Você está na página 1de 91

A Última Aula

Randy Pausch

Introdução

Tenho um problema de engenharia. Embora no geral esteja em muito boa forma física, tenho dez tumores no fígado e apenas alguns meses de vida. Sou pai de três filhos pequenos e casado com a mulher dos meus sonhos. Embora pudesse facilmente cair num estado de autocomiseração, isso nunca seria bom, nem para mim nem para eles. Assim sendo, como passar o meu tempo bastante limitado? O mais óbvio será estar com a minha família, e cuidar dela. Aproveito cada momento com eles enquanto posso, ao mesmo tempo que levo a cabo todos os preparativos logísticos para que lhes seja mais fácil prosseguir sem mim. Menos óbvio é como ensinar aos meus filhos tudo o que lhes ensinaria ao longo dos próximos vinte anos. Neste momento são demasiado novos para esse tipo de conversas. Todos os pais querem ensinar os filhos a distinguir o certo do errado, aquilo que consideram importante e como lidar com os desafios que a vida lhes vai trazer. Também desejamos que conheçam algumas das histórias da nossa vida, muitas vezes como forma

de os ensinar a viver a sua. Essa minha vontade levou-me a apresentar uma «última aula» na Carnegie Mellon University. Estas aulas são habitualmente gravadas em vídeo. Sabia o que estava a fazer nesse dia. Sob o pretexto de uma sessão académica, estava a tentar guardar-me numa garrafa que um dia fosse dar à costa para os meus filhos. Se fosse pintor, ter-lhes-ia pintado um quadro. Se fosse músico, teria composto uma música. Mas sou um professor, por isso dei uma aula. Fiz uma sessão acerca da alegria de viver, de quanto gostava da vida, mesmo com tão pouca à minha frente. Falei sobre honestidade, integridade, gratidão e outros assuntos que me são caros. E esforcei-me por não ser enfadonho. Este livro é uma forma de continuar aquilo que iniciei em palco. Uma vez que o tempo é precioso e queria passá-lo tanto quanto possível com os meus filhos, pedi ajuda a Jeffrey Zaslow. Todos os dias ando de bicicleta pela vizinhança, uma forma de obter o exercício crucial para a minha saúde. Durante cinquenta e três longos passeios falei com Jeff pelo auricular do telemóvel. Depois ele passou horas intermináveis a ajudar- me a transformar as minhas histórias — imagino que lhes possamos chamar cinquenta e três «aulas» — no livro que se segue. Tínhamos algo bem presente logo à partida: nada disto substitui um pai vivo. Mas a engenharia não tem que ver com soluções perfeitas. É sobre darmos o nosso melhor com recursos limitados. Tanto a aula como este livro são as minhas tentativas de fazer exactamente isso.

I

A ÚLTIMA AULA

1

Um leão ferido ainda quer rugir

Muitos professores fazem apresentações intituladas «A Última Aula». Talvez já tenha assistido a alguma. Tornou-se uma prática comum nas universidades. Solicita- se a professores que imaginem o seu falecimento e que ruminem sobre o que mais os interessa. Enquanto falam, as audiências não conseguem deixar de ponderar sobre a mesma questão: que sabedoria transmitiríamos ao mundo se soubéssemos que se tratava da nossa última oportunidade? O que gostaríamos de deixar como legado, caso desaparecêssemos amanhã? Durante anos, Carnegie Mellon teve uma «Série Última Aula». Quando os organizadores me pediram para a apresentar, tinham rebaptizado a série como «Jornadas», pedindo a professores seleccionados que «apresentassem considerações sobre as suas jornadas pessoais e profissionais». Não era a mais entusiasmante das descrições, mas acedi a fazê-lo. Foi-me atribuída a data de Setembro. Na altura já me tinha sido diagnosticado cancro no pâncreas, mas estava optimista. Talvez me encontrasse entre os poucos felizardos que sobrevivem. Enquanto me submetia ao tratamento, os indivíduos que organizavam as sessões nunca deixaram de me enviar e-mails. «Vai falar sobre o quê?», perguntavam. «Por favor, envie-nos uma síntese.» O mundo académico está pejado de formalidades que não

podem ser ignoradas, mesmo que uma pessoa esteja ocupada com outras coisas, como, por exemplo, tentar não morrer. Em meados de Agosto fui informado de que tinha de ser impresso um cartaz para a sessão, por isso era urgente que me decidisse sobre um tópico. Nessa mesma semana, contudo, recebi a notícia: o meu tratamento mais recente não dera resultado. Dispunha de alguns meses de vida. Sabia que podia cancelar a aula. Todos entenderiam. De súbito havia uma série de coisas a fazer. Tinha de lidar com a minha mágoa e com a tristeza daqueles que me amavam. Tinha de me dedicar à organização dos assuntos da família. Mesmo assim, apesar de tudo, não me saía da cabeça a ideia de apresentar a palestra. Sentia-me motivado pelo conceito de apresentar uma última aula que fosse, de facto, uma última aula. O que poderia dizer? Como seria recebida? Seria capaz de a realizar? «Eles deixam-me cancelar», expliquei a Jai, a minha esposa, «mas quero muito fazer isto.» Jai sempre fora a minha chefe de claque. Quando me sentia entusiasmado, ela também se sentia. Mas estava desconfiada de todo o conceito de uma última aula. Tínhamos acabado de nos mudar de Pittsburgh para o Sudeste da Virgínia para que, depois da minha morte, Jai e os miúdos pudessem estar perto da família dela. Jai sentia que eu devia gastar o meu tempo precioso com os nossos filhos, ou a arrumar a nossa casa nova, em vez de dedicar horas à redacção de uma palestra e posterior viagem a Pittsburgh para a apresentar.

«Podes chamar-me egoísta», disse-me Jai. «Mas quero-te por inteiro. Todos os bocados que passas a trabalhar nessa aula é tempo perdido, pois é tempo que passas longe dos miúdos e de mim.» Sabia onde ela queria chegar. Quando ficara doente, jurara a mim próprio submeter-me a Jai e aceder aos seus pedidos. Dedicara-me à missão de fazer o possível para aliviar os fardos que a minha situação impusera à sua vida. Foi por isso que passei tantas das minhas horas de vigília a tratar do futuro da minha família sem mim. Mesmo assim, não conseguia ignorar o desejo de cumprir esta derradeira aula. Ao longo da minha carreira académica apresentei várias palestras interessantes. No entanto, ser considerado o melhor orador de um departamento de informática é mais ou menos o mesmo que ser conhecido como o mais alto dos Sete Anões. Naquele momento sentia que tinha algo mais no meu ser, que, se me dedicasse de corpo e alma, talvez conseguisse transmitir algo especial às pessoas. «Sabedoria» é uma palavra forte, mas talvez fosse isso mesmo. Jai continuava insatisfeita. Acabámos por levar o assunto a Michele Reiss, a psicoterapeuta que começáramos a consultar alguns meses antes. A especialidade dela é ajudar famílias em que um dos elementos está a braços com uma doença terminal. «Eu conheço o Randy», disse Jai à Dr.ª Reiss. «Vive para o trabalho. Sei bem como vai ser quando começar a elaborar a aula. Não vai ver mais nada.» Argumentou que essa aula seria uma diversão desnecessária dos problemas imensos com que nos debatíamos. Havia outra questão a perturbar Jai: para apresentar a palestra na data marcada, eu teria de viajar para Pittsburgh na véspera do dia do seu quadragésimo primeiro aniversário.

«É o último aniversário que vamos celebrar juntos», disse-me. «Vais mesmo deixar-me no meu dia de anos?»

É claro que pensar em deixar Jai nesse dia me custava bastante. No

entanto, não conseguia ignorar o conceito da aula. Começara a encará-la como o derradeiro momento da minha carreira, uma forma de me despedir da minha «família profissional». Também comecei a fantasiar

uma última aula, que seria o equivalente oratório a um batedor de basebol que vai abandonar os relvados a lançar uma última bola para a bancada superior. Eu sempre gostara do final de Um Homem fora de série, onde o idoso jogador Roy Hobbs, a sangrar, faz um milagroso home run.

A Dr.ª Reiss escutou-me, e a Jai. Disse que na minha esposa via uma

mulher forte e carinhosa que pretendera passar décadas a construir uma vida com o marido, a educar os filhos até à idade adulta. Agora, a nossa vida em conjunto tinha de ser resumida a alguns meses. Em mim, a Dr.ª Reiss via um homem que ainda não estava pronto a dedicar-se por inteiro à vida familiar e, acima de tudo, que ainda não estava preparado para se deitar no seu leito de morte. «Esta aula vai ser a última oportunidade que muitas pessoas de quem gosto vão ter para me verem ao vivo», expliquei- lhe sem rodeios. «Tenho a possibilidade de pensar naquilo que mais me interessa, de cimentar a forma como as pessoas irão recordar-me e de fazer algum bem na minha despedida.» Por várias vezes a Dr.ª Reiss viu-nos abraçados um ao outro no sofá do consultório, ambos lavados em lágrimas. Disse-nos que via o grande respeito mútuo, e com frequência sentia-se comovida com o nosso empenho em tirar o melhor partido do tempo que nos restava juntos. Mas também disse que não lhe competia opinar sobre se eu iria apresentar a palestra ou não. «Vão ter de decidir por vocês»,

declarou, e encorajou-nos a ouvirmo-nos um ao outro, para que pudéssemos tomar a decisão correcta para ambos. Dadas as reticências de Jai, sabia que tinha de analisar honestamente as minhas motivações. Porque seria esta aula tão importante para mim? Seria uma forma de me recordar, e a todos os outros, de que ainda estava bem vivo? De provar que ainda tinha a força de espírito para me expor? Seria a necessidade de me sentir uma última vez debaixo das luzes da ribalta? A resposta, em todos os casos, era sim. «Um leão ferido quer saber se ainda é capaz de rugir», expliquei a Jai. «Tem que ver com dignidade e auto-estima, coisas muito diferentes da vaidade.» E havia ainda mais um elemento em jogo. Começara a ver a aula como um veículo para chegar ao futuro que nunca veria. Recordei a Jai a idade dos miúdos: cinco, dois e um ano. «Olha», disse-lhe. «Com cinco anos, imagino que o Dylan cresça com algumas recordações minhas. Mas, ao certo, do que irá lembrar-se? Do que nos lembramos nós de quando tínhamos cinco anos? Será que o Dylan se vai lembrar de como brincava com ele ou daquilo de que nos ríamos? Na melhor das hipóteses vai ser muito enevoado. «E quanto ao Logan e à Chloe? Podem vir a não ter quaisquer recordações. Nada. Especialmente a Chloe. E digo-te uma coisa: quando forem mais velhos, eles vão atravessar uma fase em que vão querer saber a todo o custo: “Quem foi o meu pai? Como era ele?” Esta aula pode ajudar-me a responder a isso.» Disse a Jai que ia garantir que Carnegie Mellon gravaria a palestra. «Eu consigo-te um DVD. Podes mostrá-lo aos

miúdos, quando forem mais velhos. Vai ajudá-los a entender quem eu era

e aquilo de que gostava.» Jai escutou-me e depois fez-me a pergunta óbvia. «Se tens alguma coisa que queiras dizer aos miúdos, ou conselhos que lhes queiras transmitir, porque não montas uma câmara de vídeo em cima de um tripé

e o gravas aqui na sala?» Talvez me tivesse apanhado com essa questão. Ou talvez não. Tal como o leão na selva, o meu habitat natural continuava a ser numa cidade universitária, à frente de alunos. «Se há uma coisa que aprendi», argumentei com Jai, «é que quando os pais dizem alguma coisa aos filhos é sempre bom ter uma validação externa. Se conseguir que uma audiência se ria e bata palmas nas alturas certas, talvez isso venha dar algum peso ao que estou a dizer aos nossos filhos.» Jai sorriu-me, o seu artista moribundo, e acabou por ceder. Sabia que eu andava a esforçar-me por descobrir formas de deixar algum legado aos nossos filhos. Muito bem. Talvez esta aula fosse um caminho para isso.

