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CARL OGLESBY E EICHARD SHAULL

REAÇÃO E MUDANÇA
Introdução de Leon Howell Tradução de Eglê Malheiros

PAZ E TERRA
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Introdução
Os dois ensaios que compõem este livro, debatendo a revolução no mundo de hoje, diferem tão profundamente em análise, preceito e resposta quanto as experiências e pontos de vista dos próprios escritores. Contudo, uma preocupação comum pelo papel da América nesta revolução, internamente e no exterior, liga os dois trabalhos. Este livro começou em fevereiro de 1966, quando os dois homens participaram de uma discussão sem formalidade destas questões, no Union Theological Seminary, em New York. Jamais haviam se encontrado antes. Um se envolvera no movimento doméstico americano em prol de uma sociedade mais justa; o outro passara muitos anos na América Latina, intimamente ligado aos movimentos estudantis católico e protestante. As conversas em público e em particular, daquela noite, revelaram uma identidade de interesses e uma diferença de perspectiva que abriam caminho para uma confrontação e discussão interessantes. Ansiando por colocar essas discussões à disposição de uma audiência muito mais vasta, o University Christian Movement pediu-lhes que expusessem suas idéias em ensaios. São aqui apresentados como dois esforços para entender e responder a um problema crucial de nosso tempo, na esperança de encorajar um diálogo mais amplo. Leon Howell University Christian Movement
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PRIMEIRA PARTE Vietnã: Prova Decisiva UM ENSAIO A RESPEITO DAS SIGNIFICAÇÕES DA GUERRA FRIA CARL OGLESBY 7 .

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para a realização de todas as coisas possíveis”. e no fumo que ascende da incisão sacrifical no Sul do Mar da China ela lê seu passado e vê presságios do seu futuro não tão obscuramente quanto poderia desejar. inventou agora de abrir o ventre da velha-jovem Ásia. tendo em nosso tempo a emergência se tornado o estado comum do homem. Não são só seus soldados-filhos que enfrentam armadilhas e estacas “punji” naquelas selvas. estes últimos vinte anos tinham aparentemente nos insensibilizado para as crises. A América moderna. É esta nossa América Ocidental. convence-nos de que esta guerra é o acontecimento mais importante e prenhe de significado e consequência.I Ocidente Encontra Ocidente: o Nexo do Vietnã O destino ocidental é “o conhecimento das causas e movimentos secretos das coisas. É claro que há outros fatos que 9 . e o alargamento das fronteiras do império humano. Porém o Vietnã não é Berlim. que foi emboscada na Ásia pelo seu próprio passado oracular. a sua confusão não de todo oculta por sua fúria. Coréia ou China. Francis Bacon Os antigos oráculos do Ocidente mediterrâneo abriam o ventre de bois e compreendiam o passado e anteviam o futuro na fumaça de suas entranhas ardentes. O Vietnã prende-nos com uma nova garra. fruto da mesma linha ocidental. toca um nervo novo. Crise após crise.

nem o contínuo eludir da vitória. O problema parece ser o de não mais estarmos certos do que significa “vitória”. desde que nem no Vietnã nem no Mississipi os velhos remédios de prazer-dor resolvem nossos problemas. seria ominosa bastante. Mas é a primeira a ser tão grande. em uma direção única. tão bem estudada: uma nação inteira 10 . Acelera-se a militarização de nossa economia política. começamos a indagar. em nossa pátria. Por que agora estas explicações parecem tão banais e inapropriadas. não mais desculpas para não se chegar à uma opinião. europeus. Por que o Vietnã romperia tão profundamente a tranquilidade ocidental? Temos para esta guerra as mesmas explicações que tivemos para todas as outras. acima de tudo. tão indignas do momento? Por que tantos americanos — e. Um novo sectarismo faz com que nos voltemos raivosamente uns contra os outros. que outrora produziu tão convincentes e úteis definições de vitória e derrota.contribuem para esta convicção. Esta guerra está agindo. Ninguém pretende mais conhecer seus limites. Não é a primeira de sua espécie. e os Estados do ocidente europeu começam a se individualizar dentro da Aliança. se realmente jamais haviam resolvido algo antes. O liberalismo ocidental. A miséria urbana se intensifica precisamente quando nossos líderes a atacam de frente com sua melhor determinação e ingenuidade. também. precisamente quando nossos líderes pedem mais unidade. Talvez agora lá parece não mais haver tempo para adiamento ou quarentena. se lançou em uma marcha da antiga guerra santa contra o totalitarismo? Por que tantos de nós não mais nos sentimos rejuvenescidos pelos velhos contos? Não podem ser as asperezas da guerra a razão da diferença. Talvez estes sucessos do passado fossem apenas adiamentos ou quarentenas. global e doméstica. só ela. em nossa história. Todos são forçados a admitir que ela parece ser “um poço sem fundo” — uma guerra eterna. precisamente quando nossos líderes se acham mais sozinhos na grandiosa defesa da liberdade ocidental. permanece mudo. Homens já morreram antes. nunca tendo os americanos se assustado com as asperezas da violência. Os problemas raciais americanos pioram precisamente quando nossos líderes tentam duramente pôr-lhes fim. no fundo de nossas mentes. confrontado com esta guerra. Porém a guerra. os americanos tendo estado sempre prontos a fazer o que é necessário para ganhar o que deve ser ganho. tão prolongada e. mais uma vez. em maior número ainda — não estão satisfeitos em ouvir que o ocidente liberal. Desde que as velhas verdades se recusam a funcionar.

sustentando que o que ainda não podia ser vislumbrado existia. Foi o Ocidente que inventou o pretencioso e arrogante conceito do “selvagem”. antes. através dos lugares-comuns superficiais sobre o Vietnã. Eu as abandono de imediato. se considerado um obstáculo para seu “alargamento das fronteiras do império humano”. mais bem consubstanciadas sobre a Guerra Fria e os conflitos a longo-prazo dentro do Ocidente e entre o Ocidente e o Oriente. do qual a Guerra Fria aparece como o episódio presente e culminante. escrevo como um partidário que foi educado por outros partidários. do qual cada um de nós terá que prestar contas pessoalmente. Este ensaio sobre o Vietnã é. O esforço é no sentido de provar o específico pelo princípio que ele incorpora e o falso pela verdade que ele encobre. Nenhuma civilização foi mais violenta do que a nossa civilização ocidental. em algum tempo futuro. civilizado por ele. de forma tão específica. até generalizações mais sólidas. o processo pelo qual vim a ser a espécie particular de partidário que sou. Recebe-se certos padrões. em parte porque já foram discutidas bas11 . Não se nasce com uma tarefa política. a fim de se tornar visível a ele. no essencial. O tipo de argumento neste ensaio segue. antes. encontrar conforto em velhas verdades. a fim de ser submetido por ele. Não houve. Com as mesmas dúvidas e as mesmas certezas de qualquer outra pessoa. um ensaio sobre o Ocidente. não poderemos adorar de novo na velha igreja. ou. Com esta guerra a história se torna assunto íntimo de cada um de nós. porque agora não podemos negar que há sangue no altar e que as mãos dos sacerdotes não são puras. de uma evidente inconveniência. Dificilmente poderia ser de outro modo. um ato privado. explicações que eu considero ser. Assim. portanto. tivesse sido.observa-se a si própria neste ato — o ato sendo (contra toda justiça) a incineração de toda uma outra nação. Alguma outra civilização já se destruiu a si própria tão abertamente — tão carnalmente — como o faz agora a nossa? Dificilmente poderemos voltar imutados deste espetáculo para sonhar velhos sonhos. a quem de hábito era permitida a moratória da ignorância. colocado ante uma visão clara da capacidade de sua cultura para a violência. tenta-se aplicá-los com honestidade e com toda perícia que se possa exibir e procura-se ter a coragem de aceitar todos os mandamentos pessoais que possam implicar das conclusões. o capítulo seguinte se dedica a uma breve escaramuça com as explicações oficiais de nossa guerra de “Mundo Livre” pelo Vietnã. destruído por ele. chegar. momento algum em que o povo do Ocidente. foi o Ocidente que deu ao próprio horizonte um significado caracteristicamente político.

ele encontra a si mesmo.tante por agora. na realidade. o que é mais importante. à força. de tornar mais explícito o tema geral que eu já sugerira: a guerra do Vietnã é uma crise revelatória da Guerra Fria. e a própria Guerra Fria é a crise final da identidade ocidental. porque sufocam uma linha de argumento menos piedosa. mas principalmente. Não é. visando descobrir não só os erros históricos que contém. O último capítulo. que jaz sob eles. um argumento que o bom Guerreiro da Guerra Fria teria apresentado. O VI Capítulo se transporta ao outro lado da linha de combate. A reinterpretação da Guerra Fria (IV Capítulo) daí resultante é aplicada no V Capítulo ao caso do Vietnã. caso seu compromisso com as banalidades pontificais não o silenciasse. o seu intuito é revestir de alguma carne humana o inimigo por demais abstrato que tão precipitadamente condenamos — o rebelde. O III Capítulo é uma análise crítica da melhor história do Guerreiro da Guerra Fria. o Oriente que o Ocidente enfrenta no Vietnã. as verdades políticas que aqueles erros devem ocultar. porém muito mais sólida. O propósito principal do II Capítulo é reelaborar aquele argumento. é uma tentativa de reconstituir as linhas mestras das principais questões que os ocidentais poderiam tentar confrontar — uma tentativa. porém. numa tentativa de desnudar. portanto. a ideologia do anticomunismo da Guerra Fria. 12 . baseado naquilo que o precede.

mais honestas. onde razões de guerra menos piedosas. Existem outras razões. Este é o objetivo deste capítulo: levar o foco analítico através das mentiras brancas da política de guerra até o substrato ideológico. também. na verdade. Desta forma. a razão mais fraca à superfície. mas outros. e a mais dura. descascar a camada superior de propaganda para revelar as camadas inferiores mais tenazes de ideologia. então ele deve ter sido convencido por outros argumentos. Acorde com o Senador Case. O segundo pensamento é melhor. devemos fazer alguma mineração. que dão à propaganda sua base e desígnio. Se Rusk pretende estar convencido por argumentos que não convenceriam ninguém tão inteligente como ele. por que continua ele a dizer isto? Senador Clifford Case1 Pode-se ponderar as razões oficiais que Washington dá para nossa luta no Vietnã. a mais forte. e pensar: Estas razões são tão ruins que devemos ter caído nas mãos de loucos.II A História do Guerreiro da Guerra Fria O Secretário Rusk não é tolo. debaixo dela. Parece. que por algum motivo prefere não 13 . devem pensar: Estas razões são tão ruins que deve haver outras razões. estão encravadas. não desejo concluir que Dean Rusk é um tolo. haver numerosos graus e variedades de raisons de guerrilla que se sobrepõem umas às outras como tantos estratos geológicos.

um documento da CIA. É ainda mais óbvio que nenhum estado forte hesitará um momento sequer em violar um tratado que julgasse prejudicial aos interesses nacionais. simpática bastante à nossa própria política para julgar chegada a sua hora no Palácio Presidencial de Saigon. Nossa reputação global está em jogo. é bizarra. Talvez esteja. Penso que os argumentos mais convincentes podem ser reconstruídos. Estamos legalmente obrigados a lutar. isto é. A única questão é: Que espécie de reputação desejamos para nosso país? Resistimos a uma invasão: a) A Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul é uma criatura política do Vietnã do Norte. E a afirmação da CIA. mais ou menos. Jamais ouvimos falar do povo vietnamita. em Saigon. supostamente objetiva.. o qual definem de modo diverso. se não percebermos que o propósito da CIA era envolver os Estados Unidos numa situação da qual poucos governos podiam ter decidido se 14 . apresentados por ela aos analistas do Departamento de Estado e da Casa Branca.expor. George A. a CIA aparece como tendo conscientemente falsificado a informação. 1964) constataram que a CIA maldosamente alterou os textos dos discursos de Castro. é medida de prudência mantermo-nos céticos a respeito dos “fatos” de Carver. Tendo em vista a intimidade notória do AID como a CIA no Vietnã e a abundância de dados que parecem ser altamente confidenciais a que teve acesso Carver. O autor. Se lutamos deve ser porque pensamos que devemos lutar. Mas este argumento é faca de dois gumes. Mas antes tem de ser esclarecida sua propaganda. Ouvimos falar apenas daquela elite vietnamita. a história do Guerreiro da Guerra Fria pode ser recomposta. É óbvio que não há acordos tão indiscutivelmente comprometedores. de que o povo cubano estava se preparando para um levante contra Castro. “O Vietcong sem Rosto”. Tanto quanto o Presidente Johnson.* Porém. Uma. tendo o pacto da SEATO ainda mais cláusulas de escape do que o da NATO. seria de se estranhar que seu trabalho não fosse. e não porque tenhamos sido apanhados por um instrumento legal. e talvez isso seja importante. Estamos respondendo a um apelo de emergência do povo vietnamita. sobre a qual nossos mentores políticos estavam baseando seus planos. de que adianta o ceticismo num caso em * Várias amostras da historiografia da CIA podem ser citadas. precisamente antes da invasão. O melhor desenvolvimento deste argumento pode ser encontrado num longo e detalhado ensaio na edição de abril de 1966 de Foreign Affairs. a Baía de los Cochinos: Murray Zeitlin e Robert Sheer (Cuba: Tragedy in Our Hemisphere. Uma vez que pode ser justamente isto. os dissidentes consideram-se partidários do prestígio da América. Carver Jr. é identificado como um antigo oficial AID.

Paul Blackstock (The Strategy of Subversion. E.R.S. pode também ser verdade completa e perfeita.UU. em julho de 1965. Conjetura-se. Outro exemplo. está documentado na memória do ex-membro das Forças Especiais. que ele pode ter sido treinado por pessoal das Forças Especiais dos EE. logo após a consolidação do poder feita por Ngo Dinh Diem.que os “fatos” são tão inacessíveis? Pelo que podemos saber com certeza. Philippe Devillers e Jean Lacouture são mais fidedignos dentro de um corrente critério acadêmico. Ngo Dinh Nhu. U. Concedamos que Hanói.S. de Nhu. qual foi o primeiro golpe e qual o contragolpe.5 por cento. que estava infiltrado no Vietnã do Sul (com passaportes civis) pela metade da década de cinquenta. A que provas podemos submetê-la? Podemos comparar a versão de Carver com a de Wilfred Burchett. mas podem estar errados. e aquela outra organização “criatura”. Donald Duncan. Porém muito mais importante do que questões sobre as origens burocráticas da FLN é a questão: Por que ela cresceu? Suponhamos que desvencilhar. em Saigon e Hue. ** O pormenor sobre a infiltração militar dos EE. Sei muito pouco sobre este misterioso e injustamente ignorado comitê. de fevereiro de 1966. a CIA filtrou a “informação’’ de que a taxa de crescimento anual da U. tenha intrigado para criar e deter o controle da FLN.S.2 porém Burchett é tão partidário quanto Carver.UU. que pode ter sido financiado diretamente pela CIA. 15 . caíra em 1962-1963 a 2. Fali. de novembro de 1956. Minha outra informação sobre o comitê de Nhu foi obtida em palestras com oficiais americanos e com um vietnamita antigo membro dele. declínio considerado inacreditável pela maioria dos especialistas ocidentais. Os estudiosos franceses Bernard B. em janeiro de 1964. 1964) escreve que este informe foi amplamente interpretado como uma tentativa de influenciar os aliados dos E. e todos os três descrevem a FLN de maneira que difere muito mais de Carver do que de Burchett. em Ramparts.** Não há saber no mundo que nos esclareça qual dessas duas “criaturas de libertação” foi inventada primeiro.S. Esta concessão nos permite indagar a Carver o que sabe ele sobre aquele outro intrigante. de 6 a 10 por cento. contudo. e que pode ter estado envolvido na famosa rebelião dos fazendeiros de Vinh. U. exceto que estava dirigindo operações paramilitares no Vietnã do Norte. em 1956. com aquela viciosa habilidade pela qual reconhecemos nosso Inimigo. o Comitê pela Libertação do Vietnã do Norte. a não conceder grandes créditos de exportação a U.R. Que fazer com uma “prova” que não pode ser testada? Aceitá-la. a elaborada descrição que Carver faz da gênese da Frente de Libertação Nacional (FLN) pode ser pouco mais que uma fantasia à Borges.

bem como. Diem reagrupou a matriz político-cultural da qual brotava o movimento Vietminh. e tornou-se. alienação e miséria populares. a CIA. vinda de fora. afinal. Tais decretos podem dar-lhes forma tática e. tal oficial seria o falecido Ngo Dinh Diem mesmo. o Presidente Diem suprimiu pela violência toda oposição política. ele reconstruía a oligarquia latifundiária e as classes compradoras que o Vietminh derrubara. mas com as elites dos salões da Riviera Francesa. mais brancos e melhor arrumados do que seus predecessores franceses. não com os camponeses do Vietnã. Este novo imperialismo transformou a revolução social numa guerra patriótica de libertação. E. Diem desejou. Guerras populares são fenômenos culturais. simultaneamente. como só num surtiu efeito? Será por que havia uma organização secreta ferreamente organizada? Havia organizações secretas. pela imposição dos famosos programas de recolonização. pela guerra popular que agora devasta o Vietnã. em ambos os lados. chegando mesmo ao detalhe de rodear-se de oficiais vietnamitas. o Departamento de Estado e a Casa Branca. ou não pôde resistir. ou a culpa. que tinham lutado ao lado dos franceses. na certa. comunista ou não-comunista. sabemos algo sobre guerras populares (aprenderíamos muito com um estudo de nossa própria revolução) é que elas não podem ser forçadas a existir por meio de decretos burocráticos remotos. associado dos bem-intencionados americanos. foi sentida por tantos sul-vietnamitas como uma revolução inteiramente legítima vinda de dentro? Por haver terror? Havia terror em ambos os lados. às vezes. mesmo estratégica.o regime norte-vietnamita promulgasse certos decretos. como se fora esta sua real intenção. Este novo feudalismo transformou a insurreição inicial numa revolução social. a uma crescente ajuda militar dos Estados Unidos. de disciplina férrea. e das classes superiores católicas. sabem melhor do que ninguém (voltaremos a isso) o que cria guerras populares. fora de dúvida. ou tolerou. mas sua substância e seu impulso são os maciços ressentimentos. que eram ainda mais altos. através de um movimento subterrâneo no Vietnã do Sul: Por que tanta gente sul-vietnamita correspondeu? Como foi que esta invasão ilegítima. Na passada década de 1950. jamais produtos de uma diplomacia sombria. na medida em que se deva atribuir a algum oficial governamental o crédito. por igual. muito provavelmente. sabem que a emanação de ordens em Hanói tem muito pouco a ver com a maneira 16 . Passo a passo. que há gerações se identificavam. Aquela supressão forçou os episódios iniciais de insurreição defensiva. por que só num surtiu efeito? Se. Diem agiu no sentido de despedaçar a tradicional base aldeã da sociedade vietnamita. George Carver.

começado em fevereiro de 1965. Porém. proclamávamos 31 571 “mortes”. mesmo na falta de maiores informações. Frente ao fato concreto de que o Vietnã do Sul se revoltou. Por certo. Com todo o furor oficial. Um. 17 .3 O que vem antes não pode ter sido causado. e muito antes de haver qualquer base para a acusação de infiltração por parte do norte. Não basta. por exemplo) não nos permite acreditar que a estimativa não tenha sido inflacionada para um maior efeito político. os argumentos sutis de Carver sobre organizações “títeres” e “criaturas” perdem toda substância. Porém. preparamo-nos para tomar conhecimento de que nosso inimigo é constituído na maior parte por tropas nortistas. mais vêm lutar). Destes 282 000. é que nossa militarização do Vietnã do Sul estava em pleno processo pelos fins de 1954. com ordens ou sem elas. um aumento de 52 000. é politicamente ameaçador. aquela evidência não parece justificar o nível de nossas próprias forças. outros fatos. que agora ultrapassam as forças “invasoras” do Vietnã do Norte em mais de 6 para 1. não haverá no mundo ordens capazes de instigá-la. Há outros números. mal chegam a 18 por cento do total das forças da FLN. se não é necessária. cerca de 50 000 supõe-se ser infiltrados nortistas — e a grande maioria destes 50 000 se pretende tenham vindo para o sul a partir do sistemático bombardeio americano do Vietnã do Norte. muito mais surpreendente do que esta omissão é a inconcludência das estatísticas da infiltração. mesmo não o tendo sido. a mais desonesta de todas. tal como na guerra da Coréia. Assim. é. No mesmo período. frente a outros problemas estatísticos (as já faladas “mortes”. e nem pode ser desculpado.pela qual tais ordens vão ter repercussão no Vietnã do Sul. a força total da FLN era oficialmente estimada em 282 000 homens. O comportamento da Administração. incidentalmente. Resistimos a uma invasão: b) Tropas norte-vietnamitas estão lutando no sul. O argumento da invasão parece minado por sua melhor evidência. Se a revolta é necessária ela virá. que teriam uma boa razão para lutar. os norte-vietnamitas. ficamos sem a explicação de “agressor-externo” para pelo menos quatro de cada cinco partidários militares ativos da revolução. No solstício do verão de 1966. Linha de argumento bastante forçada. em si. o maior total já alcançado num período de seis meses. afinal de contas. pelo que vem depois. bem antes de haver terminado o período de controle francês. desde o início do ano4 (Este número. Dizse que os americanos são um pequeno número e que ajudam com umas armas. A velha fórmula se repete: Quantos mais são os que morrem. Mas o caso parece ser outro.

em grande parte. Alguns tchecos apoiaram a Wehrmacht de Hitler. o argumento pressupõe que há dois Vietnãs. isso não faz de Tho um agente agressor. O Vietnã está hoje dividido. permanente pelo menos enquanto dure a Guerra Fria. comandados por Rochambeau. e que Washington venceu aquela batalha. A primeira é de que é espúrio um exército pretender o status revolucionário nacionalista. no terreno político. separados e soberanos. permanece incorreto dizer. de todos os povos. em grande parte. Isto é. Espanha e Holanda. com canhões. certa 18 . e correta bastante caso necessária. nós americanos devíamos saber isso. pela França. pelo número de seus camaradas franceses. Alguns terceiros partidos apoiaram a FLN de Nguyen Huu Tho. a Administração tem descrito o paralelo 17 a “linha de demarcação militar temporária” da Conferência de Genebra de 1954 — como uma fronteira nacional permanente. nada provam a respeito da natureza política interna do conflito. porém. um dos quais pode agredir o território do outro. Relembremos que as tropas do General Washington eram superadas. Relembremos nosso sentimento nacional por Lafayette. isso não torna Hitler um revolucionário tcheco. Examinaremos muito de perto. A segunda suposição dissimulada no argumento da invasão é a de ser possível uma invasão politicamente comum entre o Vietnã do Norte e do Sul. com a confusão à Munich. A lei serve ao poder. ou o estabelecimento de alianças.Devemos repisar um pouco a estratégia política desta preocupação com tropas “estrangeiras”. em Yorktown. assim como a Alemanha para a Tchecoslováquia de 1938. Porém. Relembremos que Washington decidiu travar a batalha de Yorktown. Os Guerreiros da Guerra Fria podem argumentar que uma tal divisão é legal bastante caso seja correta. mais tarde. É só para notar que a presença de tropas de fora. porque o Almirante de Grasse prometeu navegar das Índias Ocidentais para desembarcar 3 000 soldados franceses. e. e indiretamente. é claro. em apoio a nossa causa revolucionária. seja a divisão defensável ou não. Não queremos com isso. Ela dissimula duas suposições decisivas. isto é claramente incorreto. porque de Grasse perseguiu. Isto é. em James Island. Relembremos em que extensão nossa própria revolução foi apoiada direta. dizer que as revoluções americana e vietnamita são semelhantes. esta necessidade e esta correção. Relembremos os 3 000 cargueiros britânicos que os franceses ajudaram a pôr a pique. ou a interferência em qualquer lado de estados do terceiro-partido. que as duas metades do Vietnã estão uma para outra. se suas tropas forem estrangeiras. combateu e derrotou a frota britânica que protegia a retaguarda de Cornwallis.

Respondeu que a contenda americana era a mais importante em que jamais estivera envolvido qualquer país e censurou North por “pesar tais eventos ao modo de um negociante atrás de seu balcão”. “as Índias Ocidentais teriam de segui-la. só precisamos notar que sua versão popular dá como esclarecidas. era dispendiosa demais e devia ser sustada: dever-se-ia garantir aos americanos sua independência. não [para] a independência. então esta Ilha seria reduzida a ela mesma e logo seria uma pobre ilha. mas teriam que ser. estritamente devido a insistência dos Estados Unidos e estritamente porque havia uma revolução na China. dependentes da América do Norte. que os Estados Unidos achavam aterradora. Pretende que não há de forma alguma indagações a fazer sobre nossas posições internacionais. Pelo fim do IV Capítulo. precisam tanto de esclarecimento. Se não formos capazes de conte-los aqui.ou erradamente. teremos que conte-los em algum outro lugar. os mercadores se retirariam com seus bens para climas mais favoráveis. pois. com furiosa arrogância despreza o Vietnã e todas as outras peças do jogo como possessões do Mundo Livre (leia. a Irlanda em breve seguiria o mesmo plano e seria um estado separado. e os americanos em particular.5 Todo senhor de um império mundial desde então encontrou ocasião de desempoeirar o que agora chamamos a teoria do dominó. é primitiva. por seu próprio interesse. e multidões de manufatureiros deixariam este país pelo novo Império”. no sentido pelo qual a demanda de mudança emerge e é moldada pelos acontecimentos internacionais. prejudicados em seu comércio. O rei ficou indignado. Em 1799. O rei tornou claro para North que se a América obtivesse êxito. É a estabilidade mais importante do que a justiça social? Pode a mudança ser realizada dentro do status quo? Pode a aquisição ocidental de hegemonia econômica global coexistir com as justas aspirações dos pequenos estados? Pode o progresso daquela aquisição ser invertido sem violência? A teoria do dominó nada tem a dizer a respeito das verdadeiras condições e problemas que lhes dão a vida estropiada que têm. 19 . Por agora. ou limita a visão. North comunicou a George III estes sentimentos. A descrição implícita da teoria. estaremos tratando este argumento muito seriamente de uma forma muito elaborada. Porém sua suposição mais importante ainda parece válida: o nacionalismo é uma traição ao imperialismo. Lord North chegou à conclusão de que a tentativa da Inglaterra para submeter os americanos já fora bastante longe. paranóica e mecanicista. sem dúvida. extremamente avançadas. de todas as questões sociais realmente importantes a respeito das quais os ocidentais em geral.

nomes e datas? O que fará a Ásia? No entretempo. um executivo federal desenfreado. negando implicitamente que os homens se revoltam pela causa humana. Não tendo sido dada chance a um bom povo de imaginar quem é seu inimigo e porque seu inimigo luta. sendo dominadas por nós são nossas para que percam. satirizar certas eminências-pardas e apiedarmo-nos de outros. evoca as imagens de uma ameaça muito lendária. Mesmo quando nos tornamos críticos. o nascimento da rebelião e sua propagação. Os “slogans” fazem também algo de mais sutil: fixam nossa atenção no próprio Vietnã. seu desejo elementar de justiça. como um todo criminoso. nacionalismo toma forma e apaixona. americanos. Que quer Ho Chi Minh exatamente? Le Duan é mais forte do que Vo Nguyen Giap ou Pham Van Dong? Que facções se degladiam dentro da FLN? Mao está vivo. faz-nos acreditar que há um Portão e que o Inimigo está ante ele — ou prestes a estar. Geralmente. não lhe tendo sido dado tempo de pensar em meio às aturdidoras implicações de uma política externa que se enredou nele. como se a única parte difícil de sua política no Vietnã fosse a tarefa puramente técnica de aplicar à turbulência da Ásia. põe fora da lei implicitamente a rebelião. (senão) diabólico. Nós. em aturdidor contraste com este problema para um cálculo não descoberto.Estados Unidos) as quais. comprovar-lhes. denominou com justeza “globalismo — a ideologia do envolvimento do mundo todo”. um difuso. com estatísticas. Mesmo os críticos não discutem muito a idéia de que justiça é o 20 . estas razões para guerra são pouco mais do que os “slogans” de uma campanha de vendas de mercadorias encalhadas. e. sempre tragados de novo por aquele turbilhão do Sudeste Asiático. os jovens são convocados. segredos e profecias. Porém os teóricos do dominó soam os tambores do anticomunismo. apregoando suas mercadorias ao dinheiro público. sem ser explicada ou debatida. o coração da pátria é aquecido para o sacrifício. laborar nos significados sutis de tratados e suas cláusulas. Tal luta envolve muito a América. a América permanece pouco mais que indiferente na serena ingenuidade de seu propósito. moribundo ou morto? Que novas formas tomará no futuro este confete de estatísticas. estes “slogans” manipulam nossos pensamentos.6 Desde “luta pela liberdade” até “detê-los agora”. os heróis condecorados. e às vezes leviano. pedindo emprestado a Walter Lippmann e George Ball. Há uma luta no mundo. uma política externa que Gary Porter. debatemos e debatemos. convidam-nos a reencenar na solidão. e estamos em guerra. E é preciso entender essa luta. os mortos sepultados. aprofundar o sentido de Hoa Hao e observar a linha de Cao Dai. Por meio destes “slogans”.

instruídos. vítima de uma intervenção militar ocidental maciça. convencida de que fora oferecida em sacrifício à Wehrmacht por meio da política de apaziguamento de Chamberlain. Iugoslávia e França havia personagens poderosas que por certo não se satisfariam com a derrota do Eixo e em voltar à ordem social de pré-guerra. ou não. vergastada internamente durante quatro anos pelo assalto do poderio de Hitler e sem auxí21 . O assunto básico de uma análise política séria do Vietnã é a América. Grécia. por Stálin em 1945 do que por Hitler em 1940. Os Estados Unidos viam o Comunismo Soviético como ameaçando a Europa com outra longa convulsão revolucionária. A América derramara seu sangue e tesouros pela Europa e Ásia. Ela vencera estas guerras simultâneas tão só para ver aqueles valores ameaçados outra vez. Itália. talvez mais ameaçadoramente. enganados em nossa escolha dos beneficiários vietnamitas. Pensemos em 1945. nas décadas de vinte e trinta.que a América deseja. a ideologia política dominante da América. Isto é errado. a exausta União Soviética também se sentiu ameaçada. Queriam mudança social. uma burocracia internacional centralizada. ao exame cada vez mais acurado do quebra-cabeças do Vietnã. guiados nessa recapitulação pelos raciocínios mais lugar-comum do anticomunismo da Guerra Fria. que não é tolo. De seu lado. que só prolongou e adensou os horrores de sua guerra civil. Em vez disso. estava o Partido Comunista. sua duradoura e aparentemente bem fundada desconfiança mútua. tentando. aprofundá-lo e usá-lo. parecia. A guerra longa havia quebrado. do que para dissipar. vezes sem conta. A aliança de guerra fizera talvez muito mais para aprofundar. dedicamse. Dois inimigos se defrontavam por sobre uma Europa devastada. o melhor meio de provar a alguém se nós fomos. O que é que o bom Guerreiro americano da Guerra Fria deve ver atrás da propaganda? O que o persuade a enganar outros americanos? Por que o Secretário Rusk. quase por toda parte. Basta apenas recapitular as duas últimas décadas. colocada no ostracismo em relação aos negócios políticos e econômicos da Europa. as vigas-mestras das instituições sociais. Condenada pelo Ocidente desde os primeiros anos de sua revolução. “continua a dizer isto”? Isto pode ser respondido. Na Europa Oriental. cujos elementos europeus estavam sob a disciplina de Moscou. No centro do desespero da Europa. Turquia. homens bons. para preservar certos valores e instituições e uma concepção de sociedade que simplesmente não eram sem interesse para ela.

de que “a lei interna do terror stalinista [deveria] conduzir a Rússia de Stálin. a mais fundamental. a que precisava ser travada para fazer o mundo todo seguro afinal para o capitalismo democrático. seriam permitidos. em documentos oficiais — pelo menos por algum tempo.. Por volta de 1950. ele não afirmava a inevitabilidade de conflito nacionalista. ela olhava através daquela Alemanha cuja invasão tinha tão custosamente repelido. convencido. O Ocidente colocaria seu próprio ferro através da cortina e esperaria sua oportunidade. este mais poderoso do que o primeiro. Os ajustes de Stálin. De ambos os lados da fronteira.. portanto. Polônia e Hungria ficaram de pé só para serem subjugadas. o Ocidente democrático observou horrorizado como a Alemanha Oriental. Kennan. Em 1947.. suas principais cidades fumegando e suas terras aráveis devastadas. E correu pela Europa o rumor. E o horror da Rússia deve ter sido pelo menos tão grande quando observava a Nova Alemanha surgir viva com aço e armas. de que aqueles cinco anos de guerra mostrar-se-iam mero prelúdio daquela. A guerra que não aconteceu tornou-se um modo de vida. precisava 22 . dentro da Europa Oriental. porém. no campo de sua inimiga.lio pelo atraso do segundo fronte. não se considerava comprometido com um horário para a conquista. com mais de 20 milhões deles mortos e cinco vezes este número aviltados pela ocupação nazista. levado a efeito por Churchill. Foi transfigurada. lançara as bases de uma diplomacia ocidental sustentável: comunismo não era fascismo. tão só para ver outro inimigo. A despeito da camaradagem da Grande Aliança.. antes. sua indústria arruinada pela guerra e seu povo confuso e paralisado com o sofrimento. a inevitabilidade da decadência capitalista autoprovocada. segundo as palavras de Franz Borkenau.”7 Pela década seguinte. mas também para a nação governada por ele. dos mais audazes advogados da “volta atrás” e “libertação”. quem desconhecia o que estava para vir? Mas a guerra russo-americana não foi travada. via o ajuntamento calculado em suas fronteiras políticas de uma aliança militar totalmente envolvente e a crescente influência. as linhas territoriais da Guerra Fria Européia tinham sido convenientemente acertadas pelas duas potências magnas. à catástrofe total não só para o regime terrorista. justo quando a Alemanha nazista estava para cair. mesmo o mais desinteressado e inocente aprendeu como viver em alerta. para construir uma zona tampão contra a agressão de uma Alemanha reconstruida. o famoso artigo “X” de George F. mesmo legitimados. fatal e “histórica” das guerras.

Hoje. em comum acordo estavam para acertar o limitado tratado de proscrição das provas atômicas. a humilhação da prova decisiva dos mísseis cubanos. e de uma política externa americana. e a onda do futuro. a permanência da revolução cubana. e que os chineses desfecharam seu maciço ataque ideológico contra a União Soviética. que pode aplaudir os soviéticos por seus êxitos diplomáticos em Tashkent. e em maio. por maior comércio com o bloco vermelho europeu (oferecendo mesmo a estes países tratamento de nação mais favorecida). igualmente bizarra segundo os padrões da Guerra Fria. Naquele ano os soviéticos aceitaram o que parecia ser. Foi naquele ano que se tornou inegável um equilíbrio de poderio estratégico Oriente-Ocidente. a América aceitou. já que os marxistas estavam errados. É difícil fixar uma data para o que não é um evento. Mas. sob certos aspectos. Certos duetos-chave foram cantados em certos cemitérios: Em abril de 1947. que pode propugnar abertamente. somos as testemunhas. a grosso modo. o cauteloso entendimento dos nossos próprios dias tomava forma. era paciente. no começo de 1948. a Doutrina Truman condenou a esquerda grega. era possível dizer que o metabolismo da Guerra Fria mudara. Não era preciso guerra preventiva. surpresas muitas vezes. o Plano Marshall atraiu a Tchecoslováquia de uma órbita para outra. um divisor de águas. E de crise em crise. Assim o Ocidente capitalista devia ser paciente. em termos talvez condicionais. as leis de economia. Era apenas importante permanecer em vigilância. nossa violência crescente no Vietnã e nosso roubo dominicano. em tempo de guerra. para sua posição primitiva e assim mantê-la até que a tolice comunista finalmente se refutasse a si mesma. aparentemente sem grande preocupação. impedir negligência e oportunismo. O capitalismo podia muito bem tomar conta de si. e ambos os lados. e o golpe vermelho de fevereiro seguiu-se como um reflexo.tão só levar em conta tempo e lógica econômica para fazer seu trabalho. que pode mesmo ser pilhada a lançar olhares furtivos para a União Soviética como uma possível mediadora 23 . cada lado pelo menos pretendendo permanecer confiante na vitória final. os fatos da natureza humana. recolocar a linha de demarcação. a direita húngara ficou com as consequências. pelo menos. também. de uma política exterior soviética que pode tolerar. numa mensagem-relatório ao Congresso [State of the Union message]. persuadido de que a maldade do outro lado cegava-o para as lições da história. a nuclearização da Alemanha Ocidental por nós. porém talvez 1962 seja. e sim um processo. que os russos haviam empurrado.

em um acordo com o Vietnã e que. talvez em perfeito acordo sobre a questão da China. por trás disso.L. O relacionamento não mais se define por sua ira e incertezas. pois temos alguns sinais de que uma Propaganda Avançada está em curso.C. tornou-se embotada pelas garantias mundanas de uso diário. Permitem-nos pensar que Brejhnev e Kosygin são capacitados técnicos burocráticos. uma potência. é evidente que nossos próprios cognoscenti políticos receberam um novo aviso. Com a União Soviética nós fomos do confronto hostil à détente. Em vez disso. tivemos a experiência de programas de ajuda virtualmente integrados no Afganistão e Índia. Nossa cólera está agora reservada para a China — a mesma China que. entrementes. O encontro militar direto é temido e evitado igualmente por ambos os lados. num movimento tortuoso. faz as mais enérgicas e efetivas incursões diplomáticas em nossa esfera asiática de influência. Estamos em solidariedade declarada na vexatória questão do Kashmir e. de forma alguma. Tudo isto está evidentemente muito de acordo conosco.8 E. as crises são atribuídas a elementos extremados em vez de a estados-maiores.9 Foi encontrado evidentemente um substituto para a guerra. para ser exato. e às vezes a gente imagina se não há algo ainda mais surpreendente no ar: uma lenta convergência de objetivos políticos. em nome da motivação do lucro. Congratulamonos mutuamente de forma rotineira por nossas explorações supercientíficas na proclamada vizinhança não política da lua. Sulzberger de The New York Times — uma fonte de informação privilegiada — indagou se a animosidade soviético-americana explícita não se tornou tão só uma fachada para uma aliança implícita mais importante. ameaça militar aos Estados Unidos. comparada com a Rússia. mas faz discursos. quando esta mesma União Soviética empreende o aparelhamento bélico de nosso inimigo norte-vietnamita. uma espécie diferente dos diabos da véspera. faz quase nada pelos vietnamitas. A respeito. Na União Soviética não mais se antecipa todo dia o Grande Colapso Capitalista: as heresias de Eugene Varga na metade da década de quarenta transformaram-se tranquilamente nas ortodoxias da década de sessenta. não diz absolutamente nada. insultou com acinte os economistas marxistas em seu antro. e que não representa. Sua amargura perdeu a intensidade. e promete na conferência Tri-Continental de Havana. jamais 24 . fornecer armas aos revolucionários latino-americanos. Contam-nos como um professor Libermann. Em geral. base ou porto em terras estrangeiras. não tem um único soldado. A Guerra Fria européia não mais encontra russos e americanos se observando pelas miras de fuzis.

são o evitar a guerra e a criação de uma sociedade global estável em que predominem os valores liberais. sob qualquer aspecto. de que os objetivos. Uma vez que você toma consciência disto. às vezes. Como manejamos para conseguir isso? Que sorte ou sabedoria reduziu a problemático o inevitável? A improvável o problemático? Acima de tudo. de Stewart Alsop. pág. sem dúvida muito menos do que ela com toda certeza perderá. As posições tornaram-se negociáveis. mais a verossimilhança de seu uso. As sábias fazem isto elaborando poder militar. cujo alvo era a dominação. O fato de a guerra aparentemente predestinada não se ter travado é talvez o que agora nos intriga. Saturday Evening Post. sem dúvida. 30. e também exibindo esse poder ante os olhos das imprudentes que não podem mal interpretar a mensagem: Você pagará caro qualquer loucura. as atitudes mutáveis. Assim.se propôs entender-se claramente sob novos aspectos. podemos nós desvendar os segredos desta alquimia que mudou túmulos em abrigos de proteção antiaérea. 21 de maio de 1966.* Esta premissa tem de ser estabelecida. você chega a certas conclusões racionais. mutuamente interinfluentes. propôs-se sim a aceitar sob novos aspectos a existência de outra potência. O objetivo agora foi ideado como “controle de conflito”. Em nosso tempo a política perdeu sua teologia. As demandas de poder lentamente perderam seu status quase metafísico.” (Citado em “His Business is War”. Porém podemos partir do raciocínio. largamente sustentado. que consiste em quatro proposições básicas. e os antagonismos condicionais em vez de absolutos. A força. pode-se generalizar nossa experiência ali em termos de uma teoria de contrôle-de-conflito. ser explicadas de várias diferentes maneiras. * Por exemplo. as palavras do Secretário McNamara: “Agora o povo toma consciência do que dificilmente alguém perceberia cinco anos atrás — de que é impossível vencer um embate nuclear total. torna-se essencial para as nações sábias gerar a consciência desse fato entre as imprudentes. ) 25 . uma vez que aquilo que uma guerra poderá ganhar é. tornou-se secular e pragmática. Isto não foi mera renovação da política de esfera-de-influência do século dezenove. nações pouco sábias podem não entender isso. Pela dedução de que a perseguição destes alvos está nitidamente menos obstruida na atual détente européia. e abrigos antiaéreos em casas? As intuições políticas produzidas em nossos estadistas por vinte anos de Guerra Fria européia podem. Porém. não há uma exposição definitiva. Primeiro. cada lado deve se colocar no ponto de vista de que a guerra global é um meio insatisfatório para assegurar objetivos globais.

(As duas crises cubanas podem significar que em algumas regiões geopolíticas. Em suas ações reconhecemos nossos motivos. Começamos a aprender como dançar com ele. Segundo. o mais importante é o que se passa em silêncio entre os dois lados. Acuramos a sensibilidade para seus problemas internos especiais e começamos mesmo a possuir favoritos dentro de sua casa. O outro lado deve entender isso. Esta experiência gradualmente constrói um fulcro para um novo equilíbrio de confiança. irregular. nossos nomes de permeio. Finalmente. Ouvimos palavras ásperas. uma linha global de trégua precisa ser claramente traçada. Começamos a conhecer este nosso inimigo. pode-se permitir que caia uma posição de nosso próprio lado da linha. Ocasionalmente vemo-lo retornar ao templo de seus mitos nacionais e lá representar em benefício das massas insuspeitosas — e daqueles ascetas de vista estreita. Começamos a confiar nele e a não esperar demasiado.tem como resultado poder dissuassório. terão tempo para incubar. tão necessários a relações mais produtivas. Há uma fé subjacente de que os homens serão capa26 . de fato. Deve-se estar preparado mesmo para ir à guerra para mantê-la intacta. e começam a criar um sistema de comunicação — inicialmente. é através do processo de definição e garantia de segurança de trégua que as potências rivais armazenam informações uma sobre a outra. Talvez. Somos todos homens do mesmo mundo. Este é o ponto crucial da compreensão distintamente liberal da política de potência. pugnando pelo poder. os dividendos desta paciência são que os interesses comuns. os generais — o eterno drama de seu patriotismo. lealdade tribal. nenhum objetivo é tão importante como sua proteção. Terceiro. não convencional e não digno de confiança — que com o tempo se torna mais fidedigno. mas entendemos. O Comando Estratégico do Ar não pretendia ser irônico quando elaborou seu lema “A paz é nossa profissão”. é claro. mas que permanecerá território proibido para a principal potência oposta). certas ameaças e acusações começam a ter um estilo periódico. O estabelecimento e manutenção desta linha são matérias de alta prioridade. durante esta fase. Em quase todas as circunstâncias. neutralizando um oponente. que torna todas as nações pacifistas e cria tempo e espaço para manobras diplomáticas. a quieta e inapregoada consciência de que esta experiência de adversidade é compartilhada. heroísmo. desenvolvem e habituam-se a um “modus vivendi”. de que o que assusta os diplomatas de uma nação assusta os de outra. ele está a proteger seu orçamento. amplo e seguro.

Assim mesmo parece haver algo familiar na situação. assim tentamos combinar os exércitos comunista e nacionalista chineses para ação comum contra o Japão fascista. ou se é a reconfiguração contínua de fronteiras e o conjunto de poder que elas representam. por sobre o Estreito de Formosa. o Mar Amarelo. um crepúsculo dirigido em que o movimento é restringido. assim tentamos (e com mais empenho) anular a Revolução Chinesa. tracem claramente na boa e honesta argila do mundo uma linha que não se violará nem se deixará violar.zes de trabalhar juntos. olhem de frente o fato de que o futuro não é propriedade privada de uma nação — e assim façam a paz. o rumo das relações soviético-americanas a partir da II Guerra Mundial — pelo menos. parem de sonhar sonhos apocalípticos. desde que escapem aos santo-e-senha do passado humano. em ambos os lados. então. nestes vinte anos. assim com o Japão e a China no Pacífico. Tal como interrompemos nossa quarentena da Rússia para fazer causa comum contra a Alemanha nazista. proveitosamente. em que a história cessará de repeti-los insistentemente. Somos inimigos. esta chispa de esperança. parem de pregar o milênio. por certo. na tentativa de fazer voltar atrás a Revolução Russa. Vezes sem conta. Voltem-se agora para a Ásia à luz desta sabedoria. uma suspensão daquelas forças que mantinham a roda em seu triste movimento. apareceram oportunidades que tentaram ambos os lados no sentido de romper o encanto artificial. Se a história é uma interrupção da guerra por tréguas. E. 27 . desenfreada entrega a esta tentação. Não é visão desagradável. há aqueles que vivem em um estado de perpétua. e nosso principal amigo de tempo de guerra tornou-se na vitória nosso principal opositor. Deve haver uma calmaria entre nós. um cessar-fogo e manter-posições. Porém. mas. na supervisão conjunta dessa linha. de um jeito ou de outro. Tal como nosso principal inimigo europeu tornou-se na derrota nosso principal amigo. o Mar do Japão. Em ambos os lados. Talvez haja mesmo um pouco mais de esperança do que merecemos. Há de haver um tempo. A China Vermelha e a América olham-se ferozmente através do Pacífico — melhor. em troca. pode-se imaginar-se assim — sugere um meio pelo qual a previsão pode ser realizada em toda parte: Cuidem-se para não haver grandes guerras. os homens-chave. Tal como cooperamos com as outras democracias ocidentais. não há dúvidas. por causa disso. aprendam várias coisas um sobre o outro. começa a haver uma chispa de esperança. então a Guerra Fria é um tempo em que não acontece história. resistiram-lhes e controlaram-nos. há ainda outros que enfraquecem quando as tensões são grandes.

mas que não haja perturbações na Tailândia. Deixe-se o Cambodja “inclinar-se para um lado” em seu neutralismo. Deixe-se o governo socialista de lá fazer o que pode de suas oportunidades. Devemos aniquilar a China Vermelha? Ou deveremos ter também uma Guerra Fria asiática? Por um curto lapso. da Coréia ao Paquistão Ocidental. por fim. do Japão à Nova Zelândia e se esticando ao longo da borda do continente. houve um crepúsculo político no mundo. Aguentamos daqui. no Departamento de Estado e um anticomunismo militante. A China era exatamente outra Rússia.De novo frustrados em nossa segunda tentativa de uma contra-revolução de grande porte. Chiang Kai-shek continua presente. Esta linha deve ser mantida. Só a Coréia permanece dividida. eles de lá. a uma questão quase igual à questão européia de 1946. Agora devia ser estabelecido o segundo princípio: Tinha de ser fixada a linha de trégua. é certo. presença. Em alemão no original. bastião por bastião. faça-se com que não haja incursões neste limite. finalmente. apertar as mãos do povo americano. * Gestalt — figura. Para provar que pensávamos o que dizíamos. Estonteamo-nos perplexos. O auge do debate da China coincidiu com um pietismo vingativo a respeito do Mundo Livre. Por volta de 1954. tratado por tratado. fizemos frente. a causa primária sendo (com a Rússia também?) por seu exército ser tão grande e sua terra tão vasta. e acalentando uma feia vergonha por haver falhado. Foi aplicado o primeiro princípio da sabedoria européia: Não travaremos guerra com a China. A Europa Ocidental asiática era. Nós nos angustiamos pelo rico clero dominante do Tibet. 28 . nos anos da Guerra da Coréia. nos vimos de posse de uma Guerra Fria do Pacífico. Porém. Discordância era heresia. deveria ser tratada da mesma maneira. Nem deve esta linha representar uma divisão injustamente unilateral.* fomos capazes de discernir sua forma e significado. algum tempo. Pequim pode confiar que não faremos movimentos súbitos contra a metade norte do Vietnã. fragmentada de maneira pior. estávamos copiando na Ásia nossa política européia. e cautelosamente fez-se desaparecer a Guerra da Coréia. no Congresso. foi retirado o General MacArthur. mas tolhido. Não deve ser cometida violência contra esta linha. espalhada por todo Pacífico. Queimaram-se reputações num exorcismo de extinção lenta cuja recrudescência parece permanecer uma possibilidade permanente entre nós. Mas. mas gradualmente encontramos sua Gestalt. ante este teste Rorschach geo-político. pessoa. mas não fazemos um movimento para intervir: o Tibet se torna a Hungria asiática. é a única esperança que temos de que o povo chinês daqui a umas décadas possa.

A condição intocável de qualquer prospectiva. China Vermelha. tem filhos e filhas. contudo. na verdade. só faz com que mais vietnamitas tornem-se comunistas. ) 29 . e prefere a vida à morte. em centenas de partes por seus próprios senhores-da-guerra — é sua presente divisão * A palavra portuguesa estabelecimento não corresponde por completo. de tua participação nas conferências de desarmamento. força organizada de negócio público ou privado. Pensa que sou idiota?” Informamo-lo de que seus bombardeios no campo e o abandono de bordel nas cidades estão devastando aquela nação. os informamos de que sua guerra não está ajudando os vietnamitas. há pouca utilidade em conversar sobre o futuro. este dialético da Guerra Fria. poderá com facilidade haver uma détente asiática também. devemos desculpar sua exasperação com a China e o movimento de paz americano. Mas por que não vê”. Não se precisa recordar -lhe a carnificina no Vietnã.Aceita esta linha. e que aquela matança física e cultural. De nosso posto de observação. carne queimada e tortura. do lado de fora do Establishment. críticos. uma vez que establishment indica: sistema. Ele é. afinal. haverá dificuldades. Luto com este problema dia e noite. críticos. ao mesmo tempo. madura e um milhão de vezes mais integrada do que a do Vietnã? Não temos nós um precedente perfeito na Coréia? Esta fina fatia de um país que tem sido dividido a maior parte de sua vida — uma vez em três partes pelos franceses e. lugar de residência ou negócio com sua área. — (N. Por certo. afinal. Até ser aceito o fato. um homem. por algumas razões. Mas com um pouco de paciência e habilidade. Sei disso. talvez nos respondesse: “Claro. que encara os negócios asiáticos deste ponto de vista. Talvez ele deseje dizer: “Nada mais óbvio. de um arranjo econômico um tanto mais livre com nossos pupilos industriais no Japão. poderá dizer a nós. Muitos de sua espécie viram-na muito mais de perto do que jamais a verão os insangrentos “peaceniks”. corpo de empregados. do T. ninguém tem direito algum de concluir que ele fique menos angustiado do que outro homem pela visão de terra escalvada. antes. aparelhamento. “que a China Vermelha tem que se submeter à divisão do Vietnã? Claro que isso é difícil de aceitar para muitos vietnamitas. por uma psicologia conhecida. Ao Guerreiro da Guerra Fria. Mas é isto. cuja sociedade era. é que a linha de trégua na Guerra Fria asiática não deve ser rompida.* onde. nós. Não estivesse ele engasgado com a pretensão oficial de que a mesma está ajudando. e mesmo de teu ingresso nas Nações Unidas. mais do que a história exigiu dos alemães. supomos ser melhor a visibilidade. e poderemos começar a falar de outros assuntos — de doutores e jornalistas permutados.

primeiro. pode haver agora uma resposta muito intrigante. e a ordem internacional necessita. Só podemos criar a estabilidade internacional se todas as grandes potências no mundo aceitarem o princípio de que. e acontece que a história está toda contra nós. para um tal argumento. em tornando a paz prática. da Colúmbia University. uma revolução. Refreamo-nos de fazer isso na Hungria. Esta guerra no Vietnã é. Essa lição ainda está para ser aprendida em muitas partes do mundo. sensível à história do Vietnã. diz para nós idealistas. mas eu creio que a causa da paz. nenhum lado pode mudar o status quo político através da força ou através do desafio direto a outro lado. a criação da estabilidade. “Este não é de forma alguma um mundo perfeito. não só desafiando a China e estas guerrilhas vietnamitas escandalosamente persistentes. da criação da estabilidade internacional. consultor do Departamento de Estado para planificação política.10 Alguns de nós objetam: Você não provou que esta guerra do Vietnã é culpa da China. pode jamais duvidar disso. Estamos fazendo tudo que sabemos fazer para mudar o destino do homem. Porém. mas do torpe feudalismo colonial daquela sociedade. requer. Longe disso. a causa da reconciliação global. na era nuclear. não do comissariado de exportação da China. e um dos mais destacados estudiosos de nossa Guerra Fria: O longo caminho para a moralidade internacional passa pela criação da ordem internacional. dizemos. e a estabilidade na Ásia não será alcançada pelo não envolvimento americano ou pela expansão chinesa. Os soviéticos aprenderam mais dolorosamente essa lição em Cuba. a acusação mais grave se refere a alguns aviões voando de Hanói e a uns poucos mil técnicos que só consertam estradas bombardeadas pelos americanos. mas aqui em casa temos também de proteger os miolos moles de vocês que querem uma paz impossível e aqueles cabeças-duras lá adiante que querem uma guerra inimaginável.” O objetivo foi estabelecido por Zbigniew Brzezinski. no fundo. e vem. a despeito de nossa política de libertação. 30 .temporária um preço na verdade tão alto a pagar. Fazemos isto. na fronteira de Yunnan. se em troca dele nós entregarmos a estabilidade na Ásia? E se o preço da recusa da divisão é a corrosão daquela linha de trégua sobre a qual edificamos todas as nossas esperanças de uma reconciliação Oriental? “Sejam realistas”. Ainda agora. Ninguém. a causa do ajustamento internacional. antes de tudo. diretor do Instituto de Pesquisa sobre Negócios Comunistas.

mas ocorrem escorregadelas. Bernard B. Não seria que a China tem culpa direta nesta guerra. é sua incapacidade para julgar o grau da influência de Hanói sobre o Vietcong. agira muito “conservadoramente” e com grande “coibição”. por fim. gases vomitivos. não que Hanói age sob ordens diretas de Pequim. Há dúvidas entre muitos observadores se a aparente intransigência de Hanói não esconde de fato sua relativa inabilidade em “entregar” a FLN de mãos e pés atados em uma problemática mesa de conferência. No primeiro ponto temos a evidência indireta da palavra repetida do Secretário Rusk de que a China.. o altamente respeitado Max Frankel. com frequência insinuada. não que a FLN. de The New York Times. mas não sabem se o Vietnã do Norte pode negociar um fim das hostilidades. e torna-se claro que o Estado-Maior deve muito bem sa31 . jamais provada. se não de todo impossível.. que não inspira confiança”. pode Hanói achar a tarefa difícil.12 E sobre o mesmo assunto. esclarecia de Washington: Ainda mais surpreendente para os oficiais.11 Isto significa que ele é pelo menos cético a respeito da teoria de custódia. bem como ninguém luta para algum burocrata em Hanói. em 1954 e 1956.É importante deixar antes claro o que a resposta não seria. e quando Taylor se mostra cético outros devem estar fortemente descrentes. declarou ele aos Rotarianos de New York. O ceticismo se estende também àquele outro elo. Durante a “ofensiva de paz” da estação de férias 1965-1966. meramente cumprindo a decisão final de um longínquo aparelho partidário. bombardeiros a jato e. pela pura alegria de ser ajudado. em vez de ser revolucionária. Fall: Não se luta por oito longos anos. Maxwell Taylor foi ainda mais explícito a respeito da alegada relação senhor-títere entre a China e o Vietnã do Norte. Juntemo-las. mesmo se o desejar. no início de 1966. sob o arrasante peso do arsenal americano. aqui. “Para Hanói”. o que de ordinário se vê entre Hanói e os rebeldes sulistas. não que Hanói comandou e está dirigindo o desempenho de um títere no sul. é só um novo modelo de força invasora. Tendo já liquidado o movimento de guerrilha duas vezes. napalm. “a China é o inimigo tradicional. Julgam ser essa influência muito considerável em termos militaristas. ainda que suas falas demonstrassem fúria.13 A segurança da linha de propaganda oficial de invasão-vinda-do-norte requer discrição oficial a respeito.

esclareceu. do T. já há anos. não com uma invasão. “Ele pensa. enquanto o emprego de tropa se acelerou e a carga de guerra cresceu em milhões de toneladas e nossos programas de “reforma social” persistiram em seus esforços de enriquecer os ricos. Se Ho é Benedict Arnold* — uma estranha idéia — então quem é George Washington? Podíamos sentir-nos tentados a especular sobre um certo texano. está ele preparado para ouvir quaisquer promessas de uma vida melhor. bombardeada ou sufocada por nós. de fato. acontece ser o velho refúgio francês de Cap St. disse: “No sudeste da Ásia. é que eles estão destinados a traí-la: “A tragédia da guerra revolucionária do Vietnã pela independência foi que seu “Benedict Arnold” teve êxito. em que o povo nada mais tivera senão miséria e injustiça. “Os comunistas soltaram uma idéia revolucionária no Vietnã”. em Ho Chi Minh. por certo. A mais flagrante evidência disso é o termo-nos convencido de que devemos pôr em campo uma força rebelde própria. Ele e seus superiores. Assim atendem aos comunistas. Não tiveram alternativa. Em fevereiro de 1966. O alvo dos quadros que estamos treinando aqui é justa* General americano da Revolução. bem antes disso. a única gente que vem fazendo alguma coisa com referência ao homenzinho da plebe — para elevá-lo — tem sido os comunistas. o Embaixador Lodge. nosso ás da contra-insurreição e uma das figuras-chave de nossa equipe do Vietnã. que. pôr na servidão os pobres e modernizar o feudalismo oligárquico do Vietnã do Sul. — (N. o General Edward Lansdale. “Ela não morrerá pelo fato de ser ignorada. Num país atrasado como o Vietnã. o mais categorizado companheiro de Mao Tse Tung”. A idéia foi muito bem explicada por um dos diretores do campo.) 32 . por má sorte.” A máxima profundidade oficial sobre esta guerra é constatar que a mesma é “política” e não militar — profundo discernimento que nos tem sido explicado ano após ano. Idéias não morrem desse modo.” Tudo que Lansdale parecia. tinham “chegado à conclusão de que o povo do Vietnã está entregue à revolução.”14 Porém. traidor (1741-1801). cerca de 42 000 “quadros revolucionários” vêm sendo treinados por uma guarda avançada. Para este fim. escreveu ele. ter contra os comunistas que soltaram esta revolução. número de outubro de 1964. Jacques. publicara um relatório grandemente revelador no Foreign Affairs. Capitão Le Xuam Mai. por exemplo. sob orientação da CIA em Vung Tau.ber o que os batedores sabem: Defrontamo-nos com uma revolução. mas Lansdale cortou a esperança: “Os vietnamitas necessitam de uma causa e nós não a propusemos.

a seguir? 33 . Quer enfrentemos no Vietnã uma réplica ou uma extensão da vontade chinesa. Descrito por Saigon como um “nacionalista de terceira força”. então a situação no Vietnã apresentar-se-ia exatamente como a de agora. aconteceu que o pijama preto era o dele mesmo. tem que reagir aos acontecimentos. A resposta deverá simplesmente ser: Então e daí? Ora. não faz absolutamente diferença nenhuma. tal como a FLN? Dirão também eles “O Vietnã para os vietnamitas”. Pode na realidade não ser. onde os velhos fuzis Vietminh aguardavam ansiosos o grande sinal de fogo. A explicação foi que Mai era insuficientemente leal e por demais rápido em acusar o governo central de corrupção e de indiferença para com o povo. A China é a ameaça. Mai foi dispensado e Saigon tirou o projeto Ving Tau das mãos da CIA. O fato muito claro. as quais os mesmos não estão desejando manter!15 Os deslocamentos psicológicos que esse programa cria devem ser enormes. Onde será descoberto Mai. são exercitados em sessões de autocrítica de grupo. então. tal como a FLN? Expulsarão eles os grandes latifundiários e distribuirão suas terras entre os lavradores. quer esta revolução seja uma cópia intencional ou acidental da política da China ou a coisa em si. no lado errado da linha global de * Após ter sido escrito o meu texto. e através desses meios espera-se que “agarrem a revolução” tirando-a da liderança da FLN. e combaterão os novos cara-pálidas altos para provar o que querem dizer? Então quem é o inimigo? Quem é o amigo? De quem são os pijamas pretos que o Capitão Mai está realmente usando?* Deixando de lado tais quebra-cabeças devemos pelo menos ter encontrado um quadro diferente das convicções de Washington sobre a guerra. que a enviou para o sul a um quartel-general secreto no interior de Nam-Bo. Estes “quadros revolucionários” nossos usam pijamas pretos. Assassinarão eles também os odiados chefes de aldeia designados por Saigon. como a FLN. igual a FLN. tal como a FLN? De graça. acontece que isto não importa! A política americana não pode agir segundo especulações sobre estruturas de cadeias-de-comando. tal como a FLN. é este: Se os chineses controlassem Hanói e por meio de Hanói a Frente de Libertação Nacional.mente esse — realizar as promessas dos comunistas. ensinados a montar governos de aldeia. exato ter o Camarada Mao feito uma decisão secreta anos atrás e passado a mesma através das portas montanhosas da Província de Yunnan para as mãos de Ho Chi Minh. sobre a matéria. O aparecimento de seu espírito dentro da zona proibida. iguais aos da FLN.

menos certeza sobre as tendências e inclinações das forças diplomáticas do outro lado no sentido de serem mais cautelosas. O propósito da contenção violenta da China Comunista é induzi-la a uma mudança similar em sua perspectiva. mostra-se quase um ato diplomático de raro brilho. permanece contudo verdadeiro que ela poderia os estar controlando. Portanto. em aspiração e em efeito. Por certo isto soa por demais maquiavélico. tendo se tornado poderosa. A China deve aprender a fazer garantias similares. falar das “origens” históricas da guerra é politicamente frívolo. ou tão só provocar alguns bons estouros de sabotagem junto a ele. pois esta recusa é. Isto nos conduz à inesperada. esta guerra permanece indistinguível da guerra que os chineses querem. que a China cometa o crime expansionista de que é acusada. Assim pois. por exemplo. A consequência é que deve ser tratada como se fosse uma guerra chinesa. ao contrário. então Subsecretário de Estado disse: “Um foco principal da luta [Oriente-Ocidente] foi deslocado recentemente da Europa para a Ásia. à moda chinesa genuína. e os estadistas enfrentam um ambiente imprevisível. a União Soviética sem dúvida ficaria horrorizada ao descobrir um complô na Alemanha Oriental para ir além do Muro. Para um grande estado é indesculpável não deter o controle sobre os estados confederados menores. em nome da paz. Em substância. E a recusa americana em aceitar a FLN como o agente responsável nesta guerra começa a não aparecer de todo tão obtusa. tem de ser recusada. talvez. Sem tal controle. começou a ter um interesse no status quo. A política de manutenção da paz da Guerra Fria torna essencial às grandes potências controlar os acontecimentos dentro de sua esfera de influência. Mas em 30 de janeiro de 1966. os meios pelos quais pode ser manejado o conflito deixam de existir.. no que foi descrito com um “magno” discurso sobre política externa. restritivas e impacientes. Por isto estamos lutando. a qualquer tempo e através de quaisquer meios.trégua.. Vale o mesmo para nós: Park ficará muito bem estabelecido na Coréia do Sul. se torna essencial. porque a União Soviética. Chang roncará de barriga cheia em Taipeh. mas não irá mais longe. queixa de que mesmo que a China não controle Hanói e a FLN. Com toda sua velha amargura para com a Alemanha Ocidental. Nós garantimos isto. 34 . Menos controle significa menos estabilidade e portanto maior perigo para todos. Esta é a saída no Vietnã. uma tentativa dissimulada de estender uma autoridade chinesa responsável ao Vietnã do Norte e sobre os partidos comunistas ao sul. mas não obstante inteiramente razoável. George Ball.

Paquistão e Índia. O que nos deixa a segunda. estas explicações 35 . Talvez a maquinaria da ONU fosse muito emperrada para uma tal crise. Estas incertezas levam-nos a fazer uma especulação final: de que um objetivo subjacente da política americana pode de fato estimular a penetração da influência soviética no Sudeste da Ásia. quer não. se não os Estados Unidos. Tendo se mostrado ineducável. não tendo assimilado a gramática da moderna política de poder. nossa política no Vietnã adverte a China de que deve expandir sua influência. não pode ser acreditada. Examinemos a esta luz a questão do Kashmir em 1965. prossigamos com o raciocínio. então a Inglaterra. mesmo irresolúvel. e assim preferiram que outro se encarregasse desta tarefa. Ambos os beligerantes. Ou a China não percebeu a mensagem. estavam-se guerreando mutuamente com armas e suprimentos de manufatura americana. aceitar a disciplina da Guerra Fria. tem a responsabilidade básica por seu comportamento. percebeu-a mas prefere ignorá-la. deve ser chamada para salvar a situação crescentemente grave. foi dada oportunidade sobre oportunidade para se demonstrar uma potência mundial realística e responsável — indício atrás de indício cuja significação ela é ou por demais inexperiente para entender ou por demais insana para aceitar. O Paquistão é um aliado formal nosso.Por isto estamos aqui. quer os controle. controlava aqueles rebeldes. Já notamos que Washington provavelmente refuta a primeira premissa. A Índia é um grande recipiente. então as Nações Unidas. A Rússia. Porém. O mediador natural de uma disputa entre eles seriam os Estados Unidos. são estados da Comunidade Britânica. ou percebeu-a e nada pode fazer a respeito. À China. aquele velho e verdadeiro estudioso que conhece todas as regras. Isto é. a longo prazo. Mas a guerra continua. Mas um russo faz a paz de Kashmir. na Ásia Soviética. numa disputa de fronteira à antiga. numa conferência realizada em Tashkent. Informar a China de que ela é responsável por estes acontecimentos vietnamitas é quase abertamente pedir à China que exerça o controle sobre aqueles que os fazem. da ajuda econômica e militar americana. caso não a Inglaterra. Talvez os Estados Unidos estivessem temerosos das consequências de pôr a perder uma mediação. Talvez a Inglaterra também considerasse a questão delicada demais. Ambos.16 Ninguém combateria rebeldes vietnamitas a fim de “induzir a uma mudança” na perspectiva da China a menos que acreditasse ou (a) que a China. ou (b) que a China. e impor essa disciplina a seus amigos vietnamitas.

Nós muito certamente temos nossas próprias boas razões para desejar que o prestígio da Rússia cresça na Ásia. encontramo-nos de posse de um conflito que não mais parece tão insensatamente santo. Exploramos uma camada da história do Guerreiro da Guerra Fria do Vietnã e descobrimos um recanto mais protegido do compartimento da propaganda. Vinte anos mais tarde. 36 . mas tudo a respeito dela parece brilhar com claridade: o lento. e teremos um documento contemporâneo. e Sudeste Asiático por China. Se a Guerra Fria é realmente o que a maioria dos americanos pen* Por exemplo. medido estalido dos saltos no mármore. cada um sem dúvida remotamente cônscio de que um acidente de local de nascimento dera a ambos sua política e missão. Pode-se entreouvir sua conversação íntima de uma distância que poderia bem ser galática. idênticos franzir de sobrolhos preocupados. a mão é tão boa quanto nova. Manipulando por meio desta ideologia as principais características políticas da guerra pelo Vietnã do Sul.não esclarecem o grau em que os Estados Unidos. Não é absurdo conjeturar que esta Rússia. Substitua-se Pequim por Moscou. num sentido realmente humano. disse o Secretário Rusk em seu informe de março de 1966 sobre a China. só pertence a outro braço. a mão de um ao cotovelo do outro. A guerra pode agora parecer ser meramente prática.. Bullitt argumentava no passado 1947 que quaisquer promessas feitas por Ho Chi Minh “seriam quebradas logo que recebesse ordens de Moscou para quebrá-las. De maneira não crítica. não só aceitaram. de que. Eu lanço um suspiro de alívio.” O movimento de Ho tinha o desígnio de “acrescentar um outro dado à mão que Stálin está fechando em volta da China”. Vejo a mesma maturidade em cada face. “um oficial eminente do estado comunista me disse que o problema mais sério no mundo de hoje é como conseguir que Pequim se incline para uma política de coexistência pacífica. E também me arrepio.”17 É fácil retratar aquela conversa entre dois cavalheiros adversários. a quem já acusamos de empreender a guerra da Indochina como parte do ardil para tomar a China* — esta mesma Rússia que torna os céus do Vietnã do Norte mais perigosos para nossos pilotos — é tranquilamente convidada a servir de mediadora. suas cabeças levemente inclinadas juntas. mas ruidosamente aplaudiram a diplomacia soviética. enquanto entre eles flui a certeza de que todas as categorias de homens querem realmente a mesma coisa — todos os homens ricos e todos os homens pobres.. eram elas permutáveis. aceitamos os mais elementares pressupostos ocidentais sobre a origem e progresso da Guerra Fria. todos os fortes e todos os fracos. Mao por Stálin. o Embaixador William C. “Recentemente”.

então pode muito bem ser necessário para a América manter seu controle sobre o Vietnã do Sul. então a Guerra Fria é necessária. Devemos ser muito cândidos e perguntar: Afinal de contas o que é esta Guerra Fria? E é ela realmente necessária? 37 .sam ser. Se é necessária. Por isso devemos penetrar as nossas verdades de Guerra Fria para ver se elas não ocultam algumas outras verdades.

38 .

