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IMPACTO DAS TRILHAS SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DO SOLO E DA FAUNA EDÁFICA

EM FRAGMENTOS DE FLORESTA ATLÂNTICA DE TABULEIROS, SOORETAMA-ES

Felipe Noronha1, 2, Gabriel Queiroz2, 3, Afonso Leal Francisco4 & Irene Garay2,5
1
Mestrando do Programa de Pós Graduação em Geografia – UFRJ,
2
Laboratório de Gestão da Biodiversidade, IB – UFRJ, 3Aluno de Iniciação
Científica em Ciências Biológicas – UFRJ, 4Analista Ambiental do IBAMA,
5
Professora Adjunto do Instituto de Biologia - UFRJ
email para correspondência: noronha@biologia.ufrj.br
Eixo temático: Fauna e Flora.

Introdução
Os efeitos dos impactos antrópicos passados e presentes sobre a Floresta
Atlântica se expressam na redução das florestas originais e na sua fragmentação. Os
estudos sobre fragmentação consideram em geral os efeitos de borda como único
fator de perturbação dos remanescentes florestais (CAMARGO & KAPOS, 1995;
VIANA & TABANEZ, 1996; DIDHAM & LAWTON, 1999). Porém, quando os
fragmentos estão submetidos a atividades extrativistas e de visitação, caminhos e
trilhas são abertos podendo provocar distintos graus de alteração nos processos
ecológicos no interior destes fragmentos, ocasionando forte impacto sob a sua
integridade.
Assim, em pesquisas que visam avaliar o estado de fragmentos, é necessário
caracterizar as modificações do funcionamento e da estrutura dos componentes
bióticos e abióticos destes ecossistemas, afim de associá-las ao grau de conservação
dos remanescentes e às formas de uso (GARAY, 2001). Para isso, se faz necessária a
elaboração de indicadores devido à complexidade dos sistemas florestais.
Dentro dessa perspectiva, a caracterização das formas de húmus e a estrutura
e composição da mesofauna, por estarem associados ao subsistema de
decomposição, podem se tornar indicadores de alterações antrópicas dos
remanescentes florestais. Em particular, podem representar uma ferramenta de
avaliação do impacto de trilhas sobre estes componentes do ecossistema,
possibilitando inferir o grau de integridade de fragmentos e seu conseqüente manejo.

Objetivos
O objetivo geral do presente trabalho é determinar indicadores do grau de
perturbação de remanescentes florestais, com vistas a contribuir para o planejamento
ambiental integrado da região, em distintas escalas (entre fragmentos e no interior dos
fragmentos).
Os objetivos específicos são: i) caracterizar as modificações das camadas
húmicas (topo do solo) e da mesofauna edáfica em fragmentos de Floresta Atlântica
de Tabuleiros e ii) caracterizar o efeito das trilhas e das áreas do entorno sobre estes
componentes do subsistema de decomposição a fim de avaliar o grau de integridade
dos remanescentes e propor indicadores desta perturbação.

Metodologia
Caracterização da área de estudo
O estudo foi conduzido no município de Sooretama, norte do Espírito Santo, a
19o24’20’’ de latitude Sul e 40o04’05’’ de longitude Oeste. O clima quente e úmido da região
corresponde, segundo a classificação de Köppen, ao grupo AWI. Apresenta acentuada
variação sazonal dos índices pluviométricos e uma relativa estabilidade da
temperatura média mensal e da umidade relativa do ar, que é de 83% em média
(figura 1a e 1b).

A B
(mm) (oC)
(mm) (oC)
350 pp2000 pp= 1430mm 175
350 pp1975-2000 pp= 1200mm 175
t2000 t med.= 23oC
t1975-2000 t med.= 23oC
300 150 300 150

250 125 250 125

200 100 200 100

150 75 150 75

100 50 100 50

50 25 50 25

- - 0 -
J F M A M J J A S O N D J F M A M J J A S O N D

Figura 1: A: diagrama ombrotérmico de uma seqüência temporal de 25 anos. B:


diagrama ombrotérmico do ano 2000 (ano da coleta do presente estudo). Dados da
Reserva Natural da CVRD, Linhares, ES.