2

A minha vida num computador portátil

Como poderemos, ao certo, catalogar os nossos sonhos de infância? Como ser capaz de levar outras pessoas a recuperarem os seus? Enquanto cientista, este tipo de questão não me atormentava frequentemente. Ao longo de quatro dias estive ao computador na nossa nova casa da Virgínia, a digitalizar slides e fotografias que incorporei numa apresentação em PowerPoint. Sempre pensei em termos visuais, por isso sabia que a aula não teria texto. Não haveria um guião. Mas juntei trezentas imagens da minha família, alunos e colegas, além de dezenas de ilustrações invulgares que poderiam ajudar a definir os sonhos de infância. Introduzi algumas palavras em certos slides: conselhos, ditos. Quando me encontrasse em palco, serviriam para me lembrar do que dizer. Enquanto trabalhava na apresentação, levantava-me da cadeira a cada noventa minutos, mais ou menos, para interagir com os meus filhos. Jai viu-me a tentar permanecer ligado à vida familiar, mas continuava a pensar que estava a dedicar demasiado tempo à palestra, acima de tudo porque tínhamos acabado de nos mudar para a casa nova. Como seria natural, queria que ajudasse com as caixas que se encontravam espalhadas por todo o lado. No início, Jai não fazia tenção de assistir à aula. Sentia que tinha de ficar na Virgínia com os miúdos, a tratar das dezenas de coisas que tinham

de ser feitas devido à mudança. Eu dizia-lhe: «Quero que lá estejas.» A verdade era que precisava desesperadamente que ela lá estivesse. Por isso ela acabou por concordar em seguir de avião para Pittsburgh na manhã da palestra. Eu, por outro lado, tinha de ir a Pittsburgh na véspera, e assim, à uma e meia da tarde do dia 17 de Setembro, o dia em que Jai fazia quarenta e um anos, despedi-me dela e dos nossos filhos e segui de automóvel para o aeroporto. Tínhamos festejado o aniversário na véspera, com uma pequena festa na casa do meu cunhado. A minha partida, no entanto, marcava a desagradável recordação de que estaria sem mim nesse aniversário e nos vindouros. Aterrei em Pittsburgh e fui recebido no aeroporto pelo meu amigo Steve Seabolt, que viajara de São Francisco. Tínhamos ficado unidos anos antes, quando cumprira um ano sabático na Electronic Arts, a produtora de jogos de vídeo onde Steve é um dos directores. Ficáramos tão chegados como irmãos. Steve e eu abraçámo-nos, alugámos um carro e partimos juntos, a trocar piadas de humor negro. Steve disse que tinha acabado de ir ao dentista e eu retorqui que já mão precisava de ir mais ao dentista. Parámos num restaurante local para jantar e instalei o computador portátil em cima da mesa. Mostrei-lhe rapidamente os slides, agora reduzidos a duzentos e oitenta. «Continua a ser muito longo», disse-me Steve. «Quando acabares a apresentação, já toda a gente morreu.» A empregada de mesa, uma mulher grávida de cabelo louro na casa dos trinta, chegou à nossa mesa no momento em que o ecrã apresentava uma fotografia dos meus filhos. «São bonitos», elogiou, e perguntou os nomes. Indiquei-lhe: «É o Dylan, o Logan, a Chloe…» A empregada disse

que a filha se chamava Chloe e ambos sorrimos pela coincidência. Steve e eu continuámos a rever a apresentação, com ele a ajudar-me a obter o devido distanciamento. Quando a empregada nos trouxe a refeição, dei-lhe os parabéns pela gravidez. «Deve estar felicíssima», alvitrei. «Não exactamente», retorquiu. «Foi um acidente.» Enquanto se afastava da nossa mesa, não pude deixar de me sentir espantado pela franqueza. O comentário recordou-me os elementos acidentais que estão em jogo tanto na nossa chegada à vida… como na partida para a morte. Ali estava uma mulher que ia ter um filho acidental que de certeza viria a amar- Quanto a mim, graças ao acidente que fora o cancro, iria deixar três filhos que cresceriam sem o meu amor. Uma hora depois, sozinho no meu quarto de hotel, continuei a pensar nos meus filhos enquanto ia eliminando e ordenando as imagens da apresentação. A ligação wireless à Internet a partir do quarto era fraca, algo que me deixava exasperado, pois continuava à procura de imagens na Web. Para piorar a situação, começava a sentir os efeitos da quimioterapia a que fora submetido dias antes. Tinha cãibras, náuseas e diarreia. Trabalhei até à meia-noite, adormeci, e acordei às cinco da manhã, em pânico. Parte de mim duvidava que a apresentação resultasse de todo. «É o que dá quereres contar uma vida inteira numa hora!», pensei para comigo. Continuei a trabalhar, a repensar, a reorganizar. Às onze da manhã senti que possuía um melhor fio condutor. Talvez resultasse. Tomei um duche e vesti-me. Ao meio-dia, Jai chegou ao aeroporto e juntámo-nos a

Steve para almoçar. Foi uma conversa solene, com Steve a garantir que iria ajudar a cuidar de Jai e dos miúdos. À uma e meia da tarde, o laboratório de informática onde passara grande parte da minha vida foi dedicado em minha honra. Observei enquanto descobriam o meu nome por cima da porta. Às duas e um quarto estava no meu gabinete, tendo voltado a sentir-me péssimo:

estava completamente exausto, enjoado devido à quimioterapia e a interrogar-me se teria de subir ao palco com a fralda para adultos que trouxera como precaução. Steve sugeriu que me deitasse um pouco no divã do meu gabinete, e foi o que fiz, mas mantive o portátil em cima da barriga, para continuar a revisão. Eliminei outros sessenta slides. Às três e meia da tarde algumas pessoas esperavam já pela minha apresentação. Às quatro levantei-me do divã e comecei a reunir o material para a minha caminhada através do campus até à sala de palestras. Dali a menos de uma hora teria de dar início à minha apresentação.

3

O elefante na sala

Jai já se encontrava na sala, inesperadamente lotada, com quatrocentas pessoas. Quando subi para o estrado, para confirmar o palanque e organizar as coisas, ela podia ver como me sentia nervoso. Enquanto me atarefava a dispor tudo, Jai apercebeu-se de que eu não estabelecia contacto visual praticamente com ninguém. Julgou que não consegui olhar para a audiência, sabendo que poderia ver uma amigo ou um antigo aluno, e que me sentiria devastado pela emoção dessa troca de olhares. Enquanto me preparava começou a fazer-se ouvir um burburinho dos espectadores. Para quem tinha simplesmente vindo ver qual a aparência de um homem a morrer de cancro pancreático, decerto haveria questões:

seria o meu cabelo verdadeiro? (Sim, nunca perdi o cabelo durante a quimioterapia.) Seriam capazes de se aperceber do quão próximo me encontrava da morte durante a minha apresentação? (A minha resposta:

«Esperem para ver!) Mesmo com a aula a poucos minutos de começar, continuei a trabalhar no estrado, a apagar alguns slides, a reorganizar outros. Ainda estava concentrado quando me fizeram sinal. «Estamos prontos», indicaram-me.

Não estava de fato. Não tinha gravata. Não fazia tenção de subir ao palco com um qualquer casaco de tweed académico, com cotoveleiras de

cabedal. Em vez disso, decidira fazer a apresentação com a vestimenta de sonho infantil mais apropriada que consegui encontrar no roupeiro. Admito que à primeira vista parecia daqueles indivíduos que recebem o nosso pedido no drive-through de um restaurante de comida rápida. Mas, na verdade, o dístico tratava-se daquele usado pelos Walt Disney Imagineers: os artistas, os guionistas e engenheiros que criam as fantasias dos parques temáticos. Em 1995 passei seis meses sabáticos como imagineer. Foi um dos pontos altos da minha vida, a concretização de um sonho de infância. Era também por esse motivo que envergava a placa oval com o nome «Randy» que me deram quando trabalhei na Disney. Prestava homenagem a essa experiência, e ao próprio Walt Disney, que dissera as famosas palavras: «Se conseguires sonhá-lo, conseguirás fazê- lo.» Agradeci a presença da audiência, disse algumas piadas e depois comentei: «Para o caso de estar aqui alguém que tenha entrado casualmente e não conheça os meus antecedentes, o meu pai ensinou-me que quando há um elefante na sala devemos apresentá-lo. Se olharem para as minhas TAC, podem ver que existem aproximadamente dez tumores no meu fígado, e os médicos disseram-me que tenho entre três e seis meses de boa saúde pela frente. Isso foi há um mês, por isso podem fazer as contas.» Exibi uma imagem gigante das TAC do meu fígado no ecrã. O slide intitulava-se «O elefante na sala» e eu acrescentara setas vermelhas que apontavam para cada um dos tumores. Deixei alguns slides alguns momentos, para que a audiência pudesse seguir as setas e contar os tumores. «Muito bem», prossegui. «É este o

ponto da situação. Não podemos trocar as cartas que foram dadas. Só podemos decidir como jogá-las.» Nesse momento sentia-me definitivamente saudável e completo, o Randy de antigamente, alimentado, sem dúvida, pela adrenalina e pela emoção de uma casa cheia. Também sabia que tinha um ar bastante saudável, e que havia quem tivesse dificuldade em associá-lo ao facto de estar em fase terminal. Por isso abordei o tópico. «Se não pareço tão deprimido e aborrecido quanto devia, lamento desapontá-los», disse e, depois de o público se ter rido, acrescentei: «Garanto que não me encontro em negação. Tenho bem noção do que se passa.» «A minha família, os meus três filhos e a minha esposa, acabou de se mudar. Comprámos uma casa adorável na Virgínia, pois é o melhor local para a família estar quando chegar o fim.» Mostrei um slide da casa nova nos subúrbios que acabáramos de comprar. Por cima da fotografia da casa estava o título «Não estou em fase de negação». Aquilo que queria dizer: Jai e eu decidíramos deslocar a família, e pedira-lhe que deixasse uma casa que adorava e amigos que gostavam dela. Tínhamos afastado os nossos filhos dos amigos de Pittsburgh. Empacotáramos as nossas vidas, entrando de livre vontade num turbilhão, quando no podíamos simplesmente ter aninhado em Pittsburgh, à espera que eu morresse. Tínhamos tomado esta decisão pois sabíamos que assim que eu morresse Jai e os miúdos iriam precisas de estar a viver onde a família alargada dela pudesse ajudá-los e acarinha- los. Também queria que audiência soubesse que tinha bom aspecto, e que me sentia bem, em parte por ter começado a recuperar da quimioterapia e da radioterapia debilitantes a que os médicos me tinham submetido. Na

altura encontrava-me sujeito à quimioterapia paliativa, mais fácil de suportar. «Neste momento encontro-me de extrema boa saúde», expliquei. «O melhor da dissonância cognitiva que vão ver é que estou mesmo em boa forma. Na verdade, devo estar em melhor forma do que muitos de vocês.» Aproximei-me do centro do palco. Horas antes, não sabia se teria força suficiente para fazer o que estava prestes a fazer, mas naquele momento sentia-me audaz e potente. Baixei-me e comecei a fazer flexões. Nos risos e nos aplausos surpreendidos da audiência, quase pude ouvir um suspiro colectivo de alívio. Não era um moribundo qualquer. Era eu. Podia começar.

II

CONQUISTAR OS NOSSOS SONHOS DE INFÂNCIA

4

A lotaria dos pais

Ganhei a lotaria dos pais.

Nasci com um bilhete premiado, o que se tornou uma das principais razões para ter conseguido concretizar os meus sonhos de infância.

A minha mãe era uma professora de Inglês dura, da velha guarda, com

Quando tinha dois anos e a minha irmã quatro, a minha mãe levou-nos ao circo. Aos nove anos quis voltar a ir ao circo. «Não precisas de ir», explicou-me a minha mãe. «Já foste uma vez ao circo.» Pode soar opressivo pelos padrões actuais, mas, na verdade, foi uma infância mágica. Considero-me um indivíduo que teve um grande incentivo na vida, pois tive um pai e uma mãe que tinham razão em muitas coisas. Não comprávamos muita coisa, mas pensávamos em tudo. Isso devia- se à curiosidade contagiosa do meu pai sobre cultura geral, história e as nossas vidas. Enquanto crescia, julgava que existiam dois tipos de famílias:

os nervos de titânio. Puxava bastante pelos alunos, aturando os pais que se queixavam de que ela esperava demasiado das crianças. Como seu

1)

As que precisam de um dicionário ao jantar.

filho, conheço um ou dois aspectos dessa exigência, e isso tornou-se a minha boa estrela.

2)

As que não precisam.

O meu pai foi um médico de Segunda Guerra Mundial que serviu na

batalha do Bulge. Fundou um grupo sem fins lucrativos para ajudar os filhos de imigrantes a aprenderem inglês. E, como sustento, dirigia uma pequena empresa que vendia seguros automóveis na zona urbana de

Baltimore. Os clientes eram, na sua maioria, pessoas pobres, e ele descobria maneira de lhes conseguir um seguro para poderem circular. Por mil e uma razões, o meu pai era o meu herói. Cresci integrado numa classe média confortável em Columbia, Maryland. O dinheiro nunca foi problema lá em casa, em grande medida por os meus pais nunca terem tido necessidade de gastar muito. Eram demasiado frugais. Raramente jantávamos fora. Íamos ao cinema uma vez, talvez duas vezes por ano. «Vê televisão», diziam os meus pais. «É gratuita. Ou, melhor ainda, vai à biblioteca. Lê um livro.»

Nós éramos do primeiro tipo. Quase todas as noites acabávamos a consultar o dicionário, que guardávamos numa prateleira a meia dúzia de passos da mesa. «Quando tiveres um dúvida», diziam os meus pais, «vai à procura da resposta.» Em nossa casa o instinto lavava-nos a nunca ficar sentados por ali, feitos preguiçosos, a interrogar-nos sobre as coisas. Sabíamos de um método mais eficaz: abre a enciclopédia. Abre o dicionário. Abre a mente. O meu pai era também um contador de histórias espantoso e dizia sempre que as narrativas deviam ser contadas por um motivo. Ele gostava de relatos humorísticos que se transformavam em moralidades. Dominava na perfeição esse tipo de história e absorvi as suas técnicas. Foi por isso que quando a minha irmã, Tammy, viu a minha última aula na Internet escutou uma voz que não era minha. Era a do nosso pai. Sabia

que eu estava a reciclar um grande número dos seus ensinamentos preferidos. Não vou negá-lo. Na verdade, momentos houve naquele palco em que senti que estava a servir de canal para o meu pai. É raro o dia em que não cito o meu pai a quase toda a gente. Em parte isso deve-se ao facto de quando oferecemos os nossos conhecimentos, regra geral, os outros ignoram-nos. Se oferecermos a sabedoria de

terceiros, parece menos arrogante e mais aceitável. É claro que, quando temos alguém como o meu pai na bagagem, não conseguimos resistir. Citamo-lo sempre que podemos.

O meu pai deu-me conselhos sobre como orientar-me na vida. Dizia

coisas como: «Nunca tomes uma decisão até que sejas obrigado a isso.» Também me avisou que, se alguma vez me encontrasse numa posição de poder, tinha de ser justo. «Lá porque estás ao volante», dizia-me, «Não quer dizer que vás atropelar as pessoas.» Nos últimos tempos tenho dado comigo a citar o meu pai, mesmo que

se trate de algo que ele não tenha dito. Seja qual for o tema, poderia ter vindo dele. Sempre pareceu saber tudo.

