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UNIVERSIDADE DE LISBOA

FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

“QUANDO UM CÔNJUGE ESTÁ DEPRIMIDO”…


O PAPEL DA VINCULAÇÃO, DO SUPORTE CONJUGAL E DAS
ESTRATÉGIAS DE COPING NA ADAPTAÇÃO CONJUGAL À
DEPRESSÃO

Rute Susana Monteiro Garcia

MESTRADO EM PSICOLOGIA
Área de Especialização em Stress e Bem-Estar

2006
UNIVERSIDADE DE LISBOA
FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

“QUANDO UM CÔNJUGE ESTÁ DEPRIMIDO”…


O PAPEL DA VINCULAÇÃO, DO SUPORTE CONJUGAL E DAS
ESTRATÉGIAS DE COPING NA ADAPTAÇÃO CONJUGAL À
DEPRESSÃO

Rute Susana Monteiro Garcia

MESTRADO EM PSICOLOGIA
Área de Especialização em Stress e Bem-Estar

Dissertação orientada pela Professora Doutora Maria Teresa Ribeiro

2006

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RESUMO DA INVESTIGAÇÃO

A depressão é uma das doenças mais prevalentes da sociedade actual, tendo importantes
custos individuais, familiares, sociais e económicos. À luz da teoria sistémica, a
depressão é entendida como um acontecimento de vida potenciador de crise no sistema
familiar, ao qual este tem se adaptar. Na perspectiva dos modelos de stress familiar, a
adaptação à depressão de um dos membros da família, implica o esforço de todos os
elementos do sistema com vista a alcançar um equilíbrio entre as exigências impostas
pela situação de crise e os recursos que o sistema dispõe. A literatura tem vindo a
demonstrar a importância do estilo de vinculação, do suporte conjugal e das estratégias de
coping funcionais, como recursos a considerar no processo de recuperação da depressão.
O presente estudo empírico tem como objectivo analisar o papel de alguns recursos –
vinculação, suporte conjugal e estratégias de coping familiar – na adaptação do casal à
depressão. Para o efeito, uma amostra de 57 casais com um dos membros diagnosticado
com depressão, respondeu a um conjunto de questionários que pretendem avaliar a
qualidade da vinculação ao cônjuge (Questionário da Vinculação Amorosa; Matos &
Costa, 2001, versão revista), o suporte conjugal (Inventário da Qualidade das Relações –
subescala de Suporte Social; Pierce e colaboradores, 1997), as estratégias de coping
familiar (Escalas de Avaliação Pessoal Orientadas para a Crise Familiar, McCubbin,
Larsen & Olson, 1981) e a satisfação conjugal (Escala de Avaliação da Satisfação em
Áreas da Vida Conjugal, Narciso & Costa, 1996). Os resultados indicam que o nível de
confiança de cada um dos cônjuges e a utilização de estratégias de reenquadramento para
lidar com a crise associada à depressão predizem a adaptação do casal à depressão. Um
estilo de vinculação seguro, e a percepção de níveis elevados de suporte conjugal são
igualmente recursos importantes no processo de adaptação à doença.

Palavras – Chave: Depressão, Stress Familiar, Adaptação, Vinculação, Suporte


Conjugal, Estratégias de Coping Familiar

3
ABSTRACT

The depression is one of the prebravest diseases of the current society, having important
individual, familiar, social and economical costs. By the light of the systems theory, the
depression is understood how an event of life that can produce a crisis in the familiar
system, to which this one has to adapt. In the perspective of the models of family stress,
the adaptation to the depression of one of the members of the family, implicates the effort
of all the elements of the system with sight to reach a balance between the demands
imposed by the situation of crisis and the resources what the system arranges. The
literature has been coming to demonstrate the importance of the style of attachment, of
the conjugal support and of the strategies of coping, like resources to consider in the
process of recuperation of the depression. The objective of the present empirical work is
to analyse the importance of some resources – attachment, marital support and family
coping strategies – in the adaptation of the couple to the depression. For the effect, a
sample of 57 couples with one of the members diagnosed with depression, responded to a
set of questionnaires that intend to value the quality of the attachment to spouse
(Questionário da Vinculação Amorosa; Matos & Costa, 2001, revised version), the
marital support (Quality of Relationships Inventory – Social Support Subscale; Pierce e
colaboradores, 1997), the family coping strategies (Family Crisis Oriented Personal
Evaluation Scales, McCubbin, Larsen & Olson, 1981) and the conjugal satisfaction
(Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal, Narciso & Costa, 1996).
The results indicate that the level of confidence of each one of the spouses and the use of
strategies of reframing to deal with the crisis associated to the depression predict the
adaptation of the couple to the depression. The style of attachment and the perception of
elevated levels of marital support are equally important resources in the process of
adaptation to the disease.

Keywords: Depression, Family Stress, Adaptation, Attachment, Marital Support, Family


Coping Strategies

4
AGRADECIMENTOS

À Professora Doutora Maria Teresa Ribeiro, pelo rigor e profissionalismo. Pelo


apoio e disponibilidade constantes. Pela confiança e palavras de incentivo nos momentos
mais complicados.
À Professora Doutora Alexandra Marques Pinto, pela motivação e entusiasmo.
Pela excelente coordenação do mestrado. Pelo sorriso sempre presente.
Ao Professor Doutor Marco Paulino, pela disponibilidade e apoio no processo de
recolha da amostra. Pela calma. Pelo respeito que tem para com todos os seus doentes.
Ao Professor Doutor Daniel Sampaio, pela possibilidade de recolha da amostra na
Consulta Externa do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria.
À Professora Doutora Paula Mena Matos, ao Professor Doutor João Moreira, à
Professora Doutora Isabel Narciso e à Professora Doutora Maria Cristina Canavarro pela
autorização na utilização dos instrumentos de avaliação e cedência de material
bibliográfico.
Ao Professor Doutor Luís Curral pela preciosa ajuda na resolução das
dificuldades estatísticas.
A todos os casais que participaram no estudo. Sem eles nada teria sido possível.
À Equipa da Associação Comunitária de Saúde Mental de Odivelas por ao longo
deste tempo ter compreendido e permitido a frequência deste mestrado.
Aos meus «meninos» por sempre terem compreendido as ausências da sua
«doutora». Pelos seus sorrisos marotos. Pelo carinho com que sempre me trataram.
À Maria João Vilhena, querida amiga e colega destas aventuras, pela amizade e
apoio que sempre me dedicou.
Aos meus amigos, em especial à Maria João Cardoso e à Ana Pires, pela
paciência infinita, pela compreensão, pela ternura, pelo apoio sempre presentes.
A todos os psicólogos que me ajudaram na recolha da amostra. Um
agradecimento especial à Sónia Santos e à Sara Guerreiro.
Aos meus pais, Bia e Zé Manel, e à minha irmã Raquel, pela pessoa que sou hoje,
pelo afecto, segurança e apoio inabaláveis. Por estarem sempre presentes na minha vida.
Ao Luís, por tudo o que não é possível descrever…

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Andava errante, perdido no passado, querendo voar, porém, temendo-o.
Foi então que alguém como tu encontrou alguém como eu.
E, subitamente, nada é já o mesmo.
Leslie Bricusse

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ÍNDICE

Introdução……………………………………………………………………………………….14
I – Fundamentação Teórica…………………………………………………………………….18
Capítulo 1 – Conjugalidade, crise e adaptação………………………………………………….19
1.1 – Definindo conjugalidade(s)………………………………………………………………...20
1.2 – O que é ser «um casal»……………………………………………………………………..22
1.2.1 – A formação do casal………………………………………………………………….22
1.2.2 – Como funciona um casal – comportamentos, cognições e emoções na
conjugalidade…………………………………………………………………………………24
1.2.2.1 – Processos comportamentais……………………………………………………26
1.2.2.2 – Processos cognitivos…………………………………………………………...27
1.2.2.3 – Processos emocionais…………………………………………………………..28
1.2.3 – Teorias Psicológicas da conjugalidade……………………………………………….30
1.2.3.1 – Teorias sociais………………………………………………………………….30
1.2.3.2 – Teorias psicodinâmicas………………………………………………………...31
1.2.3.3 – Teoria geral dos sistemas………………………………………………………32
1.2.3.4 – Teoria da vinculação…………………………………………………………...33
1.2.3.4.1 – A teoria da vinculação: os primórdios………………………………33
1.2.3.4.2 – A perspectiva do amor romântico como processo de vinculação…...35
1.2.3.4.3 – Vinculação e regulação emocional……………………………….....41
1.2.3.4.4 – Desenvolvimento de outras medidas de vinculação………………...42
1.2.3.4.5 – Vinculação e qualidade / satisfação na relação conjugal……………43
1.2.3.4.6 – Vinculação e comunicação………………………………………….44
1.2.3.4.7 – Vinculação e sexualidade……………………………………………45
1.2.3.4.8 – Vinculação e stress…………………………………………………..47
1.2.3.4.9 – Vinculação e conjugalidade – uma síntese………………………….48
1.3 – Formas de conjugalidade – acontecimentos de vida normativos e não normativos no ciclo de
vida familiar………………………………………………………………………………………50
1.3.1 – Adaptação, resiliência e stress familiar…………………………………………..53
1.3.2 – Modelos de stress familiar……………………………………………………….54

Capítulo 2 – A depressão no casal……………………………………………………………….61


2.1 – A depressão enquanto doença psicológica – um breve olhar……………………………….62

7
2.1.1 – A depressão – dados estatísticos…………………………………………………67
2.2 – Expressões e contextualizações da depressão no casal……………………………………..69
2.3 – Acções e reacções do casal à depressão – a vinculação, o suporte social e o coping familiar
no processo de adaptação do sistema à crise familiar…………………………………………….75
2.3.1 – Vinculação e depressão…………………………………………………………..75
2.3.2 – Suporte social…………………………………………………………………….79
2.3.2.1 – Suporte social e depressão…………………………………………….81
2.3.2.2 – Suporte conjugal e depressão………………………………………….82
2.3.3 – Coping familiar…………………………………………………………………..84
2.3.3.1 – Coping familiar e depressão…………………………………………..86

II – Estudo Empírico……………………………………………………………………………90
Capítulo 1 – Conceptualização do estudo empírico, objectivos e metodologia…………………91
1.1 – Objectivos de estudo………………………………………………………………………..93
1.2 – Hipóteses……………………………………………………………………………………98
1.3 – Definição das variáveis……………………………………………………………………101
1.4 – Caracterização da amostra………………………………………………………………...102
1.5 – Instrumentos de avaliação…………………………………………………………………107
1.5.1 – Questionário sócio-demográfico………………………………………………..108
1.5.2 – Questionário clínico…………………………………………………………….108
1.5.3 – Questionário de Vinculação Amorosa (QVA)………………………………….108
1.5.3.1 – Descrição da escala…………………………………………………..108
1.5.3.2 – Análise das qualidades psicométricas………………………………..109
1.5.4 – Inventário da Qualidade das Relações (QRI) …………………………………..112
1.5.4.1 – Descrição da escala…………………………………………………..112
1.5.4.2 – Análise das qualidades psicométricas………………………………..113
1.5.5 – Escalas de Avaliação Pessoal Orientadas para a Crise Familiar (F-COPES)…..114
1.5.5.1 – Descrição da escala…………………………………………………..114
1.5.5.2 – Análise das qualidades psicométricas………………………………..116
1.5.6 – Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal……………….118
1.5.6.1 – Descrição da escala…………………………………………………..118
1.5.6.2 – Análise das qualidades psicométricas………………………………..120
1.6 – Procedimento……………………………………………………………………………...122

8
Capítulo 2 – Apresentação e análise dos resultados…………………………………………..123
2.1 – Tratamentos estatísticos…………………………………………………………………...123
2.2 – Resultados…………………………………………………………………………………125
2.2.1 – Caracterização da amostra no que respeita às dimensões da vinculação amorosa,
ao suporte conjugal, às estratégias de coping familiar e à satisfação conjugal………………….125
2.2.1.1 – Dimensões da vinculação amorosa…………………………………..125
2.2.1.2 – Suporte Conjugal…………………………………………………….126
2.2.1.3 – Estratégias de coping familiar……………………………………......127
2.2.1.4 – Satisfação conjugal…………………………………………………..128
2.2.2 – Efeito das variáveis sexo do cônjuge deprimido, duração da relação conjugal e
situação profissional, nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge deprimido, nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, no suporte conjugal, nas estratégias
de coping familiar e na satisfação conjugal……………………………………………………..129
2.2.2.1 – Efeito do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e
da situação profissional nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge deprimido………...129
2.2.2.2 - Efeito do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e
da situação profissional nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido……130
2.2.2.3 - Efeito do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e
da situação profissional no suporte conjugal……………………………………………………130
2.2.2.4 - Efeito do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e
da situação profissional nas dimensões do coping familiar……………………………………..131
2.2.2.5 - Efeito do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e
da situação profissional nas dimensões da satisfação conjugal…………………………………131
2.2.3 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física grave no
cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas dimensões da
vinculação amorosa do cônjuge deprimido, nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não
deprimido, no suporte conjugal, nas estratégias de coping familiar e na satisfação conjugal….132
2.2.3.1 - Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença
física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge deprimido………………………………………133
2.2.3.2 - Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença
física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido………………………………….134

9
2.2.3.3 - Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença
física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no suporte conjugal………………135
2.2.3.4 - Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença
física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
estratégias de coping familiar…………………………………………………………………...136
2.2.3.5 - Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença
física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da satisfação conjugal……………………………………………………………….137
2.2.4 – Correlações entre a satisfação conjugal e as variáveis vinculação amorosa, suporte
conjugal e estratégias de coping familiar………………………………………………………..138
2.2.5 – Regressões entre as variáveis satisfação conjugal, vinculação amorosa, suporte
conjugal e estratégias de coping familiar………………………………………………………..141
2.2.6 – Diferenças em função dos protótipos de vinculação amorosa………………….143
2.2.6.1 – Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e
satisfação conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa………………………….145
2.2.6.1.1 - Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar
e satisfação conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa para os cônjuges
deprimidos……………………………………………………………………………………….145
2.2.6.1.2 - Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar
e satisfação conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa para os cônjuges não
deprimidos……………………………………………………………………………………….147
2.2.7 – Continuidades e descontinuidades no casal com depressão – análise das diferenças
intra-casal………………………………………………………………………………………..148
2.2.7.1 – Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal na
percepção do suporte conjugal…………………………………………………………………..148
2.2.7.2 - Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal ao
nível das dimensões da vinculação amorosa…………………………………………………….149
2.2.7.3 - Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal na
percepção das estratégias de coping familiar……………………………………………………149
2.2.8 – Síntese dos resultados…………………………………………………………..151

Capítulo 3 – Discussão e Síntese……………………………………………………………….154


3.1 – Discussão dos resultados…………………………………………………………154
3.2 – Reflexão crítica sobre o estudo…………………………………………………...165

10
3.3 – Palavras finais………………………………………………………………….....167

Referências Bibliográficas……………………………………………………………………..169

Anexos…………………………………………………………………………………………190
Anexo 1 – Questionário sócio-demográfico e clínico para o cônjuge deprimido……..191
Anexo 2 -Questionário sócio-demográfico e clínico para o cônjuge não deprimido….192
Anexo 3 – Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal…………..193
Anexo 4 – Questionário de Vinculação Amorosa……………………………………..195
Anexo 5 - Escalas de Avaliação Pessoal Orientadas para a Crise Familiar…………...197
Anexo 6 – Subescala Suporte Social do Inventário da Qualidade das Relações………199

11
ÍNDICE DOS QUADROS

Quadro 1 – Características sócio-demográficas da amostra total segundo a população e o


género……………………………………………………………………………………………104
Quadro 2 – Características clínicas da amostra total segundo a população e o género………...105
Quadro 3 – Valores de alpha de cronbach para o Questionário de Vinculação Amorosa……..110
Quadro 4 – Média das correlações inter-item para o Questionário de Vinculação Amorosa…..111
Quadro 5 – Correlações item-total para o Questionário de Vinculação Amorosa……………..112
Quadro 6 – Correlações inter-item, item-total e alpha de cronbach para a subescala suporte
social do Inventário da Qualidade das Relações………………………………………………...114
Quadro 7 – Valores de alpha de cronbach para as subcalas da versão em revisão do
F-COPES…………………………………………………………………………………..…….115
Quadro 8 – Valores de alpha de cronbach para o F-COPES…………………………………..116
Quadro 9 – Média das correlações inter-item para o F-COPES………………………………..117
Quadro 10 – Correlações item-total para o F-COPES………………………………………….118
Quadro 11 – Valores de alpha de cronbach para a Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas
da Vida Conjugal………………………………………………………………………………..120
Quadro 12 – Média das correlações inter-item para a Escala de Avaliação da Satisfação em
Áreas da Vida Conjugal…………………………………………………………………………121
Quadro 13 – Correlações item-total para a Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida
Conjugal………………………………………………………………...……………………….126
Quadro 14 – Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos
cônjuges não deprimidos e do casal para as dimensões da vinculação amorosa………………..126
Quadro 15 - Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos
cônjuges não deprimidos e do casal para o suporte conjugal…………………………………...126
Quadro 16 - Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos
cônjuges não deprimidos e do casal para as estratégias de coping familiar…………………….127
Quadro 17 - Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos
cônjuges não deprimidos e do casal para as dimensões da satisfação conjugal e para o índice de
satisfação global………………………………………………………………………………....128
Quadro 18 – Correlações de Pearson entre a satisfação conjugal do casal e as variáveis da
vinculação amorosa do cônjuge deprimido, da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, do
suporte conjugal do casal e das estratégias de coping familiar do casal………………………...138

12
Quadro 19 – Análise de clusters do Questionário de Vinculação Amorosa para os cônjuges
deprimidos………………………………………………………………………………………143
Quadro 20 - Análise de clusters do Questionário de Vinculação Amorosa para os cônjuges não
deprimidos………………………………………………………………………………………144
Quadro 21 – Médias e desvio-padrão no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e
satisfação conjugal em função da vinculação amorosa nos cônjuges deprimidos………………146
Quadro 22 - Médias e desvio-padrão no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e
satisfação conjugal em função da vinculação amorosa nos cônjuges não deprimidos………….147

ÍNDICE DAS FIGURAS

Figura 1 – Modelo da Cognição da Relação Íntima……………………………………………..25


Figura 2 – Modelo ABC-X Duplo de Stress Familiar…………………………………………...55
Figura 3 – Modelo da Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar…………………………56
Figura 4 – Modelo Contextual de Stress Familiar……………………………………………….59
Figura 5 – Parcelo do Modelo da Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar em estudo…94
Figura 6 – Mapa conceptual do estudo empírico………………………………………………...97

ÍNDICE DOS GRÁFICOS

Gráfico 1 – Níveis médios de satisfação conjugal em função da duração da relação conjugal...132


Gráfico 2 – Níveis médios de evitamento no cônjuge deprimido em função do tipo de
depressão………………………………………………………………………………………...133
Gráfico 3 - Níveis médios de evitamento no cônjuge não deprimido em função do tipo de
depressão………………………………………………………………………………………...134
Gráfico 4 – Níveis médios de suporte conjugal em função do tipo de depressão………………135
Gráfico 5 – Níveis médios de utilização de estratégias de procura de suporte nos vizinhos em
função do tipo de depressão……………………………………………………………………..136
Gráfico 6 – Níveis médios de satisfação conjugal global em função do tipo de depressão…….137
Gráfico 7 – Valores médios de satisfação conjugal global em função da vinculação amorosa...146

13
INTRODUÇÃO

A depressão é uma perturbação do humor, caracterizada por um conjunto de


sintomas físicos e mentais, que envolvem o pensamento, os impulsos e a capacidade
crítica (Wilkinson, Moore & Moore, 2003), entre os quais se encontram o humor
deprimido, a perda de interesse e entusiasmo por actividades anteriormente agradáveis, a
diminuição da energia, a fadiga intensa, a diminuição da atenção e da concentração, a
diminuição da auto-estima e da auto-confiança, as ideias de culpa e de auto-
desvalorização, a visão pessimista do futuro, as ideias ou actos de auto-agressão ou de
suicídio, as perturbações do sono e diminuição do apetite (WHO, 1992).
Não se trata de uma doença recente, na medida em que, ao longo da história da
humanidade, tem-se vindo a assistir a diversas descrições do “inexplicável fenómeno
depressivo endógeno” (Vallero-Nágera, 2002, p.32). Na cultura ocidental, uma das
primeiras descrições de depressão, remonta aos gregos, e refere-se ao pedido que foi
efectuado a Hipócrates (o primeiro médico importante da história) no sentido que
produzisse um diagnóstico para o filósofo Demócrito, que aparentemente enlouquecera
(Vallero-Nágera, 2002). Nas Sagradas Escrituras e ao longo da idade média foram sendo
feitas referências a quadros clínicos que, ainda que fossem expressas em linguagem
diferente ou sujeitas a interpretações religiosas ou mágicas, se assemelham às descrições
científicas actuais. A partir do século XVI, o estudo da depressão começou a ganhar
contornos mais científicos (e menos religiosos), e desde então, têm vindo a ser
formuladas um vasto número de teorias que, numa perspectiva mais individual, ou numa
perspectiva mais interpessoal, procuram explicar o que causa, o que mantém, o que
exacerba, o que suaviza o estado clínico de depressão.
Trata-se de uma das doenças psicológicas mais prevalentes dos nossos dias,
atingindo cerca de 121 milhões de pessoas em todo o mundo (WHO, 2005). Na Europa,
estudos recentes indicam que 1 em cada 40 adultos sofre de alguma forma clínica de
depressão (Paykel, Brugha & Fryers, 2005). Segundo a Organização Mundial de Saúde
(2002), atinge 5.8% dos homens e 9.5% das mulheres. No que respeita à realidade
portuguesa, o último censo psiquiátrico realizado (DGS, 2001), refere a depressão como a
segunda patologia mais frequente nas consultas e internamentos de psiquiatria.

14
Os custos económicos associados a esta perturbação psicológica atingem valores
assustadores, situando-se em quarto lugar entre todas as doenças que originam mais
encargos (OMS, 2002).
Em termos sociais e familiares, a depressão também tem custos elevados. Assim,
é do conhecimento geral dos investigadores que, qualquer quadro clínico de depressão,
tem necessariamente consequências no próprio, e nos que o rodeiam, na medida em que a
sintomatologia depressiva, é por si só potenciadora de dificuldades nos relacionamentos
interpessoais dos indivíduos por ela atingidos (Acitelli & Badr, 2005; Wade & Kendler,
2000; Roberts, Roberts & Stevensen, 1982). Joiner (2002) refere que as relações
interpessoais das pessoas deprimidas são seriamente afectadas e se caracterizam por
dimensões como a rejeição, a insatisfação, a baixa intimidade e a diminuição da
actividade e do envolvimento interpessoal. As relações maritais, como contexto
interpessoal de maior intimidade, são igualmente foco de alterações nomeadamente nas
rotinas diárias e no funcionamento de papéis (Van Wijngaarden, Schene & Koeter, 2004).
Os estudos realizados indicam uma deterioração da qualidade da relação (Dudek et al,
2001; Van Wijngaarden et al, 2004). Verifica-se igualmente que o cônjuge apresenta um
maior número de sentimentos disfóricos e de mau-estar (Hautzinger, Linden & Hoffman,
1982), níveis mais elevados de stress (Benazon, 2000; van Wijngaarden et al, 2004) e
humor deprimido (Benazon & Coyne, 2000; Coyne et al, 1987; Jeglic et al, 2005),
estando deste modo mais vulnerável ao desencadeamento de uma perturbação depressiva.
Deste modo, sendo a depressão uma doença psicológica tão prevalente na
actualidade, com tantas repercussões individuais, sociais e económicas associadas, tendo
um impacto considerável na matriz da sociedade humana (ou seja na família), parece-nos
pertinente analisar algumas das características de um dos seus subsistemas – o conjugal -
para que, deste modo, sejam compreensíveis alguns dos factores facilitadores ou
inibidores da adaptação do casal a uma situação de crise como é a gerada pela condição
de um dos seus elementos estar deprimido.
No presente estudo empírico, pretendemos estudar alguns dos aspectos que estão
associados à dinâmica conjugal, como é o caso da vinculação amorosa, do suporte
conjugal e das estratégias de coping familiar, que a investigação tem referido tratarem-se
de potenciais recursos na forma de gerir e recuperar da depressão. O nosso objectivo é

15
analisar as relações destes potenciais recursos (vinculação amorosa, suporte conjugal e
estratégias de coping familiar) com uma medida de adaptação do casal à crise
desencadeada pela depressão (e que, no nosso caso, se trata da satisfação conjugal).
Para o efeito, situamo-nos numa perspectiva de análise sistémica de casais com
um dos membros diagnosticado com depressão clínica. Segundo a Teoria Geral dos
Sistemas, a família / casal é um sistema aberto que funciona em interacção com o
contexto sócio-cultural onde está inserido, durante todo o ciclo de vida, obedecendo a
princípios como a circularidade, não aditividade, equifinalidade, comunicação,
homeostase e morfogénese (que descreveremos mais adiante). Qualquer comportamento
do sistema (família / casal) tem de ser entendido em função do outro e do comportamento
do próprio sistema (Relvas, 2000). Neste contexto, a depressão clínica num dos membros
da família / díade, tem necessariamente consequências em todo o sistema, e deve ser
compreendido em função disso.
Por outro lado, recorremos aos Modelos de Stress Familiar, e mais
especificamente ao Modelo de Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar - FAAR
Model (McCubbin & Patterson, 1983; cit por Patterson, 1988), como forma de
conceptualizar o stress familiar experimentado pelo casal face ao quadro depressivo de
um dos seus membros. Focalizamos a nossa análise em alguns dos potenciais recursos
relacionais (vinculação e suporte conjugal) e nas estratégias de coping familiar utilizados
pelos casais para fazer face à situação de crise que enfrentam.
O nosso trabalho será dividido em duas partes: a primeira parte será constituída
pela componente teórica deste estudo, ou seja, pelo enquadramento teórico e a revisão
bibliográfica dos estudos empíricos desenvolvidos sobre os temas da conjugalidade, da
adaptação familiar a situações de crise e da depressão, onde se destacam conceitos como
o de sistema familiar (e conjugal), stress familiar, adaptação, recursos, vinculação,
suporte conjugal e coping familiar.
Assim, no primeiro capítulo, apresenta-se uma breve revisão de literatura
subordinada ao tema da conjugalidade, crise e adaptação. Inicia-se com a clarificação do
conceito de conjugalidade nas Ciências Sociais e Humanas. Segue-se uma análise das
temáticas do que é «ser um casal», onde são discutidos temas como a formação do casal,
os processos da conjugalidade, as principais teorias explicativas (com especial ênfase na

16
teoria da vinculação) e as formas de se ser casal. Termina-se com uma abordagem aos
conceitos de adaptação, crise e stress familiar, os quais estão subjacentes aos modelos de
stress familiar que, como já foi referido, são um dos quadros teóricos de referência para o
nosso trabalho. O segundo capítulo pretende introduzir o tema da depressão no casal.
Inicia-se com uma caracterização da doença psicológica depressão, onde são
apresentados alguns dados estatísticos importantes. Segue-se uma análise das expressões
da depressão no sistema familiar e, especialmente, no subsistema conjugal. Termina-se
com uma revisão teórica das variáveis vinculação, suporte social (e conjugal) e coping
familiar, as quais têm sido associadas à evolução da depressão e que são objecto de
estudo neste trabalho.
A segunda parte inclui o estudo empírico realizado no decorrer de 2006, e
descreverá o seu procedimento metodológico. Inclui um capítulo sobre a
conceptualização do estudo empírico, objectivos e metodologia, nos quais são descritos
os objectivos da investigação, as hipóteses em análise, a definição das variáveis, a
caracterização da amostra, dos instrumentos de avaliação utilizados e do procedimento.
Segue-se um segundo capítulo dedicado à apresentação e análise dos resultados obtidos.
O terceiro capítulo diz respeito à discussão e síntese dos resultados tendo em
consideração as hipóteses inicialmente formuladas e o quadro teórico e empírico que
orientou esta investigação, procurando dar um significado às relações encontradas.
Considera-se ainda as limitações metodológicas da investigação. Termina-se com
algumas palavras finais sobre o decorrer do estudo e as suas implicações para futuras
investigações.

17
I – FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

18
CAPÍTULO 1 – CONJUGALIDADE, CRISE E ADAPTAÇÃO

A conjugalidade, entendida num contexto de relação de coabitação / casamento


entre dois seres de sexos diferentes1 é, na actualidade, uma das grandes áreas de interesse
dos investigadores das relações humanas, na medida em que se trata de um dos eixos
principais do desenvolvimento da espécie humana.
A presente revisão teórica pretende lançar um olhar sobre as principais questões
associadas à conjugalidade.
Inicia-se com a definição de conjugalidade com o objectivo de se clarificar o
conceito na realidade das Ciências Sociais e Humanas, particularmente da Psicologia.
Segue-se uma breve análise das temáticas associadas ao que é «ser casal» nos
nossos dias, no que se refere à formação do casal, aos processos da conjugalidade, às
principais teorias explicativas (com ênfase na teoria da vinculação) e às formas de se «ser
casal».
Termina-se com a referência ao conceito de adaptação, que está subjacente aos
modelos de stress familiar, os quais são da maior importância na conceptualização teórica
que norteia o presente trabalho.

1
Embora em Portugal, do ponto de vista jurídico, a conjugalidade seja necessariamente heterossexual,
numa perspectiva de investigação é importante distinguir conjugalidade heterossexual de conjugalidade
homossexual, na medida em que existem diferenças importantes entre os dois tipos de conjugalidade
(Josephson, 2003).

19
1.1. Definindo Conjugalidade(s)...

Conjugalidade é um substantivo feminino que se refere à qualidade do que é


conjugal, ou seja, algo que é relativo a cônjuge e / ou a casamento (Infopédia, 2006).
O regime jurídico português, através do artigo 1577 do código civil, define o
casamento como sendo um «contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que
pretendam constituir família mediante uma plena comunhão de vida», o que implica
direitos e deveres recíprocos (portal da justiça, 2006). Mas uma vez que a conjugalidade
nos nossos dias não contempla só as relações de casamento, existe também como lei geral
da república (lei nº 7 / 2001 de 11 de Maio) a situação jurídica de duas pessoas,
independentemente do sexo, que vivam em união de facto há mais de dois anos, embora
não a equiparando a relação de família ou a relação de casamento (Pereira, 2004).
Na perspectiva da Sociologia da Família, a conjugalidade, sendo uma relação de
interacção privilegiada no desenvolvimento de sentidos para o indivíduo e para o mundo
que o rodeia (Aboim, 2004), pode ser compreendida como processo e relação social que
ocorre num dado momento do percurso pessoal de um significativo conjunto de
indivíduos, que produz sentido e identidade, que apresenta uma marcada dimensão
afectiva, sendo fonte produtora de realidade no sentido da criação de condições materiais,
estando contextualizada social e historicamente (Torres, 2000).
A Psicologia encara a conjugalidade como sendo um tipo específico de
relacionamento entre pessoas existente na sociedade, estando tradicionalmente associada
ao casamento, mas que actualmente inclui a identificação de quaisquer duas pessoas com
um relacionamento íntimo, amoroso e que envolve um compromisso (Sheras & Koch-
Sheras, 2006). O que se espera do casal enquanto tal resulta de um processo de
socialização e de modelagem com origem na cultura onde este se encontra inserido
(ibidem).
Trata-se, pois, de um “modelo de funcionamento relacional que serve de base à
construção da díade conjugal e que se oferece como um espaço de apoio ao
desenvolvimento do sistema familiar. Assume-se que este modelo de funcionamento do
casal resulta da integração do modelo de conjugalidade construído na família de origem e

20
considera-se que o mesmo sofre, naturalmente, diversas alterações ao longo da evolução
do sistema familiar" (Alarcão, 2000, p.341).
Relvas (1996) considera que “o casal surge quando dois indivíduos se
comprometem numa relação que pretendem que se prolongue no tempo” (p.51).
Neto (2005) conceptualiza a conjugalidade como sendo um processo complexo
que envolve diversos níveis do relacionamento e diversos contextos que resultam na
definição psicossocial de uma relação afectiva estável. Berger e Kellner (1964), Veiga da
Silva (2001) e Grandesso (2000) (cit por Neto, 2005) abordam a conjugalidade como um
processo de construção de uma realidade comum, na qual cada parceiro experimenta uma
reconstrução da sua realidade individual, criando referências comuns e uma identidade
conjugal. Esta relação é construída a partir de trocas verbais e não verbais entre os
cônjuges que coordenam as suas acções num universo social de significado,
comprometendo-se com a construção de uma história comum (Neto, 2005). Por
conseguinte, a relação conjugal ocorre num contexto sócio-histórico e tem início na
criação de um território comum, onde são partilhadas experiências que vão valorizar as
interacções significativas do casal, num processo contínuo ao longo do ciclo de vida
(Neto, 2005), experiências essas que combinam interdependência económica, sexual,
comportamental e afectiva (Levinger & Huston, 1990). A relação íntima do casal é deste
modo o espaço mais adequado para que cada indivíduo preencha as suas necessidades de
afecto, de companheirismo, lealdade e intimidade emocional e sexual (Halford, Kelly &
Markman, 1997).
Sintetizando, a conjugalidade define-se como “a ligação de duas vidas através de
um imenso conjunto de experiências: o partilhar sentimentos íntimos e quotidianos, o
moldar experiências sexuais, o criar uma organização complexa para o dia-a-dia,
optimizando recursos emocionais e financeiros. A conjugalidade é a inteira coordenação
de duas vidas; envolve a aprendizagem de se saber estar separados e juntos, a
aprendizagem de se saber gerir o poder, a aprendizagem de se saber brincar e trabalhar
juntos, e talvez o maior desafio de todos, a aprendizagem de se ser a base de uma nova
geração. Mas a conjugalidade não só liga dois indivíduos, mas unifica as «culturas»
separadas das suas famílias: os seus costumes, mitos, rituais, preconceitos, aspirações,
crenças, estereótipos de género e memórias” (Napier, 2000, p.145).

21
1.2. O que é ser «um casal»...

Segundo Caillé (1991), “...ali, onde não havia nada, dois indivíduos viram um
casal e tendo-o visto, criaram-no” (p.40).
A cada casal estão associadas dimensões reveladoras do estilo relacional que o
caracteriza, aos níveis comportamental, emocional e cognitivo, dimensões estas que estão
implicadas nas vivências experimentadas por cada cônjuge, tanto individualmente como
no todo que é o casal.
Neste subcapítulo pretende-se analisar, de forma breve, a dinâmica associada à
formação do casal, os processos subjacentes à conjugalidade, compreender de que forma
as várias correntes de investigação teorizam a unidade «casal» (e aqui daremos especial
relevo à teoria da vinculação, uma vez que a vinculação romântica é uma das variáveis
em estudo) e enquadrar as «formas» de se ser casal num modelo de ciclo de vida
familiar.

1.2.1 - A formação do casal

Numa perspectiva sistémica, a formação do casal é encarada por diversos


investigadores ( Relvas, 1996; Gimeno, 2001; Costa, 2005) como sendo a pedra basilar
de cada nova família nuclear, na medida em que à sua constituição está inerente a criação
de um novo sistema, com normas e padrões transaccionais próprios e específicos, os
quais assentam na negociação do património que é próprio de cada um e que é trazido
para a formação do novo sistema conjugal (Relvas, 1996). A este sistema estão
associadas tarefas desenvolvimentais que, segundo Virginia Satir (1991), conduzem à
criação do modelo conjugal. Este modelo contempla três entidades - o «eu»,o «tu» e o
«nós» - cada uma delas com espaço próprio e sem que nenhuma prevaleça sobre as
outras, de modo a que deste equilíbrio resulte em cada membro da díade um sentimento
de auto-estima individual, bem como um sentimento de pertença. Minuchin (1979)
considera que a transição do indivíduo para o casal se faz através da negociação e do
estabelecimento de normas e fronteiras a fim de se definir uma estrutura base das
interacções conjugais que integre e articule as normas herdadas de cada família de

22
origem, assim como as expectativas e valores de cada um dos indivíduos, o que permite
que “o casal se projecte no futuro, nos descendentes, fornecendo-lhes a representação
comum da sua família, o contexto de vinculação a partir do qual se poderão desenvolver
e autonomizar” (Relvas, 1996, p.73). A autora considera que o subsistema conjugal
permite aos seus membros uma plataforma de suporte para lidar com as pressões do
sistema extra-familiar, sendo igualmente um modelo de interacções futuras fundamental
no desenvolvimento das crianças.
DeFranck-Lynch (1986) desenvolveu um esquema do ciclo de vida do casal em
três fases, as quais sistematizam as tarefas e o modo de funcionamento do subsistema
conjugal, e do qual se destaca o carácter evolutivo e complexo da conjugalidade. A
primeira fase corresponde a uma fase de fusão, a qual pode estender-se por vários anos, e
cujo objectivo é a fusão de dois indivíduos distintos num só sistema, o que implica um
grande investimento na criação da nova relação a fim de se desenvolver uma intimidade e
uma estabilidade crescentes. Ocorre afastamento de algumas ligações afectivas,
particularmente com a família de origem e definem-se territórios em zonas de simetria e
de complementariedade, resolvendo as questões de poder e definindo os modos de
resolução de conflitos. Há igualmente investimentos em outras áreas como a
parentalidade e as carreiras profissionais. A segunda etapa caracteriza-se por um retorno
ao «tu» e ao «eu», sendo a tarefa do casal permitir a transformação de um subsistema
formado por duas semientidades, num outro de duas metades bem definidas. Há a
necessidade de se criarem autonomias. Surgem frequentemente o aborrecimento e a
rotina. As diferenças e as complementaridades deixam de ser atraentes e passam a ser
encaradas como falhas. Há um retomar da consciência da relação que liga o casal e uma
ponderação sobre qual deverá ser o seu futuro. A terceira etapa – denominada etapa da
empatia – é descrita como sendo uma fase maior estabilidade, na medida em que há uma
re-união de dois indivíduos, quase autónomos e psiquicamente independentes, embora
sejam agora defrontados com novos pedidos e necessidades de mudança, dos quais se
destacam a reforma, os netos, a morte, entre outros. É contudo uma fase de liberdade e de
empatia no casal.
Será, por tudo isto, uma “unidade complexa, paradoxal e nunca terminada”
(Relvas, 1996, p.73).

23
1.2.2 - Como funciona um casal - comportamentos, cognições e emoções na
conjugalidade

A realidade do funcionamento da relação do casal é facilmente encarada como


complexa, mesmo pelo mais comum dos indivíduos (Costa, 2005).
Numa tentativa de síntese de conhecimentos provenientes da investigação
realizada no âmbito da Psicologia Social e da Psicologia Cognitiva, Fletcher (2002)
elaborou um modelo teórico cujo o objectivo é explicar o funcionamento das relações de
intimidade que se estabelecem no seio do casal. Este modelo – o modelo da cognição da
relação íntima – considera que cada indivíduo possui teorias de vários tipos sobre as
relações entre o casal. Essas teorias desempenham um papel fundamental no
funcionamento da «mente relacional»2. Assim, e de acordo com a figura 1, a cognição da
relação compreende três tipos de teorias: as teorias sociais gerais, as teorias gerais da
relação e as teorias locais da relação. As teorias sociais gerais, que dizem respeito às
regras e crenças do sujeito relativamente às relações interpessoais em geral, são
responsáveis pela especificação do quando e do como atribuir crenças, atitudes, intenções
e traços de personalidade nas diversas relações interpessoais. As teorias gerais da
relação estão associadas a conceitos (e emoções relacionadas) tais como amor, crenças,
expectativas e padrões ideais relativamente a relações hipotéticas ou crenças sobre
relações íntimas em geral. Distinguem-se das anteriores porque se referem às relações
íntimas, estando igualmente mais carregadas de conteúdo. As teorias locais da relação
desenvolvem-se a partir do momento do conhecimento do parceiro, no qual se inicia a
construção de um modelo mental dele e da relação, havendo uma integração de juízos
(sobre a personalidade do parceiro, da relação) e interacções sobre diferentes categorias
(como a satisfação geral, a proximidade, a paixão, o amor, o compromisso, a confiança).
Estas teorias desenvolvidas pelos indivíduos funcionam como uma «bagagem mental»
que transportam para as suas relações específicas e que são utilizadas para alcançar
objectivos muito próximos de qualquer ciência. Nas palavras de Fletcher (2002), “os
seres humanos possuem teorias sobre as relações íntimas maravilhosamente sofisticadas,

2
Mente relacional (relationship mind) é a designação utilizada por Fletcher (2002) para caracterizar a
representação cognitiva que cada pessoa faz de determinada relação.

24
pelas mesmas razões que os cientistas têm teorias – para explicar, avaliar, prever e
controlar as suas relações” (p.261).