. Esta suposição de inocência é apoiada por duas crenças interrelacionadas a respeito da história recente.III Portas Abertas. girava em torno de uma única suposição básica: que os Estados Unidos não devem ser responsabilizados pela atual defrontação agressiva Oriente-Ocidente. nossa política prestou homenagem àquela premissa e dela tirou sua legitimidade. A segunda é de que os Estados Unidos nada tinham a ganhar com a Guerra Fria e nada fizeram para provocá-la.. e mais sustentada. Esta é provavelmente a premissa central. a heresia de que ambas essas crenças são falsas. do capítulo precedente. Bispo Berkeley A guerra fria é uma seção da história tornada coerente por um arcabouço ideológico de crenças implícitas e explícitas sobre história e valores. a heresia de que nossa política externa de Guerra Fria visando a contenção 39 . Da Doutrina Truman à guerra do Vietnã. A história do Guerreiro da Guerra Fria. do anticomunismo de Guerra Fria da América. Nos trechos que se seguem deste capítulo desejo elaborar duas heresias interligadas: primeiro. O mais nobre rebento do tempo é o último.. Dominós que Caem O curso do império se processa para o oeste. do Plano Marshall à Aliança para o Progresso. mediante o qual se infunde forma e inteligibilidade aos eventos. A primeira é de que Stálin deu início à Guerra Fria. segundo.

pela primeira vez.é mais fundamentalmente uma resposta ao fato de as culturas políticas não-Ocidentais. e a comunização da China são os crimes originais pelos quais a União Soviética é condenada como um agressor imperialista. em conjunto. sem conquistar o direito àquela segurança de fronteiras que era um objetivo russo tradicional (de nenhum modo “comunista”). sua solução foi forjada de forma muito corrente pelas potências da Grande Aliança. o zoneamento da Europa Central era um problema óbvio da guerra e da paz. derrotado grande parte do poderio de Hitler. mediante imenso sacrifício humano. resistir ou restringir aquela arremetida expansionista a longo prazo do Ocidente sobre o Oriente. dificilmente se poderia esperar que a Rússia tivesse enfrentado por quatro anos selvagens e depois. havendo o império entrado em derrocada interna. a despeito de suas tropas estarem sendo enviadas a combate empunhando cacetes. o governo social-democrata de Kerensky decidiu sustentar a parte da Rússia na guerra. este passado mutante. Acima de tudo. o ato deflagrador da Guerra Fria. simplesmente devemos enfrentar o fato — costumamos nos sentir perturbados com ele — de que o comportamento ocidental de entre-guerras tinha dado à URSS muito pouca evidência das boas intenções do Ocidente. que é o tema viga-mestra da história moderna. um golpe de paço relativamente in40 . O Embate Russo-Americano Nosso exame pode ser breve. Estas incorporações. Esta decisão. e aparentemente a principal utilidade de saber algo sobre ele é ser posto em guarda contra a sabedoria comum que julga terem as relações Estados Unidos-União Soviética se iniciado por volta de 1945 e que sustenta terem sido as incorporações territoriais de Stálin. Uma rápida recapitulação: O Czar caiu em 1917. com alguns fatos elementares: a política stalinista européia de após-guerra não foi arquitetada nem em segredo nem unilateralmente. na Europa oriental. Pelo fato de supormos ter nossa política externa tomado forma como resposta a uma ameaça. tendo a I Guerra Mundial pulverizado sua casca. em primeiro lugar. influenciaram os ressentimentos populares e assim fixaram a base para a Revolução Bolchevista. Sob pressão ocidental. estarem tentando nos conter. Confrontemos esta crença. e a de transferir a convocação da Duma. um nervosismo momentâneo referente ao Irã e aos Dardanelos. a reabsorção dos estados bálticos do império czarista. consideramos nossos objetivos como defensivos e nossa violência ocasional como provocada. Está bem atrás de nós.

até que o extremo anticomunista chegou ao poder em janeiro de 1933. De abril de 1920 a março de 1921 os poloneses estiveram combatendo na Ucrânia. Toda a Europa foi abalada pela Revolução Russa. Outubro de 1933: a Alemanha segue o Japão. abandonando a Liga das Nações. Quando a intervenção ocidental de cinco frentes obteve como resultado tão só a reconstrução do exército soviético e a garantia de que o governo soviético seria profundamente totalitário. sérvios e gregos haviam espalhado um efetivo de 850 000 contra-revolucionários no Sul da Rússia. e. romenos. uma revolta maciça de legionários tchecos. britânicos. difícil mesmo sob as melhores circunstâncias. em seu caminho da Rússia para a frente ocidental ainda aberta. Quase um ano mais tarde: 41 . Sob circunstâncias confusas. No norte da Rússia. para assegurar “o permanente enfraquecimento da Rússia”. tendo muito cedo usado seus consideráveis recursos econômicos para aniquilar o governo Vermelho de Bela Kun. os comandantes e tanques britânicos e a gasolina americana quase tornaram um sucesso a campanha dos Brancos contra a praça-forte soviética de Petrogrado. Por todo este tempo.cruento. as fábricas de munição já bramindo. quando pareceu que para este Hitler havia mais do que um incêndio no Reichstag. No Báltico. a intervenção ocidental maciça em favor da contra-revolução branca foi em força total. italianos. de tempos em tempos. na Hungria. Esta foi a prática ocidental durante o período crucial em que a Revolução Russa lutava para consolidar-se e iniciava o processo de criar. Por volta de março de 1919 os franceses. conduziu finalmente à formação de um governo anti-soviético em Omsk. sob a direção do monarquista Almirante Aleksander Kolchak. quase fizeram conexão com o exército de Kolchak. como uma pedra de jogo insegura. Seis meses após o armistício europeu. quando não mais poderia o Ocidente pretender que seu alvo era sustentar aberta a frente oriental. as ferramentas da quarentena política e do isolamento econômico. um total de 5 500 soldados americanos e 37 000 britânicos garantiram o regime Branco. a oposição ocidental ainda não acabou. em particular a Alemanha balançou. Lênin rapidamente concluiu o tratado de paz de Brest-Litovsk com a Alemanha. Mas o desafogo ocidental logo se tornou ansiedade. o bloqueio naval do Conselho de Guerra Supremo Aliado privou o governo Vermelho do uso de todos os seus portos marítimos. Meramente lançou ela mão de outros instrumentos. Kolchak recebeu ajuda material da Grã-Bretanha no valor de meio bilhão de dólares. a nacionalidade soviética e modernizar a economia. sob a direção do Ministro da Guerra Winston Churchill.

Explica-se no Ocidente que o “Alvo Real” de Hitler é bom. é esmagar o comunismo. a quem foi permitido ouvir o próprio destino. tardios e perniciosos “ajuda” e “conselho”.000 soldados italianos. Chamberlain boceja. A teoria prevalente era de que o Lebensraum* da Alemanha ficava só para o oriente. Por esta época. em Munich. Iugoslávia e Rumânia (o que talvez seja irônico). protestam. Menos de um ano mais tarde. onde são feitas certas negociações famosas. As democracias impõem embargos de armas por igual. um forte e por outro lado solitário proponente da segurança coletiva é assassinado em Marselha. o que conduziu a que Stálin concedesse aos Legalistas aqueles magros. algo de novo acontece: o Presidente Eduard Benes ordena a mobilização parcial das tropas tchecas contra a concentração nazista em suas fronteiras. tendo um mês antes Neville Chamberlain tornado bem clara a posição de seu governo. Os tchecos. Maxim Litvinov. Tchecoslováquia. Seu erro é corrigido por aqueles mais maduros do que ele no setembro seguinte. Litvinov — uma triste figura — ainda mendiga a ação da Liga. A Grã-Bretanha vota Não. que podem ter prejudicado sua causa tanto quanto a “neutralidade” das democracias. Março de 1935: a Alemanha decreta a conscrição militar universal. mas em algumas acomodações. (Summer Welles disse: “Quando a União Soviética entrou na Liga. a URSS. Hitler se retira! As democracias se põem a reprovar Benes por sua inflexão. para ganhar tempo com * Lebensraum — espaço vital. E apoiado pela Polônia.1) Um mês mais tarde: o Ministro do Exterior francês. violando a um tempo o Tratado de Versalhes e o de Locarno. Stálin tinha sido convencido de que a única esperança de sobrevivência para a Rússia estava não na segurança coletiva com o Ocidente. A resposta de Londres é um tratado naval com Hitler que permite à Alemanha a construção de uma frota de submarinos do tamanho da britânica. em ambos os lados.”2 Em maio de 1938. o Comissário para Assuntos Estrangeiros da Rússia. Jean Louis Barthou. mesmo os mais obstinados foram forçados a admitir que era ela a única grande potência que parecia tomar a Liga a sério”. pede imediatos arranjos de segurança coletiva. a Etiópia cai nas mãos de Mussolini. 42 .a Liga aceita um novo membro. Julho de 1936: começa o lento assassinato da Espanha Republicana. Na Liga. e praticam a “não-intervenção” nesta “guerra-civil” travada com aviões militaristas alemães e 100. Março de 1936: Hitler ocupa e remilitariza o Rhine-land. ao dizer: “Não devemos tentar enganar nações pequenas e fracas para que pensem que serão protegidas pela Liga contra a agressão. Março de 1938: Hitler assalta a Áustria.

cujo colapso fora predito pela Inteligência britânica para dentro de seis semanas após o ataque de Hitler. Porém.F. cujo acerto militar também era dúbio. de seu plano para investimento na Rússia e de 43 . por parte dos bolcheviques. talvez mesmo o Danúbio. os aliados transferiram a guerra para o Norte da África.* Em Brest-Litovsk. pensando cada vez mais na configuração política da Europa de após-guerra. impedindo a crescente probabilidade de um Exército Vermelho cruzando os montes Cárpatos. nem Marshall. a NEP reconheceu a importância do “setor de capital privado” interno (que por volta de 1924 representava 40 por cento do comércio doméstico) e externamente considerou concessões a capitalistas estrangeiros. mas sim em Munich. talvez tenha sido não em Yalta. Talvez mais longe. no final de 1942 ou na primavera de 1943.3 Vem a guerra. estavam afinal se batendo com a força total da potência germânica. O Estado-Maior Geral Americano considerou que tal estratégia seria militarmente errada. mais da me* A Nova Política Econômica (NEP) de 1921 não foi a volta atrás neste propósito de auto-suficiência. Churchill ainda estava exigindo uma campanha turca.Hitler. Mas o raciocínio britânicofrances de que a NEP era uma volta termidoreana à normalidade capitalista foi esvaziada pela rejeição. Uma generosa América. colocaria os exércitos ocidentais na Europa oriental. Segue-se depois a longa e sangrenta luta subindo a península da Itália. que a Europa de após-guerra foi partilhada. se bem sucedida. Fleming sugere. exigiu um ataque ao “macio baixo-ventre” do Continente. Contra tal pano de fundo. Onde estava a prometida ajuda da segunda frente na França? Graças a Churchill. Tal estratégia. em junho de 1944. logo atraída para a luta. nem Stimson. montou poderosa produção ofensiva e desenvolveu planos para a abertura de uma frente Ocidental contra Hitler. Por certo. E os mesmos cinco anos tinham convencido muitos na Europa Oriental de que o Ocidente não era aliado deles: tal como D. Seja como for. alcançaram a terrível vitória da batalha de Stalingrado. o que não era desejado nem por Roosevelt. até o último momento antes da invasão da França. Os russos. Churchill. Recordemos que a teoria leninista do desenvolvimento econômico tinha como consequência levado a URSS para uma política doméstica semi-autárquica e por isso para uma política externa semi-isolacionista. que faremos da política externa stalinista de após-guerra na Europa? Recordemos que as políticas externas das nações-estados são essencialmente continuações de suas políticas domésticas. Lênin tinha entregue um terço da área de colheitas da Rússia. mais de dois anos após o prazo em que deveria ter sido aberta a frente ocidental.

este círculo é na realidade uma roda que gira em ambas as direções: À medida que a economia soviética amadureceu e os planejadores soviéticos ganharam confiança. e temporário exagero. 44 .tade de sua força industrial. tolerância política — poderá perfeitamente determinar a evolução das relações Estados Unidos-China. por mais abrupta que fosse essa mudança. apesar da hipocrisia sobre o “expansionismo da China comunista”. Foi o ataque que Hitler lhe fez e o fracasso de Hitler em tornar tal ataque vitorioso. era talvez afinal nada mais que um aceleramento. Além da necessidade já existente de modernizar e desenvolver. a hostilidade ocidental contra ambos os regimes revolucionários expressou-se como uma quarentena que cooperou de fato com. a fim de ser deixado sozinho pela Alemanha. no teatro da política internacional.5 e o ingresso da URSS na Liga em 1934 foi menos a exposição de um novo internacionalismo positivo do que uma nova resposta à ameaça que Hitler representava à solidão russa. esta necessidade agora estava situada num meio político inteiramente novo. em que a Alemanha insinuava reconhecimento das nacionalizações bolcheviques. embora um grande número de aventuras sem utilidade venham a ser representadas ao longo do caminho. Consideremos que a única e exclusiva base da autoridade internacional de Stálin nas consequências da guerra era o Exército Vermelho. de um processo já em pleno curso. a doutrina política de coexistência emergiu. e intensificou. A violência da Alemanha produziu numerosas mudanças radicais na Europa. Porém. a necessidade de desenvolvimento econômico era para a Rússia maior do que nunca. O que era inteiramente original e muito mais profundo era o aparecimento compulsório. e um povo faminto. as vias de comércio começaram a se tornar mais amplas. que arrancou a URSS de sua concha e forçou-a a representar aquele papel de grande potência para o qual parecia ter sido tão mal preparada. seu esforço pela auto-suficiência. que flexionou seus músculos por sobre uma economia soviética rural e urbana bombardeada. reconciliação comercial. os planejadores soviéticos tinham que acrescentar a de reconstrução maciça. desmoralizado e desorientado. Uma: todas as velhas potências foram seriamente rebaixadas e os Estados Unidos ascenderam a uma posição de influência política e econômica indiscutível. Ao final da II Guerra Mundial. em 1922. e 62 milhões de pessoas. Porém para a URSS ainda combatente. e devagar o Ocidente começou a abandonar sua quarentena econômica e política. a “desisolada” União Soviética. o mesmo processo-avanço econômico do estado atrasado. Claro. Impedindo a guerra. daquela nova potência mundial.4 Um isolacionismo autárquico similar é evidentemente praticado pela China revolucionária. e uma grande quantidade de sangue humano venha a ser desnecessariamente derramado. Ironicamente. Isto novo negado pelo Tratado de Rapallo.

no imediato período de após-guerra. a rearticulação e instalação no poder de partidos políticos da ala direita na Europa oriental. Numa cultura em que o poder político internacional tradicionalmente decorre de uma avançada base industrial. Ao mesmo tempo. Talvez a compreensão do peculiar caráter aéreo do poder soviético. a nação-estado da URSS consistia em um exército e nada mais. porém muito intensificada pelas lembranças de Hitler ainda vívidas) garantir segurança territorial — e portanto não desmobilizar. nos defrontamos com o súbito aparecimento de uma “grande potência” cuja base industrial em primeiro lugar era imatura. As condições básicas sob as quais teria que perseguir esses objetivos eram a fraqueza da URSS frente um Ocidente unido. ou pelo menos. Assim. esperava. era também uma necessidade soviética (tradicional. devastada. reconstituir a força de trabalho soviética era uma necessidade urgente — e portanto desmobilizar.nos põe ante uma das maiores anomalias políticas da história moderna do Ocidente. o abandono a seus próprios desígnios (e pior) dos revolucionários e movimentos de resistência de liderança comunista em outros países europeus. Porém isto em si não representava a ruína. conseguir dos Estados Unidos (isto foi discutido em Yalta) um empréstimo maciço para o desenvolvimento. e em segundo. que Stálin propôs receber e distribuir numa base de Quatro 45 . Industrial. Mas talvez mesmo este fato a apoie: um exército sem uma base industrial não é bem um exército. Foram estes dois objetivos interligados. Havia outra fonte provável de grande capital de reconstrução — reparações de guerra da Alemanha. Pode ser um exagero revelador dizer que em 1945. tempo e segurança política? Sabemos que desejava. a vacilante política a respeito dos empréstimos de reconstrução vindos dos Estados Unidos. e sob importantes aspectos contraditórios — reconstrução e desenvolvimento interno e segurança territorial — que dirigiram a política externa de Stálin. Como poderia Stálin conseguir capital de desenvolvimento. de certa maneira. Em Potsdam descobriu que não haveria tal empréstimo. Aquele exército era a única fonte de força diplomática de Stálin. O único acontecimento que parece contrariar mais a opinião de que o poder de Stálin era exclusivamente militar foi a nitidamente rápida desmobilização do Exército Vermelho. agrícola e socialmente sua nação — e estava muito próxima de nem mais nação ser — não podia ser comparada com os estados Ocidentais. nos ajude a dar maior senso às excêntricas voltas que dá a diplomacia soviética — o namoro com as idéias mais não-marxistas de Eugene Varga referentes a viver com um Ocidente capitalista (uma espécie de “desvio de direita”).

e perguntou se a Grécia pertenceria à Grã-Bretanha. A pergunta do Sr..6 As indenizações alemãs à Rússia seriam portanto financiadas pelos Estados Unidos.. e os Estados Unidos não tinham o propósito de financiar a revolução.. Molotov: Entendo. segundo o qual cada uma das potências aliadas cobraria reparações da zona particular ocupada por seu exército. Molotov disse: Não significaria a sugestão do Secretário que cada país teria carta branca em sua própria zona e agiria inteiramente independente dos outros? O Secretário disse que em essência isto era verdadeiro. ele estava pronto a concordar. talvez as linhas de demarcação entre as zonas Soviética e Ocidental de ocupação possam ser tomadas como linhas de divisão. O Sr.. O seguinte diálogo em Potsdam. A isso entendeu o Sr. em julho de 1945. Bevin era se a pretensão dos russos se limitava à zona ocupada pelo exército russo. O Presidente Truman disse que concordava com a proposta soviética. O Presidente [Truman] inquiriu se ele [Stálin] se referia a uma linha que se estendia do Báltico ao Adriático. por uma razão muito boa. Assim fez-se um acordo. Stálin dizer “sim”. é claro quanto às implicações políticas deste acordo: Sr. e tudo a oeste dessa linha iria para os Aliados e tudo a leste dela para os russos. visando interesses e investimentos estrangeiros. se opuseram a isto. Os Estados Unidos contudo.7 O diálogo subsequente de Stálin com Truman não é menos claro: Premier Stálin: .. sem dividir a Alemanha). Se era assim. O Secretário [Byrnes]: Sim.Potências (isto é. Secretário Byrnes. O Premier Stálin respondeu afirmativamente. [O Secretário do Exterior Britânico] Bevin disse que concordava. que o senhor tem em mente a proposta de que cada país deveria cobrar indenizações de sua própria zona.. Byrnes disse pensar ser importante haver um acerto de idéias. Sr. O Premier Stálin sugeriu que os Aliados aceitassem dividir a Iugoslávia e a Áustria em zonas. Muito cedo e muito claramente. havíamos percebido nossa própria futura necessidade econômica de um mercado refeito na Europa.8 Portanto a Rússia devia cobrar indenizações da mais pobre das 46 . O Premier Stálin aquiesceu.

para obter a hegemonia 47 . Para impedir a reconstrução russa era preciso serem negadas as indenizações da Alemanha Ocidental. Isto excluía o domínio da Alemanha pelas Quatro Potências. no mínimo. a uma porta do leste europeu menos hermeticamente aferrolhada. o Navegador. Sem a Bomba. teria um poder político coercitivo (que afinal mostrou não ter). a simultânea hegemonia política que Molotov deve ter imaginado ao usar frases tais como “carta branca em sua própria zona” e “inteiramente independente dos outros”. a reconstrução da economia russa. os soviéticos seriam incapazes de conter a imensa autoridade industrial e econômica dos Estados Unidos. e a autoridade fiscal que este acordo conferia ao governo russo de ocupação tornava necessária. obstruir. a Rainha Virgem e Napoleão. que não podemos minimizar. que outro tente prová-lo. e segundo. Porém. Mas nossa diplomacia de negociar-pela-fôrça parece ter alimentado com vigor a desconfiança de Stálin — e a Guerra Fria iniciouse irreversivelmente na Europa. Pode-se também querer o que se é forçado a pegar. e portanto fechava para o Ocidente seu “livre acesso ao Vale do Danúbio e à Europa Oriental dos bens e capitais dos países ocidentais”. estavam agindo talvez na suposição de que o monopólio da bomba-A. A Europa oriental não foi só oferecida a Stálin. Henrique. e há uma possibilidade. implicitamente requeria partilha da Europa. uma vez forçados a abrir a porta da Europa oriental. ter-se visto como um construtor de impérios na grande e confusa tradição de César. e que.10 Por outro lado. de Stálin na verdade. Truman e Byrnes.9 Parece agora que tais objetivos se contrariavam e prejudicavam. negando à Rússia as indenizações alemãs com base no vale do Ruhr. Acomodação neste assunto poderia conduzir. por parte da América. de forma absoluta. “francamente desvantajosa para nós” — nossa posição a respeito das indenizações alemãs para a Rússia teria sido mais acomodatícia. primeiro. Os objetivos americanos parecem ter sido duplos. “a manutenção de uma porta aberta nos Balcãs”. o fracasso ocidental em internacionalizar o desenvolvimento da economia da região do Danúbio conduzia à reconstrução da economia soviética: deixava Stálin de mãos livres para manipular os recursos da Europa do leste a serviço das necessidades econômicas russas. como Byrnes informaria mais tarde ao Congresso.duas metades da Europa. Argumentar que Stálin estava inclinado à conquistar e assim manobrar. Isabel de Espanha. ela foi empurrada para cima dele. Infante D. que em Potsdam sabiam do sucesso do Projeto Manhattan. financiadas pelos americanos. na famosa frase de Stimson. Não quero dizer que ele não a desejasse. ou demorar.

era para ele uma retórica. e sob seu controle a Terceira Internacional de Lênin. Stálin não parece ter sido nem um imperialista nem muito menos um marxista. e não é pela aplicação dos postulados do marxismo-leninismo revolucionário que podemos melhor esclarecer sua diplomacia. Pelo atraso militar. Mãe Rússia”. foi batida por todos devido a seu atraso. Vós recordais as palavras do poeta pré -revolucionário: “Tu és pobre e tu és opulenta. como se figurava o mundo de 1945 do ponto de vista deste nacionalista russo.na Europa oriental. mas êle esqueceu as guerras vitoriosas da Velha Rússia. Stálin na realidade só se mostra um homem dotado de alguma paixão genuína.. Stálin era um nacionalista. um político prático como sempre o foi. Não queremos ser batidos. tu és poderosa e tu és desamparada.. pelo atraso industrial.. longe de ser uma força para iniciar a revolução em escala mundial. uma corporação cuja subserviência às ferozes vicissitudes da Realpolitik soviética fez da sua uma das mais ridículas histórias que se conhece.11* Tentemos imaginar. pelo atraso agrícola.. “dez anos” estava absolutamente correto. Por certo não era revolucionário. do homem moderno). foi só uma arma do Ministério do Exterior Soviético (a propósito. foi batida pelos Beis turcos. Para ele. um amontoado de frases a serem usadas sem rebuços. então.. Temos que superar este desnível em dez anos. este Comintern. pelo atraso cultural. Foi batida pelos Cas Mongóis. 48 . foi batida pelos senhores feudais suecos. A Velha Rússia. O idealismo bolchevique. quando serviam ou cooperavam com as necessidades nacionais (como ele as via) e descartadas sem cerimônia em caso contrário. foi sem cessar batida por causa de seu atraso. pelo atraso político. foi batida pelos barões japoneses. foi batida pela gentry polono-lituana. Ou o fazemos ou nos esmagam. tal no trecho seguinte (1931): Retardar o passo significa ficar para trás. porque batê-la era proveitoso e ficava sem castigo. o sonho de uma sociedade socialista universal nem de perto tinha tanta compulsão como a perspectiva de uma nação-estado soviética industrializada e unitária. e aqueles que ficam para trás são batidos. Foi batida. a qual finalmente adquiriu. quando fala como um nacionalista russo. foi batida pelos capitalistas anglo-franceses. À sua frente erguia-se altaneiro * Stálin era melhor em profecia do que em história. é preferir a uma realidade muito rica um mito tão importuno como banal.. às vezes banal e às vezes cheio de vida. Estamos cinquenta ou cem anos atrás dos países adiantados.

se Stálin aceitou a amarga contenda Estados Unidos-URSS. sobre cuja política e economia poderia exercer algum controle. nada fazer para fechar a porta da Europa oriental. Isto é. o reforçamento da unificação nacional e a reparação econômica em ritmo forçado. Tóquio. tal como a paz tinha sido do interesse da Rússia em 1918 e 1905.um Estados Unidos exigente. matérias-primas. ou (2) podia aceitar a divisão e fechar a porta. não foi porque gostasse de submeter os poloneses ou os tchecos à servidão. Kassel. num tempo em que relações pacíficas eram muito mais do interesse prático da Rússia. Duas alternativas sem recurso. Atrás dele. levando em conta simpaticamente as necessidades econômicas e sensibilidades políticas da URSS. Dividiu a Europa. a tensão internacional que por certo geraria iria justificar a consolidação do poder do estado-policial de Stálin. ) a qualquer governo cuja defesa o presidente julgasse vital para a defesa dos EE. para fornecer tanques. Dresden. bases de suprimento. Nagasaki. — (N. na plenitude de seu superpoder. armamentos. Destinava a Rússia a um conflito com os Estados Unidos. Mas este caminho pelo menos oferecia algumas vantagens. jaziam os corpos sepultados de 20 milhões de russos e as fazendas incendiadas e as fábricas estripadas da economia soviética. sua posterior recusa da ajuda do Plano Marshall e sua rejeição talvez desastrada da proposta Baruch de energia atômica). Portanto. alimentos e serviços (empréstimo e conserto de barcos. porém (1) porque desejava proteger a União Soviética do colapso. etc. UU.UU. A segunda alternativa era também má. a mais violenta nação da história (Hamburg. Em sua mente. numa época em que a URSS tinha interesse numa Alemanha reconstruída. e esperar que a inevitável penetração americana na economia da região do Danúbio fosse concretizada. e (2) porque a configuração peculiar das fraquezas e forças soviéticas e ocidentais limitava suas possibilidades àquele único caminho. Consideradas a diplomacia ocidental desde 1918 e indicações correntes. aviões. tendo o Ocidente recusado a ajuda e rejeitado o tratamento de Quatro Potências para a * Lend-Lease Act (11 de março de 1941) — concedia poderes ao presidente dos EE. também. a memória da inequívoca oposição ocidental à União Soviética. Hiroshima. a primeira estava provavelmente fora de questão (por isso. o que não acontecia com o primeiro. Que outra alternativa lhe restava? Ao que parece duas: (1) Podia aceitar o plano americano de divisão da Europa.) 49 . tais como o fim abrupto dos efeitos do Lend-Lease Act* para a Rússia (mas não para a França e Grã-Bretanha).— sem paralelo). Punha uma Europa Oriental sem defesa (se necessária) à disposição de Moscou. que acabou por dominar a política da Europa. do T.

no fundamental. realmente controlados pela URSS. de longe à frente. Um princípio que desenvolveremos ao discutirmos a rebelião (no Cap. é menos a de um monstro de contos de fadas. para reabilitar Stálin. pelo menos parcialmente. verão nisto uma tentativa esquerdizante. violentamente estabilizado de satélites tributários de proteção. Alguns. nos anos que se seguiram.Alemanha. O Leão es50 . sádico. ele a empreendeu. os objetivos e exigências básicas do nacionalismo russo. no começo da Guerra Fria. pelo bem ou pelo mal. havendo excessivos estigmas de vergonha na história desse homem: o triste espetáculo dos expurgos. sua cínica manipulação dos Legalistas Espanhóis. tal coisa seria tarefa de milagreiro. porém não provocativos para os Estados Unidos. e essa política era a criação de um sistema não belicoso. por certo. V) é aplicável aqui: Habitualmente nem homens nem nações fazem. Mas isto não prova que ele tenha criado a Guerra Fria.12 O Ocidente uniformemente poderoso queria — e acreditava. sua complacência em observar. mais do que crêem devam fazer. que para nós é quase uma distante abstração moral. Stálin aceitou a Guerra Fria. A menos poderosa União Soviética queria capital de desenvolvimento sem condições. sua matança dos kulaks. como podemos ver agora. porém tão só religar essa abstração a algumas das realidades concretas mais importantes daquele tempo. em último lugar. dessa oposição elementar. com momentos de ferocidade e falsidade que serviram para validar o estereótipo dele apresentado pela América. Meu objetivo não é nem condenar nem absolver esta figura. e os Estados Unidos. Os alvos de ambos os lados estavam concentrados em idéias opostas sobre o controle da Alemanha. tais potências eram a Inglaterra. senão de esquerda. do que a de um pequeno. parecia a Stálin só haver uma alternativa política que satisfez. rondando à procura de sangue e pilhagem imperialista. em uma situação difícil e perigosa. sua tolerância ante o desmembramento da Revolução Grega por parte da Grã-Bretanha e América. ter de obtê-la — uma garantia contra a expansão da revolução (o que vou apresentar é em grande parte o outro lado da mesma moeda) uma garantia de acesso econômico e político a toda Europa. Os termos desta fantástica batalha foram ditados. a tentada destruição da Revolução Chinesa. Parece ter tido pouca escolha. maquinaria pesada alemã e um descanso do wagnerismo militante. frio e muito prático nacionalista. e então sugerir que a folha de serviço de Stálin. pelas potências que detinham a iniciativa e comandavam os limites extremos. com todo seu complexo cortejo de acontecimentos. A Guerra Fria na Europa emerge. Aceitando-a. e mesmo auxiliar. Mesmo se alguém se dispusesse a tentá-la.

a Águia voando altaneira em sua plenitude. Mas veio tarde demais. não fazemos jus à história da Guerra Fria que só imaginamos ser a nossa. que dirigiu brutalmente a recuperação russa. sem motivos defensivos. Fracassou. continuamos a tentar a total integração militar do concerto Atlântico. porque sua retaguarda caiu em Moscou. em prol de uma força nuclear multilateral continuamos a perpetuar nossa exigência de uma Europa ocidental eriçada de hostilidade atômica contra o Oriente. estamos representando. A contenção às vezes tendeu a se tornar libertação. na Ásia. nos anos de sessenta. Que o Guerreiro da Guerra Fria consiga nos convencer que o Urso ditava as leis. Em poucas palavras. continuamos nossos esforços para fazer essa integração em termos de um eixo Washington-Bonn. de Byrnes a Rusk. Se agora nos vemos começando a coexistir na Europa. A Doutrina Truman de 1947. Já que sendo assim tinha de recusá-lo. e já que provavelmente acreditava que os Estados Unidos esperavam que o recusasse. o erro das passadas décadas de quarenta e cinquenta mediante a pretensão. seja como for. quando o reverso é obviamente o verdadeiro. posta em prática o tempo todo visando optar pela coexistência. a quem as notícias dessa recuperação. o mesmo papel constrangido e heróico. ele devia encarar o Plano Marshall como nada mais do que uma contribuição americana para a ressurreição de uma superpotência na Alemanha — o velho inimigo rearmado. quando seu tempo de preceito tivesse passado. Do ponto de vista de Stálin. e seu coração em Paris. a qualquer momento a “libertação” poderia ter irrompido. e através de nossas propostas sem fim. O Plano Marshall foi oferecido à União Soviética sem implicações e. E mesmo hoje. não estava muito longe de um ato de guerra.tava seguramente satisfeito. e o Urso não estava morto. A mesma angustiante salvação pode ser lançada sobre nós via Pe51 . aceitá-lo então teria sido o mesmo que aceitar a hegemonia econômica e. ou de Truman a Johnson. quando ninguém clama que a “ameaça” está aumentando na Europa. e de que. política dos Estados Unidos na Eurásia. no dizer claro dos Secretários Stimson e Wallace. E se fracassou. mesmo agora. de que a contenção na Europa foi só uma política para o ínterim. a política dos Estados Unidos de “contenção-defensiva” permaneceu coerente a ponto de realizar suas piores implicações. em última análise. alcançaram. mas por terra. como o faz nosso bom Guerreiro da Guerra Fria. sempre reataviadas. é porque a contenção fracassou. possivelmente. Não precisamos compor. não parece ter sido pelo fato de alguém ter decretado seu fracasso. Ademais: No decorrer dos anos de Eisenhower-Dulles.

quim e Tóquio. Porém, em primeiro lugar, esperar por uma tal salvação não é modo de vida, e, em segundo, as grandes desvantagens e percalços com que a humanidade se defrontou na Europa, nada eram comparadas com as da Ásia. Os pacificadores europeus, os homens racionais da Europa, jamais tiveram que se ver com uma guerra do Vietnã. Além do que, nós americanos, conhecíamos a Europa de uma forma que provavelmente jamais conheceremos a Ásia; estávamos culturalmente ligados à Europa, e talvez em parte suspeitando, durante todo o tempo, que os russos eram, de coração, tão europeus e brancos como nós. Na Ásia, ainda menos informados do que na primeira Guerra Fria, continuamos, sem critério, inculpando Mao Tse-Tung de todos os crimes de Guerra Fria cometidos por Stálin, os verdadeiros e os lendários; e cada encolerizado patriota asiático, esfomeado, subjugado pelo senhor feudal, que ousa se contrapor a nosso sonho a um Mundo Livre de domínio benigno, reacende nosso pietismo violento, nossa política de ressentimentos e frustrações confusos. E não há ninguém, em toda aquela parte misteriosa do mundo, para servir de mediador no conflito — ninguém senão nós e o povo amarelo. O problema com a Ásia é que lá ninguém nos pode salvar a não ser nós mesmos. Por que julgamos essa salvação tão difícil até para começar a tentá -la? Por que nós, americanos superpráticos, continuamos tentando navegar pelo território asiático desconhecido com um mapa europeu errado? Mas, talvez haja algo mais referente à Guerra Fria do que erros bem intencionados de história. Talvez estes erros sejam propositais, com a intenção tão só de servir de paliativo para uma verdade inconveniente. Talvez nossa ideologia de anticomunismo de Guerra Fria seja um sinal de beleza.*

A Fronteira em Torno de nós
Grandes propósitos e má supervisão fazem parceiros tranquilos, mas não proporcionam campo para agnosticismo em face do desastre. Admitamos que a história americana esteja sujeita, como todas as histórias nacionais, às forças acidentais, dispersivas e excêntricas que às vezes tomam conta dos acontecimentos e os levam para direções imprevisíveis. E, mais importante, admitamos que a nossa não é a única história no planeta. Nosso governo e nosso povo não encenaram o drama da Europa na* No original “Beauty mark’’ — sinal, pinta. 52

poleónica. Mas esse drama possibilitou a cena na qual os emissários que Jefferson enviou à França, com o único propósito de conseguir New Orleans e o direito de navegação no rio Mississipi, se viram de volta para casa a cambalear com todo o Território de Louisiana nas costas. Não foram nosso governo e nosso povo que encenaram o drama da Rússia leninista e stalinista. Mas essa Rússia tem sido a principal preocupação da América por, pelo menos, o passado quarto de século. Nossa própria história é atingida, e não pouco, pela história independente de outros. Não obstante, temos um estilo nacional, um sistema de motivos e esperanças próprios que predetermina, no fundamental, nossa resposta a nossas oportunidades e problemas. Meu argumento é que este sistema é hoje, basicamente, o que sempre foi; que nossa história é orgânica e tematicamente contínua; que apesar de nossa capacidade de elaboração e surpresa, temos contudo tido um, e apenas um, centro metabólico; e que se quisermos entender a Guerra Fria, temos antes que compreender esse centro. Em seu jornal Common Sense, de 10 de janeiro de 1776, escreveu Thomas Paine:
“Não está ao alcance da Grã-Bretanha fazer justiça a este continente; seus negócios em breve serão por demais pesados e intrincados para serem dirigidos, com um certo grau tolerável de conveniência, por uma potência tão distante de nós... Estar sempre a correr três ou quatro mil milhas com um informe ou uma petição, esperar quatro ou cinco meses por uma resposta, que, quando obtida, requer cinco ou seis meses a mais para explicá-la, será em poucos anos encarado como loucura e infantilidade... Tenho escutado asserções de alguns de que, como a América floresceu sob sua anterior conexão com a Grã-Bretanha, a mesma conexão é necessária para assegurar sua felicidade futura... Respondo seguramente que a América teria florescido tanto, e provavelmente mais, se nenhuma potência européia tivesse tomado conhecimento dela. O comércio pelo qual ela tem enriquecido são as necessidades da vida, e sempre haverá um mercado enquanto comer for o costume da Europa.13

Não se tratava simplesmente de que podíamos prosseguir sozinhos. Nossa relação colonial com a Grã-Bretanha mercantil punha um tal futuro promissor tão longe do alcance que, ou prosseguiríamos sozinhos, ou não o alcançaríamos de modo algum. A natureza exploradora do controle britânico tinha sido mascarada durante a Guerra Francesa e Indiana pelo influxo, para as colônias, do bom dinheiro de guerra e pela camaradagem
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de combate contra os então desprezados Gens de mauvaise Foy e, de forma também tão importante, contra aquelas tribos de pele vermelha, que continuamente se aliavam com quem quer que estivesse mais contra seus competidores caras-pálidas no comércio de peles. Porém, quer artesão ou homem de negócios, quer fazendeiro ou caçador, o pioneiro americano tinha sempre em mente a procura de oportunidade em direção ao oeste; e os obstáculos que os refreavam eram principalmente os colocados em seu caminho pela terra mãe. Quando os mercantilistas britânicos debateram a questão do desenvolvimento do Vale do Mississipi, por exemplo, uma importante ordem de argumentos era de que os colonos deviam ser vigiados muito cuidadosamente. O General Thomas Gage, Real Governador de Massachusetts, salientava que era do “interesse [da Grã-Bretanha] manter os colonos dentro dos limites da Costa Marítima o quanto pudermos; e constranger seu comércio tão longe quanto o possa ser feito com prudência. Cidades florescem e aumentam pelo comércio extensivo... e eles logo virão a produzir por si mesmos o que costumavam importar. Eu tenho visto este Incremento e asseguro a Vossa Alteza que se estabelecem em Philadelphia Fundações que devem provocar ciúme em um inglês”.14 A “guerra de libertação do povo” americano travou-se porque os colonos americanos queriam expandir-se pelo continente norte-americano e desenvolver sua riqueza por si mesmos, e, como um corolário, porque não mais podiam tolerar sua dívida para com a Inglaterra e as restrições que a mesma mais tarde lhes imporia. Não é acidental George Washington ter sido um dos mais ricos plantadores das colônias e um dos mais profundamente endividados com os interesses mercantis britânicos. Os radicais Paine, Sam Adams e Jefferson formularam poderosos argumentos referentes à liberdade nacional e escravidão nacional; mas foi o argumento mais prático sobre dinheiro e terra que conquistou para a Revolução o apoio decisivo dos precoces conservadores americanos. Essa foi a causa unificadora e dominadora. A presidência de Jefferson talvez tenha representado, a um tempo, a última oportunidade para a democracia agrária auto-refreada e o mergulho final em nossa própria forma de mercantilismo expansionista: a mesma Aquisição da Louisiana, que dobrou nosso espaço de crescimento continental e forneceu terra para uma nação de fazendeiros voltados para o interior, também tornou certo de que teríamos muito o que vender para o resto do mundo. Foi a terra dos proprietários de plantação que criou o mar dos capitães mercantes. A dinâmica da grande vaga de ressentimen54

to, convulsão, incerteza e decisão está muito clara nesta passagem do historiador Curtis P. Nettels:
“Se após 1763 o Império Britânico não lhes permitisse crescer e expandir-se, se não providenciasse uma solução do problema central da economia americana, os colonos teriam que tomar a si o direito e o poder de guiar seu desenvolvimento econômico. Considerariam necessário criar uma nova autoridade que encorajasse a navegação e o comércio americanos, tornasse possível o contínuo crescimento das indústrias manufatureiras domésticas. Portanto uma Outra consequência do mercantilismo inglês foi a Revolução Americana e a criação, depois disso, de um novo estado mercantilista deste lado do Atlântico.15

O idealismo de Jefferson tinha representado o único desafio forte àquele novo mercantilismo. A expansão física era necessária para obter novas terras para fazendas, mas ele queria que o país não buscasse territórios cuja proteção requeresse uma marinha. Marinhas (ele haveria de sentir o mesmo a respeito das forças aéreas) são dispendiosas demais — “uma perversa dissipação das energias de nossos concidadãos”16 — elas produziam burocracias propensas à política, e tendiam a se ligar muito intimamente com os interesses comerciais que as abasteciam. Isto é, como Eisenhower alguns 150 anos mais tarde, Jefferson temia o crescimento de um complexo militar-industrial. Porém seu idealismo democrático, talvez comprometido internamente com o que Alfred Beveridge chamaria sua “volúpia pela terra”, não era, em última análise, bom parceiro para sua imaginação prática: Jefferson entendia muito bem as necessidades de um povo agressivamente comercial e aqueles acontecimentos, na Europa, que pareciam justificar nosso desdém pelos intrigantes e falcões guerreiros do Velho Mundo, ao mesmo tempo que nosso comércio com eles nos estava tornando ricos. A posição internacionalista foi tomada uma vez e por todas. Certo, penetramos avidamente o continente em direção ao oeste, chacinando e defraudando índios como nunca nem Henrik Verwoerd ou Ian Smith chacinaram ou defraudaram os negros da África. Mas alcançamos aquela fronteira de cabeça erguida, olhar voltado sempre para nossas posições comerciais, primeiro na Europa e, não muito mais tarde, no Pacífico. A Guerra de 1812 não concretizou nossas grandiosas ambições concernentes ao Canadá, mas garantiu nosso acesso ao mar e nossas reivindicações às terras a oeste do Mississipi, comercialmente estratégico. Em 1819, John Quincy Adams afirmava que “os Estados Unidos e a América do Nor55

te são idênticos”. No mesmo ano, finalmente obtivemos êxito anexando a Flórida. Por volta da metade do século, tínhamos tomado um grande pedaço do México e das terras do Oregon e nos fizéramos senhores de toda a massa de terra. Na década de 1860, preparados para isto pelo compromisso de Missouri, pelos Atos de Kansas e Nebraska e pela guerra civil de Kansas, sofremos o nosso trauma nacional máximo ao pôr fim à disputa entre plantadores e industriais referente a como deveria ser desenvolvido o Oeste e, no fundo, quem iria dirigir o país. Expandimo-nos. Explodimos. A mesma energia que nos levou através de rios, pradarias e cadeias de montanhas também nos levou através dos oceanos. Nunca estivemos isolados e nunca fomos isolacionistas. Desde o começo, tivemos um Departamento de Estado e sempre estivemos diretamente interessados nas disputas de poder dos estados comerciais europeus. O tratado de John Jay de 1794, cuja concordância com os interesses navais britânicos tinha certas implicações neocolonialistas, representou uma contracorrente, que quase custou a George Washington sua reputação.* Foi um engano logo corrigido e que não seria repetido com frequência. Em 1823, a famosa doutrina de Monroe lançava a base de manobras para a hegemonia americana na América Latina. Três anos após, o Secretário de Estado Clay afirmava “um interesse vital na execução do trabalho” de fazer “um corte ou canal para fim de navegação em algum ponto do istmo que liga as duas Américas, para unir os oceanos Pacífico e Atlântico...”17 Em 1854, o Manifesto de Ostend, ressaltando que a “autopreservação é a primeira lei da natureza”, declarava que “Cuba é tão necessária para a República Norte-Americana como qualquer de seus membros atuais”, não meramente porque guardava “a saída natural e principal para os produtos desta população inteira, a estrada real de seu intercâmbio direto entre os estados do Atlântico e do Pacífico”, mas também porque havia um Perigo em movimento no Mundo. O Manifesto tornava este perigo claro, suas repercussões na ideologia atual tornam-no de interesse especial:
* Frank Monagham relata que “a ira dos republicanos era sem peia”. Sem esquecer “aquele maldito arqui-traidor, John Jay’’, cumulavam Washington de insultos como o homem que “tinha completado a destruição da liberdade americana”... Em Virgínia, foi brindada “uma rápida Morte para o General Washington”; em New York, a Proclamação do Dia de Ação de Graças do Governador Jay foi acusada, porque se aventurou a incluir a preservação “da valiosa e útil vida do Presidente dos Estados Unidos”, como um dos pontos merecedores de uma oração de graças...’’ (Em The Shaping of American Diplomacy, de Rand Mac Nally, Chicago, pág. 68.) 56

ser irrespeitosos para com nossos nobres antepassados. eles se sentem a ele ligados. ameaçando seriamente. provocaria a séria atenção do Governo e do povo dos Estados Unidos em quaisquer circunstâncias.. quando afinal chegamos a estouros com a Espanha no final do século. depois nos voltando contra os revolucionários de ambos os países.. O volume de comércio entre os Estados Unidos e Cuba. Foi um vento das pradarias que soprou aqueles veleiros ianques através do Pacífico. ou verdadeiramente consumindo. com todos seus horrores atinentes à raça branca... ano anterior à eclosão da atual insurreição. Nosso presente interesse pecuniário nele é só superado pelo do povo e Governo da Espanha.Nós devemos. ligação de nenhum modo de caráter inteiramente sentimental ou filantrópico. não tivemos tempo para parolagens pietistas. De fato. o Presidente Cleveland. embora talvez seja só porque podemos ver 1854 com mais clareza do que nosso próprio tempo. abertamente.. “comunizado” por “africanizado”. é que este “antiafricanismo” do Manifesto de Ostend é mais obviamente um pretexto do que o anticomunismo da Doutrina Truman. estávamos. subiu em 1893 para cerca de 103 000 000. minerações e outros negócios. ser desleais para com nossos deveres.18 Basta-nos ler “São Domingos” por “Cuba” e vice-versa. da economia cubana e nossa anexação de Porto Rico não eram diversos. Se há uma diferença importante entre então e agora. mas sim parte e parcela de nosso desenvolvimento interno. Em ambos os casos. Cuba e Filipinas. analisou a crise cubana em desenvolvimento da seguinte maneira: O espetáculo da ruína total de um país confiante. a limpa estrutura de nossa União. “antiimperialista” como era. que em 1889 montava a cerca de 64 000 000 de dólares. e “Mundo Livre” pelo menos eufemístico “raça branca” e teremos uma declaração que é não só contemporânea mas quase de última hora. o espectro de uma Ameaça invasora é usado como escudo moral para uma muito simples ambição de negócios. Uma estimativa razoável é de que pelo menos 30 000 000 a 50 000 000 de dólares de capital americano estão investidos na ilha. montava a aproximadamente 96 000 000. onde anexamos o 57 . obtido mediante guerra. Em dezembro de 1896. primeiro apoiando. no negócio de proteger negócios. e suportar as chamas se estenderem às nossas próprias praias vizinhas..19 O nosso controle. e cometer uma traição básica contra nossa posteridade. Porém. em plantações e ferrovias. devemos permitir que Cuba seja africanizada e se torne um segundo São Domingos. e em 1894.

todos eles bons e limpos puritanos bostonianos. e a American Asiatic Association.. mesmo até os portos da Velha Catai. banqueiros de New York e variados empreiteiros. praticada muito bem pela Grã-Bretanha (as províncias do Yang-Tse). Peabody. se preocupassem com o povo chinês. A primeira é que estávamos na China.20 (“Levai para longe vosso ópio e vossos missionários”. havia superentusiastas que já haviam solicitado a anexação de Formosa.Havaí e as Filipinas. escreve Foster Rhea Dulles. moleiros de New England. Não há necessidade aqui de debater o intento real das notas sobre livre comércio de John Hay. o algodão superara o ópio como nosso produto máximo de exportação para a China. Sturges. com a dominação do Levante Boxer por trás de nós. Cabot. A terceira é que a diplomacia de esfera-de-influência. se tivesse sido realmente executada por todos os estados europeus envolvidos na violação da China. É ainda concebível que os ingleses e americanos que se empenharam para concretizar uma situação de livre comércio. Kung. Perkins. como não o fariam de novo até seu final. contudo. inspirada pela necessidade de obter depósitos carboníferos para os novos navios a vapor na longa viagem para os portos chineses. em parte.) “Os americanos se voltavam para a Ásia na metade do século”. nossos capitalistas tinham feito penetrações formidáveis nas economias do Japão e Coréia.21 No início dos anos de 1900. É pelo menos concebível que. Alemanha 58 . ficamos com três difíceis realidades comerciais. e a expedição do Comodoro Perry para obter o livre ingresso no Japão foi. França (algumas das províncias sulistas). Chegamos quase a anexar as Ilhas do Havaí como uma estação na rota para a China. A segunda é que queríamos ali nos aprofundar. Aquele grande país permanecia a chave para os interesses expansionistas do período. uma combinação de intermediários sulistas. Pelos meados do décimo nono século. sempre singrando o que muito mais tarde o General McArthur iria chamar nosso “lago pacífico”. Deixando de lado tais especulações. disse o Ministro dos Assuntos Estrangeiros da China. se ligara à American-China Development Company para promover vigoroso apoio governamental à Política de Livre Comércio. a Política de Livre Comércio pudesse ter tornado o imperialismo ocidental mais tolerável para o povo chinês.. no mundo do Pacífico. “e sereis bem-vindos”. e dar os nomes daqueles cujo controle do monopólio turco do ópio tornou ricos é nomear a mais brilhante fieira de traficantes de drogas jamais vista: Astor.

(Shantung). em seus pontos essenciais. a bandeira do governo liberal está para flutuar sobre as Filipinas... enquanto os filhos da liberdade crescem em força. depósitos de carvão serão nossos.Para o bem de nossa supremacia comercial no Pacífico. A Política de Livre Comércio. até o menor de todos. que disse era 1895: Temos um recorde de conquista. . Cumulou-nos Deus com dádivas para além de nossos merecimentos e marcou-nos como o povo de seu especial favor. A América tinha se tornado o que chamamos uma Grande Potência Mundial e estava bem preparada para agir como tal. Havaí é nossa. Porto Rico está para tornar-se nosso pelas orações de seu povo.. colonização e expansão não igualado por nenhum povo no século XIX. Seu princípio profundo era que acontecia os negócios americanos encontrarem-se... Seu princípio exterior era que os negócios americanos poder-se-iam sustentar em qualquer competição limpa num mercado livre. no extremo limite do rol das concessões.. A Política de Livre Comércio — exatamente como acontece com nossa oposição de duplo critério ao “nacionalismo econômico” — era um meio politicamente oportuno para formular nosso objetivo expansionista asiático. no momento. cuja prosa é tão maravilhosa que não pode deixar de ser citada por inteiro (1898): Deve o povo americano continuar sua marcha para a supremacia comercial do mundo? Devem as instituições livres alargar seu reino bendito. até que o império de nossos princípios esteja estabelecido nos corações de toda humanidade? . mesmo às portas da Ásia. A Oposição nos diz que não devemos governar um povo sem seu 59 . Não estamos para ser refreados agora.. e Rússia (a península de Liaotung) deixou-nos inquietos no referente à nossa posição e sua extensão futura. nas ilhas do oriente. Beveridge. devemos controlar as ilhas do Havaí e manter nossa influência em Samoa. meramente admoestava os mercantilistas europeus para que abandonassem aqueles privilégios garantidos por canhões que acontecera não partilharmos. tão só para corrompermo -nos em nosso próprio egoísmo? . Não nos podemos surpreender em ter nossos campeões de um imperialismo claro.. Talvez um dos mais claros fosse o Senador Henry Cabot Lodge. e deve ser a bandeira que Taylor desfraldou no Texas e Frémont conduziu para a costa. Cuba finalmente será nossa. e mesmo ardente.22 Mais direto e brilhante do que Lodge foi o Senador Albert J.

consentimento. Governamos os indígenas sem o consentimento deles. a eletricidade nos aproxima — os próprios elementos fazem liga com nosso destino. declarava ante o National Council of Foreign Trade [Conselho Nacional de Comércio Exterior]. Woodrow Wilson: Uma vez que o comércio ignora fronteiras nacionais. nos mercados do mundo para conseguir nossa parte”. imagináramos ser o pobre mundo nossa ostra. você e eu. ele sublinhou: “Meu Departamento é vosso departamento. era a política oficial da América.24 Em maio de 1914. Embora nem ao menos uma vez tenhamos abandonado nossos interesses cruciais e sempre crescentes na Europa. Cuba não contígua! Porto Rico não contíguo! Havaí e a Filipinas não contíguos! Os oceanos os tornam contíguos.. o Secretário do Comércio de Wilson. aplica-se somente àqueles que são capazes de autodeterminação. Eu respondo: A regra de liberdade. em parte devido 60 . é significativa.. os ministros e os cônsules são todos vossos. segundo a qual todo governo justo deriva sua autoridade do consentimento dos governados. William Redfield. e os manufatureiros insistem em ter o mundo como mercado. de 1907.25 Redfield foi seguido na tribuna por um antigo membro da Liga Antiimperialista. Para o caso de não perceberem bem. O vapor nos aproxima. Distância e oceanos não são argumentos. Bem mais surpreendente — mesmo impressionante — é a passagem seguinte. “Porque somos fortes. escrita por um de nossos maiores estadistas liberais. É tarefa deles cuidar de vossos interesses e defender vossos direitos.23 Todas as nações e todos os movimentos produzem seus ferra-brases. Por muito tempo. o controle do desenvolvimento dos vastos e densamente povoados países não-desenvolvidos era visto de maneira constante como a chave de nossa própria realização plena — em parte por causa de suas riquezas em recursos naturais. os embaixadores.”26 A ênfase de Bryan sobre as portas dos países mais fracos.. que informou aos homens de negócios que “abrir as portas de todos os países mais fracos a uma invasão de capital e empresas americanas”. e as portas das nações que estão fechadas devem ser demolidas. Secretário de Estado William Jennings Bryan. E nossa Marinha os fará contíguos.. estamos entrando. a bandeira de sua nação precisa segui-lo. governamos nossos filhos sem o consentimento deles.

Uma era. a última grande fronteira foi conquistada. Europa e finalmente América. e chegamos a uma nova era da história do mundo. tanto quanto a história do próprio mundo. também. talvez. seu modelo global. era contada em nítido movimento de fronteira para o oeste. ao mesmo tempo. e o arquétipo do país pobre era. algum debate sobre qual o novo pioneiro que iria levar as boas novas à China.) Eram a América Latina. mesmo se a soberania de nações relutantes seja ultrajada no processo”.27 Assim. Descreveu como a fronteira do mundo moveu -se da China através da Ásia Central. não nas nossas.seu mercado potencial a longo termo. ou quando clama que “concessões obtidas por financistas devem ser salvaguardadas por ministros de estado. deu às nossas inclinações orientais uma fraseologia quase mística. Quando Wilson fala de pôr abaixo portas fechadas. já que o Japão exibia uma crença persistente de que a história estava em suas mãos. Julius Klein. A conclusão lógica dificilmente poderia faltar: Agora o círculo está completo. justamente porque eles eram mais adaptáveis à nossa vontade do que o eram os ricos estados industriais. o Norte da África e a Ásia que mais incendiavam a imaginação expansionista da América. cujo progresso copiou. em uma escala continental. A América. numa declaração política importante. chamada “A Tendência da Fronteira é Mover-se para Oeste”. Expôs que a história dos Estados Unidos. sem dúvida. (Devido 61 . a mais antiga e a mais nova área de comércio. que iria ver por longo tempo a abolição de fronteiras e a conquista de “selvagens” por “civilizados”? De forma alguma. (Não nos tornamos efetivamente anticolonialistas no referente a impérios de outros senão depois da II Guerra Mundial. Grécia. e em parte. ele por certo não está pensando na porta de um estado como a França ou na soberania de um estado como a Alemanha. é natural. durante a Administração Coolidge. Roma. a China. auxiliar principal. por exemplo. e mesmo embora alguns de nossos estadistas e homens de negócios tentassem arrumar um comissariado associado com ele. Houve. uma guerra do Pacífico teve afinal de ser travada para aclarar de vez estas ambiguidades do Destino. está encarando através do Pacífico o que é. sem dúvida. do Secretário de Comércio Hoover. com uma organização econômica e industrial que é o fruto de séculos de progresso mundial. aconteceu que a roda estava simplesmente em outra ciranda.

em 1962. foi entregue àquele famoso historiador. esta disputa permanece sem solução. poderá estar em posição invejável. é difícil deixar de especular: Precisa-se de serviços e materiais para realizar para o Exército um estudo de pesquisa intitulado “Pax Americana”. (c) uma variedade de configurações de poderio mundial. consistindo num estudo básico sobre o seguinte: (a) elementos de Poderio Nacional. manterem hegemonia mundial no futuro.) Através de tudo isso. os líderes americanos mantiveram sua opinião sobre a importância da retaguarda. os próprios chineses. Há fortes incentivos para firmas americanas apresentarem agora suas reivindicações nestes grandes mercados em potencial [dos países em desenvolvimento]. a longo prazo.28 A publicação do Departamento de Comércio dos Estados Unidos. É uma condição dinâmica que descreve nossa carreira nacional melhor do que qualquer outro 62 . incidentalmente (no montante de 89 000 dólares — barato para hegemonia mundial).UU. para ser usada como uma base para os EE. O expansionismo da América não é debatível. à National Business Advisory Council [Junta Conselheira dos Negócios Nacionais] é típica do estilo burocrático menos colorido. no qual a opinião tradicional é agora expressa: Os negócios [americanos] devem expandir seu atual papel importante na economia mundial. estão sendo criadas oportunidades de negócios. A seguinte passagem da fala do Secretário de Estado Dean Rusk.a chegada de um terceiro candidato. lá estão as oportunidades. cuja perícia empresarial. (b) habilidade de nações selecionadas em aplicar os elementos de Poderio Nacional. Lá estão os riscos... apresenta anúncios de contratos governamentais que estão abertos para licitação do “setor privado”. a Douglas Aircraft Company. O contrato. argúcia política e cuja contribuição para o desenvolvimento ganhem a confiança de uma nação em desenvolvimento. Trataremos disto melhor no capítulo IV. porém. Pode ser que não haja absolutamente ligação entre a atitude exemplificada pela declaração de Rusk e a exemplificada no anúncio que se segue. aparecido no Business Daily. Commerce Business Daily. Lucros futuros irão para as firmas que se mostram hoje empreendedoras e previdentes. O dinamismo que tem sido central no desenvolvimento dos Estados Unidos deve agora ser empregado em escala global. Uma firma americana. Enquanto as nações se desenvolvem. As nações em desenvolvimento representam um desafio clássico à empresa privada americana. de 29 de abril de 1965.

estáse processando em colisão com dois desenvolvimentos relacionados: a burocratização incorporada do empresário e a privatização virtual do assim chamado setor público. que permanecerão de certa forma em risco até que sua prática seja universal. para ser mais concreto a respeito. Podemos gozar todos os nossos direitos de pessoa só porque nosso sistema de livre empresa garante nossos direitos de propriedade — e portanto nosso direito de explorar a propriedade para fins comerciais. significa fazê-lo seguro para o capitalismo — e. fazê-lo seguro para nossos próprios capitalistas incorporados. quando provém da ação pública. mostrar que liberdade pessoal e liberdade econômica são interdependentes. Já que liberdade econômica é a liberdade 63 . Precisamos examinar isso. não são de nenhum modo um povo “possuidor de propriedades”. e de outro. E esta liberdade econômica. Esta teoria produziu as mais calmantes devoções sociais que o mundo conhece. Porém. Não é dissimulado. e que qualquer decréscimo de liberdade econômica. Todas essas exortações a respeito da necessidade de difundir o Modo Americano de Vida não são de nenhum modo gracejos — são exortações verdadeiras. Muito raramente este tipo de raciocínio faz um esforço para levar em conta decréscimos de liberdade econômica (ou as perdas de propriedade) que provêm da ação privada. mas tão só de fazer a tradução óbvia. nossos princípios de negócio. é celebrado. ultrapassando mesmo o marxismo de clube juvenil em sua habilidade de tornar lugar comum o irreal. mais ou menos explicitamente. Visto que estando o mundo seguro para nossos capitalistas incorporados a democracia política também está segura. claro é simplesmente a liberdade de os homens de negócio americanos expandirem suas operações comerciais. as que resultam dos impulsos monopolistas-corporativos de um capitalismo que há muito tempo escapuliu-se dos velhos e frágeis grilhões públicos.termo singular. De um lado. ainda permanece para nós um tema do cerimonial mais alto dizer que temos liberdade pessoal porque temos liberdade econômica. Porém. Os filósofos do capitalismo democrático tentaram. o individualismo do qual temos sido tão orgulhosos — têm sido vistos pertinentemente como virtudes justificadas pelo oposto. não é muito difícil entender esta omissão. necessariamente resulta em decréscimo da liberdade pessoal. aquelas liberdades — as liberdades e direitos civis. e vêm de uma cultura que realmente pensa que sua sobrevivência requer mais e mais conversos. Não se trata de ser cínico. observar que a fórmula sobre “fazer o mundo seguro para a democracia” na realidade. De momento. isto é. Americanos modernos.

o que é bom para a América é bom para o mundo.de expandir atividades de negócios. que se coloca sob a abundância notória do mundo do Atlântico Norte. o escravo tem submetido seu senhor. sem desesperar. a ser dita sobre o capitalismo corporativo é que ele planejou relacionar-se. vendo alojamentos. qualquer expansão de negócios realizada é simplesmente a materialização concreta da liberdade econômica expandida. Intelectuais de negócio contemporâneos podem fornecer justificativas sem fim para a marcha expansionista de nosso sistema: democratizamos o mundo. e a conquistar aos empurrões uma posição. deste ponto de vista pelo menos. ele subverteu e traiu essa revolução. e se alguma liberdade é bom. Porque quando os negócios têm submetido o governo. Todos os argumentos sobre cultura. infestados de ratos em todas 64 . um dia. ser trocadas por outras (tal como barrar o comunismo). o que é bom para a General Motors é bom para a América. provavelmente. Como pode a liberdade ser negação de liberdade? Como pode a liberdade vir da escravidão? Um crítico aponta o conluio dos altos negócios e governo. estradas de alta velocidade. modernizamos o que está em atraso. quando os grandes homens de negócio são livres. curamos o doente. e possivelmente arrasadora. De maneira importante. Porém a implicação disso se perde nos altos negócios. arranha-céus. se necessário. ele pode de fato apontar a virtual identidade deles. com aquela revolução tecnológica bem independente e a longo prazo. Pedir ao membro da corporação que imagine que seu monopólio recentemente conquistado na verdade limita a liberdade econômica. A melhor coisa. a ambicionar o aparelho de TV colorida. Levantar uma dúvida sobre a habilidade exclusiva do capitalismo corporativo em fazer o povo mais livre e dar-lhe melhor vida não é levantar uma dúvida na mente capitalista sobre a mais primitiva virtude de seu sistema: que é simplesmente ser ele o seu sistema. ensinamos o nativo iletrado a admirar as obras de Doris Day. subúrbios e guetos para Dar es Salaam. então uma cresce quando a outra cresce. que ele o liberta. que (caso o admitam) só vêem neste conluio uma vitória da liberdade. bem igual a Chicago. todos são livres. ou pedir-lhe que se submeta a controles sob a razão de que eles aumentam a liberdade. então mais liberdade é melhor. Se as duas são de fato interdependentes. é pedir-lhe que enlouqueça. Que nossos astronautas olhem para baixo. de uma maneira nem sempre destrutiva. é estável. e. e portanto da liberdade pessoal expandida. Mas todas estas virtudes parecem incidentais. liberdade e os direitos do homem parecem ser nada mais do que posições táticas que podem sempre.

e mais ainda neo-Smithianos.) Após estar sendo reformado todos esses anos. representar alguma vantagem social. deve agora ser esclarecido de que o capitalismo tornou possível o progresso tecnológico. e (para generalizar o precedente) simplesmente que o capitalismo não foi capaz de conceber. tão convincentemente como sempre. (Muita “competição” agora é dentro de corporações. e uma vez que seu racionalismo intrínseco pode. Deformada e desperdiçada como é. e menos ainda institucionalizar. Então produziu. o que glorifica o capitalismo como o modernizador do mundo? Não há como ser enganado sobre isso. ele trabalha horas demais por dia e anos demais de sua vida para alcançar um poder aquisitivo pequeno demais.as nossas famosas cidades modernas. por sinal. o sistema de capitalismo “moderno” ainda prova. dispersou-se em cápsulas espaciais. Produz ele liberdade pessoal? Por muito tempo. os fatos decisivos sobre o ato de competição de livre empresa são que alguém ganha e alguém perde. que ganhadores tendem a permanecer ganhando e perdedores a permanecer perdendo. e boa parte dela é não-produtiva. O ponto a destacar é que as duas defesas sociais mais celebradas do moderno capitalismo ocidental são dúbias. Foi esta tecnologia revolucionadora do trabalho. O crescimento do estado capitalista resultou daquela chuva científica que chamamos a revolução tecnológica. Para alguns marxistas. que o trabalho teve de se bater ferozmente para partilhar. liberdade econômica? Em comparação com outros o trabalhador americano está em bela condição financeira. Porém isto é enganador e 65 . basicamente. de que o poder financeiro (e portanto político) infalivelmente se condensa em torno de grupos exclusivos de elite cujos interesses são crescentemente coordenados. aquelas observações muito de antanho. que produziu abundância — uma abundância. Porém o que dizer daquele outro título máximo. sua chegada pode ser mais prenhe de mudanças do que agora o imaginam certas casas de investimento da livre empresa. de que riqueza e pobreza se engendram. foi pelo contrário famoso por não produzir nem mesmo um cenário no qual a liberdade pessoal pudesse ter um significado. ela alcançou o mundo. dentro da praça de mercado. induzindo a ciência ao serviço da burocracia das finanças. e de que é preciso uma para fazer a outra. pelo menos. em comparação com a abundância que ele produz. as formas pelas quais o ato competitivo básico e livremente iniciado possa ser renovado de maneira contínua. reflete um desarranjo social por demais imenso para o entendimento do cérebro comum. contudo. em nosso tempo. barbatanas de cauda e espalhadores de creme de barbear. A ciência. E do outro lado da medalha. porém.

