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ACADEMIA

LOGUS

Trabalho de Antropologia Filosófica. Chaves de Leitura Antropológica na Filosofia Professor Custódio Almeida. Aluno. José Laerton. jlaerton@gmail.com – (85) 3296 9151. Fortaleza Ce, 2 de maio de 2012

ACADEMIA LOGUS

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Qualquer semelhança com a era em que estamos vivendo é

*****

decida você!

Numa época, não tão distante no futuro, e de tecnologia bem avançada, mas, seriamente perigosa, pois usada de modo predador. A terra havia se tornado um planeta ecológica e socialmente inviável. Faltava pouco tempo para o colapso total. O egoísmo predominou, os recursos se esgotaram e os relacionamentos se tornaram doentios. As cabeças cheias de informação, mas o coração vazio de sentido e de amor. Com a escassez de recursos a sociedade começa a entrar em convulsão irreversível. Parece que em meio do desespero existencial a saída mais fácil era as drogas ilícitas, incluindo os psicotrópicos alienantes, a pornografia, a violência, o crime e absurdos inomináveis a se perder as contas. Tudo apontava para o fim da civilização humana.

O primeiro grande sintoma foi à demolição da instituição da família, a célula máter da sociedade. Mas ninguém quis se conta que o desastre familiar não viria sem o desajuste e desespero do individuo, que como lobo solitário tende a se tornar mais e mais esquisito, tornando se um perigo para si mesmo e para todos os que o cercam. A pregação em voga era liberdade total, nenhuma autoridade, mais direitos e cada vez menos deveres, a verdade e o certo é o que cada um decidisse para si. Não podia haver normas universais e públicas, apenas normas particulares e subjetivas. Cada um deveria ser lei para si mesmo, etc

Todo o marketing da época existia para criar necessidades ilusórias a serviço de uma economia selvagem e canibal. Na esteira desse relativismo fatal a civilização foi engolfada no desespero existencial, onde a tecnologia parecia cada vez mais onipotente e o homem cada vez mais descartável. Era o ser e o nada nauseante de uma civilização nos últimos estertores de agonia, ainda, parecia sonhar com um milagre que a fizesse escapar do buraco negro para o qual deslizava inexoravelmente. Não parecia haver luz no final do túnel. O show estava acabando. As cortinas desse drama tragicômico pareciam estar prestes a cair pela última vez.

Por longo tempo a humanidade tratou a filosofia como algo descartável, sem perceber que era sempre ela que estava nos bastidores moldando as civilizações. Quase que poderíamos dizer que a civilização é um fruto ou produto da filosofia que abraça. Por isso filosofar por filosofar é o ato mais irresponsável da humanidade. A filosofia, sempre tem conseqüências. As idéias são as sementes da ação. Idéias loucas, mas colocadas de forma erudita e em formato pseudocientífico, respaldadas por enganosas filosofias, “benzidas” por equivocadas interpretações religiosas, têm provocado as maiores tragédias da humanidade. Os exemplos são tantos que não necessidade de se enumerar qualquer deles aqui.

Nesta época, não tão distante assim, a filosofia tinha chegado a um buraco negro epistemológico, de um lado, e ontológico por outro. O suicídio epistemológico ocorreu, quando deixaram de acreditar na possibilidade de se encontrar conhecimento e verdades absolutos, públicos ou universais. Ao reduzirem a metafísica a apenas jogos de palavras, onde toda a realidade acabava sendo interpretada como símbolos e representações criados

subjetivamente, toda possibilidade de compreensão ontológica das causas e ultimas das coisas se tornou inviável.

A dialética relativista existencial, logo antes do colapso da última civilização presente a terra foi acusada pela grande degeneração final. Porém, muitos acham injusto acusar, apenas os pós modernos pela grande catástrofe telúrica. O desastre era grande demais para ser atribuído a apenas uma corrente da filosofia, juntos com as artes, ciências, políticas e religiões que sempre se atrelam as correntes filosóficas. A rigor, pode se dizer, que todas as civilizações são produto da má ou boa filosofia que a geriu e motivou.

Voltando ao caos da terra, quando tudo parecia perdido, um grupo de cientistas motivados por filósofos e religiosos que não tinha desistido da verdade e da esperança, descobriram um lugar no espaço sideral que poderia ser colonizado. A única saída foi enviar várias famílias para colonizarem um grupo de pequenos planetas. Para ser exato, quatro planetóides com características semelhantes as da terra. Chamavamse na seguinte ordem: x1 classicus, x2 medievus, x3 modernus, x4 pós modernus. Os quatro dependiam uns dos outros. Pois, somente a soma dos recursos de cada planetóide dava os recursos que a terra sozinha tinha. Foi então criada uma federação chamada de Federação Galática Logus aletheia para gerir a nova colonia. Era do interesse da Federação descobrir por que a terra, apesar de tantos anos de religião, filosofia e ciência, terminou se tornando um planeta inviável para se viver. Quem de fato era o homem? Capaz de grandes realizações, mas de maiores ainda, loucuras e absurdos. Onde estava o erro nas chaves de leituras filosóficas, religiosas e científicas. Os nomes dados aos planetóides correspondem aos quatro períodos da filosofia ocidental.

