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Traduzido por Fabio Fernandez e publicado pela editora Ática.

Dean me convidou

Para sair no Dia dos Namorados

e roubou meu

coração. Mas aí eu

descobri que ele é de Gêmeos

- a pior combinação

amorosa possível para mim (sou de Escorpião). Com o zodíaco Todo para escolher, Por que fui logo me apaixonar por alguém do signo mais incompatível com o meu?

RESUMO

Um amor condenado pelas estrelas

- E então, Dean, qual é o seu signo? – perguntei.

Eu tinha certeza de que ele era de Touro, a combinação astrológica perfeita para mim.

- Você está mesmo muito envolvida com esse negócio de astrologia, não é? – Dean retrucou, seus belos olhos cinzentos olhando no fundo dos meus. Confirmei com um gesto na cabeça.

- Mas você está se esquivando da minha pergunta. Simplesmente me diga qual é o seu signo.

- Tudo bem, tudo bem. Se é tão importante para você

Eu não podia acreditar naquilo. Dean Smith, o amor da minha vida, era um geminiano! O pior signo possível para uma garota de Escorpião como eu! Pouco tempo antes um traiçoeiro geminiano de duas caras tinha me magoado muito. Desde então, havia prometido para mim mesma que nunca mais deixaria isso acontecer. Portanto, agora só me restava uma coisa a fazer: eu precisava romper com Dean

Sou de Gêmeos.

um

1

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro) Pare de viver no passado e olhe para o amanhã. Sua recompensa poderá ser um novo amor. Mas velhos hábitos são difíceis de mudar, especialmente os que têm a ver com o coração. Alguém de Touro aparecerá na sua vida para curar antigas mágoas.

- Não sei não - murmurei enquanto olhava para meu reflexo no grande espelho da cabine.

- Acho que este vestido está meio exagerado

Girei o corpo para que minha melhor amiga, Jayne Engerman, pudesse me ver por inteiro.

- O que você acha?

- O que eu acho, Natalie Taylor, é que você é muito cheia de pudores - Jayne exclamou. -

O que há de tão exagerado em usar um vestido vermelho no baile do Dia dos

Namorados?

Jayne e eu estávamos num provador da Kleinfeld's, uma das lojas de departamentos mais conhecidas de Seattle. E estávamos começando a nos sentir como se estivéssemos encarceradas naquele cubículo espelhado fazia vários dias.

O bom humor de Jayne se dissipava rapidamente, e eu não podia culpá-la por aquele

começo de rabugice. Ela estava sentada no chão fazia quase uma hora, com os joelhos dobrados contra o peito para me dar todo o espaço possível. O tamanho dos provadores das lojas de roupas é um dos grandes crimes do universo. Na lista dos piores, fica bem perto das salas de espetáculos e dos estádios/ que nunca têm boxes suficientes no banheiro feminino. Se eu fosse projetar um provador, sem dúvida incluiria no desenho uma cadeira para o acompanhante. Afinal, quem vai fazer compras “sozinho”? Seria um saco, não é mesmo?

- Não estou falando da cor! - rebati, voltando a olhar para o espelho. - É que parece que

acabei de ser pintada com um spray de festa líquida. Eu não podia negar que o vestido realçava voluptuosamente a minha silhueta. Minha cintura parecia menor, e como a barra ficava pouco abaixo da bunda, minhas pernas pareciam mais compridas. Meus cabelos (que, para mim, têm cor de lama, mas que os outros dizem ser castanho) e meus olhos castanho escuros se destacavam contra o vermelho berrante da lycra. Minha pele até parecia levemente bronzeada, o que era um milagre, considerando-se que moro em Seattle, também conhecida como a Capital Ocidental da Chuva. Mesmo assim, na minha opinião, com aquela roupa eu parecia mais uma aspirante a apresentadora da MTV do que uma garota vestida para um baile de colégio. Jayne analisou o vestido por um instante.

- A lycra quase nunca é elegante - proclamou. - Ao contrário da seda, não deixa nada para a imaginação.

Concordei com Jayne, mas já estava tão desesperada para encontrar o traje perfeito para o baile, que chegara a acalentar a esperança de que minha amiga me convencesse de que aquela era a roupa certa para mim.

_ Por que você simplesmente não diz de uma vez que estou parecendo a Ordinária do Ano, e pronto? - cutuquei. Jayne encolheu os ombros.

_ Você está parecendo a Tanya Wright, o que é ainda pior

do que a Ordinária do Ano.

Agora eu tinha certeza de que Jayne realmente estava de mau humor. Ela sabia muito

bem que a simples menção do nome de Tanya era suficiente para tirar meu apetite por uma semana. Mas decidi ignorar o comentário e manter meus pensamentos concentrados onde deviam estar: em Dean Smith. Para mim, o fato de Dean ter me convidado para sair era um verdadeiro milagre - especialmente considerando tudo o que já tinha acontecido entre nós dois. Ou, para ser mais precisa, o que não tinha acontecido.

- Bom, espero não ter estragado esta coisa - disse, agachando-me para puxar o vestido para cima.

- E tomara que você consiga se livrar dele sem estragá-lo Jayne emendou.

Puxei o vestido com força, tentando tirá-lo por cima. Mas me vi aprisionada numa intrincada armadilha de lycra.

- Jayne, você tem de me ajudar! - implorei. - Acho que este troço tem vida própria!

Não é à toa que Jayne é minha melhor amiga. Mesmo quando está de baixo-astral ou mal-humorada, posso contar com ela. Provavelmente porque é de Peixes. Os piscianos são muito leais e sensíveis. O lema deles é “Eu acredito”.

Quanto a mim, sou de Escorpião. O nosso lema é “Eu desejo”. Somos governados pelo coração, passionais e de sangue quente. E naquele momento esta escorpiana aqui estava começando a achar que ficaria para sempre com o maldito vestido colado ao corpo.

Vi todo um futuro em lycra vermelha berrante desfilar diante de meus olhos. Seria

destaque nas paradas da Festa do Morango e da Festa do Tomate. E no Natal calçaria botas pretas e arranjaria trabalho nos shoppings como um dos duendes ajudantes do Papai

Noel.

- Imagino que você não tenha aí um abridor de latas, não é, Jayne? - perguntei. - Ou uma tesoura bem afiada Ela fez que não com a cabeça.

- Fique calma, Natalie. Vou tentar uma coisa. Jayne agarrou com firmeza a barra do vestido.

- Levante bem os braços - avisou. - Quando eu contar até

três, vou puxar esta coisa por cima da sua cabeça de uma vez só. - Vamos torcer para funcionar - murmurei.

-

Levantei os braços bem acima da cabeça e, então, me inclinei para a frente, enquanto Jayne puxava com força o material escorregadio. Em poucos segundos o vestido estava fora do meu corpo l' jazia num canto do provador como o cadáver vermelho-vivo de um monstro extraterrestre.

- Acho que o matamos - Jayne concluiu. Livre da opressão, eu finalmente respirei fundo.

Um

dois

três!

- Foi um golpe de misericórdia, Jayne - eu disse. - O doutor Kevorkian, aquele da eutanásia, ficaria orgulhoso de nós. Ela riu.

- Suicídio assistido na seção juvenil da Kleinfeld's - anunciou, na sua melhor imitação de âncora de telejornal. - Veja a reportagem completa às seis.

- Em primeiro lugar, eu nunca deveria ter trazido esta coisa aqui para o provador. Não sei o que me deu. Peguei o vestido, que agora parecia inofensivo, e o recoloquei no cabide.

- Desespero fashion - Jayne diagnosticou.

- Pode

Jayne suspirou.

- Desculpe meu mau humor, Natalie. É que

É que

De repente, meu drama me pareceu insignificante. Eu sabia por experiência própria que não há nada mais deprimente do que não ter um par para um baile. E Jayne não tinha.

Na minha opinião, Jayne é linda. Ela tem cabelos loiros sedosos e brilhantes e enormes olhos azuis. Mas se sente mais à vontade com um livro que com um garoto. Jayne tem o mau hábito de se vestir do jeito mais insípido e menos atraente possível, para passar despercebida. O que, convenhamos, não é a melhor forma de se conseguir um parceiro para coisa alguma, muito menos para um baile de Dia dos Namorados.

- Bom - eu disse, tentando soar animadora -, pelo menos você não vai gastar uma nota preta num vestido maravilhoso, que acaba usando uma vez só e nunca mais.

- E pelo andar da carruagem, você também não.

Ela tinha razão. Se eu não encontrasse logo a roupa perfeita, teria de acabar me virando

com o que já estava pendurado no meu guarda-roupa. Desolada, balancei a cabeça.

- Não sei o que há de errado comigo. Nunca tenho dificuldade para comprar roupas -

lamentei enquanto vestia minha camiseta regata roxa. - Simplesmente não entendo por que não consigo encontrar nada que me agrade.

- Talvez você esteja nervosa - Jayne sugeriu.

- Claro que estou nervosa! - respondi através da grossa lã do suéter preto de gola

olímpica, no qual agora eu tentava me enfiar. - Já estraguei as coisas com Dean uma vez. Não posso deixar que aconteça de novo.

- Você não estragou coisa nenhuma - Jayne ralhou. - O que aconteceu com Garth foi algo

totalmente inesperado. Ninguém poderia culpá-la por aquilo. No começo do ano letivo, Dean era aluno novo na escola. E desde o instante em que eu pusera os olhos nele, na primeira aula de inglês do ano, algo batera entre nós dois. Eu tinha atravessado docemente o primeiro mês de aulas, flutuando numa deliciosa neblina de boas expectativas, sonhando acordada com aquela mecha de cabelos escuros que sempre caía pela testa perfeitamente modelada de Dean. E com aquele não-sei-o-que que sempre parecia estar escondido no fundo de seus olhos cinzentos. Desde o começo eu tinha certeza de que ele iria me convidar para sair. Só não sabia quando. Mas então aconteceu algo que me fez esquecer até mesmo que Dean existia. Tanya Wright tinha rompido com Garth Hunter. O namoro de Tanya e Garth sempre havia sido a fofoca predileta do segundo ano colegial. Só que, apesar de os dois viverem

- murmurei, vestindo minha calça jeans.

- ela fez uma pausa e se olhou no espelho. -

eu bem que gostaria de estar escolhendo um vestido para mim também.

brigando, ninguém jamais esperava que um dia eles pudessem desmanchar o namoro. E quando eles realmente terminaram, eu com certeza não esperava que o impensável acontecesse. Mas aconteceu. Garth começou a dar em cima de mim. Eu era vidrada em Garth Hunter desde que me conhecia por gente. Provavelmente desde que aprendera a respirar. Bastou apenas uma palavra, um olhar de Garth, e Dean Smith tornou-se passado. Ainda que Dean tivesse três cabeças e três pares de maravilhosos olhos cinzentos, eu nunca teria notado. Naquele momento, Garth era o único cara que eu conseguia enxergar no universo.

Infelizmente, também não consegui enxergar que nossa relação seria para ele pouco mais

que uma brincadeira. Saímos algumas vezes e nos divertimos bastante

foi o que me pareceu. Mas, como logo descobri, Garth só estava me usando para

reconquistar Tanya. Assim que ela voltou rastejando, ele me chutou.

- Natalie

percebera que, naquele momento, toda a minha sofrida história com Dean e Garth

desfilava diante dos meus olhos como num filme. - Você só cometeu um erro -

prosseguiu ela. - Todo mundo comete erros. E não parece que Dean esteja querendo jogar nada na sua cara. Então, por que ficar de baixo-astral por causa disso?

- Porque sou de Escorpião - respondi abatida.

- Ah, não, você prometeu! Nada de astrologia enquanto

estivermos fazendo compras! - protestou Jayne. A astrologia é o único ponto em que minha amiga e eu não concordamos. Para mim, é a explicação perfeita para quase tudo. Para ela, não passa de um monte de bobagens. Mas, no fim, foi a astrologia que me ajudou a superar a história com Garth. Estudar os

astros e o alinhamento dos planetas me fez entender a importância de olhar além da aparência de uma pessoa, para descobrir como ela é por dentro. Alguns usam suas noções de psicologia para tentar dissecar a personalidade das pessoas presentes em suas vidas. Eu prefiro me concentrar nas características do signo zodiacal de cada um. Se eu já estivesse envolvida com astrologia antes de ser idiota o bastante para sair com Garth, teria sabido de antemão que nosso relacionamento estava fadado ao desastre. Nossos signos são totalmente incompatíveis! Eu sou de Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro). Ele é de Gêmeos (21 de maio a 20 de junho). Os geminianos são encantadores, mas totalmente imprevisíveis. E no caso de Garth, imprevisível é sinônimo de não-confiável. Geralmente, eu argumentava com Jayne para tentar mudar sua visão limitada da astrologia. Mas agora eu simplesmente não estava com tempo. Se não encontrasse logo um vestido para o baile, teria de passar o resto da tarde com um bom dicionário nas mãos, tentando encontrar o nome de alguma doença muito rara de que ninguém jamais tivesse ouvido falar. Então tossiria até ficar Então tossiria até ficar rouca ligaria para Dean e lhe diria que teríamos de cancelar o nosso compromisso. Mas eu não queria fazer nada daquilo. Queria sair com Dean. dizia muito tempo que não queria tanto uma coisa.

- Natalie, quanto a essa história de não ser capaz de encontrar um vestido - começou

ou pelo menos

- Jayne começou com uma voz serena e compreensiva, provavelmente porque

Jayne -, no que você estava pensando enquanto olhávamos as vitrines? A resposta era óbvia. - Em Dean, lógico!

- Ah-Ah! - Jayne exclamou.

Quase pude ver uma lâmpada se acendendo acima de sua cabeça.

- E o que exatamente significa esse "ah-ah"? - perguntei.

Às vezes eu tinha dificuldade para acompanhar a linha de raciocínio de Jayne. Minha

amiga tende a ser um pouco abstrata.

- É isso! - ela continuou. - Você andou se concentrando na coisa errada. Ficou tentando imaginar do que Dean gostaria.

- Ué, claro que tentei imaginar do que Dean gostaria! Ele é o meu par, Jayne.

- Mas nós já sabemos do que Dean gosta - ela insistiu.

- Sabemos?

- Natalie! - Jayne exclamou, naquele tom de voz que sempre

usa quando eu me mostro incapaz de entender o que ela considera um problema matemático perfeitamente simples e óbvio (embora não exista nenhum problema

matemático simples e óbvio, na minha opinião). - Ora bolas, Natalie, o Dean gosta de você! Pensei por um momento no que ela acabara de dizer. Talvez tivesse razão. Talvez o motivo de nenhuma roupa ter me parecido boa o bastante fosse eu estar me esforçando demais para agradar Dean.

- Você quer dizer que, se eu me limitar a escolher aquilo de

que eu gosto, Dean automaticamente vai gostar também? - É! - ela confirmou com um gesto de cabeça.

- Mas isso parece simples demais!

- Você sabe o que dizem sobre a distância mais curta entre

dois pontos, não sabe? - Jayne perguntou, cruzando os braços. Mordi meu lábio.

- Que sempre há alguma coisa no caminho para atrapalhar? - retruquei.

- Na sua vida, provavelmente sim - ela respondeu rindo.

- No mundo real, não.

- Tá, tudo bem - cedi. - Já entendi. Vou tentar pensar menos

e simplesmente procurar um vestido de que eu goste mais. - E, depois de uma pausa, completei: - Bom, então vamos lá. Nova tentativa. Estou querendo alguma coisa bem feminina e sexy.

- Mas que não seja chamativa demais - acrescentou Jayne. Concordei com a cabeça.

- E que tenha um toque de mistério

De fato, aquela descrição parecia muito boa. Eu estava pronta

viesse. Na noite de sexta-feira, fiquei sentada na minha cama, ouvindo a chuva pingar do beiral por fora da janela. Esperava com impaciência que o relógio digital no meu criado-mudo marcasse meia-noite. À meia-noite já seria catorze de fevereiro, dia de São Valentim, que é o nosso Dia dos Namorados. E dia do meu primeiro programa com Dean. Eu não pretendia ficar acordada até tão tarde. Estava até preocupada, imaginando se teria insônia. Afinal, não queria ir ao baile do dia seguinte parecendo um guaxinim. Mas o

para o que desse e

sono não queria chegar, e eu tinha desistido de forçar a barra. Além do mais, achei que, como ainda continuava acordada à meia-noite, podia me permitir ler meu horóscopo para o Dia dos Namorados.

Antigamente eu lia meu horóscopo só por diversão. Mas isso antes de me envolver a sério com astrologia. Agora dou muita importância à leitura do horóscopo. É a primeira coisa que faço todos os dias.

É uma experiência muito instrutiva. Me ajuda a ver como tudo no universo está

conectado. A posição de uma estrela ou de um planeta em relação ao sistema solar passou

a ter a capacidade de influir seriamente na minha vida.

Claro que, naquela noite, havia uma razão especial para eu querer ler o meu horóscopo para o Dia dos Namorados. Queria ver se haveria nele algo relacionado ao 'meu programa com Dean na noite seguinte. Dei uma olhadela para o relógio digital em cima do criado-mudo. Sempre achei que dá azar ler o horóscopo antes da hora, mesmo que seja só um segundinho antes. Os números verdes do relógio marcavam 23:59. Mudaram em seguida para 00:00. Finalmente. A espera tinha terminado. Abri a gaveta do criado-mudo e peguei o horóscopo. Os escorpianos são os nascidos entre 23 de outubro e 21 de novembro. Mas, como todo estudante de astrologia sabe, essas datas não são uma coisa absolutamente rígida. Em certos anos elas chegam a variar em um dia. Tudo depende da posição das estrelas e dos planetas no céu. Alguns simples minutos a mais ou a menos têm a capacidade de determinar sob qual signo uma pessoa nasce. E se ela nascer no limite, há boas chances de que tenha características de ambos os signos: o signo cujo período acabou de terminar e aquele cujo período está começando. Mas eu não tinha de me preocupar com nada disso. Nasci em

cinco de novembro, bem no meio do período de Escorpião. Os escorpianos sentem as coisas com mais intensidade que a maioria das pessoas, à exceção talvez dos leoninos. O Escorpião é também um signo fixo. Isso significa que somos teimosos, concentrados e perseverantes. Uma vez tomada uma decisão, não voltamos atrás. Pare de viver no passado e olhe para o amanhã, meu horóscopo avisava. Sua recompensa poderá ser um novo amor. Mas velhos hábitos são difíceis de mudar, especialmente os que têm a ver com o coração. Alguém de Touro aparecerá na sua vida para curar antigas mágoas. Coloquei o jornal de lado, refletindo sobre aquela previsão. No geral, soava bastante boa, sobretudo aquela frase a respeito de um novo amor. E o fato

de que poderia surgir um taurino em cena era mesmo ótimo. O signo de Touro (20 de abril a 20 de maio) é o meu complemento astral. Meu par perfeito no plano astrológico. Os taurinos são muito práticos e pé-no-chão. É um signo de terra fixo, o que faz deles a compensação perfeita para os escorpianos: um signo de terra fixo proporcionando base sólida a um signo de água fixo. Pensei comigo que precisava me lembrar de confirmar se Dean era realmente de Touro. Mas eu não tinha muita dúvida. Todos os meus instintos diziam que era. Ele não tinha desistido de mim durante toda aquela história horrível com Garth Hunter. E, além disso, tinha me convidado para o baile

- Natalie, espere um pouquinho! - Dean chamou-me duas semanas atrás, quando eu subia

a escadaria na entrada do nosso colégio, o Emerald High School.

Por ser muito verde, Seattle é chamada de Emerald City _ a cidade esmeralda. Daí a origem do nome da nossa escola. Mas os estudantes da Emerald garantem que a escola ganhou esse nome por outra razão: o limo verde que sempre parece estar escorrendo das paredes dos banheiros.

A jaqueta de Dean estava molhada e havia gotas de chuva em seus cilios. Fiquei

maginando se ele podia ouvir meu coração, que de repente disparara. Fazia tempo que eu andava tentando encontrar uma maneira de mostrar a ele que eu já tinha superado toda aquela história com Garth, mas não conseguira bolar nenhum plano consistente. Na verdade, Dean nunca chegara sequer a me convidar para sair. Portanto,

não era que eu tivesse dado um fora nele, nem nada parecido. Era mais como ter dado um fora na possibilidade de ter algo com ele.

- Será que nunca pára de chover nesta cidade? – Dean reclamara enquanto a porta da escola batia atrás de nós.

- Não em fevereiro - respondi. - No ano passado choveu em vinte e seis dos vinte e oito dias do mês.

- Essa não - ele disse. - Vou voltar para o Arizona. Lá, a gente gosta de uma boa tempestade, mas de areia. Rindo, eu caminhava na direção da classe de inglês.

- Natalie - Dean recomeçara, atrás de mim. - Eu andei pensando

Eu me detive, voltando-me em sua direção. O rosto de Dean parecia um pouco tenso, mas muito determinado.

-

Você já tem companhia para o baile do Dia dos Namorados?

E

foi assim que aconteceu. Nada de querer fazer com que eu me sentisse mal pelo que

ocorrera ou deixara de ocorrer entre nós. E Absolutamente nenhuma menção a Garth Hunter. Naquele instante eu soube que Dean era de Touro. Ele não tinha ficado magoado nem fora agressivo. Mantivera-se o tempo todo de cabeça erguida e equilibrado, no clássico estilo taurino. Imediatamente eu soube que meu instinto não havia se enganado com relação a Dean. Nós poderíamos ter um futuro juntos. Mas então, o que quer dizer esse negócio de estar vivendo no passado?, perguntei a mim mesma, relendo meu horóscopo no jornal. Fiquei pensando naquela previsão por alguns minutos, enquanto olhava para os números no meu relógio, que agora já marcava 00:30. Finalmente saí da cama. O chão de madeira estava frio, mas nem pensei em calçar os chinelos. Eu tinha uma missão a cumprir. Atravessei o quarto na ponta dos pés e abri a gaveta inferior da cômoda. Escondida debaixo das minhas camisetas, que esperava pacientemente pelo próximo verão, havia uma velha caixa de papelão com gravuras douradas na tampa. Levei-a comigo de volta para a cama. Com delicadeza, levantei a tampa.

Dentro da caixa jaziam todas as lembranças da minha relação com Garth.

E a maior parte era composta de recortes do jornal da escola. Eu tinha guardado tudo o

que já fora publicado nele a respeito de Garth Hunter. Havia um artigo sobre sua candidatura à presidência do grêmio estudantil (ele perdera, mas não ficara nada constrangido com a derrota). E um outro, com uma foto que o mostrava sentado no banco de reservas, depois de ter sido expulso de um jogo de basquete. Mas a lembrança de que eu maIs gostava era uma foto de nós dois juntos. Fora tirada no último outono, na festa de boas-vindas aos alunos novos.

O braço de Garth envolvia meus ombros. Ele sorria para a câmara. Eu sorria para ele.

Havia tanto amor em meu rosto que até um cego poderia enxergar isso. Mas, com exceção daquela expressão no meu rosto, tudo o mais naquela fotografia tinha

sido uma farsa.

A foto publicada no Emerald Times tinha sido a vingança de Garth contra Tanya. Uma

prova material de que ele não se importava com o fato de ela ter dado o fora nele.

E quando Tanya viu a foto de Garth abraçando outra garota estampada na primeira página

do jornal da escola, fez exatamente o que Garth queria: voltou rastejando para ele. Por que eu ainda guardo estas coisas?, perguntei a mim mesma, enquanto olhava para a zombeteira expressão de triunfo no rosto de Garth. Mesmo agora, olhar para aquela foto

ainda me dava um aperto no coração. Não por ter perdido Garth, mas por ter sido tão idiota. Desde o começo eu deveria ter sido esperta o bastante para perceber que Garth não passava de um monte de escória. Meu horóscopo está certo, pensei. De fato, eu ainda não estava andando para frente. Enquanto continuasse agarrada àquelas lembranças de Garth, continuaria vivendo no passado. Saí de novo da cama, agora calçando meus felpudos chinelos vermelhos. Vesti meu robe de algodão atoalhado também. Desci as escadas na ponta dos pés, tomando cuidado para não acordar meus pais. Não tinha a menor vontade de explicar a minha mãe por que estava vagando pela casa àquela hora da noite, com uma caixa de papelão debaixo do braço. Mas sabia o que tinha que fazer. Fui para a cozinha, levantei a tampa da lata de lixo e esvaziei nela todo o conteúdo da minha caixa de lembranças de Garth Hunter.

O passado estava morto. Era hora de enterrá-lo.

Peguei uma velha espátula numa gaveta do armário da cozinha e, com ela, fui empurrando cuidadosamente cada uma das fotos de Garth para debaixo de uma grossa camada de pó de café molhado.

2

DEAN

Gêmeos (21 de maio – 20 de junho) Recomeço! A oportunidade pela qual você esperava está bem aí na esquina. Agora é a sua hora de reparar velhos erros. Mas não deixe que seu entusiasmo o desvie do caminho certo. Quando estiver em dúvida, dê-se um tempo.

Você está parecendo um babaca, disse a mim mesmo no espelho do banheiro. Eu tentava

sem sucesso enfiar o dedo indicador entre o colarinho excessivamente apertado da camisa

e meu pomo-de-adão. Para que toda essa bobagem de traje a rigor, afinal? Os

publicitários levam as pessoas em geral a acreditar que os smokings fazem um cara parecer romântico. Mas, na minha opinião, a única coisa que realmente fazem é suprimir

a capacidade – para não dizer a vontade – de o sujeito respirar.

- Você está mesmo parecendo um pouco híspido – disse John Muirhead, meu melhor

amigo, enquanto me observava da porta do banheiro. Híspido?, pensei. A média de John na escola é 9,5. Ele gosta de usar um tipo de vocabulário que normalmente só pode ser encontrado nos melhores dicionários.

- Me sinto como se estivesse sendo estrangulado até a morte – gemi.

- Você está parecendo um almofadazinha! – meu irmãozinho, Randy, gritou de seu quarto.

- Almofadinha – corrigiu Roy, seu irmão gêmeo.

Do lado de fora da porta, ouvi John emitindo estranhos sons abafados, como se estivesse engasgado. Supus que era por estar tentando não rir. Por alguma razão misteriosa, John acha meus irmãozinhos gêmeos terrivelmente divertidos. Com certeza, por que não tem de viver com eles.

- Sabe que seus irmãos têm razão, Dean? – disse John. – Com essa roupa, acho que você ficaria muito bem no joelho de um ventríloquo.

- Almofa-Dean! – gritou Roy.

Ouvi uma explosão de gargalhadas. Ótimo. Agora eu ia ter de passar no mínimo os próximos seis meses sendo chamado de “Almofa-Dean”.

- Muito obrigado pelo estímulo à criatividade dos meus irmãos, John – resmunguei.

- Não há de quê.

Eu finalmente dera um jeito de enfiar meu dedo pelo colarinho. Dei um puxão e o nó da gravata, que eu passara os últimos vinte minutos aperfeiçoando, se desfez. Agora, pelo menos, eu conseguia respirar. Deve haver algum truque, pensei, enquanto lutava para refazer o nó. Algum macete que todos os homens do universo sabem, menos eu. E comecei a me arrepender profundamente de não ter comprado uma gravata simples de presilha que vira na casa de

aluguel de smokings.

- De onde eu tirei essa idéia de que poderia gostar de ir a um baile de gala? – grunhi para John. – Você poderia por favor refrescar minha memória?

- Nenhum jovem americano com sangue nas veias quer ir a um baile de gala – John

respondeu. – Você simplesmente estava disposto a fazer esse sacrifício para não perder a sua melhor chance nos últimos tempos de convidar Natalie Taylor para sair. John estava certo, claro. Não que eu pretendesse admitir que ele tinha lido minha mente mais uma vez. O Dia dos Namorados me parecera a chance perfeita para me aproximar de Natalie. Fazia meses que eu queria convidá-la para sair. Desde o instante em que a vira pela primeira vez, na aula de inglês. Ela estava rindo de alguma piada que tinham acabado de contar, pouco antes de eu entrar na classe. Seus grandes olhos castanhos brilhavam bem abertos e radiantes, e mesmo não tendo ouvido a piada, eu me senti como se compartilhasse de seu riso. Eis aí uma garota que eu gostaria de conhecer melhor, pensei naquele exato instante. Infelizmente para mim, durante um bom tempo não tive coragem suficiente para responder com alguma atitude concreta à atração que sentira por ela. Não gosto de fazer as coisas com pressa. Nunca tenho pressa. Prefiro agir quando sinto que tenho chão firme sob os pés. Assim, na pior das hipóteses, já sei onde vou dar com a cabeça, se cair. Minha mãe diz que o fato de eu não me apressar com as coisas é uma boa qualidade. “Devagar e sempre, a tartaruga ganhou a corrida, Dean”, ela diz. Minha mãe é cheia dos

provérbios populares. Tem um para quase toda situação. No caso de Natalie Taylor, porém, eu não só perdera a corrida como não conseguira sequer chegar à pista. Justamente na época em que eu finalmente conseguira criar

coragem para convidá-la para sair, um pequeno desvio de curso apareceu no meu caminho. Um desvio chamado Garth Hunter. Então, tive de esperar mais três meses para que Natalie pelo menos voltasse a se lembrar de que eu existia. E ainda mais um mês para convidá-la para sair, só para ter certeza de que não restara nenhuma seqüela de sua breve relação com Garth. Por fim, decidira que não podia me permitir esperar até depois do Dia dos Namorados. Mas agora o Dia dos Namorados tinha chegado, e lá estava eu me olhando no espelho do banheiro, nervosíssimo.

