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INTRODUÇÃO

Esta pesquisa é resultado de viagens para Salinas, uma pequena cidade do norte do estado de Minas Gerais, onde o pesquisador acessou, trabalhou e fomentou a formação de instituições cooperativistas. Estas sempre se mostraram perpassadas pela força de vontade dos indivíduos em se libertar de certa realidade de pobreza e exclusão, identificados por relatos dos participantes sobre as parcas oportunidades de emprego e renda. Naqueles momentos muitas coisas pareciam ser relevantes para o sucesso ou fracasso do empreendimento, como condições ambientais favoráveis, a existência de recursos e fomentos governamentais, distância de grandes centros de decisão ou mesmo interesses políticos. Mas uma característica específica chamava a atenção e parecia ser comum em grande medida: o desinteresse particular em se submeter a um paradigma diferente de organização. As cooperativas exigiam uma dedicação muito grande para o grupo; um envolvimento radical de tempo e interesse, na maioria das vezes, sem nenhum tipo de retorno pelo empenho no período de anos, uma mudança radical para quem acredita dever ser “remunerado” por um trabalho prestado. Certos participantes se adaptaram mais rapidamente, outros a seu próprio tempo, alguns não acreditaram naquela proposta quando a enfrentaram face a face e saíram, outros não saíram. Nesse ínterim, outra adaptação que chamava a atenção era que, até certo limite, precisava-se da subordinação efetiva de interesses individuais dos participantes à uma realidade grupal. As decisões não eram mais individuais, as pessoas eram tratas estritamente da mesma forma, e não eram mais empregados, mas donos 1 , sem, no entanto, uma posição hierárquica de comando, ou uma condição de decisão maior ou menor. Para a cooperativa, todos são iguais. Uma sujeição a qual algumas pessoas poderiam ser muito individualistas para se adaptar. Assim, se percebeu que o individualismo e o cooperativismo são dois pontos que perpassam a sociedade ocidental contemporânea, mas que podem ter alguns pontos divergentes. Para Velho (1999), o individualismo está presente por toda a sociedade e levaria o ser

humano a se perceber como uma unidade valorativa principal. Por meio desta observação do

homem enquanto centro, emergem certas contrariedades relacionadas aos grupos onde se encontra,

como competições internas e a tentativa de diferenciação, de distinção dos próximos.

1 Para Singer (2008a) a cooperativa é um local por excelência, onde capital e trabalho estão emaranhados entre si.

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O cooperativismo,

em contrapartida,

é cristalizado

em organizações de cunho

solidário onde, para Bhowmik (2008) e Singer (2008a), se trabalha através de princípios como

igualdade e democracia, por meio de uma efetiva solidariedade entre parceiros. Denota-se assim,

um ideário de coletivismo na esfera cooperativista, que prega, ao invés de diferenciação e

competição, igualdade e solidariedade.

A caracterização desse contra-senso fica ainda mais evidente ao se analisar certa relação

proximal entre individualismo e capitalismo 2 : Silva (2004) percebe que algumas facetas da

realidade vivida nas organizações capitalistas amplificam a desconexão entre indivíduo e grupo,

como a competição entre trabalhadores, que é inerente a uma série de processos (e em algumas

oportunidades, estimulado pela organização) e a fragmentação do trabalhador, reduzido e dividido

em processos cada vez menores de trabalho. Arrighi (1996), também contribui para a aproximação

dos termos quando apreende no capitalismo, a existência de uma classe composta por grandes

predadores, onde vale a “lei da selva”, que justifica a competição e a desconexão dos indivíduos em

relação às demais esferas sociais. Propostas distantes do coletivismo e da solidariedade.

Destacam-se assim, quatro dimensões que se agrupam em dois conjuntos aglutinadores

iniciais

(o

primeiro

grupo

com o

individualismo-capitalismo;

o

segundo

com coletivismo-

cooperativismo) que tem pontos incoerentes, talvez até colidentes.

 

Mas

as

cooperativas

parecem

existir

mesmo

diante

dessa

contraditoriedade:

é

perpassada

diretamente

por

essas

dimensões

inconsistentes.

E

diante

da

possibilidade

de

incoerência, sugere problematizações. As instituições cooperativistas se encontram dentro ou fora

do capitalismo? O quão distante ou puramente cristalizadas estão as quatro dimensões alvo do

estudo em seu interior? Até que ponto podem interferir na sua realidade? Existiriam pontos de

convergência entre dimensões tão contraditórias?

2 Lechat (2008) percebe o surgimento das cooperativas dentro do movimento do socialismo utópico, e que aparece como resposta e reivindicação contra crises econômicas geradas pelo capitalismo. Nota-se assim que se o cooperativismo é um movimento que tem raízes em ideais socialistas, contrários à grande parte das características do capitalismo. Na medida em que este se aproxima do individualismo, contribui ainda mais para um “afastamento” entre individualismo e cooperativismo.

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Assim, para responder às perguntas levantadas teceu-se um objetivo principal:

Verificar

relações

entre

individualismo,

capitalismo

e

coletivismo

dentro

de

organismos

cooperativistas do município de Salinas, Minas Gerais.

 
 

Este trabalho

se

justifica,

portanto,

devido

à

possibilidade

de

geração

de

mais

embasamento sobre a conexão entre indivíduo e coletivo, já que sua análise acontece em uma escala

social específica, mas relevante. Além disso, pode esclarecer aspectos do funcionamento social

desses órgãos coletivistas (contribuindo para o seu funcionamento) e trazer características dos

formatos do individualismo, possivelmente visualizáveis em outros organismos e escalas sociais,

mas menos destacadas quanto demonstrado nessa esfera. Colabora desta forma para uma percepção

mais profunda e abrangente das possibilidades de existência de indivíduos e grupos.

Por se condensar em locais diferentes de um continuum capitalista, esta pesquisa torna-

se saliente também pelo foco, que detém poucas pesquisas específicas ao tema, o que colabora com

os

estudos

que

porventura

perpassarem

a

discussão.

Somam-se

assim,

a

possibilidade

de

crescimento e contribuição para a sociedade, os movimentos solidários, a academia e o pesquisador,

pois podem crescer com as análises e resultados.

Na discussão teórica deste estudo de caso descritivo, visa-se analisar os eixos principais,

que por sua vez estão agrupados em duas matrizes 3 .

O primeiro

eixo

trata do

individualismo

em suas conotações contemporâneas, e

posteriormente realiza uma tentativa de compreensão de sua realidade embasada em características

anteriores, que teriam influenciado sua emergência ou formatação, sob a configuração em que se

encontra. Trata assim duplamente de sua gênese e das discussões contemporâneas, atualmente

ligadas a estudos antropológicos, sociológicos e psicológicos (estes estudos, principalmente pela via

da Psicologia Trans Cultural 4 , que também verifica relações entre individualismo e coletivismo).

3 Como definido anteriormente, individualismo e capitalismo como uma primeira matriz; coletivismo e cooperativismo como a segunda. Estas discussões estão divididas nos diversos capítulos, em alguns momentos separados pelas linhas ou matrizes e em outros paradoxalmente conectados, na busca de laços, ligaduras entre os elementos.

4 De acordo com Ribas(2006) a Psicologia Trans Cultural é uma vertente da abordagem sócio-cultural da psicologia. A abordagem sócio cultural visa uma análise do desenvolvimento humano enquanto um processo que se dá nas interações sociais. No entanto, a linha de pesquisas trans culturais se diferencia das demais no sentido em que acredita

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A próxima linha tratada é o capitalismo, sistema de produção atual que para Singer

(2008a), sobrepõe e direciona as relações econômicas, produtivas, legais e institucionais (inclusive

o próprio cooperativismo).

Busca-se assim, através de autores como Dobb (1988), tratar sobre a

evolução desse sistema, na tentativa de encontrar características iniciais que influenciem na sua

realidade atual e seu conceito, discussão que culmina na sua cristalização em organizações privadas.

Antes, no entanto, de se avançar na discussão sobre as empresas capitalistas, é

importante fazer um pequeno movimento e, outra direção. Na tentativa de compreender o universo

das empresas capitalistas, se partiu para uma percepção do seu macro ambiente, através de algumas

ligações entre capitalismo e o Estado, como sua forma de sujeição e controle dos indivíduos a partir

de Miller (2000), Foucault (1977), Foucault (1979) e Bentham (1787), que tratam das novas

formatações do disciplinamento das ações individuais.

Essas possibilidades são importantes para a discussão teórica uma vez que para Bauman

(1999), a introjeção e representação do social não é mais realizada apenas no contexto da

comunidade, do pequeno espaço de convivência comum, mesmo que os indivíduos continuem

existindo em sociedade. O individuo se reporta também a outros espaços, mesmo deslocados do seu

espaço circunscrito, mesmo distantes da sua realidade imediata. Para Bauman (1999) e Arendt

(1989) existem muitos fatores que levam e amplificam a desconexão dos indivíduos com os grupos

onde se encontram espacialmente e momentaneamente circunscritos. E essa desconexão espaço

temporal exige novas modalidades de controle, de sujeição dos indivíduos.

Utilizando-se das observações de Silva (2004) são transportadas algumas facetas deste

“novo” controle para as organizações capitalistas e analisam-se algumas interferências deste

controle disciplinar no contexto de um ser humano particular, mas que trabalha em espaço coletivo.

