A gente se conhece há alguns meses, e eu sabia que alguma coisa estranha estava acontecendo.

Ayuso era o tutano que queimava em distorções grungísticas por trás da Monaural, banda cujas tablaturas reverberavam pesadas nos botecos mais obscuros que ainda topavam soar composições noventístas. Admiro o cara, é um sujeito valvulado, teimoso, cresceu entre camisas flanelas e jeans rasgados na zona leste de São Paulo, e sem brincadeira, essa combinação é mágica quando encontra um adolescente sensível, ainda abstêmio de angústias, pronto pra gritar. E Ayuso sempre teve uma garganta desinibida. Acontece que há oito anos esse grito havia encontrado sua partitura, arisca, tensa nas baquetas de Herik e no groove baixo de Guilherme: a Monaural, pulsando forte como o miocárdio de Ayuso. Acontece que as coisas são duras pra quem acredita na sua arte. E ainda mais duras quando essa arte é também o maior dos sonhos. Ayuso sabia disso quando investiu suas esperanças em melodias rasgadas que cantavam seus monstros mais inquietos, mas para horizontes como este não dá pra fazer par com a sorte, ela é sempre e sempre ímpar. E temperamental, cara, como ela é temperamental.

Por isso fiquei preocupado quando o Guilherme deixou a banda e a então namorada do Ayuso assumiu o baixo. Mulheres são complexas, homens cartesianos: misturar isso com trabalho é um convite à bobagem. Pouco tempo depois chegou a notícia que o Herik havia escolhido uma vida a dois, com casa, cachorro, noiva e uma rotina simpática e segura, o que é diametralmente oposto à carreira de rock star falido. Porra, o Herik ajudou a parir a Monaural, ninou os compassos nos tempos certos, muito dele era a Monaural e a Monaural era muito ele. Além do mais, o sujeito é visceral com as baquetas na mão. E feliz. Mas nada como a vida para podar a própria vida, essa sacana masoquista, especialista em sabotagem. Era o fim da Monaural. E também o termino do namoro de Ayuso. A ruptura, desgraçado momento que se repete e se repete e se repete quantas vezes a vida resolver te sacanear como uma filha da puta, chegara apressada e impiedosa. E o lance é que toda ruptura é difícil, dolorosa de verdade. É o momento que você coloca seus monstros na mesma rinha sangrenta que seus sonhos prum xadrez visceral em que seu coração é o maior dos prêmios.

Algum tempo se passou e enquanto os ponteiros iam fazendo seu trabalho sujo, Ayuso seguia intermitente e corajoso em sua bad trip. Mas é lá no fundo dessas fendas mais e mais fundas o perfeito esconderijo da inspiração, e Ayuso começou a tateálo no escuro. Aos poucos foi divulgando alguns sons que passou a produzir em casa, sozinho, isolado, cruzando esses dias de tempestade. Quando as músicas passaram a ganhar corpo, e Ayuso redescobriu a confiança para publicar seus primeiros e novos rascunhos, convidei-o para um papo. Ele ainda carregava um olhar cansado, sorria com freqüência e cultivava um encantador autodesprezo pela recente conjunção de perrengues. Mas Ayuso ainda estava ferido, angustiado, desabafando entre adjetivos, verbos e suspiros. Talvez por isso ele começou falando de sua atual busca por uma religiosidade perdida nos bueiros do grunge. A – To buscando um pouco de religião também, mano. Ah, é?! A – É…

Tô fora… A – É muito difícil você ter fé hoje em dia vendo o que se vê, mas eu já fui pessimista demais. Eu não sou ateu não, também não sigo nenhuma religião, mas sei lá. Mas você é da galera que acredita que um cara chegou aqui, tinha super-poderes fodas como andar sobre as águas e multiplicar os pães, sofreu horrores, salvou o mundo, e no final, quando todo mundo achou que ele sucumbiria, o cara ressuscita das trevas?! A – Eu acho que Jesus foi como Sócrates, eu acho que o cara existiu e era até meio punk. Ele ia contra tudo, pra quebrar todos os dogmas do seu tempo. Eu não acredito em 100% do que está na Bíblia, mas eu leio, já li algumas vezes, o Apocalipse por exemplo. Mas tem o antigo testamento, que é a parte mentirosa, acredito muito mais em Darwin, mas as partes mais importantes da Bíblia pra mim são as parábolas de Cristo, onde estão os ensinamentos. Acho muito foda. Ok, eu sigo suspeitando que é só um livro de ficção que sequer original consegue ser, mas prometo que não vou amarrar uma bomba no

