L. A.

Costa Pinto

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Çfâe/açÕex c/e ^/\ aças n a / r i a <J o a . c d a d e cm<

Aámla/ixxrs

Rio de Janeiro

uTRJ
Reitor Vice-reitor Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura Myrian Dauelsbcrg Paulo Alcantara Gomes José Henrique Vilhena de Paiva

KDITORA UI R]
Diretora Editora Executiva Coordenadora de Produção Conselho Editorial Yvonnc Maggic Maria Teresa Kopschicz dc Banos Ana Carreiro Yvonnc Maggie (presideme), Afonso CarJos Marques dos Samos, Ana Cristina Zaliar, Carlos Lcssa, Fernando Lobo Carneiro, Peter Fry, Silviano Santiago

:

O NEGRO NO RIO DE JANEIRO
RELAÇÕES DE RAÇAS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA

L A. Costa

Pinto

apresentação Marcos Chor Maio

2a edição
Editora UFRJ

1998

Copyright © by L. A. Costa Pinto I a edição publicada pela Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1953.

Ficha Catalogra'fica elaborada pela Divisão de Processamento Técnico - SIBI/UFRJ P659n Pinto, L. A. Costa O negro no Rio de Janeiro: relações de raças n u m a sociedade em m u d a n ç a / L. A. Costa Pinto 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. 308 p.; 1 6 X 2 3 cm 1. Negro - Rio de Janeiro 2. Estudos afro-brasileiros I. Título C D D 305.89608153 ISBN 85-7108-139-5

Capa Adriana M o r e n o Edição de texto Maria Teresa Kopschitz de Barros Revisão Cecília Moreira Josette Babo Maria Beatriz Guimarães Projeto Gráfico Luciano Figueiredo Ana Carreiro Editoração Eletrônica Alice Brito Janise Duarte Universidade Federal do Rio de Janeiro Fórum de Ciência e Cultura Editora UFRJ Av. Pasteur, 250/sala 107 - Rio de Janeiro CEP: 22.295-900 Tel.: (021) 295-1595 r.124 a 127 Fax: (021) 542-3899 E-mail: editora@forum.ufrj.br

Apoio

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Fundação Universitária José Bonifácio

À memória de Nina Rodrigues é dedicado este trabalho.

e Artur

Ramos

História de la libertad) . Fugindo ao cativeiro) Todos estamos obligados a esforzarnos. por conseguir que en la sociedad presente no haya mártires. (Vicente cie Carvalho. (Francisco Ayala. pues que no puede haberios sin que existan al mismo tiempo sus verdugos.Fica um pouco de trapo em cada espinho E uma gota de sangue em cada trapo.

Sumário Prefácio à segunda edição Prefácio Costa Pinto h primeira edição 11 13 17 e a crítica ao "negro como espetáculo" M a r c o s Chor Maio Nota da Editora 53 51 Introdução Parte Primeira A Situição Racial Demografia 71 Estratificação social 87 Ecologia 125 Situação cultural 151 Atitudes. estereótipos e relações de raças 169 Parte Segunda Movimentos Sociais Associações tradicionais 213 Associações de novo tipo 235 Tensões raciais niima sociedade em mudança Referências bibliográficas 301 271 .

Edison Cordeiro. entretanto.e q u e consiste. sem subalternizar a apresentação de um problema tão relevante.a s ao pé da página sempre q u e f o i aproveitada no texto u m a c o n t r i b u i ç ã o original do Dr. sobre p a r t e da matéria contida nos capítulos I e II d a Parte Segunda. c i t a n d o . em p r i n c í p i o . exclusivamente. Edison Cordeiro. os nossos agradecimentos pela c o l a b o r a ç ã o prestada e pelo ensejo que nos p r o p o r c i o n o u algumas vezes de trocar idéias c o m ele sobre partes do manuscrito — l a m e n t a n d o sinceramente . que desenvolvam o esforço aqui apenas iniciado . * * D e p o i s de p r o n t o o plano. que foi imposta pelo d e s d o b r a m e n t o natural dos trabalhos da pesquisa. de acordo c o m o qual se desdobrariam os trabalhos d a pesquisa. o convite para essa cooperação. a r e s p o n s a b i l i d a d e cabe.e s t u d a m o s os problemas da vida associativa e liderança. T i v e m o s . ser lida e c o m p r e e n d i d a por todos q u a n t o s se interessem pelos assuntos aqui abordados. em última análise. informalmente redigidas. tentando. termina-se. Cremos que o escopo a d o t a d o confere à iniciativa da UNESCO n o Brasil a envergadura e a substância científica que.Movimentos Sociais . assim. e m todo o desenvolvimento da exposição. a p r e o c u p a ç ã o de. merece ter. entretanto. a nosso juízo. fazê-la de m o d o que não se restringisse a p e n a s ao círculo restrito dos especialistas e pudesse. Registramos aqui. ao Dr. e m bases contratuais. especialistas ou não. seus múltiplos afazeres não lhe p e r m i t i r a m . N o que tange. em seguida. efetivála d o m o d o q u e havíamos desejado. convidamos o Dr. a q u e m assina estas linhas. Aceito por ele. espírito científico e técnica m o d e r n a o e s t u d o sociológico das relações de raças n o Rio de Janeiro. referentes aos m o v i m e n t o s e associações negras n o Rio d e Janeiro.14 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO N a Parte S e g u n d a . na p r e o c u p a ç ã o de fazer com seriedade. Ainda assim. com o que o t r a b a l h o se conclui. sem dificuldade. coubelhe preparar notas. por outro lado. a preocupação de evitar q u e o nosso trabalho se resumisse a u m m e r o catálogo de dados e i n f o r m a ç õ e s s o b r e a ocorrência do preconceito racial e n t r e nós. Esta apresentação. Edison C a r n e i r o para se associar a nós na realização da tarefa. i n t e r p r e t a r o estado atual das tensões raciais n o Rio de Janeiro. pela indicação de perspectivas que devem vir a ser exploradas por outros estudos de a p r o f u n d a m e n t o . à redação e às interpretações q u e se e n c o n t r a m nos referidos capítulos. que utilizou aquelas notas como bibliografia. T i v e m o s também.

Igual e especial a g r a d e c i m e n t o estende-se também aos e s t i m a d o s colegas e amigos.PREFÁCIO ÀTRIMEIRA EDIÇÃO 15 n ã o ter sido possível dividir c o m ele. À s u a b o a vontade e espírito de colaboração m u i t o deve a marcha deste estudo. Alfred M é t r a u x . p e l a c o n s t a n t e disposição que sempre r e v e l a r a m d e facilitar. c h e f e d o setor de estudos sobre raças do Departamento de Ciências Sociais d a m e s m a instituição. Rio de Janeiro. a e x e c u ç ã o e a responsabilidade intelectual desta pesquisa. L o u r d e s C o s t a P i n t o . devemos u m caloroso e especial agradecimento. delegado p e r m a n e n t e d o Brasil junto à UNESCO e o s e g u n d o . Aos ilustres amigos D r . Vítor N u n e s Leal e D r . como havíamos desejado.aos quais r e g i s t r a m o s t a m b é m os nossos agradecimentos. à Senhorita Zenaide A n d r a d e e ao Sr. também. pelos que ainda restaram e q u e c a b e r á a outros indicar e corrigir. Heber Peti . é c o m p r a z e r q u e estendemos os nossos a g r a d e c i m e n t o s a todos quantos. Paulo Berredo Carneiro e Dr. direta ou i n d i r e t a m e n t e colaboraram com nosso esforço e t o r n a r a m material e moralmente possível a tarefa de estudar as relações entre p r e t o s e b r a n c o s na Capital do Brasil. a resolução dos diversos p r o b l e m a s administrativos e burocráticos q u e inevitavelmente surgem no c a m i n h o de u m a pesquisa patrocinada p o r u m organismo internacional e sediado l o n g e d o c a m p o de trabalho. A Maria Clara e M u r i l o Bevilaqua e a Léo Rodrigues de A l m e i d a agradecemos a inestimável c o l a b o r a ç ã o prestada na revisão das p r o v a s . Prof. Costa P i n t o . mas. por se t e r e m prestado a ouvir a leitura d e largos t r e c h o s d o manuscrito e pelas observações e comentários críticos com que nos a j u d a r a m a d i m i n u i r os seus d e f e i t o s . A. pois e n c h e r i a m páginas. I o de maio Dia d o T r a b a l h o . A preparação datilográfica do manuscrito coube a D . Finalmente. Mês da Abolição. no que deles d e p e n d i a . não lhes c a b e n e n h u m a responsabilidade. o primeiro. L. O b v i a m e n t e . direta o u i n d i r e t a . Darci Ribeiro. de 1952. embora seus n o m e s estejam aqui omitidos. n ã o s ó pela distinção que nos conferiram indicando-nos para assumir o e n c a r g o desta pesquisa.

3 como foi d e n o m i n a d a a pesquisa no Brasil financiada pela . o processo de descolonização africana e asiática. o surgimento da G u e r r a Fria. N o entanto. a UNESCO espelhava a perplexidade e a ânsia de inteligibilidade — por parte de intelectuais. Esse q u a d r o se t o r n o u ainda mais dramático c o m a persistência do racismo em. verificação e superação dos grandes dilemas vividos pela h u m a n i d a d e em matéria étnica.2 Na segunda metade d a década de 40. n ã o m e d i u esforços em encontrar soluções universalistas que cancelassem os efeitos perversos do racialismo. 1 Luiz d e A g u i a r Costa Pinto foi. É comumente aceito q u e a imagem paradisíaca das interações raciais n o Brasil foi o principal pré-requisito para transformar o País e m o b j e t o d e interesse e de pesquisa da UNESCO. do nacionalismo xenofóbico e das disparidades socioeconômicas. o cientista social que teve mais consciência n a época do valor da investigação. e a perpetuação de grandes desigualdades sociais em escala planetária. em fase de extremo o t i m i s m o . uma investigação sobre os agentes e agências que estiveram envolvidos no processo de formulação.diversas partes do mundo. sem dúvida. Basta lermos a introdução deste livro. m u n i d a da razão iluminista. Diante desse cenário. decisão e gestação do amplo leque de pesquisas desenvolvidas no início da década d e 50 revela uma complexa ação c o n c e r t a d a que resultou no projeto UNESCO. Talvez a proposta d a "pesquisa-piloto". c o m u n i d a d e científica e dirigentes políticos — dos fatores que levaram aos resultados catastróficos da Segunda G u e r r a M u n d i a l em nome da raça. O Brasil foi escolhido.Costa Pinto e a crítica ao "negro como espetáculo" A reedição de O negro no Rio de Janeiro não significa apenas o reconhecimento da importância d e u m a obra mas também representa u m m o m e n t o de reflexão a respeito d o projeto UNESCO. e m perspectiva comparada com a negativa experiência racial norte-americana. p a r a ser um dos pólos de problematização. a UNESCO. u m ciclo de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil p a t r o c i n a d o pela agência internacional c o m significativo impacto no c a m p o das ciências sociais no Brasil.

1 9 9 3 [ 1 9 7 4 ] ) . não trouxe qualquer tipo de limitação ao trabalho conjunto e n t r e cientistas sociais nacionais e estrangeiros t e n d o em vista cumprir. p. 71-74). 1929. estão os q u e s t i o n a m e n t o s críticos — teóricos. suscitados pelo trágico desenvolvimento científico e ideológico-político de concepções sobre raça e cultura que haviam em parte resultado no nazismo (Métraux. mi . Ao se encontrar na UNESCO. É então que confluem e p õ e m . A presença d e Artur Ramos naUNESCO e sua atuação c o m o idealizador de u m p r o j e t o internacional de estudos sobre o Brasil c o n s t i t u e m u m m o m e n t o especialmente significativo para as ciências sociais brasileiras. nas zonas rurais e urbanas.111101. tão a g u d o entre outros povos.s e em associação dois c o n j u n t o s bastante complexos de esforços intelectuais que conjugavam atividades d e pesquisa sistemática e desígnios e motivações de ordem menos estritamente científica. e tendo em Artur Ramos u m representante não só institucional m a s quase emblemático. contivesse uma certa dose de ingenuidade cm face dos p r o f u n d o s constrangimentos que norteavam aquele contexto histórico. dada a trajetória de seu pensamento e de sua obra. Artur Ramos c o n t i n u o u a compreender o Brasil como u m "laboratório de civilização" (Bilden. 1950). sociais. uma vez que teria "apresentfado] a solução mais ricntífica c mais h u m a n a para o problema. I 'M V |> I /">)• i unviri-ííi». com o objetivo d e d e t e r m i n a r os fatores econômicos. culturais e psicológicos favoráveis ou desfavoráveis à existência de relações harmoniosas entre raças e grupos é t n i c o s " / O inventário de dados e análises e m diferentes regiões. de fato. exemplificados n a atuação do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO.i. D e outro lado. procurando apresentar o Brasil como modelo p a r a o m u n d o . de agosto a o u t u b r o de 1949. D e u m lado. éticos e culturais — de cientistas sociais e u r o p e u s e norte-americanos. a sociabilidade positiva que caracterizava os retratos do Brasil naquele m o m e n t o não impediu que cientistas sociais visualizassem no projeto UNESCO a o p o r t u n i d a d e de desvelar os impasses existentes na sociedade brasileira e de indicar alguns possíveis caminhos a serem trilhados. está a série de reflexões que no Brasil v i n h a m se fazendo há décadas a respeito das questões levantadas pela convivência de raças diversas na f o r m a ç ã o e história do País (Skidmore. da jiiiMuia ilir laijith t: ilr < nlini. a resolução da UNESCO de "organizar no Brasil u m a investigação sobre contatos e n t r e raças o u grupos étnicos. políticos. D e outro modo. o objetivo político da UNESCO. atrasadas e m o d e r n a s revelaram u m cenário multifacetado e m q u e mais u m a vez foi reiterada a singularidade brasileira.i" (lt.18 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO organização supranacional. N o e n t a n t o .

idéia original de Artur Ramos. José de Aguiar Costa Pinto. parece não ter limitado o reconhecimento. o sociólogo estabeleceu fortes laços profissionais e de amizade que tiveram reflexos definitivos em sua carreira. É nesse contexto q u e emerge o sociólogo Costa Pinto c o m o u m personagem central na c o n s t r u ç ã o desta rede de relações institucionais. d o t e m a d a incorporação de segmentos sociais marginalizados. p. Com o primeiro. antigo curso secundário. N o início d e 1939 ingressa no recém-criado Curso d e Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) mas. em 1941. o então aluno d a F N F i esteve envolvido na criação da Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia. seu avô foi senador da República e o pai. procurou viabilizar a "integração d e negros e índios ao mundo moderno". engajada. médico. p. p o u c o t e m p o depois. 6 De família abastada. Costa Pinto a b a n d o n a o segundo ano do pré-médico. o futuro sociólogo veio para o Rio de Janeiro. por parte do antropólogo. A trajetória de Costa Pinto Luiz de Aguiar Costa Pinto nasceu cm Salvador em 6 de fevereiro d e 1920. 5 Sua visão de uma cooperação entre as raças no Brasil admitia o reconhecimento do "problema do negro". proprietária de engenhos no Recôncavo baiano (Pang. 1951. p. 1986)7 N o . E m 1937. A trajetória acadêmica e profissional de Costa Pinto sofreu duas grandes influências: Artur Ramos e Jacques Lambert. p. 62-63). é preso por oito meses p o r suas atividades políticas antiestadonovistas. 173-174. 1942. acadêmicas e políticas. 132.APRESENTAÇÃO 19 e n t a n t o . p . C o m a morte do pai. N o plano institucional. atingiu o cargo de diretor da instituição e foi professor de Artur Ramos. 1939. ora vista como uma dívida social (Ramos. ora percebida como dificuldade afeita à condição de minoria nos estados d o Sul (Ramos. Artur R a m o s . A questão da inserção dos negros na sociedade brasileira estava presente e m sua obra. 1979). das profundas desigualdades sociais entre brancos e negros. 1938. trabalhou com N i n a Rodrigues na Faculdade de M e d i c i n a da Bahia. N o antigo Distrito Federal envolveu-se n o movimento estudantil e militou n a Juventude Comunista. que se p r o p u n h a a incentivar as atividades acadêmicas n o interior da FNFi (Azeredo. junto com a família. 124-126). 1947. 146). alicerçado na proposta d e u m a antropologia de intervenção. Dessa forma. bem c o m o a existência do "preconceito de cor" no Brasil (Ramos. e se prepara para entrar na Faculdade de Direito.

aspectos teóricos e empíricos da pesquisa sociológica e relações raciais. Jacques Lambert influenciou Costa P i n t o em. Em 1939. Em 1942. 100). 1943). Costa Pinto foi convidado a ser assistente de Jacques Lambert n a cadeira de sociologia. n a qual permanceu como professor de sociologia até 1945. demografia e sociologia política na Universidade d o Rio Grande do Sul (Pereira de Queiroz. Em outro trabalho. de inspiração durkheimiana. O sociólogo tinha u m a sólida formação jurídica. a profissionalização do sociólogo. 1980 [1949]. Seus estudos 10 versam sobre o ensino das Ciências Sociais. dois trabalhos: o primeiro foi um estudo sobre a influência do domínio familial no período colonial. 1996. vindo a estudar nos E U A e produzir uma obra sobre a história d a constituição norte-americana. os dois sociólogos elaboraram um amplo m a p e a m e n t o da composição e dos problemas da população contemporânea (Lambert & Costa Pinto. 8 É importante lembrar que as relações entre Artur Ramos e Costa Pinto não se limitaram ao âmbito da universidade. revista científica pertencente i Escola Livre dc Sociologia c Política (SP). u m a instituição educacional sob liderança de intelectuais de esquerda (Azeredo. ao terminar o curso. os dois estiveram juntos na luta contra o nazismo (Ramos. fez parte da missão francesa qtte a j u d o u a criar a então Universidade do Brasil. Costa Pinto publicou diversos trabalhos cm Sociologia. Em 1946 em pleno período de democratização d o País. Alguns artigos do sociólogo apareceram no famoso Suplemento Literário do Diária de Notícias. Lambert chegou ao Brasil. por dois anos. em nosso passado. Durante sua permanência n o Departamento de Ciências Sociais.13 O NEGRO N O R I O DE JANEIRO período da Segunda Guerra Mundial. n o qual estabelece uma interface entre sociologia e demografia. xi-xii). pelo menos. 1944). o n d e lecionou. p. Ao tratar de algumas experiências históricas das lutas de famílias n o Nordeste brasileiro. da "hipertrofia do poder privado e a atrofia do poder político como condições propícias ao aparecimento. inspirado em livro de Lambert (La vengeancc privée et les fondements du droit public international). 1986. Costa Pinto trabalha com a hipótese. N o caso de Jacques Lambert. p. . 9 E m 1937. fruto de cursos dados na F N F i . p. 230). a ascendência sobre Costa Pinto se d e u tanto em termos teóricos q u a n t o n o plano da inserção profissional. da vingança privada c o m o m o d o típico de controle social" (Costa Pinto. os dois professores da F N F i ministraram cursos de antropologia e sociologia na Universidade do Povo.

o-social c ecológica da .7 5 ) . p.. p.APRESENTAÇÃO 21 Em 1946. o governo norteamericano n e g o u o visto de entrada no País. e n t ã o secretário de Educação e S a ú d e do governo Otávio Mangabeira. 1950). 6 8 . B e n j a m i n Zimmerman). p. de 1 9 4 8 a 1 9 5 2 . da educação e da a d m i n i s t r a ç ã o pública. p. p. passou a a c u m u l a r o cargo de professor d a F a c u l d a d e Nacional de Ciências E c o n ô m i c a s d a Universidade do Brasil e. o sociólogo b a i a n o foi convidado por Anísio T e i x e i r a e Charles Wagley para participar d o projeto Columbia University/Estado da Bahia. 61.írcn. 1950). Diversos estudos de c o m u n i d a d e foram realizados por cientistas sociais americanos e brasileiros t e n d o à f r e n t e Charles Wagley e seus a l u n o s d e doutorado em Columbia ( H a r r y W i i l i a m Huntchinson. Costa Pinto pleiteou j u n t o a Pierson a possibilidade d e vir a realizar o i urso de d o u t o r a d o e m Sociologia na Universidade d e C h i c a g o (idem. Este estudo teria inicialmente u m a abordagem liislrtric.12 Embora fosse aceito pela universidade e tivesse c o n s e g u i d o licença para se ausentar do Brasil. desenvolveu pesquisas nas áreas d e demografia e sociologia das profissões na Divisão de Pesquisas do I n s t i t u t o M a u á . 1987. p o r i n d i c a ç ã o d e Artur Ramos. p. defende tese de livre-docência sobre o ensino da Sociologia na escola s e c u n d á r i a . Marvin H a r r i s . Costa Pinto assistiu ao curso de Donald Pierson sobre m é t o d o s e técnicas de pesquisa em Ciências Sociais ministrado no DASP 1 1 e m a n t e v e correspondência com o sociólogo d a Escola Livre de Sociologia e P o l í t i c a (Pierson. 1989. do fórum da UNESCO que debateu o estatuto científico d o conceito de raça (Costa P i n t o . além d e T a l e s d e Azevedo e alguns auxiliares ( W a g l e y et al. iniciativa de Anísio Teixeira. A i n d a n a década de 40. Cabia t a m b é m ao sociólogo elaborar um t r a b a l h o sociológico sobre a zona do R e c ô n c a v o . para cm seguida se ater especialmente à "estrutura social d e m o d o a mostrar as múltiplas . Em 1944. 26-28). E m 1949 participou. órgão vinculado à C o n f e d e r a ç ã o Nacional do Comércio. N o p r i m e i r o semestre de 1950. 7 4 . pois C o s t a P i n t o tinha sido vinculado ao e n t ã o Partido Comunista do Brasil ( P C B ) e preso por atividades políticas. Este projeto tinha por objetivo a p r e s e n t a r subsídios de natureza sociológica e antropológica colhidos em alguns m u n i c í p i o s do interior da Bahia c o m o i n t u i t o de implementar um processo d e modernização dessas áreas no â m b i t o d a saúde. Costa Pinto p r e s t o u assessoria ao projeto não só na f o r m u l a ç ã o teórica do mesmo (idem.13 E m 1947. por i n t e r m é d i o d e A r t u r Ramos. 81). 8-9) c o m o t a m b é m nos encontros com os pesquisadores que traziam relatórios de seus respectivos trabalhos de campo ( C o s t a Pinto.6 9 .

P e d r o Calmon. especialmente no c a m p o da pesquisa.22 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO direções que a m u d a n ç a social p o d e t o m a r na zona do Recôncavo" (Wagley et al. amigo. em maio do ano -z ver ao nosso eminente para o estudo da dos grupos assimilação ao e os problemas conseguintes que eles apresentam para a sua integração Se este plano for aprovado. FNFi e UNESCO: O ensaio de uma aliança institucional Sem dúvida. o antropólogo afirmava e m carta a C o s t a Pinto que: "na organização desse p r o g r a m a não esqueci das sugestões q u e colhi em nossa última reunião d o D e p a r t a m e n t o . Na verdade. N a fase cie elaboração do p r o g r a m a cie 1951 do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. p. e m u i t o especialmente suas sugestões c o m relação à organização do ensino d e Ciências Sociais desde a escola p r i m á r i a e aos trabalhos de campo a serem realizados na América Latina". Foi nesta etapa de sua carreira ascendente que Costa P i n t o . u m a das razões que motivou Artur R a m o s a aceitar o convite para assumir u m cargo d e direção na UNESCO foi a possibilidade de fortalecer institucionaímente o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i . dominantes. Costa Pinto p a r t i c i p o u cio I o Congresso do Negro Brasileiro. Tenho grandes oportunidade planos que j'1 Mariani. a ser a p r o v a d o na Conferência de Florença.. 1982). D a r c i Ribeiro. aos 3 0 anos. aí na F a c u l d a d e . Charles Wagley. e m 1950. Ramos avaliava q u e a nossa maior programas Ministro mecanizados aculturação moderno. ocorrido no Rio clc Janeiro. teremos uma nossos grupos negro e indígena possibilidade enorme de estudar com as culturas vezes tenho em seus dentro dos pontos de vista que defendido em meus cursos e meus trabalhos . Edison C a r n e i r o e Guerreiro Ramos. 14 Entre 26 de agosto e 4 d e s e t e m b r o de 1950. 20). 1950. foi convidado a participar d a pesquisa da UNESCO. O evento c o n t o u c o m a presença de antropólogos c sociólogos como Roger Bastide. o f ó r u m promovido pelo T E N procurava estabelecer uma aliança entre intelectuais e movimento negro t e n d o em vista u m a atuação política que alterasse as condições de vida da população afro-brasileira (Nascimento. sob o patrocínio do Teatro Experimental d o Negro (TEN). virá com a apresentação r dos nossos próximo. não e mundo contatos tantas escritos}'' à Conferência [Clemente] de Florença. 1 5 A o e n t ã o reitor da Universidade do Brasil.

i m p e d i u a continuidade da proposta educacional da UDF. A repressão iniciada com a renúncia forçada de Anísio Teixeira e a deposição de P e d r o E r n e s t o descaracterizou o projeto acadêmico inicial e afastou parte dos professores da universidade. u m ano depois do início da experiência centralizadora da ditadura do E s t a d o N o v o (1937-1945). particularmente. a FNFi foi criada sob estrito controle do Estado e dos setores conservadores. chancelado pela gestão p o p u l a r do então prefeito Pedro Ernesto ( C o n n i f f . 35). social e cultural do antigo D i s t r i t o Federal e. tinha sido criada há dez anos por força do projeto d o e n t ã o ministro da Educação e Saúde. D e s s e m o d o . e G e o r g e D u m a s . N o c a m p o das ciências sociais. L e m b r a n d o a proposta universitária d o s primórdios da USP. p o r m e i o de articulações entre Afrâiiio Peixoto. a U D F baseou-se e m três propósitos: 1) superar o bacharelismo elitista que era uma característica c o m u m entre os intelectuais brasileiros. . e m Ciência Política. rica e frustrada experiência d a Universidade do Distrito Federal (UDF). p. ao lado dos professores franceses J a c q u e s Lambert. 2) estimular a formação de u m n o v o t i p o de intelectual capaz de atuar c o m competência numa sociedade n o r t e a d a por princípios técnico-científicos e m contexto democrático. A d e r r o t a do programa po. 1995. G u s t a v o Capanema. entre o u t r o s (Oliveira. como foi o caso de Artur R a m o s . 1984. 1996. Projeto ousado d e Anísio Teixeira. 214219). Alguns integrantes da extinta U D F foram absorvidos pela n o v a estrutura. do trabalho q u e v i n h a realizando como catedrático d a cadeira de Antropologia e Etnologia d a F N F i . S c h w a r t z m a n et al.244-261. 3) vincular essa perspectiva universitária ao a m b i e n t e político. primeiro reitor da U D F . e A n d r é Gross. c o m o apoio de setores católicos e de remanescentes do movimento integralista. Sua origem a d v é m d a derrota da curta.ítico-social d e Anísio Teixeira e Pedro Ernesto a p ó s a Revolta Comunista de 35 levou ao e n f r a q u e c i m e n t o da UDF. verdadeiro embaixador d a cultura francesa no Brasil. c o m o A r t u r R a m o s . vinculada à Universidade do Brasil.APRESENTAÇÃO 23 C o m o se pode observar. 1981). o ministro C a p a n e m a . em Sociologia. Essa instituição. u m a missão francesa chegou ao Rio de Janeiro. Por vias burocráticas e autoritárias. voltá-la p a r a as demandas da estrutura d e e n s i n o básico (Barbosa.. p. c m escala ampliada. a U D F contou com a colaboração de intelectuais que c o m e ç a v a m a despontar na época. que veio a ser definitivamente fechada em 1938. p. Gilberto Freire e Sérgio B u a r q u e de Holanda. Artur Ramos encara seu envolvimento na direção d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais d a UNESCO c o m o u m d e s d o b r a m e n t o .

p. T . a falta de recursos e a dificuldade de Artur Ramos para ampliar seu espaço institucional na F N F i resultou no enfraquecimento gradativo das atividades da SBAE. há muito tempo acalentado. Ramos l a n ç o u dois manifestos contra o racismo que imperava na Europa (Ramos. tinha por objetivo aliar o ensino à pesquisa. Melville Herskovits) e u m n ú m e r o reduzido de publicações (Azeredo. Em carta a Paulo Carneiro. palestras. A pesquisa teve atuação m u i t o tímida. de transformar a antropologia numa ciência social aplicada. Na verdade. respondendo ao convite feito p o r Julian Huxley. Era dele. C o n t u d o . o convite para a direção do Departamento de Ciências Sociais da U N E S C O 1 7 significava. 1995. p. L y n n S m i t h . Neste caso. de criar institucionalmente um espaço n a F N F i onde houvesse a interseção entre ensino. Esta atitude do antropólogo rendeu-lhe importante reconhecimento no pós-guerra favorecendo a sua escolha para a equipe da UNESCO. parece que houve a tentativa d e u m "reforço-mútuo" (Rubino. para Artur Ramos. Donald Pierson. De fato. indicando assim alimitada capacidade de rotinização d o trabalho acadêmico na antiga FNFi. Nunca houve pesquisa propriamente. Artur Ramos. a partir de sua cadeira de Antropologia e Etnologia. No entanto. 1943). a superação dos limites impostos pela vida acadêmica na FNFi 1 8 e representava também a concretização de u m projeto. criou a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia (SBAE) em 1941. 1945). O [Artur] Ramos fazia alguma coisa.. algumas delas ministradas por pesquisadores estrangeiros (Radclife-Brown. 1986). 484-485). 1987) p o d e ser ilustrada pelo depoimento de C o s t a Pinto:"[. a participar de cursos e conferências ministrados fora da universidade (Ramos. Ramos afirmava: "Certamente que considero esse posto [diretor do . A entidade. não era da faculdade" (Costa Pinto. a FNFi esteve voltada essencialmente para o ensino. Além das atividades da SBAE e da cadeira de Antropologia e Etnologia. Por meio da SBAE.. Artur Ramos continuou a publicar artigos e livros. em face das dificuldades enfrentadas na universidade. mas de uma maneira muito individual. a estabelecer contatos internacionais. A fase áureadaSBAE (1941-1945) se c o n f u n d e com os primórdiosdo D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i .1 9 4 9 . debate acadêmico e pesquisa. especialmente com os Estados Unidos. Ao longo de sua existência. 1 9 4 1 . A m o r t e do antropólogo significou o fim da associação. a SBAE promoveu simpósios. sediada n a FNFi.24 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Ao longo dos anos 40.] apesquisaera u m a aspiração. 14). a criação da SBAE significou a tentativa de Artur Ramos. A frágil institucionalização das ciências sociais no Rio de Janeiro nesse período (Almeida. 1989. Ele inspirou-se em instituições norte-americanas que havia c o n h e c i d o em sua viagem aos E U A em 1941.

C o s t a Pinto lembrava ao seu antigo mestre para "que não [fosse] perdida n e n h u m a chance de dar o possível a n d a m e n t o que estivefsse] ao seu alcance ao financiamento pelaUNESCO da pesquisa que planejei sobre migrações internas [. D a correspondência mantida entre os dois professores da então Universidade d o Brasil. que não chegou a realizá-la. 2 1 Até aquele m o m e n t o .. a serviço da cultura mundial". 22 Ao aceitar o convite para participar do fórum da UNESCO sobre a temática racial. nos diversos graus de ensino". uma grande oportunidade para dar um salto qualitativo nas relações ensino/pesquisa na FNFi e. Era. T a l tarefa ficou a cargo da Comissão Nacional da UNESCO. Artur Ramos também t o m o u a iniciativa de sugerir um artigo "sobre as minorias étnicas no Brasil e suas influências nas relações internacionais". p. de colega de universidade e os vínculos de amizade com o então diretor do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. o Instituto Brasileiro de Educação. N o intervalo dos dois meses de sua gestão. Ciência e C u l t u r a (IBECC). 228-232).]". sem dúvida. em sua carreira profissional. 20 D e qualquer modo. C o s t a P i n t o não havia demonstrado m a i o r interesse pelo tema das relações raciais. constam pedidos de informação acerca do acesso a publicações daUNESCO ou das regras para filiação n a então recém-criada Associação Internacional de Sociologia. especialmente. 1950).. Djacir Menezes foi cor vidado para participar d e u m a coletânea patrocinada pela UNESCO sobre métodos em ciência política (Menezes. Costa Pinto participou do colóquio em Paris sobre a questão racial (Costa Pinto. Costa Pinto sugere a realização de uma reunião "para estabelecermos u m programa mínimo de Ciências Sociais. Além disso. essa p r o p o s t a revela as intenções de Artur Ramos d e alçar o Brasil À condição de objeto de pesquisa da UNESCO. Costa P i n t o tinha plena consciência d o significado da presença de Artur Ramos n a agência internacional.APRESENTAÇÃO 25 Departamento d e Ciências Sociais da UNESCO] c o m o de grande importância e creio que de algum m o d o poderei tomá-lo c o m o u m a tarefa de extensão universitária. deve-se principalmente a sua condição de ex-aluno dileto de Artur Ramos. A participação do sociólogo brasileiro no simpósio da UNESCO sobre u m a definição de raça que desse respaldo à luta anti-racista. 23 . 1950. O s esforços em estreitar os elos com a F N F i ficam ainda mais nítidos quando Ramos afirma que a presença de Costa P i n t o na reunião de experto sobre o conceito de raça deve-se "a sua cooperação continuada com os meus e s t u d o s e p e s q u i s a s " . 19 Artur R a m o s envolveu professores d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i em suas atividades na UNESCO.

que se realizaria nos dias 13 e 14 de dezembro de 1949. no dia 31 de o u t u b r o d e 1949.) de u m a sociedade patriarcal e agrícola para uma economia industrial e urbana. C o s t a Pinto pede . na m e d i d a e m que Angell mencionava v a g a m e n t e u m a pesquisa n u m a "área m e n o s desenvolvida do globo". Costa Pinto sugeriu " u m grande survey n o Brasil a fim de estudar as tensões sociais e as mudanças de estrutura social resultante dessa tradição histórica (. por sua vez. 2 6 O Brasil era u m forte c o n c o r r e n t e . P a u l o Carneiro 2 7 fazia parte d o C o m i t ê Executivo da instituição. C o s t a Pinto estava apreensivo q u a n t o aos rumos da decisão final em F i o r e n ç a e procura mobilizar aliados potenciais. Nesse sentido. pois já tinha sido indicado na versão preliminar do programa e l a b o r a d o p o r A r t u r Ramos e. O sociólogo escreveu ao representante do Brasil na U N E S C O . N a ocasião. N o entanto. Estudado no Brasil o p r o b l e m a p o d e servir de amostra para o q u e se passa em todas as áreas menos desenvolvidas". 25 Por ocasião da C o n f e r ê n c i a Geral de Fiorença. C o s t a Pinto continuou a m a n t e r contatos c o m a organização internacional. impossibilitou q u a l q u e r plano mais arrojado de trabalho c o n j u n t o entre o Departamento d e Ciências Sociais da FNFi e a U N E S C O . A r t u r R a m o s reuniuse com os professores d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sócias da F N F i . p.. especialmente o p r o g r a m a do Departamento de Ciências Sociais para 1951N a pauta estava a p r o p o s t a d o C o m i t ê Executivo da UNESCO de realizar uma pesquisa sobre relações raciais em algum país da América Latina. com o objetivo de colher subsídios para a sua plataforma de t r a b a l h o na agência internacional. ao ler u m artigo do diretor-interino do D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da U N E S C O ..26 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO A m o r t e súbita de Artur Ramos. pedia a confirmação de sua participação no colóquio da U N E S C O sobre a questão racial. e m m a i o de 1950. Costa Pinto afirma q u e A r t u r R a m o s teria incluído no esboço d o p r o g r a m a a ser aprovado na C o n f e r ê n c i a de Fiorença a proposta apresentada a i n d a n o Brasil. Vale a pena apresentar de f o r m a m a i s detalhada a atuação d o cientista social. D o i s dias após o falecimento d o a n t r o p ó l o g o brasileiro. 282-287). relatando que antes de partir para a U N E S C O . Paulo Carneiro. Costa Pinto p r o c u r o u a c q m p a n h a r o processo decisório da assembléia. o sociólogo brasileiro ficou em d ú v i d a q u a n t o à decisão da escolha do Brasil pelo C o m i t ê Executivo da U N E S C O . em carta ao dirctor-geral da U N E S C O J a i m e Torres Bodet. M e s m o assim. R o b e r t Angell (1950. Costa Pinto. Todavia. 2 4 Costa Pinto não apenas p a r t i c i p o u d a reunião de Paris mas t a m b é m p r o c u r o u dar continuidade à idéia de A r t u r R a m o s de realizar "estudos sociais e etnológicos no Brasil".

C o s t a P i n t o responde à carta de Métrr ux renovando sua proposta de que parte da pesquisa da UNESCO fosse realizada no Rio de Janeiro..3'1 Para isso. só nos falta o auxílio financeiro e o prestígio da UNESCO para c u m p r i r m o s a tarefa". O sociólogo elogia o representante brasileiro na U N E S C O por sua atuação na escolha do Brasil para "o estudo sobre as tensões raciais". além d o mais esperavam-se mudanças de pessoal.. o sociólogo se contrapunha à proposta inicial d a instituição internacional de realizar a pesquisa apenas em uma área tradicional. o a n t r o p ó l o g o Alfred Metraux. a saber. 29 em n o m e de Robcrt Angell. Costa P i n t o recebeu uma carta do chefe do Setor d e Estudos Raciais do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. 3 5 . Em outras palavras. Costa Pinto recebe carta do assistente de Alfred Métraux. Em agosto. a verdade é que não havia naquele m o m e n t o (8 de junho) nada estabelecido sobre qualquer plano ou programa de estudo para o Departamento. N a m e s m a carta. após duas semanas. R u i Coelho. 3 0 Finalmente. Costa Pinto recebeu carta de Paulo Carneiro 3 1 comunicando-lhe que a Conferência Geral de Florença havia escolhido o Brasil. informa ao representante brasileiro na UNESCO que já tinha escrito a Robcrt Angell "expondo a cie c o m o o plano [da pesquisa no Brasil] surgiu e o que tinha cm mente ao propô-l[o]". contava com a possibilidade de realização de um convênio entre a instituição à qual pertencia e à UNESCO.) [para] a constituição de outras equipes semelhantes que trabalharão em outras regiões d o país". e nas indicações das pessoas d e reconhecida autoridade científica n o c a m p o das ciências sociais (. reorganização de serviços e t u d o dependia dos resultados de Florença". "analisando a situação racial brasileira na perspectiva cie u m a sociedade em franco processo de industrialização".23 U m a semana depois. 32 Na condição de professor cio D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i e m e m b r o da equipe da pesquisa C o l u m b i a University/Estaclo da Bahia.APRESENTAÇÃO 27 a Paulo Carneiro para "fazer o possível para q u e essa escolha recaia no Brasil". na qual o antropólogo brasileiro informa-lhe sobre o avanço das negociações com a equipe de Wagley na Bahia e que "haverá uma seleção de n o m e s . a Bahia. apesar d e todo interesse que tinha pelo Brasil. 33 Nesse sentido. baseada na fé de ofício dos candidatos. que "dizia que. " t e m o s o pessoal (somos sete professores de Ciências Sociais). Disse-lhe também que o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil estava inteiramente à disposição da UNESCO para realizar a pesquisa.

não há qualquer registro de contatos institucionais com o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da então Faculdade Nacional de Filosofia. então. com os brancos n a t u r a l m e n t e n o topo e os negros na base da pirâmide. de corte racialista —• q u e estabelece u m a correlação entre hierarquia racial. 1947. p. 1948) nos quais p r o c u r o u refinar seu instrumental teórico-metodológico tendo em vista suas preocupações a respeito do tema da mudança social. e a estrutura de classes — o sociólogo afirma. O artigo Sobre as classes sociais marca o início das tímidas incursões de Costa Pinto no terreno d a análise das relações raciais até o final da década de 40. incorporado à pesquisa da UNESCO em n o v e m b r o de 1950. que a partir dos "intensos contatos raciais e culturais entre negros escravos e brancos colonizadores. de acompanhamento da decisão de Florença e de sua inserção na pesquisa.28 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO E m b o r a Costa Pinto destaque o pioneirismo de sua instituição de ensino na formulação do projeto UNESCO. 1946. se envolveu na pesquisa do Rio de Janeiro. Estabelece. o etnólogo e jornalista Edison Carneiro. considerada conservadora pelo sociólogo. Ao criticar a corrente sociológica. colaborou na resolução adotada pela UNESCO de u m a pesquisa a ser desenvolvida no Brasil e se propunha a realizar u m estudo sobre as relações raciais em u m contexto de industrialização. 36 Alfred Métraux sintetiza bem o papel d e Costa Pinto no processo de formulação do projeto. N o s dois relatórios de suas viagens ao Brasil. É importante registrar que o autor se baseou no e s t u d o de Donald Pierson (1945) para chegar a tal conclusão. Vaie lembrar que apenas o sociólogo baiano. 248). com a colaboração de seu conterrâneo. apresentados por Alfred Métraux à UNESCO. Costa Pinto foi. encontram-se h o j e certas organizações em que a cor e a classe tendem a coincidir com fatores de discriminação social" ( C o s t a Pinto. as ciências sociais no Rio de Janeiro pareciam gozar de pouco prestígio no interior da agência internacional. que não pertencia aos quadros da FNFi. . utilizando o exemplo d a colonização do continente americano. nesse momento. que havia definido n a conferência de Florença uma linha de investigação sobre os impactos da modernização em áreas subdesenvolvidas. u m a c o n s t a n t e interiocução com a sociologia acadêmica. Enfim. Costa Pinto era colega e amigo de Artur Ramos. O interesse do sociólogo convergia com os objetivos d a UNESCO. 3 7 Ciasse com aparência de raça Costa Pinto escreve alguns artigos (1946.

p. que credita ao estrelato de determinados jogadores (Leônidas. Costa Pinto ressalta a importância do livro por revelar. social onde menos se espera encontrá-los.APRESENTAÇÃO 29 Na resenha do livro de M á r i o Filho. p. a crítica à ideologia da democracia racial. com que os clubes de via em e canais petos quais o antagonismo de raça e de bairro assume aspectos novos por que mascara de um lado o de outro lado. Costa Pinto foi convidado pelo seu exprofessor Artur Ramos. Segundo o sociólogo: essa distribuição sejam. em casos individuais. ou seja: relações raciais subsumidas à luta de classes. p. No final da década de 40. o livro oferece diversos exemplos quanto à "tendência . da competição fundamental p. de a linha de cor se identificar c o m a linha de classe. Gradin) a possibilidade d e ascensão social dos negros no Brasil. O trabalho sobre o desenvolvimento da profissionalização do futebol brasileiro destaca as tensões e conflitos vividos pelos negros neste processo. a sua presença mesmo antagonismo (idem. O sociólogo considera que o jornalista Mário Filho enfatizou em demasia o aspecto racial quando. O negro no futebol brasileiro. Em 1947. 181). 183) setores da vida classe. o cientista social critica a ideologia da democracia racial. na verdade. Fausto. 182). Mário Filho demonstra que esses jogadores são os melhores indicadores da "distância entre a montanha e a planície. entre a classe e sua 'aristocracia'" (idem. Domingos. de grupo. N o final da resenha. a partir das relações sociais que norteariam a prática do futebol. apresentando inúmeras evidências "sobre aspectos p o u c o conhecidos da luta de classes e do preconceito racial no Brasil" (Costa Pinto. Costa Pinto já indicava alguns elementos que estariam presentes na pesquisa posterior d o sociólogo. formas. Costa P i n t o e n a l t e c e a o b r a por indicar c o m a c u i d a d e as transformações que vinham ocorrendo no esporte com o advento d o processo de assalariamento. e como esta última predomina como fator de discriminação quando. 182). e a divisão geográfica da cidade do Rio de Janeiro espelhando a estrutura social. gerando u m a série de conflitos de interesses entre "cartolas" e jogadores e indicando assim a superação de relações que eram até então regidas pelo paternalismo (idem. a existência de um padrão ecológico das agremiações esportivas. Pela primeira vez. Costa Pinto elucida sua perspectiva sociológica no que tange às relações raciais. 1947a. O negro seria um b o m exemplo para ilustrar essas mudanças. então diretor do Departamento de Ciências Sociais . 182). espacial das claises sociais faz manifestações esportiva e revela. p. os dois fatores de diferenciação social deixam de estar identificados" (idem.

4) que raça é menos u m fato biológico do que um mito social. a agência internacional tinha estabelecido u m programa de luta contra o racismo que incluía u m a definição "desracializacla" da n o ç ã o dc raça. 5) as indagações sobre "a pertinência da utilização de conceito de raça c o m o f u n d a m e n t o para a análise dos fenômenos econômicos. Nessa ocasião. 7-12). diversas outras regiões desse tipo raciais" . sempre em ligação com as os tratamentos das minorias 1950. Para o sociólogo. p. Costa P i n t o dava continuidade ao projeto de Artur Ramos. tendo íntima relação c o m a dominação numa sociedade de classes e. de perfil interdiscipiinar e r e u n i n d o equipes de pesquisadores de diversos países. Ao citar o Brasil como um possível objeto de investigação sociológica. em escala mundial. decisão e futuro escopo cio projeto UNESCO que veio a ser realizado no Brasil no início da década de 50. para participar dc um debate acerca dc uma definição científica d o conceito dc raça que resultou na Primeira Declaração sobre Raça. estruturas para sociais. denominou e as diversas nacionais c excelentes e em nos Estados que Park na África cio "ponteiras soluções étnicas. raça seria u m a variável dependente na dinâmica dos conflitos sociais. mesmo q u a n d o se apresentam como etiquetas soi-disant científicas" {idem. p. . na União Soviética. E m sua intervenção no fórum da UNESCO em dezembro de 1949. sociais. 1950. ênfases do autor). Costa Pinto sugeriu na reunião de Paris que fossem realizadas análises c o m base em pesquisas sobre relações étnicas.30' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO cia UNKSGO. seria fácil encontrar por exemplo. culturais e psicológicos vêm acompanhadas por u m a visão que estaria baseada num pressuposto darwiniano de que o homem naturalmente teria uma vocação para a sociabilidade e a cooperação (Costa Pinto.o que nos permitiria diferentes encontradas (Costa Pinto. Os pontos centrais do polêmico documento foram: 1) a capacidade mental das raças são semelhantes. Sul. na Palestina observar. parã tais investigações. p. 17. Unidos. Costa Pinto questionou a aplicabilidade do conceito de raça para o entendimento das desigualdades étnicas existentes no m u n d o . o cientista social marca o início do seu envolvimento c o m a idéia. 2) a miscigenação não resulta cm degeneração biológica. 3) não existe qualquer possibilidade de se estabelecer u m a correlação entre determinados agrupamentos religiosos e/ou nacionais e tipologias raciais. As diversas formas de perpetuação das disparidades sociais criariam "mecanismo[s] ideológico[s] pelo[s] quafis] se f o r m a m os preconceitos de raça. 18) os problemas na índia. pontos de observação no Brasil. 17). Assim. p. divulgada cm m a i o de 1950. no México. N a sua perspectiva. c o m o poder do imperialismo (idem.

sob o patrocínio da UNESCO. . p. Costa Pinto criticava c o m o a fase afro-brasileira dos estudos sobre o negro.. Por ocasião da pesquisa da UNESCO. p. o n d e c o n t i n u o u sua carreira de jornalista. Em 1939. 237-241). i n f l u e n c i a d o por Artur Ramos. Nesse sentido. os materiais necessários para uma análise do p r o b l e m a da liderança dentro dessas organizações". segundo Costa P i n t o . e s e n d o u m dos organizadores do 2° Congresso Afro-brasileiro. 1988 [1935]. 38 Baiano e m u l a t o . r e u n i n d o . 1994 [1947]. publicou diversos livros sobre a história e a cultura do negro n o Brasil. Costa Pinto contou com a c o l a b o r a ç ã o do jornalista e etnólogo Edison Carneiro (1912-1972). culturais. reivindicativas. um homem de cor q u e tinha ligações próximas com as lideranças do movimento negro.Desde o início d a d é c a d a de 30 participou de um círculo de intelectuais modernistas. do I o Congresso d o Negro Brasileiro. n o ano seguinte. simultaneamente. Costa Pinto escolheu Edison Carneiro não apenas pelos méritos de suas investigações mas por ser. 3 9 Embora estivesse voltado para os estudos históricos e etnológicos. na parte relativa aos movimentos sociais de corte étnico.s e na pesquisa. A partir de 1933. 13-15). aquilo que. como foi o caso da a n t r o p ó l o g a norte-americana Ruth Landes (Landes. A i n d a na década de 30. o etnólogo mudou-se para o Rio de Janeiro. Edison Carneiro formou-se em Direito em 1935. D e d i c o u .não só as tradicionais e recreativas. Edison tornou-se u m a referência obrigatória para diversos cientistas sociais que aportavam na Bahia. assistenciais etc. Nas décadas d e 3 0 e 40. Eclison Carneiro fazia parte d a C o m i s s ã o Nacional do Folclore. do qual participavam Jorge Amado.APRESENTAÇÃO 31 Para a realização d a pesquisa sobre as relações raciais n o R i o de Janeiro. Edison Carneiro se identificava com a visão do sociólogo no q u e tange à consideração dos problemas do negro como fundamentalmente vinculados à estrutura social capitalista (Carneiro. em Recife. O intelectual baiano teve papel fundamental n a pesquisa sobre as relações entre brancos e negros no Rio de Janeiro. como veremos adiante. mas t a m b é m as mais recentes: políticas. em Salvador. "ao estudo das instituições dos g r u p o s de cor no Rio de Janeiro . foi co-organizador com Abdias N a s c i m e n t o c Alberto Guerreiro Ramos da Conferência Nacional do N e g r o e. ao mesmo tempo. envolveu-se com pesquisas sobre os cultos afro-brasileiros. E m 1949. Aidano do C o u t o Ferraz e outros. ou seja. tendo participado do 1° Congresso Afro-brasileiro. havia um ponto de convergência essencial entre os dois intelectuais baianos no que tange ao desenvolvimento da pesquisa.

66). apenas com o " t e m p o que dispusesse do próprio lazer e de algumas sobras do próprio salário. u m a nova cultura [. D e início. p. Até então. 13. superando a "aventura pessoal" (Fernandes. publicado n o início da década de 40 (Holanda. o patrocínio da agência internacional representava prestígio. as limitações de q u e sofrem os estudos afro-brasileiros.32' O NEGRO N O R I O D E JANEIRO O trabalho da UNESCO representou um novo patamar no padrão de pesquisa existente à época. Dessa forma. capitaneada por Artur Ramos. 13). Afinal. advêm da crença de que o negro não é problema e sim "espetáculo" (idem. suscitada pela UNESCO" (idem. que se entorpecem com "a opinião fácil de que o tempo apagará bem cedo e sem deixar vestígios toda a influência africana na formação brasileira" (idem. 14). p. Sérgio Buarque demonstra u m a clara insatisfação com as elites europeizantes. p. 1976 [1962]. cabe lembrar que a crítica sociológica de Sérgio Buarque não importa na eliminação da dimensão cultural. p. p. não se atenta para o lado problemático da condição do negro no Brasil. menos africano" não "admit[amj que o caldeamento de raças realizado em escala sem exemplo po[ssa] significar enriquecimento de potencialidades. como aconteceu com a pesquisa entre negros e brancos. q u e sofre o preconceito sutil. que é vítima das imprecisões dos censos demográficos e da ideologia do btanqueamento. Costa Pinto e a crítica ao "negro como espetáculo" N a primeira parte do livro O negro no Rio de Janeiro. recursos e trabalho em equipe. p. Nesse sentido.. 1978 [1944]. ênfase do autor). N o entanto. renovados a partir da década de 30. 66). excludentes. o sociólogo se inspira no artigo Negros e brancos. talvez. 13). continua o autor de Raízes do Brasil. Costa Pinto delineia a abordagem conferida à investigação. manancial de onde nascerá. Raramente caía do céu u m a o p o r t u n i d a d e promissora. N a verdade "o negro como espetáculo" .. Sérgio Buarque acredita que há um elogio ao negro. apresenta um conjunto de críticas às pesquisas etnográficas da fase "afro-brasileira" (final do século X I X até a década de 40 do presente século). no qual o autor discute os trabalhos desenvolvidos pela denominada Escola Nina Rodrigues. e que é constantemente visto como estrangeiro em sua própria terra. Para isso.]" (idem. Com isso. que tem por base o realce atribuído ao "aspecto exótico do africanismo" (idem. ele lamenta que os adeptos de "um Brasil mais europeu. No privilégio dado ao estudo da influência cultural africana sobre a sociedade brasileira. o trabalho sociológico era realizado com ausência de apoio financeiro. p. 9)' í() por Sérgio Buarquc de H o l a n d a .

. p. que. ou seja. como seria o caso da ideologia da democracia racial. Desse p o n t o d e vista. só uma leitura sociológica elucidaria os novos desafios ditados pelo cenário advindo com o desenvolvimento capitalista e as novas relações das classes sociais derivadas da passagem "da c o n d i ç ã o d e escravo à de proletário e da condição de proletário à de negro de classe m é d i a [. c o m o atraso das relações sociais n o País. os traços culturais e religiosos de origem africana. 32-33). 86). as especificidades do desenvolvimento capitalista n o Brasil (Costa Pinto. o da inclusão. d e f o r m a mais ampla.. 91). conflito. O r a interessados pelas investigações acerca dos constructos raciais. acomodação e assimilação) formulado por Robert Park ( 1 9 5 0 . p. 1953. Para desenvolver tal e m p r e e n d i m e n t o . que concebe as diferenças raciais como um processo em si m e s m o ou a partir dos efeitos da dinâmica das interações interétnicas. estariam sintonizados com o passado. 85). E m seu estudo sobre as relações raciais no Rio de Janeiro.]" (Costa Pinto. Para isso.]" (Costa Pinto. os estudos de N i n a Rodrigues. geram. Nesse sentido.. o cientista social se contrapõe aos estudos a n t r o p o l ó g i c o s e históricos. 1952. o autor procurou "compreender as condições estruturais que. 1953. p. sem levar em consideração a estrutura das relações sociais.]" (idem. os processos de aculturação. a seu ver. Artur Ramos e Gilberto Freire espelhariam a realidade d e u m a sociedade tradicional..APRESENTAÇÃO 33 seria a síntese da ótica da exclusão. p. enquanto a perspectiva sociológica preconizada por Sérgio Buarque poderia ser vista sob um n o v o registro.. É nessa perspectiva que se pode entender a apropriação das críticas de Sérgio Buarque de H o l a n d a aos estudos afro-brasileiros feita p o r Luiz de Aguiar Costa Pinto. Costa Pinto afirma que seria necessário . Costa Pinto acreditava q u e a pesquisa da UNESCO poderia se constituir em uma excelente oportunidade p a r a o Brasil u conhecer-se melhor a si m e s m o [. 149-151). ora b u s c a n d o os fundamentos histórico-sociais q u e dariam substância a uma enganosa crença de uma identidade nacional positiva. mantêm e estão agravando os fatores de tensão racial [. destacando as características intrínsecas às raças (físicas e psíquicas).41 ou. A investigação lo sociólogo no antigo D i s t r i t o Federal representa um esforço de afirmação da sociologia como ciência capaz de interpretar o amplo painel de mudanças sociais existente n o Brasil naquela época. no bojo de uma sociedade em m u d a n ç a . lembrando o "ciclo de relações raciais" (competição. Costa Pinto critica também a tradição de estudos étnicos desenvolvidos pela Escola Sociológica d e Chicago.. p.

65). 1 9 5 6 . evitando assim a mera repetição dos padrões vigentes nos países capitalistas desenvolvidos (EUA.] 95) estejam ligadas a fatores Pinto. E m p l e n o contexto dos primórdios da Guerra-Fria e do avanço do socialismo não apenas na Europa como na Ásia. 20-21). Costa Pinto c h a m a a atenção da "coexistência desses dois m u n d o s marginalizando a sua estrutura de alto a baixo. França. 1952. tem [. p. lado a lado com problemas típicos de estruturas agrárias atrasadas. p. de problemas comuns às sociedades capitalistas desenvolvidas. Diante desse quadro. a investigação das relações raciais se constituiriam em um i n s t r u m e n t o privilegiado para a ínteligibílidade dos impasses. o sociólogo acreditava que o Oriente suscitaria soluções históricas mais atraentes f r e n t e aos problemas experimentados pela sociedade brasileira (Costa Pinto. o que c se qíte não étnicas. por meio d e dados censitários (demográficos. Costa Pinto vislumbrou a oportunidade de investigar os aspectos peculiares de um país subdesenvolvido... Costa Pinto.. substancialmente Partindo da crítica ao viés culturalista. neutralizando-se reciprocamente. educacionais.. a sociologia teria a função de elucidar as complexas transformações estruturais advindas com a modernização. expressão total considerada e que. o Brasil se caracterizaria "pela coexistência. dos obstáculos e dos processos de mudança social que estariam ocorrendo na sociedade brasileira. e c o n ô micos. p. c o l o c a n d o ... étnica.. a p a r e n t e m e n t e dual. só é tem estão vezes. n a q u a í evidencia forte preconceito em relação aos casamentos interétnicos. Inglaterra). Portanto. (Costa se abandonam as falácias cttlturalistas noção ciara das circunstâncias envolvidas na configuração podem assumir [. Para o sociólogo. muitas embora de ordem completamente diversa ". 1953. 27-29. 21). p. nem um nem o u t r o possuídos da devida força histórica para d o m i n a r sozinho o panorama e i m p r i m i r rumo definido e sentido claro à civilização brasileira..34' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO dar ao trnço étnico possível quando o valor que realmente objetivas. Em seguida. se atém aos estereótipos em relação ao negro com base na escala de distância social de Emory Bogardus. 1955.]. na medida em que o conhecimento de u m a realidade sob impacto recente d o processo de urbanização e industrialização poderia oferecer alternativas ao concerto das nações. ecológicos) mostra as profundas disparidades sociais entre brancos e negros." (idem.". n a fase de transição já longa e penosa que atravessa. p. denominado em t r a b a l h o posterior de marginalidade estrutural (Costa Pinto.

São essas transformações que suscitam a maior visibilidade do preconceito racial. 190-191). que em geral levam ao "embranquecimento" da pessoa de cor. expor a densa e minuciosa pesquisa de Costa Pinto. 183-184). D a condição de escravo à de proletário. p. que constituiria a granc. F i n a l m e n t e dedicase no estudo dos movimentos sociais negros. e uma etiqueta das relações raciais. preconceito racial e movimentos sociais d e corte étnico. p. até a década de 30. de identificação da população de cor c o m as reivindicações do proletariado.acrescidas do desenvolvimento da industrialização e da urbanização levaram à proletarização de amplas parcelas de negros e pardos. segundo Costa P i n t o . 111). por parte dos setores sociais dominantes. Dessa forma. que gera situações d e competição e de mobilidade social. Costa P i n t o considera que as mudanças sociais ocorridas a partir do final do século X I X . c o m base no preconceito racial. assiste-se ao surgimento de atitudes reativas.com o fim da escravidão. 99). que prevaleceu. O leitor de O negro no Rio de janeiro terá o privilégio de acompanhar a apresentação detalhada e objetiva da argumentação desenvolvida pelo sociólogo. no presente que ainda n ã o se encontra totalmente configurado. na qual seria constrangedor qualquer menção à condição racial d e u m indivíduo (idem. sim. neste momento.APRESENTAÇÃO 35 mais uma vez em q u e s t ã o a ideologia da democracia racial. N o quadro da sociedade tradicional. vale ressaltar um aspecto c o n t e m p l a d o p o r Costa Pinto em sua obra: as relações entre estrutura social. N o e n t a n t o . p. não se localiza no passado escravocrata e. a fonte explicativa para as práticas discriminatórias contra negros e pardos. haveria u m processo de alinhamento. Entretanto. com o avanço do processo de desenvolvimento capitalista. ameaçados de perder suas posições sociais. p. podendo assim sofrer injunções diversas de natureza econômica e social que acabem por criar .c maioria da população urbana d o Brasil (idem. educação). Não cabe. o preconceito racial era difuso à medida que as posições sociais de brancos c negros na estrutura sócio-econômica eram tão solidamente desiguais. que tornava dispensável a utilização de mecanismos discriminatórios ( i d e m . Essa situação vincula-se a outros dois importantes aspectos: os atributos sociais associados à cor (posições sociais. a fundação da República e a vigência das instituições liberais . eis o caminho trilhado pela p o p u l a ç ã o de cor na ex-capital do País ao longo de setenta anos de mobilidade social (idem. Desse modo. agrária. segundo o autor.

p. por serem proletárias. Para dar maior substância às suas reflexões. do pensar e do agir de brasileiros. 184). E nesse último perfil de organização social que o autor concentrará seus esforços de pesquisa e reflexão. Essa elite viveria o d r a m a da ascensão e das barreiras advindas dos estereótipos. N o entanto. 2 5 7 . à mística. limita-se a contemplar os intentos e as mazelas vividos pelos negros d e classe média "duplamente asfixiados p o r sua condição de raça e de classe" (idem. religiosas. que. Costa Pinto detém-se especialmente na análise d o Teatro Experimental do Negro ( T E N ) . especialmente no século XIX. 274). O sociólogo concebe que a nova forma de ascensão dos negros já não é mais individual e nem tem interesse em "branquear-se".7 0 ) . estariam mais identificadas com movimentos de corte classista (partidos. a p r e s e n t a n d o "a contribuição do africano à estética. voltadas às atividades recreativas. mais identificadas com "a história viva e contemporânea das aspirações. ditada pelo paternalismo. 257. dos problemas. Diante desse cenário. o sociólogo vai apresentar na última parte de sua obra a análise do associativismo negro. 270). Sob o impacto d o desenvolvimento capitalista e o processo de mobilidade social vertical. . particularmente de intelectuais. p. Para ilustrar o seu argumento. o sociólogo reafirma o caráter elitista do movimento negro que. culturais. das lutas. Agora estaríamos diante de "novas elites" que buscam afirmar sua negritude (idem. à coreografia. p. à cultura defolk brasileira" (idem. p. p. p. cultural e nacionalmente brasileiros. em s u m a . 259).36' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO circunstâncias agravantes em matéria étnica (iciem. do sentir. p. Costa Pinto classifica as associações em dois níveis: as tradicionais. a despeito do seu afã de representar o negro e m geral. etnicamente negros" (idem. ênfases do autor). essa nova liderança mantém-se em uma redoma n a medida em que não consegue sensibilizar as "massas de cor" que. social. sindicatos) e não étnicos (idem. ênfases do autor) e as de n o v o tipo. 2 6 9 . à música. p. formando u m a "elite negra" (idem.2 5 8 . segundo Costa Pinto. Tal dualidade provocaria a elevação do número de negros distanciados "das massas de cor" e que se transformariam em "porta-vozjes] natura[is] das angústias e das aspirações de seu grupo étnico e n q u a n t o grupo social" (idem. ocorre u m a diferenciação interna entre os negros com o surgimento de u m a p e q u e n a parcela de classe média. como acontecia na sociedade tradicional. 275).

significaria. 284).. no País" (idem. seria u m ator fundamental n o processo de mudança social. Ao longo da análise crítica sobre o T E N . 276-277). assim. ou a participação no processo eleitoral de 1950 . Mesmo c o m a organização de eventos políticos. a ação política da "elite negra" não conseguiria discernir a diferença entre a aparência étnica e a essência de classe de sua condição social. sem dúvida.. e destrói-o e vence-o em mil batalhas quotidianas. O negro proletarizado. a edição do jornal Quilombo — o T E N . c o m o a Convenção Nacional do Negro (1949) e o I Congresso do N e g r o Brasileiro (1950). não logrou ir além dos limites classistas dos seus membros (idem.. Costa Pinto concebe essas qualidades d o "negro-massa" a partir de um diagnóstico que indica que o incremento de u m a economia de tipo industrial opera u m processo de proletarização de grandes contingentes da população. 278). em relação ao racismo. p. em cada forma ou circunstância em que se manifesta. [. A constituição de movimentos sociais de corte racial revelaria a "falsa consciência" do negro que conseguiu escapar à proletarização. pensando. p. o "negro proletário" agiria de m o d o diverso da classe média negra. trazendo. na m e d i d a em que "[o] encara sempre face a face. isolada. "um racismo às avessas" (idem. Ela se expressaria por meio da ideologia da negritude preconizada pelo T E N e que. 332-333). Assim. segundo Costa Pinto. p. mais como massa.] assum[e] a envergadura de um movimento. sentindo e agindo menos como raça.além da elaboração de cursos de alfabetização. segundo Costa Pinto. de fato. Em contrapartida. de atividades sociopsicológicas c o m o o sociodrama.. é freqüente observar-se o tom irônico de Costa Pinto a respeito das formulações e propostas da . mais que isso: de um grupo depressão [. permanecendo. Dito de outra forma. o T E N seria a "mais legítima expressão ideológica da pequena burguesia intelectualizada e pigmentada n o Rio de Janeiro e. o autor observa que a conscientização de classe e não étnica do "negro-massa" estaria em sintonia com o contexto político nacional e internacional que apontaria para diversas m u d a n ç a s r u m o à superação do problema racial. uma nova mentalidade e estilo de comportamento. p.APRESENTAÇÃO 37 devido "à dinâmica da tensão racial.]" (idem. de caráter universal. 337. por conseqüência. Por sua vez. cada vez mais como classe" (idem. p. assumindo aos poucos a consciência do seu lugar na história. ênfases do autor).

inserido no suposto projeto revolucionário liderado pela classe operária. pode-se inferir que Costa Pinto encontra-se mais uma vez diante de u m fenômeno que guarda semelhança com a visão do "negro como espetáculo". atinada. Finalmente. " u m constante r. Congresso Nacional Africano/África do Sul. . com lei sociológica. 1947. próprio à ambígua situação que vivem em geral setores de classe média agravada. u m a minoria de intelectuais. Afinal. que combina a utilização do teatro. 16). Este seria mais um exemplo. 325). 1996. 265).38' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO associação. seria freqüentemente reafirmado em situações de tensão racial por meio da expressão "no Brasil não existe problema racial" (Costa Pinto. que é interpretado como íalsa consiciência. Nesse sentido. I n d o além. circunscrita a determinado contexto. Frente Negra Brasileira) que sugere outro tipo de reflexão. distante daqueles a q u e m busca representar e investida da consciência de sua s i n g u l a r i d a d e . elites negras que sofrem os percalços da ascensão social devido às barreiras raciais constroem ideologias raciais que informam sua luta contra os obstáculos à mobilidade social procurando se respaldar nas massas. no m o m e n t o em que os "negros proletários" começariam a t o m a r consciência de seu papel em u m a sociedade em mudança e aos poucos suspenderiam todas as barreiras impostas pela sociedade de classes r u m o a u m a nova etapa da história da h u m a n i d a d e . Se o movimento negro de novo tipo emerge do moderno desenvolvimento capitalista. consciente d o p r o j e t o internacionalista em curso. 1953. Carlos Hasenbalg alerta para o problema de se c o n f u n d i r a análise de uma experiência. Este mito. a crítica ao "negro como espetáculo" implica em severo questionamento da ideologia tradicional das relações raciais expressa pela crença de que o Brasil seria u m a democracia racial. como instrumentos de conscientização política. seu isolamento e alienação representariam o atraso em face das transformações/ 1 2 Sem entrar no mérito das críticas específicas ao T E N apresentadas por Costa Pinto. de criplomelanistno. Elasenbalg se indaga sobre qual atitude os negros devem ter para se contrapor ao racismo enquanto o "negro proletário". p. é visto c o m o algo exótico. pela especificidade do problema racial. p. segundo Costa Pinto. de práticas sociopsicológicas com a elaboração de uma ideologia da negritude. p. O projeto político-cultural liderado pelo então ator e jornalista Abdias Nascimento e pelo sociólogo Guerreiro Ramos.doiço dc esconder a existência do problema dn cor" (Sereno. não gera a mudança radical da estrutura capitalista (Hasenbalg. O sociólogo apresenta u m a série de exemplos históricos ( N A A C P / E U A . a saber. nesse caso. n ã o estaria sensível.

1953. n ã o de espécie" (Costa Pinto. constam g u a r d a n d o a l g u m a s pai i iculai idades nos d o i s p a í s e s . que tenderiam a idealizar. ocorre até mesmo segregação residencial étnica. 11). antropólogos e sociólogos norte-americanos. d o t a d o s de u m a "concepção falsa de orgulho nacional" (Costa Pinto. não apreende as adversidades sofridas pelo negro nos grandes centros urbanos. p. p. Hasenbalg. Essa avaliação do autor merece uma atenção especial. característico da situação anterior a 1888. 30. 148. o u a historiadores. p. a passagem do "escravo ao proletário" só vem a reforçar a crença de C o s t a Pinto de que as tensões raciais só a d q u i r e m importância com o processo de urbanização e industrialização. p. por outro. referência indireta a Gilberto Freire. q u a n t o ao racismo. 29 e 171). Não é à toa que ao longo do livro o sociólogo critica. p. advindas da mobilidade social d a população de cor. N a verdade. 2 4 ) .APRESENTAÇÃO 39 As indagações de Costa Pinto chegam ao limite de considerar que não haveria diferença qualitativa entre o preconceito racial verificado nos EUA e o racismo à brasileira. autores brasileiros. 1953. e. O desenvolvimento capitalista estaria g e r a n d o u m cenário de crescentes tensões sociais que levam. ênfases do autor). .'" Nesse sentido. que ocorre no período pós-abolicionista. à de proletário. Ele observa que as diferenças existentes entre os dois países. há um certo descompasso "entre a ideologia racial tradicional e a nova situação racial' (Costa Pinto. 161. por u m lado. p. as análises comparativas e n t r e o contexto norteamericano e o brasileiro vinham servindo mais para obscurecer do que para elucidar a situação nacional. c o m o já foi visto. 326). mesmo reproduziria. n o intervalo compreendido entre a Abolição e o final da década de 40. 1996. a situação brasileira n ã o seria substantivamente distinta da norte-americana. p. onde a população de cor só veio a ser incorporada no sistema de trabalho urbano como operária. Costa Pinto afirma. 1953. as relações raciais n o Brasil (idem. N e s s a perspectiva. 1979. que o limite da mobilidade social d o negro no Rio de Janeiro. em diversas ocasiões. principalmente a partir da década d e 3 0 (Beiguelman. como é o caso das favelas. segundo C o s t a Pinto. seriam. 1953. E n f i m . a formação de movimentos sociais negros de caráter rcivindicatório. A análise d o sociólogo a respeito do deslocamento d a posição social de escravo. positivamente. d e grau. foi do "escravo ao proletário". Na medida e m q u e . s e e s t a r i a d i a n t e d o s efeitos d o s i s t e m a capitalista que. à criação de barreiras raciais. "antes de tudo.

110 q u a d r o das relações raciais. No momento em q u e surgem propostas de racialização da sociedade brasileira. 1953. C o m o observa Glaucia Villas Bôas (1989). frente ao tema da mudança social. 230) das quais vão ensaiar aquele supremo objetivo de predeterminar ação no presente. sem subterfúgios. a ascensão no interior da sociedade tradicional de pardos e negros (as "honrosas excessões"). não é u m a . A afirmação do papel relevante e mesmo imprescindível dos sociólogos. formular refletirem consciência de meio o uma mudança dela. comprometidos com um Brasil m o d e r n o e com uma intervenção esclarecida na definição dos rumos d o País. Contribu[iriam desta forma] para a realização. o sistema de classificação de cores n o Brasil que implicaria uma d i m e n s ã o cultural e social e. especialmente no capítulo Atitudes. em diversas situações. estereótipos e relações de raças. para Costa Pinto. Raça. A conclusão a que chega o autor. a saber: a ideologia do b r a n q u e a m e n t o . os sociólogos. de nova etapa d o processo civilizatório" (p. u m dos produtos mais bem acabados do " t e m p o dos sociólogos" na década de 50. alteram a posição social dos indivíduos. O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança é. sem dúvida. A constatação de uma certa tensão entre argumentos de ordem mais geral e as reações de Costa Pinto frente aos d a d o s da pesquisa que ele colhe.40' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO temente. por conseguinte. eles acreditavam que seus trabalhos científicos estavam comprometidos c o m o "avanço da história". uma série de "imprecisões". desigualdades na estrutura de classes e. 1). no que se refere à comparação entre os dois países. c o m o o sociólogo observa no censo etc. tentar social na qual estão envolvidos é tomar programas ação que visem controlá-la futuro pela e organizar agências especificas por (Costa Pinto. ocorre em detrimento de u m a série de singularidades apontadas pelo próprio sociólogo ao longo do seu trabalho. sobre um t e m a tão controverso como o racismo n o Brasil. por conseguinte. p. os atributos associados à cor que. aparece de maneira nítida na seguinte passagem do livro de Costa Pinto: a forma mais autêntica compreendê-la e mais expressiva de os homens e interpretá-la. só vêm a confirmar a densidade do trabalho do sociólogo. Embora de m o d o s distintos e freqüentemente envolvidos em controvérsias. no Brasil. c o n c e b i a m seu campo disciplinar específico c o m o "um saber racional equivalente a u m a forma de consciência superior. é muito bem-vinda a reedição de O negro no Rio de Janeiro. obra que contribui para uma reflexão.

6 7 Costa P i n t o m i n i s t r o u duas palestras patrocinadas pela SBAE: a primeira. versava sobre a sociologia do conhecimento. Nogueira (1955). 4 2 T h e P r o g r a m m e of UNESCO proposed by the Executive Board. devem ser combatidas c o m políticas públicas redistributivas. 20/3/1950. Roger Bastide e Florestan Fernandes (1955). Part II—• Draft Carta de A r t u r R a m o s a Jorge Kingston. Ribeiro (1956). em 1943. Biblioteca Nacional. Resolutions For 1951. de caráter universal. in Coleção Artur Informações biográficas extraídas de Costa Pinto ( 1 9 8 9 . editado pela União Nacional dos Estudantes. D o seu p o n t o de vista sociológico emerge a concepção de que as desigualdades sociais. Marcos C h o r M a i o Doutor em Ciência Política. Costa Pinto (1953).. tão necessária frente aos grandes desafios deste final de século. 1950. p. 1944). . 8 E m 1943. apresento uma análise do processo de discussão. -1 Invesrigações-piloto ou projetos-piloto são "experiments carried o u t by agreement with g o v c r n m c n t s a n d their assistance. sobre a obra dc R o b e r t Park. a pensar e agir de forma abrangente e generosa sobre a dinâmica da m u d a n ç a social. 5 Seção de Manuscritos. de análise. (1952). 78. uma homenagem ao sociólogo norte-americano que havia recém-falecido (Costa Pinro. 1947). decisão e estruturação do p r o j e t o UNESCO. 40. 1995) Ramos. UNESCO Archives. C o s t a Pinto fez parte da comissão que elaborou a s e g u n d a edição Coluna e integralismo. IUPERJ Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/FI0CRUZ Notas ' Os resultados das pesquisas do projeto UNESCO f o r a m publicados e m : Wagley ec al. A segunda palestra. 1997).APRESENTAÇÃO 41 categoria essencializada. atores e imagens) c 2 (Da Bahia para o Brasil: o projeto UNESCO de relações raciais) da minha tese de d o u t o r a d o ( M a i o . Paris. Nos capítulos 1 ( O Brasil como modelo para a UNESCO: contexto. que se apresentam no âmbito das relações raciais. UNESCO Archives. p. c o m o cidadãos e intelectuais. substantivada. É nessa perspectiva que Costa Pinto nos convida. intitulada Sociologia e mudança social (Costa Pinto. in the p r o g r a m m c of UNESCO proposed by the Executive Board. 14/9/1949. Azevedo ( 1 9 5 3 ) . their purpose b e i n g to test or demonstrate under typical c o n d i t i o n s thc methods best calculated to assist M e m b e r States in dealing with spccific problcms". Paris. Statement of methods. do livro Quinta Trata-se de u m a publicação de denúncia das atividades integralistas no Brasil.

5 / 9 / 1 9 4 4 . Arquivo do I n s t i t u t o Gilberto Freire. that you w o u l d be interested for even a long time.42' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO . 153-154) e Pierson (1987. no entanto. C a n t r i l . Carta de Artur Ramos a D o n a l d Pierson. carta de Donald Pierson a A r t u r Ramos. carta de Artur Ramos a D o n a l d Pierson. Ramos. Projeto His. I F C H / U N I C A M P . Biblioteca Nacional. O primeiro cientista social a ser c o n v i d a d o a assumir a direção do D e p a r t a m e n t o d e Ciências Sociais da UNESCO foi Gilberto Freire. Ramos. Biblioteca N a c i o n a l . além de ser o resultado de seu c o m p r o m i s s o c o m o projeto Columbia University/Estado da Bahia.700 but r u n s u p closer to 10. ) Cantril recebeu u m a carta de G i l b e r t o Freire com a exposição de motivos d a recusa em aceitar o convite i n f o r m a l d o psicólogo social. do qual p a r t i c i p o u t a m b é m o sociólogo Guerreiro Ramos. para o objetivo d e nosso texto. 13/8/1948. It would need to be for at least o n e year. C o s t a Pinto publicou trabalhos e m o u t r a s revistas. 61) o curso do DASP. s o n d o u informalmente Gilberto Freire sobre a viabilidade de o sociólogo brasileiro vir a tornar-se diretor d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da UNESCO. 13 14 12 D e p o i m e n t o de Luiz de Aguiar C o s t a P i n t o prestado ao autor (27/7/1995)- Costa Pinto tinha u m a visão e x t r e m a m e n t e crítica dos estudos de c o m u n i d a d e . 1948.000". Seção dc Manuscritos. 8 / 9 / 1 9 4 4 . p r o v a v e l m e n t e foi dado em 1942. p. 13/10/1949. c o m o o Digesto Econômico e Financeiro. Coleção Artur Ramos. Seu trabalho Recôncavo: laboratório de u m a experiência h u m a n a (Costa Pinto. is something around U S $ 6. p. professor d e psicologia social da Universidade de Princeton e c o o r d e n a d o r d o projeto "Tensions Affecting International Understanding". I t h i n k . l p . 1 9 5 0 ) . da UNESCO. 1949. não deixa de ser u m a resposta aos estudos de comunidade desenvolvidos pela e q u i p e de Charles Wagley. Carta de Artur Ramos a Pedro C a l m o n . As o u r p r o g r a m expands and takes on Üfe. I mentioned your n a m e a n d w a s asked i f l would write quite informally to i n q u i r e if you would be interested in the p o s i t i o n . [Arvid] Brodersen is Acting Head. 15 Carta de Artur Ramos a C o s t a P i n t o . destaco os artigos q u e apareceram em Sociologia. 15/9/1944. C a r t a de Donald Pierson a Artur Ramos. carta de A r t u r R a m o s a D o n a l d Pierson. 2 8 / 8 / 1 9 4 4 . in Coleção Artur Seção de Manuscritos. H a d l e y Cancrií. Em sua resposta. it b e c o m e s m o r e and more essential to have a h e a d w h o has standing in the field. 2 9 / 9 / 1 9 4 9 .J I n f o r m a ç ã o prestada por Costa P i n t o e m entrevista dada ao autor em 2 / 8 / 1 9 9 5 . Biblioteca N a c i o n a l . conceituada revista d c ciências sociais dessa época (Costa P i n t o . 2 3 / 9 / 1 9 4 4 . in Coleção Artur Seção de Manuscritos. 1944. 1946. 1958). (Carta de Hadley C a n t r i l a Gilberto Freire. 1947. s o m e m e l l o w wisdom. and ali the other qualifications you would know better than I. in Acervo Donald Pierson.tória d a A n t r o p o l o g i a no Brasil. T h e y have been kind enough to ask m y advice about a candidate to serve as H e a d of the Social Science D e p a r t m e n t here. Salary. E m sua carta a Freire. Hadley Cantril escreve: "I have talked in the past few days with those m o s t responsible for the running of UNESCO. the hope of course. logo após o f ó r u m organizado em Paris s o b r e " T e n s i o n s that Cause W a r s " (verão d e 1 9 4 8 ) . " Pelas informações colhidas cm Azeredo (1986.

Arquivo da Família de Paulo C a r n e i r o . foi e x a t a m e n t e buscando um ambiente d e t r a b a l h o q u e aqui e!e não tinha" . ao c o m p a r a r as ciências sociais cm São Paulo c o m o q u e acontecia no Rio de Janeiro. Ele. A carta de G i l b e r t o Freire a Hadley Cantril não foi e n c o n t r a d a . ' T h e P r o g r a m m e o f UNESCO proposed by the Executive B o a r d . Ele foi a o m e x i c a n o Torres Bodet. 2 1 / 9 / 1 9 4 8 . (. 323. 24/9/1949. 1989). Biblioteca N a c i o n a l . Arquivo do Instituto G i l b e r t o Freire). 1950.) T i n h a m a p o i o d a universidade cm que ensinavam. 4 0 . 215). Costa Pinto.. Carta d e C o s t a P i n t o a A r t u r Ramos. M i n a s Gerais e Rio de Janeiro. quando foi chefiar o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da UNESCO. 2 7 / 1 0 / 1 9 4 9 . Paris. p. 21 22 20 Coleção Artur Ramos Idem. praticamente n e n h u m .1. Seção de Manuscritos. 1 3 / 1 0 / 1 9 4 9 .. Em entrevista ao autor em 2 7 / 7 / 1 9 9 5 . O pai. Em d e p o i m e n t o ao a u t o r (10/8/1995). Seção Carta de C o s t a P i n t o a Jaime Torres Bodet. C o s t a Pinto apresentou sua versão s o b r e o motivo que teria levado Artur R a m o s à direção do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO: "O Paulo C a r n e i r o m e c o n t o u que quando recebeu o livro dele [Artur Ramos].APRESENTAÇÃO 43 agradece a carta de Freire m a s n á o entra em detalhes sobre os m o t i v o s a p r e s e n t a d o s pelo sociólogo p e r n a m b u c a n o ( C a r t a de Hadley Cantni/Gilberto Fteire. Coleção Artur de Manuscritos. " Carta dc A r t u r R a m o s a Paulo Carneiro. Seção de Manuscritos. UNESCO Archives. o D e p a r t a m e n t o dc Ciências Sociais [da UNESCO] estava vacante não havia chefe. 2 / 1 1 / 1 9 4 9 . apuei Azeredo (1986. UNESCO 25 Archives. 1. Carta d e A i t u r R a m o s a Alceu Maynard de Araújo. Ele foi c o n v i d a d o e seguiu para Paris. os dois grossos v o l u m e s da Introdução à antropologia brasileira." Carta de A r t u r R a m o s a Pedro Calmon. Carta d e C o s t a P i n t o a Artur Ramos. p. N ó s n á o t í n h a m o s nenhum. 1 p. B o d e t c o n c o r d o u imediatamente. Part I up to 3 0 / V I / 5 0 ( B O X REG 145). C disse: 'aqui está o h o m e m para o d e p a r t a m e n t o de ciências sociais'. Biblioteca Nacional. Part II — Draft Resolutions For 1 9 5 1 . Paulo Berredo C a r n e i r o (1901-1981) nasceu no R i o d e J a n e i r o e sua família tinha raízes nas elites políticas imperiais no Maranhão. in Race questions & protcction of minorities. 1952). Coleção Artur Ramos. Havia a l g u é m respondendo interinamente. 1 p. Mário Barbosa 27 2r . Biblioteca N a c i o n a l . e importante lembrar q u e n a é p o c a Gilberto Fteitecr» D e p u t a d o Federal pela U n i ã o Democrática Nacional ( U D N ) c estava envolvido no projeto dc criação d e u m instituto de pesquisa em P e r n a m b u c o ( F r e s t o n . a f i r m o u : "Eles [os professores da P F C L da U S P ] e r a m em maior número. Seu lado paterno era p r o f u n d a m e n t e ligado ao positivismo. 24 a Ramos. 29/9/1949. 14 de maio d e 1 9 4 9 . diretor geral da UNESCO. O próprio [Artur] Ramos se queixava disso. Costa Pinto chegou a d e s e n v o l v e r u m a pesquisa sobre migrações internas ( C o s t a Pinto. p. A p e s a r de não sabermos as razões apresentadas p o r Freire. REC..

