Canek Sánchez Guevara carrega na assinatura a revolução.

Por um sobrenome posto, nasceu em destino rebelde com a esperança de nele viver como se o vivesse reinventando. Assim também é a serpente negra, a serpente das estrelas como contam as raízes maias evocadas por seu primeiro nome, o nome insurgido de Jacinto Canek, índio e revolucionário, líder da resistência espontânea de seu povo frente à colonização espanhola, em Yucatán, México, tornou-se mártir. Filho de Hilda Guevara Gadea, a primogênita de Che, que apaixonada por Alberto Sánchez Hernandez, escritor mexicano de coração insurrecto, partiu para Cuba viver num grande amor a revolução. Em 1974, nasceu Canek, já ninado pelas primeiras cantigas que sossegaram em sua memória: Bandera Roja e La Internacional. Moravam numa casa grande em Miramar sobre a Quinta Avenida, área nobre de La Havana, com cerca de quinze guerrilheiros que anos antes haviam seqüestrado um avião no México e pousado na Ilha com a esperança de inspirar os ventos da transformação social. Porém, o que ventava das inspirações do regime não fazia tremular as bandeiras libertárias daqueles homens e mulheres, que logo partiram de Cuba levando consigo o

purismo de seu ideal, alguns fugindo da ditadura, outros da desilusão. Infelizmente, há coisas que precisam ser complicadas, o amor e a revolução são as mais importantes delas. Hilda e Alberto partiram então para Itália, que nos setenta converteu-se num bolsão militante que abrigava revolucionários refugiados dos mais diversos cantos do globo. Quando Canek completou cinco anos, rumou junto a Hilda para uma estada de um ano em La Havana, mas logo partiram para Barcelona reencontrar Alberto, que como muitos outros sindicalistas e militantes, migrou para a península após a morte do ditador. Na Espanha do final dos setenta, o corpo e a alma do general Francisco Franco apodreciam, e deles ainda flambavam os ares da putrefação política que entrincheiraram a esquerda organizada no saudosismo socialista da Guerra Civil de 36. Canek estudava numa escola bilíngüe e fez bons amigos argentinos, filhos de refugiados camaradas de seus pais, e pouco compreendia das discussões daqueles clandestinos em que a Revolução era caminho tortuoso por onde caiam os bravos no rastejar lento até a Liberdade.

Quando o presidente mexicano López Portillo ditou a anistia geral para todos os envolvidos na luta armada dos setenta, Alberto pode retornar a Monterrey, cidade em que nasceu e teve seu segundo filho com Hilda, de nome Camilo. Pouco depois partiram para a capital morar numa casa de pouco mais que sete metros de comprimento por quatro de largura cuja sala era também quarto do casal. No verão de 1986, Hilda e seus dois filhos retornaram a La Havana para que o mais velho ingressasse na escola secundária Carlos J. Finlay. Então, aos 12 anos, Canek finalmente sentiu a conexão umbilical com seu avô, Ernesto Guevara. Assassinado quando Hilda era apenas uma criança de dez anos, Canek não crescera à sombra do mito, sequer dava-se conta do legado que por suas veias circulava e que mesmo distante em tempo e geografia guiara parte de sua história. Até aquele momento, a revolução havia sido o centro de sua vida familiar, um tema aurático compartilhado cuidadosamente apenas entre os de confiança. Mas Cuba era A Revolução, e Che O Revolucionário. Não importava se a auto-suficiência do processo se alimentasse de suas próprias carências, na realidade de Canek a utopia se transformara em realidade

absoluta, e ele era a herança daquela luta amadurecendo-se homem exatamente no miocárdio da Ilha. Para quem estava acostumado a ser Canek, tornarse O Neto de Che não foi fácil. As responsabilidades logo tornaram-se imperativos de como portar-se, o que dizer e quando calar. Ser o melhor não era uma possibilidade, mas obrigação. Educado pelo princípio basilar da liberdade, que maturou em seu peito um anarquista heterodoxo em que a desobediência é a pulsação que move o caráter, tal imposição era intransigente, autoritária, impossível. O fardo não estava claro para ele, mas os hormônios que flagram a intempestividade e arrogância adolescente alertavam que havia algo de errado, e as breves investidas por entre os salões da alta sociedade cubana provavam que seu instinto estava apurado. Canek sentia um gosto amargo ao mensurar na vida as palavras que ricocheteavam e multiplicavam-se em tais rodas até crivar aqueles chamados de Povo. Neste imenso depositório de esperanças e tragédias de onde partem os impulsos mais verdadeiros, e para onde vão os discursos mais peçonhentos, o Povo era também Canek. Morava em Vedado e seus