O relevo predominante da região corresponde aos tabuleiros costeiros do


Grupo Barreiras que se estendem ao longo da faixa costeira brasileira, desde o Estado
do Pará até o Rio de Janeiro. Eles estão constituídos por depósitos sedimentares do
Terciário, com colinas de topo aplanado e variação altimétrica média de 100m
(VICENS, 2003).
A Floresta Atlântica de Tabuleiros, ecossistema predominante na região, foi
classificada por alguns autores como Floresta Ombrófila Densa (PEIXOTO &
GENTRY, 1990) e por outros como Floresta Estacional Semidecidual devido a
características estruturais que a diferenciam da Floresta Atlântica da Serra do Mar
(GARAY & RIZZINI, 2004). Este núcleo florestal apresenta altíssima diversidade
biológica, por vezes maior que a da Floresta Amazônica, e alto grau de endemismo
(RIZZINI, 1997).
O município de Sooretama é constituído por uma paisagem dominada por uma
matriz essencialmente agrícola que contém a maior parte da Reserva Biológica de
Sooretama, cuja criação foi iniciada em 1943 com o Parque de Reserva e Refúgio de
Animais Silvestres Sooretama (AGUIRRE, 1951). O processo de desmatamento, que
se intensificou notadamente a partir da década de 50 do séc XX, deu origem a um total
de 213 fragmentos florestais de diversos tamanhos e formas, distribuídos em
propriedades particulares. Estes remanescentes totalizam atualmente uma área de
3.000 ha de floresta (AGAREZ et al., 2004).
Estes fragmentos foram classificados em três grupos: 1) alta diversidade, 2)
média diversidade e 3) baixa diversidade, segundo o grau de alteração da cobertura
arbórea, a partir de um modelo do índice normalizado de vegetação ou NDVI (Figura
2). O estudo detalhado da vegetação revela que os fragmentos foram submetidos a
atividades extrativistas, com diminuição progressiva da área basal paralela às
modificações de biodiversidade arbórea. Em particular, as espécies da família
Myrtaceae, elemento característico da Floresta Atlântica, apresentam baixa
diversidade e densidade nos fragmentos; pelo contrário, espécies secundárias de
início de sucessão como Anacardiaceae, Euphorbiaceae e Moraceae possuem
maiores densidades, o que sugere um processo de substituição conseqüente ao
extrativismo seletivo (AGAREZ, 2002; AGAREZ et al., 2004). As vias de arrastão e de
passagem atravessam praticamente todos os fragmentos, porém alguns apresentam
trechos de mata com aspecto geral relativamente preservado, i.e., dossel mais ou
menos fechado, estrato arbustivo etc.
O presente estudo foi realizado em três áreas: 1) a Reserva Biológica de
Sooretama (REBIO), com superfície de 24.000 ha, que representa a área controle, 2) o
fragmento Pasto Novo (PN), com 80 ha, classificado como de alta diversidade, e o
fragmento Bionativa (BIO), com 15 ha, incluído no grupo de diversidade média. As
densidades estimadas foram de 1356 ind./ha para a REBIO, 1214 ind./ha para o
fragmento Pasto Novo e 1095 ind./ha para o fragmento Bionativa; e o número de
espécies por hectare de 202 (REBIO), 197 (PN) e 185 (BIO). As respectivas áreas
basais foram estimadas em 31,5 m2/ha (REBIO), 27,5 m2/ha (PN) e 17,5 m2/ha (BIO),
o que indica uma significativa diminuição da madeira em pé nos fragmentos, sobretudo
em Bionativa. As famílias Leguminosae, Myrtaceae e Sapotaceae são as mais
representativas em termos de espécie em todos os sítios de estudo, mas em BIO o
número de espécies destas famílias é a metade se comparado com a REBIO, sendo
esta diminuição menos drástica em PN. Porém, a família Euphorbiaceae supera em
densidade as Sapotaceae em PN; as Anacardiaceae são as mais abundantes em BIO,
junto com as Euphorbiaceae (AGAREZ, 2002).

