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As Transformações na Baia de Ilha Grande Cristina Rodrigues Teixeira Doutorandaem Ciências Ambientais pelaUniversidade

As Transformações na Baia de Ilha Grande

Cristina Rodrigues Teixeira

Doutorandaem Ciências Ambientais pelaUniversidade de Taubaté Mestre em BiologiaAmbiental – UFPA Bacharel e Licenciadaem Ciências Biológicas Professorado Colégio Militar do Rio de Janeiro

RESUMO

Este trabalho apresenta alguns dos agentes que vêm atuando na Baía de Ilha Grande, desde 1749, quando existiam cerca de quinze engenhos de açúcar, até os dias atuais, quando as principais atividades no local dizem respeito ao turismo e à pesca. Na atualidade, vislumbramos os efeitos da construção da estrada BR101, a demolição do Instituto Penal Cândido Men- des, a expanção do turismo, a expeculação imobiliária com a construção de grandes condomínios sobre áre- as de manguezal ou costão rochoso, lançamento de esgoto in natura no mar, incentivo à pesca industrial, entre outros que modificaram as relações do homem local com o ambiente, além do crescente aumento populacional que é uma conseqüência das novas for- mas de produção que requer importação de mão de obra especializada. Por outro lado, temos o desloca- mento dos trabalhadores tradicionais da pesca, para o terceiro setor, onde passaram a ocupar cargos de ca- seiros, garçons, guias regionais e vendedores. Assim sendo, a entrada do capital urbano levou à criação de novos empregos, inchamento das vilas da Ilha Gran- de/RJ e em especial a Vila do Abraão. Atualmente, o governo e organizações não governamentais tentam encontrar soluções no sentido de melhorar a qualida- de de vida local e preservar o meio ambiente, bem como as comunidades de pescadores locais.

PALAVRAS-CHAVE

Produção do espaço. Pesca, turismo. política.

Ecologia

INTRODUÇÃO

Os estudos sobre a produção do espaço foram in- troduzidos por Le Febvre (1978), em seu trabalho De L’État. Para o autor, o Estado era o principal agente de produção do espaço, o qual era responsável pela cria-

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ção de projetos de desenvolvimento, pela elaboração de estratégias, execução e gestão. Hoje, após entrarmos no século XXI, o assunto produção do espaço continua atual e enriquecido com

o surgimento de novos agentes de construção, trans-

formação e destruição de espaços, além de novas

tecnologias (como por exemplo as telecomunicações

e a informática), que introduziram novos meios de

produção do espaço e aperfeiçoaram aqueles já exis- tentes, bem como tornaram as transformações mais rápidas e profundas. Neste sentido, este trabalho tem por objetivos apresentar de modo sucinto alguns dos agentes (go- verno, empresas privadas, estatais, barqueiros, entre outros) que vêm atuando na Baía de Ilha Grande, e as conseqüências desta atuação principalmente sobre o espaço da pesca, deixando claro de que forma as trans- formações têm ocorrido em nível local.

ENQUADRAMENTO NO CONTEXTO REGIONAL HISTÓRICO

E

A Ilha Grande localiza-se entre as coordenadas 23 o 5’

e 23 o 14’ de latitude sul e 44 o 5’ e 44 o 23’ de longitu- de oeste, na denominada Costa Verde (litoral sul fluminense). É uma região de especial significado para o Estado do Rio de Janeiro por seu potencial eco- nômico (geração de energia, pesca e turismo) e eco- lógico (parte da Reserva da Biosfera representada pela área de ocorrência da Mata Atlântica). Segundo o Plano Diretor do Parque Estadual da Ilha Grande (UFRRJ/FIEF,1992), a Ilha Grande pertence ao município de Angra dos Reis, e está subdividida em dois distritos: Araçatiba (porção oeste) e Abraão (parte leste da Ilha). O município de Angra dos Reis, em conjunto com o de Paratí, compõe a Micro Re- gião Homogênea da Baía de Ilha Grande (MRH 123). Esta última possui várias similaridades com a Micro Região Homogênea Fluminense do Grande Rio (MRH121), no que diz respeito às condições

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similaridades com a Micro Região Homogênea Fluminense do Grande Rio (MRH121), no que diz respeito às
fisiográficas, agrícolas e turísticas. Além disso man- tém um estreito relacionamento com a cidade e

fisiográficas, agrícolas e turísticas. Além disso man- tém um estreito relacionamento com a cidade e o porto de Mangaratiba, no que se refere ao comércio

e ao transporte marítimo (COSTA, 1992; UFRRJ/

FIEF,1992)

Na região da Baía de Ilha Grande, durante o sécu-

lo XVIII, havia um predomínio das elites agrárias, que

investiam principalmente no plantio da cana de açú- car. Este exerceu um importante papel no desenvolvi- mento de Angra dos Reis, que, apesar das dificulda- des de acesso ao local, em 1749 chegou a registrar, um total de 15 engenhos para produção de cana e 91 engenhos para produção de aguardente. Durante o ciclo do café, a produção angrense chegou a repre- sentar entre 5 a 10% do total da província do Rio de Janeiro, atingindo 10.000 arrobas (150.000 kg) de pro- dução em 1811. Em 1820 foi exportado um total de 50.000 arrobas de café dos portos de Mangaratiba, Ilha Grande e Parati (FERREIRA, 1958; GUIMARÃES,

1990).