corpo, nem enfiar neguinho na fogueira pra te fazer acreditar nisso. A – Eu tenho minha forma de crer, acho que todo ser humano precisa de algo pra acreditar, senão acaba sucumbindo. Você chegou perto disso com o fim do Monaural? A – Não foi só o Monaural, terminei um namoro um pouco antes, estava sem trampo, fiquei um lixo. Querendo ou não, o Monaural era um bagulho que eu me apegava pra caramba, levava muito a sério. Acreditava e gostava do que eu fazia, quando acabou fiquei um pouco em choque. Era minha válvula de escape, sacou?! Então eu comecei a entrar em vários conflitos comigo mesmo e com as pessoas a minha volta, tive que me isolar e, ao mesmo tempo, manter a consciência que precisava me socializar. Então comecei a conversar mais com meus familiares, com meu irmão. Um período de transição fodido, precisou acontecer um monte de coisa pra eu passar por tudo isso. Rolava uma ansiedade pra sair disso tudo? Por que o Monaural acabou, no fim das contas, com a saída do Herik, certo?

A – Acabou por que o Herik saiu da banda. Tinha entrado a Renata, que era minha namorada, quando o Gui saiu. Quando a gente terminou – deu uma merda e tal, não bateu – continuamos ensaiando, fazendo um som, mas num clima pesado pra caralho. Foi um término mal resolvido. Aí ela saiu da banda. A gente ia chamar alguém pra tocar baixo, o Gui ia voltar. Um tempo depois o Herik saiu também pra fazer as correrias dele. Ok, aí vem a bad trip que você comentou. E quando você resolveu fazer um trabalho novo? A – Pra começar, o nome Mandíbula: quando ainda rolava o Monaural eu cheguei a falar pro Herik pra mudar o nome pra Mandíbula, que eu achava da hora. Aí lembrei daquele Mandíbula do He-Man insano, procurei e não achei nenhuma banda com esse nome. Monaural cada um falava com uma entonação diferente, Mandíbula é mais fácil. Na época o Herik não curtiu, então quando acabou o Monaural eu disse “vou fazer um bagulho meu agora”, e o nome eu já tinha. Aí chamei um cara pra tocar guitarra, na verdade troquei ideia com vários pra fazer um som, marcava de ensaiar e neguinho não colava. Aí pensei em gravar meu som, pra agilizar. Fui na casa de um cara um dia pra tocar, ver se rolava sintonia, e o cara tinha um

equipamento pra gravar o lance em casa. Cheguei lá pra mostrar o que eu tinha gravado e o cara começou a enfiar uns efeitos, gravar a bateria, tudo na hora, aí montamos uma música e em três horas já tinha guitarra e bateria, e assim foi indo, até o outro dia. Foi aí que percebi que dava pra gravar em casa, sem precisar de estúdio e com uma qualidade interessante, dava pra enganar. Eu sempre fui contra isso aí, na verdade, de gravar digitalmente… Sério?! Pra mim soa como uma libertação… A – Eu sempre preguei pelo vintage, o lance gravado no estúdio. Se eu tiver uma banda de novo, vou querer, com certeza, gravar num estúdio, com produtor, um cara foda que tire som do bagulho. Por que, na verdade, em casa dá pra explorar pra caralho, mas você fica limitado. Num estúdio, o cara sabe a ambiência que ele tem ali, em casa você tem que colocar as coisas ali pra criar uma ambiência e soar assim ou de outra forma, é artificial, não é tão simples assim. Mas eu estou aprendendo.

Isso foi uma descoberta pra você, e como você lidou com isso? A – Quando eu comecei, já entrei na pira de mostrar pra todo mundo como fazer, mostrar o processo todo, o processo evolutivo, e eu to sentindo uma progressão, já consigo fazer uma pré-produção de uma demo em casa. O que eu to fazendo com a Mandíbula agora é isso, querer economizar tempo de estúdio, por que banda é diferente, até fluir e os caras incorporarem as coisas deles na música leva muito mais tempo. E ficaria diferente do que estou fazendo, por que to fazendo sozinho. Mas eu to na brisa de fazer algo meu. Mas a Monaural era bastante você também… A – Era, era sim; mas era o Herik também. Ele tinha que colocar as batidas no som. Na Mandíbula eu to fazendo isso, tendo que raciocinar como baterista, imaginar como, por exemplo, o Herik ou algum batera que eu curto colocaria uma batera no som que eu to fazendo. Mas eu gosto muito da pegada do Herik, banda de rock boa tem que ter baterista bom! Mas, cara, é um negócio divertido gravar, e procuro fazer o melhor com o pouco que eu sei. Eu não me considero um cara que toca pra guitarra caralho,

