Direitos Humanos, Ética Profissional e Cidadania

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA
Reitor Prof. MSc. Pe. José Romualdo Desgaperi Pró-Reitor de Graduação Prof. MSc. José Leão Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa Prof. Dr. Pe. Geraldo Caliman Pró Reitor de Extensão Prof. Dr. Luiz Síveres

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA VIRTUAL
Diretor Geral Prof. Dr. Francisco Villa Ulhôa Botelho Diretoria de Pós-Graduação e Extensão Prof.ª MSc. Ana Paula Costa e Silva Diretoria de Graduação Prof.ª MSc. Bernadete Moreira Pessanha Cordeiro Coordenação de Informática Weslley Rodrigues Sepúlvida Coordenação de Secretaria Acadêmica e Apoio ao Aluno Karlla Vanessa do Lago Aragão Coordenação de Pólos e Relacionamento Francisco Roberto Ferreira dos Santos Coordenação de Produção Edleide Epaminondas de Freitas Alves

Equipe de Produção Técnica Análise didático-pedagógica Prof. MSc. José Eduardo Pires Campos Júnior Profa. Dra Leda Gonçalves de Freitas Prof. MSc. Juarez Moreira Profa. Especialista Ana Brigatti Edição Profª. Especialista Cynthia Rosa Márcia Regina de Oliveira Yara Dias Fortuna Montagem Marcelo Rodrigues Gonzaga Anderson Macedo Silva Bruno Marques Beça da Silva Conteudista Erich Méier Junior

Direitos Humanos, Ética Profissional e Cidadania Sumário

Sumário
Ementa .................................................................................................. 6 Objetivos ............................................................................................... 6 Contextualização ..................................................................................... 6 Aula 01 - Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos ................................ 8
1.1 Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos no Mundo ..................................... 8 1.2 Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos no Brasil .....................................12 1.3 Dimensões de Análise e Aplicação dos Direitos Humanos ........................................14
1.3.1 Conceito de Direito Internacional.......................................................................... 14 1.3.2 Fontes do Direito Internacional ............................................................................ 15 1.3.3 Responsabilidade dos Estados .............................................................................. 16

Aula 02 - Ordem Pública, Segurança Pública e Direitos Humanos ........................ 18
2.1 Ordem Pública e Segurança Pública .................................................................18
2.1.1 Ordem Pública ................................................................................................ 18 2.1.2 Segurança Pública ............................................................................................ 23

Aula 03 - Mecanismos Internacionais e Nacionais de Proteção aos Direitos Humanos 30
3.1 Fontes, Sistemas e Normas de Direitos Humanos na Aplicação da Lei .........................30 3.2 Carta das Nações Unidas ...............................................................................31 3.3 Declaração Universal dos Direitos do Homem ......................................................32 3.4 Principais Normas Internacionais .....................................................................33 3.5 Fontes, Sistemas e Padrões em Nível Regional .....................................................36
3.5.1 Comissão Interamericana de Direitos Humanos .......................................................... 40 3.5.2 Corte Interamericana de Direitos Humanos .............................................................. 41

2.2 Princípios Constitucionais dos Direitos e Garantias Fundamentais do Cidadão ...............25 2.3 Os Direitos Individuais Homogêneos, Coletivos e Transindividuais..............................27

Aula 04 - Ética e Cidadania ....................................................................... 47
4.1 Moral, Valores, Costumes e Cultura..................................................................47 4.2 Ética dos Profissionais de Segurança Pública Frente às Exigências Legais e às Expectativas dos Cidadãos..................................................................................................48

3.6 Sistema Nacional de Direitos Humanos e Programa Nacional de Direitos Humanos ..........43

Aula 05 - Ética Profissional ....................................................................... 51
5.1 Organizações e Profissionais de Segurança Pública como Instrumentos de Defesa, Proteção e Garantia dos Direitos Humanos .........................................................................51 5.2 Ética profissional e Pseudo-antagonismos frentes às Questões dos Direitos Humanos ......52 5.3 Direitos Humanos e Cidadania dos Profissionais de Segurança Pública ........................52 5.4 Código de Conduta da ONU para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei .........53 6.1 Aspectos Legais, Morais e Éticos no Emprego da Força ...........................................59 6.2 Princípios Básicos das Nações Unidas para Uso de Força e Armas de Fogo ....................61 6.3 Aspectos Legais da Legislação Brasileira Aplicáveis ao Uso da Força ...........................65 6.4 Fundamentos Técnicos do Uso da Força por Profissionais de Segurança Pública .............66 7.1 Modelos Adotados por Organizações de Segurança Pública Nacionais e Internacionais: Estudo Comparativo .........................................................................................68
7.1.1 Modelo FLETC ................................................................................................. 70 7.1.2 Modelo Canadense ............................................................................................ 71 7.1.3 Modelo Nashville .............................................................................................. 72

Aula 06 - A Polícia e o Uso da Força ............................................................ 59

Aula 07 - Modelos Teórico-práticos de Uso da Força ........................................ 68

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...........75 7..............................................................................................................................2 Elementos de Discussão para o Modelo Básico de Uso da Força a ser Adotado pelas Organizações de Segurança Pública no Brasil .......................... 80 Glossário .......................................................76 7.............4 Modelo Phoenix .....................Direitos Humanos......................................78 7.....................5 Modelo da Polícia Militar de Minas Gerais ..................3 Possibilidades e Restrições Técnicas e Tecnológicas no Uso da Força por Profissionais de Segurança Pública ......1...... 84 7............................... 73 7.................................................................................................................. 74 5 ..........................................................................1..................4 Necessidade de Controle do Uso de Força e Armas de Fogo pelos Profissionais de Segurança Pública ................... Ética Profissional e Cidadania Sumário Referências..........

preservando os direitos de todas as pessoas envolvidas. Ordem pública. reconhecer os princípios constitucionais dos direitos e garantias fundamentais do cidadão. A polícia e o uso da força. moral e cidadania. para decidir. os direitos humanos e a atividade policial. Ética e cidadania. vêm ao encontro do clamor da comunidade por uma melhor qualidade na prestação dos serviços pelas organizações encarregadas de aplicar a lei. As organizações e os profissionais de segurança pública como instrumentos de defesa. indicar os aspectos legais. O profissional de polícia utiliza-se tanto de conhecimentos técnicos quanto de experiências pessoais. entre a legalidade e a ilegalidade. Modelos teórico-práticos de uso da força adotado por organizações de segurança pública nacionais e internacionais. proteção e garantia dos direitos humanos. entre agir e não agir. em não raros momentos de tensão. conceituar ética. segurança pública e direitos humanos. além de serem temas atuais e relevantes no contexto social e da segurança pública. O conhecimento dos instrumentos internacionais e da legislação nacional permitirá ao 6 . entre a vida e a morte. diferenciar e reconhecer os principais mecanismos nacionais e internacionais de proteção aos direitos humanos. Objetivos Ao final desta UEA (Unidade de Estudo Autônomo) você estará apto a:         reconhecer as dimensões de análise e aplicação dos direitos humanos. conceituar e comparar a estrutura de diferentes modelos teórico-práticos de uso da força adotados por organizações de segurança pública nacionais e internacionais. refletir sobre a discussão para o modelo básico de uso da força a ser adotado pelas organizações de segurança pública no Brasil. Contextualização A atuação policial é uma das atividades mais complexas desempenhadas na sociedade. pois visa manter a paz social e a aplicação das leis. Sendo assim. Ética Profissional e Cidadania Objetivo Ementa Evolução histórico-cultural dos direitos humanos no mundo e no Brasil. Esta disciplina evidencia a importância dos conceitos e normas de direitos humanos relacionando-as com a atividade policial. morais e éticos no emprego da força pelas organizações policiais. por meio de sua evolução histórico-cultural no mundo e no Brasil.Direitos Humanos. entender e refletir sobre os pseudo-antagonismos das organizações de segurança pública frentes às questões dos direitos humanos. Mecanismos nacionais e internacionais de proteção aos direitos humanos.

Ética Profissional e Cidadania Objetivo aluno fazer essa integração em seu trabalho cotidiano. passando a reconhecer-se como um protetor e promotor dos direitos fundamentais da pessoa humana.Direitos Humanos. entendendo ainda mais seu trabalho de servir e proteger todas as pessoas da comunidade. 7 .

1. Indica que estes são universais e pertencem a todos. 19). pois abrangem todos os indivíduos. etnia. tem direitos frente ao Estado. verificará e entenderá o contexto em que se inserem essas normas. É o que certamente conhecemos no ditado popular: “O meu direito termina quando o seu começa. que é o direito internacional. 8 . você já deve ter ouvido muito a respeito de direitos humanos. Mas isso nem sempre foi assim. não impeça que outrem possa exercitar o seu. A noção de direitos humanos corresponde com a afirmação da dignidade da pessoa humana frente ao Estado. mas também gera no outro pólo uma obrigação de entendimento e respeito. desde tradições das diversas civilizações. dessa forma.” Assim. o direito de uma pessoa é inerente a ela. seja rico ou pobre. um direito é um título. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Aula 01 . de maneira que. até a conjugação de pensamentos filosófico-jurídicos. p. cor de pele. você estudará sobre esses temas e verá os principais momentos históricos que foram marcos para o entendimento moderno dos Direitos Humanos. Para Rover (2005). os direitos humanos são títulos legais que toda pessoa possui como ser humano. 72). e sua relação com a atividade de aplicação da lei. direitos inerentes à pessoa humana e que se afirmam frente ao poder público. os direitos humanos são direitos legais. Apesar de o termo parecer tão comum a nossos ouvidos. satisfazer e garantir. De acordo com MORAES (2000. direitos que este tem o dever de respeitar.Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos Caro aluno. independentemente de sua nacionalidade. pertence a ela. São. seja homem ou mulher. pelo fato de ser. sexo ou condição social.Direitos Humanos. você sabe realmente o que são os direitos humanos? Conhece sua origem e a dimensão de sua aplicação? Nesta aula. é uma reivindicação que uma pessoa pode fazer para com outra. violações de direitos humanos e direitos fundamentais da pessoa humana. Atualmente. p. os direitos humanos fundamentais teriam surgido como produto de várias fontes. ao exercitar esse direito. das idéias surgidas com o Cristianismo e com o direito natural. Ele ressalta que o ponto comum dessas idéias é justamente a necessidade da limitação e controle dos abusos cometidos pelo poder do Estado e de suas autoridades constituídas com relação às pessoas que nele viviam. credo. O simples fato de ser gera em si direitos que são próprios de cada pessoa. visto que fazem parte da legislação e das constituições de quase todos os países.1 Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos no Mundo De acordo com ROVER (2005. Não são concessões feitas pelo Estado. São direitos universais. ONGs de direitos humanos. O mundo atual reconhece que todo ser humano. Ao final.

Direitos Humanos. também conhecido como João Sem Terra. ao contrário do que possa parecer. a assinar a Carta Magna – Magna Charta Libertatum (1215). mas principalmente deveres. estrangeiros. que estabelecia regras de vida e de propriedade. Já na Grécia. previsão do devido processo legal. 2000. ressaltando as idéias de igualdade e liberdade do homem. mulheres. diferentes civilizações tinham modos distintos de proteção dos direitos individuais. dentre os quais podemos encontrar: a liberdade da Igreja na Inglaterra. na Babilônia. ou seja. embora de cunho religioso. com rígida separação de classes e relação de subordinação entre soberanos e vassalos. principalmente na participação política dos cidadãos (MORAES. a proporcionalidade entre delito e sanção. livre acesso à justiça e liberdade de locomoção e livre entrada e saída do país. que enunciava diversos direitos civis e políticos. do rei para com os seus súditos. Em todos os momentos da humanidade.C. escravos e crianças não participavam das decisões políticas do Estado. 9 . que se insurgiram contra o absolutismo e forçaram o rei João I (1167-1216). Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Mecanismos de proteção do indivíduo frente ao poder estatal não são assunto novo. apresentando leis específicas sobre situações concretas e pontuais da vida cotidiana. A Carta Magna era um tratado de direitos. os primeiros direitos humanos teriam sido os de cidadania nas democracias gregas. a limitação de lançar tributos. tais como o direito à vida. o sistema que imperava na Europa era o da organização feudal. Pode-se dizer que o ponto alto da evolução desses direitos foi o movimento dos barões ingleses. Embora berço da democracia. 25). Na Idade Média. a dignidade da pessoa humana. ISONOMIA (igualdade perante a lei) e ISOGORIA (igual direito de voz e voto nas assembléias).). Um exemplo clássico é o Código de Hamurabi (1780 a. também influenciou a conscientização das pessoas sobre seus direitos individuais e coletivos. p. A doutrina do Cristianismo. a igualdade de todas as pessoas.

no caso de o requerimento Habeas Corpus ser procedente. o instituto do Habeas Corpus que já existia. na mesma Inglaterra. 28) afirma que esta 10 . assegurando o poder da burguesia na Inglaterra. Moraes (2000. que. a Inglaterra produziu outros documentos: a Petition of Right (1628). p. Segundo Ferreira Filho (1995. como colônia da Inglaterra. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Ilustração de João Sem Terra assinando a Magna Carta. que foi produzida pelo Parlamento inglês durante a Guerra Civil inglesa. proibição de empréstimos ou contribuições forçadas. em 4 de julho 1776. proibição de prisão arbitrária.Direitos Humanos. detenções contrárias ao estipulado na Magna Charta (1215). Outro documento relevante do Parlamento inglês foi o Habeas Corpus Act (1679). Esta lei estipulava o direito de petição ao Tribunal em caso de prisão ilegal. bem como os prazos e modalidades de libertação do réu. foi apresentado e imposto ao rei Guilherme III e determinava. a liberdade à vida e à propriedade privada. os seguintes pontos: não haver tributação sem o consentimento do Parlamento. entre outros. entre outras coisas. Foi endereçada ao rei Carlos I da Inglaterra e previa. a mais famosa das declarações é a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) da Assembléia Constituinte francesa. sua independência política. Alguns anos mais tarde. que regulamentou. outro ato do Parlamento. o Bill of Rights (Declaração de Direitos de 1689). 19). uma declaração de direitos que o parlamento considerou que os cidadãos e os residentes daquela monarquia constitucional deveriam ter. Em suma. Quatro séculos depois. durante o reinado do rei Carlos II. Identificam-se nesse documento os direitos fundamentais da pessoa humana. p. declarava. proibição de interferência arbitrária nos direitos de propriedade. depois de muitos conflitos. Outro texto importante foi a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América.

em seus comentários a respeito da DUDH. requerendo a aderência e a ratificação por parte dos Estados. Piovesan (2008. em Paris. sociais e culturais. ou seja. legalidade. liberdade. 72). Em seus artigos. destacam-se os princípios de igualdade. presunção da inocência entre outros. 19-20). A Declaração Universal não é um tratado. Sociais e Culturais – PIDESC. a condição de pessoa é requisito único e exclusivo para a titularidade de direitos. ao consagrar valores básicos universais. foi somente em 1966 que a Comissão dos Direitos Humanos terminou a elaboração dos dois principais Pactos. não constituindo seus dispositivos obrigações jurídicas aos Estados-parte. a Declaração Universal dos Direitos do Homem – DUDH. De acordo com Rover (2005. mas um documento que fornece uma estrutura para orientação e interpretação das disposições e obrigações de direitos humanos contidas na Carta da ONU. 37) recorda que a DUDH foi uma resolução da Assembléia Geral. mas foi somente no século XX que a comunidade internacional tomou consciência da necessidade de desenvolver padrões mínimos. para o tratamento de cidadãos pelos governos. conferem à Declaração Universal o significado de um código e plataforma comum a ser seguida pelos Estados. Embora a DUDH tenha sido adotada em 1948. O Brasil assinou a DUDH no mesmo dia de sua adoção e proclamação: 10 de dezembro de 1948. o mínimo ético irredutível a ser observado pela comunidade internacional. p. no caráter abrangente dos seus trinta artigos.Direitos Humanos. na Assembléia Geral das Nações Unidas. verifica-se que os princípios fundamentais que constituem a legislação moderna dos direitos humanos têm existido ao longo da história. A Declaração Universal reflete os parâmetros protetivos mínimos para a salvaguarda da dignidade humana. Para a Declaração Universal. França.. que dariam efetividade jurídica à DUDH. Em 10 de dezembro de 1948. mas também os direitos econômicos. (. Moraes (2000.) A Declaração Universal de 1948. p. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 é a consagração normativa dos direitos humanos fundamentais. proclamou-se. 11 . que são tratados multilaterais. São eles: O Pacto Internacional para Direitos Civis e Políticos – PIDCP e o Pacto Internacional para os Direitos Econômicos. visa garantir não somente os direitos civis e políticos. p. que. Desde o seu preâmbulo à afirmada dignidade inerente a toda pessoa humana. contesta tal afirmativa posicionando-se da seguinte forma: A inexistência de qualquer questionamento ou reserva feita pelos Estados aos seus preceitos e a inexistência de qualquer voto contrário às suas disposições. titular de direitos iguais e inalienáveis.. aceitos universalmente. objetiva delinear uma ordem pública mundial fundada no respeito à dignidade humana.

Direitos Humanos. O que se almeja em última análise é uma cultura de observância dos direitos da pessoa humana. 72). Ética Profissional e Cidadania Aula 01 1. Em nossos dias. com a Constituição de 1824. impõese a educação em Direitos Humanos. O Estado brasileiro. 1964 e 1968. A primeira Constituição Republicana de 1891 era liberal. no que tange à situação dos direitos humanos em nosso país: As vertentes da proteção internacional dos direitos da pessoa humana (Direito Internacional dos Direitos Humanos. pluralista e participativo. 12 . Entretanto. realizado no Ministério da Justiça. Vamos. conhecer essa evolução e a característica de cada um desses momentos. e da execução penal constituem. pois a pessoa comum e os escravos não tinham muitos dispositivos que os protegessem e podiam estar submetidos ao arbítrio por parte do Estado. Aplicavam-se punições como o pelourinho e castigos corporais. É significativo que o Brasil tenha finalmente se inserido no movimento de proteção internacional dos direitos da pessoa humana em quaisquer circunstâncias (em tempos de paz assim como de conflitos).2 Evolução Histórico-cultural dos Direitos Humanos no Brasil As conclusões do Seminário Internacional “A Proteção da Pessoa Humana no Direito Internacional Contemporâneo”. A evolução dos direitos humanos no Brasil confunde-se com nossa própria história constitucional. Constitui ela uma prioridade para atender à necessidade de elevar o conhecimento nestes domínios como mecanismo concreto de prevenção das violações de direitos e abusos contra a pessoa humana. A aceitação dos instrumentos internacionais gerais haverá por certo contribuir decisivamente para o aperfeiçoamento das próprias instituições nacionais em matéria de proteção dos direitos da pessoa humana. Naquela época. A primeira constituição do Estado brasileiro aparece logo depois da Proclamação da Independência. Brasília. pela natureza especial de suas funções. constataremos uma extensa relação de direitos e garantias individuais. a aprtir de agora. em novembro de 1992. destinatários idôneos desta ação de capacitação. Direito Internacional dos Refugiados) vêm gradualmente angariando níveis de aceitação universal. de fiscalização e aplicação da lei. se verificarmos o Artigo 179. os direitos humanos fundamentais só eram prerrogativas da elite dominante. somente no período da República. continuam atuais. baseada no modelo norte-americano. Direito Internacional Humanitário. teve seis constituições. em Direito Humanitário e em Direito dos Refugiados como um processo amplo. sem contar com as emendas e atos de natureza institucional. e proclamava que todos os cidadãos tinham direitos (ver o Título III. como os de 1930. Seção II e o Art. Os órgãos de segurança pública.

