Olá, Julien. Como estão as coisas? Compadre, desculpe a demora.

Gostaria de ter escrito antes, como prometi a você quando deixei o Chile e voltei ao Brasil, mas me tornei mais uma engrenagem proletária da rotina cosmopolita, operário da informação que faz as boas novas voarem mais rápidas que as andorinhas do sul. Nunca é tarde para lembrar de um amigo, e de repente você está na ponta dos meus dedos enquanto, através deles, minha história escolhe os verbos nesta carta para você. A gente se fala pouco, mas sei que moro em algum lugar aconchegante das suas boas memórias. Porque, meu velho, ainda levo muito da sua sinceridade no coração. Como vai a Fabiola? Ela me enviou uma mensagem esses dias dizendo que vocês não estão mais morando juntos, mas que seguem apaixonados. Talvez esse seja um dos poucos imperativos de vida com que me deparei, afinal, vocês já estavam apaixonados naquele janeiro de 2007, quando nós três dividimos apartamento por essas paragens de Santiago. Foi lá que percebi que estava ao lado de grandes amigos. Quando voltei para o Brasil, perdemos contato pela primeira vez. A gente bobeou, de verdade, não é sempre que cruzamos

com pessoas especiais, tem que estar atento, estas coisas marcam a vida. Trocamos dois ou três emails e nada mais. Nunca esqueci daquelas noites nas esquinas de La Quinta, quando a gente bebia e bebia, e quando a gente ouvia Sabina e a boemia, e passava horas discutindo Bakunin, com o vinho barato no copo e ouvindo Sabina, e bebendo, e discutindo Bakunin, e mais vinho enchendo o copo toda terça em Bella Vista para La Noche de Sabina, e bebendo a boemia, e discutindo com o Sabina o barato Bakunin. Por isso em mim, compadre, em mim havia uma certeza quando joguei o dedo pro sul e caí na estrada naquele março de 2008. Eu sabia que chegaria até vocês. E chegaria mais forte, Julien, mais convicto e feliz. Mas te escrevo porque, da última vez que nos falamos de frente, olho no olho, antes de você fechar a porta daquele mesmo apartamento e colocar o verdadeiro ponto final na minha solitária aventura caroneira, você me pediu que te enviasse uma carta contando como cheguei até vocês assim, mais forte, mais convicto e feliz. Não esqueço que depois de passar mais de um mês

viajando por aí, sem grana ou expectativas, caroneando pelo sul e levando o passado como bússola, foi seu o último abraço, o último adeus. E isso foi importante pra mim, cara, isso foi realmente importante. Agora chegou a hora de te escrever esta história. Ela voa entre Ponta Grossa e Santiago em cada quilômetro por onde tudo aconteceu, pelos caminhos que asfaltaram a história de um rapaz, ainda jovem de 23 anos com uma mochila nas costas, R$300 no bolso e o dedo apontado para o sul, por onde iam e vinham minhas esperanças de desbravar as vielas e entrecantos desse jovem de 23 anos com uma mochila nas costas, R$300 no bolso e o dedo apontado para o sul. Acho que o verdadeiro significado daquela viagem ensandecida começou a ficar mais claro quando ainda estava em Joinville, tentando chegar a Florianópolis no mesmo dia. Aquela foi uma tarde difícil, compadre. Ainda sinto como se fosse hoje, estava debaixo de um sol truculento, ao lado de uma rodovia impiedosa. Era apenas o segundo dia e pela BR101 eu só conseguia pensar:

“Que merda eu to fazendo aqui?”

O negócio é que, apesar do poeta que você conheceu, do companheiro que encontrou para desbravar em incursões etílicas as rimas dos versejadores da sua França, apesar de Baudelaire e Rimbaud, meu velho, cursei jornalismo, e mesmo sendo do time dos românticos, depois de quatro anos de universidade eu tinha um diploma na parede e muitas náuseas. Da do mundo, da porcaria da profissão que fui me apaixonar, da máquina de

moer sonhos que a vida se tornou. Isso sempre acontece com caras assim, um pouco ortodoxos, ranzinzas aos 23 anos, desanuviando o sol de seus corações num dia nublado de um looooooooongo outono. Como algumas tardes escuras que vivemos aí, daquelas que fazem o branco dos Andes sombrear. Talvez o que tenha me levado para uma viagem tão solitária e introspectiva, com grana para algumas migalhas e movendo-me, por método e necessidade, apenas carona, mochila no lombo como o destino estradeiro, foi essa maravilhosa náusea, a expectativa de balançar pra lá e pra cá naquelas curvas e montanhas até encontrar no meu mapa a reta mais tranquila. Também pra vomitar no mundo uma certa angústia, o asfalto e a solidão como meu antiácido radical, pois ainda nauseado me vi em Joinville, cara, no acostamento da 101 e com o dedo apontando para o sul, pra onde eu vou e de onde sempre volto. Nas costas, vinte quilos e meio de incertezas e tranqueiras socadas numa Trilhas & Rumos verde, de 70 litros, que já se provara ser um de meus maiores enganos. Não pela mochila, que era resistente e confortável, mas pelo peso das

inutilidades que empilhei nela. Tome nota. Equipamento de camping: inútil, exceto pela barraca e a lanterna a dínamo que você ficou encantado quando descobriu que não precisava de pilhas. Nada de três livros de trezentas páginas: Como Me Tornei Estúpido, de Martin Page, é suficiente para te convencer da sua estupidez e persistir nela. Além do mais, ninguém precisa de várias mudas de roupa, três dariam conta, por mais que você tente se manter limpo, numa viagem como essa uma ducha por dia é luxo. De qualquer forma, você está sempre fedendo, a roupa, o corpo, a alma. Encare os fatos, quando se está sozinho num deserto asfaltado e moderno como a 101, e a água de seu cantil ferveu junto com sua esperança, então, compadre, só resta sua alma para evaporar.

Eu lembro muito bem quando a minha começou a evaporar

Foi em 16 de abril de 2008, dia que definitivamente decidi levar o “Projeto Raul Do Quê?” para a estrada. Nos primeiros meses, o “Raul Do Quê?” era apenas um plano absurdo da mente alucinada de um amigo chamado Rodolfo. Lembra quando te contei sobre um sujeito que, bêbado após intermináveis horas de discussão filosófica no bar onde costumávamos nos encontrar, simplesmente se levantou, dirigiu-se até a sala de jogos, tirou o pau pra fora e mijou na mesa de sinuca? Esse é o Rodolfo. Foram quatro anos ao lado desse trôpego genial e, no fim das contas, o cara escreveu um livro reportagem chamado De Carona: Sentido Sul.