Figura 1 – Modelo da Cognição da Relação Íntima (Fonte: G. Fletcher, 2002)

O pensamento do indivíduo sobre a relação íntima pode ser desencadeado por


qualquer acontecimento (cognição, emoção ou comportamento) dentro ou fora da
interacção. Este processo pode ser automático (inconsciente) ou controlado (consciente).
Quando o processamento é automático, é mais rápido, ocorre sem grande esforço
cognitivo, não podendo ser verbalizado. O processamento cognitivo controlado é mais
lento, mais ligado à utilização de linguagem e mais exigente do ponto de vista cognitivo.
Segundo o autor, grande parte do que ocorre ao nível da «mente da relação íntima»
recorre a uma mistura dos dois tipos de processamento cognitivo e depende da fase da
relação, das diferenças de personalidade individual e do contexto da relação.
A compreensão das relações de casal implica necessariamente a análise das
interacções comportamentais interpessoais e as experiências cognitivas e afectivas que
co-existem e interagem de forma interdependente (Baucom & Epstein, 1990). Fletcher
considerou no seu modelo da cognição da relação íntima três processos fundamentais -
comportamentos, cognições e emoções - os quais são os determinantes e os correlactos
das interacções conjugais.

25
1.2.2.1 - Processos Comportamentais3
Segundo Epstein e Baucom (2002), existem padrões comportamentais específicos
associados aos casais, os quais podem ser agrupados em comportamentos
comunicacionais e comportamentos não comunicacionais. Os primeiros referem-se às
interacções que envolvem expressão e escuta de pensamentos e emoções dos cônjuges,
assim como a procura de soluções para problemas específicos. Os comportamentos não
comunicacionais incluem um conjunto de actos instrumentais e afectuosos, tais como o
fazer favores ao cônjuge, o trabalhar em tarefas domésticas, entre outros. Estes
comportamentos são portadores em si próprios de mensagens para o companheiro, quer
positivas, quer negativas, o que nos permite compreender uma parte importante do
funcionamento do casal.
Os comportamentos positivos são classificados pelos autores em dois tipos:
comportamentos expressivos, como o carinho, o afecto e o amor, cujo objectivo é
trabalhar os aspectos emocionais do relacionamento conjugal, através, por exemplo, do
fazer o cônjuge sentir-se cuidado e valorizado; e comportamentos orientados para a tarefa
ou instrumentais, que dizem respeito às tarefas que devem ser feitas pelo casal (como
ganhar o sustento familiar, tomar decisões, partilhar tarefas domésticas) e que vão
contribuir para um sentimento de trabalho em equipa e, simultaneamente, de respeito pela
individualidade de cada um.
Quanto aos comportamentos negativos, Epstein e Baucom (2002) constataram na
sua revisão de literatura, que não existe uma distinção tão clara entre comportamentais e
expressivos. Por conseguinte, consideram que os comportamentos negativos dizem
respeito essencialmente a comportamentos de crítica, de negação de responsabilidade, de
queixa e de humilhação. Para além disto, chamam a atenção para o facto de, nos casais
com níveis mais elevados de comportamentos negativos, ser frequente a tendência para
estes se tornarem recíprocos em ambos os cônjuges.
Em termos do impacto que os comportamentos têm ao nível da satisfação4 e do
nível de stress no casal, Epstein e Baucom (2002) concluíram que os comportamentos

3
É importante referir que separar os processos cognitivos, cognitivos e emocionais é completamente
artificial dado que, em qualquer interacção, eles co-existem e influenciam-se mutuamente. A opção pela
sua separação deve-se apenas a uma questão de metodologia da explanação.

26
negativos parecem distinguir casais satisfeitos dos não satisfeitos, no sentido em que
comportamentos positivos surgem associados a casais mais satisfeitos. Contudo, notam
que os comportamentos negativos em determinados momentos da vida conjugal são
preditores de satisfação, na medida em que podem ser esclarecedores de problemas da
relação. Por outro lado, observaram que os comportamentos «menores» de carinho e
suporte manifestados diariamente (como por exemplo, o dar um beijo sempre que se
despedem de manhã e quando regressam no final do dia) são essenciais para a
manutenção da satisfação conjugal. Salientam, por fim, que os casais mais felizes tocam
mais nos companheiros, utilizam mais comportamentos de aprovação, de carinho, de
descrição e resolução de problemas, reveladores de empatia e de humor.

1.2.2.2 - Processos Cognitivos


Segundo Epstein e Baucom (2002), a forma como os casais assimilam a
informação proveniente dos comportamentos dos cônjuges, são resultado, pelo menos em
parte, de processos automáticos de aprendizagem. Assim, os casais estão atentos a
aspectos particulares dos acontecimentos, escolhidos de forma selectiva, que vão
condicionar o significado que constroem relativamente aos comportamentos do outro, ao
mesmo tempo que criam expectativas sobre a forma como os seus companheiros irão agir
no futuro. Estas cognições sobre acontecimentos específicos podem provir de um
conjunto de crenças básicas acerca de si próprios, dos seus companheiros e dos seus
relacionamentos.
Os autores consideram vários tipos de cognições condicionadoras da reacção dos
indivíduos aos acontecimentos específicos: atenção selectiva, atribuições, expectativas,
pressupostos e crenças.
A atenção selectiva diz respeito ao facto dos parceiros darem atenção a aspectos
específicos da interacção, negligenciando outros, o que pode conduzir a distorções na
percepção do acontecimento. Em casais com níveis mais elevados de stress, os autores
verificaram que existe um nível mais baixo de concordância acerca do acontecimento em
análise.

4
A satisfação conjugal é a variável dependente mais estudada na temática da conjugalidade, tal como
demonstra o trabalho de Narciso (2001).

27
As atribuições são explicações dadas para os acontecimentos conjugais já
ocorridos, e são inferidas a partir dos comportamentos do companheiro (ibidem). A
investigação revista permite concluir que os casais com maior níveis de stress tendem a
culpar o cônjuge pela origem dos problemas e atribuir os comportamentos negativos dos
parceiros a traços estáveis da personalidade. De modo oposto, nestes casais é menor a
probabilidade de se atribuírem comportamentos positivos a traços estáveis característicos
do indivíduo.
As expectativas são previsões acerca do futuro da relação e dos comportamentos
prováveis do parceiro, e afectam as emoções e os comportamentos subsequentes dos
indivíduos. A investigação conclui que as expectativas negativas parecem influenciar o
pensamento do sujeito acerca de interacções específicas do cônjuge, assim como o futuro
da própria relação (ibidem).
Os pressupostos são convicções mantidas pelos indivíduos sobre as características
dos indivíduos e das relações conjugais (como por exemplo, pressupostos sobre as
características típicas dos homens e das mulheres) e dizem respeito ao pensamento dos
sujeitos acerca do funcionamento real dos indivíduos e do mundo. Os pressupostos
podem servir como base ao desenvolvimento de atribuições a comportamentos
específicos dos parceiros.
As crenças dizem respeito às convicções pessoais dos sujeitos relativamente às
características que uma relação íntima ou que os cônjuges deveriam ter. As crenças
permitem que cada indivíduo avalie se o comportamento do parceiro é adequado e
aceitável, decida como é que o casal deve expressar o seu afecto, o que devem partilhar
com o outro e o que devem guardar para si, entre muitas outras possíveis.
Epstein e Baucom (2002) concluem que os casais com maior índice de
perturbação no seu relacionamento reportam maior número de pressupostos globais
negativos acerca do modo de funcionamento da relação e dos parceiros, bem como
crenças mais negativas sobre o modo como o devem fazer.

1.2.2.3 - Processos Emocionais


Não existe uma definição consensual de emoção; contudo Ekman ( 1982, cit por
Neto & Azevedo, 2003) propõe que as emoções possuam as seguintes características:

28
tenham um âmbito universal, disponham de expressão comparável nas outras espécies
animais, sejam precedidas por acontecimentos cuja natureza é universal, desencadeiem
um sistema coerente de resposta, apareçam espontânea e rapidamente, tenham uma curta
duração e que lhe esteja associado um mecanismo de avaliação automática.
Baucom e Epstein (1990) agruparam as emoções em positivas e negativas. Por sua
vez nas emoções positivas distinguiram emoções de felicidade / contentamento (que
inclui a alegria, o contentamento, a excitação e a boa-disposição), emoções de
aproximação / entusiasmo (tais como o amor, a afeição, a devoção), emoções de energia /
vigor e emoções de relaxamento / calma. A primeira categoria descreve emoções
associadas a um estado geral do indivíduo, enquanto que à segunda categoria estão
associadas emoções de um indivíduo relacionadas com outro, ou seja, há uma focalização
interpessoal mais explícita. Nas emoções negativas podem considerar-se as depressivas,
as ansiosas e as de raiva.
Do ponto de vista cognitivo, cada uma destas emoções está relacionada com um
experiência cognitiva diferente e, portanto, têm consequências díspares no
relacionamento interpessoal do casal, na medida em que tanto as emoções positivas como
as emoções negativas afectam quem as experimenta, o cônjuge e a própria relação
(ibidem).
Watson e Tellegen (1985, cit por Epstein & Baucom, 2002) consideraram
importante definir dois conceitos – afectividade positiva e afectividade negativa – que
traduzem não só a resposta individual a um dado acontecimento, mas também o facto das
pessoas tenderem a experimentar graus particulares de um conjunto de emoções em
situações e momentos diversos. Os indivíduos com níveis elevados de afectividade
positiva e níveis baixos de afectividade negativa têm maior probabilidade de gerar um
ambiente mais positivo para si próprios e para a sua família. Pelo contrário, os indivíduos
com níveis altos de afectividade negativa e com níveis baixos de afectividade positiva são
particularmente sensíveis e reactivos aos comportamentos negativos dos cônjuges, e são
menos responsivos aos comportamentos positivos, o que aumenta a probabilidade de
entrarem em ciclos de interacções negativas, o que, com o decorrer do tempo, contribui
para o distress na relação conjugal (Epstein & Baucom, 2002).

29
A investigação aponta para que os casais com níveis mais elevados de stress
respondam às suas emoções negativas acerca dos seus relacionamentos, seleccionando os
aspectos negativos dos acontecimentos interpessoais, recorrendo a explicações negativas
para um acontecimento específico, e utilizando o acontecimento para alimentar as suas
expectativas acerca das interacções negativas com o parceiro no futuro (ibidem).

Em síntese, “o sentido atribuído conjuntamente à relação cria uma harmonia que


também dá sentido à vida dos dois indivíduos – há uma relação essencial entre o
investimento passional (afectivo) e a representação (cognitiva) do mundo que organiza as
nossas acções e define as nossas prioridades (comportamento) ” (Ribeiro, 2002).

1.2.3 - Teorias Psicológicas da Conjugalidade

O primeiro estudo publicado sobre o casamento data a 1938, e foi levado a cabo
pelo psicólogo Louis Terman (Gottman, 1998). Desde então, a investigação sobre o
casamento não tem parado de crescer, o que vem originando várias correntes teóricas e
empíricas que se dedicam ao estudo das variáveis e processos envolvidos na
conjugalidade.
Berman, Marcus e Berman (1994) propuseram uma classificação das principais
correntes que estudam a psicologia do casamento, as quais também fundamentam
intervenções terapêuticas e preventivas junto de casais e que são as seguintes: teorias
sociais, teorias psicodinâmicas, teoria geral dos sistemas e teoria da vinculação.

1.2.3.1 - Teorias Sociais


As teorias sociais são todas aquelas que têm como base os fundamentos da
aprendizagem social e da troca social, e que são reflexo dos trabalhos de Bandura (1977)
e de Thibaut e Kelley (1959) (cit por Baucom & Epstein, 1990). Estas teorias postulam
que entre marido e mulher se desenvolve um processo recíproco de influência mútua, de

30
tal modo que o comportamento de cada um deles em contexto conjugal pode diferir do
comportamento que teriam aprendido a ter se em relação com outros indivíduos. Tal
baseia-se num modelo de recompensas e de punições, as quais são controladas pelos
cônjuges e pela sanção ou aprovação social. Assim, numa relação de conjugalidade, o
sujeito avalia a qualidade dos reforços fornecidos pelo outro, assim como a
disponibilidade desses reforços na relação actual, comparada com a disponibilidade em
relações alternativas. O indivíduo procurará então maximizar os reforços, o que
determinará se irá permanecer ou não na relação (Levinger, 1988).
Os pressupostos que estão subjacentes às teorias sociais – o comportamento é
controlado pelas suas consequências; o comportamento humano é aprendido através da
imitação de modelos observados; a aprendizagem e o desempenho de comportamentos
são habitualmente mediados por processos cognitivos – permitiram aos investigadores
identificar diferentes padrões de reforço em casais satisfeitos versus casais não satisfeitos,
sendo que estes últimos com significativamente mais respostas negativas (Patterson,
1982; cit por Baucom & Epstein, 1990).
Estes modelos conduziram à elaboração de intervenções terapêuticas
comportamentais para casais não satisfeitos e disfuncionais, centradas essencialmente no
aumento de trocas de comportamentos positivos e diminuição de trocas comportamentais
negativas.

1.2.3.2 - Teorias Psicodinâmicas


As teorias psicodinâmicas reúnem trabalhos associados às teorias psicanalíticas e
de relações objectais (Kernberg, 1976; Meissner, 1978, cit em Berman, Marcus &
Berman, 1994) e de contrato conjugal (Sager, 1986). As temáticas de estudo envolvem a
escolha do cônjuge na procura de complementaridade (escolha do parceiro como forma
de preenchimento de necessidades narcísicas), o desenvolvimento psicossexual dos
cônjuges ao nível da influência das famílias de origem e do modo como as relações
primárias de objecto se manifestam na relação conjugal, o impacto da psicopatologia dos
cônjuges no desenvolvimento de uma conjugalidade disfuncional e a projecção de
conflitos inconscientes e de problemas de desenvolvimento no cônjuge.

31
Sager (1986) postula que cada indivíduo traz para a relação conjugal um conjunto
de expectativas conscientes e inconscientes, crenças e exigências as quais espera que
sejam preenchidas. Trata-se de uma espécie de «contrato» que reflecte o que o cônjuge
fará e o que o indivíduo fará em troca da concordância do cônjuge.
Relativamente às intervenções terapêuticas, destacam-se a interpretação, a
clarificação e o insight em relação à história de desenvolvimento de cada cônjuge, assim
como o desenvolvimento de competências de escuta e de empatia.

1.2.3.3 - Teoria Geral dos Sistemas


A teoria geral dos sistemas é uma teoria desenvolvida por Bertalanffy em 1968
sobre sistemas abertos complexos e cujos princípios foram importados pelos teóricos dos
sistemas familiares (Walsh, 1982). Segundo Bertalanffy (1968), um sistema é um
conjunto de unidades em inter-relações mútuas que incluem, simultaneamente, função e
estrutura. Todos os sistemas são abertos e hierarquizados, isto é, estão inseridos num
meio com o qual estabelecem trocas permanentes (isto é, como supra-sistema), sendo
integrados por subtotalidade autónomas (sub-sistemas), funcionando ora como parte de
sistemas mais vastos, ora como totalidades de sistemas mais restritos.
Segundo esta teoria, a família / casal é um sistema aberto que funciona em
interacção com o contexto sócio-cultural onde está inserida, durante todo o ciclo de vida,
obedecendo aos seguintes princípios:
1. Circularidade: o sistema familiar é definido como um grupo de indivíduos
interrelacionados, de tal forma que uma mudança num determinado indivíduo afecta os
outros indivíduos e o grupo como um todo, o que por sua vez afecta o primeiro indivíduo
numa cadeia circular de causalidades;
2. Não-aditividade: a família como um todo é maior que a soma das partes, e não
pode ser descrita através da soma das características individuais dos seus membros;
3. Equifinalidade: a mesma origem pode conduzir a diferentes resultados, e o
mesmo resultado pode se dever a origens diversas, ou seja, o sistema é independente das
suas condições iniciais, o que significa que a finalidade é mais importante do que a causa
assim como o processo;

32
4. Comunicação: todo o comportamento é conceptualizado como comunicação
através de transmissão de mensagens interpessoais;
5. Homeostase: o sistema familiar define normas de funcionamento desenvolvidas
por mecanismos homeostáticos de retroacção, pelo que o sistema é fonte das suas
próprias modificações;
6. Morfogénese: Simultaneamente, o sistema familiar, para fazer face às
exigências internas e externas, deve possuir flexibilidade. Para tal, é necessário o sistema
reorganizar-se e produzir mudanças de segundo grau que permitam a sua adaptação às
novas condições (Walsh, 1982).
Segundo esta teoria, a análise às interacções do casal deverá ser efectuada, por
meio destes princípios reguladores dos sistemas abertos, que garantem que qualquer
comportamento tem de ser entendido como função de outro, ou do comportamento de
próprio sistema (Relvas, 2000).
As intervenções (preventivas e terapêuticas) têm como objectivo principal o de
promover o desenvolvimento dos cônjuges no sentido de serem capazes de recriar
construtiva e autonomamente a sua relação. Para tal, é utilizada a análise multigeracional
para a compreensão das situações específicas, recorrendo a estratégias que variam em
função da complexidade e dos valores mais interpretativos / estratégicos no trabalho das
cognições, emoções e comportamentos dos cônjuges (Costa, 1994).

I.2.3.4 - Teoria da Vinculação

1.2.3.4.1 – A Teoria da Vinculação: os primórdios


A vinculação é considerada o conceito-chave da segunda metade do século XX na
psicopatologia e na psicologia (Guedeney, 2004), na medida em que está
consubstanciado num sólido paradigma teórico de compreensão das relações humanas
(Pietromonaco & Barret, 2000).
A teoria da vinculação foi originalmente concebida por John Bowlby e nasce da
“...violência das separações e das carências precoces, na encruzilhada dos contributos da
psicanálise, da etologia, das ciências cognitivas, da informática e da cibernética com os
contributos da observação, da reconstrução e da narração”. (Guedeney, 2004, p.30).

33
Bowlby (1969) desenvolveu esta teoria a partir de um conjunto de observações
naturalistas de crianças separadas precocemente das suas mães. Segundo esta, o bebé
humano está capacitado de um sistema biológico – o sistema de vinculação – cuja função
primordial é a sua protecção e cuidado por um adulto cuidador (normalmente a mãe),
uma vez que a sua imaturidade não lhe permite sobreviver aos perigos do ambiente sem
qualquer tipo de cuidados. Deste modo, e como resultado de um processo de selecção
natural, o bebé humano teria tido a capacidade de desenvolver um conjunto de
comportamentos que funcionariam como forma de manter a proximidade a um adulto
cuidador (Hazan & Shaver, 1994). Esses comportamentos (de que é exemplo o choro)
seriam activados nos momentos de ansiedade como forma de protesto à alteração da
manutenção da proximidade à figura cuidadora (ou seja, de vinculação), e teriam como
objectivo o restabelecimento da mesma. A resposta do cuidador aos sinais de distress da
criança conduziria, ao longo de interacções continuadas, à construção de representações
mentais – modelos operantes internos – os quais corresponderiam às aprendizagens da
criança acerca da responsividade e disponibilidade do cuidador às suas necessidades de
conforto e segurança. Estas aprendizagens seriam fundamentais na construção do
modelos do self, o qual implica crenças e sentimentos e comportamentos acerca de si
próprio e dos outros, que tornar-se-ão guias em futuras relações afectivas (ibidem).
Ainsworth e alguns colaboradores (1978) interessaram-se igualmente pelo estudo
das interacções entre a criança e a mãe e desenvolveram um conjunto de observações
com base numa situação padrão – a situação estranha –a fim de avaliar a qualidade do
laço de vinculação da criança à mãe. Este procedimento laboratorial foi desenhado para
activar o sistema de vinculação da criança e consistia em separar a criança da sua mãe por
várias vezes, num ambiente que lhes era desconhecido. A investigadora procurava
compreender de que modo e quando as crianças procuravam a proximidade e o contacto
com as suas mães, o grau em que aceitavam e eram confortadas por esse contacto, e a
facilidade com que na sua presença evidenciavam comportamentos de exploração do
ambiente. Ou seja, Ainsworth pretendia observar os comportamentos de manutenção da
proximidade, de porto seguro e de base segura, que seriam resultantes da activação /
desactivação do sistema de vinculação e que são os componentes relacionais que
distinguem os laços de vinculação de outros tipos de relações sociais (Zeifman & Hazan,

34
1997). Os investigadores assumiram que o comportamento das crianças no laboratório
reflectia as suas expectativas (ou modelos operantes internos) baseadas nas respostas
anteriores da mãe às suas necessidades de contacto e de conforto. Encontraram três tipos
de padrões de vinculação: seguro, ansioso/ambivalente e evitante. As crianças com um
padrão de vinculação seguro apresentavam sinais de distress quando as suas mães saíam
da sala, eram confortadas pelo seu regresso e participavam em actividades de exploração
enquanto as suas mães permanecessem acessíveis. As suas mães mostraram-se
responsivas e atentas aos seus sinais. Corresponderam a cerca de 60% do total da amostra
de investigação. As mães das crianças com padrão de vinculação ansioso/ambivalente,
aproximadamente 15%, exibiram respostas inconsistentes aos sinais dos seus filhos – por
vezes mostraram-se indisponíveis e não responsivas; noutras vezes o seu comportamento
era manifestamente intrusivo. As crianças mostravam zanga, ansiedade e manifesta
preocupação às eventuais ausências das suas mães, de tal forma que o seu sistema de
exploração era frequentemente inibido. Por outro lado, as mães das crianças classificadas
como evitantes, contrariavam a sua procura de conforto, especialmente o contacto físico.
As crianças com padrão evitante, cerca de 25%, aparentemente pareciam não ficar
perturbadas pelas separações e evitavam o contacto com os seus cuidadores, focalizando
a sua atenção no ambiente (embora com menos entusiasmo e interesse relativamente às
crianças com padrão de vinculação seguro).
Posteriormente, Main e Solomon (1990) identificaram um quarto padrão de
vinculação – desorganizado/desorientado – que se define pela ausência de uma estratégia
coerente para gerir a ansiedade e que se manifesta por uma mistura de comportamentos
de ambivalência e de evitamento.

1.2.3.4.2 - A Perspectiva do Amor Romântico como Processo de Vinculação


Bowlby (1979) postulou que é o sistema de vinculação, como resultante das
pressões da selecção ao longo da evolução, que predispõe o ser humano para formar
relações próximas, na medida em que a necessidade de segurança (uma das necessidades
fundamentais para a sobrevivência e reprodução) é melhor satisfeita no contexto de
relações sociais. Tratando-se de uma dimensão do funcionamento psíquico humano que
permanece pertinente do nascimento até à morte, considerou que a vinculação é essencial

35
na ligação entre a criança e o seu cuidador, não sendo limitada à idade da infância,
mantendo-se estável e com um papel importante ao longo da vida do sujeito, uma vez que
os modelos operantes internos de si e dos outros construídos com base nas interacções
com o cuidador e os padrões comportamentais influenciados por eles são componentes
essenciais da personalidade.
Hazan e Shaver, com base nestes pressupostos, levaram a cabo um conjunto de
investigações cujo pressuposto foi a conceptualização do amor romântico como um
processo de vinculação (Hazan & Shaver, 1987; Shaver & Hazan, 1988), logo como um
sistema biológico, complexo e dinâmico, interrelacionado com outros sistemas
biológicos, tendo origem nos primórdios do desenvolvimento relacional do ser humano.
Estes autores argumentaram que as relações no casal são ligações afectivas que envolvem
processos sócio-emocionais bastante complexos, os quais apresentam bastantes
semelhanças com as relações de vinculação que se estabelecem entre a criança e a sua
figura de cuidado. Assim, as variações nas experiências sociais precoces produziriam
diferenças nos estilos de relacionamento adulto, de modo a que os três estilos de
vinculação principais descritos na literatura da criança (seguro, evitante e ambivalente) se
manifestariam no amor romântico. Os estudos empíricos avaliaram a relação entre o
estilo de vinculação e aspectos das relações nas crianças e nos adultos.
Num primeiro estudo, Hazan e Shaver (1987) desenvolveram um questionário
constituído por várias medidas do amor romântico e por descrições de relações de
vinculação extrapoladas a partir da literatura de vinculação na infância, o qual foi
distribuído a partir de um jornal local. Os questionários devolvidos permitiram encontrar
resultados que indicavam que as frequências dos 3 estilos de vinculação eram similares
aos observados em crianças: cerca de 56% dos adultos descreveram-se como seguros,
25% como evitantes e 19% como ambivalentes. Consistente com as predições baseadas
na teoria da vinculação, os três grupos diferiram nos seus relatos das relações familiares
precoces, modelos operantes de vinculação e experiências amorosas. Este estudo
apresenta limitações as quais foram referidas pelos próprios: devido à forma de recolha
dos dados (através de anúncio em jornal local) as medidas eram simples e breves; os
sujeitos descreviam a sua experiência de uma única relação e, por isso, o foco estava nas
qualidades da relação que diferenciavam os 3 grupos de vinculação.

36
Apesar das limitações da primeira investigação, Hazan e Shaver continuaram a
desenvolver a pesquisa providenciando uma explicação normativa do amor romântico (ie,
explicando os processos típicos na vinculação romântica) e uma compreensão das
diferenças individuais observadas nos estilos de relacionamento adultos.
Este corpo de investigação despertou a atenção de muitos investigadores, os quais
procuram estabelecer relações com outros temas de investigação como a
conceptualização do amor e da vinculação, a regulação afectiva, entre outros.
Uma dessas linhas procurou compreender a conceptualização do amor e da
vinculação. Shaver e Hazan (1988) propuseram uma integração das teorias do amor já
existentes com a perspectiva da vinculação. Levy e Davis (1988) avaliaram a relação
entre o estilo de vinculação e as medidas dos estilos de amor descritos por Lee5 (1988) e
os componentes do amor discutidos por Sternberg6 (1988, cit por Sternberg, 2001).
Segundo Hazan e Shaver (1988), os indivíduos seguros corresponderiam a uma
combinação do amor eros (amor apaixonado) e amor agape (amor altruísta); os
indivíduos evitantes corresponderiam a ludus (amor game-playing) e os indivíduos
ambivalentes corresponderiam a mania (amor possessivo/dependente). Levy e Davis
(1988), baseando-se nos valores de cada estilo de amor e de cada estilo de vinculação,
confirmaram estes resultados, embora as associações fossem modestas. No que respeita
ao modelo do amor triangular de Sternberg (1986, cit por Sternberg, 2001), os três
componentes descritos pelo autor como correspondendo ao amor (intimidade, paixão e
compromisso) estavam positivamente relacionados com a vinculação segura e
negativamente relacionados com as vinculação evitante e ambivalente. Estes resultados
mostram a relação entre a vinculação segura e o melhor funcionamento da relação
amorosa, mas não estabelecem quaisquer relações com cada um dos estilos inseguros.
Feeney e Noller (1990) desenvolveram uma pesquisa com o objectivo de replicar
os trabalhos de Hazan e Shaver (1987) e de avaliar a integração das teorias do amor

5
Lee (1988) elaborou uma tipologia de estilos de amor, defendendo que o essencial não é encontrar uma
definição de amor nem saber quanto se ama, mas sim distinguir diferentes estilos de amr. Utilizou a
analogia da cor e propôs três estilos primários de amor (eros, storge e ludus) e três estilos secundários que
resultam da combinação dos primários (agape, pragma e mania).
6
Sternberg (1988, cit por Sternberg, 2001) elaborou uma teoria sobre o amor - teoria triangular do amor –
na qual considera a existência de três componentes (intimidade, compromisso e paixão) que podem ser
vistos como formando os vértices de um triângulo, os quais se combinam para formar 7 tipos de amor. A
forma do triângulo é condicionada pela quantidade e pelo equilíbrio do amor.

37
propostas pelos autores. Uma vez mais, foram replicados os resultados de Hazan e
Shaver, uma vez que se encontraram valores semelhantes no que concerne às diferenças
dos grupos de vinculação para as medidas da história familiar e modelos operantes. Um
aspecto curioso foi o facto dos indivíduos evitantes terem maior probabilidade de referir
uma separação longa das suas mães durante a infância, o que é consistente com a teoria
da vinculação. No que se refere à relação entre a perspectiva da vinculação e as teorias do
amor, as autoras observaram, a partir de análise factorial, que existiam 4 grandes factores
que diferenciavam significativamente os grupos de vinculação: os indivíduos seguros
tinham níveis elevados em auto-confiança e reduzidos em amor neurótico e evitamento
da intimidade: todos os indivíduos inseguros referiram níveis baixos em auto-confiança,
mas enquanto os evitantes tinham níveis altos em evitamento da intimidade, os
ambivalentes possuíam níveis elevados em amor neurótico (preocupação, dependência e
idealização) e níveis reduzidos em amor discreto (circumspect love). Estes dados
suportam a análise proposta por Hazan e Shaver (1988), acrescentando-lhe alguma
qualificação.
Todos estes resultados levaram a que Hazan e Shaver (1994) considerassem que
na base dos relacionamentos amorosos está o sistema de vinculação, o qual é definido por
características semelhantes ao sistema de vinculação na infância – procura de
proximidade, porto seguro e base segura – embora assinalem a existência de diferenças
importantes entre a vinculação nas duas fases de vida. Em primeiro lugar, ao contrário do
que se passa na infância, os laços de vinculação nos relacionamentos adultos
estabelecem-se na reciprocidade. Cada parceiro é ao mesmo tempo dador e receptor de
apoio, de atenção e de segurança, tornando-se uma figura de vinculação e utilizando o
parceiro como figura de vinculação para si próprio. Por outro lado, a primeira figura de
vinculação da criança é geralmente um dos pais, ao passo que na a figura de vinculação
do adulto é um companheiro, frequentemente, um parceiro sexual, estando assim em
interacção três sistemas comportamentais: sexual, de vinculação e de caregiving. Os
autores salientam como diferença a considerar os motivos que levam à procura de
proximidade. Para os adultos, a procura de proximidade advém, não só como forma de
reduzir a ansiedade resultante de situações geradoras de stress (como na infância), como

38
também do desejo de protecção ou oferta de conforto (caregiving) e do envolvimento em
actividades sexuais (sistema sexual).
No que concerne às funções do sistema de vinculação nos adultos, Hazan e Shaver
(1994) consideram a satisfação de necessidades básicas de segurança, de conforto e de
cuidado (tal como na infância). Contudo, a função de manutenção da espécie,
nomeadamente na educação dos bebés (Buss & Schmidt, 1993; Hill & Hurtado, 1995; cit
por Mintz, 2004) é também primordial (e exclusiva dos adultos), na medida em que sendo
o bebé imaturo e dependente das qualidades dos cuidados parentais para a sua
sobrevivência, um laço de vinculação entre os pais contribui para manter o maior tempo
possível juntos o casal parental e, assim, assegurar de forma mais adequada a função dos
cuidados parentais. Outra das funções parece ser o contributo para uma melhor qualidade
de vida (Goodwin et al., 1987; Uschino et al., 1996; cit por Mintz, 2004). Verifica-se que
os indivíduos que vivem rupturas dos seus laços de vinculação estatisticamente têm mais
perturbações psíquicas, mais patologias somáticas, mais acidentes e mais
comportamentos aditivos do que a população em geral. A continuidade dos laços, ao
fornecer um suporte afectivo-emocional, permite a manutenção de uma base de segurança
que cada parceiro concede ao outro e permite actividades de exploração mais
desenvolvidas como a actividade profissional e os diferentes investimentos sociais na
idade adulta (Hazan & Shaver, 1990).
Relativamente à formação do laço de vinculação, Zeifman & Hazan (1997)
propuseram um modelo em quatro fases: a primeira fase, denominada pré-vinculação,
corresponde ao período inicial de flirt. O laço de vinculação ainda não existe mas a
natureza das relações – beijos, trocas de olhar, relações sexuais – favorece o
desenvolvimento de um laço de vinculação posterior se o objectivo do flirt não for
unicamente a satisfação sexual. A componente sexual introduz uma motivação para o
desenvolvimento de relações sociais e serve de catalisador para orientar a atenção para
futuros parceiros. A atracção sexual favorece a construção de um laço de vinculação e é
reforçada por este (Aron, et al., 1989; Backman & Secord, 1959; Curtis & Miller, 1986;
cit por Mintz, 2004). A vinculação em vias de constituição constitui a segunda fase,
aquela em que os indivíduos se apaixonam. A proximidade física já não é motivada
unicamente pela atracção sexual mas pela procura de uma intimidade mais geral, em

39
busca de segurança. As trocas começam a implicar as emoções, e cada parceiro revela o
que sente dando informações sobre a sua própria história (experiências dolorosas,
medos); permitem testar a resposta do outro de forma a que cada um se torne o suporte
emocional do parceiro. Segue-se o laço de vinculação. A atracção sexual tem menos
importância e as trocas emocionais ocupam o lugar principal nos vínculos. A partir da
repetição das experiências que, através destas trocas buscam o conforto e segurança, o
vínculo amoroso é associado à redução do stress. O parceiro torna-se então o «porto
seguro» em caso de necessidade e em situações de separação surgem manifestações de
aflição. A quarta fase é caracterizada pela parceria corrigida quanto ao objectivo. Trata-
se de uma fase «pós-romance» na qual a proximidade física e todos os comportamentos
que favorecem o desenvolvimento de um laço de vinculação diminuem. Há um voltar
para o exterior visto que existe a garantia de uma laço de vinculação numa
interdependência emocional.
Geralmente, ao fim de cerca de dois ou três anos, a relação com o parceiro torna-o
a figura de vinculação principal (Weiss, 1988; Vormbrock, 1993, cit por Mintz, 2004).
Embora os amigos possam representar pessoas com as quais o adulto procura manter uma
certa proximidade e que podem favorecer conforto, apenas o parceiro amoroso, se tiver
uma relação estável com o sujeito superior a dois anos, desempenha o papel de base de
segurança. Da mesma forma, só em relação ao parceiro é que se reactivam as reacções de
aflição em caso de separação não prevista ou prolongada. Esta reacção à separação segue
a mesma sequência observada na criança: associa protesto, desespero e desapego. Esta
sequência não se verifica apenas em separações permanentes como a morte (Hazan,
1990).

A vinculação nos adultos tem vindo a ser analisada nas suas várias vertentes.
Assim, os estudos empíricos têm demonstrado que a cada estilo de vinculação estão
associadas características distintas ao nível da regulação emocional, do estilo de
comunicação, da forma de lidar consigo próprio, com os outros e com o mundo
envolvente.

40
1.2.3.4.3 - Vinculação e Regulação Emocional
Ao nível da regulação emocional na vinculação adulta, ou seja, na forma de lidar
com as emoções negativas, pensa-se que as diferenças nos estilos de vinculação reflectem
as experiências de regulação do distress com os cuidadores. Através dessas experiências,
o indivíduo aprende estratégias para organizar a experiência emocional e lidar com os
sentimentos negativos; essas estratégias são igualmente aplicadas a outras situações
stressantes. Espera-se que os indivíduos seguros, tendo experimentado cuidados
responsivos, sejam capazes de lidar com sentimentos negativos de uma forma
construtiva, reconhecendo o distress e procurando suporte nos outros. Os indivíduos
evitantes têm maior probabilidade de restringirem o reconhecimento do distress e da
expressão dos sentimentos negativos, tendo aprendido a confiar neles próprios como
forma de reduzir o conflito com a rejeição e insensibilidade dos seus cuidadores. Espera-
se que os indivíduos ambivalentes mostrem um elevado grau de reconhecimento e
expressão dos sentimentos negativos, que se mostra ser uma forma de manter o contacto
com os cuidadores inconsistentes. Kobak e Sceery (1988) examinaram os padrões de
vinculação, as representações do próprio e dos outros e a regulação afectiva numa
amostra de estudantes, e concluíram que os indivíduos seguros estavam bem ajustados e
lidavam bem com as emoções negativas de formas constructivas. Os indivíduos evitantes
(desligados) eram descritos pelos pares como hostis mas manifestaram níveis de
competência social e distress similares aos dos indivíduos seguros, o que sugere uma
falha ao nível do reconhecimento dos sentimentos negativos. Para os indivíduos
ambivalentes (preocupados), tanto os auto-relatos como as classificações dos pares
indicaram níveis elevados de distress e de ansiedade, o que indica que estes mostram
tanto um elevado reconhecimento como expressão das emoções negativas.
Mallinckrodt e Wei (2005) confirmaram a existência de uma associação positiva
entre a vinculação ansiosa e evitante com o distress psicológico e uma associação
negativa entre os dois tipos de padrões inseguros com o suporte social percebido.
No que se refere à regulação dos afectos negativos nas relações românticas,
Simpson (1990) procurou compreender a relação entre o estilo de vinculação e os relatos
da experiência emocional, tanto ao nível da qualidade emocional da relação como em
termos das respostas ao terminar da mesma. Os indivíduos seguros reportaram com maior

41
frequência emoções positivas e com menor frequência emoções negativas, relativamente
aos indivíduos evitantes e ambivalentes. Este resultado pode reflectir dois efeitos inter-
relacionados: os indivíduos seguros podem formar relações de melhor qualidade e podem
percepcionar os acontecimentos da relação de um modo mais positivo (ibidem). No que
respeita ao terminar das relações, os resultados foram uma vez mais consistentes com a
teoria da vinculação: os indivíduos evitantes referiram menos distress (este efeito só se
reproduziu nos homens) (ibidem). Feeney e Noller (1992) replicaram parcialmente estes
mesmos dados, encontrando nos indivíduos evitantes emoções de alívio e de pouca
peocupação com o fim da relação amorosa, ao passo que nos indivíduos ambivalentes as
emoções estavam ao nível da surpresa e da preocupação.
Os estudos referidos até agora utilizaram medidas de auto-relato e questões
fechadas. Para compreender a espontaneidade do tema da vinculação na percepção das
relações amorosas, Feeney e Noller (1991) conduziram um estudo em que através de
relatos «abertos» das relações amorosas, procuraram inferir os assuntos específicos da
vinculação nas relações românticas. Os indivíduos seguros enfatizaram o suporte mútuo
do companheiro, o equilíbrio que deve existir no que respeita à dependência no casal, e a
visão de que a relação se baseava na amizade. Os indivíduos evitantes também deram
importância à amizade como base da relação, mas sentiam necessidade de impor limites
claros à proximidade, dependência e compromisso. Os sujeitos ambivalentes tendiam a
idealizar os seus companheiros, procurando uma grande proximidade e compromisso.

1.2.3.4.4 - Desenvolvimento de outras Medidas de Vinculação


Bartholomew (1990; Bartholomew & Horowitz, 1991) desenvolveu uma outra
medida da vinculação, com quatro categorias, as quais se sustentam na reflexão de
Bowlby de que os padrões de vinculação reflectem os modelos operantes do self e o dos
outros. De acordo com Bartholomew, os modelos do self podem ser dicotomizados em
positivos (o self é entendido como merecedor de amor e atenção) e em negativos (o self é
visto como não merecedor). De forma, similar, os modelos dos outros podem ser
encarados como positivos (outros são vistos como disponíveis e interessados) ou como
negativos (outros percepcionados como indisponíveis e rejeitantes). De forma conjunta,
os modelos operantes do self e dos outros definem quatro estilos de vinculação: dois

42
estilos evitantes – desinvestido e amedrontado, o estilo seguro e o estilo preocupado. O
estilo seguro corresponde ao modelo positivo do self e dos outros. São indivíduos que se
sentem confortáveis com a intimidade e com a autonomia. O estilo preocupado
corresponde a um modelo negativo do self e um modelo positivo dos outros, o que se
traduz em grande ansiedade nos relacionamentos. No estilo desinvestido, há uma visão
negativa dos outros mas uma percepção positiva do self, a que correspondem
comportamentos de negação da vinculação e de pouco conforto na relação íntima com os
outros. Os indíviduos com vinculação do tipo amedrontado percepcionam de forma
negativa o self e os outros. São pessoas que desejam a intimidade, mas que não confiam
nos outros, acabando por evitar a intimidade por medo da perda e da rejeição. Vivem as
relações íntimas tal como os indivíduos preocupados: com bastante ansiedade.
Este modelo tem recebido bastante suporte empírico (Brennan, Shaver & Tobey,
1991; Bartholomew & Horowitz, 1991; Feeney, Noller & Hanrahan, 1994; Brennan et
al., 1998; Feeney, 1995), o que levou a que vários investigadores o adoptassem no estudo
de vários indicadores da relação romântica.
De facto, os resultados obtidos no estudo de Broemer e Blüme (2003) sobre a
auto-imagem nas ligações íntimas comprovam a importância que a percepção que os
indivíduos têm acerca de si próprios (modelos do self) é sujeita a variações na
acessibilidade da informação positiva ou negativa relacionada com o próprio que, por sua
vez, é influenciada pelo seu estilo de vinculação, ou seja, os indivíduos constroem a sua
auto-imagem com base nas suas experiências de vinculação passadas.

1.2.3.4.5 - Vinculação e Qualidade / Satisfação7 na Relação


Levy & Davis (1988) e Simpson (1990) concluiram que as vinculações seguras
estavam associadas a níveis elevados de confiança, compromisso, satisfação e
interdependência. De modo oposto, a vinculações evitantes ou ambivalentes
correspondiam níveis baixos de confiança e satisfação. A vinculações evitantes também
se associavam níveis baixos de interdependência e de compromisso. Collins e Read
(1990) utilizaram uma medida do estilo de vinculação que incluía escalas para avaliar o

7
Apesar de na literatura estarem bem descritas as diferenças entre qualidade e satisfação conjugal (Narciso,
2001), optou-se por, no contexto da presente revisão de literatura, utilizar os dois conceitos como referindo-
se à avaliação da relação conjugal, não distinguindo um do outro.