- Vamos lá, Dean! – John gritou. – Mais cedo ou mais tarde, você vai ter de sair daí.

Fui para o corredor.

- Ei, até que você não está tão mal – John comentou, inclinando a cabeça para um lado, como se estivesse analisando um experimento científico. Passei bruscamente por ele e me dirigi ao meu quarto.

- Obrigado – resmunguei.

Peguei minha carteira em cima da cômoda e a enfiei no bolso da calça.

- Algum dia você vai estar vestindo toda esta tralha, e então vai ser a minha vez de torturá-lo com comentários irônicos. John se sentou na minha cama.

- Eu, num smoking? De jeito nenhum! – zombou.

Me virei para encará-lo.

- Nunca diga jamais. É só uma questão de você encontrar a garota certa

John abaixou os olhos e se pôs a estudar o padrão da colcha da cama.

- Não parece que exista alguma garota para mim por aí, nem certa nem errada.

Caramba, Dean, ralhei comigo mesmo. Você tinha de lembrar ao John que ele é o Grande Solitário de Seattle. Infelizmente para meu amigo, ele tem mesmo cara de alguém cuja média na escola é 9,5. Não quero dizer com isso que John seja um CDF bitolado ou um babaca. Mas ele tem

aquele problema grave nos cabelos: o topo de sua cabeça sempre parece ter sido atingido por um raio, o que o deixa com cara de cientista maluco.

- Dean, já são quase sete horas! – anunciou a voz de minha mãe, vinda do corredor.

Sua chegada pôs fim à conversa entre mim e John.

- Você não deve se atrasar, filhinho – continuou ela, enfiando a cabeça pela fresta da

porta do meu quarto. – E não se esqueça disto – acrescentou, estendendo-me uma pequena caixa. Durante o dia, minha mãe é uma importante executiva de uma agência de publicidade. Mas assim que chega em casa, troca suas elegantes roupas de trabalho por jeans e camisetas surrados. Em homenagem ao Dia dos Namorados, naquela noite ela estava vestindo uma calça de moletom vermelho e uma malha de moletom púrpura, com inscrições douradas da Universidade de Washington. O que ela me estendia agora era uma caixinha plástica de floricultura, na qual repousava o pequeno buquê de Natalie. Minha mãe insistira para que guardássemos o buquê na geladeira, pois, segundo ela, era a

melhor maneira de conservá-lo. Mas passara o dia todo apavorada com a possibilidade de eu ir embora sem ele. Ao me ver no caro – para não dizer desconfortável – smoking alugado, ela se deteve. Assumiu de repente um olhar distante e sonhador. Era sem dúvida um momento do tipo “álbum de família”.

- Dean está parecendo um boneco de ventríloquo! – meu irmãozinho Randy, que

aparecera na porta, anunciou com um grito, quebrando o devaneio romântico de minha mãe.

- Pois eu acho que ele está maravilhoso – ela rebateu.

- Você é mãe. Tem de dizer isso – Randy replicou, enquanto se enlaçava nas pernas dela e puxava sua malha. – Podemos assistir ao filme que pegamos na locadora assim que o Dean for embora?

- Vocês alugaram um filme? – perguntei. – É isso aí, vou ficar em casa.

- Você não pode! – Randy respondeu, me mostrando a língua. – Só tem sorvete suficiente para dividir com o John. Agora que a inexorável hora de sair tinha afinal chegado, eu passara de nervosa para aterrorizado. Fazia uma eternidade que eu queria sair com Natalie e esperava por aquele momento,

mas

e se algo desse errado? Às vezes a espera por um evento acaba sendo melhor que o

evento em si. Não que eu realmente acreditasse que haveria algum problema. Não com Natalie Taylor.

- Bom, então

- A porta é ali – John apontou, com aquele sorriso zombeteiro e satisfeito de quem não ia ter de passar as próximas cinco horas procurando sustentar um bom papo com uma garota

com a qual saía pela primeira vez. Peguei minhas chaves em cima da cômoda.

- A partir deste momento, prometo que passa a ser minha prioridade número um

encontrar um par para você, para o baile de fim de ano da escola – anunciei solenemente a John.

- Divirta-se bastante, querido – disse minha mãe, enquanto eu descia. – Vou tentar não ser sentimentalóide e não ficar esperando acordada até você voltar. A cara de Roy surgiu por trás do batente da porta de seu quarto.

- Boa noite, Almofa-Dean! – ele gritou.

Enquanto descia as escadas, me perguntei se haveria neste mundo muitos caras com a sorte de ter irmãos tão adoráveis, ou se eu seria o único.

- Dean! – minha mãe me chamou lá do alto, quando eu já estava saindo. – Você não está esquecendo de alguma coisa? Parei e repassei minha lista mental. Smoking. Chaves do carro. Grana. Buquê Ooops! Eu tinha me esquecido de pegar a caixinha com o buquê de Natalie. Enquanto

subia de volta as escadas rumo ao quarto, pude ouvir as risadas de John – as dele e as da família inteira.

- Não posso acreditar nisso – eu disse, várias horas mais tarde.

Natalie e eu estávamos de pé perto da entrada do ginásio da Emerald High School, debaixo de um caramanchão decorado com rosas de seda vermelha. Por perto, algum gravadorzinho emitia sons de pássaros. Acho que a idéia era que o gorjeio ajudasse a criar

acho que é melhor eu ir indo – falei, mas meus pés não se mexeram.

o clima, mas eu mal conseguia reprimir uma tremenda vontade de rir. Ainda mais com o baixo da Ginger Ross, a banda que tocava no baile, retumbando ao fundo.

- Não consigo acreditar que deixei você me convencer a tirar esta foto – continuei.

- E eu não consigo acreditar que você esteja fazendo tanto fricote só por causa de uma

simples foto – Natalie rebateu, provocativa. Olhei para ela, tentando pensar numa réplica mordaz, mas naquele exato instante o flash

disparou.

- Ah, perfeito! – o fotógrafo exclamou.

- Viu? Não foi tão terrível, não é mesmo? – Natalie perguntou, enfiando seu braço no meu.

- Tirando estas enormes manchas brancas diante dos meus olhos, nenhum problema –

respondi. Natalie riu. O som do baile agora chegava leve e gostoso até nós. Até aquele momento, a noite havia sido um sucesso total. Natalie e eu tínhamos conversado e brincado como se nos conhecêssemos fazia muitos anos. Eu soube que as coisas iam correr bem desde o momento em que a apanhara em sua casa.

Natalie estava deslumbrante. Vestia um maravilhoso vestido preto semitransparente, que sempre me fazia querer olhar para ela uma segunda vez. E uma terceira. E uma quarta. Na verdade, sua beleza me fascinara tanto que quase me esqueci de lhe dar o buquê. Eu cheguei a me preocupar um pouco por causa das flores. Afinal, um buquê de rosas vermelhas e cravos-de-amor não era lá muito original. Mas o arranjo saíra perfeito. O buquê combinava com os botões de rosa vermelhos que lhe adornavam os cabelos.

- Tudo bem agora – o fotógrafo anunciou em meio ao falso gorjeio de pássaros. – Estamos prontos para a segunda foto.

- Olha o passarinho – sussurrei.

- Olha o passarinho! – o fotógrafo cantarolou.

Como se tivessem ouvido, os passarinhos do gravadorzinho começaram a piar

freneticamente. Dessa vez, tanto Natalie quanto eu ríamos quando o flash se apagou.

- Eu bem que gostaria que a Jayne tivesse visto isso – Natalie comentou poucos minutos mais tarde. Estávamos sentados numa pequena mesa iluminada por uma vela vermelha em forma de coração, num bistrô improvisado perto do salão de baile. A banda fazia uma pausa, e Natalie e eu tínhamos aproveitado para dar uma saída e beber um ponche.

- Jayne? Você quer dizer Jayne Engerman? – perguntei. Natalie confirmou com um gesto de cabeça.

- Ela não veio ao baile?

Natalie tomou um gole do ponche e balançou de novo a cabeça:

- Infelizmente, não. Juro que às vezes chego a pensar que todos os garotos da escola

devem ter alguma séria disfunção perceptiva. Jayne é o máximo, e nenhum deles nunca

reparou nela.

- Ei, não pense que você pode jogar toda a culpa nos garotos – protestei, sentindo

necessidade de sair em defesa do meu gênero. Não que Natalie não estivesse certa quanto a muitos caras, claro. Mas eu não poderia

deixar passar um comentário daqueles sem dizer nada, ou acabaria sendo expulso do clube da testosterona.

- Eu conheço um cara que é realmente incrível – continuei –, e nenhuma garota jamais reparou nele.

- Ah, é? Quem? – Natalie perguntou, seus olhos cintilando.

- John Muirhead.

- John Muirhead, o cara mais sabido do universo?

- Esse mesmo. John adoraria sair com alguém, mas nenhuma garota que eu conheço

olharia para ele.

- Aposto que Jayne olharia – Natalie desafiou. – Ela é tão brilhante quando John, e

provavelmente os dois têm muito em comum. Aposto que tudo o que teríamos de fazer

seria dar um jeito de eles se encontrarem, e logo cairiam aos pés um do outro.

- Isso é ridículo – falei. – Não se pode planejar um amor à primeira vista.

Claro que John e Jayne deviam saber da existência um do outro. Eu tinha certeza de que

eles assistiam a várias aulas juntos. Como John, Jayne também devia freqüentar as aulas especiais para os mais adiantados. Natalie ergueu o olhar do seu copo de ponche em minha direção, seus olhos sorrindo.

- Quer apostar?

Há uma grande idiossincrasia na minha personalidade equilibrada e tranqüila: eu simplesmente não consigo resistir a um desafio.

- Tudo bem, vamos tentar – concordei.

Afinal, o que eu tinha a perder? A pior coisa que poderia acontecer seria nós quatro nos encontrarmos, e Jayne e John ignorarem solenemente um ao outro.

- Como a gente vai fazer? – perguntei.

Natalie ficou pensando por um momento. Ao longe, ouvi a banda recomeçando. Natalie começou a bater o pé no ritmo do baixo.

- Jayne e eu vamos sair para tomar um café amanhã, mais ou menos à uma da tarde – ela

afinal respondeu. – Se você e John aparecessem casualmente no café, será que pareceria algo armado?

- Acho que não – respondi, pensando na idéia. – Especialmente se vocês duas fossem ao Bob’s Buzz Stop.

- O café e melhor no Café Luna – Natalie me informou. – Mas acho que posso encarar o Bob’s Buzz Stop em nome de um futuro grande amor.

- Ok, então estamos combinados. Amanhã à uma da tarde no Bob’s Buzz Stop.

Natalie fez que sim com a cabeça:

- Ótimo – completou. – E se eles se interessarem um pelo outro, você vai ter de me levar

ao Café Luna todas as tardes de domingo até o fim do mês.

- E se não se interessarem, você paga – emendei.

Aquilo era um excelente sinal. Natalie já estava fazendo planos para me ver de novo.

- Toque aqui – ela disse, estendendo-me a mão por cima da mesa.

Peguei a mão dela. Seus dedos estavam frios, de segurar o copo de ponche gelado.

- Bom, muito bom

vocês dois estão se divertindo bastante. Natalie olhou bruscamente para cima. Seus dedos apertaram os meus.

- Ah

Alta e magérrima, cabelo loiro oxigenado, Tanya Wright parece uma modelo. O vestido vermelho justíssimo parecia pintado em seu corpo. Notei que, à medida que Natalie

– disse uma voz feminina acima de nossas cabeças – Parece que

Oi, Tanya – ela cumprimentou sem muito entusiasmo.

reparava nos detalhes da aparência de Tanya, uma estranha expressão tomava conta de seu rosto. Eu não tinha muita certeza de quais eram as intenções de Tanya. Provavelmente só queria

fazer com que Natalie se sentisse o mais constrangida possível. Tanya é do tipo vingativo, daquelas pessoas que guardam rancor para sempre. Imaginei que ela nunca perdoaria Natalie por ter saído com Garth. Antes do baile, eu havia acalentado esperanças de conseguir evitar Garth Hunter naquela noite. Simplesmente não via nenhuma vantagem em me colocar numa situação propícia a comparações diretas entre nós dois. Garth é o tipo de cara que faz as garotas encherem diários inteiros com fantasias amorosas e suspirarem pelos corredores da escola. Comparado a ele, eu era mesmo “Dean, a tartaruga devagar e sempre”. Um braço dentro de uma manga preta de smoking serpenteou ao redor da cintura de Tanya.

- Oh, Garth, você me assustou! – ela guinchou.

Fiquei imaginando como ela conseguia inalar alguma quantidade de ar, por mínima que fosse, de tão apertado que era seu vestido. Natalie se levantou rapidamente, sua mão ainda segurando a minha com força.

- Que tal dançar um pouquinho, Dean?

Suas bochechas tinham ficado vermelhas, mas eu não sabia dizer se estava brava ou sem graça.

- Ótima idéia – respondi, levantando-me e seguindo-a rumo ao salão de baile.

- Divirtam-se, pombinhos – Garth gritou às nossas costas. – E não faça nada que eu não faria, Dean.

Eu não convidaria uma garota como Natalie para sair só para lhe dar um chute depois, pensei, se é isso o que você quer dizer. Natalie Natalie seguiu andando sem parar até o centro da pista de dança. Então, deteve-se tão de repente que quase trombei nela. Antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo, ela se virou para mim e passou os braços por cima dos meus ombros.

- Ah, Dean

A voz dela estava triste? Frustrada? Eu não sabia dizer. Abracei sua cintura e começamos a nos embalar suavemente ao ritmo da música. Enquanto a banda começava outra música lenta, disse a mim mesmo que não devia me preocupar muito com o que Natalie quisera dizer com “ah, Dean”.

– suspirou.

Dançar uma música lenta com Natalie era diferente de qualquer coisa que eu já tinha experimentado. Ela se encaixava nos meus braços como se tivéssemos sido feitos para dançar juntos. Não se pendurava em mim como se estivesse se afogando, como algumas garotas faziam. E não me apertava demais, de maneira que nossos joelhos não ficavam se trombando. Ela simplesmente se encaixava. Meus braços fechavam um círculo perfeito em torno de sua cintura. Os delas traçavam um círculo perfeito em torno do meu pescoço. Dois segundos depois de termos começado a dançar, eu já tinha me esquecido até da existência de Garth Hunter. Ele não poderia se interpor entre nós. Não quando ter Natalie em meus braços me fazia sentir tão maravilhosamente bem.

Como seria beijá-la? Olhei para aqueles lábios macios e carnudos e meu coração começou a bater mais forte. Quis beijá-la desvairadamente, até perder a razão, até me tornar para ela o único cara no planeta de cuja existência ela se lembrasse. Pouco a pouco, fui inclinando a cabeça para frente, roçando meus lábios de leve pelo pescoço dela, num movimento descendente. Um arrepio de prazer subiu-me pela espinha. Natalie deu um suspiro e inclinou a cabeça para trás. Olhei-a nos olhos. Os olhos de Natalie eram cálidos e doces, como chocolate amargo quente. Ela estava sorrindo quando seus lábios encontraram os meus. Beija-la foi como mergulhar em águas profundas. Houve um súbito choque quando nossos lábios se tocaram, seguido por um longo e lento deslizar de um oceano de prazer.

Eu podia sentir o sabor de seu batom e do ponche de cereja. A combinação era inebriante. Quase não notei quando a música terminou. Poderia ter continuado na pista para sempre, com Natalie em meus braços. Quando nossas bocas se separaram, eu não sabia ao certo se ela tinha ou não me beijado desvairadamente. Mas eu tinha.

- Então

- Tente me impedir e você vai ver só!

isso significa que você vai ser minha namorada? – sussurrei em seu ouvido.

- O céu não está deslumbrante esta noite? – Natalie disse, uma hora mais tarde. – Há estrelas por toda parte.

O baile tinha terminado, e eu estava levando Natalie para casa de carro. Meu braço estava

estendido por trás do assento do passageiro do Toyota de minha mãe. Natalie se sentara

bem pertinho de mim, com a cabeça apoiada em meu ombro. Eu podia ver seu rosto todas

as vezes que passávamos debaixo de um poste de luz.

Era tarde, e a rua margeada de árvores onde Natalie morava estava em silêncio. Enquanto

estacionava diante da casa dela, reparei que seus pais tinham deixado a luz da varandinha da entrada acesa. Outra luz brilhava num canto da sala de visitas. Me perguntei se a senhora Taylor estaria esperando acordada pela filha, como eu tinha certeza de que minha mãe estava. Pensar no beijo de boa-noite que logo nos daríamos já estava fazendo meu coração martelar com força contra o peito. Me perguntei se seria cedo demais para perguntar a Natalie se eu poderia vê-la de novo. Se daria para perguntar dali a, digamos, vinte segundos.

- É melhor não ficarmos sentados aqui fora por muito tempo – Natalie falou quando

desliguei o carro. – Minha mãe provavelmente está com a câmera de vídeo apontada para

cá.

- Isso não é nada – confidenciei baixinho. – A minha mãe comprou óculos de visão noturna hoje à tarde.

Ela se virou para me olhar de frente e penteou com os dedos as mechas dos cabelos que caíam na minha testa. Eu podia jurar que ela estava pensando numa maneira de enganar a câmera de vídeo.

- Meu pai tem acesso ao telescópio Hubble – continuou brincando.

- Você ganhou. Eu não tenho pai.

A mão de Natalie parou de se mexer na minha testa. Eu ergui minha mão e cobri seus

dedos com os meus.

Ai, meu Deus, agora eu estou

- Sinto muito, Dean, de verdade – ela disse. – Quero dizer

me sentindo uma idiota

- Não se desculpe – falei. – Você não tinha como saber. Meu pai abandonou a gente quando eu ainda era pequeno.

Os olhos castanho-escuros de Natalie estavam fixos em meu rosto.- Isso é barra. A vida

às vezes realmente é uma droga, não é?

- Às vezes – concordei.

A luz na varandinha da entrada começou a piscar. Natalie deitou sua cabeça em meu

ombro e suspirou.

- Não posso acreditar nisso! – gemeu. – Vou ter de matar meus pais.

- Eu tenho a arma perfeita – emendei. – Um dos meus irmãozinhos deixou seus tênis

fedidos no porta-malas. Assim que saímos do carro, a luz da varanda parou de piscar. Acompanhei Natalie até a entrada pelo caminho cimentado que atravessava o jardim dianteiro da casa, mas parei pouco antes da porta. Estávamos perto da luz, mas não totalmente iluminados por ela. Felizmente o sr. e a sra. Taylor não podiam nos ver com nitidez.

- Então, hã

cintura dela e puxando-a para perto do meu corpo. – À uma da tarde no Bob’s Buzz Stop? Natalie fez que sim com a cabeça.

- É melhor você ir preparado para perder.

Então, seu olhar se ergueu acima da minha cabeça.

- Dean, veja! – ela gritou, se agitando subitamente em meus braços. – Lá no alto! Uma estrela cadente! Acompanhei seus olhos bem a tempo de ver uma faixa de luz descrevendo um arco pelo céu.

- Dizem que as estrelas cadentes trazem boa sorte – Natalie sussurrou.

- Não são nada mais que poeira interplanetária entrando na atmosfera terrestre – sussurrei de volta. Natalie riu.

- Você é terrível – ela disse. – Aposto como não há uma única célula romântica em todo o seu corpo.

- Ah, há sim! – repliquei.

- Prove – ela sussurrou, aproximando um pouco mais seu rosto do meu.

Posso não ser um gênio, mas sei enxergar uma oportunidade quando ela aparece. Inclinei

a cabeça e encostei meus lábios nos de Natalie.

A gente se vê amanhã? – perguntei, passando meus braços ao redor da

-

Feliz Dia dos Namorados – murmurei baixinho.

3

Natalie

Escorpião (23 de outubro – 21 de novembro) Ciclo romântico em alta. Ênfase na sua vida amorosa e na de alguém próximo a você. Não deixe que sua apaixonada natureza escorpiana a conduza a uma busca desvairada por algo impossível. Concentre-se em seus objetivos e use suas energias para atingi-los.

- Por que viemos aqui? – Jayne perguntou, enquanto eu abria a porta do Bob’s Buzz Stop. – Você nem gosta deste lugar

- Talvez eu queira dar a ele uma segunda chance – respondi, dirigindo-me ao balcão de pedidos. – Afinal, é uma prerrogativa feminina mudar de idéia.

Olhei para os doces na grande vitrine de vidro do balcão e acabei decidindo tomar só um café com leite. Eu não queria que Dean chegasse e me encontrasse com a cara toda lambuzada de açúcar.

- Como feminista, me sinto pessoalmente ofendida com essa observação – Jayne

declarou, pedindo em seguida o seu habitual milk-shake de chocolate, grande e pouco batido. – Ela perpetua o mito de que as mulheres não têm idéias.

- Um café com leite diet para mim, duplo – pedi à mulher atrás do balcão. – Relaxe,

Jayne. Eu estava só brincando. Dei uma olhada ao redor, reparando na decoração. Até que o lugar não era tão mau. Eu nunca gostaria dali tanto quanto do Café Luna, mas tinha um certo charme desleixado. New Age techno, essa era a melhor maneira de descrever o Bob’s Buzz Stop. Pôsteres anunciando concertos de bandas de rock alternativas e de música New Age cobriam as paredes. Havia até mesmo um conjunto de computadores num dos cantos do salão. Diante dos monitores, ratos de computadores bebiam avidamente seus cafés, enquanto navegavam na internet. Foi para isso que eu saí com esta chuva? – perguntou Jayne olhando ao redor, enquanto pagávamos nossas bebidas e nos dirigíamos a uma mesa perto da janela. As nuvens haviam coberto o céu no domingo de manhã, e, quando acordei, já chovia a

cântaros. Era como se os deuses da chuva estivessem bravos pelas vinte e quatro horas completas de tempo bom no Dia dos Namorados, e agora quisessem a todo custo recuperar o tempo perdido. Do lado de dentro, as janelas do Bob’s Buzz Stop estavam embaçadas pela mistura dos vapores emanados pelos clientes e pelas máquinas de café expresso.

- Não – respondi, quando já nos acomodávamos em nossas cadeiras. – Você saiu com

esta chuva porque é minha melhor amiga e está louca para ouvir tudo a respeito do meu encontro com o Dean. E porque vai me ajudar a ganhar a minha aposta, acrescentei mentalmente. Refletindo a respeito do desafio que lançara a Dean na noite anterior, achei que talvez

fosse desonesto e de mau gosto fazer uma aposta daquele tipo em cima da minha melhor amiga. Mas felizmente conseguira me convencer do contrário, com o argumento de que a

aposta era, em última instância, pelo bem da própria Jayne, e ganhar seria secundário. O objetivo mais importante de minha missão era ajudar Jayne a se apaixonar.

- E então, como foi? – Jayne perguntou, tomando um gole do seu milk-shake.

- Fantástico, incrível, maravilhoso – respondi. – Jayne Engerman, tem creme batido no seu nariz. Ela limpou o rosto com um guardanapo.

- Fantástico, incrível, maravilhoso, isso é tudo?

- Tanya estava usando aquele vestido vermelho – prossegui.

Meu queixo tinha ido praticamente ao chão quando notei que Tanya Wright estava

vestindo a mesma roupa que eu experimentara na Kleinfeld’s. Jayne quase sufocou ao engasgar com seu milk-shake.

- Natalie Taylor, você está mentindo.

- Não senhora – retruquei. – Espere até segunda-feira de manhã. Ela provavelmente não vai ter conseguido descolar o vestido do corpo. Fiz uma pausa de uma fração de segundo.

- Jayne, justo antes de Dean me dar o beijo de boa-noite, vimos uma estrela cadente.

Felizmente para mim, Jayne está costumada às minhas súbitas mudanças de assunto nas conversas. Elas são uma das marcas registradas do signo de Escorpião.

- Espero que ela fique entalada naquele vestido para o resto da vida – Jayne respondeu. –

E, para sua informação, as estrelas cadentes não são nada mais que poeira cósmica

interplanetária entrando na atmosfera. Dean perguntou se poderia ver você de novo?

Um golpe de ar frio atingiu nossa mesa quando a porta do Bob’s Buzz Stop se abriu.

- Oi, Natalie! Oi, Jayne! – cumprimentou uma voz masculina num tom casual. – Não sabia que vocês duas também freqüentavam este lugar.

Dean estava me saindo melhor ator do que eu imaginara. Jayne nunca iria desconfiar de que aquele encontro era pura armação. E se suspeitasse, pensaria que eu tinha dado um jeito de irmos àquele lugar na esperança de topar com Dean, e não com o melhor amigo dele.

- Vocês conhecem John Muirhead, não é? – Dean continuou, caminhando na direção da nossa mesa.

- Claro – respondi sorrindo. – Oi, John.

O cabelo de John parecia recém-atingido por um ciclone. Mas reparei que ele tinha olhos

castanhos muito bonitos.

- Igualmente – John respondeu. – Hã… quero dizer, oi…

Seu olhar passou de mim para Jayne. Ela encarou John por um instante; então, engoliu em seco e olhou para baixo, para seu copo. Duas vivas manchas vermelhas ardiam em

suas bochechas. Eu ergui uma sobrancelha. Jayne nunca corava, nem mesmo quando ficava sem graça. Vitória!, pensei. Dean Smith, prepare-se para perder esta aposta.

- Por que você dois não vão pegar alguma coisa para beber – sugeri. – E, depois, venham

se sentar com a gente.

- Ótima idéia – Dean respondeu, com uma expressão risonha nos olhos cinzentos. –

Vamos lá, John – disse ao amigo, colocando uma das mãos no ombro dele e puxando-o

na direção do balcão.

- Natalie – Jayne sussurrou, assim que os ouvidos dos rapazes estavam for a de alcance –, o que você está aprontando?

- Estou só sendo simpática – respondi. – O que há de errado nisso? Não me diga que você vai querer me privar de uma chance de tomar um café com Dean. Os olhos dela se desviaram bruxuleantes na direção do balcão. Tomei um gole do meu café com leite, olhando de soslaio para Jayne, que tentava não olhar para John.

- Você não se importa de eles virem se sentar com a gente, não é? – perguntei depois de

um minuto. – Quero dizer, eu sei que o John Muirhead tem fama de ser um panaca bitolado… Os olhos de Jayne saltaram de volta na minha direção, todo o seu rosto incendiado de um

vermelho vivo.

- John Muirhead não é um panaca bitolado! – ela disse, parecendo ofendida. – Só porque um cara é inteligente… Ela se interrompeu com um suspiro.

- Francamente, Natalie, não posso acreditar que você seja tão superficial.

Levantei as mãos, num gesto de rendição. Ela reagira exatamente da maneira que eu esperara que reagisse. Na verdade, toda aquela vermelhidão no rosto de Jayne me fez

pensar que talvez ela já tivesse uma forte queda por John Muirhead havia algum tempo.

- Tudo bem, retiro o que disse – respondi. – Desculpe.

- Eles estão voltando – Jayne anunciou. – É melhor calarmos a boca.

Dean e John roubaram duas cadeiras vazias de uma mesa próxima e se sentaram. Reparei que eles tinham pedido as mesmas bebidas que nós. Dean pedira um café com leite expresso, como eu, e John, um milk-shake, como Jayne.

Dean arrastou sua cadeira para perto da minha, de maneira que nossas pernas se tocavam. O leve roçar de sua perna vestida num jeans contra a minha fez o ambiente parecer subitamente muito quente. Por um instante ficamos todos em silêncio. Os quatro pareciam estar se perguntando quem seria o primeiro a falar.

- E então, John – falei, por fim –, qual é o seu signo?

