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ALENTEJO – uma SEARA VOCABULAR – 05 CANCIONEIRO DE SERPA Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, Edição da Câmara Municipal de Serpa

, 1994,
com 410 páginas, com escrita, pautas e desenhos à mão!!!

05 Rita Cortez

José Rabaça Gaspar – 2012 11

proposta de recolha e estudo de joraga.net

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Breve nota a abrir… pela ‘milésima’ vez o: CANCIONEIRO DE SERPA Maria Rita Ortigão Pinto Cortez, Edição da Câmara Municipal de Serpa, 1994,
com 410 páginas, com escrita, pautas e desenhos à mão!!!

Ao visitar pela milésima vez esta obra única e encantatória de Maria Rita Cortez, uma artista discreta, escondida na sua mansão encostada à muralha de Serpa, onde, um dia, em criança, andou atrás de um coelho que fugira do quintal, (p. 48) pareceu-me que podia servir de fonte, mais uma, para seleccionar palavras e expressões características, bem como assinalar ambientes, usos e costumes mais expressivos da vida no Alentejo, mais propriamente, na zona de Serpa. Surpreendentemente, apercebi-me que, nas letras das modas, não havia, ou muito raro, palavras e expressões a colher… mas, na sua introdução a autora situa o cancioneiro no ambiente que as envolve e aí encontrei esta ‘seara imensa’… «Alguns dos desenhos representavam vistas autênticas de Serpa e dos seus campos…» (e palavras e as expressões para os explicar são uma ‘fonte abundante’.) JRG, Corroios, 2011, Abril; 2012, Novembro)

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Fala a autora na sua introdução ao Cancioneiro: Pode ver esta INTRODUÇÃO em: http://www.joraga.net/gruposcorais/pags09_pautas_09_CSerpa_MRitaOPC/0433_Cd eSerpa_MRitaCortez_p009_000_intro.htm «Num dia de Março de 1983, não sei a que propósito, ocorreu-me a ideia de escrever as canções tradicionais alentejanas que ao longo de toda a minha vida ouvi cantarem Serpa, e de as ilustrar com desenhos que representassem as ruas e recantos da vila, os seus campos, os seus habitantes. Assim nasceu o projecto deste Cancioneiro de Serpa, e com este nome foi logo baptizado. «Já na minha adolescência eu fizera uma tentativa de organizar tal colectânea. Porém, o meu conhecimento de Serpa era nessa época bastante reduzido e superficial, e por várias razões acabei por desistir. Agora, eu sabia que estava em melhores condições de levar por diante a tarefa. Sem perda de tempo, fui comprar papel, e no dia seguinte iniciava o desenho que ilustra a primeira canção de que me lembrei. (44 Lá vai Serpa...) «À medida que rebuscava na memória canções do meu tempo de criança, outras coisas aprendidas em Serpa vinham ao de cima: rodas infantis (293), contos, lendas (321), orações populares (399), canções religiosas alentejanas (357), ditados e

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provérbios (350), maneiras pitorescas de dizer as coisas, assim como imagens de cenas presenciadas e episódios de infância, que sentia uma vontade enorme de representar em desenhos. «E já agora, "acabandes de" (como se diz em linguagem serpense) ilustrar tantas páginas com canções - que elas não faltam nesta abençoada terra - porque não havia de registar também todas estas coisas que para mim estavam tão ligadas a Serpa? Assim, o cancioneiro foi crescendo... «Às vezes, mostrava o meu trabalho a pessoas amigas. E, se elas não eram daqui, eu explicava os usos, costumes ou recordações que tinham inspirado certos desenhos. Então, elas apreciavam-nos muito mais. Isto mostrou-me que era conveniente fazer acompanhar o Cancioneiro de algumas palavras com essas mesmas explicações, para que o conteúdo do livro pudesse ser melhor (mais bem) entendido, "mormentes" pelos leitores não familiarizados com esta região. (357 - C. Religioso) «Em primeiro lugar, quero deixar bem claro que esta colectânea contém canções tradicionais que Serpa canta, ou cantou, desde o tempo da minha infância, o que não significa que todas elas tenham tido em Serpa a sua origem. Muitas são inegavelmente originais daqui; algumas são adaptações de canções nascidas noutras

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partes do Alentejo; outras cantam-se mais ou menos da mesma maneira em toda a província, inclusive em Serpa, por isso as inseri. «Que os naturais desses lugares não pensem que quero usurpar honras devidas a outras terras, considerando Serpa como o berço de todos estes cantares. Esta não é uma obra de investigação das origens, mas apenas um registo e não é meu desejo "arranjar enleios" com os restantes alentejanos "por mó'de" tais questões eruditas!» No entanto... «A asserção de que Serpa foi sempre um centro importante da cultura e divulgação do canto alentejano não exprime puro bairrismo, mas um facto. Lembro-me de ouvir em criança e encontrando-me fora do Alentejo a expressão "cantar à moda de Serpa" usada como sinónimo de "cantar à alentejana". «Ilustra de certo modo o prestígio de Serpa neste campo a quadra com que abre o capítulo das modas e cantigas, e que também aparece com as variantes: Quem me dera ser de Serpa, ou em Serpa ter alguém é só por ouvir dizer és de Serpa, cantas bem!

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(ou) que em Serpa se canta bem! «Falando há pouco tempo com um cantor de um dos grupos corais, que canta há mais de quarenta anos, confirmou ele que a maioria das canções divulgadas por todo o Alentejo nasceu de facto aqui. Segundo me disse, houve tempo em que o célebre "Lírio Roxo" (84) era uma espécie de hino de Serpa. E contou que, indo ele às vezes com o seu rancho cantar a Lisboa ou a outros lugares, ouvia exclamar com respeito entre os componentes dos outros grupos: "Serpa veio! Estão cá os de Serpa!" «Mas as canções viajam facilmente, e ainda há dias transmitiram na rádio a cantiga serpense "Eu sou devedor à terra", (270) entoada por um rancho folclórico de Minho e ao ritmo duma dança minhota! «Autoridades comprovadas como Michel Giacometti (ver liga) e Rodney Gallop (ver liga), entre outros, fizeram de Serpa um dos principais centros de recolha de canções alentejanas. Note-se que o segundo, em trinta e uma canções de todo o Alentejo incluídas no seu livro "Cantares do Povo Português" regista dezassete recolhidas Em Serpa, ou seja, mais de metade de toda a colecção.

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«Porém, repito, não tenho a pretensão de que todas as canções do meu livro tenham tido aqui a sua origem. Chamei-lhe "Cancioneiro de Serpa", porque em Serpa foi recolhido todo o material que ele contém. «Também não foi minha intenção fazer uma recolha sistemática, mas tão só registar aquilo que eu própria conhecia, abordando, quando muito, uma ou outra pessoa com o fim de tirar dúvidas ou preencher as lacunas da minha memória. Essas pessoas, por vezes, lembravam-me canções e outras coisas que eu esquecera mas sabia já ter ouvido. Conhecendo o meu interesse, houve quem me oferecesse folhas e folhas de cantigas. «E o Cancioneiro cresceu ainda mais... «Depois de pronto, ele é um recital dado pelos Serpenses, cantores e contadores de histórias. E como os Alentejanos quando começam a cantar nunca mais se calam, tive dificuldade em dá-lo por terminado. «Se eu tivesse feito uma recolha a preceito, acho que teria de escrever vários volumes iguais a este. "Ia lá por ida"! «Mas, por agora, "tem avondo"!