não conheço muito de teoria musical, sou autodidata, to fazendo meu som, vi um cara produzindo em casa e comecei a mexer também. Esse cara não topou fazer um som em parceria? A – Rolou um conflito de ideias, tem uns caras pouco maleáveis. Mas eu to um pouco assim agora, to fazendo as linhas de guitarra, de baixo, quero achar uns caras pra tocar isso. A ideia é fazer um EPzinho e lançar, pra isso ir rolando e eu ter tempo de montar a banda, achar os caras, e nesse período que to desempregado vou economizando dinheiro, então quando os caras chegarem pra tocar já vai ter coisa produzida, um EP, e vai estar entrando num bagulho já pra fazer show. E durante esse processo eu sei que não vai ser 100% fiel ao que tá registrado agora, mas é um registro, de qualquer forma. Foi bom também pra mostrar que posso fazer as coisas sozinho, por que entrei numa frustração do caralho de ficar na dependência de uma outra pessoa pra fazer o que você quer. O Herik disse “mano, não quero mais tocar”, e aí vou ficar dependendo de quem pra fazer minhas coisas?! Quando vi, só sobrou eu. O Gui se aproximou no começo, mas acho que fui muito exigente, sei lá, não bateu. Acho que na época do Monaural o

motivo maior da saída foi esse, apesar de ser muito legal ter ele na banda, um clima bem animado. Mas ele tem outro estilo, outra pegada, mais groove, e eu queria fazer uma espécie de punkão. É que agora eu to seguindo meio arrisca uns bagulho que eu gosto mesmo, e a ideia é soar o menos possível com o Monaural, será um negócio diferente. Sei lá, to experimentando coisas diferentes, vocal eu também to mudando, agora tem partes que eu to tentando fazer um vocal mais limpo, mas tem as partes mais porrada também, que eu to gritando. Por que eu não acho que tenho uma voz bonita, mas gosto de coisas toscas também. Experimentar é sempre legal! E de onde tá vindo inspiração pra tudo isso? A – Cara, eu ainda gosto de Nirvana pra caralho, mas eu nunca ouvi só Nirvana. Gosto de Fugazi pra caralho, Jawbox pra caramba, os primeiros do Foo Fighters, Sunny Day, Arcwelder, Helmet, R.E.M, Sonic Youth e coisas mais melodiosas, sei lá. Gosto de Michael Jackson e Madonna pra caralho também. No Monaural eu me cobrava pra fazer o lance mais sujo, mais podrera, por que eu gosto disso; agora to numa outra fase, outra onda. E arte vai mudando enquanto você vai vivendo, vai

envelhecendo. Eu ainda gosto de Fuzz, gosto de distorção pra caralho, mas é outra fase. Agora eu to produzindo com digital em casa, foda-se, to sendo punk do meu jeito, é o que eu tenho pra fazer. Eu tenho essa paixão pelo vintage, coisa antiga. O Clayton, que produziu o Expurgo, do Monaural, ouviu o trampo com o Mandíbula, até gostou, mas sentiu o digital ali. Ele me disse que na década de 1990 ele foi punk, ele tinha o Tascan dele ali e começou a gravar a banda dele, a Vaca de Pelúcia, e foi a partir disso que ele montou um estúdio. Hoje talvez a gente não precise passar pelo Tascan, são dois caminhos. Pra que, diabos, você vai gravar alguma coisa num Tascan hoje? A – Porra, Tascan é legal para gravar guitarra… Mas eu não tenho dinheiro pra comprar um, preferi comprar uma interface pro computador. Mas o Tascan eu ia precisar de fita, precisar aprender a timbrar… Não que eu não esteja tendo que fazer isso no digital, tem sim, mas ali vem com microfonação simulada, já vem tudo meio que mastigadão. Dá pra ir longe, experimentar, sei lá, to tentando dar o meu jeito.

