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Especial Barack Obama 

 
 
O regresso da maioria Democrata  
e os Desafios adiante 
 

Editores: Rodrigo Cintra e Ricardo Migueis 

Diretora de Redação: Lucyana Sposito 

Organização: Filipe Almeida Mendonça 

Capa: Vagner Moraes Junior ‐ VmjDesign| TI & Comunicação 

Apoio:  este  especial  contou  com  o  apoio  do  Instituto  Transatlântico 


Democrático  –  ITD  (www.itd‐tdi.org)  e  do  Instituto  Nacional  de  Ciência  e 
Tecnologia  para  Estudos  sobre  os  Estados  Unidos 
(www.euapodermundial.org.br). 

www.revistaautor.com  
© 2009 Revista Autor 
Editores Rodrigo Cintra e Ricardo Migueis 
ISSN Brasil 1677‐3500 – ISSN Portugal 1646‐8465 
Publicação: Janeiro de 2009. 

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Especial Barack Obama 

Editorial 

É  com  imenso  prazer  que  entregamos  aos  nossos  leitores  o  especial  “O  regresso  da  maioria 
Democrata e os Desafios adiante”, fruto do esforço e dedicação de muitos analistas do Brasil, 
de  Portugal  e  de  outros  lugares  do  mundo.  Neste  especial  procurou‐se  destacar  os  desafios 
que se colocarão diante do governo norte‐americano, especialmente para o Presidente Barack 
Obama e para a maioria Democrata no Congresso dos Estados Unidos. 

Este  número  especial  da  Revista  Autor  parece‐nos  incontornável:  tratamos  aqui  das 
possibilidades,  desafios  e  obstáculos  no  percurso  da  maior  potência  mundial,  portanto,  com 
capacidade  de  atuação  e  interferência  nas  mais  diversas  regiões  e  questões  globais.  O 
momento  é  de  expectativa:  é  sabido  que  os  sistemas  políticos  e  econômicos  estão  em 
constante mutação e a realidade que vivemos coloca muitas interrogações no que concerne o 
papel a desempenhar pelos EUA nos anos vindouros. 

Atualmente,  os  EUA  são  a  maior  potência  bélica,  econômica,  financeira,  tecnológica  e, 
provavelmente, cultural do mundo contemporâneo. Também são o país com a terceira maior 
população mundial e estão entre os 5 maiores países do mundo em termos territoriais. 

Os  EUA  desempenharam  um  papel  fundamental  na  construção  da  ordem  internacional  que 
está em vigência até hoje, sendo decisivos para a criação e consolidação de algumas das mais 
importantes  organizações  internacionais  atuais.  Não  se  pode  esquecer  que  foi  em  duas 
cidades  norte‐americanas  que  tais  organizações  surgiram:  São  Francisco  (Organização  das 
Nações  Unidas)  e  Bretton  Woods  (Banco  Mundial,  Fundo  Monetário  Internacional  e 
Organização Internacional de Comércio, transformada em Acordo Geral de Tarifas e Comércio 
– GATT e, mais tarde, na Organização Mundial do Comércio). 

A  influência  da  sociedade  norte‐americana  extravasa  as  suas  fronteiras,  atingindo  e 


influenciando  o  resto  do  mundo.  Do  padrão  de  consumo,  às  decisões  e  tendências  internas 
sobre a política ambiental, agrícola, econômica, externa, entre outras, todas continuarão a ser 
referências e influências centrais para outros governos e sociedades à volta do mundo.  Uma 
referência  não  é  sempre  seguida,  mas  é  sempre  uma  influência  incontornável.  Desta  forma, 
entender os EUA é mais do que uma curiosidade internacional, é algo fundamental para que se 
compreenda as principais tendências mundiais. 

Neste  especial  procuramos  apresentar  o  momento  eleitoral  (Parte  I)  a  fim  de  identificar  as 
principais  forças  e  grupos  atuantes  na  política  norte‐americana  e  com  real  capacidade  de 
influência sobre o país, bem como os principais desafios (Parte II) que o próximo governo dos 
EUA enfrentará.  

Tanta  influência  trás  benefícios  e  malefícios,  de  forma  que  é  fundamental  compreender  as 
atuais dinâmicas e usá‐las para garantir o avanço da justiça social. 

Rodrigo Cintra & Ricardo Migueis


Editores 

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Especial Barack Obama 

Introdução 

Esta edição traz ao público mais um número especial da Revista Autor. O tema selecionado foi 
a  eleição  de  Barack  Obama  para  Presidente  dos  Estados  Unidos  e  a  ampliação  da  maioria 
democrata  no  Congresso  deste  país,  dada  a  importância  do  acontecimento  e  a  conseqüente 
atenção que tem atraído.  

Pretende‐se  com  isso  equacionar  o  descontentamento  relativo  à  maneira  que  diversas 


políticas norte‐americanas foram conduzidas sob a alçada do ex‐presidente G. W. Bush (preço 
da energia, salários estagnados, desemprego e desigualdade social, política externa em geral e 
guerra do Iraque em particular). Também pretende‐se discorrer sobre os futuros desafios da 
nova administração e mensurar os impactos que possíveis mudanças estratégicas na economia 
americana ou na política externa terão em outros países. 

Informar e formar os leitores sobre o impacto da eleição de Barack Obama para presidente dos 
Estados Unidos, discorrer sobre os desafios que o novo presidente irá encontrar nos próximos 
anos,  além  de  analisar  rapidamente  a  corrida  eleitoral  neste  país  na  sua  vertente  histórica  e 
institucional, são os principais objetivos deste projeto.  

Dada a importância desta temática, consideramos relevante desenvolver um trabalho capaz de 
reunir  numa  só  publicação  artigos  factuais  e  análises  temáticas  com  o  objetivo  de  transmitir 
uma  imagem  completa  deste  processo.  Para  tanto,  esta  edição  conta  com  a  participação  de 
vários  pesquisadores  renomados  de  diferentes  instituições  de  ensino,  com  abordagens  e 
perspectivas distintas. Tal  diversidade é, na verdade, uma das principais riquezas do projeto, 
garantindo acesso ao leitor a diversas visões do mesmo objeto. 

O projeto está estruturado em duas partes: a primeira é dedicada ao significado e contexto da 
última  corrida  presidencial,  bem  como  aos  vários  atores  que  participaram  deste  processo.  A 
segunda  é  dedicada  à  compreensão  do  impacto  destas  eleições  em  diversas  políticas  norte‐
americanas e os desafios que os Democratas, tanto no Executivo quando no Legislativo, terão 
que enfrentar nos próximos anos.  

Agradeço  a  coolaboração  dos  diversos  autores  para  a  realização  deste  projeto.  Deve‐se 
destacar  a  participação  fundamental  do  Instituto  Transatlântico  Democrático  e  do  Instituto 
Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos. 

Filipe Almeida Mendonça


Organizador 

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Especial Barack Obama 

Editores & Autores 

Alessandro  Shimabukuro  é  Mestre  em  Relações  Internacionais  (San  Tiago  Dantas), 


Pesquisador do Observatório das Relações Estados Unidos‐América Latina (OREAL). 

António Rebelo de Sousa é Professor Agregado da Universidade Técnica de Lisboa.  

André  Barrinha  é  Licenciado  em  Relações  Internacionais  pela  Faculdade  de  Economia  da 
Universidade de Coimbra. Atualmente é Doutorando em Relações Internacionais, Universidade 
de Kent, Reino Unido. 

Ariel  Finguerut  é  mestrando  do  programa  de  pós‐graduação  em  Sociologia  da  Unesp  de 
Araraquara,  pesquisador  do  Observatório  das  Relações  EUA‐América  Latina,  do  Grupo  de 
Estudos  Interdisciplinar  sobre  Desenvolvimento  e  Cultura  e  do  Programa  Renato  Archer  de 
Apoio à Pesquisa em Relações Internacionais. 

Arthur Coelho Dornelles Jr é Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio 
Grande do Sul. 

Corival  Alves  do  Carmo  é  Mestre  em  Economia  pela  Unicamp  e  coordenador  do  curso  de 
Relações  Internacionais  do  Centro  Universitário  Ibero‐americano  (Unibero/Anhanguera 
Educacional). 

David  Magalhães  é  Mestre  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago  Dantas 
(UNESP, UNICAMP, PUC‐SP). 

Denise  Figueiredo  Barros  do  Prado  é  Mestranda  em  Comunicação  Social  pela  Universidade 
Federal de Minas Gerias, UFMG. 

Filipe Miranda Ferreira é Politólogo, Pós‐Graduado nos Instituto Superior de Ciências Sociais e 
Políticas  da  Universidade  Técnica  de  Lisboa.  Investigador  do  Instituto  Transatlântico 
Democrático (ITD) e Vereador na Câmara Municipal da Amadora. 

Felipe  Ortega  é  Mestrando  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago  Dantas 
(UNESP, UNICAMP, PUC‐SP). 

Filipe  Mendonça  é  Mestrando  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago  Dantas, 
pesquisador  do  Centro  de  Estudos  de  Cultura  Contemporânea  (CEDEC),  colunista  da  Revista 
Autor e Professor universitário. 

Glauco Fernando Numata Batista é graduando em Relações Internacionais pela UNESP‐Marília 
e bolsista CNPq/PIBIC de iniciação científica. 

Haroldo Ramanzini Júnior é Mestrando em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP) 
e Pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea  (CEDEC). 

Helena  Margarido  Moreira  é  Mestranda  pelo  Programa  de  Pós  Graduação  em  Relações 
Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC‐SP). 

Hermes Moreira Jr é Mestrando em Relações Internacionais e Desenvolvimento no Programa 
de Pós‐Graduação em Ciências Sociais da UNESP e bolsista da CAPES. 

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Especial Barack Obama 

Janaina  Storti  é  Mestranda  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago  Dantas 
(UNESP, UNICAMP, PUC/SP) e pesquisadora do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea 
(CEDEC) 

José  Alexandre  Altahyde  Hage  é  Professor  Universitário  e  Doutor  em  Ciência  Política  pela 
Unicamp. 

Laís Forti Thomaz é Graduanda de Relações Internacionais, Unesp – Campus de Marília. 

Lucyana  Sposito  é  Directora  de  Redacção  da  Revista  Autor,  Licenciada  em  Relações 
Internacionais  pela  Universidade  Ibero‐Americana  em  São  Paulo,  e  desempenha  funções  no 
Gabinete  do  Coordenador  Nacional  da  Estratégia  de  Lisboa  e  do  Plano  Tecnológico  – 
Presidência do Conselho de Ministros (Portugal). 

Marcos  Alan  Fagner  dos  Santos  Ferreira  é  Docente  na  Escola  Superior  de  Propaganda  e 
Marketing  e  é  doutorando  em  Ciência  Política  pela  Universidade  Estadual  de  Campinas 
(UNICAMP) além de Pesquisador no Observatório das Relações Estados Unidos‐América Latina. 

Paulo  Pereira  de  Almeida  é  Professor  do  ISCTE,  Colunista  de  Política  da  Revista  Autor.  Vice‐
presidente  do  OSCOT  ‐  Observatório  da  Segurança,  Criminalidade  Organizada  e  Terrorismo  e 
Vice‐presidente do ITD ‐ Instituto Transatlântico Democrático. 

Ricardo Migueis é Editor da Revista Autor, Pós‐graduado em Economia e Política Públicas pelo 
Instituto  Superior  de  Ciências  do  Trabalho  e  da  Empresa  (Lisboa).  Investigador  no  Centro  de 
Estudos sobre a Mudança Socioeconómica (DINÂMIA/ISCTE) e Ponto de Contacto Nacional do 
Sétimo Programa Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico da União Europeia; 
fundador e coordenador do Círculo de Reflexão Social e Política da Fundação Friedriech Ebert 
em Portugal (CIRESP). 

Rodrigo Cintra é Editor da Revista Autor, Doutor em Relações Internacionais pela Universidade 
de  Brasília,  professor  na  Escola  Superior  de  Propaganda  e  Marketing  (ESPM);  presidente  da 
ONG  Consulado  da  Cidadania;  Sócio‐diretor  da  Focus  R.  I.  ‐  Assessoria  &  Consultoria  em 
Relações Internacionais. 

Shuy  Wen  Shin  é  Doutor  em  Ciências  Sociais‐Políticas  pela  PUC/SP.  Professor  da  Escola  de 
Turismo  e  Hospitalidade  da  Universidade  Anhembi  Morumbi  e  da  Universidade  São  Judas 
Tadeu. Coordena o Núcleo de Negócios da China da Universidade Anhembi Morumbi. Diretor 
da Via Turística. 

Tainá  Dias  Vicente  é  Graduanda  em  Relações  Internacionais  pela  UNESP  –  FFC/Marília  e  é 
Membro do Grupo de Estudo do BRICs. 

Terra  Friedrich  Budini  é  Mestranda  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago 
Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC/SP) 

Thiago  Lima  é  Mestre  em  Relações  Internacionais  pelo  Programa  San  Tiago  Dantas  (UNESP, 
UNICAMP, PUC‐SP) e Pesquisador do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) 

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Especial Barack Obama 

Índice 

Parte I – O Processo eleitoral 
ƒ Instituições, condição material e comércio: a consolidação da maioria democrata no  9 
congresso norte‐americano (Filipe Mendonça) 

ƒ O comportamento político do eleitorado americano (Laís Forti Thomaz)  17 

ƒ Acontecimento  e  acontecimento  midiático:  a  construção  da  narrativa  midiática  da  23 


eleição de Obama (Denise Figueiredo) 
ƒ O governo de Barack Obama: um mergulho para dentro (Rodrigo Cintra)  33 

ƒ A vitória de Obama é sobre George W. Bush (Ariel Finguerut)  36 

ƒ O significado da vitória de Obama para as relações internacionais (André Barrinha)  52 

Parte II – Os desafios de Barack Obama
ƒ Os  desafios  de  segurança  e  defesa  dos  Estados  Unidos  após  George  W.  Bush 
56 
(Alessandro Shimabukuro) 
ƒ Obama e a relação bilateral Brasil‐EUA (David Magalhães)  68 
ƒ Estados  Unidos  e  Rússia:  uma  mudança  em  que  nós  podemos  acreditar?  (Felipe 
73 
Ortega) 
ƒ Os desafios nas relações com a Índia (Hemes Moreira Junior e Tainá Dias Vicente)  78 
ƒ Os desafios nas relações com Israel (Glauco Numata )  84 
ƒ Os desafios no Iraque (Janaina Storti)  90 
ƒ Os  desafios  para  o  governo  Barack  Obama  nas  relações  com  a  América  Latina  nos 
99 
campos de segurança e diplomacia (Marcos Alan) 
ƒ EUA‐África: novas realidades, novos desafios (Filipe Ferreira)  104
ƒ O  horizonte  das  relações  entre  Washington  e  Pequim  no  Governo  Obama: 
110
considerações preliminares (Arthur Coelho Dornelle Júnior) 
ƒ As  relações  comerciais  sino‐americana  no  Governo  de  Barack  Obama  (Shuy  Wen 
117
Shin ) 
ƒ A  agenda  de  Barack  Obama  2009‐2012:  desafios  para  a  segurança  interna  (Paulo 
123
Pereira de Almeida) 
ƒ Os desafios do futuro (Antônio Rebelo de Sousa)  127

ƒ Os desafios de Obama na política comercial (Thiago Lima)   131

ƒ Se  não  foram  feitas  ontem,  as  mudanças  não  ocorrerão  amanhã  ou  os  limites  do 
134
governo Obama (Corival do Carmo) 
ƒ Os  Estados  Unidos  de  Obama:  a  continuidade  do  problema  energético  (José 
143
Alexandre Hage) 
ƒ Os  desafios  da  Rodada  Doha  e  a  posição  dos  Estados  Unidos  (Haroldo  Ramazini 
147
Júnior) 
ƒ Os desafios da reforma da ONU (Terra Budini)  151
ƒ Os  desafios  do  Governo  Obama  para  as  mudanças  climáticas  e  o  meio  ambiente 
157
(Helena Margarido Moreira) 

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Especial Barack Obama 

 
 
 
 
 
 
 
 
Parte I 
O Processo eleitoral 
 

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Especial Barack Obama 

Instituições,  condição  material  e  comércio:  a  consolidação  da  maioria 


democrata no congresso norte‐americano 

Filipe Mendonça 

Temos visto nos jornais o debate a cerca da  de  modificação  menos  agudas  desse 


atual  crise  econômica  norte‐americana.  último. Portanto, embora a crise atual seja 
Analistas de diversos campos divergem nas  tema fundamental para  o novo presidente 
interpretações  do  cenário  atual  e  nas  eleito,  este  fenômeno  deve  ter  mais 
projeções  futuras.  Contudo,  o  fato  de  o  impacto  no  Congresso.  Isso  é 
debate  sobre  o  “enfraquecimento  do  especialmente  relevante  para  o  caso  da 
poder  americano”  ter  retornado  às  política  comercial,  pois  o  Congresso  tem 
manchetes  já  é  suficientemente  grande capacidade de influência nos rumos 
importante  para  possíveis  alterações  nas  daquela política. 
políticas  econômicas  dos  Estados  Unidos, 
com especial destaque para as políticas de  Para  conduzir  a  análise  histórica, 
comércio.  Isso  ocorre,  basicamente,  estruturamos  este  texto  em  três  eixos 
porque  estes  argumentos  já  foram  principais:  o  primeiro  deles  é  o  padrão 
utilizados  nas  últimas  eleições  para  o  institucional,  tanto  no  Congresso  quanto 
Congresso  norte‐americano,  o  que  acabou  no  Executivo.  O  segundo  é  a  condição 
possibilitando  a  retomada  da  maioria  material,  ou  seja,  a  situação  econômica 
Democrata,  além  de  serem  utilizados  na  conjuntural.  O  terceiro,  embora  menos 
campanha  eleitoral  para  presidência,  trabalhada,  mas  não  menos  importante,  é 
principalmente  pelo  candidato  Democrata  o  nível  de  internacionalização  da 
Barack Obama.  economia. Estes três eixos, dependendo da 
maneira como estão relacionados, tendem 
Diante  das  eleições  presidenciais  que  se  a  produzir  uma  postura  mais  paroquialista 
aproximam,  qual  o  impacto  que  a  ou  internacionalista  no  Congresso  dos 
conjuntura atual teve e terá na postura de  Estados Unidos. 
Barack Obama ao cargo? Para responder a 
esta  pergunta,  não  parece  ser  correto   
analisar  o  contexto  atual  sem  fazer  uma  Um breve recuo histórico 
reflexão histórica. Portanto, este texto será 
dividido  em  duas  partes:  a  primeira  delas  A  história  da  política  comercial  norte‐
fará  uma  breve  reflexão  histórica,  americana  pode  ser  dividida,  não  sem 
buscando  identificar  traços  comuns  em  cometer  alguns  abusos  típicos  de  toda 
outros  ciclos  eleitorais.  A  segunda  tipificação  histórica,  em  cinco  períodos:  1) 
discorrerá sobre o resultado do último ciclo  do pós II Guerra até meados da década de 
eleitoral,  e  discutirá  suas  possíveis  1960; 2) da década de 1970 até meados de 
conseqüências.   1980; 3) de 1979 até 1988; 4) de 1992 até 
2000;  e  5)  um  último  período  que  se 
O  fio  condutor  para  este  texto  será  o  estende até nossos dias.  
seguinte:  a  crise  econômica  geralmente 
tem mais impacto no Congresso, enquanto  1‐) Período Internacionalista 
o  Executivo  parece  menos  sensível  a  este 
A  História  da  política  comercial  norte‐
tipo de variação, sendo esperadas posturas 
americana,  conforme  sustentado  por 

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Especial Barack Obama 

Vigevani et al. (2007), é caracterizada pelos  novos  pólos  industriais,  principalmente  o 


atritos  entre  duas  formas  de  lidar  com  o  alemão  e  o  japonês,  intensos  estímulos 
comércio:  o  nacionalismo  e  o  para  proteção  romperam  as  barreiras  do 
internacionalismo  econômicos.  Do  pós  II  “sistema  antigo”,  impactando  o  Congresso 
Guerra até meados da década de 1960, os  diretamente.  Por  pressão  deste  e  em  boa 
Estados  Unidos  adotaram  uma  postura  parte  por  iniciativa  do  Executivo, 
mais internacionalista em relação ao bloco  alterações  significativas  no  design 
ocidental e, em menor grau, ao mundo em  institucional  e  na  política  de  comércio 
descolonização.  Isso  quer  dizer  que  se  foram realizadas. Permitiu‐se maior acesso 
aceitavam  maiores  perdas  no  campo  de  grupos  particularistas  ao  processo  de 
econômico  para  garantir  benefícios  no  formulação  de  leis  e  políticas  comerciais  e 
cenário político‐estratégico. A manutenção  o  país  passou  a  adotar  uma  posição  mais 
da  Aliança  Atlântica,  dentro  da  lógica  da  nacionalista,  de  maior  reivindicação  de 
Guerra  Fria,  uma  vez  definida  como  benefícios  estritamente  comerciais.  Era 
prioridade  de  política  externa,  tornou  a  uma  fase  de  transição  da  postura 
política  comercial  subordinada  a  ela,  internacionalista  do  período  anterior, 
vedando  o  Congresso  de  demandas  operada em parceria pelo Congresso e pelo 
protecionistas  por  meio  do  “sistema  Executivo de forma bipartidária. 
antigo”  (old  system)  (vide  Destler,1995). 
Este  sistema  criava  contrapesos  ao  que   
restava  de  pressões  protecionistas,  3‐) Período de Fair Trade 
mantendo  diretrizes  liberalizantes  mesmo 
com  mudanças  nas  preferências  internas.  O  terceiro  período  (de  1979  até  1992)  é 
O  Congresso  era  blindado  por  filtros  caracterizado  por  uma  nova  concepção  de 
institucionais  que  protegiam‐no  de  política  comercial,  onde  se  tornam 
demandas  protecionistas.  Além  disso,  o  correntes  medidas  unilaterais  por  parte 
posicionamento  internacionalista  foi  dos  Estados  Unidos  contra  os  seus 
viabilizado  politicamente  pela  bonança  principais competidores econômicos.  
econômica,  que  permitia  aos  norte‐
Há uma tensão entre o desejo de acesso de 
americanos  aceitação  maior  dos  custos 
grupos  protecionistas  ao  processo  de 
advindos  da  liderança  deste  país  no  plano 
formulação  de  política  comercial  e  os 
internacional com apoio bipartidário. 
obstáculos  impostos  pelo  Executivo  pró‐
  livre‐comércio. A situação se agrava com a 
acentuação  da  crise  econômica  e  o 
2‐) Período de transição  Congresso,  insatisfeito  com  a  postura  pró‐
Na  década  de  1970,  o  país  entrou  em  um  livre‐comércio  de  Reagan,  cria  leis  que 
ciclo  de  recessão  econômica,  comumente  mandam o Estado norte‐americano operar 
associado  ao  crescente  déficit  no  balanço  com  maior  agressividade  na  busca  de 
de  pagamentos,  o  que  contribuiu  para  a  benefícios  comerciais.  As  políticas  de  Fair 
intensificação de teses declinistas, como as  Trade  ganham  grande  destaque  e,  em 
de  Giovani  Arrighi  e  Paul  Kennedy.  Houve,  1988,  com  a  implementação  do  “Omnibus 
portanto, forte questionamento da posição  Trade and Competitive Act”, a “passividade 
internacionalista  norte‐americana.  Com  o  norte‐americana”  cedeu  lugar  de  vez  à 
esfriamento da Guerra Fria e a ascensão de  necessidade  de  abertura  de  novos 

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Especial Barack Obama 

mercados por meio de medidas unilaterais.  restritivas  ao  comércio,  como  o  setor 


A  preocupação  cada  vez  mais  saliente  no  siderúrgico  que  possui  ampla 
Congresso com o balanço de pagamentos e  representação no Congresso. Há, portanto, 
a  conotação  de  que  o  déficit  correspondia  uma forte disputa entre um Executivo mais 
à debilidade ou mesmo à passividade focou  internacionalista  e  um  Congresso  mais 
a política comercial nas restrições impostas  paroquialista  e  complexo.  Complexo 
aos produtos do país no exterior.  porque,  por  um  lado,  havia  pressões 
protecionistas  tradicionais,  mas  em  menor 
A transição da idéia de reciprocidade  1 para  escala  em  decorrência  do  maior  grau  de 
o  unilateralismo  agressivo  traz  consigo  a  internacionalização  da  economia  norte‐
expansão  definitiva  do  termo  ‘comércio  americana,  sobretudo  por  causa  da 
internacional’,  que  passa  a  incluir  temas  transnacionalização  da  produção.  Por 
como serviços, investimentos, propriedade  outro lado, emergiram pressões sociais que 
intelectual e compras governamentais.   vincularam  meio  ambiente,  mercado  de 
  trabalho  e  direitos  humanos  à  agenda 
comercial, resultando em maior dificuldade 
4‐) Período de globalização  em  obter  consenso  doméstico  para 
liberalização  comercial.  Uma  polarização 
O  quarto  período  (1992‐2000),  com 
social,  com  clara  reverberação  no 
Clinton, representa um período de relativa 
Congresso  passou  a  se  constituir: 
volta  da  estabilidade  econômica.  A  crise 
Republicanos  mais  comprometidos  com  o 
material  já  não  era  mais  tão  intensa  e 
livre‐comércio,  com  baixa  vinculação  à 
parece  ter  havido  um  paulatino 
agenda  social;  Democratas  mais 
abrandamento  da  agressividade  unilateral 
comprometidos  com  a  agenda  social, 
comercial. Destler chega a afirmar que este 
menos  favoráveis  à  liberalização  comercial 
período  esboça  uma  volta  ao  período 
em si. 
internacionalista,  embora  tal  afirmação 
seja  problemática  devido  a  especificidade   
histórica  do  primeiro  período.  Mas  parece 
ser  consensual  que  houve  uma  nova  5‐) Novo período de transição 
guinada  em  direção  às  políticas  de  O quinto e último período (2000 até nossos 
abertura comercial. A ratificação da OMC e  dias)  parece  representar  um  novo 
do  NAFTA  são  dois  importantes  momento  de  transição.  Bush  assume  a 
acontecimentos  que  apontam  neste  presidência  com  fortes  críticas  domésticas 
sentido.  ao  governo  Clinton.  Acreditava‐se  que  o 
Contudo,  os  grupos  protecionistas  período  anterior,  principalmente  no  seu 
representados  no  Congresso  nunca  segundo mandato, havia produzido poucos 
deixaram  de  pressionar  por  medidas  resultados  para  os  Estados  Unidos.  O 
fracasso  para  a  renovação  do  Fast‐Track  e 
                                                             o  colapso  das  negociações  ministeriais  da 
1
OMC  em  Seattle  eram  frequentemente 
Baseada na idéia de reciprocidade, a política 
citados  como  exemplo  da  perda  de  fôlego 
comercial norte‐americana reduzia barreiras 
comerciais  na  expectativa  de  que  outros  na  continuidade  de  sua  política 
países  fizessem  o  mesmo.  Contudo,  como  liberalizante. Contudo, para renovar o Fast‐
isso  não  ocorreu,  os  EUA  buscaram  Track,  Bush  teve  que  ceder  a  grupos 
reciprocidade ex post. 

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Especial Barack Obama 

siderúrgicos,  têxteis,  além  de  renovar  a  lista de países alvos de revisão comercial já 


“farm  bill”,  forças  estas  bastante  demonstra  a  importância  destes 
paroquialistas. Com dificuldades no âmbito  argumentos.  
multilateral,  a  estratégia  migrou  para 
outros  níveis,  principalmente  o  bilateral.  Quanto  à  economia,  o  déficit  comercial 
Além  disso,  a  polarização  partidária  no  atingiu  padrões  nunca  vistos,  além  de 
Congresso foi agravada.   haver uma deterioração do valor do dólar. 
Resumindo  os  aspectos  econômicos  do 
Uma  segunda  característica  talvez  seja  a  governo  Bush,  Stiglitz  (2007)  afirma  que  o 
diminuição da importância dos assuntos de  legado  de  Bush  fora  “a  national  debt  that 
comércio  nos  debates  eleitorais  will probably have grown 70 percent by the 
presidenciais.  A  política  comercial,  quando  time  this  president  leaves  Washington;  a 
discutida,  parecia  responder  mais  a  esta  swelling  cascade  of  mortgage  defaults;  a 
polarização  partidária  do  que  à  relevância  record  near‐$850  billion  trade  deficit;  oil 
do tema em si, muito embora tenha havido  prices  that  are  higher  than  they  have  ever 
uma elevação considerável na deterioração  been;  and  a  dollar  so  weak  that  for  an 
da  condição  material  dos  Estados  Unidos.  American to buy a cup of coffee in London 
Já no Congresso o comércio continua como  or  Paris—or  even  the  Yukon—becomes  a 
tema quente. Segundo o Departamento do  venture in high finance” 
Trabalho  dos  Estados  Unidos  (U.S. 
Department  of  Labor),  em  dezembro  de  A tabela abaixo busca sintetizar estes cinco 
2007, o desemprego aumentou em 46 dos  períodos  dentro  dos  três  vetores  básicos 
50  estados  norte‐americanos,  atingindo  considerados  neste  trabalho.  Pelo  o  que 
uma média nacional de 5%.  tudo  indica,  existe  uma  relação  entre  a 
condição  material  e  o  equilíbrio  entre  as 
A  China  recebe  boa  parte  das  atenções.  forças  protecionistas  e  livre‐cambistas. 
Este  país  é  acusado  de  causar  a  Contudo,  é  importante  frisar  que  o 
desindustrialização  da  economia  norte‐ Executivo  parece  não  ser  tão  sensível  à 
americana,  reestruturando  o  mercado  de  condição material quanto os congressistas. 
trabalho,  aumentando  o  desemprego,  Esta  tendência  parece  ter  prevalecido 
acirrando  a  concorrência  e  contribuindo  desde o pós‐Segunda Guerra até os nossos 
para  o  déficit  comercial.  Embora  não  com  dias. Tal afirmação tem uma conseqüência 
tanta intensidade, o déficit comercial ainda  interessante:  se  for  correta,  o  Congresso 
é extremamente relevante nas explicações  será  a  principal  instituição  iniciadora  de 
para  a  crise  atual  dos  Estados  Unidos.  qualquer  processo  de  mudança  e, 
Atualmente,  o  partido  democrata  tem  portanto,  as  próximas  eleições 
utilizado freqüentemente a relação “déficit  presidenciais  terão  pouco  impacto  no 
comercial/desemprego”  na  elaboração  de  futuro  das  políticas  de  comércio  dos 
seus  projetos  de  lei.  A  própria  inclusão  da  Estados  Unidos.  Discorreremos  mais  sobre 
China,  país  que  mantêm  um  superávit  de  isso no próximo tópico. 
US$  233 bilhões com os  Estados Unidos, e 
do México, com superávit de 64 bilhões, na   

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Instituições de Comércio, Condição Material,  Internacionalização da Economia e Eleições 

  Instituições  Condição Material  Internacionali Importância  do 


zação  da  comércio  para  as 
economia  eleições 
presidenciais 
Período  Forte  institucionalização  Situação  econômica  baixa  baixa 
internacionalista  das  políticas  livre‐ positiva;  aumento  do 
cambistas;  abertura  comércio internacional 
unilateral 
Período  de  Instituições  favorecem  Situação  econômica  moderada  Baixa  (ou 
transição  políticas  livre‐cambistas;  razoável,  problemas  na  moderada) 
elevação  na  utilização  de  coordenação  das 
remédios administrativos;  políticas 
tentativas  de  exigir  macroeconômicas;  fim 
reciprocidade  do padrão ouro; elevação 
no déficit comercial 
Período  de  Fair  Instituições  ainda  Elevação  do  déficit  Moderada;  moderada 
Trade  favorecem  as  políticas  comercial,  agravamento  outsourcing 
livre‐cambistas,  do  balanço  de 
principalmente  no  pagamentos; elevação do 
Executivo;  no  congresso  valor  do  dólar;  aumento 
há  fortes  demandas  considerável  das 
protecionistas;  importações; 
unilateralismo agressivo  preocupação  com  o 
Japão 
Período  de  Instituições  favorecem  Melhora  significativa  do  Alta,  aumento  moderada 
globalização  políticas  livre‐cambistas,  balanço de pagamentos;  dos  níveis  de 
principalmente  no  IED 
Executivo;  ratificação  de 
importantes  tratados 
liberalizantes,  como  a 
OMC  e  o  NAFTA; 
Congresso  ainda 
paroquialista,  não  renova 
o fast‐track 
Novo  período  de  Polarização  partidária;  Novo  período  de  alta  baixa 
transição  diminuição  da  deterioração  do  balanço 
importância  dos  assuntos  de  pagamentos;  altos 
de  comércio;  índices  de  déficit 
intensificação  de  comercial;  elevação  do 
pressões  protecionistas;  desemprego; 
guinada  para  o  preocupação  com  a 
bilateralismo  China 
 

O  Congresso  Norte‐Americano  e  o  Novo  quanto  no  Senado,  maioria  democrata, 


Período de Transição  como  pode  ser  visualizado  na  tabela 
abaixo. 
Embora  Barack  Obama  tenha  sido  o  foco 
das últimas eleições, é importante destacar    Dem   Rep  Indecisos 
os  resultados  que  esta  corrida  eleitoral 
Senadores  55  41  4 
tiveram  no  congresso  norte‐americano. 
Enquanto  a  maioria  na  câmara  baixa  se  Deputados  238  170  27 
fortaleceu,  aumentando  a  margem 
Extraído de 
democrata,  tal  partido  conseguiu  maioria 
http://elections.nytimes.com/2008/congre
também  na  câmara  alta.  Portanto,  há 
ss/house.html 
agora,  tanto  na  Câmara  dos  Deputados 

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Especial Barack Obama 

Para  melhor  compreender  as  do México, com superávit de 64 bilhões, na 


conseqüências  de  tal  resultado,  é  preciso  lista  de  países  alvos  de  revisão  comercial 
fazer  algumas  considerações  sobre  o  no último ano já dá a deixa de qual será o 
processo  de  formulação  de  política  tom  nos  próximos  anos.  Os  debates  que 
comercial nos Estados Unidos. Em primeiro  ocorrem no Congresso para a expansão do 
lugar,  é  importante  dizer  que  este  TAA  (Trade  Adjustment  Assistance), 
resultado  é  fruto,  em  grande  medida,  das  mecanismo  de  compensação  aos 
involuções  da  condição  material  que  trabalhadores  afetados  pala  competição 
ocorreram  nos  últimos  anos  na  economia  externa,  tornando‐o  mais  forte  e 
norte‐americana,  proporcionadas  quer  por  abrangente, também é reflexo disso. Além 
motivos  endógenos,  quer  por  motivos  disso,  o  nível  atual  de  desemprego 
exógenos.  Estas  forças  parecem  estar  contribuiu  para  o  fortalecimento  desta 
diretamente  relacionadas  com  a  ascensão  idéia.  Segundo  o  Departamento  do 
de  novos  pólos  de  exportação.  Na  década  Trabalho  dos  Estados  Unidos  (U.S. 
de  1980  estes  pólos  eram  representados  Department  of  Labor),  em  dezembro  de 
pelos  NICs,  além  do  Brasil,  Índia  e  Japão.  2007, o desemprego aumentou em 46 dos 
Hoje,  a  China  e  a  crise  financeira  recebem  50  estados  norte‐americanos,  atingindo 
maior  parte  das  atenções.  Estes  novos  uma média nacional de 5%. 
temas  são  acusados  de  causarem  a 
desindustrialização  da  economia  norte‐ Resta  saber  se  tais  tendências  se 
americana,  reestruturando  o  mercado  de  materializarão  em  mecanismos 
trabalho,  aumentando  o  desemprego,  institucionais  no  Congresso.  No  ano 
acirrando  a  concorrência  e  contribuindo  passado  alguns  projetos  de  lei  bastante 
para o déficit comercial.  agressivos  tramitaram  o  Congresso  norte‐
americano,  com  destaque  para    as 
A  interpretação  da  situação  material,  bem  emendas  de  Phil  English,  que  buscam 
como  a  formulação  de  soluções  para  modificar o Trade Act de 1930 tornando as 
atingir  uma  nova  posição  futura,  fora  o  leis  de  comércio  dos  Estados  Unidos  mais 
grande  trunfo  utilizado  pelos  candidatos  rigorosas,  além  de  criar  mecanismos  de 
democratas.  Assim  como  no  final  da  combate  às  barreiras  internacionais  aos 
década  de  1980,  tal  relação  fora  produtores  norte‐americanos;  as  emendas 
largamente  aceita  como  válida:  a  de Grasham Barret, que buscam retardar a 
deterioração da economia norte‐americana  implementação  das  determinações  feitas 
fora  vista  como  a  principal  forma  de  pelos painéis da OMC que sejam maléficas 
visualizar  a  perda  de  poder  relativo  dos  ao  bom  funcionamento  da  economia 
Estados  Unidos.  Embora  a  relação  entre  norte‐americana;  as  emendas  de  Joe 
essas variáveis não é tão evidente, fora de  Knollenberg,  que  visam  tornar  mais 
grande  importância  para  as  últimas  eficazes  as  medidas  compensatórias  e  os 
eleições.  Como  conseqüência  disso,  o  mecanismos de investigação de práticas de 
partido democrata tende a utilizar cada vez  dumping,  mantendo  a  competitividade  da 
mais  a  relação  “deterioração  indústria  norte‐americana;  as  emendas  de 
econômica/desemprego” na elaboração de  Max  Baucus,  que  busca  emendar  o  Trade 
seus  projetos  de  lei.  A  própria  inclusão  da  Act de 1974 para tornar os mecanismos de 
China,  país  que  mantêm  um  superávit  de  compensação  aos  setores  prejudicados 
US$  233 bilhões com os  Estados Unidos, e  pela  globalização  mais  eficazes,  além  de 

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Especial Barack Obama 

incentivar  a  publicação  pelo  USTR  de  uma  esta  se  materializará  em  mecanismos 
“lista”  com  as  principais  barreiras  aos  institucionais  após  a  formulação  de  idéias 
produtores  norte‐americanos  para  ser  convincentes. 
combatida; entre outros. 
 
Estes  projetos,  além  de  outros,  embora 
talvez  a  maioria  deles  não  tenham  sido  Breve Indicação Bibliográfica 
aprovados,  são  dignos  de  nota,  pois  PECEQUILO,  Cristina  Soreanu.  Os  Estados 
funcionam  como  um  termômetro  das  Unidos:  Hegemonia  e  Liderança  na 
atividades  do  Congresso  norte‐americano.  Transição.  Rio  de  Janeiro:  Editora  Vozes, 
É  possível  notar  que  a  condição  material  2001 
prejudicada,  motivada  pelas  idéias  que 
relacionam  a  abertura  econômica  com  o  NYE,  Joseph  S.  O  Paradoxo  do  Poder 
déficit  na  balança  comercial,  estão  mais  Americano: Por que a única superpotência 
próximas  de  se  materializarem  em  do  mundo  não  pode  prosseguir  isolada. 
mecanismos institucionais no Congresso, e  São Paulo: Editora Unesp, 2002 
tal tendência parece que se prolongará nos 
STIGLITZ,  Joseph  E.  The  Economic 
próximos anos. 
Consequences  of  Mr.  Bush.  VanityFair. 
Contudo,  é  importante  frisar  que  o  Disponível  em 
Executivo  parece  não  ser  tão  sensível  à  http://www.vanityfair.com/politics/feature
condição material quanto os congressistas.  s/2007/12/bush200712  .  Acesso  no  dia 
Esta  tendência  prevalece  desde  o  pós‐ 01/10/2008 
Segunda  Guerra  até  os  nossos  dias;  a 
ARRIGHI,  Giovanni.  O  longo  século  XX: 
própria  criação  do  USTR,  ainda  na  década 
dinheiro,  poder  e  as  origens  de  nosso 
de 60, foi em certa medida resultado dela. 
tempo.  2ª  ed.  Rio  de  Janeiro/São  Paulo: 
Portanto,  embora  a  bandeira  de  Obama 
Contraponto/Editora Unesp, 1997. 
seja a mudança, certamente haverá limites. 
Mas,  é  bom  ressaltar,  que  isso  não  retira  COUNCIL  OF  ECONOMIC  ADVISORS. 
todo  o  poder  de  ação  do  Congresso.  Além  Economic  Report  to  the  President  (2002). 
disso,  Barack  Obama  parece  responder  às  Disponível 
mesmas forças que já estão em pleno vigor  em<http://www.gpoaccess.gov/eop/index.
nesta  instituição.  Caso  este  cenário  se  html>. Acesso em: 01 fev 2006. 
torne  real,  todas  as  características 
domésticas necessárias para uma transição  DRYDEN,  Steve.  Trade  warriors:  USTR  and 
rumo  à  uma  postura  comercial  mais  the  American  crusade  for  free  trade.  New 
agressiva  parecem  estar  presentes.  York: Oxford University Press, 1995 
Somente forças exógenas ou a manutenção 
GOLDSTEIN,  J.  “Ideas,  institutions,  and 
das  políticas  de  Estado  norte‐americanas 
American  trade  policy”.  International 
pró‐liberalização servirão como freio para a 
Organization,  vol.  42,  nº  1,  The  State  and 
escalada  do  protecionismo.  Em  suma, 
American  Foreign  Economic  Policy,  Winter 
podemos  assistir  em  breve  a  mais  um 
1988, pp. 179‐217. 
processo de alteração na política comercial 
norte‐americana.  Resta  saber  qual  a 
profundidade  dessa  mudança  indicada 
pelas  mutações  na  condição  material  e  se 

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Especial Barack Obama 

KENNEDY,  Paul.  Ascensão  e  queda  das  países  em  desenvolvimento”.  São  Paulo  / 
grandes  potências.  Rio  de  Janeiro:  Ed.  Campinas: CEDEC / Unicamp, abril de 2007.
Campus, 1989. 
 
DESTLER,  I.  M.  America  trade  politics.  3th 
ed.  Massachusetts:  Institute  for 
International Economics, 1995 

VIGEVANI, T. et. al. Estados Unidos: política 
comercial  (USTR).  Relatório  científico  final 
enviado  à  FAPESP,  integrante  do  projeto 
temático  “  Reestruturação  econômica 
mundial  e  reformas  liberalizantes  nos 

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Especial Barack Obama 

O comportamento político do eleitorado americano 

Laís Forti Thomaz 

Uma  eleição  é  determinada  por  diversos  aumento  de  58%  em  2004  para  70%  em 
fatores.  Uma  análise  profunda  do  2008  da  participação  desse  eleitorado, 
eleitorado  e  uma  campanha  que  privilegie  sendo que o candidato democrata recebeu 
suas  demandas  e  anseios,  além  de  95%  desses  votos.  Obama  ainda  teve  um 
fortalecerem  as  bases  partidárias,  são  aumento  de  11%  dos  votos  relativos  aos 
decisivos para uma vitória.  hispânicos, isto é, em 2004 os democratas 
obtiveram  56%  dos  votos  de  hispânicos  e 
Os eleitores norte‐americanos nas eleições  em 2008 esse número passou para 67%. 
de  2008,  assim  como  no  ano  de  2004, 
orientaram‐se,  em  grande  medida  pelo  Outro  fator  decisivo  diz  respeito  aos  6 
medo,  mas  o  principal  agente  catalisador  milhões de títulos novos, dos quais Obama 
foi  o  desejo  de  mudança.  Se  em  2004  o  conseguiu  69%  de  votos.  Obama  recebeu 
medo  era  em  função  do  terror  pós‐11  de  66%  de  votos  dos  jovens  (18‐29  anos) 
Setembro,  em  2008  o  medo  estava  contra  32%  dos  votos  para  McCain.  Uma 
relacionado  com  o  futuro  da  economia  de  diferença  como  esta  somente  havia 
seu país.   ocorrido  duas  vezes  no  histórico  das 
eleições  dos  Estados  Unidos,  sendo  que 
Claramente,  existia  uma  enorme  jamais  fosse  tão  significativa.  No  caso  das 
insatisfação para com o governo de George  eleições  de  1984,  Reagan  obteve  59%  dos 
W.  Bush,  o  qual  perdeu  sua  credibilidade  eleitores  com  idade  inferior  ou  igual  a  30 
durante  a  guerra  do  Iraque  e  ficou  ainda  anos, contra 40% dos votos para Mondale. 
mais  vulnerável  com  crise  econômica.  O  Já Clinton em 1996 obteve 53% contra 34% 
desejo  de  mudança  e  de  por  um  basta  a  nesse  mesmo  eleitorado.  A  faixa  etária 
esse  governo  já  eram  bons  motivos  para  compreendida  entre  18  e  44  anos 
um  aumento  significativo  da  participação  constituem 57% da população. O candidato 
nas urnas durante essas eleições.  McCain obteve 51% dos votos de eleitores 
Dessa  maneira,  por  meio  de  pesquisa  acima  dos  60  anos,  sendo  que  estes 
realizada  pela  Edison  Media  Research  e  representam  23%  da  população.  O 
pela Mitofsky International, divulgada pelo  eleitorado  compreendido  entre  45  e  60 
New  York  Times  em  9  de  novembro  de  ficou  mais  indeciso  e  a  diferença  de  votos 
2008,  com  17.836  eleitores  em  300  zonas  foi muito pequena. (EXIT POLLS, 2008) 
eleitorais  dos  Estados  Unidos,  além  de  Nessa perspectiva, devemos atentar para o 
2.378  entrevistas  com  eleitores  que  implemento  das  bases  políticas  dos 
votaram pelo correio ou antecipadamente,  democratas. Métodos que antes dotaram o 
observamos  que  eleitores  negros,  Partido  Republicano  de  organização  e 
hispânicos  e  com  idade  inferior  a  30  anos  estratégias  de  implementação  de  sua 
votaram  predominantemente  em  Barack  máquina  eleitoral  foram  absorvidas  pelo 
Obama. (CONNELY, 2008)  Partido  Democrata,  após  suas  derrotas 
Com  relação  aos  eleitores  negros,  presidenciais,  tais  como:  incentivo  a 
principalmente  impulsionados  pela  participação  de  jovens  como  novos 
candidatura  de  Barack  Obama,  houve  um  militantes  e  o  aumento  de  informação 

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Especial Barack Obama 

partidária  na  internet.  Nos  anos  1990,  os  presidente  eleito  conseguiu  arrecadar 
republicanos  formaram  uma  base  sólida  e  cerca  de  750  milhões  de  dólares,  sendo 
fiel  a  seus  princípios  conservadores,  que  104  milhões  foram  doados  nas 
estimulando  seus  afiliados  a  semanas  anteriores  a  eleição.  O  candidato 
incrementarem  suas  eleições.  Mas  essa  democrata  desistiu  do  financiamento 
base  republicana  não  foi  muito  bem  público,  mas  teve  580  mil  doadores,  em 
sustentada  após  as  duas  vitórias  que  20%  contribuíram  com  cerca  de  200 
consecutivas de George W. Bush.  milhões  de  dólares.  (AGENCIA  ESTADO, 
2008) 
Adicionalmente, a agenda de campanha de 
Obama, tido por alguns como uma agenda  A  partir  disso,  também  observa‐se  um 
progressista,  até  mesmo  chamada  New  aumento  histórico  do  número  de  eleitores 
Deal,  tinha  como  propósitos:  um  plano  que  se  consideram  democratas.  A 
detalhado  para  a  economia  dos  Estados  diferença  entre  os  democratas  e 
Unidos  voltarem  aos  trilhos,  através  da  republicanos  na  população  chegou  a  7%, 
criação  de  novos  postos  de  trabalho  e  isto  é,  32%  da  população  se  dizem 
aliviando  a  carga  de  impostos  aos  democratas  e  32%  se  consideram 
trabalhadores  norte‐americanos;  investir  republicanos.  Essa  é  a  maior  vantagem 
em  combustíveis  alternativos  e  renováveis  desde 1980. 
de  energia,  incluindo  um  plano  para 
aumentar  a  eficiência  energética  dos  Concomitantemente,  em  sua  campanha 
Estados Unidos, com a criação de 5 milhões  Obama demonstrava anseio em não dividir 
de  novos  "verdes"  empregos  (nesse  ponto  seu país, mas buscar uni‐lo. Confirmou isso 
também  se  destaca  a  manutenção  de  em seu primeiro discurso como presidente 
subsídios para produção de etanol a partir  eleito  declarando  que  a  população  norte‐
do  milho);  continuar  a  longa  tradição  americana  nunca  foi  um  conjunto  de 
diplomática, melhorando simultaneamente  indivíduos  ou  de  estados  azuis  ou 
a  posição  dos  Estados  Unidos  no  mundo;  vermelhos:  “Somos  e  sempre  seremos  os 
implantar  um  plano  de  saúde  que  dará  Estados  Unidos  da  América”  (OBAMA: 
acesso  e  cobertura  com  preços  acessíveis  VICTORY SPEECH, 2008) 
para  todos;  aumentar  as  medidas  de  Dessa maneira, conseguiu agregar eleitores 
segurança  como  parte  de  um  plano  de  grupos  importantes,  tais  como: 
nacional  para  manter  as  comunidades  indecisos,  católicos,  suburbanos, 
seguras;  trabalhar  com  seus  comandantes  independentes  políticos  e  veteranos  de 
militares  responsavelmente  para  acabar  guerra.  Isso  demonstra  seu  avanço  entre 
com  a  guerra  no  Iraque;  reorientar  os  grupos  tradicionalmente  republicanos, 
recursos  para  combater  a  Al‐Qaeda  no  como  por  exemplo,  brancos, 
Afeganistão  e  focar‐se  na  luta  contra  os  conservadores,  sulistas  e  freqüentadores 
terroristas responsáveis pelo ataque em 11  de igreja. No que tange aos independentes, 
de  setembro;  garantir  a  Segurança  Social;  é  praticamente  um  feito  ter  conseguido 
entre outros (ISSUES, 2008).  52%  a  44%  desses  votos.  Isso  não  ocorria 
Outro  passo  importante  da  campanha  de  desde 1972 para o Partido Democrata. 
Obama  diz  respeito  a  sua  arrecadação  Vale  atentar  que  nos  Estados  Unidos,  as 
recorde  de  fundos.  Segundo  a  Comissão  eleições  para  a  Presidência  se  pautam  por 
Federal  de  Eleição  dos  Estados  Unidos,  o 

  Página | 18 
Especial Barack Obama 

duas  etapas,  a  primeira  é  a  votação  comportamento  do  eleitorado  nesses 


popular e a segunda é a votação no colégio  colégios eleitorais2. 
eleitoral.  Mas  nem  sempre  uma  vitória 
popular  significa  a  eleição  do  chefe  do  Na  Carolina  do  Norte,  o  número  de 
Executivo,  porque  os  votos  do  colégio  delegados  é  15.  Em  2000  e  2004,  os 
eleitoral e que fazem toda a diferença.   republicanos  venceram  com  facilidade  no 
estado.  Em  2000,  foram  56%  dos  votos 
Os votos do colégio eleitoral correspondem  para Bush e 43% para Gore. Em 2004, Bush 
aos votos de representantes, os delegados,  repetiu  seu  percentual,  enquanto  John 
e  são  proporcionais  ao  tamanho  da  Kerry  ficou  com  44%  dos  votos.  Os 
população  de  cada  estado  federativo.  Os  eleitores  desse  estado  eram 
delegados são selecionados pelos eleitores  tradicionalmente  republicanos,  e  não 
de  seus  estados  via  um  cálculo  feito  com  votavam  em  um  democrata  desde  Jimmy 
base  na  votação  popular.  No  total,  o  Carter, em 1976. Mas em 2008, o resultado 
colégio eleitoral conta com 538 delegados.  foi  49,9%  de  votos  para  Obama  contra 
São  necessários  270  votos  do  colégio  49,5%  de  McCain.  Em  termos  de  idade, 
eleitoral  para  elegerem  o  novo  presidente  predominam  jovens  e  adultos.  Brancos  e 
dos  Estados  Unidos,  porém  o  candidato  protestantes  são  a  maioria  da  população, 
democrata  Barack  Obama  obteve  365  mas  estima‐se  que  os  negros  componham 
votos  contra  162  votos  do  candidato  um  quinto  do  total.  Entretanto,  esse 
republicano John McCain.  estado apresenta uma boa participação de 
eleitores negros. 
Obama foi vitorioso em Connecticut, Havaí, 
Oregon,  Virgínia,  Washington,  Califórnia,  Com  9  delegados  em  jogo,  o  Colorado 
Iowa,  Delaware,  Illinois,  Maine,  Maryland,  também  havia  elegido  Bush  nas  duas 
Massachussets, Michigan, Minnesota, New  últimas  eleições  presidenciais.  Em  2000, 
Hampshire,  Nova  Jersey,  Novo  México,  Bush  venceu  com  51%  dos  votos,  contra 
Nova York, Ohio, Pensilvânia, Rhode Island,  42%  de  Gore.  Em  2004,  52%  dos  votos 
Vermont,  Wisconsin,  Nevada,  Colorado,  foram  para  Bush  e  47%  para  Kerry.  Dessa 
Washignton DC, Indiana, Florida e Carolina  maneira,  observamos  que  seu  eleitorado 
do  Norte.  McCain  ganhou  em  Alabama,  era  mais  um  reduto  republicano,  que 
Idaho,  Arkansas,  Geórgia,  Kansas,  migrou  para  o  partido  democrata,  visto 
Kentucky,  Louisiana,  Dakota  do  Norte,  que  Obama  conseguiu  53,5%  dos  votos, 
Dakota  do  Sul,  Tennessee,  Oklahoma,  contra  os  44,9%  de  McCain.  Esse  estado 
Carolina  do  Sul,  Virgínia  Ocidental,  não  votava  num  candidato  democrata  à 
Mississipi,  Nebraska,  Texas,  Utah,  presidência  há  16  anos.  A  população 
Wyoming,  Montana,  Arizona,  Alaska,  hispânica,  como  já  dissemos  acima,  deu 
Missouri.  Assim,  nos  chamados  estados‐ apoio  a  Obama,  visto  que  quase  um 
chave, onze do total dos 50 que compõem  décimo  dos  eleitores  desse  estado  tem 
os  Estados  Unidos,  Obama  obteve  vitória  origem hispânica. Sua composição também 
em dez. Dessa forma, vamos demonstrar o  possui  imigrantes  asiáticos  e,  aliados  aos 

                                                            
2
Dados  obtidos  em:  American  presidential 
election;  COLÉGIO  ELEITORAL,  2008;  map, 
2008. 

  Página | 19 
Especial Barack Obama 

latinos,  representavam  um  quinto  da  Em  Nevada,  com  5  delegados,  a  grande 
população em 2006.   presença  latina  (12%  do  eleitorado)  fez 
diferença,  pois  62%  dos  seus  eleitores 
Numa  votação  cheia  de  suspeitas  de  hispânicos  apoiavam  Obama  que  obteve 
irregularidades,  em  2000,  a  Flórida,  com  55,1%  a  42,7%.  Entretanto,  seu  histórico 
seus  27  delegados,  decidiu  a  eleição  em  também  apresenta  Bush  como  vitorioso 
favor  de  Bush,  sendo  que  a  margem  de  em  2000  com  49%  dos  votos,  contra  os 
votos  foi  mínima.  Bush  também  derrotou  45,5% de Gore e em 2004, Bush conseguiu 
Kerry  por  52%  a  47%  em  2004  nesse  50% dos votos, contra 48% de Kerry. 
estado. Mas nessas eleições esse reduto foi 
palco  freqüente  dos  comícios  democratas.  New  Hampshire  possui  4  delegados 
Dessa maneira, o Obama obteve 50,9% dos  apenas.  O  estado  apresenta  mais  de  90% 
votos,  contra  os  48,4%  de  McCain.  Vale  de brancos na população e um terço dessa 
ressaltar que a Florida apresenta uma taxa  população  são  católicos.  Bush  venceu  em 
de desemprego acima da média nacional, o  2000  (48%  a  47%),  mas  não  repetiu  o 
que pesou na hora da escolha do candidato  resultado e perdeu para Kerry (50% a 49%) 
democrata  e  seu  discurso  de  mudança  em  2004.  A  perspectiva  democrata 
frente  a  crise  econômica.  Outro  aspecto  continuou,  já  que  Obama  foi  vitorioso 
que  colabora  com  esse  resultado  é  a  nesse  estado  com  54,3%  dos  votos  contra 
grande  presença  de  hispânicos  (16%  da  44,8% de McCain. 
população) e de negros (14%). 
Estado  onde  a  população  hispânica  é 
Indiana, com seus 11 delegados, não elegia  numerosa  (35%  do  eleitorado),  o  Novo 
um  democrata  desde  1964.  A  população  México possui 5 delegados. Ao contrário de 
desse  estado  é,  em  sua  ampla  maioria,  New  Hampshire,  Bush  perdeu  em  2000  e 
branca  e  protestante.  Em  2000,  Bush  conseguiu  vencer  em  2004,  mas  nas  duas 
venceu Gore por 57% a 41%, e nas eleições  eleições  a  diferença  de  votos  foi  muito 
de 2004 Bush foi reeleito nesse estado com  pequena.  O  governador  do  Novo  México, 
60%  dos  votos,  contra  39%  de  Kerry.  Bill  Richardson,  é  o  único  chefe  de 
Nessas  eleições,  Obama  conseguiu  sua  Executivo  hispânico  dos  Estados  Unidos,  e 
vitória com 49,9% contras 49,0% dos votos  apoiou  Obama  já  nas  primárias,  quando  o 
de McCain.  candidato  derrotou  a  Hillary  Clinton.  O 
resultados  nessas  eleições  foi  56,7%  dos 
Já  o  estado  recordista  em  eleger  votos para contra 42,0% para McCain.  
presidentes, Missouri, possui 11 delegados, 
votou  no  vencedor  em  todas  eleições  do  Em  Ohio,  nas  duas  últimas  eleições  Bush 
século XX, com exceção apenas na de 1956.  teve sucesso. Dos 20 delegados, Bush teve 
Entretanto,  agora  em  2008  também  não  50% e Gore 46% em 2000. Em 2004, foram 
obteve  o  resultado  que  esperava.  Isso  51%  para  Bush  e  49%  para  Kerry.  Vale 
porque  49,4%  de  seus  votos  foram  para  destacar  que,  desde  1860,  quando 
McCain  e  Obama  ficou  com  49,3%.  No  sul  Abraham  Lincoln  foi  eleito,  nenhum 
desse estado, os caçadores enxergavam na  republicano  conseguiu  chegar  à 
candidata,  a  vice  republicana  Sarah  Palin,  presidência  sem  vencer  as  eleições  em 
uma defensora do direito de portar armas.   Ohio.  Para  Obama  não  foi  fácil  vencer  em 
um estado com mais de 80% de brancos na 
população.  Porém,  um  aspecto  que 

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Especial Barack Obama 

favoreceu  o  democrata  foi  que  um  quarto  de  Obama  como  presidente,  já  que  a 
da população tem menos de 18 anos, assim  máquina  política  está  novamente  no 
ele  obteve  51,2%  contra  os  47,2%  de  controle de um único partido. 
McCain. 
De  todo  o  mapeamento  que  fizemos  com 
A  Pensilvânia  é  o  único  dos  estados‐chave  relação  aos  votos  por  faixa  etária,  etnias, 
onde os republicanos foram derrotados em  localidades,  religião,  e  colégios  eleitorais, 
2000  e  2004  (51%  a  46%  e  51%  a  49%)  e  podemos observar que, nessas eleições, os 
possui  21  delegados.  Hillary  Clinton  teve  eleitores enxergaram em Obama algo além 
enorme apoio durante as primárias, e esse  da  possibilidade  que  inspirava  sua 
apoio  foi  transferido  a  Obama.  Mas  esse  campanha:  “sim,  nós  podemos”.  O 
apoio  não  foi  tão  fácil,  visto  que  há  grupo  eleitorado  norte‐americano  acreditou  no 
de  eleitores  mais  velhos,  veteranos  de  candidato  democrata  por  enxergar  uma 
guerra,  com  um  perfil  muito  conservador,  igualdade  de  oportunidade.  O  peso 
haja vista que durante as primárias, Obama  simbólico  de  ser  o  primeiro  presidente 
não  foi  bem  visto  ao  dizer  que  “gente  negro foi muito significativo nesse aspecto, 
amarga  se  apega  a  armas  e  à  religião  nas  pois,  as  minorias,  principalmente, 
crises  econômicas”.  Porém,  Obama  teve  enxergaram  no  candidato  democrata  a 
acertividade  ao  abrir  65  escritórios  no  esperança para a melhoria de suas vidas e 
estado,  quatro  vezes  mais  do  que  o  de  seu  país.  Nem  as  críticas  de  McCain 
candidato  republicano,  e  mais  do  que  em  chamando‐o  de  “socialista”  e 
qualquer  outro  estado  do  país.  Isso  “redistribuidor”  por  adotar  uma  agenda 
colaborou  para  que  ele  conseguisse  seus  que  previa  maiores  medidas  assistenciais, 
54,7% dos votos contra 44,3% de McCain.  enfraqueceram  sua  campanha  e  o 
impediram de vencer. 
Por fim, a Virgínia, com seus 13 delegados, 
não  elegia  democratas  a  44  anos.  Esse   
estado  apresenta  quase  um  quinto  de  sua 
população de negros, mas a maior parte é  Referências e fontes estatísticas: 
branca.  Apresenta  também  asiáticos  e  Agencia Estado. Obama arrecadou US$ 104 
latinos.  Nas  últimas  eleições  Bush  milhões no final da campanha. O Estado de 
conseguiu  52%  em  2000  e  54%  em  2004,  São  Paulo.  5  de  dezembro  de  2008 
contra,  respectivamente  44%  de  Gore  e  Disponível  em: 
45%  de  Kerry.  Em  2008  o  resultado  foi  de  <http://www.estadao.com.br/internaciona
52,7% a 42,0% a favor de Obama.  l/not_int289162,0.htm>  Acesso  em:  10 
É  muito  relevante  considerar  que  a  Dezembro 2008.  
campanha eleitoral dessas últimas eleições  American  presidential  election. 
começou  logo  em  2006,  considerando  a  Encyclopædia  Britannica.  Disponível  em: 
vitória  democrata,  conquistando  a  maioria  <http://www.britannica.com/EBchecked/t
no  Senado  e  na  Câmara  dos  Deputados.  opic‐art/717803/67687/>  Acesso  em:  10 
Por  esse  lado  é  interessante  observar  que  Dezembro 2008. 
nos  dois  mandatos  de  Bush,  até  2006,  os 
republicanos  possuíam  o  controle  da  Colégio  Eleitoral:  Os  estados  decisivos. 
máquina  política.  Dessa  maneira,  essa  Eleição  nos  Estados  Unidos.  Seção  Online 
tendência  prevaleceu  agora  com  a  eleição  Veja.  Disponível  em: 

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Especial Barack Obama 

<http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/ Exit  Polls.  Election  Results  2008.  New  York 


eleicao‐eua/estados‐decisivos.shtml>  Times.  05  de  Novembro  de  2008. 
Acesso em: 10 Dezembro 2008.  Disponível  em: 
<http://elections.nytimes.com/2008/result
Connely, Marjorie. Dissecting the Changing  s/president/exit‐polls.html>. Acesso em 10 
Electorate.  New  York  Times.  8  de  Dezembro 2008. 
Novembro  de  2008.  Disponível  em: 
<http://www.nytimes.com/2008/11/09/we  
ekinreview/09connelly.html?_r=1>.  Acesso 
em: 10 Dezembro 2008.   

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Especial Barack Obama 

Acontecimento  e  acontecimento  midiático:  a  construção  da  narrativa 


midiática da eleição de Obama 

Denise Figueiredo Barros do Prado 

A  vida  social  é  atravessada  por  uma  série  acontecimentos.  Desse  modo,  o  objetivo 
de  eventos  que,  ao  se  tornarem  uma  deste artigo  é discutir  como a candidatura 
referência temporal, produzem um antes e  e  a  eleição  de  Barack  Obama  se  revela 
um  depois  do  ocorrido  que  se  torna  uma  como  um  acontecimento  e  identificar  a 
das  pontuações  organizadoras  da  história  atuação  da  mídia  como  participante  desse 
da  vida  cotidiana.  Esses  eventos  são  acontecimento, visto que  ela o conformou 
chamados  acontecimentos.  O  potencial  de  como  um  acontecimento  midiático  ao 
afetação  dos  acontecimentos  é  variável,  estruturar  uma  narrativa  que  permitisse 
dependendo  da  força  que  possui  para  apreender  esse  evento.  Para 
alterar  as  percepções  de  mundo  e  de  seu  desenvolvermos  nossa  perspectiva,  é 
potencial  de  implicação.  A  peculiaridade  necessário  apresentar  os  conceitos  de 
comum  a  todos  esses  tipos  de  acontecimento,  acontecimento  midiático  e 
acontecimento é que o resultado final, em  narrativa midiática. 
quê  resultará  o  seu  desenvolvimento, 
possui  certo  grau  de  imprevisibilidade  e   
após  o  acontecido  as  percepções  de  Acontecimento:  ruptura  e 
mundo  já  não  são  as  mesmas.  No  âmbito  descontinuidade  
individual,  acontecimentos  podem  ser 
mortes  de  familiares,  casamentos,  Um  acontecimento  é  um  evento  que,  ao 
nascimentos  de  filhos  e  etc.  No  âmbito  emergir,  rompe  com  o  modo  de  se 
coletivo,  os  acontecimentos  têm  um  grau  compreender  as  relações  sociais.  Ao 
de afetação ampliado, um caráter público e  vivenciar  um  acontecimento,  sente‐se 
são,  freqüentemente,  veiculados  pelos  implodir  os  quadros  de  sentido3 
meios  de  comunicação.  São  exemplos  precedentes,  posto  que  o  repertório 
desse tipo de acontecimentos os desastres  anterior  dos  indivíduos  não  dá  conta  de 
naturais,  eleições,  eventos  esportivos,  explicar  ou  justificar  naquele  mesmo 
entre outros.   instante  em  que  decorrem  os  eventos,  a 
natureza  do  ocorrido.  Como  nos  explica 
Nas  sociedades  contemporâneas,  a  forma  Mouillaud,  “no  momento  mesmo  do 
mais  comum  de  se  experienciar  os  acontecimento,  não  existe  nada,  nada 
acontecimentos é pelo acesso às narrativas  pode  ser  ‘visto’.  As  testemunhas  estão 
produzidas  pelos  meios  de  comunicação. 
                                                            
Assim,  os  acontecimentos  são  construídos 
3
por  formas  narrativas  convencionais  e  Aqui  nos  valemos  do  conceito  de  Goffman 
publicizados.  Desse  modo,  o  público  entra  (1991),  para  quem  os  quadros  de  sentido 
são  princípios organizadores  que  tornam as 
em  contato  com  as  narrativas  dos  situações  vividas  inteligíveis.  Desse  modo, 
acontecimentos  midiatizados  e  é  afetado  tais  quadros  seriam  mobilizados  pelos 
pelo  evento  e  pela  organização  temporal  indivíduos  na vida  social  para  compreender 
desenvolvida  pelas  narrativas  midiáticas  as  situações  vividas  e,  a  partir  disso,  eles 
poderiam  definir  qual  é  comportamento 
ainda que não tenha vivido uma relação de  adequado para cada situação e quais são os 
co‐presença  com  o  desenrolar  dos  sentidos partilhados. 