Foi, também, criada uma academia filosófica, com unidades baseadas em cada um dos quatro planetóides. A UFC (Universus Filosóficus Cearences) era a unidade baseada em x3 modernus, mas que dava assistência por teleconferência a x1 clássicus e x2 medievus, que ainda não tinham unidade fixa. A outra unidade fixa era a URA (Unversus Relativus Alienantes) baseada em x4 pós modernus, que era rival da UFC e a criticava por não ter perdido a esperança de achar verdades universais e públicas. A missão dessa academia futurista era descobrir onde o homem tinha errado, e para não repetir os mesmos erros filosóficos na nova colônia, que um erro de uma corrente filosófica pode arrastar uma civilização inteira para o abismo. A estratégia seria trazer os filósofos das quatro eras da história da filosofia, com a finalidade de descobrir a partir dos próprios filósofos de cada época, as chaves antropológicas de cada período que pretendiam responder a pergunta universal: Que é o homem? Que de errado com Ele? alguma esperança para a humanidade? Por que chegamos a onde chegamos? É, portanto, nos diálogos, confrontos, críticas, debates e possíveis soluções dessa academia futurista, que emergirão as chaves de leituras da antropologia universal.

Tudo começa quando o governo da Logus aletheia, manda construir uma grande nave plataforma flutuante, a que denominou de SOFIA (Sabedoria Ontológica de Filosofia e Inteligência Antropológica). A grande eclésia da polis futurista, reunida na nave mãe, com representantes de toda a federação, votou para decidir qual das duas universidades ficariam no comando do projeto LOGUS e da SOFIA. O voto da maioria recaiu sobre a UFC. Possivelmente por ainda crê na verdade. Foi decidido, também, que a SOFIA será dirigida, pelo

magnífico vicereitor da UFC, Dr. Suidótsuc, um dos mais brilhantes filósofos de sua época, que por sua vez, será assessorado por alguns de seus alunos.

Sofia era uma gigantesca plataforma teletransportadora, suspensa no ar, também conhecida apenas como, a academia. Foi projetada para ser o lugar ideal para reflexão e diálogos filosóficos. Sobre a plataforma gigantesca, qual uma ilha tropical, de ar gostoso e sol brilhante, mas delicado, havia um lago de águas cristalinas, vegetação exuberante, e longos campos floridos e perfumados para se passear sozinho, com colegas, ou com discípulos, eram chamados de campus peripatéticus. Existia uma tribuna onde aconteciam os debates públicos. Tudo convidava a filosofar.

Os relacionamentos eram sinceramente cordiais, embora todos mantivessem honestamente seus pontos de vista. Mesmo que toda a história da filosofia é tida como uma história de confrontos de posições antagônicas, também, na Sofia não se esperava que ninguém mudasse de ponto de vista apenas para agradar o outro, ou coagido. Podia haver respeito e relacionamento, mesmo nas sérias divergências. Também, não se tentava fazer síntese entre duas teses claramente opostas. Nos debates, todos tentavam estabelecer a validade e consistência de sua posição, isso invariavelmente conduzia a mostrar a inconsistência de outras posições, porém isso era feito de modo amoroso e respeitoso, fazendo diferença entre posição e proponente. Você pode destruir a posição equivocada de alguém, mostrando sua inconsistência sem, no entanto tentar destruir seu proponente.

Também se chegou a conclusão de que tentar fazer síntese entre posições claramente opostas é desonesto e sempre conduz ao auto engano. posições aparentemente opostas ou paradoxais que dá para fazer sínteses válidas, tais como responsabilidade humana e liberdade. Outras, não é possível, tipo, uma síntese entre bem e mal, teísmo e ateísmo. Na academia, a regra era, respeitar tanto uma quanto outra e que cada um mantivesse sua posição de acordo com os ditames da própria consciência.

