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CARL OGLESBY E EICHARD SHAULL

REAÇÃO E MUDANÇA
Introdução de Leon Howell Tradução de Eglê Malheiros

PAZ E TERRA
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Introdução
Os dois ensaios que compõem este livro, debatendo a revolução no mundo de hoje, diferem tão profundamente em análise, preceito e resposta quanto as experiências e pontos de vista dos próprios escritores. Contudo, uma preocupação comum pelo papel da América nesta revolução, internamente e no exterior, liga os dois trabalhos. Este livro começou em fevereiro de 1966, quando os dois homens participaram de uma discussão sem formalidade destas questões, no Union Theological Seminary, em New York. Jamais haviam se encontrado antes. Um se envolvera no movimento doméstico americano em prol de uma sociedade mais justa; o outro passara muitos anos na América Latina, intimamente ligado aos movimentos estudantis católico e protestante. As conversas em público e em particular, daquela noite, revelaram uma identidade de interesses e uma diferença de perspectiva que abriam caminho para uma confrontação e discussão interessantes. Ansiando por colocar essas discussões à disposição de uma audiência muito mais vasta, o University Christian Movement pediu-lhes que expusessem suas idéias em ensaios. São aqui apresentados como dois esforços para entender e responder a um problema crucial de nosso tempo, na esperança de encorajar um diálogo mais amplo. Leon Howell University Christian Movement
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PRIMEIRA PARTE Vietnã: Prova Decisiva UM ENSAIO A RESPEITO DAS SIGNIFICAÇÕES DA GUERRA FRIA CARL OGLESBY 7 .

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e no fumo que ascende da incisão sacrifical no Sul do Mar da China ela lê seu passado e vê presságios do seu futuro não tão obscuramente quanto poderia desejar. a sua confusão não de todo oculta por sua fúria. inventou agora de abrir o ventre da velha-jovem Ásia. para a realização de todas as coisas possíveis”. O Vietnã prende-nos com uma nova garra. convence-nos de que esta guerra é o acontecimento mais importante e prenhe de significado e consequência.I Ocidente Encontra Ocidente: o Nexo do Vietnã O destino ocidental é “o conhecimento das causas e movimentos secretos das coisas. Crise após crise. Coréia ou China. A América moderna. estes últimos vinte anos tinham aparentemente nos insensibilizado para as crises. que foi emboscada na Ásia pelo seu próprio passado oracular. Francis Bacon Os antigos oráculos do Ocidente mediterrâneo abriam o ventre de bois e compreendiam o passado e anteviam o futuro na fumaça de suas entranhas ardentes. toca um nervo novo. Porém o Vietnã não é Berlim. e o alargamento das fronteiras do império humano. É claro que há outros fatos que 9 . Não são só seus soldados-filhos que enfrentam armadilhas e estacas “punji” naquelas selvas. É esta nossa América Ocidental. fruto da mesma linha ocidental. tendo em nosso tempo a emergência se tornado o estado comum do homem.

desde que nem no Vietnã nem no Mississipi os velhos remédios de prazer-dor resolvem nossos problemas. tão prolongada e. O problema parece ser o de não mais estarmos certos do que significa “vitória”. Talvez agora lá parece não mais haver tempo para adiamento ou quarentena. Homens já morreram antes. O liberalismo ocidental. e os Estados do ocidente europeu começam a se individualizar dentro da Aliança. no fundo de nossas mentes. mais uma vez. em maior número ainda — não estão satisfeitos em ouvir que o ocidente liberal. Acelera-se a militarização de nossa economia política. em nossa história. Os problemas raciais americanos pioram precisamente quando nossos líderes tentam duramente pôr-lhes fim. não mais desculpas para não se chegar à uma opinião. Porém a guerra. nunca tendo os americanos se assustado com as asperezas da violência. global e doméstica. Não é a primeira de sua espécie. Esta guerra está agindo. Todos são forçados a admitir que ela parece ser “um poço sem fundo” — uma guerra eterna. seria ominosa bastante. nem o contínuo eludir da vitória.contribuem para esta convicção. precisamente quando nossos líderes se acham mais sozinhos na grandiosa defesa da liberdade ocidental. começamos a indagar. acima de tudo. em nossa pátria. europeus. Por que o Vietnã romperia tão profundamente a tranquilidade ocidental? Temos para esta guerra as mesmas explicações que tivemos para todas as outras. se realmente jamais haviam resolvido algo antes. precisamente quando nossos líderes pedem mais unidade. tão indignas do momento? Por que tantos americanos — e. Desde que as velhas verdades se recusam a funcionar. também. confrontado com esta guerra. tão bem estudada: uma nação inteira 10 . os americanos tendo estado sempre prontos a fazer o que é necessário para ganhar o que deve ser ganho. A miséria urbana se intensifica precisamente quando nossos líderes a atacam de frente com sua melhor determinação e ingenuidade. Talvez estes sucessos do passado fossem apenas adiamentos ou quarentenas. Ninguém pretende mais conhecer seus limites. que outrora produziu tão convincentes e úteis definições de vitória e derrota. Por que agora estas explicações parecem tão banais e inapropriadas. Mas é a primeira a ser tão grande. Um novo sectarismo faz com que nos voltemos raivosamente uns contra os outros. se lançou em uma marcha da antiga guerra santa contra o totalitarismo? Por que tantos de nós não mais nos sentimos rejuvenescidos pelos velhos contos? Não podem ser as asperezas da guerra a razão da diferença. só ela. permanece mudo. em uma direção única.

Com esta guerra a história se torna assunto íntimo de cada um de nós. de uma evidente inconveniência. em parte porque já foram discutidas bas11 . Não se nasce com uma tarefa política. através dos lugares-comuns superficiais sobre o Vietnã. Assim. destruído por ele. a quem de hábito era permitida a moratória da ignorância. um ensaio sobre o Ocidente. colocado ante uma visão clara da capacidade de sua cultura para a violência. antes.observa-se a si própria neste ato — o ato sendo (contra toda justiça) a incineração de toda uma outra nação. tivesse sido. se considerado um obstáculo para seu “alargamento das fronteiras do império humano”. do qual a Guerra Fria aparece como o episódio presente e culminante. encontrar conforto em velhas verdades. momento algum em que o povo do Ocidente. em algum tempo futuro. porque agora não podemos negar que há sangue no altar e que as mãos dos sacerdotes não são puras. portanto. mais bem consubstanciadas sobre a Guerra Fria e os conflitos a longo-prazo dentro do Ocidente e entre o Ocidente e o Oriente. a fim de se tornar visível a ele. antes. Este ensaio sobre o Vietnã é. a fim de ser submetido por ele. civilizado por ele. Não houve. explicações que eu considero ser. ou. Eu as abandono de imediato. sustentando que o que ainda não podia ser vislumbrado existia. no essencial. escrevo como um partidário que foi educado por outros partidários. O tipo de argumento neste ensaio segue. o capítulo seguinte se dedica a uma breve escaramuça com as explicações oficiais de nossa guerra de “Mundo Livre” pelo Vietnã. foi o Ocidente que deu ao próprio horizonte um significado caracteristicamente político. o processo pelo qual vim a ser a espécie particular de partidário que sou. chegar. não poderemos adorar de novo na velha igreja. Com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas de qualquer outra pessoa. Nenhuma civilização foi mais violenta do que a nossa civilização ocidental. tenta-se aplicá-los com honestidade e com toda perícia que se possa exibir e procura-se ter a coragem de aceitar todos os mandamentos pessoais que possam implicar das conclusões. Foi o Ocidente que inventou o pretencioso e arrogante conceito do “selvagem”. até generalizações mais sólidas. do qual cada um de nós terá que prestar contas pessoalmente. Recebe-se certos padrões. de forma tão específica. um ato privado. O esforço é no sentido de provar o específico pelo princípio que ele incorpora e o falso pela verdade que ele encobre. Alguma outra civilização já se destruiu a si própria tão abertamente — tão carnalmente — como o faz agora a nossa? Dificilmente poderemos voltar imutados deste espetáculo para sonhar velhos sonhos. Dificilmente poderia ser de outro modo.

O III Capítulo é uma análise crítica da melhor história do Guerreiro da Guerra Fria. e a própria Guerra Fria é a crise final da identidade ocidental. de tornar mais explícito o tema geral que eu já sugerira: a guerra do Vietnã é uma crise revelatória da Guerra Fria. à força. O propósito principal do II Capítulo é reelaborar aquele argumento. na realidade. a ideologia do anticomunismo da Guerra Fria. numa tentativa de desnudar. o seu intuito é revestir de alguma carne humana o inimigo por demais abstrato que tão precipitadamente condenamos — o rebelde. porque sufocam uma linha de argumento menos piedosa. mas principalmente. que jaz sob eles. ele encontra a si mesmo. o que é mais importante. baseado naquilo que o precede. o Oriente que o Ocidente enfrenta no Vietnã. caso seu compromisso com as banalidades pontificais não o silenciasse. 12 . um argumento que o bom Guerreiro da Guerra Fria teria apresentado. visando descobrir não só os erros históricos que contém. O último capítulo. Não é. as verdades políticas que aqueles erros devem ocultar. O VI Capítulo se transporta ao outro lado da linha de combate. porém muito mais sólida. porém.tante por agora. portanto. A reinterpretação da Guerra Fria (IV Capítulo) daí resultante é aplicada no V Capítulo ao caso do Vietnã. é uma tentativa de reconstituir as linhas mestras das principais questões que os ocidentais poderiam tentar confrontar — uma tentativa.

mas outros.II A História do Guerreiro da Guerra Fria O Secretário Rusk não é tolo. debaixo dela. Desta forma. e a mais dura. Parece. descascar a camada superior de propaganda para revelar as camadas inferiores mais tenazes de ideologia. devemos fazer alguma mineração. a mais forte. mais honestas. que dão à propaganda sua base e desígnio. Existem outras razões. Se Rusk pretende estar convencido por argumentos que não convenceriam ninguém tão inteligente como ele. Acorde com o Senador Case. haver numerosos graus e variedades de raisons de guerrilla que se sobrepõem umas às outras como tantos estratos geológicos. onde razões de guerra menos piedosas. estão encravadas. O segundo pensamento é melhor. Este é o objetivo deste capítulo: levar o foco analítico através das mentiras brancas da política de guerra até o substrato ideológico. devem pensar: Estas razões são tão ruins que deve haver outras razões. não desejo concluir que Dean Rusk é um tolo. então ele deve ter sido convencido por outros argumentos. a razão mais fraca à superfície. e pensar: Estas razões são tão ruins que devemos ter caído nas mãos de loucos. que por algum motivo prefere não 13 . na verdade. por que continua ele a dizer isto? Senador Clifford Case1 Pode-se ponderar as razões oficiais que Washington dá para nossa luta no Vietnã. também.

O melhor desenvolvimento deste argumento pode ser encontrado num longo e detalhado ensaio na edição de abril de 1966 de Foreign Affairs. a Baía de los Cochinos: Murray Zeitlin e Robert Sheer (Cuba: Tragedy in Our Hemisphere. Nossa reputação global está em jogo. E a afirmação da CIA. tendo o pacto da SEATO ainda mais cláusulas de escape do que o da NATO. seria de se estranhar que seu trabalho não fosse. é bizarra. a CIA aparece como tendo conscientemente falsificado a informação. e talvez isso seja importante. Estamos respondendo a um apelo de emergência do povo vietnamita. É ainda mais óbvio que nenhum estado forte hesitará um momento sequer em violar um tratado que julgasse prejudicial aos interesses nacionais. “O Vietcong sem Rosto”.expor. o qual definem de modo diverso. Jamais ouvimos falar do povo vietnamita. George A. Ouvimos falar apenas daquela elite vietnamita.* Porém. Tendo em vista a intimidade notória do AID como a CIA no Vietnã e a abundância de dados que parecem ser altamente confidenciais a que teve acesso Carver. em Saigon. Tanto quanto o Presidente Johnson. supostamente objetiva. É óbvio que não há acordos tão indiscutivelmente comprometedores. a história do Guerreiro da Guerra Fria pode ser recomposta. simpática bastante à nossa própria política para julgar chegada a sua hora no Palácio Presidencial de Saigon. é medida de prudência mantermo-nos céticos a respeito dos “fatos” de Carver. A única questão é: Que espécie de reputação desejamos para nosso país? Resistimos a uma invasão: a) A Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul é uma criatura política do Vietnã do Norte.. Mas este argumento é faca de dois gumes. 1964) constataram que a CIA maldosamente alterou os textos dos discursos de Castro. Mas antes tem de ser esclarecida sua propaganda. isto é. precisamente antes da invasão. Penso que os argumentos mais convincentes podem ser reconstruídos. Estamos legalmente obrigados a lutar. se não percebermos que o propósito da CIA era envolver os Estados Unidos numa situação da qual poucos governos podiam ter decidido se 14 . sobre a qual nossos mentores políticos estavam baseando seus planos. os dissidentes consideram-se partidários do prestígio da América. Uma vez que pode ser justamente isto. apresentados por ela aos analistas do Departamento de Estado e da Casa Branca. Uma. O autor. Carver Jr. de que o povo cubano estava se preparando para um levante contra Castro. é identificado como um antigo oficial AID. e não porque tenhamos sido apanhados por um instrumento legal. mais ou menos. um documento da CIA. Se lutamos deve ser porque pensamos que devemos lutar. Talvez esteja. de que adianta o ceticismo num caso em * Várias amostras da historiografia da CIA podem ser citadas.

15 .UU. Paul Blackstock (The Strategy of Subversion.UU. Sei muito pouco sobre este misterioso e injustamente ignorado comitê. em janeiro de 1964. declínio considerado inacreditável pela maioria dos especialistas ocidentais. 1964) escreve que este informe foi amplamente interpretado como uma tentativa de influenciar os aliados dos E. que estava infiltrado no Vietnã do Sul (com passaportes civis) pela metade da década de cinquenta. em Saigon e Hue. qual foi o primeiro golpe e qual o contragolpe.que os “fatos” são tão inacessíveis? Pelo que podemos saber com certeza. Esta concessão nos permite indagar a Carver o que sabe ele sobre aquele outro intrigante. ** O pormenor sobre a infiltração militar dos EE. E. Minha outra informação sobre o comitê de Nhu foi obtida em palestras com oficiais americanos e com um vietnamita antigo membro dele. está documentado na memória do ex-membro das Forças Especiais. de novembro de 1956. Conjetura-se. tenha intrigado para criar e deter o controle da FLN. U. e que pode ter estado envolvido na famosa rebelião dos fazendeiros de Vinh. a não conceder grandes créditos de exportação a U. logo após a consolidação do poder feita por Ngo Dinh Diem. em Ramparts. a elaborada descrição que Carver faz da gênese da Frente de Libertação Nacional (FLN) pode ser pouco mais que uma fantasia à Borges. contudo.S.5 por cento.S. exceto que estava dirigindo operações paramilitares no Vietnã do Norte. U. Philippe Devillers e Jean Lacouture são mais fidedignos dentro de um corrente critério acadêmico. que pode ter sido financiado diretamente pela CIA.R. de fevereiro de 1966. Porém muito mais importante do que questões sobre as origens burocráticas da FLN é a questão: Por que ela cresceu? Suponhamos que desvencilhar. pode também ser verdade completa e perfeita. com aquela viciosa habilidade pela qual reconhecemos nosso Inimigo.S. que ele pode ter sido treinado por pessoal das Forças Especiais dos EE.R.S. e todos os três descrevem a FLN de maneira que difere muito mais de Carver do que de Burchett. A que provas podemos submetê-la? Podemos comparar a versão de Carver com a de Wilfred Burchett. Os estudiosos franceses Bernard B. Concedamos que Hanói. Que fazer com uma “prova” que não pode ser testada? Aceitá-la. Outro exemplo.2 porém Burchett é tão partidário quanto Carver. caíra em 1962-1963 a 2. em julho de 1965. a CIA filtrou a “informação’’ de que a taxa de crescimento anual da U. o Comitê pela Libertação do Vietnã do Norte. em 1956. Ngo Dinh Nhu. mas podem estar errados. Fali.** Não há saber no mundo que nos esclareça qual dessas duas “criaturas de libertação” foi inventada primeiro. e aquela outra organização “criatura”. Donald Duncan. de 6 a 10 por cento. de Nhu.

Tais decretos podem dar-lhes forma tática e. George Carver. não com os camponeses do Vietnã. em ambos os lados. jamais produtos de uma diplomacia sombria.o regime norte-vietnamita promulgasse certos decretos. mas com as elites dos salões da Riviera Francesa. Guerras populares são fenômenos culturais. bem como. Diem desejou. e das classes superiores católicas. muito provavelmente. mas sua substância e seu impulso são os maciços ressentimentos. mesmo estratégica. através de um movimento subterrâneo no Vietnã do Sul: Por que tanta gente sul-vietnamita correspondeu? Como foi que esta invasão ilegítima. pela imposição dos famosos programas de recolonização. como só num surtiu efeito? Será por que havia uma organização secreta ferreamente organizada? Havia organizações secretas. e tornou-se. a uma crescente ajuda militar dos Estados Unidos. o Departamento de Estado e a Casa Branca. sabem que a emanação de ordens em Hanói tem muito pouco a ver com a maneira 16 . que há gerações se identificavam. que eram ainda mais altos. por igual. às vezes. mais brancos e melhor arrumados do que seus predecessores franceses. como se fora esta sua real intenção. vinda de fora. Diem reagrupou a matriz político-cultural da qual brotava o movimento Vietminh. a CIA. chegando mesmo ao detalhe de rodear-se de oficiais vietnamitas. ou não pôde resistir. ou a culpa. Diem agiu no sentido de despedaçar a tradicional base aldeã da sociedade vietnamita. foi sentida por tantos sul-vietnamitas como uma revolução inteiramente legítima vinda de dentro? Por haver terror? Havia terror em ambos os lados. fora de dúvida. sabem melhor do que ninguém (voltaremos a isso) o que cria guerras populares. que tinham lutado ao lado dos franceses. por que só num surtiu efeito? Se. E. alienação e miséria populares. Este novo imperialismo transformou a revolução social numa guerra patriótica de libertação. na certa. pela guerra popular que agora devasta o Vietnã. o Presidente Diem suprimiu pela violência toda oposição política. Aquela supressão forçou os episódios iniciais de insurreição defensiva. comunista ou não-comunista. na medida em que se deva atribuir a algum oficial governamental o crédito. Passo a passo. associado dos bem-intencionados americanos. ou tolerou. Este novo feudalismo transformou a insurreição inicial numa revolução social. Na passada década de 1950. tal oficial seria o falecido Ngo Dinh Diem mesmo. de disciplina férrea. sabemos algo sobre guerras populares (aprenderíamos muito com um estudo de nossa própria revolução) é que elas não podem ser forçadas a existir por meio de decretos burocráticos remotos. ele reconstruía a oligarquia latifundiária e as classes compradoras que o Vietminh derrubara. afinal. simultaneamente.

O comportamento da Administração. os norte-vietnamitas. Assim. a força total da FLN era oficialmente estimada em 282 000 homens. que teriam uma boa razão para lutar. e muito antes de haver qualquer base para a acusação de infiltração por parte do norte. Há outros números. Destes 282 000. Com todo o furor oficial.pela qual tais ordens vão ter repercussão no Vietnã do Sul. é. A velha fórmula se repete: Quantos mais são os que morrem. Mas o caso parece ser outro. cerca de 50 000 supõe-se ser infiltrados nortistas — e a grande maioria destes 50 000 se pretende tenham vindo para o sul a partir do sistemático bombardeio americano do Vietnã do Norte. Porém. desde o início do ano4 (Este número. em si. ficamos sem a explicação de “agressor-externo” para pelo menos quatro de cada cinco partidários militares ativos da revolução. não haverá no mundo ordens capazes de instigá-la. outros fatos. 17 . mesmo não o tendo sido. No mesmo período. o maior total já alcançado num período de seis meses. pelo que vem depois. Não basta. aquela evidência não parece justificar o nível de nossas próprias forças. afinal de contas. um aumento de 52 000. por exemplo) não nos permite acreditar que a estimativa não tenha sido inflacionada para um maior efeito político. começado em fevereiro de 1965. mal chegam a 18 por cento do total das forças da FLN. incidentalmente. tal como na guerra da Coréia. Porém. No solstício do verão de 1966. mais vêm lutar). Por certo.3 O que vem antes não pode ter sido causado. Se a revolta é necessária ela virá. mesmo na falta de maiores informações. é que nossa militarização do Vietnã do Sul estava em pleno processo pelos fins de 1954. Dizse que os americanos são um pequeno número e que ajudam com umas armas. é politicamente ameaçador. preparamo-nos para tomar conhecimento de que nosso inimigo é constituído na maior parte por tropas nortistas. frente a outros problemas estatísticos (as já faladas “mortes”. proclamávamos 31 571 “mortes”. se não é necessária. Um. que agora ultrapassam as forças “invasoras” do Vietnã do Norte em mais de 6 para 1. muito mais surpreendente do que esta omissão é a inconcludência das estatísticas da infiltração. com ordens ou sem elas. os argumentos sutis de Carver sobre organizações “títeres” e “criaturas” perdem toda substância. e nem pode ser desculpado. a mais desonesta de todas. Linha de argumento bastante forçada. Resistimos a uma invasão: b) Tropas norte-vietnamitas estão lutando no sul. O argumento da invasão parece minado por sua melhor evidência. bem antes de haver terminado o período de controle francês. Frente ao fato concreto de que o Vietnã do Sul se revoltou.

em grande parte. esta necessidade e esta correção. o argumento pressupõe que há dois Vietnãs. a Administração tem descrito o paralelo 17 a “linha de demarcação militar temporária” da Conferência de Genebra de 1954 — como uma fronteira nacional permanente. em grande parte. Relembremos os 3 000 cargueiros britânicos que os franceses ajudaram a pôr a pique. com canhões. nós americanos devíamos saber isso. pela França. isto é claramente incorreto. separados e soberanos. Isto é. A segunda suposição dissimulada no argumento da invasão é a de ser possível uma invasão politicamente comum entre o Vietnã do Norte e do Sul. Os Guerreiros da Guerra Fria podem argumentar que uma tal divisão é legal bastante caso seja correta. comandados por Rochambeau. dizer que as revoluções americana e vietnamita são semelhantes. Ela dissimula duas suposições decisivas. e indiretamente. se suas tropas forem estrangeiras. que as duas metades do Vietnã estão uma para outra. em Yorktown. combateu e derrotou a frota britânica que protegia a retaguarda de Cornwallis. de todos os povos. mais tarde. e. Relembremos que Washington decidiu travar a batalha de Yorktown. É só para notar que a presença de tropas de fora. em James Island. pelo número de seus camaradas franceses. ou o estabelecimento de alianças. Não queremos com isso. O Vietnã está hoje dividido. Examinaremos muito de perto. permanece incorreto dizer. Relembremos em que extensão nossa própria revolução foi apoiada direta. no terreno político. em apoio a nossa causa revolucionária. porém. é claro. certa 18 . Isto é. nada provam a respeito da natureza política interna do conflito. um dos quais pode agredir o território do outro. ou a interferência em qualquer lado de estados do terceiro-partido. Porém. permanente pelo menos enquanto dure a Guerra Fria. isso não faz de Tho um agente agressor. e que Washington venceu aquela batalha. Alguns terceiros partidos apoiaram a FLN de Nguyen Huu Tho. A primeira é de que é espúrio um exército pretender o status revolucionário nacionalista. Espanha e Holanda.Devemos repisar um pouco a estratégia política desta preocupação com tropas “estrangeiras”. e correta bastante caso necessária. seja a divisão defensável ou não. assim como a Alemanha para a Tchecoslováquia de 1938. porque de Grasse perseguiu. A lei serve ao poder. com a confusão à Munich. isso não torna Hitler um revolucionário tcheco. porque o Almirante de Grasse prometeu navegar das Índias Ocidentais para desembarcar 3 000 soldados franceses. Alguns tchecos apoiaram a Wehrmacht de Hitler. Relembremos que as tropas do General Washington eram superadas. Relembremos nosso sentimento nacional por Lafayette.

pois. É a estabilidade mais importante do que a justiça social? Pode a mudança ser realizada dentro do status quo? Pode a aquisição ocidental de hegemonia econômica global coexistir com as justas aspirações dos pequenos estados? Pode o progresso daquela aquisição ser invertido sem violência? A teoria do dominó nada tem a dizer a respeito das verdadeiras condições e problemas que lhes dão a vida estropiada que têm. Porém sua suposição mais importante ainda parece válida: o nacionalismo é uma traição ao imperialismo. A descrição implícita da teoria. paranóica e mecanicista. os mercadores se retirariam com seus bens para climas mais favoráveis. North comunicou a George III estes sentimentos. estritamente devido a insistência dos Estados Unidos e estritamente porque havia uma revolução na China. estaremos tratando este argumento muito seriamente de uma forma muito elaborada. e multidões de manufatureiros deixariam este país pelo novo Império”. então esta Ilha seria reduzida a ela mesma e logo seria uma pobre ilha. no sentido pelo qual a demanda de mudança emerge e é moldada pelos acontecimentos internacionais. de todas as questões sociais realmente importantes a respeito das quais os ocidentais em geral. mas teriam que ser.5 Todo senhor de um império mundial desde então encontrou ocasião de desempoeirar o que agora chamamos a teoria do dominó. e os americanos em particular. Lord North chegou à conclusão de que a tentativa da Inglaterra para submeter os americanos já fora bastante longe. é primitiva. que os Estados Unidos achavam aterradora. era dispendiosa demais e devia ser sustada: dever-se-ia garantir aos americanos sua independência. com furiosa arrogância despreza o Vietnã e todas as outras peças do jogo como possessões do Mundo Livre (leia. Respondeu que a contenda americana era a mais importante em que jamais estivera envolvido qualquer país e censurou North por “pesar tais eventos ao modo de um negociante atrás de seu balcão”. Se não formos capazes de conte-los aqui. dependentes da América do Norte. precisam tanto de esclarecimento. O rei tornou claro para North que se a América obtivesse êxito. 19 . a Irlanda em breve seguiria o mesmo plano e seria um estado separado. “as Índias Ocidentais teriam de segui-la. Pelo fim do IV Capítulo. prejudicados em seu comércio. Em 1799. O rei ficou indignado. extremamente avançadas. só precisamos notar que sua versão popular dá como esclarecidas. sem dúvida. teremos que conte-los em algum outro lugar. Por agora. ou limita a visão. por seu próprio interesse. não [para] a independência.ou erradamente. Pretende que não há de forma alguma indagações a fazer sobre nossas posições internacionais.

seu desejo elementar de justiça. põe fora da lei implicitamente a rebelião. o nascimento da rebelião e sua propagação. com estatísticas. negando implicitamente que os homens se revoltam pela causa humana. Tal luta envolve muito a América. evoca as imagens de uma ameaça muito lendária. a América permanece pouco mais que indiferente na serena ingenuidade de seu propósito. e. um difuso. Porém os teóricos do dominó soam os tambores do anticomunismo. uma política externa que Gary Porter. como um todo criminoso. apregoando suas mercadorias ao dinheiro público. os mortos sepultados. debatemos e debatemos. Não tendo sido dada chance a um bom povo de imaginar quem é seu inimigo e porque seu inimigo luta. moribundo ou morto? Que novas formas tomará no futuro este confete de estatísticas. Mesmo os críticos não discutem muito a idéia de que justiça é o 20 . aprofundar o sentido de Hoa Hao e observar a linha de Cao Dai. laborar nos significados sutis de tratados e suas cláusulas. e às vezes leviano. satirizar certas eminências-pardas e apiedarmo-nos de outros. os heróis condecorados. Por meio destes “slogans”. Os “slogans” fazem também algo de mais sutil: fixam nossa atenção no próprio Vietnã. (senão) diabólico. faz-nos acreditar que há um Portão e que o Inimigo está ante ele — ou prestes a estar. pedindo emprestado a Walter Lippmann e George Ball. Que quer Ho Chi Minh exatamente? Le Duan é mais forte do que Vo Nguyen Giap ou Pham Van Dong? Que facções se degladiam dentro da FLN? Mao está vivo. os jovens são convocados.Estados Unidos) as quais. Mesmo quando nos tornamos críticos. nomes e datas? O que fará a Ásia? No entretempo. estes “slogans” manipulam nossos pensamentos. segredos e profecias. em aturdidor contraste com este problema para um cálculo não descoberto. e estamos em guerra. americanos. sempre tragados de novo por aquele turbilhão do Sudeste Asiático. denominou com justeza “globalismo — a ideologia do envolvimento do mundo todo”. comprovar-lhes. E é preciso entender essa luta. Nós. não lhe tendo sido dado tempo de pensar em meio às aturdidoras implicações de uma política externa que se enredou nele. convidam-nos a reencenar na solidão. nacionalismo toma forma e apaixona. Há uma luta no mundo. Geralmente. como se a única parte difícil de sua política no Vietnã fosse a tarefa puramente técnica de aplicar à turbulência da Ásia. o coração da pátria é aquecido para o sacrifício. estas razões para guerra são pouco mais do que os “slogans” de uma campanha de vendas de mercadorias encalhadas. sem ser explicada ou debatida. um executivo federal desenfreado. sendo dominadas por nós são nossas para que percam.6 Desde “luta pela liberdade” até “detê-los agora”.

Ela vencera estas guerras simultâneas tão só para ver aqueles valores ameaçados outra vez. as vigas-mestras das instituições sociais. enganados em nossa escolha dos beneficiários vietnamitas. que não é tolo. Isto é errado. uma burocracia internacional centralizada. “continua a dizer isto”? Isto pode ser respondido. colocada no ostracismo em relação aos negócios políticos e econômicos da Europa. a ideologia política dominante da América. por Stálin em 1945 do que por Hitler em 1940. ao exame cada vez mais acurado do quebra-cabeças do Vietnã. sua duradoura e aparentemente bem fundada desconfiança mútua. a exausta União Soviética também se sentiu ameaçada. tentando. De seu lado. Iugoslávia e França havia personagens poderosas que por certo não se satisfariam com a derrota do Eixo e em voltar à ordem social de pré-guerra. o melhor meio de provar a alguém se nós fomos. Condenada pelo Ocidente desde os primeiros anos de sua revolução. Itália. instruídos. dedicamse. vítima de uma intervenção militar ocidental maciça. do que para dissipar. Pensemos em 1945. Em vez disso. Os Estados Unidos viam o Comunismo Soviético como ameaçando a Europa com outra longa convulsão revolucionária. ou não. Basta apenas recapitular as duas últimas décadas. Na Europa Oriental. cujos elementos europeus estavam sob a disciplina de Moscou. para preservar certos valores e instituições e uma concepção de sociedade que simplesmente não eram sem interesse para ela. homens bons.que a América deseja. convencida de que fora oferecida em sacrifício à Wehrmacht por meio da política de apaziguamento de Chamberlain. vezes sem conta. talvez mais ameaçadoramente. aprofundá-lo e usá-lo. que só prolongou e adensou os horrores de sua guerra civil. guiados nessa recapitulação pelos raciocínios mais lugar-comum do anticomunismo da Guerra Fria. Queriam mudança social. Grécia. estava o Partido Comunista. O assunto básico de uma análise política séria do Vietnã é a América. Turquia. A América derramara seu sangue e tesouros pela Europa e Ásia. A aliança de guerra fizera talvez muito mais para aprofundar. vergastada internamente durante quatro anos pelo assalto do poderio de Hitler e sem auxí21 . A guerra longa havia quebrado. O que é que o bom Guerreiro americano da Guerra Fria deve ver atrás da propaganda? O que o persuade a enganar outros americanos? Por que o Secretário Rusk. nas décadas de vinte e trinta. Dois inimigos se defrontavam por sobre uma Europa devastada. quase por toda parte. No centro do desespero da Europa. parecia.

porém. quem desconhecia o que estava para vir? Mas a guerra russo-americana não foi travada.lio pelo atraso do segundo fronte. Em 1947.. o famoso artigo “X” de George F. Por volta de 1950. De ambos os lados da fronteira.. Polônia e Hungria ficaram de pé só para serem subjugadas. convencido. seriam permitidos. no campo de sua inimiga. com mais de 20 milhões deles mortos e cinco vezes este número aviltados pela ocupação nazista. segundo as palavras de Franz Borkenau. sua indústria arruinada pela guerra e seu povo confuso e paralisado com o sofrimento. suas principais cidades fumegando e suas terras aráveis devastadas. a que precisava ser travada para fazer o mundo todo seguro afinal para o capitalismo democrático. E o horror da Rússia deve ter sido pelo menos tão grande quando observava a Nova Alemanha surgir viva com aço e armas. justo quando a Alemanha nazista estava para cair. tão só para ver outro inimigo.”7 Pela década seguinte.. não se considerava comprometido com um horário para a conquista. mas também para a nação governada por ele. levado a efeito por Churchill. via o ajuntamento calculado em suas fronteiras políticas de uma aliança militar totalmente envolvente e a crescente influência. este mais poderoso do que o primeiro. dentro da Europa Oriental. em documentos oficiais — pelo menos por algum tempo. a inevitabilidade da decadência capitalista autoprovocada. Foi transfigurada. antes. para construir uma zona tampão contra a agressão de uma Alemanha reconstruida. O Ocidente colocaria seu próprio ferro através da cortina e esperaria sua oportunidade. o Ocidente democrático observou horrorizado como a Alemanha Oriental. ela olhava através daquela Alemanha cuja invasão tinha tão custosamente repelido. mesmo o mais desinteressado e inocente aprendeu como viver em alerta.. dos mais audazes advogados da “volta atrás” e “libertação”. Kennan. as linhas territoriais da Guerra Fria Européia tinham sido convenientemente acertadas pelas duas potências magnas. precisava 22 . à catástrofe total não só para o regime terrorista. lançara as bases de uma diplomacia ocidental sustentável: comunismo não era fascismo. ele não afirmava a inevitabilidade de conflito nacionalista. A despeito da camaradagem da Grande Aliança. fatal e “histórica” das guerras. A guerra que não aconteceu tornou-se um modo de vida. de que “a lei interna do terror stalinista [deveria] conduzir a Rússia de Stálin. de que aqueles cinco anos de guerra mostrar-se-iam mero prelúdio daquela. portanto. mesmo legitimados. E correu pela Europa o rumor. a mais fundamental. Os ajustes de Stálin.

de uma política exterior soviética que pode tolerar. em termos talvez condicionais. igualmente bizarra segundo os padrões da Guerra Fria. que pode propugnar abertamente. recolocar a linha de demarcação. para sua posição primitiva e assim mantê-la até que a tolice comunista finalmente se refutasse a si mesma. e ambos os lados. também. e de uma política externa americana. por maior comércio com o bloco vermelho europeu (oferecendo mesmo a estes países tratamento de nação mais favorecida). a Doutrina Truman condenou a esquerda grega. sob certos aspectos. e em maio. impedir negligência e oportunismo. a permanência da revolução cubana. surpresas muitas vezes. cada lado pelo menos pretendendo permanecer confiante na vitória final. em comum acordo estavam para acertar o limitado tratado de proscrição das provas atômicas. E de crise em crise. um divisor de águas. a humilhação da prova decisiva dos mísseis cubanos. Assim o Ocidente capitalista devia ser paciente. Naquele ano os soviéticos aceitaram o que parecia ser. porém talvez 1962 seja. em tempo de guerra. era paciente. que pode mesmo ser pilhada a lançar olhares furtivos para a União Soviética como uma possível mediadora 23 . aparentemente sem grande preocupação.tão só levar em conta tempo e lógica econômica para fazer seu trabalho. Mas. e sim um processo. somos as testemunhas. a América aceitou. É difícil fixar uma data para o que não é um evento. nossa violência crescente no Vietnã e nosso roubo dominicano. numa mensagem-relatório ao Congresso [State of the Union message]. Foi naquele ano que se tornou inegável um equilíbrio de poderio estratégico Oriente-Ocidente. e a onda do futuro. pelo menos. já que os marxistas estavam errados. Certos duetos-chave foram cantados em certos cemitérios: Em abril de 1947. O capitalismo podia muito bem tomar conta de si. e o golpe vermelho de fevereiro seguiu-se como um reflexo. a direita húngara ficou com as consequências. as leis de economia. no começo de 1948. que pode aplaudir os soviéticos por seus êxitos diplomáticos em Tashkent. o Plano Marshall atraiu a Tchecoslováquia de uma órbita para outra. persuadido de que a maldade do outro lado cegava-o para as lições da história. Hoje. a nuclearização da Alemanha Ocidental por nós. e que os chineses desfecharam seu maciço ataque ideológico contra a União Soviética. os fatos da natureza humana. o cauteloso entendimento dos nossos próprios dias tomava forma. Era apenas importante permanecer em vigilância. que os russos haviam empurrado. Não era preciso guerra preventiva. era possível dizer que o metabolismo da Guerra Fria mudara. a grosso modo.

9 Foi encontrado evidentemente um substituto para a guerra. para ser exato. por trás disso. quando esta mesma União Soviética empreende o aparelhamento bélico de nosso inimigo norte-vietnamita. Em vez disso. Em geral.L. Sua amargura perdeu a intensidade. não diz absolutamente nada. A respeito. entrementes. é evidente que nossos próprios cognoscenti políticos receberam um novo aviso. Sulzberger de The New York Times — uma fonte de informação privilegiada — indagou se a animosidade soviético-americana explícita não se tornou tão só uma fachada para uma aliança implícita mais importante. Contam-nos como um professor Libermann. as crises são atribuídas a elementos extremados em vez de a estados-maiores. uma potência. fornecer armas aos revolucionários latino-americanos. e às vezes a gente imagina se não há algo ainda mais surpreendente no ar: uma lenta convergência de objetivos políticos. Na União Soviética não mais se antecipa todo dia o Grande Colapso Capitalista: as heresias de Eugene Varga na metade da década de quarenta transformaram-se tranquilamente nas ortodoxias da década de sessenta. uma espécie diferente dos diabos da véspera. base ou porto em terras estrangeiras. talvez em perfeito acordo sobre a questão da China. Estamos em solidariedade declarada na vexatória questão do Kashmir e. mas faz discursos. Tudo isto está evidentemente muito de acordo conosco. O relacionamento não mais se define por sua ira e incertezas. pois temos alguns sinais de que uma Propaganda Avançada está em curso. faz quase nada pelos vietnamitas. tivemos a experiência de programas de ajuda virtualmente integrados no Afganistão e Índia.C. de forma alguma. e promete na conferência Tri-Continental de Havana. num movimento tortuoso. insultou com acinte os economistas marxistas em seu antro.8 E. ameaça militar aos Estados Unidos. em nome da motivação do lucro. faz as mais enérgicas e efetivas incursões diplomáticas em nossa esfera asiática de influência. Com a União Soviética nós fomos do confronto hostil à détente. O encontro militar direto é temido e evitado igualmente por ambos os lados. e que não representa. Congratulamonos mutuamente de forma rotineira por nossas explorações supercientíficas na proclamada vizinhança não política da lua. jamais 24 . Permitem-nos pensar que Brejhnev e Kosygin são capacitados técnicos burocráticos. tornou-se embotada pelas garantias mundanas de uso diário. Nossa cólera está agora reservada para a China — a mesma China que. não tem um único soldado.em um acordo com o Vietnã e que. A Guerra Fria européia não mais encontra russos e americanos se observando pelas miras de fuzis. comparada com a Rússia.

as palavras do Secretário McNamara: “Agora o povo toma consciência do que dificilmente alguém perceberia cinco anos atrás — de que é impossível vencer um embate nuclear total. Pela dedução de que a perseguição destes alvos está nitidamente menos obstruida na atual détente européia. Uma vez que você toma consciência disto. A força. torna-se essencial para as nações sábias gerar a consciência desse fato entre as imprudentes. ) 25 . Como manejamos para conseguir isso? Que sorte ou sabedoria reduziu a problemático o inevitável? A improvável o problemático? Acima de tudo. As sábias fazem isto elaborando poder militar. * Por exemplo. cada lado deve se colocar no ponto de vista de que a guerra global é um meio insatisfatório para assegurar objetivos globais. mutuamente interinfluentes. Saturday Evening Post. As demandas de poder lentamente perderam seu status quase metafísico. Assim. ser explicadas de várias diferentes maneiras. As posições tornaram-se negociáveis. Em nosso tempo a política perdeu sua teologia. as atitudes mutáveis. propôs-se sim a aceitar sob novos aspectos a existência de outra potência. às vezes. 21 de maio de 1966. não há uma exposição definitiva. que consiste em quatro proposições básicas. nações pouco sábias podem não entender isso. Porém podemos partir do raciocínio. e também exibindo esse poder ante os olhos das imprudentes que não podem mal interpretar a mensagem: Você pagará caro qualquer loucura. O objetivo agora foi ideado como “controle de conflito”. tornou-se secular e pragmática. Isto não foi mera renovação da política de esfera-de-influência do século dezenove. cujo alvo era a dominação. O fato de a guerra aparentemente predestinada não se ter travado é talvez o que agora nos intriga. Primeiro. largamente sustentado. sem dúvida muito menos do que ela com toda certeza perderá. 30. pág. são o evitar a guerra e a criação de uma sociedade global estável em que predominem os valores liberais.” (Citado em “His Business is War”. sob qualquer aspecto.se propôs entender-se claramente sob novos aspectos. sem dúvida. e abrigos antiaéreos em casas? As intuições políticas produzidas em nossos estadistas por vinte anos de Guerra Fria européia podem. mais a verossimilhança de seu uso.* Esta premissa tem de ser estabelecida. podemos nós desvendar os segredos desta alquimia que mudou túmulos em abrigos de proteção antiaérea. e os antagonismos condicionais em vez de absolutos. uma vez que aquilo que uma guerra poderá ganhar é. você chega a certas conclusões racionais. de Stewart Alsop. de que os objetivos. Porém. pode-se generalizar nossa experiência ali em termos de uma teoria de contrôle-de-conflito.

Este é o ponto crucial da compreensão distintamente liberal da política de potência. Começamos a confiar nele e a não esperar demasiado. Em quase todas as circunstâncias. mas que permanecerá território proibido para a principal potência oposta). é claro. ele está a proteger seu orçamento. pode-se permitir que caia uma posição de nosso próprio lado da linha. Esta experiência gradualmente constrói um fulcro para um novo equilíbrio de confiança. amplo e seguro. não convencional e não digno de confiança — que com o tempo se torna mais fidedigno. nenhum objetivo é tão importante como sua proteção. de que o que assusta os diplomatas de uma nação assusta os de outra. Em suas ações reconhecemos nossos motivos. a quieta e inapregoada consciência de que esta experiência de adversidade é compartilhada. durante esta fase. pugnando pelo poder. certas ameaças e acusações começam a ter um estilo periódico. Somos todos homens do mesmo mundo. é através do processo de definição e garantia de segurança de trégua que as potências rivais armazenam informações uma sobre a outra. os dividendos desta paciência são que os interesses comuns. nossos nomes de permeio. irregular. O estabelecimento e manutenção desta linha são matérias de alta prioridade. Ouvimos palavras ásperas. e começam a criar um sistema de comunicação — inicialmente. Talvez. (As duas crises cubanas podem significar que em algumas regiões geopolíticas. tão necessários a relações mais produtivas. heroísmo. desenvolvem e habituam-se a um “modus vivendi”. de fato. lealdade tribal. O outro lado deve entender isso. Deve-se estar preparado mesmo para ir à guerra para mantê-la intacta. Acuramos a sensibilidade para seus problemas internos especiais e começamos mesmo a possuir favoritos dentro de sua casa. Segundo. Ocasionalmente vemo-lo retornar ao templo de seus mitos nacionais e lá representar em benefício das massas insuspeitosas — e daqueles ascetas de vista estreita. Começamos a aprender como dançar com ele.tem como resultado poder dissuassório. Há uma fé subjacente de que os homens serão capa26 . neutralizando um oponente. Começamos a conhecer este nosso inimigo. o mais importante é o que se passa em silêncio entre os dois lados. os generais — o eterno drama de seu patriotismo. O Comando Estratégico do Ar não pretendia ser irônico quando elaborou seu lema “A paz é nossa profissão”. terão tempo para incubar. Finalmente. uma linha global de trégua precisa ser claramente traçada. mas entendemos. que torna todas as nações pacifistas e cria tempo e espaço para manobras diplomáticas. Terceiro.

Há de haver um tempo. por sobre o Estreito de Formosa. Em ambos os lados. olhem de frente o fato de que o futuro não é propriedade privada de uma nação — e assim façam a paz. aprendam várias coisas um sobre o outro. Não é visão desagradável. há aqueles que vivem em um estado de perpétua. por causa disso. Porém. Tal como cooperamos com as outras democracias ocidentais. um crepúsculo dirigido em que o movimento é restringido. Deve haver uma calmaria entre nós. Tal como nosso principal inimigo europeu tornou-se na derrota nosso principal amigo. em que a história cessará de repeti-los insistentemente. o rumo das relações soviético-americanas a partir da II Guerra Mundial — pelo menos. mas. os homens-chave. Assim mesmo parece haver algo familiar na situação. o Mar Amarelo. o Mar do Japão. desenfreada entrega a esta tentação. pode-se imaginar-se assim — sugere um meio pelo qual a previsão pode ser realizada em toda parte: Cuidem-se para não haver grandes guerras. assim com o Japão e a China no Pacífico. na tentativa de fazer voltar atrás a Revolução Russa. Somos inimigos. Vezes sem conta. assim tentamos combinar os exércitos comunista e nacionalista chineses para ação comum contra o Japão fascista. Talvez haja mesmo um pouco mais de esperança do que merecemos. começa a haver uma chispa de esperança. em troca. 27 . há ainda outros que enfraquecem quando as tensões são grandes. por certo. Tal como interrompemos nossa quarentena da Rússia para fazer causa comum contra a Alemanha nazista. ou se é a reconfiguração contínua de fronteiras e o conjunto de poder que elas representam. Se a história é uma interrupção da guerra por tréguas. um cessar-fogo e manter-posições. então. A China Vermelha e a América olham-se ferozmente através do Pacífico — melhor. e nosso principal amigo de tempo de guerra tornou-se na vitória nosso principal opositor. assim tentamos (e com mais empenho) anular a Revolução Chinesa. então a Guerra Fria é um tempo em que não acontece história. uma suspensão daquelas forças que mantinham a roda em seu triste movimento. não há dúvidas. apareceram oportunidades que tentaram ambos os lados no sentido de romper o encanto artificial. na supervisão conjunta dessa linha. esta chispa de esperança. desde que escapem aos santo-e-senha do passado humano. parem de sonhar sonhos apocalípticos. Voltem-se agora para a Ásia à luz desta sabedoria. proveitosamente. E. em ambos os lados. de um jeito ou de outro. resistiram-lhes e controlaram-nos. nestes vinte anos. tracem claramente na boa e honesta argila do mundo uma linha que não se violará nem se deixará violar.zes de trabalhar juntos. parem de pregar o milênio.

deveria ser tratada da mesma maneira. Porém. bastião por bastião. faça-se com que não haja incursões neste limite. mas tolhido. estávamos copiando na Ásia nossa política européia. por fim. mas que não haja perturbações na Tailândia. houve um crepúsculo político no mundo. nos vimos de posse de uma Guerra Fria do Pacífico. Deixe-se o governo socialista de lá fazer o que pode de suas oportunidades.* fomos capazes de discernir sua forma e significado. Para provar que pensávamos o que dizíamos. apertar as mãos do povo americano. Nós nos angustiamos pelo rico clero dominante do Tibet. eles de lá. Pequim pode confiar que não faremos movimentos súbitos contra a metade norte do Vietnã. é a única esperança que temos de que o povo chinês daqui a umas décadas possa. pessoa. Só a Coréia permanece dividida. da Coréia ao Paquistão Ocidental. Em alemão no original. a uma questão quase igual à questão européia de 1946. algum tempo. mas gradualmente encontramos sua Gestalt. * Gestalt — figura. Aguentamos daqui. Queimaram-se reputações num exorcismo de extinção lenta cuja recrudescência parece permanecer uma possibilidade permanente entre nós. Esta linha deve ser mantida. Mas.De novo frustrados em nossa segunda tentativa de uma contra-revolução de grande porte. Não deve ser cometida violência contra esta linha. e acalentando uma feia vergonha por haver falhado. Estonteamo-nos perplexos. Nem deve esta linha representar uma divisão injustamente unilateral. Chiang Kai-shek continua presente. tratado por tratado. e cautelosamente fez-se desaparecer a Guerra da Coréia. no Departamento de Estado e um anticomunismo militante. Deixe-se o Cambodja “inclinar-se para um lado” em seu neutralismo. fragmentada de maneira pior. ante este teste Rorschach geo-político. Discordância era heresia. fizemos frente. espalhada por todo Pacífico. foi retirado o General MacArthur. é certo. nos anos da Guerra da Coréia. Devemos aniquilar a China Vermelha? Ou deveremos ter também uma Guerra Fria asiática? Por um curto lapso. a causa primária sendo (com a Rússia também?) por seu exército ser tão grande e sua terra tão vasta. Foi aplicado o primeiro princípio da sabedoria européia: Não travaremos guerra com a China. 28 . do Japão à Nova Zelândia e se esticando ao longo da borda do continente. O auge do debate da China coincidiu com um pietismo vingativo a respeito do Mundo Livre. A China era exatamente outra Rússia. Agora devia ser estabelecido o segundo princípio: Tinha de ser fixada a linha de trégua. Por volta de 1954. A Europa Ocidental asiática era. mas não fazemos um movimento para intervir: o Tibet se torna a Hungria asiática. finalmente. presença. no Congresso.

Ele é. e mesmo de teu ingresso nas Nações Unidas. Mas por que não vê”. contudo. talvez nos respondesse: “Claro. tem filhos e filhas. haverá dificuldades. Não se precisa recordar -lhe a carnificina no Vietnã. antes. Sei disso. carne queimada e tortura. “que a China Vermelha tem que se submeter à divisão do Vietnã? Claro que isso é difícil de aceitar para muitos vietnamitas. lugar de residência ou negócio com sua área. nós. e prefere a vida à morte.Aceita esta linha. poderá com facilidade haver uma détente asiática também. do T. A condição intocável de qualquer prospectiva. força organizada de negócio público ou privado. ) 29 . poderá dizer a nós. críticos. devemos desculpar sua exasperação com a China e o movimento de paz americano. de tua participação nas conferências de desarmamento. em centenas de partes por seus próprios senhores-da-guerra — é sua presente divisão * A palavra portuguesa estabelecimento não corresponde por completo. China Vermelha. críticos. por uma psicologia conhecida. Não estivesse ele engasgado com a pretensão oficial de que a mesma está ajudando. Luto com este problema dia e noite. na verdade. Muitos de sua espécie viram-na muito mais de perto do que jamais a verão os insangrentos “peaceniks”. Por certo. Pensa que sou idiota?” Informamo-lo de que seus bombardeios no campo e o abandono de bordel nas cidades estão devastando aquela nação. supomos ser melhor a visibilidade. ao mesmo tempo. afinal. Ao Guerreiro da Guerra Fria. — (N. afinal. do lado de fora do Establishment. que encara os negócios asiáticos deste ponto de vista. uma vez que establishment indica: sistema. só faz com que mais vietnamitas tornem-se comunistas. Mas com um pouco de paciência e habilidade.* onde. e que aquela matança física e cultural. é que a linha de trégua na Guerra Fria asiática não deve ser rompida. Até ser aceito o fato. por algumas razões. Talvez ele deseje dizer: “Nada mais óbvio. os informamos de que sua guerra não está ajudando os vietnamitas. Mas é isto. corpo de empregados. mais do que a história exigiu dos alemães. um homem. De nosso posto de observação. este dialético da Guerra Fria. ninguém tem direito algum de concluir que ele fique menos angustiado do que outro homem pela visão de terra escalvada. e poderemos começar a falar de outros assuntos — de doutores e jornalistas permutados. madura e um milhão de vezes mais integrada do que a do Vietnã? Não temos nós um precedente perfeito na Coréia? Esta fina fatia de um país que tem sido dividido a maior parte de sua vida — uma vez em três partes pelos franceses e. há pouca utilidade em conversar sobre o futuro. aparelhamento. de um arranjo econômico um tanto mais livre com nossos pupilos industriais no Japão. cuja sociedade era.

Longe disso. Estamos fazendo tudo que sabemos fazer para mudar o destino do homem. pode jamais duvidar disso. a despeito de nossa política de libertação. a causa da reconciliação global. a criação da estabilidade.10 Alguns de nós objetam: Você não provou que esta guerra do Vietnã é culpa da China. e vem. dizemos. diz para nós idealistas. Porém. no fundo. antes de tudo. não do comissariado de exportação da China. consultor do Departamento de Estado para planificação política. mas aqui em casa temos também de proteger os miolos moles de vocês que querem uma paz impossível e aqueles cabeças-duras lá adiante que querem uma guerra inimaginável. na era nuclear. sensível à história do Vietnã. uma revolução.temporária um preço na verdade tão alto a pagar. na fronteira de Yunnan. e a estabilidade na Ásia não será alcançada pelo não envolvimento americano ou pela expansão chinesa. 30 . primeiro. em tornando a paz prática. diretor do Instituto de Pesquisa sobre Negócios Comunistas. e acontece que a história está toda contra nós. requer.” O objetivo foi estabelecido por Zbigniew Brzezinski. Fazemos isto. Ninguém. se em troca dele nós entregarmos a estabilidade na Ásia? E se o preço da recusa da divisão é a corrosão daquela linha de trégua sobre a qual edificamos todas as nossas esperanças de uma reconciliação Oriental? “Sejam realistas”. da criação da estabilidade internacional. não só desafiando a China e estas guerrilhas vietnamitas escandalosamente persistentes. Os soviéticos aprenderam mais dolorosamente essa lição em Cuba. Esta guerra no Vietnã é. “Este não é de forma alguma um mundo perfeito. Refreamo-nos de fazer isso na Hungria. pode haver agora uma resposta muito intrigante. mas eu creio que a causa da paz. a acusação mais grave se refere a alguns aviões voando de Hanói e a uns poucos mil técnicos que só consertam estradas bombardeadas pelos americanos. e um dos mais destacados estudiosos de nossa Guerra Fria: O longo caminho para a moralidade internacional passa pela criação da ordem internacional. a causa do ajustamento internacional. mas do torpe feudalismo colonial daquela sociedade. da Colúmbia University. e a ordem internacional necessita. Essa lição ainda está para ser aprendida em muitas partes do mundo. Ainda agora. nenhum lado pode mudar o status quo político através da força ou através do desafio direto a outro lado. para um tal argumento. Só podemos criar a estabilidade internacional se todas as grandes potências no mundo aceitarem o princípio de que.

de The New York Times. e torna-se claro que o Estado-Maior deve muito bem sa31 . é só um novo modelo de força invasora. por fim. Maxwell Taylor foi ainda mais explícito a respeito da alegada relação senhor-títere entre a China e o Vietnã do Norte. Juntemo-las. ainda que suas falas demonstrassem fúria. Não seria que a China tem culpa direta nesta guerra. que não inspira confiança”. no início de 1966. napalm. Fall: Não se luta por oito longos anos.12 E sobre o mesmo assunto. o que de ordinário se vê entre Hanói e os rebeldes sulistas. é sua incapacidade para julgar o grau da influência de Hanói sobre o Vietcong. Durante a “ofensiva de paz” da estação de férias 1965-1966. Tendo já liquidado o movimento de guerrilha duas vezes..11 Isto significa que ele é pelo menos cético a respeito da teoria de custódia. esclarecia de Washington: Ainda mais surpreendente para os oficiais. “a China é o inimigo tradicional. mas ocorrem escorregadelas. “Para Hanói”. se não de todo impossível. Há dúvidas entre muitos observadores se a aparente intransigência de Hanói não esconde de fato sua relativa inabilidade em “entregar” a FLN de mãos e pés atados em uma problemática mesa de conferência. não que a FLN. O ceticismo se estende também àquele outro elo. com frequência insinuada. jamais provada. meramente cumprindo a decisão final de um longínquo aparelho partidário. mesmo se o desejar. bombardeiros a jato e. pela pura alegria de ser ajudado. pode Hanói achar a tarefa difícil. gases vomitivos. No primeiro ponto temos a evidência indireta da palavra repetida do Secretário Rusk de que a China. o altamente respeitado Max Frankel.13 A segurança da linha de propaganda oficial de invasão-vinda-do-norte requer discrição oficial a respeito. sob o arrasante peso do arsenal americano. não que Hanói age sob ordens diretas de Pequim. e quando Taylor se mostra cético outros devem estar fortemente descrentes. não que Hanói comandou e está dirigindo o desempenho de um títere no sul.É importante deixar antes claro o que a resposta não seria. declarou ele aos Rotarianos de New York. em vez de ser revolucionária. Bernard B. mas não sabem se o Vietnã do Norte pode negociar um fim das hostilidades. agira muito “conservadoramente” e com grande “coibição”. bem como ninguém luta para algum burocrata em Hanói. em 1954 e 1956. Julgam ser essa influência muito considerável em termos militaristas. aqui..

do T. que. Em fevereiro de 1966. nosso ás da contra-insurreição e uma das figuras-chave de nossa equipe do Vietnã. Para este fim. sob orientação da CIA em Vung Tau. pôr na servidão os pobres e modernizar o feudalismo oligárquico do Vietnã do Sul. por má sorte. de fato. por certo. por exemplo.) 32 . o Embaixador Lodge. Não tiveram alternativa. Jacques. “Os comunistas soltaram uma idéia revolucionária no Vietnã”. não com uma invasão.”14 Porém. enquanto o emprego de tropa se acelerou e a carga de guerra cresceu em milhões de toneladas e nossos programas de “reforma social” persistiram em seus esforços de enriquecer os ricos. em Ho Chi Minh. — (N. Assim atendem aos comunistas. A idéia foi muito bem explicada por um dos diretores do campo. esclareceu. é que eles estão destinados a traí-la: “A tragédia da guerra revolucionária do Vietnã pela independência foi que seu “Benedict Arnold” teve êxito. acontece ser o velho refúgio francês de Cap St. traidor (1741-1801). escreveu ele. A mais flagrante evidência disso é o termo-nos convencido de que devemos pôr em campo uma força rebelde própria. “Ela não morrerá pelo fato de ser ignorada. o General Edward Lansdale. publicara um relatório grandemente revelador no Foreign Affairs.” Tudo que Lansdale parecia. o mais categorizado companheiro de Mao Tse Tung”. bombardeada ou sufocada por nós. bem antes disso. Num país atrasado como o Vietnã. Capitão Le Xuam Mai. Idéias não morrem desse modo. já há anos. ter contra os comunistas que soltaram esta revolução. tinham “chegado à conclusão de que o povo do Vietnã está entregue à revolução.” A máxima profundidade oficial sobre esta guerra é constatar que a mesma é “política” e não militar — profundo discernimento que nos tem sido explicado ano após ano. Se Ho é Benedict Arnold* — uma estranha idéia — então quem é George Washington? Podíamos sentir-nos tentados a especular sobre um certo texano. Ele e seus superiores. está ele preparado para ouvir quaisquer promessas de uma vida melhor. cerca de 42 000 “quadros revolucionários” vêm sendo treinados por uma guarda avançada. disse: “No sudeste da Ásia. O alvo dos quadros que estamos treinando aqui é justa* General americano da Revolução. mas Lansdale cortou a esperança: “Os vietnamitas necessitam de uma causa e nós não a propusemos. número de outubro de 1964. a única gente que vem fazendo alguma coisa com referência ao homenzinho da plebe — para elevá-lo — tem sido os comunistas.ber o que os batedores sabem: Defrontamo-nos com uma revolução. em que o povo nada mais tivera senão miséria e injustiça. “Ele pensa.

quer esta revolução seja uma cópia intencional ou acidental da política da China ou a coisa em si. onde os velhos fuzis Vietminh aguardavam ansiosos o grande sinal de fogo. não faz absolutamente diferença nenhuma. aconteceu que o pijama preto era o dele mesmo. Descrito por Saigon como um “nacionalista de terceira força”. a seguir? 33 . é este: Se os chineses controlassem Hanói e por meio de Hanói a Frente de Libertação Nacional. tal como a FLN. então. A explicação foi que Mai era insuficientemente leal e por demais rápido em acusar o governo central de corrupção e de indiferença para com o povo. tal como a FLN? Dirão também eles “O Vietnã para os vietnamitas”. então a situação no Vietnã apresentar-se-ia exatamente como a de agora. as quais os mesmos não estão desejando manter!15 Os deslocamentos psicológicos que esse programa cria devem ser enormes. O aparecimento de seu espírito dentro da zona proibida. acontece que isto não importa! A política americana não pode agir segundo especulações sobre estruturas de cadeias-de-comando. Assassinarão eles também os odiados chefes de aldeia designados por Saigon. A China é a ameaça. O fato muito claro. Onde será descoberto Mai. como a FLN. A resposta deverá simplesmente ser: Então e daí? Ora. tem que reagir aos acontecimentos. sobre a matéria. no lado errado da linha global de * Após ter sido escrito o meu texto. Quer enfrentemos no Vietnã uma réplica ou uma extensão da vontade chinesa. Pode na realidade não ser.mente esse — realizar as promessas dos comunistas. são exercitados em sessões de autocrítica de grupo. Mai foi dispensado e Saigon tirou o projeto Ving Tau das mãos da CIA. tal como a FLN? Expulsarão eles os grandes latifundiários e distribuirão suas terras entre os lavradores. igual a FLN. ensinados a montar governos de aldeia. e através desses meios espera-se que “agarrem a revolução” tirando-a da liderança da FLN. e combaterão os novos cara-pálidas altos para provar o que querem dizer? Então quem é o inimigo? Quem é o amigo? De quem são os pijamas pretos que o Capitão Mai está realmente usando?* Deixando de lado tais quebra-cabeças devemos pelo menos ter encontrado um quadro diferente das convicções de Washington sobre a guerra. tal como a FLN? De graça. exato ter o Camarada Mao feito uma decisão secreta anos atrás e passado a mesma através das portas montanhosas da Província de Yunnan para as mãos de Ho Chi Minh. Estes “quadros revolucionários” nossos usam pijamas pretos. iguais aos da FLN. que a enviou para o sul a um quartel-general secreto no interior de Nam-Bo.

Com toda sua velha amargura para com a Alemanha Ocidental. A China deve aprender a fazer garantias similares. restritivas e impacientes. a qualquer tempo e através de quaisquer meios. que a China cometa o crime expansionista de que é acusada. talvez. ou tão só provocar alguns bons estouros de sabotagem junto a ele. à moda chinesa genuína. pois esta recusa é. mas não irá mais longe. Assim pois. começou a ter um interesse no status quo. Para um grande estado é indesculpável não deter o controle sobre os estados confederados menores. no que foi descrito com um “magno” discurso sobre política externa. Esta é a saída no Vietnã.. Portanto. A consequência é que deve ser tratada como se fosse uma guerra chinesa. menos certeza sobre as tendências e inclinações das forças diplomáticas do outro lado no sentido de serem mais cautelosas. ao contrário. tem de ser recusada.. queixa de que mesmo que a China não controle Hanói e a FLN. Por isto estamos lutando. Isto nos conduz à inesperada. E a recusa americana em aceitar a FLN como o agente responsável nesta guerra começa a não aparecer de todo tão obtusa. mostra-se quase um ato diplomático de raro brilho. porque a União Soviética. e os estadistas enfrentam um ambiente imprevisível. Vale o mesmo para nós: Park ficará muito bem estabelecido na Coréia do Sul. Chang roncará de barriga cheia em Taipeh. George Ball.trégua. em aspiração e em efeito. Em substância. 34 . falar das “origens” históricas da guerra é politicamente frívolo. Por certo isto soa por demais maquiavélico. A política de manutenção da paz da Guerra Fria torna essencial às grandes potências controlar os acontecimentos dentro de sua esfera de influência. esta guerra permanece indistinguível da guerra que os chineses querem. então Subsecretário de Estado disse: “Um foco principal da luta [Oriente-Ocidente] foi deslocado recentemente da Europa para a Ásia. mas não obstante inteiramente razoável. Sem tal controle. Mas em 30 de janeiro de 1966. Nós garantimos isto. a União Soviética sem dúvida ficaria horrorizada ao descobrir um complô na Alemanha Oriental para ir além do Muro. os meios pelos quais pode ser manejado o conflito deixam de existir. tendo se tornado poderosa. Menos controle significa menos estabilidade e portanto maior perigo para todos. O propósito da contenção violenta da China Comunista é induzi-la a uma mudança similar em sua perspectiva. em nome da paz. por exemplo. permanece contudo verdadeiro que ela poderia os estar controlando. uma tentativa dissimulada de estender uma autoridade chinesa responsável ao Vietnã do Norte e sobre os partidos comunistas ao sul. se torna essencial.

numa disputa de fronteira à antiga. percebeu-a mas prefere ignorá-la. Mas um russo faz a paz de Kashmir. Talvez a maquinaria da ONU fosse muito emperrada para uma tal crise. então as Nações Unidas. Ou a China não percebeu a mensagem. Talvez os Estados Unidos estivessem temerosos das consequências de pôr a perder uma mediação. prossigamos com o raciocínio. O que nos deixa a segunda. Examinemos a esta luz a questão do Kashmir em 1965. estas explicações 35 . Ambos os beligerantes. Isto é. Talvez a Inglaterra também considerasse a questão delicada demais. mesmo irresolúvel. controlava aqueles rebeldes. nossa política no Vietnã adverte a China de que deve expandir sua influência. ou percebeu-a e nada pode fazer a respeito. quer não. À China.16 Ninguém combateria rebeldes vietnamitas a fim de “induzir a uma mudança” na perspectiva da China a menos que acreditasse ou (a) que a China. a longo prazo. tem a responsabilidade básica por seu comportamento. Tendo se mostrado ineducável. deve ser chamada para salvar a situação crescentemente grave. caso não a Inglaterra. Ambos. da ajuda econômica e militar americana. O Paquistão é um aliado formal nosso. aquele velho e verdadeiro estudioso que conhece todas as regras. Mas a guerra continua. então a Inglaterra. na Ásia Soviética. Informar a China de que ela é responsável por estes acontecimentos vietnamitas é quase abertamente pedir à China que exerça o controle sobre aqueles que os fazem. estavam-se guerreando mutuamente com armas e suprimentos de manufatura americana. O mediador natural de uma disputa entre eles seriam os Estados Unidos. e impor essa disciplina a seus amigos vietnamitas. não tendo assimilado a gramática da moderna política de poder. quer os controle. Já notamos que Washington provavelmente refuta a primeira premissa. aceitar a disciplina da Guerra Fria. são estados da Comunidade Britânica. Estas incertezas levam-nos a fazer uma especulação final: de que um objetivo subjacente da política americana pode de fato estimular a penetração da influência soviética no Sudeste da Ásia. não pode ser acreditada. A Rússia.Por isto estamos aqui. e assim preferiram que outro se encarregasse desta tarefa. A Índia é um grande recipiente. ou (b) que a China. numa conferência realizada em Tashkent. foi dada oportunidade sobre oportunidade para se demonstrar uma potência mundial realística e responsável — indício atrás de indício cuja significação ela é ou por demais inexperiente para entender ou por demais insana para aceitar. Paquistão e Índia. se não os Estados Unidos. Porém.

a mão de um ao cotovelo do outro. encontramo-nos de posse de um conflito que não mais parece tão insensatamente santo. disse o Secretário Rusk em seu informe de março de 1966 sobre a China. Vejo a mesma maturidade em cada face. “Recentemente”. E também me arrepio. a quem já acusamos de empreender a guerra da Indochina como parte do ardil para tomar a China* — esta mesma Rússia que torna os céus do Vietnã do Norte mais perigosos para nossos pilotos — é tranquilamente convidada a servir de mediadora. eram elas permutáveis. só pertence a outro braço. Pode-se entreouvir sua conversação íntima de uma distância que poderia bem ser galática. Bullitt argumentava no passado 1947 que quaisquer promessas feitas por Ho Chi Minh “seriam quebradas logo que recebesse ordens de Moscou para quebrá-las. todos os fortes e todos os fracos. Exploramos uma camada da história do Guerreiro da Guerra Fria do Vietnã e descobrimos um recanto mais protegido do compartimento da propaganda. mas tudo a respeito dela parece brilhar com claridade: o lento. não só aceitaram.. Vinte anos mais tarde. A guerra pode agora parecer ser meramente prática. medido estalido dos saltos no mármore. De maneira não crítica. de que. Substitua-se Pequim por Moscou.não esclarecem o grau em que os Estados Unidos. mas ruidosamente aplaudiram a diplomacia soviética. e teremos um documento contemporâneo.. o Embaixador William C. Mao por Stálin. idênticos franzir de sobrolhos preocupados. aceitamos os mais elementares pressupostos ocidentais sobre a origem e progresso da Guerra Fria. cada um sem dúvida remotamente cônscio de que um acidente de local de nascimento dera a ambos sua política e missão. “um oficial eminente do estado comunista me disse que o problema mais sério no mundo de hoje é como conseguir que Pequim se incline para uma política de coexistência pacífica. Eu lanço um suspiro de alívio. a mão é tão boa quanto nova. Nós muito certamente temos nossas próprias boas razões para desejar que o prestígio da Rússia cresça na Ásia.” O movimento de Ho tinha o desígnio de “acrescentar um outro dado à mão que Stálin está fechando em volta da China”. num sentido realmente humano. Se a Guerra Fria é realmente o que a maioria dos americanos pen* Por exemplo. Manipulando por meio desta ideologia as principais características políticas da guerra pelo Vietnã do Sul. e Sudeste Asiático por China. enquanto entre eles flui a certeza de que todas as categorias de homens querem realmente a mesma coisa — todos os homens ricos e todos os homens pobres. Não é absurdo conjeturar que esta Rússia. suas cabeças levemente inclinadas juntas. 36 .”17 É fácil retratar aquela conversa entre dois cavalheiros adversários.

sam ser. Por isso devemos penetrar as nossas verdades de Guerra Fria para ver se elas não ocultam algumas outras verdades. então pode muito bem ser necessário para a América manter seu controle sobre o Vietnã do Sul. Devemos ser muito cândidos e perguntar: Afinal de contas o que é esta Guerra Fria? E é ela realmente necessária? 37 . Se é necessária. então a Guerra Fria é necessária.

38 .