Figura 2: Mapa dos remanescentes florestais do município de Sooretama. A área


nuclear corresponde à REBIO Sooretama. Segundo AGAREZ et al. (2004).

Em todas as áreas de estudo os solos são do tipo Argissolo Amarelo distrófico


(SANTOS et al., 2004). Estes solos apresentam perfil de profundidade média e
seqüência bem definida dos horizontes A, Bt, e C. O horizonte A é de textura arenosa e
de profundidade variável segundo o relevo: as partes baixas dos tabuleiros
apresentam um horizonte A2 de podzolização. São solos bem drenados que se
distribuem principalmente em áreas de relevo suave ondulado sobre os sedimentos
Barreiras. Os húmus florestais são do tipo mull mesotrófico tropical e, em geral, a
decomposição dos aportes foliares é da ordem de um ano (KINDEL & GARAY, 2002).

Amostragem
Com o intuito de avaliar o efeito das atividades antrópicas e das vias de
passagem nos fragmentos sobre a estrutura dos húmus florestais e sobre a
mesofauna associada foram amostradas três situações conformando um transecto: 1)
área de floresta aparentemente preservada (MATA), 2) área que contorna as trilhas
(BORDA) e 3) trilhas internas (TRILHA). Na REBIO Sooretama foi amostrada apenas
área de floresta.
Para as áreas de floresta (MATA) foram demarcadas quatro parcelas de 20m x
20m em cada sítio de estudo. Foram coletadas três amostras por parcela perfazendo
um total de doze amostras por sítio. Para as áreas de borda de trilha foram
demarcadas seis parcelas de 10m x 10m distantes 50m das trilhas. Foram coletadas
duas amostras por parcela, totalizando 12 amostras por fragmento. Com relação às
trilhas foram escolhidos seis trechos em cada fragmento, ao longo dos quais foram
demarcados e coletados dois pontos amostrais, somando um total de doze amostras
por sítio. As coletas foram realizadas no ano 2000.
Em cada ponto de amostragem foram realizadas duas amostras contíguas
delimitadas por meio de um quadrado metálico de 25cm de lado (Figura 3a): a primeira
para o estudo dos húmus e a segunda para a obtenção da mesofauna. As camadas de
folhiço e o primeiro horizonte orgânico-mineral Ai (0 -2 cm) foram retirados do interior
do quadro (GARAY et al., 1995). Para o estudo da mesofauna edáfica foram coletadas
separadamente as camadas de folhiço (L e F) e os primeiros centímetros do solo.

Tratamento das camadas húmicas


No laboratório, os restos foliares das camadas L e F foram separados dos
outros componentes orgânicos (raízes, galhos, frutos etc). O material foi seco em
estufa a 60ºC por 48 horas e pesado. A unidade utilizada é t ha-1.
As amostras de solo (horizonte Ai) foram secas ao ar e peneiradas com peneira
de 2,0 mm de malha. A fração inferior a 2,0 mm (fração fina), assim como os
agregados (fração agregada) foram enviados para a EMBRAPA – CNPS. As análises
químicas foram realizadas conforme metodologia descrita no manual de métodos de
análise de solos da EMBRAPA (EMBRAPA, 1997).

Tratamento das amostras para obtenção da mesofauna


A extração Berlese-Tulgreen, que possibilita a separação da mesofauna
edáfica das amostras de folhiço e solo, baseia-se na fuga dos animais que reagem a
estímulos térmicos ou luminosos durante a secagem das amostras. Uma bateria de
100 funis permitiu o tratamento simultâneo das sub-amostras de cada sítio (PELLENS
& GARAY, 1999) (figura 3b).
Os animais foram recolhidos em recipientes de vidro, com solução de álcool
70%. As lâmpadas foram acesas 24 horas após a colocação das amostras nos funis
para facilitar um dessecamento lento. A extração durou 10 dias. Os animais extraídos
foram triados com o auxílio de uma lupa binocular e identificados em níveis
taxonômicos elevados, em geral, de Ordem.

(a) (b)
Figura 3: (a) – quadrado metálico com 25cm de lado utilizado na coleta das amostras.
(b) – extrator do tipo Berlese-Tulgreen.

