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A ELABORAÇÃO DE UMA TRILHA INTERPRETATIVA PARA O PARQUE

ESTADUAL DO ITACOLOMI / MG

Autora: Ana Flávia Diniz Teodoro


Orientadora: Profª Valéria Amorim do Carmo
e-mail: anafdiniz@yahoo.com.br
Tel.: (31) 3636-9684 / (31) 8852-5853
Eixo Temático: O Homem
Sub-eixo: Trilhas Interpretativas e Educação Ambiental

Resumo
Este trabalho discute o uso da Interpretação Ambiental como uma importante
ferramenta para o desenvolvimento do ecoturismo, sobretudo em áreas naturais
protegidas. Aborda ainda o uso da trilhas interpretativas, propondo uma sugestão de
trilha interpretativa para percurso existente no Parque Estadual do Itacolomi.

Palavras-chave: Ecoturismo, Interpretação Ambiental, Parque Estadual do


Itacolomi, Trilha Interpretativa.

Introdução
A procura por áreas naturais protegidas para fins de descanso e apreciação
tem aumentado consideravelmente. Estas áreas podem caracterizar-se por ambientes
frágeis e susceptíveis a impactos negativos mediante a presença do visitante. Diante
deste fato é preciso um planejamento capaz de aliar satisfação do usuário e
conservação do local visitado. E pensando neste planejamento, a Interpretação
Ambiental poder dar uma contribuição significativa.
A Interpretação refere-se a um mecanismo capaz de agregar valor à
experiência do visitante, e, ao mesmo tempo, possibilita a criação de uma consciência
ecológica ao permitir o melhor conhecimento do ambiente visitado.
Neste sentido, a Interpretação pode ser uma ferramenta importante na prática
do ecoturismo em áreas protegidas, sobretudo em parques, uma vez que esta é uma
categoria de Unidade de Conservação que apresenta dentre seus objetivos a
preservação da natureza aliada à visitação.
Deste modo, o trabalho discute a utilização da Interpretação Ambiental no
Parque Estadual do Itacolomi / MG e sugere uma trilha interpretativa capaz de
contribuir para a difusão de práticas ecoturísticas dentre os visitantes desta Unidade
de Conservação.
Sendo assim, o objetivo fundamental do trabalho foi a elaboração uma trilha
interpretativa enquanto mais uma alternativa de visitação para o Parque. Espera-se,
através deste meio interpretativo:
• sensibilizar o visitante a fim de gerar atitudes conservacionistas;
• proporcionar ao usuário um encontro agradável e enriquecedor com o
ambiente natural e cultural, aumentando sua satisfação;
• agregar valor à trilha já existente no parque;
• contribuir para a inserção de técnicas interpretativas no manejo da unidade
e
• levar ao conhecimento dos usuários alguns dos recursos naturais e
culturais mais relevantes e que ainda não estejam explícitos na visitação.
A opção em desenvolver uma trilha interpretativa está relacionada aos efeitos
positivos que a Interpretação pode gerar em termos de promoção do ecoturismo, ao
propor o uso dos recursos de maneira estimulante e capaz de estimular atitudes
conservacionistas.
Optou-se pelo Parque Estadual do Itacolomi por se tratar de uma Unidade de
Conservação - portanto, legalmente protegida - aberta à visitação e que oferece
atividades recreativas com presença de alguns elementos interpretativos em suas
trilhas. Outro fator que influenciou na escolha da área está relacionado aos elementos
históricos de sua ocupação e que se tornaram marcantes para o local, inclusive em
termos de atratividade para o turismo. Acrescenta-se a isso o fato do Parque estar
situado em dois municípios turísticos importantes para o Estado, Ouro Preto e Mariana
além de sua proximidade com a capital mineira. Razões as quais facilitam o acesso à
Unidade e podem atrair tanto os turistas que visitam os municípios mencionados como
a comunidade local e pessoas da região.