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«Dedico este livro às crianças de Serpa. «Com ele, quero ajudar a preservar estas modas, que já não se cantam tanto como se cantavam, estes contos que possivelmente nunca ouviram e a imagem de tantas coisas belas que há na nossa terra. Pretendo chamar-lhes a atenção para elas pedindo-lhes que as conservem e as estimem, para que não se percam. «Que a ânsia de progresso não as leve a desprezar e a deixar arruinar estes edifícios antigos (64-65), estas casas tão cheias de personalidade, ou a enquadrá-las noutras construções deslocadas e sem sentido da nossa paisagem. (53-54-55 - 56-57) «E que o gosto pela música moderna as não faça esquecer o prazer de cantar esta belíssima música que é tradição nossa! «Origem do material deste Cancioneiro… Não foi difícil reuni-lo. «Quando eu era pequena, cantava-se muito em Serpa. Espontaneamente. As pessoas cantavam tão naturalmente como falavam. (46-47) «Nessa época, os aparelhos de telefonia eram raros e barulhentos. Além disso, só se podiam ouvir depois do anoitecer, quando funcionava a central eléctrica. Em poucas casas existia uma grafonola. Se a gente queria ouvir música, tinha que a produzir!

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«Cantavam as mulheres enquanto faziam a lida doméstica. (50-52) «As criadas cantavam os dias inteiros, a ponto de causarem dor de cabeça às pessoas mais velhas. (100-101) «E com elas aprendi muita coisa... «Igualmente se cantava no trabalho do campo e durante as longas caminhadas para lá chegar. (74-75) «Um desses trabalhos, sobretudo, dava azo a belos concertos nocturnos - era a apanha dos grãos, que tinha de ser feita de noite, para evitar que o grande calor do Sol tornasse as plantas quebradiças, ocasionando a perda dos bagos espalhados pelo chão. Nesse tempo, era costume as manajeiras andarem batendo às portas das mulheres dos seus ranchos, por volta da meia-noite e, pouco depois, todas se punham em marcha para os campos. E, para afugentar o medo e esquecerem a dureza do trabalho que as esperava, iam cantando. (264-265) «Era lindo, no silêncio das noites de Verão, ouvir esses cantares. «Como diz a quadra:

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O cantar da madrugada (ou) O cantar da meia-noite é um cantar "inscelente": acorda quem está dormindo, dá gosto a quem 'stá doente! «Também se cantava muito nas festas familiares, principalmente nos casamentos (68-69 - 126-127) - ainda hoje há esse costume, mesmo nas famílias consideradas abastadas - e nas festividades anuais. (394) Ocasiões havia em que apareciam sempre modas novas, compostas localmente ou trazidas de fora, por exemplo no Carnaval e no tempo da ceifa, em que se celebrava a festa das aprendizas (e dos aprendizes). Quando as jovens ceifeiras e ceifeiros eram dados por prontos, fazia-se uma festa, em que eles usavam chapéus coroados de flores. E cantava-se horas a fio. «Ouvindo-se sempre canções, as crianças aprendiam-nas naturalmente. Mas eu tive um "professor" que me ensinou a cantar, ainda mal falava - era um empregado que havia em minha casa. "O Bimbas", (216) "Estou-me divertindo" (146) e "Meus Senhores, que rapariga esta" (216) foram as modas que ele achou mais apropriadas para me ensinar e, com esta cultura, eu fazia sensação junto da parte não alentejana

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da minha família. Mas, aqui em Serpa, a gracinha não causava admiração, porque todos os miúdos faziam o mesmo! Acontecia frequentemente, nas tardinhas de Verão, passarem na rua grupos de rapazinhos cantando, por vezes já a duas vozes, como os homens. «O bom ouvido musical é uma virtude comum à grande maioria dos Serpenses, ou era, até há algum tempo, pois está a perder-se o hábito de cantar... «Saí de Serpa ainda antes de ter concluído a instrução primária, e, enquanto duraram os estudos, só aqui vinha passar férias. Mas, lá longe, recordava sempre com saudade, os seus cantares e também a sua paisagem - estes campos imensos com um colorido tão próprio, a sobriedade destas casas antigas, a severidade dos trajos das pessoas. «Vinham-me à mente as palavras da cantiga: Eu não sei que(m) tenho em Serpa, que Serpa me está lembrando. Em chegando ao Guadiana, as ondas me vão levando... «Um dia, regressei a casa para ficar.

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«Novas modas tinham aparecido durante a minha ausência. Ouvia-as cantar pelas ruas, sobretudo nas quadras festivas, altas horas da noite, quando os mais retardatários deixavam as tabernas. Algumas das modas da minha infância já não se ouviam... «As mais recentes, ia-as aprendendo com esses cantores, com os meus alunos e com os grupos corais de Serpa e das aldeias do concelho, que dão meças entre os da Margem Esquerda e até entre os de todo o Alentejo. «E tudo o que já conhecias e o que ia assim aprendendo, eu fui buscar para compor este livro. «Além de ter recorrido a pessoas amigas, quando não me lembrava bem de qualquer canção, também me ajudou a recordar modas e contos a consulta de livros contendo material recolhido em Serpa, nomeadamente exemplares da revista "Tradição" e "Cantares do Povo Português" de Rodney Gallop. Essa consulta facilitou-me o trabalho no que respeita às músicas, pois foram menos essas que tive de tirar de ouvido. No entanto, algumas dessas canções conheci-as já numa versão diferente e, nesses casos, foi a forma minha conhecida que escrevi. Outras ouvi-as sempre cantar num tom mais grave do que o que encontrei nessas obras; noutros casos, a música mudou, como acontece por exemplo com "As cobrinhas de água", que se

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cantava, no meu tempo, de maneira diferente da que figura em "A Tradição" - versão recolhida no início deste século (XX), pela Senhora D. Elvira Monteiro, que foi depois minha professora de piano, assim como de várias gerações de crianças de Serpa. «Tanto numa como na outra versão destas obras, figuram numerosas canções recolhidas em Serpa e que nunca ouvi cantar; por isso, não as incluí nesta colecção. «Direi o que se me oferecer sobre canções (37), etc., em pequenas introduções, no início dos respectivos capítulos. «Assim como ia aprendendo as canções mais recentes, agora que vivia em Serpa, também ia observando e conhecendo melhor a vila, os seus recantos, o interior das suas casas, a sua gente... «Os desenhos que ilustram estas páginas resultam da observação de todas estas coisas, conforme explicarei a seguir. «Os Desenhos «Alguns dos desenhos representavam vistas autênticas de Serpa e dos seus campos. Sem preocupação fotográfica, simplificando, por vezes, os elementos. Que me não levem a mal os moradores de certas casas ao verem-nas aqui um pouco modificadas,