Este excedente era. Como veremos. evidentemente. não o outro ponto em torno. O clero das finanças foi obrigado.paralelo ao assunto. e que o problema de produção excedente tem sido. pretendendo ser analítica. diferente dos monopólios da era dos Alegres Noventa. O que seria levantado em 1917 como uma firme conjetura pode ser hoje afirmado. quando as necessidades têm sido menos satisfeitas. Quando os frutos apodrecem nas árvores e homens desempregados andam famintos. algo está errado com o sistema de repartição de recursos e distribuição de riqueza. há o fato embaraçoso de que o capitalismo não parece saber ainda com exatidão como lutar contra esta abundância que supostamente inventou. e seus apologistas talvez estejam certos em proclamar que alguns dos temores originais de gi66 . a enfrentar o conceito realmente surpreendente de “produto excedente”. A ciência produz e mobiliza riqueza. em oposição a estes ventos tão contrários. cinquenta anos mais tarde. de fato. a solução deste problema doméstico tornou-se uma tarefa primária da política externa americana. A enorme e crescente corporação é. e “técnica de vendas” — práticas que são. a saber. esse incremento de riqueza útil. o mundo do Atlântico Norte considera tão desagradável a respeito das revoluções russa e chinesa. Que isto esteja agora provado é o que. aparentemente. para os quais foi dirigido o Sherman Act. em conformidade. É uma afirmação puramente histórica. nada senão um furto que ameaçava a todos destruir. e a ciência é ideologicamente cega. Parece que o homem e a máquina produziram demais. Por enquanto. como uma verdade demonstrada. que é calculadamente afastado do mercado através do sistema de patentes e práticas tais como obsoletismo planejado. Relacionado com o problema do produto excedente temos o problema do excedente tecnológico. quedas de preço intencionais. que a revolução tecnológica se propagará indiscriminadamente através de qualquer sistema suficientemente coerente de comunicações sociais. Além disto. é claro. mais agudo. peculiares do Ocidente e das quais o Ocidente precisa se envergonhar. na aparência. roubados e ladrões do mesmo modo (um ponto da maior importância a que voltaremos mais tarde). observamos somente que não podia haver propriamente excedente até estarem satisfeitas as necessidades. surge uma versão deste mesmo argumento de capitalismo-para-o-progresso que está sendo apresentado correntemente em defesa da moderna corporação americana (com frequência multinacional). Porém. riqueza bruta e força de trabalho. ou progresso material.

que alguns socialistas. é bom notar. Mas o que certamente é mau. Porém.gantismo são agora deslocados. medida em dinheiro.” Além de empunhar machados e auferir lucros. eles não tinham meio de conhecer um louco. e não seria preciso destrui-la para assegurar que tais crimes não sejam cometidos.* Os velhos truques de fixar preços. 67 . Isto não é socialmente racional. de provocar ou absorver mudanças e de injetálas na economia. temos uma sociedade industrial que é tão perturbada. Gigantismo pode não ser a mesma coisa que ruindade. há muitas outras e melhores medidas de valor. simplesmente porque uma movimentação mais global de recursos é mais racional — ponto. A corporação existe. A observação de Robert Frost sobre os dois vagabundos vem-nos à mente: “A menos que um homem pudesse empunhar um machado. porque os valores de troca no mercado abundante tornou lucrativas uma flexibilidade. então nossa prodigiosa riqueza nacional teria. desde que a corporação é o repositório principal de nossa riqueza nacional. A grande corporação. e muito mais para ser censurada por suas “cidades internas” do que admirada por seus aeroportos. Porém. É uma espécie de vodu. Se esta nova criatura de nosso sistema capitalista pudesse realmente inovar. horizontais e conglomerados (havia 2 100 em 1965). é o único critério básico pelo qual ela avalia o desempenho deles. * Os escândalos das indústrias farmacêuticas e eletrônicas são famosos. limitar a produção e conspirar para distribuir mercados não foram exatamente esquecidos. e porque ela está condenada a considerar sua administração dessa riqueza como boa ou má. Sua rentabilidade. e mais ainda fascistas. O negócio da GM não é carros mas sim lucros. enganar o consumidor. desde muito. uma habilidade de reencaminhar recursos que as pequenas firmas de produto determinado não parecem ser capazes de exibir. vinham pondo em prática há longo tempo. O que pode ser bom na grande corporação é sua habilidade de inovar. no referente à grande corporação. não é para cometer tais pecados que a corporação passa a existir. existem porque a promiscuidade do mercado abundante (“hiper-elasticidade de demanda”) pode ser estimulada e controlada somente através de uma diversidade técnica por demais dispendiosa para pequenas firmas. é que seu imenso poder inovativo é mutilado por lhe ser fundamental consagrar-se a obter proveitos financeiros. quanto atraída. é por certo capaz de cometer os velhos pecados usuais dos trustes. pelos resultados prováveis da cibernetização. na dependência do montante de lucro que auferir. em geral. formada por meio de fusões verticais. existem.

mesmo quando esses hospedeiros não estão eles próprios disso convencidos. Não nos expandimos por nenhuma destas razões. dentro de nossas próprias fronteiras. porém porque nossos homens de negócio o quiseram. e talvez mesmo melhores. Se a gerência de nossos recursos fosse realmente integrada e realmente racional. Expandimo-nos para modernizar o mundo? Nossos antecedentes domésticos não nos levam à conclusão de que o podemos. de modo tão firme quanto nossos 68 . Voltaremos a isso no trecho que se segue. consideramos nosso sistema econômico-político como sendo a única esperança do mundo. nosso sistema é um bom sistema. Temos justificado nossa presença em amplitude mundial encarando-a como um favor a nossos hospedeiros. outros sistemas são pelo menos tão capazes de conduzir progresso tecnológico quanto o nosso. Quiséramos saber que promessas podemos esperar que este sistema cumpra. o argumento é claramente errado (veja a América Latina). em termos de uma ideologia claramente imperialista. que arde em chamas. desprezamos o fato de que nos mostramos — sejamos generosos — inábeis para desenvolver o mundo em atraso. ao dar a esse progresso uma orientação mais atraentemente social. Agora queremos perguntar: Por que expansão? Algumas vezes — mais marcadamente no período de 1895 a 1905 — explicamos nossas expedições. mas a qualidade da vida social. cujas realizações são aquilatadas principalmente por contadores. Sabemos que nosso sistema é expansionista. Este exame do capitalismo americano não é gratuito.erradicado a pobreza e o sem número de males sociais que a pobreza produz. tanto comerciais como militares. Nosso sistema pode. e nos expandimos pelo mundo. com uma imodéstia mais ou menos dissimulada. continuamos a nos desonrar com esta inventividade estouvada. Temos dito. então a medida de nosso desempenho empresarial não seria a eficiência financeira. em aflição e amargura. E durante todo o tempo em que falamos de forma tão audaciosa sobre nossos planos para desenvolver o mundo em atraso. ser bom: O precedente deve ter indicado pelo menos porque é saudável entreter certas dúvidas: Expandimo-nos para tornar os homens livres? Se isso quer significar uma versão liberatória da liberdade pessoal. ou não. registradas principalmente por guarda-livros e comemoradas principalmente na nostalgia dos vendedores. porque outros devem ter a ocasião de compartilhar de sua bondade. como tantos cristãos. Como tal não acontece. Se se pensa numa versão capitalista de liberdade econômica. o argumento é circular e tomou-se por verdadeiro o ainda não provado. Mais frequentemente.

como estabilizar em um nível elevado de emprego e consumo. o Grande Levante de 1877. em 1892. O Senador William Frye expôs o problema. Era da natureza do sistema econômico americano produzir mais bens do que podiam ser vendidos aos americanos — ele produzia. para a possibilidade desta violência. fervilhava a penosa competição de esfera de influência com as potências européias. já tínhamos uma apreciável parte do mercado da China. perturbações econômicas e sociais: de que maneira fugir ao ciclo valorização acelerada-depressão. E mais importante ainda. como resolver o pro69 . em primeiro plano. era fundamental a importuna inabilidade da América em resolver. disse. de algum modo. Mas isto não era só derrotista. Pittsburgh. as duas depressões que ultrapassaram a violência maciça da Guerra Civil. de Martinsburg. O que podia ser feito? Uma alternativa óbvia seria reduzir a produção. “ou teremos revolução”. assim dizia. com nobre simplicidade. em 1846. em mãos dos rebeldes. Por uma razão. Estes bens excedentes dificilmente podiam ficar a apodrecer nos armazéns. pelo menos ao primeiro relance. para reprimir os trabalhadores irlandeses grevistas de New York. também a história sangrenta da América do século XIX — história que deve ter estado muito presente na mente do Senador. em 1895: “Precisamos ter o mercado da China”. Aflição econômica e violência consciente de classe nunca foram desconhecidas na América. quando se viu soldados passarem para o lado dos trabalhadores ferroviários e a queda virtual. o Motim de Haymarket. era suicida. No fundo da consciência política da América estavam o uso de tropas. de seu ponto de vista. Não era tolice pensar que mais e maior violência podia vir. Reduções conduziriam ao desemprego. o Pânico de 1893 e a subsequente depressão. O raciocínio não podia ser mais simples.estadistas acreditaram que tínhamos de fazê-lo. e precisamente quando a vantagem de maior penetração ganhava adeptos entre nossos homens de negócio. nossas exportações cresciam. em 1886. a Greve de Homestead. Mas Frye expressou sua opinião de maneira tão brutal porque.29 Esta idéia pode hoje parecer divertida. Reading. mas indispensável à sobrevivência. Porém não seria risível àquele tempo. com constância. quando fez sua sombria predição. Não seria ingênuo afirmar que. desemprego ao ressentimento das massas. e o massacre de Chicago. que surgiu da Greve de Pullman em 1894. este comércio não era apenas bom. Era o que contava a história sangrenta da Europa da metade do século. e ressentimento das massas à luta de classes. revolução. E muito. excedentes.

a fim de ter acesso. nossa moralidade de negócio. em cuja primeira parte tínhamos pedido emprestado e comprado no exterior mais do que vendêramos. Um livre empresário americano poderia. naqueles dias. e que também tentou livrar-se de seus problemas econômico-sociais pela exportação de seu produto industrial excedente. resolvido por meio da redistribuição do poder econômico. O socialismo era ofensivo às ventas dos deuses. nossa experiência de fronteira. durante o século precedente. Como poderia ser diferente em se tratando de um povo ilhéu? Um povo ilhéu. como a descrição modelo o fez) em uma nação credora. uma heresia contra aqueles direitos divinos de possuir e explorar propriedade. porém genuína. Mas aqui.blema de concentração de poder nas mãos de um grupo de homens que. a fim de não ter revolução. não revolução. a solução final. perturbada. sendo o problema artificial. Porém certas condições teriam que ser encontradas antes de esse sonho se tornar verdadeiro. e acesso aos mercados externos. é claro. se torna cada vez menor — os senhores dos trustes — e de que modo fazer estas coisas sem mudar fundamentalmente a natureza do próprio sistema. Tudo na experiência daqueles que tomavam as decisões apontava para os oceanos como a saída. sucedeu que ela punha ante seus juizes a solicitação de que se condenassem a si próprios: algo que juiz algum jamais fez. Estávamos desfazendo aos poucos a dívida que acumuláramos na Europa. de fato. cujas origens estão principalmente em outra ilha. produção elevada e acesso. havia outra solução: vender maior quantidade de mercadorias no exterior. que não estávamos nem a um quarto de século da guerra mundial que nos transformaria por fim (quase numa noite. do excedente. ter topado Marx e caído morto do choque de auto-reconhecimento. Dadas nossas origens. Cada uma dessas condições eram diretamente interligadas e se reforçavam. Talvez essa proposta estivesse muito bem para algum outro cosmos. uma que também navegou. Tornáramo-nos os primeiros manufatureiros do mundo. a fim de ter produção elevada. Porém já estava claro que ser credora fazia parte dos planos. A resposta que os socialistas apresentavam era controle popular da riqueza da nação. esta era uma formulação invencível. Queríamos ter produção elevada. com constância. Pela década de 1890. Além disso. também levou em conta o Continente. nos estabelecêramos como nação exportadora e tínhamos dado início a uma economia de mercado. Assim devíamos ter produção elevada e não revolução. e acesso e não revolução. Ninguém podia antever. sobre os quais estava baseada nossa república. Tirava só um 70 .

multiplicou-se e adquiriu toda a força que teve.31 Por que remexer nestes velhos ossos? Porque estes velhos ossos estão em nossa carne nacional. e que sua raiva era socialmente explosiva. É claro que havia reformadores.25 dólares por mil pés de gás. o afrouxamento da servidão do trabalho sempre tinha de ser forçado. por muito tempo. Na passagem do século. homens da classe média nas ruas. Porém. que ele tinha comprado por trinta e três centavos. e de que a construção de marinhas. tal como aquele cavalheiro cristão George Pullman protegeu e cuidou de seus trabalhadores. radicais. 2. O Maine tinha sido lançado em 1890. de que mais comércio marítimo precisaria de uma marinha maior. apesar do que pensara Jefferson. o New York em 1891. em uma luta muito amarga. onde se colocava o Poder. Porém lá em cima e no centro da cidade. ou negada. quando raciocinamos. a atitude típica era a de George Baer. é tão só porque uma boa quantidade de homens morreu. lembrado e aplicado de maneira inflexível.30 Protegidos e cuidados. que se expressou da forma seguinte sobre a greve dos trabalhadores da mina em 1902: Os direitos e interesses do homem trabalhador serão protegidos e cuidados — não pelos agitadores trabalhistas. liberais. anarquistas. quer interna ou externa: Os grandes homens de negócio americanos e seus as71 . compreendido. não haveria oportunidade para nem mesmo uma resposta nominalmente liberal-reformista. a injustiça realmente elementar do comportamento do grande capital era sempre protegida. sobre política americana. proprietária de minas. para fazê-las diferentes. o Oregon em 1893. Tem de ser aceito. revolucionários. vivendo na cidade “modelo” de sua companhia. era boa para os negócios. Os populistas nunca teriam oportunidade contra esse tipo de poder de fogo. pagavam-lhe dez centavos por mil galões de água. claros mesmo então. porém pelos cavalheiros cristãos a quem Deus deu o controle dos direitos de propriedade do país. as propostas mais moderadamente progressistas eram sempre atacadas.encanto a mais dos fatos. presidente da Philadelphia and Reading Railroad. Foi nas ruas que nasceu o progressismo americano. Se as coisas estão bastante diferentes entre nós agora. deve-se supor. o Olympia em 1892. pelos quais ele pagara quatro centavos. que recebiam de quatro a dezesseis centavos por hora. não podia deixar de ser claro para ninguém que o povo americano tinha boas razões para estar zangado. e que. em nosso país. Na verdade. Este é um fato político decisivo.

fazendeiros americanos têm tanto direito como os da Alemanha ou França ou Rússia ou Inglaterra. Há mais trabalhadores do que trabalho para eles fazerem.Em cada setor * Em 1938.. caracteristicamente. com tais idéias. Tal como Beveridge. Tacher testemunhou. razões e razões. Pois os conflitos do futuro deverão ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência.. as Ladrones outra. Porém. senão abertamente cristã. é claro. Manila. e em termos de outros Eldorados — ou quem sabe deveríamos dizer outras Fontes da Juventude. ante um subcomitê do Comitê do Senado para Relações Exteriores.. O. cujas portas não devem ser fechadas ao comércio americano. Por exemplo. fazendo mais do que podemos usar. estamos produzindo mais do que podemos consumir.. 5 por cento de nossas importações de matérias-primas vinham da Ásia 72 . S. no teor que se segue.. Mas.. uma viagem mais adiante. o grosso do comércio oriental será nosso. Portanto precisamos achar novos mercados para nossa produção. E a regra de ouro da paz é a inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. e que algumas certezas eram mais certas que outras. como Beveridge também. manufatureiros. eles sempre tentaram dar ao nosso espansionismo um halo de cruzada humanitária. . a não ser o profeta e o Saxão que existiam dentro deles.32* Já se tratara anteriormente do assunto. não se abstêm de explorar o que quer que não lhes tenha sido proibido explorar por qualquer outro poder. Ásia. outra. Qualquer outra visão de nossos “líderes” é uma alucinação sentimentalóide que leva muito pouco em conta aquela “dureza” pela qual eles tanto estimam a si próprios. em abril de 1886 (apenas poucos dias antes do Motim de Haymarket): A visão industrial de nossa terra não é por completo cor-de-rosa. às portas da Ásia — Ásia. Ainda Beveridge: Não havia motivo para a volúpia pela terra de nossos estadistas.. que estavam para difundir no exterior aquelas “instituições livres” que o Senador Beveridge saudava com tanto orgulho em 1898. Assim o Havaí nos fornece uma base naval no coração do Pacífico. sabiam muito bem que havia argumentos e argumentos. Dentro de cinco décadas. Devemos ter permanentemente em conta de que eram tais homens.sociados nos departamentos de Comércio e Estado. a cujo comércio centenas de milhares de mercadores. de Jefferson e Grant. hoje. A supremacia comercial desta República significa que esta Nação está para ser o fator soberano na paz do mundo..

os projetos financiados pelo governo não eram considerados como mudança estrutural. proclamou uma importante variação do tema principal: “Devemos financiar nossas exportações emprestando aos estrangeiros o dinheiro necessário para pagá-las. Roosevelt.da vida industrial há produção além do consumo. por Theodore C. No total. presidente da Associação Nacional de Manufatureiros: “Muitos de nossos manufatureiros ultrapassaram seus mercados internos. Nossos mercados internos não mais são suficientes. Precisamos de mercados externos.”36 Nesse mesmo ano. Search. em 1928: “Precisamos achar um mercado lucrativo para nossos excedentes. de uma vez. os menos desenvolvidos). uma tentativa de revigorá-la de dentro. O “New Deal” parece ser encarado agora como uma tentativa de aplicar estímulos internos à economia. As nações da América Central e do Sul. em 1912: “Nossas indústrias se expandiram a tal ponto que estourarão se não pudermos achar uma livre passagem para os mercados do mundo.. paz e tranquilidade futuros dependem de encontrar mais consumidores para o que temos para vender. nada mais constante em nossa política externa. Franklin D. A reconstrução do 73 ..”34 Woodrow Wilson durante sua campanha para a Presidência. teares. tapa-buraco.... nosso progresso. do que esta convicção de que o problema básico do sistema de negócios americano é a riqueza domesticamente indistribuível.”37 Talvez em parte por não ter sido levado em conta tal aviso. um renomado advogado de Washington e amigo do Leste Longínquo. a essencial e única anodina. como nunca antes.. precise e esteja querendo tirar de nossas fazendas. John Foster Dulles. eram meramente conserto estrutural. Em vão. como também são o único campo existente. não só oferecem os mais lucrativos mercados para onde encaminhar nossa produção excessiva. voltamos os olhos para qualquer outra parte do mundo em busca de um povo que. está em nossa penetração de mercados externos — mais especialmente os mercados daquelas terras que agora classificamos como países subdesenvolvidos (ou segundo o novo eufemismo do Departamento de Estado. mesmo para o “New Deal”. e a expansão de nosso comércio exterior é sua única promessa de alívio. e de que a solução básica para esse problema. Vejamos só como a mesma fala é feita sempre e sempre: em 1897. forjas e poços de óleos minerais [aquilo] que somos capazes de produzir e dispensar.33 Nada mais comum em nossa mentalidade econômica. vieram dias negros para a América — e com eles. Porém.”35 O Presidente Herbert Hoover. marginal ou temporário — até a revivificação do comércio exterior do país dramaticamente deprimido.

e destas espalharia os danos por todo nosso país. Sem os rendimentos das vendas destes excedentes. O fracasso em vender estes excedentes no exterior significariam desastre inevitável para grandes setores agrícolas de nosso país. sofrimento e miséria humana. e redução na produção mundial significa.” O tom de Sayre revela muito bem a intensidade dos sentimentos do “New Deal” sobre o comércio exterior: O que significa realmente este decréscimo no comércio americano para a vida de nossos fazendeiros e manufatureiros? Embora seja verdade que os Estados Unidos normalmente exportam só cerca de um décimo de sua produção total. sofrimento e miséria humana. Em 1935 ele disse: Os mercados externos devem ser reconquistados. e a vida cultural de setores inteiros do país golpeada. em 1929 para 1. Sayre pôs a claro a sombria significação deste declínio: “Lembrem-se disto: Redução no comércio mundial significa redução na produção mundial. para sua existência continuada. As exportações americanas haviam caído de mais de 5 bilhões de dólares. os valores imóveis cairão abruptamente. dependem de uma exportação muito acima de um décimo. certos produtos básicos regionais.“New Deal” girou em torno do liberalizante Ato de Acordos de Comércio de 1934 (e. caso os produtores americanos se disponham a reconstruir uma economia interna plena e duradoura para nosso povo.. [Ênfase incluída.” Ninguém mais do que o próprio Roosevelt poderia ter concordado em que as coisas estavam más e que a única resposta era mais comércio exterior. o Secretário de Estado Adjunto Francis B. de março de 1934. à vida dos negócios de cada cidade e vila nas áreas produtoras.. através da diminuição da capacidade aquisitiva. Transmitir-se-ia. sem apelação. contudo. é claro.. as rendas dos impostos deverão ser diminuídas.. reajustamentos sociais e desemprego. e o resultado inevitável é desemprego. em 1933. desemprego. os bancos ameaçados.]39 74 . se não permanentemente prejudicada. Não há outro caminho.6 bilhões de dólares. Suprima-se estes mercados externos. anulação do protecionista Smoot-Hawley Tariffs) como um meio de restaurar a capacidade da Europa para comprar-nos o que queríamos vender-lhe.38 A linguagem dificilmente poderia ter sido mais acabrunhantemente apocalíptica — tudo para o ouvido de gente que já conhecia muito bem “desemprego. Tal miséria e desastre econômico não ficariam confinados aos próprios produtores. se quisermos evitar dolorosos desacertos econômicos. Num discurso radiofônico.

somente acrescentou mais força e outras dimensões à convicção já forte. e proclamou que nossa expansão para os países pobres representava nossa “ilimitada nova fronteira de oportunidades. Os Estados Unidos têm energia criadora ilimitada. avanço tecnológico.”41 Há virtualmente um consenso universal inviolado sobre este ponto. a acumulação de imensas reservas de capital). Já destacamos a declaração do Secretário de Estado Byrnes. em 1944. perante o Comitê Especial do Congresso sobre Política Econômica e Planejamento de após-guerra. mas não suprimiu. como os dez anos do final da década de vinte e início da de trinta. “As velhas fronteiras devem ser refeitas”. depondo. reabrir as velhas saídas e buscar novas para nossa produção excedente.” Acheson então detalhava: Não temos um problema de produção.. Não podemos atravessar outros dez anos. Podemos debater por um bom espaço de tempo que neste país. em tempo de paz. de que a América não podia sobreviver sem o que bem pode ser chamado de colônias comerciais. O importante é mercados. a urgência desta necessidade. argumentou que se a América do após-guerra devesse cair de novo na depressão da anteguerra. tal como a I Guerra Mundial... mas também usamos nossa força econômica contra o necessitado aliado britânico. O crescimento que ela estimulou nos negócios americanos (expansão industrial e agrícola. Aceito que 75 . ele disse. e então intensificou. de que um objetivo importante de após-guerra era “a manutenção da porta aberta nos Bálcãs.”42 O Secretário de Estado Adjunto Dean Acheson.”40 Não só pedimos e conseguimos livre acesso às colônias do Eixo. sustentada por toda parte. Byrnes completou o argumento já conhecido com tal objetivo: “Os Estados Unidos não podem alcançar e manter o alto nível de emprego que estabelecemos como nosso alvo a menos que as vias de escoamento [externas] para nossa produção sejam maiores do que jamais tenham sido antes. se poderia usar toda a produção do país nos Estados Unidos. ao mesmo tempo. sem ter consequências do mais longo alcance sobre nosso sistema econômico e social. para abrir à força a porta para as suas colônias. que acabou rompendo com Truman devido a questão de nossa política de após-guerra referente à Rússia.” Mais tarde. por um período muito difícil. Já em 1940 Cordell Hull tornou claro que nosso “objetivo primário é.A guerra adiou.. sob um sistema diferente... “parece claro que nela permaneceremos. na qualidade de Secretário de Estado de Truman. Mesmo o Secretário do Comércio Henry Wallace. não duvidava que “a empresa privada nos Estados Unidos só pode sobreviver se se expandir e crescer”.

corretamente controlado. então todos os argumentos pecam pela base. basicamente. Em relação a isto. maior seu excedente. e corre. maior é sua necessidade de um mercado externo. nós desembolsamos no exterior. garantido por nossa exigência de que outros “multilateralizem” suas contas comerciais.43 Reduzamos tudo isto a seus elementos. recriar o problema original? Na escala mais primitiva. assim. Portanto. Numa escala mais civilizada. Quanto maior seu mercado externo. isto é. Nosso sistema econômico funciona num estado de desequilíbrio contínuo.a União Soviética possa usar toda a sua produção internamente. Um. Se estou errado a esse respeito. é provável que se possa estabelecer este controle de modo a que tudo o que seja produzido aqui seja consumido aqui. não a valores de 76 . Isto é bom. há uma pergunta muito simples: Como é que a importância com a qual deve ser financiada a venda externa do excedente não irá simplesmente substituir o excedente interno e. e o suspense é temível. é invocada a teoria da especialização internacional do trabalho. à qual tenham acesso nossos comerciantes. Se se quiser controlar toda a vida do povo. (Supõe-se os capitalistas ansiosos. expectantes. Há. Escarnecemos do europeu que quer uma relação importação-exportação equilibrada conosco. porém isso mudaria por completo nossa Constituição. é claro. e é sempre justamente este lado a ficar fora de equilíbrio. Porém tem que ser feito corretamente. a história de mais de 110 bilhões de dólares que. ulcerados. nossas exatas concepções de lei. dizemos. deve ter um para todos. mas minha opinião é de que não podemos ter pleno emprego e prosperidade nos Estados Unidos sem mercados externos. Assim. percebemos que precisamos buscar outros mercados e esses mercados estão no exterior. Assim tem que haver uma fonte de riqueza externa. se converte num padrão de vida em constante ascensão. Que esta riqueza externa independentemente produzida tenha que ser produzida aqui e controlada por nós é. nossas relações com propriedade. a exportação deste excedente tem que ser financiada. em várias categorias de assistência financeira. alguns problemas clássicos.. segue em frente para o futuro. isto é. E ninguém pretende isso. Ele não deve manter um livro para cada parceiro comercial. de 1945 a 1962. liberdade humana.) A teoria é de que o desequilíbrio expansionista.. Quanto melhor funciona. melhor funciona. esperamos que ele financie a compra feita a nós por meio de balanços favoráveis obtidos de outros. produzida independentemente. A exigência se aferra às coisas. a máquina abaixa sua grande cabeça de aço. acelera.

então contará ter um emprego e uma renda no próximo ano. em período durante o qual nossa costumeira balança comercial favorável era desapontadoramente baixa. uma câmara japonesa. em 1965. estava de novo em ascensão no primeiro trimestre de 1966. através do programa “temporário” de restrições “voluntárias”. Porém. assim se pensa. boa quantidade. Sempre poderão ser resolvidos. excederá o fluxo conjugado para dentro. mais do que 90 por cento foi convertido. apresentado pela Administração. e essa diferença levará a um deficit de dólar que. Desceu. reais. para 1. a preocupação central da política americana. mais moderno e mais difícil. é uma simples confiança no futuro. se o problema primeiro for resolvido. A grosso modo. e portanto pedirá dinheiro emprestado. em qualquer período de expansão. de que será capaz de fazer frente aos pagamentos. o mais baixo da década de 1960. digamos.dólares.8 bilhões de dólares em 1964. O fluxo conjugado para fora. mas. Ambos sabem que ele existe: Era de 2. ele e o banco. E esse problema primeiro — o osso mais duro de roer da política externa americana desde seus dias mais remotos — é assegurar a utilização de fronteiras férteis para os negócios americanos. (A razão é que dois sistemas de contabilidade igualmente bons podem ser usados para apresentá-lo. cresce o deficit de dólar. se subtrairmos do total nossas exportações subvencionadas pelos Estados Unidos. porém se o governo quer retardá-lo. quando o “boom” preocupou a todos. 77 . de forma mais fundamental. Um outro problema. Estes são problemas difíceis. no fundo. A alma do capitalismo é a dívida particular. o ano das restrições.) A gente do governo o chama caracteristicamente de permanente.”44) Se nada é feito para deter o fluxo expansionista de capital para o exterior. brota do fato de que uma economia capitalista a toda força produz uma espécie diferente de artigo de exportação — o próprio dinheiro. Mas eles não são. só 5 por cento de deficit foi convertido em ouro.4 bilhões de dólares. Em 1965. para. o excedente comercial de 1965 cai para o que Fortune chama “o insignificante valor de 1. Em 1964. (De fato. bastante curiosamente. o dólar de alguém investido no exterior faz dinheiro — como veremos depois. afinal. confiantes. este problema é manejado pelo que. e portanto levantar taxas e o valor do rendimento do dinheiro. A gente de negócios o considera de pequeno alcance. o continuar da alta demanda inflacionará a circulação. é a um tempo de pequeno alcance e permanente. Se o operário da linha de montagem de autos crê que a GM pode vender todos os carros que ele monta.5 bilhões de dólares. e os possuidores de dólares no exterior reagem trocando dólares por ouro. e sua resolução requer grande habilidade.

por aqueles oligárquicos e repressivos. na sua melhor e mais elevada forma conhecida de cultura humana — em nome. pelos velhos diplomados estrangeiros de Fort Bragg. Isto é incorreto. uma simples paz na qual nações em boa-vizinhança deixam ao abandono umas às outras. por certo. nos melhores termos possíveis. França. Falemos sem rodeios: Para nós. América — laborou para fazer seu domínio universal. o Grande. A ideologia da Guerra Fria. a sobrevivência de nosso sistema depende disso. o Magnífico? Foi Veneza Ticiano ou os mercadores que a governaram com tal comedimento? O herói de Isabel foi Bermejo ou Colombo — ou o Arcebispo de Toledo? Quem era mais caro ao coração da Inglaterra elizabetana. mesmo vil. natural. Todas as nações querem paz. ou o controle financeiro de Lourenço. finalmente. em nome da civilização ocidental. Inglaterra. de que tratamos no Capítulo II mudou por completo as coisas. por exemplo da Renascença. Tais expressões tornam o Homem da Guerra Fria mais satisfeito consigo próprio. é certo. parece. oceanos — devem ser definidas por seus usos e pelo tipo de direito de propriedade ao qual elas se submetem. Não quero resmungar contra sua satisfação. em ambientes orientados por governos da classe média nativa de preferência. Esta luta imensamente violenta que divide o mundo deve ser referente a algo muito maior. tem que ter algo mais dentro de si do que esta volúpia primitiva. Shakespeare ou Francis Drake? Pode-se falar de culturas à vontade. a qual tem muito pouco a ver com deixar vizinhos a sós. Queremos paz. Mas nós queremos uma certa espécie de paz. depois daquele — Espanha. caso o pânico acertar num lugar vital. terra. muito mais importante e épico do que bolsas de mortais. a fim de que realizem seus negócios em qualquer parte. porém só desejo saber se ele não deve tentar entender um pouco melhor suas bases. Mas uma tal formulação parece sem dúvida crua demais. O que foi a alma desta Renascença? Foi Florença a arte de Leonardo. para os homens de negócio americanos. pelo lucro a qualquer preço. a paz afinal existirá quando o mundo estiver garantido. Não foi. porém. O que nossa cultura ocidental mais claramente anuncia ao mundo é que coisas — povo. deve ter sido empreendido.As portas econômicas devem ser abertas. com democracia ou progresso. que galvanizou nossas melhores mãos. primeiramente sob a liderança imperial deste poderoso estado. para fazer a pilhagem sozinho que o Ocidente. O olhar penetrante do homem 78 . ou por nossos próprios fuzileiros. Este trabalho. se for preciso. Essa ideologia sustenta que a paz perseguida pelos líderes americanos era de uma espécie nítida.

trabalho. distribuição e mercados. Portanto há uma luta Oriente-Ocidente chamada em nosso tempo Guerra Fria. O Ocidente quer um mundo que seja integrado e (no sentido de Max Weber) racionalizado em termos de estabilidade de recursos. a América quer esse mundo integrado. Na qualidade de líder do Ocidente. As questões denominadoras de nossa cultura são: De quem é isto? Para que serve isto? Quem vai lucrar com isto? A filosofia da cultura não transcende o motivo de lucro. racionalizado para dirigir sob a orientação de sua própria gente de negócios.ocidental percebe que o mundo gira em torno da propriedade. No Oriente eles adquiriram forças de resistência. 79 . Os outros não querem. produção. Tão só revela a transcendência do motivo de lucro.

80 .

nem a tradição ocidental que a América levou à maturidade. um libertador. de Conrad. que ela se baseia numa premissa ética de conflito. ao poderoso. O mundo não pode impedi-lo — nem nós. a condução violenta (ainda que indireta) da política econômica de um estado por outro estado. Londres. Porém imperialismo tem muitos métodos operacionais. mais basicamente. em Nostromo. Holroyd. O homem de negócios do mundo americano pode muito bem julgar-se um liberal. Mostra81 . serão corretamente entendidas enquanto não se entender que a livre empresa é. 1904 Nem a América. eu espero.IV Império do Mundo Livre Mesmo os antiimperialistas aceitam com satisfação uma política Imperial que não vise outras conquistas que não as do comércio. Aplicadas à política internacional estas virtudes reclamam imperialismo. fundamentalmente. Times. 19001 Nós americanos dirigiremos o mundo dos negócios quer o mundo goste. uma teoria política. um acirrado antiimperialista um anticomunista. não ao humanitário (ainda que o humanismo não seja excluído) mas ao obstinado e implacável. e que seu sistema de virtude confere estima e privilégio. quer não.

porém profunda. Assim. é contudo. Pode representar apenas liberdade de acesso do capital. desuniforme e continuamente em fluxo. Toma as culturas em termos de seus componentes econômicos e dá menos atenção 82 . pleno de situações especiais. reservas de trabalho. e descontinuidades raciais e éticas) era a idéia do mercado livre (definido por riqueza real e em potencial. O Mundo Livre é a área econômica do mundo na qual o homem de negócios americano goza a maior liberdade de manobra comercial. assegura-nos que só deseja a oportunidade de negociar. ao mesmo tempo. é mais livre do que o mundo não -ocidental. As colônias criaram uma hoste de feios e desnecessários problemas — centralmente. são verdades historicamente indiscutíveis. cadeias de montanhas. Paraguai e Argentina. Simplesmente acrescente a isto a observação que a América é a líder do Mundo Livre e teremos aprendido o essencial do imperialismo à Mundo Livre da América. Supõe-se. O Mundo Livre. e não se sente em contradição quando. Que estes direitos e liberdades pertencem a tradição liberal ocidental mais do que a outra qualquer. a zona basicamente integrada da hegemonia americana. a liberdade expressa por este “Mundo Livre” tem de ser diferente. Quase ao acaso a América armou um processo de eficiência contra o imperialismo colonial. Muito melhor do que a idéia de colônia imperial (definida por coordenadas de terra. que deve ser aquela parte da terra em que os homens gozam de direitos e liberdades civis. Mas também observamos que se considera este Mundo Livre como incluindo mais do que as democracias ocidentais. É a palavra “livre” que por certo é tão enganadora. empenha seu apoio para a manutenção e ampliação do Mundo Livre.nos que não tem bandeira e armas de comércio. O Mundo Livre mesmo é o Império Americano. rios. Inclui: Espanha e Portugal. o problema do nacionalismo colonial. que sempre ameaçou culminar em motim e rebelião e portanto ameaçava a segurança dos mecanismos de controle econômico. O Mundo Livre. A contribuição da América para a arte firmemente evolutiva do império ocidental é simples. na raiz. neste sentido. de antemão. Moçambique e África do Sul. etc. Tailândia e Formosa. redes de navegação e distribuição.) Esta idéia recoloca o centro do impulso imperial (banindo expressões bombásticas tais como “a carga do homem branco”) e define mais agudamente as dimensões da vitória imperial. qualquer que seja sua conotação. que são a um só tempo mais praticados e mais praticáveis no Ocidente do que em qualquer outra parte. e que sua existência está intimamente ligada à existência do capitalismo ocidental.

em vez de verticalmente com seu meio cultural nacional. será vencida pela potência econômica líder. destinada a ser desviada. outro explorando os minérios. cuja relação mais estratégica era com outros sistemas semelhantes. Nosso anticolonialismo de meio século pode ter originado uma como que exigência ressentida de acesso às esferas imperiais já estabelecidas * O Comecon. torna-se o lugar de uma aberta competição de livre empresa — a qual. Na revisão pragmática e oportunista das formas de império feita pela América. a colônia européia à moda antiga. a Turquia. Em um velho e famoso exemplo. A colônia.2 ** Thorstein Veblen: “The Engineers and the Price System” (Harbinger 1963). a China faz seda. 83 .** A América produziu esta teoria. permutam-no por seda chinesa e trazem a seda para a América. Um exemplo imperfeito (imperfeito porque ele finalmente chegou por si mesmo a um militarismo quase ritual) é a doutrina de pré-guerra do Japão referente à Esfera da Coprosperidade da Ásia do Leste Maior.a hábitos políticos e aspectos geográficos. A idéia de nação. a resposta da Europa do Leste ao Mercado Comum. porque tinha chegado atrasada à mesa. não como uma entidade geopolítica unitária a ser conquistada como um todo. uma esfera econômica cujas fronteiras não mais são vistas como principalmente territoriais. ou esfera de influência.* Da posição política local da Turquia ou China é importante somente que não obstrua o desenvolvimento ordenado do todo sistematizado. o imperialismo de Mundo Livre substitui pela de sistema econômico globalmente integrado. torna-se uma fonte de materiais e um mercado a ser desenvolvido. Economias eram para ser organizadas horizontalmente com outras economias. um terceiro refinando o aço. pelo menos em parte. Isto proveio do modelo mais autárquico empregado por volta de 1955. como um específico modelo ímpar de recursos econômicos e potenciais. os comerciantes americanos monopolizam o ópio turco. é claro. na qual a China era encarada. ópio. com frequência ao longo de uma especialização global de trabalho. mas pelo contrário. um país produzindo os alimentos. é uma tentativa de bloco para “racionalizar” uma economia internacional ao longo destas linhas. primeira edição em 1921. encontrando os lugares privilegiados já ocupados. Para a idéia de conquistador objetivando fronteiras territoriais oferece como substitutivo a idéia de idealizador visando componentes econômicos entrelaçados. é uma elaboração interessante e autorizada do tema de edificação de sistemas econômicos. e esta proveniência é uma das razões das dificuldades da Rumania com a URSS: a Rumania defendeu uma preferência básica pela auto-suficiência nacional contra a interdependência do bloco. em conjunto com outras fontes e mercados. Economia transnacional substitui política nacional.

justificando isto com a mesma retórica à livre mercado. anticolonial. Seu anticomunismo selvagem é uma espécie de evidência de que falhou.(em especial na China) pelas potências européias e asiáticas. A Política de Mercado Livre afirmava a prioridade de nossa economia sobre a política deles. wilsoniano. Comparemo-la com a tentativa francesa de afrancesar suas colônias. por meio de uma ferroada bem colocada. Tal a vespa que domina mas não mutila sua presa. e que através do uso elaborado e requintado de pressão econômica e induzimento (às vezes chamado “educação”) os governos nativos podem ser persuadidos a tomar todas as decisões corretas. * E durante a II Guerra Mundial. enquanto a América continuava a se esforçar para obter acesso às colônias da Europa. a América quis a substância sem a aparência. se quisermos ser honestos conosco mesmos. mais estável do que domínio estrangeiro. de transportar formas culturais francesas para a cultura nativa a qualquer preço. Mas quer seja por ingenuidade. Isto é. O governador colonial está de volta chamando-se agora embaixador e nossos Legionários Estrangeiros usam boinas verdes.”4 O que a França conseguiu em troca do seu transtorno foi uma grande quantidade de borracha a um preço muito bom e uma mancheia de soberbos eruditos asiáticos. com efeito.* O imperialismo de Mundo Livre reage ao problema do nacionalismo de pequeno estado argumentando que o governo nativo de colaboração é. e. William L.. de livre-mercado. um específico para as exigências comerciais americanas. de forma alguma surpreendentes. chegaremos à conclusão que muitos dos pecados de que livremente criticamos outros países por praticarem [i. para a vida do colonizado e a tranquilidade do colon. que não se imiscuísse do ponto de vista cultural. Clayton disse: “A verdade é que. uma das mais tristes características do imperialismo de porta aberta. parecemos ter desejado um resultado diferente. O governador colonial e a Legião Estrangeira tornaram-se simultaneamente obsoletos. o orientador político de Roosevelt. não permanecendo ali necessidade de humilhar e enfurecer povos nativos com status colonial. ou por um estratagema quase inacreditável.3 84 . em 1885: “Destruímos o passado e nada o substituiu. um consultor americano teria salientado que aqueles preços eram atingíveis sem o esforço mal orientado de transformar Hanói numa espécie de Paris. tendo desastrosos resultados. Essa era uma idéia nova. protecionismo colonial] têm suas contrapartes nos Estados Unidos”. Tal como o primeiro governador civil da Indochina Francesa confessou. uma expansão limitada ao comércio. de Mundo Livre da América e que preferiu não ser imperialismo. Levado de volta àquele tempo. que fosse mesmo de ajuda para o hospedeiro. os bens sem o ato aberto de saque.

Porém, pouco valendo suas afetações de não intervenção cultural e política, o imperialismo americano de Mundo Livre foi tão completamente pernicioso e tão plenamente predatório. A vida econômica de uma cultura não pode ser mudada sem consequências para cada um dos outros aspectos de cultura. O dinheiro se propaga. Sistemas econômicos ocidentais precisam de infra-estruturas econômicas ocidentalizadas, de um aparelho legal ocidentalizado, e fundamentalmente de uma tendência política ocidental. Impacto comercial é impacto total. É este mesmo impacto do Ocidente sobre o Oriente, tão frequentemente uma mescla de culturas elaboradas e requintadas, mas antidinâmicas, que os explicadores do imperialismo do mundo livre apresentam como um fenômeno em si saudável. Explicam e tornam a explicar ao bom povo americano, de quem aparentemente suspeitam como guardando uma antipatia residual em relação à injustiça, que tais fissuras sociais, se de um lado podem provocar a agonia de países “em desenvolvimento” são para-produtos inteiramente naturais da “revolução de modernização” (ou “de esperanças em ascensão” ), que é descrita como basicamente independente de causas externas: um processo histórico que se desenrola por si mesmo, quando povos adormecidos despertam. Dificilmente poderia ser mais claro que esta “modernização” é tão só um nome polido para o rude e chocante impacto das culturas tecnológicas sobre as não tecnológicas. Porém teorias oficiais fazem variações deturpadoras em torno da responsabilidade americana em relação aos deslocamentos induzidos pela expansão americana, e a idéia de que a traumatização quase ubíqua do Terceiro Mundo possa ter algo a ver com um específico lucro em dinheiro contado é mesmo muito raramente abordado. Representativas deste ponto de vista, as passagens seguintes são do famoso discurso de Walt Whitman Rostow à classe dos Graduandos de 1961 da Escola de Guerra Especial Fort Bragg [Fort Bragg Special Warfare School], do Exército (Rostow é o principal conselheiro de política exterior do Presidente Johnson e, provavelmente, o mais destacado teórico da Guerra Fria da América):
O que está acontecendo por toda a América Latina, África, Oriente Médio e Ásia é isto: Velhas sociedades estão mudando seus rumos a fim de criar e manter uma personalidade nacional na cena mundial e trazer para seus povos os benefícios que a moderna tecnologia pode oferecer. Este processo é certamente revolucionário... Como todas as revoluções, a revolução de modernização é per85

turbadora... Homens e mulheres nas aldeias e cidades, sentindo que os velhos modos de vida estão abalados, e que novas possibilidades estão abertas para eles, expressam velhos ressentimentos e novas esperanças... Esta é a grande arena de mudança revolucionária que os comunistas estão explorando com tão grande energia... Nós, americanos, estamos confiantes de que, se a independência deste processo puder ser mantida através dos anos e décadas vindouras, estas sociedades escolherão sua própria versão do que podemos reconhecer como uma sociedade democrática e aberta... Portanto, nossa tarefa central nas áreas subdesenvolvidas... é proteger a independência do processo revolucionário agora em curso... A difusão do poder é base para a liberdade dentro de nossa própria sociedade, e não temos razão para temê-la na cena mundial. Porém esta consequência seria uma derrota para o comunismo... [Os comunistas] estão destinados no fim, pela natureza de seu sistema, a violar a independência das nações... Nós estamos lutando para manter um ambiente na cena mundial que permita à nossa sociedade aberta sobreviver e florescer.5

Os elementos-chave da visão principal e profunda de Rostow são os seguintes: 1. Recusa tácita da responsabilidade ocidental por essa “turbulência”, que é causada primariamente pela intromissão ocidental — comercial, ideológica, militar — no Leste e Sul. 2. A pretensão de que o propósito da América é a criação de sociedades livres, independentes e (o que não é tão óbvio) tecnológicas. 3. Repúdio à possibilidade de que “comunismo” (o qual para Rostow, provavelmente vale para qualquer violência política oposicionista) possa também ser um nacionalismo. Isto é, a linguagem de Rostow nos põe frente àquela velha imagem familiar do comunista como um homem sem uma pátria, alguém que sempre aparece de algum outro lugar, e cuja lealdade sempre está alhures. (Comunistas, diz, são “carniceiros” e comunismo é uma “moléstia de transição”.) O que uma tal descrição tem a seu favor é a teoria de alguns ideólogos bolchevistas, principalmente trotskistas, de que a revolução proletária seria internacional (a classe acima da bandeira) e que teria de resultar na decomposição da nação-estado, uma instituição burguesa. O que ela tem contra é cerca de duzentos anos de
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história. Tendo por trás de nós as revoluções americana, francesa, russa, chinesa e cubana, resolvidas de maneira tão vária, somos obrigados a concluir que revoluções populares, quaisquer que tenham sido sua fuzilaria e retórica de inauguração, são sem exceção nacionalistas. O único grupo genuinamente internacional (melhor, transnacional) no mundo moderno é o que Marx chamou a classe dominante; Veblen, os capitães das finanças; Mili, a elite do poder; e os órgãos de nossa cultura popular, o “jet set” [grupo que lança as decisões] . Rostow não dá atenção a nada disto. É um trotskista às avessas.* 4. A declaração virtualmente explícita de que a América deve ser o único juiz da permissibilidade de mudança social em toda a parte, de que a América se autoconfere (como líder do Mundo Livre) todos os direitos de intervenção prioritária no processo de mudança, e de que a América exige emergência básica de sociedades “independentes e modernas”. Tanto a prática como a ideologia americanas levam-nos a assumir que isto significa economias de porta aberta. Portanto, a América pede, e só tolerará, “revoluções” tais que ampliem o império do Mundo Livre. 5. Insistência (um tema tradicional) de que o aparecimento final de sociedades de porta aberta é indispensável a sobrevivência da América. A arrogância à Santo Império Romano desta vontade se mostra ainda mais sufocante quando refletimos sobre a aflitiva inabilidade desta América juiz, júri e carrasco em resolver seus próprios problemas in* Em seu Prospectes for Communist China (M.I.T. Press, Cambridge, 1954, págs. 27-28), Rostow enfrenta o problema: Por que os comunistas chineses preferiram a coalizão militar com as forças nacionalistas de Chiang contra os invasores japoneses? Por que não preferiram continuar a guerra civil? De esforço em esforço, num desempenho intelectual que me impressiona por ser tão bizarro como brilhante, Rostow põe a descoberto uma imensa dissimulação vermelha: eles queriam a coalizão porque a Rússia queria o Japão detido, porque queriam que Chiang se esgotasse contra os japoneses, porque queriam parecer patriotas para o povo, porque a coalizão oferecia canais de propaganda, porque isto lhes permitiria estender sua adiministração civil. Para Rostow, não é nem mesmo uma possibilidade a ser apontada e refutada, que os vermelhos pudessem também ser gente chinesa que se preocupava com a China, e que por razões patrióticas usuais queriam bater os invasores usando tudo que a China pudesse juntar. Para êle, o comunista é um marciano político. Rostow é meu Guerreiro da Guerra Fria favorito.
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ternos. Racismo americano cada vez se tornando pior, pobreza, Grande Irmandade, e oligarquismo militarista dão ao mundo o direito de se pasmar conosco. Como pode uma América que não é capaz de desenvolver o leste do Kentucky ou pacificar o Harlem, desenvolver a Índia e pacificar o Vietnã? Porém devemos analisar a questão mais a fundo. A tese rostowiana pode ser dissecada em duas grandes proposições; a saber, o que ele chama nossa “proteção da independência da modernização revolucionária” e o que eu chamo nosso imperialismo de Mundo Livre. 1. desenvolve o subdesenvolvido; e 2. promove sua liberdade, significando a) que seus governos são independentes, e b) que seus povos gozam de direitos e liberdades civis básicas. Estas são pretensões concretas e podem ser concretamente examinadas. O que se segue é primeiro, um esboço estatístico e detalhado da corporação americana, cujo impacto, por bem ou por mal, está sendo sentido pelos países subdesenvolvidos; a seguir, olhando para alguns dos considerados como pertencendo ao domínio dos resgatados e protegidos, devemos perguntar: Suas economias estão se desenvolvendo? São seus governos independentes de outros governos? A liberdade de seu povo aumenta, e seu crescimento está sendo estimulado? A super corporação americana não mais é definida principalmente por seu produto. Ela combina em si as funções básicas que antes distinguiam finanças e indústria como esferas separadas. Congrega e coordena os atos econômicos de acumulação e dispersão de capital (atividade bancária), inovação tecnológica (“inventores”), produção (construção de maquinismos e direção), distribuição (função de intermediário), e orientação de demanda (o mercado livre). Por persuasão e manobra, conquistou a cooperação das burocracias trabalhistas, cuja responsabilidade incorporada é garantir a estabilidade da força de trabalho da nação. Entre direção e trabalho organizado não há questões fundamentalmente divisórias de valores ou objetivos; são membros desiguais da mesma entidade incorporada. Com o apoio ativo ou passivo do trabalho e do governo, a direção coordena centralmente todas as operações na corrente do produto da
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fonte-para-o-consumidor, sendo a integração vertical, crucial para a eficiência. A tomada-de-decisões é científica e centralizada. A imensidade e o poder da super corporação podem ser sugeridos pela seguinte passagem de In Few Hands [“Em poucas mãos”] (Penguin, 1965), relatório publicado postumamente, das investigações antitruste de Estes Kefauver no comitê do Senado:
Em 1962 as 20 maiores corporações manufatureiras tinham sozinhas 73.8 bilhões de dólares em fundos, ou cerca de um quarto do total de fundos das companhias manufatureiras dos Estados Unidos. Em troca, as 50 maiores companhias detinham 36 por cento; as 100 maiores, 46 por cento; as 200 maiores, 56 por cento; e as 1000 maiores, perto de 75 por cento.

Engrenadas direta ou indiretamente com os principais centros financeiros e industriais da Europa, inspiraram o Presidente da Corporação para Desenvolvimento e Recursos, David E. Lilienthal (diretor da TVA para Roosevelt, diretor da AEC para Truman) a cunhar o termo agora padrão de “corporação multinacional”.6 Junto com os grandes bancos igualmente globalizados, com os quais estão encadeadas, as corporações multinacionais são as fontes principais do capital de investimento de ultramar americano. O valor do investimento direto dos EE.UU. no exterior, menos de 25 bilhões de dólares em 1955, era cerca de 50 bilhões de dólares uma década mais tarde e aumentando numa taxa de cerca de 10 milhões de dólares por dia.7 O total dos investimentos externos dos EE.UU, diretos e “portfolio”* era de cerca de 135 bilhões de dólares em 1965, dos quais mais de 30 por cento, era petróleo.8 Do total de 50 bilhões de dólares de investimento externo, 60 por cento é investido no Canadá e Europa; dos 40 por cento investidos nos países subdesenvolvidos, metade o é na América Latina.9 A corporação multinacional não exporta meramente seus produtos e dinheiro; ela se transplanta. Em 1965, cerca de 2 000 firmas americanas estavam fazendo negócios no exterior, e de suas vendas externas líquidas montando a 110 bilhões de dólares, só um quinto desse total vinha da venda de mercadorias e produtos enviados dos Estados Unidos. Exemplos extremos de transplante ocorrem na indústria automobilística. Em 1965,
* O investimento direto dá ao investidor direito de opinar, às vezes controlar, na direção da empresa. Os investimentos “portfolio” usualmente não. 89

da AID veja-se esta declaração de D. 40 por cento.a General Motors construiu 20 por cento de seus carros fora dos Estados Unidos. conselheiro especial para os Subcomitês do Senado sobre Antitruste e Monopólio.. Daimler-Benz. controlam quase toda a indústria eletrônica da França. em bases tanto nacionais como continentais. A.. Barber. produzem 90 por cento de sua borracha sintética. 30 por cento e a Ford. 85 por cento são gastos nos Estados Unidos com produtos americanos e matérias-primas.. Com bases em recentes experiências. em 1975. estamos nos condenando à colonização industrial. opera a Agência pelo Desenvolvimento [Internacional Agency for International Development] que Forbes chama “a principal agência por meio da qual o governo dos Estados Unidos financia negócios no exterior. O poder econômico americano.”12 Com ele faz eco Gaston Deferre: “A invasão econômica por parte dos Estados Unidos é um perigo claro e presente. se não do francês.15* Por outro lado.UU. A direção do crescimento do controle incorporado americano não é mais fácil de predizer do que a de seu processo interno. “Uma boa 90 . só um terço das da GM. Uma.. oferece uma conjetura de especialista: “Por meio do funcionamento multinacional. e se organize. controlarão mais de 75 por cento de todos os fundos industriais. Fitzgerald. o poder dinâmico de seus grandes negócios e a forma de seus investimentos na Europa. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. mas Richard J. corporações de negócio americanas e outras.11 Louis Armand disse: “A menos que a Europa reaja.UU. antigo delegado diretor da Administração de Cooperação Internacional dos Estados Unidos [United States International Cooperation Administration]. Firmas dos EE. no qual produzem ou vendem suas mercadorias.. Fiat. Destes. evitaram efetivamente o alcance das leis antitruste de qualquer país tomado em separado. mas complementar.”13 Representantes do governo alemão e indústria reagem incentivando a fusão de firmas européias.14 A expansão ultramarina da América das corporações tem o apoio do governo americano. As vendas conjuntas da Volkswagen. distribuem 65 por cento de seu petróleo e manufaturam 65 por cento de sua maquinaria agrícola. especialmente de aço e carros. são o início da colonização de nossa economia. British Motors e Renault são só dois terços das vendas da Ford. o gover* Para um enfoque diferente. O governo dos EE. 300 corporações. a Chrysler.10 A Europa está apreensiva. coopera de várias diferentes maneiras..

ou impedir alguns países de dar direitos às bases aéreas russas. contra perdas causadas por inconversibilidade de dinheiro. mas dificilmente podem ser chamados de “exploradores”. ou impedir uma nação de se afastar. O objetivo pode ter sido comprar um arrendamento. felizmente. sido moderadamente bem sucedidos [dá-lhes cerca de 13 por cento]. com base no país natal. docas.16 A AID também usa o dinheiro público para assegurar as operações ultramarinas das companhias americanas. Um exemplo simples e básico. ou não. do Chile.UU. estimular o crescimento da prosperidade material e o avanço dos valores democráticos nos países hospedeiros. de maneira mais importante. usinas de força — que o capital privado acha que não tem recursos para construir. insiste em que os lucros dos EE. tais como o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento [Internacional Bank for Reconstruction and Development] (o Banco Mundial). e a Associação do Desenvolvimento Internacional [International Development Association] todas as quais (mas principalmente o Banco Mundial e o Ex-Im Bank) existem para servir ao interesse internacional da corporação multinacional dominada pelos americanos. Mas não há dúvida de que esta expansão é altamente lucrativa para as próprias corporações. Uma razão disto é que uma variedade de técnicas de contabilidade dissimulantes estão à disposição do escrivão imperial.. na América Latina não são usualmente grandes: “Os investimentos dos Estados Unidos na América Latina têm. ou qualquer de várias outras razões’’.17 91 . De modo algum é fácil determinar a rentabilidade absoluta de nossas operações ultramarinas. o Banco de Desenvolvimento Interamericano [Inter-American Development Bank].19 Não é uma dissimulação por completo aérea. guerra e revolução. a AID procedeu a seu maior plano de ação particular. seja por financiamento direto de certas especulações ou. não pode dispensar e merece ter. David Rockfeller. o Banco de Exportação e Importação [Export-Import Bank]. compra seu material parte da crítica sobre ajuda externa é devido o crítico pensar que o objetivo era alcançar crescimento econômico e este não era o objetivo de modo algum. a Corporação Internacional de Finanças [International Finance Corporation]. pelo financiamento do desenvolvimento daquelas infra -estruturas — estradas. 179 bilhões de dólares para garantir a expansão da International Telephone Telegraph. Podem ser apresentados números para apoiar esta assertiva. expropriação. Pelo fim do ano de 1965.. imagine-se uma corporação na qual a unidade de produção. analisaremos isto brevemente. Presidente do Chase Manhattan Bank.no dos Estados Unidos ajuda a capitalizar e dirigir instituições financeiras do Mundo Livre. ferrovias.18 Esta corporação expansionista pode. o Fundo de Desenvolvimento Ultramarino [Overseas Development Bank]. ou conseguir um voto favorável na ONU.

de unidades extrativas, com base no exterior. A direção da corporação pode orientar a última para manter seus preços baixos, uma vez que lucros baixos contabilizados resultarão em vantagens nos impostos locais, e, em qualquer caso serão compensados no fim da produção. Porém ainda é possível obter uma boa idéia geral do imenso valor do lucro das aventuras exteriores de nossas corporações. “De indústria após indústria”, disse o Business Week em 1963, “as companhias dos Estados Unidos achavam que seus ganhos ultramarinos eram elavadíssimos, e que seus dividendos em investimentos fora eram frequentemente muito mais altos do que nos Estados Unidos. Quando os ganhos no exterior começaram a se elevar, as margens de lucro para operações domésticas começaram a reduzir... Esta é a combinação que forçou o desenvolvimento da campanha multinacional.”20 Os dados do Departamento de Comércio mostram que no período 1950-61 havia um fluxo de investimento externo direto americano de 13,7 bilhões de dólares. No mesmo período os rendimentos que retornaram eram de 23,2 bilhões de dólares, um lucro de 9,5 bilhões de dólares.21 Um levantamento feito pelo First National City Bank concluiu que os “dividendos remetidos [i.e., lucros repatriados] do investimento privado no exterior são atualmente o mais rendoso artigo de nossa receita internacional fora a exportação de mercadorias.”22 Um levantamento britânico, em 1961, mostrou que as companhias americanas fazendo negócios na Inglaterra obtiveram um lucro de 17 por cento em seus investimentos, duas vezes mais alto do que o lucro médio nos Estados Unidos.23 Para rentabilidade o mundo subdesenvolvido é pelo menos igual à Europa, provavelmente superior. A Standard Oil of New Jersey declara um lucro de 17,6 por cento em seu investimento na América Latina e um lucro de 15 por cento nos investimentos do Hemisfério Leste, para 1962, comparados com um lucro de 7,4 por cento nos domésticos.24 Os dados do Departamento de Comércio mostram os americanos empregando 516 milhões de dólares na Europa (novos investimentos e ganhos não devolvidos) em 1956, e trazendo para casa 280 milhões de dólares. Por volta de 1961, a razão entre lucros e investimentos, quase de 2 para 1, ficou em 3 para 1: 1,5 bilhões de dólares em novos investimentos, 525 milhões de dólares em ganhos trazidos de volta. Compare-se os dados para a América Latina, lembrando que aqui as cifras são na realidade a riqueza e o trabalho verdadeiros do povo da América Latina, e não apenas alguns números num livro: Em 1956, investimos 500 milhões de dólares, e trouxemos de volta um lucro de mais de 50 por cento, 770 milhões de dólares; para a
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América Latina uma perda líquida de 220 milhões de dólares.25 Esta estatística fria e silenciosa de lucro e perda é uma declaração sobre a felicidade de alguém e o sofrimento de outrem, as espécies desiguais de vida de homens e mulheres. Precisa ser trabalhada, mineirada, posta a claro. Tendo já uma idéia geral do que a corporação americana multinacional está fazendo para si mesma, iremos agora examinar as condições de seus hospedeiros. A expansão global do estado comercial americano desenvolve o subdesenvolvido? Democratiza a vida pública do homem? Faz com que as nações, nas palavras de Rostow, “fiquem firmes de pé” e sejam “fortes, positivas e independentes”? Alguns casos: O Brasil figura em primeiro lugar entre os recebedores de ajuda militar dos Estados Unidos (206 milhões de dólares durante 1963), em terceiro na assistência econômica dos Estados Unidos (172,6 milhões de dólares, mais 1,4 bilhões de dólares nos empréstimos do Banco Mundial e Ex-Im Bank) e só fica atrás da Venezuela nos investimentos diretos dos Estados Unidos (mais de 1 bilhão de dólares).26 É o maior, mais populoso e potencialmente o mais rico de todos os países sul-americanos; sob qualquer interpretação a longo termo, a chave do desenvolvimento econômico e político do continente. Isto faz juz a um estudo mais demorado. A revolução do Brasil tem estado pulsando intermitentemente desde 1930, quando Getúlio D. Vargas, do Partido Trabalhista, chegou ao poder, primeiro como presidente provisório (1930-33), depois como presidente eleito (1933) .27 Atacado uma vez pela esquerda e três vezes pela direita, foi finalmente deposto em 1945 por uma junta militar direitista, que se chamou a si mesma democrática e revolucionária, anulou suas medidas reformistas moderadas, e trouxe salários em depressão, alto desemprego, inflação crescente — mais corporações dos Estados Unidos. As eleições de 1950 devolveram Vargas ao poder, convencido mais do que nunca da necessidade de direção nacional dos recursos nacionais e do domínio brasileiro do Brasil. Criou a Petrobrás (petróleo nacional) e a Electrobrás (força), e em agosto de 1954, desesperado da luta contra o que sua carta chamou “o saque de grupos financeiros e econômicos internacionais”, ele se suicidou. Após um ano de ditadura de rotina sob Café Filho (mais decadência social, mais dinheiro estrangeiro), veio a presidência de Juscelino Kubitschek, que fundou a capital interiorana de Brasília, um ato de visionário, mas que não pôde resistir à ulterior penetração da economia do Brasil pelos fortes interesses do Norte. Foi seguido, em 1961, por Jânio Qua93

dros, vencedor pela mais ampla margem de votos jamais recebida por um presidente brasileiro. Quadros era um conservador autoritário. Dominou levantes de fome no sofredor e rico nordeste por meio do Quarto Exército e agitações estudantis com a polícia. Mas ele era também um nacionalista. Ele viu um Brasil que liderava o mundo em exportação de café, que tinha mais terra arável do que toda a Europa, 15 por cento das florestas mundiais, 35 por cento de seus depósitos de ferro, e um de seus potenciais hidrelétricos mais altos. Que um tal país fosse pobre era uma desgraça. Que ele devesse permanecer pobre era um crime. Quadros dis -pôs-se a mudar o Brasil. “Por que podem os Estados Unidos comerciar com a Rússia e seus satélites”, disse, “mas insistem que o Brasil comercie só com os Estados Unidos?”28 Reatou relações com a União Soviética, fez acordos comerciais com países comunistas, e tratou Castro como sendo aquele revolucionário nacionalista cuja motivação era tão fácil de apreender do ponto estratégico das favelas do Rio. Os barões da ala direitista, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda eram vistos a lançar escuros olhares de intimidade para o Norte. Em agosto de 1961, Quadros foi longe demais: uma demonstração de independência em Punta Del Este, na fundação da Aliança para o Progresso; a Cruzeiro do Sul para “Che” Guevara; o vice-presidente João Goulart em Pequim, numa missão comercial; pior de tudo, um novo projeto sobre impostos destinado a fortalecer o orçamento federal, estimular o investimento no Nordeste, e a reter, para uso do Brasil, uma porção maior dos lucros remetidos para fora do país. Por uns dias o exército manteve a “renúncia” de Quadros em suas mãos. Mas os planos Barros-Lacerda, de um governo de junta à moda antiga, sofreram a resistência do povo, que exigiu que a sucessão legal fosse mantida e que Goulart subisse à presidência. Alguns argumentam agora que, naquele momento, o milionário liberal Goulart devia ter quebrado o domínio dos plutocratas uma vez por todas. O exército estava dividido e o povo o apoiava, camponeses e trabalhadores, estudantes e classe média, esquerdistas e nacionalistas, juntos na resistência constitucionalista chamada a Legalidade. Porém Goulart era indeciso. Ele escolheu negociar com os direitistas e aceitou sua exigência de uma função presidencial enfraquecida. Após um ano e meio de estagnação, um plebiscito restaurou o poder presidencial pleno por voto de 6 a 1. Goulart, contudo, ignorou o mandato. Seus discursos cintilavam com a promessa de mudança social, mas nenhuma de suas propostas de reforma alcançou o Congresso. O Banco do Brasil continuou a imprimir o dinheiro aguado com o qual os
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monopólios financiavam a própria ineficiência; a dispendiosa manutenção do preço do café nunca foi tocada. O General Peri Bevilacqua usou tropas para dissolver demonstrações populares que não pediam nada mais do que o cumprimento do próprio programa de Goulart; Bevilacqua foi feito chefe do Estado-Maior. Mais concessões foram outorgadas a firmas americanas de petróleo e minerais. Havendo se aproximado do dólar, 600 para 1 no tempo do plebiscito, o cruzeiro caiu a 1 700 para 1. Exasperados, progressistas e nacionalistas, começaram a pressionar mais forte pedindo ação, e talvez Goulart estivesse por fim começando a responder. Subitamente ei-lo desafiando a América na questão de Cuba, de desarmamento e comércio. Falou de sufrágio para analfabetos (metade do povo) e existência legal para o amolecido e conservador Partido Comunista. Revelou suas tendências socialistas pela expropriação de algumas empresas de petróleo (brasileiras, não americanas) . Em 17 de janeiro de 1964, ele cometeu de novo o mais criminoso dos crimes, ao atacar os lucros americanos. “Os novos regulamentos”, escreveu, do Rio, Juan de Onis, “limitam a remessa legal de lucros para o exterior a 10 por cento ao ano, sobre o investimento externo real de uma companhia, em equipamentos e capital.” “Encaradas como hostis ao capital estrangeiro”, as novas leis de restrição de lucros eram uma resposta “às exigências nacionalistas de controles mais efetivos dos investidores estrangeiros.” (NYT, 18 de janeiro de 1964.) Isto finalmente engatilhou a resposta de um grupo conspirador paulista, o qual Philip Siekman do Fortune (“Quando Executivos se tornam Revolucionários”, setembro de 1964) diz que estava em crescimento desde a metade da década de cinqüenta. Conhecidos quer como os Paulistas (de sua cidade) quer como os Mesquitas (de seu líder Júlio de Mesquita Filho, proprietário de um jornal conservador de São Paulo, O Estado de São Paulo), o grupo era constituído por importantes homens de negócios de São Paulo, como Paulo Ayres Filho (fundador e a certo tempo cabeça do Banco do Brasil), Flávio Galvão, Luís Werneck e João Adelino Prado Neto (editor do jornal de Mesquita) . Em 1964 o grupo conquistara o apoio de Adhemar de Barros, governador de São Paulo e comandante daquela milícia estadual de quarenta mil homens; Carlos Lacerda, governador da Guanabara; e a Força Expedicionária Brasileira (II Guerra Mundial ), que lhe deu acesso a importantes membros da elite militar. Bem no início de 1964, escreve Siekman — talvez esporeados pelo vigor reformista de último momento de Goulart — o grupo Mesquita enviou um emissário para perguntar ao Embaixador dos Estados Unidos Lincoln Gordon qual seria
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a posição dos Estados Unidos caso estalasse a guerra civil. O emissário relatou de volta que Gordon fora cauteloso e diplomático, mas deixara a impressão de que se os Paulistas se aguentassem por quarenta e oito horas obteriam o reconhecimento e a ajuda dos EE.UU.29 Acontecimento se seguia a acontecimento. A 14 de março a direita brasileira põe-se a planejar processos de “impeachement” contra Goulart (NYT, 16 de março de 1964) . A 15 de março Goulart lança apelo por novos dispositivos constitucionais para “libertar as energias esmagadas pela estreiteza de uma estrutura econômica ultrapassada, que serve somente aos interesses de grupos privilegiados”, (NYT, 16 de março de 1964) . No mesmo dia, os delegados latinos à conferência de terceiro aniversário da Aliança para o Progresso, reuniam-se em Washington. No ar estavam a disputa panamenha ainda não solucionada, a viagem triunfante de De Gaulle ao México, os rumores de desassossego na Colômbia, novos êxitos eleitorais esquerdistas no Chile, o maior comércio de grão da China com a Argentina prestes a ser anunciado, e acima de tudo o que Tad Szulc chamou “o estado pré-revolucionário” do Brasil (NYT, 15 de março de 1964) — tumultos pró-Goulart em Brasília, demonstrações anti-Goulart em São Paulo e a promessa do candidato à presidência, Kubitschek, de fazer a Aliança “murchar como uma flor” (NYT, 19 de março de 1964). A 16 de março, o Presidente Johnson dirigiu-se aos delegados da Aliança: “Mas eu hoje asseguro que a força total dos Estados Unidos está pronta para atender qualquer país cuja liberdade esteja ameaçada por força dirigida de além-praias deste [sic!] continente. “A 18 de março, o Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Interamericanos, Thomas C. Mann, conferenciou privadamente com os diplomatas latino-americanos nos EE.UU., e o artigo de primeira página de Tad Szulc, no Times do dia seguinte, tinha como manchete: “Os Estados Unidos Deverão Abandonar os Esforços para Dissuadir Ditadores Latinos”. Szulc escreveu: “As opiniões de Mr. Mann foram consideradas como representando uma modificação radical da orientação política da administração Kennedy” (NYT, 19 de março de 1964) . A 19 de março o porta-voz do Departamento de Estado, Richard I. Phillips, veio a público negar uma mudança política mas parecia de fato confirmá-la. Aludindo à Doutrina Estrado (reconhecimento diplomático baseado no controle, não na política), Phillips expôs que “a política dos Estados Unidos em relação a governos inconstitucionais será, como no passado, guiada pelo interesse nacional e pelas circunstâncias peculiares a cada situação em que surge.” (NYT, 20 de março de 1964.) Parece que toda a América Latina compreendeu de imediato o que
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e duas semanas após a fala de Johnson. 400 milhões de dólares podem ser reduzidos a 40 milhões de dólares e então anunciados com um arrogante bilhão.* À 22 de julho o Congresso votou a prorrogação do termo do mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967. Talvez a elite eclesiástica tenha sido realmente convertida ao Cristianismo e talvez tenham salvo Lacerda. que em breve seria consolidado em torno do General Humberto Castelo Branco (eleito presidente a 11 de abril de 1964) e proclamaria seu amor pela democracia e revolução.30** Castelo Branco foi rápido em revelar sua compreensão e gratidão. Leonel Brizola (então um admirador de JFK. democracia. Castelo Branco responde que eles estão indo longe demais. antigamente reacionária. os ativistas estudantis começam a gozar mais e mais do apoio popular.escutara. Goulart foi quase ritualisticamente afastado do governo pela maquinação Barros-Lacerda-Mesquita. o povo brasileiro está mostrando uma resistência sólida e surpreendente. 97 . nacionalizações. Enquanto escrevemos isto. Neste jogo. Mas talvez a fuga oligárquica só acrescente uma nova variação. o Ato Institucional n0 2 foi promulgado. hoje no exílio) conclamou o povo para se preparar para uma nova Legalidade. o idealista governador do Rio Grande do Sul. o governo anunciou um novo projeto de impostos destinado a financiar um aumento de 35 por cento nos salários militares. além dos já programados fundos da Aliança para o Progresso. ) ** A propósito. e dentro desta turbulência outras surpresas se revelam: a hierarquia católica. entre todos. o Presidente Johnson telegrafa “os mais calorosos bons votos da América” para o novo governo. manifesta-se por reforma agrária. toma uma avançada posição antigovêrno. Por novembro de 1964. (Enquanto era escrito o precedente êle foi nomeado para um mandato de quatro anos. os generais pedem fascismo. banindo * Castelo Branco leva a efeito um jogo intrigante com os generais da assim chamada linha-dura. e antes mesmo de já ser sabido que Goulart deixara a capital. a 10 de abril. etc. Os comunistas brasileiros saíram para a cidade do México. numa vaga acusação de subversão. os Estados Unidos tinham dramatizado seu entusiasmo pelo novo regime através de um empréstimo de 400 milhões de dólares. Não há no momento razão para acreditar que a “eleição” do linha-dura General Costa e Silva não se processe segundo o plano. todo mundo fica impressionado com a posição corajosa de Castelo Branco. e Carlos Lacerda. e Castelo Branco age para fazer essencialmente o que os da linha-dura queriam em primeiro lugar. Quatro meses mais tarde uma nova lei tornou possível a demorada prisão de indivíduos sem declaração do crime ou formação de culpa. talvez orquestre a si mesma com novos instrumentos de sopro. A 27 de outubro de 1965. Menos do que vinte e quatro horas depois as notícias do golpe alcançaram Washington. A 25 de novembro de 1964 o governo aprisionou uma centena de antigos auxiliares do governador de Goiás. Durante o mesmo período.

O encontro foi privado. falando em Belo Horizonte. e. o que tornou automaticamente todas as greves e manifestações nas docas crimes militares.. demissões em massa e finalmente o virtual fechamento dela. O último ponto provocou a seguinte conversação: Danton Jobim (de Ultima Hora): Vossa Excelência quer dizer que não podemos publicar nenhum pronunciamento. b) nenhuma ameaça ou provocação ao governo revolucionário... se não secreto. ou a publicação de notícias que incitem o povo a se opor ao governo. não podem negar o fato de que aqui no Brasil nós temos em pleno funcionamento as duas maiores e mais básicas expressões de uma democracia verdadeira: o Congresso Nacional e a liberdade de imprensa. é atribuído ao Ministro da Justiça. A 27 de janeiro de 1966 todos os portos foram declarados zonas de segurança nacional. 98 . para não ser divulgado.. desde que feito por gente que teve seus direitos políticos suspensos? * Esta citação e o material que se segue são da edição em língua inglesa de Revolution.31 Pela mesma época as tentativas do governo para sanear a faculdade da Universidade de Brasília provocam protestos dos estudantes da faculdade. um para servir como “oposição leal”. para explicar as cláusulas do ato e “decretos complementares”. c) ajuda à subversão. Seguem-se trechos da transcrição. Juraci Magalhães. “os adversários da revolução. Magalhães informou a imprensa de que o governo não mais permitiria: a) a publicação de entrevistas com aqueles que tivessem tido seus mandatos cassados ou seus direitos políticos anulados. o jornal (mimeo) do movimento subterrâneo cristão brasileiro. Castelo Branco defendeu seu governo contra a acusação de que era ditatorial. pela razão óbvia de que aqueles que supostamente tomaram parte nele condenariam a si mesmos admitindo que êle aconteceu. mas uma transcrição literal foi feita e contrabandeada. declarou.todos os treze partidos políticos existentes e criando dois novos.32 Um mês após isso. para ser mais tarde impressa no movimento subterrâneo cristão brasileiro. um encontro no Rio com um seleto grupo de editores e publicistas brasileiros. tal como referir-se a ele como uma ditadura.. d) a publicação de artigos escritos por jornalistas que tenham perdido seus direitos políticos. por qualquer meio.”* Quatro meses antes. certamente. “Digam o que quiserem”. Revolução... no dia após a decretação do Segundo Ato Institucional.. A verificação do diálogo de Magalhães é impossível.

não tomaremos conhecimento disso. Marinho: Oh! Está bem. Marinho: Mesmo se o artigo não for assinado? Magalhães: Não. Está claro? Jobim: Muito claro. Eu assumo a responsabilidade — a inteira responsabilidade por tudo que é publicado em meu jornal. Há uma nova lista de pessoas que perderão seus direitos políticos? Magalhães: Este é um bom exemplo do tipo de perguntas que consideramos provocadoras. mas será punido se desobedecer. Ambos são responsáveis.Magalhães: Isto é exatamente o que eu disse. Estou só fazendo uma pergunta. Nós temos um critério para decidir o que constitui provocação. e nos ateremos estritamente a ele. Magalhães: E se a fizer de novo será punido. Se a fizer de novo será punido de acordo com a lei. Magalhães: A lei será cumprida. A Consultec. mas de previnir a subversão. a maioria destes porta-vozes é bem conhecida de todos vós. A lei considera que estes jornalistas que perderam seus direitos políticos não podem usar a imprensa para provocar ou ameaçar o governo ou difundir subversão. Você e o jornalista serão punidos. De qualquer maneira. Uma Pessoa Não Identificada: Gostaria de aproveitar a ocasião para fazer algumas perguntas. João Dantas (Diário de Notícias): Como espera que saibamos se alguém é o porta-voz de alguém que perdeu seus direitos políticos? Como pensa que nos defenderemos contra isso? Magalhães: Serão capazes de sabê-lo pela leitura do material que o porta-voz lhes entrega. O governo não tem a intenção de restringir vossa liberdade. Tudo isso para o fomento da democracia de Mundo Livre de Rostow. E protestarei veementemente se você tentar me fazer despedir alguns dos jornalistas que trabalham para mim e que perderam seus direitos políticos. E a respeito de desenvolver o subdesenvolvido? No decurso do ano. Mesma Pessoa: Não me interprete mal. Nascimento Brito (Jornal do Brasil): Como podemos saber se estamos ameaçando o governo? Quer isto dizer que não podemos comentar os atos do governo? Magalhães: Não. Você é um velho amigo meu. Roberto Marinho (Globo): eu não concordo que um jornalista que tenha perdido seus direitos políticos deva ser punido. o governo Mann-Gordon-Castelo tinha elaborado uma série de decretos interrompendo a construção de novas usinas de aço e autorizando Castelo Branco a vender um interesse majoritário em qualquer indústria nacional. É simplesmente isso. a assessoria técnica do gover99 . É óbvio que se ele escreve um artigo não assinado.

