Academia de Princesas – Shannon Hale

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Em um povoado distante, a vida do interior segue tranquila, até que um anúncio chega para modificar a vida de todos: o príncipe está buscando uma moça para ser sua noiva, e todas as meninas do reino deverão ser levadas para uma academia de princesas, de modo a aprender os modos da corte. Entre elas, há uma que não deseja este futuro, mas infelizmente, o desejo real é uma ordem. Best seller do New York Times e da Publishers Weekly. Vencedor da Newbery Honor de 2006, um dos mais importantes prêmios de literatura dos Estados Unidos. ___

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Para bons amigos Em especial para Rosi, uma verdadeira garota da montanha Capítulo Um Ao leste desponta o sol E em minha boca um bocejo A cama me agarra e implora para eu ficar É hora de ir trabalhar O inverno é longo e não tarda Eu me visto e saio a cantar Miri acordou com o balido sonolento de uma cabra. De tão escuro que estava lá fora, era como se os olhos ainda permanecessem fechados, mas talvez as cabras já percebessem o aroma da manhã entrando pelas frestas entre as pedras nas paredes da casa. Meio acordada, meio dormindo, sentia a friagem do outono enregelando-lhe as cobertas e teve vontade de se aconchegar ainda mais para dormir como um urso de dia ou de noite sob frio intenso. De repente, lembrou-se dos mercadores, chutou para longe as cobertas e sentou-se na cama. Seu pai acreditava que aquele era o dia em que as carroças passariam pela quebrada da montanha e chegariam à aldeia. Nessa época do ano, os aldeões se empertigavam para as últimas permutas da temporada, apressando-se em dar acabamento a mais alguns blocos de cantaria, que seriam trocados por igual quantidade de alimento para os meses em que a neve não os deixaria trabalhar. Miri queria ajudar. Cuidando para evitar o barulho do colchão de palha, Miri se levantou e passou delicadamente por cima do pai e da irmã mais velha, Marda, adormecidos em suas esteiras. Passara a semana inteira ansiosa, queria já estar na pedreira trabalhando quando o pai lá chegasse. Talvez assim ele não a mandasse embora. Vestiu as ceroulas de lã por cima do pijama, mas ainda não tinha amarrado a primeira bota quando o farfalhar da palha revelou que alguém havia acordado. Papai agitou as brasas e acrescentou um pouco mais de esterco de cabra. A luz alaranjada se intensificou, projetando uma imensa sombra dele contra a parede. — Já amanheceu? — Marda se apoiou num dos cotovelos e esticou os olhos na direção da lareira. — Só para mim — disse o pai. Ele olhou para Miri ali no canto, parada como uma estátua, com um pé de bota calçado e os cadarços nas mãos. — Não — foi tudo o que ele disse. — Papai. — Miri calçou o outro pé e foi até ele, arrastando os cadarços pelo chão de terra batida. Manteve o tom de voz natural, como se o pensamento tivesse acabado de surgir. — Achei que seria bom eu ajudar um pouco por causa dos acidentes e do mau tempo, só até os mercadores chegarem.

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O pai não tornou a dizer não, mas ela percebeu pela concentração ao calçar as botas que ele não mudara de ideia. Lá fora, escutara-se uma das cantigas que os trabalhadores costumavam entoar a caminho da pedreira. É hora de ir trabalhar, o inverno é longo e não tarda, eu me visto e saio a cantar. O som da cantiga cada vez mais próximo, acompanhado de um chamado insistente, vamos logo, vamos logo, antes que eles passem, antes que a neve do inverno cubra toda a montanha. A cantoria fez Miri sentir como se seu coração estivesse espremido entre duas pedras. Um convite à união, mas ela não estava incluída. Encabulada por ter mostrado vontade de ir, Miri deu de ombros e disse: — Ora, bolas! — Pegou a última cebola de uma tigela, cortou uma fatia de queijo de cabra curtido e entregou o alimento para o pai quando ele abriu a porta. — Obrigado, minha flor. Se os mercadores vierem hoje, quero ficar orgulhoso de você. — Deu um beijo no alto da cabeça da filha e logo engrenou na cantoria dos demais, antes mesmo de alcançá-los. Miri sentiu a garganta arder. Iria deixá-lo orgulhoso, sim. Marda a ajudou com os afazeres de casa, juntando as cinzas e varrendo a lareira, colocando o esterco das cabras para secar ao sol e mais água na carne para o jantar. Enquanto a irmã cantarolava, Miri tagarelava sobre qualquer assunto, sem, no entanto, mencionar a recusa do pai em deixá-la trabalhar. Mas o pesar lhe caía sobre o semblante qual roupa molhada sobre o corpo, e sua vontade era de rir o mais que pudesse até conseguir se livrar daquilo. — Semana passada, fui à casa da Bena e o avô dela estava sentado lá fora pegando sol. Fiquei olhando, intrigada, porque ele nem se incomodava com uma mosca que não parava de esvoaçar ali por perto. De repente, pimba. Esmagou-a com um tapa certeiro em cima da própria boca — contou Miri. Marda se arrepiou toda. — E o que é pior, Marda, ele deixou a mosca lá — disse. — O bicho morto, grudado bem ali, embaixo do nariz do velho. E, quando ele me viu, disse: "Boa-tarde, senhorita", e a mosca... — Seu estômago deu uma reviravolta quando ela tentou conter o riso para continuar falando. — A mosca balançava enquanto ele mexia a boca... e aí... levantou a asinha amassada... como se estivesse acenando para mim! Marda costumava dizer que não conseguia resistir à risada baixinha e gutural de Miri, e desafiava a própria montanha a se conter. Mas Miri gostava mais da risada da irmã do que de um prato cheio de sopa. Só de ouvi-la, seu coração ficava mais leve. Elas tocavam as cabras e ordenhavam as leiteiras nas primeiras horas da manhã. O frio que fazia agora no alto da montanha era prenúncio do inverno, mas a temperatura arrefecia um pouco com a brisa que soprava do vale. O céu passou do rosa para o amarelo e depois para o azul à medida que o sol foi subindo, mas Miri ficou o tempo todo desviando a atenção para o oeste e para a estrada que subia do pé da serra. — Resolvi permutar com o Enrik de novo — Miri falou — e estou determinada a arrancar mais alguma coisa dele. Não seria um

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feito e tanto? Marda sorriu, cantarolando. Miri reconheceu a melodia: era uma daquelas que os trabalhadores da pedreira cantavam enquanto arrastavam as pedras para fora do buraco. A cantoria os ajudava a manter o ritmo enquanto puxavam. — Talvez um pouco mais de cevada ou de peixe salgado — Miri falou. — Ou de mel — disse Marda. — Melhor ainda. — Sua boca ficou aguando só de pensar em comer bolinhos quentes e nozes com mel no feriado, guardando um pouco para embeber biscoitos numa das áridas noites de inverno. Por solicitação do pai, Miri assumira as permutas nos últimos três anos. Agora estava determinada a fazer com que aquele pão-duro mercador do pé da montanha entregasse mais do que pretendia. E ficou imaginando o sorriso silencioso no rosto do papai quando lhe contasse o que havia conseguido. — Não consigo parar de pensar — disse Marda, segurando a cabeça de uma cabra particularmente resmungona enquanto Miri a ordenhava — depois que você saiu, por quanto tempo a mosca ainda ficou lá pendurada nele? Ao meio-dia, Marda não saiu para ajudar na pedreira. Miri nunca falava desse momento cotidiano quando Marda ia embora e ela ficava. Não deixaria ninguém saber que se sentia muito pequena e feia. Pois fiquem achando que não ligo, pensava. Porque não ligo. Não ligo mesmo. Quando tinha 8 anos, as outras crianças da sua idade já começavam a trabalhar na pedreira: carregando água, buscando ferramentas e executando outras tarefas básicas. Um dia foi perguntar ao pai por que não podia. Ele a abraçou, beijou-a na testa e a embalou com tanto carinho que Miri teve a sensação de que bastaria ele pedir para que ela saísse pulando de uma montanha à outra. Então ele falou, em sua voz baixa e tranquila: — Nunca vai precisar pôr os pés na pedreira, minha flor. Ela não tornou a perguntar a ele por quê. Miri sempre foi pequenina, desde que nasceu, e aos 14 anos era menor que meninas muito mais novas. Dizia-se pela aldeia que algo considerado inútil era "mais fraco que o braço de um homem da planície". Quando ouvia esse ditado, Miri tinha vontade de cavar um buraco na rocha e se esconder lá nas profundezas. — Inútil! — dizia, rindo. Ainda sentia mágoa, mas preferia fingir, até para si mesma, que não ligava. Miri subiu a rampa atrás da casa tangendo as cabras até onde se encontravam os últimos trechos de pasto. No inverno, elas arrancavam os tufos de capim pela raiz. Na aldeia, todo verde desaparecia. Os fragmentos da cantaria se acumulavam tanto que Miri não conseguia escavar o suficiente e as encostas beirando as trilhas da aldeia ficavam cobertas de cascalho. Ela ouvia os mercadores da planície reclamando, mas estava acostumada a andar o tempo todo pisando em cima das lascas de pedra, assim como à poeira no ar e ao som das marretadas que marcavam a pulsação da montanha.

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Cantaria. A única lavra da montanha, o único meio de sustento de sua aldeia. Ao longo dos séculos, sempre que se esgotava uma jazida, os aldeões abriam uma nova, mudando a aldeia do Monte Eskel para a pedreira antiga. Cada escavação produzia pequenas variações de brilho e brancura. Já haviam extraído pedra mosqueada por suaves tons de rosa, azul, verde e, agora, prateado. Miri amarrou as cabras a um arbusto retorcido, sentou-se no chão de relva e arrancou uma das minúsculas florezinhas cor-de-rosa que cresciam nas frestas do rochedo. Uma flor de miri. O veio que estava sendo agora explorado fora descoberto no dia em que Miri nasceu e o pai quis dar a ela o nome da pedra. — Este filão é o mais lindo que já surgiu — disse ele à mãe dela —, branco puro com raias prateadas. Mas, na história que ela tantas vezes já arrancara do pai, sua mãe se recusava: "Não quero filha com nome de pedra", dizia, preferindo dar a ela o nome da flor que conquistava os rochedos e despontava para o sol. O pai dizia que, apesar da dor e da fraqueza após o parto, a mãe não largava o minúsculo bebê. Uma semana depois, ela morreu. Embora não se recordasse de nada além do que criara na própria imaginação, Miri considerava aquela semana nos braços da mãe a coisa mais preciosa que já tivera e acolhia esse pensamento bem no fundo do coração. Girou a florzinha entre os dedos, fazendo soltarem-se as finíssimas pétalas, que foram levadas pela brisa. Dizia a sabedoria popular que ela poderia fazer um desejo caso todas caíssem em um único giro. Que desejo poderia fazer? Olhou para o leste, onde as encostas e os platôs amarelo-esverdeados do Monte Eskel se erguiam até o pico azul-acinzentado. Ao norte, descortinavase uma cadeia de montanhas em tons que se esvaneciam do roxo para o azul e deixavam-na perder-se de vista no cinza. Apesar do amplo horizonte, ela não enxergava nada ao sul, onde, em algum ponto, seria possível encontrar o mar, misterioso. A oeste, ficava a estrada dos mercadores que ia dar no desfiladeiro, levando à planície e ao restante do reino. Ela não conseguia imaginar como seria a vida lá embaixo, assim como não conseguia visualizar um oceano. Lá embaixo, a pedreira parecia um alvoroço de formas retangulares incertas, blocos semiexpostos, homens e mulheres trabalhando com cunhas e marretas para soltar pedras da montanha, alavancas para soerguê-las e talhadeiras para aparelhá-las. Mesmo lá do alto da colina em que se encontrava, Miri podia ouvir a cantoria que dava ritmo aos trabalhos, com todos os sons se sobrepondo uns aos outros e as vibrações se propagando até onde ela se havia sentado. Vieram-lhe à mente um incômodo e a imagem de Doter, uma das operárias, com o comando abafado que moderou a batida. O jeito de falar na pedreira. Miri se inclinou para a frente, querendo ouvir mais. Os operários falavam assim sem emitir voz alta para poderem ser ouvidos apesar dos protetores de argila que usavam nos ouvidos e do estrondo ensurdecedor das marretadas. A voz emitida daquele jeito só funcionava

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mesmo na pedreira, mas Miri conseguia perceber o eco quando se sentava ali pelas redondezas. Não compreendia o funcionamento com exatidão, mas já ouvira um operário dizer que todas as marretadas e a cantoria impregnavam a montanha de ritmo. Assim era que, quando precisavam falar uns com os outros, a montanha usava o ritmo para transportar a mensagem por eles. E agora Doter deveria estar avisando para um colega bater mais de leve na cunha. Miri achava que seria uma maravilha cantar em conjunto com os demais e chamar, ao jeito da pedreira, um colega trabalhando noutro veio. Compartilhar o trabalho. O caule da miri começou a amolecer entre seus dedos. Que desejo faria? Ser alta como uma árvore? Ter braços iguais aos do pai? Conseguir escutar a rocha pronta para ser extraída e tirá-la da montanha? Mas desejar coisas impossíveis parecia ser um insulto para a flor de miri e um desrespeito ao deus que a fizera. Ela se entretinha com desejos impossíveis — a mãe viva novamente, botinas que não se rasgassem com as lascas de pedra, mel em vez de neve. Para poder ser, de alguma forma, tão útil para a aldeia quanto seu pai. Balidos frenéticos chamaram sua atenção de volta para a rampa em que se encontrava. Um garoto de seus 15 anos corria pelo riacho com água pelos joelhos atrás de uma cabra desgarrada. Era alto, de corpo esguio e cabelos castanhos encaracolados, com a pele ainda bronzeada pelo sol do verão. Seu nome era Peder. Normalmente, Miri o teria cumprimentado com um grito a distância, mas nos últimos meses uma comichão esquisita se apoderava de seu ser e ela estava mais disposta a se esconder dele do que atirar-lhe pedrinhas pelas costas para importuná-lo. Vinha começando a perceber algumas coisas nele, como o cabelo claro em contraste com a pele bronzeada e a linha entre as sobrancelhas que se aprofundava quando a perplexidade o dominava. E estava gostando dessas coisas. Ficou curiosa para saber se ele também a percebera. Desviou o olhar da flor de miri despetalada para a cabeleira alourada de Peder e sentiu um desejo do qual teve receio de falar. — Eu queria... — sussurrou. Ela iria mesmo ter coragem? — Queria que Peder e eu... Um toque de cometa ecoou tão subitamente entre os penhascos que Miri chegou a deixar cair o caule da flor. Não havia cometa na aldeia, de modo que só poderia ser gente da planície. Ela detestava responder ao chamado deles como um animal a um apito, mas a curiosidade sobrepujou o orgulho. Agarrou os cabrestos e tocou os bichos ladeira abaixo. — Miri! — Peder veio correndo para perto dela, puxando suas cabras a reboque. Miri ficou torcendo para que seu rosto não estivesse sujo de terra. — Olá, Peder! Por que você não está na pedreira? — Em quase todas as famílias, cuidar das cabras e dos coelhos era atividade reservada apenas àqueles jovens ou velhos demais para trabalhar na pedreira. — Minha irmã queria aprender a trabalhar com as cunhas e minha avó estava com dor nos ossos, então minha mãe me pediu para tanger as

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cabras hoje. Você sabe por que o toque de cometa? — Mercadores, acho eu. Mas para que tanta fanfarra? — Você sabe como o povo da planície é — disse Peder. — Eles se acham muito importantes. — Talvez um deles tenha gás e todos saiam tocando as trombetas para que o mundo inteiro saiba da novidade. Ele abriu um sorriso bem à sua maneira, com a boca mais puxada para a direita que para a esquerda. As cabras soltavam balidos como crianças brigando entre si. — É mesmo? — Miri perguntou para a líder do rebanho, como se entendesse a conversa delas. — O que foi? — disse Peder. — Aquelazinha ali disse que o riacho está tão frio que dá para secar o leite. Peder riu, deixando-a com vontade de dizer mais alguma coisa, cheia de esperteza e esplendor, mas o desejo impediu os pensamentos, de modo que ela tratou de calar a boca antes de dizer uma besteira. Os dois pararam na casa dela para prender as cabras. Peder tentou ajudar recolhendo as amarras, mas os bichos começaram a se empurrar uns aos outros e foi ele quem acabou com os tornozelos presos num emaranhado de cordas. — Ei, parem com isso! — disse, acabando por se desequilibrar e cair no chão. Miri se aproximou correndo para ajudar e também se estatelou ao lado dele, às gargalhadas. — Estamos fritos como as costeletas delas numa frigideira. Não há o que nos salve agora! Quando, por fim, se desvencilharam das cordas e tornaram a se levantar, Miri teve um impulso de se aproximar dele e dar-lhe um beijo no rosto. Chocou-se com o ímpeto e ficou ali parada, muda e encabulada. — Que confusão! — ele exclamou. — Pois é. — Miri baixou o rosto, batendo das roupas a terra e o cascalho. Achou melhor fazer logo uma piadinha para o caso de ele ter lido seus pensamentos. — Se há uma coisa em que você é bom, Peder Doterson, é em arranjar confusão. — É o que minha mãe sempre diz, e todo mundo sabe que ela nunca está errada. Miri se deu conta de que a pedreira estava em silêncio e o único barulho que escutava era o do próprio coração batendo em seus ouvidos. Ficou torcendo para que Peder não conseguisse ouvir. As trombetas soaram novamente, alertando-os, fazendo-os correr. As carroças dos mercadores estavam enfileiradas no centro da aldeia, aguardando o início das trocas, mas todos os olhos se voltavam para uma carruagem pintada de azul que surgia entre as demais. Miri já ouvira falar de carruagens, mas nunca tinha visto uma. Deveria ser alguém importante que chegava com os mercadores. — Peder, vamos olhar lá de... — Miri começou a dizer, mas nesse exato momento Bena e Liana gritaram o nome de Peder e acenaram para que se

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aproximasse. Bena era da mesma altura que Peder, seu cabelo era mais castanho que o de Miri e batia na cintura quando solto, e Liana com seus olhos enormes, era considerada a menina mais bonita da aldeia. Tinham dois anos a mais que Peder, mas, nos últimos tempos, ele era o menino para o qual preferiam sorrir. — Vamos ficar com elas para olhar de lá — disse Peder, correspondendo ao aceno, com um sorriso subitamente tímido. Miri deu de ombros. — Pode ir. — Saiu correndo na direção oposta, embrenhando-se na multidão de operários da pedreira até encontrar Marda, sem olhar para trás. — Quem você acha que é? — perguntou Marda, aproximando-se de Miri assim que ela chegou. Mesmo no meio de um grupo grande, Marda ficava ansiosa por estar sozinha. — Não sei — disse Esa —, mas minha mãe disse que qualquer surpresa do pessoal da planície é como uma serpente dentro de uma caixa. Esa era miúda, embora não fosse tão pequena quanto Miri, e tinha o cabelo do mesmo tom castanho-claro que o irmão Peder. Ela observava a carruagem, com o olhar intrigado. Marda assentiu. Doter, mãe de Esa e Peder, era conhecida pelos ditados sábios que costumava proferir. — Uma surpresa — disse Frid. Seu cabelo negro caía pelos ombros e ela trazia no rosto uma expressão quase sempre maravilhada. Embora tivesse apenas 16 anos, os ombros eram quase tão largos e os braços quase tão grossos quanto os de qualquer de seus seis irmãos grandalhões. — Quem poderia ser? Algum mercador rico? Um dos mercadores virou-se para elas com um olhar condescendente. — Está claro que é um mensageiro do rei. — Do rei? — Miri ficou embasbacada como uma das deselegantes meninas das montanhas, mas não conseguiu evitar. Até aquele momento de sua vida, nenhum emissário do rei viera às montanhas. — Talvez tenham vindo declarar o Monte Eskel a nova capital de Danland — disse um mercador. — O palácio real vai se encaixar direitinho na pedreira — disse um segundo mercador. — É mesmo? — Frid perguntou, e os dois mercadores tentaram conter o sorriso. Miri lançou a eles um olhar feroz, mas não disse nada, com receio de também parecer ignorante. Mais um toque de trombeta. Um homem de roupas vistosas subiu ao banco do cocheiro e gritou em voz alta e estridente: — Convoco seus ouvidos a darem atenção ao mandatário-mor de Danland. Um homem delicado de barba afiada e curta surgiu de dentro da carruagem, ofuscado pela luz do sol que se refletia nas paredes esbranquiçadas da pedreira. Ao tentar enxergar a multidão, foi apertando os olhos até franzir totalmente a testa. — Lordes e damas de... — Ele parou e riu, regozijando-se com alguma piada particular. — Povo do Monte Eskel. Como seu território não tem representante na corte para se reportar a vocês, Sua Majestade, o rei, me enviou para lhes dar esta notícia.

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— Uma suave lufada de vento envergou a comprida pena amarela no chapéu do homem sobre seu rosto. Ele a afastou para o lado da testa. Alguns dos rapazes da aldeia soltaram risadas. — No verão passado, os padres do deus criador formaram um conclave sobre o aniversário do príncipe. Leram os augúrios e divisaram o lar de sua futura noiva. Todos os sinais indicaram o Monte Eskel. O mandatário-mor fez uma pausa, aparentemente à espera de alguma resposta, mas Miri não fez ideia do que seria. Uma torcida? Vaias? Ele soltou um suspiro e sua voz soou ainda mais alta. — Vocês vivem tão afastados que não conhecem sequer os costumes de seu próprio povo? Miri sentiu vontade de poder gritar a resposta certa, mas, a exemplo de seus vizinhos, permaneceu calada. Alguns mercadores soltaram risadinhas. — Já é costume do povo de Danland — disse o mandatário, afastando novamente a pena que o vento cismava em soprar para cima de seu rosto. — Após alguns dias de jejum e súplicas, os padres realizam um rito para adivinhar de qual cidade ou aldeia virá a futura princesa. Em seguida, o príncipe conhece todas as nobres filhas desse lugar e escolhe a noiva. Podem estar certos de que o pronunciamento do Monte Eskel deixou chocada muita gente de Danland, mas quem somos nós para discutir com os padres do deus criador? Pelo apuro no tom da voz do mandatário, Miri supôs que ele de fato teria tentado argumentar com os padres do deus criador, sem nada conseguir. — Conforme reza a tradição, o rei mandou criar uma academia para o preparo das jovens com esse potencial. Embora a lei mande formar essa academia na escola escolhida, esta aldeia — ele apertou os olhos e olhou à volta — de fato não tem edificações de porte apropriado para tal empreitada. Dadas as circunstâncias, os padres acharam por bem que a academia seja instalada na velha casa de pedra do pastor perto da quebrada da montanha. Agora mesmo, os criados do rei estão preparando a casa. — O vento soprou a pena para cima de seu rosto. Ele a afastou como quem afasta uma abelha impertinente. — Doravante, todas as moças da aldeia, dos 12 aos 17 anos, deverão se preparar na academia para o encontro com o príncipe. Daqui a um ano, o príncipe subirá a montanha para vir ao baile da academia. Ele próprio escolherá sua noiva dentre as frequentadoras. Pois então, preparem-se. Uma lufada de vento jogou a pena em seu olho. Ele a arrancou do chapéu e a jogou no chão, mas o vento arrebatou-a de sua mão e arremessou-a encosta abaixo, levando-a para longe da aldeia. O mandatário-mor já estava de volta em sua carruagem antes que ela sumisse de vista. — Serpente numa caixa — disse Miri. Capítulo Dois Água na papa E mais sal no mingau Não enche a barriga

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Nem dá para o gasto —Vamos fazer o que temos de fazer — disse um dos mercadores. Sua voz foi um convite para que se rompesse o silêncio. Nem mesmo uma notícia estranha assim conseguiria retardar os negócios mais importantes do ano. — Enrik! — Miri foi correndo até o mercador, com quem vinha negociando nos últimos dois anos. Ele era magro e pálido, de nariz afilado, e seu jeito de esticar os olhos para ela dava-lhe a impressão de um passarinho há muito sem comer. Enrik direcionou sua carroça para a pilha de pedras acabadas que representavam o quinhão de trabalho da família dela nos últimos três meses. Miri destacou o tamanho incomum de um dos blocos e a qualidade dos veios prateados noutros, o tempo todo de olho no conteúdo da carroça do homem, calculando a quantidade de alimentos que sua família iria precisar para passar o inverno. — Essas pedras valem bem o esforço de carregá-las — disse Miri, esforçando-se ao máximo para imitar o tom de voz cálido e firme de Doter. Ninguém discutia com a mãe de Esa e Peder. — Mas, para ser gentil, trocarei nossas pedras por tudo em sua carroça, exceto um barril de trigo, uma saca de lentilhas e um engradado de peixe salgado, contanto que você inclua aquele pote de mel. Enrik soltou um estalido com a língua. — Mirizinha, é uma sorte para sua aldeia os mercadores virem tão longe atrás de pedras. Dou-lhe metade do que você está pedindo. — Metade? Está brincando. — Dê uma espiada por aí — ele disse. — Você não percebeu que há menos carroças este ano? Nossos mercadores levaram mantimentos para a academia, e não para sua aldeia. Além disso, seu pai não vai precisar de tanto com você e sua irmã fora de casa. Miri cruzou os braços. — Esse negócio de academia é apenas um truque para nos enganar, não é? Só pode ser fingimento, porque nunca alguém da planície levaria uma menina de Monte Eskel para a realeza. — Depois da notícia da academia, nenhuma família com possíveis candidatas vai ter chance igual na vida, de modo que é melhor aceitarem minha oferta antes que eu me vá. Um burburinho de frustrações ecoou por todo o centro da aldeia. A mãe de Peder ficou com o rosto vermelho e se pôs aos berros, e a mãe de Frid estava prestes a bater em alguém. — Mas eu... eu queria... — Ela já estava prevendo chegar em casa triunfante com suprimentos suficientes para alimentar duas famílias. — Mas eu queria... — Enrik a imitou com a voz esganiçada. — Ora, não precisa ficar com o queixo tremendo. Vou lhe dar o mel, mas só porque um dia você pode ser minha rainha. Diante disso, ele soltou uma risada. Contanto que conseguisse levar algum mel para casa, Miri não se importava que ele risse. Não muito, na verdade. Enrik a acompanhou até a casa dela e, pelo menos, ajudou a descarregar os

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mantimentos. Assim ela teve uma chance de se divertir um pouco ao vê-lo andar cambaleante, tropeçando pelo chão pedregoso. A casa havia sido construída de cascalho, lascas de pedra cinzenta que os operários tiravam da terra para descobrir aquela que dava boa cantaria. Os fundos davam para a parede lisa de um filão abandonado, que, na infância de seu pai, oferecera matéria-prima com delicados veios azulados. Era cercada de montes de pedra boa e de cascalho, em pilhas que chegavam até o parapeito das janelas. Miri passou a tarde em casa, ocupando-se com a tarefa de separar e guardar os mantimentos e encabulando-se ao pensar que não bastariam para os três passarem o inverno. Poderiam comer muitos dos coelhos e talvez matar uma cabra, mas um prejuízo desses os deixaria mais apertados no próximo inverno, e ainda no seguinte. Povo trapaceiro esse da planície. Quando os raios do sol que atravessavam as persianas já perdiam o brilho, ficando alaranjados, o barulho das marretadas começou a diminuir. Quando o pai e Marda abriram a porta, já era noite. Miri havia preparado carne de porco, aveia e ensopado de cebola, com repolho fresco para comemorar os negócios do dia. — Boa-noite, Miri — disse o pai, dando-lhe um beijo no alto da cabeça. — Consegui que Enrik nos desse um pote de mel — disse Miri. Marda e o pai ficaram impressionados com o pequeno triunfo, mas os negócios alquebrados e a estranha notícia da academia não saíram de seus pensamentos, e ninguém conseguiu fingir alegria, nem mesmo com o mel. — Eu não vou — disse Miri enquanto remexia o ensopado que esfriava no prato. — Você vai, Marda? Marda deu de ombros. — Então eles acham que a aldeia pode ficar sem metade das meninas? — perguntou Miri. — Quem o ajudaria na pedreira sem a Marda por aqui? E, sem mim, quem daria conta de todo o trabalho de casa e cuidaria dos coelhos e das cabras e faria tudo que eu faço? — Ela mordeu metade do lábio e olhou para o fogo. — O que você acha, papai? O pai passou um calejado dedo sobre a superfície bruta da mesa. Miri ficou atenta, estática como um coelho na escuta. — Sentiria muita falta de minhas meninas — ele disse. Miri soltou um suspiro. Ele estava do seu lado, e não deixaria o povo da planície tirá-la de casa. Mesmo assim, sentiu dificuldade em terminar o jantar. Murmurou em seu íntimo uma cantiga sobre o porvir. Capítulo Três O porvir é um rubor no poente É a mata escura no meio da noite Proclama a verdade do agora, já No anelo sombrio da luz da manhã. Antes do alvorecer, Miri acordou ao som das trombetas. O mesmo som curioso durante o dia, cômico até, era agora perturbador. Antes que ela se

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levantasse, seu pai surgiu à porta, e o que ele viu o deixou apreensivo. O primeiro pensamento de Miri foi o de que seriam bandidos, mas por que atacariam o Monte Eskel? Todos os aldeões conheciam a história do último ataque bandoleiro, antes de seu nascimento, quando os exauridos salteadores finalmente chegaram ao topo da montanha, deparando-se com muito pouco que valesse a pena roubar e apenas uma horda de homens e mulheres fortalecidos por anos de labuta na pedreira. Acabaram saindo de mãos vazias, levando somente algumas feridas, e jamais retornaram. — O que é isso, papai? — Miri perguntou. — Soldados. Miri parou atrás dele e espiou por baixo do braço que ele mantinha erguido. Enxergou parelhas de soldados empunhando tochas por toda a aldeia. Dois deles vieram ter à sua porta e seus rostos foram iluminados pelos archotes. Um era mais velho que seu pai, de traços rudes, e o outro parecia pouco mais que um menino vestido a rigor. — Viemos recolher suas meninas — disse o soldado mais idoso. Checou a informação numa fina prancheta de madeira queimada com algumas marcas que Miri não compreendia o que eram. — Marda e Miri. Marda já se aproximara, parando do outro lado do pai. Ele colocou os braços sobre os ombros das duas. O soldado fitou Miri curiosamente durante alguns instantes. — Quantos anos você tem, menina? — Quatorze — disse ela, com o olhar penetrante. — Tem certeza? Parece que tem... — Tenho 14 anos. O soldado mais jovem lançou um olhar pretensioso para o companheiro. — Deve ser o ar rarefeito da montanha. — E você? — O soldado mais velho desviou o olhar de dúvida para Marda. — Faço 18 no terceiro mês. Ele apertou os lábios um contra o outro. — Por pouco, então. O príncipe faz 18 no quinto mês deste ano e não serão permitidas meninas mais velhas que ele. Levaremos somente a Miri. Os soldados se alvoroçaram, os pés farfalhando sobre o cascalho do chão. Miri buscou o olhar do pai. — Não — disse o pai, afinal. O mais jovem bufou e então olhou para o companheiro. — Achei que você estivesse brincando quando disse que poderia haver resistência. Ele diz "não" como se tivesse alguma escolha. — Inclinou-se para a frente e soltou uma risada. Miri também soltou uma risada alta na cara do soldado mais moço, que, surpreso, voltou ao silêncio. Não toleraria que alguém da planície fizesse pouco-caso de seu pai. — Que piada, um garoto se fingir de soldado — Miri falou. — Ora se não é cedo demais para você se afastar de sua mãe! — Tenho 17 anos e... — disse fitando-a com firmeza. — Tem mesmo? O ar sufocante da planície consegue tolher um monte de coisas, não é verdade?

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O soldado mais moço se inclinou como se fosse agredir Miri, mas o pai dela se interpôs e o mais idoso o empurrou para trás, cochichando-lhe algo com rispidez ao ouvido. Miri se regozijou em devolver o insulto, mas em seguida sentiu frio e cansaço. Aproximou-se ainda mais do pai e torceu para conseguir conter o choro. — Senhor — disse o mais velho de maneira cortês —, estamos aqui para escoltar as meninas em segurança até a academia. São ordens do rei. Não queremos fazer mal algum, mas tenho instruções para levar os que resistirem direto à capital. Miri lançou-lhe um olhar profundo, desejando que ele retirasse o que dissera. — Pai, não quero que você seja preso — sussurrou. — Laren! — gritou um dos aldeões, Oz, para o pai das meninas. — Venha, vamos nos reunir. Os soldados os seguiram até o centro da aldeia. Enquanto adultos e soldados discutiam, Miri e Marda foram se juntar a outras meninas e meninos para ficar observando, à espera de uma decisão. Os adultos argumentavam com os soldados, que, por sua vez, tentavam acalmar a todos e assegurar que as meninas estariam seguras, bem cuidadas e a menos de três horas a pé. — Mas como vamos dar conta do trabalho na pedreira sem as meninas? — perguntou a mãe de Frid. É claro que ninguém perguntou: "Como vamos dar conta sem a Miri?" Ela cruzou os bracinhos delgados e desviou o olhar para longe. Eles argumentaram sobre a necessidade das meninas ali, sobre os suprimentos mais parcos naquele inverno, sobre a ameaça de prisão e sobre o futuro incerto que elas teriam na academia. Os soldados continuaram respondendo às perguntas e alegando que frequentar a academia era uma honra, não um castigo. Miri viu quando Oz fez uma pergunta a seu pai, que, depois de alguns momentos pensativo, concordou meneando a cabeça. Miri se arrepiou toda. — Meninas, venham cá — Oz gritou para elas. As meninas se afastaram dos meninos e foram até onde os adultos se reuniam. Miri percebeu que Marda ficou para trás. — Meninas! — Oz olhou para todas elas e esfregou a barba com o dorso da mão. Embora fosse um homem grande, notório por seu temperamento, havia carinho em seu olhar. — Todos concordamos que o melhor para vocês será frequentar a academia lá na planície. — Suspiros e gemidos se espalharam pela multidão. — Ora, não se preocupem. Acredito no que dizem esses soldados, será bom para vocês. Queremos que se apliquem nos estudos e sejam respeitosas sempre que for preciso. Vão pegar suas coisas e não demorem. Mostrem a esse povo da planície a força do Monte Eskel. — Você vai? — perguntou Peder, que de repente estava a seu lado. — Acho que sim. Não sei. — Ela balançou a cabeça, tentando colocar os pensamentos no lugar. — E você? Ora, é claro que não: você é menino. Quis perguntar: gostaria que eu não fosse? Ah, esquece.

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O rosto dele se contorceu e surgiu ali um sorriso malicioso. — Você quer que eu diga que vou sentir saudade. — Eu vou sentir. Existe alguma pessoa que consiga estar sempre arranjando confusão? Ao se afastar, Miri sentiu vontade de poder desfazer suas palavras para dizer algo gentil, algo sincero. Já se virara para voltar quando viu que ele estava conversando com Bena e Liana. Marda acabara de chegar de casa com uma trouxa de roupas e uma sacola de comida para Miri quando o pai abraçou as duas. Miri deixou-se afundar contra o peito dele, ocultando-se de toda a luz dos archotes e das vozes em despedidas. Decerto aquele abraço significava que ele a amava, embora isso ele não tenha dito. Decerto sentiria saudade dela. Mas Miri não conseguiu deixar de pensar em como ele reagiria se Marda, a filha que trabalhava a seu lado, estivesse indo para a academia. Teria protestado mais? Teria recusado a proposta? Diga que vai sentir muita saudade de mim, pensou. Faça com que eu fique. Ele só a abraçou com força. Miri se sentiu partida ao meio, como uma camisa velha transformada em frangalhos. Como seria possível deixar a família para trás e caminhar rumo ao desconhecido lá na planície? E como seria possível admitir que seu pai não fazia questão que ela ficasse? O abraço afrouxou e ela se desvencilhou dele. O farfalhar do cascalho indicava que quase todas as meninas já haviam tomado a estrada. — Acho que é melhor eu ir — ela disse. Recebeu um último abraço de Marda. O pai limitou-se a fazer um aceno com a cabeça. Miri saiu andando devagar para o caso de ele chamá-la de volta. Pouco antes de deixar a aldeia, Miri parou e olhou para trás. Quatro dúzias de casas alinhadas contra a parede da pedreira abandonada! Nos limites da aldeia, ficava a capela de pedra, cuja porta antiga de madeira continha entalhada a história do deus criador falando pela primeira vez com o povo. O sol estava avermelhado, já amarelecido, iluminando a aldeia como a luz de uma fogueira. Avistou o topo da colina, onde passava tardes inteiras com as cabras, e se surpreendeu ao sentir um lampejo de alívio por não ir se sentar lá naquele dia, a observar os operários trabalhando na pedreira abaixo. Os ruídos do cascalho esmagado pelos pés das meninas caminhando a atraíam com a promessa de algo diferente, um lugar para onde ir, uma chance de seguir adiante. — Ande logo — disse um soldado cuidando da retaguarda, e Miri atendeu. As meninas haviam formado pequenos grupos enquanto caminhavam e Miri ficou sem saber à qual delas se juntar. Nos últimos anos, todas as suas amigas de infância começaram a trabalhar na pedreira e Miri se acostumara à solidão em casa e na colina junto das cabras. Perto de outras pessoas, Marda estava em geral a seu lado. À frente, iam Esa e Frid, e Miri correu um pouco para alcançá-las. Embora não conseguisse usar o braço esquerdo desde um acidente na infância, Esa ainda trabalhava na pedreira quando a necessidade era grande, enquanto

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Frid realizava até as tarefas mais difíceis. Miri as achava maravilhosas. Se a achavam um fardo para o restante da aldeia, conforme seus temores mais costumeiros, jamais deixaria notarem que se importava com isso. Apesar de suas incertezas, Miri pegou a mão de Esa. As meninas da aldeia sempre davam as mãos enquanto caminhavam. Doter, mãe de Esa, uma vez disse tratar-se de um costume antigo cujo propósito era evitar que caíssem nos despenhadeiros, embora Miri sentisse a segurança das cabras saltitando a sós pelos arrabaldes do Monte Eskel desde os 5 anos. — Você faz ideia do que isso realmente vai ser? — Miri perguntou. Esa e Frid balançaram a cabeça. Miri fixou-se nelas, tentando ler em seus rostos se queriam que se afastasse delas. — Posso apostar que essa besteira de princesa é um truque que os mercadores arranjaram — disse. — Minha mãe não me deixaria ir se achasse que me fariam algum mal — disse Esa. — Mas ela também não sabe dizer do que se trata. Frid estava com o olhar fixo à frente, como se mirasse a própria morte. — Como é que um príncipe vai decidir com quem se casar? Será que vai haver um concurso para princesa conforme os que fazemos nos feriados, jogando bola ou correndo ou fazendo arremesso de pedra a distância? Miri soltou uma risada, percebendo, tarde demais, pela expressão no rosto de Frid, que ela não tivera intenção de fazer uma piada. Miri limpou a garganta para falar: — Não sei, mas acho difícil acreditar que o povo da planície se case por amor. — Será que eles sentem amor por alguma coisa que seja? — disse Frid. — Pelo próprio cheiro, acho — disse Miri. — Pelo menos será uma barriga a menos para comer lá em casa — disse Esa, olhando de relance para trás, como se estivesse pensando em sua casa. Sua voz se abrandou. — Olhem lá a Britta. Não acredito que também esteja indo. — Ela é da planície — disse Frid. — Mas parece que passou o verão inteiro na montanha; por isso talvez queira ficar — disse Esa. Miri olhou por cima do ombro até avistar Britta, andando sozinha entre dois grupos. A menina da planície tinha 15 anos e era delicada, como se nunca tivesse arrebanhado uma cabra ou compactado uma rodela de queijo. Seu rosto era corado como o lado da maçã voltado para o sol, traço que lhe conferia uma aparência alegre e bonita quando esboçava um raro sorriso. — Nunca falei com ela — disse Miri. — Ela nunca falou com quase ninguém — disse Esa. — Parece ignorar todos que falam com ela. — Era assim lá na pedreira — disse Frid. — Carregou água este verão, mas, quando os operários pediam um gole, agia como se fosse surda. Depois de algumas semanas, Oz disse: "Para que serve isso?" E mandou-a para casa. Corria uma história de que, quando seus pais, que eram gente da planície, morreram num acidente, os únicos parentes que restaram eram do Monte Eskel. Então, numa bela manhã de primavera, Britta chegou na carroça de um mercador com uma sacola de roupas e mantimentos comprados com a

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venda das últimas posses de seus pais. Pelo menos agora vestia blusa e calça, como os demais, em vez de vestidos estampados. — Não acredito que o Peder a ache bonita — disse Esa. Miri tossiu. — Acha, é? Eu não acho. Quero dizer, a menina age como se ninguém fosse bom o suficiente para dirigir a palavra a ela. — O povo da planície se considera acima de nós — disse Frid. — E somos nós que estamos no alto da montanha — disse Miri —, então não seríamos nós que estaríamos acima deles? Esa lançou um sorriso afetado para um dos soldados e Frid ergueu os punhos cerrados. Miri sorriu, satisfeita por estarem compartilhando os mesmos sentimentos. Passaram três horas contornando poças d'água, buracos e pedaços de rocha soltos das pedreiras há muito abandonadas, até que afinal avistaram o telhado da academia. Miri esteve ali seis anos antes, quando a aldeia ainda costumava comemorar o feriado da primavera no interior de suas paredes de pedra. Depois daquilo, passaram a considerar a caminhada longa demais para repetir. Era chamada de casa de pedra do pastor e os aldeões assumiram que aquela estrutura um dia abrigara um ministro da corte que supervisionava a pedreira. Na montanha, não vivia mais ninguém assim, mas a casa dava em Miri a vontade de ver que outras maravilhas haveria no reino da planície, além do ponto que ela conseguia enxergar. Mesmo a distância, Miri conseguiu detectar um clarão esbranquiçado: pedras de cantaria foram usadas como fundação, a única cantaria acabada que ela já tinha visto. Embora o resto da casa tenha sido construído de cascalho cinza, as pedras eram aparelhadas, lisas, e se encaixavam à perfeição. Havia três degraus para se chegar à porta principal e uma colunata que sustentava um frontão entalhado. Havia operários da planície no telhado, consertando os estragos causados pelas intempéries. Outros colocavam vidraças nos vãos das janelas abertas, catavam a grama que nascia entre as lajotas do piso e dos degraus e varriam anos de sujeira acumulada. As meninas iam chegando e circulando pelo lugar, espiando dentro das carroças ou apreciando o movimento. Eram vinte, desde Gerti, que mal completara 12 anos, até Bena, com 17 e meio. Apareceu uma mulher na entrada do prédio. Era alta e esbelta, com as maçãs do rosto afundadas e o cabelo reto nas pontas como um cinzel. Ela aguardou, e Miri ficou envergonhada pelas meninas da montanha espalhadas por todo canto, paradas, olhando, sem saber o que fazer. — Aproximem-se — disse a mulher. Miri tentou fazer fila com as demais, mas parece que nenhuma outra teve a mesma ideia e acabaram todas se aglomerando por ali sem formar uma linha reta. — Percebo que não subestimei o grau de polimento que as meninas da montanha iriam precisar. — A mulher crispou os lábios um contra o outro. — Eu me chamo Olana Mansdaughter. Vocês deverão me chamar de Tutora Olana. Já ouvi falar dos territórios longínquos de Danland, onde não há

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cidades, mercados ou famílias nobres. Bom, vamos lá! Ao ultrapassarem estas pilastras e entrarem neste prédio, vocês estão concordando em obedecer a todas as minhas ordens. Preciso de ordem absoluta nesta academia para conseguir transformar meninas mal-educadas em damas. Fui clara? Frid lançou um olhar desconfiado para Olana: — Então, você está dizendo que não precisamos ir para a academia se não quisermos? Olana deu um estalido com a língua. — É ainda pior do que eu esperava. Talvez fosse melhor montar a academia num celeiro. A expressão de Frid se conturbou e ela deu uma espiada à sua volta, tentando vislumbrar o que teria feito de errado. — Queira desculpar nossa grosseria, Tutora Olana. — Katar deu um passo à frente. Seu cabelo encaracolado era vermelho como o leito barrento do riacho da aldeia. Era a menina mais alta depois de Bena e se portava como se fosse mais alta que qualquer homem e duas vezes mais valente. — Devemos parecer mesmo rudes para a senhora — continuou Katar —, mas estamos prontas para entrar na academia, aprender as regras e nos esforçar ao máximo. Algumas das meninas não se mostravam tão dispostas, olhando de revés e não paravam quietas, mas Oz fora bem claro. Quase todas acenaram com a cabeça ou murmuraram qualquer coisa em sinal de aprovação. Outras expressaram dúvida, mas disseram: — Então vamos deixar de besteira e entrar logo. Assim que Olana saiu do raio de alcance de sua voz, Katar lançou um olhar para as meninas e falou entre os dentes: — E tentem não se passar por ignorantes. Miri entrou no prédio olhando para o chão, deixando a ponta da bota escorregar pelas lajotas do piso, brancas como o leite com veios cor-derosa. Fato notável era que, sem que ninguém cuidasse, a pedra havia mantido o brilho durante tantas décadas. Os aldeões tinham de limpar e lustrar as portas de madeira da capela regularmente, para evitar o desgaste. Olana dirigiu as meninas pelo interior da habitação cavernosa, advertindoas para ficarem em silêncio. Não havia nada nas paredes nem no piso, de modo que a voz de Olana e o estalido das solas de suas botas contra as lajotas ecoavam por cima da cabeça e por baixo dos pés de Miri, trazendolhe a sensação de estar cercada. — A casa é grande demais para atender às nossas necessidades — disse Olana, indicando que a maioria dos 12 aposentos permaneceria fechada, sem uso, de modo que não precisassem de aquecimento durante o inverno. A academia se resumiria a três cômodos principais. Elas entraram atrás de Olana num cômodo comprido que serviria de dormitório. Havia algumas fileiras de estrados sobre o chão. Na parede oposta, havia uma lareira, para manter o calor, e uma janela que dava para dentro da casa. Miri achou que as meninas nas camas que ficassem mais distantes passariam muito frio.

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— Meu dormitório é separado, no fim do corredor, e se ouvir barulho à noite, eu... — Olana parou, com uma expressão de desgosto aproximando o rosto delas. — Que mau cheiro! Vocês moram com as cabras? É claro que moravam com as cabras. Ninguém tinha tempo para construir um abrigo separado para as cabras, e tê-las dentro de casa ajudava a manter mais aquecidas tanto as cabras quanto as pessoas no inverno. Será que estou mesmo cheirando mal? Miri afastou o olhar e rezou para que ninguém respondesse. — Ora essa, mas alguns dias aqui podem dissipar o cheiro. Vamos torcer. Em seguida, elas visitaram o cômodo imenso que havia no centro da edificação e serviria como sala de jantar. Uma lareira grande com chaminé de cantaria entalhada era a única indicação de que já teria um dia havido alguma grandiosidade naquele cômodo. Agora estava vazio, exceto por simplórias mesas e cadeiras de madeira. — Este é o Knut, o faz-tudo da academia — disse Olana. Um homem entrou na sala pela porta da cozinha e logo direcionou o olhar para o chão, como se não tivesse certeza se deveria encontrar os olhares delas. Começava a ficar grisalho nas têmporas e na barba, e segurava na mão direita uma colher de pau de um jeito que fez Miri se lembrar do pai segurando a marreta. — Ele vai estar muito ocupado — disse Olana —, como todas nós também estaremos, de modo que vocês não devem gastar tempo se dirigindo a ele. Miri teve a impressão de que a apresentação fora um tanto grosseira, de forma que sorriu para Knut ao sair e ele correspondeu com um esboço de sorriso. Olana conduziu as meninas de volta pelo corredor principal até um salão com três janelas de vidro e duas lareiras. Queimar lenha era um luxo na aldeia e a fumaça estava fresca e convidativa. A maior parte do espaço era ocupada por seis fileiras de cadeiras com pranchetas de madeira presas ao braço. Na extremidade principal do cômodo, acima de uma escrivaninha, havia uma prateleira cheia de livros encadernados em couro. Olana mandou que ocupassem as carteiras conforme as faixas etárias. Miri escolheu lugar numa fileira junto com Esa e as outras duas de 14 anos, colocou as mãos no colo e tentou dar a impressão de que estava prestando atenção. — Vou começar com as regras — disse Olana. — Ninguém vai falar quando não for sua vez. Se vocês tiverem perguntas, aguardem caladas até que eu lhes peça para fazê-las. Qualquer besteira, qualquer travessura ou qualquer desobediência resultará em castigo. "Esta vaga de professora me foi dada como honraria. Informo a vocês que deixei para trás um cargo no palácio real como tutora das primas da princesa para vir até aqui em cima pajear imundas pastorinhas de cabras, embora eu ache que vocês nem saibam o que é um palácio real." Miri se empertigou na carteira. Ela sabia o que era um palácio: uma casa muito grande com muitos cômodos onde morava o rei. — Pois bem, queiram ou não, vocês agora fazem parte de uma empreitada histórica. Nos últimos dois séculos, a academia de princesas tem sido

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apenas uma formalidade, onde as meninas nobres da cidade escolhida se reúnem apenas para alguns dias de vida em sociedade antes do baile da princesa. "Como o Monte Eskel é meramente um território, não uma província de Danland, e vocês não podem dizer que vêm de famílias nobres, o mandatário-mor acredita que a academia deva ser levada muito a sério nesta geração. Os padres nunca haviam indicado um território como a região escolhida. Devo dizer-lhes que o rei e seus ministros estão pouco à vontade quanto a casar o príncipe com uma menina deselegante de um território longínquo. Portanto, deu-me a solene responsabilidade de fazer com que cada menina mandada ao baile esteja apta a se tornar a princesa. Se uma de vocês não conseguir aprender as lições básicas que lhes ensinarei este ano, não irá; nem sequer conhecerá o príncipe e ainda voltará para a aldeia em desgraça. "Bem, eu entendo que existe, entre nós aqui, uma verdadeira Danlander, não é mesmo? — Olana soltou um suspiro diante do silêncio que se seguiu. — Estou querendo uma resposta. Se alguma de vocês não nasceu nessa montanha, tem minha permissão para falar agora. Quase todas já tinham se virado para Britta, sentada na fileira das meninas de 15 anos, antes que ela levantasse a mão. — Eu nasci na cidade de Lonway, Tutora Olana. Olana sorriu. — Isso, você tem mesmo um jeito mais educado. Seu nome? — Britta. — Só isso? Qual é o nome de seu pai? É de se esperar que as meninas da aldeia ignorem essa formalidade, mas não alguém que venha de Lonway. Miri se ajeitou na carteira. Não eram ignorantes: as meninas ficavam com o nome do pai e os meninos com o da mãe para ajudar a distingui-los de alguém que tivesse o primeiro nome igual. Pelo jeito, o Monte Eskel partilhava algumas tradições em comum com Danland. — Fiquei órfã este ano, Tutora Olana — Britta falou. — Ora, essa! — disse Olana, mostrando-se sem jeito para responder. — Bem, essas coisas acontecem. Tenho a impressão de que será a primeira da turma nos estudos, é claro. Os olhares cravados em Britta começaram a se intensificar. — Sim, Tutora Olana. — Britta ficou olhando para as próprias mãos o tempo todo. Miri suspeitou que ela estivesse se regozijando. Então começaram os estudos. Olana pegou uma caixa rasa cheia de argila amarela e macia. Com uma vareta curta chamada estilete, ela marcou três linhas na argila. — Alguma de vocês sabe o que é isso? Miri franziu o cenho. Sabia que era uma letra, que tinha algo a ver com leitura, mas não sabia o que significava. Seu acanhamento foi um pouco aplacado pelo silêncio generalizado que se seguiu. — Britta — Olana falou —, diga à turma o que é isso. Miri esperou que ela pronunciasse a resposta brilhante e se regozijasse do conhecimento, mas Britta hesitou e acabou balançando a cabeça.