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ou ao constatarem a sua ausência de determinada rua ou praça. Em alguns casos, os desenhos são inspirados em locais que existem, tendo sido registados somente os elementos essenciais. (50-51) Outros são feitos de memória, pelo que não podem ser muito exactos. (52-53) «Por vezes, motivos dispersos são representados juntos; em outros casos, as distâncias foram encurtadas para que os elementos pudessem caber no espaço disponível. (55 e 65) «Também idealizei um pouco as coisas, retirando da paisagem fios eléctricos, cabos telefónicos e antenas de televisão. Bem me basta ter de aturar um grosso e inestético cabo preto que corta ao meio a vista da minha casa de estar (179), da qual se podem admirar as torres de Santa Maria, do Relógio e do Castelo e que desmancha todo o prazer de olhar! Este mal só é atenuado pelo facto de os passarinhos fazerem dele poleiro, o que me permite observá-los mais de perto. (72) «Quer nos desenhos baseados em paisagem real, quer nos que foram criados pela minha imaginação, tive sempre como ponto de partida as coisas que se vêem por aqui: «As ruas estreitas, de calçadas antigas de pedras irregulares, as paredes sempre brancas, caiadas várias vezes ao ano, quase tantas vezes quantas se faz a limpeza

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das casas. Alvura que brilha em dias de trovoada, de encontro ao céu quase negro. (83) «As portas antigas (83 - 137), umas ogivais, outras cujo lintel ostenta um arco de querena e outras ainda muito singelas, sem moldura, a madeira pintada de verde-escuro, azul ou castanho, com postigo (101). «As grandes chaminés (285), de quatro tipos principais: as de escuta, que podem atingir a altura de dois pisos - algumas com um janelico, outras sem ele mas do mesmo feitio e que entendidos dizem não deverem ser consideradas de escuta. «As cilíndricas, muito altas ou atarracadas, cobertas por uma cúpula abobadada rematada por um pequeno pináculo. As facetadas, com oito ou mais lados, cuja barra de frestas se situa entre frisos canelados de várias larguras, com cobertura em pirâmide ondulada que faz lembrar a tampa de um açucareiro inglês - faz pena, actualmente, ver desaparecer chaminés tão bonitas, ocultas pelo crescimento das casas vizinhas - e ainda as chaminés mais simples, de secção quadrada ou rectangular, também rematadas por pirâmides onduladas. (243) «Igualmente, representei, por serem muito características, algumas das clarabóias existentes em muitas casas antigas e que se assemelham a pequenas capelas. Várias dessas construções cobrem escadas de acesso a mirantes, outras são

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clarabóias propriamente ditas e constituem o único ornamento na austeridade arquitectónica das casas Há uma grande variedade de modelos, alguns bastante elaborados. (129) «Estão também representados os telhados velhos, de telha solta, os beirais assentes em cimalhas salientes. Em certas casas mais antigas, o beiral de telhão protege do sol ou da chuva quem gosta de se pôr à janela. «Como não podia deixar de ser, aqui aparecem também as muralhas com os seus torreões e portas, o aqueduto e algumas das dezassete igrejas, capelas e ermidas que Serpa se orgulha de possuir. (55 - 379) «E os fontanários públicos, onde antigamente as mulheres iam buscar água de "enfusa" à cabeça: à ida a bilha ia deitada sobre a "sogra" e, no regresso, vinha muito direita, como a sua portadora, que se movia com elegância e à-vontade. Diziam que iam "buscar água ao boneco", porque essas fontes (das quais ainda existem três) são formadas por uma coluna rematada por um cone, cujo conjunto se assemelha a uma figura humana; à volta existe um pequeno tanque. (69 - 115) «Procurei ainda desenhar, sem ter esgotado o tema, as várias grades das janelas, de ferro forjado ou fundido, que tanto embelezam as fachadas das casas. (197)

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«E os quintais, de altos muros caiados, por cima dos quais espreitam quase sempre os ramos de um limoeiro e às vezes os de uma oliveira, com o seu pavimento de calçada e ladrilho. E as flores que geralmente lá crescem: as rosas, os cravos, as malvas, os malvaíscos, os jarros, os malmequeres, os brincos de princesa, as flores de lis. Por vezes, uma grande glicínia faz pender os seus cachos para o lado da rua. (233) «E os jardins improvisados junto às portas, (137) pois quem não tem quintal retira pedras da calçada para fazer canteiros ou planta flores nos recipientes mais inesperados. «E, ao longo das ruas, as laranjeiras ornamentais, os jacarandás, as olaias que no fim do Inverno se cobrem de cor-de-rosa forte. E os saudosos mosqueiros, que davam tão boa sombra, coisa rara no Verão. Fala verdade a quadra: Alentejo não tem sombra senão a que vem do céu. Senta-te aqui, meu amor, à sombra do meu chapéu! «Os interiores das casas que desenhei também se inspiram naqueles que eu conheço: os tectos de abóbada - aqui muito vulgares - outros de caniço seguido

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ou do tipo "salto de rato". As grandes lareiras de parede a parede (139 - 245) e outras pequenas de canto (131 - 225), existentes, em geral, em casas mais modestas; umas revestidas de azulejos, outras caiadas a oca, onde se faz (ou fazia) lume no chão e se aquece a água em panelas de ferro. O "pial das enfusas". O pavimento de ladrilhos (que aqui se chamam "baldosas" se forem quadrados e "lambazes" os rectangulares) fazendo efeitos geométricos nas suas tonalidades de vermelho. Os nichos cavados nas paredes grossas das cozinhas, onde se arrumam as vasilhas de barro, de cobre ou de latão. E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. «Procurei representar os campos nos seus múltiplos aspectos e cores próprias de cada estação: «O verde-esmeralda (263) do princípio da Primavera e as "folhas" de tons diferentes à medida que o Verão se aproxima e as searas vão amadurecendo. A cor de ouro do tempo das ceifas, que vão deixando a terra castanha com laivos

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amarelos do restolho. As grandes queimadas, (72) que à noite povoam os campos de inúmeras cidades - antigamente começavam no dia de Santa Maria tornando ainda mais insuportável a calma do mês de Agosto e deixando extensas manchas negras no solo. E finalmente a terra vermelha do Outono, húmida das primeiras chuvas, revolvida pelos alqueives e charruadas que preparam as sementeiras. «Retratei com mais frequência o esplendor dos campos na Primavera: searas verde-bandeira, de trigo, e dum verde mais claro, de cevada, salpicadas de papoilas, malmequeres palmitos cor-de-rosa. (263) Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-meis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. «E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão, no fundo das ribeiras e barrancos, manchas de cor viva a animar a extrema secura da paisagem. «E os "montes", como não podia deixar de ser: a casa de habitação, a arramada, o redil, celeiros e palheiros, a chaminé por vezes coroada por um ninho de cegonhas, o forno redondo isolado ou edificado ao fundo do alpendre ou

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casão. (109 - 266 - 273 - 317) «E a paisagem do Guadiana, (177) que alguns chamam ainda de "a ribeira" (diz-se "r'bera"), com os seus característicos moinhos (85) abobadados de grossas paredes pardas, construídos de modo a resistir às cheias que todos os anos ocorriam, antes da construção das barragens em Espanha. Quando o moleiro pressentia a aproximação duma cheia, retirava o trigo, a farinha e tudo o que podia e abandonava o moinho, que ficava debaixo de água por uns tempos. Retomado o nível normal das águas, permanecia sobre as paredes e o tecto mais uma camadas de lama e sementes de erva, o que contribuiu para dar a estas azenhas o aspecto de montículos de terra e as faz confundir-se com os penedos das margens do rio. «Também quis representar fenómenos naturais, como as trovoadas de Maio e o arco-íris. Num dia de tempestade, observei dois grandes arcos-da-velha concêntricos e completos, pintados com cores luminosas sobre um céu castanho eles aqui estão, não tão bonitos infelizmente, numa destas páginas. (276) «E o "espojinho", corrente de ar causada pelo calor, que traça uma linha de poeira e folhas secas arrancadas do chão, enquanto tudo à volta permanece imóvel, elevando-se pois no ar, num redemoinho.

