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REALISMO

FLORESTAN FERNANDES

UM MILITANTE
DO ENSINO
´
DEMOCRATICO
O sociólogo não
F lorestan Fernandes (1920-1995)
foi um dos mais influentes soció-
logos brasileiros, mas muitos o chama-
ESCOLA em 1991. “A escola de qua-
lidade, para Florestan, não era reden-
tora da humanidade, mas um instru-
só refletiu sobre a vam de educador sem saber que isso o mento fundamental para a emancipa-
escola brasileira, incomodava em sua modéstia. O equí- ção dos trabalhadores”, diz Ana Hec-
voco tinha razão de ser. Vários escritos kert, docente da Universidade Fede-
apontando seu caráter de Florestan tiveram a educação como ral do Espírito Santo.
elitista, como atuou tema e sua atuação na Câmara dos De- Florestan tomou para si a tarefa de
pessoalmente em putados, já no fim da vida, se concen- romper com a tradição de pseudoneu-
trou na área do ensino. Além disso, a tralidade das ciências humanas e re-
defesa da educação
preocupação com a instrução era um construir uma análise do Brasil aberta-
para todos desdobramento natural de sua obra de mente comprometida com a mudança
sociólogo. “Em nossa época, o cientis- social. Segundo sua análise, uma clas-
ta precisa tomar consciência da utilida- se burguesa controlava os mecanismos
de social e do destino prático reserva- sociais no Brasil, como acontecia em
do a suas descobertas”, escreveu. quase todos os países do Ocidente. No
Como o italiano Antonio Gramsci entanto – por causa de fatores históri-
(1891-1937), Florestan militava em cos como a escravidão tardia, a heran-
favor do socialismo e não separava o ça colonial e a dependência em relação
trabalho teórico de suas convicções ao capital externo –, a burguesia brasi-
ideológicas. Ainda que com aborda- leira era mais resistente às mudanças
gens diferentes, ambos acreditavam sociais do que as classes dominantes
que a educação e a ciência têm, poten- dos países desenvolvidos.
cialmente, uma grande capacidade
transformadora. Por isso, deveriam ser Revolução incompleta
instrumentos de elevação cultural e Segundo Florestan, a revolução bur-
desenvolvimento social das camadas guesa, cujo exemplo emblemático é a
mais pobres da população. “Um povo de 1789 na França, não teria se com-
educado não aceitaria as condições de pletado no Brasil. Enquanto os revo-
LUIS DANTAS

miséria e desemprego como as que te- lucionários franceses do século 18 exi-


mos”, disse ele em entrevista a NOVA giam ensino público e universal, as eli-

52 NOVA ESCOLA ● GRANDES PENSADORES 2


MESTRE DE UMA GERAÇÃO DESBRAVADORA BIOGRAFIA
Florestan Fernandes integrou a que havia sido precedida de Florestan Fernandes nasceu em 1920
primeira geração de sociólogos governos apenas parcialmente em São Paulo, filho de uma imigrante
formados pela Universidade de democráticos, e depois o regime portuguesa analfabeta, que o criou
São Paulo, da qual também fez militar, iniciado em 1964 e sozinha, trabalhando como
parte o crítico literário Antonio encerrado com eleições indiretas empregada doméstica.
Candido. Foi mestre da terceira em 1984. Não é de espantar que Aos 6 anos, Florestan também
geração, que incluía Octavio Ianni o período de liberdade civil começou a trabalhar, primeiro como
e o futuro presidente Fernando anterior a 1964, em especial o engraxate, depois em vários outros
Henrique Cardoso. De um modo governo Juscelino Kubitschek ofícios. Mais tarde, ele diria que esse
ou de outro, tanto veteranos (1956-1960), tenha sido tão foi o início de sua aprendizagem
quanto seus discípulos viveram produtivo para todos esses sociológica, pelo contato que teve
grande parte de sua existência intelectuais. Algumas das mais com os habitantes da cidade.
sob longas ditaduras – primeiro a importantes reflexões sobre o Aos 9 anos, a necessidade de ganhar
de Getulio Vargas (1937-1945), Brasil datam dinheiro o fez abandonar os estudos,
dessa época, tanto que só recuperaria com um curso
nas ciências supletivo. Aos 18, foi aprovado para o
humanas como curso de Ciências Sociais da
nas artes (com Universidade de São Paulo e, por
exemplos como essa época, iniciou sua militância em
a Bossa Nova e o grupos de esquerda. Depois do golpe
Cinema Novo). militar de 1964, Florestan enviou
uma carta à polícia protestando
Juscelino Kubitschek (à contra o tratamento dado a seus
dir.) comemora a vitória colegas presos e foi, ele também,
na eleição presidencial:
para a prisão. Em 1969 foi cassado
oásis democrático
pelo regime militar. Sem poder
trabalhar, deixou o Brasil e lecionou
em universidades do Canadá e dos
Estados Unidos. Depois da
tes brasileiras do século 20 ainda que- teresse comum. Para Florestan, não
redemocratização, filiado ao Partido
riam controlar a educação para man- havia tal cultura no Brasil por dois mo-
dos Trabalhadores, elegeu-se
ter a maioria da população cultural- tivos: ela estimularia as massas popu- deputado federal em 1986 e 1990.
mente alienada e afastada das decisões lares a participar politicamente e ao Florestan morreu em 1995, de
políticas. Por isso, uma das principais mesmo tempo tiraria das classes do- câncer. Publicou quase 80 livros
lutas de Florestan foi pela manuten- minantes a prerrogativa de fazer tudo durante a vida, nos campos da
sociologia, da antropologia e da
ção e pela ampliação do ensino públi- o que quisessem sem precisar dar sa-
educação. A Revolução Burguesa no
co (leia quadro na página 54). “Ele acre- tisfações ao conjunto da população. Brasil e Sociedade de Classes
ditava que o sucateamento da escola, Florestan bateu-se também pela de- e Subdesenvolvimento estão entre os
com péssimas condições de trabalho mocratização do ensino, entendendo títulos mais importantes.
e estudo, fazia parte das tentativas de a democracia como liberdade de edu-
sufocar a democratização da socieda- car e direito irrestrito de estudar. Em
de por meio da restrição do acesso à seus dois mandatos de deputado fe- retrizes e Bases da Educação Nacional
cultura e à pesquisa”, diz a pesquisa- deral, nos anos 1980 e 1990, o soció- (LDB), que só seria aprovada em 1996,
dora Ana Heckert. logo esteve envolvido em todos os de- um ano depois de sua morte.
O Brasil, dizia o sociólogo, era atra- bates mais importantes que ocorreram Florestan defendia propostas mais
sado também em relação ao que ele no Congresso no campo da educação. radicais do que as que acabaram in-
ORLANDO BRITO