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— É claro que você sabe, Britta, então diga logo antes que eu perca a paciência. — Sinto muito, Tutora Olana, mas não sei. Olana franziu o cenho. — Bem, Britta não será um exemplo para a turma, afinal. Estou curiosa para ver quem vai se destacar e assumir seu lugar. Katar se endireitou na carteira. Enquanto Olana explicava os fundamentos da leitura, os pensamentos de Miri se desviaram para Britta. Num dia de negócios no meio do verão, Miri ouviu Britta ler palavras impressas a fogo na tampa de um barril. Estaria fingindo ignorância agora para conseguir impressionar Olana mais tarde, dando a impressão de ser capaz de aprender muito rapidamente? O povo da planície é tão esperto quanto mau, Miri pensou. Sua atenção foi subitamente desviada de Britta quando Gerti, a menina mais nova de todas, levantou a mão e interrompeu a palestra de Olana e disse: — Não estou entendendo. — O que foi isso? — disse Olana. Gerti engoliu em seco, dando-se conta de que acabara de descumprir a regra de falar quando não era sua vez. Olhou à sua volta em busca de ajuda. — O que foi isso? — Olana repetiu, esticando as vogais. — Eu falei, eu só... Sinto muito. Eu sinto muito. — Qual é seu nome? — Gerti — disse ela, num suspiro. — Levante-se, Gerti. Gerti saiu de sua carteira devagar, como se quisesse retornar à segurança que ela proporcionava. — Esta menininha está me dando a oportunidade de ilustrar as consequências de se deixar de cumprir uma regra. Até as primas da princesa sofrem punição quando não sabem se comportar, embora eu ache que vá aplicar métodos ligeiramente diferentes com vocês. Siga-me, Gerti. A tutora saiu da sala com Gerti. As demais ficaram ali sentadas sem se mexer até que Olana voltou com dois soldados. — Gerti está dentro de um quartinho fechado, pensando se deve falar quando não for sua vez. Estes bons soldados ficarão conosco neste inverno. Caso alguma de vocês pense em questionar minha autoridade, estarão aqui para esclarecer a questão. Toda semana em que vocês demonstrarem uma melhoria marcante, terão permissão para voltar para casa no dia de descanso; portanto, vamos voltar aos nossos estudos sem mais interrupções. Ao pôr do sol, os operários que trabalhavam no telhado pararam de martelar e Miri notou o barulho pela primeira vez a partir do silêncio que se fez. Papai e Marda já estariam em casa agora, com as roupas cobertas de poeira esbranquiçada. Marda falaria da falta que sentiu de Miri, de sua conversa, talvez até mesmo de sua sopa de repolho. O que papai diria? No salão de jantar, as meninas comeram arenque frito recheado com papa de cevada, cebola e uns temperos desconhecidos. Miri imaginou tratar-se

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de uma refeição sofisticada, com o propósito de marcar uma ocasião especial, mas os temperos esquisitos causaram estranhamento e desagrado, um lembrete de que haviam sido tiradas de casa. Ninguém falou nada e ecoavam pelas paredes lisas de pedra os sons das bocas sorvendo e mastigando alimentos. Olana jantou em seus próprios aposentos, mas ninguém tinha como saber se ela estaria escutando e surgiria, com os soldados a tiracolo, ante o mínimo ruído. Mais tarde, no quarto de dormir, a tensão chegara a tal ponto que irrompera numa saraivada de conversas sussurradas. Gerti falou do quartinho fechado e dos barulhos de arranhões que ouviu na escuridão. Duas das meninas mais novinhas choraram porque queriam ir para casa. — Não acho justa a maneira como Olana nos trata — Miri sussurrou para Esa e Frid. — Minha mãe teria umas boas coisas para dizer a ela — disse Esa. — Não seria o caso de irmos para casa? — disse Miri. — Se soubessem disso, nossos pais talvez mudassem de ideia quanto a ficarmos aqui. — Não fale esse tipo de coisa, Miri — disse Katar. — Se Olana ouvir, pode mandar os soldados nos darem uma boa surra. A conversa foi diminuindo e acabou cessando, mas Miri estava cansada e ansiosa demais para dormir. Ficou olhando as sombras da noite se deslocando, percorrendo o teto e prestando atenção à respiração pesada das outras meninas. Seu pulso batia no pescoço e ela se ateve àqueles sons, tentando se consolar com eles, como se a pedreira e a casa estivessem tão perto quanto seu coração. Capítulo Quatro Diga à minha família para ir comendo Para chegar em casa, eu teria de ir andando Mas a montanha fez pedras onde meus pés só são dois E eu engoli mais poeira do que sou capaz. No dia seguinte, os operários concluíram o conserto do telhado e foram embora, deixando Olana, Knut, dois soldados e um silêncio incomum. Miri sentiu falta das marteladas e batidas, sons que significavam que o trabalho na pedreira continuava como sempre e que ninguém estava machucado. O silêncio a incomodou durante a semana inteira. De manhã, antes de começarem as aulas, as meninas passavam uma hora executando as tarefas de lavar e varrer, pegar lenha e água, e ajudar Knut na cozinha. Miri observava as outras meninas roubando minutinhos de conversa perto do monte de lenha ou nos fundos da academia. Talvez não fosse sua intenção excluí-la, pensava; talvez estivessem simplesmente acostumadas umas às outras por causa do trabalho na pedreira. Ela se viu desesperadamente desejosa da presença de Marda a seu lado, ou de Peder, que, de uma forma ou de outra, continuara seu amigo ao longo dos anos, sem mudar nada. Olhou de relance para Britta, que carregava um balde de água para a

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cozinha, e pensou pela primeira vez se o silêncio dela teria alguma outra razão além do orgulho. Afinal, ela vinha da planície. A semana foi chegando ao fim e as meninas mal conseguiam acompanhar as lições de tanta vontade de poder dormir perto da lareira de suas casas, ir à capela, encontrar suas famílias e contar tudo que haviam sofrido e aprendido. — Podemos ir andando para casa hoje à noite — Esa sussurrou para Frid quando Olana saiu da sala um instante. Em seguida, virou-se para Miri, já antegozando os momentos felizes. — Não importa se for tarde, vamos ter o dia inteiro amanhã. Miri assentiu, satisfeita por ter sido incluída. Quando Olana deu continuidade à lição de leitura, Miri observou Gerti esfregando a testa como se pensar fosse doloroso. Não restava dúvida de que o tempo passado trancada no quartinho durante o primeiro dia delas na academia a deixara para trás. Para conseguir empatar com as demais, precisaria de uma ajuda extra. Havia um ditado lá na aldeia no qual Miri pensava mais que qualquer outro: "O que é injusto arde mais que urtiga na pele desprotegida." Não era justo Olana ter feito Gerti se atrasar e não fazer nada para dar um jeito nisso. O instinto de Miri a compelia a fazer alguma coisa, de modo que ela foi até Gerti e se agachou ao lado de sua carteira, apegando-se na vã esperança de que Olana enxergasse a justiça em seu ato e a deixasse em paz. — Vou ajudá-la, Gerti — Miri falou tranquilamente. E desenhou o primeiro caractere na prancheta de Gerti. — Você sabe o que é isso? — O que está acontecendo? — Olana perguntou. — Gerti perdeu a primeira lição — disse Miri. — Está precisando de ajuda. — Venham cá as duas — Olana falou. Gerti ficou de queixo caído e agarrou as laterais da carteira. — Ela não fez nada — disse Miri, levantando-se. Quis encontrar as palavras para se defender, mas Olana não pediu explicação. Pegou uma vara desbastada do tamanho de seu braço. — Estique a mão, Miri, com a palma para cima. Miri esticou a mão e ficou impressionada de vê-la tremer. Olana ergueu a vara. — Espere — Miri falou, tirando a mão. — Eu estava ajudando. Como é que você pode querer me bater por estar ajudando? — Você estava falando fora da sua vez — disse Olana. — Continuar fazendo isso não vai lhe valer como desculpa. — Isso não é justo — disse Miri. — No primeiro dia de aula, deixei claro que o descumprimento de uma regra levaria a um castigo. Se eu não mantiver minha palavra, assim, sim, vai ser injusto. Estique a mão. Miri não conseguiu pensar numa resposta. Abriu os dedos, expondo a palma da mão. Olana deu-lhe a chibatada, com um estalido e uma dor, e o braço de Miri estremeceu com o esforço feito para não tirá-lo dali. Uma segunda vez, e uma terceira. Ela olhou para o teto e tentou fingir que não havia sentido nada.

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— E agora, senhorita, vamos cuidar de você — disse Olana, voltando-se para a menina mais moça. — Gerti não pediu ajuda. — Miri engoliu em seco e tentou acalmar a voz estremecida. — Foi culpa minha. — Foi, sim. Agora todas aprenderam que aquela que falar fora de sua vez arranja castigo para si e para aquela com quem falar. — E se eu falar com a senhora, Tutora Olana, a senhora recebe as chibatadas? Miri estava tentando arrancar uma gargalhada e diminuir o atrito, mas as meninas ficaram quietinhas como presas sendo caçadas. Os lábios de Olana estremeceram de raiva. — Por causa disso você vai ganhar mais três chibatadas na mão esquerda também. Gerti levou suas três chibatadas e Miri, as mesmas tantas na outra mão. Quando a lição foi retomada, Miri teve dificuldade para segurar o estilete. Ficou de cabeça baixa e se concentrou em fazer cada caractere bem direitinho na argila. Às vezes escutava a respiração de Gerti prendendo na garganta. — Olana. — Um soldado entrou na sala. — Chegou aqui alguém da aldeia. Olana saiu com ele e Miri ouviu o eco de sua voz no corredor: — O que você quer? — O pessoal da aldeia me mandou perguntar quando as meninas vêm para casa — disse a voz de um menino. O rosto de Esa se encheu de expectativa, e Bena e Liana cochicharam algumas coisas entre si e soltaram risadinhas. Miri teve na barriga uma sensação de leveza e náusea ao mesmo tempo. Peder estava ali fora. — Diga ao seu pessoal que está tudo bem. Sei que os soldados explicaram aos pais que, para cumprir minha missão com êxito, preciso de liberdade absoluta para ensinar e treinar as meninas. Elas visitarão suas casas quando fizerem por merecer, e interromper minhas aulas com perguntas não vai fazer com que voltem para casa mais cedo. Olana voltou e retomou sua palestra. Pela janela, Miri avistou Peder parado diante do prédio da academia, tentando enxergar além dos reflexos do sol na vidraça. Ele deu um chute no chão, pegou uma lasca de pedra de cantaria maior que seu punho e saiu correndo de volta para a aldeia. Ao meio-dia, quando Olana as dispensou para o almoço, as palmas das mãos de Miri ainda estavam vermelhas. Os pensamentos e as emoções brincavam de cabo de guerra dentro dela. Ser punida por ajudar Gerti. Ser ignorada e humilhada. Peder vir até lá e ser dispensado, sem que ela sequer conseguisse lhe dar um aceno a distância. Acima de tudo, a vergonha de ser inútil que não a abandonava nunca. — Isso é uma idiotice — Miri falou assim que elas saíram da sala de aula. Katar, que andava a seu lado, falou: — Silêncio! — e olhou para trás para ver se Olana tinha ouvido. — Vamos para casa — Miri falou um pouco mais alto. Ainda sentia um vazio na barriga desde que avistara Peder e as mãos doídas lhe deram a impressão de ser maiores que sua precaução. — Podemos ir embora daqui

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antes que os soldados percebam e, se corrermos todas juntas, eles nunca nos pegarão. — Parem. — A voz autoritária fez com que Miri parasse onde estava. Nenhuma delas se virou para ver. O estalido das botas de Olana se aproximou. — Era Miri que estava falando? Miri não respondeu. Achou que, se falasse, poderia chorar. Então, Katar confirmou com um aceno de cabeça. — Ora — disse Olana —, mais uma infração. Eu disse antes que falar fora de hora significava castigo não só para a infratora como para quem escuta, não foi mesmo? Algumas das meninas concordaram. Katar se inflamou. — Nenhuma de vocês vai voltar para casa amanhã — disse Olana. — Passarão o dia de descanso estudando individualmente. Miri sentiu como se tivesse levado uma bofetada. Ouviram-se gritos de protesto. — Silêncio! — Olana brandiu no ar a bengala. — Não há o que discutir. Já é hora de vocês aprenderem que fazem parte de um país com leis e regras, e há consequências para a desobediência. Agora, voltem à sala de aula. Ficarão sem a refeição do meio-dia hoje. As meninas fizeram mais barulho do que o normal ao tomarem seus assentos, como se dessem vazão à sua raiva, arrastando os pés das cadeiras contra o piso de pedra, deixando as pranchetas baterem sobre as mesas. No silêncio que se seguiu, Miri ouviu a barriga de Frid ranger de fome. Normalmente, teria soltado uma risada. Apertou o estilete com tanta força contra a argila que ele se partiu ao meio. Naquela tarde, Olana deixou as meninas saírem para se exercitar. Elas vestiram capas e gorros, mas assim que saíram Miri tirou os seus. O frio súbito a fez sentir-se renovada, trazendo uma sensação de liberdade depois de um dia inteiro na sala de aula com o aquecimento da lareira. Estava com vontade de sair correndo como um coelho, numa leveza tal que nem sequer deixaria pegadas a serem seguidas. Então ela percebeu que estava só e as demais meninas formavam um grupo, paradas diante dela. As mais velhas estavam à frente, de braços cruzados. Miri teve a impressão de compreender como uma cabra perdida se sentiria ao se deparar com uma matilha de lobos. — Não foi minha culpa — disse ela, receosa de que admitir estar sentida implicaria tolerância pelas ações de Olana. — As regras dela são injustas. Frid e Esa olharam para trás para ver se Olana estava por perto, mas estava acertado que, do lado de fora, as meninas podiam conversar. — Não vá logo se desculpando — disse Katar, jogando a cabeleira alaranjada para fora do capuz. O queixo de Miri começou a tremer e ela o cobriu com a mão, tentando agir como se não estivesse perturbada. Se todos a achavam fraca demais para trabalhar na pedreira, pelo menos poderia mostrar-se forte o suficiente para não chorar. — Eu estava tentando me levantar por todas nós. Isto é mais um caso de o

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povo da planície tratar o povo da montanha como se fossem botas velhas. Bena se inflamou: — Você foi avisada, Miri. Por que não pode simplesmente seguir as regras? — Ninguém deveria ter de seguir regras injustas. Poderíamos todas ir para casa correndo agora. Não temos que continuar aqui e aceitar ficar trancadas em quartinhos fechados nem receber palmatórias e insultos. Nossos pais deveriam saber o que está acontecendo. — Miri queria encontrar as palavras certas para expressar sua raiva, seus receios, suas saudades, mas até para si própria seu argumento pareceu forçado. — Nem ouse — Katar falou, cruzando os braços. — Se você fizer uma coisa dessas, eles podem fechar a academia e pedir aos padres que anunciem outro lugar como lar da futura princesa. E aí todas nós perderemos nossas chances por sua causa. Miri ficou olhando atentamente. Ninguém estava rindo. — Vocês acham mesmo que vão deixar uma de nós ser princesa? — perguntou, com a voz seca e tranquila. — É claro, agindo do jeito que a Miri está, ela mesma nunca será escolhida, mas não há razão para que as demais não tentem. — A voz normalmente confiante de Katar começou a soar aguda e tensionada, como se, por alguma razão que Miri não teve como adivinhar, ela estivesse desesperada para convencer o restante da turma. — Tornar-se princesa seria mais do que simplesmente casar com o príncipe: você poderá ver o restante do reino, morar num palácio, encher a barriga em todas as refeições, manter a fogueira crepitando o inverno inteiro. E vai fazer coisas importantes, do tipo que afeta todo o reino. Vai ser especial, importante, vai haver conforto e felicidade. Era o que Katar estava oferecendo com o pedido para ficar. Algumas das meninas se aproximaram, aconchegando-se mais perto dela, como se estivessem atraídas pela história que contava. Miri estava encabulada a ponto de sentir calafrios por todo o corpo. O que seu pai acharia dela se fosse escolhida dentre todas as outras meninas para ser princesa? A ideia era deliciosa, uma história belíssima, e por um instante ela desejou poder acreditar, mas sabia que ninguém da planície deixaria a coroa ser colocada na cabeça de uma menina da montanha. — Não vai acontecer... — Miri sussurrou. — Ah, cale a boca — disse Katar. — Você nos fez perder uma refeição. Não ouse estragar nossa chance de nos tornarmos uma princesa. Olana chamou e todas as meninas, inclusive Gerti, voltaram as costas para Miri e entraram. Miri ficou olhando fixamente para o chão, na esperança de que ninguém visse como seu rosto ardia. E seguiu-as, no fim da fila. Britta ia logo à sua frente no corredor. Antes de entrarem, a moça da planície se virou e sorriu para ela. Miri quase correspondeu ao sorriso antes de se dar conta de que Britta deveria estar se regozijando com sua desgraça. Franziu o cenho, então, e afastou o olhar. O dia seguinte foi insuportável. Embora Olana insistisse em que voltar para a aldeia nos dias de descanso deveria ser um privilégio eventual, ela também declarou que precisava tirar folga das meninas de vez em quando

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para não enlouquecer. Assim, as meninas passaram o dia na sala de aula sem supervisão. Miri ficou sentada sozinha num canto, ciente de que, mesmo quando aumentasse o barulho da descontração do grupo, ela não estava convidada a participar. Quando uma das conversas pairou sobre o assunto Olana, chegou a oferecer o que considerou uma notável imitação dos lábios contritos da tutora. Ninguém riu e Miri se resignou a continuar praticando sua caligrafia em silêncio. Passou a semana seguinte contando as horas que faltavam até o dia de descanso. Depois que todas as meninas conseguissem dormir uma noite ao lado de suas próprias lareiras, a tensão certamente abrandaria. Talvez quando Miri contasse ao pai sobre as regras e a palmatória, ele admitisse que cometera um erro, que precisava dela tanto quanto de Marda em casa. Só mais três dias até a liberdade, depois dois, um. Então, naquela noite, nevou. A escola despertou com as lufadas brancas que pareciam as nuvens de pó de pedra na aldeia cobrindo tudo e ameaçando se acumular até a altura do parapeito das janelas. As meninas ficaram caladas, olhando para fora, imaginando a distância que as separava da aldeia, os buracos e pedregulhos escondidos pela nevasca, ponderando entre o perigo e o desejo de irem para casa. — Vamos para a sala de aula, então — disse Olana, encaminhando-as para longe da janela do quarto. — Ninguém vai sair andando por aí com esse tempo. E se está correta a historinha que ouço contar sobre essa montanha, vamos ter de nos aconchegar por aqui mesmo até o degelo da primavera. Olana se postou diante da classe, com as mãos dadas às costas. Miri se sentiu destacada diante daquele olhar. — Katar me informou que há quem duvide da legitimidade desta academia. Não vou me arriscar a apresentar meninas de miolo mole para Sua Alteza no ano que vem, de modo que vou lhes dizer uma coisa aqui com toda a franqueza: o príncipe vai escolher uma de vocês com quem se casar, e a escolhida vai morar no palácio, ser chamada de princesa e "usar uma coroa". Olana convocou Knut naquele instante, e ele entrou na sala com algo prateado nos braços. Olana pegou o objeto e o chacoalhou. Era um vestido, talvez a coisa mais bonita em que Miri já tivesse posto os olhos além da vista da montanha. O tecido não se parecia com nada do que ela já tivesse visto, leve e macio, e lhe trouxe à lembrança as águas de um córrego. Era cinza nas dobras e rebrilhava prateado onde batiam as luzes que entravam pela janela. Fitas cor-de-rosa claro reuniam os panos em volta do ombro e da cintura, e havia minúsculos brotos de rosa espalhados pela saia comprida. — São vestidos assim — disse Olana — que as princesas usam. Uma costureira real fez este daqui para a menina que terminar o ano em primeiro lugar na academia. As meninas engoliram em seco e soltaram suspiros e exclamações, e pela primeira vez Olana não as mandou calar. — Vamos ver quem mais quer este presente. A vitoriosa será apresentada

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ao príncipe como princesa da academia e usará este vestido na primeira dança. A escolha da noiva ainda será dele, mas a princesa da academia certamente causará uma primeira impressão bastante significativa. Enquanto Olana falava, seus olhos fitaram Frid de relance, e Miri imaginou que ela estivesse torcendo para que aquela não fosse a vitoriosa, pois seu corpo avantajado não caberia no vestido. Mas o rosto de Frid não revelou preocupação alguma com o tamanho da peça. Seus olhos se cravaram na coisa prateada, estarrecidos. Miri se esforçou para não dar na vista que também estava impressionada. Como deve ser usar um vestido assim? — Estejam avisadas de que não será fácil vocês atenderem às minhas expectativas — Olana falou. — Tenho muitas dúvidas de que as meninas da montanha sejam capazes de atingir os mesmos patamares de outras meninas de Danland. Já ouvi dizer que seus cérebros são naturalmente menores. Talvez por causa do ar mais rarefeito da montanha... Miri se inflamou. Mesmo que as promessas de Olana fossem verdadeiras, Miri não quereria se casar com alguém da planície, uma pessoa que a desprezasse e à sua montanha. Príncipe ou não, seria qual Olana, qual Enrik e os mercadores, qual o mandatário-mor franzindo o cenho ante a visão do povo da montanha e ansioso por voltar à sua carruagem e ir embora. Ela esfregou os olhos e o barro em seus dedos entrou por baixo das pálpebras, fazendo-as arder. Estava cansada do povo da planície apequenando-a e cansada de achar que poderiam estar certos. Mostraria para Olana que era tão esperta quanto qualquer Danlander. Seria a princesa da academia. Capítulo Cinco Todos sabem que as melhores coisas vêm no fim Por isso minha mãe diz que sou a última em tudo Sempre uso roupas e calçados usados, Raspo o que sobra na panela e tomo banho rio abaixo. Um dia as palavras haviam sido invisíveis para Miri, desconhecidas e desinteressantes, como os movimentos de uma aranha numa fresta da rocha. Agora, surgiam por toda sua volta, mostravam-se, exigiam atenção — na lombada dos livros em sala, decifrando tonéis de comida na despensa e na cozinha, esculpidas em marcos de pedra: No décimo terceiro ano do reinado de Jorgan. Um dia, Olana jogou fora um pergaminho e Miri o pegou no lixo, guardou-o embaixo do estrado e desenvolveu o hábito de lê-lo à luz de vela ao som de roncos e assobios. Era uma lista das meninas da academia e suas respectivas idades. Miri sentiu um tremor no coração ao ler o próprio nome escrito à tinta. "Marda Larendaughter" também estava ali, embora riscado. O de Britta aparecia sem o nome do pai. Entregar-se a aprender ajudou Miri a ignorar o doloroso frio da solidão à sua volta. À medida que a segunda, terceira, quarta semana de inverno se passavam, Miri foi se sentindo cada vez mais congelada dentro da mancada

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que dera. Pensou em tentar reparar o erro, mas o silêncio das demais significava que elas não haviam esquecido que Miri lhes custara a última visita que poderiam fazer às suas casas antes de a neve começar a cair. Nem Esa reservara um lugar na sala de jantar para Miri; nem Frid conseguira lhe dar um sorriso despretensioso. Miri deu de ombros para a mágoa e passou a dizer a si mesma que elas nunca haviam sido suas amigas de verdade. Sentia falta de Peder. Sentia falta da facilidade de sempre saber exatamente o que ele estava tentando dizer e da agitação em seu peito simplesmente por estar perto dele, quando tinha a sensação de que seus dedos engrossavam, perdiam o tato, e sua boca secava. Vê-lo brandir a marreta ou arremessar uma pedra, escutar o som áspero de sua voz e de sua risada sempre que a ouvia rir, sentir-se inclinando para perto dele como faria para se aquecer junto a uma lareira! Lá fora da janela da sala de aula, a neve continuava caindo. De repente, Miri parou de olhar, assustada com a súbita palpitação no peito. Percebeu que estava ansiosa pela chegada da primavera e a volta à sua casa, e foi ceifada pela verdade nua e crua: sentia saudade de Marda, do pai e de Peder, mas eles teriam saudade dela? Concentrou-se na prancheta e passou a dedicarse duas vezes mais ao estudo. Num certo fim de tarde, Olana soltou as meninas à vontade no pátio. Elas haviam passado o dia em suas carteiras com apenas dois intervalos para descanso ao ar livre e uma das refeições cada vez mais tristes de Knut: peixe seco desfazendo-se de tão cozido e batatas sem um pingo de banha ou sal para aguçar o paladar. Frid recebera umas lanhadas de palmatória por ter caído no sono durante o estudo individual e Gerti passara uma hora no quartinho escuro por reclamar de sua incapacidade para desenhar a última letra do alfabeto. Miri viu as meninas fazendo fila para ir lá fora e pensou em juntar-se a elas. Ela queria esquecer o fato de que lhes custara uma ida à casa e assim sair sorridente para brincar, ou apenas correr pela neve sozinha e sentir o ar frio fustigando o seu rosto. Mas, se ficasse do lado de dentro, teria a sala de aula toda para si. Vinha torcendo por uma chance como essa a semana inteira. Ao escutar os últimos passos sumindo no corredor, levantou-se e espreguiçou-se. Havia 13 livros numa prateleira alta acima da mesa de Olana. Miri já os contara, lera as lombadas e previra o possível conteúdo. Esticou-se na ponta dos pés e retirou um deles. As palavras História de Danland estavam gravadas em branco sobre a lombada de couro escuro. O livro cheirava a pó, a velharia, mas também trazia em si uma pitada de doce, um toque de algo convidativo. Ela o abriu na primeira página e começou a ler, pronunciando as palavras num sussurro reverente. Não entendeu coisa alguma. Leu a primeira frase três vezes e, embora pudesse pronunciar cada palavra separadamente, não conseguiu entender o que significavam juntas. Fechou o livro e abriu outro, Comércio de Danland. O que era Comércio, afinal? Ela

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o devolveu à prateleira e pegou outro, depois outro, e sentiu vontade de começar a jogá-los. Acabara de tirar um livrinho mais fino simplesmente intitulado Contos quando o barulho de solado de botas contra as lajotas do piso fez seu coração dar um salto. Miri não sabia se seria castigada por tomar um livro emprestado e era tarde demais para colocá-lo de volta. Então, enfiou-o sob a saia. — Miri — disse Olana, entrando. — Não vai nem esticar as pernas hoje? As outras meninas a odeiam tanto assim? O comentário de Olana a magoou. Miri não sabia que a distância entre ela e as demais era tão óbvia. Ela apertou o livro oculto contra o próprio corpo debaixo da saia e saiu da sala. Durante as duas semanas que se seguiram, quando as outras saíam, Miri se aconchegava num canto do quarto de dormir com o livro de contos sobre o colo. Lutou muito a princípio, mas logo as palavras começaram a fazer sentido, e em seguida as frases foram sendo montadas, e então as páginas formavam histórias. Que maravilha! Havia histórias dentro daquelas letras entediantes que as pessoas vinham aprendendo o tempo todo, histórias como as que ouvia no feriado da primavera ou as que o pai de Peder contava diante da lareira nas noites frias. E agora ela podia lê-las. Alguns dias mais tarde, Olana pegou um livro da prateleira e o entregou a uma das meninas mais velhas. Embora Katar lesse melhor que as demais, ainda titubeava diante das palavras desconhecidas, pronunciando-as laboriosamente. Britta também mal conseguia ler uma frase inteira. Seu rosto corado ficava ainda mais vermelho. Miri considerou que estivera errada e Britta nunca soubera ler. — Que vergonha! — Olana pegou o livro das mãos de Britta e o entregou a Miri. — Bem, você é uma das mais jovens, mas parece concentrada ultimamente. O livro era História de Danland, o tomo marrom-escuro que Miri tentara ler antes, mas não conseguira. Olana o abriu na segunda página e indicou um parágrafo. Miri sentiu a língua se soltar. Limpou a garganta, pegou o livro com firmeza e começou. — Nossos ancestrais vieram do norte e cultivaram as terras férteis das planícies centrais. Também criaram gado, cavalos, cabras montesas, ovelhas e algumas aves. No litoral, a pesca veio a se tornar uma de suas principais indústrias, como o é até hoje. As palavras deslizavam pela língua de Miri, todas se encaixando em seu devido lugar. Ela nunca tinha visto aquela passagem antes, mas estudar o livro dos contos facilitara a leitura de quaisquer outras. Titubeou diante de umas poucas palavras, mas acabou pronunciando-as corretamente. — Ora, meninas — Olana falou assim que Miri terminou —, se o príncipe viesse amanhã, vocês já sabem quem usaria o vestido prateado. Miri sentiu um sorriso irromper em seu rosto e um descabido impulso de dar um abraço em Olana. A expressão contraída de Katar ficou ainda mais inflamada. Miri engoliu em seco e tentou agir com modéstia, mas já era tarde demais. Katar costumava ser a melhor em sala de aula e não deve ter

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deixado de pensar que o sorriso de Miri significava uma maldosa satisfação. A vitória dela teve o gosto amargo de leite estragado. No fim da tarde, ao voltar da escola, Miri parou ao som de vozes abafadas vindo da frente do prédio da academia. Deu alguns passos para trás, pisando de leve na superfície enregelada da neve sobre o chão. Sussurros eram sinônimo de um segredo e aquilo arrancou de Miri um arrepio de curiosidade. Ela se encostou à parede e apurou os ouvidos para tentar captar algumas palavras no meio da conversa silenciosa. Ouvir o próprio nome pronunciado num cochicho causou náuseas em mim. — ...aguentar a Miri... dando uma de inteligente... — Era a voz de Bena. — ...nunca gostei do jeito dela perto do Peder... ficando insuportável... — ...foi sorte hoje — disse Liana. — Ela não vai... — Ela só tem 14 anos — disse Katar, falando muito mais alto que as outras. — Vocês estão preocupadas com o quê? Bena murmurou mais alguma coisa. Katar soltou um risinho de descrédito. — Não tem a menor chance. Uma das mais velhas é que vai ganhar. — Pelo que estou entendendo, Katar, você acha que é você quem deve virar princesa — Bena falou com a voz cada vez mais alta. — Mas contanto que... — Ela voltou aos sussurros e Miri não conseguiu ouvir mais nada. Miri retomou seu caminho e as meninas fizeram silêncio quando ela passou. Liana exibiu um sorriso pouco à vontade, Bena baixou o olhar para o chão, mas Katar a encarou com uma expressão impenitente. Miri correspondeu ao olhar como se fosse um embate. Acabara de erguer desafiadoramente uma das sobrancelhas quando tropeçou num dos degraus da entrada e caiu de cara na neve. Levantou-se de um pulo e entrou correndo, acossada pelo riso solto das outras meninas. Naquela noite, ficou deitada na cama absorvendo a escuridão. Confortavase por permanecer acordada enquanto as outras dormiam, como se escolhesse passar aqueles momentos sozinha, como se gostasse daquilo. A lareira do quarto não era forte o suficiente para aquecer sua cama montada sobre um estrado colocado na extremidade oposta do cômodo, e ela tremia enquanto se esforçava para alimentar alguma esperança. Fechou os olhos e enxergou sob as pálpebras as dobras e volteios do vestido prateado. Seus sonhos de tornar-se princesa da academia a envolveram e abrandaram o frio. Capítulo Seis Bigodes retesados, presas à mostra Respiração entrecortada, olhos arregalados. O inverno continuava inclemente, a neve se acumulando no peitoril das janelas e enregelando as vidraças. Quando as nuvens não deixavam o sol derreter o gelo, Miri só enxergava o mundo lá fora como um borrão acinzentado. Tanto tempo passado entre quatro paredes e tanto tempo passado sem ter com quem falar estavam desgastando Miri. Sentia dores pelo corpo, a pele coçava como se estivesse envolta em lã sem poder se

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esticar. Quando Olana mais uma vez dispensou as meninas, deixando-as sair ao pátio, Esa virou-se para Miri antes de sair da sala e fez um gesto indicando que ela a seguisse. Miri soltou um suspiro por antecipação. Se Esa a perdoasse, talvez as demais também a perdoassem. Sua determinação de ficar em paz sozinha se esvaneceu diante da possibilidade luminosa de que tudo voltasse às boas. Miri tinha, entretanto, uma pequena tarefa a cumprir antes. Depois de esperar que todas as meninas saíssem da sala de aula, aproximou-se furtivamente da prateleira para devolver o livro de contos. Estava na ponta dos pés, ajeitando o livro no lugar, quando um barulho na porta a assustou. Ela deu um pulo e largou o livro. — O que está fazendo? — Olana perguntou. — Desculpe — disse Miri, pegando o livro no chão e esfregando-o para tirar o pó. — Estava só... — Só deixando meus livros caírem no chão? Não estava pensando em roubar um deles, estava? É claro que estava. Eu teria permitido que você pegasse um livro emprestado, Miri, mas não vou tolerar um roubo. Para o quartinho, já. — O quartinho? — disse Miri. — Mas eu não estava... — Vá logo — disse Olana, ordenando Miri dali como quem tange uma ovelha recalcitrante. Miri conhecia o lugar, embora nunca tivesse estado ali. Olhou para trás antes de entrar. — Durante quanto tempo? Olana fechou a porta em cima de Miri e passou o trinco. A súbita falta de luz foi aterrorizante. Miri jamais estivera num lugar tão escuro. No inverno, Marda, o pai e ela dormiam na cozinha perto do fogão, e no verão, sob as estrelas. Deitou-se no chão e, por baixo da porta, ficou espiando a faixa de luz acinzentada. Só conseguia enxergar os ressaltos das lajotas do piso. De longe, ela ouvia o vozerio alegre e os gritinhos de alegria das meninas brincando na neve. Esa acharia que Miri havia ignorado o convite, que não fazia questão de ser sua amiga. Miri tomou fôlego, ofegante, e tossiu com a poeira. Um ruído de passos apressados a deixou em estado de alerta. Tornou a ouvir o barulho, como se fossem unhas arranhando uma superfície lisa. Miri se encostou bem à parede. Novamente. Algum animalzinho deveria estar ali com ela na escuridão. Talvez apenas um camundongo, mas, por não saber ao certo, Miri achou aquilo estranho e enervante. Tentou enxergar em meio às trevas. Seus olhos foram se acostumando, trazendo alguma definição para as formas mais escuras, mas a luz não era suficiente. Depois que os passos pararam, Miri continuou em pé, encostada à parede, até sentir dor nas costas e a cabeça pesada. Ficou cansada de fitar a escuridão, imaginando rostos que também a fitavam ou vultos minúsculos correndo pelos cantos. O enfado, enfim, trouxe o sono. Afinal, deitou-se, apoiando a cabeça nos braços, e ficou olhando a fresta embaixo da porta na esperança de ver algum sinal de Olana vindo liberá-la do castigo. O frio das

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lajotas se entranhou em sua blusa de lã e arrepiou-lhe a pele, fazendo-a estremecer e soltar um suspiro ao mesmo tempo. Caiu no sono sem descansar. Miri acordou com um puxão e uma sensação horrorosa. Haveria alguém dentro do cômodo com ela, tentando acordá-la? A luz que vazava pela fresta inferior da porta estava ainda mais fraca e a sensação pulsante em seu corpo todo sinalizava que se haviam passado horas. Tornou a sentir um puxão no couro cabeludo. Algo se prendera em sua trança. Teve vontade de gritar, mas o terror chegou a paralizá-la. Cada pedacinho de sua pele se ressentiu com o pavor do que poderia estar tocando nela. O toque foi algo forte demais para ser um camundongo. A ponta de um rabo roçou o rosto dela. Uma ratazana. Miri soltou um soluço mudo, recordando-se de uma mordida de ratazana que matara um bebê na aldeia anos antes. Não ousou gritar, com receio de assustar o bicho. Os puxões pararam e ela ficou parada, esperando alguma coisa acontecer. Será que se soltou? Será que foi embora? De repente, a coisa se agitou. Perto de seu ouvido, Miri escutou um guincho surdo. Não conseguiu se mexer, não conseguiu falar. Quanto tempo teria de ficar ali até que alguém viesse resgatá-la? Seus pensamentos iam e vinham, buscando uma saída, um consolo. — O fio do prumo balança, o falcão cria asas, o Monte Eskel canta. — Ela sussurrou baixinho como as águas lentas de um córrego. Era uma canção para comemorar, na primavera, o uso dos prumos de corda para aparelhar a cantaria, enquanto se observa o falcão alçando voo, com a sensação de que o trabalho é bom e está tudo bem no mundo. Enquanto cantarolava, ela tamborilou com as pontas dos dedos sobre uma lajota do piso, como se estivesse trabalhando na pedreira e usando o linguajar dos operários entre seus colegas. — O Monte Eskel está cantando — sussurrou e começou a mudar a letra — e Miri está chorando, lutando com uma ratazana. — E quase riu disso, mas o ruído de outro rosnado cerrou-lhe no peito a risada. Receando sequer um sussurro, continuou cantando na cabeça apenas, ainda tamborilando com os dedos em silêncio no ritmo da música e pedindo na escuridão que alguém se lembrasse dela. A porta se abriu e a luz de uma vela feriu seus olhos. — Uma ratazana! — Olana estava com a bengala na mão e usou-a para cutucar o cabelo de Miri. — Depressa, depressa — Miri falou, fechando os olhos. Ouviu um guincho, pequenos passos se afastando rapidamente, e se levantou de imediato, indo abraçar Olana. Tremia demais para conseguir ficar em pé sozinha. — Ora, tudo bem, já chega — disse Olana, desenroscando de si os braços de Miri. O frio e o susto deixaram Miri se sentindo meio morta. Abraçou a si mesma contra um arrepio que ameaçava estremecê-la tanto quanto vara verde ao

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vento. — Fiquei trancada horas a fio — disse, com um grasnido de voz. — Você se esqueceu de mim. — Acho que sim — disse Olana sem se desculpar, embora traços mais profundos em seu cenho mostrassem que ela ficara perturbada ao ver a ratazana. — Ainda bem que Gerti se lembrou de você, caso contrário eu só teria vindo pela manhã. Agora, vamos: já para a cama. Miri avistou Gerti agora, com os olhos arregalados como os do vison enquanto fitava, estarrecida, a escuridão do quartinho. Olana pegou a vela e deixou as meninas no escuro, de forma que Miri e Gerti voltaram correndo para o quarto de dormir. — Era uma ratazana — disse Gerti, assustada. — Era, sim. — Miri ainda tremia como se estivesse congelando de frio. — Obrigada por se lembrar de mim, Gerti. Meu coração teria parado de bater se eu ficasse lá mais um instante sequer. — Estranho foi como eu me lembrei de você, na verdade — disse Gerti. — Quando voltamos do recreio à tarde, você havia simplesmente sumido. Olana não falou nada e eu tive receio de perguntar. E, quando estávamos nos preparando para dormir, me veio uma lembrança aterradora de quando estive trancada no quartinho e escutei uns barulhos sinistros, e tive certeza de que você estava trancada lá também e... não sei, mas achei que havia uma ratazana. Foi quase como... ah, esqueça. — Como o quê? — Com certeza adivinhei que você estava no quartinho porque, ora, onde mais estaria? E achei ter ouvido uma ratazana quando estive lá, também, e foi por isso que soube que você estaria lá. Mas o jeito de minha visão estremecer quando pensei nisso, a maneira como você e a ratazana me vieram à mente, acabei me lembrando da linguagem da pedreira. — Linguagem da pedreira? Mas... — Miri tornou a sentir calafrios. — Sei que é besteira. Não poderia ter sido linguagem da pedreira, porque não estamos na pedreira. Ainda bem que não houve encrenca. Quando fui para o quarto da Tutora Olana e implorei para que viesse tirar você de lá, ela ameaçou com todo tipo de castigo. Miri não falou mais nada. Novas possibilidades se configuravam para ela na escuridão. Capítulo Sete Tenho uma alavanca para um bandido E uma talhadeira para uma ratazana Tenho uma marreta para um lobo E um martelo para um gato. Uma tarde, dois ou três anos antes, Miri e Peder haviam se sentado numa pastagem na encosta de um morro na aldeia. Eram tão jovens que Miri ainda não havia começado a se preocupar que suas unhas estivessem sujas e quebradas ou que Peder pudesse ficar entediado com sua conversa. Na

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ocasião, ele trabalhava na pedreira seis dias por semana e Miri insistia para conhecer os detalhes. — Não é como acender uma lareira ou curtir couro de cabra, Miri; não é como uma tarefa qualquer. Quando estou trabalhando, é como se escutasse a pedra. Não me olhe desse jeito. Não consigo explicar melhor. — Pois tente. Peder estava olhando fixamente para a lasca de cantaria que trazia na mão. Ele estava usando um canivete para esculpi-la na forma de uma cabra. — Quando tudo vai bem, temos a sensação das músicas que cantamos nos feriados, os homens uma parte, as mulheres a outra. Sabe como é a harmonia? É a mesma sensação de trabalhar a cantaria. Pode parecer besteira, mas imagino que a pedra canta o tempo todo, e quando enfio bem a cunha na fresta e baixo a marreta direitinho, tenho a sensação de que estou cantando com ela. Os operários cantam aquelas músicas em voz alta na pedreira para marcar o tempo. A cantoria de verdade acontece lá dentro. — Lá dentro, como? — Miri perguntou. Trançava caules de miri para não dar a entender que estava muito interessada. — Que som tem? — Não tem som de nada, na verdade. Não se ouve a linguagem da pedreira com os ouvidos. Quando alguma coisa está errada, dá uma sensação de erro, assim como sei quando a pessoa a meu lado está fazendo força demais com a alavanca e pode rachar a pedra. Quando isso acontece e faz barulho demais na pedreira para que a gente possa simplesmente dizer: "Vá devagar com essa alavanca", eu digo isso em linguagem da pedreira. Não sei por que se chama linguagem da pedreira, já que é mais canto do que fala, só que a gente canta por dentro. E é mais alto, se é que dá para descrever desse jeito quando alguém fala diretamente com você, mas todos por perto conseguem ouvir. — Então, você canta de um jeito e todo mundo consegue ouvir — ela falou, sem entender direito. Peder deu de ombros. — Eu falo com uma pessoa, mas estou cantando, só que não é em voz alta... Não sei descrever, Miri. É como tentar explicar como correr ou engolir. Então, pare de me encher a paciência; se não parar, vou atrás do Jans e do Almond para jogarmos um jogo só de meninos. — Faça isso e será o último jogo da sua vida. Peder não entendia por que era tão importante para Miri compreender o trabalho na pedreira, de modo que ela parou de insistir. Achou bom que ele não se desse conta de sua frustração e isolamento, que admitisse que ela continuasse a mesma Miri tranquila e despreocupada de sempre. Miri deixou que as recordações dessa conversa voltassem à sua mente, acrescentando agora tudo que achava saber sobre a linguagem da pedreira. Sempre fora uma parte da pedreira e, como tal, algo que ela não podia fazer. Acaso Gerti teria ouvido linguagem da pedreira?, pensou. Será que funciona fora da pedreira? A mera possibilidade era tão atraente quanto o cheiro dos bolinhos de mel sendo cozinhados no cômodo ao lado. No dia seguinte ao da ratazana, Miri estava cumprindo tarefas matinais, varrendo os corredores da academia. Esperou até que não houvesse mais

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ninguém por perto e entrou furtivamente num cômodo frio, fora de uso, e experimentou a linguagem da pedreira. Tamborilou com o cabo da vassoura a lajota de pedra do piso, tentando imitar uma ferramenta da pedreira, e entoou uma cantiga em voz alta. Em seguida, mudou a música de modo a transmitir a mensagem que queria. — Tenho uma alavanca para um bandido e uma talhadeira para uma ratazana. O bicho estava no quartinho até que a tutora o espantou. Sabia, de observar a pedreira, que os operários cantarolavam e tamborilavam sempre que usavam a linguagem da pedreira, mas só mudar a letra da música não bastava. A cantoria de verdade acontece do lado de dentro, dissera. — Talvez da mesma forma que cantar é diferente de falar — ela murmurou, tentando racionalizar —, a linguagem da pedreira é diferente de só pensar. Com uma música, as palavras fluíam em conjunto de uma forma diferente da conversa normal. Havia um ritmo e os sons das palavras se encaixavam como se elas tivessem sido feitas para ser cantadas lado a lado. Como poderei fazer a mesma coisa com meus pensamentos?, pensou. Miri passou o resto de sua hora de cumprir tarefas aperfeiçoando seu método. Criou músicas, como costumava fazer, não só cantando em voz alta, como também concentrando-se no som delas, tentando fazer com que seus pensamentos retumbassem e fluíssem de maneira diferente, concentrando-se nos minúsculos tremores que os nós de seus dedos produziam na pedra de cantaria. Será que a fala penetrava pelo solo? Ela fechou os olhos e imaginou-se cantando seus pensamentos para dentro da pedra, falando da ratazana e de sua necessidade desesperada naquela noite no quartinho, expandindo sua música interna com o desejo vibrante de ser ouvida. Durante um brevíssimo instante, sentiu uma mudança. Parece que o mundo estremeceu, e seus pensamentos se enquadraram todos. Soltou um grito sufocado, mas a sensação se foi tão rápido quanto veio. Olana bateu com a bengala no chão do corredor para anunciar o término das tarefas do dia e Miri terminou de varrer sua cota e foi correndo para a sala de aula. Viu quando Gerti se aproximou de sua carteira, tentando detectar qualquer sinal de que a menina mais nova tivesse ouvido. Miri arriscou uma perguntinha rápido antes de Olana entrar. — Como você está se sentindo, Gerti? — Bem. — Gerti se sentou, coçou o pescoço e, então, olhando de relance para a porta de modo a se assegurar de que a tutora não estivesse por perto, falou num sussurro: — Não estou conseguindo tirar aquela ratazana da cabeça. Estava me lembrando novamente de quando estive no quartinho... Olana entrou e Gerti, de um estalo, voltou para a posição correta em sua carteira. Miri esfregou o braço para aliviar os calafrios. Acreditou que tivesse funcionado, mas seu semblante ainda demonstrava questionamentos. De todas as meninas, por que Gerti teria ouvido sua linguagem da pedreira naquela noite? E por que novamente?