As organizações capitalistas gerariam torções nas referências de coletivo e individuo,

exigindo trabalhos em grupo, mas com uma competitividade enorme, tentando se transformar na

na cultura como “(

indivíduos e basicamente entendido como um modo de vida compartilhado entre pessoas que interagem, e se transmitiria por processos de aculturação e socialização (RIBAS, 2006, p.133). Assim, essa área da psicologia tenta buscar embasamentos para os processos internos do individuo, mas tendo como base variáveis ambientais, como seus processos de socialização e aculturação.

um conjunto de variáveis contextuais que afetam o comportamento individual, algo fora dos

)

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referência principal, fragmentando, diversificando e individualizando ainda mais a existência

humana.

Pela via das análises realizadas inicialmente, pretendeu-se tecer ligaduras, conexões,

entrelaçamentos que assim compuseram uma primeira matriz direcionadora da discussão: as

relações entre o individualismo, e capitalismo na sociedade contemporânea. Dessas análises surgem

visões como a competição, o ideal de diferenciação, a fragmentação e alienação do indivíduo.

Numa tentativa de resposta ou contraposição a esse primeiro agrupamento, porém,

emerge a segunda linha de raciocínio. Esta trata de uma possibilidade paradigmática diversa, que

aborda neste sentido, o coletivismo e o cooperativismo (compreendidos aqui pela perspectiva da

economia solidária 5 ).

O coletivismo é tratado através de conceitos relacionados a pesquisas contemporâneas e

posteriormente, em uma perspectiva de noção solidária, dividida para Durkheim (1999) em duas

formas de solidariedade: a mecânica, que liga o

individuo diretamente ao grupo devido a

similaridades, e a orgânica, que cria uma relação de dependência do individuo com a sociedade

através da especialização e divisão do trabalho.

As considerações sobre a solidariedade são a principal conexão com o cooperativismo,

que é uma última linha direcionadora. Trata-se nesse trabalho, de realizar também uma investigação

sobre o cooperativismo através de sua gênese e aspectos atuais, suas ligações complexas com o

modo de produção capitalista e a ligação entre cooperados e o trabalho diante das observações de

Melman (2002), Lechat (2008), Heiden (2008), Singer (2008) e Durkheim (1999), para quem existe

uma noção

diferenciada da coletivização, onde, em torno

do trabalho

e

capitalismo, observa-se novamente a solidariedade.

mesmo

dentro

do

Pela via das discussões teóricas apresentadas, o trabalho foi dividido em cinco partes

principais.

5 Lechat (2008) considera a economia solidária como sendo a junção entre as dimensões do econômico, social e o político, capaz de gerar um desenvolvimento solidário e comum entre todos os parceiros.

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Inicialmente se delineia a introdução, que trata das problematizações, objetivo e breve

demonstração do que será discutido no trabalho. O referencial teórico que deu base para as analises

deste trabalho é a próxima etapa, e por sua vez, está subdividido em três capítulos.

No primeiro, trata-se da verificação e análise crítica de características do individualismo

a luz de autores contemporâneos: Velho (1999), Elias (1994), Gouveia (2003) e Dumont (1985) e

de períodos anteriores como Dukheim (1999) e Tocqueville (2000). Também se analisam as

conexões mais profundas da percepção do indivíduo enquanto centro de referências, na tentativa de

delinear a gênese e conexão dessa percepção com movimentos como o protestantismo, racionalismo

e a ascensão da burguesia. São consideradas estas dimensões também em composição com

capitalismo e principalmente sob a luz de Weber (2001), Dumont (1985), Reis (2003) e Dobb

(1988).

Ainda no referencial teórico se discutem aspectos da contemporaneidade que podem

amplificar problematizações à noção de lugar comum inerente a uma comunidade, desconectando

ainda mais o particular do coletivo. O pesquisador se apóia para essa tarefa, das análises de Arendt

(1989), Bauman (1999), Steven (2001), Chartier (2002), sobre a fragmentação da comunidade

enquanto espaço social de influência e controle sobre o ser humano. Essa apreciação posteriormente

desemboca no estado capitalista e por meio dos trabalhos de Miller (2000), Foucault (1977),

Foucault (1979) e Bentham (1787), vêm à tona as novas formatações do disciplinamento das ações

individuais, uma vez que sua introjeção e representação do social não é mais realizada apenas no

contexto da comunidade, do pequeno espaço de convivência comum. Utilizando-se das observações

de Silva (2004) são ainda transportadas algumas facetas deste “novo” controle para as organizações

capitalistas e analisa-se a interferência deste controle disciplinar no contexto de um ser humano

particular, mas que trabalha em espaço coletivo, em grande medida.

A última parte da discussão teórica adentra ao universo cooperativista, que diante das

observações de Melman (2002), Lechat (2008), Heiden (2008), Singer (2008a) e Durkheim (1999),

faria parte de uma noção diferenciada da coletivização, onde, em torno do trabalho e mesmo dentro

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do capitalismo, observa-se novamente a solidariedade, a busca pelo bem comum apreendido

tratado em Tocqueville (2000). Analisa-se o conceito de economia solidária também devido a sua

possibilidade de torção entre coletivo e indivíduo, solidário e particular, entre capitalismo e

economia solidaria.

O Capítulo seguinte tece os fundamentos metodológicos e éticos utilizados para dar luz

à parte empírica deste trabalho, definindo procedimentos e ferramentas, bem como os passos de sua

utilização.

A penúltima parte do trabalho trata da tabulação e analises empíricas sobre os dados

recebidos dos sujeitos de pesquisa, demonstrando os resultados colhidos e sua conexão com o

referencial teórico.

E

por fim é feita a conclusão, realizada a partir dos resultados obtidos na etapa anterior.

E

assim as discussões teóricas foram condensadas na execução empírica deste trabalho

acadêmico, que teve como foco duas cooperativas da cidade de Salinas, na região norte do estado de

Minas Gerais, onde existem tentativas de organização do cooperativismo, na tentativa de trazer

novas luzes para essas contraditórias possibilidades contemporâneas.

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2 O INDIVIDUALISMO : (DES)VINCULAÇÕES SOCIAIS E REFLEXOS

São perceptíveis características do individualismo em diversos aspectos do cotidiano, e

algo torna a analise sobre o tema extremamente relevante: sua capacidade de contrapor valores

coletivos a individuais, mesmo tendo recebido também influencias dos grupos. Algo observado

dentro da sociedade e que pode, em alguns momentos, induzir o sujeito a uma direção contrária ao

coletivo.

Além de estar presente, de acordo com Velho (1999) o individualismo encontra na

sociedade atual, o tempo-espaço em que aparecem com maior peso e ou dominância, as instâncias

que levam ao seu reforço. Talvez por ser em alguma medida evidente, alguns autores tentaram

delimitar seu conceito.

Enquanto conceito deste termo, Dukheim (1999) aponta a evidência do individuo em

detrimento da sociedade, denotando a sua ausência de vínculos nos grupos, através da demonstração

de uma personalidade individual diferenciada da coletiva. Giddens (1998) percebe uma distinção

clara e subjacente às primeiras obras de Durkheim como se referindo “a qualquer ramo da filosofia

social que conferisse ao „indivíduo‟ alguma forma de primazia sobre a sociedade” ( Giddens, 1998,

p. 148). Outro autor que tentou definir esta característica foi Tocqueville (2000), que delimita: “o

individualismo é um sentimento refletido e tranqüilo, que dispõe cada cidadão a se isolar da massa

de seus semelhantes (

).

(Tocqueville, 2000, p. 19). Ou ainda Dumont (1985), que afirma:

“Designa-se por individualista (

),

uma ideologia que valoriza o indivíduo, (

subordina a totalidade social” (Dumont, 1985, p. 279).

)

e negligencia ou

É perceptível, nas afirmativas de Tocqueville (2000) e Durkheim (1999), um conceito

que trata do individualismo, como um sentimento interno que traz uma forma de contraposição ou

desconexão do individuo em relação à sociedade.

20

O conceito tratado por Dumont (1985), no entanto, não define o individualismo desta

maneira. Este autor percebe que, antes de haver uma contraposição, ou alguma forma de

negligência, existe uma ideologia, uma formatação social coerente.

A visão de alguns autores contemporâneos também demonstra o individualismo não

como um valor que gera contraposição ferrenha entre individuo e sociedade. Vêem de maneira mais

complexa, como Velho (1999) que percebe o contexto individualizador como aquele em que se

focaliza o indivíduo biológico como unidade em torno da qual se desenvolve um sistema de

referencias e não um valor em detrimento a outros. Ou Elias (1994), que acredita no individualismo

enquanto a culminância de um processo de

autoconsciência de pessoas, que foram obrigadas a adotar um grau elevadíssimo de refreamento, controle afetivo, renuncia e transformação dos instintos, e que estão acostumadas a relegar grande número de funções, expressões instintivas e desejos a enclaves privativos de sigilo, afastados do olhar do „mundo externo‟, ou até aos porões de seu psiquismo, ao semiconsciente ou inconsciente.(ELIAS, 1994, p. 32)

Para este autor, é a tensão entre duas esferas internas do individuo (por um lado ordens

e proibições sociais que a pessoa introjeta como se fossem seu autocontrole e por outro os instintos

ou

inclinações recalcados ou

não

controlados)

que

levam o

indivíduo

a achar

que

existe

internamente, sem relações com os outros, do lado externo.

Ainda na perspectiva de Elias (1994), o reflexo teórico do intenso conflito que algumas

pessoas sentem internamente, é projetado pela sua consciência no mundo, como um abismo

existencial e um eterno conflito entre indivíduo e sociedade, que na verdade se trata de uma balança

entre as percepções “nós-eu” (particular e coletivo), e tende neste momento para uma centralização

maior do individuo, mesmo que a observação do “nós” seja também existente.