A Constituição de 1946. dando lugar a seu vice José Sarney. que ampliou os poderes do Chefe de Estado ao ponto de poder fechar o Congresso. e a adoção da nova 13 . em 31 de março de 1964. foi outorgada a terceira Constituição da República. a “POLACA”. de 1969. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 A Constituição de 1891 durou até 1934 quando foi elaborada a segunda Constituição da República. surgida após a revolução constitucionalista de 1932 em São Paulo (ver o Art. Em 1979. A Emenda Constitucional n° 1. foi elaborada uma nova Constituição considerada bastante avançada para a época e que se considerou como um avanço da democracia e das liberdades individuais. pelo presidente José Sarney. especialmente na restrição de direitos e garantias individuais. Em 1937. O período de 1964 até 1985 foi considerado como retrocesso nos direitos e garantias individuais no País. a liberdade de reunião. permitindo o retorno ao Brasil dos exilados políticos. descaracterizando-a por completo. e diversos partidos políticos puderam novamente ser criados. extinguir partidos políticos. o Congresso Nacional decretou o Ato Institucional n° 5 (AI-5). que decidiu dar ao país uma nova Constituição. Em 1979. no governo de Getúlio Vargas. acusações de tortura. que legitimou o regime militar e as eleições indiretas para Presidente da República (ver os artigos 150 e 158). os militares começaram o processo de “abertura política” e retorno ao regime democrático. em 1985. cassar mandatos. modificou muito a Constituição. de 7 de setembro de 1966. Com a proposta de emenda. que durou até 1985. Em 1946.Direitos Humanos. por ocasião do Golpe Militar. suprimir uma série de direitos anteriormente consagrados como o habeascorpus. dando início a uma seqüência de militares como chefes do Poder Executivo. tais como prisões em massa e censura (ver o Art. a liberdade de expressão e de pensamento. No mês de dezembro de 1968. foi sendo substancialmente modificada para ajustarse ao novo governo. que não chegou a assumir por motivo de falecimento. Em 1967. os direitos e garantias foram se estabelecendo até a convocação da Assembélia Nacional Constituinte. em contraposição à de 1937 (ver os artigos 141 e 157). quando o colégio eleitoral elegeu Tancredo Neves. chamado de Estado Novo. com a posse do Presidente João Baptista Figueiredo. em 1987. Entretanto. as Forças Armadas participaram como protagonistas do Golpe Militar ou Revolução Democrática. foi promulgada a nova Constituição. A restrição de direitos imposta pela Constituição de 1937 ensejou muitos abusos por parte do Estado. Foi quando houve a promulgação do Ato Institucional Nº 4. 113). 122). que representasse a institucionalização dos ideais e princípios da “Revolução”. prisões ilegais e arbitrárias e ainda execuções extrajudiciais por forças do Estado. Houve censura aos meios de comunicação. foi sancionada a Lei de Anistia. em que foi deposto o Presidente João Goulart.

1 Conceito de Direito Internacional De acordo com Cançado Trindade (1991. p. segurança. 35). proteção do meio ambiente. Assim. de reconhecer a relevância da proteção internacional dos direitos humanos e dispensar atenção e tratamentos especiais à matéria. O Direito Internacional regula muitos aspectos das relações internacionais e inclui regras sobre os direitos territoriais dos estados (relativas a: terra. foi nas últimas décadas do século XX que o processo histórico de generalização e expansão da proteção internacional dos direitos humanos foi marcado pelo fenômeno da multiplicidade e diversidade dos mecanismos de proteção. 1). uso de força pelos estados. ainda em vigor. honra. acompanhado pela identidade predominante de propósito destes e pela unidade conceitual dos direitos humanos. comércio internacional.3. entre outros) e previsão de instrumentos políticos e jurídicos de implementação delas. Esta nova Constituição vem fortalecer a tendência das Constituições recentes. o direito internacional público) consiste no corpo de regras que governam as relações entre os estados. cuja finalidade precípua consiste na concretização da plena eficácia dos direitos humanos fundamentais. mas compreende também as normas relacionadas ao funcionamento de instituições ou organizações internacionais. denominada Direito Internacional Dos Direitos Humanos.Direitos Humanos. dignidade. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Constituição. A evolução histórica da proteção dos direitos fundamentais da pessoa humana são conquistas no sentido de limitar e controlar os abusos cometidos pelo Estado e de suas autoridades constituídas em favor da pessoa humana. ao se multiplicarem ao longo dos anos. o surgimento de uma disciplina autônoma ao Direito Internacional Público. p. de modo a aprimorar e fortalecer o grau de proteção dos direitos consagrados. moral. 1. É uma idéia bastante antiga. por meio de normas gerais tuteladoras de bens primordiais da vida (vida. em nível internacional. em 1988. 14 . Na próxima aula. a relação entre elas e a relação delas com o estado e os indivíduos. mar e espaço aéreo). a necessidade primordial de proteção e efetividade aos direitos humanos possibilitou. É nesse contexto que se tem feito uso do Direito Internacional.3 Dimensões de Análise e Aplicação dos Direitos Humanos 1. estudaremos com mais detalhes a Constituição de 1988. como ensina Moraes (2000. Tais instrumentos de proteção. mas hoje se cristaliza em forma de tratados e instrumentos internacionais e mesmo de legislação nacional. A definição clássica de Direito Internacional (ou de uma maneira mais restrita. tiveram propósito de ampliar o alcance da proteção a ser estendida às supostas vítimas. de natureza e efeitos jurídicos distintos. liberdade. direito internacional dos direitos humanos e direito internacional humanitário.

as decisões judiciárias e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações. é até que ponto tais resoluções são legalmente obrigatórias aos Estados membros. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Enfim. se as partes com isto concordarem. o costume internacional. você estudará e compreenderá a relação do Direito Internacional com a atividade policial. as convenções internacionais. contudo. sob ressalva da disposição do Artigo 59.2 Fontes do Direito Internacional Mello (2002. quer especiais.3. os princípios gerais de direito. Os critérios importantes para se determinar a obrigatoriedade subsistem no grau de objetividade que cerca a adoção das resoluções e. sem. Ao decorrer deste curso. 38 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça. como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito. que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes. Verificamos que o costume e os tratados para os funcionários encarregados da aplicação da lei são as fontes mais importantes. A Corte. 40). entrar em detalhes sobre elas:     Princípios gerais do direito reconhecidos pelas nações civilizadas. principalmente àqueles que votaram contra elas. p. utiliza-se como referência de fonte do Direito Internacional o art. criado para proteger a vida. Ensinamentos dos publicistas mais altamente qualificados das várias nações. No que diz respeito ao funcionamento interno da ONU. Resoluções da Assembléia Geral da ONU. no entanto. Apesar disso. De acordo com ROVER (2005. cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as controvérsias que lhe forem submetidas. 113) explica que as fontes do Direito Internacional se constituem dos modos pelos quais o Direito se manifesta. p. quer gerais. principalmente. na constatação do nível que uma 15 . Atualmente. estabelecido pela Carta das Nações Unidas como o principal órgão judiciário das Nações Unidas: Artigo 38. as maneiras pelas quais surge a norma jurídica. Decisões judiciais de cortes e tribunais internacionais. isto é. é útil mencionar brevemente as fontes subsidiárias do Direito Internacional. A questão que permanece. b. 1.Direitos Humanos. o Direito Internacional dos direitos humanos é um ramo do direito internacional público. a importância legal das resoluções da Assembléia Geral da ONU é cada vez mais um assunto em debate. aplicará: a. d. reconhecidos pelas nações civilizadas. c. a saúde e a dignidade dos indivíduos. como meio auxiliar para a determinação das regras de direito. essas resoluções possuem efeito jurídico pleno. A presente disposição não prejudicará a faculdade da Corte de decidir uma questão ex aequo et bono.

todo ato ilícito internacional por parte de um Estado resulta na responsabilidade internacional deste Estado.3. Este último aspecto é ainda mais importante do que a maioria dos Estados simplesmente adotar a resolução. 16 .3 Responsabilidade dos Estados Quando um Estado assume obrigações no âmbito da comunidade internacional (ex: assinando e ratificando tratados. a conduta resulta na violação de uma obrigação internacional do Estado. É um princípio do Direito Internacional que qualquer inobservância ou violação de um compromisso resulta na obrigação de fazer uma reparação. Este é tido como real quando:   a conduta resultante de uma ação ou omissão é atribuível (imputável) ao Estado perante o direito internacional.Direitos Humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 resolução pode ser considerada a expressão da consciência legal da humanidade como um todo. o Estado não é responsável pela conduta de pessoa ou grupo de pessoas que não agem em seu nome. assegurando que seu governo. não fosse o ato cometido. Contudo. Isto é muito frequente. Um Estado não pode alegar disposições em sua Constituição ou legislação nacional como escusa para furtar-se a cumprir suas obrigações perante o Direito Internacional. Perante o Direito Internacional. Assim. No Direito Internacional. A responsabilidade existe nos casos em que o próprio Estado é o perpetrador em situações em que a conduta de uma pessoa ou órgão pode ser imputada ao Estado. quando executadas em capacidade oficial. 1. A reparação deve. portanto. eliminar todas as conseqüências do ato ilegal e restaurar a situação que teria existido com toda a probabilidade. no tocante aos encarregados da aplicação da lei. Dessa forma. em que os Estados assumem a responsabilidade de fazer com que certas condutas (por exemplo: tortura e genocídio) sejam consideradas crimes e tenham punições por meio de seus sistemas jurídicos nacionais. tanto quanto possível. são imputáveis ao Estado e. uma questão de responsabilidade do Estado. convenções e protocolos) significa que ele concordou em cumprir suas obrigações de maneira específica. suas ações. o Estado tem de fazer o ajuste de suas normas constitucionais e a criação de legislação específica para regular a matéria objeto dos tratados. sua constituição e suas leis o possibilite cumprir suas obrigações internacionais). a responsabilidade surge a partir da violação de qualquer obrigação devida sob ele. As resoluções emanadas da Assembléia Geral estão recebendo um apoio cada vez maior por parte de escritores e publicistas como um meio subsidiário para se determinar estados de direito. pricipalmente quando se trata dos direitos humanos.

Sociais e Culturais. você estudou as constituições políticas do Estado brasileiro em diferentes momentos da história. suas fontes. estudou também sobre o Direito Internacional: seu conceito. Você também conheceu a evolução dos direitos.Direitos Humanos. protegendo-a do abuso do poder estatal. Na evolução histórico-cultural no Brasil. desde a Antiguidade até meados do século XX. você viu a evolução histórico-cultural mundial dos direitos humanos por meio dos principais instrumentos legais que apresentam a previsão de direitos e garantias em favor da pessoa humana. Ética Profissional e Cidadania Aula 01 Para Saber Mais Leia um excerto do texto de Hector Gros Espiell sobre as condições de implementação dos direitos humanos. Por fim. bem como a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nesta aula. o Pacto Internacional para Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional para os Direitos Econômicos. a responsabilidade dos Estados e a relação do Direito Internacional com a função de aplicação da lei. chegando até o advento da Constituição de 1988. 17 .

As idéias que nos surgem do conceito de ordem pública são as de vida em paz. a condição jurídica que pessoas físicas e morais podem ostentar. ou seja. em especial.1 Ordem Pública Lazzarini (2001. O fato de o homem ser cidadão propicia-lhe a cidadania. dando a você uma visão mais ampla dos direitos humanos e sua relação com a profissão policial. Entre os princípios mais importantes da vida em sociedade está o de ordem pública. as leis de ordem privada são principalmente concernentes aos interesses de ordem particular. a submissão à autoridade e. As leis são os preceitos escritos. de outro. Executivo e Judiciário. a cidadania implica.1. No conjunto do ordenamento jurídico de um Estado. Por expressar o vínculo entre o Estado e seus membros. bem-estar social.1 Ordem Pública e Segurança Pública 2. Ao contrário. com submissão destes à autoridade do Estado. inclusive as desenvolvidas nos Poderes Legislativo.Ordem Pública. nesta aula. com base na Constituição brasileira de 1988.Direitos Humanos. O vínculo entre o Estado e seus cidadãos. exercer seus direitos e ter a garantia de poder invocar a proteção de um órgão superior do Estado no caso de violação de seus direitos. os princípios constitucionais dos direitos e garantias fundamentais do cidadão. é muito comum falar-se em leis de ordem pública. 2. o exercício de direito. p. uma vez que o cidadão é membro ativo de uma sociedade política independente. 7) nos recorda que o homem é o cidadão que vive em uma determinada sociedade. formulados pelas autoridades constituídas em função do poder de legislar. o poder de polícia. as atividades administrativas. As leis de ordem pública são as que vão estabelecer princípios indispensáveis à vida e à manutenção e preservação do próprio Estado. de um lado. regulando as relações dos indivíduos entre si ou deles com o Estado. 18 . Segurança Pública e Direitos Humanos Caro aluno. Você verá que todos esses conceitos estão interligados e se completam. você estudará os conceitos de ordem e segurança pública. cooperação dos membros de uma sociedade para o convívio harmonioso e a de que todos podem desenvolver plenamente suas potencialidades. O desenvolvimento do tema necessita da busca de alguns elementos que nos indiquem essa condição em uma sociedade. e a evolução dos direitos humanos em suas diferentes gerações. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 Aula 02 . há de estar disciplinado por princípios jurídicos que informem.

1983. e constituindo uma situação ou condição que conduza ao bem comum. apenas ajudam a polícia a manter a ordem e a segurança pública.d. Neste momento. Contudo. s. 2º). perdura a essencialidade da força militar. tendo por escopo regular as relações sociais de todos os níveis do interesse público. a vida social não é tão bem ordenada quanto aos conceitos que a orientam. são incumbência dos funcionários responsáveis pelo cumprimento da lei (Polícia). impedindo a ruptura dessa mesma ordem. art. apesar de realizarem tarefas relacionadas com o fato de fazer cumprir a lei. As forças militares que participam de operações de segurança interna não necessitam. velando para que as leis e normas decorrentes sejam observadas. 12). fiscalizado pelo Poder de Polícia. em que a instituição policial é deficitária ou insuficiente. habitualmente. as Forças Armadas desempenham funções na comunidade civil que. Deve-se prestar especial atenção à instrução dos soldados antes de empreender uma operação de segurança interna. em casos extremos. devem receber instrução efetiva com respeito aos poderes fundamentais relacionados com o fato de cumprir a lei: uso da força. atribui-se essas funções às forças armadas. Nesse caso. Contudo. A necessidade da intervenção do Estado surge para realizar a manutenção da ordem pública violada e assegurar o estado de legalidade normal. Contudo. (RAMIREZ. entre las libertades y derechos individuales y el interés general y cuya ruptura haría imposible la convivencia y el cumplimento de los fines del estado y de sus instituciones. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 Es el estado de paz y armonía de una sociedad cuando se somete al respeto de las normas establecidas por el estado. As Forças Armadas devem aplicar as normas legais que regem a atuação dos funcionários responsáveis pelo cumprimento da lei. podendo.Direitos Humanos. Deve-se evitar determinar tarefas à força militar que não se ajustem à sua instrução ou configuração. Os soldados das Forças Armadas não são policiais quando realizam uma operação de segurança interna.. (BRASIL. 19 . estabelecendo um clima de convivência harmoniosa e pacífica. especialmente com relação ao uso da força e das armas de fogo. Um dos meios mais comumente utilizados para restaurar essa ordem violada na administração pública é a polícia. e. manutenção da ordem pública é ação inerente ao órgão policial no campo da Segurança Pública. ocorrer uma ruptura no cumprimento e na obediência das normas sociais e legais. a princípio. receber instruções a respeito de toda a gama de capacidades e poderes relacionados com a polícia. prisão e detenção. Há várias situações em que pessoas ou coletividades não se submetem ou não querem se submeter à autoridade estatal. Manutenção é ação. dessa forma. embora possam estar investidos com poder de polícia. Ordem Pública: conjunto de regras formais que emanam do ordenamento jurídico da Nação. o Estado tem a incumbência de manter e preservar a ordem social em favor da coletividade. p.

operações de baixa intensidade [low intensity operations (ROVER.Direitos Humanos. muito utilizada pelas fontes norte-americanas. regulamentare o de polícia.) Perturbação da Ordem: abrange todos os tipos de ação. 1998)]. dissuadir. infraconstitucional. manifestado por atuações predominantemente ostensivas. p. disciplinar. é o Direito Administrativo.1. o Direito Administrativo relaciona-se com os Direitos Humanos Fundamentais. o ramo do Direito que deve instrumentalizar tudo isso. discricionário. Lazzarini citando Alexandre de Moraes (apud LAZZARINI. 8). explica que considera os direitos fundamentais como sendo: o conjunto institucionalizado de direitos e garantias do ser humano que tem por finalidade básica o respeito à dignidade. Já em manuais militares aparece como sinônimo de operações de segurança interna [operaciones de seguridad interna/ Internal security operations (ICRC. 2002)]. 2. hierárquico. 2º). O arbítrio não é considerado poder.1 Poderes da Administração Pública Como poderes instrumentais da Administração Pública têm-se os poderes vinculado. operações distintas da guerra [operations other than war (ICRC. operações de garantia da lei e da ordem. o exercício dos poderes constituídos. ameaçando a população e propriedades públicas e privadas (BRASIL.1. 2001.. em termos de Administração Pública. inclusive as decorrentes de calamidade pública que. (. o cumprimento das leis e a manutenção da ordem pública. coibir ou reprimir eventos que violem a ordem pública. Utilizaremos a seguinte: Operações que impliquem o emprego de forças armadas em apoio às autoridades civis com a finalidade principal de manter e restabelecer a ordem (ICRC. visando a prevenir. 1983. porque ele 20 . art. operações militares distintas da guerra [military operations other than war]. 8). 2002). entre outras. origem. por sua natureza. Manutenção da Ordem Pública: é o exercício dinâmico do Poder de Polícia. 1998)]. No conceito de Lazzarini (2001. por meio de sua proteção contra o arbítrio do poder estatal e o estabelecimento de condições humanas de vida e desenvolvimento da personalidade humana. Não existe uma definição padrão para as operações de segurança interna. Como principal ramo do Direito Público. no campo da segurança pública. amplitude e potencial possam vir a comprometer na esfera estadual.. p. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 O tema da manutenção da ordem pública é abordado em vários manuais policiais como sinônimo de controle da ordem pública e operações de controle de distúrbios civis.

12. (MEIRELLES. p. nos critérios de conveniência e oportunidade. em razão de interesse público concernente à segurança. à ordem. Na visão de Meirelles (1997. buscando garantir o direito de cidadania. interesse ou liberdade. aos costumes. realidade e razoabilidade. por intermédio de suas polícias. é um dos mais importantes poderes administrativos. em benefício da coletividade ou do próprio Estado. Veja também o art. o direito-dever ou. no uso delas.Direitos Humanos. à higiene. até mesmo. 61). se sujeita aos princípios da legalidade. O Estado. como força pública do Estado. como conseqüência. assim. limitando ou disciplinando direito.1966) 21 . Ética Profissional e Cidadania Aula 02 significa extrapolar os limites da legalidade na manifestação da vontade do órgão administrativo. Poder de polícia é. que envolve o exercício efetivo e amplo dos direitos humanos assegurados. (Redação dada pelo Ato Complementar nº 31. ao exercício de atividades econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público. tendo em vista o bem comum. poder de polícia é a faculdade de que dispõe a Administração Pública para condicionar e restringir o uso e gozo de bens. é forçoso reconhecer que o Poder de Polícia. nociva ou inco nveniente ao bem-estar social. atividades e direitos individuais. p. p. Diferencia-se do poder discricionário que. 115). à disciplina da produção e do mercado. de 28. cabendo-lhe. O Estado cumpre sua missão de defensor e propagador dos interesses gerais. 115). Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que. Para o autor. o dever-poder de tudo fazer na defesa desses direitos (MAGALHÃES. 1987. 78. Consiste numa limitação do exercício da liberdade e da propriedade dos indivíduos para que. deve zelar e velar pelo bem-estar coletivo e dos cidadãos em particular. os membros da coletividade se mantenham ajustados a padrões compatíveis com os objetivos sociais. regula a prática de ato ou abstenção de fato. ao desenvolvimento e à segurança nacional. coibindo os excessos e prevenindo as perturbações à ordem jurídico-social. ele é o mecanismo de frenagem de que dispõe a administração pública para conter os abusos do direito individual. Embora não se possa dizer da prevalência de um poder instrumental sobre outro. O Estado detém a atividade dos particulares que se revelar contrária. É o poder que exerce a administração pública sobre todas as atividades e bens que afetam ou possam afetar a coletividade. à tranqüilidade pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. a competência institucional que a administração pública tem para impor restrições a certas atividades privadas e obrigar ou proibir determinadas formas de utilização das coisas. 78 do Código Tributário Nacional: Art. 1997.

Ela é legítima desde que o ato da polícia administrativa se contenha nos limites legais e a autoridade se mantenha na faixa de opção que lhe é atribuída. p. que é a proteção de algum interesse público. bem como aplicar as sanções e empregar os meios conducentes a atingir o fim colimado. e podem exercê-los em qualquer situação de aplicação da lei. O ato arbitrário é sempre ilegítimo e inválido. 120) aponta como sendo três os atributos ou características do Poder de Polícia: discricionariedade.) têm poderes discricionários de captura. sem intervenção do Judiciário. Meirelles (1997. auto-executoriedade e coercibilidade. As decisões dos policias acerca de quando se deve ou não acionar as leis para a manutenção da ordem determinam os próprios limites da implementação da lei. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável. com observância do processo legal e. afirma que: Discricionariedade não se confunde com arbitrariedade. p. No dia-a-dia da atividade policial. os encarregados de aplicação da lei (.. portanto. nulo. 22 . 120). p. ao tratar do assunto. arbitrariedade é ação fora ou excedente da lei. Beato (1999) faz crítica a este poder ao afirmar que um dos aspectos mais difíceis no gerenciamento das atividades policiais é o grau de discricionariedade dos policiais nas ruas. estes extremos não são tão freqüentes. (ROVER. Este princípio autoriza a prática do ato de polícia administrativa pela própria administração. 2005. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 Parágrafo único. detenção e do uso da força e de armas de fogo. independentemente de mandato judicial. Discricionariedade – Traduz-se na livre escolha e conveniência de a administração exercer o poder de polícia. Na maioria dos Estados. A administração impõe diretamente as medidas ou sanções de polícia administrativa necessárias à contenção da atividade anti-social que visa obstar.. Policiais detêm uma larga margem de decisão acerca de quando acionar ou não as leis. Discricionariedade é liberdade de agir dentro dos limites legais. 239) Este poder pode se tornar um problema se o policial não for bem preparado. O autor alega que este problema adquire contornos dramáticos quando se trata de avaliar a necessidade ou o não do uso de força letal pelos policiais.Direitos Humanos. sem abuso ou desvio de poder. com abuso ou desvio de poder. Meirelles (1997. tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária. Auto-executoriedade – É a faculdade da administração em decidir e executar diretamente sua decisão por seus próprios meios. A visibilidade dessas decisões é freqüentemente baixa e raramente são sujeitas a mecanismos de supervisão por parte de superiores.