  Página | 23 
Especial Barack Obama 

sideradas.  A  explosão  é  uma  explosão  do  potencial  de  disjunção  do  acontecimento? 
sentido pulverizado em um pó de detalhes”  Ora,  ainda  que  alguns  acontecimentos 
(Mouillaud,1997,  p.49).  A  partir  disso  é  sejam planejados, o imprevisto pode surgir 
necessário  que  os  indivíduos  busquem  e  provocar  deslocamentos  e  alterar 
construir  (ou  reconstruir)  seus  quadros  percepções já arraigadas.  
referenciais  para  compreender  e  assimilar 
a nova situação instalada.   Quando  se  vive  a  experiência  de 
descontinuidade,  busca‐se  socializar  as 
Quéré  (2005)  nos  explica  que,  uma  surpresas  do  acontecimento  e  reconstruir 
característica  inerente  a  todos  os  um  passado  que  torne  esse  evento,  em 
acontecimentos é o seu poder de afetação.  alguma  medida,  possível  e  antevisto. 
Tal afetação pode se dar tanto nos âmbitos  Assim, restaura‐se a continuidade ao ligar a 
da  vida  individual  quanto  nos  âmbitos  da  natureza do acontecimento a uma série de 
vida  coletiva  e  sua  capacidade  de  ocorrências  do  passado.  Embora  essas 
implicação  é  proporcional  a  sua  força.    A  ocorrências  —  marcas  residuais  que  viram 
partir  disso,  Quéré  questiona  a  natureza  pistas  de  um  presente  que  emerge  — 
desse poder e quais seriam as rupturas que  tenham  passado  despercebidas  até  então, 
ele  proporciona.  O  autor  explica  que,  se  ao  serem  decantadas  mostram  que  a 
num primeiro momento o acontecimento é  realização  do  acontecimento  no  presente 
inapreensível,  esse  vácuo  de  sentido  comportava  certo  grau  de  previsibilidade. 
instaurado  acaba  por  marcar  um  período  Mas, impressionantemente, esse passado e 
de  transição  em  que  se  torna  necessário  esse  contexto  organizado  para  abrigar  o 
estabelecer uma série de causalidades (que  acontecimento  e  justificá‐lo  não  “existia” 
precisam  ser  decantadas  do  passado  para  antes da sua ocorrência.  
justificar o ocorrido) e criar um novo leque 
de  possibilidades  para  o  futuro.  Desta  Em  suma,  é  preciso  que  o  acontecimento 
forma,  paradoxalmente,  o  acontecimento  ocorra,  que  ele  se  manifeste  em  sua 
pode tanto ser um início como um fim.   descontinuidade  e  que  tenha  sido 
identificado  de  acordo  com  uma  certa 
É  pelo  estabelecimento  de  uma  série  de  descrição  em  função  de  um  contexto  de 
causalidades  e  pela  construção  de  um  sentido, para que se lhe possa associar um 
passado  que  permita  reconhecer  as  linhas  passado  e  um  futuro  assim  como  uma 
de  força  que  confluem  no  acontecimento  explicação  causal.  (...)  É  por  isso  que  o 
que  se  torna  possível  apreender  o  sentido  acontecimento esclarece o seu passado e o 
do  acontecimento.  Com  isso,  alteram‐se  seu futuro, melhor ainda, é por isso que o 
também  as  possibilidades  do  que  está  por  passado  e  o  futuro  são  relativos  a  um 
vir.  O  futuro  é,  enquanto  conjunto  de  presente  evenemencial.  (Quéré,  2005, 
possibilidades, alterado porque o presente  p.62). 
clama e inaugura novas possibilidades.   
Quéré  explica  que  é  preciso  conhecer  os 
Assim,  Quéré  destaca:  nem  tudo  o  que  elementos  que  condicionam  o 
acontece  é  inesperado.    Certos  acontecimento,  que  o  tornam  possível, 
acontecimentos  são  previstos,  o  que  para depois ver a descontinuidade como a 
quebra  a  noção  de  que  só  há  ultrapassagem  das  possibilidades 
descontinuidade  na  irrupção  do  previamente estabelecidas.   
acontecimento.  Então  qual  a  novidade  e 

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Especial Barack Obama 

Há  coisas  que  acontecem,  e  que  experiência  direta,  parecem  até 


julgávamos  impossíveis  de  acontecer,  incoerentes  devido  à  sua  desorganização. 
porque  excediam  o  pensável  ou  o  nosso  De que forma então seriam organizados os 
sentido  de  possível.  Ao  acontecerem,  acontecimentos  para  que  eles  se 
somos  obrigados  a  reconhecer  que  havia  tornassem  inteligíveis?  Para  Ricoeur 
possibilidades,  potencialidades  ou  (1980),  somente  pela  criação  de  um 
eventualidades  (...).  Somos,  portanto,  enredo  e  da  instauração  de  um  tempo  no 
impelidos  a  rever  o  nosso  sentido  do  qual  se  encadeiem  as  ocorrências  que  um 
possível,  a  descobrir  “os  possíveis  que  acontecimento pode se tornar inteligível. O 
eram  nossos”  e  a  inscrever  na  ordem  das  poder  organizador  do  enredo  está  na  sua 
eventualidades  o  que  até  então  parecia  potencialidade  de  criar  correlações, 
impensável.  Essa  revisão  do  sentido  do  estabelecer  seqüências  e  dar  saliência  a 
possível  tanto  diz  respeito  ao  passado  certos  elementos  do  modo  intencional  — 
como  ao  futuro  (...).  Enfim,  o  visando  produzir  coerência  tanto  no 
acontecimento  pode  afetar  acontecimento  em  si  quanto  evidenciando 
profundamente  o  nosso  horizonte  dos  o seu prenúncio num passado. 
possíveis  que  serve  de  pano  de  fundo  ao 
traçarmos  nossos  projetos.  (Quéré,  2005,  Motta  (2004)  destaca  que,  conforme 
p.63).  Ricoeur, as narrativas são um meio para se 
reconfigurar  a  confusa  experiência 
Desse modo, ao se reconfigurar o passado  temporal  desencadeada  pelos 
e  as  expectativas  de  futuro,  está‐se,  acontecimentos. Em consonância com esse 
segundo  Barthélémy  (1992),  autor, Bird e Dardenne (1993) acrescentam 
“normalizando”  o  acontecimento  pela  que  as  formas  das  narrativas  são 
construção de um contexto e de um campo  recorrentes  e  dizem  de  valores  e  mitos 
de possíveis que abriguem esse evento. Ou  compartilhados  na  vida  social.  Ou  seja, 
seja,  a  criação  de  uma  explicação  para  o  além  de  organizar  a  experiência  temporal, 
acontecimento  dá  origem  a  uma  tessitura  as  narrativas  nos  permitem  compreender 
causal,  estabelece  uma  série  de  quais são os contornos normativos de uma 
antecedentes  e  apresenta  um  leque  de  sociedade.  
novos  possíveis  que  tem  como  intuito 
conter  a  improbabilidade  e  É  o  processo  de  estruturação  do 
descontinuidade  do  acontecimento,  acontecimento pela narração — e, no caso 
normalizando‐o.  Esse  processo  de  criação  da  narração  midiática,  pela  produção  da 
de  um  passado  e  de  projeções  de  futuro  notícia  —  que  o  acontecimento  se  torna 
para a normalização são operacionalizados  inteligível,  ganha  significado.  Os  fatos  da 
pela criação de narrativas.  vida social assim ordenados promovem um 
encadeamento  que  estabelece  uma 
Narrativa:  contando  e  ordenando  temporalidade,  uma  trama  e  dá  saliência 
passado, presente e futuro  aos elementos tidos como relevantes.  

Como já foi citado acima, para Mouillaud, o  De  acontecimento  a  acontecimento 


acontecimento,  durante  a  sua  ocorrência,  midiático:  
se  traduz  por  um  conjunto  de  ações  e 
eventos  desordenados  e  confusos  que,  Para  Quéré,  um  evento  é  denominado 
para  aqueles  que  o  vivem  numa  acontecimento  na  medida  em  que  ele 

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Especial Barack Obama 

representa  um  momento  memorável,  de  semelhante,  entendem  que  uma  das 
ruptura,  que  marca  a  trajetória  individual  contribuições das narrativas midiáticas dos 
ou coletiva. O número de pessoas afetadas  acontecimentos  que  é  elas,  ao  tornarem 
depende,  obviamente,  do  grau  de  públicos  os  eventos  e  criarem  referências 
proximidade  que  se  tem  com  o  evento  temporais  coletivas,  promovem  uma 
ocorrido  (como,  por  exemplo,  a  morte  de  relação de implicação coletiva4.  
uma pessoa próxima) e da possibilidade de 
se  sentir  implicado  pela  ocorrência  (como  A  partir  da  compreensão  de  que  os 
uma  crise  econômica  de  proporções  acontecimentos  midiáticos  restauram  o 
globais).  A  possibilidade  de  ser  afetado  sentido  de  ocasião,  Katz  apresentou  uma 
pelas ocorrências está ligada à forma como  série  de  características  desse  tipo  de 
esses  eventos  se  tornam  públicos  e  acontecimento. 
conclamam  coletividades  a  aderirem  e  Transmissão  ao  vivo:  a  possibilidade  de 
participarem da compreensão dos eventos.  transmissão  simultânea  de  um  evento 
Na  vida  social  contemporânea,  a  forma  permite  que  os  espectadores  sejam 
mais  comum  de  se  tomar  parte  da  “transportados”  simultaneamente  ao  local 
dinâmica  dos  acontecimentos  e  de  ser  dos eventos; 
tragado  por  essa  afetação  é  pela 
publicização  realizada  pelos  meios  de  Acontecimento planejado: para o autor, os 
comunicação.  Essa  construção  midiática  acontecimentos  midiáticos,  em  geral,  não 
dos  eventos  é  chamada  acontecimento  foram  organizados  pelos  mídia.  Embora 
midiático.  alguns  deles  levem  em  conta  a  presença 
dos  meios  de  comunicação,  ocorreriam 
Segundo  Katz  (1993),  os  eventos  sociais  independentemente da midiatização;  
que estavam associados à co‐presença dos 
implicados  e  a  uma  temporalidade  Enquadramento no tempo e no espaço: os 
específica  instauravam  um  “sentido  de  acontecimentos são situados no presente e 
ocasião  próprio”,  que  circunscrevia  a  são  referidos  a  um  passado  reorganizado 
afetação  àquele  contexto  específico  em  pelas  narrativas  dos  mídia  de  modo  que 
que o acontecimento se dava. No entanto,  seja  possível  estabelecer  relações  de 
com  a  presença  dos  meios  de  causalidade  e  justificativa  dos  eventos. 
comunicação, acusou‐se a mídia de acabar  Nesse  processo  de  enquadramento,  os 
com  o  “sentido  de  ocasião”  dos  eventos  mídia  oferecem  quadros  de  sentido  para 
visto  que  havia  uma  quebra  da  que os acontecimentos sejam “lidos”.  
temporalidade  e  não  era  necessária  a  co‐
Personalidade  heróica:  para  Katz,  nos 
presença.  
acontecimentos  midiáticos  narrados  pelos 
Subvertendo  essa  compreensão,  Katz                                                              
entende  que  os  meios  de  comunicação, 
4
pelo  contrário,  restauram  aquilo  que  ele  Molotoch  e  Lester  também  desenvolveram 
uma  tipologia  dos  acontecimentos 
chama  de  “sentido  de  ocasião”  pela 
(acontecimento  de  rotina,  acontecimento 
produção  dos  acontecimentos  midiáticos,  acidente,  acontecimento  de  escândalos  e 
uma  vez  que  eles  tornaram  possível  a  acontecimento  serendipty,  ou  seja,  de 
participação  dos  eventos  coletivos  a  acaso).  No  entanto,  entendemos  que  a 
tipologia desenvolvida por Katz nos permite 
públicos mais amplos. Também Molotoch e 
analisar  de  modo  mais  rico  o 
Lester  (1993),  em  uma  perspectiva  desenvolvimento da forma narrativa.  

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Especial Barack Obama 

mídias  há  certa  centralidade  da  ansiedade  para  se  vislumbrar  a  nova 
personalidade;  ou  seja,  costuma‐se  fixar  ordem.  
um herói. 
Katz  ainda  indica  que  essa  tipologia  revela 
Grande  significado  dramático  e  ritual:  é  três  elementos  dramáticos  que,  enquanto 
essencial  que  haja  um  elemento  emotivo,  recursos  para  o  desenvolvimento  da 
ritual  e  simbólico  no  acontecimento  que  narrativa  elaborada  pelos  meios  de 
tenha  apelo  junto  às  normas  sociais  e  comunicação,  compõe  os  acontecimentos 
valores do público.   midiáticos:  a  natureza  programada,  o 
drama  e  o  mistério.  A  natureza 
A  força  de  uma  norma  social  que  torna  o  programada  está,  justamente,  na 
ato  de  assistir  obrigatório:  para  Katz,  os  orquestração  do  acontecimento.  O  drama 
indivíduos  se  mostram  interessados  pelas  seria o risco intrínseco a todo processo de 
narrativas  midiáticas  dos  acontecimentos  que  haja  alguma  falha,  desistência  ou 
porque  pressentem  que  uma  mudança  abandono  dos  planos  e  o  mistério  é  a 
substancial está se produzindo. Assim,   incerteza  do  resultado  que  causa  tensão 
a  característica  principal  dos  devido  à  instabilidade  que  se  faz  presente 
acontecimentos  midiáticos  talvez  seja  a  na vida social. 
insistência  comunitária  em  que  a  pessoa  Análise 
deve  abandonar  outras  funções  e 
compromissos  a  favor  da  televisão.  ‘Pare  Optamos por utilizar a matriz de Katz para 
com  tudo  e  junte‐se  a  nós  na  construção  identificarmos  e  caracterizarmos  o 
da história’ é o tema constrangedor desses  acontecimento  midiático  da  campanha 
acontecimentos.  Ver  televisão  é  eleitoral  de  Obama  nos  Estados  Unidos. 
obrigatório;  nada  é  mais  importante”  Percebemos  que  a  tipologia  proposta  pelo 
(KATZ, 1993, p.54).  autor  se  revelou  interessante  porque  é 
possível  enxergar  nesse  processo  eleitoral 
A  partir  dessas  características,  Katz  um  encadeamento  dos  três  tipos  de 
desenvolve  uma  tipologia  dos  acontecimentos  midiáticos  elencados  por 
acontecimentos, indicando três tipos deles:  ele  e  identificar  os  elementos  dramáticos 
a missão heróica; a competição e a ocasião  mobilizados  para  a  organização  das 
de  estado.  O  primeiro  tipo  se  refere  narrativas midiáticas5. 
àqueles  acontecimentos  em  que  a  história 
de  um  herói  desafia  “a  ordem  natural  das  A  seqüência  dos  acontecimentos 
coisas”  ou  as  “regras  naturalizadas”  para  midiáticos 
que  os  eventos  ocorram  (e  a  novidade 
vinda  com  os  meios  de  comunicação  seria  No  início  da  campanha  eleitoral,  surgem 
poder seguir os passos do herói antes de se  como  pré‐candidatos  do  partido 
ter  o  resultado  final).  No  segundo,  há  a  democrata  a  Senadora  Hillary  Clinton  e  o 
                                                            
dimensão  da  disputa  entre  as  rivalidades 
tradicionais  e  do  respeito  às  regras  5
Essa  fragmentação  do  acontecimento  foi 
partilhadas.  No  terceiro,  seriam  aqueles  realizada  para  a  operacionalização  da 
momentos  em  que  se  marca  o  início  ou  o  análise.  De  modo  algum  entendemos  que 
esses  três  acontecimentos  midiáticos  não 
fim de uma era. Há certo temor do futuro e  são  parte  de  um  mesmo  todo,  do 
acontecimento que emergiu da campanha e 
da eleição de Barack Obama.

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Especial Barack Obama 

Senador  Barack  Obama.  Embora  não  seja  discurso  que  o  aclamou  como  um  político 
nosso  foco,  a  pré‐candidatura  de  Hillary  já  articulado e capaz de tratar questões sérias 
gozava  de  expressivo  reconhecimento  e  como  o  preconceito  racial  de  modo 
visibilidade midiática. Já seu oponente, era  consistente  e  firme.  Vencidas  as  primárias 
desconhecido  tanto  do  grande  público  eleitorais,  interpôs‐se  um  outro  tipo  de 
norte‐americano  quanto  no  cenário  acontecimento  midiático  para  organizar  o 
internacional.  Assim,  no  momento  de  seu  novo quadro político: a competição. 
surgimento,  foi  necessário  que  os  mídia 
construíssem um lugar de fala6 para Barack  No  acontecimento  de  competição  narrado 
Obama  e  que  desse  conta  de  traçar  um  pelos  mídia,  a  disputa  não  se  deu  apenas 
perfil  pessoal  e  indicar  o  seu  percurso  entre  a  tradicional  rivalidade  entre 
político.  Disso,  nasceu  um  herói.  Estava  republicanos  e  democratas:  disputava‐se 
posto  um  acontecimento  midiático  de  pela  instauração  de  possibilidades  de 
missão  heróica:  Obama  era  o  primeiro  futuro.  O  Senador  McCain,  associado  ao 
afro‐descendente  a  pleitear  a  candidatura  governo de Georg W. Bush, representava a 
à  presidência  pelo  partido  democrata  e  a  continuidade,  a  manutenção  das 
reforçar  o  seu  discurso  não  na  luta  racial  perspectivas  de  futuro  já  delimitadas.  Já 
(embora ela tivesse atravessado muitas das  Obama, se valendo da perspectiva do herói 
referências  feitas  a  ele),  mas  no  seu  construída  nas  narrativas  anteriores, 
desempenho  político  até  então.  Houve  associou  sua  candidatura  à  mudança8,  à 
obstáculos,  e  o  exemplo  mais  destacado  busca  por  novas  opções  de  futuro: 
deles  foi  o  discurso  inflamado  do  ofereceu  um  novo  por  vir.  Com  isso,  ser 
reverendo Wright7. Desse entrave, surgiu o  eleitor de Obama passou a ser considerado 
um  indicador  de  uma  postura  política 
                                                            
crítica  ao  governo  vigente  e  atento  às 
6
O  conceito  de  lugar  de  fala,  desenvolvido  transformações  sócio‐culturais  e  aos 
por  Braga  (2000),  se  trata  de  um  ambiente  desequilíbrios  da  sociedade  americana.  
construído    discursivamente,  que  permite 
Neste  momento  da  campanha,  os  aliados 
que  indivíduo  expresse  suas  opiniões, 
crenças e compreensão da situação em que  se tornam mais evidentes e os mecanismos 
está inserido. Como num primeiro momento  de  captação  da  atenção  dos  mídia  e  de 
Obama não era conhecido pelo público nem 
possuía  grande  visibilidade  nos  meios  de                                                                                   
comunicação,  seu  lugar  de  fala  foi 
construído  ao longo da campanha  eleitoral,  nos  Estados  Unidos.  Após  tal  discurso, 
tanto  pelos  meios  de  comunicação,  que  Obama  passou  a  ser  identificado  como  um 
buscaram  situar  sua  trajetória  e  grande orador maduro e consciente.  
posicionamento  político  junto  ao  público,   
8
como  pelo  próprio  Obama  que  participou    A  título  de  exemplo,  citamos  o  discurso 
do  processo  de  construção  de  sua  imagem  proferido  por  Barack  Obama  nas  eleições 
pública  pelo  posicionamento  adotado  na  primárias  da  Carolina  do  Sul,  na  qual  o 
sua campanha eleitoral e na relação com os  candidato  tratava  da  necessidade  de 
mídia.  mudanças  que  os  americanos  ansiavam. 
  Nesse discurso, Obama utilizou a frase “yes, 
7
  O  reverendo  Wright  da  Trinity  Church  fez  we  can”  como  recurso  retórico  para 
um  discurso  racista  que  teve  grande  interpelar  a  platéia.  Após  o  discurso,  o 
repercussão  nos  meios  de  comunicação  rapper  Will‐i‐am  musicou  o  discurso  de 
porque ele é o pastor da igreja freqüentada  Obama  e  a  frase  passou  a  ser  considerada 
há  20  anos  por  Barack  Obama.  Após  esse  um  mote  para  se  referir  ao  vontade  se 
incidente,  Obama  realizou  um  discurso  participar  das  mudanças  político‐sociais 
ponderado no qual tratava da questão racial  necessárias.  

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Especial Barack Obama 

busca  por  visibilidade  foram  disputados  disjunção, aquele que marca a quebra com 


palmo a palmo9.   a  continuidade  e  se  depara  com  a 
necessidade  de  construção  de  um  novo 
Ao  final  da  campanha  e  divulgado  o  leque de possibilidades de futuro. É a fase 
resultado  da  vitória  de  Obama,  pululavam  da ansiedade por aquilo que está por vir e 
manchetes  carregadas  de  expressividade:  esse  sentimento  é  compartilhado  pela 
"Obama  eleito  presidente  e  barreira  racial  coletividade,  porque  a  mudança  se 
cai” (The New York Times ‐ EUA), “Escolhas  processa  como  um  marco  histórico  com 
duras  e  desafios  seguem  triunfo”  (The  potencial  de  afetação  maximizado.  A 
Washington  Post  ‐  EUA),  "Este  é  o  nosso  cerimônia  midiatizada  que  tem  lugar  é  o 
tempo" (The Times ‐ Reino Unido), “Este é  discurso de vitória. “A mudança chegou na 
o  presidente  Obama”  (The  Guardian  ‐  América”:  ansiosos  pelo  futuro  que  está 
Reino  Unido),  “Voto  histórico  nos  Estados  por vir, pessoas do mundo todo assistiram 
Unidos”  (Le  Monde  ‐  França),  “Democrata  ao discurso de Obama10. 
Obama vence a Presidência” (China Daily ‐ 
China),  “Obama  presidente”  (El  País  ‐  Pudemos  ver  que  o  modo  como  os  mídia 
Espanha)  e  “Histórico:  EUA  elege  um  estruturam  esse  acontecimento  parte  de 
presidente  negro”  (Clarín  ‐  Argentina).  certo  repertório  cultural  que  permite 
Essas manchetes podem ser tomadas como  identificar  a  aparição  do  herói,  a 
o  início  do  acontecimento  midiático  de  competição e a vitória como uma narrativa 
ocasião de estado.  de  percalços  e  enfrentamentos  que  visa 
mudança do futuro, pretende a renovação 
Esse  tipo  de  acontecimento  é  aquele  em  de  esperanças  e  a  reconstrução  das 
que  se  marca  o  começo  ou  o  fim  de  uma  expectativas. 
era.  Na  acepção  de  Quéré,  seria  o 
momento  da  reestruturação  das   A  narrativa  do  acontecimento  e  os 
possibilidades  do  futuro.  A  vitória  de  elementos dramáticos  
Obama  se  mostra  como  o  momento  da 
Observamos  que  o  desenvolvimento  do 
                                                             acontecimento  nessa  série  de 
9 acontecimentos  midiáticos  promove  a 
Nessa  fase,  atores  hollywoodianos  (como 
Robert  de  Niro  e  Tom  Hanks),  construção  de  uma  temporalidade  que  dá 
apresentadores  de  programas  de  televisão  seqüência  às  ações  e  uma  organização  de 
(Oprah  Winfey)  e  figuras  públicas  (Carolina  um  enredo  que  permite  explicar  os 
Kennedy, filha de John Kennedy) declararam  eventos.  Para  dar  forma  à  narrativa 
seu  apoio  a  Obama.  Além  da  visibilidade 
midiática  e  a  repercussão  que  essas  midiática,  são  utilizados  elementos 
declarações  tiveram,  Obama  contou  dramáticos (inerentes a toda narrativa) que 
também  com  o  apoio  de  veículos  da  contribuem  para  explicação  e 
imprensa  como  o  jornal  New  York  Times 
que, por meio de um editorial publicado no                                                              
dia  24  de  outubro,  se  colocou  a  favor  de 
10
Obama  nas  eleições.  Vale  destacar  ainda    Em  seu  discurso  de  vitória, Obama  proferiu 
que  durante  a  campanha  eleitoral,  Obama  a frase “a mudança chegou à América” e foi 
se  valeu  de  mídias  periféricas  para  divulgar  assistido  por  mais  de  250  mil  pessoas. 
seus  projetos  de  governo,  como  listas  de  Obama  também  é  o  político  recordista  de 
discussão  na  internet,  uma  página  no  acesso aos vídeos no YouTube (o vídeo com 
MySpace,    mensagem  de  SMS,  blogs  e  a música “Yes, we can” foi lançado no dia 2 
postagem  de  vídeos  em  sites  de  de  fevereiro  e  no  dia  21  do  mesmo  mês  já 
compartilhamento como o YouTube.    contabilizava mais de 6 milhões de acessos).  

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Especial Barack Obama 

delineamento  das  ocorrências.  Esses  Bush,  a  crise  econômica  mais  grave  dos 
elementos  dramáticos  são:  a  natureza  últimos  70  anos  e  a  insatisfação  com 
programada  do  acontecimento,  o  drama  e  imagem  autoritária  e  violenta  legada  por 
o mistério.   Bush junto às outras nações do mundo. 

Natureza programada do acontecimento:   Quanto à candidatura sem precedentes de 
um  afro‐descendente,  foi  necessária  uma 
O  calendário  das  eleições  nos  Estados  reconstrução  do  passado  para  encontrar 
Unidos  é  marcado  por  uma  série  de  elementos  na  história  da  democracia 
eventos como as primárias (ocorridas neste  americana  que  viabilizassem  tal 
ano  no  dia  3  de  janeiro),  a  “Super‐Terça”  candidatura.  Esses  elementos  deveriam, 
(dia  5  de  fevereiro),  o  congresso  inclusive,  ressaltar  que  sempre  houve  a 
democrata  (entre  os  dias  25  e  28  de  possibilidade  de  um  afro‐descendente  ser 
agosto), o congresso republicano (de 1 a 4  presidente, embora ela só se tornasse real 
de novembro), a inscrição dos candidatos (  na  medida  em  que  se  materializa  no 
dia  5  de  novembro)  e  a  eleição  final,  que  horizonte de possíveis. Além disso, quando 
ocorreu no dia 4 de novembro. Afora essas  Obama  surge  como  pré‐candidato,  a 
datas,  há  uma  série  de  eventos  questão  racial  emerge  com  toda  sua  força 
programados  tanto  pela  agenda  dos  e  pressiona  para  que  haja  a  sua 
candidatos  (visita  a  estados  e  discursos  tematização.  Ela  eclode  quando  o 
públicos)  quanto  pelos  meios  de  reverendo Wright expõe seu ponto de vista 
comunicação,  como  as  coletivas  de  sobre  a  questão  racial  e  Obama  realiza  o 
imprensa  e  os  debates.    São  essas  datas  discurso  racial  na  Filadélfia.  A  força  do 
que  dão  a  periodicidade  e  estabelecem  o  acontecimento  toma  proporções  que 
que  é  relevante  e  deve  ser  coberto  pelos  superam  as  expectativas  de  debate  da 
mídia.  Assim,  enquanto  elemento  questão racial.  
dramático, é a programação do evento que 
pontua  quais  são  os  momentos  da  Assim,  com  um  passado  que  permita  a 
campanha  eleitoral  nos  quais  a  presença  ocorrência  das  eleições  de  2008  e  com  a 
dos  meios  de  comunicação  são  evidência do tensionamento que atravessa 
imprescindíveis.  a corrida eleitoral, a candidatura de Obama 
se  torna  o  símbolo  de  uma  sociedade  que 
Drama   anseia  por  mudanças.  São  colocadas  em 
A  composição  dramática  da  narrativa  xeque  percepções  naturalizadas  e  são 
midiática  das  eleições  buscou  configurar  revistos  posicionamentos  e  questões 
esse  acontecimento  pela  compreensão  de  sociais. Ao transformar a personalidade em 
um  contexto  que  incitasse  à  ruptura,  pela  símbolo, Obama se torna aquele que marca 
reconstrução  de  um  passado,  pelo  o  fim  de  uma  era  e  estabelece  novas 
estabelecimento  de  uma  teia  de  pontuações de futuro.  
causalidade,  pela  explicitação  de  uma   
necessidade de mudança e pela ansiedade 
por outras opções de futuro.   Mistério 

O  contexto  das  eleições  de  2008  se  O  risco  dos  planos  e  das  expectativas 
vislumbrava  um  país  dividido  quanto  ao  serem  frustradas  atravessa  toda  a  corrida 
apoio  às  guerras  iniciadas  no  governo  de  eleitoral.  Conforme  Katz,  isso  acontece 

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Especial Barack Obama 

porque  as  ações  dos  grandes  homens  são  Mais  do  que  isso,  a  eleição  de  Obama  se 
envolvidas  por  um  mistério  que  causam  configura  como  um  acontecimento  no  seu 
fascínio  nos  espectadores.  A  possibilidade  sentido forte de disjunção, visto que ele fez 
do  insucesso  que  ronda  as  disputas  com  que  se  olhe  para  um  passado 
eleitorais  cria  um  ambiente  de  obliterado  e  o  narre  como  parte  de  um 
instabilidade  que  é  utilizado  pelos  mídia  presente  a  fim  de  que  se  instaurem  novas 
como  mecanismo  de  suspense  e  mistério  possibilidades de futuro.  
acerca  dos  eventos  futuros.  Aliás,  a 
possibilidade  da  narração  simultânea  ao  Referências bibliográficas 
acontecimento  surgiu  com  os  meios  de  BARTHÉLÉMY,Michel.  Événement  et 
comunicação  massivos  e  essa  incerteza  é  espace  publique:  l’affaire  Carpentras.  In. 
uma  importante  parte  da  dramatização  Revue  Quaderni,  n°  18.  Paris,  Outubro  de 
que  envolve  o  acontecimento  midiático.  1992. (p.125‐140) 
Fazer  projeções,  especular  ganhadores, 
buscar  furos  e  informações  privilegiadas  BIRD,  Elisabeth.  DARDENNE,  Robert  W. 
são  formas  de  se  reforçar  a  incapacidade  Mito,  registro  e  ‘estórias’:  explorando  as 
de se prever o desenrolar dos eventos e de  qualidades  das  notícias.  In.  TRAQUINA, 
se manter no público a ansiedade por mais  Nelson.  Jornalismo:  questões,  teorias  e 
informações.  histórias.  Lisboa:  Editora  Vega,  1993. 
(p.263‐277) 
 
GOFFMAN,  Erving.  Les  cadres  de 
Considerações finais   l’experience. Paris: Minuit, 1991. 
Ao fim dessa discussão, percebemos que o  GUREVITCH,  Michael.  BLUMLER,  Jay  G.  A 
poder  e  a  força  do  acontecimento  estão,  construção  do  noticiário  eleitoral:  um 
exatamente,  nesse  caráter  disjuntivo  que  estudo  de  pbservação  na  BBC.  In. 
ele  traz  consigo.  No  momento  da  TRAQUINA,  Nelson.  Jornalismo:  questões, 
ocorrência,  não  há  quadros  de  sentido  teorias  e  histórias.  Lisboa:  Editora  Vega, 
disponíveis  que  dêem  conta  de  explicar  e  1993. (p.191‐213) 
tornar  coerente  o  que  se  passa.  É  nesse 
momento  que  se  torna  necessário  KATZ, Elihu. Os acontecimentos midiáticos: 
estabelecer  certa  organização  para  que  o  o  sentido  de  ocasião.  In.  TRAQUINA, 
acontecimento  seja  apreendido.  Tal  Nelson.  Jornalismo:  questões,  teorias  e 
organização  só  se  torna  possível  por  meio  histórias. Lisboa: Editora Vega, 1993. (p.52‐
da  narração  do  acontecimento,  narração  61) 
essa que, nas sociedades contemporâneas, 
MOLOTOCH,  Harvey.  LEASTER,  Marilyn.  As 
é  produzida  e  veiculada  pelos  meios  de 
notícias  como  procedimento  intencional: 
comunicação.  Assim,  entendemos  que  o 
acerca  do  uso  estratégico  do 
acontecimento  midiático  é  resultado  de 
acontecimento  de  rotina,  acidentes  e 
um processo de socialização da experiência 
escândalos.  In.  TRAQUINA,  Nelson. 
coletiva,  o  que  inclusive,  permite  afirmar 
Jornalismo:  questões,  teorias  e  histórias. 
que a candidatura e a eleição de Obama se 
Lisboa: Editora Vega, 1993. (p.34‐51) 
trata de um “fato histórico” vivenciado.  
MOTTA,  Luiz  Gonzaga.  Jornalismo  e 
configuração  narrativa  da  história  do 

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Especial Barack Obama 

presente.  In.  Revista  e‐compós.  Edição  1,  RICOEUR,  Paul.  Narrative  time.  In.  Critical 
dezembro  de  2004.  Disponível  em  Inquiry.  Vol.7,  n°1.  Outono,  1980.  (p.159‐
www.compos.org.br/e‐compos.   190) 

MOUILLAUD,  Maurice.  Crítica  do  RODRIGUES,  Adriano  D.  O  acontecimento. 


acontecimento  ou  o  fato  em  questão.  In.  In.  TRAQUINA,  Nelson.  Jornalismo: 
MOUILLAUD,  Maurice.  PORTO,  Sérgio  questões,  teorias  e  histórias.  Lisboa: 
Dayrell  (org.).  O  jornal:  da  forma  ao  Editora Vega, 1993. (p.27‐33) 
sentido. Brasília: Editora Paralelo 15, 1997. 
(p.49‐83)   

QUÉRÉ,  Louis.  Entre  o  facto  e  sentido:  a 


dualidade do acontecimento. In. Trajectos. 
N°6. Lisboa, 2005. (p.59‐75) 

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Especial Barack Obama 

O governo de Barack Obama: um mergulho para dentro 

Rodrigo Cintra 

A questão do lobby sempre uniu a opinião  No caso do recém‐eleito presidente Barack 
pública  e  dividiu  a  opinião  política.  Por  Obama,  mesmo  que  ele  ainda  não  tenha 
aquela  é  geralmente  compreendido  como  assumido  a  presidência  dos  Estados 
corrupção ou tráfico de influência, deforma  Unidos, já é possível perceber um pouco do 
que  passa  a  ser  algo  que  interfere  perfil  que  o  governo  deverá  ganhar.  Para 
negativamente  na  lógica  política  e  na  tanto,  foram  selecionadas  e  analisadas  4 
condução  dos  bons  governos.  Para  esta,  o  indicações  de  Obama  para  ocupar  cargos 
lobby é entendido como uma força política  importantes de seu governo. Buscou‐se no 
forte  o  suficiente  para  fazer  com  que  histórico  político  destas  indicações  as 
determinadas  políticas  possam  ser  relações  preferenciais  de  doações,  bem 
concebidas e implementadas ou como uma  como o perfil geral das captações, a fim de 
força capaz de fazer o interesse de apenas  compreender  as  forças  sociais  que 
alguns  se  sobreporem  aos  interesses  apoiaram  a  pessoa,  dando‐lhe  poder 
coletivos.  político  e  projeção  suficiente  para  que 
conseguissem as respectivas indicações. 
Importante  é  compreender  que  o  lobby 
diferencia‐se  da  corrupção  na  medida  em  Secretária do Trabalho – Hilda Solis. 
que o lobby  deve ser  compreendido  como 
a  capacidade  que  um  indivíduo  ou  grupo   Deputada democrata eleita pelo estado da 
tem  de  representar  e  peticionar  por  seus  Califórnia,  captou  em  doações 
interesses junto a um tomador de decisões  aproximadamente  USD  890  mil  dólares 
(público ou privado; individual, coletivo ou  desde 1999. Sua principal fonte de doações 
institucional)  que  não  tem  qualquer  foram as uniões trabalhistas, sendo que 15 
retorno de natureza privada ao atender às  dos  seus  20  maiores  doadores  são  deste 
petições solicitadas.  grupo.  Outro  importante  setor  de 
doadores  de  campanha  é  formado  por 
A  partir  disto,  é  possível  entender  que  o  grupos  feministas,  com  especial  destaque 
lobby  é  uma  atividade  natural  e  esperada  para o PAC EMILY's List, que é o seu maior 
na  política,  e  não  só  nela.  Mais  do  que  doador  individual,  alcançando  USD  85  mil. 
negar  o  lobby,  ele  deve  ser  observado  Os doadores de suas campanhas são fortes 
como uma das formas que a sociedade civil  defensores  de  mudanças  nas  regras  de 
organizada  tem  para  surgir  diante  do  formação  dos  sindicatos.  Defendem  que 
Estado,  defendendo  os  seus  interesses.  poderão  formar  sindicatos  nas  empresas 
Neste  mesmo  sentido,  analisar  o  lobby  e  quando pelo menos 50% dos trabalhadores 
seus  diversos  instrumentos  (doações  de  de  uma  empresa  se  sindicalizarem, 
campanha,  apoio  em  manifestações  enquanto que a regra atual determina que 
públicas,  apoio  técnico  na  formulação  de  os  sindicatos  nas  empresas  são  formados 
leis e políticas públicas) é uma forma de se  por  votação  secreta,  o  que,  segundo  os 
saber  quais  e  porque  alguns  grupos  serão  sindicatos,  abre  espaço  para  pressões 
atendidos e outros não.  empresariais  sobre  os  funcionários.  Outra 
área  que  terá  grande  força  em  sua 
secretaria  é  a  promoção  de  "empregos 

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Especial Barack Obama 

verdes",  ou  seja,  aqueles  que  ocorrem  em  da  agricultura  e  da  energia  renovável,  as 
postos que respeitam o meio ambiente.  quais  deve  fundir  em  uma  mesma 
percepção  de  negócio,  provavelmente  no 
Secretário do Transporte ‐ Ray LaHood.   próprio  biocombustível.  Dentre  os 
Deputado  republicano  eleito  pelo  estado  principais  desafios  de  Vilsack  está  a 
Illinois.  É  deputado  há  14  anos,  tendo  reformulação  da  Farm  Bill,  que  garante 
arrecadado  um  total  de  USD  7  milhões  imensas quantias em subsídios a uma série 
neste período, dos quais aproximadamente  de indústrias do setor agrícola. 
USD    350  mil  vieram  do  setor  de  Secretário de Interior – Ken Salazar.  
transportes. Entre seus principais doadores 
individuais,  encontram‐se  a  Associação  de  Senador  democrata  pelo  estado  do 
Vendedores  de  Carros  (USD  54  mil)  e  a  Colorado,  é  um  reconhecido  ativista 
Associação  de  Pilotos  de  Empresas  Aéreas  ambiental.  Sua  indicação  segue  a  tradição 
(USD  53  mil).  No  entanto,  o  maior  de  oferecer  o  posto  a  uma  liderança  de 
destaque fica para o setor automotivo, que  algum  estado  do  oeste  americano,  onde 
fez  doações  que  ultrapassam  os  USD  124  recursos  naturais  e  uso  da  terra  ocupam 
mil,  superando  qualquer  outro  doador  no  um  papel  central  na  agenda  política. 
setor  de  transportes.  LaHood  será  Salazar captou em sua vida política USD 13 
responsável  por  criar  empregos  e  milhões,  sendo  o  maior  receptor  de 
promover  a  infraestrutura  de  transporte  doações da indústria de energia alternativa 
dos  EUA,  mediando  interesses  divergentes  depois  de  John  McCain  e  Barack  Obama. 
das várias indústrias de transporte. Dentre  Em  termos  de  doações  individuais,  seu 
os órgão governamentais que irá controlar  segundo maior doador é Brownstein, Hyatt 
e  que  terão  uma  alta  capacidade  de  et al, que faz lobby junto ao congresso em 
impacto  político  estão  National  Highway  questões relacionadas com o uso da terra, 
Traffic  Safety  Administration  (NHTSA)  e  energia  e  políticas  de  uso  da  água  e  de 
Federal Aviation Administration (FAA).  terras públicas. 

Secretário da Agricultura ‐ Tom Vilsack.   Em  termos  gerais,  esta  rápida  análise  dos 


perfis  políticos  e  da  proximidade  que  têm 
Ex‐governador  de  Iwoa,  era  uma  dos  com  grupos  de  lobby  (geralmente 
candidatos  democratas  nas  primárias,  mas  indicados  aqui  na  forma  de  doadores  de 
desistiu  da  precandidatura  argumentando  campanha) mostra um governo muito mais 
que  não  teria  a  mesma  capacidade  de  fechado  nos  Estados  Unidos,  mais 
captação  de  recursos  que  seus  oponentes  preocupado  em  solidificar  tendências 
tinham, com especial destaque para Barack  novas  no  âmbito  doméstico.  Duas  macro‐
Obama  e  Hillary  Clinton,  captando  áreas,  que  já  apareceram  com  certo 
"apenas" USD 2 milhões nos três primeiros  destaque  nos  debates  e  discursos  de 
meses  de  campanha.  Por  outro  lado,  em  Obama, mas que agora parecem estar cada 
suas  duas  candidaturas  a  governador,  vez  mais  fortes,  quando  não  radicais,  são 
conseguiu  arrecadar  USD  11,5  milhões.  as ambientais e a trabalhista. 
Deste  montante,  USD  220  mil  vieram  de 
indústrias  agrícolas  locais,  especialmente  Os  Estados  Unidos  passam  por  uma  crise 
aquelas envolvidas no desenvolvimento de  estrutural,  sendo  que  a  crise  financeira  do 
biocombustíveis.  É  um  fervoroso  defensor  final  de  2008  é  apenas  um  reflexo  desta 

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Especial Barack Obama 

crise maior, que tem minado a capacidade  satisfeitos com sua perda relativa de poder 
econômica  norte‐americana,  transferindo  e  não  tomarão  isso  como  algo  inexorável, 
poupança  para  outros  países  ao  contrário,  trabalharão  fortemente  para 
(especialmente  aqueles  do  hemisfério  reverter  o  quadro.  Quanto  tempo  isso 
Oriental),  diminuindo  a  capacidade  de  tomará  pode  ser  a  chave  para  se 
liderança  dos  EUA  e  enfraquecido  sua  compreender se haverá sucesso. Enquanto 
capacidade  de  construção  de  grandes  isso,  o  mundo  deve  esperar  um  Estados 
alianças políticas mundiais.   Unidos mais protecionista (por formas não‐
tradicionais,  como  a  defesa  de  padrões 
O  perfil  das  indicações,  diante  do  cenário  ambientais  e  trabalhistas  na  sustentação 
atual norte‐americano, mostra que mais do  do  comércio  internacional),  que  deverá 
que a construção de um novo grande pacto  ceder  menos  e  tentar  influenciar  mais  as 
mundial,  como  foi  a  criação  da  ONU  e  de  organizações  internacionais,  na  tentativa 
Bretton  Woods  (FMI,  Banco  Mundial  e  de forjar novos padrões, adequados a seus 
GATT),  os  EUA  deverão  mergulhar  em  sua  interesses. 
própria  grandeza,  redescobrindo 
potenciais.  Certamente  os  EUA  não  estão   

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Especial Barack Obama 

A vitória de Obama ainda é sobre George W. Bush 

Ariel Finguerut 

Barack  Hussein  Obama,  presidente  eleito  1  ‐  Um  Organizador  Social:  histórico  de 
dos  EUA  em  2008,  fez  uma  campanha  uma mudança.  
milionária  (foram  mais  de  600  milhões  de 
dólares), mobilizou o eleitorado americano  A  candidatura  de  Barack  Obama 
e a opinião pública internacional de forma  apresentou‐se diante de  um desafio quase 
inédita  numa  campanha  longa  (quase  dois  impossível de ser vencido – pelo menos no 
anos11)  inovadora  (com  um  papel  inédito  contexto  político‐social  dos  EUA.  Os 
dado  aos  meios  eletrônicos  de  motivos  eram  suficientes  para  analistas 
comunicação)  centrada  nas  bandeiras  de  pontuarem  como  fragilidade  eleitoral:  em 
mudança, esperança e juventude.  primeiro  lugar  tratava‐se  de  um  candidato 
negro; em segundo, um candidato com um 
A  “mudança”,  concepção  fundamental  na  nome  que  era  associado  a  dois  grandes 
campanha de Obama, em termos práticos,  inimigos  declarados  dos  EUA,  Osama  Bin 
pode  ser  entendida  como  um  sinal  de  Laden  e  Saddam  Hussein,  ‐  e  é  preciso 
antagonismo  com  o  legado  lembrar o pavor social causado pelo 11 de 
neoconservador  de  Bush  na  política  setembro  de  2001,  ainda  presente  na 
externa e, conservador, de forma geral, na  lembrança dos americanos. Seu nome tem 
política  doméstica.  Mas  o  que  origem  africana,  o  que  é  facilmente 
representava  “mudança”  na  campanha  de  confundido  com  origem  muçulmana;  em 
Obama? É o que discutiremos neste artigo  terceiro lugar, Obama é um político jovem, 
que se propõe fazer uma análise da eleição  com  pouca  experiência  política;  e 
presidencial de 2008 nos EUA com foco no  finalmente  um  quarto  ponto:  ele 
diálogo  que  a  campanha  e  a  votação  tão  enfrentaria  uma  candidata  vista  como 
expressiva  de  Obama  tiveram  comparadas  imbatível,  Hillary  Clinton  que  dispunha  de 
ao legado político de George W. Bush. Para  recursos  para  a  campanha  e  apoio  da 
tanto  analisaremos  as  primárias  da  máquina partidária.  
campanha  de  Obama  a  partir  de  seus 
adversários,  as  principais  propostas  de  A  trajetória  de  Obama,  de  certa  forma, 
política externa ali apresentada e, por fim,  responde  como  este  candidato  conseguiu 
desenharemos  uma  comparação  entre  a  vencer  esse  quadro  desfavorável  que  lhe 
eleição de 2008 e a de George W. Bush em  era  associado  durante  as  primárias  do 
2004,  procurando  perceber  as  mudanças  Partido  Democrata.  Em  muitos  momentos 
de  perspectiva  política.  Entendemos  que  Obama  parece  que  fez  o  impossível; 
essa  discussão  contribuirá  para  aqueles  nascido  em  Honolulu  em  1961,  criado  em 
que  procuram  entender  as  “mudanças”  Kansas,  ativista  em  Chicago;  Barack  teve 
oriundas  dessa  eleição  histórica  onde  foi  uma  primeira  formação  em  ciências 
eleito Barack Obama.   políticas  e  especialização  em  relações 
internacionais  pela  Universidade  de 
Columbia,  formação  que  foi  completada 
                                                            
com  um  curso  de  Direito  em  Harvard. 
11
Os  candidatos  começaram  a  se  articular 
entre  novembro  de  2006  e  fevereiro  de 
2007.

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Especial Barack Obama 

Entrou  para  a  política  pela  Trinity  United  religioso  Alan  Keyes,  vencendo  por  uma 
Church  of  Christ12  trabalhando  como  diferença superior a 40% dos votos.  
“organizador  social”.  O  passo  seguinte  foi 
transformar‐se  num  “mobilizador  político”  De volta ao Senado, passou a aparecer nas 
trabalhando  na  eleição  de  1992  para  as  listas  de  políticos  mais  influentes  do 
campanhas de Bill Clinton e Carol Moseley  partido  democrata,  o  que  lhe  rendeu  o 
Braun13,  a  primeira  mulher  negra  eleita  direito  a  voz  na  convenção  nacional  do 
para o senado.    Partido  em  Boston,  Massachusetts,  que 
lançou  a  candidatura  de  John  Kerry.  Em 
Obama  também se interessou pelo Direito  2005,  apareceu  na  lista  da  revista  Time, 
antes de concorrer a um cargo público. Ele  como uma das 100 pessoas mais influentes 
trabalhou  entre  1992  e  1996,  como  do  mundo.  Trabalhando  em  sua  segunda 
advogado  de  direitos  civis  em  Chicago,  e  legislação  com  senadores  experientes 
lecionou  Direito  Constitucional  na  como Richard Lugar e Russ Feingold entrou 
Universidade  de  Chicago  durante  este  em  comissões  importantes  como  a  de 
mesmo período.   Política Externa (onde se posicionou contra 
a  Guerra  do  Iraque),  Orçamento,  assuntos 
Em 1996, foi eleito senador pelo estado de  relacionados  à  Europa  e  relativos  ao 
Illinois,  tendo  uma  atuação  moderada,  furacão Katrina. 
porém com ênfase na questão social e dos 
direitos  civis.  Dentre  seus  principais  feitos  Em  10/02/2007  em  Springfield,  Illinois, 
como  senador  destacamos  a  tentativa  de  Barack Obama (sem Hussein) anunciou sua 
criar  um  fundo  para  o  combate  a  AIDS  entrada  na  campanha  pela  nomeação  do 
nacional  e  internacional;  mudança  das  Partido  Democrata  à  presidência  dos  EUA. 
regras  dos  seguros  de  saúde,  dando  mais  A  estratégia  de  início  era  abrir  o  terreno 
direitos  aos  inadimplentes  e  a  lei  que  para  a  indicação  em  2012  ou,  na  melhor 
obriga  a  instalação  e  manutenção  de  das hipóteses, ganhar força política para o 
câmara  nas  salas  de  interrogatório  da  posto  de  vice  numa  chapa  com  Hillary 
polícia  dos  EUA.  Como  senador,  destacou‐ Clinton.  A  base  política  de  Obama  estava 
se  também  em  temas  relacionados  à  neste  momento  em  Chicago  sob 
África,  ao  desarmamento  militar  e  aos  responsabilidade  de  Dann  Shapiro15,  David 
biocombustíveis.    Axelrod16 e David Plouffe. Foram estes três 
nomes  que  em  poucos  meses 
Em  2000,  tentou  disputar  a  cadeira  do  transformaram  a  candidatura  de  Obama 
Partido  Democrata  no  Congresso  pelo  num  acontecimento  social  e  político  nas 
primeiro  distrito  de  Illinois14,  perdendo  eleições de 2008.  
para  Bobby  L.  Rush  (61%  a  30%),  o  que  o 
levou  a  uma  nova  eleição  ao  senado  em                                                              
2004,  esta  vitoriosa.  Obama  enfrentou,  na 
15  Trabalhou  no  Conselho  de  Segurança 
ocasião  o  republicano  conservador‐ Nacional  durante  o  governo  Bill  Clinton, 
                                                             assessor experiente de políticos democratas 
no Senado. Assessorou o Senador da Flórida 
12   Cf.<http://www.tucc.org/home.htm>  Bill  Nelson  e  foi  Embaixador  dos  EUA  nos 
Acesso em: 09\07\08.  Emirados  Árabes.    Com  Obama,  sua 
13   Eleita pelo Estado de Illinois.   assessoria tem focado nos temas do Oriente 
14   Nos  EUA  as  eleições  para  o  Congresso  são  Médio, enfatizando um discurso pró‐Israel. 
distritais  Cf.<www.house.gov>.  Acesso  em:  16   Um  estrategista  político  conhecido  em 
13/07/08.  Chicago, mas não nacionalmente.

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Especial Barack Obama 

2 ‐ Os ventos da Mudança   construindo  uma  base  de  apoio  composta 


por  jovens  negros  e  brancos  que 
De partida, Obama era um senador jovem,  responderam com 75,5% dos votos que ele 
progressista  bem  articulado  influente  no  obteve nas primárias. Num universo de 54 
Partido  Democrata,  mas  que  não  era  visto  primárias,  Obama  somou  36  vitórias.  O 
com chances de vitória até 2012.   momento  mais  decisivo  para  sua 
Hillary  Clinton  era  a  favorita,  tanto  do  candidatura  foi  após  a  chamada  “super 
establishment    partidário,  como  dos  Tuesday”  (que  no  dia  5  de  fevereiro  de 
sindicatos,  das  grandes  cidades,  dos  2008  reuniu  num  único  dia  mais  de  20 
latinos,  da  grande  mídia  e  nos  principais  primárias)  das  quais  conquistou  oito 
redutos tradicionais do partido democrata,  vitórias consecutivas.  
como Nova Iorque e Califórnia.   Hillary  ficou  com  a  sensação  de  descrença 
As  estratégias  foram  distintas:  Clinton  quanto  aos  resultados.  Sua  candidatura 
acreditava  que  sua  candidatura  era  fundamentava‐se em dois pilares: a gestão 
inevitável,  Edwards  (senador  da  Carolina  Clinton,  marcada  por  uma  boa  inserção 
do  Norte)  apostava  que  por  ser  homem,  internacional,  bons  índices  econômicos  e, 
branco  e  do  sul  poderia  se  fortalecer  e  na  imagem  de  Hillary  como  mulher  de 
buscar  o  posto  de  vice  da  chapa  coragem  e  com  experiência  capaz  de  ir  à 
democrata;  já  Obama  buscou  uma  guerra e de responder a altura aos ataques 
estratégia  nova,  apostando  em  quatro  dos  conservadores  e  neoconservadores  do 
frentes:  1)  Uma  campanha  cuja  essência  partido  Republicano.  Sua  campanha  foi 
era  um  discurso  de  mudança  e  esperança;  cara  e  centrada  em  grandes  colégios 
2)  Uma  campanha  voltada  para  os  jovens  eleitorais.  O  perfil  de  seus  apoiadores,  da 
(eleitorado  até  então  considerado  apático  metade  da  campanha  para  frente,  ficou 
e  indiferente  ao  processo  eleitoral),  capaz  bem  definido:  um  eleitorado  mais  velho, 
de  mobilizar  também  os  afro‐ branco, sindicalizado e também latino, que 
descendentes;  3)  Buscou  construir  uma  no  passado  apoiou  Bill  Clinton.  Este 
larga  base  de  doadores  capazes  de  dar  eleitorado  proporcionou  a  vitória  em 
fôlego  a  uma  campanha  longa  e  cara;  4)  estados  importantes  como  New 
Esforçou‐se  para  ter  destaque,  Hampshire,  Michigan,  Nevada,  Texas, 
conquistando  vitórias,  logo  nas  primeiras  Pensilvânia,  Califórnia,  Nova  Iorque, 
primárias.   Tennessee,  Massachusetts,  Arizona,  Ohio, 
Indiana  e  Kentucky.  Pelo  peso  destes 
A  estratégia  de  Obama  teve  grande  êxito.  Estados,  sua  campanha  optou  por  ir  até  o 
De  partida  conquistou  as  primárias  de  final,  acreditando  ora,  numa  possível  crise 
Iowa,  New  Hampshire,  Nevada  e  Carolina  na campanha de Obama ora, na influência 
do  Sul,  conseguindo  em  doações  mais  de  da  família  Clinton  junto  aos 
50 milhões de dólares no primeiro mês de  “superdelegados”. 
campanha – fevereiro – sendo 40 milhões17 
somente  pela  internet.  Perto  do  final  das  Em  distintos  momentos  da  campanha, 
primárias,  Obama  já  havia  arrecadado  Hillary  Clinton  declarou  ser  vítima  do 
inéditos  250  milhões  de  dólares,  machismo  da  mídia  e  de  um  discurso 
populista  de  seu  oponente.  Bill  Clinton 
                                                            
tentou  alavancar  a  candidatura  de  sua 
17
Dados de GREEN (The Atlantic, 2008). mulher  tornando‐se  uma  figura  presente 

  Página | 38 
Especial Barack Obama 

na  reta  final  da  campanha.  A  resposta  da  arrecadar  seis  milhões  de  dólares  num 
campanha de Obama foi manter a postura  único  dia  via  internet),  um  ex‐ator, 
“cool”,  ou  seja,  manteve‐se  como  um  candidato  de  última  hora,  Fred  Thompson 
jovem  afro‐descendente  aglutinador  de  e  o  moderado,  herói  de  guerra,  John 
forças pró‐mudança. Nos termos de Robert  McCain. 
Kurz,  o  fortalecimento  de  Obama  foi  fruto 
das  “esperanças,  desejos  e  medos  (que)  A  Guerra  do  Iraque  estava  em  2008  cada 
ligaram‐se  a  um  messias  político  quando  vez mais impopular, assim como o governo 
uma  ruptura  balança  a  sociedade”  (KURZ,  Bush [conferir quadro 5], de forma que, os 
2008, p. 0818)  ventos  sopravam  a  favor  dos  democratas. 
Com  o  avanço  das  primárias  entre  os 
Mapa  1  –  A  disputa  pela  indicação  da  republicanos, Guilliani ficou para trás, e as 
nomeação  do  partido  democrata,  Estado  candidaturas McCain,  Romney e  Huckabee 
por Estado entre Clinton e Obama.19   cresceram.  

Na  medida  em  que  foi  ganhando  força, 


McCain  foi  ajustando  seu  discurso 
independente  a  uma  retórica 
conservadora:  cercou‐se  de  ex‐
colaboradores  de  Bush,  mudou  de  opinião 
em  temas  sensíveis  como  aborto  e 
migração,  estratégia  que  o  fez  consolidar‐
se  como  o  candidato  republicano  já  em 
  março  de  2008,  meses  antes  da 
3‐ O Fardo do Homem Branco: Onde estão  confirmação  do  candidato  democrata.  A 
os  WASP20  ?  A  Divisão  do  Partido  vitória  decisiva  de  McCain  ocorreu  nas 
Republicano pós‐ George W. Bush  primárias  da  Flórida,  com  apoio  do 
governador  Charlie  Crist  e  posterior  apoio 
O  lado  republicano  estava  no  final  do  de  Rudy  Guilliani,  que  contava  com  a 
segundo  governo  W.  Bush  com  sua  base  vitória  nas  primárias  deste  estado  para 
conservadora  dividida,  o  ex‐prefeito  de  continuar  na  disputa.  Com  o  passar  dos 
Nova  Iorque,  Rudy  Guiliani,  apontado  meses,  a  candidatura  McCain  se  fortalecia 
como favorito não conseguia unir a base do  com  a  vantagem  de  ver  os  democratas  se 
partido  que  se  dividia  entre  um  ex‐pastor  dividirem  entre  Hillary  e  Obama  numa 
batista e ex‐ governador do Arkansas, Mike  espiral  crescente  de  acusações,  ataques  e 
Huckabee,  um  mórmon  conservador  ex‐ ofensas mútuas. Nos quadros 1 e 2  abaixo 
governador  de  um  estado  liberal,  é possível visualizar este contexto. 
Massachutts,  Mitt  Romney,  um  outsider 
libertário  Ron  Paul  (que  conseguiu  Quadro  1  ‐  A  divisão  dos  apoios  das 
lideranças  da  Direita  Cristã  aos  pré‐
                                                             candidatos do Partido Republicano.  
18
FOLHA  DE  SÃO  PAULO,  caderno,  p.08,  CANDIDATO APOIO 
09/10/08).  Giuliani Pat Robertson 
19 
 Fonte:  Image:  2008  Democratic  Primaries 
Popular Vote.png. Acesso em: 09\12\08. 
20
   Sigla em inglês para Homem Branco, Anglo‐
Saxão Protestante.  

  Página | 39 
Especial Barack Obama 

Apesar  do  desgaste  da  gestão  George  W. 


Fred Thompson  National Right to Life 
Committee21 Bush  (chegando  a  33%  de  aprovação,  um 
Romney  Bob Jones III, Jay Sekulow22,  dos  índices  mais  baixos  em  16  anos),  a 
James Bopp Jr.23 possibilidade  de  enfrentar  uma  mulher  ou 
  Paul Weyrich
um negro nas eleições presidências animou 
os  analistas  republicanos24,  havia  uma 
  Tim e Berverly LaHaye mais a
expectativa  pela  rejeição  do  eleitorado, 
Simpatia de James Dobson e  tendo  em  vista  o  perfil  doa  candidatos, 
Huckabee 
dos  mas  também  havia  a  crença  no 
Herdeiros de Jerry Falwell
  remodelamento  da  base  conservadora 
Nancy Reagan diante  de  um  candidato  mais  a  esquerda. 
  Com  base  nestes  dois  pontos,  analistas 
como  Karl  Rove25  previam  a  vitória  de 
Quadro  2  ‐  A  Divisão  do  eleitorado 
McCain, como mostra o mapa abaixo: 
conservador  nas  primárias  do  partido 
republicano.  

Candidat Identificação  Identificação 


o  do eleitorado  do 
republicano  eleitorado 
com  como 
Conservador  Moderado/L
iberal 
(em %) 
(em %) 
McCain  10  22   
Huckabee  22  6 
Romney  16  8 
Thompso 18  8 

Giuliani  21  35 
Fonte: Pesquisa Gallup dez. 2007.  

4 ‐ O Fortalecimento de McCain diante da 
divisão  dos  democratas  entre  Hillary  e 
Obama.    

                                                            
                                                            
21
Cf.  <http://www.nrlc.org/>.  Um  dos 
24
principais  Think  Tanks  da  Direita  Cristã  que   Segundo  pesquisa  Gallup  de  janeiro  de 
mobiliza  evangélicos  e  renascidos  cristãos  2008,  11%  rejeitaria  uma  candidata  mulher 
em  geral  para  temas  conservadores  como  e 5 % um candidato negro.  
25
aborto,  migração,  direitos  civis  e  que     Rove  foi  o  principal  estrategista  de  George 
distribui  guias  de  votação  em  todos  os  W.  Bush,  desde  sua  campanha  para  o 
estados dos EUA. Acesso em: 03\04\08.   governo  do  Texas  até  as  duas  eleições 
22
Ligado ao American Center for Law & Justice  presidências. Foi também um dos principais 
(http://www.aclj.org/).   articuladores da base conservadora durante 
23
 Ativista importante anti‐aborto.   os oito anos de W. Bush na Casa Branca. 

  Página | 40 
Especial Barack Obama 

Fonte:  KarlRove&CO.  Acesso  em:  ESTADO/VOTOS 


15\09\08.26  NO  COLÉGIO 
ELEITORAL  CANDIDATO 
Analisando  os  mapas  acima  percebemos 
que  Hillary  teria  como  triunfo  contra    OBAMA  H. CLINTON 
Ohio (20)  Oscila entre  Vence com 
McCain  a  vitória  na  Flórida.  Obama   ‐4% e +9  margem 
ganharia  no  Arkansas,  em  Ohio  e  na    entre 7 e 
Pensilvânia. Um dos principais argumentos  11%. 
Flórida (27)  Perde entre  Oscila entre 
da  campanha  de  Clinton  foi  que  onde   ‐4 e ‐11%   ‐4% e +7%. 
Obama  poderia  ganhar,  ela  também 
Iowa (7)  Vence com  Oscila entre 
ganharia,  exceto  Wisconsin,  argumentava 
margem   ‐6% e +1%. 
ainda  que  sua  candidatura  conseguiria  entre 2 e   
vitórias mais tranqüilas em grandes cidades  9%. 
Minnesota (9)  Vence com  Vence com 
(bem  como  em  grandes  estados  como  margem  margem 
Califórnia  e  Nova  Iorque)  e  conquistaria  entre  entre 
6 e 13%.  1 e 9%. 
mais  votos  entre  homens  brancos,  um  Missouri (6)  Oscila entre  Oscila entre 
eleitorado  decisivo  para  tirar  a  vitoria  dos  ‐14% e +  ‐9% e + 6%. 
3%. 
republicanos. 
Novo México (5)  Oscila entre  Oscila entre 
A campanha de Obama insistiu na força do  ‐11% e +9%  ‐12% e + 6%. 
discurso  da  mudança  e    confiou  na  Nevada (5)  Oscila entre  Oscila entre 
 ‐6% e +5%   ‐11% e +5%; 
mobilização  popular  para  atrair  às  urnas 
Colorado (9)  Oscila entre   Perde entre 
uma  quantidade  inédita  de  votos.  A  empate e +   – 3% e – 
campanha  confiava  nesta  “revolução”.  9%  14%. 
Analisando  as  pesquisas  de  estados  como  Michigan (17)  Perde entre  Oscila entre  
Iowa,  Colorado  e  Oregon.  Olhando  para   ‐1% e ‐4%.  empate e ‐
9%. 
alguns  “Swing  States”  nos  fica  claro  que  New Hampshire (4)  Oscila entre  Oscila entre  
Obama demorou para conquistar a maioria   ‐6% e +5%.  ‐9% e +10%. 
dos  Estados  e  do  eleitorado  mesmo  tendo  Oregon (7)  Vence com  Oscila entre 
margem   ‐8% e + 6%. 
uma  clara  mobilização  dos  jovens  e  da  entre 
população  afro‐americana.  O  embate  8 e 14%. 
interno com Hillary nas primárias sinalizava  Fonte:  RealClearPolitics 
que  os  democratas  poderiam  [http://www.realclearpolitics.com/polls/; 
comprometer  a  eleição  contra  os  acessado em maio de 2008 
republicanos.  
Estes  dados  nos  mostram  que  McCain, 
Quadro  3  ‐  A  disputa  entre  Obama  e  candidato  definido  e  a  espera  do  rival 
Clinton frente a McCain nos Swing States27  estava fortalecido, com grandes chances de 
(dados de maio de 200828)  ganhar  em  estados‐chaves,  também 
chamados  de  “Swing  States”.  Sua 
                                                                                                                                              
26
Também  disponível  em  disputa torna‐se acirrada entre republicanos 
http://politicalmaps.org/karl‐rove‐and‐cos‐ e democratas.
electoral‐maps/ , acesso em 01/12/2008. 
28
  Dados  compilados  pela  RealClearPolitics: 
27
Swing State são estados com peso político e  <http://www.realclearpolitics.com/>. 
eleitoral  sem  posicionamento  claro,  onde  a  Acessado em maio de 2008.  

  Página | 41 
Especial Barack Obama 

estratégia  para  a  Guerra  do  Iraque  militante  do  grupo  Weather  Undergroud 
(basicamente  sem  data  para  retirada  com  um grupo de influência Beat que pregava a 
reforço de tropas) ganhou eco eleitoral, re‐ guerrilha  urbana  contra  a  Guerra  do 
conquistando  eleitores  descontentes  com  Vietnã) e exploravam a falta de experiência 
os  rumos  da  gestão  republicana.  Em  seu  e o caráter popstar da candidatura, ataque 
discurso  de  nomeação  Obama  retratou  que  ficou  bem  caracterizado  pela  vinheta 
este  momento  desfavorável  buscando  financiada  pelos  republicanos  que 
colar  a  McCain  uma  imagem  de  associavam a imagem de Obama a de uma 
continuísmo  desconstruindo  a  perspectiva  celebridade  como  Paris  Hilton 
de  candidato  da  mudança,  como  McCain  despreparado para os desafios de liderar e 
queria ser visto.     governar um país como os EUA.30  

Quadro  4  ‐  McCain  x  Obama  em  Swing  Por  fim,  faltando  poucas  semanas  para  a 
States29, dados de julho de 2008 (Obama já  eleição, os republicanos lançaram – a partir 
como  candidato  definido  do  Parido  de  um  ríspido  diálogo  entre  Obama  e  um 
Democrata).  eleitor  de  Ohio,  Joe  Wurzelbacher  (que 
ficou conhecido como Joe, o encanador)31 – 
Estados  Obama  McCain  Diferença  em 
uma  campanha  anti‐Obama.  O  impasse 

girou  em  torno  da  discussão  sobre 
Flórida  43.8  46  2.2%  pró‐ impostos  e  distribuição  de  renda.  Os 
McCain 
republicanos  se  aproveitaram  do  caso 
Michigan  43.6  41.6  3% pró‐Obama  expondo  na  mídia  a  idéia  de  que  Obama 
Ohio  47.3  42.8  4.5%  pró‐
Obama  seria  um  socialista  e  iria  aumentar  os 
Carolina  42  46.5  4.5 pró‐McCain  impostos  para  redistribuir  a  renda.  Joe,  o 
do Norte 
encanador,  ganhou  destaque  nacional, 
Pensilvânia  48  40.3  7.7%  pró‐
Obama  simbolizando  o  homem  branco  de  classe 
Iowa  47.7  41.3  6.4%  pró‐ média  temeroso.  Depois  deste  fato,  o 
Obama 
socialismo  voltou  às  bocas  dos 
Virginia  44.3  45  0.7%  pró‐
McCain  comentaristas  das  grandes  redes  de  TV, 
Fonte:  desacostumados  com  o  conceito,  tão 
http://www.realclearpolitics.com/polls/  ;  recorrente  no  linguajar  da  Guerra  Fria. 
acessado em 07/2008  Porém, do lado democrata, a resposta não 
foi  direta,  na  defesa  de  uma  tributação 
Contra Obama os republicanos resgataram 
mais  justa  que  possibilitaria  a 
as  principais  polêmicas  levantadas  pela 
universalização  do  sistema  de  saúde  e  um 
candidatura  Clinton:  suposta  infância 
melhor nível educacional, discurso também 
islâmica na Indonésia, suposto vínculo com 
voltado  para  classe  média  equilibrou  o 
radicais,  como  o  pastor  Jeremiah  Righ 
efeito “Joe”.     
(pastor  da  Trinity  United  Church  of  Christ, 
freqüentada  por  Obama),  o  professor  da 
Universidade de Chicago Bill Ayers (que foi                                                              
30
                                                              Cf.  vídeo 
em:<http://www.youtube.com/watch?v=4_
29
Dados  sistematizados  pelo  site  Za‐Mx1y3A> (acesso em: 09\11\08) 
RealClearPolitics: 
31
<http://www.realclearpolitics.com/>.  Cf.<www.secureourdream.com>.  Acesso 
Acesso em: 09\06\08.  em: 09/12/2008.

  Página | 42 
Especial Barack Obama 

O  principal  cabo‐eleitoral  de  Obama  foi  a  EUA  não  poderiam  ter  dúvidas  em  relação 
rejeição  à  Geroge  W.  Bush,  a  Guerra  do  a  sua  capacidade  de  mudar  o  mundo  e  de 
Iraque  e  o  vinculo  destes  dois  na  mostrar  às  outras  nações  a  trilha  para  um 
candidatura de McCain, o quadro 5 abaixo  engajamento  que  produziria  a  paz  no 
nos  mostra  como  o  desempenho  de  W.  sistema internacional. Concretamente,  sair 
Bush  no  período  eleitoral  foi  um  fator  do  Iraque,  para  McCain,  seria  “abraçar  a 
decisivo  para  a  vitória  de  Obama  e  um  derrota”,  a  solução  seria  um  plano  capaz 
fator  constrangedor  para  a  campanha  de derrotar os extremistas, evitando que o 
republicana.  Iraque se transformasse num “santuário de 
terroristas”.  A  vitória  americana 
Quadro  5  ‐  Evolução  da  avaliação  do  dependeria  de  um  engajamento  de  anos, 
governo  George  W.  Bush  entre  maio  e  com  uma  estratégia  bem  definida.  Para 
novembro de 2008 (momento decisivo das  tanto,  McCain  propunha  mais  tropas  no 
eleições presidenciais) em porcentagem.  Iraque,  mais  gastos  militares  e  um  re‐
Instituto Gallup  Instituto Fox News  arranjo  das  organizações  internacionais.  O 
que  viria  em  boa  parte  com  a  criação  – 
Mês  Aprova Desapr Aprovaçã Desapro liderada  pelos  EUA  –  da  Liga  das 
ção  ovação  o  vação 
Democracias. Esta liga permitiria aos países 
Maio  29  65  32  60  democráticos  e  aliados  agirem  sem  os 
bloqueios e entraves impostos pela ONU. A 
Junho  30  64  29  64 
Liga  das  Democracias  não  substituiria  a 
Julho  31  61  27  66  ONU,  que  continuaria  a  existir,  mas  seria 
uma  espécie  de  OTAN  a  nível  mundial.  Na 
Agost 33  61  28  67 

Liga,  aliados  como  os  países  da  América 
Sete 31  65  32  64  Latina, teriam mais peso político.  
mbro 
Outu 25  70  25  69   Pensando na Guerra ao Terror, a proposta 
bro 
do candidato republicano seguiu a linha do 
Nove 29  66  26  67 
mbro  soft power ao Islã moderado; uma área de 
Fonte:  Compilação  feita  por  nós  com  base  livre  comércio  ligando  a  África  ao  Oriente 
nos  dados  disponíveis  no  site  Polling  Médio,  isolando  países  que  patrocinam  o 
Report  <http://www.pollingreport.com>  terror. Propunha uma nova estratégia para 
Acesso em: 08\12\08.   as forças armadas dos EUA, que passariam 
a  ter  mais  serviço  de  inteligência, 
  treinariam  forças  estrangeiras  para  agirem 
em  situações  de  fracasso  estatal; 
5  ‐  100  anos  no  Iraque:  a  política  externa 
investiriam  em  novas  armas  e  programas 
de  McCain  x  a  política  externa  de 
de  treinamentos  para  enfrentar  “novos 
Obama/Clinton 
inimigos”,  aumentando  o  quadro  dos 
 Foi na  discussão das propostas de política  atuais 750 mil alistados para 900 mil.  
externa  que  McCain  produziu  a  principal 
Na política de poder, McCain identificava a 
distinção  de  sua  campanha  diante  das 
Ásia  e  o  Pacífico  como  novo  lócus.  Coréia 
propostas dos democratas.  
do  Sul,  Austrália,  Japão  e  Índia  seriam  os 
 Seu  norte  na  política  externa  retomava  o  aliados  preferências  dos  EUA  e  teriam  um 
momento  pós‐Vietnã  mostrando  que  os  papel central na resolução de conflitos que 

  Página | 43 
Especial Barack Obama 

envolveriam  o  Sudeste  Asiático  e  a  Coréia  dos EUA como “agente da ordem mundial”, 


do Norte. Os EUA teriam o papel de apoiar  ou  seja,  a  situação  do  Iraque  gerou  uma 
a integração regional asiática, além de uma  percepção de perda e de enfraquecimento 
postura  atenta  com  a  China  (país  com  do poder americano.  
interesses  em  comum  com  os  Estados 
Unidos32).  Por  fim,  McCain  demonstra  O  governo  Bush  e  sua  diplomacia 
preocupação  com  a  Rússia,  que  na  sua  encabeçada  por  Condoleezza  Rice 
opinião não deve fazer parte do G8, e com  mudaram os rumos da política externa dos 
a  Venezuela  de  Hugo  Chávez,  que  deverá  EUA  para  o  Oriente  Médio.  Deixaram  a 
ficar de fora de uma eventual retomada da  contenção  e  o  esforço  de  estabilizar  a 
ALCA,  idéia  citada  pelo  plano  de  governo  região  para  uma  política  mais  agressiva, 
de McCain.  acreditando  na  capacidade  de  gerar 
mudança  de  regime.  Diante  disso  a 
A principal distinção de Obama em relação  proposta  e,  ao  mesmo  tempo  o  desafio, 
à  política  dos  republicanos  é  a  percepção  dos  democratas  está  em  lidar  com 
de  que  a  guerra  tal  como  está  desenhada  problemas  novos:  ataques  terroristas, 
no Iraque não pode e nunca poderá chegar  forças  insurgentes,  rejeição  ao  poder 
à vitória. A retórica de 100 anos do Iraque  americano  (historicamente  visto  como 
presente na fala de McCain nada mais é do  libertador  e  benevolente,  mas  atualmente 
que  a  crença  que  esta  guerra  pode  ser  visto como opressor e maligno) e, por fim, 
vencida, e deve ser vencida, dure o tempo  lidar  com  duas  guerras  em  curso,  sendo  o 
que  durar.  Quando  Obama  propõe  uma  Iraque  um  caso  crítico  que  perdura  há 
retirada do Iraque, não se trata de retórica  cinco  anos  e  apresenta  saldo  de  4  mil 
pacifista,  mas  de  ataque  ao  ponto  mais  soldados  estadunidenses  mortos  e  outros 
sensível  da  gestão  Bush,  qual  seja,  uma  140  mil  ainda  em  combate.(Cf.  Brookings 
guerra de custo alto e sem justificativa.  Instute33) 

 A  Guerra  do  Iraque  quando  declarada,  Obama  sinaliza  para  uma  manutenção  das 
contava  com  um  amplo  apoio  político,  políticas  republicanas  quando  permanece 
entre  republicanos,  democratas  e  com Robert Gates na Secretaria de Defesa, 
ideólogos  do  neoconservadorismo,  dos  em  questões  sobre  o  terrorismo  e  a 
liberais  e  até  entre  progressistas  e  segurança  doméstica.  Com  Hillary  Clinton, 
libertários  de  ambas  agremiações  substituindo  Rice,  ele  sinaliza  para  um 
presentes  no  Congresso,  que  aprovou  a  resgate  das  pretensões  americanas  de  ser 
Guerra.  Esta  imagem  começou  a  mudar  uma  liderança  global,  ameaçada  e 
quando,  pós‐vitória  precisou‐se  de  quatro  questionada com o engajamento global do 
anos para ajustar uma estratégia contra os  governo  Bush.  Quanto  ao  Iraque,  Obama 
insurgentes,  tempo  que  na  percepção  do  sinaliza  para  uma  diplomacia  que  force  o 
eleitorado  produziu  um  enfraquecimento  entendimento  entre  os  atores  domésticos 
e reconhece que a vitória militar não pode 
                                                             ser  atingida.  Caso  o  entendimento 
32
Para  o  candidato  republicano,  não  há  por  doméstico  não  ocorra,  cabe  ao  presidente 
que  pensar,  de  partida,  na  China  como  um 
adversário,  mas  é  preciso  estar  atento  ao                                                              
crescimento  militar  chinês,  bem  como  a 
33
relação da China com Estados Falidos e sua   http://www.brookings.edu/foreign‐
tensão latente com Taiwan.  policy.aspx. Acessado em 02\12\08. 