Já Gouveia (2003), analisa através de estudos realizados pela chamada “Psicologia

Trans-Cultural”, que o individualismo deve ser tratado por meio de escalas multifatoriais, existindo

tipos específicos de individualismo. Como exemplo, pode-se perceber o protoindividualismo, que

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para Triandis (1995), se caracteriza através dos sujeitos “batalhadores”, típico em sociedades de

caçadores e pescadores e que realizam suas atividades com independência das demais. Na

atualidade, segundo o mesmo autor, seria importante para dimensionar culturas com claras

demarcações econômico-sociais. Outra possibilidade seria tratada em Parsons (1959-1976) 6 apud

Gouveia (2003), que trata do individualismo expressivo: uma tendência a dar maior importância aos

relacionamentos pessoais, em detrimento das relações instrumentais, principalmente em se tratando

da família ou comunidade local do indivíduo.

E uma terceira possibilidade (que tem sido utilizada como enfoque principal para

diversas pesquisas), no entanto, não só aprofunda a percepção sobre o individualismo, como

também, relaciona individualismo e coletivismo, denotando duas categorias em comum para ambas

dimensões: a horizontal e a vertical. Na perspectiva horizontal as pessoas seriam similares na

maioria dos aspectos, sobretudo no status.

No caso do individualismo, em função da alta liberdade e igualdade que estas experimentam, constrói-se um eu independente, mas não diferente dos demais membros da sua cultura. Em outras palavras, as pessoas que se orientam pelo individualismo horizontal querem ser distintas dos grupos. Em relação ao coletivismo, contempla-se uma baixa liberdade, porém alta igualdade, explicando o motivo de um eu interdependente e compartilhado com os demais membros da sociedade. Assim, as pessoas se vêem como sendo similares às outras, enfatizam objetivos comuns com os outros, mas, todavia, não são submetidas facilmente à autoridade (GOUVEIA, 2003, p. 225).

No

entanto,

a

observação

vertical,

em

contraposição,

enfatiza

a

aceitação

da

desigualdade, além do privilégio a hierarquia. Para os individualistas,

6 Parsons, T. El sistema social. Madri: Revista de Occidente, 1976 (Original publicado em 1959).

22

) (

baixa igualdade ao passo que é dada máxima importância ao sentido de liberdade, definindo uma típica democracia de mercado. As pessoas que seguem esta orientação querem ser distintas, adquirindo status social. Fazem isso geralmente em competições com os outros. No caso dos coletivistas, traduz-se no sentido de servir aos outros, fazer sacrifícios em benefício do seu próprio grupo de pertença e cumprir suas obrigações impostas como normas sociais. (GOUVEIA, 2003, p.

225).

isto se reflete em um eu independente e diferente dos demais; aceita-se a

Com base no exposto, se identifica a característica principal apresentada pela pessoa

que adota cada orientação: “Individualismo horizontal: Único; Individualismo vertical: Orientado

ao êxito; Coletivismo horizontal: Cooperativo; e Coletivismo vertical: Cumpridor” (Triandis 7 , 1995

apud Gouveia, 2003, p. 225).

O autor delimita também que apesar do individualismo horizontal significar se manter

afastado ou mesmo não se identificar com os endogrupos,

no Brasil “os demais fatores do

individualismo não significam uma renuncia ao contato social, ou a identificação com endogrupos

secundários (amigos, companheiros e visinhos)” (Gouveia, 2002, p. 211) 8 .

Velho (1999) corrobora em parte com estas dimensões sobre o individualismo, quando

delineia suas duas principais modalidades: o prestigio e a ascensão. A primeira trata de uma

avaliação hierárquica, dentro de categorias bem definidas de um determinado modelo e a segunda

define a sua outra faceta, qual seja: a transformação e mudança do individuo, tanto em termos de

trajetória individual quanto de contexto social.

Existe, portanto, uma relação entre a atribuição vertical tratada por Gouveia (2003) e a

ascensão definida por Velho (1999): ambas tratam de uma mudança de atribuição de valor do

individuo na sociedade. Assim, o indivíduo poderia ascender socialmente e teria uma atribuição

hierárquica mais positiva que o posto ocupado anteriormente pelo mesmo. No mesmo sentido, a

pessoa

pode

ter

uma

atribuição

hierárquica

negativa,

se

decrescer

para

um

degrau

social

7 Triandis, H. C. Individualism and collectivism. Boulder, CO: Westview Press, 1995.

8 Como define ainda Gouveia (2002), a pessoa pode ser orientada principalmente pelo individualismo, mas sem renunciar às relações sociais, principalmente aquelas que se encontram em âmbitos mais informais, como companheiros de estudo e trabalho.

23

hierarquicamente

inferior.

Este

critério

denota

uma

dimensão

“quantitativa”

da

posição

individual. Esclarece racionalmente quem ou qual posição é maior, ou menor.

É passível também uma relação entre as duas outras dimensões definidas pelos autores.

O prestigio depende de categorias bem definidas para demonstrar a transição do individuo sem

ascensão, sem uma atribuição valorativa de crescimento, mas uma mudança qualitativa. Assim

como o atributo horizontal, que precisa de similaridades para “conceituar” a diferença, que se torna

então, a meta individual. Seu foco é a mudança da dimensão “qualitativa”, mas não necessariamente

do nível hierárquico.

O individualismo demonstra relações muito fortes com a possibilidade de liberdade e

com a

competição

por

crescimento

e valorização

social.

Os

quatro

conceitos constituintes

(atribuição vertical ou horizontal e ascensão ou prestígio), no entanto, independentemente de raízes,

se cruzam ao demonstrar, diante do individualismo, o imperativo da diferenciação do individuo

(quantitativa ou qualitativamente), para gerar mais importância para ao o que foge à regra, ao

diferente.

Mas não se pode, neste momento, retirar a acuidade dos valores atribuídos pelo sistema

de relações, uma vez que existe a necessidade de unidades definidas pela sociedade, em alguma

medida fixas e comuns, para, a partir daí, pensar a diferenciação: não há diferença sem critérios que

definam o “diferente”. Além disso, a mudança do individuo acontece em grande medida, para lócus

que foram previamente definidos pela sociedade ou grupos específicos.

Ao que estas as evidências conceituais apontam, portanto, a diferenciação é uma faceta

importante da intenção dos indivíduos e para além desta afirmativa, a sociedade define e demonstra

particularidades do que é ser diferente, por critérios pré-definidos. Como afirma Velho (1999),

parece existir um arcabouço atual para facilitar e estimular a diferença.

Existem reflexos desta característica da sociedade no individuo, como percebe ainda

Velho (1999), quanto mais exposto estiver o autor a experiências diversificadas, quanto mais tiver

que dar conta do ethos e visões de mundo contrastantes, quanto menos fechada for sua rede de

24

relação ao nível do seu cotidiano, mais marcada será sua auto percepção de individualidade

singular(Velho, 1999 p. 32). Ao que tudo indica, a sociedade fortalece algo que pode ser contrário

a

si,

mas

diferentemente

da

idéia

de

isolamento

e

ausência

de

vínculos

abordada

por

Tocqueville (2000) e Durkheim (1999), a massa de individualistas também está conectada à

sociedade. Demonstra uma alteração na própria sociedade, que devido a gama de posições a serem

tomadas, de possibilidades de caminhos diferentes a serem trilhados, levou o individuo a ser a

unidade valorativa principal, a partir do qual as referencias são realizadas. O individualismo é uma

elevação dos sujeitos à unidade de percepção principal, a partir da qual as referencias são feitas. O

individualismo é a elevação dos indivíduos ao centro a partir do qual as relações apontam.

É importante notar que, ao se entender como unidade central e participar de diferentes

grupos, os homens guiados pelo individualismo, em determinados momentos entenderiam que o

valor do grupo instantâneo é prioritário e em outros não. Por esta via, são os indivíduos quem

devem ser priorizados, não os diversos conjuntos, o que pode ser extrapolado a níveis em que se

represente ir contra a sociedade.

Ao analisar ponderadamente a questão da desconexão e da contrariedade em relação aos

grupos explorada enquanto conceito de individualismo por Tocqueville (2000) e Durkheim(1999)

compreende-se no entanto, que a não conexão e o ato de ir contra um determinado grupo, seriam

efeitos de uma maior percepção valorativa do ser humano, não um conceito central do termo.

Assim, chega-se no conceito que norteará este trabalho, pois individualismo não é a

desconexão ou contrariedade relativa ao grupo, mas a percepção da centralidade do individuo em

relação ao mesmo, atrelada assim à redução de valor dos vínculos com os diversos organismos

sociais. A realidade desta discussão denota uma espécie de fragmentação entre o todo e o particular,

uma independência entre indivíduo e grupo.

Diante desse conceito norteador, emerge a necessidade de mais investigações sobre as

características principais do individualismo, como sua conexão com a diferenciação horizontal e

vertical, ou certa percepção do individuo enquanto ente isolado. Ficam claras também necessidades

25

de esclarecimentos sobre os reflexos do individualismo na sociedade, como sua desconexão e a

contraposição. Uma investigação sobre a gênese do individualismo poderia esclarecer melhor essa

relação na sociedade atual.

2.1 A Ética Protestante e o Indivíduo: Perspectiva e Centro

Antes de alguma generalização a respeito da idéia de um individualismo pungente e

sempre existente, é importante tornar nítido que existem contrapontos este conceito, uma vez que

existem vestígios de que “algumas culturas valorizam altamente o individualismo, enquanto outras

podem colocar maior ênfase em necessidades em comum” (Giddens, 2005, p. 38), como na

perspectiva grega clássica, onde o individuo é subjugado em relação ao todo (essa afirmativa torna-

se observável numa concepção jusnaturalista, quando os indivíduos são vistos primeiramente como

membros de uma família, e posteriormente da sociedade enquanto evolução normal).