amigos no centro de Havana, Alta Havana ou Marianao, também em Alamar e La Lisa. Eram jovens e por isso suspeitos. Iam a concertos clandestinos de rock, editavam uma pequena revista de poucos exemplares, estavam na mira dos policiais. Não importava sua cepa familiar, convertera-se num desertor escolar, apesar de aprendiz de fotógrafo na Juventude Rebelde e também no Granma, estava entre os desajustados e se orgulhava disso, tinha quinze ou dezesseis anos e assim aprendeu que Povo é uma abstração de múltiplos desusos. Aos poucos, embalado pelas partituras de Carlos Varela enquanto corria os sonhos através dos esquizofrênicos parágrafos de Kafka, pelo antitropicalismo de Schopenhauer, Canek pode mapear seu território de combate e sentir a trincheira que lhe cabia. Surpreendeu-se um homem da cultura quando foi viver num pequeno apartamento em El Cerro, a poucas quadras da Biblioteca Nacional, onde trabalhando como restaurador de livros apaixonou-se por eles. Em 1996, um ano após a morte de sua mãe, Canek deixou Cuba e tomou a direção de Oaxaca, México. Na terra natal de seu pai e seu irmão, que partira tão

logo o falecimento de Hilda, trabalhou como crítico e editor cultural, e enfim despertou o escritor que em sua pena adormecia. Encontrando-se, morou também no sul da França e descobriu-se um cronista itinerante, encantado pelo movimento, movido pelo encantamento. Por sua história, maturou-se um crítico espontâneo e experimentado do regime cubano e de seus ícones. Leva nas palavras a pólvora do fuzil de seu avô, e não costuma poupar munição, tampouco errar o alvo. Do fronte do discurso, mira em Castro, o coração do regime, e não teme ferir ideologias ou familiares. Você se define como um cronista itinerante, por quê? E ideologicamente, como se define? Quem são os teóricos e revolucionários que te inspiram? Quando criança eu adorava os livros e filmes de aventura, e especiais como westerns, urbanas, ou na África. Quando adolescente, continuei com esse belo vício e, inevitavelmente, um dia comecei a ler outras coisas além de romances. Não exagero se digo que a primeira crônica de viagem que lembro de ter lido foi a do ainda jovem Ernesto Guevara, aquela em que ele relata seu périplo por terras

sul-americanas. Logo comecei a ler muitos cronistas de diversas culturas e com diferentes obsessões, todos eram também de diferentes épocas, e minha fascinação aumentou. Sendo adolescente, comecei a trabalhar num jornal – era aprendiz de fotógrafo – e sonhava em ser correspondente de guerra, coisa que nunca pude fazer. Então, não sei por que, comecei a viajar e a escrever até que essa paixão se tornou profissão, e eventualmente, trabalho assalariado. Por outro lado, suponho que em termos ideológicos me sinto mais próximos aos anarquismos – as diferenças entre as distintas tendências libertárias às vezes são abismais – que a qualquer outro “ismo”, mas tampouco militei em organização alguma, talvez por que sou muito desorganizado para isso. Ou talvez muito egoísta. Em todo caso, todo pensamento anarquista, o clássico e o contemporâneo, me serve de alento. Também parte do pensamento liberal me parece de suma importância; talvez eu tenha aprendido com o tempo a não dar muita bola para as conclusões ou teses de um pensador, e a me concentrar mais em suas perguntas, que na verdade é o que importa. Assim, desfruto igualmente da leitura de Bakunin e de Cioran, ou de Che e Žižek, de Marx e de