Se olhares matassem, Jayne teria me transformado num cadáver instantaneamente. John apenas pareceu confuso.

- Signo? – ele perguntou.

- É. Você sabe, a era de Aquário, essas coisas.

- Ah, sei… Sou de Peixes.

- Mesmo? Hummm…

Aquela informação era muito interessante. Eu esperara que John fosse dizer que era de Virgem, a combinação perfeita para o signo de Jayne. Mas Jayne também era de Peixes.

- Quando é o seu aniversário? – perguntei.

- Três de março.

- Três de março?! – Jayne ecoou. – Mas é no mesmo dia que o meu!

John virou a cabeça na direção dela. Era a primeira vez que ele a olhava diretamente

desde que tinha se sentado.

- Sério? Mas isso é mesmo incrível! Nunca conheci ninguém nascido no mesmo dia que eu – John falou.

- Igualmente – completou Jayne. – Hã… quero dizer, eu também não.

Os dois continuaram a se olhar por alguns segundos. Tomei mais um gole do meu café, pensando no que acabara de ouvir. De modo geral, casais do mesmo signo não são uma boa combinação. Simplesmente não

há fogo suficiente entre eles. São parecidos demais. Mas no caso de John e Jayne, o fato de serem do mesmo signo parecia constituir a base de sua atração. Na pior das hipóteses, o fato de fazerem aniversário no mesmo dia lhes dera algo sobre o que conversar.

- Então parece que vocês dois são almas gêmeas – anunciei alegremente.

Jayne me lançou um olhar carrancudo.

- Não dê bola para a Natalie – minha amiga advertiu John. – Ela caiu no vício da

astrologia.

- Para falar a verdade – John disse –, eu acho o estudo da astrologia muito interessante.

Muitas culturas antigas foram fortemente influenciadas pelas estrelas. Os construtores de Stonehenge, por exemplo…

- Eu pensei que Stonehenge tinha sido construído para ajudar a planejar o ciclo anual do plantio – Jayne interrompeu.

- Também, mas não só para isso – John admitiu. – Na verdade, alguns estudiosos acreditam…

Por baixo da mesa, Dean apertou minha mão. Então, inclinou-se para a frente, de maneira que Jayne e John não pudessem ouvir o que ele iria me dizer em seguida.

- Acho que você vai ganhar a aposta – Dean sussurrou. – Tudo indica que já estou devendo alguns cafés a você.

Gostei de ver que Dean não tinha aquela faceta habitual do ego masculino: a de sempre ser o vencedor.

- Para falar a verdade, talvez seja pura coincidência – confessei, também sussurrando. – Estou ficando com a sensação de que Jayne sempre se interessou por John, e eu simplesmente nunca percebi. Com seu polegar, Dean começou a descrever pequenos círculos nas costas da minha mão direita. Aquele leve toque fez todo o meu braço se arrepiar.

- Como você pôde deixar de perceber uma coisa dessas? – ele perguntou.

- Talvez porque eu estivesse preocupada demais com outra coisa – respondi, sorrindo

para seus maravilhosos olhos cinzentos. Dean sorriu também.

- Imagino que você não vá se incomodar por ter de me explicar essa observação.

- Bom – falei, baixando os olhos e fingindo timidez –, tenho andado muito preocupada

com essa prova de matemática medonha que vem aí. Dean soltou uma gargalhada. Eu estava a ponto de dizer a ele o que realmente andara distraindo a minha atenção, quando um segundo golpe de ar frio varreu a nossa mesa. Franzi a testa. Garth e Tanya tinham acabado de entrar.

Deve ser uma maldição que caiu sobre mim, pensei. Tudo o que eu queria era me esquecer de Garth Hunter. A simples visão dele me dava um nó no estômago. Mas parecia que eu dava de cara com Garth todas as vezes que olhava à minha volta. Se não soubesse que ele era egocêntrico demais para pensar em alguém além de si próprio, teria achado que estava inspecionando meu novo namorado. O corpo de Dean se enrijeceu quando ele viu Garth. Pude sentir a tensão descendo por seu braço até chegar à mão, que segurava a minha. Garth e Tanya nos ignoraram. Seguiram seu caminho remo ao balcão. Jayne e John não pareceram notar que tanto Dean quanto eu olhávamos para o outro lado do salão. Eles ainda estavam discutindo a finalidade da construção de Stonehenge.

- Eu não posso ficar muito tempo mais – Dean me avisou. – Prometi minha mãe que iria

ajudar a cuidar dos meus irmãozinhos. Vim só para dar uma força a um grande amor –

acrescentou num sussurro.

Concordei com um gesto de cabeça.

- Tudo bem, eu entendo.

Torci para que Dean não estivesse muito chateado por causa da aparição de Garth. Uma parte de mim queria lhe dizes sem rodeios que ele não precisava se preocupar com Garth, que eu estava totalmente curada dele. Mas temia que até mesmo a menção do nome de

Garth o fizesse parecer demasiadamente importante para mim aos olhos de Dean. Todas as novas relações têm momentos tensos, disse a mim mesma. Afinal, eu também não teria ficado muito feliz se Dean tivesse uma ex-namorada com a qual ficássemos topando o tempo todo.

- Então… acho que nos vemos amanhã na aula de inglês – eu disse a Dean. Ele sorriu.

- Eu não perderia essa aula de jeito nenhum – disse ele. – As aulas do professor Dixon são tão estimulantes.

- Sim, para quem tem o QI de uma ostra – ironizei.

Dean se levantou. John afastou seu olhar de Jayne e arqueou as sobrancelhas.

- Você já está indo? – perguntou, parecendo decepcionado.

Dean fez que sim com a cabeça.

- Preciso ir para casa. Você pode ficar se quiser.

- Não, não – John disse, se levantando apressado. – Igualmente. Quero dizes, também

preciso ir para casa. Eu começava a perceber por que John tinha dificuldade em sair com garotas. Ele parecia

se desestruturar sob pressão. Obviamente a idéia de ser deixado sozinho com duas garotas

o aterrorizava.

Mas eu tinha gostado dele. Numa escala de um a dez, dei nove para o nosso encontro no café. Jayne parecera genuinamente absorta em sua conversa algo esotérica com John. E Dean e eu não mostrávamos nenhum sinal de esfriamento.

-

Até mais – Dean despediu-se, já se dirigindo para a porta do Bob’s Buzz Stop.

-

Até mais – repetiu John.

-

Tchau! – Jayne e eu respondemos em uníssono.

E

estávamos sozinhas de novo. Jayne ficou em silêncio por algum tempo. Eu fiquei

sentindo vazio a meu lado, onde Dean estivera sentado minutos antes, enquanto ouvia a máquina de café expresso sibilar no fundo do salão.

- Você gosta dele, não é? – perguntei, por fim.

Não havia nenhuma razão para não optar pela abordagem direta.

- De quem? – Jayne perguntou.

- Você sabe de quem – respondi. – Do John.

Jayne jogou seus cabelos loiros por cima do ombro esquerdo.

- E se gostar, o que é que tem? – ela perguntou secamente.

- Tem que eu vou achar superlegal – respondi. – Você é minha melhor amiga. John é o

melhor amigo de Dean. Dupla de casais. Seria perfeito. Jayne ficou em silêncio, dobrando e redobrando seu guardanapo de papel.

- Você acha que ele poderia me convidar para sair? – ela perguntou após alguns segundos.

– Quero dizer, John Muirhead é provavelmente o cara mais inteligente de toda a escola.

- Perfeito. – Eu sorri. – Então ele deve ser inteligente o bastante para merecer você. Jayne sorriu também.

- Eu sabia que havia um bom motivo para você ser minha melhor amiga – ela disse. – Mas ainda tenho mais uma perguntinha.

- O que é? – perguntei, esperando que Jayne me enchesse de perguntas sobre as peculiaridades do beijo de língua.

- Qual é o signo de Dean?

***

Romeu e Julieta são sem dúvida os amantes mais famosos de toda a história da literatura

— informou à classe o nosso professor de inglês, Mr. Dixon, na segunda-feira de manhã.

A voz de Mr. Dixon soava tão condescendente como sempre. Era como se ele achasse

que nenhum de seus alunos de literatura universal tivesse ouvido falar de Romeu e Julieta. Ou de William Shakespeare. Mas uma pessoa precisaria ter sido criada em Marte para não saber quem são Romeu e

Julieta. São o casal adolescente primordial — e a perfeita ilustração da verdade universal de que os pais devem manter o nariz fora da vida amorosa de seus filhos.

— Muitos estudiosos acham que Romeu e Julieta são figuras trágicas, condenadas —

continuou Mr. Dixon. — Pessoalmente, acho que o que Shakespeare nos mostra aqui é nada mais que um típico casal de adolescentes sofrendo de sobrecarga hormonal. Ele esperou que alguém risse, mas ninguém o fez. Dixon, o Panaca, como todos o chamam, ensina inglês na Emerald High desde sempre. Há um boato de que a escola foi,

na verdade, construída em torno dele. Suponho que Mr. Dixon conheça seu ofício, mas ninguém jamais foi capaz de entender por que ele se tornou professor de colegial, já que em sua opinião os adolescentes são, todos, seres desprezíveis.

E, na minha opinião, Dixon, o Panaca, estava completamente enganado quanto a Romeu

e Julieta. O problema não era de hormônios, mas dos astros. Na peça, Shakespeare até mesmo os chama de "amantes condenados pelas estrelas". O que mais alguém precisa saber além disso? Os astros não saíam da minha cabeça naquela manhã — mais que de costume. Depois que Jayne me perguntara o signo de Dean no dia anterior, eu me dera conta de que ainda não

sabia com certeza sob que signo ele havia nascido. E aquilo era uma informação crucial.

— Vamos ao trabalho — Mr. Dixon ordenou. — Abram seus livros na página vinte e

quatro. Abri meu exemplar de Romeu e Julieta, considerando mentalmente minhas alternativas. Eu queria esclarecer a questão do signo de Dean o mais cedo possível. De preferência, antes do fim daquela aula. Não que estivesse realmente preocupada quanto àquilo. Tinha quase certeza de que Dean era de Touro. Mas queria confirmar. Depois, poderia me concentrar em outras coisas importantes. Como, por exemplo, fazer Dean notar como eu estava maravilhosa na minha nova calça jeans.

— Eis aqui uma amostra daquilo que eu dizia — Mr. Dixon anunciou triunfante. — Bem

aqui, Ato I, cena 5. Romeu literalmente se apaixona à primeira vista por Julieta. E o que há de errado nisso?, eu me perguntei, enquanto apoiava meu cotovelo na carteira de Dean. Com o canto do olho, captei o sorriso dele. Dean estava lindo naquela manhã. Vestia uma calça jeans desbotada, e seu suéter cinza carvão era da mesma cor de seus olhos. Uma mecha de cabelo rebelde caía em sua testa. Eu tinha de me conter o tempo todo para não estender a mão e pentear a mecha para trás. Dei uma olhadela para Mr. Dixon. Ele estava de pé diante da classe, gesticulando com os

braços. Me inclinei um pouco mais para o lado da carteira de Dean. Não existe melhor hora que agora.

— Dean — sussurrei —, qual é o seu signo?

Os olhos de Dean se voltaram de supetão para Mr. Dixon. O Panaca odeia quando alguém fala durante suas aulas. Sobretudo se falam enquanto ele está falando.

— O quê? — Dean sussurrou de volta.

— Qual é o seu signo? — repeti um pouco mais alto.

— Ah, senhorita Taylor, senhor Smith! — Mr. Dixon falou alto, lá da frente da classe. — Fico muito feliz em saber que vocês dois estão em ótima forma vocal hoje.

Pude sentir meu coração cair de uma só vez até o fundo das minhas botas de couro novas. Alguma punição diabólica sempre recaía sobre os alunos que quebravam a lei do silêncio de Mr. Dixon. Os escorpianos não são famosos por sua paciência, mas eu me arrependi amargamente de não ter agüentado até o fim da aula para falar com Dean.

— A melhor maneira de sentir o poder da linguagem de Shakespeare é ouvir seus textos

lidos em voz alta — Mr. Dixon informou. Ele parecia estar se deliciando com a chance iminente de humilhar Dean e eu diante de toda a classe. Por favor, pensei, alguém me diga que isto não está acontecendo.

Mr. Dixon ia nos fazer ler em voz alta para a classe. Na minha lista de coisas ruins da vida, ler em voz alta para a classe ocupa o mesmo lugar que esfregar o banheiro. Especialmente quando o material a ser lido é Shakespeare. Suas peças nunca fazem o menor sentido, ao menos não na primeira leitura. É um inglês tão arcaico que quase parece outra língua.

— Comece na linha quarenta e nove, senhor Smith — ordenou Dixon, o Panaca.

Com o canto do olho, pude ver as bordas das folhas do livro de Dean tremerem. Não sabia dizer se ele estava tremendo de nervosismo ou de vontade de rir. Pensei em olhar

para seu rosto, a fim de decifrar seu estado de espírito, mas sentia-me terrivelmente envergonhada. Dean estava encrencado, e por minha culpa.

— Estamos esperando, senhor Smith — Mr. Dixon insistiu. Dean limpou a garganta.

Depois de uma breve pausa, começou a ler. Nada mau, pensei, quando Dean parou para tomar fôlego. Da maneira como ele lia os versos, Shakespeare até fazia sentido. Ouvi com entusiasmada atenção a leitura de Dean. Depois de alguns segundos, até relaxei o suficiente para me permitir imaginar que ele era Romeu e eu, Julieta. Ainda me lembrava claramente da primeira vez que Dean e eu tínhamos nos visto. Fora justamente ali, na aula de inglês de Mr. Dixon. Desde o primeiro instante eu soubera que Dean era especial. A química entre nós dera certo. Tínhamos batido um com o outro. Nós dois realmente somos como Romeu e Julieta, disse a mim mesma. Um olhar significativo havia sido tudo o que Romeu e Julieta tinham precisado para se apaixonar. Mas, ao contrário dos amantes de Shakespeare, Dean e eu não acabaríamos morrendo nos braços um do outro no fim da história. A nossa história ia ter um final feliz. Juntos para sempre. Felizes para sempre.

***

— Humm, que delícia. O seu sabor está tão gostoso quanto eu me lembrava — Dean sussurrou.

Estávamos de pé sob o grande carvalho do jardim da frente da minha casa, apoiados contra o tronco. Depois da aula de inglês, eu ficara um pouco preocupada com a possibilidade de Dean estar furioso comigo, por eu ter colocado nós dois em maus lençóis, mas até aquele momento ele parecia tudo, menos bravo.

— Boa frase — falei rindo. — Você a usa com todas as garotas que beija?

— Puxa! — Dean retrucou com um sorriso. — Você faz idéia do quanto isso foi

devastador para o meu ego? Você acabou de desmontar a minha melhor armadilha!

— Eu não sou um bicho — informei. — Não preciso de armadilha. O sorriso de Dean cresceu.

— Vou anotar isso — ele disse num sussurro.

Seus lábios roçaram suavemente os meus. Um arrepio percorreu toda a minha espinha, e eu correspondi à pressão de sua boca. Se eu fosse um computador, os circuitos da minha placa-mãe teriam derretido naquele instante. Depois de vários e longos minutos, Dean se afastou alguns centímetros.

— E então, Natalie? Você me deve uma explicação. A troco de quê foi tudo aquilo na aula de inglês, hoje de manhã?

Graças a Deus ele próprio puxou o assunto da astrologia, pensei. Nós devemos estar mesmo na mesma freqüência de onda astral.

— Ah

falta de timing. Eu não queria causar problemas para você.

— Bah, o Dixon é um idiota — Dean disse.

Então, ele se inclinou um pouco mais, para poder olhar bem dentro dos meus olhos.

— Você está realmente muito envolvida com esse negócio de astrologia, não é?

— Acho muito interessante, sim — admiti.

— Tão interessante quanto o motivo da construção de Stonehenge?

— Dean, você está se esquivando da minha pergunta.

— Tudo bem, tudo bem. Se é tão importante para você

Eu só queria saber qual era o seu signo — expliquei. — Desculpe pela terrível

Sou de Gêmeos.

Eu não podia acreditar naquilo. Dean Smith, o amor da minha vida, era um

um geminiano! A pior combinação possível

para mim! Nas últimas horas a palavra "Gêmeos" ficara ecoando em meu cérebro. O jantar tinha sido uma mistura cinzenta de lasanha, salada e pensamentos sobre Dean. Minha mãe teve de me avisar três vezes que eu tinha derramado meu copo d'água. Eu estava tão absorta em meus pensamentos que nem sequer percebera que tinha ensopado minha calça jeans de água gelada. Felizmente terminara rápido. Agora eu estava sentada na minha cama, tentando encontrar uma saída para a confusão em que minha vida se transformara de repente. Mas minha mente parecia girar em círculos. Eu me sentia como um rato de laboratório aprisionado num labirinto. Não importava para onde me virasse, dava num beco sem saída. Dean era do mesmo signo que Garth Hunter. Um geminiano. Rolei na cama e gemi de angústia. Meu olhar viajava desesperado de um canto para outro do meu quarto. Havia

livros e papéis espalhados pelo chão. Na última meia hora eu tinha relido cada migalha de informação que pudera encontrar a respeito da relação Gêmeos-Escorpião. “O relacionamento entre Gêmeos e Escorpião pode ser extremamente excitante", dizia meu livro favorito, Amor e zodíaco. "Tentar fazer frente ao caráter instável dos geminianos coloca aos ardentes escorpianos exatamente o tipo de desafio que eles adoram. O charme do geminiano é um perfeito complemento para as paixões do escorpiano. Com seu bom humor, ele é capaz de afastar com facilidade os mais obscuros estados de espírito do Escorpião. Mas esse charme está fadado a se desgastar no momento em que você se der conta de que uma relação duradoura com um geminiano é inviável. Seu parceiro nunca poderá ser muito mais que um flerte inconstante e volúvel. É melhor

cair fora agora, antes que o seu coração seja partido. Se você quiser uma relação estável, procure em outra área do zodíaco." Em outra área — pensei: como Touro, por exemplo. E eu, que tinha tanta certeza de que

Dean era um leal e confiável taurino

os meus instintos me diziam que Dean era alguém em quem eu podia confiar. Ele me

parecia tão diferente de Garth

Mas eu já tinha aprendido da maneira mais dura possível — sendo torturada por Garth — que não podia julgar um cara por sua aparência. Não, se quisesse que meu coração sobrevivesse. Dean e Garth eram iguais naquilo que realmente importava: na essência de seu ser. E, mais cedo ou mais tarde, Dean iria me chutar. Ele não conseguiria evitar. O fato de que esmigalharia meu coração em mil pedaços estava escrito nas estrelas. No fim, seria outro Garth Hunter. O destino ditado pelos astros era inevitável, como os impostos e os lanches ruins nas cantinas das escolas. Dean ainda não tinha partido meu coração, mas partiria.

Era só uma questão de tempo. Rolei para fora da cama e saí do quarto rumo ao banheiro. Lavei o rosto com água fria, limpando as manchas deixadas pelas lágrimas. E enquanto me secava com uma toalha felpuda e macia, encarei a verdade de frente. Só havia uma saída para aquela situação. Eu estivera procurando por outra a noite toda, mas não existia nenhuma outra. Eu me recusava a alimentar deliberadamente uma catástrofe amorosa. Não podia deixar que meu coração fosse partido uma segunda vez. Precisava interromper aquela minha paixão cada vez mais profunda por Dean Smith. Tinha de terminar com ele — antes que ele terminasse comigo.

Como pudera cometer um erro tão crasso? Todos

E era diferente — ao menos na superfície.

4

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Acontecimentos surpreendentes abalam o que antes parecia ter uma base sólida. Não entre em pânico. Agora é a hora de descobrir quem você realmente é. Alguém que não nutre bons sentimentos por você pode tentar distraí-lo. Evite a raiva. Mantenha-se calmo.

Decidi dar uma passada no Café Luna antes da escola, na terça-feira de manhã. Não é um lugar aonde costumo ir. Tem uma freqüência muito cult para o meu gosto. Mas eu sabia que Natalie gostava do Café Luna, de maneira que estava disposto a me sujeitar a um bando de pretensiosos vestidos de preto, discutindo vegetarianismo e Kafka. Com um pouco de sorte, eu toparia com Natalie. "Natalie." Repeti a palavra para mim mesmo pela décima vez naquela manhã. Balancei a cabeça e ri. Eu precisava parar de ficar dizendo seu nome. Mas parecia fisicamente incapaz de pensar em qualquer outra coisa além de Natalie. Naquela manhã, Roy tinha enterrado uma bala de goma na minha tigela de cereais. Eu já tinha comido mais da metade do meu café da manhã, quando descobri o "presente" de Roy.

Abri a porta do Café Luna. A primeira coisa que notei foi um enorme móbile feito de luas

e estrelas pendurado no teto. O móbile me lembrou a paixão de Natalie por astrologia.

Perguntei-me o quanto ela levava aquilo a sério. Pessoalmente, eu não podia me imaginar tentando conduzir minha vida de acordo com as estrelas. Como uma pessoa podia antever eventos totalmente imprevisíveis, como, por exemplo, se apaixonar por alguém? Avistei Natalie e Jayne sentadas numa mesa de canto. Natalie estava maravilhosa, como sempre. Naquela manhã, vestia uma calça preta justa e uma camiseta cor de canela. As duas pareciam completamente absortas em sua conversa. Natalie estava um pouco

inclinada por cima da mesa, o rosto sério. Enquanto falava, gesticulava repetidas vezes com um braço. Jayne escutava e assentia com gestos de cabeça, seus olhos fixos nos de Natalie. Nenhuma das duas notou minha presença. Me perguntei se Natalie estaria dando conselhos a Jayne, para que batalhasse por uma possível relação com John.

— Ouvi dizer que o café daqui é muito bom — falei, me aproximando da mesa delas.

Eu esperava que Natalie me olhasse e sorrisse. Em vez disso, ela deu um tranco na cadeira, como se tivesse sido espetada por um alfinete gigante. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ela se levantou, pegando a jaqueta e a mochila penduradas no encosto da cadeira.

— Preciso ir — disse secamente.

Sem mais nenhuma palavra, ela se dirigiu para a porta do Café Luna. Que diabos estava acontecendo? Paralisado, fiquei olhando para a cadeira vazia de

Natalie, tentando não deixar meu queixo cair no chão. Será que durante a noite havia crescido uma verruga gigante no meu nariz? Ou um terceiro braço? O quê, afinal?

— O que há com a Natalie? — perguntei a Jayne, assim que senti que minha voz voltaria

a funcionar.

Jayne mordeu o lábio. Por um instante, olhou para sua xícara de café. Quando me encarou

de novo, seus olhos expressavam solidariedade.

— Ela está meio perturbada no momento — respondeu.

— Não me diga — falei, sabendo que minha voz soara um pouco mais sarcástica do que

eu pretendera. A súbita partida de Natalie tinha deixado uma estranha sensação na boca do meu estômago.

— Você sabe o que está acontecendo?

— Acho que a própria Natalie deveria contar a você —Jayne respondeu, seus olhos azuis

fixos nos meus. — É só

certeza de que tudo vai dar certo, assim que ela se acalmar.

Tente lhe dar um pouco de espaço, está bem, Dean? Tenho

Eu estava morrendo de vontade de pressionar Jayne para que ela soltasse mais informações. Mas antes que eu pudesse tentar lhe arrancar qualquer coisa, ela se levantou. Segundos depois, já tinha ido embora. Eu me dirigi para o balcão e pedi um café com leite expresso triplo, esperando que a cafeína extra me endurecesse o espírito de alguma maneira. Até conseguir descobrir por que Natalie estava tão perturbada, eu ia precisar de toda a ajuda que pudesse obter.

— Ela está me evitando — falei.

John e eu estávamos sentados na cantina da escola, alimentando-nos à força de porções

de "atum surpresa". Acho que a surpresa tinha algo a ver com o fato de estarmos descobrindo a cada mordida que havíamos sido tapeados ao acreditar que aquela droga poderia ser comestível.

Natalie e Jayne estavam numa mesa próxima. Natalie não me dirigira a palavra durante o dia todo. Nem sequer se sentara perto de mim na aula de inglês de Mr. Dixon. O dia inteiro eu tentara seguir o conselho de Jayne. Estava dando "espaço" a Natalie. Mas, quanto mais espaço eu lhe dava, mais ela se afastava.

— Simplesmente não consigo entender — continuei. — Ontem à tarde estávamos nos

beijando debaixo da árvore da casa dela. Hoje ela me trata como se eu tivesse peste

bubônica. Por quê?

— Mau hálito? —John sugeriu. Suspirei profundamente.

— Isto é sério, John.

Duas garotas do primeiro colegial sentadas na mesa ao lado da nossa começaram a dar risadinhas. Ótimo, pensei. Elas provavelmente ouviram cada palavra da nossa conversa. Eu já podia prever os boatos: Natalie Taylor acha que Dean Smith tem mau hálito. Dean Smith implorou por uma segunda chance, e ela lhe disse que não sairia com ele nem que fosse o último cara disponível no planeta. Droga! Ao menos por uma questão de autopreservação, eu tinha de descobrir o que estava

acontecendo. Espetei meu garfo em algo que parecia salada verde. Coloquei a suposta alface na boca, mastiguei e engoli. Tinha sabor de papel sulfite com tempero italiano. Aquele dia estava mesmo uma porcaria. Se a maneira como Natalie tinha me evitado a manhã toda era indicação de algo, então ela pretendia continuar fingindo que eu não existia pelo resto do tempo. Sem dúvida eu precisava agir.

— Já volto — eu disse a John.

Caminhei a pequena distância até a mesa de Natalie. Mais uma vez, ela e Jayne estavam

profundamente absortas em sua conversa. Mas dessa vez eu não caí na ingenuidade de

achar que as duas falavam sobre John. Tinha certeza de que falavam de mim — ou, mais exatamente, da súbita aversão de Natalie por mim.

— Natalie, podemos conversar? — perguntei, me sentando na cadeira próxima à delas.

Os olhos castanhos de Natalie pareciam enormes. Havia um grande círculo escuro em torno de cada um deles, como se ela não tivesse dormido nada naquela noite. Pude sentir meu estômago dando um nó. Algo de muito sério estava acontecendo.

— Dean — Natalie disse, sua voz saindo totalmente rouca. — Eu com a Jayne agora

eu estou conversando

— Ah, não tem importância, depois a gente continua — Jayne interrompeu, levantado-se rapidamente. — Eu preciso procurar uma coisa na biblioteca mesmo. Ela tirou sua bandeja da mesa.

— Boa sorte — Jayne sussurrou perto do meu ouvido quando ia saindo.

Suas palavras soaram agourentas. Ela saiu quase correndo rumo à porta da cantina. Com

o canto do olho, pude ver John levantar-se e segui-la.

Uma expressão de pânico invadiu o rosto de Natalie.

— E então — ela perguntou quase sem voz —, como anda você, Dean?

Agora eu sabia que estava encrencado. Natalie queria uma conversa formal e amena —

uma técnica clássica para manter distância —, e àquela altura da minha vida, eu já tinha aprendido que uma conversa formal e amena é o beijo da morte em qualquer namoro. Minha frustração crescia a cada segundo. Não posso suportar quando as pessoas não me dizem diretamente o que se passa em suas cabeças. Natalie era a última pessoa do mundo de quem eu esperaria esse tipo de jogo comigo.

— Por que você não me conta como eu ando? — respondi. — Até hoje de manhã, eu pensava que tudo estava andando bem. Muito bem, aliás.

Minha voz fora subindo de tom enquanto eu falava. No fim, eu já estava quase gritando. Natalie se retraiu.

— Por favor, Dean, não quero brigar.

— Eu também não quero — repliquei, um pouco mais suave. — Só quero que você me

explique o que está acontecendo. Se fiz algo de errado, acho que tenho o direito de saber

o que foi.

— Não — Natalie respondeu quase num sussurro. — Você não fez nada de errado, Dean.

É só que

Ouvir aquilo foi para mim como se Natalie simplesmente tivesse pego sua cadeira e a quebrado na minha cabeça. A dúvida me invadiu. Eu devia ter entendido mal. Não era possível que a garota dos meus sonhos tivesse acabado de me informar que não queria mais nada comigo.

— Deixe-me ver se entendi bem — comecei, com palavras lentas e ponderadas. — Você está rompendo comigo, mas eu não fiz nada de errado?

Natalie não falou nada. Apenas confirmou com um gesto de cabeça, o rosto pálido.

— Bom, até que foi rápido — falei com amargor. — O que você fez ontem, depois que

nos despedimos? Foi tomar conselhos amorosos com Garth Hunter? O rosto de Natalie ficou roxo.

