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PROPOSTAS PARA A REATIVAÇÃO DO TURISMO NA TRILHA DA

NASCENTE, LAGOA MISTERIOSA/PASSO DO CURÊ – JARDIM, MS

Heros Augusto Santos Lobo*


Danielly Gomes Chaves**

Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. Curso de turismo com ênfase em


ambientes naturais. Laboratório de Planejamento e Organização do Turismo em
Ambientes Naturais – LabPOTAN. 0xx67 3411-9139/9140

Eixo temático: A Trilha

Sub-eixo: Planejamento e Manejo

Resumo

O presente trabalho resulta de uma pesquisa realizada a título de conclusão do curso


de bacharelado em Turismo na Trilha da Nascente, localizada no atrativo Lagoa
Misteriosa/Passo do Curê, em Jardim, MS. A base para a execução da pesquisa foi
pautada na perspectiva de realização do turismo em áreas naturais com o mínimo de
impactos possível, bem como na inclusão de pessoas portadoras de necessidades
especiais, sobretudo cadeirantes. A partir disso, foi efetuado o cálculo preliminar da
Capacidade de Carga da trilha, considerando como indicadores o período de chuvas,
a erosão do solo e a distância entre grupos, tendo por base a metodologia de
Cifuentes. As conclusões apontam para um total de 144 visitas diárias no atrativo, o
que vai ao encontro da perspectiva de controle quantitativo do número de turistas, de
forma a proporcionar um encontro mais direto com a natureza. Apontam também para
a necessidade de se oferecer espaços adaptados às especificidades dos cadeirantes,
de forma que estes também possam usufruir do turismo em áreas naturais.

Palavras-chave: Capacidade de Carga; Manejo de Trilhas; Turismo Adaptado.

1 Introdução

O presente trabalho é fruto da adaptação do Trabalho de Conclusão do Curso


de Turismo com ênfase em ambientes naturais da Universidade Estadual de Mato
Grosso do Sul, campus Jardim, na linha Planejamento e Organização do Turismo em
Ambientes Naturais – POTAN.
A área da presente pesquisa está inserida no atrativo Lagoa Misteriosa/Passo
do Curê, município de Jardim, MS. O atrativo localiza-se na Rodovia MS 178, que liga

*
Bacharel em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi – UAM. Especialista em Gestão e
Manejo Ambiental em Sistemas Florestais pela Universidade Federal de Lavras – UFLA.
Mestrando em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS.
Professor, pesquisador e atual coordenador do curso de Turismo com ênfase em ambientes
naturais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UEMS/Dourados, MS. Atual
presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Espeleologia – SBE. Filiado à
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo – ANPTUR. heros@uems.br
**
Bacharel em Turismo pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Jardim, MS. Pós-
graduanda em Planejamento e Gestão Ambiental pelo Centro Universitário UNAES. Professora
do curso de Turismo com ênfase em ambientes naturais da Universidade Estadual de Mato
Grosso do Sul – UEMS/Jardim, MS. daniellychaves@hotmail.com
o município de Bonito à Rodovia BR 267. Sua principal atratividade é a Lagoa
Misteriosa, uma cavidade natural alagada que já foi prospectada até 220 metros de
profundidade, onde é possível praticar mergulho e flutuação (sonrkeling). O atrativo
iniciou os trabalhos ligados ao turismo em meados de 1996, passando por diversas
fazes quanto aos fluxos de visitação. Desde 2004, o atrativo encontra-se desativado,
face aos procedimentos ligados a espoliação da área, bem como pela falta de plano
de manejo e licenciamento ambiental. Outros roteiros complementam sua oferta
turística: visualização de queixadas, passeio de bote, carretilhas nos rios e a Trilha da
Nascente, objeto do presente estudo.
Considerado o contexto apresentado, o presente trabalho tem por objetivo
apresentar o planejamento de alguns procedimentos para otimizar o uso turístico da
Trilha da Nascente, considerando a possibilidade de visitação por Pessoas Portadoras
de Necessidades Especiais – PPNEs, bem como alguns apontamentos referentes ao
cálculo de sua Capacidade de Carga.
Os procedimentos metodológicos adotados incluem: pesquisas bibliográficas;
visitas de campo utilizando os procedimentos descritos por Andrade (2003), em
conjunto com um GPS – Global Positioning System – para medição e análise da trilha;
e a metodologia de Capacidade de Carga de Cifuentes (ARIAS et al., 1999) para o
apontamento preliminar do limite quantitativo de visitas diárias no roteiro.