Velho (1999), percebe que nas modernas sociedades industriais individualistas, existem

possibilidades de alta conexão com grupos, como o valor atribuído à religião, ou carreira, a

participação em certas instituições, a família.

Portanto, a valorização dada a alguma característica não deve ser vista como algo

estanque. Como afirma Giddens (2005) os valores e as normas culturais mudam através do tempo e

o próprio conceito de cultura trata de aspectos da sociedade que são antes aprendidos do que

herdados. Existem exemplos, como as sociedades caçadoras e coletoras, oriundas de até 50.000

anos atrás, que tinham uma ênfase muito maior na cooperação do que no valor individual, ou o

exemplo grego ora citado que tende a apontar para uma sociedade que não vê no individuo uma

referencia maior do que na família ou na sociedade. Em alguma medida, portanto, o individualismo

não é uma das dimensões mais marcantes das primeiras sociedades humanas.

Neste contexto, torna-se possível pensar que o conjunto de valores dos indivíduos teve

uma mudança a ponto de trazer a tona características que provavelmente, inexistiam anteriormente.

26

Uma suposição que tornaria factível tal probabilidade, ainda segundo o autor, seria a dialética

inerente ao contato com os valores de outros indivíduos e da sociedade.

O fato de que, do nascimento até a morte estejamos em interação com outros

certamente condiciona nossas personalidades, os valores que sustentamos e o

comportamento em que nos engajamos (GIDDENS, 2005, p. 43)

Seria então possível a emergência do individualismo, desde que a orientação da

sociedade, tenha, em algum momento da história, propiciado.

Tocqueville (2000) percebe o surgimento do individualismo enquanto um movimento

novo do século XIX, e delimita sua distinção clara do egoísmo:

O individualismo é uma expressão recente que uma nova idéia faz surgir. Nossos

pais só conhecem o egoísmo. O egoísmo é um amor apaixonado e exagerado, que leva o homem a referir tudo a si mesmo e a se preferir a tudo mais.

(TOCQUEVILLE, 2000, p. 19).

Outra opinião acerca do surgimento do individualismo enquanto característica do

homem seria a percepção de Durkheim (1999), para quem o surgimento do individualismo é um

“fenômeno que não começa em lugar nenhum” (Durkheim, 1999, p. 154) sendo, assim, sempre

perceptível na humanidade.

Porém, novamente no caso de Tocqueville(2000) e Durkheim(1999), trata-se aqui, das

causas, não do efeito.

O isolamento do individuo pode ter emergido como causa, no séc. XIX e,

possibilidades de alguns indivíduos estarem se valorizando em detrimento da sociedade podem ser

percebidas desde tempos remotos, talvez desde que um ancestral preferiu fugir de um predador a

enfrentá-lo com seus companheiros de tribo. Nesse sentido, os dois autores poderão estar, em

alguma medida, corretos. Mas o que se trata no caso do surgimento do individualismo é o momento

em que o conjunto de valores da sociedade começa a fazer dos indivíduos (e não de organismos ou

instituições sociais), o local central de referência, mesmo que dentro da sociedade.

27

Boa parte das teorias não concorda com o período em que teria surgido tal faceta do

mundo contemporâneo. Segundo Dumont (1985), alguns autores acreditam que o individualismo

esteve presente sempre por toda parte, outros autores crêem no surgimento deste traço na

renascença ou com a burguesia em sua ascensão e outros ainda, dão por certa sua primeira

representação como oriunda das heranças clássicas e judaico-cristãs ou no surgimento, na Grécia

Antiga, do “discurso coerente”.

De acordo com a tese de Dumont (1985), algo do individualismo moderno está presente

nos primeiros cristãos e no mundo que os cerca. No desenvolvimento de sua argumentação, o autor

verá em Calvino e na reforma protestante a partir do século XVIII a culminância de uma série de

fatores que faziam os homens se realizarem fora do mundo enquanto indivíduo, levando o ser

humano, à partir de então, a unificar os campos de visão “indivíduo-fora-do-mundo” e “indivíduo-

no-mundo”, buscando assim a realização terrena das ações que comprovarão, para si mesmo, a idéia

de que fora um dos escolhidos para a glória eterna. Pode-se observar que a partir da conjunção

momentânea, seguir os preceitos religiosos na vida mundana é uma forma de se encontrar em união

com o caminho divino para a glória eterna em Deus.

Para se caracterizar melhor a idéia de indivíduo-fora-do-mundo, pode-se utilizar o

exemplo indiano: “o homem que busca a verdade última abandona a vida social e suas restrições

para consagrar-se ao seu progresso e destino próprios” (Dumont, 1985, p.37) e também conceitos

contratualistas que, apesar de surgirem algum tempo depois enquanto idéia, remetem a períodos

anteriores e abarcam traços que ajudam a clarificar o conceito: “A noção de estado de natureza, de

fato, aponta aquilo que seria a condição do homem fora da sociedade civil (

)” (Duso, 2005, p.

113). Quanto à explicação do indivíduo-no-mundo, basta-se observar que o mesmo vive em

sociedade e busca na mesma as formas de se realizar pessoalmente. Cabe aqui no entanto, uma

investigação mais profunda sobre o que gerou a possibilidade de um maior reforço na esfera do

individuo-no-mundo, ponto importante para a emergência do individualismo.

28

Weber (2001), percebe que o individuo se afirmou fortemente no mundo sob

influência da religião, mais especificamente sob a luz do protestantismo. Na contemporaneidade, no

entanto, parece lógico o fato de que a igreja é apenas um grupo (dos diversos) com quem as pessoas

mantêm relações, ou mesmo que, como define o autor, as pessoas imbuídas do espírito do

capitalismo tendem hoje a ser indiferentes, senão hostis a igreja, recorrendo a estas ou a quem

representam somente em momentos que julgam necessários.

Mas uma gama de evidências reforça que, até determinado ponto a humanidade esteve

como que atrelada a referências que tangenciavam o individuo, mas não efetivamente o eram. Até

mesmo em um período não muito distante daquele onde emergiu o protestantismo, o centro de

influencias humano não era principalmente o ser, mas organismos socialmente construídos, como a

igreja.

Para um tempo em que o além significava tudo quando a posição social de um cristão dependia de sua admissão à comunhão, os clérigos com seu mistério, a disciplina da igreja e a pregação, exerciam uma influência (que pode ser apreciada nas coleções Consilia, Casus Conscientiae, etc.) que nós, homens modernos somos totalmente incapazes de imaginar. (WEBER, 2001, p. 113).

Diante de tamanha influência, seria de relativa dificuldade a transição de um referencial

para outro, de um mundo baseado em “superstições” ou mesmo a religião, para um mundo onde o

individuo percebe nas pessoas particulares o principal sistema de valores. Ao analisar algumas

grandes seitas religiosas que influenciaram a concepção protestantista, no entanto, nota-se alguma

alteração no formato de certas referências subjetivas.

Nas seitas batistas, afirma Weber (2001), somente adultos que tivessem adquirido sua

própria fé poderiam tomar posse do seu dom da salvação através do batismo. Mas isso unicamente

ocorreria mediante revelação individual do espírito divino e viria somente diante da não resistência

do indivíduo a sua vida, com um apego pecaminoso ao mundo. Isso era traduzido com uma rígida

observância dos preceitos bíblicos e um repúdio absoluto à idolatria da carne. No limite, levou

mesmo a seita dos quakers a eliminação do batismo e da religião. Emerge nesta seita também a

idéia de consciência individual, e o papel da ação do individuo se torna tão relevante, que, “só a luz

29

interior da revelação contínua poderia capacitar alguém de fato até para as revelações bíblicas de

Deus” (Weber, 2001, p. 108). Este estado de perfeição, no entanto, não era uma regra, mas um

degrau que o individuo tinha que buscar obrigatoriamente, com a ajuda de sua consciência.

Torna-se evidente o papel central do indivíduo através de sua consciência individual.

Logicamente, também fica claro que a meta principal era o estado de graça religioso, que ilustra o

individuo fora do mundo, mas, “por outro lado, posto que os meios pelos quais era obtido diferiam

nas várias doutrinas, não poderia ser garantido por qualquer sacramento mágico, nem pelo alivio da

confissão ou pelas obras individuais” (Weber, 2001, p. 112). O autor ainda afirma que aos

seguidores do calvinismo surgiram duas questões principais para provar que eram predestinados a

graça de Deus: ou consideravam a si mesmos como escolhidos, combatendo qualquer dúvida e

tentação ou realizavam intensa atividade como recomendação para obter a auto confiança.

Até mesmo a perca da certeza de que era um predestinado, poderia se caracterizar sinal

de que o individuo não era um prometido ao reino dos céus. Em parte deve-se a isso o fato dos

protestantistas se deterem com tamanho vigor na sua prática. E uma das questões que torna mais

lúcida a transição do individuo para a vida mundana é exatamente a sua prática, ou ascetismo

religioso, que era paradoxalmente contra a vida mundana.

O calvinismo exigia de seus crentes não boas ações isoladas, como no caso dos

católicos, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado.