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«Procurei animar as paisagens da vila e do campo colocando nelas gente e animais, que têm sempre como fonte de inspiração elementos locais. «Lembro-me de ver, em pequena, as mulheres de saias compridas e rodadas, feitas de riscado - era mesmo riscado às riscas, brancas e pretas ou castanhas escuras - debruadas por um nastro. «Usavam blusas de chita ou gorgorina de cores escuras, "xale de malha" pequeno, seguro no peito com um pregador e por cima um xale grande de ir à rua. Na cabeça, lenço de rebuço que só deixava ver um bocadinho do rosto (dizem ser reminiscência árabe), e um gracioso chapéu preto de copa redonda e aba enrolada para cima, que usavam apenas as mulheres desta vila. (75 - 76 - 223) E nos pés, meias de linha, pretas ou de cor e elegantes botas justas à pernas, apertadas com ilhós e cordões. No Verão, para o trabalho da ceifa, o fato era um pouco mais garrido, com saias de chita e blusas coloridas, mas traziam o xale de malha da mesma maneira, porque o que protege do frio protege do calor. «É curioso que, sendo o Baixo Alentejo a região mais quente do País, não se ouve falar em casos de insolação entre a gente que trabalha no campo.

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«Mesmo na vila, os trajes das mulheres eram deste tipo e o uso do xaile obrigatório. "Censuram!" Diziam, a justificar o facto de terem de pô-lo sempre que iam à rua. As viúvas traziam o xaile preto pela cabeça, preceito que ainda há quem siga. «Nessa época, a importância do traje era tão grande, que as manajeiras não aceitavam nos seus ranchos trabalhadeiras que não estivessem vestidas a rigor. (75 - 77) «Os homens (135) aparecem nestes desenhos vestidos com fatos de saragoça ou de sarja cinzenta, de colete e jaqueta, outros trajam camisa de riscado aos quadradinhos com as pontas da fralda atadas à frente, botas, chapéu de aba larga e lenço dobrado em triângulo atado ao pescoço, (91 - 259) o qual se usa também desdobrado e colocado sob o chapéu, para defender do ardor do Sol. Outros trazem peliça ou samarra, outros ainda capote à alentejana. (133 - 289) «Os pastores usam pelico e ceifões de pele de borrego - também alguns ceifeiros usam safões (109), mas de pêlo rapado. Ainda hoje se vêem pastores assim vestidos, por ser uma indumentária confortável. Alguns deles transportam um borreguinho na curva do cajado posto ao ombro, atado pelas quatro patas como se fosse uma trouxa. Esta cena observava-se com frequência durante a Semana Santa, altura em que traziam para a vila os animais que iriam ser mortos pela Páscoa e que, às vezes, eram oferecidos a compadres e amigos. Ao contrário do que se poderia

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esperar, eles pareciam não achar incómoda a posição e, dali, iam olhando placidamente as ruas e casas que nunca tinham visto. «Desenhei também gente a caminho dos campos, seguida dos seus animais: uma ovelha com a sua cria, que ficavam a pastar enquanto os donos trabalham, e o inseparável cão. «Nos desenhos estão também representados ciganos, que se vêem em grande número por estas paragens. «Em algumas das ilustrações, as pessoas estão ocupadas nos trabalhos mais comuns: a monda, a ceifa, a apanha da azeitona (265), o lavado da roupa no rio, o corte da cortiça: e o pastor e o porqueiro guardando o seu gado; homens a cavar e a lavrar a terra. Nas ruas, mulheres caiando as casas e lavando as pedras da calçada. Nas cozinhas, a lida do amassado e a matança do porco (225). E o roupeiro na sua rouparia, fabricando o belíssimo Queijo Serpa (219 - 269). «E também figuram pessoas vulgares, sem vestimenta especial, como existem em toda a parte.

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«Os animais que aparecem nos desenhos são os que costumam ver-se por estas ruas e campos. «Em primeiro lugar, os cães. A população canina deve ser quase tão numerosa como a humana e, nas ruas e largos, há sempre cães à vista, predominando as raças ligadas à caça - os perdigueiros - e uns canitos de raças indiferenciada, pretos ou amarelos, usados para enxotar os coelhos das moitas. «Há ainda o cão de pastor (251), de tamanho médio e muito felpudo - infelizmente já não se vêem muitos, sucedendo o mesmo com o grande rafeiro, usado como cão de guarda nos montes. «Na vila, os cães costumam andar em liberdade. Correm, saltam e brincam uns com os outros e, por vezes, têm o hábito de se deitar a dormir no meio da rua, para desespero dos automobilistas, que são obrigados a fazer travagens bruscas e desvios inesperados, para não os atropelarem. (57) «O gato também se vê muito sentado à porta das casas (algumas têm um buraco redondo para ele entrar e sair à vontade), ou espreguiçando-se ao Sol, em cima dos telhados.

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«Gatos cinzentos, pretos, amarelos ou brancos e a chamada gata mourisca, que ostenta malhas de três cores. (245) «Também quis fixar aqui um espectáculo que já se não vê: os burros carregados de estevas ou de rama de oliveira para os fornos. Punham-lhes uma carga tão grande em coma, que não se via o burro, ou antes, só apareciam as pontas das patas, as orelhas e o focinho. Eram autênticas copas de oliveira ambulantes! Por vezes, encontrava-se na estrada um homem conduzindo vários burros assim ataviados. (73) Recordações de infância e outras representadas nos desenhos… «Alguns pormenores das ilustrações podem parecer estranhos, produtos de uma fantasia que misturou elementos desconexos. No entanto, todos eles são reais. «Por exemplo, uns passarinhos coloridos, azuis, verdes e amarelos, as cores dos piriquitos, voando em pleno Alentejo, podem afigurar-se a uma nota insólita. Mas eles existem. São os abelharucos e os verdilhões, e vi-os várias vezes nas imediações do Guadiana. A forma pode não ser muito exacta - um pássaro não se deixa observar por muito tempo - mas as cores são estas. (221)

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«Junto ao Guadiana há uns montes que no fim do Inverno se cobrem de junquilhos bravos e onde, um dia, quando os fotografava, me saltou uma lebre quase debaixo dos pés. Ambas apanhámos um susto e ela fugiu a toda a velocidade - uma grande bola parda, com orelhas, pisando as flores sem cerimónia... «Uma manhã de Verão, em que fazia muito calor, apesar de ser ainda cedo, um jardineiro regava roseiras numa rua onde eu passava a caminho da escola. Ao pé dele e sem se intimidar com os transeuntes, um pintassilgo tomava banho de chuva na água que respingava da mangueira (95 - 272). É preciso um pintassilgo estar muito encalmado para se arriscar desta maneira! «O que é que acontece quando, num mercado, duas vendedeiras colocam lado a lado um cesto contendo um coelho vivo e outro com um ramo de malmequeres? Foi esta cena que eu presenciei um dia: o coelho esgueirava-se entre as cordas cruzadas na boca do cesto, e, de pé nas patas traseiras, roía tranquilamente as flores, iguaria rara para quem vive em capoeira. De vez em quando, a dona apercebia-se do abuso e dava-lhe uma palmada na cabeça; o coelho encolhia-se, mas não tardava a atacar novamente os malmequeres da vizinha! (139) «Num dos desenhos, aparece o interior de uma casa modesta, onde uma mulher faz meia e duas crianças brincam (ver p. 87). O que parece insólito nesta cena é o tecto, uma linda abóbada com reforço de cantaria e fecho de pedra lavrada. Ela