Procedimentos Metodológicos

Fez-se pesquisa exploratória a fim levantar bibliografias sobre Interpretação


Ambiental, Ecoturismo e Unidades de Conservação que contribuíssem para a
realização da discussão teórica. Foram consultadas ainda fontes secundárias relativas
ao Parque Estadual do Itacolomi para levantamento de seus aspectos naturais,
históricos e de gestão.
Realizaram-se visitas à Campo e entrevistas semi-estruturadas com
funcionários e monitores da Unidade a fim de colher informações relevantes para o
Planejamento da trilha.
Em tal planejamento, a partir da escolha do percurso, desenvolveu-se o tema
da trilha interpretativa, definindo os pontos de parada e locais que apresentaram
necessidade de intervenção em termos de melhorias nas estruturas físicas.

Discussão

O contato com a natureza sempre foi para o ser humano uma experiência
prazerosa e gratificante. A princípio não se pensava nos impactos que este contato
podia gerar, pois se acreditava que os recursos eram infindáveis e sua exploração se
justificava em favor do progresso. Somente com a grande destruição e a ameaça de
extinção de tais recursos, essenciais à manutenção da vida humana, que surge a
preocupação em conservar a natureza. (KINKER, 2002).
Com o intuito de proteger áreas cuja interferência humana ainda era reduzida
criou-se nos Estados Unidos, em 1872, o primeiro Parque Nacional do mundo, o
Yellowstone National Park. O modelo norte-americano foi o primeiro no
estabelecimento de áreas protegidas. Apesar de duramente criticado por criar,
segundo Diegues (1994), “ilhas de conservação” - inabitadas e protegidas do
desenvolvimento urbano industrial - este foi um modelo bastante difundido e adotado
em diversos países, inclusive no Brasil.
Passado mais de um século de instituição deste modelo, mudanças e avanços
se procederam. Entretanto, ainda persistem diversos problemas como, por exemplo, a
instituição e gestão de Unidade de conservação sem consulta à sociedade e a
restrição ou proibição do uso da terra às pessoas que antes dependiam dela. Estas
são questões que permanecem atuais em muitas áreas protegidas brasileiras.
Paralela a tal realidade, as Unidades de Conservação, principalmente os
parques, tem recebido uma crescente demanda em busca da prática do chamado
turismo de natureza, cuja principal motivação é o contato com a natureza preservada.
No entanto, para a prática turística em áreas protegidas existem restrições de
acordo com a categoria de Unidade de Conservação. No Brasil, as categorias de
Unidade se dividem em dois grupos: Unidades de Proteção Integral e Unidades de
Uso Sustentável, estabelecidas pelo Sistema Nacional de Unidade de Conservação
(SNUC) - lei que estabelece critérios e normas para criação, implantação e gestão
das Unidades de Conservação Brasileiras. Ao mencionar a prática de turismo nas
Unidades cuja visitação é permitida, a lei aborda o termo ecoturismo como a prática
recomendável em tais áreas.
O princípio fundamental do Ecoturismo é a sensibilização do turista e da
comunidade, a fim de criar uma consciência ambientalista que contribua para a
preservação dos recursos do local. A essência da atividade está, portanto, no
compromisso com a conservação da área visitada. Kinker (2002:23) destaca que “o
Ecoturismo deve seguir princípios (código de ética) e oferecer um lazer dirigido, para
minimizar os impactos negativos potenciais e maximizar os positivos”.
Neste contexto, acredita-se que o ecoturismo, mais que uma modalidade, é
um “conjunto de princípios aplicáveis a qualquer tipo de turismo que se relaciona com
a natureza” (LINDBERG e HAWKINS, 2002:21), tendo como foco o compromisso do
indivíduo em conservar o meio natural.
O incentivo a atividades ecoturísticas possibilita maior aprendizado e
compreensão dos visitantes quanto às restrições de uso à visitação nas áreas
protegidas. O papel educativo do ecoturismo também possibilita a população local
tenha oportunidade de conhecer sobre a área e reconhecer o valor de suas tradições.