Paulo C a r n e i r o h e r d o u essa influência paterna. Entre 1951 e 1952 foi presidente d o C o m i t ê Executivo da UNESCO. 3 6 7 . 1 p. deixou marcas definitivas no positivista brasileiro substituindo o cientista pelo político universalista e anti-racista q u e teve papel central na decisão da UNESCO dc realizar a pesquisa das relações raciais no Brasil. q u e mais resistiu às "circulares secretas" do Itamaraty proibindo a concessão de vistos para a entrada de judeus no Brasil ( M i l g r a m . 31/5/1950. antes e d u r a n t e a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l . As i n f o r m a ç õ e s sobre Paulo Carneiro foram extraídas das seguintes fontes: Lins (1971. C u r r í c u l o s da UNESCO. outro positivista. 2 ' A carta que Costa P i n t o recebeu de Alfred Métraux com d a t a de 8 / 6 / 1 9 5 0 não foi encontrada. o n d e p e r m a n e c e u atei 1931. o Serviço dc Proteção ao fndio.44' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Carneiro. criou junto com o M a r e c h a l R o n d o n . Funcionário d o Ministério d a Agricultura. levado p a r a o c a m p o de prisioneiros de Baden-Bacten e a seguir para o dc Godesberg. p. A experiência da Segunda G r a n d e G u e r r a . C o m a libertação da França. p. Paulo Carneiro volta a Paris e m 1 9 3 6 para continuar suas investigações científicas no Instituto Pasteur. lutou pela Abolição d a Escravidão e foi participante ativo na f u n d a ç ã o d a República. P a u l o Carneiro volta ao Brasil. C a b e lembrar que fazia parte do ideário positivista desenvolvido no Brasil. 1995. entrevista dada ao a u t o r p o r Mário Carneiro. filho de Paulo C a r n e i r o . Paulo Carneiro foi delegado permanente do Brasil na UNESCO. cm 1944. Ela é m e n c i o n a d a na carta de Costa Pinto a P a u l o C a r n e i r o . Ciência c C u l t u r a (UNESCO). N o ano de 1927 reccbeu u m a bolsa de estudos para realizar uma investigação científica no Instituto Pastcur. quando concluiu seu d o u t o r a d o pela Universidade de Paris. p. 28/ 6/1950. D u r a n t e a S e g u n d a Guerra Mundial esteve cm estreito c o n t a t o com o Embaixador Souza D a n t a s — representante da diplomacia brasileira. Nesse ú l t i m o . 42-48). p e r m a n e c e u por 14 meses. j u n t o com Souza D a n t a s . Paulo Carneiro chegou a abrigar em sua residência m e m b r o s d a resistência francesa.3 8 8 ) . Paulo Carneiro fica preso j u n t o com a missão diplomática brasileira. A carta de C o s t a Pinto a Robert Angell não foi e n c o n t r a d a . 1947. 81). com base cm sua pesquisa sobre o guaraná. N o m e s m o a n o t o r n o u . 1. é escolhido delegado d o Brasil na primeira Assembléia das N a ç õ e s U n i d a s . p. em 20/9/1995Carta de Costa P i n t o a Paulo Carneiro. e no primeiro governo Vargas chegou a assumir o cargo dc m i n i s t r o da Agricultura. mas n o início dc 1946. Em 1942. o tema da incorporação de índios e negros à civilização ocidental (Bastide. M » Idem. foi m e m b r o do comitê executivo da organização n a maior parte do tempo q u e esteve envolvido com o trabalho da agência internacional. p r i m e i r o c o m o ministro (1946-1958) e depois c o m o embaixador (1958-1965). Formou-se cm q u í m i c a industrial na Escola Politécnica d o Rio dc Janeiro. em Londres. in Arquivo da Família de Paulo Carneiro. c o m a declaração d e guerra do Brasil contra as forças d o Eixo. in Arquivo da Família de Paulo Carneiro..s e representante do Brasil na C o m i s s ã o Preparatória da Organização das N a ç õ e s U n i d a s para Educação. Foi professor da Escola N o r m a l dc 1 9 2 2 a 1927 e assistente da cadeira dc Q u í m i c a Geral da Escola Politécnica dc 1 9 2 3 a 1 9 2 7 . . Além disso.

in th Família " I d e m . q u e h a v i a estudado na Escola Livre d e Sociologia e Política. 3. p. REG 323. N a segunda versão da p r o p o s t a d e organização do Projeto UNESCO. in R a c e questions & p r o t e c t i o n o f m i n o r i t i e s . < a carta de R u i C o e l h o a C h a r l e s Wagley. Rapport au directeur général s u r mission au Brcsil (16 nov. C a r t a d e Luiz de Ag uiar Costa P i n t o a Alfreci M c t r a u x . p. brancos e índios. P a r t II u p t o 3 1 / V U / 5 0 ( B O X R E G 1 4 5 ) . e b o m lembrar que em ptincípio a pesquisa d a UNE. Pertencendo aos quadros d o Serviço dc Proteção aos í n d i o s ( S P I ) .SCO t i n h a a intenção de estudar as relações entre negros. Neste caso.1. P a r t II u p to 3 1 / V I I / 5 0 (BOX R E G 145).APRESENTAÇÃO 45 31 A c a r t a dc P a u l o Carneiro a Costa P i n t o . consta u m a lista d e c i e n t i s t a s sociais. 1 . l . 1 9 5 0 ) . Part II u p . n ã o foi encontrada. t h a n to s t a r t f t o m scratches in Rio (de J a n e i r o ] " ( C a r t a de Rui Coelho a Charles W a g l e y .1 0 .. in Race questions & p r o t e c t i o n of minorities. Suggestions f o r research on race rclations in Brazil.s e a p e n a s o mineiro Darci Ribeiro. 1 4 / 9 / 1 9 5 0 . R E G 323. in S t a t e m e n t o n R a c e . Part II u p to 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). Rapport sur m i s s i o n a u Brcsil. Alfreci & Coelho. é m e n c i o n a d a n a carta cie Costa Pinto a Paulo C a r n e i r o d e 2 8 / 6 / 1 9 5 0 . 9 . o n d e a p r e s e n t a o seu p r i m e i r o relatório de pesquisa. Darci Ribeiro foi citado na c o r r e s p o n d ê n c i a entre o staffàa UNESCO e os p e s q u i s a d o r e s q u e se encontravam no Brasil.1. 1. c o m o c a n d i d a t o potencial a tratar do t e m a das relações entre índios e brancos. p. it w o u l d . 1 p. Race questions & p r o t e c t i o n of minorities. e l a b o r a d a p o r Alfred Métraux e R. UNESCO Archives 37 M é t r a u x . 1 9 5 0 ) . Rui.12 A 102. Ela Arquivo de Paulo Carneiro. in Race questions & p r o t e c t i o n o f m i n o r i t i e s . p. UNESCO Archives. •v> M é t r a u x . UNESCO Archives). ( M é t r a u x . ví C a r t a cie C o s t a Pinto a Alfred Metrattx. p e r h a p s . 2 3 / 6 / 1 9 5 0 . 1-4. revelariam os e l e m e n t o s d e m u d a n ç a na sociedade brasileira. R E G 3 2 3 . UNESCO A r c h i v e s . R E G 323.1. C o s t a P i n t o foi ainda mais enfático. Em c a r t a a Alfred Métraux. b e better for us [UNESCO] to try to c o m p l e t e t h e m w i t h lirtle additional expenses. in Race q u e s t i o n s & p r o t e c t i o n of minorities. Alfred Métraux. Part II u p to 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). Part II u p t o 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). — 2 0 d é c . c o n s i d e r a n d o a c e r t a d a a decisão do staff dc não c i r c u n s c r e v e r a pesquisa à Bahia. R E G file 323. D o Rio de Janeiro. onde o 5 a n t r o p ó l o g o a f i r m a q u e "if some good studies have a l r e a d y b e e n carried o u t in São Paulo.ui C o e l h o . 55 C a r t a d e R u i C o e l h o a Costa Pinto. P a r t I u p to 3 0 / V I / 5 0 ( B O X R E G 145). in R a c e q u e s t i o n s & protection of m i n o r i t i e s . as pesquisas nas áreas m e t r o p o l i t a n a s . p. REG 323. e n c o n t r a . 1 / 9 / 1 9 5 1 .1. — 2 0 d é c . p . 4 . Alfred. UNESCO Archives.5 . UNESCO Archives. t a n t o no Rio de janeiro q u a n t o e m São Paulo. R E G 323.1. UNESCO Archives). in Race questions & p r o t e c t i o n o f minorities. R E G 3 2 3 . E m contraposição. p r o v a v e l m e n t e d e a g o s t o de 1950. Alfred. to 31/VII/50 (BOX REG 145). Rapport au directeur général s u r mission au Brésil (16 nov. O u t r o e x e m p l o do pape! secundário a t r i b u í d o ao R i o de J a n e i r o no processo de e s t r u t u r a ç ã o d a pesquisa. 3 1 / 7 / 1 9 5 0 . 2 9 / 1 0 a 1 2 / 1 2 / 1 9 5 1 . que representaria u m q u a d r o de relações tradicionais. 4. p . UNESCO Archives. 1 . c m s e t e m b r o d e 1950. Part I ( B o x R E G 1 4 6 ) .

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com fidelidade. e m alguns casos. fizeramse necessárias. . seu texto integral. Adotamos. uma vez q u e foi a forma utilizada em diversas passagens do texto. Agradecemos a prestimosa colaboração de Maria Coeli Scalon e Glaucia Villas Bôas na revisão e correção deste material. Esta segunda edição. As divisões das partes e a numeração dos capítulos. da Coleção Brasiliana. a modificação e padronização dos títulos. relações de raças n u m a sociedade em mudança foi publicado em 1953. Os dados percentuais foram mantidos. n a q u a l o livro foi inserido. reproduz. da Editora O Negro no Rio de Janeiro-. série 5 a . além dos evidentes erros de revisão tipográfica. contidos na primeira edição. para melhor compreensão dos mesmos. pela Companhia Editora Nacional. da Editora UFRJ. o subtítulo figura como "relações de raça n u m a sociedade em mudança". tornando-se indispensável. enquanto em sua folha de rosto lê-se "relações de raças numa sociedade em mudança". 276. mesmo quando sua s o m a não é igual a 100%. foram reestruturadas para seguir a padronização de texto da Coleção Clássicos do Pensamento Social Brasileiro. na edição que ora apresentamos ao leitor. algumas alterações. Entretanto. por acreditarmos ter sido esta a escolha do autor. esta ú l t i m a expressão.Nota. na presente edição. T o d o s os quadros estatísticos foram revistos. da Editora UFRJ. N a capa da primeira edição. v.

Naquela reunião. dafl«^/«£mesma e d e suas conclusões. sem correr o risco de sérias incompreensões — entregar este trabalho à divulgação sem preceder a apresentação das análises q u e ele contém de uma notícia geral sobre os antecedentes desta pesquisa.Bases metodológicas — O s estudos "afro-brasileiros" e o t i p o de abordagem do problema aqui p r o p o s t o . assumindo assim. sugerimos a conveniência de a UNESCO p e n s a r seriamente em tornar a América Latina e. indo logo à última página. o Brasil u m l a b o r a t ó r i o de pesquisas sobre as relações h u m a n a s . e n o r m e desilusão. diante dos problemas que aqui são tratados. a ler cuidadosamente esta introdução ao tema desenvolvido. por certo. à procura de u m a explicação fácil para os problemas extremamente difíceis e complexos que aqui são t r a t a d o s . o m e s m o estado de espírito de q u e m o escreveu. durante a troca de idéias que se estabeleceu. e voltará então. Artur Ramos partiu para c h e f i a r o Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. durante a sua curta passagem. para com eles discutir idéias e planos. Foi há alguns anos atrás. iria. mais u m a vez. seus objetivos e finalidades. c o m o aconselhamos. especialmente. ser útil ao m u n d o e h o n r a r a ciência brasileira com os f r u t o s de sua extraordinária energia intelectual. Q u a n d o o nosso mestre e a m i g o Prof. terá. q u e pela p r i m e i r a vez nos ocorreu a idéia q u e hoje alcança sua etapa final. o que parece condição indispensável à perfeita compreensão dos objetivos da análise. reuniu os seus colegas d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia da U n i v e r s i d a d e do Brasil. O leitor lépido e ingênuo que quiser ler este livro de trás para frente. Seria de todo inconveniente — seria m e s m o quase impossível. pela natureza original das . n o qual.Introdução Histórico da pesquisa . os conceitos básicos e a metodologia utilizada. t o m a n d o conhecimento prévio dos nossos propósitos e dos nossos pontos de p a r t i d a . concernentes à s u a f u t u r a atuação naquele posto. precisamente em setembro de 1949.

a coexistência desses dois mundos.. nem um nem outro possuídos da devida força histórica para dominarem sozinhos o pan o r a m a e imprimirem rumo definido e sentido claro à civilização brasileira que assim permanece. dos chamados países subdesenvolvidos.54' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO estruturas sociais existentes nesta parte do m u n d o . mas insistimos. Essas estruturas se caracterizam. o que muito menos podemos fazer aqui.. senão impossível. especialmente. só pode ser visto como essa procura confusa. por isto mesmo. que se não pode limitar a repetir aqui as mesmas situações nem. cujos sinais objetivos se i m p õ e m à observação de qualquer um. que as chamadas "elites" lhe querem formalmente impor como futuro. de dois estilos históricos. afirmando explicitamente — pois nesses . de dois mundos. pois foi o nosso último encontro com Artur Ramos antes do rápido abraço no aeroporto. marginalizando a sua estrutura de alto abaixo. participam simultaneamente de duas épocas. não somente na superfície mas na própria base e no próprio plano estrutural de seu arcabouço. não desenvolvemos a análise desse problema n e m de suas últimas implicações. quase diríamos. que lembram situações pelas quais outros países já passaram há u m ou mais séculos atrás. pois era o que interessava no momento. na fase de transição já longa e penosa que atravessam. segundo pensamos e naquela ocasião dissemos. sobre a natureza original dos nossos problemas.às vezes dramático. pela coexistência. analisado com realismo. Em conseqüência disso. neutralizando-se reciprocamente. nem somente o avanço para o futuro. que esses países oferecem à observação do sociólogo é o de organismos que. vivendo um presente que é c o m p o s t o de um passado morto e da perspectiva infecunda. quando não convulsa. que se ofereciam ao estudo cm condições que talvez hoje não encontrem semelhança em nenhuma parte da terra. engendrar as soluções que gerou nas estruturas sociais em que historicamente surgiu. marginalizada e bifronte. Este presente. de novos estilos de vida e de novos rumos históricos.e disso o Brasil é expressivo exemplo o que principalmente caracteriza sua estrutura de sociedade não é somente a sobrevivência do passado. É antes. lado a lado com problemas típicos de estruturas agrárias atrasadas. de outras saídas e soluções. defendendo a opinião de que o impacto da civilização industrial e urbana sobre esses países é algo sociologicamente novo e diferente do surgimento daquela civilização nas áreas do m u n d o em que ela nasceu.. nossos. de problemas comuns às sociedades capitalistas desenvolvidas. o aspecto. Naquela reunião. repletas de situações e de problemas de interesse científico universal. de que temos a mais viva lembrança. De fato . com que se topa a cada passo. e acima de tudo.

h a v i a m imprimido à idéia um endereço certo e específico.' prenuncia muito mais nossas alternativas históricas do que a p l e n i t u d e cansada do Ocidente no qual e s t a m o s geograficamente incluídos.talvez o principal . Suas preferências culturais e profissionais. Na relação dos temas e p r o b l e m a s sugeridos para futuras pesquisas. nos seus m ú l t i p l o s e variadíssimos aspectos. que deviam ser t e n t a d o s a fim de lançar mais luz sobre a questão racial. que tivemos a honra de integrar. a experiência d e outros países é bastante conhecida e os característicos originais de nossa experiência. d e p o i s da notícia de seu falecimento — e assegurou-nos que nossa conversa n ã o f o r a esquecida. q u e foi a grande tarefa a que se dedicou Artur Ramos em Paris. q u e para os cientistas sociais eles se apresentem. conseguimos incluir explicitamente o e s t u d o . Julgamos ter conseguido. para a u m e n t a r o sentimento de opressão subjetiva causada por sua perda irreparável. Quando. m a t é r i a de estudo. reuniu-se em Paris. a ser designado pela Conferência Geral. mas um.INTRODUÇÃO 55 assuntos é preciso ser explícito — que. entretanto. de que tudo isso. como campo de pesquisas. e que o fato de esses problemas serem hoje campo de acirrada p u g n a econômica. no que se refere ao Brasil. o "caso" inglês. o " e x e m p l o " americano ou o "modelo" francês são. depois do falecimento de A r t u r Ramos. ele nos escreveu algumas vezes . p o r ele convocado. paradigmas do que evitar e n ã o do que fazer. era u m setor de pesquisas em que restava ainda m u i t o . o Comitê de Peritos sobre Relações de Raças.duas cartas suas nos chegaram quase juntas.excelente começo. na maior parte das vezes. neste plano. pois o material empírico existe em abundância. já que. precisamente por isto m e s m o . ao menos chamar a atenção para o fato.a fazer. muito pelo contrário. em dezembro de 19^9. política e ideológica não devia impedir. a efervescência do Oriente. e ele a concretizou n o p l a n o de uma grande pesquisa sobre relações de raça "num país da América L a t i n a " . uma das tarefas q u e devia cumprir era indicar novos c a m p o s de pesquisas. embora seja assunto sobre o qual muito se fale. o setor p a r ticular em que hoje laboramos é apenas um começo. visto o problema deste ângulo. Durante a preparação do plano de trabalhos do Departamento. naquela ocasião. Em relação ao c a m p o m u i t o mais vasto atrás referido. podia e devia ser objeto de análise científica. para nós. com o objetivo de conhecer os fatores que contribuem para dar ao q u a d r o étnico de uma sociedade nacional a feição própria que apresenta.

através deles. o estudo sociológico do negro nas áreas . no plano do Departamento de Ciências Sociais. pela Conferência de Fiorença (maio de 1950). para decisão final. julgando. dentro do quadro tradicional. Do ponto de vista metodológico ela foi de decisiva importância. como representante do Departamento de Ciências Sociais da U N E S C O . Em novembro de 1950 veio ao Brasil. nosso companheiro de C o m i t ê . para realizar pesquisas sociais n o interior do Estado. que seria a Bahia. para concretizar os planos do trabalho que deveria ter início no começo do ano seguinte. a pesquisa sobre relações de raça. pela primeira vez neste País. a seu convite. das vantagens que o Brasil oferecia para este estudo e não foi difícil. e o Dr. sem estarem sofrendo ainda. as conseqüências das mudanças de estrutura em processo na sociedade brasileira e que constituem exatamente o que há de novo e essencial na situação. graças à atuação brilhante e eficiente daquele nosso delegado e representante permanente junto À U N E S C O . de cuja direção tínhamos a honra de participar. Originalmente a intenção fora concentrar todos os esforços e recursos n u m a só área. Pretendeu-se utilizar o mecanismo já montado e os trabalhos já em andamento para realizar. O Prof. finalmente. sem alterações notáveis. tal como se desenvolve noutras áreas do País. Morris Ginsberg. conseguir que o plenário internacional decidisse a realização no Brasil daquela sonhada pesquisa. Com isto queríamos distinguir o aspecto brasileiro do problema. Naquela ocasião estava ali operando a equipe estabelecida por Anísio Teixeira. substituto interino de Artur Ramos na chefia do Departamento. em cheio. da situação da América Latina em geral — com a qual ele estava confundido na redação originalmente proposta pelo Prof. Robert Angell. por carta. planejada pela UNESCO. Foi fundamentalmente justa e fecunda. inclusive. procuramos convencer o Prof. Alfred Métraux..56' O NEGRO N O R I O DE JANEIRO da situação racial brasileira. Paulo. Métraux de não concentrar o estudo na Bahia. a resolução d o Prof. insistindo sobre a necessidade de manter a coerência com as idéias mestras e as perspectivas que inspiraram essa iniciativa desde o seu berço e que ficariam por certo frustradas se nos restringíssemos ao estudo do problema n u m a área em que as relações de raças se desenrolam. então Secretário de Educação e Saúde do Estado da Bahia. que assim se acumulariam argumentos para a escolha do Brasil. pois ensejou a possibilidade de ser feito. portanto. para campo da pesquisa que a ela seria apresentada. Fizemos o que esteve ao nosso alcance para evitar essa limitação do campo e dos objetivos do estudo. Durante os trabalhos da Conferência.Berredo Carneiro.

só serviu para nos convencer da validez das premissas metodológicas ali estabelecidas. sob pena de perder a envergadura científica e a seriedade intelectual que deve ter. Métraux em d e z e m b r o de 1950. d e outro. hoje. em monografias folclóricas e ensaios de literatura histórica. a encarar o negro como um "espetáculo" . etapas decisivas de seu desenvolvimento. dc um Indo. Em face desses precedentes. ou. de resto.que entregamos ao Prof.INTRODUÇAC • 57 metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo. De fato. Partimos da verificação de que os estudos sobre o negro n o Brasil quase que se limitaram. q u a n d o fomos honrados com o convite d o Prof. especialmente sobre o que há de bizarro. nas comunidades urbanas e industrializadas do sul do País. até hoje. e a inércia mental. pouco ou quase nada existe d e sério sobre o estudo sociológico do processo de integração do negro brasileiro à sociedade brasileira. c o n t i n u a r apresentando ao m u n d o . mais particularmente. a pesquisa da U N E S C O sobre relações de raças no Brasil não podia. Em verdade. de exótico. No primeiro esboço do plano destas pesquisas . como o q u e há de mais novo e fundamental na situação racial brasileira. a tradição dos estudos sobre relações de raças n o Brasil especialmente sobre seu mais desenvolvido e importante capítulo. que se refere ao negro . hoje em acelerado processo de superação. cultivaram por tanto t e m p o e exportaram para todo o m u n d o .para usar a feliz expressão d o escritor Sérgio Buarque de H o l a n d a . em Salvador — os objetivos d o nosso trabalho no Rio de Janeiro já estavam perfeitamente explícitos e não sofreram alterações de conteúdo em conseqüência do trabalho de campo que. o quadro tradicional das relações de raças. q u e uma concepção falsa de o r g u l h o nacional. problema q u e continua quase virgem n o f u n d o do nosso laboratório social e que vive. nos produtos desses processos sobre diversos . Já era tempo dc dizer um "basta" e dc corrigir esse bias. sentimo-nos perfeitamente à vontade para abordar a análise das relações entre negros e brancos n o Rio de Janeiro do ponto de vista q u e julgávamos devia o problema ser cientificamente abordado.n o qual o centro do interesse estava localizado na assimilação do africano ao N o v o Mundo. Métraux para dirigir a parte da pesquisa que se realizaria na Capital d o Brasil. anedótico e diferente nesse processo. antropológico e histórico sobre o processo de integração do africano ao Brasil.esteve até h o j e ligada á coleta cie material etnográfico. e da atitude pessoal e metodologicamente clara e definida que d e n t r o deles havíamos sempre mantido.

l>ií. o brasileiro negro e o processo de sua integração nos quadros da sociedade brasileira . . isto significa. inclusive. que foi por onde c o m e ç a r a m no Brasil os estudos sobre o assunto. r r o n ô m i r a s . olhar pata o outro como um exótico.sociais.íi. por sua vez.i.vic. N o u t r o s termos. língua.da condição de escravo à de proletário e da condição de proletário à de negro de classe média —. culturais c físicas.e foi nessa posição que intervieram na formação da sociedade brasileira .58' O NEGRO NO RIO DE JANEIRO setores da vida brasileira: religião. N ã o se pode separar as orientações dessa fase e esse tipo de estudos sobre o negro no Brasil da atitude mental que ela reflete e que.t.nas quais a marca etnocentrista é evidente — resultaram fundamentalmente do fato de os dois principais grupos étnicos que contribuíram para a formação da população brasileira terem ocupado. não-analfabeto. ao negro não-africano. vestuário. Essas formas de pensamento . sua condição de escravo. O q u e o negro tinha de diferente de nós era o que se oferecia ao estudo: suas matrizes africanas. jamais despertaram o interesse sério dos estudiosos do negro no Brasil.agiram. música. culinária. diretamente. não separado d o branco pela distância imensa que separa o vértice da base de uma pirâmide social rigidamente estratificada. condicionaram u m modo característico de colocar e estudar a questão racial no Brasil. o drama de sua vinda para o N o v o Mundo. ou melhor. porque u m arraigado estereótipo os convencera de que nada havia a estudar em relação ao negro igual a nós. não trabalhadorrural. não-escravo. é produto direto do q u a d r o tradicional das relações de raças no Brasil. que teve a posição dirigente.u. n o sentido de configurar não só o q u a d r o geral dos contatos e relações raciais mas também. Isso permitiu ao grupo. o estoque de influência q u e ele trouxe para cá e despejou fartamente na argamassa com que a história c i m e n t o u o chão e as vigas mestras da civilização brasileira. em última análise. posições afastadas por distâncias sociais imensas: negros e brancos entraram em contato no Novo M u n d o dentro de um contexto n o qual o preto começou a existir historicamente c o m o propriedade privada do branco. por sua vez. reflete aquela atitude mental q u e resulta destas <!i. O negro brasileiro. que se "civilizava" na medida em q u e assimilava os seus padrões dominantes. multiplicavam-se pelas diferenças culturais e físicas que acentuavam e objetivavam essa demarcação. que a maior parte dos estudos sobre o negro no .1n<. nesse processo histórico. Essas distâncias sociais.v. e toda a curiosidade intelectual e m t o r n o do que o negro tinha de diferente do branco. As distâncias que socialmente separavam os grupos étnicos no espaço formado pelas relações que entre si mantinham .

a todos os erros e limitações da medicina legal. Depois veio a piedade. o produto culturalmente mais refinado deste contato entre estruturas diversas. refletindo diretamente a atitude mental do branco socialmente superior ao encarar o não-branco socialmente colocado em posição inferior. entretanto. Tais disciplinas integraram no seu esquema de conceitos e técnicas de trabalho as premissas intelectuais que resultaram desse quadro e representam. não necessariamente branco do ponto de vista e'tnico .e também desigual — produção que resultou ilo i n t e r e s s e e i n o f . de um lado. N i n a Rodrigues. E m conseqüência da influência m e n o r das obras de Manuel Querino e do parêntese aberto nesses estudos pela morte de N i n a Rodrigues. piedade que se esparramou sobre o problema sem produzir.social o u sociologicamente branco. Segiiu-se. até que o interesse em tornar livre o trabalho do escravo coroou o interesse humanitário pela miséria do negro e conseguiu a sua libertação legal. só então. chegamos até a década de 30 . e em posições extremamente desiguais. formaram seus instrumentos conceituais e treinaram seus métodos e técnicas de pesquisas paralelamente à as. como m é t o d o s de abordagem. por assim dizer. da antropologia. e os "nativos". como dizia Artur Ramos. da história e do folclore. o medo. a fase d a curiosidade intelectual e as primeiras tentativas de análise séria do problema. que se desenvolveram. maiores efeitos. então. primeiramente. da psiquiatria c da antropologia selecionista de seu tempo. preenche quase sozinho esse começo.INTRODUÇÃO 59 Brasil reflete o modo como o branco . marca o começo desta fase e.censão e fastígio da "era vitoriana".quando. n í í u o s o b r e o nc|>ro n o B r a s i l a c r e s c e n t o u a o s e s t u d o s d c . houve. era da "europeização do mundo". E m relação a esse grupo encarado c o m o estranho e sobre o lastro permanente da exploração da sua força de trabalho.praticamente na estaca zero destes estudos. a etnografia e a antropologia. Para encarar o negro como espetáculo. Foram disciplinas que se forjaram n o estudo dos "povos primitivos". tinham virtudes excepcionais. 1 em que a expansão do comércio e d a conquista pôs em contato. encara um grupo estranho. A abundante e variada . trabalhador infatigável e honesto. do outro. o m e d o natural que tem o opressor de que o oprimido se rebele contra ele. da qual nos afastamos pelas veredas da etnografia.da posição social dirigente q u e sempre ocupou. muitas de suas obras foram divulgadas . com sua obra. em todos os quadrantes da terra. o branco europeu e civilizado. mas submisso. como não podia deixar de ser.

nas Antilhas.60' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Nina Rodrigues um enorme cadastro de "sobrevivências africanas". que. no caso dos estudiosos brasileiros. porém. servindo-se das mesmas técnicas. tiveram grande voga em certa época precisamente porque esta era a atitude mental predominante na sociedade na qual e para qual eles eram feitos. u m pouco dêmodês. E foi por esta via que o assunto entrou para o rol dos temas mais explorados pela música. O negro foi introduzido no Brasil para o trabalho na agricultura. pelo folclore. e. pela poesia no Brasil: o negro. Exatamente naquele período de nossa história. em que os estudos "afro-brasileiros" viveram sua fase áurea. pelas artes plásticas. que através dessa prospecção realizaram aqui. as diferenças são de grau e resultam de distâncias nacionais e culturais maiores. cujos ecos. D e n t r e essas mudanças estruturais. antropologia e história social do negro. multiplicada pela contingência da diferença de nacionalidade. também. essa limitação do approach etnográfico. impregnados dessa atitude mental. pela literatura de ficção e de ensaio. O surgimento e a expansão de u m a economia industrial m o d e r n a e o desenvolvimento e a lenta preeminência de uma civilização urbana no Brasil são fenômenos que significaram o início de uma série de contradições estruturais e profundas no interior de uma sociedade que começava . estudos do tipo e de envergadura semelhante às pesquisas custosas levadas a efeito por museus. universidades e institutos europeus e norte-americanos no coração da África. O s estudos de etnografia. Artur Ramos e de seu grupo de colaboradores. como tema. mais "afro" do que "brasileira". Foi a fase "afrobrasileira". que foram procuradas c o m afã em todos os setores da vida social deste País por uma geração de estudiosos. A quase totalidade dos estudos de cientistas estrangeiros sobre a situação racial brasileira reflete. dos característicos particulares do "caso brasileiro" e com recursos muito mais limitados. Desta fase emanaram alguns estudos fundamentais e aos mais importantes dentre eles está inovidavelmente ligado o nome do Prof. somadas às distâncias sociais. são as mais importantes. viveu neste País as principais etapas de sua história até os começos deste século. se prolongam até os nossos dias. as mudanças de estrutura econômica e social que se operavam no Brasil começavam a produzir os seus efeitos sobre o quadro das relações sociais entre os grupos étnicos que n o Brasil coexistem e convivem. nas ilhas do Pacífico ou no próprio Brasil. duas parecem ter sido fundamentais: o processo de "industrialização" e o processo de "urbanização". no meio rural. entrou a galope no carnê da inteligência nacional. Na verdade.

mais que isso. . mas.místico e musical. trabalhador agrícola ou lúmpen . na mentalidade e no estilo de comportamento. a industrialização e o desenvolvimento capitalista passara a viver uma nova etapa de sua evolução histórica . o negro iniciara o processo de sua integração nos novos quadros da sociedade brasileira.INTRODUÇÃO 61 a m u d a r as suas bases sem mudar. sem alterações correspondentes. vivendo. O negro africano. que continuava a ser estudado. cada vez mais. a verdade é que. a urbanização. chegou a ser até honestamente "avançada". entre as quais u m a distância crescente se cava. escravo. mas a ideologia e os hábitos mentais permaneceram os mesmos. mas a despeito de tudo era ainda o africano. na medida em que a primeira resiste em se transformar e a segunda rapidamente se transforma. configurando o quadro que boje temos nas áreas metropolitanas. hoje visíveis. ignorante. Nesta série de cultural lags sucessivos e acumulados incluem-se as contradições. morrendo na frente deles. principalmente. os estudos sobre o negro laboravam. cômico e exótico. cuja filosofia de vida. não o brasileiro de cor. havendo mesmo indisfarçável irritação quando se constatavam os efeitos desses novos processos que perturbavam a pureza original. a República. e como conseqüência. real e concreto. entre a ideologia racial tradicional e a nova situação racial. não somente na condição e no hábitat. debaixo de seus olhos. do objeto da observação. dele remotamente afastado por distâncias sociais. preso ao branco por laços de dependência imediata e pessoal. nas suas preocupações. as formas sociais que sobre esta base repousavam. servil e malandro. Independentemente da vontade dos líderes do surto "afro-brasileiro".nascendo. com uma abstração. para assim se prestar melhor àquele tipo de estudo. que com a Abolição.. n o mesmo ritmo. físicas e econômicas e parecendo tão "misterioso" em conseqüência das distâncias culturais que os separavam — era a entidade . impedindo-os de ver a distância que crescia entre o africano abstrato que estudavam e o novo negro. que estava ali . consciente ou inconscientemente considerada na fase "afro-brasileira" desses estudos. A escravidão fora legalmente abolida. uma abstração tomou o lugar dos fatos. negro-homem. O desenvolvimento de u m a economia de tipo industrial proletarizou e urbanizou gtandes massas de cor. que se desejava o mais possível "respeitado em sua integridade cultural". de laboratório. além de altamente respeitável. E na medida em q u e essas condições se ampliavam. que foi moda em certa época até ser supervalorizado como motivo estético e paracientífico.

de estudar as relações de raças elas mesmas e não os seus produtos. por isto mesmo. é um relatório de pesquisas. sem hipertrofiá-lo. embora substancialmente estejam ligadas a fatores de ordem completamente diversa. nem diminuí-lo. Acontece. e especialmente nos Estados Unidos. tudo mais sendo considerado como sefosse igual. podem assumir e a s s u m e m expressão étnica. os p r o d u t o s das relações de raças . o que só é possível fazer quando se tem noção clara das circunstâncias objetivas. q u e muitas vezes vem à tona como d e p o i m e n t o dos mais flagrantes que indicam a existência dele. que. Ao dizermos que seu escopo é sociológico estamos afirmando. etc. o bom senso de muitos desconcerta-se vendo apresentado como "acomodação" o que é fruto evidente de u m a situação de conflito. m u i t a s vezes. de fazer um estudo sociológico do negro — e não etnográfico ou histórico . que procuramos. pois com isto procuramos evitar cometer o mais sério erro que vicia u m grande número de estudos sobre relações de raças feitos na América. Este trabalho. As implicações deste approach são fundamentais.. que estão envolvidas na configuração total considerada e que. ou alguns de seus p r o d u t o s . no interior das sociedades nacionais que diferentes grupos étnicos conjuntamente f o r m a m . somente as diferenças étnicas os separam. certo ou errado. o que significa dizer que se evitou. poderia servir de exemplo o conhecido estereótipo de que "no Brasil não existe preconceito racial".tudo isso que se estuda no capítulo da aculturação. é que deve ser lido e apreciado.62' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Uma reviravolta completa neste tipo de abordagem do problema foi preconizada naquela nota prévia e no plano de trabalho. da acomodação etc. assim. Para não ir m u i t o longe. dentro da configuração total. Trata-se. nao-étnicas. . muitas vezes. como até então se tem preferencialmente feito entre nós. noutras palavras. o refúgio cômodo da monografia puramente descritiva ou do ensaio cheio de insinuações e vazio de análises.desempenham. Em nossa opinião. estudar as relações de raças de um p o n t o de vista sociológico significa dar ao traço étnico o valor que realmente tem. muito mais a f u n ç ã o de mascarar a natureza real das relações concretas de que historicamente resultaram. não raro. e que consiste em considerar que. c o m esse espírito foi escrito c como tal. da assimilação. no qual propusemos q u e se fiz esse o estudo do negro arrancando de bases inteiramente diferentes. . na m e d i d a do possível. em primeiro lugar.analisar o p r o b l e m a dentro do quadro total cm que as relações de raças concretamente se estabelecem na área estudada. ainda. Inadvertido disto é que. Trata-se.

que. de suas qualidades biológicas. do p o n t o de vista de suas potencialidades genéticas. por sua relação com o assunto. Esta questão ficou de lado p o r q u e a consideramos já sobejamente resolvida pela história e exaustivamente esclarecida pela ciência. de nossa cidade e do nosso tempo é possível q u e . devem. cumpre-nos agora referir também alguma coisa c o m a qual não nos preocupamos.INTRODUÇÃO 63 É sempre dentro das estruturas sociais historicamente concretas que grupos étnicos diversos entram em relações e sem se compreender ao vivo a correlação interdependente e dinâmica que existe entre as relações d e raças e o contexto dentro do qual se estabelecem pode-se ir. Enterrando em cheio a mão na vida de nosso País. alguma vez os o m b r o s tenham ido. antes de continuar a leitura deste livro. no impulso. ler u m ABC de antropologia e lá se instruírem sobre a matéria. Essa posição involuntária e um tanto i n c ô m o d a de cobaias resulta. Se a ciência avança tornando as conclusões de estudos anteriores como pontos de partida para novos estudos. O s problemas sociais não aparecem c o m o estrelas isoladas: são sempre e n c o n t r a d o s como parte de constelações e só c o m o tais podem ser estudados e c o m p r e e n d i d o s . q u a n d o se vai. assim foi que procedemos. As muitas pessoas que ainda têm dúvidas sobre o assunto. por sua vez. se acaso estão interessadas em saber o q u e a ciência moderna tem de estabelecido sobre o assunto. que ainda não se curaram da fobia racista e que ficarão desiludidas d e ver que o problema não é aqui tratado. jamais à sua análise e interpretação científica. vivas ou mortas. inadvertidamente. Seestas foram algumas das nossas preocupações básicas n a metodologia desta pesquisa. O que se afirma na já famos'a Declaração sobre a raça exprime o que a ciência tem estabelecido sobre o assunto e isto está implícito no esquema conceituai deste trabalho. A primeira cfelas foi a discussão frontal a respeito da superada questão de saber se o negro é ou não igual ao branco. de e n c o n t r o à sensibilidade de respeitáveis figuras. De qualquer sorte se apesar da nossa . d a capacidade que tem de ser socialmente igual a qualquer outro grupo étnico desde que isso seja sociologicamente possível. não podiam deixar de ser referidas e analisadas. pois não seria possível deixar as bases de nossas sondagens descerem ao nível em que se situa a opinião dos que ainda pretendem que seja levada a sério a noção de que o negro é um ser inferior. da importância que elas têm na fatia d a realidade social que pretendíamos estudar. até ao registro dos fatos.

uns afirmam. por exemplo. é programa para gerações de cientistas e m u i t o nos felicitaremos se os futuros leitores deste trabalho e n t e n d e r e m isso com a mesma clareza com que a cada dia os fatos nos i m p u s e r a m essa verificação. consistem no nosso despreparo de espírito para prever as fases mais agudas da tensão racial em processo. a importância e a significação do problema que constitui o objeto de nossa pesquisa não saltam aos olhos de todos ao seu simples enunciado. oprimidos pela pobreza científica dos conceitos com que laboram. o desenrolar da pesquisa nos convenceu de que palmilhávamos um caminho quase virgem e não podia querer derrubar toda a floresta q u e m se dava por muito feliz cm ter aberto uma pequena clareira. Na maioria dos casos. Há mesmo os que se dizem fartos do assunto e acham que se devia falar menos sobre ele. apressamo-nos a apresentar as nossas antecipadas desculpas e a garantia mais formal de que a intenção de ferir quem quer que seja não nos passou. o problema do emprego de pessoas portadoras de defeito . julgam se livrar das dificuldades pelo fato de desconhecê-las. na Alemanha nazista ou na África do Sul. outros confirm a m . não é tarefa para um cientista. mais do que ninguém. o que pretendem dizer é que o p r o b l e m a do preconceito ou da discriminação racial entre nós não é igual às feições extremas que assume ou assumiu nos Estados Unidos. E por não poderem ou não saberem estudar a questão fora desse esquema dicotomizado. Por outro lado. martelando em nossos ouvidos que "no Brasil não existe problema racial". Certo ou errado. pela mente. Estamos convencidos. provendo conscientemente os meios de seu t r a t a m e n t o esclarecido. nacionais ou estrangeiros.64' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO preocupação de respeitar a opinião e a dignidade de cada uma. Do m e s m o modo. Não tivemos a ingenuidade de supor que o assunto ficaria esgotado. Se procuramos transmitir aos que nos lêem essa impressão e esse estado de espírito é porque estamos convencidos de que um dos efeitos mais sérios e u m a das conseqüências mais características do desembaraço com que alguns observadores. em nenhum momento. acaso restou motivo de ressentimento. O u t r a preocupação que não tivemos foi a de encerrara assunto aqui tratado. de que os esforços ora feitos já terão alcançado muito se conseguirem apenas contribuir para colocar os e s t u d o s sociológicos sobre as relações de raças no Brasil num plano autenticamente científico. se pretendêssemos estudar. em toda sua extensão e gravidade. quanto mais enxergamos dentro dele mais claro nos parece que ele é inesgotável. Analisá-lo e compreendê-lo.

e o material. iria aparecendo em ondas volumosas. provavelmente. que é crescida. dispensamo-nos de citá-la. onde o negro no passado servia tão bem para trabalhar e para apanhar. ela nos foi útil principalmente para situar a nossa pesquisa em face dos objetivos perseguidos por aqueles estudos anteriores. D o que ficou dito e do que adiante será verificado. ou que sua importância é m u i t o pequena e não justifica o esforço. As referências bibliográficas estrangeiras. . que vêm citadas nas notas de rodapé ou ao fim do volume. ao menos do ponto de vista humano. que era o que fundamentalmente nos interessava. por conseqüência. no Brasil. Passando-a em revista. que não se advertiam da significação que t e m a questão racial para o Brasil e para o m u n d o e que por não terem jamais assistido ao linchamento de um negro por u m a turba enfurecida não julgavam que. os inúmeros outros aspectos com que ele está ligado. que o leitor assuma diante deste livro um estado de espírito semelhante àquele com que ele foi escrito — senão do ponto de vista científico. logo perceberia a envergadura real de seu objeto dc estudo. a maior parte das pessoas que não têm defeito físico estaria inclinada a achar que há m u i t o s outros assuntos mais importantes carecendo de estudo. a meditar sobre as proporções do problema para a sociedade e para os indivíduos diretamente interessados. A mesma observação se aplica aos estudos citados sobre as relações de raças noutros pontos do Brasil. Começasse ele a trabalhar. voltasse sua atenção sistematicamente para o assunto. pode-se concluir quanto foi eventual e aleatório o material que se encontra na biblioteca "afrobrasileira" e que aqui pudemos utilizar para os objetivos do presente estudo. E mesmo o especialista a quem se desse esse tema para pesquisa talvez achasse. que não o olhasse apenas do ângulo do pitoresco. q u e não existe muito material sobre o problema. agora. Cumpre-nos. Atitude semelhante constatamos em muitas pessoas d u r a n t e a preparação deste trabalho. que de início parecia tão restrito. principalmente. serviram-nos eventualmente para algumas comparações com a situação de outros países ou. pudesse ele constituir matéria para um estudo sério. Essa bibliografia.INTRODUÇÃO 65 físico. Impõe-se. dizer algumas palavras sobre o procedimento da pesquisa. pelo seu valor metodológico. de começo. o que muito nos ajudou no esforço de deslocar o eixo da análise do estudo das "sobrevivências" que resultam das relações de raças para a consideração dessas próprias relações.

especialmente aquelas escritas por negros que. discursos. e nelas se baseie q u a n t o aqui vai escrito. Desta forma colhemos abundante material. mesmo quando apresentadas por intelectuais e como análises de problemas. o entrevistado era conduzido a dar seu depoimento e a expor suas opiniões sem ter conhecimento de que elas estavam sendo captadas c o m o material de análise de uma situação . assim como notas. outra parte consistiu no relato de informações colhidas por ele em entrevistas. A maior parte delas foi de entrevistas informais. crônicas publicadas na imprensa negra ou não-negra do Rio de Janeiro. a fim de não reduzir este trabalho a um mero catálogo das informações recolhidas. juntaram-se as notas e observações resultantes das visitas e entrevistas que pessoalmente fizemos. ensaios. Boa parte dessas notas referia-se a informações sobre aspectos da vida e da organização das macumbas cariocas e das escolas de samba. especialmente realizadas para este fim. em face do escopo desse estudo. níveis de instrução. o que significa dizer que o Dr. procurando sempre descobrir as conotações existentes entre t u d o o que flui da vida social do negro em todos os setores e o quadro estrutural dentro do qual ele está integrado na comunidade metropolitana. clichês.66' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Foi-nos de grande utilidade a leitura das teses apresentadas ao I o Congresso Brasileiro do Negro. reduzimos sua apresentação ao justo necessário para documentar as hipóteses centrais do trabalho. como depoimentos — o que de resto é não somente legítimo mas também recomendável do ponto de vista da sociologia do conhecimento. foram utilizadas por nós como fontes de documentação e não foram integradas ipsis litteris ao texto. comentários. Aproveitamos do mesmo m o d o artigos. assunto em que ele. Este crivo também foi aplicado às notas escritas especialmente para esta pesquisa pelo Dr. A estas entrevistas. categorias profissionais. como etnólogo. que tivemos de submeter a rigoroso crivo. geração e sexo. com negros de diversas condições sociais. Edison Carneiro. e já referidas no Prefácio. sobre dados biográficos e pertinentes às suas atividades à frente do movimento negro no Rio de Janeiro. legendas. feito à luz dos objetivos e d o escopo da pesquisa. com diversos líderes negros. conferências. editoriais. que vêm indicadas nas referências bibliográficas. é notório especialista. Embora utilizadas. utilizamos sempre. isto é. slogans e até a publicidade comercial impressa nos jornais negros. Estas notas. Edison Carneiro está isento de qualquer responsabilidade pela interpretação que demos às suas informações. embora originalmente preparadas para esta pesquisa.

obras de assistência social. por nós solicitados. aos quais. as notícias e os "casos" que sabiam. que vêm citadas no texto e nas referências bibliográficas. especialmente naquelas que fizemos c o m negros de instrução mais elevada. Estes agradecimentos se estendem a todos quantos. devêmo-las à gentileza e cooperação dos Drs. escolas. divulgados em publicações diversas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. também. feitas especialmente para esta pesquisa. brancos e pretos.observadas d o ponto de vista dos objetivos d a pesquisa. nos trouxeram. os nossos objetivos eram inicialmente expostos e toda apreciação do material recolhido foi feita levando em conta esse detalhe. que ao lado das técnicas formais de coleta de dados e da documentação escrita utilizada e sempre citada nas páginas que se seguem. II. negaramse a colaborar no estudo científico das relações de raças no R i o d e Janeiro: estas abordagens fracassadas contribuíram para não poucas páginas deste livro. espontaneamente o u a nosso pedido. através de sondagens diretas. Os mesmos agradecimentos n ã o p o d e m ser negados. sugestões p a r a leituras. exprimimos aqui os nossos calorosos agradecimentos. Ernani Thimóteo d e Barros. finalmente.INTRODUÇÃO 67 social dada. experiências pessoais sobre mil situações concretas e vividas. cujos n o m e s são aqui omitidos. feitas por meio de testes p a r a análise de atitudes e estereótipos raciais. u m a fonte permanente e infinitamente variada. as informações de que dispunham. cujos resultados são apresentados e discutidos no capítulo VI deste livro. de onde fluiu boa parte do material aqui apresentado e interpretado. M a n u e l D i é g u e s Jr. III. verbalmente ou por escrito. noticiário da imprensa. e.clubes. u m a m o n t a n h a de documentação que nos e n c h e u páginas e páginas de cadernos de notas. consistiu na participação consciente. os seus depoimentos. G i o r g i o Mortara e ao Dr. Os dados estatísticos elaborados nos capítulos I. recortes de jornais. não só o comportamento de indivíduos mas também o f u n c i o n a m e n t o de instituições . 2 Escusado é dizer que as esferas predominantemente brancas incluíramse também no campo das observações. indicações bibliográficas. também. repartições. registramos nossa p r o f u n d a gratidão. Algumas elaborações. àqueles que. I V e V da Parte Primeira são dados oficiais. famílias das relações do Autor etc. interessada e cientificamente alertada d o cientista . fotografias. noutras. Escusado é dizer. pelos dados estatísticos que nos forneceram. A todos eles. ou líderes e dirigentes do movimento n e g r o . . em suma. b r a n c o s e pretos. bem como ao Prof. e Túlio Hostílio M o n t e n e g r o .

9 e ss. v. substituem. presidido as duas primeiras. p. 2 Boletim Internacional de Ciências Sociais da UNESCO. é. para o estudioso. O conclave nada teve d e c o m u m com os anteriores congressos "afrobrasileiros" e representou. observação participante ou de qualquer o u t r o nome. 3 4 . sim. por escolha da assembléia. T e n d o assistido a quase t o d a s as suas reuniões e tendo. o fato é que . fazer sua análise e sua crítica. o que se .. Experiências como aquelas e f o n t e dc documentação tão rica e tão direta. reunido no Rio de Janeiro em agostos e t e m b r o de 1950. na verdade. Chame-se isto de insight. sua última c o n t r i b u i ç ã o científica.. pois sociologia é. votou sua vida ao estudo científico das relações humanas . devemos a essa experiência a possibilidade de ver ao vivo o desenrolar dc uma fase decisiva do processo social cuja análise é o objeto central desta pesquisa. n . (1949). para o cientista social. o estudo científico da vida cotidiana. toda gente a vive. por vocação e por profissão. enterra em cheio a mão na vida h u m a n a . trabalhar com hipóteses que incidam nas fronteiras entre o conhecido e o por conhecer . em última análise. Foi para nós de extraordinário valor científico a participação como observador.68' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO na situação social que lhe coube estudar.e fazer o que o gênio de Goethe pôs na boca de seu personagem: . o que <?'. assumir dentro delas diferentes papéis. na maioria dos casos. o papel d e u m a grande "mesa-redonda" em q u e u m a elite negra expôs e discutiu seus problemas. e observar. especialmente.para q u e m . I. duvidar metodicamente do que a outros parece óbvio. n o s trabalhos do I o Congresso do Negro Brasileiro. a l g u n s problemas do negro-massa e do povo brasileiro em geral. e "tomar consciência do processo histórico que se desenrola em t o r n o de si". u m a fonte permanente e insubstituível de elementos que ele procura. sessões ordinárias. Mergulhado nela. na bibliografia c o r r e n t e sobre a situação racial brasileira. Notas ' C f . e n c o n t r a m o s . cumpre ao sociólogo observá-la. pois ali encontramos desejaria que fossem as relações de raça neste País. coleções inteiras de documentação secundária. mas p o u c o s a conhecem. o artigo A questão racial e o m u n d o democrático. Verstehen. e m a i s agitadas.participar deliberadamente d e determinadas esferas destas relações.

Parte Primeira A SITUAÇÃO RACIAL .

97 41.") )6.inili> esle rviiiiln liii i.31 3 L 26.2')L 2.DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM DIVERSOS CENSOS.59 3. . a tendência d o m i n a n t e na população brasileira t e m sido. que representavam.853.lo I I I . cm IVSO.426 1890 43.65 0. ii.oi»|>ld.') )4.1.52%.198 '). enquanto que os de cor diminuíram de 61. de m o d o geral. no sentido do crescimento da parte branca da população. que tem aumentado sua quota sobre a população total.w|>mnlo .1 H O O* ilmlits Militr a <-<>iii|iasiv.542 24.88%.CAPÍTULO Demografia C o m p o s i ç ã o é t n i c a da população do Rio de Janeiro —Evolução da representação dos grupos de cor .89% para 35.440 4. nestes últimos setenta anos.1i> haviam Miln (nililii iiilns <|ii.206.i pupuluç.097.262JOH 1 .53 21.63 1940) 63. 1 N o Q u a d r o I vê-se que entre 1872 e 1940 os brancos. 38.1 5 19.i<li>.23 14.1<i .Sexo e idade . em virtude do crescimento m e n o s acelerado da quota dos não-brancos.576 K:/V>MÍ. na primeira data. BRASIL 1872-1940 População recenseada Cor Dados absolutos 1872 Branca 1'arda Preta Amarela NIMÍI: Percentagens • 1940 1872 38. 6.11 42. SEGUNDO A COR. QUADRO I .043. Do ponto de vista da composição étnica. passaram a 63.11% da população.74 1890 6. I M I C Í M .302.índices diferenciais de natalidade c m o r t a l i d a d e Significação sociológica d o s d a d o s analisados.1 cor <l.40 14.

. pela influência ponderável e permanente q u e têm tido. que é igualmente arbitrária a discriminação entre pardos e brancos pois todas essas classificações. A marcha do fenômeno. em conseqüência da constante e profunda mestiçagem que se vem historicamente operando no Brasil entre os grupos étnicos que aqui coexistem. mas sem conseguir alterar suas conseqüências. que resulta. Bahia e no Distrito Federal. embora claramente definida. Mato Grosso. em que o contingente de população branca d i m i n u i u ligeiramente. Para os estados do sul do País é q u e se têm dirigido as maiores ondas de imigração exterior c isso contribui. aconselha. Rio de Janeiro. Rio Grande do Sul.72' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Esta tendência à diminuição dos grupos de cor na massa demográfica do Brasil resulta de diversos fatores. consistiu na diminuição registrada em todas as unidades. por conseqüência. de um maior incremento natural em conseqüência dos índices de mortalidade também mais elevados dos grupos não-brancos. que vêm aumentar. A quota de pretos diminuiu nos Estados de Santa Catarina. 7 9 % para 43. c) a passagem dos pardos e dos pretos à condição de brancos.48% da população total. São Paulo. todos atuando no mesmo sentido. na maioria dos casos. milita a maior natalidade da população de cor . não tem sido uniforme em todas as regiões do território nacional. entretanto. e outras ainda. Entre eles podem ser ressaltados. aumentou nas demais unidades. advirta-se. no que se refere à discriminação entre esses dois grupos. os seguintes: a) a contribuição trazida pelos imigrantes. A prevalência da população branca sobre o total da população brasileira.mas isto não tem sido razão bastante para modificar o sentido da tendência secular. c o m o fator extremamente importante. quase que exclusivamente. no mesmo período. b) as taxas de mortalidade relativamente maiores dos pardos e pretos. quanto aos pardos. para o maior crescimento relativo da q u o t a de brancos na região meridional do Brasil. há unidades federadas em que o crescimento da quota de brancos foi muito diminuto (na Bahia ela passou de 24 para 2 9 % no período considerado). inclusive. só refletem a opinião do recenseado sobre o g r u p o étnico no qual ele julga. 2 Contra aqueles fatores. A completa indeterminação dos critérios censitários. a parte branca da população. noutras regiões do País. passando de 4 3 . encará-los em c o n j u n t o para a maior parte das elaborações estatísticas. estar incluído. Paraná.3 Por outro lado. Pará. Minas Gerais. com exceção da Bahia. Espírito Santo. c o m o o Rio Grande do Norte. ou deseja.

especialmente q u a n d o somos pessimistas a respeito d a possibilidade de serem encontrados outros critérios biológicos absolutamente objetivos q u e permitam uma exata classificação dos grupos étnicos. E o que se destaca n o Q u a d r o II: QUADRO I I - EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO.19 100.34 1 1940 71.79) — 24.00 55. POR CENSOS. SEGUNDO A COR.94 (37. a composição étnica do Distrito Federal. n i n g u é m p o d e duvidar. Não seria possível.30 100.31 (28. diminuiu de 24.00 100. no m e s m o período.50%/ Apesar de seguir a tendência dominante até 1940 e apresentar um aumento progressivo da quota de brancos.04 0.DEMOGRAFIA 73 Q u e isto t e n h a relevante valor sociológico. objeto específico de nossa análise.00 1950 69.31 17. DISTRITO FEDERAL - 1872-1950 Distrito Federal Cor Censos (%) 1872 Branca Preta Parda (Preta e Parda) Amarela Não declarada TOTAL 1890 62. a dos pretos. 8 6 % . prevaleceu t a m b é m a tendência geral notada no País n o sentido do aumento progressivo do contingente de brancos no c o n j u n t o da população. de 2 0 . nem mesmo desejável.30 17.66 (44.21 24. entretanto.71 12. de 55. Dos dados atrás apresentados verifica-se que. 6 6 % para 17.13 20. largamente esboçado. entre 1872 e 1950. a p o p u l a ç ã o do Distrito Federal .28) — — — 100.00 E n q u a n t o que a proporção dos brancos passou. 3 0 % e a dos pardos. projetada sobre esse f u n d o .80) 0. aprofundar aqui este aspecto d o estudo da situação racial brasileira. Vejamos agora.62) 0.21% para 6 9 .09 0.50 (29. na Capital da República.13% para 1 2 .10 11.86 12.

com geralmente acontece nas grandes aglomerações urbanas. campo definido de nossa pesquisa. sua fisionomia demográfica e sociológica. Acresce.30 100. de ordem econômica e sociológica.85 0. excede. de m o d o direto. - 1950 Homens Cor Dados absolutos Brancos Preto Pardos Amarelos Não declarada TOTAL Mulheres Dados % 71.701 1. que decorre da circunstância de aqui estar um centro industrial importante e a maior concentração urbana do País.725 332 3.790 O que primeiro se observa ao analisar esses dados é que. SEGUNDO A COR. que se retrata visivelmente na composição demográfica da cidade. Embora superior à média nacional.30 100. n ã o é c o m u m a todc os grupos: entre os amarelos.215 216.86 11.688 162.35 17. para colocar e m bases objetivas. As análises preliminares que se vão seguir visam demonstrar esse fato.06 0. as mulheres constituer maioria sobre o total.214. repartições e serviços oficiais e privados. acentuando os aspectos específicos de. entretanto. por outro lado.210 700 3.29 16. sendo inferior à média nacional.309 190. os termos da questão.49 0. o contingente de cor.48 13. servem. 5 . à encontrada nos mesmos estados. os homens constituem contingente maior.146 130. a circunstância de ser o R i p de Janeiro a sede pletórica de órgãos. é que principalmente resultam os traços particulares da situação demográfica e da composição étnica da comunidade metropolitana. sobre a situação das categorias étnicas que aqui vivem e sobre o tipo de relações que entre si mantêm. ainda. Desses dois fatores. de u m a situação particular ao Rio de Janeiro.661 % 68. em seus principais aspectos. DISTRITO FEDERAI. entretanto.00 absolutos 831. QUADRO 111 POPULAÇÃO POR SEXO. que teremos adiante de analisar. N o Q u a d r o III temos a população do Distrito Federal discriminada por grupos de cor e por sexo.425 1.02 0. Trata-se. Esta predominância. que aqui se concentram e multiplicam. portanto.74 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO revela no período considerado uma evolução que segue linhas peculiares. por outro lado.00 829.153. a quota dos brancos aqui encontrada é menor do que a de todos os estados da Região Sul. o que se reflete.

e n q u a n t o que os homens. Estado do Rio. nas correntes de migrações internas. reciprocamente.DEMOGRAFIA 75 A superioridade feminina nos grupos d e população não-branca no Rio d e Janeiro . nas respectivas c o m u n i d a d e s de origem. constituem a maioria dentre os que provêm de regiões mais 'afastadas da Capital d o País. N ã o existem informações quantitativas q u e nos permitam uma visão do caráter etnicamentc seletivo dessas migrações interiores. a apuração censitária desprezou este aspecto. É sabido que. discriminandose p o r sexo. Espírito Santo. revelam. quando discriminadas pelos sexos. Nesse segundo tipo se incluem as migrações que das zonas rurais dos estados vizinhos ou próximos demandam a cidade do Rio de Janeiro. em geral. não teriam dúvidas em se declararem de cor. em primeiro lugar. O s estados mais próximos. contribuem predom i n a n t e m e n t e com população feminina. especialmente os dois primeiros. o Distrito Federal tem atraído fortes correntes de migração interior e estas. T o m a n d o por base os habitantes nascidos noutras unidades da Federação e residentes n o Distrito Federal em 19Í0. é nítida a predominância masculina. o papel qtte têm as migrações internas na c o m p o s i ç ã o étnica da população cio Distrito Federal. em regra. seria de grande valor a discriminação pela cor dos nascidos num ponto do território nacional e residentes noutro. que apresentam altas quotas de população rural que se desloca para o Distrito Federal. o seguinte: nas migrações que partem das zonas rurais mais próximas as mulheres constituem maioria. pois este seria o ú n i c o meio direto de se obter informações sobre o caráter seletivo ou . como Minas. nos deslocamentos a curta distância. nas migrações. aqui talvez preferissem clarear seus matizes. quanto maior a distância. neles encontramos o saldo residual das trocas de populações processadas anteriormente àquela data. 6 N ú c l e o urbano e industrial em expansão. mas apesar do caráter de aproximação que t ê m todas essas indicações. que convergem de vários pontos do território nacional para a metrópole.excetuados os amarelos — parece resultar de dois fatores de primordial importância: a) a maior mortalidade masculina entre os de cor e b) a alta representação de mulheres de cor. costumam predominar as mulheres. maior a prevalência masculina nas correntes demográficas que se deslocam. Vejamos. especialmente naqueles de caráter rural-urbano. vê-se confirmado o padrão a que acabamos de nos referir. naquelas que têm origem em regiões mais distantes. caracteristicamente. Écerto que determinado n ú m e r o dos que.

Nas idades senis. é relativamente elevada a quota de habitantes de cor. mais fraca ainda entre os brancos do que entre os de cor. além de ser um característico c o m u m às populações urbanas. A esses fatores alia-se. Em todos eles destaca-se o grupo de 2 0 . e ainda mais freqüente nos de cor. Por outro lado. segregador ou dispersivo.76 O NEGRO N O R I O DE JANEIRO não. diferença parcialmente compensada pela maior mortalidade destes. a fraca representação destas idades mais avançadas. por exemplo. ainda. as oportunidades abertas ao trabalho feminino pelos serviços. especialmente a mortalidade masculina. que representa um numeroso r a m o de ocupação feminina no Distrito Federal e na qual as operárias dc cor comparecem com índices elevados. no qual as mulheres de cor constituem a maioria. por fim. d i m i n u i a proporção dos pretos no c o n j u n t o da população em conseqüência da maior mortalidade neste grupo. do padrão dominante no sul do País. para aumentar a quota dos brancos. Aqui não só a imigração contribuiu relativamente menos do que. sociológicos e demográficos que têm historicamente influído para o crescimento do Distrito Federal. Assim como a composição p o r sexos e em conseqüência dos fatores econômicos. em Santa Catarina ou no Paraná. ao lado dos demais. a indústria têxtil. pelos escritórios e pelas repartições públicas são fatores inerentes ao núcleo urbano que influem de modo decisivo no atrair população de cor. Disto existem indicações circunstanciais m u i t o seguras. o caráter mais impessoal das relações sociais na vida u r b a n a é fator que contribui. Dessas e outras circunstâncias resulta que o Distrito Federal apresenta u m a composição étnica que discrepa. população adulta e ativa que aflui à comunidade metropolitana em busca de emprego. Apesar dos "erros de envelhecimento" tão freqüentes nos velhos. mas também essa influência foi contrabalançada pelos contingentes de cor que entram por via das migrações internas. t a m b é m a composição por idades dos diversos grupos étnicos apresenta u m a distribuição muito característica. para que muitas pessoas de cor procurem numa comunidade maior meios de ascender na escala social. o serviço clomcstico. Estamos fortemente inclinados a tomar como bem fundada a hipótese de que. pela maior presença de elementos de cor. parece resultar . como se verá em mais de u m a passagem deste trabalho. que acaso t e n h a m as migrações internas sob os diferentes grupos étnicos.3 9 anos. nessas migrações que do interior se ciirigem para a área metropolitana d o Distrito Federal. u m característico geral das populações urbanas que é a fraca natalidade. notadamente feminina. e.

957 68.868 79. QUADRO I V .606 23.090 39.434 10.429 21.831 20.140 687 162.199 19.356 131.015 1.862 779 308 455 130.060 667 216.395 90. como os "erros de envelhecimento" são mais f r e q ü e n t e s e n t r e os pretos.161 24.207 2.872 98.828 16.464 12.725 Preto .723 12.800 829.936 2.038 5. por outro lado.24 25 . Esta situação.698 20.745 4.864 1.088 Homem 16. mais uma vez.555 13.260 81.672 132.215 Homem 26.510 26.59 60 .DEMOGRAFIA 77 evidentemente da maior mortalidade dos homens de cor. estes comparecem com maior representação.491 25.097 15.39 40 .282 31. Pardo 20 .340 6.768 5.947 87.981 79.29 30 .126 Mulher 85.69 70 .931 66.049 69.567 1. Entre as mulheres essa .851 20.042 2. fato q u e está diretamente ligado ao status econômico e social inferior q u e o c u p a m n a estrutura social.015 20. fica invertida se c o n s i d e r a r m o s a proporção dos habitantes em idaoe senil em cada grupo étnico ( Q u a d r o IV).149 984 255 527 199.729 6.341 21.734 9.9 10 15 14 19 69. De fato.309 Mulher 16.447 34.210 Mulher 25.154 10.652 2.511 5 . S E G U N D O A FAIXA ETÁRIA. em todos os três principais grupos étnicos os homens de 2Ç>-29 anos estão em maior número do que os de 10-19 anos.429 78.088 70.899 13.191 21.107 1.319 105.742 16.226 65.810 21.398 15. Branco Idades Homem 87.282 20. DISTRITO FEDERAI. parece confirmar-se.479 18.059 831.265 16.COMPOSIÇÃO DOS GRUPOS ÉTNICOS.802 12.256 30.896 22.49 50 . Neste caso.79 80 e mais Idade ignorada TOTAL Analisada mais de perto a pirâmide das idades da população carioca discriminada pela cor. a hipótese de que é bastante significativa a influência das migrações internas para aumentar a representação das mulheres de cor em idade ativa no conjunto da população. POR SEXO.818 12.292 14.

A menor mortalidade dos brancos e a maior mortalidade dos pretos resulta cm que. também entre as mulheres brancas. nas classes sociais em que as práticas restritivas de natalidade estão mais difundidas. em 1950 manteve-se a mesma tendência ao aumento da proporção dos brancos com o subir da idade. da análise das tendências de fecundidade nesses grupos. já em 1950. ao mesmo tempo. tende a aumentar a q u o t a dos brancos. q u a n d o observadas desse ângulo. Assim é que a menor proporção de brancos em idades infantis e juvenis . sua parte de responsabilidade na diversa composição por idades dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. bem c o m o seus fatores e conotações sociológicas. E m conseqüência dessa correlação inversa — descontando-se a maior freqüência de "erros de envelhecimento" entre os pretos — ocorre que. especialmente do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. É pois u m excelente instrumento de pesquisa sobre os aspectos sociológicos das relações interétnicas o que encontramos na análise das taxas diferenciais de reprodução dessas populações. o que por sua vez acontece não em função de característicos antropológicos mas exclusivamente porque. elas têm maior probabilidade de sobreviver. 6 9 % no grupo de 0-19 anos para 7 9 . O estado e a dinâmica dos diferentes grupos étnicos que compõem a população do Distrito Federal.0 a 19 — parece evidentemente resultar da mais fraca taxa de natalidade neste grupo. característica conhecida e m todos os países de estrutura social . elas têm maior probabilidade de morrer. aparecem como um processus. As situações demográficas. em busca de ocupação nas indústrias e no serviço doméstico no Rio de Janeiro. na medida cm q u e avançam as idades. transparecem. o grupo de 20-29 excedeu o de 10-19 anos de idade. os brancos constituem esmagadora maioria. das zonas rurais adjacentes.78 O NEGRO N O RIO D E JANEIRO predominância só se encontrava em 1940 entre os pretos. naquelas idades de 20-29 anos. O s índices diferenciais de natalidade e mortalidade têm também. e n q u a n t o que embora nasça um maior n ú m e r o de crianças pretas. têm sobre a organização da sociedade q u e originalmente os engendrou. 2 7 % no de 60-79 anos em 1940. com nitidez. que passa de 6 8 . na sua evolução. naturalmente. imediatamente ligado à estrutura social que o condiciona e. prefiguram a ação reversível que os fenômenos demográficos. A despeito das deficiências das estatísticas vitais e dos dados do registro civil. embora nasça um menor n ú m e r o de crianças brancas. o que tudo indicava ser conseqüência do êxodo de moças desta cor.

38 14. e t a m b é m alta é a prolificidade dessas m u l h e r e s . B R A S I L 1940 Cor Sobre o total das m u l h e r e s de 15 anos e mais idade (%) 63. representa. em conseqüência de seu tipo. como foi provado.34 0.51 100.48 21.DEMOGRAFIA 79 e nível educacional semelhante ao nosso. ao lado da China.' QUADRO V . que discrepam bastante da situação nacional. 8 Todos os grupos étnicos que formam a população brasileira participam com intensidade aproximadamente igual. para o crescimento demográfico do País. os índices de fecundidade e prolificidade na população quase t o t a l m e n t e urbana do Rio de Janeiro se destacam com características bastantes peculiares. proporcionalmente à sua representação absoluta na população. SEGUNDO A COR. em todos eles é bastante elevado o contingente de mulheres q u e c o n t r i b u e m para a reprodução.46 100.00 Sobre o t o t a l dos filhos n a s c i d o s vivos ( % ) 63. cujo movimento e tendências refletem a predominância da parcela de população rural no Brasil. um dos grandes focos nacionais de reprodução demográfica d o m u n d o moderno.FECUNDIDADE E PROLIFICIDADE EM MULHERES E FILHOS NASCIDOS. Corno ficou dito.00 Brancas Pardas Pretas Amarelas TOTAL Sobre esse f u n d o da situação demográfica do País em c o n j u n t o . em função de fatores sociológicos e não étnicos.68 0. a fecundidade no Rio de Janeiro é m e n o r . por assim dizer. da índia e da União Soviética.15 15. em comparação às médias nacionais. 7 pode-se afirmar c o m segurança que a população do Brasil se singulariza por sua alta natalidade: nosso País. ou seja. p o r excelência .00 21. N o Q u a d r o V se incluem os dados essenciais para uma visão geral do c o m p o r t a m e n t o dos principais grupos étnicos n o que se refere à fecundidade. o que tudo decorre.

1 entre as mulheres brancas.9 entre as pretas. Ela indica que. de comunidade. 224. que. •— cit. O que nos importa aqui.3 Brancas 223. e n q u a n t o que as brancas se colocam um p o u c o abaixo da média.3 Pretas (b) 50.8 N o t a : Cf. verificase que a uma proporção maior de mulheres brancas prolíficas.80 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO V I FEDERAL FECUNDIDADE E PROLIFICIDADE SEGUNDO A COR. que tive ram filhos nascido vivos Em geral 403. a proporção das que tiveram filhos vivos é de 55. por 100 mu heres S de 15 anos e mais de idade Em geral 224. urbano. nascidos rivos. corresponde . embora sem diferenças notáveis. é a análise comparada entre os diversos grupos étnicos (Quadro VI).1 Pardas 229.3 entre as pardas e para 50. as mulheres pretas e pardas. Comparando-se esses dados com os anteriores.8 Brancas 393.9 Filhos tidos.0 entre as pardas.3 Pardas 421. do total de mulheres de 15 anos e mais de idade. que assim se colocam em ordem crescente de fecundidade. em cada grupo de cem mulheres de 15 anos e mais de idade. de acordo com os d a d o s censitários.5 Brancas 56. Isto significa. E desse p o n t o dc vista o que se observa é que. noutros termos. estas mais do que aquelas. Estudos sobre a fecundidade etc.7 Pardas 54. o número médio de filhos tidos por cem mulheres de 15 anos e mais de idade (índice a) é de 223.5 em conjunto.8 Proporção das mulheres que tiveram filhos nasc idos vivos por 00 mulheres de 1 5 anos e mais de dade Em geral 55. subindo p a r a 56. nascidos vivos. DISTRITO Filh D tidos.8 entre as pretas e 229. têm uma taxa cumulativa de fecundidade acima da média.7 entre as mulheres brancas e descendo para 54. A menor fecundidade das mulheres brancas e relativamente maior das pretas e pardas resulta ainda evidente quando analisamos a variação da quota de mulheres prolíficas nos diversos grupos de cor (índice b).0 Pretas (a) 224.5 Pretas (c) 441. entretanto.

a u m e n t a n d o expressivamente a representação dos grupos de cor (na hipótese de ela depender apenas do incremento natural). d e populações rurais e urbanas e. n o Distrito Federal. no primeiro caso. Essa correlação inversa. no segundo caso. daí resulta. enquanto que entre as pretas e pardas a uma menor proporção d e mulheres prolíficas corresponde u m n ú m e r o maior de filhos. essas camadas são predominantemente brancas. nas quais ocorre com mais freqüência a restrição voluntária d a natalidade. no mais completo sentido da expressão. em última análise. a menor fecundidade das mulheres do Distrito Federal comparadas com as dos outros estados. Esses fatos. considerando o índice c do Q u a d r o V I . Trata-se.com inteira independência d o fator étnico. no Brasil. traduz a diferença de fecundidade entre as mulheres dos diversos grupos étnicos e resulta do fato de o grupo branco se confundir c o m as camadas de status superior. independentemente de fatores antropológicos. a menor fecundidade das mulheres brancas comparadas c o m as mulheres pardas e pretas. de classes sociais superiores o u inferiores . Isto significa. a queda da natalidade . em q u e a restrição voluntária dos nascimentos é mais difundida. aqui. porém. 10 . tenderiam a ser decisivos na composição étnica d a população do Distrito Federal. Parece não haver dúvida de que a menor prolificidade das mulheres brancas em comparação com as de cor resulta da identificação desse grupo com as camadas sociais superiores. de taxas diferenciais de fecundidade e de prolificidade características. enquanto que o g r u p o preto se situa preferencialmente naquela camada social que é. quando comparada c o m a dos demais estados onde a população rural predomina. O caráter urbano da população do Rio de Janeiro afeta a natalidade de toda sua população. que são igualmente sociológicas tanto as razões que explicam.DEMOGRAFIA 81 um número menor de filhos tidos. como. Na população do Distrito Federal. As taxas diferenciais de fecundidade dos grupos étnicos p o d e m ainda ser apreciadas de o u t r o m o d o . que as mulheres brancas refletem em primeiro lugar e mais intensamente a d i m i n u i ç ã o da natalidade. entre a proporção de mulheres prolíficas e o número de filhos tidos por essas mulheres. quanto. Neste caso consideram-se n ã o mais as mulheres em geral mas aquelas que tiveram filhos. em todos os grupos étnicos. se as taxas de mortalidade infantil não sacrificassem mais os grupos de cor.como de resto se tem observado em todas as populações — começa pelas camadas superiormente colocadas na "pirâmide social". a dos proletarii. cuja prova e significação adiante será mais l o n g a m e n t e demonstrada. noutros termos.

por exemplo. variam dc 439 para as primeiras a 414 para as segundas. por sua vez.21 por 1.45 (89. embora possa ser considerada alta em relação ao quadro internacional: 24. 1 2 Considerando per se os diversos grupos de cor notamos nítidas divergências nas respectivas taxas de natalidade. A variação d a fecundidade entre as mulheres dos diversos grupos étnicos no Distrito Federal parece ser. como se constata no q u a d r o abaixo transcrito: Q U A D R O V I I . fenômeno relativamente recente. SEGUNDO A COR." Tendo em mente essas informações gerais sobre a fecundidade dos diversos grupos étnicos no Distrito Federal. que àquele está estreitamente relacionado (Quadro VII).74 28.000) habitantes Fecundidade (1.53 24.95) 108.12 (27.TAXAS DE NATALIDADE E DE FECUNDIDADE.23 98.37 78.91 26.82) 27.000 no período 1939-41. portanto.36 Branca Parda Preta (Parda e preta) Amarela TOTAL 22.82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO As variações observadas através das gerações indicam.000 mulheres de 15 a 49 anos) 83.29 85. que as diferenças encontradas na fecundidade dos diversos grupos de cor são mais acentuadas nas gerações mais novas. podemos agora encarar o problema da natalidade.21 . Em relação ao quadro nacional é baixa a taxa de natalidade no Rio de Janeiro. pois nas idades de 50 anos e mais as diferenças entre as brancas e pardas. DISTRITO FEDERAL 1940 Cor Natalidade (1. e n q u a n t o que nas idades de 35 a 39 anos a variação é de 268 entre as brancas para 342 entre as pardas.

vê-se t a m b é m . e são os dados retificados que aqui se apresentam. primeiramente. Esta messe de nascimentos de crianças de cor é infelizmente ceifada em alta escala pela mortalidade infantil . por o u t r o lado. E portanto o baixo nível econômico e social das massas de cor do Distrito Federal — ou das classes a que pertencem cm sua maior parte . indicando.73 204. QUADRO V I I I . prova indireta do nível educacional nitidamente inferior em que os de cor permanecem. revelam de modo lamentavelmente significativo que morrem antes do primeiro aniversário 123 sobre 1. entretanto. por essa forma. a população de cor paga o doloroso tributo da posição inferior que ocupa no sistema de estratificação social da comunidade metropolitana. que a fuga ao registro civil é maior entre a população de cor do que a branca.o que dá a impressão. mais uma vez.000 nascidos. c interessante notar que essa retificação inverte a tendência do f e n ô m e n o .TAXAS DE MORTALIDADE NO PRIMEIRO ANO DE VIDA. SEGUNDO A COR.41 (227. de que a natalidade dos preços e pardos no Rio d e Janeiro é menor do que a dos brancos.38 240. que em relação ao número de mulheres em idade fecunda de cada grupo étnico. a taxa de fecundidade por mil mulheres é expressivamente maior para as de cor do que para as brancas. em face da "absoluta inverossimilhança" dos dados registrados. Vê-se no quadro que nasce um maior número de crianças brancas do que de cor.000 nascidos vivos) 123.e aqui. As taxas diferenciais de mortalidade infantil. expressas no Q u a d r o VIII. q u a n d o em verdade é precisamente o contrário que acontece. se nos limitamos a considerar os deficientes dados do registro civil.000 crianças brancas e que esse índice quase se duplica para as crianças de cor. DISTRITO FEDERAL 1939-1941 Cor Branca Parda Preta (Parda e preta) TOTAL Taxa de mortalidade (por 1. que. atingindo 227 por 1. foi preciso retificá-los à luz dos resultados censitários.24 .DEMOGRAFIA 83 Notemos.60) 159.

Só e v e n t u a l m e n t e nos referiremos aos a m a r e l o s o u a quaisquer outras discriminações. Ver-se-á q u e muitas vezes. Esses grupos de cor representavam. preferimos falar d o s " g r u p o s de cor". A justificação deste p r o c e d i m e n t o . os pretos aos pardos. figuram sob a rubrica "de cor não declarada". n. a maior parte deles integrando as camadas mais pobres da população. somando. especialmente. aos pardos. em conseqüência das baixas condições econômicas e culturais em que vive esse setor da população na Capital do País. q u e incluem os diversos tipos d e mestiçagem encontrados n o Brasil. GRÁFICO I . a 20—25% a quota de crianças pretas e pardas que falecem antes de completarem o primeiro ano de vida. e n c o n t r a . . cujas condições de vida estão nesses ciados diretamente refletidas. portanto.84 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Chega. 1950. C f .CIASSE E RAÇA N O R I O DE JANEIRO População total 100 População ativa Empregados Empregadores C O 50 H t < tN o C O C N co • 1 Brancos De cor Notas Nestas elaborações nosso interesse está concentrado sobre os c o n t i n g e n t e s de brancos. estão s o m a d o s aqueles que. nas declarações censitárias.s e nos próprios critérios referidos n a s f o n t e s censitárias consultadas. no correr destas páginas. a d o t a n d o hipóteses e estimativas baseadas c m dados dc pardos dos censos d e 1 8 7 2 c 1840. P o r o u t r o lado n a maioria dos quadros que se vão seguir. 11. O P r o f . cm 1950. calculou em 4 milhões a quota de transferência . Estatística 2 Demográfica. G i o r g i o M o r t a r a . p o r motivos que. IBGE. Estudos sobre a composição da p o p u l a ç ã o d o Brasil segundo a cor. serão repetidamente justificados. mais de meio milhão de habitantes do Distrito Federal. pretos e pardos.

e m 1940. aliás. 437 c ss. segundo d e m o n s t r o u Eckard. Escusado é dizer que a nossa a s c e n d ê n c i a histórica é muito menos exclusivamente européia do que o texto do projeto parece supor. M a y . e n q u a n t o que os de cor aumentaram a respectiva q u o t a . H . jul. op. 6 9 . of Social.. n. p. o que nos i m p e d e d e verificar se a mesma tendência ocorre n o â m b i t o nacional. p. em 1 9 5 0 . Kcphart. T h e M c a s u r c m c n t of negro "pass" id. Jour. 1 8 % . 3 8 ) . Parece lícito supor. M. 71. 8 0 % . em cujas correntes os elementos d e cor estão fartamente representados. D a análise d e Kcphart o argumento de Linton resulta insustentável pois. permanecendo iguais os d e m a i s fatores das migrações internas q u e sc dirigiam à Capital da República vindas d o interior.41% e os pardos de 3 6 . 4 9 8 e ss.DEMOGRAFIA 85 e seus d e s c e n d e n t e s para o grupo branco no Deríodo q u e decorreu entre aquelas duas datas (cf. Is l h e a m e r i c a n negro bccaming ligther? Amcr.. p. N ã o se d i v u l g o u ainda o resultado definitivo das a p u r a ç õ e s sobre a composição étnica da p o p u l a ç ã o geral do Brasil em 1950. W . 1. Ecknrd. 13 n. ter-se-ia q u e esperar 6 mil anos por essa solução. 1948.20% na q u o t a d o s b r a n c o s é quase coincidente com o a u m e n t o d e 1. q u e representavam. no mesmo período. 1946. especialmente dos pretos.600. p. 3 A i n f l u ê n c i a das migrações externas no a u m e n t o d a quota dos brancos e circunstância q u e . 6 1 % . a tendência ao b r a n q u e a m e n t o é u n i f o r m e cm curva ascendente. entretanto. d e 32. Nos Estados U n i d o s . 8 0 % . sc somente o pasúng fosse solução p a r a o problema racial americano. Entre 1 9 4 0 e 1 9 5 0 os pretos aumentaram de 4 6 . n o s decênio 1930-1940. pois os brancos. conclui-sc ter sido aproximadamente de 59 mil por a n o o índice de passing entre esses dois g r u p o s naquele período. aug. E. W. já que a mortalidade parece ter d i m i n u í d o principalmente cm função de m e d i d a s de saúde pública e higiene social..10% da p o p u l a ç ã o carioca. 4 Se c o n s i d e r a m o s o período que decorre e n t r e 1 8 7 2 e 1940.. The Am. 1947. s e g u n d o os cálculos dc E. 6.29% verificado na quota dos de cor m a i s os de cor não declarada. Cf. cit. A diminuição de 1. decorre de um postulado explícito na projetada legislação que regulará o a s s u n t o . dc 2 8 . os brancos. neste ú l t i m o decênio sua superioridade relativa d i m i n u i u e m relação aos de cor. Já n o ú l t i m o censo de 1950 observase u m a d i m i n u i ç ã o relativa da quota de brancos c o m p e n s a d a p o r u m aumento proporcional da representação d o s de cor. representam. É provável que isso a c o n t e ç a pela queda da mortalidade q u e foi observada e que beneficia p r i n c i p a l m e n t e as classes sociais cm que os de cor se c o n c e n t r a m .. 6 2 % para 2 9 . LI1.. a figurar c o m o b r a n c o s . W . que o a u m e n t o da representação proporcional dos pretos n a população do Distrito Federal é u m a conseqüência direta. 4. . v. Rcv. H o w many negrões "pass". Eckard. pois ela tem como um dos seus objetivos d e f e n d e r a nossa "ascendência européia" (!). Aceitando-sc cssaestimativa. flagrantemente m e n o s d o que a estimada para o Brasil. 18 c ss. n. E s t e ú l t i m o artigo í um comentário crítico à opinião dc Ralph Linton. Burma. segundo a q u a l o problema racial americano desapareceria no f u t u r o cm conseqüência do " b r a n q u e a m e n t o " progressivo da população dc cor. John Soe. 26 mil pessoas c o m p u t a d a s c o m o colored passaram por miscigenação e "branqueamento". o que significa uma quota a n u a l cie transferência de 2. E m b o r a os brancos se apresentem como parcela m a i o r em 1940 e em 1950.