Era o trabalho de conclusão de curso (TCC) sobre a viagem que fez de Ponta Grossa, no Paraná, até o Chuí, todo de carona e com poucos caraminguás no bolso. O negócio é que ele se empolgou com o lance e queria um parceiro para uma empreitada maior, uma viagem até o Chile, talvez até a Venezuela. Uma viagem que durante uma brisa de maconha ele resolveu chamar de “Raul Do Quê?”, justa homenagem ao mestre Raoul Duke. Mas eu só queria paz, compadre. Havia lido Hunter Thompson demais para me tornar gonzo, fumado pelo menos cinco becks por dia nos últimos 10 meses por conta de um maldito e interminável livro que escrevia naqueles idos, e tinha acabado de tomar um pé na bunda doído demais da garota que acariciou meu coração por quatro anos, da garota que seria a mãe de meus filhos, a avó de meus netos e meu inferninho semanal. Puta que o pariu, era foda pra caralho. Naquele momento, cara, eu estava sozinho com a 101, e o Rodolfo distante muitos quilômetros ao norte, nas saias da vagabunda que convenceu o desertor a ficar. E aquela garota, compadre, aquela garota ainda me quis de volta, disse que me esperaria mas que o seu eterno era relativo, que me

amava, mas eu precisava entender o quanto o tempo era impiedoso. O que ela não sabia é que os ponteiros do meu tempo já giravam alto no peito naquela tarde. Eu ainda me acostumava com os caminhões que passavam lufando e as bofetadas de ar quente e seco que restam do vento. O negócio é que quando se está na estrada, sobrevivendo de doses homeopaticamente grotescas de solidariedade, cada carona, cada golpe de sorte, um a um dos breves avanços que asfaltam o horizonte, tornam-se a mais sincera oração aos deuses bêbados e chapados do coração dos destemidos e dos impertinentes. Do nosso coração, meu velho. São esses filhos da puta que te dizem pra continuar porque aquilo é muito louco e vale a pena. E eu sabia disso, só estava cansado do último dia com toda aquela tensão, aquele clima de adeus e uma saudade ardente da rotina e do conhecido. Além do mais, o Rodolfo me acompanhou na primeira carona. Acordamos cedo naquela manhã, devia ser umas 8h e o calor já estava forte em Ponta Grossa, leste do Paraná, onde tudo começou. Pegamos dois ônibus até desembarcarmos no acostamento da 376, que leva até Curitiba.

Era a primeira e única página de Rodolfo no “Raul Do Quê?” e aquilo deixava o clima de despedida ainda mais dramático. Levamos duas horas até conseguir a carona. Houve um momento que nos separamos, talvez sozinhos as chances aumentassem, e foi nessa hora que Seu Alceu parou aquele Golzinho verde na minha frente. A sorte foi que aquele senhor topou um segundo caroneiro e Rodolfo embarcou também. Compadre, aquilo foi um presente do destino, uma carona apenas, juntos em uma carona apenas, mas juntos, como deveria ter sido. Rodolfo desembarcou em Curitiba e eu segui em frente, pude então enxergar nos olhos de perdão de um amigo o arrependimento prematuro daqueles que viram as costas para um parágrafo intenso da vida. Tudo por um amor, a porra de um amor, e o amor é sempre uma péssima escolha quando se tem vinte e poucos anos. Mas a Fabiola é uma garota incrível, cara, é uma exceção que confirma a regra. Se não fosse por ela, aquelas horas no miocárdio da 101 teriam sido muito mais difíceis. Foi ela quem me apresentou o charme boêmio de Sabina, e muitas vezes ao lado daquela rodovia eu tentava responder quando ele cantava...

...“¿Quién me ha robado el mes de abril?”
Eu passaria todo aquele abril na estrada e Sabina me fazia pensar sobre o que os amigos estariam fazendo mais ao norte, sobre as festas das quais eu não participaria, um abril todo em que as minhas histórias, por mais intensas que fossem, não teriam a beleza de seren compartilhadas, ninguém, além de mim, as carregaria nas ideias. Quando cheguei em Joinville já era noite, Cristiano parou seu Mercedinho compacto e vermelho, lotado com os cilindros de oxigênio que abasteceriam hospitais da região. Desci na maior cidade de Santa Catarina que, segundo o cara, fica à esquerda, logo depois da primeira chuva. Dormi muito bem na casa de uma prima que não via há quase uma década e foi estranho encontrá-la casada, com filhos, marido e uma vida estável. Pra falar a verdade, tinha poucas recordações dela e talvez por isso fiquei apenas uma noite em Joinville. Saí logo depois do almoço, quando o sol estava ficando raivoso. Era outono, os raios despencavam sem pena lá de cima de um céu azul e sem nuvens, a cada minuto eu podia sentir o asfalto da 101 derretendo mais e mais a borracha de meu All-Star velho.

Após três horas no acostamento ainda tinha o dedo apontando para o sul. De repente, uma Saveiro branca, que vinha a uns 160km por hora lá do horizonte daquela imensa reta da 101, começou a diminuir até brecar, uns 500 metros ao norte. Era um rapaz jovem que acenava para que eu me aproximasse. “E aí, amigo, indo pra onde?”, perguntei. “Balneário, mas o carro está cheio, não sei se cabe você”, disse já abrindo a porta do carona e mostrando quatro caixas sobre ele. “Se não fosse tua mochila, rolava”, eu e meu malfadado, imprescindível e pesado fardo. “Infelizmente não posso deixar ela por aqui, ela não vive sem mim, sabe como é?!”. Ele riu, coçou a barba rala e tentou encontrar uma solução, “rapaz, difícil viu, você está aqui há muito tempo?”. “Talvez umas três horas, desisti de contar depois disso”, engolir o pessimismo e jogar com a simpatia, compadre, às vezes funciona. E funcionou. Abrimos as quatro caixas de papelão recheadas de cookies que a transportadora de Ricardo leva pelos três estados do sul, empilhamos os biscoitos atrás do banco e as caixas ficaram

dobradas entre a marcha e meu banco. Quando sentei, alguns cookies ruíram e os pacotes gemeram, a mochila ficou no meu colo, em diagonal do joelho até o queixo, e seguimos rumo a Balneário comprimidos como os ingredientes de um comprimido relaxante. Porque, com certeza, aquilo era muito mais relaxante que o acostamento da 101. Ricardo é um sujeito interessante, curitibano e tarado por velocidade, especialmente quando está sobre a moto turbinada que sempre empresta do irmão nos rotineiros momentos em que é preciso esquecer os problemas nos ponteiros do velocímetro. Eu sei, Julien, a gente costumava zoar esses caras que medem a macheza em km/h e o inchaço dos colhões nos decibéis dos pneus cantando. Não pense que esse ato isolado mudou minha percepção rude de que estes sujeitos têm carências sexuais graves, mas foi um deles quem me deu carona, cara, depois de três horas foi um deles quem me deu carona. Na verdade, o cara só parou porque lembrou de um grande amigo de infância que agora está nos Estados Unidos. O tal amigo viajou até a América Central, um pedaço no dedo e outro numa moto meia-boca, e contou pro Ricardo como cada carona

foi importante, como cada metro avançado era um desafio para a sanidade. Foram essas palavras, vindas da lembrança de um amigo distante, que tocaram Ricardo e fizeram com que apertasse o freio e me deixasse entrar. Estas sincronicidades me levam a crer que há, entre os loucos e os viajantes, uma conexão aurática que nos protege. Não conversamos muito, eu e Ricardo, ambos viveram tempo demais na capital do Paraná para saber que o silêncio é o discurso mais importante entre dois desconhecidos.