Alema100 . os direitos de desenvolver uma nova estrada de ferro e facilidades portuárias na Baía de Sepetiba.no. durante a presidência de Juscelino Kubitschek. e daquele tempo em diante cultivara um interesse epicurista nos imensos depósitos de ferro do Brasil. irredutíveis e a tentada recuperação da Hanna afundou-se nas cortes do Brasil. situados principalmente no estado de Minas Gerais. anunciou que o governo estava reconsiderando seus regulamentos de remessa de lucros à luz das necessidades “realísticas” dos homens de negócio estrangeiros (NYT.33 A mais pungente destas histórias de êxito diz respeito à Hanna Mining Companing. John d’el Rey. 18 de junho de 1964). 16 de junho de 1966) . Em 1958. e Roberto Campos. Grã-Bretanha. Gabriel Passos cancelou três das concessões da Hanna sobre reservas estimadas em quatro bilhões de toneladas de hematita de teor excepcionalmente alto (65 por cento de ferro) . a Hanna tornou a reivindicar sua posse. Os grandes pistolões da Hanna eram seu presidente. anunciou que o Brasil devia abandonar. o Hague-Paris Club* foi dispersado. França. St. (como seu pai. o antigo Secretário do Tesouro George Humphrey. algumas milhas ao sul do Rio. os estados credores estavam preparando generosamente o refinanciamento do débito brasileiro. Passo a passo. ao mesmo tempo. e o Banco Mun* O Presidente Goulart havia informado abruptamente aos credores externos do Brasil. engenheiro de minas). o novo ministro das Finanças. o Ministro de Minas. e John Dulles. As indústrias do aço e ferro. nacionalizadas sob Kubitschek. filho do falecido Secretário de Estado (NYT. seus esforços de industrialização independente e concentrar-se na produção de alimentos e na extração de matérias-primas para exportação. Herbert Hoover Jr. que o Brasil teria um déficit de 350 a 400 milhões de dólares nas necessidades de trocas externas no período de 1964-65. a Hanna estava exportando por via marítima 400. com a maior parte de seus direitos de concessionaria ainda em vigor. com a deliberação própria a acontecimentos decisivos. de Cleveland.34 Em 1935 a Hanna comprara o controle de uma firma de mineração britânica. A Hanna lançou mão de influências. Em junho de 1964 os Paulistas-Mesquitas estavam em New York para explicar a nova amistosidade do Brasil em relação ao capital estrangeiro. Os Estados Unidos. voltaram a seus donos particulares. contudo. Motivado por este realismo. ou transferir indefinidamente. O golpe de abril de 1964 mudou o quadro. num esforço para anular este cancelamento e adquirir. Kubitschek e Passos foram. No começo da década de sessenta.000 toneladas de minério de ferro por ano através do Rio e proclamando que não estava fazendo dinheiro.

Encontros posteriores se processaram em Paris (daí “o Hague-Paris Club”) e foram também assistidos pela Áustria.” “Após apresentar Mr. o refinanciamento de seu débito. capital da Guanabara. delineando a missão econômica e financeira dos Estados Unidos junto ao Brasil. a não aceder aos pedidos da Hanna. onde a reivindicação da Hanna estava para ser negada). que durara quatorze anos. de construir um porto de embarque de minério de ferro na Baía de Sepetiba. 2 de outubro de 1964). Bélgica. “o embaixador Gordon fez ao Presidente Castelo Branco uma segunda visita. evidentemente baseados no saudável princípio de que Castelo Branco não era Goulart. Castelo Branco estava sendo pressionado internamente por pelo menos dois fortes Mesquitas. (NYT. O General Peri Bevilacqua. governador de Minas Gerais. há muito apresentada. narrou The New York Times. 2 de julho de 1964. Países Baixos. 24 de dezembro de 1964). Tinham vindo. McCloy”. e queria que todo o embarque de minério de ferro na área continuasse sendo feito pelo Rio.dial estava para pôr fim ao virtual boicote do Brasil. O outro era John J. Lincoln Gordon. relata The New York Times. Após o golpe de abril. O outro pesado oponente era José Magalhães Pinto. que tinha planos de construir uma usina de aço estatal no estado da Guanabara. mas na ocasião empregado como representante da Hanna Mining Company. Suíça. McCloy. “para discutir os planos da companhia para desenvolver os depósitos de minério de ferro estimados num total de quatro bilhões de toneladas” e “a proposta da Hanna. comandante do Exército de São Paulo. enviando uma missão de vinte homens (“a maior jamais vista”) numa missão de sete semanas pelo interior do Potencial Redimido (NYT. o Presidente Castelo Branco recebeu um telefonema de dois famosos cavalheiros.UU. Um era o impetuoso Governador Carlos Lacerda. antigo Alto Comissário dos Estados Unidos na Alemanha. A 6 de novembro de 1964. os membros do clube decidiram tratar individualmente com o Brasil.. Um era o Embaixador dos EE. Mais animador para os novos realistas era talvez o propósito do Brasil de discutir a legislação sob a qual o governo brasileiro garantiria os investimentos estrangeiros. também se opunha aos propósitos da Hanna (NYT.” A posição de Castelo Branco não deve ter sido fácil! De maneira clara os Estados Unidos estavam pressionando pela liberação das concessões da Hanna (então sob litígio na Corte de Apelações Federal do Brasil. “o Hague Club”) aparentemente para determinar uma política coletiva em relação ao devedor comum. em seu despacho de 7 de novembro. onde ficavam as concessões disputadas. ao mesmo tempo. Porém. Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Itália e Japão tinham por isso se reunido em Haya (daí.) 101 . nha Ocidental.

* Aqui temos como inventar um bilhão de dólares: Segundo a citada história do Times. como foi notado acima. O verdadeiro valor de mercado. “programados para o próximo ano [ital. A mesma espécie de “presente” vem na importância de 90 milhões de dólares de países europeus e Japão — que devem ter achado engraçado ver seus favores incorporados à beneficência americana. Uma fonte não declarada (provavelmente o Banco Mundial) “dá” 100 milhões de dólares para desenvolver a infra-estrutura econômica necessária aos negócios — um “presente” que é. 15 de dezembro de 1964). The New York Times (23 de novembro de 1964) falou de planos de ajuda não confirmados. 27 de fevereiro de 1965).UU. “dá” 50 milhões de dólares para atender a necessidades de troca — que importa numa extensão de crédito. O dinheiro deveria ser empregado para ajudar o programa de estabilização monetária do país e financiar importações (financiamento de vendas americanas no exterior. Isto nos coloca com os outros itens arrolados num nível de 550 milhões de dólares. o Banco Mundial tinha concedido 80 milhões de dólares para o desenvolvimento da força hidrelétrica na região centro -sul — isto é. surge a feliz fabulação: “Os EE. do Banco Interamericano de Desenvolvimento (ditto). a AID “dá” 150 milhões de dólares em investimentos orçamentários — isto é. Um mês mais tarde (NYT.Não se sabe o que Gordon contou a Castelo Branco em sua segunda visita naquele dia. acrescentado]. UU. são depositados no Brasil (onde ganham juros) a fim de ajudar a fortalecer o inflacionado cruzeiro. meramente um empréstimo que o Brasil deverá pagar com juros.UU. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda. o relato do Times arrola uma doação de 25 milhões de dólares em alimentos e 15 milhões de dólares em concessões determinadas para “agricultura e educação”. estavam perdendo. a região que (a) é já mais desenvolvida.” Em cerca de dois meses (NYT. da doação em alimentos. mas podemos aceitar que as concessões são boas e honestas concessões. “virão do Banco Mundial (que só empresta. mas é sempre um preço. não dá). é a função básica da AID). do Fundo Monetário Internacional (ditto).”* E pouco mais de uma semana após (NYT. e (b) é o lugar das pretensões da Hanna. Portanto temos aqui um total de 40 milhões de dólares em bens e serviços que podem ser chamados apropriadamente de “presentes”. e investidores privados (que tendem a obter grandes lucros nos países pobres. “Os restantes 450 milhões de dólares”.UU. dão ao Brasil um Bilhão em Ajuda”. Parecia que Lacerda e Cia. por certo. Finalmente. Mas dentro de duas semanas. qualquer um pode imaginar.) Olhemos de novo a ampla manchete cinza do Times: “EE. Mais. O Tesouro dos EE. continua o artigo do Times. no montante de 400 milhões de dólares “para reconstruir a deteriorada posição econômica do país”. dólares dos EE. a este Brasil sem fôlego é “dado’’ o direito de comprar o equivalente a 90 milhões de dólares em excedentes de utilidades americanas — o preço não é sem dúvida exato. 24 de dezembro de 1964). Castelo Branco promulgou “um decreto presidencial [que] incentivava a concorrência privada para o desenvolvimento das vastas reservas de minério de ferro do Brasil e ordenava o desencorajamento de qualquer monopólio pelo estado ou outras empresas. O Export-Import Bank “dá” ao Brasil 30 milhões de dólares — sob forma de débito de 1965 reescalonado. 102 .

” Os temores dos homens de negócios americanos a respeito do povo brasileiro têm se mostrado em geral bem fundados. seriam mesmo realizadas as eleições escaladas para outubro? Mas Thomas Mann. Por mais de quinze anos. A eleição de outubro resultou em importantes vitórias para a oposição de esquerda. A 27 de outubro. Antunes tem também 51 por cento na Bethlehem Steel de Rockefeller. Por volta de agosto de 1965. O ressentimento nacionalista em relação à posição privilegiada da Hanna foi talvez um tanto obscurecido pelo acordo da Hanna em fazer sociedade. a suprema corte devolveu à Hanna seus quatro bilhões de toneladas de minério de ferro e o “váem-frente” para o projeto da baía de Sepetiba (nyt.). não estarem exatamente voando para o Rio. perto da boca do Amazonas.UU.). sendo sócia menor (49 por cento das ações) do magnata do aço brasileiro Augusto Antunes. “A impressão é que a incerteza política sobre a continuação das atuais orientações por parte de um governo eleito está impedindo investidores potenciais. e. ele respondeu à crise da “revolução” com a publicação do Ato Institucional n0 2. Disse The New York Times (ibid. que tem 49 por cento da Indústria e Comércio de Minérios (ICOMI). a ICOMI tem mineirado manganês no Território do Amapá. 103 . parece ter sugerido uma teoria bem diferente. que estava provocando um tal aborrecimento para a Hanna. respaldado no exército) de manejar a corte suprema. que estava na mesma missão. que não só teve o efeito de anular a eleição mas que também o dotou com o direito (auto-conferido. no Brasil com uma missão americana de estudo. mais recentemente. menos frívola.Porém a Hanna ainda enfrentava o obstáculo da Suprema Corte do Brasil. que detém 51 por cento das ações na nova companhia de desenvolvimento United Brazilian Mining (ibid. 3 de novembro de 1965). que teria de decidir sua reivindicação de concessões e que estava ainda dominada por juizes “esquerdistas” nomeados por Goulart. Ele esperara 150 milhões de dólares em investimento americano e vira menos do que 20 milhões (NYT. tem esta* No original “Mills of the fods”. 10 de agosto de 1965). isto é. o Ministro das Finanças Campos estava se lastimando de os investidores dos EE. Sete meses mais tarde. A 2 de novembro. cinco novos “revolucionários” eram admitidos no Tribunal (NYT. O Senador William Fullbright. Mas sua fé no hábil Castelo Branco devia ter sido mais firme. 16 de junho de 1966). (quem espera sempre alcança!)* a 15 de junho de 1966. explicou que os investidores americanos estavam esperando ver se o Brasil se tornaria realmente a democracia que seus governantes prometiam solenemente estarem fazendo.

não um meramente robusto 14 por cento. Desde seus primeiros embarques de manganês em 1957. no entanto. greves e sabotagem”. A aprovação. em caos e * É como fala David Rockefeller. por volta de 13 ou 14 por cento. em seu artigo Foreign Affairs. seu lucro total durante oito anos é de 235 milhões de dólares. no Fortune de abril de 1966.” Os números de Rockefeller acima citados são líquido anual. Mas talvez — quem sabe realmente? — eles sejam ainda mais altos. 104 . anteriormente domínio reservado da Petrobrás. pode-se pensar. o governo brasileiro comprometeu-se (1) a nunca expropriar uma firma americana. as operações menos rendosas na indústria de petróleo. que tiveram permissão de fazer uma incursão de 250 milhões de dólares na indústria de petroquímicos (Time. revolucionárias e patrióticas da economia brasileira: a inflação tinha de ser detida. Segundo o jornal clandestino brasileiro Revolução. de abril de 1966. tem sido invadida pela Gulf e Esso. a Petrobrás foi no essencial afastada do refino e vendas em meados de 1966 e viu-se limitada à exploração e extração. e êle cita um estudo que mostra serem os lucros norte-americanos. Tomados os números de Fortune. Bastante altos. 28 de dezembro de 1965). pelo Congresso Nacional. “Desde que os embarques se iniciaram. Fortune diz. “O que a livre empresa significa para a América Latina”. insurreição. tem estado girando um lucro anual de 12 a 15 milhões de dólares. Esta firma foi apadrinhada em 1949 com empréstimos para construção de ferrovias concedidos pelo Banco Mundial e pelo Ex-Im Bank. Tal. pág.do tirando. é claro. oito anos. na mesma área. Se pensarmos que Rockefeller e Fortune tinham acesso a dados da maior parte de 1965. 104) . em 1957. um rico minério atômico. foi o argumento pelo qual o golpe de abril se anunciou e explicou. Por este ato. (2) pagar quaisquer danos causados a empresas americanas por “guerra. na América Latina. 15 de outubro de 1965. revolução. do Chase Manhattan. Se a ICOMI tem líquido uma média de 13. mas um elevadíssimo — e quiçás “explorador”? — 46 por cento.5 milhões de dólares por ano. então o tempo medido é. esta mesma ICOMI é citada. nióbio.C. do Acordo de Garantia de Investimentos foi crucial para este “desenvolvimento” da economia subdesenvolvida do Brasil. 13 de fevereiro de 1965. exceto com a “total e completa concordância” desta firma. em grosso.* A produção de fertilizantes. durante oito anos. A economia do Brasil estava paralisada. as especulações comerciais totalizaram 235 milhões de dólares. às cegas. e (3) permitir que firmas americanas invistam no Brasil sob os regulamentos das leis americanas (NYT. acordo que certos brasileiros cínicos apregoam ter sido redigido em Washington D. o lucro da ICOMI é portanto. seu total de lucros até 1965 é de 108 milhões de dólares. Neste mesmo artigo discute a questão: São os lucros americanos altos demais na América Latina? Sua resposta é a caráter. um argumento para estas alterações democráticas. No perfil de Antunes. Há.

Mandaram emissários fazer apelo às autoridades. é claro. Foi explicado ao povo que esta fábrica representava “desenvolvimento” e “progresso”. provavelmente. diante dos 80 por cento de 1964. tribunais controlados. mesmo na empauperada América Latina. a outra. salários congelados. acharam que deviam fazer alguma coisa. uma estimativa para menos. O Business Week. na maior parte habitadas por negros. o desemprego calculado num crescimento para 15 por cento. assim as poluições da fábrica muito cedo mataram os peixes e os caranguejos do Pirapanga e do Jaboatão. de 4 de outubro de 1966. Ambas as vilas. 11 de julho de 1966). 105 . É sobre duas vilas costeiras no Nordeste do Brasil. que greves eram postas fora de lei. há pouco tempo. e dois padres indagaram: Que acham de uma * NYT. as indústrias brasileiras nacionais dizimadas. portas largamente abertas ao capital estrangeiro. a reforma do Nordeste abandonada. os dissidentes esmagados. confessou um aumento real de mais de 45 por cento. em outros tempos podiam subsistir pobremente dos peixes e caranguejos de água doce dos dois rios. o Pirapanga e o Jaboatão. Uma vez que os habitantes das vilas viam agora a morte à sua frente. de fato prossegue sua revolução democrática com confiança inabalável. As autoridades sentiram pena deles. o soldo do exército aumentado. dava como título de seu artigo sobre o Brasil “preços nas alturas. no governo de Castelo Branco. É portanto duplamente irônico o fato de a inflação estar pior do que nunca. Uma vila é Ponte de Carvalhos. importações em declínio”. Mas o desespero faz engenho. escolas fechadas. Pense em Dólares”) relata que muitos negócios brasileiros estavam automaticamente aumentando seus preços em 7 por cento cada mês. Então um dia. Pontezinha. mas explicaram que não tinham autoridade. Este número representa vantagem. fazem duplamente no Brasil para os rios brasileiros. Mas o que as fábricas de produtos químicos americanos fazem na América para os rios americanos. e The New York Times.corretivos extremos eram necessários. e (assim era explicado) era tudo pelo bem da estabilidade fiscal. Uma história brasileiro-americana final. de 13 de março de 1965 (“Quando o Cruzeiro faz Espiral. a Union Carbide Company da América veio para as margens do Pirapanga e construiu para si uma cintilante fábrica de produtos químicos. que são ligados pelo preamar. Tendo o governo predito um aumento de custo de vida de 25 por cento para 1965. * Porém ele não está desanimado. 3 de fevereiro de 1966. uma região notória por sua pobreza. De janeiro a junho de 1966 o custo de vida já crescera de 25 por cento (NYT. A polícia não queria saber disso. Perto delas correm dois rios. Mas é. Então a gente das vilas decidiu que teria de fazer uma demonstração.

.. despejando de volta no rio envenenado aquilo que tomara sem veneno da terra. Eis a hora em que viemos pedir a solução. por sobre a ardente estrada principal. mais de 2 000 pescadores e suas mulheres e filhos marcharam vinte milhas. em 16 de agosto de 1965. raça -superior] e. Atrás dele o povo carregava cartazes cujos dizeres contavam muito bem sua história: O rio é nosso pão. Disse J. padres e pescadores. no atrasado Nordeste. Esta usina não está sozinha em sua quietude.e. na comunidade européia acima do nível de certas formas de trabalho. seu sucessor: “Não há lugar para ele. disse a polícia. pertencente à Union Carbide Company. A Pirapanga River da Union Carbide Company continuou tranquilamente a fabricar produtos químicos para alguns.. G. F. Sobre a cruz drapejava uma rede de pescar. o segundo Primeiro -Ministro da África do Sul: “Se rejeitarmos a idéia de Herenvolk [i. Ou consideraremos a África do Sul. um fugitivo da inquieta. Chegaram à fábrica. Além da polícia que viera garantir contra perturbações. como poderão os europeus permanecer Baas [senhor]?”35 Disse o falecido H. aglomeraram-se. e alguns fizeram discursos. da usina química Pirapanga River.procissão? Isso é diferente. revolução de Castelo Branco. Porém. doutra maneira dirigida.”36 Estadistas americanos afirmaram seu interesse pelo avanço mate106 . Puxando a marcha vinha um homem carregando uma grande cruz de madeira. Ninguém sabia se a procissão seria ou não entendida e seguida. se o direito de voto estiver para ser estendido a não europeus. e retortas gigantes e redomas. Verwoerd. e se os não europeus forem desenvolvidos na mesma base que os europeus. no calor do verão equatorial. o africano. ou quietamente se juntando ao padre revolucionário Alípio de Freitas. O desenvolvimento é a favor ou contra nós? Progresso que traz miséria não presta. não havia assistentes.. sempre na direção dos tanques e pipas suavemente brilhantes em seu alumínio. cada um escutando os outros dizerem o que cada um sabia que o outro já sabia. não tendo nunca havido tal coisa em nenhuma das duas obscuras aldeias de pescadores. Homens e peixes vivem e morrem juntos. onde alguns doze milhões de negros são os escravos culturais do crescente fascismo “afrikaaner” de três e meio milhões de brancos. por que era automatizada. O povo das duas vilas está morrendo quietamente. que está trabalhando quietamente no campo. Strijdom.

38 milhões de dólares do Fundo Monetário Internacional. Naquele tempo cerca de oitenta firmas americanas tinham investimentos substanciais na África do Sul. subsequentemente. Não há caso mais claro de bloqueio desse avanço e desses valores do que o caso da África do Sul. do T. As firmas americanas aumentaram seus investimentos em 23 milhões de dólares (para cerca de 442 milhões de dólares em 196239).38 Deviam decidir se continuavam ou recuavam. Aparentemente foram mantidos alguns encontros em certos centros financeiros. e quando. nas aulas inaugurais das grandes universidades — contra esta África do Sul apartheid. Mas todo mundo compreende que discursos não são ações.41 Outro é o American Metal Clímax.rial de todos os homens e pela prosperidade dos valores democráticos. era combinada e direta.. temores de que uma rebelião sul-africana pudesse estar fermentando. Assim indagamos: Neste menos ambíguo de todos os casos qual a natureza material da resposta americana? O massacre de Shapeville ocorreu a 21 de março de 1960. A partir daquela crise. Um imenso consumidor do urânio da África do Sul (que fi* Célebre “gangster” americano.* os Cavaleiros do Apocalipse do Dólar. porém onde cada uma de três crianças negras morre de subnutrição antes do primeiro ano de vida e 60 por cento de todos os pretos vivem sem possibilidade de adquirir o pão. onde os brancos têm o quarto nível de vida mais alto do mundo.40 A situação estava salva. e um consórcio financeiro ad hoc concedeu um empréstimo de 150 milhões de dólares ao governo. que é proprietário da maior mina da África sudoeste (que a África do Sul considera como sua “quinta província”). porque quando veio a ação em 1961. o número de companhias americanas investindo no futuro da África do Sul quase triplicou. até 1953. cujo presidente.37 Estadistas americanos periodicamente fazem violentos discursos — na ONU. os Babe Ruths. Surgiram logo. o governo se declarou uma república e abandonou o padrão esterlino. 28 milhões de dólares do Banco Mundial e 70 milhões de dólares de “emprestadores norte-americanos não identificados publicamente”. foi Secretário do Tesouro sob Kennedy e Johnson e passou desde então para o Conselho do Chase Manhattan. 10 milhões de dólares do Chase Manhattan Bank. entre alguns investidores estrangeiros. Um é a firma bancária de investimento de Dillon. Os gigantes estão lá. — (N. C.) 107 . Douglas Dillon. o capital europeu ficou o suficientemente nervoso para ameaçar a estabilidade econômica do regime. sendo 5 milhões de dólares de parte do First National Bank. Read & Co.

e coletando 4 milhões de dólares de Serra Leoa como compensação por suas “oportunidades perdidas”. organização origem da SLST. a ponto de humilhar a imaginação de um Dante. Naquele ano um protesto nacionalista levou o governo a reduzir a área de concessão da SLST às 209 milhas quadradas que estavam sendo trabalhadas (incluindo a rica área de Konor). A vitória não foi. que pôs à disposição da África do Sul um fundo de crédito móvel (o capital sendo automaticamente reposto pelo pagamento dos juros) que alcança agora cerca de 50 milhões de dólares. idéias brilhantes ou ira de qualquer tribo ou nação. nem um ponto abaixo da retribuição do ano precedente. De quando em quando. e a Anglo American Corporation. intrincados pelo que diz respeito às operações e absolutos pelo que diz respeito ao poder. mas a despeito da taxa pagou um dividendo de 70 por cento para aquele ano. é claro. Não há nenhum corpo legislativo ou judicial que possa enfrentá-la. a Anglo-American representa 8 minas de diamantes. por exemplo. Paraíso para centenas. porque transcende a todos os povos e a todas as ligas. Sierre Leone Selection Trust. Consolidated Gold Fields of South Africa Ltd. Bank of America. 5 minas de cobre. completa. 11 operações de prospecção. estas duas corporações dominam totalmente a vida econômica da África sub-sahariana. um elemento da Anglo-American. tinha direitos exclusivos sobre o diamante de toda Serra Leoa. Por si.. Irving Trust e Continental Bank and Trust. em 1963. tão imensos pelo que diz respeito à escala. que está colaborando com Allis-Chalmers para levar o benefício da força nuclear para a África do Sul. Bankers Trust. (o antigo vice-presidente da AMC e atual membro do conselho. (A própria CAST é só um corpo de quarta ordem na hierarquia da Anglo-American. 17 minas de carvão.42) Outro é a própria Comissão de Energia Atômica.) A CAST pagou sob protesto. Serra Leoa exigiu uma taxa de serviço da Consolidated African Selection Trust Ltda. Os participantes deste consórcio incluem as caixas fortes da finança incorporada americana. First National City. 11 “outras” minas. Chase Manhattan.43 Outro é o consórcio formal dos bancos americanos. globais pelo que diz respeito à extensão. Purgatório para milhares. Manufacturers Hanover Trust. e só na África.* Mas a longo prazo não é simplesmente objeto dos caprichos. retendo a SLST direitos ilimitados sobre profundos depósitos. Morgan Guaranty Trust.UU. Dean. 15 minas de ouro. Inferno para milhões. De novo.44 Os super-gigantes são os impérios gêmeos de Harry Oppenheimer.45 108 . First National of Chicago. o AMC fornece cerca de 10 por cento da produção total dos EE. um fragmento deste cosmos pode ser forçado a se submeter a alguns ímpios africanos.gurou em perto de 40 por cento de nossas importações sul-africanas em 1961). Arthur H. é uma figura destacada na orientação das medidas de controle das armas nucleares americanas. 22 firmas indus* Até 1955.

é um diretor do Witwatersrand Native Labour Association.3 por cento dos africanos que fizeram o exame de admissão ao colégio passaram.49 Em 1935. concentrados em manufaturas (192 milhões de dólares) e minas (68 milhões de dólares). os investimentos diretos americanos na África do Sul eram de 467 milhões de dólares. Em 1965. Em dez anos a matrícula caíra para uma centena e a média prévia anual de 60 graduações B. — (N. 196 em 1960. só 17. de 3. Lucros líquidos nestes investimentos foram 87 milhões de dólares. No fim de 1964. um dos “bush colleges”* apartheid Fort Hare. um diretor da Chamber of Mines (que determina níveis para salários nas minas e condições de trabalho) e é um membro da ainda mais exclusiva United States Foreign Policy Association. O fascismo “afrikaaner” mais forte cresce.4 milhões de brancos. Se quer dizer que estas forças induzem à violência revolucionária. Em 1954. em 1935. escolas para selvagens (“bush”). 33 000 frequentavam universidades. e a resultante transformação da sociedade que esta expansão acelera. o vencimento médio anual de um trabalhador branco das minas era de 2.214 dólares. o imperialista liberal parece horrivelmente certo. Englehard detém direções de 23 companhias sul-africanas. Roma e Londres. Em 1960. são pelo impulso forças libertadoras. e mais desinibidas crescem suas mutilações raciais.triais. e com casas de distribuição em Paris. do governo. crescera para 3.50 Os lucros das minas andaram perto de 400 milhões de dólares. 203 dólares.A. Em 1964. os números tendo sensivelmente declinado nos anos intervenientes. tinha uma matrícula de 374 estudantes. cujo relatório aos acionistas de 1965 devota uma única sentença às operações africanas. 41 milhões de dólares * Na África do Sul. Em 1953.9 passaram nas provas. é um bom espécime48 — é que a expansão da indústria.46 O embaixador da América junto a Oppenheimerdom é Charles Englehard. Se quer dizer que o processo imperialista é ele próprio progressista. Naquele ano o hiper-segregacionista Bantu Education Act foi posto em prática. um amigo íntimo de Hubert Humphrey.) 109 . Envolvido também em indústrias de mineração canadenses. do T.47 O que o imperialista liberal apregoa — Englehard. 946. 7 centros de negócios imobiliários e 31 casas de financiamento e investimento. do Native Recruiting Corporation (que importa mão-de-obra negra para o trabalho na mina). está redondamente errado. australianas e colombianas.264 dólares. caíra para 13. de 12 milhões de pretos. 47. O mineiro africano fez em média. da Englehard Industries e da Anglo-American doméstica.

Contudo.56 Alfredo Stroessner detém poder ditatorial absoluto desde 1954. o Paraguai tinha mais de 2500 firmas industriais. cuja política é “não exportar para a África do Sul armas que poderiam ajudar a reforçar a política de apartheid.54 e que produz 70 por cento do ouro do Mundo Livre. não há dúvida. com ou sem embargo. é um jogo do Mundo Livre. havia 700 em 1965. espantou-se ao saber que os gases venenosos somam. nosso governo deplora o racismo “afrikaaner”. Em 1955 o índice agrícola 110 . sarin e tabun estavam sendo manufaturados em grande quantidade na África do Sul.52 Mas. 30 jatos subsônicos Vampire e cerca de 500 aviões leves Harvard com uma carga de ataque “per-plane” de 8 bombas de fragmentação antipessoal de 19 libras. Bélgica e Holanda combinadas. transportes C-47 e C-130B (para suprir que fronte?) e cerca de 30 helicópteros Sikorsky (para alcançar rápido a cena de que insurreição?). cerca de 30 helicópteros Alouette. o campo de prisioneiros da ilha do Chaco.53 Porém manter paz e quietude. 24 por cento na manufatura e 31 por cento nas minas. britânico. 7 bombardeiros de reconhecimento de longo curso Shackleton. forneceu 16 bombardeiros leves Buccaneer. Foi este totalitarismo pelo menos materialmente eficiente? Em 1940. em que a renda “per capita” é de 95 dólares. não importa às expensas de quem ou de qual causa de ira.em manufaturas e 20 milhões em minas. e licença para a produção dos carros blindados Panhard. e provavelmente o melhor símbolo isolado da democracia crescente de seu regime seja Peña Hermosa. francês e alemão. A taxa de lucro era portanto de 20 por cento em geral. A França. 16 bombardeiros leves Camberra B-12. as forças armadas sul-africanas voam em 36 interceptores F-86 Sabrejet (para interceptar quem?). pode muito bem valer alguns escrúpulos num país que absorve uns extremamente lucrativos 4 bilhões de dólares em investimentos diretos americano. Impôs um embargo para armas no começo de 1964 (sob pressão dos países africanos independentes) e.51 De público. este não é um jogo só americano.55 Consideremos o Paraguai do Mundo Livre. cuja política é não fornecer armas “que possam ser usadas em defesa de apartheid” forneceu 16 bombardeiros a jato Mirage III C (Mach 2) com mísseis “air-to-surface” AS-30. que oferece quase em duplo a média mundial em taxa de lucros de investimentos. onde seus desditosos oponentes políticos estão sendo permanentemente reabilitados. e 25 famílias possuem terras iguais em área. à Dinamarca. A Grã-Bretanha.

que pode se virar contra nós. disse para John Gerassi: “Se toda a ajuda dos Estados Unidos a Stroessner parasse hoje. da qual 111 . A Jamaica poderia ser para os jamaicanos aquela ilha paradisíaca que as propagandas de viagem apregoam ser para os outros.60 Os americanos democráticos podiam preferir que sua ajuda financeira mostrasse melhores resultados sociais do que o tirano Duvalier se mostra capaz de obter.5. tem um turismo que lhe é muito rendoso. em 1961. e a exportação de madeira em 1956 foi de 229 000 toneladas.” O argumento de que os açougueiros anticomunistas aceleram a chegada ao poder dos comunistas pareceu não ter peso. Três quartos da terra são florestas de madeiras. só um por cento da terra era cultivado e o índice era 77. é a maior fornecedora mundial de bauxita.59 alguns poucos haitianos são muito ricos. Duvalier recebeu mais de 57 milhões de dólares em ajuda da AID e quase tanto em empréstimos dos iguais ao Banco Mundial e o Ex-Im Bank.6. e a mais baixa renda “per capita” (70 dólares) da América Latina. as exportações eram pouco mais da metade daquela. ainda outro segmento do arquipélago das Grandes Antilhas. mais importante. por outro lado. não importa quão honesto.. o menor número de leitos hospitalares e de médicos por habitante.9 por cento).7 por cento. mas os Guerreiros da Guerra Fria americanos. e. é uma grande exportadora de açúcar. um anticomunista firme. Assim. a democracia ainda seria passível de salvação amanhã. o povo haitiano tem a mais baixa frequência escolar do hemisfério (5. embora a demanda haja se intensificado. e.” Gerassi escreve: Quando repeti isto aos funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Assunção. e sem seu Duvalier. um rico próamericano auto-exilado no Uruguai. em 1965.57 O presidente do Partido Liberal.era 113. Carlos Pastore. por outro lado. sendo a seguinte mais baixa a da Bolívia 20. pode seguir o caminho de Cuba.”58 Ou o Mundo Livre do Haiti. “Em última análise” foi-me dito “a nossa política é de sobrevivência. que resguarda a zona estratégica do Canal do Panamá. é melhor do que um reformador. não importa quão desprezível. podem temer que um Haiti sem seus dólares venha a ser um Haiti sem seu Duvalier.UU. responderam: “Mas Stroessner é anticomunista. Duvalier tem segurança pessoal garantida por 20 000 homens da guarda do palácio treinados pelos marines dos EE. Tem pouco mais de dois milhões de habitantes em 4 500 milhas quadradas.

com 93 por cento de seu povo ganhando menos do que 480 dólares por ano? A Jamaica podia ser — pelo menos — a Suíça dos caraibanos. com 5 por cento. a Mene Grande Oil. pode parecer. É sem dúvida verdadeiro que a venda per capita da Venezuela é a mais alta da América Latina.provêm todas as utilidades do alumínio. Suíça (1400 dólares). Porém não o é. muito difícil de calcular para qualquer país e quase impossível para os subdesenvolvidos.62 O grupo venezuelano que detém o governo tem “direitos de concessão” em menos de um por cento das reservas de petróleo e é por demais subfinanciado para fazer operações lucrativas. os recursos médios. mas sim da Alcan. Alcan. nem se encaminha para isso.63 O dado mais revelador. Inglaterra e Alemanha). e Royal-Dutch Shell. de Mellon. com a maior parte do restante. então tem de ser válida para a Venezuela. Kaiser e Reinolds. Porém o rendimento anual da Venezuela nos 3 bilhões de dólares em petróleo que ela transporta por mar cada ano é somente de 800 dólares — renda coletada dos estrangeiros que controlam o petróleo. e que tem sido o território favorito dos modernizadores de Rockefeller desde o início do século. Alcoa. a Mobil.61 A Venezuela pertence ao mesmo campo. conta com mais de 40 por cento da produção total e volume de vendas.UU. Como é que com base em tal riqueza este país está em débito com estrangeiros. também verdade que ela é só de 800 dólares e que os dados “per capita” de modo algum representam a verdadeira riqueza nacional ou sua distribuição* e que. que não é de propriedade da Jamaica. por exemplo. Suécia (1300 dólares) e Grã-Bretanha (1100 dólares) e não muito atrás dos Estados Unidos (2300 dólares). dos dados ao pro* Partindo dos números de renda “per capita”. porém é. A Creole Petroleum Corporation. (atrás somente do Canadá. de Rockefeler. para um país de uns oito milhões de habitantes (três por cento dos quais. seria a distribuição da renda. O petróleo e o ferro venezuelanos têm um valor médio anual “dockside” de cerca de 4 bilhões de dólares — uma sólida base econômica. infelizmente. Encaminha-se na direção de dívida maior com estrangeiros. cufa renda “per capita” é de 1800 dólares — à frente do Canadá (1600 dólares). Se a pretensão de que a livre empresa americana colabora com a revolução de esperanças em ascensão acabará por fim sendo válida. 112 . com 15 por cento. Kaiser e Reinolds continuam a transportar para o norte a bauxita jamaicana. possuem 90 por cento da terra). E enquanto a pobreza da Jamaica fica pior. que absorveu bem mais de 3 bilhões de dólares em investimento direto dos EE. Alcoa. poder-se-ia concluir que o segundo lugar mais adorável do mundo para se viver é o Kuwait. contudo.

seria prudente diminuir a extração de petróleo e se concentrar agora em desenvolver uma economia urbano-rural diversificada.duto nacional bruto sobre o qual é calculada. a Venezuela com reservas de 17 bilhões de barris.65 O fato é que não compete à Venezuela tomar a decisão. eleito democraticamente. equilibrada e essencialmente auto-suficiente. O Kuwait. Precisaríamos focalizar o Irã. e a subsequente redistribuição dos direitos iranianos sobre petróleo em favor de companhias americanas (Standard e Gulf). com reservas de 62 bilhões de barris em 1960. da CIA. e que o lucro petrolífero é monopolizado efetivamente por interesses americanos e europeus. Sendo dos cinco maiores exportadores de petróleo entre os países subdesenvolvidos (os outros são Kuwait. porque ele advogava para o Irã o neutralismo ante a Guerra Fria e ameaçava nacionalizar as concessionárias estrangeiras de petróleo. mais de 90 por cento desse terço é só em petróleo. Alguém então pergunta: Por quem? E para servir as necessidades de quem? O rol é longo. através do período do golpe em si. Uma vez que o mercado mundial de petróleo apresenta um abarrotamento prolongado. parecem ainda mais negras: as reservas conhecidas de petróleo estarão extintas dentro de aproximadamente quinze anos. produziu 601 milhões de barris. as perspectivas da Venezuela. Mas as extrações de petróleo estão longe de serem diminuídas. Kermit Roosevelt. bem mais de um terço são exportações. a Venezuela tem à um tempo as menores reservas e a mais alta taxa de produção anual. onde a CIA ajudou a derrubar o Presidente Arbenz. prosseguindo por 1958 quando a Gulf o fez seu homem “de contato com o governo” e até 1960 quando se tornou um vice-presidente. porque seu modesto programa de reforma agrária ameaçava as terras de cultivo não Uma parte considerável da maior parte da população de países subdesenvolvidos ainda não está na economia monetária. 113 . a longo prazo.66 Ou deveríamos examinar a Guatemala de 1954. produziu um bilhão. Irã e Iraque). onde em 1953 a CIA e a Inteligência Britânica conspiraram para depor o Premier Mohammed Mossadeg. Alguém pode por certo dizer que a Venezuela está sendo “desenvolvida”. Arábia Saudita. As taxas de produção são determinadas pelas firmas estrangeiras que detêm os direitos de concessão — direitos que estão marcados para expirar em 1984. Deveríamos seguir a carreira do James Bond daquela operação.64 Além do mais.

John Moors Cabot. e ao colapso dos esforços ghanenses para alcançar auto-suficiência diversificada. de o amigo íntimo do Presidente Johnson. ao conselho da Sucrest Company. e de o antigo embaixador junto à República Dominicana. cerca de um dólar diário. na cadeia de Mimba.UU. e cujos ricos depósitos de ferro. que detém acesso privilegiado ao açúcar dominicano. conduziu à abertura explícita da porta ghanense aos negócios dos EE. de o então Diretor da CIA. ser um membro do conselho da National Sugar Refining Company. que importa melaço da República Dominicana. que possui 275 000 acres da melhor terra de plantação na República Dominicana e que é o maior empregador da ilha (salário médio dos dominicanos. desde 1946. criança mimada do anticolonialismo americano. de fevereiro de 1966. Harriman). da constituição “nacional” proíbe os filipinos de proteger seus mercados e recursos internos contra a penetração comercial americana — isto é. na República Dominicana e demonstrar o fato de seu planejador principal. outra filha do humanismo americano. de o então Secretário de Estado Adjunto para os Negócios Inter-americanos.67 Ou precisaríamos olhar para nossa intervenção de 1965.utilizadas da United Fruit Company. pertencerem. cujas plantações de borracha deram à Firestone um lucro líquido médio de três vezes o montante de toda a renda nacional da Libéria. ser dono de cerca de 10 por cento da National Sugar. Allan Dulles. Joseph Farland. estar para se tornar um vice-presidente da United Fruit Company.UU. da Suprema Corte de Justiça e um destacado retórico do liberalismo incorporado. Abe Fortas. de a casa de investimento privado (Brown Bros. obstrui efetivamente o desenvolvimento de uma classe empresarial filipina independente.69 Ou a Libéria. General Walter Beddel Smith. do então Secretário de Estado John Foster Dulles. ter redigido os acordos de 1930 e 1936 da United Fruit Company com a Guatemala.. parece ter tido apoio da CIA. e o qual..)68 Ou precisaríamos examinar as Filipinas. Adolf Berle Jr. ter sido presidente da United Fruit Company. foram concedidos a interesses privados europeus e americanos (Bethlehem Steel). Ellsworth Bunker Jr. cujo golpe anti-Nkrumah. ser importante acionista da United Fruit Company. o Embaixador da Organização dos Estados Americanos.. redigida nos EE. pertencer ao conselho da South Puerto Rico Sugar Company. de qualquer modo. cuja “emenda de paridade”. de o predecessor de Dulles na direção da CIA. Deveríamos examinar detidamente as implicações do fato de o escritório de advocacia.70 Ou a malfadada Ghana. do embaixador itinerante Averell Harriman. 114 .

há o Peace Corps. Omaboe.” A título de atrativo Omaboe oferecia isenção de impostos por dez anos. não passa de algaravia desejar que aprove estas exigências — as exigências de oportunidade aberta para desenvolver a riqueza natural da nação.72 Ou a Indonésia.UU. a chegada do corporativista americano é de fato um desastre. que. Porém não mostraram no Terceiro Mundo que podem desenvolver economias políticas no estilo ocidental: nos países pré-industriais. por pior que tenha sido empregado. N. Preocupado com a extração de riquezas para exportação e a imediata exploração de todas as oportunidades. nem tendência interna para estilos de vida capitalistas. por exemplo.73 Porém a lista não tem fim. o principal funcionário econômico do novo regime. feita pelo novo governo. Há.Como falou E. o ajuste seria arbitrado pelo Banco Mundial. em uma reunião em New York. A América não é ingênua como um bebê e seu imperialismo tem outras modulações. Teremos de tentar uma generalização. de tempo e liberdade para cultivar um estilo econômico nacional. para esta mesma política. nossa política de negócios pode justamente pretender ter excitado as crescentes exigências revolucionárias do mundo subdesenvolvido. de independência política. onde o mais aterrador banho de sangue da história e a devolução ou “aquisição” das concessões americanas de borracha e petróleo. sem dúvida materializa um 115 . da Câmara de Comércio Africano -Americana. que usou desta força de coação para ajudar a persuadir Madame Ghandhi de que fábricas de fertilizantes movidas pelo dispendioso óleo de Rockefeller eram melhores para a Índia do que fábricas de fertilizantes movidas pelo barato gás iraniano.71 Ou a Índia. sem olhar para os danos que isto causa aos outros. onde não há estrutura de classe capitalista. Os Estados Unidos mostraram na Europa que sabem como reconstruir as economias capitalistas destruídas pelas bombas. no caso extremo de uma desapropriação. importação de materiais livre de taxas e uma garantia de que. de isenção ante a Guerra Fria. de cujo numerário dois terços são controlados pelo governo dos Estados Unidos. conduziram diretamente ao reinício da ajuda dos EE. em 20 de maio de 1966: “Queremos que os pescadores da Nova Inglaterra e Califórnia pesquem em nossas costas e montem fábricas de conservas. anteriormente nacionalizadas. o esforço aparentemente genuíno de alguma gente da AID (e mesmo da CIA) para encorajar a reforma social sob condições frustrantes e muitas vezes perigosas. Porém.

México e Bolívia”.. Porém preocupados capitalistas incorporados não são tão difíceis de achar. desigual. nas Filipinas.”75 Os editores de Fortune mostraram que a dívida a longo prazo dos países subdesenvolvidos. um pouco tolos. Presidente de Grace e Co. mas a inimiga daquela revolução deformada.. Marines [fuzileiros]. ele mesmo reconheceu que “sermões sobre a importância da empresa e investimento privados e a utilidade do capital estrangeiro [nos países subdesenvolvidos] são.74 Pode parecer estranho ouvir isto justamente do Berle. disse Grace. há o Asian Rice Institute. É difícil entender como poderia ser diferente com o estado incorporado. desde 1951. cujos lucros latino-americanos são imensos. Adolf Berle Jr. “viram os preços de exportação de seus metais descerem de 40 a 50 por cento durante os últimos anos. a força impulsora principal da política externa americana. da pilhagem fria e da força do napalm.. de fato. Ele não é nem mesmo um igual da terceira linha da CIA.. A América não é a amiga. Ao mesmo tempo. Pode-se desejar que o Peace Corps fosse o Departamento de Estado. pode mesmo incrementar a produção. alguns 40 bilhões de dólares em 1966.. um esforço conjunto das fundações Ford e Rockefeller. que tem sido um analista simpaticamente perspicaz do corporativismo americano. custa anualmente 4.. Investimento estrangeiro e/ou privado pode industrializar. que se pode mostrar muito valioso para o povo da Ásia. Grace Jr. Mas todos os imperialismos produziram seus anjos de misericórdia. A América. Se estes representassem a essência do comportamento. É com frequência deles que conseguimos. [os países subdesenvolvidos] têm 116 . e mesmo assim deixar as massas num estado tão mau como sempre”. as descrições mais perceptivas e realistas dos efeitos do imperialismo de Mundo Livre nas regiões atrasadas. Peru.S. o Peace Corps. “Para conseguir suficiente câmbio externo para o que importam. Gerassi cita a declaração que J. que o mundo em crescimento experimenta mais profundamente. frustrada e assustadora cujos motivos fundamentais parecem tão compulsivos e cujas reivindicações fundamentais parecem tão justas. P. é a América da United Fruit e dos U. e deve-se concluir que a boa gente da AID. fez em 1958: “Chile.desejo popular americano de servir de ajuda a outro povo. um humanista político poderia se esforçar decididamente seguindo essa política sem muita hesitação. o preço médio que a América Latina paga por suas importações dos Estados Unidos subiu cerca de 11 por cento.5 bilhões de dólares em juros e taxas e consome um oitavo de todos seus ganhos no comércio externo. o Rice Institute estão apenas desempenhando papéis marginais e auxiliares.

que pedir emprestado mais. mas declinaram alguns 200 milhões de dólares. de que este problema [em vez do comunismo] seja o que está por detrás da revolução do Terceiro Mundo. entre aquele raciocínio e as seguintes passagens da página editorial do Wall Street Journal: As nações industriais acrescentaram perto de 2 bilhões de dólares a suas reservas. presidente da assembléia do Comitê Interamericano da Aliança para o Progresso. estes analistas temem que os Estados Unidos. causado pelas corporações americanas. espalhados através de cerca de 100 nações.” “Todos os demais” inclui aproximadamente dois terços da população da terra. portanto pré-anulando 16 por cento de todos os ganhos de exportação. um dos mais destacados economistas do Brasil e um antigo presidente da Food and Agriculture Organization [Organização para Alimentos e Agricultura] da ONU. Mas como será ele persuadido a fazer 117 . escreveu que ela “nada mais é senão puro colonialismo. Parece ser sem dúvida verdadeiro que muitos aspectos do problema do desenvolvimento podiam ser resolvidos por essa figura — bastaria que ele se afastasse do quadro. muito rica e todos os demais. A menos que possa ser revertido o presente declínio. de que seja. Ao mesmo tempo. Porém há só uma diferença de tom. e isto não é uma herança realmente confortável para deixar aos filhos de alguém..”76 Sanz de Santamaria. internacional. enfrentem a possibilidade nítida. não de substância. o que por sua vez significa que terão de enfrentar maiores custos e encargos. “de uma espécie de guerra de classes. altamente burguesa. branca.7 bilhões de dólares este ano [1966]. Colonialismo é a única causa da fome na América Latina.. nas palavras de Miss Ward.. há sempre uma sugestão implícita de que o homem que melhor pode solucionar este problema não é outro senão o próprio capitalista do Mundo Livre.”78 Isso podia parecer um amargo exagero. Muitos diplomatas e economistas consideraram as implicações como preponderantemente — e perigosamente — políticas. Para analistas tais como [Barbara] Ward de Grã-Bretanha.”77 Josué de Castro.”79 Mas há raramente uma indicação de que este problema seja causado por alguém. a significação de tais estatísticas é clara: o abismo econômico está se alargando rapidamente “entre uma muito pequena elite do Atlântico Norte. e outras ricas potências industriais do Ocidente. em parte preponderante.. as reservas do grupo menos desenvolvido não só pararam de crescer. Contudo. complacente. destacou o mesmo ponto: “Só a amortização da dívida [da América Latina] requer 1.

Sem grande governo. emergem decididamente para criar e controlar nova força. cada vez mais integrados e colaborativos. A ideologia obriga-o só a competir. supostamente modelo. a United Fruit não podia dominar a Guatemala. com os negócios públicos severamente orientados pelo nacionalismo. Sem a campanha de venda da Guerra Fria do Departamento de Estado. E o governo federal. comércio e finanças. Vê-se na América o surgimento (talvez seja tarde demais para tal palavra) do que só podemos descrever como estado fascista um pouco mais tolerável e domesticamente benigno. contudo é assim que se supõe operar o sistema: novos empresários. rígida censura e supressão da oposição pela força. as corporações não podiam se multinacionalizar. Em teoria. as companhias de açúcar não podiam enfiar sua garra letal nas economias dos pequenos estados desde o Caribe ao Pacífico Central. a General Dynamics não podia continuar a engordar com vendas de armas à Europa. isso só acontecerá através da ação competitiva independente de outros capitalistas. Porém constatamos um problema: Mesmo em nossa economia. Sem a AID e o Banco Mundial. não há muito tempo atrás o arqui-inimigo do homem de negócios americano. novos capitalistas. como alcançar seu descompromisso de um governo que sempre considerou os sucessos dele no estrangeiro como sendo sucessos privados da América. Sem as Forças Especiais e Fuzileiros do governo federal. agora se torna seu deliciado e delicioso parceiro. e permanente. A competição é ganha. autocrático. e portanto reconstituir a dinâmica do mercado aberto e livre. O poder se condensa nas mãos de grupos vitoriosos cada vez menores. Fascismo — um termo extravagante? A definição do Webster’s: “um regime nacional. e o vencedor fica mais forte. e que está inalteravelmente comprometido com a ideologia política da livre-emprêsa? Considere-se que o compromisso do capitalista com o capitalismo. e sem as mãos protetoras dos Departamentos de Comércio e Estado. e a moralidade decorrente obriga-o a ganhar o quanto possa. há um rompimento em aceleração deste sistema de limites baseados na competição teoricamente circunscrita ao país.isso? Entregar em nome de quem quer que seja os imensos lucros que ele considera sua principal função fazer? Além do mais. centralizado. Sem os subsídios ao açúcar do governo federal. suas vitórias contidas. e a ajuda ativa dos mascates de armamentos do Departamento de Defesa. exercendo a regulamentação da indústria. o grande negócio estaria perdido.” Nas últimas duas 118 . perdida. Se sua dominação estiver para ser restringida. não engloba um compromisso com outros capitalistas. e o perdedor fica mais fraco.

e o fim supremo dessa competição é a sucessão interna de poder e autoridade: não onde o poder será deslocado. de uma agência de propaganda). com sua moralidade. Mas centralização nas decisões econômicas e políticas básicas. pode (às vezes sim. 119 . mas a aquisição de poder dentro do sistema fechado que o comanda. Pretenderá alguém que o apetite de dominação que estimulou o crescimento deste estado incorporado vá se restringir a si mesmo. o Terceiro Mundo é uma vantagem comercial. mas muito real e muito burocrático. Por que devemos querer mudar isso? A United Fruit Company pode ser “esclarecida”. a “regulamentação” (nossa palavra é racionalização) de facto. O Terceiro Mundo é aquela mina de ouro exposta e desprotegida onde seus investimentos em dólares rendem melhor do que em qualquer outra parte. homogêneo e irregular. não ocorre entre grupos empresariais independentes e aparentemente não é travado em termos da superioridade do produto de um homem sobre o de outro (a “superioridade” de produto sendo agora comprada. combinado com responsabilidade social para com a comunidade como um todo. mas quem vencerá a ocupação dos presentes lugares de poder. E o ato normativo de competição. não há necessidade de omitir uma já inofensiva dissensão. não a reorganização de poder no mercado. De qualquer forma. que agora é levado a efeito. poder adiar o julgamento. porque o homem de negócios que fizer isso. o nacionalismo sofisticado de nossa política externa. A idéia do capitalismo é que o “lucro justo” não deverá ser determinado por um capitalista cristão sozinho. este mesmo Rockefeller esmagará. Governo forte e grandes negócios são em essência a mesma coisa. quase empacotada. quando prossegue em cruzeiros externos? David Rockefeller pode muito bem exortar seus companheiros homens de negócios a “demonstrar [aos latino-americanos] que um novo tipo de capitalismo evolveu. Ao contrário. comércio e finanças — são estes muito claramente os aspectos dominantes de nosso sistema. de alto-abaixo da indústria. eu espero não esperançosamente demais. Deverá ser estabelecido através de competição com outros capitalistas. Então.considerações. onde estão os capitalistas competitivos do Terceiro Mundo? E como estão para ser produzidos? E quem os produzirá? Nada do que o homem de negócios americano possa ver no passado. a competição crucial se processa no interior de um monolito comercial. presente ou futuro o persuadirá de deixar passar quaisquer vantagens comerciais que possam chegar-lhe às mãos.”80 E pode ele muito bem desejar que alguém aceite seu conselho. baseado no conceito de um lucro justo para a livre empresa. E para ele.

brasileiros e guatemaltecos independentes. A revolução é a livre-emprêsa coletiva dos coletivamente despojados.às vezes não) construir estradas. como sempre foram. não pode ser tarefa de capitalistas americanos. escolas e hospitais em cidadesmodelos da companhia. um bem econômico dual. esta revolução nada mais é do que o surgimento de competidores que empregam os únicos meios de competição disponíveis para eles. e podem mesmo ter uma preferência ideológica. Teria de reconhecer a diferença de interesses. aqueles cujas vidas combalidas estão mais necessitadas de mudança. Em uma palavra. ao dar uma vista d’olhos no resto do mundo. impessoal por um Terceiro Mundo. Para as coisas se apresentarem diferentes. Não tenho motivos para supor que uma tal metamorfose esteja para transfigurar este ianque. de trabalhar em favor de sua competição. que podem algum dia tornar-se bastante fortes para oferecer-lhe alguma competição? Desde quando é o capitalista o guarda de seu colega? Como homens comuns. aquela Guatemala de classe média — se isso afinal é o que aqueles países querem — aquela é tarefa de vietnamitas. pela primeira vez em sua vida. o livre-empresário ianque teria. casas. Porém. Podem mesmo se sentir compungidos com as sangrentas implicações do que vêem. não hostilizados. americanizado. 120 . não manipulados. inteligentes. tanto como a construção da nação americana não podia ter sido tarefa dos mercantilistas britânicos. os corporativistas americanos podem enxergar a verdade tão bem como qualquer outra pessoa. Os realizadores do progresso social são aqueles cuja condição o requer. Teria de suplantar sua ética do dinheiro por meio de uma ética social. aquele Brasil dinâmico e à feição de livre-emprêsa. Teria de mudar inteiramente seu estilo de pensamento e ação. teria de se tornar um socialista revolucionário. tudo em nome de algum empoeirado ideal humanitário? Ou por que devia ela se regozijar em ver o surgimento de capitalistas locais. E no fundo. dentro de suas plantações nas “repúblicas das bananas”. Porém construir aquele Vietnã “americano”. cujo objetivo fosse a destruição da atual hegemonia americana. e tomar partido contra ele mesmo. Os agentes de mudança neste mundo são hoje. no melhor sentido. porque deve ela desejar entregar a posição privilegiada que ocupa ali.

esta linha de análise é também obrigada a mostrar que o Vietnã é. a economia política vitnamita será desenvolvida. Senador Albert J. E a regra de ouro da paz é inexpugnabilidade de posição e invencibilidade de equipamento. e por quem. São os interesses comerciais americanos.V O Caso do Vietnã A supremacia comercial da República significa que esta nação está para ser o fator soberano na paz do mundo. Bevebidge. 1898 Se o anticomunismo da Guerra Fria é mais basicamente uma máscara ideológica para o imperialismo de Mundo Livre. de algum modo. mas controle externo versus controle local do Vietnã — isto é. que a questão na guerra do Vietnã não é liberdade Ocidental versus escravidão Oriental. crucial para a segurança e progresso do estado comercial americano. substanciais ao ponto de justificar uma guerra assim perigosa e ilimitada? A guerra agora 121 . naquela parte do mundo. Pois as lutas do futuro devem ser conflitos de comércio — lutas por mercados — guerras comerciais pela existência. tão pobre e tão atrasada. E uma vez que os Estados Unidos se comprometeram tão sem reservas com a salvação à Mundo Livre do Vietnã. então se pode ser capaz de mostrar. mostrar que a guerra está sendo travada para determinar como. É precisamente neste ponto que a teoria do imperialismo se defronta com uma simples e séria objeção. de alguma forma.

crédito mais restrito). recursos. ambos os quais agora importa.ex. “Um Vietnã do Sul protegido do comunismo”.está custando aos americanos acima de 20 bilhões de dólares por ano. escassez de mão de obra em algumas áreas-chave de especialização. com seu aspecto tão persuasivo. “tem o potencial para se tornar uma das mais ricas nações do Sudeste da Ásia.” Um trabalho similar. rápida valorização no mercado de valores e títulos.” Ele nota que o país poderia se tornar um exportador de açúcar e algodão. impostos mais altos. Porém qualquer que seja o motivo. Faltermayer. — (N. em ordem crescente de importância: Primeiro. apareceu no número de março de 1966 do Fortune. é também um clímax.UU. é um paradigma dele. Há quatro pontos importantes debatidos abaixo. que o delta do Mekong. e que em sua fusão de motivo imperialista e ideologia anticomunista. no caso. Newsweek traz um ensaio chamado: “Saigon: Uma Cidade Boom* para os Homens de Negócios dos EE. existe um interesse comercial americano direto no Vietnã.” Há a possibilidade de ambos os artigos terem sido um tanto planejados ou calculados. a guerra não é somente exemplar. Em seu número de 1 de janeiro de 1966. população ou semelhante. escreveu Faltermayer. Encontraremos que a política da América no Vietnã não ilustra meramente o imperialismo americano.) 122 . estes artigos — e em especial o de Faltermayer — devem ter convencido muitos de que o Vietnã do Sul é um petisco delicioso bastante para valer a pena ser salvo. do T. Mas investiguemos o caso com maior curiosidade. de Edmund K. inflação. e poderia facilmente ultrapassar esse recorde sob condições normais. nos leva a abandonar a teoria imperialista (pelo menos para esta guerra) e voltar a uma explicação mais puramente “política” e não comercial. Talvez fossem divulgados para incentivar o entusiasmo da comunidade dos negócios por uma guerra que cria alguns aborrecimentos internos (p. sob o título “As Surpreendentes Vantagens da Economia do Vietnã do Sul. a “tijela de arroz” que agora produz cerca de quatro milhões de toneladas * Desenvolvimento rápido de valor. Quantos anos levará um Vietnã “salvo” para começar a pagar dividendos para essa espécie de investimento militar? O guarda-livros observará que salvar o Vietnã está nos custando muito mais do que o que possa jamais ser igualado por qualquer vantagem “colonial” resultante. em 1961. Esta observação de inteiro senso-comum. que exportou um recorde de 83 000 toneladas de borracha.

o açúcar e o algodão — e as promissoras colheitas industriais. um combinado de construção formado por Raymond International. amplamente aberta no Vietnã. e J. controla 18 por cento de interesse numa fábrica de papel dirigida por americanos. A Esso e a Caltex. a borracha. ele diz.UU. e a refinaria poderia ser incluída no proposto complexo industrial de Cam Ranh Bay. anualmente. que inclui bases aéreas. caminhões e locomotivas de estrada de ferro — e lucrando. não mais de 6 milhões de dólares. no momento. A situação. poderia produzir de 12 a 15 milhões de toneladas. estão vendendo e fazendo a manutenção de equipamento pesado — “bulldozers”. Outra indústria têxtil foi parcialmente financiada pela Johnson International Corporation. Faltermayer procura não exagerar a importância da presente jogada. A firma de New York. e Brownell Lane Engineering Co. estão estudando propostas para construir uma refinaria de petróleo no valor de 16 milhões de dólares. e planeja um incremento de mais 75 000. O Chase Manhattan e o Bank of America abriram filiais em Saigon. Brown & Root. tem interesse controlador em uma nova fábrica de leite condensado e meio-interêsse em uma nova indústria têxtil.de arroz. Até março de 1966. Dairies. 123 . Não é por mágica que o arroz. pode mudar radicalmente nos próximos anos.1 O gigante é RMK-BRJ. “os homens de negócios dos EE. já era o maior empregador privado no país. com um capital de 5 milhões de dólares em Bien Hoa. A American Trading Co. disse Newsweek. Os pioneiros capitalistas já estão firmando suas pretensões. Para isso será preciso capital. seja do capitalista. A Shell Oil e o governo sul-vietnamita participaram da especulação. A RMK-BRJ é a principal contratante do enorme programa de construção militar. A. tratores. seguiram suas [sic!] tropas na guerra em tal escala”. com 25 000 trabalhadores em sua lista de pagamento. a primeira do país.. 20 a 30 por cento em seus investimentos. seja do tipo socialista.. Jones Construction. da Califórnia. em média. “Nunca antes”. Enfatiza que nosso investimento direto total no Vietnã é. ramis e “kenaf” — virão saltando do solo para os porões dos navios cargueiros. portos e estradas (“infra -estrutura” econômica) e seus contratos devem eventualmente atingir 700 milhões de dólares. juta. Parsons & Whittemore. Morrison-Knudsen. Porém a mesquinharia desse total é em si um engodo claro: Há uma nova fronteira de oportunidades.

chamado Herbert Fuller. o Vietnã do Sul deve se alinhar entre nossos dez maiores compradores. de 16 milhões de dólares. que Faltermayer apresente esta “especulação” como algo novo. Já citamos Forbes (que se intitula uma “ferramenta capitalista”) sobre a Agência para o Desenvolvimento Internacional (AID): “é a principal agência por meio da qual o governo dos EE. É difícil considerar es124 . “Estou nisso por dinheiro”.. Destes. Em 1967. Ou quer? Deparamo-nos com um problema de visão. colonizar e começar a desenvolver o chão há pouco limpo por nossas tropas não quer significar que seja por eles que as tropas lá estão. Fuller mais uma vez leva à frente seus planos porque julga que os Estados Unidos agora têm o encargo de salvar o Vietnã. cabeça de um grupo investidor que desde 1958 tem estado promovendo uma usina de açúcar de 10 milhões de dólares para a cidade costeira de Tuy Hoa: Quando as tropas chegarem para limpar a área. Fuller diz: “Podemos obter de volta nosso investimento em dois anos. 85 por cento é gasto nos EE. que acrescentou à história uma nota tocante: “Há forte evidência de que o governo americano “convidou com urgência” as companhias petrolíferas a realizar o contrato a fim de mostrar a confiança americana no futuro do Vietnã. Todas as novas fronteiras precisam de seus Paul Bunyans.UU. alcançam um quarto: 550 milhões de dólares.”2) Um importante aspecto do quadro comercial é. já estavam “em estudo” em abril de 1962. por certo.” Como todos os homens de empresa. este capitalista americano estará literalmente. Os planos da mesma refinaria. as parcelas da AID entregues ao Vietnã eram perto de um sexto dos 2 bilhões totais. Se 85 por cento disso é dispendido em exportações americanas. contudo. A AID distribui cerca de 2 bilhões de dólares por ano. um passo atrás delas. em produtos americanos e matérias-primas: “Em 1966.(É surpreendente. como devem fazêlo mais cedo ou mais tarde.. financia negócios no exterior. Fali. e que os homens de negócio pudessem de imediato ocupar. a doação de dólares americanos para financiar a importação vietnamita de mercadorias americanas.UU. Faltermayer oferece um forte candidato na pessoa de um empresário de New York. E então? por que é tão errado nossos homens de negócio estarem logo atrás de “suas” tropas? Não há nada estranho na busca de lucro e oportunidade. segundo o erudito da Indochina Bernard B.

do escritório de Saigon da Investors Overseas Services. livre-emprêsa e liberdade. ou não serão. Em 1959. são livres para nele fazer negócios. quer imediatas quer a longo termo. diz Arthur Tunnell. Mas o que julgamos que “liberdade” significa? E qual é o propósito real em manter os comunistas afastados? Nossa definição funcional de um país livre fica clara perante nosso comportamento. uma outra cidade costeira. Sem dúvida. ajuda a guiar esta roda. o mercado de ações teve sua baixa mais 125 . Não há dúvida de que a importância do Vietnã está muito mais basicamente em sua posição geográfica e histórica do que em suas potencialidades comerciais inerentes. “haverá aqui um grande futuro para os homens de negócios americanos. Seu aparecimento nele parece incidental — talvez importante. se tiverem a habilidade e a capacidade para fazê-los. e o primeiro é uma instância da realização deles. “capitalista americano”. Segundo. em 20 anos um total de mais de 850 bilhões de dólares. “Após a guerra”. Está sendo travada pela liberdade ou para afastar os comunistas. A definição diz que um país é livre quando americanos. elas próprias “livres”. como veremos. Quando não há livre-emprêsa o país é comunista. ninguém pensa que os fuzileiros renunciariam à conquista de Tuy Hoa. mas não especialmente significativo. como colônia de conflito. Leve-se em conta que desde 1946 o governo federal tem dedicado cerca de 60 por cento de seu orçamento para apoio do complexo militar industrial. A guerra seria a mesma com ou sem eles. a economia militarizada pede uma política militarizada. que nem Fuller. dependendo da nossa possibilidade de fazer negócios nelas. Não está sendo travada em favor deste Herbert Fuller. E livre quando lá há livre-emprêsa. ao estilo ocidental — porque os dois últimos são considerados como se definindo mutuamente. Portanto. e que serão. assim é tão só porque se imagina ser o Vietnã a chave para áreas maiores — áreas cuja acessibilidade comercial é importante para nós. quando Khruschev veio a Camp David e a Guerra Fria parecia suspensa para reavaliação. quando Faltermayer fala de “salvar o Vietnã” está falando ao mesmo tempo de salvar ambos. Este é um fato político. O Vietnã. Se Fuller decidisse que o projeto de Tuy Hoa era uma aposta má e voltasse para New York. uma política militarizada pede uma economia militarizada. Porém.”3 Analisemos por alto a visão que essa afirmativa torna concreta e obteremos uma exaustiva descrição ideológica da guerra do Vietnã. ele e a região para Fuller.tes homens de negócios particulares como sendo de qualquer modo cruciais para o drama do Vietnã.

que não estava convencido de que as coisas estivessem tão bem quanto deviam estar. Porém o então presidente da Junta Federal de Reserva [Federal Reserve Board]. começou a dizer em altas vozes. O herói era a guerra: Não seria encurtada. Confessou mesmo que a economia o fazia pensar em 1929. Os efeitos econômicos da guerra são tudo menos sem ambiguidade. no particular. Parece que temos de gastar. porque aquilo que uma economia de alto emprego produz tem de ser vendido. Nesta atmosfera controlada de “Perils-of-Pauline”. e logo se soube que seus custos diretos iriam pelo menos a 21 bilhões de dólares por ano. no geral. Era profundo? Havia perigo real? Uma agitação de discreta incerteza se fazia presente. o produto tem de ir para algum lugar e tem de ser pago.”4 Durante o verão de 1965. Por mais nervosa que permanecesse. Isto foi chamado do “nervosismo de paz” (peace jitters). em lugares públicos. sabia como reagir a este “crack”. então. nada percebem da economia de capitalismo de estado. William McChesney Martin Jr. depois voto de confiança. em 1960. Quer vá para a vida mansa. quer para o limbo dos silos do governo. Aqueles que argumentam que devemos ter sido forçados a travar a guerra do Vietnã. A guerra gera muitos problemas reais de administração fiscal e anomalias perturbadoras nos padrões do câmbio externo. Eisenhower voltou de Paris devido aquele U-2 abatido (uma novidade Lockheed). um fato econômico chave referente à defesa do produto: Não é produzido à custa de necessidades domésticas reconhecidas. sobre o metabolismo nacional. uma vez que é tão antieconômica. a especulação altista ganhara sua moratória.violenta em cerca de quatro anos. muito menos terminaria em breve. Consideremos. Ninguém. notícias de um debate importante no “santo dos santos”. Porém. a guerra é boa para a economia porque a economia sofre o acréscimo de subsídio federal. certas pessoas bem informadas estavam de novo aborrecidas com a economia nacional. como é muito bem sabido. acima de tudo. os que emprestam e os que tomam emprestado e seus analistas começaram a murmurar inquietamente. e subsídio militar. foram drenadas para fora aos bocados e pedaços. Quando. Não se dá o caso de os americanos fazerem filas para comprar 126 .. Tendo se jogado para o futuro num ato de fé. a página financeira do New York Times tinha como cabeçalho “Fracasso da Cúpula um Tônico para o Mercado. eis que de súbito aparece um herói inesperado que ninguém ficou realmente surpreso de ver. A Administração parecia tender para a confiança. no consenso do especialista.

não são fabricados. esmaecesse até que um dia alguém notasse que desaparecera? O que seria desta gargantuesca Lockheed. Afinal não tão profundamente. economia e negócios? Realmente parece não importar. onde não se pretende que a “ameaça” esteja aumentando. administradores e operários da linha de montagem que emprega? Ou das dezenas de milhares de lojistas. qual é a política da América referente à militarização da Europa? Durante os passados quinze anos 127 . são somente os mais dramáticos) a impulsionar a Europa em direção ao acordo e integração. a legislação capacitadora para a orientação da conversão industrial de defesa-para-civil? Quem está quebrando cabeça com as respostas? Temos uma quantidade de variadas comissões fita-azul de cientistas. engenheiros. técnicos. o de De Gaulle no Ocidente. participamos todos como cúmplices do grande segredo de estado. conduz em ambos os lados da Cortina (dos quais. que não poderia alcançar de outro modo. Não se pretende que a guerra do Vietnã tenha sido determinada só para animar uma economia superdesenvolvida e inflexível por meio daquele mercado “externo” e “expandido”. bem na superfície da intuição. Talvez mesmo de natureza revolucionária. Que mais? São tolos. estes homens de ciência. que todo mundo sabe muito bem não serem a sério. sofrendo terapia muito dolorosa. os submarinos. Eles são um pouco mais espertos do que Sísifo. os aviões. por causa dos tanques. intermediários. os mísseis — onde estaria a economia? O que equivale à pergunta: Se não fosse pela heroína. Todavia nesta atmosfera de calma e confiança. O oposto é verdade: mais comércio com o Leste da Europa e com a URSS. Observe-se a Europa. com seus 500 milhões de dólares só em pesquisas e contratos de desenvolvimento? O que seria dos altamente especializados cientistas. olhando para ele fixa e solenemente. porque só cercam o rochedo. O oposto está muito mais perto da realidade: Se não se gastasse com os tanques. emprestadores e fornecedores que seus salários mantêm em atividade? Onde estão os planos concretos. economistas e homens de negócios. e o de Ceausescu no Oriente. Mas o que seria se a guerra do Vietnã terminasse e a China dissesse: sigam em frente? O que seria se a Guerra Fria esmaecesse. que é o de não estarmos em perigo real de ser abandonados por esta “ameaça” que conserva o estado corporativo em sua disposição de luta. após vários anos de pregação e aparente prática de coexistência. os grandes debates no Congresso. empurrando-o de tempos em tempos. onde estariam os viciados? Obviamente: nos hospitais.automóveis que.

a Alemanha “tem sido encorajada” a adquirir materiais militares americanos no valor de 1. Tal demora pode ter algo a ver com a recessão e problemas orçamentários da Alemanha. ou vendemos. Mas pouco temos com isso. Mas o exame mais elementar do que está acontecendo agora na política européia tornará claro que armamentos — em ambos os lados — são crescentemente irrelevantes para a paz e estabilidade. e se tivessem de alguma forma qualquer efeito no mais amplo 128 . Lockheed e McDonnell. Delegado do Secretário Adjunto de Defesa para Negociações Logísticas Internacionais.. As vendas militares externas no primeiro trimestre de 1966 foram as mais baixas desde 1964. Em maio de 1965. Kuss Jr. Argumenta-se que estes armamentos estabilizam o mundo e fazem a paz.UU. Precisamos nos livrar destes bens. em reconhecimento ao “intensivo esforço de vendas” de sua seção. Kuss foi condecorado com a medalha “Meritorius Civilian Service. General Dynamics. não se preocupe. as vendas de exportação militar subiram a mais de 9 bilhões de dólares e o lucro dos fornecedores de defesa americanos totaliza cerca de 1 bilhão de dólares — belamente concentrado nas mãos de três grandes e altamente influentes firmas. uma outra parte de nosso governo oferecerá um empréstimo com cláusulas favoráveis.”6 Eis um exemplo de primeira: a Alemanha ganha cerca de 675 milhões de dólares por ano das tropas americanas ali estacionadas.5 Por que tal acontece. Muito conveniente o fato de as “necessidades” militares da Alemanha serem tão próximas de nossas despesas.3 bilhões de dólares. equipamento militar no valor de 35 bilhões de dólares. Desde a metade de 1961. e a grande razão foi o atraso da Alemanha em dar o “de acordo” para as compras.nós demos. prosseguirão naquela escala elevada num futuro previsível. Estas vendas são promovidas ativamente pelo Pentágono. que a Guerra Fria degele se quiser. se a ameaça está diminuindo? Acontece por que nossas vendas militares no exterior representam uma de nossas maiores ajudas em nosso deficit crônico de balança de pagamentos. Mas a Alemanha parece relutante em comprar o que insistimos não poder ela dispensar. como se as vantagens financeiras que nos vêm de sua venda fossem só um feliz incidente.. Para compensar estes pagamentos dos EE. que parece ter um pouco mais de cuidado com a necessidade e capacidade de pagar dos compradores do que qualquer vendedor de carros usados comum: A boa qualidade das armas é uma necessidade bastante válida e se o preço parece alto. no período 1966-67. O vendedor número um — o Pentágono chama -o “negociador” — é Henry J. As vendas militares ultramarinas para 1965 eram cerca de 2 bilhões de dólares e.

