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O discurso esotérico da medicina chinesa: quando a religião se sobrepõe a uma

análise crítica

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Dentro da medicina chinesa pode definir-se o Qi como uma energia que circula por
entre determinados canais conhecidos como meridianos. Cada meridiano é constituído
por pontos de acupunctura. Estes pontos têm uma localização anatómica precisa e
possuem funções energéticas especificas assim como indicações clínicas precisas.

Na medicina chinesa existem pessoas que olham para o Qi mais como um conceito
abstracto que tenta definir uma determinada realidade clínica (o meu ponto de vista
preferido) e outras que defendem uma existência real e esotérica para o Qi. Este último
grupo de pessoas, regra geral muito dedicadas ao Qi Gong, aborda a medicina chinesa
sob uma perspectiva mais esotérica e menos clínica.

O seu discurso apesar de se parecer com um discurso clínico (dentro da medicina


chinesa) não é mais do que um discurso religioso onde Deus é trocado por Qi e uma
data de novos conceitos esotéricos vêem à luz do dia. Normalmente, este grupo de
pessoas, não aprecia uma abordagem científica da medicina chinesa e não gosta de
colocar em causa as suas crenças (é isso que são) sobre a realidade energética do
paciente. À primeira vista pode ser difícil distinguir uns e outros uma vez que a própria
linguagem da medicina chinesa leva a enganos.

As frases mencionadas a seguir são comuns nesse grupo particular:

1 – o Qi é tudo, é o oposto dos opostos, é tudo o que existe;

2 – pode o Qi ser uma energia tão avançada que a ciência ocidental só daqui a milhares
de anos a poderá detectar? Eu acredito que sim.

3 – o Qi não pode ser estudado mas pode ser sentido desde que a pessoa tenha o treino
adequado para o fazer.
4 – o Qi é imaterial, é uma realidade que ultrapassa a nossa capacidade de percepcionar
o mundo.

A primeira vez que ouvi a frase “o Qi é tudo, é o oposto dos opostos, é tudo o que
existe” fiquei bastante radiante. A pessoa que a usou, posteriormente, referiu-se ao amor
da mesma forma. Que curioso é este pensamento… e que profundo!!!

Para compreendermos esta frase precisamos de voltar aos anos setenta quando a
medicina chinesa começa a divulgar-se ao mundo com sucesso. Foi nos anos setenta
com a aproximação dos EUA com a China que a medicina chinesa entrou em contacto
íntimo com o Ocidente (mas não foi a primeira vez). Contudo, o grupo de pessoas, que
mais estava disposto a aceitar esse novo (e muito velho) tipo de terapia possuía uma
ideologia conhecida como New Age. Em particular, agradava-lhes o símbolo Yin/Yang,
os conceitos de ciclicidade da natureza, os conceitos de macrocosmos e microcosmos
existentes na medicina chinesa. Mas o movimento New Age não era muito mais do que
um novo movimento religioso, curiosamente, anti-religião (especialmente cristâ) e anti-
ciência. O que muitas pessoas desconhecem é que os fundadores intelectuais dos
movimentos New Age são: Theillard Chardin (padre católico do século XX) e Nicolau
de Cusa (cardeal alemão do século XV). Toda esta nova ideologia vai beber destas 2
fontes. Assim as características divinas definidas por Chardin como Deus é tudo e
encontra-se em todo o lado (para mais informação ler o meio divino) ou as
características divinas de Nicolau de Cusa como Deus é o oposto dos opostos (para mais
informação ler a visão de Deus) são emprestadas ao Qi. E é assim que nasce um
conceito de Qi imbuído das principais características de Deus. O que é que isto tem a
ver com Medicina Chinesa? Não sei bem….

A segunda frase é realmente maravilhosa. À primeira vista pode parecer uma frase
completamente inocente. No entanto ao colocar o Qi num pedestal tão elevado torna-se
possível eliminar todo o juízo crítico que alguém decida fazer;
- mas será que o Qi existe mesmo? – questiona um céptico.
- não te preocupes com essa questão porque a ciência não é capaz de a analisar. –
responde o crente. – Está fora das suas capacidades de análise. Logo o Qi existe.
Esta lógica é exactamente a mesma usada pelos religiosos para tentarem defender todo o
conjunto de patetices supersticiosas que a religião defende. E enquanto o fazemos,
passamos ao lado de 2 aspectos cruciais: (1) qualquer estudo feito não revelou a
existência de Qi e (2) existem, actualmente, um conjunto de provas científicas
esmagadoras a mostrarem a relação da acupunctura com o sistema nervoso (já falei de
algumas dessas provas noutros textos). Realmente, fugir às provas cientificas e assentar
arreais em crenças esotéricas é tudo o que um bom especialista precisa para fazer
medicina chinesa.