Dominós que Caem O curso do império se processa para o oeste.III Portas Abertas. do anticomunismo de Guerra Fria da América. Nos trechos que se seguem deste capítulo desejo elaborar duas heresias interligadas: primeiro.. Esta suposição de inocência é apoiada por duas crenças interrelacionadas a respeito da história recente. a heresia de que nossa política externa de Guerra Fria visando a contenção 39 . do capítulo precedente. nossa política prestou homenagem àquela premissa e dela tirou sua legitimidade. Esta é provavelmente a premissa central. Bispo Berkeley A guerra fria é uma seção da história tornada coerente por um arcabouço ideológico de crenças implícitas e explícitas sobre história e valores. A segunda é de que os Estados Unidos nada tinham a ganhar com a Guerra Fria e nada fizeram para provocá-la. do Plano Marshall à Aliança para o Progresso. mediante o qual se infunde forma e inteligibilidade aos eventos. e mais sustentada. a heresia de que ambas essas crenças são falsas. A primeira é de que Stálin deu início à Guerra Fria. A história do Guerreiro da Guerra Fria.. O mais nobre rebento do tempo é o último. girava em torno de uma única suposição básica: que os Estados Unidos não devem ser responsabilizados pela atual defrontação agressiva Oriente-Ocidente. segundo.. Da Doutrina Truman à guerra do Vietnã.

influenciaram os ressentimentos populares e assim fixaram a base para a Revolução Bolchevista. em primeiro lugar. dificilmente se poderia esperar que a Rússia tivesse enfrentado por quatro anos selvagens e depois. O Embate Russo-Americano Nosso exame pode ser breve. Uma rápida recapitulação: O Czar caiu em 1917. e a comunização da China são os crimes originais pelos quais a União Soviética é condenada como um agressor imperialista. e aparentemente a principal utilidade de saber algo sobre ele é ser posto em guarda contra a sabedoria comum que julga terem as relações Estados Unidos-União Soviética se iniciado por volta de 1945 e que sustenta terem sido as incorporações territoriais de Stálin. Acima de tudo. Confrontemos esta crença. um golpe de paço relativamente in40 . consideramos nossos objetivos como defensivos e nossa violência ocasional como provocada. o zoneamento da Europa Central era um problema óbvio da guerra e da paz. tendo a I Guerra Mundial pulverizado sua casca. resistir ou restringir aquela arremetida expansionista a longo prazo do Ocidente sobre o Oriente. um nervosismo momentâneo referente ao Irã e aos Dardanelos. Sob pressão ocidental. na Europa oriental. Esta decisão. sem conquistar o direito àquela segurança de fronteiras que era um objetivo russo tradicional (de nenhum modo “comunista”). derrotado grande parte do poderio de Hitler. a reabsorção dos estados bálticos do império czarista. simplesmente devemos enfrentar o fato — costumamos nos sentir perturbados com ele — de que o comportamento ocidental de entre-guerras tinha dado à URSS muito pouca evidência das boas intenções do Ocidente. Pelo fato de supormos ter nossa política externa tomado forma como resposta a uma ameaça. pela primeira vez. sua solução foi forjada de forma muito corrente pelas potências da Grande Aliança. a despeito de suas tropas estarem sendo enviadas a combate empunhando cacetes. com alguns fatos elementares: a política stalinista européia de após-guerra não foi arquitetada nem em segredo nem unilateralmente. o ato deflagrador da Guerra Fria. e a de transferir a convocação da Duma. Estas incorporações. havendo o império entrado em derrocada interna.é mais fundamentalmente uma resposta ao fato de as culturas políticas não-Ocidentais. estarem tentando nos conter. este passado mutante. mediante imenso sacrifício humano. Está bem atrás de nós. o governo social-democrata de Kerensky decidiu sustentar a parte da Rússia na guerra. que é o tema viga-mestra da história moderna. em conjunto.

a oposição ocidental ainda não acabou. Kolchak recebeu ajuda material da Grã-Bretanha no valor de meio bilhão de dólares. Lênin rapidamente concluiu o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha. a intervenção ocidental maciça em favor da contra-revolução branca foi em força total. sérvios e gregos haviam espalhado um efetivo de 850 000 contra-revolucionários no Sul da Rússia. De abril de 1920 a março de 1921 os poloneses estiveram combatendo na Ucrânia. quando pareceu que para este Hitler havia mais do que um incêndio no Reichstag. britânicos. na Hungria.cruento. tendo muito cedo usado seus consideráveis recursos econômicos para aniquilar o governo Vermelho de Bela Kun. as ferramentas da quarentena política e do isolamento econômico. Quase um ano mais tarde: 41 . a nacionalidade soviética e modernizar a economia. italianos. para assegurar “o permanente enfraquecimento da Rússia”. uma revolta maciça de legionários tchecos. o bloqueio naval do Conselho de Guerra Supremo Aliado privou o governo Vermelho do uso de todos os seus portos marítimos. Toda a Europa foi abalada pela Revolução Russa. sob a direção do Ministro da Guerra Winston Churchill. um total de 5 500 soldados americanos e 37 000 britânicos garantiram o regime Branco. as fábricas de munição já bramindo. Sob circunstâncias confusas. os comandantes e tanques britânicos e a gasolina americana quase tornaram um sucesso a campanha dos Brancos contra a praça-forte soviética de Petrogrado. No Báltico. Quando a intervenção ocidental de cinco frentes obteve como resultado tão só a reconstrução do exército soviético e a garantia de que o governo soviético seria profundamente totalitário. quando não mais poderia o Ocidente pretender que seu alvo era sustentar aberta a frente oriental. como uma pedra de jogo insegura. em seu caminho da Rússia para a frente ocidental ainda aberta. quase fizeram conexão com o exército de Kolchak. até que o extremo anticomunista chegou ao poder em janeiro de 1933. Seis meses após o armistício europeu. e. abandonando a Liga das Nações. Esta foi a prática ocidental durante o período crucial em que a Revolução Russa lutava para consolidar-se e iniciava o processo de criar. de tempos em tempos. Outubro de 1933: a Alemanha segue o Japão. em particular a Alemanha balançou. Mas o desafogo ocidental logo se tornou ansiedade. Por volta de março de 1919 os franceses. romenos. Por todo este tempo. difícil mesmo sob as melhores circunstâncias. No norte da Rússia. sob a direção do monarquista Almirante Aleksander Kolchak. Meramente lançou ela mão de outros instrumentos. conduziu finalmente à formação de um governo anti-soviético em Omsk.

Na Liga. Março de 1938: Hitler assalta a Áustria. algo de novo acontece: o Presidente Eduard Benes ordena a mobilização parcial das tropas tchecas contra a concentração nazista em suas fronteiras. 42 . A Grã-Bretanha vota Não. a URSS.000 soldados italianos. mesmo os mais obstinados foram forçados a admitir que era ela a única grande potência que parecia tomar a Liga a sério”. Tchecoslováquia. em Munich. Chamberlain boceja. o que conduziu a que Stálin concedesse aos Legalistas aqueles magros. Julho de 1936: começa o lento assassinato da Espanha Republicana. tardios e perniciosos “ajuda” e “conselho”. A teoria prevalente era de que o Lebensraum* da Alemanha ficava só para o oriente. Litvinov — uma triste figura — ainda mendiga a ação da Liga. Menos de um ano mais tarde. Jean Louis Barthou. Março de 1936: Hitler ocupa e remilitariza o Rhine-land. é esmagar o comunismo. pede imediatos arranjos de segurança coletiva. ao dizer: “Não devemos tentar enganar nações pequenas e fracas para que pensem que serão protegidas pela Liga contra a agressão. a Etiópia cai nas mãos de Mussolini.a Liga aceita um novo membro.”2 Em maio de 1938. Stálin tinha sido convencido de que a única esperança de sobrevivência para a Rússia estava não na segurança coletiva com o Ocidente. Março de 1935: a Alemanha decreta a conscrição militar universal. mas em algumas acomodações. e praticam a “não-intervenção” nesta “guerra-civil” travada com aviões militaristas alemães e 100. A resposta de Londres é um tratado naval com Hitler que permite à Alemanha a construção de uma frota de submarinos do tamanho da britânica. para ganhar tempo com * Lebensraum — espaço vital. Explica-se no Ocidente que o “Alvo Real” de Hitler é bom. um forte e por outro lado solitário proponente da segurança coletiva é assassinado em Marselha. o Comissário para Assuntos Estrangeiros da Rússia. tendo um mês antes Neville Chamberlain tornado bem clara a posição de seu governo. Seu erro é corrigido por aqueles mais maduros do que ele no setembro seguinte. protestam. E apoiado pela Polônia. Por esta época.1) Um mês mais tarde: o Ministro do Exterior francês. Hitler se retira! As democracias se põem a reprovar Benes por sua inflexão. que podem ter prejudicado sua causa tanto quanto a “neutralidade” das democracias. (Summer Welles disse: “Quando a União Soviética entrou na Liga. Maxim Litvinov. Os tchecos. em ambos os lados. violando a um tempo o Tratado de Versalhes e o de Locarno. As democracias impõem embargos de armas por igual. a quem foi permitido ouvir o próprio destino. Iugoslávia e Rumânia (o que talvez seja irônico). onde são feitas certas negociações famosas.

3 Vem a guerra. Lênin tinha entregue um terço da área de colheitas da Rússia. mas sim em Munich. Seja como for. montou poderosa produção ofensiva e desenvolveu planos para a abertura de uma frente Ocidental contra Hitler. cujo colapso fora predito pela Inteligência britânica para dentro de seis semanas após o ataque de Hitler. os aliados transferiram a guerra para o Norte da África. a NEP reconheceu a importância do “setor de capital privado” interno (que por volta de 1924 representava 40 por cento do comércio doméstico) e externamente considerou concessões a capitalistas estrangeiros. impedindo a crescente probabilidade de um Exército Vermelho cruzando os montes Cárpatos. mais de dois anos após o prazo em que deveria ter sido aberta a frente ocidental. no final de 1942 ou na primavera de 1943. nem Marshall. Churchill ainda estava exigindo uma campanha turca. E os mesmos cinco anos tinham convencido muitos na Europa Oriental de que o Ocidente não era aliado deles: tal como D. de seu plano para investimento na Rússia e de 43 . Tal estratégia. cujo acerto militar também era dúbio. por parte dos bolcheviques. que a Europa de após-guerra foi partilhada. Recordemos que a teoria leninista do desenvolvimento econômico tinha como consequência levado a URSS para uma política doméstica semi-autárquica e por isso para uma política externa semi-isolacionista. O Estado-Maior Geral Americano considerou que tal estratégia seria militarmente errada. o que não era desejado nem por Roosevelt. Por certo. alcançaram a terrível vitória da batalha de Stalingrado. logo atraída para a luta. Os russos. Uma generosa América. Mas o raciocínio britânicofrances de que a NEP era uma volta termidoreana à normalidade capitalista foi esvaziada pela rejeição. talvez mesmo o Danúbio. em junho de 1944. nem Stimson. Talvez mais longe. Segue-se depois a longa e sangrenta luta subindo a península da Itália. Onde estava a prometida ajuda da segunda frente na França? Graças a Churchill.F.* Em Brest-Litovsk. até o último momento antes da invasão da França. Porém. exigiu um ataque ao “macio baixo-ventre” do Continente.Hitler. mais da me* A Nova Política Econômica (NEP) de 1921 não foi a volta atrás neste propósito de auto-suficiência. pensando cada vez mais na configuração política da Europa de após-guerra. Fleming sugere. Contra tal pano de fundo. que faremos da política externa stalinista de após-guerra na Europa? Recordemos que as políticas externas das nações-estados são essencialmente continuações de suas políticas domésticas. talvez tenha sido não em Yalta. colocaria os exércitos ocidentais na Europa oriental. se bem sucedida. estavam afinal se batendo com a força total da potência germânica. Churchill.

e 62 milhões de pessoas. embora um grande número de aventuras sem utilidade venham a ser representadas ao longo do caminho.4 Um isolacionismo autárquico similar é evidentemente praticado pela China revolucionária. em 1922. a necessidade de desenvolvimento econômico era para a Rússia maior do que nunca. a hostilidade ocidental contra ambos os regimes revolucionários expressou-se como uma quarentena que cooperou de fato com. Ao final da II Guerra Mundial. Uma: todas as velhas potências foram seriamente rebaixadas e os Estados Unidos ascenderam a uma posição de influência política e econômica indiscutível. e um povo faminto. por mais abrupta que fosse essa mudança. tolerância política — poderá perfeitamente determinar a evolução das relações Estados Unidos-China. O que era inteiramente original e muito mais profundo era o aparecimento compulsório. Porém para a URSS ainda combatente. e uma grande quantidade de sangue humano venha a ser desnecessariamente derramado. reconciliação comercial. desmoralizado e desorientado. os planejadores soviéticos tinham que acrescentar a de reconstrução maciça. o mesmo processo-avanço econômico do estado atrasado. a fim de ser deixado sozinho pela Alemanha. que flexionou seus músculos por sobre uma economia soviética rural e urbana bombardeada. 44 . no teatro da política internacional. daquela nova potência mundial. A violência da Alemanha produziu numerosas mudanças radicais na Europa. e devagar o Ocidente começou a abandonar sua quarentena econômica e política. Ironicamente. este círculo é na realidade uma roda que gira em ambas as direções: À medida que a economia soviética amadureceu e os planejadores soviéticos ganharam confiança. Foi o ataque que Hitler lhe fez e o fracasso de Hitler em tornar tal ataque vitorioso. e temporário exagero. era talvez afinal nada mais que um aceleramento. Consideremos que a única e exclusiva base da autoridade internacional de Stálin nas consequências da guerra era o Exército Vermelho. Claro. e intensificou. apesar da hipocrisia sobre o “expansionismo da China comunista”. as vias de comércio começaram a se tornar mais amplas. Porém. Além da necessidade já existente de modernizar e desenvolver. Isto novo negado pelo Tratado de Rapallo. a doutrina política de coexistência emergiu. de um processo já em pleno curso. seu esforço pela auto-suficiência. esta necessidade agora estava situada num meio político inteiramente novo.5 e o ingresso da URSS na Liga em 1934 foi menos a exposição de um novo internacionalismo positivo do que uma nova resposta à ameaça que Hitler representava à solidão russa. Impedindo a guerra. em que a Alemanha insinuava reconhecimento das nacionalizações bolcheviques. que arrancou a URSS de sua concha e forçou-a a representar aquele papel de grande potência para o qual parecia ter sido tão mal preparada. a “desisolada” União Soviética.tade de sua força industrial.

agrícola e socialmente sua nação — e estava muito próxima de nem mais nação ser — não podia ser comparada com os estados Ocidentais. era também uma necessidade soviética (tradicional.nos põe ante uma das maiores anomalias políticas da história moderna do Ocidente. Em Potsdam descobriu que não haveria tal empréstimo. a rearticulação e instalação no poder de partidos políticos da ala direita na Europa oriental. tempo e segurança política? Sabemos que desejava. O único acontecimento que parece contrariar mais a opinião de que o poder de Stálin era exclusivamente militar foi a nitidamente rápida desmobilização do Exército Vermelho. que Stálin propôs receber e distribuir numa base de Quatro 45 . Talvez a compreensão do peculiar caráter aéreo do poder soviético. a vacilante política a respeito dos empréstimos de reconstrução vindos dos Estados Unidos. a nação-estado da URSS consistia em um exército e nada mais. Numa cultura em que o poder político internacional tradicionalmente decorre de uma avançada base industrial. Havia outra fonte provável de grande capital de reconstrução — reparações de guerra da Alemanha. devastada. conseguir dos Estados Unidos (isto foi discutido em Yalta) um empréstimo maciço para o desenvolvimento. As condições básicas sob as quais teria que perseguir esses objetivos eram a fraqueza da URSS frente um Ocidente unido. porém muito intensificada pelas lembranças de Hitler ainda vívidas) garantir segurança territorial — e portanto não desmobilizar. Industrial. reconstituir a força de trabalho soviética era uma necessidade urgente — e portanto desmobilizar. o abandono a seus próprios desígnios (e pior) dos revolucionários e movimentos de resistência de liderança comunista em outros países europeus. e sob importantes aspectos contraditórios — reconstrução e desenvolvimento interno e segurança territorial — que dirigiram a política externa de Stálin. Ao mesmo tempo. Foram estes dois objetivos interligados. Aquele exército era a única fonte de força diplomática de Stálin. ou pelo menos. esperava. Porém isto em si não representava a ruína. nos ajude a dar maior senso às excêntricas voltas que dá a diplomacia soviética — o namoro com as idéias mais não-marxistas de Eugene Varga referentes a viver com um Ocidente capitalista (uma espécie de “desvio de direita”). e em segundo. de certa maneira. Assim. Pode ser um exagero revelador dizer que em 1945. Mas talvez mesmo este fato a apoie: um exército sem uma base industrial não é bem um exército. no imediato período de após-guerra. nos defrontamos com o súbito aparecimento de uma “grande potência” cuja base industrial em primeiro lugar era imatura. Como poderia Stálin conseguir capital de desenvolvimento.

6 As indenizações alemãs à Rússia seriam portanto financiadas pelos Estados Unidos. talvez as linhas de demarcação entre as zonas Soviética e Ocidental de ocupação possam ser tomadas como linhas de divisão. havíamos percebido nossa própria futura necessidade econômica de um mercado refeito na Europa. A isso entendeu o Sr. Secretário Byrnes. que o senhor tem em mente a proposta de que cada país deveria cobrar indenizações de sua própria zona. O Presidente Truman disse que concordava com a proposta soviética. em julho de 1945. O Presidente [Truman] inquiriu se ele [Stálin] se referia a uma linha que se estendia do Báltico ao Adriático. O Secretário [Byrnes]: Sim. segundo o qual cada uma das potências aliadas cobraria reparações da zona particular ocupada por seu exército. A pergunta do Sr. O Premier Stálin respondeu afirmativamente. O Premier Stálin sugeriu que os Aliados aceitassem dividir a Iugoslávia e a Áustria em zonas. Byrnes disse pensar ser importante haver um acerto de idéias. e tudo a oeste dessa linha iria para os Aliados e tudo a leste dela para os russos. e perguntou se a Grécia pertenceria à Grã-Bretanha..Potências (isto é.. [O Secretário do Exterior Britânico] Bevin disse que concordava. e os Estados Unidos não tinham o propósito de financiar a revolução.7 O diálogo subsequente de Stálin com Truman não é menos claro: Premier Stálin: . é claro quanto às implicações políticas deste acordo: Sr. Stálin dizer “sim”. por uma razão muito boa. se opuseram a isto. Se era assim.. Molotov: Entendo. O seguinte diálogo em Potsdam.8 Portanto a Rússia devia cobrar indenizações da mais pobre das 46 . Bevin era se a pretensão dos russos se limitava à zona ocupada pelo exército russo. Molotov disse: Não significaria a sugestão do Secretário que cada país teria carta branca em sua própria zona e agiria inteiramente independente dos outros? O Secretário disse que em essência isto era verdadeiro.. Os Estados Unidos contudo. sem dividir a Alemanha). Muito cedo e muito claramente. Assim fez-se um acordo. visando interesses e investimentos estrangeiros. ele estava pronto a concordar... Sr. O Sr. O Premier Stálin aquiesceu.

Sem a Bomba. estavam agindo talvez na suposição de que o monopólio da bomba-A. Os objetivos americanos parecem ter sido duplos. como Byrnes informaria mais tarde ao Congresso. que outro tente prová-lo. a simultânea hegemonia política que Molotov deve ter imaginado ao usar frases tais como “carta branca em sua própria zona” e “inteiramente independente dos outros”. e há uma possibilidade. Isto excluía o domínio da Alemanha pelas Quatro Potências. Isabel de Espanha. “francamente desvantajosa para nós” — nossa posição a respeito das indenizações alemãs para a Rússia teria sido mais acomodatícia. na famosa frase de Stimson. ou demorar. Mas nossa diplomacia de negociar-pela-fôrça parece ter alimentado com vigor a desconfiança de Stálin — e a Guerra Fria iniciouse irreversivelmente na Europa. que não podemos minimizar. os soviéticos seriam incapazes de conter a imensa autoridade industrial e econômica dos Estados Unidos. que em Potsdam sabiam do sucesso do Projeto Manhattan. teria um poder político coercitivo (que afinal mostrou não ter). Porém. implicitamente requeria partilha da Europa. Acomodação neste assunto poderia conduzir. a uma porta do leste europeu menos hermeticamente aferrolhada. e que.9 Parece agora que tais objetivos se contrariavam e prejudicavam. Para impedir a reconstrução russa era preciso serem negadas as indenizações da Alemanha Ocidental. por parte da América. Não quero dizer que ele não a desejasse.duas metades da Europa. Infante D. financiadas pelos americanos. a reconstrução da economia russa. de Stálin na verdade. primeiro. o Navegador. Pode-se também querer o que se é forçado a pegar. obstruir.10 Por outro lado. e a autoridade fiscal que este acordo conferia ao governo russo de ocupação tornava necessária. o fracasso ocidental em internacionalizar o desenvolvimento da economia da região do Danúbio conduzia à reconstrução da economia soviética: deixava Stálin de mãos livres para manipular os recursos da Europa do leste a serviço das necessidades econômicas russas. e segundo. ela foi empurrada para cima dele. a Rainha Virgem e Napoleão. A Europa oriental não foi só oferecida a Stálin. negando à Rússia as indenizações alemãs com base no vale do Ruhr. para obter a hegemonia 47 . “a manutenção de uma porta aberta nos Balcãs”. Argumentar que Stálin estava inclinado à conquistar e assim manobrar. e portanto fechava para o Ocidente seu “livre acesso ao Vale do Danúbio e à Europa Oriental dos bens e capitais dos países ocidentais”. Henrique. ter-se visto como um construtor de impérios na grande e confusa tradição de César. de forma absoluta. no mínimo. uma vez forçados a abrir a porta da Europa oriental. Truman e Byrnes.

longe de ser uma força para iniciar a revolução em escala mundial.na Europa oriental. era para ele uma retórica. às vezes banal e às vezes cheio de vida. pelo atraso industrial. e não é pela aplicação dos postulados do marxismo-leninismo revolucionário que podemos melhor esclarecer sua diplomacia. Stálin na realidade só se mostra um homem dotado de alguma paixão genuína.. Foi batida pelos Cas Mongóis. é preferir a uma realidade muito rica um mito tão importuno como banal. Vós recordais as palavras do poeta pré -revolucionário: “Tu és pobre e tu és opulenta. Mãe Rússia”.. foi batida pelos barões japoneses.11* Tentemos imaginar. porque batê-la era proveitoso e ficava sem castigo. Stálin era um nacionalista. A Velha Rússia. Pelo atraso militar. 48 . e sob seu controle a Terceira Internacional de Lênin. Ou o fazemos ou nos esmagam. e aqueles que ficam para trás são batidos.. Estamos cinquenta ou cem anos atrás dos países adiantados. foi batida por todos devido a seu atraso. um político prático como sempre o foi. então. pelo atraso agrícola. O idealismo bolchevique. Stálin não parece ter sido nem um imperialista nem muito menos um marxista. do homem moderno). Foi batida. Não queremos ser batidos.. mas êle esqueceu as guerras vitoriosas da Velha Rússia. pelo atraso político. Para ele. foi batida pela gentry polono-lituana. quando fala como um nacionalista russo. pelo atraso cultural. este Comintern. tal no trecho seguinte (1931): Retardar o passo significa ficar para trás. tu és poderosa e tu és desamparada. o sonho de uma sociedade socialista universal nem de perto tinha tanta compulsão como a perspectiva de uma nação-estado soviética industrializada e unitária. Temos que superar este desnível em dez anos. Por certo não era revolucionário. uma corporação cuja subserviência às ferozes vicissitudes da Realpolitik soviética fez da sua uma das mais ridículas histórias que se conhece. foi só uma arma do Ministério do Exterior Soviético (a propósito. foi batida pelos Beis turcos. um amontoado de frases a serem usadas sem rebuços. quando serviam ou cooperavam com as necessidades nacionais (como ele as via) e descartadas sem cerimônia em caso contrário. “dez anos” estava absolutamente correto. a qual finalmente adquiriu.. foi batida pelos senhores feudais suecos. À sua frente erguia-se altaneiro * Stálin era melhor em profecia do que em história. foi sem cessar batida por causa de seu atraso. como se figurava o mundo de 1945 do ponto de vista deste nacionalista russo.. foi batida pelos capitalistas anglo-franceses.

numa época em que a URSS tinha interesse numa Alemanha reconstruída. Consideradas a diplomacia ocidental desde 1918 e indicações correntes. que acabou por dominar a política da Europa. ou (2) podia aceitar a divisão e fechar a porta.UU. ) a qualquer governo cuja defesa o presidente julgasse vital para a defesa dos EE. Portanto. alimentos e serviços (empréstimo e conserto de barcos.um Estados Unidos exigente. tais como o fim abrupto dos efeitos do Lend-Lease Act* para a Rússia (mas não para a França e Grã-Bretanha). Nagasaki. aviões. a primeira estava provavelmente fora de questão (por isso. nada fazer para fechar a porta da Europa oriental. Destinava a Rússia a um conflito com os Estados Unidos. a memória da inequívoca oposição ocidental à União Soviética.) 49 . sua posterior recusa da ajuda do Plano Marshall e sua rejeição talvez desastrada da proposta Baruch de energia atômica). matérias-primas. num tempo em que relações pacíficas eram muito mais do interesse prático da Rússia. não foi porque gostasse de submeter os poloneses ou os tchecos à servidão. sobre cuja política e economia poderia exercer algum controle. tal como a paz tinha sido do interesse da Rússia em 1918 e 1905. o reforçamento da unificação nacional e a reparação econômica em ritmo forçado. Em sua mente. se Stálin aceitou a amarga contenda Estados Unidos-URSS. levando em conta simpaticamente as necessidades econômicas e sensibilidades políticas da URSS. etc. a tensão internacional que por certo geraria iria justificar a consolidação do poder do estado-policial de Stálin. bases de suprimento. Que outra alternativa lhe restava? Ao que parece duas: (1) Podia aceitar o plano americano de divisão da Europa. também. jaziam os corpos sepultados de 20 milhões de russos e as fazendas incendiadas e as fábricas estripadas da economia soviética. a mais violenta nação da história (Hamburg. Isto é. A segunda alternativa era também má. — (N.— sem paralelo). Kassel. Punha uma Europa Oriental sem defesa (se necessária) à disposição de Moscou. na plenitude de seu superpoder. e esperar que a inevitável penetração americana na economia da região do Danúbio fosse concretizada. Mas este caminho pelo menos oferecia algumas vantagens. Hiroshima. do T. armamentos. UU. o que não acontecia com o primeiro. para fornecer tanques. Atrás dele. tendo o Ocidente recusado a ajuda e rejeitado o tratamento de Quatro Potências para a * Lend-Lease Act (11 de março de 1941) — concedia poderes ao presidente dos EE. Dresden. Duas alternativas sem recurso. e (2) porque a configuração peculiar das fraquezas e forças soviéticas e ocidentais limitava suas possibilidades àquele único caminho. Tóquio. porém (1) porque desejava proteger a União Soviética do colapso. Dividiu a Europa.

do que a de um pequeno. e então sugerir que a folha de serviço de Stálin. em último lugar. tal coisa seria tarefa de milagreiro. para reabilitar Stálin. e essa política era a criação de um sistema não belicoso. com momentos de ferocidade e falsidade que serviram para validar o estereótipo dele apresentado pela América. V) é aplicável aqui: Habitualmente nem homens nem nações fazem. nos anos que se seguiram. pelo menos parcialmente. com todo seu complexo cortejo de acontecimentos. rondando à procura de sangue e pilhagem imperialista. porém tão só religar essa abstração a algumas das realidades concretas mais importantes daquele tempo. que para nós é quase uma distante abstração moral. sua complacência em observar. A menos poderosa União Soviética queria capital de desenvolvimento sem condições. Os termos desta fantástica batalha foram ditados. e os Estados Unidos. Um princípio que desenvolveremos ao discutirmos a rebelião (no Cap.Alemanha. frio e muito prático nacionalista. pelas potências que detinham a iniciativa e comandavam os limites extremos. Mesmo se alguém se dispusesse a tentá-la. Stálin aceitou a Guerra Fria. Meu objetivo não é nem condenar nem absolver esta figura. pelo bem ou pelo mal. sua tolerância ante o desmembramento da Revolução Grega por parte da Grã-Bretanha e América. Aceitando-a. dessa oposição elementar. sua matança dos kulaks. sua cínica manipulação dos Legalistas Espanhóis. Parece ter tido pouca escolha. realmente controlados pela URSS. porém não provocativos para os Estados Unidos. no fundamental. parecia a Stálin só haver uma alternativa política que satisfez. verão nisto uma tentativa esquerdizante. senão de esquerda. em uma situação difícil e perigosa. tais potências eram a Inglaterra. os objetivos e exigências básicas do nacionalismo russo. havendo excessivos estigmas de vergonha na história desse homem: o triste espetáculo dos expurgos. é menos a de um monstro de contos de fadas. maquinaria pesada alemã e um descanso do wagnerismo militante. mais do que crêem devam fazer. A Guerra Fria na Europa emerge. O Leão es50 . como podemos ver agora. a tentada destruição da Revolução Chinesa. sádico. ele a empreendeu. de longe à frente. ter de obtê-la — uma garantia contra a expansão da revolução (o que vou apresentar é em grande parte o outro lado da mesma moeda) uma garantia de acesso econômico e político a toda Europa. Mas isto não prova que ele tenha criado a Guerra Fria. Alguns. por certo.12 O Ocidente uniformemente poderoso queria — e acreditava. no começo da Guerra Fria. e mesmo auxiliar. Os alvos de ambos os lados estavam concentrados em idéias opostas sobre o controle da Alemanha. violentamente estabilizado de satélites tributários de proteção.

quando seu tempo de preceito tivesse passado. mesmo agora. a Águia voando altaneira em sua plenitude. e o Urso não estava morto. E mesmo hoje. a quem as notícias dessa recuperação. seja como for. e de que. Não precisamos compor. sempre reataviadas. continuamos a tentar a total integração militar do concerto Atlântico. Fracassou. nos anos de sessenta. o mesmo papel constrangido e heróico. estamos representando. não estava muito longe de um ato de guerra. Ademais: No decorrer dos anos de Eisenhower-Dulles. de Byrnes a Rusk. A contenção às vezes tendeu a se tornar libertação. A Doutrina Truman de 1947. não fazemos jus à história da Guerra Fria que só imaginamos ser a nossa. O Plano Marshall foi oferecido à União Soviética sem implicações e. posta em prática o tempo todo visando optar pela coexistência. a política dos Estados Unidos de “contenção-defensiva” permaneceu coerente a ponto de realizar suas piores implicações. é porque a contenção fracassou. A mesma angustiante salvação pode ser lançada sobre nós via Pe51 . Que o Guerreiro da Guerra Fria consiga nos convencer que o Urso ditava as leis. de que a contenção na Europa foi só uma política para o ínterim. possivelmente. quando o reverso é obviamente o verdadeiro. E se fracassou. como o faz nosso bom Guerreiro da Guerra Fria. não parece ter sido pelo fato de alguém ter decretado seu fracasso. em última análise. na Ásia. política dos Estados Unidos na Eurásia. mas por terra. Em poucas palavras. em prol de uma força nuclear multilateral continuamos a perpetuar nossa exigência de uma Europa ocidental eriçada de hostilidade atômica contra o Oriente. quando ninguém clama que a “ameaça” está aumentando na Europa. e seu coração em Paris. sem motivos defensivos. Do ponto de vista de Stálin. ou de Truman a Johnson. continuamos nossos esforços para fazer essa integração em termos de um eixo Washington-Bonn. e já que provavelmente acreditava que os Estados Unidos esperavam que o recusasse.tava seguramente satisfeito. e através de nossas propostas sem fim. a qualquer momento a “libertação” poderia ter irrompido. Já que sendo assim tinha de recusá-lo. ele devia encarar o Plano Marshall como nada mais do que uma contribuição americana para a ressurreição de uma superpotência na Alemanha — o velho inimigo rearmado. Mas veio tarde demais. aceitá-lo então teria sido o mesmo que aceitar a hegemonia econômica e. o erro das passadas décadas de quarenta e cinquenta mediante a pretensão. no dizer claro dos Secretários Stimson e Wallace. porque sua retaguarda caiu em Moscou. alcançaram. Se agora nos vemos começando a coexistir na Europa. que dirigiu brutalmente a recuperação russa.

quim e Tóquio. Porém, em primeiro lugar, esperar por uma tal salvação não é modo de vida, e, em segundo, as grandes desvantagens e percalços com que a humanidade se defrontou na Europa, nada eram comparadas com as da Ásia. Os pacificadores europeus, os homens racionais da Europa, jamais tiveram que se ver com uma guerra do Vietnã. Além do que, nós americanos, conhecíamos a Europa de uma forma que provavelmente jamais conheceremos a Ásia; estávamos culturalmente ligados à Europa, e talvez em parte suspeitando, durante todo o tempo, que os russos eram, de coração, tão europeus e brancos como nós. Na Ásia, ainda menos informados do que na primeira Guerra Fria, continuamos, sem critério, inculpando Mao Tse-Tung de todos os crimes de Guerra Fria cometidos por Stálin, os verdadeiros e os lendários; e cada encolerizado patriota asiático, esfomeado, subjugado pelo senhor feudal, que ousa se contrapor a nosso sonho a um Mundo Livre de domínio benigno, reacende nosso pietismo violento, nossa política de ressentimentos e frustrações confusos. E não há ninguém, em toda aquela parte misteriosa do mundo, para servir de mediador no conflito — ninguém senão nós e o povo amarelo. O problema com a Ásia é que lá ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Por que julgamos essa salvação tão difícil até para começar a tentá -la? Por que nós, americanos superpráticos, continuamos tentando navegar pelo território asiático desconhecido com um mapa europeu errado? Mas, talvez haja algo mais referente à Guerra Fria do que erros bem intencionados de história. Talvez estes erros sejam propositais, com a intenção tão só de servir de paliativo para uma verdade inconveniente. Talvez nossa ideologia de anticomunismo de Guerra Fria seja um sinal de beleza.*

A Fronteira em Torno de nós
Grandes propósitos e má supervisão fazem parceiros tranquilos, mas não proporcionam campo para agnosticismo em face do desastre. Admitamos que a história americana esteja sujeita, como todas as histórias nacionais, às forças acidentais, dispersivas e excêntricas que às vezes tomam conta dos acontecimentos e os levam para direções imprevisíveis. E, mais importante, admitamos que a nossa não é a única história no planeta. Nosso governo e nosso povo não encenaram o drama da Europa na* No original “Beauty mark’’ — sinal, pinta. 52

poleónica. Mas esse drama possibilitou a cena na qual os emissários que Jefferson enviou à França, com o único propósito de conseguir New Orleans e o direito de navegação no rio Mississipi, se viram de volta para casa a cambalear com todo o Território de Louisiana nas costas. Não foram nosso governo e nosso povo que encenaram o drama da Rússia leninista e stalinista. Mas essa Rússia tem sido a principal preocupação da América por, pelo menos, o passado quarto de século. Nossa própria história é atingida, e não pouco, pela história independente de outros. Não obstante, temos um estilo nacional, um sistema de motivos e esperanças próprios que predetermina, no fundamental, nossa resposta a nossas oportunidades e problemas. Meu argumento é que este sistema é hoje, basicamente, o que sempre foi; que nossa história é orgânica e tematicamente contínua; que apesar de nossa capacidade de elaboração e surpresa, temos contudo tido um, e apenas um, centro metabólico; e que se quisermos entender a Guerra Fria, temos antes que compreender esse centro. Em seu jornal Common Sense, de 10 de janeiro de 1776, escreveu Thomas Paine:
“Não está ao alcance da Grã-Bretanha fazer justiça a este continente; seus negócios em breve serão por demais pesados e intrincados para serem dirigidos, com um certo grau tolerável de conveniência, por uma potência tão distante de nós... Estar sempre a correr três ou quatro mil milhas com um informe ou uma petição, esperar quatro ou cinco meses por uma resposta, que, quando obtida, requer cinco ou seis meses a mais para explicá-la, será em poucos anos encarado como loucura e infantilidade... Tenho escutado asserções de alguns de que, como a América floresceu sob sua anterior conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para assegurar sua felicidade futura... Respondo seguramente que a América teria florescido tanto, e provavelmente mais, se nenhuma potência européia tivesse tomado conhecimento dela. O comércio pelo qual ela tem enriquecido são as necessidades da vida, e sempre haverá um mercado enquanto comer for o costume da Europa.13

Não se tratava simplesmente de que podíamos prosseguir sozinhos. Nossa relação colonial com a Grã-Bretanha mercantil punha um tal futuro promissor tão longe do alcance que, ou prosseguiríamos sozinhos, ou não o alcançaríamos de modo algum. A natureza exploradora do controle britânico tinha sido mascarada durante a Guerra Francesa e Indiana pelo influxo, para as colônias, do bom dinheiro de guerra e pela camaradagem
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de combate contra os então desprezados Gens de mauvaise Foy e, de forma também tão importante, contra aquelas tribos de pele vermelha, que continuamente se aliavam com quem quer que estivesse mais contra seus competidores caras-pálidas no comércio de peles. Porém, quer artesão ou homem de negócios, quer fazendeiro ou caçador, o pioneiro americano tinha sempre em mente a procura de oportunidade em direção ao oeste; e os obstáculos que os refreavam eram principalmente os colocados em seu caminho pela terra mãe. Quando os mercantilistas britânicos debateram a questão do desenvolvimento do Vale do Mississipi, por exemplo, uma importante ordem de argumentos era de que os colonos deviam ser vigiados muito cuidadosamente. O General Thomas Gage, Real Governador de Massachusetts, salientava que era do “interesse [da Grã-Bretanha] manter os colonos dentro dos limites da Costa Marítima o quanto pudermos; e constranger seu comércio tão longe quanto o possa ser feito com prudência. Cidades florescem e aumentam pelo comércio extensivo... e eles logo virão a produzir por si mesmos o que costumavam importar. Eu tenho visto este Incremento e asseguro a Vossa Alteza que se estabelecem em Philadelphia Fundações que devem provocar ciúme em um inglês”.14 A “guerra de libertação do povo” americano travou-se porque os colonos americanos queriam expandir-se pelo continente norte-americano e desenvolver sua riqueza por si mesmos, e, como um corolário, porque não mais podiam tolerar sua dívida para com a Inglaterra e as restrições que a mesma mais tarde lhes imporia. Não é acidental George Washington ter sido um dos mais ricos plantadores das colônias e um dos mais profundamente endividados com os interesses mercantis britânicos. Os radicais Paine, Sam Adams e Jefferson formularam poderosos argumentos referentes à liberdade nacional e escravidão nacional; mas foi o argumento mais prático sobre dinheiro e terra que conquistou para a Revolução o apoio decisivo dos precoces conservadores americanos. Essa foi a causa unificadora e dominadora. A presidência de Jefferson talvez tenha representado, a um tempo, a última oportunidade para a democracia agrária auto-refreada e o mergulho final em nossa própria forma de mercantilismo expansionista: a mesma Aquisição da Louisiana, que dobrou nosso espaço de crescimento continental e forneceu terra para uma nação de fazendeiros voltados para o interior, também tornou certo de que teríamos muito o que vender para o resto do mundo. Foi a terra dos proprietários de plantação que criou o mar dos capitães mercantes. A dinâmica da grande vaga de ressentimen54

to, convulsão, incerteza e decisão está muito clara nesta passagem do historiador Curtis P. Nettels:
“Se após 1763 o Império Britânico não lhes permitisse crescer e expandir-se, se não providenciasse uma solução do problema central da economia americana, os colonos teriam que tomar a si o direito e o poder de guiar seu desenvolvimento econômico. Considerariam necessário criar uma nova autoridade que encorajasse a navegação e o comércio americanos, tornasse possível o contínuo crescimento das indústrias manufatureiras domésticas. Portanto uma Outra consequência do mercantilismo inglês foi a Revolução Americana e a criação, depois disso, de um novo estado mercantilista deste lado do Atlântico.15

O idealismo de Jefferson tinha representado o único desafio forte àquele novo mercantilismo. A expansão física era necessária para obter novas terras para fazendas, mas ele queria que o país não buscasse territórios cuja proteção requeresse uma marinha. Marinhas (ele haveria de sentir o mesmo a respeito das forças aéreas) são dispendiosas demais — “uma perversa dissipação das energias de nossos concidadãos”16 — elas produziam burocracias propensas à política, e tendiam a se ligar muito intimamente com os interesses comerciais que as abasteciam. Isto é, como Eisenhower alguns 150 anos mais tarde, Jefferson temia o crescimento de um complexo militar-industrial. Porém seu idealismo democrático, talvez comprometido internamente com o que Alfred Beveridge chamaria sua “volúpia pela terra”, não era, em última análise, bom parceiro para sua imaginação prática: Jefferson entendia muito bem as necessidades de um povo agressivamente comercial e aqueles acontecimentos, na Europa, que pareciam justificar nosso desdém pelos intrigantes e falcões guerreiros do Velho Mundo, ao mesmo tempo que nosso comércio com eles nos estava tornando ricos. A posição internacionalista foi tomada uma vez e por todas. Certo, penetramos avidamente o continente em direção ao oeste, chacinando e defraudando índios como nunca nem Henrik Verwoerd ou Ian Smith chacinaram ou defraudaram os negros da África. Mas alcançamos aquela fronteira de cabeça erguida, olhar voltado sempre para nossas posições comerciais, primeiro na Europa e, não muito mais tarde, no Pacífico. A Guerra de 1812 não concretizou nossas grandiosas ambições concernentes ao Canadá, mas garantiu nosso acesso ao mar e nossas reivindicações às terras a oeste do Mississipi, comercialmente estratégico. Em 1819, John Quincy Adams afirmava que “os Estados Unidos e a América do Nor55

te são idênticos”. No mesmo ano, finalmente obtivemos êxito anexando a Flórida. Por volta da metade do século, tínhamos tomado um grande pedaço do México e das terras do Oregon e nos fizéramos senhores de toda a massa de terra. Na década de 1860, preparados para isto pelo compromisso de Missouri, pelos Atos de Kansas e Nebraska e pela guerra civil de Kansas, sofremos o nosso trauma nacional máximo ao pôr fim à disputa entre plantadores e industriais referente a como deveria ser desenvolvido o Oeste e, no fundo, quem iria dirigir o país. Expandimo-nos. Explodimos. A mesma energia que nos levou através de rios, pradarias e cadeias de montanhas também nos levou através dos oceanos. Nunca estivemos isolados e nunca fomos isolacionistas. Desde o começo, tivemos um Departamento de Estado e sempre estivemos diretamente interessados nas disputas de poder dos estados comerciais europeus. O tratado de John Jay de 1794, cuja concordância com os interesses navais britânicos tinha certas implicações neocolonialistas, representou uma contracorrente, que quase custou a George Washington sua reputação.* Foi um engano logo corrigido e que não seria repetido com frequência. Em 1823, a famosa doutrina de Monroe lançava a base de manobras para a hegemonia americana na América Latina. Três anos após, o Secretário de Estado Clay afirmava “um interesse vital na execução do trabalho” de fazer “um corte ou canal para fim de navegação em algum ponto do istmo que liga as duas Américas, para unir os oceanos Pacífico e Atlântico...”17 Em 1854, o Manifesto de Ostend, ressaltando que a “autopreservação é a primeira lei da natureza”, declarava que “Cuba é tão necessária para a República Norte-Americana como qualquer de seus membros atuais”, não meramente porque guardava “a saída natural e principal para os produtos desta população inteira, a estrada real de seu intercâmbio direto entre os estados do Atlântico e do Pacífico”, mas também porque havia um Perigo em movimento no Mundo. O Manifesto tornava este perigo claro, suas repercussões na ideologia atual tornam-no de interesse especial:
* Frank Monagham relata que “a ira dos republicanos era sem peia”. Sem esquecer “aquele maldito arqui-traidor, John Jay’’, cumulavam Washington de insultos como o homem que “tinha completado a destruição da liberdade americana”... Em Virgínia, foi brindada “uma rápida Morte para o General Washington”; em New York, a Proclamação do Dia de Ação de Graças do Governador Jay foi acusada, porque se aventurou a incluir a preservação “da valiosa e útil vida do Presidente dos Estados Unidos”, como um dos pontos merecedores de uma oração de graças...’’ (Em The Shaping of American Diplomacy, de Rand Mac Nally, Chicago, pág. 68.) 56

obtido mediante guerra. Se há uma diferença importante entre então e agora.. ameaçando seriamente.19 O nosso controle.18 Basta-nos ler “São Domingos” por “Cuba” e vice-versa. e suportar as chamas se estenderem às nossas próprias praias vizinhas. não tivemos tempo para parolagens pietistas. embora talvez seja só porque podemos ver 1854 com mais clareza do que nosso próprio tempo. O volume de comércio entre os Estados Unidos e Cuba. Nosso presente interesse pecuniário nele é só superado pelo do povo e Governo da Espanha. estávamos. “comunizado” por “africanizado”.. ser irrespeitosos para com nossos nobres antepassados.. ou verdadeiramente consumindo. a limpa estrutura de nossa União. com todos seus horrores atinentes à raça branca. devemos permitir que Cuba seja africanizada e se torne um segundo São Domingos. minerações e outros negócios. quando afinal chegamos a estouros com a Espanha no final do século. ligação de nenhum modo de caráter inteiramente sentimental ou filantrópico. ser desleais para com nossos deveres. ano anterior à eclosão da atual insurreição. Cuba e Filipinas. o Presidente Cleveland. e cometer uma traição básica contra nossa posteridade. abertamente. onde anexamos o 57 . “antiimperialista” como era. analisou a crise cubana em desenvolvimento da seguinte maneira: O espetáculo da ruína total de um país confiante. e “Mundo Livre” pelo menos eufemístico “raça branca” e teremos uma declaração que é não só contemporânea mas quase de última hora. Uma estimativa razoável é de que pelo menos 30 000 000 a 50 000 000 de dólares de capital americano estão investidos na ilha. Porém..Nós devemos. Em ambos os casos. mas sim parte e parcela de nosso desenvolvimento interno. depois nos voltando contra os revolucionários de ambos os países. eles se sentem a ele ligados. Foi um vento das pradarias que soprou aqueles veleiros ianques através do Pacífico. no negócio de proteger negócios. Em dezembro de 1896. montava a aproximadamente 96 000 000. da economia cubana e nossa anexação de Porto Rico não eram diversos. que em 1889 montava a cerca de 64 000 000 de dólares. é que este “antiafricanismo” do Manifesto de Ostend é mais obviamente um pretexto do que o anticomunismo da Doutrina Truman. De fato. provocaria a séria atenção do Governo e do povo dos Estados Unidos em quaisquer circunstâncias. o espectro de uma Ameaça invasora é usado como escudo moral para uma muito simples ambição de negócios. primeiro apoiando.. subiu em 1893 para cerca de 103 000 000. em plantações e ferrovias. e em 1894..

se preocupassem com o povo chinês. se ligara à American-China Development Company para promover vigoroso apoio governamental à Política de Livre Comércio. nossos capitalistas tinham feito penetrações formidáveis nas economias do Japão e Coréia. contudo. todos eles bons e limpos puritanos bostonianos. Sturges. se tivesse sido realmente executada por todos os estados europeus envolvidos na violação da China. havia superentusiastas que já haviam solicitado a anexação de Formosa. sempre singrando o que muito mais tarde o General McArthur iria chamar nosso “lago pacífico”. Pelos meados do décimo nono século. É pelo menos concebível que.Havaí e as Filipinas. Peabody. A primeira é que estávamos na China. A segunda é que queríamos ali nos aprofundar. Não há necessidade aqui de debater o intento real das notas sobre livre comércio de John Hay. É ainda concebível que os ingleses e americanos que se empenharam para concretizar uma situação de livre comércio.20 (“Levai para longe vosso ópio e vossos missionários”. uma combinação de intermediários sulistas. Chegamos quase a anexar as Ilhas do Havaí como uma estação na rota para a China. no mundo do Pacífico. mesmo até os portos da Velha Catai. França (algumas das províncias sulistas). banqueiros de New York e variados empreiteiros. o algodão superara o ópio como nosso produto máximo de exportação para a China. e a American Asiatic Association.) “Os americanos se voltavam para a Ásia na metade do século”. disse o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da China. “e sereis bem-vindos”. praticada muito bem pela Grã-Bretanha (as províncias do Yang-Tse).21 No início dos anos de 1900. Perkins. Cabot. escreve Foster Rhea Dulles. com a dominação do Levante Boxer por trás de nós. A terceira é que a diplomacia de esfera-de-influência. como não o fariam de novo até seu final. ficamos com três difíceis realidades comerciais. inspirada pela necessidade de obter depósitos carboníferos para os novos navios a vapor na longa viagem para os portos chineses. e a expedição do Comodoro Perry para obter o livre ingresso no Japão foi. Kung. moleiros de New England.. e dar os nomes daqueles cujo controle do monopólio turco do ópio tornou ricos é nomear a mais brilhante fieira de traficantes de drogas jamais vista: Astor. Aquele grande país permanecia a chave para os interesses expansionistas do período.. em parte. Deixando de lado tais especulações. Alemanha 58 . a Política de Livre Comércio pudesse ter tornado o imperialismo ocidental mais tolerável para o povo chinês.

nas ilhas do oriente. Seu princípio exterior era que os negócios americanos poder-se-iam sustentar em qualquer competição limpa num mercado livre. enquanto os filhos da liberdade crescem em força. tão só para corrompermo -nos em nosso próprio egoísmo? .. depósitos de carvão serão nossos.(Shantung). e mesmo ardente.. A Política de Livre Comércio — exatamente como acontece com nossa oposição de duplo critério ao “nacionalismo econômico” — era um meio politicamente oportuno para formular nosso objetivo expansionista asiático. cuja prosa é tão maravilhosa que não pode deixar de ser citada por inteiro (1898): Deve o povo americano continuar sua marcha para a supremacia comercial do mundo? Devem as instituições livres alargar seu reino bendito.Para o bem de nossa supremacia comercial no Pacífico. Cumulou-nos Deus com dádivas para além de nossos merecimentos e marcou-nos como o povo de seu especial favor. até que o império de nossos princípios esteja estabelecido nos corações de toda humanidade? . Não nos podemos surpreender em ter nossos campeões de um imperialismo claro. no extremo limite do rol das concessões.. e Rússia (a península de Liaotung) deixou-nos inquietos no referente à nossa posição e sua extensão futura. meramente admoestava os mercantilistas europeus para que abandonassem aqueles privilégios garantidos por canhões que acontecera não partilharmos. A Política de Livre Comércio. Beveridge. Não estamos para ser refreados agora.22 Mais direto e brilhante do que Lodge foi o Senador Albert J. Seu princípio profundo era que acontecia os negócios americanos encontrarem-se. Porto Rico está para tornar-se nosso pelas orações de seu povo. . Cuba finalmente será nossa. a bandeira do governo liberal está para flutuar sobre as Filipinas... mesmo às portas da Ásia. até o menor de todos.. em seus pontos essenciais. Havaí é nossa. devemos controlar as ilhas do Havaí e manter nossa influência em Samoa. A América tinha se tornado o que chamamos uma Grande Potência Mundial e estava bem preparada para agir como tal. que disse era 1895: Temos um recorde de conquista. Talvez um dos mais claros fosse o Senador Henry Cabot Lodge. e deve ser a bandeira que Taylor desfraldou no Texas e Frémont conduziu para a costa. A Oposição nos diz que não devemos governar um povo sem seu 59 . colonização e expansão não igualado por nenhum povo no século XIX... no momento.

era a política oficial da América.consentimento. Para o caso de não perceberem bem. É tarefa deles cuidar de vossos interesses e defender vossos direitos. os ministros e os cônsules são todos vossos.”26 A ênfase de Bryan sobre as portas dos países mais fracos. de 1907. você e eu.23 Todas as nações e todos os movimentos produzem seus ferra-brases. a bandeira de sua nação precisa segui-lo. e as portas das nações que estão fechadas devem ser demolidas.. nos mercados do mundo para conseguir nossa parte”. E nossa Marinha os fará contíguos. estamos entrando. declarava ante o National Council of Foreign Trade [Conselho Nacional de Comércio Exterior]. Por muito tempo. Eu respondo: A regra de liberdade. os embaixadores. Secretário de Estado William Jennings Bryan. em parte devido 60 . e os manufatureiros insistem em ter o mundo como mercado... O vapor nos aproxima. o Secretário do Comércio de Wilson. Cuba não contígua! Porto Rico não contíguo! Havaí e a Filipinas não contíguos! Os oceanos os tornam contíguos. é significativa. a eletricidade nos aproxima — os próprios elementos fazem liga com nosso destino. escrita por um de nossos maiores estadistas liberais. governamos nossos filhos sem o consentimento deles. Woodrow Wilson: Uma vez que o comércio ignora fronteiras nacionais. Governamos os indígenas sem o consentimento deles.24 Em maio de 1914. Embora nem ao menos uma vez tenhamos abandonado nossos interesses cruciais e sempre crescentes na Europa.25 Redfield foi seguido na tribuna por um antigo membro da Liga Antiimperialista. ele sublinhou: “Meu Departamento é vosso departamento. “Porque somos fortes. que informou aos homens de negócios que “abrir as portas de todos os países mais fracos a uma invasão de capital e empresas americanas”. segundo a qual todo governo justo deriva sua autoridade do consentimento dos governados. aplica-se somente àqueles que são capazes de autodeterminação. imagináramos ser o pobre mundo nossa ostra. Bem mais surpreendente — mesmo impressionante — é a passagem seguinte. o controle do desenvolvimento dos vastos e densamente povoados países não-desenvolvidos era visto de maneira constante como a chave de nossa própria realização plena — em parte por causa de suas riquezas em recursos naturais.. Distância e oceanos não são argumentos. William Redfield.

do Secretário de Comércio Hoover. Grécia. e o arquétipo do país pobre era. por exemplo. durante a Administração Coolidge.seu mercado potencial a longo termo. a China. uma guerra do Pacífico teve afinal de ser travada para aclarar de vez estas ambiguidades do Destino. Expôs que a história dos Estados Unidos. Roma. Houve. (Não nos tornamos efetivamente anticolonialistas no referente a impérios de outros senão depois da II Guerra Mundial. era contada em nítido movimento de fronteira para o oeste. e chegamos a uma nova era da história do mundo. talvez. justamente porque eles eram mais adaptáveis à nossa vontade do que o eram os ricos estados industriais. Descreveu como a fronteira do mundo moveu -se da China através da Ásia Central. a última grande fronteira foi conquistada. ele por certo não está pensando na porta de um estado como a França ou na soberania de um estado como a Alemanha. aconteceu que a roda estava simplesmente em outra ciranda. já que o Japão exibia uma crença persistente de que a história estava em suas mãos.27 Assim. numa declaração política importante. tanto quanto a história do próprio mundo. é natural. auxiliar principal. sem dúvida. e em parte. cujo progresso copiou. A América. ao mesmo tempo. Julius Klein. a mais antiga e a mais nova área de comércio. (Devido 61 . está encarando através do Pacífico o que é. Uma era. sem dúvida.) Eram a América Latina. Quando Wilson fala de pôr abaixo portas fechadas. chamada “A Tendência da Fronteira é Mover-se para Oeste”. não nas nossas. também. Europa e finalmente América. que iria ver por longo tempo a abolição de fronteiras e a conquista de “selvagens” por “civilizados”? De forma alguma. seu modelo global. mesmo se a soberania de nações relutantes seja ultrajada no processo”. ou quando clama que “concessões obtidas por financistas devem ser salvaguardadas por ministros de estado. algum debate sobre qual o novo pioneiro que iria levar as boas novas à China. com uma organização econômica e industrial que é o fruto de séculos de progresso mundial. deu às nossas inclinações orientais uma fraseologia quase mística. o Norte da África e a Ásia que mais incendiavam a imaginação expansionista da América. em uma escala continental. e mesmo embora alguns de nossos estadistas e homens de negócios tentassem arrumar um comissariado associado com ele. A conclusão lógica dificilmente poderia faltar: Agora o círculo está completo.

foi entregue àquele famoso historiador. (c) uma variedade de configurações de poderio mundial. apresenta anúncios de contratos governamentais que estão abertos para licitação do “setor privado”. É uma condição dinâmica que descreve nossa carreira nacional melhor do que qualquer outro 62 . aparecido no Business Daily. de 29 de abril de 1965. a Douglas Aircraft Company.. é difícil deixar de especular: Precisa-se de serviços e materiais para realizar para o Exército um estudo de pesquisa intitulado “Pax Americana”. incidentalmente (no montante de 89 000 dólares — barato para hegemonia mundial). (b) habilidade de nações selecionadas em aplicar os elementos de Poderio Nacional. cuja perícia empresarial. consistindo num estudo básico sobre o seguinte: (a) elementos de Poderio Nacional. para ser usada como uma base para os EE. esta disputa permanece sem solução. A seguinte passagem da fala do Secretário de Estado Dean Rusk. Trataremos disto melhor no capítulo IV. As nações em desenvolvimento representam um desafio clássico à empresa privada americana. Commerce Business Daily. Uma firma americana.. porém. poderá estar em posição invejável. manterem hegemonia mundial no futuro. Lá estão os riscos. estão sendo criadas oportunidades de negócios. argúcia política e cuja contribuição para o desenvolvimento ganhem a confiança de uma nação em desenvolvimento. à National Business Advisory Council [Junta Conselheira dos Negócios Nacionais] é típica do estilo burocrático menos colorido. Enquanto as nações se desenvolvem. Pode ser que não haja absolutamente ligação entre a atitude exemplificada pela declaração de Rusk e a exemplificada no anúncio que se segue. lá estão as oportunidades.a chegada de um terceiro candidato.UU. em 1962.) Através de tudo isso. O expansionismo da América não é debatível. Lucros futuros irão para as firmas que se mostram hoje empreendedoras e previdentes. O dinamismo que tem sido central no desenvolvimento dos Estados Unidos deve agora ser empregado em escala global. O contrato. no qual a opinião tradicional é agora expressa: Os negócios [americanos] devem expandir seu atual papel importante na economia mundial. a longo prazo. os líderes americanos mantiveram sua opinião sobre a importância da retaguarda.28 A publicação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Há fortes incentivos para firmas americanas apresentarem agora suas reivindicações nestes grandes mercados em potencial [dos países em desenvolvimento]. os próprios chineses.

E esta liberdade econômica. Já que liberdade econômica é a liberdade 63 . Visto que estando o mundo seguro para nossos capitalistas incorporados a democracia política também está segura. claro é simplesmente a liberdade de os homens de negócio americanos expandirem suas operações comerciais. Porém. Precisamos examinar isso. isto é. Esta teoria produziu as mais calmantes devoções sociais que o mundo conhece. que permanecerão de certa forma em risco até que sua prática seja universal. mas tão só de fazer a tradução óbvia. mais ou menos explicitamente.termo singular. De um lado. De momento. Porém. observar que a fórmula sobre “fazer o mundo seguro para a democracia” na realidade. as que resultam dos impulsos monopolistas-corporativos de um capitalismo que há muito tempo escapuliu-se dos velhos e frágeis grilhões públicos. e de outro. ainda permanece para nós um tema do cerimonial mais alto dizer que temos liberdade pessoal porque temos liberdade econômica. para ser mais concreto a respeito. mostrar que liberdade pessoal e liberdade econômica são interdependentes. Não é dissimulado. fazê-lo seguro para nossos próprios capitalistas incorporados. Os filósofos do capitalismo democrático tentaram. não é muito difícil entender esta omissão. ultrapassando mesmo o marxismo de clube juvenil em sua habilidade de tornar lugar comum o irreal. estáse processando em colisão com dois desenvolvimentos relacionados: a burocratização incorporada do empresário e a privatização virtual do assim chamado setor público. e vêm de uma cultura que realmente pensa que sua sobrevivência requer mais e mais conversos. é celebrado. Todas essas exortações a respeito da necessidade de difundir o Modo Americano de Vida não são de nenhum modo gracejos — são exortações verdadeiras. aquelas liberdades — as liberdades e direitos civis. Não se trata de ser cínico. e que qualquer decréscimo de liberdade econômica. Muito raramente este tipo de raciocínio faz um esforço para levar em conta decréscimos de liberdade econômica (ou as perdas de propriedade) que provêm da ação privada. não são de nenhum modo um povo “possuidor de propriedades”. quando provém da ação pública. significa fazê-lo seguro para o capitalismo — e. o individualismo do qual temos sido tão orgulhosos — têm sido vistos pertinentemente como virtudes justificadas pelo oposto. nossos princípios de negócio. Americanos modernos. necessariamente resulta em decréscimo da liberdade pessoal. Podemos gozar todos os nossos direitos de pessoa só porque nosso sistema de livre empresa garante nossos direitos de propriedade — e portanto nosso direito de explorar a propriedade para fins comerciais.

com aquela revolução tecnológica bem independente e a longo prazo. que ele o liberta. é estável. Se as duas são de fato interdependentes. liberdade e os direitos do homem parecem ser nada mais do que posições táticas que podem sempre. De maneira importante. é pedir-lhe que enlouqueça. a ambicionar o aparelho de TV colorida. infestados de ratos em todas 64 . e possivelmente arrasadora. e. deste ponto de vista pelo menos. vendo alojamentos. então uma cresce quando a outra cresce. que (caso o admitam) só vêem neste conluio uma vitória da liberdade. provavelmente. Pedir ao membro da corporação que imagine que seu monopólio recentemente conquistado na verdade limita a liberdade econômica. sem desesperar. Que nossos astronautas olhem para baixo. modernizamos o que está em atraso. a ser dita sobre o capitalismo corporativo é que ele planejou relacionar-se. Todos os argumentos sobre cultura. e se alguma liberdade é bom. curamos o doente. quando os grandes homens de negócio são livres. de uma maneira nem sempre destrutiva. o que é bom para a General Motors é bom para a América. qualquer expansão de negócios realizada é simplesmente a materialização concreta da liberdade econômica expandida. Como pode a liberdade ser negação de liberdade? Como pode a liberdade vir da escravidão? Um crítico aponta o conluio dos altos negócios e governo. que se coloca sob a abundância notória do mundo do Atlântico Norte. se necessário. o escravo tem submetido seu senhor. bem igual a Chicago. Porque quando os negócios têm submetido o governo. Mas todas estas virtudes parecem incidentais. Intelectuais de negócio contemporâneos podem fornecer justificativas sem fim para a marcha expansionista de nosso sistema: democratizamos o mundo. e portanto da liberdade pessoal expandida. ou pedir-lhe que se submeta a controles sob a razão de que eles aumentam a liberdade. Levantar uma dúvida sobre a habilidade exclusiva do capitalismo corporativo em fazer o povo mais livre e dar-lhe melhor vida não é levantar uma dúvida na mente capitalista sobre a mais primitiva virtude de seu sistema: que é simplesmente ser ele o seu sistema. arranha-céus. todos são livres.de expandir atividades de negócios. ele subverteu e traiu essa revolução. e a conquistar aos empurrões uma posição. ensinamos o nativo iletrado a admirar as obras de Doris Day. Porém a implicação disso se perde nos altos negócios. ser trocadas por outras (tal como barrar o comunismo). o que é bom para a América é bom para o mundo. A melhor coisa. ele pode de fato apontar a virtual identidade deles. subúrbios e guetos para Dar es Salaam. um dia. então mais liberdade é melhor. estradas de alta velocidade.

o sistema de capitalismo “moderno” ainda prova. A ciência. Então produziu. Deformada e desperdiçada como é. e (para generalizar o precedente) simplesmente que o capitalismo não foi capaz de conceber. contudo. E do outro lado da medalha. induzindo a ciência ao serviço da burocracia das finanças. e mais ainda neo-Smithianos. e uma vez que seu racionalismo intrínseco pode. pelo menos. em comparação com a abundância que ele produz. os fatos decisivos sobre o ato de competição de livre empresa são que alguém ganha e alguém perde. e menos ainda institucionalizar. Para alguns marxistas. reflete um desarranjo social por demais imenso para o entendimento do cérebro comum. Foi esta tecnologia revolucionadora do trabalho. Porém o que dizer daquele outro título máximo. de que riqueza e pobreza se engendram. dentro da praça de mercado. de que o poder financeiro (e portanto político) infalivelmente se condensa em torno de grupos exclusivos de elite cujos interesses são crescentemente coordenados. O crescimento do estado capitalista resultou daquela chuva científica que chamamos a revolução tecnológica. O ponto a destacar é que as duas defesas sociais mais celebradas do moderno capitalismo ocidental são dúbias. barbatanas de cauda e espalhadores de creme de barbear. e de que é preciso uma para fazer a outra. sua chegada pode ser mais prenhe de mudanças do que agora o imaginam certas casas de investimento da livre empresa. ela alcançou o mundo. Porém isto é enganador e 65 .as nossas famosas cidades modernas. foi pelo contrário famoso por não produzir nem mesmo um cenário no qual a liberdade pessoal pudesse ter um significado. que ganhadores tendem a permanecer ganhando e perdedores a permanecer perdendo. e boa parte dela é não-produtiva. aquelas observações muito de antanho. que o trabalho teve de se bater ferozmente para partilhar. por sinal. dispersou-se em cápsulas espaciais. tão convincentemente como sempre.) Após estar sendo reformado todos esses anos. (Muita “competição” agora é dentro de corporações. as formas pelas quais o ato competitivo básico e livremente iniciado possa ser renovado de maneira contínua. que produziu abundância — uma abundância. deve agora ser esclarecido de que o capitalismo tornou possível o progresso tecnológico. basicamente. ele trabalha horas demais por dia e anos demais de sua vida para alcançar um poder aquisitivo pequeno demais. o que glorifica o capitalismo como o modernizador do mundo? Não há como ser enganado sobre isso. Produz ele liberdade pessoal? Por muito tempo. representar alguma vantagem social. em nosso tempo. porém. liberdade econômica? Em comparação com outros o trabalhador americano está em bela condição financeira.

surge uma versão deste mesmo argumento de capitalismo-para-o-progresso que está sendo apresentado correntemente em defesa da moderna corporação americana (com frequência multinacional). Além disto. que é calculadamente afastado do mercado através do sistema de patentes e práticas tais como obsoletismo planejado. É uma afirmação puramente histórica. Porém. cinquenta anos mais tarde. Por enquanto. e a ciência é ideologicamente cega. O clero das finanças foi obrigado. é claro. na aparência. peculiares do Ocidente e das quais o Ocidente precisa se envergonhar. quando as necessidades têm sido menos satisfeitas. diferente dos monopólios da era dos Alegres Noventa. em oposição a estes ventos tão contrários. a enfrentar o conceito realmente surpreendente de “produto excedente”. O que seria levantado em 1917 como uma firme conjetura pode ser hoje afirmado. evidentemente. e “técnica de vendas” — práticas que são. e que o problema de produção excedente tem sido. a solução deste problema doméstico tornou-se uma tarefa primária da política externa americana. observamos somente que não podia haver propriamente excedente até estarem satisfeitas as necessidades. Este excedente era. como uma verdade demonstrada. mais agudo. roubados e ladrões do mesmo modo (um ponto da maior importância a que voltaremos mais tarde). Parece que o homem e a máquina produziram demais. para os quais foi dirigido o Sherman Act. a saber. pretendendo ser analítica. A ciência produz e mobiliza riqueza. esse incremento de riqueza útil. A enorme e crescente corporação é. em conformidade. Que isto esteja agora provado é o que. aparentemente. Relacionado com o problema do produto excedente temos o problema do excedente tecnológico. o mundo do Atlântico Norte considera tão desagradável a respeito das revoluções russa e chinesa. de fato. quedas de preço intencionais. riqueza bruta e força de trabalho. algo está errado com o sistema de repartição de recursos e distribuição de riqueza. e seus apologistas talvez estejam certos em proclamar que alguns dos temores originais de gi66 . há o fato embaraçoso de que o capitalismo não parece saber ainda com exatidão como lutar contra esta abundância que supostamente inventou.paralelo ao assunto. Como veremos. não o outro ponto em torno. ou progresso material. Quando os frutos apodrecem nas árvores e homens desempregados andam famintos. nada senão um furto que ameaçava a todos destruir. que a revolução tecnológica se propagará indiscriminadamente através de qualquer sistema suficientemente coerente de comunicações sociais.

A grande corporação. temos uma sociedade industrial que é tão perturbada. e mais ainda fascistas. não é para cometer tais pecados que a corporação passa a existir. há muitas outras e melhores medidas de valor. quanto atraída. pelos resultados prováveis da cibernetização. horizontais e conglomerados (havia 2 100 em 1965). e porque ela está condenada a considerar sua administração dessa riqueza como boa ou má. Porém. Porém. Sua rentabilidade.gantismo são agora deslocados. uma habilidade de reencaminhar recursos que as pequenas firmas de produto determinado não parecem ser capazes de exibir. enganar o consumidor. é por certo capaz de cometer os velhos pecados usuais dos trustes. em geral. O que pode ser bom na grande corporação é sua habilidade de inovar.” Além de empunhar machados e auferir lucros. eles não tinham meio de conhecer um louco. na dependência do montante de lucro que auferir. de provocar ou absorver mudanças e de injetálas na economia. formada por meio de fusões verticais. é o único critério básico pelo qual ela avalia o desempenho deles. Mas o que certamente é mau. A observação de Robert Frost sobre os dois vagabundos vem-nos à mente: “A menos que um homem pudesse empunhar um machado. existem porque a promiscuidade do mercado abundante (“hiper-elasticidade de demanda”) pode ser estimulada e controlada somente através de uma diversidade técnica por demais dispendiosa para pequenas firmas. é que seu imenso poder inovativo é mutilado por lhe ser fundamental consagrar-se a obter proveitos financeiros. então nossa prodigiosa riqueza nacional teria. medida em dinheiro. existem. * Os escândalos das indústrias farmacêuticas e eletrônicas são famosos. desde muito. limitar a produção e conspirar para distribuir mercados não foram exatamente esquecidos. que alguns socialistas. e não seria preciso destrui-la para assegurar que tais crimes não sejam cometidos. no referente à grande corporação. porque os valores de troca no mercado abundante tornou lucrativas uma flexibilidade. Isto não é socialmente racional. simplesmente porque uma movimentação mais global de recursos é mais racional — ponto. A corporação existe. O negócio da GM não é carros mas sim lucros. Gigantismo pode não ser a mesma coisa que ruindade. Se esta nova criatura de nosso sistema capitalista pudesse realmente inovar.* Os velhos truques de fixar preços. é bom notar. 67 . e muito mais para ser censurada por suas “cidades internas” do que admirada por seus aeroportos. vinham pondo em prática há longo tempo. desde que a corporação é o repositório principal de nossa riqueza nacional. É uma espécie de vodu.