A minha mãe, por seu lado, também sabia bastante. Durante toda a

minha vida assumiu como missão refrear a minha arrogância. Hoje, estou- lhe grato por isso. Mesmo agora, se alguém lhe pergunta como eu era em criança, ela descreve-me como «alerta, mas não muito precoce». Hoje em dia vivemos numa época em que os pais elogiam todos os filhos como sendo génios. E aqui temos a minha mãe, que considera que «alerta» tem de ser elogio suficiente. Quando estudava para o meu doutoramento submeti-me a uma coisa chamada «qualificador de teorias», a qual posso agora definir como tendo sido a segunda pior coisa na minha vida, depois da quimioterapia. Quando

me queixei à minha mãe de como o teste era difícil, ela chegou-se a mim, deu-me uma palmadinha no braço e disse: «Sabemos como te sentes, querido. E lembra-te, quando o teu pai era da tua idade, estava a combater os alemães.» Depois de completar o doutoramento, a minha mãe sentia grande prazer quando me apresentava da seguinte forma: «Este é o meu filho. É doutor, mas não do tipo que ajuda as pessoas.» Os meus pais sabiam bem o que era preciso para ajudar as pessoas. Estavam sempre a descobrir projectos fora do comum, aos quais se dedicavam de corpo e alma. Juntos financiaram um dormitório para cinquenta estudantes na Tailândia rural, que se destinava a ajudar as raparigas a permanecer na escola, evitando assim a prostituição. A minha mãe sempre foi uma pessoa extremamente caridosa. E o meu pai não se teria importado de dar tudo o que tinha e viver numa tenda em vez de morar nos subúrbios, que era onde nós queríamos estar. Nesse sentido, considero o meu pai o homem mais «cristão» que alguma vez conheci. Sempre foi um grande defensor da igualdade social. Ao contrário da minha mãe, ele não tinha facilidade em abraçar a religião organizada. (Éramos presbiterianos.) Concentrava-se mais nos ideais superiores e via a igualdade como o mais alto dos objectivos. Tinha esperança na sociedade e, embora essa esperança fosse com demasiada frequência derrubada, nunca deixou de ser um optimista fervoroso. Aos oitenta e três anos diagnosticaram leucemia ao meu pai. Sabendo que não tinha muito tempo de vida, fez todos os preparativos para doar o corpo à medicina e deu dinheiro para que o seu programa tailandês prosseguisse durante pelo menos mais seis anos.

Muitas pessoas que assistiram à minha última aula sentiram-se cativadas por uma fotografia em particular entre as várias que projectei. É uma fotografia em que estou de pijama, apoiado sobre o cotovelo, e onde se torna óbvio que era uma criança que gostava de sonhar alto. A tábua que me encobre o corpo é a frente do beliche. Foi o meu pai, um carpinteiro bastante dotado, que me fez essa cama. O sorriso no rosto daquele miúdo, a tábua, a expressão nos seus olhos: essa fotografia recorda-me que ganhei a lotaria dos pais. Embora os meus filhos venham a ter uma mãe dedicada, que sei irá guiá-los pela vida de forma brilhante, não terão o pai. Já aceitei esse facto, mas é algo que dói. Gosto de acreditar que o meu pai teria aprovado a forma como tenho passado estes últimos meses de vida. Ter-me-ia aconselhado a deixar tudo em ordem para Jai, a passar tanto tempo quanto possível com os meus filhos: as coisas que estou a fazer. Sei que teria concordado com a mudança da família para a Virgínia. Também acredito que o meu pai me recordaria de que as crianças, mais do que tudo, precisam saber que os pais as amam. Os pais não têm de estar vivos para que tal aconteça.

5

O elevador na casa do rancho

Sempre tive dificuldade em conter a minha imaginação e, algures a meio do liceu, senti a necessidade premente de espalhar nas paredes do meu quarto de infância alguns dos pensamentos que fervilhavam na minha mente. Pedi autorização aos meus pais. «Quero pintar coisas nas paredes do meu quarto», disse. «Como por exemplo?», perguntaram-me. «Coisas que me interessam», respondi. «Coisas que acho vão ser fixes. Depois vêem.» Foi explicação quanto bastasse para o meu pai. Era uma das melhores coisas que ele tinha. Bastava sorrir-nos para encorajar a criatividade. Adorava ver a centelha de entusiasmo transformar-se em fogo-de- artifício. E compreendia-me, e à minha necessidade de me expressar de formas pouco convencionais. Por isso pensou que a minha aventura na pintura de paredes era uma excelente ideia. A minha mãe não ficou muito satisfeita com a iniciativa, mas acedeu rapidamente quando viu o meu entusiasmo. Ela também sabia que, regra geral, o meu pai costumava sair vencedor nestas coisas. Mais valia render- se de forma pacífica. Ao longo de dois dias, com a ajuda da minha irmã Tammy e do meu amigo Jack Sheriff, pintei as paredes do meu quarto. O meu pai ficava sentado na sala, a ler o jornal, aguardando pacientemente pela revelação. A minha mãe não saía do corredor, completamente nervosa. Ia tentando

espreitar-nos, mas ficámos barricados no quarto. Tal como se diz nos filmes, era um «estúdio reservado». O que pintámos nós? Bem, eu queria uma equação do segundo grau na parede. Neste tipo de equações, a potência mais elevada de um valor desconhecido é um quadrado. Eterno marrão, julguei que era algo que merecia ser celebrado. Ao lado da porta pintei:

± 2 4

2

Jack e eu pintámos uma grande porta de elevador prateada. À esquerda da porta desenhei botões «Subir» e «Descer» e por cima do elevador pintámos um painel com os números do primeiro ao sexto andares. O número «três» estava iluminado. Vivíamos numa casa de rancho (que só tinha um piso), por isso era uma certa fantasia da minha parte imaginar seis pisos. Mas, pensando nisso a posteriori, porque não terei pintado oitenta ou noventa andares? Se era tão grande sonhador, por que razão o meu elevador parava no número três? Não sei. Talvez fosse um símbolo do equilíbrio na minha vida entre aspiração e pragmatismo. Dadas as minhas capacidades artísticas limitadas, julguei ser melhor esboçar as coisas com formas geométricas básicas. Por isso desenhei um foguetão espacial simples com estabilizadores. Pintei o espelho da Branca de Neve com a deixa: «Lembras-te de te ter dito que eras a mais bonita? Menti.» No tecto, Jack e eu escrevemos as palavras «Estou preso no sótão! », mas escrevemos as letras ao contrário, por isso parecia que tínhamos aprisionado alguém lá em cima que estava a escrevinhar um S. O. S. Como eu adorava xadrez, Tammy desenhou peças de xadrez (era a única entre nós com algum talento artístico). Enquanto ela tratava disso, pintei atrás do beliche um submarino à espreita dentro de água. Desenhei

um periscópio que se erguia acima da colcha, em busca de navios inimigos. Sempre gostei da história da caixa de Pandora, por isso Tammy e eu pintámos a nossa versão. Pandora, na mitologia grega, recebeu uma caixa que continha todos os males do mundo. Desobedeceu às ordens para não a abrir. Quando a tampa saiu, o mal espalhou-se pelo mundo. Sempre me senti atraído pelo final optimista da história: no fundo da caixa ficou a «esperança». Por isso, dentro da minha caixa de Pandora escrevi a palavra «Esperança» [«Hope», em inglês]. Jack viu isso e não resistiu a escrever a palavra «Bob» por cima de «Hope» Quando tinha amigos de visita ao meu quarto, perdiam sempre um minuto a tentar perceber o motivo da palavra «Bob» ali em cima. Depois chegava o inevitável revirar de olhos. Uma vez que nos encontrávamos em finais da década de 1970, escrevi as palavras «Disco é uma treta!» por cima da porta. A minha mãe considerou-o ordinário. Um belo dia , quando eu lá não estava, pintou por cima da palavra «treta». Foi a única censura que alguma vez ali empregou. Os amigos que lá iam ficavam sempre impressionados. «Nem acredito que os teus pais te deixaram fazer isto», espantavam-se. Embora na altura a minha mãe não tivesse ficado entusiasmada com a ideia, nunca pintou o quarto, mesmo décadas depois de eu de lá ter saído. Na verdade, com o tempo, o meu quarto tornou-se o centro da visita à casa quando lá ia alguém. A minha mãe começou a aperceber-se de uma coisa: as pessoas julgavam que era mesmo fixe. E consideravam- na a ela fixe por me ter deixado fazê-lo. A todos os que forem pais, se os vossos filhos quiserem pintar o quarto, pensem nisto como um favor pessoal que me fazem: deixem-nos pintar. Não vai fazer mal. Não se preocupem com a desvalorização da vossa casa. Não sei quantas mais vezes terei oportunidade de visitar a casa da minha infância. Mas ir lá é sempre uma dádiva. Ainda durmo no beliche

que o meu pai construiu, olho para aquelas paredes malucas, penso nos meus pais quando me deixaram pintá-las, e adormeço com uma sensação de sorte e de prazer.

6

Chegar à gravidade zero

É importante ter sonhos específicos. Quando estava na escola primária, muitos miúdos queriam ser astronautas. Desde cedo tive noção de que a NASA não iria querer-me. Tinha ouvido dizer que os astronautas não podiam usar óculos. Por mim, tudo bem. Não me interessava o conceito de astronauta. Só queria flutuar. Afinal, a NASA tem um avião que ajuda os astronautas a adaptarem-se à gravidade zero. Todos lhe chamam " O Cometa do Vómito», mesmo que a NASA se refira a ele como «A Maravilha sem Gravidade», um gesto de relações públicas que tem como objectivo desviar a atenção do óbvio. Seja qual for o nome do avião, é uma máquina sensacional. Executa arcos parabólicos e, no topo de cada arco, temos cerca de vinte e cinco segundos em que sentimos mais ou menos o equivalente à falta de gravidade. Quando o avião mergulha, sentimo-nos como se estivéssemos numa montanha-russa, mas estamos suspensos, a voar por ali.

O meu sonho tornou-se possível quando descobri que a NASA tinha um programa em que os alunos universitários podiam apresentar propostas para uma experiência a bordo do avião. Em 2001, a nossa equipa de alunos da Carnegie Mellon apresentou um projecto que utilizava realidade virtual. Estar sem gravidade é uma sensação difícil de imaginar quando se passou uma vida inteira como terráqueo. Em gravidade zero, o ouvido interno, que controla o equilíbrio, não está exactamente sincronizado com aquilo que os olhos nos dizem. Regra geral, o resultado são as

náuseas. Será que treinos realizados no solo com realidade virtual poderiam ajudar? Era essa a questão abordada no nosso projecto, o qual foi escolhido. Fomos convidados para o Johnson Space Center, em Houston, para viajar no avião. Provavelmente estava mais entusiasmado do que qualquer um dos meus alunos. Flutuar! No entanto, já íamos bem adiantados no projecto quando recebi más notícias. A NASA deixava bem claro que os orientadores não podiam voar com os alunos, qualquer que fosse a circunstância. Fiquei destroçado, mas não me deixei abater. Iria encontrar maneira de dar a volta à questão. Decidi ler com atenção toda a literatura sobre o programa, à procura de escapatórias. E encontrei uma: a NASA, sempre ansiosa por ter publicidade positiva, permitia que um jornalista da localidade de origem dos alunos acompanhasse a viagem. Falei com um director da NASA e pedi-lhes o número do fax. "Por que razão nos quer enviar um fax?», perguntou-me. E eu expliquei-lhe:

apresentar o pedido de exoneração do cargo de orientador e a minha candidatura como jornalista. "VOU acompanhar os meus alunos no meu novo papel como membro da imprensa», adiantei. E ele respondeu: «Não acha que isso é demasiado óbvio?» «Claro», admiti, mas também prometi que iria colocar informações sobre a nossa experiência em sites noticiosos, e enviar uma filmagem do nosso trabalho em realidade virtual a jornalistas mais convencionais. Sabia que ia ser bem- sucedido e que todos sairiam a ganhar. Deu-me o número do fax. Como aparte, eis uma lição a reter: tenham sempre alguma coisa com que negociar, pois isso fará com que sejam apreciados. A minha experiência em gravidade zero foi espectacular (e não, não vomitei, obrigado). Levei algumas pancadas, é certo, pois no final desses vinte e cinco segundos mágicos, quando a gravidade regressa ao avião, é

como se ficássemos com o dobro do nosso peso. Podemos cair com muita força. É por isso que nos estão sempre a dizer: «Pés para baixo!» Não seria agradável partir o pescoço. Mas consegui entrar a bordo do avião, quase quatro décadas depois de flutuar se ter tornado um dos meus objectivos de vida. Só prova que, se conseguirmos encontrar uma aberta, provavelmente conseguimos encontrar maneira de flutuar por ela.