— Vou ignorar esse seu último comentário — ela disse friamente. — Isto não está sendo

mais fácil para mim do que para você, Dean. Só estou tentando fazer o que acho melhor

para nós dois. As coisas nunca dariam certo entre nós.

Limpei minha garganta, que parecia bloqueada por chumaços de algodão.

— E posso saber por que você tem tanta certeza de que as coisas não dariam certo entre

nós?

— Porque você é do signo errado — Natalie disse com toda a naturalidade.

Comecei a duvidar da sabedoria da minha idéia de tomar café com leite expresso triplo de

manhã. Talvez agora houvesse cafeína demais no meu sistema, e aquilo estivesse me fazendo perder o entendimento.

— É por isso que você está rompendo comigo? — quase gritei. — Porque sou do signo

eu

eu sinto muito, mas não podemos mais nos ver.

errado? Natalie confirmou:

— Não podemos nos ver mais porque você é de Gêmeos, e esse signo é uma péssima combinação para mim.

— Isso é uma piada, só pode ser. Por favor, Natalie, me diga que é uma piada. Ela negou, balançando a cabeça.

— Eu sei por experiência própria que Gêmeos significa encrenca para mim — ela continuou, olhando para o tampo da mesa.

— Garth era de Gêmeos.

Meu estômago travou de vez. Agora parecia uma bola de chumbo.

— Tudo isso é por causa de Garth, não é? — perguntei sem alterar o tom de minha voz.

— Porque você ainda está apaixonada por ele.

— Não, Dean, não estou — Natalie insistiu. —Já superei isso há muito tempo. É que Escorpião e Gêmeos simplesmente não combinam. Nossos signos são incompatíveis.

— Pelo amor de Deus, Natalie, não me venha com essa! Ela pousou a mão em meu braço.

— Estou fazendo isso por você também, Dean — continuou.

— Para impedir que você seja infeliz mais tarde.

— Bom, isso é mesmo muita consideração da sua parte — retruquei, retirando meu braço com um puxão. — Assim, em vez de ficar infeliz mais tarde, fico infeliz já. Natalie se levantou.

— Acho que não adianta conversarmos mais sobre isso — ela disse. — Estou tentando

explicar, mas você não quer me entender. Fica deliberadamente tentando deturpar o que eu digo. Ela socou na mochila o saco de papel pardo contendo o lanche que trouxera para a escola.

— Você está enganada — retruquei. — Eu entendi, sim. Entendi que você está se afastando de mim sem nenhum motivo.

— Eu tenho um motivo — Natalie rebateu. — É que você simplesmente não quer

aceitá-lo. E não vou ficar aqui de pé, discutindo com você. Nunca pretendi magoá-lo. Mas já disse tudo o que tinha a dizer. Antes que eu pudesse pensar numa maneira de detê-la, ela pegou sua mochila e saiu andando. E eu fiquei lá de pé, plantado no meio da cantina. Com certeza devo ter batido um novo recorde mundial, pensei, enquanto via Natalie abrindo a porta e sumindo de vista. Eu tinha encontrado e, em seguida, perdido a garota dos meus sonhos em exatos três dias e meio.

O resto do dia foi um desastre total. Cheguei à última aula do período pronto a varar uma parede com um murro. Uma parede bem dura. Todas as vezes que eu entrava numa sala de aula, as conversas eram subitamente interrompidas. A cena entre mim e Natalie na hora do almoço, na cantina, estava sendo comentada pela escola inteira. Na sexta-feira de manhã, nosso rompimento provavelmente seria uma das manchetes do jornal da escola. Girei os números do cadeado do meu armário até atingir a combinação, ignorando intencionalmente os olhares curiosos dos outros garotos que perambulavam pelo vestiário. Tirei minha jaqueta e joguei-a no fundo do armário. Apesar do tempo frio, eu não via a hora de estar ao ar livre. Correr pela trilha da escola era sempre uma boa válvula

de escape para qualquer frustração. E quanto antes eu conseguisse apagar Natalie da minha vida, melhor. Ouvi um estrondo atrás de mim. Alguém abrira bruscamente a porta do vestiário.

— Ei, Romeu! — uma voz falou alto. — Algum problema na sua vida amorosa?

Ah, ótimo, pensei. Era só o que me faltava. Eu já tinha me perguntado quanto tempo demoraria para Garth Hunter aparecer na minha

frente. Garth tinha um dos egos mais gigantescos da face da Terra, e eu tinha certeza de que ele não resistiria à oportunidade de me torturar. Me virei para encará-lo.

— Você disse alguma coisa para mim?

A visão de Garth me deu vontade de vomitar. Rezei para que o atum surpresa permanecesse no meu estômago. Vomitar naquela situação dificilmente seria encarado como uma prova de masculinidade.

Como Natalie pode achar que esse cara é melhor do que eu?, eu me perguntei, enquanto olhava para sua expressão presunçosa:

ele é nojento.

— Disse — ele respondeu. — Eu disse que é uma pena essa história entre você e Natalie.

Seus olhos azuis me fitavam agressivos, à espera de uma reação. Mas eu não estava a fim de lhe dar mais nenhuma munição.

— Pois é — retruquei. — Uma pena.

Sentei-me no banco e comecei a amarrar meus tênis, confiando em que Garth deixaria o assunto morrer por ali. Deveria ter imaginado que não.

— Quanto tempo demorou para ela dar um pé em você? — ele insistiu. — Uns vinte

minutos, mais ou menos?

— Eu não estava cronometrando — retruquei. — Mas acho que ela quis tentar bater o seu recorde mundial.

Pude ouvir uma risada abafada vindo do outro lado dos armários. A maioria dos garotos da escola gostava tão pouco de Garth quanto eu. Ele era popular graças ao que John chamava de "fator intimidação". Era mais fácil ficar bem do que brigar com ele.

— Puxa, legal, Dean — Garth disse, como se eu lhe tivesse feito um elogio. — Mas, no

seu lugar, eu não levaria a mal o fato de Natalie ter lhe dado o fora tão rápido. Ela não

podia evitar. Sabe como é, na verdade ela nunca conseguiu me esquecer.

— Eu acho que vocês dois têm algo em comum — falei. Os dois estão apaixonados por você.

Outra risada alta, provinda do canto mais distante do vestiário. Garth fez uma cara carrancuda enquanto tirava a jaqueta.

— Bom, você não pode nos culpar por isso — ele disse, por fim, já sorrindo

zombeteiramente de novo. — Afinal, eu sou realmente fora de série. E Natalie não é a única garota da escola que não consegue parar de criar fantasias comigo. Eu estava enganado a seu respeito, Garth, pensei: você não tem o maior ego da face da Terra; tem o maior ego da Via Láctea.

— Então deixe-me ver se entendi bem. Você está dizendo que Natalie prefere sonhar

com você do que namorar comigo? Garth sorriu ainda mais, revelando vários anos de caros tratamentos ortodônticos. — Acho que agora nunca vamos saber a resposta, não é mesmo? Grande erro, meu chapa, respondi em pensamento. Garth Hunter acabara de me desafiar. Suas palavras com certeza haviam tido a intenção de me fazer reconhecer minha inelutável derrota. Mas tiveram o efeito oposto sobre mim. Me senti melhor do que vinha me sentindo desde que Natalie me rejeitara no Café Luna. Havia uma maneira de provar que eu era melhor do que Garth Hunter. Só o que eu tinha a fazer era convencer Natalie a voltar para mim. O que, afinal de contas, era tudo o que eu realmente queria.

5

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro) A sorte cai por terra, enquanto a mente luta com o coração. Tente distanciar-se da situação. Deixe as coisas fluírem. Você está sendochamada a ajudar alguém que sempre lhe ajudou. Lembre-se das propriedades curativas do tempo.

- Não consigo entender por que você está tão perturbada - eu disse a Jayne na sexta-feira à tarde. - Não foi você quem leve de desistir do namorado.

- Não - Jayne concordou, carrancuda. - Só da minha única possibilidade de algum dia ter

um. Estávamos sentadas numa mesa ao lado da janela da frente da Seattle Dessert Company, afogando nossas mágoas em enormes taças de sorvete de chocolate. Às vezes as coisas do amor têm prioridade sobre as da boa forma. Dean não tinha mais falado comigo desde a nossa discussão na cantina da escola, na terça-feira. Eu dissera a mim mesma milhares de vezes que devia me sentir satisfeita por ele não ter mais tentado me convencer a não terminar. Eu, de fato, havia dito tudo o que tinha para dizer. E Dean não aceitara a motivação astrológica para o nosso rompimento. Aliás, reagira com bastante hostilidade à história da astrologia em geral. Tudo bem, eu precisava levar em consideração que nem todo mundo nesta vida era tão iluminado quanto eu, no que se refere à astrologia. Nem mesmo Jayne entendia por que ler os astros era tão importante para mim. Claro que eu sabia que tinha tomado a decisão certa. Mas ser mal compreendida era doloroso. Acho que nunca tinha me sentido pior em toda a minha vida.

Agora que eu não podia mais ansiar por sair com Dean, estava me dando conta de quanto tempo ele tinha sido uma parte importante da minha vida. Durante todo o ano letivo, eu sempre estivera muito atenta à presença dele. Agora, sua ausência criava um vácuo amoroso com o qual minha natureza escorpiana achava difícil conviver. Eu estava num total impasse.

Naturalmente, eu me voltei para Jayne em busca de consolo. Até cheguei a conjecturar que a solução a curto prazo para minha situação poderia ser adotar uma abordagem mais pisciana da vida. Eu deveria tomar um pouco de distância, analisar meus atos, ser

governada pela razão. Mas Jayne não estava ajudando. Ela se mostrava tão animadora quanto um cobrador de impostos. Se a quantidade de sorvete que ela estava tomando era sintoma de algo, Jayne se sentia no mínimo tão deprimida quanto eu mesma.

- O que você quer dizer com "sua única possibilidade de algum dia ter um namorado"? - perguntei.

Procurei mostrar-lhe pelo tom da minha voz que não me sentia completamente solidária com ela naquele momento. Afinal, nós não tínhamos ido lá para afogar as mágoas dela num sorvete de chocolate caro e altamente calórico, mas para afogar as minhas. Jayne enterrou sua colher no sorvete.

- Você deve se lembrar - ela respondeu. - Foi você mesma quem disse. Eu sou sua melhor amiga. John é o melhor amigo de Dean. Era o arranjo perfeito para que eu e ele nos conhecêssemos melhor. Agora que você e Dean não estão mais juntos, John e eu não temos a mínima chance. Eu a fitei nos olhos.

- Então quer dizer que você gosta mesmo de John Muirhead?

Eu já suspeitava que Jaynetinha uma forte queda por John, quando nos encontramos todos no Bob's Buzz Stop no fim de semana anterior. Mas desde então ela nem sequer mencionara o nome dele.

- Claro que gosto! – Jayne respondeu. - Gosto dele há meses. Não consigo acreditar que você não tenha percebido.

- Acho que ando tão perturbada com o que aconteceu com Dean que até me esqueci dessa

história sobre você e John. Jayne tomou outra colherada de sorvete.

- Não tem importância - ela disse. - Quero dizer, não vale a pena perdermos mais tempo falando disso. John provavelmente não vai sequer olhar para mim de novo. Ela suspirou.

De repente, me dei conta do quanto eu havia sido egoísta a semana toda. Afinal, Jayne era minha melhor amiga. Eu não devia abandonar a causa amorosa dela só porque a minha virara uma ruína.

- Bom, então vamos ter de dar um jeito para que ele olhe, Jayne. A colher de Jayne estancou em pleno ar.

- O que você quer dizer?

- Quero dizer que você não deve desistir. Se gosta mesmo dele, tem de fazer com que ele fique sabendo disso.

- Mas como? - ela perguntou. - Sem você e Dean

- A relação na qual você deve se concentrar é a relação entre você e John - interrompi

com firmeza. - E não na relação entre mim e Dean. Só porque eu e ele já somos passado, isso não quer dizer que você e John também tenham de ser.

- Mas eu não vejo como- Jayne protestou.

- Precisamos de um plano - anunciei.

Estiquei o braço para debaixo da minha cadeira e puxei minha mochila.

- Você e John Muirhead vão ser um casal! - declarei solenemente.

Abri o zíper da mochila e remexi dentro dela à procura de uma caneta. Depois, abri meu caderno numa página em branco.

Eu já estava começando a me sentir muito melhor. Ajudar Jaynee ]ohn a ficarem juntos ia ser uma ótima válvula de escape para meu romantismo escorpiano frustrado.

- Declaro esta sessão de planejamento estratégico iniciada - anunciei.

Fiz uma tabela com duas colunas e escrevi o nome de Jayne no topo de uma delas. No topo da outra, escrevi o nome de John.

- Muito bem, vamos começar pelo básico - falei. Vamos fazer uma lista das coisas que vocês dois têm em comum.

Depois vamos cruzar os dados para ver se algumas dessas coisas em comum podem se traduzir em possibilidade de namoro.

- Não posso acreditar que você vai fazer isso - Jayne disse com um sorriso um pouco

desdenhoso. Mas eu reparei que ela tinha parado de comer.

- É assim que as garotas realmente populares fazem as coisas?

- As garotas realmente populares têm bancos de dados no computador - respondi. - Mas

nós vamos ter de nos virar com a tecnologia mais à mão. E então, qual é a primeira coisa que você e John têm em comum? Jayne pensou por um momento.

- Você e Dean?

- Que tal médias escolares absolutamente inacreditáveis? E fazer parte do grupo de elite dos melhores alunos da escola? rebati. - Essas coisas provavelmente vão nos levar mais longe. E agora, o que mais?

- Que nós dois gostamos de milk-shake?

- Ótimo - falei. - Agora estamos começando a caminhar em alguma direção.

Meia hora depois, meu humor já tinha melhorado bastante. Eu até rira duas ou três vezes.

E as duas colunas da tabela estavam cheias. O cruzamento dos dados que possibilitariam

que John e Jayne se conhecessem melhor resultou em consumo de cafeína e clube de xadrez. Tínhamos decidido também que, tanto quanto possível, Jayne deveria tentar se sentar perto de John na aula de inglês, mesmo que isso significasse que teríamos de nos sentar distantes uma da outra. E que ela deveria ficar perambulando perto do escaninho de John pelo menos cinco minutos por dia.

- Então estamos combinadas - eu disse a Jayne.

Arranquei a folha do meu caderno na qual registrara todos os dados e a entreguei a ela.

- Guarde isto como se fosse a sua própria vida - instruí.

Ela dobrou o pedaço de papel e o enfiou no bolso de trás do jeans.

- Não se preocupe, vou guardar. Você pode imaginar como eu me sentiria humilhada se alguém encontrasse isto? Eu ri.

- Nem pense nessa possibilidade.

Fechei o zíper da minha mochila e me levantei. Enquanto seguia Jayne para fora da

confeitaria, me obriguei a admitir a verdade.

O fato de eu estar ajudando minha melhor amiga a tentar viver um grande amor não era a

única razão pela qual eu estava me sentindo melhor. Eu também sabia que, independentemente do que tinha acontecido entre mim e Dean, ele ainda era o melhor amigo de John.

E ajudar Jayne e John a ficarem juntos era o pretexto perfeito para continuar perto de Dean.

- Natalie, chegou um pacote para você! - minha mãe gritou no exato instante em que entrei pela porta de casa.

- Sério? - perguntei.

Humm

minha assinatura do Clube do eu, depois de ficarem anos me amolando pelo correio.

Atravessei a sala a caminho da cozinha, onde minha mãe estava de pé em frente ao fogão, remexendo numa grande panela contendo algo que cheirava deliciosamente bem.

- O que você está fazendo? - perguntei, espiando por cima do ombro dela.

- Chili - ela respondeu. - E salada, e pão de milho, acredite se quiser. Saí do trabalho mais cedo, porque houve um blecaute no nosso prédio.

- Oba! Um jantar de verdade!

Minha mãe sorriu.

- Não me diga que você se cansou de pizza e hambúrgueres?

- Jamais - respondi. - Bom, e onde está o tal pacote?

-Na mesa. Nós sempre deixamos a correspondência numa cesta que fica em cima da mesa da cozinha. Assim, nada some. A correspondência de hoje consistia numa caixinha de amostra grátis de sabão em pó, uma das intermináveis revistas de informática de meu pai e um catálogo de compras da Kleinfeld's. Perto da cesta havia um embrulho de papel

pardo, com meu nome escrito em cima:

Quem poderia ter me mandado um pacote? Eu finalmente conseguira cancelar

Srta. Natalie Taylor 3609 Seaview Street Seatle, WA 98199 Meu coração começou a bater um pouco mais rápido. Eu tinha quase certeza de que aquela era a letra de Dean.

Virei o pacote. Não havia remetente. Eu podia praticamente sentir o olhar de curiosidade da minha mãe.

- De quem é? - ela perguntou.

Eu não tinha conversado muito com minha mãe sobre meu recente fiasco amoroso. Mas como intuição materna é um de seus maiores predicados, eu tinha a sensação de que ela sabia que algo estava acontecendo. Mesmo assim, preferi não lhe contar que havia uma

chance muito boa de o misterioso pacote ter sido enviado pelo cara com quem eu acabara de ser obrigada a romper. Minha mãe nem sempre compreende meu envolvimento com os astros.

- Não sei - respondi dando de ombros. - Não tem remetente.

- Ah, um admirador secreto - ela comentou. Olhei para ela com o canto dos olhos.

- Não enche, mãe.

Minha mãe começou a juntar os ingredientes para o pão de milho.

- E isso é jeito de falar com sua mãe? - ela perguntou.

- Por favor - eu disse. - Por favor, não enche.

- E ainda dizem que os jovens de hoje não têm educação

Enfiei o pacote debaixo do braço. Aquele papo não ia levar a lugar algum.

- Vou subir lá para o meu quarto para abrir isto. Vejo você daqui a pouco.

- Quando terminar, seria ótimo se você pudesse pôr a mesa.

- Pode deixar, eu ponho.

- ela resmungou.

Se não estiver chorando demais para descer, acrescentei em silêncio. Meu quarto fica na parte de cima da casa. Bem em frente à minha janela ficam os galhos da árvore sob a qual Dean e eu havíamos nos beijado pela última vez. Uma vez na segurança e privacidade do meu quarto, precisei ainda de alguns minutos para criar coragem suficiente para abrir o pacote. Pelo menos não havia nenhum tique-taque soando dentro do embrulho. Isso eliminava a possibilidade de que Dean tivesse me mandado uma carta-bomba. Deixe de ser tão medrosa, Natalie. Dean não é do tipo que faria algo violento ou ofensivo para se vingar. Peguei uma tesoura na minha escrivaninha. Cuidadosamente, cortei o papel pardo. Quando o retirei, encontrei um objeto cuidadosamente envolto em várias camadas de jornal. Cavouquei através dos pedaços de jornal. Eu já estava a ponto de explodir de curiosidade quando, por fim, vi o que era: uma foto emoldurada. A moldura tinha um aspecto antigo. Era de madeira dourada e patinada, decorada com flores em alto-relevo nas bordas. Dentro da moldura, uma foto de nós dois juntos. Ao olhar para a fotografia, uma grande bola começou a se formar na minha garganta. Era a foto que tínhamos tirado no baile do Dia dos Namorados.

Dean e eu olhávamos sorrindo para a câmera. As rosas de seda vermelha presas no arco do caramanchão, bem acima de nós, combinavam perfeitamente com as cores do meu buquê. Nossos enormes sorrisos irradiavam felicidade. Só quarenta e oito horas depois de aquela foto ter sido batida, Dean e eu tínhamos nos confrontado na cantina da escola. E eu tinha rompido com ele. Desabei na minha cama, aninhando a foto contra o peito. Eu ainda podia me lembrar nitidamente de como me sentira enquanto Dean e eu posávamos para aquele fotógrafo pateta. Naquele momento, eu jamais teria adivinhado que nossa relação não estava destinada a durar. Tudo parecia absolutamente perfeito. Fechei os olhos. Na minha mente, Dean e eu estávamos na pista de dança, embalados pela suavidade da música. Enquanto dançávamos as músicas lentas, eu me esqueci por completo de que havia outras pessoas além de nós na pista. Todo o meu corpo começou a se arrepiar quando pressenti que Dean estava a ponto de me beijar. Mais tarde, depois do baile, deitei minha cabeça no ombro dele durante todo o trajeto de carro, de volta para minha casa.Sentia-me bela e romântica, como uma glamourosa personagem feminina saída de um antigo filme romântico em preto-e-branco. Meu cérebro me repetiu mais uma vez que eu tinha feito a coisa certa ao terminar com Dean. Nossos signos eram totalmente incompatíveis. Eu já tinha aprendido a lição da maneira mais dolorosa. Sabia que um envolvimento com outro geminiano me colocaria na rota do desastre certo. Eu estaria armando tudo direitinho para que meu coração se estilhaçasse mais uma vez.

Mas infelizmente meu coração parecia já estar completamente estilhaçado. Eu teria dado qualquer coisa para me sentir de novo a garota feliz que sorria radiante naquela foto emoldurada. A garota que achava que um futuro brilhante e cor-de-rosa a aguardava para

breve. Natalie, você é uma fraca, pensei olhando para a foto: você sabe muito bem o que tem de fazer.

O único jeito de superar aquela situação dolorosa era colocar Dean no passado de uma

vez por todas, e para sempre. Eu simplesmente não podia me permitir cair em sentimentalismos por causa daquela foto. Precisava tratá-la com a mesma dureza implacável com que tratara todas as fotos de Garth. Tentei me imaginar destruindo o presente que acabara de receber de Dean. Descendo a escada sorrateiramente na calada da noite. Abrindo a tampa da lata de lixo e jogando lá dentro a bela moldura.

Então percebi que nunca conseguiria fazer aquilo. Nem em um milhão de anos. Jamais poderia destruir uma foto de nós dois juntos, mesmo que isso significasse procurar

a

infelicidade por continuar vivendo no passado. Dean tinha significado muito para mim.

E

talvez ainda significasse.

Acomodei o porta-retratos no meu criado-mudo. O rosto sorridente de Dean seria a última

coisa que eu veria à noite, e a primeira que veria pela manhã.

6

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Tenha determinação! Se a vida andou lhe dando alguns golpes baixos ultimamente, agora é a hora de mostrar do que você é feito. Seu desejo de testar a si mesmo poderá levá-la a um beco sem saída. Mantenha os olhos (e o coração) abertos.

- Ok - eu disse a John. - Fase 1 concluída. Com brilhantismo, aliás, se é que eu próprio posso falar assim. Era sábado de manhã, e nós dois estávamos sentados no nosso canto favorito do Bob's Buzz Stop. John ergueu seu milk-shake de chocolate num brinde.

- Fase I? Era a foto no porta-retratos, certo? - ele perguntou.

- Claro que era a foto. Você não prestou atenção no que eu falei,John?

Meu plano para convencer Natalie de que deveríamos voltar já estava em andamento. Eu tinha ficado obcecado com aquela idéia, quando a foto do baile do Dia dos Namorados

chegara a minha casa pelo correio. Achei que mandar a foto a Natalie seria a maneira perfeita de iniciar minha campanha. Mas tinha sido perturbador ver documentada naquela fotografia o quanto Natalie e eu

Mas tudo fora

estávamos felizes então. Nossa relação tivera um começo tão

por água abaixo tão rápido quanto começara. Achei que dar a ela a nossa foto poderia fazê-la pensar em todas as coisas boas que

havíamos tido e ainda poderíamos ter juntos. Talvez ela até começasse a sentir um pouco de saudades. Mas eu não podia confiar só numa fotografia para fazer todo o serviço. Tinha de haver outras maneiras de provar a ela que deveríamos voltar.

- O que você acha de toda essa história de astrologia, John? - perguntei.

Meu amigo tomou um gole de milk-shake. Naquele dia, seu cabelo parecia ter passado

por um liquidificador.

- Não sei, Dean - ele respondeu. - Para mim, essa obsessão de Natalie com os astros parece bastante esquisita.

- Imagine para mim, então! - exclamei. - Não consigo acreditar que ela esteja falando sério. John ficou em silêncio por alguns segundos.

- Ela sem dúvida pareceu estar falando sério. Quero dizer, foi a única razão pela qual ela rompeu com você, não foi?

- Ela terminou comigo por causa de Garth Hunter - respondi.

- Por que você e Garth são ambos sei-lá-o-quê?

- Gêmeos. Mas isso deve ser só uma desculpa. Não pode ser o verdadeiro motivo. Não

faz o menor sentido.

- Dean - John disse -, nós estamos falando de uma garota.As garotas raramente fazem

sentido. Eu sorri para ele. John tinha razão. Um cara só pode ir até certo ponto, quanto se trata de compreender os mecanismos da mente feminina.

- Então, qual é a sua opinião? - perguntei.

- Bom, você e eu sabemos que esse negócio de astrologia é uma fraude, uma bobagem -

John disse ponderadamente. Mas não devemos partir do pressuposto de que Natalie também saiba disso. As garotas simplesmente não pensam do mesmo jeito que nós. Além do mais, temos provas bastante contundentes de que a astrologia é mesmo muito importante para ela.

- Como por exemplo?

- Aquele dia em que topamos com Natalie e Jayne tomando café aqui, a primeira coisa que Natalie fez foi perguntar o meu signo - ele me lembrou.

- Tem razão - concordei, tamborilando com os dedos no tampo da mesa.

Naquela época, eu tinha achado que a pergunta astrológica de Natalie tinha sido apenas

uma maneira de puxar papo. Mas agora

- Portanto - continuei, na mesma linha de raciocínio de John -, numa situação dessas um cara esperto tentaria tirar proveito dessa veia astrológica dela, ou ao menos não a ignoraria.

- É verdade - John concordou. - Mas nós não precisamos 110S tornar crentes. Podemos usar o método científico. Colher informações. Ver aonde elas nos levam.

- É isso aí! - exclamei. - Gosto dessa idéia, John. Agora só () que temos a fazer é descobrir onde poderíamos obter informações sobre astrologia. John apontou para um folheto pregado na parede do Bob's Buzz Stop.

- Que tal uma loja do tipo "nova era"?

Duas horas mais tarde, eu saía cambaleante do caixa da livraria Tudo Sob o Sol, os braços carregados com todos os livros que conseguira encontrar sobre astrologia, e em especial sobre o signo de Gêmeos. Eu tinha folheado alguns deles enquanto esperava de pé na fila: Sob os astros, Conhecendo o seu signo, Uma vida melhor através tio astrologia. Infelizmente, as passagens que eu localizara não eram I;í muito animadoras. Tive de admitir que não era difícil entender I)or que Natalie tinha chegado à conclusão de que não queria se envolver com outro geminiano. A lista de atributos dos geminianos traçava um perfil quase exato de Garth Hunter. "Charmoso" e "dinâmico" figuravam no topo da lista. Mas esses adjetivos eram seguidos imediatamente por volúvel, frívolo, inconstante, imprevisível. Mesmo assim, eu não iria me deixar desanimar. Não estava disposto a ser arruinado pelo meu próprio signo. Se aprendesse bem qual era o tipo de personalidade que se supunha

que um geminiano deveria ter, ficaria perfeitamente habilitado para mostrar a Natalie que eu não tinha nada em comum com meus colegas de signo.

- Ei! - John chamou, segurando numa mão um livro intitulado Amor e zodíaco, e

apontando com a outra para fora da loja Veja só aquilo!

- "Casa da Fortuna de Madame Sonya" -li em voz alta no cartaz para o qual John

apontava. - "Quiromancia, adivinhação do futuro, tarô. Deixe Madame Sonya mostrar-lhe o caminho."

- Uma visita a Madame Sonya pode ser exatamente o que você precisa - John disse. - Uma arma secreta.

- De jeito nenhum - respondi. - Não vou a uma vidente, John, nem pensar.

Ele encolheu os ombros.

- Não seja tão preconceituoso. Talvez ela lhe diga algo que você precisa ouvir. Na pior

das hipóteses, talvez você possa transformar sua visita à vidente numa conversa com Natalie. Provavelmente ela ficaria impressionada vendo que você está tão seriamente a fim de recuperá-la a ponto de ir procurar uma conselheira espiritual. Comecei a espirrar no instante em que entramos na Casa da Fortuna de Madame Sonya. Havia uma vareta de incenso queimando bem ao lado da porta de entrada. Uma outra passagem, também vedada por uma cortina de contas, encontrava-se bem à nossa frente. Imaginei que devia dar para o santuário privado de Madame Sonya. Passeei a vista pela sala em que estávamos. As paredes eram revestidas de tecido escuro.