“O Qi não pode ser estudado mas pode ser sentido”. Também já ouvi o mesmo acerca
do amor. Isto porque na nossa sociedade o amor é o substituto de Deus e nos meios de
medicina chinesa é o Qi o Seu substituto.

Esta frase também está associada à premissa que para sentir o Qi é necessário muito
treino energético. Treino, esse, essencial para se atingir níveis elevados de
desenvolvimento espiritual (se derem trela a um defensor destas teorias rapidamente
começam a apreciar uma bela mistura de termos como Qi Gong, alma, Qi,
espiritualidade, revelações supranaturais, Deus, etc…). Os métodos mundanos da
ciência não são nunca capazes de avaliar este desenvolvimento, uma vez que falamos do
plano espiritual ou esotérico ou energético ou como lhe queiram chamar. Mais uma vez
está fora das capacidades meditivas da ciência. Obviamente que esta frase, muito
apreciada por alguns, é em si um paradoxo. Se o Qi se pode sentir é porque tem
influência neste nosso mundo mundano e, como tal, pode ser quantificado e qualificado
pelos métodos científicos. Ao afirmar-se que ele só pode ser sentido está a empurrar-se
o Qi para a esfera subjectiva e a criar-se as condições para o desenvolvimento de um
futuro guru. “Se o Qi só pode ser sentido e se eu o sinto então vocês devem acreditar
naquilo que vos digo… sem o questionarem de preferência porque o meu sentir é puro e
verdadeiro e os vossos cepticismos são incapazes de o analisar.” Algumas pessoas
parece não saberem fazer a diferença entre a auto-sugestão psicológica e a realidade
objectiva.

Há um último truque que pode ser usado contra os proponentes deste ponto de vista.
Após afirmarem que a ciência não tem capacidade de medir o Qi ou provar a sua
existência sempre os podemos interrogar acerca da capacidade da ciência em medir ou
provar algo! Nestas circunstâncias as pessoas ficam sem resposta pois não sabem que
provar e explicar são coisas muito diferentes e nem se quer tem formação científica para
saber o que a ciência é capaz de fazer ou não.

Em termos de prática clínica esta filosofia de vida é do pior que se pode encontrar. É
muito fácil passar desta crença para a crença que temos de estar despertos para a
realidade energética do paciente e fazer o diagnóstico energético. Grande parte das
vezes o diagnóstico energético não passa por uma análise semiológica profunda, tal
como é feita dentro da medicina chinesa, mas sim pela forma como a nossa intuição
justifica o diagnóstico. “Sinto que o problema é este”, “é preciso estar em frente ao
paciente para sentir a sua energia e poder fazer o diagnóstico”, “justificar o diagnóstico
com a nossa intuição”, etc…. Sintomas? Sinais clínicos? Relação entre diferentes
sintomas e sinais clínicos? História da queixa principal? Nada disto é necessário se
estamos despertos para a realidade energética do paciente. Infelizmente algumas
pessoas usam o Qi Gong para exaltar o seu lascismo profissional e esconder a sua total
ignorância acerca dos métodos de diagnóstico e tratamento em medicina chinesa.

“O Qi é imaterial”. Esta é uma versão extrema e bastante pobre do que se pode chamar
o Qi. Regra geral, baseada em livros orientais com uma perspectiva esotérica do mundo.
Mas que nada tem a ver com medicina chinesa, nem com a cultura chinesa no seu todo.
Por exemplo, os chineses consideram que o Qi é tudo desde o ar a uma mesa (que
digamos tem matéria bem palpável). Em medicina chinesa a palpação de massas (pedras
na vesícula, por exemplo) estão associadas ao Qi. Considera-se que quando o Qi deixa
de fluir livremente condensa e produz massas. Neoplasias sólidas são uma consequência
da condensação do Qi. Será uma neoplasia sólida palpável? Outras massas como pedras
no rim ou na vesícula serão imateriais? Ao afirmar-se que o Qi é imaterial tenta fazer-se
uma ligação do Qi ao mundo espiritual e retira-se todo o contexto clínico que o Qi pode
ter na medicina chinesa. Esta é só mais uma frase que mostra a busca religiosa que
muitas pessoas fazem dentro do campo da medicina chinesa.

