendo substituidas. todas estas perspectivas metafísicas perderam sua atração para nós. sugerir como estes objetivos podem ser atingidos e prover uma base razoável para a esperança de que tal transformação social é possível. contudo. com frequência. em todo o mundo. Devem estar preparados para definir seus objetivos. Novos movimentos nos círculos intelectuais marxistas.

nossa sociedade produzirá “especialistas sem espírito ou visão e pessoas voluptuosas sem coração”. a fim de entender nossa experiência social? Podemos ser agnósticos sobre a natureza básica da realidade social e ainda ser livres para fazer tudo dentro de nossas forças para mudá-la? Podemos descobrir um meio de pensar sobre nossa existência social e nossas probabilidades para o futuro que combine ser o mais completamente aberto para a complexidade e a qualidade concreta de uma situação sempre mutante. pelo artista e filósofo. encoberta por uma espécie de sentido convulsivo de auto-importância”. aqueles que se sentem orgulhosos de sua pesquisa científica nãoideológica permitam a si próprios ser utilizados pelo governo ou pela CIA para propósitos ideológicos muito definidos. para terminar subordinando nossas preocupações científicas a uma visão restrita de auto-interêsse individual e nacional.co oculto que restringe nossas áreas de interesse. Quando nossa investigação científica da ordem social não está relacionada com uma tentativa para entender quem somos como seres humanos. resta só um pequeno passo até o ponto em que. como Tom Hayden o colocou. o povo cessa de esperar qualquer coisa além do mal necessário”. e ao mesmo tempo fazer o uso máximo dela. No último caso. observada empiricamente. E. A análise de Max Weber das consequências desta abordagem diz respeito a nós. Quando isto acontece. Escreve: 223 . o moralista e o teólogo? No parágrafo de conclusão de seu ensaio sobre “Objetividade. os sonhos morrem. e para onde vamos. Em sua Sociologia da Religião declara que só duas alternativas ainda estão abertas para a sociedade ocidental: uma renovação espiritual — provocada por profetas inteiramente novos ou por uma poderosa renascença de velhas idéias e ideais — ou “petrificação mecanizada. e aceitar as intuições fornecidas por nossa experiência histórica. Weber prediz que virá um tempo em que isto será absolutamente essencial. na Ciência Social e Política Social”. e pode fechar nossos olhos para a série de possibilidades latentes numa situação. muito provavelmente. e estamos. Há alguma saída para este impasse? É possível para nós reconhecer as limitações da razão. Tecnologia e ciência tornam -se ferramentas com que conflitos são manobrados e gente jovem é mantida sob custódia até que esteja sem paixão. limita as indagações que fazemos. esta distorção ideológica de nossa perspectiva é inevitável. na qual as promessas humanas ficam irrealizadas. uma sociedade manobrada “é uma paralisada.

mas logo se cansa do esforço. perderá sua consciência de seu enraizamento básico nos valôres-idéias em geral. é o resultado de uma empresa coletiva. e acaba repetindo clichês irrelevantes. Na verdade. também. Tais progressos ideológicos positivos não ocorrerão espontaneamente. Representa uma tentativa de examinar progressos sociais particulares. Segue aquelas estrelas que sozinhas são capazes de dar significação e direção e seus trabalhos . a fim de definir objetivos e trabalhar por mudança. precisamos demais de tais “culminâncias do pensamento” e “estrelas” para dar significação e direção a nossos trabalhos. Porque a ideologia fornece uma oportunidade para tal autocompreensão — por parte de indivíduo. Pensamento ideológico dá ênfase ao envolvimento numa situação particular como uma condição essencial para chegar a uma intuição verdadeira. A significação dos pontos-de-vista usados irrefletidamente torna-se incerta e o caminho se perde no crepúsculo. oferece a possibilidade de explicar algo do significado latente na história que está para ser feita.1 Hoje. Mas vem um momento em que a atmosfera muda. Um movimento revolucionário pode começar com reflexão criadora sobre os eventos de que participa. O tipo de análise e entendimento que agora necessitamos só pode ser fornecido por ideologia. As 224 . Está bem que seja assim. Pois ideologia é o produto do pensamento sobre a qualidade concreta da vida do homem no mundo. bem como do futuro. para mudar seu ponto-de-vista e seu aparelho analítico e para investigar as correntes de acontecimentos das culminâncias do pensamento. ou grupo de valores básicos. e podemos não estar desejosos de aceitar a disciplina que exige. Cessará de avaliar a importância dos fatos individuais em termos de suas relações com valôres-idéias básicos. grupo e nação — pode ajudar a manter aqueles ameaçados de mudança.Toda pesquisa nas ciências culturais. uma vez que seja orientada para um assunto dado através de colocações particulares de problemas e tenha estabelecido seus princípios metodológicos. Então a ciência se prepara. numa idade de especialização. que sejam capazes de fazer isto. uma busca de compreensão. dentro do contexto de sua mais ampla experiência histórica e humana. A luz dos grandes problemas culturais circula. à luz do passado. da qual as massas podem também participar e contribuir para um processo gradual de despertar social e reflexão. ao mesmo tempo que serve como um fator dinâmico na luta social. considerará a análise dos dados como um fim em si mesmo. torna-se satisfeito com suas conclusões primeiras. Não possuímos muita experiência deste tipo de esforço intelectual. Mas não possuímos sistema filosófico.

está intimamente relacionada com esta corrente teológica subterrânea. com sua ênfase no desenvolvimento. mostra como todas as questões básicas sobre o homem e a sociedade que agora requerem nossa atenção são reformulações de questões teológicas. É amplamente reconhecido que nossa perspectiva ocidental da história. só podemos confessar o que um estudante asiático descreveu recentemente como a “profunda humilhação” do cristão no meio da revolução moderna. estarão abertos a — e têm à sua disposição — todas as análises e experiências que podem oferecer indícios para a compreensão do homem e sua história. bem como minhas tentativas para refletir sobre sua significação. Leszek Kolakowski. Como o leitor está bem certo. Ernst 225 . que muitos revolucionários modernos sentiram-se compelidos a se tornar ateus. e as prospectivas futuras para a empresa humana. ou nos lançamos corajosamente à tarefa de produzir as melhores ideologias que podemos ou ficaremos escravizados pelo ethos ideológico inconsciente que nos cerca. Na era em que estamos vivendo. bem como aqueles dedicados à tarefa de sua renovação. Um exame mais profundo de nossa história ocidental pareceria indicar que certos elementos na tradição judeo-cristã nos impulsionam para outra direção. Este fato tem estado no fundo de tudo que tem sido escrito até aqui. E ainda mais. O fato de existirem estes perigos não é razão suficiente para abandonar o esforço. agora tratarei dele mais explicitamente. Num recente ensaio “O Sacerdote e o Brincalhão”. Foi deste conceito que se desenvolveu meu envolvimento na revolução. que nada pode ser realizado tentando ocultá-las.exigências de uma luta revolucionária pode tentar seus líderes a tornar absoluta sua própria posição. minha abordagem do problema é feita da perspectiva da teologia. isto não é toda a história. e transtornam a estabilidade interior do pensamento e vida cristãos de tempos em tempos. a igreja e seu pensamento têm sido tão identificados com a velha ordem. Quando isto acontece. a ideologia faz parte do tipo de compreensão social que constituiu sua razão original para existir. A posição conservadora da igreja e a irrelevância de muita teologia são tão evidentes. De fato. progresso e mudança social.2 um jovem filósofo polonês. a natureza da realização humana. especialmente quando não há alternativa clara. Estou bem certo de que a maior parte das pessoas não está inclinada a seguir esta direção para a orientação da revolução. A questão que nos pode preocupar é se aqueles dedicados ao estudo empírico de nossa sociedade. E o importante filósofo marxista.

minou “toda autoridade terrena” e impulsionou “a desvalorização radical do mundo convencional. continuar desconhecido: Quando afastamos aquelas camadas de metafísica e religiosidade por trás das quais a fé cristã está com tanta frequência escondida. as primeiras ideologia. que está radicalmente orientada em direção ao futuro. não provam que a teologia tenha alguma contribuição a fazer na presente situação. organização e disciplina modernas para a revolução social. Mas podem ajudar -nos a perceber algo que podia. VII). Esta posição revolucionária foi a expressão autêntica de sua teologia. bem como às revoluções que encontraram sua inspiração primária no Cristianismo. de outro modo. 100). que todas as aspirações utópicas dos grandes movimentos de libertação humana se derivam do Êxodo e das partes messiânicas da Bíblia”..3 por Michael Walzer. The Revolution of the Saints. Disto surgiram. Walzer chegou à conclusão inesperada de que ele representou “a mais antiga forma de radicalismo político”: “O Santo calvinista me parece agora o primeiro daqueles agentes autodisciplinados de reconstrução social e política que apareceram tão frequentemente na história moderna. e refletir sobre as possibilidades abertas para a realização humana à luz da humanidade de um homem — Jesus de Nazaré — e daqueles mais diretamente influenciados por ele. segundo Walzer. Isto implica em que a fé cristã atribui uma significação especial a certos eventos do passado. Isto. E isto está muito perto do que diz respeito a uma ideologia de revolução. o que permanece é uma perspectiva da história e das possibilidades para a realização da vida humana. Com isto não 226 .. Ele é o destruidor de uma velha ordem da qual não há necessidade de se sentir nostálgico” (p. Propondo -se examinar o Puritanismo como um movimento político. Estes exemplos históricos. A tônica calvinista sobre a soberania de Deus em toda vida e história deixou o puritano livre para tornar relativas todas as lealdades menos importantes. deu uma grande dose de atenção aos elementos proféticos e apocalípticos na Bíblia. possuem o caráter de uma “revelação”. e romper com a estrutura metafísica na qual a velha ordem estava estabelecida. é claro. um jovem professor de política na Universidade de Princeton. legal e intelectual” (pág. Uma destas revoluções é cuidadosamente analisada e apreciada num fascinante livro.Bloch. no movimento puritano. ver através de pretensões de instituições sociais e políticas. A teologia tenta examinar nossa experiência histórica à luz de uma história particular — a do povo de Israel. do status quo político. Chega a declarar que “mesmo os cristãos sabem.