No teto, havia um tecido tipo tule, salpicado de pintas fosforescentes. Supus que aquelas manchas brilhantes pretendiam representar as estrelas. Pequenos alto falantes acima de nossas cabeças emitiam uma expressiva música de violino cigano. Senti um lampejo de esperança. Talvez Madame Sonya fosse uma jovem lindíssima, como a Esmeralda do Corcunda de Notre-Dame. Talvez sua simples presença fosse me fazer esquecer até que Natalie Taylor existisse. Não tivemos tanta sorte. Uma gorda Madame Sonya surgiu de trás da cortina de contas. Ela usava um elaborado turbante na cabeça, e dava a impressão de ter esgotado todo o estoque de rímel e sombra púrpura do mercado. Seu rosto estava coberto por uma pesada camada de maquiagem.

- Ah, dois jovens incrédulos - ela disse, sua voz áspera, carregada de algum sotaque

inidentificável, lembrando um pouco o Conde Drácula. - Vocês vieram consultar Madame Zonya sobre suas desgraçadas vidas amorosas, não é? perguntou. Seus olhos negros cintilavam. Atrás de mim, John tossiu. Para não rir, supus.

- Madame Sonya, estamos desesperados - John disse, depois de outra tossidinha. - A

senhora precisa nos ajudar. Madame Sonya sorriu. Seus dentes eram muito brancos e muito pontiagudos. Talvez ela

realmente fosse uma vampira.

- Madame Zonya vai ajudar vocês, não se preocupem – a vidente replicou.

Ela se afastou para o lado, fazendo um gesto para que a precedêssemos.

- Entrem.

- Leia a sorte dele primeiro - instruí Madame Sonya, alguns minutos depois, apontando

para John. Estávamos agora no santuário interno da Casa da Fortuna. John e eu havíamos nos sentado em desconfortáveis cadeiras dobráveis, diante de uma pequena mesa. Do outro lado, Madame Sonya esparramava-se confortavelmente num hiper-acolchoado sofá de veludo vermelho. Suspeitei que a vidente tivesse escolhido aquelas cadeiras tão desconfortáveis de propósito. Provavelmente, queria que seus clientes prestassem mais atenção nas suas bundas dormentes que nas leituras pseudopsíquicas dela.

Madame Sonya franziu a testa.

- Você precisar aprender a ser mais paciente - ela me disse. - É um jovem muito ansioso. Seu sotaque tinha ficado mais carregado, agora que havíamos entrado na sessão de vidência propriamente dita.

- Pensei que fôssemos falar primeiro de John, não de mim - rebati.

Ela me olhou de soslaio.

- Tudo bem, tudo bem. Eu começar com seu amigo, já que é assim que você quer. Madame Sonya esticou o braço sobre a mesa.

- Mostre-me a palma do sua mão.

John obedeceu. Madame Sonya pegou a mão dele com a palma virada para cima e a ergueu até a altura de seu nariz. Enquanto isso, meu nariz começou a coçar

desesperadamente.

Estava a ponto de espirrar de novo. Pelo bem de John, torci para que o incenso não surtisse o mesmo efeito em Madame Sonya.

- Você estarr prrocurrando algo - Madame Sonya murmurou.

- Estarr prrocurrando um grrande amorr. Ela estarr muito perrto. Tão perrto que talvez vozê não a veja. Nem sempre serr fácil reconhecerr um alma gêmea. Isso é ótimo, pensei: alma gêmea. Madame Sonya acabava de me proporcionar uma oportunidade perfeita para torturar John.

- Ei, John - sussurrei alto -, ela está falando da Jayne Engerman.

John se recusou a olhar para mim, mantendo toda a sua atenção concentrada na quiromante.

- Dean, cale a boca. Você está perturbando as vibrações espirituais - ele ralhou.

- Mas ela só pode estar falando da Jayne - insisti. - A própria Natalie disse que vocês dois

são almas gêmeas.

Isso é ótimo, pensei: alma gêmea. Madame Sonya acabava de me proporcionar uma oportunidade perfeita para torturar John.

- Ei, John - sussurrei alto -, ela está falando da Jayne Engerman.

John se recusou a olhar para mim, mantendo toda a sua atenção concentrada na quiromante.

- Dean, cale a boca. Você está perturbando as vibrações espirituais - ele ralhou.

- Mas ela só pode estar falando da Jayne - insisti. - A própria Natalie disse que vocês dois são almas gêmeas.

- Vocês freqüentam outra vidente? - Madame Sonya perguntou, agora com menos

sotaque. - Quem é ela, essa Natalie?

- É a garota pela qual ele está apaixonado - John respondeu, apontando para mim.

- Do mesmo jeito que você está apaixonado por Jayne devolvi.

- Diacho, tudo bem -John disse, arrancando sua mão das mãos da vidente. - Você quer

que eu admita? Admito. Eu gosto de Jayne Engerman.

- Ótimo - falei. - Quem sabe agora você consiga fazer algo quanto a isso.

- Podemos passar para a leitura da sua sorte, por favor? - John perguntou irritado.

Mesmo com aquela luz tênue, eu podia ver que ele ficara corado.

- Para começo de conversa, era você quem precisava de ajuda, não eu - ele acrescentou. Madame Sonya balançou a cabeça com ar de desaprovação, e olhou brevemente para cada

um de nós.

- Muito conflito - ela murmurou. - Há conflito demais nesta sala. É ruim para a leitura. Nubla o espírito. Ela me encarou do outro lado da mesa.

- A palma de sua mão. Dê para mim.

Com cautela, estendi a mão para Madame Sonya. A coisa não parecia tão divertida assim, agora que ela ia concentrar seus poderes psíquicos em mim. Madame Sonya agarrou minha mão e começou a percorrer a palma com suas unhas pontiagudas, pintadas de escarlate.

- Ah! - ela exclamou, como se tivesse descoberto algo muito importante. - Então é daqui

que o conflito vem. Vozê estarr muito infeliz. Muito infeliz no amorr. Vozê fazerr infeliz

todo mundo à sua volta. Brilhante dedução, pensei. Qualquer idiota poderia ter percebido isso. Além do mais, quem já ouviu falar de pessoas felizes indo consultar videntes? Os videntes são como os terapeutas: as pessoas só os procuram quando algo vai mal em suas vidas.

- Seu caminho serr cheio de pedrras - Madame Sonya continuou. - Muito mais que o do

seu amigo. Ele só precisarr abrrirr os olhos e olharr ao redorr. Os seus olhos já estarr

aberrtos. Mas sua mente estarr cheia de ilusões. Vozê zó verr aquilo que querr verr. Naquele momento eu não queria ver mais nada além da luz do dia. Madame Sonya estava começando a me produzir uma sensação algo horripilante.

De um salto, a vidente se levantou do sofá e, com o corpo retesado, ergueu a palma da minha mão bem acima de sua cabeça.

- Vozê estarr no caminho cerrto, mas mantém perrto do corração algo que está

obstrruindo zua felizidade. Vozê prrecisarr liberrar isso. Liberrar! - ela quase gritou,

sacudindo meu braço com tanta força que pensei que talvez o tivesse torcido.

- E então o zeu amorr vai voarr livrre! - concluiu num grito arrebatado.

Soltou minha mão. Depois, tornou a sentar-se, como se a sessão tivesse sido espiritualmente exaustiva.

- Isso é tudo que eu poderr dizerr a vozês - Madame Sonya continuou. - As imprressões espirrituais, elas me abandonarram.

- Bom, hã

Ele ficou de pé. Parecia tão ansioso para ir embora quanto eu.

- São vinte dólarres porr cabeça - Madame Sonya informou. - Eu estarr fazendo prreço

bom para vozês. Voltem sempre que quiserrem. E tenham um bom dia. Peguei minha carteira. Vinte paus por cinco minutos de blablablá. Talvez eu devesse

parar de perder tempo com testes vocacionais e aprender a ler o futuro para ganhar a vida.

- Bom, isso foi espiritualmente iluminador - resmunguei, assim que John e eu

atravessamos a cortina de contas que dava para a rua. - Agora todo o meu futuro está

claro como cristal.

- Você tem de admitir, Dean, foi uma experiência interessante - John falou.

- Interessante, sim - concordei. - Mas vale vinte dólares? Não.

Enquanto nos dirigíamos para o carro de John, ponderei sobre as palavras de Madame Sonya. Talvez ela estivesse certa. Talvez eu fosse um iludido. Ilusão número um? Que eu tinha qualquer chance, por mínima que fosse, de recuperar Natalie.

Obrigado - John balbuciou.

Na segunda-feira, eu me sentei na minha carteira justamente no instante em que soava o último sinal. Um segundo depois, senti que os olhos de alguém estavam pousados em mim. Poderia ser? Prendi a respiração e fiz uma rápida prece. Dei uma olhadinha para os lados. Natalie olhava diretamente para mim. Meu coração pulou. Ela desviou o olhar imediatamente. Provavelmente, agora torcia para que eu não tivesse notado que estava me olhando. Mas fiquei feliz. Aquela era a primeira vez desde que tínhamos rompido que ela tinha olhado diretamente para mim. Mandar a fotografia havia sido uma boa jogada. Eu estava ganhando terreno. Correção: eu não estava perdendo terreno. Abri meu caderno assim que Dixon, o Panaca, iniciou sua aula. Estávamos quase no fim de Romeu e Julieta. Àquela altura da peça, metade das personagens importantes já tinha morrido. E a outra metade estava cometendo erros tão estúpidos que restava pouca dúvida de que também teria o mesmo fim. Os Montecchio e os Capuleto eram duas famílias que definitivamente teriam se beneficiado muito de alguma terapia familiar. Percebi que eu era a única pessoa na classe que estava olhando para uma folha de papel em branco. Todos os demais estudavam seus exemplares de Romeu e Julieta. Rapidamente abri meu livro, fingindo prestar atenção à palestra de Mr. Dixon. Mas só conseguia pensar em Natalie. Precisava planejar minha próxima jogada. Achei que não deveria chegar diretamente nela e perguntar-lhe se tinha gostado da foto. A situação parecia pedir uma abordagem mais indireta. Algo com finesse. Algo que mostrasse que eu me importava com a nossa relação, mas que ao mesmo tempo não me fizesse parecer ansioso demais. Não tinha cabimento sacrificar totalmente o pouco que restara do meu ego masculino. Mantive os olhos em Dixon, o Panaca, enquanto considerava minhas opções. Ele marchava agitado diante da classe, arrastando enormes nuvens de pó de giz atrás de si. Então, virou-se de repente, dando as costas para os alunos, e começou a escrever

furiosamente na lousa. Uma oportunidade ideal surgira. Eu iria usar aqueles segundos de liberdade para escrever um bilhete para Natalie. De acordo com minha experiência, as garotas estavam sempre escrevendo bilhetes umas para as outras. Mas elas raramente recebiam bilhetes da metade masculina da espécie. Eu não podia imaginar, por exemplo, Garth Hunter dando-se ao trabalho de escrever um bilhete amoroso - ou de qualquer outro tipo – para a garota de seus sonhos. Perfeito, pensei: totalmente não-geminiano. Tirei a tampa da minha caneta. Esperei que, caso Dixon, o Panaca, me visse escrevendo, supusesse que eu estava tomando notas da sua incrível conferência.

Querida Natalie, Você recebeu a foto que lhe mandei? Quando olho para essa foto, é como se voltasse no tempo. Quase posso ouvir a fita com aqueles estúpidos sons de pássaros.

Bom, e agora, o que mais? Eu não tinha a mínima idéia do que escrever em seguida. Não podia começar logo a implorar. Ou podia? Continuei:

De todo jeito, espero que você goste da foto tanto quanto eu. Talvez possamos sair algum dia desses, para tomar um café na sua cafeteria favorita, o Café Luna. Se der, é só me dar um toque. Você sabe onde me encontrar. Sou o cara no fim da fileira, tentando se manter acordado durante esta aula absolutamente entediante.

Saudades,

Dean

Era um bilhete meio bobo. O sentimento que ele emanava era um cruzamento entre algo que eu escreveria num diário escolar e o tipo de carta que, quando pequeno, costumava mandar à minha mãe dos meus acampamentos de verão. Pelo menos não tinha dito a Natalie para "continuar bonita como sempre e tentar arranjar um namorado neste verão". Dobrei o bilhete em dois e escrevi o nome dela na frente. Me forcei a passar o bilhete a John, antes que pudesse mudar de idéia. _ Passe isto - sussurrei, continuando a vigiar Mr. Dixon. Da última vez que ele pegara alguém passando um bilhete, fizera a remetente escrever seu conteúdo na lousa cinqüenta vezes. John passou o bilhete para Becky Greer, que estava sentada perto dele. Becky o passou para Gretchen Rubin. Fechei os olhos. O bilhete estava fora do meu controle. Agora só me restava esperar pela reação de Natalie.

7

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro)

A guerra dos sexos continua. Haverá momentos em que você se sentirá encurralada. A esperança pode residir numa revelação surpreendente. Pratique atos aleatórios de gentileza desinteressada, mais conhecidos como "boas ações".

— Natalie! —Jayne sussurrou alto.

Dei um salto na cadeira. Eu estava divagando com o discurso de Mr. Dixon sobre os

méritos dos dois pretendentes de Julieta, Páris e Romeu.

Aquilo estava longe de ser a maneira mais fascinante de começar uma manhã de segunda-feira. E discutir sobre Páris era uma total perda de tempo. Nenhuma garota com uma cabeça saudável se apaixonaria por um cara escolhido pelo pai dela.

— O que foi? — sussurrei na direção de Jayne, mantendo os olhos fixos em Mr. Dixon.

Eu não podia me permitir ser pega falando durante a aula dele de novo. Jayne não respondeu. Em vez disso, me passou uma folha de caderno dobrada. Meu nome estava escrito nela em letras de fôrma. Mais uma vez, reconheci a letra. Era de Dean. Ele tinha me mandado um bilhete. Era mais corajoso do que eu imaginara. Dean sabia que se Mr. Dixon encontrasse o bilhete, seu texto terminaria na lousa. Durante todo o fim de semana eu tinha pensado em que atitude adotar quando visse Dean na segunda-feira de manhã. Eu precisaria admitir perante ele que tinha recebido a foto de nós dois juntos. Não poderia simplesmente ignorar o fato No fim eu tinha resolvido ser amigável, porém reservada e distante. Agradeceria educadamente pelo presente. Mas de uma maneira não tão calorosa a ponto de ele pensar que eu queria voltar. Havia só um problema. Eu ia ter de falar com Dean. Nós não tinhamos dito mais nenhuma palavra um ao outro desde aquele dia terrível na cantina da escola. Só a idéia de

olhar em seus olhos e falar com ele fazia meu coração bater mil vezes por segundo. Na noite anterior, eu tinha prometido a mim mesma que a primeira coisa que faria na segunda-feira de manhã seria agradecer a Dean pelo presente. Mas assim que ele entrara na aula de inglês, eu percebera que nunca seria capaz de ir adiante com aquele meu plano tão adulto e maduro. Deitada em minha cama, imaginando a maneira simpática e serena como iria agradecer a Dean pela foto, a cena parecera totalmente plausível. Nessa minha visualização mental, porém, eu deixara de fora um elemento muito importante da futura situação real: meus sentimentos. Eu nem mesmo estava segura de quais eram eles àquela altura, mas sabia muito bem que não tinha atingido o estágio de poder pensar em Dean apenas como um amigo. Coloquei minha mão sobre o bilhete. Talvez eu pudesse absorver seu conteúdo por osmose. Por que ele o escrevera? O que diria? De acordo com o perfil de seu signo, escrever um bilhete não era coisa que Dean devesse ter feito, em absoluto. Pela minha experiência, o geminiano sempre quer ser o centro das atenções. Como geminiano que era, Dean deveria ter se obstinado a esperar que eu fizesse o primeiro movimento. Aliás, todo o comportamento de Dean com relação à fotografia tirada no baile era totalmente não-geminiano. Se já não soubesse qual era seu signo, teria jurado que ele estava agindo como um típico taurino. O fato de Dean estar se comportando como um taurino me deixava bastante confusa. Antes de mais nada, eu queria lhe responder como sempre respondera antes do nosso

rompimento. Mas sabia que não podia me permitir fazer isso. Eu não podia me deixar levar pelo fato de Dean não parecer um geminiano. Ele era um geminiano. Estávamos destinados, mais cedo ou mais tarde, ao desastre. Isso estava escrito nos astros. Olhei de novo para o bilhete. Não podia esperar nem mais um segundo. Meus dedos quase doíam de tanta vontade de desdobrar o papel e ver o que Dean escrevera nele. Mantive meus olhos fixos em Dixon, o Panaca, enquanto abria o bilhete e o alisava com as mãos. Li palavra por palavra, uma vez, depois outra, e mais outra. Redobrei o bilhete e o enfiei debaixo do meu caderno, onde ficaria em segurança. Meu coração batia aos pulos. Talvez Dean tenha acabado de me fazer um favor, pensei. Se agradecer pelo retrato com um bilhete de resposta, não vamos precisar nos falar pessoalmente. Abri meu caderno numa página em branco. Lá na frente, Mr. Dixon deixou cair um pedaço de giz no chão. Enquanto ele se curvava para pegá-lo, comecei a escrever.

Querido Dean,

A foto ficou demais. Adorei, de verdade. E sei exatamente o que você quer dizer quando

fala daqueles sons de passarinhos. Sempre que penso naquele fotógrafo bobão que bateu

a foto, eu rio.

Parei. Que diabos estou fazendo?, perguntei a mim mesma: não posso mandar a ele um bilhete neste tom. O texto não estava "amigável, porém reservado e distante". Estava totalmente amigável. Rabisquei tudo o que tinha escrito e comecei de novo.

Querido Dean,

Muito obrigada pela foto adorável. Gostei em especial da moldura. Você teve de procurar muito para encontrar uma que fosse decorada com rosas?

Obrigada de novo,

Natalie

Bom, isso sem dúvida está muito melhor, pensei com sarcasmo, olhando para o sucinto bilhete. Soava como se eu tivesse voltado ao pré-primário. Era uma réplica praticamente exata de todas as cartas de agradecimento que eu havia escrito a minha avó na infância. Risquei tudo de novo. Vamos lá, Natalie, você é capaz de fazer isso, disse a mim mesma: não é um tratado de filosofia; é só um bilhete de agradecimento. Mr. Dixon voltara à lousa. Agora, fazia uma lista dos membros das casas Montecchio e Capuleto que ainda continuavam vivos àquela altura da peça de Shakespeare. Querido Dean, comecei pela terceira e, assim esperava, última vez O seu presente foi muito gentil. Muito obrigada.

Era isso. Só duas frases. Amigável, porém reservada e distante. Arranquei a folha do meu caderno e dobrei-a duas vezes. Escrevi rapidamente o nome de Dean na frente e dei o bilhete a Jayne, antes de ter tempo de mudar de idéia. Com o canto do olho, vi Jayne entregá-lo a Kirk Parker. Assim que a mão de Kirk agarrou o pequeno pedaço de papel, meu coração parou. Uma fria dormência percorreu toda a minha espinha dorsal. Eu não tinha passado o bilhete a limpo! Ficara tão preocupada em fazer a nota chegar às mãos de Dean antes do fim da aula, que não me lembrara de reescrever aquelas duas frases medíocres em outra folha de papel. Como eu podia ter sido tão burra? Agora Dean ia saber quanto eu tivera de me esforçar para lhe responder. E saberia todas as coisas que eu tivera medo de dizer.

— E então, você vai me contar o que havia no bilhete ou não?—Jayne perguntou.

Estávamos sentadas na cantina meio decadente de Emerald High bebendo chocolate quente e tentando não cair numa orgia total de cookies amanteigados. Ainda tínhamos mais dez minutos antes que o intervalo do meio da manhã terminasse. Eu ainda não havia mostrado a Jayne o bilhete de Dean. Relutava em tocar no assunto Dean. Desde a aula de inglês, ficara lutando para expulsar da minha mente quaisquer

pensamentos sobre ele. Mas parecia impossível. O bilhete fizera coisas demais voltarem à tona. Encolhi os ombros.

— Ele só queria saber se eu tinha gostado da foto que me mandou. Só isso.

— Havia algo sobre John e eu? —Jayne indagou.

— Não, nada — respondi.

Pela milionésima vez nas poucas últimas semanas, me senti culpada por me esquecer de que os outros têm sentimentos tanto quanto eu.

— Sinto muito, Jayne.

Jayne remexeu seu chocolate quente com a colherinha.

— Esse negócio de tentar mostrar a John que eu gosto dele nunca vai funcionar, não é,

Natalie?

— Claro que vai funcionar! — protestei. — Você não pode desistir já. Ainda é

segunda-feira. A única coisa que você teve tempo de fazer até agora foi tentar se sentar

perto dele na aula de inglês.

— E nem isso consegui — Jayne suspirou.

— Amanhã será outro dia — insisti. — E aí você vai se sentar perto dele.

— Eu sei — Jayne disse. — É só que

que Dean tivesse dito algo. Quero dizer, como vocês dois não têm mais o que falar sobre a relação de vocês, quando vi que ele tinha escrito um bilhete para você, achei que talvez pudesse ser algo sobre mim e John.

— Eu bem que gostaria que tivesse sido — falei. Assim eu não estaria me sentindo tão confusa agora, acrescentei em pensamento.

— Acho que vou dar uma pulo na biblioteca — Jayne anunciou. — Preciso devolver um

livro que já passou do prazo. Jayne nunca estourava os prazos de devolução dos livros, mas não vi nenhuma razão para

Sei lá, eu realmente estava com a esperança de

pedir para ela ficar. Era óbvio que ela estava chateada, e eu não queria me intrometer.

— Tudo bem — assenti. — Mas não se esqueça: na hora do almoço, você tem uma tarefa a cumprir na ala dos escaninhos.

— Como se fosse adiantar grande coisa

Jayne jogou sua mochila por cima do ombro e saiu andando. Continuei sentada na cantina, contemplando as profundezas do meu chocolate quente. Não estou ajudando muito, constatei. Jayne estava desanimada, e ainda não tínhamos superado nem metade da segunda-feira. Uma garota mais habituada às coisas do amor saberia que não deveria esperar milagres da noite para o dia. Mas Jayne não tinha familiaridade com essas coisas. Percorri mentalmente a lista que havíamos elaborado sobre o que ela e John tinham em comum. Talvez houvesse algo que eu tivesse deixado escapar. Algo que pudesse trazer um retorno mais imediato para Jayne. Mesmo a garota mais autoconfiante do mundo acha difícil dar em cima de um cara, quando não se sente segura de que ele está mesmo interessado. Tomei outro gole do chocolate quente. O que precisávamos era de uma situação social. Um evento que fizesse John e Jayne se encontrarem e, então, os forçasse a passar algum tempo juntos, preferivelmente um tempo que envolvesse estreito contato físico. Um baile seria perfeito. Mas não haveria mais nenhum até depois das férias de primavera. Bati com a colherinha na borda da xícara. Tirando um baile, a melhor opção seguinte seria uma festa. Nas festas geralmente se dança, sobretudo músicas lentas. Mas como eu podia ter certeza de que John tiraria Jayne para dançar? Vamos lá, Natalie, pensei. Tem de haver uma solução. Pense com a cabeça de Jayne. Finja que é uma pisciana.

Eu precisava ser racional e lógica. Tinha de haver uma maneira de garantir que John e Jayne fossem parar num mesmo lugar na mesma hora. Com a dança e o clima de paquera, eu poderia me preocupar depois.

Uma festa de aniversário era a opção mais óbvia. O aniversário de Jayne estava chegando. Se eu organizasse uma festa para ela e convidasse John

— Natalie! — quase gritei comigo mesma. — Você é uma idiota total e completa!

Na minha lista, eu tinha passado por cima da coisa mais óbvia que Jayne e John tinham em comum: eles faziam aniversário no mesmo dia! E, embora ainda não soubessem disso, Jayne e John em breve iriam compartilhar também uma festa de aniversário.

8

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Progresso! As coisas começam a se mover a seu favor, mesmo que isso possa não parecer evidente de início. Sua dedicação e perseverança são seus dois bens mais valiosos. Não deixe que a raiva, mesmo que justificável, o desvie do caminho certo.

— Você pode fazer isso — insisti. — Vamos lá, John, você tem de me dar uma mão.

— É que eu simplesmente não vejo que vantagem isso vai trazer —John protestou.

Era hora do almoço, e estávamos parados no corredor central da escola. Perto do fim do corredor, Jayne e Natalie estavam de pé, bem em frente ao escaninho de John.

— Já expliquei a você — continuei. — Quero saber o que Natalie está sentindo, mas

ainda acho que não é boa idéia adotar uma abordagem direta. O que significa que você precisa sondar Jayne em busca de informação. Não entendo por que você está criando

tanto caso por causa disso. Eu sei que quer falar com ela.

Uma expressão de pânico invadiu o rosto de John. Ele parecia mais como se estivesse a ponto de encarar um pelotão de fuzilamento do que de conversar com uma garota bonita. Até seus cabelos tinham perdido vida de tanta tensão.

— Certo, tudo bem, eu quero falar com ela —John admitiu. — Mas eu estava pensando

em algum dia num futuro distante. Como, por exemplo, lá pelo ano 2010.

— Em 2010 vai ser tarde demais, John. Vamos lá, eu desafio você.

— Esqueça — ele disse. — É você quem não consegue resistir a um desafio. Não eu.

— Encare a coisa desta maneira, John: se você não falar com ela, vai passar o resto da

vida se perguntando o que poderia ter acontecido se tivesse falado. Ela não vai esperar por você para sempre. Vai encontrar algum outro cara. E então você vai realmente se sentir um idiota. John gemeu.

— Tá bom, tá bom, eu vou — ele cedeu. — Mas se o tiro sair pela culatra, vou ensinar a

seus irmãozinhos todos os experimentos científicos que conheço que envolvam o uso de

substâncias químicas fedorentas.

— Boa sorte — concordei, rindo.

Fiquei olhando enquanto John caminhava na direção de Jayne e Natalie. Apoiei-me nos escaninhos da parede atrás de mim e tentei fingir que refletia sobre alguma coisa importante. Quando John chegou às garotas, reparei que o rosto de Jayne ficou meio avermelhado. Mas Natalie só sorriu. Depois de um instante, Jayne e John saíram andando. Naquele momento, percebi que ter armado aquela situação para que John e Jayne ficassem sozinhos acarretara uma conseqüência que eu não havia previsto: Natalie e eu também tínhamos ficado sozinhos no corredor. Bom, não exatamente sozinhos. Estávamos de pé no meio de um movimentado corredor de escola. E nem estávamos tão perto um do outro. Mas a sensação era de estarmos totalmente a sós. Eu disse a mim mesmo que deveria simplesmente sair andando de uma maneira casual na direção dela. Então me lembrei de que tinha decidido não adotar a abordagem direta. Ainda assim, não tinha certeza de que poderia resistir àquela oportunidade de falar com Natalie. Mas antes que eu pudesse pesar os prós e os contras de falar ou não com ela, Natalie tomou a decisão por mim. Olhou em minha direção. Então, sorriu e me fez um sinal com o polegar para cima. Chegou mesmo a dar uns dois ou três passos na minha direção. Meu coração pulou. Ela estava vindo falar comigo — e voluntariamente. Mas, quando estava a alguns metros de distância, congelou, paralisada. Sem sequer me olhar de novo, deu meia-volta e saiu andando na direção oposta. Fiquei olhando por alguns instantes, enquanto ela caminhava a passos rápidos pelo

corredor, afastando-se de mim, e quando comecei a me dirigir para a aula seguinte, percebi que me sentia muito bem. Sem dúvida alguma, Natalie estava me enviando sinais contraditórios. O que era muito melhor que nada. Definitivamente, as coisas estavam começando a melhorar.

— Dean! Aqui! — Frank Sebree gritou.

Lancei a bola de basquete para Frank, e então limpei o suor dos olhos. Corri pela quadra a tempo de ver Peter Jackson fazer uma cesta perfeita. O outro time tomou posse da bola e saiu jogando pelas laterais. Depois da última aula, quase sempre rolava um joguinho de basquete no ginásio do centro comunitário local. E naquele dia eu tinha sentido uma necessidade especial de queimar minha energia extra de alguma maneira vigorosa. Depois do que acontecera no corredor da escola com Natalie, eu tinha ficado bastante agitado. Peter me passou a bola. Dei um drible e passei a bola para outro companheiro, por baixo das pernas do adversário. Fizemos cesta de novo. Até aí, tudo ia correndo do jeito que eu queria. Eu estava obtendo alguns progressos com Natalie. E até conseguira trabalhar um pouco na história de John e Jayne. Mais alguns dias como aquele, e nós todos viveríamos felizes para sempre. Em vez de vidente, talvez eu devesse me dedicar a ser agente de casamentos.