Voltaire, de Nietzsche e de Hakim Bey, de Lênin e de Marcos, e isso não é por que estou de acordo com eles, mas por que com todos eles construo meu desacordo com o mundo. O regime cubano, em suas palavras, é “um vulgar capitalismo de estado também chamado de ‘Fidelismo’”. Esse regime ruirá quando Fidel morrer e tentarem embalsamar mais este “ismo”? Na verdade, nos tempos que correm, o capitalismo de Estado está se reforçando em Cuba. As demissões massivas de funcionários públicos, o desaparecimento precoce dos alimentos subvencionados, a discussão em torno do pagamento da educação e da saúde, e a “criação” de empregos liberais que a população pode realizar “a margem” do Estado – ainda que pagando impostos altíssimos – dá conta de um processo de distanciamento do socialismo estatal para entrar num capitalismo sob um controle absoluto do Estado. Ou seja, o “avanço” no capitalismo de Estado cubano de agora consiste em o Estado socialista adotar medidas neoliberais para preservar o socialismo e a revolução. Porém, você tem razão, sem dúvida Fidel será

embalsamado, ainda que seja metaforicamente, e será utilizado como bandeira por seus herdeiros a fim de justificar o que fizerem dali para frente. É inevitável, não há outra coisa para se agarrar. A Revolução Cubana teve seu amparo em coletivos e indivíduos anarquistas, sindicatos e movimentos de trabalhadores, que sustentaram como podiam suas posições no coração da ditadura de Fulgencio Batista. Enquanto isso, o processo revolucionário insurrecional tomava corpo na Sierra Maestra. Ainda que nesses moldes, você acredita que esta não foi uma revolução democrática? Não confundamos as coisas: a revolução foi profundamente democrática; a ditadura que emanou dela que não. A revolução foi democrática por várias razões: primeiro, por que sua aspiração original não era “avançar” rumo ao socialismo, mas “retroceder” a uma democracia anterior ao golpe de Estado de Fulgencio Batista. Esta aspiração uniu, efetivamente, grupos de diversas tendências – desde anarquistas até fascistas revolucionários – numa luta comum contra um inimigo comum. Até o Movimento 26 de Julho era uma amalgama de personagens sem uma ideologia única, e sem dúvida isso garantiu seu êxito em termos de penetração na

sociedade: naqueles anos anteriores ao triunfo, o discurso do M-26-J era mais próximo ao nacionalpopulismo latino-americano – Perón, Cárdenas – que ao marxismo ou ao leninismo. Entretanto, em 1959, Fidel insistia que a revolução não era comunista e que não havia sequer um comunista em seu governo. Se declarava nacionalista e democrata. Então, pouco a pouco, a aliança entre Fidel e o Partido Socialista Popular – estalisnista – se encarregou de fechar as portas a todos os demais grupos: já em 1960, 1961, as discussões entre socialistas, comunistas (trotskistas, estalinistas), liberais, libertários, anarcosindicalistas, democratas, nacionalistas, etc e etc e etc., eram ferozes e muitos deles acabaram nas prisões, no paredão ou no exílio. Algunscontinuaram a luta armada contra o novo governo revolucionário que, segundo eles, havia traído o espírito democrático da revolução. A história oficial cubana os conhece como “bandidos”. Após tantas críticas ao regime cubano, chamado por você de “Fidelismo”, como é seu trânsito em Cuba? Pode ir até a ilha sem problemas ou há restrições e riscos? Não tenho ideia. A verdade é que nunca tentei voltar

a Cuba, mas gosto da ideia. Sei de amigos que voltaram sem problema algum, de outros que não podem nem aproximar-se da embaixada e de outros mais que até voltam a Cuba, mas estão sempre sob vigilância policial. Em todo caso, sempre haverá restrições e riscos pura e simplesmente por que é Cuba. Acredita em alguma mudança em Cuba através de Raúl, mesmo com este “Fidelismo” sobrevivendo na pessoa de Castro? Raúl já está promovendo mudanças, algumas bastante profundas, mas também é certo que há uma leva de condições psicológicas no subconsciente cubano: a Mudança – com maiúscula – está indissoluvelmente ligada à morte do comandante, talvez por que há décadas o poço adquiriu a certeza que Fidel jamais abandonará o poder, ao menos não por vontade própria. É claro que em termos oficiais o presidente é Raúl, mas todos sabemos – ou intuímos, e nesse caso é a mesma coisa – que Fidel continua a frente, opinando sobre isso e aquilo, e ditando ordens a torto e direito. Ou talvez não, talvez, na verdade, se converteu nesse velhinho simpático que aparece nas fotos publicizando roupas de Adidas e admitindo erros