mas nos colocam também ante um difícil problema. será indicada pela possibilidade. Estes são instrumentos mais adequados para comunicar a variedade e riqueza de existência histórica dinâmica. que tal reflexão sobre o passado oferece. O trato com problemas sociais à luz desta perspectiva não precisa nos levar a defender nossa própria teologia ou insistir que todos adotem nossa visão total. precisamos correr o risco de desenvolver um princípio hermenêutico.queremos dizer que uma experiência passada foi tornada absoluta. a despeito da tendência dos teólogos para fazer exatamente isso. No centro do Velho Testamento está a peregrinação do povo de Israel do Êxodo e escravidão à Terra Prometida e liberdade. e para apreender as reais possibilidades abertas para o futuro. pode dificilmente ser expressa num sistema teológico abstrato. alguma formulação conceptual da significação principal daquela experiência em relação à nossa própria. nem que a crença em sua significação deva conduzir a pretensões de superioridade deste dogma ou religião. Isto sugere que a existência histórica é uma luta contínua em prol da libertação. experiências específicas e sua interpretação. A idéia básica de revelação é a de “remover o véu” por trás do qual a realidade está oculta. Quando olhamos para a realidade contemporânea partindo desta perspectiva. Portanto. Se esta perspectiva é válida. No Novo. imagens e parábolas. está um movimento do primeiro para o segundo Adão. reconhecendo que nenhum princípio semelhante será inteiramente adequado. Qualquer tentativa semelhante. então proporcionará apreciações sobre o dilema humano e possibilidades que podem ser aceitas por aqueles que não partilham as mesmas pressuposições. se possuirmos alguns princípios de interpretação. para entender o que está acontecendo agora. de interpretar o que está acontecendo no mundo. muitos elementos surgem que me parecem particularmente relevantes para nossas reflexões 227 . entre uma experiência histórica prévia e a presente situação. Se há alguma verdade na reivindicação cristã. do nosso presente estado para a nova humanidade. e que deve ser objeto de constante reexame e revisão. A própria Bíblia nos fornece uma vasta variedade de conceitos e símbolos. no meio da qual o homem é repetidamente surpreendido por novas possibilidades de significação e realização — na vida individual e coletiva. Só seremos capazes de conduzir um diálogo significativo. O que pode fazer é nos fornecer um meio de considerar sobre as questões concretas que enfrentamos ao elaborar uma ideologia de revolução que possamos usar aberta e livremente.

Fala da configuração do futuro com confiança. e. contribuirá para o bemestar do homem sem aguardar até que toda evidência se mostre. é possível ser realista sobre a natureza humana e sobre qualquer situação 228 . não há muito espaço para lidar com esta questão. e afirma a liberdade do homem. para sua interpretação histórica. por segurança. A ação pode ser empreendida na certeza de que nova apreciação virá ao longo do caminho. deposita confiança demais na racionalidade da história. Como foi sugerido antes. revela que a perspectiva judeo-cristã sobre história desempenhou um papel importante em nossa autocompreensão ocidental e é ainda. no entanto. a atitude cristã para com a realidade abriu o caminho para o desenvolvimento de uma perspectiva incomum da história. Butterfield — trabalharam neste problema e nos apresentam uma variedade de perspectivas. Messianismo e Poder na Formação da História Para os que estão procurando alguma perspectiva na história como uma base para sua reflexão sobre revolução. os quadros imediatos não são encorajadores. e de que erros podem ser corrigidos. Mesmo uma leitura superficial destes estudos. e não proporciona base sólida para esperança quer no presente quer no futuro. Pode agir de um modo que. e termina por ser essencialmente determinista. e fornece fortes bases racionais. Implicou em que o homem pode adquirir alguma compreensão do que está sucedendo em volta dele e portanto trabalhar por maior inteligibilidade sem necessitar recair numa visão-universal total. Mas não vê possibilidade de significação no processo histórico. Jaspers. é sensível à grande complexidade de cada situação histórica. Bloch. Porém é por demais esquemático e rígido. Neste contexto. Um certo número de filósofos e historiadores — Toynbee. afirma que a história está inevitavelmente caminhando para uma maior humanização. O existencialismo também luta com o problema. O marxismo tem uma resposta clara. Expressou a convicção de que alguma coisa de positivo estava acontecendo no processo histórico. tornou possível assumir uma atitude de confiança em face de acontecimentos espantosos e complexos. um fator nas tentativas contemporâneas para responder nossas questões mais prementes.presentes sobre revolução. que nos interessam ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações. em certo grau. Dentro das limitações que a filosofia moderna se impôs. e sem um esquema total de fatos para garantir os resultados de seus esforços. ele espera. por conseguinte.

Portanto. e nem método seguro para garantir seu aparecimento final. Naquele momento.particular. e os recursos da lei. Na escala política estes termos se referiam àquelas estruturas da sociedade que eram essenciais para a existência humana. piedade e religião se combinaram para se livrar de alguém aceito por muitos como o Messias.4 Quando o povo de Israel refletiu sobre o significado de sua experiência. a luta contra estas forças intensificou-se. porque mantinham a sociedade unida e preveniam o caos. uma tal idéia ingênua estava sempre sendo desmentida pelos acontecimentos. No âmago desta perspectiva está o que melhor pode ser descrito como messianismo completo. O problema era elas estarem sempre escapando ao controle. Quando a ação messiânica se tornou mais claramente definida e intensa. faziam reivindicações imperiosas para elas e pretendiam dar significação básica à vida. De fato. um soberano cujo aparecimento podia significar o estabelecimento de uma nova ordem no mundo. não foi idêntica à nossa doutrina liberal de progresso. Em vez de estarem contentes com um papel limitado. no entanto. aparentemente simples. Esta tarefa. 229 . estado e igreja juntaram forças. o rei messiânico surgiria depois de a Casa de Davi ter sido destruída. aparecem novas possibilidades para a vida humana na história. após todas as possibilidades humanas terem sido esgotadas. A tremenda seriedade desta luta está caracterizada na crucificação de Jesus. de remover alguém que se tornou uma ameaça à ordem estabelecida. para usar as palavras de alguns dos escritores bíblicos. Principados e potestades. produziu resultados inesperados. Sua vida inteira como nação estava orientada para a vinda do Messias. sempre achavam o meio. Não era uma questão de romper com elas. funcional. a história não é meramente uma luta constante pela libertação humana. mas de forçá-las a aceitar seu devido lugar como serviçais em vez de senhores. Porém se a esperançosa espera do Messias era o elemento central da fé. não havia meio de saber ao certo quando e onde ele viria. Na perspectiva messiânica. ele era o novo rebento que brotaria de um tronco morto. Por mais que o povo judeu quisesse acreditar que o favor de Deus significaria crescentes segurança e prosperidade nacionais. os esforços para chegar à idade messiânica e estabelecer uma nova ordem constantemente acabavam em perturbação. chegou à conclusão de que a história estava indo para algum lugar. e todavia não tombar vítima de desespero. A esperança messiânica. Isto significava quebrar seu poder e autoridade fundamentais sobre o homem. é uma luta que se está dirigindo para seu objetivo.

O que aqui temos. ou estimar corretamente o impacto do futuro sobre ele. que isto ocasionou. os poderes eram desmascarados e vencidos. que uma tal visão da história era a mais realista e fornecia a melhor oportunidade para entender o que traria o futuro. em qualquer momento particular. Jesus é visto como tendo “se descartado dos poderes e autoridades cósmicos como uma vestimenta”. enquanto fraqueza e derrota podem ser o caminho para a vitória final.Aqueles que haviam se colocado ao lado do Messias concluíram que esta luta entre os poderes e o Messias lhes fornecia um indício do que estava acontecendo na história. Ele “fez deles um espetáculo público” (Colossianos 2:15) — expulsou-os do cargo. A revolução no pensamento. Estão empenhados num esforço de avaliar corretamente os poderes como imagens dos interesses de grupos diversos na sociedade. transformar-se em derrota. os fariseus. o que os primeiros cristãos estavam dizendo. é a matriz da qual uma visão revolucionária de história pode emergir finalmente. A agudeza e maneira vívida da descrição que o Novo Testamento faz disto é extraordinária. a longo termo. equilibrá-los e usá-los para objetivos específicos. em essência. Não é esta a maneira pela qual políticos e estadistas usualmente olham para o mundo à sua volta. devemos focalizar nossa atenção naqueles pontos onde movimentos messiânicos estão em ascensão e desafiando as estruturas de poder da sociedade. mesmo represen230 . No contexto da teologia cristã a crença de que Deus estava agindo desta maneira significou que a realidade histórica funcionou nestes termos. Especialmente onde está envolvido poder. Perturba os cálculos prudentes de políticos e pode facilmente ser considerado subversivo. nesta luta. Dentro deste arcabouço.5 E o que é ainda mais surpreendente. O fato notável sobre tal afirmação é que foi feita em um tempo em que parecia completamente claro para todos os demais que os poderes tinham obtido sucesso e que o movimento messiânico fora destruído por completo. pode ser constatada desta maneira: Se quisermos entender o que realmente está acontecendo na história. era que aparências são enganadoras. que possam contribuir para o bem-estar social. uma vitória arrasadora pode. mas as melhores: o Império Romano como imagem de lei e ordem. e a piedade de sua seita mais devota. De fato. então. e ainda representa. qualquer grupo que represente uma preocupação messiânica e que queira mudar a ordem social no interesse da emancipação humana é algo como um aborrecimento. impediu-lhes o caminho. Também se convenceram de que. Portanto. a religião do povo eleito de Deus. os poderes aqui postos a nu e vencidos não são as piores instituições da sociedade.

Podemos responder diferentemente a um novo desafio quando é levado a nós através de contatos sem precedentes com o mundo subdesenvolvido e pela constante confrontação com as pequenas comunidades messiânicas em nosso meio. dentro do país. nenhum país ou comunidade pode ser entendido meramente em termos de seu passado. Mais importante é o fato de não estarmos obrigados a agir do mesmo modo que agimos até agora. continuar a agir politicamente dentro de um arcabouço de compreensão que exclui esta dimensão. dentro das estruturas de poder da sociedade. urgente e necessária. Porém também podemos aceitar a possibilidade de poucas coisas serem mais importantes para estadistas e políticos que querem agir de modo realista do que levar este humanismo messiânico em conta. com frequência. Num mundo em que nações pobres estão fervendo em revolução por causa de sua pobreza e sua exclusão dos centros de vida internacional. quando estudantes neste país vão ao Mississipi trabalhar lá com os negros. é claro. qualquer definição de nosso auto-interêsse nacional. Em uma sociedade na qual estes movimentos de libertação humana são uma força dinâmica e o povo é confrontado com um claro testemunho da relação estranha e paradoxal entre força e fraqueza. num mundo no qual as acomodações de auto-interêsses são continuamente perturbadas por pressões externas e protestos internos. a reação é.tantes mais progressistas do Establishment não são de modo algum capazes de entender porque tais grupos estão em volta ou o que fazer com eles. Se estamos interessados em saber quais são as possibilidades de a América responder produtivamente ao desafio de revolução mundial. é sempre útil olhar para nosso passado e tentar descobrir ali aqueles elementos que nos dão certa segurança de que podemos entender e tratar com uma tal realidade. similar. Qualquer política nacional estreitamente definida nestes termos também acaba por alienar aqueles grupos. cuja preocupação por emancipação humana torna sua participação. Podemos. na moldagem da política de comunidade e nação. não é todo o quadro. Por mais decisivo que o auto-interêsse seja. e lidar com ele numa perspectiva que lhe possa dar sentido. é o fato de comunidade e nação existirem. Quando jovens de ricas famílias aristocráticas no Brasil abraçam a causa de empobrecidos camponeses. No contexto do messianismo. Em oposição a ele. que deixe de tomar seriamente estas correntes de messianismo. novas 231 . ou ministros presbiterianos tomam a iniciativa em organização comunitária nos guetos urbanos nortistas. trabalha contra nosso próprio interesse. e igualmente importante a longo prazo.