2 Turismo e suas interfaces com a natureza

Para obter uma definição mais precisa a respeito de turismo faz-se necessário,
principalmente, distinguirmos entre fazer turismo e explorar turismo, ou seja, o turismo
como modo de vida ou como meio de vida. “O Turismo é uma atividade econômica
pertencente ao setor terciário, que mais tem obtido índices de crescimento nas
economias industrializadas” (OMT, 2001, p. 4).
Para a compreensão da historia do turismo, é necessário diferenciar a viagem
turística de outros tipos de deslocamento, como aqueles relacionados com as
campanhas militares, as transumâncias e o nomadismo.

O turismo deve ser compreende as atividades realizadas pelas


pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes do
seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano,
por lazer, negócio ou outros (OMT, 2001, p. 3).

O relacionamento do Turismo com as áreas naturais tem se caracterizado por


alguns aspectos peculiares e deverão ser considerados nas ações e estratégias de
planejamento da atividade. Para que o desenvolvimento do turismo ocorra, é
necessário estabelecer critérios para utilização dos espaços, de acordo com as suas
características, considerando-se, entre outros, a fragilidade dos ecossistemas naturais
e a originalidade cultural das populações receptoras.
O Turismo praticado em áreas naturais, precisa antes de tudo ser planejado,
pois a interferência da atividade pode alterar o ecossistema ali existente. O Turismo
deve ser pensado como uma atividade que possibilita o contato do turista como o meio
ambiente de forma a causar o mínimo impacto possível. Por isso, outras formas de
turismo estão sendo propostas, a fim de conter os impactos negativos da atividade e
recebem denominações como “brando e tranqüilo, alternativo, responsável, ecológico
e, mais recentemente turismo sustentável” (RUSCHMANN, 1997, p. 23).

3 Trilhas turísticas e a capacidade de carga

A maioria das trilhas que hoje são utilizadas no turismo em áreas naturais são
caminhos tradicionalmente utilizados por determinadas comunidades para se
locomoverem. Desde a época do Brasil colônia, os portugueses utilizavam os
caminhos abertos pelos indígenas para alcançarem o interior do país.
As trilhas são caminhos existentes ou estabelecidos, com diferentes formas,
comprimentos e larguras, que possuam o objetivo de aproximar o visitante ao
ambiente natural, ou conduzí-lo a um atrativo específico, possibilitando seu
entretenimento ou educação através de sinalizações ou de recursos interpretativos
(SALVATI, 2003).
Podem ser estabelecidos diversos tipos de trilhas, que podem ser classificadas
quanto à função (vigilância, recreativa, educativa, interpretativa e de travessia), quanto
à forma (circular, oito, linear e atalho), quanto ao grau de dificuldade (caminhada leve,
moderada e pesada) e quanto à declividade do relevo (ascendentes, descendentes ou
irregulares) (SALVATI, 2003).
As trilhas oferecem aos visitantes a possibilidade de desfrutar de uma área de
maneira tranqüila e alcançar maior familiaridade com o meio natural. Quando bem
construídas e devidamente mantidas, diminuem os impactos do turismo no ambiente,
e ainda asseguram ao visitante maior conforto, segurança e satisfação.
Alguns fatores devem ser considerados para assegurar a qualidade do turismo
em áreas naturais, como o fato de o aumento considerável de visitas, que podem levar
a riscos de sobrevivência ao próprio atrativo e à trilha, se sua capacidade de suporte
for ultrapassada. Para a manutenção da qualidade ambiental com um mínimo
aceitável de alterações, inúmeras variáveis devem ser monitoradas constantemente,
uma vez que a ação dinâmica dos fatores exige uma constante observação, dado que
a sua interação é igualmente dinâmica e pouco previsível.
As trilhas, como integrantes importantes da atividade turística devem ser,
então, planejadas sob medidas de conservação e manejo, dentro de limites aceitáveis
de mudanças que devem estar sendo constantemente observados, na tentativa de não
se ultrapassar as condições ecologicamente estabelecidas. Para tanto, existem
diversas metodologias que permitem a identificação da capacidade de suporte das
áreas naturais face ao uso pelo turismo. Nesse sentido, Odum (1983) explica que.