Direitos Humanos. a discricionariedade e a executoriedade são o tripé do direito administrativo da segurança pública.polícia rodoviária federal. Moreira Neto (1987. a obrigação (dever) de cuidar da segurança pública. o conceito de ordem pública mereceu exaustivos debates. 2. p. 122). 144. direito e responsabilidade de todos. Embora toda violação à ordem jurídica possa caracterizar-se como uma violação à ordem pública. Segundo Meirelles (1997. de um lado. “ordem pública. Entretanto. mas também. pois todos eles admitem a coerção estatal para torná-los efetivos. 23 . a incolumidade das pessoas e do patrimônio. “não há ato de polícia facultativo para o particular. por intermédio de seus órgãos policiais. A segurança pública. através dos seguintes órgãos: I . além de ser um direito de todos. É a própria administração que determina e faz executar as medidas de força que se tornarem necessárias para a execução do ato ou aplicação da penalidade administrativa resultante do exercício do poder de polícia. dever do Estado. é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. É o Estado cuidando dos direitos das pessoas por intermédio de seus órgãos. a recíproca não é necessariamente verdadeira. preservando a ordem. IV .1. V . com a ordem nas ruas. p. o faz também compartilhando essa responsabilidade com os cidadãos. cabe ao Estado. compartilhando as responsabilidades.13).polícia ferroviária federal. com seus instrumentos. A Constituição Brasileira de 1988 estabeleceu no seu artigo 144 a menção da Segurança Pública e os órgãos que dela cuidam: Art. obrigatório para seu destinatário. Para Moreira Neto (1987. Nota-se que deve haver uma parceria para a obtenção do resultado. objeto da Segurança Pública.polícias civis. com a ordem jurídica e.2 Segurança Pública Confundido.11) afirma que o poder de polícia. de outro. e essa coerção também independe de autorização judicial”. como um pacto social. II . fundada nos princípios éticos vigentes na sociedade”.polícia federal. é a situação de convivência pacífica e harmoniosa da população. p. Todo ato de polícia é imperativo. quando resistido pelo administrado. III . Constatamos assim que. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 Coercibilidade – É a imposição coativa das medidas adotadas pela administração. admitindo até o emprego da força pública para seu cumprimento.polícias militares e corpos de bombeiros militares.

Quando couber. Na segurança pública. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 Sobre segurança pública. A segurança pública atua na preservação da vida. no exercício do poder de polícia. em especial. pois se trata de uma reserva legal e pode ser enriquecido discricionariamente conforme as circunstâncias dadas pela Administração. estabelecendo as leis que a disciplinarão. um comando negativo contém preceitos que. esgota-se no constrangimento pessoal. o costume e a moral. com ações de polícia preventiva ou de repressão imediata. o Estado atua pelo poder de polícia.  A fiscalização de polícia – É uma forma ordinária e inafastável de atuação administrativa. da liberdade e dos direitos de propriedade das pessoas. Por meio de organizações policiais próprias. necessariamente. de forma discricionária e executória. limitando-se às liberdades individuais. No caso da infração à ordem pública. a noção de ordem pública engloba a de segurança pública. p. É nessa atuação que se denomina a atividade de polícia de segurança pública. mesmo em fazer aquilo que a lei não lhe veda. 120 e 121) que a ordem pública é uma situação de fato oposta à desordem. Lazzarini conclui (2000. vinculada ou discricionária. A segurança pública é o estado anti-delitual (contra o delito). exercitado em suas quatro modalidades de ação (AGU. a segurança pública é um aspecto da ordem pública. e na sua vertente jurisdicional. a atividade administrativa. Na vertente administrativa. Moreira Neto (1987. nascem da lei. na justa medida para restabelecer o direito. impondo a pena criminal. que verifica o cumprimento das ordens ou a observância das condições do consentimento. do Estado com a atividade submetida ao preceito vedativo relativo. sempre que satisfeitos os condicionamentos exigidos.19) diz que o Estado atua juridicamente na sua vertente normativa. o Estado atua aplicando a lei para restabelecer a ordem violada. p. auto-executória. No caso específico da atuação da polícia de preservação da ordem pública. a segurança pública afasta todo perigo ou todo mal que possa afetar a ordem pública. mas estabelecendo que a liberdade de cada pessoa.  A sanção de polícia – É a atuação administrativa auto-executória que se destina à repressão da infração. que resulta da observância dos preceitos tutelados pelos códigos penais comuns e pela lei das contravenções penais. aplicando a lei aos casos contenciosos e.  O consentimento de polícia – Subordina certas atividades a um controle prévio. não pode ir além da liberdade assegurada aos demais. ao lado da tranqüilidade e salubridade públicas. Dessa forma. 24 .Direitos Humanos. 2001):  A ordem de polícia – Geralmente. 119. Portanto. exercendo o Estado o poder de polícia administrativa. será a anuência. recebe o nome de policiamento. direto e imediato. sendo essencialmente de natureza material e exterior.

tendo como fundamentos a soberania (poder político supremo e independente). a cidadania (como objeto e direito fundamental das pessoas). esse direito. 25 . 2000. o direito é o título que você possui como pessoa e as garantias são os meios colocados à sua disposição para fazer valer esse título. O artigo 3º estipula os objetivos fundamentais do Estado brasileiro.Direitos Humanos. a prevalência dos Direitos Humanos como princípio fundamental a reger o Estado brasileiro nas relações internacionais. na minoração do sofrimento da população e na promoção do bem-estar social sem discriminação. imparcial e sem demora para defesa de seus direitos. na busca pelo desenvolvimento. trata-se da primeira Constituição brasileira a consagrar um universo de princípios a guiar o Brasil no cenário internacional. 82) explica que “os direitos representam só por si certos bens (. fixando valores a orientar sua agenda internacional. Sendo assim.2 Princípios Constitucionais dos Direitos e Garantias Fundamentais do Cidadão A Constituição brasileira de 1988 (CF/88) destaca.) e as garantias destinam-se a assegurar a fruição desses bens”. 82) descreve que: as garantias traduzem-se quer no direito dos cidadãos a exigir dos poderes públicos a proteção de seus direitos.. O Título II da CF/88 trata dos Direitos e Garantias Fundamentais. entre seus incisos. 4º simboliza a re-inserção do país na arena internacional. que devem ser buscados pelas autoridades constituídas na construção da sociedade. 2000. p. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 2. p. a preocupação com valores inerentes à pessoa humana e também o modo pelo qual o Estado brasileiro reconhece e promove esses valores. O artigo 4º apresenta. Na realidade. quer no reconhecimento de meios processuais adequados à essa finalidade. Você conhece a diferença entre direitos e garantias? Canotilho (apud MORAES. Por exemplo: a garantia de acesso à justiça para ter um julgamento justo. já em seus primeiros artigos. Observe-se que o artigo 1º já enfatiza a questão da República Federativa do Brasil ser um Estado Democrático e de Direito. Jorge Miranda (apud MORAES.. caso sejam violados. a dignidade da pessoa humana (como valor espiritual e moral inerente a cada pessoa). O art. os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (direitos sociais e econômicos) e o pluralismo político (liberdade de convicção filosófica e política).

o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. nos termos da lei. dirigimos sua atenção à leitura e compreensão de cada um dos incisos do artigo 5º. você está em constante contato com ele. durante o desempenho de sua atividade profissional operacional (como agente do Estado no âmbito interno de sua corporação exercendo seus direitos constitucionais). garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida. sem distinção de qualquer natureza. Todos extremamente importantes. a vida privada.. o terrorismo e os definidos como crimes hediondos.ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. civis ou militares. sujeito à pena de reclusão. Este simples fato já demonstra sua importância. XLII . (.não há crime sem lei anterior que o defina.é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral. direitos sociais.são invioláveis a intimidade. pois. se omitirem. a honra e a imagem das pessoas.a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais. não esgotaremos aqui as explicações sobre esses incisos. III .são inadmissíveis.a casa é asilo inviolável do indivíduo.constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados. Nesta aula. X . à liberdade. XLIX . XLI . contra a ordem constitucional e o Estado Democrático. salvo em caso de flagrante delito ou desastre. as provas obtidas por meios ilícitos. LVI . XI . ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador. Entre os incisos do artigo 5º.a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível. assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. XLIII . destacamos alguns fundamentais para o conhecimento e a prática da atividade policial: Colocar em pergaminho II . Você certamente conhece bem o artigo 5º da Constituição. os executores e os que. 26 . 5º Todos são iguais perante a lei. direitos políticos e partidos políticos.Direitos Humanos. no processo. por determinação judicial. contudo. ou. Art. a saber: direitos e deveres individuais e coletivos. durante o dia. à igualdade. nem pena sem prévia cominação legal. por eles respondendo os mandantes. à segurança e à propriedade. ou para prestar socorro.) O caput do artigo já ressalta a importância do direito à vida e à segurança das pessoas.a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura. nacionalidade.ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante.. XXXIX . podendo evitá-los. XLIV . Ética Profissional e Cidadania Aula 02 O Título II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais – está dividido em cinco capítulos.

assim. Esta enumeração dos incisos do artigo 5º é exemplificativa. tendo como sujeitos ativos as pessoas individualmente ou em grupos determinados ou indeterminados e como sujeito passivo o Estado. Assim. são direitos históricos. LXVIII . LXI . “Não há direito sem obrigação. nascidos de certas circunstâncias caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes e nascidos de modo gradual. fortalecer a tendência das constituições modernas de reconhecer a relevância da proteção internacional dos direitos humanos e dispensar atenção e tratamentos especiais à matéria. salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar. § 2º. que deve respeitar as pressoas e grupos e cumprir os direitos.3 Os Direitos Individuais Homogêneos. salvo nas hipóteses previstas em lei. e não há nem direito nem obrigação sem uma norma de conduta. 8) A Constituição vem. depreende-se que os direitos nela elencados são bilaterais. LXIV . permitindo novos remédios para as suas indigências: ameaças que são enfrentadas por meio de demandas de limitações do 27 . pela Constituição de 1988.conceder-se-á "habeas-corpus" sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção. pois segundo o art.o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial. Todos os indivíduos e grupos devem respeitar as liberdades reciprocamente uns dos outros.Direitos Humanos. sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado. O princípio dos direitos se dá quando há um aumento de poder do homem sobre o homem ou quando há o surgimento de novas ameaças à liberdade do indivíduo.a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada. 1992. por ilegalidade ou abuso de poder. mas quando deveriam ou podiam nascer. LVIII . ou dos tratados internacionais em que o Estado brasileiro faça parte.a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 LVII . entre os quais o de permanecer calado.ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. ou seja. LXII . LXV .ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente. os direitos e garantias expressos na Carta Magna não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. por mais fundamentais que sejam.” (BOBBIO. definidos em lei. não todos de um vez e nem de uma vez por todas.o preso será informado de seus direitos. p. Coletivos e Transindividuais Os direitos do homem. 5º.o civilmente identificado não será submetido a identificação criminal. 2. LXIII .

Moraes (2000. remédios que são providenciados através da exigência de que o mesmo poder intervenha de modo protetor. Os direitos de terceira geração (direitos transindividuais) são os chamados direitos de solidariedade ou fraternidade. que realçam a liberdade da pessoa humana no Estado (Século XIX e início do Século XX). sociais e culturais. São os chamados direitos políticos. com base na ordem histórica cronológica em que foram aparecendo e sendo constitucionalmente reconhecidos. à qualidade de vida. os doutrinadores têm apresentado os direitos fundamentais. do direito somente pensado para o direito realizado. ou ainda de titularidade coletiva. para efeito didático. Assim. econômicos. 44) ensina que. à paz e a outros direitos difusos. Ética Profissional e Cidadania Aula 02 poder.Direitos Humanos. Englobam o direito ao meio ambiente. econômicos e culturais) são os direitos doravante protegidos e reconhecidos pelo Estado. Exemplo:       Direitos sociais Relações trabalhistas Saúde Educação Direitos econômicos Direitos culturais Os direitos de segunda geração são marcados historicamente pela passagem da teoria à prática. os direitos fundamentais são classificados por gerações. p. Exemplos:   Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU-1948) Declaração Universal dos Direitos dos Povos 28 . ao progresso. que realçam a liberdade por meio do Estado. que realçam certa liberdade da pessoa humana ou de certos grupos em relação ao Estado (direitos individuais e direitos da liberdade). Exemplo:   Declaração da Virgínia (1776) Declaração dos Direitos do Homem (1789) o o o o o o Liberdade Igualdade Segurança Propriedade Voto Individuais Os direitos de segunda geração (direitos sociais. Os direitos fundamentais de primeira geração (civis e políticos) são os direitos e garantias individuais.

29 . em especial. Esse também é o objetivo dos funcionários desse Estado. Direitos Coletivos e Difusos: consumidor. meio-ambiente. No Estado moderno. Exemplos:         Carta da Terra ou Declaração do Rio (1992) Direitos à Vida das gerações futuras Direitos a uma vida saudável e em harmonia com a natureza Desenvolvimento sustentável Bioética Manipulação genética Biotecnologia e Bioengenharia Direitos advindos da Realidade Virtual Com esse estudo. Já existem estudiosos e doutrinadores que pregam a existência de uma quarta geração (direitos à qualidade de vida e de dimensão planetária) que seriam os da manipulação genética. autodeterminação desenvolvimento. que deve promover e proteger os direitos fundamentais. você teve a oportunidade de estudar o conceito de ordem pública e sua relação com a manutenção e preservação da ordem. criança. verificamos que houve uma evolução na conquista de direitos ao longo do tempo e sua conseqüente aceitação e aprovação em legislações e constituições pelos Estados. biossegurança. Nesta aula. a afirmação dos direitos do homem dá-se frente ao Estado. especificamente os funcionários encarregados de aplicar a lei. Ética Profissional e Cidadania Aula 02   Direitos dos Povos e da Solidariedade: paz. entre eles a polícia. além dos poderes da administração pública e. entre outros. o Poder de Polícia e seus atributos. Você viu também os princípios constitucionais dos direitos e garantias fundamentais do cidadão nos artigos da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e pôde notar a evolução das diferentes gerações de direitos humanos e identificar os direitos e garantias advindas dessa evolução. etc.Direitos Humanos. etc.

Em termos estritamente jurídicos. têm uma enorme força moral. diretrizes e regras mínimas.Direitos Humanos. nesta aula você estudará os principais mecanismos internacionais e nacionais de proteção aos direitos humanos.Mecanismos Internacionais e Nacionais de Proteção aos Direitos Humanos Caro aluno. em aula anterior. uma das fontes de direito internacional reconhecidas pelo artigo 38 do Estatuto da Corte Internacional 30 . p. Sistemas e Normas de Direitos Humanos na Aplicação da Lei Você já estudou. 3. Assim sendo. o conceito e as fontes do direito internacional e a conseqüente responsabilidade dos Estados para o cumprimento desse direito. não se deve menosprezar o valor das diversas declarações. ou seja. conjuntos de princípios e outros documentos. tendo em vista três argumentos jurídico-acadêmicos: a) Esses instrumentos constituem declarações de valores compartilhados nas principais culturas e ordenamentos jurídicos do mundo. Devido à sua origem internacional e à sua ampla aceitação nas legislações nacionais. normas mínimas e conjuntos de princípios.1 Fontes. Todos esses instrumentos oferecem um arcabouço jurídico internacional amplo e detalhado que serve para garantir o respeito aos direitos humanos. Você estudará sobre as fontes internacionais existentes e os sistemas e normas de direitos humanos na aplicação da lei e os relacionará com a normativa nacional. são «princípios gerais de direito internacional». muitos juristas consideram que as disposições contidas nas declarações. identificando quais são suas implicações para a ordem e segurança pública. convém esclarecer a respeito da força de lei de todos eles. pode-se argumentar que somente os tratados ratificados ou que foram aderidos pelos Estados-membros têm caráter jurídico obrigatório. Antes de examinar as distintas fontes. de acordo com as Nações Unidas (1997. 26). sistemas e normas que há no plano internacional. O conjunto de normas que você estudará abarca a gama completa de autoridade jurídica internacional: desde obrigações estabelecidas em pactos e convenções até orientações eticamente persuasivas contidas em declarações. à liberdade e à dignidade no contexto da justiça penal. Entretanto. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 Aula 03 . b) Os tratados não são a única fonte de normas de cumprimento obrigatório.

os aliados decidiram criar uma organização mundial e internacional devotada à manutenção da paz e segurança internacional. Alguns doutrinadores. mas também um tratado multilateral que estabelece os direitos e deveres legais de seus Estados Membros. as diretrizes. às vezes. que terminou formalmente com o Tratado de Versalhes. por esta época. A ONU é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e pelo desenvolvimento mundial. fundada em 24 de outubro de 1945. garantias coletivas da independência de cada membro. Ela passou a vigorar formalmente no dia 24 de outubro de 1945. os princípios. O programa de desarmamento da Liga falhou completamente em cumprir os seus objetivos. c) As normas internacionais estabelecidas nos tratados com força de lei. Para entender sua história e o contexto de sua criação. em Junho de 1945. a fonte primordial de autoridade para a promulgação de normas de direitos humanos é a Organização das Nações Unidas (ONU) e seus órgãos. na Conferência da Paz em Paris. Finalmente. Os instrumentos utilizados com este fim eram baseados em noções de desarmamento. Assim sendo. em 1919. não foi capaz de evitar a Segunda Guerra Mundial. devemos nos remeter ao final da Primeira Guerra Mundial. na Conferência de São Francisco. soluções pacíficas de controvérsias e a proscrição da guerra. e sanções contra o rompimento desses princípios. tinha quase seis meses de existência. as consideram como parte do direito consuetudinário (baseado nos costumes internacionalmente aceitos) e são prática rotineira dos Estados em seus atos e posicionamentos frente à comunidade internacional. por diversas razões. Esse Tratado também criou a Liga das Nações. não estão suficientemente detalhadas.2 Carta das Nações Unidas Atualmente. Os propósitos da ONU são expressos no artigo 1º da Carta: 31 .Direitos Humanos. A Liga das Nações nunca conseguiu alcançar um caráter universal e. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 de Justiça. A Liga foi formalmente dissolvida em 18 de abril de 1946 quando. A Carta não só é o instrumento de fundação da ONU. Ao final da Segunda Guerra Mundial. cinqüenta governos participaram da elaboração da Carta das Nações Unidas. as normas mínimas e outros documentos são um valioso complemento jurídico para os Estados que desejam aplicar as normas internacionais no plano interno. a ONU. inclusive. 3. com o principal objetivo de “promover a cooperação internacional e obter paz e segurança internacionais”. de modo que os Estados possam interpretar seu valor normativo ou identificar suas repercussões ao nível da aplicação prática.

sexo. língua ou religião. de saúde e conexos. pela primeira vez na história. Assim sendo. o pleno emprego e condições de progresso e desenvolvimento econômico e social. A intenção do comitê que o relatou era criar um documento que fornecesse uma estrutura para orientação e interpretação dos princípios consagrados na Carta da ONU. social. Para o trabalho policial você deve conhecer toda a declaração. bem como a cooperação internacional. c. Cabe conhecer também os artigos 55 e 56 da Carta.. sem distinção de raça. A DUDH não é um tratado. língua ou religião. Para a realização dos objetivos enumerados no Art. reunida em Paris – França. para esse fim: tomar. por meios pacíficos e de conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional. 55. cultural ou humanitário. baseadas no respeito do princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos. no tocante às obrigações primordiais para com os Direitos Humanos dos Estados que compõe a ONU: Art. sem distinção de raça. (. (. O respeito universal e efetivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais para todos.) 3. e para promover e estimular o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais para todos.) (NAÇÕES UNIDAS.. A solução dos problemas internacionais econômicos.. sexo. todos os membros da Organização se comprometem a agir em cooperação com esta. 56.3 Declaração Universal dos Direitos do Homem Em 10 de dezembro de 1948. medidas efetivas para evitar ameaças à paz e reprimir os atos de agressão ou outra qualquer ruptura da paz e chegar. em conjunto ou separadamente. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 Artigo 1. b. é considerado como universal.Direitos Humanos. Com o fim de criar condições de estabilidade e bem-estar necessárias às relações pacíficas e amistosas entre as Nações. 2001) 3. Manter a paz e a segurança internacionais e. 55. a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) foi proclamada e adotada pela Assembléia Geral das Nações Unidas. as Nações Unidas promoverão: a. Os propósitos das Nações Unidas são: 1. Conseguir uma cooperação internacional para resolver os problemas internacionais de caráter econômico. Art. sociais. passa a ser um documento declaratório de normas internacionais com ampla aceitação. 2001). A elevação dos níveis de vida. coletivamente.. mas atente especialmente para o conteúdo dos seguintes artigos: 32 . a um ajuste ou solução das controvérsias ou situações que possam levar a uma perturbação da paz. mas sim um documento declaratório dos direitos fundamentais do ser humano que. de caráter cultural e educacional. pela resolução 217 A (III). (NAÇÕES UNIDAS.