Uma sociedade segregada pode manter toda espécie de mitos sobre si mesma por longo tempo. As estruturas econômicas. e para estimar as perspectivas de mudança revolucionária. algumas pessoas pelo menos. a política de nosso governo na América Latina e seu apoio ali aos regimes mais reacionários. não é mais dominado pelos velhos moldes de relação que aceitara como certos. e fazer exigências que são injustificadas. sem questionar. porém. não está longe de começarmos a ter dúvidas sobre a estabilidade e poder da ordem atual.possibilidades se revelam para compreender o que está acontecendo na história. Porém. estes poderes são desmascarados. o estudante universitário aprende a discutir suas anteriores atitudes em relação à autoridade. de súbito. Então. violência e assassínio para se proteger de tais ameaças. nos leva a mandar 12. ou decide que não há outro modo de ali trabalhar por mudança que não seja a participação em movimentos de guerrilha. O negro.000 soldados e a apoiar uma elite militar que atira em trabalhadores e estudantes indefesos. aqueles que vêem necessidade urgente de mudança perdem gradualmente sua confiança na velha ordem e se recusam a aceitar sua autoridade sobre eles. a inadequação espiritual e as consequências desumanizantes fundamentais do legalismo e da devoção de seu tempo. Torna-se evidente que se excederam em seu mandato e que por esta razão estão em chão instável. e de nada adianta subestimá-las. A vida e ensinamentos de Jesus puseram a nu a bancarrota moral. que visam à forma real do humano. vê que não precisa estar amarrado por todo o ethos do sistema 232 . quando adolescentes negros estão querendo arriscar violência e prisão para protestar contra ela. estes mitos são cortados pela base. Quando uma revolução relativamente sob controle. Mas têm também uma tendência para se mostrar mais poderosas do que realmente são.— até o momento em que significativo número de estudantes católicos abandona tudo para organizar ligas camponesas. Podemos aceitar. políticas e sociais do status quo têm tremendo poder. quando movimentos de emancipação humana surgem. numa sociedade segregada. a precariedade de sua situação se torna evidente. Os poderes não podem mais esconder a diferença entre suas pretensões e o que realmente são. entre o que dizem oferecer e o que realmente fazem para a vida humana. Enquanto permanecem indesafiadas. num pequeno país do Caribe. Como este processo continua. E quando esta sociedade acha necessário confiar em ódio. o camponês brasileiro. podem manter esta ilusão. Hoje algo similar acontece quando aparecem movimentos messiânicos. começam a enxergar através dos clichês vazios usados para defender uma tal política.

aqueles que estão trabalhando por mudança encontram-se numa situação paradoxal. Tendo de fazer frente a este desmascaramento de suas pretensões. De outro lado. uma vez que libera o revolucionário de preocupação excessiva com o futuro imediato e com o que lhe está acontecendo. e torna possível para ele concentrar-se no trabalho a ser feito. Como a maior parte de nós não está inclinada a pensar sobre história nestes termos. ou aceitar este julgamento e se ajustar à nova realidade. Sua liberdade para tomar uma tal atitude de confiança em relação ao futuro. que só podem se mostrar destrutivas. E alguns daqueles que mais desesperadamente desejam preservar o status quo percebem que estes poderes os estão conduzindo a um beco sem saída e fazendo-lhes exigências extremas. Reagindo exageradamente à situação. Uma vez que são os que revelaram a instabilidade da velha ordem e seu caráter desumanizante. pode perceber que esta confiança no poder esconde a inabilidade da velha ordem para responder de maneira fecunda a novos desafios. sofrimento e derrota contribuem para a vitória decisiva. O revolucionário pode descobrir que sua própria fraqueza é mais forte do que imaginava. Quando escolhem este segundo caminho. mostram quão inseguros são. Podem ser objeto do ódio e fúria de homens desesperados. em assim agindo. e para agir de acordo. e dão passos que revelam a um crescente número de pessoas quão desumanizante é toda a ordem. podem. Ao final. com frequência. tornam o problema pior. ou usar o poder que têm. devido ao uso de seu poder de desmascarar o velho sistema. Porém. pode ser um fator importante para determinar o resultado da luta. manter a situação sob controle e eliminar todas as ameaças imediatas. Devido sua sensibilidade para prever o que virá. e põem em movimento forças que lhes será cada vez mais difícil controlar. em autodefesa.patriarcal. E. os poderes podem. o revolucionário estará bem seguro da fraqueza de sua própria posição e descobrirá que seu movimento está destinado a sofrer uma derrota sobre a outra. que dominou a vida rural por séculos. e que perseguição. Este mesmo revolucionário está também numa posição única para ver a instabilidade da velha ordem e reconhecer que ela está travando uma batalha sem esperança. Com isto quero dizer que eles 233 . um dos elementos mais importantes numa luta revolucionária é a presença de pequenas comunidades de homens e mulheres que estão empenhados numa ação parabólica. vão a extremos que provocam oposição mais esclarecida e organizada. seu esforço para impedir mudança torna quase inevitável uma solução mais radical. podem esperar ser atacados violentamente pelos detentores do poder.

e que este modo de lidar com violência pode tornar mais provável uma solução violenta. Quanto mais rígida for uma instituição. com facilidade. Até aqui. a ponto de levar a uma obsessão com estabilidade. são os verdadeiros inimigos da estabilidade. e o reconhecimento de que desintegração social e violência podem. não os revolucionários. preparar o caminho para o totalitarismo e atrasar. O fato de os liberais parecerem tão propensos a cair presas dela quanto os conservadores torna o problema ainda mais urgente. Esta perspectiva da história. ou as formas de exploração feudal-colonial na América Latina. não é a mudança.examinam minuciosamente esta perspectiva em seus mais importantes limites. que bloqueia indefinidamente a mudança. com ainda mais tristes consequências. um interesse autêntico pela ordem deve encorajar-nos a correr os riscos de mudança e tomar consciência de que quanto mais cedo isto for feito melhor. ao mesmo tempo. as consequências disto têm sido as mais evidentes em nossa política para as nações em desenvolvimento. é muito possível que muitos queiram recorrer à mesma ideologia. Porém este cuidado está dominado por uma perspectiva ideológica que distorce todo o quadro. Isto deve também levar aqueles que são mais conservadores a se pôr em con234 . de tal maneira. numa sociedade dinâmica. minimizar a necessidade de mudança. Aqueles que ajudam a preservar uma sociedade segregada neste país. mas a oposição a ela. o desenvolvimento econômico e a melhoria da sorte das massas empobrecidas. Na perspectiva do messianismo bíblico. Portanto. em nossos esforços para lidar com duas questões fundamentais: a relação entre estabilidade e mudança e o papel da violência na transformação social. e querer chegar a qualquer medida para eliminar a ameaça de violência — exceto em se tratando da defesa da ordem estabelecida. acredito. sua destruição pode ser necessária. Quando qualquer estrutura particular da sociedade se torna tão rígida. dada a situação revolucionária que enfrentamos internamente. que outros são supridos de sinais que sugerem como as coisas andarão. estabilidade e ordem tomam forma do outro lado da mudança. O resultado final desta cegueira ideológica é nosso fracasso em ver que uma tal tônica sobre estabilidade pode tornar uma situação explosiva mais instável. que constitui a maior ameaça à ordem e estabilidade. Nossa atual política é parcialmente motivada por um legítimo interesse em estabilidade e ordem. maior a probabilidade de eventual descontinuidade institucional. oferece-nos uma saída do impasse ideológico ao qual estamos agora presos neste país. Geralmente.

esforços não violentos para mudança e temos ajudado a criar uma situação — na América Latina. Pelo menos nosso governo não decidiu ainda que deve treinar uma grande parte das forças armadas. ele. em muitos países. Porém. para remover o problema que lá existe. efetivamente. bem como em outras partes do mundo. onde a necessidade de revolução é maior. Nesta situação paradoxal. na América Latina. naqueles pontos onde a situação é mais desesperada. de que o negro foi emancipado e nossa unidade 235 . o problema de violência não é. tanto para bloquear a mudança como para produzi-la. e envolvemos nossos próprios militares e mesmo cientistas sociais neste esforço. É nosso ponto de vista que a perspectiva messiânica que indicamos aqui oferece tal possibilidade. Aqueles que são chamados a lidar com este problema só serão capazes de fazê-lo de modo sábio se forem livres para encará-lo abertamente e entender suas dimensões plenas. em um mundo no qual o povo acordou para a esperança. para lidar com agitação interna. Ajudamos a transformar as forças armadas tradicionais. sério e complicado. porque só este tipo de relação e esforço pelo diálogo pode contribuir para a estabilidade do tipo de sociedade em que agora vivemos. de tempos em tempos. ao mesmo tempo. em unidades anti-subversão. agimos de maneira muito diferente. ou se apoiar em ocupação militar maciça de nossos “slums”. Podemos aceitar o fato de que nossa nação nasceu em um ato de violência. Mas. Em nossa própria sociedade. Como resultado fortalecemos grandemente aqueles grupos no poder que têm bloqueado. a violência pode ser um importante elemento. está constantemente pressionando para uma nova ordem.tato com o encorajar aqueles que estão trabalhando por mudança. que necessariamente implica numa “violação” da velha. Nossa influência ocidental no resto do mundo criou uma situação que agora parecemos incapazes de entender ou de ajudar outros a entender. Numa sociedade estática. abre nossos olhos para a necessidade urgente de movimentos que violentem a velha ordem. o povo. no meio da revolução. pelo menos — em que um crescente número daqueles mais cônscios do que está acontecendo concluem que a guerra de guerrilhas oferece a única esperança de mudança social básica. onde não há pressões messiânicas por mudança. aceitamos a possibilidade de que a violência possa irromper. Quando tal expectativa se torna mais universal. temos a liberdade para entender nossa própria história. e também enfrentar de modo realista as opções à nossa frente. Cria uma sensibilidade para o caráter desumanizante da luta violenta. usualmente.