a medida que um ecossistema torna-se maior e mais complexo,


aumenta a proporção da produção bruta que deve ser respirada pela
comunidade para sustentá-la e diminui a proporção que pode ser
dedicada ao crescimento. No momento do equilíbrio entre estas
entradas e saídas, o tamanho não pode aumentar mais. A quantidade
de biomassa que pode ser sustentada sob estas condições
denomina-se Capacidade de suporte. As evidências indicam cada vez
mais que a Capacidade ótima de suporte, sustentável durante muito
tempo frente às incertezas ambientais, é mais baixa, talvez 50% mais
baixa que a Capacidade teórica de suporte. (ODUM, 1983, p. 99-
100).

O conceito da capacidade de suporte leva em conta os limites que um


determinado sítio pode suportar, levando-se em conta o tipo de uso proposto e seus
objetivos. Swarbrooke (2002) aponta a existência de diversas formas de cálculo da
capacidade de suporte turística de uma área: física, operacional, ecológica, social,
entre muitas outras.
A aplicação do conceito capacidade de suporte no turismo em áreas naturais
introduziu a noção de limites aceitáveis de uso, sendo este conceito definido como a
quantidade de utilização que pode ser mantida em locais específicos sem causar
degradação do recurso e prejuízo às experiências dos usuários. Toma por base
variáveis como a capacidade de manejo da instituição, tamanho da área de uso
público (como trilha), tempo necessário para a visita e fatores (físico, biológicos e
sociais) que interferem reduzindo esse limite. (ARIAS et al., 1999; GOMES, 2001).
Dos diversos métodos conhecidos que adotam a abordagem apresentada para
a identificação de limites – quantitativos ou qualitativos – para a visitação, destaca-se
a metodologia de Capacidade de Carga de Cifuentes. O método foi originalmente
desenvolvido para uso em áreas naturais protegidas na Costa Rica, tendo sido
adaptado dos conceitos de capacidade de carga da agricultura.
Conforme apontado em Arias et al. (1999), o método se divide em três fases.
Na primeira delas, a Capacidade de Carga Física – CCF – são estabelecidas relações
matemáticas entre o tamanho da trilha, o espaço ocupado pelos turistas e o tempo de
visitação. Em seguida, na Capacidade de Carga Real – CCR – consideram-se os
aspectos limitantes ao uso turístico, de ordem biótica, abiótica e social. Por fim,
estabelece-se a Capacidade de Carga Efetiva – CCE – que leva em conta a
capacidade de gestão e manejo da organização responsável pela área sob análise.