— Ei, pessoal — Peter sugeriu —, vamos fazer um intervalo.

Fomos todos para a lateral da quadra. John me jogou uma toalha. Eu sempre suo feito um

animal quando pratico qualquer tipo de esporte.

— E então? — perguntei a John. — A Jayne contou alguma coisa a você?

Eu já tinha me agüentado o máximo que podia sem pressioná-lo para que me contasse os

detalhes de sua conversa com Jayne.

— Ei, Romeu! — uma voz chamou alto, antes que John pudesse responder. — Que tal

esse joguinho de basquete? Olhei com o canto do olho e bufei silenciosamente. Eu não estava com o mínimo saco para aturar Garth Hunter. E não podia entender por que ele não me deixava em paz. Minha mente racional sabia que era mais vantajoso eu ficar na minha, mas começava a

me sentir farto de ser alvo das zombarias de Garth. Se não o detivesse, ele poderia continuar me enchendo para sempre.

— Por que você não vem jogar e confere por si próprio? — rebati.

Garth franziu a testa.

— Por acaso você pensa que pode dar conta de mim?

— Por acaso eu penso que não quero ter absolutamente nada a ver com você, Garth — respondi. — Mas este é um país livre. Se você quer jogar, vá em frente.

O rosto de Garth parecia de pedra enquanto ele tirava sua jaqueta e a jogava nas arquibancadas.

— Tudo bem, grande — ele disse. — Vamos ver do que você é capaz.

Garth nem sequer perguntou se alguém estava disposto a ficar no banco para deixá-lo jogar. Simplesmente entrou na quadra e começou a brincar com a bola. Pela enésima vez nos últimos tempos, fiquei revoltado com a presunção de Garth de sempre achar que

merecia ser o centro das atenções. Voltamos para a quadra e retomamos o jogo. Peter pegou a bola e a lançou para mim.

Parti com ela rumo à cesta. Garth se manteve na minha cola a cada passo do caminho. Eu estava quase a ponto de arremessar a bola quando ele a arrancou das minhas mãos com um soco, lançou-a com rapidez para um companheiro de equipe e, então, me tirou do caminho com uma cotovelada. Se estivéssemos jogando com regras e juiz, ele teria cometido uma falta grave.

— Qual é o problema, grande? — ele gritou, enquanto eu o marcava ao longo da quadra.

— Sua mente não está no jogo?

— Pelo menos eu tenho uma mente — rebati. Garth riu.

Seu time fez cesta, e eu peguei a bola. Lancei-a para Brian Thompson e corri para o centro da quadra.

— Ainda não conseguiu voltar com Natalie, não é? — Garth continuou.

Ele corria a meu lado, seu rosto a apenas poucos centímetros do meu. Decidi que não me

dignaria a responder àquele comentário. Peter me lançou a bola. Garth deu um bote adiante para tentar pegá-la antes de mim. De repente, nossos pés se entrelaçaram e Garth caiu no chão justo no momento em que eu conseguia agarrar a bola.

Desculpe aí — falei, estendendo-lhe minha mão para ajudá-lo a se levantar.

O

fato de Garth ter tropeçado nos meus pés era culpa exclusivamente dele, mas para mim,

apesar da má atitude dele desde o começo ainda continuava a existir o chamado espírito esportivo. Garth afastou minha mão com um tapa.

— Deixe-me contar uma coisinha a você, Smith — Garth disse, levantando-se sozinho.

— Eu posso ter Natalie Taylor de volta na hora que quiser. Você não tem a mínima chance.

— E quem disse que eu quero uma? — retruquei.

Pude sentir meu rosto começar a esquentar, mas não pretendia dar a Garth mais nenhuma munição além da que ele já tinha.

— Você é realmente patético — Garth atacou. — Não pense que consegue enganar

ninguém, cara. Você tem seguido Natalie por aí feito um cachorrinho com a língua de fora. Seria detestável se nao fosse tão triste.

Senti meus nervos começarem a fugir do meu controle. — Você é um babaca, Garth. E

Natalie jamais voltaria com você. Ela só terminou comigo porque tem medo de que eu a trate tão mal quanto você a tratou. Infelizmente, o meu signo é o mesmo que o seu.

O rosto de Garth ficou vermelho. Ele parecia furioso. — Isso é uma desculpa esfarrapada,

e você sabe muito bem. Essa historia de astrologia é só um pretexto. A verdade é que ela fez uma comparação entre nós dois. Você não estava à altura e então ela lhe deu o fora. Meu estômago deu um nó. Garth acabava de verbalizar o meu receio mais profundo. O receio que eu tinha lutado tão duramente para afastar dos meus pensamentos.

— Você é um miserável presunçoso, Garth — gritei.

— A qualquer hora — ele repetiu com escárnio. — Posso tê-la de volta a hora que quiser. Ela nem sequer se importaria se tivesse de me dividir com Tanya.

— Já me enchi desse assunto — falei, saindo da quadra. — Vim aqui para jogar basquete, não para discutir suas fantasias.

— Ok, tudo bem — Garth disse atrás de mim. — Vá embora. Tudo o que eu disse é a pura verdade, e você não é homem suficiente para encará-la.

— A sua definição de homem é um Neanderthal.

Agarrei minha jaqueta do banco. Sem olhar para trás, caminhei para a porta. Eu sabia que estava dando a vantagem a Garth ao desertar daquela maneira do nosso confronto. Mas já tinha agüentado tudo o que podia agüentar num só dia. Escancarei as grandes portas de aço do ginásio e saí. Lá fora chovia. A tarde fria e chuvosa combinava perfeitamente com meu estado de espírito. Enquanto cruzava o estacionamento, as palavras de Garth iam ecoando na minha cabeça. Eu queria apagar o que ele dissera, mas não conseguia. Garth e Natalie haviam sido namorados. Isso era um fato. E nada que eu pudesse fazer alteraria o passado. Não queria acreditar que Natalie tinha rompido comigo porque secretamente preferia Garth Hunter. Natalie não era o tipo de garota que podia suportar por muito tempo o comportamento execrável de Garth. Disse a mim mesmo que quem falara o tempo todo na quadra de basquete fora o ego de Garth. Sua afirmação de que Natalie voltaria para ele não tinha base em nada além da sua inflada opinião sobre si próprio. Mas, enquanto abria a porta do carro, meus pensamentos mergulharam num círculo vicioso. Será que mesmo quando Natalie respondia aos meus beijos, lá no fundo ela não estava me comparando com Garth?

***

A noite de sexta-feira foi um fiasco total. Sete dias antes, eu esperava ansiosamente pela hora de sair com Natalie. Agora, a única coisa pela qual eu podia ansiar era assistir a "Arquivo X" na televisão. Sentei-me na sala com John, minha mãe e meus irmãozinhos. Aquilo estava longe de ser uma companhia romântica. E eu ainda me sentia tão magoado pelo que acontecera com Garth na quadra de basquete que até tinha me esquecido de brigar com Roy e Randy pela parte das pipocas que me cabia por direito. Mas eu não era o único que parecia desgraçado. John estava acabrunhado desde que chegara. Durante toda a noite tinha ficado sentado na frente da televisão com um olhar vidrado.

— Hora de ir para a cama — minha mãe finalmente anunciou aos gêmeos.

— A gente não quer ir ainda, mãe! — Roy choramingou. Minha mãe lançou-lhes um de seus olhares terríveis.

— Sem discussões — ela disse.

Os gêmeos pularam obedientes do sofá e saíram andando na direção da escada. Sabiam que não deviam mexer com mamãe quando aquela expressão aparecia nos olhos dela.

— Ei, John — falei, assim que ficamos sozinhos —, me desculpe por estar meio distraído hoje. John observava fixamente o agente Mulder caçando um extraterrestre num beco escuro.

— Não se preocupe — ele disse. — Para falar a verdade, nem percebi.

A agente Scully apareceu, brandindo uma daquelas lanternas halógenas do FBI. Sempre fiquei impressionado com as enormes distâncias que ela consegue correr com aqueles sapatos de salto alto.

— No fim, acabei ficando sem saber — comecei. — Como foram as coisas hoje com Jayne, afinal?

Ao ouvir o nome de Jayne, John gemeu.

— Foi meio difícil arrancar algo dela — ele respondeu. — Disse que Natalie não anda conversando muito sobre como se sente em relação ao rompimento com você.

Isso seria bom ou ruim? Por um lado, eu estava contente por Natalie não ter saído por aí contando para todo o mundo como se sentia depois de ter me dado um pé na bunda. Mas por outro, eu gostaria que ela tivesse confessado à sua melhor amiga que se sentia infeliz sem mim.

— E você acha que conseguiu causar alguma impressão em Jayne? — continuei.

John fez uma careta de desânimo e desviou o olhar da televisão.

— Causei uma impressão, sim. A impressão de ser um panaca total. Eu tinha uma

oportunidade perfeita para convidá-la para sair. Nada demais, talvez só um café, ou algo do gênero. E tudo o que consegui fazer foi conversar sobre Natalie e você. De repente, me senti um pouco culpado. Eu andara tão emaranhado com os meus próprios problemas amorosos que não me lembrei de pensar que talvez estivesse usando John só para atingir meus objetivos.

— Da próxima vez vai ser mais fácil — falei, tentando animá-lo. — Você quebrou o gelo. Estabeleceu contato.

— Falando assim, você faz a Jayne parecer um et —John resmungou.

— Bem, encare a realidade, John: ela é uma garota.

Sob circunstâncias normais, John teria pelo menos dado um leve sorriso pela minha observação. Mas ele continuou a olhar para a tela da televisão com a mesma expressão melancólica.

— Se Garth e Natalie voltarem a ficar juntos, o que vai acontecer comigo e com Jayne?

— ele perguntou. Então era isso! John estava tão preocupado com Garth Hunter quanto eu.

— Isso não vai acontecer, John — respondi. — Não há a menor chance.

— Mas se acontecesse — John insistiu —, eu nunca poderia convidar Jayne para sair.

Quero dizer, seria como trair meu melhor amigo.

— John — falei com voz baixa e calma —, se você quer convidar Jayne para sair, deve

convidar, não importa com quem Natalie esteja. Não existe nenhuma regra que diga que

você não pode sair com uma garota simplesmente porque detesta o namorado da melhor amiga dela.

— Eu nunca vou ter coragem de convidar a Jayne para sair — John disse. — Por isso, acho que essa questão toda de Natalie e Garth nem vem ao caso.

— Sai dessa, John. Você não pode desistir agora. Ainda não fez nada.

— Você fez, e veja só no que deu —John apontou com amargor.

Eu nunca tinha visto meu amigo tão deprimido. Era preocupante.

— Você não pode pensar assim — insisti. — Se pensar, nunca vai sair com ninguém.

— Na verdade — John admitiu —, é mais ou menos isso o que eu tinha em mente.

Por volta da uma da manhã, eu me sentia exausto, mas não conseguia dormir. Fiquei deitado na cama, olhando para o teto. Desde que John fora embora, poucas horas antes, eu ficara pensando na situação dele. Preocupar-me com a inexistente vida amorosa do meu melhor amigo era melhor do que me preocupar com minha inexistente vida amorosa. John evidentemente não seria capaz de convidar uma garota para sair sem um pouco de

ajuda de um amigo. Naquela toada, ele ia terminar passando a vida num monastério. Não posso deixar isso acontecer, pensei. Independentemente do que ocorrer entre mim e Natalie, tem de haver uma maneira de preservar os sentimentos que possam existir entre John e Jayne. Eu precisava planejar um acontecimento que colocasse John e Jayne juntos. Algum evento especial. Queria que fosse o tipo de situação em que Jayne pudesse ver o quanto John era legal. E seria melhor se John fosse o centro das atenções. Mas como? De repente, ri alto.

A ocasião perfeita estava chegando, e eu estaria pronto para ela. Ia preparar uma festa de

aniversário surpresa para John.

— Você já escolheu o tema para sua festa? — a vendedora da loja me perguntou.

Era sábado de manhã, e assim que recebi o sinal verde de minha mãe, saí de casa com a

missão de organizar a festa para John. Não havia motivo para perder tempo. Olhei para o crachá da vendedora. Seu nome era Julie, e felizmente ela parecia ser bastante simpática. Organizar festas não é exatamente algo em que eu tenha lá muita experiência. Eu tinha a sensação de que iria precisar de toda a ajuda que pudesse conseguir. Três de março não estava tão longe assim. E, segundo Julie, eu tinha muitas coisas a considerar.

O fato de que eu talvez tivesse de escolher um "tema" para uma simples festa de

aniversário jamais me ocorrera. Imaginei que iria comprar alguns balões, pratos de papel, velas

— Precisa ter um tema? — perguntei.

Julie riu.

— Claro que não. Mas muitos de nossos clientes preferem assim. O tema torna mais fácil

coordenar as compras.

— Eu nunca fui muito coordenado — confessei, fazendo-a rir de novo. — Tudo bem se eu simplesmente der uma olhada pela loja?

— Claro. Se eu puder ajudar em alguma coisa, é só me chamar.

— Obrigado, chamo sim.

Comecei a dar um giro pelo local. A primeira coisa que vi foi um display de convites com textos espirituosos e picantes. A loja parecia enorme. Eu não tinha idéia de que pudesse haver tantos temas possíveis para uma festa. Havia uma seção inteira dedicada a toalhas de mesa pretas, talheres pretos e decorações de bolo pretas. Os guardanapos pretos tinham um poema inscrito neles, que dizia o quanto todos se sentiam tristes pelo fato de o

anfitrião estar fazendo quarenta anos. E as pessoas ainda dizem que os adolescentes tem um senso de humor incompreensível! Virei à direita e tentei outra seção. Serpentinas e flâmulas de papel crepom estavam absolutamente fora de moda, decidi. Odeio soar machista, mas para mim as serpentinas e flâmulas pareciam mais apropriadas para uma garota. Mas achei que balões cairiam bem, desde que não tivessem nenhuma bobagem pretensamente bonitinha inscrita neles. Parei sob uma penca de piñatas pendurada no teto; para quem não sabe, piñatas são aqueles potes de barro cheios de doces ou prendas, usados naquela brincadeira mexicana em que uma pessoa vendada tem de quebrar o pote para ganhar as prendas. Achei que parecia uma boa possibilidade. Seria uma brincadeira da qual todos os convidados poderiam participar juntos, uma espécie de experiência socializadora que poderia dar

mais vida à festa. Então imaginei a expressão no rosto da minha mãe, quando visse um bando de adolescentes brandindo grandes porretes de madeira pela casa. Isso sem falar no que

aconteceria depois da festa, quando Roy e Randy fizessem a sua própria sessão de quebra-piñatas. Não, a piñata estava definitivamente fora de questão. Continuei andando e deparei com um display de pratos do Pato Donald. Dei uma risada. Donald não era exatamente o símbolo de uma festa descolada.

A campainha da porta da frente da loja soou, sinalizando que outro cliente acabava de

entrar. Talvez eu pudesse seguir essa outra pessoa. Espionar as escolhas de outra pessoa poderia me dar algumas dicas. Claro que, com a minha sorte, provavelmente o novo cliente estaria organizando uma festa de setenta e cinco anos para sua avó. Virei rápido para a esquerda, dirigindo-me para um display com um tema de faroeste. Eu nem sequer tinha visto ainda o novo cliente que entrara naquela seção exatamente ao mesmo tempo que eu. E estava andando tão rápido que trombei direto com ela.

— Sinto muito, muito mesmo — falei. — A culpa é toda minha. Não olhei para onde ia.

A pessoa que eu quase esmagara estendeu o braço para apanhar uma palmeira de papelão,

a outra vítima da trombada.

— Não tem problema — ela disse, endireitando-se e afastando o cabelo do rosto.

Meu coração parou. Era Natalie. Estava linda como sempre. Vestia uma camisa cor de chocolate exatamente da cor de

seus olhos. Os cabelos sedosos e castanhos cascateavam por sobre os ombros. Desde o nosso rompimento, eu nunca estivera fisicamente tão perto dela.

E se não controlasse logo a minha sobrecarga hormonal de adolescente, iria acabar

fazendo algo terrivelmente embaraçoso, bem ali no meio da loja.

— O-oi — eu disse. — Olhe, Natalie, eu realmente sinto muito.

O rosto de Natalie se iluminou por um breve instante.

— Sério, não tem problema, Dean.

Um silêncio constrangedor caiu entre nós. Senti que Natalie queria falar, mas estava se reprimindo.

— Tudo bem por aí? — Julie cantarolou do balcão.

— Tudo bem, obrigado — respondi.

A voz de Julie pareceu quebrar a estranha conexão que estava fazendo com que Natalie e

eu ficássemos olhando um nos olhos do outro. Natalie deu um passo para o lado, para me

dar passagem.

— E então — eu disse, determinado a não perdê-la assim tão rápido —, o que traz você por aqui? Natalie se concentrou numa estante cheia de saias havaianas.

— Estou preparando uma festa de aniversário para Jayne.

— Você está brincando! — falei. — Mas é por isso mesmo que eu estou aqui!

Natalie me olhou, um sorriso querendo aparecer nos cantos da boca.

— Você veio aqui porque está planejando uma festa para Jayne?

— Para John — corrigi. — Uma festa surpresa. De aniversário. Minha mente começou a

girar rápido, analisando as possibilidades. Isto é uma oportunidade perfeita, Dean. Não a estrague.

— Tive uma idéia — falei, tentando soar o mais natural possível. — Nós podíamos lá, unir nossas forças. Eles não fazem aniversário no mesmo dia?

— Fazem — ela respondeu, parecendo meio reticente. — Mas

Decidi ser totalmente honesto.

— Olhe, Natalie, eu sei que as coisas ainda estão meio estranhas entre nós

pressionar você Natalie corou, mas me olhou nos olhos com calma.

— Parte da razão pela qual estou organizando esta festa é Jayne — continuei. — John

realmente gosta dela, e achei que uma festa seria uma boa maneira de fazer os dois se

encontrarem. Mas se cada um de nós preparar uma festa separada, Jayne nem sequer vai estar na minha festa. E isso arruinaria meus planos.

— E os meus também — Natalie admitiu. — Eu estava preparando a minha festa pelo

mesmo motivo que você. De novo, fez-se um longo silêncio. Natalie continuava séria. Eu quase podia escutá-la, pesando em sua mente os prós e os contras da minha proposta. Uma festa conjunta para John e Jayne obteria mais resultados do que cada um de nós

fazendo uma festa separada. Mas também significaria que Natalie e eu teríamos de passar bastante tempo juntos. Isso era perfeito para os meus propósitos, mas eu não sabia muito bem como ela encarava a idéia. Percebi que precisaria seguir à risca aquela disposição que demonstrara a Natalie de não pressioná-la. Ao primeiro sinal de qualquer movimento suspeito, ela fugiria para se proteger.

— A festa poderia ser na sua casa — sugeri, achando que talvez ela se sentisse mais à vontade em seu próprio território. — Mas claro que dividiríamos todos os gastos:

enfeites, comida e tudo o mais que for necessário. Pude sentir a balança começando a se inclinar a meu favor.

Acho que poderia ser — Natalie começou a concordar. — Eu precisaria confirmar

com minha mãe.

— É

sei

não sei, Dean

Eu não quero

— Claro — eu disse, tentando esconder minha euforia. — Posso pedir à minha mãe para ligar para a sua, se você quiser.

— Isso seria legal — Natalie disse. — Tenho certeza de que ela ia gostar. Você sabe, eu não cheguei a conhecer a sua mãe

— É, acho que não.

Nós não chegamos tão longe, pensei. Mas guardei essa observação para mim mesmo.

— Vai ser superlegal, Natalie — falei. — A oportunidade perfeita para Jayne e John expandirem suas respectivas vidas afetivas.

— É incrível que no fim tenhamos descoberto que os dois já se gostavam, não é? — ela perguntou. Concordei com um gesto de cabeça.

— E ainda mais incrível que não consigam fazer nada a respeito sozinhos — acrescentei. Fiz uma pausa.

— Bom, e quanto à festa? — continuei. — Qual você acha que deveria ser o tema?

— Tema? — Natalie perguntou, parecendo confusa. — A gente precisa de um tema? Eu sorri com malícia.

De acordo com Julie, a moça da loja, precisamos. Natalie pensou por um momento.

O que John acharia de cabra-cega?

9

 

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro) A posição da lua sugere perturbações. Agora é o momento de dar um passo atrás, de fazer uma autoavaliação da alma. Alguém próximo a você lhe sugerirá que tente uma nova abordagem da situação. Status é mesmo o que você quer?

— Natalie, se você quebrar outro ovo, vai ter de sair para comprar mais.

A voz de minha mãe parecia paciente, mas eu podia sentir que ela estava começando a ficar frustrada comigo. Estávamos as duas na cozinha, reunindo os ingredientes para uma grande sessão de confecção de biscoitos para a festa de aniversário de Jayne e John, naquela noite. Costumo ser bastante boa na cozinha, mas derrubara coisas pelo chão a tarde toda. Quebrei o último ovo na borda da bancada. Eu tinha aprendido nas aulas de saúde da escola que nunca se deve quebrar um ovo na borda do recipiente que se está usando, por causa do risco de envenenamento por salmonela. Manobrei rapidamente o ovo partido até a tigela da batedeira. O conteúdo deslizou para o centro da massa dos biscoitos. Então, fui jogar a casca no lixo, mas infelizmente errei a pontaria, e os pedaços foram todos para o chão.

— Tudo bem, tudo bem, chega — minha mãe disse, abaixando-se para recolher as cascas

do chão. — Misture bem esse último ovo e ponha a massa na geladeira. Depois, venha se sentar comigo aqui na mesa, para conversarmos um pouco sobre o que está acontecendo

com você.

— Não é nada, verdade — protestei cinco minutos mais tarde.

Eu estava sentada à mesa da cozinha, de frente para minha mãe. Já ao pronunciar aquelas palavras, eu sabia que ela não iria me deixar escapar pela tangente só porque eu dizia não haver nada de errado. Minha mãe tem um jeito só dela de me fazer entregar o jogo. Nunca sei muito bem como ela faz isso, mas antes que eu perceba o que está acontecendo, já

estou contando tudo a ela.

— Só estou um pouco nervosa por causa dessa festa, isso é tudo — continuei.

— Hã-hã — ela disse, não parecendo nem um pouco convencida.

Ela se levantou, foi até a geladeira e pegou dois refrigerantes. Colocou um na minha frente, voltou à sua cadeira e abriu o outro.

— Pensei que essa festa fosse idéia sua — ela disse, depois de se acomodar. — Por que, então, você deveria ficar nervosa por causa da festa?

— Uma festa só para Jayne foi idéia minha — respondi. — Uma festa conjunta para ela e John foi idéia de Dean.

— Ah, Dean

Ai ai, lá vem, pensei.

— mamãe murmurou, e tomou um gole do refrigerante.

— Ele vai vir ajudá-la a assar esses biscoitos, não é? — ela perguntou.

A idéia de Dean e eu assarmos biscoitos juntos andara perturbando meu equilíbrio o dia

todo. Parecia uma coisa de casal com vários anos de casamento. Ou o tipo de coisa que

uma garota faria com um namorado antigo e estável, não com o cara com quem tivera de terminar após dois dias de namoro.

— É, ele deve chegar daqui a mais ou menos meia hora — respondi, ainda não muito

segura de quanto eu queria confidenciar à minha mãe. — Portanto, não acho que a gente tenha muito tempo para uma sessão de terapia intensiva, mãe. Minha mãe me olhou, a cabeça inclinada para um lado. Era seu olhar do tipo "estou avaliando a situação".

— Então quer dizer que o fato de você ter deixado as coisas caírem a tarde toda não tem nada a ver com seu relacionamento com o Dean?

— Nós não temos um relacionamento — respondi, abrindo meu refrigerante. — Nós

terminamos, se é que você já se esqueceu.

— Isso não significa necessariamente que vocês não tenham mais um relacionamento —

minha mãe insistiu. — Natalie, não pretendo criar caso em cima disso, se você realmente não quiser me contar o que está acontecendo. Ela fez uma pausa. Pude sentir que estava a ponto de dizer algo inspirado e maternal.

— Eu só gostaria de observar que não é característica sua ter medo de encarar alguma coisa de frente.

O que há com as mães, afinal? Será que, depois que uma mulher dá à luz, ela ativa

automaticamente algum gene que a torna capaz de adivinhar tudo o que acontece na vida e na cabeça dos filhos? Mamãe tinha razão, claro. Eu não estava realmente encarando as coisas de frente — sobretudo meus sentimentos em relação a Dean.

Tínhamos nos encontrado umas duas vezes nos últimos dias, para combinar os detalhes da festa, e Dean fora muito legal todas as vezes. Ele não tinha dito ou feito nada que pudesse me causar algum mal-estar pelo fato de termos terminado. E em nenhum momento me pressionara para que eu voltasse com ele. Seu comportamento fora exatamente como eu parecia querer que fosse. No entanto, essa sua conduta tão polida e tranqüila me deixara ansiosa e deprimida. Era impossível que Dean tivesse tido algum dia sentimentos tão fortes por mim quanto os que eu tivera por ele. Se tivesse tido, não teria desistido tão fácil assim. Eu não podia conversar sobre aquilo tudo com Jayne, porque teria sido obrigada a lhe revelar a razão pela qual Dean e eu andávamos nos vendo ultimamente. A única pessoa a quem eu realmente podia confidenciar alguma coisa era minha mãe. Talvez seja assim que ela consegue fazer com que eu lhe conte tudo. Ser minha mãe lhe dá as melhores condições para estar no lugar certo na hora certa.

— Acho que, na verdade, estou meio confusa em relação ao que tem acontecido com

Dean e comigo — me abri, por fim. — Pensei que ele gostasse mesmo de mim, mas nos

últimos tempos não é o que parece, de jeito nenhum.

— Mas espere aí. Não foi você quem quis terminar o namoro? — minha mãe inquiriu.

— Bom

porque Dean é de Gêmeos, só por isso. Nós dois formamos uma péssima combinação

astrológica. Eu aprendi isso na base da paulada

foi — respondi. — Mas nunca por não gostar dele, mãe. Terminei o namoro

com Garth.

Minha mãe ficou em silêncio por um momento. Tomei um gole de meu refrigerante, engasgando um pouquinho quando o gás fervilhou na minha garganta.

— Natalie, você sabe que eu nunca interferi no seu interesse pela astrologia — minha mãe começou. — Mas preciso dizer que sua obsessão com os astros me preocupa de vez em quando. Você leva tudo tão ao pé da letra, filhinha Olhei para o tampo da mesa. Ela parecia genuinamente preocupada comigo.

— Você não acha que a astrologia funciona melhor quando a gente a usa só como um

guia geral? — ela perguntou. Pensei na pergunta de minha mãe, enquanto tomava um segundo gole do refrigerante. Eu mesma andara tendo pensamentos parecidos. Simplesmente não conseguia entender como

estar com Dean podia parecer tão certo e fazer com que me sentisse tão bem, sendo ele do signo errado para mim. Parecia quase possível que, no fim das contas, os signos não tivessem tanta importância. Mas, se eu voltasse atrás agora, iria parecer uma completa idiota aos olhos de todos.

— Usar como um guia? — perguntei. — Não estou entendendo muito bem o que você

quer dizer. Ou você acredita numa coisa ou não acredita. Não é assim?

— Não estou dizendo que você tenha de parar de acreditar na astrologia — minha mãe

respondeu. — Mas, pela minha experiência, nada na vida funciona da maneira como você

acredita que os signos funcionam. O mundo não é só preto e branco. Existem os cinza. Concordei com um gesto de cabeça. O que ela dizia fazia bastante sentido. Como de hábito.

— Alguma vez Dean fez algo que levasse você a acreditar que ele a trataria como Garth a tratou?

— Não — admiti. — Eu só estava tão certa de que, mais cedo ou mais tarde, Dean se

revelaria um estúpido porque ele é de Gêmeos.

— Então quer dizer que, se Dean não fosse de Gêmeos vocês dois ainda estariam juntos?

— Pode ser — respondi.

— Experimente responder com sim ou não — minha mãe insistiu. Me contorci na cadeira como uma criança de jardim-de-infância a quem tivessem acabado de apanhar roubando o lanche da melhor amiga na hora do recreio.

— Ok, tudo bem. Provavelmente sim. Mas Dean não parece muito perturbado com o fato de não estarmos juntos — respondi. Respirei fundo.