  Página | 44 
Especial Barack Obama 

decidir  entre  uma  nova  estratégia  ou  um  mais  velhos  (eleitores  com  mais  de  65 
plano  de  retirada.  Optando  pela  retirada,  anos,  representam  16%  do  eleitorado)  e 
Obama corre o risco de ficar sem a vitória,  votou  majoritariamente  (53%  dos  votos) 
que não seria possível, de qualquer forma,  em  McCain  (um  candidato  de  72  anos)  o 
nem  com  uma  região  estável,  que  os  EUA  que  seria  compensando  pelos  votos  do 
já tiveram no passado.   eleitorado mais jovem, entre 18 e 29 anos, 
que representa 18% do eleitorado. 
O  nó  do  Iraque  em  certa  medida,  é  o 
mesmo  que  a  política  externa  dos  EUA   Isolando  os  35%  que  se  identificam  como 
enfrenta  desde  Carter  (1977‐1981)  para  o  conservadores  pela  pesquisa  Gallup  de 
Oriente  Médio,  isto  é,  lidar  o  interesse  novembro  de  2008,  teríamos  65%  de 
energético vital (petróleo e gás), garantir a  moderados  e  liberais,  parcela  que  poderia 
segurança  de  aliados‐  chave  tranquilamente  garantir  os  51% 
(principalmente  Arábia  Saudita  e  Israel),  necessários  para  a  vitória  democrata.  A 
lidar  com  o  conflito  Árabe‐Israel  e  Persas  principal ameaça a vitória de Obama estava 
(Irã)‐Árabes  e,  mais  recentemente,  nos  desdobramentos  da  crise  econômica 
entender  e  combater  a  ascensão  das  que coincidiu com o desfecho das eleições 
políticas de base islâmica que substituíram  e,  no  debate  sobre  os  desdobramentos  e 
o  nacionalismo  árabe.  São  estes  os  desfecho  da  Guerra  do  Iraque.  Bush,  em 
principais  pontos  que  a  administração  2004,  enfrentou  o  seguinte  quadro 
Obama/Clinton  terão  que  lidar    para  ideológico  (segundo  a  Cnn  34):  34%  se 
realmente  construir  uma  mudança  na  diziam  conservadores,  45%  moderados  e 
política externa dos EUA.   21%  liberais,  muito  semelhante  ao  quadro 
de  2008.  Vejamos  agora  um  quadro  de 
  comparação  entre  o  perfil  da  vitória  de 
6 ‐ George W. Bush: Ou você esta com ele,  Bush em 2004 e de Obama em 2008.  
ou  você  esta  contra  ele:  como  (e  porque)  Quadro  6  ‐  Comparação  entre  o 
Obama venceu Bush.  desempenho  eleitoral  de  George  W.  Bush 
  em  2004  com  Barack  Obama  em  2008. 
Dados em porcentagem.  
Do  lado  dos  democratas  a  soma  para  a 
vitória  eleitoral  começava  assim:  12%  do   
eleitorado  é  formado  pela  população  George W. Bush em 2004  Barack Obama em 2008 
negra,  15  %  são  latinos;  são  28%  que  Vitória  ente  homens  Derrota entre os homens 
poderiam  anular  os  eventuais  30%  pró‐ brancos  (62  x  37)  e  entre 
brancos  (43x40)  e  entre 
homens (55x44)   os  homens  (49x48)  e 
Bush (ver quadro 5). O sul dos EUA tende a  entre  homens  brancos 
votar  nos  republicanos,  o  que  poderia  ser  do sul (60x 38) 
Derrota entre negros (52 x  Vitória  entre  negros 
balanceado  por  uma  vitória  nas  grandes 
11)    (92x3) 
cidades.  Os  mais  ricos  tendem  a  votar  no  Vitória  entre  pessoas  Vitória  entre  hispânicos 
candidato  mais  conservador  e  serem  mais  casadas (57 x 42)   (74 x 20) 

sensíveis  a  uma  ameaça  de  aumento  de                                                              


impostos,  as  classes  médias  tendem  a 
34
colocar  a  educação  e  a  saúde  antes  da  Cf. 
<http://edition.cnn.com/ELECTION/2004/pa
política  tributária  como  foco  de 
ges/results/states/US/P/00/epolls.0.html>. 
preocupação sensível a decisão do voto. Os  Acesso em: 03\03\08. 

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Especial Barack Obama 

Derrota  entre  latinos  Vitória  entre  pós‐ hegemonia  no  Sul,  obtiveram  vitórias  com 
(53x44)  graduados (61x34) 
margem  acima  de  10%  em  estados  como: 
Derrota  entre  os  com  Vitória  entre  os  com 
ensino superior (55x 44)   ensino superior (51x 45)  Alabama,  Arizona,  Arkansas  e  Carolina  do 
Vitória  entre  pessoas  Vitória  entre  os  com  Sul, e vitórias apertadas na Geórgia, Dakota 
casadas (57x42)  Ensino  Superior 
incompleto (50x 43) 
do  Sul  e  Carolina  do  Sul.    Obama  saiu‐se 
Vitória  entre  pessoas  com  Vitória  entre  pessoas  muito  bem  na:  Califórnia,  Connecticut, 
porte de arma (63 x 36)  com  até  ensino  médio  Illinois,  e  Nova  Iorque,  com  vitórias 
(50 x 41) 
Vitória  entre  evangélicos  Vitória  entre  apertadas  no  Missouri,  Carolina  do  Norte, 
(78x21)  conservadores  pró‐ Indiana,  Montana,  Flórida,  Ohio  e  Virgínia 
democratas (82x12) 
(estado  que  desde  1964  era 
Vitória  entre  protestantes  Vitória  entre  moderados 
(59x40)  pró‐democratas (89x7)  majoritariamente  republicano).  Vejamos  a 
Vitória  entre  católicos  Vitória  entre  os  liberais  comparação  do  mapa  de  2004  (vitória  de 
(52x47)  (96x3) 
Bush) com o mapa de 2008 (Obama).  
Vitória  entre  moradores  Vitória  entre  mulheres 
da zona rural (57x42)  solteiras (63x29) 
Vitória entre os moradores  Vitória  entre  homens  Mapa  2  ‐  Vitória  de  George  W.  Bush  em 
dos subúrbios (52x47)  solteiros (58x34)  200436.  
Derrota entre judeus (74 x  Vitória  entre  os  Judeus 
25)  (78x30) 
Derrota entre asiáticos (56  Vitória  entre  asiáticos 
x44)   (62x40) 
Fonte: 
http://www.cnn.com/ELECTION/2008/resu
lts/full/#P  cruzados  com  os  dados  de 
Pesquisa Nacional feita pela CNN em 2004 
como o eleitorado logo após votação35. 

Bush  ganhou  no  sul  dos  Estados,  onde   Fonte: nyt.com 


Obama  perdeu  (diferença  de  9%  segundo 
 
dados  da  apuração  oficial  do  site 
CNN.com);  ganhou  entre  os  homens  (55  x  Mapa 3 ‐ Vitória de Obama em 2008  
44)  onde  Obama  perdeu  (55x  44).  Bush 
teve  o  fator  religioso  e  o  discurso  dos 
valores  e  da  importância  da  guerra  como 
alicerce  eleitoral;  Obama  diferenciou‐se  a 
partir  da  guerra,  com  novo  discurso 
mobilizou  jovens  e  uniu  as  minorias, 
desenhando  uma  nova  base  para  os 
democratas. 
                                                            
Olhando  Estado  por  Estado,  percebemos  36
Ambos  os  mapas  foram  tirados  no  NYT  em 
que  os  republicanos  mantiveram  sua 
sua  edição  especial  sobre  eleições. 
                                                             Disponível  em:  politics. 
nytimes.com/election‐guide/2008  (acessado 
35
Cf.  em  02/12/2008.  O  número  em  destaque  no 
<http://edition.cnn.com/ELECTION/2004/pa mapa indica o numero de delegados de cada 
ges/results/states/US/P/00/epo>.  Acesso  Estado  a  compor  o  Colégio  Eleitoral  que  irá 
em: 03\03\08.  na prática eleger o presidente.  

  Página | 46 
Especial Barack Obama 

Michigan  57  41 


Ohio  51  47 
Carolina  do  50  49 
Norte 
Pensilvânia  55  44 
Iowa  54  45 
Virginia  53  47 
Fonte:<http://www.cnn.com/ELECTION/20
 
08/results/full/#val=Pp1>.  Acesso  em: 
Comparando  os  dois  mapas  percebemos  09/12/2008. 
que  Obama  tirou  de  Bush  os  estados  de 
Nevada  (resultado  em  2008:  55  x  43),  Estes  dados  nos  mostram  como  Obama 
Colorado (54 x 45), Novo México (57 x 42)  conseguiu  ocupar  o  espaço  criado  a  partir 
e a Flórida (51 x 49), tendo boa votação no  da insatisfação do eleitorado com a gestão 
Texas  (perdeu  por  uma  diferença  de  11%  de George W. Bush, também nos mostra o 
para  McCain).  Se  observarmos  o  mapa  da  êxito  da  campanha  democrata  em 
presença latina nos EUA perceberemos que  mobilizar  jovens,  afros‐descendentes, 
são nestes Estados que estão concentrados  sindicatos  e  latinos.  E  o  fracasso  do  lado 
a  maior  parte  desta  população.  Outros  republicano  em  mobilizar  o  eleitorado 
Estados  onde  Obama  ganhou  como  conservador – religioso.    
Indiana, Ohio e Iowa, Virginia, Pensilvânia e 
Mapa 4 ‐ A presença latina nos EUA    
Carolina  do  Norte  (ver  quadro  6)  foram 
fruto  da  mobilização  dos  jovens,  do 
desgaste  e  desaprovação  da  Guerra  do 
Iraque,  do  impacto  da  crise  financeira 
(sobretudo  diante  do  medo  de  uma  crise 
de maiores proporções na economia para a 
classe média estadunidense37) e dos quase 
700  milhões  arrecadados  para  gastar  na 
campanha.  

 
 
Quadro 7 ‐ A virada de Obama nos “Swing 
States”  (Dados  oficiais  da  eleição  de  Fonte:  MELGOZA,  César  M.  Portrait  of 
4/11/2008, em porcentagem)  Hispanic  Power.  Poder,  n.58,  outubro  de 
2008, p. 28‐51. 
 
 
  CANDIDATOS 
  Obama  McCain  O desempenho de Obama entre os latinos 
Flórida  51  49  foi  decisivo  para  sua  vitória.  Em  Estados 
como  Texas  e  Arizona,  sua  campanha 
                                                             centrou‐se numa promessa de assimilação, 
37
A  crise  teve  vários  fatores  dentre  eles  a  reaproximação  com  a  América  Latina, 
expansão  das  fianças  desregulamentadas,  o  propondo  um  assessor  especial  para  o 
boom  das  hipotecas  e  a  ameaça  de  tema em seu gabinete e buscando dialogar 
recessão.  

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Especial Barack Obama 

com  parcelas  específicas  do  eleitorado  peso  do  Partido  Republicano,  e  que 
latino.  Segundo  pesquisa  do  Latin  Force  apoiaram  McCain  –  sentiu  o  desgaste  do 
Group38  (2008),  os  hispânicos  nos  EUA  discurso  anti‐castrista  e  conservador 
podem  ser  sub‐divididos  em:  marcados  pelo  governo  W.  Bush.  Em 
americanizados,  aqueles  que  falam  inglês,  relação  à  votação  que  Bush  teve  entre  os 
nasceram nos EUA, são neto ou bisneto de  latinos  em  2004,  McCain  teve  uma  perda 
imigrantes,  sem  laços  culturais  fortes  com  de  cerca  de  30%40,  e  o  motivo  central  da 
a  cultura  hispânica.  (representam  15%  do  mudança  para  o  lado  democrata,  segundo 
universo latino); novos latinos que também  esta pesquisa, foi a questão da migração e 
nasceram  nos  EUA,  mas  os  pais  não  falam  a preocupação com a economia.  
inglês  e  espanhol  e  valorizam  a  cultura 
hispânica  (representam  30%  do  universo  O  desempenho  eleitoral  de  McCain  entre 
latino);  os  bi‐culturais,  que  são  bilíngües,  os  latinos  também  nos  sinaliza  para  uma 
imigrantes  que  vieram  na  infância  para  os  crise  na  base  de  sustentação  dos 
EUA e representam 25% do universo latino;  republicanos.  O  senador  do  Arizona  teve 
os hispanos, que pouco dominam o inglês,  grande  dificuldade  de,  como  moderado  e 
imigraram  na  idade  adulta  e  estão  no  autor  de  leis  pro‐imigrantes,  assimilar  um 
máximo há dez anos nos EUA, representam  discurso  conservador,  anti‐imigrante  com 
15%  do  universo  latino.  Por  fim,  os  retórica  religiosa.  Talvez,  se  McCain,  ao 
latinoamericanos,  recém  chegados  aos  invés de convidar a governadora do Alasca, 
EUA,  com  pouco  domínio  da  língua  e  Sarah Palin – que desempenhou o papel de 
grande  identificação  cultural  hispânica,  atrair  o  eleitorado  mais  conservador, 
representam 15% do universo latino.   religioso  e  que  flertou  com  os  eleitores 
democratas  descontentes  com  a  derrota 
A  candidatura  democrata  conseguiu  de  Clinton  nas  primárias  do  partido 
massivo  apoio  dos  latinos,  em  estados  democrata  –  convencesse  um  democrata, 
como  Califórnia,  Nova  Iorque,  Ilinois  e  ou o próprio governador da Flórida, Charlie 
Texas  tendo  nestes  estados  uma  votação  Crist,  a  ser  vice  na  chapa  republicana,  o 
foi  superior  a  70%  entre  os  latinos  desempenho eleitoral entre os latinos teria 
(respectivamente:  71%%,  73%,  75%  e  sido diferente.      
73%39).  Na  Flórida,  um  estado  com 
peculiaridades,  Obama  ganhou  entre  os  7 ‐ Conclusão  
latinos com 52%, centrando sua campanha  Obama  foi  eleito  presidente  dos  EUA 
entre  novos  latinos  e  bi‐culturais,  uma  devido  a  um  triângulo  de  fatores 
parcela  da  população  de  cubano‐ fundamentais,  que  também  explicam  sua 
americanos que não mais tem o embargo e  trajetória  até  o  momento.  Destacamos  o 
o regime cubano como prioridades na hora  primeiro  ponto:  o  político.  Neste  vem  se 
do  voto.  O  eleitorado  republicano  na  colocando  como  moderado,  capaz  de  lidar 
Flórida  –  responsável  pela  vitória  de  Jeb  e  reconciliar  pontos  de  vista  opostos. 
Bush  (1998‐2007)  e  Charlie  Crist  Como  presidente  eleito  tem  demonstrado 
(governador  desde  2007),  dois  nomes  de  esta  marca  ao  chamar  sua  principal 
                                                            
adversária  interna,  Hillary  Clinton,  para  a 
38
Cf.<http://www.nhclc.org/>.  Acesso  em:                                                              
09/12/2008. 
39 40
Fonte:  nytimes.com/election‐guide/2008,  cf.  pesquisa  do  National  Hispanic  Christian 
acessado em 02/12/2008. Leadership Conference 

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Especial Barack Obama 

Secretaria  de  Estado,  mantendo  um  jovens  e  da  população  afro‐descendente 


republicano,  Robert  Gates,  a  frente  da  também  demonstra  uma  superação  do 
secretaria  de  Defesa  e  escolhendo  nomes  discurso  político  tradicional/profissional  e, 
com  experiência  na  administração  Clinton  nos permite pensar, mais uma vez, em seu 
(1993‐2001) para compor seu gabinete.   carisma. 

Todas  estas  medidas,  conforme  mostra  a  Por  fim  vale  destacarmos  seus  dois  motes 
pesquisa  da  Universidade  de  Quinnipiac  de  campanha:  uma  afirmação  “Yes  We 
(de  06/11/2008),  são  aprovadas  e  Can”  (Sim,  nós  podemos)  e  um  conceito 
respaldadas  pela  opinião  pública:  65%  vago  porém  forte,  “Change”  (mudança). 
aprovam  a  escolha  de  Clinton,  75%  de  Ambos  sinalizam  para  uma  retórica  de 
Gates  e,  para  51%,  Obama  escolheu  a  mudança  e  Obama  conduz  esta 
quantidade certa de nomes com passagem  mobilização rumo a uma transição política, 
pelo governo Clinton.  não  para  uma  revolta  política,  em  parte, 
por que sua candidatura manteve‐se fiel ao 
Quanto  ao  seu  perfil  político,  percebemos  partido democrata e, em parte, pelo  perfil 
que  ao  longo  da  campanha  Obama  que  desenha  para  seu  gabinete,  trazendo 
construiu  sua  imagem  como  alternativa  políticos  e  técnicos  experientes  e 
possível  aos  rumos  tomados  por  Bush  de  estabelecidos. O carisma serve para Obama 
perfil  centro‐conservador.  Colocou‐se  como ponte entre os anseios produzidos e 
assim, como de centro‐liberal, decisão que  a  transição  política  almejada,  caso 
foi  bem  aceita  pela  opinião  pública,  vide  contrário,  nas  palavras  de  Slavoj  Žižek 
pesquisa  feita  pela  Universidade  de  (Folha de S. Paulo, 09/11/2008, p. 06): “[...] 
Quinnipiac41 que aponta como o eleitorado  até  onde  um  novo  presidente  pode  impor 
associa  o  perfil  político  de  Obama:  liberal  mudanças  reais  sem  provocar  um 
(52%), moderado para (30%) e conservador  derretimento  econômico  ou  uma  revolta 
(6%).  política?”    
Durante  a  campanha,  tanto  contra  Clinton  O  foco  central  da  campanha  democrata,  a 
como  contra  McCain,  Obama  demonstrou  propagada  “mudança”  teve  como 
carisma. Segunda característica que explica  interlocutor  concreto  a  Guerra  do  Iraque. 
sua  trajetória,  vértice  de  seu  triângulo  de  Os republicanos propunham a continuação 
sustentação.  Seu  carisma  se  evidencia  na  da presença militar, já Obama sinaliza para 
mobilização  inédita  que  produziu  no  um  plano  de  saída,  o  que  conta  com  o 
eleitorado  dos  EUA.  Sua  arrecadação  foi  respaldo popular, como sinaliza a pesquisa 
um  recorde,  sua  votação  foi  recorde,  seus  da  Universidade  de  Michigan  (de 
discursos  e  eventos  de  campanha  lotavam  02\12\2008)  que  perguntou  se  sair  do 
parques,  estádios  com  um  aparato  de  Iraque  seria  um  grande  progresso,  um 
segurança  semelhante  a  de  uma  progresso, não seria um progresso ou se a 
celebridade42. Seu poder de mobilização de  situação  ficaria  pior.  Para  27%,  seria  um 
                                                             grande progresso, para 42% um progresso, 
41
Cf. www.quinnipiac.edu/x271.xml  para  15%  um  não  progresso  e  para  10%, 
42
   Em  Berlin  calculou‐se  em  um  milhão  de  sinalizaria  para  uma  piora  da  situação.  Ou 
expectadores,  em  seu  discurso  aceitando  a 
candidatura  democrata  no  estádio  do                                                                                   
Denver  Broncos  foram  cerca  de  80  mil,  no 
discurso  da  vitória  em  Chicago  calcula‐se  mais de um milhão de pessoas.  

  Página | 49 
Especial Barack Obama 

seja,  a  mudança  de  rumo  na  Guerra  do  Zimbábue  –  te  dissuadir  de  fazer  o  que 
Iraque  de  Obama  tem  69%  de  aprovação,  você pensa ser o certo para os EUA.” 43  
porcentagem  semelhante  ao  índice  de 
rejeição  a  Guerra  do  Iraque  em  novembro  Bibliografia  
de 2008 (fonte pesquisa Gallup): 66%. Isso  ASSHEUER,  Thomas.  Ainda  Potência, 
nos  mostra  uma  relação  direta  entre  a  entrevista com Jürgen Habermas. Folha de 
rejeição  a  Bush  e  a  vitória  de  Obama  e  S. Paulo, Caderno Mais! p. 09, 09/11/2008.  
reforça  a  imagem  do  primeiro  como  o 
responsável  pela  imagem  internacional  BENOIT,  Bertrand.  US  will  lose  financial 
negativa  dos  EUA  e  o  segundo  como  a  superpower  status.  Financial  Times, 
esperança  de  uma  nova  postura  27/09/08. 
internacional. 
BROOKS,  Davis.  The  Running  Mate  Choice. 
Fechando o triângulo de sua caracterização  The New York Times, 27\04\08. 
política e pessoal temos um democrata de 
BRZEZINSKI, Zbignew. The Choice. NY: Basic 
visão  política  moderada  (de  centro)  com 
Books, 2003. 
habilidade  para  ouvir  lados  distintos, 
mantendo  o  diálogo  aberto  com  o  CLINTON,  Hillary  Rodham.  Security  and 
oponente. Foi com este ímpeto que Obama  Opportunity  for  the  21th  Century.  Foreign 
convidou  Clinton  para  Secretária  de  Affairs. Novembro\dezembro de 2007.  
Estado,  Robert  Gates  para  a  Defesa  e 
propôs,  com  esta  estratégia  em  mente,  COLTER,  Ann.  Slander.  NY:  Three  Rivers 
durante a campanha: tributação mais justa,  Press, 2002. 
universalização  do  sistema  de  saúde, 
DAALDER,  Ivo  H.;  LINDSAY,  James  M. 
melhora  no  nível  educacional,  melhor 
American  Unbound.  NY:  Brooking 
distribuição  de  renda  e  novas  estratégicas 
Institution Press, 2003.  
diplomáticas com Cuba e Irã.  
FONSECA,  Carlos  da.  Os  Think  Tanks  e  a 
Se  não  bastasse  os  desafios  de  lidar  com 
política americana. Contexto Internacional, 
duas guerras, com a ameaça do terrorismo, 
v. 29, n. 01, janeiro/junho de 2007.  
a  reconstrução  econômica,  Obama  precisa 
também lidar com as expectativas, sonhos,  GALLUP.  Politics  and  Government. 
aspirações  e  encanto  depositados  em  sua  Disponível  em 
imagem por milhões de pessoas no mundo  <http://www.gallup.com/pol>.    Acesso:  02 
inteiro.  Pensando  nisso,  John  Bolton,  um  abr. 2006.  
dos principais nomes do governo W. Bush, 
e  influente  interlocutor  republicano  nos  _______.  Pulse  of  Democracy.  Disponível 
meios  neoconservadores,  se  despede  em: 
deixando  o  seguinte  conselho  ao 
presidente  eleito:  “Não  deixe  a  opinião 
pública global sobre os EUA – da Albânia ao                                                              
43
No  original:  “  Do  not  let  global  “public 
opinion”  about  the  U.S  –  from  Albania  to 
Zimbabwe  –  dissuade  you from  doing  what 
you  think  is  right  for  America”  in  Open 
Letter  to  President‐Elect  (disponível  em 
aei.org acessado em 25/11/2008) 

  Página | 50 
Especial Barack Obama 

http://www.gallup.com/poll/1576/Abortio McCAIN,  John.  An  Enduring  Peace  Built  on 


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MELGOZA,  César  M.  Portrait  of  Hispanic 
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28‐51. 

  Página | 51 
Especial Barack Obama 

O significado da vitória de Obama para as relações internacionais  

André Barrinha 

Num  mundo  cada  vez  menos  últimas  décadas  não  deixaram  de  existir, 
‘americanizado’,  a  eleição  de  Obama  mas  passaram  a  ficar  enquadrados  numa 
mostrou‐nos  o  fascínio  que  os  EUA  ainda  nova  realidade,   a  realidade  da  mudança 
nos  podem  provocar.  Depois  de  oito  anos  possível.  E  este  é  o  primeiro  impacto  de 
desastrosos e provavelmente irremediáveis  Obama para a realidade internacional: num 
em termos de perda de influência dos EUA  mundo  em  que  as  democracias  se  vêem 
no mundo, cabe agora ao novo Presidente  confrontadas  com  a  falta  de  interesse  dos 
e  à  sua  equipa  transferir  a  magia  do  dia  4  seus  próprios  cidadãos,  em  que  a  China 
de  Novembro  ao  resto  do  planeta.  O  seu  apresenta  um  modelo  alternativo  para  o 
exemplo de vida, a sua política externa e a  desenvolvimento  de  um  país,  em  que  as 
consciência  do  novo  lugar  dos  EUA  no  paranóias  securitárias  reduzem  as 
mundo serão vitais para tal sucesso.   liberdades  centrais  do  modelo 
democrático,  a  fé  em  tal  sistema  político 
  esmoreceu.  Nesse  sentido,  a  vitória  de 
Liderança pelo exemplo  Obama  vem  mostrar  o  que  todos 
sabíamos,  mas  andávamos  esquecidos  – 
Fez‐se história. A eleição de um Presidente  que  só  em  democracia  é  possível  o 
da  maior  potência  mundial,  fica  sempre  politicamente  improvável;  que  só  em 
para  a  memória  coletiva  da  Humanidade,  democracia  a  política  pode  ser  aquilo  que 
assim como a sucessão de imperadores em  queremos e não aquilo que nos é imposto. 
Roma ou a mudança de monarca no Reino  A promoção da democracia pelo exemplo é 
Unido dos séculos XVIII e XIX. A eleição do  já uma realidade com a eleição de Obama. 
44°  Presidente  dos  EUA  tinha,  portanto,  à  É natural que a isto os EUA juntem na sua 
partida, o seu lugar assegurado na história.  política externa a promoção da democracia 
Contudo,  enquanto  que  a  eleição  de  de  forma  mais  direta  junto  de  outros 
Reagan,  Bush  ou  Clinton  foram  relevantes  países;  contudo,  ao  contrário  do  que 
pelo  fenômeno  em  si  (a  eleição),  no  caso  acontece  agora,  tal  será  feito  por  um 
de  Obama  o  importante  não  foi  o  Presidente  que  foi  eleito  com  base  nas 
fenômeno  eleitoral,  mas  sim  quem  foi  mais‐valias  do  sistema  democrático  e  não 
eleito.  nas suas falhas.   

Ao contrário dos casos atrás mencionados,   
cujo legado só pôde ser avaliado depois de 
estes  passarem  pelo  poder,  no  caso  de  A política externa de Obama 
Obama  o  legado  já  existe,  Portanto,  o  exemplo  de  Obama  traz  sem 
independentemente  do  Presidente  que  demais  algo  de  diferente  ao  mundo, 
venha a ser. Um legado que é político, mas  independentemente  do  que  as  suas 
sobretudo social; um legado que nos indica  políticas venham a ser. Em relação a  estas 
que os problemas raciais que têm marcado  ainda pouco se sabe. Contudo, a nomeação 
a  sociedade  norte‐americana  ao  longo  das  de Hillary Clinton para Secretária de Estado 

  Página | 52 
Especial Barack Obama 

vem  dar  aos  EUA  uma  extraordinária  tentará  fazer  a  economia  norte‐americana 
combinação  de  carisma  e  experiência.  descolar. 
Barack Obama como ídolo em boa parte do 
mundo (assim o diziam as sondagens antes  Iraque.  Barack  Obama  usou  na  sua 
das  eleições),  Hillary  Clinton  como  campanha  o  fato  de  ter  votado  contra  a 
experiente,  carismática  e  intervenção  dos  EUA  (ao  contrário  de 
internacionalmente  influente  (também  todos  os  seus  adversários  democratas  nas 
através  do  seu  marido,  Bill  Clinton)  primárias).  Além  do  mais,  insistiu   por 
Secretária  de  Estado,  e  o  Vice‐Presidente  várias  vezes  que,  caso  eleito,  tentaria 
Joe Bidden com décadas de experiência em  retirar  as  tropas  norte‐americanas  do 
política  externa  no  Capitólio  fazem  crer  Iraque  assim  que  possível.  Após  as 
que  os  EUA  levem  a  cabo  uma  política  eleições, os EUA assinaram um acordo com 
externa  mais  sensata  e  pensada  ao  que  o  Governo  iraquiano  no  qual  2011  é 
tem sido posta em prática nos últimos oito  apontado com data limite para tal retirada. 
anos. Oportunidades não faltam. Depois do  Será  interessante  saber  se  a  nova 
efeito  ‘elefante  em  loja  de  cristais’  que  a  Administração  não  tentará  antecipar  tal 
Administração Bush provocou nas relações  data.  Para  além  da  questão  da  retirada, 
internacionais,  a  nova  Administração  terá  não  é  claro  o  papel  que  Obama  pretende 
várias  questões  importantes  a  resolver,  ter no futuro do Iraque. Retirar sem deixar 
mesmo  antes  de  tentar  promover  a  sua  o  país  cair  no  caos  será  uma  das  mais 
própria agenda. Vejamos algumas:  difíceis tarefas do novo Presidente. 

Crise econômica e financeira. Visto os EUA  Afeganistão. Uma prioridade na luta contra 
estarem no epicentro da crise, Obama terá  o  terrorismo,  mesmo  para  Obama.  Como 
de  tentar  resolver  o  problema  interno  ao  tal,  é  de  prever  o  reforço  do  contingente 
mesmo  tempo  que  deverá  contribuir  para  norte‐americano  no  combate  aos  Talibans 
a  resolução  do  problema  a  nível  e  à  Al‐Qaida  nas  montanhas  do 
internacional.  Da  mesma  forma  que  Afeganistão.  Tal  será  provavelmente  uma 
Bretton  Woods  não  só  redefiniu  o  sistema  boa oportunidade para envolver os aliados 
financeiro  mundial,  mas  serviu  igualmente  da Aliança Atlântica  de forma mais directa 
para  consolidar  o  papel  dos  EUA  como  no  combate  ao  terrorismo,  visto  a  NATO 
grande potência no pós‐II Guerra Mundial,  ter  uma  presença  militar  significativa  na 
um  papel  ativo  de  Barack  Obama  na  região.  
eventual  institucionalização  de  um  novo  Irã. Obama tem sido ambíguo em relação a 
sistema  financeiro  internacional  será  a  este  tópico,  mostrando‐se,  por  um  lado, 
melhor  forma  de  este  garantir  um  lugar  favorável  ao  estabelecimento  de  um 
central  para  os  EUA  no  futuro  da  balança  diálogo  com  Teerã,  por  outro,  rejeitando 
de  poderes  internacional.  O  recente  por  completo  a  possibilidade  do  Irão 
relatório dos serviços de informação norte‐ desenvolver  um  programa  nuclear.  A 
americanos  onde  vaticinam  o  fim  dos  EUA  política  a  seguir  dependerá  tanto  da 
como  única  superpotência  mundial  até  abordagem  norte‐americana  como  dos 
2025  será  mais  um  incentivo  a  tal  desenvolvimentos  na  instável  realidade 
intervenção. Obama terá assim de garantir  política iraniana. 
uma  aterragem  suave  dos  EUA  enquanto 
superpotência,  ao  mesmo  tempo  que 

  Página | 53 
Especial Barack Obama 

Europa.  George  W.  Bush  é,  talvez,  o  potência  num  mundo  com  várias  outras 
Presidente  norte‐americano  mais  odiado  potências em crescente afirmação.  
na Europa dos últimos 100 anos. Como tal, 
qualquer Presidente que lhe sucedesse não  Em  2000,  quando  George  W.  Bush 
teria  de  fazer  muito  para  melhorar  a  ascendeu  ao  poder,  o  mundo  era 
imagem  dos  EUA  na  Europa.  Com  Barack  ‘globalizado’.  Falava‐se  em  governança 
Obama não só a imagem melhorará, como  global  e  a  regulação  desse  fenômeno 
os  europeus  terão  do  lado  de  lá  do  dominante de nome ‘globalização’ ocupava 
Atlântico  um  Presidente  que  adoram  (as  a  mente  de  acadêmicos,  analistas  e 
200.000  pessoas  que  assistiram  em  Berlim  políticos. Os EUA estavam no centro de um 
a  um  comício  de  Obama  são  disso  mundo cada vez menos estadual e cada vez 
exemplo).  Num  mundo  crescentemente  mais multi‐nível. 
multipolar,  Obama  perceberá  que  os  EUA  Nos últimos oito anos o mundo voltou a ser 
têm  mais  em  comum  com  a  Europa  que  internacional. A Administração Bush fez os 
com  qualquer  outra  região  do  mundo.  possíveis  para  afundar  o  sistema  pós‐
Assim  sendo,  é  de  prever  o  relançamento  Guerra  Fria  que  garantia  o  estatuto  de 
de  uma  relação  transatlântica  mais  superpotência global aos EUA: a economia 
igualitária e mais estável.  americana  deixou  de  ser  tão  importante 
A  estes  tópicos  poderíamos  juntar  a  para  o  mundo,  as  instituições 
relação com os vizinhos americanos, assim  internacionais  reforçadas  pelos  EUA  nos 
como  o  relacionamento  com  as  potências  anos  1990  foram  largamente  ignoradas  e 
emergentes,  com  destaque  para  a  Rússia.  em  alguns  casos  humilhadas  pela  corrente 
Voltar  a  um  relacionamento  baseado  nas  Administração,  o  eixo  transatlântico  ficou 
trocas  comerciais  e  não  no  discurso  fragilizado,  o  discurso  securitário  passou  a 
securitário  será  provavelmente  um  dos  dominar  a  agenda  internacional  com  a 
caminhos  a  seguir  pela  nova  Guerra Global contra o Terrorismo, e o soft 
Administração.  Cabe  a  Obama  conseguir  power norte‐americano,  pilar  do  seu 
um  balanço  entre  uma  política  externa  sucesso  no  mundo,  perdeu  significado  –  o 
baseada  na  economia  e  a  resolução  dos  mundo  passou  a  querer  ser  menos  como 
problemas  econômicos  internos,  sem  cair  os Estados Unidos da América. 
em discursos protecionistas.   Garantir o regresso do ‘global’ será assim o 
  grande  desafio  de  Obama.  Um  global 
menos  americano  e  mais  multipolar,  em 
O mundo com Obama  que  empresas  norte‐americanas  falam  de 
igual  para  igual  com  empresas  chinesas  e 
Ao  contrário  do  que  tem  sucedido  nas  indianas;  em  que  Hollywood  e  Bollywood 
últimas  décadas,  Obama  tomará  o  seu  têm  praticamente  o  mesmo  impacto 
lugar  de  Presidente  dos  EUA  não  mais  global.  George  W.  Bush  deixou  escapar  a 
como  líder  da  indiscutível  superpotência  liderança  incondicional  do  mundo;  cabe  a 
mundial,  mas  como  líder  de  uma  grande  Obama garantir a sua liderança consensual. 

  Página | 54 
Especial Barack Obama 

 
 
 
 
 
 
 
 
Parte II 
Os  desafios  de  Barack 
Obama 

  Página | 55 
Especial Barack Obama 

Os desafios de segurança e defesa dos Estados Unidos após George W. Bush 

Alessandro Shimabukuro 

Em  janeiro  de  2007  o  presidente  Estados  Unidos  no  Iraque,  Ryan  Crocker, 
americano  George  W.  Bush  ordenou  um  implementaram  a  nova  estratégia 
reforço  de  tropas  no  Iraque,  conhecida  americana  ordenada  por  Bush,  obtendo 
como  o  “surge”.  Bush  tinha  perdido  a  lento, mas claro progresso na estabilização 
maioria  republicana  no  Congresso  nas  do país46. 
eleições legislativas em novembro de 2006 
e,  contra  a  opinião  geral  do  país  e  de  Barack  Obama  se  destacou  entre  os 
muitos  políticos  democratas  e  candidatos  por  afirmar  que  era  contrário 
republicanos,  ordenou  mais  30  mil  tropas  ao  envolvimento  americano  no  Iraque 
ao  Iraque.  O  objetivo  era  reverter  o  caos  desde  o  início  e  que  não  teria  votado  a 
no país, que tinha se agravado ao longo de  favor  da  invasão,  criticou  a  iniciativa  do 
2006,  com  uma  nova  estratégia  militar,  governo  Bush  de  enviar  mais  tropas  ao 
diplomática  e  econômica44.  No  mesmo  Iraque  no  início  de  2007, afirmando  que  o 
mês,  Hillary  Clinton  confirmou  que  iria  Iraque  era  uma  distração  e  que  o  país 
concorrer  à  presidência  americana,  deveria focar a “guerra contra o terror” no 
iniciando  um  dos  períodos  mais  longos  de  Afeganistão.  Obama  prometia  que,  caso 
campanha  pela  Casa  Branca  nos  Estados  fosse  eleito,  ordenaria  a  retirada  imediata 
Unidos45.  das  tropas  americanas  do  Iraque  em  16 
meses.  Esse  discurso  apelava  à  base  do 
Ao  longo  de  2007  o  Iraque  foi  o  principal  partido  Democrata  que  estava  cansada 
tema de política externa debatido entre os  com  a  guerra  no  Iraque  e  com  o  governo 
potenciais  candidatos  à  presidência,  tanto  Bush47. 
democratas  quanto  republicanos,  e 
analistas  afirmavam  que  seria  o  principal  O  principal  assunto  político  do  primeiro 
tema  da  eleição  presidencial  no  ano  semestre  de  2008  foi  a  disputa  entre 
seguinte  já  que  era  o  maior  e  mais  Hillary  Clinton,  e  Barack  Obama  pela 
controverso  legado  do  governo  Bush.  O                                                              
general David Petraeus e o embaixador dos 
46
 MILES,  Donna.  “Petraeus:  Surge  in  Iraq 
                                                             Works;  Reductions  Could  Begin  by  Summer 
2008” American Forces Press Service. 10 de 
44
 ABRAMOWITZ,  Michael,  WRIGHT,  Robin.  setembro  de  2007.  Disponível  em: 
“Bush  to  Add  21,500  Troops  In  an  Effort  to  http://www.defenselink.mil/news/newsartic
Stabilize  Iraq”.  The  Washington  Post.  le.aspx?id=47384  ;  BIDDLE,  Stephen, 
Washington,  D.C.  11  de  janeiro  de  2007.  p.  O’HANLON,  Michael  E.,  POLLACK,  Kenneth 
A1;  President’s  Address  to  the  Nation.  The  M.  “How  to  Leave  a  Stable  Iraq”.  Foreign 
White House. President George W. Bush. 10  Affairs,  September/October  2008. 
de  janeiro  de  2007.  Disponível  em  Disponível  em: 
http://www.whitehouse.gov/news/releases/ http://www.foreignaffairs.org/20080901faes
2007/01/20070110‐7.html  say87503/stephen‐biddle‐michael‐e‐o‐
45
   BALZ,  Dan.  “Hillary  Clinton  Opens  hanlon‐kenneth‐m‐pollack/how‐to‐leave‐a‐
Presidential  Bid;  The  Former  First  Lady  stable‐iraq.html 
47
Enters the Race as the Front‐Runner for the     Em  2003,  Barack  Obama  ainda  não  era 
Democratic  Nomination”.  The  Washington  membro  do  Senado;  THE  ECONOMIST. 
Post.  Washington,  D.C.  21  de  janeiro  de  “Which  war?”  U.S.  Election  2008,  4  de 
2007. p. A1.  outubro de 2008. p. 7. 

  Página | 56 
Especial Barack Obama 

nomeação  do  partido  Democrata  à  presidente  americano  eleito  e  das 


Presidência.  Após  garantir  a  nomeação,  lideranças  mundiais,  o  cenário  de 
Obama  modificou  seu  discurso  anti‐guerra  segurança  internacional  ainda  demanda 
e  ajustou  suas  declarações  para  uma  atenção.  Obama  herda  de  Bush  diversos 
posição mais moderada na campanha geral  desafios de segurança e defesa. 
contra  o  republicano  John  McCain.  Suas 
declarações  de  que  retiraria  todas  as  Desde  o  fim  da  Guerra  Fria,  no  início  da 
tropas  americanas  dentro  de  16  meses  década de 1990, a configuração do sistema 
foram ajustadas, afirmando que a situação  internacional  é  debatida.  Os  anos  noventa 
no  Iraque  teria  que  ser  considerada  antes  teriam  sido  o  “momento  unipolar”  dos 
de adotar qualquer plano de retirada.  Estados  Unidos,  mas  não  houve  (nem  há 
até  hoje)  consenso  se  o  poder  americano 
Obama  também  destacou  a  necessidade  era  “hegemônico”  a  ponto  de  definir  o 
dos Estados Unidos recuperarem seu papel  mundo  como  “unipolar”.  Após  os  ataques 
de  liderança  para  facilitar  a  resolução  de  terroristas de 11 de setembro, a guerra no 
eventuais  problemas  com  amplo  apoio  de  Afeganistão em 2001, e a invasão do Iraque 
países  aliados  e  da  comunidade  em  2003,  o  poder  dos  EUA  foi  debatido 
internacional.  Um  foco  maior  em  “soft  mais  intensamente,  surgindo 
power”  seria  tão  importante  quanto  o  questionamentos  sobre  se  esse  poder 
“hard  power”  para  defender  interesses  ainda  era  o  mesmo,  tendo  em  vista  as 
americanos48.  dificuldades  em  articular  uma  coalizão 
internacional  e  apoio  para  a  invasão  do 
No  último  mês  de  campanha,  em  outubro  Iraque,  e,  posteriormente,  sobre  sua 
de  2008,  a  crise  financeira  dominou  a  capacidade  de  estabilizar  o  país49.  A  crise 
atenção  do  país  e  do  mundo,  e  a  econômica  que  foi  deflagrada  no  segundo 
perspectiva  de  uma  recessão  econômica  semestre de 2008 gera ainda mais debates 
aguda  nos  Estados  Unidos  mudou  o  foco  e dúvidas sobre o poder americano. 
dos debates da campanha presidencial. 
Apesar dessas discussões, há um consenso 
Barack Obama derrotou o republicano John  de  que  o  poder  militar  americano  é 
McCain  em  novembro  de  2008  e  assumirá  incontestável.  Com  gastos  militares 
a  presidência  dos  Estados  Unidos  em  equivalentes  a  quase  metade  do  gasto 
janeiro de 2009 mais preocupado com uma  mundial  (48%  em  2008),  uma  força  militar 
crise  financeira,  e  não  com  os  detalhes  de  moderna  com  capacidade  de  projeção  de 
uma  retirada  americana  do  Iraque.  Seu  poder  em  qualquer  parte  do  globo  (única 
principal  desafio  inicial  será  econômico,  e  no mundo),  os EUA  continuam sendo  uma 
não  militar,  de  segurança.  Há  um  ano, 
poucos  analistas  teriam  previsto  esse 
                                                            
cenário. 
49
 LAYNE,  Christopher.  “The  Unipolar  Illusion: 
Apesar  da  crise  econômica  nos  Estados 
Why  New  Great  Powers  Will  Rise”. 
Unidos  estar  dominando  a  atenção  do  International  Security,  Cambridge,  MA,  MIT 
Press,  v.  17,  n.  4,  Spring  1993.  p.  5‐51; 
                                                             MASTANDUNO,  Michael.  “Preserving  the 
Unipolar Moment: Realist Theories and U.S. 
48
OBAMA,  Barack.  “Renewing  American  Grand  Strategy  after  the  Cold  War”. 
Leadership”.  Foreign  Affairs.  July/August  International  Security,  Cambridge,  MA,  MIT 
2007.  Press, v. 21, n. 4, Spring 1997. p. 49‐88. 

  Página | 57 
Especial Barack Obama 

superpotência  militar  sem  rival50.  Barack  no  dia  20  de  setembro,  Bush  detalhou  as 
Obama  será  o  comandante  em  chefe  da  ações  dos  Estados  Unidos  no  novo 
mais  capacitada  e  bem  equipada  força  contexto: 
militar  no  mundo,  e  esse  poder  ainda  é 
relevante  para  lidar  com  questões  “Our  response  involves  far  more  than 
tradicionais  de  segurança  que  instant  retaliation  and  isolated  strikes. 
permanecem, mesmo que o foco atual dos  Americans  should  not  expect  one  battle, 
Estados  Unidos  sejam  as  ameaças  do  but  a  lengthy  campaign,  unlike  any  other 
fundamentalismo islâmico e do terrorismo.  we have ever seen. It may include dramatic 
strikes,  visible  on  TV,  and  covert 
Como  Obama  preservará  a  superioridade  operations, secret even in success. We will 
militar  americana  depende  de  um  starve terrorists of funding, turn them one 
equilíbrio  entre  investimentos  e  against  another,  drive  them  from  place  to 
capacitação  para  lidar  com  as  novas  place,  until  there  is  no  refuge  or  no  rest. 
ameaças (terrorismo, “guerra assimétrica”)  And we will pursue nations that provide aid 
e  a  preservação  das  capacidades  or safe haven to terrorism. Every nation, in 
convencionais  para  lidar  com  desafios  every  region,  now  has  a  decision  to  make. 
“tradicionais”  (possíveis  guerras  entre  Either you are with us, or you are with the 
Estados).  Para  estruturar  as  forças  de  terrorists.  From  this  day  forward,  any 
segurança  e  defesa  dos  Estados  Unidos,  nation that continues to harbor or support 
Obama  terá  que  lidar  com  a  realidade  de  terrorism  will  be  regarded  by  the  United 
segurança  deixada  por  Bush:  a  “guerra  States as a hostile regime.52 
contra  o  terror”,  sendo  o  Afeganistão  e 
Iraque  os  dois  principais  campos  de 
                                                                                 
batalha,  e  os  desafios  de  potências  rivais 
em diversas regiões estratégicas.  Nation. The White House. President George 
W. Bush. 15 de setembro de 2001. 
52 
Após  os  atentados  de  11  de  setembro  de   Nossa  resposta  compreende  mais  do  que 
2001,  o  Presidente  Bush  afirmou  que  a  retaliações  instantâneas  e  ataques  isolados. 
Americanos não devem esperar apenas uma 
“guerra contra o terror” seria um novo tipo 
batalha,  mas  sim  uma  campanha  longa, 
de guerra, diferente das anteriores, onde a  diferente  de  tudo  que  já  presenciamos. 
vitória não seria definida em uma batalha e  Poderá incluir ataques dramáticos, vistos na 
não  haveria  cerimônias  de  rendição  pelo  TV, e operações secretas, bem sucedidas em 
segredo.  Iremos  debilitar  o  financiamento 
adversário51. Em um discurso ao Congresso  de  terroristas,  colocar  um  contra  o  outro, 
                                                             expulsá‐los  de  local  em  local  até  que  não 
haja  mais  refúgio  nem  descanso.  E  nós 
50
 HELLMAN,  Christopher,  SHARP,  Travis.  iremos  punir  nações  que  providenciarem 
“Fiscal  Year  2009  Pentagon  Spending  ajuda e refúgio à terroristas. Cada nação, em 
Request  Briefing  Book”.  Center  for  Arms  todas as regiões, têm uma decisão a tomar. 
Control  and  Non‐Proliferation.  Washington,  Ou  estão  com  nós,  ou  estão  com  os 
D.C. fevereiro de 2008. p. 16. Disponível em:  terroristas.  Desse  dia  em  diante,  qualquer 
http://www.armscontrolcenter.org/policy/s nação  que  continuar  a  abrigar  ou  apoiar 
ecurityspending/articles/fy09_dod_request/  terrorismo  será  considerada  pelos  Estados 
;  POSEN,  Barry  R.  Command  of  the  Unidos  como  um  regime  hostil.  (Tradução 
Commons:  The  Military  Foundation  of  U.S.  do  autor)  Address  to  a  Joint  Session  of 
Hegemony.  International  Security,  Congress  and  the  American  People.  The 
Cambridge,  MA,  MIT  Press,  v.  28,  n.  1,  White  House.  President  George  W.  Bush. 
Summer 2003. p. 7.  United States  Capitol,  Washington,  D.C.  20 
51
Radio  Address  of  the  President  to  the  de setembro de 2001.

  Página | 58 
Especial Barack Obama 

Após  os  ataques,  os  Estados  Unidos  Após  a  derrubada  do  regime    no 
demandaram  do  regime  Talibã  no  Afeganistão,  os  Estados  Unidos  voltaram 
Afeganistão  que  abandonassem  sua  atenção  ao  Oriente  Médio.  Muitos 
imediatamente  seu  apoio  à  Al  Qaeda,  críticos afirmavam que as causas do 11 de 
desmontando  todos  os  acampamentos  de  setembro  se  deviam  às  políticas  do  país 
treinamento  de  grupos  terroristas,  e  que  para  a  região,  como  o  embargo  da  ONU 
entregassem bin Laden e os demais líderes  contra  o  Iraque  ao  longo  da  década  de 
e integrantes da Al Qaeda53. Em outubro de  1990 após a Guerra do Kuwait, e o apoio a 
2001  os  Estados  Unidos  iniciaram  Israel  em  detrimento  aos  palestinos. 
operações  militares  contra  a  Al  Qaeda  e  o   Alguns  integrantes  do  governo  Bush 
após  o  regime  recusar  as  exigências  consideravam  o  status  quo  na  região  um 
americanas. O objetivo dos Estados Unidos  dos  fatores  que  geraram  os  atentados  de 
era eliminar os acampamentos terroristas e  11  de  setembro,  principalmente  as 
a  rede  Al  Qaeda  e  também  derrubar  o  condições  político‐sociais  de  muitos 
regime  ,  ou  seja,  promover  uma  mudança  Estados  da  região  em  que  ideologias 
de  regime  (regime  change)  no  país.  A  islâmicas  radicais  prosperavam.  O  apoio 
preocupação  com  Estados  falidos  como  americano  a  regimes  árabes  não 
zonas  sem  lei  que  podiam  abrigar  democráticos,  em  troca  de  petróleo  e 
terroristas,  e  o  reconhecimento  da  estabilidade,  gerava  descontentamento 
necessidade  no  novo  contexto  de  entre setores das populações locais por ser 
“construir  nações”  (nation  building)  pelo  entendido  como,  no  mínimo,  incompatível 
governo  Bush  demonstrou  a  mudança  de  com  os  valores  pregados  pelos  Estados 
atitude  em  relação  à  visão  inicial  do  Unidos, mas em geral como hipócritas55. 
Presidente  Bush  sobre  a  política  externa 
dos Estados Unidos defendida durante sua  Alguns analistas criticavam a definição vaga 
campanha presidencial em 2000.  do governo dos Estados Unidos da ameaça 
como  apenas  “terror”  ou  “terrorismo”, 
Em dezembro de 2001, os Estados Unidos,  termos  que  designam  apenas  um  método 
juntamente  com  a  OTAN  e  alguns  outros  ou tática de ação.Para eles, a nova ameaça 
países  aliados  (como  a  Austrália),  se  apresentava  como  um  movimento 
derrubaram  o  regime    no  Afeganistão  e  global, que ignorava fronteiras, limitando a 
instalaram um governo provisório por meio  eficácia  das  ações  de  qualquer  governo, 
do  Acordo  de  Bonn,  estabelecido  em  uma  mesmo  os  Estados  Unidos.  Apontavam 
conferência  das  Nações  Unidas.  O  ataque  também que a Arábia Saudita era uma das 
ao  Afeganistão  para  destruir  a  Al  Qaeda  e  fontes  principais  do  radicalismo  islâmico, 
remover  o    teve  apoio  internacional  e  devido  ao  incentivo  desse  país  ao 
doméstico  e  foi  considerado  uma  ação 
defensiva por parte dos Estados Unidos54.                                                                                   

in Afghanistan”. Strategic Studies Institute of 
                                                             the  U.S.  Army  War  College.  Outubro  de 
2007. 
53 55
UNITED  STATES  OF  AMERICA.  National     WALDMAN,  Peter,  GLAIN,  Stephen  J., 
Commission  on  Terrorist  Attacks  upon  the  GREENBERGER,  Robert  S.,  POPE,  Hugh,  and 
United States. The 9/11 Commission Report.  LeVINE,  Steve.  “America  in  the  Eyes  of  the 
p. 64.  Arab  World:  A  Complex  Mix  of  Emotions 
54 
 YOUNG,  Dennis  O.  “Overcoming  the  Fuels Hate”. THE WALL STREET JOURNAL. 14 
obstacles  to establishing  a  democratic  state  de setembro de 2001. 

  Página | 59 
Especial Barack Obama 

wahabismo,  uma  interpretação  mais  chamou  de  “Eixo  do  Mal”  (Iraque,  Irã  e 
radical do Islã56.  Coréia  do  Norte)58,  o  Presidente  Bush 
destacou  o  regime  de  Saddam  Hussein  no 
O  problema,  portanto,  seriam  os  radicais  Iraque.  O  continuado  desrespeito  de 
islâmicos;  a  “guerra  contra  o  terror”  Hussein  às  resoluções  do  Conselho  de 
liderada  pelos  Estados  Unidos  seria  mais  Segurança  da  ONU,  seu  histórico  de 
bem  definida  como  uma  guerra  contra  o  guerras  contra  países  vizinhos,  de  ataques 
radicalismo,  ou  “fascismo”,  islâmico:  contra  a  própria  população  iraquiana  e  o 
movimentos  de  inspiração  islâmica  que  aparente desejo, e capacidade, de retomar 
rejeitam  políticas  ocidentais,  a  programas  de  desenvolvimento  de  armas 
57
modernidade e tolerância religiosa .  de  destruição  em  massa,  foram 
O  governo  Bush  implementou  mudanças  considerados  por  Bush  como  uma  ameaça 
domésticas  para  evitar  outro  ataque  preocupante  à  segurança  do  Oriente 
terrorista  na  escala  do  11  de  setembro.  O  Médio e dos Estados Unidos no mundo pós 
“Department  of  Homeland  Security”  (o  11 de setembro. 
equivalente  a  um  ministério)  foi  criado  Ao  longo  de  2002,  preocupações  de 
para cuidar da segurança interna do país, o  segurança  estabelecidas  na  década  de 
USA  PATRIOT  Act  (Uniting  and  1990,  como  o  combate  à  proliferação  de 
Strengthening  America  by  Providing  armas de destruição em massa e a ameaça 
Appropriate  Tools  Required  to  Intercept  de  “Estados  párias”,  eram  consideradas 
and  Obstruct  Terrorism),  um  conjunto  de  junto  com  a  ameaça  do  terrorismo 
leis  para  combater  o  terrorismo,  foi  patrocinado  por  radicais  islâmicos.  Devido 
aprovado  pelo  Congresso,  e  reformas  à  vulnerabilidade  demonstrada  à  um 
foram  feitas  para  facilitar  a  troca  de  ataque  terrorista  em  2001,  surgia  a 
informação e cooperação entre as diversas  preocupação  americana  de  que  países 
agências  e  órgãos  de  inteligência  do  hostis  aos  Estados  Unidos  se  alinhassem  a 
governo (FBI, CIA).  grupos  terroristas  islâmicos,  e  que 
Em  seu  discurso  sobre  o  estado  da  União  desenvolvessem  e  entregassem  armas  de 
de  2002,  ao  analisar  os  países  do  que  destruição  em  massa  a  estes  grupos  para 
atacarem os Estados Unidos. 
                                                            
56
Apesar  de  Saddam  Hussein  e  seu  regime 
 FUKUYAMA,  Francis.  “Esta  não  é  uma 
guerra  só  contra  o  terrorismo”.  O  ESTADO 
não  terem  tido  nenhuma  ligação  com  os 
DE  S.  PAULO.  16  de  dezembro  de  2001;  responsáveis  pelos  atentados  de  11  de 
SONTAG,  Susan.  At  the  Same  Time:  Essays  setembro (Osama bin Laden e a Al‐Qaeda), 
and  Speeches.  New  York:  Farrar  Staruss  muito  menos  serem  um  governo  de 
Giroux,  2007;  VIDAL,  Gore.  Sonhando  a 
Guerra. Rio: Nova Fronteira, 2003; HOGE Jr,  ideologia  islâmica  radical,  a  mudança  de 
James,  ROSE,  Giddeon  (eds).  How  Did  This                                                              
Happen?  Terrorism  and  the  New  War.  New 
58
York: Public Affairs, 2001.      Denominados  pelos  Estados  Unidos  ao 
57
   McCARTHY,  Andrew  C.  The  Great  War  on  longo  da  década  de  1990  como  os  “rogue 
Militant  Islam.  The  American  Spectator;  states”  ou  “Estados  párias”;  The  White 
Jul/Aug  2004;  37,  6.;  MELLOAN,  George.  House.  “The  President's  State  of  the  Union 
America's  Problem  Is  Jihadists,  Not  the  Address”. George W. Bush. 29 de janeiro de 
Whole of Islam. Wall Street Journal. (Eastern  2002.  Disponível  em: 
edition). New York, N.Y. 26 de novembro de  http://www.whitehouse.gov/news/releases/
2002.  p. A25.  2002/01/20020129‐11.html 

  Página | 60 
Especial Barack Obama 

regime  no  Iraque  era  vista  pelo  governo  Agreement”)  que  define  o  papel  e  tempo 
Bush  como  um  passo  fundamental  para  de  permanência  das  tropas  americanas  no 
confrontar  e  derrotar  o  radicalismo  país.  Entretanto,  ainda  há  muitas 
islâmico na região.  incertezas  sobre  a  duração  dessa 
estabilidade,  e  da  permanência  desses 
Removendo  Saddam  Hussein  do  poder,  os  ganhos59. 
Estados Unidos não apenas eliminariam um 
regime hostil, mas ajudariam a instalar um  Obama  terá  que  tomar  decisões  que 
regime  democrático  e  aliado  no  centro  do  determinarão  a  preservação  dos  ganhos 
Oriente  Médio.  Tal  regime  serviria  como  obtidos  no  Iraque  até  o  momento,  e  que 
inspiração para as populações da região ao  conduzam a um cenário mais favorável aos 
apontar  outro  caminho,  contrário  ao  do  Estados  Unidos:  a  longo  prazo,  um  Iraque 
radicalismo  islâmico  e  alternativo  aos  estável  e  um  aliado  confiável,  cooperando 
regimes  opressivos  vigentes  em  muitos  na  defesa  de  interesses  americanos  na 
países  do  Oriente  Médio.  A  mudança  de  região. 
regime  no  Iraque  permitiria  também  aos 
Estados  Unidos  pressionar  por  mudanças  Ao  mesmo  tempo  que  a  mudança  do 
nos  regimes  vizinhos  aliados,  que  também  equilíbrio  estratégico  no  Oriente  Médio 
incentivam  ideologias  islâmicas  radicais  eliminou a ameaça à estabilidade da região 
(como a Arábia Saudita).  (o  regime  de  Saddam  Hussein),  permitiu 
que  outra  potência  regional  hostil  aos 
Ao derrubar o regime de Saddam Hussein,  Estados  Unidos  se  fortalecesse,  o  Irã.  Sem 
os  Estados  Unidos  eliminaram  um  dos  um  Iraque  sob  o  comando  de  Saddam 
Estados  do  “eixo  do  mal”  e  se  Hussein,  disputando  a  influência  na  região 
estabeleceram  mais  firmemente  como  um  e  equilibrando  seu  poder,  o  Irã  têm  se 
poder  central  no  equilíbrio  de  poder  do  afirmado na região nos últimos anos60. 
Oriente Médio. A estabilização do país não 
ocorreu  no  tempo  previsto,  muito  menos  O  apoio  do  Irã  a  grupos  radicais,  como  o 
da  forma  como  os  planejadores  Hezbollah, Hamas, e forças xiitas no Iraque 
americanos tinham esperado. Ex‐membros  (liderados por Moqtada Al‐Sadr) contrários 
do partido Baath iniciaram uma guerrilha, a  ao  governo  iraquiano  e  à  presença 
Al‐Qaeda  no  Iraque,  liderada  por  Abu  americana  no  Iraque,  juntamente  com  o 
Musab  Al‐Zarqawi,  realizava  atentados,  e  desenvolvimento  de  um  programa  nuclear 
com  o  ataque  à  Mesquita  al‐Askari  em  não  transparente  (indícios  de  uma  busca 
2006,  deflagrou  um  conflito  étnico  entre                                                              
xiitas e sunitas iraquianos. 2006 foi o auge 
59
da  violência  do  conflito,  o  que  levou  o   BRUNO. Greg. “Beginning of Iraq Endgame” 
Council on Foreign Relations. December 10, 
presidente  Bush  a  ordenar  o  “surge”  para  2008.  Disponível  em: 
reverter a situação.  http://www.cfr.org/publication/17953/  ; 
SIMON,  Steven.  “The  Price  of  the  Surge”. 
Desde 2007 o Iraque tem sido estabilizado  Foreign  Affairs,  May/June  2008.  Disponível 
e  avanços  políticos  entre  as  comunidades  em: 
http://www.foreignaffairs.org/20080501faes
xiita,  sunita  e  curda  iraquiana  têm 
say87305/steven‐simon/the‐price‐of‐the‐
progredido.  Em  dezembro  de  2008  o  surge.html 
60 
governo  iraquiano  estabeleceu  um  acordo   FRIEDMAN,  George.  “Obama’s  Challenge”. 
com os Estados Unidos (o “Status of Forces  STRATFOR.  5  de  novembro  de  2008. 
Disponível em http://www.stratfor.com 

  Página | 61 
Especial Barack Obama 

por  armas  nucleares,  segundo  a  Estados Unidos, e gerando riscos de maior 


perspectiva  americana),  e  a  retórica  instabilidade  na  política  doméstica 
extremada  anti‐americana  e  anti‐Israel  de  paquistanesa. 
seus líderes, ameaça não só a estabilidade 
e interesses dos Estados Unidos no Oriente  As operações militares dos Estados Unidos 
Médio,  como  também  reafirma  a  tanto  no  Iraque  quanto  no  Afeganistão 
percepção americana de ameaça do país.  levaram  os  militares  americanos  a  realizar 
mudanças  em  suas  doutrinas  e  demandas 
Devido à essa postura de confronto do Irã,  de  equipamento.  Antes  preparadas  para 
surgem  tensões  nas  relações  dos  Estados  travar uma guerra contra a União Soviética, 
Unidos  com  seus  aliados  na  região,  as  forças  americanas  foram  modificadas 
principalmente  com  o  Iraque  (cujo  Irã  aos  poucos  durante  a  década  de  1990. 
busca evitar um alinhamento maior com os  Durante  o  governo  Bush,  o  secretário  de 
Estados  Unidos),  a  Arábia  Saudita  e  os  defesa  Donald  Rumsfeld  iniciou  reformas 
países  do  Golfo  Pérsico  (que  temem  uma  nas  forças  americanas  e,  após  o  11  de 
influência  maior  iraniana  e  ações  setembro,  conduziu  mudanças  para  um 
desestabilizadoras por parte desta), e Israel  foco maior em guerras “assimétricas”61. 
(alvo  dos  grupos  radicais  palestinos 
apoiados  pelo  Irã,  e  por  ameaças  diretas),  Alguns  analistas  apontam  que  as  forças 
quando  os  interesses  desses  países  militares  estão  desgastadas,  e  que  os 
divergem das dos Estados Unidos quando o  gastos  do  Pentágono  não  estão  sendo 
país pressiona por posturas mais agressivas  direcionados  para  programas  que 
contra o Irã.  ajudariam  a  vencer  as  atuais  guerras  e 
acelerariam  a  recuperação  e 
Outro  foco  da  “guerra  contra  o  terror”  reestruturação  das  forças.  Nos  próximos 
continua  sendo  o  Afeganistão,  onde  os  anos,  o  presidente  Obama  terá  o  desafio 
Estados  Unidos  e  aliados  europeus  da  de  continuar  o  desenvolvimento  das 
OTAN  tentam  estabelecer  a  paz.  A  Al‐ capacidades  novas  requeridas  para  vencer 
Qaeda  e  o  ,  praticamente  derrotados  em  a “guerra contra o terror”, mas ao mesmo 
2001, continuam ativos, tendo fugido para  tempo preservando a superioridade militar 
o  Paquistão,  se  reorganizado  e  se  dos  Estados  Unidos,  e  continuando  a 
fortalecido  ao  longo  da  faixa  de  fronteira.  desenvolver  sistemas  e  equipamentos 
Antes  considerado  um  conflito  sob  adequados  para  lidar  com  desafios 
controle,  a  guerra  no  Afeganistão  está  se  advindos de potências rivais futuras62. 
tornando mais intensa devido à ataques de 
grupos  vindos do Paquistão.                                                              
61
Nos últimos meses, os Estados Unidos têm   RUMSFELD,  Donald.  “Transforming  the 
Military”.  Foreign  Affairs,  New  York, 
conduzido  ataques  em  solo  paquistanês 
May/June 2002. v. 81, n. 3. p. 20. 
contra  acampamentos  do    e  Al‐Qaeda,  62
   CENTER  FOR  DEFENSE  INFORMATION. 
gerando  maior  tensão  na  parceria  Estados  “America’s  Defense  Meltdown”. 
Unidos‐Paquistão.  Parte  da  população  e  Washington,  D.C.  Novembro  2008. 
Disponível  em: 
setores  do  governo  paquistanês 
http://www.cdi.org/pdfs/AmericasDefense
simpatizam  com  o    e  radicais  islâmicos,  MeltdownFullText.pdf ; GATES, Robert M. “A 
complicando  o  relacionamento  de  Balanced  Strategy:  Reprogramming  the 
cooperação  anti‐terror  deste  país  com  os  Pentagon  for  a  New  Age”.  Foreign  Affairs, 
January/February  2009.  Disponível  em:

  Página | 62 
Especial Barack Obama 

Os  atentados  terroristas  em  Mumbai,  na  tecnologia  de  mísseis  balísticos  lideradas 
Índia,  no  final  de  novembro  de  2008  pelos Estados Unidos. 
agravam  as  relações  entre  Paquistão  e 
Índia,  tornando  essa  região  central  da  Há  rumores  de  uma  possível  transição  na 
“guerra contra o terror” em uma das mais  Coréia  do  Norte  devido  a  supostos 
voláteis, com a possibilidade de um guerra  problemas  de  saúde  de  seu  líder  errático, 
entre  dois  países  com  um  histórico  de  Kim  Jong  Il,  o  que  poderia  gerar  maior 
guerras recentes e armamentos nucleares.  instabilidade na região devido à incertezas 
Essa  situação  demonstra  que  a  sobre a nova configuração da liderança do 
possibilidade  de  guerras  inter‐estatais  regime,  e o risco de  que refugiados norte‐
ainda  está  presente,  apesar  da  coreanos  tentem  cruzar  a  fronteira  com  a 
preocupação com o terrorismo.  China  e  Coréia  do  Sul  em  caso  de  uma 
agravamento  da  situação  interna  advinda 
Uma  das  maneiras  de  contrabalancear,  ou  dessa transição64. 
no  mínimo  restringir,  o  poder  militar 
convencional  dos  Estados  Unidos,  ou  pior,  Qualquer  solução  dos  desafios 
realizar  um  ataque  terrorista  mais  apresentados  pela  Coréia  do  Norte 
impactante que o 11 de setembro, é o uso  depende  de  ações  da  China.  Durante  a 
de armas de destruição em massa. Por isso  década  de  1990  a  China  surgiu  como  a 
os Estados Unidos concentram esforços em  nova  potência  rival  dos  Estados  Unidos  e 
limitar  o  desenvolvimento  e  a  proliferação  nos  últimos  anos,  o  governo  chinês  têm 
desse tipo de armamento, seja químico ou  aumentado  seus  gastos  militares, 
biológico,  mas  principalmente  nuclear,  modernizando  suas  forças  militares,  e  aos 
entre Estados hostis63.  poucos desenvolvendo uma capacidade de 
projeção  de  força.  O  investimento  militar 
Portanto  um  desafio  constante  desde  a  da China afeta os cálculos de equilíbrio de 
década  de  1990  é  o  programa  nuclear  da  poder das demais potências da Ásia, como 
Coréia  do  Norte.  O  regime  norte‐coreano  Japão,  Índia  e  Austrália,  e  os 
continua  sendo  um  risco  à  estabilidade  da  comprometimentos  de  segurança  dos 
Ásia,  ameaçando  a  Coréia  do  Sul  e  Japão  Estados  Unidos  na  região,  principalmente 
com  testes  de  mísseis  de  longo  alcance,  e  em relação à Taiwan. 
ações  que  desafiam  as  iniciativas  de  não 
proliferação  nuclear  e  proliferação  de  Mesmo  sendo  um  dos  principais  parceiros 
econômicos  dos  Estados  Unidos,  o  dilema 
                                                                                  entre  confronto  e  cooperação  se  torna 
http://www.foreignaffairs.org/20090101faes mais  freqüente  na  medida  em  que  mais 
say88103/robert‐m‐gates/a  interesses  americanos  e  chineses  entram 
63
   The  White  House.  “National  Strategy  to  em  choque.  A  crise  econômica  de  2008 
Combat  Weapons  of  Mass  Destruction” 
pode  forçar  ambos  os  países  a 
Washington,  D.C.  Dezembro  de  2002. 
Disponível  em:  coordenarem  melhor  suas  políticas,  mas 
http://www.whitehouse.gov/news/releases/                                                             
2002/12/WMDStrategy.pdf ; The Joint Chiefs 
64 
of  Staff.  “National  Military  Strategy  to   CNN.  “Missing  Kim  Jong  Il  raises  health 
Combat  Weapons  of  Mass  Destruction”.  questions”.  10  de  setembro  de  2008. 
Washington,  D.C.  13  de  fevereiro  de  2006.  Disponível  em: 
Disponível  em:  http://edition.cnn.com/2008/WORLD/asiapc
http://www.defenselink.mil/pdf/NMS‐ f/09/09/north.korea.60th.anniversary/?iref=
CWMD2006.pdf  mpstoryview 

  Página | 63 
Especial Barack Obama 

diferenças  de  interesses  quanto  à  Taiwan,  exercícios  navais  no  Caribe,  a  intenção  de 
Coréia  do  Norte,  e  cooperação  com  deslocar mísseis para Kaliningrad, segundo 
regimes  considerados  por  Washington  alguns  analistas,  não  indica  uma  “nova 
como  não  democráticos  e  guerra  fria”,  já  que  a  Rússia  não  têm  uma 
desestabilizadores em regiões estratégicas,  economia que sustentaria uma competição 
continuará  a  gerar  tensões  entre  os  dois  direta  com  os  Estados  Unidos,  mas  ações 
países  e  Obama  terá  que  lidar  com  os  que  seriam  usadas  como  moeda  de  troca 
dilemas da ascensão deste país65.  em negociações com os Estados Unidos em  
outros  temas  de  seu  interesse,  por 
A  criação  de  um  novo  comando  militar  exemplo,  a  não  inclusão  da  Geórgia  e 
americano  em  2007  focado  na  África  visa  Ucrânia na OTAN.67 
lidar  com  ameaças  específicas  do 
radicalismo  islâmico  e  terrorismo  na  A  expansão  da  OTAN  desde  o  final  da 
região,  dentre  outros  interesses  comuns  Guerra Fria é considerada pela Rússia uma 
dos  Estados  Unidos  com  os  países  ameaça  aos  seus  interesses  nos  países  de 
africanos.  Mas,  segundo  alguns  analistas,  seu  entorno,  principalmente  no  Leste 
também  seria  uma  forma  de  preparar  Europeu. Os acordos de cooperação militar 
contra  quaisquer  problemas  advindos  da  dos  Estados  Unidos  com  países  da  Ásia 
atuação  mais  intensa  da  China  no  Central,  estabelecidos  após  o  11  de 
continente,  tendo  em  vista  a  crescente  setembro  para  conduzir  operações  no 
presença deste país na região por busca de  Afeganistão,  também  são  vistos  com 
petróleo e recursos naturais, e seu apoio a  desconfiança por Moscou. 
regimes não democráticos, como o Sudão e 
Zimbábue66.                                                              
67
   REUTERS.  “Russia  sends  12  bombers  to 
Outra potência em ascensão que desafiará 
Atlantic,  Arctic”.  1  de  fevereiro  de  2008. 
os  Estados  Unidos  é  a  Rússia.  Sob  a  Disponível  em: 
liderança  de  Vladmir  Putin,  e  de  seu  http://www.reuters.com/article/worldNews
sucessor,  Dmitri  Medvedev,  a  Rússia  /idUSL0114852720080201  ;  FOXNEWS.COM 
“Venezuela,  Russia  to  start  naval  exercises 
ressurgiu  em  anos  recentes  e  busca  de 
Monday”.  29  de  novembro  de  2008. 
retomar  seu  lugar  como  uma  potência  Disponível  em 
central no cenário internacional.  http://www.foxnews.com/wires/2008Nov29
/0,4670,LTVenezuelaRussiaNavy,00.html  ; 
Algumas  iniciativas  militares  russas  CNN.  “Russia  slams  U.S.,  threatens  missile 
recentes,  como  a  volta  de  bombardeiros  deployment”.  5  de  novembro  de  2008. 
Disponível  em: 
russos  patrulhando  o  norte  do  Atlântico,  http://edition.cnn.com/2008/WORLD/europ
e/11/05/russia.missiles/index.html  ;  CNN. 
                                                             “Expert:  Russia‐Venezuela  military  exercises 
reaction to U.S. moves”. 25 de setembro de 
65
 KISSINGER,  Henry  A.  “The  Three  2008.  Disponível  em: 
Revolutions”.  The  Washington  Post,  http://edition.cnn.com/2008/WORLD/ameri
Washington, D.C. 7 de abril de 2008. p. A17;  cas/09/25/russia.venezuela/index.html  ; 
KEATING, Joshua. “What McCain and Obama  KLIEN,  Brian.  “What  Goes  Around  Comes 
didn’t talk about”. Foreign Policy. Novembro  Around  for  Rússia”.  Council  on  Foreign 
de 2008.  Relations,  19  de  setembro  de  2008. 
66
   HANSON,  Stephanie.  “The  Pentagon’s  New  Disponível  em: 
Africa  Command”.  Council  on  Foreign  http://www.cfr.org/publication/17281/what
Relations.  3  de  maio  de  2007.  Disponível  _goes_around_comes_around_for_russia.ht
em: http://www.cfr.org/publication/13255/  ml 

  Página | 64 
Especial Barack Obama 

O ressurgimento russo obriga alguns países  sistema  foi  criticado  por  Obama  durante  a 


da  Europa  a  debater  o  relacionamento  de  campanha. Outros criticam o programa por 
segurança  com  os  Estados  Unidos,  não ser uma prioridade imediata tendo em 
principalmente  o  papel  da  OTAN.  A  OTAN  vista  as  demandas  e  características  da 
já  opera  além  de  suas  fronteiras  no  “guerra ao terror”. 
Afeganistão  na  “guerra  contra  o  terror”, 
mas  a  diferença  de  capacidades  entre  as  Entretanto,  o  sistema  continuará  a  ser 
forças  militares  americanas  e  as  forças  desenvolvido  devido  à  sua  importância 
militares  de  alguns  países  europeus  é  tão  para  defesa  do  país  diante  das  incertezas 
dispare que há dúvidas sobre a eficácia de  futuras,  e  pela  evolução  na  capacidade  do 
agirem  em  conjunto.  Juntamente  com  as  sistema, o que garante mais uma vantagem 
diferenças  de  percepção  sobre  ameaças,  dos  Estados  Unidos  em  dissuadir  ataques 
prioridades  e  papel  da  OTAN  no  pós‐ contra seu território, suas forças militares e 
Guerra  Fria,  e  a  falta  de  apoio  das  seus aliados69. 
populações  européias  para  operação  É  importante  destacar  que  o 
militares,  Obama  terá  que  lidar  com  o  desenvolvimento  de  uma  capacidade  de 
questionamento europeu sobre o futuro da  defesa  anti‐mísseis  depende  de  sistemas 
aliança  atlântica  sob  a  sombra  de  uma  situados  no  espaço.  Os  Estados  Unidos  é 
maior agressividade russa.  hoje  um  dos  países  mais  dependentes  do 
Outro  foco  de  discórdia  entre  Estados  espaço70.  O  dinamismo  da  economia  e 
Unidos  e  Rússia  e  foco  de  tensões  nas  indústria  norte‐americana  se  deve  à 
relações  dos  Estados  Unidos  com  alguns  constelação  de  satélites  que  realizam 
países europeus, e tensões entre estes, é a  funções  essenciais  de  telecomunicação, 
instalação  de  um  sistema  anti‐mísseis  na  navegação,  monitoramento  meteorológico 
Polônia e República Checa68.  e transações financeiras. O uso de satélites 
pelas  forças  armadas  americanas  serve 
O  desenvolvimento  de  um  escudo  anti‐ como um apoio indispensável na condução 
mísseis  pelos  Estados  Unidos  originou  de  suas  operações,  dotando  os  Estados 
durante  a  Guerra  Fria,  e  seu  escopo  foi  Unidos  de  uma  “superioridade  de 
modificado  ao  longo  do  tempo  de  acordo  informação” particular71. Apesar de muitos 
com  o  cenário  de  segurança  internacional. 
Após  o  fim  da  União  Soviética,  os  Estados                                                              
Unidos  continuaram  a  desenvolver  o  69 
 THOMPSON,  Mark.  “Why  Obama  will 
sistema  preocupados  com  lançamentos  continue Star Wars” TIME. 16 de novembro 
acidentais  de  mísseis  a  partir  do  território  de  2008.  Disponível  em: 
da  antiga  União  Soviética,  mas  http://www.time.com/time/nation/article/0,
8599,1859393,00.html 
principalmente  contra  ataques  de  estados  70
   HYTEN, John E. “A sea of peace or a theater 
hostis menores. O interesse de desenvolver  of  war?  Dealing  with  the  inevitable  conflict 
um  escudo  anti‐mísseis  está  ligado  à  in  space.”  Air  &  Space  Power  Journal;  v.16, 
n.3, Fall 2002. p.78.; DOLMAN, Everett C. “A 
preocupação  de  ataques  com  armas  de 
Debate  About  Weapons  in  Space:  For  U.S. 
destruição  em  massa.  Os  gastos  com  tal  Military  Transformation  and  Weapons  in 
Space.” SAIS Review, v.26, n.1, Winter 2006. 
                                                             p. 163. 
71
   SMITH,  Bob.  “The  challenge  of  space 
68
THE  ECONOMIST.  “A  damp  squib”.  20  de  power.”  Airpower  Journal;  v.13,  n.1,  Spring 
novembro de 2008.  1999, p.32. 

  Página | 65 
Especial Barack Obama 

países  possuírem  tanques,  aviões  e  navios  que o acesso e uso do espaço é um: “vital 


não  tão  inferiores  quanto  os  utilizados  national interest of the United States”75. 
pelas forças armadas americanas, a grande 
eficiência  e  precisão  destas  é  fruto  da  Um ataque surpresa aos recursos espaciais 
utilização combinada de  sistemas militares  dos  Estados  Unidos,  um  “Pearl  Harbor 
espaciais  de  comunicação,  navegação,  e  espacial”,  poderia  ter  consequências 
coleta de dados de inteligência, integrados  desastrosas  não  só  para  as  atividades 
em  um  único  sistema,  dando  aos  Estados  econômicas  dos  Estados  Unidos  e  de  seus 
Unidos  uma  capacidade  militar  única  no  aliados,  como  também  sobre  suas  forças 
mundo72.  armadas  e  a  capacidade  destas  de  atuar  e 
responder eficazmente. 
Esses  recursos  formam  um  pilar 
fundamental  da  atual  capacidade  de  A  capacidade  de  monitoramento  dos 
projeção  de  poder  dos  Estados  Unidos.  satélites  espiões  americanos  por  si  só  já  é 
Essa  superioridade  militar  garante  aos  capaz  de  alterar  comportamentos  de 
Estados Unidos controle dos mares, do ar e  outros  Estados.  Em  1998  quando  a  Índia 
do  espaço,  facilitando  sua  projeção  e  testou  uma  arma  nuclear,  os  preparativos 
exercício  de  poder73.  A  dependência  tiveram  que  ser  feitos  escondidos  levando 
crescente  das  forças  americanas  em  em  consideração  o  monitoramento  de 
recursos espaciais tornou a necessidade de  satélites  espiões  dos  Estados  Unidos.  Um 
protegê‐los  de  um  ataque  inimigo  uma  equipamento  russo  portátil  foi 
preocupação,  e  o  acesso  e  exploração  desenvolvido capaz de travar sinais de GPS 
irrestrito  ao  espaço,  um  interesse  em  um  raio  de  até  80  km,  sinais 
estratégico  dos  Estados  Unidos74.  No  fundamentais  para  as  forças  militares  dos 
National  Security  Strategy  de  1999,  Estados Unidos para auxiliar na precisão de 
divulgado  pelo  governo  Clinton,  afirma‐se  munições, comunicações e navegação. 

Há  ainda  a  possibilidade  de  Estados 


“párias”  (Irã  e  a  Coréia  do  Norte)  serem 
capazes  de  destruir  satélites  norte‐
                                                             americanos  através  de  modificações  em 
72
PIKE,  John.  “American  Control  of  Outer  seus  atuais  mísseis  balísticos,  ou  mesmo 
Space  in  the  Third  Millenium.”  FAS,  com  uma  detonação  nuclear  de  alta 
November 1998.  altitude  se  estes  países  adquirirem  tal 
73
 The  Economist.  “Select  enemy.  Delete.”  capacidade  (a  radiação  danificaria  os 
London:  v.342,  n.8007,  Mar  8  1997.  p.21; 
POSEN,  Barry  R.  “Command  of  the  equipamentos  sensíveis  que  atualmente 
Commons.”  International  Security,  não possuem nenhuma proteção) 76. 
Cambridge,  MA,  MIT  Press,  v.28,  n.1, 
Summer 2003. p.8. 
74
 SMITH,  M.V.  “Ten  Propositions  Regarding                                                              
Space  Power.”  Thesis  presented  to  the 
75
faculty of the School of Advanced Airpower  Um  interesse  nacional  vital  dos  Estados 
Studies  for  completion  of  graduate  Unidos. (Tradução do autor); HYTEN, John E. 
requirements.  Maxwell  Air  Force  Base,  “A sea of peace or a theater of war? Dealing 
Alabama,  June  2001.  p.32;  MOORMAN  JR,  with  the  inevitable  conflict  in  space”.  Air  & 
Thomas  S.  “The  explosion  of  commercial  Space  Power  Journal;  v.16,  n.3,  Fall  2002. 
space  and  the  implications  for  National  p.78. 
76
Security.”  Airpower  Journal,  v.13,  n.1;  United  States  of  America.  Report  of  the 
Spring 1999. p.6.  Commission  to  assess  United  States 

  Página | 66 
Especial Barack Obama 

Há indicações de que a China busca meios  capacitar o aparato de segurança e defesa 
de  limitar  ou  mesmo  anular  as  vantagens  dos  Estados  Unidos  para  defender  o 
dos  Estados  Unidos  advindos  de  recursos  homeland americano, progredir na “guerra 
espaciais  com  pesquisas  em  lasers,  ou  contra  o  terror”  (também  denominada  a 
armas  de  energia,  capazes  de  afetar  “guerra  longa”),  promover  segurança  em 
satélites  norte‐americanos.  Em  janeiro  de  regiões  estratégicas,  deter  conflitos,  e 
2007  a  China  conseguiu  destruir  com  vencê‐los  caso  seja  forçado  a  travar  mais 
sucesso  um  velho  satélite  meteorológico  uma  guerra79.  Obama,  terá  o  desafio  de 
chinês  utilizando  um  míssil  balístico,  lidar com as ameaças “novas” à segurança 
alarmando  oficiais  dos  Estados  Unidos,  internacional  e  dos  Estados  Unidos,  cujo 
Inglaterra e Japão77.  exemplo  máximo  é  a  “guerra  contra  o 
terror”,  como  também  com  ameaças 
Apesar de os Estados Unidos estar em uma  “tradicionais” representadas pelas disputas 
posição  vantajosa  em  termos  de  poder  entre  potências  novas  ou  resurgentes, 
espacial  em  relação  à  potenciais  Estados  preservando  a  superioridade  militar  dos 
rivais, esse quadro pode não ser o mesmo  Estados  Unidos  e  adaptando‐as  para  lidar 
daqui  a  algumas  décadas78.  Nos  próximos  com  ambas  as  ameaças,  em  meio  à  uma 
anos  os  Estados  Unidos  têm  a  chance  de  crise econômica e recessão. 
moldar  os  regimes  internacionais  que 
busquem  regular  o  uso  do  espaço,  tanto   
para  fins  econômicos  e  científicos,  mas 
principalmente para fins militares. 

Enfim,  o  futuro  presidente  americano, 


Barack Obama, terá a tarefa de preservar e 

                                                                                 

National  Security  Space  Management and 


Organization.  January  11,  2001.  p.20; 
HITCHENS,  Theresa.  “Weapons  in  Space: 
Silver Bullet or Russian Roulette? The Policy 
Implications  of  U.S.  Pursuit  of  Space–Based 
Weapons.”  Center  for  Defense  Information, 
September 2002. 
77
   PIKE,  John.  American  Control  of  Outer 
Space  in  the  Third  Millenium.  FAS, 
November  1998;  CFR.ORG.  China  ups  ante 
in  space.  January  19,  2007.  Disponível  em: 
http://www.cfr.org/publication/12454/china
_ups_ante_in_space.html 
78 
 Poder  espacial  aqui  inicialmente  definido 
como:  “…the  ability  of  a  state  or  non‐state 
actor  to  achieve  its  goals  and  objectives  in 
the  presence  of  other  actors  on  the  world 
stage  through  exploitation  of  the  space                                                              
environment.”  In  SMITH,  M.V.  Ten 
79
Propositions  Regarding  Space  Power.  Thesis     United  States  Department  of  Defense. 
presented  to  the  faculty  of  the  School  of  “National  Defense  Strategy”.  Washington, 
Advanced  Airpower  Studies  for  completion  D.C.  Junho  2008.  Disponível  em: 
of  graduate  requirements.  Maxwell  Air  http://www.defenselink.mil/news/2008%20
Force Base, Alabama, June 2001.  National%20Defense%20Strategy.pdf 

  Página | 67 
Especial Barack Obama 

Obama e a relação bilateral Brasil‐EUA 

David A. Magalhães 

O  inaudito  triunfo  eleitoral  de  Barack  oportunidade  de  assumir  a  liderança  do 
Obama  e  as  perspectivas  de  mudança  processo  de  substituição  do  petróleo." 
trazidas  pela  eleição  histórica  do  primeiro  Ademais, o apoio do governo Bush atendia 
presidente negro dos EUA ecoaram mundo  a  um  claro  interesse  de  Segurança 
afora  e  o  Brasil,  não  diferente,  recebeu  Nacional:  os  EUA  precisavam  encontrar 
com  entusiasmo  o  resultado  das  urnas  uma alternativa ao petróleo, cujas reservas 
norte‐americanas.  Todavia,  não  foi  são  limitadas,  majoritariamente,  às  áreas 
somente a figura de Obama que criou todo  como  o  Oriente  Médio  ou  estão  sob  o 
o  ambiente  de  expectativa  por  controle da hostil Venezuela.80  
transformações  profundas  na  política 
interna  e  externa  dos  EUA.  Contribuíram  Com  Obama  na  presidência  dos  EUA  a 
sobremaneira para o ‘fenômeno Obama’ os  relação  com  Brasil  não  deve  sofrer 
desastrosos  anos  de  administração  Bush  nenhuma  alteração  de  ordem  estratégica. 
que,  além  de  envolver  os  EUA  em  duas  Mesmo estando ciente de que o Brasil é a 
guerras,  herdará  ao  novo  presidente  a  quarta  maior  democracia,  a  nona 
maior crise econômica desde de 1929.   economia  mundial  e  um  player  cada  vez 
mais  atuante  no  cenário  internacional, 
É  verdade  que  o  Brasil  não  tem  muito  do  certamente  não  figuraremos  no  rol  de 
que se queixar com relação à era Bush. Se  prioridades  da  administração  democrata. 
por um lado o governo republicano relegou  Primeiramente  porque  a  questão 
a  América  do  Sul  um  papel  praticamente  nevrálgica das relações internacionais para 
insignificante,  por  outro,  ele  prestigiou  o  os  EUA  nos  próximos  anos  deve  continuar 
Brasil  reconhecendo  nele  sua  “liderança  no  Oriente  Médio  e  na  Ásia, 
natural”,  sobretudo  atribuindo  ao  governo  principalmente  em  torno  de  questões  de 
brasileiro  a  responsabilidade  de  equilibrar  segurança  nacional.    Em  seguida  porque 
uma  região  que,  aos  poucos,  vinha  temas  relacionados  à  ameaça  do 
enveredando para o ‘populismo radical’ de  terrorismo, aos desdobramentos da guerra 
Hugo Chavez, Evo Morales e Rafael Correa.  no Iraque, à proliferação nuclear com Irã e 
Outro  exemplo  do  bom  relacionamento  ao  crescimento  econômico  da  China  e  da 
dos  EUA  com  o  Brasil  durante  os  dois  Índia  devem  ocupar  prioritariamente  a 
governos  de  Bush  foi  o  apoio  ao  etanol  agenda  de  política  externa  dos  EUA.  Na 
brasileiro. Em 2007, Bush veio a São Paulo  interface  do  plano  doméstico  com  o 
para  lançar  uma  parceria  Brasil‐Estados  internacional,  a  grave  crise  econômica 
Unidos  com  o  intuito  de  disseminar  pelo  certamente  demandará  a  atenção  dos 
mundo o uso de biocombustível à base de  primeiros  anos  da  administração  Obama. 
álcool.  "Esta  visita  é  uma  oportunidade  Michael Reid, editor da sessão Américas da 
histórica  para  o  país",  asseverou  o  ex‐
                                                            
Ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, 
80
um  dos  maiores  especialistas  brasileiros 
em  biocombustíveis.  "O  Brasil  tem  a  http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoc
a/0,,EDG76507‐6009‐459,00.html 

  Página | 68 
Especial Barack Obama 

The Economist,  avalia que a política norte‐ Argumenta‐se  que  o  vínculo  ideológico  de 


americana  para  a  região,  ficará  em  Obama  e  do  partido  democrata  com  os 
segundo  plano.  "Obama  nunca  visitou  a  sindicatos  e  trabalhadores  deve  impedir 
América  Latina  e  a  região  não  teve  papel  qualquer chance da nova administração de 
em  sua  campanha."81,  observa  Reid,  autor  diminuir  as  barreiras  comerciais  aos 
de  “Forgotten  Continent:  The  Battle  for  produtos brasileiros. Marcos Azambuja, ex‐
Latin America’s Soul.”.   Embaixador  do  Brasil  em  Buenos  Aires  e 
em  Paris,  afirma  que,  da  perspectiva 
Entretanto,  o  poder  simbólico  da  figura  estritamente  comercial,  a  vitória  de 
pessoal  do  novo  presidente  ‐‐  afro‐ McCain,  por  se  filiar  ideologicamente  a 
americano  e  fruto  de  um  interessante  favor do livre‐mercado, poderia trazer mais 
amálgama  cultural  ‐‐  já  vem  revertendo  a  benefícios ao Brasil.82  
imagem e a credibilidade dos EUA frente à 
comunidade  internacional,  tão  manchada  Já para Paulo Sotero83 não é óbvio que uma 
nos  últimos  oito  anos.  No  caso  do  Brasil,  vitória  de  McCain  –  fiel  à  tradição 
uma  democracia  multiracial,  os  atributos  republicana  de  defesa  do  liberalismo 
de  político  conciliador  e  os  discursos  econômico  –  melhoraria  substancialmente 
clamando  por  uma  política  externa  mais  o  desfavorável  panorama  atual  do 
aberta  e  voltada  para  integração  dos  protecionismo  agrícola.  Mesmo  se 
“emergentes”  no  processo  decisório  vencesse  McCain,  o  resultado  das  eleições 
mundial  tem  criado  expectativas  positivas  legislativas  ampliou  ainda  mais  a  maioria 
a respeito de um novo horizonte de diálogo  democrata nas duas casas do Congresso, o 
e  inserção  do  Brasil  no  cenário  que  dificultaria  sobremaneira    qualquer 
internacional.    tentativa  de  liberalização  comercial  por 
parte do executivo.  
Se  do  ponto  de  vista  estratégico  não  há 
qualquer  sinalização  de  mudança  no  O colapso das negociações de Doha, no fim 
relacionamento  com  o  Brasil,  da  deste  ano,  explicitou  ainda  mais  a 
perspectiva  tática  é  possível  vislumbrar  indisposição do congresso norte‐americano 
algumas  alterações.  Muito  se  fala,  por  em  diminuir  as  distorções  no  comércio 
exemplo,  da  política  comercial  da  nova  agrícola.  O  chanceler  brasileiro  Celso 
administração para o Brasil. Com relação a  Amorin  criticou  a  carta  que  teria  sido 
esse ponto, há um claro descontentamento  enviada  por  congressistas  democratas  a 
por  parte  do  governo  brasileiro  com  Bush  pedindo  que  o  acordo  de  Doha  não 
relação ao protecionismo agrícola do Farm  fosse  assinado.  “Precisávamos  de  um  sinal 
Act,  que  distorce  a  concorrência  por  meio 
de  enormes  subsídios  à  produção                                                              
doméstica  e  mantém  fora  do  mercado  82
4  de  novembro  de  2008,  BBC  Brasil. 
norte‐americano  os  produtos  mais  Disponível  em: 
competitivos  do  Brasil,  como  o  açúcar,  o  http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporter
bbc/story/2008/11/081104_eleicoes_eua_br
suco de laranja, a carne e, agora, o etanol.  
asil_fa_cq.shtml
83
                                                             SOTERO,  Paulo.  Com  Obama,  Hillary  Ou 
Mccain A Política De Comércio Exterior Dos 
81
OESP.  11  de  novembro  de  2008.  Disponível  Eua  Deve  Continuar  Travada.  Fev.  2008. 
em:  Disponível  em:  
http://www.estadao.com.br/internacional/n www.wilsoncenter.org/news/docs/brazil.pa
ot int276045,0.htm ulosotero.pontes.pdf   

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Especial Barack Obama 

(de  Obama)  de  que  a  visão  desses  novo  presidente  eleito  que  diminua  a 
congressistas  não  era  a  do  próximo  dependência  com  o  petróleo  do  Oriente 
governo”84,  afirmou  Amorim.  Com  a  crise  Médio  trabalhando  conjuntamente  com  o 
econômica,  a  liberalização  do  comércio  Brasil  na  produção  de  etanol  de  cana  de 
seguramente  não  estará  na  pauta  do  açúcar, que, como se sabe, é mais barato e 
próximo governo.    ecologicamente  sustentável.    Durante  a 
campanha  presidencial,  Obama  chegou  a 
O  Etanol  é  outro  tema  que  deve  aparecer  propor  trabalhar  em  conjunto  com  líderes 
com  freqüência  na  relação  bilateral  Brasil‐ de  todo  Hemisfério  no  sentido  de  se 
EUA nos próximos anos e que diz respeito a  estabelecer uma “nova parceria energética 
três questões que se interligam: comercial,  paras as Américas”86 para apoiar a energia 
ambiental  e  energética.  Muito  embora  o  limpa.  Obama  também  apoiou  um 
Brasil tenha sido praticamente ignorado na  aprofundamento nas relações com o Brasil 
campanha  de  Obama,  as  poucas  vezes  para  desenvolver  o  mercado  de 
onde  ele  é  citado  aparecem  ao  lado  do  biocombustível  e  a  promoção  da 
tema  do  etanol.  É  o  que  acontece,  por  ‘tecnologia  verde’87.  O  futuro  presidente 
exemplo,  no  principal  documento  da  dos  EUA  tem  se  referido  ao  Brasil,  onde 
campanha  de  Obama  direcionado  às  suas  70%  dos  automóveis  são  de  combustível 
propostas para a América Latina e o Caribe,  ‘flex’,  como  um  modelo  de  independência 
“Uma Nova Parceria para as Américas"85.  energética a ser seguido.  
O  documento  demonstra  uma  disposição  Entretanto,  Obama  se  mostrou  contrário, 
em incentivar tecnologias para a produção  por  exemplo,  ao  acordo  de  cooperação 
do  etanol  no  Brasil  e  difundir  sua  bilateral  para  expandir  o  uso  de  etanol 
distribuição para outros países, como fonte  assinado  entre  Brasil  e  EUA  em  2007. 
alternativa  de  energia  em  substituição  ao  Naquela  ocasião  Obama  defendeu  que 
petróleo.  Afirma  o  documento:  Barack  "aqueles  que  defendem  a  substituição  da 
Obama  wants  to  expand  production  of  produção  norte‐americana  de 
renewable energy across Latin America in a  biocombustíveis  pelas  exportações  de 
way  that  at  the  same  time  promotes  self‐ etanol  brasileiro  podem  até  ser  bem 
sufficiency  and  creates  more  markets  for  intencionados,  mas  não  entendem  o 
American green energy manufacturers and  desafio  que  temos  para  obter  uma 
biofuels producers”. Contudo, a posição de  segurança  energética  de  longo  prazo  e 
Obama  e  do  partido  democrata  com  ignoram  uma  oportunidade  de  política 
relação  ao  etanol  tem  se  mostrado  um  exterior valiosa"88 
tanto controversa. 

Andres Oppenheimer, no seu ultimo artigo                                                              
publicado  no  Miami  Herald,  sugere  ao  86

                                                             http://origin.barackobama.com/issues/forei
gn policy/#onlatinamerica 
84 87
OESP,  Acordo  de  Doha  depende  de  Obama. 
13  de  dezembro  de  2008.  Disponível  em:  http://www.brazzilmag.com/content/view/1
http://www.estadao.com.br/internacional/n 0048/1/  
88
ot int293343,0.htm Barack  Obama  é  Contra  Redução  De  Tarifa 
85
A  New  Partnership  For  The Americas.  Fonte:   Para  Etanol  Brasileiro.  International 
obama.3cdn.net/ef480f743f9286aea9_k0tm Buisness  Times  10/03/2007.  Disponível  em: 
vyt7h.pdf  http://br.ibtimes.com/articles/20070310/bar

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Especial Barack Obama 

Alguns  analistas  avaliam  que  as  posições  mostrou  uma  visão  clara  e  convergente 
políticas  pró‐álcool  de  Obama  estão  com os interesses comerciais brasileiros.  
relacionadas, de alguma forma, ao fato de 
ele  ter  procedência  de  Illinois,  um  cuja  Durante  a  campanha,  McCain  defendeu  a 
riqueza  está  intimamente  relacionada  à  eliminação  dos  multibilionários  subsídios 
intensa  produção  de  milho.  Uma  que  o  governo  fornece  anualmente  para 
reportagem publicada pelo jornal New York  proteger  o  etanol  produzido  nos  EUA.    Na 
Times89 mostra os vínculos de Obama com  condição  de  defensor  do  liberalismo 
o  lobby  da  indústria  do  etanol.  O  jornal  econômico,  o  candidato  derrotado  se 
relata  que  Tom  Daschle,  que  foi  co‐ opunha  à  tarifa  (54‐cent‐a‐gallon)  imposta 
presidente do comitê do presidente eleito,  pelo  governo  ao  etanol  produzido  a  partir 
trabalha  para  três  companhias  norte‐ da  cana‐de‐açúcar,  que  armazena  muito 
americanas  do  álcool  em  seu  escritório  de  mais  energia  que  o  etanol  produzido  a 
advocacia  em  Washington.  Para  Obama,  a  partir do milho. “Cometemos uma série de 
produção  de  etanol  atendia  a  um  claro  erros  ao  não  adotar  uma  política 
interesse  de  segurança  nacional  dos  EUA:  energética  sustentável  ‐  um  deles  são  os 
In  the  heart  of  the  Corn  Belt  that  August  subsídios  para  o  etanol  de  milho,  que  eu 
day,  Mr.  Obama  argued  that  embracing  avisei  em  Iowa  que  iriam  destruir  o 
ethanol  “ultimately  helps  our  national  mercado  e  foi  de  fato  o  que  aconteceu:  o 
security,  because  right  now  we’re  sending  etanol  de  milho  está  causando  um  sério 
billions  of  dollars  to  some  of  the  most  problema  de  inflação”,  observou  McCain 
hostile  nations  on  earth.”  America’s  oil  em  entrevista  ao  Estado90  em  Boston. 
dependence,  he  added,  “makes  it  more  “Além  disso,  está  errado  impor  uma  tarifa 
difficult for us to shape a foreign policy that  de  US$  0,54  por  galão  de  etanol  de  cana 
is intelligent and is creating security for the  brasileiro,  que  é  muito  mais  eficiente  do 
long term.”  que o etanol de milho.” 

Se  a  posição  de  Obama  com  relação  ao  Em  relação  ao  reconhecimento  e  o  apoio 
etanol  se  mostrou  dúbia  durante  a  ao papel que o Brasil vem desempenhando 
campanha  presidencial,  o  mesmo  não  como  mediador  e  líder  da  América  Latina, 
ocorreu  com  seu  opositor  republicano,  não  se  esperam  mudanças  com  a 
John  McCain.  Enquanto  ambos  os  administração  Obama.  O  novo  presidente 
candidatos  enfatizaram  a  necessidade  dos  dos  EUA  tem  uma  visão  favorável  sobre  o 
EUA  garantirem  sua  “segurança  papel  do  Brasil  em  ajudar  a  aplacar 
energética”  e  combateram  o  uso  do  conflitos  na  América  Latina  ‐  como  na 
carbono  por  motivos  ambientais,  McCain  tensão entre Colômbia e Equador ‐ e sobre 
o  papel  das  tropas  do  país  no  Haiti. 
Anthony  Lake,  assessor  de  Obama  e 
                                                                                  influente  figura  do  governo  Clinton,  julga 
que a atuação dos soldados brasileiros que 
ack‐obama all.htm
89 comandam  as  forças  de  paz  no  país 
ROTHER,  Larry.  Obama  Camp  Closely  Linked 
With  Ethanol.  NYT.  23  jan.  2008.  disponível  caribenho  é  ''uma  história  de  êxito''.    É 
em    
http://www.nytimes.com/2008/06/23/us/poli                                                             
tics/23ethanol.html? r=3&pagewanted=1&a
90
dxnnl=1&ref=politics&adxnnlx=1214247965 OESP,  15  junho  de  2008,  McCain  quer  se 
‐6myQyyiFsbE0/SSUCYN0iQ aproximar do Brasil 

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Especial Barack Obama 

importante  ressaltar  que  o  governo  É  improvável  que  a  nova  administração 


brasileiro se opôs à postura de Obama em  promoverá um desvio brusco na estratégia 
relação  ao  incidente  entre  Equador  e  norte‐americana  para  a  América  Latina  e, 
Colômbia.    Em  um  discurso  realizado  por  particularmente, para o Brasil. Como já foi 
Obama,  o  futuro  presidente  disse  ''apoiar  dito,  a  grave  crise  econômica  mundial,  a 
integralmente a luta da Colômbia contra as  guerra  contra  o  terrorismo  e  as 
Farc" e destacou que defende o ''direito da  preocupações  de  ordem  interna  devem 
Colômbia de atacar terroristas que buscam  deslocar  o  Brasil  ainda  mais  longe  do  eixo 
abrigo seguro cruzando as fronteiras."91  das  prioridades  do  governo  Obama.  
Todavia, a imagem pessoal de Obama, seu 
Ao  se  julgar  pelas  palavras  que  uma  das  carisma  e  caráter  conciliador,  podem 
mais  destacadas  assessoras  de  Obama  recuperar  a  imagem  dos  EUA  tão 
disse  sobre  a  futura  administração,  o  deteriorada  nos  8  anos  de  administração 
Itamaraty  tem  motivos  para  uma  previsão  republicana.  Tais  características  pessoais 
otimista  na  relação  bilateral  com  os  EUA.  podem,  portanto,  alargar  o  horizonte  de 
Samantha  Power  foi  uma  das  principais  diálogo  e  cooperação  entre  o  Brasil  e  os 
conselheiras  de  Política  Internacional  EUA. Dentro de uma esperada margem de 
durante  a  campanha  de  Obama.  Para  ela,  alteração  tática,  os  temas  de  comércio, 
na  América  Latina,  o  Brasil  será  um  energia  e  meio‐ambiente  provavelmente 
parceiro privilegiado: “vamos defender por  conduzirão as principais discussões sobre a 
exemplo  a  reforma  do  Conselho  de  relação bilateral.  
Segurança da ONU, que tem sido uma das 
reivindicações  importantes  do  Brasil. 
Queremos  que  o  Brasil  tenha  um  lugar 
permanente  neste  conselho,  assim  como  a 
Índia, e que  haja espaço também para um 
país  africano,  que  pode  ser  a  Nigéria  ou  a 
África  do  Sul.  A  reforma  do  conselho  de 
segurança e a revalorização da ONU como 
um  foro  mundial  são  fundamentais  para 
Obama.  Os  EUA  perderam  parte  de  seu 
prestígio  porque  o  governo  Bush  tomou 
decisões  unilaterais  e  desprezou  a 
importância  da  ONU  no  cenário 
internacional.” 92 

                                                            
91
BBC  Brasil.  Disponível  em: 
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporter
bbc/story/2008/06/080618_obamabrasilbg.s
html 
92
    Disponível  em: 
http://oglobo.globo.com/blogs/ny/post.asp
?t=barack_obama_quer_brasil_no_conselho
_de_seguranca_da_onu&cod_Post=86678&
a=283

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Especial Barack Obama 

Estados Unidos e Rússia: uma mudança em que nós podemos acreditar?  

Felipe Ortega 

Durante  os  oito  anos  do  governo  Bush,  os  relacionamento  que  nasceu  marcado  pelo 
Estados  Unidos  passaram  de  uma  relação  otimismo  em  um  distanciamento  quase 
harmoniosa com a Rússia a uma espiral de  completo. 
conflitos  sucessivos.  Após  o  primeiro 
encontro  entre  Putin  e  Bush,  em  2001,  A presidência de Obama começa, portanto, 
parecia  emergir  uma  era  de  proximidade  com  o  grande  desafio  de  reparar  os  laços 
entre  os  dois  países.  Na  ocasião,  Bush  com  a  segunda  maior  potência  militar  do 
proferiu  as  seguintes  palavras,  que  mais  mundo,  economicamente  fortalecida  e 
tarde  se  tornaram  famosas,  em  relação  a  estrategicamente  importante  graças  aos 
Putin:  “eu  olhei  o  homem  nos  olhos.  Eu  o  recursos  energéticos  de  que  dispõe.  O 
achei  muito  sincero  e  confiável  e  nós  tema da campanha do novo presidente foi 
tivemos um ótimo diálogo. Eu pude ver sua  “a  mudança  em  que  nós  podemos 
alma”93.  Cerca  de  sete  anos  mais  tarde,  o  acreditar”96,  mas  qual  o  significado  dessa 
cenário  mudou  da  água  para  o  vinho.  Em  mudança nas relações entre Washington e 
agosto  de  2008,  Bush  caracterizava  a  Moscou?  Baseado  nas  idéias  apresentadas 
Rússia,  após  o  conflito  com  a  Geórgia,  durante a campanha de Obama, este artigo 
como  um  Estado  que  “vê  a  expansão  da  pretende avaliar quais as perspectivas para 
liberdade  e  da  democracia  como  uma  o  relacionamento  entre  Estados  Unidos  e 
ameaça aos seus interesses”  94 e que havia  Rússia  nos  próximos  quatro  anos.  Para 
“danificado  sua  credibilidade  e  suas  tanto,  analisaremos  em  primeiro  lugar  a 
relações com as nações do mundo livre”95.  visão da Rússia apresentada na plataforma 
de  Obama  e  a  estratégia  geral  proposta 
No  período  que  separa  as  duas  para  o  relacionamento  bilateral.  A  seguir, 
declarações, diversos imbróglios opuseram  faremos  uma  avaliação  específica  das 
os  dois  países.  Da  independência  de  propostas  apresentadas  pelo  democrata 
Kosovo  em  relação  à  Sérvia  à  para  lidar  com  alguns  dos  principais 
independência da Abkhazia e da Ossétia do  problemas  que  permeiam  o  diálogo  atual 
Sul em  Relação à Geórgia, da expansão da  entre os dois países.  
OTAN  ao  plano  de  um  escudo  antimísseis 
na Polônia e na República Tcheca, diversos   
temas  contribuíram  para  transformar  um  A Rússia no Programa de Obama 

                                                             A  importância  da  Rússia  no  programa  de 


93 política  externa  de  Obama  pode  ser 
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/1392791 atestada  com  uma  breve  observação  dos 
.stm 
94
                                                            
http://www.whitehouse.gov/news/releases/
96
2008/08/20080815.html   “Change  we  can  believe  in”,  no  idioma 
95
Idem  original. 

  Página | 73 
Especial Barack Obama 

temas  presentes  no  programa  de  governo  principal  crítica  feita  a  Bush  é  a  de  ter  se 
disponibilizado  no  website  de  sua  aproximado  de  Putin,  o  que  ocorreu  no 
campanha97.  Nos  principais  tópicos  da  início  de  seu  governo.  Talvez  mais 
agenda, sobre os quais uma sistematização  importante, não é feita qualquer menção à 
da  estratégia  proposta  é  disponibilizada,  possível  responsabilidade  americana  na 
apenas  três  países  são  tratados  geração  dos  diversos  conflitos  que 
individualmente:  Israel,  Irã  e  Rússia.  Os  emergiram com Moscou nos últimos anos, 
dois  primeiros  são,  respectivamente,  o  apesar  da  caracterização  da  política  Bush 
maior  aliado  americano  no  Oriente  Médio  como “errática”. 
e seu arquiinimigo na região. A presença da 
Rússia  como  terceiro  ator  individualmente  Após essa breve descrição da Rússia atual, 
analisado  diz  muito  a  respeito  da  o programa de Obama elenca os principais 
importância  que  o  país  representa  na  pontos  da  estratégia  que  deve  orientar  o 
agenda americana.  relacionamento  com  o  país.  São  eles: 
apoiar  os  “parceiros  democráticos” 
A visão ali expressa, contudo, não permite  americanos  na  Eurásia  e  garantir  a 
supor  uma  mudança  significativa  em  soberania dos Estados da região; fortalecer 
relação à política de Bush quanto a Moscou  a  OTAN;  ajudar  a  reduzir  a  dependência 
nos últimos anos. O próprio título da seção,  européia  dos  recursos  energéticos  russos; 
“Enfrentando  os  Desafios  de  uma  Rússia  trabalhar com o governo russo em áreas de 
Ressurgente”,  sugere  que  persiste  a  visão  interesse  mútuo,  como  o  combate  ao 
do  país  como  uma  ameaça  a  ser  terrorismo  e  a  redução  dos  arsenais 
enfrentada,  e  não  como  um  possível  nucleares;  e  aceitar  uma  maior  integração 
parceiro.  Mais  adiante,  a  visão  de  Obama  da Rússia ao sistema global, desde que ela 
sobre  a  Rússia  é  apresentada  da  seguinte  aja  como  um  estado  “responsável  e 
maneira:  cumpridor da lei”99. 

“Em  contraste  com  a  política  errática  da  Como  se  vê,  nenhuma  mudança 
Administração  Bush  de  acolher  Vladimir  significativa  é  sugerida  na  maioria  dos 
Putin  e  negligenciar  as  relações  EUA‐ pontos de conflito entre os dois Estados. O 
Rússia,  Barack  Obama  e  Joe  Biden  apoio  aos  “parceiros  democráticos”  da 
enfrentarão  o  desafio  apresentado  por  região  nada  mais  é  que  a  persistência  da 
uma crescentemente autocrática e belicosa  política Bush de aproximação crescente de 
Rússia  perseguindo  uma  estratégia  nova  e  estados  como  Ucrânia  e  Geórgia,  que  têm 
ampla que defenda os interesses nacionais  como  principal  característica  comum  uma 
americanos  sem  comprometer  nossos  acentuada russofobia. O fortalecimento da 
princípios tradicionais”98.  OTAN  também  foi  uma  política  de  Bush  e 
um  ponto  de  tensão  bilateral, 
A  Rússia  é  apresentada,  portanto,  como  especialmente quando o foco passou a ser 
um  Estado  autocrático  e  belicoso.  A  a  expansão  da  Aliança.  Quanto  à  intenção 
                                                             de  reduzir  a  dependência  européia  do 
97 petróleo e do gás russos, isso nada mais é 
http://origin.barackobama.com/issues/forei                                                             
gn_policy 
98  99 
   
http://origin.barackobama.com/issues/forei http://origin.barackobama.com/issues/forei
gn_policy/#onrussia  gn_policy/#onrussia 

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Especial Barack Obama 

que  uma  maneira  de  isolar  a  Rússia  e  devem  ser  livres  para  escolher  suas 
reduzir sua margem de manobra, algo que  próprias alianças100. (grifo meu) 
se faz com Estados não‐confiáveis. Por fim, 
a possibilidade de cooperação é restrita às  E também: 
escassas áreas em que ainda há interesses  “Barack Obama e Joe Biden têm defendido 
comuns.  O  mencionado  “contraste  com  a  constantemente  o  início  do  Membership 
política  errática  da  Administração  Bush”,  Action Plan para a Ucrânia e para a Geórgia 
portanto,  não  pode  ser  observado,  ao  e  apoiado  sua  admissão  à  OTAN  quando 
menos  nos  princípios  gerais  da  estratégia  estiverem preparados”101. 
americana em relação a Moscou. 
Como  se  vê,  então,  a  idéia  é  persistir  o 
  avanço a leste da Aliança Atlântica, embora 
Problemas Específicos e Perspectivas  esta seja uma das principais preocupações 
externas  do  Kremlin.  O  programa 
Serão  analisados  aqui  três  dos  principais  democrata  enfatiza,  ainda,  que  os  Esados 
problemas  que  permeiam  a  agenda  atual  devem  ser  livres  para  “escolher  suas 
do relacionamento EUA‐Rússia. O primeiro  próprias alianças”, numa clara referência à 
é  a  expansão  da  OTAN,  que  corteja  a  desaprovação  russa  aos  processos  de 
Geórgia  e  a  Ucrânia,  ex‐Repúblicas  adesão  ucraniano  e  georgiano.  Obama 
Soviéticas  e  vizinhos  da  Rússia,  como  tenta  minimizar  a  importância  da  inclusão 
possíveis  novos  membros.  O  segundo  é  a  dos visinhos russos na Organização dizendo 
proposta  do  governo  Bush  de  instalar  um  que  “nos  últimos  quinze  anos,  a  OTAN  fez 
escudo  antimísseis  na  Polônia  e  na  grandes  progressos  em  sua  transformação 
República  Tcheca  ‐  supostamente  para  de uma estrutura da Guerra Fria para uma 
conter  a  ameaça  de  rogue  states,  como  a  parceria  dinâmica  para  a  paz”102.  Mas  o 
Coréia  do  Norte  e  o  Irã  ‐  que  a  Rússia  fato é que ela foi criada como uma coalizão 
considera  uma  ameaça  a  sua  segurança  contra  um  inimigo  comum  –  a  União 
nacional.  Finalmente,  o  terceiro  tema  Soviética – e, aos olhos de Moscou, ainda é 
importante a ser discutido é a intervenção  uma  ameaça.  A  insistência  em  manter  a 
russa  na  Geórgia  e  todos  os  seus  política de expansão só tende a manter as 
desdobramentos,  que  os  americanos  tensões elevadas. 
consideraram  um  flagrante  desrespeito  ao 
direito  internacional  por  parte  de  Quanto ao escudo antimísseis, o programa 
Moscou.No  que  se  refere  à  expansão  da  de Obama diz o seguinte: 
OTAN,  o  programa  de  Obama  diz  o  “Barack  Obama  e  Joe  Biden  não  pouparão 
seguinte:  esforços  para  proteger  os  americanos  das 
“Barack Obama e Joe Biden acreditam que                                                              
o  processo  de  alargamento  da  OTAN  (...) 
100
deve  continuar,  desde  que  os  novos 
http://www.barackobama.com/pdf/Fact_Sh
candidatos sejam democráticos, pacíficos e  eet_Europe_FINAL.pdf 
101
dispostos  a  contribuir  com  a  segurança 
comum.  Eles  apóiam  firmemente  o  http://obama.3cdn.net/1ec5fc3b0aa4e9d89
7_xlpmv2bau.pdf 
princípio  de  que  democracias  soberanas  102

http://www.barackobama.com/2007/04/23/t
he_american_moment_remarks_to.php 

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Especial Barack Obama 

ameaças  apresentadas  por  armas  significativa  de  abordagem,  e  a  possível 


nucleares e mísseis balísticos. Com o Irã se  manutenção  de  Robert  Gates,  um  dos 
movendo  ativamente  no  desenvolvimento  principais  defensores  do  escudo,  como 
de  programas  nas  duas  áreas,  seria  Secretário  de  Defesa,  aponta  para  a 
irresponsável  não  explorar  a  possibilidade  continuação da mesma política. 
de  implantar  sistemas  de  defesa 
antimísseis  na  Europa  para  ajudar  a  Finalmente,  é  importante  analisar  a 
proteger  contra  essas  ameaças.  Tais  posição de Obama frente à crise georgiana. 
sistemas  só  devem  ser  implementados,  Embora  o  auge  da  crise  tenha  passado  e 
todavia, se baseados em tecnologia segura  pouco  possa  ser  feito  para  alterar  o  rumo 
e  eficiente.  Em  vez  de  unilateralmente  se  das  coisas,  uma  revisão  da  posição  do 
apressar para implantar um sistema incerto  democrata ajuda a esclarecer de que forma 
de  acordo  com  um  calendário  político,  se  dará,  em  seu  governo,  o  apoio  de 
Barack  Obama  e  Joe  Biden  trabalharão  de  Washington  aos  seus  principais  aliados  na 
perto com os aliados americanos da OTAN  região.  E  ambas  as  questões  (a  visão  de 
para  desenvolver  tecnologias  que  dêem  Obama  sobre  a  intervenção  russa  e  sua 
conta  de  todos  os  tipos  de  ameaças  de  proposta  política  para  a  região)  são 
mísseis balísticos aos Estados Unidos e aos  elucidadas na seguinte declaração: 
seus aliados”103.  “Uma Rússia ressurgente e muito agressiva 
Embora  critique  o  unilateralismo  de  Bush,  é  uma  ameaça  à  paz  e  à  estabilidade  na 
então, Obama concorda com a necessidade  região.  Suas  ações  na  Geórgia  são 
de  instalar  na  Europa  um  sistema  inaceitáveis  (...)  Eles  devem  se  retirar  da 
antimísseis  que  faça  frente  à  suposta  Ossétia  do  Sul  e  da  Abkhazia.  É 
ameaça  iraniana.  Mais  que  isso,  seu  absolutamente  importante  que  nós 
programa diz que os Estados Unidos devem  tenhamos uma aliança unificada, e que nós 
trabalhar  com  seus  aliados  da  OTAN  expliquemos aos russos que você não pode 
(alguns  dos  quais  se  opõem  ao  projeto  ser  uma  (...)  potência  do  século  XXI  e  agir 
atual)  para  o  desenvolvimento  de  um  como  uma  ditadura  do  século  XX.  E  nós 
sistema  eficiente.  A  necessidade  de  também  temos  que  afirmar  a  todas  as 
trabalhar com a Rússia não é mencionada,  democracias da região (...) – os estonianos, 
embora  de  Moscou  venham  as  principais  os  lituanos,  os  letões,  os  poloneses,  os 
críticas  ao  projeto.  Negligenciar  as  tchecos – que nós, de fato, apoiamos e nos 
preocupações  russas  sobre  o  escudo  solidarizamos aos seus esforços”104 
antimísseis  foi  a  principal  característica  do  Mais  uma  vez,  é  preciso  um  microscópio 
governo  Bush  no  último  ano,  e  provocou  para  encontrar  as  diferenças  entre  as 
respostas  duras  do  Kremlin,  como  a  propostas  de  Obama  e  a  política  atual. 
ameaça  de  instalar  uma  base  própria  no  Ambos  atribuem  toda  a  responsabilidade 
enclave de Kaliningrado, na fronteira com a  pela  intervenção  à  Rússia,  embora  a 
Polônia.  Não  há  sinais  claros,  no  projeto  Geórgia  tenha  sido  autora  do  primeiro 
político de Obama, de que haverá mudança  ataque  à  região  da  Ossétia  do  Sul, 

                                                                                                                         
103 104

http://www.barackobama.com/pdf/Fact_Sh http://obama.3cdn.net/1ec5fc3b0aa4e9d89
eet_Europe_FINAL.pdf  7_xlpmv2bau.pdf 

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Especial Barack Obama 

enfrentando  depois  a  resposta  russa.  Da  de  governo  em  Washington  não  será 
mesma  maneira,  Obama  insiste  na  suficiente  para  alterar  o  padrão  de 
necessidade  seguir  com  o  forte  apoio  aos  relacionamento  entre  os  dois  países.  A 
governos anti‐russos da ex‐União Soviética  julgar  pelas  propostas  de  Obama,  nessa 
e  do  leste  europeu,  política  que,  nos  área  nem  o  mais  otimista  dos  americanos 
últimos  anos,  tem  levado  a  conflitos  pode  acreditar  numa  mudança 
sucessivos com Moscou. Aqui, novamente,  significativa. 
há  mais  traços  de  continuidade  que  de 
mudança.   

Conclusão 

Como  se  vê,  portanto,  a  mudança 


proposta, no caso do relacionamento entre 
Washington  e  Moscou,  é  quase  nenhuma. 
Tanto na visão geral do papel da Rússia no 
mundo  quanto  no  tratamento  dos 
problemas  bilaterais  específicos,  o 
programa  de  Obama  segue  à  risca  o 
modelo dos últimos anos do governo Bush, 
quando  os  conflitos  bilaterais  se  tornaram 
mais freqüentes.  Isso está muito claro em 
um  pequeno  trecho,  extraído  de  um  texto 
extremamente  franco  sobre  política 
externa  publicado  pela  campanha  de 
Obama: 

“Joe Biden e Barack Obama entendem que 
nós  precisamos  manter  a  Rússia  em 
cheque,  precisamos  manter  os  países  do 
leste  europeu  livres  e  precisamos  manter 
os  Estados  Unidos  seguros.”105.  (grifo 
meu) 

A  visão  da  Rússia  como  uma  potência 


ressurgente e belicosa, como uma ditadura 
arraigada  no  século  XX,  como  um  Estado 
que precisa ser mantido “em cheque”, não 
ajudará a resolver os problemas existentes. 
O  governo  russo  é  marcado  pelo 
pragmatismo  e  pela  defesa  de  seus 
interesses  nacionais,  e  a  simples  transição 

                                                            
105

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Especial Barack Obama 

Os desafios nas relações com a Índia 

Hermes Moreira Jr e  Tainá Dias Vicente 

Os  atentados  terroristas  ocorridos  em  Independência,  para,  posteriormente, 


Mumbai,  capital  financeira  da  Índia,  compreender  como  esta  se  enquadra  nos 
colocaram novamente o país no centro das  objetivos  e  rumos  da  política  externa 
atenções  da  política  internacional.  Poucos  norte‐americana.  Nesse  sentido,  questões 
meses  após  a  conclusão  dos  acordos  para  como  a  instabilidade  regional,  as  relações 
cooperação  em  tecnologia  nuclear  entre  a  com a China e os demais países do eixo Sul‐
Índia e os Estados Unidos, ações terroristas  Sul,  os  acordos  nucleares  com  os  Estados 
geram  mais  instabilidade  em  uma  região  Unidos,  e  a  importância  do  país  na 
caracterizada  pela  fragilidade  das  relações  chamada “guerra contra o terrorismo” são 
entre  as  nações,  e  promovem  a  Índia  ao  fundamentais  para  compreender  os 
status  de  figura‐chave  na  configuração  da  desafios  que  se  colocam  frente  à 
política regional e mundial.  administração  democrata  de  Barack 
Obama nos anos que se seguem. 
Nosso  objetivo  é,  portanto,  projetar  os 
desafios  da  política  externa  norte‐  
americana  na  administração  do  novo 
presidente,  Barack  Obama,  frente  a  uma  As Relações Exteriores da Índia 
das  grandes  potências  emergentes  da  Atualmente,  a  política  externa  indiana  se 
política  internacional,  a  Índia.  Partindo  do  ampara  sobre  seis  eixos:  Guerra  contra  o 
pressuposto  que  a  Índia  possui  hoje  Terrorismo,  Desarmamento,  Direitos 
características  e  potencialidades  para  se  Humanos,  Mudanças  Climáticas,  Caxemira 
tornar  uma  das  grandes  forças  da  política  e a relação bilateral com os Estados Unidos 
em  nível  mundial,  acreditamos  que  a  em  Cooperação  de  Alta  Tecnologia.  Estes 
compreensão  de  sua  relação  com  os  dois  últimos  temas  estão  em  maior 
Estados  Unidos  é  essencial  para  a  evidência  por  se  tratar  de  questões  de 
percepção  dos  rumos  que  as  relações  segurança  nacional,  e,  portanto,  adquirem 
internacionais  devem  tomar  nas  primeiras  maior  importância  na  agenda  de 
décadas  do  século  XXI.  Ademais,  a  prioridades da Índia. Cabe ressaltar que as 
assinatura  do  acordo  de  cooperação  questões  que  envolvem  a  região  da 
nuclear  entre  Estados  Unidos  e  Índia,  e  a  Caxemira e a resolução do acordo bilateral 
importância  desta  para  a  estabilidade  com  os  Estados  Unidos  remetem  a  temas 
regional  no  continente  asiático  na  guerra  que  se  arrastam  desde  os  anos  da  Guerra 
contra o terrorismo global são fatores que  Fria. 
devem  ser  analisados  com  atenção,  pois 
são  questões  estratégicas  para  a  avaliação  Independente  da  Grã‐Bretanha  no  ano  de 
da geopolítica contemporânea.  1947,  a  Índia  tornou‐se  um  novo  Estado 
quase  que  simultaneamente  ao  início  da 
Assim,  nos  pautaremos  em  uma  breve  Guerra  Fria,  e  foi  importante  porta‐voz  no 
análise das relações exteriores da Índia nas  discurso  de  não‐alinhamento  (a  nenhum 
décadas  subseqüentes  à  sua  dos  grandes  pólos  de  poder),  posição 

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Especial Barack Obama 

requerida  pelos  países  do  chamado  em  conflitos  diretos  com  a  URSS  (ex‐
Terceiro  Mundo.  Nesse  sentido,  frente  ao  aliada),  aproximando‐se  dos  EUA,  na 
novo  sistema  que  se  constituía,  a  Índia  complexa  diplomacia  triangular 
optava  pela  busca  da  autonomia  e  da  arquitetada  pela  dupla  Kissinger‐Nixon. 
neutralidade  nos  temas  conflitantes  da  Nesse  sentido,  a  tensão  atômica  gerada 
política internacional.  pelo  desenvolvimento  dos  projetos 
nucleares  indiano,  paquistanês  e  chinês, 
Contudo,  à  medida  que  o  conflito  entre  vieram somente para agravar a já delicada 
EUA  e  URSS  se  desenvolveu  e  ganhou  situação  e  tornar  mais  sensível  a 
maior  complexidade,  a  posição  indiana  no  instabilidade  regional  durante  os  anos  da 
cenário  internacional  passou  a  ser  revista.  Guerra Fria. 
Resquícios  da  Guerra  Fria  chegavam  ao 
continente  asiático  e  “esquentaram”  a  Findada  a  Guerra  Fria  e  desarticulado  o 
disputa  pela  Caxemira.  Por  se  tratar  de  poder  soviético,  houve  um  natural 
região  fronteiriça  entre  Índia  e  Paquistão,  desgaste  dessas  alianças.    As  disputas 
em  litígio  desde  a  independência  destes  regionais,  sobretudo  pela  hegemonia  no 
dois  países  (1947),  a  Caxemira  caíra  como  vácuo  de  poder  que  se  dera  com  a  queda 
uma luva nas intenções de EUA e URSS de  do império vermelho, se  acirraram porém, 
constituir  alianças  e  garantir  sua  sob novas circunstâncias. O comércio entre 
possibilidade de influência na região.  a  China  e  a  Índia  aumentou 
consideravelmente,  sobretudo  a  partir  da 
Desse  modo,  ao  passo  que  os  Estados  gradual  abertura  de  seus  mercados  no 
Unidos  e  o  Paquistão  tornaram‐se  início  dos  anos  1990.  Esta  abertura  trouxe 
“parceiros íntimos” a Índia arquitetou uma  um  novo  componente  à  política  externa 
aliança especial com a URSS, opção que lhe  indiana,  a  aproximação  com  os  Estados 
foi  vantajosa  econômica  e  Unidos,  que  em  pouco  tempo  se  tornaria 
estrategicamente  durante  muitos  anos.  seu  principal  parceiro  individual  em 
Entretanto,  tais  alianças,  em  meio  àquele  comércio e tecnologia. 
complexo  jogo  em  que  se  transformou  a 
Guerra  Fria,  refletiram  nas  relações  entre  Mesmo  frente  às  mudanças  ocorridas  no 
Índia e China.   cenário internacional do pós‐Guerra Fria, a 
Índia não perdeu seu lugar de centralidade 
As interações diplomáticas entre a Índia e a  no  jogo  político  mundial,  e  continua  –  se 
China  iniciam‐se,  logo  a  partir  da  não  mais  como  porta‐voz  do  movimento 
independência  chinesa,  no  ano  de  1949,  dos  não‐alinhados  –  a  ser  um  grande 
trilhando  caminhos  pacíficos.  Porém,  a  representante  dos  países  em 
disputa  regional  não  demoraria  a  emergir,  desenvolvimento  do  Sul.  Grande  parte  da 
e  se  intensificaria  a  partir  de  1959,  com  a  sua  agenda  se  encontra  voltada  à 
concessão  de  asilo  político  por  parte  do  cooperação  no  sul  asiático  procurando 
governo  indiano  a  Dalai  Lama  representar  os  interesses  desse  grupo 
(revolucionário  da  região  separatista  perante os órgãos multilaterais, sobretudo 
chinesa  do  Tibet).  Tal  episódio  agravou  os  a  partir  da  SAARC  (Associação  da  Ásia  do 
problemas  de  contigüidade  existentes  Sul para a Cooperação Regional). 
entre  os  dois  países,  culminando  no 
conflito  sino‐indiano  de  1962.  Além  desse  acordo,  atua  no  IBAS  (Índia, 
Concomitante  a  isso,  a  China  se  envolveu  Brasil  e  África  do  Sul),  representando 

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Especial Barack Obama 

mundialmente  três  pontos  regionais  de  garantir  seus  interesses  estratégicos  em 
base  para  a  luta  dos  países  do  sul  e  todo  o  continente  asiático.  Contudo,  a 
projetando  positivamente  para  o  mundo  a  manutenção  da  estabilidade  regional,  com 
imagem  indiana.  A  Índia  se  posiciona  a presença norte‐americana, perpassa pela 
também enquanto liderança nas discussões  parceria  com  as  principais  lideranças 
sobre meio ambiente e nas negociações da  regionais, sobretudo a partir de relações de 
Rodada  Doha  da  OMC  contestando  o  cooperação com a Índia. Considerada pelos 
protecionismo  dos  países  do  norte  ao  Estados  Unidos  como  parceiro  estratégico, 
mercado agrícola. Assim, a Índia se coloca,  principalmente  no  que  tange  à  defesa,  à 
atualmente,  como  um  dos  principais  expansão da democracia, e à luta contra o 
articuladores  dos  países  em  terrorismo,  as  relações  bilaterais  entre 
desenvolvimento  (G‐20  ;  G‐77),  esses  dois  países  têm  se  intensificado  nos 
fomentando  e  fortalecendo  suas  últimos  anos,  principalmente  nos 
características  de  grande  potência  intercâmbios tecnológicos e culturais. 
emergente e líder regional. 
As  intensas  relações  comerciais  que  se 
  desenvolveram  entre  os  setores  terciários 
de  os  Estados  Unidos  e  da  Índia  têm 
A Política Externa Norte‐Americana e Seus  colaborado para o aumento na cooperação 
Desafios frente a Índia  entre  os  dois  países.  Ademais,  a  presença 
O grande desafio encontrado pelos Estados  de,  aproximadamente,  1,7  milhões  de 
Unidos  no  mundo  contemporâneo  é  o  de  imigrantes  indianos  vivendo  em  território 
liderar  uma  sociedade  internacional  norte‐americano  é  outro  fator  que  tem 
baseada em seus valores e princípios, sem  contribuído  para  o  incremento  dessa 
deixar de garantir seus interesses nacionais  relação.  No  entanto,  é  a  possibilidade  de 
baseados  no  sucesso  de  sua  economia  que, no longo prazo, o aumento de poderio 
privada  e  nos  índices  de  acumulação  de  da China gere uma transição da hegemonia 
capital  para  a  manutenção  de  sua  posição  do  sistema  internacional  para  o  mundo 
hegemônica.  Nesse  sentido,  os  Estados  asiático que tem fortalecido a aliança entre 
Unidos  devem  moldar  o  ambiente  Índia e Estado Unidos. 
internacional  de  forma  vantajosa  para  si,  Logo no início do seu mandato, George W. 
adotando  a  postura  de  ação  antes  do  Bush  assinalou  com  a  possibilidade  de  um 
rompimento  das  crises  internacionais,  ou  relacionamento  especial  com  a  Índia, 
seja, agindo de forma preventiva. Portanto,  principalmente  no  tocante  à  possibilidade 
o  envolvimento  norte‐americano  nos  de  colaboração  para  diminuir  a 
assuntos  globais  é  baseado  na  crença  de  instabilidade  regional  no  continente 
sua  responsabilidade,  capacidade  e  asiático.  As  disputas  envolvendo  Índia  e 
interesse  na  construção  de  uma  ordem  Paquistão  reduziram  sensivelmente  nos 
internacional  que  satisfaça  seus  objetivos,  últimos  anos,  abrindo  até  mesmo 
ou  seja,  um  internacionalismo  com  íntima  possibilidades  de  cooperação  no  plano 
conexão  com  os  interesses  dos  Estados  energético  entre  os  dois  países.  Nesse 
Unidos.  sentido,  a  presença  norte‐americana  no 
Desse  modo,  o  engajamento  dos  Estados  continente  se  dá  de  maneira  estratégica, 
Unidos  na  região  é  fundamental  para  buscando evitar que Índia / Paquistão / Irã 
venham a se tornar um pólo de referência 

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Especial Barack Obama 

de  poder  regional,  contrastando  com  a  materiais associados à produção de energia 


influência  que  os  Estados  Unidos  nuclear.  Em  contrapartida,  a  Índia  abriria 
pretendem  exercer  sobre  os  países  da  seus  laboratórios  para  inspeções  de  rotina 
região.  da  Agência  Internacional  de  Energia 
Atômica. 
Essa  aproximação  de  Índia  e  Estados 
Unidos  coloca  fim  a  uma  relação  de  Finalizado  recentemente,  de  acordo  com 
distanciamento  que  perdurou  durante  muitos  analistas,  este  acordo  seria  uma 
todo  o  período  da  Guerra  Fria.  Os  jogada  política  extremamente  bem 
interesses  estadunidenses  se  dão  muito  planejada  pela  diplomacia  norte‐
além  da  cooperação  e  das  oportunidades  americana,  pois  promoveria  a  Índia  à 
em  nível  econômico/comercial  e  condição  de  terceira  potência  mundial  em 
tecnológico.  A  natureza  estratégica,  poucos  anos,  contrabalançando  o  poderio 
resultante  do  reconhecimento  do  chinês  em  expansão,  e  ainda  servindo  de 
importante papel – senão decisivo – que a  exemplo  de  cooperação  ao  mundo  por  se 
Índia  pode  exercer  para  a  estabilidade  da  tratar  de  um  acordo  fechado  com  um 
Ásia,  e  sua  nova  postura  na  região,  em  Estado  de  Direito  e  de  tradição 
função da alteração da balança de poderes  democrática. 
no cenário contemporâneo, é fundamental 
para  a  atual  dinâmica  da  relação  entre  os  De acordo com membros do establishment 
dois países.  norte‐americano,  o  acordo  de  cooperação 
nuclear  entre  os  Estados  Unidos  e  a  Índia 
Mas,  se  por  um  lado  a  aproximação  entre  representa  um  salto  qualitativo  nas 
os Estados Unidos e a Índia é essencial para  relações  entre  os  dois  países,  sendo  passo 
a  garantia  de  estabilidade  regional,  por  importante  para  o  aprofundamento  das 
outro tem encontrado resistência por parte  relações  bilaterais,  que  pretende  estender 
de alguns países da região. A desconfiança  a outros campos. Notadamente, se trata do 
de  importantes  atores  como  China,  discurso  norte‐americano  de  parceria  com 
Paquistão  e  Irã,  sobretudo  pelo  chamado  a Índia na guerra contra o terrorismo. 
“nepotismo  nuclear”,  oriundo  dessa 
relação  que  vem  se  construindo,  é  o  Desde  2001,  o  combate  ao  terrorismo 
chamado  “custo  estratégico”  da  aliança,  internacional  ganhou  destaque  na  agenda 
que  em  determinado  momento  pode,  de política externa norte‐americana, sendo 
inclusive,  colocar  em  risco  a  segurança  colocado  como  principal  área  a  ser 
mundial.  abordada  na  NATIONAL  SECURITY 
STRATEGY  de  2002.  A  ação  internacional 
O  desconforto  internacional  com  respeito  dos Estados Unidos passa então a priorizar 
às  relações  entre  os  Estados  Unidos  e  a  a  vigilância  e  punição  dos  “inimigos  da 
Índia  se  dá  a  partir  de  2004,  quando  tem  ordem”, com um discurso que não mais os 
início as conversações acerca de um acordo  credenciava  como  guardiões  do  “mundo 
de  cooperação  nuclear  entre  os  dois  livre”,  mas  como  protetores  das  fronteiras 
países.  Mais  de  30  anos  após  as  sanções  que  separam  a  “civilização”  da  “barbárie”. 
impostas  pelos  Estados  Unidos  à  Índia  no  Desse  modo,  a  ameaça  terrorista  ganhou 
campo nuclear, estes passam a reconhecer  contornos  amplos  e  status  de  ameaça 
o  país  como  potência  atômica  e  revogam  internacional,  permitindo  que  os  EUA 
as restrições à importação de tecnologias e  estendessem seu papel de polícia global. 