Art. Em 1966. não estabelecendo nenhum órgão jurisdicional internacional com a finalidade de garantir a eficácia dos princípios nela previstos (MORAES. Para o trabalho policial você deve conhecer bem o PIDCP. Conheça agora outras normas de direitos humanos importantes para o trabalho policial: 33 . 11: proibição de prisão por não cumprimento de obrigação contratual. e isso só ocorreu em 1976 (dez anos depois de sua aprovação). direito a um julgamento justo e imparcial. O policial deve entender que suas obrigações como funcionário responsável pela aplicação da lei num Estado Democrático e de Direito inserem-se dentro do contexto dos direitos expressos neste Pacto. O PIDESC desenvolve um rol de direitos econômicos. a Comissão de Direitos Humanos da ONU terminou a elaboração dos dois principais pactos de direitos humanos. Artigo IX: proibição da prisão arbitrária. 3. Art. Ética Profissional e Cidadania Aula 03      Artigo III: direito à vida. Para entrar em vigor. Art. esses pactos requeriam certo número de Estados que os ratificassem. 6º: direito à vida. A partir disso. Art. sociais e culturais entre os quais estão o direito ao trabalho. à saúde e educação e o direito em participar da vida cultural de seu país. Há ainda muitos tratados na área de direitos humanos. a proteção internacional dos direitos humanos passou a intensificar-se com a aprovação de inúmeros outros instrumentos internacionais. Proibição de prisão arbitrária. p. com força de tratado: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (PIDCP) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais (PIDESC). 15: proibição da retroatividade das medidas penais. mas ela prevê somente normas de direito material. 9º: direito à liberdade e a segurança pessoais.Direitos Humanos.4 Principais Normas Internacionais A DUDH foi a força motriz do movimento internacional em favor dos direitos humanos. mas atente especialmente para o conteúdo dos seguintes artigos:       Art. Art. Artigo 11: presunção de inocência. entre outros. 7º: proibição da tortura e penas ou tratamentos cruéis. Artigo V: proibição da tortura e de tratamento cruel desumano ou degradante. Artigo X: direito a um julgamento imparcial. liberdade e segurança pessoal. 14: igualdade. No Brasil. o PIDCP e o PIDESC somente entraram em vigor em 1992. presunção de inocência. à organização de sindicatos. 2000. 37). à seguridade social. desumanos ou degradantes.

que vigora deste 22/06/2006.  Código de Conduta para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei – Foi adotado pela Assembléia Geral das Nações Unidas. mas é um documento que 34 . Nesta Convenção. tendo em vista sua condição etária e sua vulnerabilidade e exposição a potenciais abusos. Protocolo Opcional sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados de 25/05/2000 – que passou a vigorar em 13/02/2002 – ratificado pelo Brasil em 27/01/2004. O art. Protocolo Opcional sobre a Venda de Crianças. Prostituição Infantil e Pornografia Infantil de 25/05/2000 (entrada em vigor em 18/01/2002) foi ratificado pelo Brasil (27/01/2004). entrou em vigor em 04/01/1969 e foi ratificada pelo Brasil em 27/03/1968. Um reflexo desta obrigação no Brasil foi a Lei Nº 9455.Direitos Humanos.  Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei – Foi adotado pelo Oitavo Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Delinqüentes em 1990.  Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos e Punições Cruéis. Nesta Convenção se expressa a proibição de toda e qualquer discriminação racial nos campos político. 2º desta Convenção exige que cada Estado Parte tome medidas eficazes de caráter legislativo. a fim de impedir a prática de atos de tortura em qualquer território sob sua jurisdição.  Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres – Aprovada em 18/12/1979. Apesar de a proibição absoluta da tortura já esteja mencionada no art. Não é um Tratado. no dia 17 de Dezembro de 1979 (Resolução nº 34/169). Ética Profissional e Cidadania Aula 03  Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial – Aprovada em 07/03/1966. econômico. Esta Convenção também teve reflexo no ordenamento jurídico brasileiro com a Lei Nº 8069. que define os crimes de tortura e dá outras providências. econômico. social. São descrições de padrões de conduta recomendáveis a todo e qualquer funcionário responsável pela aplicação da lei. social. O Protocolo Opcional de 18/12/2002. de 13 de julho de 1990.  Convenção sobre os Direitos da Criança – Aprovada em 20/11/1989. judicial. entrou em vigor em 03/09/1981 e foi ratificada pelo Brasil em 01/02/1984. exige-se que os Estados Partes eliminem toda a distinção. conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente. exclusão ou restrição de direitos baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento. 7º do PIDCP. Não é um Tratado. esta Convenção aprofunda e detalha a responsabilidade dos Estados quanto à proteção contra o delito de tortura. Entrou em vigor em 02/09/1990. gozo ou exercício daqueles pela mulher. A presente Convenção visa assegurar o máximo de proteção à criança. foi ratificado pelo Brasil em 12/01/2007. cultural e civil ou em qualquer outro. de 7 de abril de 1997. Desumanos e Degradantes – Aprovada em 10/12/1984. entrou em vigor em 26/06/1987 e foi ratificada pelo Brasil em 28/09/1989. O Protocolo Opcional de 06/10/1999 começou a vigorar em 22/12/2000 e foi ratificado pelo Brasil em 28/06/2002. ou de outra natureza. Declara a igualdade do homem e da mulher no campo dos direitos humanos e liberdades fundamentais e também nos campos político. administrativo. Ratificação pelo Brasil em 24/11/1990. mas é um documento que proporciona aos governos normas orientadoras sobre direitos humanos e justiça criminal. cultural ou em qualquer outro campo da vida pública.

Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial – Monitora a Convenção Internacional para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação Racial. devem e podem fazer uso da força e armas de fogo no exercício de sua profissão. detenção e prisão. A base legal para a criação de cada um desses comitês encontra-se no Pacto ou Convenção pertinente. os países assumem obrigações de respeitar. Por exemplo: na atualidade. As disposições do Conjunto de Princípios ressaltam que mesmo privadas de liberdade. A ratificação dos tratados internacionais gera nos governos a responsabilidade de implementar medidas locais compatíveis com as obrigações estabelecidas nos instrumentos legais.Direitos Humanos. Comitê para os Direitos Econômicos. Comitê contra a Tortura – Monitora a Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos e Punições Cruéis. Desumanos e Degradantes. proteger e implementar os direitos humanos em sua jurisdição. protegendo a vida. pessoa presa. convencionadas no âmbito internacional (ressalte-se que há algumas pequenas diferenças com a conceituação que se utiliza no Brasil). Caso algum Estado não tenha condições ou não demonstre a vontade em punir os abusos contra os direitos humanos cometidos em seu território. a ONU dispõe de mecanismos e procedimentos que permitem que esses abusos sejam denunciados. todas as pessoas devem pelo menos ser tratadas com respeito à sua dignidade humana. São eles:        Comitê de Direitos Humanos – Monitora a implementação do PIDCP e seus protocolos opcionais. Comitê para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres – Monitora a Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres. Comitê para os Trabalhadores Migrantes – Monitora a Convenção Internacional para a Proteção dos Direitos de Todos os Trabalhadores Migrantes e suas Famílias. Agora você já sabe que as leis internacionais de direitos humanos estabelecem obrigações que os Estados têm de respeitar. Sociais e Culturais – Monitora o PIDESC. há sete comitês responsáveis pela monitoração da implementação dos direitos estabelecidos em cada um dos mais importantes tratados internacionais. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 proporciona aos governos normas orientadoras muito estritas de como os funcionários responsáveis pela aplicação da lei. pessoa detida. 35 . Estabelece as definições sobre captura. Ao ratificarem esses tratados. a segurança e a liberdade das pessoas da comunidade. Comitê para os Direitos da Criança – Monitora o respeito à Convenção dos Direitos da Criança e seus protocolos opcionais. Este Conjunto de Princípios oferece um regime amplo de proteção das pessoas que se encontram detidas ou presas.  Conjunto de Princípios para a Proteção de Todas as Pessoas Sujeitas a Qualquer Forma de Detenção ou Prisão – ONU 1998. O documento ressalta a importância do trabalho policial e sua correlata responsabilidade na manutenção da ordem e segurança pública.

Garantir a paz e a segurança continentais. f. Sistemas e Padrões em Nível Regional Da mesma forma que a ONU é a autoridade primordial para a promulgação de normas de direitos humanos em nível universal. A OEA foi criada em 1948 na Nona Conferência Internacional Americana. jurídicos e econômicos que surgirem entre os Estados membros. na qual foi aprovada a Carta da OEA. antes que continuemos falando do Sistema da OEA.5 Fontes. Para efeito desta aula. é importante que você tome conhecimento da existência de outros dois sistemas regionais: O Sistema Europeu de Proteção dos Direitos Humanos e o Sistema Africano de Proteção dos Direitos Humanos e dos Povos. somente falaremos daquele que atua em nossa região. respeitando o princípio da não-intervenção. a Organização dos Estados Americanos (OEA) tem um papel importante em nível regional. a OEA estabelece seus propósitos no artigo 2° de sua Carta: Artigo 2º. b. Organizar a ação solidária destes em caso de agressão. e. que é a OEA. intensificar sua colaboração e defender sua soberania. Com o objetivo de efetivar os ideais em que se fundamenta e realizar as obrigações regionais de acordo com a Carta das Nações Unidas. a Organização dos Estados Americanos constitui um organismo regional". é importante que você conheça também o sistema em nível regional. que constitui um obstáculo ao pleno desenvolvimento democrático dos povos do Hemisfério. seu desenvolvimento econômico. Prevenir as possíveis causas de dificuldades e assegurar a solução pacífica das controvérsias que surjam entre seus membros. Conforme descrito no artigo 1° da Carta. de acordo com a Carta das Nações Unidas. Mas. por meio da ação cooperativa. 36 . Erradicar a pobreza crítica. em que o Brasil está inserido. por meio do que foi apresentado sobre a ONU. 3. realizada na cidade de Bogotá (Colômbia). Para realizar os princípios em que se baseia e para cumprir com suas obrigações regionais. d. social e cultural. sua integridade territorial e sua independência". Promover e consolidar a democracia representativa. Procurar a solução dos problemas políticos. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 Agora que você já conheceu o Sistema Universal de Proteção dos Direitos Humanos. Esse mesmo artigo define que: "dentro das Nações Unidas. a OEA é uma organização internacional criada para "conseguir uma ordem de paz e de justiça. para promover sua solidariedade.Direitos Humanos. c. g. a Organização dos Estados Americanos estabelece como propósitos essenciais os seguintes: a. Promover.

e tem o dever de não intervir nos assuntos de outro Estado. A ordem internacional é constituída essencialmente pelo respeito à personalidade. Os Estados americanos proclamam os direitos fundamentais da pessoa humana. A solidariedade dos Estados americanos e os altos fins a que ela visa requerem a organização política dos mesmos. A educação dos povos deve orientar-se para a justiça. i.Direitos Humanos. A cooperação econômica é essencial para o bem-estar e para a prosperidade comuns dos povos do Continente. credo ou sexo. O direito internacional é a norma de conduta dos Estados em suas relações recíprocas. m. A justiça e a segurança sociais são bases de uma paz duradoura. l. econômicos e sociais. A boa-fé deve reger as relações dos Estados entre si. h. 37 . Os Estados americanos condenam a guerra de agressão: a vitória não dá direitos. Todo Estado tem o direito de escolher. k. A eliminação da pobreza crítica é parte essencial da promoção e consolidação da democracia representativa e constitui responsabilidade comum e compartilhada dos Estados americanos. O Sistema Interamericano de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos iniciou-se formalmente com a aprovação do primeiro instrumento de direitos humanos da organização: a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. No artigo 3° estão expostos os princípios: Artigo 3º. g. os Estados americanos cooperarão amplamente entre si. realizada na mesma conferência que culminou com a criação da OEA. definiram que a Declaração Americana é uma fonte de obrigações internacionais para os estados membros da OEA. sem ingerências externas. as quais você conhecerá mais adiante. f. As controvérsias de caráter internacional. nacionalidade. deverão ser resolvidas por meio de processos pacíficos. Alcançar uma efetiva limitação de armamentos convencionais que permita dedicar a maior soma de recursos ao desenvolvimento econômico-social dos Estados membros. a liberdade e a paz. c. d. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 h. Os Estados americanos reafirmam os seguintes princípios: a. j. bem como de organizar-se da maneira que mais lhe convenha. A agressão a um Estado americano constitui uma agressão a todos os demais Estados americanos. tanto a Corte quanto a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. seu sistema político. soberania e independência dos Estados e pelo cumprimento fiel das obrigações emanadas dos tratados e de outras fontes do direito internacional. econômico e social. independentemente da natureza de seus sistemas políticos. com base no exercício efetivo da democracia representativa. Apesar de ser uma declaração e não um tratado. Sujeitos ao acima disposto. n. que surgirem entre dois ou mais Estados americanos. e. sem fazer distinção de raça. b. A unidade espiritual do Continente baseia-se no respeito à personalidade cultural dos países americanos e exige a sua estreita colaboração para as altas finalidades da cultura humana.

Direitos Humanos. Isto significa que qualquer violação a outro artigo também pressupõe violação ao artigo 1°. Logo após a criação da OEA. foi o segundo instrumento adotado em matéria de Direitos Humanos no ordenamento do Sistema Interamericano. As normas encontram-se inseridas em diversos instrumentos jurídicos que resultam em imperativos legais que limitam o poder dos Estados frente às pessoas e em defesa delas. em 22 de novembro de 1969. A Convenção Americana de Direitos Humanos (CADH) – Também conhecida como "Pacto de San José da Costa Rica". a participação da sociedade civil é um pilar fundamental para o funcionamento do Sistema Interamericano. pois com seus recursos aos órgãos do sistema. foram adotadas novas normas de direitos humanos. o segundo artigo impõe como obrigação aos países que tenham normas contrárias às da Convenção a modificá-las para que fiquem em concordância com seu texto. Nesse sentido. são eles:    Instrumentos legais vinculantes aos Estados – normas. O Brasil a ratificou em 25 de setembro de 1992. Comissão Interamericana e Corte Interamericana – instituições engarregadas de supervisionar o cumprimento das normas. Aqui. a CADH também é um instrumento de caráter genérico e contém essencialmente direitos civis e políticos. Segundo CANTON (2007). Você como policial deve conhecer todo o Pacto de San José. Da mesma forma que a Declaração. Estados – órgãos encarregados de aplicar as normas. Entre essas normas está a Declaração Americana. Você vai ver a seguir dois desses componentes: as normas e as instituições encarregadas de supervisão (a Comissão e a Corte Interamericana de Direitos Humanos). Do ponto de vista jurídico. O artigo 1° da Convenção obriga os Estados a respeitar todos os direitos contemplados nos demais artigos. realizada em San José de Costa Rica. destacamos os pontos mais importantes para o seu trabalho como policial: 38 . da qual já falamos anteriormente. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 O Sistema Interamericano de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos está centrado em três componentes fundamentais para seu funcionamento. é um tratado e isso implica cumprimento obrigatório pelos Estados que a ratificaram. em outras diversas reuniões dos Estados membros. por sua adoção e abertura às assinaturas na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos. asseguram que essas instituições e Estados não se transformem em estruturas burocráticas e que não se esqueçam do objetivo final que é o ser humano.

sem demora. Colômbia. em 9 de de dezembro de 1985. no Décimo Oitavo Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral. Nesse sentido. Ratificada pelo Brasil em 6 de setembro de 1989.   Artigo 15 Direito de reunião – Reconhece o direito de reunião pacífica e sem armas. alguns governos podem se ver obrigados a dispor de medidas que ocasionem a suspensão de alguns direitos e liberdades. dos vinte e quatro artigos que expressam direitos e liberdade. ao nome e à nacionalidade. em 17 de novembro de 1988. o direito ao princípio da legalidade e retroatividade. o Pacto de San José estabelece que não se pode suspender. Inicialmente. Não nos deteremos em tais tratados.   Artigo 8º Garantias judiciais – Cita a presunção da inocência. séria instabilidade política ou social.Direitos Humanos. dissemos que a Convenção desenvolve eminentemente os direitos civis e políticos. Artigo 11 Proteção da honra e da dignidade – Define que toda pessoa tem direito ao respeito de sua honra e ao reconhecimento de sua dignidade e não pode ser objeto de ingerências arbitrárias ou abusivas em sua vida privada. porém. Nesse artigo também se define o respeito às pessoas privadas de liberdade. ninguém pode ser submetido à detenção ou encarceramento arbitrário. Artigo 24 Igualdade perante a lei – Descreve que todas as pessoas são iguais perante a lei.  Convenção Interamericana para Previnir e Punir a Tortura – Assinada em Cartagena das índias. Em situações de guerra.  Primeiro Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em matéria de Direitos Econômicos. incentiva a eliminação da pena de morte naqueles países que ainda a possuem e impede o estabelecimento desse tipo de pena naqueles Estados que já a tenham abolido. Agora você conhecerá outras normas regionais que têm grande importância no Sistema Interamericano de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos. não sendo admitida qualquer discriminação. Sociais e Culturais – Adotado em San Salvador. Ratificado pelo Brasil em 21 de agosto de 1996.  Artigo 7° Direito à Liberdade Pessoal – Esclarece que toda pessoa tem direito à liberdade e à segurança pessoais. a autoridade judicial. El Salvador.  Artigo 5° Direito à Integridade Pessoal – No qual se estipula a proibição a tortura e a penas ou tratamentos cruéis. desumanos ou degradantes. sob nenhuma forma. vinte e três referem-se a tais direitos e 39 . da proibição da escravidão e servidão. porém é importante que você os conheça para o seu trabalho como policial. isso se deve ao fato de que. o direito à vida e integridade física. o direito à liberdade de consciência e religião. na qual ninguém pode ser privado de sua vida arbitrariamente. Nesses casos. Ética Profissional e Cidadania Aula 03  Artigo 4° Direito à Vida – Define que esse direito deve ser respeitado por lei. o direito ao reconhecimento da personalidade jurídica. o direito à proteção da família. no Décimo Quinto Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral. toda pessoa detida ou retida deve ser informada das razões da sua detenção e notificada e deve ser conduzida. perigo público. os direitos da criança e os direitos políticos.

Agora que você já conheceu essas normas e sabe da sua importância e das obrigações dos Estados em respeitá-las. Para suprir essa carência foi adotado este Primeiro Protocolo à Convenção. O primeiro frente às pessoas que se encontram sob sua jurisdição e o segundo frente aos demais Estados partes que se comprometeram a respeitar e cumprir tais instrumentos. no Vigésimo Noveno Período Ordinário de Sessões da Assembéia Geral. a competência e as normas de funcionamento da referida Comissão. em 8 de junho de 1990.  Segundo Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos referente à Abolição da Pena de Morte – Aprovado em Assunção.  Convenção Interamericana para Previnir. Ratificada pelo Brasil em 16 de novembro de 1995.Haverá uma Comissão Interamericana de Direitos Humanos que terá por principal função promover o respeito e a defesa dos direitos humanos e servir como órgão consultivo da Organização em tal matéria. é importante que você conheça os órgãos encarregados de supervisão. em 9 de junho de 1994. no Vigésimo Quarto Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral. no Vigésimo Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral.  Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência – Adotada em Cidade do Guatemala. Uma convenção interamericana sobre direitos humanos estabelecerá a estrutura. os instrumentos interamericanos relacionados implicam em duplo compromisso assumido pelos Estados. sociais e culturais. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 somente um trata de direitos econômicos. 40 . Brasil. Sua criação estava prevista no Artigo 106 da Carta da OEA: Artigo 106. ocorrida em Santiago de Chile em 1959. em 7 de junho de 1999. Ratificado pelo Brasil em 31 de julho de 1996. Brasil. Ratificada pelo Brasil em 15 de agosto de 2001.  Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas – Adotada em Belém do Pará. Assinada pelo Brasil em 6 de outubro de 1994. em 9 de junho de 1994.1 Comissão Interamericana de Direitos Humanos A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) foi criada na Quinta Reunião Extraordinária de Consulta de Ministros de Relações Exteriores.Direitos Humanos. no Vigésimo Quarto Período Ordinário de Sessões da Assembléia Geral.5. Guatemala. Em todos os casos. Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher: “Convênção de Belém do Pará” – Adotada em Belém do Pará. 3. bem como as dos outros órgãos encarregados de tal matéria. Paraguai.