(KUTAY, 1990 apud WEARING e NEIL, 2001)
No planejamento do ecoturismo a Interpretação Ambiental bem como a
Educação e Recreação Ambiental são instrumentos que contribuem para a mudança
de comportamento do visitante.
A Interpretação do patrimônio natural e cultural busca educar o visitante para
um olhar mais atento, instigando-o a desvendar os significados e as singularidades do
local. Ao propiciar uma experiência diferenciada, a Interpretação gera efeitos mais
satisfatórios do que a simples transmissão de informações, revelando o valor e
importância do lugar. O resultado é o aumento da satisfação e entendimento do
visitante, o que poderá ampliar sua consciência e gerar atitudes conservacionistas.
Deste modo, a Interpretação Ambiental é uma estratégia que serve ao ecoturismo ao
contribuir para o alcance dos objetivos de conservação e por isso também, sua prática
é eficaz em áreas protegidas.
A Interpretação da natureza teve sua origem relacionada com a atividade
turística, ainda no final do século XIX nos parques norte-americanos. Pessoas que
conheciam bem aqueles lugares conduziam excursões por rotas e trilhas,
proporcionando maior interação entre o turista e o local (ANDRADE, 2003).
O primeiro e também principal autor que escreveu sobre o assunto foi
Freedmam Tilden, sendo considerado o “pai” da Interpretação Ambiental. Em 1957,
ele publicou o livro “Interpreting Our Heritage” que se tornou um clássico muito
utilizado ainda hoje no planejamento interpretativo (CARVALHO et al, 2002). Tilden
teve papel fundamental no desenvolvimento da Interpretação Ambiental,
estabelecendo suas bases e filosofias através da determinação de princípios e
características, a fim esclarecer e orientar a prática interpretativa.
Foram definidos seis princípios e seis características da Interpretação
Ambiental. O primeiro princípio da Interpretação é relacionar a mensagem que se
pretende comunicar com a experiência e realidade do público ao qual se destina. Isto
possibilita que o visitante se identifique com o lugar ou com os fatos mencionados.
Relaciona-se a este princípio a característica de que a Interpretação deve ser
significativa para o visitante. Portanto, deve-se relacionar o objeto ou assunto
interpretado com algo da vivência e cotidiano do visitante, facilitando sua
compreensão e ampliando seus conhecimentos.
O segundo princípio diz que a Interpretação não é mera informação. Ela se
baseia nesta para transmitir a mensagem a que se propõe. A Interpretação mais que
informar deve revelar significados, inter-relações e questionamentos sobre o assunto
abordado. O indivíduo deve ser provocado e persuadido a fim de despertar uma
postura de comprometimento com o ambiente visitado. Assim, relaciona-se a esta
idéia outro princípio de Tilden, defendendo que a Interpretação é provocativa na
medida em que busca despertar o visitante para fatos que eventualmente não seriam
percebidos, mas que podem levá-lo a reflexões acerca do assunto interpretado.
A fim de caracterizar a Interpretação segundo estes dois princípios, Tilden
afirma que a atividade interpretativa deve ser provocante, para levar o visitante a uma
reflexão mais profunda de modo que ele não seja simplesmente instruído com
informações, mas conduzido a perceber as relações e conseqüências do foi
apresentado. Pode-se fazer uso, por exemplo, de perguntas que induzam o público a
refletir sobre determinada situação e que seja capaz de conduzi-lo a suas próprias
respostas e soluções. Trata-se aqui de despertar a curiosidade do visitante e orientá-lo
de modo que ele mesmo seja capaz de satisfazer tal curiosidade. (PAGANI et al.,
1996)
Dentro da filosofia desenvolvida por Tilden, tem-se ainda o princípio de que a
Interpretação Ambiental é uma arte que combina com outras artes. Ela deve utilizar
diversos recursos e estimular o uso dos sentidos na transmissão da mensagem. Neste
contexto, tem-se a característica de que a Interpretação Ambiental deve ser prazerosa