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Quando as meninas deixaram a sala de aula no recreio seguinte, Katar foi pegar um livro na prateleira e voltou a se sentar à sua carteira com certo estardalhaço. — Não precisa ficar tão chocada, Miri — disse ela, sem tirar os olhos do livro. — Você não é a única que pode estudar durante o recreio. Acho que você está pensando que o título de princesa da academia é seu, sem concorrentes. — Não — disse Miri, querendo que surgisse em sua mente uma boa resposta, bem afiada. Mas só conseguiu pensar em dizer: — Mas talvez você esteja. Katar sorriu, talvez pensando que a réplica havia sido fraca demais para merecer uma contrapartida. Miri concordou em silêncio. Conseguiu se forçar a permanecer na sala de aula durante mais alguns minutos antes de escapulir. Nos dias que se seguiram, a presença de Katar na sala de aula durante o recreio forçou Miri a procurar outros lugares para testar sua linguagem da pedreira: num cantinho, do quarto de dormir, atrás do prédio da escola e, uma vez, até no quartinho, embora mal tivesse entrado e sua pele se enrijeceu toda, como se estivesse coberta por aranhas. A cada nova experiência, quando tamborilava alguma coisa no chão e entoava uma das cantigas da pedreira, uma sensação curiosa tomava conta dela. Tudo à sua volta parecia vibrar como os galhos das árvores ao sabor do vento e uma sensação cálida e contundente se pronunciava no fundo de seus olhos. A noção do quartinho e da ratazana voltava sempre, real, como se ela estivesse revivendo aquele momento. Sentia sua música pulsando dentro de si e a imaginava percorrendo o interior da pedra, chegando à montanha, até encontrar alguém capaz de ouvi-la. Mas, em geral, não acontecia nada. E ela não conseguia entender o porquê. A linguagem da pedreira deveria servir para falar com outras pessoas, pensava. Talvez eu deva experimentar com alguém. Miri não ousaria abordar qualquer uma das outras meninas que trabalhavam na pedreira. Será que a tomariam por boba pelo simples fato de tentar? Será que ririam dela? Certa manhã, Miri ficou observando enquanto Britta lia em voz alta na aula, achando que esta não sabia das questões da pedreira o suficiente para rir dela e provavelmente não a entregaria às outras meninas. Hesitava em compartilhar a experiência com alguém da planície, mas a aflição da descoberta estava deixando Miri impaciente. No próximo recreio da tarde, Miri saiu com a turma para o pátio. O brilho do sol na neve arrancou lágrimas de seus olhos, mas estava fazendo um dos dias mais bonitos de sua vida. O céu estava deslumbrantemente azul. A neve que suas botas esmigalhava no chão se espalhava sobre as pedras da colina tal qual uma cobertura de creme. O frio conferia ao ar uma sensação de limpeza e frescor, um dia para se começarem coisas novas. Miri passou direto pelo grupo das meninas mais velhas e cumprimentou Britta. Britta estava parada ali, sozinha, e ficou surpresa por alguém vir até ela. — Quer dar um passeio? — disse Miri, na esperança de poder falar com ela

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a sós. — Vamos. Enquanto caminhavam, Miri esticou a mão para pegar a de Britta. A menina se encolheu, como se estivesse assustada com o toque. — É normal andar de mãos dadas, sabe — disse Miri, adivinhando, pela reação da outra, que andar de mãos dadas era um costume comum ao povo da montanha. — Ah, desculpe — Britta falou. — Quer dizer que todos andam de mãos dadas? Meninos e meninas e todo mundo? — Meninas e meninos se dão as mãos quando pequenos — explicou Miri rindo. Não se recordava de quando ela e Peder tinham andado de mãos dadas pela última vez. À medida que foram crescendo, o despretensioso toque das brigas e brincadeiras simplesmente acabou. — Quando uma menina e um menino mais velhos se dão as mãos, aí tem um significado. — Entendi. — Britta pegou a mão de Miri. Elas passearam por lugares onde a neve ainda não havia sido pisada, pelas laterais do prédio da escola, e Miri olhou para trás de relance para ver se não havia alguém por perto. Só um pouco mais longe. — Eu queria lhe dizer que fiquei sentida por Olana ter colocado você no quartinho — Britta falou. Miri aquiesceu, com os olhos arregalados. — Eu também. Havia uma ratazana lá, e não estou falando de Olana. Uma ratazana de verdade tentou se aninhar no meu cabelo. — Ela estremeceu. — Encontrei um fio de bigode na minha trança no dia seguinte e acho até que soltei um gritinho. — Soltou, sim. — disse Britta abrindo um sorriso. — Bem, pelo menos o horror que senti serviu para divertir alguém — disse Miri, esforçando-se por exibir um sorriso bem-intencionado, de forma que Britta soubesse que era brincadeira. — Olana não deveria colocar ninguém no quartinho, nem bater na gente — disse Britta, atravessando um montículo maior de neve. — Acho que ela vai logo castigando sem mais nem menos. Miri fez uma careta de surpresa. Se Britta desaprovava aquilo, talvez o comportamento de Olana não fosse típico do povo da planície. Ou talvez Britta não fosse uma pessoa típica da planície. — Eu não achava que fossem agir assim com a gente — disse Britta. — Já que uma de nós vai ser a princesa. — Você acha mesmo que uma de nós vai ser? — Acho que eles não mentiriam. — Britta soltou uma arfada de ar. — Mas ultimamente venho me sentindo a burrice em pessoa, de modo que não confio mais nos meus pensamentos. As duas se sentaram nos degraus de cantaria que davam na entrada dos fundos da academia e Miri achou que seria a sua chance. Começou a tamborilar um ritmo na pedra, pensou numa das cantigas da pedreira e chegou até a murmurar a melodia. Estava tentando entoar o alerta de Cuidado que costumava ouvir ecoando da pedreira. Durante um breve

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instante, tudo pareceu estremecer e ela sentiu a ressonância, mas Britta nem sequer piscou um olho. Miri só faltou soltar um gemido em voz alta. Tinha certeza de que essas sensações eram um sinal da linguagem da pedreira, mas, se funcionasse, Britta teria reagido ao alerta de alguma forma. A menos que... Ela examinou Britta de alto a baixo. A menos que o povo da planície seja surdo para a linguagem da pedreira. Quanto mais repassava a ideia, mais provável parecia. A linguagem da pedreira era só para os operários da pedreira, só para a montanha. O pensamento fez Miri sorrir consigo mesma enquanto cantarolava. Algo que o povo da montanha conseguia fazer que o da planície não conseguia. Algo que até Miri era capaz de fazer. Um talento. Um segredo. — Será que eu... Você quer que eu cante com você? — Britta perguntou. Miri parou. — Ah, não. Eu estava só... sabe, cantarolando para me divertir. — Não precisa parar — Britta falou. — Estava bom. Eu só não sabia o que você esperava de mim, porque parece que só faço coisas erradas ultimamente. Desculpe ter interrompido. Continue. — Já está na hora de voltarmos, de qualquer forma. — Tudo bem. As meninas voltaram por onde tinham vindo. Miri se desequilibrou quando seu pé pisou num montículo mais fofo de neve e soltou a mão, mas Britta a agarrou pelo braço e ajudou-a a se firmar. — Obrigada — disse Miri. — Obrigada a você. Sabe... — Britta ergueu os olhos, atrás do que dizer. — Obrigada por conversar comigo. — Ela comprimiu os lábios, como se tivesse receio de falar mais. — Claro — Miri falou, despretensiosamente, embora estivesse se regozijando por dentro. A menina agradecera a ela por falar, simplesmente. Quando chegaram novamente à frente do prédio, Liana sussurrou alguma coisa para Bena, que abriu um sorriso. Miri apertou ainda mais o braço de Britta, determinada a não se deixar acovardar pelos olhares das outras. Quando Olana as chamou de volta, Knut estava parado na frente da sala de aula segurando um pacote retangular embrulhado num pano rústico. — Seu aproveitamento tem sido parco ultimamente — Olana falou, passando a mão pelo cabelo bem aparado até os ombros. — Talvez seja por causa do inverno e do afastamento de suas famílias, ou talvez vocês simplesmente não estejam levando esta empreitada a sério. Achei que seria o caso de dar a vocês um lembrete da razão pela qual estão aqui. Olana desembrulhou o pacote e pegou um quadro colorido com muito mais detalhes que os entalhes nas portas da capela. Era a ilustração de uma casa com porta de madeira entalhada, seis janelas de vidro voltadas para a frente e um pomar de árvores altas e plantas com exuberantes flores vermelhas e amarelas. — Essa casa fica em Asland, a capital, a uma distância do palácio que, de carruagem, se cobre em pouco tempo. — Olana parou como se esperasse uma reação dramática. — Será dada para a família da menina escolhida

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para ser princesa. Alguns suspiros foram sufocados e Miri não teve muita certeza se o seu foi um deles. Talvez fosse tudo de verdade, afinal. Havia provas. Papai e Marda poderiam morar naquela linda casa e nunca mais precisariam se vestir com panos desgastados demais para protegê-los do sol ou chegar a quase passar fome no inverno. Ela queria dar a eles algo tão precioso e perfeito assim. O que seu pai iria pensar dela então? Mas, para conseguir aquela casa para sua família, Miri teria de ser a princesa. Ela fechou os olhos. A ideia de se casar com alguém da planície ainda a deixava confusa e amedrontada. E quanto a Peder? Não. Afastou o pensamento, sem a ousadia de esperar que ele a visse como algo diferente da pequena Miri, sua amiga de infância. Tornou a olhar para o quadro. Antes da academia, seu único desejo fora trabalhar na pedreira junto com o pai. Agora, outras possibilidades começavam a espicaçá-la. E o povo da planície? E virar princesa? Naquela noite, Miri ainda estava acordada muitas horas depois de escurecer quando ouviu o estardalhaço distante de rocha desmoronando. Os operários da pedreira disseram que um desmoronamento era a montanha se fortalecendo dos ataques sofridos no dia anterior. Seu pai dissera que sua mãe achava tratar-se da própria montanha gritando olá no meio da noite. Durante toda a vida, Miri fora despertada por esse barulho. Quase sempre vinha de noite, como se a montanha soubesse que a pedreira estava vazia e a avalanche de pedras não pudesse esmagar ninguém pelo caminho. Consolava-a ouvir o estampido e o murmúrio e lembrar que ainda estava em sua montanha. Não estava preparada para abrir mão dela completamente, não estava preparada para abrir mão de seu pai. Ver o quadro a fizera crer que poderia deixar a montanha, que até desejasse isso. A ameaça da partida a fez sentir que seu lar era-lhe algo muito caro. Miri quis falar de volta para a montanha, enviar alguma saudação na pueril esperança de que ela a escutaria e a aceitaria como um dos seus. Espalmou a mão sobre uma lajota do piso e tamborilou um ritmo com as pontas dos dedos. Sentiu vontade de dizer o que estava sentindo aos gritos, vontade de que a montanha realmente pudesse entender. — "Ela é tão encantadora quanto uma menina com flores no cabelo", cantou em sussurros. "É animada como o sol da primavera secando a chuva no ar." Era uma ode ao Monte Eskel cantada no feriado da primavera, e cantar aquilo agora a envolvia nas recordações dos bons momentos vividos em sua montanha. Cantou no seu íntimo, inventando sua própria canção sobre a suave acolhida das brisas primaveris, das fogueiras noturnas, dos colares de miris pendurados ao pescoço, de roçar os dedos de Peder quando ele se virava ao dançar, do calor das fogueiras que a fazia sentir-se aconchegada ao seio da montanha. As sombras escuras no quarto de dormir estremeceram e uma sensação a invadiu como se ela tivesse soltado murmúrios nas profundezas da

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garganta. Linguagem da pedreira. Miri soltou um gemido surdo. Por que não funciona o tempo todo?, pensou. Ressoou outro desmoronamento a distância e Miri imaginou que a montanha estava rindo dela. Sorriu e se aninhou ainda mais em sua cama. — Vou acabar lhe entendendo — ela sussurrou. — Você vai ver. Capítulo Oito Meus dedos estão mais frios que o próprio pé Meus pés estão mais frios que minhas costelas Minhas costelas estão mais frias que minha respiração Minha respiração está mais fria que meus lábios E meus lábios estão roxos e azuis, roxos e azuis. Miri acordou tremendo e cumpriu suas tarefas matinais saltitando, tentando aquecer os pés. Num inverno de montanha, o frio cortante em geral diminui depois que a neve cai, mas nessa última semana o céu estivera limpo. E uma espiada pela janela dizia às meninas que naquela manhã não haveria trégua para o frio: nuvens pesadas de neve que ainda não caiu baixaram sobre a montanha, encobrindo tudo de uma névoa úmida. Todas gemiam e reclamavam, e Miri sabia que também deveria estar se sentindo mal; porém, sentia-se envolta e oculta, um belo segredo que não seria divulgado. Ficou olhando pela janela da sala de aula a brancura lá fora, satisfeita com sua descoberta da linguagem da pedreira e ansiosa por entendê-la melhor. Direcionou seus pensamentos de volta, de modo a ouvir Olana anunciar que os estudos estavam prestes a mudar. Durante quase três meses, o enfoque havia sido na leitura, mas agora Olana introduzia outras matérias: História de Danland, Comércio, Geografia e, ainda, Reis e Rainhas, bem como assuntos relativos à formação de princesas, tais como Diplomacia, Conversação e aquele que levou Miri a ter vontade de girar os olhos nas órbitas: Postura. Bem, ela faria aquilo tudo se assim pudesse fazer com que Olana parasse de insultá-las e provar que uma menina da montanha tinha tanta cabeça quanto qualquer pessoa da planície. Seus olhos se voltaram para o quadro, e seus desejos, atabalhoadamente, para o próprio íntimo. Queria dar aquela casa para a família; contudo, não queria esposar um homem da planície. Tinha vontade de ver coisas das que estava aprendendo e, nesse mundo, encontrar um lugar seu, mas receava abrir mão de sua montanha. Não conseguia imaginar uma solução que colocasse tudo em ordem. Durante as aulas de Postura, as meninas tiravam as botas e as equilibravam na cabeça. Andavam em círculos. Aprendiam a andar depressa (na ponta dos pés, com os dedos resguardados sempre atrás da bainha da saia, com fluidez e os braços levemente dobrados) e devagar (da ponta à planta do pé, da ponta à planta do pé, com as mãos repousando sobre a saia). Aprenderam a fazer mesuras completas para um príncipe e, ao flexionar as pernas e baixar a cabeça, Miri, a princípio, acreditava mesmo que iria

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conhecer um príncipe. Praticaram mesuras mais ligeiras para seus iguais e compreenderam que não deviam cortesia alguma aos serviçais. — Embora, a rigor — disse Olana —, como não são das províncias do reino, vocês seriam consideradas menos que serviçais em qualquer cidade de Danland. Para Miri, estudar Conversação era tão ridículo quanto estudar Postura. Todas sabiam falar desde que começaram a andar, o que mais haveria para aprender? Porém, pelo menos enquanto estudavam Conversação, as meninas tinham permissão para falar umas com as outras, seguindo os princípios corretos, é claro. Olana separou as meninas em pares e designou-lhes a categoria. Miri ficou feliz por formar par com Britta, embora Olana lhe tenha designado um posto inferior. — Vocês precisam saber seu posto e o de seu interlocutor — disse Olana. Miri franziu o cenho e olhou à sua volta. Ninguém ousou interromper e perguntar o que significava "interlocutor". — A pessoa no posto mais baixo sempre presta deferência à outra. Isto aqui serve apenas para os propósitos da nossa prática, pois, é claro, são poucas pessoas no reino inteiro que poderiam ser consideradas de uma categoria inferior a vocês. Os insultos de Olana feriam qual picadas de insetos e Miri estava a ponto de dar um safanão nela. Britta deu uma leve cotovelada em Miri e sorriu, como se adivinhasse seus pensamentos. — Entretanto, uma de vocês será alçada de categoria no ano que vem — disse Olana —, de forma que todas devem praticar segundo essa possibilidade. Quem tem posto inferior deve sempre saber direito o nome e a categoria de seus superiores. Na conversação correta, vocês usarão isso com frequência. Podem começar. — Muito bem, Lady Britta — disse Miri em meio ao tumulto das conversas que enchiam a sala de aula. Britta franziu o cenho. — Não precisa me chamar desse jeito. — Você é superior a mim — Miri falou —, portanto façamos de você uma dama, minha Lady Britta. — Tudo bem, então, Senhorita Miri. — Oh, Lady Britta?. — disse Miri, com um tom nasalado que ela imaginou que gente rica deve usar. — Sim, Senhorita Miri?. — Britta imitou o mesmo efeito. — Espero que todos os seus lordes e ladies estejam gordos e felizes, Lady Britta. — Todos gordos, ninguém feliz, Senhorita Miri. — É mesmo, Lady Britta? Que simpático poder participar de cortejos num palácio cheio de rechonchudos lordes e ladies flanando alvoroçados pelos corredores! — É um deleite — disse Britta, soltando uma risada. — Você fica muito bonita quando sorri, Lady Britta. Deveria sorrir mais. Britta soltou uma risada mais baixinha e baixou a cabeça. Olana interrompeu o exercício para discorrer sobre a Conversação, a

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importância de repetir nome e título, fazer perguntas e sempre levar a conversa de volta para a outra pessoa. — Nunca ofereçam qualquer informação sobre si mesmas — disse Olana. — Não apenas por cortesia, mas também para proteger seus segredos, caso tenham algum, o que duvido. Por exemplo, vamos supor que vocês estejam num baile sentindo muito calor. Será que alguém pode me dizer como fazer essa observação para o príncipe sem falar sobre si mesma? A mão de Katar se ergueu de imediato. Olana pediu que ela falasse. — Parece que está um pouco abafado aqui. Sua Alteza está sentindo calor? — Muito bom — disse Olana. Miri franziu o cenho para Katar e depois abriu um sorrisinho maroto. Olana perguntou o que se poderia dizer caso o príncipe perguntasse como ela estava se sentindo. Miri levantou a mão o mais rápido que pôde. — Hum, vinha ansiosa por encontrá-lo, Alteza. Como foi a viagem? Olana ergueu uma sobrancelha. — Isso poderia servir, se fosse sem o "hum". Katar abriu um sorrisinho pretensioso para Miri. — Conversação idiota! — Miri falou para Britta quando voltaram às conversas individuais. — Aprender a ler foi bom, mas esse troço é bobo. Eu preferiria estar lavando panelas. Britta deu de ombros. — Acho que é importante, mas não gosto muito de falar de superiores e inferiores e tudo mais. São boas maneiras apenas. Tenho a impressão de que, para causar uma boa impressão, é necessário tratar as pessoas todas como superioras, quer Olana ache isso ou deixe de achar. — Você não é ruim da cabeça, afinal — disse Miri. — Por que finge ser? Britta ficou boquiaberta, mostrando-se tanto afrontada quanto encabulada. — Não finjo nada, e sou... ora, sou... — Você sempre soube ler, não é mesmo? — Miri sussurrou para ela. Britta deu a impressão de estar querendo negar, mas em seguida deu de ombros. — Não quis ser a única que sabia ler e deixar que Olana me usasse como exemplo contra as demais. Já estava suficientemente difícil para mim... com as pessoas aqui. — Britta, me desculpe, não quis... Britta concordou logo. — Eu sei. Já ouvi o jeito como os mercadores falam. Vejo como Olana a trata. É claro que você deve achar que todo mundo da planície é igual. Mas, Miri, eu não penso igual a eles. Não mesmo. Na manhã seguinte, Olana apresentou as regras para negociações diplomáticas, começando por Enunciar o problema e terminando por Buscar aceitação mútua, discorrendo em seguida uma extensa lista de princípios gerais da Diplomacia. — Conte a verdade da forma mais despojada possível — Olana leu num livro. Sua voz normalmente solta soou forçada, como se estivesse incomodada por ensinar princípios que ela mesma não seguia. — Escute atenciosamente os aliados e os inimigos para conhecer suas ideias. As melhores soluções não vêm através da força. Reconheça suas falhas e diga

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como planeja repará-las. Miri se esforçou para imitar o jeito como Olana retorcia os lábios da melhor forma possível. Britta ocultou o sorriso com a mão. — E agora vamos dar uma olhadinha no Comércio — disse Olana — apenas o suficiente para evitar que se atrapalhem demais diante do príncipe. Depois que a lição começou, Miri precisou considerar se o pessoal da montanha seria mesmo mais chato que o da planície. Achou que Comércio era apenas uma palavra sofisticada para se referir à maneira como se trocava pedra de cantaria por outras coisas, mas Olana tagarelava sobre oferta e procura, mercados, mercadores e bens de primeira necessidade. Era como se fizesse tudo parecer mais complicado só para deixar as meninas se sentindo burras. Pelo menos, Miri achava que era isso. No recreio seguinte, Miri abriu o livro de Comércio para ver se conseguia decifrar aquilo. Depois de cinco minutos e dos primeiros sinais de uma dor de cabeça causada pela frustração, fechou o livro com brutalidade. Talvez sua cabeça estivesse desgastada pelas tentativas constantes de esclarecer como funcionava a linguagem da pedreira, ou talvez ela não fosse suficientemente inteligente. Pela janela, avistou Frid jogando bolas de neve a distância e Esa rindo de algo que dissera Tonna, uma das meninas de 16 anos. Até Katar estava no pátio hoje, sentada na escada pegando um pouco de sol. A altura dos montículos de neve chegava à cintura de Miri. Era pleno inverno. A pelagem dos coelhos estaria mais espessa agora e isso significava que era hora do abate. Sempre havia celebração pela carne fresca para o guisado e pela pele para um gorro novo ou um par de luvas. Miri detestava a tarefa, mas a cumpria todo ano para poupar Marda, que chorava ao ver qualquer criatura morrendo. Imaginou se a irmã seria forte o suficiente para fazer o abate este ano ou se o pai tomaria a si a tarefa uma noite dessas. Seus olhos se voltaram para o quadro da casa. O desejo de ir embora da montanha dava a ela a sensação de estar abrindo mão do pai e isso era algo que Miri não suportaria. Mas, com aquela casa, poderia manter a família por perto e ainda viajar para outros lugares e aprender coisas novas. E, se Miri ganhasse, Marda jamais precisaria matar um coelho e lavar sangue na neve derretida. Papai jamais precisaria acrescentar água à papa para dar conta de um jantar no meio do inverno. Poderiam todos ir se sentar à sombra daquela confortável casa e ficar bebericando refresco, aprendendo a tocar os instrumentos do povo da planície e olhando as flores. As parcas árvores e o capim do Monte Eskel não se comparavam aos jardins da planície. Isso fazia Miri pensar se não seria verdade quando diziam que o povo da planície tinha o dom de fazer as coisas crescerem. Knut entrou na sala de aula e parou assim que avistou Miri. — Achei que estavam todas lá fora. Entrei só para limpar a sala. — Olá, Knut — ela disse. Ele não respondeu, nem sequer reconheceu que Miri dirigira a ele a palavra, e ela riu por causa disso. — Você também fica proibido de falar fora de sua vez, igual a nós? Knut então sorriu, e sua barbicha se espichou ainda mais. — Mais ou menos. Mas não acho que ela vá me colocar no quartinho por

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dizer um olá. — Prometo que não vou contar. Knut, você já viu a casa desse quadro? — O quê? A casa da princesa? Não, acho que não, embora existam muitas assim lá em Asland e nas outras cidades grandes. Jardim bonito que essa daí tem! Meu pai foi jardineiro num lugar assim quase a vida toda. — Quer dizer que o trabalho dele era cuidar do jardim o dia inteiro? — É. Pelo menos, era a profissão dele. Ele também gostava de tocar de noite um instrumento parecido com a flauta que se chama "jop", e também de levar a mim e minha irmã para pescar nos dias de descanso. — Humm. — Miri tentou imaginar o tipo de vida em que pescar era passatempo nos feriados, e não uma forma de se conseguir comida. — Não há muitos jardins por aqui. Knut esfregou a barbicha grisalha. — Não há muitos? Eu diria que não há nenhum. Miri sentiu o rosto enrubecer, e estava pensando no que dizer em defesa de sua montanha quando Knut voltou o sorriso para a janela e disse: — Não que você precise deles para fazer vista, com esses picos de montanha de tirar o fôlego. E imediatamente Miri chegou à conclusão de que Knut era uma pessoa da melhor espécie. Perguntou a ele sobre os jardins e as planícies, ouviu falar de fazendas tão grandes que era preciso montar num pônei ligeiro para chegar à outra extremidade antes do meio-dia e dos jardins sofisticados que os ricos tinham, cheios de plantas só para olhar, e não para comer. Ele ensinou a ela os nomes de várias flores e árvores do quadro. — Meu nome é Miri, como aquela florzinha cor-de-rosa que cresce nos leitos rochosos. Vocês têm miris lá na planície? — Não, acho que miri é uma flor da montanha. Ele se assustou com um barulho que veio de fora. — Preciso ir. — Olhou lá para fora, pela porta, e ao redor da sala, como se verificasse se Olana não estaria por perto, então se inclinou para perto de Miri e sussurrou: — Não gosto do jeito como Olana trata você. Isso tem de mudar. — Fez um gesto na direção do livro que estava na mão dela. — Continue lendo esse aí, Miri, e você não vai se arrepender. Então, Miri soltou um suspiro, sentou-se e tornou a abrir o Comércio de Danland. Até a obscura palestra de Olana havia sido mais fácil de compreender. Ela disse que o comércio era a troca de uma coisa de valor por outra coisa de valor. A única coisa de valor na montanha eram as pedras de cantaria, de modo que Miri folheou o livro em busca de alguma menção a elas. Encontrou a passagem de um capítulo chamado "Bens de Primeira Necessidade de Danland". De todas as pedras usadas na construção, a cantaria é a preferida. É dura o suficiente para sustentar grandes palácios e não racha, mas é leve o suficiente para ser transportada a locais distantes. É fácil de lustrar e mesmo depois de mil anos ainda brilha nos edifícios em que foi colocada como prata nova. Capelas devem ser feitas de madeira, mas palácios requerem cantaria. Em Danland, os únicos leitos de pedra de cantaria

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conhecidos se encontram no Monte Eskel. Miri correu os dedos por cima daquela passagem. Não sabia que a pedra de cantaria era tão rara. — Isso faz com que o Monte Eskel seja importante, até para o povo da planície. — Ela sempre quis que fosse assim, e eis aqui a prova. Olana falou de oferta e procura: se não houvesse um produto em boa quantidade disponível e a procura fosse grande, o valor daquele produto aumentaria. Miri teve a impressão de que, se a pedra de cantaria só era encontrada no Monte Eskel e, ainda assim, fosse apreciada o suficiente para uso na construção de palácios, então seu valor deveria ser bastante alto. Porém, quão alto? Perto da face de trás da porta, ela encontrou uma lista. Preços de Mercado, Determinados pelo Tesoureiro do Rei Saca de trigo — uma moeda de prata Porco adulto — três moedas de prata Cavalo de tração — cinco moedas de prata ou uma moeda de ouro E a lista continuava, dando a quantidade de moedas de prata ou ouro por uma vaca, um fardo de lenha, um animal de arado, uma boa carroça. O último item da lista provocou sobressalto no coração de Miri. Dizia: "Bloco de cantaria aparelhada — uma moeda de ouro." Nesse instante, as meninas voltaram para a sala de aula. — Vejam só, a Miri ainda está lendo — disse Katar. — Ahn? Ah, estou — Miri murmurou. Na planície, um bloco de cantaria valia cinco sacas de trigo. Cinco! — Ler dez vezes cada livro não vai fazer com que o príncipe escolha você — disse Katar. — Talvez — disse Miri, recolocando o livro na prateleira. Um bloco de cantaria valeria um bom cavalo, melhor que os animais que os mercadores atrelavam às suas carroças. — Não precisa agir como se já tivesse ganhado, Miri — disse Bena. — Comportamento de sala de aula — disse Olana, entrando — ou vocês vão passar a noite se alternando no quartinho. Miri foi se sentar, estonteada com a descoberta. Ficou olhando para os próprios pés, repousando tranquilamente em cima de uma lajota de pedra de cantaria. Tentou avaliar quantos blocos de cantaria teriam sido usados para construir as fundações daquele edifício, quantas sacas de grãos poderiam ser compradas, quanta madeira para construir uma capela grande o suficiente para abrigar toda a aldeia, comida suficiente para que ninguém ficasse de barriga vazia nas noites de inverno, uma biblioteca de livros, pano de fio tecido como o das roupas do povo da planície, sapatos novos, instrumentos musicais, doces para as criancinhas, uma cadeira confortável para cada avô e avó, e uma centena de outras necessidades e coisas bonitas. Se os mercadores fizessem negócios justos, a aldeia se beneficiaria dos montes de maravilhas das quais o resto do reino parecia desfrutar.

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Ela mal podia esperar para contar ao pai e a todo mundo na aldeia. O feriado da primavera chegaria em dois meses e então a neve já teria derretido o suficiente para permitir a caminhada até a aldeia. Decerto, Olana permitiria que elas voltassem para casa, a fim de aproveitar essa celebração. — Miri! Miri se assustou ao ouvir seu nome e percebeu, tardiamente, que Olana já o pronunciara várias vezes. — Sim, Tutora Olana? — disse, tentando mostrar docilidade. — Parece que você não teve tempo para contemplar o valor de prestar atenção. Você acaba de perder o direito ao recreio até o fim da semana e, como isso não parece castigo suficiente, está proibida de tocar nos livros durante esse período. — Sim, Tutora Olana. — Na verdade, Miri não se importou. Entre a linguagem da pedreira e o Comércio, já tinha muito que pensar. Capítulo Nove Respirar, agitar, insinuar, escrever Suspirar, falar, contar, dizer Cada dia, cada nevasca, cada lição antes do feriado da primavera parecia não ter fim, e Miri estava sentida e inquieta com a espera. Toda noite, quando se deitava, apegava-se à ideia de que estava um dia mais perto de contar ao pai e aos aldeões sobre o Comércio. Tudo parecia sentir o antegozo da primavera. Até Katar ficava olhando pela janela como se estivesse medindo a profundidade da neve e contando os dias até que pudessem ir para casa. Vencido o castigo de Miri, ela saiu para o pátio com Britta, explicando o que poderiam esperar. — Comida — disse. — Da melhor. Doter distribui suas castanhas com cobertura de mel e o pai da Frid faz coelho salgado tão fininho que derrete na boca. E chá quente com mel, as últimas maçãs salgadas e tostadas, pão no espeto assado na brasa e temperado com banha de coelho. Brincadeiras, gincanas e, quando cai a noite, fazemos fogueiras com a lenha recolhida durante o ano e contamos histórias em volta do fogo. — Que delícia! — O olhar distante de Britta mostrava que ela já estava imaginando tudo aquilo. — E vai ser melhor ainda este ano — Miri falou. — Tenho alguns segredos. Pelo simples fato de admiti-los, os segredos se expandiram em seu âmago, uma torrente de neve derretida batendo contra um galho caído... e o desejo de compartilhá-lo se apoderou dela. Miri hesitou. Britta acreditaria? Ou riria dela? Miri pensou no ditado de Doter, Jamais hesite se você souber que está certa. Depois de passar meses ignorando Britta só por ser da planície, pelo menos ela merecia sua confiança. Assim, Miri levou Britta para um passeio frenético pela academia, falando, em meio a lufadas de condensação formada pela sua respiração, sobre

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Comércio e moedas de ouro e linguagem da pedreira fora da pedreira. Falar daquilo para outra pessoa estava sendo bom, como tomar leite de cabra morninho, e ela expôs logo todos os detalhes antes que Olana pudesse convocá-las de volta à sala de aula. — É a história mais impressionante que já ouvi. — Britta sorriu, olhando para os pontos onde o sol formava estrelinhas reluzentes na superfície enregelada da neve. — O que os mercadores fazem me parece sujeira. Precisamos mudar isso. — Então, você nunca ouviu mesmo ninguém usando linguagem da pedreira? Nem quando trabalhava na pedreira? Britta balançou a cabeça. — Antes de vir para cá, nunca tinha imaginado que esse tipo de coisa pudesse existir. Entendo que o povo da montanha tenha esse talento. Lembro que o barulho na pedreira era ensurdecedor, mesmo com tampões de argila nos ouvidos. — Por aqui, a linguagem da pedreira é tão normal quanto picada de mosquito. Acho que o pessoal nem fala muito nisso. Britta coçou o nariz. — Talvez tenha sido por isso que tive dificuldade no início, ainda mais porque todo mundo canta o tempo todo. Nunca consegui cantar junto porque não conheço a letra das cantigas. — Não precisa saber a letra. Basta inventar a sua própria. — Mas nem conheço as melodias. — Não precisa conhecer as melodias. Basta encontrar o ritmo que a melodia vem. Miri nunca tinha se dado conta de que cantar era algo que precisasse ser aprendido. — É verdade o que dizem sobre o povo da planície, que eles têm um jeito para fazer as coisas crescerem? — Nunca ouvi falar disso, mas é tudo muito mais verde por lá. — Britta olhou na direção do Ocidente. — Menos neve, mais chuva, o litoral todo verde e uma imensidão de florestas e fazendas. Toda casa tem um jardim. — Eu gostaria de ver tudo isso um dia. — Foi estranho admitir, mas Miri queria conhecer a planície, os lugares que imaginava desde a infância mais tenra e as coisas sobre as quais lera na academia. O mar, as cidades, os palácios construídos em pedra de cantaria, músicos e artistas, gente dos países para lá do oceano, caravelas cheias de maravilhas para vender e trocar, um rei e uma rainha. E um príncipe! Que talvez não fosse tão horrível! Talvez até alguém do tipo da Britta! — Eu gostaria de ver com você — disse Britta. — Algum dia. Quando você for a princesa. — Talvez ele escolha você, Britta. Quero dizer, Princesa Britta — Miri riu e empurrou o ombro da amiga. — Não, eu não. Numa sala cheia de meninas, você, Liana e todas as outras, ele nem vai olhar para mim. — Vai, sim... — Tudo bem, Miri — Britta falou. — Não ligo. Deve ser você ou qualquer

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outra do Monte Eskel. Fico feliz de poder frequentar a academia e conhecer você. Essa é a parte boa. Não estou nem aí para o príncipe. — Posso apostar que o próprio príncipe está aí, sim — disse Miri enquanto as duas voltavam correndo para a academia ao ouvirem o chamado de Olana. — E ele deve ter um bichinho de estimação que o adora. — Só quero que quem quer que venha a se tornar princesa seja muito, muito feliz. Caso contrário, de que serviria isso tudo, não é mesmo? De volta à sala de aula, enquanto Olana dissertava sobre os princípios da Conversação que Miri já havia memorizado, ela deixou sua mente vagar, imaginou-se casando com um príncipe que se parecesse com Peder e morando num palácio de pedra de cantaria, e pensou se seria, conforme Britta dissera, realmente muito feliz. E balançou a cabeça ante a ideia. Uma coisa dessas parecia impossível, tal qual seus longínquos desejos relativos à flor de miri, tal qual uma tentativa de visualizar o oceano. Por outro lado, a princesa da academia, com sua promessa imediata e seu vestido prateado, parecia uma coisa real, algo que ela poderia almejar. Para ganhar de Katar como primeira da academia, Miri sabia que teria de ser especialista em tudo que Olana ensinasse. A lição sobre Diplomacia fora vaga e apressada, de modo que, no dia seguinte de descanso durante o estudo individual, Miri leu um capítulo sobre Diplomacia no Comércio de Danland, intrigada com as regras e a maneira como poderiam de fato ser usadas. Esa sentou-se à sua frente, brincando com um cacho de cabelo cujo tom era igual ao de Peder. Miri recordou o dia em que Esa a convidou para sair com as meninas. Nunca chegou a explicar sobre Olana e o quartinho e a razão pela qual não a seguiu. — Esa, o que você acha que isso significa? — Miri sussurrou, apontando para uma das regras gerais da Diplomacia: Construir sobre bases comuns. — Não sei direito. — Esa pegou o livro e leu durante alguns minutos, folheando várias páginas. — O livro dá um exemplo aqui, falando de uma época em que o povo de Danland começou a fazer trocas com tribos orientais que não falavam nossa língua. Antes de iniciarem as trocas, precisaram criar relacionamentos de confiança, de forma que buscaram encontrar coisas que ambos os povos tivessem em comum. — Ela parou um pouco e continuou lendo em seguida. — Escutem só isto: parece que começou uma amizade entre alguém de Danland e o chefe de uma tribo quando eles descobriram que ambos gostavam de comer olho de peixe tostado. Eca! Que jeito engraçado de se começar uma amizade! — A nossa não começou quando tínhamos 2 anos e comemos metade do pote de manteiga da sua mãe embaixo da mesa? — Miri sorriu. Esa riu e Katar fez sinal para que elas se calassem. Miri fez uma careta para Katar por estragar o momento. Sempre tivera vontade de ser uma boa amiga de Esa, mas Peder nunca quis que sua irmã caçula andasse junto com eles e, à medida que foram crescendo... Miri olhou para as 19 meninas à sua volta, debruçadas sobre livros e pranchetas, mexendo os lábios enquanto liam. Foi difícil manter as amigas de infância que trabalhavam na pedreira enquanto ela ficava só com as cabras. Mas estavam todas juntas

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na academia. Se era o que queria, tinha sua chance agora. — Obrigada, Esa — Miri sussurrou. Construir sobre bases comuns. A questão da linguagem da pedreira não saía da cabeça de Miri e a veracidade da ideia a arrebatava e levava os pensamentos adiante. Suas perguntas teriam de esperar até que ela pudesse relaxar em seus momentos de introspecção no quarto, depois que os suspiros e as risadinhas contidas da hora de dormir fossem substituídos por roncos e ela se sentisse segura, desperta e só. Eles não falavam a mesma língua, pensou, ponderando sobre a história que Esa acabara de ler, de modo que encontraram outras maneiras de compartilhar o que tinham em comum. Quando Gerti ouviu a linguagem da pedreira de Miri, lembrou-se dos próprios momentos no quartinho. O que tinham em comum: ambas haviam estado no quartinho e ouvido o barulho que as garras da ratazana faziam enquanto ele andava à sua volta. Os pensamentos de Miri começaram a zumbir em sua cabeça como moscas em cima da comida. No último dia antes de vir para a academia, Miri tinha ouvido Doter falar para outro operário da pedreira bater com menos força. Como poderia saber o que Doter dissera? Voltando a pensar naquele momento, deu-se conta de ter imaginado o momento em que Marda lhe ensinara como compactar uma rodela de queijo quando ela usou força demais. A linguagem da pedreira suscitara uma lembrança real em sua mente e ela a interpretara como o que poderia significar naquele momento: usar menos força. A linguagem da pedreira usava recordações para transmitir mensagens. Peder e seu pai falavam sobre a linguagem da pedreira como se fosse algo inerente e Miri supôs que eles simplesmente não soubessem como funcionava, sem ligar para isso. Mas Miri ligava. Os afazeres da pedreira sempre tiveram o aspecto de um segredo, belo e proibido. Agora era um segredo seu e guardá-lo consigo dava a ela uma sensação de aconchego e prazer, como a de tomar a última xícara de chá com mel. Uma sensação da qual ela gostava! Capítulo Dez O lobo não vacila antes da mordida Então vai. O falcão não hesita antes do mergulho Então vai. Mais uma nevasca e as nuvens então se retiram para alturas mais elevadas que as montanhas. A força do inverno abrandou e o sol parecia mais próximo do Monte Eskel. Estava ardente, e o céu, de um azul vigoroso. A camada endurecida de neve amolecia e começavam a surgir trechos de terra, exibindo o verde que brotava da lama e subia pelas encostas. O cheiro do vento mudou: o ar estava mais espesso, mais rico, como fica em torno das panelas ao fogo. A primavera tomava a montanha. As meninas olhavam cada vez menos para os livros e mais para a animadora visão do pico do Monte Eskel, que trocava o branco pelo marrom

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e verde. Miri não conseguia pensar em voltar para casa sem sentir um frio no estômago. Estava tão aflita para compartilhar os segredos do Comércio e mudar as trocas entre os aldeões e os mercadores que chegava a estremecer. Então, na véspera da jornada planejada para o feriado da primavera, Olana anunciou um teste: — Sei que vocês estão pensando em voltar amanhã — disse. — O feriado da primavera que vocês têm não é tradição em Danland e esta academia não tem obrigação de acatá-lo. Que a prova determine se vocês fizeram por merecer o direito de voltar para casa. As que não passarem ficarão na academia, dando continuidade aos estudos individuais. O teste começou com uma leitura em voz alta e Miri se encolheu toda quando Frid se atrapalhou com as palavras maiores, e Gerti não compreendeu nada do texto. Olana fez perguntas sobre História, Geografia e Reis e Rainhas. As meninas escreveram as respostas em placas de barro e desfilaram pela sala para exibir Postura, e ainda praticaram a Conversação em pares. Olana registrou o progresso de cada uma num pergaminho. Por mais excruciante que já tivesse sido o teste, Olana o tornou ainda pior declarando que só divulgaria as notas no dia seguinte. — Será bom para vocês pensarem no seu desempenho até amanhã de manhã — disse. No quarto, antes de dormir, Miri ficou ouvindo sussurros desesperados até bem tarde da noite. — Preciso ir para casa. — Eu também. Custe o que custar. — Sei que não passei. Tenho certeza. As perguntas estavam muito difíceis! — Ela nos detesta. Vai reprovar todo mundo só de maldade. — Silêncio, senão ela nos reprova por estarmos conversando. Na manhã seguinte, as meninas se sentaram tão aprumadas em suas carteiras que mal tocavam o espaldar. O peso do desejo que Miri sentia de ir para casa a envergava e aturdia. Se Olana não me deixar ir, pensou, talvez eu tenha de correr. Mas a menina não se achava preparada para abrir mão da academia, de tudo que estava aprendendo, da esperança de se tornar a princesa da academia e de ser o destaque especial, nem sequer do desejo rudimentar e furtivo ao qual não se permitia durante períodos mais prolongados: o de deixar a montanha, dando ao pai a casa do quadro, tornando-se princesa. — Então — disse Olana, encarando a turma com as mãos dadas atrás das costas —, alguém quer se aventurar? Ninguém respondeu. — Não há razão para delongas — disse Olana, e alguém soltou uma risadinha de desdém. — Todas ficaram reprovadas. Todas contiveram o grito ao mesmo tempo e modo. — Menos Miri e Katar. Miri trocou um olhar rápido com Katar e viu que a outra estava satisfeita. — Vocês duas podem ir. — E fez para elas um gesto indicando que saíssem. Katar foi até a porta e se virou, à espera. Miri não se mexera. — Tutora Olana. — Miri engoliu em seco e falou um pouco mais alto: —

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Tutora Olana, isso não parece justo. — Haver passado no teste não lhe dá o direito de falar, Miri — Olana falou. — Vá agora ou exima-se do direito de ir. Muito bem, as demais estão muito longe de onde deveriam estar e não vou aceitar que me envergonhem diante do mandatário-mor e do príncipe. Vou estar ocupada noutras dependências do prédio durante os próximos dois dias. Preferiria não ver qualquer uma de vocês, o que significa que não quero saber de vocês. Miri não tinha saído de sua carteira. Se fosse com Katar, as outras meninas talvez jamais a perdoassem, mas, se ficasse, não poderia dar a notícia antes das primeiras trocas de mercadorias da temporada. Colocou as mãos na cadeira para se levantar, receosa de fazê-lo. Katar fez expressões exageradas de impaciência, arregalando os olhos e batendo com a ponta do pé no chão. Antes que Miri conseguisse se decidir, Esa se levantou, com o rosto inflamado. Agarrou o braço esquerdo com a mão direita. — Não — disse Esa, que de imediato recebeu um olhar gélido de Olana. — O que foi isso? — Eu disse... Eu disse... — Esa gaguejou. Piscou diversas vezes e lágrimas começaram a rolar de seus olhos. — Eu disse não. Disse que vou embora para o feriado da primavera e não ligo para o que possa acontecer depois. Miri olhou firmemente para Esa e sentiu o ar se esvaindo, como se tivesse caído de costas no chão. Esa era a única que nunca tinha ficado sem uma refeição sequer, nem sido submetida à palmatória, sempre segurava a língua, sempre obediente. Miri não conseguiu ver esperança no rosto da outra. Esa começou a se retrair, aguardando o castigo inevitável, sabendo que jamais teria permissão para ir, mas incapaz de conter o protesto. Jamais hesite se você souber que está certa. Miri tinha permissão para ir aproveitar o feriado da primavera e queria que as demais fossem também. Se corressem todas de uma só vez, supôs que Olana e os soldados não conseguiriam contê-las. — Algumas horinhas no quartinho talvez acalmem essa ousadia — Olana estava dizendo. Miri sabia que precisava agir antes que Olana chamasse os soldados ou trancafiasse Esa. Depois de alguns meses de tensão fria, receou não ser capaz de convencer as meninas a saírem correndo para casa. Além disso, não teria tempo para falar tanto antes que Olana mandasse os soldados levarem-na também. Não. Seu instinto dizia que a única forma de apresentar seu argumento seria usar a linguagem da pedreira. Não sabia se era possível dizer algo tão específico; nunca havia tentado. Mas, se a linguagem da pedreira usava recordações, talvez conseguisse passar mais do que os alertas da pedreira! Será que conseguiria dizer para todas correrem juntas? Miri bateu o pé com força nas lajotas de pedra do chão e cantou em voz alta, na esperança de conseguir distrair Olana de seu intuito de levar Esa para o quartinho.

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— O lobo não vacila antes da mordida. Então vai. O falcão não hesita antes do mergulho. Então vai. — Era uma cantiga para acompanhar o trabalho com a colocação das cunhas, onde cada golpe era crucial. Se um operário demorasse a dar o golpe, a rachadura poderia se abrir de forma errada e estragar o bloco inteiro. Ninguém poderia vacilar. Olana ficou olhando, boquiaberta, vendo Miri cantar e bater o pé. E Miri chegou a rir disso. — Já chega — disse Olana. — O sol não para antes de se pôr. Então vai. — Miri continuou cantando, enquanto sua mente vasculhava os pensamentos, buscando uma recordação comum que pudesse encorajar as meninas a correrem todas juntas. — A chuva não demora antes do outono. Então vai. — De repente, conseguiu: o Coelho e o Lobo, um jogo que todos na aldeia conheciam. As crianças se sentavam num círculo e a que ficava sendo o "lobo" saía perseguindo o "coelho" pelo lado de fora do círculo, tentando encostar a mão no cabelo dele. Se o lobo tocasse em qualquer outra parte do coelho, não valia. O coelho gritava "Coelho, corre!" e todas as crianças se levantavam e corriam. Miri trouxe essas recordações à tona e as cantou na melodia e no ritmo de seu pé, batendo nas lajotas de pedra. O olhar de Olana estremeceu e suas lembranças da brincadeira também vieram à tona, claras e imediatas. Metade das meninas se levantou logo e as demais se encolheram ou recuaram ou balançaram a cabeça, como se estivessem tentando tirar água dos ouvidos. Somente Britta e Olana não reagiram. — O que está acontecendo? — Olana percorreu a sala toda com o olhar. Parecia confusa demais com aquele comportamento estranho, não sabia o que fazer. — Por que estão se levantando? Miri tornou a cantar aquela recordação em linguagem da pedreira e as outras meninas se levantaram. Bena e Katar já sorriam, sabedoras do que estava ocorrendo. Miri pegou o braço de Britta e sussurrou: — Vamos para casa agora. Apesar das lágrimas, Esa também abriu um sorriso. — Coelho, corre! Algumas das meninas passaram correndo pela porta da sala de aula gritando de deleite e medo, e desceram a escada a toda velocidade. Lá atrás, Olana ficou gritando: — Se vocês forem embora agora, nem precisam pensar em voltar. Estão me ouvindo? Elas riam enquanto corriam. Era cedo ainda e o frescor da manhã nos primórdios da primavera beliscava a pele de Miri. Estava indo para casa. Teria uma chance de contar ao pai sobre o Comércio. Sentiu vontade de abraçar todo mundo. — Não seria melhor irmos mais rápido? — Gerti perguntou, olhando para trás por cima do ombro. — E se os soldados nos pegarem? — Uma de nós será a princesa um dia — disse Miri. — O que eles podem fazer, varar-nos com suas espadas?

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No auge de seus 13 anos, Jetta soltou um grito de pavor e as demais se puseram a rir. Os soldados não as seguiram e as meninas diminuíram o passo, conversando sobre tudo que deixaram para trás nestes últimos meses e tudo que fariam neste feriado. — Parece que vínhamos brincando de Lobo e Coelho com Olana o tempo todo — disse Miri —, mas, quando ela pega no pé da Esa, não vale. Ainda bem que saímos correndo. — Pois é — disse Esa. — Eu já estava indo para o quartinho, não há dúvida. — E já é hora de acabar com esse horror, e aquele rato! — Miri olhou de relance para Esa e tornou a olhar para a estrada à sua frente. — Nem cheguei a pedir desculpas por ter arranjado encrenca para todas vocês, mas eu também estava encabulada demais para falar qualquer coisa. Achei que ninguém me perdoaria, mas fiquei sentida com isso. Frid arregalou os olhos. — E eu achei o tempo todo que você estava zangada conosco! — Achou mesmo? — Você ficava sempre na sala lendo e não falava conosco. Achei que você estava zangada por não termos ficado do seu lado contra a Katar. — E eu achei que vocês estavam zangadas demais para falar comigo! — declarou Miri rindo satisfeita. — Miri, estou morta de vontade de saber — disse Esa. — Foi você que usou a linguagem da pedreira lá, não foi? Só podia ser. Como é que você fez isso? Eu nunca tinha ouvido ninguém dizer "Coelho, corre!" antes, muito menos longe da pedreira. Elas estavam passando por uma pedreira abandonada havia bem uns cem anos, mas ainda reluziam por baixo da lama e do cascalho alguns veios de pedra boa, porém finos demais para explorar. Miri se agachou em cima de uma laje descoberta, bateu um ritmo com o punho cerrado e escolheu uma recordação. Aos 3 anos de idade, ela e Esa fugiram do olhar atento de Doter e se aproximaram perigosamente demais da beira no penhasco. — Cuidado! — Doter gritou antes de puxá-las de volta para um lugar seguro. Cuidado, Miri falou agora em linguagem da pedreira. Frid ficou boquiaberta, e Esa assentiu e depois sorriu. — Eu não achava que fosse possível fora da nossa pedreira — disse Frid. — O que foi que você acabou de ver? — perguntou Miri. — Ver? — perguntou Esa. — O que você quer dizer? Ouvi um alerta sobre tomar cuidado e se afastar da borda. — Não lhe ocorre mais nada? Uma recordação qualquer? — Miri tornou a repetir as batidas no ritmo, cantou em voz alta e também para si. — Acho que uma vez, quando eu e você quase caímos do penhasco e minha mãe nos puxou de volta. — Eu também! — disse Miri. — Mas o que isso faz você lembrar, Frid? — Quando Oz estava num bloco lá no alto da pedreira e eu vi ele perder o equilíbrio e cair. Miri bateu palmas.