43
conforto com a proximidade e a ansiedade relativa a assuntos da relação. Foram
encontrados alguns dados robustos relacionados com o sexo. Assim, para as mulheres, a
ansiedade na relação estava associada à respectiva qualidade, reflectindo-se em
comportamentos de ciúme, baixos níveis de comunicação, proximidade e satisfação. Para
os homens, o conforto com a proximidade era uma dimensão fundamental da vinculação,
e que portanto estava associado a vários índices da qualidade da mesma. Em 1994,
Kirkpatrick e Davis chegaram a resultados semelhantes a estes: as mulheres ambivalentes
avaliavam a sua relação de forma negativa, tal como os homens evitantes.
Outra questão que se coloca refere-se ao efeito do estilo de vinculação do parceiro
na qualidade da relação romântica. Collins e Read (1990) descobriram que a avaliação da
relação estava relacionada com o estilo de vinculação do parceiro, de uma forma paralela
ao efeito do estilo de vinculação do próprio. Outros investigadores encontraram efeitos
semelhantes (Simpson, 1990; Kirkpatrick & Davis, 1994; Kobak & Hazan, 1991; Feeney,
Noller & Callan, 1994). Em resumo, a literatura confirma que a qualidade da relação é
melhor em indivíduos com vinculação segura, e por aqueles cujos companheiros têm uma
vinculação segura.

1.2.3.4.6 - Vinculação e Comunicação


Uma das questões fulcrais na qualidade das relações interpessoais é a
comunicação. E este é um tema de pesquisa bastante frequente para os investigadores da
vinculação nas relações românticas. Pistole (1989) investigou as implicações do estilo de
vinculação nos relatos da resolução de conflitos numa amostra de estudantes envolvidos
em relações amorosas. Observou que os indivíduos seguros tinham maior probabilidade
de utilizar estratégias integradoras ou de resolução de problemas que os indivíduos
inseguros. Os indivíduos ambivalentes tinham maior tendência a favorecer os seus
parceiros do que os indivíduos evitantes. Estes resultados indicam a tendência dos
indivíduos seguros para utilizarem estratégias de resolução de conflitos mais construtivas.
Feeney, Noller e Callan (1994) procuram estudar a ligação entre vinculação,
comunicação e satisfação em casais ao longo de dois anos de casamento. Foram avaliadas
duas dimensões da vinculação (conforto com a proximidade e ansiedade na relação) e três
aspectos da comunicação (qualidade das interacções quotidianas, auto-relato do estilo de

44
conflito e fidelidade não verbal). Nas interacções quotidianas, os maridos que se sentiam
confortáveis com a intimidade, relatavam envolvimento, satisfação, reconhecimento e
abertura. A ansiedade na relação, para as mulheres, estava associada a domínio, conflito,
descontentamento e pouco envolvimento. No que se refere ao estilo de conflito, a
variável chave relacionada com a vinculação era a ansiedade na relação. A análise ao
longo do tempo indicou que as escalas de vinculação prediziam as variáveis da relação.
Deste modo, o conforto com a proximidade era preditor de fidelidade não verbal
posterior, para as mulheres; a ansiedade na relação era preditora de padrões de conflito
nas mulheres e baixa fidelidade não verbal e insatisfação nos homens. De uma forma
global, os autores consideram que em casamentos recentes, a comunicação e a vinculação
têm efeitos independentes na satisfação com a relação.
Feeney (1994) encontrou resultados diferentes no estudo sobre padrões de
conflitos, vinculação e satisfação conjugal no ciclo de vida marital. Para as mulheres, a
relação entre a vinculação segura e a satisfação marital era mediada pelos padrões de
comunicação. Para os maridos, o estilo de conflito apenas mediava parcialmente a relação
entre vinculação segura e satisfação marital.

1.2.3.4.7 - Vinculação e Sexualidade


Para uma análise mais cuidadosa das relações românticas, há que ter em
consideração os sistemas comportamentais que lhe estão associados e que foram descritos
por Shaver et al. (1988) como sendo o sistema de cuidado (caregiving) e a sexualidade.
Uma vez que o sistema de vinculação surge numa etapa do desenvolvimento muito
precoce e que tem um papel primordial na formação dos modelos operantes, o sistema de
vinculação influencia a expressão do cuidado e da sexualidade. Deste modo, a vinculação
tem, através das suas inter-relações com o sistema de cuidado e a sexualidade, um papel
activo no estabelecimento e manutenção das relações amorosas. No que respeita ao
sistema de cuidado nas ligações íntimas, a literatura aponta para o facto da satisfação
marital ser melhor predita por indicadores relacionados com o cuidado do que por
medidas de personalidade, saúde ou circunstâncias materiais (Kotler, 1985).

45
Assim, relativamente à relação entre a vinculação e a sexualidade, Sprecher,
McKinney e Orbuch (1991) observaram que a satisfação sexual é um bom preditor da
qualidade e estabilidade da relação.
Feeney, Noller e Patty (1993) descobriram que os indivíduos evitantes tinham
mais atitudes positivas relativamente ao sexo casual do que os restantes grupos de
vinculação. Resultados semelhantes foram encontrados por Brennen e Shaver (1995).
Hazan e Zeifman (1994) elaboraram um estudo que visou compreender a relação
entre a vinculação e a expressão da sexualidade. Os indivíduos seguros apresentaram
níveis baixos de probabilidade de se envolverem em encontros de uma só noite, e de se
envolverem em relações extra-conjugais e tinham maior probabilidade de apreciarem o
contacto físico. Os indivíduos evitantes tendiam a relatar actividades com baixo
envolvimento psicológico (encontros de uma só noite, relações extra-conjugais, sexo sem
amor) e menos prazer no desfrutar do contacto físico. Os indivíduos ambivalentes
reportaram apreciar o domínio e as carícias. Às mulheres ambivalentes também foram
associados comportamentos de voyeurismo, dominação e exibicionismo.
Carnelley, Pietromonaco e Jaffe (1996) avaliaram a ligação entre o estilo de
vinculação e o sistema de cuidado, e as implicações destas variáveis na satisfação marital.
A vinculação segura dos indivíduos estava relacionada com a provisão de mais cuidado
aos parceiros românticos. A vinculação segura do indivíduo, a vinculação segura do
companheiro e a provisão de cuidado contribuíam para a satisfação com a relação.
Feeney (1996) constatou, numa amostra de casais, que a vinculação segura estava
associada ao cuidado ao parceiro, e que a satisfação conjugal era maior nos companheiros
com vinculação segura e para aqueles cujos companheiros referiam mas cuidado
responsivo.
Num estudo recente, Bogaert e Sadava (2002) encontraram algumas relações
importantes entre o estilo de vinculação e o comportamento sexual. Os indivíduos
seguros percepcionavam-se como mais fisicamente atraentes e sentiam maior satisfação
com a relação, ao passo que os indivíduos ansiosos percepcionavam-se como menos
atraentes, tinham mais parceiros amorosos ao longo da vida, eram mais infiéis e tomavam
mais precauções sexuais (e.g. uso de preservativo). Estes resultados eram mais
significativos para as mulheres.

46
1.2.3.4.8 - Vinculação e Stress
Outro tema da literatura relacionado com a vinculação é o impacto das condições
ambientais indutoras de stress na qualidade da relação romântica. Uma vez que os
comportamentos de vinculação têm maior probabilidade de serem activados em
condições geradoras de stress, é de esperar que sob estas condições se manifestem
comportamentos de vinculação diferenciados (Simpson & Rholes, 1992). Simpson e
colaboradores (1992) investigaram o efeito de um stressor específico no comportamento
de vinculação do casal e descobriram que a procura de suporte no parceiro e suporte dado
pelo parceiro era influenciada pelo estilo de vinculação. Nas mulheres seguras, níveis
mais elevados de ansiedade observada estavam associados a níveis mais elevados de
procura de apoio; nas mulheres evitantes, níveis mais elevados de ansiedade estavam
associados comportamentos de afastamento emocional e físico relativamente aos seus
parceiros. O mesmo se observou para o sexo masculino.
As diferenças no estilo de vinculação em resposta a situações ambientais de stress
também foram estudadas no contexto dos ataques com mísseis que ocorreram em Israel
durante a Guerra do Golfo Pérsico. Mikulincer, Florian e Weller (1993) observaram que
os indivíduos com estilos de vinculação evitante e ambivalente referiram níveis elevados
de hostilidade e sintomas psicossomáticos. Os indivíduos ambivalentes referiram ainda
sintomas de ansiedade e depressão. Quanto à forma de lidar com a situação, os indivíduos
seguros tendiam a procurar apoio junto de outros, ao passo que os evitantes procuravam
distanciar-se da ameaça e os indivíduos ambivalentes focalizaram-se em respostas
emocionais. Estes resultados indicam que os indivíduos com vinculação segura tendem a
desenvolver respostas mais construtivas para lidar com o stress, relativamente aos outros
dois grupos.
No que diz respeito aos recursos de coping, os resultados do estudo de Myers e
Vetere (2002), indicam que o estilo de vinculação está associado aos recursos de coping
disponíveis, no sentido em que os indivíduos seguros referem mais recursos que os
indivíduos ambivalentes e evitantes, nomeadamente no que diz respeito aos recursos de
coping emocionais e sociais.
Relativamente à associação entre estilo de vinculação e percepção de suporte
social, a pesquisa efectuada mostra que os indivíduos estão predispostos para avaliar as

47
experiências de suporte de forma consistente com os seus modelos operantes de
vinculação, sobretudo quando as mensagens sobre o suporte são ambíguas (Collins &
Feeney, 2004). Os indivíduos inseguros (ansiosos e evitantes) avaliam as mensagens
sobre o suporte social de forma mais negativa, consideram o comportamento prévio do
companheiro como de menor suporte e têm um desempenho nas tarefas inferior ao
evidenciado pelos indivíduos seguros (ibidem).
Enquadrado numa perspectiva de quatro protótipos de vinculação, Ognibene e
Collins (1998) referiram existir diferenças entre sujeitos amedrontados, que
percepcionam menor suporte por parte de amigos, e sujeitos preocupados, que
percepcionam menor suporte social em familiares. Colocaram em evidência que o suporte
dos amigos estava associado ao grau com que os indivíduos se sentiam confortáveis nos
relacionamentos (isto é, modelos dos outros) e com o grau em que se sentiam mais
confiantes em si próprios (modelo do self). Pelo contrário, o suporte familiar estava
associado apenas com os modelos do self, ou seja, os indivíduos que tinham modelos
mais positivos de si próprios, mostravam ter expectativas mais favoráveis acerca do
suporte de familiares (ibidem).
Existe ainda um padrão de coping associado a cada estilo de vinculação. Os
adultos seguros utilizam sobretudo estratégias de procura de suporte social e de coping
focado no problema (Feeney, 2004); os sujeitos preocupados utilizam estratégias de
procura de suporte social e de evitamento; os indivíduos desligados tendem a utilizar
estratégias de confronto, ao passo que os amedrontados são os que procuram menos
suporte social no seu meio ambiente (Ognibene & Collins, 1998).

1.2.3.4.9 - Vinculação e Conjugalidade – Uma síntese


O estudo da conjugalidade na perspectiva da teoria da vinculação começou com o
estudo das rupturas da relação conjugal, mas mais recentemente tem sido dada ênfase ao
estudo da vinculação em relações conjugais existentes (Berman, Marcus & Berman,
1994; Kobak & Hazan, 1991).
Berman e colaboradores (1994) postulam que os laços conjugais são aqueles em
que os adultos têm mais probabilidade de desenvolver verdadeiras relações de
vinculação. Para que um casamento seja saudável, é necessário que cada membro do

48
casal seja simultaneamente fornecedor e receptor de cuidados e de protecção, que seja
capaz de aceitar a protecção e os cuidados e que lhes atribua significado na relação. Estes
autores sugerem uma relação interaccional complexa entre a díade conjugal, na qual a
natureza do modelo operante interno de um indivíduo afecta o seu próprio
comportamento e o modelo operante interno e o comportamento do cônjuge. Deste modo,
o objectivo da vinculação do adulto é a regulação de um nível óptimo de proximidade /
distância, continuada e estável, com o cônjuge. Por sua vez, a regulação da proximidade
regula a ansiedade e a segurança. O modelo de funcionamento interno da vinculação, no
contexto da conjugalidade, refere-se deste modo a uma representação mental de si
próprio e do outro em interacção, o qual contribui para as expectativas, crenças e
atribuições que cada sujeito tem sobre si e sobre o cônjuge. Os princípios organizadores
no modelo de funcionamento interno da vinculação são atributos invariantes da
interacção, os quais são também activadores e desencadeadores do modelo operante
interno. Geralmente, isto pode incluir certas características físicas da figura de
vinculação, acções dos participantes e o afecto que liga o sujeito à figura de vinculação
(ibidem).

Numa revisão crítica acerca destas teorias, Ribeiro (2002) considera a existência
de duas forças centrais que interagem na natureza do casamento: aspectos da interacção
entre os dois cônjuges e aspectos das fantasias, modelos atribuições, crenças e regras
internas da relação por parte de cada pessoa. Assim, uma das distinções entre as teorias é
a sua atenção relativamente à interacção actual versus representações mentais internas da
relação. Os modelos psicanalítico e cognitivo enfatizam os processos mentais internos, ao
passo que os modelos comportamentais e de troca social centram-se sobretudo nos
reforços e nos benefícios e custos observáveis. A teoria da vinculação permite a
exploração da interface entre os aspectos representacionais e interaccionais dentro do
casal, enquanto as teorias sistémicas dão relevo aos processos interaccionais da
conjugalidade, considerando igualmente os processos mentais envolvidos.

49
1.3 - Formas de conjugalidade – acontecimentos de vida normativos e não
normativos no ciclo de vida familiar

O casal surge quando dois indivíduos de sexo diferente assumem o desejo de


viverem juntos para deste modo criarem um modelo relacional único e irrepetível
(Relvas, 1996). Esta autora salienta o facto de cada relação conjugal ter a propriedade de
poder tomar múltiplas formas mantendo-se, no entanto, reconhecível.
Consideramos o desenvolvimento do casal / família numa perspectiva de modelo
de ciclo de vida, o qual se define “ por um conjunto de acontecimentos universais, apesar
das variações culturais ou subculturais, sequencialmente previsíveis, indutoras de
mudança e de adaptação, formal ou simbólica, da organização familiar (...). No entanto, o
processo psicológico inerente a estes acontecimentos de vida é diferente para cada família
dadas as suas características específicas, o que lhe confere unicidade” (Costa, 1994,
p.20).
O ciclo vital da família que, segundo alguns autores, se inicia com a etapa «entre
famílias: o jovem adulto independente» (McGoldrick & Carter, 1982) e que, segundo
outros, se inicia com a formação do casal (Duvall, 1977; Relvas, 1996), vai
complexificando o seu funcionamento com o objectivo de responder adequadamente às
tarefas de desenvolvimento, grupal e individual, que se lhe vão colocando (Relvas, 1996).
A cada etapa de desenvolvimento do ciclo de vida familiar correspondem, então,
processos emocionais de transição, sendo necessárias mudanças de segunda ordem, para
que o sistema familiar evolua para um estádio mais avançado no seu desenvolvimento
(McGoldrick & Carter, 1982). Este desenvolvimento processa-se em função dos
membros que constituem a família e da forma como lidam com as transições do ciclo de
vida familiar (Costa, 1994). Estas transições podem ter um carácter normativo, ou seja,
são esperados ou mesmo planeados, embora imprevisíveis no que se refere ao seu
desfecho, ou podem ter um carácter não normativo, quando se tratam de momentos
imprevistos, logo não esperados pelos membros da família, sendo igualmente
imprevisíveis no que concerne à reestruturação familiar que promovem (Relvas, 2005).
As transições familiares normativas, segundo o modelo de McGoldrick e Carter
(1982) correspondem às etapas do ciclo de vida que são as seguintes:

50
1. Entre Famílias - o jovem adulto independente – Corresponde à aceitação da
separação pais-filhos o que, em termos de tarefas de desenvolvimento, se traduz na
diferenciação do self em relação à família de origem, ao desenvolvimento de relações
íntimas com um parceiro e ao estabelecimento de uma identidade no mundo laboral;
2. Junção de Famílias pelo Casamento: o novo casal – Existe o estabelecimento
de um compromisso com o novo sistema, o que passa pela formação do novo sistema
conjugal e pelo realinhamento das relações com as famílias de origem e os amigos de
modo a possibilitar a inclusão do cônjuge;
3. Famílias com Filhos Pequenos – Compreende a aceitação no sistema dos
membros da nova geração, o que implica um ajustamento do subsistema conjugal (para
assim criar «espaço» para os filhos), e também o assumir dos papéis parentais, bem como
um novo realinhamento das relações com as famílias de origem a fim de nelas incluir os
papéis parentais e os avós;
4. Família com Filhos Adolescentes – Exige a flexibilização dos limites familiares
de modo a aceitar a independência dos filhos. Para tal, é necessário criar uma mudança na
relação entre pais e filhos, de modo a possibilitar-lhes as entradas e saídas do sistema;
comporta, ainda, uma recentração nos aspectos da vida conjugal da meia-idade e das
carreiras profissionais, sendo igualmente o início do estabelecimento da função de
suporte à geração mais velha;
5. Saída dos Filhos – Reflecte-se na aceitação de múltiplas entradas e saídas no
sistema, o que se traduz em tarefas como a renegociação do subsistema conjugal como
díade, no desenvolvimento de relações adulto-adulto entre os jovens e os pais, no
realinhamento de relações para incluir os parentes por afinidade e os netos e a
necessidade de lidar com as incapacidades e morte dos pais (avós);
6. Última Fase da Vida da Família – Corresponde à aceitação da mudança dos
papéis geracionais através da manutenção de interesses, próprios e/ou do casal, da
exploração de novas opções familiares e sociais, do papel de destaque dado à geração
intermédia (ou seja, os filhos), a aceitação da experiência e sabedoria dos mais velhos, ao
mesmo tempo que se lhes oferece mais suporte, a aceitação da perda do cônjuge, irmãos e
outros da mesma geração e a preparação para a morte através de uma revisão e integração
da própria vida.

51
A conceptualização do ciclo vital da família oferece um contributo valioso ao seu
estudo, na medida em que se centra na evolução temporal das interacções entre os
membros da família, entre estes e outros não-familiares e entre a família e outras
estruturas sociais (Relvas, 1996).
Contudo, existem acontecimentos não normativos que vêm contrariar, de algum
modo, o carácter mais ou menos previsível do desenvolvimento familiar. Costa (1994)
faz uma análise de três dos grandes acontecimentos não normativos associados ao ciclo
de vida familiar: o divórcio, a monoparentalidade e o recasamento. Tratam-se de
“situações paradigmáticas de rupturas do esquema pré-estabelecido e, portanto, geradoras
de mal-estar psicológico, quer para a família, quer para o indivíduo” (ibidem, p.15).
Podem, no entanto, tratar-se de oportunidades de crescimento individual e familiar,
quando construtivamente resolvidas (ibidem, 1994).
No que se refere ao divórcio, em Portugal, segundo os dados do Instituto Nacional
de Estatística (2002a e 2002b), entre 1993 e 2002, a taxa de divorcialidade passou de 1,2
para 2,7 divórcios por mil habitantes, equivalente a um acréscimo de 128%, ao contrário
da taxa de nupcialidade, que no mesmo período baixou de 7,0 para 5,5 casamentos por
mil habitantes, o que se reflecte num decréscimo de 28%. Isto significa alterações
profundas na forma de se ser família, e de se ser casal, uma vez que apesar do número de
divórcios estar continuamente a aumentar, existe uma grande percentagem de
recasamentos (Costa, 1994).
Ainda como exemplos de acontecimentos não normativos que abalam o sistema
familiar, Relvas (2005), fala-nos de mortes e lutos não esperados, acidentes, doenças
crónicas e/ou graves ou acontecimentos extra-familiares (como as guerras ou as
revoluções). Figley e McCubbin (1983) acrescentam o abuso de drogas, o desemprego, a
violação e os desastres naturais.
Todos estes acontecimentos de vida, obrigam o sistema familiar a reorganizar-se e
a procurar novos sentidos e novos equilíbrios para o seu desenvolvimento. Para além
disso, «empurram» todo o sistema familiar e, mais especialmente, o subsistema conjugal,
a novas formas de perspectivar-se a si e à sua família em «novas unidades complexas»,
tal como refere Relvas (1996). Novas formas essas, que não são mais que novos formas
de se ser casal e de se afirmar como casal. Novas formas de conjugalidade.

52
Todas as transições, normativas ou não normativas, buscam a criação de novas
estruturas e “uma nova, mais complexa, imprevisível e irreversível integração das
antigas” (Hoffman, 1995; cit por Relvas, 2005). Daí surgem frequentemente situações de
crise. A crise surge associada à presença de elevado nível de stress no sistema e ao medo
da mudança ou à ameaça do desconhecido (Relvas, 2005).
É neste contexto que surgem os modelos de stress familiar, como forma de
conceptualizar a crise / necessidade de mudança no sistema, de que falaremos no
subcapítulo seguinte.

1.3.1 - Adaptação, Resiliência e Modelos de Stress Familiar


Ao longo do ciclo de vida familiar existem necessariamente um conjunto de
acontecimentos, normativos e não normativos, aos quais estão associados níveis de stress
individual e familiar inevitáveis, a que o indivíduo e a família têm de fazer face (Boss,
2002; Boss, 2003), ou seja, têm de se adaptar. O conceito de adaptação está inerente à
sobrevivência do indivíduo e da família (Boss, 2003) no sentido em que traduz o
resultado dos esforços do indivíduo e da família para atingir um novo equilíbrio no seu
funcionamento após a situação de crise familiar (McCubbin & Patterson, 1983a).
Associado ao conceito de stress familiar está o conceito de resiliência familiar
(Hawley & DeHaan, 2003). Em termos gerais, a resiliência psicológica é a capacidade de
voltar a um nível superior de funcionamento após a vivência de acontecimentos adversos
(Blechman, 2000). Cowan e colaboradores (1996, cit por Boss, 2002) definiram
resiliência familiar como sendo “o melhor termo que descreve a ideia de que alguns
indivíduos ou famílias possuem forças fisiológicas, recursos psicológicos e skills
interpessoais que lhes permitem responder com sucesso aos grandes desafios e crescer
com estas experiências” (p.14). Hawley e DeHaan (2003), baseadas numa revisão de
literatura sobre resiliência individual e familiar definiram-na como “a descrição do
percurso seguido por uma família à medida que se adapta e que prospera face a situações
de stress, tanto no momento presente como ao longo do tempo. As famílias resilientes
respondem de forma positiva a estas condições de formas únicas, dependendo do
contexto, nível de desenvolvimento, combinação interactiva de factores de risco e de
protecção e da visão familiar partilhada dos acontecimentos” (p.65).

53
Os conceitos de adaptação familiar e resiliência familiar, contextualizados nos
modelos de stress familiar, permitem compreender os motivos pelos quais algumas
famílias lidam e ultrapassam melhor os acontecimentos geradores de stress que vão
inevitavelmente surgindo ao longo do ciclo de vida familiar (Boss, 2003; McCubbin,
1995).
De seguida, apresenta-se uma síntese dos principais modelos de stress familiar.

1.3.2 - Modelos de Stress Familiar


Importa, antes de mais, definir stress familiar. Boss (2002) definiu stress familiar
como sendo uma pressão ou uma tensão no sistema familiar que provoca um distúrbio no
estado de funcionamento da família e que resulta de um acontecimento com magnitude
suficiente para poder provocar mudança no mesmo. A autora considera que o stress
familiar é normal e, ocasionalmente, até desejável, na medida em o desenvolvimento, a
maturação e a mudança ao longo do tempo, no ciclo de vida dos indivíduos e das
famílias, implicam frequentemente alguma forma de perturbação, perturbação essa que a
autora define como sendo stress.
Nos últimos 50 anos têm sido desenvolvidos diversos modelos de teorização sobre
o stress familiar.
Uma das primeiras conceptualizações foi proposta pelo sociólogo Hill (1958, cit
por Oliveira, Pedrosa & Canavarro, 2005), que acabou por servir de base à investigação
sobre a variabilidade do impacto do stress sobre a família e a adaptação familiar. Este
investigador definiu como situação indutora de stress toda aquela que seja nova, para a
qual a família não esteja preparada e que, por isso mesmo, constitua um problema. O
modelo que propôs contempla um conjunto de variáveis, cujo resultado da sua interacção
é o possível surgimento de uma crise familiar. Este modelo, denominado modelo ABC-X,
refere que o acontecimento indutor de stress – A – interagindo com os recursos da família
perante a situação de crise – B – interagindo com o significado que a família atribui ao
acontecimento – C – produzem a incógnita – X- que pode ser a crise ou a capacidade para
lidar com a mudança.
Ao longo do tempo, este modelo tem sido alterado, e uma das principais
evoluções deve-se a McCubbin e Patterson, que em 1983, redefinem o modelo de Hill e

54
propuseram o modelo ABC-X duplo de stress familiar. Estes autores definiram a situação
indutora de stress como sendo um acontecimento de vida com impacto na família, que
produz, ou que tem potencial para produzir, mudanças no sistema familiar. Estas
mudanças podem ocorrer em diversas áreas da família. Incluem como factor relevante a
considerar, as adversidades encontradas, definidas como exigências sentidas pela unidade
familiar directamente associadas ao acontecimento indutor de stress. Sugerem a
pertinência de quatro factores adicionais que vão influenciar o curso da adaptação da
família ao longo do tempo. Estes factores, denominados variáveis pós-crise, são os
factores de stress adicionais (uma vez que raramente a família lida apenas com um único
factor de stress), os esforços da família para activar ou adquirir novos recursos, as
modificações da percepção da família acerca da situação total de crise e o papel das
estratégias de coping da família no ajustamento imediato e na eventual adaptação(
McCubbin & Patterson, 1983a).

Figura 2 - Modelo ABC-X Duplo de Stress Familiar (McCubbin & Patterson, 1983)

O Modelo de Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar foi igualmente


desenvolvido por McCubbin e Patterson (1983, cit por Patterson, 1988), a partir dos seus
trabalhos anteriores com o modelo duplo ABCX do comportamento familiar.

55
O modelo de resposta de ajustamento e adaptação familiar postula a homeostase
do sistema familiar através do equilíbrio entre as potencialidades do sistema (os recursos
e os comportamentos de coping) e as exigências (os stressores8 e os strains9) impostas
pelos acontecimentos de vida. Para que a família encontre o seu equilíbrio é necessário
que construa um significado para o acontecimento que está experienciar (ou seja, às
exigências) tendo em consideração os recursos que percepciona como disponíveis para
lidar com o mesmo. O resultado dos esforços da família para alcançar o equilíbrio no seu
modo de funcionamento é conceptualizado em termos de ajustamento familiar ou
adaptação familiar, num continuum que vai do bom ao mau ajustamento.

Figura 3 – Modelo de Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar

Trata-se de um modelo processual composto por uma fase de ajustamento e uma


fase de adaptação separados pela crise familiar. A fase de ajustamento caracteriza-se por

8
Acontecimentos de vida que ocorrem num determinado momento da vida e que produzem, ou que tem a
capacidade de produzir, mudança no sistema social da família (Patterson, 1988)
9
Condição de tensão associada ao desejo ou necessidade de mudar alguma coisa. Enquanto os stressores
acontecem e produzem mudança, os strains já existem no sistema e a mudança que é exigida implica a sua
remoção do mesmo (ibidem).

56
ser um período relativamente estável, durante o qual a família empreende apenas
pequenas mudanças como forma de ultrapassar as exigências, recorrendo a recursos já
existentes. Uma crise surge no sistema familiar quando a natureza e/ou a quantidade de
exigências excedem os recursos familiares, de forma persistente. Na fase de adaptação, a
família procura recuperar a homeostase do sistema, através da aquisição de novos
recursos e comportamentos de coping; da redução das exigências com que está a lidar;
e/ou da redefinição do significado que atribui à situação. Ao contrário da fase de
ajustamento, a fase de adaptação implica a implementação de mudanças de segunda
ordem no sistema familiar, tais como mudanças ao nível dos papéis familiares, das regras,
dos padrões de interacção e dos significados, que se prolongam durante um período de
tempo mais longo e que têm como objectivo a consolidação do sistema familiar como
uma unidade coerente (Patterson, 1988).
Neste modelo são considerados os vários níveis do sistema - individual, unidade
familiar e seus subsistemas e comunidade. Assim, a boa adaptação do sistema familiar
caracteriza-se por membros com boa saúde física e mental; facilitação e promoção do
desenvolvimento individual de cada membro; nível de funcionamento de papéis
adequado a cada elemento; manutenção da unidade familiar de forma a acompanhar as
tarefas do ciclo de vida; e manutenção da integridade familiar e do sentido de controlo
sobre o ambiente. No extremo oposto, a má adaptação familiar caracteriza-se por um
desequilíbrio contínuo ao nível do funcionamento familiar (membro-família ou família-
comunidade) ou pela aquisição de equilíbrio à custa da deterioração da saúde e do
desenvolvimento dos indivíduos e da deterioração da integridade da unidade familiar, da
sua autonomia ou da sua capacidade para lidar com as tarefas inerentes ao ciclo de vida
(ibidem).
Os recursos são definidos como as capacidades que a família tem para lidar com
as exigências e os comportamentos de coping são o que a família realmente faz (em
termos de utilização dos recursos, por exemplo) para lidar com essas mesmas exigências.
Os recursos podem ser individuais (inteligência, traços de personalidade, saúde física,
auto-estima, entre outros), familiares (coesão, adaptabilidade, apreço, suporte, integração,
respeito, definição clara dos papéis familiares e das fronteiras, qualidade da
comunicação) e comunitários (suporte social). O comportamento de coping, sendo o

57
esforço específico com o qual o indivíduo (ou família) procura reduzir ou gerir as
exigências, compreende os seguintes aspectos: acções directas para reduzir o número ou a
intensidade das exigências; acções directas para adquirir recursos adicionais não
disponíveis na família; manutenção dos recursos já existentes; gestão da tensão associada
a strains experimentados pela família; e avaliação cognitiva com o objectivo de alterar o
significado atribuído à situação de forma a torná-la mais manejável (ibidem). Os
indivíduos pertencentes a sistemas familiares com bons recursos tendem a ter melhor
saúde mental do que aqueles que possuem piores recursos familiares (Canavarro, Vaz
Serra, Firmino & Ramalheira, 1993).
Boss (2002) considera que para a compreensão do modo como as famílias
percepcionam e geram as situações de stress, é importante considerar o âmbito mais lato
no qual decorre a sua existência enquanto sistema, valorizando processos multiculturais,
factores de risco e de protecção. Assim, conceptualiza o stress familiar como sendo
mediado por dois contextos: um sobre o qual a família tem controlo (controlo interno –
composto por elementos que a família pode modificar e controlar) e outro sobre o qual
esse controlo não existe (contexto externo – componentes sobre os quais a família não
tem controlo, mas que exerce forte influência no modo como percepciona e lida com as
mudanças com que se depara; inclui aspectos como o contexto cultural, económico,
histórico – ou seja, define-se enquanto momento espacio-temporal no qual um família
particular se situa). Dentro do contexto interno distinguem-se as dimensões estrutural
(padrões de funcionamento familiar, regras, limites), psicológica (percepção e avaliação
que a família faz de um acontecimento indutor de stress; representações familiares), e
filosófica (valores e crenças familiares, apesar de influenciadas pelo contexto externo são
sintetizados pela família e integrados num sistema próprio de valores e crenças, que
influenciam directamente a percepção de um acontecimento stressante).

58
Figura 4 – Modelo Contextual do Stress Familiar (Boss, 2002)

Ao reconceptualizar o modelo ABC-X, Boss (2002) incide sobre a percepção e o


significado específico que o acontecimento assume para a família, considerando-os
decisivos para o eclodir da crise. O significado que a família atribui a um acontecimento
indutor de stress é também designado por percepção familiar, definição ou avaliação do
conhecimento, e é uma variável importante para explicar o facto de, perante a mesma
situação, algumas famílias conseguirem encontrar mecanismos de coping adequados, e
outras descompensarem e/ou terem dificuldades em superar a crise (ibidem).
Ao longo do capítulo, procurámos sintetizar o «estado da arte» relativamente ao
conhecimento adquirido sobre alguns aspectos relativos à conjugalidade. Analisou-se o
que é ser casal nos nossos dias, as formas de se ser casal e as principais teorias
explicativas da conjugalidade. Procurou-se entender as experiências de perturbação
familiar à luz de conceitos como o stress familiar, a adaptação familiar e a resiliência
familiar. Consideraram-se ainda, os modelos de stress familiar, nomeadamente o Modelo
de Resposta de Ajustamento e Adaptação Familiar, como pertinentes para uma
conceptualização teórica privilegiada acerca do impacto e da adaptação do sistema
conjugal a uma situação de crise, como por exemplo o diagnóstico médico de depressão.
No capítulo seguinte, caracterizamos a depressão enquanto doença psicológica,

59
analisamos o impacto da depressão em todo o sistema social humano, dando maior ênfase
ao contexto conjugal, e discutimos o papel de algumas variáveis como a vinculação, o
suporte social e as estratégias de coping familiar no processo de adaptação conjugal à
depressão.

60
CAPÍTULO 2 - A DEPRESSÃO NO CASAL

A depressão é considerada a doença mental mais prevalente na actualidade


(WHO, 2005) sendo a primeira causa de morbilidade nos países desenvolvidos (OMS,
2002), e um dos problemas de saúde mais graves da União Europeia (European
Comission, 2004). As consequências sociais e ao nível da saúde dos indivíduos com
patologia depressiva são similares aos de doenças crónicas como a hipertensão e a
diabetes (WHO, 2005). A Organização Mundial de Saúde, assim como a Comissão das
Comunidades Europeias, tem procurado desenvolver acções de luta contra a depressão,
criando entidades específicas para o estudo de políticas de combate a esta doença, tal
como é o caso da European Alliance against Depression, e publicando directrizes de
intervenção como é o caso de Actions against depression – improving mental and well-
being by combating the adverse health, social and economic consequences of
depression» e do «Livro verde – melhorar a saúde mental da população: rumo a uma
estratégia de saúde mental para a União Europeia».
O presente capítulo pretende introduzir o tema da depressão no casal. Inicia-se
com uma caracterização da depressão enquanto doença psicológica. Segue-se uma análise
das suas expressões na vida familiar, e sobretudo na díade conjugal. Termina-se com uma
revisão de algumas variáveis – vinculação, suporte social e coping familiar - que têm
sido associadas à adaptação conjugal à depressão e que serão objecto de estudo neste
trabalho.

61
2.1. A Depressão enquanto Doença Psicológica – Um Breve Olhar

A depressão é “uma perturbação do humor, de gravidade e duração variáveis, que


é frequentemente recorrente e acompanhada por uma variedade de sintomas físicos e
mentais, que envolvem o pensamento, os impulsos e a capacidade crítica” (Wilkinson,
Moore & Moore, 2003, p.21). Trata-se de um estado, e não de um modo de organização
psíquica que é susceptível de se combinar com outras patologias (Pedinielli & Bernoussi,
2006). Difere de tristeza, ansiedade, luto ou anedonia (ibidem).
Segundo a Organização Mundial de Saúde (WHO, 1992), um episódio depressivo
caracteriza-se pela presença dos seguintes sintomas durante um período mínimo de duas
semanas: humor deprimido, perda de interesse e entusiasmo em actividades
anteriormente agradáveis, diminuição da energia, fadiga intensa, diminuição da atenção e
concentração, diminuição da auto-estima e da auto-confiança, ideias de culpa e de auto-
desvalorização, visão pessimista do futuro, ideias ou actos de auto-agressão ou de
suicídio, perturbações do sono e diminuição do apetite.
Esta sintomatologia interfere (consoante a severidade da depressão) no ritmo de
vida diária dos indivíduos diminuindo de forma importante a sua qualidade de vida.
Ocorre muitas vezes episodicamente, mas pode ser recorrente ou crónica (OMS, 2002).
Estudos indicam que o prognóstico de um primeiro episódio depressivo é bom,
uma vez que a maioria dos indivíduos recupera, embora exista uma percentagem na qual
a depressão se torna crónica (Romans, Walton, McNoe, Herbison & Mullen, 1993); em
cerca de 20 a 30% dos sujeitos apenas há uma recuperação parcial, com sintomas
residuais (Paykel, 2001). Contudo, cerca de 30% dos indivíduos voltam a sofrer novo
episódio depressivo no ano seguinte e a longo prazo, entre 70 a 80% tem pelo menos
mais um episódio depressivo na sua vida (ibidem). Keitner e colaboradores (1992)
observaram que a recuperação de um episódio depressivo major estava associado a
variáveis como ser homem, ser mais velho aquando do primeiro episódio depressivo, ter
níveis mais baixos de neuroticismo, relatar menos acontecimentos de vida adversos, não
apresentar outras complicações médicas ou psiquiátricas, com níveis baixos de disfunção
familiar e com um melhor ajustamento global. Segundo o mesmo estudo, o estado civil, o
estatuto sócio-económico, a gravidade do episódio depressivo no momento da

62
hospitalização, o número de episódios depressivos prévios, o tipo de tratamento e a
história familiar de doença psiquiátrica, alcoolismo ou suicídio não estavam associados
ao curso da doença depressiva.
Em termos de classificação, existem dois princípios: o que se baseia na
semiologia e que corresponde às classificações sindrómicas do tipo do DSM (Diagnostic
of Mental Disorders) e ICD ( International Classification of Mental Disease) e o que
toma em consideração a etiologia das depressões (classificações psicopatológicas ou
etiopatogénicas (Pedinielli & Bernoussi, 2006). As mais utilizadas no contexto
psiquiátrico são as semiológicas.
A Organização Mundial de Saúde (1992) caracteriza as seguintes entidades
nosológicas associadas às perturbações do humor: Episódio Maníaco, Perturbação
Afectiva Bipolar, Episódios Depressivos, Perturbação Depressiva Recorrente,
Perturbação Persistente do Humor, Outras Perturbações do Humor e Perturbações do
Humor (Afectivas) Sem Outra Especificação.
O Episódio Maníaco caracteriza-se pela elevação persistente do humor, da energia
e da actividade, associada em geral a um sentimento intenso de bem-estar e de eficácia
física e psíquica. Existe frequentemente um aumento da sociabilidade, do desejo de falar,
da familiaridade e da energia sexual, e uma redução da necessidade de sono. A euforia e a
sociabilidade são por vezes substituídas por irritabilidade, atitude pretensiosa ou
comportamento grosseiro. Existem três subdivisões desta categoria, que se aplicam
exclusivamente a um episódio isolado: Hipomania, Mania Sem Sintomas Psicóticos e
Mania Com Sintomas Psicóticos. Um episódio hipomaníaco ou maníaco em cujo
indivíduo já tenha apresentado um ou mais episódios afectivos prévios (depressivo,
hipomaníaco, maníaco, ou misto) deve conduzir a um diagnóstico de perturbação afectiva
bipolar (WHO, 1992).
A Perturbação Afectiva Bipolar caracteriza-se por dois ou mais episódios nos
quais o humor e o nível de actividade do sujeito estão profundamente perturbados, no
sentido em que em algumas ocasiões ocorre elevação do humor e aumento da energia e
da actividade (hipomania ou mania) e em outras, ocorre uma redução do humor, da
redução da energia e da actividade (depressão). Pacientes que sofrem somente de
episódios repetidos de hipomania ou mania são classificados como bipolares. Inclui a

63
doença maníaco-depressiva, a psicose maníaco-depressiva e a reacção maníaco-
depressiva (ibidem).
Nos Episódios Depressivos típicos, de cada um dos três graus de depressão (leve,
moderado ou grave), o paciente apresenta uma diminuição do humor, redução da energia
e diminuição da actividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer,
perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à
fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do
sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da
autoconfiança e frequentemente ideias de culpabilidade mesmo em formas leves. O
humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode
acompanhar-se de sintomas ditos "somáticos" (por exemplo perda de interesse ou prazer;
despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar; agravamento
matinal da depressão; lentidão psicomotora importante; agitação; perda de apetite; perda
de peso e perda da libido). O número e a gravidade dos sintomas determinam a gravidade
do episódio depressivo. Inclui episódios de depressão psicogênica; reactiva e reacção
depressiva (ibidem).
A Perturbação Depressiva Recorrente caracteriza-se pela ocorrência repetida de
episódios depressivos correspondentes à descrição de um episódio depressivo na ausência
de episódios antecedentes de exaltação de humor e de aumento de energia (mania). A
perturbação pode, contudo, comportar breves episódios caracterizados por um ligeiro
aumento de humor e da actividade (hipomania), sucedendo imediatamente a um episódio
depressivo e, por vezes precipitados, por um tratamento antidepressivo. As formas mais
graves do transtorno depressivo recorrente apresentam numerosos pontos comuns com os
conceitos anteriores da depressão maníaco-depressiva, melancolia, depressão vital e
depressão endógena. O primeiro episódio pode ocorrer em qualquer idade, da infância à
senilidade, sendo que o início pode ser agudo ou insidioso e a duração variável de
algumas semanas a alguns meses. O risco de ocorrência de um episódio maníaco não
pode jamais ser completamente descartado num paciente com uma perturbação
depressiva recorrente, qualquer que seja o número de episódios depressivos apresentados.
Em caso de ocorrência de um episódio maníaco, o diagnóstico deve ser alterado pelo de

64
perturbação afectiva bipolar. Inclui episódios recorrentes de uma depressão psicogênica,
reactiva, uma reacção depressiva e perturbação depressiva sazonal (ibidem).
Na Perturbação Persistente do Humor, existe persistência e flutuação do estado do
humor, na qual os episódios individuais não são suficientemente graves para justificar um
diagnóstico de episódio maníaco ou de episódio depressivo leve. Como persistem por
anos e, por vezes, durante a maior parte da vida adulta do paciente, levam a um
sofrimento e a níveis de incapacidade consideráveis. Em certos casos, episódios maníacos
ou depressivos recorrentes ou isolados podem sobrepor-se a uma perturbação afectiva
persistente. Inclui a ciclotimia e a distimia.
Nas Outras Perturbações do Humor são classificadas quaisquer outras
perturbações de humor que não justificam ser classificados nas classificações anteriores
por não apresentarem gravidade ou duração suficiente (ibidem).
As Perturbações do Humor (Afectivas) Sem Outra Especificação só são utilizadas
como último recurso, quando nenhuma outra classificação possa ser utilizada (ibidem).
Por outro lado, o DSM-IV (1994) considera três tipos de Perturbações do Humor:
Perturbações Depressivas (que inclui a Perturbação Depressiva Major, a Perturbação
Distímica e a Perturbação Depressiva sem outra especificação); Perturbações Bipolares
(contempla a Perturbação Bipolar I, a Perturbação Bipolar II e a Perturbação Ciclotímica)
e Outras Perturbações do Humor (devido a um estado físico geral; induzida por
substâncias e sem outra especificação).
Trata-se portanto de um grupo heterogéneo de perturbações com causas muitas
vezes distintas, e que requer estratégias de tratamento específicas (Beckham, 2000).
A perturbação bipolar está essencialmente ligada a determinantes biológicos, ao
passo que a depressão unipolar pode ser de origem endógena (isto é, ter causas
biológicas) ou exógena (ou seja, ser reactiva ao ambiente externo), o que sugere uma
interacção entre factores biológicos, psicológicos (ibidem) e sociais para o seu
desenvolvimento (European Comission, 2004). Beckham (2000) refere ainda a distímia –
depressão moderada crónica – e a depressão atípica como outros subtipos de depressão,
aos quais não estão ainda associadas explicações causais efectivas para o seu
aparecimento e evolução. Kessler (2002) acrescenta dois subtipos de depressão com
carácter cíclico: a perturbação afectiva sazonal e a perturbação do humor pré-menstrual.