O Senador Eugene McCarthy comentou: “Não fica claro como a Jordânia. caso vencesse tais lances. Os vendedores americanos estão contentes. pagará estes aeroplanos. ninguém pensa que os russos estão para vir rugindo Cáspio abaixo. Nem a guerra Árabe com Israel. o Departamento de Estado anunciou um acordo para vender à Jordânia (que já possuía tanques americanos) “um número limitado” de avançados aviões bombardeiros de combate. porque supomos que temos de fazê-lo.. Vender armas para Israel e o mundo Árabe. o Pentágono dá um jeito de achar as propostas inglesas não inteiramente segundo o modelo.”7 Por pior que tenha sido — e ainda pode ser de novo o embate Índia-Paquistão nada será comparado com o que poderá irromper a qualquer momento no Próximo e Médio Oriente.. o Paquistão não teria buscado uma solução militar para a disputa do Kashmir. Se não tivéssemos fornecido armas. seria um negativo e obstrutivo. Fora da Europa.. e que se tem mostrado dependente das doações militares e ajuda econômica dos EE. O antigo Embaixador na Índia. Permite-se portanto à Inglaterra fazer ofertas para os contratos de munição americanos. com um PNB “per capita” anual de 233 dólares. Porém. apesar disso.UU. testemunhou ante o Comitê de Relações Exteriores.. John Kenneth Galbraith. que custam 2 000 000 de dólares a unidade. e era uma vez a política americana (tal como foi esclarecida por Rusk recentemente em janeiro de 1966). Mas a Grã-Bretanha ainda tem seu deficit. Vem à cena a Arábia Saudita. Uma sequência interessante tem início com o nosso pedido para a Inglaterra comprar aviões de combate americanos. ao mesmo tempo. isto resultaria numa perda de mercado para os fabricantes de munição americanos. a realidade contradiz a tese de armas para a estabilidade.padrão da reintegração européia. em 25 de abril de 1966. Tendo concordado.”9 Ênfase acrescentada. causaram a guerra entre a Índia e o Paquistão.UU. a Inglaterra agora necessita fazer vendas para “contrabalançar” seu desequilíbrio. é sem dúvida um importante fator. A eficácia do crédito para compra de armas dos EE. é um negócio embaraçoso. “não para estimular e promover a corrida armamentista no Oriente Próximo e nem para encorajá-la por nossa participação direta. que “as armas que fornecemos. declaradamente os Lockheed F-104. ou através dos montes Kopet. têm qualquer coisa a ver com a Guerra Fria. Assim.”8 Pouco mais de dois meses após essa declaração. de maneira ainda mais ominosa. convencida de que estará em perigo enquanto não tiver uma grande frota 129 . nem a vendetta de Nasser com a Arábia Saudita. assim o fazemos por trás do muro o quanto podemos — mas o fazemos..

”11 Triste dizer. Desta forma devemos agradecer aos russos por ajudarem a fazer o capitalismo nos Estados Unidos funcionar melhor do que nunca. Por trás dos executivos o sistema de crescimento e valorização intensos para o qual trabalham. os engenheiros militares precisam desenhar. Mas o mundo não devia esquecer o que é uma dor de cabeça. A Grã-Bretanha.. A Guerra Fria. contamos esta venda britânica de aviões para a Arábia Saudita como o fator de equilíbrio compensador de nossas vendas anteriores de aviões para a Grã-Bretanha. Sumner Slichter. O sistema precisa crescer e se valorizar altissonantemente. Na aparência não estamos realmente orgulhosos com este tipo de coisas. Além disso. os executivos precisam existir. E nós. 7 000 foguetes nucleares de longo alcance. os executivos que servem em comissões presidenciais e viajam. Por trás dos engenheiros. para a capital. estamos vendo a glória da Rússia esmaecer. mas que podemos fazer? Lá se erguem os brilhantes armamentos numa fileira. vende à Arábia Saudita o que ela quer — aviões de combate supersônicos no valor de 400 milhões de dólares. contra o pano de fundo da política americana em Israel. os melhores. com frequência. ajuda a manter um alto nível de emprego. E essa negociação é mais fácil se há uma certa inquietação no mundo. quando pusemos. Porém. estes polidos aviões de combate. seria para nós politicamente arriscado atendê-la — pelo menos abertamente. nós temos ameaças preventivas.12 talvez tenhamos começado a saturar um bom 130 . Assim para prosseguir com esta beleza conceitual chamada “guerra preventiva”. acelera o progresso tecnológico e assim ajuda o país a levantar seu padrão de vida. numa palestra para um grupo de banqueiros. o suficientemente grandes para pôr um fim às coisas e proteger o sistema de se tornar supérfluo. em consequência disso. Queria-os americanos. Quem poderia negociar aspirina se não houvesse dor de cabeça? Todavia o que é mais anti-dor-de-cabeça do que a aspirina? Aspirina preventiva.. Por isso persuadimos a Arábia Saudita de que os nossos não são os únicos aviões do mundo a voarem tão bem e que ela também vai ficar muito satisfeita com uma marca britânica. seu poder de inspirar nosso capitalismo declinar. ele disse. os rebitadores precisam rebitar. não havendo perdido nenhum mercado no qual poderíamos ter entrado graciosamente. Atrás deles postam-se seus engenheiros. explicou o sistema de modo muito comovedor em 1949. “incentiva a demanda de bens. no qual têm sua razão de ser. pelo qual falam. e os luzentes armamentos precisam portanto ser negociados.de aviões de combate. economista de Harvard. uma pequena tensão e ansiedade. só na Europa Ocidental.10 E assim são as coisas.

há o período de pré-guerra do “New Deal”. mas não precisa sê-lo. Já pela metade da década de 1890 nos havíamos tornado os primeiros manufatureiros do mundo e portanto internacionalistas a despeito próprio. Grã-Bretanha e França.13) Porém a opinião que veio a ser a dominante foi de que os problemas de agressão de potências avançadas e revolução de estados atrasados tinham de ser resolvidos. quando fomos internacionalistas. Após a guerra. é neutralista. a partir do começo do século. A questão para os estadistas foi quais potências deveriam pertencer ao clube.mercado. (Esta é uma das assim chamadas posições isolacionistas. O mundo necessitava de um acordo de gigantes industriais. podiam proteger a segurança da eco131 . De maneira crescente. estrelinhas de amanhã — Guatemala? Filipinas? Irã? — estão desde agora experimentando suas vestes de pijama negro campesino e ensaiando suas mais rabujentas imprecações marxistas. podiam ser resolvidos e seriam resolvidos por meio de algumas combinações das potências adiantadas. Agora temos a China — e portanto o Vietnã. Como deviam ser conquistadas a estabilidade e liberdade necessárias? Uma opinião distintamente minoritária era de que não podiam ser: As velhas nações estavam resolvidas também a se conquistar mutuamente. Terceiro. Desta forma a Rússia revolucionária podia ser isolada e as Grandes Potências. descobridores de talentos. O neutralismo pode ser isolacionista. Porém temos sorte. E o Terceiro Mundo está pululando de gente da CIA e Forças Especiais. e usualmente não o é. Havia-se tornado essencial para nós que nossos mercados externos não fossem perturbados. Não é isolacionista. por exemplo. Antes da I Guerra Mundial. Para um exemplo mais de dentro de casa. sustentando que a Alemanha e o Japão agora deveriam ser integrados no acordo Atlântico. por isso. agindo coordenadamente. E nos flancos. o cerne estratégico do assunto. politicamente partidários e economicamente neutralistas. a crença geral era de que a combinação adequada consistiria nos Estados Unidos. A questão para a diplomacia era como fazê-las entrar. é tudo menos isolacionista. ser neutra e comerciar com todos que quisessem comerciar em termos justos. a política americana tem estado preocupada com o problema de pacificar o meio comercial global. Wilson reviu explicitamente esta perspectiva. Itália e Japão permaneceu basicamente sólido nos anos 1933-40. ao mesmo tempo: nosso comércio com Alemanha. vontade e prestígio coletivos haveria de restringir as agressões e suprimir as revoluções. pois novos russos continuam entrando no mercado da Guerra Fria. cuja força. A América devia. A Suíça neutralista.

na década de 1930. pelo menos bem até a metade dos anos de sessenta. Nossa perspectiva da distinção do Japão está refletida no fato de que além dos casos muito especiais do Vietnã. Quando as dificuldades começaram a fermentar. De 1929 até 1940. com uma constância realmente notável. Estávamos tentando com determinação. por parte da Alemanha. Tal como a Alemanha é o estado pivô do domínio Atlântico. Grã-Bretanha. A França de De Gaulle hoje pressagia mudança. Chamberlain lutou com toda a considerável ansiedade sob seu comando. idéias diferentes sobre como o poder europeu possa ser organizado e quais devam ser seus objetivos fundamentais. O primeiro ponto é que o Japão é um comerciante tradicionalmente poderoso. Porém. enquanto o com a China cerca de 1. e em 1922 (o Tratado das Nove Potências) levou o Japão pelas orelhas a um moderno acordo à portas-abertas com a desventurada China. nos anos de 1920 os Estados Unidos subscreveram a reconstrução da estrutura industrial de pré-guerra da Alemanha. Este sistema tem dois domínios separados mais integrados. Assim. É a situação deste Japão que examinaremos agora mais detidamente. Alemanha e Japão.nomia política do mundo. assim o Japão é o pivô do Pacífico. Alemanha e Itália). nenhum país fora da Europa recebeu tanta assistência dos Estados Unidos 132 . nosso volume total de comércio com o Japão só foi ultrapassado por nosso comércio com o Canadá e a GrãBretanha. estabelecer aquela integração política das Grandes Potências que por fim foi estabelecida pelo menos temporariamente — como um dos principais resultados da II Guerra Mundial. para estabelecer a hegemonia de Quatro Potências na Europa (i. de maneira genuína.5 bilhões de dólares. e todos eles mais ou menos querendo aceitar e apoiar nossas opiniões sobre a ameaça comunista.e. França. manobrou por paus e pedras durante a maior parte desse período para assegurar uma acomodação da China com o Japão. Coréia e Formosa. isto é. O muito cobiçado comércio com a China não era nem metade tão importante (por aquele período. o Atlântico e o Pacífico. França. e talvez (é passível de debate) o gaullismo represente. o volume total com o Japão era cerca de 3. o mundo de após-guerra foi dominado por alianças explícitas ou implícitas que ligaram umas às outras as economias dos Estados Unidos. Grã-Bretanha. todos os nossos parceiros compartilhando nossa crença numa filosofia política democrático-liberal. crescentemente integrada.5 bilhões de dólares). um que há muito tem sido importante para o comércio dos Estados Unidos. O “New Deal” não muito mais esclarecido pela invasão japonesa da Mandchúria do que o foi a Inglaterra pela remilitarização do Rhimeland.

O outro. Sua recuperação no período de após-guerra foi rápida e firme. que é graduada especificamente para a natureza da ameaça e que não se propõe à liquidação final e direta da ameaça. Contenção que. Podemos oferecer uma galeria de tais situações diferentes e definir para cada uma diferente forma de contenção.(alguns 4 bilhões de dólares pelo período 1945-63). alcançando pela primeira vez uma balança de comércio favorável. há uma forma de contenção que é claramente militar. só com o Canadá à frente. Por volta de 1961. Em 1965. atrás dos Estados Unidos. estava perto de 17 bilhões de dólares (mais do dobro do volume de 1960). Alemanha Ocidental. em cada caso. Para entender as essências desta dinâmica temos que analisar a significação deste conceito “contenção”. pode ser política e legalistica. orientado para o Ocidente. neste caso. da Tchecoslováquia. “conteve” Hitler respondendo à concentração alemã de tropas em sua fronteira com uma mobilização militar.) 133 . Ele pode. a “invasão” indiana.5 bilhões de dólares e comprou-nos 2. é claro. 8.3 de dólares de importações.4 bilhões de dólares. Por um período pateticamente breve. A característica comum seria que. Mas também não se pode duvidar de duas outras coisas. Seu volume de comércio. alcançara o segundo lugar entre nossos parceiros de comércio. Os Estados Unidos “contiveram” o crescimento do comunismo interno por meio de um programa de sistemática hostilização legislativa. Não se pode duvidar do poder da China para agredir seus vizinhos. ao mesmo tempo com os Estados Unidos e o mundo. é de que ela jamais atacou para saques ou sem provocação (A “invasão” coreana só se deu após repetidos bombardeios americanos na Mandchúria. colocando-a à frente da Itália entre os realizadores de negócios do mundo. só após um claro motim da teocracia. Nunca foi ameaça real. Uma é de que ela estaria quase indefesa ante a espécie de ataque nuclear estratégico que um ato claro de agressão certamente provocaria. Inglaterra. a “invasão” tibetana. França e Canadá. Qual a natureza da ameaça Comunista Chinesa? Como deve estar perfeitamente claro. como resultado de uma muito comum disputa de fronteira. judicial e de propaganda.5 bilhões de dólares de exportações vs. significar várias coisas. Assim. (8.)14 O segundo ponto é que um Japão saudável. Benes. na qual não tinha de nenhum modo o pior argumento. vendeu-nos 2. a ameaça não é basicamente militar. é tão decisivo para a contenção da China quanto a contenção da China o é para a saúde e orientação ocidental do Japão. em 1965. a percepção de uma ameaça ativa desperta uma contramedida.

A ameaça é política. foi principalmente agrícola. Avaliações da experiência do Grande Salto variam ainda “mais largamente. Nossa resposta ao fato gigantesco da revolução chinesa — algo que 134 . os recursos. e controle positivo de seus recursos inerentes. um mundo no qual exista uma Ásia independente e dinâmica. Europa e URSS. e que o crescimento industrial básico permaneceu saudável. e que esta economia estabeleceu contato com o potencial intrínseco da terra e do povo. no Oriente. O povo industrioso — e a terra rica — lá têm permanecido. que ela tem uma economia. Mas há acordo geral de que o desenvolvimento foi vigoroso. O importante é que ninguém nega. A taxa de crescimento nos primeiros dez anos seguintes à fuga de Chiang para Formosa foi entre 15 a 30 por cento. Para que se ouse dizer alguma coisa de conclusivo sobre a economia da China ter-se-á que basear-se numa demorada análise. esperando por algum cabeça dura Johnny Applessed. O que lhe faltou por séculos foi ordem. entre vários. pela primeira vez em séculos. e a razão principal de sua demora seria a necessidade de explicar porque nada de exatamente conclusivo pode ser dito. agora na maior parte recuperado. infestado como é por dificuldades naturais e políticas. alguns estudiosos apresentando uma interpretação de “catástrofe”. Esse potencial. ninguém parece estar realmente seguro de como medir o desempenho de uma economia planejada imatura. Deixado de lado o problema de dados insuficientes. que o tempo inevitavelmente trará. é tão grande como precisa ser. Recordemos só as palavras de Napoleão sobre o gigante adormecido que acordará para sacudir o mundo. seu miolo é econômico. tal nossos estadistas por certo o fazem. a observação de Lênin de que “para o comunismo mundial o caminho para Paris passa por Pequim e Calcutá. política. E como no caso de qualquer ameaça política. Por muito tempo tem sido sabedoria de estadista julgar. que qualquer China que se pudesse organizar seria deveras uma China. precisamente tomando em consideração o estado realmente caótico das condições iniciais. a China se poderia tornar uma igual da América. cultural — não mais esteja tão densa e desproporcionalmente concentrada no âmago global do Atlântico Norte — isto é. na China de aqui há cem e mesmo cinquenta anos. Mas aqui não precisamos ser tão técnicos. outros pretendendo que o fracasso.” Tem ela o povo. Pensemos então. um sentido de unidade nacional. dependendo do especialista que se aceite. a energia e a ingenuidade para ser o quê? Garantida a equidade que o tempo pode obter. haver algo como uma nação chinesa. Imaginemos um mundo no qual a ação criadora — econômica.

estão subindo anualmente numa média só ultrapassada por suas compras da China. 16.3 (244. 152.8). Primeiro preferimos acreditar que ela não estava acontecendo. quando e em que termos. o Japão já é o mais destacado parceiro comercial da China. Claro. Meramente para lhes dar ânimo. porque ele nos diria do fim deste erro extravagante. Extenuamo-nos em contos jocosos sobre os erros crassos. que gira por meio de fios.15 135 . Contudo. E lá está o Japão. política e história. um aríete).6). de 1960 a 1965. 38. 62. Quais são as opções do Japão? Isolacionismo em relação à China nunca pôde nem ser pensado. estranha se tentasse isso. são as seguintes (em milhões de dólares dos EE. (Uma comparação grosseira de situação seria a Inglaterra encontrar-se politicamente mal aliada contra uma Europa unida aos Urais.4 (74. estabelecemos um embargo. Seria uma economia. E ela não morreu.5 (46. armamos ostentosamente seu real e verdadeiro herói. pedindo capitalismo e Chiang Kai-shek. completamente sem forças para se mover. E o povo não se levantou. Reputações foram arrasadas. Meramente para dar à sua autodestruição uma pequena cotovelada.): 2. aquele dervixe de Formosa.9). em tempo. bastante habilmente. tristezas e sofrimento epidêmico da nova China e nos equilibramos para o próximo despacho de últimas notícias. 245 milhões de dólares em 1965. Quer coagido por apreensões políticas futuras ou seduzido por oportunidades comerciais presentes. porém antes com a organização independente da China e sua aquisição de ardor moderno — não tem sido propriamente pragmática. de que a Economia Mais Alta * As vendas do Japão à China. os homens de negócios do Japão estão também ajustando comércio crescente). tudo isso era trabalho de Joe Stálin e de certos inconfidentes do Departamento de Estado. bem no limite da península industrial mandchuriana. Então adotamos a opinião de que seu próprio demônio interior haveria de.não tem nada a ver com comunismo. a China ainda estava lá. Estranhos caminhos do Oriente! Nesse meio tempo. 245. Não é como se o Japão fingisse que a China não estivesse lá.7).0).0 (30.* ultrapassando mesmo a União Soviética (com quem. destruir com certeza o maior dentre todos os totalitarismos. As notícias eram diferentes.8 (157.7 (20. Mais especificamente: o Japão planejará manter sua presente inclinação política pró-americana? Submeter-se-á ele à mais comum das leis da história mundial.UU. se aproximando como um trem de carga. As únicas questões que estão de todo abertas são quanto. Porém então certamente o povo chinês deve se levantar contra o “perigo amarelo” interno. Exportações (e importações) em seu comércio com a China. um pequeno impulso. nossas recriminações eram sem fim.7).

1 bilhão de dólares. (4) O Japão é tradicionalmente um importador de alimentos. humilhante a respeito do Tratado de Segurança Mútua de 1960. Só não fará o que não puder fazer. cuja melhoria de acesso acelerará. assustador a respeito de nossa guerra do Vietnã. 1. do total de 6. Se a América tem certas esperanças. em 1964. aço e 136 . tentará o caminho grego da mediação prudente e fará de si próprio uma ponte entre os dois super-gigantes. pelo contrário. sua taxa de desenvolvimento e portanto seu poder geral. A China precisa de barcos. tanto proporcionalmente como no total. insensível a respeito de nossas aparições nucleares em seus portos de pesca. (3) A cifra de desemprego do Japão é uma irreduzível um por cento. nação cujas principais cidades atomizamos? O Japão compreende que bombardeou Pearl Harbour sem grandes escrúpulos. Mas há algo de especialmente memorável a respeito dessa Bomba. estando suas importações de alimentos em ascensão. 700 milhões de dólares (12 por cento) foram em alimentos. à qual se opõem três quartos de seu povo: os elementos do antiamericanismo japonês subsistem. A industrialização intensificada atrairá mais trabalhadores da fazenda para a fábrica. pelo qual Kishi teve de pagar com a vida. ao mesmo tempo que o mais alto poder de compra resultante aumentará a demanda. Agora perguntamos: o Vietnã interfere materialmente neste drama? Os fatos-chave parecem ser os seguintes: (1) Duas das principais necessidades de importação da China são borracha e arroz.determina a Política mais Baixa e assim arranjar-se com Pequim? Ou. enfurecedor a respeito de nossa colonização aberta de Okinawa e da cadeia de Ryukyu.9 bilhões de dólares. sabendo bem (como notou um japonês) que pontes são trilhadas? Deve ser claro o que os Estados Unidos esperam que o Japão faça. A urbanização do trabalho reduzirá a colheita das fazendas não mecanizadas.6 bilhões de dólares de importações.16 (5) Os japoneses são os mais destacados construtores navais do mundo e estão entre seus mais importantes fabricantes de aço e tecidos. do total de 7. cabe a ela concretizar sua possibilidade. (2) Os dois principais produtos de exportação de um Vietnã do Sul normalizado serão borracha e arroz. e está-se tornando um dos maiores. Mas quanta pressão podemos pedir a essa nação que suporte em nosso nome.7 milhões de dólares. deve fazer o que pode para permanecer nosso associado. O Japão. em 1962. em certa medida. Precisam de mercados. Do total de 5. (16 por cento) foram em alimentos. em 1963. a pedra de toque de nosso perímetro de contenção asiático.3 bilhões de dólares (17 por cento) foram em alimentos. O Japão compreende que sua nova economia foi construída por nós.

com o Japão. ou isso forçaria o Japão a voltar-se para a China ou Mandchúria. é ao mesmo tempo o bastião da luta de contenção de expansão e o prêmio da vitória. As notas estenográficas rezam: Em seus aspectos econômicos. portanto. Fall: O comércio do DRVN. ou para as áreas comunistas. O fato é narrado pelo erudito da Indochina. quase exatamente um mês antes do colapso francês em Dien Bien Phu e da abertura da Conferência de Genebra sobre a Indochina.17 A observação foi feita pelo Presidente Eisenhower. em sua entrevista com a imprensa. maquinaria de todos os tipos e quatro navios cargueiros de longo curso de 5 000 toneladas e um de 2 000 toneladas. em 1959. disse Mr. a fim de viver. para mais de 40 milhões de dólares. O comércio subiu de cerca de 10 milhões de dólares. Norte Vietnamita. um propósito direto primário de contenção da China é a salvaguarda de nosso interesse comercial no Japão. o Presidente acrescentou. 137 . em 1961-62.18 Todo o precedente precisava ser apresentado para apoiar as seguintes proposições: 1. que o Japão deve ter como uma área de comércio. As consequências possíveis da perda [do Japão] para o mundo livre são quase incalculáveis. O Japão é o bastião. Um Vietnã em desenvolvimento certamente quererá aço e provavelmente navios. tem alcançado proporções importantes que bem podem provocar preocupações nos Estados Unidos. O Japão. após um período de esfriamento. mas pode estar inclinado a proteger sua indústria têxtil. Bernard B. isto é pago pelo Vietnã do Norte em matérias-primas.tecidos. Ficando somente atrás do Canadá entre nossos parceiros comerciais. 3. A força econômica do Japão é o elemento crucial da política americana de contenção da China e manutenção da paz na Ásia. De fato. 2. Eisenhower. o Japão é da maior importância comercial para nós. tanto para os vendedores japoneses como para os compradores chineses. de 7 de abril de 1954. O Vietnã do Sul é uma importante área em perspectiva para comércio. quando o Japão decidiu só pagar reparações de guerra ao Vietnã do Sul. e compreende itens tais como produtos químicos. principalmente carvão. Juntemos um fato final com uma observação profissional. [a perda da Indochina] afastaria essa região.

O bastião e o prêmio. o Comerciante. O que o Ocidente depara no Pacífico é a formação de um sistema econômico regional (a) cujo potencial e força são inerentes à própria situação do Pacífico. Mas a China é também um importante parceiro comercial do Japão. No primeiro. de Washington. Grã -Bretanha. goza agora a posição econômica dominante lá no Pacífico. e não pode deixar de se tornar crescentemente magnética. abundâncias de recursos e o fato da guerra o ter feito central. por parte da Alemanha Ocidental. uma única coisa. Os tesouros do Vietnã do Sul. 6.UU. são maiores do que em todos os outros países salvo Canadá. uma vez desenvolvidos. No segundo.. porque seu investimento 138 . Esta é a “ameaça”. Sul e Sudeste da Ásia. prende-se aos mercados em desenvolvimento mais lento e menos organizáveis do Pacífico Sul. significam que seus mercados. de uma usina de aço para a China desarma mais ainda o argumento ideológico contra comércio continental e só pode aguçar o apetite comercial do homem de negócios japonês. a posição da América é tradicionalmente privilegiada. entre as potências ocidentais. esperam que o Bloco Comunista supere os EE. de cerca de 1. Podemos simplificar isto. e (c) que pode quase naturalmente ser dominado pela China. A América a sente mais agudamente porque.) 5. Venezuela e Alemanha). Se o Japão e a China desenvolverem interdependência econômica — e. será deixado sem uma alternativa para uma orientação progressivamente mais pró-chinesa. como maior parceiro comercial do Japão durante a próxima década. baías. ouvem o mesmo tique-taquear de relógio. exercerão uma grande influência no Japão. a posição do Vietnã do Sul é central devido suas costas. Se o Japão não tem alternativa a longo termo para o comércio maciço com a China. agora enterrados. A única oportunidade remota (é remota) do Japão.5 bilhões de dólares.” (A venda.4. como estão as coisas agora. a longo termo ante o mercado da China em desenvolvimento. No terceiro. a Índia se mostra quase inerte ante as mais desesperadas provocações ocidentais. (b) que deve incluir o Japão. O autorizado Finance (junho de 1966) disse: “Alguns especialistas em comércio. só perturbações frustrantes podem ainda adiar isso — então a matemática bruta da relação condenará o Japão à inferioridade (tanto como a Grã-Bretanha estaria em posição inferior ante um continente europeu economicamente integrado). para uma alternativa.UU. sem considerar quem o desenvolve. especialmente nas estratégicas Filipinas (onde o nacionalismo econômico está crescendo) e na Austrália (onde os investimentos diretos dos EE.

promovida pelos Estados Unidos. De fato. pela imposição de barricadas políticas e militares entre seus elementos e pelo oferecimento da alternativa de outras configurações econômicas. Malásia. não pode evitar o fortalecimento das políticas destes países não-comunistas e anticomunistas. relatando o importante nascimento da ASPAC em Seul. a Organização do Tratado do Nordeste da Ásia [Northeast Asia Treaty Organization] (NEATO). Tal tem sido a política asiática tradicional das potências atlânticas em conjunto. A significação mais elementar da caótica. para observações mais recentes e sensíveis. uma Ásia asiática — sendo seu argumento mais direto não poder haver integração uniforme das várias esferas globais (isto é. Assim. Nem importa muito que uma tal política tenha. Thant Khoman19). Uns eloquentes dois e meio séculos de ações ocidentais inúteis. é excessivo. 139 . e um pool técnico internacional. em junho de 1966. ou não.asiático de após-guerra em sangue e bens. e sob muitos aspectos cronicamente malformada. citou o chefe de uma delegação como dizendo que “embora de início a organização seja puramente para cooperação econômica p.ex. Tal tem sido a política tradicional da Europa na África.”20 Os nove membros são Coréia do Sul. pode agora ser acrescentado um terceiro caminho: uma América do Sul sul-americana. disse o Ministro do Exterior da Tailândia. intitulado experimentalmente Conselho de Cooperação Pacífica Asiática [Asian and Pacific Cooperation Council] (para poder ser chamado ASPAC — “um nome atrativo com um som viril”. um banco regional para ajudar o desenvolvimento do arroz e outros produtos. e hostilizar e dispensar o que não podem. no pobre mundo. é frustrar o delineamento deste sistema geo-econômico. então. Isto nos conduz a uma conclusão final: O alvo da economia política do Atlântico Norte é frustrar a organização independente da economia política do Pacífico.. China Nacionalista. por toda a parte. Tal tem sido a política tradicional dos Estados Unidos na América Latina. Nova Zelândia. que morreu recém-nascida. e porque é sob qualquer medida o mais internacional dos estados internacionais. revolução do mundo pobre é que às alternativas tradicionais de integração subserviente e hostilização. Austrália. a luta para conservar o Vietnã do Sul. E assim. Vietnã do Sul e Japão. contam a história bastante claramente. tem sido hábito inveterado das potências ocidentais absorver e integrar o que podem comandar. na Ásia. Nosso propósito. sido tornada explícita e levada a efeito consciamente. o Banco Asiático e o novo. Assim. O repórter do New York Times. Filipinas. uma África africana. Robert Trumbull.

e embora dissimulemos as raízes de nosso antagonismo para com ele. mas da própria cultura. O napalm destrói mais aldeias do que forças combatentes. New Jersey. os B-52 matam mais macacos. de custo-condicional controlável. 140 . esta “solução militar” desde há muito provou não ser solução nenhuma. em Dissent. ou ainda 16 000 “conselheiros” da Marinha. um ensaio de desastre cuja mensagem de entrelinhas é precisa e aflitiva. parece pelo menos ser um ato proporcionado. No sul. parece-me de longe o mais importante — está embaralhado num quebra-cabeças não muito intrigante. no Esquire. tigres e civis do que vietcongs. Ou o estudo acurado de Marshall Sahlins sobre as operações das Forças Especiais. “The Death of a Platoon’’ [“A Morte de um Pelotão”]. A. além de ser militarmente ineficaz. O quarto ponto — por seus poderes de explicação sobre nossa civilização. as guerrilhas. Que Treinaram para a Guerra e Que A Encontraram no Vietnã do Sul Cinqüenta Dias Mais Tarde”]. [“A Destruição da Consciência no Vietnã”]. Ou uma peça da autoria de um protagonista da guerra. quarentena de Cuba e pacificação no Vietnã. Salvar o Vietnã ao preço de espalhar alguns 600 especialistas de guerrilha das Forças Especiais. de S. Relatórios cheios de sofismas sobre nossa guerra terrestre argumentam mais persuasivamente (embora às vezes sem intenção) que ela é travada sem padrão relevante e sem efeito significativo. Qualquer um pode ver que os raides aéreos sobre o Vietnã do Norte. Um Relato Sobre uma Companhia de Soldados Americanos em Forte Dix. descritos oficialmente como o melhor meio para deter a infiltração. jan-fev. nossas forças mecanizadas sendo incapazes de combater de qualquer modo durável e decisivo. de fevereiro de 1966. “The Destruction of Conscience in Viet-Nam”. L. Ou um dos estudos psicológicos realmente poderosos sobre a guerra terrestre. cuja mobilidade não é da máquina. Marshall.onde há paz) enquanto não houver uma equidade econômica e política aproximada entre elas. e contra isto é que estamos lutando para resistir. esta destruição cobra uma taxa decididamente muito alta dessa boa vontade política da qual a América de Johnson tem miseravelmente tão * Veja por exemplo “I Quit!” [“Eu Paro!”] do veterano das Forças Especiais Donald Duncan em Ramparts. por meio de panegíricos sobre democracia e diatribes igualmente irrevelantes contra o comunismo. 1966. conduziram somente à infiltração paulatina.* E. de outubro de 1966: “M. com nosso isolamento da China. o que quer que se pense do motivo político. Who Trained for War and Who Found It in South Viet-Nam Fifty Days Later” [“M. New Jersey. Porém meio milhão de homens? Que aparentemente deverá se tornar um milhão? Além do mais. de John Sack. An Account of One Company of American Soldiers in Fort Dix. este é o testamento de revolução. Quer aconteça gostarmos disso ou não.

Podia-se supor que um imperialista racional pudesse inventar outros meios. os líderes da América parecem ter duvidado que seus filhos tivessem estômago para uma guerra contra-revolucionária repressiva e imperialista. toda a Ásia mesmo a Europa do Oeste começa a ter ânsias. Porém. A economia política das Filipinas está estagnada e os Huks estão de novo em ascensão. que nossos orientadores políticos dificilmente podem deixar de ver. a Índia será comunista dentro de duas décadas. de fato. realmente importantes e passíveis de defesa — Índia. carregada com significados políticos da maior gravidade. e pode começar a arruinar nossa posição política na Ásia. Em suma: A solução militar para o problema do Vietnã não está dando resultado. Coréia. Significa décadas. em outros tempos. de antiamericanismo no Vietnã. na verdade. e os proeminentes do leste do mundo Ocidental. cujo maior crime é denunciar a fraqueza do imperador. Cada dia. em seus próprios termos. que pudesse ver ali problemas que fazem da “salvação” do Vietnã um assunto sem importância. nós mesmos já glorificamos a revolução — a nossa própria. mais sensíveis. em desenvolvimento econômico e independência política.pequeno suprimento. irracional. Filipinas. essa posição não é fácil de transformar-se em lema. Japão — flutuam cada dia um pouco mais para perto daquele futuro nitidamente oriental. Sem um inteiramente novo tipo de vontade e sabedoria ocidentais concentradas. maldizemos o imperialismo — o imperialismo mais primitivo de outros. de maneira estranha. a tentativa de levar a efeito uma tal solução piora. Os calculistas do governo não têm representado proteção contra uma perda de controle que pode muito bem ser sem paralelo. mesmo depois de ele ter ultrapassado sua necessidade e ter-se tornado. Acima de tudo há o que Stillman e Pfaff chamaram. Talvez por causa disto. O nordeste da Tailândia permanece tão vulnerável como sempre ante aqueles “agitadores de fora”. Uma vez que tivesse de 141 . Por que acontece isto? Isto acontece porque a ideologia que pediu e reivindicou este ato de guerra “necessário” continua a pedir e reivindicar o ato. para proteger os abalados dominós do Pacífico — e. Aquilo que a força ocidental enfrenta é a revolução social antiimperialista do pobre. Tailândia. senão séculos. num tempo em que os liberais ocidentais se desvalorizam por meio de seu próprio manhoso humanismo-cum-política realista.21 uma energia que temos visto ser. a Coréia do Sul fica mais atrás da Coréia do Norte. o resto da Indochina. Nós mesmos. “a furiosa energia material e a fantástica passividade política do Japão contemporâneo”.

a teoria desorganiza e desgoverna brutalmente a história bem real que lhe permite sobreviver. O imperialismo é por isso recristianizado como anticomunismo. Englehard. se dentro do poder de uma idéia se inclui perverter a generosidade de uma nação e amaldiçoar seus filhos. e cujo fundo tem sido inteiramente apagado. Há uma revolução que é internacional — uma pessoa tem apenas que contar as perturbações e o olhar em um mapa para ver o bastante. marrom e amarelo para vermelho de diabo. se entendermos por isso que provavelmente não produzirá economias capitalistas. por quaisquer meios melodramáticamente conspiratórios. ambição sem propósito e desapiedada. a questão suprema da justiça da rebelião. ou em perfeito agente de coração duro da Conspiração Internacional Comunista. em linhas gerais. então a aceitação americana generalizada desta opinião sobre revolução pode prenunciar um amargo futuro para todos nós. programas de acumulação de riqueza em ritmo forçado e o violento desmantelamento de elites ricas. 142 . uma tal guerra teria de ser adoçada com um nome diferente. a revolução tem de dirigir-se à América — ou melhor. E o que é subtraído da realidade — muito mais importante — é a fonte do fermento. O que esta teoria nos dá é um retrato que. E na medida em que esta revolução pretende terminar o domínio do rico. e nosso inimigo é transformado de um ser humano em um mero peão. E. E se não. coordenado internacionalmente — uma opinião que é inteiramente correta. Não há nenhuma utilidade em ser enganado a respeito disso. porque consideram ser seu inimigo. a causa da cólera. essa nuvem de diabolismo que nada tem a ver com a própria força sustentadora da revolução. mas cujas cores têm sido trocadas de humanos preto. Em certo sentido menos técnico esta revolução é “comunista”. Portanto. cujo objetivo central (assim temos certeza) é a conquista da América.S. U. num bobo. quando fala. Esta teoria da Conspiração Internacional Comunista não é a solteirona histérica que muitos esquerdistas parecem pensar que é. de que provavelmente criasse economias autárquicas e controladas. governos centrais autoritários. uma pretensão que automaticamente implica em América. ele mesmo. Teve íntima ligação com a realidade e tem alguma história em mente. se dirige a uma América que a maior parte dos americanos esqueceu: Rockefeller. não é irreal.A. pateticamente inábeis. especialmente nos estágios primeiros.ser travada. agem assim. Mas o que é acrescentado para puro efeito político é essa feia faceta de clandestinidade. os diversos movimentos de libertação nacional. fazem um esforço para se coordenar entre si.

já explicado — um inimigo. Birmingham. Esta ideologia é a descendente absoluta daquela ideologia com a qual os pais daqueles mesmos senhores uma vez pretenderam destruir o movimento trabalhista americano. e aplicada agora a um mundo remoto. acontece nós sabermos que é um impostor. Havana ou Àlger. mesmo por um momento. somos nós. e. parece. Este outro é uma fraude. Se é correto dizer que nosso bem-estar nacional requer a derrota da FLN. quer voluntariamente assim. Donde se segue que o tema profundo. que possuía no longo e amargo período entre a Guerra Civil e a II Guerra Mundial. Preservar o bem -estar de uma nação é um objetivo que dispensa considerações e é transcendente. Tem agora a mesma espécie de verdade. Washington D. A aterradora consequência disto é que qualquer luta que seja justificada em seu nome é uma da qual não podemos escapar. central e condutor do drama que está sendo representado nas jângals do Vietnã é nada menos que a questão de nossa própria sobrevivência nacional. algumas delas poderosas. tem-se de dizer desta ideologia que é agora mais eficaz do que nunca. Ele não é o revolucionário que pretende ser. priva o revolucionário de seu direito legítimo a se denominar e explicar. Esta é a teoria pela qual a guerra nos tem sido explicada. e. Ele quer nos agarrar — Kansas City. e a mesma sorte de mentiras. A explicação permanecerá correta sem considerar quão duro possa ser levar a cabo suas ordens implícitas. então a FLN tem de ser derrotada. de um só golpe. Não é possível imaginar que um tal objetivo possa ser limitado ou anulado. Ela reorganiza inteiramente os termos morais do embate entre o rico e o pobre. cuja esperança real. Todos sabem que algumas pessoas neste país. pedem com insistência que usemos toda força necessária para levar esta guerra a uma “conclusão rápida e favorável”. Os verdadeiros revolucionários sociais. É um imperativo. um intruso na cena de mudança social. familiar para os americanos só o quanto a bem controlada média de massa considera conveniente tornar assim. sabemos que jamais ficará satisfeito com Moscou ou Pequim. Após anos de aperfeiçoamento.É por meio da ideologia de anticomunismo de Guerra Fria (Cold War anticomunismo — um cínico pode abreviá-lo CWAC e chamá-lo “cwackery”) que os senhores do poder americano justificaram e dissimularam. quer ele saiba ou não. Ele já está denominado — um criminoso. então é boa de maneira absoluta. por qualquer outro objetivo. Se sua visão da 143 . sua oposição ao difuso e desigual movimento por independência do Terceiro Mundo. Caracas ou Saigon. quer não. Se é uma boa teoria. O que quer que possa pensar. verdadeiro objetivo — é a destruição de nosso país. com muito sucesso.C.

distorça ou engane. e nós temos diante de nós uma realidade americana oficial. Há um homicídio se processando lá na rua: Um homem. porque seu assassinato não apaziguará. Que há de “conservador” em querer lutar nesta situação? Que espécie de lunático lamuriento pensa ser traficância de guerra intervir sob tais circunstâncias? A maior acusação a ser feita contra esses nossos reacionários é serem eles tão ávidos em acredi144 . os covardes de coração vazio. O povo acredita nele. ao contrário. Por que não agir agora? Tomado em si.história não é atrasada. a mais escura tirania que a história jamais viu. então o povo tem todo o direito de perguntar: Por que não atacar esta ameaça em sua fonte? Quando nosso acreditado governo nos explica que a tomada vermelha do Vietnã (Laos. Segundo. A principal coisa errada com este “gavião de guerra ultraconservador” pode de fato nada ter a ver com conservadorismo ou belicosidade. aterrorizar e espalhar o caos. e que pretende alcançar tudo isto por meio da conquista gradativa de estados crescentemente menos marginais. tentar apagar seus argumentos chamandolhes nomes tais como traficantes de guerra. se alguém não o detiver. inclusive nós. porém caracterizálas como ultraconservadoras. inclusive nós. os cabeças ocas. pretende invadir o próprio edifício de apartamentos e matar. é não entender clara e totalmente o que fazem. com uma faca. que planeja impor a este mundo aprisionado. a coisa certa a fazer é acorrer agora em sua defesa. então seu sistema moral o é. o Congo) é meramente secundária. Quando este mesmo governo fidedigno informa o povo de que a guerra se trava porque agentes da tirania que quer devorar o mundo chegaram a uma feliz terra no exterior e se puseram a agitar. ódio e munição. Assim. parece-me que isto tem muito pouco a ver com conservadorismo. porque é uma vítima inocente e não a defender é desonroso. um a um. Primeiro. está matando Kitty Genovese. mostrando que. com sua aceitação sem reservas de uma teoria que a administração liberal americana tem estado batucando em sua cabeça há pelo menos um quarto de século — a saber. então o povo tem todo o direito de perguntar. Hispaniola. Lembremos que o governo fala a seu povo com uma dimensão de autoridade. a teoria de que há uma Conspiração Comunista Internacional que ameaça dominar o mundo. ele em breve estará pondo seus dentes em nós. que de suas janelas olham boquiabertos a atrocidade. Cuba. como um problema de sobrevivência nacional. O povo não espera que ele minta. fazer propaganda. mas. é claro. mas só aguçará o apetite do matador. nada mais do que uma estação no caminho de conquistas para este nosso Xanadu. depois de acabar com ela. subverter.

Uma grande minoria de americanos algum dia será traída. concreto. Para eles. Aqui estamos num duelo de morte com um inimigo mais implacável. e por conseguinte quer que a guerra seja empreendida com mais violência. Sua cólera sacudirá a nação. O esquerdista repudia essa descrição política. um que é objeto de uma contabilidade de custo e para o qual deve haver um preço excessivo para pagar. Indagar qual é o valor de manter o Vietnã se torna. mas absoluto e sagrado. e veja só. em seus próprios termos.tar naquilo que os liberais vêm lhes fornecendo. que disparate é falar sobre uma guerra “limitada” com objetivos “limitados”. senão de perfídia. Vamos para o Vietnã para manter um segmento da esfera de influência da comunidade Ocidental do Atlântico Norte — um objetivo que. o que as homílias de Johnson convenceram-nos de novo. mas eles mesmos não usam. “Estamos em guerra total desde agora”. nossos líderes são obrigados a insistir que estamos no Vietnã para proteger nossos órgãos vitais de incremento nacional — um objetivo que não é prático e condicionado ao custo. porque justificaram esta aventura em termos da ideologia do anticomunismo. Precisamos compreender (embora Johnson e Rostow nos deixem inseguros a esse respeito) que os técnicos políticos dos Departamentos de Estado e Defesa só fornecem. A guerra foge à relatividade política para se tornar transcendente e sublime. a condução da guerra já parece um ato de loucura. a doutrina quase religiosa da Grande Conspiração. dizem os direitistas — tão só apresentando de modo mais suscinto o que Truman lhes disse. é prático. Isso não ajudará aqueles a quem fizeram crédulos partidários dela. uma grande quantidade de gente boa e forte encontrar-se-á atolada no irreal. o que Eisenhower e Kennedy permitiram-lhes acreditar. Adquire uma autoridade independente na explicação de eventos. e portanto no impulsionamento da política nacional. Uma ideologia que tem origem numa distorção da história adquire um poder intrínseco para apoiar e ajudar distorções históricas. e por conseguinte quer que a 145 . tão absurdo como perguntar o valor do rei num jogo de xadrez. nas garras dessa ideologia. Em termos dessa crença. nós a controlar os socos! As duas críticas básicas à guerra que têm correlação com as dissensões de esquerda e direita. E quando ela desabar. O direitista aceita a descrição política. Porém. como talvez nunca antes. Isto é uma aflição do povo. objetivam resolver a tensão que existe entre as descrições política e militar mais comuns da guerra. A ponte ideológica entre o fato e a fantasia está-se tornando hoje insegura para a América. definido e talvez não de todo sem limites.

a França justificou a guerra colonial em termos de imperativos coloniais transcendentes. que é só confundido e enganado pelo seu próprio cacarejar dissimulador. que era necessária a desocupação. cavalos de pernas quebradas. porém para além do próprio labéu fascista. quando chegar o tempo de arcar com as consequências. de ombros largos. Não há nada parecido na América.. Cyr. A OAS era só o último estertor dos velhos colaboracionistas nazistas. um 146 . que meramente tem substituído uma maldição. Imaginemos um bom. O exemplo da experiência francesa na Argélia é totalmente instrutivo. então tenhamos a misericórdia de fazê-lo com urgência e tirar aquela pobre gente. “que um brilhante jovem cadete de St.. sumarizou assim sua defesa de um dos conspiradores da OAS: “Como pode acontecer”. Ambos objetivam uma posição mais racional. de sua miséria. onde é exigida uma explicação. não será para estes nossos “moderados” que virá a mais profunda e acabrunhante agonia. De certa forma este gavião de guerra é ainda mais humano do que os advogados da morte lenta. importantes elementos do exército francês se sentiram ultrajados.. então estaria bem que fosse feito com rapidez. Mas examinemos de novo — não a América para encontrar fascistas. porque ele pode pelo menos reivindicar a severa compaixão de Macbeth: “Se tivesse de ser feito quando foi feito.guerra seja suspensa. com um coração cheio de bravura. louro e honesto moço. hoje aqui se poste acusado [de traição] ante uma corte militar?”22 Prestemos atenção no correspondente americano deste “brilhante jovem cadete” antes de prosseguirmos. A OAS objetivava nada menos que um coup d’état. A Organização do Exército Secreto (OAS) foi formada para resistir ao que seus membros sentiam ser a traição da nação. perguntou. um advogado do Primeiro Regimento de Pára-quedistas da Legião Estrangeira. Quando ficou claro. perante um alto tribunal militar francês. um dos mais destacados moços. A primeiro de agosto de 1962. A França lutou para manter seu controle colonial da Argélia por muitas razões semelhantes às que mobilizam hoje a América no Vietnã. Ambos têm uma linha de argumento muito mais sólida do que o centro..” Se temos de destruir o Vietnã. Como aconteceu isso na França. o coração do humanismo europeu? Os liberais do Ocidente têm sobre isso uma teoria que lhes restaura a confiança: A OAS aconteceu porque havia fascistas no exército francês que queriam que ela acontecesse. E a muito triste verdade é que. o Capitão Estoup. Como a América. e sua existência criou para a França o mais doloroso tormento interno. para os líderes da França. na academia militar.

“Eu não sei”. diz Estoup. fazendo seu último e desesperado esforço para se vingar do demônio que as atraiu para o inferno. Está orgulhoso. Se não o é. interior. para a borda deste abismo de destruição. para a maior parte. não há justificação alguma a menos que o fim seja alcançado. sua conduta talvez um tanto retraída. um trabalho a ser feito.graduado de West Point de um lugar bem americano tal como Colorado Springs ou Trenton ou Seattle — na expressão de E. contudo. Na análise final. Não tem monóculo nem bigodes. Não há Mein Kampf escondido em seu baú. que estava em jogo a vitória da França. Cyr a cumprir a ordem?” Porque o fim básico tinha sido descrito a ele de tal forma que pareceu justificar os meios. estas são ações das almas danadas.23 Ninguém melhor do que o próprio torturador sabe o que a tortura significa. Todas as belas idéias e ilusões do jovem cadete de St. Devemos imaginar os bailes em que dançou. os graciosos olmos. morte.. em cujo nome a justiça está agora sendo feita. Cyr desmoronam. ele foi instruído para usar tortura. Isto é. Ninguém compreende o bombardeio melhor do que o bombardeador. nada é deixado senão uma amostra insensata de sujas manchas indeléveis. Preferia estar em casa. silente. eu não sei que tipo de perturbação mental deve sofrer alguém que dá uma ordem como esta. precisa saber que era em seu nome. o motivo verdadeiro para as ações dos conspiradores era uma determinação secreta. Tinha sido provado a ele que o desfecho da batalha dependia da informação que obtivesse. melhor do que quem mata. Era obrigação do cadete obter informação vital sobre o inimigo — “por todos os meios possíveis”.. os amplos gramados verdes das quietas ruas de onde veio. E. Não está feliz por se encontrar no Vietnã. de sua Boina Verde. por aqueles que detinham autoridade. as sólidas velhas casas de madeira.. Tal é o vilão de peça: o traidor. mas não arrogante. Sua voz é bem modulada. e por seu bem. Estoup continua a explicar que era aos membros das forças de elite — homens como nosso jovem cadete de St. armas de fogo. É testemunho meu que. O povo da França. Cummings “um orgulho de olhos azuis de um nação saudosa”. Se os meios são justificados só pelo fim. que o acusado era impelido. atormentadora de não ter cometido crimes sem alcançar o objetivo. Tudo isso.. Cyr de Wyoming — que cabiam as mais odientas e perigosas tarefas. mas eu conheço a sensação de choque e reação sofrida por aqueles que têm de executá-la. Não precisa informar a este rapaz de Wyoming que suas 147 .. Mas vós direis. Há. melhor do que o atirador. “Então por que não se recusou o jovem cadete de St. o algodão doce e as suaves noites de primavera e a namorada que deixou atrás dele..

Mas se não é trazida a água. na América. coquetéis batidos. aquela inocência adiada. Nos futuros gestos destas mãos — isto é realmente muito simples — nós observaremos um aspecto da vingança do Vietnã. Mas o sangue será lavado. poemas escritos. E o que acontece com este estranho sangue selvagem? Ele se gruda permanentemente à pele das mãos que o derramaram. em cujo nome a culpa presente é carregada. memorandos de escritório assinados. será com tais mãos que crianças serão acalentadas. a Hóstia depositada na língua e coroas nos túmulos. o nariz apertado em meditação. não será? As sujas manchas indeléveis um dia serão removidas? A água purificadora é a vitória. amor feito. O sacrifício é redimido pelo renascimento para o qual ele prepara a terra conquistada. amigos saudados.mãos estão sangrentas. Precisamos ser capazes de entender uma coisa muito simples: De agora em diante. 148 . Ele é o especialista nisto. se evapora do futuro.

que. nós só acreditamos nele. onde dois terços de todos nós estamos vivendo. . este pobre mundo. Para a maior parte. envolvido com conotações de praga). de acordo com as instituições da maioria da classe média americana. onde Mozart não tem sido amplamente ouvido. onde miséria e violência são rotina. McNamara2 Todos. Robert S. no mundo rico. que é majoritária. . este. quase fora de vista. têm escutado que há um outro mundo longínquo. Todos os países são diferentes e o progresso devia ser alcançado por meios pacíficos sempre que possível. É um mundo. dizemos (um termo favorito. A maior parte da gente comum do mundo rico preferiria muito mais nunca ter ao menos escutado falar do Vietnã ou Moçambique. nem mencionar os cerca de 149 .VI O Revoltado Matar é mau. um mundo que é fundamentalmente implausível. nem Platão e Shakespeare muito estudados. daqueles descontentamentos que nos perseguem. É o “chão de origem”. Che Guevara1 Os jovens ao ingressarem nela [a FLN] estão sendo atraídos pelo excitamento da vida guerrilheira. na medida em que o usamos para culpá-lo de certos aborrecimentos nossos. deve ser o exagero de alguém.

A América classe-média é a condição mental que supõe ter sido avistado um novo e plástico Éden. Após a batalha de Piei Me em 1965. Às vezes estralamos a língua. É ruim estar faminto. desenvolvemos nossa teoria dos pobres diabos.trinta outros estados do mundo. O fato correspondente sobre a maior parte dos americanos é que eles se sentem insultados por esse pedido. Seu desejo mais intenso é não ser molestada por loucos que discordem disso. além nosso horizonte.” A América classe-média se vê como a Solução Final. Tais concepções são às vezes abaladas. podemos ver isto. porque ser Vermelho nos prova que toda esta fome era na realidade apenas um embuste. O que deve ser difícil para qualquer nação parece fora de discussão para nós: Imaginar que podemos. e poderemos aportar agora a qualquer tempo neste “Século da América. descreveu os 150 . corajosos e corretos — Quem pode pensar tal coisa? Já que amamos roseiras e belas moças. somos mais decididos. Alguém poderá citar a Aliança para o Progresso. ser os inimigos de homens que são justos. do pioneiro automatizado — como podem as coisas ser vistas de outro modo? A classe média americana é a nação para a qual o obsoletismo vindouro da escolha moral tem sido revelada. do homem de fronteira habitante de escritório. o Major Charles Beckwith. um leme firme. sobre um oceano calmo. meneamos a cabeça. como acontece de quando em quando. desonestos. Enquanto à espera de nossos bombardeiros. Na terra da aventura de contrôle-remoto. inteligentes. podemos responder de várias maneiras características. estúpidos. covardes e errados. quer a persuasão da AID. das Forças Especiais. de tempos em tempos. segundo a qual os miseráveis têm sido enganados por homens-do-contra comunistas. Mas é melhor ser faminto e paciente do que faminto e Vermelho. para animar. E outro poderá tossir. um pouco de denodo. onde insurreições a longo prazo estão a caminho. Provavelmente se dá o caso de um comunista não ter fome. Quando as estatísticas são recitadas pelo fogo das armas do homem pobre. quer os batistas. honestos. uma viva aragem a seguir. nossos inimigos têm de ser injustos. e mandamos um cheque à CARE. O fato principal sobre o revolucionário é que ele pede mudança total. Mas o que dizer da força moral do pedido? Quando as estatísticas da pobreza mundial nos alcançam. Um ponto aqui e ali. Às vezes contamos histórias sobre bravos missionários.

Seu compromisso foi baseado em princípios e originou-se de um desapego básico. é boa. tornou-se um rebelde. O rebelde é alguém que mudou. Há sempre uns poucos que. evidentemente. podem ser persuadidos. Ninguém pensa que banqueiros irão fazer distúrbios nas ruas. Isto não significa que psicologicamente seja assim. não precisava materialmente da Revolução Russa. mas para quem os Lênins deviam ter permanecido somente filósofos.combatentes da guerrilha da FLN como “os melhores soldados que jamais vi no mundo. alguém a quem posso entender. primeiro. na linha de fogo. É fora de dúvida. Se pudéssemos conseguir mais dois. Segundo. por exemplo. cada um que hoje é um rebelde. Ele é politicamente extraordinário. isso também implica em que a privação só pode ser política se não for universal. com tantos homens e mulheres do mundo. aqueles que (como colocou Brecht) abraçaram primeiro a revolução com as mãos e só mais tarde com a mente. São hábeis guarda-livros da causa de permanecer vivos. Mas não estou tentando descrever os Lênins. por alguma combinação de estatísticas e princípios. homens não põem em perigo suas vidas. O camponês que compara sua pobreza com a riqueza de outra pessoa está habilitado a 151 . Estou atrás daqueles anônimos. para que possam lutar tão inflexivelmente para ficar do lado de fora do Éden.”3 Essa curiosidade. por razões fúteis. outro americano disse de um vietcong capturado: “Devíamos pôr este cara no muro norte e dispensar estas tropas do Governo. Menos obviamente. que pensamos estar-lhes oferecendo. Lênin. Quando fazem algo perigoso é porque foram convencidos que não fazê-lo seria mais perigoso. que potencial revolucionário existe só nas sociedades onde a miséria humana material é o termo denominador da maioria das relações sociais. Minha suposição é que o que não pudesse me mover ao ato de rebelião não moveria outro homem. a expor suas vidas. e de outros.” O Major Beckwith estava intrigado com a “elevada motivação” e a “elevada dedicação” desta força inimiga e sugeriu uma explicação: “Queria saber com que os estavam drogando para fazê-los lutar assim. Terceiro. Faço três suposições. teríamos todos os muros [do campo triangular] bem vigiados. excetuados os americanos. eu considero que o rebelde é muito parecido comigo.” Após a mesma batalha. Provavelmente poderia protegê-lo sozinho. Por que homens se rebelam? Tentemos descobrir o que pode possivelmente estar tão errado. uma vez foi uma criança que não falava de política. pelo menos. Primeiro. Gostaria que pudéssemos recrutá-los.

essa humilhação. Mas faz também muito mais. será a violência exacerbada do senhor que confronta o escravo com a autenticidade incorrigível de seu ato escravo. o escravo escapa por detrás da imagem. à força. atenciosa e atraente. O escravo é naquele momento colocado. Não é que ele pretenda ser outra coisa que não um escravo. É. “Eles o açoitaram morro acima”. só na medida em que é um fingimento. e mesmo se o senhor olhar. Dizer que a fome não se torna uma sensação de rebelião até que coexista com comida é dizer que rebelião tem menos a ver com penúria do que com má distribuição. Um homem negro canta “blues” sobre sua impotência. pretende ter em suas mãos a verdade e julgá-la. dentro do espaço de sua auto-imagem. Com mais frequência. pretende ser o que ele mesmo sabe ser. às vezes a descoberta acidental de alguma força insuspeitada nele próprio. uma identidade social. desempenha o papel de sofredor e humilhado. Ele quer. ou a violência agudamente ritualizada das quadrilhas do gueto são mentiras intencionais que intencionalmente contam a verdade. sua qualidade de vítima. Portanto ele pretende a verdade. impede-o de contar a verdade. sem motivo.conceber que sua pobreza é especial. O escravo cria. Porém a vítima auto-reconhecida não é desde logo seu próprio vingador. E. contava o escravo negro. desse escravo que ele é. em meio a canção tira-lhe a guitarra. coloca sua realidade à distância de um fingimento que difere das realidades. Um momento crucial vem quando alguma coisa rompe esta fina membrana de fingimento. ele disfarça de si mesmo o fato de que não teve escolha. sua solidão. está 152 . às vezes. Ao contrário. Tal ato seria imediatamente punido. Sua realidade exterior. refugiou-se por trás daquela imagem perfeita dele mesmo. Isto estabelece um tema central: a cólera revolucionária não é produzida por privação. impede-o contar um mentira. em escolhendo representar o que ele é. a fim de colocar um realce físico entre ele próprio e os olhos dos outros. desperta a reação do escravo. quebra-a. seu pedido de liberdade. recriar seu mundo por intermédio de pantomimas sociais que transfigurem. um homem que quer simplesmente rejeitar sua humilhação. O senhor branco. O que pode fazer isso? Um lampejo de fraqueza em seu senhor. por conseguinte. o escravo desempenha o seu próprio papel e desta forma escapa. A mais antiga máscara. do negro americano. antes de tudo. “e Ele nunca disse uma palavra resmungada”. Em tal canção. Essa reticência divina se propõe claramente a servir de exemplo. A realidade profunda da vítima mentirosa. mas pela compreensão da injustiça. uma réplica exata de si próprio. para a inspeção do senhor. ou de alguma forma aliviem.

) Encontramos nisto a política de apelo ao poder mais alto. a injustiça fica mais coerente. O elemento importante não é o escopo. Ele já teve prova suficiente de sua impotência. Agora ele nada mais é senão o foco de injustiça. Então. Para a vítima não há mais nem mesmo a fuga frágil. não precisava e não queria permitir. é um acidente haver tantas diferenças entre sua vida e a vida do homem completo. ele é solitário. contudo. Agora não pode se representar. E. Estando pela primeira vez de posse da idéia integral de que sua vida podia ser diferente não fosse pelos outros. Isto é. quem está para ser o agente desta mudança? Por certo não a própria vítima. um diferente xerife. Acareada a cada instante por essa coerência. (Uma vez que Robin Hood encontre o Rei Richard. o “Sheriff” de Nottingham está bem arranjado. ele deve ser aquele homem sobre o qual tentara cantar. de que. Sua visão de mudança será nesta ocasião estreita e mundana. não à condição de xerife. Quando a vítima vê que o que parecera universal é local. Redescobre a idéia do sistema de força. na grande casa da encosta da colina. por enquanto. sua política ingênua: Talvez ele só quisesse um diferente senhor rural. sem meios. Ele começa a se sentir escolhido pessoalmente. vestido de branco. e sabe melhor do que qualquer outro que é uma pessoa sem importância. ou a complexidade de sua visão. descobre que também pode acusar. o que parecera dado por Deus é feito pelo homem. que con153 .psicologicamente fundido com este seu fingimento contador-de-verdade. é a vaga noção que seu algoz é responsável. um diferente prefeito. Este encontro despoja a vida de sua formalidade e a devolve à pura substância primitiva. uma opressão que a Alta Autoridade não pretendia inflingir. ante uma autoridade mais alta e distante. ele é pela primeira vez alguém que pode agir. esta conduta ultrajante do xerife pertence estritamente a este xerife particular. ele é impotente. este xerife representa somente um desacerto local dentro de um sistema que a vítima apenas percebe e certamente não acusa. Ao contrário. de forma alguma. ao mesmo tempo. O que o compele à esperança. mas a nítida existência da idéia de que pode sobrevir uma mudança. que o que parecera qualidade é mera condição sua. a vítima pode achar que já não é tão fácil evitar a verdade de que seu sofrimento é causado. permanente imobilidade desaparece permanentemente. rara. Tornada menos ocasional. Ele vive totalmente agora em seu espaço de vítima. não lhe sendo permitido nem representar o horror da situação de vítima pelo gesto que o expressa. da reencenação da realidade.

e que não tem intenção de mudar nada. Acontece que o rei está do lado deles. e a responder. estas demonstrações. que a maquinaria administrativa e coercitivo-punitiva do estado existe precisamente para servir os influentes. parecer peculiarmente combativos. só desinformado. ocupando e violentamente protegendo seus centros de controle. É a mesma coisa que uma prece. aparentemente. impetuosamente militantes. as ocupações não-violentas e as várias marchas para o “Deep South” tinham origem na mesma crença: havia ainda um poder alto que era responsável e decente. esta defrontação mais violenta permanece basicamente uma espécie de entretenimento. cujos agentes saturam a sociedade. Sugeriu o assim chamado Manifesto dos Dezoito. 154 . Em vez de meramente escrever a história do agravo. tem somente mostrado aos peticionários-vitimas que o problema é mais grave e a mudança mais difícil de obter do que tinham imaginado. mais frequentemente. Ele é desviado por um desespero mais realista. o criminoso para a mudança em direção à insurreição. enquanto o movimento antiguerra não fôr capaz de imaginar uma ameaça que possa realmente valer. mais politicamente agressiva petição de massa ao rei. mesmo quando está elaborada dentro da. Bobby Kennedy — a fazer algo. Acontece que o poderoso sabe perfeitamente bem quem são suas vítimas e porque deve haver vítimas. As demonstrações de protesto contra a guerra do Vietnã não são diferentes.duziu a alguns momentos pungentes da história. publicado por destacados intelectuais vietnamitas em 1960. às vezes. Este reconhecimento é da maior importância. Porém. Sua condição de oração permanece básica.* Algumas vezes a secular prece baseada na massa tem resultado em mudança. Eles sabem distin* O que não era novo era a maneira pela qual estas formas alargaram o conceito de petição. rebelião. ONU. revolução. inclusive o czar. em 1963. Os discursos que elas ocasionam podem. reproduziam o próprio agravo em cenários que forçaram todos a observá-lo. Longe de pôr em dúvida a autoridade mais alta. Ele descobre que o inimigo não é um punhado de homens mas todo um sistema. uma presunção central dela é que o rei não é mau. o lutador. As Marchas pela Liberdade. sem dúvida o ponto espiritual mais primário da educação do revolucionário em surgimento. Porém este desespero contém o presságio daquela destrutiva reconstituição final do espírito que preparará o descontente. deu as razões da Marcha sobre Washington por Empregos e Liberdade. Porém. Esta linha de pensamento levou os camponeses e padres ao massacre da Praça do Kremlim em 1905. A idéia principal tem sido sempre persuadir a autoridade mais alta — Congresso. Ele entretivera certas esperanças sobre os poderosos. na verdade. de fato dramatizam e exageram sua força. Xerifes maus existem por toda parte. parece não haver outra espécie.

sendo este repúdio total. realista. a um certo nível. é um comentário fundamental. apoiando a primeira. Mas o salto para a revolução deixou estas “soluções” para trás. Mas o rebelde não consegue ver o significado real desta palavra dar. todas as “soluções” pela única exigência irredutível de que a mudança seja total. esta resposta nada mais é que uma eva155 . Em outro nível. a mais ardilosa feição desta imoderação é que ele pode ser impotente para mudá-la. o poder ao qual agora se opõe. embora revisada. Para ele. sem a qual um compromisso não é nem mesmo tecnicamente possível. De outro modo nada há para discutir. Informa ao senhor que ele não mais existe. todas as diagnoses da moléstia por um certificado final de óbito. teria de aceitar de certa forma. que substitui todos os “problemas” pela grande pretensão única de que o sistema todo é um erro. nem mesmo em parte. porque derrubou e redefiniu por completo os “problemas” aos quais se referiam. Os compromissos que forem tomados por agora serão acertados por seus líderes tranquilamente “realistas” e serão apresentados a ele como uma vitória total. Portanto responde. os que são vítimas — devem ter todo. talvez intimidado senhor. não apenas uma chispa de orgulho. Ele só pode transigir com a autoridade anti-rebelados se estiver de posse de “soluções” específicas para aqueles “problemas” que finalmente o conduziram à revolta. desejando ter encontrado neste rebelde uma pessoa responsável. Isto restaura explicitamente a legitimidade da mesma autoridade com que o rebelde se define pelo repúdio. “Que posso lhe dar?” interroga. mudança total significa só que aqueles que agora detêm todo o poder não mais devem ter nenhum. “Eu não posso ser negociado”. não deixa exatamente motivo — de novo. Está agora instruído de que estas esperanças são extravagantes. contudo. Mas. um homem do mundo como ele próprio. estão dispostos a mudar. absolver e suspender a execução de um inimigo que já foi sentenciado. No âmago de seu desespero está a nova certeza de que não haverá mudança que não seja produzida por ele mesmo. e que aqueles que agora não tem nenhum — o povo.guir justiça de injustiça. Ele próprio é imoderado e não conciliatório. Antes de poder ver as coisas de outro modo. nem mesmo o motivo — para criar aquela conversação. “O que quer?” indaga o aborrecido. A resposta se destina principalmente a acabar com a conferência. O homem que acredita que mudança só pode vir de sua própria iniciativa não será inclinado a pensar que a mudança possa ser parcial. O rebelde é um absolutista incorrigível. Porém a mais importante. Então que significado terá falar de compromisso? Compromisso é de certa forma.

menos ainda de um Brezhnev. Quem ou o quê substituirá o proprietário. devemos nos defender. segue. por mais agudo que se venha a tornar. a explosão do fundo d’alma 156 . Algo melhor. Não é uma utopia antecipada que o impele a arriscar sua vida. nem um político. diz o revolucionário. mas de algo que não mais deve estar lá. no momento. porque não pode mais suportá-lo como é. sua resposta é clara: “Então teremos de continuar a revolução. É o sofrimento. O futuro vitorioso é. Mas sua visão motivadora de mudança é na raiz uma visão de algo ausente — não de algo que deve estar lá. o dono. Indústria? Agricultura? Comércio exterior? Não são tais assuntos que o impulsionam e preocupam. a falta de um dono de mina. O senhor parece ter solicitado as idéias do rebelde sobre a sociedade revolucionária. que intelectuais revolucionários pretendem ter tomado emprestado da história.” Pelo contrário. a falta de um xerife. o xerife? Não importa. Não é o futuro que o torna vítima. não precede. Isto é sempre uma ilusão produzida pela analítica social prognosticadora. um Mao. Pode tornar-se isto. Não é nem um economista. olhando de soslaio por cima dos ombros. O rebelde ficaria embaraçado em confessar a verdade: que ele não tem tais idéias. ideal. “Mude isto!” ele grita. Montes o chamou. em última instância deve.são. Não pode responder a pergunta sobre o futuro porque esta não é sua questão. Se é então advertido de que este “algo” indefinido pode acabar por fazer as coisas piores. Mas nunca será por demais enfatizado que o interesse em desenvolver outras formas especiais. Em tempo idéias utópicas aparecerão.” O motivo revolucionário fundamental não é construir um Paraíso.” Acontece que pelo menos o espírito de socialismo estará implicado pela dinâmica interna da revolta de massa: O que foi ganho coletivamente deve ser possuído coletivamente. jogaremos tudo ao vento e arriscaremos nossos pescoços. Seu bom mundo futuro é descrito elementarmente por espaços vazios: a falta de um proprietário. não mais existam. ou mesmo que elas a precedem e ativam. pode parecer que elas surgem no mesmo instante que a cólera destrutiva. qualquer sociedade na qual certos indivíduos não mais tenham poder. mas destruir um Inferno. um Castro. Podemos estar certos de que o povo não disse: “Eis um plano para uma vida melhor — socialismo. Ele nos provou que é bom. O rebelde luta por algo que não será como isto. Porque o mundo tem agora um passado revolucionário. É o presente. disseram: “O que temos aqui como modo de vida não pode mais ser tolerado. O revolucionário não é do tipo de um Lênin. Em seu favor. nem um filósofo social. Portanto. ou ainda a causam.