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— Só pode ser verdade. Tenho pensado que a linguagem da pedreira funciona por meio de recordações, lembranças. Se duas pessoas têm a mesma recordação, como Esa e eu, então talvez imaginemos a mesma cena. Mas, quando isso não acontece, a linguagem da pedreira vai buscar a lembrança mais próxima. — Talvez seja por isso que o povo da planície não consegue ouvir — disse Britta. — Não temos tantas lembranças compartilhadas assim. — Venho tentando entender a linguagem da pedreira há meses — disse Miri —, mas ainda não sei por que às vezes funciona fora da pedreira e outras vezes não. Esa apoiou a mão sobre a testa para conseguir avistar as outras meninas caminhando pela estrada à frente. — Vamos pensar nisso depois. Estou morrendo de vontade de comer nozes com mel. As quatro aceleraram o passo para alcançar as outras e foram cantarolando suas cantigas de primavera até chegar em casa. Capítulo Onze Levarei a concha até seus lábios, Pingarei água nos seus dedos, Ficarei, mesmo que o coração queira fugir. E para mim você não vai sorrir? Naquela tarde, a cantoria as recebeu ainda nos arredores da aldeia. Dúzias de vozes entoavam a melodia, ao ritmo de tambores e palmas. As meninas reconheceram a cantiga e o ritmo da dança do tonel vazio, a primeira do feriado da primavera. — Vamos logo — disse Esa. — Precisam de nós, senão os meninos vão dançar sozinhos. As meninas partiram em disparada e o tropel de suas botas pela estrada afora soou como uma avalanche no meio da noite. — Estamos aqui. Voltamos. — Algumas delas gritaram e, ao serem avistadas do centro da aldeia, ressoaram gritos de alegria e boas-vindas. As palmas largaram o ritmo da dança e irromperam em aclamação pela chegada, enquanto pais e irmãos gritavam e corriam para abraçá-las. Miri procurou o pai e Marda e já estava prestes a se desesperar quando eles a pegaram por trás. Papai a levantou nos braços e girou-a no ar como se ainda fosse uma garotinha. Marda também estava ali, beijando seu rosto e aquecendo suas mãos frias. Os olhos de Miri se encheram de lágrimas e ela encostou o rosto no peito do pai. — Você está bem? — Marda perguntou. Ela confirmou que estava, ainda escondendo o rosto. — Só senti muita falta de vocês. Quero dizer, fiquei com muita saudade, mesmo. Os feriados da primavera eram o que havia de melhor nas lembranças de

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Miri. Frid ficou tão exultante de alegria quando tirou o primeiro lugar no concurso de arremesso de pedra a distância que parecia ter-se esquecido de que vinha ganhando todas as vezes desde os 12 anos de idade. A comida estava melhor do que teria conseguido descrever para Britta e as aclamações de boas-vindas não chegaram a terminar nunca. Tudo parecia digno de aplauso. O pai de Frid anunciou as danças das fitas com um acorde de seu alaúde de três cordas e Doter distribuiu as maltrapilhas fitas vermelhas que já estavam mais velhas que qualquer ancião da aldeia. Jans, um menino sério, de pele muito clara, perseguiu Britta para todo canto como se fosse um carrapicho grudado em sua meia. Implorou por mais uma dança, e outra, e mais outra, de modo que, durante uma hora inteira, ela compartilhou sua fita com ele, e Miri nunca viu alguém dando passos e rodopios tão largos quanto o sorriso estampava no rosto dela. Ela mesma dançou tanto que mal conseguia respirar. Viu Peder dançar com Bena, depois com Liana e já havia desistido de esperar quando começou mais uma música e o viu na outra extremidade de sua fita. Teria falado, brincado e dado risadas com ele, mas ficou espantada com o súbito aparecimento dele, e sem saber se conseguiria manter a fachada de desprendimento. Seu olhar se voltou para o chão, e o coração batia mais rápido que os tambores. Depois de um tempo, deixou de ver Peder junto com os outros que dançavam e foi se aninhar perto do pai, ficando a observar os pequeninos saltitantes. Ao cair da noite, começaram as histórias. Os avós contaram a sombria história do deus criador falando primeiramente com o povo, depois as mães recitaram aquela que começa assim: "Faz uma vida inteira que os bandidos vieram para o Monte Eskel." Depois da história dos bandidos, Oz falou: — Vamos ouvir uma história das nossas meninas que voltaram para casa. Bena, por ser a mais velha, se pôs de pé e escolheu o que contar, um arremedo de história em que cada frase era inventada no momento em que era contada. — A menina sem cabelo saiu de casa para passear pelas colinas onde não era conhecida — bradou ela e, em seguida, apontou para Liana, que continuou noutra linha. — Uma águia a confundiu com seu ovo caído e a levou para o ninho — Liana também bradou, apontando para Frid. — Um operário da pedreira a retirou do ninho da águia, achando tratar-se de uma boa pedra para lapidar. — Frid apontou para Gerti. A história seguiu assim, com cada uma das meninas da academia escolhendo a próxima para dar continuidade. Miri se aproximou e ali ficou de cócoras, na esperança de ser vista. Ninguém olhou em sua direção. Bena falou três vezes e até Britta foi escolhida uma vez, inventando uma tirada esperta sobre um urso que a confundia com um cogumelo. Então, Esa gritou: — Última linha! — e apontou para Miri. Miri se levantou, com um sorriso impossível de esconder.

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— Com sua cabeça pelada brilhando como uma coroa de ouro, um príncipe errante a confundiu com uma princesa da academia e a levou para o palácio. A multidão irrompeu em aplausos e risos. A animação começou a diminuir e as famílias se agruparam em torno das fogueiras, bebericando chá, com mel se tinham sorte, e cantando melodias mais sonolentas. O olhar de Miri passeou pelos rostos iluminados pelo fogo até descobrir Peder logo depois do anel de luz alaranjada. Miri não lhe dirigira uma única palavra desde que chegara e agora se dava conta de que poderia ter parecido antipática enquanto dançavam. Deveria ter corrido direto para ele e contado todas as novidades. Mas acabou se mantendo afastada, encabulada. Levantou-se para ir até ele, depois hesitou. Jamais hesite se você souber que está certa, Miri se recordou. Então vai. As palmas de suas mãos estavam quentes e ela cerrou os punhos tentando pensar no que dizer. Em sua aflição, seus pensamentos se voltaram para as lições de Conversação. Repita o nome dele. Faça perguntas. Teça comentários, não julgamentos. Devolva a conversa para ele. E algo que Britta havia acrescentado: Se quiser impressionar alguém, aja como se a pessoa fosse superior a você. — Oi, Peder — Miri falou, aproximando-se de onde ele estava sentado sozinho. — Como tem passado? — Bem, obrigado. — O pronunciamento dele foi curto, como se não quisesse falar com ela. Miri quase fugiu naquele instante. Estar perto dele fazia as entranhas dela se retorcerem qual as ramas de uma hera, sufocando e florescendo ao mesmo tempo, e a única clareza que Miri teve foi a de que o sorriso dele valia qualquer esforço. — Posso sentar com você? — Claro. Ela se sentou ao lado dele sobre uma pedra de cantaria recortada, cuidando para que sua perna não encostasse na dele. — Eu gostaria que você me contasse... como têm sido as coisas... ultimamente. — Bastante boas. Um pouco mais tranquilo do que o normal sem a Esa em casa Ela continuou a apresentar perguntas, usando o nome dele, fazendo contato olho a olho, deixando claro que seus modos demonstrassem que estava totalmente concentrada nele. Depois de um tempo, as respostas de Peder foram ficando mais longas. Em pouco tempo, ela conseguiu que ele falasse com liberdade sobre aquele que fora o inverno mais árido de sua vida. — Nunca achei que fosse sentir falta da minha irmã caçula — ele disse, em tom de brincadeira. — Esa... e todas as meninas. Miri pensou: Será que ele está se referindo a Bena ou a Liana? Peder olhou de relance para Miri, depois voltou a fitar as mãos. — Nunca achei que cada dia de trabalho na pedreira pudesse ser pior que o anterior. — Como assim, pior? Não gosta da montanha? Você não iria querer ser da planície.

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— Não, é claro que não. — Ele pegou uma lasca de cantaria perto da bota dela. — O trabalho na pedreira não me incomoda, de verdade, mas às vezes minha cabeça se cansa disso e fico querendo... Eu gostaria de fazer coisas, não só de cortar pedra. Quero fazer um trabalho no qual eu seja realmente bom, que me dê a sensação certa. Miri ficou arrepiada de ouvi-lo falar tão abertamente, e de ter pensamentos tão parecidos com os seus. Em vez de gritar: Eu também! É assim que me sinto, ela se lembrou das regras da Conversação e manteve-se concentrada nele. — Se você pudesse fazer qualquer coisa na vida, o que seria? Ele pensou durante um instante, abriu a boca, depois deu de ombros e jogou fora a lasca de pedra. — Esqueça, não é nada. — Peder Doterson, é melhor me dizer agora. Vou prender o fôlego até ficar sabendo. Ele pegou outra lasca de pedra e examinou a cor. Miri esperou que ele falasse. — Não tem importância, não. Mas eu sempre... Sabe os entalhes nas portas de madeira da capela? Já fiquei olhando horas e horas para eles do mesmo jeito que às vezes vejo você olhando para o céu. — Ele olhou para o rosto dela como se estivesse estudando os entalhes. O olhar dele fez Miri ficar paralizada. — Desde que me entendo por gente, quero fazer coisas assim, algo mais do que blocos de pedra. Às vezes... Promete não rir de mim? Miri prometeu com um gesto enfático da cabeça. — Sabe essas coisinhas que fico esculpindo nas lascas da cantaria? — Sei, sim — ela disse. — Você fez uma cabra para mim uma vez. Ainda a tenho. Ele sorriu. — Tem? Lembro dessa cabra. Tinha um sorriso torto. — Sorriso perfeito — Miri falou. A pequena escultura sempre trazia à lembrança o sorriso de Peder. — Talvez seja infantilidade minha, mas eu gosto de fazer coisas assim. Lascas de cantaria se prestam muito bem para escultura, melhor que pedregulho. Eu gostaria de fazer desenhos nos blocos, coisas que o pessoal rico lá da planície possa comprar para colocar em cima da porta ou da lareira. A ideia fez Miri prender a respiração, de tão perfeita. — E por que não faz? — Se meu pai me vê fazendo imagens de pedra, me dá uma surra por desperdiçar meu tempo. Mal conseguimos extrair pedra o suficiente durante o ano para trocar por comida; e, pelo jeito, nada vai mudar. — Mas pode mudar. — Sua intenção foi que o comentário passasse despercebido, mas algo em seu tom de voz o deixou intrigado. — Como? — perguntou. Miri deu de ombros, numa tentativa de descartar a pergunta. Estava indo tudo bem demais para abandonar as regras da Conversação agora. Ele insistiu, querendo saber o que ela ficou fazendo na academia o inverno

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inteiro e novamente ela tentou continuar falando sobre ele. Peder soltou um suspiro de frustração. — Por que você está tão evasiva? Quer me dizer, por favor, eu quero saber. Miri hesitou, mas a atenção dele era irresistível e, ademais, ela estava com milhares de histórias saltitando na ponta da língua para serem contadas. Ele então abriu um sorriso daqueles, com o canto direito da boca se recurvando um pouco mais alto. Ela fez um carinho nos cachos castanhos dele como faria com sua cabra leiteira favorita depois de ordenhá-la. — Você pode se arrepender por ter perguntado — ela disse, e despejou em cima dele o relato dos acontecimentos dos últimos meses, contando tudo desde a palmatória e a primeira nevasca até a fuga de todas as meninas da escola na manhã daquele mesmo dia. Falou rápido, com a língua se mexendo como as asas de um beija-flor, pois temia enfadá-lo caso a narrativa demorasse. Depois descreveu suas experiências com a linguagem da pedreira, como conseguia compartilhar uma recordação e não apenas dar um alerta, e como às vezes funcionava fora da pedreira. — Mas às vezes não funciona. — Ela ergueu uma das mãos para dizer que não sabia a razão. — Experimente agora. Miri engoliu em seco. Usar a linguagem da pedreira com Esa e Frid foi igual a uma brincadeira, mas com Peder tornava-se algo íntimo, como pegar na mão dele, como olhar nos olhos dele, mesmo quando não tinha nada para dizer. Torcendo para não corar, ela começou a tamborilar com os dedos no bloco de pedra e a cantar sobre uma menina que carregava água potável na pedreira. Deixou a canção guiá-la e começou a encaixar os pensamentos no ritmo, buscando uma boa recordação para usar, quando Peder a interrompeu com um sorriso. — O que você está fazendo? Então ela corou, maldizendo-se por ter escolhido uma canção sobre uma menina apaixonada. — Estou... Não foi o que você pediu, para eu experimentar a linguagem da pedreira agora? — Foi, mas você sabe que não é preciso batucar e cantar, não sabe? — Peder esperou que ela concordasse, mas ela só ficou olhando fixamente para ele. — Você sabe que na pedreira acontece de marcarmos ritmo e cantamos enquanto trabalhamos, mas podemos usar a linguagem da pedreira sem fazer nada disso. — Ah, é claro — ela disse, sorrindo. — É claro que eu sabia disso. Só mesmo um idiota acharia que é preciso estar batendo na pedra para compor a linguagem da pedreira. — Isso mesmo. — Ele riu, e ela riu também, dando-lhe um esbarrão com o ombro. Peder sempre soube como deixar os erros dela passarem despercebidos. — Então, não é preciso bater e a única cantoria que acontece é dentro da gente. — Ela espalmou a mão sobre a pedra e sem canção alguma falou com Peder em linguagem da pedreira. A sensação foi a de estar sussurrando algo diretamente para o coração dele. Quando seus olhos

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tremeram, ela também estremeceu. — Que estranho! — Peder olhou para ela. — É isso que você quer dizer quando fala de recordações? A sensação foi a da linguagem da pedreira, mas estou acostumado a ouvir os alertas que usamos enquanto trabalhamos. Desta vez, estava apenas pensando na tarde em que fiz aquela cabra de pedra. — Os olhos dele se arregalaram enquanto seus pensamentos pareciam se acelerar. — Seria porque você falou de uma recordação? Uma que eu conhecia, uma que eu tinha vivenciado, de forma que estava clara para mim... Miri, isso é impressionante! — Fiquei curiosa. Por que teria funcionado agora? — Miri alisou a pedra com a mão. A superfície estava lascada e irregular, cheia de marcas de cinzel, não era lisa como as lajotas polidas do piso da academia. Ela levou os dedos à boca e apertou o sorriso que se lhe estampava no rosto. Uma nova ideia a deixou empolgadíssima. — Peder, acho que estou entendendo. Acho que é a pedra. — O que é a pedra? Do que você está falando? Miri se levantou, com a sensação de que a ideia era grande demais para caber dentro dela agachada e precisava de espaço para se esticar. — O piso da academia é feito de pedra de cantaria, igual a essa daqui, e toda a pedreira... está vendo? Nas outras vezes em que não funcionou, talvez eu estivesse fora ou na área dos pedregulhos. Talvez a linguagem da pedreira funcione melhor nas proximidades da pedra de cantaria. — Sente-se de novo aí e me deixe tentar. — Ele deu-lhe um puxão no braço e ela se sentou ao lado dele. Desta vez ela ficou um pouco mais perto, as pernas se encostando de leve lado a lado. Ele fechou os olhos, com os músculos da testa tensionados. Miri conteve a respiração. Passou-se algum tempo sem que nada acontecesse. De repente, ela se deu conta de que seus pensamentos viajavam para aquela tarde na encosta gramada, o canivete de Peder esculpindo a lasca de pedra, uma corrente trançada de miris pendurada em seus dedos. Era uma recordação própria sua, porém mais forte, vivida, trazida para a dianteira dos seus pensamentos e cheia de cor. E sabia que era Peder falando daquela recordação, da mesma forma como sabia qual era o cheiro de pão no forno: havia ali a sensação dele. — Não consegui entender, a princípio — ele disse. — Estou tão acostumado a repetir os alertas que sempre usamos na pedreira! — Uma vez você me disse que a linguagem da pedreira era igual a cantar dentro da gente e foi assim que eu soube o que fazer. — Ahn — disse ele, balançando a cabeça. — Aconteceu muita coisa nesse tempo que você ficou fora. — Eu contaria tudo se achasse que conseguiria terminar antes do sol nascer. — Tenho certeza que sim. Deve ter sido muito difícil guardar tudo para si durante todas essas semanas. Miri deu um soquinho no ombro dele. — Posso imaginar você na janela da academia, olhando na direção da aldeia — falou —, acreditando que conseguiria enxergá-la caso se esforçasse o

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bastante. Você sempre foi como o falcão, espiando as montanhas como se conseguisse avistar um camundongo correndo ao longe, ou para o céu como se conseguisse contar todas as penas na asa de um pardal. Miri não respondeu. Teve a sensação de estar flutuando embaixo d'água, emborcando e afundando. Será que ele a observava assim como ela o observava? — Nunca falei para ninguém sobre esculpir pedras — ele disse. — Nem sei como você conseguiu arrancar isso de mim. — Porque sou mais chata que um cabrito maluco. Não vou contar para mais ninguém. Miri riu. — Sei que não vai. Isso, eu sei de você. — Ele segurou a ponta da trança dela e a esfregou na palma da mão. De repente franziu o cenho, como se um pensamento novo tivesse lhe ocorrido. — Você nunca usa o cabelo solto? — Às vezes. — A voz dela rangeu, mas a boca estava seca demais para conseguir engolir. — Usei ano passado no feriado do outono. — Isso mesmo. — A expressão dele ficou distante, como se recordasse alguma coisa. — Sinto saudades do tempo que passávamos juntos quando crianças, você não sente? Seria legal irmos explorar o pico novamente, talvez num dos dias de descanso. — Seria, sim. — Miri ficou parada, com medo de se mexer e espantar Peder e ele sair correndo como um lobo solitário. — Quando eu não estiver mais na academia. Peder soltou a trança dela, mas Miri ainda não tinha conseguido recuperar o fôlego. Ele girou as mãos para cima, como quem procura algo que perdeu. — A academia. Então, você pode se casar com o príncipe? — Ah, não sei — Miri falou, descobrindo nesse instante que estava dolorida de tanto ficar sentada. — Estou me esforçando ao máximo nas aulas para que talvez ele me perceba. Sabe, ele vai ter de me escolher dentre todas as demais... e não estou tentando não ser a princesa ou algo que o valha. É só que... ele não vai me escolher. — Por que não? — disse Peder. — Quer saber de uma coisa? Por que haveria de não escolher? Você é a mais inteligente da turma. — Não quis dar essa impressão... — Mas eu aposto que é — Peder interrompeu, com a voz mais alta. — E se não for um príncipe de meia-tigela, ele vai ver isso e vai querer levar você para a planície e enchê-la de vestidos elegantes. Mas eu não acho que você precise usar vestido de gente da planície. Acho você ótima do jeito que é. — Ele se levantou. — Deixe para lá. É hora de voltar para a minha família. Miri quis dizer alguma coisa que tivesse algum significado antes que ele se fosse. E acabou soltando de uma vez só: — Não vou contar a ninguém sobre os seus entalhes em pedra. Mas acho isso maravilhoso, e também acho você maravilhoso. Ele ficou ali parado, esticando o silêncio, esticando o silêncio até que o coração de Miri, em pânico, deixou-lhe apenas um par de bochechas ruborescidas. — Você é minha melhor amiga, sabe — ele disse. Miri fez que sim com a

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cabeça. — Eu gostaria de ter alguma coisa para lhe dar, de boas-vindas. — Ele tateou o bolso da camisa, como se procurasse por qualquer coisa que fosse. — Tudo bem, Peder, você não tem que... Ele se agachou ligeiro, deu um beijo no rosto dela e sumiu. Miri ficou parada durante os três versos que se seguiram da canção entoada à volta da fogueira. Um sorriso puxou-lhe o canto da boca como o de uma truta fisgada pelo anzol, mas ela estava atordoada demais para ceder a ele. — Acho que correu tudo bem — sussurrou para si mesma, e então abriu um sorriso. — Do que você está rindo? — Britta sentou-se a seu lado, imitando a expressão feliz de Miri. — Nada — disse Miri, mas não conseguia deixar de olhar para onde Peder se fora e Britta acompanhou seu olhar. — Ah! — Britta riu. — Nada. Miri riu também e sentiu o rosto corar novamente, e ocorreu-lhe que, de tanto corar, suas bochechas já deveriam estar em brasa. Rapidamente mudou de assunto. — Do que você gostou mais até agora? Da comida, das histórias, das danças, ou de certo rapaz apaixonado que responde pelo nome de Jans? Britta balançou a cabeça, recusando-se a acolher a pergunta pontual de Miri. — É tudo maravilhoso. Acho que está melhor do que qualquer festa lá da planície. Miri deu uma cutucada em Britta com o cotovelo. — Veja como você já está dizendo "planície" como se fosse da montanha. — Eu gostaria de ser — disse Britta. — Então você é — disse Miri. — É a única cerimônia de que você precisa. Os tambores e a cantoria terminaram, e o pai de Gerti, Oz, convocou o conselho da aldeia. Os jovens se afastaram das fogueiras para deixar os negócios a encargo dos mais velhos. Um ronco no estômago fez Miri se lembrar de que tinha algo a apresentar. — Venha, Britta. Posso precisar de sua ajuda. Miri nunca havia participado do conselho antes. Sentou-se ao lado do pai, com a cabeça no ombro dele e Britta do outro lado. A conversa centrou-se nos blocos de pedra cortados há pouco, nos ferimentos que um operário sofreu devido a descuidos, as áreas mais promissoras da pedreira a serem atacadas em seguida e o uso dos mantimentos ao longo do inverno. — Por mais que cortemos pedra, Oz, não vai bastar — disse o pai de Peder. — A ausência das meninas nos deixou com menos mãos. Meu próprio filho passou a cuidar mais da casa e das cabras, e isso significa um bloco a menos na temporada. Não é isso, Laren? O pai de Miri confirmou: — Senti o aperto este ano. — Tenho uma coisa a dizer — disse Miri se levantando. Seu pai ergueu as

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sobrancelhas, mas não disse nada, e Oz fez sinal para que ela prosseguisse. Miri soltou uma breve interjeição para limpar a garganta. — Na academia, encontrei um livro que explica como a pedra de cantaria é vendida na planície. Parece que nossa pedra é tão apreciada que o próprio rei só usa cantaria em seus palácios e o único lugar de toda Danland que produz essa pedra é bem aqui. Então, como a procura é grande e a oferta é limitada, o valor é muito alto. Ela olhou de relance para o pai, querendo saber de sua aprovação. Ele estava escutando, mas sua expressão não denunciava qualquer opinião. Miri limpou novamente a garganta. — Em todos os outros cantos do reino, trocam a pedra por moedas de ouro ou prata, e não só por alimentos e mantimentos. Na capital, um bloco de cantaria vale uma moeda de ouro e, por sua vez, uma moeda de ouro pode comprar cinco sacas de trigo. Ela parou um instante, à espera de exclamações, mas ninguém disse nada. Então, o pai tocou em seu braço. — Miri — disse baixinho. — Sei que estou pedindo para vocês acreditarem num livro da planície, mas eu acredito, papai. Por que alguém da planície escreveria alguma coisa boa sobre o Monte Eskel se não fosse verdade? Britta se pronunciou: — Miri me mostrou o livro e eu também acho que é verdade. Oz balançou a cabeça. — É fácil acreditar que os mercadores nos enganam o máximo que podem, mas o que nós podemos fazer quanto a isso? — Podemos nos recusar a fazer trocas por qualquer outra coisa que não seja ouro e prata, e a preços decentes — disse Miri. — E se eles não trouxerem mantimento suficiente para trocar por nossos cortes de pedra, podemos levar o dinheiro deles lá para baixo a fim de comprar até mais. — Existe um mercado grande numa cidade a três dias daqui — disse Britta. — Ficamos numa estalagem na minha viagem do verão passado. Ouro e prata lá compram muito mais do que os mercadores trazem para a aldeia. — Eu enxergo o valor de procurarmos fazer negócios noutros lugares, mas se os mercadores não quiserem nossas pedras em troca de ouro... — disse Oz esfregando a barba. — Se eles não quiserem — disse Doter com os olhos se iluminando —, ameaçamos levar as pedras lá para baixo. Se nós mesmos fizermos o negócio direto nesse mercado, vamos ganhar até mais. — Não, não — disse o pai de Katar. — Não temos carroças nem mulas e não sabemos nada sobre mercados nas cidades. E se arrastarmos nossos blocos até lá e ninguém comprar? E se, no meio disso tudo, ofendermos os mercadores e eles nunca mais voltarem? O temor contido naqueles argumentos silenciou toda a falação. Miri enrascou os dedos dos pés dentro das botas e retomou a coragem para falar. — Não acho que gente como o Enrik vá deixar a coisa chegar a esse ponto. Acredito que os mercadores estão ganhando montanhas de dinheiro com

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nossa pedra. E vão ficar sabendo que podemos vender lá na planície por mais dinheiro e, assim, eles ficam sem lucro algum. — Miri tornou a olhar para o pai e tentou estancar o tremor da esperança na voz. — O que você acha, papai? — Acho que vale o risco — disse, assentindo lentamente. Um suspiro de alívio escapou do peito de Miri. A ideia desencadeou conversas que só morreram depois que as labaredas da fogueira já se haviam extinguido. Os adultos discutiram todos os ângulos, como proceder, quais os riscos que deveriam enfrentar. Consultaram Britta sobre o que ela sabia a respeito de negócios. Houve quem se preocupasse com o fato de o pessoal da aldeia não saber distinguir ouro e prata verdadeiros de quaisquer metais baratos que os mercadores pudessem tentar lhes passar. — Meu pai era mercador. Eu posso cuidar para que eles não trapaceiem — disse Britta. — Mas se o rei se cansar de esperar pela pedra e enviar seus homens aqui para tirarem os blocos da pedreira por conta própria? Alguns dos presentes soltaram risadas diante dessa pergunta. — Se todo mundo da planície tiver braços finos como os dos mercadores — disse o pai de Frid —, vão precisar descansar depois de cada marretada. Miri cruzou os próprios braços finos por baixo do capote. — Isso é uma coisa com a qual não precisamos nos preocupar, Britta — disse Doter. — Que venham, pois vão desistir logo, depois que o primeiro bloco rachar. Nós temos a pedra no sangue. A discussão continuou e Miri se encostou no pai, sonolenta de tanto olhar para o fogo. Ele acariciou seu cabelo. Nós temos a pedra no sangue, Doter dissera. Nós. Miri se apegou à palavra, querendo fazer parte daquilo, mas sem saber ao certo se fazia. Se a ideia que trazia para os negócios da aldeia fosse bem-sucedida, talvez passasse a ter mais certeza. Seu olhar passeou das brasas douradas para a escuridão que a fogueira não alcançava. Peder poderia estar por ali, escutando, torcendo por uma chance para fazer suas esculturas nas pedras. Capítulo Doze Lama no córrego E poeira no ar Barro em meus ouvidos E pedra no olhar. A manhã ainda não tinha nascido quando Miri acordou com o reconfortante barulho do ronco de seu pai. Conseguiu perceber o formato das pedras da lareira, da porta, da mesa, que lhe eram tão familiares, e sentiu o aconchegante cheiro de casa. Quando o alvorecer começou a espalhar cores pela casa escura, Miri se enrolou no cobertor e saiu para preparar o café da manhã. Havia mais uma dúzia de pessoas no centro da aldeia usando o resto das fogueiras da noite anterior para aquecer a refeição matinal. Miri colocou sua chaleira de água

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no meio das brasas e percebeu a presença de algumas das meninas da academia por ali também. Nas primeiras cores acinzentadas da manhã, a expressão que traziam no rosto era solene. — Nós vamos voltar? — Miri perguntou. — É o que tenho pensado — disse Esa. Britta veio se sentar ao lado de Miri. — Mesmo que quiséssemos, será que Olana vai deixar? — Se deixar — disse Frid —, acho que vamos passar o verão inteiro fazendo rodízio no quartinho. — Olana disse que eu poderia vir passar o feriado da primavera com minha família, de modo que não vou ser castigada — disse Katar ao se reunir às demais. — Eu vou voltar, sim. Algumas outras meninas da academia foram chegando e se sentando nas pedras, formando um círculo incerto, observando as brasas que estalavam em contato com o orvalho e falando da volta. Houve quem estivesse ansiosa por voltar e quem estivesse contente demais na manhã seguinte ao feriado da primavera para sequer pensar em ir embora. Katar e Bena foram inflexíveis. — Não vou aceitar que vocês coloquem em risco as minhas chances desmantelando a academia desse jeito — disse Katar. — O príncipe pode escolher qualquer outra, Katar — disse Bena. — Eu nem tinha pensado muito nele até ontem à noite, quando me dei conta de como os meninos da aldeia são chatos. Sou capaz de apostar que o príncipe é interessante. Liana concordou, reproduzindo sempre a opinião de Bena. Miri ficou curiosa para saber o que Peder teria feito na noite anterior, de forma que perdesse o interesse delas de uma vez por todas. Imaginou um ponto do rosto mais quente que o resto. — A Miri está achando que vai ser a escolhida — disse Bena. — É por isso que estuda tanto, mas é orgulhosa demais para admitir. — Como é que pode querer se casar com alguém que você nem conhece? — Miri falou. — E se você o conhecer e gostar dele, Miri? — Esa perguntou. — E se todas nós o conhecermos e gostarmos dele? Frid franziu o cenho como se achasse aquilo muito improvável. Katar abriu um sorriso de desdém, Bena ergueu o olhar para as estrelas matutinas e três das meninas mais novas sussurraram segredinhos entre si. Miri tentou manter uma expressão indecifrável. Já se apaixonara pela casa do quadro, mas, depois da noite anterior, a figura de Peder estava muito próxima e demasiadamente cheia de esperança para que ela pudesse pensar em se casar com um príncipe. — E como é que ele se chama, alguém sabe? — perguntou Gerti, colocando sua chaleira sobre as brasas. — Steffan — disse Britta. — Como você sabia disso? — perguntou Liana. Britta deu de ombros. — Lá embaixo todo mundo sabe disso. — Lá embaixo todo mundo sabe disso — disse Katar num tom agudo, de troça.

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Britta corou. — Muito bem — disse Miri, entrando de súbito para salvar a amiga. — Então, é Steffan. Hum, não senti firmeza. Aposto que ele não consegue jogar uma pedra a mais de cinco passos de distância. Frid engoliu em seco e, em seguida, soltou uma gargalhada tão estrondosa que deu a impressão de que não haveria no mundo algo tão impressionante quanto uma pessoa incapaz de jogar uma pedra a mais de cinco passos de distância. Miri soltou uma meia risadinha também, mas se sentiu pouco à vontade por estar rindo da própria piada, especialmente porque ninguém mais a achou tão engraçada assim. — Não importa se alguma de nós se apaixonar pelo príncipe — disse Katar. — Ainda assim, devemos todas voltar à academia. — Eu não sabia o grau de importância que o povo da planície dava à academia até estudarmos a estrutura política de Danland — disse Esa. — Antes, eu não sabia o que era um mandatário-mor nem o significado de ele vir ao Monte Eskel para dar a notícia. — Do que você está falando? — perguntou a amiga de Gerti, Jetar. — Toda província de Danland tem um mandatário — disse Katar, bocejando para mostrar que achava a ignorância de Jetar uma chatice. — Todo mandatário é seu representante oficial na corte e o mandatário-mor é o chefe de todos eles. Abaixo apenas do rei. Ele deve ter ficado bem chateado por não termos consciência de sua importância. Miri concordou fingindo seriedade. — Ah, sim, lembro-me muito bem dele e de seu maravilhoso chapéu emplumado. — É por isso que o povo da planície não nos considera de Danland — disse Esa —, já que o Monte Eskel não passa de um território. — Talvez não devêssemos ter saído correndo — disse Gerti. — Se a academia é tão importante assim, se nós somos tão importantes assim... — E vocês se lembram da lição sobre Direito de Danland? — perguntou Katar. — E dos castigos por desobedecer ao rei? — Eles podem tentar levar nossos pais até Asland — disse Frid cruzando os braços. — Poderíamos pedir a nossos pais que falassem com Olana para explicar... — disse Gerti. — Acho que Olana nos respeitaria mais se fizéssemos o que é certo por nossa conta — disse Esa. E baixou a voz: — Eu gostaria de voltar. Mesmo que nunca me torne princesa, quero aprender mais. Miri se pôs de pé com uma ideia. — Se uma de nós vai mesmo se tornar princesa, como é que Olana pode ficar mandando na gente desse jeito? Ela bem que pode estar enfiando a futura rainha num quartinho escuro com um rato dentro. Katar retorceu os lábios. — Está aí uma coisa para negociarmos. — Vamos voltar e mostrar a ela que somos mais espertas do que ela pensa. — Miri começou a dar alguns passos, empolgada. — Olana não passou muito tempo falando de Diplomacia, mas aprendemos

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o suficiente para apresentar um plano decente. Bena revirou os olhos. — Vocês acham que podemos voltar correndo para o colo dela, desfiar algumas regras de Diplomacia e tudo vai ser melhor daí para a frente? — Eu gostaria de conhecer as regras da Diplomacia naquele dia em que Olana me acertou a palmatória — disse Miri. — Acho que conseguiria ter-me livrado da surra com base em argumentos. Deve ser divertido experimentar. — Deve, sim, e Miri deve ser quem vai falar em nosso nome — disse Gerti, dando palmadinhas no ombro dela. Katar, Bena e Liana falaram, uma por cima da outra que uma das meninas mais velhas é quem deveria assumir esse papel, que o assunto era delicado demais para ficar nas mãos de Miri. — Foi ela que nos arranjou encrenca antes — disse Bena. Esa deu de ombros. — Olana disse que Miri foi quem tirou a melhor nota na prova. Além disso, usar Diplomacia foi ideia dela. Britta e algumas das outras meninas também expressaram seu apoio. — Foi ideia da Miri — Frid disse, simplesmente, e a disputa teve fim. A família numerosa e de gente corpulenta de Frid seria capaz de comer todos os suprimentos de inverno da aldeia e ainda sentir fome; contudo, eles sempre doavam algumas de suas pedras cortadas para as famílias menores, sem espalhafato e sem agradecimento. Nem Bena discutiria com Frid. Miri apenas assentiu, mas sentiu vontade de gritar. Confiavam nela. Isso lhe deu a esperança de que, na academia, longe da pedreira, poderia ter uma chance de ser tão útil quanto qualquer outra pessoa. Quando a alvorada veio colocar um tom alaranjado em torno do cume do Monte Eskel, elas já haviam comunicado o plano às demais meninas da academia e voltado para casa, de forma a passarem o resto do dia com suas famílias. Depois da ida à capela na parte da manhã, a família de Miri ficou pelos arredores da casa cumprindo tarefas menores. Marda e papai queriam saber de tudo que ela havia aprendido e Miri não precisava esperar pelas perguntas para contar. A casa tinha piso de chão batido, de modo que ela os levou para passear nos arredores da aldeia. Sentaram-se num grande bloco de cantaria estragado por uma rachadura bem no meio e Miri conversou com eles em linguagem da pedreira, a princípio apenas Cuidado, depois uma recordação dos três assando maçãs na lareira durante uma tempestade de inverno. — A linguagem da pedreira serve só para a pedreira — disse papai. — Acho que precisa da pedra para funcionar, não da pedreira — disse Miri. O rosto do papai se enrugou num sorriso, como se achasse que ela estava fazendo uma piada. — Ora, e que utilidade teria em qualquer outro lugar? — Ora, acho que é possível comunicar mais do que simplesmente os alertas da pedreira. Acho que é possível dizer praticamente tudo, contanto que haja uma recordação que se encaixe.

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Papai franziu o cenho, sem entender. O coração de Miri se partiu. Quase havia perdido a paciência de tanto esperar o momento de vir para casa e contar ao pai sobre o Comércio e a linguagem da pedreira. Agora se perguntava o que teria esperado de fato. Que ele a jogasse para o alto e declarasse que ela era mais inteligente do que a considerara e digna de trabalhar a seu lado? — Acho que não seria interessante para um operário da pedreira — Miri falou. — Talvez só seja interessante para mim. Esqueça. — A Britta consegue escutar? — Marda perguntou. — Não — disse Miri. — Acho que o pessoal da planície não consegue. Marda estava virada para a pedreira, olhando, e começou a entoar uma cantiga para acompanhar o trabalho com o formão. — "Lama no córrego e poeira no ar. Barro em meus ouvidos e pedra no olhar. Sujeira na língua e pó no cabelo. Por dentro e por fora, montanha por todo lugar." Eu estava só pensando, papai, se o povo da planície não consegue escutar a linguagem da pedreira e ela funciona com a pedra... , — A pedra está no nosso sangue e nos nossos ossos — assentiu papai. — Você acha que funciona para nós porque vivemos junto da pedra? — Miri perguntou. — E bebemos pedra e respiramos pedra a vida inteira. — Marda baixou a cabeça, como se quisesse ficar em silêncio, mas a idéia obviamente a estava fascinando, de modo que ela continuou. — Se funciona nas proximidades da pedreira, e o povo da montanha tem pedra no corpo... talvez a pedra dê forma à linguagem da pedreira assim como colocar as mãos em concha diante da boca aumenta o volume da nossa voz. Ou talvez a linguagem da pedreira atravesse a pedra assim como o som atravessa o ar, e quanto mais pedra, mais alta fica. Nossas recordações viajam pela rocha, seja na montanha ou numa pessoa. Miri estava olhando fixamente para Marda. — Você é esperta — disse ela. Marda balançou a cabeça e calou a boca, apertando os lábios um contra o outro. Antes da academia, Miri nunca teve motivo para pensar se uma pessoa era boa de cabeça ou não. Parecia que todos eram espertos em alguma coisa: havia os que eram bons em pegar a fissura mais adequada para se extrair um bloco de pedra e os que eram bons em fazer queijo ou curtir couro, tocar tambor ou arremessar pedra a distância. Agora, esperto significava o talento para pensar e resolver um problema novo que se apresentasse, e aprender coisas novas. E Marda era esperta. Foi injustiça, e não sorte, o que fez Marda ter três meses a mais do que a idade limite de entrar para a academia. Não só ela: E as meninas mais novas? E os meninos? — Quem dera você pudesse frequentar a academia! — disse Miri. Marda deu de ombros e a última esperança em sua expressão dava a crer que a academia estivera em seus sonhos durante muitas das noites do inverno. Papai parece ter percebido que a tristeza se instalara, de modo que as levou

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de volta para casa a fim de fazer biscoitos de aveia com o último mel do inverno, dizendo: — Um pouquinho de mel consegue alegrar até ossos e pedras. Enquanto celebravam com os biscoitos, Miri fez piadas e riu, apesar da reação decepcionada do pai, mas seus pensamentos não se afastavam de Marda. Nunca imaginara que a irmã desejasse estar na academia, talvez tanto quanto ela própria aspirava ser aceita na pedreira. Desviou um pouco mais de mel para o prato da irmã quando ela se virou para o outro lado e ficou querendo pensar em algo que pudesse dar um jeito na situação. Capítulo Treze Só sei de Lascas, flocos, cavacos, rochas Lá embaixo Pedras, cacos, cascalho, escória. Na manhã seguinte, as meninas voltaram andando para a academia. Dessa vez, não havia soldados na retaguarda, mas Miri supôs que não fosse a única a se sentir irrequieta. Conversaram sobre sua estratégia de Diplomacia e muitas ideias foram oferecidas. Frid e outras das meninas com 16 anos falaram bastante, dando apoio, mas Bena recusou-se a falar de novo após ter declarado que Miri seria reprovada e Katar ficou em seu lugar de sempre, caminhando solitária adiante do grupo. Ao chegarem à academia, as meninas formaram uma fila reta diante da escadaria. Miri avistou Knut espiando por uma janela. No silêncio da espera, Miri tomou ciência de que havia pedras pontudas espetando as solas de suas botas. Já estavam finas quando ainda pertenciam a Marda e agora... Miri tentou pensar numa palavra que significasse mais finas que "finas". Sentiu vontade de sair pulando em círculos ou de dizer alguma coisa engraçada para aliviar a tensão nervosa, mas agora era a diplomata e achou melhor comportar-se de maneira respeitável. Finalmente, Olana surgiu, de mãos na cintura. Os dois soldados estavam atrás dela. Miri trouxe à mente a primeira regra das negociações diplomáticas: Enunciar o problema. — Sabemos que não somos bem-vindas de volta — disse. Olana pestanejou. Não foi o que esperava ouvir. — Partimos sem sua permissão e violamos sua autoridade — disse Miri. A segunda regra: Admita seu próprio erro. — Isso está errado. Frid começou a se agitar de nervosismo. Miri sabia que as meninas não estavam esperando assumir o erro, mas também não tinha certeza de ser convincente sem a ajuda das regras da Diplomacia. Além disso, queria que Olana visse que elas haviam escutado e aprendido. — Você nos afastou de nossas famílias, nos castigou por razões injustas e nos tratou como criminosas. Isso também está errado. Estamos aqui agora,

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dispostas a esquecer nossas ofensas mútuas e começar de novo. São estes os nossos termos. Olana pestanejou rapidamente, sinal de que sua compostura estava abalada. Miri se encheu de coragem. Repassou as outras regras: Enunciar o erro da outra parte. Feito. Propor conciliações específicas e termine por Buscar aceitação mútua. Torceu por não estar se esquecendo de nada. — Para cada dia de descanso, teremos permissão de voltar e ficar com nossas famílias e ir à capela, saindo no fim da tarde e retornando à noitinha do dia de descanso. Quando os mercadores vierem, ficaremos a semana inteira em casa para ajudarmos nos negócios, no transporte das pedras e no trabalho de casa. Quem descumprir uma regra será castigado e ficará sem uma refeição, mas ninguém mais vai apanhar, ser trancado no quartinho ou ser privado de voltar para casa. Olana estalou a língua para mostrar que não estava impressionada. — Eu tenho a árdua tarefa de transformar vinte meninas da montanha em damas apresentáveis. Essas medidas são a única forma que tenho para mantê-las na linha. Miri assentiu. — Talvez tenham sido, mas não são mais. Uma parte desses novos termos é que vamos nos concentrar em nossos estudos, em respeitar sua autoridade e obedecer a todas as regras razoáveis. — Mais uma apenas: Ilustrar o desfecho negativo da recusa e o positivo da aceitação. — Se você não concordar com isso, aquela de nós que for escolhida pelo príncipe vai informá-lo de seu mau comportamento e exigir que ele a mande cumprir o resto de seus dias de serviço em algum território afastado de Danland que lhe seja um desgosto ainda maior que o Monte Eskel. — Um pântano — Britta sussurrou. Miri concordou. Já lera sobre um território que era um pantanal: cheirava mal, era lamacento e mais pobre que as montanhas. — Como um pântano — Miri falou. Olana se retraiu de forma visível. — E se concordar com estes termos e nos tratar da mesma forma que trataria as filhas dos nobres, aquela de nós que for escolhida para ser princesa vai elogiar seus ensinamentos e tomar as providências para que o seu trabalho futuro seja uma confortável posição de tutora em Asland. "Pedimos também que os soldados sejam dispensados. A única razão para estarem aqui parece ser nos intimidar, de modo que devem voltar para Asland quando os mercadores voltarem daqui a algumas semanas." Olana ergueu uma das sobrancelhas. — Nesta mesma sala de aula lemos histórias de bandidos que vagueiam pelos territórios isolados de Danland. O que faremos se eles resolverem que gostam do jeito do Monte Eskel? Frid soltou uma risadinha e as meninas trocaram sorrisos entre si. A história dos bandidos derrotados foi o prato do dia no feriado da primavera. — Houve bandidos que atacaram nossa aldeia, sim, antes de eu nascer — disse Katar, entrando na conversa. — Você deve ter percebido que não há nada para roubar exceto blocos de pedra de cantaria, pesados demais para serem levados pelos bandidos. E quando viram que todos os operários da

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pedreira eram pelo menos duas vezes maiores que o maior deles e, ainda por cima, brandiam marretas e picaretas, não foi preciso muito para fazê-los voltar correndo montanha abaixo. Eles não vão voltar. — Entendo — disse Olana. — Nós aceitamos estes termos e a convidamos a fazer o mesmo — disse Miri, esperando pela resposta de Olana. O silêncio começou a abalar a confiança de Miri e ela começou a se agitar, trocando o pé de apoio em cima do cascalho e tentando não se deixar ficar embaraçada ante o peso da hesitação de Olana. — Hum, e você? — Se eu aceito esses termos? — Olana esticou cada som de vogal, cujo efeito sempre foi deixar Miri gelada à espera do que viria em seguida. — Vou refletir sobre o assunto e não deixarei de dizer a vocês. Olana estava se virando para ir embora quando Katar falou. — Se formos forçadas a esperar demais, provavelmente voltaremos para a aldeia. Assim, você terá de empreender uma caminhada muito longa para nos divulgar sua decisão. Isso vai se traduzir em tempo perdido de nossos estudos e, se não estivermos apresentáveis quando o príncipe chegar, as repercussões serão ruins para nossa tutora. Miri franziu o cenho. Esquecera-se de Marcar um prazo para aceitação. Um sorriso lento foi se formando, de um dos cantos da boca de Olana até o outro. Algumas das meninas se entreolharam, inseguras quanto ao significado daquela reação. Então, inesperadamente, Olana aplaudiu. — Estou impressionada — disse Olana. — Não esperava tanto de meninas da montanha. — Podemos ser da montanha — disse Britta —, mas também somos de Danland. — De fato — disse Olana. — Acabamos de ter uma demonstração muito boa de Diplomacia. Vamos voltar a nossos estudos e ver se conseguimos que vocês cheguem ao mesmo nível em todas as matérias. Seus termos estão aceitos. — Ela se virou e entrou. Várias meninas soltaram o ar ao mesmo tempo e o barulho as fez soltarem também uma risada. — Pode ser que Olana seja uma boa pessoa, afinal — disse Frid, com certo grau de surpresa. — Nós a estávamos segurando pelos cabelos — Miri falou. — Ela não tinha muita escolha. Miri alcançou Katar nos degraus do prédio da academia. — Ainda bem que você falou! Caso contrário, talvez ainda estivéssemos lá, esperando. Katar cortou Miri com o olhar. — Sou melhor diplomata do que você e todo mundo sabe disso. Quem deveria ter falado era eu. É uma pena para você que a princesa da academia não seja aquela de quem todos mais gostam. — Ela deu um beliscão no braço de Miri e subiu o resto da escada correndo. Miri esfregou o braço e girou os olhos na direção de Britta. — Que menina azeda! — Britta falou.