Análises Estatísticas
No caso dos dados das camadas de folhiço e da estimativa das propriedades
químicas do horizonte Ai, as diferenças entre as áreas de mata e as trilhas dos
fragmentos foram testadas utilizando-se o teste t de Student. Na comparação entre as
áreas de mata da REBIO e dos fragmentos utilizou-se o teste ANOVA seguido do post
hoc test Tukey a 5%. Os dados foram normalizados por meio do cálculo da raiz
quadrada dos dados brutos. No caso da mesofauna, em virtude da distribuição
agregada dos animais do solo, a análise estatística utilizada para os dados de
densidade de grupos foi o Kruskal-Wallis. Para a riqueza utilizou-se o teste ANOVA.
Todas as análises estatísticas foram calculadas no programa Statistica 6.0.

Resultados e discussão
Estoque de folhiço
Em relação ao estoque de matéria orgânica para as áreas de mata, os maiores
valores foram obtidos para o fragmento Pasto Novo (5,1 t/ha), seguido da REBIO
Sooretama com 4,5 t/ha e do fragmento Bionativa com 2,1 t/ha (tabela 1). Neste
fragmento, o acúmulo corresponde à metade do estimado para a REBIO. A
comparação entre esses dois sítios evidencia diferença significativa (F= 5,26 e p=
0,01). Na comparação entre a REBIO Sooretama e o fragmento Pasto Novo não se
observa diferença significativa.
Tabela 1: Estoque de matéria orgânica (t ha-1) das áreas de mata e das trilhas dos
sítios de estudo. Média (erro padrão); mata vs. trilha: º: α > 0,05; *: 0,05>α >0,01; **:
0,01>α > 0,001; ***: α < 0,001. Testes feitos com dados normalizados. n= 12.
REBIO ANOVA
t/ha Pasto Novo Bionativa
Sooretama matas
F= 5,26
áreas de mata 4,5 (0,5) 5,1 (0,9) 2,1 (0,3)
p= 0,01
trilhas internas − 0,7 (0,1) 0,7 (0,1) −

mata vs. trilha − *** *** −

Levando-se em consideração que o tipo de húmus (mull mesotrófico tropical;


KINDEL & GARAY, 2002) e a classe de solo (Argissolo Amarelo distrófico; SANTOS et
al. 2004) são as mesmas nas três áreas de mata dos sítios de estudo, as diferenças
verificadas no estoque de matéria orgânica podem ser explicadas pela densidade e
diversidade da comunidade arbórea em cada sítio. O fragmento Bionativa, que se
diferencia dos demais sítios pelo menor estoque, possui não apenas uma diversidade
arbórea significativamente inferior como também uma densidade absoluta menor do
que a estimada na REBIO (AGAREZ et al., 2004). Segundo os autores, o dendograma
de similaridade florística, que relaciona o número de espécies comuns e o número de
indivíduos de cada espécie, entre os fragmentos estudados mostra que o fragmento
Pasto Novo se aproxima das características levantadas na REBIO.
Com relação à comparação entre as áreas de mata e as trilhas dos fragmentos
(tabela 1) verifica-se que o estoque de folhiço é significativamente superior para as
áreas de mata. No caso do fragmento Pasto Novo, o acúmulo total para as áreas de
mata corresponde a sete vezes o acúmulo para as trilhas (5,1 t/ha vs. 0,7 t/ha para
mata e trilha, respectivamente). Quanto ao fragmento Bionativa o acúmulo estimado
para as trilhas representa um terço do estimado para a mata (2,1 t/ha vs. 0,7 t/ha).
Essa significativa redução no estoque de folhiço nas trilhas dos fragmentos
resulta, sem dúvida, do pisoteio excessivo proveniente das freqüentes visitações. No
entanto, as diferenças observadas entre áreas de mata e trilhas são mais evidentes
para o fragmento Pasto Novo do que para o Bionativa. Na realidade, pode se supor,
por um lado, que o fragmento Bionativa encontra-se mais perturbado como um todo,
reduzindo as diferenças entre as áreas de mata e as trilhas, e por outro, que a
intensidade e a forma de uso do fragmento Pasto Novo – atividades pontuais de
extração de madeira de grande porte – afetaram sobremaneira as trilhas, mas
mantiveram a floresta bem conservada.
Propriedades químicas do horizonte Ai
A comparação entre as áreas de mata dos sítios de estudo revela que a
concentração de C é significativamente superior no solo do fragmento Pasto Novo e a
concentração de N é da mesma ordem de grandeza nos três sítios (tabela 2). A
correlação existente entre a relação C/N e a concentração de C (coef. de correlação
de Pearson, r= 0,76) indica que quanto menor a velocidade de decomposição –
inferida dos valores mais altos da relação C/N – maior a concentração de C no solo.
Por outro lado, a concentração de BT (bases trocáveis) no solo da REBIO é 70%
superior às dos solos dos fragmentos. A porcentagem de saturação em bases (%SB),
que mede a fertilidade do solo, é superior no solo da REBIO, provavelmente em
função da maior concentração de BT. A fertilidade do solo pode ser considerada média
(entre 50 e 70%) para a REBIO e baixa (menor que 50%) para os fragmentos.
Quando da comparação entre as duas situações internas ao fragmento Pasto
Novo (tabela 3), observa-se para o horizonte Ai diferenças altamente significativas em
quase todos os atributos químicos. No geral, as concentrações estimadas para a mata
correspondem ao dobro ou triplo das concentrações estimadas para as trilhas.