Surge agora uma pergunta. O que é o Qi? Qual a importância deste conceito na
medicina chinesa, em termos de prática clínica?
Perguntar o que é o Qi é uma pergunta que pode facilmente enganar. Isto porque a
resposta mais acertada seria, provavelmente, que dependeria do contexto. Na realidade
termos como Yin, Qi e Yang não tem tradução noutras línguas porque podem significar
várias coisas em contextos diferentes. Por exemplo o yang pode significar fogo e o Yin
água. Mas dentro da água o Yang pode ser considerado como vapor de água e o Yin
como gelo. Além disso o Yang pode representar outras coisas que nada tem a ver com a
água ou o fogo como dia, verão, homem, imaterial, etc… Com o Qi acontece algo
semelhante. Podemos considerá-lo como imaterial ou esotérico, ou usá-lo, mesmo,
como um substituto de Deus. Mas nunca num contexto clínico como é o contexto em
que a medicina chinesa se insere. Permitam-me apresentar 2 exemplos clínicos:

1 – quando se refere que um paciente tem Vazio de Qi do Pulmão não se diz que ele tem
um vazio do “oposto dos opostos” no pulmão. Diz-se unicamente que o paciente
apresenta tosse de som fraco, tosse produtiva com expectoração fluida, respiração curta,
voz fraca, agravamento destes sintomas com esforço físico, língua pálida, pulso fino,
etc… Neste contexto clínico o Vazio de Qi do Pulmão não é mais do que um conceito
abstrato que pretende definir um conjunto de sintomas muito específicos.

2 – quando se refere que um paciente sofre de gastralgias por Estase de Qi do Fígado


não significa que ele tem uma Estase do “imaterial” do Fígado ou uma Estase “daquilo
que pode ser sentido mas não pode ser estudado” do Fígado. Significa, unicamente, que
o paciente apresenta gastralgia tipo distensão que pode irradiar para a direita,
agravamento dos sintomas com estados de stresse ou irritabilidade, pulso tenso, etc…
Novamente, observamos que o Qi é um conceito abstrato que visa denunciar um
conjunto classificar um conjunto particular de sintomas.

Os exemplos que acabei de dar podem parecer ridículos à primeira vista. Mas para mim,
que tenho alguns anos de ensino e de prática nestes meios são do mais revelador. É raro
encontrar um terapeuta, dedicado a uma abordagem esotérica da medicina chinesa, que
saiba discutir diagnóstico e fundamentar o seu discurso clínico. A sua linguagem
envolve muitos conceitos orientais, típicos da medicina chinesa, mas quase nunca são
capazes de trocar esses conceitos por sintomas e sinais clínicos. Na realidade a grande
maioria não consegue fazer um diagnóstico minimamente desenvolvido. A abordagem
esotérica serve unicamente para dar uma aura de credibilidade à ignorância de muitos
dos praticantes desta arte milenar.

Nestes 2 casos clínicos é notável a inutilidade da abordagem feita anteriormente por


muitos preponentes de uma realidade energética (leia-se esotérica) do paciente. Mas este
problema coloca-se no âmbito do diagnóstico. E em relação ao tratamento? Em relação
à selecção de pontos uma vez que se relacionam directamente com o Qi? Mais uma vez
a gritante ignorância acerca dos métodos de selecção de pontos e dos princípios de
tratamento em acupunctura se vê mascarada por um discurso superficial e sem
conteúdo. Exemplos práticos e clínicos não faltam… infelizmente.

Um dos erros mais notáveis que se prega a 7 ventos é «sentir-se o ponto». Um


profissional da área que não seja capaz de “sentir” o ponto nunca irá ser um bom
acupunctor. Como professor de acupunctura não tenho medo em afirmar que o
importante em acupunctura é saber seleccionar os pontos e não ”senti-los”. Várias são
as razões que me levam a fazer esta afirmação.