que todos sabemos que cometeu. A crise de 1989 acabou apenas com a economia cubana ou fez definhar também uma porção importante da utopia do regime? A crise de 89 foi brutal em muitos aspectos. Por um lado, claro, há a crise como fenômeno econômico, o que é uma atroz redundância para um país em eterna crise econômica; e também, como bem pontuou, a crise ética, moral, ideológica, política, tanto na sociedade como em “seu” governo. Tentarei explicar: a educação cubana, ainda que científica, técnica e humanista, no fundo não é de todo laica no sentido de que existe todo um “santoral” revolucionário que desde sempre é intocável, assim como as verdades absolutas do dogma, que eram inquestionáveis. Assim, nos ensinaram que o socialismo sobreviveria ao capitalismo, que um dia o globo inteiro seria comunista e que seria, por fim, um mundo sem contradições, sem exploradores nem explorados e bla bla bla. E de repente, certo dia, o bloco que cai é o soviético, não o capitalista, e o fez com tamanho estrondo que ficamos todos surdos e desconcertados. A crise então se alastrou; compreendemos que, em

Cuba, havíamos trocado a dependência econômica vinda dos Estados Unidos pela dependência da URSS. Não havia indústria cubana – grande indústria, quero dizer – pois tudo vinha dos chamados países amigos; a subordinação econômica e industrial era tamanha, e a falta de infraestruturas modernas em Cuba era tão aguda, que em alguns anos o país se viu sem nada. E os valores – aqueles que não têm relação com dinheiro – foram à merda também: as ruas de La Havana se tornaram um território violento no qual poderiam te matar por conta de um dólar, coisas até então inéditas. A prostituição se transformou em um negócio aceito, tolerado em prol da obtenção de moeda estrangeira, e então, o que todos lembramos, veio a crise dos balseiros e a pequena, porém sonora, revolta que aconteceu em La Havana em 1994, ano do apogeu do chamado Período Especial em tempos de paz. Que fique claro, aquela foi uma crise total. Como você vê o anarquismo hoje? Acredita que haja esperança de ressurgir como uma real opção na esquerda? Não me agrada a palavra esperança, por que sempre me lembra a espera, também não estou certo de que

o anarquismo seja uma real opção. O anarquismo parece mais ligado ao caminho que ao fim; inclusive entre os anarquistas é difícil saber com precisão como seria uma sociedade por inteiro anarquista. Desde os primitivistas, que renegam toda forma de “progresso” ou “desenvolvimento” até os anarcocapitalistas que concebem uma sociedade sem Estado nem corporações, mediada apenas pela atividade de pequenos proprietários livres, há um abismo impressionante. Assim, é difícil imaginar o anarquismo como um fim real. E isso me fascina, por que desprezo as sociedades planejadas no papel, detesto as ideias preconcebidas e absolutas, e por isso tendo a pensar que o anarquismo não é tanto um fim em si mesmo, mas um interminável caminho em constante construção. No fundo, me parece que se algum dia uma sociedade anarquista se concretizasse, também ela estaria em constante construção, e nossas ideias sobre ela sempre mudam de uma época para outra. O que hoje chamamos liberdade talvez amanhã seja visto como um simples simulacro, ou um desvio, ou talvez algo mais terrível ainda. E o que hoje chamamos liberdade, por mais ridículo e limitado que este conceito nos pareça, há 150 anos era somente um sonho característico de absurdos