Nada no mundo social do senhor é poupado do desprezo desta definição. absorve tudo à vista. Não adianta falar a ele na necessidade de proteger tradições e preservar instituições. Consciência revolucionária existirá. o homem que está ficando revoltado vê alguma coisa que não é sua. O escritório do usurário e o Chase Manhattan Bank. desafortunadamente sempre nova — que finalmente põe o círculo a retumbar com o grito desafiante. Sabe muito bem que não é em seu nome que a virtude está sendo usada desta maneira. Apesar da justiça que lhe prometem. para “propaganda armada”. que. es cierto!” Sim. da arrogância do patron. um que voga dentro de uma vida que será memorável principalmente por suas humilhações. desde que existe. não conduz diretamente à ação política. pouco a pouco. Quando Turcios leva seu bando rebelde a uma aldeia da Guatemala. o patron pertence à United Fruit Company. dos altos preços. Coney Island e Lincoln Center. O rebelde é alguém para o qual injustiça e impiedade são apenas palavras diferentes para a mesma coisa. É esta fala muito antiga. É um número desnecessário. pela primeira vez. Alguém se ajoelha no centro do círculo e começa a falar de sua vida. ou a ajudar a sociedade a evoluir sistematicamente para algo melhor. O rebelde é alguém que não tem o que perder. no momento em que a vítima elabore sua experiência de injustiça dentro de uma definição que inclua a sociedade na qual vive. Temos um homem que certamente não intervirá num incidente de rua em benefício 157 . São todos possuídos por outro. Onde quer que olhe. Só por um breve momento. cuja irresponsabilidade foi decretada por outros. são muito parecidos. “Si. Quase sempre. não é preciso falar de sociedades sem classes. dos esquifes das crianças. vistos da rua 137. O rebelde é um homem irresponsável. Mas esta nova consciência. Um compromisso com a violência apenas se tornou possível neste ponto. é verdade. esta alienação radical da autoridade passada e presente. podem ser igualmente outros tantos escolhos. dos poucos centavos pagos pelo árduo trabalho diário. Algo terá de ser feito. Nenhuma porta pública é marcada durante a noite com o aviso que permite sua sobrevivência. A boa terra que o campesino trabalha pertence à hacienda. Não é culpa dele estar sua fantasia repleta agora de explosões e ardentes rendas espanholas. Logo deixa de se impressionar e se torna apático ante a Grandeza Ocidental. que é a única redenção do danado. o campesino fixa os olhos com espanto não envergonhado nestes arranha-céus.contra a injustiça. Esta pertence ao patron. E aquele primeiro acionador não acionado pertence a nada.

a imagem é quase preponderante. está desaparecendo em outra 158 . é liberdade. a liquidez de escolha. Não entra. Mas onde está a liberdade deste ex-escravo que. Quer dizer que o escravo morre também e que o homem livre se materializa em seu lugar. o homem livre foi divisado só no momento em que ele disse: Eu posso! Eu hei de! Naquele momento o mundo todo foi abalado por sua exultação. Isto não é irresolução. da qual se considera a maior vítima. dois homens morrem. Pode ser dito que. onde tinha havido antes só sossego e rotina. Mas isso não diminuiu a servidão. quando toma o rifle e muda Eu hei de por Eu sou este homem. está agora afiando facas? Que ele se tenha mudado de uma disciplina para outra não esconde o fato de que permanece sob disciplina. raciocina Sartre. Quem sabe as coisas entregues a si mesmas andarão melhor. pelo menos. desempenhando um novo papel? Quando o escravo mata o senhor. Foi tragado antes por esta história. uma liberdade transitória. Seu desejo de uma vida privada independente tem sido intensificado por toda parte pelas condições que a proíbem. cuidadosamente racionalizados. que foi por um momento uma profusa nebulosa de possibilidade. escolheu a nova. Manterá a conversação aberta e a navalha fechada. nem mais homem livre. Entendeu sua situação e as exigências que ela faz. Ele portanto contemporiza com a liberdade. Ele pode mesmo denunciar um movimento de tropas governamentais ou abrigar um “fora da lei”. Mas parece reconhecer nesta solicitação uma velha presença familiar. pode-se dizer que escolheu sua escravidão. Muito bem.“da lei e da ordem”. em vez de cortar cana. Sabe que está sendo solicitado a se tornar um objeto histórico. De fato. Quando o escravo concebe a rebelião e permanece escravo. Ele para à vitrina de um vendedor de armas de fogo. da velha coerção da escravatura? Não estão sua vida privada e sua liberdade preenchidas igualmente por ambas? É o rebelde algo mais do que o mesmo objeto cativo em roupas diferentes. significam uma coisa: Ele quer ser livre. Por toda parte viu comoção e incerteza. no fundo. estes cuidados e demoras. Quando ele muda Eu posso por Eu hei de. Em momentos excepcionais tolerará falar de reforma. não foi? É a nova dedução de rebelião em verdade tão diferente. Todas estas desculpas. Prossegue até a vitrina de uma agência de fuga. Isto não o torna menos escravo. Mas pode também achar uma razão tática para se incorporar a uma marcha “moderada” ou aplaudir um discurso “razoável” ou não fazer nada em absoluto. O que há de errado com este homem que pensa que as coisas podem mudar sem serem mudadas? Que sabe tudo e nada faz? Nada está errado com ele a não ser o fato de que é um ser humano.

assim o rebelde se encontra isolado dela pela decisão a que sua vida o forçou. A vítima não pertence àquela categoria de homens para quem a ação pode ser regulada por tal conselho. Eu penso que Camus não percebeu isto. “carrasco privilegiado”. Doutra forma não posso entender como pode acreditar estar estabelecendo um útil e relevante ponto moral. Não devemos meter em nossas cabeças que o rebelde deseja ser um rebelde. Não fiquem desiludidos pelo racionalismo destes conceitos. o titubeio. para equilibrarse no extremo entre eles. Uma vez mais. Temos que surpreender o recuo. Uma vez mais. Liberdade não é algo que somente certos homens descobrirão. Ele não está em liberdade para ser somente um não escravo. Como o escravo se encontrou isolado da liberdade pela força do senhor. É menos esclarecedor para a vítima. Sartre devia ter estado suficientemente distante de seu partidarismo para ver que neste caso liberdade era somente a possibilidade de transição de um contrato obrigatório para outro — e portanto não liberdade. não a meramente deixar de ser um escravo. ele não é seu próprio dono. somente sob certas condições. exceto mudá-la por outra. nos quais pode ser perdida. Para ele. na Lexington Avenue.atitude. quando afirma que homens não podem ser “nem vítimas nem carrascos”. livrar-se destes títulos. de um lado ou outro. Liberdade não é um êxtase reservado aos europeus esclarecidos. muito menos com um sorriso afetado no rosto. Isto não significa que ele se reconhecerá como o objeto do brilhante epíteto de Camus. Não devemos pensar que ele lança seu coquetel Molotov com um uivo de júbilo. são sacudidos e iluminados por este tormento. Mas sempre ele está para ser varrido para fora. com frequência cita como ilustrações de estudo de casos os L’Être et le Néant [O Ser e o Nada] de Sartre. é um caso claro de ou/ou. Vagabundos. e seus benefícios não são limitados pelo fato bem conhecido de que há caminhos melhores e piores. está transformando a si próprio em outra imagem: a do rebelde. Não é como se suas sutilezas limitassem sua influência aos burgueses radicais que as analisam e denominam. mais nobres e mais baixos. seu futuro. aqueles momentos em que ele inexplicavelmente se desvia. talvez mesmo além de sua profundidade. Isto é excelente aviso para o carrasco. O apêndice psiquiátrico ao The Wretched of the Earth [O Miserável da Terra] de Fanon. muito 159 . Ele só está livre para escolher entre dois duros senhores. mas a ser este rebelde. concretizou-se num objeto específico. Lutará para fugir a esta encruzilhada. que esteve por um momento dissolvido. Para o escravo não há simplesmente meio de pôr um fim à sua servidão habitual. De toda a gente.

não permitirá a perda do que Harlem chamou sua “frieza”. Essa tensão só pode ser controlada pela ironia. tornar-se útil para Camus. Ser “frio” é flutuar sobre as próprias decisões. um revolucionário. Ser “frio” é usar a liberdade sem negar de modo algum que há um logro envolvido. são de tal forma espantosamente estranhos a ponto de escolher vidas despedaçadas. o escravo não pode renunciar à rebelião. sofrer hostilização constituíssem uma carreira. prefira ser uma tal coisa. Porém a evasão é somente uma forma mais precária da antiga auto-representação ritualizada. é o desespero com o qual ela tenta pertencer àquela categoria. O que é tão pungente no referente à vítima. A mesma agilidade interior que protegera seu espírito da subjugação do seu corpo. de fato. ao mesmo tempo nunca deixando qualquer um esquecer a fatalidade da própria situação. Essa simples reivindicação coloca-o contra a injustiça de ser definido pelo senhor. uma vez que o escravo é precisamente aquela pessoa que não pode de modo algum se definir sem cometer o ato de rebelião. Já que não pode renunciar à rebelião. pois esta é a categoria de homens livres. e se condena a si própria. uma palavra que apenas poderia ser traduzida para os idiomas de gente oprimida — “línguas nativas”. como se perseguição. O rebelde terá resistido ferozmente à sua rebelião. porém outros. Também o coloca contra as forças internas e externas que o pressionam a se definir. O escravo rebelde se evade de ambos os cativeiros por meio da recusa em destruir um ou outro. vingança. No momento em que ele é mais apressado por sua revulsão.menos que. pode também estar mais alarmado por ver que está para ser reduzido àquela revulsão. suspira famintamente por liberdade. É tentalizar-se com a possibilidade de que ninguém pode fazer nada. o mesmo bom estratagema que guardou-o de se tornar para si mesmo aquele escravo que ele não podia impedir de ser para outros — este talento para a sobrevivência interior agora está de pé. Logo que o escravo se define como outro que não o escravo. de algum modo. A escolha parece jazer entre se 160 . permanecer localizado exatamente apenas atrás dos próprios compromissos. que está em perigo de transformar-se nela — de transformar-se num revoltado. para desviar a nova versão da velha ameaça. Nada quer senão liberdade. Como se pode considerar que faz uma escolha quando escolher alguma coisa já é demonstrar rebelião? O dilema deste homem quase pode ser tocado com as mãos. Já que quer ser livre. já se definiu como rebelde. Afetará por muito tempo uma espécie de reserva. Pelo contrário. É cruel pretender que nós não.

alguém levado a desfigurar o que preza mais altamente. seu tom de voz atribui a ele mesmo uma decisão que se originou alhures. podemos encontrar nele o hipócrita criminoso que cinicamente pretende que a morte é só relativamente má. então provavelmente nos convenceremos de que caiu na armadilha de uma completa contradição moral que pode ser resolvida só de uma ou duas maneiras. podemos então decidir que ele é trágico. De modo mais simpático. se tomamos o machismo do rebelde tal é oferecido. elasticidade por disciplina. “Chegamos ao ponto”.” Quem quer que deseje saber de onde vem a estranha capacidade da revolução para o terror e a inocência encontrará a resposta vibrando entre estas duas últimas sentenças. integrados e distintos? Como é que uma destas paixões não invade e devora a outra? Como é que a faca que ainda está úmida do sangue de uma pessoa. escreve alguém do movimento subterrâneo brasileiro. está sempre redescobrindo que isto só será possível se ele trocar variedade por concentração. Ambos os enfoques estão errados. pode ser levantada numa íntima saudação para a “humanidade”? Daí o retrato que o rebelde traça de si mesmo: um soldado absolutamente fervoroso da humanidade do homem. Como podem homens comuns ser a um tempo calorosos bastante para quererem o que os revolucionários dizem querer (humanidade). frios bastante para fazerem sem remorso o que eles são capazes de fazer (cortar gargantas). O revolucionário é alguém que não é nada mais a fim de ser tudo o mais. “de fazer uma vigorosa distinção entre ser esquerdista — mesmo radicalmente esquerdista — e ser revolucionário. Quando o “criminoso” afirma que ele é “absolutamente fervoroso”. ‘’Absolutamente fervoroso” é um eufemismo para “desesperado”. Na situação crítica em que estamos vivendo agora. realçando suas aspirações. Em jogo está a humanidade do homem. Nós somos absolutamente fervorosos. e o bastante ponderados na turbulência de suas vidas para manter a aspiração e o ato a um tempo. Com menos simpatia. e das lágrimas de uma terceira. Se o acompanhamos na aceitação desse retrato.submeter a matar e cometer suicídio. realçando suas ações. ou ele esqueceu a maneira como veio ou deixou de ver que negar uma coisa não é o mesmo que afirmar o 161 . Desejando somente que sua vida objetiva possa ter um pouco da variedade e elasticidade de uma vida subjetiva. A liberdade está sempre lhe escapando por sua cólera ou sua fadiga. há toda a diferença do mundo entre os dois. Quando a figura “trágica” afirma que sua causa é “a humanidade do homem”.

Foi reduzido de escravo a prisioneiro. está em seu ato de ter. O que o impele para a linha divisória? Qual a diferença entre os lavradores guatemaltecos. O rebelde é alguém que não mais é livre para escolher nem mesmo sua própria dócil servidão. e portanto aquele orgulho dele. não sua pessoa. e portanto sob sua orientação. Exceto a rebelião. foi por um tempo ainda algo que podia deixar a seu lado e contemplar ou representar. Tornou-se a peçonha da qual tentou ficar afastado. alguém cujo desprendimento procura não se tornar perfídia. nada há. É oblíquo. ausência de futuro que deram a ela seu conteúdo mortal. Mas isto muda. A aparente estranha liberdade do rebelde. um dilúvio psíquico que encharca tudo à sua frente. irônico. O rebelde é alguém que aceitou a morte. De alguém cuja reação à sua própria condição de vítima era resignação e fuga ritual. que ele próprio deve encetar a ação. É esta privação de escolha que faz a diferença entre o “revolucioná162 . Sua cólera. tornou-se uma vítima auto-consciente que entende que ninguém mudará as coisas para ele. Estão mesmo tentando triturá-lo contra ela. brasileiros que se juntaram a Turcios. elegante e tem sangue-frio. sua situação. que o brasileiro nos informa ser tão crítica? Se estou certo em pensar que os homens resistem ao perigo e querem liberdade de todas as servidões. Mas não é ainda um homem revolucionário. e que há algo como revolução. afirmado a única vida que é valiosa para ele. Não se trata mais de estar diante de dois objetos e escolher o que ele será. finalmente. cuja simpatia tenta não se tornar envolvimento irreversível. Foi empurrado contra a parede. O homem miserável chegou à beira da violência. Alípio nas montanhas e aqueles de pensamento semelhante que permaneceram espectadores nas aldeias? Qual a diferença entre o “revolucionário” o “esquerdista radical”. Está fundido com ela — com a pobreza. não é mais capaz de fazer nem mesmo uma distinção subjetiva entre o dilema e ele próprio. Possuído totalmente por seu dilema. ambiguidade. Mondlane.oposto. que é tão enorme que chega a ponto de apequenar tudo o mais. de prisioneiro a condenado. “A humanidade do homem” é um eufemismo para “sobrevivência”. A despeito dele próprio. Este homem abstrato atravessou um bom número de mudanças. como sua humilhação precedente. reserva. é empurrado para o mesmo espaço que anteriormente separara para sua cólera. então se segue que rebelião não se concretiza até que se tenha tornado compulsória. moçambicanos. Pode muito bem compor todo um hábito de vida sem hesitação. hostilização.

Foi sistematicamente metido em sua cabeça que justiça é tal e tal. porque pressupõe que o rebelde teve uma escolha. honra aquilo. O rebelde. Um sujeito pacato que falava pela paz entre a cidade e o campo. Um terceiro falou de uma união. Isto nos permite distinguir com a nossa piedade aquelas “mulheres e crianças inocentes” que nossas bombas também destroem. Não tendo outros conceitos senão aqueles que foram marteladas em seu cérebro. não os acusa de serem poderosos.rio”. faz uma modesta sugestão. Eis aqui outro. acreditando que os homens eram bons.” Isto é memorável. para ver alguém enforcado por idéias perigosas. como se não houvesse nada errado em matar rebeldes homens adultos. Sobreviveu à bomba que destruiu sua família. e incapaz de se desfazer deles. Isto aconteceu. Inocentemente. Foi-lhe segredado que deve esconder-se. e ser logo rodeado pelos homens brancos que diziam: “Vejam como se torce. a policia tem seu nome. Para onde irá este sujeito pacato. verdade isto. pondera delicadamente que há grão sem uso nos silos e terra sem lavrar. Outro que acompanhou uma marcha da liberdade. Sem dúvida esperou vagamente que lhe agradecessem por isto. observou seu mundo. que se congratulassem com ele por ter ingressado no campo de Sócrates e Bruno. Impotente para não agir assim. Isto aconteceu. cometeu o crime do neutralismo. Quem determinou que acontecesse esta das mais severas e absolutas reduções? Nós ocidentais satisfeitos pensamos que seja o próprio rebelde. uma definição para pôr do lado daquela que reservamos para nós mesmos. não pensando em fazer mal. Deixem que morra. neste caso. totalmente nova. este viu um velho negro cair devido ao calor. uma pessoa mais humilde. agora que 163 . achou-se de posse de certas conclusões: Aqui não há justiça. obriga-nos a inventar uma segunda definição. mas parece que ninguém aceitará suas desculpas. que pode não ser de todo “radical”. longe disso. Há uma explicação mais mundana. Um dia ele emerge de sua educação . será para nós o verdadeiro escravo assustador que descobriu sua força para sair da escravidão. Porém esta distinção. se apresenta ante os poderosos. Isto nos dá o direito de ameaçá-lo como um criminoso. falou os nomes dos culpados. Barriga roncando mas de chapéu na mão. de homem. As coisas eram diferentes e agora ele está na prisão fazendo planos. Seu filho é arrancado da cama na madrugada seguinte. e o “radical” que pode nunca se tornar “revolucionário”. Eis aqui alguém que estava feliz. Era educado.

se não amado. olhando de soslaio entre as duas grosseiras botas. Uma semana mais tarde vem a saber que seu nome foi ligado ao de certos inimigos da sociedade. Uma outra semana e descobre que não pode mais ensinar. Duas bombas explodem em San Francisco. o chicote é o melhor pacificador. Quer ver o escravo beijando suas cadeias. Chocado por descobrir que um escravo pode ter aprendido a praguejar. Não se encontram indícios. Como se estivesse de fato tentando produzir a colérica chicotada de resposta. Ocorrem pancadarias de natureza política entre bandos. que as coisas ficam como devem. pensando roubar um 164 . Seus partidários o abandonam. Contudo. infelicidade provada constitui um assalto criminoso contra a paz. Não há prisões. A facção retrógrada tira disto prova convincente de que sua avaliação da situação tinha sido correta: “Estão vendo esta docilidade? Afinal. O senhor está inseguro a respeito de algo. Tentando só reduzir sua dor por um momento. Suspeita de infelicidade no escravo torna-se base para sua detenção. porque só está tentando satisfazer seu agora insaciável apetite de segurança. o senhor empurra a face do escravo cada vez mais profundamente para dentro das realidades de sua situação. Agora exige que o escravo afirme sua felicidade. Um dia o telefone de alguém revela um estalido peculiar. “Eu te amo. Afinal a estabilidade deve ser assegurada.é um criminoso? Um estudioso especula num artigo público que certos aspectos do sistema de comércio exterior de sua nação são desvantajosos para o desenvolvimento. A paz precisa ser mantida. senhor”. a facção avançada apressa-se com uma censura sentenciosa: “Tática ruim! Não há jeito de mudar os corações humanos!” É quase cômico. A polícia está confusa. Outro grupo se arma. A taxa de assassinatos em Dixie cresce de ano para ano. o senhor deve ser desculpado. o escravo cospe uma praga. Um grupo propõe reformular a idéia de não violência.” Exasperado. Mas o senhor parece se tornar menos e menos confiante com cada uma de suas vitórias. murmura entredentes o escravo. um apetite que na realidade se tornou um vício. Seus partidários estão alarmados. o escravo se submete. Só quer saber que ainda é respeitado. Não há condenações. em New York. e que não está sendo incubada aqui nenhuma ameaça à paz. Dois pacifistas são alvejados em Richmond.

” O rebelde é o homem para quem foi decretado que só há uma saída.momento de descanso. Tem de ter sido. Sem causar surpresa verdadeira em ninguém. 165 . A explicação do senhor soa verdadeira: “Era um mentiroso. é prontamente alvejado. O homem a quem a América reclama o direito de matar. O rebelde é também o homem a quem a América chamou “o comunista” e considerou inimigo. Mentirosos não merecem confiança e são perigosos.

166 .

VII Duas Questões Revistas Podemos traçar a contenda entre o capitalista e o pioneiro democrático desde os mais remotos dias coloniais. 167 . em escala continental. o florescimento de suas artes e ciências. Desde o tempo da decadência do Império Islâmico e o empalidecer da Idade Média. A grandeza do liberalismo ocidental. Fredrick Jackson Turner1 Se as guerras travadas para a aquisição do império são politicamente o mesmo que guerras travadas para a proteção de impérios já adquiridos. a história mais ampla e geral dos imperialismos transoceânicos. sua dolorosa construção de democracia constitucional — estas realizações interligadas têm sido financiadas pelo roubo assegurado chamado imperialismo. na velha Ásia. sua abundância material. desde o início da grande Renascença comercial do norte. a França na África do Norte e toda a apavorante armada das potências européias. em conjunto. Tendo ocupado o continente norteamericano e reunido e centralizado seu poder. a constante denominadora da história moderna. a dinâmica expansionista da cultura comercial Ocidental tem sido a raiz. então não há diferença radical entre a política que os Estados Unidos emprega no Vietnã e a política que a Espanha empregou no México. O épico da fronteira americana copiou. a Inglaterra na América do Norte.

gargantuesco agora. agora chamada “desenvolver o subdesenvolvido”. em sua aula inaugural. e da coordenação de tais grupos dentro das estruturas de poder maiores. Brota. administração oficial racional e provisão — se torna o valor único e final. fez uma estranha profecia: Junto com a máquina. burocratizados. a leste para as Filipinas. agora chamada “responsabilidade do Mundo Livre”. esta ainda mais pessoal. ao contrário.sem hesitação os Estados Unidos seguiram seu próprio rumo de construção de império. O mesmo saque contínuo. conquista da região inculta. como têm sido de nosso lamentável passado. Pugnam. do desenvolvimento de técnicas que tornam possível uma tal racionalização. cujo interesse especial se torna a extensão do uso de suas técnicas. em torno daquelas técnicas. em qualquer caso. E se a história é cumulativa. Primeira questão revista: Em vez de uma escolha entre liberdade e tirania. para se perpetuar e estender o território social no qual sua influência é dominante. como de costume. nas quais talvez o homem será um dia como os camponeses no antigo Estado Egípcio. uma figura que agora é posta em voga se secularizada como a Ameaça Vermelha — igual aos pele vermelhas. derrotar os Pagãos (Bárbaros. Selvagens). este Vermelho. de grupos profissionais de elite. por algumas combinações dos três elementos tradicionais da ideologia imperialista ortodoxa: manter a paz. Por volta do final do século XIX. institucionais. em vez de repetitiva. a organização burocracia está empenhada em erguer as casas de servidão do futuro. o Japão e o continente da Ásia. Max Weber. ao sul para o Caribe. 168 . os americanos terão de fazer uma escolha entre continuar o roubo ou pará-lo. justificado. As guerras do tipo vietnamita serão tão típicas de nosso futuro cada vez pior. na Universidade de Freiburg. então há uma segunda questão a ser revista. só mais feroz e mais resistente e astuto. um dos maiores economistas sociais modernos do Ocidente. aquiescente e impotente enquanto um bem puramente técnico — isto é.2 O impulso para a “racionalização” do estado não é o produto desta ou daquela filosofia política. que soberanamente decide a direção de seus negócios. da consolidação. incorporadas. Não importa muito se estas estruturas de poder chamam-se “públicas” ou “privadas”. mais íntima para os americanos do que a primeira.

é assim tão diferente do solicitado por Thorstein Veblen. e manter uma supervisão das táticas de produção. sejam aplicados em novos mercados que podiam de outro modo fenecer por falta destes ingredientes. cujo trabalho é controlar a estratégia da produção.... da biografia de seu avô John Quincy Adams. de um ponto de vista “capitalista”. É essencial que este corpo de especialistas tecnológicos. ou a habilidade de direção. reflitamos sobre a seguinte.. visão e interesse formam o estado-maior da indústria.Examinemos de novo a profecia de Weber. Mas isto nunca teria sucedido ao se efetuar o estabelecimento da Constituição [i..3 Ou vejamos se o mesmo tipo de espírito cultural não anima a seguinte passagem de uma recente polêmica de Fortune contra o antitruste. sem levar em conta quaisquer pretensões nacionais ou quaisquer interesses investidos. podia ser encontrado um grande grupo dos patriotas da Revolução. de um ponto de vista “tecnocrático-socialista”. de um forte governo central] se não tivessem recebido a ativa e determinada cooperação de 169 .. Vejamos se o sistema que ele prediz. constituem o estado-maior geral da indústria. no geral. tenha liberdade na utilização de seus recursos disponíveis em materiais. Os especialistas tecnológicos. Entre os federalistas. O verdadeiro perigo “social e moral” para esta sociedade é nós continuarmos a seguir nossa presente linha de desenvolvimento econômico. e um grande número dos cidadãos abastados dentro da linha das cidades costeiras e regiões populosas. No que diz respeito a fusões conglomeradas... que pelo treino. quase todos os oficiais generais que sobreviveram à guerra. em particular.4 À luz das precedentes passagens citadas. cuja supervisão constante é indispensável para o devido funcionamento do sistema industrial. levando a efeito uma sociedade inovadora. Cada ano o sistema de negócios grita mais alto aos homens de independência e caráter para tomar em suas mãos maciça carga nova de decisão. a direção dos negócios públicos devia considerá-las bem-vindas. enquanto conservamos vivos na política antitruste uma coleção de ideais derivados da forma de conservadorismo de Bryan-Brandeis (sic) que denigre o sistema de negócios que temos. equipamento e mão de obra...e. escrita por Charles Francis Adams. A tendência para se conglomerar permite que o capital incorporado.

Assim. quer esse estado no princípio seja benevolentemente administrado.tudo que fora deixado na América de ligação à pátria mãe. grandes negócios fazem governo poderoso e negócios multinacionais globalizam-no. O imperialismo é o acessório público nacional do expansionismo comercial privado. o escopo do governo federal deve também ser global. a probabilidade de male170 . salmodiando “paz. Se ele se torna. A solicitação básica é de. podemos ser capazes também de ver que a sociedade totalitária é a essência lógica do estado imperialista. Uma sociedade totalitária não precisa ser um estado abertamente policial. do que ao 1984. nem que continuará a resistir a ele no futuro. assim cooperam para racionalizar e dominar a economia política interna. ordem”. as formas retendo sua identidade. os grandes negócios pediram. as dimensões se alargando determinadamente. Há a possibilidade de que o estado total americano vá se assemelhar mais ao Admirável Mundo Novo de Huxley. e do fenômeno do McCarthysmo. isto não quer dizer nem que se mostrou à prova dele. claramente como podemos ver hoje que a Inquisição era tão só as Cruzadas ao avesso. exato como o faziam os antigos romanos. contra a vontade evidente do povo americano. um forte governo central para protegêlos contra os estados indóceis da antiga Confederação. Tal como em 1789. assim em nosso tempo pedem um governo federal para proteção contra os estados indóceis do mundo. bem como do interesse endinheirado que sempre aponta para governo forte tão seguramente como a agulha para o pólo. de Orwell. e conseguiram. Sendo agora global o escopo do comércio americano.5 O modelo simples se desdobra sem cessar. Sem as forças intervencionistas americanas em contínuo alerta. Se nossa sociedade tem na maior parte resistido a este impulso. E enquanto negócios e governo cooperam para racionalizar e dominar a economia política do mundo. ou não. Fraca consolação. lei. de nosso tempo. do que ordem total. controle total — o estado total do mundo total. Uma vez lançadas as bases do estado total. dependerá de suas tradições e do caráter da resistência que o povo seja capaz de conceber e expressar. os interesses americanos em frutas não podiam saquear as “repúblicas das bananas” e a oligarquia brasileira não podia sem medo ignorar as necessidades econômicas e sociais mais elementares do povo brasileiro. Porém dificilmente podemos esquecer que o impulso para estatismo policial tem estado conosco pelo menos desde os tempos do Alien and Sediction Act [Decreto sobre Estrangeiros e Sedição] o predecessor do McCaran Act. nada menos.

a única saída para aqueles a quem o poder fez responsáveis reside na supressão do acontecimento final. nada menos que a vitória pode sustentar a legitimidade presente do estado. as Filipinas). é entretanto a primeira de sua espécie a ser tão prolongada. não há solução que não venha a traumatizar. a economia de guerra tem o efeito de elevar cada vez mais 171 . Terceiro.volencia totalitária básica existe. Na crista de seu poder relativo. Sua iniciação nos limites é enfurecedora e sua compostura vacila. no referente à situação atual da América. Se a vitória não pode ser alcançada e a derrota não pode ser dissimulada. a primeira em que a reputação do estado tem sido posta em causa tão incondicional. a crise do Vietnã é sem paralelo. dois acontecimentos marcadamente indesejáveis. O que se mostra especialmente ominoso. Primeiro. que as administrações a se suceder manterão a obstinação da presente e que a história permanecerá. imóvel. de alguma forma. Segundo. Ao mesmo tempo. ou pelo cancelamento violento dela da história atual. é que um certo número de forças interligadas parecem inclinadas a estimular cooperativamente a tendência para a totalitarização da sociedade econômica e política. Cuba. uma frustração que começa a parecer impenetrável. sobre outros aspectos. precariamente. Neste caso. a primeira que todo mundo tem olhado de perto na intimidade de suas salas-de-estar. De nenhum modo a primeira de sua espécie (México. pode significar que a cultura não será capaz de tolerar com facilidade outra de sua espécie. a terceira administração a partir de agora se encontrará de posse de um cadáver — uma previsão que supõe. através do silenciar da crítica histórica. “derrota” é também inconcebível sem um imenso abalo na autoconfiança e consciência americanas. Quem tem uma clara idéia de vitória que não seja também absurda? No melhor dos casos. quer por meio da dissimulação ou superação por um fato maior (como guerra com a China). pelo menos um grande segmento da sociedade. a América moderna experimenta pela primeira vez. a situação histórica desta guerra pode torná-la um clímax. Mesmo uma manobra política soberbamente habilidosa não poderia apresentar um “compromisso” como uma “vitória” (tal na Coréia). a requerer tanto esforço americano para alcançar mesmo um acordo ambíguo. e segundo os termos pelos quais a guerra tem sido explicada ao povo americano. e dado o sofrimento que sem dúvida ainda o espera. repetida e publicamente. a primeira a ser travada sob palavras de ordem tão claramente hipócritas.

Os problemas que se agigantam ante nós agora são. Além do mais. controle exclusivo dos gânglios principais de poder político e econômico. A América negra. Mais importante ainda é a conexão espiritual. a classe prestigiosa. o aparato por meio do qual a sociedade pode ser totalitarizada existe e está em andamento. que diretamente. apenas a espécie que serviu de tentação a outros autoritários para fazer experiências com democracia ou tolerância ou liberdade política. e acesso 172 . será mais uma vez feita pelo grupo que tem mais a ganhar com a guerra e mais a perder com a depressão. Portanto. que toma as decisões. no fim de contas. cujas ações políticas têm um impacto complexo sobre a América do branco pobre. Relacionadamente. a virtual impossibilidade de resolver o conflito dentro do atual meio político da América. Em suma. constituem a oligarquia política americana. a elevação simultânea do desassossego racial e classista. junto geralmente com incorporadores multinacionais. — o poder reúne-se nas mãos daqueles cujos interesses especiais os inclinam para maior belicosidade no exterior e formas mais diretas de restrição política no país. as agonias da guerra se mesclam psicologicamente com as agonias da decadência urbana e da turbulência racial. é menos capaz de opor-se à declaração de gastos de defesa. tudo se combina para estimular os impulsos inerentes da sociedade corporativa para a reação totalitária. Portanto. O estado corporativo tem controle efetivo de elementos-chave do sistema de comunicações. Finalmente. e nunca seu poder foi menos sujeito a controle ou veto popular do que agora. ou através do efeito multiplicador. Aqueles que administram estes interesses. Há uma clara conexão mecânica entre a guerra e os problemas dos guetos americanos.o poder dos generais guerreiros e aqueles grupos de interesse individual que têm mais a ganhar com as despesas bélicas. a crescente influência dos militaristas dentro da crescentemente militarizada economia política. a resistência militar incomum e a notabilidade moral do inimigo. se a decisão clássica entre a guerra e depressão precisar de novo ser feita. o estado do bem-estar tendo sido podado para dar lugar ao estado guerreiro. a guerra aprofunda e intensifica a já avançada dependência da economia em relação aos subsídios de defesa federais. no exato momento em que a economia se coloca na “necessidade” mais clara de guerra — ou de modo contrário. podem montar a mais de um quarto do produto nacional bruto da nação. está no momento sendo levada para a alienação total do poder branco e total solidariedade contra um sistema cujas hipocrisias nunca estiveram antes tão nuamente à vista.

A única questão básica que os americanos têm agora para formular a si mesmos é se querem. Não está. então é usar eufemismo dizer que é impossível um fascismo americano. Pode colocar narcótico num escritório do SDS. ou não. O que quer que o estado decida fazer. da pesquisa pura. isso já foi feito. A casa imperial de servidão pode lhes dar riqueza. Pode tacitamente determinar a seus policiais direitistas que permitam por um pouco que uma quadrilha direitista assalte alguns manifestantes contra a guerra. e o poder de uma tal aliança política ou aliança de manejar sua vontade sem outras restrições significativas do que aquelas que escolhe se auto-impor. anonimamente em solidão com solitários igualmente ardentes. Pode mesmo ter a graça de deixar alguma gente viver numa ausência subsectária da sociedade política. O fato é que seu estilo será determinado essencialmente pela vontade incontrolada de seus dirigentes. nem na natureza do estado poder dar liberdade política. pode fazê-lo sem controle ou embaraço. O que pode ser feito? A questão central deve ser compreendida. ou não. Eles tramarão de qualquer forma fazer o que determinarem deva ser feito. pode dar de sua generosidade para aqueles que se humilharem ritualmente ante ele. isto já foi feito. ser politicamente livres. nem na natureza da liberdade política poder ser dada. então encenar uma batida policial para descobrir esta dinamite. prenhe de violência e capaz de justificar qualquer ação razoavelmente envolta em sofismas ou ação autoritária direta contra dissenção organizada. violento internamente. sequestrada da história nos subterrâneos do LSD.a uma ideologia nacionalista amadurecida. então encenar uma batida policial para descobrir estes narcóticos. segurança e ordem. ou das pequenas revistas originais de dissensões provisórias. Não é uma dádiva. Não existe como um fundo sob a superintendên173 . Está sozinho nas alturas controladoras do poder. O superestado pode mesmo voltar um ouvido meio preocupado para os murmúrios dos desprovidos. isto já foi feito. Liberdade política não é uma licença a ser negociada ou requerida a um poder mais alto. e então encarcerar manifestantes. do sexo suburbano. isso já foi feito. Pode se recusar a entregar assassinos racistas à justiça e assim produzir um Terror efetivamente patrocinado pelo estado. Mas o estado não pode dar liberdade política. Um tal fascismo pode ser. pode dar-lhes vitórias e atestar que estas vitórias são autenticamente gloriosas. Se a feição central do estado fascista é a aliança política ou identidade do governo poderoso e grandes negócios. O estado corporativo pode esconder dinamite num escritório do SNCC.

é obscurecida. um princípio tão escorregadio como a liberdade política dos homens. lhes dá estilo. direita e centro. e motiva seu trabalho. qualquer que seja o conteúdo dessa decisão.cia de escritórios privilegiados. é obscurecida. não é aclarada. o principio básico da política radicalmente humanista é este: Qualquer decisão que não for tomada pelo povo em livre associação. É uma condição elementar da vontade individual. Somente homens. William Appleman Williams coloca-a desta maneira: 174 . mas o estado não pode nem tomá-la nem dá-la. possuir. Esta questão central não é aclarada. O humanista não deve dizer: “Aceitaremos esta sombria casa de servidão e trataremos de redecorá-la. nosso lugar americano. porque não figura entre as capacidades do estado deter. O estado pode negá-la ou obstruir seu curso. O radical socialista. Se os americanos escolhem ou não ser livres é a questão política transcendente. é apesar disso esse princípio básico que estabelece seus objetivos. a única questão que coordena e resume todas as áridas questões da política externa e interna. por nossas categorias políticas comuns de esquerda. e existe quando ele a exige. Se os americanos escolherem a liberdade não poderá haver América totalitária. Se o humanista americano deve abrandar sua intransigência e sair de seu princípio utópico e ir de encontro às realidades da vida tecnológica. A liberdade política está no homem político. e sem América totalitária não poderá haver império americano. não os estados.” Diz ao contrário: “Insistiremos na prioridade da liberdade do homem e basearemos nossa invenção social na ética do contrato social livremente feito. democrática. A questão urgente é sobre a localização do poder na comunidade: Está ele no estado ou está no povo? E em nosso tempo americano. podem produzir e exibir liberdade. não pode ser boa. em sua vida. podem ser livres. e o liberal pró-estado-do-bem-comum são todos igualmente capazes de nos conduzir na direção da sociedade totalitarizada. o conservador corporativista.” A tarefa primária do humanista é descrever e ajudar a realizar aqueles atos políticos através dos quais o poder do monolito autoritário central possa ser rompido e a vida política do homem reconstituída na base da comunidade associativa. não-executiva. pelo debate americano tradicional sobre socialismo versus capitalismo versus a economia mesclada Keynesiana. Se o planejamento central deve ser coordenado pelo governo ou por mãos corporativas é uma questão cujo realismo desapareceu. é esse princípio que o humanista continua a elaborar e enriquecer por meio de intercâmbio humano no contexto de situações humanas.

Tal descentralização é tecnológica e economicamente possível. A ala direitista na América está presentemente num estado de quase assustadora confusão espiritual.Os ideais e valores radicais essenciais de comunidade.. Deviam saber melhor. na linha de tiro com os Minutemen. Estes valores radicais podem ser realizados mais facilmente através da descentralização e através da criação de muitas comunidades verdadeiramente humanas. Três explosões de candura exemplar neste ponto: Primeiro. Qualquer possível guerra futura se conformará. que é preeminentemente através da ideologia da Ameaça Estrangeira. de um relatório de 1938. E tal descentralização é psicológica e moralmente compulsória. Por mais que esteja na fibra do populismo democrático americano está também na fibra da direita liberatória americana. igualdade. Para torná-las política e socialmente agradáveis. Tal descentralização é essencial se é para a democracia ser mantida e ampliada. do mito do tigre nos portões. reunindo a John Birch Society. a ala direita conservadora de tendência imperialista. rindo entredentes através das páginas da National Review. fins ideológicos têm sido sempre invocados. Sob uma única e mesma bandeira. autorizado pelo Escritório do Serviço Secreto Naval dos Estados Unidos: “Realisticamente. há sempre um perigo claro e presente. democracia e humanidade simplesmente não podem ser realizados e mantidos no futuro — nem podem ser tentados — através de mais centralização e consolidação. Estes dois grupos possivelmente não podiam ter menos em comum. Por que os libertários concederam a liderança aos conservadores? Por que os oponentes tradicionais do grande e militarizado governo autoritário central agora somam forças com os mais audaciosos advogados de um tal governo? Agiram assim porque foram persuadidos de que há um perigo claro e presente que necessita uma digressão temporária dos valores finais. Nossa humanidade está sendo golpeada e espremida para fora de nós pelo poder consolidado de um capitalismo nacionalista bélico corporativo. todas as guerras têm sido travadas por razões econômicas.”7 175 .8 Isto não é meramente um desafio de esquerdista para outro esquerdista. com o precedente histórico. Deviam saber que. para os imperialistas totalitários. goza da fraternidade da ala direita libertária do laissez-faire. autoritária e mesmo monarquista. que o imperialismo de fronteira e global e o autoritarismo interno sempre se justificaram.. e individualismo de mercado livre. sem dúvida.

Embora uma tal economia possa produzir uma sensação de aparente prosperidade pelo momento. faz parte da forma geral de política mal orientada nosso país ser agora orientado para uma economia armada que foi criada em uma psicose artificialmente induzida de história de guerra e nutrida com uma incessante propaganda de medo. uma rápida análise do impulso totalitário do imperialismo.9 Seria um fato de grandiosa boa sorte para a América e o mundo se a direita libertária pudesse ser lembrada de que além do Republicanismo viciado dos Knowlands e Judds há uma outra tradição valiosa para ela a sua própria: a tradição do Congressista Howard Buffett.”12 Mais atraente é a direita do tenaz Garet Garrett.Segundo. Estamos nos tornando rapidamente uma caricatura da coisa que professamos odiar. orientador da campanha do Senador Taft. no meio-oeste. em 1952. a crença do Senador Arthur Vandenburg de que para obter sua aceitação de uma militante e dispendiosa política de Guerra Fria seria necessário “assustar com o inferno o povo americano”.8 Terceiro..”11 E de Dean Russel. que apresentou. em 1952. corte e Constituição. estão advogando só uma coisa: a abolição da liberdade. Não podemos praticar domínio e força no exterior e conservar liberdade em casa. ascensão da influência militar.13 Começando com as palavras: “Cruzamos a fronteira que fica entre República e Império”.. abandono de uma identidade nacio176 . que os eventos dos anos intervenientes tornaram a comprovar. subordinação da política interna à política externa. que atacou a Doutrina Truman com as palavras: “Nossos ideais cristãos não podem ser exportados para outras terras por meio de dólares e armas. cuja resposta à Ameaça Vermelha interna era abruptamente decisiva: “O meio de ficar livre de comunistas nos empregos do governo é abolir os empregos. o panfleto de Garrett indica infalivelmente os traços da patologia imperial: dominação do executivo nacional sobre o Congresso. a criação de satélites políticos e militares. a fim de preservá-la permanentemente.. Não podemos falar de cooperação e praticar política de força. Na verdade. e. mais insidiosamente. descansa em uma base ilusória de desconfiança completa e ocasiona entre nossos líderes políticos quase um medo maior de paz do que seu medo da guerra. um complexo de arrogância e medo em relação aos “bárbaros”. que escreveu em 1955: “Aqueles que advogam a perda temporária de nossa liberdade. o testemunho do General Douglas MacArthur: Falar de ameaça iminente à nossa segurança nacional através da aplicação de força externa é pura falta de senso.”10 Há a direita de Frank Chodorov..

Eles são da fibra do individualismo humanista americano e da ação associativa voluntarista. E alguém terá de fazer finalmente a observação de que o sonho americano não se tornou verdade. Se isto acontecer. Aqui está o moderno humanista ocidental. A direita libertária pode permanecer hipnoticamente encantada pelo imperialismo autoritário. se pavoneando através de cemitérios exóticos que ele preencheu e onde ousa pousar coroas. auto-satisfeito nas ruínas de suas promessas à moda antiga. e é só através deles que a tradição libertária é ativada e mantida viva. Este estilo de pensamento político. imaginando o que deveria dizer sobre tecnocracia e Stálin. Crescentemente afastado daquelas imagens de homem que uma vez sustentaram seu trabalho e deram forma às esperanças. cujo único e básico amor é Poder. que tem mostrado sua coragem de Lowndes Country a Berkeley. mas talvez já um item sem uso e arcaico. A Nova Esquerda pode se perder nos debates de esquerda importados. Num sentido saudável. fruto de uma longa linha. o capricho desenfreado do Estado. O superestado deslizará adiante em seu esplendor de aço e vinil. então este novo humanismo político. inutilizado já talvez por aquela racionalidade não-sentimental que ele se mostrou por tanto tempo satisfeito em honrar. se mostrará sem dúvida indigno de mais do que uma nota de pé de página nas histórias carniceiras de nosso tempo. Que estes movimentos sejam chamados de esquerdistas nada significa. o império é refém da história. que talvez ele fosse um sonho ocioso afinal e que o povo realmente nunca teve uma oportunidade. Sua união potencialmente redentora pode acabar inatingida e irrealizada. recrutando-nos com seus computadores. feitas a si mesmo. Contudo sua intersecção pode ser perdida. etiquetando-nos e numerandonos com seus testes científicos. o estado de aço possuído por sua própria glória retumbante. do tipo dos anos trinta. o subumano poder camisa-parda de militante do estado jacobino. enraizadamente americano. a Velha Direita e a Nova Esquerda estão moral e politicamente coordenadas. é abraçado hoje pelo movimento negro de libertação e pelo movimento estudantil contra o imperialismo de Grande Sociedade-Mundo Livre. que tinham o homem como centro.nal por uma identidade internacionalista e “histórica” — a república é livre. ele para sua fantasia por um momento a fim de imaginar se não há algum meio fácil para recapturar o que parece ter sido tão facilmente 177 . De ambos os lados pode ser cortada a visão por meio de respostas habituais para labéus ultrapassados. se as novas realidades não forem penetradas e uma reorganização ideológica fundamental não se realizar.

contudo. chegou a um fim. 178 . Compete aos americanos reivindicar de novo e tentar reformar seu país. De nada adianta imaginar.perdido. consigo próprio. Não há meio fácil para fazer o velho sonho respirar neste novo ar. Só o povo deve. O que parece perdido não foi realmente perdido. Não há mais bárbaros para justificar as conquistas básicas e salvar a consciência. As fronteiras se foram. Só o povo americano pode fazê-lo. como de hábito. O povo está sozinho. nem botões para achar e premir.

rev.Notas Capítulo II: A HISTORIA DO GUERREIRO DA GUERRA FRIA 1 Citado em “The Fullbright Revolt”. 1965. eds. Marcus G. abril de 1965. 1965. 13 Fall. New York. setembro de 1966. pag. de Isaac Deutscher. 1960. 16 de Janeiro de 1966. pag. 1963. 1963. 1964. pag. 1965. de Maurice J. 322. de Bernard B. 109-194. New York. Inside Story of the Guerrilla War. 4 The New York Times (NYT). The Viet -Nam Reader. XI. New York. “Globalism — The Ideology of Total World Involvement”. Random House (Vintage book). em Raskin and Fall ads. 5 “The Namierist School”. Fall. pag. 8 NYT. “Viet-Cong — The Unseen Enemy in Viet-Nam”. 3 The Two Viet-Nams. 11 NYT. 24. 261 179 . de Eric Robson. London. esp. 6 Gary Porter. The American Revolution.. 1 de fevereiro de 1966. George Athan Billias. ed. 2 Vietnam. 30 de Janeiro de 1966. de Wilfred Burchett. Goldbloom. Rinehart & Winston. 1 de Janeiro de 1966. New York. 1966. Frederick A. 9 NYT.. Random House (Vintage Russian Library). 10 de agosto de 1966. 7 Em Stalin. Raskin e Bernard B. ed. Magazine. 318. Praeger. 10 Political Science Quarterly. New York. pag. 12 NYT. Fall. Commentary. International Publishers. pags. Holt. Pall Mall Press. A Political Biography.

New York. New York. pág. 6 William Appleman Williams. 20 Ibid. pág. 1956. 3 Ibid. A History of Civilization. págs..14 NYT. 249. pág. 17 NYT. 1 de fevereiro de 1966. 482. Rand Mc Nally 7 Co. 18 Ibid.. 217-224 (Charles C. 1917-1960. editado por e com extensos comentários de Williams.. pág. pág.. 82 (Louis M. Evolution and Culture. “American Trade in Opium to China. 15 NYT.J. 1750-1775”). Sears. de D. F. 1962... Doubleday & Company. 15 Ibid. 17 Ibid. 258. 2. Chicago. pág... The Tragedy of American Diplomacy.. “The Appearence of an American Attitude Toward External Affairs.. 2 Ibid. Mich.) 14 Ibid.) 7 Ibid.. 2 vols. 5 Fleming. 1961. pág. N. “Jefferson and the Embargo”). (Nas seguintes citações deste livro imensamente útil. pág. 17 de abril de 1966. 13 de fevereiro de 1966. 53. 12 Para um desenvolvimento “antropolítico” deste ponto ver Marshall D. 16 Ibid. 252. “British Mercantilism and the Economic Development on the Thirteen Colonies’’). eu só forneço os números de páginas tirados da parte “documentos”. (Daqui em diante citado como Shaping. pág. pág. 17. The University of Michigan Press. 8 Ibid. págs. 11 Citado em Deutscher. pág. pág. Nottels.. vol.. págs. 258. Prentice-Hall.. 16 NYT.. pág. Englewood Cliffs.. 12 (Curtis P.’ 197-200. pág. 2 vols. 79. 15 (Max Savelle.. DOMINÓS QUE CAEM 1 Em The Cold War and Its Origins. pág. 1960. 328. The Shaping of American Diplomacy. 180 . Na citação de historiadores o autor e o título são dados entre parênteses.. 35. 251. 4 Crane Brinton et al. 27 de fevereiro de 1966. Sahlins et al. 427.) É um maciço compêndio de “Readings and Documents in American Foreign Relations 1750-1955”... pág. 503. Stelle. 1955. Ann Arbor. 13 William Appleman Williams. Capítulo III: PORTAS ABERTAS. 9 Ibid. Williams cita sem datar um editorial do Times de Londres. 68. págs. Doll Publishing Co. 235-237 (Daqui em diante citado como Tragedy. 10 Ibid.. 19 Ibid. 315. 110-122. Fleming.

Capítulo IV: IMPERIO DO MUNDO LIVRE 1 Tragedy. 27. 30 Thomas R. pag. 434. 21 Ibid. pag. 38 Department of State Commercial Policy Series. Rostow. 42 Ibid. 1934-41.. Harpers & Row (Colophon book). 28 Department of State Bulletin. Cambridge. pag. pags. pägs. pág. 43 Ibid. Brooks. 33 Ibid. 1-70. 39 The Public Papers and Addresses of Franklin D. 26. 1964. 34 Tragedy. 235. pag. eds. Barber. Roosevelt. Mass.. 24 Tragedy. pag. 22 Tragedy. 29 Tragedy. To Build a New World. 23 Shaping. Bigger.. League for Industrial Democracy.. 3 Tragedy. 18. 239. 7 Richard J. 26 Ibid. 233. 41 Ibid. 1938. “The Multinational Corporation”. pág. Random House. 234. 97. Biggest: American Business Goes Global”. pag. New York. págs. 66.. pág. 1963.. Pryor. comunicação feita ao Carnegie Institute of Technology. 5 de novembro de 1962. 6 David E. 44 Fortune. New York. pag. “Guerrilla Warfare in Underdeveloped Areas”. pag. 19. panfleto sem data. 78. 4 Em Edmund Stillman e William Pfaff. 17. 2 Frederic L. 683-688. 237. pag.. 31 Ibid. pag. 4 (1935). 36 Ibid. 27 Ibid. vol. 5 W. 25 Ibid. The Polities of Hystoria. 463. pag. “Big. 35 Ibid. pag. pág. 32 Shaping. pag. pág. New York.... pag. 224 (Foster Rhea Dulles. The Communist Foreign Trade System.1821-39”). 66. 37 Ibid. 26. “American Interest in China”).. 110-112. pag. MIT Press. pag. W. 40 Tragedy. New 181 . Lilienthal. em Raskin and Fall.. junho. 1966. 382. 123. 133. abril de 1960. 433-434.

20 de abril de 1963. 477. 26 The Economic Almanac 1964. “Viet-Nam and the Power Elite”. 490. Our Depleted Society. New York. 24 de dezembro de 1964. pág. 8 de março de 1965. 22 John Gerassi. 1964. 29 Philip Siekman. 150. Berkeley. de abril de 1966. 354. 18 Para uma boa pequena revisão destas instituições e seus defeitos.Republic. pág. 31 NYT. 1 de abril de 1966. 511.S. 20 “Special Report of Multinational Companies”. 21 de março de 1965. 32 NYT. 28 Ibid. em Melman. cit. 8 de fevereiro de 1966.. 31 de março de 1966. da Standard. 11 Newsweek. págs. 13 Citado em Marshall Windmiller. presidente da United States Freight Company. 28 de Janeiro de 1966. 30 NYT. 25 de novembro de 1964. “Notes on the Theory of Imperialism”. 342-352. A citação é do artigo de Déferre. 34 Além das citações do NYT. National Industrial Conference Board e Newsweek. 276. 480. abril de 1966. The Commentary of Marshall Windmiller. “What Free Enterprise Means to Latin America”. New York. 355. 23 de novembro de 1964. Fortune. 11 de outubro de 1965. março de 1966. os seguintes artigos de revistas for182 .S. 33 NYT. em Foreign Affairs. Companies Are Doing Abroad”. no texto. 2 de outubro de 1964. 76-99.) 27 Gerassi. 8 Wall Street Journal. setembro de 1964. 8 de novembro de 1965. por Morris Forgash. Monthly Review. loc. TLD Press. págs. Rinehart & Winston. págs. 9 Barber. New York. 21 Paul Baran e Paul Sweezy. Calif. 23 Ibid.. 15 Forbes.. 24 de janeiro de 1966. “When Executives Turned Revolutionaries”. The Macmillan Company (Collier book). 19 David Rockefeller. Holt. 1965. The Great Fear in Latin America. Business Week. 83. pág. 28 de outubro de 1965. 14 Barber. 12 Barber. Foreign Affairs. 17 “What U. 25 Gerassi. ver o memorandum “A Bank for Economic Acceleration of Backward Countries”. (Citado daqui por diante como Almanac. News & World Report. 24 Baran e Sweezy citam 1962 Annual Report. 1965. U. pág. publicado como Apêndice D. 10 Ibid. 16 Seymour Melman. 30 de abril de 1966. pág.

1965. 12. Fortune. N. “U. so 50 Ibid. 42 Kwame Nkrumah. Este relatório resume pesquisa primária continuada sobre os interesses corporativos americanos na África do Sul. 17. 22 de fevereiro de 1965. Africa Today. dezembro de 1964.S. 1965.. “A Special Report on American Involvement in the South African Economy. U. Alexander Defense Committee.. Business Week. 41 Booth e Robson. 27 de março de 1965. 1966. 1966. 51 Ibid. Corporations in South Africa”. pág.. Department of State Bulletin. Neo-Colonialism.Y. The Institute for Strategic Studies. Chicago. Africa Today. 22 de janeiro de 1966. 53 The Military Balance. foi seguramente conduzida pelos estudiosos do Ideological Institute em Wineba. 49 Lee. 147-149. feita por membros da SDS e o American Committee da África.J. International Publishers Co. 36 Ibid. “Brazil’s Chief Miner”. em Chicago. 35 Franz Lee. 48 Forbes. 38 Paul Booth e Christopher Z. 46 Ibid. London. Hanna’s Immovable Mountains”. Hobson. Lee é um refugiado político sul-africano. “Brazil. 13 de agosto de 1966. 32. 39 Ibid. News & World Report. 45 Nkrumah. 37 Ibid.V. M. 19. Adelphi Papers. fria e minuciosa. Students for a Democratic Society. New York. “The Englehard Touch”. dezembro de 1965. “Brazil’s Battle with Inflation”. The Last Stage of Imperialism. 52 Lee. 14. Booth e Robson. abril de 1965. “Military Assistance to Independent African States”. 22 de novembro de 1965. 40 Ibid. — Brazilian Guaranty Pact to Stimulate Private Investment”. pág. a melhor fonte singular e mais conveniente é o número de janeiro de 1966 de Africa Today. págs. Veja também New Republic. New York. Africa Today. 18 de abril de 1966. pág. 211 East 43rd Street. London. 1965-1966.. New York. pág. “Brazil: Some Success.” Exemplares deste número podem ser obtidas do American Committee on Africa. pág..necem boas informações recentes e antecedentes gerais no caso da Hanna Mining: Fortune. Much Work to Do”. Veja também New Republic. Os dados são acumulados continuamente no Escritório Nacional da SDS. Contudo. 13 de agosto de 1966. Fortune. pág. 47 Ibid.S. Lincoln Gordon. págs. 127-136. 10017. 122. 104. “Brazil-United States: Partners in Progress”.S.S. e podem ser consultados se requeridos. Bell. págs. pág. The Institute for Strateguc Studies. 27-28.. 36. sobre o assunto. “Information on Involvement of U. abril de 1966. 183 . 1 de agosto de 1965. 43 U. 44 Booth e Robson. “South Africa”. Business Week. Anatomy of Apartheid in Southern Africa. pág.. que foi fechado depois do golpe de fevereiro de 1966. International Commerce. A pesquisa deste livro. “Harsh Curbs Generate Growing Discontent”.

Esquire. 165. 64 Gerassi. 59 Almanac. Lash. pág. 77 Economic Affairs. 126. 71 NYT. 492. 67 Ibid. 191. 1. 21 de maio de 1966. 63 Almanac. pág. 27 de Janeiro de 1957. 68 Sobre os interesses dominicanos de Bunker e National Sugar. Danna L. Sucrest Annual Report. 74 Gerassi. 75 Ibid. 80 Rockfeller.. 367-372. 60. 14. pág. págs. 56 Gerassi. 116-121. 155-166. novembro de 1965. pág. 78 Gerassi. pág. 58 Ibid. 184 . “The Philippines”.. pág. Gerassi. 66 Ross e Wise. 12 de maio de 1965.. 76 Fortune. Agradeço a Michael Locker de SDS por estes dados. loc. 32. New York Post. 490. pág. Sobre Fortas. Seib e Alan I.pág.. Commodity Year Book (anual) e International Sugar Journal (mensal).. 79 Wall Street Journal. ver Joseph P. 1965. junho de 1965. 19 de junho de 1966. 125-126. 488. 73 NYT. The Invisible Government. Standard and Poor’s “Sugar-Basic Survey” e “Sugar-Company Survey” for 1963-1965. pág. “Bunker Hits the Trail Again”. Bantam. 1964. pág. Help — LBJ”. págs. Who’s Who in America.. 368. 65 Ibid. 70 Nkrumah. 55 Almanac. 28.. Quadrangle Books. 72 NYT. 57 Ibid. 192. The Strategy of Subversion. 34 Lee. 8 de abril de 1966. International Affairs. 42. 62 Ibid. Orlov. 263. págs. pág. pág. 61 Ibid.. Berle e Sucrets veja Charles B. “Abe. págs. Thomas. Chicago. Sobre Farland veja o Annual Report de 1965 de South Puerto Rico. págs. pág.° de junho de 1966. Sobre Harriman e National. Paul W. 60 Gerassi. 505. págs. Blackstock. 69 A. 20. veja Standard and Poor’s Register of Directors and Officers (anual) e qualquer Annual Report recente da National. cit. ed. 241. Barron’s. 275. 127. 27 de setembro de 1965. pág. “Richter Sweet”. New York. junho de 1966. Otten. 66.

16 de junho de 1966. pág. Os números de exportação (e importação) dos U. 45. 1966. 58 (41).Capítulo V: O CASO DO VIETNÃ 1 Newsweek. 194. Capítulo VI: O REVOLTADO 1 Gerassi. The Macmillan Company (Collier book).. 11 de julho de 1966. para 1933 e 1937-40 são os seguintes (em milhões de U. 6 Ibid. 7 Ibid. 200-212. pág.S. 4 Fred J. 10 U. Baltimore. 5 Eugene J. dollars): Alemanha 140 (78). 18 de setembro de 1966. pág. e 227 (158). 107 (65). pág. 232 (161). 288 (204). 181. Md. McCarthy. pág. 13 Almanac. 304. 18 Direction of World Trade. e 0. “The U. Penguin Books. Saturday Review. New Republic. 3 Fortune. Mac Graw-Hill Book Company. Torture: Cancer of a Democracy. Japão: 143 (128). The Warfare State. News & World Report. Cook. Direction of World Trade (mensal). veja Alexander Eckstein. págs. 9 de julho de 1966. 183. 19 NYT. 26 de outubro de 1949. 1 de janeiro de 1966. 59 (40). 9 Ibid. 1119. pág. 12 NYT. 8 Ibid. 2 Fall. Para uma análise especializada de tais números de comércio. 40. 1964. Itália: 61 (39).S. 22 Pierre Vidal-Naquet.S. 240 (27). e 51 (23). 15 International Monetary Fund. março de 1966. 20 Ibid. 470. 185 . 14 Alex Campbell. 18 Shaping. New York. Communist Chinas Economic Growth and Foreign Trade. 11 New York Herald Tribune. 23 Ibid. 77 (48). 1963. 194. pág. pág. “Japan Plays the Field”.S. pág.: Supplier of Weapons to the World’’. 5 de março de 1966. quoted in Cook. New York. 126 (93).2 (5). 21 Stillman and Pfaff. 47 (52). 17 Fall.

12 Ibid. 7 Harry Elmer Barnes. 2 Max Weber. Continuum. Rampart Journal. Brace & World (Harbinger book). The Caxton Printers. Economic Origins of Jeffersonian Democracy. The People’s Pottage (“The Rise of Empire”). 201. pág. 240. Idaho. 72-73.2 Robert S. 8. New York.S. National Guardian. pág. Radicals”. 1953. in Raskin and Fall. The Free Press. McNamara. New York. Capítulo VII: DUAS QUESTÕES REVISTAS 1 Citado como epígrafe em Charles A. “Revisionism: A Key to Peace”. Primavera de 1966. março de 1956. 10 Murray Rothbard. “The Transformation of the American Right”. 1965 (publicado pela primeira vez em 1915). eds. “Policy for U. Fortune. 9 Garet Garrett. 3 Thorstein Vehlen. “Response to Aggression” (discurso pronunciado em 26 de março de 1964). págs.. The Engineers and the Price System. 4 Max Ways. 1963. Caldwell. Beard. 13 Garret. 8 Tragedy. 11 Ibid. 27 de novembro de 1965. 5 Beard. pág. 3 NYT. “Antitrust in an Era of Radical Change”. Politics as a Vocation. Harcourt. 28 de outubro de 1965. 8 William Appleman Williams. 186 .

SEGUNDA PARTE Revolução: Herança e Opção Contemporânea RICHARD SHAUL 187 .

188 .

Por certo muita gente conheceu uma acentuada melhoria em sua situação econômica no curso de algumas décadas. cerca de um quarto de nossa própria população está ainda abaixo da linha de pobreza. pelo mundo afora. pode também trazer com elas novas formas de dominação social e limitar. criando assim um estado d’alma de esperanças em ascensão. contudo. podem agora ser superados pelo esforço humano organizado. Está agora claro que o mesmo desenvolvimento que conduz a melhorias em nossa condição econômica. quer para o bem-estar material quer para a libertação humana. Além do mais.I Introdução Progressos recentes em nossa sociedade tecnológica levaram o homem a um novo estágio em sua luta para criar condições mais favoráveis para a vida através da ordenação de sua existência social. para as novas possibilidades à sua frente. especialmente entre os desprovidos. os avanços tecnológicos serviram para acordar todas as classes e raças. A tecnologia tende a destruir velhas formas de organização social e causar mudanças constantes em nosso modo de vida. Porém não cria automaticamente uma sociedade que ofereça crescentes oportunidades. temos os recursos e o poder para criar o tipo de sociedade que desejamos. e a distância entre o padrão de vida das nações ricas e o das pobres torna-se maior cada ano. Males sociais. antes aceitos como inevitáveis. ainda mais do que no passa189 .

uma vez tornadas obsoletas pelos acontecimentos.do. Esperanças. nossa participação no processo de tomada de decisões que determina nosso futuro. De fato. aqueles que se tornaram cientes do caráter desumanizante de uma tal ordem perderão toda a confiança nas instituições de sua sociedade. E a média de massa oferece possibilidades sem precedentes para manter um estado de espírito de relativa conformidade entre a grande maioria do povo. as perspectivas para o futuro serão na verdade sombrias. tais como organizações de trabalhadores. Há alguma possibilidade de que possamos responder a este desafio? Temos pouca evidência. um significativo número de pessoas. estruturas. de diferentes idades e classes sociais. tal uso dele é quase inevitável. no momento. Outros grupos. e a fim de manter alguma semelhança de ordem. o mais rapidamente possível. que serviram como um instrumento efetivo para mudança social no passado. Aqueles que estão no poder serão tentados a desenvolver sistemas mais efetivos de dominação. de qualquer despertar difundido referente às exigências que nos faz. Além do mais. e como os recursos da tecnologia podem ser usados para produzir melhoria significativa no lote dos desprovidos. uma vez surgidas. Os que se beneficiam mais do sistema presente. 190 . Do contrário. e serão atraídos para a resignação ou atos de desespero. Para alguns. na medida em que o poder da sociedade tecnológica é grandemente concentrado nas mãos daqueles que mais lucram com a ordem estabelecida. não podem ser suprimidas com facilidade. está passando por um processo gradual de despertar. como mudanças fundamentais podem ser levadas a efeito nas estruturas de nossa sociedade. aquele progresso que torna as velhas estruturas sociais obsoletas também lhes fornece poder quase ilimitado para a autopreservação. bem como oportunidades crescentes para a libertação humana. isto é o resultado da reflexão sobre os mais recentes progressos em nossa sociedade industrial. outros têm sido jogados para o conhecimento através dos contatos com os desprovidos em nosso próprio país. a fim de suprimir descontentamento e revolta. Contudo. Nossa única esperança está em descobrir. não parecem estar numa posição de agir mais assim. Este problema constitui um dos maiores desafios com que nos defrontamos hoje. na medida em que o avanço tecnológico é incorporado ao ethos agora dominante em nossa sociedade. não estão dispostos a tomar iniciativa nesta luta. mostram-se cada vez mais inadequadas à medida em que o tempo passa. Por outro lado. e que são mais influenciados por sua ideologia secreta.

não estamos por meio disto pronunciando julgamento sobre um. um prometedor sinal de um novo dia. E o surgimento de movimentos revolucionários aqui 191 . com frequência. não só em casa mas também no Terceiro Mundo. a uma nova situação histórica. e têm gradualmente elaborado as implicações dela para sua compreensão do mundo moderno e a definição de sua responsabilidade nele. Se nossa análise da presente crise está correta. Pode fornecer uma ocasião para a redescoberta de nossa herança revolucionária americana. Os novos revolucionários não estão provavelmente mais preocupados com o mundo e o povo que sofre nele do que o estavam suas contrapartes de uma década atrás. este despertar é. Por mais prometedora que seja a nova consciência entre a juventude. são livres para entender o problema e fazer algo a respeito. mesmo desta minoria. uma experiência traumatizante. ou nos empenhar em esforços que nunca têm relação com os verdadeiros fins. saindo desta mesma matriz de frustração e angústia. Para aqueles de nós que pertencem à geração mais velha. Se aqui os distinguimos e os colocamos em contraste com os progressistas de uma geração mais antiga. Há. da parte de uma nova geração. Mas não devemos esperar demais. Os mais progressistas dentre nós têm pensado sobre a sociedade em termos menos radicais e têm trabalhado para a mudança social de maneira mais moderada. Em seus esforços para expressar sua preocupação pelo homem e para mudar a sociedade. eles não podem estar mais ansiosos em mudar a sociedade do que nós temos estado. Se os acontecimentos agora revelam que nossa perspectiva é inadequada e que nossa estratégia é ineficaz. têm sido levados a tomar uma posição revolucionária. então esta escolha deliberada da revolução pode tornar-se um ponto decisivo na história de nosso país. Eu me refiro aos novos revolucionários e aos novos movimentos nos quais estão envolvidos. Mas eles representam a resposta. mas estão também dispostos a trabalhar por tais mudanças e procurando uma estratégia com a qual conseguir isto. que ainda não têm posição no sistema e estão insatisfeitos com o mundo à volta deles. cujos membros não só entendem o problema e estão convencidos de que mudanças radicais são necessárias urgentemente. Muitos jovens. nem afirmando a superioridade moral do outro. pode nunca ir além de uma atitude de rebelião e uma precoce conformidade com a ordem estabelecida. e de sua relevância em relação aos problemas com que agora nos defrontamos. podemos terminar nos retirando de uma luta que não conseguimos entender. sei disto.ou com a luta dos povos do Terceiro Mundo. Uma nova comunidade está emergindo.

Eu. é muito difundido. ficaram envolvidos na luta pelos direitos civis. não tenho desejo de forçar a realidade contemporânea num estreito e rígido esquema racional. que têm sido formados por sua participação na luta pelos direitos civis ou nos novos movimentos no campus da universidade. e de que a única resposta autêntica ao desafio de nosso tempo é a que os revolucionários estão dando. é somente nos Estados Unidos que nos defrontamos simultaneamente com o impacto pleno das várias revoluções magnas de nosso tempo — quando jovens conduzidos à linha de frente da revolução tecnológico-cibernética. Tentaremos examiná-lo sem cair em generalizações indevidas. Porém. em número de gente incomum em quase todas as esferas de vida na Europa Ocidental. A fim de viver e agir. eu tive de tentar tirar algum sentido do que está acontecendo no mundo. hoje. Mas não escondo ter chegado a uma análise desprendida puramente empírica. à luz de nossa própria história. encontro-me na posição não invejável de estar de cer192 . já descobriram que estão identificados. Gastei também a maior parte de duas décadas na América Latina em íntimo contato com uma situação revolucionária lá existente e fui forçado a chegar a um acordo com ela. de minha parte. África e América Latina e libertar-nos para participar criadoramente do “século do Terceiro Mundo”. em alguns lugares. acredito. seria absurdo supor que todas as situações são revolucionárias. o combate à pobreza ou o movimento pela liberdade da palavra e também descobriram. a revolução que está em processo nas relações entre as nações ricas e pobres. tais como América Latina. Em todas estas áreas. Portanto. No tipo de mundo dinâmico e pluralístico no qual vivemos agora. em perspectiva e interesse. É este fato novo. Estas experiências me levaram a certas conclusões sobre o significado da revolução e a contribuição que aqueles que tomam esta posição podem dar à nossa sociedade neste tempo. Muitos jovens. pode ser encontrado o novo estado de espírito revolucionário.podem quebrar nosso presente impulso para alienação crescente dos povos da Ásia. deste fenômeno. esta escolha de uma posição revolucionária — e suas implicações para a participação americana no século do Terceiro Mundo — que aqui nos interessa. por estranho que isto possa parecer de início. com um crescente número de homens e mulheres em muitas partes do mundo e em situações largamente diferentes: estudantes revolucionários nas nações em desenvolvimento. como resultado do envolvimento norte-americano no Vietnã e na República Dominicana. estudantes e escritores nos países comunistas.

que estão confusos e transtornados pelos progressos revolucionários. tomando a tarefa de interpretação e mediação. Tendo gasto a maior parte de minha vida trabalhando por reforma dentro da ordem estabelecida. E ousamos esperar que a reflexão sobre revolução. 193 . a entender melhor o que estes movimentos representam. Talvez desta posição estratégica seja possível ajudar alguns daqueles. Tenho tentado transformar esta desvantagem em uma vantagem. feita de uma tal posição ambivalente. possa trazer alguma pequena contribuição aos presentes esforços de parte dos novos revolucionários para encontrar uma base sólida para pensamento e ação fecundos. não posso esquecer o fato de que pertenço a uma outra.ta forma preso entre dois mundos. sou agora obrigado a dar prioridade à revolução. E por mais que simpatize com o novo estado de espírito da nova geração.