A Ilha Grande também foi palco de um grande desenvolvimento agrícola, uma vez que, além do cul- tivo da cana de açúcar e do café, também apresentou boas safras de laranja, banana e pasto. O cultivo da cana-de-açúcar prosperou no século XVIII e perdurou até a primeira metade do século XIX , enquanto que o café foi introduzido um pouco mais tarde, entre 1772 até 1890, chegando a ser exportado para Europa. Entre os séculos XVIII e XIX, a Ilha Grande também se tornou centro de desembarque e tráfico de escra- vos negros trazidos da África. No entanto, a partir da segunda metade do século XIX, houve uma expansão cada vez maior da cafeicultura em direção a regiões mais propícias (com terras mais férteis, com menor declividade, saneamento, drenagem das baixadas e maior acesso às inovações tecnológicas e estradas mais adequadas) Este fato associado ao término do tráfico de escravos a Ilha Grande, levou-a, bem como sua área de entorno, a uma rápida decadência da ca- feicultura. Desta forma, os cafezais foram aos poucos sendo abandonados. Surgiu também uma série de fa- tores no local que contribuíram para que isso ocorres- se, tais como: dificuldades de importação de mão-de- obra e escoamento da produção. No caso da Ilha Gran- de estas foram as principais razões para que a deca- dência da cafeicultura fosse bem maior e mais acele- rada do que em áreas próximas do continente (FERREIRA, 1992; NESI; 1990; TOFFOLI, 1996). Com o declínio da agricultura, as fazendas de café foram

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abandonadas e nestas áreas iniciou-se a regeneração das capoeiras e etapas posteriores de sucessão vege- tal. Aos poucos a atividade pesqueira na Baía de Ilha Grande veio a substituir a agricultura decadente, ten- do seu início na década de 1930. Desde 1945, o Estado brasileiro já propunha políti- cas de aceleração e desenvolvimento que favoreci- am a indústria do sudeste brasileiro (CASTRO,1992). As áreas metropolitanas desta região vinham se tor- nando o que Armstrong e McGee (1985), chamaram de teatro da acumulação urbana, para onde o capital nacional e/ou internacional convergem e onde as riquezas estão concentradas entre as classes altas. A partir do decreto-lei 221, de 1967, o governo brasileiro passou a conceder volumosos subsídios à pesca empresarial capitalista em detrimento da pesca artesanal (DIEGUES 1995). Nesta época já havia o co- nhecimento do fato de haver grandes estoques pes- queiros no sudeste do país, tais como a sardinha, a pescada, o camarão. A existência de numerosos car- dumes, associada à facilidade de captura em grande escala, a proximidade dos centros consumidores de grande importância e a acumulação de capital leva- ram ao surgimento de uma pesca empresarial capita- lista. Esta última se consolidou a partir de 1967, com a lei de incentivos fiscais criada pela Superintendência do Desenvolvimento da Pesca. Inúmeras empresas foram implantadas para captura do camarão e outras espécies voltadas para exportação. Cerca de 94% das empresas incentivadas eram do centro-sul do Brasil (DIEGUES, 1983; MELLO,1985). No entanto, a Baía de Ilha Grande, apesar de pró- xima a grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, foi menos impactada (por esses proces- sos de industrialização da pesca) do que outras loca- lidades até a década de 1970, devido ao difícil aces- so. O fato de a Serra do Mar ser muito íngreme, co- berta por uma densa Floresta Atlântica e com altos índices pluviométricos dificultava a construção e ma- nutençãode estradas. Emconseqüência, uma boa parte da Mata Atlântica não chegou a ser desmatada, a maioria das praias continuou em seu estado natural e as pequenas cidades, vilas e povoados conservaram sua arquitetura e cultura tradicional (UFRRJ,1992). Por outro lado, este fato tornou os pescadores locais pou- co articulados com o mercado e a pesca artesanal pôde persistir até recentemente, utilizando trabalho intensivo, métodos de produção adequados e volta- dos para a subsistência (HOEFLE,1992).

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utilizando trabalho intensivo, métodos de produção adequados e volta- dos para a subsistência (HOEFLE,1992). 4 2
No início da década de 1970 a EMBRATUR elabo- rou um projeto de aproveitamento turístico

No início da década de 1970 a EMBRATUR elabo- rou um projeto de aproveitamento turístico do litoral Rio-Santos (Projeto TURIS), no qual se incluía a cons- trução da rodovia Rio-Santos (BR 101). A região foi classificada como “classe A”, sendo reconhecida como “Zona de Prioritário Interesse Turístico” (Decreto 71.791, de 31/01/1973), e apesar de, em 1972, ter sido con- siderada Área Prioritária para Reforma Agrária (Decre- to 70.986, de 16/08/1972), determinando naquela ocasião que o INCRA, em cento e oitneta dias deveria preparar um Plano Regional de Reforma Agrária (GUANZIROLI, 1983). Como conseqüência da política adotada naquela época, foram incentivadas as construções de hotéis de luxo (cinco estrelas), condomínios fechados e o loteamento de grande áreas. Tanto os hotéis como os condomínios fechados tomaram para si, em caráter de “exclusividade”, a maioria das praias e inclusive ilhas desse litoral (UFRRJ/FIEF,1992). Com a construção da BR 101 (Rio-Santos) e seus ramais, abriu-se precedentes para a entrada de agen- tes do capital urbano industrial advindo de grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo. Inicialmen- te os investimentos se concentraram em atividades de turismo e lazer, no entanto a rápida valorização do camarão atraiu investidores do setor de pesca. Uma outra consequência para a construção da BR 101, foi que o transporte que era feito quase exclusi- vamente pela linha férrea, que ligava o Rio de Janeiro até Mangaratiba, decaiu de tal forma que hoje, a ma- lha ferroviária está praticamente desativada do local e, é somente utilizada para o transporte de minérios e mercadorias. Por outro lado, a construção da rodo- via Rio-Santos trouxe vários problemas ambientais tais como a destruição de boa parte dos manguezais (COS- TA, 1992). Observa-se no entanto que a Ilha Grande/RJ, ape- sar da entrada de capital na região e da construção da BR 101 e seus ramais, continuou afastada dos proces- sos de expansão dos setores de turismo e da especu- lação imobiliária devido a existência do Instituto Pe- nal Cândido Mendes. O presidio foi fundado em 1940, com objetivo de isolar do centro urbano, os presos de alta periculosidade e dificultar suas fugas, para tanto foi escolhida a Praia de Dois Rios por estar localizada de frente para o mar aberto e relativamente próxima da Vila do Abraão. Este presídio abrigava até 1.200 presos e empregava cerca de 120 pessoas por ano. Embora o número de incidentes de natureza policial

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fossem pequenos e a evasão de presos fossem casos

raros e controláveis, a existência deste causava um certo clima de insegurança nos possíveis turistas e reduziu a frequência dos mesmos na ilha até meados de 1994, quando então este foi desativado (UFRRJ/

FIEF,1992).