idealistas desfigurados. Como você analisa e valora algumas das rebeliões ideológicas e sociais das últimas décadas, como a revolta de Oaxaca, os protestos da Ação Global dos Povos, as ações na Grécia e especialmente a insurreição do EZLN (Exército Zapatista de Liberação Nacional)? Todas são diferentes, diferentes reações a um cúmulo de situações mais ou menos comuns que, a princípio, as dota de certa unidade. Uma coisa que, sem dúvidas, atrai minha atenção para os movimentos recentes – os que mencionou e muitos outros – é a imperiosa necessidade de grupos distintos, coletivos e povos de integrar-se aos mercados nacionais e globais. Ou seja, mais que revoltas contra o capital, elas me parecem mais lutas para inserir-se plenamente neste mercado, ainda que preservando suas culturas, tradições, mercadorias e métodos de trabalho. Os campesinos lutam para competir com os grandes supermercados e a agricultura industrial; nas cidades a luta é por espaços políticos ou ideológicos pertencentes a uma única classe social – a dos políticos -; e em termos mundiais, o objetivo parece ser subir na onda da globalização e aproveitar sua força para exportar outros produtos, tanto materiais como ideológicos,

o chamado “mercado justo”, por exemplo. Não desprezo estas lutas, é de suma importância o constante questionar do sistema ainda que não seja para destruir-lo, mas para torná-lo “mais amigável”, como dizem os anúncios de computadores. Não acredito que destes movimentos nasça – assim, em termos absolutos – a Solução, mas sem dúvida eles conhecem e expõem os problemas do mundo moderno. Denunciam-nos com suas próprias palavras e ações, e ainda que por fim os movimentos se esgotem no mero ato de “resistir” – isso que chamam de Resistência – ou que se afoguem em suas contradições, corrupções e disputas internas – como aconteceu em Oaxaca -, ou se ilhem da sociedade ao invés de avançar e transformá-la – os zapatistas com suas “comunidades autônomas” -, ou que a repressão os destroce – o caso da Grécia – ainda assim, insisto, “alguma coisa” eles fizeram: nos fizeram lembrar que a luta sempre continua, que é imparável tal e qual a exploração – ainda que mude de formas e modos – também o é. Você disse, em entrevista ao El Nacional, que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é um guerrilheiro em tempos de paz, que utiliza as

instituições democráticas para atacar a própria democracia. Por outro lado, Chávez se coloca como uma opção ao totalitarismo econômico dos Estados Unidos e Europa. Estamos entre a cruz e a espada? Me parece que essa é uma falsa dicotomia, e por isso não acredito que estamos entre a cruz e a espada – ao menos eu não estou. Se alguém me propusesse o mundo em termos de “ou estás com Chávez ou estás com Bush”, o mandaria pro inferno imediatamente, por que na verdade não sou partidário nem de um, nem de outro. Mas acontece que o animal humano tem esta insaciável necessidade de lideranças, de líderes, de comandantes, de caudilhos, e procura sempre alguém para se abrigar. Alguém que reconforte seu espírito e ideologia, e quando encontra, se torna incondicionalmente dele, ainda que as custas de fazer o ridículo defendendo o indefensável. A respeito de Chávez, duas coisas me surpreenderam quando estive na Europa: a primeira, que muitos jovens franceses e espanhóis que defendem Chávez “por tudo”, não aceitam em seus países gestos e explosões como as que Chávez costuma prescrever a seus subordinados. E a outra coisa que me surpreendeu é o fato dos auto-

determinados “fascistas revolucionários” europeus adorarem Chávez – e também Fidel, claro – e a única coisa que neles reprovam são “alguns pequenos caprichos comunistas que ambos têm” Em resumo: não, não estou entre a cruz e a espada, prefiro o meu lado. Talvez um pouco mais a esquerda, para que ambos não me esmaguem. Por último, ainda que não menos importante, isso que chamamos – ou chamam, para ser correto – socialismo do século XXI, na verdade se parece muito a um certo capitalismo da primeira metade do século XX: nacionalista, corporativista e populista. Por acaso isso é o socialismo? O que Cuba e os cubanos podem fazer para evitar que, após a morte de Fidel, se substitua uma ditadura política por uma ditadura do capital? Intuo que, na verdade, o futuro imediato de Cuba passará pela ditadura política e também pela ditadura do capital. A Ásia está mostrando o caminho – não apenas China, também Vietnã, por exemplo – e a combinação parece ser muito benéfica para os poderosos. Imagine o cenário: férreo controle político, sem direito a greve ou a manifestações, e por sua vez, o grande capitalismo