— Faz vários dias que estamos organizando esta festa — continuei —, e ele não

mencionou o nosso rompimento nenhuma vez. Minha mãe balançou a cabeça com ar de desaprovação.

— Acho que você está querendo duas coisas opostas ao mesmo tempo, Natalie. Quer

romper com Dean, mas quer mantê-lo amarrado a você. E quer que Dean fique mal com o rompimento, mas não tem nenhuma intenção de voltar com ele. Era uma bela argumentação. Só havia um problema em tudo o que minha mamãe dissera:

ela estava absolutamente certa.

— E o que devo fazer? — perguntei.

— Eu não sei se há algo que você possa fazer, a não ser que se sinta disposta a repensar

toda essa coisa da astrologia — ela respondeu. — Pessoalmente, acho que você deveria confiar mais nos seus próprios instintos. Você nunca vai aprender a viver uma relação, se

sempre se basear na astrologia e não no que realmente estiver sentindo. Nesse instante a campainha tocou.

— Ai, meu Deus! — exclamei. — Já são cinco horas. É o Dean.

— Vou deixar vocês sozinhos — minha mãe prometeu.

Ela se levantou e deu um rápido apertão carinhoso nos meus ombros.

— Confie no seu coração, filhinha. Ele geralmente está no lugar certo, mesmo quando as

estrelas não estão.

— Ha, ha, muito engraçado — resmunguei.

— Esses biscoitos são para a festa, sabe? — ralei poucas horas mais tarde.

Dean e eu estávamos na cozinha, rodeados de assadeiras cheias de biscoitos. Primeiro, tínhamos feito biscoitos de amendoim. Depois passamos para os de aveia com passas, e tínhamos acabado de fazer várias dúzias dos de flocos de chocolate.

Dean e eu havíamos conseguido reunir uma quantidade impressionante de guloseimas. Mas toda vez que eu passava perto das assadeiras de biscoitos de flocos de chocolate que esfriavam, parecia estar faltando mais um.

— Eu nao peguei nenhum — Dean insistiu. —Não sei do que você está falando.

Era difícil não rir cada vez que eu olhava para ele. Na esperança de ter meus hosrmônios

sob controle, se Dean não parecesse tão bonito como era, eu o fizera vestir o avental da cozinha mais enfeitado com rufos e babados que encontrara. Até aquele momento, o avental parecia ter sido uma boa idéia. Eu conseguira me concentrar em assar os biscoitos, sem me deixar distrair demais pelo desejo de beijar Dean. Mas ainda me sentia muito confusa. Meus sentimentos por Dean — tanto os bons quanto os ruins —se imiscuíam em todos os meus pensamentos. Eu podia percebê-los sempre lá no fundo, mais ou menos como o chiado da estática no rádio. Voltei-me para a pia, para lavar uma tigela. Talvez minha mãe tivesse razão. Talvez eu devesse usar a astrologia apenas como um guia geral. Poderia, por exemplo, aceitar que no geral os geminianos eram uma má combinação para mim, mas talvez eu fosse capaz de fazer das certo uma relação amorosa com um geminiano muito especial. Dean, que estava de pé perto da mesa sobre a qual os biscoitos esfriavam, voltou-se na minha direção. Uma paisagem de xadrez azul e branco repleta de babados e pregas encheu meus olhos. Minha mãe sempre se referia ao avental que Dean estava vestindo como sua fantasia de dona de casa número um. Havia uma gota de chocolate grudada num dos cantos da boca dele. Eu me forcei a parar de sonhar acordada e a me concentrar na conversa que Dean e eu estávamos tendo.

— Ah, quer dizer que você não comeu nenhum biscoito? — perguntei. — Então como é

que esse chocolate foi parar no seu rosto?

— Não comi, juro — Dean protestou, tentando eliminar a prova do crime passando a mão na cara. — Cadê o chocolate no meu rosto? Peguei uma toalha de papel e caminhei até ele.

— Bem aqui — respondi, esticando o braço com a toalha na direção de seu rosto.

— Ei, espere aí um minuto — Dean disse rindo.

Ele ergueu rapidamente um braço para bloquear minha mão. Tentei sem êxito atravessar a guarda dele.

Depois de vários segundos de luta pela posse da toalha de papel, Dean me empurrou gentilmente contra a bancada da pia. Com as mãos, travou meus braços atrás das costas, prendendo-os pelos pulsos.

— Se você acha que vou deixar você me atacar com essa toalha de papel encharcada, sem

mais nem menos, pode tirar o cavalinho da chuva — ele disse. — Só me mostre onde está

o chocolate.

Ele me deixou soltar uma mão, a que não estava segurando a toalha de papel. Coloquei a ponta do meu dedo indicador no canto de sua boca.

— Bem aqui, Dean — falei suavemente.

No instante em que o toquei, soube que tinha cometido um erro. Seus olhos quase abriram um buraco em mim. O rapaz amigável e boa-praça que ele tinha sido nos últimos dias desapareceu de repente. Os lábios de Dean começaram a se mover devagar na minha direção. Eu sabia que devia me afastar, mas estava paralisada. Um segundo depois, estávamos nos beijando. O beijo de Dean foi ardente e possessivo — o tipo de beijo que afirma e reivindica. E

esse beijo me contou em termos claríssimos como ele realmente se sentia quanto ao nosso rompimento. Soube então que, para ele, era como se a horrível cena na cantina da escola nunca tivesse acontecido. Dean ainda estava apaixonado por mim. Eu sabia que não devia retribuir aquele beijo — não enquanto não tivesse decidido o que queria de fato. Mas parecia impossível reprimir o desejo. Minha mãe tinha me

recomendado que eu ouvisse meus instintos

gritavam que eu queria beijar Dean. Seus braços estavam em torno dos meus. Ele já não me prendia contra a pia, mas, em vez disso, me apertava contra seu corpo. Coloquei minha mão livre em sua nuca.

A pele estava quente, e seus cabelos, macios e sedosos. Era tão bom tocá-lo, parecia tudo

tão perfeito, tão certo para mim

para sempre. Não queria que o beijo terminasse.

Finalmente, Dean se afastou. Eu estava sem fôlego, e meu coração batia como um tambor. Ele me abraçou com força. Apertei meu rosto contra seu peito. Depois de arrancar o elástico que prendia meu rabo-de-cavalo, Dean pôs-se a pentear meus cabelos com seus dedos, fazendo-os deslizar sobre meus ombros.

— Esperei semanas para poder fazer isto — ele disse baixinho.

— O quê? — consegui perguntar, não sei como. — Me beijar ou mexer no meu cabelo?

— As duas coisas.

E me beijou de novo. Dessa vez, com mais suavidade, mas não menos decisão. No fundo

do meu coração, eu sabia que pertencia a Dean. E ele a mim. Pertencíamos um ao outro.

Apesar da astrologia.

— Natalie, nós não podemos ignorar o que está acontecendo — Dean disse quando o beijo terminou. — Precisamos conversar sobre isto.

— Eu sei — sussurrei. — Eu sei que precisamos, Dean. É só que

Senti os músculos de seu corpo se retesarem quando ele percebeu minha relutância em ter uma "conversa".

— Não daria para a gente esperar até depois da festa? — continuei. — Se parecer que

estamos juntos de novo, toda a atenção vai se centrar em nós. E esta noite é para ser de Jayne e John.

e naquele exato instante meus instintos

Me vi desejando que pudéssemos ficar daquele jeito

— Sei que você tem razão — ele disse baixinho. — Mas mesmo concordando, gostaria

de deixar registrado que não gosto muito da idéia. O timer do forno apitou, avisando que ficara pronta a última fornada de biscoitos de

flocos de chocolate. Dean deu um passo atrás e me soltou.

— Deixe que eu tiro — ele disse.

Retirando a assadeira do forno, ele a colocou em cima do tampo do fogão.

Esperamos um pouco, até os biscoitos esfriarem. Então comecei a tirá-los da assadeira com uma espátula.

— Você parece muito boa na cozinha — Dean comentou. — Uma versão mais jovem daquelas apresentadoras de programas de culinária

— E você, com este aventalzinho, não fica atrás! — retruquei.

Caímos os dois na gargalhada, enquanto eu removia o último biscoito da assadeira.

Desliguei o forno e, então, desamarrei o cordão do avental de Dean.

Assim que se viu livre dos rufos e babados, ele me puxou de novo para junto de seus braços. Beijou-me devagar, um beijo de promessa. Ele podia ter concordado em protelarmos um pouco a discussão sobre os detalhes da nossa relação, mas definitivamente não haveria mais volta atrás.

— Bom

— Hã-hã — confirmei. — A não ser que você esteja planejando dar o cano na nossa

festa.

então acho que nos vemos mais tarde, não é? — ele perguntou.

— Eu jamais perderia essa festa — Dean replicou com um sorriso malicioso. — Por nada neste mundo. Em seguida, deu-me outro beijo rápido na bochecha e perguntou:

— Você quer que eu chegue um pouco antes para ajudar a arrumar as coisas?

— Minha mãe vai me ajudar — respondi, tentando voltar a um clima mais pragmático. — Sua tarefa mais importante agora é conseguir arrastar John até aqui.

— Ele vai vir, não se preocupe — Dean prometeu, me soltando. — Nem que eu tenha de amarrá-lo e enfiá-lo numa caixa.

— Não se esqueça de fazer um belo embrulho — falei, enquanto caminhávamos rumo à porta da frente. — Com um grande laço de fita no topo.

— Pena que não pensamos nisso antes — disse ele, enquanto eu abria a porta. — A gente podia fazer ele saltar de dentro de um bolo.

— Não daria certo. Imagine só se aqueles cabelos dele ficassem lambuzados de glacê.

— O que há de errado com os cabelos de John? — Dean perguntou com uma expressão zombeteira nos olhos.

— Tchau, Dean — respondi sorrindo e dando um empurrãozinho nele.

Au revoir, Natalie — Dean replicou, enquanto atravessava o caminho de cimento do jardim da minha casa.

— Não sabia que você falava francês — gritei.

Foi só quando fechei a porta que me dei conta de que, na verdade, ele não dissera "tchau", mas "até logo". Sorri. Se as coisas corressem bem, Dean e eu com certeza logo estaríamos nos vendo de novo. E de novo, e de novo

— Água de colônia é sempre um presente agradável — a vendedora da loja de

departamentos sugeriu.

— Não — eu disse. — Acho que não faz o gênero dele.

Eu tinha resolvido dar um pulo de última hora no shopping. Os preparativos para a festa

já se haviam encerrado com sucesso. E eu me sentia excitada demais, por causa do que acontecera com Dean, para simplesmente me sentar e ficar sem fazer nada em casa. Ainda teria tempo de sobra para tomar banho e ficar o mais bonita que pudesse. Por isso tinha decidido usar o tempo excedente para procurar um presente para Dean. Já tinha planejado lhe dar algo como agradecimento por ele ter se disposto a ser co-anfitrião na festa e pela força toda que tinha me dado na preparação. Mas agora, depois do que acontecera à tarde na minha casa, queria encontrar algo especial, alguma

coisa que refletisse o fato de que estávamos juntos de novo. Eu ainda me sentia bastante nervosa com toda a situação. Havia muitos detalhes a acertar. Mas aquele primeiro beijo na cozinha tinha definido algo entre nós dois. Eu seria uma idiota se fingisse que não. Para o bem ou para o mal, iria começar a ver Dean de novo. Infelizmente, não estava tendo muita sorte na busca por um bom presente. Tudo o que via me parecia genérico demais, insípido demais, banal ou piegas demais. Não podia dar a ele um simples livro ou uma reles colônia masculina. Precisava de algo engenhoso, sugestivo. Algo que simplesmente dissesse "Dean".

— Em todo caso, obrigada — agradeci à moça atrás do balcão da seção de perfumaria

masculina. — Acho que vou ter de continuar procurando. Saí de novo para o corredor do shopping, para dar uma olhada nas lojas menores. Se eu não encontrasse nada, talvez eu pudesse dar a Dean algo meio boboca e romântico, como por exemplo um cravo de lapela, parecido com o que lhe dera no baile do Dia dos

Namorados. Poderia funcionar como uma espécie de símbolo do nosso recomeço. Decidi que uma xícara de café me cairia bem. Precisava refletir sobre aquela última idéia. Já ia a caminho do café mais próximo, torcendo para que a cafeína me trouxesse alguma inspiração, quando uma mão pousou sobre meu ombro direito.

— Ei, aonde você vai com toda essa pressa? — perguntou uma voz masculina bastante

familiar. Meu estômago virou do avesso. Quando me virei, dei de cara com Garth Hunter. Garth estava com a pinta de sempre: de modelo de moda masculina. Seu rosto era tão perfeito e a roupa tão cuidadosamente combinada que ele quase não parecia real. Eu não podia imaginar Garth passando horas na minha cozinha, assando biscoitos vestido com o

avental da minha mãe. E absolutamente não podia me imaginar querendo beijá-lo quando tivéssemos terminado de assar os biscoitos. Resisti bravamente à tentação de lhe dizer que retirasse a pata do meu ombro. Em vez disso, apenas dei um passo para trás. A mão de Garth caiu ao lado de seu corpo.

— Oi, Garth — cumprimentei friamente. — Você quer alguma coisa?

— Ei — Garth disse de novo, sorrindo —, isso não é maneira de cumprimentar um velho

amor. Estou só sendo simpático, Natalie. Como anda você? Faz tempo que não a vejo.

— Você me vê na escola cinco dias por semana — respondi com um sorriso duro. — Eu

estou bem. Algo mais? Por uma fração de segundo, seus olhos focalizaram algum ponto às minhas costas. Então,

seu olhar apontou direto para o centro do meu rosto.

— Para falar a verdade, sim, há algo mais — ele disse.

Garth começou a acariciar meu braço esquerdo, passando a

mão para cima e para baixo num gesto irritantemente íntimo. Dei outro passo para trás, na esperança de que ele entendesse a indireta. Mas, em vez disso, ele se aproximou ainda mais.

— A verdade é que eu

Comecei a me perguntar se não estava tendo uma alucinação. Talvez o shopping possuísse algum poderoso sistema de segurança por ultra-som que estivesse alterando minhas ondas cerebrais.

— Você tem sentido minha falta? — perguntei num tom de total descrédito. — Isso só pode ser uma piada.

— Ora, vamos lá, Natalie — Garth disse com uma voz cálida e aduladora. — Não seja

assim. Você sabe que, na verdade, eu nunca quis que terminássemos. Só desmanchei nosso namoro por causa da Tanya.

— Isso ficou bastante óbvio — retruquei secamente.

— Mas ela vai sair da cidade nas férias de primavera — Garth continuou. — Vai ficar

fora uma semana inteira. E achei que talvez você e eu pudéssemos aproveitar esse tempo

para reavaliar nossa relação

Pode apostar que sim, pensei. Eu entendo você perfeitamente. Dei a Garth um enorme sorriso. Ele retribuiu, acreditando que tinha triunfado. Então, dei um rápido passo à frente e passei meus braços em torno do seu pescoço.

— Tive uma idéia ainda melhor, Garth — sussurrei em seu ouvido. — Enquanto Tanya

estiver viajando, pegue a sua brilhante idéia e faça com ela uma longa caminhada pelo

litoral até o Alasca. Afastei-me dele com um sorriso:

tenho sentido saudades de você, Natalie.

Você sempre me entendeu tão bem

E fique por lá para sempre, Garth.

10

 

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Grande desastre pairando no horizonte — justo quando parecia que tudo estava indo bem. Não tire conclusões precipitadas. Dê a seus entes queridos o benefício da dúvida. Procure saídas.

Eu me senti como se tivesse levado um chute na boca do estômago. Tinha acabado de sair da Fleur du Jour, uma floricultura no shopping, depois de ter gasto uma pequena fortuna com uma dúzia de grandes rosas vermelhas, e a primeira coisa que vi foi Natalie se jogando nos braços de Garth Hunter. O cheiro das rosas pareceu subir de repente e me sufocar. Eu as estava segurando com tanta força que podia sentir os espinhos me espetando as mãos através do grosso papel plastificado. Menos de duas horas antes, Natalie e eu estávamos nos abraçando e beijando na cozinha

da casa dela. Eu teria jurado que ela estava se entregando de corpo e alma àqueles beijos. Mas agora, ali estava a prova de quem era o verdadeiro dono do coração de Natalie. Era Garth Hunter, não eu. Dei meia-volta e saí andando na direção oposta. Talvez desse as rosas a minha mãe. Ou poderia levá-las à festa e dizer que eram um presente de John para Jayne. Sentia-me mal só de pensar em ir à festa na casa de Natalie. Mas sabia que precisava levar aquela farsa até o fim. Devia isso a John. Quando alcancei a saída do shopping, trombei com as portas de vidro com tanta força que meu braço ficou dolorido. Saí para o estacionamento e caminhei a passos rápidos para o carro. Tentei imaginar como me sentiria quando visse Natalie de novo. Ela provavelmente sorriria para mim, jamais suspeitando que eu pudesse saber o que estava acontecendo. Ba lancei a cabeça com profunda tristeza. Nunca, nem nos meus mais terríveis pesadelos, eu teria imaginado que Natalie pudesse ser tão falsa. Eu me enganara completamente quanto ao tipo de garota que ela era. Me enganara desde

o começo.

Joguei as rosas numa lixeira próxima e destranquei a porta do carro. Liguei o motor e parti do estacionamento o mais rápido que pude. Enquanto dirigia pelas ruas de Seattle, percebi que já tinha parado de temer a festa daquela noite. Pelo contrário: agora eu ansiava por ela. Queria ver a expressão no rosto de Natalie, quando eu lhe contasse que tinha testemunhado o encontro amoroso entre ela e Garth Hunter. Depois que lhe contasse essa novidade, deixaria cair outra bomba: diria a Natalie que nunca mais iria querer vê-la na minha frente.

— Não posso acreditar que vocês fizeram isto — John exclamou várias horas mais tarde.

Estávamos de pé num dos cantos da sala da casa de Natalie, tomando refrigerantes. Jayne

estava perto do som, colocando um novo cd. Vestia um vestido azul que combinava com seus olhos, e suas bochechas tinham um brilho rosado. A todo momento, olhava para John, lançando-lhe sorrisos tímidos. Até aquele momento a festa estava sendo um sucesso. Fora Natalie e eu, todo mundo parecia se divertir bastante, e John e Jayne mal tinham se separado a noite toda.

E eu tinha de admitir que havia sido brilhante a idéia de Natalie de animar a festa com

brincadeiras de criança. Tínhamos nos dividido em dois times, homens contra mulheres.

John liderava os homens e Jayne, as mulheres. Elas haviam se saído melhor na cabra-cega, mas nós ganháramos no pega-pega.

— E então — perguntei a John, enquanto começava a tocar um disco dos Rolling Stones —, como vão as coisas entre você e Jayne?

— Definitivamente, com muito bom aspecto — ele respondeu.

E sorriu quando viu Jayne vindo em nossa direção.

— Foi você que armou tudo isto, não foi? —John perguntou.

— Só dei uma forcinha — admiti.

— Ah, sei — disse ele, dando uma olhada na direção da sala de jantar, onde Natalie

reabastecia uma travessa vazia de batatas fritas.

— As coisas, hã

parecem um pouco tensas entre você e Natalie — ele comentou.

Dizer que as coisas pareciam tensas entre mim e Natalie era o eufemismo do ano. Quando o grande momento chegou, eu na verdade não entrei feito um louco na casa de Natalie, acusando-a aos gritos de ter me enganado. Lembrara a mim mesmo que aquela era a grande noite de John. Sabia que deveria esperar para ver como evoluiriam as coisas na vida amorosa do meu amigo, antes de voltar a atenção para a minha própria. Fora uma decisão muito difícil de tomar, considerando o estado emocional em que me encontrava. Mas concluí que devia isso a John. Ele era meu melhor amigo. Nunca tinha mentido para mim. Se eu armasse um escândalo com Natalie à custa de John, estaria tornando-a mais importante do que ele.

Assim, em vez de brigar com ela logo de cara, optara por evitá-la a noite toda. Assim que entrei, Natalie passou o braço por minhas costas, num rápido abraço. Não consegui detê-la, mas não retribuí o abraço. Ela ficou me lançando olhares desconcertados a noite toda. A coisa que mais me perturbava era que a expressão magoada em seu rosto estava mesmo começando a me

pegar.

Natalie parecia tão inocente, tão confusa

de perguntas. Mas continuei dizendo a mim mesmo que não baixasse a guarda, pois tudo o que ela fazia agora não passava de pura encenação. Perguntei-me quando, afinal, ela iria me contar que tinha voltado com Garth. Talvez o plano fosse não me contar nunca. Continuaria me enganando e manipulando. Assim, ela e Garth poderiam rir juntos do quanto eu era idiota. Só de pensar nos dois juntos, meu estômago começou a arder. Natalie terminou de encher a travessa de batatas fritas e desapareceu na cozinha. Voltou um momento depois, carregando uma travessa de biscoitos. A visão dos biscoitos que

tínhamos assado juntos fez subir mais um grau o ardor no meu estômago. Não faça isso a você mesmo, Dean, pensei. Ela não vale isso. Forcei um sorriso para Jayne, enquanto ela vinha caminhando para onde John e eu

estávamos. Pude sentir John passando para o estado de alerta máximo, como se alguém o tivesse plugado numa tomada.

Seus grandes olhos escuros estavam repletos

Feliz aniversário! — cumprimentei. — Você está muito bonita, Jayne.

Obrigada, Dean — Jayne agradeceu com voz contente, mas serena. — E obrigada pelo

cd.

— Não há de quê — respondi. — Ótima música para dançar, hein? Jayne corou.

— Eu gosto — ela respondeu.

De repente, John assumiu um aspecto como se o colarinho de sua camisa estivesse

apertado demais.

— Você

dela cintilando.

— Adoraria! — respondeu.

John sorriu. E, no que foi para ele um gesto absolutamente ousado, pegou Jayne pela mão e saiu andando com ela na direção do canto da sala que Natalie convertera em pista de dança. Continuei de pé, sozinho, no mesmo lugar, olhando para Natalie do outro lado da

sala.

Tomei um grande gole de refrigerante e ponderei a situação. Agora é a hora de fazer o

talvez

gostaria de dançar? — perguntou a Jayne. Ela o olhou nos olhos, os

que deve ser feito, disse a mim mesmo. John e Jayne já estão muito bem encaminhados. Eles não precisam mais de nenhuma ajuda. Comecei a andar na direção de Natalie, mas ela se moveu primeiro. Nos encontramos no centro da sala. Seus belos olhos castanho-escuros pareciam genuinamente preocupados. Havia minúsculas linhas de tensão desenhadas em torno de sua boca.

— Dean, há algo errado? — ela perguntou. — Você ficou me evitando a noite toda.

— Me surpreende que você até tenha notado que eu estava aqui — respondi com uma voz horrível, que não pude evitar. — Será que você não está esperando por alguém mais

importante?

A testa de Natalie se franziu mais ainda.

— Não sei do que você está falando — ela respondeu.

Na verdade, uma parte de mim a admirou naquele momento. Mesmo cara a cara com a minha fúria, ela não revelava nada. Iria representar a Santa Inocente.

— Pense, Natalie — contra-ataquei. — Não há algo que você gostaria de me contar? Algo que poderia ser importante para mim, que tem a ver com a nossa relação?

— Nossa relação? — Natalie perguntou.

— Ah, claro! Desculpe, já tinha me esquecido — comentei sarcástico. — Nós não temos uma relação de fato, não é mesmo? É só uma coisa que eu imaginei.

— Dean — Natalie disse, sua voz carregada de mágoa e frustração —, não estou

entendendo por que você está tão bravo. Você precisa me contar o porquê de tudo isso.

Naquele exato momento a porta da frente se abriu. Nós dois nos voltamos para ver quem tinha chegado.

— Ei, por acaso há uma festa aqui ou é impressão minha? — uma voz masculina perguntou alto. Vi os olhos de Natalie se arregalarem. Seu rosto ficou pálido.

— Ah, não! — ela exclamou.

A

voz pertencia a Garth Hunter.

11

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro) Caos! Você vai descobrir que andou vivendo num paraíso de mentirinha. O castelo dos seus sonhos não passa de um castelo de cartas. Mas talvez ainda exista uma base sólida debaixo dos seus pés. Encare seus problemas de frente.

Isto é um pesadelo, pensei quando olhei para Garth. Não está acontecendo. Não pode ser real. Quando ele chegou, eu estava de pé no meio da sala, lutando contra algo que ainda não sabia o que era, mas que ferira Dean profundamente. Só sabia com toda a certeza do mundo que, fosse qual fosse o motivo da fúria de Dean, a presença de Garth não ajudaria em nada. Por que Garth tinha de escolher justamente aquela noite para estragar uma festa? Tive o pressentimento de que ele faria tudo que pudesse para piorar as coisas entre mim e Dean.

— Com licença um minuto — disse a Dean, e saí andando na direção do hall de entrada.

— Preciso resolver uma coisa.

— Ah, fique à vontade — ele replicou atrás de mim.

Era mais uma daquelas observações enigmáticas que Dean fizera a noite toda. Tudo o que saía de sua boca durante a festa soava raivoso e amargo.

— Isto é uma festa particular, Garth — falei, pegando seu braço e tentado conduzi-lo de volta à porta.

Eu não queria fazer uma cena. Outras pessoas o tinham visto entrar, e eu não queria que ele arruinasse a festa de Jayne. E, definitivamente, não queria Garth perto de Dean. Isto vai ser algo inédito na história da humanidade, pensei. Garth provavelmente nunca foi expulso de uma festa.

— Sinto muito — continuei, enquanto o impelia para o mais longe possível de Dean —,

mas só posso receber um certo número de convidados aqui. Prometi isso a meus pais.

— Ah, mas que boa menininha você é, Natalie — ele disse.

Seu hálito tinha um cheiro acre, como cerveja amanhecida.

O que será que eu via em você?, pensei comigo. Por baixo de sua superfície reluzente, Garth não passava de um canalha.

— Pois é, Garth — prossegui —, e isso significa que você vai ter de procurar alguma

outra festa para se divertir. Garth soltou uma risada e se virou rapidamente, livrando seu braço com um puxão da minha mão que o apertava. Com a surpresa, eu parei e dei um passo para trás, batendo contra a parede do hall. Garth colocou suas mãos na minha cabeça, uma de cada lado, e inclinou seu corpo contra o meu. Fiquei aprisionada.

— Então me conte algo antes, boa menina — disse ele, posicionando sua boca a poucos

centímetros da minha. — Como vão as coisas esta noite entre você e o seu Deanzinho?

— O que você tem a ver com isso? — perguntei irada. — Para trás! Este bafo de cerveja

está me dando náusea.

Garth riu de novo e se aproximou um pouco mais.

— Ele viu nós dois juntos hoje à tarde, sabe?

Senti meu sangue literalmente congelar nas veias, como se estivesse no meio de um filme de horror. Agora o estranho comportamento de Dean fazia todo o sentido do mundo. Se Dean havia visto nós dois no shopping naquela tarde, tinha todas as razões do mundo para achar que Garth e eu estávamos juntos de novo. Ele devia ter achado que eu o traíra,

correndo direto de seus braços para os de Garth.

— Seu canalha desgraçado! — falei o menos alto que pude. — Fora da minha casa, já!

— Ei, calma, calma, já estou indo — Garth disse. — Só quero me despedir direito.

Antes que eu pudesse impedi-lo, ele se inclinou para a frente e me beijou nos lábios. Então, se afastou e, com a maior calma do mundo, saiu andando pela porta da frente. Acho que até o ouvi rir enquanto fechava a porta. Mas estava perturbada demais para prestar muita atenção. Eu tinha de encontrar Dean e explicar a ele o que acontecera no shopping. Tinha de fazê-lo acreditar que não havia nada de errado. Comecei a voltar para a sala. Mas dei dois

passos e parei.

Dean estava de pé na entrada do hall. Ele tinha visto Garth me beijar.

— Dean

Minha voz estava tensa e carregada de pânico. Mostrando que não queria me ouvir, ele

passou por mim, dirigindo-se para a porta.

— Dean! Não é o que você está pensando! — gritei. — Deixe-me contar o que

aconteceu!

— Poupe-se do esforço — ele disse enquanto escancarava a porta e saía. — Eu sei

exatamente o que aconteceu, Natalie. Você andou me fazendo de palhaço.

— Isso não é verdade — eu disse, seguindo-o até a varandinha da entrada e fechando a porta ao sair, para que ninguém lá dentro pudesse ouvir a nossa briga.

Fazia frio na rua. O cheiro do escapamento do carro de Garth ainda pairava no ar. Dean continuou andando em direção a seu carro, estacionado no meio-fio.