A. IBGE. A lacuna foi parcialmente suprida pelo Prof. 1949. entre os brancos residentes no Distrito Federal. Vitalstatisties and public health work in the tropies. da representação elevada das m u l h e r e s d e cor nas correntes de migração i n t e r n a q u e se dirigem para o Distrito Federal. Em 1940. Cf. 7 1947. L. A. 12 A determinação da taxa de natalidade da p o p u l a ç ã o brasileira não pode ser d i r e t a m e n t e feita em face da deficiência do registro civil. os homens ainda constituíam m a i o r i a . Lambert.86 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO 5 Esta circunstância está a indicar q u e n a q u e l e s grupos étnicos formados p r i n c i p a l m e n t e por influência das migrações exteriores. Lambert. provavelmente. embora o n ú m e r o de homens brancos já seja menor do q u e o d e mulheres da mesma cor. sobre o D i s t r i t o Federal. Costa Pinto e J. p. G e o r g i o Mortara. Costa Pinto. Consultor Técnico d o I n s t i t u t o Brasileiro de Geografia e Estatística. L. em conseqüência. Problèmes démografiques Cf. Para m a i o r indicação dc informações sobre o assunto. Magrassi. h a v e n d o 953 mulheres para cada grupo de mil homens. esta d i f e r e n ç a c m u i t o mais acentuada nos g r u p o s p r e t o e pardo. ver. 1952. 1944. 6 S o b r e o assunto cf. realizando elaborações e enunciando estimativas baseadas nos dados dos r e c e n s e a m e n t o s nacionais. a de número 137. Em 1950. op. cit. n a série Análises de resultados d o censo demográfico. 90-120. nas quais os homens adultos t e n d e m a predominar. 8 9 C f .. . Migrações internas no Brasil. L. J. Londres. J. contemporains. Costa Pinto. Dos resultados assim alcançados é que nos servimos na presente análise. Rio de J a n e i r o : Instituto de Economia da F u n d a ç ã o M a u á . Granville Edge. A. já em 1950 o número dc m u l h e r e s brancas era maior do que o de h o m e n s da mesma cor. além da citada publicação do IBGE. da mulher no Brasil no conjunto da população 10 11 Cf. a composição por sexos deixa refletir o fato nitidamente. Estudos sobre a fecundidade e a proliftcidade e nos diversos grupos de cor.

muito especialmente quando o interesse se c o n c e n t r a n u m a organização social caracterizada pela competição crescente q u e d e n t r o dela se desenvolve. no plano científico. Esta afirmação. que coexistem n o Distrito Federal.Significação sociológica dos dados apresentados.Casta e classe . mais visivelmente do que em qualquer parte. que é central na metodologia deste estudo. bem como as relações que entre si mantêm são fatos que não podem ser compreendidos fora do quadro da estratificação social em que se encontram.sua história e seu estado presente . o que há de fundamental e o q u e há de acessório e secundário a respeito de . pois aqui. carece de ser documentadamente provada antes que dela passemos a retirar todas as conseqüências e implicações que ela comporta. 110 primeiro plano cie qualquer análise científica a q u e se pretenda submetê-la.está no coração da situação racial brasileira e deve estar. cuja interpretação sociológica quase se confunde com o próprio escopo desta pesquisa. Parece-nos realmente m u i t o difícil discernir. a situação social dos grupos étnicos.C o n c e i t o d e classe social e de estratificação . De fato.A participação cios grupos étnicos nos diversos g r u p o s e r a m o s de atividade econômica — A posição dos grupos de cor na "pirâmide social" no R i o d e Janeiro . que reunirá os dados essenciais. p o r conseqüência. como resultado do tipo de comunidade urbana e industrial que tem assumido o Rio de Janeiro nas últimas décadas. A esta tarefa destina-se este capítulo. circunstâncias históricas particulares fizeram com que estratificação de raça e estratificação de classe não sejam duas realidades independentes.CAPITULOU Estratificação social A importância f u n d a m e n t a l do problema . O problema da estratificação social . mas apenas dois ângulos pelos quais p o d e ser observada a configuração única e total das relações de classe e raça n o Brasil.

que são sempre o teste real e supremo de qualquer conhecimento. eles estão estratificados num sistema de classes. Parece mesmo que o ponto máximo de avanço atingido nessa questão consistiu em se concluir que. esse m o d o de entender o problema é claudicante do ponto de vista conceituai. é muito mais freqüente na bibliografia especializada do que geralmente se supõe. com critério rigorosamente científico. A disposição de abordar o problema por esta forma nos leva. se essas hipóteses são fecundas como roteiro de pesquisa e se nos ajudam a procurar compreender os fatos. pois casta e classe não são dois . desde que nos limitemos a fazer observações sobre o c o m p o r t a m e n t o recíproco dos indivíduos de grupos étnicos diferentes que entram em contato. tudo mais sendo perfeitamente igual. Referências ao sistema de estratificação social relacionado ao problema dos contatos raciais podem ser encontradas nas obras de quase todos os pesquisadores. sem a m e n o r dúvida. bem como o modo de abordar os problemas concretos de pesquisa. infelizmente. negros e brancos estratificam-se n u m sistema de castas. pela qual a importância d o assunto no contexto do problema clama há muito tempo. mais que isso. além de insuficiente. porém. avessas. entretanto. caracterizamse pela rigorosa vigilância que procura manter contra toda influência deformadora de ideologias de raça. no Brasil. nos Estados Unidos. a nosso juízo é justamente por essas diferenças ligadas à estrutura social que a pesquisa deve começar. que estudaram relações de raças no Brasil. que dela decorrem. enquanto que. a análise séria e frontal. por definição.' Essa posição metodológica. D e fato. classe ou império n o tratamento sociológico dos problemas de convivência e relações entre grupos étnicos . temos a impressão de que é precisamente aí que o problema fundamental tem começo. N a d a disso importa. nacionais ou estrangeiros.preconceito que. à necessidade de trabalhar com hipóteses audaciosas. aceitando como fato estabelecido que somente traços antropológicos os distinguem e separam. Q u e r nos parecer que esta mera descrição dos aspectos mais aparentes de u m a e outra situação está longe de ser suficiente para encerrar o problema. claramente definida.88 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO relações inter-raciais. Ainda não foi feita. ao conformismo com as meias verdades solenes de que estão repletos o pensamento tradicional e as opiniões acadêmicas sobre tais assuntos.

pretender encerrar n u m só capítulo todas as análises que o problema comporta.2 . antes de iniciar esta análise. E fundamental. adiante. A atual desagregação das barreiras de casta nas zonas urbanas da parte setentrional dos Estados Unidos exemplifica uma fase desse processo. t e n d e m a se transformar em sistemas de classe. Por outro lado. deixando para apreciar a plena significação sociológica desses fatos na medida em que se desdobrar a análise de cada ângulo particular sobre o qual a estratificação diretamente influi. nem vantajoso. e não faltam também no Brasil os que resmungam em voz baixa que essa devia ser a "solução" a ser adotada para o nosso problema racial. formas de estratificação do tipo de casta.são duas fases de um mesmo processo. de u m mesmo fenômeno. material q u e nos permite objetivamente determinar posições básicas na organização econômica e social considerada. quando historicamente superados pelos fatores de mudança social que operam em suas bases.tendem a se enrijecer. tornar claros os conceitos de ciasse e de estratificação social com que vamos laborar. O s sistemas de casta. e de tantos modos se manifesta. Por isso. dois momentos. A importância da diversa posição social dos grupos étnicos no tipo e nas perspectivas das relações de raças é tamanha.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 89 fenômenos de espécie diferente: representam. como meio dc resistência à sua própria transformação histórica. roubando a estas a pureza e objetividade que devem ter. em conseqüência d o agravamento das tensões existentes entre os grupos étnicos que ali convivem. sobre elas irão repousar. assumindo. a fim d e facilitar a inteligência do texto e das interpretações que. ou reconstruindo. a se petrificar. os sistemas de classe . Para isso não retomaremos aqui a discussão do conceito científico de classe social. c o m o formas de estratificação social. nele iremos desembocar seguindo coerentemente qualquer caminho. que a focalização do assunto exceda o mero jogo de palavras com que muita vez se procura suprir a falta de conceitos. dois mundos. sobre o qual já nos demoramos noutros lugares. Cumpre-nos ainda. que não é possível. Em verdade. Só então será possível atingir toda a complexidade da questão e evitar que a ronda dos preconceitos e valorações que cercam o assunto se misturem com as hipóteses e indagações científicas.q u a n d o a maior mobilidade social que ele permite ameaça a simetria do próprio sistema . reunimos aqui o material existente e disponível sobre a estratificação social dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. dois pólos opostos . por conseqüência. reversíveis. não são. antes. A esse desfecho foi conduzido o problema na África do Sul.

a essas d i f e r e n ç a s t a m b é m c o r r e s p o n d e m formas diversas dc p a r t i c i p a ç ã o d o s g r u p o s étnicos no s i s t e m a d c c s t r a t i f i c a ç ã o social. Aqui. Partindo dessas premissas.está r e t r a t a d a n o s . que as atividades agrícolas — às quais no Brasil está ligada mais da metade da população masculina de dez anos e mais ocupam no Distrito Federal 3. e usamos a palavra estratificação para designar o sistema total de posições sociais que resulta da existência. pois se transformam com a transformação histórica Az organização social da produção. conceituamos as classes sociais como grandes grupos ou camadas de indivíduos que ocupam a mesma posição na organização social da produção. que as condições econômicas e sociais tipicamente metropolitanas da capital do Brasil criam para sua população problemas específicos e formas também específicas de solucioná-los. e do fato de aqui estar um dos maiores centros industriais do País. mais uma vez. como dado preliminar.90 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Basta-nos indicar. a distribuição da população pelos diversos ramos de atividade econômica é um aspecto no qual se refletem os traços peculiares em que a situação do Distrito Federal se distingue da situação do Brasil c o m o u m todo. que definem u m a posição objetiva na sociedade. é preciso ter em mente. no que se refere aos quadros de ocupação da população ativa. Partindo dessas proposições introdutórias passemos agora à análise dos dados. enquanto que a proporção dos dedicados às indústrias de transformação e à variedade de serviços engendrados pelas condições urbanas do Rio de Janeiro é muito maior aqui do que no conjunto do País. A e s t r a t i f i c a ç ã o social d a c o m u n i d a d e metropolitana obviamente r e f l e t e e s s a s d i f e r e n ç a s d e t i p o e c o n ô m i c o e.q u e é a d a t a m a i s r e c e n t e a q u e se r e f e r e m os d a d o s e x i s t e n t e s . que entendemos a classe como u m c o n j u n t o de relações sociais. por exemplo. que aquelas relações e essas posições não são fixas e imutáveis. d o m e s m o m o d o . Em conseqüência do caráter nitidamente urbano da quase totalidade da população do Distrito Federal.56% dos homens que têm atividade extradoméstica. A esse r e s p e i t o a s i t u a ç ã o c m 1 9 4 0 . cujo ajustamento resulta n u m quadro particular que se distingue bastante dos característicos sociológicos dominantes no quadro nacional. para o objetivo presente. da pluralidade e das diferenças entre as classes no interior de u m a sociedade. Nas indústrias extrativas a tendência é semelhante. Logo se faz notar.

cn O N C O N O m o co O N O C O C O C O co m ^o oo ro co o 11 — N O NO tO — O C O ffl M D C O C O •—• oO C tco oo C O OI C O O N in •o ON co oO C o) NÍ VI) oo IO V O NO C •d cx "d < Si 3 "O o U e trt d -O n o eu o "3 tá o a) o « rt u </> ri O "3 o 4 i a s -S o 6 -a .. CJ -< . o E o -a -a -a -r* -o a "O . O N <n co O c — •i — C N O gO co tO — N H O a a \o co IO rON NO NO 9 C S 00 o NO co 1 NO 3 a £ CO NO oi C O in in vo OI < IO too -tf' O O N oo < rco NO NO co O O CS o co O N IO — t ci tfTf <ri o Si oo C O — C O O O OI OI ooo o 00 OI cs OI cs vn 04 m C O í o "53 Í3 S < G o < T3 u O ON ON 0 3 co p O oO N oO C l/o pi o 6 o W O 3 C N O O 00 ^iCIN t~01 ( M uo ON CO OI o u a.Ü tí C 9 cj < 10 U o s u £ a.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 91 o R e < 0) o XS -o ia P- O N O O co C O o co .a.

no qual.5% . o fato q u e ressalta é a forte representação dos grupos de cor. entre os homens. Nas atividades de comércio.17. Aqui. n a massa do proletariado industrial do Rio de Janeiro.. N o sexo feminino a quota das brancas ocupadas neste ramo .2. n o Rio de Janeiro.92 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO números do Q u a d r o IX. como nas indústrias de transformação. Adiante. embora superior à das pardas .13.81% .21. em qualquer de suas modalidades.é inferior à dos pardos .é inferior à das pretas . em índices proporcionais. que representam no Distrito Federal a atividade extradoméstica com maior proporção de ocupados. com referência aos dois sexos. A proporção dos brancos ocupados neste grupo de atividades .74% . Desde q u e os limites entre pretos e pardos são arbitrários e não homogêneos.e mais fraca ainda no comércio de valores e crédito.97% . por exemplo. são apenas preliminares e só indicam as grandes linhas da distribuição dos grupos étnicos pelos diversos ramos de ocupação. por sua natureza.29. mas. As atividades de transporte e comunicações aparecem na Capital da República como outro importante ramo de atividade e nelas. Esses dados referentes à ocupação total.47%. essa i m p r e s s ã o será confirmada quando discriminarmos os ocupados neste ramo pelo característico de cor combinado com a situação de empregado e empregador.2. merecem atenção especial. por ramos de atividade. Fraca também tem sido a infiltração da população de cor nesse setor de atividades . de ambos os sexos. então.52%. que foi principalmente essa a posição historicamente conquistada pela grande maioria da população de cor no q u a d r o da comunidade metropolitana após a abolição do trabalho escravo no Brasil. O s dados relativos às indústrias de transformação. as quotas dos pretos e pardos excedem a dos . ainda assim. que nas atividades agrícolas e extrativas. a superioridade da quota de ocupação dos brancos é visível em ambos os sexos. que traduzem a repartição dos grupos étnicos pelos principais ramos de atividade econômica. a maioria esmagadora dos ocupados está na condição de empregado. Observe-se. ramos de atividade de representação relativamente fraca no Distrito Federal. os pretos e pardos aparecem em número nitidamente superior ao dos brancos. a sua análise deixa-nos entrever aspectos muito expressivos da posição econômica e social da população de cor no Distrito Federal.aliás.e ainda m e n o r do que a dos pretos . no plano nacional o m e s m o se verifica . não atingem 1% de todos os ocupados de cor de ambos os sexos. Ficará nitidamente evidente.

Já entre as mulheres ocupadas neste ramo . as pardas e as pretas. . Os pardos constituem a maior q u o t a dos ocupados na defesa nacional e segurança pública no Distrito Federal. a composição étnica dos quadros móveis das forças armadas há de sempre representar u m a amostra aproximada da composição étnica das idades recrutáveis para o serviço militar. especialmente nas condições urbanas peculiares ao Rio de Janeiro: basta dizer que. nos quais o oficialato deve representar alta porcentagem.48% da parte ativa da população. brasileiros descendentes de chineses e japoneses residentes no Rio de Janeiro. nesta ordem. justiça e e n s i n o público e b) profissões liberais. com quotas menores. empregadas d e escritório etc. neste ramo a quota dos pretos é a m e n o r dentre os três grupos considerados. os pretos. enquanto que no Distrito Federal essa q u o t a se eleva para 5. Curioso é notar que a q u o t a de homens pretos ocupados no serviço público civil é menor do que a dos amarelos. representando não raro aquela parte mais ativa e de mais forte "consciência de classe". aqueles dois ramos de atividade o c u p a m 1. a condição de oficial das forças armadas é bastante para "branquear" qualquer um. considerando os quadros permanentes.36%.ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 93 brancos. o grosso da classe média u r b a n a e a quase totalidade do grupo dos chamados "intelectuais" que. em qualquer parte d o Brasil. depois vêm as amarelas e. Em face do recrutamento obrigatório. Atentemos agora para dois outros ramos de ocupação c u j a posição social é muito significativa: a) administração pública. aeromoças. intérpretes. A composição étnica desse grupo torna-se assim assaz significativa. seguindo-se os brancos e. No primeiro daqueles ramos — serviço público civil — a q u o t a maior é.telefonistas. 3 No que se refere às mulheres a superioridade neste ramo de ocupação está com as brancas. entre os homens. a dos pardos. Neles temos. o q u e há de se dever. está na maior parte integrado nesta classe. provavelmente os brancos representarão forte maioria . por outro lado.não só por ser mais difícil aos matizes mais escuros atingir os postos superiores mas t a m b é m por que. — a quota das brancas é superior à das pretas e pardas somadas. à quase total exclusão dos pretos do oficialato nas forças armadas do País. em parte. depois. ensino particular e culto. por sua condição. no conjunto do Brasil. n o Brasil.

4 A presença de um elevado n ú m e r o de pessoas de cor no serviço público no Rio de Janeiro nada exprime. cm tese. dentro de sua hierarquia. que. em maior ntimero. onde as discriminações contra os elementos de cor têm raízes tão profundas na organização social. da existência de barreiras raciais em carreiras do serviço público. pois na verdade o aspecto mais grave do problema não consiste na pura e simples exclusão ou admissão de elementos de cor nessas c a r r e i r a s . diretamente. portanto. Mesmo nos Estados Unidos. o p r o b l e m a m a i s s u t i l c o n s i s t e na seleção p r e f e r e n c i a l . o fato evidente. a minorar a aparência odiosa das discriminações feitas à sombra do próprio Capitólio. especialmente. e m v e r d a d e . pois o combate ao racismo alemão foi u m dos slogans generosos em nome dos quais ela foi feita. a sua explicação particular no próprio mecanismo das relações raciais e na posição do Estado em face dos problemas por ela criados. e muitas vezes comprovado. constituem a maior parte das funções existentes. o governo. tendo a obrigação constitucional de não fazer discriminação entre cidadãos de diferentes grupos étnicos. a diplomacia e o oficialato das forças armadas. barreiras dc cor no serviço público. Daí resultou u m a representação maior desses grupos no funcionalismo público da capital d o país. portanto. aliás. tampouco. sobre a colocação delas na hierarquia das funções.6.52% para 6 . Aqui provavelmente ocorre o mesmo que entre os ocupados na defesa nacional: a maioria dos pardos que ali foi encontrada não significa que essa composição étnica se estenda a todos os graus de hierarquia e o fato de haver uma maioria de pardos no total não implica — muito ao contrário . Pouco significa. sendo de t o d o provável que os de cor se concentrem. em contradição prática consigo mesmo .na aplicação desses princípios.que essa proporção se m a n t e n h a desde o nível dos praças até aos altos comandos. nas funções subalternas do serviço público. da marinha. 4 0 % . a situação tornou-se mais aguda. e houve a necessidade de intervenções mais enérgicas do poder público no sentido dc permitir a admissão de homens e mulheres de cor como funcionários nas repartições de Washington. sempre se viu em contradição com seus agentes — ou seja. discutir se há ou não. A presença de elementos de cor nos quadros do serviço público tem. por tradição. como a magistratura.94 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO A ligeira vantagem dos homens pardos sobre os brancos nas ocupações do serviço público civil . Durante a última guerra mundial. N e m nega.só teria sua verdadeira significação realmente demonstrada se tivéssemos uma discriminação dessas ocupações por categoria de função.

transportes manuais e de propulsão humana (carregadores etc. assistência médico-sanitária (enfermeiros.em ambos os sexos.). porque "o que diria de nós o estrangeiro se fôssemos lá fora representados por um tição?" etc. que têm aqui as atividades q u e ocupam maior número do. alfaiates. presentes no Distrito Federal. proporcionalmente ao número de habitantes de dez anos e mais de idade.).s h o m e n s deste grupo.profissões liberais. tintureiros. depois dos brancos. depois os . entre os homens. que s e m p r e e n c o n t r a m alegações não-étnicas p a r a se justificarem. está longe de impedir o funcionamento dos critérios discriminativos. os serviços aos quais aquela designação se refere. Neste ramo. culto etc. É neste plano que se faz o peneiramento desfavorável ao e l e m e n t o de cor e.). serventes etc. o que. a quota d o grupo branco é bastante maior d o q u e a dos demais. . restaurantes etc.24% entre os pardos e 0. Com estes exemplos tem-se uma indicação do tipo heterogêneo de atividades a que a denominação se refere. higiene pessoal (cabeleireiros. 5 No segundo dos grupos considerados como representativos d e largo setor da classe média urbana . de cada grupo étnico. funções o u p o s t o s hierárquicos aos quais está ligada a idéia de que é inconveniente q u e sejam ocupados por pessoas de cor . por outro lado. pensões. por isto mesmo.de elementos q u e n ã o são de cor para gozar da oportunidade de ascender a carreiras.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 95 . v ê m os amarelos com a maior quota de ocupados neste grupo.). ensino particular.por critérios que em regra não são confessados . conservação e reparação de objetos de uso pessoal (sapateiros. barbeiros.nas condições peculiares ao Brasil — é essencial que não esteja escrito nas leis. o fato de os amarelos se representarem em proporção maior nesses ramos de ocupação do que os pretos e mulatos serve para ressaltar a baixa representação desses últimos nessas ocupações: 1. manicuras etc. Mais uma vez. Sob esse título estão reunidos os ocupados nas seguintes atividades: hospedagem e alimentação (hotéis. para uma justa interpretação dos dados numéricos.p o r q u e "lugar de negro é na cozinha". Antes de analisarmos a composição étnica dos ocupados q u e se reúnem sob a rubrica censitária de "serviços de atividades sociais". p o r q u e seria "botar o carro na frente dos bois". modistas etc. estão os brancos. é preciso saber. Aqui também. é claro que para que ela funcione com eficiência .65% entre os pretos.). diversões e desportos. espetáculos. depois dos amarelos.

necessariamente. em que iremos encontrar não somente as necessárias informações objetivas sobre o estado do problema n u m dado instante. as brancas. para os diferentes grupos étnicos. por exemplo . o quadro da distribuição dos grupos étnicos no Rio de Janeiro pelos diversos ramos de atividade. também. De fato. os pretos. com a abolição do estatuto escravagista. mas está longe de esgotar a questão. finalmente.e entre os pardos mais de um terço — era de escravos. dos resultados objetivos da mobilidade social operada na sociedade em questão desde o desaparecimento da barreira legal. no plano vertical. e m relação a estes grupos . um meio essencial de pesquisa é a análise do sistema de estratificação social num momento dado. capazes d e nos orientar no esforço de discernir as perspectivas e o sentido da evolução do fenômeno para o futuro. setenta anos depois. por último. partindo dessa análise. Esta análise. É sobre esse fundo real. quem fala em estratificação social refere-se.250 pessoas de cor/' que entre esses pretos mais da metade .96 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO pardos e. a estratos superpostos 11a hierarquia interna da "pirâmide social" considerada. Quando sabemos que em 1872 havia no Distrito Federal 122. então. depois as pretas e. Entre as mulheres a ordem de colocação é diversa: em primeiro lugar estão as pardas.embora desafinando d o coro . e observamos. mas também os elementos empíricos para compreender o processo e a dinâmica da mobilidade. formado pela situação objetiva da população de cor na sociedade. Parece-nos que para constatar os resultados objetivos da mobilidade social já ocorrida. em resultado das análises feitas. dos diversos grupos e camadas que o c u p i m a mesma posição na organização social da produção. é o que nos cabe fazer agora e através dela é que poderemos ter u m a visão mais completa da estrutura de classes e. a quota percentual desses grupos de cor nas classes e posições sociais diversas existentes dentro da estrutura da sociedade. Esta visão geral sem dúvida fornece-nos material para algumas indicações e hipóteses sobre o problema da estratificação social dos grupos étnicos. de que esses resultados são o mais autêntico produto. que se pode.independentemente de qualquer juízo de valor. f u n d a r em bases sólidas a construção de hipóteses fecundas e operativas. parece não haver dúvida de que temos aí um ponto de referência objetivo e seguro para compreender a intensidade e a significação da mobilidade social de fato ocorrida nesta sociedade. Só depois disto é possível. Parece ter ficado bem claro.

c o m seu rastro de cometas. em certo sentido. Cremos. que são os negros — fração mínima da população de cor — que ascenderam na escala social. pingam quase que à razão de uma por geração.. há quatro séculos. como prova da inexistência de barreiras raciais. argamassada com seu suor e seu sangue. como minoria í n f i m a que constituem. que ele não nasceu apenas para trabalhar e para apanhar — c o m o u m a ilustre dama mandou dizer ao Autor destas linhas quando soube q u e ele estava perdendo o seu tempo dedicando-se ao estudo do negro n o Rio de Janeiro. nas letras. os C r u z e Souza .ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 97 de exclamações um t a n t o alvares . os Luís Gama. os Juliano Moreira. por sua atuação na vida nacional. e n t r e t a n t o . que tiveram e tem de vencer os homens de cor neste País para furarem as linhas e. mais u m a maneira de fuga atrás de símbolos. não pela minoria. como h á os q u e pensam. simbolizam m u i t o mais e melhor a envergadura e proporções das barreiras.. vai erguendo. feita pelo branco. n u m m o m e n t o dado e atual. distinguindo-se nas artes. subjetivas outras. pela milionésima vez. c o m que ele procura muitas vezes escapar do seu quotidiano de pária. que o negro não é um ser inferior. materiais umas. que essas exceções não só confirmam o fato objetivo e inconteste da concentração da população de cor nas posições inferiores da sociedade. não significa qualquer . Evidentemente o estudo da mobilidade social da população de cor feito através da análise d e estatísticas que refletem. sobreviventes bem-sucedidas da grande luta pela ascensão social. q u a n d o feita pelo próprio negro. as "honrosas exceções". sobre cujos ombros. Neste sentido. os resultados efetivos de um processo anterior. por u m c a m i n h o de pedras. mas pela presença e atuação n a história da sociedade no Brasil da própria massa de cor. essas verdades elementares. alcançarem o padrão social dos grupos dirigentes. merecer uma vida melhor d o que aquela que realmente vive. Na verdade. o u pelas exceções. significa. d e m o n s t r a m a capacidade que tem o negro de. adiante. Ver-se-á. Não é por mera coincidência que tais "honrosas exceções". que tudo isso se demonstra m u i t o melhor. Não duvidamos de que as "honrosas exceções" sirvam para demonstrar. pela elite. a civilização brasileira.que é que de fato simbolizam? Geralmente se entende q u e eles. mas t a m b é m q u e a supervalorização delas.compreender a significação sociológica das sempre apontadas "honrosas exceções" de homens de cor q u e venceram a barreira e ascenderam a posições sociais superiores. mais uma forma dessas barreiras ideologicamente se manifestarem e. esses homens-símbolos os José do Patrocínio. nas ciências e na política.

os que querem apenas estudar a situação e os que. transformá-la. através d o s canais de capilaridade social. Ninguém p o d e duvidar de que nisto consiste uma das excelências desse procedimento. à condição de m e m b r o s das camadas superiormente colocadas n o sistema de estratificação social? Os Quadros q u e aqui inserimos permitem dar a esta pergunta respostas específicas a) para cada grupo de cor. por outro lado. u m a vantagem metodológica evidente. com que até hoje se procurou suprir a falta dessa documentação. em 1940. 7 Os dados disponíveis. diferentes posições na organização social da produção: empregados." já que o ponto de partida empírico da interpretação proposta está à disposição de todos: os que se aproveitam e os q u e são vítimas do desajustamento. não precisamos recorrer a essas tentativas de interpretação. geralmente muito mais temperamentais do que científicas. as nossas técnicas deixem de ser instrumento de verificação de situações reais para se transformarem em mecanismos de racionalização e justificação. mais do q u e de análise. Isto tem. b) para cada r a m o de atividade. muitas análises deste t i p o teremos de fazer. mesmo porque. q u e é precisamente evitar que. na coleta d e ciados sobre a mobilidade. utilizando os dados censitários. no correr deste trabalho. empregadores. Com isto torna-se possível verificar . das barreiras existentes à m o b i l i d a d e social dos grupos de cor. pretendem. mais que isso. pois ela responde objetivamente a u m a questão essencial para nosso estudo: qual o volume da quota de descendentes de escravos em 1872 (data do último censo antes da Abolição) e libertos em 1888 que tinham conseguido passar. objetivos e quantificáveis que existem sobre o problema.e não supor ou imaginar . a margem de erro tão freqüente em tais estudos e que consiste em confundir a análise de u m a estrutura social com a justificativa sub-reptícia de seus desajustamentos. dentro de cada grupo étnico.98 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO desprezo pelas chamadas análises "compreensivas" de fenômenos desta natureza. A importância dessa informação é absolutamente f u n d a m e n t a l . Significa apenas que. permitem determinar. t a m b é m . limitamos. trabalhadores por conta própria etc. . c) para cada sexo e d) para cada uma das posições sociais fundamentais. quantos ocupam em cada ramo d c atividade econômica. o grau e a intensidade da ascensão social dos indivíduos de cor que neles estão ocupados. que é a seguinte: laborando c o m u m material acessível a outros. até certo ponto. e adiante transcritos.para cada grande ramo de atividade econômica encontrado n o Distrito Federal.

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 99 N o u t r o s termos. agricultura etc. do grupo dos empregadores significará a participação das diferentes etnias na pequeníssima camada que detém e manipula o controle efetivo dos meios de produção. ao lado dos característicos capitalistas de nossa estrutura econômica. empregadores etc. separado por u m segmento médio muito débil de u m a vasta e volumosa base. e. entre os brancos. quantos ocupam a posição de empregado. em certa época. poder econômico e influência política são tão grandes quanto diminuta a sua representação numérica no conjunto da população. existem. A relevância sociológica dessas informações explica-se por si mesma e dispensa maiores explanações. que tem desnorteado alguns analistas de nossa economia e de nossa sociedade. fenômeno só aparentemente paradoxal. ou a falta de desejo de interpretá-los cientificamente. na história e na organização da economia brasileira. XI. falsas e apressadas opiniões sobre o estado verdadeiro da Situação racial neste País. e que consiste no fato de a economia brasileira estar apenas começando a se expandir e já estar fortemente concentrada. quantos são pretos. quantos são pardos. N o que aqui nos interessa em particular. tem sido. é pertinente advertir que. em nossa opinião. T e n d o em mente essas premissas. XIII. no Brasil e no exterior. particularmente acentuados nas condições de u m a comunidade metropolitana. isto signiiica a possibilidade de verificar e afirmar — e não supor ou imaginar . passemos agora à análise das situações concretas (Quadros X. — quantos são brancos. de empregador etc. por exemplo. Antes de analisar mais de perto esses dados. .entre os empregados. o principal fator responsável pela larga circulação que tiveram. pretos e pardos do Rio de janeiro. O que daí resulta n o plano da estratificação social é que a nossa "pirâmide" social como um t o d o — independentemente de fatores étnicos — apresenta um contorno muito pouco piramidal. X I V e XV).. caracterizandose com u m vértice minúsculo. cujo prestígio social. porém. de cada ramo de atividade econômica . Apenas desejamos assinalar que a falta desses elementos informativos. essas circunstâncias indicam que a composição étnica. XII. fatores persistentes que a t o r n a m caracteristicamente mais centralizada do que outras economias nacionais ao passarem pelo estágio de desenvolvimento em que hoje nos encontramos. comércio.indústria. reciprocamente.

POR COR.000 3.086 22. OCUPADOS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS. D I S T R I T O FEDERAL 1940 Atividade principal e posição n a o c u p a ç ã o Brancos Agricultura.566 3.221 9.100 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X - DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS.650 263 48 891 356 4 519 6 6 71 15 3 53 — — 3 3 — — — • — Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador AuiAuomo Membro da família Pofjiçíiti ifuioríuln 149 — 6 91.501 22.011 1.139 56.097 299 421 4.951 99 2.191 19.129 80.251 90 321 20.H()1 3 l<) 7. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.424 12 45 100 59 8 33 — — .259 3 123 71 65 1 5 — — 89.410 ' 691 4.139 36 .901 6.988 2.842 6.128 4.606 95 1.829 1.213 148 1.167 232 712 5 75 24.150 26 725 43 44 746 591 — 5. pecuária etc. Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Indústrias extrativas H o m e n s de 10 a n o s e m a i s Pretos Pardos Amarelos 10.434 82 1.426 440 161 2.280 7 26 2.

tí)irn n I r s d c c o r n ã o declarada.602 — . 10.002 7 358 — 10.309 3 33 181 169 — 524 458 11 52 — 9 9 .027 164 445 6.896 14.746 8.905 391 5.771 37 1.394 18 168 6.100 3.837 5.876 37. ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 9.200 17 618 — 40 39 — 1 — — 28 51 59.459 19 518 343 282 8 48 — 996 671 11 293 2 19 11 7 — 3 — 5 1 N o t a : N t " .077 324 1.632 41.946 8. O a (orais referem-se a cada r a m o dc atividade principal.536 305 6.— — — 11 — 1 3 — 43.455 4.153 117 2.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 101 (continuação) Comércio de valores etc. Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais.395 6.886 10.556 20 100 165 122 16 27 — — 45 12. . l r q u a d r o a r a i r ^ o i i a p a r d o s ihrliii oi li.

POR COR.180 3 53 — 4. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 4 — 5 — 11 13.774 13.246 2.174 81 449 26 44 7. OCUPADAS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS. DISTRITO FEDERAI. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias extrativas Brancas 421 149 32 142 46 52 61 40 1 9 — — Pretas 100 46 1 36 13 4 28 21 — Pardas 156 60 3 65 17 11 23 18 — A m a r e i as 3 — — 2 1 — 1 1 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc. MAIS. 1940 M u l h e r e s d e 10 a n o s c mais Atividade principal e posição na ocupação Agricultura. pecuária etc.990 4.215 268 775 104 58 1.798 13 156 1 22 732 639 8 78 4 3 39 33 — 10 10 — — — — 10 233 181 — 4 2 — 45 2 5 11 9 — 1 — 1 2 2 — — — 2 — — 5 1 6 — — . SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.259 2 51 — 3 2.102 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO X I - DISTRIBUIÇÃO DAS MULHERES DE 10 ANOS F.420 6.318 1.

125 2.082 3.076 135 102 — 426 279 3 82 1 61 — — — — — 29 — 4 .574 31 33 4.222 10.049 9 1.754 6 34 — 45 37 — 236 224 — — — — 3 — — 9 3 8.438 283 130 12.478 1. .893 5 5. O s t o t a i s r e f e r e m sc a cada r a m o de a t i v i d a d e p r i n c i p a l . ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 2.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 103 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais. 361 — — . 813 2.083.— Nota: N e s t e q u a d r o . — 19 25.1 c a t e g o r i a p a r d o s i n c l u i os h a b i t a n t e s de cor não d e c l a r a d a .537 2.368 10 9 3.005 140 23 10 — — 12 1 5.941 50 1.

354 682 4.000 9.000 7.000 9.816 15 57 10.900 800 3.104 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO X I I .000 7. POR COR.893 198 5.000 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.000 8.741 210 992 57 Amarelos 10.000 8.370 435 159 10.DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS.288 525 96 10.196 87 2.000 5. pecuária etc.000 6.000 .069 290 4.922 — Pardos 10.465 — — 10.155 141 704 — — 10.546 34 47 10.000 5.000 7. OCUPADOS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.997 — 81 10.996 45 5.000 3.307 1. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 1.000 3.923 189 1.066 2.493 115 353 2 37 10.000 9.113 422 7.000 9.386 39 523 1 51 10.343 3 34 Pretos 10. EM CADA 10 MIL.000 8. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias extrativas Brancos 10.000 7.000 2.000 10.300 — — 10.847 90 2.007 8 48 10.337 608 55 10.426 144 147 10.000 4.524 25 92 10.288 332 1. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.825 67 67 10. D I S T R I T O F E D E R A L 1940 H o m e n s d e 10 a n o s e m a i s ( % e m 1 0 m i l ) Atividade principal e posição na ocupação Agricultura.841 428 686 10 35 10.

000 6.352 28 75 10.737 110 2.370 15 568 — 10.391 57 2.394 970 1.399 — 10.335 18 91 10. .230 4 38 10.000 d.000 7.000 6.364 — 2.636 — — 70 10.000 9.892 653 2.000 7.727 — 146 909 Nota: Neste q u a d r o a c a t e g o r i a p a r d o s inclui os h a b i t a n t e s de cor n ã o d e c l a r a d a .222 233 1.032 15 403 10.000 7.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 10 5 (continuação) Transportes e com única ções Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços eati vidades so ciais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais.000 8.000 9. O s t o t a i s r e f e r e m se a cada r a m o d c a t i v i d a d e principal.312 238 5. ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 10.750 — 250 _ — — 44 10.000 6.639 89 1.942 20 191 10.482 — 47 10.000 8.000 9.385 11 560 — 10.449 107 2.

172 8.582 9.522 317 923 576 1.364 6.000 8.522 8.270 9.898 6.818 8.727 6.565 5.317 9.185 8.739 1.445 396 478 37 322 96 392 173 194 — 5 5 2 6 — — 10 9 8 13 __ — 9 10 — — — 80 — 110 «1 1 .579 1.97 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X I V .015 9. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.672 9.642 2.184 6.566 9.479 — 2. EM CADA 10 MIL.DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS.526 1.094 9. POR COR.635 5.571 5.994 1.566 549 866 510 1.598 9. DISTRITO FEDERAL 1940 Atividade principal e posição na ocupação H o m e n s d e 10 a n o s e m a i s ( e m 10 m i l ) Brancos Pretos Pardos Amarelos Agricultura.385 6.778 1.754 2.490 1.374 3.579 1.680 9.330 6. pecuária Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Indústrias extrativas etc.370 776 947 153 571 382 928 501 526 328 379 — 39 18 37 68 .897 1.530 306 2.535 6.847 225 1.664 4.615 1. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignonula transformação 765 — 1. 5.802 9.919 ' 1.288 1.541 10.— — 7 13 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indiístriasde Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.842 6.669 2.209 3.224 7.437 5. EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.493 465 2.

087 1.466 10.048 8.033 339 431 952 350 4 — 92 18 Nota: Neste quadro a categoria pardas inclui os habitantes de cor não declarada.048 9.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 109 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Profissões liberais.134 836 881 91 880 — • 2.540 242 434 247 71 — 702 1.695 21 22 39 15 — 763 _ 8 11 — • 9.801 7.582 7.779 1.045 1.542 1.414 9.506 288 1.403 1.422 8.108 168 562 — 1.522 9. ensinoparticular culto Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 7. .065 1.884 410 970 — 6 7 — 2 — — 1.913 7.702 8.725 7.001 9.418 1.000 6.170 7.494 9.591 9. Os totais referemse a cada ramo de atividade principal.

8.000 10. P O R C O R .571 1. EM CADA 10 MIL.374 2.789 8.208 1.000 8.824 9.294 2.398 5.895 872 908 290 868 364 448 285 253 — — — — — — 5 5 1.380 1.454 8.630 5.081 309 805 — 2.000 — Pretas 1.478 2.710 8.000 5.035 2.832 9.657 9.143 1.889 5.653 2.191 5.340 2.110 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X V . SEGUNDO A POSIÇÃO N A O C U P A Ç Ã O .857 6.353 833 2.778 — — 7. M u l h e r e s d e 10 a n o s e m a i s ( e m 10 m i l ) Brancas 6. OCUPADAS E M RAMOS DF.429 .688 597 2.663 10. DISTRITO F E D E R A L 1940 Atividade principal e posição n a ocupação Agricultura.796 5.068 1.621 9.761 5.845 8.642 2. ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS. pecuária Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Indústrias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Comércio de Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.553 6.471 1.DISTRIBUIÇÃO DE MULHERES DE 10 ANOS E MAIS. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição i g n o r a d a mercadorias transformação extrativas .371 370 2.316 278 257 — 5 3 11 — 500 182 746 80 69 — 149 15 15 — — — — 345 — — 862 — 8.534 8.625 — Pardas 2.469 1.620 9.804 278 1.793 — 2.250 — Amarelas 44 — — 82 130 — 89 125 — — — — 2.222 — 2.843 .351 6. etc.974 7.

000 Posição ignorada 9. Os totais referemse a cada ramo de atividade principal.853 Empregador 9.043 707 — — M e m b r o da família 9.852 1.430 35 535 — r^r^ i Nota: Neste quadro a categoria pardas inclui os habitantes de cor não declarada.445 309 1.180 957 2.000 1.134 10.919 1.037 6.535 — — 6 6 523 4 585 9.080 2.000 7.904 1.957 _ 1. ensino particular culto 9.391 — 145 123 — 763 743 — — — — 652 — 1.434 — 566 — — Autônomo 250 9.086 1. .013 238 749 — — Empregado 307 840 8.ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 111 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Profissões liberais.507 — — 7.491 6.423 1.558 7.369 8.734 6.092 9.111 2.373 7.

em cada cem pretos ocupados nas indústrias de transformação. entre os pardos essa quota é de 93.70% dos pardos ocupados nas atividades de transportes e comunicações são empregados. Comparando-se. n o que se refere à participação dos diversos grupos de cor. em nenhum ramo de atividade econômica. dentre os pretos o c u p a d o s no ramo considerado. a própria composição do mercado de trabalho . 71. em cada cem pretos nela ocupados. O percentual máximo de empregadores entre os pardos é de 2. E n t r e os pretos.96 são empregados assalariados. 0. Aqui. e m cada cem pretos ocupados neste ramo.39% dos pardos nelas ocupados. C o m o se vê. na agricultura. mais do que lá — não permite a discriminação absoluta. ela. entretanto.10. nos dois países. se vai manifestar q u a n d o sc trata de ascender na hierarquia das funções ou quando se trata de selecionar empregados para determinadas funções. 9 3 . como o Prof. em todos os ramos de atividade. a situação é completamente outra. a quota de empregados é inferior a 70%. p o r é m .112 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO U m fato que logo prende a atenção é que entre os empregadores. 94. entre os pardos e pretos.15% dos pretos e 0. existe menos de um na posição de empregador. Neste sentido a identificação da condição social de "senhor" ou de "patrão" com a condição étnica de "branco" parece não ter sofrido alterações notáveis na c o m u n i d a d e urbana e industrial do Rio de Janeiro na última década da primeira metade do século XX: embora em todos os ramos de atividade os empregadores sejam minoria. entre os pardos essa quota é de 1. Por outro lado. 8 5 % dos pretos e 93.87% são empregadores.93 são empregados. Em que pese a acentuada diferença de grau e padrão. as quotas de empregados. a quota de brancos é predominante. Se considerarmos aposição de empregado. entre os pardos s o m e n t e em dois setores de atividade a quota de empregados é inferior a esse limite. a quota de empregadores atinge 3%. Bullock verificou para os Estados Unidos. em n e n h u m ramo de atividade. essas quotas são em regra mais altas do que entre os brancos. no comércio de valores e crédito também rião há pretos como empregadores. nesta posição. aliás. no comércio-de mercadorias. a quota de brancos é avantajadamente maior do que a dos demais grupos de cor. em todos eles. mesmo de início de carreira. são sempre elevadas. dentro de cada . 8 E m cada cem pretos na agricultura da zona rural do Distrito Federal. nas indústrias de transformação são empregadores 1.aqui. N a indústria extrativa (no Distrito Federal as principais atividades deste ramo são a pesca e a exploração de pedreiras) não há pretos como empregadores. é quase idêntico.86. às quais se liga a idéia de u m a m a i o r convivência de que o empregado seja de cor branca. em todos os grupos étnicos.98.

8 7 nos serviços e atividades sociais. a mesma situação. 95. quantos por cento têm esta ou aquela posição na ocupação. enquanto que 12. Assim. sobre o total de indivíduos na mesma posição na ocupação.82 nos serviços e atividades sociais e 94.20 n o comércio de valores. constata-se a mínima representação dos de cor entre os empregadores e a f o n e concentração deles na posição d e empregados. 34.02 no comércio dc mercadorias. Talvez. f o r m u l a n d o a questão da segunda forma. permita melhor compreensão do padrão d o m i n a n t e de estratificação social dos grupos étnicos no Distrito Federal.24 nas indústrias de transformação.ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 113 grupo étnico.72% dos empregados são de cor. 84. 011 pardos.20%. e no segundo. São dois modos de formular a m e s m a pergunta. pois em todos os demais a quota de brancos excede de 9 0 % . ou brancos. Até agora.35 nas indústrias extrativas. temos visto a questão colocada nos seguintes termos: em cem pretos (ou pardos ou brancos) ocupados em determinado ramo de atividade. 1 0 são de cor.13 nas indústrias de transformação. mesmo na condição de empregado varia o contingente de cor com a variação do status do r a m o de atividade: entre os industriários 49. quantos são pretos. as posições de classe. 14.09 são pardos e 3.22 nos transportes e comunicações. sendo que no primeiro caso a porcentagem é calculada sobre o total de indivíduos da mesma cor. 92. verificamos que em cem empregadores nas atividades agrícolas no Distrito Federal. Sobre cem empregadores. 14. os de cor branca representam 95. por exemplo. este ramo é o ramo de atividade em que os brancos. 29.82 nos transportes e comunicações. 98. enquanto que entre os bancários essa quota é de 7. dentre os empregadores (ou empregados etc. Só uma pesquisa mais minuciosa e demorada poderia estudar mais particularmente o f e n ô m e n o por meio de inquéritos dedicados a cada ramo de atividade.14 nas profissões liberais. .37 são brancos. embora a representação dos elementos de cor seja sempre maior entre os empregados do que entre os empregadores.72 no comércio de valores e crédito. entre os empregadores. pretos. 94. 2 3 . Vejamos agora a mesma situação encarada de outro modo: em cada ramo de atividade.25 n o comércio de mercadorias e 7. Como se vê.72 são de cor.67 nas profissões liberais. E m cem empregados na agricultura 4 8 .).17. nas indústrias extrativas 49. têm a menor quota. Já entre os empregados a situação é bastante outra: aqui está concentrada a massa da população de cor. 96. observada de outro ângulo.

os problemas e as perspectivas do campo de estudos. contrastados c o m os 8 6 . concreta e p r o f u n d a m e n t e diferentes . lançar hipóteses mais seguras e fecundas que nos levem a ver também com mais clareza o estado atual c os fatores dc mudança que o p e r a m no quadro das relações raciais da comunidade em estudo.114 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO E m face desses dados parece não haver dúvida de que de escravo a proletário foi a maior distância percorrida pela grande massa dos homens e mulheres de cor no Distrito Federal nos últimos setenta anos de mobilidade social.homens abstratamente iguais .. uma das mágicas mais sutis da ideologia liberal engendrada no século XVIII foi reivindicar a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. na medida em que vamos elaborando maior soma de materiais.não dos cidadãos — perante as situações sociais concretas — não perante a lei. na prática. proletário ou burguês. sem precisar modificar a fraseologia libertária. fórmula que sempre lhe permitiu.. proíbe igualmente pobres e ricos de roubarem pão e dormirem nos bancos dos jardins. na majestade de seu igualitarismo. Sobre essa situação muito ainda terá de ser dito no decorrer deste trabalho.e o homem real.c i s t o se j u s t i f i c a p o r m a i s d c . deixar à c h a m a d a "livre concorrência" o encargo de decidir a questão fundamental da desigualdade dos homens reais ." É para evitar tais nebulosidades na enunciação de um diagnóstico científico que preferimos ser claros e explícitos no dizer que de escravo a proletário consistiu o máximo alcance da mobilidade social das massas de cor n o Rio de Janeiro. Dizemos deliberadamente de escravo a proletário . Esta distinção entre o cidadão . a diferença é fundamental. O s 846 empregadores de cor aqui encontrados em 1940. D e p o i s d c p a s s a r m o s c m revista n p o s i ç ã o d o s d i f e r e n t e s g r u p o s é t n i c o s n o s q u a d r o s o c u p a c i o n a i s . 8 5 4 trabalhadores assalariados.n o s i m p o r t a n t e a n a l i s a r os í n d i c e s d e o c u p a ç ã o f e m i n i n a n o D i s t r i t o F e d e r a l . p a r e c e . os limites. representam uma indicação objetiva desta situação e das perspectivas de mais de meio milhão de homens e mulheres de cor que vivem na Capital do Brasil.e não "de escravo a cidadão".foi uma fórmula ideal para conter em suas dobras mistificações ideológicas de toda sorte e de há muito já foi escalpelada por u m escritor francês com esta frase de extrema ironia: "A lei. e cada vez mais. De fato. daqui para diante. tornam-se também mais claros o perfil. mas já agora. N o caso presente. o que nos permitirá.

por conseqüência. Além disto. mantêm-se para todos os grupos étnicos. dc classe. os serviços e atividades sociais. ora. específica de sexo. Por fim. por meio desta análise. nas indústrias de transformação. por outro lado. p o d e m resultar indiretamente esclarecidos. Observe-se que. as grandes linhas atrás analisadas para o sexo masculino. em regra. de instrução e de cor . o Distrito Federal v e m reproduzindo nesses últimos trinta anos muitas situações e problemas já vividos por outras regiões do m u n d o ao inaugurarem os seus primeiros passos no caminho da Revolução Industrial. a quota proporcional de mulheres de cor ocupadas neste ramo na posição de empregado é superior à dos homens. comuns aos dois sexos. maior n o Distrito Federal do que no conjunto do Brasil. é o lugar par cxceílence onde a mão-de-obra f e m i n i n a encontra oportunidade de trabalho fora do âmbito doméstico. a m u l h e r d c c o r l e m s i d o idealizada c o m o dc p r a z e r sexual d o h o m e m . que. Em primeiro lugar por se tratar de uma comunidade metropolitana. a administração pública são os ramos nos quais os índices de ocupação feminina no Distrito Federal mais ultrapassam as médias nacionais. Isto parece indicar que. i s t o é. No Quadro XVI temos os dados estatísticos nos quais esta situação se retrata. a história social destas áreas e m processo de industrialização está a indicar. N o Brasil. Dir-se-ia. naquele r a m o de ocupação extradoméstico em que a população de cor encontra sua grande oportunidade de emprego no Rio de Janeiro. como a solicitação crescente da força de trabalho da m u l h e r para atividades extradomésticas t e m repercussões profundas em setores fundamentais da estrutura social. O padrão da distribuição das mulheres de cor pelos diversos ramos de atividade acompanha. de m o d o geral.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 115 uma razão.existe u m a outra. O primeiro fato que se p o d e observar é que a quota proporcional de mulheres ocupadas em atividades extradomésticas é. referida a 1940. d o h o m e m instrumento b r a n c o . especialmente. como é sabido. inclusive sobre as relações interétnicas. essa variação pode significar correlações com outros aspectos da situação em estudo que. com a natural exceção do r a m o de atividades agropecuárias e extrativas. Fsta sil n a ç ã o i d e a l . a condição de empregado é mais freqüente entre as mulheres do que entre os homens. que contra a ascensão social das mulheres de cor na hierarquia social ~ além das barreiras. a ocupação feminina diferenciandose entre os diversos grupos étnicos c o m o se diferencia no Distrito Federal. incidindo sobre a mulher dc qualquer condição étnica c. As indústrias de transformação. Esses maiores índices de ocupação. sobre a de cor. com evidência. tratando-se de um centro industrial em crescimento. o comércio.

81 76.00 sociais domésticas 74.24 6.55 74.75 72.82 0.03 Brasil Pardas Distrito Federal Brasil Pretas Distrito Federal Brasil Amarelas Distrito Federal Brasil transformação Comércio de mercadorias Comércio v a l o r e s etc.02 — 0.00 10.47 2.01 0.03 0.43 3.00 11.38 0.14 2.15 0.97 2.81 1.57 0.58 0.52 1.01 7.39 100.02 0.20 0. Transportes e comunicações Administração pública.27 0. POR 1940 COR.00 7.03 10.11 0.46 0.82 0.20 0. R A M O DE A T I V I D A D E .04 0.01 — 0.27 79.38 0.40 1.116 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO QUADRO SEGUNDO X V I O .57 100.05 71.57 0.55 0.09 0.17 0.22 0.57 0.65 100.19 0.51 0.10 N o t a : N e s t e q u a d r o a categoria p a r d a s i n c l u i os h a b i t a n t e s d e c o r n ã o declarada.12 0.06 0.00 Profissões liberais.07 0. BRASIL E D I S T R I T O FEDERAL - Mu Iheres de dez e mais anos (%) R a m o de atividade Brancas Distrito Federal Agricultura.99 3.12 5.04 0.00 7.73 100.20 0.25 4.43 0.02 9.07 0.91 0.90 0.0 10.34 0.01 0.10 3.02 0.34 100.87 6.34 0. de 1.46 100.05 0.86 83. Serviços e atividades Atividades e escolares O u t r a s atividades e condições TOTAL inativas 11.13 0.26 70.00 0. extrativas de 2.53 0.01 justiça e ensino público Defesa nacional e segurança pública 2.10 2.02 0.00 12.DISTRIBUIÇÃO DE MULHERES DE I O ANOS E MAIS.08 — 0.11 0.77 0.14 0.60 0.00 12.21 0.26 0. pecuária Indústrias Indústrias etc.19 18.24 100.01 1.33 0. ensino p a r t i c u l a r c u l t o etc.53 100.00 11.04 0. .00 0.

. n a prática. o serviço doméstico era a grande oportunidade de ocupação feminina. nas condições objetivas do patriarcalismo doméstico brasileiro. e ao sexo independente de cor — encontra. atitudes e estereótipos na criança brasileira a respeito da posição "natural" da mulher de cor na sociedade. cuja significação para o nosso estudo resulta não apenas da importância estatística e do n ú m e r o elevado das que se dedicam a essa atividade mas também pela importância que isso tem no condicionar. nas áreas industrializadas do sul d o País. a esferas sociais diversas dos baixos níveis em que vive a maior parte da população negra e mestiça. 9 O recenseamento de 1940 encontrou no Distrito Federal 7 4 . tem significado apenas o elogio d o concubinato. De acordo com os padrões tradicionais da economia e da sociedade brasileiras. de "mulher q u e n t e " . Basta dizer q u e as empregadas domésticas representam 100. qualquer atividade extradoméstica remunerada a que u m a m u l h e r se dedicasse era bastante para afastá-la do tipo ideal da mulher de classe dirigente. n a canção. quota m u i t o expressiva como fração da p o p u l a ç ã o total do mesmo sexo. 8 6 . a importância desse g r u p o na população ativa feminina n o Rio d e Janeiro. historicamente. já as mulheres empregadas domésticas representam 9. que via numa "casa de família" u m ambiente melhor para suas filhas d o q u e n u m a "oficina". por outro lado. no teatro. até preferida pela classe inferior. pois outra não t e m sido. o emprego doméstico. 3 1 5 empregados domésticos.03% da população feminina do Rio de Janeiro. na trova. por exemplo. Quando descemos das situações de conjunto para a análise particular de determinados tipos de ocupação é que vamos realmente encontrar situações mais sociologicamente expressivas das condições de ocupação feminina n o Distrito Federal no que se refere à diversa participação dos grupos étnicos. Q u a n d o a m u l h e r de cor começa a ascender por outras formas na escala social . Observemos. de objeto preferido para o p r a z e r (implicitamente obsceno e extraconjugal) tem sido propagada e d i f u n d i d a de todas as formas: no samba.82% das mulheres que t ê m u m a atividade extradoméstica r e m u n e r a d a . um fator de resistência à sua ascensão como força de perpetuação de seu status subalterno. para ficar evidente. n o romance. na novela.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 117 de "rainha". nessa arraigada a t i t u d e das camadas. especialmente da mulata. descle a infância. na anedota. C o m p a r a n d o se com o total da população masculina os empregados domésticos deste sexo representam pequena fração.além de outros óbices comuns à cor i n d e p e n d e n t e de sexo. Hoje este padrão.489^ . n o u t r a s classes sociais. Isto. 0 7 % dos quais do sexo feminino. a via principal de acesso d a m u l h e r de cor. 1. sem s o m b r a d e dúvida.

já em relação ao número total de habitantes de cada grupo.14 27.47 eram empregadas domésticas. POR SEXO.001 17.22 100. DISTRITO FEDERAL - Homens % de empregados por cada grupo de cor Mulheres % dc empregados por cada grupo dc cor Cor Dados absolutos % Dados % Brancos Pardos Pretos Amarelos TOTAL 6. que.546 86 63. revela curiosa distribuição.00 3.15 1. 3. os domésticos pretos c pardos no Rio de Janeiro. os brancos representam a maioria.53% dos ocupados neste tipo de serviço. Entre as mulheres o maior n ú m e r o de empregadas domésticas rneonltii sr entre as pretas: em cada com mulheres pretas presentes no Rio de Janeiro em 1940. essa proporção era .17 1. absorvendo 58.63 0.13 100.44 9. 31.936 2.118 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO está sofrendo completa transformação — mas sua persistência ainda é visível nos costumes e valores sociais relacionados ao problema.47 16.331 28.41 são empregados domésticos. 1940 SEGUNDO A COR. Isto significa.964 28. embora o número absoluto de empregados domésticos brancos seja maior do q u e o de qualquer outro grupo étnico. QUADRO X V I I - DISTRIBUIÇÃO DOS EMPREGADOS DOMÉSTICOS. e m b o r a em relação ao número de habitantes de cada grupo étnico os domésticos pretos e pardos apresentem maior proporção. enquanto que para cada cem brancos somente 1.17 têm essa ocupação.334 23 10.75 3.55 0.058 1.67 13.10 44. entre os homens empregados domésticos.78 31.53 18.48 18. A discriminação dos empregados domésticos por sexo e etnia.70 22.03 A primeira circunstância a notar é que.351 58. noutras palavras.00 1.41 3. que se registra no Qaudro XVII.

é na medida em q u e à ocupação se liga uma idéia de superioridade de status que os elementos de cor escasseiam. arrumadeiras. e a condição de sexo e de cor. Assim é que no ramo de serviço doméstico parece existir u m a certa hierarquia de posições que. ficam indiretamente evidenciadas q u a n d o analisamos a distribuição ecológica dos empregados domésticos no Rio de Janeiro. homens brancos e.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 119 de 16. em c o n j u n t o as pretas e pardas representavam 4 4 . no Rio de Janeiro.055) serem estrangeiros ou naturalizados. pensões etc. mesmo que no ramo de atividade apareçam elementos de todas as cores. a julgar pelo n ú m e r o crescente de casos recentemente ocorridos em estabelecimentos desse tipo que se negam a receber hóspedes pretos e que. gozam de preferência. prefeririam também empregados brancos. são principalmente preenchidas por mulheres. —. e ainda é. p a r e c e t a m b é m i n d i c a r n a c u m u l a ç ã o d e f a t o r e s l i g a d o s à c o n d i ç ã o d c sexo s o b r e a q u e l e s d c c l a s s e . se correlaciona com linhas de sexo e de cor. funções de m o r d o m o . a s i t u a ç ã o d a s atividades d o m é s t i c a s a s s a l a r i a d a s . chofer de carros particulares. criadas de servir etc. especialmente estrangeiros. q u e é u m a das g r a n d e s o p o r t u n i d a d e s d e g a n h o d e vida d a m u l h e r d c c o r n o R i o d e J a n e i r o . adiante. jardineiro ou certas funções n o serviço doméstico de hotéis de maior preço exigem certas habilidades. Ver-se-á. especialmente de cor. mesmo aprendizagem. e nelas não só os h o m e n s são preferidos como também. d e c o r c d e . 6 3 % . por sua vez. não raro. e o feito em casas particulares.39% dos h o m e n s ocupados em serviços domésticos n o Rio de Janeiro (representando u m total de 137. outras funções menos qualificadas . de u m lado.44 entre as pardas e de 3. especialmente em casas particulares. Por exemplo. dc outro. inclusive sob a alegação de que esta é a preferência dos hóspedes. estrangeiros.lavadeiras. mais uma vez. A preferência pelo estrangeiro para certos serviços fica indiretamente d e m o n s t r a d a pelo fato de 24. em conseqüência da mesma atitude. p o r o u t r o lado é de todo provável que para tal serviço seja mais forte o critério discriminativo da cor. As tendências expressas por esses dados parecem indicar.67 entre as brancas. copeiro. muitas vezes. na direção do que já foi apontado. a grande o p o r t u n i d a d e de ocupação remunerada. que as correlações entre o serviço doméstico em hotéis. 10 Como já foi a n t c r i o r m o t c o b s e r v a d o . Isso demonstra que. N o serviço doméstico em habitações coletivas parece ser mais freqüente a utilização de mão-de-obra masculina para determinadas funções. quase metade das empregadas domésticas no Distrito Federal. para a mulher de cor o emprego doméstico tem sido.

35% eram de . Discriminados pela condição étnica vê-se que. O assunto já foi anteriormente abordado e agora. 3 4 2 . * * * Analisada a estratificação dos grupos étnicos em cada um dos principais ramos de atividade econômica.5 de profissão liberal. 0 6 7 pessoas de ambos os sexos. A população economicamente ativa no Distrito Federal . Nas profissões liberais os índices de ocupação feminina são. que é expressão e síntese do que ocorre em cada um daqueles setores de produção. para os grupos de cor. 74. por outro lado. sendo menor a parcela das pretas do que a das pardas: em cada grupo de dez mil mulheres pretas presentes no Rio de Janeiro. que esses índices são nitidamente superiores aos encontrados no conjunto da população do Brasil. Os dados disponíveis e aqui elaborados permitem essa visão do estado estrutural do problema. esta quota. 55 é a proporção entre as pardas. atividade remunerada . entre as pardas. essas quotas são mais elevadas em todos os grupos.totalizava na data do último censo. Como se viu. queremos apenas abordar a questão do ponto de vista da discriminação por sexo. A quota percentual de mulheres pretas e pardas ocupadas no serviço público civil no Distrito Federal n ã o chega a um. por traduzir não apenas status econômico mas também social e cultural. que exerce. naqueles ramos enumerados. sem voltar às mesmas considerações.população de dez anos e mais. é possível passar agora a tentar uma visão do conjunto. com u m mínimo de palpite e larga margem de objetividade. magistério particular e culto. vinte são funcionárias públicas. é de 3.120 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO instrução no determinar para a m u l h e r de cor uma situação particularmente inferior dentro do sistema de estratificação social que aqui prevalece. Escusado é reiterar. ainda menores d o q u e n o serviço público: em cem mulheres pretas existem 1. desse total. entre os homens. cujos dados completos f o r a m divulgados e são conhecidos. é o que se refere ao funcionalismo público e às profissões liberais. Outro grupo dc atividade econômica que merece análise relacionada à condição de sexo.4.

82% eram empregadores e 94.04% eram empregados e 0.939 322. Aqueles 2 5 .ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 121 brancos e 25.128 342. DISTRITO FEDERAL - Cor Posição Brancos Empregadores Empregados TOTAL TOTAL Pardos e Pretos 848 86. maior quota relativa na condição de empregado: as pessoas de cor. os empregados representam 92. a q u o t a proporcional de empregadores é de 7. os dc cor.18% eram empregados. embora os brancos representem sobre o conjunto uma quota três vezes m a i o r do que os de cor. N o u t r a s palavras. QUADRO X V I I I DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO. na condição de empregados. dentro do grupo étnico.50%. 6 5 % de cor distribuíam-se do seguinte m o d o .65% eram de pessoas de cor. 0 4 % . apresentam-se n o Quadro XVIII e de acordo com eles foi esboçada a "pirâmide social" q u e visa objetivar graficamente a sua significação. nas duas principais categorias de posição na ocupação: 99. que exprimem as grandes linhas de estratificação de classe e de raça n o Rio de Janeiro. têm.96%. 5. que na população total representam a p r o x i m a d a m e n t e 27% e na população ativa aproximadamente 25%.340 .249 254. estão na condição de empregados na proporção de 9 9 .50%.879 87.727 19. dentre os brancos. q u e representam aproximadamente 7 3 % da população total e aproximadamente 7 4 % da população ativa. POR COR. eles têm. uma quota proporcionalmente menor do que estes.067 19.96% eram empregadores. No total.50%. P o r outro lado.50% e a de empregados diminuía para 92. embora sejam minoria no conjunto da população e da população ativa. entre os brancos. Inversamente. i n d e p e n d e n t e m e n t e da cor. enqranto que a dos de cor é de 0. S E G U N D O A 1940 POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO. entre os brancos a quota de empregadores subia para 7. Os dados sobre o conjunto. ou seja.091 235.

p. n. 1945. após 1888 e 1891. p. 1. quando a candidatura ao e m p r e g o deve ser feita por carta. de que a análise detida desse momento. o p e d i d o antecipado de uma fotografia do candidato f u n c i o n a m como meios. p u b l i c a d a na revista Sociologia. Pesquisa sobre o padrão de vida do comerciaria no Distrito Federal. Bem sabemos que isto é u m capítulo. v. noutros casos. diretos e eficientes de fazer a seleção. p. matutino . 2 4 2 e ss. VIII. que constituem a esmagadora maioria da população urbana deste País. das outras etapas que estão por vir. p. 0 9 % da população do Distrito Federal Cf. um capítulo apenas. p o r exemplo. pela população de cor com o desenvolvimento da economia industrial e das instituições liberais. 3 Em 1940 os amarelos representavam 0 . colocase hoje como condição essencial para a compreensão objetiva. a exigência dc "boa aparência" (obviamente ao critério do empregador) o u . nossa intervenção na reunião d o C o m i t ê de Peritos sobre Relações de Raças. no r e c r u t a m e n t o para certos empregos em empresas particulares. pode-se. à luz desses dados. p. 4. Sobre as classes sociais. n. L. que é o escopo fundamental desta pesquisa. Embora permaneçam teoricamente abertas a eles as portas de outras camadas sociais e os meios de atingi-las. F. e os pretos. nem sequer esses recursos são utilizados: no Diário de Notícias. Mas estamos convencidos. da UNESCO (Paris. n. Sociologia. Sociologia. Notas 1 Cf. v. nas indústrias extrativas e no serviço doméstico.. Para outras funções. XII. afirmar que o fato mais notável da mobilidade social até lroje operada e que representa. 4 5 E m anúncios de jornais. 1949. também. v. A estrutura da sociedade rural brasileira. 20-21. concretamente conseguido. 156 e ss. o progresso objetivo. A. e a identificação de sua condição e de suas aspirações com a condição e as aspirações das classes trabalhadoras. 11.122 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Resumindo os traços principais da situação da população de cor no sistema de estratificação social n o Distrito Federal. é representado pela proletarização em massa dos homens e mulheres de cor. o maior afastamento em relação ao padrão tradicional de emprego quase exclusivo nas plantações tropicais. The negro in the United States. dezembro de 1949). 1 e ss. X. Frazier. 2-3. Costa Pinto. a de girl de c o m p a n h i a de revista. 1948. 2 Cf. da história social do negro brasileiro. 1949. ao mesmo tempo.31%. 613. c o m o . paralela à sua integração nas condições da vida urbana. foi a urbanização acompanhada de intensa proletarização. científica e não apenas sentimental.

ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 123 dos de maior circulação n o Rio de Janeiro. em toda a pendência. Jour. n. muito in urban employment. p. J u n c . An americam dilcmma. J a n . of Soe. 5. Rev. u m anúncio convidando candidatas a se a p r e s e n t a r e m para serem selecionadas a fim d e integrarem o corpo de girls de grande e s p e t á c u l o musicado. S„ v.9 0 6 pardos. Atitude desfavorável de alguns a n u n c i a n t e s de São Paulo. N o Congresso do Negro. 4 . Cf. era. é freqüente nos estereótipos d o b r a n c o sobre o negro. A. 66. E.. Frazier. a valorização d o papel da "rnãe preta" na nossa formação social c o m o prova de injustiça do t r a t a m e n t o q u e o branco dá à empregada preta. " d i p l o m á t i c o " . E m 1 9 5 1 . v. Palm Jr. d o mesmo autor Race contacts and t h e social strueture. c o n f o r m e nota divulgada pelo vespertino A 6 7 Notícia. Sociologia. p. 14. no problema da cor: s o b r e isso há um acordo tácito. Racial attitudes and the cmploymcnt of negrões. M a i s r e c e n t e m e n t e fato semelhante ocorreu n o C e n t r o de Preparação de Oficiais da Reversa. na edição de 8 de d e z e m b r o d e 1951. . Por coincidência a m b o s e r a m mulatos. v. Discrimination The J. em destaque. 1951. Bullock. um dos assuntos do temário era o p r o b l e m a das domésticas. U m dos p o n t o s d o p r o g r a m a de realização do Conselho Nacional de Mulheres Negras instalado no Rio d e J a n e i r o e m 1950. "a criação de u m a Associação Profissional das Empregadas D o m é s t i c a s " . Apr. por meio de editoriais. os jovens que t e r m i n a m o c u r s o d a Escola Naval devem obter d o C o n s e l h o do Almirantado a chamada " n o t a d e oficialato". N a marinha. id. Conccrning ethnic research. O levantamento da i m p r e n s a q u e interpreta as aspirações dos grupos p i g m e n t a d o s tem refletido nitidamente essa p r e o c u p a ç ã o . candidato à carreira de cônsul. The Am. • ® As organizações negras d o Rio de Janeiro têm tomado n í t i d a consciência do problema das empregadas domésticas. em setembro d o m e s m o ano.. entre os porta-vozes d o s s e n t i m e n t o s do grupo negro. Sobre e s t u d o s d e relações de raças em particular ver F. a p r o v a d o nas provas intelectuais e reprovado n o exame "psicotécnico". De resto. Soe. 1948 e G u n n a r M y n d a l . 448 e ss. C e r t a feita dois jovens não a obtiveram e recorreram aos tribunais. f a l a m . E s c u s a d o é dizer que o julgamento e suas razões são mantidas sob o mais rigoroso sigilo. Segundo fomos i n f o r m a d o s esse dispositivo regimental da "nota d e oficialato" foi modificado depois disto.. Am. Nem o c a n d i d a t o n e m o Itamaraty. reunido t a m b é m n o Rio de Janeiro. 1947. 357 e ss. Neste anúncio lê-se a s e g u i n t e exigência: "candidatas de cor b r a n c a " . R o d a pelos tribunais o caso dc u m p a r d o . Esta nota é eliminatória e basta q u e o guarda-marinha tenha um voto c o n t r a p a r a n ã o poder prosseguir na carreira. n. W . p. passim. 1 9 4 7 . v. 13. e sobre ele f o r a m apresentadas teses e estabelecidas acaloradas discussões. u m a vez sequer.. d c Leonard Bloom. id. Sociologia. LVI. cm relação aos e m p r e g a d o s de cor.344 pretos e 5 5 . 12. só se podendo conhecer o resultado final. n. A. feita em s e n t i d o depreciativo. n. 2. 3. foi publicado. v. 4. IX. n. da mesma m a n e i r a q u e a identificação da mulher negra c o m a empregada doméstica. v. p. Eeb. IV. Sociological theory and race relations. LII. hoje torna-se i g u a l m e n t e freqüente. v. n. . 3 2 8 e ss. segundo uma m a n c h e t e d o jornal Qtúlombo. Esses p r o b l e m a s d e metodologia são longamente discutidos e m n o s s o trabalho Sociologia e m u d a n ç a social. r e p o r t a g e n s e artigos assinados. o que t o r n o u p ú b l i c a a questão. 1. também Oraci N o g u e i r a . a p e n d i x . M a r . " Id. 287 e ss. 1 9 4 8 . 4. n.

124 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO caracterisricamente. que no Congresso d o N e g r o acima citado. em comunicados. na sessão e m q u e se debatia o problema das empregadas domésticas. f i c o u em minoria e a discussão prosseguiu. que a n t i g a m e n t e eram promovidas por associações d c intelectuais brancos c que serviam dc ensejo para transbordamentos sentimentais s o b r e a fidelidade e doçura daquele símbolo. Esse ponto de vista. É c u r i o s o assinalar. f o r a m promovidas. e n t r e t a n t o . e pela p r i m e i r a vez se não estamos enganados. no salão dc u m sindicato no Rio dc Janeiro. um dos congressistas presentes i n t e r p e l o u a mesa sobre a pertinência d e se discutir aquele assunto. já que há e m p r e g a d a s d e todas as cores e aquele congresso era só de negro. vinham sofrendo por parte d e hospitais e hotéis do Rio de Janeiro. N ã o há m u i t o t e m p o os sindicatos de enfermeiros e a s c e n s o r i s t a s . pela U n i ã o Cultural dos Homens de Cor. d e n u n c i a r a m a discriminação que seus m e m b r o s d e cor . à imprensa. por outro lado. as c o m e m o r a ç õ e s d o "dia da mãe preta". em sessão pública.

Formas e índices de segregação especial dos grupos de cor . ou de ambos — a população de determinado grupo étnico. mais intransponível e mais radical de segregação. por serem difusas não são m e n o s eficientes. a força coercitiva do costume.O p r o b l e m a das favelas do ponto de vista das relações de raças . resulta.para que o fenômeno tenha lugar. com igual nitidez. vedando-lhe o acesso a outros lugares nos quais o grupo privilegiado monopoliza o direito de se instalar. a superlotação dos domicílios.Significação sociológica d o s dados apresentados. Por outro lado. os índices de desajustamento social de t o d a espécie tendem a se multiplicar e. logram o mesmo resultado e demarcam. não por mera coinci- . ou como foi na Alemanha nazista . que obriga — pela força do costume. Obviamente. o p a d r ã o ecológico das diferenciações raciais. daquela q u e talvez seja a forma mais coercitiva. pois que permanece. não raro. pela incapacidade material do g r u p o inferiorizado de usar da proclamada prerrogativa formal de poder residir o n d e quiser e ter pleno acesso aos recursos da comunidade. a limitar o seu direito de morar ao âmbito de determinados bairros ou ruas. U m dos aspectos maios odiosos da discriminação racial é a segregação residencial. do ponto de vista sociológico.Influência da composição étnica dos empregado» d o m é s t i c o s sobre o padrão ecológico . não é preciso que esta segregação esteja escrita na lei — c o m o é em certas partes dos EUA. imposto por sanções que. Nestas áreas. objetivamente. apesar da constante alegação de sua inexistência.CAPÍTULO III 'Ecologia Repartição rios grupos étnicos na área urbana d o Rio de Janeiro . N u m caso e noutro os efeitos são os mesmos para a população que permanece nas íreas deterioradas. da lei. inferiorizado pelo grupo dominante. índice de elevada segregação de fato. a concentração de população predominantemente pobre. quando a incapacidade econômica da parcela maior de um grupo étnico o mantém restrito àquelas áreas deterioradas do mapa geográfico e social de uma comunidade.

Correlações extremamente interessantes foram observadas. o não peremptório que a maior parte das pessoas estaria disposta a oferecer como resposta àquela pergunta. assim. evidentemente. de u m lado. facilitando. Para o sociólogo. o trabalho de pesquisa do padrão ecológico das relações raciais. escolas. por outro lado. higiene. tarefa que sc torna muito mais sutil e difícil nas comunidades em que predomina um tipo menos formal de segregação. de outro.126 O N E G R O NO RIO DE JANEIRO dência. nestes estudos. de Harlem. ou de Bairro Chinês que a literatura e o cinema descreveram e exibiram para o grande público. Ao nosso estudo não bastaria. entretanto. entre a segregação. habitações etc. tipo gueto. na m e s m a área. em regra. t a m p o u c o esses casos jamais significaram segregação absoluta. é verdade. segundo se t e m podido observar. é reservada menor parcela das verbas municipais para melhoria dos serviços públicos. Haverá segregação residencial étnica na capital do Brasil? Este o problema sobre o qual o presente capítulo procurará reunir material pertinente. a eles. a expressão segregação indica aquelas formas de relativo isolamento de um grupo dentro de uma estrutura maior. A segregação tout court. lado a lado. o que. os índices demográficos etc. étnicos ou não. a criminalidade. o c o m p o r t a m e n t o político. Não raro. tais pesquisas se limitaram a destacar a coexistência dos dois fenômenos. nas quais a distância física que o separa dos outros grupos reflete uma distância também . tem permitido. Aos ouvidos do leigo a palavra segregação soa com significado extremo e estereotipado e logo açode à mente a idéia de gueto. por o u t r o lado. não é preciso que a realidade coincida com esses tipos extremos e ideais de segregação para que mereça ser estudada. é mais fácil ter lugar no isolamento voluntário do que n o imposto. contentando-se com a colocação binária do problema. em subáreas urbanas relativamente bem delimitadas. N o seu significado técnico. e. que encontravam no primeiro plano. que está longe de se prestar ao estudo de todas as formas possíveis de segregação espacial de grupos sociais. de fenômenos diretamente correlacionados a ela. mais diretamente dependente da incapacidade econômica característica deste ou daquele grupo em comparação com outros dentro da mesma sociedade. a competição econômica. sem descer à indagação mais profunda das conotações existentes entre a própria segregação e outros aspectos da estratificação social em causa. buscando para ele a melhor interpretação. transportes. a concentração. impressionados pela evidência da segregação racial.

que se manifestam de diversos modos . existe algum padrão de segregação residencial na repartição dos diferentes grupos étnicos pelas regiões. n a mentalidade. W i r t h distingue outras variedades d o fenômeno: a segregação imposta. pelo grau e pelas formas com que o fenômeno ocorre n o u t r a s situações concretas. sem nenhum critério ecológico e obediente apenas às necessidades da administração mu- . O Prof. na gíria. Pesquisa desse tipo ainda n ã o foi feita no Rio de Janeiro. particulares e extremas do fenômeno. e ver-se-á que tem pleno cabimento investigar se aqui. Afastemos do espírito o estereótipo do gueto ou d o Harlem. e que é forçada a um por outro que tenha a capacidade material necessária para t a n t o .na f o r m a da habitação. além deste que aqui nos interessa — a segregação residencial. c o m o é freqüente. circunscrições e áreas sociais da comunidade. c o m o a dos negros americanos no sul dos Estados Unidos 2 . Ele se refere. e à segregação ativa. produto de situações de conflito. mais ou menos extremas. A segregação. ainda. ao lado dos que se referem à repartição geográfica da população de cor.. L. à segregação passiva. mais ou menos dramáticas. dado e fato objetivo. tipos sociais definidos.ECOLOGIA 127 existente no espaço social. conseqüência dos antagonismos que existem numa sociedade repleta de diferenciações e oposições internas. por isto. finalmente. que resulta daqtiele processo. entre grupos que se chocam. traçadas mais ou menos arbitrariamente. que vários tipos de segregação p o d e m ocorrer. Elemento essencial para uma análise desse tipo. Contentamonos. no vestuário. Como se vê. para não nos desviarmos excessivamente dos nossos objetivos fundamentais. ou a voluntária. que são formas concretas. nos costumes . é a determinação de zonas ecológicas no perímetro da cidade. em que se podem diferenciar dois tipos sociais. sem que a pesquisa se deixe impressionar. na nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. historicamente. reage sobre a própria estrutura que a engendrou. condicionando. c o m as divisões administrativas da área urbana. em zonas e circunscrições distritais. e um sentido substantivo: a segregação como estado segregado. produto da competição e da seleção de tipos sociais que se atraem pela analogia. dentro deste esquema conceituai. zonas. é possível distinguir na expressão u m sentido transitivo: a segregação como processo segregador. c o m o foi originalmente a dos guetos judetis n a Europa. em tudo. n e m nos caberia fazê-la no âmbito desta. 1 O grau e as formas específicas d e estas distâncias se correlacionarem e se revelarem é coisa a ser investigada e m e d i d a em cada caso particular. É fácil conceber.

mas.128 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO nicipal e à tradição. ocupando pequena fração do território dela. O primeiro setor dirige-se no sentido noroeste e nordeste. Pavuna etc. independentemente da situação objetiva de cada um dc seus habitantes. O segundo setor volta-se p a r a a direção sudeste e sudoeste (Copacabana. 3 A insuficiência dessas divisões para um estudo aprofundado de ecologia dos grupos étnicos é flagrante. que os caracteriza como nicho preferencial das classes alta. por confirmarem visivelmente hipóteses que outros dados já autorizam. ponto de convergência e concentração das linhas de transportes urbano. D o ponto de vista geográfico. Lagoa. em três direções. Santa Teresa). no centro. à beira da baía de Guanabara. com o objetivo de alcançar u m a divisão mais próxima do estado atual da cidade como aglomeração demográfica. de documentação de apoio. ainda assim. Esse zoneamento serviu de base à apresentação dos resultados censitários e foram apenas ligeiramente modificados na divulgação dos dados. Aqui. confinante com o limítrofe Estado do Rio. nela reside u m a população predominantemente suburbana e pobre. e b) a vasta região ocidental. e nele se estendem bairros residenciais de classe média superior a abastada. o Município do Distrito Federal pode ser dividido em duas grandes regiões fáceis de identificar: a) região oriental. Esta zona transborda o Distrito Federal. suburbano e interurbano. Gávea. os negócios (comércio e bancos). que se prolonga pelo litoral atlântico e interior. ela nos permite discernir tendências que. os teatros e cinemas. A mobilidade de sua população se caracteriza pela rotinização diária entre os locais de trabalho e residência. ou tradicionalmente . Madureira. apresentam estilos de vida relativamente específicos. invade o Estado do Rio (Caxias. de classe média inferior e. separados por distâncias consideráveis e pelo uso quase exclusivo de transportes coletivos. Na primeira região encontra-se. Anchieta. as repartições oficiais. especialmente. Em torno desse centro e dele separados por áreas intersticiais bem características. a densidade demográfica é máxima durante o dia e m í n i m a durante a noite. Piedade. embora não de todo correta. Irajá. o centro da cidade icity). irradiam-se. servem. média e pobre. corresp o n d e n d o às circunscrições de Inhaúma. Nova Iguaçu etc. ao menos. Penha. quando a população reflui para os locais de residência. núcleo histórico da expansão da cidade e centro da região metropolitana. Glória.. proletária. Tijuca. áreas satélites do núcleo metropolitano do Rio de Janeiro. setores residenciais s o c i o l o g i c a m e n t e bem definidos que.). que justificam a noção corrente. onde se localizam as zonas suburbanas remotas e a zona rural do município.

ECOLOGIA

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ocupados por estas classes, c o m o a Tijuca, ou mais recentemente criados n a orla do mar, como Copacabana. N ã o raro, a distância dessas zonas e m relação ao centro é equivalente à que separa as zonas do setor nordeste-noroeste acima referidas, mas o tipo h u m a n o , social e econômico que habita os bairros do setor sudeste-sudoeste é acentuadamente diverso e a preferência q u e as classes mais abastadas dão a esses p o n t o s é o que representa, do nosso p o n t o d e vista, o traço principal de sua fisionomia como zona urbana, como área social. Entre esses dois setores, na direção oeste, encontra-se a terceira das grandes divisões citadas, representada pelos bairros dc Engenho Velho, Andaraí, Engenho Novo, Méier etc. (que geralmente a população d e n o m i n a d e "zona norte"), caracterizada por u m a heterogeneidade maior de sua p o p u l a ç ã o : n o centro-oeste zonas industriais se misturam com zonas residenciais proletárias; no oeste, além de uma parte da zona industrial, encontra-se u m a fração de classe média abastada e ainda núcleos de população já nitidamente s u b u r b a n a . O novo (Grajaú) e o tradicional (Méier, São Cristóvão) mesclam-se aqui, permitindo a coexistência de núcleos definidos de classe média estável com características áreas de transição. Por toda essa região orientr!, espalhando-se pelas subdivisões q u e sumariamente delimitamos, a topografia particular da cidade p e r m i t i u a formação dos aglomerados residenciais que são as "favelas" de m o d o tal q u e quase não há uma altitude na região oriental do Rio dc Janeiro o n d e a comunidade não tenha colocado a parte mais baixa e mais p o b r e de sua população, nesses núcleos dc. miséria alcandorada onde o d e s a j u s t a m e n t o econômico e social atinge estados muito avançados. Oposta a este vasto e condensado conjunto, estende-se a região ocidental, mais vasta ainda, e formada pelas circunscrições de C a m p o G r a n d e , Guaratiba, Jacarepaguá, Realengo e Santa Cruz. Aqui habita a p o p u l a ç ã o rural. Além dessas duas regiões continentais pode-se ainda identificar u m a terceira, composta pelas ilhas que se encontram no interior do E s t a d o da Guanabara (Governador etc.)/ 1 Esta brevíssima descrição das grandes divisões do Distrito Federal deve ser acompanhada no M a p a I, p. 145, onde damos os limites destas grandes divisões e tem-se u m a noção da distribuição das favelas pelo território da cidade. Sobre o fundo desse esquema, que dentro de suas limitações p r e t e n d e compensar a falta de u m z o n e a m e n t o ecológico rigorosamente feito, analisemos agora como ocorre a repartição dos característicos étnicos d a p o p u l a ç ã o .

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O

N E G R O N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X I X - DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO, POR COR, SEGUNDO CIRCUNSCRIÇÕES URBANAS. RIO DE JANEIRO (REGIÃO ORIENTAL) 1940

População (°/o) Circunscrições Brancos
Anchieta Pavuna Madureira Piedade Gávea Tijuca Irajá Penha Inhaúma Engenho N o v o Méier Andaraí Rio Comprido Lagoa Glória Copacabana SantaTercsa São Cristóvão Engenho Velho Gamboa Espírito Santo Santa Rita Ajuda Santo Antônio Candelária Santa Ana São Domingos Sacramento São José 53,42 58,86 59,53 70,29 65,29 71,51 69,69 72,31 77,32 71,14 73,82 80,47 71,34 73,81 78,42 78,81 79,10 75,36 82,13 69,43 78,89 84,18 84,23 84,65 85,04 85,93 87,69 87,92 88,43 Pretos

Pardos
32,17 27,65 25,10 20,29 15,48 13,27 18,67 19,73 15,55 12,12 10,83 9,82 15,32 15,55 11,74 8,76 12,81 16,82 11,07 19,14 14,66 11,46 7,04 10,81 11,37 9,96 8,74 8,95 4,63

14,28 13,41 15,34 9,26 19,14 15,16 11,60 7,91 6,98 16,72 15,35 9,67 13,30 10,58 9,74 12,31 8,00 7,77 6,72 11,37 6,39 4,27 8,65 4,29 3,42 3,99 3,52 3,08 6,87

ECOLOGIA

131

Do capítulo anterior, e das análises ali procedidas, parece-nos ter resultado evidente a tendência histórica da concentração dos grupos de cor no Distrito Federal nas camadas proletárias da população, p a r e c e n d o ter sido esta a mais nítida direção e o maior alcance da mobilidade social realizada pelas grandes massas destas populações, depois da abolição d o regime de trabalho escravo que sobre elas pesava. Desta verificação é q u e retiramos a hipótese fundamental do presente capítulo, procurando ver, n a análise ecológica, se a hipótese permanece o u deve ser modificada à luz desse n o v o critério de apreciação. Noutros termos, o que nos interessa é verificar, t o m a n d o a situação residencial como índice d a situação social, qual o padrão de acordo c o m o qual vivem as quotas de 7 1 % de brancos, 11% de pretos e 1 7 % de pardos que compunham a p o p u l a ç ã o do Rio de Janeiro em 1940. 5 A distribuição dos diversos grupos de cor pelas zonas urbanas encontrase no Quadro XIX. N e l e se vê, para cada grupo de cem habitantes de cada zona urbana, quantos pertencem a cada um dos três grupos étnicos considerados. No Quadro XX temos o grupamento desta distribuição por setores.