O Calvinista criava por si a própria salvação (ou sua convicção disso), através de atos positivos, constantes, sistemáticos, que o ajudavam a se livrar do medo da condenação. Mas esta salvação não poderia, como no catolicismo, consistir em um grande acúmulo de boas ações individuais para crédito pessoal, e sim num autocontrole sistemático que a qualquer momento se defrontaria com a alternativa inexorável escolhido ou condenado. (WEBER, 2001, p. 86)

Assim, como no calvinismo e outras seitas protestantes, para o metodismo, aquele que

não realizasse as obras não seria um verdadeiro crente e, para além dessa afirmativa, as obras do

30

individuo não eram a causa, mas o meio de se perceber seu estado de graça. Enquanto obras,

pode-se inclusive perceber o trabalho, que atrelado à idéia de vocação, elemento importante da

ideologia protestante, engajou ainda mais o ser humano na vida terrena.

De acordo com Weber (2001), Aliado a idéia de vocação, o trabalho veio a ser

considerado em si a própria finalidade da vida ordenada por Deus. Era condenável, no entanto, a

utilização da acumulação para a perda de tempo na vida social, em conversas ociosas, em luxos e

mesmo em dormir mais que o necessário. Sobrava então ao individuo trabalhar na sua vocação, para

a glória de Deus. Na ética quaker 9 , a vida do homem na sua vocação é um exercício da virtude

ascética e uma prova do seu estado de graça diretamente para sua consciência 10 . Na percepção

luterana,

o único modo de vida aceitável por Deus não era o superar a moralidade mundana pelo ascetismo monástico, mas unicamente, o cumprimento das obrigações impostas ao individuo pela posição no mundo. Esta era sua vocação. O cumprimento dos deveres mundanos é, em todas as circunstâncias, o único modo de vida aceitável por Deus. (WEBER, 2001, p. 65).

Na ideologia do luteranismo ainda de acordo com Weber (2001), a busca pelo individuo

da profissão correta era um mandamento divino até mesmo de caráter impositivo. Em se tratando do

pietismo, apesar do mesmo ter um elemento emocional, era ainda portador de certo racionalismo, e

seu ascetismo também fortalecia o trabalho. Diante disso, “o desenvolvimento metódico do estado

de graça para graus sempre mais altos de certeza e perfeição era um sinal de graça” (Weber, 2001,

p. 98) e a providencia divina trabalhava em função dos que estivessem no estado da perfeição, o

que, aliado à idéia de vocação, demonstrava que aqueles que tinham sucesso no trabalho, eram

eleitos e abençoados. Já no calvinismo, como define o autor,

9 Uma das diversas seitas protestantes definidas por Weber(2001), assim como o pietismo, o luteranismo, entre outras citadas neste texto.

10 Nessa medida, o trabalho do sujeito era a comprovação de seu estado de graça e sua subserviência a Deus para si mesmo.

31

o amor fraternal, uma vez que só poderia ser praticado pela glória de Deus e não a serviço da carne, é expresso em primeiro lugar no cumprimento das tarefas diárias, dadas pela Lex naturae; e no processo, esta obediência assume um caráter peculiarmente objetivo e impessoal, a serviço do interesse da organização racional do nosso meio social (WEBER, 2001, p. 82).

Portanto, apesar de ter como objetivo principal o reino dos céus, algumas características

das seitas protestantes trouxeram o ser humano a cada vez mais para o plano mundano.Weber

(2001), percebe ainda, que mesmo entre os círculos dos protestantes, existe uma tendência, com o

aumento do numero de ricos, ao aumento do orgulho, da cólera e da mundanidade. E esta afirmativa

denota um ponto central da característica do individualismo: o ser humano passou a ter limites

definidos sobremaneira por uma consciência individual.

Logicamente, em se tratando da vida terrena, fica nítida uma tentativa de relação

harmoniosa

na

sociedade,

não

se

trata

ainda

de

uma

desconexão

(que

como

foi

tratado

anteriormente pode ser um dos efeitos do individualismo). Segundo Velho (1999), por mais que

haja um projeto de decisão individual, este é permeado por regras e meios que são definidos pela

sociedade, que ainda realiza determinada pressão pela escolha. Isso torna-se perceptível por

exemplo, no fato de que apesar de contrários a todo tipo de cultura que não tivesse um valor

objetivo conectado à religião, de acordo com Weber (2001), os puritanos eram formais e favoráveis

ao ato de seguir a lei.

A influência exercida sobre as pessoas por parte da igreja e do estado, é ainda mais

relevante ao se analisar que as duas entidades tentaram por muito tempo se tornar o centro de

referencia para o individuo. Para Weber (2001), o próprio Calvino sempre deu prioridade e foco à

igreja em detrimento ao estado, propondo inclusive que a mesma estivesse em uma posição

superposta, ou seja, que fosse hierarquicamente superior. Mas diante das duas intenções, entre

igreja e estado, o indivíduo, é ressaltado: através da predestinação (inerente à sua teoria, segundo a

qual, os escolhidos irão para o céu) o indivíduo suplanta a igreja, não precisando da mesma para

atingir sua graça, mas sim, de sua predestinação à glória, provada pelos atos terrenos. Por esta via,

32

um estado enquanto referencia principal sob o qual todos estariam subjugados torna-se também

incoerente com o individualismo.

No entanto, pode-se dizer que, pela nova concepção das ações terrenas, como o trabalho

individual e a vocação, o individualismo se aproxima do ideal burguês.

Ainda nas comunidades pré-burguesas, a falta de interesse das classes proprietárias,

demonstrava que os mesmos, “antes de serem súditos numa monarquia ou cidadãos numa república,

eram essencialmente pessoas privadas” (Arendt, 1989, p. 168).

Os efeitos econômicos da ética protestante eram, também por este modo, antagônicos ao

protestantismo e manifestado o agudo entusiasmo inicial, puramente religioso, “as raízes religiosas

esvaem-se lentamente para dar lugar à mundanidade econômica” (Weber, 2001, p. 127).

O individuo torna-se o centro, em conexão com a manifestação burguesa, porém,

multifacetado, entre as realidades terrenas e celestiais. Deve-se ter certo cuidado, no entanto, em

relação às colocações feitas sobre as esferas mundana e divina, pois o plano fora-do-mundo perdeu

força sobre o individuo que, diante da nova realidade, entremeado em instituições, na vida terrena,

na sociedade e principalmente em si mesmo, tornou a vinculação da pessoa no espaço social ainda

mais complexa, contemplando também, a religião.

Uma das principais vinculações que agregam certa complexidade às relações sociais é o

que Weber (2001), percebe como surgimento de uma ética burguesa, a partir da qual, se o

empreendedor burguês, agisse corretamente e moralmente além de não utilizar sua riqueza para fins

questionáveis, poderia obter lucros se sentindo bem com o

fato. Esta mesma ética gerava

trabalhadores sóbrios, conscientes e ativos, que acreditavam que seu trabalho glorificaria a Deus.

Esta visão favoreceu também a acumulação capitalista, já que os trabalhadores que recebiam baixos

salários, mas que eram fiéis ao trabalho, agradavam a Deus. A ética burguesa poderia ser uma

tentativa de solucionar o tormento desencadeado pelas duas referências: o lucro e a religião.

33

Diante da dúvida sobre qual a referência deve ser a prioritária, independentemente, é

possível afirmar que o atrelamento entre individualismo (que eleva e prevê o homem no centro) e a

ética burguesa (que tenta conciliar Deus e a vida mundana) tende a um efeito de incoerência com

qualquer forma de organização social que tente ser tratada como referência principal: hora o

indivíduo é orientado pela esfera divina, hora pela esfera mundana. Mas quem deve decidir em qual

momento cada um pode ou deve ser levado em consideração é prioritariamente, o indivíduo.

Este movimento

contribui de

maneira marcante, portanto, para a emergência do

individualismo. Na contemporaneidade, é saliente que para além dessa constatação:

Excluído da participação na gerencia dos negócios públicos que envolvem todos os

cidadãos, o indivíduo perde tanto o seu lugar a que tem direito na sociedade quanto

a conexão natural com seus semelhantes (ARENDT, 1989, p. 170).

Novamente fica clara, pela percepção da autora, que a desconexão com a comunidade

pode ter ligações umbilicais com o individualismo. Em conseqüência da afirmativa, torna-se uma

tarefa menos complexa conceber uma revolução burguesa nos moldes da revolução francesa, que

trouxe a tona uma nova formatação social.

Como afirma Reis (2003), entre os séculos XIII e XVI emerge “um novo personagem”:

o homem burguês e urbano, movido pelas frentes religiosa e mundana ao mesmo tempo.

Por continuar fiel a Deus e ser conquistador deste mundo, o burguês possui objetivos diferentes e incompatíveis: o lucro e a salvação! Ainda cristão, ele deseja

a eternidade, a salvação; burguês, deseja os prazeres múltiplos deste mundo (REIS, 2003, p. 23).

Entre realidades, o burguês se encontra dividido. Não seria, no entanto, coerente afirmar

que a divisão da humanidade em partes tencionadas teve início, ou só aconteceu com os mesmos: “a

vida grega era fragmentada em pequenos todos, divididos e em guerra” (Reis, 2003, p. 16). Mas

certamente, com o atrelamento do burguês que surge e o individuo que se torna o cerne dos

apontamentos, tenha ocorrido uma agudição do processo.

34

Haveria, portanto, uma tendência de organizar as consciências estilhaçadas do que era

a identidade humana durante a emergência da burguesia e do indivíduo e as pessoas se apoiaram em

um fundamento ainda greco-romano: a razão. “A racionalização geralmente ocorre quando há a

fragmentação da consciência” (REIS, 2003, p.23).