65
Há ainda que referir as formas de depressão pós-natal, a depressão «mascarada» e os
«equivalentes depressivos» (Pedinielli & Bernoussi, 2006).
A depressão e os problemas que lhe estão associados não são causados por um
único factor, mas por um conjunto de factores biológicos, psicológicos e sociais
(European Comission, 2004). Segundo esta revisão de literatura, o início da depressão é
influenciado por acontecimentos de vida adversos (como a morte de parentes próximos
ou um divórcio, por exemplo) e por outros factores que possam aumentar a
susceptibilidade dos indivíduos para o seu desenvolvimento ou precipitação. Alguns
desses factores são biológicos. É o caso de factores genéticos (evidenciados pelos estudos
com gémeos) e de factores neuroquímicos (através de alterações nos sistemas
noradrenalinérgicos, seretoninérgicos e dopaminérgicos) e hormonais (Hickey, Carr,
Dooley, Guerin, Butler & Fitzpatrick, 2005).
De grande importância são também os factores psicológicos, essencialmente
ligados a personalidades propensas à depressão. Têm surgido diversas teorias
explicativas. As teorias psicodinâmicas, enraizadas na tradição freudiana, explicam-na
como uma reacção à experiência de perda, para a qual o sujeito não teve oportunidade de
efectuar um processo de luto normal. Como resultado, a agressão sentida contra o objecto
perdido é introjectada, desenvolvendo-se deste modo um quadro depressivo (European
Comission, 2004; Beckham, 2000). As teorias cognitivas colocam a ênfase na
transformação negativa dos processos de pensamento e no seu papel central na
interpretação do mundo exterior. A característica central da cognição dos indivíduos
deprimidos será a inclinação para um pensamento negativo automático o que os torna
especialmente susceptíveis aos acontecimentos de vida negativos e aos problemas nas
relações interpessoais mais próximas (Wilkinson, Moore & Moore, 2003). Beckham
(2000) refere ainda os trabalhos de Seligman sobre a Teoria do Desamparo Aprendido.
De acordo com desenvolvimentos mais recentes, a partir do momento em que os
indivíduos percepcionam a situação em que se encontram como sendo incontrolável,
começam a fazer atribuições para explicar a sua falta de controlo. Essas atribuições
podem ser internas (crença de que se devem a características do próprio sujeito) ou
externas (devido ao ambiente); globais (aplicáveis a muitas situações) ou específicas
(aplicadas a um conjunto limitado de situações); e estáveis (que persistem no tempo) ou

66
instáveis (limitadas no tempo). A perca da auto-estima, característica da depressão, surge
em indivíduos que atribuem a sua situação de «desamparo» a dificuldades pessoais,
estáveis e globais (Abramson, Seligman & Teasdale, 1978).
Os factores sociais são igualmente associados ao desenvolvimento de quadros
depressivos. O relatório da Comissão Europeia (2004) chama a atenção para os seguintes
factores sociais de risco: baixo nível sócio-económico, desemprego (sobretudo se durante
um período de tempo muito prolongado), abuso de álcool e de drogas, exclusão social,
discriminação laboral, isolamento social e falta de suporte social.

2.1.1 – A depressão: dados estatísticos


A depressão é considerada uma das doenças mais prevalentes da actualidade,
atingindo 1 em cada 40 adultos na Europa (Paykel, Brugha & Fryers, 2005) e cerca de
121 milhões de pessoas em todo o mundo (WHO, 2005). Estima-se que atinja 2 a 10 %
da população na Europa (European Commission, 2004), o que se traduz em 33,4 milhões
de pessoas atingidas por depressão major10. Wittchen e Jacobi (2005) analisaram a
prevalência das perturbações psiquiátricas na Europa e encontraram valores médios de
6.1% de prevalência da depressão, sendo das doenças psiquiátricas com maior incidência
neste parte do globo. Dados da OMS (2002) apontam para que 5.8% dos homens e 9.5%
das mulheres passem por um episódio depressivo num período de 12 meses. Num estudo
epidemiológico levado a cabo nos Estados Unidos, concluiu-se que 6% da população
americana sofre de um episódio depressivo major em alguma fase das suas vidas
(Beckham, 2000). A OMS prevê que em 2020 a depressão seja a segunda mais
importante doença ao nível do seu impacto como causa de morte e de incapacidade geral

10
Segundo o DSM-IV, um Episódio Depressivo Maior caracteriza-se por humor deprimido ou perda de
interesse ou prazer por quase todas as actividades. Em crianças e adolescentes, o humor pode ser irritável
ao invés de triste. O indivíduo também deve experimentar pelo menos quatro sintomas adicionais, extraídos
de uma lista que inclui: alterações no apetite ou peso, sono e actividade psicomotora; diminuição da
energia; sentimentos de desvalorização ou culpa; dificuldades no pensamento, concentração ou tomada de
decisão; pensamentos recorrentes sobre morte ou ideação suicida, planos ou tentativas de suicídio. Os
sintomas devem persistir na maior parte do dia, praticamente todos os dias, por pelo menos 2 semanas
consecutivas. O episódio deve ser acompanhado por sofrimento ou prejuízo clinicamente significativo no
funcionamento social, profissional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo. Para alguns indivíduos
com episódios mais leves, o funcionamento pode parecer normal, mas exige um esforço acentuadamente
aumentado.

67
(European Commission, 2004), uma vez que a sua incidência tem aumentado a cada nova
geração (Beckham, 2000).
A realidade portuguesa não é diferente. No último censo psiquiátrico realizado
(Censo Psiquiátrico, 2001), a depressão foi a segunda patologia mais frequente no
conjunto dos indicadores utilizados (internamento, consulta e urgência de psiquiatria). No
que se refere à prevalência da depressão em medicina geral e familiar, Gonçalves e
Fagulha (2004), encontraram valores na ordem dos 33%, de utentes entre os 35 e os 65
anos com sintomas de alguma forma de perturbação depressiva. Estes são ligeiramente
mais altos relativamente aos encontrados em estudos internacionais que referem valores
na ordem dos 25% (Beckham, 2000).
A depressão coexiste frequentemente com outras perturbações psiquiátricas como
é o caso das perturbações da ansiedade, do abuso de substâncias e das perturbações
alimentares, sendo esta comorbilidade potenciadora de um pior prognóstico relativamente
à depressão sem comorbilidade (ibidem, 2000).
Relativamente aos custos económicos associados a esta perturbação psicológica,
estes atingem valores assustadores, situando-se em quarto lugar entre todas as doenças
que originam mais encargos (OMS, 2002). Estes encargos reflectem-se ao nível dos
custos nos sistemas de saúde e dos custos implicados com dias de trabalho perdidos e
com diminuição da produtividade. Paykel et al (2005) referem estudos americanos que
estimam valores associados às despesas com os sujeitos deprimidos que vão dos 16 aos
44 biliões de dólares. Segundo o relatório da Comissão Europeia (2004), o total dos
custos associados à depressão equivale a 1% do Produto Inteno Bruto. Por sua vez, um
estudo efectuado em Portugal sobre os custos da depressão, refere o número de 102
milhões de euros, dos quais 50% são devidos à quebra de produtividade no trabalho
(Ramos, Sennefelt, Amaral & Valente, 1996). Também há que referir os custos que não
são quantificados nos estudos e que se referem, por exemplo, à dificuldade dos sujeitos
deprimidos lidarem adequadamente com as suas responsabilidades familiares,
nomeadamente com a saúde, educação e desenvolvimento psicológico e social dos seus
filhos, e às dificuldades que os cônjuges dos indivíduos deprimidos sentem eles próprios
na manutenção do seu emprego, nas actividades sociais e de lazer e no próprio
relacionamento conjugal (European Comission, 2004). O suicídio, tão comummente

68
associado à depressão, tem também ele não só custos irreparáveis na estrutura familiar,
como também custos económicos efectivos na ordem dos 7% do total de custos da
depressão (ibidem).
Em jeito de conclusão, “a depressão é um sentimento ligado à mudança súbita de
uma linha de comportamento ou de vida. A angústia assinala a proximidade desta
mudança, indica o perigo latente mas iminente que é a depressão. As mudanças exteriores
fazem com que o sujeito exija de si mesmo readaptações interiores perante situações
mobilizadoras (…)” (Pedinielli & Bernoussi, 2006, p.139).
E é dessas mudanças no contexto familiar do indivíduo com depressão que
trataremos no subcapítulo seguinte.

2.2. Expressões e Contextualizações da Depressão no Casal

Em termos sociais e familiares, a depressão tem também um impacto considerável


a que a investigação empírica tem vindo a dar corpo.
Constata-se na literatura um amplo consenso no que concerne à associação entre
depressão e dificuldades nas relações sociais dos indivíduos (Segrin, 2001). Os
indivíduos deprimidos avaliam, de forma consistente, as suas capacidades relacionais de
forma mais negativa do que indivíduos não deprimidos (Segrin & Dillard, 1992), sendo
que as suas relações interpessoais são seriamente afectadas, caracterizando-se por
dimensões como a rejeição, a insatisfação, a baixa intimidade e a diminuição da
actividade e do envolvimento interpessoal (Joiner, 2002).
Necessariamente, as relações familiares são igualmente afectadas pela presença de
um familiar com depressão, havendo uma associação entre depressão num dos membros
e disfuncionalidade familiar (Keitner et al, 1995; Hickey et al, 2005; Mueser, 2006). Por
seu lado, às famílias com um funcionamento pouco saudável estão associadas menores
probabilidades de recuperação do episódio depressivo e aumento do risco de recaída
(Keitner et al, 1995). Isto é verdade sobretudo nas situações em que a duração da
depressão é mais longa, em que há um número maior de episódios depressivos num
espaço de três anos, em que o indivíduo deprimido tem igualmente perturbações da

69
personalidade e em que o seu cônjuge apresenta um nível elevado de distress (Miller et
al, 2000).
De facto, a investigação mostra que as doenças, sobretudo quando crónicas,
afectam não só o indivíduo doente mas também as relações interpessoais desse indivíduo,
nomeadamente com o seu parceiro (Acitelli & Badr, 2005).
As relações conjugais, como contexto interpessoal de maior intimidade, são
igualmente foco de alterações nomeadamente nas rotinas diárias e no funcionamento de
papéis (van Wijngaarden, Schene & Koeter, 2004).
Os estudos realizados indicam uma deterioração da qualidade da relação (Dudek
et al, 2001; van Wijngaarden et al, 2004), existindo uma associação robusta entre
depressão e dificuldades conjugais (Beach & O’Leary, 1993; Gotlib & Whiffen, 1989;
Coyne, Thompson, & Palmer, 2002). Esta aparenta ser bidireccional, (uma leva à outra e
vice-versa) (Joiner, 2002; Karney, 2001; Davila, 2001), uma vez que diversos estudos
(e.g. Fincham, Beach, Harold & Osborne, 1997) documentam que, geralmente, a
depressão é mais causadora de dificuldades conjugais para os homens, ao passo que nas
mulheres parecem ser mais os problemas maritais que desencadeiam quadros
depressivos.
Numa meta-análise sobre a relação entre depressão e satisfação conjugal,
Whisman (2001) constatou existirem correlações importantes entre a sintomatologia
depressiva e a insatisfação conjugal, sendo estas mais elevadas para as mulheres do que
para os homens. Contudo, a associação temporal entre estas variáveis foi inconclusiva.
Segundo o autor, a insatisfação conjugal pode preceder o aparecimento da sintomatologia
depressiva, ainda que este efeito ocorra sobretudo nas mulheres. No entanto, considera
que é necessário explorar melhor esta relação antes de se poder inferir o(s) sentido(s) da
associação entre depressão e satisfação conjugal.
Ao nível comportamental, observa-se que os casais com um membro deprimido
(Basco, Prager, Pita, Tamir & Stephens, 1992), sorriem menos frequentemente durante as
interacções com os seus cônjuges, mantêm menos contacto ocular, reportam sentimentos
mais negativos após interagirem com o cônjuge, avaliam o seu comportamento de forma
mais negativa relativamente aos casais sem depressão (Gotlib & Whiffen, 1989), referem

70
menos expressões de afecto, especialmente afecto físico (Coyne, Thompson, & Palmer,
2002). Estes padrões são válidos para ambos os membros do casal.
No que se refere à comunicação do casal, os casais deprimidos referem menos
capacidades para o fazerem adequadamente, nomeadamente em tarefas de discussão de
problemas relativamente ao grupo controlo. Mais especificamente, apresentam mais
dificuldades em atingirem consensos na definição e procura de soluções dos problemas,
sendo que estas são mais destrutivas (Coyne, Thompson, & Palmer, 2002), são mais
agressivos verbalmente e têm menos capacidade para escutar activamente o seu parceiro,
o que resulta em comportamentos comunicacionais mais negativos (Basco, Prager, Pita,
Tamir & Stephens, 1992) e menos construtivos (Heene, Buysse & Oost, 2003).
A depressão afecta igualmente a intimidade do casal. No estudo referido
anteriormente de Basco e colaboradores (1992), os casais com um dos membros
deprimido foram classificados como tendo um estatuto de não-intimidade.
Simultaneamente, referiram nos questionários de auto-relato como estando insatisfeitos
com a quantidade de afecto, com a expressão de sentimentos e com a compreensão no
casamento, o que indica dificuldades na criação ou manutenção da intimidade do casal.
Verifica-se que os cônjuges apresentam também um maior número de sentimentos
disfóricos e de mau-estar (Hautzinger, Linden & Hoffman, 1982), níveis mais elevados
de stress (Benazon, 2000; van Wijngaarden et al, 2004); e humor deprimido (Benazon &
Coyne, 2000; Coyne et al, 1987; Jeglic et al, 2005), frustração, ressentimento consciente
ou inconsciente (Fadden, Bebbington & Kuipers, 1987), estando deste modo mais
vulneráveis ao desencadeamento de uma perturbação depressiva. As suas actividades
sociais são igualmente afectadas, diminuindo o tempo que passam com os amigos e
outros familiares (Muscroft e Bowl, 2000), aumentando o seu isolamento social (Halgin
& Lovejoy, 1991).
Spangenberg e Theron (1999) observaram que 54% dos participantes da sua
investigação sobre stress e estratégias de coping em cônjuges de indivíduos clinicamente
deprimidos apresentavam, eles próprios, sintomatologia depressiva, para além de níveis
bastante elevados de stress e ansiedade. Estes dados corroboram as observações de Coyne
e colaboradores (1987) e de Merikangas e colaboradores (1985) de que vivências de
stress são inerentes à conjugalidade de casais com um membro deprimido, vivências

71
essas que conduzem frequentemente a desilusão e a desajustamento conjugal
(Merikangas, Prusoff, Kupfer & Frank, 1985). Os níveis elevados de ansiedade
experimentados pelos cônjuges não deprimidos provavelmente reduzirão a sua
capacidade para fornecerem suporte emocional e instrumental aos seus companheiros
deprimidos o que, por sua vez, poderá conduzir a um agravamento da depressão do
cônjuge deprimido (Brown & Harris, 1978).
Dudek e colaboradores (2001) elaboraram um estudo empírico com o fim de
examinar o impacto da perturbação depressiva nos cônjuges de indivíduos deprimidos,
tendo em consideração a variável género. Concluíram que as mulheres de indivíduos com
perturbação depressiva recorrente apresentam mais padrões de pensamento depressivo
em comparação com os maridos de mulheres deprimidas e com o grupo controlo, o que
confirma os resultados de Benazon e Coyne (2000) de que as esposas de homens
deprimidos apresentam mais sintomas de distress do que os maridos de mulheres
deprimidas. O mesmo acontece com as variáveis sentimento de falta de controlo e
frequência de pensamentos negativos automáticos. Da mesma forma, quanto mais grave
for a depressão do marido deprimido, mais sentimentos negativos, mais pensamento
pessimista e menor auto-estima a esposa não deprimida evidencia. Este padrão não se
verifica para os maridos saudáveis de mulheres deprimidas. Estes resultados sugerem que
homens e mulheres de indivíduos deprimidos experienciam a depressão do seu
companheiro de forma distinta, e que existem diferenças na percepção que têm acerca da
qualidade da relação conjugal, o que indica que a depressão do cônjuge tem um impacto
mais destrutivo nas mulheres do que nos homens. Isto provavelmente acontece porque as
mulheres tendem a envolver-se mais na doença dos seus maridos, o que poderá contribuir
para um exacerbamento da sua condição psicológica, para uma maior intensidade de
pensamentos negativos e um sentimento mais pronunciado de falta de controlo sobre a
situação. Os homens, apesar de avaliarem da mesma forma as dificuldades resultantes da
doença depressiva, aparentam ter um menor sentimento de falta de controlo da situação,
um estilo de pensamento mais positivo, maior bem-estar e maior propensão para se
abstrair das dificuldades associadas à depressão da sua esposa (Dudek et al, 2001). Estes
resultados corroboram a literatura existente sobre o suporte social que chama a atenção

72
para o facto das mulheres terem uma orientação mais forte do que os homens para as
necessidades e desejos dos seus entes queridos (Eisenberg & Lennon, 1983).
Krantz e Moos (1987) chamam a atenção para o facto de que, apesar dos cônjuges
de indivíduos deprimidos em remissão terem um funcionamento, um nível de stress e
estratégias de coping semelhantes aos indivíduos do grupo controlo (ou seja, casais
saudáveis), têm também mais problemas familiares e sociais do que os casais saudáveis.
Os cônjuges dos indivíduos em episódio depressivo apresentam um funcionamento e o
contexto social e familiar bastante mais deficitário que o grupo de controlo e que os
cônjuges dos indivíduos em remissão. Estes resultados mantêm-se após um follow-up de
um ano e indicam que, apesar da sintomatologia depressiva poder sofrer uma evolução
positiva, continuam a subsistir dificuldades no funcionamento social dos casais com um
dos membros deprimido.
Muscroft e Bowl (2000) elaboraram um modelo explicativo da experiência de ser
cuidador de um familiar com depressão com base numa investigação qualitativa levada a
cabo com familiares e cuidadores de sujeitos deprimidos. Os autores consideraram quatro
fases distintas: a fase de aquisição, a fase de acomodação, a fase de adaptação e a fase de
apropriação.
A fase de aquisição inicia-se ainda antes do diagnóstico médico e é responsável
pela primeira mudança na dinâmica familiar. Os indivíduos mais próximos do sujeito
deprimido percepcionam, mas não compreendem, as mudanças que se sucedem no seu
comportamento e procuram causas em si próprios para explicar as referidas alterações
que passam, por exemplo, pelo deixar de participar nas rotinas familiares, pela
dificuldade em lidar com as exigências profissionais, pela sua irritabilidade, zanga,
humor deprimido, entre outros. Sentem-se ansiosos e inseguros acerca do que se passa
com o paciente. Apenas procuram apoio médico quando surgem sintomas físicos
associados como perturbações do sono ou do apetite. O sentimento predominante é o de
ignorância.
A fase seguinte inicia-se após o conhecimento do diagnóstico, e caracteriza-se
pela tentativa de procurar causas para o aparecimento da doença, tanto nas atitudes de
familiares como nas circunstâncias da vida. Os sentimentos predominantes são a
frustração (pela escassez de respostas), a culpa (por não terem feito nada mais cedo, por

73
não terem prevenido a doença) e o ressentimento (pela contacto com uma realidade
diferente da que tinham imaginado viver). Esta fase envolve uma espécie de
desvinculação que assinala a segunda dinâmica afectiva – a redefinição das relações
familiares. A tristeza é o sentimento mais experimentado.
A fase de adaptação corresponde às tentativas por parte de cuidadores e familiares
de integrar a situação do familiar deprimido nas suas vidas. Trata-se igualmente de um
período em que, frequentemente, as necessidades do deprimido se sobrepõem às dos seus
cuidadores e familiares o que pode resultar na marginalização das suas necessidades
sociais e de saúde. Resulta habitualmente num misto de emoções dolorosas que
culminam com o sentimento de que as suas vidas deixaram de ser «normais».
A fase de apropriação corresponde ao alcançar de alguma estabilidade, embora
todos tenham de aceitar melhoras e recaídas no processo de recuperação da depressão. Se
esta fase for bem sucedida, assiste-se a um aumento da proximidade e a um sentimento de
se ser mais útil que em fases anteriores. Se não for bem gerida, esta fase pode
desenvolver nos cuidadores sintomas depressivos e conduzir à desintegração da unidade
familiar.
Muscroft e Bowl (2000) consideram que as fases 2 e 3, que ocorrem geralmente
um anos após o desencadeamento do primeiro episódio depressivo, são particularmente
difíceis. Trata-se de momentos em que os cuidadores constituem, eles próprios, um grupo
de risco para o desenvolvimento de perturbações.
Contudo, apesar de todas as dificuldades no funcionamento social e familiar dos
casais com um cônjuge deprimido, inerentes à própria sintomatologia da doença, existem
casais que se adaptam e que conseguem ultrapassar o stress familiar experimentado na
situação de depressão. Provavelmente serão casais cujo nível de resiliência familiar11 é
maior. Note-se por exemplo, os casais com um dos membros deprimido estudados por
Harris, Pistrang e Barker (2006), que apresentavam níveis elevados de satisfação
conjugal. No sub capítulo seguinte, abordaremos algumas variáveis sistematicamente
associadas à adaptação do casal à depressão.

11
O conceito de resiliência familiar foi apresentado no 1º capítulo da presente revisão teórica

74
2.3. Acções e Reacções do Casal à Depressão – a Vinculação, o Suporte Social e o
Coping Familiar no Processo de Adaptação do Sistema à Crise Familiar

A depressão é uma doença psicológica que tem consequências graves a nível


individual, familiar e comunitário. O interesse dos investigadores em conhecer os
meandros desta perturbação tem originado diversas linhas de investigação, umas mais
centradas nas questões biológicas, outras com maior preocupação na componente
individual da doença e outras que dão relevo às questões interpessoais e sistémicas da
depressão.
Uma vez que a presente investigação se situa num paradigma sistémico de análise,
optou-se por analisar alguns dos conceitos que vêm sendo associados aos aspectos
relacionais da depressão no contexto do subsistema conjugal. Deste modo, no presente
subcapítulo, ir-se-ão discutir as principais questões que a literatura científica aponta como
tendo um papel de relevo na evolução da depressão e na adaptação do casal à mesma, no
que diz respeito à vinculação, ao suporte ou apoio social (especialmente o suporte
conjugal) e ao coping familiar.

2.3.1 - Vinculação e Depressão


Sendo a depressão uma das doenças mais prevalentes na actualidade, os
investigadores têm se preocupado em estudar as relações entre os estilo de vinculação e a
depressão.
Bowlby (1980) considerou que os modelos internos operantes que se formam
durante a infância estão associados a várias formas de distress adulto, como é o caso da
depressão.
Vários estudos indicaram que os sintomas depressivos estão associados a histórias
problemáticas de vinculação (Pearson et al, 1994; Pettem et al, 1993), e que existe uma
correlação entre depressão e vinculação ansiosa e amedrontada (Carnelley et al, 1994;
Roberts et al, 1996).

75
Bifulco, Moran, Ball e Bernazzani (2002) constataram, em amostra clínica, uma
associação importante entre vinculação insegura e depressão clínica, mas não
encontraram diferenças significativas entre os vários padrões de vinculação insegura.
Whiffen e colaboradores (2001) concluíram que as mulheres clinicamente
deprimidas reportavam um nível inferior de segurança na vinculação e um maior
amedrontamento, relativamente às mulheres não deprimidas, o que parece indicar que a
depressão está associada a modelos operantes negativos no que respeita ao self e aos
outros. Ou seja, a depressão parece estar associada à crença de que os outros não gostam
de nós e que as figuras de vinculação são rejeitantes. Strodl e Noller (2003) corroboram
esta interpretação ao concluírem, na sua investigação sobre a relação entre as dimensões
da vinculação e a depressão, que as dimensões da vinculação que envolvem uma visão
negativa do self estão associadas a quadros depressivos. Por outro lado, a redução da
sintomatologia depressiva nesta amostra de investigação, está associada à segurança da
vinculação do parceiro – quando este se avaliava como desinvestido, os sintomas
depressivos da sua companheira mantinham-se por um período de seis meses.
Outros estudos indicam que a depressão está associada a um estilo de vinculação
preocupado. West e George (2002) analisaram numa amostra de 420 mulheres, das quais
24 foram diagnosticadas como sofrendo de distimia, a relação entre este tipo de
perturbação depressiva e o seu estilo de vinculação. Os resultados foram claros: 57 % das
mulheres distímicas foram classificadas como possuindo um estilo de vinculação
preocupado.
Scott e Cordova (2002) concluíram que, nos indivíduos com estilo de vinculação
ansioso, era mais provável desenvolverem-se sintomas depressivos, especialmente se os
seus níveis de ajustamento conjugal fossem baixos.
Os estudos efectuados em contexto português vão no mesmo sentido. Canavarro
(1999), num estudo sobre a associação entre as relações afectivas ao longo do ciclo de
vida e a saúde mental, observou que os indivíduos com perturbações depressivas, quando
comparados com indivíduos sem perturbações emocionais, apresentavam um maior
índice de padrões de vinculação inseguro ansioso e evitante, sendo o tipo ansioso melhor
preditor das perturbações depressivas do que a vinculação de tipo evitante.

76
Num estudo sobre vinculação e percepções de saúde, Kidd e Sheffield (2005)
observaram que os indivíduos seguros referiam menos sintomas somáticos, menos
disfunção social e menos sintomatologia depressiva relativamente aos indivíduos
amedrontados e menos disfunção social e sintomas depressivos relativamente aos sujeitos
preocupados. Não foram encontradas diferenças significativas entre os três estilos de
vinculação inseguros.
Numa revisão de literatura de 2006, Shorey e Snyder assinalam a possibilidade de
que cada um dos estilos de vinculação insegura possa estar relacionado com
sintomatologia depressiva, na medida em que possam existir mecanismos de
desenvolvimento ou vulnerabilidade a estados depressivos específicos de cada padrão de
vinculação.
E porque será que existe uma associação entre a depressão e um estilo de
vinculação inseguro? A vinculação parece ser um factor importante no bem-estar
individual e na forma de lidar com os acontecimentos de vida stressantes (Mikulincer,
Florian & Welller, 1993). A investigação tem mostrado que, por um lado os padrões de
vinculação não são estanques e resultam da interacção entre os modelos operantes
internos construídos desde a infância e as experiências associadas aos relacionamentos
íntimos mais actuais (Kobak, 1994). Por outro lado, observa-se que os indivíduos
deprimidos se comportam de forma a chamar a atenção do seu companheiro para as suas
necessidades (por activação do seu sistema de vinculação exibem comportamentos de
protesto), provocando muitas vezes sentimentos de hostilidade neste, o que resulta
frequentemente em dificuldades conjugais que, por sua vez, vão exacerbar a
sintomatologia depressiva (Anderson, Beach & Kaslow, 1999; Wei, Mallinckrodt, Larson
& Zakalik, 2005).
Outros autores consideram que existe associação entre vinculação insegura e
depressão pelo facto desta estar relacionada com a cognição que, por sua vez, se associa
ao desenvolvimento e curso da depressão (Burge et al, 1997; Roberts et al, 1996). Já
Hammen e colaboradores (1995) tinham demonstrado que as cognições disfuncionais
associadas à vinculação insegura contribuem para o desenvolvimento e severidade da
sintomatologia depressiva em jovens adolescentes em situações de stress interpessoal.

77
Há ainda que considerar que os indivíduos com vinculação amedrontada tendem a
ter uma auto-estima mais baixa, mais atitudes negativas perante os outros e mais
dificuldades nos relacionamentos interpessoais (Cyranowski et al, 2002). De facto,
Roberts, Gotlib e Kassel (1996) demonstraram que a relação entre vinculação insegura e
sintomatologia depressiva era mediada por níveis baixos de auto-estima e atitudes
interpessoais disfuncionais.
Simpson e Rholes (2004) desenvolveram o modelo interpessoal de ambivalência e
sintomas depressivos com vista a explicar a relação entre estas variáveis. Os autores
propuseram que os níveis basilares de ambivalência (ou seja, o grau em que o indivíduo
possui as características principais associadas a modelos operantes internos ansiosos) são
parcialmente determinados pelas experiências (ou pela percepção das experiências) com
os pais e com os pares em situações relevantes para o sistema de vinculação ao longo do
seu desenvolvimento social. Quando o indivíduo experimenta uma situação activadora do
seu sistema de vinculação, é influenciado pelos seus níveis de ambivalência basilar. Tal
ir-se-á repercutir de forma mais acentuada nos níveis de activação (isto é, na
acessibilidade cognitiva dos modelos operantes internos ansiosos) que, quando
evidenciados, aumentam a probabilidade de que as percepções sociais sejam processadas
de acordo com os «filtros negativos» contidos nos modelos internos, o que conduz a um
aumento da probabilidade de que as situações e as pessoas sejam construídas de forma a
confirmar as expectativas e as crenças pessimistas que caracterizam os modelos operantes
internos ansiosos. Com o nível de activação aumentado, a probabilidade dos
comportamentos serem dirigidos pelas crenças, expectativas e rotinas associadas aos
modelos ansiosos também aumenta, o que tem como consequência a zanga, a raiva e
outras formas comportamentais no parceiro, o que é consistente com os seus modelos
ansiosos, havendo desta forma uma confirmação das crenças e das expectativas
pessimistas.
Ao longo do tempo, o modelo de confirmação das percepções retroalimenta os
níveis basilares de ambivalência, mantendo ou aumentando esses níveis. Pelo contrário,
experiências desconfirmatórias dos modelos ansiosos podem atenuar os níveis basilares
de ambivalência (o que poderá conduzir a alterações nos modelos operantes internos).
Uma vez que existe uma associação entre a activação dos níveis de ambivalência e

78
atitudes relacionais disfuncionais, se ao longo do tempo o indivíduo for acumulando mais
percepções negativas do parceiro e atitudes relacionais disfuncionais, é muito provável
que o indivíduo desenvolva sentimentos de deprivação (isto é, o sentimento de que o
parceiro não preenche as necessidade básicas da relação que são essenciais à felicidade
conjugal), o que provocará, manterá ou agravará sintomatologia depressiva. Este modelo
dá ênfase ao papel crucial que o stress e a vulnerabilidade que lhe está associada
desempenham na activação dos modelos operantes internos (Simpson & Rholes, 2004),
bem como à circularidade dos próprios fenómenos.

2.3.2 - Suporte Social


O suporte social está intrinsecamente relacionado com o interesse no estudo dos
efeitos das relações sociais, tendo já algumas havido algumas referências a este conceito
no século XIX por Darwin (Sarason, Pierce & Sarason, 1990).
Um dos primeiros desafios para os investigadores desta área é o da definição do
conceito de suporte social. Na literatura encontram-se várias definições, as quais estão em
ligação directa com a mensuração deste constructo.
Cobb (1976) defende que o suporte social consiste na informação que leva os
indivíduos a acreditarem que são amados, estimados, valorizados e que pertencem a uma
rede de comunicação e de obrigações mútuas. Por sua vez, Caplan & Kililea (1976, cit
por Guterres, 2002) conceptualizam o suporte social como a união entre indivíduos ou
entre indivíduos e grupos, de que resulta uma melhor competência adaptativa para
enfrentar desafios, tensões e privações a curto prazo. House complementa (1981, cit por
Guterres, 2002) ao definir suporte social como o conjunto de transacções interpessoais
que envolvem um interesse ou atenção a nível afectivo/emocional; a ajuda instrumental; o
fornecimento de informação acerca do meio e o reconhecimento pessoal.
Hobfoll & Vaux (1993, cit por Serra, 1999) consideram o suporte social como
sendo um meta-constructo no qual se enquadram três constructos distintos: 1) recursos da
rede social, que são constituídos pelas relações sociais disponíveis que podem ser
objectivamente chamadas a prestar ajuda em caso de necessidade e que oferecem uma
ligação estável num grupo social; 2) comportamento de suporte, que é definido como a
troca de recursos entre pelo menos dois indivíduos e que tem como objectivo aumentar o

79
bem-estar do receptor; e 3) avaliação subjectiva do suporte (ou suporte social
percepcionado), que diz respeito àquilo que o indivíduo percepciona e ao significado que
atribui ao auxílio prestado por alguém.
Segundo Cutrona (1996b), as necessidades ligadas ao suporte social não dizem
respeito apenas às circunstâncias que podem afectar a vida de um indivíduo, devendo ser
consideradas como um requisito permanente que se torna útil para o ajustamento e o
bem-estar do ser humano, que lhe melhora a qualidade de vida independentemente da
ocorrência ou não de circunstâncias desagradáveis.
Weiss (1974; cit por Cutrona, 1996a) considera que o suporte social, quando
prestado, cumpre seis tipos de funções: a) estabelece elos afectivos que propiciam um
relacionamento mais íntimo e dão ao indivíduo mais segurança; b) contribui para a
integração social do indivíduo, na medida em que este sente que pertence a um grupo de
pessoas com interesses e preocupações semelhantes; c) favorece o reconhecimento do
valor e da competência do indivíduo; d) institui a possibilidade de dar e de receber
conselhos e informações orientadoras; e) ajuda a fomentar uma relação de confiança nas
expectativas de ajuda, de modo a que o ser humano passe a esperar ser assistido nos
momentos de necessidade; f) cria a oportunidade ao indivíduo de prover cuidados a
outras pessoas, o que o leva a sentir-se útil ao bem-estar dos outros.
Cohen & Wills (1985) consideram existir seis tipos de suporte social: 1) suporte
afectivo ou de estima, com o qual as pessoas se sentem estimadas e aceites pelos outros
apesar dos seus defeitos, erros ou limitações, o que contribui para a respectiva auto-
estima; 2) suporte emocional, que é representado pelos sentimentos de apoio e de
segurança que um indivíduo pode receber; 3) suporte perceptivo, que contribui para que o
indivíduo possa efectuar uma avaliação mais correcta do seu problema, para lhe dar um
outro significado e para estabelecer objectivos mais realistas; 4) suporte informativo, o
qual é exemplificado pelas informações e conselhos que ajudam os indivíduos a
desenvolver uma compreensão mais adequada das situações ambíguas, o que facilita a
sua tomada de decisão; 5) suporte instrumental ou tangível, que consiste na ajuda
concreta que um indivíduo recebe, em termos materiais ou de serviços, e que resolve o
problema em questão; e 6) suporte de convívio social ou de socialização, em que através
de actividades culturais ou de lazer, o indivíduo passa algum tempo com os seus pares, o

80
que contribui para, por um lado o aliviar de tensões acumuladas e, por outro, como meio
de se sentir parte integrante de determinada rede social.

2.3.2.1 - Suporte Social e Depressão


Um vasto número de estudos transversais documenta que vários índices de
suporte social estão associados à depressão (eg. Billings, Cronkite & Moos, 1983,
Mitchell & Moos, 1984). Níveis elevados de depressão estão associados a relatos de
poucos contactos sociais com amigos e familiares (Roberts, Roberts & Stevenson, 1982),
menor satisfação com a qualidade do suporte (Pagel & Becker, 1987), particularmente
com o suporte dos familiares (Grant, Patterson & Yager, 1988), e menos contactos sociais
positivos com outros adultos que não o parceiro (Beach, Arias & O´Leary, 1986).
Roberts e Gotlib (1997) afirmam que é plausível que a associação entre níveis
baixos de suporte e a depressão aconteça porque a depressão enviesa negativamente as
percepções do suporte. Há evidência de que a depressão contribui para deteriorações reais
no suporte social (Coyne, 1976; Joiner et al., 1993, cit por Roberts & Gotlib, 1997).
Outros investigadores procuraram examinar o suporte social em indivíduos previamente
deprimidos. As diferenças entre os indivíduos com sintomatologia depressiva em
remissão e os indivíduos que nunca estiveram deprimidos seriam indicadores de que os
déficits no suporte social reflectem características estáveis da depressão que persistem
independentemente do indivíduo ter um episódio único de depressão ou não (Barnett &
Gotlib, 1988). Consistente com esta hipótese, Billings e Moos (1985) descobriram que os
depressivos em remissão referiam menos relações próximas, menos amigos e menos
interacções de suporte com familiares relativamente aos indivíduos que nunca estiveram
deprimidos. Não foram encontradas diferenças entre os dois grupos no que concerne à
qualidade das relações próximas, ao suporte no trabalho e ao tamanho da rede social.
Wade e Kendler (2000) obtiveram resultados semelhantes: a depressão major
mostrou estar associada a menos suporte percebido e a mais dificuldades nas relações
sociais, sobretudo para familiares.
Outros estudos indicam que os indivíduos clinicamente deprimidos continuam a
referir distress e conflito marital após a sua recuperação do episódio depressivo

81
(Hinchcliffe, Hooper & Roberts, 1978; Merikangas, 1984; Paykel & Weissma, 1973; cits
por Roberts & Gotlib, 1997).
No que se refere à importância do suporte social na evolução da depressão,
George, Blazer, Hughes e Fowler (1989) comprovaram que existe uma associação entre
estas duas variáveis e que as dimensões associadas à recuperação da doença eram a
seguintes: percepção de se ser compreendido e útil na sua rede social; sentimento de que
se está informado e que se desempenha um papel válido na rede social; sentimento de que
os indivíduos significativos estão disponíveis para falar dos problemas; percepção de que
não está só; e avaliação positiva da qualidade da relação com as pessoas significativas.