Fato a ser lembrado. Quase toda a paisagem da SOFIA é holográfica. São imagens da velha terra criadas por computador para criar um ambiente favorável à arte de filosofar. Inclusive a brisa, cheiros e belos pores do sol. Lembre, que os recursos da Tetrapolis são raros e escassos. Na tetrapolis o mínino necessário para viabilizar a existência humana. Foram trazidos da terra, todos os tipos de animais e plantas para serem cultivados em um ou outro dos quatro planetóides, conforme melhor se adaptem ao novo ecossistema. A esperança era grande de um dia chegar a ter tudo que se tinha na terra. Mas, agora tinham de se contentar com alguns vegetais comestíveis nativos e continuar com as experiências, no sentido de que a agricultura da terra se adaptasse plenamente ao novo ecossistema. Na SOFIA tem oxigênio real, água, alimentos reais, e tudo que viabiliza a vida humana, porém, como foi dito, com cuidadoso racionamento. Embora houvesse coisas virtuais na SOFIA, seus relacionamentos e confrontos eram reais, com pessoas reais.

Em outra assembléia da Eclésia da tetrapolis (cada um dos quatro planetóides era considerado uma grande polis ou cidade) reunida em assembléia democrática, mas orientada pelo conselho dos sete sábios, foi feita a apresentação dos tripulantes da Sofia para os principais representantes da federação.

O Diretor da Sofia e professor de antropologia e orientador geral do projeto LOGUS escolhido foi o Dr. Suidótsuc Dialéticus Hermeneuticus Serenus. Professor Suidótsuc é da família Serenus, conhecida pela tranqüilidade e sinceridade. Dr. Suidótsuc foi escolhido pela erudição atestada, empenho pela verdade, e por ser um líder nato de grande sensibilidade filosófica.

Outros professores da equipe liderada por Suidótsuc: Mestre doutorando, Rotiv Naturalistic; Mestra doutoranda, Krad Anaoj; Mestre doutorando OguH Olimpictus Sunabiarap, Dr. Oaitsabez Erdna Sociabilys e Dr. Krelcel Logicus Canadian.

Alunos do professor Suidótsuc, convidados por ele para assistirem aos diálogos filosóficos: Cristianus; Misticus; Inquiridorus; Enciclopedicus; Prescutadora, Materialisticus, Ateusinus, e outros que aparecerão, ao longo do enredo.

SOFIA tem uma engenhoca futurista, que consegue teleportar filósofos das quatro eras básicas da história da filosofia. Não os traz do mundo dosmortos. A máquina que chamaram de CRONOS, tomava, apenas, 60 minutos do último ano de vida do filósofo na terra (época em que toda a sua filosofia tinha amadurecido). Aqueles 60 minutos, depois do filósofo está a bordo da SOFIA eram estendidos ao máximo de 2440 minutos. Terminado o dia, o filósofo era automática sugado da SOFIA até a sua época. Chegando lá o filósofo não conseguiria lembrar da instigante aventura. Mas os da SOFIA teriam ricos dados para o projeto LOGUS.

Outro fato sobre a SOFIA é que seu combustível era raríssimo e tudo quanto existia dele estava agora nela, de modo que era a única chance de conversar com os filósofos históricos. Também, por isso, somente alguns deles foram selecionados para que a sua teleportação não viesse a gastar mais ainda do precioso combustível. Os professores da UFC a bordo da SOFIA deram um curso rápido para todos os filósofos de todas as épocas presentes, para que pudessem melhor interagir uns com os outros, sabendo o que aconteceu e a ênfase filosófica de cada época. Dr Suidótsuc deulhes um panorâmica da antropologia, Mestre Rotiv lhes falou das contribuições da ciência, especialmente na área de biologia; Mestra Anaoj discorreu sobre a análise de textos filosóficos, Mestre OguH perito em história da filosofia, por isso escolhido para apresentar os preletores e debatedores, fez um resumo da linha histórica da filosofia, Dr. Oaitsabez falou do impacto da filosofia sobre a sociedade e finalmente, Dr. Krelcel, apresentou os avanço da lógica e das novas “lógicas”. Estava preparado o campo para as múltiplas cenas filosóficas.

PASSAGEM POR X1 CLÁSSICUS

Os primeiros filósofos a serem selecionados e teletransportados eram do período clássico. Após serem recepcionados por mestra Anoaj, que com sua simpatia tranqüilizadora, explica para eles o motivo de estarem ali. Após a recepção, alunos da UFC procuram ambientá los na SOFIA. O primeiro personagem da idade clássica que aparece é Sócrates. Está sozinho. Após ter absorvido o impacto da situação e perceber a seriedade do projeto LOGUS. Saiu a passear nos campos floridos que exalavam um cheiro saudoso, trazido por uma brisa suave e refrescante, afim de tentar processar mentalmente toda aquela situação e desafio.

SÓCRATES está pensativo e inquire:

Que é o homem? – É a mesma pergunta que eles continuam a fazer depois de tantos séculos. É a razão de todos estarem aqui. O destino da humanidade está indissoluvelmente ligado a resposta dessa inquirição. E pelo que vejo o cenário continua embaçado.