atuando pelos flancos, em franca cumplicidade com o governo que se pretende algo como socialcomunista. Por mais paradoxal que pareça, a única maneira de suavizar – não sei se deter – o avanço do grande capital é liberando em Cuba os pequenos negócios, o pequeno comércio, a pequena empresa, e liberar também os sindicatos e demais organizações sociais do controle do Estado. Apenas um certo “liberalismo socialista”, econômico e político, poderia adiar o assalto capitalista. Mas não estou certo de que o governo aposte nisso. Como você percebe esta atual crise econômica, que teve seu auge há pouco mas ainda segue forte varrendo a Europa? E, para complementar, acredita que a estratégia de embate utilizada pela CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e demais centrais sindicais da França, Grécia, Espanha e outros países foi correta, conclamando inclusive a greve geral? Me parece que a crise de credibilidade das instituições políticas não se limita aos partidos, mas também, de forma inevitável, aos sindicatos. O sindicato nasceu com a revolução industrial e se consolidou com o fordismo, porém, ainda que os

modos de produção contemporâneos não sejam fordistas, o sindicato, de uma ou outra maneira, conseguiu ficar ancorado na primeira metade do século XX. A empresa moderna é uma organização transnacional, com trabalhadores por todo o mundo – pense no Mcdonalds, por exemplo -, enquanto o sindicato continua atracado no nacionalismo. Como combater fenômenos globais sem uma organização que também seja global? Mas o sindicato moderno esqueceu o velho acerto marxista segundo o qual não há trabalhadores cubanos ou franceses, mas apenas trabalhadores. O sindicato, assim como boa parte da “esquerda moderna” se esqueceu por inteiro desta enorme pulsão globalizante que foi desde o princípio a espinha dorsal dos movimentos anarquista, socialista e comunista, e todos, insisto, todos parecem convertidos em nacionalistas e extrema direita: agora falam da Pátria e de “nossos” trabalhadores, antes falavam da revolução mundial, dos trabalhadores do mundo inteiro. Chegou a acompanhar alguma notícia sobre a política brasileira? O presidente Lula deixou o mandato com índice histórico de popularidade, e além de conseguir eleger uma sucessora, se postou como forte liderança internacional. Você vê isso com bons olhos?

De certo modo – perdão pelo excesso – Lula me lembra Lênin. Ou seja, suas lutas com certeza têm sido diferentes, mas têm algo em comum: ao conquistar o poder, ambos estavam seguros que antes de fazer qualquer coisa, teriam que desenvolvem o capitalismo. Lênin tentou isso no nascente da URSS – sua morte encerrou este processo, Stalin tinha outras ideias a respeito – e, de certa forma, Lula tentou isso no Brasil: impossibilitado de “construir” o socialismo, compreendeu que não havia outra forma senão avançar no desenvolvimento deste mesmo capitalismo, que talvez hoje seja uma prisão, mas que, da mesma forma, amanhã talvez seja a base para construir algo mais. Claro que como anarquista, minhas simpatias não estão com Lula, mas como cidadão comum e corrente tampouco sinto antipatia. Sem dúvida foi muito inteligente sorteando alguns “pequenos problemas” durante seu governo; sem dúvidas bateu de frente com outros movimentos e organizações que se sentiram traídas quando o PT assumiu o poder. Sem dúvida foi implacável com seus inimigos políticos e sem dúvidas deixou de lado muito do romântico idealismo de outrora; mas eu não sou um romântico idealista, mas um

materialista dialético, e entendo bem a diferença entre o desejável e o possível. Nesse sentido, acredito que Lula fez aquilo que poderia fazer, nem mais nem menos. Isso é suficiente para meus sonhos e ideais? Não, mas sempre pode ser pior. O que conhece de ideias, movimentos sociais e sindicatos brasileiros que podem ser uma esperança de mudança? Acredita que MST seja um desses bolsões? Como havia dito antes, não acredito que a solução esteja numa organização em particular, mas sei que todas as lutas, ainda que pequenas e imediatas, são importantes. O MST, claro, não é um movimento pequeno, nem representa um problema menor, e mesmo que não tenha inventado nada novo – pois, a rigor, suas táticas e estratégias, assim como sua comunicação, são parecidos com todos os movimentos agrários da América Latina -, a magnitude de suas manifestações foram tais que seu grito foi ouvido no mundo todo. Bem, mas voltando a “esperança de mudança”: existe, acredito, um grande problema ainda sem solução, e não é outro além dos métodos de luta, o mesmo para os sindicatos, organizações agrárias ou a euforia estudantil. Seguimos parados em métodos