Como tal não acontece. mesmo quando esses hospedeiros não estão eles próprios disso convencidos. Sabemos que nosso sistema é expansionista. como tantos cristãos. Quiséramos saber que promessas podemos esperar que este sistema cumpra. o argumento é claramente errado (veja a América Latina). de modo tão firme quanto nossos 68 .erradicado a pobreza e o sem número de males sociais que a pobreza produz. tanto comerciais como militares. E durante todo o tempo em que falamos de forma tão audaciosa sobre nossos planos para desenvolver o mundo em atraso. Este exame do capitalismo americano não é gratuito. porque outros devem ter a ocasião de compartilhar de sua bondade. então a medida de nosso desempenho empresarial não seria a eficiência financeira. o argumento é circular e tomou-se por verdadeiro o ainda não provado. mas a qualidade da vida social. em aflição e amargura. e nos expandimos pelo mundo. Agora queremos perguntar: Por que expansão? Algumas vezes — mais marcadamente no período de 1895 a 1905 — explicamos nossas expedições. com uma imodéstia mais ou menos dissimulada. Voltaremos a isso no trecho que se segue. nosso sistema é um bom sistema. Expandimo-nos para modernizar o mundo? Nossos antecedentes domésticos não nos levam à conclusão de que o podemos. Não nos expandimos por nenhuma destas razões. consideramos nosso sistema econômico-político como sendo a única esperança do mundo. e talvez mesmo melhores. desprezamos o fato de que nos mostramos — sejamos generosos — inábeis para desenvolver o mundo em atraso. registradas principalmente por guarda-livros e comemoradas principalmente na nostalgia dos vendedores. Se a gerência de nossos recursos fosse realmente integrada e realmente racional. ou não. que arde em chamas. em termos de uma ideologia claramente imperialista. Temos justificado nossa presença em amplitude mundial encarando-a como um favor a nossos hospedeiros. Mais frequentemente. outros sistemas são pelo menos tão capazes de conduzir progresso tecnológico quanto o nosso. continuamos a nos desonrar com esta inventividade estouvada. Temos dito. dentro de nossas próprias fronteiras. ao dar a esse progresso uma orientação mais atraentemente social. ser bom: O precedente deve ter indicado pelo menos porque é saudável entreter certas dúvidas: Expandimo-nos para tornar os homens livres? Se isso quer significar uma versão liberatória da liberdade pessoal. porém porque nossos homens de negócio o quiseram. Nosso sistema pode. cujas realizações são aquilatadas principalmente por contadores. Se se pensa numa versão capitalista de liberdade econômica.

revolução. o Pânico de 1893 e a subsequente depressão. O que podia ser feito? Uma alternativa óbvia seria reduzir a produção. Mas isto não era só derrotista. Era da natureza do sistema econômico americano produzir mais bens do que podiam ser vendidos aos americanos — ele produzia. de seu ponto de vista. este comércio não era apenas bom. para reprimir os trabalhadores irlandeses grevistas de New York. nossas exportações cresciam. como estabilizar em um nível elevado de emprego e consumo. como resolver o pro69 . Pittsburgh. Era o que contava a história sangrenta da Europa da metade do século. as duas depressões que ultrapassaram a violência maciça da Guerra Civil. em 1846. O Senador William Frye expôs o problema. que surgiu da Greve de Pullman em 1894. quando se viu soldados passarem para o lado dos trabalhadores ferroviários e a queda virtual. Não seria ingênuo afirmar que. o Grande Levante de 1877. e precisamente quando a vantagem de maior penetração ganhava adeptos entre nossos homens de negócio. mas indispensável à sobrevivência. Por uma razão. de Martinsburg. era suicida. Estes bens excedentes dificilmente podiam ficar a apodrecer nos armazéns. Reading. E muito. desemprego ao ressentimento das massas. Não era tolice pensar que mais e maior violência podia vir. E mais importante ainda. em mãos dos rebeldes. Porém não seria risível àquele tempo. também a história sangrenta da América do século XIX — história que deve ter estado muito presente na mente do Senador. excedentes. em 1892. o Motim de Haymarket.29 Esta idéia pode hoje parecer divertida. com constância. já tínhamos uma apreciável parte do mercado da China.estadistas acreditaram que tínhamos de fazê-lo. a Greve de Homestead. quando fez sua sombria predição. O raciocínio não podia ser mais simples. de algum modo. com nobre simplicidade. e ressentimento das massas à luta de classes. em 1895: “Precisamos ter o mercado da China”. pelo menos ao primeiro relance. era fundamental a importuna inabilidade da América em resolver. assim dizia. “ou teremos revolução”. para a possibilidade desta violência. perturbações econômicas e sociais: de que maneira fugir ao ciclo valorização acelerada-depressão. fervilhava a penosa competição de esfera de influência com as potências européias. No fundo da consciência política da América estavam o uso de tropas. disse. em primeiro plano. em 1886. e o massacre de Chicago. Aflição econômica e violência consciente de classe nunca foram desconhecidas na América. Reduções conduziriam ao desemprego. Mas Frye expressou sua opinião de maneira tão brutal porque.

uma que também navegou. não revolução. com constância. e acesso e não revolução. também levou em conta o Continente. nossa moralidade de negócio. Porém já estava claro que ser credora fazia parte dos planos. Talvez essa proposta estivesse muito bem para algum outro cosmos. em cuja primeira parte tínhamos pedido emprestado e comprado no exterior mais do que vendêramos. produção elevada e acesso. é claro. resolvido por meio da redistribuição do poder econômico. A resposta que os socialistas apresentavam era controle popular da riqueza da nação. a fim de ter acesso. de fato. Como poderia ser diferente em se tratando de um povo ilhéu? Um povo ilhéu. Ninguém podia antever. Mas aqui. a fim de ter produção elevada. Porém certas condições teriam que ser encontradas antes de esse sonho se tornar verdadeiro. Tornáramo-nos os primeiros manufatureiros do mundo. como a descrição modelo o fez) em uma nação credora. Tirava só um 70 . se torna cada vez menor — os senhores dos trustes — e de que modo fazer estas coisas sem mudar fundamentalmente a natureza do próprio sistema. e que também tentou livrar-se de seus problemas econômico-sociais pela exportação de seu produto industrial excedente. esta era uma formulação invencível. uma heresia contra aqueles direitos divinos de possuir e explorar propriedade. O socialismo era ofensivo às ventas dos deuses. Queríamos ter produção elevada. perturbada. Estávamos desfazendo aos poucos a dívida que acumuláramos na Europa. Pela década de 1890. sucedeu que ela punha ante seus juizes a solicitação de que se condenassem a si próprios: algo que juiz algum jamais fez. Dadas nossas origens. a fim de não ter revolução. durante o século precedente. e acesso aos mercados externos. Além disso. nossa experiência de fronteira. ter topado Marx e caído morto do choque de auto-reconhecimento. Tudo na experiência daqueles que tomavam as decisões apontava para os oceanos como a saída. naqueles dias. sendo o problema artificial. Um livre empresário americano poderia.blema de concentração de poder nas mãos de um grupo de homens que. do excedente. que não estávamos nem a um quarto de século da guerra mundial que nos transformaria por fim (quase numa noite. a solução final. Assim devíamos ter produção elevada e não revolução. cujas origens estão principalmente em outra ilha. Cada uma dessas condições eram diretamente interligadas e se reforçavam. nos estabelecêramos como nação exportadora e tínhamos dado início a uma economia de mercado. havia outra solução: vender maior quantidade de mercadorias no exterior. porém genuína. sobre os quais estava baseada nossa república.

sobre política americana. lembrado e aplicado de maneira inflexível. revolucionários. quando raciocinamos. e que sua raiva era socialmente explosiva. o Oregon em 1893. não podia deixar de ser claro para ninguém que o povo americano tinha boas razões para estar zangado.30 Protegidos e cuidados. por muito tempo. pelos quais ele pagara quatro centavos. pagavam-lhe dez centavos por mil galões de água. e de que a construção de marinhas. o afrouxamento da servidão do trabalho sempre tinha de ser forçado. 2. Tem de ser aceito. É claro que havia reformadores. não haveria oportunidade para nem mesmo uma resposta nominalmente liberal-reformista. tal como aquele cavalheiro cristão George Pullman protegeu e cuidou de seus trabalhadores. presidente da Philadelphia and Reading Railroad. que se expressou da forma seguinte sobre a greve dos trabalhadores da mina em 1902: Os direitos e interesses do homem trabalhador serão protegidos e cuidados — não pelos agitadores trabalhistas. para fazê-las diferentes.25 dólares por mil pés de gás. deve-se supor. radicais. proprietária de minas. compreendido. anarquistas. porém pelos cavalheiros cristãos a quem Deus deu o controle dos direitos de propriedade do país. em uma luta muito amarga. que ele tinha comprado por trinta e três centavos. apesar do que pensara Jefferson. Na verdade. ou negada. homens da classe média nas ruas. a atitude típica era a de George Baer. é tão só porque uma boa quantidade de homens morreu. Porém lá em cima e no centro da cidade. quer interna ou externa: Os grandes homens de negócio americanos e seus as71 . Foi nas ruas que nasceu o progressismo americano. o Olympia em 1892. O Maine tinha sido lançado em 1890. Porém. claros mesmo então. multiplicou-se e adquiriu toda a força que teve.31 Por que remexer nestes velhos ossos? Porque estes velhos ossos estão em nossa carne nacional.encanto a mais dos fatos. liberais. Se as coisas estão bastante diferentes entre nós agora. a injustiça realmente elementar do comportamento do grande capital era sempre protegida. de que mais comércio marítimo precisaria de uma marinha maior. era boa para os negócios. e que. as propostas mais moderadamente progressistas eram sempre atacadas. em nosso país. que recebiam de quatro a dezesseis centavos por hora. Este é um fato político decisivo. Os populistas nunca teriam oportunidade contra esse tipo de poder de fogo. o New York em 1891. Na passagem do século. vivendo na cidade “modelo” de sua companhia. onde se colocava o Poder.

. Por exemplo.. Qualquer outra visão de nossos “líderes” é uma alucinação sentimentalóide que leva muito pouco em conta aquela “dureza” pela qual eles tanto estimam a si próprios. é claro. Pois os conflitos do futuro deverão ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. Assim o Havaí nos fornece uma base naval no coração do Pacífico. de Jefferson e Grant. eles sempre tentaram dar ao nosso espansionismo um halo de cruzada humanitária. S. com tais idéias. Tacher testemunhou. não se abstêm de explorar o que quer que não lhes tenha sido proibido explorar por qualquer outro poder.Em cada setor * Em 1938. estamos produzindo mais do que podemos consumir. .. às portas da Ásia — Ásia. Mas.. manufatureiros.. Há mais trabalhadores do que trabalho para eles fazerem. Dentro de cinco décadas.32* Já se tratara anteriormente do assunto. fazendo mais do que podemos usar. e em termos de outros Eldorados — ou quem sabe deveríamos dizer outras Fontes da Juventude. fazendeiros americanos têm tanto direito como os da Alemanha ou França ou Rússia ou Inglaterra.. a cujo comércio centenas de milhares de mercadores. caracteristicamente. e que algumas certezas eram mais certas que outras. Manila. Ainda Beveridge: Não havia motivo para a volúpia pela terra de nossos estadistas. razões e razões.. Portanto precisamos achar novos mercados para nossa produção. A supremacia comercial desta República significa que esta Nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. Devemos ter permanentemente em conta de que eram tais homens. Tal como Beveridge. O. que estavam para difundir no exterior aquelas “instituições livres” que o Senador Beveridge saudava com tanto orgulho em 1898. Porém. Ásia. senão abertamente cristã.. em abril de 1886 (apenas poucos dias antes do Motim de Haymarket): A visão industrial de nossa terra não é por completo cor-de-rosa. 5 por cento de nossas importações de matérias-primas vinham da Ásia 72 . as Ladrones outra. o grosso do comércio oriental será nosso.sociados nos departamentos de Comércio e Estado. como Beveridge também. outra. a não ser o profeta e o Saxão que existiam dentro deles. E a regra de ouro da paz é a inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. hoje. cujas portas não devem ser fechadas ao comércio americano. ante um subcomitê do Comitê do Senado para Relações Exteriores. sabiam muito bem que havia argumentos e argumentos. no teor que se segue. uma viagem mais adiante.

Precisamos de mercados externos. proclamou uma importante variação do tema principal: “Devemos financiar nossas exportações emprestando aos estrangeiros o dinheiro necessário para pagá-las. um renomado advogado de Washington e amigo do Leste Longínquo. nada mais constante em nossa política externa. Roosevelt.”36 Nesse mesmo ano. e a expansão de nosso comércio exterior é sua única promessa de alívio. forjas e poços de óleos minerais [aquilo] que somos capazes de produzir e dispensar.. não só oferecem os mais lucrativos mercados para onde encaminhar nossa produção excessiva. Vejamos só como a mesma fala é feita sempre e sempre: em 1897.33 Nada mais comum em nossa mentalidade econômica. os projetos financiados pelo governo não eram considerados como mudança estrutural. teares. As nações da América Central e do Sul. a essencial e única anodina. Franklin D. do que esta convicção de que o problema básico do sistema de negócios americano é a riqueza domesticamente indistribuível. por Theodore C.. em 1912: “Nossas indústrias se expandiram a tal ponto que estourarão se não pudermos achar uma livre passagem para os mercados do mundo. está em nossa penetração de mercados externos — mais especialmente os mercados daquelas terras que agora classificamos como países subdesenvolvidos (ou segundo o novo eufemismo do Departamento de Estado. tapa-buraco. voltamos os olhos para qualquer outra parte do mundo em busca de um povo que. O “New Deal” parece ser encarado agora como uma tentativa de aplicar estímulos internos à economia. marginal ou temporário — até a revivificação do comércio exterior do país dramaticamente deprimido. uma tentativa de revigorá-la de dentro.. No total. Search. precise e esteja querendo tirar de nossas fazendas. como também são o único campo existente. de uma vez. Porém.da vida industrial há produção além do consumo. A reconstrução do 73 ..”37 Talvez em parte por não ter sido levado em conta tal aviso. mesmo para o “New Deal”.. paz e tranquilidade futuros dependem de encontrar mais consumidores para o que temos para vender..”34 Woodrow Wilson durante sua campanha para a Presidência. vieram dias negros para a América — e com eles. Em vão. John Foster Dulles. e de que a solução básica para esse problema. Nossos mercados internos não mais são suficientes. como nunca antes. nosso progresso.”35 O Presidente Herbert Hoover. presidente da Associação Nacional de Manufatureiros: “Muitos de nossos manufatureiros ultrapassaram seus mercados internos. em 1928: “Precisamos achar um mercado lucrativo para nossos excedentes. eram meramente conserto estrutural. os menos desenvolvidos).

sofrimento e miséria humana. As exportações americanas haviam caído de mais de 5 bilhões de dólares. Em 1935 ele disse: Os mercados externos devem ser reconquistados. se quisermos evitar dolorosos desacertos econômicos.]39 74 . [Ênfase incluída. para sua existência continuada. anulação do protecionista Smoot-Hawley Tariffs) como um meio de restaurar a capacidade da Europa para comprar-nos o que queríamos vender-lhe. de março de 1934. certos produtos básicos regionais..” Ninguém mais do que o próprio Roosevelt poderia ter concordado em que as coisas estavam más e que a única resposta era mais comércio exterior. as rendas dos impostos deverão ser diminuídas.38 A linguagem dificilmente poderia ter sido mais acabrunhantemente apocalíptica — tudo para o ouvido de gente que já conhecia muito bem “desemprego. caso os produtores americanos se disponham a reconstruir uma economia interna plena e duradoura para nosso povo. e o resultado inevitável é desemprego. é claro. e a vida cultural de setores inteiros do país golpeada. Sayre pôs a claro a sombria significação deste declínio: “Lembrem-se disto: Redução no comércio mundial significa redução na produção mundial. o Secretário de Estado Adjunto Francis B.. Tal miséria e desastre econômico não ficariam confinados aos próprios produtores. através da diminuição da capacidade aquisitiva.“New Deal” girou em torno do liberalizante Ato de Acordos de Comércio de 1934 (e. dependem de uma exportação muito acima de um décimo. em 1933. Suprima-se estes mercados externos. reajustamentos sociais e desemprego. contudo. à vida dos negócios de cada cidade e vila nas áreas produtoras. os bancos ameaçados.6 bilhões de dólares. Não há outro caminho. em 1929 para 1.. Sem os rendimentos das vendas destes excedentes. sem apelação. sofrimento e miséria humana. desemprego. O fracasso em vender estes excedentes no exterior significariam desastre inevitável para grandes setores agrícolas de nosso país. e redução na produção mundial significa. os valores imóveis cairão abruptamente. se não permanentemente prejudicada. Num discurso radiofônico. e destas espalharia os danos por todo nosso país. Transmitir-se-ia.” O tom de Sayre revela muito bem a intensidade dos sentimentos do “New Deal” sobre o comércio exterior: O que significa realmente este decréscimo no comércio americano para a vida de nossos fazendeiros e manufatureiros? Embora seja verdade que os Estados Unidos normalmente exportam só cerca de um décimo de sua produção total..

Já destacamos a declaração do Secretário de Estado Byrnes. sustentada por toda parte. mas não suprimiu. Não podemos atravessar outros dez anos.. não duvidava que “a empresa privada nos Estados Unidos só pode sobreviver se se expandir e crescer”.. avanço tecnológico. “parece claro que nela permaneceremos.. e proclamou que nossa expansão para os países pobres representava nossa “ilimitada nova fronteira de oportunidades. para abrir à força a porta para as suas colônias. depondo. como os dez anos do final da década de vinte e início da de trinta.A guerra adiou. “As velhas fronteiras devem ser refeitas”. O importante é mercados. Podemos debater por um bom espaço de tempo que neste país. se poderia usar toda a produção do país nos Estados Unidos. na qualidade de Secretário de Estado de Truman. Aceito que 75 .. de que a América não podia sobreviver sem o que bem pode ser chamado de colônias comerciais. tal como a I Guerra Mundial.”40 Não só pedimos e conseguimos livre acesso às colônias do Eixo. e então intensificou. Já em 1940 Cordell Hull tornou claro que nosso “objetivo primário é.” Acheson então detalhava: Não temos um problema de produção. argumentou que se a América do após-guerra devesse cair de novo na depressão da anteguerra. por um período muito difícil. perante o Comitê Especial do Congresso sobre Política Econômica e Planejamento de após-guerra. mas também usamos nossa força econômica contra o necessitado aliado britânico. somente acrescentou mais força e outras dimensões à convicção já forte. sem ter consequências do mais longo alcance sobre nosso sistema econômico e social. sob um sistema diferente. em tempo de paz. em 1944. ele disse.”41 Há virtualmente um consenso universal inviolado sobre este ponto. de que um objetivo importante de após-guerra era “a manutenção da porta aberta nos Bálcãs. a urgência desta necessidade. Os Estados Unidos têm energia criadora ilimitada. Byrnes completou o argumento já conhecido com tal objetivo: “Os Estados Unidos não podem alcançar e manter o alto nível de emprego que estabelecemos como nosso alvo a menos que as vias de escoamento [externas] para nossa produção sejam maiores do que jamais tenham sido antes. Mesmo o Secretário do Comércio Henry Wallace.” Mais tarde. O crescimento que ela estimulou nos negócios americanos (expansão industrial e agrícola. reabrir as velhas saídas e buscar novas para nossa produção excedente. que acabou rompendo com Truman devido a questão de nossa política de após-guerra referente à Rússia... a acumulação de imensas reservas de capital). ao mesmo tempo.”42 O Secretário de Estado Adjunto Dean Acheson.

ulcerados. Se se quiser controlar toda a vida do povo. não a valores de 76 . Quanto melhor funciona. de 1945 a 1962. Numa escala mais civilizada. Um. dizemos. Quanto maior seu mercado externo. A exigência se aferra às coisas. à qual tenham acesso nossos comerciantes. maior é sua necessidade de um mercado externo. deve ter um para todos. então todos os argumentos pecam pela base... percebemos que precisamos buscar outros mercados e esses mercados estão no exterior. recriar o problema original? Na escala mais primitiva. e é sempre justamente este lado a ficar fora de equilíbrio. expectantes. Porém tem que ser feito corretamente. Isto é bom. produzida independentemente. Há. corretamente controlado. e corre. segue em frente para o futuro. basicamente. Portanto. nossas relações com propriedade. nós desembolsamos no exterior. Se estou errado a esse respeito. acelera. isto é. liberdade humana.) A teoria é de que o desequilíbrio expansionista. mas minha opinião é de que não podemos ter pleno emprego e prosperidade nos Estados Unidos sem mercados externos. a máquina abaixa sua grande cabeça de aço. garantido por nossa exigência de que outros “multilateralizem” suas contas comerciais. maior seu excedente. Ele não deve manter um livro para cada parceiro comercial. é provável que se possa estabelecer este controle de modo a que tudo o que seja produzido aqui seja consumido aqui. há uma pergunta muito simples: Como é que a importância com a qual deve ser financiada a venda externa do excedente não irá simplesmente substituir o excedente interno e.43 Reduzamos tudo isto a seus elementos. a história de mais de 110 bilhões de dólares que. melhor funciona. Assim tem que haver uma fonte de riqueza externa. é invocada a teoria da especialização internacional do trabalho. Assim. em várias categorias de assistência financeira. porém isso mudaria por completo nossa Constituição. Que esta riqueza externa independentemente produzida tenha que ser produzida aqui e controlada por nós é. isto é. E ninguém pretende isso. e o suspense é temível. (Supõe-se os capitalistas ansiosos. Em relação a isto. se converte num padrão de vida em constante ascensão. Escarnecemos do europeu que quer uma relação importação-exportação equilibrada conosco. nossas exatas concepções de lei. alguns problemas clássicos.a União Soviética possa usar toda a sua produção internamente. a exportação deste excedente tem que ser financiada. Nosso sistema econômico funciona num estado de desequilíbrio contínuo. é claro. assim. esperamos que ele financie a compra feita a nós por meio de balanços favoráveis obtidos de outros.

4 bilhões de dólares. porém se o governo quer retardá-lo. o dólar de alguém investido no exterior faz dinheiro — como veremos depois. Um outro problema. o ano das restrições. apresentado pela Administração. e portanto pedirá dinheiro emprestado. A alma do capitalismo é a dívida particular. A gente de negócios o considera de pequeno alcance. Estes são problemas difíceis. Mas eles não são. digamos. é a um tempo de pequeno alcance e permanente. uma câmara japonesa. (A razão é que dois sistemas de contabilidade igualmente bons podem ser usados para apresentá-lo. em período durante o qual nossa costumeira balança comercial favorável era desapontadoramente baixa. Porém. mas. o continuar da alta demanda inflacionará a circulação.8 bilhões de dólares em 1964. o mais baixo da década de 1960. Em 1964. se subtrairmos do total nossas exportações subvencionadas pelos Estados Unidos. em 1965.dólares. e essa diferença levará a um deficit de dólar que. cresce o deficit de dólar. de forma mais fundamental. estava de novo em ascensão no primeiro trimestre de 1966.”44) Se nada é feito para deter o fluxo expansionista de capital para o exterior. O fluxo conjugado para fora. quando o “boom” preocupou a todos.) A gente do governo o chama caracteristicamente de permanente. através do programa “temporário” de restrições “voluntárias”. mais moderno e mais difícil. A grosso modo. e portanto levantar taxas e o valor do rendimento do dinheiro. Em 1965. a preocupação central da política americana. para. Desceu. então contará ter um emprego e uma renda no próximo ano. brota do fato de que uma economia capitalista a toda força produz uma espécie diferente de artigo de exportação — o próprio dinheiro. e sua resolução requer grande habilidade. reais. assim se pensa. confiantes. Se o operário da linha de montagem de autos crê que a GM pode vender todos os carros que ele monta. em qualquer período de expansão. é uma simples confiança no futuro. o excedente comercial de 1965 cai para o que Fortune chama “o insignificante valor de 1. se o problema primeiro for resolvido. Sempre poderão ser resolvidos. bastante curiosamente. este problema é manejado pelo que. para 1. (De fato. e os possuidores de dólares no exterior reagem trocando dólares por ouro. E esse problema primeiro — o osso mais duro de roer da política externa americana desde seus dias mais remotos — é assegurar a utilização de fronteiras férteis para os negócios americanos. só 5 por cento de deficit foi convertido em ouro.5 bilhões de dólares. de que será capaz de fazer frente aos pagamentos. afinal. 77 . Ambos sabem que ele existe: Era de 2. ele e o banco. no fundo. boa quantidade. excederá o fluxo conjugado para dentro. mais do que 90 por cento foi convertido.

A ideologia da Guerra Fria. Inglaterra. oceanos — devem ser definidas por seus usos e pelo tipo de direito de propriedade ao qual elas se submetem. a qual tem muito pouco a ver com deixar vizinhos a sós. a sobrevivência de nosso sistema depende disso. Esta luta imensamente violenta que divide o mundo deve ser referente a algo muito maior. com democracia ou progresso. ou por nossos próprios fuzileiros. Mas nós queremos uma certa espécie de paz. tem que ter algo mais dentro de si do que esta volúpia primitiva. Mas uma tal formulação parece sem dúvida crua demais. o Magnífico? Foi Veneza Ticiano ou os mercadores que a governaram com tal comedimento? O herói de Isabel foi Bermejo ou Colombo — ou o Arcebispo de Toledo? Quem era mais caro ao coração da Inglaterra elizabetana. de que tratamos no Capítulo II mudou por completo as coisas. finalmente. mesmo vil. Tais expressões tornam o Homem da Guerra Fria mais satisfeito consigo próprio. a paz afinal existirá quando o mundo estiver garantido. que galvanizou nossas melhores mãos. é certo. uma simples paz na qual nações em boa-vizinhança deixam ao abandono umas às outras. América — laborou para fazer seu domínio universal. Este trabalho. muito mais importante e épico do que bolsas de mortais. terra. nos melhores termos possíveis. Essa ideologia sustenta que a paz perseguida pelos líderes americanos era de uma espécie nítida. O que foi a alma desta Renascença? Foi Florença a arte de Leonardo. porém. porém só desejo saber se ele não deve tentar entender um pouco melhor suas bases. por exemplo da Renascença. por certo. Shakespeare ou Francis Drake? Pode-se falar de culturas à vontade. para fazer a pilhagem sozinho que o Ocidente. se for preciso. natural. o Grande. pelo lucro a qualquer preço. pelos velhos diplomados estrangeiros de Fort Bragg. França. caso o pânico acertar num lugar vital. deve ter sido empreendido. parece. primeiramente sob a liderança imperial deste poderoso estado. depois daquele — Espanha. Não foi. para os homens de negócio americanos. em ambientes orientados por governos da classe média nativa de preferência. ou o controle financeiro de Lourenço. Isto é incorreto. Falemos sem rodeios: Para nós. Não quero resmungar contra sua satisfação. em nome da civilização ocidental. O olhar penetrante do homem 78 .As portas econômicas devem ser abertas. Todas as nações querem paz. O que nossa cultura ocidental mais claramente anuncia ao mundo é que coisas — povo. a fim de que realizem seus negócios em qualquer parte. por aqueles oligárquicos e repressivos. Queremos paz. na sua melhor e mais elevada forma conhecida de cultura humana — em nome.

O Ocidente quer um mundo que seja integrado e (no sentido de Max Weber) racionalizado em termos de estabilidade de recursos. Tão só revela a transcendência do motivo de lucro. produção. 79 . trabalho. No Oriente eles adquiriram forças de resistência. Na qualidade de líder do Ocidente.ocidental percebe que o mundo gira em torno da propriedade. distribuição e mercados. Os outros não querem. Portanto há uma luta Oriente-Ocidente chamada em nosso tempo Guerra Fria. a América quer esse mundo integrado. racionalizado para dirigir sob a orientação de sua própria gente de negócios. As questões denominadoras de nossa cultura são: De quem é isto? Para que serve isto? Quem vai lucrar com isto? A filosofia da cultura não transcende o motivo de lucro.

80 .

em Nostromo. que ela se baseia numa premissa ética de conflito. mais basicamente. serão corretamente entendidas enquanto não se entender que a livre empresa é. Londres. 19001 Nós americanos dirigiremos o mundo dos negócios quer o mundo goste. O mundo não pode impedi-lo — nem nós. ao poderoso. Aplicadas à política internacional estas virtudes reclamam imperialismo. de Conrad. O homem de negócios do mundo americano pode muito bem julgar-se um liberal. uma teoria política. e que seu sistema de virtude confere estima e privilégio. 1904 Nem a América.IV Império do Mundo Livre Mesmo os antiimperialistas aceitam com satisfação uma política Imperial que não vise outras conquistas que não as do comércio. a condução violenta (ainda que indireta) da política econômica de um estado por outro estado. nem a tradição ocidental que a América levou à maturidade. Times. não ao humanitário (ainda que o humanismo não seja excluído) mas ao obstinado e implacável. Holroyd. Mostra81 . um acirrado antiimperialista um anticomunista. quer não. eu espero. fundamentalmente. Porém imperialismo tem muitos métodos operacionais. um libertador.

o problema do nacionalismo colonial. cadeias de montanhas. ao mesmo tempo. É a palavra “livre” que por certo é tão enganadora. e que sua existência está intimamente ligada à existência do capitalismo ocidental. Quase ao acaso a América armou um processo de eficiência contra o imperialismo colonial. desuniforme e continuamente em fluxo. As colônias criaram uma hoste de feios e desnecessários problemas — centralmente. redes de navegação e distribuição. assegura-nos que só deseja a oportunidade de negociar. O Mundo Livre. empenha seu apoio para a manutenção e ampliação do Mundo Livre. neste sentido. O Mundo Livre. de antemão. qualquer que seja sua conotação. e não se sente em contradição quando. que deve ser aquela parte da terra em que os homens gozam de direitos e liberdades civis. pleno de situações especiais. que são a um só tempo mais praticados e mais praticáveis no Ocidente do que em qualquer outra parte.) Esta idéia recoloca o centro do impulso imperial (banindo expressões bombásticas tais como “a carga do homem branco”) e define mais agudamente as dimensões da vitória imperial. Simplesmente acrescente a isto a observação que a América é a líder do Mundo Livre e teremos aprendido o essencial do imperialismo à Mundo Livre da América. é contudo. são verdades historicamente indiscutíveis. Toma as culturas em termos de seus componentes econômicos e dá menos atenção 82 .nos que não tem bandeira e armas de comércio. Que estes direitos e liberdades pertencem a tradição liberal ocidental mais do que a outra qualquer. a liberdade expressa por este “Mundo Livre” tem de ser diferente. Assim. na raiz. a zona basicamente integrada da hegemonia americana. O Mundo Livre mesmo é o Império Americano. porém profunda. reservas de trabalho. etc. Pode representar apenas liberdade de acesso do capital. que sempre ameaçou culminar em motim e rebelião e portanto ameaçava a segurança dos mecanismos de controle econômico. O Mundo Livre é a área econômica do mundo na qual o homem de negócios americano goza a maior liberdade de manobra comercial. e descontinuidades raciais e éticas) era a idéia do mercado livre (definido por riqueza real e em potencial. Mas também observamos que se considera este Mundo Livre como incluindo mais do que as democracias ocidentais. Paraguai e Argentina. Supõe-se. é mais livre do que o mundo não -ocidental. Moçambique e África do Sul. Muito melhor do que a idéia de colônia imperial (definida por coordenadas de terra. Tailândia e Formosa. A contribuição da América para a arte firmemente evolutiva do império ocidental é simples. rios. Inclui: Espanha e Portugal.

pelo menos em parte. com frequência ao longo de uma especialização global de trabalho. Na revisão pragmática e oportunista das formas de império feita pela América. o imperialismo de Mundo Livre substitui pela de sistema econômico globalmente integrado. ou esfera de influência. será vencida pela potência econômica líder. A idéia de nação. A colônia. Isto proveio do modelo mais autárquico empregado por volta de 1955. é uma elaboração interessante e autorizada do tema de edificação de sistemas econômicos. outro explorando os minérios. um terceiro refinando o aço. a Turquia. a colônia européia à moda antiga. é claro. torna-se uma fonte de materiais e um mercado a ser desenvolvido. Economias eram para ser organizadas horizontalmente com outras economias. a resposta da Europa do Leste ao Mercado Comum. ópio. encontrando os lugares privilegiados já ocupados. como um específico modelo ímpar de recursos econômicos e potenciais.a hábitos políticos e aspectos geográficos. Economia transnacional substitui política nacional. mas pelo contrário. torna-se o lugar de uma aberta competição de livre empresa — a qual. uma esfera econômica cujas fronteiras não mais são vistas como principalmente territoriais. em conjunto com outras fontes e mercados. cuja relação mais estratégica era com outros sistemas semelhantes. Nosso anticolonialismo de meio século pode ter originado uma como que exigência ressentida de acesso às esferas imperiais já estabelecidas * O Comecon. em vez de verticalmente com seu meio cultural nacional. a China faz seda.* Da posição política local da Turquia ou China é importante somente que não obstrua o desenvolvimento ordenado do todo sistematizado. é uma tentativa de bloco para “racionalizar” uma economia internacional ao longo destas linhas. os comerciantes americanos monopolizam o ópio turco. um país produzindo os alimentos. 83 .2 ** Thorstein Veblen: “The Engineers and the Price System” (Harbinger 1963). e esta proveniência é uma das razões das dificuldades da Rumania com a URSS: a Rumania defendeu uma preferência básica pela auto-suficiência nacional contra a interdependência do bloco.** A América produziu esta teoria. porque tinha chegado atrasada à mesa. Um exemplo imperfeito (imperfeito porque ele finalmente chegou por si mesmo a um militarismo quase ritual) é a doutrina de pré-guerra do Japão referente à Esfera da Coprosperidade da Ásia do Leste Maior. Em um velho e famoso exemplo. permutam-no por seda chinesa e trazem a seda para a América. na qual a China era encarada. primeira edição em 1921. Para a idéia de conquistador objetivando fronteiras territoriais oferece como substitutivo a idéia de idealizador visando componentes econômicos entrelaçados. destinada a ser desviada. não como uma entidade geopolítica unitária a ser conquistada como um todo.

se quisermos ser honestos conosco mesmos. com efeito. William L. ou por um estratagema quase inacreditável. o orientador político de Roosevelt. para a vida do colonizado e a tranquilidade do colon. um consultor americano teria salientado que aqueles preços eram atingíveis sem o esforço mal orientado de transformar Hanói numa espécie de Paris. de transportar formas culturais francesas para a cultura nativa a qualquer preço. uma expansão limitada ao comércio. Seu anticomunismo selvagem é uma espécie de evidência de que falhou. enquanto a América continuava a se esforçar para obter acesso às colônias da Europa. chegaremos à conclusão que muitos dos pecados de que livremente criticamos outros países por praticarem [i. wilsoniano. uma das mais tristes características do imperialismo de porta aberta. que não se imiscuísse do ponto de vista cultural. Levado de volta àquele tempo. de Mundo Livre da América e que preferiu não ser imperialismo.* O imperialismo de Mundo Livre reage ao problema do nacionalismo de pequeno estado argumentando que o governo nativo de colaboração é. que fosse mesmo de ajuda para o hospedeiro. parecemos ter desejado um resultado diferente.. mais estável do que domínio estrangeiro. A Política de Mercado Livre afirmava a prioridade de nossa economia sobre a política deles. por meio de uma ferroada bem colocada.3 84 . não permanecendo ali necessidade de humilhar e enfurecer povos nativos com status colonial. O governador colonial e a Legião Estrangeira tornaram-se simultaneamente obsoletos. e que através do uso elaborado e requintado de pressão econômica e induzimento (às vezes chamado “educação”) os governos nativos podem ser persuadidos a tomar todas as decisões corretas. O governador colonial está de volta chamando-se agora embaixador e nossos Legionários Estrangeiros usam boinas verdes. em 1885: “Destruímos o passado e nada o substituiu. um específico para as exigências comerciais americanas. Isto é. Tal como o primeiro governador civil da Indochina Francesa confessou.”4 O que a França conseguiu em troca do seu transtorno foi uma grande quantidade de borracha a um preço muito bom e uma mancheia de soberbos eruditos asiáticos. os bens sem o ato aberto de saque. Comparemo-la com a tentativa francesa de afrancesar suas colônias. Essa era uma idéia nova. Tal a vespa que domina mas não mutila sua presa. Mas quer seja por ingenuidade.(em especial na China) pelas potências européias e asiáticas. justificando isto com a mesma retórica à livre mercado. protecionismo colonial] têm suas contrapartes nos Estados Unidos”. anticolonial. * E durante a II Guerra Mundial. e. tendo desastrosos resultados. a América quis a substância sem a aparência. de forma alguma surpreendentes. Clayton disse: “A verdade é que. de livre-mercado.

Porém, pouco valendo suas afetações de não intervenção cultural e política, o imperialismo americano de Mundo Livre foi tão completamente pernicioso e tão plenamente predatório. A vida econômica de uma cultura não pode ser mudada sem consequências para cada um dos outros aspectos de cultura. O dinheiro se propaga. Sistemas econômicos ocidentais precisam de infra-estruturas econômicas ocidentalizadas, de um aparelho legal ocidentalizado, e fundamentalmente de uma tendência política ocidental. Impacto comercial é impacto total. É este mesmo impacto do Ocidente sobre o Oriente, tão frequentemente uma mescla de culturas elaboradas e requintadas, mas antidinâmicas, que os explicadores do imperialismo do mundo livre apresentam como um fenômeno em si saudável. Explicam e tornam a explicar ao bom povo americano, de quem aparentemente suspeitam como guardando uma antipatia residual em relação à injustiça, que tais fissuras sociais, se de um lado podem provocar a agonia de países “em desenvolvimento” são para-produtos inteiramente naturais da “revolução de modernização” (ou “de esperanças em ascensão” ), que é descrita como basicamente independente de causas externas: um processo histórico que se desenrola por si mesmo, quando povos adormecidos despertam. Dificilmente poderia ser mais claro que esta “modernização” é tão só um nome polido para o rude e chocante impacto das culturas tecnológicas sobre as não tecnológicas. Porém teorias oficiais fazem variações deturpadoras em torno da responsabilidade americana em relação aos deslocamentos induzidos pela expansão americana, e a idéia de que a traumatização quase ubíqua do Terceiro Mundo possa ter algo a ver com um específico lucro em dinheiro contado é mesmo muito raramente abordado. Representativas deste ponto de vista, as passagens seguintes são do famoso discurso de Walt Whitman Rostow à classe dos Graduandos de 1961 da Escola de Guerra Especial Fort Bragg [Fort Bragg Special Warfare School], do Exército (Rostow é o principal conselheiro de política exterior do Presidente Johnson e, provavelmente, o mais destacado teórico da Guerra Fria da América):
O que está acontecendo por toda a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia é isto: Velhas sociedades estão mudando seus rumos a fim de criar e manter uma personalidade nacional na cena mundial e trazer para seus povos os benefícios que a moderna tecnologia pode oferecer. Este processo é certamente revolucionário... Como todas as revoluções, a revolução de modernização é per85

turbadora... Homens e mulheres nas aldeias e cidades, sentindo que os velhos modos de vida estão abalados, e que novas possibilidades estão abertas para eles, expressam velhos ressentimentos e novas esperanças... Esta é a grande arena de mudança revolucionária que os comunistas estão explorando com tão grande energia... Nós, americanos, estamos confiantes de que, se a independência deste processo puder ser mantida através dos anos e décadas vindouras, estas sociedades escolherão sua própria versão do que podemos reconhecer como uma sociedade democrática e aberta... Portanto, nossa tarefa central nas áreas subdesenvolvidas... é proteger a independência do processo revolucionário agora em curso... A difusão do poder é base para a liberdade dentro de nossa própria sociedade, e não temos razão para temê-la na cena mundial. Porém esta consequência seria uma derrota para o comunismo... [Os comunistas] estão destinados no fim, pela natureza de seu sistema, a violar a independência das nações... Nós estamos lutando para manter um ambiente na cena mundial que permita à nossa sociedade aberta sobreviver e florescer.5

Os elementos-chave da visão principal e profunda de Rostow são os seguintes: 1. Recusa tácita da responsabilidade ocidental por essa “turbulência”, que é causada primariamente pela intromissão ocidental — comercial, ideológica, militar — no Leste e Sul. 2. A pretensão de que o propósito da América é a criação de sociedades livres, independentes e (o que não é tão óbvio) tecnológicas. 3. Repúdio à possibilidade de que “comunismo” (o qual para Rostow, provavelmente vale para qualquer violência política oposicionista) possa também ser um nacionalismo. Isto é, a linguagem de Rostow nos põe frente àquela velha imagem familiar do comunista como um homem sem uma pátria, alguém que sempre aparece de algum outro lugar, e cuja lealdade sempre está alhures. (Comunistas, diz, são “carniceiros” e comunismo é uma “moléstia de transição”.) O que uma tal descrição tem a seu favor é a teoria de alguns ideólogos bolchevistas, principalmente trotskistas, de que a revolução proletária seria internacional (a classe acima da bandeira) e que teria de resultar na decomposição da nação-estado, uma instituição burguesa. O que ela tem contra é cerca de duzentos anos de
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história. Tendo por trás de nós as revoluções americana, francesa, russa, chinesa e cubana, resolvidas de maneira tão vária, somos obrigados a concluir que revoluções populares, quaisquer que tenham sido sua fuzilaria e retórica de inauguração, são sem exceção nacionalistas. O único grupo genuinamente internacional (melhor, transnacional) no mundo moderno é o que Marx chamou a classe dominante; Veblen, os capitães das finanças; Mili, a elite do poder; e os órgãos de nossa cultura popular, o “jet set” [grupo que lança as decisões] . Rostow não dá atenção a nada disto. É um trotskista às avessas.* 4. A declaração virtualmente explícita de que a América deve ser o único juiz da permissibilidade de mudança social em toda a parte, de que a América se autoconfere (como líder do Mundo Livre) todos os direitos de intervenção prioritária no processo de mudança, e de que a América exige emergência básica de sociedades “independentes e modernas”. Tanto a prática como a ideologia americanas levam-nos a assumir que isto significa economias de porta aberta. Portanto, a América pede, e só tolerará, “revoluções” tais que ampliem o império do Mundo Livre. 5. Insistência (um tema tradicional) de que o aparecimento final de sociedades de porta aberta é indispensável a sobrevivência da América. A arrogância à Santo Império Romano desta vontade se mostra ainda mais sufocante quando refletimos sobre a aflitiva inabilidade desta América juiz, júri e carrasco em resolver seus próprios problemas in* Em seu Prospectes for Communist China (M.I.T. Press, Cambridge, 1954, págs. 27-28), Rostow enfrenta o problema: Por que os comunistas chineses preferiram a coalizão militar com as forças nacionalistas de Chiang contra os invasores japoneses? Por que não preferiram continuar a guerra civil? De esforço em esforço, num desempenho intelectual que me impressiona por ser tão bizarro como brilhante, Rostow põe a descoberto uma imensa dissimulação vermelha: eles queriam a coalizão porque a Rússia queria o Japão detido, porque queriam que Chiang se esgotasse contra os japoneses, porque queriam parecer patriotas para o povo, porque a coalizão oferecia canais de propaganda, porque isto lhes permitiria estender sua adiministração civil. Para Rostow, não é nem mesmo uma possibilidade a ser apontada e refutada, que os vermelhos pudessem também ser gente chinesa que se preocupava com a China, e que por razões patrióticas usuais queriam bater os invasores usando tudo que a China pudesse juntar. Para êle, o comunista é um marciano político. Rostow é meu Guerreiro da Guerra Fria favorito.
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ternos. Racismo americano cada vez se tornando pior, pobreza, Grande Irmandade, e oligarquismo militarista dão ao mundo o direito de se pasmar conosco. Como pode uma América que não é capaz de desenvolver o leste do Kentucky ou pacificar o Harlem, desenvolver a Índia e pacificar o Vietnã? Porém devemos analisar a questão mais a fundo. A tese rostowiana pode ser dissecada em duas grandes proposições; a saber, o que ele chama nossa “proteção da independência da modernização revolucionária” e o que eu chamo nosso imperialismo de Mundo Livre. 1. desenvolve o subdesenvolvido; e 2. promove sua liberdade, significando a) que seus governos são independentes, e b) que seus povos gozam de direitos e liberdades civis básicas. Estas são pretensões concretas e podem ser concretamente examinadas. O que se segue é primeiro, um esboço estatístico e detalhado da corporação americana, cujo impacto, por bem ou por mal, está sendo sentido pelos países subdesenvolvidos; a seguir, olhando para alguns dos considerados como pertencendo ao domínio dos resgatados e protegidos, devemos perguntar: Suas economias estão se desenvolvendo? São seus governos independentes de outros governos? A liberdade de seu povo aumenta, e seu crescimento está sendo estimulado? A super corporação americana não mais é definida principalmente por seu produto. Ela combina em si as funções básicas que antes distinguiam finanças e indústria como esferas separadas. Congrega e coordena os atos econômicos de acumulação e dispersão de capital (atividade bancária), inovação tecnológica (“inventores”), produção (construção de maquinismos e direção), distribuição (função de intermediário), e orientação de demanda (o mercado livre). Por persuasão e manobra, conquistou a cooperação das burocracias trabalhistas, cuja responsabilidade incorporada é garantir a estabilidade da força de trabalho da nação. Entre direção e trabalho organizado não há questões fundamentalmente divisórias de valores ou objetivos; são membros desiguais da mesma entidade incorporada. Com o apoio ativo ou passivo do trabalho e do governo, a direção coordena centralmente todas as operações na corrente do produto da
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fonte-para-o-consumidor, sendo a integração vertical, crucial para a eficiência. A tomada-de-decisões é científica e centralizada. A imensidade e o poder da super corporação podem ser sugeridos pela seguinte passagem de In Few Hands [“Em poucas mãos”] (Penguin, 1965), relatório publicado postumamente, das investigações antitruste de Estes Kefauver no comitê do Senado:
Em 1962 as 20 maiores corporações manufatureiras tinham sozinhas 73.8 bilhões de dólares em fundos, ou cerca de um quarto do total de fundos das companhias manufatureiras dos Estados Unidos. Em troca, as 50 maiores companhias detinham 36 por cento; as 100 maiores, 46 por cento; as 200 maiores, 56 por cento; e as 1000 maiores, perto de 75 por cento.

Engrenadas direta ou indiretamente com os principais centros financeiros e industriais da Europa, inspiraram o Presidente da Corporação para Desenvolvimento e Recursos, David E. Lilienthal (diretor da TVA para Roosevelt, diretor da AEC para Truman) a cunhar o termo agora padrão de “corporação multinacional”.6 Junto com os grandes bancos igualmente globalizados, com os quais estão encadeadas, as corporações multinacionais são as fontes principais do capital de investimento de ultramar americano. O valor do investimento direto dos EE.UU. no exterior, menos de 25 bilhões de dólares em 1955, era cerca de 50 bilhões de dólares uma década mais tarde e aumentando numa taxa de cerca de 10 milhões de dólares por dia.7 O total dos investimentos externos dos EE.UU, diretos e “portfolio”* era de cerca de 135 bilhões de dólares em 1965, dos quais mais de 30 por cento, era petróleo.8 Do total de 50 bilhões de dólares de investimento externo, 60 por cento é investido no Canadá e Europa; dos 40 por cento investidos nos países subdesenvolvidos, metade o é na América Latina.9 A corporação multinacional não exporta meramente seus produtos e dinheiro; ela se transplanta. Em 1965, cerca de 2 000 firmas americanas estavam fazendo negócios no exterior, e de suas vendas externas líquidas montando a 110 bilhões de dólares, só um quinto desse total vinha da venda de mercadorias e produtos enviados dos Estados Unidos. Exemplos extremos de transplante ocorrem na indústria automobilística. Em 1965,
* O investimento direto dá ao investidor direito de opinar, às vezes controlar, na direção da empresa. Os investimentos “portfolio” usualmente não. 89

”12 Com ele faz eco Gaston Deferre: “A invasão econômica por parte dos Estados Unidos é um perigo claro e presente. o poder dinâmico de seus grandes negócios e a forma de seus investimentos na Europa. “Uma boa 90 . o gover* Para um enfoque diferente.UU. 300 corporações. Fiat.11 Louis Armand disse: “A menos que a Europa reaja. 85 por cento são gastos nos Estados Unidos com produtos americanos e matérias-primas. opera a Agência pelo Desenvolvimento [Internacional Agency for International Development] que Forbes chama “a principal agência por meio da qual o governo dos Estados Unidos financia negócios no exterior. antigo delegado diretor da Administração de Cooperação Internacional dos Estados Unidos [United States International Cooperation Administration]. especialmente de aço e carros.. A direção do crescimento do controle incorporado americano não é mais fácil de predizer do que a de seu processo interno. evitaram efetivamente o alcance das leis antitruste de qualquer país tomado em separado. coopera de várias diferentes maneiras. Uma. Firmas dos EE.. no qual produzem ou vendem suas mercadorias.. corporações de negócio americanas e outras. produzem 90 por cento de sua borracha sintética. Com bases em recentes experiências.. conselheiro especial para os Subcomitês do Senado sobre Antitruste e Monopólio. 30 por cento e a Ford. se não do francês. British Motors e Renault são só dois terços das vendas da Ford.. da AID veja-se esta declaração de D. O governo dos EE. Destes. em 1975. são o início da colonização de nossa economia. controlam quase toda a indústria eletrônica da França. mas complementar. distribuem 65 por cento de seu petróleo e manufaturam 65 por cento de sua maquinaria agrícola.14 A expansão ultramarina da América das corporações tem o apoio do governo americano. só um terço das da GM. e se organize.UU. Fitzgerald..a General Motors construiu 20 por cento de seus carros fora dos Estados Unidos. mas Richard J. A.10 A Europa está apreensiva. 40 por cento.”13 Representantes do governo alemão e indústria reagem incentivando a fusão de firmas européias. oferece uma conjetura de especialista: “Por meio do funcionamento multinacional. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. controlarão mais de 75 por cento de todos os fundos industriais. O poder econômico americano. Barber. estamos nos condenando à colonização industrial. em bases tanto nacionais como continentais. Daimler-Benz. As vendas conjuntas da Volkswagen.15* Por outro lado. a Chrysler.

insiste em que os lucros dos EE.19 Não é uma dissimulação por completo aérea.. o Banco de Desenvolvimento Interamericano [Inter-American Development Bank].18 Esta corporação expansionista pode.UU. Presidente do Chase Manhattan Bank. contra perdas causadas por inconversibilidade de dinheiro. usinas de força — que o capital privado acha que não tem recursos para construir. Mas não há dúvida de que esta expansão é altamente lucrativa para as próprias corporações.no dos Estados Unidos ajuda a capitalizar e dirigir instituições financeiras do Mundo Livre. De modo algum é fácil determinar a rentabilidade absoluta de nossas operações ultramarinas. pelo financiamento do desenvolvimento daquelas infra -estruturas — estradas. não pode dispensar e merece ter. Podem ser apresentados números para apoiar esta assertiva. 179 bilhões de dólares para garantir a expansão da International Telephone Telegraph.. Pelo fim do ano de 1965. imagine-se uma corporação na qual a unidade de produção. tais como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento [Internacional Bank for Reconstruction and Development] (o Banco Mundial).17 91 . mas dificilmente podem ser chamados de “exploradores”. Um exemplo simples e básico. estimular o crescimento da prosperidade material e o avanço dos valores democráticos nos países hospedeiros. docas. analisaremos isto brevemente. ou não. ou conseguir um voto favorável na ONU. ou impedir alguns países de dar direitos às bases aéreas russas. Uma razão disto é que uma variedade de técnicas de contabilidade dissimulantes estão à disposição do escrivão imperial. ou qualquer de várias outras razões’’.16 A AID também usa o dinheiro público para assegurar as operações ultramarinas das companhias americanas. seja por financiamento direto de certas especulações ou. O objetivo pode ter sido comprar um arrendamento. a Corporação Internacional de Finanças [International Finance Corporation]. e a Associação do Desenvolvimento Internacional [International Development Association] todas as quais (mas principalmente o Banco Mundial e o Ex-Im Bank) existem para servir ao interesse internacional da corporação multinacional dominada pelos americanos. o Banco de Exportação e Importação [Export-Import Bank]. o Fundo de Desenvolvimento Ultramarino [Overseas Development Bank]. com base no país natal. compra seu material parte da crítica sobre ajuda externa é devido o crítico pensar que o objetivo era alcançar crescimento econômico e este não era o objetivo de modo algum. na América Latina não são usualmente grandes: “Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina têm. ferrovias. ou impedir uma nação de se afastar. sido moderadamente bem sucedidos [dá-lhes cerca de 13 por cento]. guerra e revolução. do Chile. David Rockfeller. felizmente. expropriação. de maneira mais importante. a AID procedeu a seu maior plano de ação particular.

de unidades extrativas, com base no exterior. A direção da corporação pode orientar a última para manter seus preços baixos, uma vez que lucros baixos contabilizados resultarão em vantagens nos impostos locais, e, em qualquer caso serão compensados no fim da produção. Porém ainda é possível obter uma boa idéia geral do imenso valor do lucro das aventuras exteriores de nossas corporações. “De indústria após indústria”, disse o Business Week em 1963, “as companhias dos Estados Unidos achavam que seus ganhos ultramarinos eram elavadíssimos, e que seus dividendos em investimentos fora eram frequentemente muito mais altos do que nos Estados Unidos. Quando os ganhos no exterior começaram a se elevar, as margens de lucro para operações domésticas começaram a reduzir... Esta é a combinação que forçou o desenvolvimento da campanha multinacional.”20 Os dados do Departamento de Comércio mostram que no período 1950-61 havia um fluxo de investimento externo direto americano de 13,7 bilhões de dólares. No mesmo período os rendimentos que retornaram eram de 23,2 bilhões de dólares, um lucro de 9,5 bilhões de dólares.21 Um levantamento feito pelo First National City Bank concluiu que os “dividendos remetidos [i.e., lucros repatriados] do investimento privado no exterior são atualmente o mais rendoso artigo de nossa receita internacional fora a exportação de mercadorias.”22 Um levantamento britânico, em 1961, mostrou que as companhias americanas fazendo negócios na Inglaterra obtiveram um lucro de 17 por cento em seus investimentos, duas vezes mais alto do que o lucro médio nos Estados Unidos.23 Para rentabilidade o mundo subdesenvolvido é pelo menos igual à Europa, provavelmente superior. A Standard Oil of New Jersey declara um lucro de 17,6 por cento em seu investimento na América Latina e um lucro de 15 por cento nos investimentos do Hemisfério Leste, para 1962, comparados com um lucro de 7,4 por cento nos domésticos.24 Os dados do Departamento de Comércio mostram os americanos empregando 516 milhões de dólares na Europa (novos investimentos e ganhos não devolvidos) em 1956, e trazendo para casa 280 milhões de dólares. Por volta de 1961, a razão entre lucros e investimentos, quase de 2 para 1, ficou em 3 para 1: 1,5 bilhões de dólares em novos investimentos, 525 milhões de dólares em ganhos trazidos de volta. Compare-se os dados para a América Latina, lembrando que aqui as cifras são na realidade a riqueza e o trabalho verdadeiros do povo da América Latina, e não apenas alguns números num livro: Em 1956, investimos 500 milhões de dólares, e trouxemos de volta um lucro de mais de 50 por cento, 770 milhões de dólares; para a
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América Latina uma perda líquida de 220 milhões de dólares.25 Esta estatística fria e silenciosa de lucro e perda é uma declaração sobre a felicidade de alguém e o sofrimento de outrem, as espécies desiguais de vida de homens e mulheres. Precisa ser trabalhada, mineirada, posta a claro. Tendo já uma idéia geral do que a corporação americana multinacional está fazendo para si mesma, iremos agora examinar as condições de seus hospedeiros. A expansão global do estado comercial americano desenvolve o subdesenvolvido? Democratiza a vida pública do homem? Faz com que as nações, nas palavras de Rostow, “fiquem firmes de pé” e sejam “fortes, positivas e independentes”? Alguns casos: O Brasil figura em primeiro lugar entre os recebedores de ajuda militar dos Estados Unidos (206 milhões de dólares durante 1963), em terceiro na assistência econômica dos Estados Unidos (172,6 milhões de dólares, mais 1,4 bilhões de dólares nos empréstimos do Banco Mundial e Ex-Im Bank) e só fica atrás da Venezuela nos investimentos diretos dos Estados Unidos (mais de 1 bilhão de dólares).26 É o maior, mais populoso e potencialmente o mais rico de todos os países sul-americanos; sob qualquer interpretação a longo termo, a chave do desenvolvimento econômico e político do continente. Isto faz juz a um estudo mais demorado. A revolução do Brasil tem estado pulsando intermitentemente desde 1930, quando Getúlio D. Vargas, do Partido Trabalhista, chegou ao poder, primeiro como presidente provisório (1930-33), depois como presidente eleito (1933) .27 Atacado uma vez pela esquerda e três vezes pela direita, foi finalmente deposto em 1945 por uma junta militar direitista, que se chamou a si mesma democrática e revolucionária, anulou suas medidas reformistas moderadas, e trouxe salários em depressão, alto desemprego, inflação crescente — mais corporações dos Estados Unidos. As eleições de 1950 devolveram Vargas ao poder, convencido mais do que nunca da necessidade de direção nacional dos recursos nacionais e do domínio brasileiro do Brasil. Criou a Petrobrás (petróleo nacional) e a Electrobrás (força), e em agosto de 1954, desesperado da luta contra o que sua carta chamou “o saque de grupos financeiros e econômicos internacionais”, ele se suicidou. Após um ano de ditadura de rotina sob Café Filho (mais decadência social, mais dinheiro estrangeiro), veio a presidência de Juscelino Kubitschek, que fundou a capital interiorana de Brasília, um ato de visionário, mas que não pôde resistir à ulterior penetração da economia do Brasil pelos fortes interesses do Norte. Foi seguido, em 1961, por Jânio Qua93

dros, vencedor pela mais ampla margem de votos jamais recebida por um presidente brasileiro. Quadros era um conservador autoritário. Dominou levantes de fome no sofredor e rico nordeste por meio do Quarto Exército e agitações estudantis com a polícia. Mas ele era também um nacionalista. Ele viu um Brasil que liderava o mundo em exportação de café, que tinha mais terra arável do que toda a Europa, 15 por cento das florestas mundiais, 35 por cento de seus depósitos de ferro, e um de seus potenciais hidrelétricos mais altos. Que um tal país fosse pobre era uma desgraça. Que ele devesse permanecer pobre era um crime. Quadros dis -pôs-se a mudar o Brasil. “Por que podem os Estados Unidos comerciar com a Rússia e seus satélites”, disse, “mas insistem que o Brasil comercie só com os Estados Unidos?”28 Reatou relações com a União Soviética, fez acordos comerciais com países comunistas, e tratou Castro como sendo aquele revolucionário nacionalista cuja motivação era tão fácil de apreender do ponto estratégico das favelas do Rio. Os barões da ala direitista, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda eram vistos a lançar escuros olhares de intimidade para o Norte. Em agosto de 1961, Quadros foi longe demais: uma demonstração de independência em Punta Del Este, na fundação da Aliança para o Progresso; a Cruzeiro do Sul para “Che” Guevara; o vice-presidente João Goulart em Pequim, numa missão comercial; pior de tudo, um novo projeto sobre impostos destinado a fortalecer o orçamento federal, estimular o investimento no Nordeste, e a reter, para uso do Brasil, uma porção maior dos lucros remetidos para fora do país. Por uns dias o exército manteve a “renúncia” de Quadros em suas mãos. Mas os planos Barros-Lacerda, de um governo de junta à moda antiga, sofreram a resistência do povo, que exigiu que a sucessão legal fosse mantida e que Goulart subisse à presidência. Alguns argumentam agora que, naquele momento, o milionário liberal Goulart devia ter quebrado o domínio dos plutocratas uma vez por todas. O exército estava dividido e o povo o apoiava, camponeses e trabalhadores, estudantes e classe média, esquerdistas e nacionalistas, juntos na resistência constitucionalista chamada a Legalidade. Porém Goulart era indeciso. Ele escolheu negociar com os direitistas e aceitou sua exigência de uma função presidencial enfraquecida. Após um ano e meio de estagnação, um plebiscito restaurou o poder presidencial pleno por voto de 6 a 1. Goulart, contudo, ignorou o mandato. Seus discursos cintilavam com a promessa de mudança social, mas nenhuma de suas propostas de reforma alcançou o Congresso. O Banco do Brasil continuou a imprimir o dinheiro aguado com o qual os
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monopólios financiavam a própria ineficiência; a dispendiosa manutenção do preço do café nunca foi tocada. O General Peri Bevilacqua usou tropas para dissolver demonstrações populares que não pediam nada mais do que o cumprimento do próprio programa de Goulart; Bevilacqua foi feito chefe do Estado-Maior. Mais concessões foram outorgadas a firmas americanas de petróleo e minerais. Havendo se aproximado do dólar, 600 para 1 no tempo do plebiscito, o cruzeiro caiu a 1 700 para 1. Exasperados, progressistas e nacionalistas, começaram a pressionar mais forte pedindo ação, e talvez Goulart estivesse por fim começando a responder. Subitamente ei-lo desafiando a América na questão de Cuba, de desarmamento e comércio. Falou de sufrágio para analfabetos (metade do povo) e existência legal para o amolecido e conservador Partido Comunista. Revelou suas tendências socialistas pela expropriação de algumas empresas de petróleo (brasileiras, não americanas) . Em 17 de janeiro de 1964, ele cometeu de novo o mais criminoso dos crimes, ao atacar os lucros americanos. “Os novos regulamentos”, escreveu, do Rio, Juan de Onis, “limitam a remessa legal de lucros para o exterior a 10 por cento ao ano, sobre o investimento externo real de uma companhia, em equipamentos e capital.” “Encaradas como hostis ao capital estrangeiro”, as novas leis de restrição de lucros eram uma resposta “às exigências nacionalistas de controles mais efetivos dos investidores estrangeiros.” (NYT, 18 de janeiro de 1964.) Isto finalmente engatilhou a resposta de um grupo conspirador paulista, o qual Philip Siekman do Fortune (“Quando Executivos se tornam Revolucionários”, setembro de 1964) diz que estava em crescimento desde a metade da década de cinqüenta. Conhecidos quer como os Paulistas (de sua cidade) quer como os Mesquitas (de seu líder Júlio de Mesquita Filho, proprietário de um jornal conservador de São Paulo, O Estado de São Paulo), o grupo era constituído por importantes homens de negócios de São Paulo, como Paulo Ayres Filho (fundador e a certo tempo cabeça do Banco do Brasil), Flávio Galvão, Luís Werneck e João Adelino Prado Neto (editor do jornal de Mesquita) . Em 1964 o grupo conquistara o apoio de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e comandante daquela milícia estadual de quarenta mil homens; Carlos Lacerda, governador da Guanabara; e a Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial ), que lhe deu acesso a importantes membros da elite militar. Bem no início de 1964, escreve Siekman — talvez esporeados pelo vigor reformista de último momento de Goulart — o grupo Mesquita enviou um emissário para perguntar ao Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon qual seria
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a posição dos Estados Unidos caso estalasse a guerra civil. O emissário relatou de volta que Gordon fora cauteloso e diplomático, mas deixara a impressão de que se os Paulistas se aguentassem por quarenta e oito horas obteriam o reconhecimento e a ajuda dos EE.UU.29 Acontecimento se seguia a acontecimento. A 14 de março a direita brasileira põe-se a planejar processos de “impeachement” contra Goulart (NYT, 16 de março de 1964) . A 15 de março Goulart lança apelo por novos dispositivos constitucionais para “libertar as energias esmagadas pela estreiteza de uma estrutura econômica ultrapassada, que serve somente aos interesses de grupos privilegiados”, (NYT, 16 de março de 1964) . No mesmo dia, os delegados latinos à conferência de terceiro aniversário da Aliança para o Progresso, reuniam-se em Washington. No ar estavam a disputa panamenha ainda não solucionada, a viagem triunfante de De Gaulle ao México, os rumores de desassossego na Colômbia, novos êxitos eleitorais esquerdistas no Chile, o maior comércio de grão da China com a Argentina prestes a ser anunciado, e acima de tudo o que Tad Szulc chamou “o estado pré-revolucionário” do Brasil (NYT, 15 de março de 1964) — tumultos pró-Goulart em Brasília, demonstrações anti-Goulart em São Paulo e a promessa do candidato à presidência, Kubitschek, de fazer a Aliança “murchar como uma flor” (NYT, 19 de março de 1964). A 16 de março, o Presidente Johnson dirigiu-se aos delegados da Aliança: “Mas eu hoje asseguro que a força total dos Estados Unidos está pronta para atender qualquer país cuja liberdade esteja ameaçada por força dirigida de além-praias deste [sic!] continente. “A 18 de março, o Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Interamericanos, Thomas C. Mann, conferenciou privadamente com os diplomatas latino-americanos nos EE.UU., e o artigo de primeira página de Tad Szulc, no Times do dia seguinte, tinha como manchete: “Os Estados Unidos Deverão Abandonar os Esforços para Dissuadir Ditadores Latinos”. Szulc escreveu: “As opiniões de Mr. Mann foram consideradas como representando uma modificação radical da orientação política da administração Kennedy” (NYT, 19 de março de 1964) . A 19 de março o porta-voz do Departamento de Estado, Richard I. Phillips, veio a público negar uma mudança política mas parecia de fato confirmá-la. Aludindo à Doutrina Estrado (reconhecimento diplomático baseado no controle, não na política), Phillips expôs que “a política dos Estados Unidos em relação a governos inconstitucionais será, como no passado, guiada pelo interesse nacional e pelas circunstâncias peculiares a cada situação em que surge.” (NYT, 20 de março de 1964.) Parece que toda a América Latina compreendeu de imediato o que
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o governo anunciou um novo projeto de impostos destinado a financiar um aumento de 35 por cento nos salários militares.30** Castelo Branco foi rápido em revelar sua compreensão e gratidão. Quatro meses mais tarde uma nova lei tornou possível a demorada prisão de indivíduos sem declaração do crime ou formação de culpa. os Estados Unidos tinham dramatizado seu entusiasmo pelo novo regime através de um empréstimo de 400 milhões de dólares. que em breve seria consolidado em torno do General Humberto Castelo Branco (eleito presidente a 11 de abril de 1964) e proclamaria seu amor pela democracia e revolução. Não há no momento razão para acreditar que a “eleição” do linha-dura General Costa e Silva não se processe segundo o plano. A 27 de outubro de 1965. Talvez a elite eclesiástica tenha sido realmente convertida ao Cristianismo e talvez tenham salvo Lacerda. e antes mesmo de já ser sabido que Goulart deixara a capital. e duas semanas após a fala de Johnson. (Enquanto era escrito o precedente êle foi nomeado para um mandato de quatro anos.escutara. o Presidente Johnson telegrafa “os mais calorosos bons votos da América” para o novo governo. Por novembro de 1964. toma uma avançada posição antigovêrno.* À 22 de julho o Congresso votou a prorrogação do termo do mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967. além dos já programados fundos da Aliança para o Progresso. Mas talvez a fuga oligárquica só acrescente uma nova variação. e dentro desta turbulência outras surpresas se revelam: a hierarquia católica. o Ato Institucional n0 2 foi promulgado. e Castelo Branco age para fazer essencialmente o que os da linha-dura queriam em primeiro lugar. ) ** A propósito. manifesta-se por reforma agrária. Menos do que vinte e quatro horas depois as notícias do golpe alcançaram Washington. e Carlos Lacerda. Castelo Branco responde que eles estão indo longe demais. Enquanto escrevemos isto. Os comunistas brasileiros saíram para a cidade do México. os ativistas estudantis começam a gozar mais e mais do apoio popular. hoje no exílio) conclamou o povo para se preparar para uma nova Legalidade. o povo brasileiro está mostrando uma resistência sólida e surpreendente. A 25 de novembro de 1964 o governo aprisionou uma centena de antigos auxiliares do governador de Goiás. talvez orquestre a si mesma com novos instrumentos de sopro. numa vaga acusação de subversão. Neste jogo. Leonel Brizola (então um admirador de JFK. banindo * Castelo Branco leva a efeito um jogo intrigante com os generais da assim chamada linha-dura. a 10 de abril. os generais pedem fascismo. Durante o mesmo período. antigamente reacionária. nacionalizações. entre todos. 97 . todo mundo fica impressionado com a posição corajosa de Castelo Branco. democracia. o idealista governador do Rio Grande do Sul. etc. Goulart foi quase ritualisticamente afastado do governo pela maquinação Barros-Lacerda-Mesquita. 400 milhões de dólares podem ser reduzidos a 40 milhões de dólares e então anunciados com um arrogante bilhão.

desde que feito por gente que teve seus direitos políticos suspensos? * Esta citação e o material que se segue são da edição em língua inglesa de Revolution. c) ajuda à subversão. o que tornou automaticamente todas as greves e manifestações nas docas crimes militares.. O último ponto provocou a seguinte conversação: Danton Jobim (de Ultima Hora): Vossa Excelência quer dizer que não podemos publicar nenhum pronunciamento. pela razão óbvia de que aqueles que supostamente tomaram parte nele condenariam a si mesmos admitindo que êle aconteceu. “os adversários da revolução.. e..todos os treze partidos políticos existentes e criando dois novos.31 Pela mesma época as tentativas do governo para sanear a faculdade da Universidade de Brasília provocam protestos dos estudantes da faculdade. ou a publicação de notícias que incitem o povo a se opor ao governo. Castelo Branco defendeu seu governo contra a acusação de que era ditatorial. A 27 de janeiro de 1966 todos os portos foram declarados zonas de segurança nacional.. O encontro foi privado. declarou.32 Um mês após isso. se não secreto. certamente.”* Quatro meses antes. demissões em massa e finalmente o virtual fechamento dela. Juraci Magalhães. tal como referir-se a ele como uma ditadura. Revolução... não podem negar o fato de que aqui no Brasil nós temos em pleno funcionamento as duas maiores e mais básicas expressões de uma democracia verdadeira: o Congresso Nacional e a liberdade de imprensa. Seguem-se trechos da transcrição. um para servir como “oposição leal”. no dia após a decretação do Segundo Ato Institucional. 98 . um encontro no Rio com um seleto grupo de editores e publicistas brasileiros.. é atribuído ao Ministro da Justiça. b) nenhuma ameaça ou provocação ao governo revolucionário. Magalhães informou a imprensa de que o governo não mais permitiria: a) a publicação de entrevistas com aqueles que tivessem tido seus mandatos cassados ou seus direitos políticos anulados. mas uma transcrição literal foi feita e contrabandeada. “Digam o que quiserem”. d) a publicação de artigos escritos por jornalistas que tenham perdido seus direitos políticos. para explicar as cláusulas do ato e “decretos complementares”. por qualquer meio. para ser mais tarde impressa no movimento subterrâneo cristão brasileiro. falando em Belo Horizonte.. A verificação do diálogo de Magalhães é impossível. para não ser divulgado. o jornal (mimeo) do movimento subterrâneo cristão brasileiro.

