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A Era dos Extremos:

o breve século XX.

Hobsbawm, Eric.

São Paulo, Companhia das Letras, 1995. 598p.

resenhado por Frâncio Mendonça

Talvez o maior mérito do livro A era dos extremos de Hobsbawm seja transmitir uma forte impressão do tamanho da catástrofe humana que foi o século XX. Catástrofe em relação às mortandades gigantescas, sem equiparação possível com qualquer período histórico anterior. Catástrofe em relação à desvalorização do indivíduo, ao qual, durante longos momentos do século, foram negados todos os direitos humanos e civis, que haviam sido arduamente conquistados durante o ‘longo século’ precedente: 1789-1914.

Aliás, a impressão de catástrofe é forte justamente porque o período histórico anterior se marcara em todas as mentes como o século que colocara a idéia do progresso como inevitabilidade, não só em termos materiais, mas também em relação ao avanço das liberdades, apesar das monarquias e das forças conservadoras, que resistiam tenazmente desde a Revolução Francesa.

Hobsbawm incita à colocação de uma pergunta, que seu livro não consegue responder:

como foi possível chegar a isso? Como foi possível descer tanto na escala da civilização, apesar de uma vitória tão gigantesca para as forças progressistas como a Revolução Russa de 1917? Hobsbawm não pretendia mesmo responder a tudo. Mas incitar o leitor a se fazer perguntas dolorosas já é um mérito inestimável. As deficiências do livro estão mais no enfoque adotado na abordagem de alguns temas importantes.

O ano de 1917, explica Hobsbawm, pretendia ser o início da revolução mundial. E, desse modo, foi visto por milhões de pessoas, mesmo em países longínquos. Apesar disso, Hobsbawm acha que o mundo não estava maduro para uma revolução proletária naquele momento. É possível que seja uma suposição válida; e não é fácil provar o contrário. Mas cabe perguntar: será que algum dia haverá uma revolução que atinja imediatamente os principais países do mundo? Talvez o problema a resolver não seja por que a Revolução de 1917 não se espalhou imediatamente pelo mundo, mas antes por que a chama da revolução proletária pôde ser tão rapidamente submergida por uma vaga

reacionária mundial. Vaga que Hobsbawm mostra detalhadamente ser mais ampla que os movimentos baseados explicitamente no modelo italiano ou alemão de fascismo.

Em todo o caso, verificou-se concretamente que os bolcheviques ficaram isolados e encurralados numa revolução nacional, cuja preocupação passou a ser logo a simples sobrevivência. Fato consumado. Mas o problema aqui é que Hobsbawm faz uma ligação direta entre a sobrevivência da Revolução Russa e a sobrevivência de uma unidade política abrangendo todo o antigo Império Russo. Essa ligação só teria sentido na perspectiva de uma "revolução socialista num só país", caso em que o tamanho do país é uma questão vital. Hobsbawm, porém, parece não acreditar na viabilidade da revolução socialista só na Rússia. Então seria o caso de fazer a distinção necessária: revolução mundial e sobrevivência da unidade do Império ex-czarista eram coisas diferentes e mesmo contrárias. Aliás, o governo bolchevique, em sua primeira fase, não pretendia impor-se sobre todo o ex-Império. Nessa fase é que foram concedidas, sem conflito, as independências da Finlândia, da Polônia e dos Estados Bálticos, todos anteriormente províncias do Império Russo. Nenhum desses novos países declarou-se socialista. Nem por isso, o governo bolchevique se achou na obrigação de impedir sua independência.

Não perceber a contradição entre revolução e império faz Hobsbwam valorizar a disciplina bolchevique de modo acrítico, misturando disciplina consciente e arregimentação cega, além de atribuir aos bolcheviques, objetivos que estes não se davam antes de 1921. Manter o Império havia sido objetivo central do czar e da impotente burguesia russa (impotente em parte porque se submetia ao czar e por amor ao Império), não era objetivo dos revolucionários .

Sem perceber isso, não dá para entender como foi possível que, após uma revolução da importância da de 1917, que despertou na humanidade as imensas esperanças descritas por Hobsbawm no capítulo doze, tenha sido imediatamente seguida do mais profundo retrocesso político do século. Apenas a não-extensão da Revolução Russa não é suficiente para explicar isso. A Revolução Francesa terminou militarmente derrotada. Nem por isso deixou de exercer influências libertárias que as próprias monarquias contra-revolucionárias tiveram que levar em conta para sobreviver. Já no caso da Revolução de 1917, ocorre o contrário. Cerca de dez anos depois desce a mais negra noite de todos os tempos: é "meia-noite do século", disse Victor Serge, sem que o partido que dirigira a Revolução Russa tivesse perdido o poder. Alguma coisa de muito

essencial deve ter deixado de funcionar, sob a máscara de uma falsa continuidade política. E deve ter sido uma reviravolta muito mais grave e profunda que o Thermidor da Revolução Francesa.

As conseqüências disso se fizeram sentir antes, durante e no fim da Segunda Guerra Mundial. Hobsbawn descreve os sofrimentos causados pela Guerra como mero resultado das próprias operações militares. Mas nem tudo foi resultado inevitável do simples uso do poder destrutivo disponível na época. Na Primeira Guerra Mundial não se havia visto ato tão sanguinário como o massacre de quatro mil prisioneiros poloneses, por ordem de Stalin, em 1940. A Paz de 1945 repetiu as barbaridades da Paz de Versalhes com aumento, apesar da participação da potência ‘socialista’ entre os vencedores de 1945. A maior parte dos deslocamentos de povos no fim da última guerra foi puro revanchismo, com caráter explícito de limpeza étnica. Por incrível que pareça, no fim da Primeira Guerra Mundial foi possível ver um presidente burguês: Woodrow Wilson, dos EUA ridicularizado por Lenin , pregar uma paz sem anexações. No fim da Segunda Guerra Mundial, não houve voz contra o revanchismo. Treze milhões de alemães foram expulsos da Europa oriental e central, com o único objetivo de aumentar o lebensraum eslavo. Foram expulsos simplesmente pelo fato de serem alemães. É de Stalin a frase: "Um alemão só é bom, morto". Não disse um nazista. Assim, o que W. Wilson não havia conseguido em 1919 ser levado a sério como campeão da democracia da autodeterminação dos povos foi conseguido por Roosevelt e Truman sem muito esforço. Porque estes tinham em frente, como termo de comparação, a URSS, não mais a Rússia revolucionária dos tempos de Wilson.