4 Caracterização da área de estudo

A Trilha da Nascente está localizada no Atrativo Natural Lagoa


Misteriosa/Passo do Curê, situado na área rural do Município de Jardim/MS, um
importante pólo de Turismo em Ambientes Naturais. A trilha está inserida na mata
ciliar que pertence ao Rio da Prata, amparado pela Lei Estadual Nº 1.871, de 15 de
Julho de 1998, de acordo com o Artigo 1º, que cria a faixa de proteção especial de
trezentos metros de largura, com cento e cinqüenta metros para cada lado da margem
do Rio da Prata, Rio Formoso e seus afluentes. O Uso da Trilha da Nascente pode ser
viabilizado legalmente, pois de acordo com – Artigo 2º, Parágrafo 1º, as únicas
atividades que poderão ser desenvolvidas na Faixa de Proteção Especial são o
ecoturismo, a pecuária e a apicultura.
A Trilha estudada possui um percurso total de 980 metros. Seu substrato é
composto por serrapilheira, com algumas áreas recobertas por pedriscos. Também
existem, em alguns pontos, passarelas de madeiras e decks, sobretudo junto aos
corpos d’água. A estrutura serve tanto para evitar o desbarrancamento quanto para
facilitar o acesso dos turistas à água.
Antes de seu fechamento, a trilha era utilizada sobretudo para o acesso à uma
das muitas nascentes intermediárias do Rio da Prata. Não existiam métodos claros
para a gestão de seu uso, nem tampouco um programa de manutenção. Apenas a
manutenção corretiva era feita, como a retirada de árvores tombadas e do excesso de
galhos que adentravam o limite da trilha. A prática das chamadas “cevas”, para atrair
animais para os turistas observarem, também era feita. As fotos 1 e 2 ilustram um
trecho da trilha e a nascente, respectivamente.
A foto1 1 ilustra um trecho da Trilha da Nascente. No detalhe, porções de milho,
jogadas na trilha para atrair a fauna. Na foto2 2, turistas no deck observam a
nascente, objetivo maior da visitação na trilha.

5 Propostas para a gestão da Trilha da Nascente

A premissa maior que norteia as propostas de gestão apresentadas pauta-se


na possibilidade de suprir as necessidades recreativas dos visitantes, de maneira a
manter o ambiente estável e possibilitar a devida segurança e conforto.
Um ponto básico, que também é elementar para as propostas elaboradas,
aponta para a necessidade de implantar um processo de interpretação ambiental na
trilha, explorando as possibilidades de interação do turista com a flora e a fauna. Ao
longo do percurso da trilha, podem-se observar várias espécies de árvores endêmicas
da região, e relações entre Bacuris e figueiras. Também é possível observar aves e
mamíferos, como o Mutum-de-penacho (Crax fasciolata), a Seriema (Cariama
cristata), o Tucano-Açu (Ramphastos toco) e o Macaco Prego (Cebus apella
xanthosternos), entre muitos outros. Aliada a essa atividade, recomenda-se repensar e
modificar o comportamento em relação aos recursos naturais e seus componentes,
pois a interferência no meio ambiente altera todo o conjunto do comportamento dos
elementos ali existentes. Neste sentido, sugere-se que a prática de alimentar os
animais para que os turistas possam melhor observá-los, as populares “cevas”, deve
ser abandonada. O caminho é despertar no turista o interesse pelo ambiente em seu
estado natural, ao invés de artificializar cada vez mais o ambiente face aos anseios
humanos.

5.1 Adaptação da trilha para clientes diferenciados

1
Autor: Jorge Bastos
2
Autor: Ricardo M. Rodrigues – Rico.
A primeira proposta para a Trilha da Nascente baseia-se numa perspectiva
inclusiva de turismo, visando atender também as Pessoas Portadoras de
Necessidades Especiais – PPNEs, sobretudo os cadeirantes.
As pessoas com necessidades especiais freqüentemente se deparam com
barreiras culturais, físicas ou sociais, que impedem sua participação na vida
econômica e nas opções de lazer, disponíveis para o resto da população, A sociedade
deveria elevar o nível de expectativa em relação às pessoas com deficiência,
oferecendo também oportunidades de formação, profissionalização, cultura e lazer, e
não apenas aposentadoria precoce e assistência pública, de acordo com o Decreto nº
10.015, de 3 de agosto de 2000.
As trilhas devem sutilmente encorajar o visitante a permanecer nelas, por
serem facilmente reconhecidas como caminho mais fácil, que evita obstáculos e
minimiza a energia dispensada. Para tanto, precisam manter uma regularidade e
continuidade de seu caminho, evitando mudanças bruscas de direção e sinalização.
Obstáculos como pedras, árvores caídas, e poças de lama devem ser evitados, pois
provocam a abertura de desvios.
Com a Reestruturação da trilha da nascente, através do estudo da capacidade
de carga, são estabelecidos critérios de uso dos recursos naturais ali existentes,
visando atender também aos cadeirantes – público este com poucas opções turísticas
dirigidas às suas necessidades na Serra da Bodoquena.
A topografia do solo permite as condições necessárias de uso para
cadeirantes, por meio de um sistema de trilhas guiadas. Além disso, a regularização
do piso, por meio da implantação de pedriscos, bem como a colocação de suportes de
acesso nos decks que facilitem a entrada e saída dos turistas da água, se farão
necessários para que o público em questão possa ser atendido.