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— E nem vale se preocupar com ela. Katar é um espinheiro protegendo uma lebre magra demais para comer — assentiu Esa. *** Na manhã seguinte à volta para a academia, Miri se levantou antes das outras meninas, espreguiçou-se e foi para a janela ver o sol nascer. A chegada do dia foi tão gradual que Miri se surpreendeu ao perceber que estava claro o suficiente para enxergar as pedras largadas no meio do quintal lá fora, salpicadas de orvalho enregelado. Só depois que as outras meninas já estavam se mexendo na cama e ela estava prestes a segui-las para o refeitório foi que olhou para baixo. No peitoril da janela, do lado de fora, havia um pedaço de pedra do tamanho de sua mão espalmada, daquelas com os veios cor-de-rosa. Estava esculpida na forma de um falcão, com olhos pronunciados, bico recurvado e asas abertas. E foi quando ela percebeu pegadas na lama macia à volta da casa chegando até a janela, onde davam meia-volta e retornavam na direção da aldeia até desaparecerem no piso rochoso da estrada. Lembrou-se de Peder chamando-a de falcão, sempre fitando o céu, os recantos bonitos da montanha, ou olhando pela janela na direção da aldeia. E sorriu ao se dar conta de que ele adivinhou que ela estaria na janela, que a veria antes de qualquer outra e saberia que era para ela mesma. — Sou a melhor amiga dele — cantarolou para a janela, para dentro de si até os dedos dos pés e para fora, de modo que todo mundo pudesse escutar. Naquele momento, não se importou com a possibilidade de alguém ficar sabendo do segredo que apertava seu peito e fazia sua cabeça girar qual uma moita arrastada pelo vendaval. Sou a melhor amiga dele. Capítulo Quatorze Ela é tão encantadora quanto uma menina com flores no cabelo A montanha, minha senhora Tem o brilho do sol da primavera secando as gotas da chuva O Monte Eskel, minha senhora. Cerca de uma semana depois do feriado da primavera, todos os vestígios do inverno haviam desaparecido da montanha. Os últimos trechos de neve endurecida já haviam derretido e formado lama, e a lama secou e a grama brotou. As flores de miri despontaram nas fendas do rochedo, voltadas para o sol, e balançavam ao sabor da brisa. No recreio, as meninas giravam as flores cor-de-rosa e faziam desejos. Miri voltou a se encontrar numa colina, observando a última pétala de uma miri cair. Encostou a mão no falcão de pedra escondido em seu bolso e pensou num desejo que poderia fazer. Então, virou-se para o ocidente, lado oposto da aldeia, em direção ao desfiladeiro que dava na planície, e pensou num desejo diferente. Deixou cair o toco de flor e riu antes mesmo de conseguir formular o

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pensamento. É claro que não queria tornar-se princesa. Como poderia querer se casar com alguém que não conhecia? A falação de Katar sobre ser especial e fazer coisas grandiosas se alojara em sua mente e Miri resolveu que era preciso se livrar daquela besteirada. Mas seus olhos continuavam se voltando para o ocidente. Que maravilhas esperavam por ela na planície? Havia, é claro, a casa espetacular para papai e Marda, mas, sempre que pensava em lhes dar esse presente, não conseguia imaginar-se de fato casada com um príncipe. Durante um instante, permitiu-se imaginar como um futuro desses seria capaz de modificá-la. — Princesa Miri — sussurrou, e se surpreendeu ao ficar emocionada. O título acrescentou peso a seu nome, fazendo-a sentir-se mais significativa. Miri era uma magricela e desesperançada menina de aldeia, mas quem seria a Princesa Miri? Outras meninas estavam na colina vendo a última pétala de suas flores de miri cair e ser levada pelo vento. Miri ficou pensando em quantas delas não estariam desejando usar um vestido de prata e quantas não estariam desejando usar um título antes do nome. — Eu costumava pensar que isto era o mundo todo — disse Esa, sentandose ao lado de Miri com Britta e Frid. O olhar de Esa buscava os cumes e encostas das montanhas do norte que iam passando do verde para o cinza ao se aproximarem do horizonte. — Agora me sinto tão pequena, empoleirada aqui em nossa montanha isolada. Miri concordou. Naquela manhã, uma palestra de Olana lançara um espírito pavoroso sobre suas cabeças: a pedra de cantaria representava uma fração minúscula da economia de Danland, menos que a venda de orelhas de porco ou flores de pano para chapéus de senhoras; toda a população do Monte Eskel era menor que a quantidade de gente trabalhando na estrebaria do palácio; as portas de madeira da capela, tão adoradas e apreciadas pelos aldeões, eram menores e menos ornadas que as portas de entrada da casa de qualquer mercador de Asland. — A planície não é muito diferente daqui — disse Britta. — Só é maior e... — Muito maior — disse Frid. — É difícil achar que eu tenha alguma importância — disse Esa. Katar passou por perto, girando na mão um pequeno toco de flor de miri. — Uma princesa tem importância. Já que ninguém contra-argumentou, Miri percebeu que não tinha sido a única a contemplar o horizonte ocidental ao fazer seu desejo. O mundo nunca havia parecido tão grande, uma bocarra escancarada e pronta para engoli-las todas inteiras. Miri teve vontade de ser capaz de morder de volta. — Parece que não importa o que pensamos — disse ela. — O príncipe virá até aqui e olhará para nós como se fôssemos mercadoria na carroça de um mercador. E se eu for carne de porco salgada e ele não gostar de carne de porco salgada, então não me resta o que fazer. Seu olhar percebeu Katar descendo a ladeira: Mas eu posso fazer alguma coisa sobre a princesa da academia, ela pensou. Seria mais difícil do que esperava. As meninas mais velhas já tinham ficado

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espantadas com o elo formado entre Miri e Katar depois da primeira prova, e Bena, Katar e Liana passavam todo seu tempo livre lendo. Miri via com olhos compridos a primavera despontando pela janela, mas forçava-se a retomar os estudos — pelo menos, a maior parte do tempo. Britta, Esa e Frid só conseguiam convencê-la a ir lá fora brincar de Lobo e Coelho de vez em quando. A princípio, o novo acerto com Olana pareceu ser melhor que antes. Ela estava tensa e impaciente, como que incomodada pela ameaça de tornar-se tutora de facínoras no pântano, mas incapaz de abrandar sua postura rígida. No entanto, Miri foi percebendo aquele estado de espírito ceder. As meninas que a princípio tentaram se aproveitar da nova situação acabaram descobrindo, depois de ficarem sem uma refeição, que ainda deveriam escutar Olana. Um pouco antes de a chegada dos mercadores lhes conferir uma semana de folga, Olana deu outra prova e anunciou as cinco melhores notas. Katar tirou o primeiro lugar e Miri, o segundo. — Desculpe, Miri — disse Katar. — Você sabe que é baixinha demais para ficar bem naquele vestido, não é mesmo? — E você é alta demais para... — Miri titubeou e não conseguiu pensar numa boa resposta. Xingou-se em silêncio por causa disso. — Deixa pra lá. Esa ficou chocada e emocionada de saber que tinha ficado em terceiro lugar, até que Bena e Liana a alcançaram na caminhada para casa no dia de descanso seguinte. — Acho que vocês ali na fileira dos 14 anos andaram colando — Bena falou. — Eu não colei, Bena — Esa falou. — Tenho estudado bastante. — É, mesmo? Eu também, e não há como você e a Miri ganharem de mim. Vou ficar de olho em vocês. — Eu também — Liana falou. — Acho que elas não gostam de quem concorre com elas — Miri falou depois que as meninas mais velhas tinham se afastado. — Pelo menos eu sou concorrência — disse Esa, alegre. As meninas estavam a poucos minutos da aldeia quando os berros de um burro ecoaram pela cordilheira. Uma caravana de mercadores vinha subindo, com Enrik à frente. — Britta, eles estão chegando — Miri sussurrou, apertando a mão contra a barriga. — E se não funcionar? E se eles se recusarem a trocar as pedras por ouro, levarem os mantimentos embora e nós não conseguirmos fazer os blocos de cantaria chegarem ao mercado, e... — A academia liberou vocês para os negócios, não liberou? — disse Enrik, esticando a vista para as meninas quando foi passando. — Bem, espero que o seu pessoal tenha dado duro no trabalho sem vocês. Vou ficar zangado se tiver subido até aqui para voltar só com meia carga de pedras. Miri e as meninas correram atrás das carroças e chegaram à aldeia somente alguns minutos depois deles. Os mercadores tiveram de parar diante de um ajuntamento de aldeões. Oz estava à frente do grupo. — Isso é um ultraje — um dos mercadores estava dizendo.

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— Não vamos comprar suas pedras a um preço desses. E o que vocês vão fazer? Morrer de fome, ora essa! — É o risco que corremos — disse Oz. Um olhar de relance para o pai de Miri foi o único sinal de que ele pudesse estar sentindo alguma incerteza. O pai de Miri cruzou os braços, postura que o deixava com aparência de ser duas vezes mais largo e tão sólido quanto a própria montanha. — Caso vocês se recusem — Oz continuou —, daremos um jeito de descer a montanha com nossas pedras, vendê-las na primeira cidade pelo triplo do que vocês pagam e deixar os mercadores de lá ricos quando revenderem as pedras para a capital pelo triplo do que eles pagaram. Nós vamos sair ganhando, eles vão sair ganhando, todos vão sair ganhando. Menos vocês. A pausa que se seguiu deixou Miri com vontade de sair pulando de aflição. Se funcionasse, suas vidas mudariam. Se não funcionasse, se a sugestão de Miri pusesse tudo a perder... Ela fechou os olhos, com receio de pensar nisso. — Você acha que eles vão concordar? — Britta sussurrou. — Não sei — disse Miri, enrolando e esticando os dedos dos pés dentro das botas. — Mas eu gostaria que decidissem logo, seja lá o que resolverem. — Quando voltarmos para Asland e o rei ficar sabendo disso — disse um mercador de cabelos brancos e rosto liso —, ele vai enviar outro pessoal para extrair essa pedra. E já estou quase com vontade de ir lá eu mesmo. — Pois pode ir — disse Oz, com o braço aberto gesticulando na direção da pedreira. O mercador hesitou e muitos de seus companheiros da planície se entreolharam. — Você faz ideia do que é necessário para encontrar pedra em boas condições? — perguntou Doter com sua voz alta e encorpada. — Pedra boa, adormecida, tranquila e saudável, com fissuras nos lugares certos, mas não muitas. Você tem ouvido para saber onde separá-la da montanha, olho para saber onde fincar a cunha, quantas pancadas com a marreta, nem uma a mais, nem uma a menos? E depois tem de aparelhar. Vocês são uns bobos, todos vocês, se estão pensando que não sabemos que somos as únicas pessoas vivas que conhecem esta montanha e a pedra boa e como retirá-la para palácios e reis. Então, não tentem nos ameaçar de novo. Uma onda de calor invadiu o peito de Miri; ela se sentiu muito orgulhosa e feliz por fazer parte de um povo que conhecia um ofício que ninguém mais conhecia. Quis correr para a mãe de Esa e abraçá-la, e o desejo tocou em seu coração na velha ferida, lembrando-a de que ela não tinha mais sua mãe. Ela se aconchegou ao lado do pai. Depois da falação de Doter, ambos os lados permaneceram calados, aguardando uma decisão. Miri ficou pensando se a preocupação seria mesmo capaz de matar uma pessoa. Enrik resmungou, passando a mão pelo cabelo ensebado. — Eu bem que disse que havia um risco se elas ficassem aprendendo coisas lá na academia, podiam ficar mais espertas e agora deu nisso aí. — Ele se virou para Oz: — Tudo bem, mas o preço que vocês estão pedindo é alto demais para dar conta de nossos custos e ainda termos um lucro razoável.

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Dou uma moeda de ouro por três blocos de cantaria. Miri teve de se sentar, pois estava tonta de alívio. — Enrik! — gritou um dos mercadores. — Não vou voltar de mãos vazias — Enrik falou. Em breve, outros também concordavam, alguns menos relutantes que outros, e os negócios começaram. Muitos al-deões vieram ter com Miri para verificar se os preços estavam justos. Miri dizia: "Acho que estão, sim" ou "Eu pediria um pouco mais". Por ora, vestida em suas roupas de lã e com os cabelos trançados, ela ficou se sentindo tão importante quanto achou que se sentiria com o vestido prateado e uma coroa na cabeça. , Como os mercadores não haviam trazido mantimentos em quantidade suficiente para fazer negócios pelos novos preços, compraram o excedente com moedas de ouro e prata. Oz pediu a Britta para verificar se eram genuínas e ela as examinou, pesando cada uma na mão, mordendo e dando sua aprovação. Metade da aldeia colocou os ombros à disposição para carregar os blocos de cantaria nas carroças. Enquanto mercadores e aldeões trabalhavam juntos, Miri se surpreendeu ao ouvir conversas agradáveis entre eles. Alguns chegaram até a resolver passar a noite e compartilhar uma refeição com os aldeões. Miri ficou ao lado da irmã, observando um mercador dando simpáticas palmadinhas no ombro de um dos operários da pedreira. — Que estranho! Achei que eles iriam gostar ainda menos da gente. — Talvez seja difícil respeitar alguém que você esteja enganando — disse Marda. Quando o trabalho fora da pedreira diminuiu de ritmo, Miri pegou a mão de Britta e ambas saíram passeando pela aldeia, para falarem sobre quem se casara com o filho de quem, os últimos machucados ocorridos na pedreira, segredos de família e quaisquer outras novidades do local para ajudá-la a se sentir mais em casa. Justamente quando Miri estava fazendo uma exuberante narrativa do momento em que o irmão de Frid ficara tão tonto depois de uma dança de rodopios que caiu de cara em cima do cocô de cabra, Peder passou por elas. Ele nem chegou a lançar um olhar na direção de Miri, como se ela fosse uma mera desconhecida, como se a conversa no feriado da primavera e o falcão de pedra no parapeito da janela tivessem sido sonhos. Ela ficou parada, olhando, sentindo uma pontada no peito. Detestou a sensação e precisou de uma gargalhada para se livrar dela. — Britta, eu lhe contei de quando o Peder resolveu tomar um banho no inverno? Peder parou ao ouvir seu nome. Miri continuou falando sem olhar na direção dele. — Ele tinha roubado minha boneca de palha e eu estava correndo atrás dele lá perto da capela. Tinha feito sol no dia anterior e a neve estava derretida dentro dos buracos antigos da pedreira, de modo que não dava para distinguir onde era chão e onde não era. Ele tinha acabado de se virar para zombar de mim quando, ploft! — Miri imitou o barulho do tombo de Peder.

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— Desapareceu completamente! Você precisava ver a surpresa no rosto dele quando a cabeça veio à tona novamente, como se estivesse achando que o mundo inteiro tinha sido tirado debaixo de seus pés. Ele saiu do buraco, totalmente encharcado, o cabelo escorrido por cima do rosto, e falou, com o fôlego entrecortado, assustadíssimo: "O que foi que você fez?" Britta estava rindo e acabou bufando, ficou vermelha, e riu ainda mais. — Até hoje, ainda acho que você fez alguma coisa — disse Peder abrindo um sorriso. — Fiz, sim. Cavei um buraco, enchi de água gelada, instiguei você a roubar minha boneca e o forcei a sair correndo na direção certinha... — Com ela, eu não descartaria essa possibilidade — Peder falou para Britta. — A boneca ficou toda estragada, mas valeu só para poder ver a surpresa congelada no rosto dele. — Você ri agora — disse Peder —, mas é melhor tomar cuidado com essa sua língua solta, senão vou ter de contar que num feriado de primavera você tirou a roupa toda e saiu correndo... Miri colocou a mão em cima da boca de Peder. — Eu tinha 3 aninhos — ela disse entre risos. — Três anos. Três. Os olhos de Peder se arregalaram como os de uma criança levada e ele riu por trás da mão de Miri. Ela pensou em tentar derrubá-lo no chão, mas se deu conta de que estava encostando nele e ele não a afastara. Seu medo antigo se apossou dela novamente e ela o soltou. — Peder! — o pai o chamou e ele saiu correndo para ajudar na pedreira. Miri colocou a mão no bolso e segurou o falcão de pedra. — Você gosta dele, não gosta? — Britta perguntou quando ele já estava longe o suficiente para não ouvir mais. Miri deu de ombros. — Você gosta? — Acho que nenhum dos meninos da aldeia sequer sabe da minha existência. — Ah, é? E o Jans? — Sabe que você evita falar do Peder? — Britta perguntou. — Ou talvez você evite falar do Jans? — Miri — Britta falou com um toque de exasperação. Miri deixou-se cair sentada em cima de uma pedra. — E o que devo dizer? Que gosto tanto dele que chega a doer? — Talvez você devesse contar isso a ele. — E se eu contar e ele ficar olhando para mim como se eu fosse peixe salgado apodrecendo no tonel e aí nunca mais vou poder ser amiga dele? Miri esperou que Britta dissesse alguma coisa que a consolasse, mas a amiga apenas fez que sim com a cabeça. — Ah, esqueça, não estou mesmo preocupada com isso — Miri falou rapidamente, tentando mostrar indiferença. — Acho que eu não deveria ficar tomando o seu tempo quando você nem esteve em casa ainda. — Sinceramente — disse Britta —, sinto a academia mais como meu lar do que a casa do meu primo de segundo grau. — Eles não são bons para você?

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— Não são maus — disse Britta. — Quando cheguei, trouxe comida e mantimentos para não ser um fardo, mas ainda me sinto, sei lá, não é como se não me aceitassem, mas como se não me quisessem. — Você sente falta dos seus pais de verdade? — Não — Britta falou. — Será que sou uma má pessoa por causa disso? Sinto saudade de outras pessoas da planície... uma mulher que tomava conta de mim, uma família de vizinhos. Mas meu pai nunca estava em casa e minha mãe era... — Ela se retraiu, incapaz de concluir a frase. Ficou olhando firmemente para o chão, com os olhos arregalados, com se estivesse tentando secá-los. Miri não queria que Britta chorasse e acabou mudando de assunto. — Você gostaria de passar esta semana em nossa casa? Você pode dormir na minha cama! — Gostaria, sim — concordou Britta. — Então, eu também gostaria, Lady Britta. Elas haviam chegado à casa de Britta. Britta entrou para cumprimentar os parentes e Miri continuou na direção da pedreira. Da borda mais próxima, avistava o córrego de águas verdes descendo a encosta, dando a volta pelo buraco da pedreira e desaguando abaixo, agora branco como o leite. O pó branco e fino pairava no ar. As lajes semiexpostas e os operários trabalhando davam energia ao lugar, uma sensação de que era aqui que se fazia todo o trabalho do mundo. Aqui, tudo era importante. As vezes, só de olhar, Miri sentia um vazio no peito. Papai estava carregando um bloco na carroça de um mercador. Ele a viu, limpou as mãos batendo uma contra a outra e colocou um braço em volta do seu ombro. Miri achou que o gesto significava que ele estava orgulhoso da ajuda que ela dera com os negócios, ou pelo menos esperava que fosse isso. Pelo menos tenho isso a oferecer à aldeia, pensou. Ela se virou e absorveu da camisa dele o cheiro-de-pai. O braço do pai se tensionou e ela olhou para onde ele estava olhando. Dois rapazes estavam puxando um bloco de dentro para fora da pedreira pela encosta e Marda estava atrás deles, tomando as providências para frear a pedra, inserindo duas cunhas de madeira por baixo a cada poucos passos dados para cima — a fim de evitar que escorregasse de volta caso a corda falhasse. Miri era pequena, mas frear a pedra não requeria muita força. Ela sempre achou que poderia ser o melhor freio de toda a pedreira, bastava que tivesse uma chance. Papai não tirava os olhos de Marda. — Não estou gostando disso — foi tudo que disse. Deixou o braço cair dos ombros de Miri e partiu em direção à pedreira. Miri ouviu o eco silencioso de um alerta comum em linguagem da pedreira, Cuidado, disse um dos rapazes que estavam puxando a pedra. O outro havia deixado a corda raspar contra a quina do bloco. Ela estava puindo. — Marda! — Papai estava correndo agora. Marda não saiu do caminho. Ainda estava tentando encaixar a cunha embaixo da pedra. Quando os rapazes tentaram ajeitar a corda, ela se partiu e Marda desapareceu de vista. Miri desceu ribanceira abaixo aos pulos e entrou na pedreira pela primeira

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vez na vida. Lá embaixo, Marda estava caída de lado, com a dor estampada no rosto e a roupa esfarrapada na altura da perna. Papai estava com a cabeça dela no colo. — Marda, você está bem? — Miri se ajoelhou a seu lado em cima do cascalho, enquanto outros operários chegavam para acudir. — O que posso... — Saiam — disse o pai. Seu rosto estava vermelho e a raiva encheu sua voz, fazendo-a soar ainda mais alto. Ela nunca o tinha ouvido falar mais alto que um murmúrio. — Mas eu... mas... — Saiam. Miri se viu de repente andando para trás aos tropeços mesmo antes de conseguir engolir o choque, então virou-se e fugiu. Saiu da pedreira e não parou e pensou em só continuar correndo até cair. Mas alguém a fez parar. Era Doter, a mãe de Peder. — Me solte — Miri falou, tentando se desvencilhar e esperneando. Até falar, não se dera conta de que estava soluçando. — Venha cá. Calma. Por favor, se acalme. — Doter a abraçou e foi estreitando o abraço até que Miri parou de se debater. Ela deitou a cabeça no ombro da mulher e deixou o choro vir. — Isso — disse Doter —, deixe sair. Solte tudo. A tristeza não consegue ficar na alma da pessoa quando está banhada em lágrimas. — A Marda... sofreu... um acidente — Miri falou entre os soluços. — Eu vi. Está com a perna machucada, mas acho que vai ficar bem. Procure se tranquilizar um instante para que você também fique bem, florzinha. — Por que ele me afasta o tempo todo? — A garganta de Miri estava doendo de tanto soluçar. Ela deu um soco com o punho cerrado no próprio joelho, zangada e embaraçada por estar chorando na frente de outra pessoa, detestando a maneira como aquilo a fazia sentir-se uma garotinha indefesa. — Será que eu sou tão pequena e burra e inútil? — Você não sabe? — Doter soltou um suspiro e seu peito arfou sob a cabeça de Miri. — Oh, minha flor de Miri, por que acha que ele mantém você fora da pedreira? — Porque tem vergonha — disse Miri com as lágrimas da amargura que corria em seu sangue. — Porque eu sou miúda demais para fazer qualquer coisa que preste. — Laren, seu grandicíssimo idiota, não sabe abrir esse bico e falar? — Doter falou consigo mesma. — Eu deveria ter percebido, deveria saber que ele era muito homem para explicar. Todo mundo sabe menos a garota, a única que deveria saber. E que vergonha, você, Doter, pois deveria ter falado há anos... Miri se sentiu acalmar, acolhida pela fala de Doter. Debateu-se ainda um pouco com os soluços até que abrandaram, transformando-se em meras palpitações caladas e sofridas em seu peito. Não adiantava tentar interromper quando Doter conversava consigo mesma, embora estivesse aflita para saber do segredo por trás daquela falação.

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Afinal, Doter soltou outro suspiro. — Miri, você sabe como sua mãe morreu? — Ficou doente depois que eu nasci. Miri sentiu o movimento da cabeça de Doter. — É verdade; porém, ainda há o que contar. Estávamos no auge do verão e os mercadores chegariam a qualquer dia. Tinha havido uma quantidade inestimável de acidentes naquele ano e a pedreira não havia produzido o suficiente para trocar pelos mantimentos do mês seguinte. Sua mãe, aquela menina teimosa, embora parecesse uma lua cheia com você dentro da barriga, insistiu em ir ajudar na pedreira. Você já pode imaginar o que aconteceu. — Ela estava fazendo freio para as pedras — Miri falou baixinho. — Um dos rapazes tropeçou, a pedra escorregou e sua mãe caiu pela ribanceira. Naquela noite você nasceu, precoce. Ela aguentou uma semana, mas o sangramento não parava, e há certas coisas às quais o ser humano não consegue sobreviver. — Durante aquela semana inteira, ela não me largou. — Claro que não. E por que deveria? Você era pequena, miudinha, e estava toda amassada, mas também foi o bebê mais lindo que eu já vi na vida, depois dos meus. Miri começou a protestar, mas não havia como argumentar com Doter. Oz vivia dizendo: Quem é esperto não duvida das palavras que saem da boca de Doter. Doter pegou nos ombros de Miri com as duas mãos e a segurou de braços estendidos. Miri deixou os cabelos caírem para a frente de forma a esconder os sinais do choro, mas Doter tinha um rosto redondo, agradável, e só de olhar para ela Miri já se sentia melhor. — Ninguém liga para o fato de você não trabalhar na pedreira — Doter falou. Miri engasgou ao ouvir isso e tentou se desvencilhar, mas Doter colocou mais força sobre seus ombros, como se estivesse determinada a ser ouvida. — Estou lhe dizendo, ninguém se importa. Você acha que alguém tem inveja do tempo que minha menina Esa passa cuidando da casa? Quando Laren diz que "Miri não vai trabalhar nesta pedreira", todos concordam e não se fala mais nisso. Você acredita em mim, não acredita? Miri estremeceu quando saiu de seu peito um último soluço sentido. — Seu pai é uma casa com as persianas fechadas — disse Doter. — Há coisas ali dentro que as pessoas não veem, mas dá para perceber que ele tem uma ferida que não vai sarar. Miri concordou. — Marda puxou ao pai, mas você, Miri, você é sua mãe viva outra vez. Olhe só para esses olhos azuis, esse cabelo igual à pluma do falcão. Ele não consegue olhar para você sem pensar nela. Quase morreu por deixar Marda trabalhar na pedreira, mas não teve escolha, sendo só vocês três em casa. Como iria aguentar que sua filhinha colocasse os pés no lugar que tirou a vida da mãe dela? Elas percorreram o caminho de volta pelo meio da aldeia e Miri não tirou os olhos do terreno por onde pisava. O mundo inteiro havia mudado e ela não

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sabia mais se conseguiria manter a firmeza. Era sua mãe viva novamente. Quando voltou, Miri viu que Marda havia sido trazida da pedreira para casa. A mãe de Frid já havia declarado que os ferimentos envolviam uma fratura dolorida da perna, mas não era nada sério. Enquanto a mulher cuidava da perna quebrada, Miri segurava a mão de Marda, beijava-lhe o rosto, trançava-lhe o cabelo e dava-lhe tanto amor quanto era capaz de sentir, tanto quanto imaginava que sua mãe daria. Naquela noite, Miri deixou sua cama para Britta e foi dormir encolhida ao lado da irmã para poder pentearlhe os cabelos ou acariciar-lhe o rosto quando a dor a impedisse de conciliar o sono. Na manhã seguinte, bem cedo, Miri acordou e viu o pai sentado numa cadeira, olhando para as próprias mãos. Ela se levantou e foi até ele, sem fazer barulho com os pés descalços. Ele fez sinal para ela vir, sem tirar os olhos dela, e puxou-a para o peito. — Sinto muito, minha flor. Ele apertou o abraço um pouco mais e, quando sua respiração se agitou com um soluço, Miri não precisou mais de palavra alguma. Ele estava magoado. Ela era sua flor. Ficariam bem. Capítulo Quinze Não olhe além de sua mão Faça uma escolha e assuma uma posição. No verão da montanha, o mundo saboreia cada dia. O dia amanhece cedo, convidando a um despertar lento e espreguiçado, pronto para o que der e vier. Olana percebeu a atenção da turma toda escapulindo para a janela, de modo que passou a fazer uma quantidade cada vez maior de aulas a céu aberto. As meninas passaram semanas aprendendo as danças para o baile, girando, saltitando e deslizando ao sol. O céu azul-anil parecia formar um arco sobre suas cabeças, dando a impressão de que os braços estendidos seriam capazes de tocá-lo. Às vezes, Miri se esticava e pulava, como se conseguisse alcançar, ao menos raspar os dedos na abóbada celeste. Miri nunca se sentira assim, leve o suficiente para flutuar nas nuvens. Até as alfinetadas de Katar e as costas sempre voltadas de Bena e Liana não a incomodavam mais: a história de Doter a aconchegava. Aquilo em que ela acreditou durante muito tempo não era verdade, e o mundo agora estava aberto para descobrir o que era. Uma noite, depois de cumprir as tarefas, Miri foi se sentar com Britta, Esa e Frid em sua cama no canto do quarto e confidenciou a elas a história de sua mãe. — Então, vocês... vocês acham que sou um fardo para a aldeia? — Miri falou baixo o suficiente para que sua voz não se espalhasse. Não queria deixar passar mais nada que Katar pudesse usar para incomodá-la. — Que sou fraca demais para trabalhar na pedreira? Frid franziu o cenho.

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— Ninguém no Monte Eskel é fraco demais para trabalhar na pedreira. Ouvi minha mãe dizer uma vez que seu pai a mantinha em casa porque tinha lá suas razões. Acho que não tornei a pensar no assunto depois disso. Miri esfregou os braços dela e riu. — Que maravilha! É tão difícil de acreditar. Sabe, é como se durante minha vida inteira eu tivesse acreditado que o céu era verde. Esa se deitou de bruços, com uma das mãos escorando o queixo. — Pelo seu jeito de agir, sempre rindo alto, dizendo o que pensa, eu nunca poderia imaginar que você se importasse com o que as pessoas pensam. Britta estava com um sorriso sagaz no rosto. — Não me esqueço de um conto que minha babá costumava ler para mim sobre um pássaro cujas asas estão presas ao chão. Vocês conhecem? No fim, quando acaba se libertando, ele voa tão alto que se transforma numa estrela. Minha babá disse que a história fala que todos nós temos uma coisa que nos mantém lá embaixo. Então, o que estou pensando é o seguinte: se as asas da Miri já se soltaram, o que ela vai fazer agora? — Sair voando, passarinho Miri, sair voando — Esa disse abrindo um sorriso largo. Miri bateu os braços como se fossem asas e começou a grasnar. — O que vocês estão fazendo? — perguntou Bena, aborrecida. As meninas riram. Para onde devo voar? Miri passou o verão inteiro se perguntando isso durante os deslocamentos entre sua casa e a academia. Olana não gostou nada disso, mas cumpriu o acordo e deixou as meninas irem passar uma semana em casa a cada vinda dos mercadores. Deve terse espalhado a novidade sobre uma aldeia com moedas de ouro para gastar, pois muitos mercadores que não eram conhecidos na montanha começaram a chegar trazendo mercadorias especiais, como sapatos de solado forte, tecidos tingidos, cadeiras de balanço, potes de cerâmica, panelas de metal, fitas pintadas e agulhas de aço. Os estoques de alimento da aldeia aumentaram de forma que ninguém mais precisava esperar com os tonéis vazios até a próxima chegada dos mercadores. Em meados do verão, Marda e Papai presentearam Miri com um novo par de botas pelo seu décimo quinto aniversário. Ela ficou maravilhada por não sentir mais as pedras pontiagudas através do solado. Marda descansava enquanto sua perna sarava, então, sempre que estava em casa, Miri ajudava a irmã a ir até a sombra de uma árvore pelas redondezas e, com um caco de pedra, riscava letras na parede da pedreira antiga. Nas últimas visitas, passou a trazer um livro surrupiado da prateleira de Olana, e logo chegou o dia em que Marda conseguiu ler uma página inteira sozinha. Ela recostou a cabeça para trás e soltou um longo suspiro. — O que foi? — Miri perguntou. — Nada. É uma sensação boa. — Ela olhou para onde o sol se esticava sobre o capinzal das colinas a ocidente. — Você sabe como o povo da planície sempre foi conosco, não sabe? O jeito dos mercadores falarem, esse tipo de coisa. Fico pensando: e se eles estiverem certos? Se nós não formos inteligentes? Se houver algo errado conosco? Comigo?

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— Marda! Como é que você pode acreditar neles? — E como poderia deixar de acreditar? Quando você começou a me ensinar a ler, fiquei aterrorizada. Você aprendeu tão bem e eu tinha certeza de que seria burra demais para aprender. O pessoal da aldeia todo iria pensar que a Miri é a melhor da academia, mas a irmã dela tem cabeça de bode. — Ninguém nunca iria pensar uma coisa dessas, especialmente agora que você é a única fora da academia que sabe ler. Além do mais, a Katar é a primeira da turma. Marda ergueu as sobrancelhas. — Mas, se você quiser ser, não sei de nada que pudesse impedir. Miri quase contou a Marda nesse momento sobre a impressão que tinha de ser a pária da pedreira e sobre o sentimento ruim de ciúme que nutrira no coração anos a fio. Mas a sensação estava se dissipando e já não parecia mais ter importância alguma. Antes da academia, sentava-se em sua colina preferida para vigiar as cabras e sua imaginação não conseguia enxergar nada mais grandioso do que trabalhar na pedreira. Mas agora sabia do reino que se espalhava para além da sua montanha, das centenas de anos de história que havia e das milhares de coisas que ela poderia ser. Não iria submeter o pai a mais um pedido para ir trabalhar na pedreira. Encontraria seu próprio lugar. E estar sentada embaixo de uma árvore com Marda no momento em que a irmã leu a primeira página de sua vida lhe deu a impressão de estar no melhor lugar do mundo. Miri ficou pensando em como fazer aquela sensação boa durar. Capítulo Dezesseis Passei o dia cortando e a noite aparelhando E achei ter extraído a força da montanha Depois vi minha obra sob a luz da manhã A montanha era o mundo e meu trabalho, um grão. Certa manhã na academia, Miri saiu antes do café da manhã para esticar um pouco as pernas e olhar as montanhas. Veio um vento do norte, soprando forte e fazendo a saia dela grudar contra o corpo. E trouxe um cheiro distante que não era conhecido nem tinha o calor dos ventos do verão, mas sim o de lugares vazios, de árvores que Miri não conhecia e de neve. Aquele aroma deixou seus músculos tensos. Significava que o verão estava acabando, o outono chegando, e faltavam poucas semanas para o baile. Na academia, o estado de espírito mudou com o tempo. Cada dia que passava era um dia a menos para aprender a melhor maneira de impressionar o príncipe e não se apresentar como uma perfeita idiota. As danças eram praticadas com um desalinho disfarçado, as cortesias, com tropeços de ansiedade. Olana gritava com elas: — Vocês querem ficar parecendo umas imbecis? Querem que os convidados acreditem em tudo de horroroso que ouviram falar dos territórios

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longínquos? Mantenham o corpo ereto ao sentar, pronunciem as palavras com clareza. Pelo amor de Deus, parem de agir como se quisessem me humilhar. Miri tentou se lembrar quando as reverências começaram a ter mais importância do que o café da manhã. Passara a maior parte dos recreios do verão ensinando a Britta as canções da pedreira e correndo pelas colinas. Mas agora impunha-se a todas uma mudança e ela sentia uma força interna atraindo-a para os livros, querendo decorar para poder recitar listas de reis e rainhas. Em pouco tempo, todas as outras meninas já passavam seus recreios estudando, e também os dias de descanso. Deu-se conta de que ficava olhando de relance para Katar, imaginando se a outra não teria captado coisas que ela mesma tivesse deixado passar despercebidas, ou fitando o quadro da casa com uma esperança tão forte que chegava a ter a impressão de que bastava se esticar um pouco para pegá-la. Quando entrava nesse estado de espírito, tentava não pensar em Peder de forma alguma. Seu coração e sua mente se emaranhavam. Até que Olana anunciou a prova final. Cada menina leu uma passagem de um livro em voz alta e foi avaliada pela pronúncia e pela clareza. Knut ficou fazendo o papel de príncipe e as meninas desfilavam com os passos leves da ponta dos dedos até o calcanhar fazendo-lhe mesuras. Ele nunca largava a colher de pau e olhava nos olhos das meninas sempre como se sentisse uma dor terrível, mas com Miri conseguia abrir um meio sorriso. Uma vez, quando Miri estava praticando Dança, Katar conseguiu captar seu olhar e pestanejou. Miri deu um passo desequilibrado, desviou o olhar e tentou se concentrar novamente. — Tudo bem, Miri — disse Britta, que estava fazendo o papel do parceiro. — Você está indo muito bem. Miri conseguiu ouvir Bena sussurrando seu nome. Depois dos testes individuais, as meninas acompanharam Olana até uma encosta onde a relva deixava o chão mais macio. O vento soprava do vale com o frescor de roupa seca ao sol e Miri sentiu como se os raios que batiam mais forte no alto da colina lhe acariciassem a cabeça. Recostou-se sobre as mãos apoiadas para trás e sentiu os ombros relaxarem pela primeira vez naquela semana. Estava confiante de que iria passar. — Olhem bem para essa vista — disse Olana, com um gesto na direção do horizonte ao norte. — É a única que algumas de vocês terão na vida. Até o momento, algumas não se saíram bem no exame o suficiente para ir ao baile. Esta é a última chance para se redimirem. Aquelas que estão perto de ser reprovadas deverão responder a todas as perguntas corretamente; caso contrário, ficarão escondidas no quarto enquanto as demais dançam e se fazem ver para o príncipe. Olana colocou as meninas sentadas em círculo e começou a prova decisiva. Miri recitou o nome dos cinco primeiros reis de Danland, começando pelo Rei Dan, e Katar recitou os cinco seguintes. Frid titubeou um pouco na hora de sua pergunta, mas deu a resposta correta. Em seguida, Olana se dirigiu a Gerti.

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— Diga os anos em que ocorreu a Guerra dos Direitos. O rosto de Gerti empalideceu. Ela ergueu os olhos para o céu, à procura da resposta, mas a desesperança logo fez traços em sua testa. Miri ficou observando os esforços de Gerti e ficou assombrada com a sensação de alívio que teve. No concurso para princesa da academia, todas eram concorrentes. — A resposta, Gerti — Olana falou. — Eu... Miri pensou no quadro da casa, lembrou de Marda dizendo que nada seria capaz de atrapalhar a irmã, pensou no vestido prateado com minúsculos brotos de rosa e na sensação que penetrava em seus ossos quando imaginava o significado que o título de "Princesa" acrescentaria a seu nome. Naquele momento, tudo isso lhe pareceu insípido e daninho em comparação à necessidade imediata de Gerti. Não é justo, pensou. Todas estudaram muito o ano todo. Deveríamos ao menos ter a chance de irmos ao baile. A decisão parecia óbvia. Tentaria ajudar. Seu instinto foi o de usar linguagem da pedreira. Mas como posso dizer o número de um ano para Gerti? Já havia encontrado um jeito de dizer para as meninas correrem. Se conseguisse encontrar o pensamento certo, talvez fosse capaz de comunicar alguma coisa, particularmente porque as meninas da academia tinham tantas recordações compartilhadas. Poderia funcionar. Deveria funcionar. Ao lado de seu pé, uma única flor de miri balançava ao sabor da brisa. Isso deu a ela uma esperança. As flores cor-de-rosa pareciam florescer nas cercanias dos filões de pedra. Toda aquela área já fora uma pedreira ativa e certamente haveria resquícios. Ainda assim, Miri só tinha visto funcionar onde a pedra era sólida, como a pedreira ativa e o chão da academia. Olana soltou um suspiro. — Ora, diga logo que não sabe, Gerti, e vamos continuar. O lábio de Gerti estremeceu. Miri enfiou a mão na grama que ainda crescia no outono. Deveria haver pedra lá embaixo. Afundou mais a mão e ficou torcendo para encontrar alguma coisa. Apesar do que Peder dissera, ela ainda gostava de cantar em voz alta quando usava a linguagem da pedreira, pois isso a ajudava a concentrar a cantoria interna que empurrava sua recordação para o interior da pedra. Mas era algo que não poderia arriscar aqui e agora. Enterrou a mão com mais força ainda e pensou em sua cantiga favorita para o aparelhamento da pedra: "A montanha era o mundo e meu trabalho, um grão." Organizou os pensamentos e os entoou em silêncio no ritmo daquela cantiga. Miri se lembrou da lição de História em que Olana falou pela primeira vez sobre a Guerra dos Direitos. Uma mosca foi pega na sala, zumbindo alucinada e esbarrando contra o vidro da janela. Miri se lembrou disso porque tinha ficado pensando quantas vezes aquela mosca maluca conseguiria esbarrar na janela e continuar tentando antes de cair estatelada e achou que seriam 212 vezes, o primeiro ano da guerra.

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— Duzentos e doze a duzentos e setenta e seis — Olana dissera. — Repitam todas. Bum, bum, fez a mosca. — Duzentos e doze a duzentos e setenta e seis — repetiram todas. Bum, bum, bum, bum. Miri cantarolou aquela recordação para a terra: a mosca esbarrando no vidro, Olana declarando os anos da guerra, a turma toda repetindo. Talvez Gerti também tenha percebido a mosca. Talvez com essa incitação, a recordação lhe viesse à tona e o som daqueles anos lhe viesse do fundo da mente para a língua. Sua vista estremeceu, seus pensamentos se encaixaram, o momento se formou com todas as cores em sua mente, mas o rosto de Gerti não mudou. Miri tentou novamente, fazendo ressoar mais uma vez em seu íntimo a cantiga em linguagem da pedreira. — Se você não se lembrou até agora, Gerti, não vai mais se lembrar — Olana falou. — Agora então, Liana, por favor, cite... — Duzentos e... — Gerti ergueu a cabeça. Parecia estar tentando saborear algo peculiar ou identificar um aroma distante. — Duzentos e doze a duzentos e, ahn, setenta. Setenta e seis, quero dizer, setenta e seis. Katar deu uma cutucada com o cotovelo nas costelas de Miri, pois, sem dúvida, também detectou sua linguagem da pedreira. Miri lhe retribuiu um sorriso agradável. — Hum. Está correto — disse Olana. Gerti olhou para Miri e abriu um sorriso do tamanho do céu. Olana voltou a Liana, que respondeu corretamente, assim como a menina seguinte. Então, Tonna tropeçou na primeira regra da Conversação. Miri não tinha intenção de continuar dando suas deixas silenciosas, mas acreditava que Tonna tinha tanto direito a ir ao baile quanto Gerti. Uma cutucada de Katar e um olhar de alerta a levaram à decisão. Miri buscou a recordação perfeita e a cantou para os veios de pedra oculta no interior da montanha e para as mentes de quem quisesse escutar. Tonna soltou um suspiro de alívio e respondeu à pergunta. Miri sorriu. Estava começando a ser divertido. O exame continuou enquanto o sol foi descrevendo um arco em direção ao ocidente, esticando as sombras das pessoas ali sentadas. Sempre que uma menina vacilava ou olhava na direção de Miri, ela dava o melhor de si para conseguir comunicar uma recordação útil. E sentiu-se aliviada por Britta saber sempre suas respostas. Então, Frid não conseguiu se lembrar da última regra das negociações diplomáticas. Miri falou em linguagem da pedreira sobre o dia em que Olana introduziu as regras da Diplomacia, mas Frid simplesmente ficou olhando para o chão com sua conhecida expressão de olhos arregalados e parecia querer desistir. Miri enfiou os dedos ainda mais fundo na terra e, se tivesse cantado em voz alta, sua linguagem da pedreira teria sido um grito, mas não houve reconhecimento algum por parte de Frid. Fosse por se tratar de uma recordação que não estava clara ou fosse por estar fraca demais naquela colina, a linguagem da pedreira não estava funcionando. — Sinto muito — Miri sussurrou.

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— Silêncio — Olana alertou. Em seguida, outra voz em linguagem da pedreira, suave, delicada. A sensação dessa voz não poderia ter sido mais claramente de Gerti se ela tivesse falado em voz alta. Miri fechou os olhos para se concentrar e viu, em sua mente, as negociações com Olana quando ela esqueceu a regra final e Katar entrou para ajudar. Os olhos de Frid brilharam. — Dar um prazo para aceitar os termos. — "Marcar um prazo para aceitação" é a resposta correta — disse Olana —, mas assim serve. Gerti ficou exultante. Daí em diante, ninguém hesitou numa resposta sem ser encharcado de dicas vindas de uma dúzia de meninas diferentes, algumas menos úteis, outras exatas, mas aquela que estivesse em apuros sempre conseguia sair do outro lado com a resposta correta. Por fora, estavam todas serenas, exceto por um ou outro sorrisinho tímido, com as mãos despojadamente assentadas no chão como se estivessem se divertindo com a grama. Mas, por dentro, a sensação daquela linguagem da pedreira era como a de dez canções entoadas ao mesmo tempo, cada qual numa voz diferente, todas contentes. De tão ansiosas que as outras meninas estavam para ajudar, Miri só teve mais uma chance de oferecer seu quinhão. — Você me escutou, Katar? — disse Olana. — Qual é o nome formal da reverência usada apenas para o rei sentado ao trono? — Eu, ahn... Katar olhou para o céu, o chão, as unhas, qualquer lugar menos para as meninas, como que se recusando a pedir ajuda. E ninguém ofereceu. Miri achou possível que nenhuma delas conseguisse se lembrar, porém muitas delas colocaram as mãos no colo, explicitando a recusa. Até Bena e Liana olharam por cima do ombro para as colinas ao fundo. O olhar de Katar pousou durante um breve instante em Miri, e logo se afastou. Que Miri se lembrasse, Olana tinha dado o nome da reverência apenas uma vez, mas ela o havia lido recentemente durante os estudos individuais. Katar passaria na prova sem ajuda, mas talvez não conseguisse nota alta o suficiente para ser a princesa da academia. Miri travou uma batalha consigo mesma. Não queria dar nada a Katar, mas seu senso de justiça não deixaria que ajudasse todas as meninas menos uma. Miri fitou Katar com um olhar intenso, colocou as mãos na grama e cantarolou em silêncio sobre a palestra introdutória de Olana sobre Postura. Depois de alguns instantes, Katar fez um gesto afirmativo com a cabeça. Sua voz saiu bem tranquila. — Já me lembrei. — Limpou a garganta. — Essa reverência é chamada de oferta do coração. Depois da última pergunta, Olana soltou um demorado assovio de aprovação. — Todas acertaram cem por cento nesta parte da prova. Eu não esperava isso. Muito bem, vão jantar enquanto calculo as notas para a prova toda. Depois do jantar, vou anunciar quem passou e quem será a princesa da

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academia. Pouco se comeu naquela noite. Miri ficou olhando a gordura endurecida na sopa com pão de ovo e trigo enquanto escutava as conversas sussurradas das outras meninas. Knut passou por trás dela e murmurou: — É a última vez que me preocupo em fazer comida gostosa num dia de prova. — Você fez comida gostosa? — Miri falou. — Cadê? Knut acariciou os cabelos dela. Katar empurrou a tigela de sopa e ficou olhando pela janela. Miri se deu conta de que as pernas de ambas tremiam e os joelhos batiam embaixo da mesa. — Parece que Katar e eu estamos fazendo todo o possível para extrair e aparelhar esta mesa antes da chegada dos mercadores — Miri falou, e algumas meninas riram. Miri contou piada para desfazer a tensão e agora se preparava para a réplica inevitável, mas Katar só se levantou e foi embora. Miri apoiou o queixo nas mãos, feliz por tirar a melhor com Katar pelo menos uma vez. — Está na hora — Olana avisou. As cadeiras da sala de aula rangeram enquanto as meninas tomavam assento e se ajeitavam. Miri achou que não seria a única a conter o fôlego. Olana pegou um pergaminho. Seu olhar parecia satisfeito, embora sua boca não desse indicação alguma de sorriso. — Devido ao desempenho inesperado no exame final, todas passaram — disse. Irrompeu um clamor de alegria. Olana leu no pergaminho as notas em ordem crescente. Quase todas as meninas situadas na parte inferior da lista não se mostraram incomodadas com a colocação e ficaram mesmo satisfeitas de saber que poderiam ir ao baile, afinal. Olana parou de ler antes de Miri ouvir o próprio nome. — As últimas cinco — Katar, Esa, Liana, Bena e Miri — ficaram tão próximas que não consegui determinar quem estava à frente. Portanto, deixarei que vocês decidam. Katar deixou os ombros caírem. Miri sentiu as pernas tremerem enquanto as colegas sussurravam seus votos para Olana, uma a uma. Depois que a última se sentou, Olana sorriu. — Mais da metade votou na mesma menina, uma maioria absoluta. Miri, venha cá. Miri sentiu a cabeça leve e, enquanto caminhava para a frente da sala, foi como se flutuasse, como se ela fosse um tufo de pólen levado pela brisa de uma árvore para outra. Não tirou os olhos de Britta, que sorria enlouquecidamente. Olana colocou a mão sobre o ombro de Miri. — A princesa da academia. As meninas a ovacionaram. Depois de dispensada a turma, a caminho do quarto de dormir, Miri saiu para apreciar o pôr do sol, que, com seus tons dourados e alaranjados,

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parecia aproximar o céu da terra. Precisava distanciar-se um pouco de uma lacrimosa Liana consolando uma enrubescida Bena e dos olhares inflamados de algumas ciumentíssimas meninas de 17 chegando aos 18 anos de idade. Ficou bem claro quem não tinha votado em Miri. Miri foi até a beira do precipício para observar as montanhas e colinas que se desenrolavam no entorno do Monte Eskel como marolas à volta de uma pedra jogada n'água. Logo abaixo, em vez de um precipício abrupto, despontava uma laje, de modo que, caso escorregasse no cascalho, cairia naquele patamar, em vez de continuar até lá embaixo. Então ela viu que esse lugar não era apenas seu favorito; Katar se encontrava sentada na protuberância rochosa com os joelhos agarrados contra o peito. Miri foi até lá, pensando em algo de bom para dizer. Estava prestes a abrir a boca quando Katar produziu um som como um forte soluço contido. Ela não poderia estar chorando, Miri pensou. Nunca a tinha visto chorar. Mas, quando a viu contra a luz, as inconfundíveis marcas das lágrimas estavam lá. — Pode começar a se gabar — Katar falou. Miri franziu o cenho. Achou que Katar estava agindo feito um bebê só por não ter ganhado. — Vamos — disse Katar. — Pode começar a falar do vestido, como vai lhe cair bem, e da primeira dança, e que você vai estar linda e vai para Asland virar rainha. — Não é nada disso, Katar. Só porque sou a princesa da academia isso não quer dizer que ele vai me escolher. — Ah, vai sim. Será que vai? — Eu tenho uma chance, mas... — Era a minha única chance. Ninguém gosta mesmo de mim; então, como é que ele vai gostar? — Você quer mesmo se casar com ele, tanto assim? — Miri perguntou. — Nem ligo para o príncipe — Katar falou de estalo. — Só quero encontrar um meio de sair daqui. Detesto a vida neste lugar. — Ela falou baixinho, como se as palavras fossem fortes demais para que pudessem ser ditas em voz alta. Katar jogou uma pedrinha do cascalho pela borda do precipício e Miri ouviu quando ela bateu na encosta mais abaixo, deslocando outras pedras pelo caminho. Esperou que Katar consertasse a declaração, mas ela não consertou. Passados alguns momentos, Miri falou: — Você não detesta tanto assim. — Ah, detesto sim. E por que não detestaria? — Katar jogou outra pedrinha lá embaixo. Quando tornou a falar, sua voz saiu trêmula. — Sei que não gostam de mim. Não há o que eu possa fazer para ser de outro jeito, mas me sinto exausta por nunca ter para onde ir onde me sinta bem. Em casa é que não dá mesmo, depois que minha mãe morreu. — Minha mãe também morreu — Miri falou. — Mas seu pai adora você. Já o vi olhando para você e Marda como se vocês fossem a própria montanha, como se fossem o mundo.