A desativação do presídio começou a ser discutida

no início da década de 1990, entre as várias razões estavam na dificuldade na administração dos sistema penitenciário e seu custo operacional elevado, além do fato de que para os familiares dos presos, existiam inúmeras dificuldades para visitação. Por outro lado havia uma proposta de que se o governo estadual abrisse concessão de uso por um período definido de tempo da área da praia de Dois Rios, este receberia em troca uma nova unidade penitenciária construída em outro local (RIO DE JANEIRO, 1991) Desta forma, o governo estadual aceitou a propos- ta e, em troca da desativação e demolição do presídio para construção de um complexo turístico na Praia de Dois Rios, obteve a construção do presídio de segu- rança máxima Bangu 1.

AS FORMAS DE PRODUÇÃO PESQUISA E AS CONSEQUÊNCIAS DA ENTRADA DO CAPITAL UR- BANO

Na Baía de Ilha Grande existem várias formas de produção pesqueira. Estas foram surgindo na medida em que a região foi se aproximando dos grandes cen- tros urbanos e foram conseqüência da expanção das redes e da introdução do capital urbano-industrial. Dentre elas podem ser destacadas a pesca de subsis- tência, a pequena produção mercantil e a pesca em- presarial capitalista.

A pesca de subsistência (praticamente extinta) é

aquela realizada em locais isolados, por pequenos agrupamentos humanos, aliada a outras atividades como a caça, coleta e uma pequena lavoura também

de subsistência. É sobretudo uma economia de troca, onde só existe a produção de valores de uso. Em ge- ral não há mediação da moeda nas trocas existentes e o eventual excedente é bastante reduzido. A unidade de trabalho é a própria família (MOURÃO, 2003; MANESCHY,1995 ).

A pequena produção mercantil (também conheci-

da como pesca de pequena escala) tem como princi- pal característica a produção de valor de troca em maior ou menor intensidade. Em outras palavras, o

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como princi- pal característica a produção de valor de troca em maior ou menor intensidade. Em
produto final (o pescado) é buscado tendo-se como objetivo a sua venda. Isso pressupõe uma

produto final (o pescado) é buscado tendo-se como objetivo a sua venda. Isso pressupõe uma certa divi- são social do trabalho já como os produtores mais ou menos especializados. O trabalho em geral tem ca- racterísticas familiares, a tecnologia empregada se caracteriza pelo baixo poder de predação. O processo produtivo gira em torno de instrumentos de produ-

ção obtidos pela familia ou pelo individuo. A unidade de produção, é a apropriação do produto regido pelo sistema de partilha (partes do produto são distribuídas aos participantes da pesca) (DIEGUES,1995;

MANESCHY,1995).

Existem dois subtipos:

a) A produção mercantil simples realizada pelos

pescadores-lavradores: Esta modalidade de pesca é

uma atividade ocasional do pequeno agricultor, restri-

ta aos períodos da safra (da sardinha por exemplo). O

pescado pode ser salgado e seco para o consumo direto ou venda. Ele constitui uma das fontes de di- nheiro disponíveis para compra de outras mercadori- as essenciais. A pesca se insere dentro de atividades predominantemente agrícolas que constituem a base de subsistência e organização social dos pescadores

da Vila do Aventureiro, na Ilha Grande, na qual é típica

a lavoura-caiçara, centrada no plantio da mandioca,

associada ao artesanato caseiro e a coleta de frutos (TOFFOLI, 1996).

b) A produção mercantil ampliada: Ocorre normal-

mente durante o processo de urbanização. Esta mo- dalidade de pesca, além de algumas características da produção mercantil familiar, acrescenta novas carac- terísticas tais como o fato da pesca deixar de ser uma atividade complementar para ser a principal fonte de produção de bens destinados a venda a medida que surgem os excedentes, utilizados na compra de em- barcações motorizadas, que exigem uma tripulação, mão de obra apropriada que nem sempre é familiar. A

atividade pesqueira passa a ser a principal fonte de renda propiciando uma maior produção de exceden- tes, cuja distribuição entre os pescadores passam a ser introduzidos padrões menos igualitários. Por exem- plo o dono do barco sempre recebe uma parte a mais que os demais pescadores, assim como o dono da rede, etc. Devido a exploração de ambientes mari- nhos e costeiros, surgem as exigências de conheci- mentos específicos, que anteriormente não eram ne- cessários para o pescador-lavrador. A propriedade dos meios e instrumentos de produção passa a ser um elemento fundamental em toda a organização produ-