De qualquer maneira. e nos ateremos estritamente a ele. Marinho: Mesmo se o artigo não for assinado? Magalhães: Não. mas será punido se desobedecer. Se a fizer de novo será punido de acordo com a lei. A Consultec. Nós temos um critério para decidir o que constitui provocação. Está claro? Jobim: Muito claro. mas de previnir a subversão. Há uma nova lista de pessoas que perderão seus direitos políticos? Magalhães: Este é um bom exemplo do tipo de perguntas que consideramos provocadoras. Você e o jornalista serão punidos. E a respeito de desenvolver o subdesenvolvido? No decurso do ano. Você é um velho amigo meu. E protestarei veementemente se você tentar me fazer despedir alguns dos jornalistas que trabalham para mim e que perderam seus direitos políticos. João Dantas (Diário de Notícias): Como espera que saibamos se alguém é o porta-voz de alguém que perdeu seus direitos políticos? Como pensa que nos defenderemos contra isso? Magalhães: Serão capazes de sabê-lo pela leitura do material que o porta-voz lhes entrega. a assessoria técnica do gover99 . É simplesmente isso. A lei considera que estes jornalistas que perderam seus direitos políticos não podem usar a imprensa para provocar ou ameaçar o governo ou difundir subversão.Magalhães: Isto é exatamente o que eu disse. não tomaremos conhecimento disso. o governo Mann-Gordon-Castelo tinha elaborado uma série de decretos interrompendo a construção de novas usinas de aço e autorizando Castelo Branco a vender um interesse majoritário em qualquer indústria nacional. Eu assumo a responsabilidade — a inteira responsabilidade por tudo que é publicado em meu jornal. Magalhães: A lei será cumprida. Marinho: Oh! Está bem. Ambos são responsáveis. Uma Pessoa Não Identificada: Gostaria de aproveitar a ocasião para fazer algumas perguntas. a maioria destes porta-vozes é bem conhecida de todos vós. Mesma Pessoa: Não me interprete mal. Tudo isso para o fomento da democracia de Mundo Livre de Rostow. O governo não tem a intenção de restringir vossa liberdade. Estou só fazendo uma pergunta. Nascimento Brito (Jornal do Brasil): Como podemos saber se estamos ameaçando o governo? Quer isto dizer que não podemos comentar os atos do governo? Magalhães: Não. Magalhães: E se a fizer de novo será punido. Roberto Marinho (Globo): eu não concordo que um jornalista que tenha perdido seus direitos políticos deva ser punido. É óbvio que se ele escreve um artigo não assinado.

o Ministro de Minas. Gabriel Passos cancelou três das concessões da Hanna sobre reservas estimadas em quatro bilhões de toneladas de hematita de teor excepcionalmente alto (65 por cento de ferro) . de Cleveland. A Hanna lançou mão de influências. o novo ministro das Finanças. engenheiro de minas). Grã-Bretanha. e John Dulles. No começo da década de sessenta. e daquele tempo em diante cultivara um interesse epicurista nos imensos depósitos de ferro do Brasil. os estados credores estavam preparando generosamente o refinanciamento do débito brasileiro. Herbert Hoover Jr. Os grandes pistolões da Hanna eram seu presidente. os direitos de desenvolver uma nova estrada de ferro e facilidades portuárias na Baía de Sepetiba. que o Brasil teria um déficit de 350 a 400 milhões de dólares nas necessidades de trocas externas no período de 1964-65. irredutíveis e a tentada recuperação da Hanna afundou-se nas cortes do Brasil. As indústrias do aço e ferro.no. St. a Hanna estava exportando por via marítima 400.33 A mais pungente destas histórias de êxito diz respeito à Hanna Mining Companing. O golpe de abril de 1964 mudou o quadro. filho do falecido Secretário de Estado (NYT. nacionalizadas sob Kubitschek. Motivado por este realismo. Alema100 . seus esforços de industrialização independente e concentrar-se na produção de alimentos e na extração de matérias-primas para exportação. com a deliberação própria a acontecimentos decisivos. com a maior parte de seus direitos de concessionaria ainda em vigor. algumas milhas ao sul do Rio. durante a presidência de Juscelino Kubitschek.000 toneladas de minério de ferro por ano através do Rio e proclamando que não estava fazendo dinheiro. França. ou transferir indefinidamente. o Hague-Paris Club* foi dispersado. e Roberto Campos. voltaram a seus donos particulares. o antigo Secretário do Tesouro George Humphrey. (como seu pai. situados principalmente no estado de Minas Gerais. Os Estados Unidos. contudo. Em junho de 1964 os Paulistas-Mesquitas estavam em New York para explicar a nova amistosidade do Brasil em relação ao capital estrangeiro. anunciou que o governo estava reconsiderando seus regulamentos de remessa de lucros à luz das necessidades “realísticas” dos homens de negócio estrangeiros (NYT. anunciou que o Brasil devia abandonar. 16 de junho de 1966) . John d’el Rey. Kubitschek e Passos foram. num esforço para anular este cancelamento e adquirir. e o Banco Mun* O Presidente Goulart havia informado abruptamente aos credores externos do Brasil. ao mesmo tempo. Passo a passo.34 Em 1935 a Hanna comprara o controle de uma firma de mineração britânica. 18 de junho de 1964). Em 1958. a Hanna tornou a reivindicar sua posse.

e queria que todo o embarque de minério de ferro na área continuasse sendo feito pelo Rio.” “Após apresentar Mr. nha Ocidental. em seu despacho de 7 de novembro. onde a reivindicação da Hanna estava para ser negada). (NYT.” A posição de Castelo Branco não deve ter sido fácil! De maneira clara os Estados Unidos estavam pressionando pela liberação das concessões da Hanna (então sob litígio na Corte de Apelações Federal do Brasil. O outro pesado oponente era José Magalhães Pinto. o Presidente Castelo Branco recebeu um telefonema de dois famosos cavalheiros. Encontros posteriores se processaram em Paris (daí “o Hague-Paris Club”) e foram também assistidos pela Áustria. Itália e Japão tinham por isso se reunido em Haya (daí. Países Baixos. capital da Guanabara. Bélgica.) 101 . “o Hague Club”) aparentemente para determinar uma política coletiva em relação ao devedor comum. Porém. Um era o impetuoso Governador Carlos Lacerda. “para discutir os planos da companhia para desenvolver os depósitos de minério de ferro estimados num total de quatro bilhões de toneladas” e “a proposta da Hanna. Mais animador para os novos realistas era talvez o propósito do Brasil de discutir a legislação sob a qual o governo brasileiro garantiria os investimentos estrangeiros. de construir um porto de embarque de minério de ferro na Baía de Sepetiba. a não aceder aos pedidos da Hanna. os membros do clube decidiram tratar individualmente com o Brasil. A 6 de novembro de 1964. narrou The New York Times. há muito apresentada. 2 de julho de 1964. enviando uma missão de vinte homens (“a maior jamais vista”) numa missão de sete semanas pelo interior do Potencial Redimido (NYT. que durara quatorze anos. mas na ocasião empregado como representante da Hanna Mining Company.dial estava para pôr fim ao virtual boicote do Brasil. O outro era John J. Castelo Branco estava sendo pressionado internamente por pelo menos dois fortes Mesquitas. comandante do Exército de São Paulo. Tinham vindo. o refinanciamento de seu débito. Um era o Embaixador dos EE. “o embaixador Gordon fez ao Presidente Castelo Branco uma segunda visita.UU. Após o golpe de abril. evidentemente baseados no saudável princípio de que Castelo Branco não era Goulart. Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Lincoln Gordon. também se opunha aos propósitos da Hanna (NYT. Suíça. O General Peri Bevilacqua. ao mesmo tempo. que tinha planos de construir uma usina de aço estatal no estado da Guanabara. onde ficavam as concessões disputadas. McCloy. McCloy”. antigo Alto Comissário dos Estados Unidos na Alemanha. 2 de outubro de 1964). delineando a missão econômica e financeira dos Estados Unidos junto ao Brasil. relata The New York Times.. 24 de dezembro de 1964). governador de Minas Gerais.

e (b) é o lugar das pretensões da Hanna. qualquer um pode imaginar. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda”. o relato do Times arrola uma doação de 25 milhões de dólares em alimentos e 15 milhões de dólares em concessões determinadas para “agricultura e educação”. são depositados no Brasil (onde ganham juros) a fim de ajudar a fortalecer o inflacionado cruzeiro.UU.) Olhemos de novo a ampla manchete cinza do Times: “EE. “virão do Banco Mundial (que só empresta. da doação em alimentos. Uma fonte não declarada (provavelmente o Banco Mundial) “dá” 100 milhões de dólares para desenvolver a infra-estrutura econômica necessária aos negócios — um “presente” que é. do Fundo Monetário Internacional (ditto).” Em cerca de dois meses (NYT. no montante de 400 milhões de dólares “para reconstruir a deteriorada posição econômica do país”. mas podemos aceitar que as concessões são boas e honestas concessões. como foi notado acima. por certo. A mesma espécie de “presente” vem na importância de 90 milhões de dólares de países europeus e Japão — que devem ter achado engraçado ver seus favores incorporados à beneficência americana. a AID “dá” 150 milhões de dólares em investimentos orçamentários — isto é. 24 de dezembro de 1964). não dá). Portanto temos aqui um total de 40 milhões de dólares em bens e serviços que podem ser chamados apropriadamente de “presentes”. Finalmente. The New York Times (23 de novembro de 1964) falou de planos de ajuda não confirmados. estavam perdendo. a região que (a) é já mais desenvolvida. meramente um empréstimo que o Brasil deverá pagar com juros. dólares dos EE. Parecia que Lacerda e Cia. é a função básica da AID).UU. Isto nos coloca com os outros itens arrolados num nível de 550 milhões de dólares. a este Brasil sem fôlego é “dado’’ o direito de comprar o equivalente a 90 milhões de dólares em excedentes de utilidades americanas — o preço não é sem dúvida exato. acrescentado]. O Export-Import Bank “dá” ao Brasil 30 milhões de dólares — sob forma de débito de 1965 reescalonado.”* E pouco mais de uma semana após (NYT. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda. surge a feliz fabulação: “Os EE. 102 .Não se sabe o que Gordon contou a Castelo Branco em sua segunda visita naquele dia. “programados para o próximo ano [ital. “dá” 50 milhões de dólares para atender a necessidades de troca — que importa numa extensão de crédito. e investidores privados (que tendem a obter grandes lucros nos países pobres. 15 de dezembro de 1964). * Aqui temos como inventar um bilhão de dólares: Segundo a citada história do Times. UU. O Tesouro dos EE. do Banco Interamericano de Desenvolvimento (ditto). Mais. 27 de fevereiro de 1965).UU. Um mês mais tarde (NYT. mas é sempre um preço. O dinheiro deveria ser empregado para ajudar o programa de estabilização monetária do país e financiar importações (financiamento de vendas americanas no exterior. O verdadeiro valor de mercado. “Os restantes 450 milhões de dólares”. o Banco Mundial tinha concedido 80 milhões de dólares para o desenvolvimento da força hidrelétrica na região centro -sul — isto é. continua o artigo do Times. Mas dentro de duas semanas. Castelo Branco promulgou “um decreto presidencial [que] incentivava a concorrência privada para o desenvolvimento das vastas reservas de minério de ferro do Brasil e ordenava o desencorajamento de qualquer monopólio pelo estado ou outras empresas.

que teria de decidir sua reivindicação de concessões e que estava ainda dominada por juizes “esquerdistas” nomeados por Goulart. tem esta* No original “Mills of the fods”. parece ter sugerido uma teoria bem diferente. A 27 de outubro.Porém a Hanna ainda enfrentava o obstáculo da Suprema Corte do Brasil. que não só teve o efeito de anular a eleição mas que também o dotou com o direito (auto-conferido. que estava provocando um tal aborrecimento para a Hanna. A 2 de novembro. O Senador William Fullbright. cinco novos “revolucionários” eram admitidos no Tribunal (NYT. Por mais de quinze anos. perto da boca do Amazonas.). 16 de junho de 1966). o Ministro das Finanças Campos estava se lastimando de os investidores dos EE. O ressentimento nacionalista em relação à posição privilegiada da Hanna foi talvez um tanto obscurecido pelo acordo da Hanna em fazer sociedade. isto é. Antunes tem também 51 por cento na Bethlehem Steel de Rockefeller. 3 de novembro de 1965). a suprema corte devolveu à Hanna seus quatro bilhões de toneladas de minério de ferro e o “váem-frente” para o projeto da baía de Sepetiba (nyt. a ICOMI tem mineirado manganês no Território do Amapá. e. explicou que os investidores americanos estavam esperando ver se o Brasil se tornaria realmente a democracia que seus governantes prometiam solenemente estarem fazendo. menos frívola. que tem 49 por cento da Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI). mais recentemente. (quem espera sempre alcança!)* a 15 de junho de 1966.” Os temores dos homens de negócios americanos a respeito do povo brasileiro têm se mostrado em geral bem fundados. Sete meses mais tarde. A eleição de outubro resultou em importantes vitórias para a oposição de esquerda. seriam mesmo realizadas as eleições escaladas para outubro? Mas Thomas Mann. 10 de agosto de 1965). não estarem exatamente voando para o Rio. respaldado no exército) de manejar a corte suprema. Mas sua fé no hábil Castelo Branco devia ter sido mais firme. “A impressão é que a incerteza política sobre a continuação das atuais orientações por parte de um governo eleito está impedindo investidores potenciais.UU. Ele esperara 150 milhões de dólares em investimento americano e vira menos do que 20 milhões (NYT.). sendo sócia menor (49 por cento das ações) do magnata do aço brasileiro Augusto Antunes. Disse The New York Times (ibid. no Brasil com uma missão americana de estudo. 103 . ele respondeu à crise da “revolução” com a publicação do Ato Institucional n0 2. que detém 51 por cento das ações na nova companhia de desenvolvimento United Brazilian Mining (ibid. Por volta de agosto de 1965. que estava na mesma missão.

pode-se pensar. Esta firma foi apadrinhada em 1949 com empréstimos para construção de ferrovias concedidos pelo Banco Mundial e pelo Ex-Im Bank. insurreição. a Petrobrás foi no essencial afastada do refino e vendas em meados de 1966 e viu-se limitada à exploração e extração. A economia do Brasil estava paralisada. Neste mesmo artigo discute a questão: São os lucros americanos altos demais na América Latina? Sua resposta é a caráter. 28 de dezembro de 1965).5 milhões de dólares por ano. Mas talvez — quem sabe realmente? — eles sejam ainda mais altos. Segundo o jornal clandestino brasileiro Revolução. No perfil de Antunes. por volta de 13 ou 14 por cento. na mesma área. o governo brasileiro comprometeu-se (1) a nunca expropriar uma firma americana. nióbio. pág. esta mesma ICOMI é citada. Se pensarmos que Rockefeller e Fortune tinham acesso a dados da maior parte de 1965.do tirando. que tiveram permissão de fazer uma incursão de 250 milhões de dólares na indústria de petroquímicos (Time. o lucro da ICOMI é portanto. Fortune diz. mas um elevadíssimo — e quiçás “explorador”? — 46 por cento. Tal. 13 de fevereiro de 1965. em caos e * É como fala David Rockefeller. então o tempo medido é. um argumento para estas alterações democráticas.* A produção de fertilizantes. em 1957. Há.C. Desde seus primeiros embarques de manganês em 1957. foi o argumento pelo qual o golpe de abril se anunciou e explicou. no Fortune de abril de 1966. as operações menos rendosas na indústria de petróleo.” Os números de Rockefeller acima citados são líquido anual. na América Latina. (2) pagar quaisquer danos causados a empresas americanas por “guerra. seu lucro total durante oito anos é de 235 milhões de dólares. Por este ato. é claro. de abril de 1966. “Desde que os embarques se iniciaram. um rico minério atômico. A aprovação. do Acordo de Garantia de Investimentos foi crucial para este “desenvolvimento” da economia subdesenvolvida do Brasil. tem estado girando um lucro anual de 12 a 15 milhões de dólares. Tomados os números de Fortune. e (3) permitir que firmas americanas invistam no Brasil sob os regulamentos das leis americanas (NYT. as especulações comerciais totalizaram 235 milhões de dólares. não um meramente robusto 14 por cento. revolução. durante oito anos. revolucionárias e patrióticas da economia brasileira: a inflação tinha de ser detida. do Chase Manhattan. “O que a livre empresa significa para a América Latina”. exceto com a “total e completa concordância” desta firma. 104 . acordo que certos brasileiros cínicos apregoam ter sido redigido em Washington D. e êle cita um estudo que mostra serem os lucros norte-americanos. greves e sabotagem”. às cegas. tem sido invadida pela Gulf e Esso. anteriormente domínio reservado da Petrobrás. 104) . seu total de lucros até 1965 é de 108 milhões de dólares. Bastante altos. 15 de outubro de 1965. em seu artigo Foreign Affairs. oito anos. Se a ICOMI tem líquido uma média de 13. pelo Congresso Nacional. em grosso. no entanto.

em outros tempos podiam subsistir pobremente dos peixes e caranguejos de água doce dos dois rios. 3 de fevereiro de 1966. Pontezinha. e dois padres indagaram: Que acham de uma * NYT. provavelmente. o desemprego calculado num crescimento para 15 por cento. De janeiro a junho de 1966 o custo de vida já crescera de 25 por cento (NYT. Uma vila é Ponte de Carvalhos. O Business Week. Então um dia. Pense em Dólares”) relata que muitos negócios brasileiros estavam automaticamente aumentando seus preços em 7 por cento cada mês. na maior parte habitadas por negros. Tendo o governo predito um aumento de custo de vida de 25 por cento para 1965. e (assim era explicado) era tudo pelo bem da estabilidade fiscal. de 4 de outubro de 1966. o soldo do exército aumentado. diante dos 80 por cento de 1964. a Union Carbide Company da América veio para as margens do Pirapanga e construiu para si uma cintilante fábrica de produtos químicos. * Porém ele não está desanimado. assim as poluições da fábrica muito cedo mataram os peixes e os caranguejos do Pirapanga e do Jaboatão. uma região notória por sua pobreza. de fato prossegue sua revolução democrática com confiança inabalável. uma estimativa para menos. fazem duplamente no Brasil para os rios brasileiros. Mas é. dava como título de seu artigo sobre o Brasil “preços nas alturas. o Pirapanga e o Jaboatão. salários congelados. 11 de julho de 1966). importações em declínio”. tribunais controlados. há pouco tempo. acharam que deviam fazer alguma coisa. e The New York Times. Mas o que as fábricas de produtos químicos americanos fazem na América para os rios americanos. A polícia não queria saber disso. os dissidentes esmagados. Mandaram emissários fazer apelo às autoridades. Perto delas correm dois rios. Então a gente das vilas decidiu que teria de fazer uma demonstração. de 13 de março de 1965 (“Quando o Cruzeiro faz Espiral. mesmo na empauperada América Latina. 105 . Este número representa vantagem. É portanto duplamente irônico o fato de a inflação estar pior do que nunca. Uma vez que os habitantes das vilas viam agora a morte à sua frente. Ambas as vilas. as indústrias brasileiras nacionais dizimadas. que são ligados pelo preamar. a outra. Uma história brasileiro-americana final. portas largamente abertas ao capital estrangeiro. Foi explicado ao povo que esta fábrica representava “desenvolvimento” e “progresso”. confessou um aumento real de mais de 45 por cento. escolas fechadas. é claro. a reforma do Nordeste abandonada. É sobre duas vilas costeiras no Nordeste do Brasil. mas explicaram que não tinham autoridade.corretivos extremos eram necessários. no governo de Castelo Branco. Mas o desespero faz engenho. As autoridades sentiram pena deles. que greves eram postas fora de lei.

. aglomeraram-se. mais de 2 000 pescadores e suas mulheres e filhos marcharam vinte milhas. Homens e peixes vivem e morrem juntos. como poderão os europeus permanecer Baas [senhor]?”35 Disse o falecido H. e alguns fizeram discursos. despejando de volta no rio envenenado aquilo que tomara sem veneno da terra.. Atrás dele o povo carregava cartazes cujos dizeres contavam muito bem sua história: O rio é nosso pão. A Pirapanga River da Union Carbide Company continuou tranquilamente a fabricar produtos químicos para alguns. o africano. cada um escutando os outros dizerem o que cada um sabia que o outro já sabia. se o direito de voto estiver para ser estendido a não europeus. o segundo Primeiro -Ministro da África do Sul: “Se rejeitarmos a idéia de Herenvolk [i.procissão? Isso é diferente. seu sucessor: “Não há lugar para ele. ou quietamente se juntando ao padre revolucionário Alípio de Freitas. que está trabalhando quietamente no campo. revolução de Castelo Branco. Strijdom. por que era automatizada. Porém. Esta usina não está sozinha em sua quietude. doutra maneira dirigida. em 16 de agosto de 1965. da usina química Pirapanga River. por sobre a ardente estrada principal. F. G. onde alguns doze milhões de negros são os escravos culturais do crescente fascismo “afrikaaner” de três e meio milhões de brancos. Verwoerd. sempre na direção dos tanques e pipas suavemente brilhantes em seu alumínio. padres e pescadores. Sobre a cruz drapejava uma rede de pescar. na comunidade européia acima do nível de certas formas de trabalho. Puxando a marcha vinha um homem carregando uma grande cruz de madeira.. e se os não europeus forem desenvolvidos na mesma base que os europeus. Disse J. no calor do verão equatorial. Chegaram à fábrica. Além da polícia que viera garantir contra perturbações. Ninguém sabia se a procissão seria ou não entendida e seguida. Ou consideraremos a África do Sul. não tendo nunca havido tal coisa em nenhuma das duas obscuras aldeias de pescadores. raça -superior] e. pertencente à Union Carbide Company. e retortas gigantes e redomas. O povo das duas vilas está morrendo quietamente. no atrasado Nordeste.. um fugitivo da inquieta. não havia assistentes. Eis a hora em que viemos pedir a solução.e. disse a polícia.”36 Estadistas americanos afirmaram seu interesse pelo avanço mate106 . O desenvolvimento é a favor ou contra nós? Progresso que traz miséria não presta.

38 Deviam decidir se continuavam ou recuavam.41 Outro é o American Metal Clímax. C. e um consórcio financeiro ad hoc concedeu um empréstimo de 150 milhões de dólares ao governo. Aparentemente foram mantidos alguns encontros em certos centros financeiros. 38 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional.37 Estadistas americanos periodicamente fazem violentos discursos — na ONU. As firmas americanas aumentaram seus investimentos em 23 milhões de dólares (para cerca de 442 milhões de dólares em 196239). subsequentemente.40 A situação estava salva.rial de todos os homens e pela prosperidade dos valores democráticos. porém onde cada uma de três crianças negras morre de subnutrição antes do primeiro ano de vida e 60 por cento de todos os pretos vivem sem possibilidade de adquirir o pão. Read & Co.* os Cavaleiros do Apocalipse do Dólar. Não há caso mais claro de bloqueio desse avanço e desses valores do que o caso da África do Sul. Os gigantes estão lá. nas aulas inaugurais das grandes universidades — contra esta África do Sul apartheid. cujo presidente. Naquele tempo cerca de oitenta firmas americanas tinham investimentos substanciais na África do Sul. do T. 28 milhões de dólares do Banco Mundial e 70 milhões de dólares de “emprestadores norte-americanos não identificados publicamente”. Mas todo mundo compreende que discursos não são ações. onde os brancos têm o quarto nível de vida mais alto do mundo. foi Secretário do Tesouro sob Kennedy e Johnson e passou desde então para o Conselho do Chase Manhattan. entre alguns investidores estrangeiros. Surgiram logo. Um imenso consumidor do urânio da África do Sul (que fi* Célebre “gangster” americano. o capital europeu ficou o suficientemente nervoso para ameaçar a estabilidade econômica do regime. era combinada e direta. até 1953. temores de que uma rebelião sul-africana pudesse estar fermentando. — (N. sendo 5 milhões de dólares de parte do First National Bank. porque quando veio a ação em 1961. Douglas Dillon. os Babe Ruths. o governo se declarou uma república e abandonou o padrão esterlino. Um é a firma bancária de investimento de Dillon. o número de companhias americanas investindo no futuro da África do Sul quase triplicou..) 107 . 10 milhões de dólares do Chase Manhattan Bank. que é proprietário da maior mina da África sudoeste (que a África do Sul considera como sua “quinta província”). A partir daquela crise. Assim indagamos: Neste menos ambíguo de todos os casos qual a natureza material da resposta americana? O massacre de Shapeville ocorreu a 21 de março de 1960. e quando.

e coletando 4 milhões de dólares de Serra Leoa como compensação por suas “oportunidades perdidas”. Consolidated Gold Fields of South Africa Ltd.44 Os super-gigantes são os impérios gêmeos de Harry Oppenheimer.42) Outro é a própria Comissão de Energia Atômica. Inferno para milhões. De novo. globais pelo que diz respeito à extensão.) A CAST pagou sob protesto. estas duas corporações dominam totalmente a vida econômica da África sub-sahariana. retendo a SLST direitos ilimitados sobre profundos depósitos. mas a despeito da taxa pagou um dividendo de 70 por cento para aquele ano. Chase Manhattan. 11 operações de prospecção.gurou em perto de 40 por cento de nossas importações sul-africanas em 1961). um fragmento deste cosmos pode ser forçado a se submeter a alguns ímpios africanos.45 108 . tinha direitos exclusivos sobre o diamante de toda Serra Leoa. 22 firmas indus* Até 1955. First National City. porque transcende a todos os povos e a todas as ligas. (A própria CAST é só um corpo de quarta ordem na hierarquia da Anglo-American. A vitória não foi. Bank of America. idéias brilhantes ou ira de qualquer tribo ou nação. Manufacturers Hanover Trust. completa.UU.. Por si. 11 “outras” minas. nem um ponto abaixo da retribuição do ano precedente. a ponto de humilhar a imaginação de um Dante. Bankers Trust. e a Anglo American Corporation. um elemento da Anglo-American. 15 minas de ouro. Paraíso para centenas. 17 minas de carvão. 5 minas de cobre. Arthur H. por exemplo. Os participantes deste consórcio incluem as caixas fortes da finança incorporada americana. Irving Trust e Continental Bank and Trust. o AMC fornece cerca de 10 por cento da produção total dos EE. é uma figura destacada na orientação das medidas de controle das armas nucleares americanas. Sierre Leone Selection Trust. intrincados pelo que diz respeito às operações e absolutos pelo que diz respeito ao poder. Serra Leoa exigiu uma taxa de serviço da Consolidated African Selection Trust Ltda. Dean. organização origem da SLST. Naquele ano um protesto nacionalista levou o governo a reduzir a área de concessão da SLST às 209 milhas quadradas que estavam sendo trabalhadas (incluindo a rica área de Konor). Não há nenhum corpo legislativo ou judicial que possa enfrentá-la.43 Outro é o consórcio formal dos bancos americanos. que está colaborando com Allis-Chalmers para levar o benefício da força nuclear para a África do Sul. (o antigo vice-presidente da AMC e atual membro do conselho. Morgan Guaranty Trust. é claro. a Anglo-American representa 8 minas de diamantes.* Mas a longo prazo não é simplesmente objeto dos caprichos. Purgatório para milhares. em 1963. que pôs à disposição da África do Sul um fundo de crédito móvel (o capital sendo automaticamente reposto pelo pagamento dos juros) que alcança agora cerca de 50 milhões de dólares. First National of Chicago. De quando em quando. tão imensos pelo que diz respeito à escala. e só na África.

Envolvido também em indústrias de mineração canadenses. do T. crescera para 3. 47. só 17. em 1935. é um bom espécime48 — é que a expansão da indústria.49 Em 1935. de 3. — (N. O mineiro africano fez em média. os números tendo sensivelmente declinado nos anos intervenientes. 196 em 1960. Se quer dizer que o processo imperialista é ele próprio progressista. 203 dólares.50 Os lucros das minas andaram perto de 400 milhões de dólares. são pelo impulso forças libertadoras.264 dólares. caíra para 13. escolas para selvagens (“bush”).4 milhões de brancos. cujo relatório aos acionistas de 1965 devota uma única sentença às operações africanas.3 por cento dos africanos que fizeram o exame de admissão ao colégio passaram. 946. australianas e colombianas. o vencimento médio anual de um trabalhador branco das minas era de 2. e com casas de distribuição em Paris. 7 centros de negócios imobiliários e 31 casas de financiamento e investimento. O fascismo “afrikaaner” mais forte cresce. 41 milhões de dólares * Na África do Sul. Em 1964.47 O que o imperialista liberal apregoa — Englehard. Naquele ano o hiper-segregacionista Bantu Education Act foi posto em prática. Lucros líquidos nestes investimentos foram 87 milhões de dólares. um dos “bush colleges”* apartheid Fort Hare. Se quer dizer que estas forças induzem à violência revolucionária.9 passaram nas provas.triais. Em 1965. concentrados em manufaturas (192 milhões de dólares) e minas (68 milhões de dólares). 33 000 frequentavam universidades. e a resultante transformação da sociedade que esta expansão acelera. do governo. Em 1953.) 109 . Roma e Londres.A.214 dólares. Em 1954. Em 1960. é um diretor do Witwatersrand Native Labour Association. da Englehard Industries e da Anglo-American doméstica. um diretor da Chamber of Mines (que determina níveis para salários nas minas e condições de trabalho) e é um membro da ainda mais exclusiva United States Foreign Policy Association. o imperialista liberal parece horrivelmente certo. Em dez anos a matrícula caíra para uma centena e a média prévia anual de 60 graduações B.46 O embaixador da América junto a Oppenheimerdom é Charles Englehard. No fim de 1964. tinha uma matrícula de 374 estudantes. de 12 milhões de pretos. um amigo íntimo de Hubert Humphrey. está redondamente errado. os investimentos diretos americanos na África do Sul eram de 467 milhões de dólares. e mais desinibidas crescem suas mutilações raciais. Englehard detém direções de 23 companhias sul-africanas. do Native Recruiting Corporation (que importa mão-de-obra negra para o trabalho na mina).

o campo de prisioneiros da ilha do Chaco. não importa às expensas de quem ou de qual causa de ira. Em 1955 o índice agrícola 110 . britânico. não há dúvida. francês e alemão. as forças armadas sul-africanas voam em 36 interceptores F-86 Sabrejet (para interceptar quem?). 24 por cento na manufatura e 31 por cento nas minas. sarin e tabun estavam sendo manufaturados em grande quantidade na África do Sul.55 Consideremos o Paraguai do Mundo Livre. cuja política é não fornecer armas “que possam ser usadas em defesa de apartheid” forneceu 16 bombardeiros a jato Mirage III C (Mach 2) com mísseis “air-to-surface” AS-30. em que a renda “per capita” é de 95 dólares.53 Porém manter paz e quietude. é um jogo do Mundo Livre. e 25 famílias possuem terras iguais em área.56 Alfredo Stroessner detém poder ditatorial absoluto desde 1954. cuja política é “não exportar para a África do Sul armas que poderiam ajudar a reforçar a política de apartheid. 7 bombardeiros de reconhecimento de longo curso Shackleton. e provavelmente o melhor símbolo isolado da democracia crescente de seu regime seja Peña Hermosa. Foi este totalitarismo pelo menos materialmente eficiente? Em 1940. espantou-se ao saber que os gases venenosos somam. com ou sem embargo.51 De público. Contudo. havia 700 em 1965. A França. forneceu 16 bombardeiros leves Buccaneer. 30 jatos subsônicos Vampire e cerca de 500 aviões leves Harvard com uma carga de ataque “per-plane” de 8 bombas de fragmentação antipessoal de 19 libras. onde seus desditosos oponentes políticos estão sendo permanentemente reabilitados. A taxa de lucro era portanto de 20 por cento em geral.54 e que produz 70 por cento do ouro do Mundo Livre. 16 bombardeiros leves Camberra B-12. nosso governo deplora o racismo “afrikaaner”. pode muito bem valer alguns escrúpulos num país que absorve uns extremamente lucrativos 4 bilhões de dólares em investimentos diretos americano.52 Mas. este não é um jogo só americano. que oferece quase em duplo a média mundial em taxa de lucros de investimentos. Bélgica e Holanda combinadas. o Paraguai tinha mais de 2500 firmas industriais.em manufaturas e 20 milhões em minas. e licença para a produção dos carros blindados Panhard. A Grã-Bretanha. cerca de 30 helicópteros Alouette. Impôs um embargo para armas no começo de 1964 (sob pressão dos países africanos independentes) e. transportes C-47 e C-130B (para suprir que fronte?) e cerca de 30 helicópteros Sikorsky (para alcançar rápido a cena de que insurreição?). à Dinamarca.

por outro lado. um rico próamericano auto-exilado no Uruguai. só um por cento da terra era cultivado e o índice era 77. em 1961. pode seguir o caminho de Cuba. o povo haitiano tem a mais baixa frequência escolar do hemisfério (5. ainda outro segmento do arquipélago das Grandes Antilhas. tem um turismo que lhe é muito rendoso. é melhor do que um reformador. e. não importa quão honesto. é uma grande exportadora de açúcar. disse para John Gerassi: “Se toda a ajuda dos Estados Unidos a Stroessner parasse hoje. Carlos Pastore.” Gerassi escreve: Quando repeti isto aos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção. por outro lado. não importa quão desprezível. é a maior fornecedora mundial de bauxita. mas os Guerreiros da Guerra Fria americanos.57 O presidente do Partido Liberal. e sem seu Duvalier.7 por cento.” O argumento de que os açougueiros anticomunistas aceleram a chegada ao poder dos comunistas pareceu não ter peso. um anticomunista firme. as exportações eram pouco mais da metade daquela. Assim. a democracia ainda seria passível de salvação amanhã.era 113.9 por cento). embora a demanda haja se intensificado. mais importante. e. Duvalier tem segurança pessoal garantida por 20 000 homens da guarda do palácio treinados pelos marines dos EE.59 alguns poucos haitianos são muito ricos. podem temer que um Haiti sem seus dólares venha a ser um Haiti sem seu Duvalier.60 Os americanos democráticos podiam preferir que sua ajuda financeira mostrasse melhores resultados sociais do que o tirano Duvalier se mostra capaz de obter. que pode se virar contra nós. e a exportação de madeira em 1956 foi de 229 000 toneladas. Duvalier recebeu mais de 57 milhões de dólares em ajuda da AID e quase tanto em empréstimos dos iguais ao Banco Mundial e o Ex-Im Bank. sendo a seguinte mais baixa a da Bolívia 20. “Em última análise” foi-me dito “a nossa política é de sobrevivência. A Jamaica poderia ser para os jamaicanos aquela ilha paradisíaca que as propagandas de viagem apregoam ser para os outros. e a mais baixa renda “per capita” (70 dólares) da América Latina. Três quartos da terra são florestas de madeiras.6.5. da qual 111 . o menor número de leitos hospitalares e de médicos por habitante.. que resguarda a zona estratégica do Canal do Panamá. Tem pouco mais de dois milhões de habitantes em 4 500 milhas quadradas.”58 Ou o Mundo Livre do Haiti. responderam: “Mas Stroessner é anticomunista. em 1965.UU.

Alcan. 112 . (atrás somente do Canadá. de Mellon. Inglaterra e Alemanha). pode parecer. para um país de uns oito milhões de habitantes (três por cento dos quais. a Mene Grande Oil. dos dados ao pro* Partindo dos números de renda “per capita”. com 93 por cento de seu povo ganhando menos do que 480 dólares por ano? A Jamaica podia ser — pelo menos — a Suíça dos caraibanos. infelizmente.62 O grupo venezuelano que detém o governo tem “direitos de concessão” em menos de um por cento das reservas de petróleo e é por demais subfinanciado para fazer operações lucrativas. Se a pretensão de que a livre empresa americana colabora com a revolução de esperanças em ascensão acabará por fim sendo válida. com a maior parte do restante. Alcoa. a Mobil. Alcoa. conta com mais de 40 por cento da produção total e volume de vendas. mas sim da Alcan. e que tem sido o território favorito dos modernizadores de Rockefeller desde o início do século. Porém o rendimento anual da Venezuela nos 3 bilhões de dólares em petróleo que ela transporta por mar cada ano é somente de 800 dólares — renda coletada dos estrangeiros que controlam o petróleo. poder-se-ia concluir que o segundo lugar mais adorável do mundo para se viver é o Kuwait. de Rockefeler. que não é de propriedade da Jamaica.61 A Venezuela pertence ao mesmo campo. seria a distribuição da renda. Kaiser e Reinolds. com 15 por cento. e Royal-Dutch Shell.63 O dado mais revelador. também verdade que ela é só de 800 dólares e que os dados “per capita” de modo algum representam a verdadeira riqueza nacional ou sua distribuição* e que. cufa renda “per capita” é de 1800 dólares — à frente do Canadá (1600 dólares). E enquanto a pobreza da Jamaica fica pior. É sem dúvida verdadeiro que a venda per capita da Venezuela é a mais alta da América Latina. por exemplo. possuem 90 por cento da terra). com 5 por cento. porém é. O petróleo e o ferro venezuelanos têm um valor médio anual “dockside” de cerca de 4 bilhões de dólares — uma sólida base econômica.UU. os recursos médios. Encaminha-se na direção de dívida maior com estrangeiros. Suíça (1400 dólares). contudo. muito difícil de calcular para qualquer país e quase impossível para os subdesenvolvidos.provêm todas as utilidades do alumínio. Kaiser e Reinolds continuam a transportar para o norte a bauxita jamaicana. Suécia (1300 dólares) e Grã-Bretanha (1100 dólares) e não muito atrás dos Estados Unidos (2300 dólares). Como é que com base em tal riqueza este país está em débito com estrangeiros. Porém não o é. nem se encaminha para isso. então tem de ser válida para a Venezuela. A Creole Petroleum Corporation. que absorveu bem mais de 3 bilhões de dólares em investimento direto dos EE.

porque ele advogava para o Irã o neutralismo ante a Guerra Fria e ameaçava nacionalizar as concessionárias estrangeiras de petróleo.duto nacional bruto sobre o qual é calculada. com reservas de 62 bilhões de barris em 1960. Uma vez que o mercado mundial de petróleo apresenta um abarrotamento prolongado. e a subsequente redistribuição dos direitos iranianos sobre petróleo em favor de companhias americanas (Standard e Gulf). As taxas de produção são determinadas pelas firmas estrangeiras que detêm os direitos de concessão — direitos que estão marcados para expirar em 1984. O Kuwait. onde em 1953 a CIA e a Inteligência Britânica conspiraram para depor o Premier Mohammed Mossadeg. Alguém pode por certo dizer que a Venezuela está sendo “desenvolvida”. 113 . seria prudente diminuir a extração de petróleo e se concentrar agora em desenvolver uma economia urbano-rural diversificada. Alguém então pergunta: Por quem? E para servir as necessidades de quem? O rol é longo. Irã e Iraque). Kermit Roosevelt. da CIA. prosseguindo por 1958 quando a Gulf o fez seu homem “de contato com o governo” e até 1960 quando se tornou um vice-presidente. produziu 601 milhões de barris. parecem ainda mais negras: as reservas conhecidas de petróleo estarão extintas dentro de aproximadamente quinze anos. e que o lucro petrolífero é monopolizado efetivamente por interesses americanos e europeus. Sendo dos cinco maiores exportadores de petróleo entre os países subdesenvolvidos (os outros são Kuwait. através do período do golpe em si.66 Ou deveríamos examinar a Guatemala de 1954. mais de 90 por cento desse terço é só em petróleo.64 Além do mais. a Venezuela tem à um tempo as menores reservas e a mais alta taxa de produção anual.65 O fato é que não compete à Venezuela tomar a decisão. Mas as extrações de petróleo estão longe de serem diminuídas. eleito democraticamente. Deveríamos seguir a carreira do James Bond daquela operação. Arábia Saudita. porque seu modesto programa de reforma agrária ameaçava as terras de cultivo não Uma parte considerável da maior parte da população de países subdesenvolvidos ainda não está na economia monetária. as perspectivas da Venezuela. produziu um bilhão. a Venezuela com reservas de 17 bilhões de barris. onde a CIA ajudou a derrubar o Presidente Arbenz. equilibrada e essencialmente auto-suficiente. Precisaríamos focalizar o Irã. bem mais de um terço são exportações. a longo prazo.

do embaixador itinerante Averell Harriman.70 Ou a malfadada Ghana. John Moors Cabot..)68 Ou precisaríamos examinar as Filipinas. cujas plantações de borracha deram à Firestone um lucro líquido médio de três vezes o montante de toda a renda nacional da Libéria.UU.69 Ou a Libéria. foram concedidos a interesses privados europeus e americanos (Bethlehem Steel). de o amigo íntimo do Presidente Johnson. de o então Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Inter-americanos. ter redigido os acordos de 1930 e 1936 da United Fruit Company com a Guatemala. desde 1946. que possui 275 000 acres da melhor terra de plantação na República Dominicana e que é o maior empregador da ilha (salário médio dos dominicanos. e o qual. de o então Diretor da CIA. parece ter tido apoio da CIA. pertencerem. ser dono de cerca de 10 por cento da National Sugar. de qualquer modo. Allan Dulles. e de o antigo embaixador junto à República Dominicana. Joseph Farland. o Embaixador da Organização dos Estados Americanos. 114 . ao conselho da Sucrest Company. do então Secretário de Estado John Foster Dulles. ter sido presidente da United Fruit Company. pertencer ao conselho da South Puerto Rico Sugar Company. estar para se tornar um vice-presidente da United Fruit Company. Abe Fortas.. Deveríamos examinar detidamente as implicações do fato de o escritório de advocacia. e ao colapso dos esforços ghanenses para alcançar auto-suficiência diversificada. outra filha do humanismo americano. da constituição “nacional” proíbe os filipinos de proteger seus mercados e recursos internos contra a penetração comercial americana — isto é. cujo golpe anti-Nkrumah. que detém acesso privilegiado ao açúcar dominicano.utilizadas da United Fruit Company. ser um membro do conselho da National Sugar Refining Company.. Harriman). da Suprema Corte de Justiça e um destacado retórico do liberalismo incorporado. redigida nos EE. General Walter Beddel Smith. cerca de um dólar diário. na cadeia de Mimba.67 Ou precisaríamos olhar para nossa intervenção de 1965. obstrui efetivamente o desenvolvimento de uma classe empresarial filipina independente. de a casa de investimento privado (Brown Bros.UU. e cujos ricos depósitos de ferro. de o predecessor de Dulles na direção da CIA. cuja “emenda de paridade”. conduziu à abertura explícita da porta ghanense aos negócios dos EE. de fevereiro de 1966. ser importante acionista da United Fruit Company. que importa melaço da República Dominicana. na República Dominicana e demonstrar o fato de seu planejador principal. criança mimada do anticolonialismo americano. Adolf Berle Jr. Ellsworth Bunker Jr.

UU. de isenção ante a Guerra Fria. o principal funcionário econômico do novo regime. A América não é ingênua como um bebê e seu imperialismo tem outras modulações. importação de materiais livre de taxas e uma garantia de que. Omaboe. conduziram diretamente ao reinício da ajuda dos EE. por exemplo. N. onde não há estrutura de classe capitalista. de tempo e liberdade para cultivar um estilo econômico nacional. feita pelo novo governo. por pior que tenha sido empregado. da Câmara de Comércio Africano -Americana. nem tendência interna para estilos de vida capitalistas. não passa de algaravia desejar que aprove estas exigências — as exigências de oportunidade aberta para desenvolver a riqueza natural da nação.” A título de atrativo Omaboe oferecia isenção de impostos por dez anos. Porém. Os Estados Unidos mostraram na Europa que sabem como reconstruir as economias capitalistas destruídas pelas bombas.Como falou E. há o Peace Corps. que. no caso extremo de uma desapropriação. Porém não mostraram no Terceiro Mundo que podem desenvolver economias políticas no estilo ocidental: nos países pré-industriais. sem dúvida materializa um 115 .73 Porém a lista não tem fim. sem olhar para os danos que isto causa aos outros. o esforço aparentemente genuíno de alguma gente da AID (e mesmo da CIA) para encorajar a reforma social sob condições frustrantes e muitas vezes perigosas. a chegada do corporativista americano é de fato um desastre. para esta mesma política.72 Ou a Indonésia. onde o mais aterrador banho de sangue da história e a devolução ou “aquisição” das concessões americanas de borracha e petróleo. Teremos de tentar uma generalização. anteriormente nacionalizadas. de independência política.71 Ou a Índia. de cujo numerário dois terços são controlados pelo governo dos Estados Unidos. Preocupado com a extração de riquezas para exportação e a imediata exploração de todas as oportunidades. em uma reunião em New York. Há. que usou desta força de coação para ajudar a persuadir Madame Ghandhi de que fábricas de fertilizantes movidas pelo dispendioso óleo de Rockefeller eram melhores para a Índia do que fábricas de fertilizantes movidas pelo barato gás iraniano. o ajuste seria arbitrado pelo Banco Mundial. nossa política de negócios pode justamente pretender ter excitado as crescentes exigências revolucionárias do mundo subdesenvolvido. em 20 de maio de 1966: “Queremos que os pescadores da Nova Inglaterra e Califórnia pesquem em nossas costas e montem fábricas de conservas.

. um pouco tolos.5 bilhões de dólares em juros e taxas e consome um oitavo de todos seus ganhos no comércio externo. as descrições mais perceptivas e realistas dos efeitos do imperialismo de Mundo Livre nas regiões atrasadas. [os países subdesenvolvidos] têm 116 . da pilhagem fria e da força do napalm. A América não é a amiga. “viram os preços de exportação de seus metais descerem de 40 a 50 por cento durante os últimos anos. P. custa anualmente 4. cujos lucros latino-americanos são imensos.. México e Bolívia”. Peru. e deve-se concluir que a boa gente da AID. o Peace Corps. que se pode mostrar muito valioso para o povo da Ásia.S. Pode-se desejar que o Peace Corps fosse o Departamento de Estado. É com frequência deles que conseguimos. A América. fez em 1958: “Chile. “Para conseguir suficiente câmbio externo para o que importam. e mesmo assim deixar as massas num estado tão mau como sempre”. o Rice Institute estão apenas desempenhando papéis marginais e auxiliares.”75 Os editores de Fortune mostraram que a dívida a longo prazo dos países subdesenvolvidos. de fato. frustrada e assustadora cujos motivos fundamentais parecem tão compulsivos e cujas reivindicações fundamentais parecem tão justas. que o mundo em crescimento experimenta mais profundamente. ele mesmo reconheceu que “sermões sobre a importância da empresa e investimento privados e a utilidade do capital estrangeiro [nos países subdesenvolvidos] são. Presidente de Grace e Co.. mas a inimiga daquela revolução deformada. Grace Jr.. um esforço conjunto das fundações Ford e Rockefeller. Ele não é nem mesmo um igual da terceira linha da CIA. Porém preocupados capitalistas incorporados não são tão difíceis de achar. disse Grace. Ao mesmo tempo. pode mesmo incrementar a produção. Marines [fuzileiros]. nas Filipinas. o preço médio que a América Latina paga por suas importações dos Estados Unidos subiu cerca de 11 por cento. desde 1951. Gerassi cita a declaração que J. alguns 40 bilhões de dólares em 1966. Adolf Berle Jr. É difícil entender como poderia ser diferente com o estado incorporado.. Mas todos os imperialismos produziram seus anjos de misericórdia. que tem sido um analista simpaticamente perspicaz do corporativismo americano. Se estes representassem a essência do comportamento. Investimento estrangeiro e/ou privado pode industrializar.74 Pode parecer estranho ouvir isto justamente do Berle. há o Asian Rice Institute.. a força impulsora principal da política externa americana. desigual. um humanista político poderia se esforçar decididamente seguindo essa política sem muita hesitação.desejo popular americano de servir de ajuda a outro povo. é a América da United Fruit e dos U.

“de uma espécie de guerra de classes.que pedir emprestado mais. Contudo.. não de substância. portanto pré-anulando 16 por cento de todos os ganhos de exportação. de que seja. e isto não é uma herança realmente confortável para deixar aos filhos de alguém. complacente. o que por sua vez significa que terão de enfrentar maiores custos e encargos.”76 Sanz de Santamaria. há sempre uma sugestão implícita de que o homem que melhor pode solucionar este problema não é outro senão o próprio capitalista do Mundo Livre. as reservas do grupo menos desenvolvido não só pararam de crescer. branca. nas palavras de Miss Ward. causado pelas corporações americanas. Colonialismo é a única causa da fome na América Latina. enfrentem a possibilidade nítida. internacional. Porém há só uma diferença de tom. Para analistas tais como [Barbara] Ward de Grã-Bretanha. entre aquele raciocínio e as seguintes passagens da página editorial do Wall Street Journal: As nações industriais acrescentaram perto de 2 bilhões de dólares a suas reservas. em parte preponderante. de que este problema [em vez do comunismo] seja o que está por detrás da revolução do Terceiro Mundo.. Ao mesmo tempo. um dos mais destacados economistas do Brasil e um antigo presidente da Food and Agriculture Organization [Organização para Alimentos e Agricultura] da ONU.”79 Mas há raramente uma indicação de que este problema seja causado por alguém. destacou o mesmo ponto: “Só a amortização da dívida [da América Latina] requer 1. altamente burguesa.”78 Isso podia parecer um amargo exagero.. muito rica e todos os demais. estes analistas temem que os Estados Unidos. presidente da assembléia do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso. Parece ser sem dúvida verdadeiro que muitos aspectos do problema do desenvolvimento podiam ser resolvidos por essa figura — bastaria que ele se afastasse do quadro. escreveu que ela “nada mais é senão puro colonialismo.” “Todos os demais” inclui aproximadamente dois terços da população da terra. Mas como será ele persuadido a fazer 117 . Muitos diplomatas e economistas consideraram as implicações como preponderantemente — e perigosamente — políticas. e outras ricas potências industriais do Ocidente. espalhados através de cerca de 100 nações. mas declinaram alguns 200 milhões de dólares.”77 Josué de Castro.7 bilhões de dólares este ano [1966]. A menos que possa ser revertido o presente declínio. a significação de tais estatísticas é clara: o abismo econômico está se alargando rapidamente “entre uma muito pequena elite do Atlântico Norte..

com os negócios públicos severamente orientados pelo nacionalismo. isso só acontecerá através da ação competitiva independente de outros capitalistas. e que está inalteravelmente comprometido com a ideologia política da livre-emprêsa? Considere-se que o compromisso do capitalista com o capitalismo. e sem as mãos protetoras dos Departamentos de Comércio e Estado. Em teoria. exercendo a regulamentação da indústria. não há muito tempo atrás o arqui-inimigo do homem de negócios americano. autocrático. suas vitórias contidas. centralizado. como alcançar seu descompromisso de um governo que sempre considerou os sucessos dele no estrangeiro como sendo sucessos privados da América. Porém constatamos um problema: Mesmo em nossa economia. e portanto reconstituir a dinâmica do mercado aberto e livre. comércio e finanças. e o perdedor fica mais fraco. agora se torna seu deliciado e delicioso parceiro. A competição é ganha. e a ajuda ativa dos mascates de armamentos do Departamento de Defesa. O poder se condensa nas mãos de grupos vitoriosos cada vez menores. rígida censura e supressão da oposição pela força. as companhias de açúcar não podiam enfiar sua garra letal nas economias dos pequenos estados desde o Caribe ao Pacífico Central. Vê-se na América o surgimento (talvez seja tarde demais para tal palavra) do que só podemos descrever como estado fascista um pouco mais tolerável e domesticamente benigno. não engloba um compromisso com outros capitalistas. cada vez mais integrados e colaborativos. Sem as Forças Especiais e Fuzileiros do governo federal. Fascismo — um termo extravagante? A definição do Webster’s: “um regime nacional. a United Fruit não podia dominar a Guatemala. as corporações não podiam se multinacionalizar. E o governo federal. Sem grande governo.isso? Entregar em nome de quem quer que seja os imensos lucros que ele considera sua principal função fazer? Além do mais. A ideologia obriga-o só a competir. novos capitalistas. emergem decididamente para criar e controlar nova força. e permanente. Se sua dominação estiver para ser restringida. a General Dynamics não podia continuar a engordar com vendas de armas à Europa. o grande negócio estaria perdido. e a moralidade decorrente obriga-o a ganhar o quanto possa. contudo é assim que se supõe operar o sistema: novos empresários. supostamente modelo. e o vencedor fica mais forte. Sem a AID e o Banco Mundial. Sem os subsídios ao açúcar do governo federal. perdida.” Nas últimas duas 118 . Sem a campanha de venda da Guerra Fria do Departamento de Estado. há um rompimento em aceleração deste sistema de limites baseados na competição teoricamente circunscrita ao país.

porque o homem de negócios que fizer isso. pode (às vezes sim. quando prossegue em cruzeiros externos? David Rockefeller pode muito bem exortar seus companheiros homens de negócios a “demonstrar [aos latino-americanos] que um novo tipo de capitalismo evolveu. que agora é levado a efeito. comércio e finanças — são estes muito claramente os aspectos dominantes de nosso sistema. poder adiar o julgamento. não a reorganização de poder no mercado. E o ato normativo de competição. Deverá ser estabelecido através de competição com outros capitalistas. o Terceiro Mundo é uma vantagem comercial. com sua moralidade.”80 E pode ele muito bem desejar que alguém aceite seu conselho. E para ele. presente ou futuro o persuadirá de deixar passar quaisquer vantagens comerciais que possam chegar-lhe às mãos. de alto-abaixo da indústria. mas muito real e muito burocrático. não ocorre entre grupos empresariais independentes e aparentemente não é travado em termos da superioridade do produto de um homem sobre o de outro (a “superioridade” de produto sendo agora comprada. Governo forte e grandes negócios são em essência a mesma coisa. De qualquer forma. e o fim supremo dessa competição é a sucessão interna de poder e autoridade: não onde o poder será deslocado. Por que devemos querer mudar isso? A United Fruit Company pode ser “esclarecida”. combinado com responsabilidade social para com a comunidade como um todo. 119 . mas quem vencerá a ocupação dos presentes lugares de poder. o nacionalismo sofisticado de nossa política externa. onde estão os capitalistas competitivos do Terceiro Mundo? E como estão para ser produzidos? E quem os produzirá? Nada do que o homem de negócios americano possa ver no passado. Ao contrário. eu espero não esperançosamente demais. homogêneo e irregular. este mesmo Rockefeller esmagará. baseado no conceito de um lucro justo para a livre empresa. O Terceiro Mundo é aquela mina de ouro exposta e desprotegida onde seus investimentos em dólares rendem melhor do que em qualquer outra parte. a “regulamentação” (nossa palavra é racionalização) de facto. de uma agência de propaganda). Mas centralização nas decisões econômicas e políticas básicas.considerações. não há necessidade de omitir uma já inofensiva dissensão. Então. mas a aquisição de poder dentro do sistema fechado que o comanda. Pretenderá alguém que o apetite de dominação que estimulou o crescimento deste estado incorporado vá se restringir a si mesmo. quase empacotada. a competição crucial se processa no interior de um monolito comercial. A idéia do capitalismo é que o “lucro justo” não deverá ser determinado por um capitalista cristão sozinho.

como sempre foram. inteligentes. não manipulados. não hostilizados. Em uma palavra. Porém construir aquele Vietnã “americano”. E no fundo. Porém. Não tenho motivos para supor que uma tal metamorfose esteja para transfigurar este ianque. porque deve ela desejar entregar a posição privilegiada que ocupa ali. não pode ser tarefa de capitalistas americanos. Os realizadores do progresso social são aqueles cuja condição o requer. pela primeira vez em sua vida. esta revolução nada mais é do que o surgimento de competidores que empregam os únicos meios de competição disponíveis para eles. escolas e hospitais em cidadesmodelos da companhia. no melhor sentido. que podem algum dia tornar-se bastante fortes para oferecer-lhe alguma competição? Desde quando é o capitalista o guarda de seu colega? Como homens comuns. Os agentes de mudança neste mundo são hoje. 120 . cujo objetivo fosse a destruição da atual hegemonia americana. Teria de mudar inteiramente seu estilo de pensamento e ação. impessoal por um Terceiro Mundo. tudo em nome de algum empoeirado ideal humanitário? Ou por que devia ela se regozijar em ver o surgimento de capitalistas locais. americanizado. tanto como a construção da nação americana não podia ter sido tarefa dos mercantilistas britânicos. dentro de suas plantações nas “repúblicas das bananas”. teria de se tornar um socialista revolucionário. ao dar uma vista d’olhos no resto do mundo. aqueles cujas vidas combalidas estão mais necessitadas de mudança. Podem mesmo se sentir compungidos com as sangrentas implicações do que vêem. Teria de reconhecer a diferença de interesses. casas. Teria de suplantar sua ética do dinheiro por meio de uma ética social. Para as coisas se apresentarem diferentes. e podem mesmo ter uma preferência ideológica. os corporativistas americanos podem enxergar a verdade tão bem como qualquer outra pessoa. um bem econômico dual.às vezes não) construir estradas. e tomar partido contra ele mesmo. brasileiros e guatemaltecos independentes. aquela Guatemala de classe média — se isso afinal é o que aqueles países querem — aquela é tarefa de vietnamitas. de trabalhar em favor de sua competição. o livre-empresário ianque teria. A revolução é a livre-emprêsa coletiva dos coletivamente despojados. aquele Brasil dinâmico e à feição de livre-emprêsa.

V O Caso do Vietnã A supremacia comercial da República significa que esta nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. de algum modo. E uma vez que os Estados Unidos se comprometeram tão sem reservas com a salvação à Mundo Livre do Vietnã. esta linha de análise é também obrigada a mostrar que o Vietnã é. de alguma forma. substanciais ao ponto de justificar uma guerra assim perigosa e ilimitada? A guerra agora 121 . São os interesses comerciais americanos. Bevebidge. naquela parte do mundo. mas controle externo versus controle local do Vietnã — isto é. e por quem. Senador Albert J. 1898 Se o anticomunismo da Guerra Fria é mais basicamente uma máscara ideológica para o imperialismo de Mundo Livre. tão pobre e tão atrasada. então se pode ser capaz de mostrar. crucial para a segurança e progresso do estado comercial americano. mostrar que a guerra está sendo travada para determinar como. É precisamente neste ponto que a teoria do imperialismo se defronta com uma simples e séria objeção. E a regra de ouro da paz é inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. a economia política vitnamita será desenvolvida. Pois as lutas do futuro devem ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. que a questão na guerra do Vietnã não é liberdade Ocidental versus escravidão Oriental.

Há quatro pontos importantes debatidos abaixo. Newsweek traz um ensaio chamado: “Saigon: Uma Cidade Boom* para os Homens de Negócios dos EE. Esta observação de inteiro senso-comum. e poderia facilmente ultrapassar esse recorde sob condições normais. de Edmund K. — (N. Talvez fossem divulgados para incentivar o entusiasmo da comunidade dos negócios por uma guerra que cria alguns aborrecimentos internos (p. Faltermayer. e que em sua fusão de motivo imperialista e ideologia anticomunista.UU. a guerra não é somente exemplar. que exportou um recorde de 83 000 toneladas de borracha. é um paradigma dele. no caso. inflação. recursos. crédito mais restrito).ex. Em seu número de 1 de janeiro de 1966. sob o título “As Surpreendentes Vantagens da Economia do Vietnã do Sul. escassez de mão de obra em algumas áreas-chave de especialização. Encontraremos que a política da América no Vietnã não ilustra meramente o imperialismo americano. escreveu Faltermayer. impostos mais altos. estes artigos — e em especial o de Faltermayer — devem ter convencido muitos de que o Vietnã do Sul é um petisco delicioso bastante para valer a pena ser salvo.” Ele nota que o país poderia se tornar um exportador de açúcar e algodão. ambos os quais agora importa. Mas investiguemos o caso com maior curiosidade. que o delta do Mekong. existe um interesse comercial americano direto no Vietnã. população ou semelhante. em ordem crescente de importância: Primeiro. com seu aspecto tão persuasivo.) 122 . “tem o potencial para se tornar uma das mais ricas nações do Sudeste da Ásia. Porém qualquer que seja o motivo. rápida valorização no mercado de valores e títulos.está custando aos americanos acima de 20 bilhões de dólares por ano. em 1961. é também um clímax. a “tijela de arroz” que agora produz cerca de quatro milhões de toneladas * Desenvolvimento rápido de valor. “Um Vietnã do Sul protegido do comunismo”. nos leva a abandonar a teoria imperialista (pelo menos para esta guerra) e voltar a uma explicação mais puramente “política” e não comercial. Quantos anos levará um Vietnã “salvo” para começar a pagar dividendos para essa espécie de investimento militar? O guarda-livros observará que salvar o Vietnã está nos custando muito mais do que o que possa jamais ser igualado por qualquer vantagem “colonial” resultante.” Um trabalho similar.” Há a possibilidade de ambos os artigos terem sido um tanto planejados ou calculados. do T. apareceu no número de março de 1966 do Fortune.

Outra indústria têxtil foi parcialmente financiada pela Johnson International Corporation. A American Trading Co. portos e estradas (“infra -estrutura” econômica) e seus contratos devem eventualmente atingir 700 milhões de dólares. controla 18 por cento de interesse numa fábrica de papel dirigida por americanos. Dairies. já era o maior empregador privado no país. um combinado de construção formado por Raymond International. Brown & Root. seja do tipo socialista. e Brownell Lane Engineering Co. A firma de New York. pode mudar radicalmente nos próximos anos. e J. disse Newsweek. ele diz. O Chase Manhattan e o Bank of America abriram filiais em Saigon. A Shell Oil e o governo sul-vietnamita participaram da especulação. Enfatiza que nosso investimento direto total no Vietnã é. com 25 000 trabalhadores em sua lista de pagamento. da Califórnia. tratores. A RMK-BRJ é a principal contratante do enorme programa de construção militar.1 O gigante é RMK-BRJ. a primeira do país. 20 a 30 por cento em seus investimentos. Os pioneiros capitalistas já estão firmando suas pretensões. e planeja um incremento de mais 75 000.UU.. que inclui bases aéreas. “Nunca antes”. caminhões e locomotivas de estrada de ferro — e lucrando. e a refinaria poderia ser incluída no proposto complexo industrial de Cam Ranh Bay.de arroz. Morrison-Knudsen. seja do capitalista. ramis e “kenaf” — virão saltando do solo para os porões dos navios cargueiros. poderia produzir de 12 a 15 milhões de toneladas. amplamente aberta no Vietnã.. tem interesse controlador em uma nova fábrica de leite condensado e meio-interêsse em uma nova indústria têxtil. a borracha. com um capital de 5 milhões de dólares em Bien Hoa. Porém a mesquinharia desse total é em si um engodo claro: Há uma nova fronteira de oportunidades. o açúcar e o algodão — e as promissoras colheitas industriais. Para isso será preciso capital. juta. Jones Construction. Até março de 1966. Não é por mágica que o arroz. no momento. em média. não mais de 6 milhões de dólares. anualmente. Parsons & Whittemore. seguiram suas [sic!] tropas na guerra em tal escala”. estão estudando propostas para construir uma refinaria de petróleo no valor de 16 milhões de dólares. “os homens de negócios dos EE. Faltermayer procura não exagerar a importância da presente jogada. A. 123 . A Esso e a Caltex. estão vendendo e fazendo a manutenção de equipamento pesado — “bulldozers”. A situação.

” Como todos os homens de empresa. Os planos da mesma refinaria. Destes.(É surpreendente. Faltermayer oferece um forte candidato na pessoa de um empresário de New York. por certo.UU. e que os homens de negócio pudessem de imediato ocupar. chamado Herbert Fuller. de 16 milhões de dólares. já estavam “em estudo” em abril de 1962. que Faltermayer apresente esta “especulação” como algo novo.”2) Um importante aspecto do quadro comercial é. alcançam um quarto: 550 milhões de dólares. Ou quer? Deparamo-nos com um problema de visão. financia negócios no exterior. um passo atrás delas. Fuller mais uma vez leva à frente seus planos porque julga que os Estados Unidos agora têm o encargo de salvar o Vietnã. a doação de dólares americanos para financiar a importação vietnamita de mercadorias americanas. Já citamos Forbes (que se intitula uma “ferramenta capitalista”) sobre a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID): “é a principal agência por meio da qual o governo dos EE. Em 1967. Fali. “Estou nisso por dinheiro”. E então? por que é tão errado nossos homens de negócio estarem logo atrás de “suas” tropas? Não há nada estranho na busca de lucro e oportunidade.. como devem fazêlo mais cedo ou mais tarde. segundo o erudito da Indochina Bernard B.. este capitalista americano estará literalmente. Se 85 por cento disso é dispendido em exportações americanas. que acrescentou à história uma nota tocante: “Há forte evidência de que o governo americano “convidou com urgência” as companhias petrolíferas a realizar o contrato a fim de mostrar a confiança americana no futuro do Vietnã. o Vietnã do Sul deve se alinhar entre nossos dez maiores compradores. Fuller diz: “Podemos obter de volta nosso investimento em dois anos. Todas as novas fronteiras precisam de seus Paul Bunyans. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. 85 por cento é gasto nos EE. contudo. colonizar e começar a desenvolver o chão há pouco limpo por nossas tropas não quer significar que seja por eles que as tropas lá estão. as parcelas da AID entregues ao Vietnã eram perto de um sexto dos 2 bilhões totais. em produtos americanos e matérias-primas: “Em 1966. É difícil considerar es124 .UU. cabeça de um grupo investidor que desde 1958 tem estado promovendo uma usina de açúcar de 10 milhões de dólares para a cidade costeira de Tuy Hoa: Quando as tropas chegarem para limpar a área.

se tiverem a habilidade e a capacidade para fazê-los. Portanto. Leve-se em conta que desde 1946 o governo federal tem dedicado cerca de 60 por cento de seu orçamento para apoio do complexo militar industrial. são livres para nele fazer negócios. uma política militarizada pede uma economia militarizada. quando Faltermayer fala de “salvar o Vietnã” está falando ao mesmo tempo de salvar ambos. mas não especialmente significativo. livre-emprêsa e liberdade. Sem dúvida. em 20 anos um total de mais de 850 bilhões de dólares.”3 Analisemos por alto a visão que essa afirmativa torna concreta e obteremos uma exaustiva descrição ideológica da guerra do Vietnã. uma outra cidade costeira. o mercado de ações teve sua baixa mais 125 . e o primeiro é uma instância da realização deles. Não está sendo travada em favor deste Herbert Fuller. Quando não há livre-emprêsa o país é comunista. ninguém pensa que os fuzileiros renunciariam à conquista de Tuy Hoa. diz Arthur Tunnell. Este é um fato político. e que serão. como colônia de conflito. A guerra seria a mesma com ou sem eles. Está sendo travada pela liberdade ou para afastar os comunistas. elas próprias “livres”. O Vietnã. Seu aparecimento nele parece incidental — talvez importante. quer imediatas quer a longo termo. A definição diz que um país é livre quando americanos. como veremos. Porém. assim é tão só porque se imagina ser o Vietnã a chave para áreas maiores — áreas cuja acessibilidade comercial é importante para nós. ajuda a guiar esta roda. “haverá aqui um grande futuro para os homens de negócios americanos. ao estilo ocidental — porque os dois últimos são considerados como se definindo mutuamente. E livre quando lá há livre-emprêsa. Não há dúvida de que a importância do Vietnã está muito mais basicamente em sua posição geográfica e histórica do que em suas potencialidades comerciais inerentes.tes homens de negócios particulares como sendo de qualquer modo cruciais para o drama do Vietnã. ele e a região para Fuller. a economia militarizada pede uma política militarizada. “Após a guerra”. que nem Fuller. quando Khruschev veio a Camp David e a Guerra Fria parecia suspensa para reavaliação. do escritório de Saigon da Investors Overseas Services. Segundo. Em 1959. Mas o que julgamos que “liberdade” significa? E qual é o propósito real em manter os comunistas afastados? Nossa definição funcional de um país livre fica clara perante nosso comportamento. Se Fuller decidisse que o projeto de Tuy Hoa era uma aposta má e voltasse para New York. “capitalista americano”. dependendo da nossa possibilidade de fazer negócios nelas. ou não serão.

eis que de súbito aparece um herói inesperado que ninguém ficou realmente surpreso de ver. Ninguém. Porém. no particular. porque aquilo que uma economia de alto emprego produz tem de ser vendido. Quer vá para a vida mansa. Eisenhower voltou de Paris devido aquele U-2 abatido (uma novidade Lockheed). nada percebem da economia de capitalismo de estado. então. Era profundo? Havia perigo real? Uma agitação de discreta incerteza se fazia presente. Aqueles que argumentam que devemos ter sido forçados a travar a guerra do Vietnã. um fato econômico chave referente à defesa do produto: Não é produzido à custa de necessidades domésticas reconhecidas. William McChesney Martin Jr. muito menos terminaria em breve. o produto tem de ir para algum lugar e tem de ser pago. em 1960.”4 Durante o verão de 1965.. foram drenadas para fora aos bocados e pedaços. Confessou mesmo que a economia o fazia pensar em 1929. Quando. e logo se soube que seus custos diretos iriam pelo menos a 21 bilhões de dólares por ano. sobre o metabolismo nacional. Não se dá o caso de os americanos fazerem filas para comprar 126 . Parece que temos de gastar. acima de tudo. Porém o então presidente da Junta Federal de Reserva [Federal Reserve Board]. uma vez que é tão antieconômica. a página financeira do New York Times tinha como cabeçalho “Fracasso da Cúpula um Tônico para o Mercado. no geral. os que emprestam e os que tomam emprestado e seus analistas começaram a murmurar inquietamente. A Administração parecia tender para a confiança. a especulação altista ganhara sua moratória. Os efeitos econômicos da guerra são tudo menos sem ambiguidade. Tendo se jogado para o futuro num ato de fé. certas pessoas bem informadas estavam de novo aborrecidas com a economia nacional. a guerra é boa para a economia porque a economia sofre o acréscimo de subsídio federal. sabia como reagir a este “crack”. depois voto de confiança. Nesta atmosfera controlada de “Perils-of-Pauline”. que não estava convencido de que as coisas estivessem tão bem quanto deviam estar. Consideremos. em lugares públicos. como é muito bem sabido. O herói era a guerra: Não seria encurtada. e subsídio militar. começou a dizer em altas vozes. Isto foi chamado do “nervosismo de paz” (peace jitters). quer para o limbo dos silos do governo. no consenso do especialista.violenta em cerca de quatro anos. notícias de um debate importante no “santo dos santos”. A guerra gera muitos problemas reais de administração fiscal e anomalias perturbadoras nos padrões do câmbio externo. Por mais nervosa que permanecesse.

o de De Gaulle no Ocidente. técnicos. por causa dos tanques. intermediários. empurrando-o de tempos em tempos. que todo mundo sabe muito bem não serem a sério. olhando para ele fixa e solenemente. qual é a política da América referente à militarização da Europa? Durante os passados quinze anos 127 .automóveis que. esmaecesse até que um dia alguém notasse que desaparecera? O que seria desta gargantuesca Lockheed. que não poderia alcançar de outro modo. os grandes debates no Congresso. Não se pretende que a guerra do Vietnã tenha sido determinada só para animar uma economia superdesenvolvida e inflexível por meio daquele mercado “externo” e “expandido”. onde estariam os viciados? Obviamente: nos hospitais. os submarinos. conduz em ambos os lados da Cortina (dos quais. onde não se pretende que a “ameaça” esteja aumentando. Talvez mesmo de natureza revolucionária. participamos todos como cúmplices do grande segredo de estado. Afinal não tão profundamente. bem na superfície da intuição. que é o de não estarmos em perigo real de ser abandonados por esta “ameaça” que conserva o estado corporativo em sua disposição de luta. economistas e homens de negócios. estes homens de ciência. Mas o que seria se a guerra do Vietnã terminasse e a China dissesse: sigam em frente? O que seria se a Guerra Fria esmaecesse. e o de Ceausescu no Oriente. Todavia nesta atmosfera de calma e confiança. O oposto é verdade: mais comércio com o Leste da Europa e com a URSS. O oposto está muito mais perto da realidade: Se não se gastasse com os tanques. a legislação capacitadora para a orientação da conversão industrial de defesa-para-civil? Quem está quebrando cabeça com as respostas? Temos uma quantidade de variadas comissões fita-azul de cientistas. os aviões. após vários anos de pregação e aparente prática de coexistência. sofrendo terapia muito dolorosa. não são fabricados. economia e negócios? Realmente parece não importar. administradores e operários da linha de montagem que emprega? Ou das dezenas de milhares de lojistas. porque só cercam o rochedo. Observe-se a Europa. emprestadores e fornecedores que seus salários mantêm em atividade? Onde estão os planos concretos. Que mais? São tolos. com seus 500 milhões de dólares só em pesquisas e contratos de desenvolvimento? O que seria dos altamente especializados cientistas. os mísseis — onde estaria a economia? O que equivale à pergunta: Se não fosse pela heroína. são somente os mais dramáticos) a impulsionar a Europa em direção ao acordo e integração. Eles são um pouco mais espertos do que Sísifo. engenheiros.