Hobsbawm dá uma grande importância à depressão dos anos 30 como determinante dos rumos políticos da época. A depressão teria tido um papel decisivo em fazer da democracia "uma planta frágil", em muitos países. Isso até tem um fundo de verdade. Mas não é possível entender completamente a fragilidade da democracia no entreguerras sem lembrar o progressivo afastamento entre luta por liberdades democráticas e luta pelo socialismo, praticado pela III Internacional desde o começo. Essa prática depois teorizada para justificar o despotismo stalinista fez que o segmento importante do movimento operário deixasse de ser um baluarte contra os movimentos restauracionistas da ordem social, gerados pelo capitalismo em crise. Antes de 1914, ‘todo’ o movimento socialista fora também um movimento libertário. Além

disso, para Hobsbawm, o impacto da depressão teria sido a grande força renovadora das idéias econômicas da época, porque a depressão teria desacreditado o pensamento econômico clássico, abrindo espaço para as políticas de regulação do capitalismo posteriores. Especialmente em razão desse descrédito da ortodoxia econômica, no segundo pós-guerra, os "formuladores de decisões", como diz Hobsbawm, passaram a ter preocupações centrais: obter uma distribuição de renda mais igualitária do que a normalmente ensejada pelo capitalismo ‘puro’ e evitar grandes níveis de desemprego.

Hobsbawm se deixa levar muito facilmente pela crença na racionalidade dos "formuladores de decisões" capitalistas. Ele chega a ponto de chamar de reforma do capitalismo" a adoção das políticas de pleno emprego e bem-estar social no segundo pós-guerra. Tal ‘reforma’ é definida por ele como "essencialmente uma espécie de casamento entre liberalismo econômico e democracia social". Um pouco de resguardo seria melhor.

Em situações de grande perigo social, os "formuladores de decisões" instalados no poder tendem fortemente a dividir-se entre dois tipos básicos de saída, conforme suas inclinações pessoais: partir para o enfrentamento com os movimentos reivindicatórios ou partir para concessões. Ora, no fim da Segunda Guerra Mundial, o perigo para o capitalismo era uma realidade assustadora. Diferentemente do que ocorrera na vez anterior, nenhum país em guerra da Europa ocidental, exceto a Grã-Bretanha, conseguira manter de pé o aparelho de Estado capitalista. Todos os demais países beligerantes emergiram da Guerra com aparelhos de Estado improvisados, em que se misturavam instituições criadas pela resistência antifascista e instituições de emergência criadas pelos exércitos de ocupação. Em várias regiões, houve ‘zonas liberadas’ por partisans antes da chegada dos exércitos regulares. Tentar impor soluções capitalistas ortodoxas naquela parte da Europa, naquela época, seria realmente demência suicidária. Razão pela qual todos os economistas com a tarefa de se dirigir ao grande público viraram subitamente humanistas sensíveis. Para explicar suas mudanças de opinião, economistas antes conhecidos como empedernidos mastigadores de ‘fatores de produção’, passaram a falar nas tristes recordações da Grande Depressão. Mas as tristes recordações não explicavam tudo.

Hobsbawn observa, pertinentemente, que os resultados da Segunda Guerra Mundial retiraram a extrema-direita do cenário político por um bom tempo. No fim da Guerra, só

os "formuladores de decisões" dispostos a fazer concessões tinham voz e audiência. É isso que mais explica por que foi tão fácil fabricar um pacto aceitável para trabalhadores e patrões, então alçados à categoria nova de ‘parceiros sociais’. Chamar essas concessões de "reformas do capitalismo" exagera seu alcance e objetivos. As políticas de bem-estar social e pleno emprego do segundo pós-guerra foram uma resposta adequada a uma situação política em que o sistema capitalista se encontrava extremamente fragilizado na Europa ocidental, ao passo que a oriental estava ocupada pela URSS. Mas mesmo nos EUA, cujo governo do Partido Democrata terminara a Guerra prestigiado, não havia condições de ignorar as esperanças da enorme massa mobilizada para a Guerra e que retornava buscando o ‘mundo melhor’ que a propaganda oficial prometera durante todo o conflito. Por outro lado, em termos econômicos, na Europa, partia-se de infra-estruturas destruídas, com os trabalhadores e toda a classe média, baixa e alta, reduzidos às rações alimentares distribuídas pelo Exército dos EUA. Quer dizer: as possibilidades de investimento eram aparentemente infinitas, com grande espaço para uma distribuição mais igualitária de rendimentos, sem renúncia a lucros.

Hoje se pode ver que aquilo não era exatamente uma reforma do capitalismo porque assim que aquelas condições anormais deixaram de existir, o estado de bem-estar começou a ser atacado. E já nos anos 80, todos os economistas com clientes importantes voltaram aos mesmos cacoetes clássicos dos anos 20 e 30. Eles simplesmente voltaram a seu estado normal. Porque os Estados capitalistas estão agora firmes; e os "formuladores de decisões", no momento, não estão conseguindo enxergar a menor nuvem negra no horizonte à esquerda.