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tiva. Há um avanço tecnológico importante com o uso de barcos motorizados, redes de nylon, novos processos de conservação e transporte do pescado, etc. (DIEGUES,1995; MANESCHY,1995). As modalidades de pesca de pequena escala ape- sar de serem ameaçadas pela penetração urbana, pa- radoxalmente também são beneficiadas por ela: Se por um lado os pescadores de pequena escala são pressionados tanto por terra quanto por mar devido a competição e especulação, por outro lado estes pes- cadores passam a ter acesso aos grandes mercados urbanos que permitem aos pescadores vender uma grande quantidade de pescado por preços mais altos, bem como tem acesso à novas tecnologias que antes não possuíam, um exemplo disso é a substituição dos barcos a vela por barcos à motor diesel (HOEFLE, 1992; MELLO, 1993). Essas inovações permitem aos pesca- dores buscarem o cardume cada vez mais longe, re- duzindo o número de horas semanaistrabalhadas (seis horas por dia e 5 dias por semana) e aumentando a produção. Por outro lado as atividades vinculadas ao período de entressafra do peixe estão aos poucos desaparecendo. c) A pesca empresarial-capitalista, que é caracteri- zada pela propriedade e/ou posse dos instrumentos de produção nas mãos de corporações (empresas privadas), organizadas verticalmente, possuindo diver- sos setores, como o da captura, cormercialização, in- dustrialização, etc. Os pescadores nesta modalidade de pesca são remunerados por salário e não mais com partes sobre a produção, além de perder seu poder de decisão no que diz respeito a quanto pescar, onde pescar, onde descarregar, etc. Essas decisões passam a ser tomadas pelos depar- tamentos de captura ou de operações. A pesca em- presarial também introduz novas tecnologias como sonares e radares que acabam por tornar desnecessá- rio o conhecimento empírico do mestre de pesca de pequena escala. Por fim, a produção em grande esca- la passa a ser implementada com barcos de tonela- gem que exigem uma ampla estrutura em terra, etc. (DIEGUES,1995; MELLO 1993). Ao se examinar a formação social existente, pode- se perceber que não há uma evolução de uma forma de organização para outra. Elas coexistem conflitivamente apesar de que, nesta articulação, a dominância é exercida pela forma em que o desen- volvimento das forças produtivas é maior; ou seja a forma de produção capitalista.

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pela forma em que o desen- volvimento das forças produtivas é maior; ou seja a forma
Há efetivamente processos que inviabilizam em maior ou menor grau a pequena pesca mercantil tais

Há efetivamente processos que inviabilizam em maior ou menor grau a pequena pesca mercantil tais como a expulsão dos pescadores-agricultores de suas terras nas praias pela especulação imobiliária e pela urbanização que desorganizam de forma acelerada, as atividades desses pequenos produtores. Ao mesmo tempo em que as atividades de pesca de subsistência vem desaparecendo, os pescadores da pequena pesca mercantil simples, acusam os no- vos donos da terra de dificultarem o acesso dos mes- mos ao uso da terra para lavoura de subsistência. No entanto estes pescadores tem tido pouco ou nenhum interesse em plantar. Com a introdução dos barcos a motor e a grande ênfase na pesca comercial, eles podem ir até o vilarejo mais próximo e adquirir suas

provisões, o que antes não era possível (HOEFLE, 1992; MELLO, 1993). Devido a entrada de novas tecnologias

e a grande necessidade de se aumentar os ganhos

mensais de dinheiro, houve também um incremento na competição entre os pescadores mercantis com as empresas de pesca que começaram a surgir. Como conseqüência, os pescadores passaram cada vez mais se especializar em apenas um tipo de pesca, como a do camarão, por exemplo (HOEFLE, 1992). Outro fato do qual se tem notícia é a articula- ção entre a pesca empresarial capitalista e a artesanal, na medida em que a primeira se apropria da produ- ção e da mão de obra da segunda, sem necessaria- mente desorganiza-la por completo (DIEGUES,1995; MELLO 1993; MANESCHY,1995), o que torna o ganho destes pescadores equivalente ao salário de proletári- os.

É fato que hoje os pescadores trabalham bem menos e ganham bem mais do que no passado, no entanto estão muito mais dependentes do mercado, além do fato de que a grande especialização implica em riscos maiores.

Por outro lado a crescente poluição, a sobre pesca (exercida pelas empresas de pesca capitalistas e pes- cadores artesanais) e a produção empresarial capita- lista também colocam em risco a produção e a repro- dução da pesca de pequena escala (DIEGUES,1988;

MANESCHY,1995).

Segundo Hoefle (1992), as antigas relações de tra- balho também podem reduzir os riscos e não causam proletarização embora não paguem salários quando

o resultado da pesca não é bom, ao contrário das

empresas de pesca. O produto da pesca é dividido em partes iguais entre o dono da canoa, o dono do

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motor, o dono da rede e para cada pescador envolvi- do. Com o advento dos motores à diesel, a parte que cada pescador recebe foi reduzida, devido ao fato das despesas serem descontadas antes da partilha do pro- duto da pesca. Todos os pescadores envolvidos na pesca mercantil ampliada, tem ganhos relativamente altos, mas alguns ganham muito mais do que outros o que vem causando uma grande diferenciação entre os pescadores locais, mas não uma polarização social. Ainda segundo Hoefle (1992), diferenciação social sempre existiu entre os pescadores do local, e as co- munidades de pesca nunca foram homogêneas. No passado um pescador de 60 anos de idade, teria con-

dições de acumular capital durante sua vida para com- prar diversas canoas de pesca para seus filhos usarem. Hoje a diferenciação é grande porque alguns ho- mens jovens e de meia idade tem sido capazes de acumular mais do que uma canoa ou barco de pesca. Os pescadores de média escala podem assim acumu- lar seus ganhos advindos da pesca, aumentando ain- da mais a diferenciação social entre eles e outros membros da tripulação. Pode-se também dizer que existe uma tendência

a uma polarização, em particular no setor das empre- sas de pesca que progressivamente tem penetrado na Baía de Ilha Grande durante os anos 1980. A escala alcançada é relativamente grande e o capital intensi- vo. Os grandes barcos de pesca do camarão e sardi- nha chegam até 30 metros de comprimento e são oriundos de portos distantes como o do Caju (Rio de Janeiro), Niteroi e Santos, acrecendo-se a estes, os portos mais próximos como os de Pedra de Guaratiba

e Angra dos Reis. Contrastando com a natureza diária

da pesca de pequena escala e com os barcos especializados na pesca do camarão que apenas uma semana no mar, aqueles que pescam sardinha po- dem ficar em alto mar por várias semanas. A Baía de Ilha Grande constitui uma das principais zonas pesqueiras do litoral sul fluminense. Os pesca- dos de maior incidência são a corvina (Micropogon sp), o camarão (peneídeos), a sardinha (clupideos), o cação (várias familias de elasmobrânquios pleurotremado) o peixe espada (Trichiuros sp) e o bonito (Euthynus sp). A produção dessa região tem sido desembarcada nos seguintes locais: Cais da Lapa (Angra dos Reis), Cais Pesqueiro, Mercado e Praia do Pontal (Paratí), Itacuruçá (Mangaratiba) e Ilha da ma- deira (Itaguaí). A atividade pesqueira, até 1997, no entanto não vinha se desenvolvendo adequadamen-