Tabela 2: Características químicas do horizonte Ai nas áreas de mata dos sítios de


estudo. Média (erro padrão). Teste ANOVA: comparação entre as três áreas de mata.
Testes realizados com dados normalizados. n= 12.
REBIO
Pasto Novo Bionativa ANOVA matas
Sooretama
F = 4,13
C (%) 3,4 (0,3) 5,5 (0,9) 3,5 (0,3)
p = 0,02

N (%) 0,30 (0,03) 0,41 (0,06) 0,31 (0,02) NS

F = 13,05
C/N 11,3 (0,3) 13,0 (0,3) 11,2 (0,2)
p < 0,001
ª F = 13,22
BT 12,7 (1,1) 7,4 (0,7) 7,1 (0,6)
p < 0,001
F = 45,38
SB (%) 62,5 (1,6) 33,1 (2,9) 45,5 (1,4)
p < 0,001
ª
unidade de quantificação deste parâmetro: cmolc Kg-1.

Para o fragmento Bionativa (tabela 3) constatam-se também diferenças


significativas entre mata e trilha em quase todos os elementos. As áreas de mata
apresentam valores superiores, porém as diferenças mais importantes dizem respeito
à concentração de BT e %SB. Os valores médios da relação C/N são
significativamente superiores para as trilhas, o que indica uma menor velocidade de
decomposição da matéria orgânica nesses sítios.
A análise das concentrações dos elementos no horizonte Ai reforça a hipótese
de uma desestruturação do horizonte de interface nos fragmentos, principalmente nas
trilhas. Esta desestruturação pode ser explicada tanto pelo efeito da lixiviação das
bases de troca do horizonte Ai – que funciona como um reservatório de nutrientes
(KINDEL & GARAY, 2002) – quanto por uma diminuição do turn-over de matéria
orgânica que se acumula junto com o nitrogênio orgânico, sobretudo no horizonte mais
profundo, a causa da perturbação nos fragmentos. Essa diminuição do turn-over de
matéria orgânica se reflete nos valores da relação C/N, significativamente superiores
com respeito a REBIO, indicando uma menor velocidade de decomposição nos
fragmentos.

Tabela 3: Características químicas do horizonte Ai nas áreas de mata e nas trilhas dos
fragmentos. Média (erro padrão). “m x t”: Teste t de Student entre as áreas de mata e
trilhas: º: α > 0,05; *: 0,05 >α> 0,01; **: 0,01 >α> 0,001; ***: α < 0,001. Testes
realizados com dados normalizados. n= 12.
Pasto Novo Bionativa
mata trilha mxt mata trilha mxt
C (%) 5,5 (0,9) 2,4 (0,1) ** 3,5 (0,3) 3,0 (0,5) º

N (%) 0,41 (0,06) 0,18 (0,01) *** 0,31 (0,02) 0,21 (0,03) *

C/N 13,0 (0,3) 13,2 (0,4) º 11,2 (0,2) 13,3 (0,5) *

ª
BT 7,4 (0,7) 2,5 (0,1) *** 7,1 (0,6) 4,6 (0,9) *

SB (%) 33,1 (2,9) 29,2 (1,9) º 45,5 (1,4) 37,1 (2,6) **


ª -1
unidade de quantificação deste parâmetro: cmolc Kg .