de luta de outrora: as manifestações, o bloqueio de estradas, a “invasão” de edifícios públicos, inclusive a greve de fome; isso tudo acontecendo enquanto o certo é que vivemos num mundo que já sente pouquíssima simpatia por estes atos, não por desprezo às ideias que estão por trás deles, mas por que uma manifestação ou um bloqueio de ruas não afetam quase nada aos poderosos do mundo, mas afetam os simples trabalhadores, os possíveis aliados dessa luta. Claro que não sei como poderiam ser substituídos os habituais modelos de protesto, mas parece bastante óbvio que é preciso encontrar alternativas em prol de garantir o êxito – que não é o mesmo que o poder – de um movimento dado, de uma demanda específica. É um assunto difícil, talvez por que continuamos pensando No Caminho ao invés de concentrarmonos em pequenas mudanças concretas. Ou seja, se o argumento fundamental da democracia é o tão alardeado “império da lei”, então me parece que uma necessidade imediata é lutar por leis que nos beneficiem, a cada indivíduo ou coletivo segundo suas necessidades, agora parafraseando. A revolução talvez seja bela, mas não pode ser constante nem permanente – é uma impossibilidade que vai além da mera semântica -, mas a evolução

de uma sociedade pode ser contínua, ainda que nem sempre no ritmo desejado. Agora, falando um pouco da relação com seu avô e a memória dele. Quem é Che Guevara para você: seu avô ou o grande herói da Revolução Cubana? Suponho que é um pouco ambas as coisas, e também nenhuma. Ou seja, eu não o conheci, portanto é difícil para mim referir-me a ele como “meu avô”, com essa familiaridade que apenas o contato direto proporciona. Por outro lado, não sei se Che é o maior herói da revolução cubana, mas certamente é o da falida revolução latino americana, daquela na qual que se transformou em ícone. Muitas coisas me atraem de Che Guevara: suas grandes contradições – um espírito anárquico comungado com o estatismo centralizado, um intelectual guerrilheiro, um aventureiro ilustrado, um ministro que odiava o escritório. Não era, claro, um homem monotemático; quando se analisam seus ensaios, cartas e discursos, nas entrelinhas se lê uma fascinação pelo mundo e pelos saberes, ainda que muitas vezes os dominava com desordem. Talvez, no fundo, admiro em Che duas coisas acima de tudo: a primeira, que foi um homem capaz de

lançar-se à luta – matar, enfrentar a morte – por um país que não era seu – outra vez, o contrário aos patéticos nacionalistas modernos -, e a outra que, tendo triunfado e escalado até os altos estratos do poder cubano, abandonou tudo – a comodidade, benefícios, sinecuras e responsabilidades – para lançar-se outra vez na luta, de novo num país que tampouco era o seu. Na há, obviamente, muita gente assim no mundo. Seu avô era marxista e é talvez o revolucionário mais emblemático da história, como isso se reflete em você? Francamente, é difícil saber. Cresci no meio da esquerda radical em que o Che, por si só, era um personagem de suma importância, a margem da “familiaridade” que tínhamos com ele. Como qualquer outra família de esquerda na América Latina dos anos 70, Che era fundamental na minha, figura básica do revolucionarismo, do aventurismo e do guerrilherismo da época. Por outro lado, com o passar dos anos, algo do marxismo se impregnou em mim. Isto é interessante, pois, por ter estudado um Marx simplificado em Cuba, apto para as consignas da massa, redescobri-lo quando adulto foi fascinante, tanto que mais que marxista, cheguei a me considerar marxiano. Explico: o termo marxista,