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e Ilha da ma- deira (Itaguaí). A atividade pesqueira, até 1997, no entanto não vinha se
te, uma vez que devido a uma estrutura deficiente de produção e comercialização (UFRRJ/FIEF,1992). Nos

te, uma vez que devido a uma estrutura deficiente de produção e comercialização (UFRRJ/FIEF,1992). Nos dias atuais esses problemas tendem a ser atenuados pela inauguração no novo Porto de Sepetiba. No en-

tanto outros problemas continuam a ocorrer tais como

a característica predatória da pesca exercida pelas

grandes empresas: grandes redes de arrasto tem sido

usadas e alguns dos barcos são equipados com sonares (importados que localizam os cardumes e posicionam

a rede em frente a este e que são acionadas por um

botão, e que capturam todo e qualquer peixe ou crus- táceo, o uso de redes com malha muito fina e o des- respeito ao período do defeso.

Por outro lado, a eliminação constante dos manguezais, associada à poluição das águas tem tam- bém prejudicado as atividades da população insular, que tem visto os estoques pesqueiros serem reduzi- dos a cada ano (UFRRJ/FIEF,1992; HOEFLE, 1992). A crescente especulação imobiliária, tem expulsa- do, os pescadores de suas colônias de pesca, para estes resta apenas a favelização dentro do perímetro urbano como a que vem acontecendo em Angra dos

Reis ou a migração para ilhas cada vez mais distantes

e cobertas pelo manguezal. Com isso tem ocorrido,

uma maior degradação dos manguezais e conseqüen- temente a redução dos estoques pesqueiros, uma vez que as áreas de manguezais são criadouros naturais de peixes e crustáceos. Assim o desmatamento dos manguezais prejudica ainda mais a pesca de pequena escala. Por outro lado o meio ambiente também tem sido degradadopelas constantes dragagens e derramamen- tos de óleos de embarcações, esgotos, turismo des- controlado e ocupação desordenada, que vem dizi- mando a fauna marinha. Segundo Araújo e Gianotti (1997), o derramamento de óleo dos barcos e de es- goto destruiu completamente a fauna e a flora de uma longa faixa à direita do cais da Vila do Abraão e que se o problema fosse resolvido hoje levaria 20 anos para que a natureza pudesse se recuperar. No entanto, não somente a natureza pode ser atingida pelo uso indevido das novas tecnologias: o derramamento de esgoto, lixo e produtos tóxicos na água, acaba por entrar na cadeia alimentar de crustá- ceos, moluscos e peixes que são alimentos importan- tes da dieta humana e que podem ser contaminados. Os banhistas também podem ser contaminados pela água. A falta de estrutura para tratamento e elimina- ção do lixo tem levado ao aparecimento dos lixões

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(inclusive clandestinos) que podem contaminar o len- çol freático e consequentemente a população. Usualmente, os membros de tripulação de gran- des pesqueiros, acreditam que sem o financiamento bancário é impossível comprar sua própria embarca- ção. Segundo Hoefle (1992), esse pensamento é bas- tante pertinente, uma vez que apenas 15% dos donos de embarcações foram membros de tripulação algum dia ou donos de canoas na pesca de pequena escala.

O restante dos profissionais eram funcionários públi-

cos ou comerciantes. Entre os comerciantes, poucos foram pescadores em algum momento de suas vidas, no entanto tinham tido profissões urbanas antes de

conseguirem juntar dinheiro para comprar uma em- barcação. Em outras palavras, isso quer dizer que os membros de tripulação não ganham o suficiente para que possam comprar um barco e ter sua própria tripu- lação para a pesca mercantil. A tripulação dos saveiros, em geral, ganha mais do que os pescadores mercantis, no entanto seu custo de vida é maior. Normalmente eles vivem em gran- des e médias cidades, nas quais eles tem gastos que

os pescadores mercantis não tem, como por exemplo

gastos com aluguel de residência e com alimentação e transporte. Segundo Hoefle (1992), os membros das tripula- ções da pesca mercantil também ganham mais do que os trabalhadores urbanos. Eles recebem aproxi- madamente o que o dono do barco recebe, o que vem atraindo mão de obra para o setor. Nos barcos de pesca da sardinha, a tripulação é composta de onze pescadores, organizados em uma complexa hierarquia que vai de capitão até os mem- bros comuns da tripulação. Estes últimos recebem apenas 3% do que foi capturado. Nos barcos da pesca do camarão, o lucro é dividido entre apenas 2 pesca- dores que recebem em média 15% do que foi captu- rado. Os membros das tripulações das empresas de pes- ca, recebem um salário fixo independente do que foi pescado. Eles sãoapenasempregados assalariados sem perspectivas de mobilidade social e que sofrem uma real subordinação ao capital. Após a década de 1970, a articulação com o mer- cado e as mudanças tecnológicas ofereceram gran- des oportunidades para os pescadores mercantis atra- vés do interesse dos investidores do capital urbano e da oportunidade de trabalho em traineiras em sua vi- zinhança. No entanto, em termos da disparidade so-

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urbano e da oportunidade de trabalho em traineiras em sua vi- zinhança. No entanto, em termos
cial, essas mudanças resultaram em uma diferencia- ção social, uma polarização. Nas áreas de fácil

cial, essas mudanças resultaram em uma diferencia- ção social, uma polarização. Nas áreas de fácil acesso aos investidores urbanos, as atividades de turismo e lazer predominaram e as colônias de pescadores locais começaram a desapare- cer, e em seu lugar surgiram casas e prédios, sendo que 79% destas eram residências de veraneio, pousa-

das, hotéis e restaurantes (UFRRJ/FIEF,1992; HOEFLE,

1992).