Faço essa pergunta a mim mesmo como ser de contemplação (teoria) diante dos desafios morais e políticos (práxis) da grande polis. Tentei ouvir as respostas dos filósofos antes de mim. Tantas vozes dissonantes, que quase me fizeram desistir dessa pergunta. Vejo que nem eu e nenhum antropos (homem) conseguirá se desembaraçar dela enquanto viver. Minha responsabilidade foi aumentada desde que o oráculo disse que eu era o homem mais inteligente do meu tempo, mas, parece que, só sei que nada sei. Portanto, parto do desafio de conhecer a mim mesmo como homem, tentando descobrir o que é o homem, ao descobrir que eu mesmo sou. E quando me perguntam quem é o homem, não poderei ir muito além do conhecete a ti mesmo ” ( gnothi soutón ) e já terás feito grande avanço.

Nesse momento chega Heráclito e diz a Sócrates:

HERÁCLITO: Vejo, mestre Sócrates, que muito te perturbas, como muitas perguntas. Deixeme dizer como vejo homem. Para mim, o homem é um constante devi (vir a ser), é tal qual o fogo, um ser que está constantemente mudando. Veja que metáfora uso para ilustrar isso. O homem é como um rio na qual não se pode entrar duas vezes. Mas, se você for para meu discípulo, Crátilo, ele lhe dirá que você, jamais poderá achar resposta a essa pergunta, pois, reinterpretando, a minha metáfora do rio, ele afirma, que, tanto o homem quanto o rio, desde a primeira vez, não são o mesmo. Tanto o homem, quanto o rio estão em constante fluxo, de modo que não se pode determinar qualquer coisa, inclusive o homem, pois tudo está mudando. Para Crátilo, partidário de um ceticismo radical, até a linguagem era inútil para se chegar a qualquer certeza, pois, o emissor da fala está em um fluxo de constante mutação, de modo que quando sua palavra sai em direção ao destinatário, não é o mesmo emissor e nem a mesma palavra que de lá saiu originalmente, e nem o destinatário é o mesmo que tinha começado a ouvir a comunicação.

Neste ponto chega Platão e faz uma pergunta:

PLATÃO: Qual o tema que vocês estão discutindo?

SÓCRATES: Eu pensava que sabia o que era o homem, mas agora, penso que já não sei que

sei. Veja bem, Platão. Como entender o universo e qual o lugar do homem nele? Já foram

dadas tantas respostas, mas, parece faltar alguma coisa. Vejam se não tenho razão

O período arcaico grego foi dominado por uma cultura mítica parecida com a maioria das culturas em volta do Egeo. O homem era visto e interpretado conforme uma cosmovisão baseada no mito. O universo era dividido entre deuses felizes e imortais (theói) e homens mortais e carentes (antropos thanatói ), que não podiam fugir ao destino imposto por esses deuses. O pensamento mítico arcaico era de caráter não crítico, antropomórfico, mais emocional que racional, e principalmente, seu problema não era seu caráter religioso, mas, porque não dava bases plausíveis para suas alegações.

Irrompe nessa hora, um dos personagens holográficos do banco de dados da Sofia. Eles aparecem, sempre que um conceito o esclarecimento importante for necessário. Ele são:

APOLOGÉTICUS (esclarece e defende o aspecto religioso do conhecimento); TECNUS (esclarece

e defende aspectos científicos do saber); SÓFOS (esclarece e defende aspectos do saber filosófico)

APOLOGÉTICOS com voz de leitor de texto apresenta se e faz sua contribuição:

Perdão pela interrupção Senhores. Meu nome é APOLOGÉTICUS e estou aqui para servilos com os conhecimentos de meu banco de dados.

Permitam esclarecer que nem todas as religiões têm explicações míticas ou ingênuas para todas as suas alegações. Embora tenha algumas alegações que ultrapassam a capacidade humana de verificá las empiricamente, seu sistema como um todo é coerente e plausível. A ciência opera nas mesmas bases, nem todas as suas afirmações podem ser demonstrado em laboratório, mas o sistema se mostra viável. Se assim não fosse verdade, por que a filosofia giraria cerca de dez séculos em torno da religião cristã na era medieval? Por que nenhum filósofo foi bemsucedido em se desvencilhar de Deus? O próprio Sartre perguntado por sua mulher Simone, sobre a base do seu ateísmo, o mesmo simplesmente disse que, desde os 14 anos intuiu que Deus na existe e a partir daí passou a viver e agir como se ele não existisse, sem dar nem uma fundamentação para essa “intuição”. Se isso não é fé religiosa, então não tem definição.]

SÓCRATES – Obrigado APOLOGÉTICUS. Continuarei minhas reflexões.