Tal demora pode ter algo a ver com a recessão e problemas orçamentários da Alemanha. Kuss foi condecorado com a medalha “Meritorius Civilian Service. Kuss Jr. e se tivessem de alguma forma qualquer efeito no mais amplo 128 . General Dynamics.3 bilhões de dólares. Lockheed e McDonnell. a Alemanha “tem sido encorajada” a adquirir materiais militares americanos no valor de 1. equipamento militar no valor de 35 bilhões de dólares. que a Guerra Fria degele se quiser.nós demos. Muito conveniente o fato de as “necessidades” militares da Alemanha serem tão próximas de nossas despesas. não se preocupe. Delegado do Secretário Adjunto de Defesa para Negociações Logísticas Internacionais. no período 1966-67. prosseguirão naquela escala elevada num futuro previsível. As vendas militares externas no primeiro trimestre de 1966 foram as mais baixas desde 1964. Para compensar estes pagamentos dos EE. as vendas de exportação militar subiram a mais de 9 bilhões de dólares e o lucro dos fornecedores de defesa americanos totaliza cerca de 1 bilhão de dólares — belamente concentrado nas mãos de três grandes e altamente influentes firmas. Mas o exame mais elementar do que está acontecendo agora na política européia tornará claro que armamentos — em ambos os lados — são crescentemente irrelevantes para a paz e estabilidade. Mas pouco temos com isso. Precisamos nos livrar destes bens. como se as vantagens financeiras que nos vêm de sua venda fossem só um feliz incidente. em reconhecimento ao “intensivo esforço de vendas” de sua seção. se a ameaça está diminuindo? Acontece por que nossas vendas militares no exterior representam uma de nossas maiores ajudas em nosso deficit crônico de balança de pagamentos.5 Por que tal acontece.UU. ou vendemos. O vendedor número um — o Pentágono chama -o “negociador” — é Henry J. que parece ter um pouco mais de cuidado com a necessidade e capacidade de pagar dos compradores do que qualquer vendedor de carros usados comum: A boa qualidade das armas é uma necessidade bastante válida e se o preço parece alto. Desde a metade de 1961. Argumenta-se que estes armamentos estabilizam o mundo e fazem a paz. As vendas militares ultramarinas para 1965 eram cerca de 2 bilhões de dólares e. Em maio de 1965. e a grande razão foi o atraso da Alemanha em dar o “de acordo” para as compras.”6 Eis um exemplo de primeira: a Alemanha ganha cerca de 675 milhões de dólares por ano das tropas americanas ali estacionadas. Mas a Alemanha parece relutante em comprar o que insistimos não poder ela dispensar. Estas vendas são promovidas ativamente pelo Pentágono.. uma outra parte de nosso governo oferecerá um empréstimo com cláusulas favoráveis..

têm qualquer coisa a ver com a Guerra Fria. nem a vendetta de Nasser com a Arábia Saudita.. caso vencesse tais lances.. apesar disso. ao mesmo tempo. o Pentágono dá um jeito de achar as propostas inglesas não inteiramente segundo o modelo.. que “as armas que fornecemos. A eficácia do crédito para compra de armas dos EE.”7 Por pior que tenha sido — e ainda pode ser de novo o embate Índia-Paquistão nada será comparado com o que poderá irromper a qualquer momento no Próximo e Médio Oriente. o Paquistão não teria buscado uma solução militar para a disputa do Kashmir.UU. ninguém pensa que os russos estão para vir rugindo Cáspio abaixo. seria um negativo e obstrutivo. Porém. é um negócio embaraçoso. Fora da Europa. Uma sequência interessante tem início com o nosso pedido para a Inglaterra comprar aviões de combate americanos. a Inglaterra agora necessita fazer vendas para “contrabalançar” seu desequilíbrio. causaram a guerra entre a Índia e o Paquistão. Assim. pagará estes aeroplanos. declaradamente os Lockheed F-104. em 25 de abril de 1966. “não para estimular e promover a corrida armamentista no Oriente Próximo e nem para encorajá-la por nossa participação direta. Mas a Grã-Bretanha ainda tem seu deficit. e era uma vez a política americana (tal como foi esclarecida por Rusk recentemente em janeiro de 1966).”9 Ênfase acrescentada. Vender armas para Israel e o mundo Árabe. porque supomos que temos de fazê-lo. a realidade contradiz a tese de armas para a estabilidade. testemunhou ante o Comitê de Relações Exteriores. que custam 2 000 000 de dólares a unidade. Nem a guerra Árabe com Israel. o Departamento de Estado anunciou um acordo para vender à Jordânia (que já possuía tanques americanos) “um número limitado” de avançados aviões bombardeiros de combate. ou através dos montes Kopet. isto resultaria numa perda de mercado para os fabricantes de munição americanos.”8 Pouco mais de dois meses após essa declaração. é sem dúvida um importante fator. O Senador Eugene McCarthy comentou: “Não fica claro como a Jordânia. Tendo concordado.UU. Vem à cena a Arábia Saudita. Permite-se portanto à Inglaterra fazer ofertas para os contratos de munição americanos. convencida de que estará em perigo enquanto não tiver uma grande frota 129 . Os vendedores americanos estão contentes. e que se tem mostrado dependente das doações militares e ajuda econômica dos EE.padrão da reintegração européia. com um PNB “per capita” anual de 233 dólares. Se não tivéssemos fornecido armas.. de maneira ainda mais ominosa. O antigo Embaixador na Índia. John Kenneth Galbraith. assim o fazemos por trás do muro o quanto podemos — mas o fazemos..

E nós. Além disso. e os luzentes armamentos precisam portanto ser negociados.. Quem poderia negociar aspirina se não houvesse dor de cabeça? Todavia o que é mais anti-dor-de-cabeça do que a aspirina? Aspirina preventiva. 7 000 foguetes nucleares de longo alcance. seu poder de inspirar nosso capitalismo declinar. E essa negociação é mais fácil se há uma certa inquietação no mundo.. Por trás dos engenheiros. A Guerra Fria. os melhores. “incentiva a demanda de bens. O sistema precisa crescer e se valorizar altissonantemente. o suficientemente grandes para pôr um fim às coisas e proteger o sistema de se tornar supérfluo. Mas o mundo não devia esquecer o que é uma dor de cabeça. A Grã-Bretanha. uma pequena tensão e ansiedade. em consequência disso. quando pusemos. acelera o progresso tecnológico e assim ajuda o país a levantar seu padrão de vida. nós temos ameaças preventivas. Atrás deles postam-se seus engenheiros. pelo qual falam. contra o pano de fundo da política americana em Israel. Assim para prosseguir com esta beleza conceitual chamada “guerra preventiva”.”11 Triste dizer. numa palestra para um grupo de banqueiros.12 talvez tenhamos começado a saturar um bom 130 . Na aparência não estamos realmente orgulhosos com este tipo de coisas. no qual têm sua razão de ser. Queria-os americanos. seria para nós politicamente arriscado atendê-la — pelo menos abertamente. ajuda a manter um alto nível de emprego. os executivos que servem em comissões presidenciais e viajam. Por trás dos executivos o sistema de crescimento e valorização intensos para o qual trabalham. com frequência. só na Europa Ocidental. Sumner Slichter. estamos vendo a glória da Rússia esmaecer. Desta forma devemos agradecer aos russos por ajudarem a fazer o capitalismo nos Estados Unidos funcionar melhor do que nunca. Porém. não havendo perdido nenhum mercado no qual poderíamos ter entrado graciosamente. estes polidos aviões de combate. vende à Arábia Saudita o que ela quer — aviões de combate supersônicos no valor de 400 milhões de dólares. os rebitadores precisam rebitar. mas que podemos fazer? Lá se erguem os brilhantes armamentos numa fileira. os engenheiros militares precisam desenhar.10 E assim são as coisas.de aviões de combate. explicou o sistema de modo muito comovedor em 1949. para a capital. economista de Harvard. os executivos precisam existir. contamos esta venda britânica de aviões para a Arábia Saudita como o fator de equilíbrio compensador de nossas vendas anteriores de aviões para a Grã-Bretanha. Por isso persuadimos a Arábia Saudita de que os nossos não são os únicos aviões do mundo a voarem tão bem e que ela também vai ficar muito satisfeita com uma marca britânica. ele disse.

Porém temos sorte. descobridores de talentos. podiam proteger a segurança da eco131 . por exemplo. é neutralista. é tudo menos isolacionista. mas não precisa sê-lo. O mundo necessitava de um acordo de gigantes industriais. a política americana tem estado preocupada com o problema de pacificar o meio comercial global. vontade e prestígio coletivos haveria de restringir as agressões e suprimir as revoluções. agindo coordenadamente. Desta forma a Rússia revolucionária podia ser isolada e as Grandes Potências. Grã-Bretanha e França. a partir do começo do século. Como deviam ser conquistadas a estabilidade e liberdade necessárias? Uma opinião distintamente minoritária era de que não podiam ser: As velhas nações estavam resolvidas também a se conquistar mutuamente. cuja força. Itália e Japão permaneceu basicamente sólido nos anos 1933-40. O neutralismo pode ser isolacionista. quando fomos internacionalistas.mercado. ser neutra e comerciar com todos que quisessem comerciar em termos justos. A questão para a diplomacia era como fazê-las entrar. pois novos russos continuam entrando no mercado da Guerra Fria. Havia-se tornado essencial para nós que nossos mercados externos não fossem perturbados. Já pela metade da década de 1890 nos havíamos tornado os primeiros manufatureiros do mundo e portanto internacionalistas a despeito próprio. E nos flancos. Não é isolacionista. sustentando que a Alemanha e o Japão agora deveriam ser integrados no acordo Atlântico. Para um exemplo mais de dentro de casa. a crença geral era de que a combinação adequada consistiria nos Estados Unidos. Terceiro. Wilson reviu explicitamente esta perspectiva. Agora temos a China — e portanto o Vietnã. ao mesmo tempo: nosso comércio com Alemanha. (Esta é uma das assim chamadas posições isolacionistas. Após a guerra. podiam ser resolvidos e seriam resolvidos por meio de algumas combinações das potências adiantadas. o cerne estratégico do assunto. A questão para os estadistas foi quais potências deveriam pertencer ao clube. De maneira crescente. estrelinhas de amanhã — Guatemala? Filipinas? Irã? — estão desde agora experimentando suas vestes de pijama negro campesino e ensaiando suas mais rabujentas imprecações marxistas. Antes da I Guerra Mundial. politicamente partidários e economicamente neutralistas. A América devia. por isso. A Suíça neutralista. E o Terceiro Mundo está pululando de gente da CIA e Forças Especiais.13) Porém a opinião que veio a ser a dominante foi de que os problemas de agressão de potências avançadas e revolução de estados atrasados tinham de ser resolvidos. e usualmente não o é. há o período de pré-guerra do “New Deal”.

pelo menos bem até a metade dos anos de sessenta.5 bilhões de dólares. por parte da Alemanha. para estabelecer a hegemonia de Quatro Potências na Europa (i. Coréia e Formosa. e em 1922 (o Tratado das Nove Potências) levou o Japão pelas orelhas a um moderno acordo à portas-abertas com a desventurada China. de maneira genuína. O muito cobiçado comércio com a China não era nem metade tão importante (por aquele período. um que há muito tem sido importante para o comércio dos Estados Unidos. Alemanha e Itália). Porém. França. nos anos de 1920 os Estados Unidos subscreveram a reconstrução da estrutura industrial de pré-guerra da Alemanha. Assim. enquanto o com a China cerca de 1. É a situação deste Japão que examinaremos agora mais detidamente. Grã-Bretanha. Nossa perspectiva da distinção do Japão está refletida no fato de que além dos casos muito especiais do Vietnã. nosso volume total de comércio com o Japão só foi ultrapassado por nosso comércio com o Canadá e a GrãBretanha. Estávamos tentando com determinação.nomia política do mundo. o volume total com o Japão era cerca de 3. A França de De Gaulle hoje pressagia mudança. idéias diferentes sobre como o poder europeu possa ser organizado e quais devam ser seus objetivos fundamentais. O primeiro ponto é que o Japão é um comerciante tradicionalmente poderoso. e talvez (é passível de debate) o gaullismo represente. e todos eles mais ou menos querendo aceitar e apoiar nossas opiniões sobre a ameaça comunista. isto é. estabelecer aquela integração política das Grandes Potências que por fim foi estabelecida pelo menos temporariamente — como um dos principais resultados da II Guerra Mundial. Quando as dificuldades começaram a fermentar. manobrou por paus e pedras durante a maior parte desse período para assegurar uma acomodação da China com o Japão. Grã-Bretanha. todos os nossos parceiros compartilhando nossa crença numa filosofia política democrático-liberal. Chamberlain lutou com toda a considerável ansiedade sob seu comando.5 bilhões de dólares). na década de 1930. França. Este sistema tem dois domínios separados mais integrados. O “New Deal” não muito mais esclarecido pela invasão japonesa da Mandchúria do que o foi a Inglaterra pela remilitarização do Rhimeland. Alemanha e Japão. nenhum país fora da Europa recebeu tanta assistência dos Estados Unidos 132 . crescentemente integrada. De 1929 até 1940.e. Tal como a Alemanha é o estado pivô do domínio Atlântico. o Atlântico e o Pacífico. com uma constância realmente notável. assim o Japão é o pivô do Pacífico. o mundo de após-guerra foi dominado por alianças explícitas ou implícitas que ligaram umas às outras as economias dos Estados Unidos.

Para entender as essências desta dinâmica temos que analisar a significação deste conceito “contenção”. judicial e de propaganda. atrás dos Estados Unidos.5 bilhões de dólares de exportações vs. é tão decisivo para a contenção da China quanto a contenção da China o é para a saúde e orientação ocidental do Japão. Qual a natureza da ameaça Comunista Chinesa? Como deve estar perfeitamente claro. Seu volume de comércio. ao mesmo tempo com os Estados Unidos e o mundo. a percepção de uma ameaça ativa desperta uma contramedida. Inglaterra. Podemos oferecer uma galeria de tais situações diferentes e definir para cada uma diferente forma de contenção. França e Canadá.(alguns 4 bilhões de dólares pelo período 1945-63). é de que ela jamais atacou para saques ou sem provocação (A “invasão” coreana só se deu após repetidos bombardeios americanos na Mandchúria. Por volta de 1961.) 133 . (8. alcançara o segundo lugar entre nossos parceiros de comércio. da Tchecoslováquia. há uma forma de contenção que é claramente militar. Alemanha Ocidental. “conteve” Hitler respondendo à concentração alemã de tropas em sua fronteira com uma mobilização militar. Uma é de que ela estaria quase indefesa ante a espécie de ataque nuclear estratégico que um ato claro de agressão certamente provocaria. alcançando pela primeira vez uma balança de comércio favorável.)14 O segundo ponto é que um Japão saudável. Os Estados Unidos “contiveram” o crescimento do comunismo interno por meio de um programa de sistemática hostilização legislativa.3 de dólares de importações. 8. Benes. estava perto de 17 bilhões de dólares (mais do dobro do volume de 1960). só após um claro motim da teocracia. colocando-a à frente da Itália entre os realizadores de negócios do mundo. Mas também não se pode duvidar de duas outras coisas. Assim. a ameaça não é basicamente militar. O outro. só com o Canadá à frente.4 bilhões de dólares. Em 1965. em 1965. Não se pode duvidar do poder da China para agredir seus vizinhos. Por um período pateticamente breve. em cada caso. neste caso. Sua recuperação no período de após-guerra foi rápida e firme. A característica comum seria que. que é graduada especificamente para a natureza da ameaça e que não se propõe à liquidação final e direta da ameaça. é claro. vendeu-nos 2. pode ser política e legalistica. a “invasão” indiana. como resultado de uma muito comum disputa de fronteira. a “invasão” tibetana. Ele pode. Contenção que.5 bilhões de dólares e comprou-nos 2. na qual não tinha de nenhum modo o pior argumento. significar várias coisas. orientado para o Ocidente. Nunca foi ameaça real.

dependendo do especialista que se aceite. O que lhe faltou por séculos foi ordem. haver algo como uma nação chinesa. no Oriente. Deixado de lado o problema de dados insuficientes. e que esta economia estabeleceu contato com o potencial intrínseco da terra e do povo. Nossa resposta ao fato gigantesco da revolução chinesa — algo que 134 . e que o crescimento industrial básico permaneceu saudável. agora na maior parte recuperado. na China de aqui há cem e mesmo cinquenta anos. a observação de Lênin de que “para o comunismo mundial o caminho para Paris passa por Pequim e Calcutá. a energia e a ingenuidade para ser o quê? Garantida a equidade que o tempo pode obter. ninguém parece estar realmente seguro de como medir o desempenho de uma economia planejada imatura.” Tem ela o povo. um sentido de unidade nacional. que o tempo inevitavelmente trará. tal nossos estadistas por certo o fazem. Pensemos então. esperando por algum cabeça dura Johnny Applessed. O importante é que ninguém nega. pela primeira vez em séculos. alguns estudiosos apresentando uma interpretação de “catástrofe”. Recordemos só as palavras de Napoleão sobre o gigante adormecido que acordará para sacudir o mundo. política. seu miolo é econômico. e a razão principal de sua demora seria a necessidade de explicar porque nada de exatamente conclusivo pode ser dito.A ameaça é política. Avaliações da experiência do Grande Salto variam ainda “mais largamente. e controle positivo de seus recursos inerentes. os recursos. que ela tem uma economia. um mundo no qual exista uma Ásia independente e dinâmica. entre vários. a China se poderia tornar uma igual da América. A taxa de crescimento nos primeiros dez anos seguintes à fuga de Chiang para Formosa foi entre 15 a 30 por cento. Imaginemos um mundo no qual a ação criadora — econômica. E como no caso de qualquer ameaça política. precisamente tomando em consideração o estado realmente caótico das condições iniciais. Mas aqui não precisamos ser tão técnicos. Para que se ouse dizer alguma coisa de conclusivo sobre a economia da China ter-se-á que basear-se numa demorada análise. cultural — não mais esteja tão densa e desproporcionalmente concentrada no âmago global do Atlântico Norte — isto é. foi principalmente agrícola. O povo industrioso — e a terra rica — lá têm permanecido. infestado como é por dificuldades naturais e políticas. Por muito tempo tem sido sabedoria de estadista julgar. é tão grande como precisa ser. Mas há acordo geral de que o desenvolvimento foi vigoroso. Esse potencial. outros pretendendo que o fracasso. que qualquer China que se pudesse organizar seria deveras uma China. Europa e URSS.

completamente sem forças para se mover.não tem nada a ver com comunismo. Então adotamos a opinião de que seu próprio demônio interior haveria de. nossas recriminações eram sem fim. se aproximando como um trem de carga. E o povo não se levantou. As únicas questões que estão de todo abertas são quanto. os homens de negócios do Japão estão também ajustando comércio crescente).3 (244. Estranhos caminhos do Oriente! Nesse meio tempo. estabelecemos um embargo. As notícias eram diferentes. Não é como se o Japão fingisse que a China não estivesse lá. 62. de que a Economia Mais Alta * As vendas do Japão à China. 16. E ela não morreu. destruir com certeza o maior dentre todos os totalitarismos.9).* ultrapassando mesmo a União Soviética (com quem. são as seguintes (em milhões de dólares dos EE. Seria uma economia. Quais são as opções do Japão? Isolacionismo em relação à China nunca pôde nem ser pensado. Reputações foram arrasadas. armamos ostentosamente seu real e verdadeiro herói. 245 milhões de dólares em 1965. que gira por meio de fios. política e história. 38. Mais especificamente: o Japão planejará manter sua presente inclinação política pró-americana? Submeter-se-á ele à mais comum das leis da história mundial. Meramente para lhes dar ânimo. tristezas e sofrimento epidêmico da nova China e nos equilibramos para o próximo despacho de últimas notícias. Porém então certamente o povo chinês deve se levantar contra o “perigo amarelo” interno. a China ainda estava lá.7 (20. de 1960 a 1965.8).UU. 245.7). o Japão já é o mais destacado parceiro comercial da China.5 (46. porém antes com a organização independente da China e sua aquisição de ardor moderno — não tem sido propriamente pragmática.0). estão subindo anualmente numa média só ultrapassada por suas compras da China.8 (157. estranha se tentasse isso.4 (74. Contudo. porque ele nos diria do fim deste erro extravagante. um aríete).0 (30.): 2. tudo isso era trabalho de Joe Stálin e de certos inconfidentes do Departamento de Estado. Claro. quando e em que termos.7). um pequeno impulso. bastante habilmente. Extenuamo-nos em contos jocosos sobre os erros crassos.6). (Uma comparação grosseira de situação seria a Inglaterra encontrar-se politicamente mal aliada contra uma Europa unida aos Urais. E lá está o Japão. Exportações (e importações) em seu comércio com a China. pedindo capitalismo e Chiang Kai-shek. bem no limite da península industrial mandchuriana. Meramente para dar à sua autodestruição uma pequena cotovelada. Primeiro preferimos acreditar que ela não estava acontecendo. 152. Quer coagido por apreensões políticas futuras ou seduzido por oportunidades comerciais presentes. em tempo. aquele dervixe de Formosa.15 135 .

aço e 136 . cuja melhoria de acesso acelerará. Se a América tem certas esperanças. deve fazer o que pode para permanecer nosso associado. pelo qual Kishi teve de pagar com a vida. (16 por cento) foram em alimentos.6 bilhões de dólares de importações. em 1962. (3) A cifra de desemprego do Japão é uma irreduzível um por cento. 1. assustador a respeito de nossa guerra do Vietnã. A urbanização do trabalho reduzirá a colheita das fazendas não mecanizadas. (4) O Japão é tradicionalmente um importador de alimentos. do total de 7. (2) Os dois principais produtos de exportação de um Vietnã do Sul normalizado serão borracha e arroz. Só não fará o que não puder fazer. do total de 6. Agora perguntamos: o Vietnã interfere materialmente neste drama? Os fatos-chave parecem ser os seguintes: (1) Duas das principais necessidades de importação da China são borracha e arroz. O Japão compreende que sua nova economia foi construída por nós. insensível a respeito de nossas aparições nucleares em seus portos de pesca. A industrialização intensificada atrairá mais trabalhadores da fazenda para a fábrica. humilhante a respeito do Tratado de Segurança Mútua de 1960. e está-se tornando um dos maiores. Do total de 5. tentará o caminho grego da mediação prudente e fará de si próprio uma ponte entre os dois super-gigantes. sabendo bem (como notou um japonês) que pontes são trilhadas? Deve ser claro o que os Estados Unidos esperam que o Japão faça. cabe a ela concretizar sua possibilidade. em certa medida.16 (5) Os japoneses são os mais destacados construtores navais do mundo e estão entre seus mais importantes fabricantes de aço e tecidos. ao mesmo tempo que o mais alto poder de compra resultante aumentará a demanda. Mas há algo de especialmente memorável a respeito dessa Bomba.9 bilhões de dólares. 1 bilhão de dólares. A China precisa de barcos. nação cujas principais cidades atomizamos? O Japão compreende que bombardeou Pearl Harbour sem grandes escrúpulos.7 milhões de dólares. 700 milhões de dólares (12 por cento) foram em alimentos. pelo contrário.determina a Política mais Baixa e assim arranjar-se com Pequim? Ou. enfurecedor a respeito de nossa colonização aberta de Okinawa e da cadeia de Ryukyu. Precisam de mercados. em 1964.3 bilhões de dólares (17 por cento) foram em alimentos. estando suas importações de alimentos em ascensão. O Japão. em 1963. sua taxa de desenvolvimento e portanto seu poder geral. Mas quanta pressão podemos pedir a essa nação que suporte em nosso nome. a pedra de toque de nosso perímetro de contenção asiático. à qual se opõem três quartos de seu povo: os elementos do antiamericanismo japonês subsistem. tanto proporcionalmente como no total.

A força econômica do Japão é o elemento crucial da política americana de contenção da China e manutenção da paz na Ásia. com o Japão. ou isso forçaria o Japão a voltar-se para a China ou Mandchúria. de 7 de abril de 1954.18 Todo o precedente precisava ser apresentado para apoiar as seguintes proposições: 1. após um período de esfriamento. O Japão. e compreende itens tais como produtos químicos.tecidos. As consequências possíveis da perda [do Japão] para o mundo livre são quase incalculáveis. O fato é narrado pelo erudito da Indochina. tanto para os vendedores japoneses como para os compradores chineses. que o Japão deve ter como uma área de comércio. o Japão é da maior importância comercial para nós. quase exatamente um mês antes do colapso francês em Dien Bien Phu e da abertura da Conferência de Genebra sobre a Indochina. um propósito direto primário de contenção da China é a salvaguarda de nosso interesse comercial no Japão. mas pode estar inclinado a proteger sua indústria têxtil. As notas estenográficas rezam: Em seus aspectos econômicos. De fato. 137 . Um Vietnã em desenvolvimento certamente quererá aço e provavelmente navios. 3. é ao mesmo tempo o bastião da luta de contenção de expansão e o prêmio da vitória.17 A observação foi feita pelo Presidente Eisenhower. em 1959. O Japão é o bastião. Norte Vietnamita. em 1961-62. o Presidente acrescentou. quando o Japão decidiu só pagar reparações de guerra ao Vietnã do Sul. Ficando somente atrás do Canadá entre nossos parceiros comerciais. Bernard B. O comércio subiu de cerca de 10 milhões de dólares. isto é pago pelo Vietnã do Norte em matérias-primas. para mais de 40 milhões de dólares. a fim de viver. Fall: O comércio do DRVN. portanto. tem alcançado proporções importantes que bem podem provocar preocupações nos Estados Unidos. ou para as áreas comunistas. em sua entrevista com a imprensa. 2. O Vietnã do Sul é uma importante área em perspectiva para comércio. disse Mr. Juntemos um fato final com uma observação profissional. maquinaria de todos os tipos e quatro navios cargueiros de longo curso de 5 000 toneladas e um de 2 000 toneladas. Eisenhower. [a perda da Indochina] afastaria essa região. principalmente carvão.

4.5 bilhões de dólares. significam que seus mercados. Os tesouros do Vietnã do Sul. são maiores do que em todos os outros países salvo Canadá. Se o Japão não tem alternativa a longo termo para o comércio maciço com a China. e (c) que pode quase naturalmente ser dominado pela China. baías. por parte da Alemanha Ocidental. esperam que o Bloco Comunista supere os EE. só perturbações frustrantes podem ainda adiar isso — então a matemática bruta da relação condenará o Japão à inferioridade (tanto como a Grã-Bretanha estaria em posição inferior ante um continente europeu economicamente integrado). Venezuela e Alemanha). uma vez desenvolvidos.UU. sem considerar quem o desenvolve. A América a sente mais agudamente porque. prende-se aos mercados em desenvolvimento mais lento e menos organizáveis do Pacífico Sul. Mas a China é também um importante parceiro comercial do Japão. ouvem o mesmo tique-taquear de relógio. Grã -Bretanha. especialmente nas estratégicas Filipinas (onde o nacionalismo econômico está crescendo) e na Austrália (onde os investimentos diretos dos EE. Se o Japão e a China desenvolverem interdependência econômica — e. a posição do Vietnã do Sul é central devido suas costas. A única oportunidade remota (é remota) do Japão. agora enterrados.UU. entre as potências ocidentais. para uma alternativa. a posição da América é tradicionalmente privilegiada. a longo termo ante o mercado da China em desenvolvimento. a Índia se mostra quase inerte ante as mais desesperadas provocações ocidentais. uma única coisa.” (A venda. e não pode deixar de se tornar crescentemente magnética. goza agora a posição econômica dominante lá no Pacífico.. (b) que deve incluir o Japão. Sul e Sudeste da Ásia. porque seu investimento 138 . O bastião e o prêmio. No terceiro. como estão as coisas agora. O autorizado Finance (junho de 1966) disse: “Alguns especialistas em comércio. de Washington. será deixado sem uma alternativa para uma orientação progressivamente mais pró-chinesa. No segundo. No primeiro. o Comerciante. como maior parceiro comercial do Japão durante a próxima década. O que o Ocidente depara no Pacífico é a formação de um sistema econômico regional (a) cujo potencial e força são inerentes à própria situação do Pacífico. Podemos simplificar isto. de uma usina de aço para a China desarma mais ainda o argumento ideológico contra comércio continental e só pode aguçar o apetite comercial do homem de negócios japonês.) 5. abundâncias de recursos e o fato da guerra o ter feito central. Esta é a “ameaça”. exercerão uma grande influência no Japão. 6. de cerca de 1.

Robert Trumbull. sido tornada explícita e levada a efeito consciamente. Tal tem sido a política asiática tradicional das potências atlânticas em conjunto. e um pool técnico internacional. não pode evitar o fortalecimento das políticas destes países não-comunistas e anticomunistas. então. Thant Khoman19). O repórter do New York Times. Filipinas. em junho de 1966. Uns eloquentes dois e meio séculos de ações ocidentais inúteis. Nova Zelândia. o Banco Asiático e o novo. Assim. contam a história bastante claramente. a luta para conservar o Vietnã do Sul. A significação mais elementar da caótica.asiático de após-guerra em sangue e bens. Vietnã do Sul e Japão. Isto nos conduz a uma conclusão final: O alvo da economia política do Atlântico Norte é frustrar a organização independente da economia política do Pacífico. tem sido hábito inveterado das potências ocidentais absorver e integrar o que podem comandar. no pobre mundo. que morreu recém-nascida. Malásia. relatando o importante nascimento da ASPAC em Seul. Nosso propósito. um banco regional para ajudar o desenvolvimento do arroz e outros produtos. promovida pelos Estados Unidos. Tal tem sido a política tradicional da Europa na África. e porque é sob qualquer medida o mais internacional dos estados internacionais. é excessivo. e hostilizar e dispensar o que não podem.ex. pode agora ser acrescentado um terceiro caminho: uma América do Sul sul-americana. revolução do mundo pobre é que às alternativas tradicionais de integração subserviente e hostilização. citou o chefe de uma delegação como dizendo que “embora de início a organização seja puramente para cooperação econômica p. Assim. na Ásia. De fato. Austrália. uma África africana. e sob muitos aspectos cronicamente malformada. E assim. 139 . Nem importa muito que uma tal política tenha.. a Organização do Tratado do Nordeste da Ásia [Northeast Asia Treaty Organization] (NEATO). intitulado experimentalmente Conselho de Cooperação Pacífica Asiática [Asian and Pacific Cooperation Council] (para poder ser chamado ASPAC — “um nome atrativo com um som viril”. disse o Ministro do Exterior da Tailândia. Tal tem sido a política tradicional dos Estados Unidos na América Latina. ou não. por toda a parte. é frustrar o delineamento deste sistema geo-econômico. uma Ásia asiática — sendo seu argumento mais direto não poder haver integração uniforme das várias esferas globais (isto é. pela imposição de barricadas políticas e militares entre seus elementos e pelo oferecimento da alternativa de outras configurações econômicas. para observações mais recentes e sensíveis. China Nacionalista.”20 Os nove membros são Coréia do Sul.

de S. esta destruição cobra uma taxa decididamente muito alta dessa boa vontade política da qual a América de Johnson tem miseravelmente tão * Veja por exemplo “I Quit!” [“Eu Paro!”] do veterano das Forças Especiais Donald Duncan em Ramparts. um ensaio de desastre cuja mensagem de entrelinhas é precisa e aflitiva. jan-fev. A.onde há paz) enquanto não houver uma equidade econômica e política aproximada entre elas. New Jersey. ou ainda 16 000 “conselheiros” da Marinha. tigres e civis do que vietcongs. [“A Destruição da Consciência no Vietnã”]. Ou um dos estudos psicológicos realmente poderosos sobre a guerra terrestre. 140 . 1966. Ou uma peça da autoria de um protagonista da guerra. e contra isto é que estamos lutando para resistir. as guerrilhas. “The Destruction of Conscience in Viet-Nam”. Um Relato Sobre uma Companhia de Soldados Americanos em Forte Dix. New Jersey. de John Sack. An Account of One Company of American Soldiers in Fort Dix. o que quer que se pense do motivo político. os B-52 matam mais macacos. “The Death of a Platoon’’ [“A Morte de um Pelotão”]. no Esquire. Quer aconteça gostarmos disso ou não. L. Ou o estudo acurado de Marshall Sahlins sobre as operações das Forças Especiais. de outubro de 1966: “M. quarentena de Cuba e pacificação no Vietnã. conduziram somente à infiltração paulatina. de fevereiro de 1966. este é o testamento de revolução. com nosso isolamento da China. Qualquer um pode ver que os raides aéreos sobre o Vietnã do Norte. Porém meio milhão de homens? Que aparentemente deverá se tornar um milhão? Além do mais. além de ser militarmente ineficaz. nossas forças mecanizadas sendo incapazes de combater de qualquer modo durável e decisivo. descritos oficialmente como o melhor meio para deter a infiltração.* E. Que Treinaram para a Guerra e Que A Encontraram no Vietnã do Sul Cinqüenta Dias Mais Tarde”]. parece pelo menos ser um ato proporcionado. Marshall. O napalm destrói mais aldeias do que forças combatentes. Relatórios cheios de sofismas sobre nossa guerra terrestre argumentam mais persuasivamente (embora às vezes sem intenção) que ela é travada sem padrão relevante e sem efeito significativo. mas da própria cultura. esta “solução militar” desde há muito provou não ser solução nenhuma. de custo-condicional controlável. e embora dissimulemos as raízes de nosso antagonismo para com ele. Who Trained for War and Who Found It in South Viet-Nam Fifty Days Later” [“M. parece-me de longe o mais importante — está embaralhado num quebra-cabeças não muito intrigante. O quarto ponto — por seus poderes de explicação sobre nossa civilização. cuja mobilidade não é da máquina. No sul. Salvar o Vietnã ao preço de espalhar alguns 600 especialistas de guerrilha das Forças Especiais. por meio de panegíricos sobre democracia e diatribes igualmente irrevelantes contra o comunismo. em Dissent.

mesmo depois de ele ter ultrapassado sua necessidade e ter-se tornado. Sem um inteiramente novo tipo de vontade e sabedoria ocidentais concentradas. que pudesse ver ali problemas que fazem da “salvação” do Vietnã um assunto sem importância. cujo maior crime é denunciar a fraqueza do imperador. Cada dia. os líderes da América parecem ter duvidado que seus filhos tivessem estômago para uma guerra contra-revolucionária repressiva e imperialista. maldizemos o imperialismo — o imperialismo mais primitivo de outros. essa posição não é fácil de transformar-se em lema. Uma vez que tivesse de 141 . Aquilo que a força ocidental enfrenta é a revolução social antiimperialista do pobre. Os calculistas do governo não têm representado proteção contra uma perda de controle que pode muito bem ser sem paralelo. O nordeste da Tailândia permanece tão vulnerável como sempre ante aqueles “agitadores de fora”. A economia política das Filipinas está estagnada e os Huks estão de novo em ascensão. senão séculos. Significa décadas. na verdade. realmente importantes e passíveis de defesa — Índia. a Índia será comunista dentro de duas décadas. Porém. Coréia. em outros tempos. a tentativa de levar a efeito uma tal solução piora. para proteger os abalados dominós do Pacífico — e. e pode começar a arruinar nossa posição política na Ásia. Em suma: A solução militar para o problema do Vietnã não está dando resultado. “a furiosa energia material e a fantástica passividade política do Japão contemporâneo”. irracional. de fato. em desenvolvimento econômico e independência política. Acima de tudo há o que Stillman e Pfaff chamaram. Tailândia. Podia-se supor que um imperialista racional pudesse inventar outros meios. que nossos orientadores políticos dificilmente podem deixar de ver. a Coréia do Sul fica mais atrás da Coréia do Norte. Por que acontece isto? Isto acontece porque a ideologia que pediu e reivindicou este ato de guerra “necessário” continua a pedir e reivindicar o ato. carregada com significados políticos da maior gravidade. o resto da Indochina. Nós mesmos. de maneira estranha. de antiamericanismo no Vietnã.21 uma energia que temos visto ser. em seus próprios termos. num tempo em que os liberais ocidentais se desvalorizam por meio de seu próprio manhoso humanismo-cum-política realista. Talvez por causa disto. Japão — flutuam cada dia um pouco mais para perto daquele futuro nitidamente oriental. Filipinas. nós mesmos já glorificamos a revolução — a nossa própria. mais sensíveis. e os proeminentes do leste do mundo Ocidental.pequeno suprimento. toda a Ásia mesmo a Europa do Oeste começa a ter ânsias.

O que esta teoria nos dá é um retrato que. pateticamente inábeis. E o que é subtraído da realidade — muito mais importante — é a fonte do fermento. a causa da cólera. marrom e amarelo para vermelho de diabo. porque consideram ser seu inimigo. Teve íntima ligação com a realidade e tem alguma história em mente. uma pretensão que automaticamente implica em América. uma tal guerra teria de ser adoçada com um nome diferente. se entendermos por isso que provavelmente não produzirá economias capitalistas. E na medida em que esta revolução pretende terminar o domínio do rico. ou em perfeito agente de coração duro da Conspiração Internacional Comunista. programas de acumulação de riqueza em ritmo forçado e o violento desmantelamento de elites ricas. Mas o que é acrescentado para puro efeito político é essa feia faceta de clandestinidade. 142 . então a aceitação americana generalizada desta opinião sobre revolução pode prenunciar um amargo futuro para todos nós.ser travada. especialmente nos estágios primeiros. a questão suprema da justiça da rebelião. a revolução tem de dirigir-se à América — ou melhor. essa nuvem de diabolismo que nada tem a ver com a própria força sustentadora da revolução. por quaisquer meios melodramáticamente conspiratórios. quando fala. coordenado internacionalmente — uma opinião que é inteiramente correta. fazem um esforço para se coordenar entre si. Portanto. O imperialismo é por isso recristianizado como anticomunismo. U. governos centrais autoritários. se dentro do poder de uma idéia se inclui perverter a generosidade de uma nação e amaldiçoar seus filhos. não é irreal. em linhas gerais.A. ambição sem propósito e desapiedada. Em certo sentido menos técnico esta revolução é “comunista”. e cujo fundo tem sido inteiramente apagado. a teoria desorganiza e desgoverna brutalmente a história bem real que lhe permite sobreviver. cujo objetivo central (assim temos certeza) é a conquista da América. os diversos movimentos de libertação nacional. num bobo. E. Não há nenhuma utilidade em ser enganado a respeito disso. Há uma revolução que é internacional — uma pessoa tem apenas que contar as perturbações e o olhar em um mapa para ver o bastante. Esta teoria da Conspiração Internacional Comunista não é a solteirona histérica que muitos esquerdistas parecem pensar que é. e nosso inimigo é transformado de um ser humano em um mero peão.S. de que provavelmente criasse economias autárquicas e controladas. agem assim. E se não. ele mesmo. mas cujas cores têm sido trocadas de humanos preto. se dirige a uma América que a maior parte dos americanos esqueceu: Rockefeller. Englehard.

quer ele saiba ou não. de um só golpe. e aplicada agora a um mundo remoto. mesmo por um momento. e. O que quer que possa pensar. Caracas ou Saigon. sua oposição ao difuso e desigual movimento por independência do Terceiro Mundo. Se é correto dizer que nosso bem-estar nacional requer a derrota da FLN. Esta ideologia é a descendente absoluta daquela ideologia com a qual os pais daqueles mesmos senhores uma vez pretenderam destruir o movimento trabalhista americano. Tem agora a mesma espécie de verdade. Após anos de aperfeiçoamento. Preservar o bem -estar de uma nação é um objetivo que dispensa considerações e é transcendente. um intruso na cena de mudança social. com muito sucesso. que possuía no longo e amargo período entre a Guerra Civil e a II Guerra Mundial. e. Todos sabem que algumas pessoas neste país. Este outro é uma fraude. somos nós. Donde se segue que o tema profundo. Se é uma boa teoria. algumas delas poderosas. então é boa de maneira absoluta. Ele quer nos agarrar — Kansas City. familiar para os americanos só o quanto a bem controlada média de massa considera conveniente tornar assim. e a mesma sorte de mentiras. Não é possível imaginar que um tal objetivo possa ser limitado ou anulado. A aterradora consequência disto é que qualquer luta que seja justificada em seu nome é uma da qual não podemos escapar. Se sua visão da 143 . verdadeiro objetivo — é a destruição de nosso país. Ele já está denominado — um criminoso. cuja esperança real. Washington D. então a FLN tem de ser derrotada. Havana ou Àlger.C. sabemos que jamais ficará satisfeito com Moscou ou Pequim. já explicado — um inimigo. Esta é a teoria pela qual a guerra nos tem sido explicada. acontece nós sabermos que é um impostor. quer voluntariamente assim. priva o revolucionário de seu direito legítimo a se denominar e explicar. central e condutor do drama que está sendo representado nas jângals do Vietnã é nada menos que a questão de nossa própria sobrevivência nacional. quer não.É por meio da ideologia de anticomunismo de Guerra Fria (Cold War anticomunismo — um cínico pode abreviá-lo CWAC e chamá-lo “cwackery”) que os senhores do poder americano justificaram e dissimularam. Os verdadeiros revolucionários sociais. É um imperativo. por qualquer outro objetivo. tem-se de dizer desta ideologia que é agora mais eficaz do que nunca. Ele não é o revolucionário que pretende ser. A explicação permanecerá correta sem considerar quão duro possa ser levar a cabo suas ordens implícitas. parece. Ela reorganiza inteiramente os termos morais do embate entre o rico e o pobre. Birmingham. pedem com insistência que usemos toda força necessária para levar esta guerra a uma “conclusão rápida e favorável”.

Assim. porque seu assassinato não apaziguará. com sua aceitação sem reservas de uma teoria que a administração liberal americana tem estado batucando em sua cabeça há pelo menos um quarto de século — a saber. mas. Segundo.história não é atrasada. porque é uma vítima inocente e não a defender é desonroso. Cuba. a mais escura tirania que a história jamais viu. Quando este mesmo governo fidedigno informa o povo de que a guerra se trava porque agentes da tirania que quer devorar o mundo chegaram a uma feliz terra no exterior e se puseram a agitar. então o povo tem todo o direito de perguntar: Por que não atacar esta ameaça em sua fonte? Quando nosso acreditado governo nos explica que a tomada vermelha do Vietnã (Laos. mas só aguçará o apetite do matador. inclusive nós. aterrorizar e espalhar o caos. é não entender clara e totalmente o que fazem. Há um homicídio se processando lá na rua: Um homem. nada mais do que uma estação no caminho de conquistas para este nosso Xanadu. A principal coisa errada com este “gavião de guerra ultraconservador” pode de fato nada ter a ver com conservadorismo ou belicosidade. a coisa certa a fazer é acorrer agora em sua defesa. que planeja impor a este mundo aprisionado. inclusive nós. então seu sistema moral o é. Hispaniola. e que pretende alcançar tudo isto por meio da conquista gradativa de estados crescentemente menos marginais. O povo não espera que ele minta. que de suas janelas olham boquiabertos a atrocidade. está matando Kitty Genovese. um a um. é claro. Por que não agir agora? Tomado em si. Que há de “conservador” em querer lutar nesta situação? Que espécie de lunático lamuriento pensa ser traficância de guerra intervir sob tais circunstâncias? A maior acusação a ser feita contra esses nossos reacionários é serem eles tão ávidos em acredi144 . ódio e munição. os covardes de coração vazio. então o povo tem todo o direito de perguntar. como um problema de sobrevivência nacional. fazer propaganda. tentar apagar seus argumentos chamandolhes nomes tais como traficantes de guerra. subverter. mostrando que. porém caracterizálas como ultraconservadoras. Primeiro. e nós temos diante de nós uma realidade americana oficial. pretende invadir o próprio edifício de apartamentos e matar. parece-me que isto tem muito pouco a ver com conservadorismo. depois de acabar com ela. com uma faca. distorça ou engane. se alguém não o detiver. o Congo) é meramente secundária. ele em breve estará pondo seus dentes em nós. a teoria de que há uma Conspiração Comunista Internacional que ameaça dominar o mundo. ao contrário. Lembremos que o governo fala a seu povo com uma dimensão de autoridade. os cabeças ocas. O povo acredita nele.

e portanto no impulsionamento da política nacional. Uma grande minoria de americanos algum dia será traída. A ponte ideológica entre o fato e a fantasia está-se tornando hoje insegura para a América. O esquerdista repudia essa descrição política. Vamos para o Vietnã para manter um segmento da esfera de influência da comunidade Ocidental do Atlântico Norte — um objetivo que. mas eles mesmos não usam. a condução da guerra já parece um ato de loucura. Aqui estamos num duelo de morte com um inimigo mais implacável. nós a controlar os socos! As duas críticas básicas à guerra que têm correlação com as dissensões de esquerda e direita. uma grande quantidade de gente boa e forte encontrar-se-á atolada no irreal. objetivam resolver a tensão que existe entre as descrições política e militar mais comuns da guerra. Precisamos compreender (embora Johnson e Rostow nos deixem inseguros a esse respeito) que os técnicos políticos dos Departamentos de Estado e Defesa só fornecem. “Estamos em guerra total desde agora”. Porém. como talvez nunca antes. nas garras dessa ideologia. Para eles. o que Eisenhower e Kennedy permitiram-lhes acreditar. porque justificaram esta aventura em termos da ideologia do anticomunismo. e por conseguinte quer que a guerra seja empreendida com mais violência. e veja só. A guerra foge à relatividade política para se tornar transcendente e sublime.tar naquilo que os liberais vêm lhes fornecendo. a doutrina quase religiosa da Grande Conspiração. definido e talvez não de todo sem limites. Em termos dessa crença. concreto. em seus próprios termos. E quando ela desabar. Isto é uma aflição do povo. dizem os direitistas — tão só apresentando de modo mais suscinto o que Truman lhes disse. Isso não ajudará aqueles a quem fizeram crédulos partidários dela. Sua cólera sacudirá a nação. Uma ideologia que tem origem numa distorção da história adquire um poder intrínseco para apoiar e ajudar distorções históricas. tão absurdo como perguntar o valor do rei num jogo de xadrez. Indagar qual é o valor de manter o Vietnã se torna. que disparate é falar sobre uma guerra “limitada” com objetivos “limitados”. é prático. senão de perfídia. nossos líderes são obrigados a insistir que estamos no Vietnã para proteger nossos órgãos vitais de incremento nacional — um objetivo que não é prático e condicionado ao custo. e por conseguinte quer que a 145 . o que as homílias de Johnson convenceram-nos de novo. Adquire uma autoridade independente na explicação de eventos. um que é objeto de uma contabilidade de custo e para o qual deve haver um preço excessivo para pagar. O direitista aceita a descrição política. mas absoluto e sagrado.

. um 146 . na academia militar. o coração do humanismo europeu? Os liberais do Ocidente têm sobre isso uma teoria que lhes restaura a confiança: A OAS aconteceu porque havia fascistas no exército francês que queriam que ela acontecesse.” Se temos de destruir o Vietnã. Ambos têm uma linha de argumento muito mais sólida do que o centro. a França justificou a guerra colonial em termos de imperativos coloniais transcendentes. Como aconteceu isso na França. de ombros largos.. sumarizou assim sua defesa de um dos conspiradores da OAS: “Como pode acontecer”. que meramente tem substituído uma maldição. A OAS era só o último estertor dos velhos colaboracionistas nazistas.guerra seja suspensa. A OAS objetivava nada menos que um coup d’état. então tenhamos a misericórdia de fazê-lo com urgência e tirar aquela pobre gente. Ambos objetivam uma posição mais racional. para os líderes da França. Quando ficou claro. que era necessária a desocupação. Cyr. A França lutou para manter seu controle colonial da Argélia por muitas razões semelhantes às que mobilizam hoje a América no Vietnã. Não há nada parecido na América. e sua existência criou para a França o mais doloroso tormento interno. onde é exigida uma explicação. perguntou. porque ele pode pelo menos reivindicar a severa compaixão de Macbeth: “Se tivesse de ser feito quando foi feito. um advogado do Primeiro Regimento de Pára-quedistas da Legião Estrangeira. Imaginemos um bom. hoje aqui se poste acusado [de traição] ante uma corte militar?”22 Prestemos atenção no correspondente americano deste “brilhante jovem cadete” antes de prosseguirmos. o Capitão Estoup.. O exemplo da experiência francesa na Argélia é totalmente instrutivo. De certa forma este gavião de guerra é ainda mais humano do que os advogados da morte lenta. então estaria bem que fosse feito com rapidez. perante um alto tribunal militar francês. Como a América. A Organização do Exército Secreto (OAS) foi formada para resistir ao que seus membros sentiam ser a traição da nação. de sua miséria. A primeiro de agosto de 1962. cavalos de pernas quebradas.. louro e honesto moço. “que um brilhante jovem cadete de St. um dos mais destacados moços. quando chegar o tempo de arcar com as consequências. não será para estes nossos “moderados” que virá a mais profunda e acabrunhante agonia. E a muito triste verdade é que. com um coração cheio de bravura. que é só confundido e enganado pelo seu próprio cacarejar dissimulador. porém para além do próprio labéu fascista. Mas examinemos de novo — não a América para encontrar fascistas. importantes elementos do exército francês se sentiram ultrajados.

melhor do que quem mata. os graciosos olmos. interior. Se não o é. Há. Não tem monóculo nem bigodes. sua conduta talvez um tanto retraída. Na análise final. Se os meios são justificados só pelo fim. que o acusado era impelido.. Ninguém compreende o bombardeio melhor do que o bombardeador.23 Ninguém melhor do que o próprio torturador sabe o que a tortura significa. “Eu não sei”. Isto é. “Então por que não se recusou o jovem cadete de St. Cyr de Wyoming — que cabiam as mais odientas e perigosas tarefas. armas de fogo. Está orgulhoso. fazendo seu último e desesperado esforço para se vingar do demônio que as atraiu para o inferno. por aqueles que detinham autoridade. precisa saber que era em seu nome. diz Estoup. O povo da França. que estava em jogo a vitória da França. Cummings “um orgulho de olhos azuis de um nação saudosa”. para a maior parte. Tinha sido provado a ele que o desfecho da batalha dependia da informação que obtivesse. atormentadora de não ter cometido crimes sem alcançar o objetivo.graduado de West Point de um lugar bem americano tal como Colorado Springs ou Trenton ou Seattle — na expressão de E. mas eu conheço a sensação de choque e reação sofrida por aqueles que têm de executá-la. Tudo isso. e por seu bem. Mas vós direis. Preferia estar em casa. os amplos gramados verdes das quietas ruas de onde veio. o algodão doce e as suaves noites de primavera e a namorada que deixou atrás dele. contudo. E.. estas são ações das almas danadas.. É testemunho meu que. Não está feliz por se encontrar no Vietnã. não há justificação alguma a menos que o fim seja alcançado. Cyr desmoronam. de sua Boina Verde. em cujo nome a justiça está agora sendo feita. Cyr a cumprir a ordem?” Porque o fim básico tinha sido descrito a ele de tal forma que pareceu justificar os meios. Sua voz é bem modulada. Não precisa informar a este rapaz de Wyoming que suas 147 . mas não arrogante.. Devemos imaginar os bailes em que dançou. o motivo verdadeiro para as ações dos conspiradores era uma determinação secreta. silente.. ele foi instruído para usar tortura. Todas as belas idéias e ilusões do jovem cadete de St. nada é deixado senão uma amostra insensata de sujas manchas indeléveis. Estoup continua a explicar que era aos membros das forças de elite — homens como nosso jovem cadete de St. Não há Mein Kampf escondido em seu baú. para a borda deste abismo de destruição. Tal é o vilão de peça: o traidor. eu não sei que tipo de perturbação mental deve sofrer alguém que dá uma ordem como esta. melhor do que o atirador.. morte. um trabalho a ser feito. as sólidas velhas casas de madeira. Era obrigação do cadete obter informação vital sobre o inimigo — “por todos os meios possíveis”.

aquela inocência adiada. 148 . O sacrifício é redimido pelo renascimento para o qual ele prepara a terra conquistada. amor feito. em cujo nome a culpa presente é carregada. se evapora do futuro. coquetéis batidos. memorandos de escritório assinados. na América. a Hóstia depositada na língua e coroas nos túmulos. será com tais mãos que crianças serão acalentadas. o nariz apertado em meditação.mãos estão sangrentas. Nos futuros gestos destas mãos — isto é realmente muito simples — nós observaremos um aspecto da vingança do Vietnã. amigos saudados. E o que acontece com este estranho sangue selvagem? Ele se gruda permanentemente à pele das mãos que o derramaram. Mas o sangue será lavado. Mas se não é trazida a água. poemas escritos. não será? As sujas manchas indeléveis um dia serão removidas? A água purificadora é a vitória. Ele é o especialista nisto. Precisamos ser capazes de entender uma coisa muito simples: De agora em diante.

que. quase fora de vista. envolvido com conotações de praga). . nem mencionar os cerca de 149 . daqueles descontentamentos que nos perseguem. Robert S. onde miséria e violência são rotina. . A maior parte da gente comum do mundo rico preferiria muito mais nunca ter ao menos escutado falar do Vietnã ou Moçambique. Che Guevara1 Os jovens ao ingressarem nela [a FLN] estão sendo atraídos pelo excitamento da vida guerrilheira. McNamara2 Todos. que é majoritária. nós só acreditamos nele. no mundo rico. deve ser o exagero de alguém. este. Para a maior parte. Todos os países são diferentes e o progresso devia ser alcançado por meios pacíficos sempre que possível. nem Platão e Shakespeare muito estudados. um mundo que é fundamentalmente implausível. onde Mozart não tem sido amplamente ouvido. É um mundo. de acordo com as instituições da maioria da classe média americana. este pobre mundo. têm escutado que há um outro mundo longínquo. É o “chão de origem”. onde dois terços de todos nós estamos vivendo. dizemos (um termo favorito.VI O Revoltado Matar é mau. na medida em que o usamos para culpá-lo de certos aborrecimentos nossos.

” A América classe-média se vê como a Solução Final. do pioneiro automatizado — como podem as coisas ser vistas de outro modo? A classe média americana é a nação para a qual o obsoletismo vindouro da escolha moral tem sido revelada. podemos ver isto. Um ponto aqui e ali. Quando as estatísticas são recitadas pelo fogo das armas do homem pobre. desonestos. meneamos a cabeça. E outro poderá tossir. uma viva aragem a seguir. A América classe-média é a condição mental que supõe ter sido avistado um novo e plástico Éden. Às vezes estralamos a língua. como acontece de quando em quando. quer a persuasão da AID. Mas é melhor ser faminto e paciente do que faminto e Vermelho. podemos responder de várias maneiras características. um leme firme. Alguém poderá citar a Aliança para o Progresso. para animar. do homem de fronteira habitante de escritório. sobre um oceano calmo. O fato correspondente sobre a maior parte dos americanos é que eles se sentem insultados por esse pedido. Enquanto à espera de nossos bombardeiros. porque ser Vermelho nos prova que toda esta fome era na realidade apenas um embuste. Após a batalha de Piei Me em 1965.trinta outros estados do mundo. e poderemos aportar agora a qualquer tempo neste “Século da América. um pouco de denodo. desenvolvemos nossa teoria dos pobres diabos. e mandamos um cheque à CARE. quer os batistas. Na terra da aventura de contrôle-remoto. estúpidos. das Forças Especiais. inteligentes. covardes e errados. O fato principal sobre o revolucionário é que ele pede mudança total. somos mais decididos. o Major Charles Beckwith. Mas o que dizer da força moral do pedido? Quando as estatísticas da pobreza mundial nos alcançam. Tais concepções são às vezes abaladas. O que deve ser difícil para qualquer nação parece fora de discussão para nós: Imaginar que podemos. segundo a qual os miseráveis têm sido enganados por homens-do-contra comunistas. de tempos em tempos. descreveu os 150 . É ruim estar faminto. nossos inimigos têm de ser injustos. honestos. Seu desejo mais intenso é não ser molestada por loucos que discordem disso. onde insurreições a longo prazo estão a caminho. ser os inimigos de homens que são justos. além nosso horizonte. Às vezes contamos histórias sobre bravos missionários. corajosos e corretos — Quem pode pensar tal coisa? Já que amamos roseiras e belas moças. Provavelmente se dá o caso de um comunista não ter fome.

que potencial revolucionário existe só nas sociedades onde a miséria humana material é o termo denominador da maioria das relações sociais. Se pudéssemos conseguir mais dois. evidentemente. e de outros. na linha de fogo. Minha suposição é que o que não pudesse me mover ao ato de rebelião não moveria outro homem. Por que homens se rebelam? Tentemos descobrir o que pode possivelmente estar tão errado. uma vez foi uma criança que não falava de política. que pensamos estar-lhes oferecendo. mas para quem os Lênins deviam ter permanecido somente filósofos.” Após a mesma batalha. Ninguém pensa que banqueiros irão fazer distúrbios nas ruas.”3 Essa curiosidade. é boa. eu considero que o rebelde é muito parecido comigo. Mas não estou tentando descrever os Lênins. outro americano disse de um vietcong capturado: “Devíamos pôr este cara no muro norte e dispensar estas tropas do Governo. Quando fazem algo perigoso é porque foram convencidos que não fazê-lo seria mais perigoso. por exemplo. podem ser persuadidos. por alguma combinação de estatísticas e princípios. não precisava materialmente da Revolução Russa. por razões fúteis. para que possam lutar tão inflexivelmente para ficar do lado de fora do Éden. tornou-se um rebelde. Seu compromisso foi baseado em princípios e originou-se de um desapego básico. Isto não significa que psicologicamente seja assim. O rebelde é alguém que mudou. Segundo. com tantos homens e mulheres do mundo. Há sempre uns poucos que. Primeiro. teríamos todos os muros [do campo triangular] bem vigiados. Menos obviamente. Estou atrás daqueles anônimos.” O Major Beckwith estava intrigado com a “elevada motivação” e a “elevada dedicação” desta força inimiga e sugeriu uma explicação: “Queria saber com que os estavam drogando para fazê-los lutar assim. aqueles que (como colocou Brecht) abraçaram primeiro a revolução com as mãos e só mais tarde com a mente. Gostaria que pudéssemos recrutá-los. excetuados os americanos. cada um que hoje é um rebelde. isso também implica em que a privação só pode ser política se não for universal. São hábeis guarda-livros da causa de permanecer vivos. alguém a quem posso entender.combatentes da guerrilha da FLN como “os melhores soldados que jamais vi no mundo. Faço três suposições. pelo menos. É fora de dúvida. Provavelmente poderia protegê-lo sozinho. a expor suas vidas. O camponês que compara sua pobreza com a riqueza de outra pessoa está habilitado a 151 . homens não põem em perigo suas vidas. Terceiro. Lênin. primeiro. Ele é politicamente extraordinário.

Não é que ele pretenda ser outra coisa que não um escravo. A mais antiga máscara. por conseguinte. E. O escravo cria. o escravo escapa por detrás da imagem. à força. a fim de colocar um realce físico entre ele próprio e os olhos dos outros. essa humilhação. às vezes. O senhor branco. quebra-a. mas pela compreensão da injustiça. uma identidade social. refugiou-se por trás daquela imagem perfeita dele mesmo. Ele quer. A realidade profunda da vítima mentirosa. pretende ser o que ele mesmo sabe ser. ou a violência agudamente ritualizada das quadrilhas do gueto são mentiras intencionais que intencionalmente contam a verdade. Portanto ele pretende a verdade. O que pode fazer isso? Um lampejo de fraqueza em seu senhor. ou de alguma forma aliviem. Um momento crucial vem quando alguma coisa rompe esta fina membrana de fingimento. dentro do espaço de sua auto-imagem. “Eles o açoitaram morro acima”. será a violência exacerbada do senhor que confronta o escravo com a autenticidade incorrigível de seu ato escravo. em escolhendo representar o que ele é. Mas faz também muito mais. atenciosa e atraente. em meio a canção tira-lhe a guitarra. sua qualidade de vítima. Porém a vítima auto-reconhecida não é desde logo seu próprio vingador. está 152 .conceber que sua pobreza é especial. Com mais frequência. sem motivo. Dizer que a fome não se torna uma sensação de rebelião até que coexista com comida é dizer que rebelião tem menos a ver com penúria do que com má distribuição. desempenha o papel de sofredor e humilhado. Em tal canção. às vezes a descoberta acidental de alguma força insuspeitada nele próprio. coloca sua realidade à distância de um fingimento que difere das realidades. “e Ele nunca disse uma palavra resmungada”. um homem que quer simplesmente rejeitar sua humilhação. só na medida em que é um fingimento. recriar seu mundo por intermédio de pantomimas sociais que transfigurem. Isto estabelece um tema central: a cólera revolucionária não é produzida por privação. seu pedido de liberdade. desperta a reação do escravo. desse escravo que ele é. Ao contrário. impede-o de contar a verdade. Um homem negro canta “blues” sobre sua impotência. É. ele disfarça de si mesmo o fato de que não teve escolha. O escravo é naquele momento colocado. Sua realidade exterior. antes de tudo. impede-o contar um mentira. para a inspeção do senhor. o escravo desempenha o seu próprio papel e desta forma escapa. Tal ato seria imediatamente punido. do negro americano. contava o escravo negro. e mesmo se o senhor olhar. Essa reticência divina se propõe claramente a servir de exemplo. sua solidão. pretende ter em suas mãos a verdade e julgá-la. uma réplica exata de si próprio.

Sua visão de mudança será nesta ocasião estreita e mundana. não lhe sendo permitido nem representar o horror da situação de vítima pelo gesto que o expressa. um diferente prefeito. Ele vive totalmente agora em seu espaço de vítima. ele deve ser aquele homem sobre o qual tentara cantar. Tornada menos ocasional. não precisava e não queria permitir. E. Estando pela primeira vez de posse da idéia integral de que sua vida podia ser diferente não fosse pelos outros. Ele começa a se sentir escolhido pessoalmente. ou a complexidade de sua visão. rara. o que parecera dado por Deus é feito pelo homem. (Uma vez que Robin Hood encontre o Rei Richard. Agora não pode se representar. sua política ingênua: Talvez ele só quisesse um diferente senhor rural. Este encontro despoja a vida de sua formalidade e a devolve à pura substância primitiva. ele é solitário. a injustiça fica mais coerente. Acareada a cada instante por essa coerência. O elemento importante não é o escopo. ele é pela primeira vez alguém que pode agir. esta conduta ultrajante do xerife pertence estritamente a este xerife particular. é um acidente haver tantas diferenças entre sua vida e a vida do homem completo. ante uma autoridade mais alta e distante. uma opressão que a Alta Autoridade não pretendia inflingir. ao mesmo tempo. contudo. na grande casa da encosta da colina. da reencenação da realidade. Quando a vítima vê que o que parecera universal é local. permanente imobilidade desaparece permanentemente. um diferente xerife. a vítima pode achar que já não é tão fácil evitar a verdade de que seu sofrimento é causado. descobre que também pode acusar. não à condição de xerife. Agora ele nada mais é senão o foco de injustiça. o “Sheriff” de Nottingham está bem arranjado. mas a nítida existência da idéia de que pode sobrevir uma mudança. vestido de branco. quem está para ser o agente desta mudança? Por certo não a própria vítima. O que o compele à esperança. Ele já teve prova suficiente de sua impotência. de forma alguma.psicologicamente fundido com este seu fingimento contador-de-verdade. Redescobre a idéia do sistema de força.) Encontramos nisto a política de apelo ao poder mais alto. e sabe melhor do que qualquer outro que é uma pessoa sem importância. Então. é a vaga noção que seu algoz é responsável. Isto é. Para a vítima não há mais nem mesmo a fuga frágil. ele é impotente. sem meios. que o que parecera qualidade é mera condição sua. Ao contrário. este xerife representa somente um desacerto local dentro de um sistema que a vítima apenas percebe e certamente não acusa. de que. por enquanto. que con153 .

Porém. rebelião. Ele descobre que o inimigo não é um punhado de homens mas todo um sistema. Acontece que o poderoso sabe perfeitamente bem quem são suas vítimas e porque deve haver vítimas. uma presunção central dela é que o rei não é mau. Ele entretivera certas esperanças sobre os poderosos. reproduziam o próprio agravo em cenários que forçaram todos a observá-lo. Eles sabem distin* O que não era novo era a maneira pela qual estas formas alargaram o conceito de petição. esta defrontação mais violenta permanece basicamente uma espécie de entretenimento. revolução. e que não tem intenção de mudar nada. É a mesma coisa que uma prece. as ocupações não-violentas e as várias marchas para o “Deep South” tinham origem na mesma crença: havia ainda um poder alto que era responsável e decente. parecer peculiarmente combativos. impetuosamente militantes. sem dúvida o ponto espiritual mais primário da educação do revolucionário em surgimento. Sua condição de oração permanece básica. Este reconhecimento é da maior importância. o criminoso para a mudança em direção à insurreição. Porém este desespero contém o presságio daquela destrutiva reconstituição final do espírito que preparará o descontente. Xerifes maus existem por toda parte. só desinformado. cujos agentes saturam a sociedade. aparentemente. o lutador. mais frequentemente. inclusive o czar. Longe de pôr em dúvida a autoridade mais alta. tem somente mostrado aos peticionários-vitimas que o problema é mais grave e a mudança mais difícil de obter do que tinham imaginado. às vezes. A idéia principal tem sido sempre persuadir a autoridade mais alta — Congresso. mais politicamente agressiva petição de massa ao rei. Porém. ONU. que a maquinaria administrativa e coercitivo-punitiva do estado existe precisamente para servir os influentes. publicado por destacados intelectuais vietnamitas em 1960. Em vez de meramente escrever a história do agravo. Ele é desviado por um desespero mais realista. parece não haver outra espécie. enquanto o movimento antiguerra não fôr capaz de imaginar uma ameaça que possa realmente valer. e a responder. estas demonstrações. deu as razões da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade. de fato dramatizam e exageram sua força. 154 . Acontece que o rei está do lado deles.* Algumas vezes a secular prece baseada na massa tem resultado em mudança. na verdade. Sugeriu o assim chamado Manifesto dos Dezoito. mesmo quando está elaborada dentro da. em 1963. Bobby Kennedy — a fazer algo.duziu a alguns momentos pungentes da história. As demonstrações de protesto contra a guerra do Vietnã não são diferentes. Esta linha de pensamento levou os camponeses e padres ao massacre da Praça do Kremlim em 1905. Os discursos que elas ocasionam podem. As Marchas pela Liberdade. ocupando e violentamente protegendo seus centros de controle.

desejando ter encontrado neste rebelde uma pessoa responsável. Mas o salto para a revolução deixou estas “soluções” para trás. absolver e suspender a execução de um inimigo que já foi sentenciado. a mais ardilosa feição desta imoderação é que ele pode ser impotente para mudá-la. “Que posso lhe dar?” interroga. Porém a mais importante. que substitui todos os “problemas” pela grande pretensão única de que o sistema todo é um erro. Isto restaura explicitamente a legitimidade da mesma autoridade com que o rebelde se define pelo repúdio. De outro modo nada há para discutir. não apenas uma chispa de orgulho. Está agora instruído de que estas esperanças são extravagantes. Mas. Para ele. um homem do mundo como ele próprio. e que aqueles que agora não tem nenhum — o povo. não deixa exatamente motivo — de novo. o poder ao qual agora se opõe. contudo. O rebelde é um absolutista incorrigível. Mas o rebelde não consegue ver o significado real desta palavra dar. os que são vítimas — devem ter todo. “Eu não posso ser negociado”. realista. Então que significado terá falar de compromisso? Compromisso é de certa forma. talvez intimidado senhor. porque derrubou e redefiniu por completo os “problemas” aos quais se referiam. nem mesmo em parte. todas as “soluções” pela única exigência irredutível de que a mudança seja total. mudança total significa só que aqueles que agora detêm todo o poder não mais devem ter nenhum. Ele só pode transigir com a autoridade anti-rebelados se estiver de posse de “soluções” específicas para aqueles “problemas” que finalmente o conduziram à revolta. todas as diagnoses da moléstia por um certificado final de óbito. O homem que acredita que mudança só pode vir de sua própria iniciativa não será inclinado a pensar que a mudança possa ser parcial. estão dispostos a mudar. é um comentário fundamental. teria de aceitar de certa forma. apoiando a primeira. embora revisada. a um certo nível. Portanto responde. sem a qual um compromisso não é nem mesmo tecnicamente possível. “O que quer?” indaga o aborrecido. esta resposta nada mais é que uma eva155 . A resposta se destina principalmente a acabar com a conferência. No âmago de seu desespero está a nova certeza de que não haverá mudança que não seja produzida por ele mesmo. Em outro nível. sendo este repúdio total. nem mesmo o motivo — para criar aquela conversação. Informa ao senhor que ele não mais existe. Antes de poder ver as coisas de outro modo. Os compromissos que forem tomados por agora serão acertados por seus líderes tranquilamente “realistas” e serão apresentados a ele como uma vitória total.guir justiça de injustiça. Ele próprio é imoderado e não conciliatório.

É o sofrimento. não precede. Porque o mundo tem agora um passado revolucionário. devemos nos defender. um Castro. Podemos estar certos de que o povo não disse: “Eis um plano para uma vida melhor — socialismo. Montes o chamou. mas destruir um Inferno. O rebelde luta por algo que não será como isto. ideal. o xerife? Não importa. Ele nos provou que é bom. Não é nem um economista. Mas sua visão motivadora de mudança é na raiz uma visão de algo ausente — não de algo que deve estar lá. a falta de um dono de mina. É o presente. que intelectuais revolucionários pretendem ter tomado emprestado da história. porque não pode mais suportá-lo como é.são. O rebelde ficaria embaraçado em confessar a verdade: que ele não tem tais idéias.” O motivo revolucionário fundamental não é construir um Paraíso. Não pode responder a pergunta sobre o futuro porque esta não é sua questão. Em seu favor. não mais existam. O futuro vitorioso é. segue. ou mesmo que elas a precedem e ativam.” Pelo contrário. Seu bom mundo futuro é descrito elementarmente por espaços vazios: a falta de um proprietário. Em tempo idéias utópicas aparecerão. Isto é sempre uma ilusão produzida pela analítica social prognosticadora. Algo melhor.” Acontece que pelo menos o espírito de socialismo estará implicado pela dinâmica interna da revolta de massa: O que foi ganho coletivamente deve ser possuído coletivamente. jogaremos tudo ao vento e arriscaremos nossos pescoços. Portanto. “Mude isto!” ele grita. Não é o futuro que o torna vítima. no momento. O senhor parece ter solicitado as idéias do rebelde sobre a sociedade revolucionária. em última instância deve. o dono. sua resposta é clara: “Então teremos de continuar a revolução. olhando de soslaio por cima dos ombros. pode parecer que elas surgem no mesmo instante que a cólera destrutiva. a explosão do fundo d’alma 156 . a falta de um xerife. Indústria? Agricultura? Comércio exterior? Não são tais assuntos que o impulsionam e preocupam. disseram: “O que temos aqui como modo de vida não pode mais ser tolerado. qualquer sociedade na qual certos indivíduos não mais tenham poder. um Mao. Se é então advertido de que este “algo” indefinido pode acabar por fazer as coisas piores. por mais agudo que se venha a tornar. diz o revolucionário. nem um filósofo social. Mas nunca será por demais enfatizado que o interesse em desenvolver outras formas especiais. nem um político. mas de algo que não mais deve estar lá. Não é uma utopia antecipada que o impele a arriscar sua vida. O revolucionário não é do tipo de um Lênin. Pode tornar-se isto. ou ainda a causam. Quem ou o quê substituirá o proprietário. menos ainda de um Brezhnev.