A cerca de 30 anos, os pescadores de pequena

escala, os tripulantes de traineiras e os donos de bar- cos pesqueiros moravam longe uns dos outros e o contato entre eles e com outros grupos era eventual.

Hoje esta situação mudou radicalmente depois do “boom” do turismo e o surgimento de novas catego- rias de trabalhadores. Hoje os pescadores de peque- na escala, os tripulantes dos barcos de turismo e os donos de barcos moram praticamente lado a lado e frequentemente fazem contrato para serem caseiros

e trabalhadores de meio expediente, em casas ou

empresas que muitas vezes pertencem a suas própri-

as famílias (HOEFLE, 1992).

O estilo de vida dos pequenos pescadores inde-

pendentes é o único que é superior ao dos caseiros que vivem na mesma área rural. O estilo de vida dos tripulantes de traineiras é superior aos dos pescado- res de pequena escala das ilhas. Isso acontece por- que a forma de vida urbana e o julgamento de valo- res daqueles que vivem nas cidades é mais alto do que aqueles de áreas rurais. Aqueles que vivem em áreas urbanas tem acesso a luz elétrica, eletrodomés- ticos, etc. Eles também tem melhor acesso a escolas e hospitais. Quase todos os finais de semana os turistas che- gam, oriundos de grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. A Baía da Ilha Grande é reconhe- cida como um “lugar da moda”, desta forma “atrai” a

nata da elite urbana que deseja uma alternativa para os balneários do norte fluminense. Estes turistas pos- suem um alto estilo de vida, como por exemplo al- guns executivos estrangeiros de empresas multinacionais e transnacionais no Brasil.

A enorme disparidade social entre esses turistas e

a população local tem sido cada vez maior. Alguns

destes chegam a comprar terrenos e construir casas

luxuosas que contrastam com a simplicidade do local

e que muitas vezes chegam a contribuir para um

desequilíbrio ecológico, como por exemplo as casas construídas sobre costões rochosos, aterros de

Rev. ciênc. hum, Taubaté, v. 12, n. 2, p. 41-51, jun./Dez. 2006.

manguezais, etc. Alguns destes novos donos de terras chegam a alterar completamente os ecossistemas de algumas ilhas (áreas cedidas pela marinha). Existem duas tendências em relação a disparidade

e a mobilidade social que tem sido identificadas nos

pescadores da região sudeste do Brasil. Nas localida- des de fácil acesso para o capital urbano, a pesca de

pequena escala vem desaparecendo e um clássico processo de proletarização e polarização social do

trabalho começa a ocorrer. Nos locais onde o acesso

é difícil, a pesca de pequena escala não somente so-

brevive mas também tem suas atividades capitaliza- das. Nestes locais há uma diferenciação social entre

os pescadores locais e aqueles recém chegados, mas

o uso imediato de tecnologias reduz os custos e au-

menta a produção, o que significa um incremento na mobilidade social (HOEFLE,1992). No entanto esses locais estão cada vez mais es- cassos, uma vez que o turismo tem se expandido cada

vez para mais longe. Soma-se ao desenvolvimento do turismo, a expanção do setor industrial com a instala- ção de três portos, uma usina nuclear e o parque industrial em localidades próximas. O Primeiro porto está localizado na Baía de Ilha Grande é um terminal de abastecimento de combustível, o segundo foi construído em Mangaratiba (Baía de Sepetiba), que é um terminal exportador de ferro. O segundo foi construído no final da Baía de Sepetiba sobre uma área de manguezal (local de procriação dos camarões) localizado próximo ao parque industrial. Os ambientalistas de um modo geral tem chama- do a atenção para a necessidade de um controle da poluição ambiental, enfatizando principalmente os poluentes líquidos (óleo por exemplo) que podem ser derramados nas águas da baía prejudicando a flora

e a fauna (ARAÚJO e GIANOTTI, 1997). O lançamento do esgoto sem tratamento prévio no mar, tem sido agravado pela expansão do turismo

e da especulação imobiliária. Este fato se dá uma vez

que a estrutura sanitária é precária, não dando vazão ao grande aporte de pessoas durante a alta tempora- da. Neste sentido a qualidade da água consumida pela população fica bastante comprometida, muitas vezes chegando barrenta às torneiras e muitas vezes chegando a faltar. Além disso o lixo muitas vezes é depositado em locais inadequados pela própria popu- lação local e pelos turistas comprometendo a balneabilidade dos rios e das praias como a do Abraão, na qual frequentemente vemos urubus pousados e

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a balneabilidade dos rios e das praias como a do Abraão, na qual frequentemente vemos urubus
cachorros brincando na areia e na água. Há também a poluição causada vazamentos de óleo

cachorros brincando na areia e na água. Há também a poluição causada vazamentos de óleo e lançamen- to de esgoto a poucos metros da praia, podem ser bastante comprometedores, tanto para os estoques pesqueiros quanto para a população. Isso porque este esgoto pode ser absorvidos pela fauna e flora entran- do na cadeia trófica, chegando à mesa dos consumi- dores humanos que inadvertidamente venham a con- sumir moluscos, crustáceos e peixes e que consequentemente irão se contaminar e contrair do- enças gastrointestinais (TEIXEIRA, 2006).