Ainda que sejam os desconhecidos de agora
Eu esperava encontrar um novo desconhecido em Florianópolis. Fazia uns cinco anos, talvez mais, que não via meu primeiro amigo, Pedro Sinhori, que não escutava sua fala arrastada e o jeito tranquilo que lhe forjou o apelido de Marmota. Tínhamos apenas quatro anos de idade quando nos conhecemos, éramos vizinhos de quintal e estudávamos na mesma escola, uma verticalidade católica no sudoeste do Paraná. Hoje o cara já é advogado, mas quando estive lá ele ainda estava cursando Direito na Universidade Federal de Santa Catarina. Lembro que o Pedro pareceu um pouco espantado quando respondeu minha mensagem falando sobre o “Raul Do Quê?” e perguntando a respeito de pouso na sua casa. Só que as viagens e o destino partilham um mérito, a imprevisibilidade. Para chegar até Pedro tive de esperar por quase seis horas num posto de gasolina onde vi o sol cair, lá para os lados do pampa, e de onde pensei que nunca mais sairia. Aquele posto tinha tudo que era necessário para uma aproximação cordial: cafeteria numa loja de

conveniências. Entretanto, por algum motivo sobrenatural, cada uma daquelas malditas pessoas e suas viagens em família, suas aventuras litorâneas, cada uma delas tinha um ótimo motivo para não me dar carona. As vezes uma pressa idiossincrática, já que partilhávamos, eu e o dono e único ocupante de um Vectra quatro portas, da vontade de chegar o mais rápido possível ao mesmo destino, Florianópolis, mas sua forma única de pressa o impedia de se solidarizar com a minha. Outras simplesmente porque não, não queria um estranho no seu carro e ponto. E ponto. Para o senhor de bigode bem aparado o problema era que aquele importado maravilhoso não o pertencia. Ele era apenas o motorista de um dono de banco. Eles eram amigos, mas, veja bem, existem regras. E imagine que esse é o carro reserva, o titular é imenso, modelo novo. Então, talvez não houvesse problema, é o carro reserva, afinal, seria uma gentileza, veja minha identidade, pergunte aos frentistas, conversamos muito durante as seis horas que esperei, sim, sim, eu disse seis horas. Mas não sei, meu jovem, Florianópolis é grande, o máximo que posso fazer por você é deixá-lo na entrada da cidade. Não havia problema, de lá posso tomar um ônibus para o Saco dos Limões. Você disse Saco

dos Limões? Sim, parece que é perto de uma escola. Eu moro em frente a uma escola. Seu Nelson, motorista há mais de 35 anos, morava na escola em frente ao prédio de Pedro. Meu velho amigo me esperava recostado na porta de seu Corsa. Achei que não o reconheceria, mas lá estava ele, um pouco mais gordo e cheio de pelos, provavelmente mais cheio poréns e angústias também. Nos abraçamos e antes que eu pudesse expressar meu profundo desejo de modestos cinco minutos debaixo de um chuveiro, Pedro me disse que não tínhamos tempo a perder. Diferente do que imaginei, mesmo após tantos anos, a gente ainda era muito igual, jovens esfumaçados de barba e esquerda bem cultivada, curtindo a vida e tentando fazer as coisas darem certo no tranco. Nos três dias que estive lá, acho que bebemos todas as cervejas que deixamos para trás nesses anos, fumamos no alto do Saco dos Limões aqueles becks que o destino não bolou para nós. Você curtiria beber algumas com o Pedro, ele é dos nossos. Mas devo confessar que a viagem estava sendo muito mais nostálgica do que eu esperava. Talvez tivesse algum pedaço do passado faltando no

meu futuro e aquela era a hora de arrumar isso. O negócio é que rever o Pedro e sentir que nossa amizade ainda estava ali, ainda que naqueles dois novos desconhecidos de agora, foi uma curva que nessa jornada mexeu com alguma coisa dentro de mim, alguma coisa entre a amizade e o tempo, entre a amizade e o tempo se perdendo nas encruzilhadas da vida. Eu sei que a cada linha pareço mais piegas, mas é que a cada dia na estrada eu me tornava mais sentimental, sem brincadeira, esse negócio abala a gente de verdade. Deve ser o tempo exagerado que se tem para conversar consigo mesmo no acostamento, as horas excessivas para matutar sobre a vida e a solidão. Parece que nós, modernos, assim, pós-modernos nós, desaprendemos a escutar o primata EU e todos os seus medos, lamentos e alegrias. Só que na estrada esse macaco angustiado grita na sua orelha o tempo todo, e então você percebe o quanto ele precisava falar contigo. Desabafar. Explicar como você é um maldito e lindo filho da puta. E ele veio berrando e chorando e sorrindo e lembrando e vivendo comigo nas 14 horas de viagem até Porto Alegre. Porque foi realmente foda chegar em Porto Alegre, você não faz ideia.

Senti a velha amiga debaixo dos meus pés, a 101, e via lá atrás a Ilha que diminuía,.Pedro ficava com a promessa de outra visita em breve. Sei que você também tem esse espírito estradeiro, essa mesma aflição por viver mais e mais intensamente, então, quando quiser uma longa carona, procure o primeiro ou segundo posto bem frequentado da rodovia e teste a sorte. A minha rebateu em Pingo e Alexandre, uma dupla que viaja junto em dois caminhões de mais de 2 400 metros feitos para transportar maquinário pesado. O problema é que os possantes não passavam de 80 km/h, além do mais, um dos caminhões passou o trajeto todo apagando até arriar de vez há apenas 100 quilômetros de Porto Alegre. Era a primeira hora da madrugada e eu estava novamente caçando carona em outro posto de gasolina. Com a ajuda de Pingo, que convenceu o único caminhoneiro acordado daquele posto a seguir viagem, consegui embarcar. Naquela noite acabei acampando no jardim da Gerdau, periferia de Porto Alegre, e apenas na manhã seguinte consegui chegar na rua Lopo Gonçalves, lugar onde planejava me hospedar.