5.2 Capacidade de Carga da Trilha da Nascente

Para a determinação da Capacidade de Carga da Trilha da Nascente, seguindo


os passos apresentados em Arias et al. (1999), alguns pressupostos foram adotados.
Em primeiro momento, convencionou-se que cada turista ocupa um metro linear de
trilha durante a visitação. O horário de funcionamento da trilha será entre as oito da
manhã e quatro da tarde, totalizando oito horas por dia de uso. As visitas serão feitas
em grupos de oito pessoas, com um intervalo de duas horas entre grupos, dado que o
percurso de visitação inclui ida e volta pelo mesmo caminho.
A primeira fase do cálculo é a Capacidade de Carga Real. Nela são
considerados o trajeto percorrido (S), o número de vezes possíveis de se fazer o
passeio em um dia, em função do tempo gasto (NV), e o espaço ocupado por cada
visitante (sp), obedecendo as relações apresentadas no quadro 1.

Quadro 01 – Cálculo da Capacidade de Carga Física (CCF)

NV = 8 NV = 5,33
1,5

CCF= S * NV CCF= 980 * 5,33 CCF=5226,667


sp 1

Todavia, a CCF não apresenta a real situação de uso. Ela leva ao


entendimento de que haverá um turista a cada metro da trilha, o que é irreal. Além
disso, ela não considera os fatores bióticos e abióticos relacionados ao uso turístico.
Estas relações mais específicas são consideradas na segunda fase, a CCR.
Dos diversos fatores possíveis para se analisar nessa fase, considerando inclusive o
tempo exíguo para a realização da presente pesquisa e a falta de estudos anteriores
sobre a localidade em questão, os que foram levados em conta para o cálculo foram:

1. FC1 erodibilidade: Um trecho da trilha, de 50 metros, apresenta um processo


de erosão, escapando para o leito do Rio da Prata, com um desnível na lateral
da trilha maior que 45°. Considerando o tipo de substrato, que é pedregoso, a
declividade aceitável para esse tipo de solo é menor que 20º. Sendo assim o
percurso de 50m passa a ser um fator limitante;
2. FC2 chuva: Durante os meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro as chuvas são
mais intensas. Sendo assim, três meses, totalizando 90 dias, dos 365 dias
anuais; e
3. FC3 social – A distância entre os grupos é substancialmente importante para
um melhor aproveitamento da experiência de visitação. Para tanto, estipulou-se
que a distância mínima aceitável entre os grupos é de cem metros.

O quadro 2 apresenta os cálculos relacionados aos fatores mencionados,


obedecendo à fórmula geral da metodologia, que relaciona a magnitude total do
problema analisado com sua respectiva magnitude limitante.
Quadro 02 – Cálculo dos fatores de correção para a visitação turística
FC 1 = 1 - trecho da trilha sujeito à erosão
Metragem total da trilha
FC 1 = 1 - 50 FC 1 = 0,948
980
FC 2 = 1 – Dias do ano com chuva
Total de dias no ano
FC 2 = 1 - 90 FC 2 = 0,753
365
NG = Metragem total da trilha NG = 980 NG = 9,074
Espaço ocupado por cada grupo 108
Pessoas simultaneamente na trilha = NG * n° de pessoas por grupo = 72,592
Magnitude limitante = espaço não ocupado por pessoas = S – n° Pes. = 907,407
FC 3 = 1 - Espaço não ocupado por pessoas
Metragem total da trilha

FC 3 = 1 – 907,407 FC 3 = 0,074
980

Para se obter a CCR, multiplica-se a CCF pelos fatores de correção, conforme


explicitado no quadro 3.