Talvez o pecado mais grave do livro seja a falta de conclusões convincentes sobre o "socialismo real" e o colapso da URSS. Sem dúvida, é bastante boa a comparação que Hobsbawm faz entre a URSS e China, assim como sua percepção de que o Estado burocrático chinês se mantém porque lançou suas reformas sobre uma população majoritariamente camponesa. Mesmo assim, não é o caso de deixar passar sem retoque a opinião da mídia, impressionada com a aparente estabilidade do regime chinês. E quanto às reformas de Gorbachev, a conclusão de que: "A URSS sob Gorbachev caiu nesse poço em expansão entre a glasnost e a perestroika", é muito pouco para explicar um colapso fragoroso que, por incrível que pareça, apenas cinco anos antes estava fora de qualquer previsão, mesmo por parte de seus mais ferrenhos adversários.

Não há como fugir a impressão de que, a respeito da URSS, viveu-se um equívoco universal durante decênios. Seria preciso pelo menos tentar uma explicação que começasse a abordar esse equívoco, partilhado pela direita e pela esquerda, quanto ao caráter e, sobretudo, à viabilidade do "socialismo real".

Em certo ponto do livro, Hobsbawm parece reconhecer que o regime soviético era inviável:

A tentativa de construir o socialismo produziu conquistas notáveis não menos a capacidade de derrotar a Alemanha na Segunda Guerra Mundial , mas a um custo enorme e inteiramente intolerável, e daquilo que acabou se revelando uma economia sem saída.

As "conquistas notáveis", no caso, estão todas ligadas à industrialização da URSS, que chegou a alçar-se à condição de segunda potência industrial do mundo, partindo praticamente do zero no fim da Guerra Civil, em 1920. Entretanto, o fato de que essa industrialização terminou num beco sem saída recoloca o problema do valor do método escolhido ou de algum equívoco fundamental que deve ter havido em suas origens; ou surgido em algum ponto de sua edificação.

Para tentar uma primeira resposta, poder-se-ia inquirir se uma industrialização obtida a chicote pode ter vida longa. O senso comum já é suficiente para suspeitar que o chicote não é bom instrumento para desenvolver a criatividade. O chicote pôde fazer a URSS alcançar momentaneamente o Ocidente, mas não ultrapassá-lo. A coerção desmesurada já continha os germens da estagnação tecnológica que levaria a URSS ao impasse mais tarde. Isso pode ser afirmado, mesmo que se queira aceitar o chicote como "motor" válido para a construção de algum "socialismo" monástico de baixo consumo. De qualquer maneira, no caso da URSS real, interessa ressaltar que o resultado alcançado foi provisório. Sua industrialização avançava inexoravelmente para um beco sem saída.

No entanto, apesar de reconhecer que o resultado final da industrialização stalinista foi a "economia sem saída", Hobsbawm mantém-se apegado à idéia de que a URSS não teria outro caminho a seguir nos anos 20-30:

Qualquer política rápida de modernização da URSS, nas circunstâncias da época, tinha que ser implacável e, porque imposta contra o grosso do povo, impondo-lhe sérios sacrifícios, coercitiva em certa medida.

A própria frase "política (

em que medida? Aquela medida de coerção foi correta? Mais lógico, à luz do que Hobsbawm sabe hoje, seria dizer que talvez alguma coerção fosse inevitável "nas circunstâncias da época", porém a coerção stalinista provou ser incompatível com uma industrialização inovadora e sustentável a longo prazo. Ou, até mesmo, poderia continuar achando que, em 1929, não houvesse um caminho muito diferente à

disposição de Stalin, mas para ser coerente com sua própria conclusão final sobre a economia soviética, Hobsbawm deveria também lembrar que o governo da URSS tinha que encontrar um meio de dispensar a coerção "contra o grosso do povo", o mais cedo possível, se quisesse manter a economia viável .

)

coercitiva em certa medida"deixa no ar uma questão:

Sobra a impressão de que, a respeito da URSS, o arrazoado de Hobsbawm é, em parte, emotivo. Isso transparece mais fortemente na convalidação implícita das palavras de Oskar Lange em seu leito de morte:

Havia uma alternativa para a corrida indiscriminada, brutal, basicamente não planejada, ao primeiro plano qüinqüenal?. Gostaria de dizer que havia, mas não posso.

Hobsbawm parece não se dar conta que Oskar Lange, um defensor da economia planificada, morreu em 1965, ou seja, morreu a tempo de levar consigo suas convicções intactas. Os que morreram ou vieram a morrer depois de 1991 não têm mais esse privilégio, a não ser que, de 1989 em diante, tenham passado a circular de olhos vendados.

Além do mais, já antes do desabamento da URSS, surgiram novas informações sobre os anos 30, que O. Lange não chegou a conhecer. Informações que Hobsbawm mostra ter, ao sugerir veladamente que, somente para o Segundo Plano Qüinqüenal (1933-1937), poder-se-ia fazer uma estimativa de 16,7 milhões de mortos, vítimas da fome e da repressão. Isso é inferido da constatação do decréscimo da população da URSS no período do plano; informação classificada como secreta em 1938. Quer dizer: Stalin

proibiu a divulgação das estatísticas demográficas do Segundo Plano Qüinqüenal porque estas depunham contra sua "vitória econômica".

As informações que se têm hoje sobre os anos 30 são arrasadoras. Mesmo continuando a aceitar que a URSS não poderia dispensar a imposição de sacrifícios ao povo naquela época, sobra base mais que suficiente para afirmar, em 1990, que aquela coerção foi de eficácia imediata altamente duvidosa, além de comprovadamente nefasta para o desenvolvimento futuro da URSS. Nessa questão da suposta necessidade histórica do stalinismo, talvez melhor seja deixar falar Moshe Lewin que, já em 1965, escreveu um artigo para a revista Soviet Studies, na qualonde, após descrever detalhadamente a enorme perda de energia humana e de meios materiais gerada pelos zigue-zagues desastrosos de Stalin durante a coletivização da agricultura, conclui:

Se é certo que a industrialização devia acarretar mudanças profundas no campo, é falso, a nosso ver, imaginar que tais mudanças só poderiam ser feitas através daquela coletivização que a Rússia experimentou. Por que fazer do kolkhoz a única forma de

exploração coletiva, quando as estruturas aldeãs sugeriam outras soluções? (

)

Pretender que a liquidação da esquerda, adepta entusiasta da coletivização e da política antikulak fosse uma pré-condição capital da industrialização futura e que essa liquidação devesse ser feita por um Stalin que, nessa época (1928-1929), sequer refletira sobre o que seria uma política futura, significa sustentar uma teoria bem estranha. Só é possível subscrevê-la aceitando outra teoria igualmente bizarra, que consiste em apresentar Stalin como um "deus ex-machina", como o único homem no Partido capaz de transformar a Rússia em país industrial.