Recentemente houve uma mudança do mito (explicação ingênua e infundada da realidade), para o logos (razão). Essa nova fase, vista como o começo da filosofia grega, começa com os filósofos cosmológicos que se dividem em monistas, pluralistas e atomistas. Os filósofos monistas, que tentavam explicar tudo a partir de um único princípio. Tales explicava tudo a partir da água. Para Anaximandro o arché (princípio e o que dava unidade a tudo) era o ar. Anaxímenes via esse princípio unificador no que chamou de Apeiron (Todos eles da escola de Mileto). De Elea Parmênides diz que o homem é imutável e que o arché é a razão. De Samos, Pitágoras faz tudo girar e ser explicado através dos números.

E meus caros, ainda falta, colher as opiniões dos filósofos pluralistas e atomistas.

Anaxágoras complica ainda mais as coisas (Um dos primeiros filósofos pluralistas) dizendo que

o arché, ou principio que dá unidade ao universo, são partículas ou sementes que deram

origem a toda a vida, e que as tais sementes tinham uma inteligência superior (Nous), organizando todas as coisas, onde tudo seria emanação dessas sementes. Empédocles divide o arché em dois princípios: um material (água, fogo, ar terra) e outro (amor e ódio). Acrescentando a essa babel de conceitos sobre o universo e o homem, temos as contribuições de Leucipo e Demócrito (atomistas), afirmando que, não existe a apenas um princípio, mas dois: átomos e vazios, que são elementos sólidos, gasosos e líquidos, dependendo do estado de separação e de vácuo.

Ouvi falar que algumas dessas teorias serão desenvolvidas no futuro, como Pitágoras, Descartes vai relacionar a números, que eles representam tudo. A teoria do átomo será famosa no futuro. Portanto, mesmo, sendo, um tanto ingênuas, estas teorias deram alguma contribuição, pelo menos no sentido de entender que o Universo deveria ter alguma coisa que

lhe desse unidade. Mesmo com essa contribuição importante, nenhuma delas se mostrou plenamente satisfatória.

Percebem agora senhores porque eu disse que não tinha certeza sobre o que era o homem, e que de um certo ponto de vista pessimista disse, que só sei que não sei. Porém, como filósofos não podemos deixar de perguntar e ter alguma esperança de achar a resposta.

Partamos do princípio de que o homem é um animal racional (zoon logikón) contemplativo (teórico) e teleológico (com propósito), e tentemos encontrar um eixo epistemológico que dê unidade e racionalidade a tudo. Como a Polis se inspirou na ordem do cosmo, em seu ideal de

lei (nomos) e de direito (ética), tendo como fim principal o bem está do homem. – Proponho

que partamos nossa inquirição filosófica sobre o universo e sobre o homem a partir do

próprio homem e da sede da sua personalidade, a sua psiqué. Sendo a missão deste homem conhecer a si mesmo e descobrir como alcançar eudaimonia (felicidade através da possessão

de uma divindade) através da Aretée (excelência ou virtude).

PLATÃO: Mas mestre, como o homem poderá conhecer a si mesmo? Desde que este está

imerso neste mundo de sombras, que é apenas, uma cópia desfocada do mundo eterno de formas espirituais? (a alma). Por onde começar, pelo corpo (soma e apenas sombra da realidade) ou pela alma (a essência da realidade)? Pela física (phúsis natureza) ou pela metafísica (aquilo que transcende a natureza)?

Neste momento chega Cristianus, com um convite de Suidótsuc para Sócrates, Platão e

Aristóteles, que em breve vai se juntar ao grupo para um debate na Ágora, nome que deram a

tribuna dos debates. Entrega o convite e aproveita para fazer um pergunta muito pertinente

na busca do sentido antropológico.

CRISTIANUS Excelentíssimos mestres, ao aproximar me não deixei de ouvir que falam da natureza. Que é natureza para a filosofia?

SÓCRATES – Curioso Cristianus! É boa a tua pergunta. Em torno dela e seu par dicotômico, a xaris (graça) girarão a maioria das discussões filosóficas, especialmente no período que vocês chamam de medieval, onde, Tomás de Aquino, aqui presente, dará expressiva contribuição. Deixo que ele mesmo fale, quando chegar a sua vez.

A phúsis grega e a natura latina têm suas raízes com valor semântico de produção,

crescimento, dar à luz. De modo que, natureza em seu sentido primitivo, se referia aquela parte da realidade sujeita a alterações, em contraste com aquela parte da realidade que é

eterna e imutável. Assim, natureza física, se aplicava ao sistema de coisas sujeitas a transformações, o mundo sensível e empírico dos homens.