2.2 Racionalismo e Individualismo: Entrelaçamentos

A cultura ocidental contemporânea, que tem alicerce na cultura greco-romana e sua

posterior expansão aliada ao cristianismo, como delimita Reis (2003), começa a demonstrar certas

incoerências com a nova fase histórica representada principalmente por sua visão do tempo e da

história a partir do final do século XVI. A dualidade em que o individuo estava imerso, gerava

tensões com a perspectiva anterior baseada no universalismo cristão da salvação.

A nova possibilidade religiosa,

baseada

no

protestantismo,

não

era diferente do

cristianismo somente devido a dogmas religiosos, mas sim por um formato de conduta, baseado em

racionalismo 11 , planejamento e sistematização. Para Weber (2001), o Deus dos calvinistas exigia de

seus crentes não boas ações isoladas, como no caso dos católicos, mas uma vida de boas ações

combinadas em um sistema unificado. O calvinismo se mostrou racional e baseado em fatos reais,

não somente dogmas ou crenças. Objetivava livrar o homem do poder dos impulsos irracionais e de

sua dependência do mundo e da natureza, colocando o seu agir sob constante e meticuloso

autocontrole. Para o autor, até mesmo o método para induzir o arrependimento para obtenção da

graça divina tornou-se objeto da atividade humana sistematizada.

11 Trata-se do racionalismo a partir da perspectiva de Kant (2003), que atribui a este, um meio de conhecimento dos objetos da realidade não por meio de dogmas pré-fabricados ou percepções sem crítica, mas sim em um empirismo calcado na necessidade de discernimento objetivo, que busque a universalidade efetiva da causa/efeito (causalidade).

35

Só era possível um tipo de comportamento: o racional. “Seguiu-se disso um incentivo

para que o individuo supervisionasse metodicamente seu estado de graça em sua própria conduta, e

nela introduzisse o ascetismo” (WEBER, 2001, p. 112). O que levou a um planejamento racional da

vida individual como um todo, de acordo com a vontade de Deus. Essa vida religiosa vivida então,

em meio ao mundo e suas instituições levou à racionalização da conduta no mundo, moldando-a

também à perspectiva laica.

Na modernidade houve inicialmente uma busca da afirmação racional e prática humana

(e este processo não pode ser afirmado como terminado). Neste espaço, a visão anterior, apoiada em

uma concepção de magia e religião, a vida humana não teria um respaldo suficientemente forte para

levar à realização da continuidade de expansionismo europeu ocidental, uma vez que, ainda

segundo Reis (2003), teve início a partir do século XVIII uma nova organização política, econômica

e social, onde o mundo material até mesmo desafiava a religião.

O homem moderno se engajava na procura da razão e do lucro, uma vez que, de acordo

com Reis (2003), a vida baseada apenas em fundamentos religiosos, levaria ao fracasso terreno.

Para o autor, estas constatações levariam ao derretimento da metafísica entre os séculos XIII e XVI.

Nesse período ocorreriam fraturas na identidade universal com o homem como que atado pelos

braços a forças opostas: as dicotomias razão-religião e lucro-salvação.

Segundo Reis (2003), pelas fraturas, havia um esforço de racionalização, já que os

sentimentos contraditórios tendem a ser organizados de forma racional para que assim ocorra de

certa forma uma legitimação de tão contraditória, e neste momento, fragmentada existência. Esse

processo de racionalização se laicizou, e as sociedades passaram a ser movimentadas também pelo

estado burocrático e pela empresa capitalista. Para Weber (2001), o processo de racionalização no

campo da organização econômica e técnica determina boa parte dos ideais de vida da sociedade

burguesa. Trabalhar a serviço de uma organização racional para suprir a humanidade de bens

36

materiais certamente representou para o espírito capitalista um dos mais importantes propósitos

da vida profissional.

É uma das características fundamentais de uma economia individualista capitalista, racionalizada com base no rigor do cálculo, dirigida com previsão e cautela para o sucesso econômico almejado e está em agudo contraste com a existência simples do camponês e com a do tradicionalismo privilegiado do artesão corporativista e do capitalismo aventureiro, orientado para a exploração das oportunidades políticas e da especulação irracional (WEBER, 2001, p. 62).

Através do modelo de estado burocrático e pela empresa capitalista, torna-se mais

factível que o individuo entre em contradição consigo e com os preceitos religiosos anteriores, se

aliando

ao

racionalismo

em uma

jornada eminente e,

dimensões: o racionalismo e o individualismo.

possivelmente,

reforçadora das duas

É perceptível a conexão entre individualismo e racionalismo através das dimensões

qualitativa e quantitativa: no aspecto qualitativo, relativo a um mesmo nível hierárquico, em que o

individualismo é uma noção contraditória de engajamento e não pertencimento do ser humano a

determinado grupo e onde busca sua diferenciação, o indivíduo encontraria na racionalidade uma

grande aliada para a sua diferenciação, já que ainda segundo Reis (2003), pelas fraturas, existe a

possibilidade de um esforço de racionalização, pois os sentimentos contraditórios tendem a ser

organizados de forma racional para que assim ocorra de certa forma uma legitimação.

Na dimensão quantitativa, que é vertical e definida pela possibilidade de ascensão para

níveis sociais mais valorativos, aceitar a desigualdade e privilegiar a hierarquia descreve em alguma

medida questões relativas às organizações capitalistas atuais, que podem conter diversos níveis

hierárquicos e uma competição ferrenha em mercado global, racional e coerente com um ideal de

liberdade.

37

As organizações capitalistas atuais podem ser vistas, inclusive, como reforçadoras de

alguns efeitos do individualismo, como a desconexão das pessoas de seus grupos anteriores, o

exacerbamento da competição.

Percebe-se assim, o

individuo

burguês e multifacetado, dividido

entre tensões e

tentando se recompor através de uma racionalidade fortemente arraigada nas novas relações sociais,

mas que fortalece o individualismo, o racionalismo e o capitalismo.

2.3 A Gênese do Capitalismo e Conexões com a Burguesia e o Individualismo

Antes de afirmar que o individualismo e o capitalismo estão conectados de alguma

forma, se faz importante um estudo sobre algumas perspectivas que podem ser utilizadas para tratar

das particularidades do capitalismo. Para Arrighi (1996), por exemplo, trata-se de um modelo de

estrutura que sobrepõe e depende de duas outras camadas 12 , e molda os mercados e as vidas do

mundo inteiro. Para este autor, que corrobora com a perspectiva de Braudel (1982), o capitalismo, é

uma classe antimercadológica, composta por grandes predadores, e onde vale a lei da selva.

Percebe-se o capitalismo como uma dimensão acima da economia de mercado, à qual esta está

sujeita, recebendo os contornos pelos quais tratará de funcionar.

De acordo com Arrighi (1996), devido a esta característica, é condição fundamental

para a existência e funcionamento do sistema que o mesmo esteja intrinsecamente conectado ao

estado e este é o aspecto mais importante de uma série de etapas e transformações que levou o

podercapitalista de uma forma dispersa para uma formatação concentrada, que tem a capacidade

de exercer forte influencia na vida das pessoas. De acordo com o autor, aconteceram quatro etapas

12 As duas camadas iniciais, tratadas primeiramente por Braudel (1982) se compõem de uma economia extremamente elementar e auto-suficiente, tratada como “vida material”, seguida da segunda parte, chamada de economia de mercado, onde através das diversas comunicações entre os diferentes comércios, acontece a regulação pela oferta e procura. Nesse sentido, o capitalismo depende, mas está acima destas duas camadas.

38

ou ciclos principais de acumulação: o genovês, o holandês, o britânico e por fim o norte-

americano, mas todos decorreram do atrelamento do estado e da acumulação financeira derivada de

variáveis específicas do momento vivido em cada uma dessas etapas.

O que impulsionou a prodigiosa expansão da economia mundial capitalista dos últimos 500 anos, em outras palavras, não foi a concorrência entre Estados como tal, mas essa concorrência aliada a uma concentração cada vez maior do poder capitalista no sistema mundial como um todo (ARRIGHI, 1996, p. 13).

Tanto Arrighi (1996) quanto Dobb (1988) acreditam em um profundo enlace (e até

mesmo certa dependência) entre o sistema capitalista e o estado.

ultrapassam em muito este ponto principal.

Mas suas convergências não

Para Dobb (1988), existem diversos autores que tentam delimitar o capitalismo, através

de diversos matizes. Uma primeira abordagem seria aquela em que se observa o sistema enquanto

uma totalidade de características representadas pelo

espíritoque tem inspirado a vida de

determinada época. Por esta via, em diversos momentos da história se observaria um conjunto de

atitudes econômicas diferentes, e um espíritoespecífico 13 criou a atitude e o sistema econômico

em questão. Concordariam com esta linha: Sombart (1928) 14 e Weber (2001), entre outros.

A segunda possibilidade tratada pelo autor, referente às abordagens que tentam definir o

capitalismo,

é aquela em que se contrapõem o regime da antiga guilda artesanal, onde o artesão

vendia seus produtos a varejo no mercado da cidade e uma organização da produção para mercados

distantes, donde já se encontram presentes atacadistas e a perseguição a um lucro presumivelmente

irrestrito. Assim, o capitalismo estaria presente já quando os atos de produção e venda a varejo se

separam em tempo e espaço pela intervenção de um grande negociante que adiantava dinheiro no

13 De acordo com o autor “tal espírito é uma síntese do espírito de empreendimento ou aventura entremisturado com o „espírito burguês‟ de prudência e racionalidade”(Dobb, 1988, p. 6).

14 SOMBART. Der Moderne Kapitalismus. 1928.

39

intuito de obter lucro. Alguns partidários desta abordagem para o autor seriam: Schmoller

(1929) 15 e Pirene (1914) 16 .