AS NOVAS OPORTUNIDADES DE EMPREGO

Como foi descrito anteriormente, a especulação imobiliária levou os pescadores a se deslocarem para áreas de manguezal, os quais são inapropriados para casas de veraneio. Grande parte dos pescadores emi- graram para outros lugares em áreas urbanas ou ilhas distantes, passando a trabalhar no setor de turismo. Um exemplo disso é a vila do Abraão onde a pesca praticamente deixou de existir dando lugar a pousa- das e hotéis de vários estilos, indo desde charmosas e com alpendres cobertos de flamboyants e cortinas de rendas nas janelas, até aquelas de fundo de quintal. Segundo Chacel (1998), há quatro anos a Vila do Abraão não abrigava nem dez pousadas, atualmente possui mais de cem, consideradas na conta constru- ções de fundo de quintal do tipo “aluga-se suítes”. No entanto as estimativas oficiais do município de Angra considera o total de pousadas como apenas sessenta em toda Ilha, sendo que quarenta destas estão sediadas no Abraão e as outras vinte no restante da Ilha. Na Ilha Grande/RJ, de uma maneira geral, também surgiram vários restaurantes, sorveterias, barraquinhas, lojinhas de artesanato, camelôs que oferecem tatua- gens e tererês (trancinhas entremeadas com miçangas), locadoras de vídeos, agências de turismo, locadoras de equipamentos de mergulhos, cyber ca- fés, mercadinhos, etc (CHACEL, 1998; TOFFOLI, 1996; TEIXEIRA, 2006). Assim, um grande número de pescadores foi viver em bairros pobres e sujos na periferia das cidades da Baía de Ilha Grande e se tornaram sub-empregados ou encontraram uma posição como membro de tripu- lação de traineiras. O “boom” do turismo, causou um rápido crescimento dessas cidades e ex-pescadores encontraram trabalho na construção civil, comércio e setor de serviços. Entre 1950 e 1980 a população ur-

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bana oscilou entre pequena e média, em Paratí e Angra dos Reis. Lá houve um crescimento de 266% da po- pulação urbana e 66% na população rural durante este período. Nesta área a força de trabalho expandiu 173% entre 1950 e 1980, no entanto no setor primário o crescimento foi de apenas 4%. Como o crescimento natural é de 2,8%, o setor primário pôde absorver um grande contingente de trabalhadores. Isto se refletiu proporcionalmente na força de trabalho empregada em outros setores. Em 1950, 32% da força de traba- lho era empregada no setor primário enquanto que em 1980 este setor empregou apenas 12% (BRASIL, 1955, 1983). Os ex-pescadores em geral conseguem encon- trar emprego em barcos de turismo como membros da tripulação, garçons em restaurantes ou como aju- dantes de pedreiros em construções, em todos estes locais eles recebem apenas salário mínimo. No caso de encontrarem trabalho em barcos de pesca de ca- marão eles viverão estas atividades nos portos de An- gra dos Reis e Pedra de Guaratiba (HOEFLE, 1992). Ainda segundo Hoefle (1992), sobrevivência dos membros de tripulação no setor da pesca do cama- rão, encontra-se em maior número em pescadores que cresceram nas ilhas e eles e seu parentes muda- ram-se para área urbana da baía nos últimos 20 anos. Como foi visto anteriormente, estes pescadores usam

o dinheiro que recebem para comprar melhores

moradias, no entanto tem maiores gastos e perdem sua autonomia e a possibilidade de mobilidade social. Os pescadores remanescentes das ilhas, que con-

seguem emprego no setor de turismo, em geral, tra- balham parte de seu tempo como caseiros em casas de veraneio. A situação econômica e social destes é inferior a dos membros de tripulação que trabalham em empresas de pesca ou como pequenos pescado- res independentes. Eles normalmente recebem um

salário mínimo sem os direitos que a legislação lhes confere (carteira assinada, décimo terceiro salário, fé- rias, seguro desemprego, acesso a saúde pública etc.) (HOEFLE,1992). A tendência dominante no continen-

te e nas ilhas próximas é a da proletarização e polari-

zação social. Os pequenos pescadores independen- tes tem sido eliminados, vivendo unicamente com uma baixa remuneração durante o período da alta estação do turismo. (UFRRJ/FIEF,1992) Em ilhas mais distantes, onde ainda existem pou-

cos hotéis e restaurantes, os pescadores locais são

aos

capazes de sobreviver, mesmo estando próximos

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existem pou- cos hotéis e restaurantes, os pescadores locais são aos capazes de sobreviver, mesmo estando
turistas. Nestes casos os pescadores são beneficiados com a presença de um número limitado de

turistas. Nestes casos os pescadores são beneficiados com a presença de um número limitado de turistas, uma vez que podem vender parte de sua produção à estes sem ter que ir até a o continente (UFRRJ/ FIEF,1992). Devido a expansão do turismo, os mem- bros das famílias de pescadores passaram a trabalhar meio expediente em pousadas ou sazonalmente como garçons e garçonetes em restaurantes e hotéis. O surgimento deste tipo de trabalho tem sido bom para estas famílias devido ao fato de que a alta estação do turismo ocorre simultaneamente na entre-safra do camarão. No entanto, esses empregos são interessantes apenas para homens e mulheres jovens e solteiros, por serem de meio expediente e de natureza sazo- nal. Os empregos de tempo integral no setor turístico em geral são oferecidos geralmente a homens mais velhos, como caseiros em casas de veraneio. O princi- pal problema deste tipo de emprego, são os baixos salários. No entanto, este tipo de trabalho pode ser conciliado com a pesca uma vez que eles não tem muito trabalho durante a semana, principalmente du- rante o inverno, quando ocorre o pico da estação da pesca do camarão. Os empregos como jardineiro ou outros empregos domésticos, são vistos como traba- lhos femininos, o que dificulta o sucesso de pescado- res em profissões mais flexíveis (TEIXEIRA, 2006;

HOEFLE,1992).