Nos filósofos que me precederam, é na phúsis, que se encontrava o elemento natural que dava unidade ao todo. Uns apontaram como elemento básico da natureza, a água, outros o ar, fogo, etc outros um elemento genérico, a que denominaram apeíron (ilimitado, indefinido).

Seu professor Suidótsuc falou me que no século de vocês, a phúsis, inclui a totalidade do universo material com seus fenômenos. E que no sentido teológico, natural, é usado para contrastar com o que é sobrenatural. Homem natural é o mesmo que homem não regenerado,

ou que não sofreu a intervenção da graça divina. Isso será discutido por Agostinho na filosofia medieval.

PLATÃO

Pessoalmente creio vejo a phúsis ou natureza com seu mundo de particulares (objetos físicos) como algo temporal, material, mera cópia do mundo dos universais, portanto em constante fluxo, por isso inferior a realidade.

Nesse ponto Sócrates interrompe;

SÓCRATES – Caro Platão! Quanto a questão das certezas quanto a realidade. creio que os

sofistas, mesmo com todas as suas falácias, se escondendo atrás do não ser, mercadejando o ato de filosofar, ceticismo em gnosiologia que os leva a um perguntar infinito, onde a resposta não é importante mas a pergunta, que não é impossível conhecer o mundo real, aparências, daí seu o afogamento num relativismo filosófico mortal. Mesmo assim, trazem uma contribuição interessante.

A Paidéia que os faz se concentrar na força e poder da palavra. Também, é interessante a sua

máxima, que coloca o homem no centro da discussão filosófica e não mais o cosmo: “ o homem é a medida de todas as coisas ”. Esse antropocentrismo sofista é baseado em ceticismo teórico, destruidor da verdadeira ciência, embora use a paidéia, ou educação, a usa para ensinar aos homens, como ser de carência num planeta onde não recursos suficientes para todos, a

extrair o máximo para si mesmos, ou como ter sucesso a quaisquer custos, através de um relativismo prático, destruidor da moral. Veja Platão essa citação que consegui pela internet no ipod que a academia me forneceu ao chegar.

Em coerência com o ceticismo teórico, destruidor da ciência, a sofística sustenta o relativismo prático, destruidor da moral. Como é verdadeiro o que tal ao sentido, assim é bem o que satisfaz ao sentimento, ao impulso, à paixão de cada um em cada momento. Ao sensualismo, ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer, a única regra de conduta é o interesse particular. (http://www.mundodosfilosofo s.com.br/sofistas.htm 14:00 26/04/2012)

Ademais, excelente Platão, a falha fundamental dos sofistas é que não entenderam a alma

como a sede da Arete (virtude), é o próprio fundamento essencial do homem. Em seu relativismo reducionista do tipo, o homem é a sua necessidade, e sua meta maior é a satisfação da mesma, nivelaram de certa forma, o homem aos animais, que vivem apenas para satisfazer seus apetites, esquecendo se da virtude e da moral.

PLATÃO Virtuoso Sócrates sei que como eu, crês que o homem diferentemente dos animais,

é um ser dotado de logos e produtor de cultura, capaz de suprir na cultura o que lhe negado

na natureza, e que sua infinita capacidade de perguntar e gerar sentido, pode explicar muita coisa, porém, como tu não creio na tese sofista que a linguagem define tudo. Isso porque a linguagem tem lógica e gramática, mas não pode explicar tudo. coisas que só se pode ter alguma aproximação, do tipo, a projeção de sombras em uma caverna, de coisas que se encontra no espaço exterior, mas, inacessível aos habitantes dessa caverna. Mas concordo contigo, acerca da alma (individual) ou psique é o fundamento do ser do homem. Creio que

devemos superar o ceticismo radical dos sofistas e buscar conhecer a realidade, no nível em que nos é possível conhecêla.

Se bem me lembro, caro mestre Sócrates, ao chegar aqui na academia futurista, conversando com o Dr. Oaitsabez Erdna Sociabilys, o mesmo me disse, que no futuro, esse ceticismo radical, gerador de relativismo epistemológico e moral, vai ameaçar de demolição, a sociedade e instituições dos séculos 20 e 21. Onde tudo será reduzido a jogos de linguagem e sugado pelo buraco negro do relativismo pragmático, tal qual a crise epistemológica criada pelos sofistas. Como já disse Salomão: “ nada novo debaixo do sol ”.

Neste momento, chega Aristóteles, ainda arfando, pois dera uma carreira, para conseguir acompanhar os dois. E de um fôlego, interrompe a conversa.

ARISTÓTELES: Caro mestre Platão, assisti seus ensinos na academia durante 20 anos. Permita

me colocar as coisas como as vejo. Entendo seu realismo radical, quando dizes que a realidade é espiritual, formada pelas idéias e formas, que são termos intercambiáveis, sendo esse o mundo real, ou a forma do bem e da alma. Que as formas materiais, ou objetos particulares, são apenas sombras ou cópias inferiores da realidade, ou seja, que a realidade física, não corresponde mesmo a realidade, como ilustras em tua alegoria da “caverna”.