5. Contudo. Inicialmente analisa questões de admissibilidade (ver se tem todos os requisitos para que a petição possa ser aceita) para. a Corte Interamericana de Direitos 41 . Colômbia. visando colocar fim na situação que as motiva. no marco da denúncia. depois de receber denúnicas de violações de direitos humanos. A partir desse ato. caso não seja solucionada a controvérsia.  Solicita a adoção de Medidas Provisionais perante a Corte. observa o nível geral de cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados em matéria de direitos humanos e efetua recomendações sobre a adoção de medidas para contribuir com a proteção dos direitos humanos quando julga necessário. estão sob supervisão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Você já conheceu a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e já ouviu falar muito sobre a Corte Interamericana de Direitos Humanos. mesmo o Estado não tendo ratificado o Pacto de San José ou as demais Convenções. Lembre-se que os Estados membros da OEA são obrigados a cumprir a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem e. Essas medidas somente podem ser solicitadas em casos de extrema gravidade e urgência. ou quando. avaliar se os fatos constituem violações dos direitos fundamentais. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 Em 1967. como o Caso “Penitenciária Urso Branco”. todas as pessoas dos países membros da OEA passaram a estar sob a proteção de tal órgão. somente em 1969. a CIDH submete o assunto à Corte Interamericana e passa a assumir um papel de acusador ao Estado.Direitos Humanos. por isso. a vida e a segurança de alguém esteja correndo sério perigo. cabe agora conhecê-la. destacamos:  Prepara e publica informes de situações específicas de direitos humanos nos Estados membros. a Comissão exerce uma função de "árbitro" entre o denunciante e o Estado acusado. Caso seja observada uma violação. Entre as diversas funções da CIDH. no estado de Rondônia. Isto ocorre quando a CIDH. verifica que a situação continua acontecendo em detrimento de determinada pessoa ou grupo.2 Corte Interamericana de Direitos Humanos A discussão sobre a criação de uma corte (tribunal) para proteger os direitos humanos nas Américas surgiu na Nona Conferência Internacional Americana (Bogotá. 1948). posteriormente. com a adoção da Convenção Americana de Direitos Humanos. a Comissão passa a ser o órgão principal da OEA. Essas medidas implicam em ordens dirigidas aos Estados. 3.  Recebe. No Brasil houve algumas situações desse tipo. analisa e investiga petições individuais que alegam violações de direitos humanos. Importante saber que toda a atuação da Comissão está regulamentada nos Estatutos da CIDH e no seu Regulamento. Dessa forma.

o Estado acusado poderá ser condenado e. a possibilidade de emitir um parecer sobre diversos tratados internacionais de direitos humanos. não representam seus países de origem e nem seus interesses. que exercem suas funções a título pessoal. Cabe destacar que resoluções da Corte são de cumprimento obrigatório ao Estado e possuem mais força que as decisões da Comissão. Assim como a Comissão. seja vítima ou representante.Direitos Humanos. É facultado à Corte no exercício de sua função consultiva. Você deve estar se perguntando: Quais Estados podem ser julgados pela Corte? Essa pergunta é muito importante. ou seja. nem todos os Estados membros da OEA podem ser julgados pela Corte. em San José na Costa Rica. os Estados devem cumpri-las pelo princípio da boa fé em atender as obrigações internacionais. Caso essa denúncia seja julgada pela Corte. Nesse sentido. pois ao contrário do que parece. ou qualquer órgão da entidade. em sua função contenciosa. A Corte é composta por sete juízes nacionais dos Estados membros da OEA. Capítulo VII da Parte II) e. São funções dessa Corte:  Função contenciosa – É exercida mediante a tramitação dos chamados casos individuais de denúncias por violações de direitos humanos apresentados à Comissão contra um Estado por uma pessoa. em conseqüência. somente em 3 de setembro de 1979. a Corte foi efetivamente instalada. 42 . dez anos depois de ser criada. somente pode julgar com base na Convenção Americana de Direitos Humanos. Ela pode se dar de duas formas: a primeira quando qualquer Estado da OEA. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 Humanos é criada (CADH. a Corte possui um Estatuto e um Regulamento que definem sua atuação. Já falamos sobre este tema quando abordamos as funções da Comissão. entretanto. somente aqueles que ratificaram a Convenção Interamericana de Direitos Humanos e que aceitaram a competência jurisdicional da Corte.  Função consultiva – Esta função tem a finalidade de colaborar com os Estados no cumprimento dos compromissos internacionais. Esses documentos contém obrigações que o Estado deve cumprir imediatamente. A segunda forma é quando um Estado pede uma opinião sobre suas normas internas e a compatibilidade com os instrumentos internacionais de direitos humanos que obrigam esse Estado. solicita à Corte uma interpretação de qualquer norma de direitos humanos contida em um instrumento internacional que seja aplicável em um Estado da OEA.  Adoção de medidas provisionais – Esta situação ocorre quando há necessidade de uma intervenção imediata da Corte em casos de grande gravidade e urgência. obrigado a cumprir o que for determinado pela Corte para ressarcimento do dano causado.

Numa situação dessas. Sendo comprovada a violação.Direitos Humanos. não havendo um acordo entre Estado e vítima. realizada em Brasília. Desse total. que não ratificaram a Convenção Americana de Direitos Humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 É interessante dizer que a OEA possui 35 Estados partes e todos eles aprovaram a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. E que tudo isso tem a ver com o seu trabalho policial? É simples. A proposta de construção desse Sistema é objeto de trabalho e reflexão das conferências nacionais de direitos humanos. Conheça o quadro temático de Acordos. apesar da diferença dos três níveis de proteção. no próprio país. o Brasil deverá prestar esclarecimentos à Comissão Interamericana e. se esgotarem e não houver solução aceitável. Agora você entendeu porque é fundamental que você conheça esse sistema? É importante ressaltar que um caso de violação de direitos humanos contra um Estado somente é admitido no Sistema Interamericano. além de indenizações. quando todos os meios judiciais e reparatórios internos. Diferentemente da Corte. 24 ratificaram a Convenção Americana de Direitos Humanos e somente 3 não aceitaram a competência da Corte. que não esteja protegido pelo Sistema Interamericano de Direitos Humanos.6 Sistema Nacional de Direitos Humanos e Programa Nacional de Direitos Humanos O Sistema Nacional de Direitos Humanos (SNDH) surgiu como idéia na VI Conferência Nacional dos Direitos Humanos no ano de 2001. 3. entre os membros da OEA. Nessa reparação. O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) expôs na Conferência um documento que apontava as premissas antecedentes e justificativas para esse tipo de ação. Tratados e Convenções Bilaterais e Multilaterais em vigor para o Brasil. Assim. 43 . pode-se dizer que não há país. ou seja. que variam conforme o compromisso assumido por cada Estado. 21 Estados ratificaram a Convenção e reconheceram a competência da Corte. a Comissão pode avaliar denúncias de violações de Direitos Humanos apresentadas contra Estados da OEA. o caso pode chegar à Corte Interamericana. No entanto. o Brasil deverá cumprir com as determinações da Corte para reparar o dano. Uma atuação de qualquer policial que gere uma violação de direitos humanos pode resultar em uma denúncia contra o Brasil por violação de direitos humanos perante o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. o Brasil pode ser obrigado a punir devidamente o culpado pela violação.

ainda. Desde então as Conferências Nacionais são realizadas regularmente. Em conseqüência disso. mecanismos. despossuídos e os que têm acesso à riqueza. refugiados. sem estar sujeito a torturas ou maus tratos. Todos. o Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC). ocorreu em 26 e 27 de abril de 1996. em Viena. A Conferência Mundial de Direitos Humanos. o direito de dirigir o seu carro dentro da velocidade permitida e 44 . pessoas portadoras de deficiências. o direito de exigir o cumprimento da Lei e. portadores de HIV positivo. negros. pelo Decreto Nº 1904 de 1996. De acordo com o texto base da IX Conferência Nacional de Direitos Humanos (2004).) os direitos fundamentais de todas as pessoas. a Comissão de Direitos Humanos da OAB Federal. Direitos Humanos referem-se a um sem número de campos da atividade humana: o direito de ir e vir sem ser molestado. atualizando o PNDH. a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). o governo federal instituiu. o direito de ser acusado dentro de um processo legal e legítimo. o Serviço de Paz e Justiça (SERPAJ) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). órgãos e ações para realizar todos os direitos humanos de todos os brasileiros. de 13 de maio de 2002.. Entretanto. presos.Direitos Humanos. homossexuais. índios. junto com o Fórum das Comissões Legislativas de Direitos Humanos. em 13 de maio de 1996. o Sistema Nacional de Direitos Humanos é a organização da atuação pública (do estado e da sociedade) por meio da implementação de um conjunto articulado. mesmo tendo cometido uma infração. ciosos de sua importância para ao Estado democrático. não descansem enquanto graves violações de direitos humanos estejam impunes e seus responsáveis soltos e sem punição. A introdução ao PNDH (1996) conceituou os direitos humanos como sendo: (. o direito de ser tratado pelos agentes do Estado com respeito e dignidade. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 A I Conferência Nacional de Direitos Humanos. o Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). enquanto pessoas. de ter acesso a um Judiciário e a um Ministério Público que. idosos. promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. estrangeiros e imigrantes. devem ser respeitados e sua integridade física protegida e assegurada. com a intenção de proporcionar a participação de organizações públicas e organizações não-governamentais na discussão e apresentação de propostas ao Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH). crianças e adolescentes. o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) contendo um diagnóstico desses direitos no Brasil e as medidas para sua defesa e promoção a curto. recomendou a adoção por todas as nações de um Plano de Promoção e Proteção dos Direitos Humanos. Áustria. esse Decreto foi revogado pelo Decreto Nº 4229. médio e longo prazo. onde as provas sejam conseguidas dentro de uma boa técnica e do bom direito. realizada em 1993. como se estivessem acima das normas legais. orgânico e descentralizado de instrumentos. Acesse os anexos do Decreto e veja as propostas de ações governamentais e procure identificar as ações diretamente relacionadas ao profissional de segurança pública. policiais. a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). sejam elas mulheres.. populações de fronteiras.

especialmente os inscritos em seu art. Os funcionários de aplicação da lei e suas agências devem executar suas funções de maneira que respeitem e protejam os direitos humanos. mas uma preocupação legítima da comunidade internacional. mas também 45 . execução e avaliação de políticas públicas. com reflexos na diminuição das desigualdades sociais. Você já deve ter percebido que os mecanismos nacionais e internacionais de proteção aos direitos humanos são mais amplos do que possa parecer.Direitos Humanos. mecanismos de implementação e monitoramento. Isso aumenta ainda mais a responsabilidade dos organismos e corporações que trabalham no âmbito da segurança pública e de seus funcionários responsáveis pela aplicação da lei. o direito de ser. indivisíveis e interdependentes. que compreendem direitos civis. pensar. sociais. Finalizamos aqui esta aula. políticos. Nela você viu que os direitos humanos não são somente uma questão do Estado e de seus agentes. os objetivos traçados pelo PNDH (2002) são: I – a promoção da concepção de direitos humanos como um conjunto de direitos universais. III – a difusão do conceito de direitos humanos como elemento necessário e indispensável para a formulação. que se engajou nos últimos 60 anos em adotar padrões. culturais e econômicos. V – a redução de condutas e atos de violência. intolerância e discriminação. Para Saber Mais Complemente o estudo dessa aula. para não matar um ser humano ou lhe causar acidente. São aqueles direitos que garantem existência digna a qualquer pessoa. Assim. lendo o texto “Direitos humanos e polícia: algumas perguntas e respostas”. VI – a observância dos direitos e deveres previstos na Constituição. de manifestar-se ou de amar sem tornar-se alvo de humilhação. 5º. IV – a implementação de atos. II – a identificação dos principais obstáculos à promoção e defesa dos diretos humanos no País e a proposição de ações governamentais e nãogovernamentais voltadas para a promoção e defesa desses direitos. declarações e tratados internacionais dos quais o Brasil é parte. discriminação ou perseguição. trazendo credibilidade e respeito não só para si mesmos. de Ralph Crawshaw. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 com respeito aos sinais de trânsito e às faixas de pedestres. crer.

Aqueles que violam os direitos humanos somente atrairão a atenção e a desaprovação da comunidade internacional. Com certeza. comparando-as com as leis e normas vigentes em nosso país. O desafio para o verdadeiro profissional responsável pela aplicação da lei é proteger e promover os direitos humanos. 46 .Direitos Humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 03 para seus governos e nações. você constatará que nossas leis não diferem muito dos instrumentos internacionais sobre os direitos humanos. usando-os como fonte de informações básicas e necessárias para a realidade da segurança pública nacional. Você como policial deve familiarizar-se com esses documentos.

Direitos Humanos, Ética Profissional e Cidadania Aula 04

Aula 04 - Ética e Cidadania
Caro aluno, após você ter conhecido os mecanismos internacionais e nacionais de proteção dos direitos humanos e ter verificado qual é o seu papel perante os órgãos nacionais e internacionais que os promovem e protegem, cabe agora conhecer quais são as questões éticas e de cidadania que um policial deve conhecer e aplicar no seu trabalho. Você, como policial e profissional da segurança, tem obrigações éticas e morais quanto à defesa da cidadania e dos cidadãos.

4.1 Moral, Valores, Costumes e Cultura
Como você estudou na aula anterior, existem várias normas internacionais e nacionais de direitos humanos que se referem à responsabilidade individual dos funcionários encarregados de cumprir a lei. A responsabilidade da organização policial e os poderes dela para cumprir suas missões constitucionais dependem, em grande escala, de sua credibilidade frente à comunidade. Se uma comunidade confia na polícia, esta certamente terá sua cooperação. Entretanto, se um integrante da força policial se comportar de maneira não profissional, desonesta ou ilegal, ele afetará não só toda a organização, mas também a confiança da sociedade. A conduta pessoal de cada um dos integrantes de uma organização encarregada pela aplicação da lei é questão de análise pela sociedade. Cada integrante da corporação deve entender a missão e os objetivos da instituição, bem como seu papel individual como membro de uma coletividade. Por esta razão, há códigos que regulam a conduta pessoal e profissional dos policiais. Entre os instrumentos estudados em aulas anteriores, chamamos sua atenção para aqueles que mencionam a proibição da tortura. Outras duas normas internacionais muito importantes no estudo desse tema, são:   o Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei; os Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei. Essas normas estão diretamente relacionadas à atividade policial. Todas elas foram elaboradas a partir de padrões morais e de valores da sociedade, na observância de condutas, costumes e também da cultura policial. Nesse sentido, observando algumas práticas que não condizem com os padrões morais e com a defesa dos direitos da pessoa humana, as organizações internacionais elaboraram documentos

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específicos para orientar um trabalho policial ético e lícito. Entretanto, isto não significa que as demais normas de diretos humanos também não remetam ao trabalho policial. Elas o fazem de maneira indireta. O desenvolvimento de documentos de conduta e ética para o trabalho dos encarregados de cumprir a lei leva à criação de instituições e à adoção de medidas que regulamentam e punem as más práticas, gerando implicações de controle interno e externo das instituições de segurança pública. Com o objetivo de controlar e regulamentar a prática profissional policial ética, as instituições policiais vêm revisando e desenvolvendo regulamentos disciplinares com um olhar de promoção e defesa dos direitos humanos. Você, como policial, deve saber que más práticas perpetradas por profissionais da segurança pública podem levar ao descrédito de suas instituições. Por isso, cada vez mais, os comandantes dessas instituições uscam formas de minimizar os desvios de conduta e a adoção de métodos punitivos e corretivos. As próximas aulas serão extremamente importantes para o entendimento das questões éticas e morais que regem o trabalho policial em qualquer parte do mundo.

4.2 Ética dos Profissionais de Segurança Pública Frente às Exigências Legais e às Expectativas dos Cidadãos
Antes de falarmos de ética profissional é importante que você conheça o que significa ética e quais são seus três níveis. Para Rover (2005, p. 169), o termo ética está relacionado com a disciplina que lida com o que é bom e o que é mau, com o que é correto e o incorreto, com os deveres e obrigações dos cidadãos, com os princípios de conduta ou valores morais individual ou do grupo ao qual se faz parte, com a qualidade moral das medidas tomadas, com as regras ou padrões que regulamentam a conduta profissional e, finalmente, com as formas de correção de desvios. Para entendermos melhor seu conteúdo, é necessário conhecermos os três níveis em que a definição de ética pode ser aplicada:  Ética Pessoal – É aquela própria do indivíduo. Refere-se à moral, aos valores e crenças do indivíduo. É oriunda de sua formação pessoal. É ela que vai definir, no seu trabalho policial, o curso e o tipo de ação a ser tomada numa determinada situação. É importante que você saiba que essa ética pessoal pode ser positiva ou negativa, influenciada pela experiência, educação, treinamento e influência do grupo. Conforme Rover (2005, p. 170), não basta que o encarregado da aplicação da lei saiba que "sua ação deve ser legal e não arbitrária. A ética pessoal (suas crenças pessoais no bem e no mal, certo e errado) do indivíduo (...) deve estar de acordo com os quesitos legais para que a ação a ser realizada esteja correta". Nesse sentido, o autor destaca

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que o "aconselhamento, acompanhamento e revisão de desempenho são instrumentos importantes para essa finalidade".  Ética de Grupo – É o que se refere ao conceito de bem e de mal do grupo de trabalho. Algumas vezes ela pode ser conflitante, pois o que você entende como ético pode gerar ao grupo um desconforto entre aceitar ou rejeitar. Rover (2005, p. 171) destaca que: Deve ficar claro que a ética de grupo não é necessariamente uma qualidade moral melhor ou pior do que a ética pessoal do indivíduo, ou vice-versa. Sendo assim, os responsáveis pela gestão em organizações de aplicação da lei, inevitavelmente, monitorarão não somente as atitudes e comportamento em termos de éticas pessoais, mas também em termos de ética de grupo.  Ética Profissional – É um conjunto de normas ou códigos de comportamento de uma determinada profissão. No caso das profissões encarregadas de aplicação da lei, essas normas e códigos deverão estar baseadas nos princípios de legalidade, necessidade e proporcionalidade no uso da força, tendo como alicerces legais as leis nacionais e as normas internacionais que protegem os direitos fundamentais das pessoas. Os cidadãos esperam de você, policial, uma conduta ética de proteção da cidadania e de respeito e aplicação da lei, não permitindo, no desenvolvimento de seu trabalho, arbitrariedades nem tão pouco uma postura que se assemelha àquela realizada por um infrator da lei. O policial serve como um exemplo. Balestreri (2002, p.27) afirma que o policial é um "pedagogo da cidadania", um agente educacional. Nesse sentido, Balestreri (2002, p.31-32) afirma que existe uma dimensão: “testemunhal", exemplar, pedagógica, que o policial carrega irrecusavelmente é, possivelmente, mais marcante na vida da população do que a própria intervenção do educador por ofício, o professor. Tal fenômeno ocorre devido à gravidade do momento em que normalmente o policial encontra o cidadão. À polícia recorre-se, como regra, em horas de fragilidade emocional, que deixam os indivíduos ou a comunidade fortemente "abertos" ao impacto psicológico e moral da ação realizada. Por essa razão é que uma intervenção incorreta funda marcas traumáticas por anos ou até pela vida inteira, assim como uma ação correta será sempre lembrada com satisfação e conforto.

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O exemplo e a atuação do policial é marcante para a população, por isso o policial profissional deve estar atento à forma de agir e às conseqüências de sua atuação. Lembre-se que seu cliente é o cidadão e é para ele que você trabalha. Sua corporação policial possui um código de ética? Onde estão previstas as normas de conduta dos policiais de sua corporação? Procure conhecer essas normas e como sua corporação trata as questões éticas e morais que se apresentam todos os dias em seu contato com a comunidade. Para Saber Mais Leia os textos “Ética na investigação policial”, de Francisco Robério Cavalcante Pinheiro, e “Ética e violência policial”, de Taiane Moradillo Pinto, para se aprofundar em algumas questões éticas importantes. Nesta aula você observou como a moral, os valores, os costumes e a cultura influenciam no desenvolvimento do seu trabalho. Tudo isso influencia, sejam os valores adquiridos por você como cidadão, sejam os costumes adquiridos em sua corporação ou no grupo do qual você faz parte, sejam as condutas legalmente assumidas nas normas e leis às quais você deve seguir. A ética profissional é um conjunto de princípios que devem ser seguidos, tanto nas atuações individuais quanto em grupo. Ela normalmente está regulamentada em normas e códigos (códigos de ética, regulamentos disciplinares, entre outros), de forma que suas ações sejam éticas e lícitas. Você, como policial, deve seguir um padrão ético e moral condizente com a profissão que escolheu, buscando a defesa dos cidadãos, da cidadania e dos diretos. Pois é isso que a comunidade e a sociedade esperam de você: um profissional competente e dedicado ao serviço e à aplicação da lei e proteção dos direitos de todos.