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existe, de facto, numa casa onde fui um dia procurar um pedreiro. Velha casa rica degradada com o tempo? Capela da referida casa? Não posso sabê-lo, mas ela ali está, na Travessa de São Paulo. «Doutra vez, observei uma cena engraçada: «Chuviscava e, diante de um automóvel estacionado na rua, vi um grande chapéu de chuva aberto, que quase tocava o chão, por debaixo do qual apareciam quatro perninhas iguais. Eram duas meninas do mesmo tamanho que, abrigadas pela sombrinha, faziam fosquinhas para a sua imagem reflectida nos pratos das rodas do carro. (195) «Cenas como esta que acabo de descrever não podiam deixar de ser utilizadas nas ilustrações deste livro. «Igualmente forneceram matéria para vários desenhos recordações de infância, das quais vou dar exemplos. «Um dia, o meu pai teve de ir a um monte e eu acompanhei-o. Nessa manhã, a pateira tinha apanhado uma coruja que entrara pela janela durante a noite. Como eu me pusesse a admirá-la com a curiosidade de quem nunca tinha visto tal ave, deram-ma de presente e voltei para casa trazendo ao colo a minha coruja. A minha

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mãe é que não achou graça nenhuma à aquisição e declarou que não queria em casa bicho tão agoirento! Ficou-me sempre o desgosto da perda desse animal doméstico, em memória do qual representei, numa destas páginas, uma menina com uma coruja ao colo. (87 - 161) «A casa em que vivo fica encostada à muralha e, por isso, o quintal é pequeno e sombrio. (103 - 179) «O meu pai, que era médico, receando que a saúde das galinhas pudesse ser afectada pela insalubridade do local, mandou construir um galinheiro numa varanda existente por cima da casa. «Um dia, em que fui dar de comer aos ditos animais, deixei a porta mal fechada e, um coelho branco que também ali residia, escapou-se e fugiu para cima da muralha. Assustada pela minha imprevidência, desatei a correr atrás dele pela muralha fora e teria dado volta à vila se não houvesse, de onde em onde, paredes divisórias, uma das quais deteve o fugitivo. «Nunca El-Rei D. Dinis imaginou, quando ordenou a edificação destas muralhas, que por cima dos seus adarves viessem a andar meninas a correr atrás de coelhos brancos! (48)

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«Algumas destas recordações de infância estão relacionadas com temporadas que passei num monte, propriedade de um irmão de meu pai, o Monte Novo. O meu tio António convidava-nos todas as Primaveras a passar ali algumas semanas e assim me familiarizei com aspectos próprios da vida do campo, que de outro modo não teria conhecido: «A grande cozinha do monte, onde comia o pessoal, com o lume no chão sempre aceso e as pessoas sentadas em cadeirinhas baixas ou em mochos. (139) As tripeças de madeira de azinho. As galinhas que entravam à vontade para apanhar calor e debicar migalhas espalhadas pelo chão. Os "pirunitos", (245) que eram uns bichos frágeis e tristonhos, criados dentro de casa, alimentados a papas de farelos quentes misturados com urtigões (diziam "ortigões" e eu fiquei a saber donde provinha o meu apelido do lado materno). «As trovoadas, que faziam morrer na casca os pintainhos quase a nascer e cujo espectáculo admirávamos das janelas do primeiro andar, iluminando todo o céu e os vastos campos a perder de vista. «Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos

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sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo. «Tal como acontece com todos os montes alentejanos, a casa ficava situada num ponto alto e desabrigado, donde se desfrutava uma ampla paisagem de serra. De noite, ouvia-se sempre o assobiar do vento e o latido dos cães. Tais sons, geralmente tidos como lúgubres, eram, pelo contrário, imensamente agradáveis e intensificavam a sensação de conforto das pessoas ao adormecer, bem quentinhas debaixo dos cobertores, sobretudo as crianças, cansadas por um dia de brincadeiras e correrias pelo campo. «Que para mim não havia campo como aquele. Encantavam-me aquelas terras bravias, sem muros nem limitações, toda aquela imensidão. «Corríamos léguas em redor, eu e a minha prima pouco mais velha e a filha da pateira, uma azougada Marianita, que era pouco mais ou menos da minha idade. «Íamos até ao Barranco de Margalhos, onde havia loendros, poejos (erva aromática usada na açorda e nas masmárreas), saudades e outras flores e lá nos entretínhamos tentando apanhar as rãs, que saltavam por entre as pedras, o que ocasionava umas quantas quedas na água.

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«A curta distância do monte havia um sítio chamado Pego das Bruxas, talvez por ser um amontoado de pedras negras, certamente sinistras depois do escurecer. Mas de dia era um local maravilhoso, com poças de água e uma enorme variedade de flores. Tantas que, de algumas, ninguém sabia o nome. «Brincávamos junto ao chafariz, em que a água jorrava de duas carrancas e em cujo tanque se criavam sanguessugas pretas e vermelhas, que às vezes se prendiam à garganta dos animais e eram muito úteis em certas doenças. Chamavam-lhes "bichas". «Íamos ao "corunchoso" – hortejo cercado de "enxapotas" (ramos de azinheira e outras) - onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, (mentrasto - metátese de mentastro) erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. «Ouviam-se cantar os cucos e as raparigas gritavam-lhes: «Ó cuco, lá da Beira, quantos anos sou solteira?!» E ele respondia sempre: «Cu-cú-u-u-u-u! Cu-cú-u-u-uu! Cu-cú-u-u-u-u! ...

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«De longe em longe, passavam ranchos a pé ou em carros e paravam para beber no chafariz. - «São malteses!» dizia a gente do monte. Ninguém sabia de onde vinham e para onde iam... «Nessa época do ano havia galinhas no choco, com os ovos da sua espécie, ou de pata, ou de perua. «Um dia nasceu uma ninhada de patinhos, muito espertos e engraçados e pouco demorou vê-los nadar dentro de uma bacia. Então, eu e a Mariana tivemos uma ideia: se eles sabiam nadar tão bem na bacia, ainda melhor nadariam no tanque. E logo resolvemos proporcionar-lhes uma boa exibição das suas habilidades, carregando com eles para dentro de uma "pieta" onde as ovelhas bebiam. E eles nadavam, mas ao fim de algum tempo queriam descansar. Porém, mal eles mostravam vontade de sair do banho, nós enxotávamo-los para o meio da pieta. Os pobrezinhos não resistiram a tão dura prova e morreram todos! (267) «Antigamente cultivavam-se variedades de trigo de caule muito alto. Num desses anos em que íamos para o Monte Novo, as searas cresceram tanto, que atingiram a altura de um homem.