FAG – Federação Anarquista Gaúcha
Era o que estava escrito na placa colada no portão daquela casa, no final da Lopo, centro de Porto Alegre. O lugar parecia grande, com uma janela virada pra rua e chão de madeira por onde os ratos já faziam buracos nos cantos. Aquela era a segunda vez que eu entrava na FAG. Quando conheci a Federação ainda estava escrevendo meu TCC, e eles acabaram protagonizando um capítulo. Na época ainda militávamos em lados opostos do anarquismo, mas quando toquei pela segunda vez a mesma campainha, eu sabia que alguma coisa estava mudando. Acontece que, como toda fatia política, nós, anarquistas, também somos fragmentados, e as rixas internas são, muitas vezes, irreconciliáveis. A FAG busca um anarquismo organizado e se comporta como um grupo orgânico, só que sem hierarquias e eternamente distante da via eleitoral. É uma proposta entre as propostas e assim os caras pretendem recolocar o anarquismo como uma opção na esquerda. Eu só queria o caos. Minha escola era do individualismo, usava uma camisa de Max Stirner, o filósofo do sindicato dos egoístas, e havia lido compulsivamente Hakim Bey, seu herdeiro ontológico. Lutava por um anarquismo cru e pela

porralouquice, acusava os federalistas de anarcobolcheviques, de burocratas. Mas eu amadurecia por quilômetro rodado, compadre, e se havia motivos para viajar, o meu sempre foi libertário. Eduardo abriu o portão. Ele é do secretariado da FAG e ainda lembrava de minha primeira visita, mas eu não havia comunicado nada sobre voltar. Sentamos no sofá da sala, em frente a uma imensa pintura em preto e vermelho que toma toda a parede lateral e estampa o rosto de vários personagens importantes na história do anarquismo. Logo abaixo, o lema da federação: “Não tá morto quem peleia”. Eduardo ofereceu um pouco de chimarrão e começamos a papear. Com seus 33 ou 34 anos eu não conseguia acreditar que aquela cabeça toda calva um dia equilibrou um moicano. O negócio é que hoje o Eduardo é pampeano, gaudério de tudo, mas há alguns anos ele cantava Cólera com a raiva mais sincera do mundo. E enquanto conversávamos como dois companheiros sobre a vida, a teoria e a profundidade de todos aqueles caras rabiscados no coração da FAG, ficava mais claro que quem mudava era eu. Era o que restava ao percorrer todo

aquele trajeto sozinho, pois a solidão te faz confidente. Talvez por tudo isso, minha visita de quatro dias a Porto Alegre resumiu-se àquelas paredes. Eu não sentia vontade de andar pela cidade, queria simplesmente inspirar aquela brisa libertária até meus pulmões estourarem. Saía de vez em quando para uma volta ou outra pela região, e quase toda noite ia para algum bar próximo me embebedar com o Jucá, o editor mandachuva cheio de bichogrilagens d' O Dilúvio, a primeira revista em creative commons do Brasil. Eu lia a publicação há um certo tempo e enviei um e-mail a ele propondo uma cerveja, que se tornaram várias, em várias noites. Nunca esquecerei a primeira delas, num bar agradável com pufes alaranjados e decoração pop art, a noite em que vendi minha primeira pauta como jornalista formado. Preço: seis cervejas, de garrafa. Hoje sei que aquilo era uma clara premonição sobre o futuro do jornalismo, a profissão que escolhi para suprir meus sonhos e pagar meu pão, mas naquele momento era apenas uma grande chance de escrever para uma revista que eu lia e recomendava.

Jucá queria uma estória, umedecia as ideias com álcool e sorriu quando eu disse que passaria pelo Chuí, a vó de um amigo mora na cidade e seria uma ótima paragem, talvez eu pudesse ficar um dia a mais e bater um papo com o brasileiro que mora mais ao sul do Brasil. Concordávamos que não era uma pauta genial, mas tinha potencial como um breve relato, afinal eu não teria tempo nem ferramentas para algo muito aprofundado. Jucá selou a transação pagando as cervejas. Pedi a sétima e disse que era por minha conta. Com exceção dessas escapadas com o Jucá, meus dias em Porto Alegre foram de formação política, dentro da FAG, conversando com um e com outro, ajudando na cozinha, consumindo a biblioteca, amontoando contatos e aprendendo como se organiza uma federação. O negócio é que quanto mais eu absorvia aquela rotina libertária, mais eu percebia que uma profunda ruptura aconteceria em breve. E toda ruptura é dolorosa. Ela faria uma cratera intransponível entre o anarquista que eu era, e o que eu me tornaria. O bakuninista que levo no peito e me leva na estrada perdia a inocência e recebia em troca responsabilidade.

Por isso, quando deixei Porto Alegre rumo ao Uruguai, decidi que aquele era o momento certo para encarar a ruptura e mudar um pouco os lemes da viagem. Eu não queria mais pensar naquela garota, lembrar do passado e desenhar em tinta invisível o futuro. Queria mais. E com o pampa diante de mim, eu só poderia encontrar aquilo que queria em um lugar, a FAU (Federação Anarquista Uruguaia). Mas antes eu tinha uma dívida etílica a pagar.

O Último Habitante do Brasil Bebe Pinga de Butiá

O último habitante do Brasil é um sujeito sem respeito algum pela propriedade privada. Ele também é fã de Judith Cortesão, mas isso não é assim tão importante. Há 17 anos invadiu, ocupou e resistiu numa antiga instalação do Exército, localizada na última porção de terra antes do Uruguai, e transformou o espaço num museu intitulado Atelier. Este é também o derradeiro instituto em território brasileiro e leva o codinome de Balaena Australis. Para chegar até o sujeito mais austral do Brasil, tomei um ônibus na rodoviária do Chuí, direção