a fim de manter a atenção do público. Para tal, a Interpretação deve ser amena,
cativante e interativa, apresentando variadas estratégias de acordo como o meio de
comunicação utilizado, mas que não lembre um ambiente de formalidade. Assim,
pode-se ter diferentes artifícios como movimento, música, cores vivas, humor,
recursos tridimensionais, uso de metáforas, histórias e ilustrações.
Um outro princípio de Tilden é que a Interpretação deve direcionar-se a
públicos determinados e, para cada grupo específico, o planejamento da atividade
deve se fazer de maneira diferenciada. Assim, a Interpretação para crianças ou
adultos, cientistas ou público leigo, deficientes visuais, dentre outros, não será a
mesma, uma vez que a cada um cabem linguagens e interesses distintos. Tem-se aqui
a característica de que a Interpretação Ambiental deve ser diferenciada, à medida que
cada tipo de visitante apresenta vivências e conhecimentos específicos. Portanto, para
que os programas interpretativos sejam mais eficientes, eles devem ser adequados a
cada perfil de público. Isto não significa fazer atividades interpretativas para cada
pessoa, mas deve-se eleger os perfis de demanda mais freqüentes ou mesmo,
públicos de interesse, para então buscar adequar a atividade interpretativa à realidade
de tais públicos.
Ao apresentar de maneira interpretativa um assunto, este não deve ser
fracionado, mas deve partir de um todo. Este último princípio busca facilitar as inter-
relações entre os elementos, sem prejudicar a compreensão da mensagem principal.
Duas características da Interpretação relacionam-se a este princípio: a atividade
interpretativa deve ser organizada e temática.
A organização das informações facilita seu acompanhamento, reduz os
esforços e evita que haja dispersão do receptor da mensagem. Além disso,
recomenda-se que sejam apresentadas não mais que cinco idéias novas, pois estudos
comprovaram que a capacidade de memorização de informações novas de uma só
vez varia entre cinco e nove. Trabalhar neste limite facilita a conexão e aumentam as
chances do público continuar prestando atenção. Estas idéias devem estar
organizadas em um tema que comunique a mensagem a qual norteará todo o
processo interpretativo, de modo que ao final fique claro para o público o que se
pretendia com a Interpretação (CARVALHO et al, 2002).
A partir dos princípios e características, a Interpretação Ambiental pode ser
utilizada em diferentes meios, dentre eles têm-se as trilhas.
Uma trilha interpretativa tem como objetivo direcionar o olhar do visitante para
elementos, características e fatos relacionados ao ambiente que ele não enxergaria,
seja por distração ou desconhecimento. Elas podem apresentar dois métodos básicos
de Interpretação: guiada e autoguiada. A escolha do método que se pretende adotar
dependerá dos objetivos da trilha e, sobretudo, da disponibilidade de pessoal
preparado para a condução dos visitantes.
As trilhas são meios bastantes comuns em áreas protegidas e servem a
diferentes usos como, por exemplo, contemplação da natureza e caminhada.
Assim, o uso de técnicas interpretativas em Unidades de Conservação - seja
através de trilhas interpretativas ou outros meios - pode minimizar os efeitos negativos
que a visitação crescente pode gerar. No Brasil, o uso de tais técnicas se faz presente
em alguns parques. Em Minas Gerais, o Instituto Estadual de Florestas – IEF/MG vem
trabalhando na estruturação do programa de visitação dos parques estaduais cuja
atividade seja permitida. A inserção de atividades interpretativas também é uma
incentivada pela instituição.
O Parque Estadual do Itacolomi
Situado nos municípios de Mariana e Ouro Preto, O Parque Estadual do
Itacolomi localiza-se na região sudeste de Minas Gerais, a cerca de 100 Km da capital
mineira e apresenta facilidade de acesso por estrada asfaltada até sua portaria, além
de apresentar grande proximidade dos distritos-sede, como ilustra a figura 1.