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Ele olha mesmo desse jeito? Miri pensou. Seu coração deu uma batida mais forte enquanto ela pensava: Olha, sim. — O meu nem sequer olha para mim — Katar falou. — Talvez até ponha a culpa em mim pela morte da minha mãe no meu nascimento, ou talvez quisesse que eu fosse um menino ou uma menina completamente diferente. Tudo por aqui é frio, duro, machuca e é ruim, e... e eu só quero ir embora. Quero ser outra pessoa e ver outras coisas. E agora nunca mais vou poder fazer isso. Miri estremeceu com uma brisa fria que subiu do vale. Passara a vida inteira se achando a única pessoa solitária no mundo, mas agora até mesmo Katar parecia uma criancinha perdida numa colina distante. Katar enfiou o rosto nas mãos e irrompeu em soluços. Miri deu-lhe umas palmadinhas meio sem jeito no ombro à guisa de consolo. — Sinto muito — Miri falou. Katar deu de ombros e Miri entendeu que não havia o que dizer. Uma amiga de verdade talvez tivesse conseguido consolá-la, mas Miri mal a conhecia. Tudo ficou estranho e maravilhoso e errado de uma vez só. As meninas haviam escolhido Miri como princesa da academia. O frescor e o frio do outono roçavam sua pele. A qualquer instante, o príncipe viria e levaria uma delas embora consigo. E Katar chorava aos prantos a seu lado. — Sinto muito — Miri tornou a dizer, detestando a superficialidade com que soavam aquelas palavras. Katar havia concedido a ela uma pequena dádiva ao abrir o coração e demonstrar sua mágoa. Miri guardou o momento no fundo do peito e ficou torcendo para um dia poder retribuir. Capítulo Dezessete Embora se pareça com o leite O rio para em minha garganta Qual pedra, pedra, pedra. Depois do exame, as meninas tiveram liberdade para fazer seu próprio horário. Muitas passavam as horas do dia praticando Conversação ou Postura e ensaiando as danças, cientes de que o teste de verdade, o próprio baile, ainda estava por vir. Outras se sentiram aliviadas do rigor e preferiam conversar sobre os vestidos que o povo da planície traria ou sair a passeio para rir, resmungar ou simplesmente admirar os arrabaldes. Pareciam evitar o incômodo assunto do príncipe e sua escolha, mas permanecia na academia certa agitação. Até mesmo Frid, com toda sua mentalidade prática, ficava olhando para o céu com indícios de um sorriso tacanho no rosto. Miri sentiu vontade de que Peder viesse para lhe reavivar a memória de que ela não queria ser escolhida; porém, sempre que pensava no príncipe, sentia no peito uma comichão. Tinha liberado o sonho de se tornar operária na pedreira, mas seu coração ainda precisava de uma esperança. Embora já compreendesse as razões para ser mantida longe da pedreira, ao se imaginar voltando à aldeia apenas para cuidar das cabras, entrou em

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pânico. Decerto haveria algum outro lugar para ela, algo que pudesse fazer para continuar se movimentando e crescendo, e tornar-se útil. Para dar orgulho ao pai. A ideia de se tornar princesa trazia muitas promessas. Certa manhã, Miri encontrou Esa na escadaria de acesso à academia de frente para a quebrada da montanha. — Parece que eles vão chegar a qualquer momento — Miri falou, sentandose a seu lado. — Sempre que olho para lá e vejo um pássaro ou a sombra de uma nuvem passando, acho que é a primeira charrete. Chego a sentir um frio na barriga. Esa fez um gesto com a cabeça indicando que com ela também acontecia isso e Miri percebeu que havia tristeza em seu olhar. — O que houve? Esa balançou a cabeça como se quisesse dizer para Miri não se preocupar. — A dança. — Como assim? Você passou na prova de dança. Esa ergueu a cabeça como se tivesse perdido a paciência consigo mesma. — Fico imaginando o momento em que vou dançar com o príncipe pela primeira vez, e ele vai esticar os braços para mim, e eu vou colocar minha mão direita na dele, e ele vai olhar para meu braço esquerdo e se perguntar por que ele não se mexe, e então, quando entender, já imagino a expressão em seu rosto se modificando... Esa soltou um suspiro profundo e demorado. Miri ficou incomodada e teve vontade de fazer Esa rir um pouco. — Quem sabe o príncipe também não tem um braço machucado? Esa soltou o ar atravessado, numa expressão de desdém. — Não, estou falando sério. Ou talvez um olhar torto, daqueles em que os dois olhos não se voltam para um mesmo lugar ao mesmo tempo. Daria até para você fingir que é duas pessoas e ficar saltando de um olho para o outro, conversando consigo mesma. Basta não esquecer as regras da Conversação e ficar o tempo todo trazendo o assunto de volta para... ahn, para você. Um movimento no entorno de Miri despertou sua atenção. Não era a sombra de uma nuvem. O pó de pedra subia em redemoinho atrás da primeira charrete como se ela estivesse percorrendo um campo coberto de cerração. Veio outra logo depois. E outra. Só o número de charretes já era impressionante e assustador. Algumas meninas começaram a soltar gritinhos agudos e a correr de um lado para outro, em busca de um lugar de onde pudessem ver melhor a chegada da comitiva ou de um lugar onde se esconder. Frid e Britta vieram ficar ao lado de Miri e Esa. — Quanta gente! — disse Frid. Britta parecia estar contendo o fôlego e Miri pensou que, apesar da certeza de que não seria escolhida, a amiga estava tão ansiosa quanto qualquer outra. Por trás das primeiras charretes e soldados montados, vinha uma carruagem fechada, com as cortinas puxadas. Construída de madeira clara como o cabelo de Esa, era puxada por quatro cavalos do mesmo tom. Miri ficou olhando fixamente para a janela. Será que o príncipe a estaria vendo?

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A cortina estremeceu como se alguém a tivesse tocado pelo lado de dentro. Certa de que ele estaria observando, Miri sorriu e ousou fazer um aceno. Esa soltou uma risadinha e deu uma palmada com o dorso da mão na perna de Miri. — Que isso! Ele pode estar olhando. — Espero que esteja — Miri falou, embora não tornasse mais a acenar. Olana saiu apressada, mandando que as meninas saíssem do caminho e fossem para o quarto de dormir. Pela janela, elas ficaram vendo os visitantes armarem as tendas, cuidarem dos cavalos e descarregarem tonéis e caixas lá nos fundos do prédio da escola. Sempre que uma das meninas ia usar o banheiro, voltava dizendo ter visto fumaça saindo das três chaminés da cozinha. — Alguém viu o príncipe? — Gerti perguntou, na ponta dos pés para poder espiar melhor pela janela. — Acho que vi, um segundinho só — disse Helta, uma menina de 13 anos com o nariz arrebitado e sardas. — Ele é alto e mais novo que eu imaginava, e tem cabelos escuros. A conversa diminuiu rapidamente até silenciar. O príncipe tornara-se, de repente, uma pessoa de verdade, com altura, idade e cor de cabelo. Algumas das meninas espiaram pela janela, na esperança de captarem um relance do príncipe, mas a maioria ficou estática. — Que estranho falar disso! — disse Miri, quebrando o silêncio. — Não gosto de me sentir competindo com todo mundo para que o Príncipe Steffan me veja e goste de mim. — Deveríamos fazer um pacto — disse Esa. — Ficaremos felizes por aquela que ele escolher, sem ciúmes nem maldade. Todas concordaram, mas parece que Britta não ouviu e continuou olhando para a janela, de costas para Esa. — Britta? — Miri falou. — O que houve? — perguntou Frid. — Ela não quer entrar no nosso acordo — disse Katar. — Lá vem ela com azedume, pelo jeito. Britta esfregou a têmpora com o dorso da mão. — Não é isso. Só não estou me sentindo bem. Miri encostou a mão na testa dela. — Você está um pouco quente. Talvez fosse bom se deitar. Naquela noite, todas as vezes que acordou por causa de algum pesadelo, Miri ouviu meninas se mexendo na cama, ajeitando travesseiros, soltando suspiros. Por duas vezes, viu Britta de olhos abertos. — Você está bem? — sussurrou. — Estou me sentindo estranha — Britta respondeu também num sussurro. — Talvez seja só o nervosismo. De manhã, Miri encostou os dedos no rosto de Britta e percebeu que estava muito quente. Elas estavam confinadas ao quarto de dormir enquanto o rumor dos preparativos continuava lá fora, mas Miri resolveu sair para tentar encontrar Knut. Pelo prédio inteiro, havia muito mais homens e mulheres vestidos de

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marrom e verde, varrendo, espanando, colocando tapetes no chão, tapeçarias nas paredes e lenha nas lareiras para aquecer e animar o ambiente, do que Miri achava ser possível. Manteve os olhos grudados no chão, na esperança de que, se não cruzasse com o olhar de ninguém, não perceberiam sua presença nem a mandariam voltar para o quarto. Para chegar à cozinha, precisava passar pela sala de jantar. As mesas estavam postas com toalhas no canto mais afastado do salão, deixando a maior parte do soalho de pedra polida aberta para dançar. Três homens içavam ao teto um candelabro imenso e havia pedestais da altura dos operários da pedreira espalhados ao longo das paredes, todos com velas à espera de serem acesas. A porta do lado oposto do cômodo dava para uma ala da academia que agora servia de aposentos para o príncipe e os demais hóspedes. Miri avistou um grupo ali parado e diminuiu o passo para espiar as pessoas. Vários homens, alguns de sua idade ainda, outros de barbas brancas, estavam envolvidos numa conversa. No meio de todos eles havia um menino, de cabelo escuro, nariz alongado e queixo reto. Sua postura era bastante ereta, como se ele tivesse ciência de sua importância, e até os idosos faziam para ele gestos respeitosos. Pouco antes de Miri passar por eles, ele se virou e seus olhares se cruzaram. O coração de Miri deu um salto e ela apressou o passo. Encontrou Knut acariciando a própria barba, sem largar da colher de pau, enquanto uma horda de desconhecidos se apossava de sua cozinha. Ela o pegou pela manga e o levou para fora, explicando, no caminho, o que estava se passando com Britta. — Ela está doente mesmo — disse Knut ao se ajoelhar ao lado dela. — Veio rápido, não foi? Nervoso dá isso. Não precisa se preocupar, acho que não. Hoje à noite ela vai estar melhor. Mandou que as meninas colocassem um pano umedecido com água fresca sobre a testa dela e mudassem de tempos em tempos para não ficar muito quente, dando a ela goles de água fria sempre que ela aceitasse. Então, as meninas passaram a manhã cuidando de Britta, dos próprios cabelos, das unhas e revezando-se no banho. Quando a luminosidade amarelada do entardecer tomou o quarto, duas costureiras do séquito do príncipe entraram com os braços cheios de vestidos. Fez-se o silêncio absoluto num instante. A mais velha delas olhou à volta e levou as mãos à cabeça. — São tantas! Bem, vamos ver o que podemos fazer para com que cada uma de vocês fique parecendo uma princesa. Miri tentou ajudar Britta a se levantar, mas, assim que conseguiu se sentar, Britta se inclinou para a frente e vomitou água. — Melhor deixá-la em paz — disse a mais nova das costureiras. — Essa não vai conseguir dançar um passo sequer. — Mas ela não pode perder o baile — disse Miri. A costureira deu de ombros. — Também não pode ir assim, pode? De qualquer jeito, parece que o príncipe vai ficar alguns dias. Ela deve melhorar até amanhã e terá a chance de cortejá-lo.

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As duas começaram a escolher os vestidos e a chamar as meninas para experimentá-los. O maior foi para Frid, mas, mesmo assim, não coube direito nos ombros. Frid nem se deu conta. Mexeu nos babados das mangas e do corpete, balançou um pouco a saia e ficou de queixo caído, estupefata. Quando olhou para o espelho da costureira, seu rosto se iluminou. — Nunca tinha me sentido bonita antes — disse ela, tão baixinho que somente a costureira e Miri conseguiram ouvir. A costureira mais jovem estava ajustando para Esa um vestido roxo-escuro que deixava seus olhos arroxeados, parecendo os de uma gazela. — Falei para levantar o braço esquerdo — Miri ouviu-a dizer. — Não consigo — Esa falou. — Por quê...? — A expressão no rosto da costureira esmoreceu. — Ah, bendito braço! Tenho um pedaço de seda para dar um jeito nesse vestido; vai ficar igual ao sol batendo na água. Miri nunca tinha visto seda antes, mas tinha ouvido falar que era a pedra de cantaria dos tecidos e, assim que a costureira tirou da bolsa um cachecol, Miri viu o porquê. Era estampado com flores, cheio de cores vibrantes e tremeluzentes que lhe davam certo ar sigiloso. A costureira o colocou sobre os ombros de Esa com sapiência, prendendo o braço esquerdo dela ao corpo de forma que não ficasse pendente. A outra costureira sorriu. — Que menina linda de ver! O sorriso de Esa cresceu tanto que parecia querer sair de seu rosto. Todas as meninas estavam vestidas, balançando suas saias, girando e rindo, coloridas e lindas como o quadro da casa, mas Miri ainda se encontrava sentada no chão com suas surradas roupas de lã crua. A costureira de mais idade soltou um suspiro e se sentou como se os ossos fossem sair do lugar caso ela se mexesse um pouco mais rápido. A outra foi catar os retalhos e as sobras de linha espalhadas por todo canto. Quando acabou, virou-se, com as mãos na cintura, de frente para Miri. — Agora você — disse ela. Miri sentiu um sorriso tímido tomando seu rosto. — Achei que tinham me esquecido. — Como poderíamos lhe esquecer? Você é a menina especial. Miri sentiu um arrepio da cabeça aos pés. A costureira saiu do quarto e em seguida voltou com o vestido prateado. Nas dobras, parecia tão escuro que as partículas de luz pareciam bruxulear. A costureira levou uma das fitas cor-de-rosa ao rosto de Miri e disse: — Este tom destaca bem o cor-de-rosa de sua pele. Se me pedissem para fazer um vestido para você, eu teria feito exatamente desta cor. Ela o vestiu em Miri pelo avesso, marcou as costuras e ajustou. Miri sentiu o rosto em brasa ao ver que a costureira precisou subir a bainha dois palmos. Por fim, a costureira colocou o vestido ajustado em Miri, passando-o pela cabeça, ajeitando-o da cintura aos tornozelos. A sensação daquele pano encostando em sua pele era a mesma da água do banho. Ela ficou admiradíssima, tomada de carinho por si própria, pois jamais imaginara como se sentiria usando um vestido assim. O tecido tinha a tonalidade

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prateada da pedra de cantaria polida e o botão de rosa, o róseo das flores de miri: naquele vestido, ela sentiu o que havia de melhor no Monte Eskel. A costureira dedicou mais tempo a Miri, ajeitando-lhe os cabelos castanhos, prendendo-lhe brotos de renda nas orelhas e sobre a testa. Quando acabou, levantou o espelho, mas Miri continuou olhando para o chão. Queria imaginar-se tão bonita quanto estava se sentindo. A costureira riu, como se tivesse adivinhado os pensamentos de Miri. — Você está lindíssima, moça. Todas estão. Se querem meu conselho, embora nunca ninguém queira, esqueçam o príncipe e vão se divertir. Miri fez o que pôde para ignorar o ronco de nervoso no estômago e o tremor que sentia nas mãos frias, embora parecessem estar paradas. Mas, quando a luz do quarto de dormir se aprofundou, estando o céu mais rico que solo úmido e mais azul que o próprio anil, e a hora para a qual passaram o ano inteiro se preparando finalmente chegara, Miri percebeu que não conseguiria fingir nada além do mais absoluto pânico. Olana entrou usando um vestido marrom-escuro, de tecido fino, tão comprido que arrastava no chão. Estava tão à vontade e bem naquela fineza toda que Miri chegou a imaginar um pouco daquilo de que a tutora deve ter aberto mão para vir ficar no Monte Eskel. — Chegou a hora, meninas — disse Olana. — Façam fila, Miri na frente. Katar abriu caminho até o início da fila para ficar logo em segundo lugar. Miri estava se sentindo tão em destaque quanto um camundongo em cima de uma pedra na hora do almoço do falcão, de modo que começou a respirar ritmadamente e se lembrou do pai e de Marda e da casa com jardim. — Você virá ver Britta mais tarde? — Miri perguntou para Olana. — Ela está dormindo agora, mas pode se sentir melhor quando acordar e pode até querer vir... Veio do salão o som de música. — Virei, sim. Agora vão — disse Olana, dando um empurrão em Miri. Miri saiu à frente, quase pisando na saia, endireitou-se e, com o coração batendo forte, percorreu o corredor, pisando da ponta à planta do pé. Capítulo Dezoito Faça seu coração bater Ao ritmo entusiasmado do tambor Ouça o chamado da montanha Erga os braços, mexa os pés. A primeira coisa que Miri percebeu foi a música, um som tão delicioso que, só de ouvir, lembrou-se de uma vez em que comeu morangos frescos. Diante da lareira, quatro mulheres tocavam instrumentos de corda que emitiam melodias tão harmônicas e animadas que Miri mal pôde acreditar que guardassem alguma relação com os fanhosos alaúdes de três cordas da aldeia. Os sons emanados de cada corda acionada pelos dedos das instrumentistas se interligavam, formando algo unificado e belo que atingia

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Miri e a convidava a se aproximar. A música a capturou. Ela piscou e enxergou um cômodo claro como a manhã. Centenas de velas cintilavam num candelabro e em pedestais, o fogo ardia na lareira comprida, a luz vinda de todas as direções extinguia as sombras. As paredes estavam cobertas por tapeçarias de cores vividas, dando um toque de aconchego e vida ao salão. Sua veemência era suplantada pela exuberância das cores e cortes das roupas dos convidados e a beleza de seus chapéus emplumados. Uma lufada de ar trouxe o cheiro de carne sendo preparada nas cozinhas, de sabonete perfumado e o delicioso aroma das velas de cera. Ao entrar naquele mundo de cores e luzes e música e fragrâncias, Miri teve a sensação de estar caminhando para um abraço. Acontece que todas as pessoas naquele ambiente estavam olhando justamente para ela. Inclusive o príncipe. Miri engoliu em seco. O mandatário-mor estava parado ao lado da porta. — Apresentando Miri Larendaughter, do Monte Eskel, a princesa da academia — ele disse. O príncipe estava logo à frente e se curvou ante a reverência de Miri. Ela se virou para as meninas que vinham atrás e abriu um sorriso largo, com o pânico estampado nos olhos, antes de tomar seu lugar no extremo oposto do salão. No umbral da porta, Katar deu um passo adiante, com o sorriso aberto, exibindo covinhas que Miri nunca tinha visto antes. — Apresentando Katar Jinsdaughter, do Monte Eskel. E assim cada uma das meninas entrou ao ouvir seu nome, fez uma reverência e assumiu seu lugar ao longo da parede. O príncipe se curvou com a pouca inclinação de sempre para todas elas e a expressão rígida, até mesmo, Miri percebeu, quando avistou a belíssima Liana. O mandatário-mor apresentou a última menina e a música mudou para algo mais leve e ritmado. O príncipe hesitou enquanto observava as meninas, mas cruzou o salão inteiro para se aproximar de Miri. — Você me acompanharia nesta dança? — ele disse, curvando-se e esticando a mão. — Não, obrigada. — Miri sorriu. O príncipe franziu o cenho e olhou para trás, onde estava o mandatário-mor, como que pedindo sua assistência. Miri riu encabulada. — Eu, ahn, estava brincando — disse, desejando agora não ter feito a brincadeira que já tinha feito. — É claro que ficarei muito honrada, Alteza! O cenho do príncipe relaxou e ele chegou quase a sorrir. Pegou a mão dela e a conduziu para o salão de dança. Miri ficou torcendo para que sua mão não estivesse úmida demais. Os jovens que acompanhavam a comitiva do príncipe tiraram metade das meninas da academia para dançar. A música retomou o ritmo alegre da abertura, o príncipe se curvou, Miri fez uma reverência e eles começaram a dançar "A borboleta e a glória da manhã", que fora praticada durante todo o verão ao som estridente que Olana conseguia tirar do instrumento. Miri estava tão determinada a acertar os passos da dança que mal se dava conta de seu parceiro. Quando a música cresceu, indicando o fim da primeira parte, ela percebeu que metade da dança havia acabado e ele não

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disse uma palavra sequer. Teve a impressão de que caberia a ela a iniciativa. — Que música linda! Sua Alteza gosta de dançar? — Gosto — ele respondeu, em tom amável, embora algo distraído. — Você tem muitas oportunidades de dançar em sua aldeia? Miri tentou evitar a careta. Na prática da Conversação, era sempre muito chato tentar rebater perguntas diretas feitas sobre sua pessoa. Iluminou-se um pouco quando concebeu a resposta: — Nenhuma tão elegante quanto a de hoje à noite! A dança exigia que Miri liberasse o parceiro e caminhasse atrás da fila de meninas. Elas a questionaram com o olhar e ela deu de ombros, como se dissesse que não sabia o que tinha achado dele. — Pronto — ela disse quando chegou sua vez. — Que passeio! Acabei me perdendo num passeio à beira-mar. — Ele sorriu depressa, como um raio no meio da noite, o que deixou apenas uma impressão. — Como foi seu passeio pela serra, Príncipe Steffan? Ele segurou a mão esquerda dela e a fez girar duas vezes. A saia dela roçou nas pernas dele. Ela imaginou-se dançando assim com Peder, de mãos dadas, sem a fita a separá-las. — Foi demorado, mas adoro passear pelo campo. Como vocês sobrevivem a esse frio todo? Ela colocou a mão esquerda sobre o peito dele. Ele colocou a mão esquerda na parte inferior das costas dela. — Não está tão frio agora quanto estará em um mês. Nunca fui à planície. Sua Majestade prefere as montanhas, a floresta ou o litoral? Ele fez pressão nas costas de Miri, girando o corpo dela para fora enquanto caminhavam. — O litoral é muito bonito no verão. Você já esteve no mar? Eles trocaram de parceiros com o casal à esquerda, giraram e depois retornaram um ao outro. O príncipe segurou as duas mãos dela. — Não, nunca. — Nossa, não imaginava... A música ficou mais animada e então o silêncio imperou. Acabou, e ela não disse nada de importante e não passou a conhecê-lo mais do que conhecia antes. O aparente desinteresse dele não ajudou em nada, ela pensou com amargura. Talvez ele já tenha dançado "A borboleta e a glória da manhã" centenas de vezes e não ponderou que, para ela, aquilo fora algo especial. Ela sentiu vontade de dizer "Que vergonha", conforme Marda dissera ao irmão caçula de Bena depois que ele matou um belo passarinho com a atiradeira. Mas não disse. Afinal, ele era um príncipe. — Foi um prazer — ele disse, curvando-se rígida e rapidamente mais uma vez. — O prazer foi todo meu, Alteza — ela disse, educadamente. Embora não tivesse sido assim. O príncipe a deixou no centro do salão, com a sensação de que havia despencado de uma ribanceira. Apesar dos exercícios durante todo o verão,

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as meninas nunca pensaram no que fazer depois que a dança tivesse acabado. Miri reconheceu a abertura de "Sombras da noite" e apressou-se em liberar o caminho enquanto o príncipe acompanhava Katar para o centro do salão. Pelo menos, ele se mostrou tão distante de Katar quanto estivera dela. Miri pensou em ir ver como Britta estava, mas um dos acompanhantes do príncipe, um homem de cabelo ruivo curto e o rosto sardento, pediu para dançar com ela. Depois disso, não ficou mais parada. Miri observou a hora em que Esa dançou com ele, franzindo o cenho de apreensão, mas ele foi tão estoicamente educado com Esa quanto havia sido com Katar e Miri. Não olhou nem de relance para o braço aleijado, segurou-a pelo cotovelo, e não pela mão, e a conduziu com leveza por todo o salão. O sorriso de Esa era genuíno e, com isso, Miri viu no Príncipe Steffan muito o que admirar. Os outros parceiros que dançaram com Miri eram mais interessantes que o príncipe. Muitos falavam desprendidamente sobre as províncias de Danland, a capital, e de sua profissão como guardas pessoais, mandatários ou cortesãos. Um ou outro deixou passar algumas palavras desagradáveis sobre o Monte Eskel, mas quase todos se mostraram impressionados com a vista e curiosos quanto à vida por lá. Apesar da decepção com o príncipe, Miri não ficou taciturna. Então, Miri dançou, rodopiou, desfilou e fez reverências, falou e sorriu, e até deu risadas. Seu vestido cortava o ar com esplendor sempre que ela girava. As velas eram aromatizadas com o perfume de flores que não eram dali e a fragrância se impregnava em tudo. A música era tão linda que penetrava em seu ser, como quando bebia a neve derretida de estômago vazio. Mesmo sentada ao lado do impávido Príncipe Steffan durante o banquete, Miri não conseguiu relaxar o sorriso. O cardápio foi carne assada com manjar de pão, beterraba em conserva, cabeça de ovelha e de javali, peixe fresco frito à milanesa com abobrinha refogada e pão recém-saído do forno à vontade. Enquanto se refestelava, Miri pensou que se casaria com qualquer um da planície se pudesse comer assim todos os dias. Depois da refeição, os criados espalharam bandejas por todo o salão com a sobremesa, dando a impressão de que ali havia doce o suficiente para satisfazer o mundo inteiro. Os músicos tocaram melodias que sensibilizavam e aliciavam, doces como bolos de mel, os cremes e as frutas salpicadas de açúcar tão macias que derretiam na língua antes que Miri pudesse sentir o sabor. Ao morder um figo frito, ela ergueu o olhar e viu um ministro sussurrando, insistente, ao ouvido do príncipe, enquanto gesticulava em sua direção. Ela engoliu e esfregou o rosto para remover quaisquer farelos que tivessem escapado. O príncipe se aproximou, fazendo uma breve e rígida reverência. E outra. Miri pensou que ele deveria ficar cansado de tanto fazer reverências, sempre do mesmo jeito. — Senhorita Miri, gostaria de dar um passeio comigo? Miri e Steffan saíram pela tranquilidade dos corredores, conversando tanto quanto haviam conversado durante a dança. Os princípios da Conversação

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não funcionaram tão bem com o príncipe quanto com Peder no feriado da primavera. Ele continuou fazendo perguntas sobre a aldeia e, depois de algum tempo, Miri parou de redirecionar as indagações que eram feitas a ela. Ela o conduziu para o frescor da noite de outono, caminhando pelo cascalho nas cercanias do prédio da academia. Pairava no ar uma neblina parca, de modo que Miri começou a descrever a vista, a cordilheira de montanhas que eram tão íntimas que as tinha como tios e tias, extensões de sua própria família. Falou sobre seu pai e Marda, as pessoas que mais estimava, e da pedreira e da vida dura na montanha, mas também de como estava melhorando nestes últimos tempos. — Talvez possamos ganhar mais na próxima temporada do que nas últimas três juntas. Isso nunca tinha nos ocorrido até que deparei com certas informações sobre o comércio nos livros da academia. Agora temos uma oportunidade de verdade para melhorar e alguns aldeões talvez até tenham a chance de se dedicar a outras atividades além da extração na pedreira, como escultura em pedra... ou qualquer outro tipo de coisa. — Isso parece ser bom — disse Steffan. — Sua aldeia deve estar orgulhosa de você. — Acho que sim, Alteza. — Ela o olhou de alto a baixo, magoada pela indiferença em seu tom de voz. Mas por que razão ele iria se importar? Conforme Olana lhes dissera, comparado ao resto do reino, o Monte Eskel era uma picada de inseto no tornozelo do rei. Steffan não conseguia avaliar que diferença haveria com a mudança nos negócios dali e não sabia o que significava para Miri fazer parte daquilo. Ele não a conhecia e, ela agora reconhecia, tampouco fazia questão. Ela parou de andar. — Por que está aqui? Steffan ajeitou o casaco. — Por que está falando comigo desse jeito? — Porque quero saber a resposta. — Ela colocou as mãos na cintura. — Sério, por que veio? — Não estou acostumado a que me falem nesse tom. — Ora, Sua Alteza agora está no Monte Eskel. Sinto muito se o ofendo, mas venho me preparando para este dia há um ano e acho que você me deve pelo menos uma explicação acerca de seu comportamento. — Estou aqui, como você sabe, porque os padres proclamaram esta aldeia como o lar de minha futura noiva... — Sim, sim. Mas você realmente quer conhecê-la? Se for isso mesmo, por que está olhando para mim, ou para qualquer outra, sem escutar de verdade? Steffan franziu o cenho. — Peço desculpas se não pareço interessado. — Não parece, mesmo. Mas não precisa pedir desculpas. — Miri se sentou na escadaria do prédio. — Sinceramente, quero saber por que, se está aqui para encontrar sua noiva, você não parece empenhado. Steffan deu de ombros, em seguida soltou um suspiro, e sua postura

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principesca, rígida, se desfez. Pela primeira vez, Miri viu um rapaz de 18 anos que poderia ser confundido com qualquer outra pessoa. Ele se sentou a seu lado, olhando para as próprias botas, e esfregou uma marquinha que havia no couro. — Acho que não era isso que eu estava esperando — ele disse. — E o que estava esperando? — Algo mais direto. — Havia uma centelha de alarme em seus olhos. — Há tantas meninas ali. Como vou fazer para conhecer todas vocês? Esperava que uma me desse a impressão correta. Não haveria explicações nem conversas esquisitas. Nós dois simplesmente saberíamos. — Nossa conversa está esquisita — Miri pestanejou. Steffan se permitiu um sorriso. — Não, está certa. — Está certa porque você está agindo como uma pessoa, e não como uma pilastra de pedra. — Você tem razão de me dar uma bronca, mas é uma situação bastante delicada esta em que me encontro agora. Miri sentiu vontade de revivar os olhos, mas pensou nos princípios da Conversação e tentou enxergar a situação pelo ponto de vista dele. — Imagino que seja incômoda. Você é apenas um, mas precisa conhecer vinte de nós. — Isso, exatamente! — Steffan abriu um sorriso e ela achou seu jeito bem menos chato agora. — Decerto, ao imaginar o inverso, chego a estremecer: somente eu e vinte Príncipes Steffan... ufa! Ele olhou fixamente para ela, sem um vestígio de humor no olhar. — Eu o estou provocando! — Ela deu uma cotovelada de leve nele. — Estava tentando fazê-lo sorrir novamente. Foi tão bom! — Ora, achei que você estivesse falando sério — ele disse. — Porque você sabe que somos vinte irmãos e todos temos o mesmo nome. Agora foi a vez de Miri olhar fixamente para ele. Ele apontou para ela e ergueu as sobrancelhas. — Arrá! Agora o feitiço virou contra o feiticeiro. — Não acreditei que você tivesse mesmo 19 irmãos... Bem, cheguei a considerar, aqui e ali, que fosse mesmo verdade. Ela deu outra cotovelada de leve nele e ele deu uma nela, o que a fez soltar uma risada; em seguida, ele riu também. — Alguém já lhe disse que sua risada dá vontade de rir também? — Doter, minha vizinha, sempre diz: "A risada de Miri é uma melodia que a gente adora assobiar." — Isso mesmo! Eu pagaria uma boa soma em ouro para ter o seu talento de fazer os outros rirem. — Sua autoconfiança dava peso a tudo que ele dizia. Miri engoliu em seco. O elogio de um príncipe tinha o peso de uma montanha. — Sabe de uma coisa? Você não precisa ser a princesa da academia para impressionar ninguém. — Eu impressiono porque sou baixinha demais — ela disse, escondendo que

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estava se sentindo lisonjeada. — Não. É porque você se mostra tão alegre e se sente muito à vontade. É fácil dizer que gostei de dançar e conversar com você hoje, mais do que com qualquer outra pessoa. Miri abriu a boca para dizer algo que a depreciasse, mas seu coração batia forte e ela teve receio de que sua voz titubeasse, e então se lembrou de uma das regras da Conversação: Seja indulgente com os elogios. — Obrigada — ela disse. — Estou falando sério — ele disse. — Sério, mesmo. Os dois ficaram ali sentados, em silêncio, e Miri teve tempo para pensar na razão para que a voz dele soasse tristonha, quase pesarosa. Mas a noite estava fresca e escura, e ele estava ali tranquilo, sentado a seu lado, e ela deixou que as palavras dele ressoassem em sua mente, várias vezes. Ele tinha gostado mais de estar com ela. Era a favorita. E ela, Miri do Monte Eskel, estava sentada ao lado do príncipe herdeiro de Danland, absolutamente à vontade. Que noite maravilhosa! Capítulo Dezenove Ela colocou uma cunha embaixo do meu coração E deu um golpe com a marreta Não cantou nada para orientar seu trabalho Perdi meu coração sem um ruído sequer. Na manhã seguinte, Miri mal falou. Ficou sentada à janela, escutando os altos e baixos das conversas que enchiam o quarto de dormir como o vento enche uma chaminé. Outras meninas haviam tido conversas particulares com o príncipe depois de Miri e trocavam detalhes, falando de quão educado ele era, e quão bonito. Outras reclamavam de sua distância e despojamento. — Ele foi gentil — disse Esa —, mas ainda não sei se gostaria de me casar com ele. Espero que tenhamos outras chances de conversar nos próximos dias. — Não preciso conhecer mais do que já conheci — disse Bena, bocejando sem se dar ao trabalho de cobrir a boca. O príncipe a convidou para uma dança apenas e não tornou a falar com ela. — Eu achava que os príncipes deveriam ser mais interessantes que os outros rapazes, mas ele é tão sem graça quanto mingau aguado. — Pois eu o achei interessante — disse Liana. Bena se inflamou ao ouvir isso e Miri pensou se a amizade sobreviveria ao primeiro desentendimento. Knut serviu o café da manhã delas no quarto. Britta já estava melhor e conseguiu se sentar para comer. — Eu queria que você me contasse o que achou do príncipe — disse a Miri. — Gostei — disse Miri. — No começo, fiquei impressionada, mas depois eu o achei chato e até um pouco grosseiro. Mas ele estava só nervoso. Gostei bastante dele. Britta se inclinou para perto dela e sussurrou de forma que as outras

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meninas não a ouvissem: — Ele pediu para você...? Miri balançou a cabeça e sussurrou de volta: — Mas disse que gostou mais de mim do que de qualquer outra das meninas com quem dançou. — Ela fechou os olhos com força para se esconder do pensamento que a acometeu antes que seu rosto corasse. — Mas é claro que gostou! — disse Britta. — Se ele gostou mais de mim — Miri sussurrou —, você acha que isso significa...? Olana entrou nesse instante, deixando a porta do quarto bater ao passar e Miri ficou pensando no que teriam feito para deixá-la aborrecida assim logo de manhã. — O mandatário-mor quer falar com vocês — disse Olana. — Fiquem de pé, direito, e não se importem com as camas. Se não as arrumaram ainda, não há mais tempo. Erga a cabeça, Gerti. Assim tão alto, não, Katar. Fica parecendo um soldado. Ela abriu a porta para dar passagem ao mandatário-mor. Ele deu uma espiada geral no quarto sem enxergar as meninas, embora Miri tenha achado que seus olhos tenham pousado nela um instante. Ela recurvou os dedos dentro das botas. — O Príncipe Steffan me pediu para vir cumprimentá-las agora de manhã e falar do prazer que teve em sua companhia ontem à noite. Só teceu elogios a esta academia e à qualidade das moças do Monte Eskel. Algumas das meninas soltaram risinhos. Miri congelou, já prevendo o que ele diria em seguida. — Entretanto — disse o mandatário-mor, e com essa palavra Miri sentiu sua autoconfiança se abalar como a sensação que tinha quando se levantava rápido demais. — Entretanto, o príncipe está sentido por ter de voltar a Asland ainda hoje. Virá novamente em breve para fazer sua escolha. No silêncio do choque, Miri conseguiu ouvir um cavalo relinchar a distância. — Mas pode nevar na semana que vem, talvez na próxima — disse Katar, pouco mais alto que um sussurro. — Assim, não vai dar para passar pelo desfiladeiro de novo antes da primavera. — O príncipe retornará na primavera — disse o mandatário-mor. Ele ajeitou a gola, que parecia incomodá-lo em torno do pescoço, fez uma mesura e partiu. Somente umas poucas meninas conseguiram se recompor rápido o suficiente para fazer uma reverência de volta. Miri não estava entre elas. Tão logo a porta se fechou, ouviram-se conversas aflitas por todo o quarto. O burburinho fez Miri recordar uma das músicas tocadas na noite anterior. Era uma canção triste e os instrumentos rangeram em tom de decepção. — Você está bem? — Britta perguntou. Miri assentiu, mas teve uma sensação de leveza e atordoamento. Durante um breve instante, chegou a acreditar que fosse sair da montanha, tornarse uma nova pessoa, ver e fazer coisas grandiosas. Agora, seus mal realizados sonhos de se tornar princesa se esvaziaram como um jarro

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emborcado e ela ficou com a impressão de estar sentada na lama. — Achei que ele fosse ficar mais tempo — disse Britta. — Tinha certeza de que faria a escolha antes de ir embora. Miri concordou novamente, humilhada demais para falar ou sequer olhar Britta nos olhos. Recostou-se na janela do quarto e ficou vendo os homens e mulheres que haviam acompanhado o príncipe desmontarem as tendas, selarem os cavalos, ensacarem seus apetrechos e partirem pela sinuosa estrada que dava na academia. A carruagem do príncipe vinha perto da retaguarda, com a cortina fechada. Seus olhos não desgrudaram de um pendão dourado que ficava batendo na cortina. Dessa vez, não acenou. Um grito de Olana trouxe o silêncio de volta ao quarto. — Pelo jeito, vocês não conseguiram se refinar o bastante ao longo do ano. — Ele disse isso? — Frid perguntou. — Foi por isso que voltou para casa sem escolher ninguém? — Que outro significado teria esse gesto? — Olana perguntou. Seu rosto estava todo vermelho e Miri supôs que ela estivesse mortificada por suas alunas não terem chegado à altura do desejado e frustrada por não poder voltar para casa. — O mandatário-mor deixou mantimentos e combustível para o inverno e me instruiu a dar continuidade a esta academia até a volta do príncipe. Vocês terão de estudar mais e melhorar até a primavera. Ouviu-se um resmungo generalizado. Miri sentiu-se murchar como uma cenoura no inverno só de pensar em ficar trancafiada na academia novamente durante os meses de frio. A noite fora tão boa! O que teria mudado? Pensou em correr para casa, ou atrás do príncipe e exigir uma resposta, mas acabou escapulindo para fora do prédio, sozinha. Alguns minutos depois, estava gravando letras numa pedra grande quando alguém chegou correndo da estrada que dava na aldeia. Ele diminuiu a velocidade ao se aproximar e Miri se viu estarrecida pela segunda vez naquele dia ao ver que era Peder. Estava acostumada à ideia de ter Peder aninhado constantemente em tudo que fazia, mas agora se dava conta de que todos os pensamentos a respeito dele se esvaneceram após a conversa com Steffan. Ele olhou à sua volta, esperando encontrar mais atividade. — Achei que o príncipe já tivesse chegado. — E chegou. — Miri jogou uma lasca de pedra o mais longe que pôde. Atingiu outra pedra, que se esfarelou toda com o choque. — Chegou e foi embora. — Oh! — Peder olhou para os próprios pés, depois para Miri, e tornou a olhar para os próprios pés. — Ele escolheu você? — Não escolheu ninguém — Miri falou com mais aspereza do que pretendia. — Parece que você ficou chateada com isso. — Ora, essa! Ele não deveria nos forçar a morar neste prédio inóspito, praticando reverências e posturas idiotas, fazendo-nos acreditar que poderíamos virar princesas e depois chegar aqui para ir embora logo em seguida, como se não fôssemos dignas dele. Como se estivesse

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decepcionado. — Então foi isso? — Peder falou, com a voz mais alta. — Queria que ele escolhesse você? Miri se inflamou diante daquilo. — Por que você está gritando comigo? Agora vamos ter de ficar aqui mais um inverno e tentar melhorar, mas eu vou fracassar mais uma vez. Não posso trabalhar na pedreira, não posso ser princesa, para que vou servir? — Ora, se é isso que você quer, espero que consiga — Peder falou. — Espero que ele volte e a leve para ser princesa e a mantenha tão longe do Monte Eskel quanto você quer estar. Peder se pôs a caminhar de volta para a aldeia, mas, depois de poucos passos, começou a correr, a princípio devagar e logo mais rápido. Miri ficou só olhando, querendo gritar alguma coisa bem antipática, mas a raiva passou tão depressa que ela chegou a sentir calafrios. Por que teria vindo, ora? Para me ver?, pensou. Espere, quis gritar, mas hesitou. A distância engoliu os últimos sinais dele. Miri se virou e chutou uma pedra com tanta força que chegou a soltar um grito de dor. Nesse instante, como que em resposta ao grito, ela ouviu alguém chorar. O primeiro pensamento que veio à mente dela foi que Olana teria rompido os termos do acordo e usado novamente a palmatória; mas, não, havia algo de errado com aquele choro. Era um choro estranho, triste, como o de um animal morrendo. Embora não estivesse nem um pouco interessada em participar da tristeza que grassava dentro da academia, ficou curiosa e, então, acabou se dirigindo sorrateiramente para a janela do prédio. A meio caminho, ouviu novo choro esticado que foi interrompido com um estardalhaço, como se alguém tivesse jogado um prato contra a parede. Ela parou, com a pele toda arrepiada, embora não conseguisse imaginar o que deveria temer. Um jorro de linguagem da pedreira arrancou todos os demais pensamentos de sua cabeça. Foi a manifestação mais forte que Miri já tinha ouvido, e a sensação que transmitiu foi a de Esa. A recordação foi a de uma ocasião em que ela, Esa e outras crianças estavam brincando de Coelho e Lobo no centro da aldeia. Miri era o coelho e corria o mais rápido que podia em torno do círculo. Não conseguia ver o rosto do lobo. Apavorada, Miri achou que estava compreendendo. Esa estava dizendo para ela correr. Capítulo Vinte Ora, o bandido mandou Que seu capanga subisse E, quando chegasse, Que não deixasse na montanha Sequer um homem vivo. Miri não esperou mais nada. Se Esa estava dizendo para correr, ela deveria

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correr. Peder não estaria a mais que uns poucos minutos de distância e talvez ela o alcançasse. A trilha de cascalho pela qual correra a vida inteira agora parecia, subitamente, tão traiçoeira quanto uma trilha lamacenta, e Miri desejou ser capaz de voar como o falcão, embora não soubesse do que estava correndo. Passou a curva, esperando avistar Peder logo adiante, mas a estrada se estendia sem que sua vista o alcançasse. Depois de deixá-la para trás, ele deve ter continuado a correr. Então, ela escutou alguém em seu encalço. A princípio, supôs que estivesse ouvindo os próprios ecos, mas não: o ritmo das passadas era diferente, mais rápido. Olhou para trás e avistou um homem que não conhecia. Ele se aproximava. Ela teria gritado por Peder, se conseguisse, mas o medo travou sua garganta e o esforço de fugir tomou todo seu fôlego. Ela tentou se concentrar em fazer os pés saltarem por cima das pedras e as pernas impulsionarem seu corpo mais ligeiro, embora o medo começasse a abalar suas esperanças. Percebeu que havia sido pega antes mesmo que as mãos a agarrassem. Esperneou e gritou, tentando cravar os dentes nelas, mas ela era tão pequena e seu agressor tão forte! Ele a carregou de volta para a academia, contorcendo-se sob seus braços, e a jogou no chão do quarto de dormir. — Encontrei esta aqui lá fora — disse o agressor, resfolegando. — Essa roedorazinha me fez dar uma corrida e tanto! As meninas estavam sentadas no chão. Knut estava recostado à parede, segurando o braço como se estivesse quebrado acima do punho. O cômodo estava apinhado, com 15 homens vestidos com peles de ovelha e cabra, botas de couro amarradas por barbantes compridos até a coxa e boinas felpudas. Alguns ostentavam aros de ouro nas orelhas, outros portavam porretes e bastões. Todos usavam barbas desgrenhadas e seus rostos eram mais sujos que chão de terra. — Bandoleiros — Miri falou em voz alta, tentando acreditar em si mesma. Depois de tantos anos, os bandoleiros voltavam ao Monte Eskel. Olana estava agachada a um canto, com as mãos trêmulas à volta do próprio pescoço. Esse detalhe fez o coração de Miri bater mais forte, como se fosse saltar de dentro do peito. Se Olana estava com medo, a situação era realmente ruim. O bandoleiro mais próximo de Olana agarrou-a pela garganta e a arremessou contra a parede. — Você disse que elas estavam todas aqui antes. — Sua voz saiu baixa e tosca, como se ele viesse lutando contra uma tosse inclemente meses a fio. — Conte de novo, desta vez como se sua vida dependesse disso, porque, de fato, depende. Está faltando alguém? Olana vasculhou o cômodo com ar assustado, mal piscando os olhos. Balançou a cabeça negativamente. O homem sorriu, exibindo dentes sujos. — Agora acredito — ele disse. — Sorte a sua! Ele a soltou e virou-se de frente para as meninas. Era maior que quase todos os demais, embora Miri tenha notado que nenhum deles parecesse

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ser maior que seu pai, Oz, ou qualquer outro homem adulto do Monte Eskel. Não é de admirar que tenham evitado atacar diretamente a aldeia. — Olá, crianças — disse ele. — Quem quiser falar comigo pode me chamar de Dan. — A mãe dele deu o nome em homenagem ao primeiro rei — disse outro, que tinha uma cicatriz grossa, em ziguezague, de um lado da boca até a orelha. — Esperava que ele se tornasse um nobre quando crescesse. — Alguns dos homens riram. — Acho que é um nome que me cai bem — disse o primeiro, de maneira simpática. — Melhor que o Cara-de-Cão aí. Os homens riram ainda mais alto e o da cicatriz chamado Cara-de-Cão cuspiu no chão. — Parece que precisamos ter uma conversinha. — Dan se sentou sobre os calcanhares, apoiou os antebraços nas coxas e olhou para as meninas com um sorriso que provocou náuseas em Miri. A voz antes rude soou melada, como se ele estivesse contando historinhas de ninar. — Pegamos um mercador viajante algumas semanas atrás e pedimos, por gentileza, algo mais valioso que a própria vida dele. As informações que revelou sobre a visita do príncipe ao Monte Eskel quase valeram sua liberdade. — Dan sorriu para Cara-de-Cão e balançou a cabeça como se compartilhassem uma piada particular. — Já vínhamos observando este prédio há alguns dias, mas o príncipe tinha tantos soldados guardando sua preciosa pele que nem tivemos a chance para dar o bote nele. Não importa. Quando vi que ele partiu sem a companhia de nenhuma dessas mocinhas, falei para meu tenente aqui: "Que sorte a nossa! Esse príncipe foi um perfeito cavalheiro ao deixar para trás essa belezura para saquearmos." E isso me traz ao assunto de nossa conversa. Digam-me: qual dessas gracinhas é a futura noiva? O olhar dele percorreu todo o cômodo, lembrando Miri da ocasião em que ela vira um lobo espiando seus coelhos. — Falem. — Sua expressão explodiu em raiva e, com a mesma rapidez, retomou a postura fingidamente amigável. — Podemos ter um aspecto grotesco, mas não somos ignorantes. Sabemos que o príncipe esteve aqui para escolher a noiva; porém, uma vez feita a escolha e selado o noivado, nada poderá ser desfeito. Uma futura princesa há de valer um resgate polpudo. — O príncipe foi embora sem escolher ninguém — Katar falou, assumindo a dianteira. — Mas disse que voltaria. Dan atravessou o quarto na direção de Katar. — Que história bonitinha! — Ele a agarrou pelos cabelos e forçou-a contra o chão. — Agora diga quem é. — Ah, ah, não sei, quero dizer, ninguém — Katar falou, já com lágrimas nos olhos. — Ele não escolheu ninguém. Dan a largou. Miri se deu conta de que era responsabilidade dos adultos cuidar para que os demais estivessem bem. Mas Olana só ficou ali parada, olhando para o chão, com os lábios travados de medo, e Knut segurando o braço, de olhos fechados.