7

Nunca cheguei à NFL

Adoro futebol. Futebol americano. Comecei a jogar com nove anos, e o futebol ajudou-me a ser quem sou hoje. E, mesmo não tendo chegado à National Footbal League, por vezes julgo que consegui mais a perseguir esse sonho sem o concretizar do que com alguns sonhos que se tornaram realidade. O meu romance com o futebol teve início quando o meu pai me arrastou, a espernear, para um clube. Não tinha qualquer vontade de lá estar. Era naturalmente palerma e, de longe, o miúdo mais pequeno. O medo transformou-se em reverência quando conheci o meu treinador, Jim Graham, um indivíduo de um metro e noventa que mais parecia uma parede. Fora defesa na Penn State e integrava-se profundamente na velha guarda. E acreditem que era mesmo da velha guarda, do tipo de pessoa que julga que um passe para a frente era batota. No primeiro dia de treino estávamos todos mortos de medo. Além disso, ele também não trouxera bolas. Um dos rapazes acabou por falar por todos nós. «Desculpe, treinador. Não há bolas.» E o treinador Graham respondeu: «Não precisamos de bolas.» Seguiu-se um silêncio, enquanto pensávamos no caso «Quantos homens se encontram no campo de cada vez?», perguntou- nos. Onze em cada equipa, respondemos. O que perfaz vinte e dois. «E quantas pessoas tocam na bola em qualquer momento?» Uma.

«Exactamente! », exclamou. «Por isso vamos tremar o que esses outros vinte e um tipos estão a fazer.» Bases. Foi uma dádiva muito importante que o treinador Graham nos deu. Bases, bases, bases. Enquanto professor universitário, esta é uma lição que já vi muitos miúdos ignorarem, sempre para sua desvantagem:

temos de perceber as bases, caso contrário os floreados não resultam. O treinador Graham costumava esforçar-me ao máximo. Lembro-me de um treino em especial. «Estás a fazer tudo mal, Pausch. Lá para trás! Repete!» Tentava fazer o que ele queria. Não era suficiente. «Ficas a dever-me, Pausch! Vais fazer flexões depois do treinoQuando finalmente fui dispensado, um dos treinadores adjuntos veio ter comigo para me reconfortar. «O treinador Graham puxou bem por ti, não foi ?», perguntou-me. Mal consegui balbuciar um «pois». «Isso é bom», garantiu-me o adjunto. «Quando fazemos asneira e já ninguém nos diz nada, é porque desistiram.» Essa lição acompanhou-me durante toda a vida. Quando damos connosco a fazer qualquer coisa mal e ninguém se dá ao trabalho de nos chamar à atenção, isso é mau sinal. Podemos não gostar de ouvi-los, mas muitas vezes os críticos estão a dizer-nos que ainda se preocupam connosco, e querem tornar- nos melhores. Hoje em dia fala-se muito sobre dar auto-estima às crianças. Isso não é uma coisa que se possa dar, é algo que tem de ser construído. O treinador Graham trabalhava numa zona de mimos proibidos. Auto-estima? Ele sabia que só há uma forma de ensinar as crianças a desenvolvê-la: damos- lhes alguma coisa que não conseguem fazer, elas esforçam- se até descobrirem que são capazes, e depois repetimos o processo. Quando o treinador Graham me pôs as mãos em cima, eu era um miúdo palerma sem capacidades, sem força física e sem condicionamento. Mas fez-me perceber que, se me esforçar o suficiente,

haverá coisas que serei capaz de fazer amanhã que não era capaz de fazer hoje. Mesmo agora, com quarenta e sete anos acabados de fazer, ainda consigo executar posições que qualquer avançado da NFL se orgulharia. Hoje em dia, sei que alguém como o treinador Graham poderia ser expulso de um clube juvenil. Seria considerado demasiado duro. Os pais iriam queixar-se. Lembro-me de um jogo em que a nossa equipa estava a jogar terrivelmente mal. No intervalo, quando corremos para beber água, quase derrubámos o balde. O treinador Graham ficou lívido: «Bolas! Desde que o jogo começou, ainda não os tinha visto correr tanto!» Tínhamos onze anos e estávamos cheios de medo que nos fosse partir o pescoço só com as mãos. «Água?», bradou. «Vocês querem água?» Levantou o balde e despejou a água para o chão. Vimo-lo a afastar-se e ouvimo-lo a murmurar para um treinador adjunto: «Podes dar água à primeira linha de defesa. Eles jogaram bem.» Deixem-me esclarecer uma coisa: o treinador Graham nunca iria arriscar a saúde de qualquer criança. Um dos motivos para nos treinar com tanto empenho no condicionamento era saber que reduzia as lesões. Mas aquele dia estava fresco, todos tínhamos tido acesso a água durante a primeira parte do jogo, e a corrida para o balde da água tinha mais que ver com o facto de sermos um bando de pirralhos do que com a necessidade de hidratação. Mesmo assim, se esse tipo de incidente tivesse lugar hoje em dia, os pais a assistir ao jogo teriam puxado do telemóvel e ligado ao comissário de clubes ou talvez ao advogado. Entristece-me que muitas das nossas crianças sejam hoje tão mimadas. Lembro-me de como me senti com aquele sermão a meio do jogo. Sim, tinha sede. Mas, acima de tudo, senti-me humilhado. Todos tínhamos desapontado o treinador Graham e ele mostrou-nos isso de uma forma que nunca esqueceremos. Ele tinha razão. Mostráramos mais energia a correr para o balde da água do que durante o jogo.

E sermos repreendidos por isso foi importante. Durante a segunda parte fomos para o campo e demos o nosso melhor. Não vejo o treinador Graham desde a adolescência, mas ele está sempre a aparecer-me na cabeça, a obrigar-me a trabalhar mais sempre que sinto vontade de desistir, a obrigar- me a ser melhor. Garantiu-me um condicionamento que durou a vida toda . Quando inscrevemos os nossos filhos em desportos organizados - futebol, natação, seja o que for -, para boa parte de nós isso não se deve à necessidade de que aprendam os pormenores desse desporto. Aquilo que queremos que aprendam é muito mais importante:

trabalho de equipa, perseverança, desportivismo, o valor do trabalho duro, a capacidade de lidar com a adversidade. Este tipo de aprendizagem indirecta é o que alguns de nós chamamos «simulação». Existem dois tipos de simulação. O primeiro é literal. No campo de futebol, um jogador move o corpo numa direcção para que julguem que vai para esse lado. Depois vai para o lado contrário. É como um ilusionista que usa indicações erradas. O treinador Graham costumava dizer- nos para observarmos a cintura do adversário. «Para onde for o umbigo, vai o corpo», dizia. O segundo tipo de simulação é o verdadeiramente importante. É aquele que ensina coisas às pessoas, sem que elas se apercebam até bem depois de terem começado. Se formos especialistas em simulação, o nosso objectivo oculto é fazer com que alguém aprenda aquilo que nós queremos que aprenda. Este tipo de simulação é absolutamente essencial. E o treinador Graham era o mestre.

8

Podem encontrar-me no «R»

Vivo na era da informática e adoro cá estar! Desde há muito que abracei os pixéis, as estações de trabalho com múltiplos ecrãs e a auto- estrada da informação. Sou perfeitamente capaz de imaginar um mundo sem papéis. No entanto, cresci num lugar muito diferente. Quando nasci, em 1960, era em papel que se registava o conhecimento. Em minha casa, ao longo das décadas de 1960 e 1970, a minha família reverenciava a World Book Encyclopedia: as fotografias, os mapas, as bandeiras dos diferentes países, as barras úteis, que revelavam a população de cada estado, o lema e a altitude média. Não li todas as palavras de todos os volumes da World Book, mas tentei. Sentia-me fascinado pela forma como teria sido criada. Quem escreveu o artigo sobre o porco- formigueiro? Como seria ter os organizadores da World Book a ligarem-nos e a dizerem: «Sabe mais sobre o porco- formigueiro do que qualquer outra pessoa. Importa-se de nos escrever um artigo sobre ele?» E depois tínhamos o volume do «Z». Quem seria considerado perito em zulus para redigir essa entrada? Seria essa pessoa zulu? Os meus pais eram frugais. Ao contrário de muitos americanos, nunca compravam nada com o objectivo de impressionar as outras pessoas, nem qualquer luxo para si próprios. Mas não se importaram de comprar a World Book, de gastar uma verba principesca na altura, pois ao fazê-lo concediam-me a mim e à minha irmã a dádiva do conhecimento. Também encomendavam os apêndices anuais. Todos os anos chegava um novo

tomo - identificado com 1970, 1971, 1972, 1973 - de inovações e acontecimentos contemporâneos, e eu mal podia esperar para os ler. Estes volumes anuais traziam autocolantes que remetiam para entradas nas World Books originais e alfabéticas. A minha tarefa era colar esses autocolantes nas páginas correctas, responsabilidade essa que levava

muito a sério. Estava a ajudar a ordenar a história e a ciência para quem abrisse essas enciclopédias no futuro. Uma vez que venerava a World Book, um dos meus sonhos de infância era ser um dos colaboradores. Mas não podemos telefonar para a sede da World Book em Chicago e oferecermo-nos. É a WorId Book que tem de nos descobrir. Acreditem ou não, há alguns anos fizeram-me mesmo esse telefonema. De alguma forma, a minha carreira até à altura transformava- me exactamente no tipo de perito que a World Book gostava de abordar. Não julgavam que me tratava do mais importante perito em realidade virtual do mundo. Essa pessoa estava demasiado ocupada para ser abordada.

mas

não era famoso a ponto de rejeitar a proposta. «Gostaria de elaborar a nossa nova entrada sobre realidade virtual?», perguntaram-me. Não podia dizer-lhes que passara a vida inteira à espera desse telefonema. Só podia responder: «Sim, é claro!» Redigi a entrada e incluí uma fotografia da minha aluna Caitlin Kelleher com um capacete de realidade virtual. Nenhum dos editores me questionou sobre o que escrevi, mas imagino que seja assim que funciona a World Book. Escolhem um perito e acreditam que o perito não vai abusar do privilégio.

Não comprei o mais recente conjunto de World Books. Na verdade, mesmo tendo sido seleccionado para ser um dos autores da World Book, hoje em dia acredito que a Wikipedia é uma óptima fonte de informação, pois sei como é o controlo de qualidade das enciclopédias a sério. Mas às

Mas eu encontrava-me no nível médio: respeitável quanto bastasse

vezes, quando vou a uma biblioteca com os meus filhos, continuo sem resistir a ir ao «R» ( «Realidade Virtual», por este vosso criado) e deixá-los dar uma vista de olhos. Foi o pai que a escreveu.

9

Uma proficiência chamada liderança

À semelhança de inúmeros marrões americanos nascidos em 1960, passei grande parte da minha infância a sonhar ser o Capitão James T. Kirk, comandante da nave estelar Enterprise. Não me imaginava como Capitão Pausch. Imaginava um mundo onde eu era o Capitão Kirk. Para jovens ambiciosos com uma inclinação para as ciências, não havia melhor modelo do que James T. Kirk da série O Caminho das Estrelas. Com efeito, acredito que me tornei melhor professor e colega - talvez mesmo melhor marido - a ver Kirk a dirigir a Enterprise. Pensem nisso. Se já viram a série, sabem que Kirk não era o indivíduo mais inteligente a bordo da nave. Mr. Spock, o seu imediato, era a inteligência sempre lógica da nave. O Dr. McCoy dispunha de todos os conhecimentos médicos da humanidade na década de 2260. Scotty era o engenheiro chefe, que tinha o conhecimento científico necessário para manter a nave em funcionamento, mesmo quando era atacada por extraterrestres. Qual era, então, a proficiência de Kirk? Por que motivo entrou para a Enterprise como capitão? A resposta: existe uma proficiência chamada «liderança». Aprendi muito ao ver esse homem em acção. Era a essência do gestor dinâmico, alguém que sabia delegar, tinha a paixão de inspirar e parecia sempre elegante, não importava o que vestia para ir trabalhar. Nunca alegou ser mais capaz do que os subordinados. Reconhecia que eles sabiam o que estavam a fazer nos seus campos. Mas era ele quem definia

a visão, o tom. Tinha a seu cargo a moral. Ainda por cima, Kirk tinha os momentos românticos com as belas mulheres de todas as galáxias que visitava. Imaginem-me em casa, a ver televisão, um miúdo de dez anos com óculos. Sempre que Kirk aparecia no ecrã, para mim era como se fosse um deus grego.

E tinha uma série de brinquedos fantásticos! Quando era miúdo,

considerava fascinante que ele pudesse estar num planeta qualquer e ter

uma coisa - um dispositivo de comunicação d'O Caminho das Estrelas - com a qual

podia falar com os elementos da tripulação na nave. Agora ando com um no bolso. Quem se lembra de que foi Kirk quem nos apresentou o telemóvel? Há alguns anos recebi uma chamada (no meu dispositivo de comunicação) de um autor de Pittsburgh chamado Ship Walter. Estava a escrever um livro em colaboração com William Shatner (também conhecido como Kirk) sobre como as inovações científicas surgidas pela primeira vez n'O Caminho das Estrelas eram uma antevi são dos avanços tecnológicos dos nossos dias. O Capitão Kirk queria visitar o meu laboratório de realidade virtual, em Carnegie Mellon.

É certo, o meu sonho de infância era ser o Kirk. Mesmo assim,

considerei a realização de um sonho quando Shatner apareceu. É espectacular conhecermos o nosso ídolo de infância, mas é quase indescritível quando é ele que vem até nós, para ver as coisas interessantes que estamos a fazer no nosso laboratório. Os meus alunos e eu trabalhámos vinte e quatro horas por dia para criar um mundo de realidade virtual que se assemelhasse à ponte de comando da Enterprise. Quando Shatner chegou, colocámos-lhe um capacete de realidade virtual enorme. Tinha um ecrã no interior e, quando virava a cabeça, podia mergulhar em imagens de trezentos e sessenta graus da sua antiga nave. «Vau, até tem as portas do turbo elevador», espantou-se. E também tínhamos uma surpresa: sereias de

alerta vermelho. Reagindo de imediato, gritou: «Estamos a ser atacados!