hoje, parece aludir mais aos intérpretes de Marx que ao próprio Karl, que é, na verdade, quem me fascina. Dizem que em uma das últimas entrevistas que concedeu, assegurou: “tudo que sei é que não sou marxista”, pretendendo separar-se da ortodoxia e do dogmatismo que suas ideias despertavam em certos setores da intelectualidade revolucionária. Em termos intelectuais, Marx é tão fascinante como Guevara é em termos vivenciais – insisto, sua vida é “anormal”. Assim suponho que me nutri de ambos, pela cultura herdada e pelo gosto adquirido. O resto, penso, é apenas anedótico. Assisti um vídeo da Casa Amèrica Catalunya em que você afirma que seu avô, Che Guevara, é um mito pop convertido num bem de consumo, numa mercadoria, e que esse é, provavelmente, o destino de todo revolucionário. Poderia explicar como se dá esse processo e o que você consegue sacar do homem e do militante Ernesto Guevara lá no fundo de todo esse endeusamento ideológico e desta lógica de mercado? Em rigor, foram os comunistas – os subversivos, os revolucionários -, que converteram Che em um ícone, em um mártir, em um símbolo. Foram eles os encarregados de converter seu rosto num pôster, numa camiseta e, claro, numa bandeira. Assim se

converteu em marca comercial, porém, insisto, foi a própria esquerda a encarregada em converter Che num santo impresso, estampa da religiosidade revolucionária. Mas é claro que o capitalismo também o converteu em mercadoria, e na verdade esse é um processo lógico. O capitalismo sempre absorveu toda dissidência e a regurgitou em forma de mercadoria, de bem de consumo, que é a única forma que o capital conhece para “apropriar-se” de qualquer coisa. É a única forma que conhece de proceder e, além do mais, é seu único mecanismo de sobrevivência: reciclar as ideias subversivas em tantos bens culturais – livros ou filmes de Che, discos de punk anarquista, revistas de contracultura aceitadas como um todo, com código de barras e vendas em supermercados. Assim, começa a existir quatro Ches: o Che marca, o Che mito, o Che santo e o Che real, que deve ser o verdadeiro desconhecido dessa história. Entre todos eles se constrói a ausência – ou a eterna presença – do Che das T-shirts. Além da genética, o que Canek leva de Che? Não sei; as vezes não é evidente a fronteira entre a genética e a cultura, entre a herança e a

aprendizagem. Em todo caso, Che é de suma importância na minha vida e no meu pensamento, ainda que nem sempre por coincidência. Como disse antes, cresci num entorno guevarista e revolucionário, e isso, sem dúvidas, me marcou. A proximidade então, não é sempre familiar. Talvez compartilhamos algo em nosso humor, inclusive no humor negro. Também levo uma barba desordenada, mas isso é por que odeio afeitar-me. Por outro lado, detesto sua poesia… Você acredita que a revolução é um processo e estamos inseridos nele, ou uma mudança política é uma utopia ainda maior hoje? A revolução é um grande mistério. Dedicamos os últimos séculos a exaltar um acontecimento caótico, explosivo, imprescindível. Primeiro, as revoluções estalam por “qualquer coisa”, ou seja, sem importar os desejos das vanguardas, nem as predições dos ideólogos; em segundo lugar, conduzem a “qualquer lugar”, nem sempre com o benefícios dos interessados. Entenda-me, não sou um contrarevolucionário – e me acusaram muitas vezes de ser -, acontece que parece muito pouco prudente depositar todas as esperanças em tão volátil acontecimento. No fundo, esperar que a revolução “resolva tudo” me parece tão ingênuo quanto

esperar que os problemas se resolvam sozinhos. As revoluções são necessárias, às vezes incontroláveis, sempre inevitáveis: quando estalam nada as detém; podem ser derrotadas, claro, mas já nada pode ocultar o fato de que ali “aconteceu” uma revolução. Entretanto, o que me parece realmente excedente hoje em dia é o romantismo revolucionário. Olhar os processos de frente, afundar-se em suas luzes e obscuridades, em suas grandezas e mesquinharias, em seus lauréis e crimes, isso me parece de suma importância na hora de analisar qualquer revolução. Mas, sobretudo, livrar-se da fantasia – da falácia – fundamental emanada das revoluções do século XX: aquelas do ditador benévolo, contradição política onde estiver. Se há uma figura que ainda limita nosso pensamento, essa sem dúvida é a do líder carismático e mão de ferro, protetor e castigador, que beneficia o povo ao reprimi-lo; e eu, sendo franco, não quero nem necessito de um desses.

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