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— Não faz sentido proteger a princesa — Dan falou. — Vou acabar arrancando isso de vocês. — Seu tom de voz abrandou como se ele estivesse falando com um bebê. — Só quero uma garotinha, e então todas as outras poderão ir para casa ficar com suas famílias. Não é pedir muito, é? Pareceu que seria um esforço inútil tornar a afirmar que o príncipe não havia escolhido ninguém, de modo que ninguém respondeu. Sem aviso algum, Dan agarrou Gerti e a levantou. Aquele a quem chamavam de Cara-de-Cão amarrou-lhe os punhos com uma corda, jogou a ponta por cima de uma das vigas do telhado e içou-a. Ela soltou um grito, como o de um cabrito machucado. Miri se levantou. — Por que vocês a estão machucando? Ela não fez nada. Miri nem viu quando Dan a acertou, só sentiu que estava voando. Quando a vista tornou a se equilibrar, ela se viu no chão, encostada na parede. Sentiu dor em ambos os lados da cabeça. Percebeu que Britta segurava sua mão, mas o contato quase não lhe trazia conforto. A dor apertou e ela sentiu vontade de vomitar, mas ficou sentada, firme, olhando para as lajotas do piso e respirando. — Eu não estou brincando — Dan estava dizendo. — E, como vocês podem ver, não sou homem de muita paciência. Quero saber quem será a princesa e quero saber antes de contar até vinte; caso contrário, cada uma de vocês terá a oportunidade de levar um sopapo meu. Cara-de-Cão deu mais um puxão na corda, içando Gerti ainda mais alto. Ela choramingou. Miri ergueu a cabeça para olhar para ela, mas rapidamente voltou a olhar para baixo quando Dan se voltou em sua direção. Sentiu vontade de dar um fim àquilo, mas sua cabeça latejava e a dor parecia se irradiar por todo o corpo. Seus dentes começaram a bater e suas pernas afrouxaram, qual colchões de palha vazios. Ela jamais havia passado por uma sensação assim. Medo de verdade. Ficou impotente sob aquele peso. Miri teve uma vaga noção da voz de Dan contando, "12, 13", uma voz áspera, e o som daqueles números pulsando em meio à dor na cabeça. Sabia que algo de ruim aconteceria quando ele parasse de contar, mas não se sentiu capaz de fazer alguma coisa para evitar o que quer que fosse. Então Frid começou a se levantar devagar, cruzando os braços, com os pés afastados, como se estivesse desafiando qualquer um a derrubá-la. Miri teve a impressão de que ela iria desafiar Dan para uma briga ou ameaçá-lo ou mesmo xingá-lo, mas o que ela fez foi olhar bem dentro dos olhos dele e dizer o que Miri menos esperava. — Sou eu. Dan parou de contar. — Ele escolheu você? Frid confirmou. — Ele me levou para um canto depois da dança. Pediu que não contasse para ninguém, de modo que não falei nada antes, mas é verdade. Eu serei a princesa. O lábio inferior de Frid tremeu e seu olhar parecia ousado demais. Miri ficou achando que teria sido a primeira vez que ela mentia na vida. — Ora, essa! Não foi tão difícil assim. — Ele a examinou com o olhar e fez cara de quem tinha chupado uma fruta azeda. — Não há o que se possa

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dizer do gosto, não é mesmo? Alguns dos homens riram. Frid deu uma piscada pouco mais demorada que o normal, única indicação que Miri pôde perceber de que o comentário a magoara. Miri não soube dizer o que aconteceria se Frid não tivesse se pronunciado; talvez Dan espancasse todas elas, talvez matasse Gerti como exemplo. Ele acreditava que o príncipe havia escolhido uma noiva e não desistiria de procurar enquanto não a encontrasse. Obviamente, Frid estava supondo que Dan a levaria e deixaria as outras meninas em liberdade, que seria melhor se sacrificar do que colocar todas em risco. Talvez fosse assim, mas Miri se viu recordando do que lera num dos livros de Olana. Décadas antes, bandoleiros haviam atacado uma comitiva no rei no meio da floresta. Sequestraram o rei e deixaram seus homens e cavalos amarrados às árvores. Antes que outros viajantes dessem com eles, metade dos membros da comitiva já havia morrido de sede. Miri ficou pensando se Dan iria realmente soltar as meninas e correr o risco de as famílias saírem em seu encalço ou se as deixaria amarradas na academia para que morressem de frio ou de sede, ou até se adiantaria a tarefa da morte. Talvez as soltasse; talvez uma aldeia a três horas de distância não fosse uma ameaça. Mesmo que sim, Miri estremeceu só de pensar nas coisas que aconteceriam com Frid caso ela fosse só. E se elas conseguissem deixá-lo na incerteza, se ele não ficasse sabendo ao certo quem seria a princesa? De olhos grudados em Frid para conseguir a coragem de que precisava, Miri se colocou de pé. A dor na cabeça a fez cambalear e ela se encostou na parede para não cair. — Você deve estar mentindo — Miri falou. — O príncipe me contou no baile que iria se casar comigo. Disse que anunciaria isso na primavera. Frid cerrou os dentes. — Não, ele me disse que eu seria a princesa. Miri conseguiu perceber que Frid estava querendo ser a mártir, mas não a deixaria atingir seu objetivo. — Isso é impossível, porque ele me disse a mesma coisa. Dan soltou um rosnado. — Estou com vontade de dar umas boas chicotadas naquela que estiver mentindo. Então, qual das duas? Frid e Miri apontaram uma para a outra. — É ela — ambas disseram ao mesmo tempo. Miri tentou captar o olhar das outras meninas, levando-as a agir por conta disso. Britta estava de olhos grudados em Miri, com a boca entreaberta, e logo a compreensão se apossou de seus traços. Ela se levantou. — Não acredito em nenhuma das duas — disse com a voz bem fraquinha. — Como você ousa dizer uma coisa dessas? — Katar perguntou. Estava lutando contra um sorriso, como se estivesse na verdade se divertindo com aquilo. — Não acho que um príncipe seria capaz de mentir e ele me disse que tinha me escolhido. Com isso, muitas vozes se manifestaram e as meninas foram se levantando,

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cada qual gritando que era a princesa. Algumas chegaram a dar empurrões umas nas outras, fingindo raiva. Até Gerti esperneou no ar e gritou: — Eu quero descer. O príncipe vai ficar furioso quando ficar sabendo como vocês trataram sua futura noiva. Cara-de-Cão soltou a corda de Gerti e ela se espatifou no chão. Dan olhou à sua volta, com a expressão confusa. — Chega! — ele gritou. As meninas fizeram silêncio, à exceção de um tardio "Eu, eu" que Esa ainda soltou, corando em seguida. Dan coçou a barba. — Elas estão mentindo, ou aquele príncipe ficou se divertindo de fazer gracinha com as meninas para depois decepcioná-las. Menos uma. Mas qual delas? Alguém quer tentar adivinhar? Os homens apontaram para uma ou outra aqui e ali, especulando meio a contragosto. — Já que não sabemos, vamos ter de levar todas elas, não é verdade? Vamos descansar aqui hoje à noite e amanhã de manhã partiremos. — Dan se recolheu a um canto do quarto e ficou confabulando com seu tenente, um homem peludo, baixinho, chamado Onor. Miri não conseguiu escutar o que diziam, mas o som da conversa a encheu de pavor. Sentiu vontade de encontrar uma razão para rir. — Uma surra de palmatória e um quartinho escuro de repente não parecem tão ruins assim — sussurrou. Esa soltou uma risadinha sem alegria alguma. Um dos bandoleiros mandou que as duas se calassem. Em silêncio, as meninas ficaram vendo a tarde se esvair. A lareira acesa gerava um pouco de calor e enchia o ambiente de sombras bruxuleantes. Britta recostou a cabeça no colo de Miri. Frid e Esa enrolaram o braço quebrado de Knut a seu corpo para mantê-lo firme. Ele caiu no sono, com o rosto tenso e enrugado, como se só a muito custo estivesse conseguindo dormir com aquela dor. A cabeça de Miri não parou de latejar e ela não se sentiu capaz de descansar. Mas, quando se deitou e fechou os olhos, percebeu que não queria nada além de esquecer onde estava, e seu corpo se entregou. Capítulo Vinte e Um A montanha deu de ombros E bocejou Sua voz, um chiado Que penetrava em todos os sonhos Sim, que penetrava em cada sonho. Naquela noite, o inverno chegou mais cedo. A neve retardou o amanhecer e a luz cinzenta finalmente dissipou a escuridão algumas horas depois do nascer do sol. Da janela, via-se um mundo perdido numa borrasca de flocos como as cinzas esvoaçantes de uma fogueira. Foi o suficiente para fazer Dan mudar de ideia: ficariam na academia até o fim da nevasca. Os bandoleiros deixaram que as meninas mantivessem a lareira acesa, mas

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o frio penetrava pela pedra e elas se juntaram no meio do quarto para se proteger do frio e do medo. Dan havia trancafiado Olana e Knut num cômodo separado para que "os mais velhos não incitassem as mais novas". Quando os bandoleiros não estavam prestando muita atenção, as meninas se arriscaram a travar algumas conversas sussurradas. — Estou arrependida de termos dispensado os soldados — disse Esa. Frid inclinou a cabeça, ponderando: — Não, dois soldados não teriam impedido esse bando e teriam morrido tentando nos proteger, pelo visto. — Esa, seu irmão esteve aqui ontem. — Miri congelou ao ouvir um barulho, mas foi apenas o vento uivando quando passava pela chaminé. Ela continuou falando com a voz ainda mais baixa. — Falei do príncipe e da estada na academia até sua volta na primavera. — Isso quer dizer que ninguém da aldeia virá até aqui nos próximos momentos — Britta sussurrou. — Meu pai virá — disse Gerti. — Não deixará que Olana me segure aqui durante mais um inverno. — Com essa neve, ele não virá mesmo — disse Katar. Esa concordou. — Seu pai não sabe que estamos correndo perigo, Gerti. Mesmo que esteja pensando em vir, há de esperar até a neve passar. É o que todos farão. Mas, quando chegarem à academia, os bandoleiros já nos terão... Dan cruzou o quarto num passo só e ergueu Esa pelo pescoço com apenas uma das mãos. Falou tão perto do rosto dela que os perdigotos a atingiram e ela se encolheu toda. — Se falar mais uma vez, vou cuidar para que não fale nunca mais. Em seguida, ele deu um sorriso doentio e falso, colocando-a novamente no chão, como se fosse um bebê recém-nascido. Miri se sentou sobre as próprias mãos e ficou olhando fixamente para baixo. Depois de mais um dia de neve, os bandoleiros descobriram a dispensa de víveres para o inverno na academia. Um depois do outro saía do quarto e voltava carregado com pratos de comida: carne de porco assada, salsicha de fígado, salada de rabanete, batatas, cenouras, maçãs, ensopado com cebola. O cheiro incessante de comida no fogo dava agonia no estômago vazio de Miri. Os bandoleiros estavam dando às meninas apenas um aguado mingau de trigo. Sempre que os homens espiavam pela janela e a neve continuava caindo, Miri percebia tensão em seus semblantes; afora isso, pareciam satisfeitos de passar o inverno na academia, comendo o dia inteiro e brincando sem parar com um joguinho de cubos e pedras. Falavam com a voz abafada, olhando atentamente para as meninas. Dois deles cochicharam algo entre si num tom baixo demais para que Miri pudesse escutar, mas, aparentemente, Dan conseguiu. — Falem alto para eu ouvir — gritou, jogando o homem contra a parede. — Se estão preocupados com alguma coisa, falem na minha cara, não fiquem cochichando como meninos. O bandoleiro baixou a cabeça em deferência. — Calma aí, Dan. Estava só pensando que estamos entocados aqui, como se

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estivéssemos à espera dos papaizinhos delas virem salvá-las. Dan deixou que sua expressão endurecesse bastante antes de falar. — Ninguém vai caminhar quilômetros a fio nessa nevasca toda; tampouco eu vou sair daqui. Ficamos até que o tempo mude, depois levamos as meninas para o acampamento principal. — São muitas reféns para dar de comer — disse o bandoleiro. — Mas vai valer a pena depois que o rei pagar um resgate pela noiva do filho dele. Além do mais, não vamos ficar com elas por muito tempo. Dan se virou e surpreendeu Miri olhando para ele. Ela se encolheu. — Depois, deixamos as princesinhas irem para casa — disse ele com a voz áspera e baixa, esforçando-se para soar doce. Miri tentou engolir em seco, mas sua boca estava seca demais. Sem se dar a perceber, ficou de olho em Dan. Foi se sentar no estrado mais perto dos bandoleiros, observando-o com os olhos semicerrados. Ele costumava passear pelo quarto e esbravejar com seus homens. Quando ficava parado, virava-se para a janela, e a luz prateada de um dia com neve não chegava às pregas das cicatrizes em seu rosto. Seus olhos se movimentavam como se tentassem acompanhar a queda dos flocos. Embora sentado, seu corpo inteiro estava rígido, uma corda esticada como uma barra de ferro. Miri sentiu o próprio corpo se tensionar só de observálo, receosa do que ele pudesse fazer quando se soltasse. No final da tarde do terceiro dia, Miri observou Dan coçando a barba e esfregando o pescoço, levantando-se em seguida para dar seus passos de um lado para o outro do quarto. Ela se retraiu um pouco em cima da cama. Ele soltou um impropério e deu um safanão numa cadeira largada no meio do caminho, que se espatifou contra a parede. Isso não foi o suficiente para aliviar sua aflição, de modo que ele soltou mais um palavrão e tentou pegar a menina que estava mais perto, a morena Liana. Antes que suas mãos agarrassem o pescoço dela, Onor se colocou entre os dois. — Agora não — Onor falou em tom quase baixo demais para que Miri pudesse ouvir. Deu um empurrão no peito de Dan, tentando acalmá-lo. — Não mate ninguém agora. Mais adiante, vai haver tempo suficiente. Dan deu uma cusparada de frustração para o lado. Olhou com aspecto inflamado para Liana, que saiu rapidamente do alcance dele e foi se aninhar perto da parede. — Preciso sair deste quarto — ele disse para Onor, embora ainda com os olhos inflamados postos em Liana. — Fique de olho nelas. Dan saiu batendo a porta e Onor se acalmou num canto, de olho nas meninas. Mais adiante, vai haver tempo suficiente. Miri completou o resto da declaração de Onor: para matar. Doter costumava dizer que a verdade é quando entranhas e mente concordam e o peso que Miri sentia nas entranhas confirmava aquilo em que ela estava começando a acreditar: se os bandoleiros as levassem montanha abaixo, nenhuma delas voltaria. Precisavam fugir, logo. Miri esperou a noite cair, quando apenas três homens ficavam de guarda. Dois jogavam um jogo tranquilo, atirando pedrinhas marcadas contra a parede. Um deles se agachou, com os olhos cobertos pelo gorro e a

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respiração fazendo o rangido de uma porta que se abre devagar. Ela não aguentava mais a tensão e não tinha coragem de esperar até que Dan perdesse a paciência outra vez e acabasse matando alguém. Era preciso correr o risco. Ela entoou uma cantiga da pedreira, deitada de lado em sua cama com a cabeça apoiada na mão. Com a outra mão, fez pressão sobre a lajota do piso. Um dos bandoleiros a olhou de relance e logo voltou para o jogo. Para ele, ela só estava cantarolando enquanto descansava. Por dentro, Miri entoava uma cantiga em linguagem da pedreira. Coelho, corre! Seu corpo estava tenso; o sangue, gélido. Esperou até que todas as meninas olhassem para ela e estivessem prontas. Então, pegou a mão de Britta e se levantou. Quando cruzou o umbral da porta de saída, percebeu que somente metade das meninas a seguira pelo corredor. Era tarde demais para parar agora. Olhou para a frente e concentrou-se na fuga. As lajotas de pedra do piso estavam escorregadias no escuro e ela teve a sensação de patinar no gelo. Ela ofegava e se concentrou em perseguir as lufadas de ar condensado que expelia toda vez que expirava. Ouviu o grito apavorado de duas ou três meninas que haviam sido capturadas pelos bandoleiros ao passarem pela porta. — Elas estão fugindo — um deles gritou. Mais rápido, ela quis dizer, mas estava aterrorizada demais para falar. Porta da frente, escadaria e liberdade. A brisa fria bateu, incômoda, em seu rosto, e a superfície acidentada do cascalho recoberto pela neve trouxe a ela a impressão de estar correndo em cima de facas. Só conseguira dar alguns passos lá fora quando sua cabeça foi jogada para trás, o corpo todo arremeteu para a frente e ela se estatelou de costas no chão. Cara-de-Cão tinha conseguido agarrá-la pela trança. Começou a arrastá-la pelos cabelos de volta para o prédio da academia enquanto ela tentava atropeladamente se manter de pé. Pela outra mão, ele trazia Esa, segurando-a pelo braço aleijado. Quando Cara-de-Cão jogou Miri e Esa no chão, ela, temerosa, contou as cabeças: vinte. Nenhuma das meninas conseguira escapar. Se ao menos todas tivessem corrido de uma vez só! Estavam todos os bandoleiros no quarto de dormir, inclusive Dan. — Quem é a liderzinha de vocês? — disse ele, com a voz mais rouca que de costume. — Digam logo, quem deu a ordem para correr? — Ela — Bena apontou para Miri. — Ela nos mandou fugir, mas algumas a ignoraram. Ela não é nossa líder. As dez que não tinham corrido se agruparam: eram todas as mais velhas, exceto Katar, algumas das mais novas que se acovardavam diante da ferocidade de Bena, e Helta que, com seus 13 anos, pareceu amedrontada demais para se mexer. Bena sorriu, por um instante. Mas Dan logo lançoulhe um olhar, de alto a baixo, e a força de sua atenção bastou para fazê-la retrair. As que estavam de pé se sentaram e Liana escondeu o rosto com as mãos. Miri se inflamou. Será que Bena achou que, por traí-la, Dan lhe daria um tapinha nas costas e a deixaria ir? Um dos bandoleiros que estava jogando no canto falou:

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— Estávamos prestando atenção, Dan, e não ouvimos nem ela nem nenhuma outra dizer uma palavra sequer. — Tenho certeza de que não ouviram — Dan falou com um olhar ameaçador. O bandoleiro se recolheu. — Cara-de-Cão, Onor, venham cá. Quero um plano para manter essas meninas trancafiadas e sem me encher a paciência até essa neve acabar. Eles se ajuntaram na porta e Dan vociferou com eles, brigando e exigindo uma vigilância melhor. — Eu queria ter fugido para casa — Helta sussurrou e, em seguida, caiu no choro. — Cale a boca — Dan gritou com ela. Miri cerrou os punhos e desejou ser forte como seu pai para derrubar aquele valentão de uma figa. Sabia que bater nele não serviria de nada, mas sentiu muita vontade de atingi-lo de alguma forma, de conseguir uma chance para vê-lo se retrair. Aguardou até que a conversa dele com os bandoleiros abrandasse e falou. — Dan, me desculpe — disse com humildade, embora as batidas de seu coração soassem em seus ouvidos. — Acho que o senhor precisa saber de uma coisa. Dan olhou para Miri e ela tentou não ficar nervosa. — Há um tempão, bandoleiros vieram aqui no Monte Eskel — ela continuou. Ao ouvir essa frase, todas as meninas olharam em sua direção. Essa era a primeira linha da história que era contada em todo feriado de primavera. — E daí? — Dan falou. — Do que você está falando? — Achavam que saquear uma aldeia desse tamanhinho seria fácil demais — Miri disse, esforçando-se para falar mais alto para firmar a voz vacilante. — Achavam que poderiam saquear tudo e ir embora antes do sol nascer para testemunhar seus feitos. Mas eram homens ignorantes, pequenos. Não conheciam os segredos do Monte Eskel. Dan colocou a mão em concha sobre a boca de Miri. — Não perguntei nem estou interessado em... — A montanha sente quando as botas que por aqui pisam são de um forasteiro e não suportará seu peso — Esa falou, apressando-se em contar logo o meio da história. Todos os olhos se voltaram para ela e sua mão direita estremeceu com toda aquela atenção. O coração de Miri se encheu de orgulho. — Cara-de-Cão — disse Dan, esticando o queixo de forma a apontar para Esa. Cara-de-Cão tapou a boca de Esa, mas Frid cruzou os braços e continuou a história. — A montanha não suportará seu peso — Frid repetiu. — Os bandoleiros foram se aproximando e a montanha rugiu no meio da noite. — Dois bandoleiros a seguraram e ela lutou para continuar falando. — Rugiu e os aldeões ouviram e acordaram. Um terceiro bandoleiro enfiou o gorro na boca de Frid para silenciá-la. Ela cerrou e descerrou os punhos como se fosse apenas à base de muita força que deixaria de acertar-lhe um soco. — Essas meninas são esquisitas — disse um bandoleiro com uma cicatriz

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que atravessava um olho. — Só estão tentando irritá-lo — disse Dan. — Não deixe... — Os aldeões acordaram — disse Katar, de queixo erguido e olhos reluzindo — e estavam esperando. Com marretas e talhadeiras e alavancas! Naquela noite, os operários da pedreira pareciam mais altos que as árvores, mais altos que as montanhas, e atacaram como raios. Quando os primeiros bandoleiros caíram, os demais fugiram. E correram qual as lebres correm dos falcões. — Pare com isso — Dan falou. — Vamos amordaçá-las se for preciso. Katar começou a narrar as últimas linhas da história e todas as meninas que tinham corrido com Miri falaram junto com ela. — O Monte Eskel sente quando as botas são de forasteiros. — Elas fizeram uma pausa e em seguida nem mesmo Bena ficou calada durante a última linha. — O Monte Eskel não suportará seu peso. Todos os homens ali presentes ficaram olhando para as meninas, estarrecidos, boquiabertos, de olhos tão arregalados que suas testas se enrugavam. Um dos homens esfregou o braço como se tentasse aquecê-lo. Britta olhou para Miri, com um sorriso secreto tensionando seus lábios. Então, o barulho dos aplausos de Dan aliviou a tensão. — Que linda historinha de ninar! E como toda historinha para dormir, tão verdadeira quanto neve no verão. Agora contem outra e todas vocês vão esperar a nevasca passar penduradas nessas cordas. Acho que amordaçar essa agitadora aqui vai bastar por ora. Miri sentiu que Dan estava colocando um lenço em torno de sua boca e amarrando suas mãos às costas. Depois, agarrou-a pela raiz dos cabelos e puxou sua orelha para falar bem de perto. — Eu conheço a sua laia. — O sussurro gutural provocou arrepios nela, como as garras do rato passeando sobre sua pele. — Você se acha uma bandoleirazinha, hein? Também se acha muito esperta? Não se passa nada nessa sua cabecinha que eu já não saiba. Vou lhe contar a única coisa que anda pela minha: na próxima encrenca que você arrumar, corto sua garganta primeiro e faço perguntas depois. Não há o que me impeça de pegar minha fortuna. Entendeu, princesinha? Miri não se mexeu, então ele puxou a cabeça dela para cima e para baixo, forçando-a a assentir. Ela tentou engolir em seco, mas, só de pensar na garganta cortada, sentiu dor. Dan sorriu como se de fato soubesse o que ela estava pensando. Você não sabe de tudo, Miri pensou com bastante intensidade, pois não podia falar em voz alta. Não sou princesa. Sou uma menina do Monte Eskel e sei de coisas que você jamais poderia imaginar. Era uma defesa frágil, mas a simples ideia a fez sentir-se mais forte. Dan deixou oito bandoleiros montando guarda para as meninas no quarto de dormir e mais três do lado de fora da porta. Miri se deitou de lado, ajeitou as mãos amarradas às costas e manteve-se alerta enquanto o fogo ardia na lareira, mais fraquinho que a lua crescente. Os homens estavam quietos naquela noite e Miri imaginou que estivessem pensando na história. Começara a contá-la para atormentá-los e, se

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houvesse alguma covardia em seus corações, talvez isso os levasse a querer fugir. Mas agora a história estava lhe dando uma ideia maior. Pensasse Dan o que pensasse, havia fatos. Bandoleiros haviam mesmo estado ali e os aldeões haviam mesmo dado neles uma boa surra. Ela supunha que a história tomava certas liberdades, pois a montanha, a bem da verdade, não podia falar com eles. Entretanto, o cerne da história era real: a linguagem da pedreira permitia que os aldeões falassem através da montanha, que enviassem sua música para a pedra de forma que outros pudessem ouvir. Se Miri conseguia enviar respostas de uma prova na encosta de um morro, o que mais seria possível? O desafio silencioso que fizera a Dan a animou. Ela era mesmo uma menina do Monte Eskel. Havia coisas que podia fazer. Miri deslocou a parte superior de seu corpo para fora do estrado e repousou o rosto no frio da pedra. A montanha era cheia de pedra. Decerto, haveria filões e veios e massas de pedra boa acumuladas no subsolo, nas profundezas e também no raso, um trilha completa desde as lajotas até a aldeia. Deveria haver. Seu hálito batia na pedra e voltava, aquecendo-lhe o rosto. Ela ficou escutando sua respiração, atentando para o ritmo, e tentou formar uma canção a partir de seus pensamentos. Era uma distância grande até a aldeia. Ela imaginou a estrada, as muitas curvas, passando por pedreiras mortas há décadas, quilômetros de ribanceiras íngremes. Na encosta durante o exame, as meninas estavam todas a menos de dois braços umas das outras. A desesperança da tentativa a deixou com medo e sua respiração acabou travando. Doter sempre dizia: Pensar que algo é impossível torna a coisa mesmo impossível. Um ano atrás, usar a linguagem da pedreira fora da pedreira parecia impossível. Miri afugentou as dúvidas. Cantou seus pensamentos para a pedra, cantou sobre sua família, com seus estrados de dormir aconchegados uns aos outros nas noites frias. Torceu para que papai ou Marda ouvissem suas recordações de casa e compreendessem que Miri precisava deles. Miri tentou recordações diferentes até que suas pálpebras pesadas lhe disseram que já passava da meia-noite, quando todos na aldeia decerto estariam adormecidos. Algumas garotas da academia que permaneciam acordadas olhavam para ela com estranheza, sinal de que sua linguagem da pedreira as tinha perpassado, embora não conhecessem a recordação específica que ela teria usado, provavelmente tinham seus próprios pensamentos relativos às lareiras. Da distância em que se encontrava, Miri não percebeu resposta alguma. Suas mãos atadas estavam dormentes, o pescoço e os ombros latejavam por causa do chão duro, a barriga se contraía de fome. Quando o desconforto acabou com sua concentração, ela se retorceu para voltar ao estrado e caiu no sono. A luz sombria de mais uma manhã de neve a despertou e ela retomou a empreitada. Passou o dia inteiro e a noite seguinte tentando de todas as maneiras que conseguiu imaginar. Falou em linguagem da pedreira de recordações das quais somente seu pai tinha conhecimento e de dias que

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passara só com Marda. A resposta continuava sendo nenhuma. Britta se sentou ao lado de Miri e acariciou sua testa, afastando a mordaça para dar a ela alguns goles de água quando nenhum bandoleiro estava olhando. Miri não conseguia relaxar; a fina musculatura de sua cabeça estava tensa, presa. — Você está passando mal? — Britta sussurrou. Miri balançou a cabeça; porém, não conseguiu explicar mais nada. Continuava tentando, num misto de esperança com desesperança. Quando a luz da tarde se fez presente no quarto, Miri estava prestes a enlouquecer com todo o esforço e precisou experimentar algo novo. Peder lhe veio à mente e, apesar da pequena desavença recente, sobreveio-lhe uma sensação de calma. Ela fechou os olhos, soltou os pensamentos e cantou para a pedra o feriado da primavera. Estavam sentados no mesmo pedregulho, com as pernas quase encostadas, e a mesma fogueira se refletia em suas pupilas. Depois de mais ou menos uma hora de esforços, a concentração se esvaiu e seus pensamentos foram capturados pela recordação de uma tarde de verão passada alguns anos antes. Ela e Peder estavam sentados na barranca do córrego, com os pés azulados pela água gelada. À volta, as cabras arrancavam a relva do chão e baliam ao sol. Uma borboletinha de asas claras passou voando perto de seu nariz, chegando a quase parar por achar que ela era uma flor. Peder arrancou uma folha em formato de asa, sugou-a com os lábios estreitados e depois soprou-a para longe. A folhinha saiu rodopiando, arrastada pela brisa, dando a impressão de perseguir a borboleta até cair na superfície da água e ser arrastada pela correnteza. Não houve nada de especial naquele dia. Foi apenas um dos muitos de sua infância, uma das milhares de horas passadas ao lado de Peder. Mas só de pensar naquilo, Miri se encheu de carinho. Seu coração bateu mais forte no peito, fazendo-a lembrar-se, agora presa, com frio e medo, da sensação que era estar contente. E a figura de Peder veio atrelada àquela recordação, como se ela captasse um leve aroma dele em suas roupas. Não houve vibração alguma por trás de seus olhos; a lembrança foi vaga e estranha. Não foi como a linguagem da pedreira que Peder usara com ela no feriado da primavera, forte, berrante, onde as imagens se destacavam ao fundo. Contudo, Miri acreditou que sua mente não estava apenas devaneando. Sentiu que era mesmo Peder. Ela se arrastou toda para fora do estrado e esticou o corpo inteiro sobre o piso, num esforço desesperado para continuar a se comunicar. O frio das lajotas penetrou através de suas roupas, mas ela crispou os dentes e o ignorou. Fechando os olhos, cantou uma recordação de feriado de primavera e uma narrativa da história dos bandoleiros. Ficou repetindo as imagens do evento, formando ritmo com os pensamentos, emparelhando-os da mesma forma que faria rimar as estrofes de uma música, entoando-os em silêncio para a pedra. Bandoleiros, perigo. Rezou para que Peder compreendesse. Agora, aqui na academia: bandoleiros; vá contar a nossos pais. Ficou usando a linguagem da pedreira até seus pensamentos se tornarem

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ásperos e rudimentares, e sua mente, rouca, como ficaria a garganta depois de tantas horas gritando. Peder não respondeu. Várias horas de silêncio pesavam sobre ela. O incômodo de ficar deitada no chão aquele tempo todo a levou a sentar-se, esticando os braços amarrados, e a perceber o quanto sua cabeça doía. Lá fora a neve continuava caindo. Esa e Frid olharam para ela, intrigadas, e Miri deu de ombros, derrotada. Teve a sensação de que suas têmporas haviam sido talhadas qual um bloco de cantaria. Um bandoleiro deixou que Britta tirasse a mordaça um instante para dar a ela um pouco de mingau; em seguida, o desalento a deixou sonada e ela se deitou, começando logo a sonhar que estava subindo uma encosta sem pico. Capítulo Vinte e Dois As pegadas eram espinhos Na encosta da montanha E ela soltou um rosnado de pedra E fez os bandoleiros gemerem Sim, eles tremeram e gemeram. Miri acordou tão sobressaltada que se sentou com um pulo. Alguém a teria chamado? Sua respiração estava tão forte para seus próprios ouvidos que ela teve medo de que um bandoleiro viesse investigar. Devagar, dolorida até das pregas do estrado de sua cama, voltou a se deitar. Ninguém havia falado nada em voz alta, logo teve certeza, mas ficou com a impressão de seu nome latejando na cabeça. Prestou atenção: os suaves ruídos de gente dormindo, roncos, corpos se remexendo sobre os colchões de palha, se virando e roçando, grunhidos do sono perturbado. Nenhuma voz. Um tinido no fundo dos olhos a fez acreditar que tivesse sido linguagem da pedreira e ela permaneceu acordada, atenta. Sua mente se fixou na recordação da última vez em que viu Peder, logo após a partida do príncipe. Ficaram parados perto da primeira curva da estrada, de onde ainda se avistava o prédio da academia. No quarto escuro e frio, a lembrança estava tão vivida em sua mente que aqueceu seus membros. Ela conseguiu rever a luz do sol poente iluminando os olhos dele, deixando-os totalmente azuis, sem mesmo o preto das pupilas, e chegou a sentir os próprios punhos cerrados. — Ah... — Não conseguiu conter uma pequena expressão de assombro que lhe veio aos lábios. Dessa vez não havia dúvida de que Peder a estava chamando em linguagem da pedreira. Talvez antes a sensação tenha sido fraca porque ele se encontrava distante. Estava mais forte agora, muito mais clara. Ele estava por perto, ela teve certeza. Mas estaria só? Miri girou o corpo para sair do estrado e encostar no chão de pedra e respondeu comunicando em linguagem da pedreira sua própria recordação da última vez em que se despediram. A resposta de Peder foi imediata: a caçada ao leão da montanha. Miri estava com 7 anos de idade novamente,

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parada na porta de sua casa, observando uma partida de trinta homens e mulheres se preparando para caçar um leão da montanha que vinha atacando os coelhos da aldeia. Levavam consigo marretas, picaretas e alavancas, mostrando disposição e determinação implacáveis. Peder trouxera os aldeões e eles traziam armas. Miri procurou um jeito de perguntar, O que devo fazer? Mas ela sabia a resposta. As meninas precisavam sair do prédio. Se chegassem lá fora, ela sabia que os aldeões estariam esperando para protegê-las. Mas se suas famílias precisassem invadir o prédio, haveria luta, talvez até mortes. Os oito bandoleiros no quarto estavam dormindo, três dos quais bloqueando o acesso à única porta. Miri começou a balançar o corpo até conseguir se levantar e foi, pé ante pé, até a janela. Nevava muito, mas, enquanto ela observava a torrente de flocos que caíam, bateu um vento rápido que abriu espaço no meio da borrasca. Bem ali, pouco antes da curva da estrada, ela avistou uma linha de vultos mais escuros. Para um bandoleiro de vigia, poderiam parecer apenas pequenos rochedos, mas Miri conhecia o contorno de todos os que havia nas redondezas da academia. Os aldeões estavam lá, aguardando. Miri fechou os olhos e cantou, em linguagem da pedreira, a recordação de um falcão de pedra depositado no peitoril da janela numa bela manhã de primavera. Torceu para que Peder compreendesse e passasse a observar a janela. Ela sentiu o sangue correndo nas veias, alertando-a de que estava prestes a fazer algo aterrorizante. Corto sua garganta antes e faço perguntas depois, Dan dissera. E Miri acreditou. Agora que estava pronta para dar mais um passo em direção à fuga, a ameaça dele era tão imediata quanto o ar em seus pulmões. Miri começou a tremer. Encostou o ombro na janela e descobriu que não conseguia se mexer. Os aldeões estavam lá longe, do outro lado da tempestade, e Dan, com sua faca, no quarto ao lado. Quando fez o chamado em linguagem da pedreira, não chegou a imaginar esta parte: a necessidade de tirar as meninas de dentro do prédio sem ajuda alguma e o terrível risco de ser pega outra vez. Não hesite, ela procurou se lembrar. Então vai, Miri. Basta atacar, menina da montanha. Cantou em silêncio para dar coragem aos próprios membros e razões para se mexer. Ela era, afinal, a princesa da academia. Era sua mãe viva novamente. Peder ouvira seu chamado e veio no meio da noite. Papai estaria ali também, com braços fortes o suficiente para destroçar bandoleiros como se fossem pedregulhos de barro. Olana e Knut estavam trancafiados e não havia mais ninguém. A respiração saía de seu peito a muito custo. Miri deu o primeiro passo. Afastou-se silenciosamente da janela e foi até a cama de Britta, agachou-se ao lado dela o suficiente para tocá-la com a mão amarrada. Britta abriu os olhos e, sem fazer barulho algum, olhou para Miri, depois para os bandoleiros adormecidos e fez com a cabeça sinal de que compreendia. Desamarrou as mãos de Miri e tirou a mordaça dela, e as duas percorreram

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todo o quarto sussurrando nos ouvidos das meninas e fazendo gestos para que mantivessem silêncio. Algumas despertaram sobressaltadas e, a cada uma, os estalidos do estrado faziam o coração de Miri disparar. Ela olhava para os homens adormecidos e via que nenhum havia acordado. O crepitar constante do fogo mascarava alguns dos barulhos das meninas se levantando, amarrando botas e sussurrando perguntas ansiosamente. Miri se agachou diante da lareira para que todas pudessem enxergar seu rosto. Tocou no chão com as pontas dos dedos e relembrou a elas, em linguagem da pedreira, de quando os aldeões caçaram o leão da montanha, na esperança de que todas se recordassem daquela noite anos antes. Em seguida, apontou para a janela. Viu os rostos se voltando para aquele ponto parco de luz e estremecendo de apreensão e medo. Miri não poderia se arriscar a que alguém ficasse para trás. Com as sobrancelhas erguidas como se estivesse fazendo uma pergunta, Miri apontou para cada uma das meninas e esperou seu gesto de concordância. Para seu alívio, Bena não hesitou. Silenciosas como as asas de uma coruja, as meninas se esgueiraram até a janela. Bem acima das nuvens de neve, deveria estar brilhando uma lua cheia. Sua luz perpassava a tempestade, marcando cada floco com um lustro prateado e despejando um brilho aveludado sobre a montanha. Logo além de onde a vista alcançava, ela acreditava que papai e os outros estavam a postos. Frid e Miri examinaram a esquadria da janela, procurando um ponto para soltá-la. Bena, que era bem mais alta que Miri, se adiantou para ajudar Frid a quebrar a madeira na parte de cima. O estalido soou como um gemido frenético e as meninas ficaram estáticas, observando o rosto dos homens adormecidos. O bandoleiro de um olho só estava a menos de dois passos de distância, mas o olho bom não se abriu. Frid e Bena arrancaram o resto da madeira. Grande parte estava úmida do gelo que vazava e saiu sem maiores esforços, embora Miri acreditasse que as duas sairiam dali com os dedos cheios de farpas. As mãos de Bena agiam com destreza e silêncio e Miri se deu conta de que a estava achando uma pessoa simplesmente maravilhosa. Quando boa parte da esquadria já havia sido retirada, elas removeram a folha de vidro e depositaram cuidadosamente no chão. Miri chegou a ouvir um suspiro coletivo quando a janela, retirada sem tropeços, já estava devidamente encostada na parede, uma reação que, noutras circunstâncias, a teria feito rir à solta. Mas, no caso, o silêncio era enervante. O ar frio começou imediatamente a entrar pelo buraco aberto na parede. Um dos bandoleiros se mexeu. Miri agarrou Liana e, com a ajuda de Frid e Bena, fizeram-na passar pela janela. Ela mal colocou os pés no chão do lado de fora e a linha de aldeões começou a se aproximar. Os membros de Miri se encheram de força só de ver aquilo. Trinta ou quarenta homens marchavam céleres na direção da academia, e Liana passou correndo por eles até se incorporar à retaguarda em segurança. Atrás dela, veio outra menina, e logo outra. Já havia cinco meninas lá fora. Seis.

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— Por que está fazendo tanto frio? — uma voz sonolenta perguntou. As mãos de Miri, tomadas pelo pânico, estremeceram, e ela quase caiu ao dar o calço para Tonna passar pela janela. Dez meninas passaram. Doze. Dezesseis. — Mas que... — o bandoleiro de um olho só se ergueu. — Dan! Elas estão fugindo. — Não! — Miri desabafou. Frid jogou mais uma menina pela janela e se virou para os bandoleiros que despertavam. Um deles saltou para cima de Miri, mas Frid foi mais rápida. Agarrou um penico e o quebrou na cabeça dele com um estardalhaço e mau cheiro que terminou de despertar todos os demais. Bena passou ligeiro pela janela. Todas já haviam passado, menos Miri e Frid. — Depressa! — Miri falou, dando um jeito de passar por conta própria. Caiu do lado de fora e ouviu Frid atrás e os gritos dos bandoleiros em seguida. Começaram a surgir bandoleiros pela porta da frente e as meninas gritavam ao serem pegas antes de chegarem aos aldeões. Miri correu. Os aldeões estavam tão perto que ela achou ser possível dar um pulo até eles da mesma forma que saltava sobre um córrego estreito. A neve chegava na altura dos joelhos e sua escapada parecia inacreditavelmente lenta, como se ela estivesse doente num canto distante apenas sonhando em correr. Os aldeões vinham correndo, tentando chegar às meninas em fuga antes que os bandoleiros as alcançassem, mas Miri viu Britta ser puxada para trás e ouviu outra menina gritar à sua direita. Ouviu-se o estrondo de madeira batendo contra metal, o que significava que alguém estava lutando. Ela não desgrudou os olhos dos aldeões, do papai que corria em sua direção, e forçou o passo ainda mais. Foi quando alguém a agarrou com a mão. Ela soltou um grito ao ver impedida sua fuga e se contorceu para ver quem era. O rosto marcado de Dan se abriu para ela num sorriso de escárnio, a centímetros de distância apenas. — É você a encrenqueira — ele disse, com bafo de carne. — Vou arrebentar você inteira. Capítulo Vinte e Três Não olhe para baixo, não olhe para baixo No meio do caminho você se afoga, se afoga. — Miri! — Papai avançou como um raio, com a ira estampada no rosto, e Miri estremeceu só de ver aquilo. Um bandoleiro o pegou e a marreta do papai desferiu dois golpes, um para arrancar-lhe da mão o porrete e outro para derrubar o próprio. Papai saltou sobre ele e partiu para cima de Dan, com a marreta em riste. — Vou matar você! — Dan gritou com a voz rouca tensionada. Suas mãos agarraram a garganta de Miri. — Vou partir essa menina em duas, seu velho montês.

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Papai parou. Miri percebeu seu punho afrouxando no cabo da marreta, seu olhar se voltando para Miri, em seguida para Dan, sem querer nada além de arrebentar aquele bandoleiro inteiro ali mesmo na neve. Seu peito arfava forte e ele foi baixando a marreta devagar, como se fazer aquilo doesse tanto quanto ter a mão cortada fora. Não tirava os olhos de Miri, e sua expressão dizia que seu coração estava sendo partido pela segunda vez. O coração da própria Miri se abalou diante daquilo. Percebeu agora que ele faria o que ela precisasse: lutar até a morte, ou baixar a marreta, ou até acreditar na história esquisita de Peder sobre linguagem da pedreira falada a quilômetros de distância. Saíra correndo no meio da noite sob uma tempestade de neve para salvar sua menina. Miri deu um pontapé para trás e se contorceu toda numa tentativa de se livrar de Dan. Foi como se tivesse dado um chute numa rocha. Ela ficou ali pendurada por aquelas mãos, olhando fixamente para o pai. Todos estavam quietos agora. A correria frenética e a breve luta que se desenrolavam pararam tão rápido quanto haviam começado. Miri e Dan estavam parados na escada em frente à academia. As mãos quentes e ásperas dele seguravam a garganta dela, girando de um lado para o outro como que ensaiando a torção. Diante dela, uma barreira de aldeões. Ela se sentiu reconfortada ao ver que muitas das meninas da academia tinham conseguido ultrapassá-la em segurança e agora se abraçavam e choravam. Os aldeões haviam derrubado quatro bandoleiros: três jaziam na neve, sob o peso da bota de um operário da pedreira, e um quarto se contorcia enquanto o irmão mais velho de Frid segurava uma alavanca de ferro contra seu pescoço. Miri imaginou, naquele instante, se algum dos bandoleiros não estaria pensando numa montanha capaz de alertar seu povo quando tocada pela bota de um forasteiro. Mas os aldeões só tinham quatro bandoleiros e os onze remanescentes tinham pegado algumas das meninas da academia antes que elas conseguissem fugir. Miri avistou Esa, Gerti, Katar, Britta e Frid dentre as cativas. E estremeceu. Não havia janela pela qual escapar agora. O frio foi tomando seu corpo qual o mofo toma o pão e o minuto de tensão silenciosa pareceu durar algumas horas. Quando Oz falou, o som de sua voz fechou o espaço, dando àquele lugar aberto no meio da noite uma sensação de cômodo lotado. — Temos quatro dos seus e vocês têm nove das nossas filhas. Vamos fazer um bom acordo: vocês seguem seu caminho e ninguém derrete a neve com seu sangue aqui hoje. Dan riu. — Esse acordo não é justo, ora bolas! Que tal este: vocês ficam com os quatro, nos devolvem as outras meninas e nós as mandaremos de volta para casa assim que o príncipe pagar? Irrompeu um murmúrio enraivecido. Alguns dos aldeões xingaram Dan e apertaram os cabos de suas armas. Oz soltou um rosnado que mais soou como um estrondo da montanha. — Nenhuma das nossas filhas sai de vista aqui e agora, e se alguma delas se machucar, pode ter certeza de que nenhum de vocês sairá desta

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montanha com os membros no lugar. — O olhar de Oz passou de relance por sua filha, Gerti, nas mãos do bandido de um olho só. Quando voltou para Dan, expressava com clareza o prazer que teria em destroçar seus agressores. — Solte essas meninas agora e nós libertaremos seus homens para que vão embora daqui com vida. É uma boa oferta. Não a troque por orgulho. Dan deu uma cusparada na neve. — Vim atrás de peles da realeza para trocar por um bom resgate e não vou sair sem... — Você ouviu nossos termos — Oz falou. — Por que não deixa o que eu disse passear um pouco pela sua cabeça antes de resolver morrer ainda esta noite? Dan não respondeu de imediato e Miri ficou pensando se Oz não teria mais sucesso usando os princípios da diplomacia. Continuava nevando bastante, flocos macios e leves que às vezes subiam e giravam ao sabor das lufadas de vento. Para Miri, a nevasca era estranha e gentil. Tudo mais até o momento havia sido duro e perigoso, qual lajes de gelo despencando ou vendavais súbitos que atiram pessoas da beira dos penhascos. O tempo não reconhecia que, a qualquer momento, Dan poderia partir-lhe o pescoço como se ela fosse um coelho na engorda para o ensopado. Os flocos caíam, devagar, com a suavidade de pétalas arrancadas das flores pela brisa. Dan soltou mais uma cusparada, deixando um buraquinho marcado na neve. O ato mostrava que ele havia tomado uma decisão. — Quero um prêmio por meu esforço, e não vou deixar de conseguir o que quero; caso contrário, esta menina vai ser a primeira. Não estou brincando. — A pele áspera da mão dele esfregou o pescoço dela. — Nem nós — disse o pai de Miri, com os olhos cravados em Dan, firmes como uma rocha, como se tivessem sido esculpidos da própria montanha. — Ei, Dan! — O bandoleiro que estava segurando Katar falou baixinho o suficiente para que sua voz não chegasse até os aldeões. — Nós já descansamos bastante e comemos à beça. Podemos ficar satisfeitos com isso. — Cale a boca, seu idiota! — Dan falou, e Miri engasgou com o aperto mais forte que ele deu. — Eu falei que vocês têm de pensar grande. Não temos aquilo que viemos buscar e não vamos embora sem uma princesa para pedir resgate. — Eu vou — disse o bandoleiro que estava segurando Gerti. Ele a largou no chão e andou para trás, com o único olho alerta como se estivesse tentando ver tudo ao mesmo tempo. — Tem alguma coisa de errada com esta montanha. Ela sabia que estávamos aqui, avisou aos aldeões, conforme as meninas disseram. De repente, vai nos enterrar vivos e ninguém vai nem gritar, ou esses sujeitos aí vão me arrancar os braços. Eu já perdi um olho por você, Dan, mas agora não vou perder os braços. Gerti correu para Oz e agarrou-se à perna dele. Miri percebeu o homenzarrão estremecer de alívio. — Você está falando como um idiota — disse Dan, cuspindo perdigotos. —

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Eu estou mandando ficar. O bandoleiro de um olho só deu uma olhadela nos homens e mulheres armados de marretas e alavancas nas duas mãos, olhou para a neve que caía à sua volta, estremeceu e se virou para ir embora. Alguns outros empurraram seus reféns para longe e o seguiram. — Lugar perigoso! — murmurou um deles. Frid deu um empurrão nos dois bandoleiros que a estavam segurando. Eles se mostraram prontos para devolver, mas ela ergueu ambos os punhos cerrados e lançou-lhes um olhar tão inflamado de esperança que viessem que eles acabaram batendo a neve dos joelhos e foram se juntar aos demais desertores, olhando para trás no meio do caminho como se receassem que a montanha pudesse segui-los. — Voltem aqui. — Dan gritou. — Se forem embora agora, não farão mais parte deste bando. A nevasca piorou e, numa questão de instantes, os bandoleiros resolvidos a partir já tinham desaparecido atrás da cortina branca. Diante disso, outros mais começaram a ficar nervosos e três acabaram também soltando suas reféns e foram embora correndo. Agora só estavam Onor e Cara-de-Cão ao lado de Dan. — Esta aqui poderia ser a princesa — disse Onor sacolejando Esa. — Eu não vou largar na neve uma menina que vale uma centena de cavalos. Cara-de-Cão colocou sua única arma, um punhal, contra o peito de Britta e ficou mexendo com a ponta na blusa dela. O tecido acabou rasgando. Miri se debateu novamente e Dan a apertou ainda mais. Se ao menos ela tivesse uma arma. Flocos de neve se acumulavam sobre seus cílios e lágrimas de frustração atrapalhavam sua visão, de forma que ela não conseguiu ver a expressão no rosto do pai. Sabia que Dan não a largaria e conseguiria partir-lhe o pescoço antes que qualquer marreta o atingisse. Oz estava barganhando novamente, tentando fazer com que os bandoleiros restantes enxergassem a futilidade de levar apenas três meninas, mas Miri não sentiu as mãos de seu captor vacilarem um instante sequer. Por trás da nevasca, surgiam as primeiras luzes do dia. O mundo começava a se iluminar gradativamente, eliminando do ar os tons aveludados, deixando tudo prateado. Miri já podia ver os aldeões com mais clareza, as primeiras luzes destacando-lhes os traços dos olhos e das bocas, e ela sentiu o coração se encher tanto que quase doeu. Lá estava Peder, com as mãos vermelhas de frio, sem dúvida por ter saído rápido demais para tentar encontrar as luvas. Lá estava o rosto arredondado de Doter, o rosto do Papai tão forte e largo quanto as pedras de fundação, os seis irmãos de Frid e a mãe dela, maior que todos eles. Sua família, seus amigos, seus protetores, vizinhos e amigos... essa gente era seu mundo! Ela se deu conta com uma clareza súbita de que não queria viver longe da aldeia onde a sombra do Monte Eskel caía qual um abraço reconfortante. A montanha era sua casa, com o pó da pedra, o ritmo da pedreira, a cordilheira de montanhas, o povo que ela conhecia como a palma da própria mão. E agora, olhando para eles talvez pela última vez, sentiu que os

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amava tanto que seu peito queimaria antes que o bandoleiro tivesse tempo de lhe tirar a vida. Precisava fazer alguma coisa, logo. Para criar coragem, Miri colocou a mão no bolso da saia e tocou no falcão de pedra. Até aquele momento, tinha se esquecido de que ele estava ali. — Acho que não vamos mais ficar à vontade nessa casa — Dan estava dizendo. — É melhor pegarmos o que temos e irmos embora. — Ele começou a se afastar dos aldeões andando para trás, em direção à estrada que descia da montanha. — Vocês estão achando que vamos deixá-los ir embora levando essas meninas? — disse Oz. — Sabemos que elas têm poucas chances de sobreviver nas suas mãos. — É um risco que vocês vão ter de correr — Dan falou. — Porque, se nos atacarem agora, posso garantir que a chance de sobrevivência delas será muito, muito pior. Os aldeões soergueram as armas e se agitaram, mas ninguém avançou. Dan continuou andando para trás; Onor e Cara-de-Cão o seguiram. Parecia tentar perceber onde se encontrava a estrada, mas a neve estava muito funda. Miri conhecia a montanha. Até mesmo no meio da borrasca, percebeu que ele estava se desviando demais para a esquerda. A borda do penhasco estava ficando cada vez mais próxima. Se conseguisse fazer com que ele se aproximasse ainda mais! Baixinho como quem solta o ar, ela cantarolou: — O lobo não vacila antes da mordida. Então vai. O falcão não hesita antes do mergulho. Então vai. — Ninguém se mexe — Dan falou. — Nós vamos embora e vocês podem ir procurar pelas meninas no degelo da primavera. Elas vão estar bem. Ela olhou para a direita e viu o terror estampado no rosto de Esa e Britta qual o gelo que se forma no vidro de uma janela. À esquerda, a neve ocultava a borda do penhasco. Precisava de ajuda para fazê-lo chegar lá. Miri sabia que o pai a amava, sabia disso agora com a paz da mais tranquila noite de verão. Sabia que ele seria capaz de se jogar de um precipício para salvá-la. Mas, conforme Doter dizia, ele era uma casa com as persianas fechadas. Ela não poderia confiar que ele fosse compreender seu apelo em linguagem da pedreira. Peder ouvira seu chamado a quilômetros de distância. Ele entenderia. Miri se debateu novamente, mas dessa vez sem esperança de se libertar. Só queria um momento de contato com o chão, uma chance de enfiar o pé na neve e sentir a pedra. Conseguiu o toque e agarrou o falcão no bolso, torcendo para esse pedacinho de pedra ajudar também. Com todo o desejo que pulsava dentro dela e com a tranquilidade dos flocos de neve caindo, ela cantou em linguagem da pedreira. A recordação que escolheu foi a de Peder caindo num buraco invisível onde o gelo tinha derretido e sumindo de vista. Nem precisou pensar muito se ele entenderia. — Nem pense que vamos deixar de segui-la — Peder falou. Os flocos de neve se acumulavam em seus cachos castanho-claros, prata coroando ouro.