Todavia, caro mestre, eu creio no realismo moderado, onde as idéias existem somente à medida que elas são expressas nos objetos individuais e que esses objetos são substancias reais e não meras copias, porque a forma ou universal sempre se encontra no particular. Concordo que a forma é o real, não existe a parte do particular. A forma (universal) ou substância de uma coisa é a totalidade. Por isso a minha concepção de homem é a somatória do corpo material com o princípio não material, onde a substancia humana inclui sua forma (universal) e sua matéria (física) .

Que as causas de todas as coisas são múltiplas, sendo estas causas múltiplas, derivadas de uma causa prima, que é o motor imovido de todas as coisas. Portanto, creio que o mundo natural não é um artifício irreal, mas envolve matéria ou potencia, de modo que não é, nem eterno e nem imutável, mas acha se num imanente princípio de movimento, sua essência ou forma contrasta com seu motor impulsionador, inamovível, a substância superior.

Daí, podemos inferir que o homem, enquanto natureza, formado de matéria, ou potencia, pertence à phúsis (natureza), cujo destaque especial e ao qual não pode fugir é o fator telos (propósito). Portanto, vejo a phúsis como dotada de ergon (função) e dynamis (capacidade) que conduz a entelécheia (completude e realização), sendo esse o telos ou propósito do homem, onde o alvo do conhecimento é a ação e a virtude seu o pleno cumprimento da missão humana, entendendo virtude como uma moralidade regida pela razão, onde controle das paixões e conduz a uma vivência conforme a ordem do cosmo. Sendo a phúsis, a chave de leitura para a compreensão do homem, na era clássica. O antropos em seu eidos (aparência) é definitivamente um ser da natureza, mas destacado nela, por causa de seu telos (propósito).

Neste momento o diálogo é interrompido pela chegada de um transporte parecido com um bonde aéreo, movido por propulsores que deixavam atrás de si uma luz azulada. Era

místico que o pilotava, e avisava a todos que era hora do almoço, e que em seguida todos deveriam se reunir na Ágora onde haveria uma palestra seguida de perguntas. Todos sobem no bondinho, e de cima, a visão era ainda mais paradisíaca. O bondinho desce em frente a um refeitório amplo, com mesas, cujo tampo assumia a forma que as pessoas sentadas em volta delas, digitassem em seu pequeno visor de formas (redonda, quadrada, retangular). Como era de se esperar Sócrates, Platão e Aristóteles sentaram na mesma mesa, e todo o restante disputava um lugarzinho na mesa ao lado deles.

Uma sirene soa, avisando que está na hora da palestra de Aristóteles e Agostinho na Àgora. O jovem professor OguH Olimpictus Sunabiarap é o mestre de cerimônias da Ágora, sempre risonho e com espirituosidade inteligente faz as apresentações dos palestrantes do dia.

ARISTÓTELES – Com um pequeno pigarro para limpar a garganta inicia seu discurso.

Senhores e senhoras, amigos da filosofia de todas as eras aqui presentes.

Quero iniciar minha palestra tratando do principio teleológico ou do propósito da matéria que se une a forma, onde percebemos quatro causas na determinação da realidade.

A causa primeira, pode ser chamada de material. Onde matéria mais potencialidade, o objeto físico que aparece, não é tudo que existe, mas perfaz uma totalidade com a substância. A segunda causa é formal ou a matriz ou planta arquitetônica que aponta para a finalidade e propósito do objeto. Todo objeto é baseado em um padrão, desenho, ou desígnio que lhe telos (propósito). A terceira, podemos chamar de causa eficiente. Para que o desígnio ou plano que viabiliza o objeto se concretize, deve haver um agente, ou força que efetiva o propósito. Restando a quarta, ou causa final e o alvo na direção do que o objeto se move, o desígnio em seu cumprimento e realização finais (entelécheia completude e realização).

É preciso, não descartar a reflexão sobre essa causa primeira e inamovível de todas as coisas. Ela exerce uma força de atração (amor) ao movimentar todas as coisas ao seu telos final, movêlas em direção a si mesma. Ninguém pode contorná la. Alguns me chamam de ateu, por não chamá la de deus. Não importa, ela é uma necessidade lógica e epistemológica inescapável. E agora sei, depois de vir para (para a academia futurista) , que nenhum filósofo, de todas as eras filosóficas conhecidas, conseguiram ignorá la. Quanto mais tentam negá la, mais a reafirmam. Porque tanto empenho e energia para negar o que não existe? Por ser puro pensamento e a forma perfeita da idéia, é a realidade suprema. Ignorar essa causa é em grande medida cometer suicídio lógico e intelectual. É propositalmente mergulhar todo o universo na irracionalidade. Como me disseram que fazem alguns filósofos, da era que vocês chamam de pósmoderna ou da morte da razão.