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Especial Barack Obama 

Nesse  sentido,  é  que  Bush  vê  na  Índia  um  muitos analistas políticos mundo afora. Seu 


excelente  exemplo  de  país  democrático  e,  slogan  “We  can  change”  atraiu  adeptos 
portanto, um elemento de ajuda para a sua  não  só  nos  Estados  Unidos,  mas  em 
estratégia  de  combate  ao  terrorismo  e  diversas  partes  do  globo.  O  anseio  por 
promoção da democracia no Grande Médio  mudanças  na  condução  dos  assuntos 
Oriente. Se por um lado esse assunto se fez  internacionais,  principalmente,  motivou  a 
como principal tema para a política externa  campanha  democrata,  e  será  o  grande 
de  George  W.  Bush  em  seu  segundo  fardo  que  o  candidato  –  agora  novo 
mandato,  na  administração  de  Barack  presidente  –  Barack  Obama  terá  de 
Obama não deve ser diferente.  carregar.  Conseguirá  ele  atingir  as 
expectativas  de  seu  eleitorado  e  de 
Os Desafios para Barack Obama e para os  milhões  de  simpatizantes  por  todo  o 
Democratas  mundo  e  redirecionar  a  política  externa 
Sem  a  menor  sombra  de  dúvidas,  o  norte‐americana,  cheia  de  vícios  nestes 
primeiro  e  grande  desafio  de  Obama  será  últimos oito anos? 
recuperar  a  imagem  e  prestígio  dos  A  nomeação  de  Hilary  Clinton  para  cuidar 
Estados  Unidos  no  cenário  internacional.  dos  assuntos  internacionais,  na  Secretaria 
Se  já  não  gozava  de  unanimidade  e  de  Estado,  acena  qual  o  caminho  Obama 
simpatia  nos  quatro  cantos  do  mundo,  pretende  tomar.  Pretende,  assim,  explorar 
após  oito  anos  de  uma  administração  canais de comunicação abertos durante os 
republicana  repleta  de  equívocos  e  erros  anos  do  governo  de  Bill  Clinton,  para 
táticos  e  estratégicos  a  política  posteriormente  dar  a  sua  cara  ao  novo 
estadunidense de vigilância, manutenção e  governo. 
expansão  de  sua  ordem  tem  encontrado 
cada vez mais resistência.  No tocante às relações com a Índia, Barack 
Obama  deixou  claro,  logo  após  a 
Além  do  mais,  a  campanha  ideológica  em  confirmação  de  sua  vitória,  que  pretende 
torno  do  combate  ao  terrorismo  e  o  trabalhar em sintonia com este país, que é 
endurecimento  das  ações  norte‐ um dos grandes parceiros estratégicos dos 
americanas  no  cenário  internacional  tem  Estados  Unidos.  Ressalta‐se  aqui  a 
ligação  direta  com  a  ascensão  do  partido  importância  da  Índia  para  a  garantia  dos 
republicano  e  a  incorporação  dos  interesses  norte‐americanos  na  região, 
neoconservadores  ao  poder  no  início  da  sobretudo  na  guerra  contra  o  terror.  A 
década  de  2000.  Logo,  para  marcar  uma  experiência  indiana  no  assunto,  visto  que 
nova  fase  na  política  norte‐americana,  os  tem  combatido  o  fundamentalismo 
democratas  terão  de  revisar  as  grandes  islâmico  separatista  e  de  grupos 
linhas  de  sua  política  externa,  sobretudo  paquistaneses,  é  vista  como  essencial  no 
no  relacionamento  com  os  países  que  se  jogo  político  e  diplomático  estadunidense 
colocaram  contra  as  ações  unilaterais  do  na Ásia e no Oriente Médio. 
governo W. Bush. 
Assim, os Estados Unidos tentam construir 
O  discurso  de  Obama,  focado  no  e  garantir  uma  influência  no  continente 
multilateralismo e optando pelo recurso do  asiático  essencial  para  a  sua  grande 
soft power, caiu nas graças da comunidade  estratégia  regional  e  mundial, 
internacional, entusiasmando a imprensa e  principalmente  de  manutenção  do  acesso 

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Especial Barack Obama 

aos  recursos  energéticos  fósseis.  Buscam,  internacional  contemporânea.  Porém  sob 


portanto, aliar‐se à Índia, país com grande  nova  roupagem,  uma  vez  que,  além  dos 
influência  política  e  ideológica  entre  os  fatores  demográficos  que   sempre 
países  em  desenvolvimento,  e  ator  caracterizaram  a  centralidade  na  condição 
considerado  fundamental  na  campanha  geopolítica  do  país,  agora  há  também  o 
contra o terrorismo internacional.  peso  econômico,  e  novas  dimensões  de 
poder político e militar. 
Em  contrapartida,  a  Índia  continua  em 
busca  de  garantir  a  hegemonia  regional  e  As  relações  indo‐americanas  devem 
alcançar  definitiva  influência  global.  Para  determinar  o  futuro  da  Ásia  e  os  novos 
tanto,  o  fortalecimento  dos  laços  com  os  equilíbrios da política mundial. Porém, não 
Estados Unidos se torna determinante para  nos  iludamos  com  o  discurso  norte‐
sua  condição  de  participante  de  primeira  americano  de  cooperação  e  apoio  à  Índia 
classe na cena mundial.  com  base  nos  valores  democráticos,  haja 
vista  que  o  governo  de  Washington 
Muitos  dos  aspectos  tradicionalmente  demonstrou,  por  várias  vezes,  que  seu 
reconhecidos  na  postura  internacional  apoio a determinado país não depende da 
indiana,  desde  os  tempos  de  líder  dos  forma  de  organização  política  do  Estado, 
países  não‐alinhados,  continuarão  mas,  sobretudo,  dos  próprios  interesses 
marcando  suas  opções  na  política  globais estadunidenses. 

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Especial Barack Obama 

Os desafios nas relações com Israel 

Glauco Fernando Numata Batista 

As  relações  com  Israel  constituem  um  dos  contra seus inimigos internos e externos e 


vetores  principais  da  política  externa  ainda  garantindo  ao  país  a  posse  de  um 
norte‐americana  no  Oriente  Médio.  A  arsenal  nuclear  privilegiado,  em  uma 
permanente  assistência  econômica  e  região  na  qual  as  outras  nações  não 
militar  dos  Estados  Unidos  transformou  o  dispõem dos mesmos recursos. 
Estado  judaico  em  um  poderoso  aliado, 
que derrotou os países árabes vizinhos em  Com  o  colapso  soviético  em  1991,  os 
vários conflitos que ocorreram desde a sua  Estados  Unidos  se  tornaram  o  grande 
fundação,  em  1947.  Atualmente,  Israel  poder dominante no Oriente Médio, o que 
continua  possuindo  forte  relevância  ao  mesmo  tempo  gerou  esperanças  de 
estratégica  para  os  interesses  norte‐ maior  estabilidade  para  os  seus  aliados  da 
americanos,  e  frente  a  um  cenário  de  região,  mas  também  trouxe  perspectivas 
diálogos  instáveis  no  conflito  árabe‐ negativas  para  os  Estados  anteriormente 
israelense,  visaremos  aqui  analisar  os  subsidiados pela União Soviética. 
desafios  que  a  nova  administração  de  A  partir  dos  atentados  de  2001  e  com  a 
Barack  Obama  poderá  encontrar  nas  conseqüente  elaboração  da  Doutrina 
relações com seu aliado histórico.  Preventiva  de  George  W.  Bush,  a  atuação 
No âmbito da Guerra Fria, Israel se tornou  dos  Estados  Unidos  nesta  região  da  Ásia 
uma  base  estratégica  essencial  para  os  concentrou‐se  no  Iraque,  com  o  processo 
Estados  Unidos  evitarem  o  avanço  de  paz  entre  Israel  e  Palestina  ficando  em 
soviético  no  Oriente  Médio,  conforme  segundo  plano  na  agenda  de  política 
poderia  ser  notado  nas  aproximações  de  externa  republicana.  Israel  passa  a  ser 
Moscou com o Egito e a Síria. Deste modo,  identificado  como  forte  aliado  na  guerra 
passando  por  vários  conflitos,  sobretudo  contra o terror, sendo considerado um país 
em  1967  e  1973,  o  Estado  judaico  que  possuía  inimigos  comuns  aos  norte‐
conseguiu  impor  grandes  derrotas  a  seus  americanos  e  que  correspondia  a  uma 
adversários  e  expandir  seu  território  para  democracia  isolada  em  uma  região 
as áreas que hoje correspondem aos focos  marcada  pela  presença  de  alguns  dos 
principais dos conflitos com os palestinos.  chamados  “estados‐pária”  do  sistema 
internacional,  como  Afeganistão,  Iraque, 
O apoio irrestrito de Washington à Tel‐aviv  Irã e Síria.  
não  é  notado  somente  em  termos 
econômicos  e  militares,  mas  também  Desta forma, o governo israelense observa 
diplomáticos,  no  âmbito  das  Nações  a  utilidade  da  política  preventiva  de  Bush 
Unidas. Utilizando‐se de seu poder de veto,  filho  para  a  defesa  de  seus  interesses  nas 
os Estados Unidos já impediram a aplicação  regiões  em  seu  entorno,  passando  a  ter 
de  inúmeras  resoluções  do  Conselho  de  mais  liberdade  em  relação  aos  conflitos 
Segurança  contra  as  políticas  israelenses,  com os palestinos, da mesma forma que o 
permitindo  a  Israel  liberdade  de  ação  unilateralismo  da  administração 
republicana  primava  pela  busca  da 

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Especial Barack Obama 

mudança  de  regime  para  a  disseminação  pois  estes  grupos  lutam  motivados  por 
da  democracia,  conforme  tentado  no  questões locais, quer sejam relacionadas a 
Iraque a partir de 2003.   diferenças  religiosas,  disputas  estratégicas 
(disputa  de  territórios  ou  pelas  reservas 
A  diplomacia  americana  sob  Bush  filho  aqüíferas da região) ou mesmo em relação 
primou  pelo  chamado  “desenvolvimento  à criação do Estado da Palestina. A mesma 
democrático”  como  princípio  norteador  análise  pode  ser  feita  para  os  “estados‐
das negociações entre árabes e israelenses,  pária”  da  região,  que  de  fato  representam 
contudo  acabou  não  sendo  eficiente  para  ameaças  efetivas  para  Israel,  e  não  para  a 
encaminhar  o  processo  de  paz  de  forma  superpotência.  
eficaz.  Além  disso,  o  que  dificultou  ainda 
mais  a  atuação  dos  Estados  Unidos  na  Ainda no âmbito da guerra contra o terror, 
região foi o fato do país se recusar a entrar  as  relações  do  Estado  de  Israel  com  seus 
em  negociações  com  grupos  como  o  vizinhos  se  deterioram  a  partir  de  2006. 
Hamas, alegando sua vocação terrorista.  Este  ano  ficou  marcado  pela  vitória  do 
Hamas  nas  eleições  legislativas  na 
Assim,  o  que  cabe  salientar  é  que  o  Palestina, as novas incursões israelenses na 
estreitamento  da  aliança  dos  Estados  Faixa de Gaza e o conflito com o Hezbollah 
Unidos  com  Israel  no  âmbito  da  guerra  no  Líbano,  além  da  manutenção  da 
contra o terror parecia não fortalecer a luta  construção do muro de isolamento com os 
contra  o  terrorismo  antiamericano,  mas  territórios  palestinos,  apesar  de  protestos 
sim incentivá‐lo. As repercussões negativas  da comunidade internacional. 
da  doutrina  da  guerra  preventiva  pelo 
sistema  internacional  certamente  tiveram  Frente  a  este  cenário,  George  W.  Bush 
grande  impacto  no  Oriente  Médio,  região  tentou  reverter  o  quadro  de  relativo 
na  qual  se  localizavam  prováveis  alvos  das  descaso  no  conflito  do  Oriente  Médio, 
mudanças  forçadas  de  regime.  Os  líderes  retomando  a  iniciativa  do  processo  de  paz 
dos  grupos  terroristas,  com  destaque  a  e  promovendo  conversações  entre  as 
Osama bin Laden, freqüentemente citam a  lideranças  israelenses  e  palestinas  na 
questão  árabe‐israelense  em  seus  academia  naval  de  Annapolis  em  2007, 
discursos,  utilizando  o  apoio  incondicional  com  a  realização  de  uma  conferência 
americano a Israel como forma para incitar  internacional  que  contou  com  a  presença 
mais pessoas a aderirem as suas causas. O  de  vários  países,  inclusive  da  Liga  Árabe. 
programa  nuclear  iraniano  também  pode  Contudo,  a  conferência  ainda  não 
ser  visto  como  resposta  a  possíveis  ações  demonstrou  resultados  práticos,  assim 
conjuntas  de  Washington/Tel‐aviv  na  como  o  Quarteto  de  Madrid,  grupo 
região no bojo das ações preventivas.  formado  por  Estados  Unidos,  União 
Européia,  Rússia  e  as  Nações  Unidas,  que 
Nesse sentido, ainda podemos acrescentar  tenta  fazer  a  mediação  no  conflito  árabe‐
que  há  uma  percepção  equivocada  ao  israelense, mas até o momento sem obter 
considerar  que  Estados  Unidos  e  Israel  sucesso. 
possuem  inimigos  comuns  na  questão  do 
terrorismo,  vistos  que  muitos  dos  grupos  Deste  modo,  o  que  podemos  analisar  é 
considerados  terroristas  que  atacam  Israel  que,  inicialmente,  o  grande  desafio  da 
não constituem de fato ameaças reais para  próxima  administração  norte‐americana 
os Estados Unidos. Isso pode ser explicado  será minimizar as conseqüências negativas 

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Especial Barack Obama 

oriundas das relações íntimas com Israel no  resistência  para  retirar  os  colonos  mais 


âmbito  da  guerra  global  contra  o  terror,  antigos,  já  fixados  nas  regiões  em  disputa 
com  a  dissolução  da  lógica  agressiva  da  há vários anos.  
ação  israelense  nos  territórios  palestinos. 
Barack  Obama,  e  possivelmente  também  Do  lado  palestino,  Obama  terá  que 
Hillary Clinton, futura Secretária de Estado,  persuadir  a  Autoridade  Palestina  a 
deverão  utilizar  grandes  esforços  fortalecer suas forças de segurança visando 
diplomáticos  na  busca  de  alianças  a  diminuição  da  atuação  de  vários  grupos 
construtivas  para  reativar  o  processo  de  terroristas  que  têm  atacado  Israel,  se 
paz  entre  Israel  e  Palestina  de  forma  necessário com o auxílio militar externo de 
efetiva,  conseguindo  inclusive  o  apoio  de  países  árabes  que  necessariamente 
Estados  árabes  para  desencadear  o  deverão  se  engajar  também  no  processo 
processo.  de paz, garantindo a ele maior legitimidade 
dentro das próprias comunidades árabes.  
Nesse  sentido,  avaliamos  que  Obama 
poderá  aproveitar  a  estrutura  de  Deste  modo,  observamos  que  será  crucial 
negociação  já  existente  criada  em  para  a  consolidação  das  negociações  a 
Annapolis  e  aprofundá‐la,  passando  a  ter  redução  dos  conflitos  nas  áreas  mais 
de  fato  uma  iniciativa  mais  propositiva  no  críticas,  algo  que  será  imprescindível  para 
processo,  evitando  retornar  ao  relativo  ambos  os  lados  ganharem  um  senso  de 
descaso  do  governo  republicano.  O  novo  confiança recíproca para a manutenção do 
presidente  deverá  deixar  claros  os  diálogo  ao  longo  do  processo.  Como 
princípios  que  serão  adotados  durante  as  apontado, a participação de demais partes 
negociações,  tentando  fazer  os  dois  lados  na negociação, principalmente dos Estados 
abrirem concessões para que a situação se  da  Liga  Árabe,  será  de  grande  relevância 
estabilize de forma permanente.   para  a  sua  concretização,  mas  este  apoio 
certamente  dependerá  do 
Do  lado  israelense,  o  primeiro  passo  será  comprometimento  de  Israel  na  redução 
convencer  o  país  a  reduzir  suas  atividades  dos  seus  assentamentos  nas  áreas 
de implantação de assentamentos e novas  fronteiriças  do  Estado,  causa  principal  de 
colônias  nos  territórios  em  litígio,  grande  parte  das  ofensivas  dos  grupos 
principalmente na Cisjordânia e na Faixa de  palestinos,  assim  como  a  própria  delicada 
Gaza,  assim  como  encerrar  os  bloqueios  questão  do  reconhecimento  da  criação  de 
feitos  ao  último,  que  corta  o  um Estado Palestino. 
abastecimento dos refugiados palestinos. A 
interrupção  provisória  dessas  atividades  Além  disso,  mais  uma  questão  importante 
será essencial para diminuir as ofensivas de  a  ser  colocada  nas  relações  de  Israel  com 
grupos radicais islâmicos na região e para o  seus  Estados  vizinhos  é  a  disputa  das 
redesenho  das  novas  fronteiras  entre  os  colinas  de  Golã  com  a  Síria.  Este  ponto 
territórios  em  disputa,  tendo  em  vista  chegou a ser abordado em Annapolis, mas 
atender  as  reivindicações  palestinas  de  sem  apresentar  avanços.  Deste  modo,  a 
retorno às fronteiras originais de 1967, ano  diplomacia  americana  sob  o  governo 
a  partir  do  qual,  com  a  vitória  na  Guerra  Obama  também  deverá  ter  atenção 
dos  Seis  Dias,  Israel  conquistou  os  citados  especial  com  esta  questão,  pois  se 
territórios.  Neste  aspecto,  o  governo  conseguir  atingir  uma  solução  negociada 
israelense  ainda  encontrará  grande  que  possa  atender  aos  anseios  dos  dois 

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Especial Barack Obama 

lados, poderá reduzir as tensões existentes  em  relação  a  esse  contingente 


entre  ambos,  assim  como  retomar  populacional,  permitindo,  mesmo  que 
conversas  com  o  governo  da  Síria,  Estado  gradativamente,  o  retorno  destas  pessoas 
que  atualmente  se  encontra  na  lista  aos  territórios  ocupados  há  décadas  atrás. 
elaborada  pelo  governo  americano  que  Já  o  lado  palestino  poderá  barganhar  para 
indica  os  países  que  colaboram  com  o  acelerar  este  processo  com  o 
terrorismo.   reconhecimento  do  Estado  de  Israel,  uma 
demanda  que  há  muito  tempo  tem  sido 
Adicionalmente,  as  negociações  entre  requisitada pelo governo israelense e se faz 
Israel  e  Síria  poderiam  colaborar  para  fundamental  para  a  manutenção  das 
minar  a  influência  iraniana  na  região,  que  negociações de paz. 
utiliza  os  contatos  com  Damasco  para 
interferir nas disputas políticas recorrentes  E a questão mais problemática com a qual 
no  Líbano  e  nos  territórios  palestinos,  Obama  e  a  nova  administração  democrata 
principalmente  com  o  auxílio  a  grupos  deverão  lidar  para  a  concretização  do 
como  o  Hamas  e  o  Hezbollah.  A  processo  de  paz  entre  Israel  e  Palestina, 
reaproximação  com  a  Síria  pode  se  tornar  será  a  normatização  das  relações  com  o 
um  eixo  de  vital  importância  para  a  Hamas,  tido  como  grupo  terrorista  pelo 
atuação  americana  na  região,  visto  que  os  governo  de  George  W.  Bush.  O  que 
contatos  com  o  país  também  podem  ser  podemos  avaliar  é  que  apesar  do  fato 
cruciais  para  a  estabilização  do  Iraque,  o  deste grupo rejeitar as negociações que os 
isolamento do Irã e a própria segurança de  palestinos  mantêm  com  Israel  e  negar  a 
Líbano e Israel.  própria  existência  do  Estado  judaico,  além 
da sistemática prática de violência pregada 
Outro  ponto  importante  que  Obama  contra  os  israelenses,  as  conversas  com  o 
deverá  mediar  para  a  concretização  do  grupo  não  deverão  ser  excluídas  do 
processo  de  paz  é  a  questão  do  domínio  processo  de  paz,  a  fim  de  que  este 
sobre  a  cidade  de  Jerusalém,  que  é  realmente seja permanente. 
reivindicada  por  judeus  e  palestinos.  Os 
acordos  de  Camp  David  no  ano  2000  Isso  pode  ser  justificado  tendo  em  vista  o 
podem  servir  de  base  para  novas  fato  de  que  o  Hamas  atualmente  detém  o 
negociações,  pois  naquele  encontro  o  controle  da  Faixa  de  Gaza,  além  de  contar 
governo  israelense  chegou  a  admitir  com  o  apoio  de  boa  parte  dos  palestinos. 
compartilhar  a  soberania  da  cidade  com  a  Desta  forma,  o  caminho  que  Obama 
Autoridade Palestina, situação que poderia  poderá buscar é o estímulo à retomada dos 
dirimir  parte  das  discordâncias  entre  os  diálogos  entre  o  grupo  e  o  governo 
dois lados.  israelense e a própria Autoridade Palestina, 
no  intuito  de  mostrar  que  a  via  da 
Ainda  podemos  acrescentar  que  mais  um  resistência  armada  somente  pode  levar  à 
dos  grandes  desafios  com  que  a  deterioração da situação na Faixa de Gaza, 
administração democrata terá que lidar no  persuadindo  lideranças  do  Hamas  a  dar 
processo  de  paz  no  Oriente  Médio  será  a  passos  rumo  à  pacificação  de  suas 
questão  dos  refugiados  palestinos,  que  atividades,  com  a  oferta  de  ajuda  externa 
segundo  estimativas  já  chegam  a  quatro  para a população de Gaza e a mediação de 
milhões  de  pessoas.  O  governo  israelense  outros  países  no  conflito,  sobretudo  dos 
certamente terá que repensar sua atuação  membros da Liga Árabe. 

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Especial Barack Obama 

Por  fim,  realizando  uma  breve  análise  do  liderar  o  processo.  Deste  modo,  com  a 
cenário  político  atual  de  Israel,  vitória nas eleições o novo presidente terá 
principalmente  as  perspectivas  para  as  grandes desafios pela frente, já que com a 
próximas eleições legislativas em fevereiro,  promessa  da  “renovação  da  liderança 
de  fato  vemos  que  os  cenários  para  a  americana”  no  Sistema  Internacional,  o 
negociação  do  processo  de  paz  não  se  Oriente  Médio  certamente  será  uma  das 
mostram  muito  otimistas.  No  presente  regiões  mais  relevantes  na  qual  Obama 
momento,  as  pesquisas  indicam  a  vitória  terá seu discurso colocado à prova. 
do  Partido  Likud,  sob  a  liderança  de 
Benjamin Netanyahu, que, se concretizada,   
poderá  significar  o  retorno  de  políticos  de  Referências 
ultradireita  no  parlamento  israelense,  o 
que  pode  significar  um  revés  nas  FELDBERG, Samuel. Estados Unidos e Israel 
possibilidades de diálogo com as lideranças  –  uma  aliança  em  questão.  São  Paulo: 
palestinas.  A  candidata  que  pode  ameaçar  Hucitec, 2008. 
Netanyahu é a atual Ministra das Relações 
HAAS,  Richard  N.;  INDYK,  Martin.  Beyond 
Exteriores,  Tzipi  Livni,  líder  do  Kadima,  a 
Iraq:  a  new  U.S.  strategy  for  the  Middle 
qual  tem  tido  grandes  dificuldades  para 
East. Foreign Affairs, New York, v. 88, n. 1, 
lidar com a oposição e manter os diálogos 
Jan./Feb. 2009. Disponível em:  
com a Autoridade Palestina. Assim, Obama 
terá  que  acompanhar  de  perto  os  < 
processos da eleição, pois o resultado será  http://www.foreignaffairs.org/20090101fa
fundamental  para  a  continuidade  ou  não  essay88104/richard‐n‐haass‐martin‐
dos diálogos para o processo de paz.  indyk/beyond‐iraq.html>.  Acesso  em:  6 
dez. 2008. 
Desta  forma,  a  título  de  conclusão, 
podemos  analisar  que  o  governo  norte‐ HUCKABEE, Michael D. America`s priorities 
americano  sob  Barack  Obama  terá  in  the  war  on  terror:  islamists,  Iraq,  Iran 
caminhos  tortuosos  para  percorrer  em  and  Pakistan.  Foreign  Affairs,  New  York,  v. 
suas relações com Israel, tendo em vista o  87,  n.  1,  Jan./Feb.  2008.  Disponível  em: 
difícil  cenário  que  parece  emergir  para  o  <http://www.foreignaffairs.org/20080101f
retorno  às  negociações  que  devem  ser  aessay87112/michael‐d‐
desencadeadas  na  região  para  sua  huckabee/america‐s‐priorities‐in‐the‐war‐
estabilização.  Durante  a  disputa  on‐terror.html>. Acesso em: 15 nov. 2008. 
presidencial  norte‐americana  pôde  ser 
notado que a pacificação do conflito árabe‐ KAGAN,  Robert.  The  September  12 
israelense  teve  pouca  prioridade  nas  paradigm: America, the  World and George 
agendas  de  campanha  dos  dois  partidos,  W.  Bush.  Foreign  Affairs,  New  York,  v.  87, 
sendo que nenhum dos candidatos chegou  n. 5, Sept./Oct. 2008. Disponível em:  
a deixar claro uma proposta concreta para 

a resolução dos confrontos. Obama chegou 
http://www.foreignaffairs.org/20080901fa
a  destacar  a  necessidade  de  mais  países 
essay87502/robert‐kagan/the‐september‐
aliados de Israel envolver‐se na pacificação 
12‐paradigm.html>.  Acesso  em:  10  nov. 
do  conflito,  assim  como  prometeu  um 
2008. 
comprometimento pessoal na tentativa de 

  Página | 88 
Especial Barack Obama 

OBAMA,  Barack.  Renewing  American  RICE, Condoleezza. Rethinking the national 


Leadership.  Foreign  Affairs,  New  York,  v.  interest: american realism for a new world 
86,  n.  4,  Jul./Aug.  2007.  Disponível  em:  Foreign  Affairs,  New  York,  v.  87,  n.  4, 
<http://www.foreignaffairs.org/20070701f Jul./Aug.  2008.  Disponível  em: 
aessay86401/  barack‐obama/renewing‐ <http://www.foreignaffairs.org/20080701f
american‐leadership.html>.  Acesso  em:  10  aessay87401/condoleezza‐rice/rethinking‐
nov. 2008.  the‐national‐interest.html>.  Acesso  em:  7 
dez. 2008. 
MEARSHEIMER,  John;  WALT,  Stephen  M. 
The  Israel  lobby.  London  Review  of  Books,  ZACARIA,  Fareed.  The  future  of  american 
London,  v.  28,  n.  6,  Mar.  26,  2006.  power: how America can survive the rise of 
Disponível em:   the rest. Foreign Affairs, New York, v. 87, n. 
3,  May/Jun.  2008.  Disponível  em: 
<  <http://www.foreignaffairs.org/20080501f
http://www.lrb.co.uk/v28/n06/mear01_.ht acomment87303/fareed‐zakaria/the‐
ml>. Acesso em: 6 dez. 2008.  future‐of‐american‐power.html>.  Acesso 
PECEQUILO,  Cristina  S.  A  política  externa  em: 15 jul. 2008. 
dos EUA: continuidade ou mudança? 2. ed.   
Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2005. 

  Página | 89 
Especial Barack Obama 

Os desafios no Iraque 

Janaína Marques Storti 

Iniciada  pelo  governo  Bush  em  20  de  comprometendo  a  imagem  de  Bush  como 
março  de  2003  a  Guerra  do  Iraque  se  governante  e  a  credibilidade  dos  Estados 
tornou um dos assuntos mais polêmicos da  Unidos como liderança internacional.  
política  internacional  americana.  Com  as 
eleições  presidenciais  o  assunto  não  Prova  disto  são  as  últimas  pesquisas 
poderia  deixar  de  entrar  em  pauta,  realizadas  por  fontes  como: 
tornando‐se  foco  de  muitos  dos  debates  ABC/Washington  Post,  Gallup,  CBS/New 
entre  os  candidatos  republicanos  e  York  Times  e  NBC/Wall  Street  Journal,  as 
democratas.  Com  a  eleição  de  Barack  quais  apontam  que  a  aprovação  nacional 
Obama  é  inevitável  que  se  questione:  do governo Bush caiu de cerca de 50% em 
Quais  são  as  perspectivas  quanto  à  guerra  2005,  lembrando‐se  que  em  2001,  logo 
do  Iraque?  Quais  os  desafios  que  deverão  após  os  ataques  de  11  de  setembro  a 
ser  enfrentados  pelo  novo  governo?  E  aprovação  de  Bush  estava  em  cerca  de 
como  as  ações  perante  o  fim  do  conflito  70%, para pouco mais de 20% em 2008.106 
serão conduzidas?   Questionados se os gastos com a guerra do 
Iraque valiam à pena, o número de pessoas 
Justificada  pelo  governo  Bush  como  um  que acredita que ela não vale a pena saltou 
conflito  parte  da  luta  global  contra  o  de  45%  em  2004  para  pouco  mais  de  63% 
terrorismo, a motivação principal da guerra  em 2008.107 Além disso, em 2008, cerca de 
do  Iraque  foi  defendida  em  termos  de  54% dos americanos estimam que a guerra 
combate  a  um  governo  tirano  e  agressor  do  Iraque  representa  um  erro  na  política 
dos  Direitos  Humanos  que  supostamente  externa  americana,  contra  cerca  de  25% 
apoiava  a  Al  Qaeda,  e  que  sobretudo,  em 2003.108 
possuía  armas  de  destruição  em  massa  as 
quais  poderiam  ser  utilizadas  contra  os  A  operação  militar  no  Iraque  é  a  segunda 
Estados Unidos e seus aliados diretamente  mais  longa  guerra  na  história  dos  EUA, 
ou,  até  mesmo,  ser  fornecida  a  grupos  perdendo  apenas  para  o  Vietnã  (1959‐
terroristas.   1975), e a segunda mais custosa, perdendo 
apenas para 2°. Guerra Mundial. De acordo 
A  falta  de  consenso  internacional  sobre  a  com  Joseph  Stiglitz,  Prêmio  Nobel  de 
guerra,  a  intervenção  norte‐americana  no                                                              
Iraque  sem  que  antes  houvesse 
106
autorização  das  Nações  Unidas,  a  Para conferir os dados e gráficos
referente a esta pesquisa acesse
dificuldade  em  provar  uma  conexão  entre  <http://www.pollster.com/polls/us/jobapp
Saddam e a Al Qaeda, bem como a falta de  roval-bush.php>.
107
provas  que  comprovassem  a  existência  de  Para conferir os dados e gráficos
referente a esta pesquisa acesse
armas  de  destruição  em  massa  no  <http://www.pollster.com/polls/us/issue-
território  iraquiano  colaboraram  para  iraq-worthcostornot.php>.
108
aumentar  os  questionamentos  existentes  Para conferir os dados e gráficos
referente a esta pesquisa acesse
sobre  a  legitimidade  do  conflito,  <http://www.pollster.com/polls/us/issue-
iraq-rightormistake.php>.

  Página | 90 
Especial Barack Obama 

economia,  e  Linda  Bilmes,  professora  de  contrário a guerra do Iraque111, defendia a 


Harvard  especialista  em  finanças  públicas,  retirada imediata das tropas americanas do 
a  guerra  do  Iraque  já  custou  3  trilhões  de  Iraque, num processo que deveria levar 16 
dólares  aos  cofres  públicos  americanos109,  meses  a  partir  do  momento  em  que  ele 
e,  além  disso,  mais  de  4000  americanos  assumisse  a  presidência  dos  Estados 
foram  mortos  durante  combate  e  outros  Unidos. 
30.000 foram feridos.110  
Enquanto  candidato,  Obama  demonstrou 
Por tudo o que foi apresentado até agora o  uma  profunda  preocupação  com  os  temas 
debate  sobre  quais  posturas  adotar  de  segurança  da  agenda  americana, 
perante  a  guerra  do  Iraque  tem  se  afirmando  que  é  necessária  uma  nova 
mostrado bastante pertinente para os EUA,  postura  de  liderança  internacional  para 
bem  como  para  o  novo  governo  que  lidar com as ameaças do século XXI. Neste 
assumirá  a  presidência,  duas  guerras  em  sentido o terrorismo é visto como a maior 
andamento  (Iraque  e  Afeganistão)  e  uma  ameaça  à  segurança  dos  Estados  Unidos  e 
crise  econômico/financeira  a  partir  de  ações  em  todo  o  mundo  devem  ser 
janeiro de 2009.   conduzidas a fim de combatê‐lo.  

Amplamente  discutida  durante  os  debates  Em 14 de julho de 2008, no artigo “My Plan 


eleitorais nos EUA, a questão da condução  for Iraq” publicado no jornal The New York 
da  guerra  e  da  retirada  das  tropas  Times,  Barack  Obama  afirmava  que 
americanas  do  Iraque  mostrou  posições  acredita  que  a  Guerra  do  Iraque  é  um 
bastante divergentes entre os candidatos à  grande  erro,  pois  tira  atenção  da  guerra 
presidência. Ao contrário de John MacCain  contra  a  Al  Qaeda  e  o    no  Afeganistão,  e 
que  se  mostrava  favorável  ao  embate  no  volta‐a para a invasão de um país que não 
Iraque e propunha a continuidade dos EUA  representava  nenhuma  ameaça  iminente 
no  Iraque  até  o  momento  em  que  o  aos  EUA  e  tampouco  tinha  algo  a  ver  com 
governo  iraquiano  se  tornasse  capaz  de  os atentados de 11 de setembro. 
governar  e  garantir  a  segurança  do  país, 
Barack  Obama,  que  sempre  se  mostrou  O  programa  de  governo  de  Obama 
apresenta  como  uma  de  suas  prioridades 
encontrar, desmantelar e destruir as forças 
                                                             da Al Qaeda e tendo isto em vista, Obama 
defende  que  a  guerra  do  Iraque  deve  ser 
109
 BILMES,  Linda  J;  STIGLITZ,  Joseph  E.  The  finalizada  a  fim  de  possibilitar  que  maior 
Iraq War Will Cost Us $3 Trillion, and Much 
More.  Washington  Post,  Washington,  09  de  empenho  seja  direcionado  à  guerra  no 
março de 2008. P. B01. Disponível em   Afeganistão  iniciada  em  2001,  a  qual  é 
  <http://www.washingtonpost.com/wp‐ entendida  como  a  verdadeira  guerra  pela 
dyn/content/article/2008/03/07/AR20080307
qual os americanos deveriam lutar. 
02846_pf.html>.  Acesso  em  10  nov.2008. 
Confira  ainda:  BILMES,  Linda  J;  STIGLITZ, 
Joseph E. The Three Trillion Dollar War: the 
true  cost  of  Iraq  conflict.  New  York:  W.  W.                                                              
Norton & Company,2008. 
110 111
GLOBALSECURITY.ORG.  U.S.  Casualties  in  Cf.  OBAMA,  Barack.  Against  Going  to  War 
Iraq.  Disponível  em   With  Iraq.  Washington,  02  de  outubro  de 
<http://www.globalsecurity.org/military/op 2002.  Disponível  em 
s/iraq_casualties.htm>.  Acesso  em  10  nov.  <https://www.authorsden.com/ArticlesUplo
2008.  ad/37499.doc>. Acesso em 10 nov.2008.  

  Página | 91 
Especial Barack Obama 

Obama entende que a decisão de invadir o  adicionado  as  condições  favoráveis 


Iraque  desviou  recursos  que  deveriam  ter  internas  tais  como  a  decisão  de  muitos 
sido direcionados à guerra no Afeganistão,  sunitas  se  voltarem  contra  a  Al  Qaeda,  a 
o  que  dificultou  as  ações  no  país,  postura  de  Bush  tem  impedido  o  governo 
possibilitando  que  Osama  Bin  Laden  e  iraquiano  de  assumir  responsabilidades, 
outros envolvidos com os ataques de 11 de  comprometendo  a  consolidação  da 
setembro permanecessem livres e atuantes  estabilidade  no  país.  Para  ele  os  EUA 
em seu ativismo contra os Estados Unidos.  devem  pressionar  o  governo  iraquiano 
Além  disso,  as  forças  s  têm  conseguido  se  para  que  este  trabalhe  pela  acomodação 
fortalecer  no  sul  do  Afeganistão  e  na  política do país e gaste seus próprios lucros 
fronteira com o Paquistão o que justificaria  advindos  do  petróleo  com  a  sua 
uma  maior  intervenção  visando  seu  reconstrução. 
desmantelamento.  Deve‐se  enfatizar  que 
Obama  já  afirmou  por  diversas  vezes  que  Segundo  Barack  Obama,  a  remoção  das 
não  se  furtaria  em  atacar  pontualmente  o  tropas  no  Iraque  seria  feita  de  maneira 
Paquistão  para  destruir  células  da  Al  responsável  e  gradual  durante  sua 
Qaeda.  administração,  apelando‐se  ao  uso  da 
diplomacia  e  negociações  regionais  a  fim 
Para  Obama,  apesar  de  ter  havido  de  garantir  a  estabilidade  no  país, 
progressos  a partir  de  2007  com  a  política  assegurar a segurança nas fronteiras, evitar 
do  aumento  súbito  das  tropas  americanas  que  outros  países  se  intrometam  em 
no  Iraque112  empregada  por  Bush113,  assuntos  iraquianos,  especialmente  o  Irã, 
                                                             isolar  a  Al  Qaeda  no  Iraque,  apoiar  a 
112
reconciliação  entre  grupos  sectários  e 
Conhecido como “The new way forward” o 
prover  suporte  financeiro  para 
aumento súbito na quantidade de tropas no 
Iraque  (ou  em  inglês,  the  surge)  foi  uma  reconstrução e desenvolvimento do Iraque.  
estratégia  desenvolvida  pelo  governo  Bush 
a partir de janeiro de 2007 a qual designava  O  plano  de  Barack  Obama  e  Joe  Biden114 
o  direcionamento  de  mais  20.000  soldados  para  garantir  a  estabilidade  no  Iraque 
para o Iraque, enviados em sua maioria para  defende  uma  retirada  que  encoraje  os 
Bagdá,  a  fim  de  conferir  maior  tempo  e 
condições  de  que  fosse  conduzida  a  iraquianos  a  tomar  as  rédeas  na 
reconciliação  entre  facções  étnicas  e  manutenção  da  segurança  de  seu  país, 
políticas  e  consequentemente  diminuir  a  assumindo  amplos  compromissos 
violência que aumentara consideravelmente  enquanto  os  EUA  se  retiram.  Neste 
a partir de 2006. 
113
 Cf. BUSH, George W.  President's Address  período,  os  EUA  trabalharão  ainda  para 
to  the  Nation.  Washington:  Office  of  the  garantir  que  existam  representantes  de 
Press  Secretary,  January  10,  2007.  todos  os  níveis  sociais  iraquianos  no 
Disponível  em  governo a fim de forçar compromissos com 
<http://www.whitehouse.gov/news/release
a divisão dos lucros do petróleo, estimular 
s/2007/01/20070110‐7.html>.  Acesso  em 
10  nov.  2008  e  BUSH,  George  W.  Fact  o  federalismo,  lidar  com  as  questões  de 
Sheet:  The  New  Way  Forward  in  Iraq.                                                              
Washington:  Office  of  the  Press  Secretary, 
January  10,  2007  .  Disponível  em  114
Dados  retirados  do  site  da  campanha 
<http://www.whitehouse.gov/news/rel presidencial  de  Barack  Obama.  Disponível 
eases/2007/01/20070110‐3.html>.  em 
Acesso em 10 nov. 2008.  <http://www.barackobama.com/issues/iraq
/>. Acesso em 10 nov.2008. 

  Página | 92 
Especial Barack Obama 

territórios  disputados,  promover  novas  possibilitou  a  criação  de  uma  dinâmica 


eleições,  ajudar  com  a  questão  dos  política  positiva.  Porém,  estes  avanços, 
refugiados e com a questão da reforma das  ainda  que  relevantes,  não  representam  o 
Forças de Segurança Iraquianas (FSI). Além  alcance  de  estabilidade  no  país,  e,  ao 
disso, uma força residual permaneceria no  mesmo  tempo,  novos  desafios  demandam 
país  tanto  para  ajudar  em  treinamentos  e  novas mudanças na estratégia americana e 
dar  suporte  às  FSI  enquanto  os  líderes  iraquiana. 
iraquianos  estiverem  lidando  com  a 
situação  de  reconciliação  política  e  com  o  As  Forças  de  Segurança  do  Iraque  têm 
sectarismo,  quanto  para  conduzir  missões  crescido  consideravelmente, e em 2008 se 
contra  a  Al  Qaeda  no  Iraque  e  proteger  o  mostraram  hábeis  em  produzir  um 
corpo  civil  e  diplomático  americano  no  ambiente  mais  seguro  do  que  aquele 
país.  Críticos  desta  postura  defendem  que  concebido  no  Iraque  em  2006.  De  acordo 
a  retirada  das  tropas  americanas  ao  invés  com  o  relatório  “Measuring  Stability  and 
de  encorajar  um  maior  engajamento  e  Security  in  Iraq”116,  apresentado  pelo 
accountability  por  parte  do  governo  Departamento de Defesa ao Congresso em 
iraquiano suscitaria novas instabilidades.  setembro  de  2008,  a  habilidade  das  FSI 
tem melhorado, porém, esforços ainda são 
A despeito do prazo que o governo Obama  necessários  para  que  elas  se  tornem 
adotará  para  a  retirada  das  forças  independentes  e  auto‐suficientes  nos 
americanas  do  Iraque  diversas  questões  próximos anos, principalmente nas área de 
devem  ser  consideradas  para  que  não  se  distribuição  logística  e    gerenciamento  de 
comprometam  os  frágeis  cadeias  de  abastecimento  e  estoque.  Nas 
desenvolvimentos  positivos  já  alcançados  recentes  operações  militares  decorrentes 
no  país,  configurando  os  desafios  mais  em  províncias  iraquianas  as  FSI  se 
sérios a serem enfrentados no Iraque.  mostraram capazes de atuar no nível tático 
e  operacional,  porém,  continuam 
De  acordo  com  Biddle,  O’Hanlon  e  dependentes  dos  colaboradores  externos 
Polack115  nos  últimos  18  meses  diversas  em operações mais complexas. 
mudanças ocorreram no cenário iraquiano. 
A insurgência sunita foi contida, as milícias  Desde 2003 mais de 531 mil homens foram 
xiitas  enfraquecidas,  a  Al  Qaeda  no  Iraque  treinados  no  Iraque,  formando  um  quadro 
foi  severamente  abatida  e  as  forças  de  com mais de 600 mil funcionários, contudo 
segurança  iraquianas  fortalecidas  o  que  de  acordo  com  o  relatório,  os  números 
diminuiu  a  escalada  de  violência  e  adequados  na  questão  de  pessoal  ainda 
precisam aumentar em torno de 8%. Neste 
                                                             sentido,  um  dos  desafios  impostos  às 
115
BIDDLE,  Stephen;  O’Hanlon,  Michael  E.; 
forças  de  segurança  trata  ainda  da 
POLLACK,  Kenneth  M.  How  to  Leave  a 
Stable  Iraq:  Building  on  Progress.  Foreign                                                              
Affairs,  September/October  2008. 
116
Disponível  em  U.S.Department  of  Defense.  Measuring 
<http://www.foreignaffairs.org/20080901fa Stability  and  Security  in  Iraq.  Report  to 
essay87503/stephen‐biddle‐michael‐e‐o‐ Congress,  Washington,  September,  2008, 
hanlon‐kenneth‐m‐pollack/how‐to‐leave‐a‐ págs  33‐39.  Disponível  em 
stable‐iraq.html?mode=print>.  Acesso  em  <http://www.defenselink.mil/pubs/pdfs/90
20 nov. 2008.  10_Report_to_Congress_Sep_08.pdf>. 
Acesso em 10 nov.2008. 

  Página | 93 
Especial Barack Obama 

integração  dos  ‘Filhos  do  Iraque’117  às  FSI  milhões estão dispersos dentro do Iraque e 


contribuindo  para  conferir  maior  outros  2  milhões  refugiados  em  outros 
reconhecimento às forças locais.  países,  notadamente  na  Síria,  Jordânia, 
Líbano,  Egito,  Turquia  e  Irã.  Além  de 
Um dos maiores riscos na consolidação das  sofrerem  com  condições  precárias  de  vida 
FSI como instituição forte e auto‐suficiente  em  campos  de  refugiados  e  lidar  com  o 
perante  um  Estado  de  instituições  fracas  preconceito  diário  quando  se  encontram 
como o Iraque pode ser a volta do país ao  em outros países, o maior desafio quanto à 
sistema  ditatorial  empenhado  por  um  questão  destas  pessoas  remete  ao  seu 
golpe militar no qual preponderem o poder  retorno  ao  país  ou  localidade  onde  vivia 
de  uma  minoria  imposto  pela  violência  e  anteriormente,  no  caso  de  iraquianos 
corrupção.  Apenas  a  tentativa  de  um  deslocados no interior de seu país. 
golpe,  mesmo  que  mal  sucedido,  pode 
trazer  sérias  conseqüências  tais  como  o  Sabe‐se  que  este  retorno  costuma  ser 
redimensionamento  de  rivalidades  acompanhado  por  problemas  sociais  tais 
sectárias e a fragmentação das forças.118   como  desemprego  e  pobreza,  por  isso  o 
Iraque  necessitará  de  apoio  internacional 
Tendo  em  vista  o  tamanho  e  a  para  desenvolver  programas  de 
competência  das  FSI  pode‐se  prever  que  reassentamento  sustentáveis,  que 
com o aumento e o treinamento das forças  estimulem  a  criação  de  emprego  e  a 
será  possível  reduzir  significativamente  o  divisão  de  renda  a  fim  de  evitar  o 
número  de  tropas  americanas  no  país,  alastramento  da  atual  crise  humanitária 
porém,  os  iraquianos  ainda  não  estão  que já assola o país. 
aptos  a  manter  a  segurança  do  país 
sozinhos,  continuando  dependentes  de  A  situação  política  no  Iraque  também  está 
tropas estrangeiras.  mudando,  todavia  a  falta  de  confiança  no 
governo  e  as  pressões  competitivas 
O  retorno  de  refugiados  e  pessoas  sectárias  permanecem,  comprometendo  o 
internamente  deslocadas  também  são  desempenho  do  governo  nacional.  As 
problemas  que  não  podem  deixar  de  ser  próximas  eleições  provinciais  estão 
referenciados.  Estatísticas  da  UNHCR119  previstas  para  31  de  janeiro  de  2009  e  as 
(United  Nations  High  Commissioner  for  eleições nacionais para dezembro de 2009. 
Refugies)  pontuam  que  existem  cerca  de  Estas  representarão  um  teste  que 
4.4  milhões  de  iraquianos  desalojados  de  possibilitarão  averiguar  como  estão  a 
suas  casas,  sendo  que  dentre  estes  2.2  saúde do sistema e a dos partidos políticos 
                                                             iraquianos.  
117 
Chamam‐se  ‘Filhos  do  Iraque’  uma  força  Os  problemas  apresentados  por  hora  são 
policial  estimada  em  103  mil  iraquianos, 
alguns  dos  que  serão  enfrentados  pelo 
alguns  ex‐insurgentes,  que  recebem  um 
salário  de  US$300  por  mês  do  exército  Iraque  nos  próximos  anos,  e  a  resolução 
americano para promover a segurança local.  destes  é  de  extrema  relevância  para  a 
118
BIDDLE,  Stephen;  O’Hanlon,  Michael  E.;  criação  de  uma  situação  estável  no  país. 
POLLACK, Kenneth (2008). 
119 Neste momento as tropas americanas têm 
United  Nations  High  Commissioner  for 
Refugies.  Iraq  situation:  supplementary  um  papel  importante  na  manutenção  da 
appeal.  Geneva,  2008.  Disponível  em  frágil  esperança  de  segurança  no  Iraque  e 
<http://www.unhcr.org/partners/PARTNER um  plano  de  retirada  deve  ser  executado 
S/477b8f744.pdf>. Acesso em 10 nov.2008. 

  Página | 94 
Especial Barack Obama 

com  cautela,  levando  em  consideração  Este  acordo,  aprovado  depois  de  debates 
todas as variáveis disponíveis.   ferozes pelo parlamento iraquiano no final 
de  novembro  de  2008,  estabelece  prazos 
Questionado  sobre  o  prazo  para  retirada  visando  a  transição  de  responsabilidades 
das  tropas  americanas  do  Iraque,  Barack  para o governo iraquiano até dezembro de 
Obama afirmou em sua primeira entrevista  2011.  
como  presidente  eleito  dada  ao  jornal  “60 
minutes”120 que mantém seu compromisso  O  pacto  intitulado  “Agreement  between 
com o fim da presença norte‐americana no  the  United  States  of  America  and  the 
país,  o  qual  será  negociado  com  os  Republic of Iraq on the withdraw of United 
membros  do  aparato  de  segurança  States  forces  from  Iraq  and  the 
nacional  governamental  assim  que  Obama  Organization of their activities during  their 
assumir a presidência.  temporary  presence  in  Iraq”  assinado  por 
Bush121 e Nouri al‐Maliki, Primeiro‐Ministro 
No  início  de  dezembro  de  2008  Obama  iraquiano, no ano passado detalha como e 
anunciou  sua  equipe  de  segurança  e  em que prazo será efetuada a retirada das 
defesa, mantendo Robert Gates, Secretário  forças armadas dos EUA do Iraque, e ainda 
de  Defesa  desde  dezembro  de  2006,  em  estabelece  disposições  para  a  organização 
sua  função  de  chefe  do  Pentágono.  Esta  e  regulamentação  das  atividades  dos  dois 
posição foi vista por críticos, especialmente  governos  durante  a  presença  temporária 
militares, como uma tentativa de amenizar  dos  EUA  no  Iraque.122  Mais  do  que  isso,  a 
o  debate  pré‐eleitoral  sobre  a  posição  em  aprovação  do  acordo  representou  uma 
ser  adotada  no  Iraque.  Ao  manter  o                                                              
mesmo  Secretário  de  Defesa  do  governo 
121
antecessor  Obama  surpreendeu  a  muitos,  O  acordo  não  foi  colocado  em  votação  no 
parlamento  americano  nem  ratificado  pelo 
haja  vista  suas  críticas  às  políticas  de 
Senado.  O  executivo  americano, 
defesa  implementadas  durante  o  governo  compreendeu  que  o  pacto  é  um  mero 
Bush.  Este  fato  levantou  expectativas  de  acordo  ordinário  de  reconhecimento  de 
que  pouco  mudaria  com  referência  à  forças Status of Forces Agreement (SOFA) o 
qual pode ser implementado sem o aval do 
definição  de  ameaças  e  estratégias 
Congresso.  Este  fato  levantou  debates  nas 
delineadas no governo anterior.  casas  representativas,  contestando  a 
validade do mesmo. Durante sua campanha 
Aparentemente existe uma harmonia entre  presidencial Obama defendeu que qualquer 
Gates  e  Obama  na  questão  do  Iraque.  acordo de segurança deveria ser submetido 
Gates  atuou  de  maneira  importante  para  à  aprovação  do  Congresso,  uma  vez  que 
poderia  comprometer  os  planejamentos  da 
concluir  um  acordo  com  o  governo  futura  administração  americana, 
iraquiano que definisse o papel dos EUA no  algemando‐a  a  um  compromisso  que  não 
Iraque  a  partir  de  janeiro  de  2009,  bem  necessariamente  corresponda  a  suas 
intenções. 
como  estabeleceu  premissas  para  a 
 
retirada  das  tropas  americanas  do  Iraque.  122
WHITE  HOUSE.  Agreement  between  the 
                                                             United  States  of  America  and  the  Republic 
of  Iraq  on  the  withdraw  of  United  States 
120
Obama On Economic Crisis, Transition. CBS  forces  from  Iraq  and  the  Organization  of 
News, 16/09/2008.  their  activities  during  their  temporary 
  Disponível  em:  presence in Iraq. Bagdá: 17 de novembro de 
<http://www.cbsnews.com/stories/2008/11 2008.  Disponível  em 
/16/60minutes/printable4607893.shtml>.  <http://www.whitehouse.gov/infocus/iraq/
Acesso em 10 nov.2008.  SE_SOFA.pdf>. Acesso em 05 dez.2008. 

  Página | 95 
Especial Barack Obama 

tentativa  do  governo  Bush  de  legitimar  Todas  as  guerras  possuem  objetivos 
suas  ações  naquele  país,  a  fim  de  evitar  militares  e  políticos.  Podemos  afirmar  que 
maiores constrangimentos.  parte  do  objetivo  militar  na  guerra  do 
Iraque  foi  alcançada,  qual  seja,  capturar, 
Deste modo, é relatado no documento que  julgar e condenar Saddam Hussein por seus 
o governo iraquiano solicita formalmente a  crimes  de  guerra.  No  entanto,  até  o 
permanência  por  prazo  determinado  dos  momento  o  objetivo  político  da  guerra,  o 
EUA  em  seu  território  a  fim  de  manter  a  qual  versa  sobre  a  estabilização  do  país, 
segurança  e  a  estabilidade  no  país.  Ao  seguida  da  consolidação  da  paz  num 
mesmo  tempo  o  governo  americano  cenário  favorável,  ainda  não  foi  atingido. 
reconhece  a  crescente  capacidade  das  Percebe‐se  uma  grande  expectativa  sobre 
forças de segurança iraquianas em assumir  as  intenções  do  governo  Obama  em 
as  responsabilidades  necessárias,  concluir  rápida  e  exitosamente  este 
concordando  que  todas  as  forças  conflito,  porém,  devemos  lembrar  que 
americanas  devem  deixar  o  território  trata‐se  de  um  processo  complexo,  que 
iraquiano até 31 de dezembro de 2011.123  não  depende  da  vontade  de  um  único 
Diferentemente  do  acordado  neste  pacto,  homem, mas sim de todo aparato político e 
Obama  defende  a  evacuação  das  tropas  burocrático americano.  
americanas  do  Iraque  em  16  meses,  mas  Segundo  Obama125,  depois  dos  erros 
de acordo com Robert Gates, o presidente  cometidos a partir da Guerra do Iraque que 
teria sinalizado que poderia reconsiderar o  mancharam  a  imagem  do  país,  os  EUA 
prazo  inicialmente  proposto,  caso  seus  precisam mudar sua estratégia e recuperar 
comandantes e conselheiros lhe mostrasse  sua  capacidade  de  atrair  apoio,  admiração 
que  esta  seria  a  opção  mais  adequada.124  e confiança aos valores americanos. Tendo 
Isto  também  pode  ser  percebido  nos  isto em vista, de acordo com o presidente, 
últimos  discursos  do  presidente  que  a  conclusão  responsável  do  conflito  no 
parecem  um  pouco  mais  flexíveis  em  Iraque  e  a  condução  adequada  na  guerra 
relação aos prazos estimados inicialmente.  contra  o  terrorismo  terão  potencial  para 
renovar  a  liderança  americana  no  cenário 
mundial,  a  qual  deve  ter  como  base  a 
                                                            
atuação  internacional  comprometida, 
123
Deve‐se  enfatizar  que  a  cláusula  30  do  multilateral  e  capaz  de  liderar  pelo 
acordo  reconhece  o  direito  soberano  do  exemplo  de  sua  conduta,  evitando 
governo iraquiano de solicitar a partida das  posturas  arrogantes,  conflitos 
forças  americanas  a  qualquer  momento, 
desnecessários  e  colaborando  para 
assim como os EUA tem direito de deixar o 
país  em  qualquer  momento,  sendo  que  o 
pacto  será  anulado  após  um  ano  da 
solicitação  feita  por  escrito  por  uma  das 
partes.                                                             
124
  BARNES,  Julian  E.  Gates  on  board  with  125
Obama's Iraq plan. Los Angeles: Los Angeles  OBAMA,  Barack.  Renewing  American 
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  Página | 96 
Especial Barack Obama 

promover  a  estabilidade  no  sistema  <http://www.whitehouse.gov/news/releas


internacional como um todo.126  es/2007/01/20070110‐3.html>.  Acesso  em 
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UNITED  NATIONS  HIGH  COMMISSIONER 
                                                            
FOR  REFUGEES.  Iraq  situation: 
126
 Idem. 

  Página | 97 
Especial Barack Obama 

supplementary  appeal.  Geneva,  2008.  of  Iraq  on  the  withdraw  of  United  States 
Disponível  em  forces  from  Iraq  and  the  Organization  of 
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S/477b8f744.pdf>. Acesso em 10 nov.2008.  presence  in  Iraq.  Bagdá:  17  de  novembro 
de  2008.  Disponível  em 
WHITE  HOUSE.  Agreement  between  the  <http://www.whitehouse.gov/infocus/iraq
United States of America and the Republic  /SE_SOFA.pdf>. Acesso em 05. dez. 2008. 

  Página | 98 
Especial Barack Obama 

Os  desafios  para  o  governo  Barack  Obama  nas  relações  com  a  América  Latina 
nos campos de segurança e diplomacia 

Marcos Alan Fagner dos Santos Ferreira 

Dentre  os  grandes  desafios  em  política  seu  ápice  na  Crise  dos  Mísseis  de  outubro 
externa  do  governo  Barack  Obama,  a  de 1962.  
América  Latina  não  deixa  de  ter  um  papel 
fundamental.  Os  desdobramentos  da  Ainda  que  em  um  curto  período  do 
política  externa  de  George  W.  Bush,  que  governo  Clinton  a  busca  para  a 
resultaram  em  ações  unilaterais  bastante  normalização  das  relações  com  Cuba 
questionadas em diversas instâncias, acaba  encontrasse  eco  em  alguns  setores  –  em 
por  afetar  a  América  Latina  em  diversos  especial  produtores  agrícolas  do  meio‐
âmbitos.  Neste  artigo,  objetivarei  mostrar  oeste  ávidos  em  exportar  para  a  ilha  de 
os  problemas  que  o  novo  governo  Fidel Castro –, o governo Bush fortaleceu o 
democrata  encontrará  na  região.  embargo com a Comission Assistance for a 
Seguramente não conseguiremos abranger  Free  Cuba,  coordenada  por  Colin  Powell. 
os  desafios  para  o  governo  Obama  na  Tal medida restringiu as viagens para a ilha, 
América  Latina  em  sua  plenitude,  e  neste  além  de  colocar  as  condições  para  a 
sentido  escolhemos  discorrer  sobre  três  normalização das relações com a ilha.  
pontos  principais  neste  contexto:  Cuba,  Além  de  herdar  uma  política  hostil,  o 
México  e  Região  Andina.  Em  seguida,  grande  desafio  no  governo  Obama  será 
concluiremos  dissertando  sobre  o  desafio  lidar  com  as  diferentes  percepções  e 
de  se  criar  uma  política  concreta  de  interesses acerca da ilha dentro da política 
cooperação com a região latino‐americana.  interna  norte‐americana.  De  um  lado, 
O  desafio  permanente:  Cuba...  até  encontrará  representantes  parlamentares 
quando?  anti‐castristas  radicais  como  Lincoln  Diaz‐
Balart  e  Ileana  Ros‐Lehtinen  (ambos 
Falemos  inicialmente  de  um  desafio  que  republicanos  do  estado  da  Flórida)  que 
geograficamente  está  muito  próximo  da  tentam  manter  o  embargo  e  sufocar  o 
grande  potência:  Cuba.  O  caso  de  Cuba  é  regime;  de  outro  lado  terá  um  número 
bastante peculiar: mais do que um desafio  razoável  de  empresários  ligados  ao 
proveniente  do  governo  Bush,  é  um  agrobusiness  e  indústria  interessados  na 
desafio  histórico,  vindo  desde  a  abertura  do  mercado  cubano.    Soma‐se  a 
administração  Eisenhower  e  que  tal  desafio  o  fato  da  política  externa  para 
permanece  até  os  dias  atuais.  Após  a  Cuba estar vinculada ao Congresso através 
declaração  do  caráter  socialista  da  da lei Helms‐Burton (1996) que codificou o 
Revolução Cubana no início dos anos 60, a  embargo  e  colocou  como  condição  para 
relação  entre  EUA  e  Cuba  se  deteriorou  finalização  do  mesmo  a  aprovação  prévia 
constantemente.  De  início  o  embargo,  em  do Senado e Casa dos Representantes.  
seguida  a  invasão  fracassada  patrocinada 
pela  CIA  na  Baía  dos  Porcos,  e  logo  vimos  Embora Obama sinalize positivamente com 
cristalizada  a  situação  de  tensão  que  teve  um  maior  diálogo  com  Cuba,  este  será 
limitado  pelos  interesses  internos  de  seu 

  Página | 99 
Especial Barack Obama 

partido,  que  seguramente  não  vai  querer  viram como uma postura radical, arcaica e 


tomar decisões radicais que desagradem os  xenófoba. 
eleitores  cubano‐americanos, 
principalmente  na  Flórida  e  Nova  Jersey.  Sobre  o  narcotráfico,  hoje  o  México  está 
Assim  tem  sido  nos  últimos  anos,  e  imerso  em  uma  ferrenha  guerra  interna 
dificilmente  este  contexto  sofrerá  pelo  controle  do  tráfico  de  drogas. 
mudanças.  Atualmente  pelo  menos  sete  grupos  se 
digladiam  pelo  controle  do  tráfico,  com 
O desafio (não tão) novo: México  destaque  para  os  grupos  dos  irmãos 
Arellano Félix e a organização criminosa de 
O  México  sempre  foi  um  dos  temas  mais  Amado Carrillo Fuentes.127 Ao menos 6.000 
importantes  da  política  externa  norte‐ pessoas  foram  assassinadas  de  2006  a 
americana no Hemisfério Sul. De John Tyler  2008,  na  maioria  das  vezes  com  requintes 
(Presidente  dos  EUA  que  anexou  o  que  de  crueldade.  O  temor  de  que  a  violência 
hoje  é  denominado  Texas  e  antes  era  transborde  além  do  território  mexicano, 
território  mexicano)  a  George  W.  Bush,  os  somado a iniciativas dos Departamentos de 
desafios  sempre  foram  distintos,  mas  Estado  e  Defesa  no  combate  ao 
nunca  deixaram  de  existir.  Considerado  narcotráfico  no  continente,  fez  com  que  o 
hoje  um  corredor  para  a  passagem  de  Congresso  dos  EUA  aprovasse  uma  ajuda 
drogas  e  imigração  ilegal,  o  México  sofre  de  US$1.4  bilhões  ao  México  e  a  América 
hoje  com  um  nível  de  violência  altíssimo,  Central  denominada  “Iniciativa  Mérida”. 
somado  aos  problemas  dos  grupos  Esta  ajuda  será  focalizada  nas  instituições 
delinqüência  juvenil  (conhecidos  também  de segurança interna do México e América 
como maras).  Central,  tanto  para  o  combate  ao 
Neste  sentido,  o  desafio  do  novo  governo  narcotráfico como também no controle da 
democrata com relação ao México será um  imigração  ilegal.128  Ainda  que  a  América 
tanto mais complexo por ter que lidar com  Central esteja incluída na Iniciativa Mérida, 
duas  questões  e  não  somente  uma:  grande parte do dinheiro será revertido ao 
imigração  e  narcotráfico.  No  que  tange  a  México. 
imigração,  o  governo  Bush  optou  por  Pode‐se  depreender  que  o  maior  desafio 
adotar uma política polêmica para conter a  ao governo Obama com relação ao México 
imigração  ilegal  de  mexicanos  e  latino‐ será  limitar  a  imigração  sem  gerar 
americanos  que  usam  a  fronteira  do  Rio 
Grande  como  rota  de  entrada  aos  EUA:  a                                                              
construção  de  um  muro  entre  os  dois  127
MOLOEZNIK,  Marcos.  Seguridad  pública, 
países,  aprovado  em  28  de  novembro  de  policía  y  transición  política  en  México. 
2006.  Ainda  que  a  proposta  já  existisse  Cuaderno  de  Trabajo  “Policía  en  México” 
del  Centro  de  Estudios  Latinoamericanos 
desde  1994,  a  moção  aprovada  pelo 
(CEDLA)  de  la  Universidad  de  Amsterdam 
Senado autorizou a construção de 1.200km  (Holanda), 14 de fevereiro de 2007, 14p. 
128
de  muro  que  dividiu  não  só  os  países  em  COOK,  Collen  et.  al.  Merida  Initiative: 
desenvolvimento da grande potência como  Proposed  U.S.  Anticrime  and  Counterdrug 
Assistance for Mexico and Central America, 
também  os  corações  e  mentes  dos 
CRS Report for Congress, Washington, DC, 3 
mexicanos.  Alguns  viram  a  atitude  de  jun.  2008.  Disponível  em: 
Washington  como  positiva  para  que  os  http://www.wilsoncenter.org/news/docs/0
mexicanos  ficassem  em  seu  país,  outros  6.03.08%20CRS%20Report.pdf.  Acessado 
em: 2 dez. 2008.   

  Página | 100 
Especial Barack Obama 

problemas  políticos  junto  a  população  Fonte:  Ministério  da  Defesa  da  Colômbia 
latina  que  o  elegeu.  Além  disso,  a  (2008) 
continuidade  da  ajuda  contra  o 
narcotráfico  em  seu  governo  é  algo  difícil  Não podemos deixar de considerar, porém, 
prever,  ainda  mais  considerando  que  ele  que  o  aumento  da  ajuda  é  em  números 
está recebendo um governo dentro de uma  absolutos,  haja  vista  que  em  porcentagem 
crise econômica grave que precisará conter  o  orçamento  colombiano  de  combate  ao 
os gastos públicos.   narcotráfico e guerrilha nos mostra que os 
números  da  ajuda  de  Washington  têm 
 Os  desafios  que  vem  dos  Andes:  diminuído. 
Colômbia e Venezuela 
Nos  últimos  meses  houve  diversas  vitórias 
Desde  a  aprovação  do  Plano  Colômbia  do  governo  colombiano  sobre  a  guerrilha 
durante  a  administração  Andrés  Pastrana  com  o  desmantelamento  de  algumas 
(Colômbia) e Bill Clinton (EUA), a região dos  atividades de seqüestro e a morte e prisão 
Andes  passou  a  ocupar  uma  posição  de  alguns  líderes  das  FARC‐EP.  Dados  da 
importante  na  agenda  de  política  externa  Junta  Interamericana  de  Defesa  da 
dos  EUA  na  região.  Os  oito  anos  de  ajuda  Organização  dos  Estados  Americanos 
financeira  à  Colômbia  sofreram  mudanças  mostram  que  a  capacidade  operativa  das 
de  foco  importantes,  deixando  de  FARC‐EP e ELN diminuiu em 40% de 2001 a 
combater  somente  o  narcotráfico  para  2007.  Ainda  que  isto  tenha  gerado  um 
lutar  também  contra  as  guerrilhas  aumento  da  popularidade  do  presidente 
marxistas  das  FARC‐EP  (Fuerzas  Armadas  colombiano  Álvaro  Uribe,  algumas 
Revolucionarias da Colombia – Ejército Del  acusações  de  que  militares  assassinaram 
Pueblo)  e  ELN  (Ejército  de  Libertación  pessoas  inocentes  para  engrossar  as  cifras 
Nacional).   positivas  de  combate  à  guerrilha  podem 
enfraquecer  sua  imagem  frente  a  uma 
No  que  se  refere  à  ajuda  financeira  dos  parcela da população. 
EUA  neste  contexto,  vemos  no  Gráfico  1 
que  esta  cooperação  (em  laranja)  tem  Outro problema para o governo Obama na 
aumentado  constantemente  nos  últimos  região  é  a  Venezuela.  Ainda  que  nos  anos 
cinco  anos  e  não  há  uma  tendência  que  a  iniciais  o  governo  de  Hugo  Chávez 
ajuda cesse no governo Obama.  mantivesse  uma  posição  neutra  de 
distanciamento frente aos EUA, o golpe de 
 Gráfico  1:  Orçamento  da  Colômbia  para  o  2002 contra o governo chavista, golpe este 
combate  à  guerrilha  e  narcotráfico  (em  declaradamente visto com bons olhos pelo 
milhões de US$)  governo  Bush,  fez  o  líder  venezuelano 
radicalizar  suas  posições  contra 
Washington.  Um  radicalismo,  diga‐se  de 
passagem,  limitado  ao  campo  político‐
diplomático,  pois  no  campo  econômico  os 
negócios  entre  EUA  e  Venezuela  só 
crescem  –  por  exemplo,  houve  um 
2003
438
2004
454
2005
463
2006
499
2007
509
aumento  de  116%  no  volume  da  balança 
Cooperación EE.UU.
Impuesto al Patrimonio
Presupuesto ordinario
516
3.617
134
4.703
56
5.792
30
6.434
0
7.942
comercial entre os dois países em 2006. 
 

  Página | 101 
Especial Barack Obama 

Ainda  assim,  o  grande  desafio  do  governo  menos  prioritárias  na  agenda  de  política 
democrata  será  diminuir  o  tom  hostil  da  externa  dos  EUA.  Ainda  que  o  crescente 
diplomacia  bilateral  com  Caracas.  O  desinteresse  venha  desde  meados  da 
governo  Bush  não  só  apoiou  o  golpe  de  década  de  1990130,  a  preocupação  com  a 
2002  como  também  incluiu  a  Venezuela  região  ao  sul  do  Rio  Grande  se  limitou 
nos  relatórios  sobre  terrorismo  basicamente a questões de segurança. 
internacional, acusando‐a de ser conivente 
com  grupos  terroristas.  Outra  ação  foi  Podemos  entender  o  impacto  psicológico 
banir  a  exportação  de  materiais  bélicos  dos  atentados  que  dizimaram  quase  3.000 
para  este  país.  Hugo  Chávez  não  hesitou  vidas em território estadunidense, mas não 
em  buscar  novos  parceiros  no  setor  de  podemos  deixar  de  considerar  a 
defesa,  fortalecendo  a  cooperação  com  a  desproporcionalidade da preocupação com 
Rússia  e  desagradando  diversas  instâncias  o  terrorismo.  Na  região  latino‐americana 
políticas norte‐americanas.   não  foi  diferente.  Aqui  vimos  acusações 
infundadas  de  presença  de  células 
O  desafio  maior  passa  a  ser  aqui,  terroristas na Tríplice Fronteira (Argentina, 
reconstruir  os  laços  diplomáticos  Brasil  e  Paraguai),  a  implicação  da 
cooperativos  com  Caracas,  ação  de  Venezuela  como  conivente  com  o  terror  e 
profunda  importância  considerando  a  o  foco  demasiado  em  questões  de 
interdependência  econômica  entre  os  dois  segurança  junto  a  parceiros  importantes 
países.  como México e Colômbia.  