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— Vamos atrás de você até no mar, se preciso for. Alguns dos adultos acharam estranho aquele rompante dele, mas Peder não tirou os olhos de Miri e Dan. Incitou Jans e Almond, o irmão mais velho de Bena, e eles o seguiram desde a fileira de aldeões até o lado esquerdo dos três bandoleiros. Miri sentiu Dan se agitar. — Perto assim, não, crianças — Dan falou. — Eu sou ladrão e assassino, lembram? Posso resolver matá-la assim, só de maldade. Peder e os outros reduziram de velocidade, mas continuaram avançando para a direita de Dan, forçando-o a mudar o caminho apenas um pouco. Miri achou que era o bastante. Concentrou-se em manter o corpo relaxado, sem se enrijecer por antecipação, sem dar a Dan indicação alguma do que estava prestes a tentar fazer. Não hesite. Então vai. Miri pegou o falcão de pedra no bolso, segurou-o como a um punhal e cravou a ponta mais afiada da asa aberta no punho de Dan. Ele soltou um berro e a largou. Miri caiu no chão, rolou para longe dele e saiu se arrastando pela neve. O choque da dor durou apenas um instante e ele gritou e saltou no encalço dela. Mas a borda estava logo ali. Miri não teve tempo de tomar cuidado. Na esperança de ter julgado corretamente a posição em que estava, girou pela borda da ribanceira e procurou a plataforma de pedra onde ela e Katar haviam conversado no dia do exame. Ela bateu em solo rígido, mas o alívio que logo se apoderou de seu peito foi interrompido pela horrível sensação de seus pés escorregando da plataforma. Suas mãos tentaram encontrar alguma sustentação e encontraram as raízes de um arbusto crescendo ali pelas proximidades. Olhou para cima e viu Dan dando um passo além da borda, com o rosto estarrecido de surpresa por não encontrar chão onde pisar. Ele caiu. O corpo de Miri sofreu um solavanco. Dan tinha uma das mãos no barranco e outra em seu tornozelo. A madeira rangeu nas mãos dela. A raiz perdeu o ponto de apoio, escorregando qual cobra dentro d'água, e parou com um tranco. Logo abaixo, Dan apertava sua perna; e mais abaixo, a neve continuava caindo, caindo, tão longe que não dava para ver os flocos caindo no fundo. A neve caindo dava a impressão de que a ribanceira não tinha fim, como um rio que some de vista quando corre a caminho do mar distante. As mãos dela estavam pegando fogo; a perna, dormente. Ela tentou chutálo para ver se ele largaria dela, mas não conseguiu arredar o peso dele. Dan tentou escalar a parede do despenhadeiro com apenas uma das mãos, usando a perna dela para se içar dali. Miri gritou da dor de aguentar. Suas mãos estavam escorregando e ela sentiu que estava quase caindo junto com a neve. Então, algo atingiu Dan na testa. Ele olhou para cima, mas seus olhos pareceram cegos naquele momento, como se tivesse perdido a visão ao tentar acompanhar um floco de neve. A mão que estava agarrada ao barranco escorregou, o peso dele diminuiu e, de repente, inesperadamente Miri o viu diminuir, diminuir cada vez mais. Com braços e pernas esticados,

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ele parecia um anjo da neve em pleno ar. O vento fazia girar os flocos em círculos e espirais, tirando de vista tudo abaixo, de forma que Miri não o viu bater no fundo. Ela olhou para cima. Seu pai estava debruçado sobre a borda do despenhadeiro, sem a marreta na mão. Capítulo Vinte e Quatro A noite chama. Venha embora. Esvazie o coração de problemas e sonhos Esvazie o coração das coisas diurnas A noite chama. Esqueça. Mas o dia Não vai esperar, não muito, não tarda. Miri tinha apenas uma vaga noção do que aconteceu depois que Dan caiu. Conseguiu manter-se agarrada à raiz até que alguém a puxou para solo firme, sobre a neve. Por um instante, pensou que Peder estivesse por perto e sentiu o aroma adocicado do sabão que Doter usava para lavar as roupas. Foi quando ela desapareceu no abraço imenso e quente de seu pai. Não largou o pai durante horas a fio, observando, dos braços dele, enquanto Onor e Cara-de-Cão soltavam Britta e Esa e, junto com os outros quatro bandoleiros, iam embora da academia. Vinte parrudos operários da pedreira os seguiram durante os primeiros instantes só para terem certeza que eles continuariam andando. Esa estava com Peder e seus pais, e sua mãe a atacava com uma saraivada de beijos. Os parentes de Britta davam-lhe tapinhas nas costas. Liana se aproximou de Miri e lhe sussurrou ao ouvido: — Eu deveria ter votado em você para princesa da academia — e, ao cruzar olhares com Miri, Bena não se inflamou. Alguns homens ficaram montando guarda nas redondezas da academia para o caso dos bandoleiros terem a ousadia de voltar enquanto os demais foram se abrigar no interior do prédio. Miri se lembrou de Knut e Olana, e, com frio e fome, os dois foram soltos do quartinho escuro onde estavam trancafiados. A mãe de Frid cuidou do braço quebrado de Knut e Olana ficou por perto como se estivesse ansiosa por ajudar e não parou de repetir: — Obrigada. Ora, essa! Obrigada, mesmo. A manhã já ia alta, mas eles tinham passado a noite acordados, de forma que alimentaram o fogo no quarto de dormir e se deitaram para descansar até a tarde. As famílias se ajeitaram cada qual sobre um estrado, usando, como travesseiros, o peito e as pernas uns dos outros, e ficaram assim para se aquecerem e pelo puro prazer de saber que estavam todos bem. Miri se aconchegou embaixo do braço do pai, aquecida pelo corpo dele como se pelo mais espesso dos cobertores. Puxou Britta para o outro lado e as duas adormeceram de braços dados. Depois que todos acordaram e sentiram roncar a barriga, algumas das mulheres fizeram um levantamento da comida que havia e voltaram para dizer que ninguém passaria aquele inverno na academia. Os bandoleiros

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haviam comido e estragado carne que daria para abastecer a aldeia inteira durante um ano em apenas alguns dias. O que restava de mantimentos seria suficiente apenas para uma rodada de pão com mingau e alguns bifes. Foi uma sensação esquisita sair de dentro do prédio e encarar o sol forte. A neve estava profunda, com a superfície suavizada pela brisa, e, naquele sol, mais brilhante que pedra de cantaria polida. Miri cruzou os braços sobre o peito e observou que não parou de nevar durante alguns dias seguidos, mas acabou no momento exato. Ao pensar nisso apenas com a cabeça, ela não acreditou que a montanha realmente pudesse ouvi-la, mas seu coração quis que fosse assim. Em todo caso, sussurrou: — Obrigada — e jogou um beijinho sutil para o pico branco em destaque sob o azul do céu. Embora a caminhada tenha sido lenta e penosa por causa da profundidade da neve, o estado de espírito geral era de tanta alegria quanto num dia de feriado. Da primeira vez que Miri caiu num buraco e ficou com neve até os cotovelos, seu pai a pegou e colocou sobre os ombros. Num momento como esse, ela resolveu que não era tão ruim ser pequena. Olhou para trás e avistou a ponta da chaminé da academia antes de desaparecer e pensou em quando voltariam. Mas não se preocupou muito com isso. Seus pensamentos estavam preenchidos pela exuberante expectativa de uma pedreira cheia de neve, com alguns dias de descanso para todos, para ficar com Marda e as lições de leitura, para o inverno em casa com uma boa quantidade de combustível e uma boa quantidade de comida. Lá na frente, escutou Olana e Doter conversando. — Mas o que vou fazer durante todas essas semanas? — Não se preocupe, minha querida — disse Doter, que já tinha ouvido da filha alguns relatos sobre a tutora. — Vamos lhe arranjar o que fazer. Olana passou o inverno com a família de Esa, fato que a ajudou a conquistar alguns solidários acenos de cabeça e alguns discretos risinhos de satisfação. Mas não demorou até que se mostrasse útil pelando coelhos e acabasse sendo despachada para muitas casas a fim de executar a desagradável tarefa. Knut ficou com a família de Gerti e praticamente todas as noites ouviam-se suas risadas animadas na companhia de Oz, que o adotou como a um irmão desaparecido. Miri insistiu para que Britta ficasse com ela e, compartilhado pelas três, o trabalho de casa era sempre concluído antes do meio-dia, deixando-lhe bastante tempo para ajudar Marda com os estudos. Algumas das meninas mais velhas começaram a vir quando ela estava dando aulas, e logo três dos irmãos de Frid e mais uma das irmãzinhas de Gerti, até que a casa de Miri passou a lotar todas as tardes. Às vezes Peder também vinha. As coisas ficaram meio esquisitas entre eles, com certa expectativa no ar. Ela esperava que ele falasse primeiro, mas ele não falava. Na noite seguinte àquela em que a irmã de Gerti conseguiu ler sua primeira página inteira, Miri falou para Marda: — É isso que eu quero. Fiquei toda contagiada por essa coisa de princesa, mas agora já sei. Vamos precisar de um prédio maior para podermos convidar todos os meninos a virem aprender a ler. E vamos precisar de

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livros, de verdade, e de pranchetas de barro como na academia. E talvez seja o caso de vendermos a pedraria do piso do prédio da academia para que todo o pessoal da pedreira possa dispor de um dia ou dois por semana e toda a aldeia venha aprender. Marda balançou a cabeça. — Você ensinaria essas letras até às cabras, se elas ficassem paradas para escutar. Certa tarde, enquanto fervia a roupa, Miri propôs a ideia de uma academia da aldeia para Britta, Esa e Frid. — Já cansei de tanto livro e letra e dessa coisa toda — Frid falou. — Mas meus irmãos estão curiosos, querendo aprender a ler pelo menos, embora tenham dito que não percebem muito valor nas outras matérias que estudamos. — Seu irmão Lew me jurou que estava morrendo de vontade de aprender Postura — Miri falou, evitando sorrir. — É, ele é cheio de reverências — Frid respondeu, com o rosto igualmente limpo. — Ora, eu acho que poderia continuar aprendendo o resto da vida. — Com uma varinha, Esa tirou um guarda-pó de sua mãe de dentro da panela. — Gostaria que minha mãe também viesse para a academia da aldeia. Eu achava que ela era a pessoa mais inteligente do mundo e não gosto de saber mais que ela, pelo menos sobre o mundo que existe para lá do Monte Eskel. — Para nos tornarmos professoras, é melhor aprendermos tudo o que pudermos — Miri falou. Olana estava ansiosa por não ter mais de cumprir tarefas da aldeia e por poder voltar a dar aulas, de modo que as meninas da academia entraram num acordo para se reunir todas as tardes na capela, contanto que pudessem trazer Marda e muitas das demais irmãs que quisessem, bem como escolher as matérias a serem dadas. Chega de Postura e Conversação! Agora, encheriam Olana de perguntas. E ela soube reconhecer que fora derrotada. Miri queria aprender mais Matemática para ajudar nos negócios. Os interesses de Liana eram mais voltados para a etiqueta na corte. E Esa demonstrou curiosidade pelas classes sociais além da montanha. Quando Katar indagou sobre as tarefas diárias de uma princesa, Olana detalhou as responsabilidades da atual rainha de Danland: supervisionar a administração do palácio e dos criados, fazer visitas junto com os mandatários e cortesãos, planejar celebrações, manter relações amistosas com os mercadores e negociantes dos reinos vizinhos — um dia tão cheio quanto o de qualquer operário da pedreira. Naquela tarde, depois de encerrada a aula, muitas das meninas que haviam frequentado a academia ficaram na capela. Parece que todas tinham a mesma pergunta girando na cabeça. — Você quer virar princesa? — Esa perguntou para Frid. — Não. Gosto de trabalhar na pedreira. — Às vezes eu quero — Esa falou. — Antes, queria mais, e o príncipe era

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legal. Mas as coisas estão melhorando por aqui e eu não quero deixar minha família nem fazê-los sair da montanha. Gerti estava sentada no chão, abraçando os próprios joelhos. — Sabe o livro de contos da Olana? Ali tem uma história sobre uma menina que conhece um príncipe e se apaixona por ele no ato e todos os sonhos dela se realizam quando ele a puxa para cima de seu cavalo e os dois partem em direção ao palácio. Achei que, quando eu o conhecesse, seria assim. — Gerti deu de ombros. — Steffan era legal, sabe, mas... — Ela deu de ombros outra vez. — Eu quero... — Liana disse. — Eu quero usar vestidos de baile e morar num palácio. Miri contraiu o semblante. Liana era tão bonita quanto Miri achava que uma princesa deveria ser, mas também achava que Steffan merecia mais. Várias outras meninas admitiram, orgulhosa ou timidamente, que elas também ainda esperavam virar a princesa. Tonna já tinha até começado a usar coque no cabelo. — Vocês não ouviram Olana dizer? — Bena falou, aparentemente zangada por Liana discordar dela mais uma vez. — Não vai ser baile o tempo todo. Tem um monte de trabalho chato, dias inteiros conversando com gente que você não gosta, e ainda casada com um garoto chato com um título sofisticado. Não acredito que, depois de todas as aulas de História, sabendo de todos os assassinatos e tramas políticas e rainhas despossuídas, alguém ainda queira ser princesa. — Ora, mas eu quero — Liana falou. — Meu reino seria diferente. Seria divertido. Katar olhou para Miri durante um brevíssimo instante, mas não externalizou sua opinião. Miri sabia que ela não ligava para o trabalho ou os vestidos, sobre amar Steffan ou sentir saudade de casa. Queria apenas ser escolhida e ter a chance de ir embora. — E você, Miri, quer? — perguntou Britta. Miri soltou uma explosão de ar pelos lábios. Não havia lareira na capela e ela viu sua respiração ficar branca de condensação pelo frio. Queria era formar uma academia na aldeia e se sentir em casa na montanha, queria ficar com o pai e com Marda, e achou que queria ficar com Peder. Se ele assim o quisesse! Sabia dessas coisas embora não conseguisse largar da ideia de ser princesa, não depois de tanta esperança e imaginação em torno do assunto. Então, falou: — Parece estranho ainda estar pensando nisso, depois dos bandoleiros e tudo mais. Parece que o mundo mudou e nós não deveríamos estar falando de coisas como casar com um príncipe. — Queiramos nós ou não — disse Esa —, se ele nos escolher, será que poderemos recusar? Depois de alguns meses de se dobrar aos desejos delas, Olana fincou o pé e insistiu em fazer a revisão de algumas das matérias de princesa. — Meu propósito é prepará-las para a próxima visita do príncipe e precisamos pelo menos ensaiar nossas reverências e danças. — Tutora Olana — Miri falou —, não parece muito eficaz dançarmos entre

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nós. Alguns dos meninos da aldeia talvez queiram aprender a dançar e treinar conosco. Então, quando o feriado da primavera iluminou novamente a montanha com fogueiras e música, a aldeia desfrutou de seu primeiro baile. Miri vestiu sua saia de ir à capela e usou o cabelo solto e sorriu para Peder quando os tambores e o alaúde de três cordas começaram a tocar. Naquela noite, ele não estava distante e inseguro, passando por ela sem dizer nada; naquela noite, era Peder, seu melhor amigo. E a convidou para a primeira dança. As danças do povo da planície não separavam os parceiros com uma fita e Miri se viu de mãos dadas com Peder pela primeira vez desde que eram criancinhas pequenas. Ele colocou a mão nas costas dela e a conduziu num verdadeiro passeio, e os dois conversaram tão tranquilamente que Miri riu só de lembrar da interação esquisita com Steffan. A conversa silenciou quando eles passaram pelas posições de "Dama da Água", uma dança curta que levava os parceiros a se olharem de frente, com as palmas das mãos juntas e os rostos bem perto um do outro. Peder engoliu em seco e ficou olhando para os próprios pés e por cima da cabeça dela. Mas, no meio da dança, relaxou e a olhou nos olhos. O coração de Miri disparou. Ela ficou querendo dizer algo direito. O futuro se descortinava à sua frente e a sensação que ela teve foi a de que o príncipe se colocava entre os dois, mantendo-os distantes um do outro. — No que você está pensando? — Peder perguntou. — Estava pensando no príncipe, quando ele voltar... — ela disse, e logo ficou desejando que não o tivesse feito. O sorriso de Peder havia desaparecido. — Você ficou zangado? — Miri sussurrou, e ele deu de ombros. Quando tambor e alaúde pararam de tocar, Peder se afastou. — Ele acha que você quer se casar com o príncipe — Britta disse a seu lado. — Eu sei — Miri falou. Instintivamente, ela colocou a mão no bolso, mas havia perdido o falcão de pedra no penhasco. A questão da princesa ainda estava por resolver no seu íntimo, como um leito de rio lodoso que cede ao pisar. Ela não sabia por que Steffan teria ido embora, mas ele gostou mais dela. Disse isso, inclusive. Se voltasse e pedisse que ela fosse com ele para Asland, para virar princesa, para dar à sua família aquela casa do quadro, como é que ela poderia dizer não? Steffan era legal. Miri conseguia se imaginar amiga dele, até uma boa amiga. Encontraria formas de fazê-lo rir e ele a levaria para conhecer Danland inteira. E talvez ela fosse feliz. Porém, quanto mais perto ficava a volta do príncipe, mais Miri se sentia agarrada ao Monte Eskel do mesmo jeito que se agarrara àquela raiz no penhasco. A montanha era seu lar. Seu pai era seu lar. E Peder... Ela se permitiu ter esperanças por Peder. Seus desejos eram grandes demais para uma encosta coberta com flores de miri. Capítulo Vinte e Cinco A linha do prumo está balançando

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O falcão da primavera está voando O Monte Eskel está cantando. A primeira manhã que raiou sem gear, Miri e Britta foram se sentar na pedra grande ao lado da casa, para ficarem vendo a estrada a oeste. — Estou cansada de esperar e ficar imaginando coisas — Miri falou. — Quero fazer alguma coisa nova. Gostaria de poder lhe ensinar linguagem da pedreira. — Ultimamente você anda com vontade de ensinar tudo — Britta falou. — Com certeza não estou aqui há tempo suficiente para ter tomado uma imersão em pedra, mas deve haver alguma coisa em que eu possa ajudar. Uma vez você falou que o povo da planície sabe cuidar de jardins. — Os cantos dos olhos dela se estreitaram num sorriso. Eles limparam o cascalho de um pedaço de chão até ficarem com as unhas estragadas e os dedos doendo. Britta mostrou como se faz para soltar a terra e abrir valas que capturem a água que escoa para irrigação. Ela enfiou um dedo na terra e jogou uma semente no buraco. — Isso vai virar um pé de ervilha, se conseguir crescer. Miri nunca tinha comido ervilha fresca e Britta falou que tinha gosto de manhã de primavera. As duas plantaram as outras sementes que Britta havia trazido da planície e conversaram sobre os alimentos frescos que comeriam durante o verão inteiro. Nenhuma das duas mencionou que o príncipe viria em breve e que alguém não estaria mais lá para comer abobrinha e tomate-cereja. Naquela tarde, as marretadas na pedreira pararam ao som de trompetes. — O Príncipe Steffan de Danland voltou ontem à noite para a academia de princesas — o mensageiro gritou de cima da charrete. — Todas as meninas da academia deverão atendê-lo no dia de hoje. Miri e Britta se prepararam, lavando o rosto e penteando o cabelo com capricho. — Quem você acha que ele vai escolher? — Miri perguntou. Britta deu de ombros. Parecia nervosa demais para falar. O pai de Miri ficou olhando as duas em silêncio enquanto Marda limpava o tampo da mesa várias vezes. Miri sabia que os dois não estavam ansiosos por uma casa na planície com um jardim bonito, nem por roupas feitas de tecidos caros ou por talheres de prata na mesa. Só queriam Miri de volta em casa, e logo. Miri parou para sentir o bem contido naquele pensamento: seu pai a queria em casa. Ela acreditava agora, e teve a sensação de ainda estar usando o vestido prateado. Depois do ataque dos bandoleiros, os pais não queriam deixar as filhas fora do alcance de suas vistas, de modo que trinta operários da pedreira as acompanharam até a academia. As meninas mal falavam e ninguém riu, nem ficou jogando pedrinhas da borda do penhasco. Miri caminhou ao lado de Britta, Esa e Frid, e, depois de um tempo, Britta conseguiu pegar a mão de Katar também. — E nós todas vamos continuar sendo amigas — Miri falou —, seja quem for a princesa.

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Todas concordaram. Britta só fez que sim com a cabeça. Miri achou que ela talvez estivesse doente de novo. Devem ter chegado à capital notícias sobre o caso dos bandoleiros, pois a academia estava cercada de soldados. Os operários da pedreira se juntaram a eles. Dentro do prédio, não havia tapeçarias, nem candelabros, nem armários cheios de vestidos. Uma mulher num belo vestido verde as saudou à porta e as levou para o salão de jantar, que estava praticamente vazio. Miri tentou esticar uma prega saliente na blusa de lã crua e percebeu outras meninas também dando um jeito nas roupas ou nos cabelos. — O Príncipe Steffan estará com vocês em questão de minutos — disse a mulher. — Queiram, por gentileza, aguardar aqui. — Não estou entendendo — Esa sussurrou para as meninas que estavam mais perto. — Se não vamos dançar nem fazer reverências ou conversar novamente, por que ele não escolheu ninguém antes? Frid deu de ombros. — Talvez estivesse com frio demais para pensar direito. Meu avô fica com a cabeça atrapalhada no inverno. — Ou talvez você não devesse ter feito uma queda de braço com ele, Frid — Miri respondeu também num sussurro. — Diz a primeira regra da Postura: "Nunca saia arrastando seu parceiro pelo meio do salão." — Ai, eu não consigo, não consigo mesmo — Britta falou de repente e saiu correndo. Miri olhou na direção da porta por onde o príncipe entraria, mas não hesitou em seguir atrás de Britta. Britta já estava descendo a escadaria diante do prédio e foi se sentar atrás de uma pedra grande. — O que aconteceu? — Miri perguntou, sentando-se a seu lado. — Você parece que está doente de novo, Britta. Quer que eu vá chamar o Knut? Britta balançou a cabeça. Mordeu o lábio inferior como se estivesse desesperada de vontade de chorar. — O que foi? — Miri perguntou. Britta puxou as roupas, esfregou a testa, beliscou a própria orelha e ficou transtornada de agitação. — Não posso ver o príncipe. Não posso deixar que ele me veja. Eu o conheço. Miri pestanejou. — Você conhece o príncipe? Britta desatou a chorar e enfiou o rosto entre as mãos. Sua voz saiu abafada: — Eu detesto isso, Miri. Deveria ter contado tudo a você antes; mas, sempre que pensava no assunto, ficava mal, encabulada, assustada e... — Você conhece o príncipe. Britta confirmou. — Meu pai não era mercador. Era... é... um nobre. E eu cresci junto com Steffan, com o príncipe, pelo menos durante uma parte de cada ano, porque ele veraneava numa propriedade perto da minha casa, e era um aventureiro, muito gentil, enquanto todos os outros meninos eram tão

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cheios de si, de modo que ele acabou dizendo que gostava de ficar comigo. Costumávamos brincar que éramos gente pobre que só comia o que conseguia encontrar e saíamos vasculhando os jardins atrás do que comer: tomates verdes, frutas silvestres, flores comestíveis. Arrancávamos cenouras nanicas e comíamos sem lavar nem nada, como se estivéssemos morrendo de fome. Britta parou de falar e olhou para Miri com a preocupação estampada nos suaves olhos castanhos. — Será que você vai achar uma grosseria eu e Steffan brincando de passar fome? — Não — disse Miri. — Acho que sua vida era bastante diferente naquela época. Britta assentiu. — Era diferente, nem melhor nem pior que aqui. Não tenho saudade de nada daquilo, de verdade, só de não passar frio no inverno nem tanta fome. E não tenho saudade de praticamente ninguém, a não ser do próprio Steffan. — Ela soltou um suspiro e colocou as mãos sobre os olhos. — Meu pai esperava que nos casássemos. Sempre que o papai falava nisso, eu só queria saber de sair correndo e me esconder, mas eu sonhava sim... Steffan nunca falou nada e, é claro, nunca cheguei mesmo a ter uma chance porque os padres escolhem onde vai ser encontrada a princesa. Mas, quando tive idade suficiente para pensar nisso, tive esperança de que... esperança de que... — De que ele a amasse também. Britta tirou a mão do rosto. Seus olhos estavam vidrados. — Se conhecesse meu pai, você provavelmente iria tremer só de imaginar a reação dele ao saber que o pressentimento dos padres indicou um lugar no qual ele não tinha terras, distante de qualquer de seus amigos ou conhecidos. Passei uma semana inteira escondida dele. Foi um tempo ruim. — Britta estremeceu. — Mas ele não quis desistir. Deu um jeito de descobrir o nome de uma família no Monte Eskel e me mandou num vagão de mercadores com ordens para dizer que ele havia morrido e que eu era parente deles. Assim, a filha dele seria mesmo uma menina que morava no Monte Eskel. — E agora você é — Miri falou com tranquilidade. — Eu sinto muito, Miri. Você deve estar me achando uma mentirosa. Fiquei humilhada de ver minha família com esse tipo de esperança ridícula e achei que vocês me detestariam por ser da planície e rica, ou simplesmente por ser tão tola. Na verdade, fiquei um pouco feliz de vir para cá. Há muito que eu acreditava que meus pais só se preocupavam comigo enquanto eu pudesse ser um elo entre eles e o trono. — Então você é mesmo Lady Britta. — Por favor, não me chame desse jeito. Miri contraiu o semblante. — Mas se sabia que o príncipe escolheria você... — Ele não vai me escolher. — Britta se pôs de pé num salto e começou a caminhar entre as pedras. — Passei um ano inteiro aterrorizada com o dia em que Steffan chegaria e me veria fingindo ser uma moradora do Monte

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Eskel, e me diria: "O que você está fazendo aqui?" E eu diria: "Vim atrás de você porque quero me casar com você..." Ah, Miri, dá para imaginar? Ele vai passar a me detestar, ou rir na minha cara, ou fingir que não me conhece. — E se ele não detestar, nem rir, nem... — Não, nem diga uma coisa dessas. Tenho de acreditar que isso não vai acontecer. Sempre que tento sentir alguma esperança, dói demais. Durante meses a fio, parece que ninguém gostava nem um pouquinho de mim por aqui e tudo o que eu podia esperar era bancar a boba na frente do menino por quem sou apaixonada há anos. E então, quando comecei a conhecer as meninas da academia e me dei conta de que vocês são muito mais espertas e bonitas que eu, a escolha dele será óbvia. — Você o conhece e acha mesmo que ele me escolheria em seu lugar? Britta parou de andar. — Claro! Você é a pessoa mais inteligente que já conheci e um ano atrás não sabia nem ler. É esperta e engraçada. Por que alguém deixaria de se casar com você? Quero que saiba que venho me preparando este ano inteiro para o momento em que ele não me escolher. Vai doer um pouco, mas vou ficar mesmo feliz se for você. — Eu... — Será que ele faria mesmo uma coisa dessas? Miri olhou para a cordilheira de montanhas, azul, roxo, cinza, e virou o rosto por cima do próprio ombro para ver a pontinha da estrada de volta para casa. O sonho da casa com jardim ficou parecendo fumaça de vela: oscilante, agradável, mas quase sumindo. — Eu não quero ser a princesa. — Miri! — Britta falou, quase exasperada. — Não quero. Não quero, mesmo. Que alívio saber disso agora! Não seria justo, Britta. Como você mesma disse uma vez, a princesa deve ser alguém que fique muitíssimo feliz. Alguém que ame Steffan. — Miri! Britta! — Esa chamou do alto dos degraus da escadaria de entrada no prédio da academia. — Estão aqui? Olana mandou encontrar vocês. O príncipe está prestes a vir nos ver. Britta colocou a mão na barriga e gemeu. — Não vou conseguir, Miri. Acho que acabo morrendo se fizer isso. Miri riu, e rir pareceu ser exatamente a melhor coisa a fazer. Puxou Britta até que ela ficasse de pé e deu um abraço forte na amiga. — O que é tão engraçado? — Britta perguntou, começando a sorrir só de ouvir a risada de Miri. — Você. Britta, você sobreviveu a Olana, a Katar, a dois invernos na montanha e a uma horda de bandoleiros. Pode até vomitar, mas não vai morrer agora. Mas, se for vomitar, é melhor que seja aqui. Será um pouquinho mais embaraçoso se acontecer no meio de suas reverências. O rosto de Britta perdeu a cor. — Você acha que eu conseguiria...? Miri soltou outra risada e puxou os dois braços dela. — Vamos lá, vamos ver seu príncipe. Elas entraram correndo na sala de jantar exatamente quando Steffan surgia pela porta do outro lado. Os olhos dele varreram o cômodo inteiro, cheios de expectativa, e quando pousaram em Britta, ele deu um meio passo para

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trás. Então começou a sorrir, depois se abriu um pouco mais e acabou com um grande sorriso estampado no rosto. Seus ombros relaxaram e Miri ficou meio à espera de que ele fizesse alguma coisa infantil e inesperada, como dar um pulo de felicidade ou partir rapidamente para o lado dela. Mas o que ele fez foi uma grande reverência, recurvando-se até o chão. Steffan tirou os olhos de Britta e deu uma volta pelo salão, cumprimentando cada menina com um aceno da cabeça. Ao chegar em Britta, parou. Miri jamais teria imaginado tal coisa, mas toda a postura estudada do príncipe desapareceu ali. Ele ficou subindo e descendo o corpo inteiro apoiado na parte anterior dos pés. — Boa-tarde, senhorita. Não creio que fomos apresentados em minha última visita. — Meu nome é Britta, Alteza — disse ela, numa perfeita reverência, embora com a voz levemente embargada. — Britta Poweldaughter. — É um prazer conhecê-la, Britta Poweldaughter. — O príncipe fez mais uma leve reverência, pegou a mão dela e a beijou. Com a boca encostada na mão de Britta, ele disse baixinho: — Eu me chamo Steffan. — É um prazer, Sir Steffan. — O rosto dela não suportou a solenidade. Ela sorriu com tal fervor que o coração de Miri começou a bater mais rápido só de vê-la. Steffan continuou, saudando as outras meninas, e depois foi conversar baixinho com a mulher do vestido verde. Ela fez um gesto afirmativo com a cabeça e chamou um padre que estava no corredor. Vestido com uma camisa marrom-escura e um barrete branco, o padre fez Miri se lembrar do Monte Eskel no início da primavera. — O Príncipe Steffan, herdeiro do trono de Danland, escolheu sua princesa — disse a mulher. — Britta Poweldaughter, por favor, se aproxime. Britta começou a tremer ainda mais e seu rosto corado perdeu quase totalmente a cor. Miri teve receio de que ela caísse ou desmaiasse, de modo que colocou o braço nos ombros dela e a acompanhou de um lado ao outro do salão. Steffan se aproximou rapidamente e pegou o outro braço dela. — Você está bem, Britta? — ele sussurrou para ela. — Quer se sentar? Britta balançou a cabeça. Miri se deslocou para um dos lados e esperou enquanto Britta e Steffan se colocavam diante do padre. — Eu escolho Britta Poweldaughter como minha noiva para subir ao trono — Steffan falou. — E ela aceita? — o padre perguntou. — Eu aceito Steffan Sabetson como meu noivo. — Britta respirou profundamente, como se estivesse segurando o fôlego há muito tempo. O padre fez um discurso longo para o ritual do noivado, que incluiu a citação dos nomes de todos os reis e rainhas desde o Rei Dan em diante. Miri percebeu que ele pulou um no meio e inclinou a cabeça, olhando de soslaio para as meninas. Parece que outras pessoas também perceberam e abafaram os risos. O padre parou, se corrigiu e continuou. Olana, observando do corredor, sorriu orgulhosamente. Quando terminou a cerimônia, o padre se dirigiu às meninas: — O rei deseja que eu divulgue sua aprovação pela academia e por cada

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uma de vocês. Em homenagem à noiva de seu filho e a esta academia, o rei renova seu amor pelo Monte Eskel e eleva seu status de território para a décima sexta província de Danland. Que emerjam os potenciais! — Ninguém se mexeu, de modo que o padre fez um gesto para as meninas da academia. — Vocês são os potenciais. As meninas deram um passo à frente, mantendo a retidão da fileira, e Miri se juntou a elas. — Eu proclamo cada uma de vocês formadas por esta academia, cidadãs de Danland, e damas da princesa. — O que isso significa? — perguntou Frid, olhando para o padre com os olhos arregalados. — No mínimo — disse Steffan — que estão todas convidadas para virem a nosso casamento em Asland daqui a um ano. As meninas soltaram exclamações e se viraram umas para as outras, e começaram a tagarelar sobre verem as coisas sobre as quais haviam aprendido, e sobre as comidas e danças. — O mar! — disse Esa. — Vamos ver o mar. Katar ficou sozinha, com um sorriso educado congelado em seu rosto. Miri pensou se ela não estaria pensando em ir ou deixar de ir à capital, mas sim em ter de voltar. A comitiva do príncipe preparou um esplêndido banquete de frios, queijos, frutas e pães, e todos se sentaram nos bancos da academia, planejando a viagem de volta à planície. Miri ficou observando Britta ao lado do menino que ela amava. Seus olhos brilhavam, seu sorriso era largo e genuíno. Seus gestos tinham perdido o alvoroço da ansiedade e ficaram mais suaves e confiantes, agora sem o fardo da insegurança. O coração de Miri estava satisfeito e seus lábios continuavam insistindo num sorriso, mas por alguma razão ela não conseguia comer com tanta vontade quanto gostaria. Pensou que pudesse ser algum ciúme por não ter sido escolhida. Não, o pensamento parecia falso. Observou Britta e Steffan, o jeito como se inclinavam um para perto do outro, como se não houvesse mais ninguém por perto. O coração de Miri chegava a palpitar. Deve ser uma coisa maravilhosa sentir tanta certeza assim, conseguir fitar os olhos de outra pessoa e não desviar o olhar. — Não vá embora ainda — Britta falou para Miri quando o padre a convocou junto com Steffan para saírem do salão. Então, quando Esa e a maioria das meninas saíram de volta para a aldeia, Miri ficou. Passeou pelos corredores da academia, estudando as lajotas de pedra do piso e calculando as áreas que seriam mais fáceis de arrancar para vender sem danificar o prédio. Deu, inclusive, uma espiada no quartinho escuro, que agora estava vazio, e chegou a soltar um desafio: — Não tenho medo de você, seu ratinho! Sou uma menina da montanha. Talvez uma hora mais tarde, ela avistou Britta e Steffan caminhando juntos ao ar livre. Steffan trazia o braço dela apoiado sobre o seu e os dois conversavam baixinho, precisando até inclinar a cabeça para perto do outro para ouvir, ficando com as testas quase encostadas e os cabelos se

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emaranhando. Passou um falcão voando baixo e, quando Britta e Steffan olharam na direção dele para acompanhar o rasante, Britta avistou Miri e fez logo sinal para ela se aproximar. — Que bom ver você! — Britta falou. — Miri Larendaughter, posso lhe apresentar Steffan? — Já nos conhecemos — Miri falou, fazendo a reverência apropriada — naquela noite em que você estava indisposta. — Britta, foi por isso que você não veio ao baile? Britta confirmou. — Quase desmaiei. Acho que estava morrendo de medo que você me considerasse uma tola por estar aqui e acabaria escolhendo outra. Steffan riu, trocando olhares com Britta para compartilhar a piada. — Britta, eu sabia que você estava aqui. Seu pai tinha mandado me avisar e eu me senti bastante aliviado, porque você e eu... Ele parou e, dessa vez, tanto ele quanto Britta coraram, achando o assunto de seu casamento algo ainda novo e estranho. — Então — Steffan continuou, com os olhos no chão —, quando acabei achando que você não estava mesmo aqui, fiquei tão decepcionado que não consegui esconder, e tentei conhecer todas as meninas e ainda escolher, mas acho que não me saí bem. — Ele olhou de relance para Miri. — Ele conseguiu deixar a estonteante impressão de ser uma pilastra de pedra. — Você se retraiu para ficar com aquele seu jeito rígido e formal, não foi, Steffan? — Fiquei nervoso. Você não estava aqui e eu não tinha me preparado para conhecer ninguém mais. — Eu teria dado risadas se tivesse visto você assim — Britta falou. — Não precisa se preocupar porque a Miri fez isso por você. Dava para imaginar que, de todas as meninas, ela seria sua amiga. Peço desculpas por ter ido embora tão abruptamente, mas eu não podia tomar uma decisão antes de saber o que havia acontecido com Britta. Dá para imaginar minha frustração quando voltei para a capital e fiquei sabendo por um dos criados que uma das meninas da academia não foi ao baile e ainda ter de esperar esse tempo todo até que a neve voltasse a liberar o desfiladeiro para poder subir a montanha novamente... Bem, posso dizer que o inverno foi longo. "Passei mais tempo do que gostaria trancado num cômodo pequeno com o padre revendo livros de direito. Queria ter certeza de que não haveria obstáculo a nosso noivado, de modo que falei de você para ele, falei que seus pais não eram do Monte Eskel e que ainda estavam vivos. Depois de uns meses, ele acabou concordando que a lei não poderia evitar nada. Mas tenho a impressão de que os padres podem fazer uma emenda nessa lei antes do... antes que o próximo príncipe herdeiro se case." Steffan detestou ter de se afastar de Britta, mas em pouco tempo um ministro já o tinha comprometido com uma conversa com Olana para assinar alguns documentos oficiais. — Volto logo — ele disse várias vezes, virando-se para trás enquanto se afastava, de modo que pudesse acenar para Britta. Britta correspondeu aos acenos e colocou a mão sobre o peito.

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— Tenho a sensação de que meu peito vai arrebentar. Como é que poderia tudo ficar tão maravilhoso assim? — Você merece — disse Miri. — Eu consigo pensar numa coisa capaz de deixar tudo ainda melhor. — Britta sorriu, como se guardasse um segredo. — Você se lembra do que aprendemos sobre a diferença entre um território e uma província? — Oh — Miri balbuciou, agitada com o pensamento. — O Monte Eskel vai precisar de um mandatário para nos representar na corte. — Seu status como formada na academia e como dama da princesa a torna uma candidata digna do cargo, e eu sei que Steffan ficará feliz de recomendá-la ao mandatário-mor. Assim, durante a maior parte do ano, você poderá morar em Asland comigo. Foi uma oferta generosa e convidativa, uma resposta aos desejos que Miri tinha feito às florezinhas que lhe deram o nome, mas ela hesitou um instante antes de dizer: — Que seja a Katar! — A Katar? Mas, por que... — Ela só é chata porque sofre. Mas será uma excelente mandatária; acho que sim, sinceramente. E eu gostaria de ficar em casa um tempo. — Tudo bem, mas prefiro ficar com você. — Britta viu Steffan chegando e acenou para ele, soltando um suspiro. — Quando vier para o casamento na próxima primavera, você vai ter a oportunidade de conhecer Asland e resolver se quer ficar. Poderia morar no palácio como dama da princesa, ou frequentar a universidade e se tornar tutora, ou simplesmente ficar sentada na biblioteca do palácio lendo o ano inteiro. Mas fique sabendo, antes de vir, que estou pensando em fazer o máximo para convencê-la a ficar. — Espero que sim. Eu gostaria de conhecer o mundo. — Miri avistou o barrete branco e a camisa marrom do padre parado à beira do precipício olhando a vista. — Não consigo deixar de pensar na escolha da princesa... sabe, se você estava fadada a ser a princesa, por que os padres não adivinharam que ela viria de sua cidade, Lonway, e não do Monte Eskel? Britta deu uma olhadela para o prédio da academia. — Talvez eles soubessem o que estavam fazendo. Talvez o Monte Eskel não precisasse de uma princesa, só de uma academia. As outras meninas estavam voltando para a aldeia e acenaram para Britta ao passar, parabenizando-a aos berros. Katar estava no meio delas, olhando fixamente para o chão enquanto caminhava. — Katar, espere — Britta falou correndo em sua direção. Miri ficou olhando enquanto Britta fazia o convite a ela. A expressão de Katar se modificou tão rapidamente quanto o fim de uma tempestade de verão. Seu jeito contido foi se relaxando, seu queixo começou a tremer e ela virou o rosto para o outro lado. Miri sabia que deveria estar sendo difícil para ela demonstrar essa emoção e torceu para que Britta fingisse não ter percebido ou a deixasse em paz. Mas o que a amiga fez foi abraçá-la. Miri continuou olhando, fazendo apenas um gesto de aprovação com a

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cabeça, confiante de que não havia ninguém melhor no mundo para ser a primeira amiga de Katar. A comitiva real estava atrelando os cavalos às carruagens e carroças, então Miri voltou correndo para a academia com esperanças de fazer uns últimos negócios. Tinha uma moeda de ouro no bolso, um presente do pai, e queria usá-la bem. — Eu gostaria de ficar com as pranchetas de barro e alguns dos livros — disse ao entrar na sala de aula. Olana estava colocando o último livro numa sacola de couro. — Eu cumpri com nosso acordo. Britta vai me recomendar para o príncipe me indicar um bom trabalho na capital; portanto, não há o que me detenha. Pode ficar com as pranchetas, mas os livros pertencem à minha coleção pessoal e você não tem nada de valor para trocar por eles. Miri jogou a grossa moeda de ouro do seu pai em cima da mesa de Olana. Ela quicou sobre o tampo, tilintando, e ficou girando, girando até parar. Olana a recolheu de cima da mesa e a moeda desapareceu rapidamente em seu bolso. — Engano meu. Seis dos livros podem ficar. Você se superou em Comércio. Miri suspeitou que Olana estava sendo generosa, mas não discutiu. Escolheu seis livros e os abraçou contra o peito. Teve a sensação de estar levando a coisa mais valiosa do mundo, melhor que uma moedinha de ouro, melhor que uma carroça cheia de pedra de cantaria. A leitura daqueles livros modificara sua vida e ela mal podia esperar para fazer a aldeia inteira sentir aquela diferença. Pensou se deveria dizer adeus a Olana antes de ir embora, mas ficou com uma impressão de estranheza, pois era algo que uma amiga diria para outra. Assim, caminhou em direção à porta sem dizer nada. — Um momento, Miri. Miri parou. Olana estava segurando o quadro da casa. — Diga para as outras meninas que eu... Pode explicar que o fardo de transformar rudes meninas da montanha em princesas, só nos meus ombros... — Sua voz embargou, mas se ela estava prestes a derramar lágrimas, seus olhos não demonstraram isso. Olana balançou a cabeça e a velha expressão de dureza se apossou novamente dos seus traços. — Eu precisava provocá-las, sabe. Precisava deixá-las com raiva para que vocês estudassem mais, de maldade comigo. Não me arrependo de nenhuma crueldade. Funcionou. Mas me arrependo de uma mentira. — Ela soergueu o quadro. — Essa casa nunca existiu. Trouxe o quadro com o intuito de dar a vocês mais um incentivo para seus esforços. Miri estava achando que nada mais seria capaz de surpreendê-la depois que ficou sabendo a verdade a respeito de Britta; porém, mais uma vez naquele mesmo dia, ficou chocada. Tantas horas passara olhando para aquele quadro, imaginando papai e Marda passeando pelo jardim, entrando e saindo por aquela porta, descansando em cadeiras confortáveis perto da lareira. — Como você pretendia se sair com essa mentira no final da história? — Agora não importa mais, importa? Parece que a família de Britta já tem

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posses muito maiores que a casa do quadro. Se o príncipe tivesse escolhido uma de vocês, duvido que os ministros reais tivessem alguma intenção de trazer a família dela para a capital. Não há razão para zanga em cima de suposições. — Olana colocou o quadro dentro de uma sacola de pano vazia e a entregou para Miri. — Tome. Você é a princesa da academia. Fez por merecer o quadro. Miri aproveitou a sacola e nela colocou também, com todo cuidado, seus livros e pranchetas. Um presente de qualquer pessoa era uma coisa boa, mas, vindo de Olana, parecia um milagre. E agora tinha algo para dar à família. Não era uma casa de verdade. Não significava que papai e Marda poderiam ficar o resto do dia sentados vendo as flores crescerem. Mas papai acabaria mesmo ficando entediado, e Marda, com saudade da montanha. Miri ainda poderia lhes dar algo belo e eles nem precisariam sair de casa. O quadro acabou sendo o melhor presente. — Obrigada — disse Miri, querendo dizê-lo por mais do que apenas o quadro. E saiu, sem mais palavra, pensando que o "obrigada" fora melhor que um "adeus". Depois de uma última despedida a Knut, Britta e Steffan, Miri partiu para casa, com a preciosa sacola nos braços. Estava andando e prestando atenção no caminho para não tropeçar, de forma que só percebeu que alguém tinha se aproximado quando sentiu um puxão na sacola. Assustou-se, pensando nos bandoleiros, mas era Peder. — Olá — ele disse, pegando a sacola das mãos dela. — Peder, meu coração quase parou de susto... — Ela olhou para o outro lado, com receio de que mencionar seu coração para Peder fosse algo por demais revelador. — Achei que seria uma boa ideia voltar andando com você. Esa já chegou há algumas horas e me falou de Britta. Pois eu vim lhe dizer que fiquei satisfeito de não ter sido você a escolhida. — É, eu também. Peder soltou um suspiro alto. — Eu estava preocupado. Nestes últimos meses, parecia até que você estava torcendo... Você está bem, mesmo? Miri sorriu. — Estou, muito bem. Peder voltou ao seu sorriso maroto. — Foi o que pensei, o tempo todo. Os dois caminharam em silêncio durante algum tempo, sem conseguir pensar no que dizer depois daquilo. Foi Peder que acabou voltando a falar, para contar a ela que o pai tinha concordado em dar a ele um tempo para esculpir coisas a partir de um bloco de cantaria. — Se algum mercador estiver interessado — Peder falou —, se pagarem mais do que pagam por um bloco de cantaria lisa, ele disse que posso passar a fazer isso o tempo todo. Acho que nunca me teria dado a chance se as coisas não estivessem indo tão bem como agora. Obrigado. Miri sentiu um impulso de rir, ou dizer algo engraçado, ou fazer alguma brincadeira em cima daquilo, mas acabou dizendo:

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— De nada, Peder. — Depois riu, sim, sem razão alguma, com o coração batendo forte e uma comichão no estômago. — O que foi? — Peder falou. — Qual foi a piada? — Não foi piada alguma. Só estou me sentindo bem, com vontade de rir. Ano que vem vou à capital para o casamento e você também pode ir. Pode estudar com artesões que trabalham com pedra e eu posso ler todos os livros da biblioteca do palácio. — E se houver uns cem livros? Ou mil? Miri se assustou um pouco só de pensar. — Não é possível haver tanto livro assim no mundo inteiro... — E ficou tentando imaginar. Será? E quanto tempo seria necessário para ler tudo aquilo? E o que diriam todos eles? — Se é para ler mil livros, é melhor começar logo — Peder falou. — Talvez. Mas não aproveito minha casa há tanto tempo que agora acho que posso... eu quero experimentar. Quero preparar o café da manhã para o meu pai, cuidar do jardim da Britta e tratar de preparar os coelhos no inverno no lugar da Marda. E quero abrir uma academia na aldeia onde as pessoas possam vir para aprender alguma coisa. Esa vai me ajudar. — Acho que ela vai gostar — Peder falou. — Já pensei nisso e resolvi que você também pode virar aluno, se for bonzinho. — É mesmo? — É, acho que sim — disse ela soltando um suspiro exagerado. — Mas vai lhe custar uma coisa: um falcão de pedra. Peder fez com a cabeça um gesto de quem estava impressionado. — Forma de pagamento interessante, essa sua! O que a levou a pensar nisso? — Já tive um antes, e foi a coisa mais... Bem, na verdade, a coisa mais preciosa que tenho na vida é a semana em seguida ao meu nascimento quando minha mãe me segurou no colo sem me largar um instante sequer. Mas o falcão foi a segunda coisa mais preciosa. Fiquei sentida ao perdê-lo; e, se você me fizer outro, prometo nunca mais ser capturada por bandoleiros e ter de usá-lo para salvar minha vida. Em vez de rir, Peder soergueu a sacola e engoliu em seco, aparentando nervosismo. — É claro que faço, mas estive pensando em outra coisa, se nós, se você... Peder balançou a cabeça, como se desistisse das palavras, esticou a mão e pegou a dela. Miri mordeu o lábio para evitar qualquer impulso de se afastar. Tinha certeza de que ele estava sentindo as batidas do seu coração nas pontas dos dedos e saberia que, por dentro, ela estava tremendo e suspirando. Então, depois de um tempo, ela parou de se preocupar. E também sentiu o coração dele batendo, rápido como um coelho em fuga. Quando os dois entraram na aldeia, Peder ainda segurava a mão de Miri. Frid não conseguiu tirar os olhos deles ao vê-los passar. Esa chegou a corar. Gerti e as três irmãs caçulas sorriram e saíram correndo atrás deles, cantarolando algo sobre um beijo para cada pétala de miri. Por duas vezes, Miri relaxou a mão, para o caso de ele querer soltá-la, mas ele a segurou

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com mais força ainda. Somente quando chegaram à casa dela foi que ele a soltou. — Podemos conversar mais tarde, ou dar um passeio hoje à noite, se você quiser. Marda e papai tinham voltado cedo da pedreira e estavam sentados nas pedras maiores em torno do jardim de Britta. Miri deu o quadro a eles, apoiou a cabeça no ombro do pai e ficou sorrindo enquanto os dois se enterneciam com o presente. Eles continuaram por ali até que a luz a oeste mudasse, enchendo a tarde de amarelos e alaranjados, e cantaram uma harmonia em três partes. Papai cantou o baixo, Marda o alto e Miri a melodia. — A linha do prumo está balançando. O falcão da primavera está voando. O Monte Eskel está cantando. No chão, surgiam ainda enrolados os primeiros brotos no jardim de Britta, mais verdes do que a relva e as folhas das árvores retorcidas do alto da montanha, quase mais verdes que o jardim do quadro. Miri pensou que, se ao menos conseguisse manter as cabras longe, o jardim de Britta cresceria como a coisa mais verde que ela já teria visto na vida. Debruçou-se por cima da cerca de lascas maiores para catar algumas pequenas espalhadas entre as plantas e as arremessou na encosta coberta de cascalho. Em meio aos pedregulhos cinzentos, as pedras brancas e cinza reluziam como joias. Das fendas nos rochedos em toda a volta, já brotavam as flores de miri.

*FIM*

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