Paralelamente a sua apreciação sobre a economia da URSS, Hobsbawm vai passando uma idéia, igualmente afetada por seus sentimentos pessoais, sobre a legitimidade dos Estados erguidos em nome do "socialismo real". Os acontecimentos espetaculares do fim dos anos 80 e início dos 90 na Europa oriental e na URSS dão larga margem a um questionamento da própria legitimidade dos regimes instaurados nessa parte do mundo.

A respeito da Europa oriental, Hobsbawm nota que as burocracias desses países procuraram retirar-se do poder discretamente (exceto na Romênia) "porque tinham visivelmente perdido a justificativa que mantivera seus quadros comunistas no passado". A justificativa, no caso, era o "socialismo real", que só funcionava sob a

tutela da URSS. Quando esta acabou, deu uma epidemia de amnésia na Europa oriental. De repente, seus governantes não se lembravam mais de como tinham ido parar ali.

Para a URSS, a opinião de Hobsbawm é diferente:

Ao contrário de muitos estrangeiros, todos os russos sabiam bastante bem quanto sofrimento lhes coubera e ainda lhes cabia (em 1953). Contudo, em certo sentido, pelo simples fato de ser um governante forte e legítimo das terras russas e delas um modernizador, ele (Stalin) representava alguma coisa deles próprios.

Depois de confundir sobrevivência da revolução com sobrevivência do Império Russo, Hobsbawm só podia confundir conformismo do povo com legitimidade de Estado stalinista.

A legitimidade do Estado soviético nasceu e ficou ligada até o fim a seus laços com a

Revolução de Outubro. Esses laços deixaram de ter realidade efetiva já nos anos 20, porém todos os burocratas que liquidaram as esperanças de Outubro tinham consciência de que a legitimidade de sua dominação dependia daqueles laços. Por isso, mantiveram a farsa do "socialismo" enquanto puderam. Quando não puderam mais, foi um salve-se quem puder. Diante de todos os acontecimentos dos anos 80 e 90, pode-se afirmar que a brutalidade aparentemente absurda de Stalin decorria, em parte, de sua legitimidade precária. Só partindo dessa premissa se pode começar uma discussão séria sobre as hecatombes de Stalin, superando a mera lamentação humanitária, assim como o conformismo com a suposta inevitabilidade de um regime "implacável" naquela época e lugar.

Somente um regime de legitimidade precária pode desabar da noite para o dia sem que

se manifestem forças sociais significativas em sua defesa. O grande argumento histórico

pró-Stalin (lembrado por Hobsbawm) foi sua vitória sobre Hitler. De fato, foi a vitória

sobre os nazistas que deu à burocracia do Kremlin a autoridade que lhe permitiu prolongar seu regime até o fim dos anos 80. Entretanto, uma olhada mais detalhada nos grandes fatos históricos é indispensável, para quem não quer se contentar com panegíricos.

A agressão hitleriana mostrou, desde seu primeiro momento, uma face brutalmente

racista e antieslava (não só anticomunista), que tornou impossível qualquer movimento

de simpatia em relação aos invasores por parte dos povos da Europa soviética, exceto de alguns, não-eslavos, da área do Cáucaso. É inegável que o extremo reacionarismo do comando nazista foi um fator favorável a Stalin; do mesmo modo que o extremo reacionarismo dos "brancos" na época da Guerra Civil (1918-1920) fora um fator favorável aos bolcheviques. O racismo antieslavo do comando nazista facilitou a aglutinação dos russos, ucranianos e bielo-russos em torno do único Estado que parecia capaz de salvá-los da aniquilação completa. Stalin mobilizou o povo fazendo apelo basicamente ao patriotismo. Os operários escreviam sobre os tanques, antes de remetê- los ao front: za rodinu (pela pátria). Se Stalin tivesse tentado mobilizar o povo pelo "socialismo" dos Planos Qüinqüenais, certamente ter-se-a desastrado. Não por acaso, o nome oficial da Segunda Guerra Mundial na URSS era ‘Grande Guerra Patriótica’. E assim a Guerra foi entendida pelo povo. Isso permite qualificar a legitimidade ganha pelo regime com a vitória sobre a agressão nazista. O regime legitimou-se como defesa eficaz dos povos eslavos contra agressores externos. Quer dizer: obteve um novo tipo de legitimidade, mais restrito. Nem antes, nem durante, nem depois da Guerra, o "socialismo" de Stalin foi sentido como aceitável e legítimo pelos povos da URSS, eslavos ou não.

O próprio Hobsbawm ressalta o apoliticismo extremo do povo nos países do "socialismo real". Ora, o apoliticismo na URSS tinha um significado especial. Era o único país do mundo que não podia ter um povo apolítico. Porque era o único que tinha como meta oficial ‘elevar o nível de consciência política da população’, para isso restringindo a propaganda religiosa e instituindo um certo ‘marxismo’ como matéria obrigatória em todos os níveis de ensino. Sob tal ordenamento da vida cultural, o profundo apoliticismo do povo soviético valia como uma rejeição maciça do regime.

Então, as conclusões devem ser tiradas: o Estado soviético conseguiu legitimar-se? Sim. Porém, em primeiro lugar, conseguiu-o somente depois da Segunda Guerra Mundial e não para todos os povos da URSS; em segundo lugar, essa legitimidade parcial e diferente da pretendida originalmente não dizia respeito ao "socialismo real".