O  grande  desafio:  a  criação  de  uma  Um  relatório  produzido  pela  Brookings 
política concreta voltada à América Latina  Institution  (think  tank  ligado  aos 
democratas)  mostrou  que  o  novo  governo 
Embora  os  problemas  colocados  acima  precisará criar parcerias principalmente em 
sejam  de  grande  monta  e  inevitavelmente  quatro  campos  para  diminuir  o  vácuo 
farão  parte  da  agenda  dos  EUA  para  a  diplomático  deixado  nos  últimos  anos 
região,  o  grande  desafio  para  o  novo  entre  os  EUA  e  a  América  Latina: 
governo  democrata  será  melhorar  a  desenvolver  fontes  de  energias 
imagem  dos  EUA  através  de  uma  política  sustentáveis  e  combater  a  mudança 
com ações concretas de cooperação com a  climática;  gerenciar  efetivamente  o  tema 
América Latina.  da  migração;  expandir  oportunidades  para 
No início de  seu governo, George W.  Bush  todos  através  de  integração  econômica  e; 
colocou  a  América  Latina  como  um  proteger o Hemisfério do tráfico de drogas 
compromisso  fundamental  de  sua  e  crime  organizado131.  Outra  conclusão 
presidência.129 Após os atentados de 11 de                                                              
setembro  o  que  se  viu  foi  o  rebaixamento 
130
da  América  Latina  como  uma  das  regiões     SHIMABUKURO,  Alessandro,  PEREIRA, 
Paulo  e  FERREIRA,  Marcos  Alan.  A  política 
                                                             exterior  dos  Estados  Unidos:  alguns 
aspectos  do  segundo  mandato  de  George 
129
 BUSH,  George  W.  In:  Bush  pledges  better  W. Bush. In: OLIVA CAMPOS, Carlos (coord.) 
relations  with  Latin  America,  CNN.com,  25  Anuario  de  Integracion  Latinoamericana  y 
ago.  2000.  Disponível  em:  Caribeña.  Havana  :  Ediciones  CEA‐AUNA, 
http://archives.cnn.com/2000/ALLPOLITICS/ 2007. 
131
stories/08/25/campaign.wrap/index.html.     CÁRDENAS, Maurício et. al. Rethinking U.S.‐
Acessado em: 2 dez. 2008.  Latin  America  Relations:  Report  of  the 

  Página | 102 
Especial Barack Obama 

interessante  deste  relatório:  em  poucos  uma  postura  liberal  no  sentido  político  do 
momentos  históricos  os  EUA  tiveram  uma  termo, há um temor por parte da imprensa 
parceria  genuína  e  sustentável  com  a  e dos acadêmicos de uma retomada de um 
região.  Na  maior  parte  do  tempo  protecionismo  que  prejudique  as 
permaneceu  uma  postura  que  agia  economias  da  região,  algo  presente  em 
conforme problemas específicos, sem uma  governos democratas anteriores.  
agenda clara voltada para a América Latina. 
Segundo o relatório, este seria o momento  Há  por  fim  o  que  talvez  seja  o  maior 
de  mudar  esta  escrita  e  executar  uma  desafio  na  região:  a  desconfiança  de  que 
política  coesa  e  clara  para  a  América  uma proximidade com os EUA seja maléfica 
Latina.  para  a  região.  Quebrar  esta  desconfiança 
será uma tarefa árdua, se é que é possível. 
No  que  se  refere  ao  governo  eleito,  há  Depois  de  oito  anos  de  uma  diplomacia 
vontade  política  –  ao  menos  isto  é  voltada  a  questões  de  segurança  e  pouco 
sinalizado  no  campo  do  discurso  –  de  preocupada nos reais problemas da região, 
reconsiderar a América Latina como região  o novo governo terá o desafio de criar uma 
importante  na  diplomacia  para  além  das  agenda específica para o continente, como 
questões de segurança. Em um dos poucos  acertadamente  colocou  o  relatório  da 
discursos de Obama sobre a América Latina  Brookings  Institution.  Isto  não  será  uma 
durante  sua  campanha  presidencial,  ele  tarefa  simples  e  tampouco  dependerá 
colocou sua vontade de retomar com força  somente  da  vontade  política  de 
as  relações  com  a  região.  Ainda  lembrou  Washington.  Entender  o  que  é  a  América 
que justamente pelos EUA se distanciarem  Latina,  sem  uma  posição  de  superioridade 
da região, outros Estados como China e Irã  e  aceitando  a  idéia  de  que  estes  países 
se aproveitaram do vácuo para reforçarem  aprenderam  a  defender  seus  interesses 
seus  laços  com  a  América  Latina.  Sua  fala  diplomáticos  nos  últimos  anos  sem  a 
demonstrou  que sua política para a região  presença dos EUA será um desafio interno 
seria  a  da  boa  vizinhança,  comparando  o  (talvez  até  o  mais  árduo)  dos  novos 
que  pretende  fazer  com  a  postura  do  ex‐ agentes  decisores  de  Washington.  Resta 
presidente  dos  EUA,  Franklin  Delano  saber se há vontade política para lidar com 
Roosevelt.  Neste  sentido,  enfatizou  a  este desafio ou será mais simples continuar 
necessidade de cristalizar uma política que  relegando  a  região  para  segundo  plano.  A 
defenda  as  quatro  liberdades  tal  como  segunda  opção  pode  ser  a  mais  simples, 
concebia  Roosevelt:  a  política,  a  do  medo  mas  é  a  que  manterá  a  regra  dos  últimos 
(segurança),  a  da  livre  escolha  e  a  anos:  a  perda  de  influência  política  dos 
religiosa.132  Ainda  que  tenha  defendido  EUA na América Latina. 
                                                                                 

Partnership  Americas  Comission. 


Washington, DC : Brookings Institution, Nov. 
2008. 36p. 
132
OBAMA,  Barack.  Remarks  of  Senator 
Barack Obama: Renewing U.S. Leadership in 
the  Americas.  Miami,  FL,  23  mai.  2008. 
Disponível  em: 
http://www.barackobama.com/2008/05/23
/remarks_of_senator_barack_obam_68.php
. Acessado em: 2 dez. 2008.  

  Página | 103 
Especial Barack Obama 

EUA‐Africa: novas realidades, novos desafios 

Filipe Miranda Ferreira 

Com  a  eleição  de  Barack  Obama  nas  Da relevância geopolítica 


eleições  presidenciais  de  Novembro  de 
2008  importa  discorrer  sobre  o  rumo  que  África  é  um  continente  que  ocupa  30 
os EUA irão imprimir à sua política externa  milhões  de  km2,  sendo  o  segundo  maior 
e  dentro  desta  quais  os  principais  fatores  continente  mundial  e  cerca  de  3  vezes 
de  mudança  em  relação  à  administração  maior  do  que  a  Europa.  A  relevância 
Bush.  geopolítica  do  continente  africano,  hoje,  é 
sem dúvida maior que aquela que tem sido 
Contrariamente  à  maioria  das  áreas  em  usual  no  passado.  Para  a  opinião  pública 
análise,  a  política  da  administração  Bush  norte‐americana não existe uma percepção 
para o ontinente africano tem sido alvo de  apurada  das  especificidades  deste 
análises positivas, fazendo com que Barack  continente,  sendo  olhado  como  uma 
Obama  e  a  sua  nova  equipe  de  política  unidade de per si. 
externa tenham de ultrapassar uma fasquia 
muito elevada.  O  continente  africano  a  nível  geopolítico 
deve ser analisado e compreendido através 
O  continente  africano  e  as  suas  nuances  das  suas  realidade  especificas.  Existe  uma 
políticas  ainda  permanecem  como  uma  África  encravada  sem  acesso  ao  mar,  uma 
grande  incógnita,  não  só  para  a  grande  África  ribeirinha  e  mesmo  uma  África 
maioria do público em geral, mas também  insular.  Estes  fatos  são  da  maior 
para os tomadores de decisão.  importância  para  a  compreensão  da 
problemática  africana  pois  o  acesso  a 
A adequação a uma nova realidade em que  portos  de  mar  e  o  controlo  das  nascentes 
o continente africano, pela primeira vez na  de água são fatores ora de estabilidade ora 
História  contemporânea  tem  um  lugar  de  de instabilidade que podem afetar o status 
alguma  grandeza  na  dialética  geopolítica  quo regional e consequentemente as vidas 
mundial  está  a  ser  feita  em  tempo  real.  das populações. 
Não  existem  bases  de  comparação  de 
atitudes  nem  de  comportamentos  Geralmente  são  identificadas  as  sub‐
anteriores.  regiões  mediterrânica,  saariana,  sub‐
saariana  e  a  áfrica  austral  como  as 
Os  tomadores  de  decisão  dos  EUA  e  do  principais  unidades  geopolíticas  do 
resto do mundo terão de aprender à custa  continente. Estas sub‐regiões, bem como a 
dos seus próprios erros e reaprender tudo  totalidade  do  continente  nunca  foram 
aquilo que sabiam sobre este continente.   consideradas  como  áreas  geopolíticas  de 
A  sua  recém‐adquirida  importância  primeira  grandeza,  estando  sempre  na 
energética  e  o  fato  de  África  ser  um  dos  periferia  das  grandes  teorias  geopolíticas 
palcos  do  grande  embate  geopolítico  do  contemporâneas. 
século  XXI  (EUA‐China)  são  fatores  que 
elevarão África a uma importância que até 
agora claramente lhe passou ao lado. 

  Página | 104 
Especial Barack Obama 

Como refere Políbio Valente de Almeida133  privilegiadas  de  dialogo  interestadual  e  de 


“As teses geopolíticas tradicionais não dão  estabilidade  num  contexto  local  difícil  e 
grande  atenção  ao  continente  africano,  o  complexo. 
qual  foi  sempre  secundarizado  sendo, 
 
inclusivamente,  incluído  no  “outer  world”. 
Esta  periferia  geopolítica  teve  Da relevância para os EUA 
conseqüências nos processos de integração 
regionais e sub‐regionais do continente.   A crescente importância de uma política de 
segurança  energética  para  os  EUA  veio 
Muitas  tentativas  foram  feitas,  mas  em  conferir  um  peso  crescente  a  África. 
quase  todas  a  dura  realidade  da  pobreza,  Acredita‐se  que  esta  região  detenha  8% 
do  subdesenvolvimento  e  da  burocracia  das reservas mundiais de petróleo e de gás 
interminável  vieram  moldar  o  seu  natural  natural  e  já  produza  11%  da  produção 
desenvolvimento e torna‐las ineficientes.  mundial  de  petróleo  e  5%  da  de  gás 
A  pluralidade  de  tradições  nacionais  e  as  natural.134 É expectável que em 2010 a sua 
especificidades  de  cada  processo  de  produção  diária  de  petróleo  atinja  o 
descolonização  fizeram  também  com  que  número de 8 milhões de barris por dia. 
este processo de integração se distinguisse  Em 2008 os países africanos forneceram já 
pela existência de uma grande atomização  15%  da  totalidade  das  importações  norte‐
de  empreendimentos  políticos  ao  qual  americanas  de  petróleo,  diversificando 
faltava coerência.  assim  a  sua  proveniência,  que  ainda  se 
A  passagem  da  OUA‐  Organização  de  encontra  muito  centrada  nos  países  do 
Unidade  Africana  para  a  UA‐  Unidade  Golfo  Pérsico.  Deste  total  só  Angola  e  a 
Africana  foi  um  passo  gigante  naquilo  que  Nigéria  produzem  juntas  4  milhões  de 
era  o  panorama  das  organizações  barris  de  petróleo  por  dia,  estando  ambos 
internacionais  africanas.  Esta  tentativa  de  no  top  10  dos  países  que  mais  exportam 
criar  uma  organização  verdadeiramente  petróleo  para  os  EUA.  Estima‐se  que  no 
representativa e funcional mostra o desejo  prazo  de  dez  anos  as  importações  norte‐
de  aprofundamento  de  um  processo  de  americanas de petróleo africano ascendam 
integração  que  poderia  marcar  uma  nova  aos  30%.  Assim,  e  face  a  este  figurino,  a 
fase no desenvolvimento e na afirmação de  questão  da  produção,  tratamento  e 
África  como  um  parceiro  respeitável  e  distribuição  de  petróleo  dos  países 
credível.  africanos  já  deixou  de  ser  apenas  uma 
questão  comercial  para  se  tornar  uma 
É de realçar o já longo e frutuoso trabalho  questão de interesse vital para os EUA. 
de organizações regionais como a SADC e a 
ECOWAS  que,  embora  com  algumas  É  do  interesse  estratégico  dos  EUA  a 
limitações,  já  ocupam  um  lugar  de  direito  diversificação  das  suas  fontes  de  energia. 
próprio  no  contexto  sub‐regional  e  Esse  fato  está  controvertido  no  Plano 
afiguram‐se  como  as  plataformas  Nacional  de  Energia,  de  2001  e  qualquer 
                                                             ameaça  a  este  princípio  fará  os  EUA 
                                                            
133
Almeida,  Políbio  Valente  “Ensaios  de 
134
geopolitica”, Inst. Sup. de Ciências Sociais e 
Políticas  :  Inst.  de  Inv.  Científica  Tropical,  http://www.ipri.pt/eventos/pdf/FLAD05_A
1994, Lisboa, pp 112  Malaquias.pdf 

  Página | 105 
Especial Barack Obama 

responder  como  uma  ameaça  ao  seu  provinces  that  may  become  “hot” 
interesse  nacional.  Nesse  plano  nacional  exploration  areas  during  the  coming 
está  previsto  que  os  EUA  estabeleçam  decade (Mauritania, Senegal, Sierra Leone, 
relações  com  os  países  produtores  de  and  Sao  Tome  and  Principe),  and  others 
petróleo  de  forma  a  tornar  previsíveis  e  that  are  currently,  or  soon  hope  to  be, 
mais seguros os seus canais de distribuição.  exploring  for  oil  and  gas  (The  Gambia, 
Liberia, Togo, Benin, and Niger).  
Como  muitas  das  vezes  estes  países 
produtores  de  petróleo  estão  localizados  A  África  Ocidental  e  o  Golfo  da  Guiné  são 
em  regiões  com  um  grau  de  instabilidade  banhados pelo Oceano Atlântico e estão no 
elevado  e  tendo  índices  de  caminho  das  rotas  transatlânticas,  logo 
desenvolvimento muito baixos, é afirmado  para  os  EUA  esse  fato  confere‐lhes  um 
que é do interesse dos EUA o apoio a esses  acrescentado  valor  estratégico,  pois 
países,  não  só  para  gerar  estabilidade  qualquer  ameaça  a  essa  situação  porá  em 
política  mas  também  para  diminuir  os  causa  os  mercados  dos  próprios  EUA  e  da 
custos de exploração por parte das grandes  Europa Ocidental. 
companhias  petrolíferas  americanas  que 
têm de gastar fatias consideráveis dos seus  A montante da questão energética, os EUA 
orçamentos  em  infra‐estruturas  de  base,  têm  apostado  também  num 
onerando assim o preço do produto final.  relacionamento  mais  próximo  com  alguns 
países  africanos  no  que  concerne  no 
Importa  aqui  realçar  a  importância  da  combate  ao  terrorismo.  Em  1998  as 
África  Ocidental  e  mais  em  particular  da  embaixadas  norte‐americanas  de  Dar‐es‐
região do Golfo da Guiné para a Estratégia  Salaam e de Nairobi foram alvo de ataques 
dos EUA de assegurar um livre escoamento  terroristas  perpetrados  por  militantes 
de petróleo.   islâmicos  da  Al‐Qaeda.  Esse  fato  levou  a 
que  a  África  Oriental  ganhasse  uma  nova 
Já  em  2004,  John  R.  Brodman  do  importância no combate ao terrorismo.  
Departamento  de  Energia,  e  perante  uma 
Comissão do Senado135 afirmava que:  Países como o Sudão e a Somália apoiaram 
ativamente  a  Al  Qaeda.  Bin  Laden 
 “For  our  purposes  today,  I  have  defined  estabeleceu‐se  mesmo  durante  anos  no 
West  Africa  as  the  regional  grouping  of  Sudão  e  criaram‐se  redes  de  organizações 
countries  from  Mauritania  to  Angola,  and  terroristas  locais  com  laços  fortes  à 
inwards  to  include  Chad  and  the  two  organização  de  Bin  Laden,  mas  devido  ao 
Congos.  This  group  includes  six  significant,  seu  alcance  meramente  nacional  ou 
current  oil  producing  countries  (Nigeria,  regional  nunca  foram  alvo  de  grande 
Angola,  Gabon,  Congo  Brazzaville,  atenção por parte dos EUA. 
Equatorial  Guinea,  Chad),  other  countries 
with smaller amounts of current production  Nas  vésperas  da  invasão  do  Iraque  de 
(Cameroon,  Ghana,  Cote  d’Ivoire,  Congo  2003, a Administração Bush acreditava que 
Kinshasa),  a  number  of    frontier  oil  o  regime  de  Saddam  Hussein  estaria  em 
vias de comprar material nuclear num país 
                                                             africano. 
135
Estes  fatos  fizeram  com  que  os  EUA 
http://www.senate.gov/~foreign/testimony
/2004/BrodmanTestimony040715.pdf  começassem  a  sentir  que  África  teria  um 

  Página | 106 
Especial Barack Obama 

papel a jogar na luta global contra o terror  directed  to  promote  a  stable  and  secure 


e  que  os  EUA  tinham  de  trabalhar  com  os  African  environment  in  support  of  U.S. 
países  da  região  para  limitar  fundos,  foreign policy”136 
recrutamentos  e  outros  apoios  a  grupos 
islâmicos  extremistas,  ligados  ou  não  à  Al‐ A  sua  criação,  sem  a  existência  prévia  de 
Qaeda.  consultas  aos  líderes  africanos  suscitou 
alguns  receios  e  gerou  um  movimento  de 
  recusa, uns mais assumidos do que outros, 
da  instalação  do  quartel‐general  ou  de 
Da Administração Bush 
qualquer base norte‐americana em África. 
A  atuação  da  administração  Bush  no 
O  quartel‐general  do  Africom  permanece 
continente será sempre associada à criação 
até  hoje  na  Alemanha.  O  Africom  tem 
do  AFRICOM.  A  recente  criação  do 
dedicado  uma  parte  substantiva  do  seu 
AFRICOM  (Africa  Command)  em  2007  foi 
empenho  no  treino  de  tropas  africanas 
genericamente considerada como um sinal 
para  as  missões  de  manutenção  de  paz, 
da  crescente  importância  estratégica  do 
tentando  assim  cumprir  as  metas 
continente africano. 
estabelecidas na Cimeira de Sea Island dos 
Considera‐se que a criação desta estrutura  G8.  
militar venha colocar África em situação de 
São pilares fundamentais do esforço norte‐
igualdade  com  a  Europa  (EUCOM),  o 
americano  em  África  a  “Combined  Joint 
Pacífico  (PACOM),  o  Médio  Oriente 
Task  Force  Horn  of  África”  e  a  “Operation 
(CENTCOM),  a  América  Latina 
Enduring Freedom Trans Sahara”. 
(SOUTHCOM)  bem  como  o  próprio 
território norte‐americano (NORTHCOM).  Mas,  a  Administração  Bush  não  se 
distinguiu  apenas  ao  nível  militar  e  do 
Este  comando  foi  criado  no  meio  de  uma 
combate ao terrorismo, criou um programa 
nuvem  de  polêmicas  e  indefinições  que 
de  ajuda  pública  chamado  Millennium 
podem  vir  a  dificultar  a  sua  ação 
Challenge  Corporation.  Este  programa, 
futura,desde já pelo seu carácter inovador.  
embora  com  mais  fundos  de  que 
O  AFRICOM  é  constituído  por  militares  e  programas  prévios,  foi  baseado  em 
civis,  não  só  do  Departamento  de  Defesa  critérios  de  boa  governança  e  de  ajuda  às 
mas  de  um  conjunto  de  departamentos,  economias  de  mercado.  Aqui  não  existiu 
abarcando  áreas  que  vão  desde  o  apoio  nenhuma  ruptura  com  a  Administração 
humanitário, agricultura até ao comércio. A  Clinton,  pois  pegou  nos  mesmos  critérios 
esta  multiplicidade  de  áreas  corresponde  que esta havia defendido. 
igualmente  uma  missão  muito  lata  e 
Uma das grandes marcas da Administração 
abrangente: 
Bush  foi  a  criação  do  PEPFAR‐  Plano  de 
“United States Africa Command, in concert  Emergência  do  Presidente  dos  EUA  para 
with  other  U.S.  government  agencies  and  alívio da SIDA e a PMI‐ President´s Malária 
international  partners,  conducts  sustained  Iniciative.  Estes  projetos  em  áreas  tão 
security  engagement  through  military‐to‐                                                             
military  programs,  military‐sponsored  136

activities,  and  other  military  operations  as  http://www.africom.mil/AboutAFRICOM.as


  Página | 107 
Especial Barack Obama 

sensíveis  como  a  SIDA  e  a  Malária  países  africanos.    Se  quer  continuar  na 
marcaram  a  diferença  em  relação  às  tradição democrata de ligar a atribuição de 
administrações anteriores.   verbas a dossiês como a boa governação e 
a  defesa  dos  direitos  humanos  ou  se  quer 
Embora  existam  muitas  criticas  acerca  do  continuar  a  tradição  republicana  de 
funcionamento  e  filosofia  do  PEPFAR,  sem  atenuar  esse  discurso  apostando  numa 
dúvida que numa análise  global, o PEPFAR  vertente mais realista e pragmática. 
foi  um  projeto  positivo  e  tem  melhorado 
de fato a vida dos africanos.  Obama  não  se  poderá  esquecer  que  a 
inexistência de premissas em relação à boa 
  governança  e  aos  direitos  humanos  é  um 
Dos desafios do futuro  dos trunfos dos chineses em África. No seu 
programa  de  campanha  Obama  defendia 
A  administração  Obama  terá  de  enfrentar  um  esforço  para  que  os  EUA  atinjam  os 
sérios  desafios  e  terá  de  realizar  um  Objetivos  de  Desenvolvimento  do  Milênio 
esforço  formidável  se  quiser  deixar  a  sua  e prometeu duplicar a ajuda pública norte‐
marca  nas  relações  EUA‐África.  As  americana para 50 bilhões. 
realizações  sociais  da  Administração  Bush 
devem ser consolidadas nomeadamente no  Contudo  o  capital  de  esperança  de  Barack 
que concerne à PEPFAR e à PMI.  Obama junto da maioria dos africanos é de 
tal  forma  grande  que  pequenas  melhorias 
Em  relação  à  PEPFAR  é  esperado  uma  não  serão  suficientes  para  sedimentar  a 
reforma  do  seu  funcionamento,  tornando‐ sua imagem de liderança. 
a  mais  ágil  e  menos  burocrática.  É 
igualmente  expectável  que  a  sua  carga  A  sua  ascendência  queniana  reforça  a 
ideológica seja atenuada em favor de uma  percepção  que  os  africanos  têm  que  esta 
abordagem  mais  pedagógica  e  mais  poderá  ser  uma  oportunidade  única  de 
preventiva.  Embora  estas  mudanças  terem  um  líder  norte‐americano  cultural  e 
possam  trazer  mais  valias  e  um  maior  emocionalmente  ligado  às  grandes 
aproveitamento das verbas existentes para  questões africanas. 
estes  planos,  na  realidade  pouco  irá  Howard  Wolpe,  director  do  Programa 
verdadeiramente  mudar,  pois  as  bases  já  Africa e do Projecto Liderança e Reforço da 
estão lançadas.  Capacidade do Estado no Centro Woodrow 
Para António Gaspar do ISRI137 a eleição de  Wilson138 refere que: 
Barack Obama    “  a  ascendência  de  Obama  à  presidência 
 “…não  se  traduzirá  em  mudanças  terá um enorme impacto político simbólico 
substantivas  nas  relações  económicas  com  no  continente  africano.  O  fato  de  uma 
África,  pois  estas  desenvolvem‐se  sobre  pessoa  de  raça  africana  poder  ser 
pilares já edificados”.  presidente  dos  EUA  vai  aumentar 
substancialmente a nossa estatura moral e 
Os  EUA  deverão  ter  de  escolher  qual  o 
                                                            
discurso político que irão utilizar junto dos 
138

                                                             http://portuguese.maputo.usembassy.gov/
elections2_2008.html 
137
www.africa21.com.br

  Página | 108 
Especial Barack Obama 

permitir‐nos,  julgo  eu,  ter  muito  mais 


influência  nas  nossas  relações  com  países 
africanos”. 

Os  primeiros  6  meses  serão  vitais  para 


perceber  qual  a  orientação  que  vai 
prevalecer na nova administração.  

Irá  a  ajuda  americana  “militarizar‐se”  com 


o  AFRICOM  a  ser  o  elo  privilegiado  da 
intervenção,  em  África  ou  Obama  vai 
apostar  em  programas  sociais  de  larga 
escala como o seu antecessor? 

A  ajuda  será  desligada  de  critérios  de  boa 


governança  e  de  apoio  aos  direitos 
humanos  para  combater  a  influência 
chinesa  ou  irá  existir  um  reforço  dessa 
componente?As  dúvidas  são  muitas  e  a 
expectativa  é  alta.  Resta‐nos  aguardar  e 
observar o desenrolar dos acontecimentos, 
sabendo  de  antemão  uma  coisa:  África  já 
está no rol de prioridades dos EUA. 

  Página | 109 
Especial Barack Obama 

O  horizonte  das  relações  entre  Washington  e  Pequim  no  Governo  Obama: 


considerações preliminares 

Arthur Coelho Dornelles Jr. 

Em  função  da  crise  financeira  do  que  os  1,3  milhões  de  chineses 
internacional,  é  provável  que  o  decidirem,  isso  porque  quando  um  quinto 
crescimento  econômico  dos  Estados  da  população  mundial  decide  consumir 
Unidos  caia  para  cerca  de  1%  ao  ano.  mais  (seja  o  que  for),  isso  tem  tremendas 
Segundo  as  estimativas  mais  implicações sobre o mercado internacional, 
conservadoras,  o  crescimento  econômico  bem como sobre o meio ambiente. O autor 
da China cairá para algo em torno de 5% ao  nos  lembra  que,  uma  China  cooperativa 
ano.  Nas  últimas  duas  décadas  a  China  pode  tornar  a  vida  dos  Estados  Unidos 
cresceu  três  vezes  mais  rápido  do  que  os  muito  mais  fácil  e  tranqüila,  pois  a 
Estados  Unidos.  Contudo,  graças  à  atual  cooperação  de  Pequim  pode  ajudar  a 
crise financeira, talvez a economia chinesa  evitar  a  difusão  de  tecnologia  nuclear;  a 
possa  crescer  cinco  vezes  mais  rápido  do  manter dinâmico o comércio internacional, 
que  a  norte‐americana.  Com  isso,  a  China  bem  como  o  sistema  financeiro 
alcançará o PIB dos Estados Unidos em um  globalizado;  a  garantir  o  suprimento  de 
intervalo  de  tempo  consideravelmente  energia  para  diversos  países;  a  impedir  a 
menor.  Certamente,  essa  é  uma  grande  ação  de  grupos  terroristas;  e  a  reduzir  a 
fonte  de  preocupação  para  Washington  degradação ambiental(Haass, 2008). 
(Zakaria, 2008b). É sob essa nova realidade 
que  o  governo  Obama  terá  de  lidar  com  A  posição  de  Haass  remete  diretamente  à 
Pequim.   estratégia  de  engajamento  da  China, 
postulada  por  diversos  analistas  norte‐
Nesse  artigo,  pretende‐se  estabelecer  os  americanos  nos  anos  noventa  (neo‐
principais pontos de atrito entre os Estados  institucionalistas  liberais  e  sinólogos  de 
Unidos  e  a  China,  no  intuito  de  delinear  o  inclinação liberal). De acordo com tal visão, 
horizonte que a nova administração norte‐ os  Estados  Unidos  precisam  engajar 
americana  deverá  encontrar  em  suas  Pequim  nos  regimes  e  organizações 
relações com Pequim.  internacionais,  a  fim  de  enquadrá‐la  nas 
normas  políticas  e  econômicas  da 
  comunidade  internacional.  Segundo 
1) Engajar a China  Michael  Swaine  e  Minxin  Pei,  “o  objetivo 
de  longo  prazo  dos  EUA  com  o 
Em  recente  matéria  publicada  na  revista  engajamento  político  e  econômico  da 
Newsweek,  Richard  Haass  afirma  que  o  China  é  a  emergência  de  uma  sociedade 
principal  desafio  da  administração  Obama  aberta,  que  combine  uma  economia  de 
será  integrar  profundamente  a  China  à  mercado  com  instituições 
“ordem  internacional  globalizada”,  pois  o  democráticas”(2002:  4  –  tradução  nossa). 
destino do planeta depende cada vez mais  Contudo,  dificilmente  a 

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Especial Barack Obama 

integração/engajamento  de  Pequim  nos  possui  cerca  de  26  milhões  de  habitantes. 
regimes  e  instituições  internacionais  seja  Em  Taiwan  se  encontra  o  “governo”  da 
uma  condição  suficiente  para  a  República  da  China  (RC)  fundada  em  1912 
transformação  da  China  em  uma  na  China  continental.  Em  1949,  as 
democracia liberal de estilo ocidental. Sem  autoridades  da  RC  fugiram  para  Taiwan 
dúvida,  trata‐se  de  uma  condição  após  serem  derrotadas  pelo  exército 
necessária,  mas  seria  temerário  defini‐la  comunista  na  guerra  civil  chinesa.  Desde 
como suficiente.  então, os Estados Unidos têm sido o fiador 
da  independência  de  facto  (ou  seja,  não 
Apesar  disso,  a  sugestão  apresentada  por  jurídica)  que  as  autoridades  da  ilha 
Haass  é  bastante  interessante,  pois  tem  desfrutam, pois até 1979 o governo norte‐
como  objetivo  de  longo  prazo  a  americano  manteve  tropas  em  Taiwan,  no 
democratização  da  China  e,  intuito  de  evitar  que  os  comunistas 
consequentemente,  a  redução  da  chineses tomassem‐na à força. Isso porque, 
probabilidade  de  um  conflito  bélico  entre  o  regime  de  Taipé  (capital  da  RC  em 
Pequim  e  Washington  (assumindo  que  Taiwan)  era  um  importante140  aliado  dos 
democracias raramente lutam entre si).139  Estados Unidos na Guerra Fria. Em 1979, os 
Entretanto,  essa  é  uma  tarefa  para  muitas  Estados  Unidos  reataram  relações 
décadas,  e  antes  de  alcançá‐la  é  preciso  diplomáticas com Pequim, abrindo mão de 
que seja resolvido definitivamente o futuro  seu  relacionamento  oficial  com  Taipé.  No 
de  Taiwan,  pois  essa  pequena  ilha  pode  mesmo  ano,  Washington  estabeleceu  o 
deflagrar uma guerra entre Estados Unidos  Taiwan  Relations  Act,  em  que  se 
e  China,  colocando  a  perder  as  eventuais  comprometeu  a  impedir  a  reintegração 
conquistas  do  governo  norte‐americano  forçada  de  Taiwan.  O  resultado  disso  é 
em termos de engajamento de Pequim.   que, se a Casa Branca permitir que a China 
2) A “Questão de Taiwan”  tome  a  ilha  à  força,  a  credibilidade  do 
compromisso  estratégico  dos  Estados 
Taiwan  é  um  pequena  ilha  situada  a  Unidos  com  a  defesa  de  seus  aliados 
aproximadamente 160km da costa chinesa,  regionais  será  duramente  abalada, 
no  Mar  da  China  Meridional,  atualmente,  sobretudo frente à Coréia do Sul e o Japão. 
                                                             (Ross, 2000; Dornelles Jr., 2007; Roy, 2003) 

139
A  despeito  da  veracidade  empírica  da  Sendo  assim,  é  pouco  provável  que  o 
“teoria  da  paz  democrática”,  ela  carece  de  governo Obama consiga muito mais do que 
uma  teoria,  em  sentido  estrito.  A  paz  o  governo  Clinton  obteve  de  Pequim  em 
democrática  é  um  fato  verificável 
termos  de  cooperação.141  O  governo 
empiricamente,  dotado  de  considerável 
regularidade.  Em  outras  palavras,  a  paz  Clinton teve sérios problemas com Pequim 
democrática  é  uma  lei,  não  uma  teoria.                                                              
Teorias explicam leis, ao passo que leis não 
140
explicam  nada,  pois  são  apenas  Até  outubro  de  1971  a  RC  foi  membro 
regularidades  probabilísticas.  Sobre  essa  permanente  do  Conselho  de  Segurança  da 
distinção, ver: Waltz (1979). Assim, embora  ONU.
141
seja  um  ponto  pacífico  que  as  democracias   Mais  detalhes  sobre  a  crise  de  1995‐96 
raramente lutam entre si, os defensores da  entre  Estados  Unidos,  China  e  Taiwan,  ver: 
“teoria  da  paz  democrática”  falham  em  Dornelles Jr, (2007) e Ross (2000). Para mais 
explicar  as  razões  que  levam  a  ocorrência  informações  sobre  a  política  externa  dos 
desse  fenômeno.  Sobre  a  paz  democrática,  Estados  Unidos  para  a  China  nos  anos 
ver: Ray (2003) e Doyle (1996).   noventa, ver: Suettinger (2003). 

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Especial Barack Obama 

durante  boa  parte  de  seu  mandato,  Em  virtude  da  “Guerra  ao  Terrorismo”,  a 
culminando na crise de 1995‐96 no Estreito  cooperação  do  governo  chinês  se  tornou 
de Taiwan. Contudo, a partir de 1997‐98 a  importantíssima  para  Washington  e  com 
administração  democrata  conseguiu  isso  os  Estados  Unidos  reduziram 
melhorar  significativamente  suas  relações  significativamente  seu  apoio  político  e 
com  o  governo  chinês.  Isso  só  foi  possível  militar a Taiwan (sobretudo, a partir de fins 
após  o  Presidente  Clinton  anunciar  de  2003).143  Porém,  com  o  fim  da  “Guerra 
oficialmente seu apoio à posição chinesa (o  ao  Terrorismo”  se  aproximando,  a  China 
que  foi  feito  em  1998  em  Pequim,  para  teme  que  o  assunto  logo  volte  a  ser  o 
assegurar  que  a  liderança  chinesa  não  principal ponto de discórdia com o governo 
guardasse  dúvidas  quanto  à  franqueza  e  à  norte‐americano e, atrito com Washington 
seriedade  da  declaração).  Em  é o que a liderança chinesa menos deseja. 
conseqüência,  o  governo  Clinton  teve  de  Pequim  espera  crescer  por  mais  duas  ou 
“colocar Taiwan de volta em sua caixa”, ou  três  décadas  no  atual  ritmo,  aí  então 
seja,  teve  de  manter  distância  das  poderá  consolidar  sua  influência  regional 
autoridades da ilha. (Idem.)  (hoje,  tremendamente  pronunciada,  mas 
ainda  não  consolidada  em  função  da 
Entretanto,  provavelmente  a  presença  militar  norte‐americana  na  Ásia). 
administração  Obama  fará  um  trabalho  Por  outro  lado,  a  presença  militar  dos 
mais  equilibrado  do  que  o  feito  pelo  Estados Unidos na região desempenha um 
governo Bush nos seus três primeiros anos  papel  importantíssimo  na  manutenção  da 
de  mandato,  pois  nesse  período  a  Casa  estabilidade  asiática. Estabilidade  esta que 
Branca  privilegiou  aberta  e  permitiu a China crescer a uma taxa média 
sistematicamente  suas  relações  com  de 9,3% ao ano entre 1979 e 2004.144 Sem 
Taiwan,  em  detrimento  da  China  e  da  os  Estados  Unidos  no  Leste  Asiático, 
estabilidade  regional.  Essa  inclinação  ficou  Pequim,  Moscou  e  Tóquio,  teriam  de 
evidente  já  no  início  de  2001,  quando  da  responder  pelos  custos  políticos  e 
autorização  presidencial  à  venda  de  um  econômicos  advindos  da  manutenção  da 
grande pacote de armamentos a Taiwan (o  estabilidade  regional  e,  no  momento, 
maior  desde  o  fim  da  Guerra  Fria). 
Também  dão  mostra  dessa  inclinação  as                                                              
diversas  permissões  que  a  Casa  Branca  143
Desde  fins  de  2003,  as  relações  entre 
concedeu  (entre  2001  e  2002)  às  Estados  Unidos  e  Taiwan  perderam  muito 
autoridades  de  Taiwan,  para  que  estas  de  seu  ímpeto  inicial.  Isso  porque,  em 
visitassem  o  território  norte‐americano.  agosto de 2002 o “governo” de Taiwan deu 
inicio  a  uma  série  de  ações  provocativas 
Tais  visitas  desagradam  imensamente  a 
dirigidas  contra  a  China,  comprometendo 
liderança chinesa, pois basta lembrar que a  duramente  a  disposição  de  Pequim  em 
crise  de  1995‐96  foi  provocada  pela  visita  cooperar  na  “Guerra  ao  Terrorismo”.  Em 
do  “presidente”  de  Taiwan  aos  Estados  dezembro  de  2003  tais  ações  chegaram  ao 
ápice, e o governo norte‐americano, então, 
Unidos.142  decidiu  reduzir  expressivamente  seu  apoio 
político  e  militar  às  autoridades  da  ilha. 
(Dornelles Jr., 2009) 
144
                                                             Já  no  período  pré‐reforma  (1960‐1978),  o 
crescimento médio da China foi de 5,3% ao 
142
 Mais detalhes sobre os três primeiros anos  ano. (Morrison, 2005) Com um crescimento 
política  externa  do  governo  Bush  para  médio  de  9,3%,  o  PIB  chinês  dobra  de 
Taiwan, ver: Dornelles Jr., (2009).  tamanho a cada oito anos. 

  Página | 112 
Especial Barack Obama 

nenhum  deles  têm,  aparentemente,  outras palavras, a Organização de Xangai é 


condições de pagar essa conta (mesmo que  apenas uma instituição criada para reduzir 
coletivamente)  sem  prejudicar  seriamente  a  assimetria  informacional  entre  os  dois 
sua economia.   principais atores, com o que, a China pode 
monitorar e controlar o avanço russo sobre 
3) Para além da “Questão de Taiwan”  a  região,  e  vice‐versa.  A  neutralidade 
Pequim  teme  que,  após  o  fim  da  “Guerra  chinesa  no  recente  conflito  entre  Rússia  e 
ao  Terrorismo”  o  próximo  alvo  de  Geórgia,  ilustra  com  clareza  que  o 
Washington  seja  a  Ásia  Central.  Em  outras  argumento  da  suposta  “aliança 
palavras,  trata‐se  do  “quintal”  da  China  (e  contrabalançante”  não  passa  de  pura 
da  Rússia),  local  onde  o  governo  chinês  ilusão.   
mantém  importante  iniciativa  de  Além  disso,  o  rápido  crescimento  do 
cooperação econômica, política e militar. A  orçamento de defesa chinês (cerca de 16% 
Organização  de  Cooperação  de  Xangai  ao ano) assusta os vizinhos japoneses, sul‐
(formada  por  China,  Rússia,  Cazaquistão,  coreanos  e  taiwaneses,  especialmente 
Tajiquistão, Uzbequistão e Quirguistão) é o  após  a  recente  inação  militar  de 
exemplo  mais  acabado  do  desejo  de  Washington  no Cáucaso.145  Com esse nível 
Pequim  em  consolidar  seu  poder  e  de crescimento, o orçamento de defesa da 
influência  sobre  a  Ásia  Central,  no  intuito  China dobra de tamanho a cada cinco anos. 
de  controlar  as  reservas  de  petróleo  e  gás  Contudo,  os  números  oficiais  sobre  essa 
natural  da  região  e,  assim,  impedir  que  os  questão  são  bastante  duvidosos,  pois  “no 
Estados Unidos o façam. Além disso, evitar  orçamento  de  defesa  chinês  não  estão 
que  os  países  da  Ásia  Central  entrem  na  incluídos  os  gastos  com  a  aquisição  de 
órbita  norte‐americana  é  uma  prioridade  armamentos  do  exterior,  os  investimentos 
para  o  governo  chinês  (e  para  o  governo  em pesquisa militar, os gastos com a Polícia 
russo),  pois  se  tais  Estados  vierem  a  se  Armada  do  Povo  e,  os  subsídios  estatais 
tornar aliados preferenciais da Casa Branca  para a indústria bélica nacional.” (Dornelles 
(essa condição, em geral, é oficializada com  Jr., 2008: 31) Adicionalmente: 
um  Tratado  de  Defesa  Mútua),  a  China 
ficaria  cercada  militarmente  pelos  Estados  “(...)  o  Pentágono  (2006:  20)  estima  que  o 
Unidos  (considerando,  é  claro,  o  conjunto  orçamento militar da China seja duas a três 
da  presença  militar  norte‐americana  no  vezes  maior  do  que  o  valor  divulgado  por 
teatro  asiático).  Com  a  Organização  de  Pequim. No entanto, em 2005 um grupo de 
Xangai, a China espera não apenas conter o  analistas da RAND divulgou uma estimativa 
avanço de Washington sobre a região, mas  bastante  diferente,  afirmando  que  os 
também  evitar  que  Moscou  domine  as  gastos militares da RPC são algo entre 1,4 e 
reservas energéticas da Ásia Central.   1,7 vez maior do que o valor anunciado. A 
estimativa da RAND nos parece muito mais 
Nesse  sentido,  a  Organização  de  Xangai  coerente  do  que  a  do  Pentágono,  pois  a 
não se afigura como a institucionalidade de  equipe  da  RAND  rastreou  os  gastos  de 
uma  suposta  “aliança  contrabalançante”  defesa  que  não  estão  incluídos  no 
entre China e Rússia, erigida para equilibrar 
                                                            
a  balança  de  poder  global  e,  assim,  impor 
145
pesados  constrangimentos  ao  Para  mais  detalhes  sobre  o  orçamento  de 
comportamento  dos  Estados  Unidos.  Em  defesa  chinês,  ver:  Shambaugh  (2005); 
Dornelles Jr., (2008); Bitzinger (2003). 

  Página | 113 
Especial Barack Obama 

orçamento  oficial,  os  quais  se  encontram  esforços  do  governo  norte‐americano  e 
diluídos  entre  cidades,  províncias  e  seus  aliados,  tal  organização  perdeu  sua 
governo  central.  Tal  procedimento  nunca  funcionalidade, ou seja, sua capacidade de 
foi realizado pelo Departamento de Defesa,  operar  em  diversos  países 
o  que  torna  sua  avaliação  bastante  simultaneamente,  recrutando,  treinando  e 
especulativa.” (Dornelles Jr., 2008: 31‐32)  armando  seguidores,  o  que  era  possível 
através  de  uma  complexa  rede 
Soma‐se  a  isso  a  crescente  penetração  internacional  de  financiamento  e  lavagem 
político‐econômica da China no continente  de dinheiro, agora desmantelada (isso não 
africano, o que preocupa o governo norte‐ significa  que  a  Al‐Qaeda  esteja  morta,  o 
americano,  pois  Pequim  tem  ocupado  que  se  está  afirmando  é  que  ela  perdeu 
rapidamente  os  espaços  deixados  na  seu  alcance  global,  estando  hoje  bastante 
África,  tanto  pelas  potências  coloniais  circunscrita  ao  Afeganistão  e,  sobretudo, 
quanto  pelas  grandes  potências  da  Guerra  ao Paquistão).  Este é, sem dúvida, o  único 
Fria.  Para  se  ter  uma  idéia,  o  comércio  feito  significativo  da  administração  Bush 
entre  a  China  e  o  continente  africano  em  termos  de  política  externa.  (Zakaria, 
cresce  cerca  de  50%  ao  ano,  devido  ao  2008) 
crescimento  econômico  relativamente 
acelerado  de  diversos  países  africanos  Em  relação  ao  terrorismo,  o  governo 
(como,  por  exemplo,  Angola  e  África  do  Obama  precisa  aumentar  expressivamente 
Sul)  possibilitado  pelas  exportações  de  o  número  de  tropas  no  Afeganistão  (algo 
recursos  naturais  (petróleo,  gás  natural  e  entre  60  mil  e  80  mil  homens),  para  ter 
minérios estratégicos). A  China, com a sua  condições mínimas de controlar a fronteira 
política  africana  espera:  1)  conquistar  o  entre  Paquistão  e  Afeganistão.  Isso  seria 
emergente  mercado  africano;  2)  suficiente  para  eliminar  definitivamente  o 
diversificar  suas  fontes  de  petróleo,  gás  Taleban  e  a  Al‐Qaeda?  Provavelmente, 
natural e minérios estratégicos; 3) cooptar  não.  Contudo,  contribuiria 
os  Estados  africanos  que  ainda  mantêm  significativamente  para  a  estabilidade 
relações  diplomáticas  com  Taiwan;  4)  regional,  pois  dificultaria  grandemente  a 
consolidar sua imagem de grande potência  vida  dos  diversos  grupos  e  organizações 
benevolente e pacífica.146   terroristas  que  se  utilizam  da  porosa 
fronteira  entre  Afeganistão  e  Paquistão 
  para  agir  violentamente  na  região  e 
4) A importância da China para o combate  escapar das autoridades locais.  
ao terrorismo  Entretanto,  tal  aumento  no  contingente 
Embora  a  “Guerra  ao  Terrorismo”  tenha  militar  norte‐americano  no  Afeganistão 
apresentado  diversas  conseqüências  teria um custo (político) menor se apoiado 
imprevistas  (como,  por  exemplo,  a  difícil  pela  China,  pois  se  Pequim  se  opor  a  essa 
tarefa de pacificar o Iraque), a Al‐Qaeda foi  iniciativa,  a  Casa  Branca  não  contará  com 
grandemente enfraquecida, pois graças aos  inúmeras  facilidades.  Entre  elas  estão:  o 
                                                             congelamento  dos  bens  de  suspeitos  de 
terrorismo  (algo  que  a  China  já  vem 
146
Mais  detalhes  sobre  a  penetração  chinesa  fazendo,  a  pedido  do  governo  Bush); 
no  continente  africano,  ver:  Gill  &  Reilley 
partilha de informações sobre organizações 
(2007);  Gill,  Huang  &  Morrison  (2007);  e 
Looy & Haan (2006).   terroristas  (idem.);  liberdade  para  as 

  Página | 114 
Especial Barack Obama 

autoridades  norte‐americanas  operarem  Flanagan  &  M.  E.  Marti.  The  People’s 
em território chinês (idem.); pressão sobre  Liberation  Army  and  China  in  Transition. 
o  governo  paquistanês  (e  seu  serviço  de  Washington  D.C:  National  Defense 
inteligência)  para  que  esse  aceite  sem  University Press, pp. 177‐193. 
restrições  o  aumento  de  tropas 
estrangeiras em sua fronteira.  DORNELLES Jr., Arthur C. (2007) “A Crise no 
Estreito  de  Taiwan  (1995‐1996)  e  as 
  Relações  entre  Estados  Unidos,  China  e 
Taiwan”.  Cena  Internacional.  Vol.  9,  N°  1, 
Conclusão  pp. 57‐81. 
Sendo  esses  os  principais  pontos  de  atrito  ________.  (2008)  “O  Crescimento  do 
entre  Washington  e  Pequim,  percebe‐se  Orçamento  de  Defesa  Chinês: 
que  o  desafio  do  novo  presidente  norte‐ características,  prioridades  e  objetivos”. 
americano  é  imenso.  Porém,  se  o  governo  Carta Internacional. Vol. 3, N° 1, pp. 30‐37. 
Obama desempenhar uma política externa 
agregadora  e  conciliadora  nas  diversas  ________.  (2009)  “A  Política  do  Governo 
áreas  de  atrito,  então  ele  terá  boas  Bush  para  Taiwan:  o  fim  da  ‘ambigüidade 
condições  de  conquistar  o  apoio  da  estratégica’? (2001‐2003)”. No prelo. 
liderança  chinesa,  que  deseja  estabilidade 
e  tranqüilidade  para  crescer  e  igualar  seu  DOYLE,  Michael  W.  (1996)  “Kant,  Liberal 
PIB ao dos Estados Unidos.   Legacies,  and  Foreign  Affairs”.  In:  Brown, 
Michael  E.  et.  al.  (Eds.)  Debating  the 
Mas o que acontecerá se a China conseguir  Democratic  Peace.  Cambridge,  MA:  MIT 
chegar  aonde  quer?  Transigir  pode  ser  Press, pp. 3‐57. 
fácil, mas no longo prazo, talvez isso tenha 
um  custo  muito  elevado.  Um  custo  que  GILL, Bates; HUANG, Chin‐hao; MORRISON, 
Washington  pode  não  estar  disposto  a  J.  Stephen.  (2007)  “Assessing  China’s 
pagar.  Uma  nota  de  cautela:  não  Growing  Influence  in  Africa”.  China 
esperemos  grandes  novidades  na  política  Security. Vol. 3, N° 3, pp. 3‐21. 
dos  Estados  Unidos  para  a  China.  Não  GILL,  Bates  &  REILLY,  James.  (2007)  “The 
apenas porque o lobby de Taiwan é muito  Tenuous  Hold  of  China  Inc.  in  Africa”.  The 
forte  no  congresso  norte‐americano,  ou  Washington  Quarterly.  Vol.  30,  N°  3,  pp. 
porque  ainda  exista  um  forte  sentimento  37‐52. 
anticomunista entre  muitos parlamentares 
influentes,  mas,  sobretudo,  porque  os  HAASS,  Richard.  (2008)  “China:  don’t 
Estados  Unidos  temem  a  multipolaridade,  isolate,  integrate”.  Newsweek.  November 
temem a redução de seu poder no sistema  29.  Disponível  em: 
internacional,  e  a  ascensão  da  China  http://www.newsweek.com/id/171259 
representa exatamente isso.    (acesso em 15/12/2008). 

  LOOY,  Judith  van  de.  &  HAAN,  Leo  de. 


(2006)  “Africa  and  China:  a  strategic 
Referências Bibliográficas  partenership?”.  Strategic  Analysis.  Vol.  30, 
BITZINGER,  Richard  A.  (2003)  “Analyzing  N° 3, pp. 562‐575. 
Chinese  Military  Expenditures”.  In:  S.  J. 

  Página | 115 
Especial Barack Obama 

MORRISON,  Wayne  M.  (2005)  China’s  SUETTINGER,  Robert  L.  (2003)  Beyond 
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Congressional Research Service.  relations,  1989‐2000.  Washington,  D.C: 
Brookings Institution Press. 
RAY, James Lee. (2003) “A Lakatosian View 
of  the  Democratic  Peace  Research  SWAINE,  Michael  D.  e  MINXIN  Pei.  (2002) 
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Mirian.  (Eds.)  Progress  in  International  Relations”.  Carnegie  Endowment  for 
Relations  Theory:  appraising  the  field.  International  Peace.  Policy  Brief.  (February 
Cambridge, MA: MIT Press, pp. 205‐243.   13) pp. 1‐8. 

SHAMBAUGH,  David.  (2005)  “China’s  WALTZ,  Kenneth.  (1979)  Theory  of 


Military Modernization: Making Steady and  International  Politics.  New  York,  NY: 
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Wills.  Strategic  Asia  2005‐2006:  Military 
Modernization  in  an  Era  of  Uncertainty.  ZAKARIA,  Fareed.  (2008)  The  Post‐
Seattle,  WA:  National  Bureau  of  Asian  American  World.  New  York,  NY:  W.W. 
Research, pp. 66‐103.  Norton. 

  Página | 116 
Especial Barack Obama 

As relações comerciais sino‐americana no Governo de Barack Obama 

Shuy Wen Shin 

Apesar  de  o  público  chinês  ter  ficado  necessidade  de  usar  um  terceiro  país  para 
contente  pelo  fato  de  Barack  Obama  ter  intervir  nas  negociações.        A  perda  deste 
sido  eleito  o  primeiro  afro‐descendente  poder  de  barganha  junto  a  administração 
americano  como  presidente,  o  governo  americana  pode  enfraquecer  a  posição 
chinês  não  compartilha  com  esta  alegria.    chinesa  que  é  histórica,  desde  o  conflito 
De  fato  o  governo  chinês  preferiria  o  Coréia‐Estados Unidos. 
candidato  republicano  John  McCain  como 
presidente  para  manter  a  atual  política  Durante  a  sua  campanha  para  a  Casa 
externa  que  o  governo  Bush  vem  Branca,  Obama  enviou  uma  carta  ao 
desenvolvendo.        Na  visão  dos  chineses,  Secretário  de  Comércio  Henry  Paulson 
um  presidente  republicano  é  mais  cobrando  uma  postura  mais  enérgica  em 
previsível do que um democrata.  relação a China, inclusive acusando a China 
de  manipular  sua  moeda  por  alguns  anos 
As  idéias  de  Obama  em  relação  a  política  para  ganhar  vantagens  injustas  no 
externa  enfatiza  entre  outras,  comércio.  Também  lamentou  que  a  atual 
protecionismo  do  comércio  e  direitos  administração  nada  fez  para  mudar  o 
humanos internacionais.     São temas que  comportamento da China.  Ainda acusou o 
os  governantes  de  Beijing  não  querem  Secretário  Paulson  de  que  o  seu 
ouvir.  São  pressões  que  vem  do  partido  departamento se recusou a tomar medidas 
democrata  que  deixam  preocupadas  as  mais duras para proteger os interesses dos 
autoridades  de  Beijing  em  relação  ao  empresários  e  trabalhadores  norte‐
direito  dos  trabalhadores,  proteção  americanos. 
ambiental,  liberdade  no  Tibet  e  liberdade 
de expressão.  Não é de hoje que Obama faz duras críticas 
à  China.    Durante  uma  formatura  na  Knox 
A  política  do  presidente  Bush  pode  não  College  no  ano  de  2005,  Obama  disse  aos 
agradar  os  norte‐americanos,  porém  formandos  que  os  trabalhadores  norte‐
agrada em muito os governantes chineses,  americanos  devem  se  preocupar  com 
principalmente  por  causa  da  política  trabalhadores  chineses,  pois  o  número  de 
intervencionista  como  a  guerra  do  Iraque,  engenheiros  formados  na  China,  por 
que desvia as atenções do que acontece na  exemplo, é quatro vezes maior do que nos 
China.  Estados Unidos.     A mão‐de‐obra chinesa 
é mais rápida e mais barata do que a norte‐ 
O  governo  Bush  estreitou  as  relações  com  americana.  Para  Obama,  é  dever  do 
a  China  nos  últimos  anos  para  poder  abrir  governo  norte‐americano  proteger  os 
um canal de comunicação com a Coréia do  interesses  de  seus  trabalhadores.   
Norte  e  até  com  o  Irã.  Com  Obama  isto  Portanto, medidas mais duras deveriam ser 
pode  mudar.        Com  a  sua  formação  aplicadas  contra  produtos  importados  da 
multicultural,  Obama  é  mais  tolerante  e  China nos próximos anos.  
aberto  para  negociações,  e  por  isso  pode 
abrir um canal de conversação direta sem a 

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Especial Barack Obama 

A  balança  comercial  é  um  importante  Obama  observe  durante  a  sua 


demonstrativo  neste  sentido.  Favorável  à  administração dois pontos fundamentais: o 
China  em  torno  de  US$  25.3  bilhões  em  reconhecimento  da  única  China    e 
agosto de 2008, tem feito com que Obama  signatário do Livre Comércio.  
cobre  do  governo  Bush  medidas  mais 
rígidas  em  relação  aos  produtos   
importados  da  China,  deixando  os  Reconhecimento da Única China 
burocratas chineses temerosos. 
Logo  após  a  publicação  do  resultado  da 
Como  consequência  disso,  o  eleição,  o  presidente  chinês  Hu  Jintao 
agravamentoda  crise  econômica  norte‐ enviou  mensagem  de  congratulação  para 
americana em 2009 poderá fazer com que  Obama, e fez lembrá‐lo de que os  Estados 
Obama  levante  barreiras  protecionistas  Unidos  devem  continuar  a  reconhecer  a 
como se divulgou durante a sua campanha  República  Popular  da  China  (PRC)  como  a 
eleitoral  para  evitar  que  trabalhadores  única  China.      Segundo  o  Presidente  Hu, 
norte‐americanos  percam  seus  empregos.     para  melhorar  as  relações  sino‐americana, 
Isto  quer  dizer  que  os  Estados  Unidos  é  preciso  estreitar  o  diálogo  entre  os  dois 
poderão  reduzir  os  investimentos  no  países.    A  mensagem  se  refere  aos  “Three 
exterior  e  impor  barreiras  alfandegárias  Communiqués”,  que  são  três  declarações 
para  diminuir  a  quantidade  de  produtos  que  os  Estados  Unidos  e  a  República 
baratos  provenientes  de  diversos  países  Popular  da  China  fizeram  juntos  em  1972, 
como México, Vietnã, Brasil, Índia e China.   1979 e 1982.    As declarações estabelecem 
Além disso, Obama também acusa a China  relações diplomáticas entre os dois países, 
de  ter  manipulado  a  taxa  de  câmbio  Yuan  onde  os  Estados  Unidos  reconhecem 
fazendo  com  que  aumentasse  o  seu  apenas  a  PRC  como  a  única  China,  e  não 
superávit  junto  aos  EUA.      De  fato,  desde  Taiwan. 
2005 a taxa foi gradualmente aumentando,  Além  disso,  a  China  está  preocupada  em 
chegando a RMB 6.85.  convencer  o  governo  norte‐americano  a 
Obama está preocupado, pois sabe que se  não  vender  equipamento  bélico  à  Taiwan. 
não  implementarem  os  pacotes  de  Seguindo  os  passos  da  administração  de 
estímulos  prometidos,  a  economia  norte‐ George Bush (pai), a administração George 
americana  poderá  cair  numa  crise  W.  Bush  decidiu  vender  recentemente 
prolongada e espalhar tensões sociais.       bilhões  de  dólares  em  armamento  para 
Taiwan,  com  discurso  de  que  é  necessário 
Recentemente,  percebe‐se  na  China  um  proteger  os  amigos  da  ilha  da  ameaça 
crescente protesto de trabalhadores contra  chinesa.    Segundo  uma  declaração  feita  a 
as  demissões  nas  fábricas,  motivadas  pela  China Daily, Obama reconhece a política de 
diminuição  ou  corte  de  pedidos.  Alguns  uma  única  China,  porém  que  o  governo 
especialistas afirmam que em 2009, não só  norte‐americano  também  tem  a  obrigação 
a  América,  mas  também  a  Europa  irá  de  ajudar  Taiwan  a  se  defender  de  um 
reduzir  o  número  de  pedidos  feitos  às  eventual ataque da China como estabelece 
fábricas chinesas.     o Ato de Relações de Taiwan.  

Para  melhorar  as  relações  comerciais  e  Durante  a  campanha,  Obama  propôs 


políticas,  a  China  quer  assegurar  que  trabalhar para assegurar que a China venha 

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Especial Barack Obama 

trabalhar  sob  as  leis  internacionais,  um  A Economia Chinesa 


conceito  que  reflete  claramente  o  seu 
desejo de manter a pressão sobre a China.   A  crise  financeira  e  econômica  mundial 
No debate presidencial democrata, Obama  impactará  diretamente  na  economia 
declarou  que  a  China  não  é  nem  inimigo  chinesa.    A  piora  da  economia  mundial 
nem  um  amigo,  mas  um  concorrente  com  produzirá  com  certeza  a  contração  da 
responsabilidade  pela  estabilidade  demanda  para  os  seus  produtos  e  em 
regional.  muitas  cidades  chinesas  como  Shenzhen  e 
Guangzhou,  as  demissões  já  começaram.    
  Com  a  redução  dos  pedidos  dos  países 
como  Estados  Unidos,  França  e  Alemanha, 
Livre Comércio  várias empresas têm cortado o número de 
Apesar  da  China  restringir  liberdade  de  funcionários.      Num  país  onde  as  leis 
expressão,  aplicar  repressão  aos  trabalhistas  são  frágeis,  muitos 
dissidentes  Tibetanos,  censurar  todas  as  trabalhadores perderão os seus empregos.    
formas  de  comunicação,  vigiar  todas  as  A China não deixará de crescer, porém não 
atividades religiosas e manipular a taxa de  crescerá na taxa de 10% como nos últimos 
câmbio,  o  governo  chinês  de  um  partido  anos.    Alguns especialistas acreditam que 
único,  Partido  Comunista  Chinês  (PCC),  deva  crescer  em  torno  de  7%  em  2009, 
ironicamente  espera  que  a  administração  enquanto que a média de crescimento dos 
Obama  venha  respeitar  o  livre  comércio.    países emergentes será de 4%.  
Segundo  o  porta‐voz  do  Ministério  das 
Relações  Exteriores,  Qin  Guang,  a  China  Independente da crise econômica mundial, 
acredita no Livre Comércio e espera que a  a China tem investido em outros mercados 
América também acredite.     para diminuir a influência norte‐americana 
em  sua  economia.      Os  investimentos  em 
As relações econômicas entre a China e os  dois novos mercados, como nos países que 
Estados  Unidos  são  muito  mais  formam  a  Associação  das  Nações  do 
interdependentes do que se imagina.   Nos  Sudeste  Asiático  (ASEAN)  e  o  continente 
últimos  anos,  as  instituições  financeiras  africano. 
chinesas  investiram  cerca  de  US$  500 
bilhões  no  título  do  tesouro  americano.    ASEAN 
Por  isso,  os  EUA  têm  aberto  o  seu 
mercado,  permitindo  a  entrada  de  O volume de comércio entre os chineses e 
qualquer  tipo  de  produto  originário  da  os  países  que  compõem  a  ASEAN  cresceu 
China,  de  lápis  à  chip  de  computadores.  mais  de  187%  nos  últimos  4  anos,  de  59,6 
Sem  dúvida  o  grande  crescimento  bilhões  de  dólares  em  2003  para  171,1 
econômico  chinês  se  deve  aos  EUA.    As  bilhões  em  2007.      A  ASEAN  forma  hoje  o 
relações  econômicas  e  comerciais  sino‐ terceiro maior mercado de exportações do 
americanas  são  tão  importantes  que  o  mundo, depois da União Européia. 
governo  norte‐americano  esquece  das  A  China  prepara‐se  para  se  tornar  um 
questões  que  tanto  o  governo  americano  membro  da  associação  a  partir  de  2010.  
luta no mundo, a liberdade de expressão e  Com  a  inclusão  da  China,  a  ASEAN  terá 
direitos humanos.   cerca de 2 bilhões de consumidores, quatro 
  vezes  mais  que  a  população  da  União 

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Especial Barack Obama 

Européia (com 27 países juntos), passando  África,  depois  dos  Estados  Unidos.  


para a segunda posição.  Segundo o Banco Mundial, de 2002 a 2007, 
o  comércio  bilateral  entre  a  China  e  a 
Os  países  asiáticos  sempre  foram  muitos  África  cresceu  de  18.5  bilhões  de  dólares 
dependentes  de  exportações  para  os  para 73 bilhões de dólares. 
Estados Unidos e Europa.      Com a adesão 
ao  ASEAN,  a  China  poderá  se  desenvolver  A  China  fornece  para  a  África 
explorando  o  enorme  potencial  de  investimentos  diretos  ou  através  de  linhas 
mercado na proximidade do seu território.   de  crédito,  que  muitos  países  ocidentais 
não  aprovariam.      As  empresas  chinesas, 
Nos últimos meses, a Índia, a Austrália e a  incentivadas  e  apoiadas  pelo  governo  de 
Nova  Zelândia  aproximaram‐se  da  ASEAN,  Beijing,  estão  mais  dispostas  a  correr 
assinando  tratados  de  livre  comércio.    riscos. 
Recentemente  a  Índia  assinou  um  acordo 
bilateral  com  a  ASEAN  que  deverá  elevar  Na  última  década,  os  países  africanos 
dos  atuais  20  bilhões  de  dólares  de  cresceram  em  média  4%  ao  ano.          Estes 
intercâmbio para 52 bilhões até 2010.  países  precisam  de  estradas,  ferrovias, 
aeroportos,  hospitais,  usinas  elétricas, 
O poder de consumo da região é tão forte  escolas,  indústrias  de  produtos 
que  já  vem  funcionando  hoje  como  uma  manufaturados  e  infra‐estrutura  de  base.   
porta  de  salvação  para  vários  grupos  de  Os  investimentos  da  China  estão  levando 
empresas  exportadoras  chinesas,  desenvolvimento a estes países africanos. 
compensando  uma  parte  das  perdas 
registradas  nos  últimos  meses  com  o  E  a  sua  política  de  investimento  externo 
enfraquecimento  das  economias  dos  tem  poucas  exigências  pré‐condicionadas, 
Estados Unidos e da Europa.   como  é  vista  nos  países  ocidentais.  Dessa 
forma,  com  todas  as  facilidades  de 
  financiamento,  os  países  africanos  não 
ÁFRICA  questionam  o  governo  chinês  em  relação 
às  leis  trabalhistas,  direitos  humanos  e 
Com  a  queda  nas  vendas  para  o  mercado  impacto ambiental. 
norte‐americano  e  europeu,  a  África  tem 
se tornado um parceiro importante para os  Os  investimentos  chineses  na  África  estão 
produtos  chineses,  principalmente  para  favorecendo os Estados Unidos, pois assim 
produtos de baixo custo.   Além de vender  melhoram  as  condições  econômicas  da 
para África, a China compra do continente  população  africana  e  conseqüentemente 
(Angola,  Guiné  Equatorial,  Nigéria,  contribuiem  para  o  aumento  nas  compras 
República  do  Congo  e  Sudão)  petróleo,  de  produtos  e  serviços  de  empresas 
madeira, cobre e diamantes.   americanas. 

Muitas  empresas  chinesas  como  as  de   


tecelagem,  por  exemplo,  para  fugir  das  A Equipe de Obama 
cotas  impostas  pelos  mercados  americano 
e  europeu,  investem  na  África  como  Pela  escolha  do  seu  secretariado,  já  se 
alternativa de mercado.   A China é hoje o  percebe  o  tratamento  que  a  nova 
segundo  maior  parceiro  comercial  da  administração dará para a China.  A escolha 

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Especial Barack Obama 

da  senadora  Hillary  Clinton  como  rolagem da dívida pública que hoje estima‐


Secretária  de  Estado  foi  muito  festejada,  se em torno de 10 trilhões de dólares. 
pois Bill Clinton como presidente era muito 
popular  entre  os  chineses  e  Hillary  muito  Obama  sabe  que  o  papel  da  China  dentro 
admirada.   A escolha de Timothy Geithner  da economia norte‐americana é crucial.   O 
como  Secretário  de  Tesouro  é  bem  pragmatismo  deverá  prevalecer  nas 
recebida  pelos  dirigentes  chineses,  pois  relações  comerciais  e  políticas  entre 
Geithner  passou  uma  boa  parte  da  sua  Washington e Beijing. 
infância  na  Ásia,  estudou  chinês  na 
Referências Bibliográficas  
faculdade  e  tem  boas  relações  com  o 
  
governo  de  Beijing.      A  escolha  do  Steven 
Chu como Secretário de Energia foi o mais  AMARAL, Domingos. Obama, a guerra e a 
comemorado  pelos  chineses.        Americano  economia. DiarioEconomico.com 
de  ascendência  chinesa,  ganhador  do  11.12.2008.  
prêmio  Nobel  de  Física  em  1997,  será 
responsável  por  tratar  de  assunto  que  ANTUNES, Luciene  A terra prometida dos 
chineses.  Revista Exame, 24.07.2008 
tanto  incomoda  os  chineses,  o  uso  de 
Editora Abril.  
diferentes  formas  de  energias  não‐
poluentes.  ANTUNES, Luciene. De costas para o 
Ocidente. Revista Exame, 11.02.2008 
  Editora Abril.  
Conclusão 
CHUNG, Tom. Negócios com a China. Novo 
Para  uma  parte  dos  norte‐americanos,  o  Século 2005  
crescimento industrial chinês é visto como 
DING, Sean  Does China like Obama?  
uma  das  principais  causas  da  crise  China Elections &Governance  09.12.2008  
econômica  americana.    O  discurso  de 
Obama  traz  uma  mensagem  de  forte  LETHBRIDGE, Tiago. Por dentro da China.  
protecionismo,  disposto  a  defender  o  Revista Exame. Editora Abril Edição 920 pp. 
emprego  dos  trabalhadores  norte‐ 28‐110.  
americanos,  porém  sabe‐se  que  entre  o 
MEYER Caroline.  Preparem‐se. Eles estão 
discurso  de  campanha  e  a  realidade  são 
chegando.  Revista  Exame. Editora Abril  
coisas bem diferentes.  Pp. 60‐69.  
O governo de Beijing dificilmente cederá às 
OBAMA, Barack & Joe Biden. Protecting 
pressões  norte‐americanas,  pois  está  U.S. Interests and Advancing American 
mudando  a  estratégia  de  mercado,  Values in  our relationship with 
fortalecendo parcerias com a ASEAN e com  China. www.barackobama.com 23.05.2007 
os  países  africanos  como  alternativa  de 
absorção dos seus produtos para manter o  QI, Zhou. Obama´s China Policy: More of 
crescimento.  the Same? China Electronics & 
Governance. 
Além  disso,  Obama  sabe  que  precisa  da 
China  para  continuar  a  comprar  os  títulos  SABINO, Mario. O Golpe do Século – 
Capitalismo com patrões comunistas.  
do  tesouro  americano  para  ajudar  a 

  Página | 121 
Especial Barack Obama 

Revista Veja. Editora Abril Edição 2075 pp.  SHIN ,  Wong K.   A China Explicada para 
136‐142.   Brasileiros. Editora Atlas.  

SETH, Sushil.  Obama faces China´s  SPENCER, Richard.  CHINA  China reacts 
challenge.  Taipei Times. 08.12.2008  P   cautiously to Barack Obama´s 
win. Telegraph.co.uk  05.11.2008.  
SHENKAR, Oded. Século da China. 
Bookman Companhia Ed. 2005  

  Página | 122 
Especial Barack Obama 

A agenda de Barack Obama 2009‐2012: desafios para a segurança interna 

Paulo Pereira de Almeida

1.  O  contexto  e  os  desafios  globais  para  imigrantes ilegais e punir os seus eventuais 


Barack Obama  empregadores. 