Porém, quanto a estas duas primeiras linhas de análise sobre o capitalismo, existe uma

séria crítica:

Tanto a concepção (

como sendo primariamente um sistema comercial compartilham o defeito, em comum com as concepções que focalizam a atenção no fato de uma inversão lucrativa de dinheiro, de serem insuficientemente restritivas para confinar o termo a qualquer época da História, e de parecerem levar inexoravelmente à conclusão de que quase todos os períodos da História foram capitalistas, pelo menos em certo grau (DOBB, 1988, p.8).

do espírito capitalista quanto uma concepção de capitalismo

)

A terceira linha, à qual se integra o próprio autor citado, fugiria dessa possibilidade

problemática (mesmo que, paradoxalmente, o autor perceba que os sistemas não se encontrem em

sua forma pura em nenhum momento da história). Esta corrente defende “um sistema sob o qual a

própria força de trabalho „se tornara uma mercadoria‟ e era comprada e vendida no mercado como

qualquer outro objeto de troca” (DOBB, 1988, p.7).

No desenvolvimento de sua argumentação, se percebe o feudalismo enquanto sistema de

produção e antecessor do capitalismo, sendo que, este emerge depois de uma série de movimentos

onde personagens como os senhores feudais, servos e reis transitam pelas cidades em crescimento

ou mesmo em territórios feudais, numa luta que culmina no declínio do feudalismo. É definida

também, e decorrente deste movimento, a formatação onde o Estado finalmente se conecta

fortemente aos grandes proprietários de capital 17 .

Obviamente, para alcançar esta situação, questões diversas aconteceram, e a própria

composição que levou ao fim ou declínio do feudalismo dependeu de um longo e demorado

crescimento do mercado, entre outros pontos. O assunto torna-se de tal forma complexo que Dobb

15 SCHMOLLER. Principes d’Économie Politique. Passim. In: Economica: 1929.

16 PIRENE. American Historical Review. 1914.

17 Ocorre atrelada a esta dinâmica e também em decorrência da mesma, a expansão do mercantilismo e o início da burguesia, o surgimento do capital industrial e os problemas oriundos da acumulação de capital, as exportações e o comercio colonial do século XIX, além do crescimento do proletariado.

40

(1988), delimita a existência de evidencias de que o crescimento da economia monetária levou

tanto ao declínio quanto ao aumento da servidão e também do feudalismo em determinados

momentos.

Independentemente, para o autor, tanto o crescimento do mercado quanto a alteração do

modelo de produção de servo para trabalhador assalariado exerceram grande influencia para a

transição ao capitalismo. E sua conclusão com relação a isso é que “ineficiência do feudalismo

como sistema de produção, conjugada às necessidades crescentes de renda por parte da classe

dominante, foi fundamentalmente responsável por seu declínio (

)”

(DOBB, 1988, p.32) já que o

tempo dedicado pelo servo ao senhor feudal e a renda deste tinham ligação diretamente positiva, ao

passo que o tempo dedicado pelo servo à cultura de terra para a própria subsistência e a renda do

senhor feudal tinham uma ligação diretamente negativa. Ou seja, quanto mais era exigido do servo,

menos condição este teria para sua própria subsistência. E isso teria chegado a um limite.

Ainda agregava pressão à relação o fato do servo, em diversos locais, ter por obrigação

se manter na terra do senhor feudal (mas que, diante de tamanha pressão por produção levou a uma

deserção em massa dos feudos para as cidades em diversas regiões). Segundo Dobb (1988), os

fatores que devem ter exercido maior relevância na formatação da produção foram a abundância ou

escassez, o preço alto ou baixo da mão de obra.

A influência exercida pela formatação descrita contribuiu tanto para a constituição das

cidades, devido à deserção dos servos, quanto para a formação da burguesia. Mas, mesmo no

interior das cidades e com certo contato com os burgueses, resquícios do feudo poderiam ser

percebidos, através de membros da aristocracia, donos de terra na cidade e em seu contorno. Este

fator é assas importante para a constatação delimitada por Dobb (1988): existiam camadas

hierárquicas no interior das cidades. E o poder político se encontrava, em grande parte dos casos,

conectado à classe mais alta, definindo as relações de troca de mercado, como preços e monopólios.

41

As associações de burgueses ou artesãos também exerciam este tipo de poder, no

intuito de limitar a concorrência entre os próprios associados, o que demonstraria uma nítida relação

com o coletivismo horizontal e seu espírito de cooperação tratado em Gouveia (2003), mas essas

associações logo começaram a pender sempre para uma parcela mais influente. Os dois casos,

entretanto (das associações comerciais e da aristocracia), demonstram a existência de uma minoria

dominante, que, posteriormente, conseguiu limitar os ganhos da grande maioria da população.

Para Dobb (1988), a partir da segunda metade do século XVI, os salários reais mostram

uma queda catastrófica e acontece uma inflação dos lucros, devido à existência de uma nova

burguesia mercantil, caracterizada pelo ganho através da redução dos salários dos trabalhadores e

seu enraizamento profundo 18 com a sociedade feudal/aristocrática.

Se antes seria

mais complexo

observar traços do

individualismo, a partir desse

momento, é perceptível a composição de orientação ao êxito ou crescimento hierárquico vertical,

característica marcante do individualismo vertical de acordo com Gouveia (2003). Também fica

clara a noção de “autoconsciência de pessoas, que foram obrigadas a adotar um grau elevadíssimo

de refreamento, controle afetivo, renuncia e transformação dos instintos” (ELIAS, 1994, p. 32) uma

vez que a classe do novo burguês mercador:

Floresceu como intermediário, cujo sucesso dependia de sua habilidade insinuante,

de sua facilidade de adaptação e dos favores políticos que conseguisse(

novos homens tinham que ser agradáveis e astuciosos: tinham de temperar extorsão com bajulação, combinar avareza com lisonja, e encobrir a dureza do usurário com as vestes do cavalheiro. (DOBB, 1988, p. 87)

Esses

).

A aliança gerou

resultados muito

importantes para os burgueses

mercantis,

que

obtiveram controles monopolistas do comércio local e posteriormente de exportações. Além disso, a

união retratada reflete-se na acumulação de capital juntamente com diversas outras questões, (como

lucros inesperados, arrendamentos elevados e ganhos da usura) necessárias a alguns movimentos

18 Fato conquistado através de aquisição de terras, sociedades com a aristocracia, recebimento dos membros e filhos da pequena nobreza em suas associações, matrimônios, aquisições de títulos, coalizões políticas e aceite de cargos ministeriais ou na corte.

42

econômicos posteriores 19 , como o próprio amadurecimento do capitalismo e sua constituição

como política de Estado, e não mais de cidades isoladas. Percebe-se, todavia, que questões como o

monopólio (que limitam investimentos) e a redução de valores salariais (que limitam a quantidade

de pessoas interessadas no trabalho e o próprio tamanho do mercado) são condições contrárias ao

capitalismo. Como seria possível o florescimento de uma revolução industrial, diante dessas

condicionantes ao seu desenvolvimento?

Para Dobb (1988) a resposta repousa no fato de que estas movimentações contribuíram

para a criação do proletariado, e da acumulação de capital para investimento: o acúmulo gerado se

revertia também em terras, estas “digeriam” os pequenos loteamentos que geravam as condições de

subsistência

dos

servos

ou

de

uma

classe

de

pequenos

proprietários.

Outros

fatores

que

contribuíram para a criação da classe dos proletários foram o crescimento da população, a dívida e o

próprio monopólio (que fixava valores dos produtos ou outras condições, que beneficiavam os

grandes

burgueses),

mesmo

em

locais

de

terra

livre.

desempossados. No limite, pode-se afirmar que

Nascia

um

enorme

contingente

de

) (

pela estreiteza do mercado e sua expansão ameaçada pela baixa produtividade imposta pelos métodos de produção do período, sendo estes obstáculos reforçados de quando em vez pela escassez de trabalho. Na revolução industrial, essas barreiras foram simultaneamente banidas e, em vez disso, a acumulação e o investimento do capital se viram, a cada ponto do quadrante econômico, diante de horizontes cada vez mais amplos para incitá-los (DOBB, 1988, p. 184)

nos séculos anteriores, o crescimento da indústria capitalista foi dificultado

Para Dobb (1988), o conjunto de fatores que culminou na Revolução Industrial, deixou

diversas marcas na sociedade e nos indivíduos:

19 Mas é importante que se perceba o monopólio excessivo como um empecilho ao próprio capitalismo, que também se alimenta, no ponto de vista do autor, do livre comércio. Assim, o capitalismo estava ao mesmo tempo em franca evolução e limitado pela sua forma até o inicio do século XVII, onde existem os primeiros indícios de uma mudança.

43

) (

estrutura da indústria e das relações sociais, ao volume de produção e à extensão e

de

transformar radicalmente as idéias do homem sobre a sociedade de uma concepção mais ou menos estática de um mundo onde, de uma geração para outra, os homens estavam fadados a permanecer na posição que lhes fora conferida ao nascer, e onde o rompimento com a tradição era contrária à natureza, para uma concepção do progresso como lei da vida e do aperfeiçoamento constante como estado normal de qualquer sociedade sadia (DOBB, 1988, p. 184).

variedade do comércio, mostrou-se inteiramente anormal (

no século XIX o ritmo da modificação econômica, no que diz respeito à

)

a

ponto

Concepções estreitamente conectadas ao individualismo. Percebe-se também como

conectada às esferas do individualismo a enorme expansão da divisão do trabalho, demonstrada

também em Smith (1996) e Durkheim (1999), além da necessidade de conformação do indivíduo à

velocidade das máquinas, “uma mudança técnica de equilíbrio

que teve seu reflexo sócio-

econômico na crescente dependência do trabalho em relação ao capital e no papel cada vez maior

desempenhado pelo capitalista como força disciplinadora e coatora do produtor humano em suas

operações detalhadas(DOBB, 1988, p. 186).