Figura 1: Mapa de localização e acesso ao Parque Estadual do Itacolomi


A história de ocupação da região onde se situa o parque é bastante antiga,
estando relacionada, inclusive à história de Ouro Preto e Mariana. São cerca de
300 anos em que diversos processos de exploração econômica aconteceram no
local, até se tornar uma área protegida. Este processo de ocupação deixou traços
marcantes no território, de modo a reunir valores histórico-culturais e
características naturais que contribuíram na formação da paisagem local.
No processo de ocupação da área destacaram-se atividades como a
extração do ouro e do ferro, a lavoura de subsistência, a criação de gado, o
reflorestamento para a produção de carvão vegetal, a extração da lenha e a cultura
do chá preto (MEDINA e MARINHO, 1994). Como testemunhos destas
explorações restaram ruínas, monumentos e marcas na paisagem. O Parque foi
criado em 1967, o que não impediu a exploração irregular de recursos até fins da
década de 1980, mantendo apenas no papel por muitos anos (MEDINA e
MARINHO, 1994).

Entre os anos de 1998 e 2004, a Unidade de Conservação passou por


processo de adequação de suas instalações com o objetivo de abertura oficial ao
público. Foram feitas adequações relativas à infra-estrutura para recepção dos
visitantes.

A sede do Parque localiza em local que outrora era uma Fazenda, a Fazenda
São José do Manso e onde se concentra a maioria dos atrativos disponíveis à
visitação. São preservados no local: a antiga casa sede da Fazenda, chamada de
Casa Bandeirista, edificada entre 1706 e 1708; o local onde se situava uma fábrica de
beneficiamento de chá e que atualmente abriga o Museu do Chá; e o Centro de
Treinamento e recepção de visitantes, que antes servia de galpão para secagem das
folhas de chá. Existem ainda duas lagoas artificiais e três trilhas (do Forno, da Capela
e da Lagoa), sendo que em uma delas há ruínas de uma olaria. Os visitantes contam
com monitores para acompanhá-los pelas trilhas e pelos atrativos históricos, dando
maiores informações sobre a história local. O parque possui sistema de sinalização em
placas de vidro. Além de placas de orientação, algumas são educativas, contendo
recomendações aos visitantes quanto ao cuidado com a conservação do ambiente.

Figura 2: Placa de sinalização Figura 3: Placa Educativa

Dentro do Parque foram instalados diversos marcos da Estrada Real, inclusive


o marco zero. Estes delimitam os trechos por onde passou a Estrada Real.
A elaboração do plano de manejo1 do Parque está em processo de conclusão
e sua ausência limita a visitação na Unidade de Conservação.

Avaliação do sistema de trilhas do Parque

As trilhas interpretativas existentes no Parque foram criadas por professores e


graduandos da Universidade Federal de Ouro Preto e se localizam em ecossistemas
típicos de cerrado e remanescentes de Mata Atlântica. O relatório de criação (SOUSA,
2004) das trilhas traz a caracterização natural dos ambientes e aponta os assuntos
potenciais para abordagem durante a visita em cada trilha. Como exemplo cita-se a
ação antrópica, a sucessão ecológica e a importância da vegetação na preservação
dos recursos hídricos. Além disso, o relatório estabeleceu os pontos de parada de
cada trilha e sugere que a Interpretação Ambiental nas trilhas deve seguir as
características de Tilden. No entanto, tais características não foram detalhadas no
trabalho, o que prejudica o trabalho dos monitores, uma vez que estes utilizam este
documento como principal fonte de preparação e treinamento.
Assim, a iniciativa do parque de implementar a Interpretação Ambiental traz
grande mérito, pois demonstra uma postura cuidadosa diante da visitação. Trata-se de
um trabalho que tem obtido bons resultados, que puderam ser comprovados tanto pela
pesquisa de demanda realizada na Unidade como através da observação de grupos
durante trabalhos de campo, apresentando bons níveis de satisfação dos visitantes.

A inserção de atividades recreativas durante a visita às trilhas destaca-se entre


as atividades mais apreciadas pelo público e contribui para a satisfação dos visitantes.

No entanto, observa-se ainda deficiências em termos da aplicação da


Interpretação Ambiental no sistema de trilhas desenvolvido no Parque Estadual do
Itacolomi. O que é tratado como tema da trilha na verdade, são assuntos gerais,
chamados na Interpretação de tópicos. Há necessidade de melhor desenvolvimento do
tema para que este oriente a visita, para que as informações não sejam apresentadas
de maneira fragmentada e desconexa, o que ainda predomina atualmente e dificulta
compreensão da mensagem pelo público.

Muitas das características da Interpretação Ambiental já são utilizadas na


atividade guiada do Parque. Mas, este trabalho é feito de maneira inconsciente, de
acordo com os conhecimentos e habilidades de cada monitor. É necessário aprofundar
os estudos sobre Interpretação Ambiental, para que o monitor seja também o
Intérprete capaz de utilizar plenamente a Interpretação em favor de seu trabalho.