QUADRO X X -

DISTRIBUIÇÃO POR COR, SEGUNDO OS

SETORES URBANOS. RLO DE JANEIRO (REGIÃO ORIENTAL)

- 1940 Setores Brancos Noroeste Sudoeste Nordeste Oeste Sudeste Centro-oeste Centro-este 61,79 68,70 72,96 75,70 76,44 77,70 80,66 População ( % ) Pretos 13,05 • 17,00 8,80 13,50 10,86 7,41 6,44 Pardos 25,03 14,30 18,16 10,80 12,62 14,82 12,79

132

O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

Considerando-se, em primeiro lugar, as duas grandes regiões do Distrito Federal, observamos que os brancos, por serem avantajada maioria no conjunto da população, predominam em ambas; o que importa, aos objetivos do estudo, por conseqüência, não é o predomínio absoluto deste 011 daquele grupo em cada zona, mas a variação relativa da minoria nas diversas regiões e, principalmente, nas diferentes subdivisões de cada uma. A esse respeito constata-se que, em princípio, quanto maior a urbanização, maior a quota de brancos: na região oriental, inteiramente urbanizada, os brancos representam 72,91% da população, enquanto que na região ocidental, com extensas partes rurais, essa q u o t a desce para 60,02%. Por outro lado, o padrão rural-urbano aqui não se aplica sem restrições, pois na região ocidental os núcleos de população .suburbana são também elevados e possivelmente isto influi na distribuição espacial dos grupos étnicos. Como dissemos, esta primeira divisão é excessivamente geral para permitir o destaque de tendências seguras. Cumpre subdividir cada u m a delas se quisermos discernir as grandes linhas da estrutura ecológica. Para isso tomemos por base a região oriental, que continha, em 1940, 8 5 % da população do Distrito Federal e na qual as áreas sociais melhor se diferenciam. Aqui parece confirmar-se, sem sombra de dúvida, a hipótese formulada: quanto mais proletária a área, maior a quota de população de cor. No nordeste e noroeste, em cada cem habitantes, 4 8 , 1 2 são de cor; essa proporção é de 23,48 n o sudeste-sudoeste e de 46,63% no oeste-centrooeste. Este padrão parece corresponder aproximadamente às grandes linhas da estratificação social, e deve ser entendido como um reflexo a) da composição étnica das diversas classes sociais e b) da distribuição dessas classes pelas zonas urbanas. Se nos detivermos a considerar os aspectos particulares do problema veremos a prova disso se destacar dos dados. Assim, por exemplo, observamos que a circunscriçao isolada que apresenta maior quota proporcional d e pretos - 19,14% - é a Gávea, q u e está exatamente no setor sul, aquele que, em conjunto, apresenta m e n o r quota de habitantes desta cor. Este fato, além de indicar que as divisões m u i t o amplas devem ser evitadas, resulta, antes de mais nada, de ser a Gávea um bairro com forte núcleo industrial e grande concentração de população proletária, residente nas favelas que ali se e n c o n t r a m , o que demonstra, ao lado de i n ú m e r o s outros casos concretos, que o padrão ecológico é, principalmente, u m p r o d u t o da estratificação social.6

ECOLOGIA

133

Considerando a vasta região ocidental do município, p r e d o m i n a n temente suburbana e rural, e as cinco subdivisões que a c o m p õ e m , observamos que as quotas de população branca, embora prevaleçam, são em geral menores do que as encontradas na região oriental. Nesta parte do Distrito Federal a composição étnica é a seguinte:

QUADRO X X I -

COMPOSIÇÃO POR GRUPOS DE C O R ,

SEGUNDO AS CIRCUNSCRIÇÕES DA REGIÃO O C I D E N T A L . DISTRITO FEDERAL 1940

Grupos de cor CircunscriçÕes Santa C r u z Guaratiba C a m p o Grande Jacarepaguá Realengo Brancos 51,01 52,26 58,32 61,67 62,75 Pretos e Pardos 48,18 47,74 41,61 38,23 37,12

Nas ilhas a quota dos brancos é de 66,03%, a dos pretos, 8,51% e a dos pardos, 2 5 , 3 9 % . O fato de na região ocidental haver uma maioria masculina, deverá ser fator de diminuição da quota dos pretos; este fator, por sua vez, está visivelmente compensado pelo contingente de homens pretos ocupados como empregados ou rendeiros na agricultura local. Por outro lado, como já dissemos, deve ser t a m b é m alto o contingente dos que, embora t e n h a m suas atividades noutra zona, ali residam, população que, a julgar pela média mais baixa do valor locativo das habitações, provavelmente se inclui nas camadas sociais menos afortunadas. Ao que ficou exposto devemos ainda acrescentar a análise de dois fatores de decisiva influência sobre a repartição ecológica dos grupos étnicos no Rio de Janeiro e que, se de um lado impedem que a segregação transpareça no primeiro plano da análise, só demonstram, por outro lado, o quanto ela está relacionada com o sistema de estratificação social existente na comunidade urbana. Q u e r e m o s nos referir à composição por cor do grupo dos empregados domésticos e dos habitantes das favelas do Rio de Janeiro.

nos bairros residenciais. que a maioria dos ocupados no serviço doméstico remunerado no Distrito Federal é de cor preta e parda. Tijuca etc. É sabido.19% da população da cidade. a superioridade dos desta cor na zona do centro.e não em casas de famílias. condição étnica. entre os empregados domésticos. o serviço doméstico ser principalmente exercido em hotéis. aos quais constantemente temos de nos referir: estratificação social. mais uma vez. nestas zonas. Lagoa. ou. tende a levá-los para as zonas mais abastadas. o que realmente só começa a se difundir e generalizar da classe média superior para cima. de pessoas de certo grupo étnico evidentemente influem em sentido contraditório sobre a distribuição dos grupos de cor no mapa urbano: a condição étnica e social dos empregados domésticos tende a fazê-los aparecer nas zonas proletárias da cidade. 0 5 % dos empregados domésticos. as representações dos grupos de cor. ali se encontram 6 9 . por exemplo. a questão dos empregados domésticos. que é seu local de trabalho. É o que se observa no Quadro XXII. Embora essas zonas. Já vimos. que a grande concentração dos empregados domésticos encontra-se nas circunscrições residenciais preferidas pelas classes mais abonadas: Copacabana. as demais zonas reunidas têm pouco mais de 30% dos empregados domésticos. por outro lado. situação ecológica. Santa Teresa. pensões. primeiramente. aumentando assim. como ocorre. enquanto que. pelos cabineiros . entre os empregados domésticos do centro da cidade. C o m os dados em mãos é possível demonstrar.. como a maioria dos empregados domésticos do sexo masculino é de cor branca. o entrelaçamento desses três fatores. q u e se não distribui igualmente por todas as camadas sociais a possibilidade de ter empregados domésticos. menor ainda para as mulheres do que para os homens deste grupo étnico. Observe-se. mínima é a quota dos brancos. Glória.134 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Analisemos. finalmente. anteriormente. possibilidade que aliás cada vez mais se restringe em conseqüência da solicitação dessa mão-de-obra pelo mercado de trabalho industrial que se expande na cidade. No centro da cidade é curioso observar que os empregados domésticos constituem a quota maior. p r e d o m i n a m os homens. Essas duas circunstâncias — a) concentração do poder de manter empregados domésticos em famílias de certas camadas sociais. em conjunto. tenham 32. em sua maior parte. o fato de o local de residência d o empregado doméstico geralmente se confundir com o local de residência do patrão. no centro da cidade. por sua vez. e b) concentração. Isto parece resultar do fato de. que compõem o setor sudeste-sudoeste da cidade. 7 . nos edifícios. resulta.

81 20.80 29. 5 3 80. entre eles. São Cristóvão Irajá.22 38.00 Homens Zonas Brancos Pretos Amarelos Pardos Total Brancas Pretas Muihats Amarelas Pardas Total 1» 2a 3a 13.64 4.28 12. 6 6 2 3 .07 20.08 0.02 — — — 4. A distribuição das circunscrições pelas zonas urbanas é a seguinte: Zonas Ia 2a 3' 411 511 6-> 7a 8 il Circunscrições q u e compreendem: Candelária.27 16.99 0.65 32. Santa Rita. P i e d a d e . 1 3 7 3 .63 37.61 13. Gamboa Santo A n r ô n i o .15 22.93 24. Por outro lado. Lagoa. Santa Cruz.12 2 3 . os de cor são sempre maioria e ás mulheres predominam sobre os homens. Santa Ana.50 10.74 3.61 8. Pavuna.87 26. onde as quotas de empregadas domésticas caem m u i t o .85 3.08 0.61 8 4 .40 2.33 46.05 21.39 25.12 0.00 12.80 8.00 100.83 28. empregadas domésticas naquelas zonas.33 5.33 31.39 1.96% e n q u a n t o que entre as mulheres esta proporção descia para 74. entre os homens. 6 7 5.41 0.00 100.47 20. Parece evidente que é ponderável a influência desse fato sobre a composição étnica d a população de algumas zonas urbanas d o R i o de Janeiro. Copacabana.50 9 0 . a diferença entre a .21 4.05 3.24 — 0.61 13.04 13.00 3.09 3. diminui também.99 7 7 . diferença evidentemente relacionada ao contingente de mulheres de cor.45 20.00 100. Gávea E n g e n h o Velho.50 6.11 0. E n g e n h o Novo.81 2 6 . C a m p o Grande.10 0.38 35.11 5. I n h a i í m a Guaratiba.00 100. a proporção dos brancos era de 83. Andaraí Méier. P O R S E X O E C O R .43%. 5 a 6 a 7a 8" Total Notas : 100.13 0. 7 3 20. Penha. 1 2 21.03 6.33 18. Espírito Santo Santa Teresa. Sacramento.68 29.13 0.15 3. São José.14 0. Dados proporcionais a c e m empregados em cada zona 2.00 8.35 28.03 2.39 86. Tomando-se para exemplo Copacabana.15 19. Santa Teresa e Glória observa-se que.95 1. Glória.39 15.00 100.26 45. Madureira.00 100.79 2 3 . 5 3 7 1 .07 1.52 2.47 19. nas zonas proletárias. Jacarepaguá.14 27.01 0. Tijuca.37 5. 0 0 87.47 28. nas outras zonas de maior concentração de empregados domésticos. Ilhas. visivelmente. Realengo Excluído o centro. Rio Comprido. S E G U N D O AS Z O N A S D O D I S T R I T O F E D E R A L .05 0.00 100.69 3. Ajuda São D o m i n g o s . 3 2 86. 1 9 4 0 Homens e Mulheres 100.05 0.ECOLOGIA 135 QUADRO X X I I - D I S T R I B U I Ç Ã O D E EMPREGADOS DOMÉSTICOS.

e sobre outra forma. aproximadamente 29 são de cor. resistindo a uma forte atração. temos que nos concentrar sobre os pontos específicos de que pretendemos tratar a fim de. nem o estado atual do problema per se constituem. aproximadamente 7 vivem nas favelas. nosso objeto f u n damental de estudo. que a representação dos grupos de cor na população . pitoresco e demagogia. mas nem a análise desses fatores. aqui.98. Interessa-nos. entram na cidade. n o decorrer de outras pesquisas. sobre u m total de 138. cercadb por u m a muralha de sentimentalismo. essa circunstância parece demonstrar. sendo de cor 70. quase virgem de estudos sérios.95 da população das favelas . aproximadamente 71 são de cor. estranho e vasto laboratório sociológico. não enveredarmos pelos inúmeros e complexos problemas em que ele se decompõe e que caracterizam esse m u n d o de desajustamentos sociais. apenas. noutros termos. atrás referido. como imigrantes nacionais. a falar no problema das favelas. e d) que. de cada cem habitantes. b) que.837 favelados —. vindos de outros pontos do País. demonstrar: a) que nas favelas vive elevada quota da classe operária d o Distrito Federal e que não é apenas a mala vita que ali é obrigada a viver. Diversos fatores têm histórica e sociologicamente contribuído para a formação das favelas do Rio de Janeiro. o mesmo acontecendo com os provavelmente elevados contingentes de população de cor que. como nessa classe se encontra a maior parte da população de cor que vive no Distrito Federal. c) que a presença de núcleos favelados em todas as zonas da região oriental do Rio de Janeiro (ver Mapa 1) influi como fator ponderável na dispersão desses grupos por toda a região. legenda. de cada cem habitantes das favelas. Isto significa.506 habitantes. em busca de outros objetivos. Dentre cada cem habitantes do Rio de Janeiro. a segregação desses grupos na estrutura da comunidade. mais u m a vez. mascarando assim. dessa redistribuição dos grupos de cor — ou das classes sociais em que esses grupos predominantemente se concentram — pelo mapa ecológico do Distrito Federal. daí resulta u m a alta representação destes grupos de cor na população das favelas.136 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO composição étnica dos dois sexos. agora. até certo ponto. q u e as grandes massas de população de cor no Distrito Federal só nas camadas mais baixas da estratificação social encontraram o modo e o lugar de nela se integrarem. 8 Queremo-nos referir às favelas. o outro fator. Vejamos. Toda vez que somos obrigados.

A proximidade da zona portuária e de outros locais de trabalho. e especialmente n a região oriental. portanto. porém. onde a população de cor encontra oportunidade de ocupação. a essa luz. encontram-se favelas. Também já vimos que esta é a circunscrição que apresenta maior quota de população de cor n o Rio de janeiro: mais de 19% de sua população em 1940 era de cor.' segue-se o sul e. a maior porcentagem delas está n o norte. no padrão ecológico da cidade. a composição étnica se modifica com o expressivo aumento da quota dos de cor. a Gávea é a zona que apresenta m a i o r concentração. A respeito d o c e n t r o urbano e das zonas intersticiais que lhe são adjacentes. em cada cem habitantes desta zona . em determinadas subdivisões desta zona. é curioso n o t a r que. Vejamos. da p r o p o r ç ã o deies na população total da c o m u n i d a d e .que constitui o centro-oeste da divisão aqui adotada . evitando assim: a) que a concentração dos pretos e pardos nas camadas social e economicamente mais baixas da população.ECOLOGIA 137 das favelas é muitas vezes maior. o esquema conceituai sobre o qual alguns ecologistas propõem índices de determinação da segregação residencial de . p o r q u e apresentam cotas elevadas de população d e cor (em conjunto. porém. em cujas favelas deve estar concentrada a maior parte da população de cor do centro da cidade. em conjunto. qual a significação desses fatos. como na zona da Gamboa. há de ser responsável pela utilização da topografia do centro da cidade para a formação desses núcleos de habitação proletária.oitenta são brancos.10 Se adotássemos. em cada cem favelados 71 são de cor) e porque estão disseminadas por quase toda a cidade. Isto pode ser deduzido pela repartição delas na área urbana representada n o mapa. Em primeiro lugar observemos a influência que têm as favelas. Parece evidente. Como ali se vê. classe na qual a população de cor está fortemente concentrada no Distrito Federal. h á núcleos de população proletária favelada. dentro dele. E m terceiro lugar vem o centro. que as favelas. tendem a redistribuir aquela p o p u l a ç ã o por todas as circunstâncias urbanas. a segregação espacial dos grupos étnicos. os brancos nela predominam fortemente. do ponto de vista sociológico. b) que a concentração dessas classes nos pontos sociologicamente mais deteriorados da comunidade configurem. em quase todos os distritos urbanos do Rio de Janeiro. na redistribuição d o s grupos de cor pelas diversas zonas urbanas. quase igual ao triplo.

como se elas formassem conjuntamente o q u e e m ecologia humana se chama uma "área natural". veríamos que o p r o b l e m a ganharia aspectos diferentes. aproporção de população de cor sobre apopulação total é de 27% de acordo com o q u e acima ficou dito. não existe segregação quando a população da minoria de cor distribui-se ao acaso p o r todas as áreas urbanas. . de muitos outros pontos de vista — condições de habitação. . com a diferença de que. por exemplo. equivalente à proporção sobre a população total. De acordo c o m o conceito inicialmente exposto. E n t r e esses dois casos extremos e ideais distribuem-se as situações concretas. no extremo oposto do gradiente. o n d e . quando nas áreas em que residirem os membros de u m g r u p o racial não se encontrar residindo n e n h u m membro do outro grupo. de educação.138 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO grupos étnicos no interior de uma c o m u n i d a d e . de desorganização etc. quer no espaço físico. Somente a população total das favelas foi classificada de acordo com a cor. ora se aproximando de um tipo de completa segregação. a distância é medida do vale para o monte. a população de cor distribui-se pelas diversas áreas em proporção igual àquela em que se encontra em relação ao total da população da cidade. já que aqui a distância fundamental é entre a base e o vértice de uma pirâmide de classes.é suficientemente elevada para indicar. como f o r m a n d o uma área natural. o mesmo não foi feito para a população de cada favela separadamente. inversamente.71% . onde está a população mais pobre do Rio de Janeiro e onde em cada 10 habitantes 7 são de cor.aqueles conhecidos característicos das áreas segregadas. neste caso. aqui no Rio de Janeiro. esta distância se mede no plano vertical: quer no espaço social. entre classes. aplicando-o às favelas. as favelas em conjunto. D e acordo. com o índice de segregação proposto pelos professores Julius Jahn..índice que eles aplicaram ao estudo do fenômeno em 44 cidades norte-americanas . Se considerarmos. para o alto dos morros. de comportamento. à luz daquele critério. porém. da Universidade de W a s h i n g t o n " . não é possível negar que a distância d o espaço físico está a refletir nitidamente a distância no espaço social. N o Rio de Janeiro. ecologicamente definida. existirá completa segregação. forte segregação da população de cor numa área que apresenta. ora tendendo para o outro de repartição inteiramente ao acaso. Poderíamos afirmar que a segregação não existe em todas as subdivisões ecológicas da cidade em que a proporção de população de cor for aproximadamente de 27%. para as favelas. Calvin S c h m i d e Clarence Schrag. observamos que a proporção de população de cor nesta situação ecológica . isto é.

ECOLOGIA

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Desta forma não nos resta a possibilidade de indicar exatamente, para a população de cor de cada bairro, qual a proporção dos favelados, qual a proporção dos não-favelados, o que representaria, sem dúvida, valiosa informação para os objetivos do presente estudo. Só indireta e aproximadamente isso pode ser avaliado, se considerarmos que, em cada favela, a população de cor guarda, em relação à população total, a mesma proporção que no c o n j u n t o — 7 0 , 9 5 % . Nessa hipótese, de u m a proporcionalidade igual,12 que aqui usamos para substituir a informação direta, se distribuirmos as favelas existentes pelas diferentes zonas da divisão aqui adotada observamos um fato curioso: n o setor nordeste-noroeste, em cuja população se encontra a maior q u o t a de população de cor (48,12%), é o n d e é m e n o r o número de favelados — 9.982; enquanto que no setor sudeste-sudoeste, onde a quota dos de cor desce a menos de metade (23,48%) - nestes a população favelada sobe para 3 9 . 5 9 6 . Esta correlação inversa parece sugerir (aceitando-se a hipótese formulada) que as favelas apresentam-se como núcleos segregados de população pobre e de cor exatamente nos bairros onde os brancos constituem a maioria e que elas encontram menores razões econômicas e sociais para se formarem naqueles bairros o n d e maior é o número de habitantes de cor e menor a distância social e étnica entre favelados e não-favelados. Se concordarmos em que grande parte da população da favela vive em função e a serviço dos mais afortunados que residem nas áreas não-faveladas adjacentes e se verificarmos que, em regra, o favelado que tem atividade econômica definida tem sua atividade na mesma zona em que reside, a hipótese parecerá ainda provável. 13 As ocupações e o nível de salários ganhos, ao lado de outros índices possíveis de determinar com os dados em mãos, completam a demonstração do entrelaçamento daqueles três fatores inicialmente referidos: estratificação social, situação ecológica e cqndição étnica. O Q u a d r o XXIII distribui os habitantes das favelas por grupos de ocupação. Nele se vê que o maior contingente é o dos inativos, o das ocupações não especificadas e o dos que não declaram a ocupação. Ocorre, porém, que mais da metade dos incluídos nesta rubrica é de crianças de 0-13 anos de idade, que totalizam 46.869, impropriamente incluídos n u m a discriminação de atividades. E m verdade, os trabalhadores nas indústrias - especialmente de construção civil —, nos transportes e no comércio constituem a grande massa da população ativa das favelas, ao lado dos empregados domésticos; e embora não tenhamos u m a discriminação por posição na ocupação, parece desnecessário a f i r m a r que a quase totalidade deles ê de empregados, trabalhadores não-qualificados ou semiqualificados, como se p o d e deduzir da escala de salários que inserimos no Quadro XXIV.

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182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X X I I I -

HABITANTES DAS FAVELAS, POR SEXO, SEGUNDO O 1949

RAMO DE ATIVIDADE. RLO DE JANEIRO -

H a b i t a n t e s e m favelas Atividade Homens Agricultura I n d ú s t r i a e m geral C o n s t r u ç ã o civil Comércio Transportes e comunicações Administração, segurança p ú b l i c a e defesa nacional Empregos domésticos Inativos e outras
TOTAL

Mulheres 35 2.894

Total 136 14.289 10.573 5.210 4.064

101 11.395 10.573 4.602 4.043

608 21

2.834 2.375 33.030 68.953

105 9.531 56.680 69.884

2.939 11.906 89.710 138.837

QUADRO X X I V - SALÁRIOS DOS HABITANTES DAS FAVELAS, POR SEXO, SEGUNDO CLASSES DE GRANDEZAS. RLO DE JANEIRO 1949

Salários (Cr$) Até 2 0 0 201 - 400 401 - 600 601 - 800 801 1.000 1.500

H a b i t a n t e s das favelas Homens 1.239 2.812 4.973 7.327 9.740 8.996 2.243 Mulheres 3.900 5.264 2.214 947 471 166 50

1.001 -

M a i s de 1 . 5 0 0

Nota: Estão excluídos os rendimentos dos inativos.

ECOLOGIA

141

Aí se vê que, excluídos os inativos, a classe modal d e salários é de 801-1.000 cruzeiros, sendo que, no conjunto, a maioria dos t r a b a l h a d o r e s residentes nas favelas têm salários abaixo de 800 cruzeiros mensais. N á o espanta, por conseqüência, que das 34.567 moradias recenseadas, 2 6 . 3 1 3 n ã o tenham fossa ou esgoto; q u e 8 4 , 4 1 % delas não tenham água; e q u e , q u a n t o ao valor, 64,06% permaneçam na classe de até 8 mil cruzeiros; q u e 6 1 , 6 1 % não disponham de luz elétrica; que 47,17% tenham piso de terra b a t i d a ; e que 61,91% dos habitantes recenseados sejam analfabetos. Mais da metade dos moradores das favelas do Distrito Federal é de nascidos noutras unidades da Federação, o que vem indiretamente reforçar a hipótese de que nessas correntes de migração interior que d e m a n d a a Capital do País bastante expressivas são as quotas dos grupos de cor. Atinge a 6 1 , 8 6 % da população das favelas a proporção dos oriundos de outros p o n t o s do território nacional. Lamentavelmente não foi apurada no censo a n a t u r a l i d a d e dos brasileiros correlacionando com a cor e o local de presença p a r a q u e se pudesse ter uma visão mais direta do caráter seletivo de cor das migrações internas no Brasil, f e n ô m e n o que é hoje um dos característicos d o m i n a n t e s da situação demográfica d o País. Depois de passar em revista esses dois fatores14 - composição étnica do grupo dos empregados domésticos e da população favelada - , q u e nos parecem muito importantes no estudo ecológico dos grupos étnicos n a capital do País, podemos tentar a aplicação do índice de Jahn, Calvin S c h m i d e Schrag às circunscrições urbanas. 1 5 Aplicado à região oriental do Rio de janeiro, o índice citado revela tendências bastante significativas. Para destacá-las, façamos u m g r u p a m e n t o em classes de maior ou m e n o r afastamento, para mais ou para menos, em relação ao índice de 2 7 % , que indica no Rio de Janeiro o estado de nãosegregação. No Q u a d r o X X V temos a dispersão em torno daquele ponto. Comecemos a analisar os dados a partir daquelas zonas que apresentam maior afastamento para menos em relação à média. A maior parte das zonas incluídas no grupo E (menos de vinte habitantes de cor em cada cem) são as que compõem o centro d a cidade. Das zonas que na divisão m u n i c i p a l constituem o centro, só a G a m b o a não se inclui neste grupo. Aqui, o n ú m e r o de residências é pequeno e muitas delas são apartamentos de alto valor locativo, não sendo de surpreender, portanto, que a quota de residentes d e cor 1 seja baixa.

142

182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X X V - ÍNDICE DE SEGREGAÇÃO ECOLÓGICA DA POPULAÇÃO DU C O R , POR ZONAS URBANAS. R I O DE JANEIRO

- 1940 G R U P O A: z o n a s c o m m a i s d e 4 0 % Pavuna Anchieta Madureira G R U P O B: mais d e 3 0 % Gávea Piedade Gamboa Irajá ' G R U P O C : mais de 2 7 % Engenho Novo Rio C o m p r i d o Tijuca G R U P O D: menos de 2 7 % Méier Lagoa S. Cristóvão Inhaúma Copacabana Espírito Santo Santa Teresa G R U P O E: m e n o s d e Penha Andaraí E n g e n h o Velho Santa Rita Ajuda Santo A n t ô n i o Candelária Santa A n a São D o m i n g o s Sacramento São José 46,42 41,06 40,44 - m e n o s de 4 0 % 34,62 30,55 30,51 30,27 - m e n o s de 3 0 % 28,84 28,62 28,43 m a i s de 2 0 % 26,18 25,13 24,59 22,52 21,07 21,05 20,81 20% 19,14 19,49 17,79 15,73 15,69 15,10 14,79 12,95 12,26 12,03 10,50

N o t a : S e n d o 2 7 % » p o r c e n t a g e m d a p o p u l a ç ã o d c c o r s o b r e a p o p u l a ç ã o total d a c i d a d e , os a f a s t a m e n t o s , p a r a m a i s o u p a r a m e n o s , c m t o r n o d e s t e í n d i c e indicam o grau d e segregação p o r z o n a s u r b a n a s .

ECOLOGIA

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O grupo D é f o r m a d o pelas zonas que têm mais d e 2 0 % d a população de cor sem atingir 2 7 % ; elas, representam, por assim dizer, o l i m i t e inferior de variação em t o r n o d a média. Neste grupo estão alguns bairros n o s quais já julgamos ter d e m o n s t r a d o que o elevado número d e e m p r e g a d o s domésticos certamente c o n t r i b u i para aumentar a representação dos e l e m e n t o s de cor. Zonas como Santa T e r e s a , Glória, Copacabana, não fosse a i n f l u ê n c i a do serviço doméstico, possivelmente estariam incluídas no g r u p o E, e n ã o neste. Ao lado delas estão zonas tipicamente suburbanas, c o m o o M é i e r . Desta classe em d i a n t e estão os diversos graus de segregação, razão pela qual, para observá-los m e l h o r , dividimos a distribuição em m a i o r n ú m e r o de grupamentos. O grupo C inclui as mais baixas variações acima d a média; e como a ausência de segregação é indicada não pela perfeita coincidência c o m a média mas por uma p e q u e n a variação expressa por valores p r ó x i m o s a ela, julgamos que até o limite de 3 0 % no caso presente, a discrepância não é expressiva. Já no grupo B essa expressividade não pode ser contestada, pois aqui não somente encontramos zonas como a Gamboa, que se d e s t a c o u do conjunto do centro-oeste, caracterizado pelo baixo índice de p o p u l a ç ã o d e cor, e que aqui se inclui c e r t a m e n t e por causa das favelas que ali se e n c o n t r a m , mas também encontramos a Gávea, que, já ficou dito, é núcleo de acentuada concentração de população d e cor, que já se afasta de 7% em relação à média. Chegamos, f i n a l m e n t e , no último grupo, às zonas e m q u e o afastamento da média chega ao dobro do observado na classe anterior: são as zonas do noroeste da cidade - Madureira, Pavuna, Anchieta. Nesta última zona a quota de população de cor ultrapassa de 19% a média q u e deveria ser encontrada no caso de não-segregação, indicativo de u m a distribuição inteiramente ao acaso.
* * *

Tudo o que atrás ficou exposto foi a análise do material existente sobre a ecologia dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. R e u n i n d o os seus resultados, tentemos agora u m a síntese interpretativa do problema. Parece evidente q u e não é possível compreender o m o d o como as relações interétnicas influíram sobre a repartição dos grupos no perímetro da comunidade sem manejar, simultaneamente, com os três conceitos básicos de qualquer estudo - e n ã o s o m e n t e deste - sobre o problema da segregação racial. Esses três conceitos básicos são: a) posição social, b) situação ecológica,

a concentração desses grupos étnicos nas zonas de moradia em que aquelas classes predominam. Sobre este fundo. ao lado das diferenças étnicas. Da análise do padrão ecológico resultou evidente a concentração dos elementos de cor da população d o Rio de Janeiro nas camadas mais pobres da sociedade e. para redistribuir os grupos de cor entre as circunscrições administrativas e as áreas sociais em q u e a cidade se subdivide. dois deles: a) o problema da composição étnica dos empregados domésticos e b) o problema da composição étnica da população das favelas. que foram os mais altos q u e lograram atingir na escala social. histórica e sociologicamente variável. até aos característicos geográficos e topográficos da região e m que o núcleo urbano surgiu. então. Esses fatores agem.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO c) condição étnica. para esse grupo. de esses fatores simultaneamente atuarem é o que explica não somente o nosso. as relações entre grupos étnicos n o Distrito Federal. Isto vale dizer. principalmente mulheres. em regra. e diversas. de m o d o decisivo. por sua importância. duas o u mais empregadas domésticas. Dentre esses fatores peculiares destacamos. bem como a circunstância de serem principalmente famílias de certa classe social e. no grupo profissional dos empregados domésticos e o fato de. cresceu e se expandiu. se separam por diferenças sociais acentuadas. o p e r a m os fatores peculiares. as que podem ter uma. q u e vão desde o tipo ou o momento sociológico que hoje apresentam. que é nas zonas mais deterioradas do mapa urbano que os grupos de cor encontram o nicho o n d e se instalam e vivem. a diferença é essencialmente degrau.e ressalvadas as diferenças de grau .o que ocorre no Rio dc Janeiro é exatamente o que ocorre em todas as sociedades nas quais coexistem grupos étnicos diversos e que. fatores os mais diversos. principalmente brancas. por conseqüência. Até aqui . A alta concentração de elementos de cor. faz c o m que nas zonas predominantemente brancas . não de espécie. estamos convencidos de que a culpa é da metodologia empregada e não da realidade observada. n o u t r o s termos. O m o d o particular. encontradas cm diferentes comunidades. paralelamente ao nível das posições sociais mais subalternas. Se acaso isto não ressalta de modo evidente das pesquisas de ecologia procedidas noutras comunidades. mas também qualquer padrão ecológico de relações de raças. portanto. que são próprios e específicos da comunidade e m questão. pois entre as situações concretas. ou atravessam. o local de trabalho se confundir com o local de residência. para especial análise.

esse fato perturba a simetria do padrão a q u e as pesquisas norte-americanas. que c o n j u n t a m e n t e formam. Noroeste : 8. talvez mais diretamente influente. entretanto. íesulta da alta concentração de elementos de cor na população das favelas. que. Realengo 5. as favelas. Àluz de u m critério sociológico. constituem. mas que aparecem c o m o u m a unidade quando conjuntamente comparadas com outras áreas sociais urbanas. O outro fator. uma área social bem definida que pode se subdividir em tipos. R i o de J a n e i r o - 1949 . independentemente de sua localização no espaço físico. Oeste i 9. Acontece. Estatisticamente. O fato de existirem favelas em quase todas as circunscrições urbanas. Nordeste 7. q u e contribui para dar uma configuração particular ao padrão ecológico da repartição dos grupos étnicos na cidade d o Rio de Janeiro. entretanto. e a concentração nelas de grandes massas de cor. porém. Centro-este 12. Sudeste 10. e n t r a m em relações permanentes no bojo de uma estrutura maior. obviamente age no sentido de redistribuir esses grupos mais pobres e mais pigmentados por todo o perímetro da comunidade.ECOLOGIA 145 e predominantemente afortunadas apareça uma população de c o r cuja presença nessas zonas só se explica em função de sua ocupação e posição social. Sociologicamente. Jacarepaguá Região oriental 6. que ocorre toda vez que grupos étnicos diversos. acostumaram os consumidores da abundante bibliografia ecológica q u e nos Estados Unidos produzem e exportam. feiras em torno de situações sociais particulares. DISPERSÃO DAS F A V E I A S PELAS DIVERSAS Z O N A S D O D I S T R I T O FEDERAL LEGENDA (1949) Região ocidental 1. em posições sociais diferentes. C a m p o Grande 3. Sudoeste í Fonte: C e n s o d a s f a v e l a s . tão variante c tão concreta quanto a situação em qualquer comunidade d e u m fenômeno social único e universal. Centro-oeste 11. as circunscrições delimitadas neste estudo o foram por um critério exclusivamente administrativo e visam a atender as necessidades do governo municipal e não à compreensão científica da estrutura ecológica da cidade. por falta de outros elementos e de pesquisas anteriores. temos aqui apenas uma variante concreta. Santa Cruz 2. Guaratiba 4.

enquanto que nas outras zonas a fraca proporção de elementos de cor desce. a q u o t a dos pretos e pardos na diferentes zonas devia girar em torno de 2 7 % .e pela posição q u e eles ocupam no sistema de vida social da cidade a conclusão. ou seja. para cujo esclarecimento. documentadamente provada. o padrão ecológico representa valioso instrumento de trabalho. como no setor noroeste da cidade. quase o dobro do índice indicativo de não-segregação. . encontramos zonas nas quais a quota de concentração da população de cor ultrapassa de 19% o índice que deveria ser encontrado na hipótese de uma distribuição inteiramente ao acaso. em algumas zonas. em cada cem habitantes. E m certos setores. a proporção de habitantes de cor atinge. Se a distribuição dos grupos de cor nas zonas urbanas do Rio de Janeiro fosse inteiramente ao acaso.146 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Admitindo. u m a escala de situações. Para compreendê-los integralmente é preciso projetar esses fatos sobre o contexto da configuração total. que obedece a fatores sociológicos de significação e de identificação evidentes. continuar a perseguir os objetivos finais desta pesquisa. e em certas zonas. é a forma mais expressiva pela qual se manifesta aqui a segregação étnica. que as favelas do Rio de Janeiro constituem uma área social caracteristicamente definida pelo tipo social de seus habitantes . 16 Ao lado disso. 27 são de cor. c o m o Madureira. dentro da qual se desenrolam as relações de raças no Rio de Janeiro. de maior ou menor concentração dos grupos étnicos nas áreas urbanas. como é lícito fazer. Há. entre a proporção dos elementos de cor no Rio de Janeiro e a proporção dos elementos de cor nas áreas mais deterioradas da cidade. 41 e 46%. a quase u m terço do índice não-segregativo. em cada cem habitantes do Rio de Janeiro. na população das favelas. 71 são de cor. 40. portanto. entretanto. a que se chega é que nelas a segregação existe e em índice altamente expressivo: enquanto que. por conseqüência. estamos convencidos. Faz-se mister. Pavuna e Anchieta. apesar desses dois fatores de redistribuição da população de cor por todas as zonàs urbanas do Rio de Janeiro. Essa grande diferença.

c o m e ç a r a m a aparecer nos Estados U n i d o s leis i m p o n d o ao negro n o r t e .. 3 No Anuário estatístico do Distrito Federal relativo ao a n o d e 1 9 3 8 encontrase minuciosa delimitação dos distritos urbanos da cidade. Frazier. Excluímos desta análise a população dos porões. mas não f o r a m levados em conta aqui. "cabeças de porco" e demais formas de habitação coletiva que enchem a cidade e o n d e r e s i d e m quotas de população pobre e d e cor. v. 1 9 % ) . C f . que os dados se r e p o r t a m à situação de 1940. de acordo com o ponto de vista q u e prevaleceu na divulgação dos resultados censitários. 237. somente a partir de 1 9 1 0 . 4 Niterói e o u t r o s p o n t o s fluminenses da margem da baía são satélites d o Distrito Federal. A influência d o s empregados domésticos na re-distribuição ecológica dos grupos de cor nas cidades norte-americanas. p. t a m b é m . cm m u i t o s casos. C o n v é m n o t a r m a i s u m a vez. como certamente d e v e r i a m ser. ' O s u r g i m e n t o de novos núcleos favelados e o d e s a p a r e c i m e n t o d e outros é fenômeno freqüente na d i n â m i c a da transformação urbana d o Rio de Janeiro. por não terem sido d i v u l g a d o s ainda os resultados equivalentes d o censo de 1950. o aspecto ecológico das relações étnicas. por se ter presumido que. somados aos p a r d o s . por conseqüência.ologia humana se r e d u z a p u r o s exercícios dc geometria sociológica. se nosso objetivo f u n d a m e n t a l fosse o estudo ecológico e não como r e a l m e n t e é. 0 9 % ) foi aqui desprezado por sua insignificância numérica. em 1947. Os que acaso se s u r p r e e n d e m de estarmos discutindo o p r o b l e m a c o m referência ao negro brasileiro d e v e m se recordar que. para efeito da apresentação dos resultados do censo d e 1 9 4 0 constam da análise n° 124 da série Análise dos resultados do censo d e m o g r á f i c o .ECOLOGIA 147 Notas C o m « i m p l e m e n t a ç õ e s que julgamos pertinente introduzir. que a e .a m e r i c a n o a segregação residencial. o volume Censo das fivelas (1949) do Departamento de G e o g r a f i a e Estatística da Prefeitura do Distrito Federal. 10 8 7 6 5 . fato que u l t m a m e n t e se tem observado e m alguns hotéis de luxo no Rio de Janeiro. aliás. que essa distribuição se refere às condições d e 1949. "cortiços". é observada por F. a preferência pelo e m p r e g a d o branco deve corresponder à atitude discriminativa equivalente ao que se refere aos hóspedes. se não leva na devida conta cm seu e s q u e m a metodológico e nas suas técnicas de pesquisa a variável fundamental que é a e s t r u t u r a social. XIII. os de cor não declarada ( 0 . este é o conceito exposto na Encyclopaedia of social sciences. Já assinalamos q u e é provável que nestes estabelecimentos de h a b i t a ç ã o coletiva. As m o d i f i c a ç õ e s introduzidas neste zoncamento. em regra. cit. data do último censo das favelas. Convém frisar. Sempre j u l g a m o s . foram. 2 1 O grupo amarelo ( 0 . a omissão da declaração expressa d a cor tenha correspondido ao desejo de não declarar a mestiçagem. o p . Este ponto dc vista p r o c u r a m o s desenvolver e documentar a m p l a m e n t e e m curso d e extensão universitária sobre o a s s u n t o d a d o na Faculdade de Filosofia do I n s t i t u t o Lafayctte.

c o m o n ã o era provável q u e houvesse. 4 3 6 brancos. p. u m a comissão que representava os habitantes daquela (avela p r o c u r o u a redação .. 12 A hipótese é provável em relação às favelas m a i s r e c e n t e m e n t e formadas. que são os filhos destes. do qual seriam v í t i m a s os m e m b r o s da minoria d e b r a n c o s q u e lá vivem.i do |acarc7. a segregação racial impressiona a q u a n t o s . 15 Já estavam p r o n t a s estas análises q u a n d o tivemos acesso a u m a seleção dc resultados do censo d e m o g r á f i c o d e 1950 referentes à população das favelas d o Rio d e Janeiro e que dizem respeito. . n o t a . na população favelada. L i e p m a n n . q u e . Q u a n t o à ocupação. Espírito Santo e E s t a d o d o Rio são os estados que mais fornecem residentes para as favelas do Distrito Federal. E m 1 9 5 0 o n ú m e r o de pessoas rcccnscadas a t i n g i u a 1 6 8 . q u e a s s e g u r a m aos cariocas maioria na população favelada. K. mesmo com outros o b j e t i v o s . region and regionalism. u m a das quais foi dedicada ao tema que aqui nos o c u p a . O b s e r v a n d o .s e q u e os nascidos no Distrito Federal estão c o n c e n t r a d o s nas baixas idades e t e n d e m a d i m i n u i r nas idades crescentes. nas quais os nascidos n o u t r a s unidades da Federação t e n d e m a a u m e n t a r . 13 S o b r e as distâncias entre o local dc residência e o local dc t r a b a l h o dos favelados. 30-31. 12. a composição de idades. Entre estes há s u p e r i o r i d a d e de homens.. D i c k n s o n . its significance for industrial a n d c o m m u n i t y life. e m b o r a para as mais antigas seja t a m b é m provável que a p r o p o r ç ã o d c brancos seja u m p o u c o m a i o r d o q u e no c o n j u n t o da população favelada. indicando. Soe. r e p r e s e n t a v a m . p. A veracidade da i n f o r m a ç ã o e a validez d a interpretação ficam i n t e i r a m e n t e sob a responsabilidade do autor da r e p o r t a g e m . por conseqüência.3 0 3 . n o c o n j u n t o e e m cada sexo separadamente. 3 1 8 d e c o r e 5 5 .s e .ihdi> o noliihíliii da imprensa >. apenas.148 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO " T h e M e a s u r e m e n t of ecological segregation. entre os homens.inho. 123 e ss. 1947. n e n h u m a e x t r a o r d i n á r i a discrepância entre as informações d o censo d e m o g r á f i c o c as do censo das favelas. v. inclusive sob esta forma. e R.. analisam de perto o problema das favelas. M i n a s Gerais. como se vê. cf. v i n d a s das zonas rurais destes estados. N ã o há. 6 5 4 . 1 9 4 7 .s e para a Capital do País em c o r r e n t e s c o n t í n u a s d e migração interior. T a m b é m não há m u i t o tempo. e n t r e as mulheres. l i d a n d o . e a prestação d c serviços. 1945 p. O s dc cor. i d o i r s da íavrl.r III ! ! | H H I du prnlilritia <)(>•: m n i . nascidos já no Rio dc Janeiro. Servimo-nos"deste porque ele nos parece ter s o b r e o u t r o s a vantagem dc i n d e p e n d e r d o v o l u m e total dc população de cor na c o m u n i d a d e . com o c o m p a r e c i m e n t o p e r c e n t u a l dessa população em cada z o n a u r b a n a . m a i s do q u e o d o b r o dos brancos. E s c u s a d o é dizer que outros índices já foram p r o p o s t o s para d e t e r m i n a r o grau de segregação. " R e c e n t e m e n t e . O s nascidos no Distrito Federal r e p r e s e n t a m a maior parte. Sobre as c o n o t a ç õ e s sociológicas do d e s l o c a m e n t o d a p o p u l a ç ã o u r b a n a entre os locais de residência e de trabalho. tabela 9. das quais 1 1 3 . Rev. Am. 2 9 3 . J u n . A nós i m p o r t a assinalar. ver o v o l u m e Censo das Favelas. as indústrias d e t r a n s f o r m a ç ã o . e n c a m i n h a m . The journey M to work. A o r e p ó r t e r afigurouse até q u e n a s favelas havia forte preconceito racial. i|il. porém. à situação tal como se e n c o n t r a v a dois a n o s depois dc a p u r a d o s os d a d o s até agora apresentados.. p r e e m i n ê n c i a a i n d a mais acentuada entre as m u l h e r e s q u e . e n q u a n t o q u e e n t r e os de cor a parcela maior é a das m u l h e r e s . r e p r e s e n t a m os dois m a i o r e s ramos. o vespertino O Globo publicou u m a série de reportagens sobre as favelas. p o r é m . City.

e outros. a c o m p o s i ç ã o étnica da população das favelas. d e diversas formas indiretas.ECOLOGIA 149 do m a t u t i n o Diário de Noticias para protestar c o n t r a os despejos em massa. e r a m também de cor. dentre os restantes. embora mestiços. . Esses. Na fotografia que ilustrava a noticia. mais de 5 0 % dos q u e integravam a comissão eram nitidamente negros. registrada pelo censo que nelas foi feito em 1 9 4 9 e de que nos servimos para as elaborações desse capítulo. s e n d o impossível determinar. pelas c o n d i ç õ e s d o clichê. quantos. são fatos que apenas e x p r i m e m .

Caise. é responsável pelo baixo nível de instrução.Formação das eiites de cor . esta posição social.Alfabetização. que se desenrola no interior de uma sociedade.de que o baixo nível de educação dos g r u p o s que sofrem práticas discriminativas é a causa única de sua inferiorização e que.colocação da questão.. inevitavelmente. grau de instrução e conclusões de cursos . para iluminar muitos problemas ligados à posição e à mudança de posição dos diversos grupos que nela coexistem. inclusive.Educação e criminalidade . tem sido uma aparente "solução" para esse impasse gerado pela falsa .Significação sociológica dos dados apresentados.C A P Í T U L O IV Situação cultural Oportunidades educacionais . que por sua vez se relacionam com a situação educacional no Rio de Janeiro.. Precisamente porque. compreender-se-á também a significação que p o d e ter a análise do processo educativo. Ainda que se não participo d a opinião . deliberadamente falsa . por outro lado. fica'sempre larga margem à ideologia dos grupos que eventualmente ocupam posição d o m i n a n t e para hipertrofiarem a importância do fator educacional lançando sobre ele a responsabilidade de todas aquelas situações estruturais objetivas que engendram as posições desiguais. por conseqüência.sociologicamente e r r ô n e a e ideologicamente primária . na mente de muitos. dar-lhes mais educação é o remédio para tudo. a crença na inferioridade inata de certos grupos étnicos. e m face. das oportunidades educacionais.não raro. Numa sociedade em cujos códigos se inscreve a máxima da "igualdade de todos perante a lei" e cuja estrutura econômica gera e mantém extrema desigualdade entre os diversos grupos que a compõem. . na medida em q u e se compreender o problema da educação como um dos aspectos do funcionamento das estruturas sociais. no círculo vicioso: o baixo nível de instrução é responsável pela posição social inferior dos grupos de cor. E m face da contradição. não precisamos argumentar longamente para demonstrar a conveniência da análise daqueles aspectos das relações interétnicas. o racismo. então.

só fazem refletir. o que nos interessa é procurar nessas situações objetivas os elementos de uma interpretação sociológica d o problema em tela. os dados divulgados nas publicações oficiais e outros que obtivemos no Serviço Nacional de Recenseamento1 são ricos de elementos sociologicamente valiosos para a compreensão deste aspecto da situação étnica no Distrito Federal. os elementos que p o d e m oferecer à exata colocação do p r o b l e m a das relações interétnicas na cidade do Rio de Janeiro. 0 1 % entre as mulheres. muito ao contrário. só nos censos é que se torna possível conhecer a composição por cor dos analfabetos e alfabetizados.69% entre os homens e 7 7 . certamente. m u i t o do que se encontra nas estatísticas criminais seria melhor c o m p r e e n d i d o e mais seguramente remediado se as estatísticas educacionais estivessem igualmente interessadas em assinalar a condição étnica dos que comparecem em seus registros. de 4 3 . inerentes à tese de que o nível educacional é o fator precípuo da posição inferior dos grupos de cor. em 1940. por outro lado.152 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Teremos. Esta situação de conjunto. E pertinente observar. contradições mais p r o f u n d a s que existem no plano objetivo da estrutura social. Antes de analisá-los. entretanto. em relação ao c o n j u n t o do País. . pois é a Unidade da Federação que tem as mais altas quotas de alfabetizados: 8 1 . O primeiro elemento de que se dispõe é a discriminação bruta dos diversos grupos étnicos em alfabetizados e analfabetos. uma posição privilegiada. No c o n j u n t o da população do Brasil a quota de alfabetização era. dos que ainda estão estudando etc. preocupados principalmente em recolher e aproveitar. que as estatísticas criminais apresentam minuciosamente discriminados pela condição étnica os violadores da lei penal. porém. 0 4 % . 8 2 % de seus habitantes de dez e mais anos de idade sabem ler e escrever. O fato de neste capítulo sobre a educação só contarmos com informações censitárias não significa pobreza de indicações significativas. dos que concluíram cursos dos diversos graus. preeminência que se manifesta para ambos os sexos: 86. porém. é resultado de expressivas diferenças entre os diversos grupos de cor. Constatando que essas contradições. As estatísticas educacionais brasileiras não discriminam os dados por cor. é preciso ter em mente que o Distrito Federal apresenta. de cada um. N o Quadro X X V I encontram-se os dados que c o n f i r m a m esta afirmação. no plano das idéias. E m face dessa disparidade de critério é lícito assinalar que. Fora das fontes censitárias nenhuma informação estatística oficial encontramos sobre situação educacional com discriminação por cor. de deixar de parte a discussão frontal desses problemas q u e encontramos à margem do c a m i n h o de nossa pesquisa.

em certa parte. S E G U N D O A C O R . de que o fato de em cada cem negros residentes . o baixo nível de alfabetização desses grupos no Rio de Janeiro reflete condições de outros estados vizinhos. Em relação a cada sexo. as quotas de alfabetização são maiores para os homens em todos os grupos étnicos. porém .SITUAÇÃO CULTURAL 153 QUADRO X X V I - PROPORÇÃO DA P O P U L A Ç Ã O ALFA- BETIZADA D E 1 0 A N O S E M A I S .711 % 87.84 53.346 177. encontram-se diferenças muito significativas do ponto de vista dos fatores sociológicos que interferem n o grau de alfabetização. porém. que é a quota mais baixa dos grupos considerados.64%. entre os pretos. E n t r e os de cor. a inferioridade das quotas femininas é mais acentuada do que entre os brancos. tende a desaparecer nas mais novas.254 1. também. ultrapassando a do total: 87.476 Alfabetizados Dados Absolutos 886. Supondo-se elevado o contingente de população de cor que aflui para o Distrito Federal nas correntes de migração interior. Só nos grupos de idade de trinta anos para cima a superioridade masculina passa a ser flagrante.573 948 1.84%.150.60 81. M a s parece não restar dúvida.561 159. é fato que.555 1. Assim.07 75. Discriminando-se os grupos por idades. ela desce para 53. de cinco a nove anos. só no primeiro grupo de idade.406. em que pese essa circunstância.82 Brancos Pretos Pardos Amarelos TOTAL A quota de alfabetização entre os brancos é a mais elevada.64 75. fortemente acentuada nas gerações mais antigas. D I S T R I T O FEDERAL 1940 Cor População de 10 anos e mais 1. a inferioridade da alfabetização feminina.009.844 85. pois já nos seguintes a inferioridade da quota feminina começa a se revelar e vai crescendo na medida em que as idades a u m e n t a m . entre os de cor.106 236. é que encontramos quotas equivalentes entre os dois sexos.e ainda mais entre os pretos do que os pardos —. entre os brancos.

O m e s m o já não acontece. p r o d u t o e reflexo da igual posição q u e este grupo ocupa na comunidade. É impossível aprofundar aqui. coincidentemente. 2 bem como o passado escravo ainda recente — dos 45. que afeta.08 entre cem mulheres da mesma cor. por outro lado. entre as mulheres de cor.quase metade. o número de analfabetos é de 36. ou seja. portanto indica u m a taxa de alfabetização muito baixa. O fato é significativo pois indica que. do ponto de vista do grupo étnico considerado. os principais fatores dessa situação educacional. decorrente da deficiência e mau funcionamento de um sistema institucional básico e não de pretensas qualidades intelectuais inerentes ao grupo de cor. onde maior é a concentração residencial daqueles grupos.154 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO no Distrito Federal 46. como meio de ajudar a sustentar o orçamento doméstico. da mão-de-obra infantil e juvenil em tarefas remuneradas fora do lar. enquanto que a concentração reúne e circunscreve. principalmente a massa de cor de mais baixo status social e econômico e de mais baixo nível de instrução. presentes noutras zonas . como adiante ficará demonstrado de m o d o insofismável. parecendo indiretamente indicar que os h o m e n s de cor alfabetizados tendem a se dispersar eco logicamente em conseqüência de ascender socialmente. De fato.040 escravos existentes no Rio de Janeiro em 1872 somente 3 2 9 eram alfabetizados . Q u e r nos parecer. porém. tanto entre as pretas como entre as pardas. principalmente. Trata-se. em face da carência de dados e de meios. porém. nas zonas urbanas. A situação econômica cronicamente deficitária e premente. entre a população dc cor. as maiores quotas de alfabetizadas aparecem.são. de uma séria limitação de perspectivas de ascensão social. nos subúrbios da região nordeste da cidade. que isto deve resultar de duas circunstâncias principais: a) do fato de entre as mulheres de cor. em determinadas zonas. em larga escala. pela análise dessas mesmas informações. as mulheres de cor. de natureza inteiramente objetiva.s e cada sexo em separado.q u e vivem as famílias das camadas mais pobres da população carioca. T o m a n d o . as maiores quotas de alfabetizados não estavam nas zonas urbanas o n d e maior era a concentração residencial do grupo de cor. em 1940. A repartição ecológica dos alfabetizados e analfabetos no Distrito Federal indica que as maiores quotas masculinas de alfabetização da população de cor estão n a zona centro-oeste da região oriental da cidade. a análise minuciosa dos fatores que podem explicar esse fato. característica do desajustamento e m . como hipóteses provisórias. que obrigam a prematura utilização.46 serem analfabetos .12 entre cem h o m e n s pretos e de 54.

se não é a falta d e instrução a causa principal da residência n a favela. entre as quais o índice de analfabetização é elevado. em conjunto. e maior do que a apresentada pelos brancos em treze unidades da Federação: Paraná. só p o d e r e m o s concluir que as mais baixas quotas de alfabetização que eles apresentam no Distrito Federal. também não é a instrução a condição principal que lhes falta para u m a efetiva melhora de situação. A não ser que aceitemos a preliminar absurda de que os pretos d o Distrito Federal são. fica ainda mais evidente que. que representam na população das favelas um grupo numeroso. Maranhão. ainda. a quota de alfabetização é muito baixa. Minas Gerais. . os pretos do Distrito Federal têm índice de alfabetização maior do que o índice médio de alfabetização da população branca no conjunto do País.91% são analfabetos. Realmente. Em cada cem favelados 61. Paraíba. As informações e dados existentes sobre a alfabetização dos diversos grupos étnicos dão-nos. por conseqüência.3 N a população das favelas. Piauí. da posição que tem ocupado em face do funcionamento do seu sistema educacional. produto de fatores essencialmente sociológicos. são uma resultante de fatores essencialmente sociológicos. Acre. Goiás e Alagoas. O índice real de analfabetismo dos adultos deve ser ainda maior se excluirmos do cálculo os menores de sete anos. os elementos para demonstrar objetivamente que a situação educacional de um grupo dentro de u m a comunidade maior sendo. uma situação educacional mais atrasada do que a c. para as mulheres de cor. por sua condição étnica. independe por completo da condição étnica ou de qualidades inatas de diversa capacidade intelectual. mais inteligentes e mais bem dotados do que os brancos de todas essas unidades da Federação. serem elevados os contingentes de empregadas domésticas. Rio G r a n d e do Norte. b) de serem menores. as oportunidades de ascensão social decorrentes da pura alfabetização. Pernambuco. composta em 7 1 % de elementos de cor. no conjunto d o País e em cada unidade per se em comparação com a população branca da mesma unidade. que têm. Bahia.SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9 urbanas. A prova mais elementar desse fato — q u e só vem ao encontro de exaustivos estudos mais especializados sobre o assunto — pode ser encontrada no fato de a quota de alfabetizados entre os pretos e pardos no Distrito Federal ser maior d o que a quota dc alfabetizados entre os brancos de outros estados. inteiramente desligados da condição étnicas diretamente dependentes da posição que o grupo historicamente tem o c u p a d o na sociedade brasileira e. Sergipe.ipital d o País. como de fato é. N o caso da população humílima dessas áreas deterioradas da cidade.

pois.. entre um analfabeto e um alfabetizado. do ponto de vista d o status econômico e social. que. Partindo-se dessa premissa. existem também acentuadas diferenças entre a significação social e cultural da conclusão de cursos de nível acima daquele mínimo. Isto significa. e n q u a n t o que. para cada um deles. a respectiva quota de alfabetização. Assim é que. pelo grau de instrução. retratada pelo inquérito censitário de 1 9 4 0 — que são os últimos dados completos existentes sobre o assunto . e reproduz. sendo maior entre os pretos. Por fim. em cada grupo étnico. para compreender a real situação educacional dos diversos grupos de cor. escrever e contar é o mínimo de instrução necessária para incluir um indivíduo na condição de alfabetizado e nada mais exprime senão esse mínimo. diminuindo a probabilidade de sobrevivência. em 1940. A mortalidade. escrever e contar e o outro é portador de u m diploma universitário. é a q u e pode ser vista no Quadro XXVII. pela diversa composição etária dos diferentes grupos étnicos a que os dados se referem. Por outro lado. ou fica refletido. faz com que. ela tenda a se concentrar nas baixas idades. esta percentagem era de 41%. pode haver diferenças menores do que entre dois alfabetizados. as quotas dos que concluíram cursos e lograram completar a formação a pretender tipos diferentes de emprego. portanto. entre os alfabetizados de cada grupo. entre os brancos. verificase que a situação e a perspectiva dos diversos grupos étnicos no Rio d e Janeiro ficam melhor compreendidas quando analisamos a diversa participação que têm nas oportunidades educacionais que estão acima da pura alfabetização. entre os pretos. A situação educacional dos grupos de cor no Rio de Janeiro reflete os característicos dominantes da situação social total. É óbvio que as estatísticas educacionais se deixem necessariamente influir. sendo extremamente . é necessário também. a situação ficará ainda melhor esclarecida se considerarmos.156 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Saber ler. dos quais um apenas sabe ler. no que ele depende. na qual temos a quota percentual de pessoas de cada grupo étnico que naquela data estavam cursando cada grau d e ensino. os mesmos aspectos de participação frustrada que têm os grupos de cor nos benefícios de vida social. saber as quotas respectivas dos que encontraram meios de prosseguir a educação em níveis acima do mínimo e crescentemente se aparelharam para utilizarem a instrução como instrumento de vida e de melhoria de vida. nos diferentes graus de ensino. 38% das pessoas desta cor estavam no grupo de idade de 0-19 anos. no caso presente. não basta conhecer. de que aquela é apenas uma parte. A situação de fato. noutros termos. a partir dele. Realmente.

26 4.341 100.SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9 Q U A D R O X X V I I .56 9.636 100.00 171.05 891 3. 6 3 6 recebiam instrução elementar.49 1. 1 5 7 negros que naquela data estavam recebendo instrução.567 que recebiam instrução de grau não declarado. o fato de 89.92 91.99 4. Dos 2 4 .00 237.888 20.56% dos pretos de 5 a 39 anos estarem cursando um grupo escolar.586 72.01 5.48 % Grau e l e m e n t a r % Grau médio ':% 71.65 20.26 1. fica mais acentuada entre os pretos e pardos. Isto resulta cie q u e os níveis de instrução acima do primário permanecem ainda. se concentra a maior quota dos negros que t ê m qualquer grau de instrução.00 % 16. 2 1 .580 3.89 0.00 Brancos Pretos Dados absolutos 24.103 7.97 21. que se observa quando passamos do grau e l e m e n t a r para o médio e deste para o superior.15 % 76.84 14. ou seja.25 Nota: Inclusive as pessoas d e c o r n á o declarada. além de resultar de u m a pirâmide de idade em que as baixas p r e d o m i n a m .50 533 0.63 4. fora das .22 100.984 95.12 49. Note-se q u e a queda violent. DISTRITO FEDERAL 1940 Grau de ensino TOTAIS Total Dados absolutos 325.090 69.00 100.790 16. embora esteja presente em t o d o s os grupos.00 Dados absolutos 247.567 6. em que se p e s e m os progressos recentemente alcançados.00 Pardos % 100. 3. 2 5 6 100.011 7.P E S S O A S D E 5 A 3 9 ANOS QUE ESTÃO R E C E B E N D O I N S T R U Ç Ã O POR COR. enquanto q u e 891. por isso mesmo. baixa a quota percentual de pretos que prosseguem os estudos através dos níveis médio e superior. tende igualmente a resultar maior d e n t r o do grupo o índice dos que estão cursando escolas de grau elementar.84 12. Deste m o d o .548 100.989 83.88 18.715 73.00 6. SEGUNDO O G R A U D E ENSINO.157 100.74 4.43 Dados absolutos 53.87 2 0 .00 100.69 63 0. é produto direto do fato de as grandes massas de cor que conseguem estudar não conseguirem oportunidades de instrução além do nível elementar em que.32 Grau s u p e r i o r 11.10 44.07 54.69%.636 89.24 % Grau não declarado % 7.48 7. havendo mais de 1.20%) cursavam escolas superiores. cursavam escolas secundárias e 63 apenas (0.09 % 7. dos índices.

o que resulta da taxa diferencial de evasão escolar q u e se observa entre os grupos étnicos n o Distrito Federal.91%. 35-178 (9. que está no vértice. a dos pardos. cie c a d a cem universitários cariocas. são mais fortes ainda aquelas que existem entre as quotas dos que. na data do inquérito.62% eram pretos. n o grau superior a situação do branco era de quase monopólio. é que a situação não está toda exposta n o que atrás ficou dito. 8 8 . porém. por sua vez. 5 0 % pretos. No grau médio as diferenças eram maiores. t i n h a m certificados de cursos feitos. 6 2 % haviam concluído apenas o curso primário. a questão se apresenta de m o d o não menos significativo. A verdade. e que naquela sobreviviam. 4.15%).956 p r e t o s que em todas as épocas anteriores a 1940. entre os que estavam recebendo instrução de grau elementar. . É o que se p o d e verificar no Quadro XXVIII. que. C o m o se vê. até aquela data. já que. Por aí se vê a mínima probabilidade que tinha um negro na capital d o País de vir a ser "doutor" até a data recente de 1940 e só assim se pode c o m p r e e n d e r o alarido que faziam os primeiros estudiosos do negro brasileiro e m torno das "honrosas exceções". 9 1 % eram brancos. ao "preto ignorante". pois.58% o secundário e 1. Finalmente. aparecem como verdadeira raridade de nosso laboratório étnico e sociológico.10%. u m curso qualquer.852 (88. 9 5 6 (2. que está na base.325 pessoas que haviam concluído. em 1940. a parcela dos brancos era de 310. os pardos 18.09% t i n h a m certificados de cursos superiores. 9 . Se são fortes as diferenças entre os membros de cacla grupo étnico que estavam recebendo instrução. Redistribuindo esses d a d o s pelos diferentes graus dos cursos concluídos. 356.31%). 9 5 . Se analisarmos o problema de outro ângulo e procurarmos ver no total dos que estudam em cada grau de ensino qual a quota de cada grupo étnico. 2 0 % eram brancos. à luz desses dados. de fato.91% e os pretos 9.32% eram pardos c 1. 7.37%) e a dos negros. verifica-se que dos 9. os brancos representavam 71. 7.158 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO possibilidades das grandes massas de jovens de todas as cores. Assim. desse total. de qualquer grau. haviam c o n c l u í d o os cursos iniciados. a história desenhou a escala de gradação dos matizes que se hierarquizam do "doutor branco". a pirâmide educacional reproduz a pirâmide d e classes e nesta. Existiam. dificuldades ao desenvolvimento cultural q u e se acentuam na medida em q u e vamos considerando aquelas classes sociais nas quais os elementos de cor estão fortemente concentrados na sociedade brasileira. em cada cem estudantes de curso secundário.23% pardos e 0 . no Distrito Federal.

As quotas respectivas dos parcos que t i n h a m concluído cursos dos três graus eram as seguintes: 81.83 88.852 100. DISTRITO Grau de ensino TOTAIS Total Dados absolutos 355.88 % Grau elementar 83.71 11.00 100.57 8.32 % 2.49 108 1.SITUAÇÃO CULTURAL 1 59 QUADRO X X V I I I .62 3.58 0.13 5. e 9 6 .86 4.71 2.46 270 2.76 28.88 28.24% dos que haviam concluído cursos de todos os graus.956 100.38 % Nota: Inclusive as pessoas d e c o r não declarada.16 1.238 63. SEGUNDO O GRAU D E E N S I N O .534 3.00 % 9. n a situação racial peculiar ao Brasil.00 Brancos Pretos Dados absolutos 9.785 26.00 189.506 81.823 88.176 3.57 % 87.13 % Grau não declarado 88.00 Dacios absolutos 310.070 8.987 100.e mesmo a ser considerado como tal nas relações de etiqueta com outras pessoas o que necessariamente influi como fator de hipertrofia daqueles índices referentes aos brancos.52 100.03%.88 12.13% e 2 . 3 7 % dos portadores de diplomas de cursos superiores! N ã o resta a menor dúvida de que a condição de portador de um diploma universitário.09 0.00 100. O fundamental. porém.55 % Grau médio 93.00 227. 1 9 4 0 POR COR.90 755 7.620 13.909 61.179 100. esses índices estão longe de indicar u m a situação lisonjeira. representavam 87.00 100.P E S S O A S DE 1 0 ANOS E MAIS QUE P O S S U E M C U R S O COMPLETO OU DIPLOMA D E E S T U D O S FEDERAL.50% dos que tinham concluído o curso primário. 93. é saber que . 83.81% dos que terminaram cursos de nível médio. 4 9 % .24 % Grau superior 96. E m b o r a ligeiramente maiores que os dos negros. pois estão muito abaixo da expressão da parcela que esse grupo representa no c o n j u n t o da população.088 3.055 7.63 27.00 Pardos % 100.160 24.38 877 2. Os brancos.49 3.09 82.03 12.80 Dados absolutos 35.35 9. O fato é compreensível e provavelmente ocorreu influindo nos índices estatísticos. seria razão bastante para levar u m pardo ou mulato de pele mais clara a declarar-se branco . 13. finalmente.

vivo e insofismável. Não temos dúvida. destacar que esses índices numéricos exprimem. autenticamente. o preço baixo e a relativa facilidade de obtenção dessa força produtiva fez com que toda vez que se precisava de produzir mais. o de um instrumento. de que essa permanente mistificação da própria condição étnica e social na vida quotidiana dos elementos de cor que se promoviam n a escala dos status sociais é o f u n d a m e n t o sociopsicológico em que se apóia o estereótipo do "mulato pernóstico". só depois. seu desenvolvimento intelectual e técnico. a primeira observação que ocorre fazer é a respeito da interdependência que existe entre a situação educacional e a estratificação social dos grupos étnicos. o que exigia do elemento de cor que ascendia e daqueles que o recebiam em seu círculo a obediência à regra da etiqueta racial que i m p u n h a tratarse como se fosse branco ao pardo que conseguisse se aproximar dos níveis sociais superiores. primeiro. não só porque indicam o estado atual e estrutural de u m aspecto básico do problema mas t a m b é m porque nos fornecem um corte transversal numa fase de um processo de convivência entre negros e brancos que está em funcionamento há quase quatrocentos anos! A verdade. Julgamos necessário porém. um depoimento expressivo. a educação e a elevação do nível cultural do negro. entretanto. por outro lado. difundidos e integrados estereótipos que se pode encontrar na sociedade brasileira.160 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO interpretação se lhe dá. aqui mesmo. o assunto será mais amplamente desenvolvido e novos elementos serão lançados à discussão. E a nós nos parece que ela está meridianamente a indicar a identificação objetiva da posição de dominante com a condição de branco. Adiante. muito mais do que as idílicas dissertações correntes sobre o que se desejaria que elas fossem. um dos mais típicos. é que essas expressões numéricas da situação educacional só valem na m e d i d a em que nos permitirem compreender o significado sociológico que t ê m . se pensasse. para isso. A este respeito. 4 As condições peculiares de nossa economia pouco desenvolvida e a forma histórica através da qual a força de trabalho da população de cor participou de seu processo e de sua estrutura sempre permitiram e possibilitaram a participação do negro na economia do País sem ser indispensável. já que seu papel era. Por o u t r o lado. em visão de conjunto. por excelência. "relações de raças no Brasil" e delas são. no quadro da configuração total das relações sociais entre os grupos étnicos no Rio de Janeiro. em aumentar a qualificação técnica e intelectual do . em aumentar o número de negros no trabalho e.

reconduzir o negro ao seu lugar. que não são nada estimulantes e que visam. assim como nos programas e n a ideologia que os conduzem. considera-se que o alevantamento cultural das massas de cor é a condição mais importante a ser atendida p a r a ensejar a sua ascensão social. Q u e r e m o s assinalar aqui. a educação. o que de fato foi até bem p o u c o t e m p o . As conseqüências desse lento processo têm extraordinária importância no mecanismo das relações de raças. e ser. o n d e e quando seus primeiros frutos c o m e ç a m a aparecer e a amadurecer. frontalmente.SITUAÇÃO CULTURAL 161 trabalhador. povo e negrada. o que h a b i t u o u o branco no Brasil a sempre pensar nele c o m o se fosse um bloco indiferenciado. especialmente nas áreas urbanas e no momento atual. passou a ter um papel de s u m a importância. porém. na m e d i d a e m que. essa duplicidade de atitudes se revela não somente em relação ao negro stricto sensu mas a tudo que vem de baixo. não raro até c o m o prova de intolerável petulância e insolência contra o branco. Nesse processo de diferenciação. t e n d o para isso de lutar. em nossa sociedade. os primeiros passos de uma diferenciação econômica e ocupacional. especialmente pelo fato de ela ter sido tradicionalmente. é interpretado c o m o sinal de inquietação e insatisfação das massas de cor. como não podia deixar de ser. massas e massas de cor são expressões usadas c o m o sinônimas. entretanto. para o negro. a de seus filhos. . A urbanização crescente do negro e a sua integração progressiva nos quadros de uma economia em processo dc industrialização f o r a m aos poucos criando. q u e busca para si um lugar no espaço social. q u e esse problema se reflete d i r e t a m e n t e na origem e na estrutura das associações e movimentos negros no Rio d e Janeiro. portanto. que esses negros que ascendiam procuravam vender e ampliar para a geração seguinte. de outro. uma lamentável homogeneidade social. no lugar mais próprio. contra a muralha representada pelas expectativas tradicionais do branco. monopólio do branco. no Brasil. os germes de uma estratificação social d e n t r o do grupo étnico. via dc regra. nos quais inevitavelmente germina a ambição de subir e galgar posições. mais uma vez. um atributo objetivo e subjetivo de enorme significação no diferenciar um negro da massa dos negros e no promovê-lo a u m a posição socialmente mais próxima da d o branco. a formação de uma elite d e negros instruídos. em conseqüência do fato de asituaçãopessoal d e alguns negros isolados estar hoje rapidamente se transformando no problema social de uma elite negra. Ver-se-á adiante. a ambivalência de valores que existe na sociedade a respeito da mobilidade social d o negro por via da educação: de u m lado. Resultou daí. Escusado é dizer que aqui.

mas. "É necessário abrir escolas pata todos. no m o d o de ser e funcionar das instituições culturais brasileiras. o desejo de renovar e o desejo de conservar. é u m a falta de respeito essas liberdades que essa negrada anda tomando hoje em dia". " O negro deve ser igual ao branco. Alguns desses postulados contraditórios. "É necessário que todos unam os seus esforços para resolver os problemas da Pátria. "É necessário que a escola. pois o futuro do Brasil assim o exige: mas. simultaneamente. para que diabo filho de cozinheira quer ser doutor?" . é preciso evitar que a ralé crie asas pois os tempos de hoje estão m u i t o mudados". "É necessário ensinar a ciência ao povo. mas. "É necessário progredir para não perecer. mas. a ciência não explica t u d o e é até perigosa quando pretende fazê-lo". como dizem os "americanos". do jeito que essa negrada está ficando ninguém sabe onde vamos parar". mas. a base da educação do povo deve ser o pensamento clássico. mas. mas sim no pano de f u n d o dc nossa política educacional e na fdosofia da educação que a inspira.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Obviamente essa duplicidade valorativa n e m sempre é explícita e seu enunciado não deve ser procurado apenas nos lábios de um ou outro indivíduo. embora os que são seus representantes se julguem movidos por outra motivação. ensine as modernas conquistas do espírito humano. "E necessário reconhecer que todos nasceram iguais perante a lei. a tradição deve ser respeitada". mas. "É necessário não temer as inovações. pois lá é que se encontram as verdades eternas". o "humanismo". nas seguintes racionalizações: "É necessário difundir a instrução. que exprimem. "É necessário educar o povo para acabar com o analfabetismo. "business is business" e ninguém faz negócio para ter prejuízo". pois todos somos filhos de Deus. para ser moderna. poderiam talvez ser assim traduzidos. mas. não p o d e m permanecer iguais porque assim desapareceria o estímulo. mas. mas. e sem estímulo isto não vai para a frente". é preciso esperar que o povo esteja preparado para recebê-las".

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A enunciação desses valores ambivalentes e mutuamente exclusivos poder-se-ia prolongar por m u i t o tempo, entretanto, o que importa é apenas exemplificar e assinalar que, nas dobras mais recônditas da cultura brasileira, é muito menos generalizada d o que no plano das opiniões confessadas a unanimidade a respeito de que a negrada precisa ser instruída e educada, pois existem, fortemente arraigadas, expectativas contrárias a isto, e m u i t a s até escandalosamente alarmadas ante as possíveis conseqüências dessa ascensão educacional do negro. Quando no plano das leis as oportunidades são iguais para t o d o s e no plano da estrutura social e dos costumes as desigualdades são flagrantes, a insatisfação das elites negras vai resultando na medida em que elas se edticam e vislumbram diante de si toda u m a escala àestatiis a ser galgada. A contradição, por outro lado, se multiplica precisamente porque não é possível e n c o n t r a r bandeira mais pacífica do que a educação para, debaixo dela, lutar pela ascensão social dos homens de cor. Se por causa da educação, e precisamente por causa dela, estão se f o r m a n d o elites negras insatisfeitas na sociedade brasileira, é que algo mais p r o f u n d o e estrutural está em jogo. N o dia em que as massas de cor tomarem consciência disso terá começo a fase mais aguda e decisiva do problema das relações de raças neste País. É por si mesma evidente a relação existente entre a situação econômica e social dos grupos de cor no Brasil, de um lado, e a situação educacional, do outro. Isto não tem impedido, entretanto - antes é nesta correlação q u e se baseia - a formação, em nosso meio, daquele mecanismo ideológico d o "círculo vicioso", tão bem caracterizado por GunnarMyrdal no seu c o n h e c i d o inquérito sobre as relações raciais nos Estados Unidos: o h o m e m de cor, porque ocupa na sociedade u m a posição inferior, não tem oportunidades educacionais e, porque não se instrui nem se educa, conserva-se em posição social e econômica inferior. N a verdade, porém, esse processo não se desenrola mecanicamente, linearmente, sempre no mesmo plano, pois que ele se agrava na medida em que funciona, gerando estados de extrema tensão social. D a í resulta que os elementos de cor colocam-se em tal posição que passam a ser necessariamente, e independentemente de sua vontade, a fonte dos fatos e argtimentos de que se servem os brancos que têm p r e c o n c e i t o p a r a demonstrarem a validez de seus pontos de vista sobre a inferioridade inata do elemento de cor. De fato, p o r é m , o que ocorre é que a população de cor na sociedade brasileira foi historicamente colocada, como grupo, n u m a posição social tal que lhe cabe o papel de expi imir, por diversas formas de c o m p o r -

164

182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

tamento e de atuações na vida social, tudo o que h á de injusto, de contraditório, de falso e de errado na organização social de que são membros. 5 Não é como negros, mas como m e m b r o s de uma sociedade que distribui tão desigualmente entre os que a integram as oportunidades econômicas, sociais e educacionais, que o seu comportamento, muitas vezes, parece esforçar-se para confirmar tudo o que de mau e pejorativo lhes é atribuído como se fosse defeito intrínseco à condição étnica. Dentro desse enquadramento conceituai, e somente dentro dele, é que é possível encontrar u m a interpretação científica, por exemplo, para as estatísticas criminais, que, de certo m o d o , tão bem completam e iluminam os elementos fornecidos pelas estatísticas educacionais que atrás apresentamos. Servimo-nos, a este passo, dos dados divulgados pelo Dr. Nelson Hungria sobre a criminalidade dos homens de cor no Brasil e obtidos através de u m inquérito feito, em 1950, entre as penitenciárias de quatro dos principais estados brasileiros, inclusive o Distrito Federal. 6 N o Quadro XXIX reproduzem-se os dados apresentados pelo desembargador Nelson Hungria:

QUADRO X X I X - POPULAÇÃO PRESIDIÁRIA, POR COR, SEGUNDO QUATRO UNIDADES DA FEDERAÇÃO 1950

U n i d a d e s da Federação Distrito Federal Estado do Rio Minas Gerais São Paulo

P o p u l a ç ã o Presidiária Total 1.932 126 662 322 Brancos 762 55 240 217 Prelos c pardos 1.170 71 422 105 Pretos 491 33 125 52 Pardos 679 38 297 53

As informações aí contidas parecem confirmar nitidamente a correlação atrás referida entre: 1) posição econômica e social; 2) nível educacional; 3) condição étnica e 4) índice de delinqüência. D e fato, em todas as Unidades consideradas, a proporção de delinqüentes de cor é sempre superior à proporção desses grupos étnicos no total da população. Assim é que, no Distrito Federal, os grupos de cor representam, em 1 9 5 0 / 3 0 % da população total e contribuíram,

SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9

entretanto, com 61% da criminalidade, avaliada esta pela composição étnica dos presidiários da Penitenciária Central, Penitenciária para Mulheres de Bangu, e Colônia Penal C â n d i d o Mendes. No vizinho Estado d o Rio de Janeiro os elementos de cor representavam, naquela data, 4 0 % da população total e 57% da população presidiária. Em Minas Gerais e São Paulo a quota dos grupos de cor eram, respectivamente, 39% e 12% sobre a população total e 64% e 33% sobre a população recolhida aos presídios. E m São Paulo, se considerarmos apenas os crimes de furto, a quota dos de cor eleva-se a 4 5 % . Isto significa, noutros termos, q u e o crime do negro no Brasil é, essencialmente, crime de pobre!8 Aqui, mais uma vez, as situações estruturais, de fato, representam a nossa principal p r e o c u p a ç ã o . Nosso objetivo, por isso m e s m o , foi principalmente reunir, de cada face do problema, inclusive daquela que se refere ao estado educacional das massas de cor no Rio de Janeiro, os elementos necessários a uma posterior interpretação de conjunto do processo e das perspectivas das relações de raças na comunidade metropolitana. Desta apresentação, parece terem resultado flagrantes os fatores em que se baseia o "círculo vicioso" a que nos referimos: a situação de classe dos elementos de cor representa u m a forte barreira ao seu desenvolvimento cultural, que assim se frustra e atrofia; e essa frustração e atrofia é aplicada, q u a n d o convém, em função de u m a inferioridade biológica e não sociologicamente circunstancial. Foi a este processo, que aqui tem lugar tão visivelmente à superfície dos fatos, que Bernard Shaw quis se referir quando c o m e n t o u com ironia: "faz-se o negro passar a vida a engraxar sapatos e depois prova-se a inferioridade moral e biológica do negro pelo fato de ele ser engraxate". 9 É à luz de dados objetivos e reais sobre a situação cultural d o negro no Distrito Federal que essa mistificação do preconceito racial deve ser encarada pois aqui, como sempre, é no contexto das estruturas sociais que as engendram que as idéias e os valores e n c o n t r a m sua última explicação. E adiante, q u a n d o se tentar essa análise frontal dos valores que presidem as relações étnicas neste País, ver-se-á que, lançadas nessas bases, esta análise se afigtira mais despida das aderências sentimentalistas que tão freqüentemente, entre nós, têm prejudicado a pureza do rigor científico que deve ter.

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182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

Notas
' Registramos aqui nossos agradecimentos aos Drs. T ú l i o Hostílio Montcncgro e M a n u e l D i e g u e s Jr. pelas facilidades que nos p r o p o r c i o n a r a m na obtenção desses dados, alguns deles n ã o publicados ainda. Sobre o assunto, embora não se referindo d i r e t a m e n t e a famílias de cor mas a u m a a m o s t r a d e famílias de diferentes categorias étnicas, igualadas pelo traço comum de suas baixas rendas, cf. L. A. Costa Pinto, Pesquisa sobre o padrão de vida do comerciaria do Distrito Federal (1948), Instituto dc Economia da F u n d a ç ã o M a u á . Sobre a atividade econômica dos filhos menores, ver especialmente p. 9 7 - 1 1 0 .
3 2

No

Brasil, para a mulher de cor, especialmente a mestiça, as vias mais

freqüentes d e ascensão social, dentro do padrão tradicional d e relações de raças, eram as o p o r t u n i d a d e s q u e se lhe abriram cm conseqüência da fraca resistência que sua posição social p e r m i t i a à ssdução do h o m e m branco. A i n d a hoje o folclore ancdótico f r e q ü e n t e m e n t e registra o fato. A instrução da mulher de cor c o m o canal de mobilidade social é f e n ô m e n o recente, que não ocorre sem ter que venccr certas resistências, algumas abertamente declaradas. U m a prova disso, aliás odiosa, e n c o n t r a - s e n u m fato que chegou a repercutir n o P a r l a m e n t o Brasileiro em 1950. C o n s t a t a n d o q u e n o Catálogo de obras sociais do Distrito Federal, editado pela Legião Brasileira d e Assistência, apareciam diversos e s t a b e l e c i m e n t o s q u e exigiam como condição dc a d m i s s ã o que a recolhida fosse de cor branca, o d e p u t a d o Jonas Correia pediu informações ao Ministério dc Educação sobre essa d i s c r i m i n a ç ã o . O presidente da Legião, juiz E l m a n o C a r d i m , em ofício de 21 dc j u l h o d e 1 9 5 0 , i n f o r m o u ao Ministro que, n u m d o s estabelecimentos citados, o Asilo B o m Pastor, a discriminação era feita devido a u m p e d i d o do seu fundador, o ex-senador da República, Dr. Mário de Andrade Ramos, "baseando-se cm que depois de educadas é difícil colocar as meninas de cor, o que n ã o acontece com as brancas" (grifo nosso). C o m o se vê, as barreiras á mobilidade da m u l h e r d e cor, combatidas por muitos, só s e r v e m para estimular outros atos que visam multiplicar aquelas barreiras. Sobre a f u n ç ã o social da boa aparência no mecanismo da m o b i l i d a d e feminina, veias observações de W a r n e r , Havighurst e Loeb em p. 37 e ss.
1 1

Who

shall

be educated?,

1946,

O s c o n h e c i m e n t o s que hoje temos a respeito d o processo de socialização nas

diferentes classes sociais é o bastante para nos permitir dizer q u e n e n h u m a generalização pode mais ser feita sobre "a criança". Nós devemos p e r g u n t a r : "A criança de que classe social? Q u e vive e m qual ambiente cultural?"(Aüison Davis, Social class influences upon learning, 1 9 5 1 , p. 11-12). Aliás esses conhecimentos atuais a q u e se refere o Prof. Allison Davis estão já d o c u m c n t a d a m e n t e expostos no livro de F. Engcls, Die Lagc Klassen in England, 1845, cf. a t r a d u ç ã o f r a n c e s a , 1933, derarbeitendren e s p e c i a l m e n t e na

p. 160 e ss., T o m o I, o n d e se encontram abundantes fatos e análises q u e antecipadamente c o m p r o v a m o q u e Allison Davis e R. Havighurst f o r m u l a r i a m mais tarde da seguinte forma: a s i g n i f i c a ç ã o chave do conceito de classe social p a r a os que estudam o desenvolvimento d o c o m p o r t a m e n t o h u m a n o resulta de q u e a classe define e sistematiza diferentes a t m o s f e r a s educativas para as crianças de diferentes classes sociais (cf. Davis

SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9

e Havighurst, Social class and color differences

in child-rearing,

Am.

Soe. Rev., Dec.,

1946, v. 11, n. 6, p. 698 e ss. Ver t a m b é m , M a r t h a Ericson, Child-rearing and social status, The Am. Jotirn. of Soe., Nov., 1946, v. LII, n. 3, p. 190-192; sobre as influências ideológicas do sistema de classes de u m a sociedade sobre o sistema educacional, ver nossa tese O ensino da sociologia na escola secundária, Rio dc Janeiro, 1947. A aplicação para que se dessas premissas metodológicas ao caso brasileiro, o n d e cor e status historicamente se i d e n t i f i c a r a m de maneira quase total, é a b s o l u t a m e n t e indispensável c o m p r e e n d a a formação e a fisionomia do q u e se poderia chamar, de acordo com Linton c Kardincr, a "personalidade básica do negro brasileiro". Nela, o que se encontra é, antes e acima de tudo, o precipitado c o m p o r t a m e n t a l de uma situação de extrema desigualdade de posição e de classe social, q u e n ã o só limita as possibilidades objetivas de acesso à educação formal como t a m b é m confere ao modus recipiendi do educando negro o caráter duplamente formal de t r e i n a m e n t o sistemático para viver uma vida da qual a vida diariamente lhe demonstra q u a n t o ele está distante. P o r outro lado, sua vizinhança, seu meio está todo penetrado da noção de que os pretos e os brancos, os ricos e os pobres, os privilegiados c os dc :graçados f o r m a m dois m u n d o s à parte. Essa d i c o t o m i a da vida e da sociedade - quer c o m o coisa imutável à qual é preciso de alguma f o r m a se adaptar, quer como iniqüidade q u e é preciso combater — constitui o lastro básico da filosofia que emana da situação o c u p a d a pelo negro na sociedade brasileira.
5 N o Brasil, e especialmente no Rio d e Janeiro, a anedota é sempre um mostruário dc estereótipos. Há pouco tempo circulou u m a anedota que exprime com fidedignidade essa posição do negro na concepção do b r a n c o , que o identifica sempre com "o o u t r o lado": dois indivíduos conversavam e um dizia para o outro: quando passam dois brancos c o r r e n d o , penso - lá vão dois atletas t r e i n a n d o ; q u a n d o passam dois negros correndo, já sei — estão fugindo da polícia. N ã o há dúvida... são réus!