A boa terra que o campesino trabalha pertence à hacienda. O escritório do usurário e o Chase Manhattan Bank. Nenhuma porta pública é marcada durante a noite com o aviso que permite sua sobrevivência. Quando Turcios leva seu bando rebelde a uma aldeia da Guatemala. dos poucos centavos pagos pelo árduo trabalho diário. que é a única redenção do danado. são muito parecidos. da arrogância do patron. vistos da rua 137. Esta pertence ao patron. Logo deixa de se impressionar e se torna apático ante a Grandeza Ocidental. o patron pertence à United Fruit Company. Sabe muito bem que não é em seu nome que a virtude está sendo usada desta maneira. Alguém se ajoelha no centro do círculo e começa a falar de sua vida. para “propaganda armada”. É um número desnecessário. não conduz diretamente à ação política. pouco a pouco. cuja irresponsabilidade foi decretada por outros. Não é culpa dele estar sua fantasia repleta agora de explosões e ardentes rendas espanholas. não é preciso falar de sociedades sem classes. pela primeira vez. Temos um homem que certamente não intervirá num incidente de rua em benefício 157 . Consciência revolucionária existirá. “Si. Um compromisso com a violência apenas se tornou possível neste ponto. Nada no mundo social do senhor é poupado do desprezo desta definição. Algo terá de ser feito. dos altos preços. ou a ajudar a sociedade a evoluir sistematicamente para algo melhor. Mas esta nova consciência. no momento em que a vítima elabore sua experiência de injustiça dentro de uma definição que inclua a sociedade na qual vive. que. O rebelde é alguém para o qual injustiça e impiedade são apenas palavras diferentes para a mesma coisa. Apesar da justiça que lhe prometem. Quase sempre. O rebelde é alguém que não tem o que perder. O rebelde é um homem irresponsável. desafortunadamente sempre nova — que finalmente põe o círculo a retumbar com o grito desafiante. absorve tudo à vista. o homem que está ficando revoltado vê alguma coisa que não é sua.contra a injustiça. Coney Island e Lincoln Center. podem ser igualmente outros tantos escolhos. desde que existe. um que voga dentro de uma vida que será memorável principalmente por suas humilhações. É esta fala muito antiga. São todos possuídos por outro. é verdade. dos esquifes das crianças. Não adianta falar a ele na necessidade de proteger tradições e preservar instituições. Só por um breve momento. o campesino fixa os olhos com espanto não envergonhado nestes arranha-céus. esta alienação radical da autoridade passada e presente. E aquele primeiro acionador não acionado pertence a nada. Onde quer que olhe. es cierto!” Sim.

uma liberdade transitória. a liquidez de escolha. pelo menos. estes cuidados e demoras. pode-se dizer que escolheu sua escravidão. significam uma coisa: Ele quer ser livre. Mas isso não diminuiu a servidão. Mas pode também achar uma razão tática para se incorporar a uma marcha “moderada” ou aplaudir um discurso “razoável” ou não fazer nada em absoluto. Sabe que está sendo solicitado a se tornar um objeto histórico. Pode ser dito que. da velha coerção da escravatura? Não estão sua vida privada e sua liberdade preenchidas igualmente por ambas? É o rebelde algo mais do que o mesmo objeto cativo em roupas diferentes. é liberdade. não foi? É a nova dedução de rebelião em verdade tão diferente. Mas parece reconhecer nesta solicitação uma velha presença familiar. da qual se considera a maior vítima. Prossegue até a vitrina de uma agência de fuga. no fundo. onde tinha havido antes só sossego e rotina. Todas estas desculpas. escolheu a nova. está agora afiando facas? Que ele se tenha mudado de uma disciplina para outra não esconde o fato de que permanece sob disciplina. De fato. está desaparecendo em outra 158 . Muito bem. Isto não é irresolução. nem mais homem livre. Não entra. Quem sabe as coisas entregues a si mesmas andarão melhor. que foi por um momento uma profusa nebulosa de possibilidade. Quando o escravo concebe a rebelião e permanece escravo. cuidadosamente racionalizados. Isto não o torna menos escravo. a imagem é quase preponderante. Entendeu sua situação e as exigências que ela faz. Quando ele muda Eu posso por Eu hei de. em vez de cortar cana. Ele portanto contemporiza com a liberdade. Em momentos excepcionais tolerará falar de reforma. desempenhando um novo papel? Quando o escravo mata o senhor.“da lei e da ordem”. Seu desejo de uma vida privada independente tem sido intensificado por toda parte pelas condições que a proíbem. O que há de errado com este homem que pensa que as coisas podem mudar sem serem mudadas? Que sabe tudo e nada faz? Nada está errado com ele a não ser o fato de que é um ser humano. Foi tragado antes por esta história. Por toda parte viu comoção e incerteza. quando toma o rifle e muda Eu hei de por Eu sou este homem. Ele para à vitrina de um vendedor de armas de fogo. raciocina Sartre. Ele pode mesmo denunciar um movimento de tropas governamentais ou abrigar um “fora da lei”. dois homens morrem. o homem livre foi divisado só no momento em que ele disse: Eu posso! Eu hei de! Naquele momento o mundo todo foi abalado por sua exultação. Quer dizer que o escravo morre também e que o homem livre se materializa em seu lugar. Manterá a conversação aberta e a navalha fechada. Mas onde está a liberdade deste ex-escravo que.

concretizou-se num objeto específico. com frequência cita como ilustrações de estudo de casos os L’Être et le Néant [O Ser e o Nada] de Sartre. livrar-se destes títulos. De toda a gente. Vagabundos. está transformando a si próprio em outra imagem: a do rebelde. É menos esclarecedor para a vítima. “carrasco privilegiado”. o titubeio. ele não é seu próprio dono. Como o escravo se encontrou isolado da liberdade pela força do senhor. A vítima não pertence àquela categoria de homens para quem a ação pode ser regulada por tal conselho. quando afirma que homens não podem ser “nem vítimas nem carrascos”. mais nobres e mais baixos. e seus benefícios não são limitados pelo fato bem conhecido de que há caminhos melhores e piores. Para ele. na Lexington Avenue. para equilibrarse no extremo entre eles. muito menos com um sorriso afetado no rosto. muito 159 . Isto não significa que ele se reconhecerá como o objeto do brilhante epíteto de Camus. Isto é excelente aviso para o carrasco. nos quais pode ser perdida. é um caso claro de ou/ou. O apêndice psiquiátrico ao The Wretched of the Earth [O Miserável da Terra] de Fanon. Mas sempre ele está para ser varrido para fora. Temos que surpreender o recuo.atitude. seu futuro. Não fiquem desiludidos pelo racionalismo destes conceitos. mas a ser este rebelde. Lutará para fugir a esta encruzilhada. Uma vez mais. exceto mudá-la por outra. são sacudidos e iluminados por este tormento. não a meramente deixar de ser um escravo. talvez mesmo além de sua profundidade. somente sob certas condições. de um lado ou outro. Sartre devia ter estado suficientemente distante de seu partidarismo para ver que neste caso liberdade era somente a possibilidade de transição de um contrato obrigatório para outro — e portanto não liberdade. Não é como se suas sutilezas limitassem sua influência aos burgueses radicais que as analisam e denominam. Não devemos meter em nossas cabeças que o rebelde deseja ser um rebelde. aqueles momentos em que ele inexplicavelmente se desvia. assim o rebelde se encontra isolado dela pela decisão a que sua vida o forçou. que esteve por um momento dissolvido. Ele não está em liberdade para ser somente um não escravo. Uma vez mais. Ele só está livre para escolher entre dois duros senhores. Para o escravo não há simplesmente meio de pôr um fim à sua servidão habitual. Liberdade não é algo que somente certos homens descobrirão. Doutra forma não posso entender como pode acreditar estar estabelecendo um útil e relevante ponto moral. Liberdade não é um êxtase reservado aos europeus esclarecidos. Eu penso que Camus não percebeu isto. Não devemos pensar que ele lança seu coquetel Molotov com um uivo de júbilo.

é o desespero com o qual ela tenta pertencer àquela categoria. Logo que o escravo se define como outro que não o escravo. para desviar a nova versão da velha ameaça. Essa simples reivindicação coloca-o contra a injustiça de ser definido pelo senhor. sofrer hostilização constituíssem uma carreira. pois esta é a categoria de homens livres. Ser “frio” é usar a liberdade sem negar de modo algum que há um logro envolvido. não permitirá a perda do que Harlem chamou sua “frieza”. prefira ser uma tal coisa. No momento em que ele é mais apressado por sua revulsão. A escolha parece jazer entre se 160 . O rebelde terá resistido ferozmente à sua rebelião. Ser “frio” é flutuar sobre as próprias decisões. uma palavra que apenas poderia ser traduzida para os idiomas de gente oprimida — “línguas nativas”. Já que quer ser livre. porém outros. A mesma agilidade interior que protegera seu espírito da subjugação do seu corpo. o mesmo bom estratagema que guardou-o de se tornar para si mesmo aquele escravo que ele não podia impedir de ser para outros — este talento para a sobrevivência interior agora está de pé. Porém a evasão é somente uma forma mais precária da antiga auto-representação ritualizada. Pelo contrário. O escravo rebelde se evade de ambos os cativeiros por meio da recusa em destruir um ou outro. já se definiu como rebelde. vingança. o escravo não pode renunciar à rebelião. suspira famintamente por liberdade. de fato. Essa tensão só pode ser controlada pela ironia. É cruel pretender que nós não. tornar-se útil para Camus. de algum modo. É tentalizar-se com a possibilidade de que ninguém pode fazer nada. são de tal forma espantosamente estranhos a ponto de escolher vidas despedaçadas.menos que. Como se pode considerar que faz uma escolha quando escolher alguma coisa já é demonstrar rebelião? O dilema deste homem quase pode ser tocado com as mãos. um revolucionário. Nada quer senão liberdade. Já que não pode renunciar à rebelião. pode também estar mais alarmado por ver que está para ser reduzido àquela revulsão. Afetará por muito tempo uma espécie de reserva. e se condena a si própria. como se perseguição. que está em perigo de transformar-se nela — de transformar-se num revoltado. permanecer localizado exatamente apenas atrás dos próprios compromissos. O que é tão pungente no referente à vítima. Também o coloca contra as forças internas e externas que o pressionam a se definir. uma vez que o escravo é precisamente aquela pessoa que não pode de modo algum se definir sem cometer o ato de rebelião. ao mesmo tempo nunca deixando qualquer um esquecer a fatalidade da própria situação.

podemos então decidir que ele é trágico. se tomamos o machismo do rebelde tal é oferecido. Quando a figura “trágica” afirma que sua causa é “a humanidade do homem”. Ambos os enfoques estão errados. pode ser levantada numa íntima saudação para a “humanidade”? Daí o retrato que o rebelde traça de si mesmo: um soldado absolutamente fervoroso da humanidade do homem. realçando suas aspirações. Nós somos absolutamente fervorosos. De modo mais simpático. ‘’Absolutamente fervoroso” é um eufemismo para “desesperado”. Na situação crítica em que estamos vivendo agora. elasticidade por disciplina. “de fazer uma vigorosa distinção entre ser esquerdista — mesmo radicalmente esquerdista — e ser revolucionário. frios bastante para fazerem sem remorso o que eles são capazes de fazer (cortar gargantas).submeter a matar e cometer suicídio. Em jogo está a humanidade do homem. Se o acompanhamos na aceitação desse retrato.” Quem quer que deseje saber de onde vem a estranha capacidade da revolução para o terror e a inocência encontrará a resposta vibrando entre estas duas últimas sentenças. há toda a diferença do mundo entre os dois. ou ele esqueceu a maneira como veio ou deixou de ver que negar uma coisa não é o mesmo que afirmar o 161 . e das lágrimas de uma terceira. escreve alguém do movimento subterrâneo brasileiro. Quando o “criminoso” afirma que ele é “absolutamente fervoroso”. O revolucionário é alguém que não é nada mais a fim de ser tudo o mais. podemos encontrar nele o hipócrita criminoso que cinicamente pretende que a morte é só relativamente má. e o bastante ponderados na turbulência de suas vidas para manter a aspiração e o ato a um tempo. “Chegamos ao ponto”. está sempre redescobrindo que isto só será possível se ele trocar variedade por concentração. A liberdade está sempre lhe escapando por sua cólera ou sua fadiga. integrados e distintos? Como é que uma destas paixões não invade e devora a outra? Como é que a faca que ainda está úmida do sangue de uma pessoa. Como podem homens comuns ser a um tempo calorosos bastante para quererem o que os revolucionários dizem querer (humanidade). seu tom de voz atribui a ele mesmo uma decisão que se originou alhures. Desejando somente que sua vida objetiva possa ter um pouco da variedade e elasticidade de uma vida subjetiva. alguém levado a desfigurar o que preza mais altamente. então provavelmente nos convenceremos de que caiu na armadilha de uma completa contradição moral que pode ser resolvida só de uma ou duas maneiras. realçando suas ações. Com menos simpatia.

moçambicanos. Mondlane. Foi empurrado contra a parede. A despeito dele próprio. Este homem abstrato atravessou um bom número de mudanças. ausência de futuro que deram a ela seu conteúdo mortal. elegante e tem sangue-frio. um dilúvio psíquico que encharca tudo à sua frente. finalmente. foi por um tempo ainda algo que podia deixar a seu lado e contemplar ou representar. É esta privação de escolha que faz a diferença entre o “revolucioná162 . Possuído totalmente por seu dilema. não é mais capaz de fazer nem mesmo uma distinção subjetiva entre o dilema e ele próprio. Mas não é ainda um homem revolucionário. brasileiros que se juntaram a Turcios. Tornou-se a peçonha da qual tentou ficar afastado. Foi reduzido de escravo a prisioneiro. Está fundido com ela — com a pobreza. não sua pessoa. Mas isto muda. é empurrado para o mesmo espaço que anteriormente separara para sua cólera. afirmado a única vida que é valiosa para ele. que é tão enorme que chega a ponto de apequenar tudo o mais. tornou-se uma vítima auto-consciente que entende que ninguém mudará as coisas para ele. cuja simpatia tenta não se tornar envolvimento irreversível. Sua cólera. de prisioneiro a condenado. e portanto sob sua orientação. então se segue que rebelião não se concretiza até que se tenha tornado compulsória. Alípio nas montanhas e aqueles de pensamento semelhante que permaneceram espectadores nas aldeias? Qual a diferença entre o “revolucionário” o “esquerdista radical”. O homem miserável chegou à beira da violência. e que há algo como revolução. Estão mesmo tentando triturá-lo contra ela. O rebelde é alguém que aceitou a morte. hostilização. que o brasileiro nos informa ser tão crítica? Se estou certo em pensar que os homens resistem ao perigo e querem liberdade de todas as servidões. nada há. e portanto aquele orgulho dele. A aparente estranha liberdade do rebelde. O que o impele para a linha divisória? Qual a diferença entre os lavradores guatemaltecos. Exceto a rebelião. que ele próprio deve encetar a ação. Pode muito bem compor todo um hábito de vida sem hesitação. Não se trata mais de estar diante de dois objetos e escolher o que ele será. De alguém cuja reação à sua própria condição de vítima era resignação e fuga ritual. está em seu ato de ter. É oblíquo. ambiguidade. sua situação. como sua humilhação precedente. O rebelde é alguém que não mais é livre para escolher nem mesmo sua própria dócil servidão. irônico. alguém cujo desprendimento procura não se tornar perfídia. reserva.oposto. “A humanidade do homem” é um eufemismo para “sobrevivência”.

falou os nomes dos culpados. pondera delicadamente que há grão sem uso nos silos e terra sem lavrar.rio”. uma definição para pôr do lado daquela que reservamos para nós mesmos. O rebelde. agora que 163 . Era educado. que pode não ser de todo “radical”. Um dia ele emerge de sua educação . honra aquilo. e incapaz de se desfazer deles. que se congratulassem com ele por ter ingressado no campo de Sócrates e Bruno. será para nós o verdadeiro escravo assustador que descobriu sua força para sair da escravidão. observou seu mundo. Foi-lhe segredado que deve esconder-se. Isto nos dá o direito de ameaçá-lo como um criminoso. Isto aconteceu. faz uma modesta sugestão. Eis aqui alguém que estava feliz. Isto aconteceu. longe disso. como se não houvesse nada errado em matar rebeldes homens adultos. Foi sistematicamente metido em sua cabeça que justiça é tal e tal. Deixem que morra. e ser logo rodeado pelos homens brancos que diziam: “Vejam como se torce. Quem determinou que acontecesse esta das mais severas e absolutas reduções? Nós ocidentais satisfeitos pensamos que seja o próprio rebelde. cometeu o crime do neutralismo. Barriga roncando mas de chapéu na mão. verdade isto. Sem dúvida esperou vagamente que lhe agradecessem por isto. Outro que acompanhou uma marcha da liberdade. não pensando em fazer mal. acreditando que os homens eram bons. a policia tem seu nome. mas parece que ninguém aceitará suas desculpas. se apresenta ante os poderosos. Inocentemente. Há uma explicação mais mundana. Não tendo outros conceitos senão aqueles que foram marteladas em seu cérebro. Eis aqui outro. uma pessoa mais humilde. Porém esta distinção. neste caso. Impotente para não agir assim. não os acusa de serem poderosos. Um terceiro falou de uma união. Para onde irá este sujeito pacato.” Isto é memorável. Isto nos permite distinguir com a nossa piedade aquelas “mulheres e crianças inocentes” que nossas bombas também destroem. achou-se de posse de certas conclusões: Aqui não há justiça. Seu filho é arrancado da cama na madrugada seguinte. As coisas eram diferentes e agora ele está na prisão fazendo planos. Sobreviveu à bomba que destruiu sua família. de homem. obriga-nos a inventar uma segunda definição. totalmente nova. este viu um velho negro cair devido ao calor. e o “radical” que pode nunca se tornar “revolucionário”. para ver alguém enforcado por idéias perigosas. porque pressupõe que o rebelde teve uma escolha. Um sujeito pacato que falava pela paz entre a cidade e o campo.

A facção retrógrada tira disto prova convincente de que sua avaliação da situação tinha sido correta: “Estão vendo esta docilidade? Afinal. Seus partidários estão alarmados. “Eu te amo.é um criminoso? Um estudioso especula num artigo público que certos aspectos do sistema de comércio exterior de sua nação são desvantajosos para o desenvolvimento. o escravo cospe uma praga. senhor”. A paz precisa ser mantida. Contudo. Só quer saber que ainda é respeitado. Outro grupo se arma. Uma semana mais tarde vem a saber que seu nome foi ligado ao de certos inimigos da sociedade. infelicidade provada constitui um assalto criminoso contra a paz. Não há condenações. Agora exige que o escravo afirme sua felicidade. Duas bombas explodem em San Francisco. Como se estivesse de fato tentando produzir a colérica chicotada de resposta. Não se encontram indícios. A taxa de assassinatos em Dixie cresce de ano para ano. a facção avançada apressa-se com uma censura sentenciosa: “Tática ruim! Não há jeito de mudar os corações humanos!” É quase cômico. Não há prisões. Seus partidários o abandonam.” Exasperado. e que não está sendo incubada aqui nenhuma ameaça à paz. Um grupo propõe reformular a idéia de não violência. o chicote é o melhor pacificador. porque só está tentando satisfazer seu agora insaciável apetite de segurança. Suspeita de infelicidade no escravo torna-se base para sua detenção. Afinal a estabilidade deve ser assegurada. O senhor está inseguro a respeito de algo. um apetite que na realidade se tornou um vício. o escravo se submete. Um dia o telefone de alguém revela um estalido peculiar. Mas o senhor parece se tornar menos e menos confiante com cada uma de suas vitórias. A polícia está confusa. Dois pacifistas são alvejados em Richmond. que as coisas ficam como devem. murmura entredentes o escravo. o senhor empurra a face do escravo cada vez mais profundamente para dentro das realidades de sua situação. Quer ver o escravo beijando suas cadeias. Ocorrem pancadarias de natureza política entre bandos. olhando de soslaio entre as duas grosseiras botas. Chocado por descobrir que um escravo pode ter aprendido a praguejar. Tentando só reduzir sua dor por um momento. o senhor deve ser desculpado. pensando roubar um 164 . se não amado. Uma outra semana e descobre que não pode mais ensinar. em New York.

O homem a quem a América reclama o direito de matar. Sem causar surpresa verdadeira em ninguém. Mentirosos não merecem confiança e são perigosos. 165 .momento de descanso. A explicação do senhor soa verdadeira: “Era um mentiroso.” O rebelde é o homem para quem foi decretado que só há uma saída. é prontamente alvejado. O rebelde é também o homem a quem a América chamou “o comunista” e considerou inimigo. Tem de ter sido.

166 .

a constante denominadora da história moderna. a dinâmica expansionista da cultura comercial Ocidental tem sido a raiz. então não há diferença radical entre a política que os Estados Unidos emprega no Vietnã e a política que a Espanha empregou no México. O épico da fronteira americana copiou. a Inglaterra na América do Norte.VII Duas Questões Revistas Podemos traçar a contenda entre o capitalista e o pioneiro democrático desde os mais remotos dias coloniais. sua dolorosa construção de democracia constitucional — estas realizações interligadas têm sido financiadas pelo roubo assegurado chamado imperialismo. a França na África do Norte e toda a apavorante armada das potências européias. em conjunto. o florescimento de suas artes e ciências. Fredrick Jackson Turner1 Se as guerras travadas para a aquisição do império são politicamente o mesmo que guerras travadas para a proteção de impérios já adquiridos. A grandeza do liberalismo ocidental. desde o início da grande Renascença comercial do norte. Tendo ocupado o continente norteamericano e reunido e centralizado seu poder. Desde o tempo da decadência do Império Islâmico e o empalidecer da Idade Média. 167 . na velha Ásia. a história mais ampla e geral dos imperialismos transoceânicos. sua abundância material. em escala continental.

Por volta do final do século XIX. então há uma segunda questão a ser revista. derrotar os Pagãos (Bárbaros. incorporadas. cujo interesse especial se torna a extensão do uso de suas técnicas. burocratizados.sem hesitação os Estados Unidos seguiram seu próprio rumo de construção de império. como têm sido de nosso lamentável passado. em sua aula inaugural. Brota. que soberanamente decide a direção de seus negócios. agora chamada “desenvolver o subdesenvolvido”. agora chamada “responsabilidade do Mundo Livre”. institucionais. Selvagens).2 O impulso para a “racionalização” do estado não é o produto desta ou daquela filosofia política. O mesmo saque contínuo. um dos maiores economistas sociais modernos do Ocidente. do desenvolvimento de técnicas que tornam possível uma tal racionalização. em torno daquelas técnicas. e da coordenação de tais grupos dentro das estruturas de poder maiores. para se perpetuar e estender o território social no qual sua influência é dominante. Max Weber. fez uma estranha profecia: Junto com a máquina. mais íntima para os americanos do que a primeira. só mais feroz e mais resistente e astuto. na Universidade de Freiburg. como de costume. o Japão e o continente da Ásia. uma figura que agora é posta em voga se secularizada como a Ameaça Vermelha — igual aos pele vermelhas. ao contrário. E se a história é cumulativa. em vez de repetitiva. conquista da região inculta. aquiescente e impotente enquanto um bem puramente técnico — isto é. da consolidação. 168 . As guerras do tipo vietnamita serão tão típicas de nosso futuro cada vez pior. a organização burocracia está empenhada em erguer as casas de servidão do futuro. os americanos terão de fazer uma escolha entre continuar o roubo ou pará-lo. Primeira questão revista: Em vez de uma escolha entre liberdade e tirania. a leste para as Filipinas. justificado. de grupos profissionais de elite. ao sul para o Caribe. Pugnam. em qualquer caso. nas quais talvez o homem será um dia como os camponeses no antigo Estado Egípcio. por algumas combinações dos três elementos tradicionais da ideologia imperialista ortodoxa: manter a paz. Não importa muito se estas estruturas de poder chamam-se “públicas” ou “privadas”. esta ainda mais pessoal. gargantuesco agora. administração oficial racional e provisão — se torna o valor único e final. este Vermelho.

. ou a habilidade de direção. visão e interesse formam o estado-maior da indústria. A tendência para se conglomerar permite que o capital incorporado. é assim tão diferente do solicitado por Thorstein Veblen. sem levar em conta quaisquer pretensões nacionais ou quaisquer interesses investidos. e manter uma supervisão das táticas de produção.. constituem o estado-maior geral da indústria. de um ponto de vista “tecnocrático-socialista”. Cada ano o sistema de negócios grita mais alto aos homens de independência e caráter para tomar em suas mãos maciça carga nova de decisão... cuja supervisão constante é indispensável para o devido funcionamento do sistema industrial. cujo trabalho é controlar a estratégia da produção.4 À luz das precedentes passagens citadas. Entre os federalistas. equipamento e mão de obra. O verdadeiro perigo “social e moral” para esta sociedade é nós continuarmos a seguir nossa presente linha de desenvolvimento econômico. sejam aplicados em novos mercados que podiam de outro modo fenecer por falta destes ingredientes. Mas isto nunca teria sucedido ao se efetuar o estabelecimento da Constituição [i. de um ponto de vista “capitalista”. enquanto conservamos vivos na política antitruste uma coleção de ideais derivados da forma de conservadorismo de Bryan-Brandeis (sic) que denigre o sistema de negócios que temos.e. em particular.3 Ou vejamos se o mesmo tipo de espírito cultural não anima a seguinte passagem de uma recente polêmica de Fortune contra o antitruste. que pelo treino. Vejamos se o sistema que ele prediz. de um forte governo central] se não tivessem recebido a ativa e determinada cooperação de 169 .Examinemos de novo a profecia de Weber.. a direção dos negócios públicos devia considerá-las bem-vindas. É essencial que este corpo de especialistas tecnológicos. podia ser encontrado um grande grupo dos patriotas da Revolução. levando a efeito uma sociedade inovadora. tenha liberdade na utilização de seus recursos disponíveis em materiais.. No que diz respeito a fusões conglomeradas. da biografia de seu avô John Quincy Adams. e um grande número dos cidadãos abastados dentro da linha das cidades costeiras e regiões populosas.. Os especialistas tecnológicos.. no geral. quase todos os oficiais generais que sobreviveram à guerra. escrita por Charles Francis Adams... reflitamos sobre a seguinte.

e do fenômeno do McCarthysmo. lei. O imperialismo é o acessório público nacional do expansionismo comercial privado. ou não. nem que continuará a resistir a ele no futuro. E enquanto negócios e governo cooperam para racionalizar e dominar a economia política do mundo. grandes negócios fazem governo poderoso e negócios multinacionais globalizam-no. a probabilidade de male170 . de nosso tempo. claramente como podemos ver hoje que a Inquisição era tão só as Cruzadas ao avesso. contra a vontade evidente do povo americano. exato como o faziam os antigos romanos. do que ordem total. um forte governo central para protegêlos contra os estados indóceis da antiga Confederação. de Orwell. dependerá de suas tradições e do caráter da resistência que o povo seja capaz de conceber e expressar.5 O modelo simples se desdobra sem cessar. os interesses americanos em frutas não podiam saquear as “repúblicas das bananas” e a oligarquia brasileira não podia sem medo ignorar as necessidades econômicas e sociais mais elementares do povo brasileiro.tudo que fora deixado na América de ligação à pátria mãe. Se nossa sociedade tem na maior parte resistido a este impulso. Porém dificilmente podemos esquecer que o impulso para estatismo policial tem estado conosco pelo menos desde os tempos do Alien and Sediction Act [Decreto sobre Estrangeiros e Sedição] o predecessor do McCaran Act. Tal como em 1789. Há a possibilidade de que o estado total americano vá se assemelhar mais ao Admirável Mundo Novo de Huxley. assim cooperam para racionalizar e dominar a economia política interna. Sem as forças intervencionistas americanas em contínuo alerta. e conseguiram. controle total — o estado total do mundo total. quer esse estado no princípio seja benevolentemente administrado. o escopo do governo federal deve também ser global. Assim. as dimensões se alargando determinadamente. Se ele se torna. A solicitação básica é de. isto não quer dizer nem que se mostrou à prova dele. Uma sociedade totalitária não precisa ser um estado abertamente policial. salmodiando “paz. assim em nosso tempo pedem um governo federal para proteção contra os estados indóceis do mundo. do que ao 1984. bem como do interesse endinheirado que sempre aponta para governo forte tão seguramente como a agulha para o pólo. as formas retendo sua identidade. Sendo agora global o escopo do comércio americano. Fraca consolação. ordem”. podemos ser capazes também de ver que a sociedade totalitária é a essência lógica do estado imperialista. os grandes negócios pediram. Uma vez lançadas as bases do estado total. nada menos.

a situação histórica desta guerra pode torná-la um clímax. através do silenciar da crítica histórica. repetida e publicamente. precariamente. é que um certo número de forças interligadas parecem inclinadas a estimular cooperativamente a tendência para a totalitarização da sociedade econômica e política. ou pelo cancelamento violento dela da história atual. a terceira administração a partir de agora se encontrará de posse de um cadáver — uma previsão que supõe. a primeira em que a reputação do estado tem sido posta em causa tão incondicional. Sua iniciação nos limites é enfurecedora e sua compostura vacila. a crise do Vietnã é sem paralelo. Cuba. Segundo. a primeira que todo mundo tem olhado de perto na intimidade de suas salas-de-estar. pelo menos um grande segmento da sociedade. no referente à situação atual da América. e dado o sofrimento que sem dúvida ainda o espera. uma frustração que começa a parecer impenetrável. sobre outros aspectos. Na crista de seu poder relativo. quer por meio da dissimulação ou superação por um fato maior (como guerra com a China). a única saída para aqueles a quem o poder fez responsáveis reside na supressão do acontecimento final. não há solução que não venha a traumatizar.volencia totalitária básica existe. as Filipinas). Se a vitória não pode ser alcançada e a derrota não pode ser dissimulada. a requerer tanto esforço americano para alcançar mesmo um acordo ambíguo. Neste caso. Quem tem uma clara idéia de vitória que não seja também absurda? No melhor dos casos. Terceiro. pode significar que a cultura não será capaz de tolerar com facilidade outra de sua espécie. Primeiro. é entretanto a primeira de sua espécie a ser tão prolongada. a América moderna experimenta pela primeira vez. O que se mostra especialmente ominoso. imóvel. Mesmo uma manobra política soberbamente habilidosa não poderia apresentar um “compromisso” como uma “vitória” (tal na Coréia). que as administrações a se suceder manterão a obstinação da presente e que a história permanecerá. a economia de guerra tem o efeito de elevar cada vez mais 171 . nada menos que a vitória pode sustentar a legitimidade presente do estado. “derrota” é também inconcebível sem um imenso abalo na autoconfiança e consciência americanas. Ao mesmo tempo. dois acontecimentos marcadamente indesejáveis. a primeira a ser travada sob palavras de ordem tão claramente hipócritas. e segundo os termos pelos quais a guerra tem sido explicada ao povo americano. De nenhum modo a primeira de sua espécie (México. de alguma forma.

que toma as decisões. o aparato por meio do qual a sociedade pode ser totalitarizada existe e está em andamento. e acesso 172 . Além do mais. — o poder reúne-se nas mãos daqueles cujos interesses especiais os inclinam para maior belicosidade no exterior e formas mais diretas de restrição política no país. Aqueles que administram estes interesses. O estado corporativo tem controle efetivo de elementos-chave do sistema de comunicações. controle exclusivo dos gânglios principais de poder político e econômico. se a decisão clássica entre a guerra e depressão precisar de novo ser feita. Relacionadamente. e nunca seu poder foi menos sujeito a controle ou veto popular do que agora. que diretamente. no exato momento em que a economia se coloca na “necessidade” mais clara de guerra — ou de modo contrário. a crescente influência dos militaristas dentro da crescentemente militarizada economia política. a resistência militar incomum e a notabilidade moral do inimigo. está no momento sendo levada para a alienação total do poder branco e total solidariedade contra um sistema cujas hipocrisias nunca estiveram antes tão nuamente à vista. será mais uma vez feita pelo grupo que tem mais a ganhar com a guerra e mais a perder com a depressão. a guerra aprofunda e intensifica a já avançada dependência da economia em relação aos subsídios de defesa federais. Os problemas que se agigantam ante nós agora são. Portanto. A América negra. Há uma clara conexão mecânica entre a guerra e os problemas dos guetos americanos. apenas a espécie que serviu de tentação a outros autoritários para fazer experiências com democracia ou tolerância ou liberdade política. a classe prestigiosa. Mais importante ainda é a conexão espiritual. a elevação simultânea do desassossego racial e classista. cujas ações políticas têm um impacto complexo sobre a América do branco pobre. no fim de contas. as agonias da guerra se mesclam psicologicamente com as agonias da decadência urbana e da turbulência racial. ou através do efeito multiplicador.o poder dos generais guerreiros e aqueles grupos de interesse individual que têm mais a ganhar com as despesas bélicas. é menos capaz de opor-se à declaração de gastos de defesa. constituem a oligarquia política americana. a virtual impossibilidade de resolver o conflito dentro do atual meio político da América. podem montar a mais de um quarto do produto nacional bruto da nação. Em suma. Portanto. junto geralmente com incorporadores multinacionais. Finalmente. o estado do bem-estar tendo sido podado para dar lugar ao estado guerreiro. tudo se combina para estimular os impulsos inerentes da sociedade corporativa para a reação totalitária.

Não existe como um fundo sob a superintendên173 . O que pode ser feito? A questão central deve ser compreendida.a uma ideologia nacionalista amadurecida. Está sozinho nas alturas controladoras do poder. ser politicamente livres. Mas o estado não pode dar liberdade política. violento internamente. Liberdade política não é uma licença a ser negociada ou requerida a um poder mais alto. ou das pequenas revistas originais de dissensões provisórias. isso já foi feito. do sexo suburbano. nem na natureza da liberdade política poder ser dada. Não está. prenhe de violência e capaz de justificar qualquer ação razoavelmente envolta em sofismas ou ação autoritária direta contra dissenção organizada. isso já foi feito. Um tal fascismo pode ser. pode dar de sua generosidade para aqueles que se humilharem ritualmente ante ele. O fato é que seu estilo será determinado essencialmente pela vontade incontrolada de seus dirigentes. O que quer que o estado decida fazer. Pode se recusar a entregar assassinos racistas à justiça e assim produzir um Terror efetivamente patrocinado pelo estado. então encenar uma batida policial para descobrir esta dinamite. A casa imperial de servidão pode lhes dar riqueza. então encenar uma batida policial para descobrir estes narcóticos. Não é uma dádiva. O estado corporativo pode esconder dinamite num escritório do SNCC. Pode colocar narcótico num escritório do SDS. nem na natureza do estado poder dar liberdade política. isto já foi feito. Pode mesmo ter a graça de deixar alguma gente viver numa ausência subsectária da sociedade política. sequestrada da história nos subterrâneos do LSD. ou não. então é usar eufemismo dizer que é impossível um fascismo americano. e o poder de uma tal aliança política ou aliança de manejar sua vontade sem outras restrições significativas do que aquelas que escolhe se auto-impor. pode fazê-lo sem controle ou embaraço. e então encarcerar manifestantes. anonimamente em solidão com solitários igualmente ardentes. segurança e ordem. Pode tacitamente determinar a seus policiais direitistas que permitam por um pouco que uma quadrilha direitista assalte alguns manifestantes contra a guerra. isto já foi feito. da pesquisa pura. ou não. pode dar-lhes vitórias e atestar que estas vitórias são autenticamente gloriosas. Se a feição central do estado fascista é a aliança política ou identidade do governo poderoso e grandes negócios. Eles tramarão de qualquer forma fazer o que determinarem deva ser feito. A única questão básica que os americanos têm agora para formular a si mesmos é se querem. O superestado pode mesmo voltar um ouvido meio preocupado para os murmúrios dos desprovidos.

lhes dá estilo. e motiva seu trabalho. é obscurecida. podem produzir e exibir liberdade. qualquer que seja o conteúdo dessa decisão. Esta questão central não é aclarada. É uma condição elementar da vontade individual.” A tarefa primária do humanista é descrever e ajudar a realizar aqueles atos políticos através dos quais o poder do monolito autoritário central possa ser rompido e a vida política do homem reconstituída na base da comunidade associativa. Se o humanista americano deve abrandar sua intransigência e sair de seu princípio utópico e ir de encontro às realidades da vida tecnológica. O humanista não deve dizer: “Aceitaremos esta sombria casa de servidão e trataremos de redecorá-la.” Diz ao contrário: “Insistiremos na prioridade da liberdade do homem e basearemos nossa invenção social na ética do contrato social livremente feito. por nossas categorias políticas comuns de esquerda. possuir.cia de escritórios privilegiados. A questão urgente é sobre a localização do poder na comunidade: Está ele no estado ou está no povo? E em nosso tempo americano. não os estados. não-executiva. Se os americanos escolhem ou não ser livres é a questão política transcendente. o conservador corporativista. podem ser livres. e o liberal pró-estado-do-bem-comum são todos igualmente capazes de nos conduzir na direção da sociedade totalitarizada. mas o estado não pode nem tomá-la nem dá-la. o principio básico da política radicalmente humanista é este: Qualquer decisão que não for tomada pelo povo em livre associação. O estado pode negá-la ou obstruir seu curso. é apesar disso esse princípio básico que estabelece seus objetivos. é esse princípio que o humanista continua a elaborar e enriquecer por meio de intercâmbio humano no contexto de situações humanas. em sua vida. O radical socialista. A liberdade política está no homem político. e sem América totalitária não poderá haver império americano. Se os americanos escolherem a liberdade não poderá haver América totalitária. nosso lugar americano. e existe quando ele a exige. democrática. não é aclarada. porque não figura entre as capacidades do estado deter. a única questão que coordena e resume todas as áridas questões da política externa e interna. um princípio tão escorregadio como a liberdade política dos homens. William Appleman Williams coloca-a desta maneira: 174 . pelo debate americano tradicional sobre socialismo versus capitalismo versus a economia mesclada Keynesiana. direita e centro. é obscurecida. não pode ser boa. Somente homens. Se o planejamento central deve ser coordenado pelo governo ou por mãos corporativas é uma questão cujo realismo desapareceu.

Estes dois grupos possivelmente não podiam ter menos em comum. Deviam saber que. Tal descentralização é tecnológica e economicamente possível. a ala direita conservadora de tendência imperialista. que é preeminentemente através da ideologia da Ameaça Estrangeira.”7 175 . Nossa humanidade está sendo golpeada e espremida para fora de nós pelo poder consolidado de um capitalismo nacionalista bélico corporativo. para os imperialistas totalitários. E tal descentralização é psicológica e moralmente compulsória. de um relatório de 1938.. todas as guerras têm sido travadas por razões econômicas. Por que os libertários concederam a liderança aos conservadores? Por que os oponentes tradicionais do grande e militarizado governo autoritário central agora somam forças com os mais audaciosos advogados de um tal governo? Agiram assim porque foram persuadidos de que há um perigo claro e presente que necessita uma digressão temporária dos valores finais. Tal descentralização é essencial se é para a democracia ser mantida e ampliada. Três explosões de candura exemplar neste ponto: Primeiro. autorizado pelo Escritório do Serviço Secreto Naval dos Estados Unidos: “Realisticamente. Por mais que esteja na fibra do populismo democrático americano está também na fibra da direita liberatória americana. na linha de tiro com os Minutemen. com o precedente histórico. Deviam saber melhor. reunindo a John Birch Society. igualdade. Estes valores radicais podem ser realizados mais facilmente através da descentralização e através da criação de muitas comunidades verdadeiramente humanas. Sob uma única e mesma bandeira. democracia e humanidade simplesmente não podem ser realizados e mantidos no futuro — nem podem ser tentados — através de mais centralização e consolidação. autoritária e mesmo monarquista. fins ideológicos têm sido sempre invocados. e individualismo de mercado livre.8 Isto não é meramente um desafio de esquerdista para outro esquerdista. goza da fraternidade da ala direita libertária do laissez-faire. A ala direitista na América está presentemente num estado de quase assustadora confusão espiritual..Os ideais e valores radicais essenciais de comunidade. Qualquer possível guerra futura se conformará. Para torná-las política e socialmente agradáveis. há sempre um perigo claro e presente. do mito do tigre nos portões. sem dúvida. que o imperialismo de fronteira e global e o autoritarismo interno sempre se justificaram. rindo entredentes através das páginas da National Review.

um complexo de arrogância e medo em relação aos “bárbaros”. abandono de uma identidade nacio176 . a fim de preservá-la permanentemente.”11 E de Dean Russel. mais insidiosamente.. Na verdade. que apresentou. o testemunho do General Douglas MacArthur: Falar de ameaça iminente à nossa segurança nacional através da aplicação de força externa é pura falta de senso. no meio-oeste. em 1952. a criação de satélites políticos e militares. subordinação da política interna à política externa. faz parte da forma geral de política mal orientada nosso país ser agora orientado para uma economia armada que foi criada em uma psicose artificialmente induzida de história de guerra e nutrida com uma incessante propaganda de medo.9 Seria um fato de grandiosa boa sorte para a América e o mundo se a direita libertária pudesse ser lembrada de que além do Republicanismo viciado dos Knowlands e Judds há uma outra tradição valiosa para ela a sua própria: a tradição do Congressista Howard Buffett.”12 Mais atraente é a direita do tenaz Garet Garrett. que os eventos dos anos intervenientes tornaram a comprovar. corte e Constituição.. cuja resposta à Ameaça Vermelha interna era abruptamente decisiva: “O meio de ficar livre de comunistas nos empregos do governo é abolir os empregos.”10 Há a direita de Frank Chodorov. Estamos nos tornando rapidamente uma caricatura da coisa que professamos odiar. Não podemos falar de cooperação e praticar política de força. ascensão da influência militar.Segundo. orientador da campanha do Senador Taft. uma rápida análise do impulso totalitário do imperialismo. que escreveu em 1955: “Aqueles que advogam a perda temporária de nossa liberdade. descansa em uma base ilusória de desconfiança completa e ocasiona entre nossos líderes políticos quase um medo maior de paz do que seu medo da guerra. o panfleto de Garrett indica infalivelmente os traços da patologia imperial: dominação do executivo nacional sobre o Congresso. que atacou a Doutrina Truman com as palavras: “Nossos ideais cristãos não podem ser exportados para outras terras por meio de dólares e armas. Não podemos praticar domínio e força no exterior e conservar liberdade em casa.8 Terceiro. estão advogando só uma coisa: a abolição da liberdade. em 1952.13 Começando com as palavras: “Cruzamos a fronteira que fica entre República e Império”. e. a crença do Senador Arthur Vandenburg de que para obter sua aceitação de uma militante e dispendiosa política de Guerra Fria seria necessário “assustar com o inferno o povo americano”. Embora uma tal economia possa produzir uma sensação de aparente prosperidade pelo momento...

do tipo dos anos trinta. Se isto acontecer. se pavoneando através de cemitérios exóticos que ele preencheu e onde ousa pousar coroas.nal por uma identidade internacionalista e “histórica” — a república é livre. ele para sua fantasia por um momento a fim de imaginar se não há algum meio fácil para recapturar o que parece ter sido tão facilmente 177 . Sua união potencialmente redentora pode acabar inatingida e irrealizada. se mostrará sem dúvida indigno de mais do que uma nota de pé de página nas histórias carniceiras de nosso tempo. a Velha Direita e a Nova Esquerda estão moral e politicamente coordenadas. A Nova Esquerda pode se perder nos debates de esquerda importados. cujo único e básico amor é Poder. Eles são da fibra do individualismo humanista americano e da ação associativa voluntarista. o subumano poder camisa-parda de militante do estado jacobino. Aqui está o moderno humanista ocidental. imaginando o que deveria dizer sobre tecnocracia e Stálin. Num sentido saudável. fruto de uma longa linha. De ambos os lados pode ser cortada a visão por meio de respostas habituais para labéus ultrapassados. Que estes movimentos sejam chamados de esquerdistas nada significa. recrutando-nos com seus computadores. O superestado deslizará adiante em seu esplendor de aço e vinil. A direita libertária pode permanecer hipnoticamente encantada pelo imperialismo autoritário. então este novo humanismo político. o capricho desenfreado do Estado. que talvez ele fosse um sonho ocioso afinal e que o povo realmente nunca teve uma oportunidade. etiquetando-nos e numerandonos com seus testes científicos. o império é refém da história. Crescentemente afastado daquelas imagens de homem que uma vez sustentaram seu trabalho e deram forma às esperanças. que tem mostrado sua coragem de Lowndes Country a Berkeley. inutilizado já talvez por aquela racionalidade não-sentimental que ele se mostrou por tanto tempo satisfeito em honrar. é abraçado hoje pelo movimento negro de libertação e pelo movimento estudantil contra o imperialismo de Grande Sociedade-Mundo Livre. enraizadamente americano. Contudo sua intersecção pode ser perdida. mas talvez já um item sem uso e arcaico. auto-satisfeito nas ruínas de suas promessas à moda antiga. se as novas realidades não forem penetradas e uma reorganização ideológica fundamental não se realizar. o estado de aço possuído por sua própria glória retumbante. E alguém terá de fazer finalmente a observação de que o sonho americano não se tornou verdade. Este estilo de pensamento político. feitas a si mesmo. que tinham o homem como centro. e é só através deles que a tradição libertária é ativada e mantida viva.

Só o povo americano pode fazê-lo. contudo. O povo está sozinho. Só o povo deve. nem botões para achar e premir.perdido. O que parece perdido não foi realmente perdido. De nada adianta imaginar. 178 . consigo próprio. Compete aos americanos reivindicar de novo e tentar reformar seu país. As fronteiras se foram. Não há mais bárbaros para justificar as conquistas básicas e salvar a consciência. como de hábito. Não há meio fácil para fazer o velho sonho respirar neste novo ar. chegou a um fim.

6 Gary Porter. New York. 318. 322. Pall Mall Press. A Political Biography. ed. The Viet -Nam Reader. de Bernard B.Notas Capítulo II: A HISTORIA DO GUERREIRO DA GUERRA FRIA 1 Citado em “The Fullbright Revolt”. Magazine. 7 Em Stalin. ed. New York.. 11 NYT. Frederick A. de Eric Robson. Random House (Vintage book). 1965. International Publishers. 109-194. pag. 24. eds. Rinehart & Winston. 1960. 1963. 13 Fall. New York. Goldbloom. 1966. pag. pag. abril de 1965. 12 NYT. “Viet-Cong — The Unseen Enemy in Viet-Nam”. Random House (Vintage Russian Library). 261 179 . XI. 1 de Janeiro de 1966. New York. Commentary. Holt. 9 NYT. de Wilfred Burchett. “Globalism — The Ideology of Total World Involvement”. 1964. Inside Story of the Guerrilla War. setembro de 1966. George Athan Billias. 2 Vietnam. London. 1965. 10 de agosto de 1966. New York. 10 Political Science Quarterly. Raskin e Bernard B. pag. Marcus G. de Maurice J. 1965. Fall. 30 de Janeiro de 1966. pag. Praeger. 16 de Janeiro de 1966. 1963. Fall. de Isaac Deutscher. 8 NYT. 3 The Two Viet-Nams. 5 “The Namierist School”. The American Revolution. rev. esp. 1 de fevereiro de 1966.. 4 The New York Times (NYT). em Raskin and Fall ads. pags.

13 William Appleman Williams. (Nas seguintes citações deste livro imensamente útil. The Shaping of American Diplomacy. 2. 235-237 (Daqui em diante citado como Tragedy.) 14 Ibid.. pág. “Jefferson and the Embargo”). 17 Ibid. pág. editado por e com extensos comentários de Williams.. 110-122.. (Daqui em diante citado como Shaping. 12 (Curtis P.J. pág. 15 Ibid. 12 Para um desenvolvimento “antropolítico” deste ponto ver Marshall D. New York. N.. 17. 16 NYT. 251.’ 197-200. pág.. 82 (Louis M... New York. pág. 17 de abril de 1966. Stelle. pág. Rand Mc Nally 7 Co. F. “British Mercantilism and the Economic Development on the Thirteen Colonies’’). Na citação de historiadores o autor e o título são dados entre parênteses. eu só forneço os números de páginas tirados da parte “documentos”. A History of Civilization. “The Appearence of an American Attitude Toward External Affairs. 1956.) É um maciço compêndio de “Readings and Documents in American Foreign Relations 1750-1955”. págs. de D. 1 de fevereiro de 1966.. 252. 1962.) 7 Ibid. Doll Publishing Co.. Fleming. 2 vols. pág. 258. 6 William Appleman Williams. pág. Prentice-Hall. 217-224 (Charles C. pág. pág. The University of Michigan Press. pág. 1955. 10 Ibid. DOMINÓS QUE CAEM 1 Em The Cold War and Its Origins.. 1917-1960.. Capítulo III: PORTAS ABERTAS. pág.. 2 vols. Ann Arbor. págs. 15 (Max Savelle. 427. 13 de fevereiro de 1966. 503. Evolution and Culture. págs. 15 NYT. Sears. 8 Ibid.. 35. 328. The Tragedy of American Diplomacy.. 68. vol. 258. 482. Doubleday & Company. 1961. pág. Sahlins et al. 5 Fleming. 1750-1775”). Englewood Cliffs. 11 Citado em Deutscher. pág. 17 NYT. pág. 16 Ibid. 2 Ibid. “American Trade in Opium to China.14 NYT. 18 Ibid.. 19 Ibid.. Nottels. 249. Williams cita sem datar um editorial do Times de Londres.. 4 Crane Brinton et al. 315. págs. Mich.. Chicago. 53.. 1960.. 180 . 27 de fevereiro de 1966. pág.. 20 Ibid. 9 Ibid. 79. 3 Ibid.

39 The Public Papers and Addresses of Franklin D. 34 Tragedy. 683-688. The Communist Foreign Trade System. pág. 27 Ibid. 234. 17. Pryor. 3 Tragedy. pag. pag. New York.. pág. pags. League for Industrial Democracy. 32 Shaping.. 30 Thomas R. To Build a New World. 66... 1964. “Guerrilla Warfare in Underdeveloped Areas”. “Big. MIT Press. pag. 44 Fortune. 26. pag. 1963. Random House. panfleto sem data. pag. 224 (Foster Rhea Dulles. 29 Tragedy. New York.. Barber. pag. pag. 239. pag. págs. 24 Tragedy. 31 Ibid. 40 Tragedy. Biggest: American Business Goes Global”. 25 Ibid. pägs. Bigger. 35 Ibid. 4 Em Edmund Stillman e William Pfaff. 78. 36 Ibid. 66. 433-434. Cambridge. 19. 38 Department of State Commercial Policy Series. W. 97. 37 Ibid. Capítulo IV: IMPERIO DO MUNDO LIVRE 1 Tragedy. Brooks. 133. 123. pag... 237. vol. 28 Department of State Bulletin. Lilienthal. 26 Ibid. 21 Ibid. 27. New York. 18. 1934-41. Rostow. “American Interest in China”). abril de 1960. pág. Harpers & Row (Colophon book). 434. 22 Tragedy.. 1938. 382. 5 W. “The Multinational Corporation”. 4 (1935). 41 Ibid. 42 Ibid. eds. 1-70. junho. 463.. pag. pág. 26. 2 Frederic L. The Polities of Hystoria. 6 David E. Roosevelt. pag.1821-39”). pag. Mass. 43 Ibid. 23 Shaping.. 33 Ibid. pag. 233. 5 de novembro de 1962. pag. pag.. 235. em Raskin and Fall. New 181 . pag.. 1966. 7 Richard J. 110-112. pág. comunicação feita ao Carnegie Institute of Technology.

setembro de 1964.S. 8 de fevereiro de 1966. 1 de abril de 1966. 28 de outubro de 1965. 23 de novembro de 1964. 8 de novembro de 1965.. pág. 8 de março de 1965. Foreign Affairs. loc. 83. 30 de abril de 1966. 511. ver o memorandum “A Bank for Economic Acceleration of Backward Countries”. da Standard. 11 Newsweek. 490. 15 Forbes. pág. Monthly Review. págs. 1964. 28 de Janeiro de 1966. abril de 1966. Our Depleted Society. 23 Ibid. 24 de dezembro de 1964. março de 1966. Rinehart & Winston. Berkeley. 22 John Gerassi. 14 Barber. New York. 26 The Economic Almanac 1964. 32 NYT. 1965. TLD Press. pág. 20 de abril de 1963. Companies Are Doing Abroad”. 8 Wall Street Journal. 76-99. 25 de novembro de 1964. 28 Ibid. em Foreign Affairs. 16 Seymour Melman. no texto. New York. 20 “Special Report of Multinational Companies”. “What Free Enterprise Means to Latin America”. págs. cit. 276. 11 de outubro de 1965. 354. 480. 31 NYT. Fortune. 24 Baran e Sweezy citam 1962 Annual Report. National Industrial Conference Board e Newsweek. presidente da United States Freight Company. Business Week. 477. 355. (Citado daqui por diante como Almanac. 9 Barber. The Macmillan Company (Collier book). pág. 25 Gerassi. pág. “Notes on the Theory of Imperialism”. 21 Paul Baran e Paul Sweezy. 13 Citado em Marshall Windmiller. os seguintes artigos de revistas for182 .. 17 “What U. em Melman. 1965.) 27 Gerassi. News & World Report. The Great Fear in Latin America. Holt. New York. 12 Barber.S. págs. 342-352. 31 de março de 1966. 18 Para uma boa pequena revisão destas instituições e seus defeitos. Calif. “Viet-Nam and the Power Elite”. 34 Além das citações do NYT. 150. por Morris Forgash. 30 NYT. 29 Philip Siekman. de abril de 1966. 2 de outubro de 1964. U. The Commentary of Marshall Windmiller. 24 de janeiro de 1966. 19 David Rockefeller. 21 de março de 1965. 10 Ibid. “When Executives Turned Revolutionaries”.. 33 NYT. A citação é do artigo de Déferre.Republic. publicado como Apêndice D.

22 de novembro de 1965. Business Week. 51 Ibid.. Contudo. pág. 183 . abril de 1966. págs. A pesquisa deste livro. 1965.necem boas informações recentes e antecedentes gerais no caso da Hanna Mining: Fortune. Students for a Democratic Society. 1966. pág. págs. “Military Assistance to Independent African States”. Anatomy of Apartheid in Southern Africa. 49 Lee. 44 Booth e Robson. News & World Report. 47 Ibid. M. The Institute for Strateguc Studies. pág. “Information on Involvement of U. “Brazil: Some Success. 22 de fevereiro de 1965. U. 104. Veja também New Republic. 1965.S. 17. 43 U. “Harsh Curbs Generate Growing Discontent”. “Brazil’s Chief Miner”. 18 de abril de 1966. Adelphi Papers. 45 Nkrumah. London. 10017.. 12. 27 de março de 1965. 1 de agosto de 1965. pág. que foi fechado depois do golpe de fevereiro de 1966.Y. foi seguramente conduzida pelos estudiosos do Ideological Institute em Wineba. “A Special Report on American Involvement in the South African Economy. Africa Today. 1965-1966.. 48 Forbes. 147-149. 13 de agosto de 1966. Business Week. abril de 1965. so 50 Ibid. 122. 211 East 43rd Street.S. “The Englehard Touch”. dezembro de 1965.S. 40 Ibid. London.” Exemplares deste número podem ser obtidas do American Committee on Africa. 22 de janeiro de 1966. pág.. pág. The Last Stage of Imperialism. 13 de agosto de 1966. 19. 27-28.J. 36. pág. The Institute for Strategic Studies. 35 Franz Lee. 52 Lee. fria e minuciosa. International Publishers Co.V. New York. “Brazil-United States: Partners in Progress”. 32. a melhor fonte singular e mais conveniente é o número de janeiro de 1966 de Africa Today. 127-136. e podem ser consultados se requeridos. Bell. Neo-Colonialism. 14. Este relatório resume pesquisa primária continuada sobre os interesses corporativos americanos na África do Sul. Corporations in South Africa”. “Brazil. N.. Lincoln Gordon. — Brazilian Guaranty Pact to Stimulate Private Investment”. págs. Booth e Robson. pág. Africa Today. Alexander Defense Committee. “South Africa”. 42 Kwame Nkrumah. 1966. Os dados são acumulados continuamente no Escritório Nacional da SDS. “U. feita por membros da SDS e o American Committee da África. Hanna’s Immovable Mountains”. 41 Booth e Robson. International Commerce. 37 Ibid. Lee é um refugiado político sul-africano. Veja também New Republic. 38 Paul Booth e Christopher Z. em Chicago. Fortune. 53 The Military Balance.S. “Brazil’s Battle with Inflation”. 36 Ibid.. 46 Ibid. 39 Ibid.. Chicago. dezembro de 1964. New York. New York. Africa Today. sobre o assunto. Much Work to Do”. Fortune. Hobson. Department of State Bulletin.

. Blackstock. Help — LBJ”. 1. págs. págs. Who’s Who in America. Orlov.. 56 Gerassi.. Otten. Sobre Farland veja o Annual Report de 1965 de South Puerto Rico. 263. 490. 165. 77 Economic Affairs. pág. cit. pág. 73 NYT. 275. págs. Bantam. pág. 64 Gerassi. Danna L. 116-121. 58 Ibid. Gerassi.° de junho de 1966. 75 Ibid. “Richter Sweet”. 66. 32. loc. 27 de setembro de 1965. pág. 69 A. págs. Esquire. Chicago.. 72 NYT. ed. 19 de junho de 1966. pág. 70 Nkrumah. Agradeço a Michael Locker de SDS por estes dados. pág. 67 Ibid. Paul W. 63 Almanac. 241. “Bunker Hits the Trail Again”. Seib e Alan I. 42. 155-166. 8 de abril de 1966. 68 Sobre os interesses dominicanos de Bunker e National Sugar. 27 de Janeiro de 1957. 184 . 60 Gerassi. 1965. Standard and Poor’s “Sugar-Basic Survey” e “Sugar-Company Survey” for 1963-1965. 488. novembro de 1965. 60. 21 de maio de 1966. 80 Rockfeller. 126. Sobre Harriman e National. 20. 34 Lee. Thomas. 368. 192. 66 Ross e Wise. 1964. “Abe... págs. junho de 1966. 505. New York. Quadrangle Books. 191. New York Post. pág. International Affairs. 57 Ibid. 125-126. 76 Fortune. pág. 61 Ibid. Sobre Fortas. The Strategy of Subversion. The Invisible Government. 492. pág. 12 de maio de 1965. Sucrest Annual Report. 71 NYT.pág. Berle e Sucrets veja Charles B. 14. “The Philippines”.. 367-372. 78 Gerassi. pág.. pág. págs. 62 Ibid. 127. Lash. pág. pág. Commodity Year Book (anual) e International Sugar Journal (mensal). 55 Almanac. 65 Ibid. 79 Wall Street Journal. junho de 1965. ver Joseph P. 59 Almanac. 74 Gerassi. 28. veja Standard and Poor’s Register of Directors and Officers (anual) e qualquer Annual Report recente da National. Barron’s.

McCarthy. 194. 1963. New York. pág. 240 (27). 9 Ibid. 18 Shaping. 40. e 51 (23). Torture: Cancer of a Democracy. Capítulo VI: O REVOLTADO 1 Gerassi. 20 Ibid. 1966. pág.2 (5). 14 Alex Campbell.: Supplier of Weapons to the World’’. Japão: 143 (128). 13 Almanac. 288 (204). Para uma análise especializada de tais números de comércio. 17 Fall. 47 (52). New Republic. New York. The Macmillan Company (Collier book). Penguin Books.S. pág. 77 (48). 23 Ibid.S. 18 de setembro de 1966. 19 NYT. “The U. 8 Ibid. 1119. 7 Ibid. 126 (93). pág. págs. 15 International Monetary Fund. 16 de junho de 1966.. 11 New York Herald Tribune. 5 Eugene J. The Warfare State. 18 Direction of World Trade. março de 1966.S. 194. Baltimore. 22 Pierre Vidal-Naquet. 2 Fall. Itália: 61 (39). e 227 (158). 200-212. 470. 107 (65). quoted in Cook. Cook. 3 Fortune. Direction of World Trade (mensal). 183. 1 de janeiro de 1966. Saturday Review. 181. 4 Fred J. para 1933 e 1937-40 são os seguintes (em milhões de U. Communist Chinas Economic Growth and Foreign Trade. pág. 59 (40). pág. 26 de outubro de 1949. 9 de julho de 1966. Mac Graw-Hill Book Company. pág. 185 . pág. Os números de exportação (e importação) dos U. Md. News & World Report. 232 (161). 58 (41). pág.Capítulo V: O CASO DO VIETNÃ 1 Newsweek. 11 de julho de 1966. “Japan Plays the Field”. 5 de março de 1966. veja Alexander Eckstein. 304.S. 21 Stillman and Pfaff. 10 U. 6 Ibid. e 0. 45. 12 NYT. 1964. dollars): Alemanha 140 (78).

“Response to Aggression” (discurso pronunciado em 26 de março de 1964). 72-73. Rampart Journal. Primavera de 1966. The Engineers and the Price System. 11 Ibid. Beard. págs. 8 Tragedy.2 Robert S. 5 Beard. pág. 2 Max Weber. Continuum. “Antitrust in an Era of Radical Change”. McNamara. The People’s Pottage (“The Rise of Empire”). “The Transformation of the American Right”. in Raskin and Fall. 13 Garret. Idaho. pág. New York. Capítulo VII: DUAS QUESTÕES REVISTAS 1 Citado como epígrafe em Charles A. março de 1956. Fortune. 3 NYT. 240. 12 Ibid. 1965 (publicado pela primeira vez em 1915). pág. eds. 27 de novembro de 1965. The Caxton Printers. 201. 9 Garet Garrett. 7 Harry Elmer Barnes. 3 Thorstein Vehlen. Economic Origins of Jeffersonian Democracy. Brace & World (Harbinger book). 8 William Appleman Williams. “Revisionism: A Key to Peace”. New York. Harcourt. 8. 1953. 4 Max Ways. 10 Murray Rothbard. National Guardian. The Free Press. 28 de outubro de 1965. “Policy for U. 1963. Radicals”. Politics as a Vocation. Caldwell.. 186 .S.

SEGUNDA PARTE Revolução: Herança e Opção Contemporânea RICHARD SHAUL 187 .

188 .

cerca de um quarto de nossa própria população está ainda abaixo da linha de pobreza. Por certo muita gente conheceu uma acentuada melhoria em sua situação econômica no curso de algumas décadas. pelo mundo afora. Além do mais. Porém não cria automaticamente uma sociedade que ofereça crescentes oportunidades. criando assim um estado d’alma de esperanças em ascensão. especialmente entre os desprovidos. contudo. quer para o bem-estar material quer para a libertação humana. Está agora claro que o mesmo desenvolvimento que conduz a melhorias em nossa condição econômica. e a distância entre o padrão de vida das nações ricas e o das pobres torna-se maior cada ano. pode também trazer com elas novas formas de dominação social e limitar. A tecnologia tende a destruir velhas formas de organização social e causar mudanças constantes em nosso modo de vida.I Introdução Progressos recentes em nossa sociedade tecnológica levaram o homem a um novo estágio em sua luta para criar condições mais favoráveis para a vida através da ordenação de sua existência social. temos os recursos e o poder para criar o tipo de sociedade que desejamos. podem agora ser superados pelo esforço humano organizado. para as novas possibilidades à sua frente. os avanços tecnológicos serviram para acordar todas as classes e raças. Males sociais. antes aceitos como inevitáveis. ainda mais do que no passa189 .

outros têm sido jogados para o conhecimento através dos contatos com os desprovidos em nosso próprio país. isto é o resultado da reflexão sobre os mais recentes progressos em nossa sociedade industrial. como mudanças fundamentais podem ser levadas a efeito nas estruturas de nossa sociedade. Aqueles que estão no poder serão tentados a desenvolver sistemas mais efetivos de dominação. um significativo número de pessoas. tais como organizações de trabalhadores. Os que se beneficiam mais do sistema presente. no momento. mostram-se cada vez mais inadequadas à medida em que o tempo passa. aquele progresso que torna as velhas estruturas sociais obsoletas também lhes fornece poder quase ilimitado para a autopreservação. Além do mais. de qualquer despertar difundido referente às exigências que nos faz. Por outro lado. Este problema constitui um dos maiores desafios com que nos defrontamos hoje. e como os recursos da tecnologia podem ser usados para produzir melhoria significativa no lote dos desprovidos. a fim de suprimir descontentamento e revolta. o mais rapidamente possível. Nossa única esperança está em descobrir. não parecem estar numa posição de agir mais assim. nossa participação no processo de tomada de decisões que determina nosso futuro. e a fim de manter alguma semelhança de ordem. não podem ser suprimidas com facilidade. estruturas. na medida em que o poder da sociedade tecnológica é grandemente concentrado nas mãos daqueles que mais lucram com a ordem estabelecida. de diferentes idades e classes sociais. Contudo. bem como oportunidades crescentes para a libertação humana. que serviram como um instrumento efetivo para mudança social no passado. uma vez tornadas obsoletas pelos acontecimentos. Do contrário. as perspectivas para o futuro serão na verdade sombrias. 190 . aqueles que se tornaram cientes do caráter desumanizante de uma tal ordem perderão toda a confiança nas instituições de sua sociedade.do. Esperanças. uma vez surgidas. De fato. e que são mais influenciados por sua ideologia secreta. está passando por um processo gradual de despertar. E a média de massa oferece possibilidades sem precedentes para manter um estado de espírito de relativa conformidade entre a grande maioria do povo. na medida em que o avanço tecnológico é incorporado ao ethos agora dominante em nossa sociedade. Para alguns. não estão dispostos a tomar iniciativa nesta luta. Outros grupos. Há alguma possibilidade de que possamos responder a este desafio? Temos pouca evidência. tal uso dele é quase inevitável. e serão atraídos para a resignação ou atos de desespero.

Se aqui os distinguimos e os colocamos em contraste com os progressistas de uma geração mais antiga. a uma nova situação histórica. ou nos empenhar em esforços que nunca têm relação com os verdadeiros fins. Há. Eu me refiro aos novos revolucionários e aos novos movimentos nos quais estão envolvidos. Para aqueles de nós que pertencem à geração mais velha.ou com a luta dos povos do Terceiro Mundo. não só em casa mas também no Terceiro Mundo. Os novos revolucionários não estão provavelmente mais preocupados com o mundo e o povo que sofre nele do que o estavam suas contrapartes de uma década atrás. Se os acontecimentos agora revelam que nossa perspectiva é inadequada e que nossa estratégia é ineficaz. que ainda não têm posição no sistema e estão insatisfeitos com o mundo à volta deles. Muitos jovens. podemos terminar nos retirando de uma luta que não conseguimos entender. sei disto. são livres para entender o problema e fazer algo a respeito. então esta escolha deliberada da revolução pode tornar-se um ponto decisivo na história de nosso país. saindo desta mesma matriz de frustração e angústia. Uma nova comunidade está emergindo. e têm gradualmente elaborado as implicações dela para sua compreensão do mundo moderno e a definição de sua responsabilidade nele. E o surgimento de movimentos revolucionários aqui 191 . nem afirmando a superioridade moral do outro. um prometedor sinal de um novo dia. Em seus esforços para expressar sua preocupação pelo homem e para mudar a sociedade. Pode fornecer uma ocasião para a redescoberta de nossa herança revolucionária americana. eles não podem estar mais ansiosos em mudar a sociedade do que nós temos estado. têm sido levados a tomar uma posição revolucionária. não estamos por meio disto pronunciando julgamento sobre um. da parte de uma nova geração. Por mais prometedora que seja a nova consciência entre a juventude. Se nossa análise da presente crise está correta. mesmo desta minoria. Mas eles representam a resposta. uma experiência traumatizante. este despertar é. pode nunca ir além de uma atitude de rebelião e uma precoce conformidade com a ordem estabelecida. e de sua relevância em relação aos problemas com que agora nos defrontamos. Mas não devemos esperar demais. Os mais progressistas dentre nós têm pensado sobre a sociedade em termos menos radicais e têm trabalhado para a mudança social de maneira mais moderada. cujos membros não só entendem o problema e estão convencidos de que mudanças radicais são necessárias urgentemente. mas estão também dispostos a trabalhar por tais mudanças e procurando uma estratégia com a qual conseguir isto. com frequência.

a revolução que está em processo nas relações entre as nações ricas e pobres. à luz de nossa própria história. é somente nos Estados Unidos que nos defrontamos simultaneamente com o impacto pleno das várias revoluções magnas de nosso tempo — quando jovens conduzidos à linha de frente da revolução tecnológico-cibernética. deste fenômeno. Muitos jovens. acredito. já descobriram que estão identificados. A fim de viver e agir. é muito difundido.podem quebrar nosso presente impulso para alienação crescente dos povos da Ásia. seria absurdo supor que todas as situações são revolucionárias. com um crescente número de homens e mulheres em muitas partes do mundo e em situações largamente diferentes: estudantes revolucionários nas nações em desenvolvimento. encontro-me na posição não invejável de estar de cer192 . tais como América Latina. que têm sido formados por sua participação na luta pelos direitos civis ou nos novos movimentos no campus da universidade. o combate à pobreza ou o movimento pela liberdade da palavra e também descobriram. em alguns lugares. É este fato novo. Porém. Mas não escondo ter chegado a uma análise desprendida puramente empírica. de minha parte. esta escolha de uma posição revolucionária — e suas implicações para a participação americana no século do Terceiro Mundo — que aqui nos interessa. e de que a única resposta autêntica ao desafio de nosso tempo é a que os revolucionários estão dando. como resultado do envolvimento norte-americano no Vietnã e na República Dominicana. por estranho que isto possa parecer de início. hoje. África e América Latina e libertar-nos para participar criadoramente do “século do Terceiro Mundo”. não tenho desejo de forçar a realidade contemporânea num estreito e rígido esquema racional. Estas experiências me levaram a certas conclusões sobre o significado da revolução e a contribuição que aqueles que tomam esta posição podem dar à nossa sociedade neste tempo. No tipo de mundo dinâmico e pluralístico no qual vivemos agora. Tentaremos examiná-lo sem cair em generalizações indevidas. pode ser encontrado o novo estado de espírito revolucionário. ficaram envolvidos na luta pelos direitos civis. Gastei também a maior parte de duas décadas na América Latina em íntimo contato com uma situação revolucionária lá existente e fui forçado a chegar a um acordo com ela. eu tive de tentar tirar algum sentido do que está acontecendo no mundo. estudantes e escritores nos países comunistas. Eu. Portanto. em perspectiva e interesse. Em todas estas áreas. em número de gente incomum em quase todas as esferas de vida na Europa Ocidental.

tomando a tarefa de interpretação e mediação. possa trazer alguma pequena contribuição aos presentes esforços de parte dos novos revolucionários para encontrar uma base sólida para pensamento e ação fecundos. 193 . não posso esquecer o fato de que pertenço a uma outra. feita de uma tal posição ambivalente. que estão confusos e transtornados pelos progressos revolucionários. Tenho tentado transformar esta desvantagem em uma vantagem. E por mais que simpatize com o novo estado de espírito da nova geração.ta forma preso entre dois mundos. sou agora obrigado a dar prioridade à revolução. Talvez desta posição estratégica seja possível ajudar alguns daqueles. Tendo gasto a maior parte de minha vida trabalhando por reforma dentro da ordem estabelecida. E ousamos esperar que a reflexão sobre revolução. a entender melhor o que estes movimentos representam.