Diga-se de passagem, mesmo pretendendo que o apoliticismo do povo soviético não seria evidência suficiente da legitimidade precária de seu Estado, as reações nacionalistas que se seguiram ao desmoronamento do regime não deixariam margem a dúvidas: ao primeiro abalo da capacidade repressiva do Estado soviético (em particular

a desarticulação da KGB, vitimada pela glasnost), a ‘União’ entrou em rápida dissolução, inclusive a união ‘interna’ da Rússia.

No final do livro, Hobsbawm descreve a crise da própria economia capitalista. Ao lado de muita informação importante, Hobsbawm tira algumas conclusões temerárias. Como, por exemplo: "O triunfalismo neoliberal não sobreviveu aos reveses do início dos anos 90". É muito otimismo de Hosbsbawm achar que o neoliberalismo se encontre abalado em virtude dos sofrimentos que esteja causando à humanidade a partir dos anos 80.

Infelizmente, a história não é um sistema de reflexos sociais perseguindo o caminho do menor sofrimento. Se fosse assim, não se teria conseguido descer aos abismos de repressão sanguinária atingidos durante o ‘breve século XX’.

Sem dúvida, é absolutamente verdadeira a exposição do que Hobsbawm considera uma depressão econômica comparável à dos anos 30, hoje se estendendo em graus diversos no mundo inteiro. Entretanto, Hobsbawm subestima a capacidade de cinismo dos economistas com acesso ao poder e à grande mídia. Para eles, o que está ocorrendo é apenas um processo "inevitável" de adaptação à "globalização econômica". O sofrimento dos seres humanos não é parâmetro de avaliação dos resultados das políticas decididas pelos clientes desses economistas. E vai continuar sendo assim, enquanto reações sociais de grande envergadura não obriguem os "formuladores de decisões" a reverem seus parâmetros.

Comentários:

Seguimos com o primeiro capítulo do livro Era dos Extremos O breve século XX (1914-1991), de Eric Hobsbawm (Companhia das Letras, 1996). Desta vez, trazemos o resumo das páginas 36 a 43. O capítulo inicial da obra é batizado de A Era da Guerra Total e inaugura a primeira das três partes da obra: A Era da Catástrofe. Boa leitura! A única arma tecnológica que teve um efeito importante na 1ª G.M. foi o submarino. Como todos os suprimentos da Grã-Bretanha eram transportados por mar, parecia factível estrangular as ilhas britânicas mediante uma guerra submarina cada vez mais implacável contra os navios. A campanha chegou perto do êxito em 1917, antes que se descobrissem meios efetivos de contê-la, porém fez mais do que qualquer outra coisa para arrastar os EUA à guerra. Os britânicos, por sua vez, fizeram o melhor possível para bloquear os suprimentos da

Alemanha, ou seja, matar de fome a economia e a população alemãs. Foram mais eficazes do que deveriam. A mera superioridade do exército alemão enquanto força militar poderia ter-se mostrado decisiva se, a partir de 1917, os aliados não tivessem podido valer-se dos recursos praticamente ilimitados dos EUA. Na verdade, a Alemanha, mesmo entravada pela aliança com

a Áustria, assegurou a vitória total no Leste, expulsando a Rússia da guerra para a revolução e para fora de grande parte de seus territórios europeus em 1917-18. Pouco depois de impor a paz punitiva de Brest-Litowsk (março de 1918), o exército alemão, agora livre para concentrar-se no Ocidente, na verdade rompeu a Frente Ocidental e avançou de novo sobre Paris. Graças à inundação de reforços e equipamentos americanos, os aliados se recuperaram. Era o último lance de uma Alemanha exausta, que se sabia perto da derrota. Assim que os aliados começaram a avançar, no verão de 1918, o fim era apenas uma questão de semanas. As Potências Centrais não só admitiram a derrota, mas desmoronaram. A revolução varreu o Sudeste e o Centro da Europa no outono de 1918, como varrera a Rússia em 1917. Nenhum governo ficou de pé entre as fronteiras da França e o mar do Japão. Mesmo os beligerantes do lado vitorioso ficaram abalados. Certamente, nenhum dos países derrotados escapou da revolução.

A maioria das guerras não revolucionárias e não ideológicas do passado não se travara

sob a forma de lutas de morte ou que prosseguissem até a exaustão total. Certamente, não era a

ideologia que dividia os beligerantes em 1914, exceto no fato de que, em ambos os lados, a guerra tinha de ser travada mediante a mobilização da opinião pública, isto é, alegando algum profundo desafio a valores nacionais aceitos, como o barbarismo russo contra a cultura alemã.

A 1ª G. M. foi travada como um tudo ou nada. Ao contrário das anteriores, tipicamente

travadas em torno de objetivos específicos e limitados, a disputa se dava por metas ilimitadas. Na Era dos Impérios, a política e a economia haviam se fundido. A rivalidade política internacional se modelava no crescimento e competição econômicos. O traço característico disso era, precisamente, não ter limites. Para os dois principais oponentes, o céu tinha de ser o limite, pois a Alemanha queria uma política e posição marítima globais, como as que então ocupavam os britânicos, com o conseqüente relegamento de uma já declinante Grã-Bretanha a um status inferior. Era uma

questão de ou uma ou outra. Para a França, então e depois, os objetivos em jogo eram menos globais, mas igualmente urgentes: compensar sua crescente e aparentemente inevitável

inferioridade demográfica e econômica frente à Alemanha. Também aqui a questão era o futuro

da França como grande potência. No papel, sem dúvida, era possível o acordo neste ou naquele

ponto dos quase megalomaníacos “objetivos de guerra” que os dois lados formularam assim que o conflito estourou. Na prática, porém, só um objetivo contava: a vitória total, aquilo que,

na Segunda Guerra Mundial, viria a chamar-se “rendição incondicional”. Era um objetivo absurdo, que trazia em si a derrota e que arruinou vencedores e vencidos; que empurrou os derrotados para a revolução e os vencedores para a bancarrota e a exaustão física. Em 1940, a França foi atropelada com ridícula facilidade e rapidez por forças alemãs inferiores e aceitou sem hesitação a subordinação a Hitler porque o país havia sangrado até quase a morte em 1914-18. A Grã-Bretanha jamais voltou a ser a mesma após 1918, porque o país arruinara sua economia travando uma guerra que ia muito além de seus recursos. Além disso, a vitória total, ratificada por uma paz punitiva, imposta, arruinou as escassas possibilidades existentes de restaurar alguma coisa que guardasse mesmo fraca semelhança com uma Europa estável, liberal e burguesa.