" Nelson Hungria, A criminalidade dos h o m e n s cie cor no Brasil, Revista Forense, v. C X X X I V , fase. 573, mar, 1952, p. 5 e ss. N o s dois volumes (1942 e 1947) da p u b l i c a ç ã o Crime e contravenções, do Serviço d e Estatística Demográfica, Moral e Política do Ministério da Justiça, encontram-se, t a m b é m , abundantes informações sobre o assunto. Elas se apresentam, entretanto, de f o r m a tão prolixa e analítica, e sem quadros de resumos, que tornam extremamente penosa a sua utilização.
7

Esta estimativa sobre a c o m p o s i ç ã o p o r cor das populações consideradas foi

feita s o b r e os resultados do recenseamento de 1940, acrescidos, para o último decênio, da taxa geométrica anual de 2%.' * N a interpretação desses dados é preciso ter em mente, por outro lado, q u e u m m a i o r contingente de elementos de cor nos presídios não significa necessariamente m a i o r incidência de delitos entre eles, mas sim maior incidência d e condenações, o q u e é coisa diversa. Em inquérito preliminar feito pela licenciada Malca Beidcr, em 1950, q u a n d o aluna de Sociologia da Faculdade Nacional de Filosofia, sobre a composição social e étnica dos corpos de jurados no D i s t r i t o Federal e Niterói, ficou exaustivamente d e m o n s t r a d a a concentração deles entre os brancos de classe média e superior. ' G. B. S. Man and superman, 1 9 1 6 , p. XVIII.

e impõem-se com a força sancionadora das leis. e é no plano de atitudes que ele carece . aquele que reside precisamente na naturc/a sutil e subjetivada das reações que ela provoca no comportamento individual.Nossos inquéritos c a análise d c seus resultados . N a fase particular de desenvolvimento histórico em que se encontram hoje as relações interétnicas no Brasil é de extrema pertinência que o observador lance suas vistas para o problema dos valores. Essa contradição que se revela entre os valores sociais c as pautas de conduta individual não é. por outro lado. e que são.O problema da mestiçagem e a diversa incidência dc estereótipos sobre o negro e o m u l a t o . atitudes e estereótipos raciais. e assim. mais sutis. o problema n o Brasil reveste aspectos mais interiorizados. A significação de uma análise deste tipo não está apenas no plano metodológico. gerado pelas relações entre esses grupos. de forma aparente e dramática. Por motivos que aos poucos estamos procurando diagnosticar. responsáveis pelo caráter que hoje têm e pelo rumo que terão a m a n h ã essas mesmas relações. o n d e os valores sociais ligados à discriminação racial cristalizam-se em normas.em conseqüência das transformações que se operam nas bases da sociedade brasileira — entre a estrutura social e os seus produtos ideológicos. em visão de conjunto. estereótipos e relações de raças C o n c e i t o de atitude c de estereótipo . senão o reflexo dc uma contradição mais p r o f u n d a e f u n d a m e n t a l que ocorre .Significação sociológica dos d a d o s apresentados. é possível documentadamente interpretar.Sua f o r m a ç ã o e f u n ç ã o no mecanismo das relações dc raças . mas também no fato de se poder surpreender aqui discrepâncias entre a atitude real e a opinião confessada. sobre o assunto que nos permite tocar diretamente n u m dos pontos críticos da situação racial brasileira. em grande parte. 1 N e m sempre aqui aquelas contradições se objetivam. n ã o raro em normas jurídicas. mas que só mais tarde.CAPÍTULO V Atitudes. como se observa noutros lugares. erguidas à categoria de "razões de Estado".

pois o caráter socialmente adquirido das atitudes . foram apresentadas pelos escritores racistas como biologicamente d e t e r m i n a d a s e hereditariamente transmitidas. Até d o r m i n d o ele tem a atitude e ela representa a tendência. Em segundo lugar. com os quais muitas atitudes foram. E importante acentuar aqui as implicações principais deste conceito. A a t i t u d e . em errto srnl ido. em certo sentido. A relativa constância de algumas atitudes adquiridas n a fase plástica da vida infantil.170 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO de ser estudado cuidadosamente. e isso é essencial. c o n f u n d i d a s . E m primeiro lugar. para mais clara inteligência do texto.e hoje. foi o que levou a psicologia social de certa época a hipertrofiar a i m p o r t â n c i a dos "instintos". entretanto. a outra. C o m o se vê. ao lado delas. socialmente adquiridas. . a fim de dar à exposição a necessária fluidez e permitir aos que a seguem n o ç ã o exata dos fundamentos teóricos das proposições apresentadas. tem atitude hostil ao negro. * * * N o contexto deste trabalho usamos a expressão atitude p a r a designar aquelas tendências. a este passo. capacidade e orientação potencial de agir de certa f o r m a . Nada menos verdadeiro. pois nelas reside o que o conceito tem de fundamental. mais do que nunca. mas se não confunde com ela. já se inclui até a memória. sem confundir. alguém que tenha uma atitude hostil ao negro. ou predisposições. u m a predisposição. a percepção e outros processos psicológicos — é inerente à sua própria conceituação. Assim. por exemplo. definir precisamente as premissas donde p a r t i m o s . uma t e n d ê n c i a a agir de certa forma. é c o n v e n i e n t e . a atitude com a ação. t o r n a r explícito o quadro conceituai c o m que estamos trabalhando. entretanto. pndr existir m e s m o que não exista a ação correspondente. há que c o m p r e e n d e r q u e as atitudes são socialmente f o r m a d a s e é c o m o resultado de experiências sociais anteriores que as atitudes são adquiridas e integradas às pautas individuais de conduta. a reagir de determinada forma em face de determinada pessoa. o conceito acima proposto e n t e n d e a atitude como um "estado de p r o n t i d ã o " . por muito tempo. sendo predisposição. a predisposição a agir de uma c não de outra forma no m o m e n t o cm que a atitude sc manifestar cm atos. coisa ou situação. Esta completa. desenvolvendo análises q u e aqui apenas ensaiamos. mesmo sem estar agredindo um negro cm plena praça pública. As atitudes raciais. no processo de formação da personalidade.

a atitude pode existir. Na da sociedade. Assim. Antes. que nos parecem de grande importância n o condicionamento das atitudes que e n c o n t r a m o s nos estudantes do Rio de Janeiro por nós investigados. E i s . chega até a ser d c deliberada simulação. às vezes. entretanto. D e n t r e eles. à base dos inquéritos feitos no decorrer desta pesquisa. As atitudes se podem formar. só significam a ruptura do equilíbrio entre a atitude real e a opinião confessada. Essas racionalizações das atitudes que se chocam com os valores confessadamente aceitos fazem c o m q u e elas se apresentem de formas as m a i s diversas. Exposto sumariamente o conceito de atitude c o m que estamos operando. engendrada p o r certos tipos de influencias sociais. a que ela se opõe. obrigando-a a interiorizar-se c a d a vez mais. para que possam ficar mais claros os processos pelos quais as atitudes são geradas e propagadas. que é aquela pela qual geralmente os indivíduos são julgados pelos que com eles e n t r a m em contato na vida quotidiana.p o d e gerar uma atitude hostil aos " h o m e n s d e cor" em geral. a desajustamentos da personalidade e a estados neuróticos que eventualmente se manifestam de modo aparentemente abrupto e surpreendente e que.1 i c l a ç á o r n t i c a íoima< ao d c d e t e r m i n a d a s a t i t u d e s e a estrutura p o i s q u e a c o n s t â n c i a das e x p e r i ê n c i a s s o c i a i s n u m s e n t i d o só i n d i c a a n a t u r e z a e s t r u t u r a l das c i r c u n s t â n c i a s q u e p e r m i t e m essa a c u m u l a ç ã o . sanções e coerções da vida social permitam que ela esteja freqüentemente se manifestando em atuações abertas. um empregador que tenha tido sucessivas experiências fracassadas com empregados de cor — pela acumulação dessas experiências sempre num mesmo sentido .A T I T U D E S . não será demais apontar os principais mecanismos por meio dos quais elas se formam e se difundem. essa repressão c frustração de atitudes podem conduzir a conflitos internos. a sublimações c transferencias. a l i á s . independentemente de quaisquer atributos individuais. através de u m m e c a n i s m o que. d e certo grau e pressão. julgamos que assim será mais fácil c o m p r e e n d e r a natureza do fenômeno que a d i a n t e procuraremos estudar. porque vão de encontro a outra o r d e m de valores e normas. a explosões agressivas. porém. ESTEREÓTIPOS F. sem que os controles. e se conservem virtuais p o r muito tempo. por acumidaçãosucessiva de experiências d o mesmo tipo. o q u e torna u t ó p i c a s ( n o m a i s a u t ê n t i c o s e n t i d o da . hipótese dc atitudes formadas p o r acumulação verifica-se mesmo n i t i d a m e n t e . RELAÇÕES DE RAÇAS 171 Desse m o d o . Em muitas circunstâncias. t a m b é m socialmente aprovadas. muitas vezes. primeiramente. a mascarar-se de diversas formas. queremos destacar quatro.

tendem a alterar. a história tornou tão análogas. a partir de um ponto inicial. ao menos. consciente ou inconsciente. é o que falta a muitos planos e sugestões puramente catequistas de combate ao preconceito racial e é o que os destina. Essa verificação. sociais e educacionais fazem do negro o veículo fácil de todas as aberrações sociais. tendem a se integrar n u m a atitude tínica de defesa. ou. e essa condição. que abale as raízes psicológicas da atitude anterior. conhecer os detalhes de um crime bárbaro cometido p o r u m homem de cor. geralmente de forte conteúdo emocional. ou deformações. as condições econômicas. Assim.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO expressão) todas as tentativas de impedir a propagação de atitudes ligadas a determinadas formações. do misticismo. criam. ao fracasso. haja u m a fusão de atitudes contrárias à ascensão social das massas trabalhadoras com atitudes contrárias à ascensão social da população de cor. no que se refere á formação de atitudes raciais. produtos da m u d a n ç a social. ter início. sociais sem haver a preocupação de alterar os fatores estruturais que permitem e condicionam essas acumulações de experiências formadoras das atitudes que se pretende modificar. q u a n d o experiências dramáticas. da mala vita em todas as suas manifestações. que não é especificamente . dos quadros tradicionais de organização social que aqueles dois movimentos. u m a atitude de hostilidade contra os "homens de cor" em geral. nas condições peculiares à sociedade brasileira. quer indicar os diversos modos através dos quais uma atitude. irremediavelmente. Mesmo a substituição de certas atitudes por outras inteiramente opostas pode ter lugar. A palavra. realizando por salto o que na acumulação ocorre por fases. sobre o fundo de uma ideologia conservadora do status quo. as condições necessárias á formação de uma atitude. separando-se de outras mais gerais ou associando-se a outras análogas. Nas camadas' superiores da sociedade brasileira. divulgado pela imprensa com luxo de informações e minúcias. que passam a ser considerados autores potenciais de crimes semelhantes. por meio de uma traumatização. 2 Enquanto que nos casos anteriores há um processo mais ou menos lento de formação das atitudes. por exemplo. subitamente. Esses dois feixes de atitudes. aumentando de maneira espantosa a freqüência estatística com que ele aparece na crônica da criminalidade. diz-se que elas se formam por traumatização. no caso. pode gerar. N o Brasil. a identificação histórica da população de cor com as camadas laboriosas e mais pobres da sociedade tem servido para que. relativamente elementar. A integração é outro processo pelo qual muitas atitudes se formam. vai-se t o r n a n d o cada vez mais definida e mais específica. que. em muitas pessoas.

Três delas são estabelecimentos oficiais de ensino médio e a quarta. As escolas foram tomadas ao acaso. do cinema. da melhoria d e sua posição na escala de valores que a sociedade cultiva a seu respeito e que os brancos integram. f o r m a m . desde cedo. oficina. ESTEREÓTIPOS F. ginásio tradicional da zona sul da cidade. do livro. a grande influência dos grupos de contato secundário. um líder intelectual ou político. geram atitudes anti-sociais semelhantes. nas suas pautas de conduta. atualizar na mente do leitor essas noções sumárias. da educação sistemática. mas estão longe de esgotai" as infinitas situações por meio das quais elas concretamente se formam na vida social. imitam-se atitudes socialmente aprovadas numa esfera social determinada: família. as formas de condicionamento das atitudes acima enumeradas representam tipos. RELAÇÕES DE RAÇAS 173 negra. por sua vez. N e s t a hipótese o processo geralmente t e m lugar quando ao modelo se liga u m a idéia qualquer de prestígio ou dominação: pai. orientador. a responsabilidade social de alguém nessa posição na propagação de preconceitos raciais é tanto maior quanto maior a capacidade que têm suas atitudes de virem a ser imitadas.s e em barreira potente contra a melhoria da condição social dos h o m e n s de cor. partido. é fonte permanente de fatos que traumatizam o espírito da população branca. Como se vê. em conseqüência d o prestígio de que desfrutam tais pessoas nas esferas sociais em que a t u a m . u m sacerdote. imitados. mestre. escola. As atitudes ainda se p o d e m formar por imitação. engendrando atitudes hostis ao negro. embora seja específica da organização social em que o negro vive. Isto acontece porque. comunidade etc. porque elas nos pareceram indispensáveis ajusta interpretação dos resultados a que chegamos nos inquéritos feitos no Distrito Federal para determinar diretamente as atitudes raciais que inspiram o comportamento da amostra de população por nós estudada. uma autoridade piiblica que tenha atitudes racistas são fontes latentes de propagação de suas atitudes e modelos que. das técnicas de propaganda. isto significa que u m educador. Por outro lado. n a sociedade de massas do nosso t e m p o . seita. escolhidas aquelas nas quais foram obtidas condições que facilitavam a coleta do material. 3 Evidentemente. Esta amostra foi composta de aproximadamente 350 4 alunos de escolas secundárias do Rio de Janeiro. há que ter em vista. entretanto.ATITUDES. chefe. guia. do rádio na formação das atitudes e n a sua propagação. imitando-se tais modelos. Neste caso ela é formada pela reprodução d o comportamento de um modelo. da imprensa diária. ao menos. atitudes que. N o u t r o s termos. Quisemos. colocados em posição de prestígio. um colégio particular. . líder. ou.

atitudes e estereótipos sobre a população de cor. sem que tenha. 6 Bem sabemos quanto ainda é tosco o instrumento que empregamos nesta sondagem. nos principais . por outro lado. de sempre pedir as opiniões sobre os grupos de cor simultaneamente com as opiniões sobre outros grupos nacionais. partiu-se da preliminar segundo a qual eles tinham menor facilidade e mais fraca intenção de racionalizar suas atitudes. pareceu-nos devia ser o tipo escolhido. a fim de que os resultados do c o n j u n t o refletissem apenas as atitudes dos alunos brancos. perfeitamente à vontade para declarar q u e estes a que chegamos só valem na medida em que eles coincidem c o m resultados semelhantes que alcançamos por outras vias de investigação e de interpretação da situação racial n o Rio de Janeiro. Por outro lado. havendo concentração maior nas idades inferiores daquela distribuição. segundo as idades. Esta coincidência sé m a n t é m . O instrumento de coleta utilizado foi o questionário escrito. adolescentes de classe média. a mesma dose de confiança na segurança das respostas. já plenamente desenvolvida. Entre eles foram encontrados 38 alunos de cor . mais de uma vez já tivemos a oportunidade de fazer a crítica sistemática do mau hábito que têm alguns pesquisadores de generalizar conclusões baseadas apenas em resultados de testes escritos. perigo que pareceu-nos maior se trabalhássemos com adultos. especialmente organizado com a preocupação dc facilitar ao máximo a tarefa de q u e m o respondia. substituindo-as por opiniões confessadas. Os seus objetivos reais foram omitidos e os professores apenas explicavam às turmas que o questionário visava conhecer a opinião dos jovens de todos os países sobre os jovens de outros grupos. a atitude crítica do adulto. p o r é m apenas formais. países. embora vivendo uma fase repleta de conflitos afetivos. sem deixar transparecer que nosso interesse se concentrava na determinação de opiniões.174 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O s inquéritos distribuíam-se. que o são na sua esmagadora maioria. nações e raças. ou seja. Ao lado disto. Esta explicação completava a preocupação havida. o inquérito feito entre crianças não daria. O adolescente. 5 A aplicação dos testes entre adolescentes foi deliberada. por certo. entre os limites extremos de 13 a 22 anos. crises emocionais e revisão de valores.pouco mais de 10% — cujas respostas foram apuradas em separado. na preparação do questionário. e indicada não apenas pela maior facilidade que se e n c o n t r a em trabalhar com eles numa operação deste tipo. entre 13 e 18 anos. em geral. Ficamos. por refletir mais diretamente as influências que lhe são inculcadas não somente no lar mas t a m b é m nas esferas mais largas de que já participa. por isto m e s m o . diante delas.

o grupo permite a penetração dos indivíduos da condição étnica que está sendo estudada. morando na mesma rua ou n o m e s m o edifício. uma família: idem. ibidem (escreva . em relação à esfera mais íntima. b) tentar verificar a influência que têm a condição de negro e a condição de mulato na maior ou menor simpatia ou hostilidade revelada em relação às pessoas de cor em geral. Emory Bogardus 7 e já largamente aplicados por ele e p o r outros. A escala que propusemos aos nossos inquiridos foi a seguinte: 1) Você se importa de ter em sua casa. O primeiro problema foi analisado por meio dos processos sugeridos pelo Prof. sondagens como essa devem ser muitas vezes repetidas e diversificadas nos seus processos e objetivos a fim d e ampliar cada vez mais a área conhecida da tão falada e ainda t ã o p o u c o estudada situação racial brasileira. material e equipe. ibidem 3) Você acha que seus país se importariam se você levasse para u m a festa de aniversário em sua casa um conhecido: idem. por outro lado. RELAÇÕES DE RAÇAS 175 resultados atingidos.ATITUDES. que. visava recolher material empírico sobre' as três seguintes questões: a) tentar a determinação objetiva de u m a escala de distância social. É óbvio. c o m m a i o r abundância de recursos. o que nos deixa. ESTEREÓTIPOS F. quanto à fidedignidade. restringindo deliberadamente seus objetivos a alguns poucos problemas específicos. A escala consiste n u m a série de perguntas que configuram situações de crescente aproximação e intimidade com referência a indivíduos d e diversa condição étnica. c) tentar a identificação d e alguns estereótipos raciais mais aparentes sobre o negro e o mulato. A apuração das respostas permite ver até que p o n t o de aproximação. Nosso questionário. satisfatoriamente recompensados pelo esforço. como vizinhos seus. como empregada sim ou não adiante de cada uma): uma chinesa uma negra uma argentina uma mulata uma americana 2) Você se importa de ter.

do casamento do próprio inquirido com pessoa nesta condição étnica. reflitam. a de vizinhos n a mesma rua ou edifício. finalmente. principalmente. configurou-se uma situação de igualdade sem intimidade. em parte. qual seja. a posição de empregado. ter-se-á o m á x i m o grau de intimidade material e afetiva. como não é provável que o jovem tivesse a liberdade de fazer tal convite indo de encontro à vontade dos pais. pois se trata de convidar alguém para uma festa cm casa. A pergunta seguinte cria uma situação de maior intimidade e aproximação mas que pode ainda ser formal. ibidem 6) Você mesmo se casaria com u m a pessoa: idem. Neste caso. pelos motivos que adiante serão analisados. ibidem 5) V o c ê se i m p o r t a r i a se s e u irmão (ou irmã) se casasse c o m uma pessoa: idem. Este inconveniente nos pareceu diminuto pois é de todo provável que todas as respostas. As duas últimas perguntas sucedem-se configurando o problema do matrimônio c o m pessoa de cor criando uma relação de parentesco. redação que discrepa das demais. A redação desta pergunta obrigou-nos a perguntar ao aluno qual a provável opinião dos pais. O objetivo foi começar colocando os grupos em posição subalterna. e não somente esta. correspondendo. preferimos evitar este problema de conflito de opiniões p e r g u n t a n d o explicitamente o que achava sobre a provável atitude dos pais. 8 A pergunta seguinte estabelece diante do inquirido uma relação hierárquica de u m a pessoa de cor que tem sobre ele u m a parcela de autoridade.176 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO 4) Você se importa que o inspetor ou encarregado de disciplina do colégio seja: idem. Em seguida. A apuração das respostas a esta pergunta nos convenceu de que seus objetivos foram. por sua vez. resultante do casamento de u m irmão com pessoa de cor e. ibidem A gradação proposta nas perguntas acima transcritas é discutível c o m o é igualmente discutível qualquer outra que se proponha em substituição a esta. frustrados. 9 . a opinião dominante na família do aluno. Por outro lado. à situação que mais freqüentemente se ajusta à experiência d o jovem brasileiro de classe média no que se refere à posição dos elementos de cor no âmbito doméstico.

no Brasil.ATITUDES. pois estamos colocados num p o n t o . a interpretação correta daquele primeiro resultado dos inquéritos procedidos deve levar e m conta o seguinte: a) no que se refere às relações de raças. b) hoje. pois aqui temos u m característico exemplo de q u e só assumindo um ponto de vista rigorosamente crítico em face do que o senso c o m u m e a meia ciência consideram óbvio é possível progredir no sentido d e uma verdadeira ciência das relações humanas. ainda não entraram plenamente em jogo todos os fatores que. ESTEREÓTIPOS F. é desempenhada pelo preconceito. e que se caracterizava pela subalternização econômica. devemos ser cautelosos nas afirmações eufóricas sobre a ausência de preconceito. com a qual a maioria dos que analisam sttperficialmente o problema parece se contentar. n o contexto deste estudo. O que em primeiro lugar se observa é que o número absoluto dos que revelaram não ter preconceito racial é maior do que o dos que indicaram possuí-lo. tendem a agravar o p r o b l e m a racial neste País. fazendo repousar sobre ela u m exagerado otimismo. gerada pelas condições objetivas dò paternalismo. do qual estamos historicamente nos afastando. o preconceito não tinha uma função d e f i n i d a na defesa de determinadas posições sociais. no Brasil. a função que. RELAÇÕES DE RAÇAS 177 A apuração e análise cias respostas obtidas por esta série de p e r g u n t a s revelaram alguns aspectos que nos parecem dignos de menção. dentro dele. a desnecessidade de pensar n u m assunto que já parecia tão b e m regulado pelo fluxo da vida quotidiana desempenharam. Por isto m e s m o . só podia ser apontado como livre d e preconceitos porque. no plano psicológico. defrontando uma situação em mudança. para nós é aquela que. A subordinação objetiva da parte negra e mestiça d a população e a lentidão com que ela subjetivamente reagia contra essa situação tornavam socialmente desnecessárias as atitudes discriminativas. na maioria dos casos. a impressão de que tudo decorria da ordem natural das coisas e. resultantes das transformações que se estão operando na sociedade brasileira. o padrão social anterior. pela luz qLte p o d e m trazer ao estudo da situação racial brasileira. já que estas não estavam. e dentro do padrão tradicional das relações de raças. O I n ã o L se sentiam. U m a vaga tolerância. Desse modo. jurídica e psicológica da população de cor e m todos os planos da vida nacional. carece de m a i s cuidadosa análise. ameaçadas pela mobilidade social dos elementos de cor q u e era praticamente nula. Esta observação. e preferindo n ã o discutir esses resultados por considerálos óbvios. certa certeza í n t i m a de que tudo estava no seu devido lugar. n o u t r a s fases do processo.

o n ú m e r o dos que disseram que não gostariam de ver esse posto.178 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO da curva histórica em que. Mesmo assim. ainda não é possível. Evidentemente. ou bedel.quer preto. mas. o aluno não o encara c o m o alguém que possa ser considerado socialmente superior a ele. exerça ação supervisora e disciplinadora sobre eles. quer dele próprio. por outro lado. quer de pessoa da família do inquirido. não resta a menor dúvida de que a tensão racial em perspectiva e em processo torna alterando o padrão muito mais importante a análise dos fatores que estão ainda tradicional do que a mera constatação do que acaso dele remanesce. no quadro geral dos status dentro do estabelecimento. referentes à atitude em relação à vizinhança com pessoas de cor e ao empregado doméstico de cor. embora nas relações c o m os alunos o inspetor. O inspetor é u m empregado do colégio e como tal os alunos o encaram.foi parcialmente frustrado. o c u p a d o por pessoa de cor. com referência aos mulatos do que com referência aos negros. Dissemos que a maior parte das respostas revelam atitudes não discriminativas e m todas as perguntas. é maior n a hipótese de o inspetor ser negro do que na hipótese dele ser mulato. naquelas perguntas. que o objetivo desta pergunta — q u e foi ver como o aluno branco reagiria à idéia de ter uma pessoa de cor em posição de exercer sobre ele uma ação disciplinadora. em todas as demais. menos naquelas que se referem ao casamento interétnico. quer mestiço — ocorreu na pergunta n ú m e r o quatro. p o r pequena diferença. não é necessário e fatal que a situação racial brasileira evolua no sentido do agravamento extremo dos problemas de convivência interétnica. no seu colégio. que se refere ao inspetor ou encarregado da disciplina. a discriminação contra o negro revelou-se mais forte do que contra o mulato. 1 0 A m e n o r freqüência de respostas indicando atitudes discriminativas contra os elementos de cor . É preciso confessar aqui. sobre assunto de tal relevância. A não ser na primeira e segunda perguntas. sugerindo a idéia de que a aversão aumenta na medida em que escurece a pigmentação da pele. porém. a verdade é que. concluir com tão exagerada segurança. o número de respostas indicando ojeriza foi maior. Isto porque. D e fato. a hostilidade ao negro revelou-se mais forte do que ao mulato. Essa exceção é significativa e adiante nos demoraremos mais na sua análise. cientificamente. por outro lado. decorrente de sua própria função . Este p o n t o é fundamental e de sua incompreensão resulta grande parte das impropriedades já ditas e escritas sobre a situação racial brasileira. em regra. não . sua posição é tão subalterna que.

nas duas perguntas finais da escala. especialmente feminino. ESTEREÓTIPOS F. domésticas de cor. Escusado é dizer que essa institucionalização do status pessoal p o d e ocorrer e com freqüência ocorre na sociedade em geral. que exploravam o t e m a da falta de empregadas domésticas no Rio de Janeiro. entre autoridade e prestígio. que indicam ser de empregado doméstico a posição tradicional do elemento de cor. de anjo rebelado. num total de pouco mais de trezentos estudantes. descarregarse contra o elemento de cor a tensão social gerada nas áreas metropolitanas e industrializadas do Brasil pela carência. foi baixo o número das que indicavam preconceito contra a e m p r e g a d a doméstica de cor. fazendo com que — como nos narrou Koster — um preto capitão-mor seja encarado como sc fosse branco. Essa diferença entre status formal e status pessoal. pareceu-nos elevado o número dos que. identificado. a posição mais distante . de empregados domésticos. mais uma vez.ATITUDES. E possível que isto se explique pelo fato de. em suas residências. como já assinalamos.cada vez'mais diverso da amorável e servil "mãe preta" de a n t i g a m e n t e — transfere-se para o elemento de cor.por ser a mais subalterna —. Dir-se-ia que o preconceito contra as novas atitudes. Aqui. RELAÇÕES DE RAÇAS 179 c o m o uma autoridade superior. e pelo novo tipo. o que sc refere às atitudes com respeito ao intercasamento de pessoas de filiação étnica diversa. está. em nossa sociedade. e de ser esta. Em face das circunstâncias atrás referidas e documentadas. dá à função um caráter por demais institucionalizado e possivelmente isso influiu na circunstância de ser esta a pergunta em relação à qual ocorreu o m e n o r número de respostas indicativas de preconceito. por outro lado. Um dos resultados mais característicos que encontramos . no seio d a família brasileira. Em relação ao total das respostas. historicamente. do empregado doméstico dos novos tempos .é. H o u v e até respostas cômicas. deslocando-se do grupo profissional para o grupo étnico que com ele. entretanto. como acaso se poderia esperar cm face da tradição e da posição subalterna social considerada. n a escala por nós configurada. indicaram não querer. Note-se. Convém assinalar. que esta foi u m a das poucas perguntas da escala estabelecida nas quais a atitude hostil ao mulato revelou-se mais forte do que contra o negro. que não foi nessa pergunta que ocorreu o menor número de respostas discriminativas. que ao assunto se referem. o número de respostas indicativas de oposição ao intercasamento .resultado q u e será surpreendente para os que têm o u falsa ou ingenuamente interpretado a significação sociológica da mestiçagem no Brasil .

que tratam do intercasamento cie q u e m respondia. D e fato. ao menos. uma atitude não-discriminativa. traduzem. enquanto nos anteriores graus da escala de distância social que a p r e s e n t a m o s aos nossos inquiridos e n c o n t r a m . desde que se coloca diante dos jovens inquiridos o problema do connubium inter-racial. entretanto. aqui.quando. n ú m e r o que aumentou para 2 5 4 — mais de dois terços . da primeira a quarta. Note-se. ainda. as dificuldades da própria definição rigorosa do que seja um mestiço e a situação de marginal biológico e social em que ele se encontra conduziriam à ambivalência ou. essas mesmas gradações. c o m pessoa de cor. é m e n o r q u a n d o sc trata de opinar sobre o casamento ctnicamcnte misto de um irmão (ou irmã) e maior quando a pergunta se refere ao próprio inquirido. do mesmo modo. ou de um parente seu. que o n ú m e r o de pessoas que indicaram n ã o ter opinião formada sobre o assunto foi maior quando se figurava a hipótese de casamento com mulato do que quando se tratava de negro. para 208. P e r g u n t a n d o a um grupo de 313 moços e moças se se importariam com o fato de u m seu irmão (ou irmã) casar-se com u m a pessoa de cor preta. o que sugere atitudes mais integradas em relação a estes. a uma menor clareza e coerência na definição de atitudes referentes ao intercasamento com pessoas mestiças. Assim é que a atitude hostil em relação ao intercasamento é mais forte q u a n d o se trata de preto do que quando se trata de mulato. pelo m o d o c o m o se revelam.s e altos e baixos. e revelada nas respostas b) u m a tendência nitidamente discriminativa com relação às duas últimas. E m relação ao mulato. Existem gradações na intensidade com que o preconceito se manifesta. foi-lhes perguntado se eles m e s m o s se casariam com pessoa preta. na hipótese de o próprio inquirido casar-se com pessoa mestiça. a presença dele.180 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO parece assinalar o ponto crítico de transição entre as duas grandes linhas de orientação em que podem ser grupadas as respostas obtidas: a) u m a tendência vagamente não-discriminativa às primeiras perguntas. no conjunto. os que discordaram d o matrimônio de seu irmão (ou irmã) c o m pessoa desta condição étnica f o r a m 177 e passaram. em relação aos primeiros. logo em seguida. aqui como em qualquer parte e como em relação a qualquer preconceito. de maneira ainda mais típica. a coerência das respostas se acentua e sc define n u m a atitude nítida e fortemente discriminativa contra as pessoas de cor. p r e d o m i n a n d o . enquanto que. 198 responderam que se opunham a esse casamento. .

na medida em que aumenta o grau de aproximação e intimidade nas relações sociais. n u m plano de igualdade relativamente formal. Nas posições de mais aproximação e intimidade (intercasamento racial) as atitudes discriminativas revelam-se nítidas e definidas. RELAÇÕES DE RAÇAS 181 Os resultados a que chegamos na análise daquelapartedo questionário empregado que procurou estabelecer u m a escala de distância social p o d e m . das circunstâncias mais ou menos públicas ou privadas dentro das quais as relações se vão estabelecer. Na verdade. N ã o raro. pró ou contra. Assim. e até a se transformarem . c) há uma tendência clara. O problema depende não só das posições sociais respectivas do branco e da pessoa de cor. que se podem manter por tempo indefinido. considerados quer individualmente. d e n t r o de cada situação configurada. b) nas posições de maior distância social a definição das atitudes é menos nítida. e intercorrentemente. Neste sentido. q u a n d o for abordado o problema dos estereótipos. precisamente porque se mantêm naquele nível relativamente formal. nas respostas a todas as perguntas.para desespero daqueles que gostam de encontrar respostas fáceis para as interrogações extremamente difíceis que a realidade social põe diante de nós —e resulta de um número de variáveis interdependentes m u i t o mais plural do que geralmente se supõe. mas também. que m u t u a m e n t e se excluem. do grau e natureza da relação a ser estabelecida e. a aspiração de um progressivo "branqueamento". independentemente dos matizes. ser resumidos da segtiinte forma: a) tende a se acentuar a atitude discriminativa contra as pessoas d e cor. muitas delas tendem a fracassar. ESTEREÓTIPOS F. t a m b é m . freqüentemente existem entre brancos e pessoas de cor. sim ou não. a ser menos acentuado o preconceito em relação à aproximação com o mulato do que em relação ao negro. a questão é m u i t o mais complexa . Ver-sc-á adiante.ATITUDES. relações de companheirismo. representando maioria absoluta e relativa das respostas. corresponae realmente ao fato. que se nota tão vivo em muitos elementos de cor. que a questão da maior ou m e n o r receptividade do branco ao elemento de cor não é um problema c o m p o r t a n d o apenas alternativas polares. quer como grupo. por exemplo. entretanto. de que a aproximação e intimidade com o negro é mais hostilizada pelo branco do que quando se trata de um mulato. embora haja clara predominância das respostas não-discriminativas. agora documentado. assim. do matiz mais ou menos pigmentado d o indivíduo de cor.

e uma relativa paz e tranqüilidade de consciência por parte do branco. direto ou indireto. podem não servir como "amigas". Quando. Relações assim mais íntimas são sempre em menor número do q u e aquelas apenas formais. que com seu cripto-racismo evita de ser considerado racista tout court num país onde "não existe o preconceito de raça". aquele que você escolheria: . podem ser boas como "colegas". na prática. precisamente porque muitas pessoas que. dificilmente deixa de se considerar de alguma forma estigmatizada por saber que a sua cor influiu como fator de limitação de sua capacidade de participação em determinadas esferas sociais. é o que resulta. esta. acaso. passíveis de mensuração através do emprego de questionários. em cada uma das duplas abaixo relacionadas. Geralmente. Os testes feitos com o grupo de jovens brancos que tomamos como amostra nos inquéritos a que procedemos permitem observar alguns ângulos dessa questão. U m p r o f u n d o ressentimento por parte da pessoa dc cor . acima enunciada em termos gerais. dentre aquelas. penetram em círculos mais estreitos de aproximação. um companheiro para ir em sua casa estudar com você para a próxima prova parcial.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO em incompatibilidade. em regra. como forma precária de acomodação. as boas maneiras e a boa educação. porém. por ser tal atitude considerada "deselegante". Assim é que obtivemos 3 1 4 respostas à seguinte pergunta: "Imaginemos que você tenha de escolher. para não vulgarizá-lo pela exteriorização e pela aparência de que faz muita questão daquilo que lhe negam . em suma. embora freqüentemente possa haver a preocupação de omitir esse fato. exatamente q u a n d o se tornam menos formais.tanto maior quanto ela deliberadamente o esconde. obrigam a freqüentar. a apresentar à família. em cada uma das combinações. ganham maior intimidade. o que daí resulta é que o branco não se sente racista p o r isto. para uma terceira. como convém "entre cavalheiros". c muito raro que a condição étnica não seja apontada como fator. obtida através da obediência a essas regras de etiqueta racial. Escreva. tudo decorrendo dc acordo com o b o m tom. são selecionadas dentre as primeiras à luz de um critério mais rigoroso de afinidades sociais e psicológicas. já que estas últimas. esses critérios consideram que determinada pessoa de cor serve como mero "companheiro" mas não serve como "amigo". é claro. já que admite o companheirismo com pessoa de cor. da exclusão de alguém do círculo das relações mais íntimas dc outrem.

a situação é bem outra.22% 218 = 24.66% 146 = 16. RELAÇÕES DE RAÇAS 1 83 Entre um branco e um mulato Entre um m u l a t o e um preto Entre um preto e um branco - escolheria o escolheria o escolheria o Ao todo foram feitas pelo grupo.22% 900 = 100. cor. a que se refere aos "indiferentes". Escolheram: Entre um branco e um mulato Entre um mulato e um preto Entre um preto e um branco 206 128 — 111 35 75 73 Branco 216 Mulato 28 Preto Indiferente 70 Vê-se nos dados acima que os pretos e mulatos também mereceram a preferência de muitos. D e acordo com as últimas conseqüências das opiniões ingênuas. ESTEREÓTIPOS F.não a cor mas as qualidades morais e intelectuais é que lhes importariam na escolha do companheiro.ATITUDES. sendo que. neste caso. Já esta aparente preferência pelo preto desaparece na segunda linha. excluído o branco e. Na verdade. para os quais-segundo as justificativas que escreveram em seus questionários . em que a escolha deve ser feita entre as duas variantes Ae. o mulato teve uma preferência maior do que o negro. indicando a preferência nítida do jovem branco por u m o u t r o branco para seu companheiro de estudos. em conjunto.90% 144 = 12. ao menos. extremadas e despistadoras de alguns observadores otimistas da situação racial brasileira. Segue-se. na primeira linha os m u l a t o s tiveram menor número de escolhas d o que os pretos na terceira linha. como se vê.00% Isto significa que quase a metade das escolhas feitas elegiam o branco. quanto ao valor n u m é r i c o da parcela. a t o t a l i d a d e ou. a esmagadora maioria das respostas obtidas devia ser desse tipo. 9 0 0 escolhas que se distribuíram da seguinte forma. segundo a cor: Brancos Pretos Mulatos Indiferentes Total 422 = 46. .

que aos poucos está vindo à t o n a nas condições competitivas das comunidades metropolitanas e que transparece. o mulato. a preferência pelo branco. trata se escolhas e oportunidades. daquele cruzamento entre extremos. não se façam. Assim é que. gerar contra os híbridos. Explicá- . neste caso o mulato teve nítida preferência. embora seja majoritária em ambos os casos. embora em contínuo processo.184 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Mais uma vez encontramos aqui a contradição aparente. representam escolhas por ser mulato. o preto teve maior número de escolhas do que o mulato. de modo limitado mas não menos expressivo. foi maior na alternativa b) do que na alternativa a). Por outro lado. ou seja. Esse duplo contexto. aparentemente contraditórias para q u e m analisar o problema de um ponto de vista formal e que. vantagem sobre o negro. resulta do cruzamento de grupos étnicos que historicamente têm ocupado posições sociais extremamente desiguais. e b) o branco com o mulato. Isto parece indicar que existem aqui duas linhas de tendências. revelou-se que. contradição que poderia ser enunciada assim: do ponto de vista do julgamento tipos de relações. ele desvantagens relações. cotejando-se: a) o branco com o preto.quando o branco foi excluído como alternativa de escolha e esta devia ser feita entre um mulato c um preto. uma para e tem. inversamente. por ocorrerem dialeticamente. d a n o s s a mesma "democracia racial". só dialeticamente podem ser entendidas. a ponto de os membros de u m grupo terem entrado na nossa história social na condição de propriedade privada dos membros de outro grupo. tipos de oportunidades. . entretanto. que está em contínuo processo. usando-se agora a expressão em sentido às vezes quase pejorativo. nos resultados do presente inquérito. para determinados que. sem gerar tensões e ressentimentos. é aspecto dos mais sutis e p r o f u n d o s da situação racial brasileira. Isto faz com que a mestiçagem e os produtos de a mestiçagem. essa aparente contradição. apontada como meio e prova de nossa chamada "democracia racial". quando por ser mulato. Daí é que flui esse duplo resultado. atitudes de oposição e julgamentos negativos precisamente porque neles se encontra o d o c u m e n t o vivo. que vivem c encarnam o processo. no plano sociológico e psicológico. a propósito da incidência de estereótipos brancos a respeito d e pretos e mulatos. precisamente de outros do branco. nem se manifestem. que vai tornar-se ainda mais expressiva q u a n d o analisarmos os estereótipos raciais colhidos no inquérito. biológico e sociológico. Adiante. A mestiçagem. voltaremos ao assunto com mais vagar. que se caracteriza pelo fato de a mestiçagem. quase como sinônimo de "vergonha nacional".

quanto o questionário pedia explicitamente que se respondesse com monossílabos — analisaremos. as respostas obtidas no inquérito que visava determinar os estereótipos raciais existentes no grupo que nos serviu de amostra. é representada pelo estereótipo que t e m o s em mente a respeito do que i m a g i n a m o s que as coisas são. a seguir.pictures in our heads — usada por Lippmann" quer indicar precisamente essas idéias e imagens que t e m o s em mente. em toda sua complexidade. Desse modo. imagens e explicações que tendem a se fixar e permanecer. obscurece. p o r isto mesmo. apenas parcialmente verdadeiras e resultantes de experiências concretas. a fim de que fique clara e patente a significação que têm essas formas estereotipadas de pensar e d e julgar no mecanismo das relações inter-raciais. a estas respostas que se procuravam justificar por m e í j de comentários e comparações. que assumiam a forma de chiste. que c o n s t i t u e m a parte subinteligente de nossas opiniões e julgamentos sobre pessoas. muitas vezes. também. Aqui. quantitativamente. generalizando o resultado de experiências parciais e limitadas. E S T E R E Ó T I P O S F. na sua frieza. durante a apuração. este diz m u i t o mas não diz tudo. explicações. se desenvolvem e passam a se integrar ao sistema de valores de um grupo e às pautas individuais . As situações típicas nas quais os estereótipos nascem. é conveniente fixar s u m a r i a m e n t e o conceito básico com q u e vamos laborar. A expressão estereótipo . coisas e situações sociais com as quais entramos em relações e a respeito das quais agimos. idéias ou sistemas de idéias que. Demos muita atenção. a outra parte. u m não puro e simples vale t a n t o q u a n t o um comentário igualmente negativo. de ironia. como depoimento. A análise desses resul tados não se pode reduzir ao plano exclusivamente estatístico.ATITUDES. caracterizam o conretido alógico de nossos pensamentos. do ponto de vista qualitativo o comentário pode. RELAÇÕES DE RAÇAS 185 lo. As opiniões correntes que temos sobre as coisas são. só será possível ao traçarmos o quadro gera! das tensões raciais que hoje estão em processo na nossa sociedade. julgamentos e ações. resistindo à revisão crítica e racional. entretanto. exprimir padrões de respostas que representam um depoimento precioso sobre o estado de espírito de quem está respondendo. não lógica. desprevenidamente. quando aqui falamos em estereótipos queremos nos referir a essas imagens. Se. em grande parte não comprovadas nem demonstradas. de defesa ou de acusação. que o monossílabo. na certeza de que aí vinham à tona. u m a vez mais. não demonstrada. em regra. Ao lado da análise dessas respostas racionalizadas — t a n t o mais valiosas. as racionalizações das atitudes que estávamos tentando captar. entretanto.

"No nosso tempo" — diz o Prof. q u e é sempre socialmente engendrada. a imagem que se forma na m e n t e de uns pode ser a do mártir. Assim. logo se desenha na mente de cada um dos circunstantes o quadro. palavras como "senador". na de outros pode ser a de ser inferior. principalmente. relações que se estabelecem à base de emoções. Kimball Y o u n g — "os estereótipos refletem. avaliações. varia em relação à posição de cada u m em face das expressões concretas do que aquelas palavras exprimem no mecanismo das relações sociais. na conversa comum com um g r u p o de pessoas. é que. na vida s o c i a l — não no contato existentes sobre o negro. o estereótipo correspondente que. eles como que se interpõem entre a percepção e a realidade. entretanto. "capitalista". ou seja. n a de t e r c e i r o s p o d e ser a d e uma pessoa igual às demais diferindo apenas pela cor da pele.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO de conduta de seus membros são as situações de conflito social e de antagonismos e tensões intergrupais. mais ou menos integradas. ou uma terceira. o estereótipo correspondente. que são adquiridas. do "mulato". diferenças de classes. ou pessoa de cor de fato a que estivermos nos referindo pode ser uma coisa ou outra. c o n f o r m e o caso. ao invés de cada tipo. julgamentos. num característico sistema de reações estereotipadas. 1 2 De fato.para citar exemplos corriqueiros —. se pronunciarmos. por sua vez. a diferentes interlocutores. O negro. q u a n d o falamos do "negro". relações de raças e conflitos religiosos e internacionais". ou mestiço. O que importa assinalar. o u de "pessoas de cor". A gama variável de estereótipos. poder-se-ia dizer que o preconceito racial consiste. que. em certo sentido. Quando não se trata apenas de ouvir falar mas de entrar em relações com pessoas que se incluem n u m a categoria qualquer sobre a qual nossos estereótipos estão formados. já que estereótipos diferentes podem existir em torno de u m a mesma situação. só é compreendida quando compreendemos as relações concretas que existem entre cada situação e as demais situações com as quais ela se relaciona. a imagem. fazendo o indivíduo ver. Em relação ao negro. "selvagem". em parte. por diversos modos. uma vez formados e consolidados os estereótipos.'3 com o negro mas através da assimilação das opiniões . dificultam ou facilitam o estabelecimento de contatos e experiências novas. "protestante" . o retrato. "poeta". coisa ou pessoa. pela força estabilizadora que têm e pela fixidez que os caracteriza. as situações e pessoas paisam a ser apreciadas à luz dos estereótipos existentes.

na medida em q u e os estereótipos existem e se propagam. gera e mantém estereótipos que funcionam como barreiras. É de f u n d a m e n t a l importância compreender. eles se tornam mais consolidados. neste sentido. tem essa posição social explicada e justificada. pois em torno deles tendem a se f o r m a r correntes de opinião. defesa que se torna mais . e de uma interpretação útil dessas experiências. E somente encarando-o dentro dessa perspectiva. E S T E R E Ó T I P O S F. parciais e frustradas. Os estereótipos. por outro lado. experimental e inovador. que "o estereótipo nunca é neutro". C o m o se vê.A T I T U D E S . do que está estabelecido. a respeito dos que estão inferiormente colocados. como sendo um p r o d u t o da inferioridade racial. que são criações do grupo e não do indivíduo. mais integrados e. quer de o r d e m subjetiva. um fecundo filão de estereótipos raciais. recorda Kirrtball Young. grandemente. dentro de uma estrutura maior. inerte e subinteligente n o c h a m a d o "senso comum". d e n t r o d e cada grupo. ideologias e movimentos sociais. Ela consiste no seguinte: o negro. fazendo com que produtos do preconceito e da desigualdade de oportunidades sejam utilizados para a sua própria justificação. sua consolidação e propagação dificulta a aquisição de novas experiências. pela inércia que opõe à revisão d o estabelecido e à aceitação de inovações. na inércia mental e na falta de espírito crítico. quer de ordem objetiva. por outro lado. essa opinião. como dissemos. que impedem ou dificultam a ascensão social do negro. Em verdade. por outro lado. o estereótipo tem largo papel na economia d o esforço de pensar e se f u n d a m e n t a . mais difíceis de modificar. sempre representam mecanismos de defesa do que existe. os estereótipos agem como força estabilizadora e. entre nós. pelos portadores do preconceito. os grupos se afastam e e n t r a m em competição. e maior número de pessoas passa a adotá-los. é possível compreender a função que tem no processo de mudança social. acreditamos nós. por via de conseqüência. como diz Lippmann. historicamente colocado em posição econômica e social inferior. Ele vem a ser o que há de alógico. na medida em que. Daí se segue que os sistemas de estereótipos dos grupos socialmente dominantes. Nesse sentido pod< -se afirmar que as formas estereotipadas de pensamento e julgamento são exatamente o contrário do espírito crítico e científico e a negação do pensamento racional. RELAÇÕES DE RAÇAS 187 A inferiorização circular do negro na sociedade brasileira tem sido. tendem a se estabelecer e consolidar. ele é forjado e está sempre refletindo situações de conflito social. são a negação do pensamento crítico. Resultantes de experiências anteriores.

n u m a entrevista à imprensa. é "o mundo". por isto mesmo. Duvidar e discutir o estereótipo é. em sua casa. em ótima colocação. coisas. a defesa dos nossos estereótipos sempre se nos afigura como a defesa de algo necessário à permanência do "mundo". um ideólogo que contempla melancólico a decadência do seu mundo elabora toda uma concepção da história para convencer aos demais de que aquilo é a decadência do ocidente. que atrás analisamos. isto representa uma ameaça ao "nosso m u n d o " . que satisfaz. em nossa p r e s e n ç a . Estruturados cm concepções do m u n d o e cm esquemas interpretativos gerais. e como "nosso mundo". ameaçar o m u n d o que o produziu como uma explicação que convém. tal como ela é. c o m irritada d e s o l a ç ã o : O Brasil está perdido! A força estabilizadora dos estereótipos resiste à mudança e se opõe ao espírito renovador gerado pela própria mudança. pequena amostra. exclamou. entre os mesmos estudantes cujas atitudes raciais p r o c u r a m o s atrás identificar. que justifica e organiza a vida. Já dissemos que também houve u m que respondeu à mesma pergunta: . perguntados se se importariam de ter pessoas de cor nesta condição. traz para ela a aprovação e compreensão dos demais. desses sistemas valorativos gerados pelas situações e mudanças de situações raciais no Rio de Janeiro que devem ser encaradas as respostas que adiante serão analisadas. mas preferia uma branca". u m negro. que estamos assistindo ao fim da civilização. justifica e sanciona a "nossa" conduta em face dos outros e. u m ricaço racista ao ver o filho reprovado n u m exame no qual fora aprovado. Não poucas respostas oferecidas às perguntas que c o m p u n h a m a escala de distância social. racionaliza. duvidar ou ameaçar a sua vaiidez como explicação e julgamento do mundo. ou então: "Não. esses sistemas de valores competem entre si em grandes pugnas ideológicas. que são o reflexo na mente dos homens da transformação incoercível da realidade social. pessoas e situações com as quais entra em contato. precisamente no momento em que se começa a discutir. se não encontrasse uma branca".188 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO evidente e mais cerrada. sendo o retrato que o grupo faz de si mesmo e dos outros grupos. explica. Mesmo em relação à condição de empregada doméstica. houve os que responderam: "Não. O estereótipo. põe as coisas e m seus lugares. demonstravam a tolerância em relação às pessoas de cor como segunda e inevitável alternativa. É como amostra. Se se põe em dúvida o estereótipo que temos e cultivamos. por m e i o de questionários. na medida em que é coparticipado. para nós. e que foram colhidas através de sondagens diretas. um candidato que vê declinarem as possibilidades eleitorais desua candidatura diz. filho d e u m a lavadeira.

O que se insinua no começo da resposta . RELAÇÕES DE RAÇAS 189 "Lá em casa estamos precisando de uma empregada. são tanto mais expressivas q u a n t o se reportam a uma condição nitidamente subalterna e que corresponde à posição tradicional da mulher de cor na família brasileira. referente ao casamento com negro. s o m a d a ao fato de ser esta ainda a posição em que se encontrava a maior parte das mulheres de cor que no Distrito Federal têm uma atividade remunerada fora d o âmbito doméstico.casar-me-ia com descendentes de pretos . naquele m o m e n t o e naquelas circunstâncias. . portanto. quer absoluta. E S T E R E Ó T I P O S F. esta última resposta reflete o mesmo estado de espírito q u e transparece explicitamente noutra resposta à mesma pergunta: "Se fosse possível preferiria uma branca". Assim encontramos uma jovem que.A T I T U D E S . sinal mais aparente da filiação étnica. interpretação tanto mais pertinente q u a n t o é notório que a atração da mão-de-obra feminina para outros ramos de atividade. sua necessidade e sua procura. sem a m e n o r dúvida. mas não que o problema da cor fosse inexistente. que deixaria de ter importância desde que não fosse aparente. o problema do empregado doméstico era mais i m p o r t a n t e para quem respondia. Este modo de responder. Ao lado do problema do serviço doméstico. Alguns inquiridos que se permitiram buscar razões para esta atitude fornecem-nos indicações valiosas sobre os fatores sociais que a condicionam. à última pergunta. manifestou-se nitidamente contra o m a t r i m ô n i o com pessoas de cor. para os que assim pensam. e não a filiação étnica c o m o tal. A natureza e intensidade das resistências ao e m p r e g a d o de cor. Parece visível aqui que. a u m e n t a n d o . parece indicar que cresce a tendência a tolerar a e m p r e g a d a de cor como um mal necessário. Neste sentido. o problema fundamental é o da cor. tende a d i m i n u i r a oferta de mão-de-obra feminina para o serviço doméstico. em conseqüência principalmente da industrialização. Esta circunstância. quer relativa. os comentários mais significativos às perguntas feitas são aqueles que se referem ao casamento interétnico. revela que. Analisando a freqüência de respostas às duas perguntas que se referem a este problema já dissemos que a maioria. respondeu: "Não me importaria de casar c o m um descendente de pretos mas contanto que não se notasse a cor".fica explícito no fim quando vem enfaticamente declarado . aliás.contanto que não se notasse a cor. reveladas por estas respostas. seja de q u e cor ela for".

E note-se que. com negras e mulatas. entre os cônjuges. mas mestiça. À mesma pergunta. é uma outra resposta encontrada. Dessa maneira. com os elementos disponíveis. via de regra. a circunstância de a quase totalidade dos rapazes interrogados declarar-se contra a idéia de se casarem com mulher de cor está longe de indicar qualquer repugnância à ligação meramente sexual. que isto venha ocorrer quando. C o m o se vê. nenhuma de rapazes. em que uma jovem perguntada se se importaria com o casamento de um irmão (ou irmã) com um negro respondeu textualmente: "Sim. épreciso que a sociedade deixe de tê-lo. a concepção d o m i n a n t e é a de que. não implica em responsabilidade para o h o m e m . Mas a frase "provavelmente evitaria filhos" é bastante expressiva do reconhecimento de que essa tolerância p o d e acarretar ônus para a prole: já que não lhe basta individualmente deixar de ter o preconceito. a freqüência dessas respostas no sentido de evitar casamentos interétnicos por causa dos filhos 011 tolerá-los contanto que se evitem filhos. mas provavelmente evitaria filhos". noutras respostas que àquela se assemelham no f u n d o . não esconde. outra jovem respondeu: "Talvez sim. de qualquer sorte. porém. por exemplo. Até onde vai a tolerância em aceitar como marido um negro ~ ela vai. o branco é a mulher. sem análise mais aprofundada. a possibilidade de casarse com um negro. por outro lado. ou reconhece-se capaz de ir — ainda que sob a forma de um "talvez sim". Acreditamos. e talvez ainda mais expressiva. extraconjugal. E extremamente significativa. por nossa parte. Todas essas respostas são de moças. ela mesma. evitaria filhos que poderiam vir a ser vítimas dele. por causa dos meus sobrinhos". Parece mais provável. determinar as últimas razões desse fato. ou tendo fracamente. entretanto. Pelo contrário. sem afirmar com segurança. a mulher de cor. quem dá a resposta é uma jovem branca. que entre elas não estaria ausente a circunstância de o jovem brasileiro branco considerar a ligação sexual com mulher de cor alguma coisa que. não tendo. n o caso. que reconhece a existência do preconceito na sociedade em que ela vive e. É difícil.1 82 O N E G R O N O R I O D E JANEIRO Esse mesmo tema aparece. c o m diferentes variações. havendo muitos que blasonam o n ú m e r o de mulatinhos com que ajudaram a povoar este País. o preconceito contra o negro. por isto. o que significa que sua descendência seria não negra. É difícil saber. . se acaso há uma tendência à infecundidadc voluntária nos casamentos mistos. para relações sexuais não-conjügais. reconhece. N o mesmo sentido. por se referir não ao próprio casamento mas ao de u m irmão (ou irmã).

hipócrita. o estereótipo corrente de que a mulata é sexualmente mais compensadora: branca para casar. d) forte hostilidade. d i v i d i m o s as respostas em quatro grandes grupos indicativos de: a) simpatia.'através das formas estereotipadas de julgar. mais especificamente. inglês. para cada um. Só fizemos apuração minuciosa das respostas que se referiam aos negros e mulatos. e foram. Consideramos como fortemente simpá- . diferenças de posições e antagonismos entre as categorias étnicas que c o n v i v e m no Distrito Federal. melhor definisse o grupo. a mulata. fala muito. português. O m e i o utilizado para fazer essa coleta foi o comumeme usado: relacionamos dez grupos diversos e pedimos q u e indicassem. judeu. E S T E R E Ó T I P O S F. b) hostilidade. para efeito de comparação. fleumático.. Logo abaixo da relação indicamos exemplos de expressões que podiam ser usadas. primeiramente. mulato. Quer nos parecer q u e a análise destas respostas revela. francês.. eventualmente. corajoso. que o número de respostas encontradas com relação ao negro foi ligeiramente maior do que com relação ao mulato: 311 indicaram um traço característico do negro e só 305 fizeram o mesmo para o mulato. Apesar d o esclarecimento houve nítida tendência a escolher uma dentre as sugeridas q u e foram. Cumpre notar. No que se refere. preguiçoso. sujo. c) forte simpatia.A T I T U D E S . havendo seis que deixaram sem resposta a p e r g u n t a que se referia ao mulato. nesta m e s m a ordem. nesta ordem. apreciados. que encontramos aspectos e x t r e m a m e n t e interessantes da maneira c o m o o sistema de valores reflete as posições. inferior. as seguintes: inteligente. De vários m o d o s esses resultados podem ser. paciente. N ã o tem outro significado. na o p i n i ã o do inquirido. russo.. RELAÇÕES DE RAÇAS 191 ou. apuramos respostas dadas com relação aos demais grupos. brasileiro. Na parte do questionário reservada à coleta de estereótipos raciais eles já não apenas transparecem. diz a frase feita. foram os seguintes: norte-americano. trabalhador. escolhendo amostras ao acaso. negocista. esportivo. negra para trabalhar. chinês. ficando esclarecido que não eram obrigatórias e que OLitras podiam ser empregadas. por exemplo. u m a q u a l i d a d e ou característico que. negro. é mulher cie eleição. mulata para f. exprimem-se com clareza. ao caráter apreciativo ou depreciativo do traço ou característico escolhido para designar cada grupo étnico. Os grupos relacionados. traidor. gosta de mandar. valente. brigão.. h u m i l d e . nem outra possível interpretação. p o u c o inteligente. pernóstico.

s e cm duas categorias básicas de simpáticas ou hostis.93 100. m a s foi u n i f o r m e para todos os questionários. cm relação ao mulato. cm relação ao negro. nesta categoria. na apuração.93 13. Ao menos parcialmente. Noutros termos.36 1. ainda assim. O limite entre essas nuanças teve de ser necessariamente arbitrário.da p e r m a n ê n c i a observada.81 0. destacando-se. de alguns fracos remanescentes de u m a a t i t u d e anterior. isto indica que todas as respostas g r u p a m .26 59. em categorias aparte.64 8. De acordo com esse critério de apuração as freqüências encontradas para cada grupo étnico é p a r a c a d a categoria de resposta são as que se registram n o Q u a d r o XXX: QUADRO X X X - DISTRIBUIÇÃO POR COR.00 Nesses dados observa-se q u e a m e n o r freqüência coincide. ao critério do Autor. as que revelavam essas mesmas orientações em cambiantcs fortemente acentuadas.00 Simpatia Hostilidade Forte simpatia Forte hostilidade Não responderam TOTAL 139 125 6 41 — 44.a julgar pelas respostas típicas encontradas . a freqüência em relação ao negro é maior do que em relação ao mulato. ou que t r a d u z i a m essa idéia.pobres diabos! — c quase inexistente. de solidariedade quase piedosa cm relação ao negro .18 — 91 186 2 26 6 311 311 100.192 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO ticas aquelas que traduziam u m a convicção militante de solidariedade ao g r u p o considerado e entre as f o r t e m e n t e hostis só incluímos as respostas q u e usavam a expressão "inferior" para classificar os grupos de cor. de forma inequívoca. p a r a os dois grupos étnicos. . isto deve resultar . SEGUNDO CARAC1940 TERÍSTICAS. nos materiais por nós recolhidos.19 1. de base patriarcalista. DISTRITO FEDERAL - Características Negro Dados absolutos Mulato % Dados absolutos % 29. p o r outras palavras.69 40. nas respostas indicativas de "forte simpatia".

parece contradizer a tendência antes revelada. E S T E R E Ó T I P O S F. e n q u a n t o que agora constatamos u m a concentração maior de julgamentos hostis incidindo sobre o mulato. na mesma dc resposta: para o mulato a maior freqüência está n a categoria das hostis . O fato de encontrarmos uma concentração acentuada.A T I T U D E S . SEGUNDO CARAC- TERÍSTICAS. como se vê no Q u a d r o XXXI: QUADRO X X X I - PERCENTUAL POR COR. com já para o negro a freqüência maior está nas respostas simpáticas — seguindo-se as hostis. 46. Na verdade.90 1.69%. o fato de se aceitar mais facilmente a aproximação com pessoa de cor de matiz mais claro não impede que. de julgamentos hostis com referência ao mulato. vindo em segundo lugar as simpáticas.17 29. venha a incidir sobre o mestiço. 8 0 % . a maioria dos quais visa destacar. para os dois grupos. DISTRITO FEDERAL % Características Negro Hostis e í o r t e m e n t e hostis S i m p á t i c o s e f o r t e m e n t e simpáticos N ã o respondera m lolal Mulato 68. a soma das respostas a) hostis e fortemente hostis é maior do que a soma das respostas b) simpáticas e fortemente simpáticas. ambivalente da posição social c étnica e do c o m p o r t a m e n t o dos que estão vivendo o processo de passagem dc uma condição para outra. d u r a n t e o processo depassing— que não é apenas biológico.5 9 .61 — 100 . dual. 40.38 46. a natureza marginal. RELAÇÕES DE RAÇAS 193 categoria respostas 29.26%. uma onda de julgamentos estereotipados. que está cruzando a linha de cor. t a n t o para o mulato quanto para o negro.93 100 53. Isto nos parece ainda evidenciado quando notamos que. A maior freqüência já não coincide. mais de 50%. A contradição parece-nos puramente aparente e nela julgamos encontrar f u n d a m e n t o para u m a hipótese fundamental a respeito da situação racial nas áreas urbanas e industrializadas do Brasil e que se refere à marginalidade do mulato. Verificamos ali que as resistências à aproximação diminuíam na medida em q u e o matiz da epiderme branqueava. direta ou indiretamente.19%. pois que tem implicações sociológicas evidentes . na apuração da escala le distância social..

por outro lado. Nesse sentido ficou plenamente confirmado que o estereótipo é. entre as quais as mais importantes são as seguintes: em primeiro lugar encontramos. pois sobre ela a c o n d u t a vai se pautar. com uma dispersão maior de freqüências. com relação ao mulato. Assim.as . embora presente. parece muitas vezes parcialmente verdadeira. de empregado e patrão. enquanto que entre os negros a dispersão entre as diversas categorias dc respostas foi maior. sempre foi um elemento discrepantc da simetria desse sistema em que os traços étnicos tão bem coincidiam com as posições sociais. já que o mulato. ela se revelou menos integrada. portanto. essencialmente. tudo parece indicar que os traços escolhidos pelos componentes de nossa amostra para caracterizar o negro refletem. nem p o d e alcançar. Essa explicação.e não analisar ou compreender . na medida em que aí se reflete uma situação social mais geral.1 82 O NEGRO N O RIO DE J A N E I R O O que houve. em relação à condição cio negro. dentro do padrão também tradicional dc relações de raças no Brasil. remanescente do tipo tradicional de relações de raças no Brasil entre senhores e escravos. a explicação que o senso comum oferece àquilo cuja complexidade ele não alcança. acima de tudo. os restos evidentes de u m a solidariedade piedosa. o m o d o como o senso comum vê e interpreta essa posição objetiva do negro na comunidade. C u m p r e . de raízes nitidamente patriarcais e hoje objetivamente superada pelas relações contratuais. mas de que necessita ter u m a explicação qualquer. a condição em que efetivamente o negro se encontra no sistema de status social na Capital do Brasil e. aliás. Essa análise. p o r definição. parece-nos q u e esse comportamento diverso em face do negro e do mulato resulta de u m a pluralidade de razões. que já predominam nas comunidades urbanas.n o s tentar compreender porque sobre o mulato incidiu uma barreira de estereótipos mais nitidamente configurada e integrada. Em segundo lugar. para a consideração direta da realidade viva e complexa que neles está refletida. nos deve conduzir. o que explica seu grande poder d e propagação entre os que precisam apenas explicar . enquanto que sobre o negro. a sua condição social real e objetiva. Dessa ideologia tradicional que. em regra. da simples apresentação de resultados numéricos. muito sintomaticamente não encontramos n e n h u m a sobrevivência em relação ao mulato e acreditamos. por que reflete situações objetivas. foi uma concentração maior das respostas na categoria das hostis. i m p u n h a ao grupo branco dirigente obrigações de caridade e assistência em relação ao preto socialmente inferior. que ela nunca se caracterizou tão bem quanto em relação ao negro.

as classes sociais a que o negro pertence em massa. porém rixento.A T I T U D E S . como explicações dos fatos. c cada vez mais. entretanto muito trabalhador. percebe-se. tia os obriga. "brigão". "trabalha muito e não se cansa" etc. têm tido sua educabilidade deformada e impedida pelo desamparo em que vivem e pela atmosfera antieducativa em que vegetam.um dos estereótipos sobre o negro mais encontradiços. mas também. E m verdade. As formas tradicionais de exploração do trabalho h u m a n o no Brasil comportavam a total ausência de qualquer . RELAÇÕES D E RAÇAS 195 situações sociais. "trabalhador". na sociedade em que o negro vive e na qual as classes dominantes são predominantemente compostas d e brancos. ESTEREÓTIPOS F. por via dos fatores históricos que desde a origem d e f i n i r a m sua posição na sociedade brasileira. que. então. a pensar e a agir. qual a significação sociológica da concentração de respostas nesses característicos. não só as inverdades que contêm. o que é essencial. apareceram nas respostas referentes ao negro são deste tipo: "Pouco inteligente". de valores que resultam de uma situação objetiva. não só na amostra estudada mas na sociedade em geral significa. muito paciente. u m ser excepcionalmente despido dc inteligência. com mais e mais característica freqüência. a explicação que oferecem a um problema diante do qual n vida quotidi. de fato. antes e acima de tudo. o que há de inverdade e deformação no estereótipo não resulta de mera coincidência e tem sempre uma função na dinâmica das relações humanas. a função que desempenham no perpetuar as situações objetivas das quais são beneficiários os grupos no seio dos quais são gerados. portanto. embora u m trabalhador extraordinário que por mais que trabalhe não se cansa? Evidentemente os estereótipos registrados traduzem. "paciente". que só pode ser compreendida quando compreendemos o papel que desempenham os estereótipos n o quadro geral da m u d a n ç a social e das tensões que dela resultam. a interpretação que o mundo e a esfera social a que pertencem aqueles jovens brancos dão à posição social do negro. mas ao mesmo tempo humilde. Trata-se. Por outro lado. Analisadas essas legendas cm cotejo com os fatos. As frases e expressões que. que inspiram u m a ideologia e que pautam uma conduta nas relações interétnicas. cultivados e donde se propagam esses estereótipos a respeito dos outros grupos inferiormente colocados na escala-social. c com a interpretação científica dos fatos. especialmente nos quatro primeiros acima indicados? Acaso isso indica que o negro é. "Pouco inteligente" . "humilde". na verdade.

n u m a favela.conferem. capitão da areia carioca. "Negro". . nas condições econômicas. nas sucursais desta escola que são alguns estabelecimentos de assistência aos m e n o r e s abandonados. sendo dele parte essencial. explicar essa falta de educação como conseqüência da falta de inteligência é a função do estereótipo. não raro. neste caso. que estão à origem do tipo social do malandro. d) desajustamento social e econômico. de m o d o que as mais largas camadas da população puderam se integrar no sistema econômico e social. em interpretar como fatalidade biológica o que é produto da organização social. por muito tempo. diplomado na escola de criminalidade que são as favelas ou. problemas que obrigassem as elites a pensar e a agir no sentido de resolvê-los. ou "mulato". A função mistificadora do estereótipo consiste. mais u m a vez. incarna-o na figura a) de um negro ou mestiço. N a verdade a expressão indica. que assim transfere para a irremediabilidade do plano biológico a causa de uma situação que é essencialmente de ordem sociológica e. e "morro" são elementos essenciais d o estereótipo do malandro e nisso refletem. na mesma medida em que a organização social é passível de transformação. c) situação ecológica e. a associação real e objetiva que existe entre os elementos a) classe social. negro ou mestiço. entre os quais os negros constituem a parcela maior. surgirem entre eles as taxas mais elevadas de delinqüência e que realmente se explicam como produtos desses fatores sociológicos e não por causas étnicas. O facies estereotipado do malandro carioca. Hoje. na linguagem deformante do estereótipo. O negro.1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO intelectualização das operações de trabalho. como peça da máquina produtiva e como elemento passivo do mecanismo societário. mais u m a vez. sociais e educacionais em que ele permanece na sociedade brasileira. principalmente. sem que a elevação do nível técnico e a cidadania consciente fossem. "Brigão " foi outra maneira muito preferida de caracterizar o negro que e n c o n t r a m o s nas sondagens feitas entre jovens brancos. que o senso comum configurou e à base do qual julga e interpreta os homens e os fatos da mala vita da metrópole. Os "white collar criminais"não aparecem nas folhas dos jornais com a freqüência com que se estampa a fisionomia mísera e boçal do malandro do morro. b) condição étnica. sofreu em cheio aquelas limitações e foi sempre conservado nos níveis educacionais equivalentes ao nível social e econômico em que se encontrava. portanto. de m o d o primário e parcialmente verdadeiro. ao fato de. que os que assim responderam — e que são apenas parte de uma corrente m u i t o mais vasta dos que pensam analogamente . b) que vive no m o r r o . mutável. a fixidez de um traço congênito ao negro.

Expressões como humilde. também foram freqüentes na caracterização do negro. a jocosidade. sem o menor esforço mental de reflexão e análise. s e g u n d o parece. Elas refletem. No que se refere ao mulato. eles servem não somente para definir u m papel para cada indivíduo na sociedade. etc. "pernóstico". Não raro. ridículo. rude. parecendo apresentar-se na mente dos inquiridos como uma verdade tranqüila e inconteste. o estereótipo definido pelo uso das expressões "traidor". também. d e posição social e dc ciasse. Nesse sentido a palavra humilde pode indicar ignorante. Nesse sentido. sempre e m favor dos beneficiários dela. para m a n t e r e m a situação total que resulta dessa diversidade de papéis. N u m conjunto de 305 questionários. Esta quota seria m u i t o maior se incluíssemos ali as variantes "convencido". H O L I V C um questionário que resumiu o estado de espírito desta parte da amostra caracterizando o mestiço com duas únicas palavras . R E L A Ç Õ E S D E RAÇAS 197 A função útil dos estereótipos raciais reside. toda vez que se pensa n u m mulato e se tenta qualificá-lo. têm todas como paradigma original a já famosa figura d o negro Benjamim. "fala m u i t o " . "hipócrita" e "falso" foi o que mais caracteristicamente se configurou. habitante de morro etc. "falador". mas. "hipócrita". a c o n d i ç ã o humilde de fato que tem o negro-massa na comunidade mas. que também f o r a m freqüentes. . mal vestido. a criança brasileira cedo se familiariza. modelo dc muitas que constituem leitura habitual e tradicional da criança brasileira. representam uma maneira geral e vaga de se referir a uma série m ú l t i p l a de formas pelas quais essa h u m i l d a d e de condições se revela nas relações sociais concretas. fundamentalmente. "falador" e " t r a i d o r " foram os julgamentos estereotipados que mais caracteristicamente se definiram no inquérito que fizemos. o papel desastrado q u e o estereótipo associa a essas figuras pigmentadas de lendas e historietas infantis. p o r o u t r o lado."pernóstico" . 3 0 % usa a expressão "pernóstico" para caracterizar o mulato."quinta coluna" —.ATITUDES. inconveniente. Depois de "pernóstico". em primeiro lugar.. em apresentar explicações raciais para situações que são. analfabeto. esse estado ou condição que se designa c o m a palavra humilde ê utilizado como matéria-prima para a configuração de tipos cômicos com que. ESTEREÓTIPOS F. personagem velho de mais de meio século. E o caso da conhecida revista infantil. de acordo com a discriminação étnica q u e lhe é atribuída pelos critérios dominantes. através do folclore o u da literatura escrita. O Tko-Tico. deseducado. automaticamente repetida. e outras desta ordem. Especialmente o primeiro daqueles qualificativos .mereceu impressionante preferência nas respostas. essencialmente. neste caso da humildade de condição e da rusticidade de espírito resulta a comicidade. e que. "tem complexo".

o que torna a m u l h e r de cor presa fácil da concupiscência d o homem branco. p o r sua simples existência e presença. as such Desta desigualdade resultava. um m u n d o de contradições sociais e psicológicas. como mestiço. por outro lado. Dir-se-ia. a respeito da mestiçagem nos Estados Unidos. se tem acumulado grossa camada de opiniões superficiais. para dele tirar todas as conseqüências que comporta. Neste fato simples e evidente.198 O NEGitO N O RIO D E JANEIRO querendo com isto indicar que o mulato é alguém que "cruzou as linhas". nas condições peculiares à situação racial brasileira. interpretações de tão fácil aceitação q u a n t o pobres de substância científica. O mulato. 1 4 O primeiro desses fatos. uma condição de absoluta acessibilidade ao assalto sexual daquele. um marginai Escusado é dizer. uma situação de d o m í n i o absoluto sobre a mulher de cor. é. que o mulato oferece-se como mais vasto campo de formação de estereótipos precisamente porque. com freqüência quase igual. neste sentido. sobre os quais é preciso refletir sociologicamente. estrutural. tão óbvio que sobre ele m u i t o s se escusam de meditar. é. sobre as quais. .'5 which has been responsible for ofthe races than any in so far approach has the mixture. em suma. a rigidez e simetria do esquema de linhas étnicas e de posições sociais em q u e pretos e brancos se têm historicamente defrontado na sociedade brasileira. A análise dos resultados obtidos — c o m o já avançamos . para o h o m e m branco. entretanto. quebra. e para esta. para caracterizar um ou outro dos grupos étnicos considerados.deixa claramente evidenciado que existe sobre o m u l a t o u m conjunto mais integrado e melhor definido de julgamentos e valorações estereotipadas do que sobre o negro. por definição. "serve a duas bandeiras". que certos estereótipos definiramse com igual intensidade tanto para negros q u a n t o para mulatos. Neste sentido. Assim as expressões "humilde" e "sentimental" foram empregadas. reside. citado por Myrdal. e em grande parte sc processa. que se processou. é a estaca zero do problema da mestiçagem no Brasil. um p r o d u t o d a extrema desigualdade de posições sociais existente entre os dois grupos étnicos de cujo cruzamento ele resulta. sem base na observação dos fatos. para agravá-las. antes de mais nada. como conseqüência direta da inferiorização social do negro. aplica-se inteiramente às condições brasileiras e nele ficam inteiramente r e t r a t a d a s : "It has been rather the social inequality to equaLity occwed" . como tipo social e psicológico. Esta configuração sociológica. é que o mulato brasileiro. o diagnóstico de Royce. é um mestiço de negro e branco.

para saber quanto é difundida e n t r e nós a noção de que ela é mulher de eleição para a concubinagem. Apesar dos atrativos proclamados pelo estereótioo. é mais do que uma hipótese. especialmente d a mulata. gagueja quando alguém lhe pergunta se seria capaz de casar-se com uma negra ou gostaria de ver uma filha ou i r m ã sua casar-se com um negro. aliás. como argumento final e decisivo. mas não pudemos deixar escapar a oportunidade de indicar as principais premissas em que elas se baseiam. sob a forma d e hipótese. b) a ilegitimidade é maior entre os filhos dc uniões em que a mulher é o elemento mais escuro e o h o m e m . como companheira sexual. quando não são filhos d e dois mestiços. apenas hipóteses. E S T E R E Ó T I P O S f. e que antes apresentamos. o jovem brasileiro. ela se justifica em sua aplicação à situação presente. ainda q u a n d o se diz liberto de preconceitos raciais. não é preciso fazer-se esforço. pelos que têm preconceito. A primeira. sociologicamente relevante. Como dissemos. é um fato. é a natureza extraconjugal dessas relações mistas. fato que os resultados dos inquéritos a que p-ocedemos. RELAÇÕES D E RAÇAS 199 O segundo fato. 16 A respeito da situação atual d o intercasamento étnico a documentação estatística é praticamente nula. historicamente. não são mais do que puras racionalizações da acessibilidade da mulata à sedução do branco. N ã o há pergunta mais brasileira do que esta em qualquer discussão ou troca de idéias sobre igualdade racial e ela é feita. triunfantemente. entretanto. u m a acentuada diferença de posição objetiva entre os grupos étnicos.ATITUDES. porém. . todo o material legendário e folclórico que pode ser recolhido a respeito das pretendidas extraordinárias qualidades da mulher de cor. o mais claro. A segunda é apenas uma decorrência da primeira: se a maior parte das uniões de homens brancos coin mulheres de cor são extraconjugais. são gerados de uniões nas quais o homem é o elemento de pigmentação mais clara do que a mulher. Até hoje. considerado capaz de silenciar os que argumentam em contrário. plenamente confirma. Não conhecemos o registro de documentação cientificamente expressiva referente às virtudes excepcionais da mulata para o casamento com o branco. D u a s observações. queremos registrar aqui c o m o produto da experiência e observação pessoal: a) a maior parte dos mestiços brasileiros. no nosso sistema de estratificação social. Na medida em que foram lentos e restritos os efeitos da mobilidade social dos grupos de cor e em que permanece. que se destaca d o problema. para desfrutar a condição de esposa.

entretanto..do mulato carioca. o vocábulo "negrinha" . que depende diretamente da cor de outros traços étnicos aparentes. maiores as suas oportunidades de transpor as barreiras à ascensão social. em verdade. reúne dados que. Tais vocábulos. a intenção deliberada de ferir. Ela é que explica a ambivalência dos julgamentos e dos valores ligados à explicação do seu papel. quase todos.não somente biológico mas t a m b é m sociológico . em conseqüência dela. ou. em diversos contextos de frases.200 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO forçosamente os frutos dessas uniões tendem a ser também. doçura ou afetividade. e por tanto tempo. "moreno". os respectivos diminutivos. 17 Esta sumária colocação do problema da mestiçagem visava a destacar o status marginal . Esses diminutivos. inclusive na multiplicidade de m o d o s e palavras existentes para designar os diversos graus de mestiçagem e os diversos estados de maior ou m e n o r receptividade ou h o s t i l i d a d e e m r e l a ç ã o a o m e s t i ç o . e o do mulato brasileiro em geral. etc. Essa ambivalência reflete-se de mil maneiras. constante. quanto mais branco. roxo. 18 N u m a sociedade em que as posições de classe e de etnia tão nitidamente se identificaram. por todo mulato brasileiro que está em processo de adquirir um status social diverso daquele em que permanece a maioria esmagadora dos que lhe são etnicamente semelhantes e dos quais ele socialmente se distancia. o que faz com que sobre ele particularmente incidam os estereótipos que visam definir sua posição. estão longe de significar sempre carinho. tira-teima etc. o indivíduo. indicam a procura de expressões que permitam referência à condição étnica sem ferir a sensibilidade das pessoas a respeito das quais são usadas. nem sempre consciente. ilegítimos. Mestiço. Dita de certa forma a expressão "mulatinho" pode ser tão pejorativa quanto. o mulato estar sempre mais próximo do que o negro de cruzar a linha social de cor. escuro. embora indiretamente. muitas vezes dramático. de várias formas. que são outras tantas variantes. do ponto de vista estritamente jurídico. robustcccm a hipótese. Recente pesquisa feita pela revista Conjuntura Econômica. e que se reflete. marginalidade que é o traço mais saliente que os estereótipos correntes sobre ele. mulato. Esta definição de posição é um p r o b l e m a quotidiano. não só naquele plano dos julgamentos que os demais grupos étnicos fazem sobre ele mas t a m b é m no plano mais objetivo de seu comportamento concreto. em particular. por sua vez. da Fundação Getúlio Vargas. p o d e n d o muitas vezes traduzir desprezo . vivido. permanente. n o u t r o s casos. comportam. ou menos preto. Essa v a n t a g e m do mulato sobre o negro como que é compensada pelo fato de. ressaltam. por outro lado.e humilhação. pardo.

Isto é feito de várias formas. ainda se julga a si mesmo à luz de critérios. ou mulato. julgamentos estereotipados cuja função útil é precisamente conservá-lo n o seu lugar. ou seja. A. em grande parte. por o u t r o lado. Outra forma. através dessas "honrosas exceções". transfere-se para. já que tratar alguém como se fosse é em certo sentido o mesmo q u e declarar-lhe claramente que não é. três grandes linhas no sentido das quais esse processo de definição de posição tem lugar: a) os mecanismos de defesa e purificação racial do grupo branco tendem a pôr em foco o que há de preto no mulato." Parece-nos haver aqui. a noção subalterna implícita em muitas expressões que designam a mestiçagem é a de um nascimento ilegítimo. até o negro do eito. uma das maneiras mais típicas pelas quais a ideologia racial do grupo dominante. e negativa do grupo como um todo. tratando-se o elemento de cor como sefosse branco. Essa discriminação positiva. do que a individualização da consideração que um branco dá a u m elemento de cor: "este negro.ATITUDES. para assim reconduzilo ao seu Ingar. mas são exceções". consciente ou inconscientemente. discriminação que geralmente se faz à luz de um critério essencialmente branco. esta discriminação positiva de alguns elementos de cor individualmente considerados. muitas vezes com exageradas amabilidades. igualmente característica. é outro m o d o característico de se revelar o preconceito contra o negro ou o mulato em geral. a conveniência de respeitar o grande slogan resulta em toda uma complexa etiqueta racial. R E L A Ç Õ E S DE RAÇAS 201 para indicar o último grau de ofensa e agressão verbal. A necessidade. n o m í n i m o . que oferece às vezes aspectos contraditórios pois não raro a discriminação se faz.. ou melhor. aliás. B ou C são pessoas com quem se p o d e conversar. quando se estabeleciam gradações de preferência do senhor branco. E S T E R E Ó T I P O S f.20 Nada mais freqüente. Originada provavelmente ainda no período da escravidão. pois trata-se de lograr o efeito sem violentar abertamente a opinião confessada de que "no Brasil não existe preconceito racial". a maioria delas de acentuada sutileza. de definir a posição dos elementos de cor pela discriminação positiva de alguns e negativa do grupo . privava da intimidade. no lugar inferior que historicamente tem ocupado na sociedade brasileira.. puro e anônimo instrumento de trabalho. e é aceita pelo grupo inferiormente colocado na escala social que. liberalidade que em regra provoca ressentimentos. Embora não seja a única. que iam da mucama que trabalhava em casa. valores. fazia cafuné. com que se favorece individualmente este ou aquele elemento de cor. representa. e às vezes da cama.

no seio das organizações . perman e n t e m e n t e preocupado com o seu problema pessoal de como passar para "o outro lado ". sabia tomar o seu lugar. essa n e g r a d a quer ser igual ao branco". negro que se assunta são expressões que ocorrem com freqüência em conversa de branco para se caracterizar o negro de antigamente. "negro a besta ". não confundia a sala com a cozinha. Negro metido. são modos de caracterizar o negro de hoje. usadas não somente por brancos em relação aos de cor que penetram em seu meio. porém já existente. etc. H o j e é diferente. em conseqüência do aspecto racial que têm recentemente assumido muitos conflitos e tensões sociais nessas áreas. para recordar-lhe a inferioridade social da origem —. muitas vezes. aquele sentimento está sendo muitas vezes substituído pela noção de que o que ascende é um trânsfuga. todas repassadas de ironia e ressentimento. O sentimento de orgulho da população de cor que vê um dos seus penetrar em esferas superiores — homenagem que o indivíduo recebia não raro c o m o pesada carga pois. pernóstico. "branco em comissão".e tende a crescer cada vez mais — a ação de controle que a ainda informe e embrionária. ou. mas também pela própria população de cor — onde tais expressões algumas vezes se originam. muitas vezes.202 182O N E G R O N O R I O DE J A N E I R O como um todo transparece na adoção freqüente de um critério d t geração para aprovar ou condenar o comportamento do negro ou do mulato em face do branco: "antigamente o negro era respeitador. q u e só p e n s a em ser doutor etc. "macaco de cartola ". Nas comunidades urbanas e industrializadas. opinião negra exerce sobre os m e m b r o s do grupo que são seus líderes atuais ou potenciais.22 Essas modalidades difusas e informais de controle são completadas. entretanto. sabia se comportar. "Negropó metido de arroz". embora permaneça visível c o m o atitude da maioria dos que estão mais próximos daquele que está ascendendo. só servia. q u e q u e r s e r igual a o b r a n c o . insolente. são adotadas e adaptadas . cada vez mais. q u e n ã o toma o seu lugar. está sendo hoje.. Negro fiel. negro trabalhador. De fato não é pequena . por outras formas mais sistemáticas. cada vez menos uniforme e generalizado.2] A segunda definição que visa a estabelecer o papel do mulato ou do negro evoluído é o da população de cor como um todo a respeito desta minoria que dela se destacou.para qualificar os que tendem a passar do nível da massa para o nível da elite. algumas de forte sentido pejorativo. negro respeitador. especialmente da família. "mulatopachola". "mosca no leite " s ã o e x p r e s s õ e s características. apesar das boas intenções.