A visão da segurança interna na agenda do  Este  conjunto  de  prioridades  de  agenda 


44º  Presidente  dos  Estados  Unidos  da  tem  ainda  como  cenário  a  reconfiguração 
América  não  poderá  deixar  de  lado  as  da  relação  transatlântica  –  ou  seja,  a 
consequências  dos  mais  recentes  relação  histórica,  cultural,  económica  e 
atentados  em  Bombaim,  Índia,  e  do  social  que  une  os  Estados  Unidos  da 
passado recente dos ataques da Al Qaeda e  América aos outros países democráticos do 
de  outras  organizações  terroristas.  Até  Atlântico – que foi, na segunda metade da 
porque  a  ideia  corrente  –  nos  meios  da  década  de  2000,  significativamente 
segurança e  das informações – é a de  que  marcada  pela  guerra  no  Iraque  e  pela 
existirá uma tentativa de um novo ataque,  atitude  da  Administração  de  George  Bush 
utilizando desta feita carros, camiões e/ou  (filho) nessa crise, em particular em relação 
bombistas suicidas.  à  chamada  comunidade  internacional. 
Todavia,  a  verdade  é  que  uma  tal 
Um  dos  aspectos  que  interessará  ter  em  percepção  das  relações  internacionais  não 
consideração  para  este  novo  Mandato  pode – nem deve – obnubilar um processo 
Presidencial  será,  certamente,  o  de  saber  de  construção  de  uma  aliança  com  quase 
em que ponto se encontra o País, sete anos  100 anos de história, uma aposta na qual o 
depois  do  11  de  Setembro,  e  cinco  anos  Partido  Democrata  norte‐americano 
após o 11 de Março, em Espanha. Trata‐se  continua  empenhado  desde  o  início  da 
de um diagnóstico que toca as causas mais  década  de  2000.  Veja‐se,  por  exemplo,  o 
profundas  do  terrorismo  e  da  guerra  conceito  de  “realismo  democrático” 
contra  o  terror,  nomeadamente  a  relação  (democratic realism) que – nas palavras de 
com  os  aliados,  a  promoção  de  reformas  Will  Marshall,  Presidente  do  Progressive 
educativas  e  económicas  profundas  nos  Policy  Institute,  um  think‐tank  ligado  aos 
países  que  apoiam  o  terrorismo  democratas  –  deve  equilibrar  a  utilização 
internacional,  ou  ainda  a  definição  de  do  poderio  militar  norte‐americano  com 
prioridades sistémicas internas à gestão da  uma acção diplomática eficaz. 
segurança.  De  notar  que  a  previsível 
nomeação  pelo  Presidente  Eleito  Barack  Contudo,  não  é  de  todo  possível  para  os 
Obama  de  Janet  Napolitano  –  a  actual  EUA  continuarem  a  manter  uma  postura 
Governadora  do  Estado  do  Arizona  –  para  isolacionista nestas matérias. 
dirigir  o  DHS  ‐  Department  of  Homeland 
Security  é  também  um  indicador  das  Na  verdade,  desde  o  11  de  Setembro  que 
preocupações  dos  EUA  com  a  questão  da  se  multiplicaram  os  actos  de  cooperação 
segurança  fronteiriça  e  com  a  emigração.  entre  os  Estados  Unidos  da  América  e  a 
De  todo  o  modo,  a  Governadora  Janet  União  Europeia.  Houve  grandes  impasses 
Napolitano vetou, em Junho de 2006, uma  em  algumas  negociações  mas,  quase 
Lei  que  possibilitaria  à  polícia  prender  os  sempre,  foi  encontrada  uma  solução; 
porém, em grande parte das vezes chegou‐

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Especial Barack Obama 

se a um acordo prevalecendo os princípios  assinaram com a União Europeia tratados e 
dos  Estados  Unidos  em  detrimento  dos  extradição  de  criminosos;  estes  não  estão 
valores  Europeus,  o  que  levou  a  que  a  relacionados  apenas  com  terroristas  mas 
“homeland  security  agenda”  fosse  vista  também  com  criminosos  comuns, 
mais  como  uma  externalização  das  obrigando  todos  os  países  membros  a 
necessidades  domésticas  americanas.  assinar  acordos  nacionais  com  os  Estados 
Felizmente,  esta  situação  tem  vindo  a  Unidos  com  condições  semelhantes  às 
alterar‐se  à  medida  que  as  questões  aceites  pela  União  Europeia.  E  estes 
securitárias  adquirem  uma  maior  acordos  tendem  a  facilitar  o  processo  de 
visibilidade  na  União  Europeia.  Agora  é  extradição,  permitindo  simplificar  a  troca 
verdade  que  –  apesar  do  esforço  de  de informação sobre os processos. 
integração de todos os Estados Membros – 
a  União  Europeia  deixa  ainda  à  É  certo  que,  após  o  11  de  Setembro,  os 
responsabilidade  dos  governos  nacionais  Estados  Unidos  adoptaram  como 
tarefas  relacionadas  com  o  policiamento,  prioridades  a  luta  contra  o  terrorismo  e  a 
justiça  criminal  e  espionagem.  E  isto  segurança  nacional.  Mas  num  contexto  de 
porque  –  no  essencial  –  não  possui  as  globalização  económica  e  das  pessoas, 
estruturas adequadas para lidar com estes  também  as  matérias  de  segurança 
problemas.  O  facto  de  se  tratar  de  um  assumem  uma  visibilidade  global.  Acresce 
governo  descentralizado  leva  a  que  muita  que, hodiernamente, as fronteiras e o mar 
informação  não  seja  partilhada  de  forma  – por si só –  já não delimitam e  protegem 
eficaz.  Outra  dificuldade  prende‐se  com  o  um país. A segurança nacional passa, pois, 
interlocutor  correcto  para  tomar  uma  por um reforço da cooperação entre países 
determinada decisão: a complexa estrutura  de  forma  a  combater  o  terrorismo  e  –  em 
governativa  da  União  Europeia  torna  mais  particular  nesta  nova  frente  de  ameaças  à 
difícil  determinar  qual  será  a  entidade  segurança  dos  Estados  e  das  pessoas  e 
responsável  por  uma  área  de  decisão  bens  –  por  um  encorajamento  da 
específica.  participação  da  União  Europeia,  e  de  cada 
um  dos  seus  parceiros  individualmente, 
Apesar  destas  dificuldades,  foram  nos  teatros  da  segurança  nacional  e 
adoptadas  muitas  medidas  em  conjunto  internacional. 
pela  União  Europeia  e  pelos  Estados 
Unidos no sentido de melhorar a segurança  Todavia,  as  soluções  nacionais  e 
interna.  Desde  o  11  de  Setembro  que  os  transnacionais  para  os  problemas  no 
Estados  Unidos  e  a  União  Europeia  campo  da  segurança  interna  nem  sempre 
estabeleceram  parcerias  e  mecanismos  têm  sido  as  mais  ajustadas  e  –  por  razões 
formais  e  informais  para  coordenarem  de  pressão  conjuntural  –  os  políticos 
esforços  no  que  respeita  à  segurança  tendem, por vezes, a agir de acordo com os 
nacional.  Procuraram  estimular  a  últimos  acontecimentos,  escolhendo  as 
constante  troca  de  informações  entre  si  medidas  mais  simples,  em  vez  de 
para  um  melhor  funcionamento  conjunto,  pensarem  a  longo  prazo  e  procurando 
estimulando  as  relações  das  instituições  antecipar  os  riscos  e  as  ameaças  à 
norte‐americanas  com  a  Europol  e  o  segurança.  Todavia,  uma  concepção 
Eurojust.  Por  exemplo,  depois  do  11  de  moderna  das  políticas  de  segurança 
Setembro  os  Estados  Unidos  da  América  assenta  na  ideia  de  inovação  e  da 
descoberta de novas formas para lidar com 

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Especial Barack Obama 

estas  questões,  antecipando  esses  Subjacente  a  esta  agenda  encontra‐se, 


problemas. Ou seja, é essencial recorrer ao  naturalmente,  o  DHS  ‐  Department  of 
pensamento estratégico e aos mecanismos  Homeland  Security  que,  com  a  futura 
sistémicos  de  intelligence  e  de  análise  e  gestão  de  Janet  Napolitano,  terá  de 
avaliação  antecipatória  dos  riscos  e  das  continuar  a  dar  resposta  no  desenho  de 
ameaças,  que  apresentam  agora  um  estratégias  de  mitigação  dos  riscos, 
carácter diversificado, estão inter‐ligadas e  ameaças  e  vulnerabilidades  do  território 
têm um cunho transnacional.  dos EUA. 

  Olhando  para  o  futuro,  certamente  que 


existe  um  conjunto  de  tarefas  a  que  este 
2.  A  agenda  da  segurança  interna  dos  Departamento  –  que  corresponde  ao 
EUA: 2009‐2012  terceiro  maior  da  Administração,  tendo 
Já  existe  um  conjunto  de  compromissos  sido  criado,  recorde‐se,  num  contexto  de 
concretos  e  de  medidas  que  –  durante  a  guerra  e  de  turbulência  interna  –  poderá 
campanha  presidencial  –  foram  propostas  responder. Nestas enquadram‐se a criação 
para o Mandato Presidencial de 2009‐2012  de mais unidades de contra‐terrorismo nas 
e  que  correspondem,  na  essência,  a  uma  principais  cidades  norte‐americanas  (à 
preocupação  da  equipa  de  Barack  Obama  semelhança  do  que  acontece  em  New 
no  sentido  de  melhorar  e  proteger  as  York),  a  integração  de  mecanismos  de 
infraestruturas  críticas.  Estes  incluem,  vigilância e de monitorização de pessoas e 
entre  outros:  a  revitalização  das  de activos (internos e externos), bem como 
infraestruturas  de  transporte  (caminhos‐ a  gestão  de  riscos  (nacionais  e 
de‐ferro,  auto‐estradas,  pontes,  transnacionais). 
aeroportos,  etc.),  nomeadamente  a  partir  Na  verdade,  o  Presidente  eleito  Barack 
de  um  conjunto  de  parcerias  público‐ Obama pretende que a segurança interna – 
privadas;  a  criação  de  emprego  –  central  homeland  security  –  se  focalize  mais  em 
no contexto da actual crise – a partir de um  áreas  de  risco,  como  infraestruturas 
plano  de  investimento  nessas  nucleares,  químicas  e  portos.  Além  disso, 
infraestruturas  (e  que  pode  passar  pela  Obama  votou  contra  a  versão  original  do 
criação  de  um  Banco  Nacional  para  o  Patriot  Act  (acrónimo  de  “Uniting  and 
Investimento,  dotado  de  60  Biliões  de  Strengthening  America  by  Providing 
Dólares,  para  um  prazo  de  10  anos);  a  Appropriate  Tools  Required  to  Intercept 
modernização  do  controlo  do  tráfego  and  Obstruct  Terrorism  Act  of  2001”), 
aéreo  e  o  apoio  ao  Fundo  Amtrak  (os  assim  como  de  outra  legislação  que 
recursos  federais  em  dinheiro  para  a  considerava  limitadora  das  liberdades  dos 
modernização do transporte ferroviário); e  cidadãos.  
também  a  protecção  da  rede  de 
infraestruturas  críticas  do  País  contra  Mas  os  desafios  que  o  Presidente  e  os 
ataques  terroristas  (o  que  inclui,  por  próprios  Estados  Unidos  enfrentam  são 
exemplo,  a  reconfiguração  da  Base  de  tantas  e  tão  diversas,  que  –  para  se 
Dados  de  Pontos  Críticos,  que  lista  77069  preparar  e  para  enfrentar  os  desafios  do 
pontos,  alguns  pouco  úteis  como  fábricas  Século  XXI  –  os  Estados  Unidos  devem: 
de pipocas e zoos).  integrar  plenamente  na  prevenção  nas 
estratégias  nacionais  que  orientam  a 

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Especial Barack Obama 

formulação  e  implementação  da  política  áreas  e  nas  regiões  mais  vulneráveis  do 
externa;  construir  um  sistema  integrado,  Mundo; e desenvolver novas ferramentas e 
inter‐agências,  com  um  mecanismo  de  capacidades  de  gestão  de  crises,  que  os 
planeamento estratégico de longo alcance,  habilitem  com  uma  melhor  capacidade  de 
vinculado  diretamente  para  a  alocação  de  resposta  aos  desafios  e  à  actual  frente  de 
recursos;  investir  em  intelligence,  e  em  ameaças à segurança de pessoas e de bens. 
diplomacia  económica  e  de  recursos  nas 

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Especial Barack Obama 

Os desafios do futuro 

António Rebelo de Sousa 

Sinopse  mais  do  que  compensasse  o  défice 


comercial. 
Em plena década de 80, quando existiam o 
que  muitos  autores  designavam  de  “twin  Sucede  que,  hoje  em  dia,  a  situação  se 
deficits”,  os  EUA  apresentavam  um  forte  apresenta bem diferente… 
desequilíbrio  da  Balança  Comercial  que 
era,  contudo,  compensado  pelo  Existe,  tal  como  dantes,  um  forte  défice 
“superavit”  das  Balanças  de  Capitais  comercial,  mas  tal  défice  não  é 
Consolidadas  (i.e.,  pelo  conjunto  das  compensado  pelo  afluxo  de  capitais 
Balanças  de  Capitais  de  Médio  e  Longo  externos,  nem  se  afigura  possível  que  tal 
Prazos e de Curto Prazo).  venha a suceder num futuro próximo. 

Se  nos  basearmos  na  equação  da  Balança  Para  que  tal  pudesse  vir  a  acontecer  seria 
de  Pagamentos  de  Feldstein‐Horioka,  indispensável  que  as  taxas  de  juro 
teremos:  aumentassem  substancialmente, 
ultrapassando,  nomeadamente,  as 
BP = NX (Yd , Y f , R ) + BC (i d − i f − Δ e e ) praticadas na Europa. 
,  em  que  NX  nos  dá  as  exportações 
Ora,  uma  evolução  deste  tipo  não  se 
liquidas,  Yd  o  rendimento  doméstico,  Yf  o 
apresenta  possível,  na  presente 
rendimento  do  resto  do  mundo,  R  a  taxa 
conjuntura. 
de  câmbio,  enquanto  BC  nos  dá  o  saldo 
consolidado  das  balanças  de  capitais,  id  a  Estando  a  economia  americana  numa  fase 
taxa de juro doméstica, if a taxa de juro do  recessionista  (ou,  se  se  preferir,  para‐
resto do mundo e ∆e/e as expectativas de  recessionista), não faz sentido aumentar as 
variação  da  taxa  de  câmbio  em  relação  à  taxas  de  juro  domésticas,  uma  vez  que  tal 
moeda da economia considerada.  teria implicações no nível de investimento, 
inviabilizando  a  “inversão”  do  “ciclo  da 
Se  NX<0,  BC  pode  apresentar‐se  >0  e 
crise”. 
superior, em termos absolutos, a NX, mais 
do  que  compensando  o  défice  da  Balança  Logo,  a  resolução  do  problema  do 
Comercial.  desequilíbrio  externo  dificilmente  poderá 
estar  no  afluxo  de  capitais  externos, 
Tal poderá acontecer se o “spread” entre a 
tornando‐se  indispensável  pensar  numa 
taxa de juro doméstica e a taxa de juro do 
abordagem diferente desta problemática. 
exterior  (ou  dos  principais  parceiros)  se 
apresentar  elevado  (com  id>  if),  ainda  que  E  a  abordagem  diferente  terá, 
tendo  em  conta  ∆e/e  (i.e.,  as  expectativas  necessariamente, que passar pelo aumento 
de eventual depreciação da moeda).  das  exportações  ou,  em  alternativa,  pela 
aceitação  da  inevitabilidade  de  um 
Ora,  na  década  de  80,  a  Administração 
agravamento  do  desequilíbrio  externo 
Reaganiana  adoptou,  deliberadamente, 
(sem  que,  simultaneamente,  possa 
uma  política  de  elevadas  taxas  de  juro,  a 
constatar‐se  uma  forte  redução  do  défice 
qual permitiu que o afluxo de euro‐dólares 
orçamental), nos tempos mais próximos. 

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Especial Barack Obama 

O  acréscimo  das  exportações  poderia,  em  aumentar) e a que se venha a constatar um 


teoria, passar pela desvalorização do dólar  agravamento da Dívida Pública. 
em relação ao euro e ao iéne. 
Trata‐se  do  regresso  aos  “twin  deficits”, 
Mas,  mesmo  ocorrendo  essa  agravado  por  uma  Balança  Financeira  que 
desvalorização  –  com  a  concomitante  não  compensa  o  desequilíbrio  ao  nível  da 
alteração dos preços relativos –, apresenta‐ Balança  de  Transacções,  com  emergência 
se muito duvidoso que a mesma permitisse  de  novas  pressões  inflacionistas, 
o  reequilíbrio  da  Balança  Comercial,  uma  manutenção  do  défice  orçamental  a  níveis 
vez  que  existirá  um  abrandamento  no  elevados e agravamento da Dívida Pública. 
crescimento  da  economia  mundial  e,  por 
conseguinte,  um  abrandamento  na  Tudo  isto  tendo  como  “pano  de  fundo” 
expansão  da  procura  externa  de  bens  uma  economia  estagnada,  um  elevado 
produzidos  internamente  ou  nível  de  desemprego  e  uma  mais  lenta 
domesticamente  (i.e.,  na  economia  capacidade  de  resposta  do  mercado  de 
americana).  trabalho à tão conhecida Lei de OKUN. 

Será possível, por via da desvalorização do  A  solução  –  transitória  –  estará  no 


dólar,  atenuar  um  pouco  o  défice  incremento  do  investimento  público,  na 
comercial,  mas  será  sempre  difícil  superá‐ injecção de liquidez (estimulando a procura 
lo.  interna)  e  no  fomento  das  exportações 
(podendo  tal  passar,  também,  pela 
É claro que poderá vir a ser adoptada pela  desvalorização da moeda). 
nova  Administração  democrática  uma 
política  mais  agressiva  de  promoção  das  Com  a  adopção  deste  modelo 
exportações.  (expansionista e de inspiração Keynesiana), 
o Produto Interno Bruto poderá crescer em 
E  o  facto  de  ter  surgido  uma  nova  2009  e  2010  entre  1,5  e  2,5%,  quiçá  um 
Administração,  com  uma  nova  pouco  mais,  e  a  taxa  de  desemprego 
credibilidade  e  com  um  novo  dinamismo,  descer ligeiramente (uma vez que, como se 
poderá  ajudar  à  implementação,  com  disse,  a  sua  “sensibilidade”  à  expansão  do 
sucesso, dessa nova política.  nível  de  actividade  económica  se 
apresenta,  hoje  em  dia,  inferior  à  que  se 
Mas,  se  pretendermos  adoptar  uma  constatava há alguns anos). 
perspectiva  realista  em  relação  ao  futuro 
próximo,  teremos  que  admitir  que  deverá  Mas, haverá mais inflação e, naturalmente, 
continuar  a  verificar‐se  um  défice  externo  agravamento da dívida pública, sem que se 
(na  economia  americana)  e  que  o  défice  verifique  qualquer  alteração  de  substância 
orçamental,  também,  não  será  nos “twin deficits”. 
ultrapassado. 
E,  saliente‐se  uma  vez  mais,  tratar‐se‐á  de 
Em  boa  verdade,  a  imperiosidade  de  se  uma solução (se é que faz sentido utilizar o 
“inverter”  o  ciclo  da  crise,  ao  implicar  o  termo) transitória. 
recurso  a  investimento  público  e  ao 
endividamento  do  Estado,  irá,  A  questão  de  fundo  está,  em  meu 
seguramente,  conduzir  a  que  o  défice  entender,  no  facto  de  existir,  hoje  em  dia, 
orçamental  não  diminua  (podendo,  até, 

  Página | 128 
Especial Barack Obama 

um  problema  estrutural  ao  nível  da  satisfazer (indutores de investimento e, por 


economia mundial.  isso mesmo, de progresso tecnológico e de 
desenvolvimento, rompendo‐se com aquilo 
Não  se  trata  de  pôr  em  causa  o  que  alguns  autores  designam  de 
capitalismo, o qual, mal ou bem, continua a  crescimento  homotético  ou  nas 
ser o único sistema compatibilizável com a  proximidades  da  situação  de  equilíbrio 
democracia  política  e  que  torna  mais  fácil  anterior). 
uma gestão eficiente dos recursos escassos 
em  alguma  “sintonia”  com  as  preferências  Ora, em meu entender, um desses sectores 
dos  consumidores  (i.e.,  tendo  em  conta  o  será sempre o da Saúde. 
“voto”  dos  consumidores,  não 
padronizando  de  forma  arbitrária  os  Quando se descobrir a cura da SIDA, a cura 
“consumos”  e  não  coarctando  a  liberdade  de  certos  tipos  de  cancro,  então  a 
de iniciativa).  esperança  de  vida  será  prolongada, 
permitindo  o  desenvolvimento  de  novas 
Trata‐se,  isso  sim,  de  reconhecer  que  a  actividades  (desde  o  turismo  de  saúde,  ao 
Terceira  Revolução  Industrial  entrou  em  turismo  de  terceira  idade,  passando  por 
decadência,  tornando‐se  inexorável  uma  muitas  outras  que  resultarão  de  efeitos  a 
Quarta Revolução Industrial e de Serviços.  montante  e  a  jusante,  para  além  dos 
“lateral effects”).  
Sectores  como  os  da  informática  e  das 
telecomunicações  (que  desempenharam  Quando  forem  descobertas  novas 
um  papel  motor  do  desenvolvimento  tecnologias  que  possibilitem  uma  forte 
económico, nas décadas de 80 e 90) já não  redução no custo dos medicamentos e dos 
têm  a  capacidade  de  contribuir  para  a  equipamentos  médicos,  será,  então, 
inversão do “ciclo” da crise que tiveram no  possível  uma  maior  e  mais  efectiva 
passado  (por  exemplo,  aquando  da  “crise  generalização  do  acesso  à  saúde,  o  que 
do Golfo”).  permitirá  às  sociedades  do  futuro  darem 
um salto qualitativo. 
Estamos  um  pouco  como  aquele  doente 
que  já  experimenta  alguma  resistência  ao  Se,  concomitantemente,  forem 
antibiótico  A  e  que  precisa  de  novos  descobertas  novas  tecnologias  que 
medicamentos.  reduzam  o  tempo  dos  transportes 
marítimos  e  que  possibilitem  um  melhor 
Existe,  nesses  sectores  tidos  como  aproveitamento dos recursos existentes no 
motores, uma certa saturação da procura e  mar,  então  estarão  criadas  as  condições 
o  impacto  de  uma  expansão  nesses  propiciadoras da emergência de uma Nova 
sectores no nível de actividade económica,  Era. 
a  nível  global,  apresenta‐se,  hoje  em  dia, 
muito  inferior  ao  que  se  verificava  há  Daí  que,  sendo  moderadamente  optimista 
quinze anos.  quanto  à  possibilidade  de  se  encontrar 
soluções  transitórias  (com  naturais  custos 
Para  se  sair  desta  nova  situação  de  associados),  sou  dos  que  pensam  que  a 
“estacionaridade  tendencial”  é  preciso  resolução  estrutural  dos  problemas  com 
apostar  em  novos  sectores  motores  do  que  se  defronta  a  economia  mundial  só 
desenvolvimento,  em  relação  aos  quais  ocorrerá  com  a  Quarta  Revolução 
existem  necessidades  infindas  por  Industrial e de Serviços. 

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Especial Barack Obama 

Quanto  tempo  será  necessário  até  que  tal  Mas sei que, um dia, acontecerá… 


aconteça? 
 
Não sei. 

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Especial Barack Obama 

Os desafios de Obama na política comercial 

Thiago Lima 

O  Presidente  eleito  Barack  Obama  Em  sua  campanha,  Obama  criticou  a 


assumirá  seu  mandato  em  um  contexto  política  de  proliferação  de  acordos  de 
complexo e empunhando uma bandeira de  liberalização  comercial  da  administração 
mudança.  Bandeira  essa  que,  Bush. Como senador, Obama tem histórico 
coincidentemente  ou  não,  levou  ao  poder  de  votações  pró‐liberalização  de  36%.  De 
muitos  dos  atuais  Presidentes  da  América  fato, o posicionamento de Obama é muito 
Latina.  No  entanto,  é  sabido  que  nem  afinado  com  a  agenda  que  a  maioria  do 
sempre  as  propostas  de  campanha  são  Partido Democrata tem defendido desde o 
convertidas  em  medidas  efetivas.  Esse  final da Guerra Fria. Para Obama, a política 
texto procura expor algumas das principais  comercial tem integrado os Estados Unidos 
propostas  de  Barack  Obama  na  área  da  a uma globalização que não tem produzido 
política  comercial  e  busca  apontar  alguns  benefícios  para  a  classe  média  e  em 
pontos  e  temas  que  provavelmente  especial  para  os  trabalhadores  menos 
receberão atenção do Democrata.  qualificados.  Existem  motivos  internos  e 
externos para isso e na lida com eles é que 
O  principal  desafio  de  Obama,  na  área  da  reside  a  tentativa  de  se  fundar  um  novo 
política  de  comércio  internacional,  foi  por  consenso doméstico. 
ele  mesmo  lançado  quando  ainda  em 
campanha  eleitoral  e  não  é  nada  trivial147.  Internamente,  entende‐se  que  alguns 
Trata‐se  de  fundar  um  novo  consenso  setores  carecem  de  competitividade  e 
doméstico  com  um  duplo  objetivo:  tornar  precisam  de  auxílio  para  se  ajustar  à 
os Estados Unidos competitivos no cenário  competição  internacional.  Os 
internacional  e  viabilizar  politicamente  trabalhadores pouco qualificados seriam os 
uma  nova  política  de  comércio  mais  atingidos  pelos  deslocamentos 
internacional.  A  explicitação  desse  duplo  resultantes do comércio internacional, sem 
objetivo  é  o  ponto  de  partida  para  pensar  desprezar indústrias e, de forma inovadora, 
os  desafios  da  futura  administração,  pois  o  setor  de  serviços.  Nesse  sentido, 
eles refletem debates mais profundos, que  historicamente,  o  Trade  Adjustment 
datam  desde  o  pós‐Guerra  Fria  e  marcam  Assistance tem sido o mecanismo a que se 
uma  crescente  polarização  política  com  recorre  quando  se  propõe  auxiliar  os 
reflexos partidários.  trabalhadores  e  empresários  a  se 
adaptarem  à  competição  internacional  e 
Obama,  não  diferente,  afirma  que 
                                                             reformará  esse  programa  para  torná‐lo 
mais  abrangente  e  eficiente.  Os  duros 
147
Ver,  por  exemplo,  o  memorando  escrito  ajustes  provenientes  do  mercado  devem 
por  especialistas  do  Institute  for 
ser  mitigados  em  prol  da  permanência  de 
International Economics e outros entitulado 
“A  new  trade policy  for the United  States”,  empresas e  empregos, algo que significará 
de 25 de novembro de 2008, disponível em  uma  maior  interferência  do  Estado  na 
http://www.iie.com/publications/papers/20 economia. É uma proposta que incitará um 
081217presidentmemo.pdf. 

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Especial Barack Obama 

difícil  debate  político,  mas  que  sinaliza,  de  desempenho  comercial  de  uma  economia 
início,  uma  menor  disposição  em  abrir  o  cada vez mais integrada à internacional – e 
mercado  interno  à  competição  política  –  pois  deve  ser  capaz  de  angariar 
internacional.  apoio  para  uma  política  comercial  atuante 
e  ao  mesmo  tempo  evitar  um 
No plano externo, entende‐se que algumas  descontentamento  profundo  com  a 
práticas  de  outros  países  criam  vantagens  inserção  internacional  a  ponto  de  reverter 
injustas  em  detrimento  dos  Estados  a  tendência  liberalizante  desde  o  pós‐II 
Unidos. A principal crítica seria ao mercado  Guerra.  Fundar  um  novo  consenso 
de  trabalho  nos  países  parceiros  que  doméstico  nessas  bases  será  algo  de 
pagam  salários  considerados  muito  baixos  bastante dificuldade, pois é uma das linhas 
e  que  não  fornecem  ou  não  possibilitam  de  fratura  entre  Republicanos  e 
condições  de  dignidade  para  os  Democratas há mais de 15 anos.  
trabalhadores.  Isso  baixaria  os  custos  de 
mão‐de‐obra nesses países, resultando em  O  posicionamento  sobre  o  NAFTA  é 
desemprego  nos  Estados  Unidos.  O  bastante  ilustrativo.  Enquanto  McCain  se 
combate  a  essas  práticas  é  proposto  em  apresentava como um defensor do acordo, 
duas  frentes.  Na  externa,  promovendo  Obama  o  critica  veementemente, 
acordos  que  modifiquem  as  regras  basicamente pelos motivos aludidos acima, 
trabalhistas  na  direção  apontada  pelos  denotando claramente as rachaduras entre 
norte‐americanos  e,  na  doméstica,  Republicanos  e  Democratas.  Como 
modificando leis para que as empresas que  presidente‐eleito,  Obama  afirma  a 
pratiquem  outsourcing  tenham  efeitos  necessidade  de  reformar  o  acordo,  o  que 
colaterais  em  termos  de  impostos.  significa  reabrir  a  agenda  política 
Paralelamente,  empresas  que  privilegiem  doméstica  e  internacional.  Como  o  NAFTA 
empregos  nos  Estados  Unidos  deverão  é um acordo paradigmático, o resultado de 
contar  com  incentivos  fiscais.  Uma  outra  sua renegociação pode definir as iniciativas 
condição  que  torna  a  competição  injusta  que serão tomadas para os outros acordos 
contra  os  Estados  Unidos,  segundo  os  bilaterais  e  regionais.  O  CAFTA  seria  um 
Democratas,  são  as  regras  de  proteção  ao  próximo  alvo,  pois  é  abertamente 
meio ambiente. Estas seriam menos rígidas  contestado  pelos  Democratas  em  termos 
em  outros  países,  permitindo  que  de regras trabalhistas e ambientais. 
empresas operem com menores custos no 
exterior  e  exportem  aos  Estados  Unidos.  Sobre  propriedade  intelectual,  Obama 
Com  relação  ao  tema,  é  preciso  destacar  argumenta  que  deve  haver  flexibilização 
que  os  grupos  que  o  defendem  não  o  das  regras  de  propriedade  intelectual  em 
fazem,  aparentemente,  a  partir  de  uma  casos  de  saúde  pública  nos  acordos 
posição protecionista, e buscam sim atrelar  comerciais  promovidos  pelos  Estados 
medidas  de  proteção  aos  acordos  Unidos,  algo  que  vai  na  contra‐mão  dos 
comerciais,  ou  seja,  pode  haver  apoio  à  esforços  norte‐americanos  da  década  de 
liberalização,  desde  que  acompanhada  de  1990  e  dos  anos  2000  de  enrijecer  a 
regras ambientais mais justas.  proteção  às  patentes  farmacêuticas.  A 
modificação  do  acordo  com  o  Peru  nesse 
Em  suma,  combater  o  chamado  unfair  sentido  foi  um  dos  motivos  que  atraiu  o 
trade  é  visto  como  uma  necessidade  apoio  de  Obama  à  ratificação  desse 
econômica  –  pois  tem  a  ver  com  o  acordo.  Se  adotado  como  diretriz  para  a 

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Especial Barack Obama 

política  comercial,  a  flexibilização  dos  debate  político  em  torno  da  aceitação  de 
direitos  de  propriedade  intelectual  pode  concessões e de realização de demandas. 
ser  bem  visto  pelos  países  em 
desenvolvimento,  embora  seja  mais  um  Essas  propostas  e  desafios  formariam  um 
ponto de atrito com os Republicanos.  cenário  de  reconhecimento  de  que  os 
Estados  Unidos  perderam  competitividade 
O  posicionamento  de  Obama  na  área  ou de que não são mais capazes de liderar 
agrícola  é  outro  sinal  que  aponta  nessa  o  movimento  de  liberalização  no  sistema 
direção.  Ele  é  defensor  do  protecionismo  multilateral  de  comércio?  Uma  resposta 
em  termos  de  subsídios  agrícolas,  tendo  afirmativa  parece  ser  exagero,  mas  o 
votado  a  favor  da  Farm  Bill  de  2008.  Com  questionamento  à  competitividade  norte‐
um  dos  principais  nós  que  amarram  e  americana  vindo  do  próprio  presidente‐
impedem o avanço da Rodada Doha que é  eleito  é  algo  um  tanto  quanto  inusitado. 
justamente  a  liberalização  agrícola,  pode‐ Tradicionalmente  o  discurso  dos  altos 
se esperar que será baixa a capacidade de  políticos tem sido que, leveling the playing 
Obama  retomar  a  liderança  nas  field, os norte‐americanos podem competir 
negociações  comerciais  multilaterais.  com  todos  e  vencer  muitos.  Além  disso,  a 
Sobre o etanol, especificamente, Obama se  existência  de  uma  fratura  política 
mostra favorável à eliminação de barreiras  doméstica  significaria  que  a  força  política 
ao  comércio  do  produto,  mas  somente  necessária  para  movimentar  a  política 
quando a produção nos Estados Unidos for  comercial  foi  exaurida?  Esboçar  uma 
competitiva.  Até  lá,  sobretaxas  e  subsídios  resposta é prematuro, até por que esse é o 
devem vigorar.  principal desafio que Obama encontrará no 
campo  da  política  de  comércio 
Uma  outra  modificação  que  se  pode  internacional.  Mas  é  interessante  pensar 
vislumbrar  na  política  comercial  e  que  até  que  ponto  o  Democrata  poderia  ceder 
acarreta  a  maneira  como  o  tema  será  sem  alienar  suas  bases  em  uma  sociedade 
tratado  politicamente  no  Congresso  é  a  polarizada.  De  todo  modo,  superar  a 
utilização  dos  acordos  comerciais  como  fratura  e  recuperar  o  bipartidarismo  é 
instrumento  de  política  externa  e  de  fundamental  para  o  Estado  voltar  a  ser 
segurança  dos  Estados  Unidos  na  América  plenamente  ativo  na  política  comercial, 
Latina e no Oriente Médio. Na prática, isso  condição  necessária  para  o  avanço  da 
é  mais  um  indício  de  retração  do  Rodada  Doha  e  tentar  recuperar  a 
engajamento  internacional  em  termos  de  liderança  dos  Estados  Unidos  no  sistema 
acordos  comerciais,  pois  tradicionalmente  multilateral de comércio. 
os  argumentos  de  segurança  e  de  política 
externa  são  componentes  importantes  no   

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Especial Barack Obama 

Se  não  foram  feitas  ontem,  as  mudanças  não  ocorrerão  amanhã  ou  os  limites 
do governo Obama 

Corival Alves do Carmo 

Milton  Friedman  intitulou  o  livro  onde  “Tem  sido  com  freqüência  notado  que  a 
analisou  os  primeiros  anos  do  governo  estrutura  do  governo  nos  Estados  Unidos 
Ronald Reagan de “Tirania do Status Quo”.  torna  muito  difícil  introduzir  mudanças, 
E duas teses que permeiam o livro servem  exceto  em  ocasiões  de  grandes  crises.  A 
de  ponto  de  partida  para  analisar  as  Grande  Depressão,  culminando  no  feriado 
possibilidades do governo Barack Obama.  bancário de março de 1933, foi uma dessas 
crises. Em tempos de guerra, são possíveis 
A  primeira  diz  respeito  ao  tempo  para  iniciativas  governamentais  semelhantes. 
mudança:  Em  circunstâncias  ordinárias,  porém,  a 
“um  novo  governo  dispõe  de  seis  a  nove  complexa divisão de poder introduzida em 
meses  a  fim  de  introduzir  grandes  nossa Constituição pelos seus elaboradores 
mudanças.  Se  não  aproveitar  a  –  a  divisão  entre  os  governos  federal  e 
oportunidade  e  agir  decisivamente  nesse  estadual,  o  equilíbrio  entre  o  legislativo,  o 
período, não terá outra igual. As mudanças  executivo,  e  o  judiciário,  e  entre  as  duas 
adicionais virão apenas lentamente, ou não  casas do Congresso – tudo isto torna difícil 
virão  em  absoluto,  e  contra‐ataques  serão  e  demorado  o  processo  de  introdução  de 
desfechados  contra  as  mudanças  iniciais.  grandes  mudanças.”  (FRIEDMAN; 
As  forças  políticas  temporariamente  FRIEDMAN, 1983, pp.16‐17). 
derrotadas  reagrupam  suas  hostes  e  Ou seja, uma nova administração se quiser 
tendem  a  mobilizar  todos  os  que  foram  implementar um pacote de mudanças deve 
prejudicados pelas mudanças, enquanto os  assumir o governo sabendo o que irá fazer, 
proponentes  destas  tendem  a  relaxar  deve  introduzir  o  pacote  imediatamente  e 
depois das primeiras vitórias.” (FRIEDMAN;  ainda  assim  as  novidades  só  tendem  a  ser 
FRIEDMAN, 1983, pp.11‐12).  facilmente  assimiladas  em  situações  de 
E acrescenta:  crise. 

“Desta generalização decorre um corolário:  Barack  Obama  assume  a  presidência  num 


o candidato  a Chefe de Estado que espera  contexto de crise generalizada. Portanto, a 
deixar uma marca tem que fazer algo mais  crise  abre  uma  janela  de  oportunidade 
do  que  ser  eleito:  impõe‐se  que  tenha  um  para  a  mudança.  Do  ponto  de  vista 
programa  de  ação  detalhado,  bem  econômico  nenhuma  outra  crise  nos  EUA 
definido, antes da eleição. Se o novo Chefe  desde  a  enfrentada  por  Franklin  D. 
de  Estado  esperar  até  depois  da  eleição  a  Roosevelt  trouxe  tantas  possibilidades  de 
fim de converter uma posição política geral  mudanças  econômicas. 
em  programa  detalhado,  este  só  ficará  Internacionalmente,  a  crise  também 
pronto  tarde  demais  para  ser  adotado.”  apresenta a oportunidade de reformas nas 
(FRIEDMAN; FRIEDMAN, 1983, p.12).  instituições  econômicas  internacionais. 
Entretanto,  a  tirania  do  status  quo  irá  se 
A  segunda  diz  respeito  à  dificuldade  de  manifestar  internamente  apesar  do 
implementar mudanças nos EUA:  controle dos Democratas sobre a Câmara e 

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Especial Barack Obama 

o Senado. E internacionalmente, tanto pela  generalizar,  não  se  restringe  aos  ativos 


resistência  dos  EUA  de  abrirem  mão  de  financeiros,  o  setor  imobiliário  é  um  dos 
parcelas  de  poder  no  sistema  mais  sensíveis  à  valorização  de  ativos.  O 
internacional,  quanto  de  seus  parceiros  efeito  riqueza  faz  com  que  os 
econômicos  em  assumir  responsabilidades  consumidores  elevem  seus  gastos  e  o 
pela estabilidade econômica internacional.  endividamento.  Nestas  circunstâncias  as 
decisões  de  gasto  passam  a  ser  pautadas 
Toda  campanha  do  candidato  Obama  foi  pelo movimento do mercado financeiro. O 
baseada na idéia de mudança. Não apenas  resultado é a geração de um vínculo entre 
uma  nova  política  governamental  como  os ciclos financeiros e os ciclos econômicos 
também  novas  formas  de  governar,  de  reais,  cujo  resultado  é  ampliar  a 
fazer  política.  Por  outro  lado,  tudo  indica  instabilidade econômica148.  
que  não  haja  um  detalhado  plano  de 
governo  no  bolso  do  colete  do  novo  Evidentemente  este  vínculo  é  maior  nos 
presidente  para  ser  implementado  EUA  do  que  em  outras  economias 
imediatamente.  Talvez  até  por  isso  entre  capitalistas  desenvolvidas.  Entretanto, 
os  nomes  anunciados  para  a  equipe  de  dadas  as  dimensões  do  mercado 
Obama  haja  vários  que  pertenceram  ao  americano  e  os  vínculos  internacionais 
governo  Clinton  ou  mesmo  com  atuação  gerados  pelos  fluxos  de  capitais  e  pela 
no  governo  Bush,  como  no  caso  do  internacionalização dos sistemas bancários, 
Secretário  do  Tesouro,  Timothy  Geithner.  a  transmissão  da  crise  é  imediata 
Portanto, é possível afirmar que a crise seja  independente  dos  fundamentos  da 
um  impulso  muito  mais  eficaz  para  a  economia  de  cada  país.  A  volatilidade  da 
mudança  do  que  o  programa  político  de  riqueza  financeira  faz  com  que  o  risco 
Obama.  sistêmico  se  generalize  mesmo  quando  se 
trata  de  economias  como  a  da  Grã‐
A  crise  norte‐americana  expressa  as  Bretanha,  da  Alemanha,  ou  do  Japão. 
contradições  entre  a  crescente  Neste  sentido,  tem  razão  Paul  Krugman 
financeirização  da  riqueza,  que  faz  com  que  escreveu  em  seu  blogue  na  página  do 
que cada vez mais a riqueza seja composta  The  New  York  Times,  “We  are  all  Brazilian 
por  papéis  cuja  expansão  e  valorização  é 
praticamente  ilimitada.  Ou  melhor,  cujo                                                              
limite  é  a  confiança  no  sistema  e  na  148
 “A  mudança  na  composição  da  riqueza 
capacidade  de  se  converter  os  papéis  em 
provocou  dois  efeitos  importantes  para  as 
moeda,  é  preciso  confiar  na  liquidez  dos  decisões de gasto: 1) ampliou o universo de 
papéis.  Qualquer  sinal  de  insolvência  agentes  que,  detendo  uma  parcela 
levanta  desconfianças  sobre  a  importante  de  sua  riqueza  sob  a  forma 
financeira,  têm  necessidade  de  levar  em 
sustentabilidade  do  processo  de  conta a variação de preços de ativos; 2) esta 
acumulação  financeira.  Como  coloca  ampliação  do  efeito  riqueza  implica  a 
Aglietta  (1998,  p.5),  “A  liquidez  de  um  possibilidade  de  flutuações  mais  violentas 
mercado  existirá  enquanto  seus  do consumo e do investimento. O consumo 
deixa  de  ter  o  comportamento 
participantes  acreditarem  que  ela  existe.  relativamente  estável  previsto  pela  função‐
Se a confiança se enfraquece, fazendo com  consumo  keynesiana  e  passa  a  apresentar 
que  as  pessoas  anseiem  por  testá‐la,  a  um  componente  típico  das  decisões  de 
gasto  dos  capitalistas.”  (COUTINHO; 
liquidez torna‐se esquiva.” Enquanto se crê 
BELLUZZO, 1996, p.139). 
na liquidez, a inflação de ativos tende a se 

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Especial Barack Obama 

now”. As crises dos anos 90 no México, na  pela generalização do rentismo que leva ao 
Tailândia,  Indonésia,  Coréia  do  Sul,  ou  crescente  descolamento  da  esfera 
Brasil fizeram‐nos crer que as transmissões  financeira  e  a  esfera  real.  As  crises  são  os 
ocorriam  entre  os  diferentes  mercados  momentos  em  que  a  economia  se 
emergentes,  porque  guardavam  as  reestrutura em função dos fundamentos. 
mesmas  vulnerabilidades,  e  não  adotavam 
as  políticas  adequadas,  e  por  isso,  eram  Segundo  o  McKinsey  Global  Institute 
penalizados pelos mercados.   (2008),  os  ativos  financeiros  globais 
atingiram  em  2006  a  impressionante  cifra 
A  crise  norte‐americana  e  sua  difusão  de  167  trilhões  de  dólares  considerando 
mostram  que  a  instabilidade  é  estrutural,  depósitos  bancários,  dívidas 
própria  de  uma  economia  centrada  nos  governamentais  e  privadas  e  ações.  Já  o 
mercados  financeiros.  Em  artigo  publicado  montante dos derivativos globais em 2006 
em  28  de  novembro  no  “The  New  York  foi  estimado  em  477  trilhões  de  dólares. 
Times”,  o  economista  novo  Keynesiano,  Em 2006, o PIB mundial nominal foi de 48,3 
Gregory  Mankiw,  que  foi  conselheiro  de  trilhões  de  dólares.  Apenas  o  volume  de 
George  Bush  e  do  pré‐candidato  Mitt  ativos  financeiros  (depósitos  bancários, 
Romney,  lembrou  duas  frases  clássicas  de  dívidas  governamentais  e  privadas,  ações) 
Keynes,  a  primeira  que  no  longo  prazo  nos  EUA,  56,1  trilhões  de  dólares  também 
todos  estaremos  mortos,  e  a  segunda  que  em 2006, já supera o PIB mundial.  
os  homens,  em  geral  são  escravos  de 
algum  economista  morto.  E  conclui  “In  Outra  vulnerabilidade  que  o  Presidente 
2008,  no  defunct  economist  is  more  Barack Obama terá que enfrentar é o setor 
prominent  than  Keynes  himself.”  O  externo  da  economia.  Uma  das  grandes 
objetivo  de  Mankiw  é  alertar  para  a  ironias da história é que em Bretton Woods 
importância  do  longo  prazo  ao  invés  de  os EUA rejeitaram a proposta de Keynes de 
políticas de curto prazo para sair da crise e  uma  moeda  internacional  para  as 
para o risco das soluções para crise ficarem  transações interestatais e uma política para 
restritas ao universo da análise keynesiana  impedir  que  um  Estado  tivesse  superávits 
elaborada  para  a  crise  dos  ano  1930.  Mas  permanentes  a  custas  dos  outros.  A 
as  similaridades  são  de  tal  forma  notáveis  superioridade  econômica  dos  EUA  na 
que  se  torna  difícil  ignorar  Keynes,  época  fez  com  que  a  proposta  de  Keynes 
inclusive  por  faltar  uma  teoria  alternativa  fosse rejeitada em prol da versão de Harry 
que  explique  a  crise  e  proponha  uma  Dexter White, que garantia o dólar como o 
política econômica para a recuperação sem  padrão  monetário  do  sistema  e  o  FMI 
colocar  em  xeque  os  cânones  do  como  a  instituição  responsável  por 
capitalismo  liberal.  Por  isso,  neste  gerenciar  os  desajustes  de  curto  prazo  do 
momento em que o ciclo financeiro coloca  balanço  de  pagamentos  e  da  taxa  de 
em  risco  toda  a  economia  mundial  é  câmbio.  Hoje,  certamente,  dado  o 
preciso  lembrar  outro  dístico  keynesiano  persistente déficit em transações correntes 
que  pautou  as  reformas  que  levam  aos  e  os  superávits  de  China  e  Japão,  os  EUA 
trinta  anos  gloriosos  do  capitalismo,  seriam  os  principais  beneficiários  de  um 
Keynes  dizia  ser  preciso  fazer  a  eutanásia  sistema  mais  amplo  de  cooperação  nas 
do  rentista.  As  fontes  de  instabilidade  nas  relações  econômicas  internacionais.  Na 
economias  capitalistas  foram  ampliadas  ausência  de  cooperação,  a  saída  para  os 
EUA  foi  o  crescente  endividamento  e  a 

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Especial Barack Obama 

necessidade  de  um  fluxo  estável  de  importações  por  parte  dos  EUA, 
recursos  para  o  país  que  muitas  vezes  é  conseqüentemente  afetará  o  superávit  da 
sustentando  através  da  difusão  de  China  e  do  Japão.  Aizenman  e  Jinjarak 
instabilidades  financeiras  no  resto  do  (2008,  p.  6)  estimam  que  uma  redução  de 
mundo.  0,5%  no  déficit  em  transações  correntes 
dos  EUA  gera  uma  redução  de  1,3%  no 
O World Economic Outlook divulgado pelo  superávit  em  transações  correntes  da 
FMI  em  outubro  de  2008  aponta  que  a  China,  o  que  mostra  o  potencial  dos  EUA 
diferença  de  crescimento  entre  os  EUA  e  de difundirem a crise para a economia real 
seus  principais  parceiros  comerciais  e  a  de  economias  até  agora  altamente 
desvalorização  do  dólar  desde  2002  dinâmicas  e  explica  também  as  razões 
reduziu  o  déficit  em  conta  corrente  de  pelas  quais  os  efeitos  sobre  a  economia 
6.5%  do  PIB  em  2005  para  5%  do  PIB  na  chinesa  foram  imediatos  fazendo  com  que 
primeira  metade  de  2008.  Entretanto  este  a  China  reduzisse  os  juros  e  apresentasse 
ajustamento  ocorreu  contra  as  demais  um  novo  pacote  de  investimentos  para 
economias  desenvolvidas,  que  no  caso  da  recuperar  a  economia.  Sempre  cabe 
União  Européia,  gerou  a  valorização  do  lembrar  que  a  China  não  é  uma  economia 
euro  e  um  impacto  negativo  do  setor  “financeirizada”,  portanto  é  bastante 
externo.  No  caso  do  Japão,  o  iene  se  significativo que a crise americana já tenha 
valorizou  frente  ao  dólar,  mas  segundo  o  repercussões  na  economia  real  chinesa. 
FMI,  o  iene  continua  desvalorizado  em  Por  fim,  hoje  a  China  rivaliza  com  o  Japão 
relação  aos  fundamentos  econômicos.  A  como principal credor externo dos EUA, em 
China,  com  o  yuan  ainda  muito  setembro  de  2007,  a  China  detinha  467,7 
desvalorizado,  com  uma  intensa  entrada  bilhões  de  dólares  de  títulos  do  tesouro 
de  capitais,  vem  mantendo  um  superávit  americano  e  o  Japão,  591,9  bilhões  de 
em  conta  corrente  de  10%  do  PIB  (FMI,  dólares.  Já  em  setembro  de  2008,  a  China 
2008, p.5).   detém  585,0  bilhões  de  dólares  e  o  Japão 
Diante  dos  desequilíbrios  dos  EUA  no  573,2  bilhões.  O  terceiro  lugar  é  ocupado 
balanço  de  pagamentos  e  os  déficits  atualmente  pela  Grã‐Bretanha.  A  título  de 
orçamentários,  Aizenman  e  Jinjarak  (2008)  curiosidade,  o  Brasil  ocupa  a  quarta 
chamam  apropriadamente  os  EUA  de  posição. 
“demander of last resort”. Ou seja, os EUA  Por  outro  lado,  a  crise  na  economia 
se  colocaram  numa  posição  de  grandes  americana  deveria  produzir  uma  aversão 
demandantes  de  recursos  internacionais.  ao  dólar.  Diante  dos  desequilíbrios  da 
Em  geral  associamos  o  endividamento  economia  americana,  os  investidores 
externo  aos  países  pobres,  às  economias  internacionais  deveriam  desconfiar  da 
em desenvolvimento. Mas hoje os EUA são  conveniência  de  usar  a  moeda  americana 
o  grande  demandante.  E  as  políticas  para  como  reserva  de  valor.  Entretanto,  o  que 
enfrentar a crise iniciada pelo subprime vão  está ocorrendo é o oposto. O dólar está se 
fazer  com  que  os  EUA  dependam  ainda  valorizando,  porque  diante  da  crise,  a 
mais de recursos externos. E considerando  demanda  por  dólares  aumentou,  os  fluxos 
apenas  os  governos,  estes  recursos  estão  de  capitais  para  os  EUA  aumentaram.  O 
em  países  como  China  e  Japão  que  dinheiro  acorre  aos  EUA  em  busca  de 
acumulam superávits há vários anos. Mas a  proteção.  Diante  da  centralidade  dos  EUA 
crise  irá  reduzir  a  demanda  por 

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Especial Barack Obama 

no  mundo,  o  diagnóstico  do  capital  é  que  multilateral,  entretanto,  como  já 
os  EUA  estão  fragilizados,  se  são  o  mencionado,  sempre  que  houvesse 
epicentro da crise econômica mundial, são  divergências  prevaleceria  a  posição  dos 
também o Estado que detém o poder para  EUA  dada  a  preeminência  da  economia 
enfrentar  a  crise.  Na  crise  econômica  americana  sobre  a  economia  mundial  no 
busca‐se  a  proteção  de  quem  detém  o  período.  Naquelas  condições,  os  EUA 
poder político, em escala mundial, o centro  poderiam  ter  optado  por  uma  saída 
do poder está nos EUA. O resultado é que  claramente unilateral. Não optaram. Agora 
este movimento fragiliza economias que de  no  auge  da  crise  pareceu  haver  uma 
outro modo não seriam afetadas pela crise.  convergência  sobre  o  fórum  adequado,  o 
E  isso  coloca  a  questão  do  controle  de  G‐20. Mas da reunião do G‐20 ocorrida em 
capitais.  Qualquer  discussão  sobre  a  São  Paulo  nos  dias  8  e  9  de  novembro  de 
cooperação internacional para estabilizar a  2008 não saiu nenhuma proposta concreta 
economia  mundial  e  retomar  o  efetiva  para  a  crise.  Produziu‐se  apenas 
crescimento  deve  partir  de  uma  discussão  uma  carta  de  intenções  suficientemente 
sobre  controles  de  capital  para  que  seja  genérica,  abstrata  para  não  evidenciar  as 
possível  prevenir  crises  e  controlar  a  divergências  no  interior  do  grupo  e  ao 
financeirização  da  riqueza  em  escala  mesmo  tempo  dar  uma  legitimidade 
mundial  que  amplifica  os  movimentos  internacional às medidas que cada governo 
especulativos de capitais.  já  tomou  unilateralmente.  Admitir,  por 
exemplo, a importância das instituições de 
Mas  além  de  difundir  a  crise,  este  Bretton  Woods  nesse  momento  de  crise 
movimento  de  capitais  rumo  aos  EUA  não agrega nada à solução do problema e é 
também  demonstra  que  é  de  lá  que  os  preciso  discutir  exatamente  o  papel  delas, 
capitalistas  esperam  a  solução  dos  definir  as  regras  no  relacionamento 
problemas  da  economia  mundial.  Temos  financeiro  entre  os  Estados,  etc.  Portanto, 
hoje  um  cenário  no  qual  a  economia  de  importante  a  reunião  do  G‐20  apenas 
dominante está fragilizada, e já não é mais  reafirmou  o  princípio  liberal  não  apenas 
possível  aos  EUA  simplesmente  impor  a  em  relação  ao  comércio,  conclamando  a 
sua vontade ao mundo, precisam negociar,  retomada  da  Rodada  Doha,  quanto 
adotar  uma  estratégia  multilateral  (NYE,  também  na  esfera  financeira,  que  é 
2002).  Evidente  que  os  EUA  continuam  exatamente o que está em xeque. 
podendo  tomar  medidas  unilaterais  como 
foi  constatado  durante  o  governo  George  Uma  reforma  do  sistema  financeiro 
W.  Bush  e  mesmo  pode  buscar  fazer  uma  internacional  além  de  reformar  o  Banco 
reafirmação  do  poder  monetário  e  Mundial  e  o  FMI,  deve  também  tratar  do 
financeiro  dos  EUA  como  em  1979  com  fluxo  internacional  de  capitais  privados  de 
Paul  Volcker  (TAVARES,  1997).  Entretanto,  curto prazo, e principalmente das relações 
uma estratégia unilateral seria apenas uma  entre  as  moedas  das  principais  economias 
solução  de  curto  prazo  até  que  as  do  mundo:  dólar,  euro,  iene  e  yuan. 
contradições  e  a  fragilidade  do  sistema  Nenhuma proposta de reforma do sistema 
voltassem a se manifestar.  financeiro  internacional  será  digna  deste 
nome  se  não  houver  uma  solução  para  as 
Em 1944, a Conferência de Bretton Woods  taxas  de  câmbio  entre  estas  moedas.  E 
visava  organizar  a  ordem  econômica  do  tecnicamente  a  questão  envolveria  definir 
pós‐guerra.  Foi  uma  conferência 

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Especial Barack Obama 

uma  taxa  de  câmbio  que  permitisse  aos  de  mudanças  e  reorganização  do  sistema 
EUA  diminuir  o  déficit  comercial  e  uma  financeiro  internacional.  As  propostas 
redução  substancial  dos  superávits  da  tendem a reproduzir a ideologia econômica 
China  e  do  Japão.  A  questão  é  saber  qual  e  a  distribuição  de  poder  que  marcam 
Estado estaria disposto a aceitar perdas em  estas  instituições  desde  o  início.  O  poder 
favor  de  uma  redefinição  da  ordem  destas  instituições  depende  em  grande 
financeira  internacional.  Na  atual  medida  da  conservação  da  distribuição  de 
(des)ordem,  para  usar  uma  fórmula  poder  entre  os  EUA  e  a  Europa  Ocidental, 
bastante  popular  nos  anos  90,  os  EUA  portanto  são  refratárias  ao  aumento  da 
conseguem manter a centralidade do dólar  participação  de  outros  países  e  mesmo  de 
e  o  arbítrio  na  definição  da  política  em  uma  modificação  efetiva  nas  suas 
relação  ao  dólar  internacionalmente,  atribuições.  Se  tornaram  instituições 
enquanto  os  seus  parceiros  se  beneficiam  anacrônicas.  Portanto,  uma  proposta  de 
acumulando superávits comerciais. Apenas  mudança  envolve  uma  vitória  das  ONGs 
a  crise  seria  capaz  de  forçar  que  todos  que  postulam  “50  years  is  enough”,  ou  no 
estes  governos  sentem  à  mesa  de  mínimo  a  criação  de  uma  terceira 
negociação.  Entretanto,  nada  garante  que  instituição  para  regular  este  novo  cenário. 
a  crise  seja  capaz  de  forjar  um  consenso  A  discussão  sobre  o  fórum  adequado  para 
capaz de desalojar o status quo.  as  discussões  sobre  a  crise,  que  levou  à 
reunião  do  G‐20,  expressa  esta  fragilidade 
Regra geral, as organizações internacionais  das  organizações  de  Bretton  Woods  para 
preservam  o  status  quo  do  momento  em  atuar  no  contexto  do  aprofundamento  da 
que  elas  são  criadas,  refletem  a  integração  capitalista  ocorrido  após  o  fim 
distribuição  de  poder  naquele  instante.  da Guerra Fria. 
Talvez  a  única  grande  exceção  entre  as 
organizações  internacionais  que  importam  Contidas  no  interior  da  Guerra  Fria  e  nos 
seja  a  União  Européia.  Isso  ocorre  em  marcos das instituições de Bretton Woods, 
grande  medida,  porque  a  União  Européia  as  economias  capitalistas  passaram  por 
se tornou efetivamente uma instância para  intenso e profundo processo de integração 
abordar  os  problemas  europeus,  a  que  supera  algumas  das  contradições  do 
burocracia  da  União  Européia  tende  a  conflito  interimperialista.  Os  Estados 
buscar  soluções  coletivas  que  reforcem  o  passam a se preocupar  mais com a defesa 
processo  de  integração  e  a  adesão  dos  do  capital  em  geral  do  que  com  o  capital 
Estados ao processo de integração. Não é o  nacional.  Na  medida  em  que  esta  nova 
que  ocorre  nas  organizações  de  Bretton  economia  mundial  se  expande,  os  marcos 
Woods,  tanto  o  FMI  quanto  o  Banco  regulatórios  vão  sendo  superados,  porque 
Mundial  continuam  refletindo  a  divisão  de  o espaço de  atuação do capital é cada vez 
poder  existente  em  1944.  Talvez  hoje  de  mais o mercado mundial. Esta tendência se 
forma  ainda  mais  pronunciada,  porque  aprofunda  com  o  primeiro  ciclo  de 
agora  de  fato  a  Europa  tem  poder  e  liberalização nos anos 1970, e com os ciclos 
capacidade  de  interferir  no  processo  subseqüentes  nos  anos  1980  e  1990.  Com 
decisório. Esta divisão das organizações de  o  fim  da  Guerra  Fria,  este  processo  de 
Bretton  Woods  entre  os  EUA  e  a  Europa  integração  se  torna  mais  intenso  e  visível 
Ocidental impede que a partir do FMI e do  na  forma  da  globalização  financeira.  Este 
Banco  Mundial  surjam  efetivas  propostas  novo  estágio  da  integração  capitalista 

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Especial Barack Obama 

demanda  novas  organizações  início do governo, mas também restringe o 


internacionais.  A  OMC  veio  atender  a  esta  escopo  de  possibilidades  de  mudança,  as 
demanda.  Também  houve  a  proposta  do  propostas  apresentadas  não  devem 
Acordo  Multilateral  de  Investimentos  escapar  das  políticas  já  praticadas  pelo 
(MAI),  que  atenderia  outras  demandas  do  governo  apenas  com  ações  de  curto  prazo 
processo  de  integração  do  capital.  A  para conter a crise. 
política  unilateral  do  governo  George  W. 
Bush,  e  colocação,  em  primeiro  plano,  das  A  indicação  de  Timothy  Geithner  para  a 
questões  de  segurança  e  militares  sob  o  Secretaria  do  Tesouro  aponta  para  uma 
epíteto  de  “terrorismo”  impediu  o  gestão  técnica  e  não  política  da  pasta. 
surgimento  de  organizações  internacionais  Geithner não tem formação em economia, 
funcionais  ao  novo  estágio  da  integração  é  um  técnico  que  iniciou  a  carreira  no 
capitalista. Neste sentido, a interrogação é  Federal Reserve no fim da década de 1980. 
em  que  medida  o  governo  Obama  será  Sendo  assim  tende  a  ter  um 
capaz  de  dar  vazão  a  um  processo  de  comportamento  pragmático.  Entretanto,  o 
institucionalização  do  capitalismo  mundial  noticiário  indica  que  o  controle  das 
em  curso  no  período  Clinton  e  principais questões econômicas estará com 
interrompido  durante  a  presidência  Lawrence  Summers  que  não  assume  de 
Bush149.  fato  a  Secretaria  do  Tesouro  para  não  ter 
que  se  dedicar‐se  à  rotina  burocrática150. 
O  Presidente  Barack  Obama  irá  enfrentar  Como chefe do National Economic Council, 
uma  situação  similar  a  do  presidente  Lula  Summers  terá  mais  margem  de  manobra, 
no  Brasil  em  2003.  Para  Lula,  vencer  a  inclusive  para  atuar  internacionalmente. 
eleição  não  era  suficiente,  uma  vez  na  Neste  sentido,  a  escolha  de  Summers 
presidência  era  preciso  demonstrar  que  sinaliza  uma  retomada  da  visão 
podia  estar  lá,  que  tinha  condições  de  internacional  de  Clinton.  Se  estivéssemos 
ocupar o cargo e sabia o que fazer. Obama  nos  anos  1970,  caberia  lembrar  que 
é  evidentemente  preparado 
                                                            
intelectualmente,  mas  além  de  ser  novato 
150
na  política,  é,  sit  venia  verbo,  negro.  O     “Some  who  know  Summers,  a  man  with  a 
primeiro negro na presidência dos EUA não  large  personality,  were  surprised  that  he 
would  take  the  job  as  inside‐the‐White‐
pode  errar,  ainda  que  assuma  numa 
House  economic  adviser  and  accept  the 
situação  crítica.  Para  evitar  o  erro,  Barack  appointment  of  Geithner,  the  president  of 
Obama  parece  estar  procurando  reduzir  o  the  Federal  Reserve  Bank  of  New  York,  as 
tempo  de  aprendizado  escolhendo  nomes  Treasury secretary. 
  But  Obama's  aides  are  making  clear  that 
que  já  passaram  por  governos  anteriores, 
Summers  is  being  assigned  a  large  role  in 
especialmente  do  governo  Clinton,  mas  shaping  the  administration's  overall 
sem  excluir  nomes  que  tiveram  alguma  economic policy,  and  his  White  House  post 
relação  com  o  governo  Bush.  Esta  é  uma  will  free  him  from  the  day‐to‐day 
responsibilities  of  running  the  Treasury 
estratégia  que  deve  reduzir  os  erros  no  Department  ‐‐  duties  well  suited  for 
                                                             Geithner,  widely  seen  as  a  good  manager 
and  also  as  an  economic  diplomat  likely  to 
149
Para  uma  visão  sobre  o  caráter  funcional  broker  international  cooperation  in 
das  organizações  capitalistas  para  o  stemming  the  downturn.  The  fact  that 
processo  de  acumulação  de  capital  ver  Summers  and  Geithner  have  a  long  history 
Murphy  (1994)  e  os  comentários  críticas  of  working  together  should  ease  potential 
sobre a sua obra em Cruz (2004).  conflicts.” (DIONNE Jr, 2008, p. A15) 

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Especial Barack Obama 

Summers  faz  parte  da  Comissão  Trilateral,  havia  avançado  pouco  na  agenda  de 
ou  seja,  entende  a  necessidade  de  uma  reformas,  e  que  teria  agora  que  esperar 
maior  integração  e  cooperação  entre  os  conseguir  ser  eleito  para  um  segundo 
países  da  Tríade  sustentada  pela  ação  mandato  para  aprofundar  as  reformas 
privada,  seja  por  empresas  ou  por  liberais. O que os EUA e o mundo esperam 
intelectuais.  Portanto,  dificilmente  é que após a posse, Obama continue sendo 
veremos propostas de saída para crise que  sinônimo  de  esperança.  Portanto,  se  o 
não  signifiquem  a  reafirmação  dos  projeto  econômico  de  Obama  ainda  está 
mercados  mundiais  e  do  capital  sobre  as  em disputa, o que se decide é o significado 
economias  nacionais.  Mas  a  opção  seria  da esperança. 
pelo multilateralismo, dentro da estratégia 
identificada  por  Nye  como  a  adequada   
para  os  EUA,  “transformar  o  nosso  atual  Referências bibliográficas 
poder  predominante  num  consenso 
internacional  e  os  nossos  princípios  em  AGLIETTA,  Michel.  Lidando  com  o  risco 
normas  internacionais  amplamente  sistêmico.  Economia  e  Sociedade, 
aceitas.”  (NYE,  2004,  p.270).  Por  outro  Campinas, 11, dez. 1998. 
lado,  a  presença  de  Paul  Volcker  como 
AIZENMAN,  Joshua;  JINJARAK,  Yothin.  The 
presidente  do  Conselho  Assessor  para  a 
US as the “demander of last resort” and its 
Recuperação  Econômica  expressa  a 
implications  on  China’s  current  account. 
ausência  de  coerência  na  formação  da 
NBER  Working  Paper,  n.  14453,  october 
equipe  econômica  e  provavelmente  a 
2008.  Disponível  em: 
inexistência  de  um  programa  econômico 
http://www.nber.org/papers/w14453, 
definido.  
acesso em 30/11/2008. 
E se no plano interno ainda não se formou 
COUTINHO,  Luciano  e  BELLUZZO,  Luiz 
o  programa  econômico  de  Obama,  menos 
Gonzaga  de  Mello.  Desenvolvimento  e 
ainda  na  agenda  internacional.  A  primeira 
estabilização  sob  finanças  globalizadas. 
questão  a  ser  considerada  é  em  que 
Economia  e  Sociedade,  Campinas,  n.7, 
medida o governo Obama chamará para os 
dezembro 1996. 
EUA  a  responsabilidade  pela  reforma  do 
sistema  financeiro  internacional.  O  foco  CRUZ, Sebastião C. Velasco e. Globalização, 
nos  problemas  internos  pode  deixar  em  democracia e ordem internacional: ensaios 
segundo plano as questões internacionais e  de  teoria  e  história.  Campinas/São  Paulo, 
a  crise  acabar  sendo  “superada”  sem  que  Unicamp/Unesp, 2004. 
as  causas  estruturais  da  crise  no  plano 
internacional tenham sido atacadas. Enfim,  DeLONG,  J.  Bradford  e  SUMMERS, 
no governo Obama, a grande esperança de  Laurence  H.  The  ‘New  Economy’: 
mudança  vem  da  crise,  dos  movimentos  background,  historical  perspective, 
que  ela  provoca,  porque  o  projeto  questions,  and  speculations.  Economic 
econômico  de  Barack  Obama  ainda  está  Review,  Fourth  Quarter  2001,  pp.29‐59. 
em disputa.  Disponível  em:  http://www.j‐bradford‐
delong.net/Econ Articles/summersjh2001.
Como  já  mencionado,  escrevendo  quase  pdf acesso em 30/11/2008. 
dois anos após o início do governo Reagan, 
Friedman  considerava  que  o  Presidente 

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Especial Barack Obama 

DIONNE  Jr,  E.  J.  Obama’s  brain  trust.  ness/economy/30view.html? r=1,  acesso 
Washington  Post,  November  25,  2008,  em 30/11/08. 
Page  A15.  Disponível  em: 
http://www.washingtonpost.com/wp‐ MAYER,  Chris;  PENCE,  Karen.  Subprime 
dyn/content/article/2008/11/24/AR20081 mortgages:  what,  where,  and  to  whom? 
12402116.html. Acesso em: 25/11/2008.  Finance  and  Economics  Discussion  Series, 
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FMI.  World  Economic  Outlook.  Financial  2008.  Disponível  em: 
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Especial Barack Obama 

Os Estados Unidos de Obama: a continuidade do problema energético 

José Alexandre Altahyde Hage. 