— Dean, você não pode simplesmente ir embora deste jeito! — implorei, correndo atrás dele. — Você tem de me dar uma chance de explicar!

— Explicar o quê? — ele gritou, girando o corpo para me encarar.

Seu rosto parecia pálido sob a luz da rua.

— Explicar que você me beijou hoje à tarde e imediatamente saiu correndo para se

encontrar com Garth Hunter? Eu diria que essa situação fala por si mesma, Natalie. Vocês

dois estavam juntos o tempo todo, não é? E rindo da minha cara o tempo todo! Quando ele terminou seu monólogo, respirei fundo.

— Não, Dean — eu disse o mais calma que pude, achando que se evitasse ficar brava

talvez pudesse fazê-lo enxergar a luz da razão. — Garth e eu não estamos juntos. E não saí correndo para encontrá-lo. Eu encontrei Garth no shopping por acaso.

— Ah, e se jogou por acaso nos braços dele? Como aconteceu esse acidente? Você

tropeçou e caiu nos braços dele? Quantas vezes mais você "tropeçou" nos últimos tempos, se não for muito incomodo me contar? Ou quem sabe você não pretendesse me contar absolutamente nada?

— Não há nada para contar, Dean — respondi, ainda tentando segurar as pontas. — Eu sei que tudo o que você viu cheira muito mal, mas não é o que parece. Se você simplesmente se acalmar um minuto e me deixar explicar

— Esqueça, Natalie — Dean interrompeu. — Não estou interessado.

Meu temperamento quente de escorpiana finalmente subiu a tona. Ninguém jamais falara comigo daquele jeito. Eu já tivera brigas, claro. Mas nunca ninguém me dissera que não estava interessado em ouvir o que eu tinha a dizer.

— Certo, tudo bem, não me ouça — gritei. —Não se interesse pela verdade. Não me

importo.

— Eu sei que você não se importa, Natalie. Esse é justamente o problema. Mas eu posso

resolvê-lo para você. Estou saindo daqui e da sua vida. Eu não podia acreditar que ele realmente iria embora no meio da nossa discussão. Dean estava se comportando exatamente da maneira que eu sempre temera que se comportasse:

como um geminiano insensato e sem consideração.

— Não acredito que você vai fazer isso — falei, seguindo-o até a calçada.

Dean foi rapidamente para o meio da rua e começou a tentar abrir a porta do carro de sua

mãe.

— Não posso acreditar que você vai simplesmente desistir de nós sem nem ao menos me

— falei num chiado rouco.

dar o benefício da dúvida.

— Benefício da dúvida?! — ele quase gritou por cima da capota do carro. — Essa é

muito boa mesmo, vindo da sua boca. Quando você me deu o benefício da dúvida? Foi

você que rompeu comigo porque eu era do signo errado.

— E agora vejo que estava absolutamente certa.

— Tudo bem — disse ele, desistindo de tentar abrir a porta do carro e voltando a passos tempestuosos até a calçada. — Tudo bem Então vamos testar essa sua teoriazinha. Que signo seria a combinação astrológica perfeita para você?

— Touro — respondi, sem hesitar um segundo. — Alguém nascido entre vinte de abril e

vinte de maio. Para ser absolutamente perfeito, precisa ter nascido no dia cinco de maio às nove horas.

— Da noite ou da manhã?

— Da manhã — respondi. — No fuso horário da Costa Oeste.

Dean cruzou os braços.

— Diacho — disse sarcasticamente —, um sujeito desses não deve ser tão difícil assim de encontrar. Se eu localizasse um espécime para você, você sairia com ele?

— Ora, mas que pergunta cretina! Claro que sairia! Eu seria louca se não topasse sair com o parceiro dos meus sonhos. Dean fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Ok, então estamos combinados. Vou encontrar esse cara e entregá-lo a você. Se quiser, até o embrulho com um laço de fita vermelha.

— Não acho que o laço de fita seja necessário, obrigada — repliquei.

Dean fez um aceno com o braço.

— Como quiser. De todo jeito, vou fazer de tudo para que o Sr. Perfeito proporcione a

você a noite mais romântica da sua vida. Você pode estipular todos os detalhes. Mas se a noitada não for no mínimo absolutamente perfeita, então você vai concordar em me dar uma nova chance.

— Espere um pouco aí! — falei, duvidando de que tinha ouvido bem. — Pensei que você

não queria uma nova chance. Pensei que você estivesse absolutamente convencido de que eu continuo apaixonada por Garth Hunter.

— Sim ou não, Natalie?

— Sim — respondi.

Era uma proposta absurda. Mas não havia maneira de eu perder. Ninguém, nem mesmo Dean, tinha a menor chance contra meu parceiro astrologicamente perfeito. Se esse

parceiro pudesse ser encontrado. Seria também a oportunidade ideal para provar que eu estivera certa ao pôr tanta fé na astrologia. Eu obteria ao mesmo tempo o meu parceiro perfeito e uma confirmação de minhas decisões passadas baseadas na astrologia.

— Então toque aqui — Dean disse.

De pé na rua, atrás do carro da mãe de Dean, trocamos um aperto de mãos, fechando a aposta. Um flash do passado cruzou minha mente: a primeira vez em que tínhamos apertado as mãos para fechar uma aposta havia sido no baile do Dia dos Namorados, quando planejamos o primeiro grande encontro entre John e Jayne. Muitas águas haviam rolado desde aquela noite.

Dean voltou para o carro de sua mãe e dessa vez conseguiu abri-lo.

— Só mais uma coisa — ele disse. — Como vou saber o que realmente terá acontecido nesse encontro dos seus sonhos?

Eu sorri, sentindo-me bem pela primeira vez desde que tínhamos começado aquela briga ridícula.

— Já fechamos a aposta, Dean. Agora você não pode acrescentar novos termos. Mas acho que tenho uma solução.

Qual? — Dean perguntou, soando levemente desconfiado.

É você confiar em mim e acreditar que vou contar a verdade.

12

 

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Tempos difíceis no campo amoroso. Você pode estar sonhando um sonho impossível. Um plano para tirar você da lama corre o risco de virar o feitiço contra o feiticeiro. Lembre-se do que acontece com muitos dos planos mais geniais da história do crime.

— Você tem certeza de que isso vai funcionar? — perguntei a John, enquanto nos

esgueirávamos pelo corredor rumo à secretaria da escola.

— Absoluta — ele prometeu. — Não tem como falhar. Estávamos tirando proveito de

uma simulação de incêndio na escola para executar a primeira parte do plano para ganhar minha aposta. Íamos vasculhar os arquivos da escola em busca de uma lista dos garotos qualificados para serem o parceiro astrologicamente perfeito de Natalie. Usar os computadores da escola tinha sido idéia de John, mas vários dias foram

necessários para descobrir uma maneira de ter acesso aos dados. Piratear de casa nos parecera muito arriscado. Eu queria ter minha revanche com Natalie, claro, mas preferia que fosse de uma maneira que não me fizesse ir parar na cadeia. Quando anunciaram o exercício de simulação de incêndio na quarta-feira de manhã, a ocasião nos pareceu perfeita. Na cantina, na hora do almoço, John e eu tínhamos desenhado mapas em guardanapos e elaborado todos os detalhes da nossa estratégia. A aventura estava fazendo com que eu me sentisse um membro da equipe do Missão Impossível.

A simulação estava marcada para as duas da tarde. O plano era usar o intervalo de cinco

minutos entre a primeira e a segunda aula da tarde para nos escondermos no banheiro masculino do primeiro andar. Quando o alarme contra incêndio disparasse, John e eu nos esconderíamos nos boxes. Enquanto todo o mundo estivesse do lado de fora, esperando o sinal para voltar para

dentro do prédio, John e eu iríamos de fininho até a secretaria. E, então, John entraria no banco de dados do computador.

O plano dele era entrar nos arquivos e puxar os nomes de todos os alunos da segunda e

terceira séries do colegial nascidos em 5 de maio. Eu tinha resistido ao impulso de estender a pesquisa aos alunos do primeiro ano também. Não fazia sentido contrariar

Natalie, menos ainda sugerindo que sua única chance seria um calouro. Até ali o plano estava correndo bem. O alarme contra incêndio ainda estava apitando. John já tinha conseguido entrar no banco de dados. Mesmo assim, eu não parava de suar e ter visões com algum funcionário da escola que tivesse decidido que a simulação de incêndio era oportunidade perfeita para ficar sozinho em sua mesa, fazendo um lanchinho sossegado.

— Muito bem — John disse, enquanto seus dedos se moviam com rapidez pelo teclado.

— Você quer alunos da segunda e terceira séries nascidos no dia 5 de maio, certo?

Confirmei com um gesto de cabeça. John digitou um pouco mais e, então, apertou o

enter. A tela ficou preta. Só o cursor pulsava num canto.

— Você estourou esse treco aí, cara! O que você fez? — perguntei apavorado.

— Caramba, Dean — John murmurou. — Dá para você relaxar um pouco? O

computador está pesquisando, é só isso. Vai levar só uns minutinhos.

— Ah, que bom, só uns minutinhos! E você quer que eu relaxe? — retruquei ainda mais

nervoso. O alarme contra incêndio subitamente parou de tocar. Havia um silêncio de morte nas salas. Em mais alguns minutos, o sinal normal da escola soaria, e então as pessoas começariam a voltar para o interior do prédio.

Quando isso acontecesse, nós já precisaríamos estar de volta no banheiro, de maneira que pudéssemos sair dele e nos misturar aos outros alunos como se tivéssemos participado do exercício de simulação.

— Vamos lá, vamos lá — murmurei, os olhos grudados no monitor.

Então, uma coluna de nomes apareceu de repente do lado esquerdo da tela.

— Pronto — John disse. — Você quer uma cópia impressa, não é?

— Quero.

John deu o comando para imprimir. Em poucos segundos, a lista saiu da impressora laser, no exato momento em que o sinal normal da escola começou a soar.

Agarrei a lista e me dirigi para a porta da secretaria. John apertou a tecla escape e veio logo atrás. Corremos pelo corredor rumo ao banheiro. Assim que a porta do banheiro se fechou atrás de nós, as vozes dos primeiros alunos que tinham entrado no prédio começaram a ressoar pelas salas e corredores.

— Cara — John disse, enxugando o suor da testa —, não consigo acreditar que conseguimos a lista.

— Nada mau para uma dupla de amadores, hein? — comentei, piscando um olho.

John soltou uma risada.

— É mesmo. Mas você precisa ter nervos de aço para fazer esse tipo de coisa todo dia.

— É verdade — concordei. — Isso significa que provavelmente nós dois não temos

nenhum futuro na cia. Pronto para colocar a última fase do plano em ação? John assentiu com a cabeça. Abrimos a porta do banheiro e saímos dissimuladamente para o corredor. Deixamos a maré de alunos levar-nos de volta à nossa classe. E então nos sentamos em nossas carteiras, como se tivéssemos ficado com o resto da classe o tempo todo. Eu estava me sentindo bem, até me lembrar do verdadeiro motivo da nossa grande aventura na secretaria. Em algum lugar da lista, que agora descansava no bolso de trás do meu jeans, encontrava-se o nome do parceiro dos sonhos de Natalie.

O cara por quem ela estava apostando que se apaixonaria, aquele pelo qual iria me trocar.

— Você ficou totalmente pinéu, Dean — John disse horas mais tarde. — Você não pode

estar levando a sério essa idéia de armar um encontro entre Natalie e Tony LaScaglia.

A idéia me agradava tão pouco quanto a John. Contudo, ao contrário dele, eu sabia que

não havia escapatória.

— Ainda não tenho certeza de que vai ser o Tony — respondi. — Mas preciso falar com

ele. Só há três caras na lista. E ele é um dos três. Eu tinha passado todos os momentos livres da tarde entrevistando os candidatos em potencial para sair com Natalie, fingindo que fazia uma pesquisa para o curso de sociologia. Até então, o mais perto que eu tinha chegado de encontrar o parceiro perfeito para ela fora Mark Crawford. Ele tinha nascido no dia 5 de maio às sete da manhã. Agora que já tinha entrevistado todos os candidatos exceto um, começava a me sentir um bocado idiota. Na verdade, aquilo tudo era uma péssima idéia. Quem, com uma cabeça minimamente saudável, sairia por aí tentando encontrar outro cara para substituí-lo com a namorada? Só um idiota furioso. Agora eu podia ver claramente que era uma coisa muito boa o fato de eu não ficar furioso com freqüência. Tony LaScaglia era o último nome da lista. Eu o havia deixado para o fim de propósito — mesmo que isso me fizesse sentir ainda mais idiota. Tony era, sem sombra de dúvida, material de primeira para os sonhos românticos de qualquer garota. Não era preciso ser nenhum gênio para perceber isso. Se eu tivesse de escolher a dedo a hipótese mais aterrorizante dentre os nomes da lista de possíveis parceiros astrologicamente ideais para Natalie, Tony LaScaglia teria sido o escolhido.

Ele era perfeito. Simplesmente não havia poréns. Era bom de futebol americano e capitão do time de beisebol. E estava no terceiro ano. Esse fato, por si só, já tendia a lhe dar uma certa vantagem inicial, já que, pelo menos conforme a minha experiência, as garotas sempre se sentiam atraídas por garotos mais velhos. Mas o pior mesmo era que todo mundo gostava de Tony LaScaglia. Até eu gostava dele.

E agora me via obrigado a abordá-lo de uma maneira falsamente casual e perguntar-lhe a

que horas tinha nascido. Se Tony tivesse vindo ao mundo a qualquer hora perto das nove da manhã, eu estaria em sérios apuros.

— Não vá falar com ele, Dean — John pediu, enquanto caminhávamos pelo campus da escola.

O tempo estava quase decente, e muitos estudantes aproveitavam para se sentar ao ar

livre. Tony estava ajudando a montar uma das barracas para a festa de comemoração da

chegada da primavera, que seria em apenas uma semana e meia.

— Você e eu somos os únicos que vimos a lista — John me lembrou. — Natalie não

precisa saber nunca a respeito de Tony LaScaglia. Balancei a cabeça, desejando que as coisas fossem tão simples como ele dizia.

— Não posso fazer isso, John. O meu pacto com Natalie se baseia em confiança mútua.

Se ela descobrisse, mais tarde, que eu tinha deliberadamente deixado de fora um cara

como o Tony, nunca mais falaria comigo.

— Ela provavelmente não vai falar com você nunca mais, de todo jeito —John profetizou. — Não, se sair com Tony LaScaglia.

— Ah, você me tranqüilizou bastante com essa observação. Obrigado pelo maravilhoso

voto de confiança, John. Tony LaScaglia estava com as mangas da camisa arregaçadas. Seus braços musculosos

pareciam estar atraindo um considerável grupo de meninas. Dei uma rápida olhada ao redor, para ver se Natalie andava por perto. Não a encontrei. Ela e Jayne deviam ter ficado dentro do prédio.

— Oi, Tony — falei, caminhando na direção dele.

A barraca que Tony ajudava a montar fora pintada de azul com estrelas douradas. Me lembrou a Casa da Fortuna de Madame Sonya. Ao ouvir meu cumprimento, Tony parou de martelar e sorriu. Seus dentes eram tão brancos que, quando o sol batia neles, até ofuscavam a vista.

— O que você conta, Dean? — Tony perguntou, simpático.

— Estou fazendo uma pesquisa para a aula de sociologia — menti. — Sobre tipos de

personalidade. A que horas você nasceu?

— A que horas eu nasci? — ele repetiu, rindo. As garotas ao redor dele soltaram algumas risadinhas. — E o que isso provaria?

— Um cientista desenvolveu uma teoria de que as pessoas nascidas na parte da manhã têm uma personalidade mais competitiva — continuei a mentir. Tony começou a brincar com o martelo, jogando-o de uma mão para a outra.

— Sério? — ele disse. — Puxa

verdade nessa teoria. Eu nasci às nove e cinco da manhã.

— No fuso horário da Costa Leste ou Oeste? — perguntei, tentando ignorar o enorme nó em que todo o meu estômago subitamente se transformara.

— Oeste — Tony respondeu. — Nasci aqui mesmo, em Seattle.

— Parabéns — falei, o nó em meu estômago agora dando piruetas. — Você acaba de

passar para a etapa seguinte da pesquisa. Era a hipótese mais aterrorizante tornando-se realidade. Tony LaScaglia era o parceiro

astrologicamente perfeito para Natalie.

— Grande — disse Tony. — E o que eu ganho? Eu suspirei.

— Venha até aqui, que explico tudo a você.

Bom, então acho que deve haver algum fundo de

— Agora deixe-me ver se entendi isso direitinho — Tony disse, cinco minutos mais

tarde. Nós dois estávamos num canto retirado do campus da Emerald High. Tony tinha passado

a John a tarefa de martelar.

— Quer dizer que você gosta da Natalie Taylor, mas quer que eu saia com ela? — ele

perguntou.

— Isso mesmo. Por causa dessa obsessão que a Natalie tem com astrologia. — repeti. —Já expliquei a você. —Tá, tudo bem — Tony disse. — Mas isso não significa que eu tenha entendido

bulhufas. Gemi por dentro. Aquilo estava se mostrando mais difícil do que eu havia imaginado.

— Veja, Tony — recomecei. — Foi isto o que aconteceu: Natalie e eu começamos a

namorar. Então, ela terminou comigo quando descobriu que eu não era do signo certo. E agora estou tentando provar para ela que o signo da pessoa não faz a menor diferença. Por

isso lhe ofereci arranjar um encontro com um cara que fosse astrologicamente perfeito para ela. E esse cara acabou sendo você.

— Eu?! — Tony exclamou.

— Exatamente.

— Puxa!

— E então, você topa? Topa sair com ela?

— Ora, claro — Tony respondeu. — Mas ainda não entendi qual a grande vantagem para

você. E se nós dois sairmos e nos dermos superbem?

— Então concordo em ficar longe de Natalie — respondi. — Mas se o encontro de vocês dois não for no mínimo absolutamente fantástico, eu continuo na parada.

— Ah, já saquei — Tony disse com seu sorriso contagiante. — Você está torcendo para que ela fique entediada comigo quando sairmos

— Não, não estou — repliquei.

Tony arqueou as sobrancelhas, com ar de descrença.

— Tudo bem, tudo bem — emendei —, admito que talvez esteja um pouco. Mas você

tem de dar o melhor de si nisso, Tony. Não pode fajutar para me ajudar. A Natalie perceberia. Tony balançou a cabeça.

— Dean, eu realmente gosto de você, cara, e por isso tenho de dizer o que vou dizer. Acho que você está completamente pirado.

— Imagino que deva parecer isso mesmo, Tony — falei. — Mas sei o que estou fazendo. E então, você topa? Fechado?

— Claro — Tony respondeu. — Eu não tenho nada a perder. Só tem um probleminha Estou meio durango no momento. Quem vai bancar essa grande noitada à luz de velas?

— Bom, acho que vou ter de ser eu.

Enquanto discutíamos os detalhes de seu encontro romântico com Natalie, comecei a

rezar para não ter de acabar pagando também de outra maneira.

13

Natalie

Escorpião (23 de outubro - 21 de novembro) Inesperado triângulo no plano amoroso. Agora é a sua chance de alcançar as estrelas. No entanto, expectativas não preenchidas podem voltar a persegui-la. Só você poderá tomar uma importante decisão.

Na quarta-feira de manhã, Tony LaScaglia se apresentou na minha frente com sua certidão de nascimento em mãos. Quase uma semana se passara desde que Dean e eu tínhamos fechado nossa aposta quanto ao parceiro dos meus sonhos. Desde aquela noite, eu não tinha trocado mais nenhuma palavra com ele. Começava a achar que Dean tinha desistido. Talvez meu companheiro astrologicamente perfeito simplesmente não existisse — ou, ao menos, não entre os alunos da Emerald High.

Mas os dados na certidão de nascimento de Tony LaScaglia eram prova inequívoca do

contrário. Ele tinha nascido em 5 de maio. O documento dizia isso, preto no branco.

— A que horas você nasceu? — perguntei, mal acreditando que estava realmente tendo

aquela conversa. Tony sorriu para mim. Tive de resistir ao impulso de pegar meus óculos escuros. Seus dentes eram tão brancos que pareciam recém-saídos de uma propaganda de pasta de

dentes. Precisaria lembrar de pedir a ele que fôssemos a algum lugar romântico e escuro quando saíssemos, ou eu provavelmente ficaria cega.

— Às nove e cinco, pelo fuso horário da Costa Oeste. Aqui mesmo em Seattle. Nasci no Hospital Ballard.

— Ótimo! — exclamei, tentando conter minha excitação. Tony era a combinação astral

perfeita para mim! Devolvi a certidão de nascimento. Ele a dobrou e enfiou no bolso de trás da calça. Olhei para ele, perguntando a mim

mesma o que aconteceria em seguida. Agora que o parceiro dos meus sonhos tinha aparecido, eu me dei conta de que Dean não fora muito específico com relação a quanto revelaria ao candidato sobre o que estava rolando.

— Bom — Tony disse —, eu achei que talvez pudéssemos sair juntos uma noite dessas. Você sabe, já que somos tão perfeitos um para o outro e tudo o mais

Isso responde à minha pergunta, pensei. Dean obviamente contara a Tony todo o aspecto astral da situação. Mas Tony não parecia constrangido por isso. Tanto melhor.

— Eu adoraria — respondi. — O que você tinha em mente?

— Algo especial — Tony disse, acomodando-se no banco em que eu estava sentada. Ele sorriu de novo. Eu pisquei os olhos.

— Algo tão especial quanto você — acrescentou.

— Como o quê, por exemplo? — perguntei, inclinando-me um pouco, de maneira a encostar de leve no braço dele.

Era divertido paquerar de novo. Fazia muito tempo que eu não paquerava assim. E, sem dúvida, era fácil fazê-lo com Tony. Qualquer garota que não sentisse pelo menos uma vontadezinha de paquerá-lo provavelmente estava morta.

— Andei pensando em algo bem romântico — Tony respondeu. — Que tal o Luigi's?

O Luigi's era um restaurante italiano maravilhoso, tido pelos estudantes da Emerald High

como o melhor lugar da cidade para encontros românticos. Um garoto só levava uma garota ao Luigi's se quisesse impressioná-la, já que o evento geralmente exigia que o cara

surrupiasse o cartão de crédito do pai.

— Não sei

— Estou achando melhor a cada segundo que passa — Tony respondeu.

O primeiro sinal tocou. O intervalo do meio da manhã estava chegando ao fim.

— Então, sábado à noite seria bom para você? — ele perguntou. — Digamos, por volta

das oito?

— Acho perfeito — respondi, levantando-me do banco e jogando minha mochila sobre os ombros. — Você sabe onde eu moro?

— Não — Tony disse, com outro sorriso resplandecente iluminando seu rosto. — Mas tenho o resto da semana para descobrir.

— respondi, ainda fazendo o joguinho da paquera. — O que você acha?

— Você está linda, Natalie —Jayne elogiou.

Era a noite do meu grande encontro com Tony. Eu estava de pé diante do espelho do meu quarto, e Jayne sentada na minha cama. Ela tinha aberto mão da possibilidade de sair com

John só para vir me ajudar a me arrumar. Sem dúvida, há razões de sobra para considerar Jayne minha melhor amiga. Rodopiei um pouco diante do espelho.

— Você acha mesmo que está bom? — insisti.

A roupa era nova. Um vestido branco justo e curto, com grandes girassóis amarelos estampados. Eu tinha amado o vestido à primeira vista. Bem retrô, bem cool. Até me dera ao luxo de esbanjar um pouco e comprar um par de sapatos brancos de salto anabela para combinar.

— Acho que está fantástico —Jayne confirmou. — E esse tom castanho no centro dos girassóis destaca a cor dos seus olhos.

Na verdade, eu tinha ajudado a destacar meus olhos com uma generosa, porém discreta aplicação de rímel. Mas não havia por que revelar meus pequenos segredos de embelezamento, se não fosse absolutamente necessário.

— Bom, se você diz

Jayne riu pela primeira vez desde que tinha chegado à minha casa. Caminhei até ela,

sentando-me a seu lado na cama.

Jayne não tinha exatamente comemorado quando lhe contei sobre meu programa com Tony LaScaglia. Mas não tentou me fazer desistir. Disse até que torceria para que eu conseguisse o que desejava. Pessoalmente, suspeitei que minha mãe andara instruindo minha amiga com algumas conversas didáticas sobre relacionamentos amorosos.

— E aqui estou eu de novo, ajudando você a se arrumar para uma grande noite — Jayne

comentou logo que me sentei. — Meio déjà vu, não é? Concordei com um gesto de cabeça, tentando não pensar no fato de que a última vez em que ela me ajudara a me arrumar fora para sair com Dean.

Eu tinha evitado olhar para a foto de nós dois juntos enquanto me arrumava. Havia uma boa chance de eu ter de me desfazer dela para sempre depois daquela noite. Se tudo corresse bem com Tony, eu não teria mais nenhuma razão para pensar em Dean. Aquela idéia me deu uma estranha sensação de vazio na boca do estômago.

— A próxima vez vai ser você — eu disse a Jayne. — Você e John já estão juntos há uma semana. Já é mais do que a duração de qualquer uma das minhas relações nos últimos tempos.

— Quem teria adivinhado que, de nós duas, seria eu quem acabaria conseguindo uma

relação estável primeiro, não é? Ficamos em silêncio por um momento. A imagem do belo rosto de Dean esvoaçou rapidamente por minha cabeça.

— Natalie — Jayne disse —, preciso perguntar uma coisa a você.

— O quê? — falei, embora tivesse a sensação de já saber o que ela iria perguntar.

— Você tem certeza de que sabe o que está fazendo?

— Claro que sei — respondi. — Estou saindo com o meu parceiro astrologicamente perfeito.

— Mesmo não sabendo nada sobre ele? — ela insistiu.

— Ele é do signo certo — falei. — Essa é a única coisa que preciso saber.

— falei.

— Mas você não acha que, se Tony LaScaglia realmente fosse o seu parceiro

astrologicamente perfeito, você teria sentido algum tipo de faísca de reconhecimento

Escorpião-Touro?

Eu já tinha me feito a mesma pergunta, mas aquele estava longe de ser o melhor momento para admitir essa dúvida. Em vez disso, dei a Jayne a mesma resposta que dera a mim mesma a semana toda.

— Na verdade, não faz tanto tempo assim que estou envolvida com astrologia, Jayne. Só desde que o meu namoro com Garth terminou. E depois disso veio o Dean e eu me desconcentrei. Pronto. A besteira estava feita. Eu pronunciara o nome de Dean em voz alta. Ele permanecera na minha mente a tarde toda. Parecia que eu não conseguia parar de me perguntar como Dean passaria sua noite, enquanto Tony e eu estivéssemos por aí, vivendo juntos o grande momento de nossas vidas.

Levantei-me. Pensar em Dean só estava me deixando deprimida. Eu não podia me centrar no passado. Precisava olhar para a frente.

— Deseje-me sorte, Jayne — pedi. Ela se levantou e me deu um abraço.

— Boa sorte, Natalie. Espero que vocês dois sejam muito felizes juntos.

Aquilo me fez rir.

Nós não estamos nos casando, Jayne. Estamos só saindo pela primeira vez.

O

encontro mais importante da minha vida. Aquele que me diria de uma vez por todas no

que eu deveria confiar: nos meus instintos ou na astrologia.

14

Dean

Gêmeos (21 de maio - 20 de junho) Julgamentos precipitados poderão voltar a lhe causar problemas. Você está pronto para assumir as conseqüências de seus próprios atos? Só o futuro pode decidir. Uma estrela brilhando no horizonte pode ser uma falsa esperança. Deixe a sua própria luz brilhar.

— Não gosto disso, Dean — John resmungou. — É uma péssima idéia.

— Você ficou repetindo isso nas últimas duas horas — ralhei. — Não acho que eu precise ouvir de novo.

Estávamos acotovelados atrás de um dos carrinhos de metal usados para recolhimento e limpeza dos pratos no Luigi's, esvaziando os pratos dos restos de comida deixados pelos clientes.

O trabalho já seria bastante desagradável sob circunstâncias normais, ou seja, se

estivéssemos sendo pagos por ele. Mas a razão pela qual John e eu nos encontrávamos ali

estava longe de ser normal, e não visava a nada tão simples quanto ganhar alguns trocados. Depois de uma semana inteira dizendo a mim mesmo que não precisava me preocupar quanto a Natalie e Tony LaScaglia, entrara em pânico na última hora, pouco antes do encontro dos dois.

O dono do Luigi's era um velho amigo da minha mãe. Em parte, havia sido por causa