O acordo de paz imposto pelas grandes potências vitoriosas sobreviventes (EUA, Grã-

Bretanha, França, Itália) era dominado por cinco considerações. A mais imediata era o colapso

de tantos regimes na Europa e o surgimento na Rússia de um regime bolchevique revolucionário alternativo, dedicado à subversão universal, um ímã para forças revolucionárias

de todas as partes. Segundo, havia a necessidade de controlar a Alemanha. Esse era o maior

interesse da França. Terceiro, o mapa da Europa tinha de ser redividido e retraçado, tanto para enfraquecer a Alemanha quanto para preencher os grandes espaços vazios deixados na Europa e no Oriente Médio pela derrota e colapso simultâneos dos impérios russo, habsburgo e

otomano. Os muitos pretendentes à sucessão, pelo menos na Europa, eram vários movimentos nacionalistas que os vitoriosos tendiam a estimular, contanto que fossem antibolcheviques. O

princípio básico de reordenação do mapa era criar Estados-nação étnico-linguísticos, segundo a crença, defendida pelo presidente Wilson, dos EUA, de que as nações tinham o “direito de autodeterminação”. A tentativa foi um desastre. O remapeamento do Oriente Médio se deu ao longo de linhas imperialistas (divisão entre Grã-Bretanha, França e EUA), com exceção da Palestina, onde o governo britânico, ansioso por apoio internacional judeu durante a guerra, tinha, de maneira incauta e ambígua, prometido estabelecer “um lar nacional” para os judeus. Essa seria outra relíquia problemática da 1ª Guerra Mundial. O quarto conjunto de considerações eram as políticas internas dentro dos países vitoriosos e o atrito entre eles. A conseqüência mais importante dessa politicagem interna foi que o Congresso americano se recusou a assinar um acordo de paz escrito, em grande parte, por ou para seu presidente. Em conseqüência, os EUA se retiraram dele. Por fim, as potências vitoriosas buscaram desesperadamente o tipo de paz que tornasse impossível outra guerra como a que acabara de devastar o mundo. Fracassaram de forma espetacular. Tornar o mundo seguro contra o bolchevismo e remapear a Europa eram metas que se sobrepunham, pois a maneira mais imediata de tratar com a Rússia revolucionária era isolá-la atrás de um “cinturão de quarentena” (cordon sanitaire) de Estados anticomunistas. Como os territórios desses Estados haviam sido, em grande parte ou inteiramente, secionados de ex- terras russas, sua hostilidade para com Moscou podia ser dada como certa. Eram eles: a Finlândia, uma região autônoma que Lênin deixara separar-se; a Polônia, devolvida à condição de Estado após 120 anos; uma Romênia com o tamanho duplicado por cessões das partes húngara e austríaca do império habsburgo e da ex-russa Berassábia; e Estônia, Letônia e Lituânia, três novas repúblicas bálticas. A tentativa de ir adiante com esse cinturão de isolamento no Cáucaso fracassou porque, em 1921, a Rússia revolucionária chegou a um acordo com a Turquia, que não tinha simpatia pelos imperialistas franceses e britânicos. Em suma, no Leste, os aliados aceitaram as fronteiras impostas pela Alemanha à Rússia revolucionária, na medida em que não eram tornadas inoperantes por forças que eles não pudessem controlar. A Áustria e a Hungria foram reduzidas a retaguardas alemã e magiar. A Sérvia foi expandida para uma grande e nova Iugoslávia, pela fusão com a (ex-austríaca) Eslovênia, a (ex- húngara) Croácia e o antes independente Montenegro, pequeno reino tribal de pastores e assaltantes. Também foi formada uma nova Tchecoslováquia, juntando-se o miolo industrial do império habsburgo (as terras tchecas) às áreas de camponeses eslovacos e rutênios antes pertencentes à Hungria. A Romênia foi ampliada para um conglomerado multinacional, enquanto a Polônia e a Itália também se beneficiavam. Não havia precedente histórico ou lógica nas combinações iugoslavas e tchecoslovacas, meras construções de uma ideologia nacionalista que acreditava na força da etnicidade e na indesejabilidade de Estados-nação pequenos demais. Como era de se esperar, esses casamentos sob mira de espingarda não se mostraram muito firmes.