Embora  seja  lugar  comum  dizer  que  os  petróleo se dá em razão da Armada do país 


Estados  Unidos  continuarão  a  ter  grande  estacionada em pontos estratégicos, como 
problema  energético  sob  a  presidência  do  nos Emirados Árabes. 
democrata  Barack  Obama  ainda  é  licito 
voltar  ao  assunto.  Em  linhas  gerais  é  Aliás, pensar o Estado e a grande estratégia 
conveniente analisar em rápidas passagens  é  também  imaginar  possíveis  cenários 
qual a situação energética do Estado norte‐ negativos  que  venham  a  atrapalhar  a 
americano. O país consome em média 25%  desenvoltura  do  país  na  política 
de  toda  a  produção  mundial  de  energia,  internacional  –  esse  exercício  se  torna 
conforme  dados  apresentados  pela  importante  não  somente  para  a  grande 
Agência  Internacional  de  Energia  para  potência,  mas  para  todos  os  países  que 
2008.  desejam inserção de qualidade, justamente 
para  evitar  “surpresas”  e  danos  em  sua 
Como  maior  consumidor  mundial  os  política  e,  por  conseguinte,  atrapalhar  a 
Estados  Unidos  não  se  preocupam  boa desenvoltura econômica para a criação 
somente com a aquisição do maior número  de riquezas e bem‐estar. 
possível  de  barris  de  petróleo.  Há  ainda 
outros  fatores  ligados  à  questão.  Há  um  Em  certa  medida  foi  o  que  o  governo 
traço  interessante  no  aspecto  energético  republicano de Reagan, anos 1980, fez para 
dos  Estados  Unidos;  o  país  é  o  maior  diminuir  sua  dependência  do  óleo 
consumidor  de  petróleo  do  mundo,  mas  é  importado  dos  árabes  –  o  esforço  era 
também  um  dos  três  maiores  produtores  justamente  aumentar  a  produção 
da  matéria‐prima,  perdendo  somente,  de  petrolífera  dos  aliados  e  do  próprio 
acordo  com  o  método  de  cálculo  e  ano,  território  norte‐americano  com  resultados 
para a Arábia Saudita e Rússia.  louváveis  na descoberta  de  superpoços  no 
Mar  do  Norte  e  em  áreas  seletivas  do 
O  problema  de  fundo  é  que  a  Alaska.  Em  outra  instância  era  também 
superpotência  consome  toda  a  sua  urgente  fazer  com  que  os  produtores  da 
produção interna e necessita cada dia mais  OPEP  pagassem  pela  ousadia,  não  mais 
de  importações.  Atualmente  Washington  permitindo  lá  a  construção  de  refinarias, 
tem  de  importar  algo  entre  25  a  30%  do  de núcleos de negociações comerciais, nem 
consumo.  Essa  máxima  põe  os  Estados  de logística. Todos esses itens deveriam ser 
Unidos  em  situação  geopolítica  delicada.  feitos  e  transferidos  para  os  Estados 
Seus  homens  de  Estado,  o  que  vale  para  Unidos.  
republicanos e democratas, entendem não 
ser  bom  negócio  depender  de  insumos  Por  outro  lado,  nos  últimos  oito  anos  os 
estrangeiros, mesmo que não haja nada de  Estados  Unidos  deram  sinais  de  que 
conflituoso à vista. Não há dúvida de que a  negligenciaram  lições  importantes  da 
relativa  calma  dos  Estados  Unidos  com  política  mundial  a  favor  de  sua  própria, 
relação  ao  trânsito  internacional  do  mas  errônea,  mesmo  que  isso  tenha 
desagradado  seus  tradicionais  aliados  da 

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Especial Barack Obama 

Europa  Ocidental  e  da  Ásia,  que  nem  Tarefa muito difícil, visto que o país não se 


sempre gostam de embates e crises com o  vê  divorciado  dos  altos  gastos  de 
grande líder. A Casa Branca preferiu trilhar  hidrocarbonetos.  Aqui  há  até  um  traço  de 
caminho  unitário  que  levava  a  um  fundo  sociológico  pelo  fato  de  o  estilo  de 
raciocínio  automático.  Preferiu  caminhar  vida  e  ritmo  econômico  de  parte 
com  poucos  amigos  para  comandar  as  significativa da população norte‐americana 
maiores  reservas  mundiais  de  petróleo  do  só  é  possível  por  causa  do  forte  consumo 
Oriente Médio, caso do Iraque, de início.  de  energia,  não  só  petróleo,  mas  também 
hidroeletricidade  e  térmica  por  óleo 
Vale  dizer,  o  poder  americano  trabalhou  combustível  e  nuclear.  De  fato,  a  matriz 
com  a  premissa  de  que  exercendo  o  energética estadunidense é muito perto de 
controle  de  modo  unitário  nas  grandes  um  mix  em  que  todos  os  insumos 
regiões  produtoras  do  ouro  negro,  com  energéticos  participam  de  sua  formação 
poucos  aliados,  como  o  Reino  Unido,  em alto grau. 
poderia  adquirir  maiores  vantagens 
políticas  e  ganhos  econômicos,  já  que  as  Grande  tem  sido  o  emprego  da  energia 
outras  potências  teriam  de  barganhar  o  nuclear, assim como da hidroeletricidade e 
petróleo  de  senhoria  norte‐americana  se  da  biomassa.  Essa  sendo  fruto  de  grande 
quisessem  energia.  Se  a  Europa  quisesse  dilema e impasse por causa de sua origem 
promover  políticas  autônomas  que  ser à base de álcool de milho, contribuindo 
pagassem então o preço exigido. É fato que  para  grandes  elevações  no  preço  das 
alguns  Estados,  Alemanha,  França  e  Japão  comodities  alimentares  com  efeitos  em 
procuram  suficiência  energética  todo  o  mundo.  Além  disso,  o  próprio 
caminhando  no  fio  da  navalha:  ora  modelo  de  produção  de  etanol  norte‐
comungam  com  os  Estados  Unidos,  ora  americano  acaba  atrapalhando  o 
procuram  criar  meios  alternativos  para  desenvolvimento  de  outros  países  que 
sublinhar  sua  procura  de  autonomia  produzem  etanol  via  cana‐de‐açúcar,  por 
política.  exemplo,  Brasil  que  acaba  recebendo  o 
ônus por sua relação com o governo Bush. 
Se  esse  raciocínio  é  fantasioso  não  seria  a 
primeira  vez  que  ele  ganha  vida.  O  ácido  No curto prazo não há muito que se alterar 
crítico  da  política  de  poder  norte‐ no  padrão  energético  dos  Estados  Unidos, 
americana  e  britânica,  Peter  Gowan,  A  mesmo  sob  uma  administração  que  fora 
Roleta  Global.  Rio  de  Janeiro,  Record,  eleita para ser alternativa – o que pode ser 
2003,  havia  percebido  que  essa  operação  frustrante se os resultados não aparecerem 
aconteceu  no  ano  de  1973,  quando  o  na  velocidade  esperada  pelo  eleitorado  e 
Presidente  Richard  Nixon  contribui  para  pela expectativa internacional, utilizando a 
inflamar a crise de petróleo da OPEP para,  máxima  para  saber  se  efetivamente  existe 
justamente,  amainar  a  pressão  econômica  interdependência  que  liga  os  destinos  dos 
da antiga Alemanha Federal e Japão sobre  Estados  Unidos  do  jovem  Obama  a  todo  o 
os  Estados  Unidos,  que  estavam  sofrendo  sistema internacional. 
por  causa  da  forte  inflação,  déficit  público 
e pouca competitividade industrial.  De início, o país teria de alterar a razão de 
consumo  de  petróleo  e  demais  insumos. 
O que o governo de Obama deve fazer em  Neste particular o governo teria de exercer 
energia é rever o perfil dos Estados Unidos.  seu  poder  sobre  as  companhias 

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Especial Barack Obama 

automobilísticas  para  que  diminuíssem  a  2.  O  país  também  é  muito  importante  na 
produção  de  carros  especiais,  altamente  produção de álcool combustível junto com 
consumidores  de  gasolina.  Vale  dizer,  o  Brasil.  A  diferença  é  que  o  etanol  norte‐
contrariar  condutas  sociais  e  econômicas  americano  é  feito  de  milho,  cereal  que 
que  foram  privilegiadas  e  incentivadas  há  serve  como  elemento  básico  para  a 
mais de dez anos para que refletissem um  indústria alimentar. Em todo o ano de 2008 
novo estilo de vida baseado no instantâneo  houve forte embate entre os defensores do 
e  no  desperdício.  Talvez  essa  tarefa  possa  etanol  contra  organizações  internacionais, 
ser  feita  em  virtude  da  crise  financeira  ambientais  e  não‐governamentais,  cujo 
mundial  que  tem  seu  epicentro  nos  mote  era  a  condenação  do  álcool 
Estados  Unidos,  situação  que  o  governo  combustível  por  este  ter  provocado  a  alta 
Obama não pode ser negligente. A própria  do  custo  da  alimentação,  situação  que 
OPEP  já  declara  que  terá  de  diminuir  a  pegou também o Brasil que não tem etanol 
produção  de  óleo  para  2009  por  causa  da  de  milho.  Aquilo  foi  raciocínio  automático 
crise  e  a  queda  de  consumo  que  ela  que fez o Brasil sofrer crítica para qual não 
provoca,  fato  que  pode  ser  conveniente  deveria  passá‐lo.  Mas  isso  já  seria  outra 
para o governo democrata.  questão. Por serem fortes no investimento 
em  ciência  e  pesquisa,  os  Estados  Unidos 
Analisando  de  modo  muito  breve  alguns  ainda  procuram  maximizar  ganhos  na 
itens energéticos dos Estados Unidos pode  exploração  da  biomassa,  caminhando  no 
ser congruente para compreender o futuro  “estado  da  arte”  na  área  de  insumos  que 
próximo do país em uma área tão especial  podem ser relevantes para o futuro, como 
e,  ao  mesmo  tempo,  preocupante  para  a  madeira. 
Presidência Obama:  
3.  Os  Estados  Unidos,  na  ânsia  de  manter, 
1. Os Estados Unidos ainda são integrantes  segurança  energética  e  diminuir  o  grau  de 
dos  três  ou  quatro  maiores  produtores  de  dependência  aos  recursos  importados 
petróleo do mundo com números acima de  também  investem  maciçamente  na 
oito  milhões  de  barris  ao  dia.  Contudo,  compreensão  sobre  o  hidrogênio,  insumo 
suas reservas estão minguando e isso pode  que  promete  muito  para  o  futuro  por  ser 
fazer  com  que  o  novo  governo  venha  abundante  e  altamente  rentável 
pensar  na  exploração  de  áreas  pouco  energeticamente.  Mas  a  questão  é  que  o 
convenientes  para  o  meio  ambiente,  o  hidrogênio  ainda  é  bastante  complexo  em 
Alaska,  por  exemplo.  Se  não  houver  sua confecção para o uso atual, sem deixar 
políticas e autoridade suficientes para fazer  de  recordar  que  seus  custos  são  muito 
com que a sociedade estadunidense altere  altos  na  extração,  por  exemplo,  para  se 
seu  modo  de  vida  certamente  a  Casa  adquirir  uma  unidade  energética  de 
Branca  vai  ter  de  enfrentar  o  dilema  de  hidrogênio  se  gasta  quatro.  A  relação  com 
explorar  o  Alaska,  além  do  limite,  bem  o  petróleo  é  de  uma  unidade  de  energia 
como  agravar  seu  relacionamento  com  o  para  oito  ou  de  uma  para  quatro,  na  pior 
Canadá  pelo  fato  deste  último  possuir  das hipóteses. Em todo o caso o hidrogênio 
grandes  reservas  de  combustíveis  pesados  não deixa de ser uma espécie de poupança 
em  abundância,  mas  altamente  negativos  em  fase  de  maturação,  podendo  ser 
para o controle dos gases tóxicos, CO2.  promissor  quando  for  compensável 
economicamente. 

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Especial Barack Obama 

A  situação  do  Estado  americano  é  impar  Breve Indicação Bibliográfica 


tanto no que tange a momentos negativos 
e  positivos.  Nos  positivos  em  virtude  de  GOWAN,  Peter.  A  Roleta  Global.  Rio  de 
seus  enormes  financiamentos  e  empenho  Janeiro, Record, 2003. 
em  ciência  e  tecnologia  que  podem  fazer  SHAH,  Sonia.  A  História  do  Petróleo: 
com  que  haja  relevante  contribuição  Entenda  como  e  por  que  o  Petróleo 
mundial  em  novas  energias  e  respeito  ao  dominou o Mundo. 
equilíbrio  ambiental.  Se  o  governo  Obama 
tiver  gosto  por  políticas  internacionais  TORRES  FILHO,  Ernani.  “O  Papel  do 
feitas  conjuntamente,  multilaterais,  o  Petróleo  na  Geopolítica  Americana”.  In 
mundo  pode  ganhar.  Já  no  aspecto  FIORI,  José  Luiz  (org).  O  Poder  Americano. 
negativo  os  Estados  Unidos  também  tem  Petrópolis, Vozes, 2004. 
perfil diferenciado, até este momento, seu 
WEINTRAUB,  Sidney.  Cooperação 
consumo  de  energia  sobrepõe  o  de  todos 
Energética  nas  Américas:  Entraves  e 
os outros Estados do sistema. Uma vez que 
Benefícios. Rio de Janeiro, Campus, 2007. 
o país não consiga reverter sua posição de 
vulnerabilidade  os  efeitos  deverão  ser  YERGIN,  Daniel.  Petróleo:  Uma  História  de 
prejudiciais  para  todo  o  mundo,  pois  não  Ganância,  Dinheiro  e  Poder.  São  Paulo, 
há nenhuma  garantia de que a plataforma  Scritta, 1994.  
democrata  não  ponha  seu  país  acima  de 
todos os outros. 

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Especial Barack Obama 

Os desafios da Rodada Doha e a posição dos Estados Unidos 

Haroldo Ramanzini Júnior 

A Rodada Doha de negociações comerciais,  chama  de  “pactuação  assimétrica”  não  se 


no âmbito da OMC, tem sido caracterizada  viabiliza, ao menos da forma como ocorria 
de  forma  relativamente  diversa,  quando  anteriormente.  Isso  não  quer  dizer  que  os 
comparada às rodadas anteriores. De certa  PDs tenham perdido sua condição singular 
forma,  na  atual  rodada,  parte  dos  países  no  direcionamento  das  negociações  na 
em  desenvolvimento  (PEDs)  estiveram  OMC.  O  fato  de  alguns  temas  e  interesses 
envolvidos,  nos  principais  passos  da  dos PEDs estarem na agenda não garantem 
negociação, desde o processo de formação  a  sua  implementação.  Inclusive,  pode‐se 
da  agenda151,  elaborada  na    Reunião  de  argumentar que, além das divergências em 
2001,  em  Doha,  até  a  última  reunião  torno  do  tema  dos  mecanismos  de 
importante, que ocorreu em julho de 2008,  salvaguardas  especiais  (SSM)  e  das 
em Genebra.   posições de Índia e China, o fato dos EUA e 
a  União  Européia  (UE)  não  terem 
A centralidade que os países desenvolvidos  apresentado  uma  posição  comum  é    um 
(PDs),  particularmente  os  Estados  Unidos  dado  que  também  deve  ser  levado  em 
da  América  (EUA),  detém  hoje  nas  consideração,  para  a  compreensão  do  não 
negociações,  parece  diferenciar‐se  das  acordo na reunião mini‐ministerial de julho 
posições  anteriores.  Nas  rodadas  de 2008.  
anteriores,  como  na  Rodada  Tóquio  e  na 
Rodada Uruguai, os PDs fechavam acordos  As  mudanças  no  equilíbrio  de  poder 
“no  alto”  para  depois  ampliá‐los,  com  a  político  e  econômico  internacional,  que  se 
inclusão de outros países na discussão152.  acentuaram, a partir de 2001, parecem ter 
Os  códigos  de  adesão  voluntária,  impacto  na  dinâmica  das  negociações  das 
negociados  na  Rodada  Tóquio,  e  o  acordo  regras  comerciais  na  OMC.  Segundo 
Blair‐House,  da  Rodada  Uruguai,  são  Waltz154,  “a  teoria  permite‐nos  dizer  que 
exemplos  dessa  dinâmica.  Na  Rodada  uma  nova  balança  de  poder  será 
Doha,  esse  processo  que  Steinberg153  constituída, mas não nos diz quanto tempo 
                                                             esse processo levará para concretizar‐se ... 
151
o  inevitável  movimento  da  unipolaridade 
Hurrel  e  Narlikar  (2006)  acreditam  que  o 
para  a  multipolaridade  não  está 
fato de a atual rodada chamar‐se Agenda de 
Doha  para  o  Desenvolvimento  seria  um  acontecendo  na  Europa,  mas  na  Ásia”. 
indicativo  da  influência  do  Brasil  e  da  Índia  Diante disso, a posição norte‐americana no 
nas  negociações.  Ver:  HURRELL,  Andrew;  sistema  internacional  parece  estar  em 
NARLIKAR,  Amrita.  A  New  politics  of 
questão.  Essa  situação,  juntamente  com  a 
confrontation?  Developing  countries  at 
Cancun  and  beyond.  Global  Society,  v.  20,  reestruturação  dos  eixos  de 
n? 4, 2006.  desenvolvimento mundial, tem implicações 
152
CRUZ,  Sebastião  C.V.  Crise  Econômica  e  para  as  negociações  da  Rodada  Doha.  De 
Negociações  Comerciais:  conjecturas  sobre 
a  Rodada  Doha  e  o  sistema  multilateral  de                                                              
comércio. Mimeo, 2008.  
153 154
STEINBERG,  Richard.  In  the  shadow  of  law  WALTZ, Kenneth N. Structural realism after 
or  power?  Consensus  –  based  bargaining  the Cold War. International Security, vol. 25, 
and  outcomes  in  the  GATT/WTO.  n? 1, 2000. 
International Organization, v. 56, n?2, 2002. 

  Página | 147 
Especial Barack Obama 

certa  forma,  os  até  agora  decorridos  sete  apontado a tendência, embora o contrário 


anos  de  negociação,  coincidiram  com  o  fosse  o  desejável,  que  o  resultado  líquido 
vigoroso  crescimento  da  China,  da  Índia  e  da  crise,  que  se  iniciou  no  mercado  de 
de  outros  países  emergentes,  enquanto  crédito  hipotecário  norte‐americano  e  foi 
importantes  exportadores  e  importadores  propagada a outros países e regiões, pode 
internacionais.   ser  uma  postura  mais  protecionista  na 
maior  parte  dos  países.  Por  conta  disso,  o 
Paralelamente  a  esse  movimento,  houve  comunicado  final  da  reunião  do  G‐20 
um  aperfeiçoamento  das  estratégias  de  financeiro,  de  novembro  de  2008,  em 
negociação  dos  PEDs,  nas  negociações  da  Washington,  propunha  a  necessidade  de 
OMC. Através de uma estratégia pró‐ativa,  retomada    das  negociações  da  rodada 
países como Brasil e a Índia têm hoje maior  Doha.  Mas,  o  foco  principal  da  ação 
capacidade  de  intervenção  nos  externa, principalmente a dos EUA e da UE, 
direcionamentos  da  rodada,  tanto  que  tem sido direcionado para o fortalecimento 
estão presentes nas principais reuniões do  dos  sistemas  bancário  e  financeiro 
chamado green‐room. Embora esse, talvez,  mundial,  buscando  abreviar  a  recessão. 
não  seja  um  elemento  suficiente  para  Nesse  sentido,  a  crise  financeira 
introjetar  suas  preferências  no  resultado  internacional  parece  ter  ofuscado  as 
final  dos  acordos,  tem  sido  importante  negociações comerciais155.  
tanto  para  a  projeção  das  suas  demandas 
quanto  para  a  não  aceitação  de  propostas  No  novo  contexto,  desencadeado  a  partir 
entendidas  como  não  favoráveis  aos  seus  do  colapso  do  Lehman  Brothers,  os 
interesses.  A  possibilidade  de  um  acordo,  membros  da  OMC  tendem  a  considerar 
para  o  encerramento  da  atual  rodada  de  suas  opções  de  liberalização  comercial, 
negociações  passa,  necessariamente,  pela  com base em medidas de combate à crise. 
incorporação  de  parte  das  demandas  dos  Num  momento  onde,  internacionalmente, 
PEDs.  Por  isso  as  dificuldades  para  a  não  só  nos  PDs,  revigora‐se  o 
conclusão  da  rodada,  passam  boa  parte  entendimento  do  papel  do  Estado,  há 
dessas  demandas  a  posições  dos  PDs  que  dúvidas  se  os  compromissos  assumidos 
constrangem as negociações na OMC e que  pelos  países,  na  OMC,  serão  uma  variável 
parecem ser pouco permeáveis à influência  que  será  considerada  na  implementação 
do regime internacional de comércio.      das  medidas  de  subsídios,  isenções  fiscais, 
elevações  de  tarifas  ou  restrições 
Concretamente, ainda não é possível saber  quantitativas,  que  alguns  países  vêm 
se  os  estudos  e  propostas  que  adotando  ou  intensificando,  para 
estruturaram  o  quase‐acordo  da  mini‐ contenção  da  crise.  No  cenário 
ministerial  de  julho  de  2008  manter‐se‐ão  internacional,  sobretudo,  nos  momentos 
no  novo  contexto  de  crise  econômica  e  críticos,  prevalece,  nas  decisões  dos 
financeira  internacional  caracterizado  pelo  Estados,  o  chamado  interesse  nacional. 
aumento  do  desemprego  nos  países  Independentemente  do  debate  a  respeito 
centrais  e  pela  retração  da  demanda,  não  desse conceito, no caso principalmente dos 
só  em  relação  às  commodities  e  bens 
primários, mas também em relação a bens                                                              
e serviços, devido às restrições de crédito e  155
  “Trade  Pales  Next  to  Financial  Turmoil”. 
da  conseqüente  diminuição  do  consumo 
Bridges Monthly Trade Review, vol. 12, n?5, 
nos  EUA  e  na  UE.  Muitos  analistas  têm  2008.  

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Especial Barack Obama 

PDs,  não  só  no  campo  comercial,  mas  agrícola,  principalmente  os  produtores  de 
também  no  âmbito  da  segurança  algodão,  soja,  milho,  algodão  e  arroz. 
internacional,  muitas  vezes  os  interesses  Parece  que  a  possibilidade  das  discussões, 
particulares operacionalizam‐se de forma a  na  OMC,  gerarem  uma  mudança  na  Farm 
debilitar  o  multilateralismo.  Sabe‐se  que  Bill  é  limitada,  por  se  tratar,  entre  outros 
determinadas  políticas  domésticas  e/ou  motivos,  de  um  mecanismo  onde  a 
comunitárias  dos  PDs  constrangem  os  participação  do  Executivo  no  seu  processo 
acordos  e  as  negociações  multilaterais  na  de formulação é pouco efetiva. Em maio de 
OMC.  No  curto  prazo,  nas  negociações  2008,  o  Congresso  norte‐americano 
comerciais,  embora  não  haja  qualquer  derrubou  o  veto  presidencial  à  nova  Farm 
certeza  sobre  esse  caminho,  a  tendência  Bill  e  confirmou  o  montante  de  US$  290 
parece  ser  de  aprofundamento  nos  bilhões  para  o  setor  agrícola  até  2012. 
parâmetros desse diagnóstico.   Além  disso,  a  nova  lei  agrícola  norte‐
americana  não  elimina  os  subsídios  e 
A  posição  dos  EUA  parece  não  ser  no  programas  condenados  pelo  MSC  no 
sentido  de  concluir  a  rodada  ainda  neste  contencioso do algodão.    
ano.  Ou  melhor,  não  parece  haver  as 
flexibilidades  necessárias  que  poderiam  As declarações do Presidente eleito Barack 
contribuir  para  que  a  rodada  pudesse  ser  Obama  em  relação  ao  tema  dos  subsídios 
concluída em 2008. Os líderes democratas,  agrícolas  parecem  não  se  alinhar  com  as 
nas  duas  Casas  do  Congresso  norte‐ visões  dos  parceiros  comerciais  dos 
americano,  enviaram  carta  ao  presidente  EUA158.  No  Senado,  Obama  votou 
George  Walker  Bush,  para  dizer  que  o  favoravelmente  à  nova  Lei  Agrícola 
pacote  que  está  sobre  a  mesa,  na  OMC,  estadunidense (Farm Bill). O novo chefe do 
não  agrada  ao  partido  que  governará  os  executivo  norte‐americano  parece 
EUA a partir de 20 de janeiro de 2009156.  favorável  à  necessidade  de  proteção  dos 
Cabe  frisar  que  os  EUA  estão  envolvidos  interesses  dos  agricultores  norte‐
nos  três  principais  temas  que  são  os  americanos  no  contexto  do  comércio 
entraves para a retomada das negociações:  internacional159,  bem  como  a  uma  maior 
acordos  setoriais,  salvaguarda  especial  atuação  do  Congresso,  potencialmente 
para  países  em  desenvolvimento  mais suscetível aos grupos de interesse, na 
restringirem  importação  de  produtos  definição  dos  temas  de  política  comercial. 
agrícolas  (SSM)  e  eliminação  dos  subsídios  Embora ainda não haja confirmação oficial, 
para  o  algodão157.  Neste  último  caso,  a  imprensa  tem  divulgado  a  possibilidade 
mesmo  tendo  sido  considerado  pelo  de  Obama  nomear  o  deputado  pela 
Mecanismo  de  Solução  de  Controvérsias  Califórnia,  Xavier  Becerra,  para  substituir 
(MSC) inconsistente  com  os compromissos  Susan  Schwab,  no  cargo  de  secretário 
assumidos  pelos  EUA,  na  OMC,  os  norte‐ especial de Comércio Exterior. Becerra tem 
americanos continuam subsidiando o setor  dezesseis  anos  de  experiência  no 
                                                             Congresso  e  é  identificado  com  posições 
protecionistas: votou contra os tratados de 
156
 “Em  meio  a  impasse,  Doha  deve  ficar                                                              
paralisada  por  tempo  incerto”.  Folha  de  S. 
158
Paulo, 09/12/2008.   “Em  foco:  posições  comercias  do  novo 
157
 Moreira,  Assis.  “Posição  dos  EUA  atrasa  presidente  eleito  dos EUA,  Barack Obama”. 
reunião  ministerial”.  Valor  Econômico,  Pontes, vol, 3, n?20, 2008. 
159
09/12/2008. Idem. 

  Página | 149 
Especial Barack Obama 

livre‐comércio com a Colômbia e a América  variável  importante,  ainda  que  não  única, 


Central,  ainda  que  favoravelmente  ao  no  entendimento  da  configuração  e  do 
Nafta e ao acordo com o Peru. Além disso,  grau  de  ambição  do  futuro  acordo  da 
parece  ser  receptivo  à  reivindicação  de  Rodada Doha. 
alguns  sindicatos  norte‐americanos, 
representados  pela  AFL‐CIO  (American   
Federation  of  Labor  and  Congress  of 
Industrial  Organizations),  que  propõem 
que  os  acordos  comerciais  incluam  a 
chamada  cláusula  trabalhista160.  É 
oportuno  lembrar  que,  quando,  no 
governo  Clinton,  os  EUA  tentaram  incluir 
esse tema na agenda da OMC, houve fortes 
reações  contrárias  por  parte  dos  PEDs, 
particularmente da Índia e do Brasil.   

Em  suma,  parece  haver  um  processo  de 


transformações  nas  estruturas  de 
governança  global  e  na  economia 
internacional.  Essa  dinâmica  tem 
significativas  implicações  nas  negociações 
na  OMC.  Os  PDs,  particularmente  os  EUA, 
não  mais  conseguem  viabilizar  o 
encerramento das negociações nos moldes 
de uma “pactuação assimétrica”. Na OMC, 
assim  como  em  outros  regimes 
internacionais,  parece  haver  um 
movimento,  embora  sua  consolidação  não 
esteja  garantida,  no  sentido  de  garantir 
maior  espaço  às  posições  dos  PEDs.  Esses 
países  buscam  tornar  a  instituição 
multilateral  de  comércio  mais  permeável 
às  suas  preferências  ou,  no  mínimo,  não 
contrária aos seus interesses.  No caso dos 
EUA,  o  governo  Obama  terá  parte  de  suas 
políticas  definidas  pelos  desafios 
imediatos,  colocados  pela  recessão  na 
economia  norte‐americana,  que  limitarão 
seu campo de ação. Não é totalmente clara 
qual  será  sua  posição  na  Rodada  Doha. 
Mas,  de  qualquer  forma,  pode‐se  afirmar 
que  a  postura  norte‐americana  é  uma 

                                                            
160
 Obama  põe  articulador  político  no 
Comércio. Folha de S.Paulo, 04/12/08.   

  Página | 150 
Especial Barack Obama 

Os desafios da reforma da ONU 

Terra Budini 

O  presente  artigo  pretende  explorar  os  conceito  de  construção  da  paz 
desafios  do  futuro  governo  de  Barack  (peacebuilding)161,  voltado  para  a 
Obama com relação à reforma das Nações  reestruturação  das  sociedades  que 
Unidas.  Para  tanto,  será  baseado  nas  passaram por conflitos. 
declarações  feitas  pelo  então  candidato  e 
atual  Presidente  eleito  sobre  o  assunto  e  Era  inegável  a  necessidade  de  adaptação 
na  escolha  de  sua  equipe  na  área  de  das  Nações  Unidas  para  os  novos  desafios 
segurança  nacional  e  política  externa.  do pós Guerra Fria, mas este projeto de paz 
Antes,  porém,  mostra‐se  importante  claramente  incluía  um  elemento  não 
retomar  brevemente  o  histórico  deste  presente  na  concepção  tradicional:  a 
processo de reforma.  transformação  econômica  e  social  dos 
países  em  questão,  os  Estados  falidos. 
Terminada a Guerra Fria, a década de 1990  Nesta visão, está embutida a idéia de que a 
se  inicia  com  otimismo  e  com  a  crença  de  falência  das  instituições  está  na  raiz  dos 
que  finalmente  as  instituições  conflitos,  portanto  a  reestruturação 
internacionais  ‐  principalmente  a  econômica,  social,  política,  institucional, 
Organização  das  Nações  Unidas  e  seu  jurídica  destas  nações  faz  parte  do 
Conselho  de  Segurança  ‐,  poderiam  processo  de  paz.  Na  prática,  tornou‐se  a 
funcionar,  após  décadas  de  paralisia  no  imposição  de  um  modelo  determinado  de 
período  da  bipolaridade.  Contudo,  regime  político  e  de  um  sistema  de 
fracassos  de  missões  de  paz,  como  na  governo.  O  Conselho  de  Segurança,  nos 
Somália  e  na  Bósnia;  a  própria  oito  anos  de  Governo  Clinton,  aprovou  26 
fragmentação dos Bálcãs; a emergência de  missões de paz162. 
rivalidades étnicas ‐ que levaram a guerras 
intra‐estatais  com  desastres  humanitários  Os  esforços  de  reforma  se  intensificaram 
de  grandes  proporções,  como  o  genocídio  na  gestão  do  Secretário  Geral  Kofi  Annan. 
em  Ruanda  ‐,  colocaram  questionamentos  O  pacote  de  1997  (“Renovando  as  Nações 
com  relação  ao  papel  e  à  efetividade  das  Unidas:  um  programa  para  reforma”), 
missões  e  das  organizações  internacionais  incluiu  uma  série  de  mudanças  na 
e  contribuíram,  portanto,  com  a  discussão  estrutura  da  Secretaria  Geral,  como  a 
sobre uma reforma na Organização.  criação  de  um  departamento  de  assuntos 
econômicos e sociais – resultante da fusão 
Foi  neste  contexto  que  o  então  Secretario  de  três  departamentos  existentes  –  e  a 
Geral  da  ONU  Boutros  Boutros‐Ghali 
apresentou o relatório “uma Agenda para a                                                              
Paz”,  uma  iniciativa  de  reforma  que  161
UNITED  Nations.  Relatório  do  Secretário 
procurava  reforçar  instrumentos  como  a  Geral:  “An  Agenda  for  Peace”  (17  de  junho 
diplomacia  preventiva  e  as  operações  de  de 1992. A/47/277 S/24111). Disponível em 
http://www.un.org/docs/SG/agpeace.html  
paz  (peacekeeping  e  peacemaking)  e  162
UNITED  Nations  Peacekeeping.  List  of 
adicionava  ao  vocabulário  das  missões  o  Operations. 
http://www.un.org/Depts/dpko/list/list.pdf  

  Página | 151 
Especial Barack Obama 

criação  do  posto  de  Vice‐Secretário  Geral,  direitos  humanos  são  os  três  pilares  de 
além  de  mudanças  no  departamento  de  uma liberdade mais ampla165. 
informação pública163. 
O último ponto do projeto de Kofi Annan é 
Os  anos  2000  assistiram  a  um  sobre  a  reforma  propriamente  dita. 
aprofundamento  da  crise  da  instituição,  Algumas  das  sugestões  já  foram 
principalmente após os ataques terroristas  implementadas,  como  a  criação  da 
de 11 de setembro aos Estados Unidos164. A  Comissão  para  a  Construção  da  Paz  e  do 
administração  do  Presidente  George  W.  Conselho  de  Direitos  Humanos,  que 
Bush,  sob  forte  influência  de  grupos  neo‐ substituiu  o  Alto  Comissariado.  Contudo, 
conservadores,  teve  o  pretexto  necessário  nas  palavras  do  próprio  Annan,  “(...) 
para endurecer sua política externa, adotar  nenhuma  reforma  da  ONU  estaria 
medidas  unilaterais  e  ignorar  regimes  e  completa  sem  a  reforma  do  Conselho  de 
organizações internacionais.  Segurança”166. 

Já  neste  contexto  de  enfraquecimento  da  A  atual  estrutura  do  Conselho  de 
ONU,  em  2005,  o  então  Secretário  Geral  Segurança  apresenta  quinze  membros:  os 
Kofi  Annan  apresentou  o  projeto  “Dentro  cinco  permanentes  com  poder  de  veto 
de  uma  liberdade  mais  ampla”,  fruto  dos  (Estados Unidos, Rússia, China, Inglaterra e 
relatórios  do  Grupo  de  Alto  Nível  sobre  França)  e  dez  membros  rotativos,  eleitos 
Ameaças,  Desafios  e  Mudança  e  outro,  de  para um período de dois anos, sem direito 
250  especialistas  que  participaram  do  a  reeleição.  O  relatório  apresenta  dois 
projeto do Milênio da ONU.  modelos  de  reforma.  O  primeiro  (modelo 
A) propõe a criação de seis novos assentos 
“Dentro  de  uma  liberdade  mais  ampla”  permanentes,  mas  sem  direito  a  veto  (de 
propõe  um  conceito  mais  abrangente  de  acordo com distribuição regional: dois para 
paz,  considerando  como  ameaças  à  África,  dois  para  Ásia,  um  para  Europa  e 
segurança  não  apenas  os  conflitos  outros e um para América Latina e Caribe) 
clássicos,  mas  também  a  pobreza,  a  e  três  assentos  não  permanentes,  com 
destruição  do  meio  ambiente,  as  doenças  mandato  de  dois  anos,  não  renováveis.  O 
contagiosas,  o  terrorismo  e  o  crime  segundo  modelo  (B)  propõe  a  criação  de 
organizado.  Segurança,  desenvolvimento  e  oito  assentos  não  permanentes,  com 
mandato  de  quatro  anos  e  com  direito  a 
                                                            
reeleição,  e  um  assento  não  permanente 
163
 UNITED  Nations.  Relatório  do  Secretário 
Geral:  “Renewing  the  United  Nations:  A 
Programme  for  Reform”  (14  de  julho  de                                                              
1997. A/51/950) 
165
  http://daccessdds.un.org/doc/UNDOC/GEN UNITED  Nations.  Relatório  do  Secretário 
/N97/189/79/IMG/N9718979.pdf?OpenEle Geral:  “In  larger  freedom:  towards 
ment   development, security and human rights for 
164
 Vale ressaltar que a ONU já caminhava para  all”  (21  de  março  de  2005.  A/59/2005). 
uma relativa perda de espaço antes mesmo  http://www.un.org/largerfreedom/contents
do  Governo  de  George  W.  Bush.  Um  dos  .htm  
maiores  exemplos  foi  o  bombardeio  da  Ex 
166
República  da  Iugoslávia  pelas  forças  da   ANNAN,  Kofi.  Dentro  de  uma  Liberdade 
OTAN  em  1999,  ainda  sob  o  governo  mais  Ampla:  momento  de  decisão  das 
Clinton,  que  não  passou  pelo  Conselho  de  Nações  Unidas.  Política  Externa,  São  Paulo. 
Segurança da ONU.  Vol. 14, n. 2, set./out./nov. de 2005. 

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Especial Barack Obama 

nos  moldes  atuais  (mandato  de  dois  anos,  Geral,  incluindo  é  claro  os  cinco  membros 
sem reeleição)167.  permanentes com o poder de veto.  

Nas  duas  últimas  Assembléias  Gerais,  os  Além  da  equação  de  equilíbrio  delicado 
países  decidiram  enviar  esforços  para  a  entre legitimidade e acomodação de poder 
concretização  das  reformas.  Em  setembro  entre  os  Estados,  os  arranjos  multilaterais 
de  2008,  pela  primeira  vez  a  Assembléia  parecem  enfrentar  um  novo  desafio, 
Geral  aprovou  por  consenso,  que  os  colocado  pela  participação  de  atores  não 
membros  devem  dar  início  a  uma  estatais  em  âmbito  global,  seja  por  redes 
negociação para a reforma do Conselho de  terroristas,  seja  por  elementos  mais 
Segurança, mas até o momento não houve  construtivos  da  sociedade  civil. 
maiores  sinalizações  com  a  agenda  Organizações e redes da sociedade civil são 
dominada pelos temas econômicos.  crescentemente  geradoras  de  condutas 
globais  e,  em  alguns  casos,  desafiam 
Um  consensual  acordo  da  Assembléia  instituições  multilaterais  em  bases 
Geral  sobre  a  reforma  e  o  modelo  de  normativas.  Esta  crise  do  multilateralismo 
expansão será matéria muito difícil. Por um  tem  raízes  mais  profundas,  na  medida  em 
lado, há um grupo formado por Alemanha,  que o Estado‐nação tem sido desafiado por 
Brasil,  Índia  e  Japão  (G4),  mais  alinhado  estes atores não estatais168.  
com  o  modelo  A,  que  têm  feito  as 
demandas  mais  fortes  por  uma  ampliação  E  diante  deste  quadro,  o  que  esperar  do 
de  assentos  permanentes  e,  por  outro,  o  futuro  governo  de  Barack  Obama  com 
grupo  chamado  “Unidos  pelo  consenso”,  relação  à  reforma  da  ONU?  Vale  ressaltar 
que  reúne  opositores  das  aspirações  do  que por reforma, se considera neste artigo 
G4,  como  Itália,  Espanha,  México,  iniciativas  que  promovam  uma  maior 
Argentina, Paquistão e Coréia do Sul, entre  democratização  da  organização,  sendo 
outros.  Estes  países  defendem  que  para  indispensável  nesse  sentido  uma  reforma 
uma  reforma  legítima  seria  necessário  o  ampla do Conselho de Segurança. 
consenso  mais  amplo  possível;  afirmam 
que  os  modelos  apresentados  pelo  Painel  Pensar em cenários futuros é sempre uma 
representam  propostas,  mas  não  soluções  tarefa arriscada. Embora a política externa 
finais  e  que,  dentre  as  duas  opções,  o  tenha  sido  um  tema  recorrente  durante  a 
modelo  B  seria  mais  flexível  e  permitiria  campanha  eleitoral,  o  debate  esteve  mais 
uma representação mais justa e equânime.   centrado  no  andamento  das  duas  guerras 
conduzidas  pelo  país  no  Iraque  e  no 
Qualquer  que  seja  o  modelo  de  reforma  Afeganistão.  Temas  como  multilateralismo 
escolhido  e  negociado,  ele  deverá  ser  e  papel  das  Nações  Unidas  praticamente 
aprovado  por  dois  terços  da  Assembléia  não  estiveram  em  discussão, 
principalmente  nos  dois  últimos  meses  de 
                                                             campanha,  quando  as  atenções  se 
voltaram para a crise financeira. 
167
 UNITED  Nations.  Relatório  do  Secretário 
Geral:  “In  larger  freedom:  towards                                                              
development, security and human rights for 
168
all”  (21  de  março  de  2005.  A/59/2005).  NEWMAN,  E.,  THAKUR,  R.,  e  TIRMAN,  J. 
http://www.un.org/largerfreedom/contents Multilateralism  under  Challenge?:  power, 
.htm   international  order  and  structural  change. 
United Nations University Press, 2006. 

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Especial Barack Obama 

Nas  declarações  de  Obama  sobre  o  que  o  habilitem  a  funcionar  efetivamente, 


assunto,  tem‐se  um  compromisso  vago  mantendo o poder de veto dos EUA. Disse 
sobre  o  processo  de  reforma,  como  no  que  não  seria  favorável  a  uma  proposta 
discurso  intitulado  “uma  nova  estratégia  que  aumente  o  número  de  membros  a 
para  um  novo  mundo”169,  pronunciado  níveis  inoperantes  ou  que  aumente  o 
em  julho  em  Washington,  no  qual  afirma  número  de  países  com  direito  a  veto. 
que  é  hora  de  reformar  as  Nações  Unidas,  Sinalizou  que  manterá  os  EUA  de  fora  do 
de  modo  que  esta  instituição  imperfeita  Tribunal Penal Internacional e que buscará 
possa  se  tornar  um  fórum  mais  perfeito  reformar  o  Conselho  de  Direitos  Humanos 
para  dividir  nossas  obrigações,  fortalecer  da  ONU  (que  foi  criado  há  poucos  anos  já 
nossa influência e promover nossos valores.  fruto  de  uma  reforma  que  resultou  na 
extinção  do  Alto  Comissariado  e  sua 
Em  artigo  publicado  em  2007  na  Foreign  substituição por este órgão)171. 
Affairs,  Obama  foi  mais  enfático:  (...) 
precisamos  de  colaboração  efetiva  entre  Também  em  artigo  na  Foreign  Affairs172 
todas  as  maiores  potências  sobre  temas  em 2007, a Senadora Hillary Clinton, então 
globais  –  incluindo  as  recentemente  pré‐candidata  e  concorrente  de  Obama, 
emergentes  como  Brasil,  Índia,  Nigéria  e  hoje futura Secretária de Estado, menciona 
África  do  Sul.  Precisamos  dar‐lhes  um  brevemente  a  necessidade  de  reforma, 
posto  na  ordem  internacional  emergente.  mas nominalmente destaca apenas a Índia. 
Para  este  fim,  as  Nações  Unidas  precisam 
de uma reforma de maior alcance170.   Recentemente,  a  Fundação  Nações  Unidas 
divulgou  um  comunicado  bipartidário, 
Ainda  em  2007,  em  questionário  da  assinado  por  inúmeros  especialistas  da 
Associação  Nações  Unidas  dos  EUA  (UNA‐ área de política internacional, pedindo que 
USA)  com  os  pré‐candidatos,  Obama  o  futuro  Governo  Obama  estreite  relações 
destacou que os EUA devem desempenhar  com a ONU. O documento é assinado pelos 
um  papel  de  liderança  na  ONU,  inclusive  dois  ex‐Secretários  de  Estado  do  Governo 
pressionando  pela  implementação  de  Clinton,  um  dos  quais  Madeleine  Albright, 
reformas importantes e cumprindo com as  figura bastante próxima a Obama. Constam 
obrigações  financeiras.  Afirmou  ainda  que  ainda na lista ex‐Secretários de Defesa, ex‐
como  Presidente  vai  considerar  senadores,  ex‐embaixadores  e  ex‐
cuidadosamente propostas que atualizem a  governadores. Sem dúvida é uma iniciativa 
composição,  estrutura  e  regras  de  de  peso,  mas  com  relação  à  reforma  o 
procedimento do Conselho de Segurança e                                                              
171
                                                             United  Nations  Association  of  the  USA 
(UNA‐USA) e Better World Campaign (BWC). 
169
Remarks of Senator Barack Obama: A New  2008  Presidential  Candidate  Questionnaire 
Strategy for a New World. Washington, D.C.  on  US‐UN  Relations.  Disponível  em 
July 15, 2008  http://www.unausa.org/site/pp.asp?c=fvKRI
  http://www.barackobama.com/2008/07/15 8MPJpF&b=3879851.  
172
/remarks_of_senator_barack_obam_96.php   CLINTON,  Hillary  R.  Security  and 
170
OBAMA,  Barack.  Renewing  American  Opportunity  for  the  Twenty‐first  Century. 
Leadership.  Foreign  Affairs,  julho/agosto  Foreign  Affairs,  novembro/dezembro  2007. 
2007.  http://www.foreignaffairs.org/20071101fae
http://www.foreignaffairs.org/20070701fae ssay86601/hillary‐rodham‐clinton/security‐
ssay86401/barack‐obama/renewing‐ and‐opportunity‐for‐the‐twenty‐first‐
american‐leadership.html.   century.html.  

  Página | 154 
Especial Barack Obama 

documento  recomenda  algo  mais  próximo  intervenções  humanitárias,  especialmente 


a  um  “choque  de  gestão”,  ao  pedir  um  na  África.  Contudo  não  há  segurança  de 
papel  mais  construtivo  nos  esforços  de  que  isso  se  reflita  num  processo  de 
reforma  e  atualização  dos  sistemas  reforma mais amplo e democratizante, que 
gerencial e orçamentário da ONU173  contemple  países  em  desenvolvimento 
como o Brasil. 
Assim  como  os  discursos,  a  indicação  de 
sua equipe de segurança e política externa  Como  já  dito,  uma  eventual  reforma  do 
sugere  uma  mudança  na  postura  atual,  Conselho  de  Segurança  exigiria  um  acerto 
mas  não  indica  caminhos  claros  com  entre  os  cinco  membros  permanentes, 
relação ao qual projeto de reforma. Com a  além  da  aprovação  de  dois  terços  da 
Senadora  Hillary  Clinton  no  Departamento  Assembléia  Geral.  No  atual  contexto,  não 
de Estado, o atual Secretário Robert Gates  parece  existir  um  nível  de  consenso  que 
na  Defesa  e  o  General  James  Jones,  como  permita  tal  mudança.  Além  disso,  poderia 
Conselheiro de Segurança Nacional, tem‐se  agravar  suscetibilidades  regionais  num 
um  time  eclético,  cujas  posturas  muitas  momento  tão  delicado.  Incorporar  a  Índia, 
vezes contraditórias dificultam uma análise  por  exemplo,  certamente  elevaria  o 
sobre  o  assunto.  Seguramente  uma  descontentamento  do  Paquistão  e  levaria 
mudança  importante  ocorrerá  com  a  mais instabilidade à região, que já promete 
indicação  de  Susan  Rice  para  o  cargo  de  dificuldades  a  Obama  na  guerra  no 
Embaixadora  nas  Nações  Unidas  que,  com  Afeganistão.  Um  de  seus  desafios  será 
Obama, voltará a ter um status ministerial.  justamente  diminuir  a  tensão  entre  seus 
Representa  uma  sinalização  de  um  papel  dois  principais  aliados  na  região,  elevada 
maior  que  a  Organização  deverá  após  os  recentes  ataques  terroristas  em 
desempenhar na política externa dos  EUA.  Mumbai, que fizeram quase 200 vítimas. A 
Rice  foi  subsecretária  de  Estado  para  incorporação  do  Japão  ou  da  Índia,  por 
Assuntos  Africanos  durante  o  Governo  exemplo,  não  seria  possível  sem  o  aval  da 
Clinton  e,  recentemente,  pesquisadora  do  China,  principal  credor  da  economia 
tradicional  think‐tank  de  orientação  americana  neste  momento  de  grave  crise 
democrata  Brookings  Institute  e  uma  das  econômica. 
primeiras colaboradoras da área de política 
externa da campanha de Obama.  Ou seja, para que um processo de reforma 
seja  possível,  será  necessário  um  amplo 
Pelas promessas de campanha e pelo perfil  consenso,  capaz  de  superar  rivalidades 
de  sua  equipe,  com  destaque  aqui  para  regionais.  Pelo  poder  e  capacidade  de 
Rice,  parece  plausível  que  Obama  tente  influência  de  que  ainda  dispõem,  é 
retomar  as  alianças  e  parcerias  inegável  que  os  Estados  Unidos  podem 
desgastadas  nos  oito  anos  de  governo  jogar  um  papel  muito  relevante  nestas 
Bush,  investindo  num  perfil  mais  negociações,  mas  resta  saber  até  que 
institucionalista  e  mais  preocupado  com  ponto  estarão  dispostos  a  trabalhar 
realmente  por  isso.  Sem  dúvida  o  futuro 
                                                            
governo  de  Barack  Obama  terá  que 
173
 Bipartisan  U.S.  Foreign  policy  leaders  urge  redefinir  o  papel  das  Nações  Unidas  na 
Obama  administration  to  revitalize  US‐UN  política  externa  norte‐americana  e  tentará 
relationship 
recompor  a  liderança  do  país  em  bases 
http://www.unfoundation.org/blog‐
multimedia/blog/bipartisan‐us‐foreign.html   mais  multilaterais,  mas  seu  engajamento 

  Página | 155 
Especial Barack Obama 

num  processo  de  reforma  amplo  da  ONU,  permanentes  no  Conselho  de  Segurança, 
incluindo  a  expansão  de  membros  parece difícil na atual conjuntura. 

  Página | 156 
Especial Barack Obama 

Os  desafios  do  Governo  Obama  para  as  mudanças  climáticas  e  o  meio 
ambiente 

Helena Margarido Moreira 

“Today  we  begin  in  earnest  the  work  of  enfatizou  seu  entusiasmo  com  a 
making  sure  that  the  world  we  leave  our  Conferência  na  Polônia  e  reafirmou  que  a 
children  is  just  a  little  bit  better  than  the  sua  administração  marcará  “um  novo 
one we inhabit today” Barack Obama  capítulo da liderança americana na questão 
da  mudança  climática”.  Obama  afirmou 
A frase acima foi proferida pelo Presidente  ainda que “poucos desafios que se colocam 
eleito  dos  EUA,  o  democrata  Barack  à  América  e  ao  mundo  são  mais  urgentes 
Hussein  Obama,  por  ocasião  do  início  do  que  o  combate  às  mudanças  do  clima”,  e 
Global  Climate  Summit,  encontro  que  que  “muitos  de  vocês  (líderes)  estão 
reuniu  mais  de  600  líderes  na  área  de  trabalhando  para  confrontar  tal  desafio 
mudanças  climáticas  de  todo  o  país  e  do  (...),  no  entanto,  frequentemente 
mundo em Los Angeles durante os dias 18  Washington  tem  falhado  ao  mostrar  esse 
e  19  de  novembro  de  2008,  organizado  mesmo  tipo  de  liderança.  Isso  mudará 
pelo Governador republicano da Califórnia,  quando eu assumir.”175. O Presidente eleito 
Arnold  Schwarzenegger,  para  tentar  afirma‐se  comprometido  a  engajar  os  EUA 
avançar nas discussões que serão tema da  com  a  comunidade  internacional  para 
próxima  Conferência  das  Partes  da  buscar soluções e ajudar a liderar o mundo 
Convenção do Clima174, a COP 14, que será  em  direção  a  uma  nova  era  global  de 
realizada  em  dezembro  de  2008,  em  cooperação  na  área  das  mudanças 
Póznan, Polônia.  climáticas.  É  importante  mencionar  que 
Em um vídeo endereçado aos participantes  esse  vídeo  foi  enviado  de  surpresa  aos 
deste  Encontro,  o  Presidente  Barack  líderes  reunidos  nesse  Encontro, 
Obama, eleito em 4 de novembro de 2008,  mostrando  que  Obama,  apesar  de  ainda 
nem  ter  tomado  posse  do  Governo  dos 
                                                             EUA  ‐  fato  que  acontecerá  em  20  de 
174 janeiro  de  2009  –  já  mostra‐se  engajado 
A  Convenção  Quadro  das  Nações  Unidas 
sobre  Mudanças  Climáticas  foi  aberta  para  nessas  discussões,  o  que  pode  ser  um 
assinaturas  durante  a  Conferência  das  indicativo  de  que  este  tema  terá 
Nações  Unidas  sobre  Meio  Ambiente  e  tratamento  prioritário  durante  o  seu 
Desenvolvimento,  no  Rio  de  Janeiro,  em 
governo. 
1992 (Rio 92), e tem como objetivo principal 
estabilizar  as  emissões  de  gases  de  efeito 
estufa,  que  causam  o  aceleramento  do 
Esses  compromissos  trazem,  em  meio  a 
aquecimento global e que tem como sérias  todos  os  significados  que  a  vitória  do 
conseqüências  mudanças  drásticas  no 
padrão  climático  mundial,  aos  mesmos                                                              
níveis  do  ano  de  1990.  Para  isso,  a 
175
Convenção  estabeleceu  a  realização  anual  Este  vídeo  está  disponível  na  página  do 
de  Conferências  das  Partes  (COP),  que  se  escritório  do  presidente  eleito  na  internet: 
tornou  o  órgão  responsável  por  reunir  os  http://change.gov/newsroom/entry/preside
signatários  da  Convenção  e  tomar  as  nt_elect_obama_promises_new_chapter_o
decisões com relação ao tema.  n_climate_change/. Acesso em: 22/11/08. 

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Especial Barack Obama 

primeiro  Presidente  negro  eleito  pela  níveis  do  ano  de  1990  até  2020,  e  então, 
democracia  norte‐americana  representa  chegar  a  2050  com  uma  redução  de  80% 
para a história dos EUA e do mundo, novos  em relação a este mesmo ano. Trata‐se de 
ventos  de  esperança  também  para  a  promessas bem ousadas, se considerarmos 
política  desse  país  para  as  mudanças  que os EUA são o maior emissor de GEE do 
climáticas e o meio ambiente. Os olhos do  mundo176, e que nenhum Presidente norte‐
mundo  todo  se  voltam  nesse  momento  americano  comprometeu‐se  até  hoje  com 
para  as  tão  esperadas  ações  do  futuro  qualquer  tipo  de  meta  para  reduzir  o 
Presidente  em  várias  áreas  da  política  lançamento  desses  gases  poluentes  na 
externa  norte‐americana  as  quais  o  atual  atmosfera.  
Presidente  dos  EUA,  George  W.  Bush 
deixou  em  segundo  plano.  No  entanto,  é  A  posição  adotada  pela  delegação  norte‐
preciso analisar com cuidado a questão das  americana tem sido desde a Convenção do 
mudanças  climáticas  e  dos  acordos  Clima, que já foi assinada por mais de 170 
internacionais  que  tratam  dela  para  se  ter  países  desde  1994,  inclusive  pelos  EUA,  a 
uma  idéia  a  respeito  do  que  seria  um  de  se  aliar  a  outros  países  desenvolvidos, 
compromisso  possível  e  realizável.  como  a  Austrália,  Nova  Zelândia  e  Japão, 
Especialmente neste artigo, trataremos dos  para  aprovar  uma  Convenção  que  não 
desafios que se colocam ao novo ocupante  estabelecesse  metas  e  prazos  para  a 
da  Casa  Branca  na  área  de  mudanças  redução  das  emissões  de  GEE,  com  o 
climáticas  e  o  meio  ambiente,  deixada  de  argumento  de  que  ainda  não  haviam 
lado  durante  a  administração  republicana  certezas científicas a respeito das causas e 
de Bush e cuja falta de ação tornou‐se um  conseqüências  do  aquecimento  global. 
dos principais alvos de ataque de líderes de  Essa  postura  acabou  por  gerar  um  texto 
todo  o  mundo,  sempre  pressionando  por  fraco,  sem  objetivos  bem  sedimentados, 
uma  atitude  mais  cooperativa  e  de  que  apenas  estabelecia  que  os  países 
liderança  que  mais  emite  gases  de  efeito  deveriam  continuar  se  reunindo  para 
estufa no mundo.  elaborar  um  protocolo  de  cumprimento 
legal  obrigatório  e  que  determinava  o 
A  promessa  de  campanha  de  Barack  “princípio  das  responsabilidades  comuns, 
Obama  com  relação  às  mudanças  porém  diferenciadas”  como  o  princípio 
climáticas, reafirmada agora em virtude do  norteador  do  regime  internacional  de 
Encontro  de  Governadores  na  Califórnia,  mudança climática. Este princípio baseia‐se 
foi  a  de  reduzir  as  emissões  de  gases  na  idéia  de  que  as  condições  econômico‐
causadores do efeito estufa (GEE) em 80%  sociais  dos  diversos  países  fazem  com  que 
até 2050, através da implementação de um  suas respectivas capacidades de resposta a 
programa que permita que as empresas ou  esse fenômeno sejam diferentes entre si, e 
instituições  que  reduzirem  suas  emissões  que  os  países  desenvolvidos,  sendo  os 
acima  do  estipulado  possam  comercializar 
                                                            
as suas cotas restantes de carbono; e a de 
fazer  dos  EUA  novamente  um  líder  no  176
Os  EUA  são  o  maior  emissor  per  capita  de 
esforço global contra a mudança do clima.  GEE  do  mundo,  colocando‐se  bem  à  frente 
Para  cumprir  essa  meta,  Obama  dos  demais  países.  No  entanto, 
considerando‐se  emissões  absolutas  de 
comprometeu‐se  a  reduzir  as  emissões  cada país, a China já é hoje o maior emissor 
norte‐americanas  de  GEE  aos  mesmos  de  CO2  do  mundo,  seguida  de  perto  pelos 
Estados Unidos. 

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Especial Barack Obama 

maiores  responsáveis  históricos  pelas  A  participação  norte‐americana  nas 


emissões de  GEE na atmosfera, devem ser  negociações seguia três linhas principais: o 
alvos  das  ações  mais  radicais  e  imediatas  estabelecimento  de  metas  baixas  de 
para  amenizar  o  problema  (RODRIGUES,  redução  de  emissões  de  GEE  até  2010  (de 
2004).  mais ou menos 5%); o estabelecimento de 
metas  de  redução  da  taxa  de  crescimento 
Desse modo, os signatários da Convenção‐ das emissões futuras de GEE por parte dos 
Quadro foram divididos em dois grupos. O  países  em  desenvolvimento,  e  o 
primeiro,  denominado  países  Partes  do  estabelecimento  de  mecanismos  de 
Anexo  I,  engloba  os  países  desenvolvidos  mercado  que  flexibilizassem  essas  metas 
da  Organização  para  a  Cooperação  e  o  (VIOLA,  2003).  Tendo  sido  os  EUA 
Desenvolvimento Econômico – OCDE – e os  derrotados em relação à segunda e terceira 
países  industrializados  ex‐comunistas  em  metas,  o  Senado  norte‐americano 
transição  para  a  economia  de  mercado,  declarou‐se  contra  a  ratificação  do 
que possuem compromissos de redução de  Protocolo,  condicionando‐a  à  aceitação  de 
gases  de  efeito  estufa.  O  segundo  grupo,  compromissos  de  redução  da  taxa  de 
denominado  países  Partes  Não  Anexo  I,  crescimento  futuro  de  emissões  por  parte 
agrega os países em desenvolvimento, que  dos  países  emergentes,  o  que  não 
não  possuem  compromissos  de  redução,  aconteceu. 
mas  ficam  obrigados  a  elaborarem 
inventários  nacionais  de  emissões  de  As  negociações  para  a  assinatura  do 
carbono (VIOLA, 2003).  Protocolo de Kyoto, que ocorreu em 1997, 
continuaram  nos  anos  posteriores  para 
No início do processo negociador, em 1995  estabelecer  toda  a  estrutura  necessária 
(desde  a  primeira  Conferência  das  Partes),  para  a  execução  do  acordo,  dos 
que levou à adoção do Protocolo de Kyoto,  mecanismos  flexibilizadores  de  mercado 
ocorrido  durante  o  governo  democrata  de  (proposta  dos  EUA  que  acabou  sendo 
Bill Clinton, os EUA assumiram um papel de  aceita  devido  ao  trabalho  conjunto  das 
liderança,  tentando  desde  o  começo  delegações  norte‐americana  e  brasileira, 
estabelecer,  além  das  metas  de  redução  que elaboraram a proposta do Mecanismo 
obrigatória  dos  GEE  para  os  países  de  Desenvolvimento  Limpo178),  dos 
desenvolvidos,  metas  de  redução  da  taxa 
de  crescimento  futuro  das  emissões  para                                                              
os  países  em  desenvolvimento177  (KLOSS,  178
O MDL era uma proposta inicial do Brasil de 
2000).  um  Fundo  para  o  Desenvolvimento  Limpo, 
que  seria  financiado  pelas  multas  por  não‐
cumprimento  das  metas  obrigatórias  para 
os  países  desenvolvidos.  Essa  proposta  foi 
                                                             então,  com  a  ajuda  da  delegação  dos  EUA, 
modificada  para  um  Mecanismo,  que 
177
 Essa  proposta  de  estabelecer,  para  os  permitia  que  países  desenvolvidos 
países  em  desenvolvimento,  metas  de  investissem em projetos para a produção de 
redução  da  taxa  de  crescimento  futuro  das  energia  limpa,  entre  outros,  em  países  em 
emissões  não  foi  aceita  pela  maioria  dos  desenvolvimento,  em  troca  de  certificados 
países  Partes  da  Convenção,  e,  por  isso,  de  redução  de  emissões  de  GEE  para  os 
ficou  de  fora  do  Protocolo  de  Kyoto,  mas  países  desenvolvidos.  Os  EUA  apoiaram, 
sempre  fez  parte  das  exigências  dos  EUA  então, a criação deste mecanismo em troca 
para ratificarem o Protocolo.   do  apoio  do  Brasil  e  outros  países  em 
desenvolvimento  aos  outros  mecanismos 

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Especial Barack Obama 

mecanismos  de  compliance,  entre  outros.  Apesar  de  o  Protocolo  de  Kyoto  ter 
Apesar  da  aprovação  da  proposta  dos  entrado  em  vigor,  mesmo  com  a  retirada 
mecanismos de mercado dos EUA, os quais  dos EUA das negociações, ele se mostra um 
passaram  a  fazer  parte  do  Protocolo  de  acordo  internacional  frágil  e  insuficiente, 
Kyoto,  os  EUA  se  retiraram  das  especialmente  pela  ausência  da  maior 
negociações,  em  março  de  2001,  sob  a  economia  do  mundo,  do  país  que  mais 
justificativa  dada  pelo  Governo  Bush  de  emite  GEE  a  nível  global,  do  país  que, 
que  este  Protocolo  era  inapropriado  para  talvez,  tenha  mais  capacidade  e 
lidar com as questões de mudança do clima  instrumentos  para  combater  as  mudanças 
e que traria  um ônus  muito grande  para a  climáticas  e  influenciar  o  restante  da 
economia  dos  EUA  (BRAZ,  2003).  comunidade  internacional  a  respeito  da 
Claramente,  o  argumento  sustentado  pelo  gravidade e da necessidade de urgência de 
governo  Bush  se  refere  à  falta  de  se  tomar  medidas  mais  duras  para  buscar 
compromissos  assumidos  por  países  soluções mais eficazes. 
emergentes como Brasil, Índia e China. Isto 
porque,  os  EUA  não  assumiriam  um  Um  aspecto  importante  que 
compromisso  que  prejudicaria  seu  provavelmente  influenciará    sobremaneira 
crescimento  econômico,  enquanto  países  a  política  de  Obama  para  as  mudanças 
que  tinham  um  crescimento  anual  do  PIB  climáticas  é  a  visão  que  o  futuro  governo 
de cerca de 9% não tivessem qualquer tipo  democrata  tem  com  relação  ao  desafio 
de restrição (de acordo com o Protocolo de  energético.  A  dependência  norte‐
Kyoto)  para  dar  continuidade  ao  seu  americana externa de petróleo é tida como 
crescimento  econômico,  ou  seja,  sem  uma  ameaça  inclusive  para  a  segurança 
sofrer  o  ônus  que  a  economia  norte‐ nacional,  degradante  para  o  meio 
americana sofreria.  ambiente  e  prejudicial  para  a  economia 
interna,  à  medida  que  restringe  o 
Com  a  retirada  dos  EUA  do  processo,  a  orçamento  das  famílias  americanas  em 
União  Européia  assumiu  a  liderança  nas  todo o país. Nesse sentido, a política para a 
negociações e concluíram, juntamente com  energia  e  meio  ambiente  do  Governo 
os  outros  países  signatários,  todas  as  Obama  passa  pela  execução  de  um  plano 
regras  do  Protocolo  de  Kyoto,  que  de  investimentos  para  o  desenvolvimento 
entraram  em  vigor  em  2005,  com  a  de  energias  alternativas  e  renováveis179 
ratificação  deste  pela  Rússia.  De  acordo  (que  pode  significar  subsídios  para  a 
com  o  Protocolo,  os  países  desenvolvidos  produção de etanol nos EUA, prejudicando 
aceitaram  compromissos  diferenciados  de  as  intenções  brasileiras  de  aumento  da 
redução  ou  limitação  de  emissões  entre  exportação  de  etanol  de  cana‐de‐açúcar), 
2008  e  2012,  representando,  no  total  dos  pelo  fim  da  dependência  de  fontes 
países  desenvolvidos,  redução  em  pelo  externas  de  petróleo  (especialmente  da 
menos  5%  em  relação  às  emissões 
combinadas  de  gases  de  efeito  estufa  de                                                              
1990 (BRASIL, Senado Federal, 2004). 
179
   Barack  Obama  se  comprometeu  a  um 
investimento de US$ 15 bilhões anuais para 
                                                                                  promover  a  utilização  de  energias  mais 
limpas,  como  a  energia  eólica  e  a  solar,  e, 
flexibilizadores  propostos  anteriormente  assim,  gerar  5  milhões  de  “empregos 
pelos EUA.  verdes” para a população norte‐americana. 

  Página | 160 
Especial Barack Obama 

Venezuela  e  do  Oriente  Médio)  e  pelo  Protocolo de Kyoto, mas sim de que forma 


combate à crise global do clima.  eles  passarão  a  negociar  e  a  se  posicionar 
nas  discussões  sobre  os  compromissos 
Os  governos  dos  países  Partes  da  futuros  do  regime  internacional  de 
Convenção  do  Clima  e  do  Protocolo  de  mudanças climáticas. 
Kyoto,  bem  como  a  comunidade 
internacional,  estão  otimistas  com  o  início  Ao  que  tudo  indica,  Obama  dará  muito 
do  governo  de  Barack  Obama  como  mais  importância  ao  tema  do  que  seu 
Presidente  dos  EUA,  pela  firmeza  de  seu  antecessor,  George  W.  Bush;  no  entanto, 
propósito  de  reduzir  as  emissões  de  GEE  ainda  é  difícil  prever  se  essa  importância 
dos  EUA  e  de  voltar  a  liderar  as  será a que todos esperam, pois existe uma 
negociações  do  regime  internacional  de  lógica  política  nas  negociações 
mudanças climáticas. No entanto, longe da  internacionais  sobre  o  clima  que  levam  a 
pretensão  de  se  estabelecer  qualquer  tipo  crer  que,  sem  um  maior  compromisso  dos 
de  prognóstico  para  o  tratamento  da  países  em  desenvolvimento  (lê‐se 
questão, quando se analisa toda a situação  especialmente China, Índia e Brasil) para o 
política que permeia as discussões sobre o  período  pós‐2012,  dificilmente  os  EUA 
meio  ambiente  e  as  mudanças  do  clima,  aceitarão  cumprir  os  compromissos 
percebe‐se que grande parte das questões  propostos  nesse  primeiro  momento  pelo 
que  impediram  os  EUA  até  hoje  de  presidente  eleito.  É  possível  que  tais 
ratificarem  o  Protocolo  de  Kyoto  referem‐ medidas  para  a  redução  das  emissões  de 
se  às  posições  adotadas  também  pelos  gases de efeito estufa sejam mais resultado 
países  emergentes,  como  a  de  defender  de  efeitos  colaterais  da  nova  política 
que  os  maiores  compromissos  de  redução  energética  norte‐americana  do  que 
das  emissões  de  GEE  têm  que  ser  propriamente  de  uma  política  específica 
realizados pelos países desenvolvidos, pois  para  as  mudanças  climáticas,  pois  as 
eles  são  os  responsáveis  históricos  pelo  medidas na área de energia parecem estar 
aumento dessas emissões.  mais  bem  segmentadas  e  com  objetivos 
mais  específicos  do  que  o  compromisso 
Parecem  muito  legítimas  as  intenções  de  geral  de  reduzir  as  emissões  de  GEE  em 
Obama de investir em  novas tecnologias e  80% até 2050. 
energias  limpas,  em  diminuir  a 
dependência  americana  do  petróleo  e  em  De  qualquer  forma,  será  quase  impossível 
combater  realmente  o  problema  das  o  novo  presidente  dar  menos  importância 
mudanças  climáticas.  Há  que  se  esperar  ao tema do que a que foi dada até hoje, e 
para  ver,  primeiramente,  como  será  a  Obama mostrou, através de seus discursos 
postura  adotada  pela  delegação  dos  EUA  e  promessas  de  campanha  (reafirmadas 
durante  a  COP  14,  que  acontece  em  quando  eleito)  que  está  realmente 
dezembro de 2008 na Polônia, conferência  empenhado em fazer dos EUA um líder nas 
que  discutirá  o  regime  Pós‐Kyoto,  dado  negociações do regime do clima, ciente de 
que este Protocolo expira em 2012 (os seus  que a postura adotada pelo seu país servirá 
compromissos  começaram  a  valer  em  de  modelo  para  os  outros  países  do 
2008),  ou  seja,  que  definirá  os  mundo.    Espera‐se,  portanto,  que  esse 
compromissos  dos  países  a  partir  do  ano  momento  represente  um  retorno  ao 
de  2012.  Nesse  momento,  não  se  trata  multilateralismo  norte‐americano  e  ao 
tanto  de  se  os  EUA  ratificarão  ou  não  o  aprofundamento  da  cooperação 

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Especial Barack Obama 

internacional  para  o  combate  de  um  eletrônico  disponível  em: 


problema  que,  se  não  for  dispensada  a  http://www.ces.fgvsp.br/index.cfm?fuseac
devida  atenção,  pode  comprometer  tion=noticia&IDnoticia=136133&IDidioma=
gravemente  os  padrões  climáticos  1. Acesso em: 29/11/08. 
mundiais,  o  meio  ambiente  e  a  própria 
sobrevivência da espécie humana na Terra.  KLOSS,  Emerson  Coraiola.  A  Arena  e  os 
Atores  na  Negociação  e  Aprovação  do 
  Protocolo  de  Kyoto.  189  p.  2000. 
Dissertação  (Mestrado)  –  Instituto  de 
Referências bibliográficas  Ciência  Política  e  Relações  Internacionais, 
BRASIL.  Senado  Federal.  Subsecretaria  de  Universidade de Brasília, Brasília, 2000. 
Edições  Técnicas.  Protocolo  de  Quioto  e  RODRIGUES, Marcelo Abelha. Protocolo de 
legislação  correlata.  Brasília,  2004.  v.3  Kyoto  e  Mecanismo  de  Desenvolvimento 
(Coleção Ambiental). 88 p.   Limpo:  Uma  Análise  Jurídico‐Ambiental. 
BRAZ, Mario Sergio Araújo. Os Mecanismos  Interesse Público, Porto Alegre, n.24, p.29‐
de Cooperação Internacional para Redução  38, mar/abr. 2004.  
de  Emissões  sob  o  Protocolo  de  Quioto.  VIOLA,  E.  As  Complexas  Negociações 
Boletim  Científico  Escola  Superior  do  Internacionais  para  Atenuar  as  Mudanças 
Ministério  Público  da  União,  Brasília,  n.9,  Climáticas.  In:  TRIGUEIRO,  A.  (org.)  Meio 
p.139‐159, out/dez. 2003.  Ambiente  no  Século  21:  21  especialistas 
FILHO, Warner Bento. Obama, gases estufa  falam da questão ambiental nas suas áreas 
e  a  Amazônia.  Centro  de  Estudos  em  de  conhecimento.  2.ed.  Rio  de  Janeiro: 
Sustentabilidade  da  EAESP.  Artigo  Sextante, 2003. p.183‐197. 

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