Barra, e logo estava vasculhando os arredores solitários do museu, que debaixo daqueles primeiros raios de sol parecia somente uma casa abandonada rodeada de mato alto e poeira. Entretanto, observando através das janelas percebi alguns pedaços de crânio de baleia expostos em uma sala. Eu já bisbilhotava o lugar há mais de meia hora e, aparte um vira lata mal humorado rosnando nos meus calcanhares, tudo era silêncio e esquecimento. Percebi então, na tangente do Atelier, uma picada longa que levava até um lugar indefinido, obscuro entre os arbustos. Caminhei decidido através dela enquanto aquele maldito cachorro mordiscava meu tornozelo, brincalhão e bobo. De repente ele disparou pela minha frente correndo feliz, desviando das pedras por instinto e hábito. Confiando na destreza e experiência do bicho, segui sua trilha até uma grande construção rústica. Pensei ter chegado, enfim, na casa mais ao sul do Brasil. Era uma grande edificação de madeira negra e teto de palha, adornada nos flancos por garrafas de vidro coloridas e alguns contornos feitos de ostras. Estonteado com a surrealidade

rústica do lugar, sequer percebi que um remanescente hippie aproximava-se de mim com suas galochas pretas e uma toquinha de lã. “Opa, tudo bom?”, disse assim que notei sua presença. “Hamilton? Você é o Hamilton?”, ele não parecia muito convencido de minhas boas intenções, mirava diretamente em meus olhos com os seus, de lado, de gato, desconfiados. ”Eu sou Junior, Junior Bellé. Seu Francisco e Dona Tânia comentaram a seu respeito. Falaram desse lance de você ser o homem mais ao sul do país e essas coisas todas”, eu me referia ao simpático casal que havia me dado carona de Rio Grande até Santa Vitória e, durante aquele papo de estranhos, comentaram a respeito de um sujeito que conheceram certa vez, um homem calado e reservado chamado Hamilton. “Jornalista?”. “Isso. Algum problema?”. “Não.. não. Eu faço parte desse detalhe geográfico mesmo”, falou sem dar muita importância. “Além de ter que aguentar uma cacetada de repórteres chatos, tem algum outro fator importante em ser o cara mais austral do Brasil?”, tentei laçá-lo com apenas uma pergunta, fontes

ariscas costumam fugir e emputecerem-se sem qualquer motivo além, claro, do absolutamente compreensível desprezo pela classe jornalística. Mas ele não respondeu, simplesmente virou as costas e me convidou para entrar no Atelier. Descreveram-no como ermitão, de fato ele parecia bastante calado, telepático, mas antes de topar com este estranho em seu quintal, Hamilton se preparava para subir num Jipe sem freios e rumar para Santa Vitória, sua cidade natal, atrás de uma motosserra: queria cortar as acácias que tomam a beira da estrada e utilizar a madeira para construir uma ciclovia. Eu acabara com seus planos, mas ele aparentava não guardar rancor algum, tempo, por ali, é moeda desvalorizada. Além do mais, de uma forma poética, ele parecia apreciar cada vez mais aquele encontro inapropriado. Hamilton Coelho tem 55 anos, estudou Escultura e Gravura, barbudo desleixado, artista plástico inspirado pela brisa que sopra forte do mar, paixão de ondas e criaturas cuja essência é também a essência de toda sua obra. E de todos seus móveis. É um artista engajado e quer distância do mainstream cultural, ecologista xiita e

enlouquecido por pinga de butiá, que estoca em grandes garrafas de vidro colorido espalhadas entre as carcaças de baleia, os troncos apodrecidos e as cordas feitas em nós de mato seco, que formam a decoração e o mobiliário do lar de Hamilton. “Eu não quero que minha arte entre na mesmice de sempre, de simplesmente expor-se em galerias”, caminhávamos pelo instituto e Hamilton começou a contar, com um saboroso saudosismo, a respeito dos shows que promove durante o verão no Marujo Barujo, um boteco que construiu com palha poucos metros a frente do museu. Aliás, isso talvez seja a ironia etílica mais sacana da geografia brasileira: a derradeira construção em território nacional é um boteco, um bar feito de madeira velha e palha, onde o homem mais austral do Brasil acende fogueiras gigantescas para toda a patota jovem e insana beber, cantar e se amar ao ar livre. Se formos ainda mais ortodoxos e considerarmos o banheiro do Marujo como uma obra independente, a última edificação em território brasileiro é um buraco no chão, cercado de palha e madeira por todos os lados, onde a juventude caga e vomita para então devolver-se ao fogo, ao mar, à música; à vida.

“Da última vez veio uma banda de jazz, teve a fogueira e tudo mais, foi muito divertido. Tem até um lugarzinho pra dormir dentro do bar, caso alguém queira descansar”, apontou para um pequeno segundo piso, a menos de um metro da cobertura de palha. “Daqui a 200 metros é o começo do Brasil”, disse ele quando nos despedimos em frente ao museu. “Ou o fim”. “Ou o fim”.

Do Outro Lado do Rio

Não senti qualquer abalo ao cruzar a fronteira, nenhum sentimento forte ou algo do tipo. Acho que o espírito afronteirista estava tão latente em mim após aqueles dias em Porto Alegre que a cancela não foi importante. Definitivamente. Poucos metros após cruzar a aduana, consegui uma carona até La Fortaleza, uns 30 quilômetros a frente. Decidi curtir o lugar antes de voltar pra estrada, as ondas de Punta Del Diablo quebravam fortes e geladas nas pedras durante a meia hora que meus pensamentos rebateram nelas. E foi difícil sair de lá. Não que a paisagem me agarrasse num sentimentalismo contemplativo, nada disso. O problema é que,

quando voltei à rodovia, percebi que por ali passavam poucos carros. Foram mais de duas horas diante do campo militar La Fortaleza de Santa Tereza, cercado de varejeiras amarelas com ferrões assassinos maiores que uma amora. Havia algumas árvores de butiá ao lado da estrada e esse acabou sendo meu almoço. Resolvi contabilizar a situação: três carros a cada trinta minutos, a maioria voltando para o Chuí e alguns entrando em Santa Tereza. A solução foi estender a mão quando um veículo construído em Joinville passou, ele cobrava 20 pesos até Rocha, um ônibus. Só é possível pedir carona quando há para quem pedir carona. E não era o caso. Eu acabava de romper com a ética da puta que o pariu do caroneiro padrão. Não é uma decisão fácil a de desistir, de tomar um ônibus confortável, a porra do conforto é a assinatura da derrota, e eu me sentia um derrotado, traindo minhas ambições. Mas uma hora é preciso ser um bosta e arriar. E bem, foda-se. O ônibus me deixaria em Rocha, cidade a cerca de 20 quilômetros e aquilo era tudo que eu precisava saber. Passei ainda por Maldonado e Punta Ballena, novamente de carona, antes de chegar na capital...