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O respeito à dignidade da pessoa humana. considerando três princípios fundamentais:    O respeito e o cumprimento das leis. que veremos mais adiante. as instituições policiais e seus profissionais devem velar pelo cumprimento da lei e pela manutenção da ordem pública. 51 . em sua maioria. Você conhecerá também em detalhe o Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei. Proteção e Garantia dos Direitos Humanos Você já observou que as estatísticas de atendimento realizado pela polícia. na aula anterior você observou como os valores morais e éticos estão relacionados com sua profissão e como foram gerados a partir da observação dos costumes e da cultura policial.Ética Profissional Caro aluno. 37). p. você conhecerá como a ética profissional está relacionada com a cidadania e a defesa dos cidadãos. está para servir e proteger o cidadão contra atos ilegais. Para que esse reconhecimento seja efetivo. Esta é uma norma internacional dos direitos humanos que codifica a sua conduta profissional. principalmente a polícia militar. 1997. Esses são os princípios fundamentais que norteiam o trabalho ético e lícito dos policiais. ele estará respeitando e protegendo os direitos humanos. Lembre-se sempre: Você. para o desenvolvimento de uma atividade de assistência e não de preservação da ordem pública ou de combate ao crime? Isto ocorre porque o policial é o agente que mais está em contato com a população e que mais está presente no dia-a-dia dos cidadãos. O respeito e a proteção dos direitos humanos. 5. Com isso. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 Aula 05 .1 Organizações e Profissionais de Segurança Pública como Instrumentos de Defesa. Esses três princípios remetem àquilo que estamos falando desde o início deste curso: o policial deve respeitar a lei e a dignidade das pessoas.Direitos Humanos. como policial. são. Nesta aula. Deles derivam todos os demais requisitos e disposições nesse sentido (NAÇÕES UNIDAS. defendendo e protegendo seus interesses e garantindo seus direitos. Esses princípios expressam o conteúdo dos artigos 2º e 8º do Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei.

afirma que: 52 . quando falamos de direitos humanos. inclusive infratores e policiais. Não confunda direitos humanos com ONGs (Organizações Não Governamentais) ou grupos que defendem direitos humanos. não pela polícia.3 Direitos Humanos e Cidadania dos Profissionais de Segurança Pública BALESTRERI (2002. Esses têm um papel importante de defesa e promoção desses direitos. você. deve ser garantida sua vida. Não se trata de deixá-lo impune. Para isso. Assim.Direitos Humanos. normas que protegem a todos os cidadãos. porém ele é um infrator. orientação sexual. sua integridade física e o respeito à sua dignidade. em suas reflexões sobre direitos humanos e polícia.26). mas não são os próprios direitos humanos encarnados em alguém. como policial. pois direitos humanos são para proteger a todos os cidadãos. como profissional ético. és também protegido pelos direitos humanos? Isso mesmo! As normas de direitos humanos protegem a todos os cidadãos. falamos também do direito que um cidadão infrator tem de ser levado à presença de um juiz. Essa confusão é muito comum. Você sabia que. Aquele que é chamado de bandido também é um cidadão. Para que esse infrator seja punido adequadamente. assim como você. p. deve garantir que ele chegue a um julgamento justo e imparcial. classe social. uma coisa são os próprios direitos humanos. de ser julgado por um tribunal competente e de ter garantias de cumprir sua pena dignamente. sejam eles de qualquer raça. e outra coisa são as instituições que defendem esses direitos. sexo.2 Ética profissional e Pseudo-antagonismos frentes às Questões dos Direitos Humanos Você já deve ter ouvido a frase: "Direitos Humanos é só para proteger bandido." Na realidade isto está equivocado. grupo religioso. Quando falamos de direitos humanos. por isso. Afinal você também é um cidadão. 5. compostos por uma série de leis e normativas. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 5. e sim de que a lei seja aplicada corretamente. estamos falando em direitos. infringiu as leis e. será punido pelos órgãos competentes. depois de ser efetivamente julgado e condenado pelo Poder Judiciário. leis. enquanto ele estiver sob sua custódia.

à integridade. Antes de falarmos diretamente sobre esse documento. tais como: treinamento. já ouviu falar no Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (CCEAL)? Esse código é muito importante para os profissionais de segurança pública. tornandose bizarra qualquer reflexão fundada sobre suposta dualidade ou antagonismo entre uma "sociedade civil" e outra "sociedade policial". mas obedecidas como forma de boa fé. São descrições de padrões de conduta recomendáveis a todo e qualquer funcionário responsável pela aplicação da lei. Estes são alguns dos seus direitos.4 Código de Conduta da ONU para Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei Você. Esta foi apenas umas das várias formas encontradas para garantir a proteção dos direitos daqueles que são atendidos por esses funcionários. um cidadão. a um julgamento justo (caso seja necessário ser julgado).Direitos Humanos. como já foi dito anteriormente na aula 3. Essa afirmação é plenamente válida mesmo quando se trata da Polícia Militar. não vinculante aos Estados. a receber meios por parte do Estado para o desenvolvimento de seu trabalho. na qual se fala da necessidade do desenvolvimento e encorajamento do respeito pelos direitos do homem e das liberdades fundamentais para todos. e na cidadania deve nutrir sua razão de ser. podemos reafirmar que todo policial tem direito à proteção dos direitos humanos. Sua condição de cidadania é. da qual todos os segmentos são derivados. à vida. que é um serviço público realizado na perspectiva de uma sociedade uma. A Assembléia Geral da ONU resolveu elaborar esse código considerando os objetivos da Carta das Nações Unidas. antes de tudo. O policial tem direito à dignidade. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 O policial é. Irmana-se. cabe relembrar. 53 . em sua resolução 34/169 de 17 de dezembro de 1979. pois regulamenta a conduta do policial e garante o respeito aos direitos humanos. O CCEAL foi adotado pela Assembléia Geral das Nações Unidas. portanto. assim. que o CCEAL não é um tratado. mas um documento que proporciona aos governos normas orientadoras sobre direitos humanos e justiça criminal. condição primeira. equipamentos de proteção e defesa adequados. a todos os membros da comunidade. Nesse sentido. como policial. em direitos e deveres. Basta você observar nas normas já vistas neste curso e naquelas que ainda vamos ver para dar-se conta de quais direitos estamos falando. atendimento à saúde e acompanhamento psicológico. 5.

foi necessário considerar a natureza das funções de tais profissionais para a defesa da ordem pública. um ministério. tais como: a Declaração Universal dos Direitos do Homem. por questões pessoais. Todos os artigos possuem um comentário que aqui será apresentado resumidamente. a forma como são exercidas e a possibilidade de um abuso que o desenvolvimento dessas tarefas pode proporcionar. exercido por uma comissão de controle. Artigo 1º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem cumprir. foram observadas algumas normas internacionais importantes. os Pactos Internacionais sobre os Direitos do Homem e a Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis. sociais ou de outras emergências. responder às suas necessidades e ser responsáveis perante ela. depende da existência de um sistema jurídico bem concebido. econômicas. Em se tratando de um código para ser exercido e respeitado por encarregados de aplicação da lei. em conformidade com o elevado grau de responsabilidade que a sua profissão requer. uma comissão de cidadãos. e que os atos dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem estar sujeitos ao escrutínio público. e) Que as normas. Conforme os comentários contidos no próprio artigo. a existência de princípios e condições prévias ao desempenho humanitário das funções de aplicação da lei. um procurador-geral. cujo objetivo consiste em prevenir o crime e lutar contra a delinqüência. todos os órgãos de aplicação da lei devem ser representativos da comunidade no seu conjunto. Desumanos ou Degradantes. formação e controle (NAÇÕES UNIDAS. carecem de valor prático.Direitos Humanos. servindo a comunidade e protegendo todas as pessoas contra atos ilegais. por um provedor. Agora você conhecerá em detalhe os oito artigos do CCEAL e o que ele tem a lhe dizer sobre o desenvolvimento do seu trabalho como policial. em plena conformidade com os princípios e normas aqui previstos. tem o dever da autodisciplina. em cumprimento da primeira norma de qualquer profissão. b) Que o respeito efetivo de normas éticas pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. a todo o momento. 1979). a menos que o seu conteúdo e significado seja inculcado em todos os funcionários responsáveis pela aplicação da lei. o dever que a lei lhes impõe. d) Que qualquer órgão encarregado da aplicação da lei. ou ainda por um outro organismo de controle. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 Nesse sentido. aceito pela população e de caráter humano. Observe a seguir. no texto preliminar do código. pela magistratura. o serviço à comunidade deve incluir a assistência que. necessitam de ajuda 54 . que foram considerados: a) Que. c) Que qualquer funcionário responsável pela aplicação da lei é um elemento do sistema de justiça penal. e que a conduta de cada funcionário do sistema tem uma incidência sobre o sistema no seu conjunto. como qualquer órgão do sistema de justiça penal. mediante educação. enquanto tais. ou por vários desses órgãos.

de qualquer forma. instigar ou tolerar qualquer ato de tortura ou qualquer outra pena ou tratamento cruel. especialmente contra as crianças. exceto quando um suspeito ofereça resistência armada. a não ser que o cumprimento do dever ou as necessidades da justiça estritamente exijam outro comportamento. os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar e proteger a dignidade humana. Artigo 4º As informações de natureza confidencial em poder dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem ser mantidas em segredo. Contudo. coloque em perigo vidas alheias e não haja suficientes medidas menos extremas para o dominar ou deter. Em geral. Artigo 5º Nenhum funcionário responsável pela aplicação da lei pode infligir. O princípio de proporcionalidade no uso da força deve ser respeitado e "não deve ser. A utilização dessas informações para outros fins pode ser considerada abusiva. se deverá informar prontamente as autoridades competentes (NAÇÕES UNIDAS . devem ser considerados como atos ilegais não somente os violentos. 1979). Nesse caso. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 imediata. deve-se ter cautela na utilização de tais informações. Devem se fazer todos os esforços no sentido de excluir a utilização de armas de fogo. Cada vez que uma arma de fogo for disparada. tais como o estado de guerra ou uma ameaça à 55 . destruidores e prejudiciais. mas também os atos proibidos pela legislação penal. Além disso. muitas vezes. em nenhum caso. interpretado no sentido da autorização do emprego da força em desproporção com o legítimo objetivo a atingir" (NAÇÕES UNIDAS. a legislação nacional e internacional que protege os direitos humanos deve ser considerada. Artigo 3º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. ou quando. manter e apoiar os direitos fundamentais de todas as pessoas. 1979). 1979). não se deverá utilizar armas de fogo. ele admite que os funcionários encarregados de aplicar a lei possam estar autorizados a usar da força quando julgarem necessário para a "prevenção de um crime ou para deter ou ajudar a detenção legal de delinqüentes ou de suspeitos. têm acesso a informações que podem ser prejudiciais aos interesses e à reputação de outras pessoas. Artigo 2º No cumprimento do seu dever. Este artigo salienta que a utilização da força somente poderá ser aplicada excepcionalmente. inclusive aqueles que não incorrerem em responsabilidade criminal. desumano ou degradante.Direitos Humanos. pela natureza de seu trabalho. nem invocar ordens superiores ou circunstanciais excepcionais. que somente poderão ser divulgadas no desempenho do dever. No que se refere aos direitos do homem. Artigo 3º Comentário c) O emprego de armas de fogo é considerado uma medida extrema. Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei. qualquer uso da força fora deste contexto não é permitido" (NAÇÕES UNIDAS.

bem como a tentativa de corrupção. ou por sua instigação. igualmente. Neste caso deve ser considerada a opinião do profissional médico quando recomendar a necessidade de tratamento adequado à pessoa detida devendo estar em conformidade com o pessoal médico dos órgãos de segurança. opor-se rigorosamente e combater todos os atos desta índole. Nesse caso. b) A Declaração define tortura da seguinte forma: «Tortura significa qualquer ato pelo qual uma dor violenta ou sofrimento físico ou mental é imposto intencionalmente a uma pessoa por um funcionário público. Artigo 6º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem assegurar a proteção da saúde das pessoas à sua guarda e. ou intimidá-la a ela ou a outras pessoas. a) Esta proibição decorre da Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura e outras Penas ou Tratamentos Cruéis. instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública como justificação para torturas ou outras penas ou tratamentos cruéis. de acordo com a qual: «tal ato é uma ofensa contra a dignidade humana e será condenado como uma negação aos propósitos da Carta das Nações Unidas e como uma violação aos direitos e liberdades fundamentais afirmados na Declaração Universal dos Direitos do Homem (e noutros instrumentos internacionais sobre os direitos do homem)». Artigo 7º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei não devem cometer qualquer ato de corrupção. na medida em que sejam compatíveis com as Regras Mínimas para o Tratamento de Reclusos». "ato de corrupção" deve ser entendido tanto como a execução ou a omissão de um ato praticado pelo responsável no desempenho de suas funções. devem tomar medidas imediatas para assegurar a prestação de cuidados médicos sempre que tal seja necessário. quer físicos quer mentais. qualquer funcionário que decorrer em um ato desse tipo deve ser punido conforme a lei nacional. Os cuidados médicos dever ser prestados por pessoal médico especializado e devem ser assegurados quando solicitados ou necessários.Direitos Humanos. de puni-la por um ato que tenha cometido ou se supõe tenha cometido. Não se considera tortura a dor ou sofrimento apenas resultante. assim como qualquer outro abuso de autoridade. adotada pela Assembléia Geral. desumanos ou degradantes» não foi definida pela Assembléia Geral. Devem-se assegurar cuidados médicos às vítimas de violação da lei ou de acidentes que dela decorram. por isso. não é compatível com a profissão de funcionário encarregado pela aplicação da lei. com objetivos de obter dela ou de uma terceira pessoa informação ou confissão. inerente ou conseqüência de sanções legítimas. c) A expressão «penas ou tratamento cruéis. Devem. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 segurança nacional. desumanos ou degradantes. em especial. 56 . Desumanos ou Degradantes. Os atos de corrupção. mas deve ser interpretada de forma a abranger uma proteção tão ampla quanto possível contra abusos.

se necessário. Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem informar das violações os seus superiores hierárquicos e tomar medidas legítimas sem respeitar a via hierárquica somente quando não houver outros meios disponíveis ou eficazes. e “Ética policial: uma necessidade institucional”. de aplicação da lei quer seja independente destes. pode considerar-se que os meios de comunicação social («mass media») desempenham funções de controlo. quer esteja integrado nos organismos Código. Para Saber Mais Para se aprofundar no tema da ética profissional. Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei que tiverem motivos para acreditar que se produziu ou irá produzir uma violação deste Código.º do presente Código. de João Kleiber Ésper. e) Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei que cumpram as disposições deste Código merecem o respeito. leia os textos: “Ética profissional é compromisso social”. Devem. também. em larga escala. de Rosana Soibelmann Glock e José Roberto Goldim. do organismo de aplicação da lei no qual servem e dos demais funcionários responsáveis pela aplicação da lei. a) Este Código será observado sempre que tenha sido incorporado na legislação ou na prática nacionais. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 Artigo 8º Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem respeitar a lei e o presente Código. evitar e opor-se vigorosamente a quaisquer violações da lei ou do Código. a outras autoridades com poderes de controle ou de reparação competentes. Se a legislação ou a prática contiverem disposições mais limitativas do que as do atua Código. Os artigos vistos neste código foram elaborados a partir da observação da atuação de instituições e profissionais de aplicação da lei. visando a uma conduta ética no desenvolvimento de suas ações. depende a segurança pública. Subentende-se que os funcionários responsáveis pela aplicação da lei não devem sofrer sanções administrativas ou de outra natureza pelo fato de terem comunicado que se produziu ou que está prestes a produzir-se uma violação deste Código. Como você pôde observar. e a necessidade de. análogas às descritas na alínea anterior. por um lado. c) A expressão «autoridade com poderes de controlo e de reparação competentes» refere-se a qualquer autoridade ou organismo existente ao abrigo da legislação nacional. tomar medidas em caso de violações dos direitos humanos básicos. os funcionários responsáveis pela aplicação da lei poderão como último recurso e com respeito pelas leis e costumes do seu país e pelo disposto no artigo 4. d) Nalguns países. na medida das suas possibilidades. b) O presente artigo procura preservar o equilíbrio entre a necessidade de disciplina interna do organismo do qual. o CCEAL regulamenta um padrão de conduta aos funcionários encarregados da aplicação da lei. o total apoio e a colaboração da comunidade em que exercem as suas funções. consuetudinários ou outros para examinarem reclamações e queixas resultantes de violações deste 57 . por outro lado.Direitos Humanos. com poderes estatutários. devem comunicar o fato aos seus superiores e. devem observar-se essas disposições mais limitativas. Conseqüentemente. levar as violações à atenção da opinião pública através dos meios de comunicação social.

Aqui. 58 . você teve contato com mais uma norma internacional de direitos humanos que regulamenta e codifica a sua atuação dentro de padrões éticos e morais.Direitos Humanos. proteção e garantia dos direitos humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 05 Finalizamos esta aula. Por meio dela. você pôde também observar a importância do seu trabalho policial e da instituição a qual você faz parte na defesa.

A noção de que a aplicação da lei se faz pela força. 5. Ações de salvamento e defesa civil. Nelas. Morais e Éticos no Emprego da Força A função policial na sociedade. Luta contra a criminalidade (prevenção. você estudará sobre a polícia e o uso da força e armas de fogo no desempenho de sua função. para o respeito e cumprimento das leis. o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades de 59 . ação penal e repressão). Disso se extrai que as prerrogativas da polícia podem. 2. em casos extremos. se necessário. Uma idéia de investigação ou de informações na investigação criminal. ser classificada em cinco categorias: 1. tem por missão garantir a paz e a segurança de uma comunidade. nas duas últimas aulas você estudou sobre ética profissional e cidadania. 3. Nesta aula. O terceiro ponto nos traduz a idéia de que a coerção por parte da polícia deve estar a serviço do direito.Direitos Humanos. Informações às autoridades constituídas. pode. você pôde ver o quão importante é para os funcionários responsáveis pela aplicação da lei ter padrões de conduta ética. de modo geral. bem como a segurança de cada cidadão. investigação. É necessário o entendimento de que sua profissão deriva dos ideais legais e democráticos de nosso país. impondo-lhe a força. 6. conhecerá as normas internacionais relativas ao uso apropriado da força e armas de fogo. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 Aula 06 . de acordo com objetivos policiais legítimos. verifica-se que surgem três idéias principais com relação ao trabalho policial:    Uma idéia de proteção da paz social e da ordem pública e a segurança dos cidadãos. Manutenção e preservação da ordem. A polícia. Você deve ter notado que o simples conhecimento de um texto não é suficiente para que um profissional tenha uma conduta adequada.1 Aspectos Legais. caso seja necessário. que os permitam lidar com os dilemas que se apresentam no dia-a-dia de sua profissão. de acordo com BOSSARD (1983). levar ao uso da força e armas de fogo para garantir o cumprimento da lei. de modo geral.A Polícia e o Uso da Força Caro aluno. 4. Ação puramente administrativa. Tendo em vista essas categorias.

a integridade e a vida das pessoas. é um protetor de vidas. Qualquer uso que não esteja dentro do marco legal estará sujeito a uma crítica por excesso. p.Direitos Humanos. dentro do marco da lei. 2002. Se a sua conclusão foi a de que o policial tem um grau muito elevado de responsabilidade para a proteção à vida das pessoas da comunidade. (PMMG. pense como o policial (funcionário responsável pela aplicação da lei) tem responsabilidade pela proteção do direito à vida de todas as pessoas da sociedade.66) É o meio compulsivo com o qual o efetivo policial logra o controle de uma situação que atente contra a segurança. como funcionário do Estado. reduzindo ou eliminando sua capacidade de autodecisão. mas sim uma questão de função. (NAÇÕES UNIDAS. como referência. é um protetor e promotor dos Direitos Humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 todos e para satisfazer as justas exigências da moral. É aqui. que os valores éticos são fundamentais. ordem pública. (PNP. precisamente. É importante ressaltar que o uso da força e de armas de fogo deve ser limitado por leis e regulamentos. colocando sempre em evidência a questão do serviço e do interesse público. abuso de autoridade ou poder. Assim sendo. compare na tabela a seguir a proteção desse direito em alguns instrumentos internacionais: 60 . 1997. desvio. da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática (artigo 29 da Declaração Universal dos Direitos Humanos – DUDH). é um protetor do direito fundamental de todas as pessoas. O exercício do poder para usar força e armas de fogo não é uma questão individual. p. é um protetor do maior bem jurídico protegido: A VIDA. Você já estudou em aulas anteriores que diversos instrumentos internacionais fazem referência ao direito à vida como sendo um dos mais importantes a serem protegidos. 80) Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei devem estar familiarizados com as diversas formas pela qual a “força” está definida na legislação e os códigos de seu país. O que é Força? É toda intervenção compulsória sobre o indivíduo ou grupos de indivíduos. O Policial é assim um protetor e promotor dos direitos fundamentais. 2006. p. então certamente este policial. 87) Neste ponto de seu estudo.