194 .

com frequência. é a busca de um novo estilo de existência humana. Muitos daqueles que são mais ativos nestes movimentos estão bastante confusos e são. E os povos da Ásia. África e América Latina descobriram a inautenticidade de uma forma de vida importada do Ocidente e por ele imposta. tem mais do caráter de uma afirmação de fé. Tenho consciência de que isto não pode ser demonstrado empiricamente. Há uma crescente certeza de que o contexto em que a vida humana é moldada mudou. e de que só se se desenvolver logo um novo estilo de vida o homem moderno será capaz de encontrar significado em sua existência e agir com responsabilidade. O ideal do “homem burguês” perdeu muito de sua força. O aparecimento de “beatniks” e rebeldes em muitas culturas diferentes atesta a seriedade do problema.II A Busca de um Novo Estilo de Vida Um dos focos principais de preocupação. O novo revolucionário está numa posição avançada nesta busca devido sua sensibilidade ao que está acontecendo em volta dele e seu envolvimento responsável onde as questões decisivas sobre o futuro do homem estão sendo levantadas. Qualquer tentativa de traçar 195 . em nosso mundo moderno. O existencialismo desenvolveu seus próprios modelos para a nova humanidade e os russos falam constantemente de “o novo homem soviético”. incapazes de articular mesmo o que é mais central em sua própria existência.

e forçou-os a reconhecer que os velhos conceitos abstratos não mais significavam algo para eles. Se estes absolutos se evaporaram. Muita atenção tem sido dada ao processo de secularização. pôr a própria vida na linha de combate. tal como se desenvolveu no mundo ocidental em séculos recentes. cujas linhas principais são claras: 1. então o futuro está aberto. agir mesmo quando não se pode estar inteira196 . é o importante. das consequências de cada uma de nossas ações. cuja atitude anterior fora de um frio desligamento. só é natural que tanta gente. ao mesmo tempo sua participação real na luta revolucionária intensifica seu interesse pelo homem e pelo que lhe acontece dentro de um processo histórico concreto. necessariamente participamos. minha experiência em situações revolucionárias muito diversas indica que um estilo específico está surgindo. de parte do homem moderno. Tal como Marshall McLuhan destaca em seu livro Understanding Media: The Extensions of Man (Média de Compreensão: As Ampliações do Homem): Numa idade elétrica. Aqui a experiência do revolucionário é acentuada pela atmosfera que acompanha recentes progressos na tecnologia. no Mississipi. com a existência dentro da história.os elementos principais desta nova posição revolucionária não oferecerá provavelmente uma descrição adequada de nenhum grupo particular. quando nosso sistema nervoso central é tecnologicamente ampliado para nos envolver na humanidade total e para incorporar a humanidade total em nós. expressado pela intensidade de preocupação.1 Viver responsavelmente significa tomar uma posição. Não é mais possível adotar o papel indiferente e dissociado do ocidental letrado. Nesta situação. e sua transformação. A mudança que ocorreu nas atitudes dos ativistas do SNCC (Student Non-violent Coordinating Committee). tenha agora um novo senso de compromisso. tem seu paralelo na experiência de estudantes católicos e protestantes na América Latina. O novo revolucionário tem uma elevada consciência disto. em profundidade. à luz de certos alvos pré-determinados. Nação e comunidade fornecem o contexto para a realização humana. Seu envolvimento em movimentos revolucionários com rapidez pôs a nu a irrelevância da visão universal metafísica tradicional. e que alcançou um clímax. o homem tem a liberdade e responsabilidade para determinar seu próprio destino . Contudo.

Aqui um dos desenvolvimentos interessantes. todas as formas de autoridade que dependem dela estão abolidas. A procura da verdade é uma questão de encontrar algumas formas de significação na riqueza e variedade de elementos que tornam concreta a realidade. ou garantir seu sucesso. É só de dentro da situação. tal como são levantados ali. Decisões devem ser tomadas de dentro da situação. Só assim pode o trabalho acadêmico ser uma excitante aventura em vez de uma carga sem significado. Pensamento criador sobre um problema não pode vir unicamente de sua análise racional abstrata. é a revolta contra as estruturas de autoridade e o repúdio a qualquer coisa que cheire a paternalismo. na qual a essência concreta da realidade está constantemente mudando. por que deve alguém tomá-lo a sério? Além do mais. Conhecer o Negro como um ser humano. Quando uma visão universal metafísica perde sua autoridade sobre nós. mas não nos pode impor suas soluções. é conhecer 197 . Ao longo desta estrada de participação. estão a caminho da descoberta do autêntico eu.mente certo dos resultados da própria ação. Esta concentração na existência histórica é a fonte da vigorosa ênfase humanística. que podemos elaborar nossa perspectiva ou levar a cabo reflexões sérias. Se a experiência de gerações passadas e as perspectivas humanas mais vastas devem significar algo. Gente jovem das classes elevadas e média tornou-se cônscia da tremenda carga de sofrimento e injustiça no mundo e da situação desumanizante na qual está presa tanta gente. Isto não nos devia surpreender. nos novos movimentos revolucionários. não é suficiente apresentá-las em livros ou cursos universitários. Numa situação dinâmica. e para alguns o mais perturbador. não deve ficar surpreso se ninguém lhe der atenção. o passado pode oferecer recursos para nossa orientação. Quando alguém que não compartilha deste envolvimento toma a si proteger de perigos e oferecer conselho. se ele não é livre para entrar na situação e compreender seus dilemas éticos. Se ele não está querendo pagar o preço da luta. é o resultado quase inevitável do processo que descrevemos. com toda probabilidade suas opiniões serão de pouca ajuda. se movendo para o futuro. e ajuda na tomada de decisões só pode vir dos que estão de alguma forma identificados com ela. e do tipo de maturidade que repudiará todas as relações paternalísticas tradicionais. Quando gente jovem ou os não privilegiados começam a tomar iniciativas para mudar sua sociedade. a natureza do esforço intelectual é redefinida. deve ser feita também a tentativa de relacioná-las com o momento presente.

Os mitos sobre uma sociedade democrática são encantadores. Assim. Contudo. fornecem o contexto. A promessa de bem-estar material é uma coisa. Para muitos pertencentes às classes privilegiadas nos países mais avançados. Um sinal pungente deste mal-estar é uma breve passagem de um recente romance russo. embora não possam enfrentar o fato de sua vacuidade. citado no The New York Times Magazine: 198 . Estabelecer contato com os camponeses na América Latina é ficar chocado por sua existência subumana. falhou em prover a possibilidade de uma vida rica e significativa. Não temos meios de saber se este humanismo continuará a desempenhar um papel central nestes movimentos. Muitos daqueles que tomaram a sério sua participação na existência histórica e estão preocupados com o homem e seu futuro têm ficado chocados ao descobrir que a ordem sob a qual vivem é quase intolerável. têm tido êxito em muitas instâncias em ganhar aqueles jovens que são mais sensíveis à situação humana e que estão preparados para fazer algo sobre isto. por questões de cálculos prudentes. Nem sabemos se nossa cultura pode fornecer os recursos necessários para apoiar tal ação. não só para o desenvolvimento de um novo estilo de vida.as situações desumanizantes sob as quais ele vive. a maneira pela qual a ordem econômica opera é outra. uma profunda paixão moral é o elemento principal na posição revolucionária. e especialmente a geração mais velha. Ser realista não pode significar se limitar ao que agora parece politicamente possível. como entre os desprovidos em nosso próprio país. nos anos vindouros. Tomar a sério os novos progressos na revolução tecnológica significa ver as novas possibilidades e ameaças para a vida humana que estão latentes neles. tão nitidamente necessária no tempo atual. isto tem significado uma nítida certeza de sua própria exclusão do gozo dos benefícios e experiências que nossa sociedade considera mais importantes. eles ainda não têm o apoio de grande número. mas também para a formação de uma liderança dinâmica. Portanto. 2. Mas uma das razões porque os novos movimentos revolucionários são tão importantes para nossa sociedade é que eles encarnam esta preocupação. Entre os povos coloniais do mundo. mas empreender o impossível numa atitude de bravura e de confiança. essa insatisfação tem outra dimensão: o sentimento de que a sociedade. as duras realidades do poder político são algo diferente. Ação é urgentemente necessária e não pode ser postergada indefinidamente.

mestre em artes. do que ser um menino toda a vida.3 Expressam a mesma rebelião contra serem tratados como crianças indefinidamente. Como Mário Savio o coloca.4 A profunda insatisfação com o status quo é. Que vá tudo para o inferno! É melhor ser um vagabundo e falhar. o mesmo protesto contra uma sociedade que. “simplesmente não é mais excitante”.“Sua vida. nas favelas. as quais não se pode realmente emendar” e o “futuro” e “carreiras” para os quais os estudantes americanos agora se preparam são na maior parte terras devastadas intelectuais e morais”. só em chegando às raízes do problema pode alguma mudança significativa vir a se dar. um mundo que a seus olhos as gerações precedentes estropiaram”. 199 . foi determinada por papai e mamãe. No máximo. em qualquer ponto específico. possuindo tal potencial extraordinário. pode criar um novo sentido de urgência sobre mudança social e um desejo de caminhar mais rapidamente para soluções. na qual todas as regras do jogo “tendo sido estabelecidas. Isto os leva a reconhecer que se defrontam com um sistema feudal-colonial. estudante graduado. Nenhuma vez em sua vida você tomou uma decisão realmente importante. em nosso próprio país. respeitado por todos. o mesmo sentimento de que o mundo no qual vivem “é uma completa porcaria. uma estrela no colégio. quando você ainda estava no berço. A juventude negra. ou projetos de alfabetização. apenas suficiente para produzir revolução. e de que só uma mudança fundamental na natureza e direção daquele sistema tornará possível solucionar estes problemas. O que torna a presente situação tão revolucionária. doutor em filosofia. nas áreas rurais. nós na América somos parte de uma ordem automatizada e esterilizada. é sua descoberta de que quando começam a trabalhar por mudança. são defrontados por um sistema total — um complexo de atitudes. levando a efeito as decisões de outros. entre a geração mais jovem. nenhuma vez correu um risco. relações e alinhamento de poder — que bloqueia as mudanças fundamentais na sociedade. instituições. Victor. e então . Cedo acordam para o fato de que todos estes esforços são paliativos ineficazes.. Os estudantes católicos na América Latina respondem à incrível pobreza das massas pelo início de programas de serviço social. trabalhador científico sênior. estão dizendo. trabalhador científico júnior. membro da academia. Uma estrela na escola.. em si. “2 O que é impressionante a respeito deste depoimento é que ele é tão intimamente semelhante ao que muitos dos líderes da nova esquerda estudantil. um homem morto.

toma parte em várias demonstrações. Sob estas circunstâncias. não podem ignorar por muito tempo que capital e trabalho. nos “slums” do Norte. Vêem a íntima identidade de inte200 . Os pobres. referente à nossa política oficial perante às nações pobres do mundo. admitir a verdade que ele encerra. Como declarou um estudante de Berkeley. uma vez que racionalizações hábeis são fornecidas para justificar a preservação do status quo. e jovens idealistas sociais serão transformados rapidamente em revolucionários. com demasiada frequência. os militares e o Departamento de Estado estão de várias maneiras trabalhando juntos para preservar a atual situação. a participação na luta por uma sociedade melhor constituirá.” Se aqueles que ocupam posições de poder em nossa sociedade estivessem preparados para compreender este fenômeno. mas uma coerente estrutura de classe dominante. se for para o negro ocupar um novo lugar na sociedade. em si. Em muitos lugares. Mas. e lutar honestamente com ele. não devemos ficar surpreendidos se os novos revolucionários concluírem que a ordem estabelecida é incapaz de levar a efeito as mudanças agora requeridas. Quando o faz. então nossa situação podia não ser tão explosiva. o mais rápido possível. no interesse da paz e da justiça.no Sul. é considerado como constituindo uma ameaça que deve ser neutralizada. não mais é evidente. a antiga dispersão e equilíbrio de poder. não podem ser desafiados. que mantinha certas estruturas abertas. que são encorajados a tomar iniciativas para solver seus problemas. percebe que se levanta contra todo um modo de vida que deve ser mudado. e não mais acreditarem nos meios tradicionais de trabalhar para transformação social. o que sobressai é a maneira pela qual tudo isto está oculto por ideologias e mitos que tornam impossível para nós ver o que está acontecendo. compreendem que não encontrarão solução para eles até que ocorram mudanças básicas na ordem econômica. julga-se. E os que tentam fazer alguma coisa. e que é esta ordem que deve ser mudada. um processo de radicalização para os assim envolvidos. participação em movimentos por mudança social levam muitos jovens a tomar posição revolucionária vis à vis de toda ordem estabelecida. sua experiência deixou exposta “não meramente uma vasta e inepta burocracia. e quando qualquer grupo significativo de estudantes ousa agir assim. Em outras palavras. Como podemos explicar de outra forma a facilidade com que alguns de nossos líderes políticos mais liberais falam de influência comunista entre aqueles que protestaram contra a aceleração da guerra no Vietnã? Enquanto esta situação continuar a existir. Certos pressupostos básicos.

nas nações em desenvolvimento. como indicou Carl Oglesby. 201 . o que é ainda mais assustador. nas “cidades interiores”. Os jovens negros não mais estão interessados em imitar os brancos. ou desafiá-las de fora. e os pobres nas cidades não se querem tornar classe média.resses das grandes corporações. Só aquelas cuja sobrevivência e renovação desejamos. os povos coloniais não se sentem atraídos pelo modo de vida ocidental. para preservar o sistema presente. Do contrário. não ocupam mais esta posição. A intensa consciência desta situação só pode ter consequências drásticas na orientação dos jovens e dos desprovidos em nosso próprio país e alhures no mundo. que tentaria preservar. a nova liderança. há a possibilidade da Pax RussoAmericana. de seu lado. Se queremos servir à causa que elas representam. o poder político. Em muitas das nações em desenvolvimento. podem oferecer uma oportunidade para trabalhar de dentro por sua renovação. Como o coloca Mário Savio. Trabalhar da mesma maneira pela transformação daquelas que são mais rígidas. e estão sendo usados. trabalho e governo. a tecnologia provê recursos extraordinários que podem ser. os pobres. tradicionalmente concentrado nas mãos de uma minoria muito pequena — para a quase completa exclusão de outras classes — parece agora estar ainda mais forte com o apoio dos alinhamentos econômicos e políticos ocidentais. Conduz. as presentes relações entre nações ricas e pobres. mais ou menos. na universidade. E. Dentro da ordem atual. estudantes universitários indagam se eles podem estar confiantes na sociedade dentro da qual nasceram. Ao mesmo tempo. Novos progressos em tecnologia em nossa sociedade produziram uma situação na qual o cidadão médio ou trabalhador é crescentemente excluído de participação significativa no processo de tomada de decisões dentro daquelas instituições que determinam seu destino. aquelas forças novas que podem dar a maior contribuição para mudança social descobrem que têm sido efetivamente excluídas do exercício do poder político: os estudantes. no momento em que mudanças fundamentais são desesperadamente necessárias. então devemos ser chamados a fazer um esforço conjugado para subvertê-las de dentro. que se efetua sob o nome de “consenso político”. para uma quase completa quebra de confiança nas instituições da sociedade à qual pertencem. pode simplesmente não valer o esforço. nos Estados Unidos. instituições que antes eram objeto de lealdade indiscutida. Aquelas que são abertas e flexíveis bastante para se ajustar rapidamente às novas condições. De uma perspectiva revolucionária. podemos servir melhor o futuro permitindo-lhes morrer.

Tal como é descrito por Hannah Arendt. e assim por diante. Nossos mitos dominantes são aqueles de alienação. a Utopia se torna uma força explosiva. Deixar a política ser determinada pelo que parece possível significa limitar nossas possibilidades e tornar a luta política mesquinha e desinteressante. ou não. Presentemente. o que é exigido é criatividade e imaginação. O novo revolucionário está muito mais cônscio das falhas da natureza humana e da força do mal na sociedade. e o único meio de agir inteligente e responsavelmente é repudiar estreitos cálculos racionais sobre que coisas podem e não podem ser feitas. mais a disposição constante de arriscar tudo. as consequências desta posição ineficaz são reconhecidas e repudiadas: “Tem sido dito que nossos predecessores liberais e socialistas eram infectados por visão sem programa. tentam encontrar algum meio de escapar de um mundo impossível. E o rompimento de todas as velhas estruturas de autoridade força-nos para a liberdade em determinar a forma de futuro. Para o revolucionário.” 202 . A questão é se temos. Neste sentido. Admirável Mundo Novo. ou pelo menos evitar a comunidade adulta. se for vista como uma volta a um tipo antigo de otimismo superficial e liberalismo. Muitos jovens que foram levados a esta conclusão adotam agora uma atitude de derrota ou rebelião. em seu livro On Revolution. não pode evitar vêlos. Neste contexto. Mas também é confrontado com o fato de que a tecnologia moderna deu ao homem os recursos de que precisa para criar o tipo de sociedade que deseja. a vontade de agir num tal sentido que nos possibilite construir uma nova sociedade. e muitos de nossos intelectuais mais destacados refletem um estado d’alma de cinismo e desespero. daquilo que tem sido mais central na tradição revolucionária ocidental. enquanto nossa geração é infectada por programa sem visão. não de esperança — 1984. Na Declaração dos Estudantes em prol de uma Sociedade Democrática. ele é a expressão autêntica. A coisa mais surpreendente é que isto ocorreu no exato momento em que todas as utopias foram postas a nu e todas as visões de uma nova ordem desmascaradas. contudo. esta situação é a ocasião para dar forma a uma nova visão de uma nova ordem social. É uma tentativa de libertar o homem e construir uma nova ordem — a novus ordo saeclorum — por meio de iniciativa humana ousada.3. de Port Huron. Esta preocupação com uma nova ordem não pode ser entendida.5 esta tradição representa a coincidência da idéia de liberdade e da experiência de um novo começo. em nosso tempo. ou põem grande ênfase no cálculo realista do possível como a única base para ação.

por muito mais tempo. de que ninguém pode ser chamado de livre sem sua experiência na liberdade pública.”6 O reconhecimento deste fato é hoje quase universal. na qual certos elementos específicos já podem ser distinguidos. sem consequências desastrosas. para criar novos modelos para a direção da vida econômica pela sociedade. ao contrário de atenção às necessidades mais básicas do homem e da sociedade. é simplesmente uma daquelas estruturas que uma comunidade pode usar para os fins que determina. a construção de uma nova ordem envolve um certo grau de socialismo. Certamente está condicionada pelo caráter específico de cada luta revolucionária. no poder público. não obstante. não em termos da adoção da filosofia marxista. mas no sentido mais básico do próprio conceito: controle da ordem econômica pela própria sociedade. representam luxos que não podemos permitir. e especialmente no processo de tomada de decisões pelo qual seu futuro será determinado. estão agora começando a ver que são parte de uma história na 203 . e os meios pelos quais estes podem ser melhor alcançados. Com os recursos agora à nossa disposição. Um segundo elemento na visão revolucionária da nova sociedade está indicado pela ênfase posta na participação de todos os grupos e classes na vida da comunidade e da nação. determinando os objetivos do desenvolvimento econômico.Esta visão revolucionária de uma nova sociedade pode estar ainda um tanto enevoada. A devastação do sistema de livre empresa — mesmo com as restrições que agora lhe são feitas — e sua orientação para a produção pelo lucro. Classes. e deve. ela destaca que foi sua convicção de que ninguém pode ser chamado de feliz sem sua parte na felicidade pública. o diagrama de uma nova sociedade está gradualmente tomando forma. Hannah Arendt encara isto como a ênfase principal que emergiu espontaneamente nas revoluções do Ocidente. e de que ninguém pode ser chamado quer de feliz quer de livre sem participar e ter uma parte. assumir responsabilidade pela ordenação de sua vida econômica. Ao invés de perder ainda mais tempo no debate banal e estéril entre capitalismo e socialismo. Por conseguinte. a pobreza material que ainda existe é um mal que não mais precisamos tolerar. E. Um destes é a crescente convicção de que a sociedade pode. Está agora claro que o domínio econômico não é uma misteriosa ordem da natureza a que podemos deixar seguir seu próprio caminho. e nos empenharmos no tipo de experimentação que iluminará o caminho para o futuro. grupos e raças que estiveram marginalizados no passado. devemos fazer face ao desafio de hoje. uma. Em sua análise do ponto de vista revolucionário de Jefferson.

tanto os desprovidos como os cidadãos comuns. Estão dispostos a trabalhar por uma nova ordem internacional. e completamente eivadas de mitos e ilusões. e que os programas de assistência que desenvolvemos tanto não são bastantes. e nenhuma organização será capaz de oferecer um perfeito equilíbrio entre as exigências de ordem e eficiência e tal participação. possam ter uma parte no uso do poder público. Porém nossas estruturas atuais são deploravelmente inadequadas. e a fábrica ou o escritório no qual trabalham. que tomam consciência 204 . agora. Nossas tentativas de obter um ajuste entre nosso auto-interêsse nacional (como entendido agora) e o interesse das nações em desenvolvimento são altamente ideológicas. acontecendo agora. Porém não estão inclinados a aceitar a posição periférica a que seus países foram condenados durante o período colonial. Muita gente pode ser muito feliz sem esta oportunidade. Sobre estas bases. Nossos recursos econômicos são tais que podemos encorajar e ajudar novos modelos de desenvolvimento nas nações menos avançadas. e imaginação e criatividade humanas podem progredir muito por meio da abertura de novas possibilidades de participação nestas esferas. numerosas pessoas do Ocidente. e de que sua situação só pode ser alterada se tomarem parte na luta para mudá-la. Terceiro. tanto como naqueles mais avançados. Pode ver que quase todas nossas atitudes e opiniões formadas estão viciadas pelo paternalismo. Quando acordam para esta realidade.qual alguma coisa tem estado. a paz e a estabilidade internacionais serão impossíveis. gradualmente entendem que só podem ter uma vida plena de significação se se tornarem participantes desta história. e a situação dos povos pobres do mundo se tornará mais desesperada cada ano. dentro das instituições nas quais vivem suas vidas: as estruturas políticas das comunidades locais e da nação. Nas nações mais jovens estão surgindo líderes que foram treinados na tecnologia do Ocidente e estão livres para trabalhar por soluções autênticas para seus problemas nacionais. e está. as limitações de muitas das nossas assim chamadas instituições democráticas têm sido reveladas. A nova sociedade democrática deve ser uma na qual jovens e estudantes. Nos países em desenvolvimento. Nesta luta estão se juntando a eles. e experimentar novas formas de relações-econômicas e políticas — com eles. Novos problemas pedem novas soluções. o novo revolucionário está chegando gradualmente a compreender que uma mudança básica precisa ocorrer na relação entre nações ricas e nações pobres.

O novo revolucionário percebe corretamente que nossa experiência histórica não esgotou todas as possibilidades que existem para a organização da sociedade.de que natureza têm sido nossas relações econômicas e políticas com os povos coloniais. Podemos não saber quais devem ser estas regras. capitalismo e comunismo. Devemos desenvolver novas idéias e perspectivas de vida e sociedade pelo cultivo da imaginação criadora. esperança e interdependência que podem ser satisfeitos somente se uma tal ordem tomar forma. um novo jogo exige novas regras. está por completo claro que as velhas regras não são mais suficientes. O pensamento social de muitos de nós tem sido tão frequentemente estéril porque nos permitimos ser encaixados por uma lógica de nossa própria fabricação. esta conclusão representa um choque. pode também repudiar o materialismo da sociedade burguesa. tenham perdido sua atração. Ele despreza nossa complacência e nos desafia a forjar novos modelos e a responder ao impacto do futuro. Permanecemos presos por pressuposições que não mais são válidas. a existência pessoal plena envolve muito mais do que a satisfação destas necessidades. ao mesmo tempo. o revolucionário está buscando uma nova forma de existência pessoal para si próprio e para outros. Isto conduz ao paradoxo de que o revolucionário. Tecnologia e burocracia constituem uma tremenda ameaça para o homem. criam também condições nunca antes imaginadas para a liberdade. o relacionamento humano e a auto-realização. O reino da história tornou-se o centro de sua preocupação. A tecnologia moderna tornou possível e necessária uma nova ordem internacional e criou uma situação de desassossego. Tudo isto não quer significar que ninguém tenha uma clara imagem do futuro. mas para os lutadores pelos direitos civis no Mississipi. Não é de surpreender que ambos. Mas uma coisa está clara: Construir uma nova sociedade requer um “novo começo”. Está dentro de nossas forças satisfazer as necessidades materiais básicas de cada um. Novas idéias sobre sociedade devem ser acompanhadas por nova politica. que se entrega à luta por melhor condição econômica do pobre. ou para os que tentam provocar mudanças fundamentais na sociedade urbana. e somos lentos em encontrar alternativas para formas institucionais obsoletas. Cria uma situação dentro da qual muitos dos que estão trabalhando pelos mesmos objetivos que os revolucionários acham 205 . disto advém uma intensificação da autoconsciência humana. Tanto para o liberal como para o conservador. Uma nova geração pede uma visão de existência pessoal que vá além de ambos estes sistemas. Basicamente.

Só uma mudança fundamental nesta estrutura pode abrir o caminho para uma aproximação plena dos alvos revolucionários. No fim das contas. que foram mais radicais durante seus anos de juventude. Mas a alternativa lógica para esta estratégia parece ainda menos promissora. Devido a natureza de sua visão e compromisso. não é ele passível de êxito. O novo revolucionário está convencido de que isto não produzirá resultados bastante rápidos. podemos esperar ter uma sociedade estável e mais humana. Apesar dos recursos pessoais exigidos para este esforço. Uns poucos se espantam de que tantos jovens tomem uma atitude de rebelião. tem também certeza de que o status quo está em aguda contradição com ela e representa uma ordem integrada com o grande poder. e se tiverem construído dentro delas a maquinaria de constante auto-renovação. Mesmo se uma tal empresa tivesse êxito. As lutas revolucionárias de hoje podem ser um fator importante no provocar uma tal mudança. Aqueles que vivem segundo as velhas regras rapidamente esquecem que sua maneira de agir já foi uma ofensa à geração que os precedeu. mas não há caminho óbvio pelo qual tal mudança possa ser feita. Sair fora do Establishment e atacá-lo de cabeça também ajudará muito pouco. não há garantia de que fosse produzir instituições menos rígidas ou mais abertas para o futuro do que aquelas que agora existem. Uma geração precedente de reformadores trabalhou pela renovação da sociedade servindo às estruturas dadas. Foi cativado pela visão de uma sociedade diferente. Aqui ele enfrenta um sério dilema. de acordo com as regras estabelecidas. o revolucionário se encontra preso de uma tensão quase insuportável. abandonaram a luta e se concentraram em sua vida e carreiras 206 . e quase impossível participar com eles da mesma luta. a menos que o revolucionário tenha uma estratégia claramente definida com a qual possa esperar produzir mudanças significativas. Só se forem orientadas mais para o futuro do que para o passado. novos partidos políticos — seria uma tarefa impossível. enquanto outros. uma solução satisfatória deste problema depende de uma transformação básica na estrutura de nossas instituições. Não podem compreender que profundas mudanças nas décadas recentes podem exigir um rompimento ainda mais decisivo com os antigos métodos de ação. um novo movimento trabalhista. se esta geração de revolucionários tiver a coragem. Tentar desenvolver novas instituições para substituir aquelas agora existentes em cada área importante da sociedade — um novo sistema religioso ou universitário.difícil comunicar-se com eles. sabedoria e persistência dela requeridas.

Um pequeno grupo. efetiva. seu equivalente político pode oferecer um instrumento valioso para provocar mudanças em nossas instituições magnas. A participação do pobre e desprovido nos projetos de renovação urbana podem ter consequências imprevistas na vida e política da cidade. quase espontaneamente. forcem-na a acelerar sua própria renovação. uma variedade de táticas de guerrilha que se mostraram mais ou menos eficientes. por um curto período. e deslocar-se para novas fronteiras onde quer que seja detido em algum ponto particular. pode transformar uma grande organização. Isto pode ser alcançado por uma variedade de técnicas: a concentração de esforço em objetivos limitados. como um todo. com uma certa dose de autonomia e liberdade. que tornam possível avançar para novas frentes sempre que bloqueado. Aqui o foco consiste na formação de pequenos grupos e movimentos que.pessoais. Muitos exemplos da eficiência desta maneira de agir podem ser mencionados. Neste estágio do desenvolvimento de uma sociedade tecnológica. Por meio de muitos ataques limitados a vários pontos. quer baseados dentro ou fora de uma instituição. Instituições que. O Freedom Democratic Party pode ser capaz de provocar mudanças na ordem política do Mississipi. a guerra de guerrilhas mostrou-se. sob certas circunstâncias. flexibilidade e liberdade de operação. e uma compreensão mais 207 . Porém a estratégia da guerra de guerrilhas precisa não ser restringida à sua expressão militar. O que é necessário é reflexão mais sistemática sobre a significação destes acontecimentos. para serviço mais efetivo. a manutenção de iniciativa e o elemento de surpresa. enquanto que a renovação de uma instituição no centro da sociedade pode afetar outras relacionadas com ela. Em face do poder militar maciço de uma ordem estabelecida. Uma das razões para o surpreendente sucesso de alguns aspectos do movimento pelos direitos civis é que ele tende a irromper em tempos e lugares onde é menos esperado. cuja importância temos sido vagarosos para entender. Movimentos revolucionários neste país desenvolveram. em parte devido sua origem. são incapazes de agir de novas maneiras podem apoiar movimentos que têm a liberdade de agir assim. que seriam quase impossíveis dentro do Partido Democrático. A moderna experiência revolucionária desenvolveu outra estratégia. um pequeno grupo de pessoas pode ser capaz de livrar grandes instituições. e a tentativa de provocar aquelas mudanças relativamente pequenas que colocarão em movimento um processo muito mais amplo.

à questão da relação daqueles a trabalhar por mudança radical com as instituições da ordem estabelecida. a escolha de revolução é o único caminho para existência autêntica e responsável. para aqueles que adotaram uma posição revolucionária. Voltaremos a esta questão mais tarde. possam ser mudadas. Em alguns casos. contudo. desta maneira. com profunda suspeita. em cada situação particular. como. em outros. Assim devem ser capazes de correr os riscos de estar “nas” mas não ser “das” estruturas. A questão é. ao contrário. as formas pelas quais essa herança é expressa estão tão identificadas com a velha ordem que o revolucionário encontra pouco 208 . bem como a situação específica em que vivem. podemos descobrir eventualmente que. Porém para aqueles comprometidos com a revolução. Hoje. em nosso mundo de hoje. têm sido moldadas por uma herança cultural e espiritual particular. Para muitos outros. No tempo atual. contribuir para a renovação da instituição que está sendo servida. um processo dinâmico pode ser posto em movimento. de uma sociedade tecnológica. nem há nenhuma virtude particular em manter a própria independência.clara dos melhores meios para tirar vantagem do potencial aqui utilizável para mudança social. e viver como “exilados” dentro da sociedade à qual pertencem. um expressivo número de pessoas está deliberadamente escolhendo um estilo de vida revolucionário. Para muitos é este um desenvolvimento desastroso que ameaça toda nossa estrutura social. De fato. isto pode ser alcançado melhor de dentro. completa subserviência a ela. e que representa um tipo de pensamento e ação que se coloca em agudo contraste com nossos antigos caminhos de reforma. O que tentamos indicar aqui é que. Aqueles que estão acostumados com uma forma mais tradicional de lealdade institucional provavelmente olharão para a estratégia que sugerimos. o essencial. Maior atenção devia ser dada. Suas próprias preocupações e atitudes. e não temos outra escolha senão tentar entendê-lo e lidar com ele. Fazem frente a difíceis problemas humanos e devem descobrir como agir com responsabilidade em relação a eles. trabalhando de fora dela. processo que provocará transformações mais fundamentais do que as que ocorreram como resultado de formas anteriores de revolução. ela pode ser uma base para a esperança de que poderosas instituições interdependentes. Mas ele não irá embora. Servir no arcabouço de uma instituição particular não pede. Os que dão este passo enfrentam uma tarefa muito diferente. necessariamente. é preservar um certo grau de identidade de grupo. dentro deste arcabouço.

que agora aparece como um câncer virulento ameaçando nos destruir? Ou representa a floração natural de certos ideais e esperanças que estão no coração daquela tradição? 209 . família. É este espírito de revolta um tumor externo. a questão da relação entre a posição revolucionária e nossa herança cultural ocidental.ou nenhum significado nela. aquelas instituições que podem desempenhar esta tarefa mediadora — escola. igreja. et al — falharam por completo nisso. Em certos casos parecem existir a fim de preservar as velhas formas. deve merecer nossa atenção. Quando não é este o caso. Se desejamos nos entender e viver responsavelmente nesta nova era. refletem com frequência a mesma incerteza e confusão que a geração mais jovem conhece tão bem. E o que é ainda mais sério.

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III Revolução Social e Tecnologia: o Paradoxo de Nossa Herança
O novo revolucionário surgiu no momento do avanço mais extraordinário em tecnologia. Assim temos dois protótipos do novo homem que está surgindo em nosso tempo: o revolucionário e o tecnocrata. Eles contemplam o mundo moderno de perspectivas muito diferentes e representam dois estilos de vida claramente contrastantes; e ambos são produtos de nossa história ocidental. Não existiram sempre lado a lado em nossa civilização, nem suas posições são de igual força. Qualquer que tenha sido o papel da revolução, em nossa história anterior, nas décadas recentes a tecnologia dominou a cena. Nossas reações a ela têm sido variadas. Para muitos cientistas, bem como para os tecnocratas, a tecnologia oferece possibilidades quase ilimitadas para um novo e brilhante futuro. Nas mentes de outros, evocou visões apocalípticas de “1984” e do “Admirável Mundo Novo”. Nos últimos anos, contudo, chegou uma nova geração que não está contente em observar e lamentar estas perspectivas para o futuro. Decidiu desafiar diretamente a ideologia oculta do sistema, enfrentá-la de peito aberto numa luta revolucionária. E isto está acontecendo precisamente nos Estados Unidos, onde a tecnologia é mais avançada e onde a ideologia de uma sociedade tecnocrática penetrou tanto nosso pensamento
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que é quase tomada como certa. Até aqui a luta é muito desigual. É difícil imaginar um contraste mais agudo do que aquele entre o Secretário de Defesa e os estudantes que queimam seus cartões de alistamento ou organizam demonstrações de protesto contra a política dos Estados Unidos no Vietnã. O Sr. Mc Namara é a própria imagem da autoconfiança. Está convencido da correção de sua causa, é o senhor de uma vasta soma de informações, e tem à sua disposição poder quase ilimitado. Os estudantes, de outro lado, são na aparência muito fracos, todos muito cônscios das limitações de seu conhecimento, perplexos e confusos em face das forças irracionais que não podem esperar entender ou controlar. Agora que esta fenda em nossa alma foi exposta, só seremos capazes de viver com nós mesmos, como indivíduos e como uma nação, se encontrarmos algum meio de lidar com ela honesta e abertamente. Agir assim significa basicamente chegar a um acordo com nossa própria história; isto é, com as forças saídas de nosso próprio passado que nos fizeram o que somos. É este um projeto a longo prazo, que só pode ser levado a efeito se aqueles que se encontram envolvidos existencialmente nesta situação estiverem munidos de recursos adequados para tal reflexão. É, primariamente, uma tarefa para o intelectual e para a universidade, uma tarefa que, em grande parte, ainda permanece para ser feita. A maior parte de nós, no entretempo, deve chegar a certa espécie de conclusões preliminares que nos permitirão dar sentido à nossa própria situação, e nos preparar para agir responsavelmente nela. Nas minhas próprias tentativas para fazer isto, fui grandemente influenciado por um sábio holandês, Arendt van Leeuwen, cujo recente livro, Cristianismo na História Mundial,1 produziu grande impacto em alguns círculos. Ele argumenta que algo único aconteceu na história ocidental, que preparou o caminho tanto para a tecnologia como para a revolução, e que uma melhor compreensão desta história nos libertaria para relacionar criadoramente estas forças entre si e encontrar um caminho para fora de nosso impasse atual. Como um estudioso de culturas e religiões antigas, chegou à conclusão de que elas eram todas dominadas, em larga escala, por uma compreensão “ontocrática” da vida e realidade. Com isto ele quer significar que elas concebiam todos os aspectos da realidade — natureza e sociedade, o temporal e o eterno, o divino e o humano — como partes de uma ordem cósmica total. Neste arcabouço, a natureza, bem como todos os aspectos principais da existência histórica do homem, eram essencialmente identificados com o divino, e portanto
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sagrados. Rei e pai, a ordem política e social, possuíam uma autoridade absoluta com a qual não se podia interferir. Sob estas condições, a vida era estável e segura; era também relativamente estática. As estruturas sociais eram rígidas e o passado dominava o presente e o futuro. Na experiência antiga do povo de Israel, contudo, algo aconteceu que desafiava todo este ponto de vista, e que abria o caminho para um enfoque diferente da realidade. Quando tentaram tirar um sentido do que lhes estava acontecendo na vida de cada dia, cresceu entre eles a convicção de que estavam constantemente se opondo a um Poder que era ativo em seu meio. Não podiam evitar a conclusão de que esta realidade era pessoal em caráter, e de que Ele os estava chamando para realizar uma missão particular dentro da história. Da intensidade desta experiência, chegaram gradualmente a outras conclusões, de consequências profundas. O interesse da religião foi mudado do reino eterno para o temporal, e focalizado mais para a existência social e histórica do que para a experiência interior do indivíduo. A relação deste poder soberano para com a ordem temporal só podia ser concebida como a de um Criador para com Sua criatura, e assim tanto a natureza como a sociedade perderam seu caráter sagrado. Como este Deus continuou a ser ativo na história, Ele se ergueu contra toda ordem estabelecida e destruiu todas as pretensões de legisladores e de instituições sociais. Esta nova atitude não alcançou uma vitória fácil nos círculos judeus ou, mais tarde, nos cristãos. O Velho Testamento narra a história de uma luta longa e amarga, de parte dos profetas, contra as tentativas repetidas para reverter aos velhos caminhos. Muito mais tarde, o Domínio Cristão medieval representou um esforço extraordinário para estabelecer um compromisso entre as perspectivas teocrática e ontocrática. Não obstante, quando esta revolução hebraica se expandiu e penetrou a cultura européia ocidental, foram criadas condições que contribuíram para o surgimento da ciência e da tecnologia. O reino da natureza, bem como a ordem social, eram vistos como realidades temporais que o homem era livre para estudar e entender. Podia subjugar a natureza para servi-lo e moldar instituições sociais de acordo com os objetivos que ele determinava. Dois outros elementos na tradição judeo-cristã desempenharam importantes papéis no desenvolvimento de nosso mundo moderno. Um destes é a corrente oculta messiânica que surgiu muitas vezes através dos séculos. Sua origem é encontrada na primitiva experiência israelita do Êxodo e Terra Prometida. A partir dela concluíram que o seu Deus condu213

zia-os para um novo dia, no qual encontrariam novas oportunidades para a realização humana dentro de uma nova ordem social. Assim o domínio da visão cíclica da história foi rompido, e os homens eram livres para olhar em direção ao futuro esperançosamente, como o lugar onde novas coisas podiam acontecer a qualquer momento. Intimamente associada a isto estava a convicção israelita de sua vocação como um “povo escolhido”. Esta nova ordem não viria espontaneamente. Seria o resultado de um esforço disciplinado, feito com o apoio de um povo notável, a quem sua missão histórica tinha sido assegurada. E por causa deste fato, a nação eleita só seria capaz de viver consigo própria e encontrar significação em sua existência histórica quando ela fosse fiel a esta vocação. Em nossa perspectiva norte-americana mais comum sobre a vida e o mundo, uma síntese um tanto espantosa destes três motivos ocorreu, na qual a tecnologia não só é central mas tem sido completada pela ajuda de uma poderosa ideologia. Nossa maneira pragmática e funcional de lidar com a realidade tem sido envolvida por uma crença no poder da tecnologia para criar possibilidades quase ilimitadas para o melhoramento da vida humana, e pela convicção de que a América foi “escolhida” para a missão de levar estes benefícios ao resto do mundo. Não estamos interessados aqui em discutir a importância relativa desta herança judeo-cristã na formação de nossa sociedade, como mais decisiva do que outras forças culturais. E certamente não defenderíamos esta presente síntese como uma expressão fiel dessa herança. Estamos somente tentando destacar o fato de que estes elementos foram importantes na moldagem de nossa autocompreensão e de que devem ser examinadas com muito mais cuidado, se desejarmos responder produtivamente aos problemas com que agora nos defrontamos. Doutra sorte, concentraremos nossa atenção no pragmático e tecnológico, embora ignorando o contexto no qual surgiram e se desenvolveram. E permitiremos a nosso extraordinário desenvolvimento tecnológico prosseguir dentro de uma estrutura altamente ideológica, que é mais perigosa por não estarmos bem cônscios dela. Se somos livres, no entanto, para refletir sobre estes elementos centrais em nossa própria história, descobriremos logo que nenhum de tais raciocínios ingênuos redunda em dificuldade séria. Pelo menos, isto foi o que aconteceu entre os israelitas. A mesma experiência de ser um povo escolhido, que tornou possível, para muitos, não só justificar o status quo, mas também sentir-se orgulhoso dele, produziu alguns caracteres muito perturbadores. Para estes homens, a libertação de velhas au214

toridades, a preocupação com a emancipação humana, e um sentido de destino levou-os a olhar criticamente sua própria sociedade e a se tornar muito insatisfeitos com ela. Viram que, quando foi rompido o poder da forma ontocrática, os homens ficaram livres não só para criar uma nova ordem; podiam também usar esta liberdade para satisfazer seu próprio individualismo e ambições coletivas, de uma maneira que não era possível numa sociedade mais controlada. Tornaram-se conscientes de que o messianismo pode, facilmente, ser pervertido para servir a outros objetivos que não a emancipação do homem, e que, se um povo escolhido é necessário para a transformação do mundo, ele pode facilmente se tornar um obstáculo a ela. Por mais desagradáveis que fossem estas conclusões, foram decisivamente fortalecidas pelos acontecimentos históricos. Se Israel tinha sido tirada da escravidão no Egito para a Terra Prometida para o bem “da restauração das nações”, na aparência algo andara errado. A nova era que eles haviam esperado inaugurar não apareceu; e o povo escolhido encontrou-se envolvido em conflito social e guerra contínua, que terminaram, afinal, em aniquilação política. Porém da profunda crise de autocompreensão que isto produziu, emergiu a visão profética. Para estes homens, a soberania de Deus implicava não só em liberdade mas também em julgamento. Quando estruturas criadas para servir ao homem tornam-se rígidas e impedem o caminho da realização humana, devem ser demolidas. Só no seu colapso e através dele pode ser construída uma nova ordem. Quando um povo escolhido, mesmo após sua chegada à Terra Prometida, é desobediente, será dispersado — para redescobrir seu destino na Diáspora. Em outras palavras, os profetas tornaram-se os primeiros revolucionários. E o que ainda é mais importante para nossa discussão aqui, a mesma atitude para com a realidade que, ao tomar forma entre o povo de Israel, abriu caminho para o desenvolvimento eventual da ciência e tecnologia, também preparou o caminho para a revolução. Não importa quão tenazmente tentemos ignorar este segundo elemento, não podemos esperar ter êxito, pois ele é uma fonte integral do complexo de idéias e atitudes, preocupações e esperanças, que nos fazem o que somos. Aqueles aspectos da herança judeo-cristã que mencionamos foram incorporados em nossa cultura ocidental, desenvolvidos e reformulados por ela. Como resultado, tecnologia e revolução não só existem uma ao lado da outra, mas agem uma sobre a outra, num estado constante de tensão dinâmica. Sempre que a tecnologia se permite ser dominada por um messianismo herético, surge um revolucionário para
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De outro lado. De fato. em tensão mútua. nos tempos modernos. e os deixa livres para mudá-las. desde o tempo do Império Romano ao presente. Objetiva a subversão de toda a velha ordem a fim de construir uma nova que criará novas oportunidades para a emancipação e bem-estar humanos. A destruição da ordem ontocrática que torna a tecnologia possível — e que também é impulsionada para a frente pela tecnologia — leva os homens a discutir a autoridade de todas as estruturas. numa relação de apoio e tensão mútua. foi produzida pela tecnologia. Num interessante capítulo de “O Ocidente Revolucionário”. em seu lugar. atingindo novas classes. estabelecem uma ênfase sobre funcionalidade e racionalidade na ordem de uma esfera da vida após outra. e. Tecnologia e revolução podem representar perspectivas contrastantes. na qual o avanço tecnológico pode prosseguir e mais contribuir para o bem-estar humano. no período antigo e medieval da história ocidental. também torna possível para aqueles empenhados em construir uma nova ordem lutar com uma convicção similar de vocação.desmascará-la precisamente naqueles pontos em que a tecnologia causou o maior impacto. foram gradualmente minados 216 . De um lado. o Professor van Leeuwen traça seu desenvolvimento. mas naqueles países em que o espírito revolucionário produziu um impacto profundo. que gradualmente minam todas as estruturas de autoridade e todas as velhas bases de estabilidade. instituições e povos. E se o mito secularizado do povo eleito fornece àqueles no poder um sentido de destino. A mesma oculta corrente messiânica que produz em alguns uma paixão por uma sociedade tecnocrática pode levar outros a denunciar e desafiar seus elementos desumanizantes. Este processo também parece desdobrar-se em círculos cada vez mais amplos. Revolução é a força que despedaça as velhas ideologias que se colocam no caminho do avanço tecnológico. a luta revolucionária prossegue. a maior floração da tecnologia ocorreu. temos aqueles progressos associados com tecnologia. mas. Um dos temas centrais na história ocidental é o gradual funcionamento e universalização daqueles dois processos. não nas sociedades ontocráticas do Oriente. é a revolução social que cria o tipo de sociedade aberta. o império e o sistema feudal. que tornou a revolução possível. O impulso original para a dessacralização de um mundo ontocrático pode ter vindo de uma mensagem judeo-cristã. Em simultaneidade com isto. Porém podemos afirmar sem perigo que nenhuma seria o que é agora sem a outra. sua marcha triunfal através do mundo todo. Ele argumenta que os dois maiores símbolos de uma sociedade ontocrática.

o desenvolvimento do Ocidente e seu impacto sobre o resto do mundo atingiu um clímax. de modo que elas possam ser racionalmente dirigidas pelo homem. e abrindo caminho para surgir o novo. mas também o proletariado externo do mundo ocidental as vastas populações da Ásia. A fim de realizar esta vocação. Além do mais. explodindo as pretensões à divindade de parte de velhas autoridades e instituições. atingiu agora todos os povos. os cidadãos da nação afirmaram sua soberania. O processo de secularização pôs abaixo todas as velhas estruturas de autoridade e abriu todas as áreas da vida. Na Inglaterra. Disto vieram novas idéias e instituições que revolucionaram o Ocidente. e que desejavam controlar sua própria vida política e concentrar sua atenção no desenvolvimento racional do comércio e da indústria. América do Norte e França. a tecnologia. Estão certos de que uma tal vida é possível. pela destruição de todas as estruturas autocráticas e pela criação de uma situação de interdependência de todas as áreas da vida e de todas as partes do mundo. a luta por estes objetivos conduziu à revolução. No tempo atual. o espírito revolucionário tornou-se universal. e estão descobrindo gradualmente que devem tomar a iniciativa na luta para alcançá-la. Está em seu poder moldar a sociedade de acordo com sua vontade. Temos portanto à nossa frente possibilidades quase ilimitadas para 217 . bem como sua vocação para fazer de sua nação um instrumento de libertação universal.por forças trabalhando internamente. apareceram cidades novas e independentes. Seu ponto central é agora a emancipação do proletariado. e distribuir os recursos econômicos e o poder político como quiser. África e América Latina. insistiram que o povo deve ter garantido o direito de exercer certos direitos inalienáveis. a revolução ocidental avançou mais um passo. Com o passar do tempo. A tecnologia forneceu os meios pelos quais o homem pode criar o futuro que deseja. Com isto. cujos cidadãos eram emancipados do domínio da velha ordem. transformou a revolução em algo total. de bem-estar econômico e uma oportunidade para participar no uso do poder público. a luta por emancipação e racionalidade expressou-se na esfera econômica através do desenvolvimento do capitalismo e da Revolução Industrial. O grupo de idéias acima referidas agiam “como uma carga de dinamite”. Ao mesmo tempo. que inclui não só os desprovidos e classes marginalizadas em nossas sociedades. Ao final do período medieval. Na ordem política. A esperança de libertação e realização. Novas nações-estados se levantaram para desafiar a desfalecente autoridade do Sacro Império Romano e dar uma oportunidade aos principais grupos étnicos da Europa para organizar sua vida da mesma maneira.

mas vieram para a América como que predestinados. Aceitamos o fim da era colonial num sentido político. as perspectivas não são brilhantes. e fazer sua parte. Falando historicamente. com o aparecimento de novas nações independentes na Ásia e África. como um povo eleito. conduzindo a revolução que ele impôs ao resto do mundo? Por certo. e quer continuar a desempenhar um papel decisivo na luta humana tal como é definida agora. maior cuidado pela transformação de nossas estruturas econômicas e políticas. Mas dificilmente temos começado a imaginar o que seria exigido de nós se acatarmos seriamente seu pedido de uma nova relação econômica conosco e de um novo papel nos negócios internacionais. pois isto requereria apoio benevolente daqueles que optaram pela revolução. Nossa existência como uma nação e nossas instituições políticas básicas foram moldadas numa luta revolucionária que constituiu uma tão grande ameaça à ordem estabelecida daquele tempo quanto as novas revoluções representam para o nosso. compreendeu isto quando declarou: 218 . caos e desintegração social. Porém será o Ocidente capaz de aceitar as consequências de sua própria história. a tarefa parece ainda mais aflitiva. nosso poder é maior. e arrojadas iniciativas novas em educação. Em relação ao mundo em desenvolvimento. o Ocidente ainda detém tremendo poder econômico. de nós. A despeito de todas as mudanças que se efetuaram em nosso mundo. não podemos esperar resolver o atual impasse ou evitar o desastre final. no presente. nosso progresso tecnológico está intimamente relacionado com o fato de a revolução ter tido um lugar tão central em nossa história. Até que descubramos como inverter a tendência pela qual cada ano aumenta a distância entre as nações ricas e as pobres. Devido o fato de a tecnologia ter avançado em tão grande escala em nossa sociedade. Não só adotaram uma atitude revolucionária em relação à sociedade. o estadista austríaco do século XIX. Muitos dos primeiros colonos foram produto do movimento puritano na Inglaterra. bem-estar e renovação urbana. ao final da era colonial. Não é difícil para aqueles de nós que são norte-americanos tomar consciência de que a escolha está colocada para nós de modo mais agudo. Metternich. e para criar conflito. de outro.provocar mudança social e transformar a vida de um lado. e as nações que estão ansiosas por acelerar seu próprio desenvolvimento dependem de um modo ou de outro. político e militar. chamado a construir uma nova ordem e a ser agente de emancipação universal.

e não menos perigoso do que o anterior. responsáveis.. e que está no âmago do pessimismo em relação à nossa liderança no mundo de hoje. Consequentemente. nos países em desenvolvimento. expressou este fracasso de nossos líderes liberais e sua reação a ele. e reanima a coragem de cada conspirador. mas sempre surgem as mesmas impressões: O homem é inerentemente incapaz de construir uma boa sociedade. lamentar por aquelas que falharam. em vez disso. Encorajar as revoluções. aparecemos ao povo. que produzirão o máximo que é realmente possível. Vocês. como o símbolo de anti-revolução. o que seria de nossas instituições religiosas e políticas. somos considerados em parte responsáveis pelas frustrações que sentem quando são incapazes para mudar as estruturas de sua sociedade. 219 . as causas apaixonantes do homem nada mais são do que perigosas bebedeiras psíquicas.Estes Estados Unidos da América deixaram atônita a Europa com um novo ato de revolta. nas nações em desenvolvimento. se não impossível. No passado fomos capazes de responder a novos desafios devido a existência de uma vanguarda liberal em nosso meio. onde quer que se mostrem. . traçar programas efetivos. contudo. estender mão amiga àquelas que parecem prosperar dá nova força aos apóstolos da sedição.. Aqui se encontra uma das maiores razões para a crise de confiança em nossa sociedade. estão eviscerando a grande tradição otimista do liberalismo. tão cheio de audácia. Se esta maré de exemplo pernicioso viesse a se estender por toda a América.. nestes termos: Seus temas têm o propósito de ser diferentes. Quando a situação se torna mais revolucionária.. um dos líderes da nova esquerda estudantil. Permitimos que nossa compreensão de tecnologia fosse dominada por uma ideologia herética de messianismo. mais espontâneo. que é tão evidente entre os jovens progressistas em nosso próprio país. Tom Hayden. Achamos difícil. e esta ideologia agora nos cega para acontecimentos em volta de nós. que nos ajudou a interpretar acontecimentos e forneceu uma base de poder político para mudança. falsos liberais estão sofrendo o fracasso de seus sonhos juvenis.. da força moral de nossos governos e do sistema conservador que salvou a Europa da dissolução completa?2 Mas algo andou errado. ideais têm pouco lugar na política — devemos. compreender a dinâmica contemporânea de revolução — em casa ou fora — e por conseguinte somos incapazes de responder a seu desafio... as ideologias liberais parecem menos capazes de enfrentar o desafio. do Iluminismo ao século vinte. Enquanto nossa presente situação se torna mais revolucionária.

A questão verdadeira é se.estão justificando o desinteresse pela moralidade.3 Contra este fundo. não devemos perder nosso tempo tentando decidir se apoiaremos ou não a revolução. Eles nos oferecem uma nova oportunidade para entender o desafio contemporâneo com que deparamos. Esta ênfase na importância da revolução neste momento histórico particular não implica em que toda a ação revolucionária seja boa e tudo o mais mau. discordância. pelo contrário. pode bem ser um dos acontecimentos mais significativos neste estágio de nossa história nacional. na perspectiva baseada na história ocidental. hoje. A nova ordem para a qual o revolucionário está se encaminhando não pode ser identificada com nenhuma estrutura política ou social. e responder a ele criadoramente. algo a contribuir para o seu êxito. o desenvolvimento espontâneo de novos movimentos revolucionários. que aqui apresentamos. sim. 220 . Cada luta revolucionária traz tanto a possibilidade de uma ordem mais humana como de novas ameaças de desumanização. Quando isso acontece. Mas. afronta e. específica. a batalha pelo futuro do homem se focaliza às vezes nas fronteiras da revolução. afinal. a fonte perene da própria vida. temos. bem como para serem incorporados mais uma vez em nossa própria revolução e para explicar nossa vocação no mundo em relação a ele. estão eliminando emoção.

Isto me foi exposto recentemente. por um jovem cientista atômico. nem com a natureza de sua própria responsabilidade. o problema será resolvido. Com isto virá a industrialização e a criação de uma forte classe média. Por estas medidas. Aqueles que escolhem a senda da revolução não terão tal facilidade. na Universidade de Michigan. mas 221 . capaz de tal liderança. E seus esforços são apoiados por uma ideologia que torna possível para ele pensar que a aplicação continuada da tecnologia conduzirá. não só romper com esta ideologia. Precisam ter uma compreensão do que está acontecendo hoje e que tornará possível para eles. disse. à solução de magnos problemas sociais e criará possibilidades de uma vida melhor para um crescente número de pessoas. numa sociedade relativamente estável.IV Ideologia e Teologia O tecnocrata moderno não precisa estar indevidamente perplexo com os acontecimentos em nossa sociedade. O que é importante. com nitidez. insistiu em que eu estava preocupado com a questão errada. Tomando conhecimento de minha tese de que era necessária uma nova liderança radical para a construção de uma nova sociedade na América Latina. bem como sua aplicação. é fornecer força nuclear em grande quantidade para a produção de eletricidade nos países subdesenvolvidos. Está comprometido com o uso do método científico para a expansão constante de conhecimento sobre a natureza e a sociedade.

pelo uso da razão. mas também chegar a conclusões definidas sobre o futuro bem como sobre os melhores meios de avançar em sua direção. nossa ação na sociedade foi orientada por uma visão-universal filosófica geral. Mais do que isso. Hoje. Novos movimentos nos círculos intelectuais marxistas. Não mais estamos certos de que a realidade é racional. e ficar contentes com o que oferece para a ordenação de nossa sociedade. porém útil.também desenvolver uma perspectiva de opção. não só em conhecimento. mas também na transformação da sociedade. por novas maneiras de abordar a realidade histórica. Raciocinamos logicamente que. indicam claramente que as velhas fórmulas perderam muito de sua força e que estão sendo substituidas. não só era possível formular uma opinião geral do homem e da sociedade. Dentro desta estrutura. Por séculos. com frequência. O marxismo ortodoxo representa o último grande esforço para organizar a sociedade segundo esta visão-universal total. sugerir como estes objetivos podem ser atingidos e prover uma base razoável para a esperança de que tal transformação social é possível. a situação está mudando. os mais seguros desta responsabilidade não vêem modo claro de realizá-la. Devem estar preparados para definir seus objetivos. Esta atitude serviu para livrar homens de velhos modos de pensar e tem aberto o caminho para avanços. também deixa muito a desejar. se é impossível para nós encontrar respostas para questões básicas ou ter uma visão-universal integrada total. podia desvendar seus mistérios. gradualmente. especialmente para o revolucionário. então o que deve nos interessar é o estudo empírico de esferas restritas ou fragmentos de realidade. Desta maneira. Esta é uma tarefa formidável. e temos ainda menos confiança na habilidade da razão humana para alcançar uma síntese fidedigna dela. Isto é mais ainda complicado pelo fato de que. e formular novas perguntas. todas estas perspectivas metafísicas perderam sua atração para nós. estamos agora certos de que a qualidade concreta da realidade social nunca se ajustará por completo a tais esquemas abstratos. que era baseada nos pressupostos de que a realidade era fundamentalmente racional e de que o homem. Se quiserem chegar a alguma parte. contudo. esta abordagem tem sérias limitações. Nossa abordagem norte-americana do problema. pragmática e empírica. e de que a marcha acelerada da mudança social os torna obsoletos na época em que são formulados. contudo. Afirmando que a ideologia não é mais necessária. caiu vítima de um ethos ideológi222 . Hoje. podemos chegar a conhecimento limitado. mesmo ali. em todo o mundo. ser-lhes-á necessário pensar sobre velhos problemas de novas maneiras.

esta distorção ideológica de nossa perspectiva é inevitável. resta só um pequeno passo até o ponto em que. a fim de entender nossa experiência social? Podemos ser agnósticos sobre a natureza básica da realidade social e ainda ser livres para fazer tudo dentro de nossas forças para mudá-la? Podemos descobrir um meio de pensar sobre nossa existência social e nossas probabilidades para o futuro que combine ser o mais completamente aberto para a complexidade e a qualidade concreta de uma situação sempre mutante. Weber prediz que virá um tempo em que isto será absolutamente essencial. o povo cessa de esperar qualquer coisa além do mal necessário”. como Tom Hayden o colocou. nossa sociedade produzirá “especialistas sem espírito ou visão e pessoas voluptuosas sem coração”. encoberta por uma espécie de sentido convulsivo de auto-importância”. Há alguma saída para este impasse? É possível para nós reconhecer as limitações da razão. pelo artista e filósofo. na qual as promessas humanas ficam irrealizadas. E.co oculto que restringe nossas áreas de interesse. e ao mesmo tempo fazer o uso máximo dela. muito provavelmente. A análise de Max Weber das consequências desta abordagem diz respeito a nós. os sonhos morrem. na Ciência Social e Política Social”. observada empiricamente. Quando nossa investigação científica da ordem social não está relacionada com uma tentativa para entender quem somos como seres humanos. e aceitar as intuições fornecidas por nossa experiência histórica. Tecnologia e ciência tornam -se ferramentas com que conflitos são manobrados e gente jovem é mantida sob custódia até que esteja sem paixão. e pode fechar nossos olhos para a série de possibilidades latentes numa situação. uma sociedade manobrada “é uma paralisada. o moralista e o teólogo? No parágrafo de conclusão de seu ensaio sobre “Objetividade. para terminar subordinando nossas preocupações científicas a uma visão restrita de auto-interêsse individual e nacional. No último caso. e estamos. Quando isto acontece. aqueles que se sentem orgulhosos de sua pesquisa científica nãoideológica permitam a si próprios ser utilizados pelo governo ou pela CIA para propósitos ideológicos muito definidos. limita as indagações que fazemos. Escreve: 223 . Em sua Sociologia da Religião declara que só duas alternativas ainda estão abertas para a sociedade ocidental: uma renovação espiritual — provocada por profetas inteiramente novos ou por uma poderosa renascença de velhas idéias e ideais — ou “petrificação mecanizada. e para onde vamos.

Na verdade. A significação dos pontos-de-vista usados irrefletidamente torna-se incerta e o caminho se perde no crepúsculo.Toda pesquisa nas ciências culturais. Está bem que seja assim. e acaba repetindo clichês irrelevantes. A luz dos grandes problemas culturais circula. dentro do contexto de sua mais ampla experiência histórica e humana. Não possuímos muita experiência deste tipo de esforço intelectual. Pois ideologia é o produto do pensamento sobre a qualidade concreta da vida do homem no mundo. e podemos não estar desejosos de aceitar a disciplina que exige. As 224 . a fim de definir objetivos e trabalhar por mudança. numa idade de especialização. Tais progressos ideológicos positivos não ocorrerão espontaneamente. ou grupo de valores básicos. precisamos demais de tais “culminâncias do pensamento” e “estrelas” para dar significação e direção a nossos trabalhos. ao mesmo tempo que serve como um fator dinâmico na luta social. bem como do futuro. Então a ciência se prepara. Representa uma tentativa de examinar progressos sociais particulares. Mas vem um momento em que a atmosfera muda. Mas não possuímos sistema filosófico. O tipo de análise e entendimento que agora necessitamos só pode ser fornecido por ideologia. Pensamento ideológico dá ênfase ao envolvimento numa situação particular como uma condição essencial para chegar a uma intuição verdadeira. é o resultado de uma empresa coletiva. mas logo se cansa do esforço. da qual as massas podem também participar e contribuir para um processo gradual de despertar social e reflexão.1 Hoje. Um movimento revolucionário pode começar com reflexão criadora sobre os eventos de que participa. oferece a possibilidade de explicar algo do significado latente na história que está para ser feita. que sejam capazes de fazer isto. uma busca de compreensão. Cessará de avaliar a importância dos fatos individuais em termos de suas relações com valôres-idéias básicos. perderá sua consciência de seu enraizamento básico nos valôres-idéias em geral. para mudar seu ponto-de-vista e seu aparelho analítico e para investigar as correntes de acontecimentos das culminâncias do pensamento. grupo e nação — pode ajudar a manter aqueles ameaçados de mudança. à luz do passado. uma vez que seja orientada para um assunto dado através de colocações particulares de problemas e tenha estabelecido seus princípios metodológicos. considerará a análise dos dados como um fim em si mesmo. torna-se satisfeito com suas conclusões primeiras. Porque a ideologia fornece uma oportunidade para tal autocompreensão — por parte de indivíduo. também. Segue aquelas estrelas que sozinhas são capazes de dar significação e direção e seus trabalhos .

Leszek Kolakowski. a natureza da realização humana. Como o leitor está bem certo. Estou bem certo de que a maior parte das pessoas não está inclinada a seguir esta direção para a orientação da revolução. É amplamente reconhecido que nossa perspectiva ocidental da história.2 um jovem filósofo polonês. progresso e mudança social. De fato. e as prospectivas futuras para a empresa humana. isto não é toda a história. Foi deste conceito que se desenvolveu meu envolvimento na revolução. e transtornam a estabilidade interior do pensamento e vida cristãos de tempos em tempos. que muitos revolucionários modernos sentiram-se compelidos a se tornar ateus. A posição conservadora da igreja e a irrelevância de muita teologia são tão evidentes. que nada pode ser realizado tentando ocultá-las. está intimamente relacionada com esta corrente teológica subterrânea. minha abordagem do problema é feita da perspectiva da teologia. agora tratarei dele mais explicitamente. Quando isto acontece. bem como minhas tentativas para refletir sobre sua significação. E o importante filósofo marxista. mostra como todas as questões básicas sobre o homem e a sociedade que agora requerem nossa atenção são reformulações de questões teológicas. O fato de existirem estes perigos não é razão suficiente para abandonar o esforço. a igreja e seu pensamento têm sido tão identificados com a velha ordem. A questão que nos pode preocupar é se aqueles dedicados ao estudo empírico de nossa sociedade. Este fato tem estado no fundo de tudo que tem sido escrito até aqui. Ernst 225 . a ideologia faz parte do tipo de compreensão social que constituiu sua razão original para existir. estarão abertos a — e têm à sua disposição — todas as análises e experiências que podem oferecer indícios para a compreensão do homem e sua história. Num recente ensaio “O Sacerdote e o Brincalhão”.exigências de uma luta revolucionária pode tentar seus líderes a tornar absoluta sua própria posição. com sua ênfase no desenvolvimento. ou nos lançamos corajosamente à tarefa de produzir as melhores ideologias que podemos ou ficaremos escravizados pelo ethos ideológico inconsciente que nos cerca. bem como aqueles dedicados à tarefa de sua renovação. Um exame mais profundo de nossa história ocidental pareceria indicar que certos elementos na tradição judeo-cristã nos impulsionam para outra direção. E ainda mais. especialmente quando não há alternativa clara. só podemos confessar o que um estudante asiático descreveu recentemente como a “profunda humilhação” do cristão no meio da revolução moderna. Na era em que estamos vivendo.