chamava de cultura cívica, ou seja, um Participou ativamente da discussão, cluídas na lei aprovada, cujo mentor
compromisso em torno do mínimo in- elaboração e tramitação da Lei de Di- foi o antropólogo e senador Darcy Ri-

GRANDES PENSADORES 2 ● NOVA ESCOLA 53


‘‘
beiro (1922-1997). O sociólogo pro- trabalho propriamente didático, as es-
punha que a lei incluísse o princípio
Na sala de colas deveriam formar “um sistema co-
de escola única, que abrangesse Edu- aula, o professor munitário de instituições sociais”.
cação Infantil, Ensino Fundamental e Florestan também se preocupou em
Ensino Médio, conjugada com educa- precisa ser um criticar a prática em sala de aula, com
ção profissional, e possibilitasse uma ênfase em três pontos: a concepção do
escolaridade maior aos setores caren- cidadão e um ser professor como mero transmissor do

’’
tes da população. Florestan também
pretendia, como meio de dar autono-
humano rebelde saber, que, para ele, fragilizava o pro-
fissional da educação; a idéia de que
mia às escolas, que os diretores fossem o aluno é apenas receptor do conhe-
eleitos por professores, pais e alunos. educação havia ganho papel crucial na cimento, quando o aprendizado deve-
Ele queria ainda incluir na LDB um pi- busca “do equilíbrio e da paz social”, ria ser construído conjuntamente na
so salarial para os professores. mas isso se devia a conquistas sociais escola; e o ensino discriminatório, que
e não a políticas dos governos, que, se- trata o aluno pobre como cidadão de
Contra o autoritarismo gundo ele, continuavam não investin- segunda classe. “Para Florestan Fer-
Não eram só as condições estruturais do em educação pública. Além da des- nandes, a educação transformadora se
do sistema educacional que atraíam a tinação de verbas, o passo mais urgen- faz com uma escola capaz de se desfa-
atenção rigorosa do cientista social. No te então seria integrar as escolas para zer, por si mesma, do autoritarismo,
intervalo democrático entre 1945 e que sua função progressista se multi- da hierarquização e das práticas de ser-
1964 no Brasil, Florestan notou que a plicasse e ganhasse solidez. Ao lado do vidão”, diz Ana Heckert.

A BRIGA POLÍTICA PELA ESCOLA PÚBLICA PARA PENSAR


Muitos intelectuais participaram, polêmica seguiu acirrada até que, Florestan Fernandes acreditava
nas décadas de 1940 e 1950, da em seu ponto máximo de tensão, o que a educação deveria ser, para
Campanha em Defesa da Escola deputado Carlos Lacerda os alunos, uma experiência
Pública, que teve origem nas apresentou no Congresso um transformadora que desenvolvesse
discussões para a aprovação da substitutivo para atender aos a criatividade, dando condições de
primeira LDB. Nenhum foi mais interesses das escolas particulares se libertar da opressão social.
ativo do que Florestan Fernandes. e das instituições religiosas de Mas, para isso, a escola deveria
De início, o tema principal do debate ensino, que pretendiam ganhar o deixar de reproduzir os
era a centralização ou direito a embolsar verbas do mecanismos de dominação de
descentralização do ensino. A Estado. Florestan publicou nessa classe da sociedade. Você já se
época vários escritos em que analisou sob esse ângulo? Será
combatia as pretensões da escola que, vez ou outra, já não confundiu
privada e também desenvolvia suas sua legítima autoridade de
idéias sobre a necessidade de professor com autoritarismo?
democratizar o ensino. O
substitutivo de Lacerda acabou
QUER SABER MAIS?
sendo aprovado. Mas, no longo  Democracia e Educação em Florestan
prazo, quem ganhou foi Florestan – Fernandes, Osmar Fávero, 246 págs., Ed. Au-
suas idéias são, hoje, praticamente tores Associados/EdUff, tel. (19) 3289-5930,
consenso entre os dirigentes da 39 reais  Educação e Sociedade no Brasil,
educação pública. Florestan Fernandes, 614 págs., Ed. Domi-
nus/Edusp, tel. (11) 2091-4150, edição esgo-
Lacerda: a serviço dos
AGÊNCIA ESTADO

tada  O Desafio Educacional, Florestan Fer-


interesses do ensino
privado e religioso nandes, 264 págs., Ed. Cortez/Ed. Autores As-
sociados, tel. (11) 3864-6111, edição esgotada

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