1 – existem 364 pontos regulares. Por pontos regulares compreende-se pontos com uma
localização anatómica precisa, indicação clínica específica e pertencentes a um
meridiano. No entanto existem milhares de pontos extra que são caracterizados por não
pertencerem a nenhum meridiano, apesar de terem uma localização anatómica precisa.
Muito dificilmente alguém no planeta conhecerá a localização exacta de todos os pontos
extra. Pergunta: quem me garante que eu estou a sentir um ponto de acupunctura regular
e não umas dezenas de pontos extra à volta desse ponto? Porque é que se o importante é
sentir o ponto é dada uma localização anatómica tão precisa do mesmo? Bastava dizer
que o ponto se encontrava algures naquela região e não era preciso entrar em
pormenores anatómicos como faz a topografia dos meridianos e pontos. Mas mantinha-
se o problema de saber qual era o ponto que se estaria a sentir.

Ainda existem 2 outros problemas graves ao “sentir-se” os pontos de acupunctura. Se os


pontos regulares se podem sentir, então qual a razão de termos vários terapeutas, muito
desenvolvidos energeticamente, a sentirem os mesmos pontos, nos mesmos pacientes,
em locais diferentes? Inventa-se a teoria dos pontos activos. O que esta teoria realmente
interessante diz é que: os pontos não são estáticos, eles movem-se. Um pouco para
cima, um pouco para os lados mas… «eppur si mueve».

Fica difícil compreender como se conseguiu definir uma localização anatómica dos
mesmos se eles não param quietos. Também é um pouco complicado definir o percurso
dos meridianos quando ficam uns perto dos outros e os pontos alteram de posição
constantemente.

Daqui sai uma boa notícia para os alunos que vão fazer exames de topografia de
meridianos e pontos: quando um professor vos disser que marcaram o ponto no local
errado já sabem o que têm a responder. Nem percebo porque se chumbam alunos a esta
cadeira.

Finalmente temos uma curiosidade dentro da medicina chinesa muito interessante. É


que a localização dos pontos de acupunctura não é unânime nas diferentes escolas. Por
exemplo algumas escolas referem que o ponto 37VB fica no bordo posterior do
peróneo. Mas outras referem o bordo anterior do mesmo osso. Como se explica estas
diferenças se os pontos se podem sentir tão bem? A resposta é simples: quando os
iluminados de uma escola vão sentir o ponto ele move-se para o bordo anterior e quando
chega a vez dos iluminados da escola rival ele move-se para o bordo posterior. E com
estas lógicas lá vamos nós enfrentando o cruel mundo objectivo existente à nossa volta.

2 – o problema de “sentir” o Qi coloca-se a 2 níveis na acupunctura: (1) “sentir” o ponto


já mencionado atrás e (2) passar o Qi pela agulha. Ou seja passar a energia boa para o
ponto. Este tipo de crença acaba regra geral com a afirmação «a intenção é que conta».
Mais uma vez considero este tipo de crenças extremamente prejudiciais para uma boa
prática clínica. Relembro um episódio em que um aluno ao não compreender um
protocolo feito por um professor perguntou para que serviam os pontos seleccionados
(alguns dos pontos não tinham muito a ver com aquele caso clínico) ao que o professor
respondeu: «a intenção é que conta».

Por mais ridículo que possa parecer o professor não sabia justificar porque tinha
seleccionado aqueles pontos nem sabia explicar o protocolo completo. Qual a melhor
maneira de esconder a nossa ignorância? Basta reclamar o nosso direito divino a
dominar as maravilhas energéticas do Qi. «Não faço a mínima ideia de como construir
um protocolo de acupunctura? Não faz mal basta eu passar boas intenções para os
pontos escolhidos e o paciente fica bom. Holismo acima de tudo». Sempre é mais fácil
do que aprender acupunctura a um nível profissional.

Para terminar gostava de deixar um pequeno desafio a todos os “passadores” de energia:


tratem um paciente com dor no joelho com o ponto Yintang (localizado entre as
sobrancelhas. Este ponto é usado para tratar rinite, sinusite, insónia, agitação psíquica,
cefaleia frontal). E lembrem-se «a intenção é que conta».