… Apenas Dois Dias Depois

Juan cortava alguns papeis na guilhotina enquanto eu zanzava na frente da gráfica. Ele me observava de canto de olho à medida que eu começava a desconfiar que estava de posse do endereço errado. É um senhor beirando os 60 anos, hirsuta barba branca e olhar sapiente. Ele caminhou até a calçada e perguntou se eu precisava de alguma coisa. Eu só queria saber onde era a FAU, estava cansado demais para conversar sobre qualquer coisa. “A Federação é aqui mesmo, entre e tome um mate quente”, disse, sem pressa, me conduzindo até o fundo por entre as prensas cheias de óleo onde, de fato, começava os espaços da Federação Anarquista Uruguaia. Os uruguaios já estão nesta mesma luta, com esta

mesma bandeira, há mais de 50 anos. Foram importante resistência durante a ditadura, quando a federação permaneceu na clandestinidade e seu braço armado, a OPR-33, aflorou ao lado dos Tupamaros. Ainda assim, sua estrutura é modesta. Os fundos da gráfica se resumem a duas grandes salas de reunião, uma pequena biblioteca e um quarto em reformas, além de uma cozinha minúscula e o banheiro. Foi durante a noite, enquanto tomava mate com Juan e escutava as histórias do tempo que permaneceu exilado, que conheci Marco. Ele estuda Psicologia e não tem mais de 26 ou 27 anos, era uma das grandes apostas da nova geração da FAU. Para poder bancar a universidade, Marco distribui jornais durante a madrugada na sua moto surrada. Está sempre ansioso e, como é alto e com ombros largos, quando sorri parece um pouco abobalhado. Mas, se durante as tardes e as noites eu passava num certo marasmo, apenas tomando mate, escutando os velhos da FAU e lendo documentos da OPR, Marco fazia as madrugadas serem muito mais intensas. Ele começava à uma da madrugada e três horas depois estava de volta à federação, onde

normalmente deixava a moto após o expediente. Na primeira noite que passei lá, estava sem sono, lendo no canto da sala de reunião dentro do saco de dormir, quando me assustei com Marco abrindo a porta dos fundos. Ele pediu desculpas, acendeu um cigarro e me convidou para um mate. Conversamos por umas duas horas até ele olhar novamente para a moto com um ar aventureiro e me propor uma volta. Só que não foi apenas uma volta. Elas se tornaram um hábito. Cada um dos sete dias que permaneci em Montevidéu, vi o sol nascer de uma região diferente da cidade. Marco me levava para os bairros onde a FAU desenvolvia atividades, caminhávamos por eles, conversávamos com os bêbados nas ruas, com os transeuntes da noite e sempre descobríamos um pardieiro aberto com bebidas baratas. Pela manhã batíamos nas rádios comunitárias, nas associações de bairro e centros sociais, havia um carinho e respeito enorme pelos acolhidos da FAU, bebíamos com eles as primeiras cuias da manhã e partilhávamos os bolos e pães durante o café. Cada madrugada era uma descoberta, servida em algumas garrafas de vinho, no ronco agudo da moto e na magia de transitar solitários pela cidade adormecida.

Mas há sempre a hora de ficar para trás
Foi estranho deixar a FAU, me sentia bem lá dentro, absorvendo toda a atmosfera com sofreguidão. Estava realmente acostumando com aquela rotina de ouvinte, tarde e noite com histórias da resistência armada, de fugas cinematográficas, da voz dos velhos contando os bastidores que gestaram a teoria libertária mais sólida da América do Sul. E também daquelas madrugadas cheias de velocidade, frio e nascer do sol com Marco. Mas na estrada tudo é passageiro e volátil, as pessoas, as horas, histórias e lugares, Só o cansaço e a lembrança permanecem. Porque a estrada, compadre, começa no medo da próxima curva e carrega nos quilômetros a esperança do horizonte que não chega. E ser assim, imprevisível e misteriosa, assim passageira de tudo, esse é seu charme e sua magia. Além do mais, tudo no Uruguai estava sendo conturbado e impactante, a despedida não seria diferente. Era um dia seco, de um mês seco com manhãs e noites geladas, cheias de vento, e tardes quentes sem brisa. Eu deixava a FAU antes da terceira cuia do dia, quando o sereno ainda baixava. Queria chegar a Carmelo em duas ou três horas e estar em

Buenos Aires antes do anoitecer. Escolhi o melhor ponto para jogar o dedo para o sul, alguns metros a frente de um pedágio, onde os carros ainda passavam lentos, beeeeeem lentos, na mesma levada dos ponteiros, que ali, no acostamento, se arrastavam no tempo. É interessante como a carona exercita uma certa nostalgia da espera. Vivemos num mundo tão urgente que quando o tempo passa sem pressa torna-se saudosista. Não há mais os dias aguardando as fotos serem reveladas, a reportagem da noite para saber os resultados do futebol, o jornal de amanhã estampando novidades do mundo. Agora tudo é agora. Pegar carona é como conjugar o verbo da espera. A vida por aqui são as pessoas, no singular, flexionadas num pretérito démodé. E naquela tarde ele foi conjugado durante quatro longas e cansativas horas, quando finalmente consegui sair de Montevidéu no Hunday desesperado de um rapaz sonolento, que precisava se manter acordado a 180km/h para chegar a tempo de trair sua mulher com as duas amantes que o aguardavam em Carmelo. Seu filho acabara de nascer, parto de alto

risco, a criança está na encubadora, mas se recupera bem, a mulher segue internada, exige cuidados, os médicos dizem que estará recuperada em uma ou duas semanas. Ele precisa comemorar. Como eu sei disso? Compadre, o caroneiro é um anônimo qualquer, mas ao fechar a porta pela primeira vez converte-se em um velho amigo disposto a escutar os lamentos mais bobos, os amores infantis e as paixões errantes. É assim que pagamos pelo trecho, transformando a boleia num confessionário em que os pecados perdem o peso do segredo e ganham a leveza da compreensão.

A Última Federação

Só consegui caminhar pela Avenida Brasil em direção a meu terceiro e último destino libertário, dessa vez a FLA (Federação Libertária Argentina), na noite seguinte. A FLA fica no centro de Buenos Aires, detrás de uma pequena porta que, quando aberta, dá para um casarão enorme, com chão de madeira e um espaço aberto em “L”. Ela é uma federação bastante diferente das duas anteriores, a começar pela estrutura. Os argentinos possuem três enormes bibliotecas e um arquivo visitado por pesquisadores do mundo todo. Ao fundo, após o espaço aberto, há um galpão de três andares usado normalmente para eventos maiores e mutirões de feitura artesanal de livros. Entretanto, apesar do bom suporte, a FLA é irrelevante politicamente. Seus membros são jovens, a maioria estudantes ainda em formação, assim, a consistência teórica e a militância se resumem a algumas festas, publicações e os braços abertos a todos os companheiros que chegam de longe, cansados e famintos. Depois de Porto Alegre e Montevidéu, a FLA completaria meu intensivo anarquista, vivência da rotina de luta e organização que, aos poucos,

ia minando minha tendência individualista e me construindo no campo específico, orgânico. Só que a FLA não possui cursos de formação, nem atividades junto a movimentos de bairro, nada disso. A federação parece mais um centro social, um espaço de convivência para o melhor da bichogrilagem portenha e nem de longe lembra os tempos que ainda se chamava FACA (Federação Anarco-Comunista Argentina), idos em que convergia as mais importantes pelejas sindicais daqueles domínios gaudérios. Por isso, eu passava o dia bebendo cerveja e mate enquanto desvendava os preciosos documentos do arquivo, boa parte já devorado pelas ratazanas gordas e gigantescas que se escondem por ali. Aquelas malditas criaturas pós-modernas e agressivas te encaram sem medo e disputam no dente alguns documentos importantes. Durante os quase quatro dias que permaneci na FLA, pelo menos dois deles passei organizando os acervos do terceiro andar do galpão e me esquivando dessas ratazanas alienígenas. Havia uma defasagem enorme na catalogação do arquivo, além do mais, aqueles eram documentos preciosos, como o Mujeres Libres, da Catalunha de