Já aqui. de t o d o s os matizes. As múltiplas contradições entre essas duas definições do papel social d o mulato ou do negro evoluídosão visíveis e só se explicam dentro do c o n t e x t o da situação total. a que n o s referimos. De fato. em nossa sociedade. monopólio do branco. o produto instável de uma constante acomodação que acaba por se c o n f u n d i r com a rotina da vida quotidiana e que. sofre m e n o s do que este a ação de certa ordem de preconceitos de marca. por sua vez. o que ele tem de negro é o seu g r a n d e handienp. o controle é recíproco. O marginal é marginal p o r q u e tem de corresponder às expectativas de comportamento de dois grupos. E S T E R E Ó T I P O S f. pois é precisamente isso o que o estereótipo focaliza e destaca. do papel social do m u l a t o o u do negro evoluído-. Por outro lado. aquela que ele p r ó p r i o faz de seu papel e de acordo c o m a qual organiza as suas pautas de c o n d u t a na sociedade.ATITUDES. cada u m fiscalizando as tendências de t o d o s os outros e usando. sua m e s m a condição de negro e branco faz c o m que ele seja encarado por certos setores do grupo branco como u m a espécie de vanguarda de uma invasão dos elementos de cor em geral. historicamente. i g u a l m e n t e passíveis daquela reserva e daquele comentário. grosso modo. não . àquelas posições sociais e m que o mulato mais facilmente d o que o negro pode penetrar e que têm sido. p o r q u e mestiço de branco e preto. organizadas em esquemas diversos. de todos os instrumentos. ou de cor. c o m o que para compensar a vantagem o b t i d a em conseqüência do que nele há de branco. ele é ajudado pelo q u e nele há de branco. Necessariamente essa terceira definição é uma redefinição permanente. desde a d e n ú n c i a franca à maledicência mais subalterna. assumindo a forma de luta de campanário. para isso. Essas contradições. neste caso. parecem produzir efeitos ainda mais nitidamente caracterizados sobre o comportamento individual q u a n d o se trata do mulato. poderia ser caracterizada como o repúdio teórico e a conciliação prática das contradições existentes entre as duas definições anteriores. o mulato. RELAÇÕES DE RAÇAS 203 de homens de cor e através da i m p r e n s a que elas mantêm. c o m o essas instituições são dirigidas por pessoas de posição social análoga. e m que matiz da epiderme e outros traços aparentes da condição étnica representam o critério essencial da discriminação: neste caso. cuja condição biológica de mestiço como q u e serve de lente de aumento para os problemas relacionados com a definição d e status. 2 3 É como uma resultante desses critérios e avaliações antagônicas q u e surge a terceira definição.

q u a n d o servem de f u n d a m e n t o à formação de estereótipos. o dinamismo nervoso e ruidoso da c o n d u t a — que muitas vezes chega realmente a atingir o nível do talento criador e outras não consegue ultrapassar o da simples simulação .parecem ser. nas condições da tensão racial. por causa do característico étnico. contraditórias. na esfera socialmente superior e etnicamente branca. aparentemente inexplicáveis. e não raro antagônicas. à melancolia e m e s m o à angústia que lastreia. Ao analisarmos. o exagero dos gestos. da hipocondria mais solitária à exteriorização mais gritante. estamos longe de afirmar q u e t o d o mestiço ou negro brasileiro seja u m marginal. a mentalidade dos homens de cor que por qualquer via ascendem do nível da massa e n e m p o r isso se integram. São infinitamente variáveis as formas de se manifestar o mecanismo de frustração-agressão. 25 . que cerca a minoria dos homens de cor que compõem a "elite" social dos grupos não-brancos. nem mesmo afirmamos que esta situação seja fatal para todos aqueles que se destacaram da homogeneidade da massa formada pelos seus irmãos de cor. 24 A conduta de quem vive essa situação e a interioriza profundamente. do traje. O b v i a m e n t e . muitas vezes contraditórias. o pernosticismo característico. que tende a resultar cada vez mais importante no esquema psicossociológico de um grupo que sente objetivamente se multiplicarem diante de si barreiras e práticas discriminatórias racistas e ouve. ao ponto de ela se tornar a chave de sua vida interior e o problema básico de sua vida de relação. de que para isso tendem aqueles que tomam consciência étnica do seu p r ó p r i o "caso" e procuram racionalizar os problemas da adaptação com que se defrontam. da gargalhada. entre si. automaticamente. que se originam os estereótipos correntes sobre a sua personalidade e o seu comportamento. o artificialismo estudado. adiante. Foi disso que tomou consciência no Congresso do Negro (agosto de 1950) um jovem orador q u a n d o dramaticamente exclamou em m e i o ao debate: "O maior inimigo do negro cie elite no Brasil é o negro-massa". da voz.204 1 82 O N E G R O N O R I O D E JANEIRO raro antagônicos. a multiplicação das tensões raciais q u e a mudança de estrutura econômica e social está criando nas áreas metropolitanas do Brasil. é um m u n d o de reações inesperadas. Não resta a menor dúvida. reações ao ressentimento. Elas vão do misticismo mais alvar às explosões de talento. Aqui importa destacar somente que é n o clima destas definições e redefinições. a origem social deste p r o b l e m a será tratada com mais vagar. mil vozes bradarem aos seus ouvidos o slogan q u e já correu o mundo inteiro: " N o Brasil não existe preconceito racial". que se sucedem sem aparente relação lógica. O verbalismo abundante. do ponto de vista da psicologia social. p o r é m . ao mesmo tempo.

dentro dele. insistentemente. RELAÇÕES DE RAÇAS 205 Este. lutam por sua transformação. Das análises até agora procedidas a validez científica daquela proposição sai f o r t e m e n t e abalada. Mas outros aspectos fundamentais do problema carecem ainda de ser analisados antes de ser tentada u m a interpretação final. é o supremo estereótipo que resulta do estado atual em que se encontra o problema das relações d e raças no Brasil. convencidos de que o m á x i m o teste de uma afirmação corno esta só pode ser o frio cotejo com os fatos. com o que realmente é. como verdade pacífica.50 % [Empregadores brancos E m p r e g a d o s brancos 0. resultam movimentos sociais que exprimem o seu conteúdo e que. nos quais procuraremos verificar o m o d o pelo qual. da situação racial até agora exposta. PIRÂMIDE DE CIASSE E RAÇA NO RIO DE JANEIRO 7.5 % | 22. É o que procuraremos fazer nos capítulos que se seguem.04 % I Empregadores pretos | Empregados pretos . Aqui utilizamos o conceito estereotipado c o m o hipótese de trabalho. E S T E R E Ó T I P O S f. e não c o m o que desejaríamos que fosse.96 % 99.A T I T U D E S . Autores nacionais e estrangeiros o têm repetido. sem sombra de dúvida.

Um herói da negritude. as situações de conflito e. A. na qual c o m e n t a n d o a freqüência com q u e as folhas diárias estampam retratos dc negros autores de delitos ele diz: "até parece q u e n ã o existem tipos de outros grupos étnicos c o m esses maus atributos no Brasil" (p. 1949. in: When people rneet. é ressaltada a f u n ç ã o dessas "criaturas paradigmáticas" — para usar a expressão dc um porta-voz — no processo de arregimetitação c mobilização ideológica do negro contra a linha de cor. d o c o n j u n t o . Este. Cf. 2 E o negro brasileiro observa. separaram os questionários r e s p o n d i d o s pelos alunos que. t a m b é m entre os negros. 5 4 3 . só h o u v e "pessoas individualmente escravizadas". armadilha dc cujos percalços muitos deles l a m e n t a v e l m e n t e não souberam escapar. por o u t r o lado. Slave and citizens. finalmente. passim. J o h n s o n . 1947. Ver-se-á adiante q u e . Race rclations in a democracy. 22-27. 3). p. u m n ú m e r o variável de respostas. onde boa parte dos status respectivos dos grupos étnicos em c o n t a t o p o d e ser conhecida pela simples leitura das leis e dos códigos. a crítica à ideologia racista n o r t e . este problema da diferença existente enrre a atitude real c a opinião confessada é de extraordinária importância. 106. Ao analisar.a m e r i c a n a . F. para cada u m a das baterias de testes que formavam o questionário. 1949. separadamente. 222. Ramos. pode-se dizer que no Brasil não houve "sistema escravagista". Isto parece ser. o que os leva a forçar as diferenças encontradas. p. S u p l e m e n t o do Diário cie Notícias. eram considerados por todos c o m o s e n d o "de cor" a julgar pelos traços físicos aparentes. T a n n e m b a u m . por outro lado. b) do desejo de fazer. 6 de abril de 1952. h outrance. aqui ou e m qualquer parte. os resultados de cada g r u p o de testes. citada na bibliografia inserta no fim deste volume. chega a afirmar que em face da facilidade com que ocorria a mobilidade do status escravo para o homem livre no Brasil antes da Abolição. uma grande fonte de erros e dc falsas interpretações para os estudiosos estrangeiros da situação racial brasileira. 4 4 . c) da pobreza conceituai da sociologia acadêmica no estudar. a tese do jornalista n e g r o José Bernardo da Silva. Dizemos aproximadamente porque embora tivesse sido este o n ú m e r o de questionários apurados n e m s e m p r e todos os estudantes responderam todas as perguntas. Ver também Ina Brown. os índices estão calculados sobre o total das respostas obtidas para cada g r u p o c não sobre o total da amostra. T h e e c o h o m i c basis of race rclations. o que dá. Cf. nas respectivas t u r m a s .4 7 etc. sente os resultados disso c protesta contra essa prática. à p. Cf. E c nesse s e n t i d o que o estudo sociológico das relações de raças no Brasil afigura-se algo m u i t o mais difícil e complexo do que nos Estados U n i d o s o u na África do Sul.206 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Notas 1 N a s condições peculiares da fase em que hoje se encontra o desenvolvimento das relações dc raças no Brasil. alguns e x e m p l o s dessas opiniões falaciosas de observadores estrangeiros sobre a situação racial brasileira em Charles S. Escusado é dizer. q u e boa parte d a falsa maneira de colocar o estudo das relações d e raças no Brasil decorre nas obras d c observadores estrangeiros: a) das fontes cm q u e se baseiam. O critério de discriminação dos inquéritos cm "alunos brancos" e "alunos dc cor" foi pedido aos professores das turmas que aplicaram os testes que. G. d) das naturais distâncias n a c i o n a i s c culturais que separam esses e s t u d i o s o s das peculiaridades d a situação brasileira.

Klingberg. Bogardus. aliás. Immigration and racial attitudes ( 1 9 2 8 ) passim. aplicando os questionários entre os alunos dc suas turmas. pois representam sempre conceitos que resultam das posições respectivas e das relações sociais concretas que entre si estabelecem os grupos d e n t r o das estruturas sociais que j u n t a m e n t e se f o r m a m . '' C o n v é m q u e lique esclarecido que todas as precauções f o r a m tomadas no sentido de assegurar aos estudantes a certeza de que poderiam responder c o m o máximo de liberdade. 1 ' Antes de ter larga circulação das ciências sociais c o n t e m p o r â n e a s com o significado específico q u e h o j e possui. 17. de mera coincidência. 1 9 4 8 . p. p o r sua vez. Álvaro Kiikerrc e M a u r í c i o dc M a g a l h ã e s Carvalho pela colaboração inestimável que prestaram a este estudo. por exemplo. mas eu não". na medida em que ela surge e se desenvolve em conseqüência da socialização d o indivíduo. de f o r m a t o t a l m e n t e desinteressada. elas podem assumir . VII c X I I . In: O . 1 3 9 . J o h n s o n ao afirmar que "as práticas costumeiras que presentemente se d e n o m i n a m 'relações raciais' são apenas m e c a n i s m o s sociais que nascem da necessidade de facilitar o controle d e um grupo por outro". RELAÇÕES D E RAÇAS 207 A este passo queremos deixar aqui registrados nossos agradecimentos aos ilustres colegas Prof. Esta observação só se aplica escala de distância social. Race attitudes.A T I T U D E S . Sociology and Social Research. VI. assinalando. que. A social distance scale. U m a explanação prévia procurou convencê-los de q u e não havia respostas certas ou erradas. com largo apoio bibliográfico. inteiramente ao critério deles a resolução de assinar ou deixar dc assinar as respostas. Crutchfield. Yvete Costa Pinto. em psiquiatria. Apresentação mais didática do p r o b l e m a p o d e ser encontrada em Dr. a situação é diversa e pareceu-nos q u e aqui existem estereótipos m u i t o mais característicos c difundidos em relação ao m u l a t o d o q u e cm relação ao negro. * N u m ú n i c o questionário a resposta a esta p e r g u n t a foi a seguinte: "Eles se i m p o r t a r i a m . p. variando o t e m p o e o lugar. v. A o p r i m e i r o deles agradecemos t a m b é m a cooperação valiosa que prestou na apuração d o s m e s m o s . Para u m a análise crítica extensiva do problema. cap. d o mesmo. a palavra era usada. também. As opiniões e os valores existentes n ã o resultam. sugere ulteriores investigações sobre as variações nas atitudes raciais c m f u n ç ã o das gerações. V. Characteristlcs of the american negro. n u m a fase inicial da formação d a personalidade. 12 13 Kimball Young. 2 6 5 . para designar uma alteração do c o m p o r t a m e n t o de certos doentes mentais que se caracterizava pela repetição de gestos e palavras. em seguida. dos adultos. p. 1948. 191.2 7 1 (1933). Ninguém nasce portador de u m a o p i n i ã o sobre o negro e a opinião de cada u m é sempre o produto da interiorização das opiniões dominantes no seu meio e q u e são inculcadas aos mais novos pela ação sistemática ou assistemática. Neste sentido é q u e tem razão o Prof. 7 f> E. Krech e R. Theory and problems of social psychology. Handbook of social psychology. ver o estudo de Eugcne H e r o w i t z . pois n ã o sc tratava de um teste de conhecimentos m a s de opiniões. Charles S.2 4 7 . como v e r e m o s em breve. formal ou informal. Ficou. N o que sc refere aos estereótipos. 1944. ESTEREÓTIPOS f. Isto. E f u n d a m e n t a l compreender que em regra os estereótipos integram-se no esquema de atitudes c valores que constituem as pautas individuais d e c o n d u t a .

poucas p á g i n a s adiante: " O problema (pois) é mais sociológico do que antropológico". pouco antes de falecer. aliás.. no sentido dc Parle c Stonequist. 218. 1954. CF. ele e n c o n t r a resistências k sua integração no grupo branco. c o m ser e t n i c a m e n t c mestiço de brancos e pretos. ín: When people meet. entretanto. 2.G o v e r n a m e n t a i s . 374. A coexistência de UberaUdãde teórica e discriminação prática. 37 e ss. o Prof. Pois b e m : nada mais chocante p a r a o A u t o r do que verificar. conversando s e p a r a d a m e n t e com uns c outros. p. Brancos na Bahia 20 epretos ( T r a d . j u n t o aos representantes das organizações israelitas. O que queremos dizer é que o grupo. d o n d e lhe resulta a posição referida. T h e economic basis of racc rclations. o que ocorre na medida cm que. 1949. E confessava o saudoso mestre. característica do c r i p t o m e l a n i s m o tão d i f u n d i d o no Brasil. provincialism and other american problems. Le métissnge au Brésil. 17 Is Cf. . VI. Conjuntura econômica. III e IV. Cf.". jul. cap. por iniciativa d o C e n t r o dc Informações das N a ç õ e s U n i d a s . v.. Q u a n d o se reuniu. Pierson. " C f . p. 1951. A r t u r R a m o s . p. queremos Talvez fosse dispensável mas. Artur Ramos: "os estudos sobre a mestiçagem no Brasil ainda não foram realizados c o m rigoroso critério científico". Ao m e n o s urna delas cabalou f o r t e m e n t e n a assembléia para obter votos. isto indica e v i d e n t e m e n t e a existência de uma teima. usase a expressão tira-teima para designar n u m a família aquele q u e p o r traços físicos iniludíveis indica a existência de mestiçagem anterior n u m a família hoje considerada branca. 1947.2 2 . 1944. e D . por exemplo. Rcconhccia-o. como grupo. 14 D c fato. . que socialmente consiste no desejo de esconder aquele c r u z a m e n t o q u e mancha a genealogia! Fora desse contexto a expressão não faria sentido. para evitar incomprccnsõcs deixar esclarecido q u e isto não significa que cada mulato c necessariamente um "homem marginal". é particularmente visível no que se refere ao i n t e r c a s a m e n t o racial c às suas conseqüências sociais c morais. Q u a n d o .355. 2 1 . chap. alegando inclusive. Race questions. tende a ocupar uma posição social (e não apenas étnica) marginal entre as posições sociais que os outros grupos têm historicamente o c u p a d o n a sociedade brasileira. G u n n a r M y r d a l . An american dilema. u m a relação e u m a interpretação dessas denominações dc graus de mestiçagem cm A r t u r R a m o s . ano V. as sociedades de h o m e n s d e cor participaram ativamente dos trabalhos e lograram ser eleitas para funções p e r m a n e n t e s n a instituição que do Congresso resultou. no Rio de Janeiro. sobre o qual. Cf.2 0 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO aspectos d i f e r e n t e s mas sempre são a expressão racial " d e u m conflito básico dc interesses". Josiah Royce. 7.. 1952. o Congresso das Organizações N ã o . exista tão p o u c a coisa séria c cientificamente estabelecida. E para maior precisão Royce acrescenta: "It toas the social inequality ofthe plantation days that began the process of mixture. é difícil encontrar assunto tão brasileiro e tão f r e q ü e n t e m e n t e referido nas obras d e ensaístas e escritores nacionais e estrangeiros. p. 1 9 0 8 . p. 360. afastando-se do grupo negro. ) . n. a necessidade de se unirem para c o n j u n t a m e n t e d a r e m combate ao preconceito racial de q u e são vítimas igualmente negros e j u d e u s . Introdução 15 h antropologia brasileira. ainda assim. 1.

para não negar na prática os princípios de fraternidade e tolerância q u e teoricamente defendiam. a não ser a superioridade de status econômico c social q u e a vida quotidiana lhe demonstra à sacicdadc. cada vez mais. em g r a n d e parte.onrc mental. ao entrar em c o n t a t o com as diferentes divisões c subdivisões. esta a p a r e n t a estar realmente convencida d a s u p e r i o r i d a d e do branco e é com relativa n a t u r a l i d a d e que se porta servilmente d i a n t e dele. as a t i t u d e s que nela são formadas não p o d i a m t a m b é m sofrer grandes transformações. sem ter. Muitas vezes. Esta situação é freqüente na sociedade rural. o Amor. H. seria talvez muis correto distinguir três gerações: a) a mais antiga. Aqui. no decorrer dos trabalhos do Congresso d o Negro (1950). cm pé de igualdade com os d e m a i s delegados. do negro-massa e no seu comportamento p e r a n t e o branco. Ela transparece. mas. logrado uma integração c o m p l e t a p o r causa da cor.í n e g r o s . teve a o p o r t u n i d a d e d e verificar o grau em que ocorrem a r g u m e n t o s dessa natureza nas discussões ideológicas entre elementos de cor. não só não acredita na superioridade d o branco.'por iguais p o r é m e t n i c a m e n t e brancas. Pareceu visível. Neste caso. e após n realização dele. estes. e com maior dose de r e s s e n t i m e n t o . grupos e subgrupos cm que os participantes se repartiam de acordo com as respectivas orientações. de uma grandiosa obra de confraternização. e m conversa. em q u e quase t u d o permaneceu igual ou p i o r d o que era antes de 1888 e se a e s t r u t u r a social não sofreu profundas alterações. na exclamação de um negro culto e inteligente. negros recintos. d r a m a t i c a m e n t e . ESTEREÓTIPOS f. n a m e d i d a cm que sua situação pessoal lhes assegura m e n o r dependência em relação ao b r a n c o e maior possibilidade de alargar seu hori/. entretanto. referindo-se as barreiras raciais q u e encontrou para ingressar n u m . professor de ensino secundário. sem sombra de mestiçagem étnica. evoluindo do nível cm que ainda se conserva a grande massa da população de cor. mas também tende. tendem a sc libertar da n o ç ã o de q u e são inferiores a ele. qual o mulato. c) a terceira geração. que até b i o l o g i c a m e n t e a vive e simboliza. aliás. b) a s e g u i n t e geração dos nascidos e f o r m a d o s após a Abolição e já na vigência das instituições republicanas e liberais. o negro evoluído vive. 2> 21 21 Essa posição de homem-fronteira c m u i t o característica d o mulato. portador de um diploma universitário que. a mesma situação de exemplo.A T I T U D E S . às vezes difícil de suportar. que encarnam o mesmo p r o b l e m a desde que a posição econômica e o nível d e instrução somam-se íi cot como fatores diretos d e determinação da posição social. q u e e m alguns casos nasceu e floresceu ainda s o b o regime escravo e que se conservou na d e p e n d ê n c i a da atmosfera servi!. a gritar essa convicção igualitária e a lutar por ela. Seria grave erro considerar assim. enquanto que muitos b r a n c o s os consideravam um mal necessário. que eles ocorrem com t a n t o m a i o r freqüência. quando usados por urn n e g r o c o n t r a ou a respeito de um mulato ou vice-versa. tendem a se comportar como se assim julgassem. por fim. E a forma de acomodação q u e e n c o n t r a r a m para sobreviverem n u m m u n d o em que o branco c dirigente. mas não lhe c exclusiva. A esse respeito os depoimentos textuais recolhidos enchem páginas de u m c a d e r n o de notas. p o r outro lado. R E L A Ç Õ E S D E RAÇAS 209 que os negros supunham esrar ali p a r t i c i p a n d o . atitude (ácil de observar não s o m e n t e n o s movimentos e associações das elites negras mas nas reações do negro c o m u m . nas camadas cm que p r e d o m i n a m pessoas socialmente homem-fronteira.

Hoje. pretende indicar o n e g r o e m geral. essencialmente. 25 O Autor jamais esquecerá a n o i t e cm que. o fez em tom de escusa.gritou um apartante — sc o orador acaba de afirmar que no Brasil o problema racial não existe?" E a p e r g u n t a ficou sem resposta. por sua vez. herói negro d a luta contra os holandeses. H o u v e vaias e protestos. . 1A A expressão "negro-massa". falando pela segunda vez. como assinala M á r i o "Leônidãs" generalização semelhante ocorre t o d a vez q u e os brancos irresistivelmente c h a m a m de todo rapazote preto q u e c o m e ç a a dar chutes numa bola. disse o seguinte: "O clube X me recusa c o m o sócio e eu m e recuso a ir dançar n u m a gafieira. Estavam presentes a esta reunião.2 1 0 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO clube recreativo do Rio de Janeiro. usada por brancos. que apresentavam o autor da declaração como um p u r o i n s a n o . proferidos cm todos os tons. de um negro q u e j o g a bem. desde o d e revolta até o de piedade. no decorrer da qual um congressista negro afirmou que "no Brasil não existe preconceito racial". m u i t a s vezes. " Q u e problema . Sucederam-se os discursos de protesto. as tropas de linha formadas por soldados d e cor: neste caso. presidiu u m a das memoráveis sessões do I o Congresso Brasileiro do Negro.. por outro lado.. p o r exemplo. A o n d a de protestos que se levantou da assembléia t r a n s f o r m o u a reunião numa t o r m e n t a . O n d e devo então procurar relações e divertimento? Com os que são iguais a m i m . N e s t e caso o conhecido desportista negro serve d e s í m b o l o uniformemente para a massa f o r m a d a pelos de sua cor. Henrique Dias. secretário do Congresso. q u e r indicar o negro de classe inferior. D a r c i R i b e i r o . propostas dc cassação d a palavra. N o passado. como convidado. N u m caso e n o u t r o a estereotipia do nome reflete d i r e t a m e n t e a existência do tipo social que lhe c o r r e s p o n d e : não se trata apenas de u m b o m jogador mas. além de outros estudiosos c o n v i d a d o s que assistiram ao episódio. Escusado é dizer. uniformizado pela cor e i n d e p e n d e n t e de classe. além de Edison Carneiro. Este. repassado de emoção. que a mesma expressão. e m b o r a confirmasse Seu ponto de vista e tentasse cxplicá-lo. os "henriques" queriam indicar. os Professores Roger Bastide e Charles Wagley e o Dr. Filho. Mas quais são os iguais a m i m : os que têm a m e s m a cor ou os que têm a m e s m a educação?" (O depoimento é a u t ê n t i c o e foi recolhido no decorrer da presente pesquisa). gritos e assovios que n ã o custaram p o u c o à presidência da sessão fazer cessar. n a boca do negro de classe média. através do uso de símbolos e generalizações aplicáveis a todo o grupo. servia d e s í m b o l o . Isto é feito. e entremeado dc constantes apelos à unidade e harmonia q u e s e g u n d o pensava devia reinar entre os h o m e n s d e c o r pois só assim resolveriam o seu p r o b l e m a .

Parte Segunda MOVIMENTOS SOCIAIS .

ao menos da f o r m a e do sentido de sua evolução. portanto.Macumbas .Irmandades — Associações negras e associações populares: confusão freqüente de conceitos — Sua significação sociológica. Isto ocorre. depois de formados. em primeiro lugar. no decorrer da exposição. esses movimentos passam. Confiamos que venham a ficar plenamente ressaltados. o que de fundamental procuramos. dentro da configuração total em que as relações d c raças aqui se desenrolam. O estudo das associações negras no Distrito Federal e dos problemas de liderança a elas relacionados . em certo sentido. produtos autênticos das relações de raças. noutros termos. porém. resume todos os demais e exprime.quer do p o n t o de vista d a função que elas d e s e m p e n h a m nas relações dos grupos de cor com a sociedade total. como conseqüência inevitável da direção e do ritmo em que se está modificando a estrutura social do Brasil .é um ponto básico de interesse. senão do seu conteúdo. na análise dos movimentos associativos do negro.CAPÍTULO I Associações tradicionais Importância do estudo do movimento associativo — Classificação das associações e sua caracterização . e julgamos deva ser procurado. que. quer do p o n t o de vista dos processos de seleção e peneiramento dos líderes no interior dessas associações . Queremos nos referir ao fato de esses movimentos. Isto significa. sobre o qual necessariamente se deve Fixar a atenção de quem pretende estudar sociologicamente o estado atual de desenvolvimento das relações interétnicas no Rio de Janeiro. para o futuro. determinando parte substancial. o resultado atual de mudanças que se vêm operando há longo t e m p o n o quadro histórico das relações de raças no Brasil e. representarem. em segundo lugar. c o m o q u e a antecipação das perspectivas que essas relações têm diante de si. os fatores que conferem a este aspecto d o problema uma importância singular. que. a agir sobre elas. É pertinente destacar. c o m o idéia preliminar. um desses fatores.Escolas de s a m b a . fundamentalmente. ao mesmo tempo. desde já.

esta verdade tem particular aplicação às estruturas sociais: aqui. da irresolução dos problemas . formular programas de ação que visem controlá-la e organizar agências específicas por meio das quais vão ens. na economia e na sociedade nacional. alterações deposição no sentido mais largo do termo. donde decorrem. que implicam n o aparecimento de uma série de problemas novos e no agravamento de muitos antigos. mais ou menos deformada. De diversa forma os grupos envolvidos têm refletido essas mudanças: a muitas delas já nos referimos. d e n t r o dela. do mesmo m o d o u m problema não resolvido está no f u n d o de todo movimento social. entretanto. e o dos que querem conservar. também. de outras teremos de falar adiante. assim como as resistências à mudança geram os problemas sociais. Deste ponto de vista é que as associações de homens de cor no Rio de Janeiro devem ser sociologicamente encaradas como a tomada de consciência. mais ou menos nítida. Daí se não deve concluir. Sobre o terreno assim historicamente preparado é que germinam e florescem os movimentos sociais. não só entre os dois campos básicos. mas. a resistência das situações estabelecidas às transformações sociais e aos seus efeitos parece ser f e n ô m e n o tão inevitável quanto essas próprias transformações. Aqui. indissoluvelmente ligado a ela. ao contrário. a mutabilidade é condição da própria sobrevivência. que as mudanças sociais são. Por imposição dessas mudanças têm havido alterações importantes na posição do negro. por sua vez.214 182O N E G R O N O R I O DE J A N E I R O e. as diferentes linhas de solução que para eles preconizam. tentar compreendê-la e interpretá-la. Os interesses se dividem. automaticamente aceitas por todos que por elas são afetados. E nessas resistências e contradições conseqüentes que têm origem os problemas sociais que toda transformação acarreta. problemas em face dos quais separam-se os grupos de acordo com as posições objetivas que ocupam na estrutura social. o dos que querem mudar. se é verdade que nada existe de imutável. De fato. só por isto. De fato. que se distinguem pelos meios e modos que r e c o m e n d a m para atingir a diversidade de objetivos que enxergam nas situações concretas.aiar aquele supremo objetivo de predeterminar o futuro pela ação no presente. numa variedade infinita de setores e orientações. então. o que em particular nos interessa é destacar que a forma mais autêntica e mais expressiva de os homens refletirem uma m u d a n ç a social na qual estão envolvidos ê t o m a r consciência dela. o quadro tradicional das relações de raças.

de ideologia condutora. os movimentos e associações negras refletem. nessas associações. na escala de situações históricas que definem as etapas sucessivas por que têm passado as relações entre negros e brancos na sociedade brasileira. de educação. função. e c) das diferenciações internas existentes n o seio da população de cor . as diferenças d e tipo. porém. Na maioria dos casos. do mascaramento sob a forma de simulada indiferença até ao sacrifício sob a forma de martírio. objetivos. primária.diferenciações de classe. imediata e espontânea da inferioridade social do negro e das limitações que. olha p a r a ele c o m o um bizarro e pitoresco espetáculo. d a negação da sua exsitência à hipertrofia de sua significação. q u e vai da passividade à agressividade. e q u e se revela mesmo quando. Nesse s e n t i d o . uma multiplicidade de formas e uma multiplicidade àe graus daquela tomada de consciência total ou parcial de seu problema. que é como tradicionalmente se apresenta nos estereótipos que o branco tem em mente a seu respeito.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 215 relativos aos seus interesses materiais. que tendem. de filiação ideológica e tantas outras. de u m p o n t o de vista acadêmico. prestígio. suas aspirações e suas perspectivas. liderança. sofre sua capacidade de plenamente participar da vida social. uma " nova técnica científica" para o tratamento "catártico" dos problemas de relações de raças. em conseqüência disso. de programas. a tomada de consciência assume feição ideológica e chega até à sofisticação de anunciar. noutros casos. cada vez mais. diversa tem sido a importância momentânea e c o n j u n t u r a l deste ou daquele problema e diversas também têm sido as possibilidades efetivas e as formas expressivas d o negro reagir diante deles. estruturas. da obsessão à fuga. o que se encontra é apenas u m a tomada de consciência prática. b) da m u l t i p l i c i d a d e de aspectos e formas particulares em que os problemas f u n d a m e n t a i s de convivência interétnica se concretizam e se impõem à consideração. seu status. repleto de temas para dissertações literárias e paracientíficas. que vive nas áreas urbanas d o País. H á de t u d o . Umas e . papel. a tornar o negro brasileiro m o d e r n o . sob a forma de mensagem redentora. poder de atração dessas organizações é p r o d u t o d e três ordens fundamentais de fatores: a) das variantes históricas de posição dos grupos de cor no quadro de suas relações com o branco. alguma coisa bastante diferente daquela homogeneidade escura e exótica da senzala. e tudo reflete as flutuações através das quais a vivência do problema se transforma em consciência dele. A variedade e a diversidade de associações. seus valores. em sua história. É óbvio que. de status. de geração.

e só depois disto. tentar suprir aqui essa lacuna. porém. fases características — especialmente as mais recentes — d o desenvolvimento de um processo. nossa preocupação essencial se volta para a visão de conjunto. por exemplo. até explosivas. ao "amassar essa ganga". O estudo das associações de h o m e n s de cor. impõese seja feito com critério sociológico. a perspectiva imediata de as mais largas camadas da população de cor ouvirem o apelo dessas associações e terem uma participação intensa nessas ações organizadas "de elites agressivas". Mais uma vez. q u a n d o não elimina por completo. é preciso que se diga. por outro lado. particularizando e detalhando para cada uma. acontece. 1 dentro dos quais o n ú m e r o de membros atuantes é muito menor do que o de pessoas vagamente interessadas. compreender o mecanismo pelo quâl todas elas reunidas definem. por outro lado. que faz parte da constelação dessas chamadas "condições objetivas" um tal estado de desamparo material. de falta de treino para uma vida associativa de nível menos puramente vegetativo. primeiramente. de embrutecimento intelectual. Não nos interessa. c muito menor ainda do que o volume das "massas de manobra" em n o m e das quais falam e em função de cujos interesses as organizações declaram viver e lutar. Elá que encará-las. movimentos de cúpula.2 D e resto. pois a maioria delas nem sequer logrou ter história. Não é difícil verificar. Está ainda por se fazer — aliás.a história monográfica dessas associações e movimentos. as variantes concretas desse processo geral acima esboçado. que poderiam conduzir a ações permanentes de reivindicação. neste campo. que elas são. fases diversas de seu desenvolvimento. como traço comum. portanto. foi procurando sempre. cada uma de sua maneira. como tipos.2 1 6 1 82 O N E G R O N O R I O DE JANEIRO outras refletem. neste capítulo. construindo a história social d o negro com os materiais que a história lhes fornece. de quase fazer a biografia de algumas dessas associações. ao menos para as principais. a posição das massas de cor na sociedade brasileira permite um extraordinário acúmulo de condições objetivas desfavoráveis a elas. no correr da pesquisa. cada uma também à sua maneira. quase tudo está ainda por ser feito . será possível diagnosticar as tendências e variantes que os principais tipos e x p r i m e m e representam. que dificulta ao extremo. de desestímulo moral. por definição. tão efêmeras que têm sido e tão pouco profundo o sulco que deixaram. e se acaso tivemos. o perfil sociopsicológico do negro brasileiro. então. De fato. de inércia mental. como se todas formassem uma só. e é sobre esse f u n d o que vão. com isto elas apenas refletem um característico saliente .

surgiram e desapareceram sem deixar rastro brilhante. de um lado. falando às massas negras uma língua que elas não e n t e n d i a m . mas. debaixo d e u m a e de outra liderança. o secretário o u a diretoria se encarregariam de fazer o resto. o combate ao preconceito — que tendiam a fracassar. resulta do próprio q u a d r o d e relações dc raças peculiar ao Brasil e está presente e explica a rotina d o nascimento. então. a chama do ideal. cabe a uma elite arrastar as massas na aceleração desse processo. ainda é. a igualdade efetiva com o branco. como um todo. de maneira a criar u m a reputação sequer regional. não sentiam. esta ascensão já atingiu um certo estágio e. analisado o problema de outro ângulo. precisamente. que ainda é a terra de tantos revoltados e de tão poucos revolucionários! Sempre foi relativamente fácil o movimento de adesão a essas associações mas aos associados sempre faltava a permanência do interesse. razão pela qual.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 217 da vida política do Brasil. antes. o comportamento passivo. agora é que a situação está começando a atingir este estágio. o presidente. Em toda fase que decorre entre o fim das associações abolicionistas até a terceira década d o século XX muitos episódios desses ocorreram e passaram sem grande ruído. a luta p o r sua ascensão social. 3 Essa falta dc interesse e dinamização. o impulso para trocar a chefia do branco pela liderança d e u m a elite do próprio grupo étnico é tendência altamente expressiva. em suas grandes linhas. agitando reivindicações cuja premência elas. por todo o País. social e cultural dos homens de cor. N o Brasil. exatamente o m e s m o . o caráter eventual e episódico de grande número dessas associações. d o prestígio da . tendendo a servirem apenas d e veículo dos interesses e aspirações mais ou menos confessáveis de uma minoria. aliás. Outro não foi. a constância do estímulo. embora nenhuma delas tivesse logrado sobreviver à consecução daquele m a g n o objetivo. porque tais associações parece que só passam a exercer u m a f u n ç ã o útil quando. especialmente aquelas q u e tinham por objetivo expresso o alevantamento do nível econômico. que cedo desapareciam sob o crescente indiferentismo e a vaga impressão de que este ou aquele "incumbido". independentemente delas. vida e morte de mais d e u m a centena de organizações de h o m e n s de cor que. Em suma. desamparados. que delas se utilizava para se projetar individualmente. Viveram como crisálidas e morreram todas q u a n d o foi decretada a libertação dos escravos. o destino das sociedades abolicionistas que proliferaram por todo o País. a tendência inevitável era que tais associações se tornassem vazias de conteúdo.

a vida associativa do negro decorria dentro dos quadros tradicionais.218 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO pequena elite negra. de forma relativamente permanente e estruturada. de outro lado. reunia.no plano econômico. como produto sincrético. que então davam início ao grande processo de deslocamento para os núcleos u r b a n o s e de integração progressiva n o nascente proletariado industrial. entre nós. As massas de cor acompanhavam as procissões e. seus símbolos. ou em jogos. nos folguedos e festas religiosas. seus desfiles. f o r m a d o s por negros e mestiços "evoluídos" e o "negro-massa". como as congadas. mais ou menos prolongada. do apoio e do interesse das massas dc cor do País. seus dias santificados. suas festas. Enquanto esse processo fundamental tinha lugar. como a de São Benedito. sob a égide da religião "oficial". e que continuamente se misturavam ao catolicismo.entre os estratos de elite. ocasião de licença geral. principalmente nas religiões de origem africana que seus ancestrais trouxeram para a América. este fato começou a produzir os seus efeitos sociais e. n o plano nacional. quase que exclusivamente no campo religioso. a camada que ali satisfazia suas necessidades formais de vida mística e associativa fora do âmbito da família. que exigem certa perícia e treinamento e. no Rio d e Janeiro. sem grandes alterações de função e de estrutura. cuja preocupação era branquear-se o mais q u e possível e aproveitar-se individualmente do status livre que obteye em 1888 e. suas missas solenes. os negros se associaram. gerando. Neste período. aprendizagem anterior. o espírito associativo dos homens de cor revelou-se. ao espiritismo e a outras seitas místicas. das quais. assim. como a capoeira de Angola. a macumba é o exemplo local. Começou então o negro a participar ou a tomar a iniciativa de formar associações de novo tipo. ranchos. mais ou menos regular. As Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos H o m e n s Pretos. é costume denominar "religiões afro-brasileiras". escolas de samba. em grupos recreativos. davam o seu colorido e seu ruído às comemorações. sua semelhança com as irmandades brancas. de fundamental importância é a diferenciação social que começou ase produzir . Mais recentemente. adiantado o processo de urbanização d o negro e de sua integração nos quadros operários de uma economia industrial em expansão. e antes de ele começar a produzir seus primeiros frutos no bojo das mudanças de estrutura que se operavam na sociedade brasileira. portanto. não . uma verdadeira babel religiosa a que. Ao lado dessas associações religiosas. entre estes. social e cultural .

tão ligados. nela teve sede o Senado da Câmara e lá se reuniram os patriotas que. na Sé. o que ela principalmente exprime é que as associações que chamamos de tradicionais resultam. um pouco naquela situação de "coisas contemporâneas mas não coetâneas". para onde. Sabe-se q u e os homens de cor já possuíam imagens desses santos. A mais antiga dentre elas parece ser a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos. se transferiria o Cabido. n o Brasil. Esta distinção não é exclusivamente cronológica. mas t a m b é m tendem e pretendem imprimir a elas uma nova direção. esportivas e outras de natureza reivindica tiva e para lutar declaradamente contra os obstáculos materiais e preconceituais que encontra ao seu desenvolvimento. entretanto. Nesta igreja os escravos realizavam a festa do Divino. enquanto que as aqui chamadas de novo tipo não só resultam das alterações que vem sofrendo aquele q u a d r o tradicional das relações de raças. 12 anos mais tarde. em 1822.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 219 somente recreativas. Em terreno doado na R u a da Vala (hoje Uruguaiana). c o m o as "gafieiras". de que falava M a n n h e i m . não gostava da vizinhança. fazer uma distinção entre dois tipos de instituições: as que denominaremos a) tradicionais e as q u e c h a m a r e m o s b ) de novo tipo.4 . e coroavam o Rei e a Rainha do Congo. e é assim. f o r a m pedir ao Príncipe Dom Pedro que permanecesse no Brasil. mas também destinadas a satisfazer as suas necessidades artísticas. do padrão tradicional das relações entre negros e brancos no Brasil. desde os começos do século XVIII. ali erigiram e inauguraram a sua igreja em 1725. que hoje elas coexistem. * -M * Pode-se concluir. e m primeiro lugar. e cabem perfeitamente dentro dele. que bem exprime a fase de característica transformação que estão atravessando as relações de raças neste País. com a presença de um Imperador. em verdade. participação e ascensão social plena. as instituições tradicionais do negro no Rio de Janeiro. Vejamos. por outro lado. inicialmente. à sorte dos escravos. n o M o r r o do Castelo. embora o seja em certo sentido. Escusado é dizer. aliás. deste quadro sumário. ao que parece. Até a chegada de D o m João VI ao Brasil essa igreja seria a Catedral do Rio de Janeiro. tal como nas igrejas da mesma invocação em todo o País. que para estudarmos as associações do negro n o Rio de Janeiro devemos. O Cabido da Sé. intelectuais.

Função religiosa e função recreativa sempre foram as principais nestas instituições. de tal modo que hoje a proporção d c n e g r o s c n i r c os s e u s a s s o c i a d o s é p e q u e n a / ' D r r r s l o . dança e comedoria. de boa família. Já a eleição d o Rei do Congo tinha uma finalidade mais prática e mais imediata: era uma festa instituída e. as autoridades permitiam a "eleição" de governadores de nação (previamente aprovados pela polícia). porém. e de desfilar pela cidade. A condição de ser branco. A festa do Divino Espírito Santo era u m a velha tradição portuguesa da era dos descobrimentos. u m a curiosa condição: era que o tesoureiro devia sempre ser homem branco.220 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO A organização dessa Irmandade foi evidentemente feita p o r intervenção da Igreja oficial. foi. o rei e seu cortejo eram recebidos na igreja d o Rosário. aos poucos. com atribuições mais amplas. q u e tinham por missão se responsabilizar pela "paz social" de então. acima destes governadores de nação ficava um Rei do Congo. q u a n t o aos brancos. depois. o viajante inglês H e n r y Kosten referiase à zombaria com que encaravam a autoridade desses "reis". U m a coisa e outra não impedem. Para os negros estas "eleições" e "coroações" eram principalmente oportunidades de folguedo. representante que era de toda a comunidade servil. com o objetivo de cultivar a docilidade da massa escrava. rico. que a aprovava. entretanto. Ela consistia no seguinte: explorando antigas práticas tribais africanas. que devia ser u m menino branco. que saía em cortejo pelas ruas. 5 A Irmandade. O significado religioso e o simbolismo profano da cerimônia mesclavam-se perfeitamente e ambos tinham a sua razão de ser num ritual festivo e religioso de escravos e para escravos. na m e d i d a c m q u e o negro foi tendo de encarar problemas de outra natureza e foi conquistando . Depois de eleitos. velando pela conduta dos negros pertencentes à mesma filiação tribal. distribuindo esmolas e libertando pretos. tolerada pelos brancos. inclusive porque. m u d a n d o a sua constituição étnica. a princípio somente de negros escravos. rico e de confiança de quem detinha e manipulava as finanças da I r m a n d a d e explicase por si mesma. que culminava com a coroação de um Imperador. sendo o escravo um semovente despido de atributos de pessoa jurídica. não poderia praticar m u i t o s dos atos que decorreriam de sua função de tesoureiro. também "eleito". exigindo. q u e merecesse a aprovação das autoridades eclesiásticas. com grande pompa e sob m u i t o aplauso. que fique nítida a função que t i n h a m tais cerimônias no contexto mais geral dos antagonismos de classe e de raça q u e separavam negros escravos de senhores brancos.

fundamental. pelo menos. que ali dizem terem sido de negros. A propósito dessas irmandades religiosas é pertinente assinalar um fato c o n t e m p o r â n e o nosso e bastante significativo. no Rio de Janeiro. uns túmulos de escravos. Anualmente. em que entram. na Avenida Passos. toda sua mística e liturgia deixa transparecer essa influência. pode-se afirmar q u e a macumba constitui um dos melhores exemplos da extensão e da variedade do sincretismo religioso operado n o Rio de Janeiro. N a Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. onde estão depositados ossos. como poderá verificar pessoalmente qualquer um que queira formar opinião segura sobre a distância que existe. O elemento indígena -. nestes assuntos. em intrincada mescla.e no sentido brasileiro da expressão. ao lado da nave principal. ajoelhada e rezando j u n t o aos túmulos desses escravos. nivelados pela mística.ou. a visita que lá fizemos não nos permita dizer. mártires da escravidão. Do ponto de vista da composição étnica da multidão que vimos. . que são lançados nos túmulos. de n e n h u m a maneira. missas pelo repouso de suas almas. flores e velas. Neste sentido. Nelas. n o dia 13 de maio. dinheiro. tidas c o m o religiões negras e nas quais encontramos tanto brancos quanto pretos. já se pode dizer que é tão forte . dizer-se que a macumba é "religião negra" no Rio de Janeiro. as formas de expressão predominantes oferecem. Queremos nos referir ao culto dos mártires do cativeiro. manifestações de aspecto inteiramente diverso. Por outro lado. sendo-lhes oferecidas. pelo ritual ou pela teologia. negra — a influencia mística e litúrgica da religião católica. a idéia opci/ll q u e se faz da religião indígena. c o m o veremos.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 221 outras formas menos simbólicas de colocar esses novos problemas. a crença que existe é de que tais mártires do cativeiro são bons intercessores de pedidos e agem como intermediários para a obtenção de graças imploradas. a contribuição cultural do negro foi. sem dúvida. diga-se de passagem. esta impossibilidade é ainda maior do ponto de vista da composição étnica dos q u e a freqüentam. elementos de variadas proveniências. H o j e . entre a realidade e a fantasia. a linguagem do símbolo religioso também foi sendo superada e hoje. tão original quanto a . o que observamos foi a mesma coisa q u e também verificamos nas m a c u m b a s d o Rio de Janeiro. místico.é grande a romaria de crentes que vão fazer preces j u n t o aos túmulos. em troca. Se é verdade que é quase impossível. aliás. muito embora. que se trate de u m c u l t o exclusivo ou mesmo p r e d o m i n a n t e m e n t e de negros. porém. originalmente. no dia 13 de maio — data da abolição da escravatura . mesmo quando conservam u m lastro profundo. existem. de origem principalmente nagô.

Santo A n t ô n i o . Essas linhas. e a de quimbanda 7 . o bozó e o despacho. Pai Benguela etc. Cosme e D a m i ã o . em suas grandes linhas. trajes bizarros. filiados de todas as seitas. sintam-se à vontade n a m a c u m b a . aliás. nas macumbas — a magia de todos os tempos e de todas as origens. as semelhanças são ainda muito maiores do que as diferenças. a m a c u m b a constitui. u m a grande síntese e reproduz aqui. pois nela e n c o n t r a m a pajelança e o candomblé. e sintam nela um pouco de sua própria crença. E o que explica. tudo isso jazendo . danças e passos extravagantes. superstições de evidente selo medieval. são ruidosas. da sociedade. que pessoas vindas de outras partes. Artur Ramos. e b) como centro de curandeirismo. Pai Cabinda. Diferenças sutis são apresentadas pelos prosélitos de uma e de outra c o m o traços distintivos de seus ritos e crenças. não-negras. Santa Rita. Esse interesse tende. pois há tambores rufando. a história natural de todas as religiões. À m a c u m b a se liga a comunidade. ou por moda. por sua vez. cada vez mais. vêm. no fundamental. seccionando-a em duas linhas: a de umbanda. Admitindo todos esses elementos. os deuses e os demônios. "magia negra".ou. às vezes . c o m o dizia o Prof. tanto na mística. a superstição e o exorcismo. em p e r m a n e n t e processo. e tuttiquanti. ou por insatisfação c o m a religião oficial. E mais que isso. procurando a macumba para satisfazer as suas necessidades de vida mística. entre as diversas outras linhas que derivam do fundo comum. estrangeiros de todos os países.é preciso que se diga . via de regra. Entre estas. Não resta dtivida. toda sorte de elementos mágicosimbólicos que florescem em toda parte como concepções de folk sobre o m u n d o e a vida. crentes de todas as religiões. cada u m a com seu chefe: Iara. aos nossos olhos. como seria melhor dizer. "magia branca". que é o próprio "sincretismo avassalador". o espiritismo e o shamanismo. u m patriarca barbado. brasileiros de outros estados. que é a ligadura mais forte que se e n c o n t r a prendendo todos esses elementos n u m a aparente unidade de crença e de culto. de que. principalmente. As sessões. como: a) centro recreativo. t a m b é m .. assim c o m o . um diabo feio. Araribóia. a criar uma também crescente e importante divisão na macumba..222 182O N E G R O N O R I O D E J A N E I R O resultante da vaga recente de indianismo literário — também contribui com parcela apreciável. subdividem-se em legiões. palmas e cantorias. uma virgem benfazeja. por sua vez. crenças e práticas espíritas. H á alguns anos que elementos das camadas superiores. catolicismo c protestantismo.sobre uma grossa camada de profunda e lamentável ignorância. nesse sentido. porém. o tambor de mina e o catimbó. concorrem na macumba . como nos ritos e na liturgia.

também. u m a função lúdica na vida de seus m e m b r o s . e que p o d e m ser desde a busca de um remédio para curar uma ferida renitente até u m recurso mágico para se melhorar n o emprego ou reconquistar u m marido transviado. por o u t r o lado. na vizinhança. infusões. A clientela é a mais variada. receitar chás. Ela tem. Já a magia ele a pratica com mais liberdade: fornece amuletos. que o curandeiro exerce o seu ofício. faz t u d o .. pratica o cnvoútcment. recomenda formas rituais de conduta. Não é sem cautela. sua situação econômica permite-o ajudar alguns prosélitos mais desafortunados. Esta.q u e a macumba tem com 'a c o m u n i d a d e circundante é a função de liderança q u e tem o curandeiro. os que chamam o curandeiro em sua própria residência. e sua maior habilidade mental e verbal o tornam um líder latente. que lá vão em busca de consolo para suas mazelas físicas e espirituais. superiormente colocados. q u a n t o à cor e quanto à posição social. no subúrbio ou no m o r r o . Há. o curandeirismo.ao lado de sua função lúdica e do curandeirismo . repreende. e utilizada muitas vezes. lê e adivinha o futuro. especialmente q u a n d o se trata de exercer a medicina: prescrever remédios.ASSOCIAÇÕES T R A D I C I O N A I S 223 comidas e bebidas. não raro u m líder real. p o r isso. q u e é. é uma terceira relação direta . onde a consulta é feita e o n d e têm lugar cerimônias religiosas particulares. protege. p e r i o d i c a m e n t e . aliás. encaminha. que o chefe d o culto ou seus acólitos dão aos crentes. que são retribuídas com esmolas. E latente o perigo de ele se envolver com a repressão policial se não age com discrição. c o m a n d a . N o s dias festivos. para se distrair. Por isso. liderança procurada. suas relações pessoais com membros de o u t r a classe.e mais: aconselha. as consultas. nas vésperas das eleições. o único espetáculo acessível com que se conta na redondeza. na comunidade. p o r solícitos candidatos a qualquer coisa.. é que se começa a ir à m a c u m b a para ver. E freqüente ver um curandeiro dizer c o m orgulho: "ainda mesmo n o sábado passado tive dois Cadillacs parados n a minha porta". piepara despachos a serem depositados nas esquinas e encruzilhadas. Outro laço associativo essencial na macumba é a magia. multidões se reúnem n a sua sede para ver o espetáculo. banhos com ervas etc.. muitas vezes. . não raro. Seu prestígio de líder espiritual e sua posição d e n t r o do culto levam-no a manter contato constante e amistoso com as autoridades policiais do bairro. neste pequeno m u n d o de seu burgo.

Edison Carneiro. pela macumba por parte das classes superiores. suas práticas. finalmente. produtos típicos para o culto. de seus ritos. velas. são o . seus "mistérios". senão no sentido político ao menos no sentido sociológico. costureiras. entretanto. que não raro vêm da Bahia.224 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Esta função de liderança. são as mais freqüentadas por elementos de classe média e superior. É preciso que se diga. ficam as macumbas de outra linha. por sua vez. ervas. é o que há de mais novo na história contemporânea da macumba. u m tanto esnobe. no Distrito Federal. centros. o rádio. artistas populares. Há. o mesmo também acontece . já que hoje o negro na macumba comparece muito mais como crente do que como negro. São João de M e n t i etc. escultores de imagens. 9 Segundo a opinião do D r . cabanas e. no Rio de Janeiro. Referimo-nos às escolas de samba. as escolas de samba do Distrito Federal. Sinal dos tempos.). e são mais conhecidas por tendas. uma função recreativa extremamente importante e claramente definida. não-negros. mais ainda. pintores. cada vez menos. a televisão. uma pequena legião de artesãos suburbanos: santeiros. que foram. essa curiosidade. no conteúdo como na forma se algum dia o foi —. como forma institucionalizada de recreação popular. sinal de que ela é. as revistas ilustradas rivalizam-se na exibição. Edison Carneiro. que já tendem mesmo a perder o nome tradicional de macumba. pequenos comerciantes de bebidas. associações populares especificamente recreativas e tradicionalmente ligadas ao negro. em regra. fabricantes de instrumentos típicos e. segundo depoimento prestado pelo Dr. ou mesmo da África. em tom fantástico c legendário. ao lado da função religiosa. o que significa. Aliás. "religião negra". tem uma base efetiva no fato de viver da macumba. em certas regiões do País. embora estejam fora da jurisdição administrativa do governo da cidade (Nilópolis. N o perímetro desta. que se incluem na região metropolitana do Rio de Janeiro. muito particularmente. que exercem grande fascínio e despertam grande curiosidade sobre as multidões e. entre as classes superiores. A proibição. em certo sentido. pois com a religião oficial. 8 Dissemos que essas formas populares de religião no Brasil — embora não somente elas. noutros termos. como que insatisfeitas com a religião "oficial" e tradicional. a matriz original do que neste País se chama de povo. atualmente. que as macumbas. do uso de tambores ou outros ritos ruidosos faz com que as macumbas de umbanda se localizem nos municípios limítrofes do Estado do Rio. Caxias. ao lado das religiosas. estão em grande moda: o cinema.têm. muitas vezes exclusivamente disso.

cercado por elementos masculinos. animais etc. torres. O samba de roda é conhecido nas regiões Leste e N o r d e s t e d o Brasil e é essencial e originalmente uma dança rural. embora já existam alguns consagrados. ocasionalmente uma viola. ou violão. tem iluminação própria. luas e sóis. Edison Carneiro. além de um estandarte. tanto na música q u a n t o na dança. b) os ternos e ranchos de Reis e c) as modinhas u r b a n a s d o fim d o s é c u l o passado. que geralmente o acompanha por curiosidade. de fácil memorização. representam u m cortejo de caráter religioso.. que carregam figuras alegóricas. por u m a corda que os aficcionados m a n t ê m em volta e à certa distância dos integrantes. ou rancho. que lhe dão o direito de samba ou transferem esse direito a outrem. O s passos da dança. hoje em a d i a n t a d o processo de urbanização. com predominância das formas profanas. donde provavelmente se reria originado o nome da dança. treino e graça de quem dança. 1 0 A orquestra costumeira é um conjunto de prato e faca. os volteios característicos. com seu ritmo característico e marcado. q u e é o que dá. H á s e m p r e u m a estrofe de solo e uma estrofe de coro. esses cortejos trazem à frente. o elemento essencial do ritmo e da melodia." . A música. O segundo elemento folclórico original são os r a n c h o s e ternos de Reis. como que predispõe a pessoa àqueles passos e meneios típicos da coreografia do samba. às vezes um ganzá ou um reco-reco.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 225 resultado de um processo de fusão entre: a) o samba de roda d a Bahia. u m a orquestra. Seu desenvolvimento não exige nenhuma organização prévia. d e p e n d e n d o principalmente da habilidade. ou cavaquinho. nem solidariedade do grupo de participantes. entretanto. segue-se um grupo de figurantes femininos. a i n d a segundo a opinião do Dr. Até há pouco tempo isto chamava-se "semba". a viagem dos Reis Magos a Belém e. fechando o cortejo. de fato. dando e recebendo "imbigadas". geralmente em impecável roupa branca. Consistem n u m a procissão que comemora e p r e t e n d e reproduzir. chamados "ciganas" o u "baianas". f o r m a n d o a roda. não obedecem obrigatoriamente a nenhum padrão. v e m outro grupo masculino. e se isola do resto da multidão. embarcações. A única exigência é a de o dançarino passar a primeira vez de bailar a outra pessoa d a roda p o r meio da "imbigada" ou "umbigada" — gesto que consiste em bater o próprio ventre 110 ventre da pessoa escolhida. acompanhados pelas palmas e pelas vozes dos circunstantes. católico. fogos d e bengala ou lanternas chinesas. O terno. q u e se alternam indefinidamente. como tal. Nas formas que assumiram entre as festas populares do Brasil. Qualquer pessoa pode participar do samba.

2 2 6 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO A porta-estandarte carrega o pendão característico d o terno. em do no morro Cruz. F. e Branco. como forma de associação lúdica. Como bem o diz u m samba popular: A primeira escola de samba Foi no Estácio de Sá. ponto d e interseção de linhas de transporte que conduziam às zonas norte e s u b u r b a n a da cidade. que teve nascimento a escola de samba. Portela. quando teve fim aquela fase de aparente disponibilidade sentimental — fim rápido. por causa daquela primazia. 12 Foi no Rio de Janeiro. que desenvolve passos de dança de iniciativa própria. como tema predileto. Oswaldo e m R a n g u . Esses três elementos. Cabttçn. o n d e desemboca a ladeira que leva ao Morro e Favela de São Carlos. em que o homem (mais recentemente. Paz e Amor. fato novo e tipicamente carioca no capítulo da recreação popular nacional.. mais tarde. a saudade. a ingratidão. com grande margem de criação pessoal. culturalmente fundidos. 110 Lohloti. a traição. Essa era a nota dominante dos l u n d u s e modinhas do tempo da Monarquia. originaram o samba carioca e geraram. o abandono. outros subúrbios.. até a Primeira Guerra Mundial. O Largo do Estácio. Finalmente. sob geral aceitação popular. que não só a música mas também a literatura registram. as canções populares do Fim do século passado foram o terceiro elemento de cujo caldeamento as escolas de samba parecem ter resultado.stftçíw Primeira. e vem custodiada por um personagem chamado "mestre-sala". Azul em Vaz Lobo. o desconsolo. T ê m elas um característico c o m u m : são langues canções de amor. Independentes. D a í a escola de samba partiu para conquistar outros largos. nunca mais deixou. também a mulher) lamenta e chora o amor perdido. quase todos os bairros da cidade tinham uma ou mais escolas disputando a preferência do público. d o Salgueiro.. de figurar em destaque nas canções populares que comemoram os fastos do samba. Trcf Mosqueteiros. As músicas e danças modernas nem de longe ameaçavam ainda a uniformidade chorosa desses temas e melodias. em dois logradouros famosos da cidade. n o m o r r o d a M a n g u e i r a . Habitualmente é a moça mais b o n i t a e a melhor bailarina. outros morros. aliás. sob o peso d o desprestígio que as condições de vida moderna cedo haveriam de impor. Unidos .. abundantemente. nos primeiros anos do segundo quartel deste século: no Largo do Estácio e n a Praça Onze. a escola de samba.

aliás. "descem o m o r r o " — expressão já consagrada que indica as circunstâncias de ordem ecológica.. enquanto que os "cartazes". embora o sambista da cscola lenha ampla iniciativa na composição. A União Geral. f u n d a d a em 1934. n ã o deponde de sua exclusiva decisão a escolha do "enredo". ou seja. multiplicaram-se. resultou a formação de um novo organismo. outras vezes resolvendo-se em f o r t e pancadaria. Paulo da P o r t e l a e Cartola. delegação geralmente composta de dois membros. um t e r c e i r o órgão. Unidos de Vila Isabel.e vêm fazer exibições na Praça Onze. que toda a população conhece. racial. Muitas escolas. as escolas descontentes passam d e u m a entidade para outra. oscila muito. durante o Carnaval. A diretoria é eleita entre esses delegados. orgulham-se de ter seus sambistas particulares. estabeleceu-se entre elas acirrada c o m p e t i ç ã o . conseguiu-se derivar a pugna para a disputa dos p r ê m i o s oficiais estabelecidos pela Prefeitura Municipal. populares no sentido estrito d a palavra. recentemente. m a s c o m direito a um único voto. O critério parcial q u e m u i t a s vezes prejudicou a justiça da distribuição desses prêmios contribuiu.em suma. que se incumbem de fazer letra e música para os sambas que as escolas privativamente apresentam nos desfiles carnavalescos. havendo surgido. afinal. pela publicidade comercial. que estão presentes à sua origem . p o r é m . são impostos. Assim é que. As duas entidades existentes funcionam com representação das escolas filiadas. Em breve. a melodias sempre lembradas e cantadas pela população dos m o r r o s e subúrbios do Rio de janeiro q u e os transformou em figuras quase legendárias. a Federação das Escolas de S a m b a . já que sua fama é grande especialmente no mundo dentro do qual yive a escola de samba. c o m m a n d a t o de um ano.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 227 União do Uruguai. n a Associação das Escolas de Samba.. conta hoje com 3 4 escolas filiadas. hoje tornados ídolos populares. até que. T o d o s . Via de regra. para estimular a antipatia recíproca e a rivalidade entre as escolas. D a í resultou uma série de incompatibilidades e decisões ao invés da e m u l a ç ã o cordial que se pretendia. que as congregava. depois. geralmente depois d o Carnaval e cia distribuição dos prêmios. portanto. do motivo central que lhe .. Caprichosos dos Pilares. pois. a Confederação. n ã o raro. O número efetivo. As escolas de samba têm sido o caldo de cultura de f a m o s o s sambistas. finalmente. Assim. Deixa Mulher. sociológica e. às vezes animada de espírito esportivo. reuniram-se. Todas essas escolas. principalmente. da primitiva União Geral das Escolas d e Samba.. e tantos outros sambistas têm seus nomes ligados a famosas escolas d e samba. .

ciirvnr se. a cada ano escolhido pela escola para t e m a do desfile. acontecimentos ou épocas. Somente os diretores mais categorizados o conhecem. depois de escolhê-lo após longas meditações e discussões. movimenta-se a escola de samba.1. que é central n o c o n j u n t o . e superá-la. Consultam-se livros. de roupa branca. com que se abana e abana a portaestandarte. a fim de evitar que outras escolas rivais possam se utilizar da m e s m a idéia. brancas e altas. "definem o enredo". cores. símbolos. como característica. que são as cantoras c bailarinas da escola — também chamadas "pastoras" —. Há também uma corda q u e circunda o grupo e o separa do público em redor. de seda. vem a porta-estandarte e o baliza. . calça luvas e meias. a r m a d o do seu leque. Tais melodias. fantasias. gosto e imaginação. cm par com a porta-estandarte. O cortejo. Sua fantasia quase sempre é vistosa. s a m b a m e evoluem os figurantes. que representam grandes homens do passado. o que não impede que. representa. a alegoria q u e a escola. motivos. Este "enredo" é m a n t i d o durante todo o ano sob o mais rigoroso sigilo.2 2 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO cabe musicar. carros. Logo em seguida vêm as "baianas". com barra dc arminho. lembra muito o terno ou o maracatu. D e n t r o d o perímetro assim circunscrito. 1 3 Geralmente o traje dessas moças. em conjunto. Não raro traz u m a espada à cinta e com ela faz mesuras e poses. a que consome mais dinheiro e exige mais trabalho. endomingados. costureiras e compositores para concretizar a idéia. À frente. n a rua. N o Cortejo. que fazem o coro e dançam. E como são feitas para acompanhar o cortejo. feitas especialmente para as escolas. a cuja cadência desfilam. O traje e as figuras. o chapéu na mão agradecendo os aplausos. h qual serve de cavalheiro. típica dos folguedos populares brasileiros que se desenvolvem com o grtipo em marcha.1 Esta é a parte principal da escola. tenham g r a n d e aceitação e circulação. cidades ou países. marcha a diretoria da escola. bailar. orgulhosa de sua obra. têm. Este é um pajem. São melodias particulares. constituem o chamado "enredo". é mobilizada a equipe de carpinteiros. inilii|iiai. Uma capa de cetim de cores brilhantes. decoradores. depois da escolha. tem a disposição tradicional já descrita. a fim de permitir relativo desembaraço nos requebros da dança e manter a unidade do conjunto. isto é. Cabe a essa figura. na sua esfera. depois do "enredo". que geralmente só se reproduzem pela via oral. o ritmo particular. os mais experimentados são ouvidos e. têm muita coisa de diferente dos sambas e marchas carnavalescas que o grande público conhece e consome. culote. traz cabeleira longa e e m p o a d a .

que vela pela consonância entre o canto e a bateria. q u a n t o mais. na qual os instrumentos de percussão predominam de m o d o absoluto. de dentro da escola pode surgir uma outra iniciativa competições atléticas. promove uma festa. Elá ainda um diretor de canto. na mão. c h a p é u de feltro de aba larga. que c o m a n d a as evoluções. ao ritmo da música. escolas de capoeira. que comanda as vozes. tamborins. q u e mantêm a flama à custa de muita dedicação. é regida pelo silvo do apito d o "diretor da bateria". Durante todo o ano as escolas vegetam. C a d a u m a dessas partes de que se c o m p õ e o cortejo tem seu diretor. Às vezes. Este coro masculino é o que dá vigor à cantoria. na qual se resume praticamente a escola entre u m carnaval e o seguinte. Finalmente. 15 D o p o n t o de vista que em particular nos interessa. cada qual m u i t o zeloso da autoridade absoluta que tem n a esfera que lhe compete. em geral. em grande número. ou grupos de associados. Recentemente tem havido essa preocupação. ou cobrar mensalidades. o mais contagiante ritmo que se pode conceber. que faz o coro masculino. De outra parte.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 229 Segue-se a chamada "academia". O poder e a organização associativa da escola de samba é. um passeio. calças largas nos joelhos e de boca m u i t o estreita. "enfezam" o ritmo. Desfilam gingando de modo especial e característico. de criar focos de interesse . não é a escola de s a m b a em si que atrai os associados — é o carnaval. esporadicamente. Só a aproximação do carnaval e os ensaios para a exibição conseguem dar vida à escola. De fato. freqüentadas apenas. por um reduzido grupo de aficcionados. sapatos compridos e bicudos. e u m diretor de harmonia. melhor. aquele p e q u e n o grupo dirigente é quem faz e decide tudo. envergando longos paletós. V ê m geralmente trajados caracteristicamente. o p r o d u t o de u m esforço associativo permanente e c o m u m . pandeiros. o diretor geral c o m a n d a todo o préstito. As baianas têm sua diretora. em algumas delas. sem nenhuma preocupação de ouvir os associados. agogôs. precária. grupos teatrais etc. do mesmo modo a academia e a bateria. que está constantemente se fazendo ouvir. c o m o pode parecer. Às vezes. surdos. é praticamente impossível. que arrasta e estimula os demais e que hoje já faz parte integrante e essencial d o c o n j u n t o orquestral da escola. a p r ó p r i a diretoria. cuícas. funciona como um clube recreativo. A orquestra. O cortejo termina com a "bateria": tambores. tudo isso na verdade resulta do esforço de poucos e não representa. a rapaziada da escola. u m a batucada e a escola. Reunir os sócios. T u d o vem da pequena esfera dirigente.

noutro plano. especialmente.230 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO permanente. o que se explica pelo fato de seus membros se recrutarem. e em adiantado estado. o que ocorre simultaneamente com uma certa atitude de repulsa às formas tradicionais de folk. é que as escolas de samba são. onde o status de um grupo sofre alterações em conseqüência de mudanças sociais em processo. como de resto é facilmente observável em situações semelhantes ocorridas noutros lugares. N e s t e sentido. da recreação e demais setores do folclore nacional. porque são tradicionais. o que há de negro nessas associações lúdicas populares é: b) a presença e a freqüência de brasileiros negros. embora haja. nas escolas de samba — q u e são um produto genuinamente urbano . mais próximas dos padrões da classe dirigente e da sociedade branca. o que vale dizer: é a classe e m que está a maioria esmagadora dos negros que aqui vivem. ao estudarmos as macumbas cariocas. portanto. e nos produtos culturais que fluem de sua existência e funcionamento. traços que hoje se apresentam. e tradicionalmente consideradas como traços característicos de status inferior. Para a preparação dos préstitos. Isto que é facilmente observável na conduta . O público disponível para integrar e animar a vida dessas associações delas fica quase totalmente afastado. o u vem em quota diminuta. e a significação que as escolas de samba têm na sua vicia ê intermitente — emocionalmente intensa mas de curta duração. de outras instituições recreativas. atraem cada vez menos o interesse daqueles q u e procuram ascender socialmente. entre os negros. dos próprios associados: o auxílio oficial ou doações de particulares abonados são as fontes de receita.sofrendo em alta escala. Além disso. aquele processo (para repetir mais uma vez as palavras de A r t u r Ramos) de "sinctetismo avassalador" que já assinalamos. da coreografia. que. facilmente identificáveis: a) traços visíveis e marcantes da influência trazida pelo africano à formação da música. como divertimento de pobre. divertimento de negro. que não apenas os preparativos para o carnaval. Esse público é a classe operária do Rio de Janeiro. Nestas associações. que é o momento máximo e principal razão de ser de sua existência. já hoje se pode observar o desenvolvimento. nada existe de especificamente negro. o financiamento não vem. por isto mesmo. A i n d a assim. por via d a imitação das formas de c o m p o r t a m e n t o do branco. n o mais autêntico e peculiar significado brasileiro da expressão. nas classes pobres da cidade e de nessas classes pobres estar concentrada a grande massa de cor do Distrito Federal.

à coreografia. viver com distinção e boas maneiras é o mesmo que viver como branco. f u n ç ã o e ideologia. ou a Flor do Abacate. pelo fato de cobrarem preço mais barato à entrada e. são formas expressivas . o que se exprime não é a saga do africano na terra estranha q u e para ele. do pensar e do agir de brasileircs. c o m o dissemos. que funcionam c o m o qualquer nightclub.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 231 individual e que resulta do fato de. 1 7 Essas formas tradicionais de vida associativa correspondem. sendo associações recreativas freqüentadas por aquelas classes de status inferior. do sentir. mais uma vez. e as formas novas. freqüentado quase que exclusivamente por brancos.diferenciam-se daqueles estabelecimentos mais caros. à música. ou qualquer outra 16 . por sua vez. e que ali vão por duas razões elementares: em primeiro lugar. formas de transição entre os tipos de associações d e folk. que constituem grande parte de seus freqüentadores. como talvez fosse melhor dizer. que. à cultura de folk brasileira.através das quais se assinala. porque.mas a história viva e contemporânea das aspirações. por isso. a contribuição do africano à estética. e que se organizam e funcionam sob a f o r m a de clubes de dança. a um padrão também tradicional de relações de raças no Brasil. Queremos nos referir às "gafieiras". na sua estrutura. dos problemas. das lutas. ou. por isso mesmo. etnicamente negros. à mística. Essas "gafieiras" — como o Clube Elite. em nossa sociedade. associações de vida mais permanente. 1 8 As primeiras. era a nossa terra . não são mais do que "gafieiras" mais caras. engendradas pela nova posição social e econômica do negro na comunidade metropolitana. nelas comparecem contingentes elevados de pessoas de cor. donde se originam. entre muitas outras formas. dissabor a que se arriscaria uma pessoa de cor se tentasse penetrar num estabelecimento de maior preço e.recreativas ou religiosas . neste sentido. de novo tipo. as associações de novo tipo . p o r q u e não têm sua entrada impedida pelo porteiro do estabelecimento. as genuínas associações do negro brasileiro. em segundo lugar. As segundas. . porque podem pagar o seu preço e.das quais passaremos a nos ocupar agora — é que são. Representam. pois nelas. no meio urbano cm que as estudamos. dando lugar ao desenvolvimento de outros tipos de associação recreativa que nada têm de semelhante às escolas de samba. Ao brasileiro negro. cultural e nacionalmente brasileiros. em suma. também ocorre no plano das relações institucionalizadas e do comportamento grupai. social. por isto que correspondem ao padrão tradicional das relações entre negros e brancos no Brasil.

. proletário. pretensam e n t e científicas. o JII . auto p o p u l a r que celebra um acontecimento histórico d o C o n g o . quase todas ainda larvárias. . Djacir Menezes. Assim sc desenvolveram. 1951. As e x p r e s s õ e s u m b a n d a e q u i m b a n d a d e r i v a m da p a l a v r a a n g o l a n a q u e designa ou o próprio ritual". que tem em preparo um e s t u d o sociológico do papel das "elites agressivas" na vida social contemporânea. 4 5 3 C f . o cortejo do rei do C o n g o está presente nas cangadas. I rli|üu>.i'. um negro não-servil. i n d i s t i n t a m e n t e . são. ". ora lugar d e m a c u m b a ( T .1'.t>.lll il iltltril/mltifjil .232 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Elas são novas não apenas no sentido cronológico. de classe média. um negro brasileiro. segundo nos declarou e n c o n t r a m .ci di II C.ficou simbolizado no caso dc negros escravos dc certa cidade de M i n a s Gerais que.. não raro.:ÍII tlr'. Edison Carneiro. Neste sentido poder-se-ia mesmo dizer q u e u m a coisa c a negação da outra. |MI. M S citado. desconexas. livre.. e m b o r a não seja possível antecipar. s e g u n d o A r t u r R a m o s . deixaram p o r completar a igreja que estavam l e v a n t a n d o em louvor a São Benedito. ou intelectual. " o r a feiticeiro ou sacerdote. 2 Essa expressão devemo-la ao Prof. pl. M S especialmente preparado para esta pesquisa pelo Dr. Notas ' É preciso não confundir aqui " m o v i m e n t o de c ú p u l a " com "movimento dc v a n g u a r d a " . A julgar pelo c a m i n h o já percorrido não resta dúvida de q u e u m dia chegará mesmo o dia diferente.ílit. um novo negro não-escravo. que cada n o v a organização que se cria começa sempre p o r fazer a autópsia das anteriores. com o advento da Abolição.IN-sac. Escusado é dizer.s e no seu provocante ensaio Democracia y misticismo.1. visto ao reverso. figurações. q u e hoje assumem individualidade própria.l I t l I U HI. ligados a essas cerimônias. e casos especiais. '. . de diversa forma. passos.. Os p o n t o s de partida desta análise.q u e pode ser um ideal como o da A b o l i ç ã o ou a bolsa de um candidato a d e p u t a d o q u e nas vésperas dc eleições torna-se " a m i g o de n e g r o s " . a a p o n t a r as causas dc seus fracassos c a declarar que "desta vez será diferente. também. urbano. altamente sofisticadas e mesmo. até. um negro não-ignorante. Cf. inconformado com as pechas e os clichês que sobre ele existem. G 7 Idem. inclusive. sociologicamente novas. cm ligação com outros elementos c influências folclóricas. c o m o o maracatu c o afoxé. ou. T a m b é m . Edison Cordeiro. A q u i s o f n m t | j v m . das quais surge. informes e também. < les IGUAI i d o . em q u e consistirá essa diferença. no sentido de que resultam de situações relativamente recentes na história social deste País. um negro não-africano.cll l i v i o httll>flll(. México. com a sua situação objetiva e c o m as expectativas de comportamento que a respeito dele existem exprimindo tudo isso. um negro nãotrabalhador rural. com precisão. por outro lado. I S < o r i u p t r l a ' . Esse caráter de reação a um estímulo imediato .

deu lugar a q u e . M. apesar de as mais importantes lerem o u t r o caráter. canto. embora nossa maneira d e e n t e n d e r o fenômeno não careça de socorrerse da noção de "mentalidade pré-lógica". com facilidade. p. nasceram neste século. a i n d a em voga ao tempo em que A r t u r R a m o s colheu o seu material e hoje já i n t e i r a m e n t e superada (Lévi-Bruhl. Edison Carneiro. passim) . p. i <'alegoria (lestas roíilim-mns ao m e n o s u m a : a Associação Atlética Filhos dc lsbano. existem também associações recreativas — c o m o o citado Niger's Club ~ c esportivas. 17 . A. entre estas. para justificar o estudo. Historicamente as escolas de s a m b a são recentes. boate d e negros já com um caráter ainda menos " p o p u l a r " c mais sofisticado do que as "gafieiras". o sucesso dessas novas religiões e novas seitas. d o c u m e n t o citado. se tanto. a s e g u n d a a estrela principal do Teatro Experimental d o N e g r o . v. que se segue. " Esta corda. apud J. convidados ambos para o tradicional Baile dos Artistas. 1949. 14 13 12 Isto ocorreu. harmonia etc. 20. poder-se-iam s o m a r m u i t o s outros. por exemplo. 16). As observações q u e pessoalmente fizemos em 1 9 5 0 e 1951 nos subúrbios do Rio de Janeiro e m u n i c í p i o s vizinhos confirmam p l e n a m e n t e o diagnóstico. noutros lugares. ao qual i n f e l i z m e n t e e. como assinalam Yinger e Swift. 10 9 MS especialmente redigido p a r a esta pesquisa. A m a i o r s o m a de pontos é que indica o v e n c e d o r . Cf. pois da perfeição dessas unidades c que resulta a m e l h o r colocação do conjunto.is de nono tipo. * Em suma. n . atrás exposto. o primeiro dirigente e ator. A r t u r Ramos: "Magia e simulação". Estas informações históricas s o b r e a origem das escolas de samba n o s f o r a m prestadas pelo Dr. E esta a situação atual dos cultos e práticas m á g i c a s nos principais pontos do País. C f . Religion in the struggle of power. Abdias do Nascimento e R u t h d e S o u z a . Kntrc . Sociologicamente. na distribuição dos prêmios. Yinger. Segunda Parte c. como disse o Prof. Edison C a r n e i r o . e m certo sentido. Edison Carneiro n o d o c u m e n t o citado. 1946. News frontiers of religion. a abundante bibliografia q u e ele transe leve. o terno seja c o n h e c i d o c o m o n o m e de cordão. 15 T u d o isso tem sua i m p o r t â n c i a imediata. n o fim do volume. das escolas d c s a m b a . Reportamò-nos. tiveram sua entrada i m p e d i d a por um comissário de polícia por serem pretos. a tradição manda que o sistema seja d e p o n t o s . I. Cf. daí a necessidade de cada uma das partes f u n c i o n a r como uma unidade. Igualmente. p o r t a n t o . Swift Jr. pois. no Rio de J a n e i r o . Apenas um exemplo. cd.. nele se baseia a descrição da estrutura do cortejo. dados a cada uma das partes do c o n j u n t o : enredo. um protesto c o n t r a a crise da religião oficial e institucionalizada. O negro brasileiro. ou cordão. Cf. 1933. 1943. Aliás. em 1 9 4 9 . L. n a p o r t a d o Elotel Glória. d o c u m e n t o citado. A denominação não implica e m q u e estejam vestidas com o traje característico da baiana.ASSOCIAÇÕES T R A D I C I O N A I S 233 brasileira. à moda das filhas-dc-santo. t ê m trinta anos. 3. 16 Recentemente fundou-se n o R i o dc Janeiro o Niger's Club. geralmente são um p r o d u t o e. ao conceito de associação d e tipo tradicional. a propagação desses ritos e crenças religiosas entre as classes médias e superiores só por si d e m o n s t r a m que cias dispensam a h i p ó t e s e d o pré-logismo para serem e n t e n d i d a s .

obedecê-las à risca e. ao que parece. ainda que sumariamente. por definição. que aqui estamos chamando de "elite negra". por exemplo. reage e se comporta como toda elite em face de qualquer massa. a posição de empregador. pelo desenvolvimento e polimento individuais. ou profissional liberal. está certo. enquanto que as de novo tipo são. numericamente. atrás apresentadas. uma fração ainda insignificante embora crescente do grupo a que pertence. ou funcionário público.CAPITULOU Associações de novo tipo Movimentos associativos d a elite negra . por excelência. N ã o é possível compreendê-las. sobre a proporção de negros que têm. t ê m galgado a escala social. Isso resulta. facilmente se verifica quanto historicamente têm sido lentas e estritamente pessoais essas vias e possibilidades de ascensão dos elementos de cor que. o perfil deste grupo de negros social e culturalmente evoluídos. se tem mantido na sociedade brasileira. programas e atividades — F o r m u l a ç õ e s i d e o l ó g i c a s . cada um por si. aqui. Trata-se então. sua caracterização e o problema da definição dc seu papel . associações de elite. dc elite negra. no Rio de Janeiro.As mudanças de estrutura social e o a p a r e c i m e n t o das novas associações — O r g a n i z a ç ã o . . por conseqüência.. como está. esforçar-se para ser. a premissa. o futebol . D e fato. sem primeiro traçar. portanto.Significação sociológica cio p r o b l e m a estudado.Antigas e novas elites. como um todo. das condições adversas ao seu desenvolvimento em que aquele grupo. Para estes. consciente o u inconscientemente aceita. Se toda elite. que cm face da massa negra age. de conformar-se às regras do jogo. é uma camada pequena que se destaca de um corjnts social maior. no sentido de que são populares — neste sentido são tão negras q u a n t o . tem sido a de que o sistema de posições sociais em q u e historicamente se situam pretos e brancos em nossa sociedade. a elite negra tem esse atributo hipertrofiado e é. observando-se as cifras. ou que é portador de diploma universitário. As associações que aqui chamamos dc tradicionais são negras. antes de mais nada. vencendo • toda sorte de fatores contrários.

. pois inclusive a permanência deste na condição econômica. H o j e é m e n o s fácil. àquela minoria que pode ser a p o n t a d a ao negro-massa. é hoje u m dos problemas mais importantes e m a i s caracteristicamente novos da situação racial brasileira. os estereótipos sobre o negro que integram aquele padrão. por excelência. c o m o "negro às direitas". Evidentemente u m a tal aceitação das expectativas cie comportamento da sociedade branca transformadas em plano d e vida e em n o r m a de boa conduta só podia funcionar na prática e na prática só f u n c i o n o u em casos individuais. no mais c o m p l e t o sentido da expressão. promovendo-se. o funcionamento das instituições republicanas e liberais. Depois da Abolição. de organização e de liderança dos movimentos sociais do negro. a pequena elite que dele se destacou. uma tarefa de brancos. ignaro e pobre d i a b o . inclusive. como programa e como perspectiva ideológica está cci to ou errado. social e psicológica dc massa é o que justifica. ou apenas embrionários. q u e gera e coloca dentro da situação total problemas inteiramente novos de orientação. pensar no negro c o m o u m a massa homogênea e indiferenciada. a urbanização d o negro. náo raro. problemas até então inexistentes. mas não pode. em situações muito pessoais. assim.236 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO na medida d o possível. que em bloco se distinguia em t u d o e por tudo do estrato branco a ela superposto. independentemente de discutir se isto como plano. há que ser constatado que a formação e a presença de elites de cor. q u e parece ser o estereótipo melhor definido a respeito das aspirações das antigas elites negras. onde dirigir negros era. ser aceita e adotada por n e n h u m grupo como grupo. u m a das "honrosas exceções" — assimilando os padrões e valores dos grupos dirigentes. Em suma. de perspectiva ideológica. por definição. Por outro lado. p r o d u t o sedimentado da longa e lenta evolução do negro brasileiro. "negro de vergonha". pois significa um resultado da estratificação de classe e de status q u e se estabelece entre os próprios negros. no quadro tradicional das relações interétnicas neste País. como até meio século ou menos atrás. é esforçar-se para ser "um negro de alma branca". a crescente complexidade de u m a sociedade de base industrial em desenvolvimento criaram sérias assimetrias e profundas contradições n a forma e no conteúdo da estrutura social dentro da qual coexistem e convivem no Brasil pretos e brancos. e até realça pelo contraste. o que implica no surgimento de u m a variável sem precedente no q u a d r o das relações de raças no Brasil.