2.3.2.2 - Suporte Conjugal e Depressão


O suporte social oferecido pelo cônjuge é um tipo específico de suporte social que
promove um estado emocional positivo inibidor de interacções negativas múltiplas,
frequentemente causadoras de situações de conflito conjugal (Cutrona 1996a). Tal como
afirma Cutrona (1996a, p. 17), “no contexto de relacionamentos como o casamento, o
suporte pode preparar os indivíduos para lidar com futuros stressores assim como, ajudá-
los a enfrentar as crises depois delas ocorrerem. Parece provável que demonstrações de
responsividade às necessidades do sujeito, quando enfrentam os aborrecimentos
quotidianos, se traduzam em esquemas relacionais que incluem carinho,
interdependência, confiança e compromisso. Quando mais tarde se deparam com crises
mais severas, é neste contexto interpessoal mais desenvolvido que as enfrentam. O
suporte social pode assim, influenciar a saúde física e mental, em parte indirectamente
através deste engrandecimento da qualidade da relação”.
De facto, a investigação tem demonstrado que o suporte conjugal está
robustamente associado a níveis mais elevados de satisfação conjugal, a benefícios ao
nível da saúde mental e ao nível da saúde física (Gardner & Cutrona, 2004).
Tal como foi referido anteriormente, a literatura aponta para que a depressão e o
distress marital estejam bastante relacionados (Coyne & Downey, 1991), na medida em
que, com o passar do tempo, algumas características associadas à depressão, como a
irritabilidade, a pouca motivação e a disforia, se tornem bastante aversivas para as
pessoas mais próximas do sujeito deprimido. Coyne e Doweney (1991), sublinham que

82
apesar de, por vezes, os problemas conjugais conduzirem à depressão, é frequente a
depressão ser causa de conflitos conjugais e, consequentemente, da diminuição da
satisfação marital (Beach et al., 1986; Burns, Sayers & Moras, 1994).
Diversos estudos indicam que o suporte positivo por parte da família está
associado a uma mais fácil recuperação de um episódio depressivo major (Keitner et al,
1992; Brugha et al, 1990; Nasser & Overholser, 2005). McLeod, Kessler e Landis (1992)
constataram que comportamentos de suporte social por parte do cônjuge influenciam
mais a rapidez da recuperação de um episódio depressivo do que comportamentos de
suporte por parte de amigos, sobretudo se se tratarem de respostas positivas à situação de
depressão do seu companheiro. Pelo contrário, níveis mais baixos de suporte estão
associados a maiores dificuldades na recuperação da doença (Zuroff et al, 2002) e a uma
maior tendência para a depressão se tornar crónica (Lynch et al, 1999).
Num estudo desenvolvido por Lara, Leader e Klein (1997) ficou claro que níveis
mais elevados de suporte social medidos inicialmente, predizem níveis mais baixos de
sintomas depressivos assim como a recuperação da depressão (6 meses depois), mesmo
após o controlo de variáveis como a severidade dos sintomas, a distimia, o número de
episódios depressivos anteriores e o neuroticismo.
Beach, Sandeen e O’Leary (1990) salientam a importância de cinco tipos de
comportamentos positivos de suporte conjugal que amortecem o impacto dos
acontecimentos negativos e suavizam a depressão. São eles a escuta activa, a estima, o
suporte instrumental, a intimidade e a partilha de actividades / tempos agradáveis juntos.
Estes comportamentos são frequentemente percebidos como de apoio e estão associados
a níveis mais baixos de depressão ao longo do tempo.
Muito recentemente, Harris, Pistrang & Barker (2006) desenvolveram um estudo
qualitativo com vista a compreender todo o processo de suporte do casal a um cônjuge
deprimido. Observaram que o processo de suporte se caracteriza por muitas incertezas e
dificuldades, por tentativas e erros, por momentos de sucesso e por momentos de
insucesso. Segundo os autores, um suporte efectivo tem de reunir um conjunto de
características tais como: confiança, aceitação, comunicação aberta e sem julgamentos ou
críticas. O maior desafio neste processo de suporte é o parceiro saudável compreender o
que é estar deprimido, uma vez que o deprimido tem muitas dificuldades em explicar a

83
experiência da depressão. Neste caso, a empatia é uma qualidade fundamental para que o
apoio venha a acontecer. Por outro lado é comum que, na tentativa de fornecer suporte, o
cônjuge experimente sentimentos de frustração, raiva e impaciência, que procura
interiorizar com medo do impacto no seu companheiro doente, e que tem custos
emocionais importantes. Harris e os seus colaboradores argumentam que o mais
importante no processo de apoio ao cônjuge deprimido é a parceria, isto é, o casal
trabalhar junto para a recuperação do membro doente e, para tal, é fundamental
ultrapassar as dificuldades comunicacionais relatadas com estando sempre presentes
nestes casais. É de referir que, neste estudo, os níveis de satisfação conjugal foram
elevados.

2.3.3 - Coping Familiar

O comportamento de coping é definido como sendo o esforço cognitivo e


comportamental do indivíduo para gerir (reduzindo, minimizando ou tolerando), as
exigências internas e externas resultantes da relação indivíduo-ambiente que são
avaliadas como sendo excessivas face os recursos do sujeito (Folkman et al, 1986). Este
pode ser focalizado na resolução do problema ou na regulação das emoções despertadas
pela situação geradora de stress (Lazarus & Folkman, 1984). Os autores definem as
estratégias de coping centradas na resolução dos problemas como sendo aquelas
utilizadas para alterar a situação stressante, que incluem técnicas como a geração de
soluções e a aprendizagem de novas capacidades; por sua vez, as estratégias centradas na
regulação das emoções estão associadas a situações em que o indivíduo acredita que não
existe forma de contornar as exigências que lhe são feitas, de que é exemplo o evitamento
(ibidem).
Apesar de frequentemente as estratégias de coping serem conceptualizadas a um
nível individual, também se considera existir coping a nível familiar e comunitário, se se
pensar que um grupo de sujeitos pode agir com o objectivo de eliminar ou gerir
exigências (Patterson, 1988). O conceito de coping familiar foi introduzido por
McCubbin e colaboradores em 1979 (cit por Boss, 2002) como fazendo parte dos

84
recursos familiares. Nesta perspectiva, o coping familiar corresponde ao comportamento
coordenado de todo o sistema com vista à resolução do problema, podendo envolver
igualmente esforços individuais dos membros familiares que procuram complementar a
resolução da situação de uma forma mais global. Dito de outra forma, coping familiar é o
conjunto dos processos cognitivos, afectivos e comportamentais através dos quais o
indivíduo e o sistema familiar lidam com as situações indutoras de stress, sendo por isso
entendido como um processo de gestão de um acontecimento por parte da família
enquanto unidade, sem efeitos negativos em qualquer membro individual do sistema
(Boss, 2002; McCubbin & Patterson, 1983a).
Patterson (1988) considera existirem cinco tipos principais de estratégias de
coping familiar: (1) acção directa para reduzir o número e/ou a intensidade das
exigências; (2) acção directa com o fim de adquirir recursos adicionais ainda não
disponíveis no sistema familiar; (3) manutenção dos recursos já existentes para que
possam ser utilizados no confronto com as exigências, tais como o suporte social de
amigos; (4) gerir a tensão associada a situações de desgaste através da expressão da
emoção e dos afectos, da utilização do humor ou da participação em programas
familiares; e (5) avaliação cognitiva do significado da situação de stress de forma a
alterar o seu significado para o sistema e, deste modo, tornar a situação mais manejável.
Estas estratégias visam a manutenção das fronteiras familiares em termos de coerência e
unidade; a manutenção de condições internas satisfatórias para a comunicação familiar; a
promoção da independência e da auto-estima dos membros do sistema familiar; a
manutenção da flexibilidade familiar e da autonomia; e o desenvolvimento e a
manutenção de uma rede de suporte social e de outros recursos da comunidade
(McCubbin & Patterson, 1983b). Os autores acrescentam ainda a eliminação dos
stressores, a gestão das dificuldades associada à situação de stress, a resolução de
conflitos e tensões intrafamiliares, a aquisição e o desenvolvimento de recursos sociais,
psicológicos e sociais necessários à adaptação familiar (ibidem). Estas estratégias de
coping podem ser agrupadas em estratégias de evitamento, estratégias de eliminação e
estratégias de assimilação (McCubbin & McCubbin, 1989). As estratégias de evitamento
consistem nos esforços da família para ignorar ou negar o stressor na esperança que
desapareça ou que a situação se resolva por si só. As estratégias de eliminação dizem

85
respeito aos esforços activos levados a cabo pelo sistema familiar no sentido de remover
todas as exigências associadas ao stressor ou de alterar a sua definição. Estas duas
estratégias promovem a manutenção da estrutura e interacção existentes na família,
protegendo-a de fazer quaisquer modificações nos seus padrões comportamentais. As
estratégias de assimilação são utilizadas nas situações em que a família aceita as
exigências criadas pelo agente indutor de stress e as integra na sua estrutura e interacção
(ibidem).
Boss (2002) acrescenta ainda a noção de recursos familiares de coping12, a que se
refere quando fala de «forças» individuais e colectivas presentes no sistema familiar no
momento da ocorrência da situação indutora de stress. Como exemplos, destaca a
segurança económica, a saúde, a inteligência, a proximidade de suporte, o espírito de
cooperação na família, a capacidade de relacionamento interpessoal, entre outros. Trata-
se assim, do conjunto de possibilidades económicas, psicológicas e físicas às quais a
família pode recorrer como resposta a acontecimentos geradores de stress (Boss, 2002).

2.3.3.1 - Coping Familiar e Depressão


A depressão num membro de uma família é considerado um factor de stress
familiar (Schock & Gavazzi, 2005), que tem grande impacto em todo o sistema familiar,
nomeadamente no subsistema conjugal, sendo que a forma como a família lida com um
membro que tem uma doença psicológica tem consequências importantes na recuperação
dessa mesma doença (Krantz & Moos, 1987).
Spangenberg e Theron (1999) consideram que um coping efectivo por parte do
companheiro do membro deprimido pode prevenir o desenvolvimento ou o reavivamento
do conflito conjugal e, deste modo, prevenir o agravamento do quadro depressivo. Estes
investigadores constataram que a estratégia de coping mais utilizada pelos companheiros
de indivíduos deprimidos para lidar com esta situação é o evitamento, e que tal
condiciona de forma importante o ajustamento familiar à depressão.

12
Estratégias de coping familiar são os processos activos e comportamentais levados a cabo pela família
para as ajudar a lidar com a situação geradora de stress, enquanto que os recursos familiares de coping são
as características ou as «forças» que a família tem à sua disposição para lidar com essa mesma situação de
stress (Burr & Klein, 1994).

86
Halgin e Lovejoy (1991) consideram que existem dois tipos de estratégias
utilizadas pelos cônjuges não deprimidos para lidar com as dificuldades associadas à
depressão: tornar o ambiente envolvente manejável e compreender a origem e a natureza
da depressão do seu companheiro. Por sua vez, Billings e Moos (1984) tinham proposto
três dimensões de coping: focado na avaliação, que se refere às tentativas levadas a cabo
pelo parceiro não deprimido para compreender ou definir os sintomas do seu cônjuge;
focado no problema, em que há uma tentativa de redução da tensão através do confronto
activo dos assuntos associados à depressão, ou seja, o cônjuge não deprimido procura
encontrar soluções para diminuir o nível de stress; e focado nas emoções, que consiste na
regulação das emoções destrutivas que surgem associadas ao ambiente de opressão
característico desta enfermidade.
Mais recentemente, surgiu uma outra abordagem do coping familiar, que se tem
preocupado em estudar os casais com depressão, e que o seu autor (Bodenmann, 2005)
intitulou de coping diádico. O coping diádico (tal como o stress diádico) são definidos
como partes de um processo interpessoal que envolve ambos os parceiros conjugais. O
stress diádico representa uma forma específica de stress social que envolve preocupações
e uma intimidade emocional partilhada pelo casal, isto é, as exigências e dificuldades
associadas à situação geradora de stress afectam sempre ambos os parceiros, directa ou
indirectamente. É definido a partir da intensidade ou duração da exposição a uma
situação geradora de stress sentida por um dos cônjuges como excessiva face aos seus
recursos, e que condiciona o estado de distress do outro membro da díade, «contagiando-
o». O coping diádico implica a participação de ambos os parceiros no processo de gestão
da situação causadora de stress, participação essa que pode ser mais simétrica ou mais
complementar. Visa a redução do nível de stress em cada cônjuge e a promoção da
qualidade da relação conjugal (Bodenmann, 2005), sendo o processo pelo qual os sinais
de stress num dos cônjuges activam os recursos e as reacções de coping do outro cônjuge
a esses sinais (verbais e não verbais) a fim de manter ou de restaurar a homeostase de
ambos os parceiros enquanto indivíduos e enquanto casal (Bodenmann, 1997). Neste
modelo, Bodenmann (1995, cit por Bodenmann et al, 2004) considera a existência de
comportamentos de coping diádicos positivos e comportamentos de coping diádicos
negativos. Os primeiros referem-se a estratégias de coping de resolução de problemas e

87
de regulação das emoções que visam o apoio do companheiro nos seus esforços para lidar
com a situação de stress através de actividades como a ajuda nas tarefas diárias, a
compreensão empática, a ajuda na compreensão da situação, ajudar o companheiro a
relaxar, entre outras. Os segundos referem-se a comportamentos de coping ambivalentes,
nos quais os companheiros se mostram desinteressados, desmotivados, sarcásticos,
distanciados e pouco genuínos na forma como procuram apoiar o companheiro em stress.
Os comportamentos diádicos de coping mostraram serem um importante preditor do
funcionamento conjugal (Bodenmann, 2000; cit por Bodenmann et al, 2004).
Bodenmann e colaboradores (2004) estudaram as estratégias de coping presentes
em casais deprimidos e não deprimidos, quer ao nível individual, quer ao nível diádico e
concluíram que existe um déficit de coping funcional especialmente ao nível individual,
mas também ao nível diádico, sobretudo em mulheres deprimidas. Esta disfuncionalidade
refere-se essencialmente à comunicação do stress e ao suporte prestado.

Em síntese, a depressão, sendo uma das doenças psicológicas mais prevalentes na


sociedade dos nossos dias, tem de facto um impacto bastante importante, não só no
indivíduo de que dela padece, como nos que estão à sua volta e, em última análise, na
sociedade em geral. Os estudos dedicados a esta problemática multiplicam-se a um ritmo
elevado, e é já convicção dos investigadores, a certeza de que associado a esta doença,
estão enormes dificuldades no relacionamento interpessoal. Contudo, existe um número
considerável de indivíduos que, apesar de em algum momento das suas vidas desenvolver
uma qualquer forma de depressão, acabam por conseguir «resistir-lhe» e ultrapassam as
condicionantes que a doença entretanto lhes introduziu nas suas vidas. Os indivíduos com
um estilo de vinculação seguro tendem a não desenvolver com tanta frequência episódios
de depressão. O suporte conjugal tem-se revelado um importante preditor para a
recuperação da doença. A utilização de estratégias de coping por parte de ambos os
membros do casal tem se revelado como um importante factor no combate à depressão.
Na presente investigação, o nosso objectivo é olhar para estes três factores –
vinculação, suporte conjugal e estratégias de coping familiar – e compreender no
contexto português, numa amostra constituída por casais em que um dos membros está
diagnosticado como tendo uma depressão clínica, de que forma estas três variáveis

88
apontadas na literatura como tendo um papel importante na adaptação do casal à doença,
se comportam relativamente a um dos mais utilizados indicadores de adaptação conjugal
– a satisfação conjugal.

89
II – ESTUDO EMPÍRICO

90
CAPÍTULO 1 – CONCEPTUALIZAÇÃO DO ESTUDO EMPÍRICO, OBJECTIVOS E
METODOLOGIA

Sendo a depressão uma perturbação com implicações tão importantes na


conjugalidade pretende-se, com este trabalho de investigação, compreender o papel de
algumas variáveis no processo de adaptação do casal às realidades da doença. Deste
modo, inicia-se este capítulo com a clarificação do mapa conceptual, dos objectivos e das
questões de investigação subjacentes e respectivas hipóteses de partida. Segue-se a
definição das variáveis em estudo e a caracterização da amostra e dos instrumentos de
avaliação. Termina-se com uma síntese dos procedimentos envolvidos no desenho da
investigação.

Tratando-se de um estudo descritivo e exploratório (Black, 1999) com recurso a


uma amostra clínica, não probabilística e de conveniência, tem como objectivo principal
analisar as relações prováveis entre alguns recursos da relação conjugal e as estratégias
de coping utilizadas pelo casal com a respectiva adaptação à situação de depressão de um
dos seus membros. Neste contexto, tratando-se a satisfação conjugal de uma das variáveis
mais estudadas no contexto das relações conjugais e podendo ser “considerada como um
ponto nodal do bem estar – ou felicidade conjugal -, uma vez que activa este sentimento e
é por ele activada” (Narciso, 2001, p.26), optou-se por utilizá-la como medida de
adaptação do casal, ou seja como variável dependente. Assim sendo, um casal satisfeito é
considerado um casal que se adaptou e que é resiliente à situação de doença de um dos
seus membros.

Importa também referir a especificidade do conceito de adaptação que, no


presente trabalho, é perspectivado segundo o Modelo de Resposta de Ajustamento e
Adaptação Familiar, isto é, refere-se ao estado de equilíbrio que resulta do ajustamento
entre os indivíduos membros de uma família, a unidade familiar enquanto sistema e a
comunidade onde a unidade familiar está inserida, de forma a que as exigências de cada
uma destas unidades sejam satisfeitas com as competências de outra. Por conseguinte,

91
traduz-se nos resultados que reflectem os esforços da família para alcançar um novo
estado de equilíbrio no seu funcionamento (McCubbin & Patterson, 1983).

92
1.1 – Objectivos do Estudo

Numa perspectiva sistémica de compreensão da dinâmica familiar, qualquer


alteração num dos membros do sistema, tem necessariamente repercussões nos outros
elementos. Deste modo, uma qualquer doença, sendo ela aguda, crónica, física ou
psicológica, é experimentada no contexto do sistema familiar como uma situação
geradora de stress, tendo por isso, repercussões individuais, familiares e sociais
importantes. A depressão não é excepção, e actualmente é considerada uma crise não
normativa no contexto do ciclo de vida familiar (Angell, 1936; Cavan & Rank, 1938; cits.
por Boss, 2003). O nosso objectivo é analisar alguns dos factores facilitadores ou
inibidores da adaptação do casal a uma situação de crise como é a gerada pela condição
de um dos seus elementos estar deprimido.

Neste sentido recorre-se ao Modelo de Resposta de Ajustamento e Adaptação


Familiar - FAAR Model (McCubbin & Patterson, 1983), descrito no primeiro capítulo
deste trabalho, como modelo de conceptualização do stress familiar experimentado pela
díade conjugal no contexto do quadro depressivo de um dos seus membros.

O foco deste estudo incide numa parcela do Modelo de Resposta de


Ajustamento e Adaptação Familiar, tal como indica a figura 5. Pretende-se analisar
alguns dos potenciais recursos - a vinculação e o suporte conjugal - e as estratégias de
coping familiar utilizadas pelos casais para fazer face à situação de crise que enfrentam.

93
Figura 5 – Parcela do Modelo de Resposta de Ajustamento e de Adaptação Familiar em estudo

Em investigação

Um estilo de vinculação seguro pode, segundo Mikulincer e Florian (1998),


funcionar com um recurso interno que ajuda os indivíduos a lidar com as situações
adversas; de modo oposto, um estilo de vinculação inseguro tende a dificultar a forma
como os indivíduos enfrentam as situações geradoras de stress. A investigação na área da
vinculação tem vindo a reforçar a ideia de que, ainda que possa haver alguma
estabilidade no estilo de vinculação ao longo da vida, é também muito provável que as
experiências de relacionamentos interpessoais com pares e com parceiros românticos,
modifiquem os modelos operantes internos. Por exemplo, indivíduos com estilos de
vinculação inseguros, através da experimentação de relações securizantes, podem alterar
o seu padrão de vinculação (Fraley & Shaver, 2000; Kobak, 1994), uma vez que “as
representações dos indivíduos acerca dos «outros» são também significativamente
determinadas pelas características do parceiro, demonstrando que os modelos operantes
internos acomodam a informação acerca do parceiro, não sendo somente meros
constructos cognitivos” (Cook, 2000; p.293). Assim, as características do parceiro podem

94
manter ou promover mudança (para melhor ou pior) nos modelos operantes internos
(Feeney, 2003). Sabe-se, também, que os indivíduos estabelecem ao longo da vida várias
relações de vinculação, e que o estilo de vinculação associado a cada uma dessas relações
não tem de ser necessariamente o mesmo. Deste modo, e uma vez que um dos objectivos
da presente investigação é o de analisar os recursos associadas à relação conjugal de
indivíduos com diagnóstico de depressão, optou-se por estudar a vinculação amorosa, ou
seja, o estilo relacional de vinculação com o cônjuge, perspectivando-o como um recurso
da relação conjugal. Pretende-se, então, estudar a relação entre o estilo de vinculação
amorosa e a satisfação conjugal.

Por outro lado, o suporte conjugal é encarado pelos investigadores como um


recurso importante da relação conjugal, estando associado a índices mais elevados de
satisfação conjugal. A revisão de literatura efectuada permitiu constatar a forte associação
entre suporte social (ou conjugal) e a depressão, no sentido em que a esta doença estão
tendencialmente associados níveis mais baixos de suporte social percepcionado. Parece-
nos pertinente analisar, em casais com um dos cônjuges deprimido, a associação entre o
suporte conjugal percepcionado pelo casal e a satisfação conjugal.

Relativamente ao coping, a investigação tem demonstrado que a utilização de


estratégias de coping efectivas por parte dos casais deprimidos, nomeadamente pelo
cônjuge não deprimido, podem prevenir o desenvolvimento ou o reavivamento do
conflito conjugal e, consequentemente, o agravamento do quadro depressivo, permitindo
ainda uma recuperação mais rápida e eficaz do mesmo. Numa perspectiva sistémica, o
conceito de coping familiar traduz os esforços efectuados pelo sistema para resolver a
crise desencadeada pela situação geradora de stress. Neste âmbito, procura-se
compreender o papel das estratégias de coping familiar na adaptação do casal à
depressão, investigando para o efeito a sua relação com a satisfação conjugal.

Importa também verificar qual o peso relativo de cada uma destas variáveis
(vinculação amorosa, suporte conjugal e estratégias de coping familiar) na adaptação
conjugal à depressão, ou seja, identificar qual ou quais destas variáveis são preditoras da
adaptação do casal à situação de ter um membro com um diagnóstico de depressão.

95
No sentido de contextualizar os resultados procura-se analisar igualmente a
influência das variáveis sócio-demográficas - sexo do cônjuge deprimido, duração da
relação conjugal e situação profissional (activo, desempregado ou com baixa psiquiátrica)
- e das variáveis clínicas - tempo que decorreu desde o diagnóstico formal de depressão
até ao momento da recolha da amostra e doenças físicas graves do cônjuge deprimido e
do cônjuge não deprimido -, nas dimensões associadas à vinculação amorosa, à satisfação
conjugal, ao coping familiar e ao suporte conjugal.

Uma vez que se irá analisar uma amostra clínica, é também nosso objectivo
caracterizar os casais e os indivíduos que os constituem, ao nível das variáveis em estudo,
ou seja, estilo de vinculação amorosa, níveis de suporte social percepcionado, estratégias
de coping familiar utilizadas e níveis de satisfação conjugal.
Finalmente, analisa-se a congruência das respostas dos cônjuges deprimidos e dos
cônjuges não deprimidos, no sentido de averiguar qual o efeito da continuidade das
respostas dos membros do casal na adaptação à depressão. Dito de outro modo, verificar
se os casais cujas respostas são mais semelhantes estão melhor adaptados à situação de
depressão (isto é, indicam níveis mais elevados de satisfação conjugal) relativamente aos
casais cujas respostas são mais dissemelhantes, logo com percepções diferentes sobre as
variáveis em estudo.

96
Figura 6 – Mapa conceptual do estudo empírico

Diagnóstico Médico

Crise no Sistema Conjugal


Depressão num
dos membros
do casal

Significados
(não estão em estudo)
Contextos de Influência

Variáveis clínicas: Variáveis sócio-


Exigências associadas  Tipo de demográficas
à depressão Capacidades do depressão  Sexo do
(não estão em estudo) sistema conjugal  Duração do cônjuge
diagnóstico deprimido
 Doença física  Duração da
grave no cônjuge relação conjugal
deprimido  Situação
 Doença física profissional
grave no cônjuge
Recursos: Estratégias de Coping não deprimido
 Vinculação Amorosa  Coping Familiar
 Suporte Conjugal

Adaptação Conjugal Satisfação Conjugal

97
1.2 – Hipóteses

Após ter-se definido a problemática e estabelecido os objectivos da investigação,


enunciam-se, de seguida, as hipóteses em estudo. Contudo, uma vez que se trata de uma
investigação exploratória, inovadora no sentido em que a análise do estudo é o casal, o
número de hipóteses colocadas é muito reduzido. Procura-se, antes, explorar as possíveis
relações entre as diversas variáveis consideradas.

1) Quanto à caracterização da amostra 13

a) Cônjuges deprimidos

H1: Um vez que se está a analisar uma amostra clínica constituída por indivíduos
deprimidos, espera-se encontrar uma maior prevalência de indivíduos com um estilo de
vinculação inseguro amedrontado. A investigação tem vindo a demonstrar tanto em
amostras clínicas, como em amostras não clínicas a associação entre estilos de vinculação
inseguros (sobretudo amedrontado) e depressão (Carnelley et al, 1994; Roberts et al,
1996).

H2: Da mesma forma que na hipótese anterior, espera-se que os cônjuges deprimidos
percepcionem níveis reduzidos de suporte conjugal na medida em que a depressão tende
a estar associada a menos suporte social percebido e a mais dificuldades nas relações
familiares (Wade & Kendler, 2000).

13
Note-se que não havendo um grupo controlo não se pode estabelecer comparações com a população
saudável; trata-se apenas de tendências gerais esperáveis na população de indivíduos deprimidos tendo em
consideração investigações anteriores

98
b) Cônjuges não deprimidos

Não se podem estabelecer hipóteses quanto ao sentido das tendências de resposta


dos cônjuges não deprimidos relativamente às variáveis vinculação amorosa e suporte
conjugal, uma vez que não nos foi possível encontrar investigação específica sobre o
efeito da depressão do cônjuge na vinculação, no suporte conjugal percebido pelo
companheiro.

2) Quanto às relações entre vinculação, suporte conjugal e estratégias de


coping familiar com a satisfação conjugal

H3: Espera-se que os indivíduos deprimidos com vinculação segura tenham uma melhor
adaptação à depressão, isto é, apresentem valores superiores de satisfação conjugal, na
medida em que várias investigações têm demonstrado que a vinculação segura está
associada a níveis mais elevados de confiança, compromisso, satisfação e
interdependência (Levy & Davis, 1988; Simpson, 1990).

H4: Espera-se que os casais que percepcionam níveis mais elevados de suporte
conjugal, tenham uma melhor adaptação à depressão, ou seja, apresentam valores
também elevados de satisfação conjugal, uma vez que o suporte conjugal tem sido
sistematicamente associado a uma maior facilidade na recuperação da depressão (Keitner
et al, 1992; Nasser & Overholser, 2005) e a níveis superiores de satisfação conjugal
(Gardner & Cutrona, 2004).

No que concerne à utilização de estratégias de coping familiar, não se pode


elaborar nenhuma hipótese, na medida em que na revisão de literatura não foram
encontradas referências específicas a estratégias de coping da família para lidar com a
depressão. Por conseguinte, pretende-se explorar no presente estudo, quais as estratégias
de coping utilizadas pelo casal para lidar com os problemas associados à depressão.

99
3) Quanto ao efeito da consonância das respostas do casal nas dimensões da
vinculação amorosa, no suporte conjugal e nas estratégias de coping familiar

Uma vez que não encontrámos na literatura nenhuma indicação sobre o efeito da
convergência das respostas intra-casal para cada uma das variáveis em estudo, não foram
estabelecidas hipóteses a este respeito.

100
1.3 – Definição das Variáveis

Na medida em que o objectivo global da presente investigação é o de estudar a


adaptação conjugal à depressão, ou seja, a relação entre os recursos (vinculação
romântica e suporte conjugal), e as estratégias de coping familiar com a satisfação
conjugal (medida de adaptação conjugal), optou-se por considerar a influência das
seguintes variáveis sócio-demográficas - sexo do cônjuge deprimido (masculino e
feminino), duração da relação conjugal e situação profissional (activo, desempregado,
com baixa psiquiátrica); e das variáveis clínicas - tipo de depressão (episódio depressivo,
perturbação depressiva recorrente, perturbação do humor persistente, perturbação do
humor sem outra especificação), tempo que decorreu desde o diagnóstico formal de
depressão até ao momento da recolha da amostra e doenças físicas graves do cônjuge
deprimido e do cônjuge não deprimido.

Analisam-se igualmente variáveis relacionadas com a vinculação amorosa –


estilos de vinculação (seguro, preocupado, amedrontado e desinvestido) e dimensões da
vinculação amorosa (confiança, dependência, ambivalência e evitamento); variáveis
relacionadas com o coping familiar – procura de suporte na família, nos amigos e na
comunidade, procura de suporte espiritual, reenquadramento, procura de suporte nos
vizinhos e avaliação passiva; variáveis relacionadas com o suporte social –
percepcionado relativamente ao cônjuge; variáveis relacionadas com a satisfação
conjugal – amor, funcionamento e satisfação global; e variáveis relacionadas com a
consonância / dissonância nas respostas do casal – distância intra-casal inferior a 1
ponto, distância intra-casal entre 1 a 2 pontos e distância intra-casal superior a 2 pontos.

101
1.4 – Caracterização da Amostra

A amostra deste estudo foi recolhida nas consultas de psicologia e de psiquiatria


do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria e na Unidade Comunitária de
Cuidados Psiquiátricos de Odivelas, entre Fevereiro e Julho de 2006.

Trata-se de uma amostra de conveniência, constituída por 57 casais em que um


dos cônjuges foi diagnosticado com uma forma de depressão; 12 cônjuges deprimidos são
homens e os restantes 45 são mulheres (ou seja, a grande maioria). A classificação da
depressão foi efectuado de acordo com os critérios de diagnóstico da Organização
Mundial de Saúde, sendo que, no total da amostra, 29 indivíduos apresentavam critérios
para um Episódio Depressivo (7 são do sexo masculino), 11 indivíduos foram
diagnosticados com uma Perturbação Depressiva Recorrente (2 são homens) e 17
indivíduos com Perturbação do Humor (Afectiva) Persistente (3 são do sexo masculino).
No que respeita ao estado civil, apenas 3.5 % dos casais vivem em união de facto,
sendo que os restantes se encontram legalmente casados. Para a maioria dos casais, a
duração da relação conjugal é superior a 25 anos (47.4%), para 26.3 % a sua relação tem
um tempo de duração que varia entre os 16 e os 25 anos, em 14% dos casos situa-se no
intervalo dos 7 aos 15 anos, em 10.5 % dos 1 aos 6 anos, e em apenas 1.8% dos casais a
relação têm uma duração inferior a 1 ano. Em média, os casais têm dois filhos, sendo de
salientar que 3.5% dos casais não têm nenhum filho e outros 3.5 % têm mais de três
filhos; 24.6% têm apenas um filho e 21.1 % têm três filhos.
Segue-se uma caracterização da amostra dos cônjuges que estão deprimidos.
A maioria das mulheres encontra-se na faixa etária dos 46 aos 65 anos (53.3 %),
logo de seguida pela faixa etária dos 31 aos 45 anos (42.2 %) e, por último 4.4 % têm
entre 18 e 30 anos. Quanto aos homens, 8.3 % têm entre 18 e 30 anos, 25% têm entre 31
e 45 anos e 66.7 % estão englobados no intervalo entre os 46 e os 65 anos. A escolaridade
dos homens distribui-se da seguinte forma: 18.1 % frequentaram o 1º ciclo, 18.1 %
frequentaram o 2º ciclo, 27.3 % obtiveram o 3º ciclo do ensino básico, 27.3 %
completaram o ensino secundário e apenas 9.1 % frequentaram o ensino superior. Quanto

102
às mulheres, 26.7 % concluíram o 1º ciclo, 13.3 % o 2º ciclo, 13.3 % o 3º ciclo, 6.7 % o
ensino superior sendo que a maioria obteve o diploma do ensino secundário (40 %).
Existem 3 homens e 6 mulheres que se encontram numa situação de desemprego. 25% de
mulheres e 8.3% de homens encontram-se com baixa psiquiátrica. 41.6 % dos homens
referem já terem sido internados em consequência da depressão. O mesmo se passa com
11.1% das mulheres. Relativamente à duração do diagnóstico, 66.7% das mulheres
referem que estão deprimidas, segundo o seu médico, há mais de 2 anos, 4.4% indicam o
intervalo de 1 a 2 anos, 17.7 % situam-no no intervalo entre os 6 e os 12 meses e 11.1%
referem que o diagnóstico foi realizado no período compreendido entre os 3 e os 6 meses.
25% dos indivíduos do sexo masculino, têm o seu diagnóstico feito no intervalo de 1 a 3
meses, 16.7% no intervalo de 1 a 2 anos e 58.3% referem estar deprimidos há mais de 2
anos. Para além da depressão, 2 homens referem sofrer de doença física grave (cancro da
próstata e hepatite B ), bem como 37.7% das mulheres que referem doenças como
amputação de parte de um membro, problemas na coluna, cegueira, artrite reumatóide,
diabetes, fibromialgia, hepatite C, problemas na tiróide, mastectomia, perda dos sentidos
do olfacto e do paladar, luxações e espondilolisteses. São ainda referenciados, por 15.6%
das mulheres, problemas na saúde física dos cônjuges (problemas na anca, no coração, de
estômago, na coluna, respiratórios e diabetes). O mesmo é referido por 2 homens
referente às suas parceiras (cancro da mama).
Seguidamente apresenta-se uma caracterização dos cônjuges não deprimidos.

103
Quadro 1 – Características sócio-demográficas da amostra total (N=57 casais; 114 indivíduos) segundo a
população (deprimida e não deprimida) e o género

Sujeitos Deprimidos Sujeitos Não Deprimidos


Mulheres Homens Mulheres Homens
18-30 2 1 0 2
31-45 19 3 7 13
Idade
46-65 24 8 5 30
+65 0 0 0 0
1º ciclo 12 2 3 11
2º ciclo 6 2 2 11
Escolaridade 3º ciclo 6 3 0 7
Secundário 18 3 4 19
Superior 3 1 3 7
Tipo de União de facto 2
Relação
Conjugal Casamento 55
<1ano 1
Duração da 1-6 6
Relação 7-15 8
Conjugal 16-25 15
>25 27
0 2
1 14
Filhos 2 27
3 12
>3 2
Situação Empregado 39 9 11 44
Profissional Desempregado 6 3 1 1
Baixa
Psiquiátrica
11 1 0 0

A amostra de indivíduos não deprimidos é constituída por 78.9 % de indivíduos


do sexo masculino, cujas idades se situam maioritariamente na faixa dos 46 aos 65 anos
(66.6%). 4.4% têm entre 18 e 30 anos e 28.9% situam-se no intervalo dos 31 aos 45 anos.
A maioria tem como escolaridade o ensino secundário (34.9 %), existindo 8 sujeitos com
o 1º ciclo, 9 com o 2º ciclo, 7 com o 3º ciclo e 4 com frequência superior. Apenas 1
indivíduo está desempregado. Não existem sujeitos com baixa psiquiátrica. 4 indivíduos
referem ter uma doença física grave (problemas na coluna, dermatite de contacto e
doença respiratória) e 14 referem que o seu cônjuge tem uma doença física grave
(amputação de membro, cegueira, artrite reumatóide, problemas na coluna, doença

104
auditiva, fibromialgia, limitação visual e problemas nos maxilares). Os indivíduos do
sexo feminino correspondem a 21.1% da amostra de cônjuges não deprimidos. A maioria
situa-se na faixa etária dos 31 aos 45 anos (58.3%) e os restantes pertencem ao intervalo
dos 46 aos 65 anos. 33.3% possuem como escolaridade o ensino secundário, 25% o 1º
ciclo, 25% o ensino superior e 16.7% o 2º ciclo do ensino básico. Existe uma mulher
desempregada. Nenhuma se encontra com baixa psiquiátrica.16.6 % referem que o seu
marido tem uma doença física grave (cancro da próstata e hepatite B) e 3 referenciam um
doença física grave (cancro).

Quadro 2 – Características clínicas da amostra total (N=57 casais; 114 indivíduos) segundo a população
(deprimida e não deprimida) e o género

Sujeitos Deprimidos Sujeitos Não Deprimidos


Mulheres Homens Mulheres Homens
Episódio
Depressivo 22 7
Perturbação
Tipo de Depressiva 9 2
Depressão Recorrente
Perturbação
Humor 11 3
Persistente
1 mês 0 0
1-3 meses 0 3
Tempo de 3-6 meses 5 0
Diagnóstico 6-12 meses 8 0
1-2 anos 2 2
> 2 anos 30 7
Sim 5 5
Internamento
Não 40 7
Doença Sim 17 2 2 14
Física Grave
no indivíduo Não 28 10 10 26
deprimido
Doença
Física Grave Sim 7 2 3 4
no indivíduo
não Não 38 10 9 41
deprimido

Uma vez que foi questionado a ambos os membros do casal alguns dados sobre a
doença psicológica (tempo de diagnóstico da doença, internamento resultante da mesma)
e doença física grave de ambos os membros da díade, parece-nos pertinente observar a

105
concordância das respostas no casal, na medida em que tal reflecte a percepção que cada
elemento possui acerca da doença e da sua gravidade. Assim, no que se refere à variável
tempo de diagnóstico da doença, em 72% dos casais existe concordância nas respostas de
ambos os membros. Relativamente à variável internamento, 10.3 % dos casais deram
respostas díspares. 77.2% dos casais concordam no que respeita à percepção que têm
sobre uma doença física grave no cônjuge deprimido, enquanto que 86% fazem-no
relativamente à existência de doença grave no cônjuge não deprimido. Se tivermos em
consideração a totalidade das quatro variáveis em análise, apenas em 47.4% dos casos
existe concordância na totalidade questões respeitantes à percepção do casal sobre a
doença.

106
1.5 – Instrumentos de Avaliação

A metodologia do presente estudo é constituída pelos seguintes instrumentos de


auto-relato:

• Questionário de Vinculação Amorosa (QVA; Matos, Barbosa & Costa, 2001,


versão revista)

• Inventário da Qualidade das Relações - Sub escala de Suporte Social (QRI;


Pierce, Sarason, Sarason, Solky-Butzel & Nagle, 1997, tradução de Moreira e
colaboradores, 2000)

• Escalas de Avaliação Pessoal Orientadas para a Crise Familiar (F-COPES;


McCubbin, Larsen e Olson, 1981, tradução de Vaz Serra, Firmino, Ramalheira e
Canavarro,1990; estudos de adaptação em curso na Faculdade de Psicologia e de
Ciências da Educação da Universidade de Lisboa)

• Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal (EASAVIC,


Narciso & Costa, 1996)

A bateria de instrumentos foi complementada com um questionário de dados


sócio-demográficos e clínicos.

Relativamente aos instrumentos supracitados, dois foram previamente construídos e


utilizados em amostras portuguesas: o QVA (Matos, Barbosa & Costa, 2001, versão
revista) e o EASAVIC (Narciso & Costa, 1996). Os restantes dois foram traduzidos para
a língua portuguesa, mas os seus estudos de adaptação não estão ainda publicados.

De seguida, apresentamos uma descrição de cada instrumento e os resultados da


análise das qualidades psicométricas obtidos na presente amostra. Para o efeito,
recorremos à avaliação da consistência interna através do Alpha de Cronbach e da
correlações inter-item e item-total para a população deprimida, para a população não

107
deprimida e para a população total. Nestas análises foi utilizado o programa estatístico
SPSS 12.0.

1.5.1 – Questionário Sócio – Demográfico

O Questionário Sócio – Demográfico (anexo 1) tem por objectivo proceder à recolha


de dados que permitam elaborar uma caracterização da amostra, bem como averiguar a
sua relação com as variáveis em estudo. Permite ter acesso a dados de identificação
sócio-demográfica dos indivíduos / casais – sexo do cônjuge deprimido duração da
relação conjugal e situação profissional (activo, desempregado ou com baixa
psiquiátrica).

1.5.2 – Questionário Clínico

O objectivo do questionário clínico é o referido para o questionário sócio-


demográfico. Inclui tipo de depressão (informação dada pelo psiquiatra / psicólogo),
duração do diagnóstico e doença física grave no cônjuge deprimido e no cônjuge não
deprimido.