194 .

com frequência. E os povos da Ásia. África e América Latina descobriram a inautenticidade de uma forma de vida importada do Ocidente e por ele imposta. O novo revolucionário está numa posição avançada nesta busca devido sua sensibilidade ao que está acontecendo em volta dele e seu envolvimento responsável onde as questões decisivas sobre o futuro do homem estão sendo levantadas. O existencialismo desenvolveu seus próprios modelos para a nova humanidade e os russos falam constantemente de “o novo homem soviético”. é a busca de um novo estilo de existência humana. O aparecimento de “beatniks” e rebeldes em muitas culturas diferentes atesta a seriedade do problema. incapazes de articular mesmo o que é mais central em sua própria existência. e de que só se se desenvolver logo um novo estilo de vida o homem moderno será capaz de encontrar significado em sua existência e agir com responsabilidade. Qualquer tentativa de traçar 195 . Há uma crescente certeza de que o contexto em que a vida humana é moldada mudou. Tenho consciência de que isto não pode ser demonstrado empiricamente.II A Busca de um Novo Estilo de Vida Um dos focos principais de preocupação. Muitos daqueles que são mais ativos nestes movimentos estão bastante confusos e são. O ideal do “homem burguês” perdeu muito de sua força. em nosso mundo moderno. tem mais do caráter de uma afirmação de fé.

Seu envolvimento em movimentos revolucionários com rapidez pôs a nu a irrelevância da visão universal metafísica tradicional. tem seu paralelo na experiência de estudantes católicos e protestantes na América Latina. O novo revolucionário tem uma elevada consciência disto.1 Viver responsavelmente significa tomar uma posição. cuja atitude anterior fora de um frio desligamento. tal como se desenvolveu no mundo ocidental em séculos recentes. e forçou-os a reconhecer que os velhos conceitos abstratos não mais significavam algo para eles. Contudo.os elementos principais desta nova posição revolucionária não oferecerá provavelmente uma descrição adequada de nenhum grupo particular. minha experiência em situações revolucionárias muito diversas indica que um estilo específico está surgindo. Se estes absolutos se evaporaram. Não é mais possível adotar o papel indiferente e dissociado do ocidental letrado. tenha agora um novo senso de compromisso. com a existência dentro da história. expressado pela intensidade de preocupação. no Mississipi. necessariamente participamos. cujas linhas principais são claras: 1. pôr a própria vida na linha de combate. Tal como Marshall McLuhan destaca em seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (Média de Compreensão: As Ampliações do Homem): Numa idade elétrica. Nesta situação. o homem tem a liberdade e responsabilidade para determinar seu próprio destino . quando nosso sistema nervoso central é tecnologicamente ampliado para nos envolver na humanidade total e para incorporar a humanidade total em nós. e sua transformação. de parte do homem moderno. Nação e comunidade fornecem o contexto para a realização humana. Aqui a experiência do revolucionário é acentuada pela atmosfera que acompanha recentes progressos na tecnologia. e que alcançou um clímax. A mudança que ocorreu nas atitudes dos ativistas do SNCC (Student Non-violent Coordinating Committee). agir mesmo quando não se pode estar inteira196 . só é natural que tanta gente. ao mesmo tempo sua participação real na luta revolucionária intensifica seu interesse pelo homem e pelo que lhe acontece dentro de um processo histórico concreto. das consequências de cada uma de nossas ações. à luz de certos alvos pré-determinados. então o futuro está aberto. em profundidade. é o importante. Muita atenção tem sido dada ao processo de secularização.

Pensamento criador sobre um problema não pode vir unicamente de sua análise racional abstrata. todas as formas de autoridade que dependem dela estão abolidas. e ajuda na tomada de decisões só pode vir dos que estão de alguma forma identificados com ela. É só de dentro da situação. é a revolta contra as estruturas de autoridade e o repúdio a qualquer coisa que cheire a paternalismo. Se ele não está querendo pagar o preço da luta. é o resultado quase inevitável do processo que descrevemos.mente certo dos resultados da própria ação. Conhecer o Negro como um ser humano. na qual a essência concreta da realidade está constantemente mudando. Ao longo desta estrada de participação. Numa situação dinâmica. A procura da verdade é uma questão de encontrar algumas formas de significação na riqueza e variedade de elementos que tornam concreta a realidade. Esta concentração na existência histórica é a fonte da vigorosa ênfase humanística. tal como são levantados ali. nos novos movimentos revolucionários. e do tipo de maturidade que repudiará todas as relações paternalísticas tradicionais. com toda probabilidade suas opiniões serão de pouca ajuda. mas não nos pode impor suas soluções. estão a caminho da descoberta do autêntico eu. Se a experiência de gerações passadas e as perspectivas humanas mais vastas devem significar algo. deve ser feita também a tentativa de relacioná-las com o momento presente. Quando alguém que não compartilha deste envolvimento toma a si proteger de perigos e oferecer conselho. é conhecer 197 . se ele não é livre para entrar na situação e compreender seus dilemas éticos. Gente jovem das classes elevadas e média tornou-se cônscia da tremenda carga de sofrimento e injustiça no mundo e da situação desumanizante na qual está presa tanta gente. o passado pode oferecer recursos para nossa orientação. Quando uma visão universal metafísica perde sua autoridade sobre nós. não deve ficar surpreso se ninguém lhe der atenção. Decisões devem ser tomadas de dentro da situação. por que deve alguém tomá-lo a sério? Além do mais. Isto não nos devia surpreender. Só assim pode o trabalho acadêmico ser uma excitante aventura em vez de uma carga sem significado. ou garantir seu sucesso. se movendo para o futuro. a natureza do esforço intelectual é redefinida. que podemos elaborar nossa perspectiva ou levar a cabo reflexões sérias. não é suficiente apresentá-las em livros ou cursos universitários. e para alguns o mais perturbador. Aqui um dos desenvolvimentos interessantes. Quando gente jovem ou os não privilegiados começam a tomar iniciativas para mudar sua sociedade.

A promessa de bem-estar material é uma coisa. Portanto. uma profunda paixão moral é o elemento principal na posição revolucionária. por questões de cálculos prudentes. Nem sabemos se nossa cultura pode fornecer os recursos necessários para apoiar tal ação. Tomar a sério os novos progressos na revolução tecnológica significa ver as novas possibilidades e ameaças para a vida humana que estão latentes neles. Estabelecer contato com os camponeses na América Latina é ficar chocado por sua existência subumana. Muitos daqueles que tomaram a sério sua participação na existência histórica e estão preocupados com o homem e seu futuro têm ficado chocados ao descobrir que a ordem sob a qual vivem é quase intolerável.as situações desumanizantes sob as quais ele vive. Mas uma das razões porque os novos movimentos revolucionários são tão importantes para nossa sociedade é que eles encarnam esta preocupação. Ser realista não pode significar se limitar ao que agora parece politicamente possível. falhou em prover a possibilidade de uma vida rica e significativa. Não temos meios de saber se este humanismo continuará a desempenhar um papel central nestes movimentos. como entre os desprovidos em nosso próprio país. mas empreender o impossível numa atitude de bravura e de confiança. a maneira pela qual a ordem econômica opera é outra. eles ainda não têm o apoio de grande número. nos anos vindouros. Contudo. não só para o desenvolvimento de um novo estilo de vida. essa insatisfação tem outra dimensão: o sentimento de que a sociedade. Assim. Para muitos pertencentes às classes privilegiadas nos países mais avançados. Ação é urgentemente necessária e não pode ser postergada indefinidamente. Os mitos sobre uma sociedade democrática são encantadores. citado no The New York Times Magazine: 198 . têm tido êxito em muitas instâncias em ganhar aqueles jovens que são mais sensíveis à situação humana e que estão preparados para fazer algo sobre isto. e especialmente a geração mais velha. fornecem o contexto. as duras realidades do poder político são algo diferente. isto tem significado uma nítida certeza de sua própria exclusão do gozo dos benefícios e experiências que nossa sociedade considera mais importantes. tão nitidamente necessária no tempo atual. Um sinal pungente deste mal-estar é uma breve passagem de um recente romance russo. Entre os povos coloniais do mundo. mas também para a formação de uma liderança dinâmica. embora não possam enfrentar o fato de sua vacuidade. 2.

Victor. nas áreas rurais. levando a efeito as decisões de outros. O que torna a presente situação tão revolucionária. apenas suficiente para produzir revolução. só em chegando às raízes do problema pode alguma mudança significativa vir a se dar. em si. nas favelas. Os estudantes católicos na América Latina respondem à incrível pobreza das massas pelo início de programas de serviço social. em qualquer ponto específico. na qual todas as regras do jogo “tendo sido estabelecidas. estudante graduado. “simplesmente não é mais excitante”. o mesmo sentimento de que o mundo no qual vivem “é uma completa porcaria. possuindo tal potencial extraordinário. um mundo que a seus olhos as gerações precedentes estropiaram”. Que vá tudo para o inferno! É melhor ser um vagabundo e falhar. relações e alinhamento de poder — que bloqueia as mudanças fundamentais na sociedade. Nenhuma vez em sua vida você tomou uma decisão realmente importante. o mesmo protesto contra uma sociedade que.. A juventude negra. um homem morto. em nosso próprio país. pode criar um novo sentido de urgência sobre mudança social e um desejo de caminhar mais rapidamente para soluções. No máximo. são defrontados por um sistema total — um complexo de atitudes. 199 . foi determinada por papai e mamãe.“Sua vida. Como Mário Savio o coloca. respeitado por todos.. quando você ainda estava no berço. ou projetos de alfabetização. e então . doutor em filosofia. Isto os leva a reconhecer que se defrontam com um sistema feudal-colonial. entre a geração mais jovem. mestre em artes.3 Expressam a mesma rebelião contra serem tratados como crianças indefinidamente.4 A profunda insatisfação com o status quo é. do que ser um menino toda a vida. estão dizendo. é sua descoberta de que quando começam a trabalhar por mudança. membro da academia. uma estrela no colégio. instituições. nenhuma vez correu um risco. trabalhador científico júnior. Uma estrela na escola. “2 O que é impressionante a respeito deste depoimento é que ele é tão intimamente semelhante ao que muitos dos líderes da nova esquerda estudantil. trabalhador científico sênior. e de que só uma mudança fundamental na natureza e direção daquele sistema tornará possível solucionar estes problemas. Cedo acordam para o fato de que todos estes esforços são paliativos ineficazes. nós na América somos parte de uma ordem automatizada e esterilizada. as quais não se pode realmente emendar” e o “futuro” e “carreiras” para os quais os estudantes americanos agora se preparam são na maior parte terras devastadas intelectuais e morais”.

E os que tentam fazer alguma coisa. referente à nossa política oficial perante às nações pobres do mundo. Vêem a íntima identidade de inte200 . Em muitos lugares. os militares e o Departamento de Estado estão de várias maneiras trabalhando juntos para preservar a atual situação. sua experiência deixou exposta “não meramente uma vasta e inepta burocracia. Certos pressupostos básicos. não devemos ficar surpreendidos se os novos revolucionários concluírem que a ordem estabelecida é incapaz de levar a efeito as mudanças agora requeridas. então nossa situação podia não ser tão explosiva. não mais é evidente. é considerado como constituindo uma ameaça que deve ser neutralizada. um processo de radicalização para os assim envolvidos. não podem ser desafiados. e jovens idealistas sociais serão transformados rapidamente em revolucionários. Sob estas circunstâncias. e que é esta ordem que deve ser mudada. participação em movimentos por mudança social levam muitos jovens a tomar posição revolucionária vis à vis de toda ordem estabelecida. Quando o faz. Em outras palavras. Como podemos explicar de outra forma a facilidade com que alguns de nossos líderes políticos mais liberais falam de influência comunista entre aqueles que protestaram contra a aceleração da guerra no Vietnã? Enquanto esta situação continuar a existir. a antiga dispersão e equilíbrio de poder. Mas.” Se aqueles que ocupam posições de poder em nossa sociedade estivessem preparados para compreender este fenômeno. nos “slums” do Norte. admitir a verdade que ele encerra. Como declarou um estudante de Berkeley. em si. mas uma coerente estrutura de classe dominante. uma vez que racionalizações hábeis são fornecidas para justificar a preservação do status quo. Os pobres. não podem ignorar por muito tempo que capital e trabalho. percebe que se levanta contra todo um modo de vida que deve ser mudado. se for para o negro ocupar um novo lugar na sociedade. toma parte em várias demonstrações. que mantinha certas estruturas abertas. e lutar honestamente com ele. que são encorajados a tomar iniciativas para solver seus problemas. compreendem que não encontrarão solução para eles até que ocorram mudanças básicas na ordem econômica. julga-se. o mais rápido possível. a participação na luta por uma sociedade melhor constituirá. e quando qualquer grupo significativo de estudantes ousa agir assim. o que sobressai é a maneira pela qual tudo isto está oculto por ideologias e mitos que tornam impossível para nós ver o que está acontecendo. no interesse da paz e da justiça.no Sul. e não mais acreditarem nos meios tradicionais de trabalhar para transformação social. com demasiada frequência.

mais ou menos. podemos servir melhor o futuro permitindo-lhes morrer. Se queremos servir à causa que elas representam. Os jovens negros não mais estão interessados em imitar os brancos. E. a tecnologia provê recursos extraordinários que podem ser. há a possibilidade da Pax RussoAmericana. aquelas forças novas que podem dar a maior contribuição para mudança social descobrem que têm sido efetivamente excluídas do exercício do poder político: os estudantes. que se efetua sob o nome de “consenso político”. instituições que antes eram objeto de lealdade indiscutida. Trabalhar da mesma maneira pela transformação daquelas que são mais rígidas. e os pobres nas cidades não se querem tornar classe média. os povos coloniais não se sentem atraídos pelo modo de vida ocidental. trabalho e governo. Do contrário. A intensa consciência desta situação só pode ter consequências drásticas na orientação dos jovens e dos desprovidos em nosso próprio país e alhures no mundo. na universidade. e estão sendo usados. estudantes universitários indagam se eles podem estar confiantes na sociedade dentro da qual nasceram. o poder político. nos Estados Unidos. De uma perspectiva revolucionária. podem oferecer uma oportunidade para trabalhar de dentro por sua renovação. Novos progressos em tecnologia em nossa sociedade produziram uma situação na qual o cidadão médio ou trabalhador é crescentemente excluído de participação significativa no processo de tomada de decisões dentro daquelas instituições que determinam seu destino. os pobres. Dentro da ordem atual. Ao mesmo tempo. então devemos ser chamados a fazer um esforço conjugado para subvertê-las de dentro. nas nações em desenvolvimento. para preservar o sistema presente. Conduz. as presentes relações entre nações ricas e pobres. nas “cidades interiores”. Só aquelas cuja sobrevivência e renovação desejamos. no momento em que mudanças fundamentais são desesperadamente necessárias. para uma quase completa quebra de confiança nas instituições da sociedade à qual pertencem.resses das grandes corporações. Em muitas das nações em desenvolvimento. a nova liderança. como indicou Carl Oglesby. de seu lado. que tentaria preservar. Aquelas que são abertas e flexíveis bastante para se ajustar rapidamente às novas condições. 201 . pode simplesmente não valer o esforço. ou desafiá-las de fora. Como o coloca Mário Savio. tradicionalmente concentrado nas mãos de uma minoria muito pequena — para a quase completa exclusão de outras classes — parece agora estar ainda mais forte com o apoio dos alinhamentos econômicos e políticos ocidentais. o que é ainda mais assustador. não ocupam mais esta posição.

não de esperança — 1984. a vontade de agir num tal sentido que nos possibilite construir uma nova sociedade. ou pelo menos evitar a comunidade adulta. enquanto nossa geração é infectada por programa sem visão. Deixar a política ser determinada pelo que parece possível significa limitar nossas possibilidades e tornar a luta política mesquinha e desinteressante. ou não. não pode evitar vêlos. esta situação é a ocasião para dar forma a uma nova visão de uma nova ordem social. Para o revolucionário. Tal como é descrito por Hannah Arendt. se for vista como uma volta a um tipo antigo de otimismo superficial e liberalismo. a Utopia se torna uma força explosiva.3. Nossos mitos dominantes são aqueles de alienação. daquilo que tem sido mais central na tradição revolucionária ocidental. tentam encontrar algum meio de escapar de um mundo impossível. Presentemente. Mas também é confrontado com o fato de que a tecnologia moderna deu ao homem os recursos de que precisa para criar o tipo de sociedade que deseja. as consequências desta posição ineficaz são reconhecidas e repudiadas: “Tem sido dito que nossos predecessores liberais e socialistas eram infectados por visão sem programa. A coisa mais surpreendente é que isto ocorreu no exato momento em que todas as utopias foram postas a nu e todas as visões de uma nova ordem desmascaradas. em nosso tempo. em seu livro On Revolution. ele é a expressão autêntica. e assim por diante. Neste contexto. Muitos jovens que foram levados a esta conclusão adotam agora uma atitude de derrota ou rebelião. mais a disposição constante de arriscar tudo. Admirável Mundo Novo.5 esta tradição representa a coincidência da idéia de liberdade e da experiência de um novo começo. de Port Huron. o que é exigido é criatividade e imaginação. e o único meio de agir inteligente e responsavelmente é repudiar estreitos cálculos racionais sobre que coisas podem e não podem ser feitas. e muitos de nossos intelectuais mais destacados refletem um estado d’alma de cinismo e desespero. E o rompimento de todas as velhas estruturas de autoridade força-nos para a liberdade em determinar a forma de futuro. A questão é se temos. ou põem grande ênfase no cálculo realista do possível como a única base para ação.” 202 . Na Declaração dos Estudantes em prol de uma Sociedade Democrática. É uma tentativa de libertar o homem e construir uma nova ordem — a novus ordo saeclorum — por meio de iniciativa humana ousada. contudo. Neste sentido. O novo revolucionário está muito mais cônscio das falhas da natureza humana e da força do mal na sociedade. Esta preocupação com uma nova ordem não pode ser entendida.

sem consequências desastrosas. Está agora claro que o domínio econômico não é uma misteriosa ordem da natureza a que podemos deixar seguir seu próprio caminho. grupos e raças que estiveram marginalizados no passado. Um segundo elemento na visão revolucionária da nova sociedade está indicado pela ênfase posta na participação de todos os grupos e classes na vida da comunidade e da nação. Um destes é a crescente convicção de que a sociedade pode. e de que ninguém pode ser chamado quer de feliz quer de livre sem participar e ter uma parte. não obstante. o diagrama de uma nova sociedade está gradualmente tomando forma. mas no sentido mais básico do próprio conceito: controle da ordem econômica pela própria sociedade. e os meios pelos quais estes podem ser melhor alcançados. a construção de uma nova ordem envolve um certo grau de socialismo. a pobreza material que ainda existe é um mal que não mais precisamos tolerar. ao contrário de atenção às necessidades mais básicas do homem e da sociedade. estão agora começando a ver que são parte de uma história na 203 . na qual certos elementos específicos já podem ser distinguidos. é simplesmente uma daquelas estruturas que uma comunidade pode usar para os fins que determina. ela destaca que foi sua convicção de que ninguém pode ser chamado de feliz sem sua parte na felicidade pública. devemos fazer face ao desafio de hoje.Esta visão revolucionária de uma nova sociedade pode estar ainda um tanto enevoada. para criar novos modelos para a direção da vida econômica pela sociedade. Certamente está condicionada pelo caráter específico de cada luta revolucionária. Hannah Arendt encara isto como a ênfase principal que emergiu espontaneamente nas revoluções do Ocidente. E. não em termos da adoção da filosofia marxista. Ao invés de perder ainda mais tempo no debate banal e estéril entre capitalismo e socialismo. no poder público. de que ninguém pode ser chamado de livre sem sua experiência na liberdade pública. Em sua análise do ponto de vista revolucionário de Jefferson. Classes. e deve. determinando os objetivos do desenvolvimento econômico. A devastação do sistema de livre empresa — mesmo com as restrições que agora lhe são feitas — e sua orientação para a produção pelo lucro.”6 O reconhecimento deste fato é hoje quase universal. por muito mais tempo. uma. Por conseguinte. assumir responsabilidade pela ordenação de sua vida econômica. representam luxos que não podemos permitir. e especialmente no processo de tomada de decisões pelo qual seu futuro será determinado. Com os recursos agora à nossa disposição. e nos empenharmos no tipo de experimentação que iluminará o caminho para o futuro.

Estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem internacional. dentro das instituições nas quais vivem suas vidas: as estruturas políticas das comunidades locais e da nação.qual alguma coisa tem estado. Nesta luta estão se juntando a eles. e completamente eivadas de mitos e ilusões. Pode ver que quase todas nossas atitudes e opiniões formadas estão viciadas pelo paternalismo. Nas nações mais jovens estão surgindo líderes que foram treinados na tecnologia do Ocidente e estão livres para trabalhar por soluções autênticas para seus problemas nacionais. A nova sociedade democrática deve ser uma na qual jovens e estudantes. e imaginação e criatividade humanas podem progredir muito por meio da abertura de novas possibilidades de participação nestas esferas. o novo revolucionário está chegando gradualmente a compreender que uma mudança básica precisa ocorrer na relação entre nações ricas e nações pobres. e nenhuma organização será capaz de oferecer um perfeito equilíbrio entre as exigências de ordem e eficiência e tal participação. a paz e a estabilidade internacionais serão impossíveis. e experimentar novas formas de relações-econômicas e políticas — com eles. e que os programas de assistência que desenvolvemos tanto não são bastantes. agora. que tomam consciência 204 . acontecendo agora. Novos problemas pedem novas soluções. gradualmente entendem que só podem ter uma vida plena de significação se se tornarem participantes desta história. Terceiro. Nossas tentativas de obter um ajuste entre nosso auto-interêsse nacional (como entendido agora) e o interesse das nações em desenvolvimento são altamente ideológicas. Sobre estas bases. Nos países em desenvolvimento. Quando acordam para esta realidade. tanto os desprovidos como os cidadãos comuns. e a fábrica ou o escritório no qual trabalham. Porém nossas estruturas atuais são deploravelmente inadequadas. possam ter uma parte no uso do poder público. e a situação dos povos pobres do mundo se tornará mais desesperada cada ano. Porém não estão inclinados a aceitar a posição periférica a que seus países foram condenados durante o período colonial. Muita gente pode ser muito feliz sem esta oportunidade. e de que sua situação só pode ser alterada se tomarem parte na luta para mudá-la. e está. Nossos recursos econômicos são tais que podemos encorajar e ajudar novos modelos de desenvolvimento nas nações menos avançadas. tanto como naqueles mais avançados. numerosas pessoas do Ocidente. as limitações de muitas das nossas assim chamadas instituições democráticas têm sido reveladas.

criam também condições nunca antes imaginadas para a liberdade. A tecnologia moderna tornou possível e necessária uma nova ordem internacional e criou uma situação de desassossego. Cria uma situação dentro da qual muitos dos que estão trabalhando pelos mesmos objetivos que os revolucionários acham 205 . ao mesmo tempo. Uma nova geração pede uma visão de existência pessoal que vá além de ambos estes sistemas. Devemos desenvolver novas idéias e perspectivas de vida e sociedade pelo cultivo da imaginação criadora. o revolucionário está buscando uma nova forma de existência pessoal para si próprio e para outros. O pensamento social de muitos de nós tem sido tão frequentemente estéril porque nos permitimos ser encaixados por uma lógica de nossa própria fabricação. O reino da história tornou-se o centro de sua preocupação. ou para os que tentam provocar mudanças fundamentais na sociedade urbana. Podemos não saber quais devem ser estas regras. Tecnologia e burocracia constituem uma tremenda ameaça para o homem. Não é de surpreender que ambos. Tanto para o liberal como para o conservador. tenham perdido sua atração. Basicamente. pode também repudiar o materialismo da sociedade burguesa.de que natureza têm sido nossas relações econômicas e políticas com os povos coloniais. disto advém uma intensificação da autoconsciência humana. Novas idéias sobre sociedade devem ser acompanhadas por nova politica. O novo revolucionário percebe corretamente que nossa experiência histórica não esgotou todas as possibilidades que existem para a organização da sociedade. um novo jogo exige novas regras. capitalismo e comunismo. e somos lentos em encontrar alternativas para formas institucionais obsoletas. esperança e interdependência que podem ser satisfeitos somente se uma tal ordem tomar forma. Ele despreza nossa complacência e nos desafia a forjar novos modelos e a responder ao impacto do futuro. o relacionamento humano e a auto-realização. Está dentro de nossas forças satisfazer as necessidades materiais básicas de cada um. esta conclusão representa um choque. Mas uma coisa está clara: Construir uma nova sociedade requer um “novo começo”. que se entrega à luta por melhor condição econômica do pobre. mas para os lutadores pelos direitos civis no Mississipi. a existência pessoal plena envolve muito mais do que a satisfação destas necessidades. está por completo claro que as velhas regras não são mais suficientes. Permanecemos presos por pressuposições que não mais são válidas. Isto conduz ao paradoxo de que o revolucionário. Tudo isto não quer significar que ninguém tenha uma clara imagem do futuro.

As lutas revolucionárias de hoje podem ser um fator importante no provocar uma tal mudança. de acordo com as regras estabelecidas. mas não há caminho óbvio pelo qual tal mudança possa ser feita. Aqueles que vivem segundo as velhas regras rapidamente esquecem que sua maneira de agir já foi uma ofensa à geração que os precedeu. Uns poucos se espantam de que tantos jovens tomem uma atitude de rebelião. Devido a natureza de sua visão e compromisso. Só se forem orientadas mais para o futuro do que para o passado. novos partidos políticos — seria uma tarefa impossível. não há garantia de que fosse produzir instituições menos rígidas ou mais abertas para o futuro do que aquelas que agora existem. que foram mais radicais durante seus anos de juventude. O novo revolucionário está convencido de que isto não produzirá resultados bastante rápidos. o revolucionário se encontra preso de uma tensão quase insuportável. tem também certeza de que o status quo está em aguda contradição com ela e representa uma ordem integrada com o grande poder. Aqui ele enfrenta um sério dilema. Tentar desenvolver novas instituições para substituir aquelas agora existentes em cada área importante da sociedade — um novo sistema religioso ou universitário. e se tiverem construído dentro delas a maquinaria de constante auto-renovação. Mas a alternativa lógica para esta estratégia parece ainda menos promissora. Só uma mudança fundamental nesta estrutura pode abrir o caminho para uma aproximação plena dos alvos revolucionários. No fim das contas. uma solução satisfatória deste problema depende de uma transformação básica na estrutura de nossas instituições. Mesmo se uma tal empresa tivesse êxito. Sair fora do Establishment e atacá-lo de cabeça também ajudará muito pouco. a menos que o revolucionário tenha uma estratégia claramente definida com a qual possa esperar produzir mudanças significativas. e quase impossível participar com eles da mesma luta. enquanto outros.difícil comunicar-se com eles. Apesar dos recursos pessoais exigidos para este esforço. Não podem compreender que profundas mudanças nas décadas recentes podem exigir um rompimento ainda mais decisivo com os antigos métodos de ação. se esta geração de revolucionários tiver a coragem. um novo movimento trabalhista. abandonaram a luta e se concentraram em sua vida e carreiras 206 . Foi cativado pela visão de uma sociedade diferente. sabedoria e persistência dela requeridas. podemos esperar ter uma sociedade estável e mais humana. Uma geração precedente de reformadores trabalhou pela renovação da sociedade servindo às estruturas dadas. não é ele passível de êxito.

a guerra de guerrilhas mostrou-se. Neste estágio do desenvolvimento de uma sociedade tecnológica. uma variedade de táticas de guerrilha que se mostraram mais ou menos eficientes. e deslocar-se para novas fronteiras onde quer que seja detido em algum ponto particular. sob certas circunstâncias. Um pequeno grupo. quer baseados dentro ou fora de uma instituição. com uma certa dose de autonomia e liberdade. Isto pode ser alcançado por uma variedade de técnicas: a concentração de esforço em objetivos limitados.pessoais. flexibilidade e liberdade de operação. Por meio de muitos ataques limitados a vários pontos. em parte devido sua origem. A participação do pobre e desprovido nos projetos de renovação urbana podem ter consequências imprevistas na vida e política da cidade. que tornam possível avançar para novas frentes sempre que bloqueado. um pequeno grupo de pessoas pode ser capaz de livrar grandes instituições. cuja importância temos sido vagarosos para entender. e a tentativa de provocar aquelas mudanças relativamente pequenas que colocarão em movimento um processo muito mais amplo. por um curto período. O que é necessário é reflexão mais sistemática sobre a significação destes acontecimentos. como um todo. forcem-na a acelerar sua própria renovação. Porém a estratégia da guerra de guerrilhas precisa não ser restringida à sua expressão militar. enquanto que a renovação de uma instituição no centro da sociedade pode afetar outras relacionadas com ela. e uma compreensão mais 207 . Instituições que. que seriam quase impossíveis dentro do Partido Democrático. Movimentos revolucionários neste país desenvolveram. quase espontaneamente. Em face do poder militar maciço de uma ordem estabelecida. pode transformar uma grande organização. são incapazes de agir de novas maneiras podem apoiar movimentos que têm a liberdade de agir assim. A moderna experiência revolucionária desenvolveu outra estratégia. a manutenção de iniciativa e o elemento de surpresa. para serviço mais efetivo. Uma das razões para o surpreendente sucesso de alguns aspectos do movimento pelos direitos civis é que ele tende a irromper em tempos e lugares onde é menos esperado. seu equivalente político pode oferecer um instrumento valioso para provocar mudanças em nossas instituições magnas. efetiva. Aqui o foco consiste na formação de pequenos grupos e movimentos que. O Freedom Democratic Party pode ser capaz de provocar mudanças na ordem política do Mississipi. Muitos exemplos da eficiência desta maneira de agir podem ser mencionados.

Fazem frente a difíceis problemas humanos e devem descobrir como agir com responsabilidade em relação a eles. um expressivo número de pessoas está deliberadamente escolhendo um estilo de vida revolucionário. De fato. como. trabalhando de fora dela. e não temos outra escolha senão tentar entendê-lo e lidar com ele.clara dos melhores meios para tirar vantagem do potencial aqui utilizável para mudança social. e viver como “exilados” dentro da sociedade à qual pertencem. em nosso mundo de hoje. a escolha de revolução é o único caminho para existência autêntica e responsável. em cada situação particular. Mas ele não irá embora. isto pode ser alcançado melhor de dentro. com profunda suspeita. Voltaremos a esta questão mais tarde. Aqueles que estão acostumados com uma forma mais tradicional de lealdade institucional provavelmente olharão para a estratégia que sugerimos. em outros. podemos descobrir eventualmente que. é preservar um certo grau de identidade de grupo. têm sido moldadas por uma herança cultural e espiritual particular. contribuir para a renovação da instituição que está sendo servida. O que tentamos indicar aqui é que. Porém para aqueles comprometidos com a revolução. bem como a situação específica em que vivem. de uma sociedade tecnológica. Para muitos é este um desenvolvimento desastroso que ameaça toda nossa estrutura social. Para muitos outros. No tempo atual. um processo dinâmico pode ser posto em movimento. Em alguns casos. Assim devem ser capazes de correr os riscos de estar “nas” mas não ser “das” estruturas. e que representa um tipo de pensamento e ação que se coloca em agudo contraste com nossos antigos caminhos de reforma. as formas pelas quais essa herança é expressa estão tão identificadas com a velha ordem que o revolucionário encontra pouco 208 . completa subserviência a ela. Os que dão este passo enfrentam uma tarefa muito diferente. desta maneira. A questão é. Maior atenção devia ser dada. para aqueles que adotaram uma posição revolucionária. contudo. o essencial. Suas próprias preocupações e atitudes. dentro deste arcabouço. ela pode ser uma base para a esperança de que poderosas instituições interdependentes. à questão da relação daqueles a trabalhar por mudança radical com as instituições da ordem estabelecida. Hoje. Servir no arcabouço de uma instituição particular não pede. possam ser mudadas. necessariamente. nem há nenhuma virtude particular em manter a própria independência. processo que provocará transformações mais fundamentais do que as que ocorreram como resultado de formas anteriores de revolução. ao contrário.

refletem com frequência a mesma incerteza e confusão que a geração mais jovem conhece tão bem. igreja. É este espírito de revolta um tumor externo. a questão da relação entre a posição revolucionária e nossa herança cultural ocidental. deve merecer nossa atenção. família. Se desejamos nos entender e viver responsavelmente nesta nova era. Em certos casos parecem existir a fim de preservar as velhas formas.ou nenhum significado nela. que agora aparece como um câncer virulento ameaçando nos destruir? Ou representa a floração natural de certos ideais e esperanças que estão no coração daquela tradição? 209 . et al — falharam por completo nisso. E o que é ainda mais sério. Quando não é este o caso. aquelas instituições que podem desempenhar esta tarefa mediadora — escola.

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III Revolução Social e Tecnologia: o Paradoxo de Nossa Herança
O novo revolucionário surgiu no momento do avanço mais extraordinário em tecnologia. Assim temos dois protótipos do novo homem que está surgindo em nosso tempo: o revolucionário e o tecnocrata. Eles contemplam o mundo moderno de perspectivas muito diferentes e representam dois estilos de vida claramente contrastantes; e ambos são produtos de nossa história ocidental. Não existiram sempre lado a lado em nossa civilização, nem suas posições são de igual força. Qualquer que tenha sido o papel da revolução, em nossa história anterior, nas décadas recentes a tecnologia dominou a cena. Nossas reações a ela têm sido variadas. Para muitos cientistas, bem como para os tecnocratas, a tecnologia oferece possibilidades quase ilimitadas para um novo e brilhante futuro. Nas mentes de outros, evocou visões apocalípticas de “1984” e do “Admirável Mundo Novo”. Nos últimos anos, contudo, chegou uma nova geração que não está contente em observar e lamentar estas perspectivas para o futuro. Decidiu desafiar diretamente a ideologia oculta do sistema, enfrentá-la de peito aberto numa luta revolucionária. E isto está acontecendo precisamente nos Estados Unidos, onde a tecnologia é mais avançada e onde a ideologia de uma sociedade tecnocrática penetrou tanto nosso pensamento
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que é quase tomada como certa. Até aqui a luta é muito desigual. É difícil imaginar um contraste mais agudo do que aquele entre o Secretário de Defesa e os estudantes que queimam seus cartões de alistamento ou organizam demonstrações de protesto contra a política dos Estados Unidos no Vietnã. O Sr. Mc Namara é a própria imagem da autoconfiança. Está convencido da correção de sua causa, é o senhor de uma vasta soma de informações, e tem à sua disposição poder quase ilimitado. Os estudantes, de outro lado, são na aparência muito fracos, todos muito cônscios das limitações de seu conhecimento, perplexos e confusos em face das forças irracionais que não podem esperar entender ou controlar. Agora que esta fenda em nossa alma foi exposta, só seremos capazes de viver com nós mesmos, como indivíduos e como uma nação, se encontrarmos algum meio de lidar com ela honesta e abertamente. Agir assim significa basicamente chegar a um acordo com nossa própria história; isto é, com as forças saídas de nosso próprio passado que nos fizeram o que somos. É este um projeto a longo prazo, que só pode ser levado a efeito se aqueles que se encontram envolvidos existencialmente nesta situação estiverem munidos de recursos adequados para tal reflexão. É, primariamente, uma tarefa para o intelectual e para a universidade, uma tarefa que, em grande parte, ainda permanece para ser feita. A maior parte de nós, no entretempo, deve chegar a certa espécie de conclusões preliminares que nos permitirão dar sentido à nossa própria situação, e nos preparar para agir responsavelmente nela. Nas minhas próprias tentativas para fazer isto, fui grandemente influenciado por um sábio holandês, Arendt van Leeuwen, cujo recente livro, Cristianismo na História Mundial,1 produziu grande impacto em alguns círculos. Ele argumenta que algo único aconteceu na história ocidental, que preparou o caminho tanto para a tecnologia como para a revolução, e que uma melhor compreensão desta história nos libertaria para relacionar criadoramente estas forças entre si e encontrar um caminho para fora de nosso impasse atual. Como um estudioso de culturas e religiões antigas, chegou à conclusão de que elas eram todas dominadas, em larga escala, por uma compreensão “ontocrática” da vida e realidade. Com isto ele quer significar que elas concebiam todos os aspectos da realidade — natureza e sociedade, o temporal e o eterno, o divino e o humano — como partes de uma ordem cósmica total. Neste arcabouço, a natureza, bem como todos os aspectos principais da existência histórica do homem, eram essencialmente identificados com o divino, e portanto
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sagrados. Rei e pai, a ordem política e social, possuíam uma autoridade absoluta com a qual não se podia interferir. Sob estas condições, a vida era estável e segura; era também relativamente estática. As estruturas sociais eram rígidas e o passado dominava o presente e o futuro. Na experiência antiga do povo de Israel, contudo, algo aconteceu que desafiava todo este ponto de vista, e que abria o caminho para um enfoque diferente da realidade. Quando tentaram tirar um sentido do que lhes estava acontecendo na vida de cada dia, cresceu entre eles a convicção de que estavam constantemente se opondo a um Poder que era ativo em seu meio. Não podiam evitar a conclusão de que esta realidade era pessoal em caráter, e de que Ele os estava chamando para realizar uma missão particular dentro da história. Da intensidade desta experiência, chegaram gradualmente a outras conclusões, de consequências profundas. O interesse da religião foi mudado do reino eterno para o temporal, e focalizado mais para a existência social e histórica do que para a experiência interior do indivíduo. A relação deste poder soberano para com a ordem temporal só podia ser concebida como a de um Criador para com Sua criatura, e assim tanto a natureza como a sociedade perderam seu caráter sagrado. Como este Deus continuou a ser ativo na história, Ele se ergueu contra toda ordem estabelecida e destruiu todas as pretensões de legisladores e de instituições sociais. Esta nova atitude não alcançou uma vitória fácil nos círculos judeus ou, mais tarde, nos cristãos. O Velho Testamento narra a história de uma luta longa e amarga, de parte dos profetas, contra as tentativas repetidas para reverter aos velhos caminhos. Muito mais tarde, o Domínio Cristão medieval representou um esforço extraordinário para estabelecer um compromisso entre as perspectivas teocrática e ontocrática. Não obstante, quando esta revolução hebraica se expandiu e penetrou a cultura européia ocidental, foram criadas condições que contribuíram para o surgimento da ciência e da tecnologia. O reino da natureza, bem como a ordem social, eram vistos como realidades temporais que o homem era livre para estudar e entender. Podia subjugar a natureza para servi-lo e moldar instituições sociais de acordo com os objetivos que ele determinava. Dois outros elementos na tradição judeo-cristã desempenharam importantes papéis no desenvolvimento de nosso mundo moderno. Um destes é a corrente oculta messiânica que surgiu muitas vezes através dos séculos. Sua origem é encontrada na primitiva experiência israelita do Êxodo e Terra Prometida. A partir dela concluíram que o seu Deus condu213

zia-os para um novo dia, no qual encontrariam novas oportunidades para a realização humana dentro de uma nova ordem social. Assim o domínio da visão cíclica da história foi rompido, e os homens eram livres para olhar em direção ao futuro esperançosamente, como o lugar onde novas coisas podiam acontecer a qualquer momento. Intimamente associada a isto estava a convicção israelita de sua vocação como um “povo escolhido”. Esta nova ordem não viria espontaneamente. Seria o resultado de um esforço disciplinado, feito com o apoio de um povo notável, a quem sua missão histórica tinha sido assegurada. E por causa deste fato, a nação eleita só seria capaz de viver consigo própria e encontrar significação em sua existência histórica quando ela fosse fiel a esta vocação. Em nossa perspectiva norte-americana mais comum sobre a vida e o mundo, uma síntese um tanto espantosa destes três motivos ocorreu, na qual a tecnologia não só é central mas tem sido completada pela ajuda de uma poderosa ideologia. Nossa maneira pragmática e funcional de lidar com a realidade tem sido envolvida por uma crença no poder da tecnologia para criar possibilidades quase ilimitadas para o melhoramento da vida humana, e pela convicção de que a América foi “escolhida” para a missão de levar estes benefícios ao resto do mundo. Não estamos interessados aqui em discutir a importância relativa desta herança judeo-cristã na formação de nossa sociedade, como mais decisiva do que outras forças culturais. E certamente não defenderíamos esta presente síntese como uma expressão fiel dessa herança. Estamos somente tentando destacar o fato de que estes elementos foram importantes na moldagem de nossa autocompreensão e de que devem ser examinadas com muito mais cuidado, se desejarmos responder produtivamente aos problemas com que agora nos defrontamos. Doutra sorte, concentraremos nossa atenção no pragmático e tecnológico, embora ignorando o contexto no qual surgiram e se desenvolveram. E permitiremos a nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico prosseguir dentro de uma estrutura altamente ideológica, que é mais perigosa por não estarmos bem cônscios dela. Se somos livres, no entanto, para refletir sobre estes elementos centrais em nossa própria história, descobriremos logo que nenhum de tais raciocínios ingênuos redunda em dificuldade séria. Pelo menos, isto foi o que aconteceu entre os israelitas. A mesma experiência de ser um povo escolhido, que tornou possível, para muitos, não só justificar o status quo, mas também sentir-se orgulhoso dele, produziu alguns caracteres muito perturbadores. Para estes homens, a libertação de velhas au214

toridades, a preocupação com a emancipação humana, e um sentido de destino levou-os a olhar criticamente sua própria sociedade e a se tornar muito insatisfeitos com ela. Viram que, quando foi rompido o poder da forma ontocrática, os homens ficaram livres não só para criar uma nova ordem; podiam também usar esta liberdade para satisfazer seu próprio individualismo e ambições coletivas, de uma maneira que não era possível numa sociedade mais controlada. Tornaram-se conscientes de que o messianismo pode, facilmente, ser pervertido para servir a outros objetivos que não a emancipação do homem, e que, se um povo escolhido é necessário para a transformação do mundo, ele pode facilmente se tornar um obstáculo a ela. Por mais desagradáveis que fossem estas conclusões, foram decisivamente fortalecidas pelos acontecimentos históricos. Se Israel tinha sido tirada da escravidão no Egito para a Terra Prometida para o bem “da restauração das nações”, na aparência algo andara errado. A nova era que eles haviam esperado inaugurar não apareceu; e o povo escolhido encontrou-se envolvido em conflito social e guerra contínua, que terminaram, afinal, em aniquilação política. Porém da profunda crise de autocompreensão que isto produziu, emergiu a visão profética. Para estes homens, a soberania de Deus implicava não só em liberdade mas também em julgamento. Quando estruturas criadas para servir ao homem tornam-se rígidas e impedem o caminho da realização humana, devem ser demolidas. Só no seu colapso e através dele pode ser construída uma nova ordem. Quando um povo escolhido, mesmo após sua chegada à Terra Prometida, é desobediente, será dispersado — para redescobrir seu destino na Diáspora. Em outras palavras, os profetas tornaram-se os primeiros revolucionários. E o que ainda é mais importante para nossa discussão aqui, a mesma atitude para com a realidade que, ao tomar forma entre o povo de Israel, abriu caminho para o desenvolvimento eventual da ciência e tecnologia, também preparou o caminho para a revolução. Não importa quão tenazmente tentemos ignorar este segundo elemento, não podemos esperar ter êxito, pois ele é uma fonte integral do complexo de idéias e atitudes, preocupações e esperanças, que nos fazem o que somos. Aqueles aspectos da herança judeo-cristã que mencionamos foram incorporados em nossa cultura ocidental, desenvolvidos e reformulados por ela. Como resultado, tecnologia e revolução não só existem uma ao lado da outra, mas agem uma sobre a outra, num estado constante de tensão dinâmica. Sempre que a tecnologia se permite ser dominada por um messianismo herético, surge um revolucionário para
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e os deixa livres para mudá-las. Num interessante capítulo de “O Ocidente Revolucionário”. A mesma oculta corrente messiânica que produz em alguns uma paixão por uma sociedade tecnocrática pode levar outros a denunciar e desafiar seus elementos desumanizantes. A destruição da ordem ontocrática que torna a tecnologia possível — e que também é impulsionada para a frente pela tecnologia — leva os homens a discutir a autoridade de todas as estruturas. foi produzida pela tecnologia. na qual o avanço tecnológico pode prosseguir e mais contribuir para o bem-estar humano. Este processo também parece desdobrar-se em círculos cada vez mais amplos. em seu lugar. De um lado. Objetiva a subversão de toda a velha ordem a fim de construir uma nova que criará novas oportunidades para a emancipação e bem-estar humanos. instituições e povos. atingindo novas classes. Revolução é a força que despedaça as velhas ideologias que se colocam no caminho do avanço tecnológico. o império e o sistema feudal. desde o tempo do Império Romano ao presente. Porém podemos afirmar sem perigo que nenhuma seria o que é agora sem a outra. nos tempos modernos. De outro lado. que tornou a revolução possível.desmascará-la precisamente naqueles pontos em que a tecnologia causou o maior impacto. no período antigo e medieval da história ocidental. Um dos temas centrais na história ocidental é o gradual funcionamento e universalização daqueles dois processos. mas naqueles países em que o espírito revolucionário produziu um impacto profundo. em tensão mútua. não nas sociedades ontocráticas do Oriente. temos aqueles progressos associados com tecnologia. estabelecem uma ênfase sobre funcionalidade e racionalidade na ordem de uma esfera da vida após outra. e. De fato. sua marcha triunfal através do mundo todo. é a revolução social que cria o tipo de sociedade aberta. que gradualmente minam todas as estruturas de autoridade e todas as velhas bases de estabilidade. Tecnologia e revolução podem representar perspectivas contrastantes. foram gradualmente minados 216 . também torna possível para aqueles empenhados em construir uma nova ordem lutar com uma convicção similar de vocação. a luta revolucionária prossegue. E se o mito secularizado do povo eleito fornece àqueles no poder um sentido de destino. numa relação de apoio e tensão mútua. o Professor van Leeuwen traça seu desenvolvimento. O impulso original para a dessacralização de um mundo ontocrático pode ter vindo de uma mensagem judeo-cristã. a maior floração da tecnologia ocorreu. Em simultaneidade com isto. mas. Ele argumenta que os dois maiores símbolos de uma sociedade ontocrática.

o espírito revolucionário tornou-se universal. a tecnologia. Disto vieram novas idéias e instituições que revolucionaram o Ocidente. e que desejavam controlar sua própria vida política e concentrar sua atenção no desenvolvimento racional do comércio e da indústria. América do Norte e França. Está em seu poder moldar a sociedade de acordo com sua vontade. o desenvolvimento do Ocidente e seu impacto sobre o resto do mundo atingiu um clímax. a luta por estes objetivos conduziu à revolução. Na ordem política. Estão certos de que uma tal vida é possível. Na Inglaterra. transformou a revolução em algo total. a revolução ocidental avançou mais um passo. que inclui não só os desprovidos e classes marginalizadas em nossas sociedades. O processo de secularização pôs abaixo todas as velhas estruturas de autoridade e abriu todas as áreas da vida. A fim de realizar esta vocação. Com o passar do tempo. os cidadãos da nação afirmaram sua soberania. Com isto. de modo que elas possam ser racionalmente dirigidas pelo homem. África e América Latina. cujos cidadãos eram emancipados do domínio da velha ordem. insistiram que o povo deve ter garantido o direito de exercer certos direitos inalienáveis. bem como sua vocação para fazer de sua nação um instrumento de libertação universal. de bem-estar econômico e uma oportunidade para participar no uso do poder público. explodindo as pretensões à divindade de parte de velhas autoridades e instituições. O grupo de idéias acima referidas agiam “como uma carga de dinamite”. No tempo atual. apareceram cidades novas e independentes. mas também o proletariado externo do mundo ocidental as vastas populações da Ásia. e abrindo caminho para surgir o novo. a luta por emancipação e racionalidade expressou-se na esfera econômica através do desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial. Além do mais. Novas nações-estados se levantaram para desafiar a desfalecente autoridade do Sacro Império Romano e dar uma oportunidade aos principais grupos étnicos da Europa para organizar sua vida da mesma maneira. A esperança de libertação e realização. Ao mesmo tempo. e distribuir os recursos econômicos e o poder político como quiser. A tecnologia forneceu os meios pelos quais o homem pode criar o futuro que deseja.por forças trabalhando internamente. Ao final do período medieval. e estão descobrindo gradualmente que devem tomar a iniciativa na luta para alcançá-la. Temos portanto à nossa frente possibilidades quase ilimitadas para 217 . atingiu agora todos os povos. Seu ponto central é agora a emancipação do proletariado. pela destruição de todas as estruturas autocráticas e pela criação de uma situação de interdependência de todas as áreas da vida e de todas as partes do mundo.

a tarefa parece ainda mais aflitiva. e arrojadas iniciativas novas em educação. político e militar. o estadista austríaco do século XIX. maior cuidado pela transformação de nossas estruturas econômicas e políticas. Muitos dos primeiros colonos foram produto do movimento puritano na Inglaterra. e para criar conflito. nosso progresso tecnológico está intimamente relacionado com o fato de a revolução ter tido um lugar tão central em nossa história. Em relação ao mundo em desenvolvimento. ao final da era colonial. como um povo eleito. bem-estar e renovação urbana. e quer continuar a desempenhar um papel decisivo na luta humana tal como é definida agora. compreendeu isto quando declarou: 218 . de outro. Não só adotaram uma atitude revolucionária em relação à sociedade. e as nações que estão ansiosas por acelerar seu próprio desenvolvimento dependem de um modo ou de outro. Não é difícil para aqueles de nós que são norte-americanos tomar consciência de que a escolha está colocada para nós de modo mais agudo. chamado a construir uma nova ordem e a ser agente de emancipação universal. Nossa existência como uma nação e nossas instituições políticas básicas foram moldadas numa luta revolucionária que constituiu uma tão grande ameaça à ordem estabelecida daquele tempo quanto as novas revoluções representam para o nosso. Falando historicamente. A despeito de todas as mudanças que se efetuaram em nosso mundo. Mas dificilmente temos começado a imaginar o que seria exigido de nós se acatarmos seriamente seu pedido de uma nova relação econômica conosco e de um novo papel nos negócios internacionais. Até que descubramos como inverter a tendência pela qual cada ano aumenta a distância entre as nações ricas e as pobres. no presente. conduzindo a revolução que ele impôs ao resto do mundo? Por certo. Aceitamos o fim da era colonial num sentido político. o Ocidente ainda detém tremendo poder econômico. mas vieram para a América como que predestinados. Devido o fato de a tecnologia ter avançado em tão grande escala em nossa sociedade. as perspectivas não são brilhantes. pois isto requereria apoio benevolente daqueles que optaram pela revolução. Porém será o Ocidente capaz de aceitar as consequências de sua própria história. e fazer sua parte. com o aparecimento de novas nações independentes na Ásia e África.provocar mudança social e transformar a vida de um lado. nosso poder é maior. Metternich. caos e desintegração social. de nós. não podemos esperar resolver o atual impasse ou evitar o desastre final.

se não impossível. nos países em desenvolvimento. traçar programas efetivos. Se esta maré de exemplo pernicioso viesse a se estender por toda a América. somos considerados em parte responsáveis pelas frustrações que sentem quando são incapazes para mudar as estruturas de sua sociedade. as ideologias liberais parecem menos capazes de enfrentar o desafio. tão cheio de audácia.. expressou este fracasso de nossos líderes liberais e sua reação a ele. aparecemos ao povo. e que está no âmago do pessimismo em relação à nossa liderança no mundo de hoje.. e não menos perigoso do que o anterior. Quando a situação se torna mais revolucionária. da força moral de nossos governos e do sistema conservador que salvou a Europa da dissolução completa?2 Mas algo andou errado. e reanima a coragem de cada conspirador. responsáveis. Achamos difícil. compreender a dinâmica contemporânea de revolução — em casa ou fora — e por conseguinte somos incapazes de responder a seu desafio. estão eviscerando a grande tradição otimista do liberalismo... que é tão evidente entre os jovens progressistas em nosso próprio país. Enquanto nossa presente situação se torna mais revolucionária.Estes Estados Unidos da América deixaram atônita a Europa com um novo ato de revolta. um dos líderes da nova esquerda estudantil. nestes termos: Seus temas têm o propósito de ser diferentes. onde quer que se mostrem. como o símbolo de anti-revolução.. Consequentemente. Aqui se encontra uma das maiores razões para a crise de confiança em nossa sociedade. Tom Hayden. mas sempre surgem as mesmas impressões: O homem é inerentemente incapaz de construir uma boa sociedade. e esta ideologia agora nos cega para acontecimentos em volta de nós. mais espontâneo.. do Iluminismo ao século vinte. 219 . estender mão amiga àquelas que parecem prosperar dá nova força aos apóstolos da sedição. contudo. que nos ajudou a interpretar acontecimentos e forneceu uma base de poder político para mudança. o que seria de nossas instituições religiosas e políticas. Vocês. que produzirão o máximo que é realmente possível. No passado fomos capazes de responder a novos desafios devido a existência de uma vanguarda liberal em nosso meio. . lamentar por aquelas que falharam. Permitimos que nossa compreensão de tecnologia fosse dominada por uma ideologia herética de messianismo. Encorajar as revoluções. as causas apaixonantes do homem nada mais são do que perigosas bebedeiras psíquicas. falsos liberais estão sofrendo o fracasso de seus sonhos juvenis. nas nações em desenvolvimento.. em vez disso. ideais têm pouco lugar na política — devemos.

pode bem ser um dos acontecimentos mais significativos neste estágio de nossa história nacional. discordância. A nova ordem para a qual o revolucionário está se encaminhando não pode ser identificada com nenhuma estrutura política ou social. Esta ênfase na importância da revolução neste momento histórico particular não implica em que toda a ação revolucionária seja boa e tudo o mais mau. que aqui apresentamos. o desenvolvimento espontâneo de novos movimentos revolucionários. bem como para serem incorporados mais uma vez em nossa própria revolução e para explicar nossa vocação no mundo em relação a ele. 220 .3 Contra este fundo. a batalha pelo futuro do homem se focaliza às vezes nas fronteiras da revolução. Quando isso acontece. estão eliminando emoção. Mas. temos. A questão verdadeira é se.estão justificando o desinteresse pela moralidade. algo a contribuir para o seu êxito. Eles nos oferecem uma nova oportunidade para entender o desafio contemporâneo com que deparamos. Cada luta revolucionária traz tanto a possibilidade de uma ordem mais humana como de novas ameaças de desumanização. afronta e. na perspectiva baseada na história ocidental. específica. afinal. e responder a ele criadoramente. não devemos perder nosso tempo tentando decidir se apoiaremos ou não a revolução. sim. hoje. a fonte perene da própria vida. pelo contrário.

Por estas medidas. bem como sua aplicação. capaz de tal liderança. E seus esforços são apoiados por uma ideologia que torna possível para ele pensar que a aplicação continuada da tecnologia conduzirá. Está comprometido com o uso do método científico para a expansão constante de conhecimento sobre a natureza e a sociedade. insistiu em que eu estava preocupado com a questão errada. o problema será resolvido. Isto me foi exposto recentemente. O que é importante. Com isto virá a industrialização e a criação de uma forte classe média. nem com a natureza de sua própria responsabilidade. numa sociedade relativamente estável. não só romper com esta ideologia. disse.IV Ideologia e Teologia O tecnocrata moderno não precisa estar indevidamente perplexo com os acontecimentos em nossa sociedade. Precisam ter uma compreensão do que está acontecendo hoje e que tornará possível para eles. por um jovem cientista atômico. Tomando conhecimento de minha tese de que era necessária uma nova liderança radical para a construção de uma nova sociedade na América Latina. Aqueles que escolhem a senda da revolução não terão tal facilidade. à solução de magnos problemas sociais e criará possibilidades de uma vida melhor para um crescente número de pessoas. na Universidade de Michigan. com nitidez. é fornecer força nuclear em grande quantidade para a produção de eletricidade nos países subdesenvolvidos. mas 221 .

especialmente para o revolucionário. e temos ainda menos confiança na habilidade da razão humana para alcançar uma síntese fidedigna dela. ser-lhes-á necessário pensar sobre velhos problemas de novas maneiras. e de que a marcha acelerada da mudança social os torna obsoletos na época em que são formulados. todas estas perspectivas metafísicas perderam sua atração para nós. Afirmando que a ideologia não é mais necessária. nossa ação na sociedade foi orientada por uma visão-universal filosófica geral. por novas maneiras de abordar a realidade histórica. Novos movimentos nos círculos intelectuais marxistas. indicam claramente que as velhas fórmulas perderam muito de sua força e que estão sendo substituidas. a situação está mudando. Raciocinamos logicamente que. e formular novas perguntas. Dentro desta estrutura. Não mais estamos certos de que a realidade é racional. Por séculos. não só em conhecimento. Hoje. mesmo ali. mas também chegar a conclusões definidas sobre o futuro bem como sobre os melhores meios de avançar em sua direção. sugerir como estes objetivos podem ser atingidos e prover uma base razoável para a esperança de que tal transformação social é possível. em todo o mundo. Hoje. porém útil. Devem estar preparados para definir seus objetivos. que era baseada nos pressupostos de que a realidade era fundamentalmente racional e de que o homem. podia desvendar seus mistérios. Isto é mais ainda complicado pelo fato de que. O marxismo ortodoxo representa o último grande esforço para organizar a sociedade segundo esta visão-universal total. com frequência. Desta maneira. esta abordagem tem sérias limitações. Esta atitude serviu para livrar homens de velhos modos de pensar e tem aberto o caminho para avanços. Se quiserem chegar a alguma parte. se é impossível para nós encontrar respostas para questões básicas ou ter uma visão-universal integrada total. Nossa abordagem norte-americana do problema. mas também na transformação da sociedade. Esta é uma tarefa formidável. pelo uso da razão. não só era possível formular uma opinião geral do homem e da sociedade. contudo. também deixa muito a desejar. pragmática e empírica.também desenvolver uma perspectiva de opção. contudo. podemos chegar a conhecimento limitado. e ficar contentes com o que oferece para a ordenação de nossa sociedade. caiu vítima de um ethos ideológi222 . gradualmente. os mais seguros desta responsabilidade não vêem modo claro de realizá-la. estamos agora certos de que a qualidade concreta da realidade social nunca se ajustará por completo a tais esquemas abstratos. então o que deve nos interessar é o estudo empírico de esferas restritas ou fragmentos de realidade. Mais do que isso.

pelo artista e filósofo. e estamos. muito provavelmente. esta distorção ideológica de nossa perspectiva é inevitável. aqueles que se sentem orgulhosos de sua pesquisa científica nãoideológica permitam a si próprios ser utilizados pelo governo ou pela CIA para propósitos ideológicos muito definidos. Há alguma saída para este impasse? É possível para nós reconhecer as limitações da razão. observada empiricamente. para terminar subordinando nossas preocupações científicas a uma visão restrita de auto-interêsse individual e nacional. limita as indagações que fazemos. e para onde vamos.co oculto que restringe nossas áreas de interesse. Escreve: 223 . e ao mesmo tempo fazer o uso máximo dela. a fim de entender nossa experiência social? Podemos ser agnósticos sobre a natureza básica da realidade social e ainda ser livres para fazer tudo dentro de nossas forças para mudá-la? Podemos descobrir um meio de pensar sobre nossa existência social e nossas probabilidades para o futuro que combine ser o mais completamente aberto para a complexidade e a qualidade concreta de uma situação sempre mutante. Quando isto acontece. e aceitar as intuições fornecidas por nossa experiência histórica. Quando nossa investigação científica da ordem social não está relacionada com uma tentativa para entender quem somos como seres humanos. resta só um pequeno passo até o ponto em que. No último caso. Weber prediz que virá um tempo em que isto será absolutamente essencial. encoberta por uma espécie de sentido convulsivo de auto-importância”. o povo cessa de esperar qualquer coisa além do mal necessário”. o moralista e o teólogo? No parágrafo de conclusão de seu ensaio sobre “Objetividade. Tecnologia e ciência tornam -se ferramentas com que conflitos são manobrados e gente jovem é mantida sob custódia até que esteja sem paixão. na qual as promessas humanas ficam irrealizadas. os sonhos morrem. nossa sociedade produzirá “especialistas sem espírito ou visão e pessoas voluptuosas sem coração”. E. como Tom Hayden o colocou. e pode fechar nossos olhos para a série de possibilidades latentes numa situação. A análise de Max Weber das consequências desta abordagem diz respeito a nós. na Ciência Social e Política Social”. uma sociedade manobrada “é uma paralisada. Em sua Sociologia da Religião declara que só duas alternativas ainda estão abertas para a sociedade ocidental: uma renovação espiritual — provocada por profetas inteiramente novos ou por uma poderosa renascença de velhas idéias e ideais — ou “petrificação mecanizada.

Mas vem um momento em que a atmosfera muda. à luz do passado. mas logo se cansa do esforço. As 224 . dentro do contexto de sua mais ampla experiência histórica e humana. é o resultado de uma empresa coletiva. Segue aquelas estrelas que sozinhas são capazes de dar significação e direção e seus trabalhos . Então a ciência se prepara. Pois ideologia é o produto do pensamento sobre a qualidade concreta da vida do homem no mundo. Na verdade. uma busca de compreensão. ao mesmo tempo que serve como um fator dinâmico na luta social. e acaba repetindo clichês irrelevantes. perderá sua consciência de seu enraizamento básico nos valôres-idéias em geral. A significação dos pontos-de-vista usados irrefletidamente torna-se incerta e o caminho se perde no crepúsculo. Porque a ideologia fornece uma oportunidade para tal autocompreensão — por parte de indivíduo. torna-se satisfeito com suas conclusões primeiras. numa idade de especialização. e podemos não estar desejosos de aceitar a disciplina que exige. para mudar seu ponto-de-vista e seu aparelho analítico e para investigar as correntes de acontecimentos das culminâncias do pensamento.1 Hoje. A luz dos grandes problemas culturais circula. Pensamento ideológico dá ênfase ao envolvimento numa situação particular como uma condição essencial para chegar a uma intuição verdadeira. Mas não possuímos sistema filosófico. oferece a possibilidade de explicar algo do significado latente na história que está para ser feita. da qual as massas podem também participar e contribuir para um processo gradual de despertar social e reflexão. também. Tais progressos ideológicos positivos não ocorrerão espontaneamente. ou grupo de valores básicos.Toda pesquisa nas ciências culturais. considerará a análise dos dados como um fim em si mesmo. uma vez que seja orientada para um assunto dado através de colocações particulares de problemas e tenha estabelecido seus princípios metodológicos. a fim de definir objetivos e trabalhar por mudança. que sejam capazes de fazer isto. O tipo de análise e entendimento que agora necessitamos só pode ser fornecido por ideologia. Representa uma tentativa de examinar progressos sociais particulares. Não possuímos muita experiência deste tipo de esforço intelectual. grupo e nação — pode ajudar a manter aqueles ameaçados de mudança. Cessará de avaliar a importância dos fatos individuais em termos de suas relações com valôres-idéias básicos. Um movimento revolucionário pode começar com reflexão criadora sobre os eventos de que participa. Está bem que seja assim. precisamos demais de tais “culminâncias do pensamento” e “estrelas” para dar significação e direção a nossos trabalhos. bem como do futuro.

exigências de uma luta revolucionária pode tentar seus líderes a tornar absoluta sua própria posição. especialmente quando não há alternativa clara. que muitos revolucionários modernos sentiram-se compelidos a se tornar ateus. bem como minhas tentativas para refletir sobre sua significação. Foi deste conceito que se desenvolveu meu envolvimento na revolução. Um exame mais profundo de nossa história ocidental pareceria indicar que certos elementos na tradição judeo-cristã nos impulsionam para outra direção. estarão abertos a — e têm à sua disposição — todas as análises e experiências que podem oferecer indícios para a compreensão do homem e sua história. isto não é toda a história. A posição conservadora da igreja e a irrelevância de muita teologia são tão evidentes.2 um jovem filósofo polonês. Como o leitor está bem certo. É amplamente reconhecido que nossa perspectiva ocidental da história. Na era em que estamos vivendo. que nada pode ser realizado tentando ocultá-las. Ernst 225 . agora tratarei dele mais explicitamente. Estou bem certo de que a maior parte das pessoas não está inclinada a seguir esta direção para a orientação da revolução. só podemos confessar o que um estudante asiático descreveu recentemente como a “profunda humilhação” do cristão no meio da revolução moderna. está intimamente relacionada com esta corrente teológica subterrânea. De fato. A questão que nos pode preocupar é se aqueles dedicados ao estudo empírico de nossa sociedade. mostra como todas as questões básicas sobre o homem e a sociedade que agora requerem nossa atenção são reformulações de questões teológicas. E o importante filósofo marxista. minha abordagem do problema é feita da perspectiva da teologia. E ainda mais. a igreja e seu pensamento têm sido tão identificados com a velha ordem. e as prospectivas futuras para a empresa humana. a natureza da realização humana. e transtornam a estabilidade interior do pensamento e vida cristãos de tempos em tempos. progresso e mudança social. ou nos lançamos corajosamente à tarefa de produzir as melhores ideologias que podemos ou ficaremos escravizados pelo ethos ideológico inconsciente que nos cerca. Leszek Kolakowski. O fato de existirem estes perigos não é razão suficiente para abandonar o esforço. Num recente ensaio “O Sacerdote e o Brincalhão”. Este fato tem estado no fundo de tudo que tem sido escrito até aqui. Quando isto acontece. a ideologia faz parte do tipo de compreensão social que constituiu sua razão original para existir. bem como aqueles dedicados à tarefa de sua renovação. com sua ênfase no desenvolvimento.

. possuem o caráter de uma “revelação”. de outro modo. as primeiras ideologia. o que permanece é uma perspectiva da história e das possibilidades para a realização da vida humana. Propondo -se examinar o Puritanismo como um movimento político. do status quo político. ver através de pretensões de instituições sociais e políticas. minou “toda autoridade terrena” e impulsionou “a desvalorização radical do mundo convencional. Esta posição revolucionária foi a expressão autêntica de sua teologia.Bloch. Isto implica em que a fé cristã atribui uma significação especial a certos eventos do passado. Mas podem ajudar -nos a perceber algo que podia. continuar desconhecido: Quando afastamos aquelas camadas de metafísica e religiosidade por trás das quais a fé cristã está com tanta frequência escondida. A teologia tenta examinar nossa experiência histórica à luz de uma história particular — a do povo de Israel. Com isto não 226 . Walzer chegou à conclusão inesperada de que ele representou “a mais antiga forma de radicalismo político”: “O Santo calvinista me parece agora o primeiro daqueles agentes autodisciplinados de reconstrução social e política que apareceram tão frequentemente na história moderna. não provam que a teologia tenha alguma contribuição a fazer na presente situação. e refletir sobre as possibilidades abertas para a realização humana à luz da humanidade de um homem — Jesus de Nazaré — e daqueles mais diretamente influenciados por ele. é claro. que todas as aspirações utópicas dos grandes movimentos de libertação humana se derivam do Êxodo e das partes messiânicas da Bíblia”. VII). The Revolution of the Saints. Disto surgiram. um jovem professor de política na Universidade de Princeton. no movimento puritano. 100). bem como às revoluções que encontraram sua inspiração primária no Cristianismo. A tônica calvinista sobre a soberania de Deus em toda vida e história deixou o puritano livre para tornar relativas todas as lealdades menos importantes. segundo Walzer. Chega a declarar que “mesmo os cristãos sabem. legal e intelectual” (pág.3 por Michael Walzer. Isto. e romper com a estrutura metafísica na qual a velha ordem estava estabelecida. organização e disciplina modernas para a revolução social. Estes exemplos históricos. que está radicalmente orientada em direção ao futuro. deu uma grande dose de atenção aos elementos proféticos e apocalípticos na Bíblia.. Ele é o destruidor de uma velha ordem da qual não há necessidade de se sentir nostálgico” (p. Uma destas revoluções é cuidadosamente analisada e apreciada num fascinante livro. E isto está muito perto do que diz respeito a uma ideologia de revolução.

reconhecendo que nenhum princípio semelhante será inteiramente adequado. entre uma experiência histórica prévia e a presente situação. para entender o que está acontecendo agora. será indicada pela possibilidade. a despeito da tendência dos teólogos para fazer exatamente isso. mas nos colocam também ante um difícil problema. de interpretar o que está acontecendo no mundo. precisamos correr o risco de desenvolver um princípio hermenêutico. Estes são instrumentos mais adequados para comunicar a variedade e riqueza de existência histórica dinâmica. Isto sugere que a existência histórica é uma luta contínua em prol da libertação. alguma formulação conceptual da significação principal daquela experiência em relação à nossa própria. Se há alguma verdade na reivindicação cristã. No Novo. A idéia básica de revelação é a de “remover o véu” por trás do qual a realidade está oculta. O trato com problemas sociais à luz desta perspectiva não precisa nos levar a defender nossa própria teologia ou insistir que todos adotem nossa visão total. muitos elementos surgem que me parecem particularmente relevantes para nossas reflexões 227 .queremos dizer que uma experiência passada foi tornada absoluta. Portanto. A própria Bíblia nos fornece uma vasta variedade de conceitos e símbolos. imagens e parábolas. No centro do Velho Testamento está a peregrinação do povo de Israel do Êxodo e escravidão à Terra Prometida e liberdade. e que deve ser objeto de constante reexame e revisão. Se esta perspectiva é válida. e para apreender as reais possibilidades abertas para o futuro. que tal reflexão sobre o passado oferece. Qualquer tentativa semelhante. no meio da qual o homem é repetidamente surpreendido por novas possibilidades de significação e realização — na vida individual e coletiva. então proporcionará apreciações sobre o dilema humano e possibilidades que podem ser aceitas por aqueles que não partilham as mesmas pressuposições. está um movimento do primeiro para o segundo Adão. experiências específicas e sua interpretação. Quando olhamos para a realidade contemporânea partindo desta perspectiva. O que pode fazer é nos fornecer um meio de considerar sobre as questões concretas que enfrentamos ao elaborar uma ideologia de revolução que possamos usar aberta e livremente. se possuirmos alguns princípios de interpretação. Só seremos capazes de conduzir um diálogo significativo. do nosso presente estado para a nova humanidade. pode dificilmente ser expressa num sistema teológico abstrato. nem que a crença em sua significação deva conduzir a pretensões de superioridade deste dogma ou religião.