1 É de fundamental importância. a erudição. solução para u m a minoria. pelo elogio enfático dessas figuras de exceção. a integração da g r a n d e massa do proletariado e a p r o m o ç ã o de u m a minoria às fileiras da classe m é d i a . e provavelmente será cada vez mais para o futuro. É este. q u e permanece ainda nos mais baixos níveis de desenvolvimento cultural. cuja importância se multiplica. principalmente.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 237 U m a das novas variáveis surgidas é e x a t a m e n t e a diferenciação social interna n o grupo d e cor. aqui. em certo sentido exatamente o oposto. especialmente nas condições peculiares ao Brasil. a aceitação de cânones valorativos e comportamentais d o grupo branco sempre mereceu. perfurar a linha de cor. donde resulta um processo q u e se poderia chamar de formação de quadros negros e mestiços. com j ocorreu noutros países. especialmente de seus setores intelectuais. que sempre foi entre nós u m dos mais típicos canais de capilaridade social. n o Brasil. para certos brancos. diverso. p o r é m . ao menos subjetivamente. do que foi no passado. não podia deixar d e estar. Exatamente por ser via individual. a ilustração sempre foram. corno brecha pela qual tentar. como problema de m i n o r i a que é. estreitamente relacionado à ascensão cultural do h o m e m de cor. Precisamente porque as barreiras raciais não se corporifcaram entre nós em leis e instituições declaradamente cliscriminativas. pela distância que logo se estabelece entre um negro instruído e a massa negra. Esse problema da formação de u m a elite negra. aliás. as artes. não é de hoje que nossa história cultural registra a presença e a atuação de homens de cor ocupando posição destacada no mundo intelectual. q u a n d o revelam. gerados pela própria tensão racial e destinados a desempenhar no seu processas u m papel de extraordinária significação. do negro ou mestiço que desejava distinguir-se. u m a atitude simpática em relação a um negro freqüentemente vem associada a u m conceito depreciativo sobre . meios dc uma elite negra cruzar a linha de cor e procurar se branquenr pelo fato dc pensar e sentir c o m o brancos. c a m i n h o para poucos. uma acentuada preferência. De fato. um tema predileto de referência e citação. verificar que há aqui t a m b é m uma variante . as letras. na análise desse problema. a opinião que fazem da massa negra em geral: entre nós. e para compreender a significação que ele t e m no quadro geral das relações de raça no Brasil.histórica nítida e que o papel dessa elite cultural negra tende a ser hoje. por definição.

a análise de seu papel nas relações de raça no Brasil. o material informativo e biográfico existente. Essa minoria negra que logrou. porém. frontalmente.era a concepção que a antiga elite negra fazia a respeito de qual devia ser o seu . sob critério sociológico seguro. em todos os planos: em prosa e verso. M u i t a s dessas figuras de negros ilustres do passado já foram biografadas. m u i t o facilmente se convenceu a maioria dos negros evoluídos. funcionando c o m o "exceções". então. do mesmo m o d o . essa definição de papel era relativamente fácil e os expoentes da inteligência negra têm seus nomes ligados às campanhas liberais pela liquidação do status servil. o problema consistia em branquear tudo que fosse passível de branqueamento. contanto que certas oportunidades lhe estejam abertas.238 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO o negro. mas também depois de mortos. observar o contraste que existe entre duas concepções sobre qual deva ser o papel d o negro evoluído numa sociedade predominantemente branca. no jornalismo como na eloqüência oratória. na qual os preconceitos não se cristalizaram em leis e mantiveram-se no plano mais recôndito das atitudes. Apesar. a presença de u m a hierarquia de fato levava-o a usar essa possibilidade expressa na majestade do igualitarismo jurídico no sentido de ser o menos negro e o mais branco que lhe fosse possível. funcionando como "símbolos". Antes da Abolição. tornar-se "negro de alma branca" — e alma. é feita muitas vezes como quem maneja símbolos que demonstram a capacidade teórica que têm os homens de cor de se desenvolverem. da falta desses estudos de base. atingir a classe média. de que. Depois de 1888. permite. e os intelectuais negros. enfrentaram-na. entretanto. principalmente os das gerações nascidas no fim do século passado e começo do atual. Está por ser feita. daí por diante. não só enquanto vivos. pagou seu tributo à ideologia de sua classe: já tinham em mãos u m a lei batizada com o nome de Lei Áurea. bem como a coexistência de negros destacados de gerações diversas. agora era tentar resolver os demais problemas fazendo de conta que eles não existiam. et pour cause. A ausência de barreiras legais abria ao negro a possibilidade teórica de ascender do nível da senzala. era quase tudo . a citação e louvor dessas figuras. neste caso. Assim. Esta era u m a questão que se impunha não só aos intelectuais negros como aos intelectuais brancos de formação liberal. alcançado o objetivo que julgavam fundamental. Ter-se-ia aí um precioso filão de pesquisa para entender certos mecanismos sociopsicológicos das relações de raça. porém. por parte de muitos negros. ainda hoje.

. E q u a n d o canta o amor à sua própria esposa negra. d e neblinas!. a linha social da cor. Deste amor. o mais nórdico poeta do Brasil". e adiante exprime noutro verso: Amas tudo q u e l e m b r e o b r a n c o . e que para isto se prestava admiravelmente. em certa época. E o poeta. usados por pretos e mulatos para superar a linha de cor. . q u e "conseguiu ser. . mulatismo e bacharelismo. o desenvolvimento intelectual. Ele fala também na "ânsia de ser b r a n c o " . O simbolismo. e loura. 3 Quando ama. dentro das formas oferecidas pela cultura brasileira. o brilho nas artes. para isso. a celebridade literária foi. "com doces tons de ouro". Ó formas alvas. O anseio e a aspiração eram u m misto do desejo de misturar-se c o m a sociedade branca e da vontade de afastar-se da sociedade negra: entre esses extremos as situações concretas resultaram n u m a escala variada de afastamento de u m extremo e de aproximação em relação ao outro. por t u d o o que significa simbolicamente a cor branca.ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 239 papel n o quadro das relações raciais. n o Brasil. o objeto desse amor é "a mulher tudesca". foram expressões quase sinônimas. . Por isto mesmo. o s n í v e o s cactos E tens horror de ti! c o m o cantou o poeta Gonçalves Crespo. 2 Em Cruz e Souza a busca subjetiva da cor branca é kit motiv de t o d a sua obra poética. exprime isso em estrofes: Amas a lua que e m b r a n q u e c e o s matos Ó negra juriti A flor-de-laranjeira. corrente literária a que se filiou e de que foi a maior figura no Brasil. foi o meio de q u e se serviu. b r a n c a s . u m dos poucos realmente possíveis aliás. c u j a alma tem a forma "singela e branca da hóstia". branca. u m instrumento predileto. de n e v e s . faz dela "um sonho branco". T r a n s p o r individualmente a linha de cor era a m e t a a atingir e. quase obsessivo. o melhor exemplo deu-o Cruz e Souza.. deste anseio de subir racialmente e de passar. " d a cor nupcial de flor-de-laranjeira". que faz de sua vida subjetiva matéria-prima de versos e que pensa em voz alta o q u e o u t r o s escondem até de si mesmos. f o r m a s claras D e luares. para exprimir essa preocupação pela cor branca das coisas e das formas. esse filho de africanos. ao menos em espírito.

5 Este negro náo forma associações de negros. é europeu. o "meu poeta". na sociedade cm q u e vive. d o tipo " m u l a t o pernóstico". não raro extremamente severa consigo m e s m o . pelo fato de ter u m a sensibilidade hipertrofiada para vigiar qualquer deslize que logo poderia ser interpretado como. como protesto contra o fato de ser. nas preferências e brada. era condição de status e resttltava dc uma permanente autocrítica. c o m o o c h a m o u u m intelectual negro c o n t e m p o r â n e o . do tipo tradicional. o u seja. sentindose dela d i s t a n t e . náo estuda o u se bate pelos problemas do negro. que pretende ser o "supercivilizado dos sentidos".2 4 0 1 82 O NEGRO N O RIO D E JANEIRO E a t é q u a n d o fala da sombra. aliás de u m a tristeza digna. q u e ele odeia e adora ao m e s m o t e m p o . embora sentissem o u sintam a mesma frustração. O b s e s s ã o da cor. que ele queria d o l o r o s a m e n t e exprimir e cia qual. da censura da sociedade branca transformada em autocensura moral. precisamente p o r q u e são negras e a sua maior preocupação é esquecer que é negro. da origem escrava./ ' o seu estro extravasava. "coisa d e n e g r o " . G u a r d a m .o " p r í n c i p e d e ébano". que ele psicologicamente representa como seu m a i o r inimigo. é nórdico.. Esse ressentimento latente d o n e g r o evoluído da geração passada. um triste.quando não suja na entrada. n o f u n d o . quando estuda o problema. é clássico. seu irmão. mesmo q u a n d o espalhafatosamente procurava superar essa tristeza com a alegria nervosa mais epidérmica do que psicológica. da cor branca. o supersubalternizado na condição: mais que isso.a em jóia poética. A sobriedade. recalcam. na sociedade e m q u e vivia. no estilo. n o caso. e n x e r g a . e procuram então viver c o m dignidade o que entendem ser a sua adversidade . c o m o Cruz e Souza. na forma. A frustração de Cruz e Souza . d a condição subalterna. suja na saída". t r a n s f o r m a n d o . u m a significação c o n c r e t a e v i d e n t e .. nem forma nas existentes.a c o m o "sombra dolente de camélias b r a n c a s " . N o f u n d o ele era um triste.a adversidade da cor. é ariano. a intolerável semelhança c o m o negro-massa. tornava-o. não escreve sobre problemas negros nem se interessa intelectualmente p o r eles. como negro. discreta. o "cisne negro da p o e s i a brasileira". com sua conduta. no gosto. náo t e m problema: cada um deve fazer como ele fez e resolver o seu problema pessoal. porque acha que o negro. q u e t i n h a para ele. calam. Mas n e m t o d o s t i n h a m e têm o seu gênio e a sua sensibilidade. vinga-se chamando-a d e c o r da "névoa glacial". vai ao ponto de algumas .

mais personalista. 6 de "representar-se em dois planos ao mesmo tempo". u m fato qualquer. um apelido. confere à formação das elites negras contemporâneas uma significação toda especial. por excelência. novas "alavancas". c o m extrema intensidade. E explícita. o "drama d e ser dois". novos "processos" . um olhar às vezes. uma querela insignificante. novas "pistas". Enquanto que as antigas elites. na medida em q u e ascendiam. estudando problemas de raça e assimilação. não só o problema perdura como. o que se tem é. sem deixarem de ser negras. que rasga de c h o f r e a realidade diante dele. ele "até n e m parece um negro". em comparação com o padrão anteriormente descrito.de reagir ao p r o b l e m a e de tentar superá-lo. declarada e orgulhosamente negras. ele até se agrava. n o seu lugar e ele sente. novas "técnicas". quando já está quase convencido disto. então. uma nova definição do papel d o negro de elite no quadro das relações de raças e de novas maneiras d e atuar sobre elas. na qual não se percebe logo no primeiro plano o que tem de falaz e o que contém de fecundo. novas "táticas". que é fundamental. confundindo-se em t u d o com o extrato branco superiormente colocado. Assim. mesmo um pequeno fracasso ou um pequeno sucesso. um riso. coloca-o de novo. Noutros termos. por conseqüência. a intenção de fazer. Esta distinção. . dc. em inúmeros aspectos. gera u m comentário. pois muito dificilmente deixarão as novas gerações. apologéticas da negritude. tinham a preocupação dc branquear-se. fazer-se especialista em estudos de antropologia e história social para tentar provar. para o futuro. dc serem atraídas por essa ideologia de revalorização étnica. negras mais do que nunca.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 241 vezes tornar-se racista. E. um bate-boca na rua. certo ponto de vista.conforme expressões textuais empregadas por alguns porta-vozes 8 . a tentativa d e utilizar novos "meios". as novas elites negras pretendem ascender como elites negras. diante de si. tais problemas. q u e nosso mal é o negro e o nosso remédio. O que ocorre é que diante desses problemas e dessas novas agravantes — e possivelmente em conseqüência delas mesmas .a reação das novas elites é diversa c mais agressiva. menos pessoal — embora. Escusado é dizer que as novas elites de cor não se distinguem das antigas elites7 por não terem acaso. novos "mecanismos". Peio contrário. a "arianização". menos passiva e mais organizada.

foram as sedes destas associações formadas pelo negro de novo tipo e. intelectuais ou não. aproximadamente com o restabelecimento do regime representativo e do fim da Segunda Guerra Mundial. inteiramente novas e estranhas no quadro das relações de classe e de raça no Brasil. As associações negras de novo tipo começaram a nascer no Brasil depois da revolução de 1930 e têm sua curta história diretamente ligada não só.e do m u n d o . área onde se desenvolviam pioneiramente as mudanças de estrutura que estavam contribuindo para colocar o problema em novos termos. que é o que exprimem. a partir de 1935 e. de base popular e caráter reivindicativo. Por que terá sido esta a fase de nossa evolução contemporânea em que começaram a surgir associações negras que. as associações de n o v o tipo do negro contemporâneo n o Rio de Janeiro. De resto. O Rio de Janeiro e São Paulo. stricto sensu. na estrutura. Daquelas que primeiro surgiram nenhuma sobreviveu até hoje: apareceram como sintomas e disso não conseguiram passar. todas aquelas atualmente existentes foram fundadas de 1944 para cá. Por isso m e s m o . Seu desenvolvimento intelectual multiplica sua sensibilidade a esse problema. que se reflete em graus diversos de tomada de consciência prática desses novos aspectos. aos acontecimentos e às orientações que. na medida em que o problema pessoal dos homens de cor evoluídos é apenas u m reflexo de um problema social de u m número crescente de negros que se diferenciam das massas de cor. D a í resulta toda uma nova — histórica e sociologicamente nova colocação do problema. a partir daquela data. o intelectual habilita-se a exprimir esse problema e faz-se o porta-voz natural das angústias e das aspirações de seu grupo étnico enquanto grupo social. lato sensu. ora mais.242 182O NEGRO N O R I O DE JANEIRO O intelectual de cor tende a viver boa parte da vida num status que reflete. marcam a vida política do Brasil . ora menos intenso. em cujo painel ideológico a luta contra o racismo teve significação tão destacada. entre as do Rio de Janeiro. em suma. mas ele é. . em sua estrutura. p r o g r a m a e ideologia. o mesmo que tende a sentir um número cada vez maior d e negros. de 1937 a 1945. que em particular nos interessam. às mudanças de estrutura da sociedade brasileira. particularmente reivindicações desse tipo.numa fase agitada pelas crises e tensões que assinalam todo o período. a situação política nacional era inteiramente adversa a movimentos e organizações como estas. mas também. na composição. especialmente. de modo. o peso de sua posição dual.

extremamente heterogêneo. formação. marcha crescente da burguesia p a r a o controle da governança do País. o processo e as perspectivas dessa mudança. do tipo daquelas que atrás e s t u d a m o s ? De certo não por mera coincidência! Os anos anteriores a 1930. Dentro deste q u a d r o geral. sobre a sociedade em mudança. que abrange toda uma nação em fase decisiva de seu desenvolvimento. dc 1930 a 1935. surgimento e expansão de u m p a r q u e industrial que não cessaria mais de se desenvolver. haviam sido teatro de acontecimentos fundamentais n a v i d a brasileira: crise dos principais produtos agrícolas. sobre os fatores. Todo um ciclo de movimentos políticos de diversa índole e orientação . de 1937 a 1942. o Brasil. muito mais populares do que negras. . produtos deste contexto.de 1922. do ponto de vista de suas respectivas posições. crescimento e presença política do proletariado nacional. ou seja. e deste ciclo agitado fluiu p e r m a nentemente um magma ideológico. de 1935 a 1937. feito das formulações programáticas c o m que os grupos envolvidos na ronda dessa fase de nossa história social recente interpretavam e agiam. de 1942 a 1945. Sincronizado com o m u n d o e estruturalmente marginalizado d e n t r o dele. dentro de um continente que começava a atingir sua maioridade para o m u n d o e dentro de um m u n d o em plena gestação de uma nova civilização. desde o fim da Primeira Guerra M u n d i a l deste século. é que estão situados os movimentos sociais do negro brasileiro contemporâneo. eram tão diversas das associações tradicionais.assinalou o crescer da inquietação social e política q u e rcsultava dessas mudanças estruturais. outros vindos dos aspectos universais d a crise brasileira. pois o que muitas vezes lhe parecia um progresso a ser conquistado era algo que noutras partes a história estava definitivamente superando. A primeira relação direta e fundamental a ser destacada entre essa situação total e o problema particular que estamos analisando revela-se no tipo social do novo negro que comparece nesses movimentos associativos. ampliação d a esfera cosmopolita dentro do horizonte brasileiro. foi campo em que se cruzaram fogos.ASSOCIAÇÕES DE N O V O TIPO 243 no programa e na ideologia. que representavam o esteio exclusivo de nossa estrutura econômica. declínio progressivo d o monopólio que os interesses agrários detinham sobre o poder político. que somente dentro dele podem ser compreendidos em sua plena significação. de 1945 até hoje . nesse período. crescimento dos núcleos urbanos e de sua influência. vindos uns dos aspectos brasileiros da crise universal.

Para este. do estado de espírito e. estas associações encarnam e levam à prática aquela nova definição. de solidariedade específica d e cor. por meio do ingresso de elementos de cor em determinados setores da classe média urbana: nos serviços. daí. no pequeno comércio. da mobilidade profissional. ganha v o l u m e e intensidade. para isso. já referida. a posição histórica e objetiva das massas de cor na sociedade brasileira e a ideologia tradicional p r e d o m i n a n t e numa sociedade dirigida por brancos. n o início de um processo lento de diferenciação social dentro do grupo étnico. do recrutamento de trabalhadores especializados para funções de diversa hierarquia social. tende o desejo para as suas últimas conseqüências — q u e são. a migração para as cidades. A segunda relação direta e fundamental a ser assinalada entre a mudança social e as associações de novo tipo é a função de liderança que a elite negra. que cedo começava t a m b é m a produzir mudanças equivalentes no plano da mentalidade. a integração nos quadros de u m a economia industrial e numa esfera de relações nitidamente contratuais significaram o começo de uma mudança radical de posição. regulada principalmente por relações pessoais.2 4 4 1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O proletariado industrial e urbano no Brasil tem c o m o núcleos históricos o imigrante e o escravo livre. no artesanato.identificação de fato e identificação simbólica. formada em conseqüência daquela diferenciação social. Para atingir esse alvo. na administração. como é a nossa. como resultado da qualificação da mão-de-obra no mercado de trabalho. . o abandono da ocupação agrícola semi-servil. fazendo apelo aos impulsos de afirmação étnica e tentando dirigi-los. no plano das aspirações. o pleno acesso e participação do negro cm todas as esferas e benefícios da vida social. n o p l a n o dos estereótipos do branco sobre o preto — implicou. A identificação do negro com o proletariado . inevitavelmente. procura assumir e desempenhar à testa das massas de cor. tal como procedem todas as elites agressivas. representam barreiras a serem vencidas e dificuldades a serem superadas pelos elementos e m ascensão. nas carreiras liberais. finalmente. ao porem uma idéia-força em movimento. direção e chefia em diversos níveis e setores da estrutura empresarial e. da seleção de quadros para postos e e m p r e g o s dc comando. de revalorização dos "valores da raça". Na medida em que essa mobilidade se processa. sobre qual deva ser a atitude da elite negra no interior de uma sociedade de brancos em q u e a linha de cor não se cristalizou em leis. os mecanismos de consciência grupai. na possibilidade de essa diferenciação repercutir n o próprio sistema de estratificação social. o emprego na indústria. em última análise. estimulando. Neste sentido.

. recorre a Max Scheler e d e n o m i n a . de aspirações.no plano associativo. as possibilidades e as limitações que derivam de seu enquadramento no meio. "pescadores de águas turvas". que diferenciou da massa negra e mestiça e que ansiosamente se dedica à busca dos meios e modos: a) de e n t e n d e r e b) de resolver o seu específico problema . para elas . o apelo cias associações específicas de homens de cor soa apenas como linguagem ladina de espertalhões e aproveitadores. por sua vez. fundamentalmente. na sociedade e no tempo em que vive e de q u e é produto. um problema de extrato pigmentado superiormente colocado. c o m t o d a s as virtudes e defeitos. para quem "o ser mais. especialmente de "mulatos pernósticos". dc status.' A elite q u e se forma nessas associações. inevitavelmente envolvidas nesse processo.embora não para as elites negras . duplamente asfixiado por sua condição de raça e de classe. conseqüência das anteriores. as lutas e a organização da classe operária. O p r o b l e m a social não resolvido que essas associações e movimentos negros têm à sua origem e como sua razão de ser é. 10 . n a possível comparação com outros. Isto está ligado. quando não antagonismo e oposição.. para não se chamar a si mesmo de marginal. de resto. A radicalização progressiva. por sua vez. do mal incurável dc não saber falar outra linguagem que não seja a do seu horizonte de extrato médio. u m a criação do homem de cor marginal q u e . A associação de novo tipo é.o que faz. de mobilidade e dc resistência que e n c o n t r a à sua mobilidade e às suas aspirações. para resolverem problemas seus. que julgamos deva ser destacada entre a fase atual de m u d a n ç a social e as associações negras de n o v o tipo é a contingência a que se reduziram d e serem movimentos de c ú p u l a que geralmente só encontram no seio das massas de cor indiferença e desinteresse. que vêm assinalando nos últimos tempos sua presença e atuação na vida política brasileira representam para as massas de cor. sofre. antes que todo valor objetivo". portanto.s e "hemem ansioso". político e ideológico . e que as f o r m o u para si. ao fato de as grandes massas de cor n o Brasil estarem social e economicamente identificadas com o proletariado e tenderem fortemente . chega a constituir o fim de sua ânsia. o valer mais etc. u m foco de atração ideológica militante em face d o qual.a atuarem n a vida brasileira muito mais na ó r b i t a de sua classe do que na de sua raça. por excelência.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 245 A terceira relação direta e fundamental.

pois nesse caráter. foi.que na verdade representam conclusões de pesquisa mais ampla e aqui são apresentadas como introdução à análise dos casos náo só é possível como também se impõe voltar agora a atenção para os pontos fundamentais do material recolhido que d o c u m e n t a m a hipótese central. outras organizações surgissem depois dele com estrutura. pintar-se um branco de preto e dar-lhe o desempenho feria a sensibilidade dos negros de vocação . o n d e t u d o explica tudo e nada fica provado.246 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Colocado o problema à luz dessas perspectivas e a b o r d a d o o seu estudo a partir dessas premissas . ao vezo e à rotina do puro trabalho etnográfico ou do ensaio simplesmente sugestivo.s e sobre seu modelo. f u n ç ã o semelhante. embora em certo m o m e n t o os seus dirigentes tivessem tido a ilusão de estar controlando esse processo e i m p r i m i n d o a ele uma direção desejada. o Teatro Experimental do Negro (TEN) que. O fato de. p a u t a n d o . dentre essas associações aqui chamadas de n o v o tipo. uma estrutura e u m a ideologia que excederam de m u i t o seus propósitos originais. que assim teatralizavam a posição socialmente subalterna do negro na estrutura social. Neste sentido. aos poucos. quando u m a peça exigia um negro em papel de destaque. nunca deixou de ser o que a tensão racial o obrigou a ser. objetivos e. de sabor folclórico. o T E N p o d e e deve mesmo ser encarado m u i t o mais como um movimento do que. em primeiro lugar. a que. foram levados. a assumirem a envergadura cie u m movimento. como resultado de sua existência e funcionamento. desde que nasceu até que passou a viver a vida apenas latente que hoje vive. aquela que g a n h o u maior envergadura e mais repercussão no quadro da situação em que atuou. dando motivo. pela dinâmica da tensão racial. que mais parece um bazar desarrumado. mais que isso: de um grupo de pressão. e onde o acessório e o f u n d a m e n t a l se misturam e se nivelam sem n e n h u m critério de pertinência científica n o uso do material recolhido. pois. nascendo como uma trupe de artistas de cor. se foram desenvolvendo. sem dúvida. T o m e m o s . mais u m a vez. principalmente." havendo fracassado mais tarde pela má sorte que teve como tal e não como grupo de teatro. teve relativo sucesso. O T E N nasceu em 1944 como grupo teatral e. stricto sensu. fugindo. como uma associação. ou contra sua presença apenas em papéis de segunda categoria. Originalmente o grupo surgiu como um protesto c o n t r a a ausência do negro nos palcos brasileiros. geralmente bufões ou ridículos. que se reuniram numa atitude de protesto contra a linha de cor que lhes dificultava a ascensão. D e fato. e m t o r n o dele. enquanto funcionou. aliás.

no País. Para um homem pegado de mau jeito pela sorte. 1 1 A primeira tentativa de Abdias foi feita em São Paulo. É o que transparece. ampliando a estrutura e os objetivos do movimento. dedicado a representar peças em que eles tivessem a oportunidade de se revelarem e . e foi u m dos negros paulistas que vieram ao Rio protestar contra a tentativa dos comerciantes da Rua Direita. como esse que vos fala. esta descoberta Uma maçada porque me obrigava a uma representava uma maçada. Abdias retomou a idéia. u m verdadeiro fascínio. e assim nasceu o T E N . enxerguei a intuição nacional. o fundador obter meu apoio à sua iniciativa curiosidade pelo movimento. que Abdias suspeitada Nascimento carregava em si.ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 247 artística e ievou alguns deles. a Acompanhei vários encontros com o fimdador do TEN. sem dúvida. a criar um grupo teatral só de negros. por exemplo. Várias conversas. de proibir que pessoas de cor se concentrassem naquela via pública aos sábados à tarde. um demagogo e a um negro ladino. após algumas atividades. entretanto. desta cidade. pelas perspectivas que abria. e que está ainda com a vida por organizar. insistindo sobre a necessidade d o teatro negro. deste encontro. Abdias assistiu a uma série d e conferências do teatrólogo Pascoal Carlos Magno. Ele conta assim a maneira como foi conquistado pelo movimento de Abdias: Há cinco anos surgiu no Rio o TEN. Parecia. alegando que com isso t i n h a m prejuízo. parecia que se tratava de mais um centro de cultura de recalques. cujo sucesso no palco despertou a atenção de outros negros que a ele se agregaram. tendo sido um dos promotores de uma convenção de homens de cor na cidade de Campinas (São Paulo). Aproveitando a deixa. diversões (parecia a princípio) tais como a Convenção Nacional Era mais um clube de e. Instalado no Rio de Janeiro. Nessa ocasião ele já se destacara na luta contra o preconceito racial. que durante algum tempo seria a mais legítima expressão ideológica da p e q u e n a burguesia intelectualizada e pigmentada no Rio de janeiro. em certo momento. mas não teve êxito. vi. oferecido por u m intelectual de cor que viria a ser mais tarde u m dos mentores do movimento. como se despista a o TEN. do TEN me procurava para e eu o despistei. Hd cinco anos passados. vi. em que negros "freudizados"se reuniam para carpir o destino da raça.e destacarem. enxerguei a pista jamais que ele estava abrindo na vida . e. em seguida. no depoimento que se segue. pois a presença de pretos afugentava a freguesia branca. Para essa camada o movimento foi u m a verdadeira revelação e sobre ela exerceu às vezes. dirigidos por Abdias Nascimento. do Negro. E. Ficou. de maior p o d e r de compra. desta vez com mais sorte.

o seu fundador ao declarar em discurso: "o TEN não é. A necessidade da fundação deste movimento foi inspirada pelo imperativo da organização social da gente de cor".. passou a multiplicar suas atividades e a fazer. o TEN. como diz. 1 4 que continua: "A unidade desta elite (que pode integrar os temperamentos pessoais mais diversos e contraditórios até) não se estriba n u m a arregimentação. sem se confundir "com certo tipo de reivindicador contumaz". acrescentando em seguida: Não é com elocubrações de gabinete que atingiremos e organizaremos esta massa (de cor). A força daquela intuição venceu as minhas resistências e até mesmo o meu escrúpulo em confundir-me com certo tipo de reivindicador contumaz. já então ampliado em sua estrutura. capazes de empreendimentos de envergadura.248 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO decisão. temeroso de ser c o n f u n d i d o com certo tipo de reivindicador contumaz. não da massa. que permitia ao intelectual negro de classe média. mas captando e sublimando a sua profunda vivência ingênua [. • "É esta uma das finalidades mais importantes d o nosso movimento: a de suscitar o florescimento de uma elite de homens de cor. visão considerada genial da tomada de consciência prática de seu problema.] manipulando as sobrevivências paideumáticas. através de um teatro assentado nas reminiscências míticas e nos impulsos místicos do negro. órgão do TEN. "pela valorização do h o m e m de cor". mas da elite. de descoberta de "pista jamais suspeitada". apenas uma entidade de objetivos artísticos. e cada vez mais forçado pela tensão racial a tornar mais nítidos seus reais objetivos e sua verdadeira função.. na prática. de intuição. em editorial. lutar como elite. mas numa espiritualidade. c o m o passo inicial. na realização da obra pela valorização do homem de cor. Ai dos homens para quem as idéias existem. de que o Teatro Experimental do Negro é a alma mater'• Atraindo a elite.u N i n g u é m melhor do que alguém que viveu o processo podia descrever esse aspecto de revelação. aliás. preparatório de novos vôos.15 .. num plano de espiritualidade. na esfera da cultura". o jornal Qttilombo. É o que revela. em sua arregimentação. que honestamente só poderia ser uma: a de tornar-7ne um aliado de Abdias Nascimento. sem aparentar ser um "freudizado". apesar d o n o m e . preocupado em não fazer arregimentação de massas. que se prenckm às matrizes culturais africanas.

16 T e m o s assim. em sua predisposição para responder aos apelos de t u d o o que é místico e fantástico e que sejam fortes em "teluricidade". por assim dizer. seu gosto pela recreação. e m b o r a fossem algumas vezes corretamente identificados.. conceitos e "técnicas letradas". q u e a t i n g i u seu p e r í o d o d e maior vigor aparente quando. inclusive. a o r d e m dos meios e a ordem dos fins[. cujas barreiras o T E N quis inicialmente desbordar por vias laterais. foi levado a transformar-se num movimento . pela representação.uma estrutura e um programa destinados a bater . o objetivo supremo e expresso de sua idéia-força. portanto. A situação racial brasileira. diz ainda Abdias: "Parece-nos. N a sua história curta e nesta breve caracterização vê-se que a linha de cor gerou o grupo teatral e experimental de negros e este. só sendo possível alcançá-las " m a n i p u l a n d o " o misticismo.não podem ser atingidas por idéias. os meios de ação eleitos para atingi-los foram desadequados". deixou de "representar" e . frustração q u e o forçou a transformarse d e u m grupo teatral e m u m movimento social. n o sentido de aproveitar-lhes as experiências. em face da tensão racial. sua "vivência ingênua". sua ideologia. na prática. evitando o mesmo desfecho. obrigou-o. seu sentimentalismo. Abdias assim o define textualmente: "Adestrar gradativamente a gente negra nos citilos de c o m p o r t a m e n t o da classe média e superior da sociedade brasileira". as sobrevivências africanas.] O T E N pertence à ordem dos meios. a superar a limitação deliberada de seus objetivos artísticos originais. a camada que pode ser realmente atingida pelo seu apelo e em cuja posição e perspectiva ele pode ter ressonância. seu m o v i m e n t o . q u e o motivo (do fracasso) estava e está em que osfins destas associações. Ele é um campo de polarização psicológica. como declararam repetidamente.a linha de cor não só na ribalta. e tudo confirma. d e n t r o do próprio negro em q u e m a sociedade inoculou um complexo de h u m i l d a d e que é o seu mais forte inimigo. suas tendências artísticas e musicais.afirma Abdias que a mentalidade do negro é "pré-lógica" (sic) .ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 249 A o procurar identificar as razões do fracasso de outras associações negras. onde se está formando o núcleo de um movimento social de vastas proporções".. em conseqüência de seu baixo nível cultural . As proporções verdadeiras deste vasto movimento social. um movimento cujo objetivo é adestrar o negro nos estilos das camadas predominantemente brancas e socialmente dirigentes da sociedade brasileira. acrescentando: "Há. pela exteriorização. baseado na convicção de q u e as massas de cor. mas em todas as frentes.

um número correspondente de vagas para candidatos negros e mulatos". sua influência aos olhos dos negros. a sede desapareceu e os credores apareceram. aliás. . seus propósitos. conselhos e toda a constelação de setores de atividades em que o T E N se havia desdobrado permaneceram no papel e na sessão de instalação. o próprio Abdias. quer no plano de suas realizações artísticas. morreu.250 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO passou a funcionar n o quadro das tensões raciais como u m "grupo de pressão".. O T E N . "Somos vinte milhões dc brasileiros [. cm nome da democracia. entretanto. Milhões e milhões dc esperanças. A euforia foi tamanha que o diretor do T E N lançou aos partidos a sua candidatura e u m deles lançou sua candidatura ao eleitorado. dos brancos e.] a exigir. Abdias nem sequer concorreu de fato. institutos.5 0 ) . murchou. senão como ideal ao menos como associação atuante. O período áureo do T E N não foi pura e originalmente artístico. 18 O despertar deste sonho eleitoral19 revelou uma realidade bastante crua: Quilombo deixou de sair. mas não recebido . congressos e conferências. a desempenhar o seu papel de elite militante. realizar seus bailes elegantes. Já há dois anos caiu o pano. nas quais. quer no plano das atividades de seus múltiplos órgãos e departamentos dependentes. quando o entusiasmo de seus dirigentes e a generosidade interessada de candidatos brancos a postos eletivos forneceu os meios psicológicos e financeiros para o T E N ter uma sede própria. museus. representariam um teste decisivo. miram com o desfecho das eleições. donde nunca passaram. a reivindicar auxílio governamental concedido. 1 7 Na sua propaganda eleitoral o candidato frisava a importância numérica da população dc cor no Prnsil e alinhava as iniciativas que ele pessoalmente havia tomado em favor da população negra. As eleições nacionais de 1950.que foi. E com referência particular ao eleitorado da capital do País declarava em artigo de fundo do seu jornal: "Saibam os partidos e os candidatos que mais cie um milhão de votos da massa negra pode e quer decidir da vitória". terminando por indicar um candidato às eleições municipais de 1950 . principalmente. editar um jornal e melhorar sua apresentação. e a t r u p e que se tornou um grupo de pressão e sonhou o sonho cândido da negritude adestrada nos estilos das classes dirigentes declinou. os inúmeros órgãos.. aos seus próprios olhos. aliás.a aumentar sua envergadura. porém. foi o pré-eleitoral ( 1 9 4 9 . golpeado por uma manobra eleitoral do próprio partido que lhe patrocinou a candidatura. concursos de beleza.

das olhadas com mais desconfiança pelos negros de geração mais antiga 20 — foram os concursos de beleza para a eleição da Rainha das Mulatas e da Boneca de Piche. de que o TEN. social e intelectual. à sedução d o h o m e m branco. resultante da posição social inferior dos grupos de cor na nossa sociedade e cm face dos estereótipos correntes entre brancos sobre as excepcionais qualidade. c o m o comparecimento dc figuras cie destaque mundano. sem dúvida. embora não tenhamos dúvida de que vive n o ideal dos que o animaram e existe latente nas raízes da situação racial brasileira. que o T E N tentou irradiar a sua ação. Esses concursos. Foram feitos três ou q u a t r o desses concursos.. que é o reverso de sua inferiorização n o plano econômico. .no m e c a n i s m o das tensões raciais. resultando na coroação das eleitas em bailes de gala. U m a das iniciativas mais ruidosas e de mais sucesso publicitário dentre as promovidas pelo TEN . em certa época. é. tentou ditar a sua "linha". sob o patrocínio de órgãos da imprensa.algumas das principais . profissional e moral. o que por sua vez resulta da posição social que a mulher d e cor ocupa em face do homem branco. pois cada uma delas são formas e variantes específicas do papel básico q u e o T E N desempenhou. de acordo com o objetivo explícito d e seus organizadores. mas sim social. em princípio. econômica.impõe-se sejam estudadas em particular. O "recalcamento" da mulher de cor no Brasil. saiu de circulação. mobilizar seguidores e prosélitos e tornar-se um movimento em marcha. n e m por falta de procura por parte do h o m e m branco.tudo leva a crer que a valorização de que a mulher de cor está carecendo não é precisamente de ordem estética ou eugênica no sentido em que tais expressões são empregadas pelos promotores desses concursos de beleza. Este excesso de valoração puramente carnal. Por isto mesmo estas atividades correlatas . t a m b é m .embora. ou quis desempenhar — mas sempre exprimiu .ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 251 na data e m q u e escrevemos. Foi através dos órgãos e setores conexos. E m face da acessibilidade da mulher negra e mulata. Talvez ele até resulte mais d o fato de haver uma valoração principalmente deste tipo. não é provável que exista p o r falta de valoração estética.' da mulher de cor para as relações sexuais extraconjugais — que é um dos estereótipos raciais melhor caracterizados que se podem encontrar neste país . o que íoi chamado dc "dcsrccnlcamento em massa". tinham por finalidade "promover a valorização social das riquezas eugênicas e estéticas" da mulher negra e mestiça e lograr. por este meio. foi u m produto e um símbolo. ao lado da atividade artística. a mais provável fonte desse "recalcamento". no Brasil.

era o "departamento científico" que visava p r o m o v e r estudos relativos "a tudo q u a n t o se referia a assunto negro. no qual as matrículas estavam abertas para os elementos do T E N . o "seminário" tinha por objetivo "formar uma turma de técnicos hábeis para organizar grupos. outro dos mais característicos setores de atividade do T E N como m o v i m e n t o social e cultural do negro é o que se refere aos ensaios de "grupoterapia". na sociedade em que ele vive. histórico. à sua esfera étnica e social. sociológico. principal-mente. que impedem a plena realização da personalidade da gente de cor. tais concursos parece que desempenhariam. o T E N pretendia ir. . O I n s t i t u t o do Negro. 2 2 De acordo c o m o que se lê no órgão de divulgação d o movimento. 21 Ao lado dos espetáculos teatrais e dos concursos d e beleza. Sua atividade principal consistiu n u m "seminário de grupoterapia". do homem de cor. "admitindo-se. Tratase. tendo em vista a eliminação das dificuldades emocionais que impedem a plena realização da personalidade da gente de cor". Para isso não é preciso procurar provas indiretas. "atuar nos morros. no conjunto. também. excepcionalmente. por conseqüência. religioso ou lingüístico". em regra. através da escolha da mulher-símbolo. na qual caberia aos prélios de beleza negra demonstrar que existem qualidades estéticas e eugênícas plenamente desejáveis. de convencê-lo de que não é um frustrado pelo fato d e sua capacidade de escolha estar f o r t e m e n t e limitada. terreiros e associações de gente de cor". para q u e m . a mulher branca é relativamente muito mais inacessível do que a mulher de cor para o homem branco. a função de destacar aos olhos do homem de cor as qualidades estéticas da mulher d o seu próprio grupo étnico. mas. com as turmas assim formadas. em nossa sociedade. acima de tudo. que o "desrecalcamento em massa" que os teóricos d o T E N visavam a atingir nesses concursos dc beleza de ébano era. de despertar nele o interesse pela mulher de cor. que levou a efeito como ponto básico do programa do Instituto N a c i o n a l do Negro. a função psicológica. da existência de fatores que conduzem a dificuldades emocionais. não só do explícito reconhecimento. p r o m o v e n d o a valorização do negro por m e i o destas "purgações" de seus recalques. pois o assunto é abordado diretamente na i m p r e n s a negra. Segundo ainda a mesma fonte.252 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO T u d o parece indicar. quer seja de caráter antropológico. Nesse sentido. um dos departamentos que c o m p u n h a m o seu sistema. feito por líderes d o movimento negro. a inscrição de elementos estranhos aos quadros do Teatro N e g r o . é extremamente significativo notar a recente preocupação da elite negra com sua aparência estética. assim. Aliás.

A psicanálise. N a aula inaugural do seminário. O dirigente e responsável teórico p o r este setor de atividades do T E N foi o Sr. Augusto Cornte. M o r e n o . que visem sua "readaptação" na vida social. "novas formas de conduta". especialmente graças aos esforços d o médico e sociólogo austríaco Jacob L. confusão que.inclusive "treinar".diz-se enfaticamente . espera-se . dois "faróis" donde derivam as correntes de pensamento que deram origem à "sociatria". as ansiedades que lhe resultam na personalidade em conseqüência do papel frustrado que lhe cabe no palco da sociedade. L. 23 Segundo Guerreiro. Alberto Guerreiro Ramos e nos seus artigos para o jornal do m o v i m e n t o é que se encontram os materiais doutrinários referentes a este aspecto da atuação do Teatro Experimental do Negro. n o m e q u e preferiu dar à soeiometria de J. declarando que suas raízes vêm de longe. embora acertassem nos seus diagnósticos sobre os desajustamentos entre a estrutura da sociedade e a natureza h u m a n a . Charles Peguy. os temores. Rilke. na sua opinião. "esta espécie de libertação interior".. Erich Fromm.. "só recentemente foi inteiramente desfeita. o principal dos quais é a confusão do biológico c o m o social". ou seja. a terapêutica catártica preconizada consiste em inverter os termos do problema. porém. Moreno". Partindo da noção de que "a essência da sociedade é o drama". se dirijam às áreas de concentração da população de cor com a finalidade de purgá-las de seus distúrbios emocionais e de sua angústia psicológica. Estes. Saint-Simon e Robert O w e n são. no indivíduo que se submete a essas figurações. apesar de representar "o início da fase científica da sociatria". fazendo d o palco uma miniatura da sociedade e nele configurando situações teatralizadas nas quais o "paciente" (sic) representa papéis que lhe permitam extravasar na p e q u e n a sociedade do palco as angústias.o "mecanismo fundamental do psicodrama" é a catarsis. C o m isto. Moreno foi quem mais decisivamente contribuiu para " u m a nova interpretação para o significado d o drama" e confessa que é na obra n u m e r o s a de Moreno que se baseia "grande parte de seu ensaio". desde a catarsis de Aristóteles. não encontraram uma "terapêutica acertada" para a resolução deste problema. em caravana. têm também destacadas as suas contribuições ao problema. Guerreiro expõe sua concepção sobre o q u e eíe chama de "sociatria".ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 253 de formar turmas de técnicos hábeis que. de alívio .e nisto consiste o objetivo "clínico" . segundo Guerreiro. E n t r e t a n t o . cometeu "erros graves. as emoções.

Assim. inclusive p o r q u e esta polêmica. e a tentativa de contornar emocionalmente essas barreiras por meio de u m mecanismo dramático d t faz de conta que somos brancos-. que não fazem para "não se c o n f u n d i r e m com o tipo do reivindicador contumaz". Em verdade. significa. com este "achado". o T E N . na vida — que certamente representa. o segredo da purgação dos recalques. o preconceito e a linha de cor puseram na alma do h o m e m do povo desta cidade. que a voga dessas idéias e práticas. Interessa-nos destacar. a de. isto sim. adestrar os [de] cor nos estilos de comportamento da classe média e superior". donde lhe resulta a "ansiedade" de que o drama p r e t e n d e "purgá-lo". sempre na sua opinião. conseguiu "transformar a luta de classes n u m processo de cooperação". com o que. C o m o não podia deixar de ser.hic locus non est. aos poucos. a "casade cachorro". da concepção e da atuação do T E N foram carecendo.que Guerreiro considera "uma das iniciativas de maior gravidade e profundidade na vida cultural do País"24 . o baixo padrão de vida. significa a existência dc barreiras às possibilidades objetivas deste adestramento e o conseqüente aparecimento de um estado de angústia entre esses negros.254 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO da alma que resulta de ele representar no palco papéis que desejaria muito representar. dentro d o contexto da situação racial brasileira contemporânea. a herança da escravidão. imaginativamente. Evidentemente.mas que objetivamente não consegue representar na estrutura social de que participa. . é que o movimento t e n t o u enveredar por "uma pista jamais suspeitada entre nós. finalmente. teria de ser travada com os que propuseram originalmente tais concepções e para isto .. deste País e deste mundo. que a angústia psicológica da cor e as limitações ideológicas da classe juntaram-se aqui para preparar o terreno no qual floresceria a utópica aspiração de sair pelos morros. entre intelectuais negros da classe média. significa a existência de negros de classe média querendo se adestrar nos estilos de sua classe. a doença. pelo teatro. estes e outros aspectos da teoria e da prática. e o salário de fome. não cabe discutir aqui as teorias e os passes de terapêutica catártica preconizados pela "sociatria". significa a racionalização da luta frontal contra essas barreiras. o analfabetismo. a chave mágica do extravazamento d e t u d o o que a fome. ou seja. significa muito mais do que mera coincidência. no fim d a primeira metade do século XX. retomando "a significação original d o teatro como processo catártico". no Rio de Janeiro. no plano metodológico. em formas artísticas de pensamento . pelas favelas e pelos subúrbios levando a mensagem redentora da catarsís.

num valor supremo para eles. seu temperamento e suas ambições de encontro à realidade de classe e de raça e m que estão situados. c o m p o n d o um sistema de idéias.está longe ainda de ganhar o odor d o suor das massas em m o v i m e n t o perseguindo uma idéia-força. portanto. nessa fase larvária de sua gestação como ideologia . sob o qual se abrigam para dizerem "sem medo e s e m v e r g o n h a " : niger sumi . pequena elite intelectual da pequena burguesia negra. útil como m i t o nas horas de ascensão. P o r enquanto. fonte. Para desempenhar essa função de ideologia d o movimento negro. apenas. é que surgiu — e continua hoje em plena elaboração . portanto. dos estilos. já refletindo nitidamente uma situação social mas ainda longe das massas. de despertar. homens de sensibilidade multiplicada pelo choque de sua vocação. a formulação particular que essa clique vanguardeira dá à racionalização de seu problema e ainda guarda. Além disso. a negritude. das formulações pragmáticas. e os brancos que em torno do tema fazem variações. escritores. ainda. q u e a formularam como corpo coordenado de idéias e interpretações sobre o p r o b l e m a atual do negro brasileiro. das variantes pessoais dc posição social e de mentalidade dos intelectuais negros de cuja cabeça b r o t o u a idéia. Artistas. pelos iniciados . representa. é u m a ideologia por vir a ser. ou.da qual é possível q u e n u n c a passe . que racionalizasse. de arrastar os homens negros com a força estimulante que têm as grandes idéias e as mensagens redentoras. poetas. m u i t o mais sentido do que pensado. das preferências. ao menos. necessária como consolo e como comunhão mística entre os iniciados nas horas de adversidade. na ânsia de fugir ao quotidiano. sentido. É preciso que se diga que os próprios intelectuais negros que falam da negritude. racionalizaram a sua queixa e.a marca muito nítida dos temperamentos. dir-se-ia que eles "sentem" a negritude. p o r excelência. que justificasse e imprimisse certa lógica a todos esses setores e iniciativas isolados de pensamento e de ação. subproduto ideológico da situação social de uma pequena elite de negros. capaz de se propagar. o que seria melhor do que afirmar que eles a "pensaram". jamais lhe deram u m a formulação explícita e sistemática. das pugnas. transformaram sua cor. A negritude. muitas vezes de dissabores. dos esquemas de conceitos definidos.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 255 de se integrarem organicamente numa ideologia mais geral. algo informe. cheira ao incenso místico das idéias de seita. u m a filosofia da vida. que se impusesse ao m o v i m e n t o negro como um todo. vivendo sua fase larvária e indefinida.a idéia de negritude. uma bandeira de luta de forte conteúdo emocional e místico.

.] É um título de glória e de orgidho para o Brasil o de terse constituído no berço da negritude.(Agnaldo Camargo. " u m a comoção idiossincrática do universo".] A negritude.. Aqui. Um elemento passional que inserido nas categorias clássicas cia sociedade brasileira e enriquece de stibstância humana. Vejamos alguns exemplos de como os que escreveram sobre a negritude a ela se referem.d.. o contingente. o conteúdo. mistério. que ainda se encontra "em sua fase .. e passase a enxergar. [. Ramos) [.. por intermédio de uma parte de sua i n t e l i g c n t z i a (o TEN) para oferecer ao mundo uma metodologia genérica de tratamento de questões raciais.é a forma pela qual o termo raça é colocado na equação. subjetividade.] Apresta-se.. o concreto é o fato de a diferenciação social dentro do grupo negro ter dado lugar à formação de u m a elite.. E mais ainda: "durante muito tempo (a negritude) será uma elaboração cultural cuja fruição se restringirá a um p e q u e n o grupo de intelectuais". Esta é a nossa profunda convicção. é o mesmo da formação de todo mito. doce e estranha noiva de todos nós brancos e trigueiros [. "uma terapêutica espiritual".] É uma se acha que as A negritude não é um fermento do ódio. ingenuidade. embora só ho']e. o fundamental. sensualidade.. Uma vivência.] (idem) É sempre neste tom que a negritude fala de si mesma: "é todo um humanismo". a agir em função dessa concepção invertida c mistificada das coisas. sempre esteve presente nesta cultura (a brasileira). paixão. a fôrma.. exuberante de entusiasmo.. a pensar. portanto. que luta contra a linha de cor e para ascender nos quadros sociais existentes. (assim) o país. o místico. o abstrato . "termo de valor catártico e psicanalítico". a sentir. No momento em que lançamos na vida nacional o mito da negritude fazemos questão de proclamá-la com toda clareza. [. em discurso lido na sessão de encerramento do Congresso cdo Negro) [.. Não é tim cisma.. (idem) [. com seu sortilégio.] A negritude.256 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO O processo. considera-se essa abstração como um fato. (G.. retirase dos fatos u m a abstração. esteja emergindo para a lúcida consciência de sua fisionomia. por efeito dc uma pressão universal. essa sensibilidade e alma do negro debruçada sobre os problemas do universo [. " u m a superação do imperialismo antropológico e sociológico". o acessório. O s textos escritos em que a idéia da negritude é referida são poucos 25 e em n e n h u m deles se encontra sequer uma tentativa de perfurar a névoa que a cerca e dar-lhe u m a formulação clara do que ela pretende ser.

percebe-se. em suma. o problema é a b o r d a d o do ponto de vista particular da estética. da narrativa feita por Ironides Rodrigues. com suas respectivas esposas. na mente dos iniciados. ao canto. . às artes. q u a n d o o nome brotou do berro. tem u m a sensibilidade hiperdesenvclvida. T u d o pré-existia.. daí por diante. antes de mais nada — como diz com muito acerto Alberto Guerreiro Ramos . portanto. levado pelo entusiasmo do momento. divertiam-se em família. como diz Guerreiro. Estava descoberta a palavra que serviria para batizar a racionalização de seu problema quotidiano e. bebendo.ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 257 heróica. Ironides. a ganhar as plumagens verbais que lhe dariam. c o m e n d o . Nesse sentido. à literatura. de uma "cosmovisão". sobre c o m o a palavra foi encontrada: certa noite. semelhante à judaica. pois os homens que vivem o s e u p a t h o s s í o uns solitários. para obterem "a libertação do medo e da vergonha de proclamar sua condição racial" (sic). passando. 27 Essa "terapêutica" atua por meio dc u m a supervalorização puramente sentimental da contribuição do negro à civilização brasileira . 28 Na tese de Ironides. alguém. a envergadura de uma concepção do m u n d o . dc idéia revelada. A certa altura. veio vestir u m a situação já existente e concreta na ordem dos fatos. cantando e dançando. 26 Através dessas expressões enfáticas e rebarbativas. que o predestina à música. perante o Congresso do Negro. aquele que é sentido por alguns intelectuais negros e que querem se servir da idéia da negritude como "verdadeira terapêutica espiritual". são criaturas paradigmáticas.. Esse característico. E essa aplicação consiste cm afirmar que o negro. à poesia. grita: Viva a negritude! Fez-se silêncio e todos passaram a meditar sobre o significado do termo. à dança. a negritude significa uma fuga do quotidiano e um refúgio no fantástico. como dissemos. que a idéia da negritude é m u i t o mais sentida do que pensada pelos q u e falam dela e exprime.especialmente às artes e à literatura . como u m a mística de libertação subjetiva. transparece um pouco.mecanismo de compensação de tudo quanto resulta de adverso ao intelectual negro em conseqüência da linha de cor na sociedade em que ele vive. para libertá-los "do medo e da vergonha de proclamar sua condição racial". apresentada ao Congresso do Negro. aliás.um pathos. erguendo o copo de cerveja. em conseqüência de atributos específicos de raça.". na casa de u m deles. pesando-o e discutindo. Abdias c Guerreiro. e.

isto resultou da forma social e histórica particular através da qual o negro destribalizado foi introduzido na América.é apontada pelos estereótipos da sociedade branca como prova de que "negro não dá mesmo para outra coisa". que. como até forçou que ela só se pudesse realizar desta maneira. E como todo estereótipo. N ã o é por mera coincidência. aqui como nos Estados Unidos. que as associações tradicionais do negro brasileiro foram.258 182O N E G R O N O R I O DE JANEIRO Já assinalamos a significação disso tudo como via dc ascensão social do h o m e m de cor na sociedade brasileira. f o r m a que. ou melhor. traz uma confirmação faiaz. pelos seus característicos de violentação física e cultural do negro. essa preeminência do sentimental na contribuição do negro às civilizações do Novo Mundo significa mesmo u m a deformação e uma limitação sociais e históricas das suas potencialidades. também. C o m o se vê. a negritude e a antinegritude confraternizam-se em t o r n o da mesma visão errada e racista do problema. cachaça no buxo e viola na mão". seu poder d e propagação. em conseqüência das condições adversas de sua transplantação para a América como escravo. não só impediu que sua contribuição civilizadora fosse. "negro só está contente com chicote no l o m b o . aqui. em última análise. que ficaram embotadas. igual e falsamente interpretado nos mesmos termos da tese da negritude. que atua até sobre os próprios rivais da idéia. Prova disso é . das quais resultou sua característica contribuição à cultura d t f o l k no Brasil — outra ordem dc fatos que. já assinalamos. aliás. o que torna relativamente fácil à tese encontrar em nossa história exemplos que. religiosas e recreativas. Neste sentido. servem aparentemente para confirmar aquele ponto de vista. desligada de seu contexto. este tem t a m b é m sua atração. também. Por isso é que a idéia da negritude pode ser. diagnosticada como um grande e perigoso estereótipo de um grupo de intelectuais negros a respeito do negro. marcante e diversificada noutras direções. esse exclusivismo. aparente e ilusória à "estética da negritude". O pendor para as artes e o traço marcadamente sentimental da contribuição do negro ao cadinho de civilizações que a história criou no Novo M u n d o não são traços ou atributos específicos do negro como raça. por excelência. pouco floresceram. precisamente a mesma falsa interpretação do problema que leva os negros entusiasmados com a idéia da negritude a exalçar um extraordinário pendor musical que enxergam na raça — esse mesmo pendor. como traço intrínseco à raça e "paideumático" . aqui. desligados de seu enquadramento real e histórico. que marcou e marca até hoje sua trajetória e a de seus descendentes nas sociedades nacionais de que participa neste continente.

às vezes em tom amargo. do T E N .ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 259 que um dos líderes negros que mais se revela avesso ao grupo da negritude. como meios de acerto das diferenças e como etapas de progressiva identificação dos objetivos c o m u n s . e c o m o cristalização ideológica. chegou-se a discutir a criação de uma Confederação Nacional de Entidades Negras. mesmo sem assumir essas f o r m a s doutrinárias. em outras tantas frentes nas quais a elite negra leva a efeito a sua luta p o r u m lugar no espaço social ocupado pelas classes média e superior da sociedade brasileira. no Rio de Janeiro. das mudanças em processo n o quadro das relações raciais 110 Brasil e. que certamente seria acoimada de racista pela opinião branca. existem e funcionam hoje. em conseqüência de uma proposta de delegados dos negros de São Paulo. a verdade é que. em particular. e m cujo seio começou a elaboração de seu enunciado. na prática. Embora seja quase certo que os líderes de cada uma discordem dessa opinião.29 A idéia da negritude. entre todas elas as semelhanças são m u i t o maiores do que as diferenças e não seria m e s m o impossível vê-las. esse grande estereótipo de alguns negros a respeito do negro. A verdade. p o r t a n t o . 30 As diferenças. em certo sentido. p o r é m . Seu estudo havia de ser feito ao lado. aliás. mais elaborado. Essas outras associações têm seu fundamento sociológico precisamente nas mesmas condições de m u d a n ç a estrutural que ressaltamos a p r o p ó s i t o do T E N : são água da mesma fonte. assim. Iniciativas como a Conferência Nacional do Negro (1949) e o I o Congresso Brasileiro do N e g r o (1950). do ângulo da análise em que aqui sío observadas. outras associações da categoria destas que aqui chamamos de novo tipo e que resultam. mais sutil e. servem. nas quais as discrepâncias entre as associações negras vêm à tona. m a r c h a r e m para uma fusão estrutural em t o r n o d o que têm de comum nas origens e nos objetivos. ampliada p o r Abdias Nascimento. representa. exatamente p o r isto. no futuro. de ênfase maior ou menor q u e cada uma dá a este ou àquele aspecto ou consigna na luta c o m u m q u e estão travando contra o q u e c h a m a m "a herança da escravidão". são de nuança. contra as barreiras objetivas e subjetivas q u e encontram nos costumes e nas instituições. prepara-se agora (março de 1952) para lançar em circulação um periódico que se chamará — A voz. da negritude. no Rio de Janeiro. nem pretender as complicadas sutilezas daquela concepção. líder que foi dos que mais combateram este grupo durante o Congresso do Negro. . idéia que não foi avante em conseqüência da oposição dos que julgavam prematura e perigosa a iniciativa. é que. N o último certame. o subproduto mais sofisticado.

f o r t e m e n t e critico quanto à pessoa. por exemplo. orientador da Uagacê. tirar aquele n ú m e r o de circulação. os estudantes. n e n h u m receio de serem confundidos . nem o m ú t u o combate é a tarefa essencial a que essas associações se dedicam. como há entre alguns intelectuais mais sensíveis do T E N . mas isso não acontece necessariamente sob a forma de pugna franca e hostilidade aberta de u m a contra a outra. o que acontece é que há. aliás. os gestos oficiais de cordialidade são freqüentes. a segunda nasceu e se mantém mais propriamente como associação. Essas diferenças entre as duas associações têm assumido. O T E N atraiu principalmente. lançando outro em seu lugar. os escritores. em relação aos "intelectuais" do T E N . os artistas. definiu-se a si m e s m o como "uma espiritualidade". Não há isso. p o r o u t r o lado. moral e cultural d o negro. Uagacê.2 6 0 1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO nas atitudes e nos estereótipos dos brancos e nos hábitos e na mentalidade dos próprios negros. em que toda a matéria do anterior era reproduzida com exceção d o referido artigo. foi u m grupo teatral que se tornou grupo de pressão. neste ponto. como vimos. os dirigentes do T E N não escondem uma noção de superioridade e certo desprezo pelos "reivindicadores contumazes" e pelos processos de luta q u e adotam. em relação aos líderes d a Uagacê. não raro tem-se mesmo a impressão de certa emulação entre elas. por via. os intelectuais. o próprio José Bernardes. escreveu n o seu j o r n a l Himalaia um artigo de fundo sob o título O congresso do negro Abdias. de outro. o passado. depois de sua atitude n o Congresso do Negro e do bloqueio que teve sua tese por parte dos outros elementos. q u e desde o primeiro dia de existência proclama ser organização destinada à ação contra o preconceito de cor e pelo alevantamento material. Apesar disso. da assistência social. como não poucas vezes acontece em situações semelhantes. as atitudes e as intenções do dirigente do T E N . A Uagacê recrutou e atraiu mais outros setores sociais da população negra e nela parece não haver. o caráter de competição. c o m o tipo de atividades a que se d e d i c o u . às vezes. uma profunda desconfiança por parte dos dirigentes da Uagacê que. resolveu. a União dos Homens de Cor. Muito ao contrário.de um lado o T E N e. Q u a n d o . refletem uma atitude de maior sobriedade. principalmente. dias depois. e a ambição de liderar não permite romper. José Bernardo.31 O primeiro. característica dos negros evoluídos de outra geração. E o que visivelmente se nota no que distingue os dois principais órgãos de liderança do negro n o Rio de Janeiro atualmente . N a verdade.

por intermédio de seu "orientador". às vezes bastante acre. a Uagacê dedicando-se mais às reivindicações imediatas. a principal diferença entre os dois organismos reside n o fato dc o T E N pretender ser. de condenação para outros. principalmente. um órgão cultural. Joviano Severino de Melo. preocupa-se mais diretamente com ela e aponta como solução para o p r o b l e m a do negro a assistência social. que provocaram forte reação.. contumazes na reivindicação. José Bernardo da Silva apresentou uma tese na qual surgiam exclamações como estas: "Basta de congressos culturais". calçados. também. às populações pobres. Para isso. medicamentos etc. cabendo ao presidente. O que de "m ais objetivo" a Uagacê propõe vem indicado nas propostas que. ou então: "Já estamos em tempo de fazer pelo negro alguma coisa de mais objetivo". diferenças de mentalidade. mas não se quer confundir. alimentos. o estilo de trabalho do T E N mais facilmente congrega pessoas de orientação filosófica a mais diversa. há. sabem bem porque são e parecem dispostos a continuar sendo enquanto lhes for possível. o T E N atraindo mais os setores intelectuais da p e q u e n a burguesia negra .ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 261 com o tipo de "reivindicador contumaz". e c o m o resultado dessas discrepâncias. combate a toda e qualquer original). sob a forma de discussão. no q u e se refere à "linha tática". de aplauso para uns.e do estilo de luta —. no estilo das agremiações de caridade e assistência. que está mais próxima desta "vivência". Essas discrepâncias de tática vieram nitidamente à tona n o Congresso do Negro. que resultam do fato de a Uagacê ter praticamente nascido no seio do "Centro Espírita Jesus do Himalaia" com sede em Niterói. a União apresentou ao Congresso: 1. com o que se chama "a vivência ingênua" d o negromassa. Os homens da Uagacê são. Por outro lado. enquanto que a Uagacê. Ao lado das diferenças de composição. a parte mais executiva e o que se poderia chamar "relações c o m o público". como meio de atender aos seus problemas imediatos de miséria econômica e social. jornalista José Bernardo da Silva. costuma organizar caravanas que visitam bairros e cidades vizinhas promovendo a distribuição de roupas. e outras dessa natureza. de fato. é o "orientador" da U n i ã o e age como seu prestigiado mentor. que se aproveita. discriminação racial (grifado no . associação religiosa à qual a Uagacê tem seu destino fortemente ligado: o líder d o C e n t r o Espírita. Ao lado disso.

No corpo da tese as únicas indicações a respeito q u e p o d e m ser encontradas sobre o assunto referem-se h necessidade. seus dirigentes participam ativamente do C o n s e l h o das Organizações Não- . agitou o problema. crença política ou religiosa. a bolsa recheada) de alguns homens ricos e poderosos (e.] do que anda por aí com o nome de Estado Nacional". 5. acompanhado de fotógrafos e jornalistas. da associação. dentro dos quadros sociais existentes e por eles rigorosamente respeitados — impõe-se. criação de grupos educacionais sob a orientação de competentes educadores sociais. escolhidos pela sua elevação cultural e seus princípios humanitários e cristãos. de "tocar os corações bondosos e os espíritos construtivo e humanitário (e. o dia da assinatura da Declaração Universal dos Direitos do Homem. deu entrevistas. adolescentes e adultos do grupo étnico afro-brasileiro. postos médico-assistenciais. na tese. e a qualquer membro dos demais grupos étnicos desde q u e n ã o sejam i n i m i g o s d o s negros ( g r i f o d o Autor). para reunir os meios. incrementar-e difundir a alfabetização das crianças. cultural e moral ao negro de qualquer nacionalidade. roupas e calçados nas favelas. como atividade prática. não avança detalhes sobre o modus faciendi da criação desse órgão econômico financiador das iniciativas. com solenidades públicas.262 182O N E G R O N O R I O DE JANEIRO 2. obviamente. providenciar sobre a criação de u m órgão econômico capaz de devidamente os empreendimentos indicados. Recomendava-se ainda. brancos). condição social. assim. 4. 3. 6.. todos os anos.. 32 financiar A última proposição que é a chave de todas as outras. como vemos. donde sairão na prática os meios materiais de levar à aplicação o plano assistencial apresentado. Ao lado disso. Assim. 33 A categoria de problemas que a Uagacê reputa como mais importantes para o negro . amparo material.determina. os meios eleitos para enfrentá-los e a assistência. também. provavelmente. A Uagacê comemora. por excelência. Joviano compareceu à firma. a Uagacê desempenha também uma intensa atividade c o m o grupo de pressão. trocou correspondência com o gerente da empresa e levou-o a afirmar em carta que não fora aquela a razão da recusa de admissão da jovem escura. fundação de escolas. que isto devia ser feito "sem o auxílio direto [. nos sertões e nos litorais. a começar pelo âmbito familiar. quando a firma norte-americana Sydney Ross recusou-se a aceitar uma candidata a emprego por ser de cor. pequenas cooperativas de víveres.

a Uagacê é extremamente formal e exigente na escolha e seleção de seus membros. seu orientador. nos quais as figuras que aparecem são todas brancas e nenhuma negra. para demonstrar que seu governo não é racista. Na ocasião protestaram. e protestaram c o n t r a o fato dc não haver negros na carreira diplomática. entrevistas. a Uagacê não tem ampliado muito os seus quadros associativos. panfletos com que os seus dirigentes protestam e reagem toda vez que têm c o n h e c i m e n t o de qualquer manifestação d e preconceito ou discriminação racial. que sofrem sindicância. onde um delegado brasileiro branco discursou contra a opressão do negro na Aí rica do Sul. ocasião em que subscrevem u m compromisso solene de lutar contra a discriminação racial. reunida cm Paris. na mesma oportunidade os líderes da Uagacê concitaram o Presidente da República a nomear um negro Ministro de Estado. a q u e m foi agradecer a sanção da lei que considera crimes comuns os atos de discriminação racial. preenchem fichas e prestam informações antes de serem admitidos. interpreta como sendo " m i n h a M ã e lavadeira e meu Pai quitandeiro. especialmente contra a ausência dc negros na delegação brasileira à última Assembléia das N a ç õ e s Unidas. c o m o movimento de cúpula q u e é. 35 O símbolo da União. a publicação do jornal Himalaia?* e as cartas. p o r força da dedicação de seus próprios dirigentes que absorvem toda a vida da associação. também.. representando a confraternização das duas raças e que Joviano. e nos distintivos que seus m e m b r o s usam no peito. A elas sc junta. no sentido dc c o m b a t e r a linha dc cor. c o m ironia. telegramas. patrocinado pelo Escritório de Informações das Nações Unidas no Rio dc Janeiro. esquecendo o que ele sofre aqui mesmo no Brasil. abaixo-assinados. contra os cartazes oficiais distribuídos a propósito da data de l1' de maio. o u t r a preta. q u e comparece na bandeira. obteve u m a audiência do Presidente da República. Pstcs são apenas alguns exemplos das diversas formas pelas quais a Uagacê exerce sua função de g r u p o de pressão.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 263 Governamentais." (a negra e o português). Desde sua fundação em 1949. Recentemente. ao contrário das outras que nisto são mais liberais e até descuidadas. é formado p o r duas mãos entrelaçadas. feita "sob a invocação de São Benedito e dos Santos Protetores". uma branca. . acompanhado d o presidente da associação. Neste sentido. o n d e colocam sempre na ordem do dia o p r o b l e m a do combate ao preconceito racial. nos papéis oficiais. manifestos.. mantendo-se mais. finalmente.

corte e costura. professor secundário.deliberadamente ou não — a União Cultural.264 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Primitivamente um apêndice da Uagacê.. que assinala e reflete as novas situações de tensão racial surgidas no Brasil em conseqüência das mudanças sociais em progresso. . Em certo sentido. não deixou de demonstrar certa dose de autocrítica e realismo em face das necessidades d o meio e das suas possibilidades de atuar dentro dele. C o m o ficou dito. existe também no Rio d e Janeiro a União Cultural dos H o m e n s de Cor. hoje. No ano corrente (1952) esta associação instalou-se em nova sede e deu início aos seus cursos de culinária.. José Pompílio da H o r a . O assunto serviu até de motivo para pilhérias e expressões irônicas por parte de intelectuais negros. a natureza dos cursos abertos pela União Cultural deu causa a certa desilusão para alguns elementos negros que dela esperavam outra espécie de atividade orientadora. N ã o é por acaso que tais cursos constituem o pesadelo de muitas donas de casa. que aí encontram hoje sua principal oportunidade de mobilidade profissional. alfabetização de adultos etc. representam u m a prova do foco de atração que são de fato para as empregadas domésticas. com os cursos q u e pôs em funcionamento. funcionando por toda parte — cada bairro da cidade com quatro ou cinco deles sempre cheios. seção que se intitulava A voz do negro. Seu contato com a massa negra ainda é mais reduzido e esta associação quase que se tem reduzido a um círculo de amigos. na qual. t a m b é m candidato a vereador nas últimas eleições. que as distinguem e separam. d u r a n t e certo tempo. A verdade. dirigida pelo Sr. Hoje a União Cultural tornou-se independente. Os cursos de corte e costura. p o r é m . a maioria delas de o r d e m personalista. comentava fatos relativos ao alevantamento d o nível social dos homens de cor e ao combate ao preconceito racial. por exemplo. d e nível mais elevado. em que pesem as discrepâncias. 36 O presidente da União Cultural.. compreendemos melhor as verdadeiras perspectivas das associações de novo tipo do negro brasileiro contemporâneo quando as observamos do p o n t o de vista de como todas elas reunidas formam um movimento. ora em tom de protesto. ora em tom de lamento. manteve uma seção permanente num diário do Rio de Janeiro. com horários n o t u r n o s e preços módicos . no Rio de Janeiro. é que . em nossa presença.

No Memorial de Aires. Notas Segundo o Prof. D o mesmo a u t o r ver Naissance de la poésie nègre au Brèsil. em toda sua biografia e em diversas mostras de sua bibliografia. C o m o falecimento de seu p r o t e t o r e especialmente na fase de sua vida d e c o r r i d a n o Rio de Janeiro. toda ela m a r c a d a .1 2 8 . d o quotidiano amargo dc um negro evoluído da antiga elite negra. feita por mão de g ê n i o . especialmente p. essa teria sido u m a das razões da fraca originalidade do que ele c h a m a "a poesia afro-brasileira". leva. cit. m u i t a s vezes. finalmente. n. R o g e r Bastide. lançar uma vista de conjunto sobre este problema das tensões sociais. p. ' Escusado é dizer q u e a biografia do poeta Cruz e Souza justifica p l e n a m e n t e e até impõe essa maneira de i n t e r p r e t a r a sua obra. muito da amargura q u e está presente na sua poesia reflete t a m b é m a sua situação particular e pessoal de deelassé. 8 7 . n. Machado d e Assis m o s t r a .ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 265 Para coroar esta análise. p. C r u z e Souza em outros idiomas. às vezes. Provavelmente. segundo diz. que estavam muito mais p e r t o deles do que da elite negra de hoje. em c u j o bojo ocorrem e se explicam os fatos que hoje caracterizam a situação racial brasileira. 4 Ironides Rodrigues. p o r o u t r o lado. sinais deste estado de espírito. toda ela feita à luz desta hipótese fundamental. 5. Roger Bastide. nem muito m e n o s indiferença tranqüila. atitude que se t o m a c o m o marca externa e ostensiva de status s u p e r i o r . C r u z e Souza viveu na adversidade e morreu tuberculoso. Essa omissão não significa desinteresse. 1950. tendo que ganhar sua subsistência como repórter e pequeno f u n c i o n á r i o . p o i s C r u z e Souza. O b v i a m e n t e . pelo c o n t r á r i o . que lhe foi d a d o pela família dc quem seu pai f o r a escravo. principalmente pela omissão em relação a tudo que l e m b r a s u a condição étnica e que sugira a c o n d i ç ã o social em que está a massa esmagadora d o s ex-escravos. "pelo estigma da i m i t a ç ã o " . a n o II. A poesia afro-brasileira ( 1 9 4 3 ) . jan. Parece ser.pois tinha como função social útil à m i n o r i a negra que a criava permitir a ela sentir-se branca pelo fato de imitar o b r a n c o . Présence africaine. a contragosto. ele se refere à criação escrita e erudita. 7. especialmente seus excelentes Quatro ensaios sobre Cruz e Souza.. leiam-se os registros d o s dias 7. C f . o homem de cor que na geração passada a: cendeu intelectual e socialmente. n e m indiferença. A omissão nestes casos. 215 e ss. o p . 2 1 Cf. com certeza. a caracterizarse. 17-19. escravidão da qual muitos deles foram c o n t e m p o r â n e o s . E m certo sentido. R o g e r Bastide. p. . que é uma p e r m a n e n t e racionalização poética. Quilombo. 5 Essa tristeza digna. por exemplo. não à oral e folclórica. resta-nos. essa sobriedade como condição de status. teve primorosa e d u c a ç ã o e t r a t a m e n t o dc menino rico.. 4. filho de um escravo e d c u m a mulher livre. u m a deliberada e interessadíssima omissão voluntária. é u m d e p o i m e n t o . 13 e 14 de maio de 1888 e o m o d o c o m o a Abolição entrou no diário de s e u p e r s o n a g e m quase à força e.

* Cf. de Morais Pinho. fundamentalmente. 9 . ano I. V. parties andpressuregroups ( 1 9 4 8 ) . 1. Edições Q u i l o m b o . cf. n. obra de estreia do poeta c sociólogo d c cor. esse significado não é exclusivo. Aruanda. f u n d a m e n t a l m e n t e . . J r . passim. d o m e s m o autor. especialmente p. p. Politics. de J. cit. mesmo nas próprias opiniões que líderes d e umas associações fazem sobre líderes de outras. p. q u a n d o aqui as empregamos. O drama de ser dois (1937). O filho pródigo. Alberto Guerreiro R a m o s . nas situações d c conflito e nas lutas de prestígio ganham m a i o r liberdade de expressão c usam de u m a f r a n q u e z a rude ao se manifestarem a respeito dos líderes e movimentos concorrentes. Espirito e filosofia do teatro experimental do negro. dc 0 ' N e i l l . queremos destacar como ele reflete. esra coletânea de discursos não p ô d e circular largamente. editado pelo j o r n a l negro Quilombo. O s grífos estão n o original. sem discutir a eficiência terapêutica do c h a m a d o "sociodrama". ano II. mas aqui. por falta de recursos para custear a impressão. c h a m a n d o A atenção para aspectos que passariam muitas vezes desapercebidos ao observador d e fora. o mesmo fenômeno e a mesma função no q u a d r o das relações de raças. n e m c mesmo o mais importante. através das quais vêm à tona depoimentos a respeito.6 3 6 . 35-36.. q u e r e m a r i a cm época mais recente aplicar entre os negros do Rio de Janeiro as técnicas psicolerápicas d e j .1 7 Cf. engendradas por m u d a n ç a s operadas no contexto total das relações de raças. p. Alberto Guerreiro Ramos. privando os estudiosos e interessados de curiosíssimos depoimentos s o b r e as feições ideológicas assumidas por cerra corrcnte do movimento social negro no Rio d e Janeiro. fev. passim. 6 3 4 . " Para conceituação e análise d o s grupos de pressão e do seu f u n c i o n a m e n t o nas tensões raciais. Contatos raciais no Brasil.. Neste sentido elas e x p r i m e m . 13 Alberto Guerreiro R a m o s . Calígula. a existência desse d r a m a social. O . Key. de C a m u s — e n t r e as principais. embora tenham significado cronológico. 1950. . As expressões novas elites c antigas elites. 1948. diretamente. in: op. H 15 12 in: Quilombo. pois a distinção repousa. e b e m assim a bibliografia selecionada q u e o autor apresenta. Todos os filhos de Deus têm asas e Moleque sonhador. é o título dc u m livro dc versos. Quilombo. discurso de instalação da Conferência N a c i o n a l d o Negro. o folheto Relações d e Raças no Brasil (1950). E m b o r a representem. p. aliás. 1 9 5 0 . 8. aliás.. 134-139. n. de Joaquim Ribeiro. Relações de raças no Brasil. Auto da noiva. D e n t r o em pouco teremos cie voltar c o m mais vagar ao assunto. 9 Essa concepção transparece. O n e g r o no Brasil e um exame de consciência. L a m e n t a v e l m e n t e . mai. Exposição das atividades d o T E N . de Rosário Fusco. de Lúcio C a r d o s o . em variantes d e estado de espírito. Filhos de Santo. 11. Foram encenadas as seguintes peças: Imperador Jones. dez. 1. 1949.266 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO '' Esse. que hoje também está c o m sua circulação interrompida por falta de meios. Moreno. como meio dc alcançar o q u e Guerreiro chama de "desrccalcamcnro em massa" c da "purgação" psicológica. algo semelhante às expressões novas e antigas classes médias já sociologicamente consagradas.1 2 . A maior parte desses d e p o i m e n t o s p o d e ser encontrada em números diversos de Quilombo. Abdias Nascimento. 6.

r ' I d e m .. Ao se divulgarem. e m seguida. Este anseio está sempre p r e s e n t e nas linhas ou nas entrelinhas d o q u e escreve.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 267 .. 1950. E c o n d e n a . os cabelos esticados das moças e rapazes negros.. Nós c a sucessão. principal financiador das atividades do T E N . um escritório eleitoral. Isto significaria que a votação deAbdias beneficiaria a legenda do partido. Em face disso. Vejam-se. para t e r m o s o bom meio social que possam substituir os a n t r o s dc perdição. i n t e i r a m e n t e fora de suas perspectivas. ainda no m e s m o periódico. Noutra crônica ele fala na necessidade do negro de "vestir-se h i g i e n i c a m e n t e d e acordo com sua cor"[ ]. 6. E adiante. Quilombo. nessa mesma crônica i n t i t u l a d a Plebeus c patrícios. I. N u m a crônica.. 1 1. 3. l a m e n t a n d o o fato de os negros votarem e m c a n d i d a t o s brancos.. n. na sua coluna "A voz do negro". p . Quantas lojas d e cidadãos negros temos? Quais os armazéns o n d e trabalhe o negro sendo ele proprietário? Q u a n t o s bares ou casas dc móveis de q u e ele é d o n o ? Precisamos de tudo isto..] q u e n ã o correspondem à tonalidade d e stia cor". para elegerem os magos da nossa n u n c a alcançada igualdade. jun. diz textualmente: "Na hora das eleições os nossos votos perdem logo a cor negra. a n o II. p. s e m p r e d e n t r o de uma grande moral e ordem" (Artigo d e 2 8 / 1 0 / 4 9 ) . para termos as nossas casas. apela para os negros nesses termos: "devemos ter mais brilho. 17 C f . . devemos ligar em sermos dignos de nossos irmãos brancos". 1949.. essas palavras de P o m p í l i o da H o r a na coluna "A voz do n e g r o " . responsabilizando o que ele chama de "complexo dc incapacidade" pelo fato de os negros n ã o terem "carros de luxo".". José Pompííio d a H o r a . ano I. as listas d o s candidatos do partido a deputados e vereadores. nas vésperas das eleições. " A e s p e r a n ç a n o voto empolgou realmente os líderes negros d a classe média nas eleições de 1 9 5 0 . E adiante.. Candidatos negros c m u l a t o s . N ã o temos u m c l u b e social onde possamos passar. Escusado c dizer que isto não representa apenas u m a opinião ou aspiração pessoal do diretor do T E N . Ainda noutro artigo (9/11/49). P o m p í l i o d a H o r a volta ao assunto. os trajes berrantes. A b d i a s desinteressouse de sua p r o p a g a n d a já nas vésperas do pleito c nem sequer foi ao T r i b u n a l Eleitoral fazer a regularização final de sua inscrição. o artigo dc Abdias do Nascimento. c h e g a m o s a u m a conclusão: nada conseguiremos sem os nossos legítimos e fieis representantes nas várias casas do congresso.. horas de decentes distrações. "cheios de estampados ou de cor vermelha [. montou. mas não teria a m e n o r possibilidade real de elegê-lo. " f o r m a t u r a " etc. I. (sic). p. "casa própria" . neste período. A b d i a s fora incluído entre os c a n d i d a t o s a deputado. por exemplo. p o r exemplo. que exige quociente eleitoral m a i o r . j u n t o s c o m nossas famílias. para isso u m industrial branco candidato a d e p u t a d o . " p r e o c u p a n d o . de toda u m a classe: o setor intelectual da pequena burguesia negra. intitulada Aspecto real da vida. "bailes". os nossos a p a r t a m e n t o s em todos os edifícios. Nossa vida cívica advém de nossa p r o s p e r i d a d e econômica. j u n t a m e n t e c o m A b d i a s . D u r a n t e os preparativos e a propaganda eleitoral t o d a a p u b l i c i d a d e em torno d e A b d i a s preparava sua eleição para vereador municipal. p o r e m . n u m a crônica intitulada O voto é a nossa vitória: "Depois de muito pensar. diz ele. n. fev.. por exemplo: "Utilizando os recursos da c u l t u r a e do saber. para sermos negociantes. mas a aspiração coletiva de todo um setor... reproduzido em panfletos de p r o p a g a n d a eleitoral sob o título Os negros e a eleição de Abdías Nascimento e.s e com a apresentação social dc nossa raça".

principalmente. os relativos ao cabelo cncarapinhado e ao cheiro de seu corpo. O alisamento do cabelo. no artigo citado. Barbosa. onde ele diz enfaticamente: "Repelimos estas iniciativas por considerá-las ofensivas e afrontosas para a família negra brasileira". ano II. d e que o jornalista se confessa vítima. a crônica intitulada Da beleza racial. d o jornalista negto João Conceição. n. 1950. 4. Quilombo. se declara . Escusado i dizer q u e a discussão franca c aberta de tais problemas. Ironides Rodrigues. 3. o p r o t e s t o contra esses concursos constitui tema de u m a das citadas crônicas de Pompílio da H o r a . ano I. 6. alem das notas e i n f o r m a ç õ e s dc conselhos de beleza cm diversos n ú m e r o s do jornal Redenção. dedicado especialmente a ele. j u n . p. não havendo. 5. 22 23 21 Quilombo. 6. E conclui: " O voto é a nossa vitória. n.. 1 9 4 9 . n.268 O N E G R O N O RJ O DE JANEIRO fraternidade e justiça". 24 Qiiilombo. portanto. num jornal negro. s e g u n d o ele diz. c o m privações. dramático. intitulada Mora. ano I. e q u e t a m b é m diz ter superado. O voto é o sol da nossa integridade moral e cívica. c o artigo Revelações rogerianas.. Apresentação da g r u p o t e r a p i a . recolhidas pelo Autor em entrevistas. 1950. parece indício muito expressivo das reações psicológicas que estão surgindo em face do novo esquema da situação racial. 1950. Quilombo. N o seu artigo o jornalista João Conceição discute f r a n c a m e n t e que. embora com sacrifícios. e Teoria e prática do psicodrama. elegendo nossos irmãos. em t o r n o dos quais existem cm nossa sociedade m u i t o s estereótipos menosprezantes. Ele se refere explicitamente ao que chama "exibições de n u d i s m o " . 9. id. acrescentando: "Estamos fartos de h u m i l h a ç õ e s oriundas de todos os lados e não recebemos com agrado aquelas vindas e p a t r o c i n a d a s por nós mesmos". C o m o voto mostraremos. p. infelizmente. por exemplo. 6-7. O complexo desapareceu. cm regra. O cronista. p . O u t r o complexo semelhante. 25 Cf. a sua principal f o n t e . 6. se temos ou não consciência dos s o f r i m e n t o s espirituais a que somos sujeitos e das h u m i l h a ç õ e s que a cada passo se deparam a n t e nós". ano II. razão para o complexo. p. quando verificou que m u i t o s brancos tinham também o tal desconcertante odor.. alem d e algumas manifestações verbais de desagrado. U m a experiência de grupoterapia. de suas criações e.. . só eram ventilados por brancos e sempre com intenções depreciativas. era o ligado ao que ele chama de "odor desconccrtante" dos negros. E. mas libertou-se desse c o m p l e x o pensando que quando u m a m u l h e r branca o n d u l a o seu cabelo está i m i t a n d o a negra. por exemplo.. j a n . para o Autor. maio. . de sua atuação. feita por um escritor negro. educa-os para o bem do Brasil" (artigo dc 9/ 10/49). 11.. o cronista promete aos leitores um s e g u n d o artigo. por exemplo. fcv. ele pensou por muito t e m p o q u e era uma prova de imitação de branco e d e autodesesrima étnica. tese ao I o C o n g r e s s o do Negro Brasileiro. Assim. 20 D e geração mais antiga e de moral mais conservadora. Cf. Sobre esse segundo complexo. p.portador de complexos ligados à a p a r ê n c i a da raça.. Cf. A estética da negritude (1950). n o u t r o tempo.embota em processo dc superação . p. n. finaliza: "Minha raça. e d u c a teus filhos. jul. 6. 1949. 1950. dc seus pró-homens. fev. 7. id. náo encontramos em nossa coleção do jornal. aliás. assinada por J. Os vivos debates q u e neste conclave foram travados na n o i t e e m que esta tese foi discutida e aprovada representaram. q u e . n. como. é sempre supervalorativa a linguagem desses líderes quando falam do m o v i m e n t o . Aliás. 9. n..

d c q u e m estamos falando. no correr dos debates. por assim dizer. num documento daquela o r d e m . Ramos. entre outras recomendações e afirmações. seu a r t i g o U m herói da negritude. loc. 11. através dc um artigo. Notese que Aguinaldo m o r r e u atropelado por um automóvel ao atravessar u m a rua do bairro em que morava. mártir e príncipe da negritude. que ele traduziu para Quilombo. c o m o a invocação de fatores biológicos. antes de mais nada. U m h e r ó i da negritude. para explicar u m a atitude específica de um grupo ctnico d i a n t e d a vida social. u m compromisso entre orientações diversas. sob o título dc "A voz d o n e g r o " . A. declarou q u e negritude. das discussões e manifestações verbais d o s q u e esposam a idéia. indicar que. cit. senão o conteúdo. porém. Apresentação da negritude. c o cerne e o n ú c l e o d o racismo cm qualquer variante o u m o d a l i d a d e . A propósito da n e g r i t u d e .e que é ali apreciado como um herói. observações feitas no Congresso d o N e g r o e conversas informais com l/deres negros. Um herói da negritude. ela é u m g r a n d e achado. parece n ã o h a v e r dúvida d e que uma formulação tão geral c o m o aquela é aplicável ao problema d e qualquer g r u p o étnico. p. Além desse artigo a maior p a r t e d o material existente só pode ser apreciado através d e observação direta e participante das opiniões. n. muitas das quais abertamente se 30 . r e c o n h e c e u ter sofrido alguma influência d o existencialismo de Sartre. jun./ jul. A mudança da epígrafe parece. aprovada na última sessão d o C o n g r e s s o . a n o II.. [como] palavra. encarada como depoimento d e u m a situação cm processo e indício das tendências ideológicas que dentro dela operam. cit. De resto. O r f c u Negro. É de n o t a r q u e essa "cosmovisão" no dizer de G u e r r e i r o é "resultante de uma compenetração peculiaríssima de fatores históricos e biológicos" (grifo do Autor). C f . o desdobramento de u m a seção p e r m a n e n t e que Joviano mantém no jornal Himalaia. comissário de polícia e ator do TEN — aliás. S u p l e m e n t o do Diário de Noticias. loc. Observa-se. . dos estados d e espirito. feitas q u a s e à moda de devaneio.. aliás. de outro lado. Joviano Severíno d e M e l o . a p r e s e n t a d a assim em termos muito gerais — a única possível.coincidem os resultados de q u a l q u e r análise séria e honesta da situação racial n o Brasil. Cf. a Declaração reflete. G i l b e r t o Freire. 29 Em entrevista c o m o Autor. declara que os problemas do negro brasileiro são u m a parte dos problemas do povo brasileiro em geral e que só assim podem ser encaradoseresolvidos. Com esta afirmação. n i n g u é m p o d e negar que. A Declaração final. 6 d e abril d e 1 9 5 2 . Quilombo. Q u e r significar loletividade negra. quiçá diametralmente opostas. não tem o sentido q u e lhe e m p r e s t a m os dirigentes do movimento d o T E N . dirigido pelo jornalista negro José B e r n a r d o d a Silva. 27 28 Cf. Alberto Guerreiro R a m o s . 1950. p o r t a n t o . E p e r t i n e n t e assinalar que o novo jornal será. G . por m e i o d e entrevistas. N ã o resta a menor dúvida. ao m e n o s a sonoridade da palavra negritude c o m e ç a a p r o d u z i r os seus efeitos de propagação c a captar prosélitos.s e n u m artigo recente em que G u e r r e i r o faz o necrológio de Aguinaldo C a m a r g o . 10. o Sr.. historicamente colocado e m situação desfavorável em q u a l q u e r sociedade nacional existente no m u n d o . u m dos seus melhores artistas . atitudes. d e que. para ele.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 2 <59 direta de observação sobre o significado sociológico da n e g r i t u d e . e n c o n t r a m . também. Ironides. 26 Essas variações não muito claras sobre a negritude. portanto. id.