»

Shatner passou três horas connosco e fez imensas perguntas. Mais tarde, um colega disse-me: «Ele está sempre a fazer as mesmas perguntas. Parece que não percebe.» Mas fiquei extremamente impressionado. Kirk, quero dizer Shatner, foi o melhor exemplo de um homem que tinha noção daquilo que não sabia, não teve problemas em admiti-lo e não quis sair dali até entender. Isso, para mim, é heróico. Quem me dera que todos os alunos tivessem a mesma atitude. Durante o meu tratamento oncológico, quando me disseram que apenas quatro por cento de doentes de cancro pancreático vivem até cinco anos, veio-me à cabeça uma deixa do filme A Ira de Khan. Nesse filme da série o Caminho das Estrelas, os cadetes são confrontados com uma simulação de treino em que, não interessa o que façam, toda a tripulação é morta. O filme explica que quando Kirk era cadete reprogramara a simulação, pois «não acreditava no cenário de derrota absoluta». Ao longo dos anos, alguns dos meus colegas académicos mais sofisticados desdenharam da minha paixão por O Caminho das Estrelas. Mas ela nunca deixou de me ser útil. Quando Shatner soube do meu diagnóstico, enviou-me uma fotografia sua como Kirk, onde escreveu: «Não acredito no cenário de derrota absoluta.»

10

Ganhar à grande

Um dos meus primeiros sonhos de infância era ser o tipo mais fixe em qualquer parque de diversões ou feira que visitasse. Sempre soube como alcançar esse estatuto. Era fácil identificar o tipo mais fixe: era quem andava por ali com o maior boneco de peluche. Em criança, quando via alguém à distância com a cabeça e o corpo quase escondidos por um enorme animal de peluche - não interessava se era um Adónis inchado ou um palerma que não

conseguia envolver o boneco com os braços -, se tivesse o maior boneco de peluche, era o tipo mais fixe da feira. O meu pai partilhava dessa ideia. Sentia-se despido na roda gigante caso não tivesse ao lado um urso ou um macaco acabado de ganhar. Dada a competitividade na nossa família, os jogos tornaram-se uma batalha. Qual de nós seria capaz de capturar o maior animal do Reino dos Animais de Peluche? Alguma vez andaram por uma feira com um boneco de peluche gigante? Já repararam como as pessoas olham para nós, e nos invejam? Alguma vez utilizaram um animal de peluche para cortejar uma mulher?

Eu já

Desde o início da minha vida que os peluches gigantes têm vindo a desempenhar um papel importante. Certa vez tinha eu três anos e a minha irmã cinco. Estávamos na secção de brinquedos de uma loja e o meu pai disse-nos que nos comprava o que quiséssemos, desde que chegássemos a acordo sobre o quê e o partilhássemos. Procurámos por todo o lado e acabámos por olhar para cima e ver, na prateleira mais alta, um coelho de peluche gigante. «Levamos aquilo! », indicou a minha irmã.

e casei com ela!

Devia ser o artigo mais caro da secção de brinquedos, mas o meu pai era um homem de palavra. Por isso comprou-o. Deve tê-lo considerado um bom investimento. Uma casa precisava sempre de mais um boneco de peluche gigante. Quando cheguei à idade adulta e fui aparecendo cada vez com mais e maiores bonecos de peluche, o meu pai desconfiou que estivesse a subornar as pessoas. Imaginava que me punha à espera de vencedores numa das barracas e depois dava uma nota de cinquenta a um indivíduo que não sabia como um boneco de peluche gigante alterava a percepção que o mundo tinha dele. Mas nunca paguei por um boneco de peluche. E nunca fiz batota. Está bem, admito que me inclinava. Mas essa é a única maneira de ganhar a atirar argolas. Sou um inclinador, mas não sou batoteiro. No entanto, boa parte das minhas conquistas tiveram lugar fora da vista da minha família, e sei que isso fez aumentar a desconfiança. Mas descobri que a melhor forma de arrecadar animais de peluche é sem a pressão de uma audiência familiar. Também não queria que ninguém soubesse quanto tempo precisava para ser bem-sucedido. A tenacidade é uma virtude, mas não é sempre essencial para que todos vejam o quanto nos esforçamos por alguma coisa. Sinto-me agora preparado para revelar que existem dois segredos para ganhar bonecos de peluche gigantes: braços compridos e um pequeno rendimento próprio. Tive a felicidade de ser abençoado com ambos. Falei sobre os meus bonecos de peluche na minha última aula e mostrei fotografias deles. Previa que os cínicos mais informados sobre tecnologia fossem pensar: nesta era de imagens manipuladas digitalmente, talvez aqueles ursos de peluche não estivessem mesmo nas fotografias comigo. Ou talvez tivesse convencido os verdadeiros donos a deixarem- me tirar uma fotografia ao lado dos prémios.

Como poderia eu, nesta era de cinismo, convencer a minha audiência de que tinha mesmo ganho aquelas coisas? Pois bem, iria mostrar-lhes os bonecos verdadeiros. E, assim, pedi a alguns dos meus alunos que entrassem, cada um com um boneco de peluche gigante que ganhei ao longo dos anos. Já não preciso desses troféus. E, embora saiba que a minha esposa adorava o urso de peluche que lhe tinha pendurado no gabinete quando

namorávamos, três filhos depois já não quer um exército deles a encher a nossa casa nova. (Estavam a perder bolinhas de esferovite que iam parar à boca de Chloe.) Sabia que, se guardasse os bonecos, um dia Jai ia ligar para uma

instituição de caridade e dizer: «Levem-nos daqui!»

sentir que não era capaz de o fazer! Foi por isso que decidi: porque não oferecê-los a amigos? E foi assim que, uma vez dispostos no palco, anunciei: «Se alguém quiser ficar com uma recordação minha no fim da apresentação, pode vir até aqui e levar um urso. Os primeiros a chegar podem escolher.» Os bonecos de peluche gigantes encontraram casas novas rapidamente. Alguns dias mais tarde vim a saber que um dos animais fora

levado por uma aluna da Carnegie Mellon, que, tal como eu, sofre de cancro. Depois da sessão, dirigiu-se ao palco e escolheu o elefante gigante. Gostei do simbolismo. Ficou com o elefante na sala.

Ou pior, poderia

11

O lugar mais feliz na Terra

Em 1969, tinha eu oito anos, a minha família atravessou o país para visitar a Disneylândia. Foi uma verdadeira odisseia. Uma vez lá chegados, senti uma total reverência pelo lugar. Era o ambiente mais espectacular onde já estivera. Enquanto aguardava na fila com os outros miúdos, só pensava: «Mal posso esperar por fazer coisas destas!» Duas décadas mais tarde, quando concluí o meu doutoramento em ciências informáticas em Carnegie Mellon, julguei que isso me qualificava a fazer tudo, por isso enviei cartas de apresentação para a Walt Disney lmagineering. E eles responderam-me com algumas das mais simpáticas cartas vá-para-o-diabo-que-o-carregue que alguma vez recebi. Diziam que tinham analisado a minha proposta, mas não tinham «qualquer posição que necessite das suas qualificações específicas». Nada? Esta é uma empresa famosa por contratar exércitos de pessoas para varrer as ruas! A Disney não tinha nada para mim? Nem sequer uma vassoura? Bem, isso foi um revés, mas lembrei-me sempre do meu mantra: os muros estão lá por uma razão. Não são para nos impedir de entrar. Os muros estão lá para que possamos mostrar a que ponto desejamos alguma coisa. Avancemos para 1995. Tornara-me professor da Universidade da Virgínia e ajudara a construir um sistema chamado «Realidade Virtual por Cinco Dólares por Dia». Estávamos numa altura em que os peritos em realidade virtual insistiam que precisavam de meio milhão de dólares para fazer fosse o que fosse. Eu e os meus colegas levámos a cabo a nossa pequena versão da Hewlett-Packard na garagem e montámos um sistema

funcional de realidade virtual barata. As pessoas do mundo da informática julgaram que era muito interessante. Pouco tempo depois vim a saber que a Disney lmagineering estava a trabalhar num projecto de realidade virtual. Era ultra-secreto, e tratava-se de uma atracção sobre o Aladino, que permitiria que as pessoas andassem de tapete mágico. Entrei em contacto com a Disney e expliquei que era um investigador de realidade virtual à procura de informação sobre o assunto. Fui insistente até ao ridículo, e foram-me transferindo os telefonemas, até que me ligaram a um indivíduo chamado Jon Snoddy. Por acaso era o imagineer brilhante que liderava a equipa. Sentia-me como se tivesse ligado para a Casa Branca e me tivessem passado ao presidente. Depois de termos falado um pouco, disse a Jon que ia à Califórnia. Será que nos poderíamos encontrar? (Na verdade, se ele dissesse que sim, a única razão para lá ir seria encontrar-me com ele. Teria ido a Neptuno falar com ele!) Disse-me que sim. Já que lá ia, podíamos almoçar. Antes de nos encontrarmos, fiz oitenta horas de trabalho de casa. Pedi a todos os mestres de realidade virtual que conhecia que partilhassem as suas ideias e questões sobre este projecto da Disney. Como resultado, quando finalmente me encontrei com Jon, ele ficou espantado com a minha preparação. (É fácil parecer inteligente quando nos limitamos a imitar pessoas mesmo inteligentes.) Então, no fim do almoço, fiz «o pedido». «Estou prestes a ter uma sabática», disse-lhe. «O que é isso?», perguntou-me, o que foi o primeiro indício do abismo academia/entretenimento que iria enfrentar. Depois de lhe explicar o conceito das sabáticas, ele julgou que seria boa ideia passar esse tempo com a equipa dele. O acordo seria: passava lá seis meses, trabalhava num projecto e publicava um trabalho sobre isso. Fiquei entusiasmado. É quase inaudito que a lmagineering convide um académico como eu para trabalhar numa das suas operações secretas.

O único problema: precisava de autorização dos meus chefes para fazer esse tipo de sabática bizarra. Bem, todas as histórias da Disney precisam de um vilão, e o meu foi um certo reitor da Universidade da Virgínia. O «Reitor Wormer» (tal como Jai o baptizou, em honra do filme A República dos Cucos) estava preocupado que a Disney me sugasse da cabeça a «propriedade intelectual» que pertencia legitimamente à universidade. Argumentou que não o devia fazer. Perguntei-lhe: «Acha que pode ser uma boa ideia de todo?» E ele respondeu: «Não faço ideia se é uma boa ideia.» Era a prova viva de que, por vezes, os muros mais impenetráveis são feitos de carne. Como não estava a chegar a lado nenhum com ele, dirigi-me ao reitor da pesquisa financiada. Perguntei-lhe: «Acha que é boa ideia eu fazer isto?» E ele respondeu: «Não tenho dados suficientes para lhe dizer. Mas sei que um dos mais famosos elementos do meu corpo docente está no meu gabinete e posso ver que está muito entusiasmado. Por isso, explique-me melhor.» Ora aqui está uma lição para os gestores e para os administradores. Ambos os reitores disseram a mesma coisa: não sabiam se esta sabática era boa ideia. Mas vejam as formas diferentes como o disseram! Acabei por obter autorização para a sabática, e foi uma fantasia tornada realidade. Na verdade, tenho de confessar uma coisa. Sou fanático a este ponto: pouco depois de ter chegado à Califórnia, saltei para o meu descapotável e dirigi-me à sede da Imagineering. Era uma noite quente de Verão e tinha a banda sonora do Rei Leão da Disney a tocar bem alto. Quando passei pelo edifício, as lágrimas correram-me pelo rosto. Ali estava eu, a versão adulta daquele miúdo de oito anos de olhos arregalados na Disneylândia. Tinha chegado, finalmente. Era um imagineer.

III

AVENTURAS… E LIÇÕES APRENDIDAS

12

O parque está aberto até às 20h.