Direitos Humanos. Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Ninguém poderá ser intencionalmente privado da vida.1 O direito de qualquer pessoa à vida é protegido pela lei. qualquer uso da força fora deste contexto não é permitido. Este direito deverá ser protegido pela lei. Ninguém pode ser arbitrariamente privado desse direito. Embora admita que estes funcionários possam estar autorizados a utilizar a força na medida em que tal seja razoavelmente considerado como necessário. Tendo em vista esta proteção. as organizações de aplicação da lei em todo o mundo devem dar a mais alta prioridade à proteção do direito à vida de todas as pessoas. em geral. Comentário: a) Esta disposição salienta que o emprego da força por parte dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei deve ser excepcional. no caso de o crime ser punido com esta pena pela lei. Todo ser humano tem direito ao respeito da sua vida e à integridade física e moral da sua pessoa. para a prevenção de um crime ou para deter ou ajudar a detenção legal de delinqüentes ou de suspeitos.1 O direito à vida é inerente à pessoa humana. Artigo 2. desde o momento da concepção. Esse direito deve ser protegido pela lei e. A alta prioridade da proteção do direito à vida não está em contradição com a autoridade legal de aplicação da lei em empregar a força em situações em que seja considerado necessário e inevitável para os propósitos da legítima aplicação da lei.2 Princípios Básicos das Nações Unidas para Uso de Força e Armas de Fogo Você já estudou na aula passada o Código de Conduta para os Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (CCEAL) e deve ter percebido que existe um artigo apenas para o uso da força e armas de fogo. o uso de força e de armas de fogo como recurso para aplicação da lei e preservação da ordem pública deve ser limitado em absoluto aos casos de circunstâncias excepcionais e sempre para proteger a vida humana. É o artigo 3º: Os funcionários responsáveis pela aplicação da lei só podem empregar a força quando tal se afigure estritamente necessário e na medida exigida para o cumprimento do seu dever. Artigo 4º A pessoa humana é inviolável. à liberdade e à segurança pessoal. Ninguém poderá ser arbitrariamente privado de sua vida. tendo em conta as circunstâncias. Enfim. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 Instrumento Internacional Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (PIDCP) Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos (CADHP) Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (CADH) Convenção Européia sobre os Direitos Humanos (CEDH) Artigo Artigo 3º Todo ser humano tem direito à vida. Artigo 6. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente. salvo em execução de uma sentença capital pronunciada por um tribunal. 1. 61 . 6. Artigo 4.

mas o instrumento tem como objetivo proporcionar normas orientadoras aos Estadosmembros no tocante ao uso da força e armas de fogo por parte dos encarregados da aplicação da lei. 87) expressam sua preocupação com o uso da força de maneira legal e ao mesmo tempo eficaz. de qualquer forma coloque em perigo vidas alheias e não haja suficientes medidas menos extremas para o dominar ou deter. especialmente contra as crianças. Outro instrumento internacional que faz referência ao uso da força e armas de fogo são os Princípios Básicos sobre o Uso da Força e Armas de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei (PBUFAF). Mas. Observe que as disposições que se referem ao uso da força e de armas de fogo baseiam-se sempre nos princípios de LEGALIDADE. p. Devem fazer-se todos os esforços no sentido de excluir a utilização de armas de fogo. Os PBUFAFs foram adotados no Oitavo Congresso das Nações Unidas sobre a Prevenção do Crime e o Tratamento dos Infratores. perguntando-se sempre:    Legalidade: A ação a ser praticada é legal? Tem previsão na lei? Necessidade: A ação a ser praticada é necessária para preservar ou restabelecer a ordem pública e proteger a vida humana (própria ou de terceiros)? Proporcionalidade: Os meios a serem empregados são moderados e estão em proporção à gravidade do delito cometido e ao objetivo legítimo a ser alcançado? As NAÇÕES UNIDAS (1997. não deverão utilizar-se armas de fogo. NECESSIDADE e PROPORCIONALIDADE. Cuba.Direitos Humanos. ou quando. o respeito à dignidade inerente à pessoa humana. faça um exercício mental. realizado em Havana. o que significam estes princípios? Para facilitar seu entendimento. Deve-se entender que tais princípios nacionais de proporcionalidade devem ser respeitados na interpretação desta disposição. Não é um tratado. de acordo com o princípio da proporcionalidade. exceto quando um suspeito ofereça resistência armada. Contudo. c) O emprego de armas de fogo é considerado uma medida extrema. Por essa razão consideram necessária a adoção de uma série de medidas para impedir que esses abusos ocorram e a disposição de mecanismos de correção e sanção apropriados caso eles ocorram. Em geral. ou seja. elas ressaltam que o uso excessivo da força afeta diretamente o princípio em que se baseiam os direitos humanos. São 26 princípios básicos (PB) divididos da seguinte maneira: 62 . interpretada no sentido da autorização do emprego da força em desproporção com o legítimo objetivo a atingir. de 27 de agosto a 7 de setembro de 1990. Cada vez que uma arma de fogo for disparada. Elas reconhecem que o trabalho policial na sociedade é difícil e delicado e também entendem que o uso da força em circunstâncias claramente definidas e controladas é inteiramente lícito. A presente disposição não deve ser. em nenhum caso. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 b) A lei nacional restringe normalmente o emprego da força pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. deverá informar-se prontamente as autoridades competentes.

bem como a inclusão de armas incapacitantes não-letais e equipamentos de legítima defesa e proteção. mas convém que você leia todo seu conteúdo. 63 . Habilitação. pois nenhum policial está acima da lei.Direitos Humanos. Ética Profissional e Cidadania Aula 06       Disposições gerais: PB 1 a 8. nos PB 1 e 2. Policiamento de reuniões ilegais: PB 12 a 14. Você conhece normas deste tipo na corporação policial? Quais? O PB 4 ressalta a importância de se recorrer a meios não-violentos antes de recorrer ao uso da força e armas de fogo. Faremos a explicação dos pontos mais importantes dos PBUFAFs. estão as atribuições dos governos com relação à adoção de normas reguladoras no uso da força e armas de fogo e na obrigação de dotar seus funcionários responsáveis pela aplicação da lei com variedade de tipos de armas e munições que permitam o uso diferenciado da força e de armas de fogo. Note que. Veja que a essência é sempre agir com moderação. sendo usados com sucesso na busca de suspeitos escondidos em terrenos ou áreas urbanas. diminuir a quantidade de danos ou lesões e dar assistência e preservar a vida humana e comunicar oficialmente os atos acontecidos. 297). Lembre-se dos princípios de legalidade. p. Embora não mencionado nos PBUFAFs. Que meios deste tipo você conhece? De acordo com ROVER (2005. o cão policial é uma arma valorizada incluída entre aquelas que permitem às organizações uma abordagem diferenciada ao uso da força e armas de fogo. Os cães são treinados na captura de suspeitos armados e perigosos. Policiamento de indivíduos sob custódia ou detenção: PB 15 a 17. Os PB 5 e 6 indicam o dever dos funcionários responsáveis pela aplicação da lei sempre que o uso legítimo da força e de armas de fogo for inevitável. Disposições específicas: PB 9 a 11. formação e orientação: PB 18 a 21. necessidade e proporcionalidade. Os PB 7 e 8 nos recordam que o uso arbitrário ou abusivo é um delito criminal. Procedimentos de comunicação e revisão: PB 22 a 26. Atenção: Os PB 9 e 10 são importantíssimos para a atividade policial e devem ser lidos e relidos com muita atenção para evitar uma falsa interpretação dos princípios. as organizações de aplicação da lei em todo o mundo fazem uso de cães treinados para tarefas e missões específicas de aplicação da lei.

Ética Profissional e Cidadania Aula 06 Veja bem o PB 9 lido de maneira interpretada e espaçada: PB 9: Os responsáveis pela aplicação da lei não usarão armas de fogo contra pessoas (ESTA É A REGRA GERAL). o uso letal intencional de armas de fogo só poderá ser feito quando estritamente inevitável à proteção da vida. ou para impedir a fuga de tal indivíduo (O QUE ESTEJA COLOCANDO EM RISCO IMINENTE DE MORTE OU LESÂO GRAVE OUTRAS PESSOAS). Em qualquer caso. Nas circunstâncias previstas no Princípio 9. e isso apenas nos casos em que outros meios menos extremados revelem-se insuficientes para atingir tais objetivos. Ex. os responsáveis pela aplicação da lei deverão identificar-se como tais (ORDEM FIRME E IMPERATIVA EX: PARADO. técnicas adequadas de tiro policial. AGORA. mediação. técnicas de verbalização.: técnicas de abordagem. exceto em casos de legítima defesa própria ou de outrem contra ameaça iminente (IMEDIATA. Isso tudo é um conjunto indissociável que faz parte de sua profissão. que complementa o PB 9: PB 10. 1990) Você percebeu a quantidade de informações? Veja agora o que diz o PB 10. resolução de conflitos entre outras. com tempo suficiente para que o aviso seja levado em consideração (TEMPO DE ACATAMENTO DA ORDEM VERBAL). para impedir a perpetração de crime particularmente grave que envolva séria ameaça à vida. Se o policial recorre a violações da lei 64 . mas importantes também são os valores éticos profissionais e a observância dos direitos fundamentais das pessoas. A sociedade requer um policial profissional e preparado para sua defesa e que não viole as normas que todos temos de cumprir. 1990) Você percebeu novamente a quantidade de informações? É por isso que os treinamentos e instruções policiais são fundamentais para evitarem-se erros na atuação operacional. Veja que as técnicas policiais são importantes. (NAÇÕES UNIDAS. a não ser quando tal procedimento represente um risco indevido para os responsáveis pela aplicação da lei (NÃO SE COLOCAR EM RISCO INDEVIDO) ou acarrete para outrem um risco de morte ou dano grave (NÃO COLOCAR OUTRAS PESSOAS EM RISCO). POLÍCIA!) e avisar prévia e claramente a respeito da sua intenção de recorrer ao uso de armas de fogo (SOLTE A ARMA! SE REAGIR POSSO DISPARAR!). (NAÇÕES UNIDAS. NESTE INTANTE) de morte ou ferimento grave. Os treinamentos que você deve levar a efeito são aqueles que guardam semelhança com a realidade do serviço de proteção da sociedade. negociação.Direitos Humanos. ou seja claramente inadequado ou inútil dadas as circunstâncias do caso. para efetuar a prisão de alguém que represente tal risco (RISCO IMINENTE DE MORTE OU LESÂO GRAVE) e resista à autoridade.

O PB 11 diz respeito ao conteúdo das normas e regulamentos sobre uso da força e armas de fogo. As violações por parte da polícia só reduzem a sua autoridade e confiabilidade. Eles também mencionam a responsabilidade dos funcionários em função de mando caso obtenham conhecimento de que incidentes tenham acontecido e não tomaram as medidas administrativas adequadas. Os PB 12.Direitos Humanos. mas os princípios são quase sempre os mesmos. as corporações policiais nacionais têm normas ou diretrizes internas que orientam seus integrantes quanto ao emprego da força e de armas de fogo. Por fim. 25 e 26 dizem respeito à necessidade de se estabelecer procedimentos eficazes de comunicação e revisão. 19. 65 . Também na legislação brasileira encontramos vários dispositivos que fazem referência ao uso da força e armas de fogo. Fazem referência ao direito de reunião pacífica previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) e no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP). 16 e 17 fazem referência ao policiamento de indivíduos sob custódia ou detenção. formação e orientação dos profissionais encarregados pela aplicação da lei. Por fim. 34 e 54. 6. Os PB 22. entre eles a ética e os direitos humanos. 23. A prática pode variar de uma corporação para outra. em especial. 13 e 14 fazem referência à atuação policial em reuniões públicas. Os treinamentos específicos para cada tipo de arma a ser utilizada e os elevados padrões profissionais desejados com o estudo de várias áreas do conhecimento humano. Aqui também se repetem os princípios já elencados anteriormente. Os PB 18. Estes princípios fazem referência a outra norma internacional importante: as Regras Mínimas para o Tratamento de Prisioneiros. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 com a desculpa de que tem de fazê-lo para manter a ordem pública. São mencionados os processos seletivos para a entrada na corporação policial. aplicáveis a incidentes que envolvam o uso da força e armas de fogo. mencionam a questão na inexigibilidade do cumprimento de ordens ilegais para o uso da força e armas de fogo. as qualidades esperadas de cada pessoa que ingressa no serviço policial e a necessidade da formação contínua no decorrer da carreira. 20 e 21 dizem respeito à habilitação. 24.3 Aspectos Legais da Legislação Brasileira Aplicáveis ao Uso da Força Normalmente. menciona ainda a necessidade de acompanhamento psicológico quando necessário. as normas 33. ele não é muito diferente do infrator que está combatendo. Os PB 15. Verifique que os princípios de moderação do emprego dos meios estão sempre presentes.

no caso de desobediência. Se houver resistência da parte de terceiros. depois da intimação ao morador. caso sofra alguma violação. as normas internacionais e a legislação nacional que prevêem a utilização de força e armas de fogo. Art. o executor. entretanto ela por si só não funcionará.Direitos Humanos. do que tudo se lavrará auto subscrito também por duas testemunhas. entrará à força na casa. e de modo algum será permitido. que o réu entrou ou se encontra em alguma casa. Se não for obedecido imediatamente. § 1º O emprego de algemas deve ser evitado. se não for atendido. o que algumas vezes se faz com o uso da força legítima. desde que não haja perigo de fuga ou de agressão da parte do preso. fará guardar todas as saídas. 144. o executor convocará duas testemunhas e. inclusive a prisão do ofensor. arrombando as portas. É necessária sua incorporação nos treinamentos e instruções das instituições policiais. resistência ou tentativa de fuga. e. à vista da ordem de prisão. 242. Não será permitido o emprego de força. sendo dia. salvo a indispensável no caso de resistência ou de tentativa de fuga do preso. o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios necessários para defender-se ou para vencer a resistência. Se houver. com segurança. nos presos a que se refere o art. Art. resistência à prisão em flagrante ou à determinada por autoridade competente.4 Fundamentos Técnicos do Uso da Força por Profissionais de Segurança Pública Você já estudou os aspectos éticos e morais no emprego da força. que dá aos órgãos de segurança pública o poder da preservação da ordem pública e de sua restauração. Outra previsão legal está no Código de Processo Penal Militar (CPPM) no artigo 234: Art. arrombará as portas e efetuará a prisão. ainda que por parte de terceiros. Se o executor do mandado verificar. 292 e 293 a possibilidade do emprego da força: Art. poderão ser usados os meios necessários para vencê-la ou para defesa do executor e auxiliares seus. se preciso. 284. a importância da proteção do direito à vida. tornando a casa incomunicável. 66 . § 2º O recurso ao uso de armas só se justifica quando absolutamente necessário para vencer a resistência ou proteger a incolumidade do executor da prisão ou a de auxiliar seu. Você deve ter constatado que existe uma estrutura jurídica que fornece um bom parâmetro para o uso da força e armas de fogo. logo que amanheça. recordando o art. o morador será intimado a entregá-lo. De tudo se lavrará auto subscrito pelo executor e por duas testemunhas. 6. sendo noite. 292. O Código de Processo Penal (CPP) prevê nos artigos 284. 234. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 O início de seu estudo deve ser a Constituição Federal de 1988. se necessário. O emprego de força só é permitido quando indispensável. 293.

Domício Proença Júnior e Eugenio Diniz. Assim sendo. o fundamento técnico é o conhecimento que deve ter todo policial. 22). o policial é um cidadão que porta a singular permissão para o uso da força e das armas. de Jaqueline Muniz. no âmbito da lei. pela lei. você estudou que para o correto emprego da força e armas de fogo é necessário que policiais atentem para os aspectos legais. É necessário ter sob constante avaliação e treinamento tanto o conhecimento como as habilidades práticas dos policiais. Dessa forma. no campo moral pelo antagonismo que deve reger a metodologia de policiais e criminosos”. o que lhe confere natural e destacada autoridade para a construção social ou para sua devastação. você deve ter constatado que a força não se confunde com truculência nem violência. p. de Wilkerson Sandes. lendo os artigos: “Uso de força e ostensividade na ação policial ”. 22) encontramos que “a fronteira entre a força e a violência é delimitada no campo formal. tecnologia e intervenção governamental”. Nesta aula. sob pena de cometerem desvios de conduta e abusos de poder. no campo racional pela necessidade técnica e. 67 . p. Entretanto. e “Uso não-letal da força na ação policial: formação. Ética Profissional e Cidadania Aula 06 Concluímos que existe autorização legal que permite e define as circunstâncias para o uso da força e armas de fogo. De acordo com Balestreri (1998. que lhes foi conferido para atuar em defesa da sociedade. Para Saber Mais Aprofunde seus conhecimentos sobre o uso da força. por intermédio de sua formação e treinamento constantes que norteiem sua ação no campo operacional. morais e éticos da profissão.Direitos Humanos. Ainda nos ensinamentos de Balestreri (1998. Viu também que há normas internacionais e legislação nacional próprias que dizem respeito ao tema e dão uma excelente orientação para a conduta a ser adotada. não basta somente ter a base legal para que isso se reflita em comportamentos na linha de frente operacional.

ainda não existe um consenso entre as corporações policiais sobre um modelo ideal e padrão a todos. Os modelos permitirão que você constate as diferentes possibilidades de uso da força na atividade policial. facilitando o entendimento do policial durante a instrução inicial e reforçando a capacidade de lembrança instantânea. treinamento e comunicação dos critérios da política institucional sobre o emprego da força nas corporações policiais. que vem ilustrado. O autor reforça sua descrição enfatizando que a configuração deve ser simples. vemos a multiplicidade de formas e conteúdos desses modelos que você passará a estudar. durante uma confrontação real. traduzido normalmente num gráfico.Modelos Teórico-práticos de Uso da Força Caro aluno. são também apresentadas as alternativas táticas potencialmente disponíveis ao policial para ganhar e/ou manter o controle em determinadas situações em que tenha que atuar. em diferentes cores. 68 . Ética Profissional e Cidadania Aula 07 Aula 07 . nesses modelos. Ele explica que. É o que se chama de modelo de uso progressivo da força. Um modelo de uso da força é um recurso visual padrão. Carballo Blanco (1997) descreve os modelos de uso da força como sendo estruturas que abrangem os elementos essenciais da utilização da força na atividade policial. esta é a última aula da disciplina.1 Modelos Adotados por Organizações de Segurança Pública Nacionais e Internacionais: Estudo Comparativo O que é um modelo de uso da força? É consenso. esquema ou desenho de configuração bastante simples. Desse modo. especialistas e estudiosos. 7. sempre embasado na observância de normas nacionais e internacionais de direitos humanos? Nesta aula. Você percebeu como todas as informações apresentadas até aqui se completam e lhe dão uma outra percepção a respeito do trabalho policial. com suas características. ou não. tanto para policiais quanto para doutrinadores. Por ser uma questão de muita discussão. planejamento. São modelos gráficos amplamente utilizados em várias polícias do mundo com o objetivo de ajudar nos conceitos. que indicam aos policiais o tipo e a quantidade de força autorizada (legal) que pode ser utilizada contra uma pessoa que resista a uma ordem. abordagem ou intervenção policial. que o uso da força pela polícia é um tema complexo e muitas vezes bastante subjetivo. você estudará e analisará vários modelos gráficos de uso da força.Direitos Humanos. vantagens e desvantagens.

Dessa forma. p. Como normalmente se fala na linguagem policial: “nenhuma ocorrência é igual a outra”. São elementos do uso progressivo da força:    Instrumentos – Tópicos disponíveis no currículo dos programas de treinamento. De acordo como os ensinamentos de Resende (2001.: armas.Direitos Humanos. a percepção desse risco é que vai permitir ao policial escolher pelo aumento ou diminuição do grau de força a ser empregado em cada situação específica. pois aumenta a confiança e a competência do policial. Ex. a utilização de um modelo de uso progressivo da força age de forma preventiva. e sua adaptação deve ser possível a todas. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 Assim sendo. Em um modelo o que se vê é a aplicação progressiva da força. com a possibilidade da seleção adequada de opções dessa força em resposta ao nível de acatamento/submissão do indivíduo a ser controlado. Há muitos modelos de uso progressivo da força empregados atualmente. das instruções e ações policiais. o policial deve perceber o grau de risco oferecido quando se depara com pessoas que deve abordar. entre outros. Cada decisão de emprego da força depende das circunstâncias e dos fatos que se apresentam ao policial. mas para efeito deste curso estudaremos apenas cinco:      Modelo FLETC (Federal Enforcement Training Center – Homerland Security – EUA) Modelo CANADENSE (The National Use-of-Force Framework for Police Officers in Canadá) Modelo NASHVILLE (Metropolitan Police – Nashville – EUA) Modelo PHOENIX (Phoenix Police Department – Phoenix – EUA) Modelo PMMG (Polícia Militar de Minas Gerais – Brasil) 69 . por meio de uma forma organizada de avaliação e resposta prática. isto é. Tempo – É a presteza da ação policial em face à reação do indivíduo. um modelo é por natureza genérico. ou pelo menos a grande maioria. procedimentos. Isto requer muito treinamento e experiência profissional. Táticas – É a incorporação dos instrumentos à estratégia de ação. 65). comportamento.