1
Instrumento oficial utilizado para o planejamento das Unidades de Conservação
Assim, foi sugerido um tema interpretativo a ser desenvolvido em uma das
trilhas já existentes no Parque Estadual do Itacolomi. A trilha escolhida foi a Trilha do
Forno. Ela tem aproximadamente 1.200 metros de extensão e percorre uma área de
baixada, adentrando em uma grota no sentido de uma das muitas nascentes
formadoras do Córrego do Manso. Em termos de características naturais a área era
vegetada por uma formação florestal que foi degradada em função da intensa
exploração econômica ocorrida no local.
A trilha é interessante devido às mudanças ambientais que podem ser notadas
no percurso, em função da presença da água. Assim, o início da trilha é uma área
mais ensolarada, de vegetação predominantemente herbácea, representada por
gramíneas. Em seguida, a vegetação transita para um porte mediano e, à medida que
avança pela trilha, torna-se mais intensa, sendo marcada por espécies arbóreas
diversas. Passa-se então para um trecho sombreado, úmido e mais frio, em que a
presença da água torna-se marcante, tendo ocorrência de solos encharcados em
vários pontos e de pequenos cursos d’água. Nestas áreas alagadas predominam
espécies da família da Mirtácea. Outra característica que pode ser observada no solo
é a presença de grande quantidade de serrapilheira (folhas caídas).
No fim do percurso, a vegetação torna-se novamente mais baixa,
predominando o porte herbáceo como no início da trilha.
Ao final do trajeto existem ruínas de um forno cerâmico, provavelmente da
Olaria Roque Pinto, responsável pelo nome da trilha. Além das ruínas do forno de
pedra, há vestígios de uma suposta casa onde ficavam os trabalhadores da olaria e
um local onde provavelmente era amassado o barro. O caráter histórico pelo qual a
trilha está inserida é também demonstrado pela presença de plantas remanescentes
do cultivo e produção do chá preto ao longo do percurso. A lagoa no início da trilha e a
área de camping, que se localiza onde outrora havia uma pocilga, são resquícios do
período em que a Fazenda do Manso era de propriedade do historiador Tarquínio
Barbosa de Oliveira. As marcas históricas deixadas na paisagem da trilha destacam
seu potencial histórico.
A trilha do Forno foi escolhida por reunir aspectos naturais e culturais que
exprimem muito da história do lugar em termos ecológicos e de ocupação. Além disso,
por se tratar de uma trilha em uso, já possui intervenções em sua estrutura física que
facilitam a visitação, como escadas, corrimãos e um local para descanso com bancos.
Em razão da influência dos diversos processos de ocupação que ocorrem na
área onde se situa a trilha e por haver ainda na paisagem testemunhos desta história,
o tópico selecionado foi: “como o histórico de ocupação da área influenciou na
formação da paisagem existente hoje”.
Em função deste tópico desenvolveu-se o seguinte tema:
“Os diversos usos no processo de ocupação da área influenciaram na
formação da paisagem atual”.
A definição dos pontos de parada e a seleção do que seria trabalhado em cada
um deles foi feita através das informações adquiridas em campo e por meio de
pesquisas em documento sobre o histórico do parque e no relatório de criação das três
trilhas interpretativas para o Parque Estadual do Itacolomi.
Ao desenvolver a atividade interpretativa alguns cuidados foram tomados.
Houve a preocupação em fazer a conexão entre os pontos, de modo a facilitar a
compreensão pelo público. O uso de perguntas e questionamentos aos visitantes
objetivou motivá-los a participar, interagir e refletir sobre a idéia trabalhada.