A minha odisseia clínica teve início no Verão de 2006, quando senti pela primeira vez dores ligeiras e inexplicáveis no abdómen superior. Mais tarde fiquei com icterícia e os médicos desconfiaram de que tinha hepatite. Acabou por se revelar que isso era apenas um desejo. A TAC revelou que tinha cancro pancreático, e urna busca de apenas dez segundos no Google levou-me a descobrir até que ponto isso era uma má notícia. O cancro pancreático apresenta a taxa de mortalidade mais elevada de todos os cancros. Metade das pessoas diagnosticadas com a doença morre no espaço de seis meses, e noventa e seis por cento morrem no espaço de cinco anos. Abordei o tratamento tal como abordo tantas outras coisas, enquanto cientista. Por isso coloquei inúmeras questões e dei comigo a aventar hipóteses, a par dos médicos. Gravei cassetes com as minhas conversas com eles para ouvir com mais atenção as explicações em casa. Encontrava artigos em revistas obscuras e levava-os comigo às consultas. Os médicos não pareciam aborrecidos comigo. Na verdade, a maior parte considerava-me um doente engraçado, por estar tão envolvido em tudo. (Nem pareceram importar-se quando levei advogados - a minha amiga e colega Jessica Hodgins foi a algumas consultas para me oferecer apoio e as suas grandes capacidades de pesquisa na navegação através de informação clínica.) Disse aos médicos que estava disposto a suportar tudo o que tivessem no seu arsenal cirúrgico e que engoliria tudo o que estivesse no armário, pois tinha um objectivo: queria ficar vivo tanto tempo quanto possível para J ai e para os miúdos. Na minha primeira consulta com o cirurgião de

Pittsburgh, o Dr. Herb Zeh, disse- lhe: «Vamos esclarecer uma coisa. O meu objectivo é estar vivo e integrado no seu panfleto daqui a dez anos.» Descobriu-se que me encontrava entre a minoria de doentes que podem beneficiar daquilo a que se chama «operação Whipple», baptizada em honra do médico que inventou este procedimento complicado, na década de 1930. Durante os anos 70, a intervenção matava até vinte e cinco por cento dos doentes que a ela eram submetidos. No ano 2000, o risco de morte baixara para menos de cinco por cento quando realizada por especialistas experientes. Mesmo assim, sabia que ia atravessar um período brutal, especialmente por depois da cirurgia ser necessário um regime extremamente tóxico de quimio e radioterapia. Como parte da cirurgia, o Dr. Zeh removeu-me não só O tumor, mas também a vesícula, um terço do pâncreas, um terço do estômago e uma boa extensão do intestino delgado. Depois de recuperar, passei dois meses no MD Anderson Cancer Center, em Houston, a receber as tais doses poderosas de quimioterapia, além de doses diárias elevadas de radiação no meu abdómen. Baixei de oitenta e dois para sessenta e dois quilos de peso e, no fim, mal conseguia andar. Em Janeiro fui para casa, em Pittsburgh, e a TAC não revelava qualquer tumor. Lentamente, recuperei as forças. Em Agosto, chegara a altura do meu exame trimestral no MD Anderson. Jai e eu seguimos de avião para Houston, deixando os miúdos com uma ama, em casa. Vimos a viagem como uma espécie de escapadela romântica. Chegámos mesmo a ir a um parque aquático gigante na véspera – eu sei, é a minha ideia de uma escapadela romântica - e andei no escorrega maior, com um sorriso estampado no rosto durante toda a descida. Então, no dia 15 de Agosto de 2007, uma quarta-feira, Jai e eu chegámos ao MD Anderson para rever os resultados das minhas últimas TAC com o meu oncologista, Robert Wolff. Indicaram-nos um consultório, onde uma enfermeira nos fez uma série de perguntas de rotina. «Notou

alguma alteração no peso, Randy? Continua a tomar a mesma medicação?» Jai comentou o tom alegre da enfermeira quando esta saiu,

como disse alegremente «Muito bem, o doutor já vem falar convosco», enquanto fechava a porta. O consultório tinha um computador e reparei que a enfermeira não tinha encerrado a sessão. A minha ficha clínica continuava no ecrã. É claro que percebo alguma coisa de computadores, mas para isto não era preciso ser um hacker. O meu ficheiro estava todo ali. «Vamos dar uma vista de olhos?», perguntei a Jai. Não sentia qualquer prurido em relação ao que estava prestes a fazer. Afinal de contas era a minha ficha. Dei uma vista de olhos e encontrei o relatório das análises ao sangue. Havia trinta valores obscuros, mas sabia de qual andava à procura: CA 19- 9 - o marcador de tumores. Quando o encontrei, o valor era uns horríveis duzentos e oito. Um valor normal encontra-se abaixo dos trinta e sete. Olhei por apenas um segundo. «Acabou-se», disse a Jai. «Estou feito.» «O que queres dizer com isso?», perguntou. Indiquei-lhe o valor do CA 19-9. Aprendera o suficiente sobre tratamentos oncológicos para saber que duzentos e oito indicava uma metástase: uma sentença de morte. «Não tem piada», disse-me. «Pára de brincar.» Depois abri a TAC e comecei a contar. «Um, dois, três, quatro, cinco, seis » Podia ouvir o pânico na voz de Jai. «Não me digas que estás a contar tumores», exclamou. Não conseguia evitar. Fui contando em voz alta.

«Sete, oito, nove, dez

Jai dirigiu-se ao computador, viu tudo claramente com os seus próprios olhos e caiu nos meus braços. Chorámos juntos. E foi então que me apercebi de que não havia uma caixa de lenços no consultório. Tinha acabado de descobrir que iria morrer em breve e, na minha incapacidade

»

Vi tudo. O cancro deixara metástases no fígado.

de deixar de me concentrar racionalmente, dei comigo a pensar: «Um sítio destes, numa altura destas, não devia ter uma caixa de lenços? Uau, isso é uma grande falha.» Bateram à porta. O Dr. Wolff entrou com um dossier na mão. Olhou de Jai para mim e para a TAC no computador, e percebeu o que tinha acontecido. Decidi antecipar-me. «Já sabemos», declarei. Nessa altura, J ai estava quase em choque e chorava histericamente. É claro que eu também estava triste mas, no entanto, também me encontrava fascinado pela forma como o Dr. Wolff se dedicou à tarefa macabra que tinha entre mãos. O médico sentou -se ao lado de J ai para a reconfortar. Explicou-lhe calmamente que já não ia trabalhar para me salvar a vida. «Aquilo que nós vamos tentar fazer», explicou, «é prolongar o tempo que o Randy ainda tem, para que possa dispor da melhor qualidade de vida possível. Terá de ser assim, pois neste momento a medicina não possui nada que lhe permita ter uma esperança de vida normal.» «Espere, espere, espere», interrompeu Jai. «Está a dizer- me que é assim? De repente passámos do "vamos lutar contra isto" para "a batalha terminou"? Então e um transplante do fígado?» Depois da metástase não é possível. Comentou o uso quimioterapia paliativa - um tratamento que não pretende curar, mas sim aliviar os sintomas, o que possivelmente concede alguns meses - e a procura de formas para me manter confortável e empenhado na vida à medida que o fim se aproximasse. Toda aquela conversa horrível me parecia irreal. Sim sentia-me atordoado e roubado, tanto por mim como especialmente por Jai, que não conseguia parar de chorar. Mas uma grande parte de mim continuava no modo Randy Cientista, a recolher factos e a interrogar o médico quanto a opções. Ao mesmo tempo, outra parte de mim estava profundamente envolvida na acção do momento. Sentia-me bastante impressionado -

espantado, mesmo - pela forma como o Dr. Wolff dava a notícia a Jai. Pensei para comigo: «Olhem só como ele está a fazê-lo. É óbvio que já o fez muitas vezes antes, e é bom nisso. Ensaiou com cuidado, mas parece tudo tão sincero e espontâneo.» Reparei na forma como o médico se recostava na cadeira e fechava os olhos antes de responder a uma pergunta, quase como se isso o fizesse pensar melhor. Observei a postura corporal do médico, a forma como se sentava ao lado de Jai. Senti-me quase desligado, a pensar: «Não lhe passou o braço por cima do ombro. É compreensível. Isso seria demasiado presunçoso. Mas está a aproximar-se, tem a mão no joelho dela. É mesmo bom nisto.» Desejei que todos os estudantes de medicina que pretendem especializar-se em oncologia pudessem ver aquilo. Observei o Dr. Wolff a usar a semântica para que tudo o que dissesse tivesse um tom positivo. Quando lhe perguntámos: «Quanto tempo até morrer?», ele respondeu:

«Provavelmente terá entre três e seis meses de boa saúde.» Isso recordou-me o tempo passado na Disney. Se perguntarmos aos funcionários da Disney: «A que horas fecha o parque?», eles devem responder: «O parque está aberto até às 20 h.» De certa forma, tive uma estranha sensação de alívio. Ao longo de demasiados meses tensos, J ai e eu tínhamos esperado para ver se, e quando, os tumores regressariam. Agora, ali estavam eles, um exército inteiro. A espera chegara ao fim. Agora podíamos avançar para lidar com

o que viesse a seguir. No fim da consulta, o médico abraçou Jai e apertou-me a mão, e Jai e eu saímos juntos para a nossa nova realidade. Ao deixar o consultório, pensei no que dissera na véspera a Jai, no parque aquático, depois de sair do escorrega grande. «Mesmo que amanhã os resultados sejam maus», garantira-lhe, «quero que saibas que

é óptimo estar vivo, e estar aqui hoje vivo contigo. Seja o que for que me digam acerca dos resultados, não vou morrer quando o ouvir. Não vou

morrer no dia seguinte nem no dia depois desse. Por isso, hoje, neste momento, bem, é um dia maravilhoso. E quero que saibas o quanto estou a gostar.» Pensei nisso e no sorriso de Jai. Foi então que o soube. Era assim que teria de Viver o tempo que me restasse

. 13 O homem do descapotável

Certa manhã, muito depois de me ter sido diagnosticado o cancro, recebi um e-mail de Robbee Kosak, a vice-presidente para o desenvolvimento da Carnegie Mellon. Ela contou- me uma história. Disse que na véspera seguia no seu carro para casa e acabou por ficar

atrás de um homem num descapotável. Estava uma noite agradável de início de Primavera e o homem tinha a capota e todas as janelas baixas. O braço estava dependurado sobre a porta do condutor e os dedos tamborilavam, acompanhando a música que tocava no rádio. A cabeça também balouçava, com o cabelo ao vento. Robbee mudou de faixa e aproximou-se um pouco. De lado podia ver que o homem esboçava um sorriso, o tipo de expressão com que ficamos quando estamos sozinhos, felizes e perdidos nos nossos pensamentos. Robbee deu com ela a pensar: «Uau, isto é o paradigma de alguém a apreciar o dia e o momento.»

O descapotável acabou por virar na esquina e foi então que Robbee

pôde ver o rosto do homem. «6, meu Deus», exclamou para consigo. «É o Randy Pausch!» Ficou espantada por me ver. Sabia que o meu diagnóstico de cancro

era terrível. Mesmo assim, segundo disse no e-mail, ficou comovida com o ar contente que eu tinha. Era óbvio que naquele momento privado estava bem-disposto. Robbee escreveu na sua mensagem: «Não fazes ideia de como o facto de te ter visto me alegrou o dia, recordando- me do que a vida deve ser.»

Li o e-mail de Robbee várias vezes. Acabei por o considerar uma

espécie de fim de ciclo.

Nem sempre tem sido fácil continuar positivo ao longo do meu tratamento. Quando sofremos de um problema clínico grave, é difícil sabermos como verdadeiramente nos sentimos a nível emocional. Interrogara-me se parte de mim estaria a representar quando me encontrava com outras pessoas. Talvez ocasionalmente me forçasse a parecer forte e animado. Muitos doentes de cancro sentem-se obrigados a exibir uma máscara de coragem. Estaria eu a fazer o mesmo? Mas Robbee vira-me num momento vulnerável. Gostaria de pensar que me viu tal como sou. É garantido que me viu como eu estava nessa noite. A mensagem resumia-se a um parágrafo, mas significou muito para mim. Dera-me uma janela para o meu ser. Continuava empenhado. Ainda sabia que a vida era boa. Estava bem.

. 14 O tio holandês

Todos os que me conhecem podem dizer que sempre me vi e às minhas capacidades de uma forma saudável. Costumo dizer aquilo em

que estou a pensar e aquilo em que acredito. Não tenho grande paciência para a incompetência. No geral, estas características têm-me sido úteis. Mas já houve alturas, acreditem ou não, em que fui visto como arrogante frio. É nesses momentos que aqueles que nos podem ajudar a reequilibrar se tornam absolutamente essenciais.

A minha irmã, Tammy, teve de aturar o expoente máximo do irmão

mais novo sabichão. Estava sempre a dizer-lhe o que fazer, como se a ordem do nosso nascimento estivesse errada e eu tentasse corrigi-la a

todo o custo.

Certa vez, tinha eu sete anos e Tammy nove, estávamos à espera do autocarro da escola e, como era habitual, eu estava a ser desbocado. Tammy decidiu que já chegava. Agarrou na minha lancheira metálica e

deitou-a para uma poça de lama

autocarro chegou. A minha irmã acabou no gabinete do director e eu fui enviado para o contínuo, que me limpou a lancheira, deitou fora a minha sanduíche enlameada e me deu dinheiro para o almoço.

O director disse a Tammy que tinha falado com a nossa mãe. «Vou

deixar que seja ela a tratar do assunto», indicou. Quando chegámos a casa, depois das aulas, a minha mãe disse: «Vou deixar que o vosso pai trate do assunto.» A minha irmã passou o resto do dia nervosa, à espera do seu destino. Quando o meu pai chegou a casa, vindo do trabalho, ouviu a história e sorriu. Não ia castigar Tammy. Só faltou dar-lhe os parabéns! Eu era um

no preciso momento em que o

miúdo que precisava que me deitassem a lancheira para dentro de uma poça de lama. Tammy ficou aliviada e eu fora colocado no meu lugar embora a lição não tenha surtido o efeito desejado. Quando entrei para a Brown University tinha certas capacidades, e as pessoas sabiam que eu tinha noção delas. O meu bom amigo Scott Sherman, que conheci no ano em que entrei, recorda-me agora como «tendo uma total ausência de tacto, e sendo universalmente reconhecido como a pessoa que mais depressa seria capaz de ofender alguém que acabara de conhecer». Regra geral não me apercebia de como era, em parte por as coisas parecerem estar a correr bem e por estar a ser bem- sucedido a nível académico. Andy van Dam, o lendário professor de Ciências Informáticas da universidade, fez-me assistente. «Andy van Demand», como era conhecido, gostava de mim. Eu mostrava uma grande paixão por muitas coisas, o que era positivo. Mas, tal como tantas pessoas, tinha qualidades que também se revelavam defeitos. Segundo Andy, tinha um sangue frio exagerado, era demasiado imprudente e um contestatário inflexível, sempre a dar opiniões. Certo dia, Andy levou-me a dar uma volta. Passou-me o braço pelos ombros e disse: «Randy, é uma pena que as pessoas o vejam como arrogante, pois isso vai limitar o seu desempenho na vida.» Em retrospectiva, as suas palavras foram perfeitas. Na verdade estava a dizer: «Randy, estás a ser um idiota.» Mas disse-o de uma forma que me deixou receptivo às críticas, que me permitiu escutar o meu herói a dizer- me algo que precisava de ouvir. Há uma expressão antiga, «um tio holandês», que se refere a uma pessoa que nos dá um retorno sincero. Hoje em dia poucos são aqueles que se preocupam com isso, portanto a expressão está a começar a cair em desuso, chegando mesmo a ser obscura. (E o melhor de tudo é que Andy é mesmo holandês.) Desde que a minha última aula começou a espalhar-se pela Internet, muitos amigos já troçaram de mim por isso, chamando-me «S. Randy». É

a sua maneira de me recordarem que em tempos já fui descrito de formas mais coloridas. Mas gosto de pensar que os meus defeitos pertencem à categoria social e não moral. E tive a felicidade de beneficiar, ao longo dos anos, de pessoas como Andy, que se preocuparam o suficiente para me dizerem as coisas mais duras que eu precisava de ouvir.