Mesofauna edáfica
De maneira geral, existe um gradiente de diminuição da riqueza que vai desde
as áreas de mata até as trilhas; as bordas apresentam características intermediárias
(Tabela 4). As áreas de mata apresentam riquezas similares na REBIO e no fragmento
Pasto Novo; entretanto, os valores mais baixos correspondem ao fragmento Bionativa.
Estes resultados acompanham o grau de perturbação dos fragmentos no que
concerne tanto à vegetação arbórea como as características dos húmus.
No que diz respeito às densidades nas áreas de mata, as maiores diferenças
se observam quando se consideram separadamente os insetos sociais e os outros
grupos: tanto Formicidae como Isoptera mostram uma diminuição de densidade nos
fragmentos Pasto Novo e Bionativa. Estas diferenças são ainda mais acentuadas
quando se consideram as bordas das trilhas e as próprias trilhas. Estes resultados
evidenciam que sítios próximos às trilhas podem apresentar um grau de impacto
importante (Tabela 5). Os grupos de mesofauna não sociais, que englobam um
número muito diversificado de fauna, mantêm densidades similares entre as áreas de
mata, borda e trilha. Porém, para interpretar estes dados é necessário considerar um
certo detalhamento destes grupos.

Tabela 4. Riqueza acumulada e média das áreas de mata, borda de trilha e trilha dos
sítios. Média (erro padrão); ANOVA: comparação das três situações internas dos
fragmentos. º: α > 0,05; *: 0,05>α >0,01; **: 0,01>α > 0,001; ***: α < 0,001. n= 12.
REBIO
Pasto Novo Bionativa
Sooretama
riqueza média / amostra

áreas de mata 15,6 (0,6) 15,8 (0,5) 12,2 (0,7)

borda de trilha − 11,1 (0,6) 10,2 (0,5)

trilhas internas − 9,1 (0,6) 7,8 (0,9)

ANOVA − *** ***

riqueza acumulada (nº de grupos / total de amostras)

áreas de mata 23 22 19

borda de trilha − 19 21

trilhas internas − 14 14

Tabela 5: Densidade total (ind./m2) dos grupos sociais e não sociais nas áreas de
mata, bordas de trilha e trilhas internas dos sítios de estudo. n= 12.
REBIO
Pasto Novo Bionativa
Sooretama
grupos sociais (Formicideae e Isoptera)

áreas de mata 3.050 920 740

borda de trilha − 300 480

trilhas internas − 30 20

grupos não sociais (demais grupos)

áreas de mata 3.290 2.690 1.630

borda de trilha − 1.650 1.420

trilhas internas − 3.000 1.530

Três comportamentos diferentes são evidenciados quando se consideram


separadamente os distintos táxons de artrópodos não sociais. Existe um primeiro
grupo de mesofauna que apresenta uma forte diminuição das densidades seja nas
bordas seja nas trilhas (figura 4a). Eles são igualmente menos abundantes nas áreas
de mata do fragmento Bionativa. Pode-se afirmar, em primeira aproximação, que se
trata de grupos que participam ativamente na rede trófica de decompositores e que,
portanto, podem estar associados às modificações da matéria orgânica e do topo do
solo. Um segundo conjunto de táxons corresponde a insetos que, em geral, podem
aumentar suas abundâncias nas áreas de borda ou trilhas (figura 4b). Nestes casos, é
pertinente considerar que a abertura de trilhas se acompanha de hábitats mais
favoráveis a estas populações, que de forma maciça aparecem associados às
perturbações ocasionadas pelas vias de passagem. Existem ainda populações que
parecem ser indiferentes do ponto de vista das abundâncias globais às características
dos três tipos de hábitat.
a b
300 2000 REBIO
ÁREAS DE MATA REBIO ÁREAS DE MATA
PN
250 PN
BIO
BIO 1500
200
(ind./ m2)