MOVIMENTOS SOCIAIS, AMBIENTAIS E AS NOVAS PARCERIAS

Devido as pressões que os pescadores da Baía de Ilha Grande/RJ vem sofrendo por parte das grandes empresas de pesca, estes tem se unido para pressio- nar os deputados estaduais para banir da região estas grandes empresas. Usualmente estes deputados visi- tam o local e prometem tentar resolver o problema em troca dos votos dos pescadores da região. Por outro lado, após a “Rio 92”, a questão ambiental veio a tona, e inúmeros são os movimen- tos ambientais que surgiram na região, no sentido de preservação do meio ambiente, principalmente no que diz respeito a Mata Atlântica. Esses movimentos vem sendo liderados por ONGs e vários departamentos de Universidades como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ), Universidade Estácio de Sá, etc. Neste sentido também tem surgido convênios e

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parcerias entre as prefeituras de Paraty e Angra dos Reis com grandes corporações estatais como Furnas, Petrobrás, ONGs, grupos estrangeiros e diversas uni- versidades, no sentido de se fazer um monitoramento ambiental e um trabalho de educação ambiental com

as populações locais. No entanto essas parcerias tam-

bém atuam no sentido social, através do ensino de

atividades rentáveis, às comunidades de pescadores, metodologias de cultivo de ostras e mexilhões, tece- lagem e métodos de cultivo em sistemas agro-flores- tais, o que vem a favorecer economicamente as famí- lias de pescadores mercantis. São exemplos destas parcerias os projetos Golfi- nhos, Pomar e Ambientes costeiros do sul fluminense.

O projeto Golfinhos, foi criado em 1990 surgiu da

parceria entre o Consulado Geral da Suíça, da Secreta- ria Municipal de Agricultura, Pesca e Meio Ambiente de Paraty, da Associação Comercial e Industrial de Paraty e FURNAS Centrais Elétricas S/A. Este projeto

tem como principal objetivo fazer o levantamento dos cetáceos que ocorrem na Baía de Ilha Grande, e tam- bém descobrir quais estão ameaçados de extinção para que possam diminuir ou afastar esta ameaça (HETZEL

e LODI, 1997).

O Projeto Ambientes Costeiros do Sul Fluminense,

surgiu da parceria entre FURNAS Centrais Elétricas S/A

e Universidade Federal do Rio de Janeiro e com o

apoio da Prefeitura de Angra dos Reis. Este projeto

tinha como objetivos principais fazer o levantamento

da biota da Baía de Ilha Grande, bem como a educa-

ção ambiental da população local.

Por fim o Projeto POMAR, surgiu das parcerias entre

o Instituto de Eco Desenvolvimento da Baía de Ilha

Grande (IED-BIG), IBAMA, FEEMA, PETROBRÁS, FURNAS,várias ONGs, Ministério da Agricultura e seis universidades entre as quais encontram-se a Universi- dade Federal Fluminense (UFF), a Universidade

Catolica del Norte (Chile) e a Universidade de Maryland (EUA), e que têm por objetivos o repovoamento da biota da Baía de Ilha Grande, iniciando pela criação de mexilhões em fazendas marinhas, pelas comunidades locais. Esta última passa então a criar uma nova ativi- dade para as comunidades locais. Neste sentido, o Instituto de Eco Desenvolvimen-

to tem feito grandes avanços, uma vez que em 21 de

outubro de 1998, inaugurou o primeiro pólo de maricultura da Baía de Ilha Grande, utilizando para isso a mão de obra local. Pode-se então, a partir desta discussão, concluir

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Baía de Ilha Grande, utilizando para isso a mão de obra local. Pode-se então, a partir
que o Estado ainda é um dos principais agentes que vem atuando na região da

que o Estado ainda é um dos principais agentes que vem atuando na região da Baía de Ilha Grande, embo- ra não da mesma forma que atuava até a década de 1970, quando melhorou a malha rodoviária no sul fluminense e construiu a usina de Angra 1. Um exem- plo desta nova atuação do Estado na produção do es- paço, é participação do mesmo associado ao capital urbano na década de 1990, quando então ocorreu a desativação e demolição do presídio de seguranças máxima que estava localizado na Ilha Grande. Fica bem claro também o papel do capital urbano investi- do no turismo e especulação imobiliária, bem como a atuação das grandes companhias de pesca locais e das corporações estatais como FURNAS e PETROBRAS. Hoje o Estado não tem mais o papel centralizador de todas as ações (criação e execução de projetos):

ele delegou poderes maiores aos governos dos esta- dos e municípios. O Estado também passa a aparecer como parceiro nas atuações de outros agentes como empresas particulares, elites, universidades etc. Observa-se também que, o destino dos recursos naturais da Baía de Ilha Grande e da pesca de peque- na escala, são bastante preocupantes. O local conti- nua sendo invadido pelo capital urbano e os pesca- dores tem se engajado no processo de capitalização da pesca e migrando para outras praias não tão próxi- mas. Por outro lado a introdução de motores nos bar- cos de pesca tem se mostrado crucial para as tecnologias intermediárias, que poderão ser elimina- das pela poluição ou ter sua mobilidade social seria- mente comprometida. Como foi demonstrado anteri- ormente a tripulação dos barcos de pesca do camarão e da sardinha tem muito pouca mobilidade social, ra- ramente chegando a possuir seus próprios barcos de pesca. Pode-se então concluir que a capitalização da pesca mercantil tem sido altamente benéfica para a população, no entanto a invasão e competição com as grandes empresas de pesca, associada a política industrial pode leva-la ao desaparecimento se esta invasão do capital urbano continuar sem que hajam limites para sua expansão. Por outro lado, esses limi- tes também podem tornar-se benéficos para os pró- prios investidores locais, uma vez que a conservação das paisagens naturais continuará a atrair turistas e, conseqüentemente, lucros certos para o setor de ser- viços.

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Cristina Rodrigues Teixeira 1

Doutorandaem Ciências Ambientais pelaUniversidade de Taubaté Mestre em BiologiaAmbiental – UFPA Bacharel e Licenciadaem Ciências Biológicas Professorado Colégio Militar do Rio de Janeiro

RuaSenador Vergueiro, 238/213 Flamengo - Rio deJaneiro CEP - 22230-001 e-mail: Cristina.teixeira@globo.com

TRAMITAÇÃO:

Texto recebido em: 28/06/05 Aceito para publicação: 22/06/06

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e-mail: Cristina.teixeira@globo.com T RAMITAÇÃO : Texto recebido em: 28/06/05 Aceito para publicação: 22/06/06 5 1