Tipo por vocês como o pai da lógica, busco razões que validem meu pensamento. As razões acima, tem a ver com movimento. É pelo movimento que as coisas ocorrem ou se efetivam. Movimento é um efeito ou conseqüente, que exige, logicamente um antecedente. Assim como não existe um filho antes do pai, também, não existe um movimento, sem um motor que lhe anime. Todo o movimento do cosmo pressupõe necessariamente este motor, que por necessidade lógica, deve ser imóvel, na condição de infinito, imutável e eterno. Apesar

de imóvel é capaz de movimentar tudo e realidade a tudo. Esse motor primário de todas as coisas, alguns a definem como Deus, mas eu prefiro la como uma força cósmica impessoal e não um ser pessoal. Eu sei que alguns aqui concordarão comigo até certo ponto, mas discordarão quanto à impessoalidade dessa força. Alegando que uma causa prima impessoal, ou antecedente impessoal, jamais poderia gerar um conseqüente pessoal, pois, usarão meus próprios argumentos contra mim mesmo, citando o meu ensino que a causa prima ou universal está presente nos objetos materiais por ela causados, ou seja, que embora o objeto não tenha todas as propriedades da causa prima, ele, o objeto, não pode conter uma propriedade que não exista na causa prima. Sei que esse argumento é bom. Não se pode, ou pelo menos nunca se observou, a geração de algo pessoal através de algo impessoal. Mas estou, neste discurso, apenas sendo fiel ao que ensinei no liceu, a minha academia na Grécia.

Agora aplicando as quatro causas e as reflexões sobre o motor primário, a pergunta o que é o homem? Podemos dizer que o homem, na dimensão material (potência), é baseado em um padrão ou desígnio teleológico. Como todo padrão ou designe é um conseqüente, logo, para que viesse a se concretizar precisava de um antecedente (causa prima) ou agente, que possibilitasse o seu cumprimento ou realização final, como ser teleológico (dotado de propósito). Portanto, o homem como ser secundário, movese em direção a sua causa prima, que estabeleceu o seu padrão e propósito. Quanto à questão da personalidade da causa prima, deixo para os próximos preletores ou debatedores.

PASSAGEM POR X2 MEDIEVUS FIDELIS

Professor Oguh anuncia o próximo palestrante: Aurélio Agostinho nascido a 13 de novembro de 354 D.C., em Tagaste, Norte da África, conhecida posteriormente por SoukAhras, na Argélia.

OGUH Agostinho e Tomas de Aquino são os filósofos mais destacados da filosofia medieval, por isso, teremos duas palestras com os dois, e delas procuraremos achar as chaves para antropologia medieval. Com a palavra, Dr. Agostinho de Tagaste.

[Agostinho, homem de grande oratória e energia, aproxima se da tribuna, e fala de modo que surpreende aqueles que o assistiram em sua devastadora oratória dos tempos de advogado imbatível. Começa a fala com serenidade e sem nenhuma tentativa de impressionar seu auditório. Sua fala é tranqüila, mas demolidora de sofismas quanto um terremoto para uma casa sem alicerces].

AGOSTINHO – Caros ouvintes dessa nobre assembléia de filósofos. Que é o homem ? Inquiris vós. Que é o homem? inquirem todos. Haveria uma resposta pública e universal para essa questão tão universal? Ou, o que existe são respostas particulares e contextuais? O naturalismo poderia dar essa resposta final? Tem ele todas as ferramentas epistemológicas para tal empresa? Haveria lugar para revelação (sobrenaturalismo) coadjuvada pelas ciências naturais (naturalismo)? Haveria algum ponto de encontro entre fé e razão?

Sei que essas perguntas são dicotômicas, alguns chamariam de dualísticas, mas, até os monistas radicais hão de convir que alguma distinção entre físico e metafísico, natural e algo que transcende ao natural (corpo e mente). É preciso que se coloque, a priori, estas

questões para que se entenda a filosofia medieval. Que mudou o paradigma das duas eras anteriores, mudando o eixo da realidade centrada no cosmo (cosmocentrismo era antiga), no homem (antropocentrismo era clássica), para, centrar se no Deus cristão bíblico ou revelado na Bíblia (teocentrismo – era medieval). E, permitam que aproveite das informações que tenho do passado e tive do futuro da filosofia para que através de contrastes entre as eras, ficar claro qual era a chave antropológica da