(ind./ m2)

150 1000

100
500
50

0 0
PSE ARA CHI DIP SYM DIU ISO COL (L) THY TRI LEP HOM HET DPT COL
** * º *** º *** º º * *** º º * º **

250 m ata
FRAGMENTO PASTO NOVO m ata FRAGMENTO PASTO NOVO
borda 2000 borda
200 trilha
trilha
1500
150
(ind./m2)

(ind./m2)

1000
100

50 500

0 0
PSE ARA CHI DIP SYM DIU ISO COL (L) THY TRI LEP HOM HET DPT COL
*** *** * *** ** *** *** º º
* *** *** ** ** *

125 FRAGMENTO BIONATIVA 1250 FRAGMENTO BIONATIVA m ata


m ata
borda
borda
100 1000 trilha
trilha

75
(ind./m2)

750
(ind./m2)

50 500

25
250

0
0
PSE ARA CHI DIP SYM DIU ISO COL (L) THY
TRI LEP HOM HET DPT COL
*** * ** * * º ** * *** *** *
** * * º

Figura 4: (a) – gráficos de densidade média dos grupos tipicamente edáficos,


sensíveis a perturbação. (b) – gráficos de densidade média dos grupos “oportunistas”,
que apresentaram um aumento populacional nas áreas perturbadas. º: α > 0,05; *:
0,05>α >0,01; **: 0,01>α > 0,001; ***: α < 0,001 teste Kruskal Wallis entre as áreas de
mata e entre as situações internas dos fragmentos. (PSE: Pseudoscorpionida. ARA: Araneae. CHI:
Chilopoda. DIP: Diplopoda. SYM: Symphila. DIU: Diplura. ISO: Isopoda. COL (L): Larva de Coleóptera. THY:
Thysanoptera. TRI: Tricoptera. LEP: Lepdoptera. HOM: Homoptera. HET: Heteroptera. DPT: Díptera. COL: Coleoptera)
No total, o conjunto destes resultados evidencia que bordas de trilhas
representam hábitats fortemente modificados do ponto de vista da diversidade de
mesofauna, por vezes, similares às próprias trilhas. Todavia, a riqueza e a diversidade
de grupos aparecem estreitamente associadas ao grau de perturbação dos fragmentos
como um todo.

Conclusões
Nossos resultados permitem evidenciar modificações significativas nas
características quantitativas e qualitativas das camadas húmicas e da mesofauna
edáfica, tanto no interior dos fragmentos como entre fragmentos. No entanto, os
impactos parecem ser maiores quando consideramos o efeito das trilhas e das bordas
de trilhas em relação às áreas de mata no interior dos fragmentos.
Em virtude das respostas observadas nos componentes do subsistema de
decomposição aos impactos causados pela atividade antrópica, é válido propor o uso
da mesofauna edáfica como indicador dessa perturbação.
A constatação de que trilhas e bordas de trilhas constituem hábitats fortemente
alterados revela a importância de um manejo adequado de trilhas com vistas à
sustentabilidade funcional e conservação da biodiversidade nos remanescentes de Floresta
Atlântica.

Referências Bibliográficas
AGAREZ, F.; GARAY, I. & VICENS, R. S. A floresta em pé: heterogeneidade de
fragmentos e conservação. In: GARAY, I. & RIZZINI, C. M. (Org.). A Floresta
Atlântica de Tabuleiros: diversidade funcional da cobertura arbórea. 2. ed.
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AGAREZ, F. V. Contribuição para a gestão de fragmentos florestais com vista à


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Tese (Doutorado em Geografia) – PPGG / UFRJ, Rio de Janeiro, 2002.

AGUIRRE, A. Sooretama: estudo sobre o parque de reserva, refúgio e criação de


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CAMARGO, J. L. C. & KAPOS, V. Complex edge effects on soil moisture and


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