Gradualmente esta influência penetrou cada vez mais fundo na sociedade e também na autocompreensão do homem. Se todas as autoridades estão perdendo seu poder básico. De fato. podemos concentrar-nos no tipo de estudo e ação que ajudará a minimizar a necessidade de violência e limitar sua destrutividade no processo de mudança social. porque vemos aqui o trabalho de Deus. atitudes e ideologias. A crença cristã na criação e na subordinação de toda natureza. podem manter a ordem na base da confiança implícita e respeito por ele. ethos ou visão-universal comum. e vêem só caos pela frente.nacional preservada por meio de violência. de fato. e param nisso. nenhum código moral ou legal. sem pôr em questão. outros corajosamente afirmam sua singularidade e independência. Nenhum grupo ou classe de povo. muitos desesperam de qualquer possibilidade de integração social. e em quase todos os países. Nosso mundo está se tornando crescentemente pluralístico e interdependente. Todos os povos do mundo estão em contato entre si e são dependentes uns dos outros. testemunhamos a rápida deterioração de todas as estruturas de autoridade. Ao mesmo tempo. em nossos guetos urbanos e no mundo subdesenvolvido. e o proletariado externo do mundo ocidental rebelou-se contra seu status colonial. história e vida humanas a uma soberania primeira. Ao mesmo tempo. O homem tem sido deixado livre para prosseguir em direção à nova humanidade. Estamos livres para admitir a possibilidade de que atos de violência possam ter lugar na luta dos povos desprovidos. a constante expansão de conhecimento e experiência nos leva na direção oposta. Este desenvolvimento não é um fim em si mesmo. é a pré-condição essencial para a realização messiânica. este processo todo parece muito diferente. culturas. a autoridade de seus pais. Esta inter-relação forçada não é apoiada por uma história. Como resultado. toda 236 . Há um elemento adicional em nossa compreensão da história que influenciará nossas ideologias políticas. em termos por completo diferentes daqueles do passado. e está munido de um crescente número de elementos que contribuem para isto. Ao contrário. Jovens não aceitam mais. Começamos por aceitá-lo. povos de todas as classes são confrontados diretamente com indivíduos e comunidades representando outras línguas. Do ponto de vista de uma teologia do messianismo. dessacralizou todas estas esferas e minou todas as estruturas de autoridade. os pobres não confiam no cuidado paternalista dos ricos e poderosos. podemos chegar a afirmar que a história ocidental recente torna nossa escolha mais clara e mais inescapável: entre caos e novos esforços por integração social.

isto não é uma barreira insuperável para o reconhecimento de que agora não temos escolha senão determinar como melhor desenvolver nossos recursos e distribuir os bens que produzimos. que nos dá nova liberdade para entender o que está acontecendo à nossa volta e para responder a isto mais criadoramente. experiências e culturas muito diferentes. a menos que esteja relacionado diretamente com a história mais imediata de que somos parte. tal reflexão deve sempre estar buscando significado numa situação dinâmica e flexível. representa o esforço que está querendo dispender e o preço que está querendo pagar. Isto não pode ser feito hoje por uma mistura de teologia e filosofia em algum novo sistema. Por sua real natureza. Neste processo vamos descobrir que reconciliação. mas podem travar diálogo sobre as possibilidades de realização humana que estão à sua frente. Nossa base e teorias políticas podem ser amplamente divergentes. Deve vir como o resultado de uma conversação sem interrupção entre nossa herança teológica e os acontecimentos de nosso tempo. tensão e conflito são inevitáveis. é uma questão de querer ordenar assim a própria vida no presente. em que diferença. que objetivos estabelecerá para o futuro. abre caminho para novas relações e novas riquezas de vida individual e social. e então reunir-se num esforço comum para alcançá-los. Porém tudo isto representa muito pouco para nós. a fim de se adiantar para os objetivos que ela estabeleceu. Podemos ser a favor de sistemas econômicos diferentes. podemos aceitá-los pelo que são e trabalhar constantemente por reconciliação. Disciplina é essencial. para a comunidade. Uma nação ou uma comunidade deve decidir que tipo de mundo quer. Tudo isto pode justificar uma observação conclusiva: a reflexão teológica sobre história será mais relevante para a luta ideológica. portanto deve permanecer sempre experimental e aberta para 237 .vida e sociedade precisa ser ordenada pelo futuro em vez de pelo passado. porém podemos participar de um esforço comum. Porém disciplina. Estudiosos podem nos fornecer análises das formas de entendimento histórico encontradas na Bíblia e nos trabalhos dos grandes teólogos. como de manter a porta aberta para mais ampla realização no futuro. Numa tal sociedade. ao contrário da supressão de conflito. Para o indivíduo. para definir o tipo de relações políticas mais adequadas para a situação em que nos encontramos e empenharmo-nos numa procura comum de novos modelos e novas estratégias políticas. e ficar unidas nas experiências e esperanças de onde uma nova direção de vida surgirá. As pessoas vêm de passados. na mais estreita aproximação do bem comum. quando estiver querendo se tornar algo como uma ideologia em si.

Porém a dinâmica peculiar desta posição é o resultado da associação desta esperança para o homem com uma pessoa histórica particular. o segun238 . É muito fácil estar intensamente preocupado com o bem-estar do homem e ser cego para o que está acontecendo para homens e mulheres. de fato. Revolução Social e Realização Humana As expressões acima sugerem uma tensão interior. O Messias veio no passado. Além do mais. A liberdade de cristãos para revisar sua própria ideologia de história pode. uma figura revolucionária — é o instrumento de emancipação humana. quer seja um líder natural dos oprimidos em sua luta por emancipação. algo parece acontecer no meio do processo revolucionário que embota este interesse. portanto. O Messias foi crucificado. uma realidade e uma possibilidade para a qual nos estamos encaminhando. para aqueles empenhados na luta ideológica. Um dos produtos mais comuns e infelizes disto é o desiludido e amargurado ex-revolucionário. afinal. contudo ainda continua sua obra. de que há tantos exemplos hoje. ser seu testemunho mais significativo. ao mesmo tempo. libertação é. e que provavelmente nunca será completamente resolvida. Ao mesmo tempo. e que libera forças que trabalham contra os objetivos previamente estabelecidos.revisão constante. com frequência tem um profundo interesse humano que é a força impulsionadora principal em sua vida. E o Messias crucificado é o novo homem. Isto é o que pode caracterizar ideologia. nossa esperança de libertação é realizada dentro e através de luta e sofrimento. a teologia está interessada em interpretar certos acontecimentos e imagens que testemunham sobre a libertação do homem e a renovação da vida humana. E a ideologia com que esperamos orientar nossa ação revolucionária deve dar atenção a este problema. que se manifesta frequentemente na vida revolucionária e na história da revolução. o Messias — um político. O revolucionário. quando nossos esforços messiânicos para construir uma nova ordem são frustrados. quer um membro de outra classe que decidiu fundir sua sorte com a dos sofredores e explorados. em quem temos uma indicação concreta do que pode significar uma nova humanidade. Jesus. em meio a uma luta assim ambígua na história. que é realização. Afirma que a existência histórica do homem é um movimento para a libertação. A despeito de tudo que os teólogos fizeram para obscurecer o fato. Jesus de Nazaré. há algo referente à respeito da luta revolucionária em si que é desumanizante.

ocorreu na vida de um homem e está agora à nossa disposição. ele representa uma nova forma de existência humana no mundo. é também o novo homem.do Adão. o homem encontra a liberdade para desenvolver novas formas de vida. quando menos as esperamos e estamos preocupados com outras coisas. Por conseguinte. somos lembrados de que quem procura salvar sua vida a perderá. Tão logo confiemos nelas. e a significação de nosso tempo presente em relação a ele. Do tempo dos primeiros discípulos até hoje. Esta figura política. também se torna claro que. É. somente se forem mantidas em seu próprio lugar. passamos a fazer exigências à ordem política que ela não pode satisfazer. nós damos lugar no mundo para maior realização humana. a tensão entre revolução e humanização está definida e acentuada de maneira extraordinária. com frequência. política e revolução são colocadas num contexto em que podem contribuir para o bem-estar humano. e portanto a pervertê-la. portanto. é essencialmente uma traição ao homem. Realização humana em meio ao sofrimento e a derrota é uma realidade. Todos estes esforços contribuem para uma situação em que os poderes gradualmente aumentam seu controle destrutivo. postas em debandada e forçadas a se reorganizar. o interesse nesta pessoa e a reação a ela levaram homens e mulheres a uma aposta. Preocupação verdadeira com o bem-estar interior da pessoa deve portanto conduzir a ação que vise controlar e usar o poder político a fim de dar lugar para maior liberdade no meio comunitário. O uso de religião. Dentro deste arcabouço. A nova humanidade toma forma. visando os aspectos básicos para a existência do homem. para responder às questões fundamentais sobre a vida e sua significação. psicanálise e média de massa como instrumentos com os quais o povo é ajudado a se ajustar a uma ordem social desumanizante. A atenção é focalizada no que Paul Lehmann descreveu como “o caráter político da atividade divina”. num mundo onde a batalha pelo homem está sendo travada contra os poderes. nossas experiências mais profundas de significação e realização nos vêm em meio a esta luta. No decorrer deste caminho de envolvimento político. Quando estes poderes são mantidos sob controle e obrigados a servir aqueles objetivos que lhes estabelecemos. Esta tentação é hoje especialmente séria para nós. o Messias. e de que quem perde sua vida a achará. sem ser desafiado a mudá-la. porque o processo todo de secularização destruiu nossa 239 . Quando estas forças são desafiadas. Nestas circunstâncias. insensatez falar sobre a renovação espiritual e moral do homem sem dar a devida atenção a este elemento. como servidores da nova humanidade.

todo determinismo é destruído. mesmo em meio a uma luta revolucionária. contudo. dele não esperarem demais. Na verdade. para a humanização da sociedade contemporânea. por meio dos quais uma vez vivemos. É. e assim contribuir. a participação na revolução é um meio pelo qual as pessoas são capazes de transcender mesquinhas ansiedades pessoais e problemas. talvez por esta razão. para aquelas instituições e forças que satisfazem outras necessidades humanas. tiveram sucessos tão limitados. a menos que reconheçamos suas limitações e deixemos espaço. a política não pode contribuir para a libertação pessoal. e a ação política efetiva pode criar o tipo de sociedade em que a política se torne menos importante. e o próprio processo revolucionário não segue um curso inevitável. êxitos significativos na luta revolucionária tendem a diminuir a importância da revolução. Até aqui. esta mesma experiência que pode também aumentar sua dependência da ordem política e levar a uma fácil desilusão com os movimentos políticos. quando descobrem um novo reino de liberdade pessoal na obediência a uma lealdade mais alta. A longo prazo. para a realização humana — se aqueles que dele participam. Os melhores revolucionários são os que são homens livres no sentido de que sua auto-identidade e estabilidade pessoal não dependem de seu papel político. pelo menos. Com frequência. É isto que abre o caminho para uma combinação incomum de sensibilidade para a profunda ambiguidade presente em cada luta revolucionária e a esperança em relação a seu resultado. A associação das imagens messiânicas do Velho Testamento com a pessoa histórica de Jesus de Nazaré conduz a uma afirmação adicional: O Messias crucificado é o novo homem. Nesta perspectiva. e é muito mais fácil para nós fazer um ídolo de nossa luta política do que aprender a viver precariamente sem ídolos. Só o revolucionário cujos compromissos políticos estão relacionados com uma visão mais ampla da vida humana e da história pode lutar com esta situação. Um movimento político só será capaz de contribuir para o objetivo fundamental do autêntico messianismo — i. Especialmente no tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. de maneira significativa. Uma revolução oferece a oportunidade para construir uma nova ordem social — na crista da desintegração social — e pode também abrir o caminho para novas manifes240 . A crucificação ocorre ao longo do caminho para o surgimento da nova humanidade. as mais avassalantes concentrações de poder não podem ter êxito em seus esforços para preservar o status quo. as revoluções modernas não se distinguiram neste ponto e.confiança nos velhos absolutos.e.