1.5.3 – Questionário de Vinculação Amorosa

1.5.3.1 – Descrição da Escala

A vinculação romântica é avaliada através dos 52 itens do QVA de Matos, Barbosa e


Costa (2001), construído especificamente para a população portuguesa com o objectivo
de medir as percepções dos indivíduos sobre as suas relações de vinculação ao par
amoroso, bem como ilustrar os quatro protótipos de vinculação definidos por
Bartholomew (1990) – seguro, preocupado, amedrontado e desinvestido. Na base da sua
construção esteve a teoria da vinculação de Ainsworth (1982, 1989, 1991) e Bowlby
(1973, 1977) assim como o modelo de avaliação da vinculação de Bartholomew (1990;
Bartholomew & Horowitz, 1991). Está organizado segundo quatro dimensões: a

108
Confiança, que avalia as percepções do sujeito relativamente à responsividade e à
sensibilidade do par romântico para satisfazer as suas necessidades, o qual é
percepcionado como fonte de conforto e de apoio, constituíndo-se como base segura de
incentivo à exploração (e.g. “O meu cônjuge respeita os meus sentimentos”); o
Evitamento, que se refere ao papel secundário que o companheiro ocupa no
preenchimento das necessidades de vinculação, bem como a centração do sujeito na sua
capacidade de resolução de problemas (e.g. “O apoio dele não é muito importante para
mim. Sei que sou capaz de resolver as coisas sozinha ”); a Dependência, que avalia a
necessidade de proximidade física e emocional, a ansiedade de separação e o medo da
perda (“e.g. Quando não podemos estar juntos, eu não sei o que fazer”); e a
Ambivalência, que avalia a insegurança do sujeito, expressa numa forte irritabilidade
face a situações imprevisíveis, assim como na dúvida relativamente ao papel que
desempenha enquanto companheiro amoroso e às suas próprias emoções em relação ao
par romântico (e.g. “Gostava de ser a pessoa mais importante para ele, mas não tenho a
certeza se o sou”). Na subescala de confiança alguns itens estão formulados no sentido
contrário ao da dimensão subjacente pelo que se irá proceder à sua inversão para o
cálculo do resultado da mesma. Assim, por exemplo, o item 17 “Desagrada-me a maneira
de ser do meu cônjuge”, avalia positivamente a desconfiança e negativamente a
confiança. A resposta aos itens do QVA é dada numa escala de Likert de 6 pontos que
varia entre 1 (discordo totalmente) a 6 (concordo totalmente). O resultado de cada
subescala é dado pela soma aritmética dos itens que a constituem. A utilização deste
instrumento em diversos estudos, com amostras independentes, tem demonstrado boas
qualidades psicométricas (Narciso, 2001; Andrade dos Santos, 2005; Bastos & Costa,
2005; Duarte, 2005), apresentando alfas de Cronbach superiores a .80.

1.5.3.2 – Análise das qualidades psicométricas

• Alpha de Cronbach

A escala apresentou valores de alphas de cronbach bastante adequados para as


escalas de confiança, dependência, ambivalência e evitamento. Tal como se pode
observar no quadro 3, todas as escalas apresentam valores superiores a .80. Estes

109
resultados são semelhantes aos encontrados em outros estudos (Narciso, 2001;
Andrade dos Santos, 2005; Bastos & Costa, 2005; Duarte, 2005).

Quadro 3 – Valores de Alpha de Cronbach para o Questionário de Vinculação Amorosa

Alpha de Alpha de
Alpha de Cronbach
Dimensões Itens Cronbach Não Cronbach
Deprimidos
Deprimidos Total

1,5,12,14(-),17(-),19,
Confiança 24(-),29,35,37(-),42, .93 .92 .94
49(-),52

2,6,10,15,21,22,25,32,3
Dependência .84 .82 .82
3,38,43,47,50

4,8,9,13,20,26,28,31,36,
Ambivalência .82 .83 .85
39,41,46,48

3,7,11,16,18,23,27,30,3
Evitamento .85 .81 .84
4,40,44,45,51

• Correlações Inter-item

Verifica-se (quadro 4) que a magnitude das correlações dos itens entre si é


bastante aceitável para a dimensão confiança (varia entre .48 e .54), ao passo que
para as dimensões dependência, ambivalência e evitamento, os valores de
magnitude encontrados são mais modestos (de .26 a .32), mas perfeitamente dentro
do que é considerado adequado.

110
Quadro 4 – Média das correlações inter-item para o Questionário de Vinculação Amorosa

Magnitude da Magnitude da Magnitude da


Dimensões Correlação Correlação Não Correlação
Deprimidos Deprimidos Total

Confiança .501 .482 .540

Dependência .291 .257 .260

Ambivalência .257 .266 .317

Evitamento .297 .252 .285

• Correlações Item-total

Uma vez mais, a dimensão confiança mostrou ser a medida mais consistente,
apresentando correlações item-total que variam entre .54 e .82. Nas restantes
dimensões, tal como se pode observar no quadro 5, obtiveram-se correlações bastante
inferiores (entre .22 e .72) mas adequadas. No que se refere às correlações do item
com o total da escala a que pertence, Nunnally e Bernstein (1994) indicam, como
possível critério para a exclusão de um item, o valor de .20, abaixo do qual devem ser
ponderadas razões de ordem conceptual que justifiquem a sua eventual manutenção
na escala.

111
Quadro 5 – Correlações item-total para o Questionário de Vinculação Amorosa

Variação das
Variação das Variação das
Correlações
Dimensões Correlações Correlações
Não
Deprimidos Total
Deprimidos

Confiança .54 a .81 .55 a .76 .58 a .82

Dependência .36 a .60 .26 a .60 .30 a .53

Ambivalência .22 a .69 .29 a .68 .29 a .72

Evitamento .38 a .68 .20 a .65 .36 a .64

1.5.4 Inventário de Qualidade das Relações (QRI)

1.5.4.1 Descrição da Escala

O suporte social é medido através dos 7 itens da subescala do QRI de Pierce, Sarason,
Sarason, Solky-Butzel & Nagle (1997), traduzido por Moreira e colaboradores (2000).
Este inventário foi desenvolvido no âmbito das investigações sobre o suporte social e a
sua influência no relacionamento interpessoal, e tem como objectivo avaliar as
percepções dos sujeitos em relação à existência de suporte social no contexto de relações
interpessoais específicas. Permite que o indivíduo caracterize a qualidade da relação que
tem com uma determinada pessoa referida na própria escala (por exemplo, mãe, cônjuge)
de acordo com três dimensões distintas (embora na presente investigação se tenha optado
por analisar apenas uma delas – o suporte social): Suporte Social fornecido por essa
pessoa, ou seja, a extensão em que o indivíduo percepciona apoio dessa pessoa numa
variedade de situações (e.g. “Em que medida pode recorrer a esta pessoa para o
aconselhar acerca de problemas que possa ter?”); Profundidade da relação, que avalia as
crenças do sujeito acerca do compromisso e valorização da relação com essa pessoa (e.g.
“Em que medida se sente responsável pelo bem-estar desta pessoa?”); Conflito, que
reflecte a extensão em que o indivíduo experiencia zanga e sentimentos ambivalentes
pela pessoa (e.g. “Com que frequência tem de se esforçar para evitar conflitos com esta

112
pessoa?”). A resposta aos itens é dada numa escala de 4 pontos que varia entre 1 (Nada) e
4 (Muitíssimo), e o resultado é dado pela média dos itens de cada subescala. Na presente
investigação, a pessoa relativamente à qual os sujeitos são inquiridos é o seu cônjuge. Os
estudos empíricos realizados com o QRI têm indicado boas credenciais psicométricas
(Pierce et al, 1991; cit por Pierce, 1994), nomeadamente no que se refere à sua
consistência interna, apresentando alfas de Cronbach entre .80 e .90 nas várias subescalas
e valores teste-reteste com um intervalo de 12 meses que variam entre .49 e .79, o que
indica moderada a boa estabilidade nas percepções das relações interpessoais em estudo
(Pierce et al, 1997).

Têm sido realizados alguns estudos que utilizam o QRI (na sua forma reduzida)
em amostras portuguesas (Faustino, 2005), que indicam níveis de consistência interna
mais baixos, com os alfas de Cronbach a variar entre .50 e .79, explicados pelo autor
como resultantes, “em parte, do número reduzido de itens em cada escala” (Idem, p.
130).

1.5.4.2. – Análise das qualidades psicométricas

No que diz respeito à média das correlações dos itens entre si, a escala de suporte
social apresenta uma magnitude que varia entre .40 para a os cônjuges saudáveis e .51
para a os cônjuges deprimidos. Constata-se que as correlações item-total variam entre .49
e .79. Os valores do alpha de cronbach são bastante aceitáveis, uma vez que são
superiores a .82. Estes resultados vão de encontro aos obtidos pelos autores do QRI e
confirmam a utilização da versão completa da escala, na medida em que são bastante
superiores aos obtidos por Faustino (2005) com a versão reduzida do QRI.

113
Quadro 6 - Correlações inter-item, item-total e alpha de cronbach para a subescala suporte social do
Inventário da Qualidade das Relações

Magnitude das Variação das


Alpha de
População correlações inter- Correlações
Cronbach
item item-total

Deprimidos .507 .52 a .79 .88

Não Deprimidos .397 .49 a .69 .82

Total .481 .55 a .74 .87

1.5.5 - Escalas de Avaliação Pessoal Orientadas para a Crise Familiar (F-COPES)

1.5.5.1 - Descrição da Escala

O coping familiar é avaliado F-COPES de McCubbin, Larsen e Olson (1981, cit


por Olson et al, 1985), traduzido por Vaz Serra, Firmino, Ramalheira e Canavarro (1990)
e em processo de adaptação na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
Universidade de Lisboa. Foi desenvolvido com o objectivo de identificar estratégias
efectivas comportamentais e de resolução de problemas, utilizadas pelas famílias em
situações difíceis ou problemáticas. É constituído, na sua versão original, por 5
subescalas: Procura de Suporte Social, que avalia a procura de suporte social junto da
família alargada, amigos e vizinhos (e.g. “Procuramos o encorajamento e o apoio de
amigos”); Reenquadramento, que reflecte por um lado a avaliação que a família faz dos
problemas e da sua capacidade para os resolver, e por outro a sua percepção da mudança
inerente às situações geradoras de stress, como sendo mais positiva, mais negativa ou
mais neutra (e.g. “Acreditamos que podemos lidar com os nossos próprios problemas”);
Procura de Suporte Espiritual, que reflecte o envolvimento da família em actividades
religiosas como estratégia de resolução das dificuldades (e.g. “Frequentamos a igreja e
vamos à missa”); Mobilização da Família para Procurar e Aceitar Ajuda, que avalia a
procura e aceitação de suporte nos recursos da comunidade (e.g. “Procuramos informação
e conselhos junto do médico de família”); e Avaliação Passiva, que se focaliza nos
comportamentos passivos adoptados pela família, tais como respostas de evitamento

114
baseadas em crenças de incapacidade para alterar o curso dos problemas (e.g. “Sabemos
que a sorte tem um papel importante na resolução dos nossos problemas familiares”). A
resposta aos itens do F-COPES é dada numa escala de likert de 5 pontos que varia entre 1
(discordo muito) e 5 (concordo muito), e os resultados são obtidos pela soma aritmética
dos itens para cada subescala e para o conjunto das cinco subescalas. As qualidades
psicométricas observadas pelos autores são boas. No que se refere à consistência interna
do instrumento, apresenta valores de alfa de cronbach que variam entre os .63
(subescala avaliação passiva) e os .84 (subescala de procura de suporte social), com
um valor total da escala de .86. Apresenta ainda valores de teste-reteste com um intervalo
de 4 semanas entre .61 (subescala reenquadramento) e .95 (subescala procura de
suporte espiritual) (McCubbin, Larsen & Olson, 1981). Vaz Serra e colaboradores
(1992) conduziram um estudo com o F-COPES, mas não são referidos quaisquer dados
psicométricos referentes ao mesmo. A versão utilizada no presente estudo apresenta
ligeiras diferenças relativamente ao original. Assim, mantém as subescalas
reenquadramento, procura de suporte espiritual e avaliação passiva, havendo
contudo uma nova subescala – procura de suporte de vizinhos e a junção da subescala
procura de suporte social com a subescala mobilização da família para procurar e
aceitar ajuda, na subescala procura de suporte na família, amigos e comunidade. O
número de itens foi alterado para 26. Os resultados preliminares da consistência interna
da versão em revisão são os indicados no quadro 7.

Quadro 7 – Valores de Alpha de Cronbach para as subescalas da versão em revisão do F-COPES

Dimensões Itens Alpha de Cronbach

Suporte família,
1,2,4,5,6,15,18,19,23 .80
amigos e comunidade

Suporte Espiritual 13,21,24,26 .85

Reenquadramento 3,7,10,20,22 .71

Suporte vizinhos 8,9,25 .81

Avaliação Passiva 11,12,14,16,17 .64

115
1.5.5.2 – Análise das Qualidades Psicométricas

• Alpha de Cronbach

A escala apresentou valores de alphas de cronbach aceitáveis para as subescalas de


procura de suporte na família, nos amigos e na comunidade, procura de suporte
espiritual, reenquadramento, procura de suporte nos vizinhos e avaliação
passiva, na medida em que os valores são superiores a .62. Estes resultados são
semelhantes aos encontrados com a versão do F-COPES em estudo na Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.

Quadro 8 – Valores de Alpha de Cronbach para o F-COPES

Alpha de Cronbach Alpha de Cronbach Alpha de


Dimensões
Deprimidos Não Deprimidos Cronbach Total

Suporte família,
amigos e .78 .80 .80
comunidade

Suporte Espiritual .83 .83 .82

Reenquadramento .64 .62 .64

Suporte vizinhos .89 .72 .83

Avaliação Passiva .64 .64 .65

• Correlações Inter-item

Observa-se que o valor médio das correlações dos inter-item é mais elevado nas
subescalas procura de suporte espiritual e procura de suporte nos vizinhos,
tratando-se de valores bastante aceitáveis. Para as restantes subescalas, verificam-se
magnitudes mais fracas, que variam entre .25 e .30.

116
Quadro 9 – Média das correlações inter-item para o F-COPES

Magnitude da Magnitude da Magnitude da


Dimensões Correlação Correlação Não Correlação
Deprimidos Deprimidos Total

Suporte família,
amigos e .285 .309 .302
comunidade

Suporte
.531 .543 .523
Espiritual

Reenquadramento .260 .245 .264

Suporte vizinhos .727 .451 .615

Avaliação
.262 .258 .267
Passiva

• Correlações Item-total

Tal como pode ser observado no quadro 10, as correlações item-total são mais
elevadas para a subescala procura de suporte nos vizinhos (entre .37 e .87), o que
vem reforçar a importância da diferenciação deste factor relativamente à versão
original, em que estava incluído num factor mais amplo denominado procura de
suporte social.

117
Quadro 10 – Correlações item-total para o F-COPES

Variação das
Variação das Variação das
Correlações
Dimensões Correlações Correlações
Não
Deprimidos Total
Deprimidos

Suporte família,
amigos e .30 a .66 .20 a .66 .35 a .62
comunidade

Suporte
.45 a .87 .40 a .79 .42 a .78
Espiritual

Reenquadramento .21 a .52 .29 a .44 .27 a .49

Suporte de
.67 a .87 .37 a .72 .55 a .80
vizinhos

Avaliação
.27 a .52 .11 a .54 .25 a .49
Passiva

1.5.6 - Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal (EASAVIC)

1.5.6.1 - Descrição da Escala

A satisfação conjugal é medida pelos 44 itens da EASAVIC (Narciso & Costa, 1996)
construída para a população portuguesa, com o intuito de superar algumas das
dificuldades e limitações apresentadas pelas escalas anteriormente desenvolvidas, a fim
de se avaliar a percepção da satisfação dos sujeitos casados ou em união de facto em dez
áreas da vida conjugal. Dos 44 itens da EASAVIC, 16 focalizam-se no casal, 14 centram-
se no outro e 14 focalizam-se no próprio. A escala está organizada segundo duas
dimensões: o Amor, que é definido como os “sentimentos que cada um nutre pelo outro
e/ou pela relação, estando, pois presentes, de um modo mais ou menos explícito,
atributos inerentes aos componentes essenciais do amor: paixão, intimidade e
investimentos / compromisso” (Ibidem, p. 117) e o Funcionamento que é “o modo como
se organizam e regulam as relações no holon conjugal e/ou familiar, e relações extra-
familiares” (Ibidem, p.117). Ao Amor estão associadas as seguintes 5 áreas da vida

118
conjugal – Sentimentos e Expressão de sentimentos, que diz respeito ao sentimento que
cada um nutre pelo outro, ao modo como cada um expressa os sentimentos pelo outro e à
admiração que cada um sente pelo outro (e.g. “ A admiração que sinto pelo meu
cônjuge”); Sexualidade, que se refere à frequência e qualidade das relações sexuais, ao
desejo sexual de cada um pelo outro e ao prazer de cada um nas relações sexuais (e.g. “O
desejo sexual que o meu cônjuge sente por mim”); Intimidade Emocional, que tem a ver
com o apoio emocional mútuo, com a confiança mútua, com a partilha de interesses e
actividades e com a atenção que cada um dedica aos interesses do outro (e.g. “A partilha
de interesses e actividades); Continuidade da Relação, que se refere ao projecto para o
futuro e à expectativa de cada um quanto ao futura da relação (e.g. “Os nossos projectos
para o futuro”); e Características Físicas e Psicológicas, que diz respeito à opinião que
cada um tem sobre o aspecto físico e características e hábitos do outro (e.g. “As
características e hábitos do meu cônjuge”). Ao Funcionamento, estão associadas as
seguintes áreas da vida conjugal – Funções, que compreende a gestão financeira, as
tarefas domésticas, as decisões e as responsabilidades (e.g. “O modo como gerimos a
nossa situação financeira”); Tempos Livres, que são avaliados ao nível da quantidade e da
qualidade (e.g. “A quantidade de tempos livres”); Autonomia / Privacidade, associadas a
cada um dos elementos do casal (e.g. “A minha privacidade e autonomia”); Comunicação
e Conflitos, que se refere à frequência, qualidade e tema de diálogo, à frequência de
conflitos e sua resolução (e.g. “O modo como conversamos”); Relações Extra-
Familiares, que diz respeito às relações com os amigos, com a família de origem de cada
um e com a profissão de cada um (e.g. “A nossa relação com a minha profissão”). A
resposta aos itens do EASAVIC é dada numa escala de Likert de 6 pontos, que varia
entre, 1 (nada satisfeito) e 6 (completamente satisfeito), e os resultados globais são
obtidos pela média do total dos itens. São também calculados os resultados para cada
uma das dimensões (amor e funcionamento) através da média dos itens que as
constituem. Este instrumento tem sido utilizado em diversas investigações (Narciso,
2001; Oliveira & Costa, 2005), apresentando boas credenciais psicométricas. No que
respeita à sua consistência interna, os valores do alfa de cronbach ultrapassam os .90 para
os dois factores, amor e funcionamento. As correlações entre as várias áreas e o
resultado global da escala são superiores a .60 e entre as dimensões amor e

119
funcionamento são superiores a .70. Ao nível da validade concorrente, obteve-se uma
correlação de -.76 com a Escala de Satisfação Global de Glenn e Weaver.

1.5.6.2 – Análise das qualidades psicométricas

A análise das qualidades psicométricas da EASAVIC será efectuada para as


dimensões Amor e Funcionamento.

• Alpha de Cronbach

Na análise da consistência interna, a escala apresentou valores de alpha de cronbach


bastante elevados para as dimensões em estudo. Tal como pode ser observado no
quadro 11, ambas as dimensões apresentam valores superiores a .91, o que vem
confirmar as boas credenciais psicométricas da escala.

Quadro 11 – Valores de Alpha de Cronbach para a Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida
Conjugal

Alpha de
Alpha de Cronbach Alpha de
Dimensões Itens Cronbach Não
Deprimidos Cronbach Total
Deprimidos

Amor 19-44 .97 .97 .97

Funcionamento 1-18 .91 .93 .92

• Correlações Inter-item

Verifica-se que os valores de magnitude das correlações dos itens entre si para a
dimensão amor são superiores aos encontrados para a dimensão funcionamento e,
tal como se observa no quadro 12, variam entre .36 e .41.

120
Quadro 12 – Média das correlações inter-item para a Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida
Conjugal

Magnitude da Magnitude da Magnitude da


Dimensões Correlação Correlação Não Correlação
Deprimidos Deprimidos Total

Amor .521 .587 .557

Funcionamento .362 .411 .401

• Correlações Item-total

As correlações item-total para as dimensões amor e funcionamento apresentam


valores superiores na população dos cônjuges saudáveis (entre .45 e .84) e valores
mais baixos para os cônjuges deprimidos (entre .23 e .84)

Quadro 13 – Correlações item-total para a Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal

Variação das
Variação das Variação das
Correlações
Dimensões Correlações Correlações
Não
Deprimidos Total
Deprimidos

Amor .37 a .83 .67 a .84 .56 a .82

Funcionamento .23 a .84 .45 a .78 .32 a .82

121
1.6 – Procedimento

Dadas as respectivas autorizações pelos coordenadores da Unidade Comunitária


de Cuidados Psiquiátricos de Odivelas e da consulta externa do Hospital Santa Maria
para a realização da investigação, foram entregues aos psicólogos e psiquiatras os
instrumentos de investigação para serem administrados em setting de consulta.

O período de recolha dos dados ocorreu de Fevereiro a Julho de 2006. Embora a


calendarização tivesse sido planeada para acontecer de Fevereiro a Março do corrente
ano, a dificuldade de recolha dos dados obrigou ao adiamento do prazo. Esta dificuldade
deveu-se essencialmente à escassez de indivíduos com diagnóstico de depressão que
mantivessem uma relação afectiva estável.

Os instrumentos destinados ao cônjuge deprimido foram administrados logo após


a consulta. Os instrumentos destinados ao cônjuge não deprimido, juntamente com um
envelope selado para resposta, foram entregues na mesma para serem respondidos e,
posteriormente enviados pelo correio. O tempo médio requerido para resposta aos
instrumentos foi de cerca de 45 minutos.

122
2º CAPÍTULO - APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

2.1 - Tratamentos Estatísticos

Neste capítulo serão apresentados os resultados decorrentes do estudo empírico


efectuado.
Numa primeira fase, é realizada uma caracterização da amostra no que respeita às
dimensões da vinculação amorosa, ao suporte conjugal, às estratégias de coping familiar
e à satisfação conjugal, para cada um dos cônjuges e para o casal.
De seguida, são apresentados os resultados relativamente às análises univariada e
multivariada de variância e de covariância (traço de pillai) e à condução de testes post-
hoc, com o objectivo de detectar a direcção das diferenças (teste de tukey e teste de
sheffe), procurando avaliar as diferenças nas dimensões da vinculação amorosa, no
suporte conjugal e nas estratégias de coping familiar e na satisfação conjugal em função
das variáveis sócio-demográficas (sexo do cônjuge deprimido, duração da relação
conjugal e situação profissional do deprimido) e das variáveis clínicas (tipo de depressão,
duração do diagnóstico clínico, doença física grave no cônjuge deprimido e doença física
grave no cônjuge não deprimido).
Numa terceira fase, são apresentadas as correlações de Pearson, no sentido de
avaliar as associações ao nível dimensional entre as variáveis, bem como o resultado das
regressões múltiplas efectuadas para cada uma das dimensões da satisfação conjugal, em
ordem a identificar o conjunto de preditores nas restantes variáveis que melhor explicam
esta variável critério.
Seguem-se as análises multivariadas de variância e de covariância que permitem
avaliar as diferenças nas dimensões das variáveis em estudo em função dos protótipos de
vinculação amorosa dos cônjuges deprimidos e dos cônjuges não deprimidos, a partir da
análise de clusters.
Por último, são apresentados os resultados relativos ao efeito do ajustamento das
respostas dos dois membros do casal na sua satisfação conjugal.

123
Os dados recolhidos foram previamente codificados, introduzidos em suporte
informático e submetidos a tratamentos estatísticos. Para a realização das análises
estatísticas recorreu-se ao programa SPSS 12.0 para Windows.

124
2.2 – Resultados

A unidade de estudo principal na presente investigação é o casal. Por conseguinte,


todas as análises efectuadas terão como base a média das respostas dos membros da
díade. Contudo, e sempre que se justificar, analisar-se-ão as respostas de cada um dos
elementos do casal, de forma individual. Será o caso da caracterização da amostra ao
nível das variáveis em estudo, em que nos reportaremos aos valores obtidos pelo cônjuge
deprimido, pelo cônjuge não deprimido e pelo casal, uma vez que, apesar do objectivo
geral do estudo ser a compreensão da adaptação do casal à depressão, pensamos ser
relevante observar as percepções individuais de cada membro do casal no que se refere às
dimensões da vinculação amorosa, ao suporte conjugal, às estratégias de coping familiar
e à satisfação conjugal.

2.2.1 – Caracterização da Amostra no que respeita às Dimensões da


Vinculação Amorosa, ao Suporte Conjugal, às Estratégias de Coping Familiar e à
Satisfação Conjugal

2.2.1.1 – Dimensões da Vinculação Amorosa – Confiança, Dependência, Ambivalência


e Evitamento

Os resultados da análise, indicados no quadro 14, registam diferenças


significativas relativamente às várias dimensões [F(3,168)=31.28; p=.001], no sentido em
que, em média, os sujeitos deprimidos exibem níveis mais elevados de confiança
(M=4.25; DP=1.05), de dependência (M=3.81; DP=.88) e de ambivalência (M=3.49;
DP=.84), e níveis mais baixos de evitamento (M=2.53; DP=.83).
Os cônjuges não deprimidos também diferem significativamente nos valores das
dimensões da vinculação [F(3,168)=84.71; p=.001]. Tal como os seus companheiros,
apresentam valores mais elevados de confiança (M=4.61; DP=.81) e de dependência
(M=3.67; DP=.75), sendo que as dimensões ambivalência (M=2.81; DP=.74) e
evitamento (M=2.40; DP=.62) são as que obtêm valores mais baixos.

125
Quadro 14 – Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos cônjuges não
deprimidos e do casal para as dimensões da vinculação amorosa
Confiança Dependência Ambivalência Evitamento
(1 a 6) (1 a 6) (1 a 6) (1 a 6)
Mínimo 1.23 1.62 1.38 1.00
Cônjuges
Máximo 5.92 5.85 5.54 4.23
Deprimidos
M 4.25 3.81 3.49 2.53
DP 1.05 .88 .84 .83
Cônjuges Mínimo 1.38 2.31 1.08 1.38
Não Máximo 6 5.23 4.38 5.08
Deprimidos M 4.61 3.67 2.81 2.40
DP .81 .75 .74 .62

2.2.1.2 – Suporte Conjugal


Observa-se (vide quadro 15) que, de uma forma geral, qualquer uma das
populações percepciona, em média, níveis elevados de suporte conjugal, descrevendo
deste modo a sua relação com o companheiro como sendo de bastante suporte. Existem
contudo, indivíduos que percepcionam níveis muito baixos de suporte conjugal, o mesmo
acontecendo para o extremo positivo da escala.

Quadro 15 – Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos cônjuges não
deprimidos e do casal para o suporte conjugal
Suporte Conjugal
(1 a 4)
Mínimo 1.43
Cônjuges
Máximo 4.00
Deprimidos
M 2.90
DP .67
Cônjuges Mínimo 1.14
Não Máximo 4.00
Deprimidos M 3.00
DP .54
Mínimo 2.07
Casal Máximo 3.71
M 2.95
DP .45

126
2.2.1.3 – Estratégias de Coping Familiar
As análises efectuadas permitiram verificar que existem diferenças significativas
entre a utilização de estratégias de coping pelos cônjuges deprimidos [F(4, 224)=64.02;
p=0.001], e este efeito tem uma dimensão moderada (ή2=.53). A análise das médias
permite constatar que os indivíduos deprimidos utilizam mais estratégias de
reenquadramento (M=3.48; DP=.70) e de avaliação passiva (M=3.36; DP=.77) do que de
procura de suporte espiritual (M=2.95; DP=.98) ou procura de suporte na família, amigos
e comunidade (M=2.86; DP=.75). O apoio de vizinhos é claramente a estratégia de
coping menos utilizada por este grupo (M=1.60; DP=.85).
Do mesmo modo, constata-se a existências de diferenças significativas na
utilização de estratégias de coping nos cônjuges não deprimidos [F(4,224)=94.06;
p=.001], tendo este efeito uma dimensão mais elevada do que nos cônjuges deprimidos
(ή2=.63). Na análise das médias observa-se uma distribuição semelhante à dos seus
companheiros com a preferência por utilização de estratégias de reenquadramento
(M=3.74; DP=.52) em detrimento da procura de apoio dos vizinhos (M=1.59; DP=.70).
Relativamente à unidade casal, observa-se o mesmo padrão de resultados
(F(4,224)=114.32; p=.001], tendo este efeito uma dimensão elevada (ή2=.67). A
utilização das estratégias de coping obedece à sequência referida para os cônjuges
deprimidos e não deprimidos, tal como se pode observar no quadro 16.

Quadro 16 – Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos cônjuges não
deprimidos e do casal para as estratégias de coping familiar
Família,
Avaliação
Amigos e Espiritual Reenquadramento Vizinhos
Passiva
Comunidade (1 a 5) (1 a 5) (1 a 5)
(1 a 5)
(1 a 5)
Mínimo 1.00 1.00 1.40 1.00 1.00
Cônjuges
Máximo 4.67 5.00 5.00 4.00 4.80
Deprimidos
M 2.86 2.95 3.48 1.60 3.36
DP .75 .98 .70 .85 .77
Cônjuges Mínimo 1.11 1.00 2.60 1.00 2.00
Não Máximo 4.56 5.00 5.00 3.33 4.40
Deprimidos M 2.88 2.70 3.74 1.59 3.31
DP .74 .93 .52 .70 .65
Mínimo 1.06 1.13 2.60 1.00 2.00
Casal Máximo 4.61 4.75 5.00 3.50 4.60
M 2.86 2.83 3.61 1.60 3.34
DP .63 .81 .48 .60 .50

127
2.2.1.4 – Satisfação Conjugal
Observa-se que, nos sujeitos deprimidos existem diferenças significativas entre as
2 dimensões da satisfação conjugal (t=7.28; N=57; p<.001): os sujeitos deprimidos
manifestam-se mais satisfeitos na dimensão amor (M=3.96; DP=1.06) do que na
dimensão funcionamento (M=3.34; DP=.85). O índice de satisfação global indica-nos que
os cônjuges estão satisfeitos com a sua relação conjugal.
Os indivíduos não deprimidos também estão significativamente mais satisfeitos
(t=7.07; N=57; p<0.001) na dimensão amor (M=4.35; DP=1.00) do que na dimensão
funcionamento (M=3.72; DP=.79). De uma forma global, estão satisfeitos com a sua
relação conjugal.
Ao nível do casal, existem igualmente diferenças significativas (t=8.93; N=57,
p<0.001), no sentido referido para os cônjuges deprimidos e não deprimidos, estando
globalmente satisfeitos.

Quadro 17 – Valores mínimo, máximo, média e desvio-padrão dos cônjuges deprimidos, dos cônjuges não
deprimidos e do casal para as dimensões da satisfação conjugal – amor e funcionamento – e para o índice
de satisfação global
Amor Funcionamento Satisfação Global
(1 a 6) (1 a 6) (1 a 6)
Mínimo 1.31 1.78 1.57
Cônjuges
Máximo 5.81 5.22 5.41
Deprimidos
M 3.96 3.34 3.71
DP 1.06 .85 .92
Cônjuges Mínimo 1.27 1.78 1.47
Não Máximo 5.92 6.00 5.88
Deprimidos M 4.35 3.72 4.10
DP 1.00 .79 .87
Mínimo 1.56 2.11 1.81
Casal Máximo 5.73 5.31 5.50
M 4.15 3.53 3.90
DP .89 .68 .77

128
2.2.2 – Efeitos das variáveis sexo do cônjuge deprimido, duração da relação
conjugal e situação profissional, na vinculação amorosa do cônjuge deprimido, na
vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, no suporte conjugal, nas estratégias
de coping familiar e na satisfação conjugal

Nesta secção iremos apresentar os resultados relativos aos efeitos das variáveis
sócio-demográficas, nomeadamente o sexo do cônjuge deprimido, duração da relação
conjugal e situação profissional do cônjuge deprimido nas várias dimensões do estudo.
Para testar os efeitos destes factores realizámos análises de variância univariada e
multivariada.

2.2.2.1 – Efeitos do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e da


situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) nas dimensões da vinculação
amorosa do cônjuge deprimido

Os resultados da análise revelaram que não existem diferenças significativas em


função do sexo do cônjuge deprimido nas dimensões da vinculação amorosa
[F(4,52)=.899; p>.47].
Relativamente aos efeitos da duração da relação conjugal, também não se
verificaram diferenças significativas na confiança [F(4,52)=2.16; p>.086]; dependência
[F(4,52)=.55; p>.70]; ambivalência [F(4.52)=1.40; p>.25] e evitamento [F(4,52)=1.33,
p>0.26].
No que concerne aos efeitos da variável desemprego nas dimensões da vinculação
amorosa do indivíduo deprimido, não se verificaram diferenças significativas
[F(4,52)=1.73; p<.15]. Também não existem diferenças significativas em função da baixa
psiquiátrica do cônjuge deprimido [F(4,51)=.1.26; p>.29].

129
2.2.2.2 – Efeitos do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e da
situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) nas dimensões da vinculação
amorosa do cônjuge não deprimido

Os resultados da análise revelaram que existem diferenças significativas em


função do sexo de indivíduo deprimido nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge
não deprimido [F(4,52)=4.50, p<.005]. Estas diferenças são significativas nas dimensões
confiança [F(1,55)=8.71; p<.005] e ambivalência [F(1,55)=5.77; p<.05], tendo os homens
não deprimidos apresentado valores de confiança superiores às mulheres não deprimidas
(M=4.76, DP=.68; M=4.03, DP=1.01) e valores mais baixos de ambivalência (M=2.70,
DP=.73; M=3.25, DP=.64).
Quanto ao efeito da duração da relação conjugal nas dimensões da vinculação
amorosa do cônjuge não deprimido, verificaram-se a inexistência de diferenças
significativas [F(16,208)=1.42; p>.13].
Ainda relativamente às dimensões da vinculação amorosa, não foram encontradas
diferenças significativas em função das variáveis desemprego [F(4,52)=2.37; p>.06] e
baixa psiquiátrica [F(1,51)=1.78; p>14].

2.2.2.3 – Efeitos do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e da


situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) no suporte conjugal

Os resultados da análise indicam que não existem diferenças significativas em


função do sexo do cônjuge deprimido no suporte conjugal [F(1,55)=.127; p>.72]
No que respeita à duração da relação conjugal, verificou-se que também não
existem diferenças significativas [F(1,55)=1.42; p>.24].
O mesmo acontece para as variáveis sócio-demográficas desemprego
[F(1,55)=.058; p>.80] e baixa psiquiátrica [F(1,55)=.004; p>.95].

130
2.2.2.4 – Efeitos do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e da
situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) nas dimensões do coping
familiar

A análise efectuada ao efeito do sexo do cônjuge deprimido na utilização de


estratégias de coping familiar revela que não existem diferenças significativas no suporte
de familiares, amigos e comunidade [F(1,55)=1.43; p>.23]; no suporte espiritual
[F(1,55)=.108; p>.74]; no reenquadramento [F(1,55)=.552;p>.46]; no suporte de vizinhos
[F(1,55)=.291; p>.59] e na avaliação passiva [F(1,55)=.389; p>.54].
Relativamente ao efeito da duração da relação conjugal, verifica-se que não
existem diferenças significativas na utilização de estratégias de procura de suporte na
família, amigos e comunidade [F(4,52)=1.53; p>.20]; de procura de suporte espiritual
[F(4,52)=1.99; p>.10; de reenquadramento [F(4,52)=1.76, p>.15]; de procura de suporte
nos vizinhos [F(4,52)=.869; p>.48] e de avaliação passiva [F(4,52)=1.75; p>.15].
No que concerne ao efeito do desemprego e da baixa psiquiátrica de indivíduos
deprimidos na utilização de estratégias de coping pelo casal, uma vez mais não se
observam diferenças significativas para qualquer uma das estratégias de coping.

2.2.2.5 – Efeitos do sexo do cônjuge deprimido, da duração da relação conjugal e da


situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) nas dimensões da satisfação
conjugal

A análise efectuada de mostrou que o sexo do cônjuge deprimido não tem


qualquer efeito na dimensão amor [F(1,55)=.787; p>.37]; na dimensão funcionamento
[F(1,55)=.798; p>.37] e para o índice de satisfação global [F(1,55)=563; p>.45].
Relativamente à duração da relação conjugal, verifica-se que existem diferenças
significativas para os três níveis de avaliação da satisfação conjugal – amor
[F(4,52)=3.19; p<.05]; funcionamento [F(4,52)=2.89; p<.05] e satisfação global
[F(4,52)=3.44; p<.05]. A análise das médias permite constatar que os casais mais
satisfeitos na dimensão amor são aqueles cuja relação conjugal se situa nos intervalos 16
a 25 anos (M=4,60; DP=.74), 1 a 6 anos (M=4,52; DP=.88) e 7 a 15 anos (M=4.26;

131
DP=.80) Os casais menos satisfeitos são aqueles cuja relação tem uma duração superior a
25 anos (M=3.84; DP=.88) ou inferior a 1 ano (M=2.59). Na dimensão funcionamento e
no índice de satisfação global observa-se um padrão semelhante.

4,50
Níveis Médios de Satisfação Conjugal Global

4,00

3,50

3,00

2,50

< 1 ano 1-6 7-15 16-25 > 25


duração da relação conjugal

Gráfico 1 - Níveis médios de satisfação conjugal em função duração da relação conjugal

Relativamente ao desemprego no indivíduo deprimido, não se observam


diferenças significativas nas dimensões funcionamento [F(1,55)=.131; p>.71], amor
[F(1,55)=.183; p>.67] e satisfação global [F(1,55)=.023;p>.87]. A variável sócio-
demográfica baixa psiquiátrica segue a mesma tendência das anteriores, não apresentando
qualquer efeito nas dimensões da satisfação conjugal.

2.2.3 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença


física grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não
deprimido nas dimensões da vinculação amorosa do cônjuge deprimido, nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, no suporte conjugal,
nas estratégias de coping familiar e na satisfação conjugal

Nesta secção iremos apresentar os resultados relativos aos efeitos das variáveis
clínicas, nomeadamente tipo de depressão, a duração do diagnóstico, a presença de

132
doença física grave no cônjuge deprimido e a presença de doença física grave no cônjuge
não deprimido nas várias dimensões do estudo.

2.2.3.1 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física


grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge deprimido

A análise dos resultados revelou que existem diferenças significativas em função


do tipo de depressão no que respeita à dimensão evitamento [F(2,54)=3.99; p<.05 no
sentido em que os níveis de evitamento são mais baixos em sujeitos com o diagnóstico de
Episódio Depressivo (M=2.25; DP=.81) relativamente aos indivíduos com o diagnóstico
de Perturbação do Humor Persistente (M=2.90; DP=.79). Isto mesmo pode ser observado
no gráfico 2.

3,00

2,90
Níveis Médios de Evitamento

2,80

2,70

2,60

2,50

2,40

2,30

2,20

Episódio Depressivo Perturbação Depressiva Perturbação do Humor


Recorrente Persistente
tipo depressao

Gráfico 2 - Níveis médios de evitamento no cônjuge deprimido em função do tipo de depressão

Quanto aos efeitos da duração do diagnóstico nas dimensões da vinculação


amorosa, verifica-se que não existem diferenças significativas [F(16,208)=.951; p>0.51].

133
Relativamente à presença de doença física grave no cônjuge deprimido, também
mostrou não ter efeitos significativos nas dimensões da vinculação amorosa [F(4,52)=.95;
p>.39]. O mesmo acontece com a presença de doença física no cônjuge não deprimido
[F(4,52)=2.04; p>.10].

2.2.3.2 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física


grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido

A análise dos resultados revelou que existem diferenças significativas em função


do tipo de depressão [F(8,104)=2.45; p<.05], no que respeita à dimensão evitamento
(F(2,54)=3.27; p<.001], no sentido em que os níveis de evitamento são mais elevados
para os cônjuges de indivíduos com Perturbação Depressiva Recorrente (M=3.03;
DP=.82), relativamente aos cônjuges de indivíduos com Episódio Depressivo (M=2.13;
DP=.53) e aos cônjuges de indivíduos com o diagnóstico de Perturbação do Humor
Persistente (M=2.44; DP=.55), tal como pode ser observado no gráfico 3.

3,50

3,25
Níveis médios de evitamento

3,00

2,75

2,50

2,25

2,00

Episódio Depressivo Perturbação Depressiva Perturbação do Humor


Recorrente Persistente
tipo depressao

Gráfico 3 – Níveis médios de evitamento no cônjuge não deprimido em função do tipo de depressão

134
Quanto aos efeitos da duração do diagnóstico nas dimensões da vinculação
amorosa, verifica-se que não existem diferenças significativas [F(16,208)=.962; p>0.50].
Relativamente à presença de doença física grave no cônjuge deprimido, também
mostrou não ter efeitos significativos nas dimensões da vinculação amorosa [F(4,
52)=.74; p>.57]. O mesmo acontece com a presença de doença física no cônjuge não
deprimido [F(4,52)=1.93; p>.11].