15

Despejar refrigerante no banco de trás

Durante muito tempo, uma boa parte da minha identidade era ser o

«tio solteiro». Durante os meus vintes e trintas não tive filhos, por isso os filhos da minha irmã, Chris e Laura, tornaram-se os objectos do meu afecto. Adorava ser o tio Randy, o homem que lhes aparecia na vida todos os meses, mais ou menos, para os ajudar a ver o mundo de ângulos novos

e estranhos. Não quero com isto dizer que os estragava. Apenas tentava imprimir- lhes a minha perspectiva de vida. Por vezes, isso dava com a minha irmã em doida. Certa vez, cerca de uma dúzia de anos, quando Chris tinha sete anos e Laura nove, fui buscá-los no meu Volkswagen Cabrio descapotável novinho. «Tenham cuidado com o carro novo do tio Randy», alertou a minha irmã. «Limpem os pés antes de entrar. Não estraguem nada. Não o sujem.» Escutei-a e pensei, como só um tio solteiro poderia fazê-lo: «É mesmo

o tipo de aviso que faz com que os miúdos falhem. É claro que vão acabar

por me sujar o carro. As crianças não têm culpa.» Por isso facilitei-lhes a vida. Enquanto a minha irmã lhes expunha as regras, lenta e deliberadamente abri uma lata de refrigerante, virei-a e despejei-a nos bancos de tecido na traseira do descapotável. A minha mensagem: as pessoas são mais importantes do que as coisas. Um carro, mesmo uma jóia imaculada como era o meu descapotável novo, não passa de uma coisa.

Enquanto despejava a coca-cola, observei Chris e Laura, de boca aberta e olhos arregalados. Ali estava o maluco do tio Randy a rejeitar totalmente as regras dos adultos. Acabei por ficar muito contente por ter despejado aquele refrigerante. Durante o fim-de-semana, o pequeno Chris ficou com gripe e vomitou no banco de trás. Não se sentiu culpado. Ficou aliviado. Já me tinha visto a baptizar o carro. Sabia que não ia haver problema. Sempre que eles estavam comigo, só tínhamos duas regras:

1) Nada de birras. 2) Façamos o que fizermos, não contem à mãe.

Não contar à mãe transformava tudo o que fazíamos numa aventura de piratas. Até o mais mundano parecia mágico. Na maior parte dos fins-de-semana, Chris e Laura ficavam no meu apartamento e levava-os à pizzaria e centro de diversões Chuck E. Cheese, ou então Íamos dar um passeio a pé, ou a um museu. Em fins-de-semana especiais ficávamos num hotel com piscina. Gostávamos de fazer panquecas juntos. O meu pai sempre se interrogara: «Porque é que as panquecas têm de ser redondas?» Eu fazia a mesma pergunta, por isso estávamos sempre a fazer panquecas com formas bizarras de animais. Gosto da consistência da mistura, porque cada panqueca de animal que fazemos transforma-se num teste de Rorschach intencional. Chris e Laura diziam: «Não era esta forma de animal que eu queria.» Mas isso permitia-nos olhar para a panqueca tal como ela era, e imaginar o animal que ali estava. Vi Laura e Chris tornarem-se jovens adultos espectaculares. Ela tem vinte e um anos e ele dezanove. Hoje em dia sinto-me mais grato do que nunca por ter feito parte da infância deles, pois apercebi-me de que é pouco provável que venha a ser pai de crianças com mais de seis anos Assim, o tempo que passei com Chris e Laura tornou-se ainda mais

precioso. Graças a eles tive a oportunidade de ser uma presença na sua vida durante os anos de infância e pré-adolescência até à fase adulta. Há pouco tempo, pedi a Chris e a Laura que me fizessem um favor. Quando morrer, quero que levem os meus filhos em fins-de-semana aqui e ali só para poderem fazer coisas. Qualquer coisa divertida de que se lembrem. Não é preciso que sejam exactamente as mesmas coisas que nós fizemos juntos. Podem deixar que sejam os meus filhos a tomar a iniciativa. Dylan gosta de dinossauros. Talvez Chris e Laura o possam levar a um museu de história natural. Logan gosta de desporto: talvez o possam levar a ver um jogo dos Steelers. E Chloe gosta de dançar. Logo pensam em alguma coisa. Também quero que os meus sobrinhos digam algumas coisas aos meus filhos. Primeiro, podem simplesmente dizer: «O vosso pai pediu-nos que passasse este tempo convosco, tal como ele passou tempo connosco.» Espero que também digam aos meus filhos o quanto lutei para ficar vivo. Aceitei os tratamentos mais violentos que me podiam fazer pois queria ficar por cá tanto tempo quanto possível para poder estar com os meus filhos. Foi essa a mensagem que pedi a Laura e a Chris que transmitissem. Ah, mais uma coisa. Se os meus filhos lhes sujarem os carros, espero que Chris e Laura pensem em mim e sorriam.

16

O romance com o muro

O muro mais formidável que já encontrei na vida tinha apenas um metro e sessenta e cinco de altura e era absolutamente belo. Mas

conseguiu levar-me às lágrimas, fez-me reavaliar a vida inteira e obrigou- me a telefonar ao meu pai, num estado de impotência, a pedir auxílio para lidar com ele. Esse muro era Jai. Tal como disse na aula, ao longo de toda a minha vida académica e profissional sempre fui bom a atravessar muros. Não contei à audiência a história da corte à minha esposa, pois sabia que iria ficar demasiado emocionado. Mesmo assim, as palavras que usei no palco aplicam-se na perfeição aos meus primeiros dias com Jai:

muros existem para deter as pessoas que não querem as coisas

o suficiente. Estão lá para deter as outras pessoas.» Quando J ai e eu nos conhecemos, eu era um solteirão de trinta e sete anos. Já passara muito tempo a sair com mulheres, a divertir-me imenso e depois a livrar-me das namoradas que queriam um relacionamento mais sério. Durante anos não senti qualquer impulso para assentar. Mesmo sendo um professor do quadro com posses para algo melhor, vivia num apartamento de águas-furtadas onde se acedia por uma escada de incêndio, com uma renda de 450 dólares por mês. Era um sítio onde os meus alunos de licenciatura nunca iriam viver por estar abaixo deles, mas para mim era perfeito. Em tempos, um amigo perguntou-me: «Que tipo de mulher julgas que ficaria impressionada se a levasses a esse sítio?» A minha resposta: «O tipo certo.»

« Os

Mas quem é que eu queria enganar? Era um Peter Pan viciado no trabalho que gostava de se divertir, com cadeiras metálicas desdobráveis na sala de jantar. Não havia mulher, mesmo do tipo certo, que alguma vez quisesse assentar de livre vontade naquilo. (E quando J ai finalmente entrou na minha vida, também ela não quis.) É verdade que tinha um bom emprego e outras coisas a meu favor, mas não havia mulher que me visse como um bom pretendente. Conheci J ai no Outono de 1998, altura em que fui convidado para apresentar uma sessão sobre tecnologia de realidade virtual na University of North Carolina, em Chapel Hill. Jai, que na altura era uma aluna de licenciatura de literatura comparada, trabalhava em part-time no departamento de ciências informáticas da UNC. O trabalho dela era acompanhar os visitantes que iam aos laboratórios, quer fossem laureados com o Prémio Nobel quer fossem escuteiros. Nesse dia em particular, o trabalho dela era acompanhar-me. Jai vira-me no Verão anterior, em Orlando, como orador numa conferência sobre computação gráfica. Mais tarde disse-me que pensara em apresentar-se depois da conferência, mas que acabara por não o fazer. Quando descobriu que seria minha anfitriã durante a minha visita à UNC acedeu à minha página de Internet para descobrir mais algumas coisas sobre mim. Navegou pelo meu material académico e depois encontrou as ligações para os dados pessoais, mais interessantes:

descobriu que os meus passatempos eram fazer casas de gengibre e coser. Viu a minha idade, não encontrou qualquer referência a esposa ou namorada, mas chegou a muitas fotografias dos meus sobrinhos. Imaginou que devia ser um indivíduo fora do vulgar e interessante, e sentiu-se intrigada a ponto de fazer alguns telefonemas a amigos da comunidade de ciência informática. «O que sabem acerca do Randy Pausch?», perguntou. «É gay?» Disseram-lhe que não, não era. Na verdade, disseram-lhe que tinha reputação de mulherengo que nunca iria assentar (bem, pelo menos até

ao ponto a que um cientista informático pode ser considerado «mulherengo»). Quanto a J ai, fora casada brevemente com o namorado de faculdade e, depois de a relação ter acabado em divórcio sem filhos, ficara com grandes reservas quanto a encetar uma nova relação séria. A partir do momento em que a conheci, no dia da minha visita, não consegui tirar os olhos de cima dela. Ela é uma beleza, claro, e na altura tinha um cabelo comprido espantoso, e um sorriso que revelava, a um tempo, a sua cordialidade e a sua malícia. Levaram-me a um laboratório para ver os alunos a demonstrarem os projectos de realidade virtual, mas tive dificuldade em concentrar-me por Jai ali se encontrar. Em breve namoriscava com bastante agressividade. Uma vez que nos encontrávamos num ambiente profissional, isso significou que estabelecia mais contacto visual do que seria adequado. Mais tarde, Jai disse-me:

«Não sabia se fazias isso com toda a gente ou se me estavas a tratar de maneira especial.» Acredita, eras especial. Algures durante o dia, Jai sentou-se comigo para me fazer algumas perguntas sobre projectos de software que poderiam ser levados para a UNC. Por essa altura já me encontrava completamente cativado por ela. Nessa noite tinha de comparecer a um jantar formal de pessoal docente, mas perguntei-lhe se gostaria de se encontrar comigo a seguir, para tomarmos uma bebida. Ela acedeu. Durante o jantar não fui capaz de me concentrar. Só queria que aqueles professores mastigassem mais depressa. Convenci toda a gente a não pedir sobremesa. Saí dali às oito e meia e liguei a Jai. Fomos a um bar, embora habitualmente não beba, e rapidamente senti que queria mesmo estar com aquela mulher. Tinha voo marcado para a manhã seguinte, mas disse-lhe que alterava os planos se ela aceitasse encontrar-se comigo nesse dia. Ela disse que sim e acabámos por nos divertir bastante.

Quando regressei a Pittsburgh ofereci-lhe as minhas milhas de voador frequente e pedi-lhe que me visitasse. Era óbvio que sentia alguma coisa por mim, mas estava assustada, tanto com a minha reputação como com a possibilidade de se estar a apaixonar. «Não vou», escreveu ela num e-mail. «Estive a pensar e não quero uma relação à distância. Sinto muito.» Eu estava apanhado, claro está, e julguei que era capaz de lidar com este muro. Enviei-lhe uma dúzia de rosas e um cartão que dizia. «Embora me entristeça bastante, respeito a tua decisão e apenas te desejo o melhor. Randy.» Pois bem, funcionou. Ela apanhou o avião. Admito: sou um romântico incurável, ou um pouco maquiavélico. Mas queria-a na minha vida. Eu estava apaixonado, mesmo que ela ainda procurasse orientar-se. Encontrámo-nos quase todos os fins-de-semana durante o Inverno. Embora J ai não morresse de amores pela minha frontalidade e pela minha atitude convencida, disse que eu era a pessoa mais positiva e bem- disposta que já conhecera. E ela invocava-me coisas boas. Dei comigo a preocupar-me acima de tudo com o bem-estar e a felicidade dela. Acabei por lhe pedir que se mudasse para Pittsburgh. Sugeri oferecer- lhe um anel de noivado, mas sabia que ela continuava assustada e isso tê- la-ia afugentado. Por isso não a pressionei, e ela acedeu em dar um primeiro passo: mudar- se e encontrar um apartamento próprio. Em Abril preparei um seminário de uma semana na UNC. Isso iria permitir-me ajudá-la a fazer as malas, para que pudéssemos levar-lhe as coisas de carro para Pittsburgh. Quando cheguei a ChapeI Hill, Jai disse-me que precisávamos de conversar. Nunca a tinha visto tão séria. «Não posso ir para Pittsburgh. Sinto muito», disse ela. Interroguei-me sobre o que poderia estar a pensar. Pedi-lhe uma explicação. A resposta dela: «Isto não vai resultar.» Tinha de saber porquê.

começou ela a dizer. «Não te amo da forma que queres que te

ame.» E depois, para confirmar: «Não te amo.» Fiquei horrorizado e destroçado. Foi como um murro no estômago. Estaria a falar a sério? Foi uma cena confrangedora. Ela não sabia como devia sentir-se. Eu não sabia o que sentir. Precisava de boleia para o hotel. «Será que poderias fazer-me a gentileza de me levar ou será melhor chamar um táxi?» Ela levou-me e, lá chegados, tirei o meu saco da mala do carro, sempre a reprimir as lágrimas. Se for possível ser arrogante, optimista e estar devastado, tudo ao mesmo tempo acho que me saí muito bem: «Olha, eu vou procurar maneira de ser feliz, e gostaria muito de ser feliz contigo, mas, se não puder ser feliz contigo, vou encontrar maneira de ser feliz sem ti.» No hotel, passei grande parte do dia ao telefone com os meus pais, a contar-lhes sobre o muro em que tinha batido. Os conselhos deles foram espantosos. «Olha», disse-me o meu pai. «Não creio que ela esteja a falar a sério. Não se coaduna com a atitude dela até agora. Pediste-lhe que se desenraizasse e fugisse contigo. Provavelmente está confusa e aterrada. Se não te amar, nesse caso acabou. Mas se ela te amar, o amor vai vencer.»