Isto sugere que não devemos ter ilusões sobre movimentos políticos ou seus líderes. Porém a coisa importante é que este processo tão ambíguo propicia oportunidades sucessivas para a formação de formas novas e mais humanas de organização social. então somos livres para aceitar este fato e prosseguir com o trabalho. e contribui para este objetivo. quando tentamos avaliar as alternativas à nossa frente em termos de sua contribuição potencial para um futuro mais largo e mais justo. é possível ser inteiramente realista sobre o que está acontecendo e. sob outras. se desenrola através da história. à luz do futuro. Nenhum conjunto abstrato de princípios ou valores será de muita ajuda na tomada de decisão em tal situação. mesmo a vitória 241 . Contudo um tal movimento pode ser o instrumento com que essa sociedade é forçada a se abrir e começa a se encaminhar para um maior grau de justiça. A violência é sempre destrutiva. sobre revoluções ou sobre revolucionários. Sob certas circunstâncias. mesmo quando a causa da revolução triunfa. Assim. tanto na ordem social que surge da revolução quanto na velha ordem que a precedeu. frustrações e sofrimentos são parte de nosso destino. a fraqueza humana é tão prevalente entre eles como em qualquer outro grupo. Esperanças irrealizadas. serve como parteira necessária de uma nova ordem social. Numa situação opressiva. a luta revolucionária pode ser tão desumanizante quanto a velha ordem. E o fato de que a própria luta revolucionária se torna desumanizante em certos momentos não é razão suficiente para abandonála. entre a velha ordem e a nova. Porém a iluminação que buscamos pode vir. com facilidade. em que todos os esforços de mudança são facilmente bloqueados.tações de mal social. sem perder a esperança. O Messias foi crucificado por Seu próprio povo — aqueles em posição de poder na sociedade messiânica e aqueles que pugnavam mais intensamente para criar a nova era — e foi abandonado por Seus discípulos no momento de maior necessidade. Ao mesmo tempo. Em certos momentos. e que. ao mesmo tempo. tornar-se rígido e extremista. Podemos pôr a nu constantemente e desmascarar coisas que ameaçam a causa revolucionária. podemos descobrir que alguns dos avanços mais significativos ocorrem sob circunstâncias difíceis e ambíguas. Mas se a crucificação é um elemento inevitável na transformação social. torna-se terrivelmente desumanizante. um movimento de integração racial pode. Líderes revolucionários equivocam-se sobre a situação e fazem erros de julgamento e estratégia. tirar vantagem de cada nova ocasião para progredir rumo os objetivos básicos da revolução social. A crucificação do Messias também nos lembra que a luta.

Precisamos é dos 242 . vida e sociedade humanas estão relacionadas com uma ordem de ser que transcende o finito. O Eterno se opõe ao temporal. enquanto a presente tendência nas ciências empíricas não nos fornece racionais nem claros com que a teoria crítica possa transcender esta sociedade. em nome da nova. e uma tentativa para “ultrapassar o universo estabelecido de negociação e ação para suas alternativas históricas”. Revolução. Por sua própria natureza. possam ser evitadas. esta atitude de transgressão e transcendência contra a sociedade em que o homem se encontra não é uma ocorrência muito comum. O repúdio de velhos tipos de pensamento sobre política externa norte-americana não nos dará as ferramentas para forjar uma nova. Colocar a tônica no funcional e operacional pode facilmente conduzir a uma visão de realidade em que dimensões inteiras são perdidas. pode ser só um sinal negativo de sua escravização à ordem estabelecida. que surgiu como resultado da síntese da filosofia grega e teologia cristã. e suas consequências. Os que vêem através de tudo isto podem rebelar-se. foi o produto de uma visão-universal metafísica. e protestos contra a escravização do homem não nos fará seres humanos livres.parcial pode se mostrar um importante lucro para a causa do homem. A história da revolução moderna. deparamos com um novo e difícil desafio. nem base para mudança qualitativa. podemos rapidamente ficar sobrecarregados com o peso morto da velha ordem.6 Se este esforço hercúleo tem êxito. revolução implica em uma “violação” da velha ordem. orientada para a preservação da ordem estabelecida. com seu desaparecimento. Quando isto é acompanhado por uma ideologia de racionalidade. até aqui. Estas entidades metafísicas se foram. Exige uma crítica transcendente do status quo. e todas as instituições sociais são julgadas e reformadas por uma ordem ideal à qual devem se conformar. o revolucionário então enfrenta o perigo de ser escravizado por sua própria ideologia. fornece pequena evidência de que tal idolatria. e pela feliz consciência que não tem sentido de culpa radical ou julgamento. Nesta estrutura. embora não tendo base da qual desafiá-la. uma recusa “em aceitar o universo dado de fato como o contexto final de validação”. Porém rebelião em si não pode produzir o novo nem libertar o homem. Como vimos antes. Transgressão e Transcendência Há um outro complexo de problemas que representa pesada carga para a ideologia revolucionária. No Ocidente. e.

As palavras transgressão e transcendência têm. no meio do diálogo entre nossa visão do homem e o que ele pode se tornar e a situação em que nos encontramos. “Valores” são transformados em necessidades humanas. e transcende. agimos com mais responsabilidade. fazem o julgamento do status quo e nos fornecem um universo de discussão em que novos modelos e novos “projetos” podem se desenvolver. “O que existe não pode ser verdade. acima de tudo o mais. literatura e drama. A suprema realidade na história é o Reino de Deus que está vindo e que é presente agora como uma força explosiva em nosso meio. quando empenhados num constante esforço para criar novos “projetos” e pugnar para fazê-lo realidade. tudo tem seu lugar. São definidos. eternos. o presente. Somente somos capazes de alcançar o possível se empreendemos o impossível. se pudermos pesquisá-la sem a visão-universal com que tem sido associada. e dados de maneira concreta.recursos para transcendência radical: aquele discernimento profundo e perspectivas sobre vida e sociedade que rompem o poder do velho. uma dimensão religiosa e sugerem que a teologia pode fazer alguma contribuição para este ponto. A verdade é que esta íntima identificação com uma ordem metafísica não é tanto uma indicação da natureza da teologia como o é de um avançado estágio de aculturação do Cristianismo em uma era anterior. tal como é observado empiricamente. o estímulo e enriquecimento da memória histórica. mas podemos confiar que novas e surpreendentes possibilidades. A potencialidade se coloca em aguda tensão com realidade porque o potencial é uma possibilidade histórica.” A vinda do Reino é uma questão da reordenação das relações humanas e estruturas sociais. Neste caso. portanto. na confiança de que o futuro está livre. O tipo de transcendência que encontramos na Bíblia é mais escatológico do que metafísico: refere-se não tanto à Ordem Eterna acima do homem. podem aparecer no caminho do futuro. como ao futuro que transgride contra. para a ordenação da vida e sociedade humanas. O que sobressai aqui é a qualidade concreta de nossos objetivos para o futuro. Aqui filosofia e arte. o julgamento do futuro sobre o presente não é um assunto de pretendida fidelidade a certos valores e ideais abstratos. mas de objetivos tecnológicos e políticos muito específicos. Realidade é a que está-vindo-a-ser quando nossa existência histórica se move para o futuro: como o diz Ernst Bloch. mudanças específicas necessárias e possíveis na 243 . Não mais acreditamos em Utopia. Com facilidade traímos e limitamos a realidade quando restringimos nosso entendimento ao real.

como os escritores bíblicos e especialmente os profetas do Velho Testamento. O mais paradoxal de tudo. A segunda alternativa. falha porque é idólatra. possibilidades técnicas específicas que agora temos diante de nós. a Igreja Cristã não tem demonstrado sempre esta liberdade para romper com o que “é” por lealdade ao que está vindo-a-ser. Basicamente. os homens são mais livres para lutar pelo melhoramento da condição humana. Se reunimos estes elementos num quadro mais compreensível de nossos objetivos. expressa numa variedade de conceitos e imagens teológicas. quando é vivida em resposta a uma lealdade mais alta do que a própria. Ao contrário. a história é o reino da liberdade e responsabilidade. A história é compreendida como não sendo autocontida. quando se compenetra de que é chamado a um modo de vida e um padrão de ação que é como um castigo. É uma criação humana que tende a violar a realidade e assim escravizar aqueles que lhe são mais leais. tem sido alimentado por uma certa maneira de pensar sobre a realidade. mas o Criador. sugerida pelas imagens cristãs de transcendência. Para eles. isto é. que torna rela244 . Quando isto tem ocorrido. representa uma aposta de que estes símbolos e conceitos fornecem um indício para o que realmente está sucedendo no mundo e. por conseguinte. esta transcendência e transgressão radical pode ter só uma de duas fontes: Pode vir como resultado da atribuição de um valor infinito a um aspecto da realidade finita. não é determinada por leis absolutas que se efetuam inevitavelmente. O objeto de lealdade não é algum elemento do finito que foi absolutizado. onde comunidades humanas estão sendo constantemente confrontadas com novos horizontes para o futuro. quando não atribuem valor absoluto ao que estão fazendo. Em cada esfera de existência coletiva. Reconhecidamente. vamos de encontro a tremendas dificuldades. Porém. o futuro rompe a imutabilidade de nossas estruturas e instituições atuais e abre caminho para o crescente uso da tecnologia a serviço do homem. No momento em que pensamos nestes termos. Esta lealdade absoluta a um novo ideal ou visão de uma nova ordem social pode fornecer a base para ação revolucionária dinâmica. inverte todo este processo. o homem é livre para ser um transgressor da ordem em que vive.sociedade. quando é perturbado por uma consciência infeliz. entenderam com clareza. e quando expressa a confiança de que a realidade — vir-a-ser-é basicamente favorável ao homem. aponte o caminho para uma vida significativa e responsável. afinal. A vida humana é vista como mais humana.