Impôs-se a Alemanha uma paz punitiva, justificada pelo argumento de que o Estado era o único responsável pela guerra e todas as suas conseqüências (a cláusula da “culpa de guerra”), para mantê-la permanentemente enfraquecida. Isso foi conseguido não tanto por perdas territoriais, embora a Alsácia-Lorena voltasse à França e uma substancial região no Leste à Polônia (o “Corredor Polonês); na realidade, essa paz punitiva foi assegurada privando-se a Alemanha de uma marinha e uma força aérea efetivas; limitando-se seu exército a 100 mil homens; impondo-se “reparações” teoricamente infinitas; adotando-se a ocupação militar de parte da Alemanha Ocidental; e, não menos, privando-se a Alemanha de todas as suas antigas colônias no ultramar. Elas foram distribuídas entre os britânicos, franceses e japoneses. Contudo, em deferência á crescente impopularidade do imperialismo, não mais foram chamadas de colônias, e sim de “mandatos” para assegurar o progresso de povos atrasados, entregues humanitariamente às potências imperiais, que nem sonhariam em explorá-los para nenhum outro propósito. Com exceção das cláusulas territoriais, nada restava do Tratado de Versalhes em meados da década de 1930. Quanto ao mecanismo para impedir outra guerra mundial, a alternativa, exortada a obstinados politiqueiros europeus pelo presidente Wilson, era estabelecer uma “Liga das Nações”, que solucionasse pacífica e democraticamente os problemas antes que se descontrolassem, de preferência em negociação pública, pois a guerra também tornara suspeitos, como “diplomacia secreta”, os habituais e insensíveis processos de negociação

internacional. Foi em grande parte uma reação contra os tratados secretos acertados entre os aliados durante a guerra, nos quais dividiram a Europa do pós-guerra e o Oriente Médio com uma surpreendente falta de atenção pelos desejos, ou mesmo interesses, dos habitantes daquelas regiões. Os bolcheviques, descobrindo esses documentos sensíveis nos arquivos czaristas, haviam-nos prontamente publicado para o mundo ler, e, portanto, exigia-se um exercício de redução de danos. A Liga das Nações foi, de fato, estabelecida como parte do acordo de paz e revelou-se um quase total fracasso, a não ser como uma instituição para coleta de estatísticas. A recusa dos EUA a juntar-se à Liga das Nações privou-a de qualquer significado real. O acordo de Versalhes estava condenado desde o início; não podia ser a base de uma paz estável. Para começar, os EUA se retiraram quase imediatamente. Em um mundo não mais eurocentrado e eurodeterminado, nenhum acordo não endossado pelo que era agora uma potência mundial podia se sustentar. Além disso, duas grandes potências européias e mundiais estavam temporariamente eliminadas do jogo internacional: a Alemanha e a Rússia soviética. Assim que uma ou as duas reentrassem em cena, um acordo de paz baseado apenas na Grã- Bretanha e na França (a Itália também continuava insatisfeita), não poderia durar. Qualquer pequena chance que tivesse a paz foi torpedeada pela recusa das potências vitoriosas a reintegrar as vencidas. Talvez a guerra seguinte pudesse ter sido evitada ou, pelo menos, adiada, caso houvesse ocorrido a restauração da economia como um sistema global de prósperos crescimento e expansão. Em meados da década de 20, no entanto, a economia mundial mergulhou na maior e mais dramática crise que conhecera desde a Revolução Industrial. E isso levou ao poder, na Alemanha e no Japão, as forças políticas do militarismo e da extrema direita, empenhadas num rompimento deliberado com o status quo. Daí em diante, uma nova guerra mundial era rotineiramente prevista.

Novembro 24, 2007

Eu decidi abrir o blog com o livro Era dos Extremos O breve século XX (1914-1991), de Eric Hobsbawm (Companhia das Letras, 1996). Abaixo, segue o resumo das sete primeiras páginas do capítulo inicial (da 29 a 35), batizado de A Era da Guerra Total. Este capítulo inaugura a primeira das três partes da obra: A Era da Catástrofe. Vamos ao que interessa:

Em 1914, não havia grande guerra fazia um século. Houvera apenas uma guerra em que mais de duas grandes potências haviam combatido, a Guerra da Criméia (1854-1856), entre a Rússia, de um lado, e a Grã-Bretanha e a França, do outro. Entre 1815 e 1914, nenhuma grande potência combateu outra fora de sua região imediata, embora expedições agressivas de potências imperiais ou candidatas a imperiais contra inimigos mais fracos de ultramar fossem, claro, comuns. A maioria dessas expedições resultava em lutas espetacularmente unilaterais, como as guerras dos EUA contra o México (1846-1848) e a Espanha (1898) e as várias campanhas para ampliar os impérios coloniais britânico e francês, embora de vez em quando a escória reagisse: os franceses tiveram de se retirar do México na década de 1860 e os italianos da Etiópia, em 1896. Entre 1871 e 1914, não houvera na Europa guerra alguma em que exércitos de grandes potências cruzassem

em 1896. Entre 1871 e 1914, não houvera na Europa guerra alguma em que exércitos de
em 1896. Entre 1871 e 1914, não houvera na Europa guerra alguma em que exércitos de

alguma fronteira hostil, embora no Extremo Oriente o Japão tivesse combatido, e vencido, a Rússia (1904-1905), apressando com isso a Revolução Russa.Os grandes participantes do jogo internacional da época eram os EUA, o Japão e as seis “grandes potências” européias: a Grã-

Bretanha, a França, a Rússia, a Áustria-Hungria, a Prússia (após 1871, ampliada para Alemanha)

e, depois de unificada, a Itália. A 1ª Guerra Mundial envolveu todos os Estados europeus, com

exceção da Espanha, dos Países Baixos, dos três países da Escandinávia e da Suíça. Quanto à 2ª Guerra Mundial, esta envolveu praticamente todos os Estados independentes do mundo, embora as repúblicas da América Latina só tenham participado de forma mais nominal. Com exceção da futura República da Irlanda e de Suécia, Suíça, Portugal, Turquia e Espanha, na Europa, e talvez do Afeganistão, fora do continente europeu, todo o globo foi beligerante ou ocupado, ou as duas coisas juntas.

Das 74 guerras internacionais travadas entre 1816 e 1965, classificadas por especialistas americanos pelo número de vítimas, as quatro primeiras ocorreram no século XX: as duas guerras mundiais, a guerra do Japão contra a China (1937-1939), e a Guerra da Coréia. Cada uma delas matou mais de um milhão de pessoas em combate. A maior guerra internacional documentada do século XIX pós-napoleônico,

entre Prússia-Alemanha e França, em 1870-71, matou talvez 150 mil pessoas, uma ordem de magnitude mais ou menos comparável às mortes na Guerra do Chaco, de 1932 a 1935, entre Bolívia e Paraguai. Em suma, o ano de 1914 inaugurou a era do massacre. Na 1ª G.M., o plano alemão era liquidar rapidamente a França no Ocidente e depois partir com igual rapidez para liquidar a Rússia no Oriente.