2.2.3.3 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física


grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido no
suporte conjugal

Observou-se que o tipo de depressão influencia o suporte conjugal de forma


significativa [F(2,54)=4.68; p<.05]. Os casais com um dos cônjuges com o diagnóstico de
Episódio Depressivo percepcionam níveis mais elevados de suporte conjugal (M=3.11;
DP=.44) relativamente aos casais com um dos membros com diagnóstico de Perturbação
Depressiva Recorrente (M=2.75, DP=.43) e aos casais com um dos elementos com
Perturbação do Humor Persistente (M=2.79; DP=.37). O teste de tukey indicou não
haverem diferenças significativas entre estes dois últimos tipos de depressão.

3,10
Níveis Médios de Suporte Conjugal

3,00

2,90

2,80

2,70

Episódio Depressivo Perturbação Depressiva Perturbação do Humor


Recorrente Persistente
tipo depressao

Gráfico 4 - Níveis médios de suporte conjugal em função do tipo de depressão

135
A duração do diagnóstico da doença não tem qualquer efeito no suporte conjugal
[F(4,52)=.864; p>.49]. O mesmo acontece para a doença física grave no cônjuge
deprimido [F(1,55)=.745; p>.39] e para a doença física grave no cônjuge não deprimido
[F(1,55)=.775; p>.38].

2.2.3.4 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física


grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
estratégias de coping familiar

O resultado da análise revelou que existem diferenças significativas em função do


tipo de depressão nas estratégias de coping familiar [F(10,102)=2.20; p<.05]. Estas
diferenças são significativas na estratégia procura de suporte nos vizinhos [F(2,54)=9.47;
p<0.001], na medida em que os casais com Perturbação Depressiva Recorrente procuram
mais o suporte nos vizinhos (M=2.15; Dp=.77) que os casais com Episódio Depressivo
(M=1.35; DP=.38).
Níveis médios de utilização de estratégias de procura de

6,50

6,00
apoio nos vizinhos

5,50

5,00

4,50

4,00

Episódio Depressivo Perturbação Depressiva Perturbação do Humor


Recorrente Persistente
tipo depressao

Gráfico 5 - Níveis médios de utilização de estratégias de procura de suporte nos vizinhos em função do tipo
de depressão

136
Relativamente às estratégias de coping familiar, não foram encontradas diferenças
significativas em função das variáveis duração do diagnóstico [F(20,204)=.95; p>.52],
presença de doença física grave no indivíduo deprimido [F(5,51)=.91; p>.48] e presença
de doença física grave no cônjuge não deprimido [F(5,51)=1.34; p>.26].

2.2.3.5 – Efeitos do tipo de depressão, da duração do diagnóstico, da doença física


grave no cônjuge deprimido e da doença física grave no cônjuge não deprimido nas
dimensões da satisfação conjugal

Existem diferenças significativas em função do tipo de depressão nas dimensões


da satisfação conjugal [F(6,106)=2.45; p<.05]. Para qualquer uma das dimensões da
satisfação conjugal – amor [F(2,54)=4.46; p<0.05]; funcionamento [F(2,54)=3.40;
p<0.05] e índice global de satisfação [F(2,54)=4.40; p<0.05) – os casais com o
diagnóstico de Episódio Depressivo revelam níveis mais elevados de satisfação conjugal
relativamente aos casais com o diagnóstico de Perturbação do Humor Persistente. O teste
de scheffe não detectou diferenças entre os outros tipos de depressão.

4,20
Níveis Médios de Satisfação Conjugal Global

4,10

4,00

3,90

3,80

3,70

3,60

3,50

Episódio Depressivo Perturbação Depressiva Perturbação Persistente


Recorrente do Humor
tipo depressao

Gráfico 6 - Níveis médios de utilização de satisfação conjugal global em função do tipo de depressão

Verificou-se que, relativamente à dimensões da satisfação conjugal no casal, não


existem diferenças significativas em função das variáveis duração da relação conjugal
[F(12,156)=.471; p>.92]; presença de doença física grave no indivíduo deprimido

137
[F(3,53)=1.26; p>.29] e presença de doença física grave no cônjuge não deprimido
[F(3,53]=1.99; p>.12].

2.2.4 - Correlações entre satisfação conjugal e as variáveis vinculação


amorosa, suporte conjugal e estratégias de coping familiar

De forma a determinar as associações entre as dimensões da satisfação conjugal e


as dimensões da vinculação amorosa, do suporte conjugal e das estratégias de coping
familiar, procedeu-se à técnica estatística das correlações de Pearson. Recorde-se que a
variável dependente neste estudo é a satisfação conjugal, pelo que se apresentam apenas
as correlações entre esta variável e as restantes. As correlações podem ser observadas no
quadro 18.

Quadro 18 – Correlações de Pearson entre a satisfação conjugal do casal e as variáveis da vinculação


amorosa do cônjuge deprimido, da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, do suporte conjugal do
casal e das estratégias de coping familiar do casal
Satisfação Conjugal
Dimensões
Amor Funcionamento Satisfação Global
Confiança .640** .583** .650**
Vinculação
Dependência .338* .167 .295*
Amorosa
Ambivalência -.535** -.576** -.573**
Deprimido
Evitamento -.402** -.252 -.366**
Confiança .613** .573** .629**
Vinculação
Dependência .228 .125 .203
Amorosa
Ambivalência -.631** -.598** -.650**
Não Deprimido
Evitamento -.447** -.303* -.419**
Suporte Conjugal .723** .700** .749**
Amigos, Família e
.004 .065 .038
Comunidade
Estratégias de Espiritual .021 .117 .065
Coping Familiar Reenquadramento .573** .533** .635**
Vizinhos -.145 -.238 -.146
Avaliação Passiva .172 .13 .181
Nota: **p<0.01; *p<0.05

A associação entre as dimensões da satisfação conjugal (amor, funcionamento e


índice global de satisfação) e a vinculação amorosa do indivíduo deprimido (confiança,
dependência, ambivalência e evitamento) apresenta correlações significativas para quase

138
todas as dimensões. Assim, a confiança do cônjuge deprimido, que apresenta uma
associação moderada com todos os indicadores de satisfação, relaciona-se de forma
positiva e significativa com o amor (r=.640, p<.01), com o funcionamento (r=.583,
p<.01) e com a satisfação global (r=.650, p<.01). Por conseguinte, quanto maior é o nível
de confiança na relação conjugal e no cônjuge, maior é a satisfação conjugal. O mesmo
se verifica para a associação entre as dimensões da vinculação amorosa do cônjuge não
deprimido e as dimensões da satisfação conjugal – quanto maior é o nível de confiança
do cônjuge não deprimido, maior é o nível de satisfação conjugal do casal.
No que concerne à relação entre o nível de dependência do cônjuge deprimido e a
satisfação conjugal, verifica-se que existe uma correlação positiva baixa no amor (r=.338,
p<.05) e no índice global de satisfação (r=.295, p<.05) e que não existe qualquer
associação entre o nível de dependência do cônjuge deprimido e a satisfação do casal nas
questões do funcionamento do casal (r=.167, p>.21). Assim, quanto maior o nível de
dependência do sujeito deprimido, maior tende a ser o nível de satisfação global e, mais
especificamente com a dimensão amor da relação. Para os cônjuges não deprimidos, não
existe qualquer associação entre o seu nível de dependência na relação com o cônjuge e a
satisfação conjugal em qualquer uma das suas vertentes.
A ambivalência do cônjuge deprimido está moderada e negativamente associada
ao amor (r=-535, p<.01), ao funcionamento (r=-576, p<.01) e à satisfação global (r=-573,
p<.01), o que significa que quanto maior for o nível de ambivalência do indivíduo
deprimido, menor é a satisfação conjugal do casal. A ambivalência do cônjuge não
deprimido ainda está mais negativamente associada à satisfação conjugal, e segue o
mesmo padrão da associação do cônjuge deprimido.
A associação entre o nível de evitamento do cônjuge deprimido e a satisfação
conjugal do casal é moderada e tem, tal como a ambivalência, um sentido negativo. Ou
seja, quanto maior é o nível de evitamento do sujeito deprimido, menor é a satisfação do
casal na dimensão amor (r=-402, p<.01) e no índice global de satisfação (r=-.366, p<.01).
A dimensão funcionamento não está correlacionada com o nível de evitamento do
cônjuge deprimido (r=.252, p>.05). Para o cônjuge não deprimido, foi encontrada uma
associação tendencialmente fraca entre a dimensão da vinculação amorosa evitamento e

139
os três índices de satisfação conjugal do casal. Assim, quanto maior são os níveis de
evitamento do cônjuge não deprimido, menor tende a ser a satisfação conjugal do casal.
Relativamente ao suporte conjugal percepcionado pelo casal, verifica-se que
existe uma correlação significativa e elevada com a dimensão amor (r=.723, p<.01), com
a dimensão funcionamento (r=.700, p<.01) e com o índice global de satisfação (r=.749,
p<.01). Deste modo, quanto maior é o suporte conjugal percepcionado pelo casal, maior é
a satisfação global reportada.
No que respeita às estratégias de coping familiar, a análise dos resultados permite
concluir que existe uma associação positiva moderada apenas para o reenquadramento
em qualquer um dos índices de satisfação conjugal. As restantes estratégias de coping
familiar não estão associadas à satisfação conjugal, tal como se pode observar no quadro
18. Deste modo, os casais mais satisfeitos tendem a utilizar estratégias de coping familiar
do tipo do reenquadramento.

140
2.2.5 - Regressões entre as variáveis satisfação conjugal, vinculação amorosa,
suporte conjugal e estratégias de coping familiar

A análise dos resultados efectuada até esta fase, permitiu constatar as correlações
que existem entre as dimensões da vinculação amorosa de cada um dos membros do
casal, o suporte conjugal percepcionado pelo casal e a estratégia de coping do tipo
reenquadramento, com as dimensões da satisfação conjugal, que relembramos ser a
variável dependente que mede a adaptação do casal à depressão.
Com o objectivo de explorar a relação entre a satisfação conjugal do casal e as
restantes variáveis dimensionais, ou seja, compreender qual o contributo do conjunto das
variáveis composto pela vinculação amorosa, suporte conjugal e estratégias de coping
familiar para explicar a variabilidade da adaptação conjugal à depressão, tomando em
consideração a contribuição específica de cada variável, recorreu-se à técnica estatística
da regressão múltipla. A regressão múltipla baseia-se no procedimento da correlação,
mas permite de uma forma mais sofisticada compreender a relação entre um conjunto de
variáveis (Pallant, 2001).
De seguida são apresentadas as regressões lineares para as dimensões da
satisfação conjugal separadamente, de forma a analisar qual o contributo do referido
conjunto de variáveis para explicar a mesma. Refira-se que o método de regressão
utilizado foi o método stepwise, de forma a que apenas entrassem na equação as variáveis
independentes que modificassem significativamente o seu poder explicativo. Foram
controlados os efeitos das variáveis sexo do cônjuge deprimido, duração da relação
conjugal e tipo de depressão clínica.
Observou-se que o conjunto das dimensões da vinculação amorosa, o suporte
conjugal e as estratégias de coping familiar explica 69.4% da variância da dimensão
amor, 78.2% da dimensão funcionamento e 76.5% do índice de satisfação global.
Quando analisado o contributo específico de cada variável, verifica-se que
relativamente ao amor, as variáveis nível de confiança no cônjuge deprimido (Beta=.523,
p<0.001) e nível de confiança do cônjuge não deprimido (Beta=.507, p<0.001) são as
únicas variáveis que contribuem para explicar a variância desta dimensão. Para a
dimensão funcionamento, constata-se que a utilização de estratégias de coping do tipo

141
reenquadramento (Beta=.423, p<0.001) e o nível de confiança do cônjuge não deprimido
(Beta=.403, p<0.001) são as variáveis que mais contribuem para explicar a variância
desta dimensão. Contudo, o tipo de depressão clínica (Beta=-.187, p<0.05), o suporte
conjugal (Beta=.250, p<0.05), a procura de suporte em familiares, amigos e na
comunidade (Beta=.161, p<0.05), a utilização de estratégias de avaliação passiva (Beta=-
.174, p<0.05), o nível de evitamento do cônjuge saudável (Beta =.251, p<0.05) e o nível
de ambivalência do cônjuge deprimido (Beta=-.205, p<0.05) também contribuem
significativamente. O índice global de satisfação conjugal tem como variáveis preditoras
significativas o nível de confiança do cônjuge deprimido (Beta=.438, p<0.01), o nível de
confiança do cônjuge não deprimido (Beta=.432, p<.001) e a utilização de estratégias de
coping do tipo reenquadramento (Beta=.252, p<0.05).

142
2.2.6 – Diferenças em função dos protótipos de vinculação amorosa

Procurou-se igualmente analisar em que medida se organizavam os


cônjuges deprimidos e os cônjuges não deprimidos em função dos padrões de vinculação
amorosa enquanto variáveis categoriais, e observar o comportamento do conjunto das
variáveis em estudo de acordo com os protótipos de vinculação resultantes do
agrupamento das dimensões da vinculação amorosa, tal como o aconselhado por Matos,
Barbosa & Costa (2001).
Para o efeito, realizou-se uma análise de clusters (K-Means) para cada um dos
grupos (cônjuges deprimidos e cônjuges não deprimidos), de forma a detectar
configurações específicas na organização das dimensões da vinculação amorosa. Os
critérios de interpretabilidade justificam a solução em 4 clusters, correspondendo cada
um aos protótipos de vinculação: seguro, preocupado, desinvestido e amedrontado.
Posteriormente, realizaram-se MANOVAS com o objectivo de analisar a variabilidade de
cada uma dimensões em função dos respectivos clusters. De acordo com o quadro 19 e
com o quadro 20, os resultados parecem indicar a possibilidade de os clusters serem
interpretados à luz dos quatro protótipos de vinculação propostos por Bartholomew.

Quadro 19 - Análise de clusters do questionário de vinculação amorosa para os cônjuges deprimidos


Padrões de Vinculação
Seguro Preocupado Desinvestido Amedrontado
Dimensões
(n=11) (n=17) (n=6) (n=23)
Confiança 5.32a 5.01a 2.57b 3.60c
Dependência 3.18a 4.65b 2.41c 3.85d
Ambivalência 2.51a 3.21b 3.88b 4.05c
Evitamento 2.06a 1.90a 3.48b 2.97b

Nota. Valores mais elevados indicam níveis mais elevados de confiança, dependência, ambivalência e
evitamento.
Diferentes letras indicam diferenças significativas entre os valores de cada cluster ao nível dimensional.
Todas as diferenças são significativas a p<.05, à excepção da dimensão confiança entre o cluster seguro e o
preocupado, da dimensão ambivalência entre o cluster preocupado e o desinvestido e da dimensão
evitamento entre o cluster desinvestido e o amedrontado, os quais não apresentam diferenças significativas.

143
Quadro 20 - Análise de clusters do questionário de vinculação amorosa para os cônjuges não deprimidos
Padrões de Vinculação
Seguro Preocupado Desinvestido Amedrontado
Dimensões
(n=17) (n=13) (n=1) (n=26)
Confiança 5.38 4.79 1.38 4.13
Dependência 3.94 4.44 2.30 3.14
Ambivalência 2.05 3.14 4.15 3.10
Evitamento 1.90 2.27 5.07 2.68

Nota. Valores mais elevados indicam níveis mais elevados de confiança, dependência, ambivalência e
evitamento.
Uma vez que o protótipo desinvestido é constituído apenas por um sujeito, não foi possível efectuar testes
posthoc para determinar o sentido das diferenças entre os clusters. Contudo, os testes de variância
multivariados permitiram detectar diferenças significativas em função do cluster [F(12,156)=11.180,
p<.001], para as dimensões confiança [F(3,53)=50,36, p<.001], dependência [F(3,53)=24.25, p<.001],
ambivalência [F(3,53)=17.17, p<.001] e evitamento [F(3,53)=19.07, p<.001].

Se nos reportarmos aos cônjuges deprimidos, pode observar-se no cluster 1,


valores elevados de confiança acompanhados por valores moderados de dependência,
ambivalência e evitamento, o que indica a probabilidade de se tratar do grupo dos sujeitos
seguros. Representa 19.3% da amostra. Já no cluster 2, os valores de confiança são
ligeiramente mais baixos do que no cluster 1 e estão associados a valores elevados de
dependência e valores moderados de ambivalência e valores baixos de evitamento. Estes
indivíduos apresentam grande necessidade de proximidade ao cônjuge parecendo
evidenciar um protótipo de vinculação preocupado. Correspondem a 29.8% da amostra.
No cluster 3 observa-se que os sujeitos apresentam os valores mais baixos de confiança,
valores baixos de dependência, valores moderados de ambivalência e os valores mais
elevados de evitamento. Provavelmente, tratar-se-á do grupo dos desinvestidos e
caracteriza 10.5% da amostra. Por último, no cluster 4, observam-se valores muito
elevados de ambivalência e valores elevados de dependência e de evitamento
(comparativamente aos outros grupos), o que nos permite supor tratar-se do grupo dos
amedrontados. Apesar dos seus níveis de confiança não serem muito baixos, são
significativamente mais baixos do que os do grupo dos seguros e os do grupo dos
preocupados. Correspondem à maioria da amostra, 40.1%.
No que se refere aos cônjuges não deprimidos, observa-se um padrão semelhante
em termos de valores médios das dimensões em função do cluster. Ao nível da
distribuição na amostra, verifica-se que existem 29.8% de indivíduos presumivelmente

144
seguros, 22.8% de sujeitos com um padrão de vinculação amoroso preocupado, 1.75%
(1 indivíduo) com padrão de vinculação desinvestido e 45.6% com padrão de vinculação
amedrontado.

2.2.6.1 – Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e


satisfação conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa

No sentido de avaliar as diferenças no suporte conjugal, nas estratégias de coping


familiar e nas dimensões da satisfação conjugal em função dos protótipos de vinculação
amorosa, realizaram-se análises univariadas de variância para o suporte conjugal e análise
de variância multivariada separadamente para as estratégias de coping familiar e para as
dimensões da satisfação conjugal. O quadro 21 apresenta as médias e os desvio-padrão no
suporte conjugal, nas estratégias de coping familiar e nas dimensões da satisfação
conjugal em função dos clusters. Foram realizadas análises em separado para os cônjuges
deprimidos e para os cônjuges não deprimidos.

2.2.6.1.1 – Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e satisfação


conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa para os cônjuges deprimidos

Relativamente ao suporte conjugal, observa-se um efeito principal do cluster


[F(3,53)=14.20, p<.001]. Os testes post-hoc indicam que os sujeitos seguros e
preocupados percepcionam um nível mais elevado de suporte conjugal relativamente aos
indivíduos desinvestidos e amedrontados.
No que concerne às estratégias de coping familiar, verifica-se um efeito principal
do cluster responsável pelas diferenças no reenquadramento [F(3,53)=4.98, p<.005]. Os
testes post-hoc sugerem que os indivíduos seguros utilizam mais estratégias de coping
familiar do tipo reenquadramento, do que os indivíduos desinvestidos e do que os
indivíduos amedrontados.
Quanto à satisfação conjugal, constata-se um efeito principal do cluster
[F(9,51)=3.80, p<.001], responsável pelas diferenças no amor [F(3,53)=8.47, p<.001] e
na satisfação global [F(3,53)=8.46, p<.001]. Os indivíduos seguros estão mais satisfeitos

145
com a sua relação conjugal, relativamente à dimensão amor e na globalidade (tal como
pode ser observado no gráfico 1), do que os sujeitos desinvestidos e do que os sujeitos
amedrontados. O mesmo parece acontecer com os indivíduos preocupados: estão mais
satisfeitos do que os desinvestidos e do que os amedrontados.

Valores médios de satisfação conjugal em função da


vinculação amorosa

4,50

4,20
Satisfação Conjugal

3,90

3,60

3,30

3,00

Seguro Preocupado Desinvestido Amedrontado


Vinculação Amorosa
Gráfico 7 – Valores médios de satisfação conjugal global em função da vinculação amorosa

Quadro 21 – Médias e desvio-padrão no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e satisfação


conjugal em função da vinculação amorosa nos cônjuges deprimidos
Clusters
Seguro Preocupado Desinvestido Amedrontado
a b c d
M DP M DP M DP M DP Diferenças
a>c
a>d
Suporte Conjugal 3.21 .45 3.25 .32 2.45 .25 2.72 .33
b>c
b>d
Estratégias
a>c
de coping REE 3.91 .55 3.76 .39 3.27 .23 3.44 .44
a>d
familiar
a>c
a>d
AM 4.72 .94 4.58 .57 3.30 .99 3.82 .71
b>c
Satisfação b>d
Conjugal a>c
a>d
SAG 4.43 .82 4.25 .54 3.15 .80 3.59 .61
b>c
b>d
Nota: Valores mais elevados indicam níveis maiores de suporte conjugal, reenquadramento (REE), amor
(AM) e satisfação global (SAG). Diferentes letras indicam diferenças significativas entre os valores de cada

146
cluster ao nível dimensional. Todas as diferenças são significativas a p<.05, excepto no suporte conjugal
(p<.001)

2.2.6.1.2 – Diferenças no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e satisfação


conjugal em função dos protótipos de vinculação amorosa para os cônjuges não
deprimidos

No suporte conjugal constata-se um efeito principal do cluster [F(3,53)=3.89,


p<.05]. Relativamente às estratégias de coping familiar, verifica-se um efeito principal
do cluster [F(15,153)=2.59, p<.005] para a estratégia reenquadramento [F(3, 53)=6.85,
p<.001] e para a estratégia procura de suporte nos vizinhos [F(3,53)=5.69, p<.005]. No
que concerne à satisfação conjugal, observa-se um efeito principal do cluster
[F(9,51=2.00, p<.05] para as dimensões amor [F(3,53)=5.80, p<.005], funcionamento
[F(3,53)=4.48, p<.01] e satisfação global [F(3,53)=5.59, p<.005].
No entanto, pelo facto do cluster 2 incluir apenas um sujeito, não foi possível
efectuar testes post-hoc para averiguar o sentido das diferenças.

Quadro 22 – Médias e desvio-padrão no suporte conjugal, estratégias de coping familiar e satisfação


conjugal em função da vinculação amorosa nos cônjuges não deprimidos
Clusters
Seguro Preocupado Desinvestido Amedrontado
a b c d
M DP M DP M DP M DP Diferenças
Suporte Conjugal 3.02 .45 2.85 .81 2.21 - 2.85 .40

REE 4.14 .57 3.70 .32 3.40 - 3.50 .42


Estratégias
de coping
familiar
SV 1.35 .50 1.59 .60 3.50 - 1.70 .62

AM 4.73 .72 4.08 .75 2.38 - 3.88 .87

Satisfação
Conjugal FUN 3.96 .61 3.36 .70 2.44 - 3.38 .60

SAG 4.42 .62 3.79 .68 2.40 - 3.68 .73

Nota: Valores mais elevados indicam níveis maiores de suporte conjugal, reenquadramento (REE), procura
de suporte em vizinhos (SV), amor (AM), funcionamento (FUN) e satisfação global (SAG).

147
2.2.7 – Continuidades e descontinuidades no casal com depressão – análise
das diferenças intra-casal

Após a análise das diferenças inter-casal no conjunto de variáveis em estudo,


procedeu-se à verificação da congruência das respostas dos cônjuges deprimidos e dos
cônjuges não deprimidos, no sentido de averiguar qual o efeito do ajustamento das
respostas na adaptação conjugal à depressão. Dito de outro modo, pretendeu-se analisar
se os casais cujas respostas eram semelhantes (distância inferior a 1) estavam melhor
adaptados à situação de depressão (isto é, indicavam níveis mais elevados de satisfação
conjugal) relativamente aos casais cujas respostas eram mais dissemelhantes, logo com
percepções diferentes sobre as variáveis em estudo.
Para o efeito, estabeleceram-se três grupos de casais: o primeiro grupo era
constituído por casais cuja diferença de respostas de cada um dos cônjuges, para cada
subescala, era inferior a 1 ponto; no segundo grupo, foram reunidos os casais cujas
respostas se afastavam entre 1 a 2 pontos; e o terceiro grupo era constituído por casais
cuja diferença de respostas era superior a 2 pontos. Esta redistribuição dos casais em três
grupos distintos foi efectuada para cada uma das dimensões da vinculação amorosa, para
o suporte conjugal, para cada uma das estratégias de coping familiar e para cada uma das
dimensões da satisfação conjugal. De seguida, procedeu-se a análises univariadas de
variância a fim de se verificar a existência de diferenças significativas entre os três
grupos de casais considerados ao nível da sua satisfação conjugal (a nossa medida de
adaptação conjugal à depressão), para cada uma das variáveis independentes em estudo.

2.2.7.1 – Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal


na percepção do suporte conjugal

Não se verificaram diferenças significativas no que respeita ao efeito da distância


das percepções dos cônjuges relativamente ao suporte conjugal na satisfação global
[F(2,54)=.021, p>.97], no amor [F(2,54)=.049, p>.95] e no funcionamento [F(2,54)=.303,
p>.74]. Estes resultados indicam que a convergência das respostas dos casais no que se
refere às suas percepções da satisfação conjugal, não tem impacto na satisfação conjugal.

148
2.2.7.2 – Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal
ao nível das dimensões da vinculação amorosa

Verificou-se que não existem diferenças significativas relativamente ao efeito da


distância dos níveis de confiança de cada membro do casal na satisfação global
[F(2,54)=2.85, p>.06], no amor [F(2,54)=3.14, p>.05] e no funcionamento F[(2,54)=1.90,
p>.06]. A diferença de níveis de confiança no casal não tem qualquer efeito na satisfação
conjugal.
No que concerne ao efeito da distância dos níveis de dependência de cada
membro da díade na satisfação conjugal, observou-se que não existem diferenças
significativas ao nível da satisfação global [F(2,54)=.415, p>.66], no amor [F(2,54)=.157,
p>.85] e no funcionamento [F(2,54)=1.11, p>.33]. Uma vez mais, a diferença de níveis
de dependência no casal não tem efeito na satisfação conjugal.
Relativamente ao efeito da distância dos níveis de ambivalência de cada um dos
membros do casal na satisfação conjugal, constatou-se que também não existem
diferenças significativas ao nível da satisfação global [F(2,54)=.245, p>.78], do amor
[F(2,54)=.281, p>.75] e do funcionamento [F(2,54)=.232, p>.79]. Novamente se verifica
que a diferença de níveis de ambivalência no casal não se reflecte na sua satisfação
conjugal.
Também não se observa qualquer efeito da distância dos níveis de evitamento dos
membros do casal na satisfação conjugal, uma vez que não se verificam diferenças
significativas na satisfação global [F(2,54)=.29, p>.74], no amor [F(2,54)=.089, p>.91 e
no funcionamento [F(2,54)=.963, p>.38].

2.2.7.3 – Diferenças na satisfação conjugal em função da distância intra-casal


na percepção da utilização de estratégias de coping familiar

Relativamente ao efeito da distância intra-casal na percepção da utilização de


estratégias de coping familiar, observou-se que existem diferenças significativas na
satisfação conjugal para o reenquadramento no que se refere à satisfação global

149
[F(2,54]=3.88, p<.05] e ao amor [F(2,54)=3.80, p<.05]. Assim, os casais cuja distância de
respostas é inferior a 1 ponto ou cuja distância se situa no intervalo de 1 a 2 pontos (os
mais concordantes), reportam níveis mais elevados de satisfação global (M=3.96,
DP=.68; M=4.02, DP=.95) e de satisfação na dimensão amor (M=4.21, DP=.78; M=4.34,
DP=1.05) relativamente aos casais com menor ajustamento das respostas para a
satisfação global (M=2.75; DP=1.01) e para o amor (M=2.84; DP=1.43).
Não foram encontradas diferenças significativas para as estratégias procura de
suporte nos familiares, amigos e comunidade (satisfação global - [F(2,54)=1.32, p>.27];
amor - [F(2,54)=1.52, p>.22]; funcionamento – [F(2,54)=1.58, p>.21]); procura de
suporte espiritual (satisfação global – [F(2,54)=.840, p>.43]; amor - [F(2,54)=.674,
p>.51]; funcionamento - [F(2,54)=1.31, p>.27]); procura de suporte nos vizinhos
(satisfação global – F(2,54)=.330, p>.72]; amor - [F(2,54)= .326, p>.72]; funcionamento
– [F(2,54)=.296, p>.74]) e avaliação passiva (satisfação global – [F(2,54)=1.90; p>.15];
amor – [F(2,54)=1.89, p>.16]; funcionamento - [F(2,54)=1.50, p>.23]).

Em síntese, verifica-se que diferença de percepções no casal apenas produz efeito


no que se refere à utilização de estratégias de coping familiar do tipo de
reenquadramento, no sentido em que são os casais com maior índice de congruência nas
suas respostas que reportam níveis mais elevados de satisfação conjugal.

150
2.2.8 – Síntese dos Resultados

1. Os cônjuges deprimidos, os cônjuges não deprimidos e ambos enquanto casal


apresentam níveis mais elevados de confiança, de dependência e de ambivalência, do que
de evitamento.
2. Os cônjuges deprimidos, os cônjuges não deprimidos e ambos enquanto casal
consideram a sua relação conjugal como sendo de bastante suporte.
3. Os cônjuges deprimidos utilizam sobretudo estratégias de coping familiar do
tipo reenquadramento e avaliação passiva. Os cônjuges não deprimidos referem a
utilização de estratégias de reenquadramento. O mesmo se observa quando consideramos
a unidade casal.
4. Ambos os membros do casal estão globalmente satisfeitos com a sua relação
conjugal. Contudo, estão mais satisfeitos com a vertente emocional (amor) da relação do
que com a vertente funcionamento.
5. Não se verificam efeitos do sexo do deprimido, da duração da relação conjugal
e da situação profissional (desemprego e baixa psiquiátrica) nas dimensões da vinculação
amorosa do cônjuge deprimido, no suporte conjugal do casal e na utilização de estratégias
de coping familiar.
6. Existem diferenças estatisticamente significativas no que respeita efeito do
sexo do indivíduo deprimido nas dimensões da vinculação amorosa para a dimensão
confiança e ambivalência dos cônjuges não deprimidos no sentido em que os homens não
deprimidos apresentam valores de confiança superiores e valores de ambivalência
inferiores aos das mulheres não deprimidas.
7. Existem diferenças estatisticamente significativas na satisfação conjugal em
função da duração da relação conjugal, uma vez que os casais mais satisfeitos são aqueles
cuja relação conjugal se situa nos intervalos dos16 aos 25 anos, do 1 aos 6 anos e dos 7 a
15 anos. Os casais menos satisfeitos são aqueles cuja relação tem uma duração superior a
25 anos.
8. Existem diferenças estatisticamente significativas nas dimensões da vinculação
amorosa do cônjuge deprimido, da vinculação amorosa do cônjuge não deprimido, no
suporte conjugal, na utilização de estratégias de coping familiar e na satisfação conjugal

151
em função do tipo de depressão clínica. Deste modo, observou-se que os níveis de
evitamento são mais baixos em sujeitos com o diagnóstico de Episódio Depressivo e são
mais elevados para os cônjuges de indivíduos com Perturbação Depressiva Recorrente; os
casais com o diagnóstico de Episódio Depressivo percepcionam níveis mais elevados de
suporte conjugal e revelaram níveis mais elevados de satisfação conjugal em comparação
com casais com outros diagnósticos; os casais com Perturbação Depressiva Recorrente
procuram mais o suporte nos vizinhos.
9. A satisfação conjugal apresenta correlações significativas com as restantes
variáveis. Assim, o amor correlaciona-se positivamente com a confiança em ambos os
cônjuges, com a dependência no cônjuge deprimido, com o suporte conjugal e com o
reenquadramento. Correlaciona-se ainda, mas de forma negativa, com a ambivalência e
com o evitamento em ambos os membros do casal. O funcionamento apresenta
correlações positivas com a confiança em ambos os cônjuges, com o suporte conjugal e
com o reenquadramento, e correlações negativas com a ambivalência e com o
evitamento, também ambos os cônjuges. A satisfação global correlaciona-se
positivamente com a confiança em ambos os cônjuges, com a dependência no cônjuge
deprimido, com o suporte conjugal e com o reenquadramento. Mostra estar
negativamente associada à ambivalência e ao evitamento para ambos os membros da
díade conjugal.
10. As regressões múltiplas indicam que as variáveis que mais contribuem para
explicar a satisfação com a dimensão amor são a confiança do cônjuge deprimido e a
confiança do cônjuge não deprimido. A variável que mais contribui para explicar a
satisfação com o funcionamento da relação conjugal é a estratégia de coping de
reenquadramento, ainda que a confiança do cônjuge não deprimido também seja um
preditor muito importante. Para explicar a satisfação global, as variáveis que dão uma
contribuição mais significativa são, tal como para a dimensão amor, os níveis de
confiança de ambos os cônjuges. O conjunto das dimensões da vinculação amorosa, o
suporte conjugal e as estratégias de coping familiar explica 69.4% da variância da
dimensão amor, 78.2% da dimensão funcionamento e 76.5% do índice de satisfação
global.

152
11. Existem diferenças significativas no suporte conjugal, nas estratégias de
coping familiar e na satisfação conjugal em função da distribuição dos cônjuges
deprimidos pelos protótipos de vinculação amorosa. Assim, os sujeitos seguros e
preocupados percepcionam um nível mais elevado de suporte conjugal relativamente aos
indivíduos desinvestidos e amedrontados; os indivíduos seguros utilizam mais estratégias
de coping familiar do tipo reenquadramento, do que os indivíduos desinvestidos e do que
os indivíduos amedrontados; os indivíduos seguros e os indivíduos preocupados estão
mais satisfeitos com a sua relação conjugal, do que os sujeitos desinvestidos e do que os
sujeitos amedrontados.
12. Existem diferenças significativas no suporte conjugal, nas estratégias de
coping familiar e na satisfação conjugal em função da distribuição dos cônjuges não
deprimidos pelos protótipos de vinculação amorosa mas não foi possível apurar a
direcção das diferenças.
13. Os casais com maior índice de congruência nas suas respostas no que se refere
à estratégia de coping do tipo reenquadramento, reportam níveis mais elevados de
satisfação conjugal.

153
CAPÍTULO 3 - DISCUSSÃO E SÍNTESE

3.1 – Discussão dos Resultados

No presente capítulo, pretende-se analisar criticamente os resultados obtidos no


nosso estudo empírico, com o objectivo de os compreender à luz dos modelos que estão
subjacentes a este trabalho, que recordamos serem o modelo sistémico e os modelos de
stress familiar.
De um ponto de vista sistémico, qualquer alteração num elemento de um dado
sistema, tem necessariamente repercussões nos outros elementos constituintes do mesmo
– princípio da circularidade (Walsh, 1982). Neste estudo, está em análise uma doença
psicológica – a depressão clínica – a qual tem sido sistematicamente associada a
importantes custos individuais, sociais, familiares e económicos (European Commission,
2004). De acordo com a epistemologia sistémica, a depressão num membro do sistema
familiar, deverá ter repercussões nos outros elementos da família. E, de facto, a
investigação mostra que os sintomas depressivos por si só condicionam o funcionamento
habitual do sistema familiar – por exemplo, é frequente a dificuldade dos indivíduos
deprimidos lidarem adequadamente com as suas responsabilidades familiares (European
Commission, 2004), o que se traduz numa redistribuição de papéis e funções e no
aumento das responsabilidades dos outros membros da família que as têm de assumir de
modo a que o sistema se mantenha – propriedade homeostática dos sistemas. Há, por
conseguinte, um aumento da quantidade de exigências a que o sistema familiar tem de
fazer face e, frequentemente, surge a crise. Recorde-se que, segundo o modelo de
resposta de ajustamento e adaptação familiar, a crise surge num sistema familiar quando a
natureza e/ou a quantidade de exigências provocadas pelos acontecimentos de vida
excedem os recursos da família de forma persistente (Patterson, 1988).
Sendo a depressão uma crise no sistema familiar (Angell, 1936; Cavan & Rank,
1938; cits. por Boss, 2003), então o sistema familiar tem de reagir e se adaptar para
encontrar uma organização que promova um novo estado de equilíbrio no seu
funcionamento (McCubbin & Patterson, 1983). Para tal, é necessário que a família
construa um significado para o que lhe está a acontecer – um dos seus membros estar

154
deprimido – tendo em consideração as exigências que a depressão impõe no sistema e a
sua capacidade de resistência à doença e aos seus efeitos. Esta capacidade de resistência –
a resiliência familiar - reúne os recursos que a família percepciona ter como disponíveis
e as estratégias de coping para lidar com o acontecimento gerador de stress.
No estudo empírico que realizámos, foi nosso objectivo estudar as relações que
existem entre alguns recursos do sistema (vinculação amorosa e suporte conjugal) e as
estratégias de coping familiar com a adaptação de um dos subsistemas familiares – o
conjugal - à depressão. Lembramos que os recursos, na terminologia dos modelos de
stress familiar, são as capacidades que o indivíduo/família tem para lidar com as
exigências da situação geradora de stress (Patterson, 1988), ao passo que as estratégias de
coping familiar correspondem ao comportamento coordenado de todo o sistema com
vista à resolução do problema, reunindo processos cognitivos, afectivos e
comportamentais (Boss, 2002).
Pelo facto de se tratar de um estudo exploratório, iniciámos a análise dos
resultados com uma caracterização da amostra, ao nível das variáveis em estudo.
No que se refere às dimensões da vinculação amorosa, destaca-se o facto de
ambos os membros do casal apresentarem níveis significativamente baixos de
evitamento, e níveis mais elevados de confiança, de dependência e de ambivalência.
Quanto ao suporte conjugal percepcionado, ambos os cônjuges percepcionam níveis
elevados de suporte conjugal. Relativamente às estratégias de coping familiar,
observámos que os cônjuges deprimidos utilizam preferencialmente estratégias de
reenquadramento e de avaliação passiva, enquanto os cônjuges não deprimidos utilizam
preferencialmente o reenquadramento como forma de lidar com a depressão do seu
companheiro. Também o nível de satisfação conjugal corresponde a um nível
satisfatório, o que se traduz na presente investigação, em casais adaptados à realidade da
depressão.
Este padrão de resultados é congruente em si próprio. De facto, a literatura indica-
nos que níveis elevados de confiança na relação conjugal, níveis moderados de
dependência e de ambivalência e níveis baixos de evitamento estão associados a um
estilo de vinculação seguro (Matos, Barbosa & Costa, 2001) que, por sua vez, estão
correlacionados com níveis mais elevados de satisfação conjugal (Banse, 2004; Collins &

155
Read, 1990; Simpson, 1990)14. Verificámos bons níveis de suporte conjugal que, de
acordo com a literatura, estão fortemente associados com níveis também elevados de
satisfação conjugal (Gardner & Cutrona, 2004; Cutrona, 1996a). Por outro lado, as
estratégias de coping familiar utilizadas por ambos os membros do casal, podem ser
perspectivadas como de assimilação (McCubbin & McCubbin, 1989), logo mais
adequadas à resolução efectiva dos problemas subjacentes à depressão.
Apesar da congruência entre as variáveis em análise, estes resultados não estão de
acordo com investigações anteriores e com as nossas próprias hipóteses, que dão conta de
que a depressão está associada a padrões de vinculação inseguros (Bifulco et al,2002;
Whiffen et al, 2001; Carnelley et al, 1994) – hipótese 1 - , a níveis baixos de suporte
conjugal (Zuroff et al, 2002) – hipótese 2 - e utilização de estratégias de coping pouco
funcionais (Bodenmann et al, 2004). Colocamos a hipótese, e de acordo com a
dificuldade que sentimos no processo de recolha da amostra (uma vez que os indivíduos
deprimidos que frequentaram as consultas de psicologia e psiquiatria durante o período
de recolha da mesma eram sobretudo solteiros ou divorciados) que, quando existe um
nível muito elevado de distress familiar associado ao impacto da depressão, o casal acaba
por se separar; quando tal não acontece, é porque o sistema conjugal conseguiu, de
alguma forma, encontrar formas de lidar com a depressão de um dos seus membros. Isto
explicaria os níveis de satisfação conjugal da amostra, tal como a importância do suporte
conjugal e da vinculação tendencialmente segura como recursos do sistema, e da
utilização de estratégias de coping familiar mais eficazes. Parece-nos importante em
futuras investigações considerar também indivíduos deprimidos não casados e analisar se
o seu estado civil, está de alguma forma relacionado com a existência de uma depressão
clínica. Contudo salientamos, desde já, que estes dados nos permitem apenas uma
primeira análise à amostra de casais, o que nos impede de formular qualquer tipo de
conclusões e, portanto, de rejeitar já as hipóteses propostas na fase inicial do nosso
estudo. Também há que ter em consideração que, são os casais minimamente satisfeitos e
adaptados, aqueles que aceitam os dois participar em investigações deste tipo, em casal;
14
Contudo, isto não significa que a maioria dos indivíduos que constituem a presente amostra
tenham um padrão de vinculação seguro, mas apenas que, em média e para a totalidade da amostra, o
conjunto dos valores de cada uma das dimensões da vinculação amorosa, aponta para um estilo seguro de
vinculação.