Quadro 03 – Cálculo da Capacidade de Carga Real

CCR = CCF * (FC 1 [erodibilidade] * FC 2 [chuva] * FC 3 [social])

CCR = 5226,667 * (0,948 * 0,753 * 0,074) CCR = 276,095

Por fim, a Capacidade de Carga Efetiva. Para se obter seu cálculo, leva-se em
conta a Capacidade de Manejo (CM) da organização gestora do atrativo, a qual se
obtém por meio de uma relação entre a Capacidade de Carga Instalada (CI) e a
Capacidade de Carga Adequada (CA). Para tanto, foram consideradas as variáveis
apresentadas no quadro 4.
Quadro 4 – Capacidade adequada e instalada do atrativo
Pessoal CA CI Equipamentos CA CI Infraestrutura CA CI
Recursos 5 1 Rádio de 1 1 Banheiro 2 2
Humanos comunicação Masculino
Total 5 1 Walkie Talkie 5 5 Banheiro 2 2
Feminino
Kit de primeiros 3 1 Vestiário 1 0
socorros Masculino
Total 9 7 Vestiário 1 0
Feminino
Rampas de 3 0
Acesso
Total 9 4

Somando-se todos os itens, tem-se que a CA para a Trilha da Nascente é igual


a 23, e sua CI, 12. A partir disso, torna-se possível estabelecer a CM para a trilha,
dividindo-se a CI pela CA, multiplicando o resultado por cem, como no quadro 5.

Quadro 5 – Capacidade de Manejo do atrativo


CM = Capacidade de Carga Instalada (CI) X 100 CM = 12 x 100 = 52,17%
Capacidade de Carga Adequada (CA) 23

Por fim, submete-se a CCR à CM, de forma a obter a Capacidade de Carga


Efetiva da Trilha da Nascente, o que se observa no quadro 6.

Quadro 6 – Capacidade de Carga Efetiva


CCE = CCR x CM CCE = 276,095 * 52,17% CCE = 144,038

Conclui-se então que a capacidade atual de atendimento da Trilha da


Nascente, considerando as variáveis identificadas, é de 144 visitas diárias. Sabendo-
se que cada grupo se compõe de até oito pessoas, aponta-se para um total de 18
grupos por dia. Isso resulta numa média de intervalo de 26 minutos entre os grupos –
suficiente para diminuir os encontros na trilha.

6 Considerações finais
O meio natural é um elemento essencial para a atividade turística. Sem este
atrativo, o desenvolvimento da mesma torna-se inviável, visto que os visitantes
buscam ambientes conservados para seus momentos de lazer. Portanto, a sua
manutenção “sadia” é fundamental para que a atividade seja eficaz e duradoura.
Para que estas áreas de visitação permaneçam conservadas são necessárias
medidas decisórias, e preventivas a favor da proteção ambiental, uma vez que os
ecossistemas naturais são frágeis às intervenções humanas, e ações intensivas
podem alterá-lo de forma irreversível, sendo necessários estudos que busquem
minimizar ao máximo a degradação ambiental das áreas receptoras.
O estabelecimento de limites quantitativos para o uso turístico dos recursos
naturais, ao que se percebe, não elimina todos os impactos negativos conseqüentes
da atividade. No entanto, oferece um direcionamento no sentido de fornecer uma
perspectiva de uso que seja menos predatória. Além disso, o número controlado de
visitantes permite uma maior interação entre o ser humano e a natureza.
Por fim, proporcionar estruturas de acessos para pessoas portadoras de
necessidades diferenciadas de locomoção amplia a perspectiva posta, tanto de
interação com a natureza, quanto de inclusão de um grupo de pessoas que, a maioria
das vezes, é sistematicamente esquecida somente por possuir características
diferentes dos demais. O turismo, sobretudo o praticado em áreas naturais, que está
ligado a idéia de qualidade de vida e renovação pessoal, deve ser acessível a todos as
pessoas, independente de qualquer uma de suas condições de vida.

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