e a luta para mudar o mundo faz sentido. e também de que todos os símbolos de transcendência teológica perderam sua significação e força. muito tênue. que somos livres para ser transgressores caso isso seja útil para nosso vizinho. na verdade. em desespero. Somos desafiados a confiar num propósito e numa iniciativa. Quando a fazemos. e que homens e nações podem criar novos modelos de uma nova sociedade. 245 . e fazer algo efetivo para transformá-los em realidade. contudo insistem que ela representou a escolha fundamental que determina o destino humano. podemos eventualmente ficar surpresos e chocados por uma nova linguagem e imagens de transcendência que podem ter implicações de longo alcance para a renovação da sociedade. Hoje nos defrontamos com uma situação incomum. no tempo mesmo em que novos recursos para transgressão e transcendência são indispensáveis para a luta revolucionária. E seria fútil gastar nosso tempo discutindo o caso da transcendência cristã. Os profetas compreenderam muito bem que a linha entre idolatria e confiança na soberania é. Nesta situação.tiva e ao mesmo tempo apoia toda realidade criada. em ação na vida e na história em relação ao qual a vida é livre. seria fatal virar-se. Estamos muito cônscios de que nossos ídolos têm pés de barro. Porém as velhas imagens bíblicas afirmam que a história está receptiva a um futuro mais promissor. para novos ídolos. Ainda é possível fazer esta aposta.

246 .

como aprendi há tempos na América Latina. provê a ordem estabelecida com poder quase ilimitado de autopreservação. Ao mesmo tempo. Mas não está preparado para discutir estas questões porque requerem um tipo de análise social e política de que não é capaz. bem como dos resultados disso. temos parte da responsabilidade de sua frustração e desespero. a menos que possamos dar alguma indicação concreta de como os objetivos da revolução podem ser alcançados.V Uma Palavra Sobre Estratégia e Tática O fato de este ensaio já estar longo podia fornecer uma saída para um difícil dilema: Devido a seu interesse na realização de certos objetivos para o homem e a sociedade. se abandonarem a luta ou forem levados a agir irresponsavelmente. não temos o direito de apressar o povo a se tornar revolucionário. Portanto não temos escolha senão fazer pelo menos algumas observações preliminares sobre as perspectivas atuais da luta revolucionária. tenho ficado impressionado pela maneira com que o rápido avanço da tecnologia parece criar ou intensificar certos paradoxos em nossa sociedade: 1. Contudo. o teólogo não pode ficar indiferente a questões de estratégia e tática revolucionárias. De outro modo. Nos anos recentes. O máximo que pode esperar é participar de um diálogo mais amplo sobre estes problemas centrais — o que não é possível aqui. esta inte247 . Pela integração de sistemas.

e que fornece o poder e técnicas por meio das quais isto pode ser feito. que podem responder ao desafio do novo ou que já o fizeram. 2. a revolução tinha que realizar mudanças rápidas. que só pode ser compreendida à luz do futuro e torna ineficazes todas as instituições que não se podem adaptar ao novo. líderes. Mas estes mesmos progressos significam que a revolução também pode causar desintegração social total e tornar necessárias novas formas de arregimentação. pela destruição de toda a estrutura de poder e substituí-la por uma nova. usualmente em uma esfera restrita da sociedade. no sentido lato. porém. antes que velhas estabilidades mais uma vez se firmassem. então uma nova estratégia de revolução é urgentemente necessária. mas também um meio. mas são incapazes de agir devido a inércia das instituições a que servem. No passado. pode prejudicar a execução dos objetivos revolucionários. Frequentemente há muita gente. revolução com luta de classes só tem um lugar relativo. Isto oferece uma oportunidade única para construir uma nova sociedade. Se estes progressos estão se processando. revolução pode representar uma constante ameaça de caos por um longo período de tempo. não é tanto de substituir o sistema total do presente por um sistema totalmente novo. A tentativa de mudar a sociedade. mas a de rebentar as instituições sociais e mantê-las em movimento. O colapso das estruturas de autoridade e a dinâmica de mudança social criam agora uma situação em que a mudança pode afetar todas as áreas da sociedade e penetrar muito profundamente nela. hoje. Isto. seja qual for a classe a que pertencem. a tarefa do revolucionário. bem como outros. pode não ser somente uma tarefa cada vez mais difícil. a fim de que possam servir melhor o homem quando enfrentem novas realidades. As recentes repercussões de uma cruzada individual por auto-segurança é apenas um exemplo disto. a autoridade e estabilidade das estruturas sociais significavam que mesmo a revolução violenta só podia causar um impacto limitado. e aqueles que não o fazem. No passado. dentro do Establishment. A tecnologia cria uma mentalidade que está interessada na análise e controle da ordem dada. que pode com facilidade ser perturbado. 3. A mesma tecnologia cria uma situação social dinâmica. o mais improvável. Neste esforço. As linhas estão traçadas mais claramente entre os que entendem o que está acontecendo e correspondem. e as mudanças produzidas pela tecnologia parecem contribuir para o surgimento de forças que tentam transtornálo. para alcançar os objetivos dos re248 . Sob tais circunstâncias.gração de sistemas representa um equilíbrio muito precário.

mas para um grande número de pequenas vitórias. e de seu fracasso em solucionar as novas questões básicas que pedem atenção. Uma pequena vitória prepara o caminho 249 . o despertar de gente de diferentes classes sociais para o que está acontecendo em volta deles e para ação responsável. ao mesmo tempo assegura-nos que somos parte de um processo revolucionário se encaminhando para um objetivo. pela qual a estrutura inteira é atingida por um número cada vez maior de desafios àqueles pontos onde mudanças são mais imperativas. algum dia. Em vez de revolução total. quer não. terão de ser inventadas. que já está invadindo o presente. Estes novos fatores sugerem as linhas principais de uma estratégia alternada e ajudam a criar as condições para seu sucesso. primariamente. no decorrer do caminho. ou mesmo do território sob nosso controle. Mas se esperamos contribuir efetivamente para a transformação da sociedade tecnológica avançada. Por esta razão. e produzir o tipo de mudanças que impulsionarão o processo revolucionário para novos estágios. O que se torna importante é o desmascaramento de injustiças específicas. Se a ação do revolucionário está de acordo com a realidade. e a reagir aos novos problemas de forma mais criadora. então ele tem as vantagens de iniciativa e criatividade. nossa ação deve possuir algo equivalente a um testemunho do futuro. quer se incluam em nossas ideologias e esquemas. Nossa crença de que o futuro está do lado da mudança revolucionária nos liberta de obsessão com a defesa de nossos sistemas e ideologias. Há algumas situações em que a rigidez da velha ordem e sua resistência à mudança não permitam outra alternativa. Nosso objetivo não é. de ataques de surpresa e a escolha de lugares e momentos estratégicos para cada batalha. novas estratégias e táticas. pelo contrário. que podem perturbar o equilíbrio precario de poder onde ele não estiver afinado com a realidade. no distante futuro. Podemos cooperar com o futuro que se está tornando uma realidade em nosso meio. o de forçá-las a ser mais arejadas e flexíveis. em total receptividade às suas exigências concretas. na velha ordem. no sentido de um assalto frontal a toda a estrutura da ordem estabelecida. podemos trabalhar por revolução permanente. mais apropriadas para tal tarefa. e o início daquelas mudanças que fornecerão o maior potencial para mudança ulterior.volucionários. o de subverter as estruturas atuais mas. Nossos esforços não serão tão orientados para um momento de vitória total. que acontece tão frequentemente com os defensores do status quo. Durante todo este estudo sugerimos que a perspectiva teológica de revolução nos liberta do determinismo histórico.

1. com otimismo a respeito das perspectivas para revolução. confirmados cada vez mais por pequenas vitórias e a aceleração do processo de mudança. gostaria de discutir brevemente a relação desta abordagem com várias questões que têm surgido. A questão de saber se é melhor trabalhar por renovação social. sempre afligiu os reformadores. de dentro ou de fora das estruturas. Estamos munidos de uma estratégia baseada na reação espontânea de pequenos grupos em várias fronteiras diferentes. o revolucionário pode achar possível travar uma difícil luta com a esperança. O tipo de instituições e a concentra250 . mas a marca de mudança em instituições sociais — para a receptividade. que podem ser coordenadas numa estratégia geral sem destruir a iniciativa local. Só pode ocorrer em uma sociedade que seja capaz de reagir a novos desafios em vez de se refugiar em tentativas desesperadas de resistir à mudança.para uma luta mais avançada. Em conclusão. Desde que uma tal tentativa tenha êxito. nossa sociedade pode descobrir que mudanças profundas e necessárias na ordem social podem ser realizadas sem a ameaça de total desintegração social. e a derrota em um esforço específico é a ocasião para um reagrupamento de forças. Não temos garantias de que uma tal estratégia alcance êxito. flexibilidade e resposta às necessidades dos homens — que podem eventualmente tornar a revolução desnecessária. Uma empresa deste tipo pede movimentos revolucionários que estejam livres para explorar novos caminhos. tendo em vista a solidez e criatividade potencial de nossa sociedade. Se esta estratégia tem êxito. existe a possibilidade de combinar realismo a respeito da sociedade e a respeito do poder das forças que bloqueiam a mudança. quando sugerimos que hoje estratégia e tática de revolução podem concentrar-se no desenvolvimento de um equipamento político da guerra de guerrilhas. a qualquer preço. A verificação desta hipótese. dependerá dos que têm os meios de análise social e a experiência revolucionária para fazê-lo. Isto é o que tínhamos em mente no primeiro capítulo. Hoje parece ainda mais difícil responder. o resultado básico não será necessariamente o controle de certas esferas da sociedade por movimentos revolucionários. com frequência. Ao longo deste caminho. em movimentos revolucionários e que se nos apresentam agora. em duas ou três novas frentes. Argumentar que ela tem uma chance representa uma profissão de fé. evitar as armadilhas em que tantas revoluções passadas caíram e perseverar durante uma longa e árdua luta. bem como o efeito de suas implicações.