Sugere-se que a trilha seja guiada e destinada ao público jovem e adulto, uma
vez que o percurso é relativamente longo e requer cuidados devido a pontos mais
inclinação no terreno e locais escorregadios devido a alta umidade.
O número máximo de visitantes para realização da trilha proposta é de 10
pessoas. Grupos maiores podem prejudicar a atividade interpretativa e são inviáveis
principalmente porque se tratar de uma trilha estreita na maior parte do percurso, em
que as pessoas andam uma atrás da outra.
A linguagem sugerida é a mais simples possível, a fim de manter a clareza nas
informações e facilitar a compreensão do visitante. Foram definidos 12 pontos de
parada, assim distribuídos no percurso da trilha ilustrado na figura 4.
De maneira resumida, detalha-se a seguir o que deve ser abordado em cada
ponto de Parada.
Ponto Inicial: Apresentação
O monitor deve apresentar-se ao grupo e dar informações sobre a trilha, como
seu nome, a distância, grau de dificuldade e tempo aproximado do percurso. Sugere-
se ainda a realização de uma atividade recreativa de apresentação do grupo, caso as
pessoas não se conhecem, contribuindo para criar um ambiente informal e
descontraído.
Ponto 1: Eucalipto e Lagoa
Pedir que os visitantes observem uma árvore (eucalipto) e descubram qual é a
espécie. Em seguida falar sobre espécies exóticas e a presença de uma floresta de
eucaliptos de 270 hectares dentro do Parque. A floresta fora plantada para fornecer
carvão a uma Usina de Ferros de Liga.
Além do eucalipto, há neste ponto uma lagoa artificial, outro elemento que
retrata a interferência do homem no meio.
Figura 4: Percurso e pontos de parada da Trilha do Forno

Ponto 2: Samambaia de Barranco


O monitor deve estimular o visitante a observar a grande quantidade de uma
espécie de samambaia popularmente chamada de samambaia de barranco. A planta
indica que o local passou por degradação e está iniciando seu processo de
recuperação.
Neste momento, apresenta-se o tema interpretativo, destacando que a área
passou por diversos tipos de exploração ao longo de 300 anos. Durante o percurso o
visitante saberá um pouco mais sobre alguns destes processos de uso da terra.
Ponto 3: O Historiador Tarquínio Barbosa de Oliveira
Deve-se recuperar a imagem da primeira lagoa, fazendo referência a outra não
mais existente, mas que deixou grande impacto visual na paisagem. Tais lagoas foram
construídas quando a Fazenda São José do Manso pertencia ao historiador Tarquínio
Barbosa de Oliveira, a partir da década de 1960. O historiador, além de desenvolver a
piscicultura, tentou retomar a produção de chá preto, produto de grande sucesso na
fazenda, entre os anos de 1930 e 1950, quando havia a fábrica de beneficiamento do
Chá. Aqui, deve-se fazer referência ao Museu do Chá onde funcionava a fábrica.
A atuação de Tarquínio como homem do campo foi um fracasso, tanto na
produção do chá como na piscicultura. A atividade, associada à criação de porcos,
gerou o fenômeno de entrofização, que levou ao fim criação de peixes da fazenda em
razão da grande concentração de matéria orgânica na água, gerada pelo elevada
quantidade de fezes advindas de pocilgas.
Ponto 4: A produção do Chá
Neste ponto deve-se falar de outra produção que ocorreu de maneira intensa
na fazenda, a produção do chá da Índia ou chá preto. Deve-se retomar a idéia de
espécie exótica, tratada no ponto 1, por ser esta outra espécie exótica presente no
parque. A produção do chá ocupou grandes áreas da fazenda e prosperou quando a
propriedade pertenceu a José Salles de Andrade, sendo marcada por interessantes
histórias. Curiosidades acerca da produção podem prender a atenção do visitante
durante a conversa, sendo uma delas o fato de somente as mulheres fazerem a
colheita, por necessitar de delicadeza ao colher o broto da folha com as duas mãos,
para que este não sofresse qualquer tipo de dano.
O monitor poderá ainda chamar a atenção do visitante para observar a
presença da planta ao longo do percurso, sobretudo em trechos com maior quantidade
de água em função da planta se desenvolver em terrenos encharcados.
Ponto 5: Bancos
Ponto de descanso onde há bancos e um pequeno córrego. O local possui
vegetação de maior porte e encontra no fundo de um vale, chamado de grotão, onde
emergem pequenos córregos formados por inúmeras nascentes. Neste “grotão” se
concentrou grande parte da produção da planta que se extraí a folha do chá em razão
da grande umidade do ambiente. A alteração do ambiente devido ao aumento da
umidade é claramente perceptível. Por isso, enquanto as pessoas descansam o
monitor deve estimular tal percepção e falar da importância da água e da preservação
da mata para proteção das nascentes.
Sugere-se em seguida, fazer uma dinâmica de observação da paisagem
através de um espelho, possibilitando ao visitante um outro ângulo de visão da mata.
Ponto 6: Araucária
Neste ponto há araucárias que se destacam dentre as outras árvores. Assim, o
visitante deve ser estimulado a encontrá-las e em seguida observar as diferenças em
seu porte em termos das demais árvores da mata. Apesar de não ser uma espécie
típica da região, pode-se observar muitas destas árvores na área da Fazenda do
Manso. Algumas hipóteses tentam explicar tal presença. O monitor deve perguntar se
alguém conhece uma das hipóteses e estimular que descubram.
Ponto 7: Alagado
Neste ponto há uma área alagada coberto por plantas aquáticas. Trata-se de
um local bastante singular pela beleza, mas que requer atenção para encontrá-lo.
Assim, este ponto será mais de observação, retomando a idéia de ambiente alagado e
fazendo uma brincadeira para que as pessoas encontrem um pequeno curso d’água
mais a frente. Basta observar as mudanças de umidade do solo e ouvir o barulho da
água.
Ponto 8: Argila
Há no local um buraco onde possivelmente se amassava o barro que servia de
matéria-prima de uma olaria. O monitor deve fazer com que as pessoas encontrem o
local sem especificar o que se trata, lembrando apenas que está relacionado ao nome
da trilha, o qual faz referência a um forno.
Ponto 9: Forno
Logo após o buraco, há o forno. O monitor não deve conduzir as pessoas ao
forno, mas deixa-las descobrir sozinha. Trata-se de uma ruína muito marcante na
paisagem. O monitor deve contar a história da olaria, que produziu telhas na Fazenda,
no século XVIII.
Ponto 10: Paisagem do grotão
Este ponto encontra-se já ao final da trilha e ao observar o percurso realizado,
verifica-se claramente a presença do vale - mencionado no ponto 5 - como uma
espécie de grotão presente na paisagem coberta pela vegetação de mata.
Ponto Final: Final
Neste último ponto há resquícios de alvenaria das pocilgas, mencionadas no
ponto 3, onde atualmente existe uma ampla estrutura de camping, que ainda não está
disponível aos visitantes.
Neste ponto, deve-se retomar o tema e concluir o passeio, destacando a
importância da Unidade de Conservação como instrumento legal de preservação e
recuperação dos recursos observados durante o percurso.