Perguntei aos meus pais o que deveria fazer. «Mostra apoio», sugeriu a minha mãe. «Se a amas, apoia-a.» E foi o que eu fiz. Passei essa semana a dar aulas, a passar o meu tempo num gabinete ao fundo do corredor de Jai. Passei por lá algumas vezes, para saber se ela estava bem. «Só queria ver como estavas», dizia. «Se houver alguma coisa que possa fazer, diz-me.» Alguns dias depois, Jai ligou-me. «Bem, Randy, estou aqui com saudades tuas, a desejar que aqui estivesses. Isso deve querer dizer alguma coisa, não é?»

«Eu

»,

Acabara por chegar a uma conclusão: afinal de contas estava apaixonada. Mais uma vez, os meus pais tinham razão. O amor tinha vencido. No final da semana, Jai mudou- se para Pittsburgh. Os muros existem por um motivo. Dão-nos a oportunidade de mostrarmos até que ponto desejamos alguma coisa.

17

Nem todos os contos de fadas

acabam bem

Jai e eu casámos sob um carvalho com cem anos, no relvado de uma famosa mansão vitoriana de Pittsburgh. Foi uma cerimónia pequena, mas eu gosto de grandes acontecimentos românticos, por isso concordámos em iniciar o casamento de uma forma especial. Não deixámos a recepção num automóvel com latas presas ao pára- choques traseiro. Não entrámos para uma charrete. Em vez disso, subimos para um enorme balão de ar quente multicolorido que nos levou às nuvens, enquanto os nossos familiares e amigos nos acenavam, desejando-nos boa viagem. Mas que belo momento Kodak! Quando entrámos para o balão, Jai estava radiante. «Até parece um final de conto de fadas de um filme da Disney!», comentou. E então, na subida, o balão atravessou os ramos das árvores. Não soou à destruição do Hindenburg, mas chegou para nos perturbar. «Não há problema», garantiu o homem que pilotava o balão. (Chama-se um «aeróstata».) «Regra geral não problema quando passamos pelos ramos.» Regra geral? Também tínhamos partido um pouco atrasados e o aeróstata disse-nos que isso talvez piorasse as coisas, pois estava a escurecer. E o vento mudara de direcção. «Não tenho grande controlo sobre o rumo. Estamos

à mercê do vento», explicou. «Mas não deve haver problema.» O balão cruzou o perímetro urbano de Pittsburgh, para um lado e para

o outro, sobre os famosos três rios da cidade. Não era ali que o aeróstata pretendia estar, e notava-se que estava preocupado. «Não sítio para

baixar este pássaro», comentou, quase com os seus botões. Depois disse- nos: «Temos de continuar à procura.» Os noivos já não estavam a gostar da vista. Todos procurávamos um grande espaço aberto oculto numa paisagem urbana. Por fim, acabámos por flutuar para os subúrbios e o aeróstata avistou à distância um campo vasto. Dedicou- se à tarefa de aterrar o balão nesse campo. «Isto deve resultar», aventou, começando a descer rapidamente. Olhei para o campo. Parecia ser bastante grande, mas reparei que no extremo havia uma linha de comboio. Segui-a com o olhar. Aproximava-se uma composição. Nesse momento deixei de ser o noivo. Era um engenheiro. Dirigi- me ao aeróstata: «Sabe, acho que estou a ver uma variável na situação.» «Uma variável? É O que os homens da informática chamam a um problema?», indagou. «Bem, sim. O que acontece se batermos no comboio?» O homem respondeu com sinceridade. Estávamos no cesto do balão e a probabilidade de o cesto bater no comboio era reduzida. No entanto, havia o risco de o balão gigante (chamado «o invólucro») cair na linha no momento em que chegássemos ao chão. Se o comboio em movimento apanhasse o invólucro em queda, ficaríamos no lado errado de uma corda, dentro de um cesto que estaria a ser arrastado. Nesse caso, os danos físicos graves eram não só possíveis, como também prováveis. «Quando isto chegar ao chão, corram o mais depressa que puderem», indicou o aeróstata. Não são essas as palavras que a maior parte das noivas sonha ouvir no dia do casamento. Resumindo, J ai deixara de se sentir uma princesa Disney. E eu já me considerava um personagem de um filme-catástrofe, a pensar em como salvaria a minha noiva durante a calamidade iminente. Fitei os olhos do aeróstata. Regra geral confio em pessoas com proficiências que eu não possua, e queria saber ao certo em que ponto é que estávamos. No rosto dele vi mais do que preocupação. Vi um pânico

ligeiro. Também vi medo. Olhei para Jai. Até ao momento eu estava a gostar do nosso casamento. À medida que o balão ia descendo, tentei calcular o quão depressa teríamos de saltar do cesto e correr dali para fora. Imaginei que o aeróstata seria capaz de se desenvencilhar sozinho, caso contrário, bem, ia pegar em J ai primeiro. A ela, eu amava. Ele, acabara de o conhecer. O aeróstata foi libertando ar do balão. Puxou todas as alavancas que tinha disponíveis. Só queria descer, fosse onde fosse, o mais depressa possível. Dadas as circunstâncias, seria melhor bater numa casa do que num comboio em movimento. O cesto bateu com força quando caímos no campo, saltou umas quantas vezes, rebolou e depois ficou inclinado quase na horizontal. Em poucos segundos o invólucro esvaziado pousou no chão. Felizmente, não acertou no comboio em andamento. Entretanto, as pessoas que passavam na auto-estrada viram a nossa aterragem, pararam os carros e correram a ajudar-nos. Foi uma bela cena: Jai de vestido de noiva, eu de fato, o balão caído, o aeróstata aliviado. Ficámos bastante assustados. O meu amigo Jack seguira- nos de carro, acompanhando o balão a partir do solo. Quando chegou até nós ficou satisfeito por nos encontrar sãos e salvos depois da nossa experiência quase fatal. Passámos algum tempo a descomprimir do lembrete de que até os momentos de contos de fadas acarretam riscos, enquanto o balão vazio era carregado para a carrinha do aeróstata. Então quando Jack estava prestes a levar-nos para casa, o aeróstata veio ter connosco. «Esperem, esperem!», dizia ele. «Vocês pediram o pacote de casamento! Têm direito a uma garrafa de champanhe!» Entregou-nos uma garrafa barata que trouxera da carrinha. «Parabéns!», concluiu. Esboçámos um sorriso e agradecemos-lhe. O Sol punha- se no nosso primeiro dia de casados, mas conseguíramos aguentar-nos até ali.

18

Lucy, cheguei

Num dia agradável nos primeiros tempos de casamento caminhei até Carnegie Mellon e J ai estava em casa. Lembro- me disso, pois esse dia em especial ficou famoso lá em casa como «O Dia em Que Jai Conseguiu Ter Um Acidente com Dois Carros e Um Condutor». O nosso monovolume estava na garagem e o meu Volkswagen descapotável encontrava-se no acesso. Jai tirou o monovolume sem se aperceber de que o outro carro estava no caminho. O resultado: um crunch, bum, pam instantâneo! O que se seguiu prova que por vezes estamos todos a viver dentro de um episódio da série I Lave Lucy. Jai passou o dia inteiro obcecada em descobrir como explicar tudo ao Ricky quando este chegasse a casa vindo do Clube Babalu. Imaginou que talvez fosse melhor criar as condições ideais para dar a notícia. Confirmou que os dois carros se encontravam na garagem com a porta fechada. Quando cheguei a casa estava mais gentil do que o habitual e perguntou-me como tinha corrido o meu dia. Pôs música calma a tocar. Preparou-me o meu prato preferido. Não estava só com roupa interior - não tive assim tanta sorte -, mas deu o seu melhor para ser a companheira perfeita. Perto do final do nosso jantar excelente, ela disse: «Randy, tenho uma coisa para te contar. Bati num carro com o outro carro.» Perguntei-lhe como tinha acontecido. Fi-la descrever os estragos. Explicou-me que o descapotável tinha ficado pior, mas ambos os carros trabalhavam bem. «Queres ir vê-los à garagem?», perguntou. «Não», respondi-lhe. «Vamos acabar de jantar.»

Ficou surpreendida. Não estava zangado. Quase nem parecia preocupado. Tal como ela viria a saber, a minha reacção ponderada tinha a sua origem na educação que recebera. Depois do jantar fomos ver os carros. Encolhi os ombros e pude ver que a ansiedade que Jai sentira durante todo o dia estava a desvanecer- se. «Amanhã de manhã», prometeu, «vou pedir o orçamento da reparação.» Disse-lhe que não era preciso. As amolgadelas não faziam mal. Os meus pais tinham-me educado com a noção de que os automóveis existem para nos levarem do ponto A para o ponto B. São objectos utilitários e não expressões de estatuto social. Por isso garanti a J ai que não precisávamos de cuidados cosméticos. Podíamos viver com as amolgadelas. Jai ficou um tanto ou quanto chocada. «Vamos mesmo andar com os carros amolgados?», perguntou. «Bem, não podes ter apenas uma parte de mim, Jai», expliquei-lhe. «Apreciaste a parte de mim que não ficou zangada quando duas "coisas" que nós temos ficaram magoadas. O reverso da medalha é a minha convicção de que não se deve reparar as coisas se estas ainda fizerem o que é suposto fazerem. Os carros trabalham. Vamos conduzi-losEstá bem, talvez isto me mostre que sou um pouco bizarro. Mas se o nosso balde do lixo, ou o carro de mão, ficar amolgado, não vamos comprar um novo. Talvez isso se deva ao facto de não utilizarmos latas de lixo e carros de mão para comunicarmos o nosso estatuto social ou a nossa identidade aos outros. Para Jai e para mim, os carros amolgados transformaram-se numa asserção do nosso casamento. Nem tudo precisa de ser reparado.

19

Uma história de ano novo

Mesmo que as coisas estejam más, sempre maneira de as piorar. Ao mesmo tempo, muitas vezes também está ao nosso alcance melhorá- las. Aprendi bem esta lição na véspera de Ano Novo de 2001. Jai estava grávida de sete meses de Dylan, e íamos receber 2002 com um serão tranquilo em casa, a ver um DVD. O filme estava a começar quando Jai disse: «Acho que me rebentaram as águas.» Mas não era água. Era sangue. Num abrir e fechar de olhos ela estava com uma hemorragia tão intensa que me apercebi que nem sequer havia tempo para chamar a ambulância. O Magee-Womens Hospital de Pittsburgh ficava a quatro minutos de distância, caso ignorasse os sinais vermelhos, que foi exactamente o que fiz. Quando chegámos às urgências, médicos, enfermeiras e outros funcionários do hospital apareceram com cateteres, estetoscópios e impressos de seguros. Rapidamente se estabeleceu que a placenta se tinha soltado da parede uterina. Chama-se «placenta prévia». Com a placenta nesse estado, o suporte vital do feto estava a ceder. Nem precisam de nos dizer a gravidade da situação. A saúde de Jai e a viabilidade do nosso bebé estavam em risco. semanas que a gravidez não corria normalmente. Jai mal sentia o bebé a dar pontapés. Não estava a ganhar peso suficiente. Sabendo como é essencial que as pessoas sejam agressivas em relação aos cuidados médicos, insistira para que se fizesse uma nova ecografia. Foi então que os médicos se aperceberam de que a placenta de J ai não estava a funcionar nas melhores condições. O bebé não estava a medrar, por isso os médicos injectaram esteróides em Jai para estimular o desenvolvimento dos pulmões do bebé.

Era uma situação preocupante. Mas naquele momento, nas urgências, as coisas ficaram mais sérias. «A sua esposa está a entrar em choque clínico», disse uma enfermeira. Jai estava assustadíssima. Podia -lo no seu rosto. Como estava eu? Também assustado, mas tentava permanecer calmo para avaliar a situação. Olhei à minha volta. Eram 21 horas na véspera de Ano Novo. Por certo, qualquer médico ou enfermeira da lista dos mais antigos do hospital estaria de folga. Tinha de partir do princípio de que se tratava de uma equipa de segunda linha. Estariam à altura de salvar o meu filho e a minha esposa? Não foi preciso muito tempo para que estes médicos e enfermeiras me impressionassem. Se eram a equipa de segunda linha, eram extremamente bons. Assumiram o controlo com uma mistura extraordinária de pressa e de calma. Não pareciam em pânico. Comportavam-se como se soubessem fazer com eficiência, passo a passo, o que tinha de ser feito. E disseram as coisas correctas. «É grave, não é?», perguntou Jai à médica enquanto era levada para a cirurgia para uma cesariana de urgência. Admirei a resposta da médica. Era a resposta perfeita para os tempos em que vivemos: «Se estivéssemos mesmo em pânico não lhe tínhamos pedido que assinasse os impressos do seguro, pois não?», disse ela a Jai. «Não tínhamos perdido tempo.» A médica tinha uma certa razão. Interroguei-me se utilizaria com frequência a tirada da «papelada de hospital» para aliviar a ansiedade dos doentes. Seja como for, as palavras ajudaram. E depois o anestesista