) Seu diretor. N a prática c sempre uma pequena minoria q u e alcança realizar esse objetivo c a m a i o r p a r t e .353 dc 13 de m a i o d c 1888. durante os trabalhos d o Congresso. fábricas de r o u p a s . s o c i e d a d e dc fins sociais c cívicos. oficinas de costura. cm face d o preconceito de cor. 32 (1950). loc. Alisto-me nesta U n i ã o para combater o preconceito de cor. a família negra é colocada à margem da política e da alta administração do País. e m b o r a a Lei Imperial . herdado da escravidão. cit. a sua escravidão moral e cívica. Aguinaldo C a m a r g o . c p a r a fielmente 36 continua. ano III. 31 Isto ocorreu com o n. ingressa como assalariada de firmas. mas n ã o logrou ser eleito. p a r e c e r foi aprovado e a tese. por esta via. assegurasse a igualdade e os direitos a todos os brasileiros. p r i n c i p a l m e n t e . às implicações desta afirmação da Declaração final..Congresso do N e g r o Brasileiro Himalaia. p. à letra e.270 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO opuseram. com injustiça social. . excluída dos programados Cf. nas últimas eleições. (As observações entre parêntese são do A u t o r .3. sem levar e m c o n t a os direitos dos homens. José Bernardo da Silva. 35 Alisto-me na U n i ã o d o s H o m e n s dc Cor do Distrito Federal. adquirir a sua Singer e manter ateliê próprio de costura. O Anais. No plenário foi relator da tese o artista do T E N . magazines. que emitiu parecer favorável à a p r o v a ç ã o das sugestões finais e contrário à p u b l i c a ç ã o do trabalho nos Anais do Congresso. José. t a m b é m foi. cumprir o m a n d a m e n t o d e Jesus Cristo: "Amai-vos uns aos outros" (sic). B e r n a r d o . q u e continua sendo tratada o f i c i a l m e n t e . sem distinção dc c o r . 147. in fine. ao espirito. 33 M q u e deveriam ter sido publicados. da família negra. 4 . c a n d i d a t o a deputado no Estado do Rio. Tese apresentada ao 1. A esperança da e m p r e g a d a doméstica que faz tais cursos é s e m p r e ascender ao artesanato. portanto. de 23 dc setembro dc 1 9 5 0 d o periódico Cf.

porque. os dois temas representam u m só problema visto de dois ângulos diversos: num caso. podemos resumidamente indicar que. o interesse da inteligência humana se concentra sobre o q u e se passa na intimidade das coisas. D e q u a l q u e r sorte. b) que resulta de um conflito virtual ou potencial existente no fundo da situação social considerada. e c) que vem à tona. sob a forma de . C h e g a a ser algo comparável ao extraordinário interesse que. facilmente se percebe q u e o que há de novo no estudo das tensões é sua voga atual na preocupação da sociologia acadêmica. têm hoje os estudos sobre a energia nuclear. na verdade. as tensões sociais representam: a) uma fase de um processo em desenvolvimento. que. aliás. Visto a essa luz.CAPÍTULO ÍII Tensões raciais numa sociedade em mudança I m p o r t â n c i a d o problema das tensões sociais — Fatores antecedentes . como problema. n o u t r o ele se volta para a análise do m o d o pelo qual: a) as relações dos homens c o m as coisas e b) as relações dos h o m e n s entre si reciprocamente se influenciam. N ã o seria difícil provar. f u g i n d o a explanações que poderiam nos levar para longe do objetivo perseguido. existe desde que existe sociedade h u m a n a na face da terra. O estudo das tensões sociais constitui u m dos capítulos para os quais mais se tem voltado a atenção da moderna sociologia.Influência do tem-po e do m u n d o — Racionalizações da tensão racial — O r i e n t a ç õ e s e perspectivas. na física. E para isso.Modos de se manifestar " B o d e s expiatórios" O C r i p t o m e l a n i s m o brasileiro . em essência. deixando de parte o m u i t o que se poderia dizer sobre a história desse conceito. de diversos modos e em diversos graus de intensidade. o problema. o que aqui particularmente nos importa é formulá-lo e e m seguida utilizá-lo como i n s t r u m e n t o de pesquisa sobre as relações de raças n o Rio de Janeiro. em certo sentido.

gerando lentamente aquela expectação. Por outro lado. que. o enunciado que lhe d e m o s deixa claro que as tensões. quantitativa e qualitativamente. e a tensão é contida. de longe. de instabilidade e de insegurança. a própria tensão. o conflito que está no f u n d o de toda tensão social vem à tona de diversas maneiras. Nenhuma tensão social. assim. . Assim. em outros termos. alastra-se pelo corpo da sociedade c o m o um todo. sendo virtual e assim podendo permanecer por m u i t o t e m p o . e então. porém. aberta e declarada. uma longa exposição esclarecedora. têm sempre uma história. apresenta-se sob disfarces os mais variados e descarrega-se sobre as costas dos "bodes expiatórios" que as circunstâncias do momento histórico lhe vão proporcionando. na medida em q u e se vai forjando. ilude. no seu n o r m a l desenvolvimento. do céu ou das nuvens. para os objetivos específicos que temos em mira. aparece inteira e de u m só jato no interior de uma sociedade. como fase de u m processo em desenvolvimento. ou atinge um desfecho sob a forma de crise. de nervosismo. que começa a f e t a n d o o comportamento individual d e alguns. Evidentemente ficou aí u m mundo de indicações que exigiriam. sua gestação é lenta e em círculo vicioso. que elas estão diretamente ligadas às situações em mudança e q u e os conflitos virtuais que originam as tensões em regra resultam da resistência que as estruturas sociais o p õ e m aos fatores de transformação social que ela mesma desprende de seu p r ó p r i o seio pelo fato de existir e funcionar. aí t a m b é m ficou o que há de fundamentai no conceito. vai também produzindo os fatores de seu crescente agravamento. p o r o u t r o lado. elas se formam dentro das estruturas sociais e são produto de seu f u n c i o n a m e n t o histórico. que as tensões não se despejam sobre uma sociedade. evidencia. pela acumulação e agravamento de tensões sucessivas. Isto significa. acreditamos. fatores antecedentes que precisam ser considerados n a sua análise e compreensão. uma situação de crise em que uma sociedade. vindas de fora. Configura-se. finalmente. até q u e o conflito encontra meios de se "acomodar". portanto. para desenvolvimento. aquele estado de suspense. assume formas secundárias e acessórias. transforma-se na inquietação característica dos grupos sociais mais diretamente envolvidos por ela e. coloca diante de si problemas estruturais de tal natureza e profundidade que ela m e s m a não pode resolver sem se transformar. mascara-se.272 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO "descargas de tensão".

e não corresponde a n e n h u m a exigência de método sociológico. que é inteiramente arbitrário. mas realizar aquele estudo tendo em mente o "clichê" de outros países é fazê-lo consistir na p r o c u r a formal do que se encontra aqui que acaso seja igual. em certo sentido. tomar-se a situação dc opressão racial noutro país . numa palavra. Vejamos agora. o procedimento é legítimo e pode ser útil de diversos pontos de vista. Evidentemente concluir assim não é concluir. onde o p r o b l e m a é mais conhecido .. Isto significa. quisermos c o m p a r a r seus característicos com os de outros países. na África do Sul. particulares.geralmente se escolhem os Estados Unidos. e pela própria natureza do assunto que trata. é colocar o problema num nível metodologicamente primário. manifestações históricas específicas. ou acaso seja diferente.e que representa.é que as tensões raciais que aqui se desenrolam são casos particulares. nas Antilhas ou em qualquer outra parte do m u n d o o n d e pretos e brancos convivem no bojo de u m a sociedade nacional. a história natural das tensões sociais. noutras palavras. do que se passa numa situação arbitrariamente tomada como modelo. depois de estudada minuciosamente a situação racial brasileira. históricos. tanto q u a n t o os tipos sociais de relações de raças. exatamente o inverso e a negação do que tão f r e q ü e n t e m e n t e se faz em tais estudos .T E N S Õ E S RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 273 Essa. mais ou menos.da formação ao desfecho . Esta prática. este capítulo terá o duplo escopo de a) reunir e interpretar materiais já apresentados no corpo desta pesquisa e b) tentar extrair deles. concretos. Se. partindo deste conceito. os traços peculiares à situação norte-americana. geralmente c o n d u z a um resultado fácil de ser antecipado e que. . muito bem. Para isto. infelizmente tão d i f u n d i d a em tais estudos. e neles f u n d a m e n t a r . algumas conclusões válidas s o b r e os principais característicos e as perspectivas atuais da situação racial brasileira. salvo em relação a algumas partes do mundo colonial. situações concretas. que não c o n d u z a coisa nenhuma de real valor científico. transformá-la e m modelo e ir julgar todas as demais situações concretas de relações de raça q u e existem no mundo conforme elas reproduzam. é pura e simplesmente mistificar. se ele pode ser útil ao nosso estudo. que ocorrem nos Estados U n i d o s . A primeira noção que se deve ter em mente na realização desta tarefa .. consiste em levar qualquer pesquisa sobre relações de raças a desembocar na conclusão de que tudo vai bem porque não está tão ruim quanto no Deep South. resumida em suas grandes linhas . tipos sociais.

que tiveram a possibilidade de ascender a níveis superiores do sistema de estratificação social e procuraram ampliar essa vantagem para seus descendentes nas gerações seguintes. daí decorrendo tudo mais que. durante a escravidão. portanto. aos seus característicos peculiares e atuais. N a prática. o processas e as perspectivas das nossas tensões raciais se apresentam em contornos mais nítidos e mais fáceis de observação e diagnóstico. floresceram e frutificaram na Abolição da Escravatura. se conservar como uma igualdade puramente j u r í d i c a e uma capacidade p u r a m e n t e teórica de desfrutá-la. é o marco zero das tensões raciais neste País: durante mais de trezentos anos esta foi a posição do negro na economia e na sociedade. de outro lado. pelo negro evoluído e pelo branco liberal. que são particularmente intensas e visíveis nas áreas metropolitanas. um Patrocínio. . antes de mais nada. essa igualdade no plano dos direitos e prerrogativas dc cidadania plena beneficiou apenas um n ú m e r o reduzido . pela distância que estabeleciam entre sua posição e a posição em que se conservaram as massas de cor. portanto. ser referido.' Os negros que. Este será. às mudanças que vem sofrendo. nas quais os fatores. como força de trabalho privadamente apropriada pelo senhor branco. de um lado. foi u m acontecimento de importância decisiva n o condicionamento das etapas posteriores pelas quais a situação deveria passar.274 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O estudo das tensões raciais n o Rio de Janeiro deve. u m Luís Gama . o nosso procedimento. * % * O fato de o negro ter começado a sua história no Brasil como escravo. surgiram as premissas de um novo ciclo na história das relações de raças neste País: o negro passou a ter capacidade jurídica de cidadão. individualmente destacaramse dessa homogeneidade da senzala e alguns . por muito tempo.que ascenderam a níveis sociais superiores singularizaramse. e as lutas mantidas pelo próprio escravo. passou a ter igualdade teórica em relação ao branco e isto apesar de.um Reboliças. caracterizou por tanto tempo o seu status scrvil c servia dc f u n d a m e n t o do que aqui se tem chamado dc "padrão tradicional" das relações de raças no Brasil. no que se refere à posição social. antes de tudo. h sua história. Quando o desenvolvimento da estrutura econômica e social. assegurando-lhes os meios de garantir a sua subsistência por meio do trabalho qualificado ou de ocupações não-manuais características da ciasse média.embora sempre crescente — de negros. à situação racial brasileira.

depois da abolição do sistema escravista ocorreu a transformação em massa da antiga massa escrava no ponto dc partida do trabalho livre e assalariado neste País. porém. c u j a m ã o de-obra era condição indispensável de seu funcionamento lucrativo. . efeitos econômicos e sociais de extraordinária significação par. devendo precariamente absorver sob formas sociais diversas. tinham sido as fazendas. tradicionalmente. A Abolição. em suas linhas f u n d a m e n t a i s . e na condição de trabalhador livre e assalariado. os núcleos de expansão da nova etapa da civilização brasileira. entretanto. produzindo essencialmente para exportar. A agricultura praticada no estilo do sistema dc plantações sempre foi. cuja arcabouço. incrementou a imigração estrangeira. como não p o d i a deixar de ser. forneceu abundantes quotas de população de cor para aqueles dois principais centros metropolitanos do sul do País. foi o núcleo original do proletariado brasileiro. a situação racial. 2 A crise agrária que se seguiu à liberação do braço escravo. caracterizando um novo capítulo da história social do Brasil. que formaram as antigas elites negras. que corre entre Rio de Janeiro e São Paulo.dois m o d o s de encarar o problema fundamental e único de mudança de estrutura econômica e social . de outro.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 275 Estes primeiros negros evoluídos. na medida em que urbanização e industrialização . T o d a a zona decadente do vale d o rio Paraíba. a marcha dos exescravos para as cidades. Foi. assim c o m o a própria crise de braços para a lavoura que agravara a crise agrária. produziu. setor predominante da economia brasileira e para ela é que foi importada e dirigida a força de trabalho do africano. medida legal que resultou de imposições econômicas que a tornaram historicamente necessária. paralelamente. o escravo de antes. o seu germe histórico. como antes. q u e passaram a ser.expandiram-se com vigor crescente. já q u e se tratava de uma agricultura comercial. já que o negro. e acelerou. u m a renovação estrutural da economia agrária. os antigos escravos. que esse processo assumiu novo ritmo. também. ao lado dc seus efeitos jurídicos. C o m a abolição do status$ctv\\ do trabalho não ocorreu. de u m lado. manteve-se igual. ascenderam por capilaridade e viveram e exprimiram de diversa f o r m a na vida brasileira o seu problema de "representar-se em dois planos ao m e s m o tempo": socialmente superiores como classe e socialmente inferiores q u a n t o ao status da raça. após o declínio econômico que se seguiu ao fast/gio da cultura d o ca fé na região. depois da Primeira Guerra Mundial deste século.

b) incrementando a diferenciação interna do g r u p o de cor em extratos e classes sociais diversas. em particular.276 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Sobre as relações de raças. por sua vez. isto somado ao fato óbvio.quase que apenas há u m a geração . por parte do grupo branco. psicológicas. Este. c) dando nascimento. isto significa que ao estudarmos o estado atual das tensões raciais no Rio de Janeiro. o fundamental está na palavra conflito e não na palavra raça. 64 anos . como conseqüência. dentro de uma sociedade na qual ele passou a ser considerado livre há. dentro de u m m u n d o em crise estrutural. para os extratos superiores deste grupo. para isto. mas por isso não menos f u n d a m e n t a l . o grande painel de fundo das tensões que aqui estamos estudando e ao caracterizarmos assim as suas grandes linhas recordamo-nos do conceito lapidar de R u t h Benedict: quando falamos dc conflito de raças. Destas novas situações originaram-se. originadas no padrão tradicional das relações de raças — e que hoje podem ser todas reunidas n u m a fórmula única e muito usada n a terminologia de combate das associações negras: a herança da escravidão. Noutros termos. formas também características de se comportar diante"delas que. O status social do negro no Rio de Janeiro é hoje condicionado pelas alterações que está sofrendo um conjunto de coordenadas . sociais.econômicas. eis o lastro donde foram . o que precisamos ter sempre claro no espírito é que estamos analisando as formas e expressões raciais assumidas pelas tensões sociais que resultam das mudanças em processo no b o j o da sociedade brasileira como um todo. Mais de trezentos anos de status escravo. situações de tensão racial. apenas. culturais. ligadas c o m o estão aos demais problemas de u m a sociedade em mudança. dentro do grupo negro. isro influiu de modo direto e decisivo: a) concentrando grandes massas de cor n o proletariado industrial urbano. formas específicas de reagir diante dos problemas de contato racial e.. que se f o r m a m sempre que problemas mais gerais e mais profundos ligados à transformação social assumem expressão racial. e continuam condicionando. de uma compleição e aparência física em que a cor da pele. condicionaram. e no caso concreto. os lábios e outros sinais servem de marca visível e iniludível de identificação desses traços da condição étnica com tudo a que eles estão ligados n o passado e no presente da estrutura social. c diversas em tudo que daí decorre. o cabelo. manipulando. todo o material c os conceitos já expostos nos capítulos anteriores deste trabalho. de uma parte. o nariz. a problemas novos de mobilidade e ascensão social para o grupo como um todo e.

fundamentais permaneceram m e s m o depois de juridicamente abolidos. outros escravos. Hoje. nos últimos tempos. Naquela estrutura de relações. nos costumes e nas instituições. sé» agora estão começando a operar e a produzir os seus efeitos. negros encontram obstáculos . aliás. Esse fato. lugar que a ideologia do grupo socialmente dirigente e etnicamente diferenciado considera próprio. como tal nasciam. dentro da qual se formou a ideologia também tradicional d o b r a n c o sobre a posição que o negro deve ocupar no sistema de posições sociais. neste país. Antes. negros e brancos na sociedade brasileira eram uns senhores. formavam sua mentalidade e viviam. o incremento do preconceito e da discriminação está ligado à destribalização do negro c à sua integração nos quadros da sociedade de tipo calculista que a colonização m o d e r n a criou ali. n o Brasil. porque as posições sociais estavam tão bem m a r c a d a s e aparentemente tão imutáveis que a função de mecanismo de defesa de situações ameaçadas que o preconceito geralmente tem. Igualmente. 3 A primeira lei norte-americana de segregação racial foi decretada já na primeira década deste século.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 277 gerados. antes da abolição. biologicamente justificado. está sendo o fator principal das discriminações que ele vem sofrendo. nas opiniões que fazem sobre e]es mesmos e cada um sobre o o u t r o . tão próprio. a situação racial jamais apresentou os aspectos que hoje apresenta e que decorrem de fatores que. não tinha. T a m b é m nos Estados U n i d o s . nem cabimento. Assim. na personalidade dos negros e dos brancos. n e m razão de ser. natural. e m escala crescente. a lição dessas experiências nacionais indica sobejamente — e a d o Brasil confirma . não é original. a ascensão social d o negro e o seu afastamento da posição tradicional que tem ocupado na sociedade brasileira. então. nunca houve lugar para um d e f i n i d o preconceito racial. e enquanto os seus traços. nas expectativas arraigadas cuja transformação não se faz sem originar tensões e problemas de variável duração e gravidade.que o preconceito. t e n d o integrado nas suas pautas individuais de conduta e no comportamento recíproco de uns em relação aos outros o ethos predominante na estrutura social d e n t r o d a qual conviviam e que c o n j u n t a m e n t e formavam. Por paradoxal que isto possa parecer. o lugar que tradicionalmente ocupava no sistema dc relações sociais. natural e biologicamente justificado quanto o seu de grupo dominante. e a discriminação a t u a m fundamentalmente no sentido de reconduzir ao seu lugar o negro que historicamente sai desse lugar. n a África d o Sul.

desde que esteja n a posição subalterna de empregado. 4 . Quando uma situação racial atinge esse círculo vicioso é que ela está seguramente rumando para u m estado de crise. sendo uma das conseqüências dessas mudanças estruturais. tornando o próprio remédio u m elemento de agravação do mal que pretende curar. clubes. E é precisamente por isso também. aliás. o que torna o preconceito. c o m o o diagnosticou Robert Park. n e n h u m a objeção costuma existir se o negro está ali servindo. em posição nitidamente definida — pelo uniforme profissional por exemplo . e mesmo em residências particulares onde está afastada pelos costumes e pelo preconceito a hipótese d e u m negro penetrarem posição igual ao branco. c o m o . E m b o r a se multipliquem os casos de barreiras raciais aparecendo em ocupações que. como empregado. u m a f o r m a elementar de resistência da ordem social aos efeitos de sua própria transformação e de suas últimas conseqüências. c o m o antes assinalamos. É neste p o n t o . que se encontram os sinais mais evidentes de uma tensão em processo. que o mestiço. atacando-o pelos flancos e pela retaguarda. via de regra. cultural e social d o negro. é. apesar de subalternas. precisamente porqtie já existem negros em condições de aspirar essas oportunidades à luz de todos os critérios e exigências. é quase u m crime. meio caminho para chegar a branco. pois aqui se nota que a elevação profissional. na vida quotidiana.278 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO e i m p e d i m e n t o s na porta de carreiras. resulta. cabeleireiros.que indique claramente sua função e posição. no fato de o negro. poder estar presente e m a n t e r contato com brancos. e m todos os lugares onde sua presença. vão à frente. instituições diversas. em condições de igualdade de posição c o m o branco. sofre. em compensação. enfrentando as patrulhas avançadas do preconceito e. instituições. m e n o s o da condição étnica de branco. —. q u e de uma parte é apresentada c o m o condição necessária para gozar plenamente da igualdade jurídica. por exemplo. além de ser um erro. garçons de hotéis de luxo. em relação ao qual a inadvertência. O fato de a ascensão social do negro proccssar-sc no bojo das mudanças de estrutura que têm lugar na sociedade como u m todo. t a m b é m . muitas vezes. por o u t r o lado. N a prática isso se revela de vários modos. primeiro e mais intensamente a ação discriminadora dos estereótipos: como os sapadores n a guerra. sofre restrições. o fato é que em salões. barbeiros etc. exigem contato mais íntimo e direto com o branco — enfermeiros. n u m dos fatores principais de sua frustração. ambientes sociais e tantas outras esferas de convivência com brancos. na prática.

em conseqüência d o crescimento rápido da cidade nos últimos tempos. 5 Outro exemplo característico. é claro . N o s esportes. ouvimos. desde apura malandragem até o ressentimento profundo. c o que fiz recair sobre o aumento do número dc motoristas de cor a responsabilidade do aumento d o número de atropelamentos e desastres de automóveis no Rio de Janeiro. a seguinte exclamação: "Se dependesse de mim e u m a n d a r i a esterilizar todos os negros do Brasil". Mário Filho relata uma variedade de exemplos que demonstram como muitos desses ídolos esportivos. ora mais mascarada. nas charges d o h u m o r i s m o falado. Pois bem: mais de uma vez. p o r exemplo. como fundo comum. O problema do trânsito n o Rio de Janeiro. ouvimos. em q u e os "bodes expiatórios" se apresentam de forma diversamente elaboráda. ora mais visível. nas conversas e nos comentários. sempre tiveram de defrontar a linha de cor na esfera social do p r ó p r i o clube reagindo a ela de diversas formas. de pessoas diversas . quanto à maneira d e se apresentarem. q u e p e r m i t e bem observar como a criação desses "bodes expiatórios" funciona c o m o mecanismo de descarga de tensões criadas por fatores que. E de u m dos informantes em que colhemos essa racionalização. no apogeu de seu prestígio. as mais variadas. que vale como ilustração e q u e selecionamos dentre muitos. que sentiam. depois desta teoria étnica dos problemas do trânsito. viam-se discretamente desencorajados a não comparecerem à noite n o baile comemorativo da vitória nos salões do seu próprio clube. à qual se ligava por motivos que não vem a pêlo discutir u m conteúdo emocional profundo. e que indica outra modalidade de a tensão social se manifestar. no f u n d o . 110 qual se t e m procurado encontrar comprovantes d o que chamam "democracia racial" pelo fato de muitas conhecidas figuras de jogadores terem sido de cor.como explicação para o p r o b l e m a de trânsito o alegado a u m e n t o do número de motoristas de cor.TENSÕES RACIAIS NUMA S O C I E D A D E EM MUDANÇA 279 São diversas. tendo sempre. o conservantismo estrutural. especialmente no futebol. quando depois de terem dado no gramado todo esforço pela vitória da sua equipe. u m lugar equivalente ao de um grande e fundamental motivo de preocupação d o carioca de hoje. U m informante chegou mesmo a avançar uma explicação mais elaborada.todas brancas. criou a tragédia diária d o deslocamento da população dos locais de trabalho para os locais de residência e vice-versa e passou a ocupar. . por exemplo. as mais inesperadas. nas páginas dos periódicos. em mais de uma fonte. escrito ou representado. as formas de se tn mifestar essa resistência das situações tradicionalmente estabelecidas aos efeitos das mudanças sociais de base.

que resultam da transição que o serviço doméstico está sofrendo no seu enquadramento econômico. o que lhes dá maior rendimento e mais independência: essa "negrada" no volante passa a ser. efetivamente não passa da aspiração.cada vez menos pessoal. as exigências de limitação da jornada de trabalho feitas sob as mais diversas alegações. que as resistências se revelam. no f u n d o . Para dispensar demonstrações mais longas desta afirmação basta recordar que é ainda cm f u n ç ã o das relações interétnicas que se passam n o âmbito doméstico entre patrões e empregados .que a criança brasileira forma. como em toda parte. em conseqüência da aspiração que se generaliza entre os negros de conquistar posições superiores. A esse respeito o setor de serviço doméstico está repleto de exemplos e aqui. a causa dos problemas dc trânsito na metrópole.280 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO nada têm de especificamente étnicos. a freqüência a cursos noturnos de alfabetização ou a cursos profissionais. a tensão se manifesta. 6 Assim. especialmente de corte e costura. cada vez mais contratual .especialmente entre patroas e empregadas . a explicação para o fato seria a seguinte: a "negrada". o tipo de relações interétnicas que o serviço doméstico obriga entre pretos e brancos reveste este aspecto do problema de u m a importância singular no mecanismo das tensões raciais. em várias "frentes". aqui se observa — talvez pelo contraste com o tipo anterior de empregada negra dos velhos tempos — u m a reação emocional mais forte do branco às mudanças que verifica n o plano do comportamento. a apresentação são fatores que surgem no esquema das relações sociais ligadas ao serviço doméstico e que facilmente geram tensões pela natureza íntima eface-to-faceque essas relações necessariamente têm. é convocada para o serviço militar. aos 18 anos. o lastro básico de suas atitudes raciais. no exército aprende a dirigir automóvel. m e s m o q u a n d o essa conquista. nada têm a ver diretamente com a condição étnica dos grupos envolvidos . Neste caso é diretamente contra esta aspiração. muitas vezes.assumem um caráter racial quando. então. quando são desligados do serviço ativo não querem voltar para suas antigas ocupações mais subalternas e preferem ser motoristas. dos hábitos e dos costumes do negro. sociológico e moral . Por outro lado. ou contra a simples imitação do comportamento do branco. Geralmente essas tensões. desde cedo. a preocupação com o traje. A mobilidade ocupacional do serviço doméstico para as indústrias. a maquiagem. que deixam cada vez mais de corresponder às expectativas tradicionais d o patrão branco. da mentalidade.

mais precisamente.a condição de doméstica muitas vezes inferioriza uma mulher de cor em face de outras d a mesma cor que ganham a vida noutro tipo de atividade remunerada. a respeito do assunto. O aspecto racial da questão comparece. do ponto de vista sociológico. considerava-se até como sinal de posição também relativamente superior d e uma mulher de cor em relação a outras. Essa noção se originou. n o caso. Hoje. como classes sociais e não como etnias. em face do serviço doméstico há também entre os negros u m a evidente mudança de atitude. porém. do "eito" ou "da enxada". ouvimos o seguinte comentário. não é só na m e n t e do branco que a tensão racial cria "bodes expiatórios". que é bem expressivo dessa racionalização. diretamente ligada a essas mudanças estruturais: tradicionalmente a situação d e empregada numa casa de família branca.essas ocupações domésticas desceram de seu status anterior e as outras gozam de um forte poder de atração. neste caso. De uma dona de casa. atualmente . das pequenas vantagens e da diferença de tratamento que as "negras de casa" logravam e m relação aos "da roça".TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 281 que. referia-se a todas essas mudanças d e comportamento em face do patrão branco. é demais". mesmo se não significam vantagens econômicas visíveis e imediatas. funcionam essencialmente como grupos profissionais.como provavelmente era —. Assim. como "bode expiatório". branca d e classe média. principalmente porque se exercem numa esfera mais contratual e menos penetradas da idéia tradicional de dependência pessoal em relação ao empregador. Além de negra. É freqüente por exemplo — e até c o m e n t a d o . como mecanismo de descarga das tensões causadas pelo conflito virtual que ali está presente. de problemas q u e n a d a têm de intrinsecamente étnicos: "Se tenho de suportar uma cozinheira m e t i d a a granfina. obviamente.salvo no caso de serem pagos altos salários . o u . metida a granfina. O "granfinismo". o negro também os cria c utiliza toda vez que t o m a uma falsa consciência do seu problema e resiste em compreender o que nele há de social e o que há de étnico. que ocupavam posição considerada mais subalterna. máxime sc fosse família de classe superior . m e s m o para as mulheres. em termos raciais. ao menos que seja branca. no período da escravidão. q u a n d o surgem para as massas de cor. que vão desde o uso do b a t o m nos lábios até ao pedido de férias remuneradas! Aliás. Em conseqüência disso. outras oportunidades d e ocupação fora da esfera de dependência pessoal em que se sentem n o âmbito de famílias brancas — oportunidades que estão nas indústrias e nos serviços os mais diversos .

umas históricas. para configurar as bases dessa situação. tanto negros quanto brancos . N a mente de muitos e nas racionalizações do senso comum . já faz parte do nosso orgulho nacional. que a define como "o medo de confessar e o desejo de esconder a importância que realmente se dá à questão da raça e da cor" 7 parece ajustar-se plenamente à situação brasileira nesta fase de desenvolvimento da nossa questão racial e naquelas áreas em que as mudanças de estrutura social melhor caracterizam a transição em processo. se a desculpa não fosse verossímil . e que tiveram larga divulgação e publicidade dentro e fora do Brasil —. se a explicação não tivesse precedentes comprovados. apontando como causa dele a perseguição racial. que racionalizações desse tipo jamais teriam lugar nem sentido fora das condições de tensão racial. por isso mesmo. ou "não existe preconceito de raça ou de cor" resulta da natureza extrema . em inúmeras circunstâncias.o fato de negros tenderem a racionalizar o seu fracasso individual. repetindo-a como um dogma atrás do qual se esconde o ressentimento e o mal-estar gerado pela tensão racial. usada por Renzo Sereno.preliminares inerentes à tensão racial e com as quais está contando. não fosse ela ao menos possível. o estereótipo de que entre nós "não existe linha de cor". entretanto.282 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO na imprensa negra . que a mais bem definida e caracterizada racionalização da tensão racial no Brasil é a velha e repetida afirmação mil vezes desmentida pelos fatos. escritos por brasileiros e estrangeiros. e em diverso grau de intensidade.que encontraram largo curso em alguns ensaios de literatura histórica. Esta constância intransigente em negar importância à raça e ao preconceito de raça. A nós nos parece.segundo a qual "no Brasil não existe preconceito racial". Evidentemente concorrem causas diversas. que já correu o m u n d o inteiro e que.mais estes do que aqueles . mil vezes repetida pelos homens. A expressão criptomelanismo. outras atuais. que para muitos constitui assunto de permanente preocupação e ressentimento. Dir-se-ia quase ser esta a forma mais difundida e característica de o criptomelanismo brasileiro se manifestar. que aqui empregamos nesse sentido específico. consciente ou inconscientemente. parece mesmo uma forma bem definida dc esse interesse se revelar dentro dc um contexto sociológico e moral em que a etiqueta das relações de raças tradicionalmente obriga a tratar como assunto "delicado" o problema da origem e da condição étnica. o negro que se utiliza de uma racionalização desta ordem quando acaso não leva a melhor numa competição de mérito. E preciso que se note por outro lado.

as diferenças encontradas n a situação dos dois países são. seu crime. irem criando.a fim de identificar tipos e graus variáveis d e tensão . Entretanto. no espírito dos membros de um grupo. está n o rosto. facilmente identificáveis. de grau. que resulta da convicção de que a discriminação ou o preconceito poderão atingi-los. dentro de uma sociedade. u m a série sucessiva de eventos d e maior ou menor importância imediata. Esta expectativa é que cria nos m e m b r o s de um grupo vítima de discriminações de qualquer grau ou natureza — mesmo quando não estão sendo vítimas de nenhum ato atual de discriminação — um sentimento de insegurança. talvez se encontre. mais o u menos freqüentes. de desequilíbrio e de angústia psicológica.e nisto está sua injustiça. por sua ocorrência. e n t r e t a n t o . em p a r t e n e n h u m a . sua aberração — no fato de. Evidentemente. desse ponto de vista. como estado permanente. uma grosseria. uma ofensa à sua dignidade pessoal. De uma vez por todas é preciso que se compreenda. E se acaso se pretenda fazer comparações entre p r o b l e m a s raciais dos dois países . n a sua inevitável compleição e aparência. aliás. nos lábios. entre diferentes regiões do mesmo país. de medo. antes de tudo. mais ou menos condenados pelo que vagamente se c h a m a de "opinião pública".TENSÕES RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM MUDANÇA 283 e espetacular que a situação racial tem assumido noutros países. A discriminação consiste.. por pertencerem a este grupo. u m a injustiça. mais ou menos generalizados. c o m p a r a d a com uma situação racial onde vale t u d o contra a raça oprimida — " f r o m persuaston to bombing. que é variável. . em relação ao judeu nos Estados Unidos uma situação mais comparável.o estado atual da situação racial brasileira chega a parecer quase um paraíso. antes e a c i m a de tudo . n o plano das relações sociais. a noção clara e opressiva de que. o que define e caracteriza a discriminação. aqui como lá. na pele. mesmo p o r q u e essa situação. de instabilidade. que não é o fato de cada negro estar sofrendo a cada dia uma violência física ou uma estúpida violação de seus direitos humanos. nos cabelos. Mas quando ocorrem e se multiplicam e se divulgam casos de colégios e obras sociais que não aceitam alunos de cor. não existe. eles podem vir a sofrer u m a violência. uma preterição. pode resultar numa maior o u menor intensidade de suas conseqüências. Evidentemente. sua crueldade. de insatisfação. Diferenças de grau. uma "despreferência". sociologicamente. existem gradações neste estado de coisas e a intensidade do fenômeno. como diz M y r d a l a propósito da situação d o negro norteamericano . especialmente na Alemanha nazista e nos Estados Unidos. nem jamais existiu. em conseqüência de um característico seu que não está ao seu alcance modificar. ao cripto-racismo existente nas relações entre negros e brancos nas áreas metropolitanas d o Brasil. não de espe'cie. em muitos aspectos.

mutável dentro de u m mesmo país. dependendo.que muitos c h a m a m de apenas isto . por muito t e m p o . diversos n a quantidade como na qualidade. segundo a atuação de u m a serie enorme c variável de circunstâncias. histórica e sociológica. da qual. ambientes d e toda ordem cm cujo pórtico a linha dc cor se manifesta. em que os grupos entram em relações e da fase de desenvolvimento e m que ela é observada. a este teste. o mal-estar. isto . muito se falou e ainda se fala. aliás. clubes e associações onde pessoas de cor n ã o podem entrar como associadas. hotéis o n d e hóspedes de cor não penetram.gera o estado de espírito en suspens e a opressão psicológica que caracteriza e martiriza toda provável vítima de qualquer violência. para ver se resistia. o fato é que ele passou a vida sob o peso. A tentativa de encontrar os fatores messiânicos desta situação ideal. de configuração específica e. carreiras e profissões em que a cor é obstáculo à entrada ou ascensão. no caso do Brasil. ou não. encarregam-se de reduzir às suas devidas proporções e de demonstrar q u e esses fatores nada têm de messiânicos. Este é o problema: as formas concretas c particulares que cie assume nesta ou naquela situação nacional o u regional. apresentado como uma espécie de avis rara. em atributos extraordinários do colonizador português. acima da história e da sociologia. dependendo de um n ú m e r o infinito de variáveis e fatores.porque já ocorreu com muitos outros. isto jamais lhe aconteça. . presente e arrasador.é mais do q u e suficiente para que o homem de cor sinta a insegurança. com este ou c o m aquele.284 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO estabelecimentos e instituições que rejeitam empregados de cor. conhecidos o u etnicamente iguais . neste ou naquele país. por acaso. o ressentimento. mas a simples e ainda que remota probabilidade de vir a ocorrer . da idéia de que tal poderia ter acontecido. inteiramente contingente. é outro aspecto. mais que isso. parentes. da configuração total. E i s t o o q u e já foi c h a m a d o " t h e chance nature ofrace díscritnination": ela ocorrerá ou não. o desconforto e a angústia da expectativa de q u e um dia poderá ser ele a vítima da discriminação. a revolta íntima. entretanto. neste ou noutro tempo. que paira acima dos fatos. aqui como em qualquer parte. a própria experiência brasileira na sua fase atual e. O erro maior consiste. sem jamais ter havido a preocupação séria de utilizá-la como hipótese de trabalho a ser cotejada com os fatos. na omissão deliberada de fatos e evidências f u n d a m e n t a i s feita em nome de u m a tese messiânica a que se resolveu denominar "filosofia brasileira no tratamento das questões raciais". a situação racial nas colônias portuguesas na África. E embora.

a função. em compensação. depois da Abolição d a Escravatura. clubes. não como imposição aberta d e cidadãos norte-americanos ou do g o v e r n o daquele país. mas como u m a espécie de contribuição voluntária de a l g u n s brasileiros. aparentemente paradoxal. raciocinando de modo muito característico aos "latino-americanos". seus amigos e fregueses. esses estereótipos. que procuram assim agradar os norte-americanos.. muitas vezes funciona c o m o m e c a n i s m o de compensação pelo fato de.. o que se p r e t e n d e dizer é o seguinte: "Somos a backward country" mas. aqui haver muita coisa r u i m q u e lá não há. desnecessária em face de distâncias sociais tão extremas. . c assinala e reconhece que isto acontece. a partir da entrada do Brasil na S e g u n d a Guerra Mundial. m u i t a s vezes. que estão. c o n v é m notar. embora afirme que se fosse negro escolheria o Brasil para viver. ou seja. hoje. coisa q u e vocês não conseguiram. feita p o r brasileiros em face de norte-americanos. Neste caso. esta influência se revela t a m b é m d e o u t r a forma. d e mascarar a existência e as verdadeiras proporções do problema. mas. nos últimos dez anos. a tradição brasileira nesses assuntos — tradição que está sendo aceleradamente substituída por novos tipos d e e n q u a d r a m e n t o estrutural do p r o b l e m a — nunca foi precisamente a ausência de preconceito. 8 A o l a d o d a imposição aberta. d e i x a n d o de resistir às mudanças que se o p e r a m n o f u n d o da situação e passando a desempenhar. o que se observa é q u e a alegação dc que "no Brasil n ã o existe preconceito de cor". L a m e n t a v e l m e n t e . u m norte-americano que estudou e conhece b e m o Brasil. cafés e outros estabelecimentos comerciais como também n o p l a n o das relações de amizade. Roy Nash. E apresentada desta f o r m a logo se vê que a questão t o m a u m aspecto inteiramente diverso daquele c o m que aparece nos estereótipos correntes sobre o assunto. o que pode ocorrer t a n t o e m hotéis. acrescente influência norte-americana nos estilos de vida e d e mentalidade do brasileiro m o d e r n o transformou-se em mais uma das coordenadas a que nossas atitudes raciais d e v e m ser referidas. a ausência de violência n a discriminação racial imposta ao negro. a negação sistemática e p u r a m e n t e sentimental da existência d o preconceito no Brasil é apenas m a i s u m a forma de ele se mascarar.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 285 Aliás. resolvemos a nossa questão racial. por assim dizer. de m o d o tal que. c a d a vez mais. também já referida. pelo reforçamento do c r i p t o m e i a n í s m o . ou da "contribuição v o l u n t á r i a " ao racismo norte-americano oferecida também por alguns brasileiros. sob a forma de criptornelanismo. Nc ste caso. que se fazia. e m troca. que acaso p o s s a haver. reconhece que as atitudes raciais são LI ma das coisas más que os Estados U n i d o s estão exportando para o Brasil.

principalmente por parte dos intelectuais. S e n d o raciais as barreiras encontradas. foi depois de o processo de diferenciação social ter atingido um certo grau que c o m e ç o u a produzir os seus efeitos. que resultou numa diferenciação interna em extratos e classes sociais diferentes. perspectivas que resultam da posição e das mudanças de posição do negro na sociedade brasileira e da diferenciação processada dentro do próprio grupo. pura mistificação consciente ou inconsciente do problema pois a verdade é que a nossa questão racial está longe de ser resolvida: em certo sentido. Do mesmo modo que já se disse que a burguesia já existia c o m o classe antes de tomar consciência disso. e da solução. O fator essencial dessa tomada de consciência é representado pela resistência dos extratos brancos superiores em aceitar essa mobilidade ascencional no negro evoluído. de nosso p r o b l e m a racial. que estão as matrizes da compreensão. Hoje. na ideologia dos . entre os quais se inclui a tomada de consciência étnica. Uma elite intelectualizada. analisemos as perspectivas de tensão racial que têm diante de si. diante da qual existe ainda um vasto campo quase inteiramente virgem de estudos sérios. pela combinação sociologicamente nova dos fatores que a história acumulou e c o n t i n u a acumulando na sociedade brasileira. de sua situação e de seu problema social.286 O NEGRO N O RÍO DEJIWELRO Como se vê. lutar contra elas em movimentos raciais. analisadas do ponto de vista da posição do negro. agora é que ela está começando a surgir. resistência que cresceu na medida em que a ascensão também deixou de ser estritamente individual e passou a ser social. D o ponto de vista de cada um desses fatores. apresentam duas ordens de perspectivas que parecem indicar os caminhos prováveis d e seu futuro desenvolvimento. tal como se apresentam ao observador. Analisá-lo cientificamente é u m a tarefa apenas começada. assim. Esses fatores são os seguintes: a) a proletarização das massas de cor nas zonas urbanas do País e b) a estratificação operada dentro do grupo negro. por parte dos negros de extrato superior. começando pelo segundo. as tensões raciais n o Rio de Janeiro. 5 É nesse processo de acumulação histórica de fatores. tornada vanguarda de um grupo q u e ascendia de uma situação social inferior. esse grupo teve de tomar consciência dela e m termos também raciais e. situação ligada. o mesmo pode-se dizer aqui c o m referência à classe média negra ou aos negros de classe média. sociologicamente combinados de modo diverso de acordo com o desenvolvimento da situação total.

É. u m a "cosmovisão". uma ideologia de raça. usando a raça como critério de discriminação contra alguns. que torna a raça uma entidade mística . daquele q u e menos desejaria pensar que é negro. u m racismo às avessas. da idéia q u e os brancos fazem sobre eles. diga-se de passagem) da resistência que o branco faz à ascensão social do negro. que a torna a medida de todas as coisas. forma mais sofisticada e elaborada dessa consciência de raça 110 Brasil. à condição étnica. na cabeça de negros. Noutras palavras. pois a evidência lhe impunha a cada dia a noção de que as barreiras sociais d o presente representavam um p r o d u t o direto da posição social do passado. Essas proporções de ideologia e de "cosmovisão" só são assumidas pela consciência da raça quando ela atinge certo grau de desenvolvimento.c assim é a dialética das coisas . um mecanismo d e defesa manejado por u m a elite agressiva.também sc poderia dizer. levam os discriminados a fazer da causa de seu problema a bandeira mística de sua redenção.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 287 extratos superiores. por exemplo. nas quais grupos dominantes e etnicamente diferentes. toda u m a concepção do mundo. que a idéia da negritude não é negra. A supervalorização da raça. mas mesmo antes disso ela se revela: a) na mudança de atitude e de . a entidade da qual e m a n a toda uma filosofia de vida. antes de mais nada.pois o problema c o branco que tem sobre o negro falsas idéias e age de acordo com essas idéias falsas .a idéia da negritude. representa u m a atualização quase forçada e imposta da sua condição étnica na consciência do negro pequeno-burguês. que ele ocupou até época recente da história da sociedade em que vive. Vista assim . atrás analisada. d o m e s m o m o d o que se pode aqui mais u m a vez repetir que não há u m problema do negro . é que a ideologia da negritude. é o florescimento na cabeça de uma elite negra de u m a semente que lá foi plantada pelas atitudes dos brancos. Isto é que cria u m a consciência de raça. bandeira e formulação das aspirações de uma elite negra em luta pela ascensão social. é o resultado da tomada dc consciência ( t a m b é m em termos falsos. só podia tomar em termos étnicos a consciência de seu problema. inversamente. uma racionalização de tensões sociais concretas. em suma. Nesse sentido. em verdade. é branca. é. condição e consciência que lhe são recordadas pelas barreiras étnicas que encontra no caminho de sua ascensão social. é o reflexo invertido.mística no sentido de que representa a extrapolação para o plano do fantástico de uma experiência pessoal quotidianamente vivida e falsamente interpretada.

para a supervalorização dos valores negros. D e fato. tuclo isso. as contradições das quais não se pode libertar como expressão étnica de um problema que fundamentalmente não é étnico fazem com q u e esses produtos mais elaborados das tensões sociais que estamos analisando apresentem. com o que chama de "vivência ingênua" da massa negra. c) pela emergência no seio de uma elite intelectualizada. que um grupo militante suponha que esse f u n d a m e n t o existe e socialmente atue na base dessa suposição. de uma ideologia étnica. bastando. organizações e movimentos expressivos dentro do grupo negro e. das aspirações e do fracasso das aspirações de um grupo de classe média — quase sempre na condição.que pretende ascender não étnica mas socialmente. já que para isso não é indispensável que tenham fundamento. o que explica o paradoxo de se apelar para a ideologia da negritude. que tenta mobilizar os sentimentos do grupo c o m o u m todo em apoio do extrato superior que luta contra as barreiras à sua ascensão social10 contando. em processo ainda larvário. por outro lado. para tanto. A imaturidade do desenvolvimento dessa consciência de raça. aliás. entretanto. que as contradições internas que se encontram nesses esquemas ideológicos resultam. como esquemas doutrinários. tanto quanto hoje c inócuo discutir cientificamente qualquer explicação racista cie problemas sociais.d e n t r o d o s q u a d r o s . do fato de eles serem a formulação. d a s classes tradicionalmente brancas da sociedade brasileira. É isso. Isto está longe. Como plano estratégico.2 8 8 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO comportamento do negro. por outro lado. de impedir que tais concepções sejam aqui analisadas. em face d o branco. para as "matrizes africanas". o q u e vale d i z e r ." E essencial compreender. e. esse verdadeiro caráter de ideologia de classe média de uma elite negra intelectualizada. finalmente. tanto o da massa quanto o da elite. q u e torna desnecessário discutir seus argumentos. sempre na mentalidade . do ponto de vista da função que desempenham no mecanismo das tensões raciais. fundamentalmente. como alvo c objetivo supremos a atingir: "o adestramento ela gente de cor nos estilos de comportamento da classe média e superior". como o foram. de u m lado. para isso. tendo. supervalorativa da raça. para os mecanismos de motivação da solidariedade negra. b) no surgimento de atividades. se acaso pudesse ser levada à prática e se o acaso fosse mais do que apenas uma consigna de luta contra as barreiras q u e a p e q u e n a b u r g u e s i a n e g r a e n c o n t r a n o c a m i n h o dc sua a s c e n s ã o . essa a s c e n s ã o d c u m a e l i t e n e g r a na s o c i e d a d e b r a s i l e i r a é l e n t a m a s é possível — tão possível q u e se está r e a l i z a n d o . em termos étnicos. um elevado grau de naiveté. rcvcla-se pelo desfecho utópico a que ela conduziria. de outro.

e é o que sempre foi na sociedade brasileira: negro e proletário. Se. N o passado essa ascensão foi estritamente individual e feita através do processo d e branqueamento. como homem simples. q u e c o n s i s t i a e m c o n s i d e r a r como se fosse branco o elemento de cor que ascendia. c o m o quem repele uma afronta pessoal. . aliás. ou. que ele encontra também seu apoio subjetivo c seu meio so< ial objetivo.iiz. e diretamente. consistindo antes n u m sistema de atitudes e estereótipos q u e não raro se contradizem e não apresentam qualquer coerência. as dificuldades que esse processo está encontrando resultam do fato da ascensão ser de um grupo. n e m elabora explicações sofisticadas sobre opaidetinta de sua negritude. Não discute pomposamente. o negro-massa não sente aquela angústia pesada. em cada forma ou circunstância em que se manifesta. sentido e agindo m e n o s como raça. pensando. hoje. seu chão. Ele não participa. . consciente dessa sua posição e desejoso de merecê-la sem p a r a isso repudiar a sua condição étnica. moralmente batido pela ciência e pela história. É. pelo fato de o tipo social do branco pobre ser relativamente recente em nossa história social -. E como o preconceito não se apresenta numa frente única e unida. muitas vezes violentamente. naquelas esferas puristas. vanguarda de u m q u a d r o maior. Quando o preconceito o atinge ele reage de pronto.em que o nepro sc encontra na socicdada brasileira. dentro dos percalços que a situação encerra. à sua maneira. ao menos. cada vez mais como classe. u De sua parte. despida das ilusões c limitações características da pequena burguesia negra. aquela frustração asfixiante. nesse enquadramento sociológico de classe . o negro-massa encara-o sempre face a face. sua r.sua força dc Ante». cujas barreiras criam nos evoluídos o "drama de ser dois". d e seu sistema de estratificação e de acordo c o m os valores e as atitudes que elas encerram. e apesar deles. apoiado pela lei e cristalizado n u m a doutrina. ou seja. aquela inquietação característica das elites q u e saíram de seu lugar tradicional. a ascensão dessa elite é possível nos quadros sociais existentes. Nem aspira à participação. na medida em que é e permanece massa.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 289 sociais existentes. dentro da estrutura social. mais como massa. como h o m e m do povo. Se o problema surge ele simplesmente o enfrenta. a verdade é que a ascensão do negro-massa só será possível no bojo da ascensão cias massas que eles integram e tudo indica que o negro-massa está t o m a n d o disso uma consciência muito clara. Ele é um só.extremamente facilitado no plano da ideologia e das atitudes. e destrói-o e vence-o em mil batalhas quotidianas.

entretanto. não possa sê-lo só por que tem a pele preta. terá de saltar muitos obstáculos.2 9 0 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO em suma. 11 O que não é correto. se o problema do negro brasileiro consiste em que lhe falta o jeitão do branco e estará resolvido quando ele imitar esse jeitão. e o resultado extravagante a que seríamos conduzidos pelas últimas conseqüências hipotéticas dessa ideologia. é que ela espera u m dia. se é possível haver hierarquia social sem classes. e está perfeitamente correto que lute por isso. o que implica em dizer que essa ascensão significará uma renovação dos quadros estruturais da sociedade que ele integra e das mudanças que o futuro reserva. quando os seus planos forem bem sucedidos. sempre fará sentido lutar para ser diplomata ou oficial de marinha. que já integra não só os padrões de comportamento. seria o seguinte: teríamos uma sociedade em que os não-negros estariam repartidos. se isto é apresentado como solução ao negro. e caracterizarse menos pela cor negra da pele do que pela cor branca da "alma". os padrões de pensamento das classes superiores. espécie de "tira-teima" às avessas. mas também. como classe. pois e criminoso e injusto que. se esta é a ideologia preconizada por uma elite. Estando socialmente embaixo. é deixar dc reconhecer que tal estado de espírito e tais slogans n e m sequer encontram lugar na lista de prioridades das aspirações de milhões de brasileiros de cor. sem dúvida. e não a este ou aquele negro. que. que lhe permite viver e enfrentar a vida com a dignidade do homem do povo e com a segurança de que a evolução social está a seu favor. subir socialmente. o negro-massa. Para esta minoria. porém. emergir da maioria e formar um pequeno cabeço sobre a planície escura. no tipo de sociedade em que vivemos n o Brasil. provavelmente para constituir o segmento pigmentado da classe média. Acontece. se esta é a nova técnica de resolver problemas de relações de raças. para a posição da classe social com a qual a própria história dessa sociedade o confundiu. uns nas . apenas o seguinte: passar todos os negros para as classes superiores. merecendo. no plano histórico. assim. E possível. Para isso. Se negros para ascenderem precisam se adestrar nos modos e maneiras das classes dirigentes'. não tem diante dc si outra perspectiva de subir senão com tudo o que vem de baixo. por estes caminhos. não é possível haver classes sociais sem estarem híerarquizadas. que ela apontará como prova de que "no Brasil não existe preconceito de cor". não é possível serem todos das classes superiores pois. o seu lugar. acaso. a uma elite de negros.

T E N S Õ E S RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM MUDANÇA 291 classes superiores. e com isso diz-se tudo q u a n t o ao efeito moral de uma lei . e m face da opinião corrente no m u n d o a respeito da situação racial brasileira. 14 Assim. nas classes dirigentes. D o m e s m o modo. o que seria u m contra-senso não menor: os negros t a m b é m estariam repartidos cnrre aquelas classes. já q u e este se impõe à primeira vista. das relações raciais. Ou então. isto p r o d u z i r á u m estrondo que será ouvido n o m u n d o inteiro e determinará rumos surpreendentes à civilização norte-americana. se puder. Localizada dentro do mecanismo das tensões raciais ora em processo no Brasil e relacionada com outras tendências q u e dentro delas se manifestam. no caso presente. Tais contradições e aberrações na lógica interna dessas posições ideológicas só se explicam e compreendem quando observamos a função que têm no contexto d a situação total e que é. e m b o r a ainda com aspecto p u r a m e n t e punitivo. como diz Myrdal. entretanto. apenas entrevistos hoje. outros nas inferiores. passíveis de sanção penal. a lei referida pode indicar o começo de u m a orientação inteiramente imprevista para a teimosia de uns . de uma lei q u e torna crimes comuns. e os negros. os atos de discriminação racial. Outros problemas. se é verdade. Não é este. o aspecto que desejamos assinalar. 110 País "onde não existe preconceito de cor". a d e mobilizar as massas de todo o g r u p o como massas de manobra para sustentação e apoio das reivindicações especificas de uma pequena parte d o p r ó p r i o grupo. que n o dia em que os sindicatos trabalhistas nos Estados Unidos. também aqui se pode dizer.e c o m isso diz-se tudo quanto ao seu efeito moral salutar e sua eficiência prática discutível. * * * É ainda d e n t r o dessa configuração e desse processus que se pode compreender o fato. em 1951. aparentemente desnorteante. e num grau passível de punição. todos. em nome d a solidariedade de classes. É por demais evidente q u e a medida prova a existência do ato q u e pune. regular o que nesses assuntos depende d e u m a lei. a lei c o n t f a discriminação só poderá. do aparecimento. pois que já assume o caráter de ato anti-social. q u e estrondo não menor se produziria n o Brasil se algum dia as grandes massas de cor deste País dessem ouvidos aos chamamentos dessa ideologia de raça e enveredassem pelos caminhos sem saída que ela lhes apontam. como remédio. liquidarem e m suas fileiras a linha da cor. mas todos eles i n d e p e n d e n t e m e n t e de sua p o s i ç ã o o b j e t i v a adestrados nos estilos de comportamento das classes superiores. porém. parece que começam a se configurar com a regulamentação pela lei.

De fato. dentro das tensões raciais existentes e em agravamento neste País. Essa amargura das elites. salvo engano. e atribui-se a estes. LIouve quem a denominasse "uma espécie de escarmento". com desconfiança. pessimismo e. o q u e pata as elites significa nivelamento pelo mais baixo. como negros. dúvida. negro-elite de negro-massa. às vezes. outros diretamente por nós — indica esse estado de espírito. porém de difícil aplicação prática". Por outro lado. como cidadão. náo será surpreendente se conduzir à situação que caracteriza as relações de raças nas cidades setentrionais dos Estados Unidos. O modo pessimista pelo qual a lei foi recebida pela elite negra em geral determinou um t o m de reserva que nos parece sociologicamente mais significativo do que. além cie como uma demonstração "oficial" da existência do preconceito. ou " u m a providenciazinha". regulamenta-se em lei o c o m p o r t a m e n t o de brancos em relação a negros. Houve mesmo quem a considerasse "prejudicial" ou comentasse: "veremos se ela funciona ou não". juridicamente igual a todos os cidadãos. sexo. Houve quem a considerasse "útil. Agora. como não podia distinguir. com amargura. n o Brasil. estava na lei por exclusão — todos são iguais perante a lei. o direito específico de não terem praticamente negados alguns direitos mais gerais que . o u ainda. ou disse "que é lamentável que tenhamos necessidade de uma lei c o m o esta". "creio que o preconceito de cor continuará existindo. "talvez mais eficaz do que uma monografia folclórica". religião etc. e que se pode resumir na f ó r m u l a separate but equal. o negro vinha comparecendo como o liberto de 1888. por sua vez. acrescentando que "sua provável ineficácia prática não lhe desmerecerá o conteúdo.uns na imprensa. o tratamento das relações de raças pela lei. ente abstrato. que não podem. na legislação republicana.292 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO e a inércia mental de outros. em face da natureza sub-reptícia do preconceito c da ideologia racial das classes superiores e brancas. não sabem ou não querem encarar com realismo o problema. independentemente de cor. a impressão geral é de que ela foi recebida. no Brasil. tratando a todos pura e simplesmente como negros. Isto porque há muitas maneiras e modos de ser burlada a lei". até então. 15 Como se vê. pela primeira vez. p o d e indicar o começo de um processo que. o júbilo dos que a consideraram como "a nova Lei Áurea". o que t a m b é m houve. nem lhe matara o espírito". U m a seleção de depoimentos de negros colhidos a esse propósito . pode indicar mais uma manifestação de ressentimento pelo fato dc a lei não distinguir.

ainda que para declarar que ele deve ser tratado. além disso. distritos residenciais. N ã o c provável. substitutiva desta. nas circunstâncias que menciona. independentemente da intenção do legislador atual e dependentemente do r u m o q u e acaso venham a tomar as tensões raciais neste País. parece destinar-se. . o fato é que. o prelúdio de u m a outra legislação. u m a tal atitude da lei em face da tensão racial.390 passará a ser um fator objetivo. Evidentemente. u m extraordinário boideversement das tendências. quer positivo. a entrada e freqíientação em estabelecimentos privados . e pelo papel nela desempenhado pela legislação escrita. principalmente na sua aplicação a casos concretos. Parece certo. obras de assistência c outro setores institucionalizados da vida social iguais mas separados. de 25 de julho d e 1951. neste estrito sentido. obedientes à lógica que os tem presidido até hoje. pode vir a ser. sem que a lei citada venha a significar.. qual aquela que os fatos elegerão. tecnicamente. presente no espírito e no texto da legislação ordinária. entretanto. Para isto. quer negativo. e. porém. a lei n° 1. dentre elas. dos rumos e das orientações q u e têm tido na estrutura social brasileira. que para isso não t e n h a podido evitar de legislar especificamente sobre o negro como pessoa de direito. ou que ela permaneça como monumento à boa intenção que a inspirou. São alternativas e é muito cedo para verificar. O r a . entretanto. Apesar de o princípio geral ser o da igualdade perante a lei e agora se regulamentar. embora não seja impossível. embora não afirmemos que isto seja fatal. É significativo. restaurantes etc. daí.T E N S Õ E S RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 293 a lei já atribuía a todos os cidadãos. de qualquer ponto de vista. tecnicamente. E possível que a ela se siga u m a legislação copiosa. a julgar pela experiência de outros países. que o mais provável seja os fatos se desdobrarem.390. agora em vigor. visando a assegurar a negros e brancos o direito de terem educação. definida e caracterizada p o r sua condição étnica. . a influir no rumo c no sentido das tensões raciais. assim como a julgar pelos característicos d a situação racial brasileira. uma das pré-condições já existe: a entidade jurídica negro.hotéis. a lei n° 1. e até inspirada no desejo de remediar sua inoperância prática. recreação. independentemente d a condição étnica. a declarar que são puníveis os q u e violarem determinados princípios já solenemente presentes em leis anteriores e mais gerais. de m o d o igual ao branco. acima de t u d o . na jurisprudência que emanar dos tribunais perante os quais ela for invocada. que tal venha a acontecer.

nessa corrente de renovação social que abala o século. como parte de uma gestalte suas perspectivas não se desligam das perspectivas que tem diante de si a sociedade brasileira. miraculosamente já resolvida n o passado. como supõem outros. apenas uma variante da interrogação fundamental que se coloca diante de todas as questões básicas em que p o d e ser decomposta.permitirão por certo que muitos fatores acumulados na estrutura social do Brasil venham à tona e encontrem. como acham uns. o que importa é saber qual dos dois termos se transformará em ritmo e cadência mais rápidos no bojo da estrutura social d o Brasil: a questão racial ou a evolução social necessária para evitá-la? C o m o se vê. a situação racial brasileira está colocada em cheio. de minorias. cientificamente identificáveis. como fato igual a todos os fatos que compõem a configuração total. para análise. nos limites do necessário à função que as camadas brancas superiores lhe destinam. rumem na direção dos desfechos catastróficos que parecem ser os únicos que muitos esperam para conferir ao problema a importância que ele realmente tem. e em agravamento. N ã o diremos. de auto-afirmação. de velhos e novos anseios populares em ascensão. buscando ainda suas formas definidas de expressão e o sopro renovador que vem do t e m p o e do m u n d o em que vivemos. formas adequadas de se exprimir.294 182O N E G R O N O R I O D E J A N E I R O * * % N ã o existe no Brasil uma filosofia racista definida e forte dando apoio e sanção moral à discriminação racial: até hoje o cripto-racismo tem desempenhado esse papel. às vezes dramática. afigura-se. e como interrogação igual a todas as interrogações que sobre ela pairam. Não é uma variável independente. seja qual for a forma e a intensidade com que se apresente. ou messianicamente incapaz de se transformar para o futuro. que vem da luta frontal contra todas as formas de alienação da liberdade — especialmente aquela que se trava nas áreas coloniais e semicoloniais da terra . D e n t r o desses amplos limites. de ascensão das massas. dessas mudanças de estruturas e dessa procura. Mas também não existe. estão agora produzindo seus principais efeitos. Dentro dessa estrutura. valores imutáveis e absolutos que impeçam que as tensões raciais existentes. a realidade brasileira no nosso tempo. ao sociólogo. aqui ou em qualquer parte. A época é de surto libertário. As situações básicas que estão imprimindo novos rumos ao problema racial brasileiro são recentes. que no Brasil existe uma questão racial se por isto se entende o padrão peculiar que essa questão tem assumido no . portanto. de definição de rumos para o futuro.

u m a crise ou uma solução. os p a r t i c u l a r e s 3 5 mil e a morte 300 mil. p a s s i m . c o m e n t a n d o os resultados da chamada Lei do V e n t r e Livre: o Estado liberta 5 mil escravos. O Abolicionismo. a q u i o q u e houve foram negros " i n d i v i d u a l m e n t e escravizados". descobriu que no Brasil. que há uma questão racial em processo de agravamento. m a i s u m a vez. onde se d e m o n s t r a q u e n ã o h á sistema escravagista que n ã o seja. mas a l e g a m sua "benignidade". cit. seja em que c i r c u n s t â n c i a for. Notas 1 Algumas tentativas t ê m sido feitas para diminuir a significação desse f a t o e outras ate para negar que no Brasil t e n h a havido sistema escravocrata. bradasse certa feita: " O escravo que mata o senhor. outros alegam q u e aqui a situação é singular porque o brasileiro e u m " h o m e m cordial". ex-escravo e a d v o g a d o de escravos. O u t r o s reconhecem o sistema. Op. p. Uma revisão crítica desse conceito foi proposta por J. acrescenta.. uma violentação da d i g n i d a d e e da personalidade humana c q u e o fato d e esporadicamente alguns escravos q u e r e r e m permanecer com seus senhores depois d e libertos só mostra o grau de servidão s u b j e t i v a c de desamparo objetivo a q u e o cativeiro os reduziu. social e m o r a l m e n t e falando. 107 e passim. ao declarar q u e o n ú m e r o de escravos que se libertavam do cativeiro pelo suicídio devia ser t ã o elevado q u a n t o o dos que sc vingavam pelo h o m i c í d i o dos feitores que os a t o r m e n t a v a m c o m castigos c torturas. antes da Abolição. eram (no Brasil) estados m u i t o próximos um do outro. no Brasil n ã o . isto s i m . C f . T a n n e m b a u m . que é inevitável e que é o dado f u n d a m e n t a l de todo o problema que aqui foi estudado. E sobre a hipótese da mobilidade. ninguém dispõe d a segura resposta.. contemporâneo da escravidão. cit. nas referências bib iográficas ao fim desse volume. negro. Não é por mera c o i n c i d ê n c i a . D i r e m o s . a longo t e r m o . diz que nos Estados Unidos houve u m s i s t e m a escravagista. C o m o o s f a t o r e s não se ajustam ao sistema explicativo. Desta interdependência. 106. seleção d e m u i t o s outros que se enquadram plenamente dentro da interpretação p r o p o s t a . mata sempre em legítima defesa". 105. cit. pode resultar. por definição. em face dos fatos aqui apresentados.. A l m a n s u r H a d d a d no seu ensaio.TENSÕES RACIAIS N U M A S O C I E D A D E EM MUDANÇA 295 interior de outras estruturas sociais diversas da nossa. porém. q u e "a escravidão c a liberdade. com os característicos e as formas particulares com que a história a e n g e n d r o u . por exemplo.s e os fatos para conservar a e x p l i c a ç ã o . O p . passim. F r a n k T a n n e m b a u m . mais a i n d a .. op. J o a q u i m N a b u c o . dentro da estrutura social na qual ela se e n c o n t r a e estreitamente relacionada com outras tensões também em processo nas bases e no corpo desta estrutura. e continua engendrando. senão a história do futuro. também n ã o d i r e m o s que ela não existe. r e s p o n d e u antecipadamente a isto. A p u d Haddad. m u d a m . A o q u e parece essa "cordialidade" não i m p e d i u q u e u m Luís Gama. havia uma mobilidade social i n t e n s a e que facilmente se passava d o status escravo para o de liberto e. Para esta dtivida.

Gordon C u l t u r a l Am.. ao qual urna longa lista poderia ser somada. apenas. Jun. Agradecemos ao escritor negro brasileiro. n. aspects of Puerto Rico's race problcm. Nesta obra encontra-se. autor do r o m a n c e sobre preconceito de raça no Brasil i n t i t u l a d o A maldição de Canaã (Rio de J a n e i r o . cit. Cf. 156 c ss. o Dr. c o n v i d a d o s por amigos para assistirem a uma festa n u m clube dos mais exclusivistas do Rio de Janeiro. fatos.. R o m e u Cruzoé. 15. Provincial society (1927). L. Capi. v. o fato dc ter chamado nossa atenção p a r a esse artigo em carta que teve a gentileza dc nos enviar. passim. 3. porque a e m p r e g a d a negra que os acompanhava. id. Renzo Sereno. delegado permanente do Brasil j u n c o à UNESCO. 1 Cf. U m exemplo. p. não envergava o u n i f o r m e de empregada doméstica que o clubc exige c o r n o condição para uma moça dc cor cruzar os seus portões.296 182O N E G R O N O R I O D E JANEIRO que hoje os líderes negros consideram u m a das suas principais tarefas combater o q u e c h a m a m "a herança psicológica da escravidão" q u e consiste no fato dc os negros o l h a r e m a si mesmo com os olhos do senhor b r a n c o " . que a f i r m a que no período colonial. 1 9 4 7 . 105. Rev. ouvido dc terceiro. 5-29. -1 Coisa que se pode confirmar em q u a l q u e r compêndio de história social n o n c americana. 2-3 (1948). tiveram de voltar da porta sem p o d e r e m entrar no clubc. A. e m n e n h u m a esfera social havia e n t ã o "esse abismo intransponível entre as raças c o m o mais tarde se desenvolveu". A s t u d y of color relations and personal Aug.n o s d o depoimento prestado pelo P r o f . * Trata-se de um artigo para o periódico negro americano The Crisis. Psychiatry. n ã o fosse nossa preocupação evitar que essa pesquisa sc transformasse num catalogo de casos. o n d e ressalta a aplicação do conceito a u m a situação concreta. p. T r u s l o w A d a m s . 1949.. v. foi uma das pessoas que nos p r e s t a r a m esse depoimento. t a m b é m . 294 c ss. A esse propósito r e c o r d a r m o . 5 6 slavery. Gordon. desses que têm inspirado n o Brasil tantos ensaios de literatura histórica. embora d e c e n t e m e n t e trajada. c ss. S o b r e este problema cf. o excelente estudo dc Eric Williams. O p . 2. 1951). Soe.. cuja presença e c u j o papel na formação da sociedade n o r t e .ta. u m a b o a apresentação histórica d o p r o b l e m a dos "brancos pobres" e dos "indenturedservants'\ escravos brancos. X. A estrutura da sociedade rural brasileira. c o m m u i t a felicidade apontou o Brasil c o m o exemplo de uma situação racial caracterizada pelo criptomelanismo ver outro artigo. que e n c o n t r o u em Porto Rico uma situação racial cm pontos semelhantes à do Brasil e que. Apr.a m c r i c a n a teria função tão importante lá n o desenvolvimento peculiar da situação racial n o s Estados Unidos e cuja ausência na formação da sociedade brasileira é assunto de capital importância c tão pouco c o n s i d e r a d o pelos que têm estudado nos últimos t e m p o s a situação racial no Brasil.. ainda de Maxime W . Mario Filho. p.. Cryptomelanism.. dc abril de 1951. Seus filhos. 4 O Autor tem disso uma experiência m u i t o próxima. nos Estados U n i d o s . Paulo C a r n e i r o . . n. 14. Sociologia. Costa Pinto. O negro no futebol brasileiro 1947. como. Race patterns and prcjudice in Puerto Rico. v. 3 8 2 insccurity in Puerto Rico. o livro dc J. também. especialmente p. 1950. Curiosamente. por exemplo. 7 Cf.. informações c exemplos de preconceito e discriminação racial no Rio de J a n e i r o . a p u d Maxime W .. n.lism and 1 9 4 4 . p.

'' U m a terceira m o d a l i d a d e de se revelar mesmo i n d i r e t a m e n t e a i n f l u ê n c i a norteamericana nas atitudes raciais d e certos brasileiros. u m carreirista. (cm organização) etc. Redenção. p o d e ser c o n s i d e r a d o u m i/der prestigiado. podem ser vantagens o u d e s v a n t a g e n s para o líder. o que torna qualquer negro a p e n a s instruído. por outro l a d o . q u e cedo pode se tornar u m h o m e m .aos olhos dos liderados — a s s i m c o m o a posição real ou simulada d e d i r i g e n t e de massas negras . c o m o foi a t e efusivamente N ã o é p o r m e r a coincidência que a imprensa negra d o R i o d e Janeiro.s í m b o l o das aspirações das massas negras.a l f a b e t i z a d o . escolha títulos que. O controle constante dos fatores q u e p o d e m conduzir a essa variável definição d e seu papel na mente dos negros que estão embaixo dele c dos brancos que estão acima dele é parte fundaAssim. d e que ambos fomos m e m b r o s e m 1 9 4 9 . apenas um s e m i . audácia c. s u a entrada foi impedida. exibiu suas credenciais de c o r r e s p o n d e n t e . perante o C o m i t ê d e P e r i t o s sobre Relações de Raças. q u e dc fato 6. e falando corretamente o seu inglês. assinalando o mesmo fato em relação à propagação do preconceito d e raça n a F r a n ç a .T E N S Õ E S RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 297 Claude Lévy-Strauss. que exprime sempre a p o s i ç ã o e os p o n t o s de vista desta elite intelectualizada..aos olhos d o s c í r c u l o s brancos . À l u z d e o u t r o s padrões. principalmente b o n s c o n t a t o s pessoais com círculos brancos. A a p r o x i m a ç ã o e m relação aos círculos brancos s o c i a l m e n t e superiores . para q u e esteja e m condições virtuais de iniciar. foi o que o c o r r e u c o m o jornalista negro João Conceição e q u e ele narrou em entrevista ao p e r i ó d i c o 1950. n u m dos jogos. um demagogo. ao mesmo t e m p o q u e reforçam os mecanismos d e solidariedade g r u p a i . constância.a m e r i c a n o recebido. Pittsburg courierc assim não só p ô d e p e n e t r a r na bancada da imprensa. Q u a n d o se d i s p u t o u n o Rio de Janeiro o c a m p e o n a t o m u n d i a l d e f u t e b o l . ao contrário. Escusado é dizer. a o conceito de uns ou de outros. u m protesto contra . u m a m i g o . embora o fato exista. com agilidade mental. jornal n e g r o . D e s i s t i n d o d e a r g u m e n t a r sobre seu direito de j o r n a l i s t a profissional. assíduo nas rodas j o r n a l í s t i c a s . o líder pode ser muitas vezes. /I voz da negritude a linha de cor. este jornalista. estes n o m e s c estes órgãos formulam. refletindo u m e s t a d o d e fato e de espírito. em como diretor doRedenção. u m s í m b o l o . Apesar de exibir suas c r e d e n c i a i s . a s p e c t o externo. ultima Hora..e isso vai aqui a f i r m a d o s e m qualquer intenção aleivosa . q u e u m m í n i m o dc avanço ou d e s e m b a r a ç o i n t e l e c t u a l permite a um negro u m a v a n t a j a d o afastamento em relação ao nível c u l t u r a l e m q u e a massa dc cor ainda se e n c o n t r a n o Brasil. q u e .conforme a situação e o m o m e n t o . que muito facilmente. está l o n g e d e ser o único ou sequer o m a i s i m p o r t a n t e condicionamento das novas a t i t u d e s raciais observadas. sua carreira de líder. u m aliado. simplesmente deu a v o l t a à t r i b u n a . lembram fatos c fases de u m a l u t a histórica. u m mártir. Senzala ( h o j e desaparecidos). u m e l e m e n t o perigoso e suspeito. entretanto. políticas e literárias. d c estar ali pata fazer para seu jornal a r e p o r t a g e m s o b r e o jogo. se o quiser. do jornal negro n o r t e . e n c a m i n h o u se para o lugar r e s e r v a d o à i m p r e n s a . ao mesmo t e m p o . u m l a d i n o . " É inevitável assinalar por outro lado . Quilombo. um oportunista.. Sem comentários. ou. d o M u s e u d o H o m e m de Paris. em atividade profissional. d a UNESCO.. um líder cm potencial d e n e g r o s . uma glória. a q u i c o m o lá. sabendo c o m b i n a r c o m habilidade esses fatores. s o c i a l m e n t e superiores. u m elemento útil.

2 9 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

mental dos planos táticos da liderança negra e explica muitas a p a r e n t e s contradições de seu pensamento, atuação c comportamento individual. O p r o b l e m a se torna na prática tanto mais c o m p l e x o q u a n t o aqui; ao contrário do que acontece n o u t r a s situações raciais, a função do líder não é acomodar aspirações agressivas das massas, pois no Brasil as massas negras já se t o r n a m inquietas, às vezes radicais, mas a i n d a não-agressivas. Agressivas tornam-se p r i n c i p a l m e n t e as elites na medida precisamente e m q u e se sentem, em certo sentido, desajudadas d o apoio das grandes massas de cor, q u e n ã o as seguem.
12

Sem dúvida essas limitações também são o p r o d u t o da íluidez que ainda negritude,

apresentam os resultados ideológicos das tensões raciais entre nós. N o caso da

como vimos, chega a ser mais u m sentimento do que p e n s a m e n t o . Essa íluidez c indeterminação, aliás, ficou patenteada no Congresso Brasileiro d o N e g r o (1950), no qual sc desenrolou t o d o sem saber precisamente se era a) sobre o n e g r o o u b) do negro, se era um conclave para e s t u d o s ou para reivindicações. Essa s e g u n d a orientação, na prática, prevaleceu n i t i d a m e n t e , havendo até surgido, no próprio congresso, teses contra ele, que pediam mais ação c m e n o s discussão. Nesse sentido, aliás, c o m o o c o m p a r c c i m e n t o ao congresso foi quase q u e exclusivamente de negros da p e q u e n a burguesia, pôde-se observar que a i n d e t e r m i n a ç ã o dos objetivos era mais dos dirigentes d o c e r t a m e do que das assembléias que a ele c o m p a r e c e r a m . Por outro lado não resta d ú v i d a d c que outro fator dessa íluidez ideológica é o fato dos negros, em grande parte, o l h a r e m a si mesmos com os olhos dos brancos.
13

É curioso observar q u e essa luta, apesar dc acesa, admite e n t r e t a n t o , na mente compromissos e acomodações. Parece q u e sc aceita, por

dc alguns negros evoluídos,

exemplo, c o m o f ó r m u l a conciliatória, que negros sejam representantes diplomáticos do Brasil cm países onde a maioria da população também seja negra: E t i ó p i a , Libéria, Haiti. C f , a esse respeito, a crônica dc Pompílio da Hora, que se tem d e s t a c a d o na luta pela entrada de negros na carreira diplomática, na sua coluna "A voz d o n e g r o " , intitulada U m proeminente jurista, na qual sc aponta, inclusive, cm favor d a q u e l a fórmula, o exemplo dos Estados U n i d o s . É freqüente, aliás, encontrar nos escritos d o s líderes negros brasileiros, que gozam os "benefícios" do que os ideólogos c h a m a m a "nossa democracia racial", referências elogiosas, algumas quase dc inveja, relativas ao progresso do negro nos Estados U n i d o s . Escusado é dizer que isto revela mais u m a f o r m a c o m p l e t a m e n t e falsa de colocar a apreciação objetiva das diferenças e peculiaridades d a situação racial dos dois países. Por exemplo, q u a n d o o Dr. Ralph Bunche foi d i s t i n g u i d o c o m o prêmio Nobcl, o tom d o editorial c o m q u e Quilombo comentou o fato vale c o m o u m d e p o i m e n t o .
H

Escusado é dizer q u e a maior parte dos brancos de classe s u p e r i o r que em movimentos

nossa presença se m a n i f e s t a m sobre esses movimentos do negro — os c h a m a d o s aqui de novo tipo, d o n d e se d e s p r e n d e essa ideologia - os considera c o m o racistas, baseando-se para isso n o seu exclusivismo, que, aliás, é p r á t i c o e n ã o teórico, já que todos dizem estar abertos a negros e brancos. Recentemente n u m a enquete de jornal foram colhidas várias opiniões a respeito, inclusive, s u r p r e e n d e n t e m e n t e , a do dirigente do T e a t r o E x p e r i m e n t a l do Negro, acusado t e m p o s atrás pela imprensa precisamente das m e s m a s tendências. O fato, aliás, encontra sua explicação como manifestação da hostilidade latente que existe entre os dirigentes d e associações negras

T E N S Õ E S RACIAIS N U M A S O C I E D A D E E M M U D A N Ç A

299

u m a s das quais era nominalmente citada, n o d e p o i m e n t o de A b d i a s Nascimento que, replicado, ao q u e saibamos, náo ofereceu resposta. D e q u a l q u e r sorte, o que há dc racismo agressivo nos movimentos negros é p u r a m e n t e u m m e c a n i s m o dc defesa e uma tentativa d e superação do racismo no branco. Cf., em Ultima 2 4 / 1 0 / 1 9 5 1 d o m e s m o jornal.
15

Hora,

a reportagem

Associações dc u m a só cor podem formar perigosos quistos, e a réplica na edição dc Esses depoimentos, os que não colhemos em corrcspondência escrita de negros,

estão publicados n o Jornal de Letras, ano II, n. 26, ago. 1951, p . 15, n u m a enquete com líderes negros a propósito da sanção da lei.

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(Agradecemos ao Dr. Thomaz Pompeu Accioli Borges a gentileza de nos ter cedido para consulta as cópias fotográficas dos originais deste livro, mandadas a fazer pela Fundação Getúlio Vargas, ainda antes de o trabalho ser enviado à publicação).
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em junho de 1998. pela Gráfica Serrana. O miolo foi impresso em papel off-set 90 g/m 2 e a capa.Este livro foi composto em AGaramond. . para a Editora UFRJ. em cartão supremo 250 g/m 2 .

Transcorridos quarenta anos. RM ) A.mm UI W . um fosso intransponível e n t r e os p a r t i c i pantes do movimento c os n e g r o s p o b r e s .„: .c brancos c diferente nos dois p a í s e s . D e s c r e v e d i f e r e n t e s modalidades de associação. financiado pela ÜNKHCO s o b r e as r e l a ç õ e s raciais no Brasil: não a c r e d i t a q u e as m u danças sociais trazidas pela i n d u s t r i a l i z a ç ã o do País possam acabar com o p r e c o n c e i t o e a discriminação racial. o alvo de sua análise c de s u a c r í t i c a é o m o v i mento da elite negra do Rio de J a n e i r o . c u j a estratégia. P o r é m . Aprofundando o e s t u d o . assim. o sociólogo p e r gunta pelos movimentos sociais d c c o m b a t e ao preconceito c às d e s i g u a l d a d e s l i d e r a d o s pelos negros no B r a s i l . Seu prognóstico se d i s t i n g u e radicalmente daquele de seus c o m p a n h e i r o s de geração. r e s s a l t a n d o as particularidades b r a s i l e i r a s . sociólogos q u e t a m b é m p a r t i c i p a r a m do projeto dc pesquisa e n c o m e n d a d o c. segundo ele. Ao c o n t r á r i o . Os resultados da p e s q u i s a l e v a m C o s t a Pinto a uma visão cética d a s o l u ç ã o dos p r o blemas raciais. GLAUCIA V I L L A S BÒAS R'<//. e n f a t i z a n d o a i m portância dos centros de u m b a n d a e d a s a gremiações de escolas de s a m b a . c r i a n d o . essas atitudes tenderiam a sc a g r a v a r n o f u t u r o . m a s t a m b é m a atualidade c pertinência de s u a s teses. l e v a v a à i n t e g r a ç ã o de apenas pequeno n ú m e r o d e n e g r o s n o s padrões da classe média carioca. c a b e r á aos leitores do livro julgar não só a o r i g i n a l i d a d e da contribuição de Costa Pinto.

de c a r á t e r u n i v e r s a l . tão necessária f r e n te aos grandes desafios d e s t e final <le século. M . para Costa Pinto. EDITORA . o b r a q u e contribui para uma reflexão. c o m o c i d a d ã o s e intelectuais. devem ser c o m b a l i d a s com políticas públicas i c d i s l r i b u t i v a s . li nessa perspectiva que. n ã o é u m a c a t e goria ossencializada. dc análise. Do seu p o n t o de vista s o c i o l ó g i c o e m e r g e a concepção dc q u e as d e s i g u a l dades sociais.Vlii ais Ciiok M vio . é m u i t o b e m v i n d a a reedição dc 0 negro no [tio dc Janeiro. s o b r e u m t e m a tão controverso c o m o o r a c i s m o n o B r a s i l . substantivada. a p e n s a r e a g i r d e f o r m a a b r a n g e n t e e generosa «obre.N o m o m e n t o e m que surgem p r o p o s t a s cie r a cializnção da sociedade brasileira. R a ç a . q u e se a p r e s e n t a m no âmbito das relações r a c i a i s . a d i n â m i ca d a nuidança social. s e m s u b t e r f ú g i o s . C o s t a Pinto nos c o n v i d a .

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