de fora das estruturas. provavelmente. que seria. muito cedo. ou não. Mas. Por outro lado. Mesmo se se tornarem poderosos bastante para causar um impacto. as pressões para o conformismo e a necessidade de jogar o jogo conforme as regras pré-estabelecidas. sua própria auto-identidade e base de operação. que a geração mais nova não está inclinada a cometer. mas poucas perspectivas são menos prometedoras do que a de começar uma nova igreja. podem afinal acordar para descobrir que a batalha. não terão base para operações efetivas. É possível. tomar uma posição mais radical. onde isto é possível — de onde prosseguir com o trabalho. nada mais do que uma seita ineficaz. dentro ou fora da estrutura. só para descobrir que seus esforços quase não alcançaram aqueles pontos onde mudanças fundamentais eram mais urgentemente necessárias. Este é um engano. uma clara definição de seus objetivos. contra que se rebelaram originalmente. A estratégia de ação de guerrilha oferece a possibilidade para uma redefinição do problema. De fato. mas se tem. Nesta perspectiva a coisa importante não é se um grupo está trabalhando por mudança radical. podem descobrir que logo são ameaçados pela mesma tendência para a inércia e inflexibilidade. e podem terminar à margem da luta por mudança. muito diferente daquela de gente de outras instituições: Vemos pouca possibilidade de fazer alguma coisa efetiva trabalhando de dentro das estruturas burocráticas atuais. provavelmente. Porém as perspectivas de executar qualquer coisa. Muitas pessoas têm dado os melhores anos de suas vidas para uma tal luta. exatamente pelas questões que mais os preocupavam. para tais grupos. De uma tal base. no governo ou mundo de negócios. Aqui a coisa mais importante para os que estão mais empenhados 251 . e um plano relevante de ação — mais do que sua relação com uma instituição particular de sua posição perante ela. tudo milita contra uma ação rápida e efetiva por mudança.ção de poder que cada uma representa criam uma situação em que é muito difícil fazer qualquer coisa efetiva a não ser de dentro. em qualquer outra parte. ter uma idéia mais clara dos objetivos para os quais estão trabalhando e preservar sua integridade como movimentos revolucionários. se travara alhures. pode ser capaz de desafiar uma organização a fazer o que precisa ser feito. não são mais encorajadoras. Nossa experiência hoje na igreja não é. o peso do passado e a relativa inércia de grandes estruturas burocráticas. na universidade ou na igreja. e inserir certas pequenas esferas de relativa liberdade — dentro da estrutura.

deve ser livre para admitir o fracasso e começar de novo em qualquer outro lugar. Estes povos que escolheram travar a batalha por renovação de posições de poder. a prioridade precisa agora ser dada ao desenvolvimento de novas perspectivas. Quando um esforço para fazer isto falha. age quase contra a unanimidade da opinião política. com sua própria auto-identidade e programa. Em algumas instituições há líderes que vêem a necessidade de mudança e que serão capazes de agir mais corajosamente devido a existência de movimentos que criam novas pressões por mudança. isto é. dentro de seu meio. e escolherá outra alternativa. O revolucionário contemporâneo se sentirá inclinado a duvidar da possibilidade de assim trabalhar por uma mudança efetiva. criar novos modelos e elaborar uma estratégia efetiva para a ação. O importante é usá-las para os propósitos de transformação social. Só quando isto acontece será possível analisar uma situação específica. Tal abordagem deve evitar atitudes doutrinárias. não há mérito especial em estar fora das estruturas. Na medida em que as instituições sociais permitem hoje que tais grupos funcionem dentro delas. Mas em alguns pontos podem ser usadas efetivamente. desenvolver uma nova perspectiva dela. estas estruturas venham a tomar a iniciativa de fazer as mudanças necessárias. mas em formar um pequeno núcleo. Não está interessada primariamente em unir grandes grupos na base do mais baixo denominador comum.em trabalhar por mudança em nossa sociedade é ter sua própria autoidentidade. Para ele. Devemos ter muito pouca esperança de que. Uma organização pode dar seu apoio oficial a um novo projeto que está tentando resolver um problema social urgente. não podem ser condenados tão só porque escolheram este caminho. Onde as estruturas são suficientemente abertas e flexíveis para corresponder criadoramente a novos desafios. ou pode tolerar a existência. que é livre para trabalhar em um sério problema. Para os que fazem isto. no futuro imediato. de grupos que estão trabalhando de maneira criadora e dinâmica. contribuem para sua própria renovação e armam o revolucionário com os canais mais apropriados para a realização final dos objetivos. regras e pressões na área em que estão trabalhando. à criação de novos modelos e à liberdade de ampla experimentação. dentro das estruturas. estarem relacionados um com o outro de tal maneira que possam tomar uma posição contra a ideologia. sempre que isto é possível. movimentos revolucionários não são justificados. pesquisar novas soluções e desenvolver uma nova estratégia 252 . Esta estratégia de colocar a tônica sobre pequenos grupos radicais.

que podem ser usadas como um instrumento eficiente para a mudança social. contudo é preciso não haver ilusões sobre sua fidelidade nem exigir delas mais do que estão preparadas para dar. Camponeses. Se o elemento central na estratégia revolucionaria é a formação de pequenas unidades para uma luta política do tipo-guerrilha. é importante encontrar os que são livres para explorar novos caminhos. É mais improvável que esta tarefa possa ser empreendida por um grupo vasto e heterogêneo. Por outro lado. Um grupo que realiza isto ficará interessado em encontrar o maior número possível de aliados para um programa específico de ação. cooperar em objetivos limitados. isto aconteceu. são com frequência dominados pelas formas de autoridade e pelo ethos paternalista da velha sociedade. os que mais lucrarão com a revolução são incapazes de entendê-la e medrosos ou indesejosos de apoiá-la. desenvolver uma nova perspectiva dele e fornecer novas sugestões para satisfazer o presente desafio. em outros. teremos alguma possibilidade de romper o velho impasse. mesmo nas mais desesperadoras situações. Os revolucionários modernos não têm tido muito êxito em resolver o problema da participação das massas no processo revolucionário. no entanto. Alguns dos trabalhadores que migram das áreas rurais acham sua situação 253 . as revoluções modernas têm sido a ocasião para o aparecimento espontâneo de toda sorte de organizações de trabalhadores e camponeses em ligas. a menos que esteja autenticamente relacionada com as massas e apoiada por elas. por qualquer razão. muitos indivíduos e grupos diferentes podem ser agrupados para estudar e apoiar pelo menos alguns itens em um novo programa. Quando isto acontece. é o tipo de estudo e reflexão que possa chegar ao âmago do assunto. os revolucionários naturalmente supõem que seus esforços devam ser apoiados pelas massas. comunas e sovietes — uma expressão de seu profundo anelo de participação no poder público. não. Há muita gente e muitas organizações diferentes interessadas em mudá-la. Um exemplo do que desejo dizer é fornecido pelos atuais esforços para fazer algo sobre a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. O que agora é preciso. Neste estágio. 2. Uma estratégia política que depende de pequenas unidades de guerrilha não pode ter êxito. procurará e aceitará o apoio de todos aqueles que podem. Em alguns casos.de ação. Frequentemente. Uma vez que estão trabalhando para o melhoramento da sorte das classes não-privilegiadas. Contudo tais grupos não têm usualmente sido encorajados ou tolerados por governos revolucionários.

nos fizeram encarar esta realidade — e deixaram muitos perturbados com o que viram. que muita gente tem ficado insegura sobre o papel do conflito na vida social. Por tanto tempo a sociedade tem tido tal êxito em esconder o sofrimento e descontentamento dos não-privilegiados e cobrir a violência dos detentores do poder. Em anos recentes. ao contrário. ou onde a estrutura política não permite uma escolha real entre diferentes ideologias e grupos dominantes. isto provavelmente só pode ocorrer em grupos muito diferentes da organização política tradicional. primeiramente. e só será eficaz em larga escala se estiver relacionado com estas estruturas maiores — e se contribuir para sua transformação. Tais organizações políticas elementares fornecem. avançar para a criação de novas instituições políticas. o problema básico não é hoje conseguir que as massas participem mais ativamente da ordem política atual. isto requer um processo longo e intensivo de despertar de homens e mulheres para a situação sócio-histórica em que vivem e para a natureza de sua responsabilidade para com ela. A revolução trouxe a questão do conflito e sua resolução mais uma vez para o centro da atenção.tão melhor do que a antiga. facilmente voltam-se para. Na maioria dos casos. e não está preparada para lidar com ele. mas. Onde quer que os recursos da média de massa são usados para controlar “democraticamente” eleições. De fato. explosões periódicas de violência. que pagarão quase qualquer preço por uma pequena garantia de estabilidade. portanto. e excluídas do processo de tomada-de-decisão. ou mesmo transferir o poder político de um grupo para outro. Talvez venha a usar de movimentos com este sentido de identidade e relativa independencia das estruturas políticas atuais para provocar alguma mudança significativa nelas. atenção à formação daquelas organizações políticas mais básicas que possam ser a expressão autêntica da participação de grupos e classes diversas de pessoas na transformação de sua sociedade. aqueles movimentos políticos que prometem eliminar o proble254 . e apoiam. outros estão de tal modo ameaçados pela insegurança total em que vivem. Uma vez que estas pessoas tenham sido alienadas do que está acontecendo. Para isto acontecer será necessário dar. que não estão inclinados à revolução. o contexto para um processo educacional em que um novo sentido de auto-identidade e uma nova visão do futuro podem tomar forma. Subitamente cônscios da instabilidade da sociedade hodierna e do seu potencial de conflito. todo o processo eleitoral é viciado e limitada sua significação para a mudança social. nas nações em desenvolvimento bem como em nosso próprio país. 3.