. A tônica calvinista sobre a soberania de Deus em toda vida e história deixou o puritano livre para tornar relativas todas as lealdades menos importantes. um jovem professor de política na Universidade de Princeton. Isto implica em que a fé cristã atribui uma significação especial a certos eventos do passado. Estes exemplos históricos. Isto. o que permanece é uma perspectiva da história e das possibilidades para a realização da vida humana. segundo Walzer. e refletir sobre as possibilidades abertas para a realização humana à luz da humanidade de um homem — Jesus de Nazaré — e daqueles mais diretamente influenciados por ele. deu uma grande dose de atenção aos elementos proféticos e apocalípticos na Bíblia. 100).. no movimento puritano. Propondo -se examinar o Puritanismo como um movimento político. possuem o caráter de uma “revelação”. de outro modo.Bloch. não provam que a teologia tenha alguma contribuição a fazer na presente situação. e romper com a estrutura metafísica na qual a velha ordem estava estabelecida. bem como às revoluções que encontraram sua inspiração primária no Cristianismo. E isto está muito perto do que diz respeito a uma ideologia de revolução. Ele é o destruidor de uma velha ordem da qual não há necessidade de se sentir nostálgico” (p. A teologia tenta examinar nossa experiência histórica à luz de uma história particular — a do povo de Israel. as primeiras ideologia. organização e disciplina modernas para a revolução social. VII). Chega a declarar que “mesmo os cristãos sabem. legal e intelectual” (pág. Uma destas revoluções é cuidadosamente analisada e apreciada num fascinante livro. minou “toda autoridade terrena” e impulsionou “a desvalorização radical do mundo convencional. Disto surgiram. ver através de pretensões de instituições sociais e políticas. é claro. continuar desconhecido: Quando afastamos aquelas camadas de metafísica e religiosidade por trás das quais a fé cristã está com tanta frequência escondida.3 por Michael Walzer. Walzer chegou à conclusão inesperada de que ele representou “a mais antiga forma de radicalismo político”: “O Santo calvinista me parece agora o primeiro daqueles agentes autodisciplinados de reconstrução social e política que apareceram tão frequentemente na história moderna. The Revolution of the Saints. que todas as aspirações utópicas dos grandes movimentos de libertação humana se derivam do Êxodo e das partes messiânicas da Bíblia”. Com isto não 226 . Esta posição revolucionária foi a expressão autêntica de sua teologia. Mas podem ajudar -nos a perceber algo que podia. do status quo político. que está radicalmente orientada em direção ao futuro.

alguma formulação conceptual da significação principal daquela experiência em relação à nossa própria. experiências específicas e sua interpretação. do nosso presente estado para a nova humanidade. imagens e parábolas. reconhecendo que nenhum princípio semelhante será inteiramente adequado. e para apreender as reais possibilidades abertas para o futuro. Isto sugere que a existência histórica é uma luta contínua em prol da libertação. nem que a crença em sua significação deva conduzir a pretensões de superioridade deste dogma ou religião. se possuirmos alguns princípios de interpretação. entre uma experiência histórica prévia e a presente situação. Se esta perspectiva é válida. a despeito da tendência dos teólogos para fazer exatamente isso. no meio da qual o homem é repetidamente surpreendido por novas possibilidades de significação e realização — na vida individual e coletiva. e que deve ser objeto de constante reexame e revisão. Qualquer tentativa semelhante. para entender o que está acontecendo agora. de interpretar o que está acontecendo no mundo. No centro do Velho Testamento está a peregrinação do povo de Israel do Êxodo e escravidão à Terra Prometida e liberdade. que tal reflexão sobre o passado oferece. muitos elementos surgem que me parecem particularmente relevantes para nossas reflexões 227 . está um movimento do primeiro para o segundo Adão. No Novo. O trato com problemas sociais à luz desta perspectiva não precisa nos levar a defender nossa própria teologia ou insistir que todos adotem nossa visão total. A idéia básica de revelação é a de “remover o véu” por trás do qual a realidade está oculta. Portanto. O que pode fazer é nos fornecer um meio de considerar sobre as questões concretas que enfrentamos ao elaborar uma ideologia de revolução que possamos usar aberta e livremente. então proporcionará apreciações sobre o dilema humano e possibilidades que podem ser aceitas por aqueles que não partilham as mesmas pressuposições. mas nos colocam também ante um difícil problema. Se há alguma verdade na reivindicação cristã. precisamos correr o risco de desenvolver um princípio hermenêutico. será indicada pela possibilidade. A própria Bíblia nos fornece uma vasta variedade de conceitos e símbolos. Quando olhamos para a realidade contemporânea partindo desta perspectiva.queremos dizer que uma experiência passada foi tornada absoluta. pode dificilmente ser expressa num sistema teológico abstrato. Só seremos capazes de conduzir um diálogo significativo. Estes são instrumentos mais adequados para comunicar a variedade e riqueza de existência histórica dinâmica.

por segurança. Dentro das limitações que a filosofia moderna se impôs. os quadros imediatos não são encorajadores. no entanto. Butterfield — trabalharam neste problema e nos apresentam uma variedade de perspectivas. revela que a perspectiva judeo-cristã sobre história desempenhou um papel importante em nossa autocompreensão ocidental e é ainda. por conseguinte. Neste contexto. Implicou em que o homem pode adquirir alguma compreensão do que está sucedendo em volta dele e portanto trabalhar por maior inteligibilidade sem necessitar recair numa visão-universal total. que nos interessam ao mesmo tempo em que reconhecemos suas limitações. Mas não vê possibilidade de significação no processo histórico. Porém é por demais esquemático e rígido. não há muito espaço para lidar com esta questão. a atitude cristã para com a realidade abriu o caminho para o desenvolvimento de uma perspectiva incomum da história. Fala da configuração do futuro com confiança. contribuirá para o bemestar do homem sem aguardar até que toda evidência se mostre. Um certo número de filósofos e historiadores — Toynbee. Mesmo uma leitura superficial destes estudos. para sua interpretação histórica. e. tornou possível assumir uma atitude de confiança em face de acontecimentos espantosos e complexos. Messianismo e Poder na Formação da História Para os que estão procurando alguma perspectiva na história como uma base para sua reflexão sobre revolução. Bloch. deposita confiança demais na racionalidade da história. A ação pode ser empreendida na certeza de que nova apreciação virá ao longo do caminho. um fator nas tentativas contemporâneas para responder nossas questões mais prementes.presentes sobre revolução. O marxismo tem uma resposta clara. e de que erros podem ser corrigidos. Como foi sugerido antes. é sensível à grande complexidade de cada situação histórica. em certo grau. Jaspers. e sem um esquema total de fatos para garantir os resultados de seus esforços. ele espera. e fornece fortes bases racionais. Pode agir de um modo que. e termina por ser essencialmente determinista. Expressou a convicção de que alguma coisa de positivo estava acontecendo no processo histórico. é possível ser realista sobre a natureza humana e sobre qualquer situação 228 . afirma que a história está inevitavelmente caminhando para uma maior humanização. e afirma a liberdade do homem. O existencialismo também luta com o problema. e não proporciona base sólida para esperança quer no presente quer no futuro.

piedade e religião se combinaram para se livrar de alguém aceito por muitos como o Messias. mas de forçá-las a aceitar seu devido lugar como serviçais em vez de senhores. para usar as palavras de alguns dos escritores bíblicos. de remover alguém que se tornou uma ameaça à ordem estabelecida. De fato. Não era uma questão de romper com elas. Na perspectiva messiânica. no entanto. funcional. porque mantinham a sociedade unida e preveniam o caos. após todas as possibilidades humanas terem sido esgotadas. não foi idêntica à nossa doutrina liberal de progresso. produziu resultados inesperados. Portanto. Em vez de estarem contentes com um papel limitado. Sua vida inteira como nação estava orientada para a vinda do Messias. e todavia não tombar vítima de desespero. Isto significava quebrar seu poder e autoridade fundamentais sobre o homem. Naquele momento. sempre achavam o meio. os esforços para chegar à idade messiânica e estabelecer uma nova ordem constantemente acabavam em perturbação. um soberano cujo aparecimento podia significar o estabelecimento de uma nova ordem no mundo. não havia meio de saber ao certo quando e onde ele viria. a história não é meramente uma luta constante pela libertação humana. Quando a ação messiânica se tornou mais claramente definida e intensa. Esta tarefa. A tremenda seriedade desta luta está caracterizada na crucificação de Jesus. aparecem novas possibilidades para a vida humana na história. aparentemente simples. O problema era elas estarem sempre escapando ao controle. faziam reivindicações imperiosas para elas e pretendiam dar significação básica à vida. 229 . o rei messiânico surgiria depois de a Casa de Davi ter sido destruída. chegou à conclusão de que a história estava indo para algum lugar. uma tal idéia ingênua estava sempre sendo desmentida pelos acontecimentos.particular. é uma luta que se está dirigindo para seu objetivo. Por mais que o povo judeu quisesse acreditar que o favor de Deus significaria crescentes segurança e prosperidade nacionais. e nem método seguro para garantir seu aparecimento final. A esperança messiânica. e os recursos da lei. Porém se a esperançosa espera do Messias era o elemento central da fé. Na escala política estes termos se referiam àquelas estruturas da sociedade que eram essenciais para a existência humana. No âmago desta perspectiva está o que melhor pode ser descrito como messianismo completo. Principados e potestades. ele era o novo rebento que brotaria de um tronco morto. estado e igreja juntaram forças. a luta contra estas forças intensificou-se.4 Quando o povo de Israel refletiu sobre o significado de sua experiência.

que isto ocasionou. os poderes aqui postos a nu e vencidos não são as piores instituições da sociedade. pode ser constatada desta maneira: Se quisermos entender o que realmente está acontecendo na história. enquanto fraqueza e derrota podem ser o caminho para a vitória final. De fato. O que aqui temos. Especialmente onde está envolvido poder. os fariseus. é a matriz da qual uma visão revolucionária de história pode emergir finalmente. uma vitória arrasadora pode. Ele “fez deles um espetáculo público” (Colossianos 2:15) — expulsou-os do cargo. e ainda representa. A revolução no pensamento.5 E o que é ainda mais surpreendente. devemos focalizar nossa atenção naqueles pontos onde movimentos messiânicos estão em ascensão e desafiando as estruturas de poder da sociedade. nesta luta. transformar-se em derrota. O fato notável sobre tal afirmação é que foi feita em um tempo em que parecia completamente claro para todos os demais que os poderes tinham obtido sucesso e que o movimento messiânico fora destruído por completo. a longo termo. os poderes eram desmascarados e vencidos. Também se convenceram de que. mas as melhores: o Império Romano como imagem de lei e ordem. a religião do povo eleito de Deus. e a piedade de sua seita mais devota. mesmo represen230 . qualquer grupo que represente uma preocupação messiânica e que queira mudar a ordem social no interesse da emancipação humana é algo como um aborrecimento. Não é esta a maneira pela qual políticos e estadistas usualmente olham para o mundo à sua volta.Aqueles que haviam se colocado ao lado do Messias concluíram que esta luta entre os poderes e o Messias lhes fornecia um indício do que estava acontecendo na história. ou estimar corretamente o impacto do futuro sobre ele. em essência. Portanto. era que aparências são enganadoras. Dentro deste arcabouço. Estão empenhados num esforço de avaliar corretamente os poderes como imagens dos interesses de grupos diversos na sociedade. impediu-lhes o caminho. que uma tal visão da história era a mais realista e fornecia a melhor oportunidade para entender o que traria o futuro. o que os primeiros cristãos estavam dizendo. que possam contribuir para o bem-estar social. A agudeza e maneira vívida da descrição que o Novo Testamento faz disto é extraordinária. equilibrá-los e usá-los para objetivos específicos. Perturba os cálculos prudentes de políticos e pode facilmente ser considerado subversivo. então. Jesus é visto como tendo “se descartado dos poderes e autoridades cósmicos como uma vestimenta”. em qualquer momento particular. No contexto da teologia cristã a crença de que Deus estava agindo desta maneira significou que a realidade histórica funcionou nestes termos.

é claro. num mundo no qual as acomodações de auto-interêsses são continuamente perturbadas por pressões externas e protestos internos. novas 231 .tantes mais progressistas do Establishment não são de modo algum capazes de entender porque tais grupos estão em volta ou o que fazer com eles. e lidar com ele numa perspectiva que lhe possa dar sentido. trabalha contra nosso próprio interesse. urgente e necessária. Porém também podemos aceitar a possibilidade de poucas coisas serem mais importantes para estadistas e políticos que querem agir de modo realista do que levar este humanismo messiânico em conta. Qualquer política nacional estreitamente definida nestes termos também acaba por alienar aqueles grupos. No contexto do messianismo. não é todo o quadro. qualquer definição de nosso auto-interêsse nacional. Podemos responder diferentemente a um novo desafio quando é levado a nós através de contatos sem precedentes com o mundo subdesenvolvido e pela constante confrontação com as pequenas comunidades messiânicas em nosso meio. na moldagem da política de comunidade e nação. Em oposição a ele. Num mundo em que nações pobres estão fervendo em revolução por causa de sua pobreza e sua exclusão dos centros de vida internacional. ou ministros presbiterianos tomam a iniciativa em organização comunitária nos guetos urbanos nortistas. cuja preocupação por emancipação humana torna sua participação. Por mais decisivo que o auto-interêsse seja. dentro do país. é o fato de comunidade e nação existirem. com frequência. quando estudantes neste país vão ao Mississipi trabalhar lá com os negros. Em uma sociedade na qual estes movimentos de libertação humana são uma força dinâmica e o povo é confrontado com um claro testemunho da relação estranha e paradoxal entre força e fraqueza. similar. continuar a agir politicamente dentro de um arcabouço de compreensão que exclui esta dimensão. Quando jovens de ricas famílias aristocráticas no Brasil abraçam a causa de empobrecidos camponeses. a reação é. nenhum país ou comunidade pode ser entendido meramente em termos de seu passado. que deixe de tomar seriamente estas correntes de messianismo. dentro das estruturas de poder da sociedade. e igualmente importante a longo prazo. Podemos. Se estamos interessados em saber quais são as possibilidades de a América responder produtivamente ao desafio de revolução mundial. é sempre útil olhar para nosso passado e tentar descobrir ali aqueles elementos que nos dão certa segurança de que podemos entender e tratar com uma tal realidade. Mais importante é o fato de não estarmos obrigados a agir do mesmo modo que agimos até agora.

Enquanto permanecem indesafiadas. começam a enxergar através dos clichês vazios usados para defender uma tal política. numa sociedade segregada. Hoje algo similar acontece quando aparecem movimentos messiânicos. Torna-se evidente que se excederam em seu mandato e que por esta razão estão em chão instável. a inadequação espiritual e as consequências desumanizantes fundamentais do legalismo e da devoção de seu tempo. a política de nosso governo na América Latina e seu apoio ali aos regimes mais reacionários. estes mitos são cortados pela base. nos leva a mandar 12. Porém. algumas pessoas pelo menos.— até o momento em que significativo número de estudantes católicos abandona tudo para organizar ligas camponesas. o camponês brasileiro. a precariedade de sua situação se torna evidente. vê que não precisa estar amarrado por todo o ethos do sistema 232 . Podemos aceitar. e para estimar as perspectivas de mudança revolucionária. quando movimentos de emancipação humana surgem. e de nada adianta subestimá-las. podem manter esta ilusão. As estruturas econômicas. Mas têm também uma tendência para se mostrar mais poderosas do que realmente são. violência e assassínio para se proteger de tais ameaças. não é mais dominado pelos velhos moldes de relação que aceitara como certos. ou decide que não há outro modo de ali trabalhar por mudança que não seja a participação em movimentos de guerrilha. num pequeno país do Caribe. estes poderes são desmascarados. Como este processo continua. O negro. Uma sociedade segregada pode manter toda espécie de mitos sobre si mesma por longo tempo. porém. o estudante universitário aprende a discutir suas anteriores atitudes em relação à autoridade. Quando uma revolução relativamente sob controle. não está longe de começarmos a ter dúvidas sobre a estabilidade e poder da ordem atual. entre o que dizem oferecer e o que realmente fazem para a vida humana. e fazer exigências que são injustificadas. sem questionar. de súbito.000 soldados e a apoiar uma elite militar que atira em trabalhadores e estudantes indefesos. aqueles que vêem necessidade urgente de mudança perdem gradualmente sua confiança na velha ordem e se recusam a aceitar sua autoridade sobre eles.possibilidades se revelam para compreender o que está acontecendo na história. Então. A vida e ensinamentos de Jesus puseram a nu a bancarrota moral. Os poderes não podem mais esconder a diferença entre suas pretensões e o que realmente são. que visam à forma real do humano. quando adolescentes negros estão querendo arriscar violência e prisão para protestar contra ela. E quando esta sociedade acha necessário confiar em ódio. políticas e sociais do status quo têm tremendo poder.

e torna possível para ele concentrar-se no trabalho a ser feito. tornam o problema pior. ou aceitar este julgamento e se ajustar à nova realidade. pode perceber que esta confiança no poder esconde a inabilidade da velha ordem para responder de maneira fecunda a novos desafios. sofrimento e derrota contribuem para a vitória decisiva. uma vez que libera o revolucionário de preocupação excessiva com o futuro imediato e com o que lhe está acontecendo. o revolucionário estará bem seguro da fraqueza de sua própria posição e descobrirá que seu movimento está destinado a sofrer uma derrota sobre a outra. Sua liberdade para tomar uma tal atitude de confiança em relação ao futuro. os poderes podem. Reagindo exageradamente à situação. e que perseguição. pode ser um fator importante para determinar o resultado da luta. e põem em movimento forças que lhes será cada vez mais difícil controlar. que só podem se mostrar destrutivas. que dominou a vida rural por séculos. ou usar o poder que têm. podem esperar ser atacados violentamente pelos detentores do poder. em autodefesa. seu esforço para impedir mudança torna quase inevitável uma solução mais radical. Tendo de fazer frente a este desmascaramento de suas pretensões. Uma vez que são os que revelaram a instabilidade da velha ordem e seu caráter desumanizante. De outro lado. um dos elementos mais importantes numa luta revolucionária é a presença de pequenas comunidades de homens e mulheres que estão empenhados numa ação parabólica. Como a maior parte de nós não está inclinada a pensar sobre história nestes termos. Porém. E alguns daqueles que mais desesperadamente desejam preservar o status quo percebem que estes poderes os estão conduzindo a um beco sem saída e fazendo-lhes exigências extremas. podem. devido ao uso de seu poder de desmascarar o velho sistema. vão a extremos que provocam oposição mais esclarecida e organizada. manter a situação sob controle e eliminar todas as ameaças imediatas.patriarcal. O revolucionário pode descobrir que sua própria fraqueza é mais forte do que imaginava. Devido sua sensibilidade para prever o que virá. Com isto quero dizer que eles 233 . com frequência. aqueles que estão trabalhando por mudança encontram-se numa situação paradoxal. Ao final. e dão passos que revelam a um crescente número de pessoas quão desumanizante é toda a ordem. Este mesmo revolucionário está também numa posição única para ver a instabilidade da velha ordem e reconhecer que ela está travando uma batalha sem esperança. Podem ser objeto do ódio e fúria de homens desesperados. Quando escolhem este segundo caminho. mostram quão inseguros são. e para agir de acordo. E. em assim agindo.

Esta perspectiva da história. não os revolucionários. estabilidade e ordem tomam forma do outro lado da mudança. Geralmente. preparar o caminho para o totalitarismo e atrasar. e que este modo de lidar com violência pode tornar mais provável uma solução violenta. Quanto mais rígida for uma instituição. um interesse autêntico pela ordem deve encorajar-nos a correr os riscos de mudança e tomar consciência de que quanto mais cedo isto for feito melhor. oferece-nos uma saída do impasse ideológico ao qual estamos agora presos neste país. de tal maneira. que bloqueia indefinidamente a mudança. Até aqui. Na perspectiva do messianismo bíblico.examinam minuciosamente esta perspectiva em seus mais importantes limites. maior a probabilidade de eventual descontinuidade institucional. minimizar a necessidade de mudança. mas a oposição a ela. O resultado final desta cegueira ideológica é nosso fracasso em ver que uma tal tônica sobre estabilidade pode tornar uma situação explosiva mais instável. Nossa atual política é parcialmente motivada por um legítimo interesse em estabilidade e ordem. em nossos esforços para lidar com duas questões fundamentais: a relação entre estabilidade e mudança e o papel da violência na transformação social. Porém este cuidado está dominado por uma perspectiva ideológica que distorce todo o quadro. e querer chegar a qualquer medida para eliminar a ameaça de violência — exceto em se tratando da defesa da ordem estabelecida. não é a mudança. dada a situação revolucionária que enfrentamos internamente. com ainda mais tristes consequências. que outros são supridos de sinais que sugerem como as coisas andarão. numa sociedade dinâmica. o desenvolvimento econômico e a melhoria da sorte das massas empobrecidas. são os verdadeiros inimigos da estabilidade. acredito. as consequências disto têm sido as mais evidentes em nossa política para as nações em desenvolvimento. Quando qualquer estrutura particular da sociedade se torna tão rígida. Aqueles que ajudam a preservar uma sociedade segregada neste país. é muito possível que muitos queiram recorrer à mesma ideologia. Isto deve também levar aqueles que são mais conservadores a se pôr em con234 . e o reconhecimento de que desintegração social e violência podem. sua destruição pode ser necessária. com facilidade. ou as formas de exploração feudal-colonial na América Latina. ao mesmo tempo. a ponto de levar a uma obsessão com estabilidade. Portanto. O fato de os liberais parecerem tão propensos a cair presas dela quanto os conservadores torna o problema ainda mais urgente. que constitui a maior ameaça à ordem e estabilidade.

e envolvemos nossos próprios militares e mesmo cientistas sociais neste esforço. Porém. Como resultado fortalecemos grandemente aqueles grupos no poder que têm bloqueado. agimos de maneira muito diferente. onde a necessidade de revolução é maior. em um mundo no qual o povo acordou para a esperança. ou se apoiar em ocupação militar maciça de nossos “slums”. está constantemente pressionando para uma nova ordem. temos a liberdade para entender nossa própria história. de tempos em tempos. Nesta situação paradoxal. onde não há pressões messiânicas por mudança. aceitamos a possibilidade de que a violência possa irromper. Nossa influência ocidental no resto do mundo criou uma situação que agora parecemos incapazes de entender ou de ajudar outros a entender. no meio da revolução. de que o negro foi emancipado e nossa unidade 235 . usualmente. na América Latina. e também enfrentar de modo realista as opções à nossa frente. Mas. Aqueles que são chamados a lidar com este problema só serão capazes de fazê-lo de modo sábio se forem livres para encará-lo abertamente e entender suas dimensões plenas. Cria uma sensibilidade para o caráter desumanizante da luta violenta. o povo. ele. que necessariamente implica numa “violação” da velha. esforços não violentos para mudança e temos ajudado a criar uma situação — na América Latina. Quando tal expectativa se torna mais universal. a violência pode ser um importante elemento. Pelo menos nosso governo não decidiu ainda que deve treinar uma grande parte das forças armadas. Podemos aceitar o fato de que nossa nação nasceu em um ato de violência. efetivamente. para remover o problema que lá existe.tato com o encorajar aqueles que estão trabalhando por mudança. naqueles pontos onde a situação é mais desesperada. o problema de violência não é. Em nossa própria sociedade. Ajudamos a transformar as forças armadas tradicionais. em unidades anti-subversão. Numa sociedade estática. sério e complicado. bem como em outras partes do mundo. ao mesmo tempo. pelo menos — em que um crescente número daqueles mais cônscios do que está acontecendo concluem que a guerra de guerrilhas oferece a única esperança de mudança social básica. tanto para bloquear a mudança como para produzi-la. É nosso ponto de vista que a perspectiva messiânica que indicamos aqui oferece tal possibilidade. em muitos países. porque só este tipo de relação e esforço pelo diálogo pode contribuir para a estabilidade do tipo de sociedade em que agora vivemos. para lidar com agitação interna. abre nossos olhos para a necessidade urgente de movimentos que violentem a velha ordem.

a constante expansão de conhecimento e experiência nos leva na direção oposta. Se todas as autoridades estão perdendo seu poder básico. este processo todo parece muito diferente. os pobres não confiam no cuidado paternalista dos ricos e poderosos. e está munido de um crescente número de elementos que contribuem para isto. Começamos por aceitá-lo. em nossos guetos urbanos e no mundo subdesenvolvido. testemunhamos a rápida deterioração de todas as estruturas de autoridade. Todos os povos do mundo estão em contato entre si e são dependentes uns dos outros. dessacralizou todas estas esferas e minou todas as estruturas de autoridade.nacional preservada por meio de violência. história e vida humanas a uma soberania primeira. Do ponto de vista de uma teologia do messianismo. de fato. outros corajosamente afirmam sua singularidade e independência. a autoridade de seus pais. Nenhum grupo ou classe de povo. em termos por completo diferentes daqueles do passado. porque vemos aqui o trabalho de Deus. e o proletariado externo do mundo ocidental rebelou-se contra seu status colonial. toda 236 . Este desenvolvimento não é um fim em si mesmo. Esta inter-relação forçada não é apoiada por uma história. Estamos livres para admitir a possibilidade de que atos de violência possam ter lugar na luta dos povos desprovidos. é a pré-condição essencial para a realização messiânica. e vêem só caos pela frente. podemos chegar a afirmar que a história ocidental recente torna nossa escolha mais clara e mais inescapável: entre caos e novos esforços por integração social. atitudes e ideologias. sem pôr em questão. Ao mesmo tempo. Há um elemento adicional em nossa compreensão da história que influenciará nossas ideologias políticas. ethos ou visão-universal comum. culturas. nenhum código moral ou legal. e param nisso. Como resultado. Gradualmente esta influência penetrou cada vez mais fundo na sociedade e também na autocompreensão do homem. podem manter a ordem na base da confiança implícita e respeito por ele. O homem tem sido deixado livre para prosseguir em direção à nova humanidade. A crença cristã na criação e na subordinação de toda natureza. De fato. podemos concentrar-nos no tipo de estudo e ação que ajudará a minimizar a necessidade de violência e limitar sua destrutividade no processo de mudança social. Nosso mundo está se tornando crescentemente pluralístico e interdependente. povos de todas as classes são confrontados diretamente com indivíduos e comunidades representando outras línguas. muitos desesperam de qualquer possibilidade de integração social. Ao mesmo tempo. Ao contrário. Jovens não aceitam mais. e em quase todos os países.

vida e sociedade precisa ser ordenada pelo futuro em vez de pelo passado. e então reunir-se num esforço comum para alcançá-los. é uma questão de querer ordenar assim a própria vida no presente. que nos dá nova liberdade para entender o que está acontecendo à nossa volta e para responder a isto mais criadoramente. portanto deve permanecer sempre experimental e aberta para 237 . Por sua real natureza. na mais estreita aproximação do bem comum. representa o esforço que está querendo dispender e o preço que está querendo pagar. em que diferença. Numa tal sociedade. porém podemos participar de um esforço comum. ao contrário da supressão de conflito. para a comunidade. Uma nação ou uma comunidade deve decidir que tipo de mundo quer. As pessoas vêm de passados. abre caminho para novas relações e novas riquezas de vida individual e social. para definir o tipo de relações políticas mais adequadas para a situação em que nos encontramos e empenharmo-nos numa procura comum de novos modelos e novas estratégias políticas. podemos aceitá-los pelo que são e trabalhar constantemente por reconciliação. Estudiosos podem nos fornecer análises das formas de entendimento histórico encontradas na Bíblia e nos trabalhos dos grandes teólogos. tal reflexão deve sempre estar buscando significado numa situação dinâmica e flexível. como de manter a porta aberta para mais ampla realização no futuro. mas podem travar diálogo sobre as possibilidades de realização humana que estão à sua frente. e ficar unidas nas experiências e esperanças de onde uma nova direção de vida surgirá. Disciplina é essencial. Deve vir como o resultado de uma conversação sem interrupção entre nossa herança teológica e os acontecimentos de nosso tempo. Tudo isto pode justificar uma observação conclusiva: a reflexão teológica sobre história será mais relevante para a luta ideológica. Isto não pode ser feito hoje por uma mistura de teologia e filosofia em algum novo sistema. Podemos ser a favor de sistemas econômicos diferentes. quando estiver querendo se tornar algo como uma ideologia em si. Porém tudo isto representa muito pouco para nós. que objetivos estabelecerá para o futuro. isto não é uma barreira insuperável para o reconhecimento de que agora não temos escolha senão determinar como melhor desenvolver nossos recursos e distribuir os bens que produzimos. Porém disciplina. Para o indivíduo. Nossa base e teorias políticas podem ser amplamente divergentes. experiências e culturas muito diferentes. Neste processo vamos descobrir que reconciliação. tensão e conflito são inevitáveis. a fim de se adiantar para os objetivos que ela estabeleceu. a menos que esteja relacionado diretamente com a história mais imediata de que somos parte.

quando nossos esforços messiânicos para construir uma nova ordem são frustrados. que é realização. algo parece acontecer no meio do processo revolucionário que embota este interesse. Um dos produtos mais comuns e infelizes disto é o desiludido e amargurado ex-revolucionário. o segun238 . com frequência tem um profundo interesse humano que é a força impulsionadora principal em sua vida. em meio a uma luta assim ambígua na história. contudo ainda continua sua obra. o Messias — um político. para aqueles empenhados na luta ideológica. ao mesmo tempo. portanto. É muito fácil estar intensamente preocupado com o bem-estar do homem e ser cego para o que está acontecendo para homens e mulheres. Ao mesmo tempo. quer seja um líder natural dos oprimidos em sua luta por emancipação. Jesus. em quem temos uma indicação concreta do que pode significar uma nova humanidade. libertação é. A liberdade de cristãos para revisar sua própria ideologia de história pode. A despeito de tudo que os teólogos fizeram para obscurecer o fato. nossa esperança de libertação é realizada dentro e através de luta e sofrimento. Além do mais. E a ideologia com que esperamos orientar nossa ação revolucionária deve dar atenção a este problema. Isto é o que pode caracterizar ideologia.revisão constante. há algo referente à respeito da luta revolucionária em si que é desumanizante. uma figura revolucionária — é o instrumento de emancipação humana. O revolucionário. O Messias veio no passado. afinal. uma realidade e uma possibilidade para a qual nos estamos encaminhando. Jesus de Nazaré. que se manifesta frequentemente na vida revolucionária e na história da revolução. de fato. Afirma que a existência histórica do homem é um movimento para a libertação. Revolução Social e Realização Humana As expressões acima sugerem uma tensão interior. e que libera forças que trabalham contra os objetivos previamente estabelecidos. ser seu testemunho mais significativo. quer um membro de outra classe que decidiu fundir sua sorte com a dos sofredores e explorados. e que provavelmente nunca será completamente resolvida. de que há tantos exemplos hoje. O Messias foi crucificado. a teologia está interessada em interpretar certos acontecimentos e imagens que testemunham sobre a libertação do homem e a renovação da vida humana. E o Messias crucificado é o novo homem. Porém a dinâmica peculiar desta posição é o resultado da associação desta esperança para o homem com uma pessoa histórica particular.

nossas experiências mais profundas de significação e realização nos vêm em meio a esta luta.do Adão. Tão logo confiemos nelas. É. A atenção é focalizada no que Paul Lehmann descreveu como “o caráter político da atividade divina”. também se torna claro que. visando os aspectos básicos para a existência do homem. e a significação de nosso tempo presente em relação a ele. Dentro deste arcabouço. sem ser desafiado a mudá-la. o interesse nesta pessoa e a reação a ela levaram homens e mulheres a uma aposta. Quando estes poderes são mantidos sob controle e obrigados a servir aqueles objetivos que lhes estabelecemos. o homem encontra a liberdade para desenvolver novas formas de vida. portanto. passamos a fazer exigências à ordem política que ela não pode satisfazer. Preocupação verdadeira com o bem-estar interior da pessoa deve portanto conduzir a ação que vise controlar e usar o poder político a fim de dar lugar para maior liberdade no meio comunitário. num mundo onde a batalha pelo homem está sendo travada contra os poderes. e de que quem perde sua vida a achará. nós damos lugar no mundo para maior realização humana. somos lembrados de que quem procura salvar sua vida a perderá. porque o processo todo de secularização destruiu nossa 239 . a tensão entre revolução e humanização está definida e acentuada de maneira extraordinária. psicanálise e média de massa como instrumentos com os quais o povo é ajudado a se ajustar a uma ordem social desumanizante. Por conseguinte. Esta tentação é hoje especialmente séria para nós. somente se forem mantidas em seu próprio lugar. quando menos as esperamos e estamos preocupados com outras coisas. o Messias. é também o novo homem. ele representa uma nova forma de existência humana no mundo. ocorreu na vida de um homem e está agora à nossa disposição. Nestas circunstâncias. Esta figura política. A nova humanidade toma forma. como servidores da nova humanidade. política e revolução são colocadas num contexto em que podem contribuir para o bem-estar humano. Todos estes esforços contribuem para uma situação em que os poderes gradualmente aumentam seu controle destrutivo. para responder às questões fundamentais sobre a vida e sua significação. insensatez falar sobre a renovação espiritual e moral do homem sem dar a devida atenção a este elemento. é essencialmente uma traição ao homem. e portanto a pervertê-la. Do tempo dos primeiros discípulos até hoje. O uso de religião. Realização humana em meio ao sofrimento e a derrota é uma realidade. No decorrer deste caminho de envolvimento político. com frequência. postas em debandada e forçadas a se reorganizar. Quando estas forças são desafiadas.

contudo. Os melhores revolucionários são os que são homens livres no sentido de que sua auto-identidade e estabilidade pessoal não dependem de seu papel político. mesmo em meio a uma luta revolucionária. as mais avassalantes concentrações de poder não podem ter êxito em seus esforços para preservar o status quo. e o próprio processo revolucionário não segue um curso inevitável. para aquelas instituições e forças que satisfazem outras necessidades humanas. Nesta perspectiva. de maneira significativa. e a ação política efetiva pode criar o tipo de sociedade em que a política se torne menos importante. pelo menos. esta mesma experiência que pode também aumentar sua dependência da ordem política e levar a uma fácil desilusão com os movimentos políticos. para a realização humana — se aqueles que dele participam. a participação na revolução é um meio pelo qual as pessoas são capazes de transcender mesquinhas ansiedades pessoais e problemas. tiveram sucessos tão limitados. Um movimento político só será capaz de contribuir para o objetivo fundamental do autêntico messianismo — i. Uma revolução oferece a oportunidade para construir uma nova ordem social — na crista da desintegração social — e pode também abrir o caminho para novas manifes240 . Na verdade. dele não esperarem demais. A associação das imagens messiânicas do Velho Testamento com a pessoa histórica de Jesus de Nazaré conduz a uma afirmação adicional: O Messias crucificado é o novo homem. Especialmente no tipo de mundo em que estamos vivendo hoje. para a humanização da sociedade contemporânea. as revoluções modernas não se distinguiram neste ponto e. êxitos significativos na luta revolucionária tendem a diminuir a importância da revolução. Só o revolucionário cujos compromissos políticos estão relacionados com uma visão mais ampla da vida humana e da história pode lutar com esta situação. a política não pode contribuir para a libertação pessoal. e assim contribuir.e. por meio dos quais uma vez vivemos. e é muito mais fácil para nós fazer um ídolo de nossa luta política do que aprender a viver precariamente sem ídolos. todo determinismo é destruído. A longo prazo. a menos que reconheçamos suas limitações e deixemos espaço. quando descobrem um novo reino de liberdade pessoal na obediência a uma lealdade mais alta. Até aqui. talvez por esta razão. É. É isto que abre o caminho para uma combinação incomum de sensibilidade para a profunda ambiguidade presente em cada luta revolucionária e a esperança em relação a seu resultado. Com frequência.confiança nos velhos absolutos. A crucificação ocorre ao longo do caminho para o surgimento da nova humanidade.

à luz do futuro. E o fato de que a própria luta revolucionária se torna desumanizante em certos momentos não é razão suficiente para abandonála. mesmo a vitória 241 . em que todos os esforços de mudança são facilmente bloqueados. então somos livres para aceitar este fato e prosseguir com o trabalho. um movimento de integração racial pode. Porém a coisa importante é que este processo tão ambíguo propicia oportunidades sucessivas para a formação de formas novas e mais humanas de organização social. e contribui para este objetivo. Esperanças irrealizadas. frustrações e sofrimentos são parte de nosso destino. O Messias foi crucificado por Seu próprio povo — aqueles em posição de poder na sociedade messiânica e aqueles que pugnavam mais intensamente para criar a nova era — e foi abandonado por Seus discípulos no momento de maior necessidade. Isto sugere que não devemos ter ilusões sobre movimentos políticos ou seus líderes. tanto na ordem social que surge da revolução quanto na velha ordem que a precedeu. Numa situação opressiva. sob outras. torna-se terrivelmente desumanizante. e que. Em certos momentos. Podemos pôr a nu constantemente e desmascarar coisas que ameaçam a causa revolucionária. Assim. Ao mesmo tempo. serve como parteira necessária de uma nova ordem social. podemos descobrir que alguns dos avanços mais significativos ocorrem sob circunstâncias difíceis e ambíguas.tações de mal social. ao mesmo tempo. quando tentamos avaliar as alternativas à nossa frente em termos de sua contribuição potencial para um futuro mais largo e mais justo. sobre revoluções ou sobre revolucionários. Contudo um tal movimento pode ser o instrumento com que essa sociedade é forçada a se abrir e começa a se encaminhar para um maior grau de justiça. A violência é sempre destrutiva. Mas se a crucificação é um elemento inevitável na transformação social. com facilidade. A crucificação do Messias também nos lembra que a luta. é possível ser inteiramente realista sobre o que está acontecendo e. Porém a iluminação que buscamos pode vir. se desenrola através da história. Nenhum conjunto abstrato de princípios ou valores será de muita ajuda na tomada de decisão em tal situação. sem perder a esperança. entre a velha ordem e a nova. Sob certas circunstâncias. tirar vantagem de cada nova ocasião para progredir rumo os objetivos básicos da revolução social. Líderes revolucionários equivocam-se sobre a situação e fazem erros de julgamento e estratégia. tornar-se rígido e extremista. mesmo quando a causa da revolução triunfa. a fraqueza humana é tão prevalente entre eles como em qualquer outro grupo. a luta revolucionária pode ser tão desumanizante quanto a velha ordem.

Estas entidades metafísicas se foram. Porém rebelião em si não pode produzir o novo nem libertar o homem. e protestos contra a escravização do homem não nos fará seres humanos livres. Quando isto é acompanhado por uma ideologia de racionalidade. deparamos com um novo e difícil desafio. Como vimos antes. Precisamos é dos 242 . e suas consequências. Transgressão e Transcendência Há um outro complexo de problemas que representa pesada carga para a ideologia revolucionária. podemos rapidamente ficar sobrecarregados com o peso morto da velha ordem. embora não tendo base da qual desafiá-la. e pela feliz consciência que não tem sentido de culpa radical ou julgamento. com seu desaparecimento.6 Se este esforço hercúleo tem êxito. orientada para a preservação da ordem estabelecida. revolução implica em uma “violação” da velha ordem. enquanto a presente tendência nas ciências empíricas não nos fornece racionais nem claros com que a teoria crítica possa transcender esta sociedade. vida e sociedade humanas estão relacionadas com uma ordem de ser que transcende o finito. e. uma recusa “em aceitar o universo dado de fato como o contexto final de validação”. O Eterno se opõe ao temporal.parcial pode se mostrar um importante lucro para a causa do homem. e todas as instituições sociais são julgadas e reformadas por uma ordem ideal à qual devem se conformar. o revolucionário então enfrenta o perigo de ser escravizado por sua própria ideologia. Colocar a tônica no funcional e operacional pode facilmente conduzir a uma visão de realidade em que dimensões inteiras são perdidas. Exige uma crítica transcendente do status quo. Nesta estrutura. esta atitude de transgressão e transcendência contra a sociedade em que o homem se encontra não é uma ocorrência muito comum. fornece pequena evidência de que tal idolatria. e uma tentativa para “ultrapassar o universo estabelecido de negociação e ação para suas alternativas históricas”. O repúdio de velhos tipos de pensamento sobre política externa norte-americana não nos dará as ferramentas para forjar uma nova. Os que vêem através de tudo isto podem rebelar-se. em nome da nova. Revolução. No Ocidente. possam ser evitadas. que surgiu como resultado da síntese da filosofia grega e teologia cristã. foi o produto de uma visão-universal metafísica. Por sua própria natureza. até aqui. A história da revolução moderna. nem base para mudança qualitativa. pode ser só um sinal negativo de sua escravização à ordem estabelecida.

e dados de maneira concreta. Aqui filosofia e arte. como ao futuro que transgride contra. A verdade é que esta íntima identificação com uma ordem metafísica não é tanto uma indicação da natureza da teologia como o é de um avançado estágio de aculturação do Cristianismo em uma era anterior. O tipo de transcendência que encontramos na Bíblia é mais escatológico do que metafísico: refere-se não tanto à Ordem Eterna acima do homem.recursos para transcendência radical: aquele discernimento profundo e perspectivas sobre vida e sociedade que rompem o poder do velho. no meio do diálogo entre nossa visão do homem e o que ele pode se tornar e a situação em que nos encontramos. agimos com mais responsabilidade. o estímulo e enriquecimento da memória histórica. podem aparecer no caminho do futuro.” A vinda do Reino é uma questão da reordenação das relações humanas e estruturas sociais. São definidos. acima de tudo o mais. Com facilidade traímos e limitamos a realidade quando restringimos nosso entendimento ao real. para a ordenação da vida e sociedade humanas. A suprema realidade na história é o Reino de Deus que está vindo e que é presente agora como uma força explosiva em nosso meio. mas de objetivos tecnológicos e políticos muito específicos. O que sobressai aqui é a qualidade concreta de nossos objetivos para o futuro. “Valores” são transformados em necessidades humanas. Não mais acreditamos em Utopia. mas podemos confiar que novas e surpreendentes possibilidades. o julgamento do futuro sobre o presente não é um assunto de pretendida fidelidade a certos valores e ideais abstratos. tal como é observado empiricamente. literatura e drama. Neste caso. se pudermos pesquisá-la sem a visão-universal com que tem sido associada. quando empenhados num constante esforço para criar novos “projetos” e pugnar para fazê-lo realidade. “O que existe não pode ser verdade. o presente. Somente somos capazes de alcançar o possível se empreendemos o impossível. A potencialidade se coloca em aguda tensão com realidade porque o potencial é uma possibilidade histórica. e transcende. fazem o julgamento do status quo e nos fornecem um universo de discussão em que novos modelos e novos “projetos” podem se desenvolver. eternos. mudanças específicas necessárias e possíveis na 243 . As palavras transgressão e transcendência têm. tudo tem seu lugar. portanto. uma dimensão religiosa e sugerem que a teologia pode fazer alguma contribuição para este ponto. Realidade é a que está-vindo-a-ser quando nossa existência histórica se move para o futuro: como o diz Ernst Bloch. na confiança de que o futuro está livre.

mas o Criador. que torna rela244 . O mais paradoxal de tudo. expressa numa variedade de conceitos e imagens teológicas. entenderam com clareza. A vida humana é vista como mais humana. quando é perturbado por uma consciência infeliz. A segunda alternativa. como os escritores bíblicos e especialmente os profetas do Velho Testamento. Reconhecidamente.sociedade. onde comunidades humanas estão sendo constantemente confrontadas com novos horizontes para o futuro. sugerida pelas imagens cristãs de transcendência. No momento em que pensamos nestes termos. a história é o reino da liberdade e responsabilidade. quando é vivida em resposta a uma lealdade mais alta do que a própria. esta transcendência e transgressão radical pode ter só uma de duas fontes: Pode vir como resultado da atribuição de um valor infinito a um aspecto da realidade finita. Quando isto tem ocorrido. Para eles. quando não atribuem valor absoluto ao que estão fazendo. falha porque é idólatra. o futuro rompe a imutabilidade de nossas estruturas e instituições atuais e abre caminho para o crescente uso da tecnologia a serviço do homem. a Igreja Cristã não tem demonstrado sempre esta liberdade para romper com o que “é” por lealdade ao que está vindo-a-ser. Em cada esfera de existência coletiva. Se reunimos estes elementos num quadro mais compreensível de nossos objetivos. Porém. representa uma aposta de que estes símbolos e conceitos fornecem um indício para o que realmente está sucedendo no mundo e. O objeto de lealdade não é algum elemento do finito que foi absolutizado. possibilidades técnicas específicas que agora temos diante de nós. Esta lealdade absoluta a um novo ideal ou visão de uma nova ordem social pode fornecer a base para ação revolucionária dinâmica. A história é compreendida como não sendo autocontida. inverte todo este processo. tem sido alimentado por uma certa maneira de pensar sobre a realidade. quando se compenetra de que é chamado a um modo de vida e um padrão de ação que é como um castigo. isto é. Ao contrário. vamos de encontro a tremendas dificuldades. os homens são mais livres para lutar pelo melhoramento da condição humana. por conseguinte. e quando expressa a confiança de que a realidade — vir-a-ser-é basicamente favorável ao homem. afinal. não é determinada por leis absolutas que se efetuam inevitavelmente. o homem é livre para ser um transgressor da ordem em que vive. Basicamente. É uma criação humana que tende a violar a realidade e assim escravizar aqueles que lhe são mais leais. aponte o caminho para uma vida significativa e responsável.

Nesta situação. na verdade. Porém as velhas imagens bíblicas afirmam que a história está receptiva a um futuro mais promissor. Quando a fazemos. Estamos muito cônscios de que nossos ídolos têm pés de barro. podemos eventualmente ficar surpresos e chocados por uma nova linguagem e imagens de transcendência que podem ter implicações de longo alcance para a renovação da sociedade. e a luta para mudar o mundo faz sentido. 245 . Os profetas compreenderam muito bem que a linha entre idolatria e confiança na soberania é. seria fatal virar-se. Ainda é possível fazer esta aposta. e também de que todos os símbolos de transcendência teológica perderam sua significação e força. E seria fútil gastar nosso tempo discutindo o caso da transcendência cristã. em ação na vida e na história em relação ao qual a vida é livre. e fazer algo efetivo para transformá-los em realidade. contudo insistem que ela representou a escolha fundamental que determina o destino humano. que somos livres para ser transgressores caso isso seja útil para nosso vizinho.tiva e ao mesmo tempo apoia toda realidade criada. Somos desafiados a confiar num propósito e numa iniciativa. para novos ídolos. em desespero. muito tênue. Hoje nos defrontamos com uma situação incomum. no tempo mesmo em que novos recursos para transgressão e transcendência são indispensáveis para a luta revolucionária. e que homens e nações podem criar novos modelos de uma nova sociedade.

246 .

tenho ficado impressionado pela maneira com que o rápido avanço da tecnologia parece criar ou intensificar certos paradoxos em nossa sociedade: 1. a menos que possamos dar alguma indicação concreta de como os objetivos da revolução podem ser alcançados. se abandonarem a luta ou forem levados a agir irresponsavelmente. temos parte da responsabilidade de sua frustração e desespero. bem como dos resultados disso. esta inte247 . O máximo que pode esperar é participar de um diálogo mais amplo sobre estes problemas centrais — o que não é possível aqui. provê a ordem estabelecida com poder quase ilimitado de autopreservação. o teólogo não pode ficar indiferente a questões de estratégia e tática revolucionárias. Nos anos recentes. como aprendi há tempos na América Latina.V Uma Palavra Sobre Estratégia e Tática O fato de este ensaio já estar longo podia fornecer uma saída para um difícil dilema: Devido a seu interesse na realização de certos objetivos para o homem e a sociedade. De outro modo. Contudo. não temos o direito de apressar o povo a se tornar revolucionário. Ao mesmo tempo. Pela integração de sistemas. Portanto não temos escolha senão fazer pelo menos algumas observações preliminares sobre as perspectivas atuais da luta revolucionária. Mas não está preparado para discutir estas questões porque requerem um tipo de análise social e política de que não é capaz.

no sentido lato. Isto oferece uma oportunidade única para construir uma nova sociedade. pela destruição de toda a estrutura de poder e substituí-la por uma nova. bem como outros. e que fornece o poder e técnicas por meio das quais isto pode ser feito. líderes. Mas estes mesmos progressos significam que a revolução também pode causar desintegração social total e tornar necessárias novas formas de arregimentação. mas são incapazes de agir devido a inércia das instituições a que servem. A tentativa de mudar a sociedade. A tecnologia cria uma mentalidade que está interessada na análise e controle da ordem dada. e as mudanças produzidas pela tecnologia parecem contribuir para o surgimento de forças que tentam transtornálo. A mesma tecnologia cria uma situação social dinâmica. 2. pode não ser somente uma tarefa cada vez mais difícil. seja qual for a classe a que pertencem. Isto. a revolução tinha que realizar mudanças rápidas. usualmente em uma esfera restrita da sociedade. pode prejudicar a execução dos objetivos revolucionários. a tarefa do revolucionário. Se estes progressos estão se processando. revolução com luta de classes só tem um lugar relativo. antes que velhas estabilidades mais uma vez se firmassem. No passado. dentro do Establishment. não é tanto de substituir o sistema total do presente por um sistema totalmente novo. No passado. a autoridade e estabilidade das estruturas sociais significavam que mesmo a revolução violenta só podia causar um impacto limitado. Sob tais circunstâncias. a fim de que possam servir melhor o homem quando enfrentem novas realidades. para alcançar os objetivos dos re248 . As recentes repercussões de uma cruzada individual por auto-segurança é apenas um exemplo disto. hoje. mas também um meio. Frequentemente há muita gente. O colapso das estruturas de autoridade e a dinâmica de mudança social criam agora uma situação em que a mudança pode afetar todas as áreas da sociedade e penetrar muito profundamente nela. que pode com facilidade ser perturbado. porém. que só pode ser compreendida à luz do futuro e torna ineficazes todas as instituições que não se podem adaptar ao novo. revolução pode representar uma constante ameaça de caos por um longo período de tempo. mas a de rebentar as instituições sociais e mantê-las em movimento. o mais improvável. e aqueles que não o fazem. então uma nova estratégia de revolução é urgentemente necessária. que podem responder ao desafio do novo ou que já o fizeram. As linhas estão traçadas mais claramente entre os que entendem o que está acontecendo e correspondem. Neste esforço. 3.gração de sistemas representa um equilíbrio muito precário.

nossa ação deve possuir algo equivalente a um testemunho do futuro. Há algumas situações em que a rigidez da velha ordem e sua resistência à mudança não permitam outra alternativa. o despertar de gente de diferentes classes sociais para o que está acontecendo em volta deles e para ação responsável. e o início daquelas mudanças que fornecerão o maior potencial para mudança ulterior. o de forçá-las a ser mais arejadas e flexíveis. quer se incluam em nossas ideologias e esquemas.volucionários. que podem perturbar o equilíbrio precario de poder onde ele não estiver afinado com a realidade. e de seu fracasso em solucionar as novas questões básicas que pedem atenção. em total receptividade às suas exigências concretas. Podemos cooperar com o futuro que se está tornando uma realidade em nosso meio. podemos trabalhar por revolução permanente. e a reagir aos novos problemas de forma mais criadora. novas estratégias e táticas. O que se torna importante é o desmascaramento de injustiças específicas. no sentido de um assalto frontal a toda a estrutura da ordem estabelecida. que acontece tão frequentemente com os defensores do status quo. que já está invadindo o presente. Estes novos fatores sugerem as linhas principais de uma estratégia alternada e ajudam a criar as condições para seu sucesso. quer não. mais apropriadas para tal tarefa. mas para um grande número de pequenas vitórias. de ataques de surpresa e a escolha de lugares e momentos estratégicos para cada batalha. e produzir o tipo de mudanças que impulsionarão o processo revolucionário para novos estágios. Em vez de revolução total. pela qual a estrutura inteira é atingida por um número cada vez maior de desafios àqueles pontos onde mudanças são mais imperativas. terão de ser inventadas. Nossa crença de que o futuro está do lado da mudança revolucionária nos liberta de obsessão com a defesa de nossos sistemas e ideologias. no decorrer do caminho. Por esta razão. então ele tem as vantagens de iniciativa e criatividade. algum dia. Nosso objetivo não é. no distante futuro. primariamente. pelo contrário. Uma pequena vitória prepara o caminho 249 . Durante todo este estudo sugerimos que a perspectiva teológica de revolução nos liberta do determinismo histórico. ou mesmo do território sob nosso controle. ao mesmo tempo assegura-nos que somos parte de um processo revolucionário se encaminhando para um objetivo. o de subverter as estruturas atuais mas. Mas se esperamos contribuir efetivamente para a transformação da sociedade tecnológica avançada. Se a ação do revolucionário está de acordo com a realidade. Nossos esforços não serão tão orientados para um momento de vitória total. na velha ordem.

com frequência. com otimismo a respeito das perspectivas para revolução. Estamos munidos de uma estratégia baseada na reação espontânea de pequenos grupos em várias fronteiras diferentes. bem como o efeito de suas implicações. em movimentos revolucionários e que se nos apresentam agora. Uma empresa deste tipo pede movimentos revolucionários que estejam livres para explorar novos caminhos.para uma luta mais avançada. Ao longo deste caminho. Se esta estratégia tem êxito. Hoje parece ainda mais difícil responder. o resultado básico não será necessariamente o controle de certas esferas da sociedade por movimentos revolucionários. Desde que uma tal tentativa tenha êxito. A verificação desta hipótese. confirmados cada vez mais por pequenas vitórias e a aceleração do processo de mudança. Isto é o que tínhamos em mente no primeiro capítulo. flexibilidade e resposta às necessidades dos homens — que podem eventualmente tornar a revolução desnecessária. A questão de saber se é melhor trabalhar por renovação social. tendo em vista a solidez e criatividade potencial de nossa sociedade. mas a marca de mudança em instituições sociais — para a receptividade. O tipo de instituições e a concentra250 . existe a possibilidade de combinar realismo a respeito da sociedade e a respeito do poder das forças que bloqueiam a mudança. Em conclusão. Argumentar que ela tem uma chance representa uma profissão de fé. evitar as armadilhas em que tantas revoluções passadas caíram e perseverar durante uma longa e árdua luta. a qualquer preço. gostaria de discutir brevemente a relação desta abordagem com várias questões que têm surgido. de dentro ou de fora das estruturas. dependerá dos que têm os meios de análise social e a experiência revolucionária para fazê-lo. quando sugerimos que hoje estratégia e tática de revolução podem concentrar-se no desenvolvimento de um equipamento político da guerra de guerrilhas. Não temos garantias de que uma tal estratégia alcance êxito. o revolucionário pode achar possível travar uma difícil luta com a esperança. Só pode ocorrer em uma sociedade que seja capaz de reagir a novos desafios em vez de se refugiar em tentativas desesperadas de resistir à mudança. e a derrota em um esforço específico é a ocasião para um reagrupamento de forças. em duas ou três novas frentes. nossa sociedade pode descobrir que mudanças profundas e necessárias na ordem social podem ser realizadas sem a ameaça de total desintegração social. 1. sempre afligiu os reformadores. que podem ser coordenadas numa estratégia geral sem destruir a iniciativa local.

mas poucas perspectivas são menos prometedoras do que a de começar uma nova igreja. em qualquer outra parte. dentro ou fora da estrutura. ou não. de fora das estruturas. contra que se rebelaram originalmente. Aqui a coisa mais importante para os que estão mais empenhados 251 . tomar uma posição mais radical. A estratégia de ação de guerrilha oferece a possibilidade para uma redefinição do problema. exatamente pelas questões que mais os preocupavam. Muitas pessoas têm dado os melhores anos de suas vidas para uma tal luta. pode ser capaz de desafiar uma organização a fazer o que precisa ser feito. no governo ou mundo de negócios. Porém as perspectivas de executar qualquer coisa. Por outro lado. não são mais encorajadoras. só para descobrir que seus esforços quase não alcançaram aqueles pontos onde mudanças fundamentais eram mais urgentemente necessárias. Mas. o peso do passado e a relativa inércia de grandes estruturas burocráticas. Nesta perspectiva a coisa importante não é se um grupo está trabalhando por mudança radical. para tais grupos. mas se tem. uma clara definição de seus objetivos. sua própria auto-identidade e base de operação. onde isto é possível — de onde prosseguir com o trabalho. De fato. e um plano relevante de ação — mais do que sua relação com uma instituição particular de sua posição perante ela. muito cedo. e inserir certas pequenas esferas de relativa liberdade — dentro da estrutura. podem afinal acordar para descobrir que a batalha. as pressões para o conformismo e a necessidade de jogar o jogo conforme as regras pré-estabelecidas.ção de poder que cada uma representa criam uma situação em que é muito difícil fazer qualquer coisa efetiva a não ser de dentro. Mesmo se se tornarem poderosos bastante para causar um impacto. De uma tal base. muito diferente daquela de gente de outras instituições: Vemos pouca possibilidade de fazer alguma coisa efetiva trabalhando de dentro das estruturas burocráticas atuais. provavelmente. nada mais do que uma seita ineficaz. se travara alhures. podem descobrir que logo são ameaçados pela mesma tendência para a inércia e inflexibilidade. ter uma idéia mais clara dos objetivos para os quais estão trabalhando e preservar sua integridade como movimentos revolucionários. provavelmente. e podem terminar à margem da luta por mudança. na universidade ou na igreja. que a geração mais nova não está inclinada a cometer. Este é um engano. Nossa experiência hoje na igreja não é. não terão base para operações efetivas. que seria. É possível. tudo milita contra uma ação rápida e efetiva por mudança.

Mas em alguns pontos podem ser usadas efetivamente. Em algumas instituições há líderes que vêem a necessidade de mudança e que serão capazes de agir mais corajosamente devido a existência de movimentos que criam novas pressões por mudança. ou pode tolerar a existência. estas estruturas venham a tomar a iniciativa de fazer as mudanças necessárias. de grupos que estão trabalhando de maneira criadora e dinâmica. Estes povos que escolheram travar a batalha por renovação de posições de poder. Na medida em que as instituições sociais permitem hoje que tais grupos funcionem dentro delas. age quase contra a unanimidade da opinião política. não podem ser condenados tão só porque escolheram este caminho. Esta estratégia de colocar a tônica sobre pequenos grupos radicais. mas em formar um pequeno núcleo. a prioridade precisa agora ser dada ao desenvolvimento de novas perspectivas. dentro das estruturas. O revolucionário contemporâneo se sentirá inclinado a duvidar da possibilidade de assim trabalhar por uma mudança efetiva. Para os que fazem isto. com sua própria auto-identidade e programa. desenvolver uma nova perspectiva dela. Devemos ter muito pouca esperança de que. O importante é usá-las para os propósitos de transformação social. no futuro imediato. sempre que isto é possível. Para ele. Onde as estruturas são suficientemente abertas e flexíveis para corresponder criadoramente a novos desafios. não há mérito especial em estar fora das estruturas. estarem relacionados um com o outro de tal maneira que possam tomar uma posição contra a ideologia. isto é. e escolherá outra alternativa. Uma organização pode dar seu apoio oficial a um novo projeto que está tentando resolver um problema social urgente. que é livre para trabalhar em um sério problema. Só quando isto acontece será possível analisar uma situação específica. pesquisar novas soluções e desenvolver uma nova estratégia 252 . Não está interessada primariamente em unir grandes grupos na base do mais baixo denominador comum. Quando um esforço para fazer isto falha. criar novos modelos e elaborar uma estratégia efetiva para a ação. Tal abordagem deve evitar atitudes doutrinárias. movimentos revolucionários não são justificados. dentro de seu meio. à criação de novos modelos e à liberdade de ampla experimentação. deve ser livre para admitir o fracasso e começar de novo em qualquer outro lugar. regras e pressões na área em que estão trabalhando. contribuem para sua própria renovação e armam o revolucionário com os canais mais apropriados para a realização final dos objetivos.em trabalhar por mudança em nossa sociedade é ter sua própria autoidentidade.

mesmo nas mais desesperadoras situações. comunas e sovietes — uma expressão de seu profundo anelo de participação no poder público. são com frequência dominados pelas formas de autoridade e pelo ethos paternalista da velha sociedade. os que mais lucrarão com a revolução são incapazes de entendê-la e medrosos ou indesejosos de apoiá-la. as revoluções modernas têm sido a ocasião para o aparecimento espontâneo de toda sorte de organizações de trabalhadores e camponeses em ligas. procurará e aceitará o apoio de todos aqueles que podem. teremos alguma possibilidade de romper o velho impasse. em outros. que podem ser usadas como um instrumento eficiente para a mudança social. É mais improvável que esta tarefa possa ser empreendida por um grupo vasto e heterogêneo. cooperar em objetivos limitados. não. Quando isto acontece. Os revolucionários modernos não têm tido muito êxito em resolver o problema da participação das massas no processo revolucionário. é o tipo de estudo e reflexão que possa chegar ao âmago do assunto. desenvolver uma nova perspectiva dele e fornecer novas sugestões para satisfazer o presente desafio.de ação. Alguns dos trabalhadores que migram das áreas rurais acham sua situação 253 . Frequentemente. os revolucionários naturalmente supõem que seus esforços devam ser apoiados pelas massas. por qualquer razão. Se o elemento central na estratégia revolucionaria é a formação de pequenas unidades para uma luta política do tipo-guerrilha. Em alguns casos. 2. Por outro lado. Há muita gente e muitas organizações diferentes interessadas em mudá-la. muitos indivíduos e grupos diferentes podem ser agrupados para estudar e apoiar pelo menos alguns itens em um novo programa. Um exemplo do que desejo dizer é fornecido pelos atuais esforços para fazer algo sobre a política dos Estados Unidos em relação à América Latina. Uma vez que estão trabalhando para o melhoramento da sorte das classes não-privilegiadas. Um grupo que realiza isto ficará interessado em encontrar o maior número possível de aliados para um programa específico de ação. isto aconteceu. é importante encontrar os que são livres para explorar novos caminhos. a menos que esteja autenticamente relacionada com as massas e apoiada por elas. Uma estratégia política que depende de pequenas unidades de guerrilha não pode ter êxito. Camponeses. O que agora é preciso. Contudo tais grupos não têm usualmente sido encorajados ou tolerados por governos revolucionários. Neste estágio. contudo é preciso não haver ilusões sobre sua fidelidade nem exigir delas mais do que estão preparadas para dar. no entanto.

aqueles movimentos políticos que prometem eliminar o proble254 . Onde quer que os recursos da média de massa são usados para controlar “democraticamente” eleições. explosões periódicas de violência. mas. Tais organizações políticas elementares fornecem. isto requer um processo longo e intensivo de despertar de homens e mulheres para a situação sócio-histórica em que vivem e para a natureza de sua responsabilidade para com ela. Em anos recentes. o problema básico não é hoje conseguir que as massas participem mais ativamente da ordem política atual. Uma vez que estas pessoas tenham sido alienadas do que está acontecendo. Na maioria dos casos.tão melhor do que a antiga. nos fizeram encarar esta realidade — e deixaram muitos perturbados com o que viram. ou mesmo transferir o poder político de um grupo para outro. Por tanto tempo a sociedade tem tido tal êxito em esconder o sofrimento e descontentamento dos não-privilegiados e cobrir a violência dos detentores do poder. Subitamente cônscios da instabilidade da sociedade hodierna e do seu potencial de conflito. primeiramente. e não está preparada para lidar com ele. A revolução trouxe a questão do conflito e sua resolução mais uma vez para o centro da atenção. isto provavelmente só pode ocorrer em grupos muito diferentes da organização política tradicional. todo o processo eleitoral é viciado e limitada sua significação para a mudança social. avançar para a criação de novas instituições políticas. ao contrário. o contexto para um processo educacional em que um novo sentido de auto-identidade e uma nova visão do futuro podem tomar forma. Talvez venha a usar de movimentos com este sentido de identidade e relativa independencia das estruturas políticas atuais para provocar alguma mudança significativa nelas. e só será eficaz em larga escala se estiver relacionado com estas estruturas maiores — e se contribuir para sua transformação. outros estão de tal modo ameaçados pela insegurança total em que vivem. facilmente voltam-se para. e excluídas do processo de tomada-de-decisão. que muita gente tem ficado insegura sobre o papel do conflito na vida social. ou onde a estrutura política não permite uma escolha real entre diferentes ideologias e grupos dominantes. e apoiam. Para isto acontecer será necessário dar. 3. De fato. que pagarão quase qualquer preço por uma pequena garantia de estabilidade. nas nações em desenvolvimento bem como em nosso próprio país. portanto. atenção à formação daquelas organizações políticas mais básicas que possam ser a expressão autêntica da participação de grupos e classes diversas de pessoas na transformação de sua sociedade. que não estão inclinados à revolução.

É só assim que aqueles que desejam mudança podem saber o que é possível num momento particular. podem também estar despreparados e não equipados para seu embate com conflito. Na atual luta revolucionária. De fato. em satisfazer as exigências mais urgentes do negro neste país. Portanto. Conflito não é básico. Em fornecendo um instrumento eficaz para o uso de conflito limitado. e que aqueles que estão contra esta mudança podem ser levados a aceitar aquelas mais 255 . Uma perspectiva teológica conjugaria esforços nesta mesma direção. em certas situações. pode tornar possível evitar uma ideologia de conflito total. A menos que obtenhamos êxito. mas por sua integração numa estratégia de reconciliação. caso novas relações estejam para ser estabelecidas entre grupos e classes na sociedade. para a resolução do conflito através de entendimento e diálogo. salvar-nos do tipo de desintegração social ou resistência total a mudança. uma estratégia coordenada de ação de guerrilha numa variedade de frentes pode. não pode ser um fim em si mesmo. o conflito é aceito simplesmente pelo que é: um elemento essencial em certas situações. Não crê que a ordem social deva inevitavelmente cair. não por tentativas constantes de suprimi-lo ou limitá-lo. sua tendência pode ser formular uma ideologia de conflito que exagera sua importância e conceber revolução em termos de luta total. quando se permite que o conflito se manifeste. mas mesmo encorajado. porque sua luta o traz à superfície. E a reconciliação envolve o estabelecimento de novas relações em e através do conflito. Estão completamente cientes dele. acredito. assim. indicar uma alternativa. de parte da ordem estabelecida que protela a execução dos objetivos da revolução. o conflito deve não só ser permitido. Como a violência é usada contra eles e eles descobrem quão difícil é conseguir mudança sob tais circunstâncias. Isto implica em que. o conflito é controlado.ma pela supressão efetiva dos elementos subversivos. Esta mesma abordagem teológica coloca todo conflito no contexto de um movimento para reconciliação. por outro lado. e. de ambos os lados de uma luta revolucionária. Os revolucionários. e não a sua eliminação. as pessoas tenham a liberdade de distinguir as oportunidades e delas tirar vantagem. Fundamentalmente. um tipo de realismo que não pode conceber paz e estabilidade independentemente de justiça reconhece que. relativamente cedo. o movimento pelos direitos civis pode bem fornecer numerosos exemplos disto. O realismo bíblico é livre para ver o lugar do conflito na sociedade e aceitá-lo.

as agudas e difíceis questões éticas que surgem. Entre os que hoje estão preocupados com mudança social. A possibilidade de combinar participação nos esforços para transformar a sociedade com uma atitude de re256 . que pode manter um senso de humor que lhe permite rir de si mesmo. A despeito do fato de esta ênfase nos ideais e princípios ser um apelo especial para as pessoas religiosas. No passado. e. Estes fatores são muitos. o revolucionário mais autêntico é o que pode conjugar compromisso pleno e um certo grau de afastamento.urgentes. Um grupo de ideais e valores éticos gerais têm muito pouca significação. desenvolve uma maior sensibilidade para aqueles fatores externos e internos que bloqueiam a execução dos objetivos da revolução. e avança para um maior envolvimento nela. Ao mesmo tempo. os impasses criados em situações de conflito podem ser superados. a mais importante questão referente à estratégia pode muito bem ser de outra ordem. de ambos os lados da luta. As novas regras necessárias não podem ser elaboradas abstratamente. Passa a ver mais claramente a importância e significação de sua opção pela revolução. exceto se se tornarem mais concretos em situações históricas particulares. Para aqueles que estão dispostos a combinar um compromisso com a revolução e um diálogo com a teologia. as pessoas podem se dedicar a uma busca de novos meios de reflexão sobre um problema específico e sobre novas soluções para ele. entre eles: a tremenda carga da tarefa em si. na situação dinâmica em que nos encontramos hoje. Hoje. e que pode manter uma atitude crítica em relação a todo pensamento e ação revolucionários. desta maneira. e o fato de que. e. estes elementos ajudam menos. a tendência inevitável de movimentos deste tipo para absolutizarem sua posição e se mostrarem desinteressados de julgamentos críticos sobre seu ponto de vista e seu trabalho. Neste arcabouço. o pensamento criador requer um contínuo processo de revisão ideológica. poucas coisas são mais importantes do que a maior exploração das possibilidades que oferece uma estratégia de reconciliação. pelos movimentos a ela dedicados. começar a avançar confiantemente para o futuro. as imagens bíblicas sugerem uma abordagem bem diferente. isto podia ser em parte alcançado por meio da insistência em certos ideais éticos que expressavam o tipo de sociedade pela qual a revolução estava lutando e os meios pelos quais ele podia ser atingido. Em outras palavras. A pessoa que vive este diálogo logo se torna consciente de uma tensão a crescer dentro de si própria. a exigência de idéias e regras novas.

sejam cristãos ou não. inteiramente envolvido “no” mas não inteiramente “do” mundo. que expressa e ao mesmo tempo indica a nova realidade de existência social. em meio à luta revolucionária. e a melhor estratégia para chegar a este objetivo. hoje. Para os que são cristãos ou têm algum interesse no diálogo com a 257 . e propicia um laboratório em que seus diversos aspectos podem ser trabalhados experimentalmente. mas de uma comunidade viva. Contudo. com a participação daqueles que mais possam contribuir para o seu êxito. uma tal comunidade revela. regional e nacional. a forma da nova ordem se torna mais clara através não da definição de um grupo de ideais. e aqueles movimentos que são os mais importantes instrumentos de mudança social não são vistos nem como perfeitos. um “povo eleito”. e dentro de uma abertura radical para a confrontação ideológica e livre discussão entre os comprometidos com a revolução social. põe em dúvida as mais altas realizações humanas. de um jeito ou de outro. Além do mais. É óbvio que. a razão original para e o propósito da igreja foi precisamente este: ser um povo chamado para a existência e tirado do seu contexto atual. as possibilidades ali existentes e o meio pelo qual podem se tornar realidade. o tipo de sociedade que pode e deve ser edificada no futuro. Se este plano puder ser levado à frente. pode oferecer um novo modelo para o tipo de comunidade que estamos sugerindo. Numa tal comunidade. um programa maciço de desenvolvimento da igreja não realizaria este propósito na revolução contemporânea. em escalas local. nem como por completo indispensáveis. constantemente receptivo ao “Reino de Deus” que está agora “acontecendo” em nosso meio. crítica e liberdade. Propõe-se a encorajar. o estudo e a reflexão constantes sobre o que está acontecendo hoje na América. o quadro que se desdobra da nova ordem. precisam dar lugar em sua estratégia para algum tipo de comunidade que possa se empenhar nesta tarefa e fornecer o arcabouço para reflexão. servindo-o em liberdade. a fim de estar ali para o homem. em termos bíblicos. A forma exata de tais comunidades terá de ser determinada por estudo e experimentação. Por mais surpreendente que isto possa parecer a muita gente hoje.lativa liberdade e julgamento crítico vem de ser parte de uma comunidade que tem um ponto de referência além da luta social imediata. Um dos sinais mais encorajadores de um desenvolvimento deste tipo é o plano do Projeto de Educação Radical dos Estudantes para uma Sociedade Democrática. todos os revolucionários e movimentos revolucionários. Quando isto acontece. Talvez hoje o centro de estudos e núcleos similares em escala local indiquem uma possibilidade.

Minha própria convicção sobre isto é o resultado de alguns anos de trabalho com os Movimentos Cristãos de Estudantes Latino-Americanos e a Comissão sobre Igreja e Sociedade na América Latina.teologia. Tais grupos não podem ter a pretensão de ser movimentos políticos. numerosas pessoas e movimentos sem especial interesse ou relação com a comunidade religiosa Protestante reconheceram a significação do trabalho destes grupos para eles e para a luta em que estão envolvidos. Mais do que isto. Porém podem oferecer o contexto para um contínuo colóquio entre nossa herança teológica e ética e as principais questões humanas que se apresentam. do surgimento de novas formas de comunidade cristã nas linhas de frente da revolução. não precisam fazer exigências de autoridade especial. Em ambas as organizações. Qualquer esperança de uma contribuição cristã significativa às lutas revolucionárias em processo no mundo dependerá. acredito. nem excluir ninguém interessado em seus objetivos. bem como a estruturação de contatos muito mais amplos. não sem alguns resultados encorajadores. e os recursos utilizáveis em uma tal luta podem se tornar mais visíveis através de um tal esforço. na tentativa de transformar a sociedade. Têm estado empenhadas numa longa e difícil luta. a formação de pequenos núcleos em escala local. 258 . tem oferecido uma oportunidade para análise da situação latino-americana e reflexão sobre ela e tem ajudado a apoiar aqueles que estão empenhados na presente luta. ambas as organizações tendo estado trabalhando na tarefa de criar tais comunidades nas fronteiras revolucionárias. É bem possível que em tais comunidades débeis e sem forma específica possam tomar forma idéias e questões novas que serão de importância para o movimento revolucionário como um todo. é preciso acrescentar uma palavra final.

258-259. 4.G. pág. Capítulo III REVOLUÇÃO SOCIAL E TECNOLOGIA: O PARADOXO DE NOSSA HERANÇA 259 . págs. pág. pág. eds. 2 Citado por Deming Brown.”. “The Man from S.Notas Capítulo II A BUSCA DE UM NOVO ESTILO DE VIDA 1 New York: McGraw-Hill. Wolin. 1966)... The Berkeley Student Revolt [A Revolta Estudantil de Berkeley] (New York: Doubleday. 1963.M.. 5 New York: Viking Press.O. “Thoughts of the Young Radicals” [“Pensamentos dos Jovens Radicais”] uma coleção de artigos recentes do New Republic. 3 Veja. 4 “An End to History” [“Um Fim para a História”] em Seymour Martin Lipret e Sheldon S. eds. The New Student Left [A Nova Esquerda Estudantil] (Boston: Beacon Press. 6 Ibid. Também Mitchell Cohen e Dennis Hale. 219. 20 de março de 1966. 1965. 88. como exemplo. 1965).

3 Cambridge: Harvard University Press.. A divina loucura é mais sábia do que a sabedoria do homem. 46-47.. 3 “A Letter to the New (Young) Left”. Capítulo IV IDEOLOGIA E TEOLOGIA 1 In Methodology of the Social Sciences (New York: The Free Press. The Modem Polish Mind (New York: Grosset & Dunlap. págs. 1964). 1961). op. cit. One-Dimensional Man (Boston: Beacon Press. para subverter a ordem existente” (V. Deus escolheu o que o mundo considera fraqueza. em Cohen and Hale.1 New York: Scribners. 112. um livro que tem algumas coisas importantes a dizer sobre este problema. 1965. pág. 4.. 5 O Apóstolo Paulo expressou isto. entre os movimentos que são os mensageiros do humanismo messiânico e os que são “messiânicos” num sentido diferente. pág.. meros nadas. 1965. 4 Estou bem certo de que esta palavra nos sugere usualmente algo muito diferente de seu significado original. o poder de Deus e a sabedoria de Deus. 2 Em Maria Kuncewicz. 1964). Escolheu coisas baixas e desprezíveis. Talvez o tempo venha a reabilitar a palavra e distinguir entre autêntico e falso messianismo. 22-29). em sua própria maneira decisiva.. Mas o conceito é importante. 2 Citado por Dexter Perkins em The United States and Latin America (Baton Rouge: Louisiana State University Press. 1963). mas nós proclamamos Cristo — sim. Cristo pregado na cruz —. e não conheço outro meio de expressá-lo. ed.. 6 Estas expressões são do livro de Herbert Marcuse. em uma passagem do primeiro capítulo de Corintios I: “Os judeus pedem milagres. 260 . e a divina fraqueza mais forte que a força do homem. os gregos buscam sabedoria. Para envergonhar o sábio.

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