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«Uma manhã, a minha prima Maria dos Anjos e eu fomos brincar dentro de uma seara, procurando flores e vacas-loiras (uns insectos pretos e vermelhos, que, quando se lhes cuspia em cima, rebentavam) e fazendo piparralhas (pequenas flautas com o caule do trigo). «Andámos muito tempo entretidas com esses estragos, até que qualquer coisa nos lembrou que deviam ser horas do almoço e era preciso voltar para casa. Então, descobrimos que nos tínhamos perdido! O trigo era mais alto do que nós e não conseguíamos ver o monte, nem sabíamos para que lado ele ficava! Depois de várias tentativas, assustadas, começámos a andar à roda. Por fim, uma de nós sugeriu que caminhássemos sempre na mesma direcção até sairmos da seara e podermos orientar-nos, levasse o tempo que levasse. Por acaso, seguimos o rumo certo! «Também íamos passear a outros montes e quintas próximos: à Junqueira, à Graciosa, à Quinta de São Brás. «Alturas havia em que se organizavam burricadas, em que tomavam parte os adultos e as crianças. Vinham da vila tios e primos e arranjavam-se burros adequados ao tamanho e às aptidões equestres de cada um.

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«Nomes de lugares como Margalhos, Benvenidos, Moinhos da Misericórdia e dos Bugalhos ficaram-me gravados na memória, associados a imagens envoltas numa névoa de imprecisão, que lhes aumenta o encanto. «À Quinta de São Brás, ia-se todas as tardes, ao Sol-posto, comprar o leite de vaca para o pequeno almoço. Tinha uma grande casa antiga formada de três alas de barras amarelas e janelas gradeadas e, nas traseiras, uma varanda sobranceira ao jardim. Uma escadaria ladeada de roseiras conduzia até uma área pavimentada com aldosas, contornando um vasto tanque, alimentado pela água que jorrava da boca de um leão de alvenaria. No meio do tanque, uma estátua de Neptuno caiada de branco, a quem chamavam o "Rei dos Peixes". (205) Rodeando esse espaço, bancos de alvenaria, muros de buxo e, mais além, um fresco pomar. A poucos passos, a ermida de São Brás, cuja romaria se celebrava em Quinta-feira de Ascensão. A festa, e a apanha da espiga, atraía gente dos montes em redor e até da vila. Passávamos sempre esta data no Monte Novo e também o dia de Santa Cruz. «No terceiro dia de Maio, era costume confeccionar uma cruz de flores sobre uma armação de cana, centrada numa grinalda também de flores. Ajudei a fazê-la algumas vezes, com rosas saloias de cor viva, que tinham muitas pétalas e lembravam pequenos repolhos. Depois de pronta, a Santa Cruz era pendurada num prego na parede exterior da casa e, à tardinha, toda a gente lhe dançava ao pé, na

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rua do monte. Faziam-se balhos de roda, (97) simples ou formando cadeia (185), acompanhados de modas como "o Pavão" (164), "José Marques" (248), "Foste tu, ó ladrão, ladrão" (212) e "Eu nesta manhã achei" (130). Às vezes cantava-se ao despique, improvisando. «Também na vila havia o costume de fazer a Santa Cruz e de florir, nesta data, os cruzeiros de pedra, que se erguem nas várias entradas da povoação, o que ainda hoje se faz na Cruz Nova. «As coisas que admiro em Serpa, as minhas recordações de infância e outras, serviram para elaborar o "Cancioneiro Visual". Foram horas felizes, lembrando todas essas coisas, enquanto procurava passá-las ao papel. Mas horas de angústia também, por não ser capaz de fazê-lo tão bem como gostaria e, por as actividades do dia a dia, me não deixarem o tempo e a disponibilidade de espírito necessários. «Também não me foi possível utilizar todo o material existente; muita coisa bonita ficou por representar. «Ao longo deste trabalho estive sempre consciente de que os motivos de inspiração eram dignos de pincel mais abalizado. Pintar, como escrever, é tarefa de grande responsabilidade...

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«Aqui ficam pois, estes bonecos, a chamar a atenção para o que de belo existe na nossa terra. É essa função, creio, que eles já têm sido capazes de desempenhar, mesmo antes de o livro ter sido editado. «Quero agradecer a todas as pessoas a quem roubei um pouco do seu tempo, pedindo ajuda na reconstituição de canções e histórias semi-esquecidas e que me forneceram material para esta colectânea. «Às empregadas da Escola Secundária de Serpa, nomeadamente as Senhoras: Alda Apolinário, Catarina Mestrinho, Maria de Fátima Saleiro, Gertrudes Mederio e Maria da Cruz, a quem algumas vezes pedi para me cantarem esta ou aquela moda e sempre o fizeram de muito boa vontade, tendo-me, as duas primeiras, trazido grande número de cantigas. «À Senhora D. Maria da Luz Machado Braga, à minhas primas Maria do Carmo Cortez Saraiva da Rocha e Maria dos Anjos C. Baptista Féria Oliveira e à minha amiga Maria de Lurdes Varela Bettencourt agradeço a ajuda que me deram na reconstituição das canções. «A alguns elementos dos ranchos corais - os Senhores José Filipe Justo do Corro e Armando Elias Torrão, do Grupo coral e etnográfico da Casa do Povo de Serpa, que

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me reviram várias músicas e letras; e ao Senhor António Santinhos, do rancho "Os Ceifeiros de Serpa", que me deu letras de canções da sua autoria. «Às Senhoras Nita Rias e Maria do Carmo Felício, que me ensinaram e completaram canções, histórias e orações populares. «À minha tia Carlota Cortez Baptista e a D. Palmira Isidoro, que me ajudaram em vários contos e lendas. «Agradeço também à Senhora Marquesa de Ficalho os esclarecimentos que me deu sobre a lenda da Condessinha, relacionada com uma janela e com o jardim da sua casa. «Igualmente agradeço a todas as pessoas que se interessaram por este trabalho e que me acompanharam e encaminharam nos passos a dar com vista à sua publicação.» Serpa, 8 de Janeiro de 1987 Maria Rita Ortigão Pinto Cortez

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TERMO / expressão acabandes de açorda alcachofras

GLOSSÁRIO ALENTEJANO no Cancioneiro de Serpa origem CITAÇÃO/INFORMAÇÃO OBRA /Significado
E já agora, "acabandes de" (como se diz em linguagem serpense)… (erva aromática usada na açorda e nas masmárreas) Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. Uma escadaria ladeada de roseiras conduzia até uma área pavimentada com aldosas, contornando um vasto tanque, Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo CSerpa CSerpa CSerpa

Pa g

aldosas almece

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almofarizes

alqueives arca de madeira

E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. a terra vermelha do Outono, húmida das primeiras chuvas, revolvida pelos alqueives e charruadas que preparam as sementeiras E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê

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arranjar enleios atalhar

aves – pássaros… mais típicos…

avondo azinheiras azinheiras

em algumas casas. "arranjar enleios" com os restantes alentejanos Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo Por exemplo, uns passarinhos coloridos, azuis, verdes e amarelos, as cores dos piriquitos, voando em pleno Alentejo, podem afigurar-se a uma nota insólita. Mas eles existem. São os abelharucos e os verdilhões, e vi-os várias vezes nas imediações do Guadiana Mas, por agora, "tem avondo"! …os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as

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baldosas balhos de roda

barranhão

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loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos O pavimento de ladrilhos (que aqui se chamam "baldosas" se forem quadrados e "lambazes" os rectangulares) Faziam-se balhos de roda, (97) simples ou formando cadeia (185), acompanhados de modas como "o Pavão" (164), "José Marques" (248), "Foste tu, ó ladrão, ladrão" (212) e "Eu nesta manhã achei" (130). Às vezes cantavase ao despique, improvisando. Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite

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Benvenidos bichas

e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. Nomes de lugares como Margalhos, … Brincávamos junto ao chafariz, em que a água jorrava de duas carrancas e em cujo tanque se criavam sanguessugas pretas e vermelhas, que às vezes se prendiam à garganta dos animais e eram muito úteis em certas doenças. Chamavam-lhes "bichas". à ida a bilha ia deitada sobre a "sogra" e, no regresso, vinha muito direita, Bimbas – tema de uma moda… nome? a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos Alturas havia em que se organizavam burricadas, em que tomavam parte os adultos e as crianças. Vinham da vila tios e primos e arranjavam-se burros adequados ao tamanho e às aptidões equestres de cada um. a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos E o mobiliário e objectos típicos: as camas de

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bilha Bimbas brancal burricadas

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cadeiras de bunho camas de ferro

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de joeira

Cancioneiro Visual candeias - flor

canitos

cântaros de

ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. As coisas que admiro em Serpa, as minhas recordações de infância e outras, serviram para elaborar o "Cancioneiro Visual". Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. há sempre cães à vista, predominando as raças ligadas à caça - os perdigueiros - e uns canitos de raças indiferenciada, pretos ou amarelos, usados para enxotar os coelhos das moitas E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas

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arame

cante ao despique

capachos

redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. Faziam-se balhos de roda, (97) simples ou formando cadeia (185), acompanhados de modas como “o Pavão” (164), “José Marques” (248), “Foste tu, ó ladrão, ladrão” (212) e “Eu nesta manhã achei” (130). Às vezes cantavase ao despique, improvisando. E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma

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capote cardos

ceifões chaminés

chaparros

ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. Outros trazem peliça ou samarra, outros ainda capote à alentejana. (133 – 289) Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. «Os pastores usam pelico e ceifões de pele de borrego – também alguns ceifeiros usam safões (109), As grandes chaminés, de quatro tipos principais: as de escuta… As cilíndricas, muito altas ou atarracadas As facetadas, com oito ou mais lados… as chaminés mais simples, de secção quadrada ou rectangular, também rematadas por pirâmides onduladas… E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos

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charnecas

charruadas chocolateiras de cobre

chorrilho

E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos a terra vermelha do Outono, húmida das primeiras chuvas, revolvida pelos alqueives e charruadas que preparam as sementeiras E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de

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chupa-méis

cinchos

colete

cómodas rústicas

madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo Os homens (135) aparecem nestes desenhos vestidos com fatos de saragoça ou de sarja cinzenta, de colete e jaqueta, outros trajam camisa de riscado aos quadradinhos com as pontas da fralda atadas à frente, botas, chapéu de aba larga e lenço dobrado em triângulo atado ao pescoço E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a

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Corro corunchoso

cozinha típica do monte

estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. os Senhores José Filipe Justo do Corro e Armando Elias Torrão Íamos ao “corunchoso” – hortejo cercado de “enxapotas” (ramos de azinheira e outras) – onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. A grande cozinha do monte, onde comia o pessoal, com o lume no chão sempre aceso e as pessoas sentadas em cadeirinhas baixas ou em mochos. (139) As tripeças de madeira de

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encalmado enfusa (infusa) enleios enxapotas

azinho. É preciso um pintassilgo estar muito encalmado para se arriscar desta maneira… os fontanários públicos, onde antigamente as mulheres iam buscar água de “enfusa” à cabeça não é meu desejo "arranjar enleios" Íamos ao “corunchoso” – hortejo cercado de “enxapotas” (ramos de azinheira e outras) – onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. E o “espojinho”, corrente de ar causada pelo calor, que traça uma linha de poeira e folhas secas arrancadas do chão, enquanto tudo à volta permanece imóvel, elevando-se pois no ar, num redemoinho. a estanheira na parede com pratos e travessas E também os montados com os seus

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espojinho

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estanheira estevas

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fatos flores dos campos do Alentejo

sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos fatos de saragoça ou de sarja cinzenta searas verde-bandeira, de trigo, e dum verde mais claro, de cevada, salpicadas de papoilas, malmequeres palmitos cor-de-rosa. (263) Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-meis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome fontanários públicos… Diziam que iam “buscar água ao boneco”, porque essas fontes (das quais ainda existem três) são formadas por uma coluna rematada por um cone… Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. Íamos ao “corunchoso” – hortejo cercado de

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fontanários

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giesta

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hortejo

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Ia lá por ida inscelente Janelas com grades… janelico jaqueta jarra antiga de vidro coalhado

“enxapotas” (ramos de azinheira e outras) – onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. Se eu tivesse feito uma recolha a preceito, acho que teria de escrever vários volumes iguais a este. "Ia lá por ida"! O cantar da meia-noite é um cantar “inscelente” …as várias grades das janelas, de ferro forjado ou fundido, que tanto embelezam as fachadas das casas. Chaminés… algumas com um janelico Os homens (135) aparecem nestes desenhos vestidos com fatos de saragoça ou de sarja cinzenta, de colete e jaqueta E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas,

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junquilho

lambazes lírios

loendreiras

o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos O pavimento de ladrilhos (que aqui se chamam “baldosas” se forem quadrados e “lambazes” os rectangulares) Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as

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manajeiras Margalhos masmárreas matrastos (mantrastos, (mentrasto – metátese de mentastro)

Mederio Mesas redondas de braseira

loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos era costume as andarem batendo às portas das mulheres dos seus ranchos… Nomes de lugares como Margalhos, Benvenidos… (erva aromática usada na açorda e nas masmárreas) Íamos ao “corunchoso” – hortejo cercado de “enxapotas” (ramos de azinheira e outras) – onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. Apelido família – Gertrudes Mederio E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de

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Mobiliário típico duma casa alentejana

moinhos do Guadiana

montados

bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas Guadiana, (177) que alguns chamam ainda de “a ribeira” (diz-se “r’bera”), com os seus característicos moinhos (85) abobadados de grossas paredes pardas, construídos de modo a resistir às cheias que todos os anos ocorriam …os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas

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monte típico alentejano

mormentes nichos Ortigões

olivais

pavimento de ladrilhos

de estevas, tojo e urze. E os “montes”, … com a casa de habitação, a arramada, o redil, celeiros e palheiros, a chaminé por vezes coroada por um ninho de cegonhas, o forno redondo isolado ou edificado ao fundo do alpendre ou casão. (109 – 266 – 273 – 317) mormentes pelos leitores não familiarizados com esta região Os nichos cavados nas paredes grossas das cozinhas, onde se arrumam as vasilhas de barro, de cobre ou de latão. Os “pirunitos”, (245) que eram uns bichos frágeis e tristonhos, criados dentro de casa, alimentados a papas de farelos quentes misturados com urtigões (diziam “ortigões” e eu fiquei a saber donde provinha o meu apelido do lado materno). E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos O pavimento de ladrilhos (que aqui se chamam “baldosas” se forem quadrados e “lambazes”

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pateira pial das enfusas pieta peliça pelico piorno

a pateira tinha apanhado uma coruja… O “pial das enfusas”. Para ver os patinhos nadar… carregando com eles para dentro de uma “pieta” onde as ovelhas bebiam. Outros trazem peliça ou samarra, outros ainda capote à alentejana. (133 – 289) «Os pastores usam pelico e ceifões de pele de borrego – também alguns ceifeiros usam safões (109), Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. … e fazendo piparralhas (pequenas flautas com o caule do trigo) Por exemplo, uns passarinhos coloridos, azuis, verdes e amarelos, as cores dos piriquitos (220) Os “pirunitos”, (245) que eram uns bichos frágeis e tristonhos, criados dentro de casa, alimentados a papas de farelos quentes misturados com urtigões (diziam “ortigões” e eu fiquei a saber donde provinha o meu apelido do lado materno).