Eu to te sentindo, cara… A – Meio inseguro? Humm, é, um pouco inseguro, mas você está, de toda forma, buscando algumas saídas lógicas pra dilemas éticos, como: queria fazer algo vintage, mas agora tem que ser no digital; eu estou fazendo um lance mais melodioso, mas curto distorção pra cacete. Você está ou não em outra fase? A – To tentando mesclar os dois, mas com outras referências sem perder a ética punk do “faça você mesmo”. Eu não to reclamando, estou satisfeito, agora que to aprendendo mexer com lance de produção e to adorando. Os programas simulam a gravação num puta estúdio e tudo limpinho, mas dá pra você colocar um mono, simular até vazamento de esteira na caixa do bumbo, uma doidera. Não to me culpando, não. É que o underground tem sempre uns extremistas. Quero que se foda, to fazendo um bagulho pra ficar bonito e bem produzido mesmo. Talvez isso não deixe de ser uma linguagem moderna, e a música vai ter que passar por ela, você mesmo está passando por ela, e é uma linguagem digital. É preciso passar por essa fase pra emendar a próxima.

A – Por exemplo, o Expurgo não foi gravado num puta dum estúdio, mas era um estúdio legal, e o cara tirou um som legal, bem garageiro. O lance é saber fazer. Eu já experimentei uns bagulhos lá e dá pra tirar um som mais garageiro, sim! Depende da sua intenção. Mas gosto muito dos anos 80 também. Gang Of Four, Talking Heads, Plebe Rude pra caralho! Mas hoje eu tenho muito referência em coisas como o Jawbox, os caras já estão uns degraus acima. Agora to pegando bastante essa referência. As vezes nego vem falar que tá parecido com isso ou aquilo, mas são as referências. É tudo um grande plágio, e é legal. Uma forma de reinvenção. A – Indiretamente, sim. O Monaural, no começo, eu queria que soasse como Nirvana mesmo, por que eu gostava pra caralho e foda-se. Queria ter aquela sonoridade suja. Mas depois comecei a entender que o Monaural tinha que ter a coisa dele, algo só dele, Nirvana é uma banda do caralho, mas era o Nirvana e não o Monaural. * Toca o celular e Ayuso resolve atender: “Alô, beleza?! Porra, to aqui numa entrevista insana com o Bellé / …. / Firmeza, me liga depois pra gente falar por que acho que o Herik vai assumir as

baquetas mesmo / …. / Beleza, falou”. Fui pegar uma cerveja, mas saiba que o gravador registrou seu papo e jornalista é tudo malandro. A – Era o Fukuda, que talvez toque baixo na banda. Ele tem uma banda bacana, chama Espasmos do Braço Mecânico. É um japonês grandão, da hora, o cara tira maior som, leva a sério o lance do underground, tem um coletivo que ele tá agitando no ABC chamado Busina Elétrica. E se tudo der certo acho que o Herik assume as baquetas, falei com ele semana passada, ele se entusiasmou, acho que ele sentiu falta. Abstinência… A – É, mas fico maior feliz, por que eu e o Herik, a gente se comunica maior bem, curte mais ou menos as mesmas coisas. E você pretende lançar o EP quando? Vai ser físico ou todo virtual? A – Então, pro EP eu to querendo algo mais audacioso, se bobear vou tentar lançar em K7. Um lance digital distribuído em K7 soa bem… A – Vou comprar um lote de fita K7, mas vou

deixar pra baixar na internet também, já to fazendo isso. O k7 vai ser o registro, com encarte. Ou talvez não, espero montar a banda pra gravar num estúdio e lanço, ainda não sei. Por que eu vou gravando, cara, faço a batera aqui, uma linha de guitarra, repito essa frase quatro vezes, há uma mecânica, e muito improviso também. Busquei improvisar bastante nessas gravações. Também comecei a refazer algumas coisas, principalmente as baterias, então tem um processo. Mas eu não tenho 100% do controle de tudo, por que eu estou improvisando em cima de tudo isso, colando e montando o que vem na cabeça. Então as guitarras são quase todas no improviso? A – A maioria, tem a linha do baixo e aí vai. E isso vai ser bem da hora, por que o processo de montar a banda vai ser interessante, por que eu vou ter que tirar as músicas também, eu não lembro de todas elas por que foram feitas no improviso. Eu consigo pensar no riff, mas vou ter que tirar ele de novo. A minha idéia é simplificar o complicado, cara. Eu vou pegar essas coisas que eu gravei, juntar a galera que abraçar minha loucura e aí tocar!

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