8. 126. simbolizado por números em algarismos romanos. CONNOR. Cor Amarela – Percepção do Limiar de Ameaça.Direitos Humanos. Representa o fundamento do processo perceptivo. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 7. O policial percebe um aumento da ameaça no cenário do confronto e põe em prática as estratégias específicas. Visto de frente. De acordo com a atitude do suspeito e percepção de risco. Sinaliza o aumento do estado de alerta devido à percepção da ameaça e ao perigo detectado. É um modelo gráfico em degraus com cinco camadas e três painéis.1. No painel do centro está a percepção de risco para o policial. que descrevem o processo de avaliação e seleção de alternativas. Cor Laranja – Percepção de Ameaça Danosa. Os níveis de uso da força são crescentes de baixo para cima. mais a esquerda do painel está a percepção do policial em relação à atitude do suspeito. 2001. 70 . p. 1994. Constatação do perigo para o policial. Cor Verde – Percepção tática. encontramos as respostas (reação) de força possíveis do policial em relação à atitude dos suspeitos e percepção de riscos. p.1 Modelo FLETC Fonte: GRAVES. haverá uma reação do policial na respectiva camada. ANGELO. BARBOSA. O autor não considera a “presença policial” como um nível de força e vincula o primeiro nível com os comandos verbais. Veja que há duas setas com sentidos duplos. Este deve concentrar sua atenção nas táticas de defesa. mais à direita. As cinco cores integrantes do Modelo transmitem uma mensagem própria:     Cor Azul – Percepção profissional. No painel.

o que pode também requerer uma mudança de tática no emprego da força. 71 .Direitos Humanos.2 Modelo Canadense Fonte: Police Chief Magazine. cada nível seguinte identifica e incorpora os níveis inferiores de força. Ética Profissional e Cidadania Aula 07  Cor Vermelha – Percepção de Ameaça Mortal.1. O policial deve manter o mais alto nível de avaliação de risco. 7. Este modelo demonstra que o processo de avaliação é um ciclo constante e que nunca termina na intervenção policial. O processo de contínua avaliação por parte do policial ajuda a entender que o comportamento do suspeito. à medida que as opções de força aumentam de intensidade. As três setas formando um círculo nos lembram o que o policial deve fazer quando se depara com certa situação: ASSESS (avalia) PLAN (planejar) e ACT (Agir). assim como a ação do policial. O círculo interno central corresponde à situação ou ocorrência (SITUATION). October 2004. podem-se alterar muito rapidamente. Este modelo é composto de círculos sobrepostos subdivididos em níveis diferentes. Note que.

GRIEVOUS BODILY HARM OR DEATH (pode causar lesões graves ou morte). A mudança não é estanque. A presença do policial e as habilidades de comunicação não são consideradas como sendo opções de uso de força física. habilidades de comunicação e verbalização (communication skills). PASSIV RESISTANT (resistente passivo). O próximo círculo representa a percepção do policial (Perception) e as considerações táticas (tactical considerations) que estão interligadas e contidas na mesma área do modelo. técnicas de controle físico (SOFT – HARD physical control techniques). ACTIVE RESISTANT (resistente ativo). outros ainda estão disponíveis. 7. graduadas em sete níveis diferentes. 72 . ou seja. Lembre-se: o Policial constantemente avalia a situação e age de maneira apropriada para preservar a segurança dele mesmo e da comunidade. O círculo externo corresponde às opções de ação e de resposta do policial. As opções vão desde a presença do policial (officer presence). e força letal (lethal force). Ética Profissional e Cidadania Aula 07 O próximo círculo representa as diversas categorias de comportamento dos suspeitos: COOPERATIVE (cooperativo).Direitos Humanos. 2008. ASSAULTIVE (agressivo). armas intermediárias ou não letais (intermediate weapons).3 Modelo Nashville Fonte: SKYWALLNET. mas foram incluídas no modelo para ilustrar a gama de fatores que têm impacto sobre o comportamento de pessoas. Cada nível interage com o outro por meio de mudança de cores. onde termina um nível de força.1. São usadas cores para cada uma das graduações de força.

Resistência passiva 4. à atitude do suspeito. É elaborado no formato de tabela. passivo. Táticas e armas 5.4 Modelo Phoenix Fonte: SKYWALLNET. O Modelo Nashville é um modelo demasiado simples. Resistência defensiva 5. os fatores e circunstâncias que podem influenciar o policial para a escolha do nível de força a ser utilizado (fatores de sujeição e circunstâncias especiais). O eixo “y” corresponde aos quatro níveis de força (verbalização. A primeira coluna corresponde à ação do policial e a segunda coluna. Ausência de força 0. não estando presente a avaliação do risco para o policial. O eixo “x” corresponde à atitude dos suspeitos e é dividido em cinco níveis (total submissão. Uma mais severa e outra menos severa. defensivo. 7.1. que pode ser feita de duas formas. armas intermediárias e arma de fogo). O primeiro nível é a ausência de força e a ausência de resistência pelo suspeito. Presença policial 1. Atitude agressiva 6. Agentes químicos 4. Controle e imobilização (algemar) 3. com duas colunas. Ele possui duas variáveis para o uso da força. O modelo divide os níveis de força e atitude dos suspeitos em sete graduações diferentes. Arma de fogo / resistência letal É o mais simples dos modelos. Categorias de uso progressivo da força – Departamento de Polícia de Phoenix (EUA) Polícia Suspeito 0. Ausência de resistência 1. controle de mãos vazias. 2008. Aparecem abaixo do gráfico. 73 .Direitos Humanos. como orientação. Comandos verbais 2. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 Este modelo possui um formato gráfico em forma de “eixo de coordenadas”. Não submisso 3. Intimidação psicológica 2. A utilização do modelo é feita por meio da análise do gráfico formado pelo cruzamento dos dois eixos “x e y”. agressão ativa e agressão ativa agravada). Arma de fogo / força letal 6.

p. 83). Isso vai depender do nível de cooperação do suspeito. p. técnica. Note que a resposta (reação) do policial. impondo sua 74 . Do lado esquerdo. pois isso demonstra que você está ciente do que acontece e no controle da situação. antes. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 7.1. Caso note algo errado. você tem sempre o recurso de aumentar o grau de voz. Veja que há uma seta branca de duplo sentido. Ex. mas de fácil compreensão por qualquer pessoa. em termos de presença e verbalização. dando-lhe ordens legais para serem cumpridas. que consta do Manual de Prática Policial (PMMG. 83. segue por todo o leque de opções (veja o lado direito do modelo). durante e depois do emprego da força. Caso ele comece a acatar suas determinações. temos as respostas (reação) de força possíveis por parte do policial. do lado direito. polícia! Não se mexa! Tranquilo! Vire-se! A voz também pode significar um grau de controle. representados por cores. sugerese baixar o tom de voz. É idêntico ao modelo FLETC estudado anteriormente. a resposta do policial vai sempre ser orientada pelo comportamento adotado pelo suspeito. indicando o processo mental de avaliação do comportamento e seleção das melhores alternativas por parte do policial. mas tem algumas diferenças importantes. O uso da força será apenas aquela necessária para controlar o suspeito. É representado em forma de trapézio com degraus em seis níveis. Este é o modelo proposto pela Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG).: Parado.Direitos Humanos.5 Modelo da Polícia Militar de Minas Gerais Fonte: PMMG. Na prática. Isso serve para lembrar ao policial de que sempre deverá verbalizar e comunicar-se com o suspeito. 2002. O importante é lembrar-se de que os comandos verbais devem ser em linguagem profissional. 2002. firme ou moderado. Você pode ter um tom alto. temos a percepção do policial em relação à atitude do suspeito e. tentando convencê-lo de desistir de seu intento de desobediência ou agressão.

Os modelos demonstrados nesta aula foram construídos levando em consideração alguns dos elementos descritos. estudos de caso. a fundamentação legal vigente no tocante ao uso da força e armas de fogo e seu entendimento por parte do Ministério Público e Poder Judiciário. A conseqüência é que haverá menos hesitação por parte dos policiais. até mesmo pelas diferentes missões constitucionais afetas a cada uma. o uso de um modelo é realizado por meio da distribuição de cartões plastificados para policiais e de cartazes colocados em locais de reuniões. sobretudo. É necessário que um modelo reflita. o assunto no Brasil não é consenso entre as organizações de segurança pública. 76). bem como causar lesões aos abordados. o que certamente conduzirá à melhoria das habilidades em controlar as pessoas abordadas com menos emprego de força. entre outros. a divulgação ampla do modelo escolhido é o segredo para o sucesso de seu emprego. Manter-se calmo demonstra seu profissionalismo. um modelo dá amparo à organização policial e ao próprio policial em poder se 75 . durante o treinamento de abordagens. tipo de armas e equipamentos “não letais” colocados à disposição dos policiais da linha operacional e treinamento de seu uso. Estes são apenas alguns elementos que devem passar pela mente dos profissionais que estruturam um modelo. 7. Um modelo deve traduzir a consistência das ações esperadas do organismo policial. a realidade social em que cada uma das polícias estava inserida. Uma certeza jurídica é fundamental quando se trata de emprego legal da força e armas de fogo. mas. Na prática. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 vontade legal de que o abordado cumpra suas determinações. De acordo com RESENDE (2001. tais como abordagem. antes de tudo. p.Direitos Humanos.2 Elementos de Discussão para o Modelo Básico de Uso da Força a ser Adotado pelas Organizações de Segurança Pública no Brasil Quais são os elementos que devemos discutir para a adoção de um modelo de uso da força nas organizações de segurança pública no Brasil? A resposta passa pela identificação da efetiva necessidade da construção de um modelo próprio. Um modelo básico dará padronização de treinamentos e segurança às decisões tomadas pelo policial da linha operacional. imobilizações táticas e defesa pessoal ensinada aos policiais. Outra conseqüência desejável é a redução das possibilidades de o policial se ferir desnecessariamente. instruções e treinamento de tiro. pois este terá o conhecimento necessário para decisões objetivas e acertadas. Um modelo básico passa também pela unidade de procedimentos operacionais. O envolvimento desses segmentos é fundamental para a legitimidade e amparo das ações operacionais. em salas de aula. Assim como em outros países. Por fim.

“armas intermediárias” ou “armas não letais”. Em quase todos os modelos de uso progressivo da força que você estudou. especialmente o direito à vida. p. Diferentes grupos sociais tendem a ver o uso da força por parte da polícia de diferentes maneiras. “táticas e armas/agentes químicos”. Isso certamente conduziu para a evolução do conceito e desenvolvimento de armas “não letais”. Por esse motivo. Estude suas características e como ele ampara seu trabalho e de seus colegas na atividade operacional em situações em que haja necessidade do emprego da força e armas de fogo. 7. Mas o que são esses sistemas de armas chamadas de “não letais”? De acordo com ALEXANDER (2003. esta sociedade deu à sua polícia opções diferenciadas de neutralização da ameaça proporcionada pelo infrator. Pois a polícia no seu trabalho não pode errar. A sociedade atual está cada vez mais consciente de que os direitos fundamentais devem ser protegidos pelas organizações policiais. A conseqüência desta relação é que os policiais passam a usar menos a força e as armas de fogo no seu trabalho. ferimentos permanentes no pessoal. Por esta razão.Direitos Humanos. armas “não letais” são as especificamente projetadas e empregadas para incapacitar pessoal ou material. ao mesmo tempo em que minimizam mortes.3 Possibilidades e Restrições Técnicas e Tecnológicas no Uso da Força por Profissionais de Segurança Pública Você já deve ter constatado que boas práticas policiais conduzem a uma relação positiva com a comunidade. a evolução de técnicas e equipamentos para o enfrentamento à criminalidade deu-se de forma muito acentuada nas últimas duas décadas. pois passarão a ter um instrumento legal e legitimado de trabalho na defesa da sociedade a que servem e buscam proteger. 19). danos indesejáveis à propriedade e comprometimento ao meio ambiente. Entretanto. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 defender de possíveis acusações. mas na diferença de valores básicos que permeiam os diferentes grupos de pessoas da sociedade. não pode arriscar-se a causar um resultado indesejável. e muitas vezes irreversível. deve ter notado expressões como “táticas defensivas não letais”. a maior dificuldade que as organizações encontram para se explicarem quando da necessidade do uso da força reside não das diferenças das situações em que são constatadas. Procure conhecer o modelo de uso progressivo da força de sua organização policial. Deixou de ser aceitável socialmente o emprego de força letal na ação policial. 76 .

São exemplos de sistemas de armas e munições “não letais”:             Balas de borracha/plástico Munições “bean bag” (“sacos de feijão”) Cilindros de madeira Cilindros de espuma Canhão d’água Redes Granadas de CN/CS Spray de Pimenta (OC) Espumas aderentes Luzes estonteantes Granadas de luz e som TASER 77 . 83) enfatiza que as tecnologias para o desenvolvimento de armas “não letais” deixaram de ser obstáculo à consecução dos objetivos da aplicação da lei. o uso desses sistemas deve ser alvo do mesmo critério de monitoramento e controle de armas tradicionalmente letais. Entretanto. Alexander (2003. engenharia elétrica. procure também conhecer outros estudos e pontos de vista sobre os efeitos adversos que essas armas. ou mesmo. biológica. Os obstáculos de ordem econômica podem ser superados caso haja vontade política. Dotar os policiais com opções para uso diferenciado da força e sistemas de armas e munições “não letais” deixa de ser algo desejável para ser algo obrigatório. Entretanto. p.Direitos Humanos. física. não produzir erro algum. É a sofisticação das armas “não letais” e “menos letais” que irá proporcionar as estreitas margens de erro desejadas. Como profissional de segurança pública você deve estar consciente que existe muita propaganda sobre os efeitos positivos de uso de armas. engenharia acústica e informática. munições e sistemas podem causar. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 O autor explica ainda que o termo “não letal” deve ser entendido como os que reduzem a possibilidade de morte. munições e sistemas chamados de “não letais”. Lembre-se e faça relação com o que você estudou na aula passada nos Princípios Básicos do Uso da Força e Armas de Fogo. Por esta razão é que as forças policiais costumam empregar a terminologia “menos letal” (less than lethal). A distribuição aos policiais somente deve ser feita depois de treinamento apropriado. pois nada irá impedir que seu uso indevido. por pessoas não capacitadas possa ocasionar efeitos letais. As armas “não letais” incorporam uma ampla gama de tecnologias: química.

as armas não letais são uma alternativa para evitar vítimas em ações policiais. Diz-se que não há polícia quando se precisa dela. um infrator. É essa força que garante que a comunidade não se submeta à vontade de criminosos e infratores. seja para conduzir crianças e adolescentes em situação de risco e abandono que se tornam autoras de atos infracionais à delegacia ou conselho tutelar. O Policial deve ser o primeiro a cumprir a lei. muitas vezes.Direitos Humanos. e saiba mais sobre o uso dessas armas. Os treinamentos devem levar em consideração estudos de casos reais ocorridos na sociedade em que trabalha. A polícia é vista em todos os lugares e a ela está associada a força. bem como o estudo de casos emblemáticos nacionais e internacionais. seja em um atendimento emergencial por falta de ambulância. podem decidir pela vida ou morte de uma pessoa. Um mecanismo de controle que pode ser utilizado pelas corporações é a constância e periodicidade no treinamento e instrução do uso da força e armas de fogo. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 Para Saber Mais Pouco usadas no Brasil. Essa força legal e legítima está presente diariamente em nossas vidas. Um policial bem instruído e treinado cometerá menos erros na atividade operacional. é fundamental que haja um controle formal sobre o uso da força e das armas de fogo e sobre quem tem o poder de utilizá-las. entre outros. 7. contudo ela aparece onde normalmente o restante dos setores estatais não conseguiu estar. Quem exerce esse poder? Quem exerce esse controle? O primeiro controle advém dos três princípios já estudados neste curso. necessidade e proporcionalidade. um criminoso. Leia o texto “O emprego de armas não letais em operações de garantia da lei e da ordem”. Sendo assim. mediar discussões de casais. isto é. que são legalidade. 78 . Um policial que abusa do poder que lhe foi conferido pela sociedade torna-se aquilo que ele deveria combater.4 Necessidade de Controle do Uso de Força e Armas de Fogo pelos Profissionais de Segurança Pública A demanda por serviço policial no Brasil é uma constante diária que abarca todas as classes e segmentos de uma comunidade. abala a imagem de sua corporação e de seus colegas e ainda aumenta a sensação de insegurança da comunidade. Policiais são cidadãos com poderes especiais. Ele perde sua autoridade e sua credibilidade. Princípios esses que devem ser lembrados pelo próprio policial. que implicam o uso da força para restabelecer a ordem quando a paz social é violada e que. de Francis Gomes Roos. resolver problemas de trânsito. seja para resolver disputas entre vizinhos.

Por fim. justamente por concentrar grandes poderes. O que indica explicitamente a necessidade de controle e supervisão no uso da força e armas de fogo pelos órgãos de segurança pública. que observa e controla a obediência dos compromissos assumidos pelos Estados na aplicação dos princípios e normas de direitos humanos.Direitos Humanos. experiências e atividades. a quem é destinado o serviço prestado. 79 . tais como o Ministério Público e as Ouvidorias de Polícia. no âmbito da qual a responsabilidade individual será sempre cobrada e onde os mecanismos de fiscalização e revisão de procedimentos são os controle imediatos para a correção de comportamentos inadequados. entende-se que há três níveis de responsabilidade que precisam ser conhecidos:    Perante a comunidade internacional. Finalizamos aqui nosso estudo de modelos de uso progressivo da força (os cinco modelos mais utilizados pelas forças policiais). Perante a própria organização policial. Assim. a atividade policial. munições e sistemas “não letais”. Ética Profissional e Cidadania Aula 07 Outro mecanismo é o controle interno da atividade policial desempenhado pelas corregedorias de polícia. fazendo e propondo ações corretivas de procedimentos com base nas tendências dos desvios de conduta apurados em procedimentos disciplinares ou judiciais ocorridos. deve ter mecanismos fortes de controle. assim como a evolução técnica do uso da força com a utilização de armas. É necessário num Estado democrático e de direito que a corporação policial seja transparente em suas ações. Os três níveis de responsabilidade devem funcionar em perfeito entrosamento. Esperamos que você tenha aproveitado ao máximo o que esta disciplina apresentou em termos de conteúdos. pois são interdependentes. preste contas constantemente ao governo local e à sociedade. Há também mecanismos externos de controle. Perante a sociedade e comunidade local.

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as convênções de Viena sobre relações diplomáticas. Denomina-se tratado o ato bilateral ou multilateral de especial relevância política. Nessa categoria destacam-se. Aparece designando acordos menos formais que os tratados. ainda. o Tratado de Assunção. decidir ou julgar ex aequo et bono é decidir ou julgar por eqüidade. os tratados de paz e amizade. e o Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares. Na prática diplomática brasileira. P Protocolo – Termo utilizado nas mais diversas acepções. o Tratado de Cooperação Amazônica. a estabelecer normas para o comportamento dos estados em uma cada vez mais ampla de setores. as convenções sobre aviação civil. para designar a ata final de uma conferência internacional. relações consulares e direito dos tratados. Ética Profissional e Cidadania Glossário C Glossário Convenção – Termo comumente empregado para designar atos multilaterais. Assim. É utilizado. um acordo internacional. embora poucas.Direitos Humanos. sob a forma de "protocolo de intenções" para sinalizar um início de compromisso. "segundo a equidade e o bem". 84 . é usado. celebrada com a Argentina (1980). para designar. E Ex Aequo et Bono – Expressão latina comumente empregada na terminologia do direito para exprimir tudo o que se faz ou se resolve. celebrada com a Bélgica (1955). convenções bilaterais. de 1969. que criou o Mercosul. como a Convenção destinada a evitar a dupla tributação e prevenir a evasão fiscal. T Tratado – Expressão escolhida pela Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Há também algumas. tanto para acordos bilaterais quanto para acordo multilaterais. o Tratado da Bacia do Prata. genericamente. muitas vezes. por exemplo. É um instrumento internacional destinado. em geral. acordos complementares ou interpretativos de tratados ou convenções anteriores. como por exemplo. segurança no mar e questões trabalhistas. e a Convenção sobre Assistência Judiciária Gratuita. oriundos de conferências internacionais que versam sobre assuntos de interesse geral.

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