Implicou em que o homem pode adquirir alguma compreensão do que está sucedendo em volta dele e portanto trabalhar por maior inteligibilidade sem necessitar recair numa visão-universal total. Pode agir de um modo que. no entanto. Neste contexto. Expressou a convicção de que alguma coisa de positivo estava acontecendo no processo histórico. deposita confiança demais na racionalidade da história. e fornece fortes bases racionais. e de que erros podem ser corrigidos. ele espera. Messianismo e Poder na Formação da História Para os que estão procurando alguma perspectiva na história como uma base para sua reflexão sobre revolução. e termina por ser essencialmente determinista. por conseguinte. os quadros imediatos não são encorajadores. Fala da configuração do futuro com confiança. Dentro das limitações que a filosofia moderna se impôs. é sensível à grande complexidade de cada situação histórica. Jaspers. Mesmo uma leitura superficial destes estudos. afirma que a história está inevitavelmente caminhando para uma maior humanização. Butterfield — trabalharam neste problema e nos apresentam uma variedade de perspectivas. e afirma a liberdade do homem. em certo grau. e não proporciona base sólida para esperança quer no presente quer no futuro. tornou possível assumir uma atitude de confiança em face de acontecimentos espantosos e complexos. por segurança. e. para sua interpretação histórica. um fator nas tentativas contemporâneas para responder nossas questões mais prementes. e sem um esquema total de fatos para garantir os resultados de seus esforços. Como foi sugerido antes. contribuirá para o bemestar do homem sem aguardar até que toda evidência se mostre. é possível ser realista sobre a natureza humana e sobre qualquer situação 228 . não há muito espaço para lidar com esta questão. a atitude cristã para com a realidade abriu o caminho para o desenvolvimento de uma perspectiva incomum da história. O marxismo tem uma resposta clara. revela que a perspectiva judeo-cristã sobre história desempenhou um papel importante em nossa autocompreensão ocidental e é ainda. A ação pode ser empreendida na certeza de que nova apreciação virá ao longo do caminho. Porém é por demais esquemático e rígido. Um certo número de filósofos e historiadores — Toynbee. O existencialismo também luta com o problema.presentes sobre revolução. que nos interessam ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações. Mas não vê possibilidade de significação no processo histórico. Bloch.

e todavia não tombar vítima de desespero. Principados e potestades. os esforços para chegar à idade messiânica e estabelecer uma nova ordem constantemente acabavam em perturbação. de remover alguém que se tornou uma ameaça à ordem estabelecida.4 Quando o povo de Israel refletiu sobre o significado de sua experiência. porque mantinham a sociedade unida e preveniam o caos. ele era o novo rebento que brotaria de um tronco morto. Na perspectiva messiânica. 229 . A tremenda seriedade desta luta está caracterizada na crucificação de Jesus. piedade e religião se combinaram para se livrar de alguém aceito por muitos como o Messias. uma tal idéia ingênua estava sempre sendo desmentida pelos acontecimentos. No âmago desta perspectiva está o que melhor pode ser descrito como messianismo completo. funcional. faziam reivindicações imperiosas para elas e pretendiam dar significação básica à vida. Esta tarefa. estado e igreja juntaram forças. e os recursos da lei. aparentemente simples. Portanto. Por mais que o povo judeu quisesse acreditar que o favor de Deus significaria crescentes segurança e prosperidade nacionais. Naquele momento. A esperança messiânica. sempre achavam o meio. o rei messiânico surgiria depois de a Casa de Davi ter sido destruída. O problema era elas estarem sempre escapando ao controle. a luta contra estas forças intensificou-se. não havia meio de saber ao certo quando e onde ele viria. Quando a ação messiânica se tornou mais claramente definida e intensa. Em vez de estarem contentes com um papel limitado. Isto significava quebrar seu poder e autoridade fundamentais sobre o homem. é uma luta que se está dirigindo para seu objetivo. não foi idêntica à nossa doutrina liberal de progresso. a história não é meramente uma luta constante pela libertação humana.particular. Na escala política estes termos se referiam àquelas estruturas da sociedade que eram essenciais para a existência humana. De fato. mas de forçá-las a aceitar seu devido lugar como serviçais em vez de senhores. produziu resultados inesperados. no entanto. Porém se a esperançosa espera do Messias era o elemento central da fé. aparecem novas possibilidades para a vida humana na história. Sua vida inteira como nação estava orientada para a vinda do Messias. chegou à conclusão de que a história estava indo para algum lugar. Não era uma questão de romper com elas. um soberano cujo aparecimento podia significar o estabelecimento de uma nova ordem no mundo. para usar as palavras de alguns dos escritores bíblicos. e nem método seguro para garantir seu aparecimento final. após todas as possibilidades humanas terem sido esgotadas.

O que aqui temos. mas as melhores: o Império Romano como imagem de lei e ordem. e ainda representa. impediu-lhes o caminho. No contexto da teologia cristã a crença de que Deus estava agindo desta maneira significou que a realidade histórica funcionou nestes termos. Também se convenceram de que. De fato. Perturba os cálculos prudentes de políticos e pode facilmente ser considerado subversivo. Portanto. pode ser constatada desta maneira: Se quisermos entender o que realmente está acontecendo na história. em essência.Aqueles que haviam se colocado ao lado do Messias concluíram que esta luta entre os poderes e o Messias lhes fornecia um indício do que estava acontecendo na história. a religião do povo eleito de Deus. enquanto fraqueza e derrota podem ser o caminho para a vitória final.5 E o que é ainda mais surpreendente. era que aparências são enganadoras. é a matriz da qual uma visão revolucionária de história pode emergir finalmente. nesta luta. Especialmente onde está envolvido poder. em qualquer momento particular. Jesus é visto como tendo “se descartado dos poderes e autoridades cósmicos como uma vestimenta”. os poderes aqui postos a nu e vencidos não são as piores instituições da sociedade. A revolução no pensamento. O fato notável sobre tal afirmação é que foi feita em um tempo em que parecia completamente claro para todos os demais que os poderes tinham obtido sucesso e que o movimento messiânico fora destruído por completo. uma vitória arrasadora pode. mesmo represen230 . a longo termo. equilibrá-los e usá-los para objetivos específicos. que possam contribuir para o bem-estar social. Dentro deste arcabouço. os poderes eram desmascarados e vencidos. devemos focalizar nossa atenção naqueles pontos onde movimentos messiânicos estão em ascensão e desafiando as estruturas de poder da sociedade. Não é esta a maneira pela qual políticos e estadistas usualmente olham para o mundo à sua volta. e a piedade de sua seita mais devota. Estão empenhados num esforço de avaliar corretamente os poderes como imagens dos interesses de grupos diversos na sociedade. ou estimar corretamente o impacto do futuro sobre ele. que uma tal visão da história era a mais realista e fornecia a melhor oportunidade para entender o que traria o futuro. então. os fariseus. transformar-se em derrota. A agudeza e maneira vívida da descrição que o Novo Testamento faz disto é extraordinária. qualquer grupo que represente uma preocupação messiânica e que queira mudar a ordem social no interesse da emancipação humana é algo como um aborrecimento. Ele “fez deles um espetáculo público” (Colossianos 2:15) — expulsou-os do cargo. o que os primeiros cristãos estavam dizendo. que isto ocasionou.

quando estudantes neste país vão ao Mississipi trabalhar lá com os negros. Por mais decisivo que o auto-interêsse seja. No contexto do messianismo. é sempre útil olhar para nosso passado e tentar descobrir ali aqueles elementos que nos dão certa segurança de que podemos entender e tratar com uma tal realidade. qualquer definição de nosso auto-interêsse nacional. trabalha contra nosso próprio interesse. cuja preocupação por emancipação humana torna sua participação. Num mundo em que nações pobres estão fervendo em revolução por causa de sua pobreza e sua exclusão dos centros de vida internacional. com frequência. é o fato de comunidade e nação existirem. nenhum país ou comunidade pode ser entendido meramente em termos de seu passado. ou ministros presbiterianos tomam a iniciativa em organização comunitária nos guetos urbanos nortistas. continuar a agir politicamente dentro de um arcabouço de compreensão que exclui esta dimensão. similar. Em uma sociedade na qual estes movimentos de libertação humana são uma força dinâmica e o povo é confrontado com um claro testemunho da relação estranha e paradoxal entre força e fraqueza. Se estamos interessados em saber quais são as possibilidades de a América responder produtivamente ao desafio de revolução mundial. Mais importante é o fato de não estarmos obrigados a agir do mesmo modo que agimos até agora. num mundo no qual as acomodações de auto-interêsses são continuamente perturbadas por pressões externas e protestos internos. e lidar com ele numa perspectiva que lhe possa dar sentido. Porém também podemos aceitar a possibilidade de poucas coisas serem mais importantes para estadistas e políticos que querem agir de modo realista do que levar este humanismo messiânico em conta. Em oposição a ele. que deixe de tomar seriamente estas correntes de messianismo. é claro. Qualquer política nacional estreitamente definida nestes termos também acaba por alienar aqueles grupos. a reação é. na moldagem da política de comunidade e nação. dentro das estruturas de poder da sociedade. não é todo o quadro. novas 231 . Podemos.tantes mais progressistas do Establishment não são de modo algum capazes de entender porque tais grupos estão em volta ou o que fazer com eles. e igualmente importante a longo prazo. urgente e necessária. Podemos responder diferentemente a um novo desafio quando é levado a nós através de contatos sem precedentes com o mundo subdesenvolvido e pela constante confrontação com as pequenas comunidades messiânicas em nosso meio. dentro do país. Quando jovens de ricas famílias aristocráticas no Brasil abraçam a causa de empobrecidos camponeses.

numa sociedade segregada. Mas têm também uma tendência para se mostrar mais poderosas do que realmente são. a política de nosso governo na América Latina e seu apoio ali aos regimes mais reacionários. Enquanto permanecem indesafiadas. nos leva a mandar 12. Como este processo continua. o estudante universitário aprende a discutir suas anteriores atitudes em relação à autoridade. podem manter esta ilusão.— até o momento em que significativo número de estudantes católicos abandona tudo para organizar ligas camponesas. O negro. políticas e sociais do status quo têm tremendo poder. de súbito. E quando esta sociedade acha necessário confiar em ódio. e fazer exigências que são injustificadas. Uma sociedade segregada pode manter toda espécie de mitos sobre si mesma por longo tempo. Hoje algo similar acontece quando aparecem movimentos messiânicos.possibilidades se revelam para compreender o que está acontecendo na história. sem questionar. e para estimar as perspectivas de mudança revolucionária. não está longe de começarmos a ter dúvidas sobre a estabilidade e poder da ordem atual. Os poderes não podem mais esconder a diferença entre suas pretensões e o que realmente são. Então. Podemos aceitar.000 soldados e a apoiar uma elite militar que atira em trabalhadores e estudantes indefesos. o camponês brasileiro. ou decide que não há outro modo de ali trabalhar por mudança que não seja a participação em movimentos de guerrilha. Quando uma revolução relativamente sob controle. aqueles que vêem necessidade urgente de mudança perdem gradualmente sua confiança na velha ordem e se recusam a aceitar sua autoridade sobre eles. num pequeno país do Caribe. vê que não precisa estar amarrado por todo o ethos do sistema 232 . estes poderes são desmascarados. a inadequação espiritual e as consequências desumanizantes fundamentais do legalismo e da devoção de seu tempo. quando movimentos de emancipação humana surgem. a precariedade de sua situação se torna evidente. começam a enxergar através dos clichês vazios usados para defender uma tal política. porém. quando adolescentes negros estão querendo arriscar violência e prisão para protestar contra ela. e de nada adianta subestimá-las. Torna-se evidente que se excederam em seu mandato e que por esta razão estão em chão instável. estes mitos são cortados pela base. Porém. que visam à forma real do humano. As estruturas econômicas. algumas pessoas pelo menos. não é mais dominado pelos velhos moldes de relação que aceitara como certos. A vida e ensinamentos de Jesus puseram a nu a bancarrota moral. violência e assassínio para se proteger de tais ameaças. entre o que dizem oferecer e o que realmente fazem para a vida humana.

Quando escolhem este segundo caminho. podem. ou aceitar este julgamento e se ajustar à nova realidade. E alguns daqueles que mais desesperadamente desejam preservar o status quo percebem que estes poderes os estão conduzindo a um beco sem saída e fazendo-lhes exigências extremas. aqueles que estão trabalhando por mudança encontram-se numa situação paradoxal. Sua liberdade para tomar uma tal atitude de confiança em relação ao futuro. e para agir de acordo. e torna possível para ele concentrar-se no trabalho a ser feito. vão a extremos que provocam oposição mais esclarecida e organizada. podem esperar ser atacados violentamente pelos detentores do poder. que dominou a vida rural por séculos. uma vez que libera o revolucionário de preocupação excessiva com o futuro imediato e com o que lhe está acontecendo. Podem ser objeto do ódio e fúria de homens desesperados. Devido sua sensibilidade para prever o que virá. Reagindo exageradamente à situação. Ao final. E. sofrimento e derrota contribuem para a vitória decisiva. que só podem se mostrar destrutivas. Tendo de fazer frente a este desmascaramento de suas pretensões. seu esforço para impedir mudança torna quase inevitável uma solução mais radical. e põem em movimento forças que lhes será cada vez mais difícil controlar. em assim agindo. o revolucionário estará bem seguro da fraqueza de sua própria posição e descobrirá que seu movimento está destinado a sofrer uma derrota sobre a outra. De outro lado. um dos elementos mais importantes numa luta revolucionária é a presença de pequenas comunidades de homens e mulheres que estão empenhados numa ação parabólica. pode perceber que esta confiança no poder esconde a inabilidade da velha ordem para responder de maneira fecunda a novos desafios. manter a situação sob controle e eliminar todas as ameaças imediatas. ou usar o poder que têm. e dão passos que revelam a um crescente número de pessoas quão desumanizante é toda a ordem. com frequência. os poderes podem. Porém. mostram quão inseguros são. Este mesmo revolucionário está também numa posição única para ver a instabilidade da velha ordem e reconhecer que ela está travando uma batalha sem esperança. O revolucionário pode descobrir que sua própria fraqueza é mais forte do que imaginava.patriarcal. devido ao uso de seu poder de desmascarar o velho sistema. Como a maior parte de nós não está inclinada a pensar sobre história nestes termos. e que perseguição. pode ser um fator importante para determinar o resultado da luta. Com isto quero dizer que eles 233 . em autodefesa. Uma vez que são os que revelaram a instabilidade da velha ordem e seu caráter desumanizante. tornam o problema pior.

não os revolucionários. dada a situação revolucionária que enfrentamos internamente. acredito. minimizar a necessidade de mudança. e que este modo de lidar com violência pode tornar mais provável uma solução violenta. Na perspectiva do messianismo bíblico. e o reconhecimento de que desintegração social e violência podem. um interesse autêntico pela ordem deve encorajar-nos a correr os riscos de mudança e tomar consciência de que quanto mais cedo isto for feito melhor. em nossos esforços para lidar com duas questões fundamentais: a relação entre estabilidade e mudança e o papel da violência na transformação social. e querer chegar a qualquer medida para eliminar a ameaça de violência — exceto em se tratando da defesa da ordem estabelecida. a ponto de levar a uma obsessão com estabilidade. que outros são supridos de sinais que sugerem como as coisas andarão. O resultado final desta cegueira ideológica é nosso fracasso em ver que uma tal tônica sobre estabilidade pode tornar uma situação explosiva mais instável. Quando qualquer estrutura particular da sociedade se torna tão rígida. Nossa atual política é parcialmente motivada por um legítimo interesse em estabilidade e ordem. mas a oposição a ela. é muito possível que muitos queiram recorrer à mesma ideologia. O fato de os liberais parecerem tão propensos a cair presas dela quanto os conservadores torna o problema ainda mais urgente. numa sociedade dinâmica. Portanto. preparar o caminho para o totalitarismo e atrasar. Até aqui. são os verdadeiros inimigos da estabilidade. de tal maneira. Isto deve também levar aqueles que são mais conservadores a se pôr em con234 . as consequências disto têm sido as mais evidentes em nossa política para as nações em desenvolvimento. que bloqueia indefinidamente a mudança. estabilidade e ordem tomam forma do outro lado da mudança. com facilidade. Quanto mais rígida for uma instituição. Aqueles que ajudam a preservar uma sociedade segregada neste país. maior a probabilidade de eventual descontinuidade institucional. oferece-nos uma saída do impasse ideológico ao qual estamos agora presos neste país. que constitui a maior ameaça à ordem e estabilidade. sua destruição pode ser necessária. Esta perspectiva da história. ao mesmo tempo.examinam minuciosamente esta perspectiva em seus mais importantes limites. Porém este cuidado está dominado por uma perspectiva ideológica que distorce todo o quadro. com ainda mais tristes consequências. o desenvolvimento econômico e a melhoria da sorte das massas empobrecidas. não é a mudança. ou as formas de exploração feudal-colonial na América Latina. Geralmente.

em muitos países. bem como em outras partes do mundo. tanto para bloquear a mudança como para produzi-la.tato com o encorajar aqueles que estão trabalhando por mudança. a violência pode ser um importante elemento. aceitamos a possibilidade de que a violência possa irromper. Como resultado fortalecemos grandemente aqueles grupos no poder que têm bloqueado. Nesta situação paradoxal. Numa sociedade estática. Cria uma sensibilidade para o caráter desumanizante da luta violenta. naqueles pontos onde a situação é mais desesperada. esforços não violentos para mudança e temos ajudado a criar uma situação — na América Latina. Pelo menos nosso governo não decidiu ainda que deve treinar uma grande parte das forças armadas. temos a liberdade para entender nossa própria história. que necessariamente implica numa “violação” da velha. abre nossos olhos para a necessidade urgente de movimentos que violentem a velha ordem. usualmente. para remover o problema que lá existe. sério e complicado. ao mesmo tempo. onde não há pressões messiânicas por mudança. Porém. está constantemente pressionando para uma nova ordem. Quando tal expectativa se torna mais universal. em unidades anti-subversão. o problema de violência não é. em um mundo no qual o povo acordou para a esperança. pelo menos — em que um crescente número daqueles mais cônscios do que está acontecendo concluem que a guerra de guerrilhas oferece a única esperança de mudança social básica. ele. Aqueles que são chamados a lidar com este problema só serão capazes de fazê-lo de modo sábio se forem livres para encará-lo abertamente e entender suas dimensões plenas. onde a necessidade de revolução é maior. Mas. agimos de maneira muito diferente. Em nossa própria sociedade. na América Latina. porque só este tipo de relação e esforço pelo diálogo pode contribuir para a estabilidade do tipo de sociedade em que agora vivemos. Podemos aceitar o fato de que nossa nação nasceu em um ato de violência. Nossa influência ocidental no resto do mundo criou uma situação que agora parecemos incapazes de entender ou de ajudar outros a entender. e também enfrentar de modo realista as opções à nossa frente. o povo. ou se apoiar em ocupação militar maciça de nossos “slums”. para lidar com agitação interna. Ajudamos a transformar as forças armadas tradicionais. e envolvemos nossos próprios militares e mesmo cientistas sociais neste esforço. efetivamente. É nosso ponto de vista que a perspectiva messiânica que indicamos aqui oferece tal possibilidade. de tempos em tempos. de que o negro foi emancipado e nossa unidade 235 . no meio da revolução.

Gradualmente esta influência penetrou cada vez mais fundo na sociedade e também na autocompreensão do homem. em nossos guetos urbanos e no mundo subdesenvolvido. Como resultado. De fato. Nenhum grupo ou classe de povo. e está munido de um crescente número de elementos que contribuem para isto. a constante expansão de conhecimento e experiência nos leva na direção oposta. O homem tem sido deixado livre para prosseguir em direção à nova humanidade. testemunhamos a rápida deterioração de todas as estruturas de autoridade. Jovens não aceitam mais. de fato. Se todas as autoridades estão perdendo seu poder básico.nacional preservada por meio de violência. e o proletariado externo do mundo ocidental rebelou-se contra seu status colonial. Ao contrário. em termos por completo diferentes daqueles do passado. podemos concentrar-nos no tipo de estudo e ação que ajudará a minimizar a necessidade de violência e limitar sua destrutividade no processo de mudança social. outros corajosamente afirmam sua singularidade e independência. este processo todo parece muito diferente. muitos desesperam de qualquer possibilidade de integração social. Há um elemento adicional em nossa compreensão da história que influenciará nossas ideologias políticas. história e vida humanas a uma soberania primeira. a autoridade de seus pais. Todos os povos do mundo estão em contato entre si e são dependentes uns dos outros. Do ponto de vista de uma teologia do messianismo. atitudes e ideologias. Esta inter-relação forçada não é apoiada por uma história. A crença cristã na criação e na subordinação de toda natureza. Este desenvolvimento não é um fim em si mesmo. os pobres não confiam no cuidado paternalista dos ricos e poderosos. Nosso mundo está se tornando crescentemente pluralístico e interdependente. ethos ou visão-universal comum. Ao mesmo tempo. e param nisso. sem pôr em questão. e vêem só caos pela frente. podemos chegar a afirmar que a história ocidental recente torna nossa escolha mais clara e mais inescapável: entre caos e novos esforços por integração social. nenhum código moral ou legal. dessacralizou todas estas esferas e minou todas as estruturas de autoridade. Ao mesmo tempo. culturas. toda 236 . podem manter a ordem na base da confiança implícita e respeito por ele. Começamos por aceitá-lo. e em quase todos os países. povos de todas as classes são confrontados diretamente com indivíduos e comunidades representando outras línguas. Estamos livres para admitir a possibilidade de que atos de violência possam ter lugar na luta dos povos desprovidos. porque vemos aqui o trabalho de Deus. é a pré-condição essencial para a realização messiânica.

podemos aceitá-los pelo que são e trabalhar constantemente por reconciliação. Por sua real natureza. Neste processo vamos descobrir que reconciliação. Disciplina é essencial. Estudiosos podem nos fornecer análises das formas de entendimento histórico encontradas na Bíblia e nos trabalhos dos grandes teólogos. e então reunir-se num esforço comum para alcançá-los. Porém tudo isto representa muito pouco para nós. para definir o tipo de relações políticas mais adequadas para a situação em que nos encontramos e empenharmo-nos numa procura comum de novos modelos e novas estratégias políticas. que nos dá nova liberdade para entender o que está acontecendo à nossa volta e para responder a isto mais criadoramente. tal reflexão deve sempre estar buscando significado numa situação dinâmica e flexível. quando estiver querendo se tornar algo como uma ideologia em si. a fim de se adiantar para os objetivos que ela estabeleceu. em que diferença. Isto não pode ser feito hoje por uma mistura de teologia e filosofia em algum novo sistema. para a comunidade. e ficar unidas nas experiências e esperanças de onde uma nova direção de vida surgirá. a menos que esteja relacionado diretamente com a história mais imediata de que somos parte. abre caminho para novas relações e novas riquezas de vida individual e social. mas podem travar diálogo sobre as possibilidades de realização humana que estão à sua frente. As pessoas vêm de passados. Nossa base e teorias políticas podem ser amplamente divergentes. porém podemos participar de um esforço comum. Numa tal sociedade. representa o esforço que está querendo dispender e o preço que está querendo pagar. na mais estreita aproximação do bem comum. é uma questão de querer ordenar assim a própria vida no presente. ao contrário da supressão de conflito.vida e sociedade precisa ser ordenada pelo futuro em vez de pelo passado. Uma nação ou uma comunidade deve decidir que tipo de mundo quer. Para o indivíduo. como de manter a porta aberta para mais ampla realização no futuro. que objetivos estabelecerá para o futuro. tensão e conflito são inevitáveis. portanto deve permanecer sempre experimental e aberta para 237 . isto não é uma barreira insuperável para o reconhecimento de que agora não temos escolha senão determinar como melhor desenvolver nossos recursos e distribuir os bens que produzimos. Deve vir como o resultado de uma conversação sem interrupção entre nossa herança teológica e os acontecimentos de nosso tempo. experiências e culturas muito diferentes. Podemos ser a favor de sistemas econômicos diferentes. Tudo isto pode justificar uma observação conclusiva: a reflexão teológica sobre história será mais relevante para a luta ideológica. Porém disciplina.

para aqueles empenhados na luta ideológica.revisão constante. há algo referente à respeito da luta revolucionária em si que é desumanizante. Jesus de Nazaré. E o Messias crucificado é o novo homem. uma figura revolucionária — é o instrumento de emancipação humana. O Messias foi crucificado. ser seu testemunho mais significativo. O revolucionário. de fato. portanto. afinal. quando nossos esforços messiânicos para construir uma nova ordem são frustrados. Porém a dinâmica peculiar desta posição é o resultado da associação desta esperança para o homem com uma pessoa histórica particular. uma realidade e uma possibilidade para a qual nos estamos encaminhando. em quem temos uma indicação concreta do que pode significar uma nova humanidade. O Messias veio no passado. em meio a uma luta assim ambígua na história. a teologia está interessada em interpretar certos acontecimentos e imagens que testemunham sobre a libertação do homem e a renovação da vida humana. e que libera forças que trabalham contra os objetivos previamente estabelecidos. algo parece acontecer no meio do processo revolucionário que embota este interesse. Um dos produtos mais comuns e infelizes disto é o desiludido e amargurado ex-revolucionário. quer um membro de outra classe que decidiu fundir sua sorte com a dos sofredores e explorados. que é realização. Além do mais. de que há tantos exemplos hoje. o Messias — um político. o segun238 . É muito fácil estar intensamente preocupado com o bem-estar do homem e ser cego para o que está acontecendo para homens e mulheres. Isto é o que pode caracterizar ideologia. quer seja um líder natural dos oprimidos em sua luta por emancipação. contudo ainda continua sua obra. nossa esperança de libertação é realizada dentro e através de luta e sofrimento. ao mesmo tempo. A liberdade de cristãos para revisar sua própria ideologia de história pode. E a ideologia com que esperamos orientar nossa ação revolucionária deve dar atenção a este problema. Ao mesmo tempo. Jesus. Afirma que a existência histórica do homem é um movimento para a libertação. que se manifesta frequentemente na vida revolucionária e na história da revolução. libertação é. e que provavelmente nunca será completamente resolvida. Revolução Social e Realização Humana As expressões acima sugerem uma tensão interior. com frequência tem um profundo interesse humano que é a força impulsionadora principal em sua vida. A despeito de tudo que os teólogos fizeram para obscurecer o fato.

para responder às questões fundamentais sobre a vida e sua significação. o Messias.do Adão. Todos estes esforços contribuem para uma situação em que os poderes gradualmente aumentam seu controle destrutivo. portanto. é essencialmente uma traição ao homem. com frequência. passamos a fazer exigências à ordem política que ela não pode satisfazer. Quando estes poderes são mantidos sob controle e obrigados a servir aqueles objetivos que lhes estabelecemos. ele representa uma nova forma de existência humana no mundo. Dentro deste arcabouço. política e revolução são colocadas num contexto em que podem contribuir para o bem-estar humano. e de que quem perde sua vida a achará. visando os aspectos básicos para a existência do homem. Quando estas forças são desafiadas. postas em debandada e forçadas a se reorganizar. O uso de religião. Do tempo dos primeiros discípulos até hoje. nós damos lugar no mundo para maior realização humana. quando menos as esperamos e estamos preocupados com outras coisas. Tão logo confiemos nelas. No decorrer deste caminho de envolvimento político. Por conseguinte. e a significação de nosso tempo presente em relação a ele. A nova humanidade toma forma. Esta figura política. o interesse nesta pessoa e a reação a ela levaram homens e mulheres a uma aposta. também se torna claro que. A atenção é focalizada no que Paul Lehmann descreveu como “o caráter político da atividade divina”. sem ser desafiado a mudá-la. Esta tentação é hoje especialmente séria para nós. como servidores da nova humanidade. psicanálise e média de massa como instrumentos com os quais o povo é ajudado a se ajustar a uma ordem social desumanizante. nossas experiências mais profundas de significação e realização nos vêm em meio a esta luta. a tensão entre revolução e humanização está definida e acentuada de maneira extraordinária. É. num mundo onde a batalha pelo homem está sendo travada contra os poderes. e portanto a pervertê-la. o homem encontra a liberdade para desenvolver novas formas de vida. Preocupação verdadeira com o bem-estar interior da pessoa deve portanto conduzir a ação que vise controlar e usar o poder político a fim de dar lugar para maior liberdade no meio comunitário. insensatez falar sobre a renovação espiritual e moral do homem sem dar a devida atenção a este elemento. somente se forem mantidas em seu próprio lugar. é também o novo homem. porque o processo todo de secularização destruiu nossa 239 . Realização humana em meio ao sofrimento e a derrota é uma realidade. Nestas circunstâncias. ocorreu na vida de um homem e está agora à nossa disposição. somos lembrados de que quem procura salvar sua vida a perderá.

as revoluções modernas não se distinguiram neste ponto e. para a humanização da sociedade contemporânea. Uma revolução oferece a oportunidade para construir uma nova ordem social — na crista da desintegração social — e pode também abrir o caminho para novas manifes240 . e o próprio processo revolucionário não segue um curso inevitável. Nesta perspectiva. a política não pode contribuir para a libertação pessoal. e assim contribuir. talvez por esta razão. contudo. e é muito mais fácil para nós fazer um ídolo de nossa luta política do que aprender a viver precariamente sem ídolos. Um movimento político só será capaz de contribuir para o objetivo fundamental do autêntico messianismo — i. É isto que abre o caminho para uma combinação incomum de sensibilidade para a profunda ambiguidade presente em cada luta revolucionária e a esperança em relação a seu resultado. Na verdade. esta mesma experiência que pode também aumentar sua dependência da ordem política e levar a uma fácil desilusão com os movimentos políticos. Só o revolucionário cujos compromissos políticos estão relacionados com uma visão mais ampla da vida humana e da história pode lutar com esta situação. A associação das imagens messiânicas do Velho Testamento com a pessoa histórica de Jesus de Nazaré conduz a uma afirmação adicional: O Messias crucificado é o novo homem. todo determinismo é destruído. pelo menos. Especialmente no tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. quando descobrem um novo reino de liberdade pessoal na obediência a uma lealdade mais alta. as mais avassalantes concentrações de poder não podem ter êxito em seus esforços para preservar o status quo. a participação na revolução é um meio pelo qual as pessoas são capazes de transcender mesquinhas ansiedades pessoais e problemas. Os melhores revolucionários são os que são homens livres no sentido de que sua auto-identidade e estabilidade pessoal não dependem de seu papel político. Até aqui. mesmo em meio a uma luta revolucionária. a menos que reconheçamos suas limitações e deixemos espaço. tiveram sucessos tão limitados. para aquelas instituições e forças que satisfazem outras necessidades humanas. êxitos significativos na luta revolucionária tendem a diminuir a importância da revolução.e. de maneira significativa. dele não esperarem demais. e a ação política efetiva pode criar o tipo de sociedade em que a política se torne menos importante.confiança nos velhos absolutos. É. Com frequência. para a realização humana — se aqueles que dele participam. A crucificação ocorre ao longo do caminho para o surgimento da nova humanidade. A longo prazo. por meio dos quais uma vez vivemos.

sob outras. A crucificação do Messias também nos lembra que a luta. Em certos momentos. entre a velha ordem e a nova. quando tentamos avaliar as alternativas à nossa frente em termos de sua contribuição potencial para um futuro mais largo e mais justo. podemos descobrir que alguns dos avanços mais significativos ocorrem sob circunstâncias difíceis e ambíguas. mesmo quando a causa da revolução triunfa. frustrações e sofrimentos são parte de nosso destino. em que todos os esforços de mudança são facilmente bloqueados. com facilidade. tirar vantagem de cada nova ocasião para progredir rumo os objetivos básicos da revolução social. Isto sugere que não devemos ter ilusões sobre movimentos políticos ou seus líderes. A violência é sempre destrutiva.tações de mal social. Sob certas circunstâncias. Porém a coisa importante é que este processo tão ambíguo propicia oportunidades sucessivas para a formação de formas novas e mais humanas de organização social. sem perder a esperança. torna-se terrivelmente desumanizante. é possível ser inteiramente realista sobre o que está acontecendo e. Contudo um tal movimento pode ser o instrumento com que essa sociedade é forçada a se abrir e começa a se encaminhar para um maior grau de justiça. O Messias foi crucificado por Seu próprio povo — aqueles em posição de poder na sociedade messiânica e aqueles que pugnavam mais intensamente para criar a nova era — e foi abandonado por Seus discípulos no momento de maior necessidade. Podemos pôr a nu constantemente e desmascarar coisas que ameaçam a causa revolucionária. ao mesmo tempo. Mas se a crucificação é um elemento inevitável na transformação social. à luz do futuro. tornar-se rígido e extremista. Esperanças irrealizadas. Porém a iluminação que buscamos pode vir. a luta revolucionária pode ser tão desumanizante quanto a velha ordem. Numa situação opressiva. Ao mesmo tempo. e contribui para este objetivo. Nenhum conjunto abstrato de princípios ou valores será de muita ajuda na tomada de decisão em tal situação. Líderes revolucionários equivocam-se sobre a situação e fazem erros de julgamento e estratégia. a fraqueza humana é tão prevalente entre eles como em qualquer outro grupo. E o fato de que a própria luta revolucionária se torna desumanizante em certos momentos não é razão suficiente para abandonála. Assim. sobre revoluções ou sobre revolucionários. serve como parteira necessária de uma nova ordem social. mesmo a vitória 241 . um movimento de integração racial pode. tanto na ordem social que surge da revolução quanto na velha ordem que a precedeu. se desenrola através da história. e que. então somos livres para aceitar este fato e prosseguir com o trabalho.

embora não tendo base da qual desafiá-la. Transgressão e Transcendência Há um outro complexo de problemas que representa pesada carga para a ideologia revolucionária.parcial pode se mostrar um importante lucro para a causa do homem. podemos rapidamente ficar sobrecarregados com o peso morto da velha ordem. e suas consequências. A história da revolução moderna. Por sua própria natureza. enquanto a presente tendência nas ciências empíricas não nos fornece racionais nem claros com que a teoria crítica possa transcender esta sociedade. até aqui. e. Nesta estrutura. Precisamos é dos 242 . o revolucionário então enfrenta o perigo de ser escravizado por sua própria ideologia. em nome da nova. deparamos com um novo e difícil desafio. fornece pequena evidência de que tal idolatria. Estas entidades metafísicas se foram. No Ocidente. vida e sociedade humanas estão relacionadas com uma ordem de ser que transcende o finito. orientada para a preservação da ordem estabelecida. Revolução. esta atitude de transgressão e transcendência contra a sociedade em que o homem se encontra não é uma ocorrência muito comum. Quando isto é acompanhado por uma ideologia de racionalidade. foi o produto de uma visão-universal metafísica. Como vimos antes.6 Se este esforço hercúleo tem êxito. possam ser evitadas. e uma tentativa para “ultrapassar o universo estabelecido de negociação e ação para suas alternativas históricas”. Os que vêem através de tudo isto podem rebelar-se. Colocar a tônica no funcional e operacional pode facilmente conduzir a uma visão de realidade em que dimensões inteiras são perdidas. com seu desaparecimento. e protestos contra a escravização do homem não nos fará seres humanos livres. Exige uma crítica transcendente do status quo. uma recusa “em aceitar o universo dado de fato como o contexto final de validação”. que surgiu como resultado da síntese da filosofia grega e teologia cristã. e todas as instituições sociais são julgadas e reformadas por uma ordem ideal à qual devem se conformar. e pela feliz consciência que não tem sentido de culpa radical ou julgamento. O Eterno se opõe ao temporal. O repúdio de velhos tipos de pensamento sobre política externa norte-americana não nos dará as ferramentas para forjar uma nova. revolução implica em uma “violação” da velha ordem. nem base para mudança qualitativa. Porém rebelião em si não pode produzir o novo nem libertar o homem. pode ser só um sinal negativo de sua escravização à ordem estabelecida.

Aqui filosofia e arte. A verdade é que esta íntima identificação com uma ordem metafísica não é tanto uma indicação da natureza da teologia como o é de um avançado estágio de aculturação do Cristianismo em uma era anterior. Não mais acreditamos em Utopia. eternos. na confiança de que o futuro está livre. Realidade é a que está-vindo-a-ser quando nossa existência histórica se move para o futuro: como o diz Ernst Bloch. Neste caso. A potencialidade se coloca em aguda tensão com realidade porque o potencial é uma possibilidade histórica. para a ordenação da vida e sociedade humanas.recursos para transcendência radical: aquele discernimento profundo e perspectivas sobre vida e sociedade que rompem o poder do velho. “Valores” são transformados em necessidades humanas. portanto.” A vinda do Reino é uma questão da reordenação das relações humanas e estruturas sociais. mudanças específicas necessárias e possíveis na 243 . quando empenhados num constante esforço para criar novos “projetos” e pugnar para fazê-lo realidade. o julgamento do futuro sobre o presente não é um assunto de pretendida fidelidade a certos valores e ideais abstratos. no meio do diálogo entre nossa visão do homem e o que ele pode se tornar e a situação em que nos encontramos. As palavras transgressão e transcendência têm. podem aparecer no caminho do futuro. agimos com mais responsabilidade. Com facilidade traímos e limitamos a realidade quando restringimos nosso entendimento ao real. O tipo de transcendência que encontramos na Bíblia é mais escatológico do que metafísico: refere-se não tanto à Ordem Eterna acima do homem. Somente somos capazes de alcançar o possível se empreendemos o impossível. e transcende. mas de objetivos tecnológicos e políticos muito específicos. literatura e drama. como ao futuro que transgride contra. “O que existe não pode ser verdade. acima de tudo o mais. O que sobressai aqui é a qualidade concreta de nossos objetivos para o futuro. A suprema realidade na história é o Reino de Deus que está vindo e que é presente agora como uma força explosiva em nosso meio. mas podemos confiar que novas e surpreendentes possibilidades. se pudermos pesquisá-la sem a visão-universal com que tem sido associada. fazem o julgamento do status quo e nos fornecem um universo de discussão em que novos modelos e novos “projetos” podem se desenvolver. tal como é observado empiricamente. o presente. São definidos. e dados de maneira concreta. tudo tem seu lugar. uma dimensão religiosa e sugerem que a teologia pode fazer alguma contribuição para este ponto. o estímulo e enriquecimento da memória histórica.

os homens são mais livres para lutar pelo melhoramento da condição humana. A história é compreendida como não sendo autocontida. afinal. a Igreja Cristã não tem demonstrado sempre esta liberdade para romper com o que “é” por lealdade ao que está vindo-a-ser. Para eles. isto é. expressa numa variedade de conceitos e imagens teológicas. Reconhecidamente. onde comunidades humanas estão sendo constantemente confrontadas com novos horizontes para o futuro. É uma criação humana que tende a violar a realidade e assim escravizar aqueles que lhe são mais leais. Quando isto tem ocorrido. Se reunimos estes elementos num quadro mais compreensível de nossos objetivos. falha porque é idólatra. sugerida pelas imagens cristãs de transcendência. Basicamente. aponte o caminho para uma vida significativa e responsável. esta transcendência e transgressão radical pode ter só uma de duas fontes: Pode vir como resultado da atribuição de um valor infinito a um aspecto da realidade finita. como os escritores bíblicos e especialmente os profetas do Velho Testamento. vamos de encontro a tremendas dificuldades. a história é o reino da liberdade e responsabilidade. Em cada esfera de existência coletiva. O objeto de lealdade não é algum elemento do finito que foi absolutizado. entenderam com clareza. inverte todo este processo. o homem é livre para ser um transgressor da ordem em que vive. Porém. que torna rela244 . No momento em que pensamos nestes termos. O mais paradoxal de tudo. por conseguinte. quando é perturbado por uma consciência infeliz. quando não atribuem valor absoluto ao que estão fazendo. representa uma aposta de que estes símbolos e conceitos fornecem um indício para o que realmente está sucedendo no mundo e. o futuro rompe a imutabilidade de nossas estruturas e instituições atuais e abre caminho para o crescente uso da tecnologia a serviço do homem. A segunda alternativa. mas o Criador. quando se compenetra de que é chamado a um modo de vida e um padrão de ação que é como um castigo. tem sido alimentado por uma certa maneira de pensar sobre a realidade. Esta lealdade absoluta a um novo ideal ou visão de uma nova ordem social pode fornecer a base para ação revolucionária dinâmica.sociedade. possibilidades técnicas específicas que agora temos diante de nós. quando é vivida em resposta a uma lealdade mais alta do que a própria. e quando expressa a confiança de que a realidade — vir-a-ser-é basicamente favorável ao homem. não é determinada por leis absolutas que se efetuam inevitavelmente. Ao contrário. A vida humana é vista como mais humana.

muito tênue. Quando a fazemos. e que homens e nações podem criar novos modelos de uma nova sociedade. podemos eventualmente ficar surpresos e chocados por uma nova linguagem e imagens de transcendência que podem ter implicações de longo alcance para a renovação da sociedade. e também de que todos os símbolos de transcendência teológica perderam sua significação e força. 245 . no tempo mesmo em que novos recursos para transgressão e transcendência são indispensáveis para a luta revolucionária. Estamos muito cônscios de que nossos ídolos têm pés de barro. que somos livres para ser transgressores caso isso seja útil para nosso vizinho. Hoje nos defrontamos com uma situação incomum. Somos desafiados a confiar num propósito e numa iniciativa. em ação na vida e na história em relação ao qual a vida é livre. para novos ídolos. e a luta para mudar o mundo faz sentido. e fazer algo efetivo para transformá-los em realidade. Porém as velhas imagens bíblicas afirmam que a história está receptiva a um futuro mais promissor. E seria fútil gastar nosso tempo discutindo o caso da transcendência cristã. contudo insistem que ela representou a escolha fundamental que determina o destino humano. na verdade. Nesta situação.tiva e ao mesmo tempo apoia toda realidade criada. Os profetas compreenderam muito bem que a linha entre idolatria e confiança na soberania é. em desespero. Ainda é possível fazer esta aposta. seria fatal virar-se.

246 .

tenho ficado impressionado pela maneira com que o rápido avanço da tecnologia parece criar ou intensificar certos paradoxos em nossa sociedade: 1. O máximo que pode esperar é participar de um diálogo mais amplo sobre estes problemas centrais — o que não é possível aqui. como aprendi há tempos na América Latina. temos parte da responsabilidade de sua frustração e desespero. não temos o direito de apressar o povo a se tornar revolucionário. esta inte247 . Portanto não temos escolha senão fazer pelo menos algumas observações preliminares sobre as perspectivas atuais da luta revolucionária. Nos anos recentes. se abandonarem a luta ou forem levados a agir irresponsavelmente. Ao mesmo tempo. Pela integração de sistemas. o teólogo não pode ficar indiferente a questões de estratégia e tática revolucionárias. a menos que possamos dar alguma indicação concreta de como os objetivos da revolução podem ser alcançados.V Uma Palavra Sobre Estratégia e Tática O fato de este ensaio já estar longo podia fornecer uma saída para um difícil dilema: Devido a seu interesse na realização de certos objetivos para o homem e a sociedade. De outro modo. bem como dos resultados disso. Contudo. Mas não está preparado para discutir estas questões porque requerem um tipo de análise social e política de que não é capaz. provê a ordem estabelecida com poder quase ilimitado de autopreservação.

seja qual for a classe a que pertencem. A tecnologia cria uma mentalidade que está interessada na análise e controle da ordem dada. 3. As linhas estão traçadas mais claramente entre os que entendem o que está acontecendo e correspondem. Neste esforço. antes que velhas estabilidades mais uma vez se firmassem. e aqueles que não o fazem. não é tanto de substituir o sistema total do presente por um sistema totalmente novo. pode prejudicar a execução dos objetivos revolucionários.gração de sistemas representa um equilíbrio muito precário. que podem responder ao desafio do novo ou que já o fizeram. Isto oferece uma oportunidade única para construir uma nova sociedade. e que fornece o poder e técnicas por meio das quais isto pode ser feito. mas também um meio. Sob tais circunstâncias. a fim de que possam servir melhor o homem quando enfrentem novas realidades. Frequentemente há muita gente. revolução com luta de classes só tem um lugar relativo. 2. pode não ser somente uma tarefa cada vez mais difícil. A tentativa de mudar a sociedade. líderes. usualmente em uma esfera restrita da sociedade. porém. e as mudanças produzidas pela tecnologia parecem contribuir para o surgimento de forças que tentam transtornálo. As recentes repercussões de uma cruzada individual por auto-segurança é apenas um exemplo disto. o mais improvável. no sentido lato. a tarefa do revolucionário. mas a de rebentar as instituições sociais e mantê-las em movimento. pela destruição de toda a estrutura de poder e substituí-la por uma nova. que só pode ser compreendida à luz do futuro e torna ineficazes todas as instituições que não se podem adaptar ao novo. hoje. dentro do Establishment. para alcançar os objetivos dos re248 . No passado. O colapso das estruturas de autoridade e a dinâmica de mudança social criam agora uma situação em que a mudança pode afetar todas as áreas da sociedade e penetrar muito profundamente nela. então uma nova estratégia de revolução é urgentemente necessária. A mesma tecnologia cria uma situação social dinâmica. Isto. que pode com facilidade ser perturbado. bem como outros. mas são incapazes de agir devido a inércia das instituições a que servem. a autoridade e estabilidade das estruturas sociais significavam que mesmo a revolução violenta só podia causar um impacto limitado. a revolução tinha que realizar mudanças rápidas. Se estes progressos estão se processando. No passado. Mas estes mesmos progressos significam que a revolução também pode causar desintegração social total e tornar necessárias novas formas de arregimentação. revolução pode representar uma constante ameaça de caos por um longo período de tempo.

Nossos esforços não serão tão orientados para um momento de vitória total. podemos trabalhar por revolução permanente. Durante todo este estudo sugerimos que a perspectiva teológica de revolução nos liberta do determinismo histórico. o de subverter as estruturas atuais mas. que já está invadindo o presente. então ele tem as vantagens de iniciativa e criatividade. o despertar de gente de diferentes classes sociais para o que está acontecendo em volta deles e para ação responsável. no distante futuro. quer se incluam em nossas ideologias e esquemas. o de forçá-las a ser mais arejadas e flexíveis.volucionários. Há algumas situações em que a rigidez da velha ordem e sua resistência à mudança não permitam outra alternativa. primariamente. de ataques de surpresa e a escolha de lugares e momentos estratégicos para cada batalha. ao mesmo tempo assegura-nos que somos parte de um processo revolucionário se encaminhando para um objetivo. novas estratégias e táticas. mais apropriadas para tal tarefa. Por esta razão. na velha ordem. em total receptividade às suas exigências concretas. e de seu fracasso em solucionar as novas questões básicas que pedem atenção. quer não. nossa ação deve possuir algo equivalente a um testemunho do futuro. no sentido de um assalto frontal a toda a estrutura da ordem estabelecida. Estes novos fatores sugerem as linhas principais de uma estratégia alternada e ajudam a criar as condições para seu sucesso. Nossa crença de que o futuro está do lado da mudança revolucionária nos liberta de obsessão com a defesa de nossos sistemas e ideologias. O que se torna importante é o desmascaramento de injustiças específicas. e produzir o tipo de mudanças que impulsionarão o processo revolucionário para novos estágios. ou mesmo do território sob nosso controle. e o início daquelas mudanças que fornecerão o maior potencial para mudança ulterior. pelo contrário. que acontece tão frequentemente com os defensores do status quo. Uma pequena vitória prepara o caminho 249 . pela qual a estrutura inteira é atingida por um número cada vez maior de desafios àqueles pontos onde mudanças são mais imperativas. Se a ação do revolucionário está de acordo com a realidade. que podem perturbar o equilíbrio precario de poder onde ele não estiver afinado com a realidade. mas para um grande número de pequenas vitórias. Em vez de revolução total. algum dia. Podemos cooperar com o futuro que se está tornando uma realidade em nosso meio. e a reagir aos novos problemas de forma mais criadora. no decorrer do caminho. terão de ser inventadas. Nosso objetivo não é. Mas se esperamos contribuir efetivamente para a transformação da sociedade tecnológica avançada.

A questão de saber se é melhor trabalhar por renovação social. nossa sociedade pode descobrir que mudanças profundas e necessárias na ordem social podem ser realizadas sem a ameaça de total desintegração social. de dentro ou de fora das estruturas. dependerá dos que têm os meios de análise social e a experiência revolucionária para fazê-lo. em movimentos revolucionários e que se nos apresentam agora. sempre afligiu os reformadores. evitar as armadilhas em que tantas revoluções passadas caíram e perseverar durante uma longa e árdua luta. em duas ou três novas frentes. Uma empresa deste tipo pede movimentos revolucionários que estejam livres para explorar novos caminhos. 1. Se esta estratégia tem êxito. com frequência. flexibilidade e resposta às necessidades dos homens — que podem eventualmente tornar a revolução desnecessária. que podem ser coordenadas numa estratégia geral sem destruir a iniciativa local. e a derrota em um esforço específico é a ocasião para um reagrupamento de forças. Só pode ocorrer em uma sociedade que seja capaz de reagir a novos desafios em vez de se refugiar em tentativas desesperadas de resistir à mudança. o revolucionário pode achar possível travar uma difícil luta com a esperança.para uma luta mais avançada. existe a possibilidade de combinar realismo a respeito da sociedade e a respeito do poder das forças que bloqueiam a mudança. mas a marca de mudança em instituições sociais — para a receptividade. Argumentar que ela tem uma chance representa uma profissão de fé. Hoje parece ainda mais difícil responder. A verificação desta hipótese. com otimismo a respeito das perspectivas para revolução. Desde que uma tal tentativa tenha êxito. Não temos garantias de que uma tal estratégia alcance êxito. gostaria de discutir brevemente a relação desta abordagem com várias questões que têm surgido. bem como o efeito de suas implicações. confirmados cada vez mais por pequenas vitórias e a aceleração do processo de mudança. a qualquer preço. Isto é o que tínhamos em mente no primeiro capítulo. Ao longo deste caminho. o resultado básico não será necessariamente o controle de certas esferas da sociedade por movimentos revolucionários. quando sugerimos que hoje estratégia e tática de revolução podem concentrar-se no desenvolvimento de um equipamento político da guerra de guerrilhas. Em conclusão. Estamos munidos de uma estratégia baseada na reação espontânea de pequenos grupos em várias fronteiras diferentes. tendo em vista a solidez e criatividade potencial de nossa sociedade. O tipo de instituições e a concentra250 .

tudo milita contra uma ação rápida e efetiva por mudança. e um plano relevante de ação — mais do que sua relação com uma instituição particular de sua posição perante ela. podem descobrir que logo são ameaçados pela mesma tendência para a inércia e inflexibilidade. para tais grupos. onde isto é possível — de onde prosseguir com o trabalho. e podem terminar à margem da luta por mudança. Muitas pessoas têm dado os melhores anos de suas vidas para uma tal luta. A estratégia de ação de guerrilha oferece a possibilidade para uma redefinição do problema. no governo ou mundo de negócios. muito cedo. mas poucas perspectivas são menos prometedoras do que a de começar uma nova igreja. em qualquer outra parte. as pressões para o conformismo e a necessidade de jogar o jogo conforme as regras pré-estabelecidas. tomar uma posição mais radical. Mesmo se se tornarem poderosos bastante para causar um impacto. Este é um engano. muito diferente daquela de gente de outras instituições: Vemos pouca possibilidade de fazer alguma coisa efetiva trabalhando de dentro das estruturas burocráticas atuais. que seria. pode ser capaz de desafiar uma organização a fazer o que precisa ser feito. provavelmente. ou não. se travara alhures. uma clara definição de seus objetivos. provavelmente. Mas. só para descobrir que seus esforços quase não alcançaram aqueles pontos onde mudanças fundamentais eram mais urgentemente necessárias. ter uma idéia mais clara dos objetivos para os quais estão trabalhando e preservar sua integridade como movimentos revolucionários. Por outro lado. Nossa experiência hoje na igreja não é. nada mais do que uma seita ineficaz. contra que se rebelaram originalmente. Nesta perspectiva a coisa importante não é se um grupo está trabalhando por mudança radical.ção de poder que cada uma representa criam uma situação em que é muito difícil fazer qualquer coisa efetiva a não ser de dentro. É possível. podem afinal acordar para descobrir que a batalha. de fora das estruturas. não são mais encorajadoras. exatamente pelas questões que mais os preocupavam. e inserir certas pequenas esferas de relativa liberdade — dentro da estrutura. Aqui a coisa mais importante para os que estão mais empenhados 251 . o peso do passado e a relativa inércia de grandes estruturas burocráticas. não terão base para operações efetivas. De fato. mas se tem. sua própria auto-identidade e base de operação. na universidade ou na igreja. Porém as perspectivas de executar qualquer coisa. dentro ou fora da estrutura. De uma tal base. que a geração mais nova não está inclinada a cometer.

Devemos ter muito pouca esperança de que. no futuro imediato. O importante é usá-las para os propósitos de transformação social. de grupos que estão trabalhando de maneira criadora e dinâmica. age quase contra a unanimidade da opinião política. desenvolver uma nova perspectiva dela. não há mérito especial em estar fora das estruturas. Na medida em que as instituições sociais permitem hoje que tais grupos funcionem dentro delas. O revolucionário contemporâneo se sentirá inclinado a duvidar da possibilidade de assim trabalhar por uma mudança efetiva. Em algumas instituições há líderes que vêem a necessidade de mudança e que serão capazes de agir mais corajosamente devido a existência de movimentos que criam novas pressões por mudança. pesquisar novas soluções e desenvolver uma nova estratégia 252 . ou pode tolerar a existência. dentro das estruturas. Quando um esforço para fazer isto falha. mas em formar um pequeno núcleo. não podem ser condenados tão só porque escolheram este caminho. Tal abordagem deve evitar atitudes doutrinárias. criar novos modelos e elaborar uma estratégia efetiva para a ação. dentro de seu meio. Só quando isto acontece será possível analisar uma situação específica. Estes povos que escolheram travar a batalha por renovação de posições de poder. deve ser livre para admitir o fracasso e começar de novo em qualquer outro lugar. movimentos revolucionários não são justificados. regras e pressões na área em que estão trabalhando. Esta estratégia de colocar a tônica sobre pequenos grupos radicais. à criação de novos modelos e à liberdade de ampla experimentação. Para os que fazem isto. que é livre para trabalhar em um sério problema. isto é. estarem relacionados um com o outro de tal maneira que possam tomar uma posição contra a ideologia. Para ele. Onde as estruturas são suficientemente abertas e flexíveis para corresponder criadoramente a novos desafios.em trabalhar por mudança em nossa sociedade é ter sua própria autoidentidade. a prioridade precisa agora ser dada ao desenvolvimento de novas perspectivas. Não está interessada primariamente em unir grandes grupos na base do mais baixo denominador comum. Uma organização pode dar seu apoio oficial a um novo projeto que está tentando resolver um problema social urgente. com sua própria auto-identidade e programa. contribuem para sua própria renovação e armam o revolucionário com os canais mais apropriados para a realização final dos objetivos. estas estruturas venham a tomar a iniciativa de fazer as mudanças necessárias. sempre que isto é possível. e escolherá outra alternativa. Mas em alguns pontos podem ser usadas efetivamente.

Uma vez que estão trabalhando para o melhoramento da sorte das classes não-privilegiadas. Alguns dos trabalhadores que migram das áreas rurais acham sua situação 253 . comunas e sovietes — uma expressão de seu profundo anelo de participação no poder público. é importante encontrar os que são livres para explorar novos caminhos. O que agora é preciso. Um exemplo do que desejo dizer é fornecido pelos atuais esforços para fazer algo sobre a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. Os revolucionários modernos não têm tido muito êxito em resolver o problema da participação das massas no processo revolucionário. cooperar em objetivos limitados. procurará e aceitará o apoio de todos aqueles que podem. é o tipo de estudo e reflexão que possa chegar ao âmago do assunto. Frequentemente. no entanto. são com frequência dominados pelas formas de autoridade e pelo ethos paternalista da velha sociedade. Neste estágio. a menos que esteja autenticamente relacionada com as massas e apoiada por elas. Um grupo que realiza isto ficará interessado em encontrar o maior número possível de aliados para um programa específico de ação.de ação. isto aconteceu. que podem ser usadas como um instrumento eficiente para a mudança social. muitos indivíduos e grupos diferentes podem ser agrupados para estudar e apoiar pelo menos alguns itens em um novo programa. por qualquer razão. Há muita gente e muitas organizações diferentes interessadas em mudá-la. em outros. mesmo nas mais desesperadoras situações. contudo é preciso não haver ilusões sobre sua fidelidade nem exigir delas mais do que estão preparadas para dar. É mais improvável que esta tarefa possa ser empreendida por um grupo vasto e heterogêneo. as revoluções modernas têm sido a ocasião para o aparecimento espontâneo de toda sorte de organizações de trabalhadores e camponeses em ligas. Contudo tais grupos não têm usualmente sido encorajados ou tolerados por governos revolucionários. não. teremos alguma possibilidade de romper o velho impasse. os revolucionários naturalmente supõem que seus esforços devam ser apoiados pelas massas. os que mais lucrarão com a revolução são incapazes de entendê-la e medrosos ou indesejosos de apoiá-la. desenvolver uma nova perspectiva dele e fornecer novas sugestões para satisfazer o presente desafio. Quando isto acontece. Por outro lado. Se o elemento central na estratégia revolucionaria é a formação de pequenas unidades para uma luta política do tipo-guerrilha. Camponeses. Em alguns casos. Uma estratégia política que depende de pequenas unidades de guerrilha não pode ter êxito. 2.

todo o processo eleitoral é viciado e limitada sua significação para a mudança social. mas. outros estão de tal modo ameaçados pela insegurança total em que vivem. que muita gente tem ficado insegura sobre o papel do conflito na vida social. Para isto acontecer será necessário dar.tão melhor do que a antiga. facilmente voltam-se para. Uma vez que estas pessoas tenham sido alienadas do que está acontecendo. avançar para a criação de novas instituições políticas. nos fizeram encarar esta realidade — e deixaram muitos perturbados com o que viram. 3. ou onde a estrutura política não permite uma escolha real entre diferentes ideologias e grupos dominantes. primeiramente. Onde quer que os recursos da média de massa são usados para controlar “democraticamente” eleições. ao contrário. o contexto para um processo educacional em que um novo sentido de auto-identidade e uma nova visão do futuro podem tomar forma. aqueles movimentos políticos que prometem eliminar o proble254 . Na maioria dos casos. Por tanto tempo a sociedade tem tido tal êxito em esconder o sofrimento e descontentamento dos não-privilegiados e cobrir a violência dos detentores do poder. Subitamente cônscios da instabilidade da sociedade hodierna e do seu potencial de conflito. e não está preparada para lidar com ele. e apoiam. e excluídas do processo de tomada-de-decisão. Tais organizações políticas elementares fornecem. Em anos recentes. o problema básico não é hoje conseguir que as massas participem mais ativamente da ordem política atual. atenção à formação daquelas organizações políticas mais básicas que possam ser a expressão autêntica da participação de grupos e classes diversas de pessoas na transformação de sua sociedade. e só será eficaz em larga escala se estiver relacionado com estas estruturas maiores — e se contribuir para sua transformação. explosões periódicas de violência. que não estão inclinados à revolução. ou mesmo transferir o poder político de um grupo para outro. Talvez venha a usar de movimentos com este sentido de identidade e relativa independencia das estruturas políticas atuais para provocar alguma mudança significativa nelas. isto requer um processo longo e intensivo de despertar de homens e mulheres para a situação sócio-histórica em que vivem e para a natureza de sua responsabilidade para com ela. isto provavelmente só pode ocorrer em grupos muito diferentes da organização política tradicional. portanto. A revolução trouxe a questão do conflito e sua resolução mais uma vez para o centro da atenção. que pagarão quase qualquer preço por uma pequena garantia de estabilidade. nas nações em desenvolvimento bem como em nosso próprio país. De fato.

mas mesmo encorajado. caso novas relações estejam para ser estabelecidas entre grupos e classes na sociedade. o conflito deve não só ser permitido. Portanto. Como a violência é usada contra eles e eles descobrem quão difícil é conseguir mudança sob tais circunstâncias. por outro lado. para a resolução do conflito através de entendimento e diálogo. e. Isto implica em que. em certas situações. o conflito é aceito simplesmente pelo que é: um elemento essencial em certas situações. não por tentativas constantes de suprimi-lo ou limitá-lo. o conflito é controlado. o movimento pelos direitos civis pode bem fornecer numerosos exemplos disto. A menos que obtenhamos êxito. E a reconciliação envolve o estabelecimento de novas relações em e através do conflito. relativamente cedo. O realismo bíblico é livre para ver o lugar do conflito na sociedade e aceitá-lo. Na atual luta revolucionária. um tipo de realismo que não pode conceber paz e estabilidade independentemente de justiça reconhece que. Os revolucionários. Em fornecendo um instrumento eficaz para o uso de conflito limitado. Uma perspectiva teológica conjugaria esforços nesta mesma direção. de parte da ordem estabelecida que protela a execução dos objetivos da revolução. Esta mesma abordagem teológica coloca todo conflito no contexto de um movimento para reconciliação. Não crê que a ordem social deva inevitavelmente cair. e que aqueles que estão contra esta mudança podem ser levados a aceitar aquelas mais 255 . de ambos os lados de uma luta revolucionária. sua tendência pode ser formular uma ideologia de conflito que exagera sua importância e conceber revolução em termos de luta total. pode tornar possível evitar uma ideologia de conflito total. Fundamentalmente. as pessoas tenham a liberdade de distinguir as oportunidades e delas tirar vantagem. assim. indicar uma alternativa. acredito. Conflito não é básico. É só assim que aqueles que desejam mudança podem saber o que é possível num momento particular. Estão completamente cientes dele. porque sua luta o traz à superfície. quando se permite que o conflito se manifeste. em satisfazer as exigências mais urgentes do negro neste país. podem também estar despreparados e não equipados para seu embate com conflito. não pode ser um fim em si mesmo. salvar-nos do tipo de desintegração social ou resistência total a mudança. uma estratégia coordenada de ação de guerrilha numa variedade de frentes pode. De fato. e não a sua eliminação. mas por sua integração numa estratégia de reconciliação.ma pela supressão efetiva dos elementos subversivos.

poucas coisas são mais importantes do que a maior exploração das possibilidades que oferece uma estratégia de reconciliação. o revolucionário mais autêntico é o que pode conjugar compromisso pleno e um certo grau de afastamento. Entre os que hoje estão preocupados com mudança social. Em outras palavras. A despeito do fato de esta ênfase nos ideais e princípios ser um apelo especial para as pessoas religiosas. de ambos os lados da luta. Para aqueles que estão dispostos a combinar um compromisso com a revolução e um diálogo com a teologia. No passado. Passa a ver mais claramente a importância e significação de sua opção pela revolução. Um grupo de ideais e valores éticos gerais têm muito pouca significação. estes elementos ajudam menos. a tendência inevitável de movimentos deste tipo para absolutizarem sua posição e se mostrarem desinteressados de julgamentos críticos sobre seu ponto de vista e seu trabalho.urgentes. As novas regras necessárias não podem ser elaboradas abstratamente. as imagens bíblicas sugerem uma abordagem bem diferente. isto podia ser em parte alcançado por meio da insistência em certos ideais éticos que expressavam o tipo de sociedade pela qual a revolução estava lutando e os meios pelos quais ele podia ser atingido. a exigência de idéias e regras novas. Estes fatores são muitos. Hoje. pelos movimentos a ela dedicados. as pessoas podem se dedicar a uma busca de novos meios de reflexão sobre um problema específico e sobre novas soluções para ele. desta maneira. e avança para um maior envolvimento nela. e o fato de que. e. A pessoa que vive este diálogo logo se torna consciente de uma tensão a crescer dentro de si própria. que pode manter um senso de humor que lhe permite rir de si mesmo. exceto se se tornarem mais concretos em situações históricas particulares. e que pode manter uma atitude crítica em relação a todo pensamento e ação revolucionários. começar a avançar confiantemente para o futuro. as agudas e difíceis questões éticas que surgem. o pensamento criador requer um contínuo processo de revisão ideológica. a mais importante questão referente à estratégia pode muito bem ser de outra ordem. e. desenvolve uma maior sensibilidade para aqueles fatores externos e internos que bloqueiam a execução dos objetivos da revolução. Ao mesmo tempo. Neste arcabouço. na situação dinâmica em que nos encontramos hoje. A possibilidade de combinar participação nos esforços para transformar a sociedade com uma atitude de re256 . entre eles: a tremenda carga da tarefa em si. os impasses criados em situações de conflito podem ser superados.

lativa liberdade e julgamento crítico vem de ser parte de uma comunidade que tem um ponto de referência além da luta social imediata. e a melhor estratégia para chegar a este objetivo. uma tal comunidade revela. a fim de estar ali para o homem. Além do mais. em termos bíblicos. de um jeito ou de outro. com a participação daqueles que mais possam contribuir para o seu êxito. inteiramente envolvido “no” mas não inteiramente “do” mundo. a forma da nova ordem se torna mais clara através não da definição de um grupo de ideais. e dentro de uma abertura radical para a confrontação ideológica e livre discussão entre os comprometidos com a revolução social. constantemente receptivo ao “Reino de Deus” que está agora “acontecendo” em nosso meio. nem como por completo indispensáveis. e propicia um laboratório em que seus diversos aspectos podem ser trabalhados experimentalmente. põe em dúvida as mais altas realizações humanas. Para os que são cristãos ou têm algum interesse no diálogo com a 257 . regional e nacional. que expressa e ao mesmo tempo indica a nova realidade de existência social. todos os revolucionários e movimentos revolucionários. em escalas local. Quando isto acontece. o tipo de sociedade que pode e deve ser edificada no futuro. servindo-o em liberdade. crítica e liberdade. Propõe-se a encorajar. um programa maciço de desenvolvimento da igreja não realizaria este propósito na revolução contemporânea. um “povo eleito”. em meio à luta revolucionária. mas de uma comunidade viva. É óbvio que. Talvez hoje o centro de estudos e núcleos similares em escala local indiquem uma possibilidade. o estudo e a reflexão constantes sobre o que está acontecendo hoje na América. e aqueles movimentos que são os mais importantes instrumentos de mudança social não são vistos nem como perfeitos. sejam cristãos ou não. pode oferecer um novo modelo para o tipo de comunidade que estamos sugerindo. Numa tal comunidade. Um dos sinais mais encorajadores de um desenvolvimento deste tipo é o plano do Projeto de Educação Radical dos Estudantes para uma Sociedade Democrática. hoje. a razão original para e o propósito da igreja foi precisamente este: ser um povo chamado para a existência e tirado do seu contexto atual. o quadro que se desdobra da nova ordem. as possibilidades ali existentes e o meio pelo qual podem se tornar realidade. Contudo. precisam dar lugar em sua estratégia para algum tipo de comunidade que possa se empenhar nesta tarefa e fornecer o arcabouço para reflexão. A forma exata de tais comunidades terá de ser determinada por estudo e experimentação. Por mais surpreendente que isto possa parecer a muita gente hoje. Se este plano puder ser levado à frente.

258 . Tais grupos não podem ter a pretensão de ser movimentos políticos. ambas as organizações tendo estado trabalhando na tarefa de criar tais comunidades nas fronteiras revolucionárias.teologia. Qualquer esperança de uma contribuição cristã significativa às lutas revolucionárias em processo no mundo dependerá. É bem possível que em tais comunidades débeis e sem forma específica possam tomar forma idéias e questões novas que serão de importância para o movimento revolucionário como um todo. tem oferecido uma oportunidade para análise da situação latino-americana e reflexão sobre ela e tem ajudado a apoiar aqueles que estão empenhados na presente luta. nem excluir ninguém interessado em seus objetivos. numerosas pessoas e movimentos sem especial interesse ou relação com a comunidade religiosa Protestante reconheceram a significação do trabalho destes grupos para eles e para a luta em que estão envolvidos. na tentativa de transformar a sociedade. Em ambas as organizações. a formação de pequenos núcleos em escala local. não precisam fazer exigências de autoridade especial. Têm estado empenhadas numa longa e difícil luta. Minha própria convicção sobre isto é o resultado de alguns anos de trabalho com os Movimentos Cristãos de Estudantes Latino-Americanos e a Comissão sobre Igreja e Sociedade na América Latina. Porém podem oferecer o contexto para um contínuo colóquio entre nossa herança teológica e ética e as principais questões humanas que se apresentam. bem como a estruturação de contatos muito mais amplos. e os recursos utilizáveis em uma tal luta podem se tornar mais visíveis através de um tal esforço. do surgimento de novas formas de comunidade cristã nas linhas de frente da revolução. não sem alguns resultados encorajadores. é preciso acrescentar uma palavra final. acredito. Mais do que isto.

Também Mitchell Cohen e Dennis Hale. eds. eds. 4 “An End to History” [“Um Fim para a História”] em Seymour Martin Lipret e Sheldon S. 2 Citado por Deming Brown. como exemplo. 1965.. 258-259. 88.O. 4. 6 Ibid. “Thoughts of the Young Radicals” [“Pensamentos dos Jovens Radicais”] uma coleção de artigos recentes do New Republic.M. The New Student Left [A Nova Esquerda Estudantil] (Boston: Beacon Press. págs. pág. Wolin.. 1966).G. 219. 20 de março de 1966. 1963. pág. pág. “The Man from S. 5 New York: Viking Press.. 1965).”. The Berkeley Student Revolt [A Revolta Estudantil de Berkeley] (New York: Doubleday.Notas Capítulo II A BUSCA DE UM NOVO ESTILO DE VIDA 1 New York: McGraw-Hill. 3 Veja. Capítulo III REVOLUÇÃO SOCIAL E TECNOLOGIA: O PARADOXO DE NOSSA HERANÇA 259 .

para subverter a ordem existente” (V. cit. 4 Estou bem certo de que esta palavra nos sugere usualmente algo muito diferente de seu significado original. 1964). 5 O Apóstolo Paulo expressou isto. 112.. 1963). One-Dimensional Man (Boston: Beacon Press. entre os movimentos que são os mensageiros do humanismo messiânico e os que são “messiânicos” num sentido diferente. Talvez o tempo venha a reabilitar a palavra e distinguir entre autêntico e falso messianismo. pág. ed.. 1965. pág. 3 “A Letter to the New (Young) Left”. 22-29). 6 Estas expressões são do livro de Herbert Marcuse. The Modem Polish Mind (New York: Grosset & Dunlap. 2 Em Maria Kuncewicz. em sua própria maneira decisiva. 1961). mas nós proclamamos Cristo — sim. A divina loucura é mais sábia do que a sabedoria do homem. 260 . op. 46-47. 1964). 4. 1965.1 New York: Scribners. Cristo pregado na cruz —. Capítulo IV IDEOLOGIA E TEOLOGIA 1 In Methodology of the Social Sciences (New York: The Free Press. os gregos buscam sabedoria. Mas o conceito é importante. 3 Cambridge: Harvard University Press. em Cohen and Hale.. em uma passagem do primeiro capítulo de Corintios I: “Os judeus pedem milagres. um livro que tem algumas coisas importantes a dizer sobre este problema.. 2 Citado por Dexter Perkins em The United States and Latin America (Baton Rouge: Louisiana State University Press. e a divina fraqueza mais forte que a força do homem. meros nadas. págs. Para envergonhar o sábio. Deus escolheu o que o mundo considera fraqueza. Escolheu coisas baixas e desprezíveis. o poder de Deus e a sabedoria de Deus.. e não conheço outro meio de expressá-lo..

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