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Piparralhas piriquitos pirunitos

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plantas mais comuns no Alentejo plantas mais comuns no Alentejo poejos por mó de pote de barro

as laranjeiras ornamentais, os jacarandás, as olaias que no fim do Inverno se cobrem de cor-de-rosa forte. E os saudosos mosqueiros… E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos (erva aromática usada na açorda e nas masmárreas) “por mó de” tais questões eruditas! E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas

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Pote de lata

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Prateleira de cana

R’bera – o Guadiana… e

redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 – 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. Guadiana, (177) que alguns chamam ainda de “a ribeira” (diz-se “r’bera”), com os seus característicos moinhos (85) abobadados de grossas paredes pardas, construídos de modo

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rosas albardeiras

rosmaninho

rouparia roupeiro rouparia roupeiro

a resistir às cheias que todos os anos ocorriam Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome. E o roupeiro na sua rouparia, fabricando o belíssimo Queijo Serpa (219 – 269). Ali soube o que era uma rouparia, assistindo ao trabalho do roupeiro, ocupado no fabrico do queijo e do almece, desde a fervura do leite em tachos enormes, ao deitar do cardo que o fazia atalhar, ao moldar do coalho dentro dos cinchos sobre a grande banca de madeira, de onde escorria o chorrilho para um barranhão. Tudo aquilo exalava um cheiro forte um tanto enjoativo. «Os pastores usam pelico e ceifões de pele de borrego – também alguns ceifeiros usam

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safões

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samarra Santa Cruz

sarja saragoça saudades

safões (109), Outros trazem peliça ou samarra, outros ainda capote à alentejana. (133 – 289) No terceiro dia de Maio, era costume confeccionar uma cruz de flores sobre uma armação de cana, centrada numa grinalda também de flores. Ajudei a fazê-la algumas vezes, com rosas saloias de cor viva, que tinham muitas pétalas e lembravam pequenos repolhos. Depois de pronta, a Santa Cruz era pendurada num prego na parede exterior da casa e, à tardinha, toda a gente lhe dançava ao pé, na rua do monte. Faziam-se balhos de roda, (97) simples ou formando cadeia (185), acompanhados de modas como “o Pavão” (164), “José Marques” (248), “Foste tu, ó ladrão, ladrão” (212) e “Eu nesta manhã achei” (130). Às vezes cantava-se ao despique, improvisando. fatos de saragoça ou de sarja cinzenta fatos de saragoça ou de sarja cinzenta Os prados onde crescem tufos de rosmaninho, os chupa-méis, as saudades, as alcachofras bravas e os cardos, moitas de giesta e piorno, as rosas albardeiras, os lírios, as candeias e umas minúsculas flores azuis escuras de que nunca soube o nome.

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sobreiros

sogra tachos de arame

telhados tem avondo terra vermelha

E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos …à ida a bilha ia deitada sobre a “sogra” e, no regresso, vinha muito direita, E o mobiliário e objectos típicos: as camas de ferro de joeira e de outros feitios, as mesas redondas de braseira, as cómodas rústicas, a estanheira na parede com pratos e travessas, o baú de pele e a arca de madeira coberta com o brancal, os capachos e as cadeiras de bunho, a prateleira de cana para os queijos (325), o pote de lata onde se guarda o azeite e o de barro para as azeitonas (131 - 219), os cântaros e tachos de arame, as chocolateiras de cobre, os almofarizes. E uma ou outra jarra antiga de vidro coalhado que ainda se vê em algumas casas. telhados velhos, de telha solta, os beirais assentes em cimalhas salientes. Mas, por agora, "tem avondo"! a terra vermelha do Outono, húmida das primeiras chuvas, revolvida pelos alqueives e charruadas que preparam as sementeiras

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terrabazias

tojo

Torrão traje típico da mulher alentejana (um)

Íamos ao "corunchoso" - hortejo cercado de "enxapotas" (ramos de azinheira e outras) onde cresciam couves e alfaces, assim como matrastos, erva que cheirava muito bem, especialmente nas manhãs cinzentas e húmidas e servia para juncar o chão à passagem das procissões ou nos mastros do São Pedro. No corunchoso havia um espantalho, que não chegava a ser suficientemente medonho a ponto de espantar os coelhos bravos, os quais, uma noite por outra, iam lá fazer terrabazias. E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos os Senhores José Filipe Justo do Corro e Armando Elias Torrão Lembro-me de ver, em pequena, as mulheres de saias compridas e rodadas, feitas de riscado - era mesmo riscado às riscas, brancas e pretas ou castanhas escuras debruadas por um nastro. Usavam blusas de chita ou gorgorina de cores escuras, "xale de malha" pequeno, seguro no peito com um pregador e por cima um xale

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traje típico do homem… (um)

traje típico do pastor…

grande de ir à rua. Na cabeça, lenço de rebuço que só deixava ver um bocadinho do rosto (dizem ser reminiscência árabe), e um gracioso chapéu preto de copa redonda e aba enrolada para cima, que usavam apenas as mulheres desta vila. (75 - 76 - 223) E nos pés, meias de linha, pretas ou de cor e elegantes botas justas à pernas, apertadas com ilhós e cordões. … Nessa época, a importância do traje era tão grande, que as manajeiras não aceitavam nos seus ranchos trabalhadeiras que não estivessem vestidas a rigor. (75 - 77) Os homens (135) aparecem nestes desenhos vestidos com fatos de saragoça ou de sarja cinzenta, de colete e jaqueta, outros trajam camisa de riscado aos quadradinhos com as pontas da fralda atadas à frente, botas, chapéu de aba larga e lenço dobrado em triângulo atado ao pescoço, (91 - 259) o qual se usa também desdobrado e colocado sob o chapéu, para defender do ardor do Sol. Outros trazem peliça ou samarra, outros ainda capote à alentejana. (133 - 289) Os pastores usam pelico e ceifões de pele de borrego - também alguns ceifeiros usam safões (109), mas de pêlo rapado.

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urtigões

urze

vacas-loiras

vasilhas

Os "pirunitos", (245) que eram uns bichos frágeis e tristonhos, criados dentro de casa, alimentados a papas de farelos quentes misturados com urtigões (diziam "ortigões" e eu fiquei a saber donde provinha o meu apelido do lado materno). E também os montados com os seus sobreiros, azinheiras e chaparros, as charnecas cobertas de estevas, tojo e urze. Os olivais e os pomares das quintas. E as loendreiras que florescem no pino do Verão… junquilhos bravos fomos brincar dentro de uma seara, procurando flores e vacas-loiras (uns insectos pretos e vermelhos, que, quando se lhes cuspia em cima, rebentavam) e fazendo piparralhas (pequenas flautas com o caule do trigo) Os nichos cavados nas paredes grossas das cozinhas, onde se arrumam as vasilhas de barro, de cobre ou de latão.

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65 trabalho realizado por @ JORAGA Vale de Milhaços, Corroios, Seixal 2012

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