A Alemanha planejava uma campanha-relâmpago, o

que seria, na 2ª G.M, chamado de blitzkrieg. O plano quase deu certo. O exército alemão avançou sobre a França, atravessando a Bélgica, neutra, e só foi detida algumas dezenas de quilômetros a Leste de Paris, junto ao rio Marne, cinco ou seis semanas depois de declarada a guerra (em 1940, o plano viria a dar certo). Em seguida, recuou um pouco, e os dois lados improvisaram linhas paralelas de trincheiras e fortificações defensivas, que pouco depois se estendiam, sem interrupção, da costa do Canal, em Flandres, até a fronteira da Suíça. Nos três anos e meio que se seguiram não houve mudança significativa de posição.

Essa era a “Frente Ocidental”, que se tornou uma máquina de massacre sem precedentes na história da guerra. A tentativa alemã de romper a barreira em Verdun, em 1916 (fevereiro-julho), foi uma batalha de 2 milhões de homens, com 1 milhão de baixas. Fracassou. A ofensiva britânica no Somme, destinada a forçar os alemães a suspender a ofensiva de Verdun, custou a Grã-Bretanha 420 mil mortos, 60 mil no 1º dia de ataque. Os franceses perderam 20% de seus homens em idade militar. Os britânicos perderam uma geração: meio milhão de homens com menos de 30 anos. Os EUA, por sua vez, perderam entre 2,5 e 3 vezes mais homens na 2ª G.M do que na 1ª G.M., onde atuaram um ano e meio e só na Frente Ocidental. Os horrores da guerra na Frente Ocidental dariam origem a uma classe de ex- soldados responsável pela formação das primeiras fileiras da ultradireita do pós-guerra. Adolf Hitler era apenas um desses homens para quem ter sido um frontsoldat era a experiência formativa da vida. A primeira batalha naval da 1ª G. M. foi travada em 1914, ao largo das ilhas Falkland, e as campanhas decisivas, entre submarinos alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A guerra naval foi global.

alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A
alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A
alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A
alemães e comboios aliados, deram-se sobre e sob os mares do Atlântico Norte e Médio. A

Ambos os lados usaram os novos e ainda frágeis aeroplanos na 1ª G. M. A guerra aérea atingiria a maioridade na 2ª G.M., notadamente como um meio de aterrorizar civis. Não se pode deixar de citar também o pioneirismo britânico no uso dos veículos blindados de esteira. De fato, os dois lados tentaram vencer pela tecnologia. Os alemães levaram o gás venenoso ao campo de batalha, ocasionando o único caso autêntico de repulsa humanitária governamental a um meio de fazer a guerra, a Convenção de Genebra de 1925, pelo qual o mundo se comprometia a não usar guerra química. De fato, ela não foi usada por nenhum dos lados na 2ª G. M., embora os sentimentos humanitários não impedissem que os italianos lançassem gás sobre os povos coloniais. O acentuado declínio dos valores da civilização após a 2ª G. M. acabou trazendo de volta o gás venenoso durante a Guerra Irã-Iraque, nos anos 80. Após a guerra, tornou-se bastante evidente para os políticos que os banhos de sangue de 1914-1918 não seriam mais tolerados pelos eleitores. A estratégia pós-1918 da Grã-Bretanha e da França, tal como a estratégia dos EUA no pós-Vietnã, baseava-se nessa crença. A curto prazo, isso ajudou os alemães a ganhar a 2ª G.M. no Ocidente em 1940. A longo prazo, os governos democráticos não resistiram à tentação de salvar as vidas de seus cidadãos, tratando as dos países inimigos como totalmente descartáveis. O lançamento da bomba atômica sobre Hiroxima e Nagasaki, em 1945, não foi justificado como indispensável para a vitória, então absolutamente certa, mas como um meio de salvar vidas de soldados americanos. É possível que a idéia de que isso viesse a impedir a URSS de reivindicar uma participação preponderante na derrota do Japão tampouco estivesse ausente do pensamento do governo americano. Enquanto a Frente Ocidental permanecia num impasse sangrento (e romper este impasse era crucial para os dois lados, ainda mais que a guerra naval também estava empatada), a Frente Oriental continuava em movimento. Os alemães pulverizaram uma canhestra força de invasão russa na batalha de Tannenberg, no primeiro mês da guerra, e depois, com a ajuda por vezes efetiva dos austríacos, empurraram a Rússia para fora da Polônia. Apesar de ocasionais contra-ofensivas russas, ficou claro que as Potências Centrais tinham o domínio e que a Rússia travava uma ação defensiva de retaguarda contra o avanço alemão. Nos Bálcãs, apesar do desempenho militar irregular do pétreo império habsburgo, o controle era das Potências Centrais. Os beligerantes locais, Sérvia e Romênia, sofreram de longe as maiores perdas militares. Os aliados, apesar de ocuparem a Grécia, não fizeram progresso até o colapso das Potências Centrais, após o verão de 1918. O plano da Itália de abrir outra frente contra a Áustria-Hungria nos Alpes falhou. Enquanto a França, a Grã-Bretanha e a Alemanha sangravam até a morte na Frente Ocidental, a Rússia se via cada vez mais desestabilizada pela guerra que estava perdendo a olhos vistos e o império austro-húngaro cambaleava para o desmoronamento.

pela guerra que estava perdendo a olhos vistos e o império austro-húngaro cambaleava para o desmoronamento.
pela guerra que estava perdendo a olhos vistos e o império austro-húngaro cambaleava para o desmoronamento.
pela guerra que estava perdendo a olhos vistos e o império austro-húngaro cambaleava para o desmoronamento.