Isto implica em que. o conflito deve não só ser permitido. sua tendência pode ser formular uma ideologia de conflito que exagera sua importância e conceber revolução em termos de luta total. Esta mesma abordagem teológica coloca todo conflito no contexto de um movimento para reconciliação. o conflito é aceito simplesmente pelo que é: um elemento essencial em certas situações. O realismo bíblico é livre para ver o lugar do conflito na sociedade e aceitá-lo. acredito. Como a violência é usada contra eles e eles descobrem quão difícil é conseguir mudança sob tais circunstâncias. de ambos os lados de uma luta revolucionária. caso novas relações estejam para ser estabelecidas entre grupos e classes na sociedade. Estão completamente cientes dele. mas mesmo encorajado. não pode ser um fim em si mesmo. uma estratégia coordenada de ação de guerrilha numa variedade de frentes pode. de parte da ordem estabelecida que protela a execução dos objetivos da revolução. e não a sua eliminação. relativamente cedo. Portanto. Não crê que a ordem social deva inevitavelmente cair. Os revolucionários. e. E a reconciliação envolve o estabelecimento de novas relações em e através do conflito. o movimento pelos direitos civis pode bem fornecer numerosos exemplos disto. em satisfazer as exigências mais urgentes do negro neste país. o conflito é controlado. Conflito não é básico. e que aqueles que estão contra esta mudança podem ser levados a aceitar aquelas mais 255 . A menos que obtenhamos êxito. para a resolução do conflito através de entendimento e diálogo. um tipo de realismo que não pode conceber paz e estabilidade independentemente de justiça reconhece que. De fato. assim. Uma perspectiva teológica conjugaria esforços nesta mesma direção. mas por sua integração numa estratégia de reconciliação. Em fornecendo um instrumento eficaz para o uso de conflito limitado. porque sua luta o traz à superfície. não por tentativas constantes de suprimi-lo ou limitá-lo. É só assim que aqueles que desejam mudança podem saber o que é possível num momento particular. Fundamentalmente. indicar uma alternativa. as pessoas tenham a liberdade de distinguir as oportunidades e delas tirar vantagem.ma pela supressão efetiva dos elementos subversivos. quando se permite que o conflito se manifeste. pode tornar possível evitar uma ideologia de conflito total. salvar-nos do tipo de desintegração social ou resistência total a mudança. em certas situações. podem também estar despreparados e não equipados para seu embate com conflito. Na atual luta revolucionária. por outro lado.

o pensamento criador requer um contínuo processo de revisão ideológica. a exigência de idéias e regras novas. Entre os que hoje estão preocupados com mudança social. desenvolve uma maior sensibilidade para aqueles fatores externos e internos que bloqueiam a execução dos objetivos da revolução. o revolucionário mais autêntico é o que pode conjugar compromisso pleno e um certo grau de afastamento. e. e o fato de que. e que pode manter uma atitude crítica em relação a todo pensamento e ação revolucionários. que pode manter um senso de humor que lhe permite rir de si mesmo. desta maneira. a mais importante questão referente à estratégia pode muito bem ser de outra ordem. Passa a ver mais claramente a importância e significação de sua opção pela revolução. as agudas e difíceis questões éticas que surgem. Estes fatores são muitos. estes elementos ajudam menos. a tendência inevitável de movimentos deste tipo para absolutizarem sua posição e se mostrarem desinteressados de julgamentos críticos sobre seu ponto de vista e seu trabalho. de ambos os lados da luta. Ao mesmo tempo. Neste arcabouço. As novas regras necessárias não podem ser elaboradas abstratamente. Para aqueles que estão dispostos a combinar um compromisso com a revolução e um diálogo com a teologia. as imagens bíblicas sugerem uma abordagem bem diferente. começar a avançar confiantemente para o futuro.urgentes. poucas coisas são mais importantes do que a maior exploração das possibilidades que oferece uma estratégia de reconciliação. Um grupo de ideais e valores éticos gerais têm muito pouca significação. as pessoas podem se dedicar a uma busca de novos meios de reflexão sobre um problema específico e sobre novas soluções para ele. entre eles: a tremenda carga da tarefa em si. A possibilidade de combinar participação nos esforços para transformar a sociedade com uma atitude de re256 . isto podia ser em parte alcançado por meio da insistência em certos ideais éticos que expressavam o tipo de sociedade pela qual a revolução estava lutando e os meios pelos quais ele podia ser atingido. A pessoa que vive este diálogo logo se torna consciente de uma tensão a crescer dentro de si própria. exceto se se tornarem mais concretos em situações históricas particulares. e avança para um maior envolvimento nela. e. os impasses criados em situações de conflito podem ser superados. A despeito do fato de esta ênfase nos ideais e princípios ser um apelo especial para as pessoas religiosas. Hoje. No passado. na situação dinâmica em que nos encontramos hoje. pelos movimentos a ela dedicados. Em outras palavras.

constantemente receptivo ao “Reino de Deus” que está agora “acontecendo” em nosso meio. Se este plano puder ser levado à frente. Contudo. o quadro que se desdobra da nova ordem. hoje. em termos bíblicos. e propicia um laboratório em que seus diversos aspectos podem ser trabalhados experimentalmente. as possibilidades ali existentes e o meio pelo qual podem se tornar realidade. Um dos sinais mais encorajadores de um desenvolvimento deste tipo é o plano do Projeto de Educação Radical dos Estudantes para uma Sociedade Democrática. uma tal comunidade revela. regional e nacional. servindo-o em liberdade. em escalas local. que expressa e ao mesmo tempo indica a nova realidade de existência social. um programa maciço de desenvolvimento da igreja não realizaria este propósito na revolução contemporânea. a razão original para e o propósito da igreja foi precisamente este: ser um povo chamado para a existência e tirado do seu contexto atual. todos os revolucionários e movimentos revolucionários. Propõe-se a encorajar. em meio à luta revolucionária. A forma exata de tais comunidades terá de ser determinada por estudo e experimentação. e a melhor estratégia para chegar a este objetivo. sejam cristãos ou não. Numa tal comunidade. um “povo eleito”. Por mais surpreendente que isto possa parecer a muita gente hoje. com a participação daqueles que mais possam contribuir para o seu êxito. o estudo e a reflexão constantes sobre o que está acontecendo hoje na América. Talvez hoje o centro de estudos e núcleos similares em escala local indiquem uma possibilidade. de um jeito ou de outro. Para os que são cristãos ou têm algum interesse no diálogo com a 257 . Além do mais. pode oferecer um novo modelo para o tipo de comunidade que estamos sugerindo. precisam dar lugar em sua estratégia para algum tipo de comunidade que possa se empenhar nesta tarefa e fornecer o arcabouço para reflexão. põe em dúvida as mais altas realizações humanas.lativa liberdade e julgamento crítico vem de ser parte de uma comunidade que tem um ponto de referência além da luta social imediata. a forma da nova ordem se torna mais clara através não da definição de um grupo de ideais. nem como por completo indispensáveis. e aqueles movimentos que são os mais importantes instrumentos de mudança social não são vistos nem como perfeitos. o tipo de sociedade que pode e deve ser edificada no futuro. Quando isto acontece. a fim de estar ali para o homem. É óbvio que. mas de uma comunidade viva. inteiramente envolvido “no” mas não inteiramente “do” mundo. crítica e liberdade. e dentro de uma abertura radical para a confrontação ideológica e livre discussão entre os comprometidos com a revolução social.

nem excluir ninguém interessado em seus objetivos. 258 .teologia. Mais do que isto. ambas as organizações tendo estado trabalhando na tarefa de criar tais comunidades nas fronteiras revolucionárias. Porém podem oferecer o contexto para um contínuo colóquio entre nossa herança teológica e ética e as principais questões humanas que se apresentam. do surgimento de novas formas de comunidade cristã nas linhas de frente da revolução. e os recursos utilizáveis em uma tal luta podem se tornar mais visíveis através de um tal esforço. Tais grupos não podem ter a pretensão de ser movimentos políticos. acredito. é preciso acrescentar uma palavra final. não sem alguns resultados encorajadores. numerosas pessoas e movimentos sem especial interesse ou relação com a comunidade religiosa Protestante reconheceram a significação do trabalho destes grupos para eles e para a luta em que estão envolvidos. bem como a estruturação de contatos muito mais amplos. É bem possível que em tais comunidades débeis e sem forma específica possam tomar forma idéias e questões novas que serão de importância para o movimento revolucionário como um todo. na tentativa de transformar a sociedade. Em ambas as organizações. Têm estado empenhadas numa longa e difícil luta. tem oferecido uma oportunidade para análise da situação latino-americana e reflexão sobre ela e tem ajudado a apoiar aqueles que estão empenhados na presente luta. Minha própria convicção sobre isto é o resultado de alguns anos de trabalho com os Movimentos Cristãos de Estudantes Latino-Americanos e a Comissão sobre Igreja e Sociedade na América Latina. a formação de pequenos núcleos em escala local. não precisam fazer exigências de autoridade especial. Qualquer esperança de uma contribuição cristã significativa às lutas revolucionárias em processo no mundo dependerá.

1965. The New Student Left [A Nova Esquerda Estudantil] (Boston: Beacon Press. Capítulo III REVOLUÇÃO SOCIAL E TECNOLOGIA: O PARADOXO DE NOSSA HERANÇA 259 . “The Man from S. 4 “An End to History” [“Um Fim para a História”] em Seymour Martin Lipret e Sheldon S. 20 de março de 1966. 4.G. como exemplo. pág.”. 1966).. 1963. pág.. 6 Ibid. eds. 1965). The Berkeley Student Revolt [A Revolta Estudantil de Berkeley] (New York: Doubleday.Notas Capítulo II A BUSCA DE UM NOVO ESTILO DE VIDA 1 New York: McGraw-Hill. 258-259.M.. “Thoughts of the Young Radicals” [“Pensamentos dos Jovens Radicais”] uma coleção de artigos recentes do New Republic. 3 Veja. 88. Também Mitchell Cohen e Dennis Hale. 5 New York: Viking Press.O. eds. 219. 2 Citado por Deming Brown. págs. pág. Wolin.

em Cohen and Hale.1 New York: Scribners. 2 Citado por Dexter Perkins em The United States and Latin America (Baton Rouge: Louisiana State University Press. Talvez o tempo venha a reabilitar a palavra e distinguir entre autêntico e falso messianismo. meros nadas. para subverter a ordem existente” (V.. ed. 1965. 260 . 3 “A Letter to the New (Young) Left”. em sua própria maneira decisiva. mas nós proclamamos Cristo — sim. A divina loucura é mais sábia do que a sabedoria do homem. em uma passagem do primeiro capítulo de Corintios I: “Os judeus pedem milagres. um livro que tem algumas coisas importantes a dizer sobre este problema. 1964). 22-29). op. pág. Escolheu coisas baixas e desprezíveis.. 46-47. págs. Deus escolheu o que o mundo considera fraqueza. 4. os gregos buscam sabedoria. e não conheço outro meio de expressá-lo. Para envergonhar o sábio. 1963). 3 Cambridge: Harvard University Press. 1965. pág. 1964).. 4 Estou bem certo de que esta palavra nos sugere usualmente algo muito diferente de seu significado original. 5 O Apóstolo Paulo expressou isto. Mas o conceito é importante. 2 Em Maria Kuncewicz. e a divina fraqueza mais forte que a força do homem. 1961). o poder de Deus e a sabedoria de Deus. 6 Estas expressões são do livro de Herbert Marcuse. One-Dimensional Man (Boston: Beacon Press. Capítulo IV IDEOLOGIA E TEOLOGIA 1 In Methodology of the Social Sciences (New York: The Free Press. 112.. Cristo pregado na cruz —. entre os movimentos que são os mensageiros do humanismo messiânico e os que são “messiânicos” num sentido diferente.. The Modem Polish Mind (New York: Grosset & Dunlap.. cit.

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