156
caso contrário, é mais provável, que pelo menos um deles recuse participar, o que
inviabiliza logo a sua inclusão na amostra e aconteceu no presente estudo.
Seguiu-se uma análise do efeito de algumas variáveis sócio-demográficas e
clínicas no conjunto das variáveis em estudo. Estas análises permitiram observar que o
sexo do cônjuge deprimido tem influência nas dimensões da vinculação amorosa do
cônjuge não deprimido, no sentido em que os homens não deprimidos apresentam valores
mais elevados de confiança e mais baixos de ambivalência relativamente às mulheres não
deprimidas. Estes resultados estão de acordo com o observado por Dudek e colaboradores
(2001). No seu estudo sobre o impacto da depressão nos cônjuges dos sujeitos
deprimidos, os autores constataram que as mulheres de indivíduos deprimidos
apresentam mais padrões de pensamento depressivo, mais sentimentos negativos,
pensamentos mais pessimistas, sentimentos de falta de controlo, maior frequência de
pensamentos negativos automáticos e menor auto-estima, relativamente aos maridos de
indivíduos deprimidos. No nosso estudo as variáveis em causa são a confiança e a
ambivalência na relação conjugal, as quais estão directamente ligadas à percepção que se
tem da relação conjugal e do que o outro dá à relação. De alguma forma, podemos inferir,
tal como Dudek e colaboradores, que maridos e mulheres de indivíduos deprimidos
experienciam a depressão do seu companheiro de forma distinta e, portanto, o impacto
que a depressão tem no cônjuge não deprimido está, pelo menos em parte, relacionado
com o facto das mulheres terem uma orientação mais forte do que os homens para as
necessidades e desejos das pessoas que lhes são mais próximas (Eisenberg & Lennon,
1983), sendo mais vulneráveis às dificuldades inerentes.
Verificou-se que os relacionamentos conjugais com duração inferior a um ano, ou
superior a 25 anos são aqueles cujo nível de satisfação conjugal, em qualquer um dos
níveis, é mais baixo. Da mesma forma, Argyle e Furnham (1983, cit por Feeney, Nooler
& Ward, 1997) constataram que casais mais jovens apresentavam níveis mais baixos de
satisfação e níveis mais elevados de conflito relativamente a casais mais velhos. Por outro
lado, Thomas, Fletcher & Lange (1997) defendem que, à medida que aumenta o tempo de
casamento, os casais tornam-se menos motivados para resolver as suas disputas, as suas
teorias da relação vão-se rigidificando, e tendem a partir do princípio de que sabem o que
o parceiro está a pensar. Assim, os casais mais velhos tendem a sentir-se mais

157
insatisfeitos com o passar dos anos de vida em comum. Estes dados corroboram os
encontrados no nosso estudo.
A variável tipo de depressão exerce efeitos significativos ao nível da dimensão
evitamento no cônjuge deprimido, no sentido em que os indivíduos com o diagnóstico de
episódio depressivo apresentam níveis mais baixos de evitamento relativamente aos
indivíduos com o diagnóstico de perturbação persistente do humor. De facto, os
indivíduos com perturbação persistente do humor apresentam flutuações no seu humor
que persistem por muito tempo, em certos casos, durante a maior parte da vida, o que
gera níveis de sofrimento e incapacidade consideráveis no próprio (WHO, 1992) e, se
pensarmos de acordo com o modelo sistémico, em todos aqueles que estão à sua volta. É,
pois, plausível pensarmos que este nível de sofrimento condicione severamente a
vivência da relação conjugal e que os indivíduos com este tipo de depressão apresentem
comportamentos mais evitantes relativamente ao seu parceiro, na medida em que o
desajustamento conjugal e a desilusão se vão acentuando com o passar dos anos
(Merikangas et al, 1985), e que tal surja como uma forma de adaptação do próprio sujeito
deprimido.
Por outro lado, os cônjuges de indivíduos com o diagnóstico de perturbação
depressiva recorrente apresentaram níveis significativamente mais elevados de
evitamento, relativamente aos cônjuges dos indivíduos com outros tipos de depressão. A
perturbação depressiva recorrente caracteriza-se pela ocorrência repetida de episódios
depressivos (WHO, 1992). Verifica-se que os cônjuges de indivíduos deprimidos
apresentam níveis mais elevados de stress (Benazon, 2000), de frustração e ressentimento
(Fadden et al, 1987) e de isolamento social (Halgin & Lovejoy). Os casais com um
membro deprimido avaliam mais negativamente o seu parceiro, referem ter menos
expressões de afecto, especialmente, de afecto físico (Coyne et al, 2002). Se
acrescentarmos os dados de Biilings e Moos (1985) que concluíram que os indivíduos
com depressão em remissão referem menos relações próximas relativamente aos
indivíduos que nunca estiveram deprimidos, parece-nos lógico colocar a hipótese de que
os cônjuges de indivíduos com perturbação depressiva recorrente, ao longo de cada surto
depressivo do seu companheiro, se vão afastando progressivamente, de forma a

158
conseguirem lidar com as dificuldades daí decorrentes e adoptem comportamentos mais
evitantes relativamente à sua relação conjugal.
Ainda no que concerne aos efeitos do tipo de depressão nas variáveis em análise,
verificou-se que os casais com diagnóstico de episódio depressivo, percepcionam níveis
mais elevados de suporte conjugal e de satisfação conjugal (em qualquer dimensão),
relativamente aos casais com outros diagnósticos de depressão. Estes dados vão no
sentido do que foi referido anteriormente para o evitamento. Apesar do desgaste no casal
gerado pela presença de sintomatologia associada ao episódio depressivo, o facto de se
tratar de um primeiro episódio, terá permitido a estes casais encontrarem formas mais
eficazes para lidarem com a depressão, sendo que um dos recursos é, com certeza, o nível
de suporte conjugal (mais elevado, conforme adiantam os resultados). De facto, a
investigação tem demonstrado que, com o passar do tempo, a sintomatologia depressiva
vai-se tornando progressivamente aversiva para as pessoas próximas aos indivíduos
deprimidos (Coyne & Doweney, 1991), o que tende a condicionar a sua disponibilidade
para oferecer suporte emocional e instrumental o que, por sua vez, poderá conduzir a um
agravamento da depressão no cônjuge (Brown & Harris, 1978) num processo de
circularidade sistémica.
Outro dado obtido na nossa investigação foi a constatação de que os casais com
diagnóstico de perturbação depressiva recorrente recorrem mais ao suporte de vizinhos,
do que os casais com o diagnóstico de episódio depressivo. Tendo em consideração que a
procura de suporte dos vizinhos foi a estratégia de coping menos referida pelos casais
para lidarem com a situação de depressão15, é curioso que os casais com uma perturbação
depressiva recorrente se destaquem dos demais pela utilização deste tipo de apoio. Pode
especular-se que, ao longo dos vários episódios depressivos, os casais foram utilizando
outro tipo de estratégias para lidarem com a situação mas que, como se revelaram
ineficazes (o que pode ser comprovado pela recorrência da depressão), e havendo um
desgaste nas outras fontes de apoio, passaram a socorrer-se do suporte de pessoas menos
próximas como forma de ultrapassar as dificuldades associadas à depressão e já, por

15
O facto da procura de suporte nos vizinhos ser a estratégia de coping menos utilizada pelos casais, pode
dever-se a razões culturais. Nas zonas urbanas (zona de residência dos casais constituintes da nossa
amostra), o contacto entre os vizinhos tende a ser mais escasso, logo há menor probabilidade de se recorrer
a estes para a resolução dos problemas.

159
várias vezes ao longo deste trabalho, referidas. Seria interessante, em futuras
investigações, compreender o que motiva estes casais a solicitarem apoio nos vizinhos,
diferenciando-os dos outros grupos de casais com depressão.
Ao nível das associações entre as variáveis, verificou-se que quanto mais elevados
são os níveis de confiança (de ambos os cônjuges), de dependência (do cônjuge
deprimido) e de suporte conjugal do casal, maior é a sua satisfação, o que nos indica que,
estas variáveis são indicadores de adaptação do casal à depressão de um dos seus
membros. A utilização de estratégias de coping do tipo reenquadramento, pelo casal, está
também associada a níveis mais elevados de satisfação conjugal. Pelo contrário, níveis
mais elevados de ambivalência e de evitamento (de ambos os cônjuges) estão
correlacionados com níveis mais baixos de satisfação conjugal. Estes resultados estão de
acordo com o que tem vindo a ser descrito na literatura científica, no que se refere ao
estilo de vinculação segura poder ser considerado um recurso na forma de lidar com os
acontecimentos de vida (Mikulincer & Florian, 1998; Meyers & Landsberger, 2002), na
medida em que níveis elevados de confiança e de dependência e níveis mais baixos de
ambivalência e de evitamento estão presentes sobretudo em padrões de vinculação
segura. Da mesma forma, níveis mais elevados de suporte conjugal facilitam o processo
de recuperação da doença (Beach, Sandeen & O’Leary, 1990; Harris, Pistrang & Barker,
2006), logo a adaptação do casal à mesma. Estes dados confirmam a hipótese que
colocámos – H4 – de que níveis mais elevados de suporte conjugal estariam associados a
níveis mais elevados de satisfação conjugal e, portanto, de melhor adaptação à depressão.
A utilização de estratégias de reenquadramento, consideradas estratégias de assimilação,
são igualmente um factor apontado na literatura com estando associado à forma como a
recuperação da depressão é efectuada (Schock & Gavazzi, 2005). A inovação introduzida
neste estudo foi a unidade de análise que, ao invés de ser o indivíduo deprimido ou o seu
parceiro, é o casal. E, o que se constata, é que o casal apresenta de facto recursos, que não
são só individuais, para lidar com a situação de depressão.
Procurámos igualmente analisar a distribuição dos sujeitos deprimidos pelas
variáveis em estudo, de acordo com o seu protótipo de vinculação amorosa e concluímos
que, tal como a investigação tem demonstrado (Carnelley et al.1994; Bifulco et al,2002;
Whiffen et al, 2001), e de acordo com a nossa hipótese (H1), existe uma grande

160
prevalência de indivíduos com um estilo de vinculação inseguro (81% da amostra),
sobretudo amedrontados (40%) e preocupados (30%). Os indivíduos seguros e
preocupados referem níveis mais elevados de suporte conjugal e de satisfação conjugal,
relativamente aos indivíduos amedrontados e desinvestidos; os indivíduos seguros
diferenciam-se dos indivíduos inseguros, também pela sua preponderância em utilizar
estratégias de reenquadramento para lidar com a depressão.
Uma das hipóteses que colocámos foi a de que os indivíduos deprimidos com
vinculação segura apresentariam valores superiores de satisfação conjugal. Em parte, foi
corroborada pelos dados obtidos no estudo, uma vez que os indivíduos amedrontados e
desinvestidos apresentaram níveis de satisfação conjugal significativamente mais baixos
dos que os dos indivíduos deprimidos com vinculação segura. Contudo, não se
verificaram diferenças significativas entre os indivíduos seguros e os indivíduos
preocupados, facto que vai contra o que a investigação tem encontrado neste domínio,
que é o de todos os estilos de vinculação inseguros estarem associados a níveis mais
baixos de satisfação conjugal (Banse, 2004; Meyers, & Landsberger, 2002). Os
resultados relativos à percepção de suporte conjugal no casal seguem o mesmo padrão
dos resultados obtidos com a satisfação conjugal. Uma vez mais, a literatura aponta os
indivíduos seguros como percepcionando níveis mais elevados de suporte social (Collins
& Feeney, 2004), na medida em que os indivíduos estão predispostos para avaliar as
experiências de suporte de forma consistente com os seus modelos operantes de
vinculação; contudo, os indivíduos inseguros são descritos como avaliando as mensagens
sobre o suporte social de forma mais negativa (ibidem), o que contraria os nossos
resultados de que o nível de suporte conjugal do casal é semelhante para os indivíduos
deprimidos com vinculação segura e com vinculação preocupada. Podemos supor que,
pelo facto dos indivíduos preocupados possuírem um modelo positivo dos outros e
negativo do self, partindo do princípio que têm um modelo positivo de cônjuge, parece
plausível acreditarmos que percepcionem o seu companheiro como fornecedor de
cuidados e apoio, o que explicaria o seu nível mais elevado de percepção de suporte
conjugal no casal e de satisfação conjugal. Parece-nos que seria muito pertinente a
replicação destes resultados em investigações posteriores, de forma a comprovar estes
novos dados que vêm contrariar o que até então era referido sobre os indivíduos

161
preocupados. Não nos podemos esquecer que uma das grandes limitações deste estudo é
número de casais que constituem a amostra de investigação, e que isso poderá estar a
condicionar os resultados obtidos.
No que concerne à utilização de estratégias de coping, Myeres e Vetere (2002), já
tinham concluído que os indivíduos seguros referiam possuir mais recursos emocionais e
sociais. Feeney (2004) observou, de forma semelhante ao que nos foi dado constatar, que
os adultos seguros utilizam sobretudo estratégias de procura de suporte social e de coping
focado no problema. De facto, as estratégias de reenquadramento, dizem respeito por um
lado, à avaliação que a família faz dos problemas e da sua capacidade para os resolver e,
por outro, à sua percepção da mudança inerente às situações geradoras de stress, como
sendo mais positiva, mais negativa ou mais neutra (McCubbin, Larsen e Olson, 1981, cit
por Olson et al, 1985)
Relativamente aos cônjuges não deprimidos, encontrámos uma distribuição pelos
quatro padrões de vinculação, que diferem dos habitualmente obtidos na população sem
perturbação (Bartholomew & Horowitz, 1991; Matos et al, 2001). Assim, observámos
que 29.8% incluíam-se num protótipo seguro, 22.8% foram considerados preocupados,
45.6% amedrontados e apenas 1.75% foram classificados como evitantes. Uma vez que
se tratou do primeiro estudo a explorar a vinculação amorosa dos cônjuges de indivíduos
deprimidos, apenas podemos levantar pistas que expliquem estes resultados. Assim,
tendo em conta que a conjugalidade do casal com um membro deprimido pode ser
bastante afectada ao nível da sua intimidade (Basco et al, 1992), dos processos
comunicacionais (Coyne et al, 2002; Heene et al, 2003), dos processos comportamentais
(Gotlib & Whiffen, 1989), e sabendo que uma das características do sistema de
vinculação é proporcionar as necessidades básicas de segurança ao parceiro (Hazan &
Shaver, 1994), é muito possível que nestes sistemas conjugais, tal função do sistema de
vinculação seja posto, de alguma maneira, em causa. Ou seja, o cônjuge não deprimido
provavelmente não sentirá apoio por parte do seu companheiro, que está doente e que não
está disponível para o fazer, o que poderá conduzir a um aumento da insegurança na
relação. Não nos devemos esquecer que cada relação traz uma oportunidade para
revermos os nossos modelos operantes internos (Feeney, 2003), e que a relação conjugal
com um indivíduo deprimido pode comprometer o grau de segurança do sistema de

162
vinculação. Até porque a natureza do modelo operante interno de um indivíduo afecta o
seu próprio comportamento e o modelo operante interno e o comportamento do seu
cônjuge (Berman et al, 1994).
Não nos foi possível analisar o efeito do cluster nos cônjuges não deprimidos,
para cada uma das variáveis pelo facto de num dos grupos (desinvestido) existir apenas
um sujeito. Consideramos que, uma vez que não existe investigação anterior, seria
precipitado da nossa parte, especular sobre eventuais efeitos do cluster para cada uma das
variáveis. Em futuras investigações, seria importante recolher uma amostra maior
(possivelmente mais diversificada) que permitisse efectuar este tipo de análise.
Procurou-se, por fim, avaliar o papel da congruência das respostas do casal nas
diversas variáveis em estudo e verificou-se que os casais com maior sintonia nas suas
respostas no que se refere à utilização de estratégias de reenquadramento reportavam
níveis mais elevados de satisfação conjugal. Para as restantes variáveis, a distância nas
respostas do casal não revelou ser um factor a considerar para a adaptação conjugal. Este
resultado indica que, no que se refere às estratégias de coping familiar, a percepção da
utilização das mesmas pelo casal é mais sensível às respostas de cada um dos cônjuges.
Assim, uma possível interpretação para estes resultados, está relacionada com a
percepção que cada membro do casal faz acerca da estratégia de coping que o casal
utiliza para lidar com a situação. Provavelmente, os casais que apresentam uma maior
congruência nas suas respostas, efectivamente utilizam estratégias de reenquadramento
para lidarem com a depressão e isso possibilita-lhes uma melhor adaptação à doença.
Quando a distância das respostas dos cônjuges é mais pronunciada, tal pode ser resultado
de percepções distintas acerca do que o casal faz para lidar com a depressão, mas também
pode indicar que cada cônjuge atribui graus de importância diferentes a cada estratégia de
coping, e tal acaba por condicionar a adaptação do casal.
Em síntese, trata-se de um estudo exploratório que, apesar das limitações
metodológicas que referiremos adiante, permite algumas conclusões importantes para a
intervenção psicológica com estes casais.
Uma das principais conclusões é o facto de se dever construir intervenções
adaptadas ao tipo de depressão, na medida em que, casais com um diagnóstico de
episódio depressivo, adaptam-se de forma distinta à sua situação clínica, relativamente a

163
casais com um diagnóstico de perturbação depressiva recorrente ou casais com um
diagnóstico de perturbação persistente do humor. É importante respeitar as idiossincrasias
de cada tipo específico de depressão e introduzi-las no seu tratamento. E a necessidade de
se elaborar intervenções adequadas ao diagnóstico específico da depressão decorre de um
dado-chave da investigação: a importância de se atribuir importância à conjugalidade no
processo de tratamento do indivíduo com depressão, uma vez que não existe apenas um
indivíduo deprimido mas todo um sistema conjugal afectado pela doença psicológica
mais comum do século XXI.
Por outro lado, verificou-se existirem associações importantes entre o estilo de
vinculação amorosa (ou as suas dimensões), o suporte conjugal e a utilização de
estratégias de coping do tipo reenquadramento com a variável satisfação conjugal. Isto
vem reforçar a importância que se deve atribuir ao cônjuge não deprimido na recuperação
da depressão do seu companheiro. Os resultados da nossa investigação mostram que o
desenvolvimento de algumas competências no casal com um dos membros deprimidos é
muito importante para uma evolução positiva do quadro clínico do cônjuge deprimido,
nomeadamente no que respeita à vinculação amorosa [e actualmente já existem modelos
de intervenção com vista à «restauração» da vinculação – cf. revisão de literatura de
Johnson & Whiffen (2003)], ao suporte conjugal e à utilização de estratégias de coping
funcionais.
Os processos de adaptação do casal à depressão são com certeza muito mais
diversificados e complexos dos que apresentámos neste trabalho de investigação. Estas
são apenas algumas das variáveis possíveis, que certamente concorrem para a explicação
do como e do porquê de haver casais mais bem adaptados a estas realidades do que
outros. Gostaríamos que este trabalho fosse o ponto de partida para novas investigações,
para novos olhares para esta realidade tão dura e sofrida como é a experimentada
diariamente por tantos e tantos casais…

164
3.2 – Reflexão Crítica sobre o Estudo

Ainda que uma das mais-valias deste estudo que consideramos ter sido o facto de
estarmos a estudar o casal, e não as percepções isoladas de cada um dos seus membros (o
que se enquadra na perfeição na linha sistémica de interpretação da realidade humana),
esta investigação não está isenta de limitações, as quais deverão ser analisadas e
ultrapassadas em futuros trabalhos.
Assim, ao nível da validade externa, as limitações estão implícitas na dimensão e
representatividade da amostra. Trata-se de um amostra constituída por apenas 57 casais,
cuja representatividade não está dimensionada para a população deprimida existente, pelo
que não podemos realizar extrapolações abrangentes para a população em geral. Como é
óbvio, será difícil conseguir outra amostra perfeitamente idêntica à amostra utilizada
neste estudo o que implica dificuldades na replicação dos resultados.
O facto de se tratar de um estudo transversal, também condiciona de forma
importante a interpretação dos dados. Não podemos inferir causalidade entre as diversas
análises em estudo, logo, os resultados obtidos podem ser interpretados de mais do que
um ponto de vista – por exemplo, a satisfação conjugal, considerada na nossa
investigação a variável resultado e o indicador de adaptação conjugal, pode ela própria
intervir no processo de adaptação do casal à depressão. Por conseguinte, seria muito
pertinente replicar estes resultados, mas recorrendo a um estudo longitudinal, no qual
fosse controlada o factor evolução.
A escolha da variável satisfação conjugal também é ela própria polémica, uma
vez que existem outros indicadores de adaptação como é o caso do nível de distress do
casal. Optou-se pela satisfação conjugal por se tratar da variável mais estudada no âmbito
da conjugalidade e por ser sistematicamente utilizada neste tipo de investigação.
Outra das limitações importantes, foi o não controlo dos níveis de depressão de
ambos os cônjuges. Assumimos que o diagnóstico psiquiátrico seria por si só um bom
indicador do quadro clínico de depressão e optámos, para não alongar o questionário que
já ficou extenso, por não incluir nenhuma medida da depressão. Em futuras investigações
considerarmos fundamental o controlo da variável nível de depressão de cada um dos
cônjuges, no momento da recolha da amostra.

165
Uma outra variável que não foi controlada e pode ter algum impacto é o
recasamento. Cada vez é mais comum, os membros de casais divorciados voltarem a
partilhar uma vida a dois, e as dificuldades que estão associadas a este tipo de casais
pode, de alguma forma, condicionar a adaptação do casal à depressão.
O facto da metodologia se basear exclusivamente em questionários de auto-relato
também constitui uma limitação metodológica. Em estudos futuros, seria muito útil
considerar a possibilidade de recorrer a metodologias qualitativas, designadamente a
entrevista individual e ao casal, que beneficiam o aprofundamento dos resultados.
No entanto, apesar das limitações consideradas, o estudo representa um avanço na
compreensão dos factores inibidores e facilitadores do processo de adaptação do casal à
depressão, na medida em que permite extrair algumas conclusões úteis para a intervenção
psicológica realizada junto destes casais.

166
3.3 - Palavras Finais…

Elaborar um trabalho de investigação é sempre um desafio! Por muitos que se


façam, há sempre a novidade e a incerteza, que convidam à dúvida, à pesquisa, à
curiosidade, à vontade, à dedicação, à capacidade de estar atento ao que se está a passar!
É realmente um desafio!
Quando se olha o mundo através de uns óculos que consideramos «especiais»
(outros terão outros óculos e os deles serão especiais para eles…), a vontade de conhecer
sempre os vários lados da questão obriga a complicações acrescidas. E aqui surgiu a
primeira certeza e a primeira grande dificuldade – a certeza que quero saber mais dos
casais que têm um membro deprimido, a certeza que quero as ideias dos dois (afinal já
são duas certezas!) e a dificuldade de chegar até eles! Aos dois! Enfim, consegui chegar a
57 casais. Dada a limitação temporal para a realização deste trabalho, foi bastante bom.
Claro que não permite grandes generalizações, não se trata de um trabalho com um
impacto grande no conhecimento dos factores que facilitam ou que inibem a adaptação
do casal à depressão… mas é um início, pelo menos para quem se interessar pelos
dois…pelo casal… não só por um…foi o nosso caso!
Penso que atingimos os objectivos a que nos propusemos com o desenvolvimento
deste trabalho de investigação, embora, e voltamos a reforçar esta ideia, a realidade que
vislumbramos sobre estes casais, foi parcelar, e a partir de um par de «óculos» que é
apenas mais uns dos vários à disposição dos estudiosos da conjugalidade. No entanto,
estamos certos de que apesar de todas as limitações que já referimos, se trata de uma
investigação actual, pertinente e inovadora pelo facto de nos ter interessado o subsistema
conjugal no seu todo e não apenas as percepções de cada um dos seus membros. Estamos
crentes de que este estudo empírico «abriu» janelas para campos de investigação ainda
pouco explorados no nosso país. Seria, pois, muito interessante explorar conjugalidade
dos casais que experimentam uma crise desencadeada pelo diagnóstico de depressão,
numa amostra substancialmente maior, controlando os níveis de depressão de ambos os
cônjuges (até porque a investigação indica-nos que, frequentemente, o cônjuge não
deprimido acaba também por se deprimir), recorrendo a uma metodologia que envolva
métodos quantitativos e qualitativos (o que permite uma compreensão mais profunda da

167
área em análise), através de um design longitudinal, de forma a, por um lado aceder à
causalidade dos fenómenos e, por outro, observar o modo como o processo de adaptação
de cada casal vai acontecendo. Com toda a certeza que nem todos os casais bem
adaptados, se adaptam seguindo caminhos iguais ou ritmos semelhantes.
Também consideramos ser da maior utilidade, a abordagem deste tema por outros
investigadores, eventualmente que utilizem «óculos» diferentes dos nossos, para que os
dados que obtivemos fossem ampliados, enriquecidos e se tornassem pistas robustas para
intervir no tratamento dos casais nesta condição.
Porque acima de tudo temos de saber falar, saber ouvir, saber estar com o outro,
quaisquer que sejam as circunstâncias da nossa vida…

168
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189
ANEXOS

190
C.D. ___/___
Adaptação Conjugal às Perturbações Psicológicas ICD _______

O objectivo da investigação para a qual estamos a pedir a sua colaboração é compreender a forma
como os casais se apoiam quando um dos seus membros está em tratamento por uma doença
psicológica. A sua participação neste estudo é muito importante para que possamos encontrar meios
complementares de apoio às famílias com membros com doenças psicológicas.

Não existem respostas certas ou erradas; interessa-nos conhecer a forma como, no momento
actual, o casal se apoia para lidar com as dificuldades que surgiram com a doença. Pedimos-lhe pois
que responda com sinceridade a todas as questões, não deixando nenhuma sem resposta. Tente que as
suas respostas a uma questão não influenciem a resposta a outras questões.

As suas respostas são anónimas e confidenciais e têm um fim de investigação. Apenas a equipa de
investigadores terá acesso às mesmas para posterior tratamento da informação.

1. Sexo Feminino ___ Masculino___

2. Idade 18-30 ___ 31-45 ___ 46-65 ___ + 65 ___

3. Escolaridade 1º ciclo ___ 2º ciclo ___ 3º ciclo ___ Secundário ___ Superior ___

4. Tipo de Relação Conjugal União de Facto ___ Casamento ___

5. Duração da Relação Conjugal - 1 ano ___ 1-6 ___ 7-15 ___ 16-25 ___ + 25 ___

6. Número de Filhos 0 ___ 1 ___ 2 ___ 3 ___ + 3 ___

7. Actualmente, está desempregado? Não ___ Sim ___ Há quanto tempo? __________

8. Actualmente, está com baixa psiquiátrica? Não ___ Sim ___ Há quanto tempo? ______

9. Há quanto tempo o médico lhe disse que tinha uma doença psicológica (ou dos nervos)?
1 mês ___ 1-3 meses ___ 3-6 meses___ 6-12 meses ___ 1-2 anos ___ + 2 anos ___

10. Já esteve internado por causa da doença? Não ___ Sim ___ Quanto tempo? ___

11. Tem alguma doença física grave? Não ___ Sim ___ Qual? __________________

12. O seu cônjuge tem alguma doença física grave? Não ___ Sim ___ Qual? _______________

191
C.S. ___/___
Adaptação Conjugal às Perturbações Psicológicas

O objectivo da investigação para a qual estamos a pedir a sua colaboração é compreender a forma
como os casais se apoiam quando um dos seus membros está em tratamento por uma doença
psicológica. A sua participação neste estudo é muito importante para que possamos encontrar meios
complementares de apoio às famílias com membros com doenças psicológicas.

Não existem respostas certas ou erradas; interessa-nos conhecer a forma como, no momento
actual, o casal se apoia para lidar com as dificuldades que surgiram com a doença. Pedimos-lhe pois
que responda com sinceridade a todas as questões, não deixando nenhuma sem resposta. Tente que as
suas respostas a uma questão não influenciem a resposta a outras questões.

As suas respostas são anónimas e confidenciais e têm um fim de investigação. Apenas a equipa de
investigadores terá acesso às mesmas para posterior tratamento da informação.

1. Sexo Feminino ___ Masculino___

2. Idade 18-30 ___ 31-45 ___ 46-65 ___ + 65 ___

3. Escolaridade 1º ciclo ___ 2º ciclo ___ 3º ciclo ___ Secundário ___ Superior ___

4. Tipo de Relação Conjugal União de Facto ___ Casamento ___

5. Duração da Relação Conjugal - 1 ano ___ 1-6 ___ 7-15 ___ 16-25 ___ + 25 ___

6. Número de Filhos 0 ___ 1 ___ 2 ___ 3 ___ + 3 ___

7. Actualmente, está desempregado? Não ___ Sim ___ Há quanto tempo? __________

8. Actualmente, está com baixa psiquiátrica? Não ___ Sim ___ Há quanto tempo? ______

9. Há quanto tempo o médico diagnosticou uma doença psicológica (ou dos nervos) ao seu
cônjuge?
1 mês ___ 1-3 meses ___ 3-6 meses___ 6-12 meses ___ 1-2 anos ___ + 2 anos ___

10. O seu cônjuge já esteve internado por causa da doença? Não ___ Sim ___
Quanto tempo? ___
11. Tem alguma doença física grave? Não ___ Sim ___ Qual? __________________

12. O seu cônjuge tem alguma doença física grave? Não ___ Sim ___ Qual? _______________

192
EASAVIC16

Pense na sua relação conjugal. Utilize a seguinte escala de modo a expressar o que sente
relativamente a cada questão. Para cada um dos itens deverá escolher a afirmação da
escala que melhor descreve o que você sente, assinalando o número correspondente com
uma cruz.

Escala de
2= 3= 6=
resposta 1 = Nada 4= 5 = Muito
Pouco Razoavelmente Completamente
às Satisfeito Satisfeito Satisfeito
Satisfeito Satisfeito Satisfeito
questões

Questões 1 2 3 4 5 6
1. O modo como gerimos a nossa situação financeira
2. A distribuição de tarefas domésticas
3. O modo como tomamos decisões
4. A distribuição de responsabilidades
5. O modo como passamos os tempos livres
6. A quantidade dos tempos livres
7. O modo como nos relacionamos com os amigos
8. O modo como nos relacionamos com a família do meu cônjuge
9. O modo como nos relacionamos com a minha família
10. A minha privacidade e autonomia
11. A privacidade e autonomia do meu cônjuge
12. A nossa relação com a minha profissão
13. A nossa relação com a profissão do meu cônjuge
14. A frequência com que conversamos
15. O modo como conversamos
16. Os assuntos sobre os quais conversamos
17. A frequência dos conflitos que temos
18. O modo como resolvemos os conflitos
19. O que sinto pelo meu cônjuge
20. O que o meu cônjuge sente por mim
21. O modo como expresso o que sinto pelo meu cônjuge
22. O modo como o meu cônjuge expressa o que sente por mim
23. O desejo sexual que sinto pelo meu cônjuge
24. O desejo sexual que o meu cônjuge sente por mim
25. A frequência com que temos relações sexuais
26. O prazer que sinto quando temos relações sexuais
27. O prazer que o meu cônjuge sente quando temos relações sexuais
28. A qualidade das nossas relações sexuais

16
Narciso & Costa, 1996

193
Escala de
2= 3= 6=
resposta 1 = Nada 4= 5 = Muito
Pouco Razoavelmente Completamente
às Satisfeito Satisfeito Satisfeito
Satisfeito Satisfeito Satisfeito
questões

Questões 1 2 3 4 5 6
29. O apoio emocional que dou ao meu cônjuge
30. O apoio emocional que o meu cônjuge me dá
31. A confiança que tenho no meu cônjuge
32. A confiança que o meu cônjuge tem em mim
33.A admiração que sinto pelo meu cônjuge
34. A admiração que o meu cônjuge sente por mim
35. A partilha de interesses e actividades
36. A atenção que dedico aos interesses do meu cônjuge
37. A atenção que o meu cônjuge dedica aos meus interesses
38. Os nossos projectos para o futuro
39. As minhas expectativas quanto ao futuro da nossa relação
40. As expectativas do meu cônjuge quanto ao futuro da nossa relação
41. O aspecto físico do meu cônjuge
42. A opinião que o meu cônjuge tem sobre o meu aspecto físico
43. As características e hábitos do meu cônjuge
44. A opinião que o meu cônjuge tem sobre as minhas características e hábitos

194
Questionário de Relações Amorosas17

Este questionário descreve diferentes maneiras das pessoas experienciarem as relações


amorosas. Leia atentamente cada uma das frases e seleccione os números de 1 a 6 que
melhor indique o modo como se sente na relação com o(a) seu(sua) cônjuge.

Escala de
1= 6=
resposta 2= 3 = Discordo 4 = Concordo 5=
Discordo Concordo
às Discordo Moderadamente Moderadamente Concordo
Totalmente Totalmente
questões

Questões 1 2 3 4 5 6
1. O(a) meu(minha) cônjuge respeita os meus sentimentos
2. Fico muito nervosa(o), se não o(a) consigo encontrar quando preciso dele(a)
3. O apoio dele(a) não é muito importante para mim. Sei que sou capaz de
resolver as coisas sozinha(o)
4. Gostava de ser a pessoa mais importante para ele(a), mas não tenho a certeza
se o sou
5. O(a) meu(minha) cônjuge compreende-me
6. Só consigo enfrentar situações novas, se ele(a) estiver comigo
7. É-me indiferente quando ele(a) prefere passar o tempo com outras pessoas
8. Ás vezes sinto admiração por ele(a), outras vezes não
9. Fico irritada(o) quando combinamos coisas juntos e ele(a) não pode estar
comigo
10. Não sei o que me vai acontecer se a nossa relação terminar
11. Na minha vida pessoal, a minha relação amorosa é secundária
12.Sei que posso contar com o(a) meu(minha) cônjuge sempre que precisar
dele(a)
13.Sinto-me posta(o) de lado quando ele(a) decide passar o tempo com outras
pessoas
14.Discutir assuntos com ele(a) é uma perda de tempo e não leva a lado
nenhum
15.Quando não podemos estar juntos, sinto-me abandonada(o)
16.Para me sentir bem comigo própria(o) são mais importantes outras coisas do
que o(a) meu(minha) cônjuge
17.Desagrada-me a maneira de ser do(a) meu(minha) cônjuge
18.Sei que quando a minha relação terminar, isso não me vai afectar muito
19.Ele(a) dá-me coragem para enfrentar situações novas
20.Fico furiosa(o) quando preciso de apoio e verifico que não posso contar com
o(a) meu(minha)cônjuge
21. Eu e o(a) meu(minha) cônjuge é como se fôssemos um só

17
Matos, Barbosa & Costa, 2001; versão revista

195
Escala de
1= 6=
resposta 2= 3 = Discordo 4 = Concordo 5=
Discordo Concordo
às Discordo Moderadamente Moderadamente Concordo
Totalmente Totalmente
questões

Questões 1 2 3 4 5 6
22. Fico muito nervosa(o) ao pensar que posso perder o meu(minha) cônjuge
23. Prefiro que ele(a) me deixe em paz e não ande sempre atrás de mim
24.Não gosto de lhe pedir apoio, porque sei que nunca me compreenderia
25. Ele(a) tem uma importância decisiva na minha maneira de ser
26.Tenho sempre a sensação que a nossa relação vai terminar
27.Sempre achei que, apesar de gostar do(a) meu(minha) cônjuge, não vou
sentir muito a falta dele(a) quando a relação terminar
28.Ás vezes acho que ele(a) é fundamental na minha vida, outras vezes não
29.Confio nele(a) para me apoiar em momentos difíceis da minha vida
30.Quando tenho problemas, nem sempre gosto de procurar o meu(minha)
cônjuge
31. Tenho dúvidas se sou realmente importante para ele(a)
32.Quando não podemos estar juntos, eu não sei o que fazer
33.Quando tenho um problema, só o facto de pensar nele(a) põe-me mais
calma(o)
34.Não preciso dos cuidados do meu(minha) cônjuge
35.O(a) meu(minha) cônjuge faz-me sentir bem comigo própria(o)
36.Ele(a) desilude-me muitas vezes
37.As minhas conversas com ele(a) não me trazem nada de novo
38.Quando vou a algum sítio desconhecido, sinto-me melhor se ele(a) for
comigo
39.Apesar da minha relação ser importante, muitas vezes sinto-me sozinha(o)
40.Quando algo de grave acontece comigo, prefiro não estar perto dele(a)
41.Ele(a) não me dá a atenção que eu gostaria
42.Ele(a) aceita-me como eu sou
43.Apesar de haver coisas que não gosto no(a) meu(minha) cônjuge, no fundo
eu gostaria de ser igual a ele(a)
44.Quando tenho um problema prefiro ficar sozinha(o), a procurar o(a)
meu(minha) cônjuge
45.Não fico aborrecida(o) se não pudermos fazer férias juntos
46.Gostava que ele(a) me ligasse mais
47.Tenho medo de ficar sozinha(o), se perder o(a) meu(minha) cônjuge
48. As relações terminam sempre, mais vale eu não me envolver
49. O(a) meu(minha) cônjuge só pensa em si próprio(a)
50. É fundamental para mim que ele(a) concorde com aquilo que eu penso
51. Ele(a) é apenas mais uma das pessoas com quem estou no dia-a-dia
52.O(a) meu(minha) cônjuge incentiva-me a fazer coisas diferentes

196
F-COPES18

O F-COPES foi criado para inventariar atitudes e comportamentos de Resolução de


Problemas que as famílias desenvolvem como respostas a problemas ou dificuldades.
Responda por favor às seguintes questões, seleccionando um dos números de 1 a 5 que
melhor indique o seu grau de concordância com as afirmações.

3 = Não
Escala de
1 = Discordo 2 = Discordo Concordo 4 = Concordo 5 = Concordo
resposta às
Muito Moderadamente nem Moderadamente Muito
questões
Discordo

Quando na nossa família nos confrontamos com problemas ou dificuldades


comportamo-nos da seguinte forma:

1 2 3 4 5
1. Compartilhamos as nossas dificuldades com os familiares
2. Procuramos o encorajamento e o apoio de amigos
3. Sabemos que temos capacidade para resolver os problemas mais importantes
4. Procuramos informações e conselhos de pessoas de outras famílias que
passaram por problemas semelhantes
5. Procuramos conselhos de parentes próximos (avós, etc.)
6.Procuramos auxílio de instituições criadas para ajudar famílias numa situação
como a nossa
7. Sabemos que a nossa família tem recursos próprios para resolver os nossos
problemas
8. Recebemos ofertas e favores de vizinhos (comida, etc.)
9.Pedimos aos nossos vizinhos que nos façam favores e nos dêem assistência
10. Encaramos os problemas de frente e procuramos soluções de forma activa e
rápida
11. Vemos televisão
12. Mostramos que somos fortes
13. Frequentamos a igreja e vamos à missa
14. Aceitamos os acontecimentos perturbadores como parte integrante da vida
15.Partilhamos as nossas preocupações com os amigos íntimos
16. Sabemos que a sorte tem um papel importante na resolução dos nossos
problemas familiares
17. Aceitamos que as dificuldades aconteçam de forma inesperada
18. Convivemos com a família (jantares, encontros, etc.)

18
H.C. McCubbin, D.H.Olson & A. S. Larsen, 1981; versão portuguesa de Vaz Serra, Firmino, Ramalheira
& Canavarro, 1990; versão revista FPCE-UL

197
3 = Não
Escala de
1 = Discordo 2 = Discordo Concordo 4 = Concordo 5 = Concordo
resposta às
Muito Moderadamente nem Moderadamente Muito
questões
Discordo

1 2 3 4 5
19. Procuramos conselho e ajuda profissional para resolver as
dificuldades familiares
20. Acreditamos que podemos lidar com os nossos próprios problemas
21. Participamos em actividades religiosas
22. Definimos o problema familiar de uma forma mais positiva de
maneira a que não nos sintamos demasiado desencorajados
23. Perguntamos aos nossos familiares o que sentem sobre os
problemas com que nos defrontamos
24. Procuramos o conselho de um padre
25. Partilhamos os problemas com os nossos vizinhos.
26. Temos fé em Deus

198
Qualidade das Relações – QRI19

Por favor, responda às questões de modo a descrever a sua relação com o(a) seu(sua)
cônjuge, utilizando para tal a seguinte escala:

Escala de
2 = Um
resposta às 1 = Nada 3 = Bastante 4 = Muitíssimo
Pouco
questões

Questões 1 2 3 4
1. Em que medida pode recorrer ao seu cônjuge para o aconselhar acerca de
problemas que possa ter?
2. Em que medida poderia contar com o seu cônjuge para o ajudar com um
problema?
3. Em que medida pode contar com o seu cônjuge para lhe dar uma opinião
honesta, mesmo que você possa não a querer ouvir?
4. Até que ponto poderia contar com o seu cônjuge para o ajudar se um familiar seu
muito próximo morresse?
5. Se você quisesse sair e fazer alguma coisa esta noite, em que medida está
confiante em que o seu cônjuge estaria disposto a fazer alguma coisa consigo?
6. Em que medida pode contar com o seu cônjuge para o ouvir quando está muito
zangado com outra pessoa?
7. Em que medida pode realmente contar com o seu cônjuge para o distrair das suas
preocupações quando se sente sob stress?

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Moreira e colaboradores, 2002

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