1936, ano da Guerra Civil Espanhola. Quando enchia o saco, dava pra perder algumas horas tentando acertar aqueles malditos roedores com os pesos para livros, pesados e certeiros. Tenho certeza que estas experiências foram imprescindíveis para, um ano depois, eu estar junto e ativo no nascimento da FASP (Federação Anarquista de São Paulo), organização especifista nos moldes da FAU e FAG. Reforçadas as convicções, a linha de frente dos princípios realmente importantes, os primeiros a serem metralhados quando a vida tem seu dia de fúria, estas eu emprestei das barbas de Bakunin, do bigode de Malatesta e do coração de Kropoktin.

Talvez fossem eles os deuses loucos e chapados que me diziam pra continuar
E eu continuei. Deixei Buenos Aires em direção a Juanin, onde consegui uma segunda carona de quase 500 quilômetros, chegando na metade do caminho até Mendoza. Apesar de cansativo, o trajeto foi agradável. Ramon, o caminhoneiro de bom coração que abriu as portas para mim, adorava Papo Blues, o que nos aproximou já que eu também sou um grande fã. Viemos cantando os clássicos e fumando um cigarro atrás do outro. Ramon dirigia cadenciado, nunca acima dos 100km/h. Quando a noite baixou, acendeu as luzes do caminhão e diminuiu ainda mais a marcha. No rádio começava a soar os parladores num CD pirata que Ramon insistiu em colocar: eles cantam a alma dos pampas, mas é no pampa da alma que ecoa aquele canto, pois quanto mais as montanhas iam arredondando no horizonte do oeste e as árvores rareando ao redor, o vento uivava mais alto e os parladores seguiam tocando, e a lua estava alta, forte lá em cima, e Ramon dirigia cadenciado, e as paisagens eram passageiras, como eu, e como eu era

passageiro já estava tão distante de casa, e de tudo, que é permanente, e de tudo que deveria ser, e os desconhecidos de sempre seguem, agora e sempre, salvando minha pele, dia após dia, e eu olhava para um deles, no volante, na boleia, e não sabia de quantos mais eu precisaria para chegar até vocês. Então eu chorei. Quieto e contido, como as lágrimas verdadeiras e solitárias devem ser. Ramon era um cara sensível e silenciou. Quando chegou o momento de nos despedirmos, ele sacou do porta-luvas o disco que tocava naquela hora e me presenteou. O parlador. Agradeci e, enquanto ele seguia, mirei ao redor e percebi que tinha um grande problema. Já passava da meia-noite quando desci do caminhão de Ramon, num posto na entrada da cidade. O frio glacial ventava em ares desgraçados naquela noite, e todos dormiam protegidos em seus carros e caminhões. Tomei um pingado no posto de conveniência 24 horas e acabei conhecendo Sebastian, um velho caminhoneiro argentino que transporta grãos de leste a oeste do país. Contei um

pouco sobre o “Raul Do Quê?” e ele me ofereceu a caçamba de seu caminhão para que eu dormisse. Sabia que o frio era intenso no pampa, mas as paredes da carroceria diminuiriam o impacto do vento, que era o mais cruel. Ainda assim, dormi pouco naquela noite. Meu rosto ardia com a temperatura baixa, e depois de tantos dias com aqueles vinte quilos e meio da mochila nas costas, os ombros latejavam sem parar, rígidos e doloridos. Na manhã seguinte deixei minha mochila bem a mostra e, já sem paciência, passei a abordar todos que entravam no posto de conveniência. Mas atirar sem estratégia, nesta arte, é um desperdício, um puro ato de desespero e fadiga. A carona é uma dramaturgia, é preciso envolver aquele que te deu uma brecha no olhar, estudar a abordagem, oferecer algo em troca, como um bom papo, um bom ouvido ou simplesmente a sensação de não estar sozinho. Mas Alonso queria estar sozinho. Ele enchia a térmica de água quente para a viagem quando me aproximei. Chamou minha atenção o adesivo colado no vidro da frente de seu carro, que dizia Rádio Nacional. Me aproximei comentando que também era jornalista, mas o cara estava

desconfiado e reticente, entendia minha aventura mas, por algum motivo, não queria me levar. Só que eu estava persistente naquela manhã, porque via Santiago chegando cada vez mais perto, cara, sentia que poderia chegar até você e Fabiola em breve. Ofereci um cigarro e Alonso negou, perguntei então se ele tinha um pouco de maconha, eu não fumava desde Florianópolis e estava precisando relaxar um pouco. Alonso então olhou pra mim, sorriu e disse: “entra no carro, te levo até Mendoza”.

Medo e Delírio na Ruta 7

As montanhas, íngremes e pontiagudas, seguiam arredondando à medida que avançávamos pelo coração do pampa naquela Saveiro branca como o céu e rápida qual as lufadas gaudérias, que cruzam a planície assoviando alto. Porque nós estávamos altos, cara, e subindo cada vez mais como a fumaça que escapava inebriante daquele imenso beck que bolei com todo cuidado. Alonso guiava firme na reta, mas com o ponteiro lá em cima é preciso destreza para apertar uma maravilha como aquela, que queimava homogênea. E a gente seguia puxando fundo e acelerando forte. Até chegar a primeira blitz. A polícia argentina havia fechado a rodovia logo em frente ao único e modesto boteco de beira de estrada dos últimos 100 quilômetros. Todos os motoristas precisavam apresentar os documentos para seguir viagem. Mas o carro fedia a maconha, fumávamos há quase meia hora e estávamos chapados demais para tentar disfarçar os olhos vermelhos e o ar sossegado. Então, Alonso apontou a Saveiro para o acostamento e, sorrateiramente, contornou devagar por trás do boteco. Todos os policiais perceberam a manobra, por isso, quado olhei para o retrovisor esperando a perseguição, já tinha a próxima seda na mão e começava a enrolar o

segundo. Se fosse para cair, seria em grande estilo. Alonso estava tenso e à medida que nos afastávamos ele acelerava mais e mais. Só que ninguém veio atrás de nós, e o restante da viagem até Mendoza foi tranquila e compassada como a brasa de nosso segundo e terceiro e quarto e quinto becks. Queimando forte e ligeiro. Como a vida, cara. Pelo menos aquela vida que “Raul Do Quê?” gritava desesperado na minha orelha. O negócio é que com tudo isso, viagem e estradas e caminhos, eu buscava aventura e intensidade, buscava alguma coisa que eu pudesse me lembrar com carinho e orgulho, que me provasse que o medo não era intransponível e que a liberdade ainda era uma opção. Quando eu mirava o pampa passando embaçado pela velocidade, e lembrava de cada um dos 24 dias que cruzei na estrada, vivos pelo tempo e pelo cansaço, eu sorria, sorria de verdade e lembrava que há tempos não sorria tanto e com tanta verdade. E no fundo, isso é uma merda.