Considerações Finais
Sabe-se que a Interpretação Ambiental deve fazer parte do planejamento do
ecoturismo em áreas naturais e avanços têm ocorrido para se implementar as
atividades interpretativas em tais áreas no Brasil. O Parque Estadual do Itacolomi
demonstrou tal interesse desde 1993, em documento elaborado para criação de um
programa de visitação no parque. No entanto, observa-se a necessidade de um
estudo mais aprofundado do que seja a Interpretação Ambiental e de que maneira ela
pode ser inserida nas atividades oferecidas aos visitantes.
Acredita-se que a implementação do plano de manejo no Parque Estadual do
Itacolomi deve ocorrer em breve e contribuirá para a criação e diversificação de
atividades destinadas aos visitantes. A realização de um projeto de Educação
Ambiental no Parque já demonstrou os benefícios que esta pode gerar. Por isso,
sugere-se a criação de um programa contínuo de Educação Ambiental e a ampliação
do uso da recreação na Unidade.

Referências Bibliográficas
ANDRADE, Waldir Joel de. Implantação e Manejo de Trilhas. In: MITRAUD, Sylvia
(org.). Manual de Ecoturismo de Base Comunitária: ferramentas para um planejamento
responsável. Brasília: WWF Brasil, 2003. p. 247-260.

BRASIL. SNUC –Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Lei n. 9.985 de 18


de julhode 2000. Disponível em: < http://www.mma.gov.br> . Acesso em: 02 mar.
2006.

CARVALHO, Francisco Neves et al. Manual de Introdução à Interpretação Ambiental.


Belo Horizonte: IEF/ MG, IBAMA, 2002. 104 p.

DIEGUES, Antonio Carlos Sant’Ana. O Mito Moderno da Natureza Intocada. 2. ed. São
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