O Atalho Até Vocês
Mendoza, apesar da beleza, foi só passagem. A exaustão me sossegava, a perspectiva de Santiago angustiava meus sonhos, e eu dormia. Resolvi pagar 15 reais num hostel e descansar por uma noite, que acabou se somando a uma segunda noite. Acontece que passei o dia todo com a mochila nas costas tentando uma carona para sair do país e entrar no Chile. O problema é que a porcaria destes caminhões eram rastreados, o que impedia alguns caminhoneiros com boas intenções de me levar. Às 20h30, após onze intermináveis horas de tentativas frustradas, decidi voltar para o hostel e tomar um ônibus na manhã seguinte. Sou ético com meus métodos, mas nunca fui masoquista. A passagem custa cerca de 25 reais e eu não estava disposto a gastar mais da metade desse valor em outra pernoite na cidade, mesmo que isso significasse transgredir novamente minhas próprias regras. Sempre acreditei que regras foram feitas para serem quebradas, do contrário seriam sugestões ou hábitos. Outro detalhe é que Mendoza é um convite à bobagem, e eu não tinha grana para bobagens. Eu não tinha grana pra nada. Não podia tomar os

vinhos da região, experimentar os pratos ou relaxar com as cervejas de um litro. Ficar na cidade era curtir a angústia e alimentar as vontades. Só o que eu podia fazer era caminhar sem rumo e sem mapa pela cidade até me perder. E naquela última noite em Mendoza foi o que fiz. Rodei a cidade a pé por longas horas sem ter ideia de onde estava, só para buscar uma rota diferente na volta. Assim descobri alguns botecos mais afastados com preços módicos de bebidas tão suspeitas quanto eficientes na imprescindível arte de deixar a noite de um sujeito solitário mais alta e etílica que o céu. O resto da história, meu velho, você já sabe. Enquanto cruzava os Andes num banco confortável como nunca naquele último mês, sentia que estava, de certa forma, voltando pra casa. Porque aquele apartamento em La Quinta também foi minha casa. Lembro perfeitamente o momento que cheguei no prédio e toquei o interfone. Você atendeu e não reconheceu minha voz quando eu disse: “abre essa porta que um velho amigo voltou”. Mas ainda assim você abriu a porta. Julien, você não imagina como foi bom te ver depois de tanto tempo e ouvir aquele “JUniOr”, espantado, surpreso, como o peso que dá

ao pronunciar o primeiro fonema do meu nome. E o abraço apertado de sempre, estava lá, ainda mais apertado. Era de tarde e Fabiola ainda trabalhava, mas fizemos uma bela surpresa quando ela chegou. Já havia tirado os jalecos brancos da enfermaria e realinhado os piercings, casaco de couro negro e a botina que nunca sai do seu pé. Abri a porta para ela e a saudei no regresso do trabalho, estava mais gótica que nunca. Relembramos os velhos tempos, você saindo para comprar pães, afinal é um francês e sabe como ninguém escolhê-los pelo barulho de um peteleco na casca, eu e Fabiola descascando abobrinhas para a sopapilla com vinagrete de banana, o toque brasileiro que inventei durante nossas primeiras incursões gastronômicas e que foi um impressionante sucesso. Inclusive, acredito que a maioria de nossas discussões foram culpa do vinagrete de banana. Eu sempre esquecia dessa sua perdição e comia todo o cacho. Quando você se dava conta tarde demais, as coisas ficavam feias. Duvido que teríamos saúde para beber mais do que bebemos neste meu regresso caroneiro. Assinamos com álcool nossas confissões de amizade, somos de

uma geração de angústias irmãs e mesmo desfavorecidos pela geografia, contamos nossos presentes distantes e compartilhamos planos. Não se mede amizade pela lonjura, e nunca renderíamos nossas horas à momentos que não pretendessem ficar na memória de nossos melhores dias. Aqueles que precipitaram minha volta, quando minha irmã telefonou avisando que meu pai estava numa pior e que pagaria uma passagem de ônibus para que retornasse o mais rápido possível, foram tempos intensos, cara. E eu lembro do seu pedido repetido entre goles, queria saber da estrada, eu conseguia sentir seu desejo pela aventura e o mistério, você se lançaria nela em breve, estava claro em sua respiração, e carecia de informações, de conhecimento empírico sobre ela. Eu tinha tudo isso. O problema é que eu estava cheio daquela viagem, estava cansado da solidão, a introspecção provou-me o quão insuportável sou, precisava respirar, beber e esquecer de mim. Desejava apenas aproveitar o reencontro, falar de Bakunin e Sabina, dos compadres e comadres, das sugestões para a noite e a quantidade de cervejas que a madrugada exigiria.

Me permiti ser egoísta. A estrada é profunda e imprevisível, cruzamos por ela com a esperança que ela nos descruze, no peito, no passado, angústias e náuseas, nas curvas que confundem e, ao confundir, realinham a rota, as retas que passam depressa contornando esperanças e beirando um horizonte de miragens. Você é corajoso, mas lembre-se que o perigo de viciar-se no perigo amedronta apenas os perigosos, e nós somos pacíficos amantes em busca da vida, perseguindo-a rosa dos ventos a fora, ora no Chile, ora na França ou no Brasil. Espero que ainda tenha tempo de ler esta carta antes que decida o destino e a data de partida. Do regresso ninguém nunca sabe. Não pude te dizer com a intensidade da minha voz, mas espero que a sinceridade destas palavras escritas e remetidas de longe, te ajudem a planejar sua viagem. Só nós sabemos dos monstros que fugimos, e daqueles que queremos encontrar. Que minha experiência e esta carta te levem aos seus em segurança, compadre. Um forte abraço. Salud y Libertad!

ILUSTRAÇÕES Jeannie Soares

COPYLEFT A reprodução deste material é livre e incentivada pelo autor desde que não seja para uso comercial

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