Se percebe assim, uma estreita relação entre individualismo ao capitalismo, onde cinco

fatores principais se destacaram: a sujeição da pessoa a um novo formato de indivíduo: o

trabalhador operário; a possibilidade de ascensão social; a possibilidade de diferenciação dentro de

uma mesma escala; a divisão do trabalho e a questão da mobilidade. Então:

a divisão do trabalho e a questão da mobilidade. Então: Com relação à emersão do trabalhador

Com relação à emersão do trabalhador operário, é importante não subestimar este

efeito: exige do indivíduo uma atenção especial sobre suas necessidades particulares, sobre o com o

faz, o como se adaptar. Um novo tipo de conhecimento sobre objetivos que não do sujeito, mas sim

da produção. Também uma nova relação de poder. Exige do indivíduo um novo olhar e sobre si e

acima disso, uma nova forma de ação, uma nova subjetivação baseada em um continuum

constitutivo que se volta para si e seu autocontrole. É uma nova ética introjetada, voltada para a

adaptação do ser em um profundo nível. Demonstra claras ligações com a perspectiva de Elias

(1994), que acredita em um processo onde a evolução da autoconsciência das pessoas culminou no

individualismo.

44

44 Enquanto se trata de ascensão ou crescimento social, pode-se analisar como relacionadas a um ideário

Enquanto se trata de ascensão ou crescimento social, pode-se analisar como

relacionadas a um ideário de “progresso como lei da vida e do aperfeiçoamento constante como

estado normal de qualquer sociedade sadia” (DOBB, 1988, p. 184) nesta medida, o indivíduo não

somente deve poder crescer, o crescimento é o ideal quimérico buscado pelos que estão envolvidos

na sociedade pelo capitalismo. Há aqui a conexão direta com o individualismo quantitativo, tratado

por Triands (1995) como vertical e por Velho (1999) como um individualismo voltado para a

ascensão;

A possibilidade de diferenciação gera ligaduras por meio das diversas profissões que(1999) como um individualismo voltado para a ascensão; perpassadas pelo ideal de trabalhador padronizado, são

perpassadas

pelo

ideal

de

trabalhador

padronizado,

são

meios

de

tornarem

os

indivíduos

qualitativamente diferentes, se tornarem específicos, únicos. A pergunta que o trabalhador faz,

parece sempre dizer respeito a qual profissão deve seguir. Encontra-se imanente a idéia de trabalhar,

mas existem profissões de melhor ou pior conceito, mesmo diante de recompensas iguais. São

tratadas por Triands (1995) e Velho (1999) respectivamente como individualismo horizontal e

prestígio.

respectivamente como individualismo horizontal e prestígio. A divisão do trabalho se torna relevante à medida que

A divisão do trabalho se torna relevante à medida que demanda do indivíduo

velocidade certa para acompanhar as máquinas e um tipo de ação peculiar para corresponder às

necessidades daquele trabalho específico. Leva o indivíduo a uma fragmentação ainda maior de sua

interioridade, agora alienada, pois se antes, enquanto artesão ou servo tinha uma noção de todo em

relação ao processo de produção, conhecendo etapas e resultados finais, agora não conhece o

porquê de suas ações, estando subordinado a necessidades que esvaziam seu próprio devir;

subordinado a necessidades que esvaziam seu próprio devir; Com relação à última característica, retratada pela

Com relação à última característica, retratada pela necessidade de mobilidade do

indivíduo, que se torna traço fundamental ao capitalismo, seu papel é extremamente relevante na

desconexão e fragmentação do indivíduo, antes conectado a terra e tradição, mas agora obrigado a

se

mover

para

acompanhar

a

dinâmica

do

capital.

Por

esta

via

se

percebe

novamente

o

multifacetamento do indivíduo, entre ideais burgueses e capitalistas, tradicionais e racionais;

45

A

questão

da

localidade

do

trabalhador

se

tornou

extremamente

relevante

e

sumamente importante a sua mobilidade. “A mercadoria „força de trabalho‟ não tinha apenas que

existir, precisava mostrar-se disponível em quantidades adequadas nos lugares onde mais fosse

necessária(

)”

( DOBB, 1988, p.196). Para este autor, existem exemplos como o da Rússia, Prússia

e Alemanha, onde, por determinada restrição à mobilidade do capital, a produção da indústria fabril

se manteve reprimida.

Na Inglaterra, país berço da Revolução Industrial, chegou-se a revogar leis que

favoreciam o assentamento das pessoas em áreas rurais, demonstrando ainda mais a proximidade

entre o Estado e o capital e a necessidade de mobilidade, que contribuía para o individualismo pela

via da desconexão dos sujeitos com os grupos.

Paradoxalmente, no entanto, a Revolução Industrial e o capitalismo se conectam

também com o coletivismo horizontal, na medida em que à partir do século XIX fez com que a

classe trabalhadora começasse a ter um caráter homogêneo de proletariado, onde

contempla-se uma baixa liberdade, porém alta igualdade, explicando o motivo de um eu interdependente e compartilhado com os demais membros da sociedade. Assim, as pessoas se vêem como sendo similares às outras, enfatizam objetivos comuns com os outros, mas, todavia, não são submetidas facilmente à autoridade (GOUVEIA, 2003, p. 225).

Dessa forma, não seria uma coincidência tão grande perceber movimentos como o

ludismo 20 , sindicalismo e o cooperativismo tão logo a revolução chega ao ápice, ou até mesmo

pouco antes. Como define Foucault (1988), as relações de poder são intencionais, mas pelas

mesmas linhas de força que perpassa o poder, caminha a resistência. Os trabalhadores teriam

características comuns, o que os agregava, ao mesmo tempo em que não se submeteram com

tamanha

facilidade

à

autoridade.

Dessa

forma,

realizaram

lutas

e

criaram

reivindicações,

demonstrando-se como uma faceta também relevante para o processo, e principalmente, tornaram

20 Compreendido como o movimento que levou a quebra de máquinas uma vez que estas levavam a substituição de trabalhadores.

46

claro que tinham seu ponto de vista para ser colocado. Para tal, se aproveitaram da mesma arma

utilizada para sua sujeição: seu trabalho, fragmentado, dividido e subordinado. Mas sem eles,

grande parte do trabalho não aconteceria. Assim, o coletivo também tem voz no campo capitalista.

Entretanto, não se deve exasperar as considerações sobre o coletivismo nessa esfera.

Como define Singer (2008a) o capitalismo é um modo de produção que subordina subsistemas

legais e institucionais e as ligaduras do individualismo com o capitalismo prevêem conexões em

maior quantidade de dimensões, e todas podem ser vistas como incoerentes com o coletivismo: a

emersão do trabalhador operário gera sujeitos cada vez mais voltados para si; a possibilidade de

ascensão social divide o grupo em castas hierarquizadas, o que reduz a noção de igualdade; a

possibilidade de diferenciação dentro de uma mesma escala também fragmenta o grupo de acordo

com suas nomenclaturas de cargos, demonstrando nitidamente quem é diferente de quem; a divisão

do trabalho fragmenta o próprio cargo, alienando o individuo do todo; e a necessidade de

mobilidade do individuo, retira o sujeito das comunidades de onde estira subscrito, desconectando-o

de valores e crenças construídas socialmente.

Todos os pontos parecem contribuir sobremaneira para o individualismo, mas três dos

cinco destacados tem algo em comum: sugerem uma quebra de vínculos, uma desconexão do

espaço grupal ao qual estivera subscrito. Inclusive, em diversos momentos da investigação sobre o

individualismo, encontra-se,a questão da fragmentação e desvinculação dos indivíduos com grupos,

que sugere mesmo uma outra questão: de que grupos/locais as pessoas estão sendo desconectadas?

Todavia, mais importante do que responder a essa questão é buscar o limite e condições

de interferência dessas duas esferas (a fragmentação e a desconexão individual do local). Emerge de

tal demanda, a necessidade de uma investigação mais aprofundada, que leve em consideração

também aspectos que foram reflexos capitalismo, sobre um prisma ampliado na sociedade.

47

3 A FRAGMENTAÇÃO ESPAÇO/TEMPORAL DA REFERÊNCIA AO LOCAL

Alguns pontos da fragmentação social parecem ser reforçados devido à burocracia e a

perspectiva capitalista de acumulação, mas talvez nenhum seja tão perceptível quanto a existência

da elite e, utilizando o termo de Arendt, (1989) da ralé.

Segundo a autora, a classe dos extremamente pobres é um subproduto da sociedade

burguesa, mas sequer têm conexão com a mesma e, ainda segundo a autora, se a ralé não tem

conexão com a sociedade da qual teve origem, os donos de capital excedente confirmam que são

alienados do corpo social desde quando, durante o período anterior ao imperialismo, investem em

terras fora das fronteiras da sua nação, fato incoerente em relação à perspectiva mercantilista. Os

donos do capital supérfluo foram os primeiros a desejar lucros sem exercer qualquer função social

verdadeira no espaço das fronteiras da comunidade onde estavam subscritos.

É importante notar que o individualismo é coerente com o capitalismo, pois pode prever

a liberdade individual de escolhas, sob determinado conjunto de valores. No entanto, a avareza o

libera de regras, define o individuo acumulando riqueza em detrimento de tudo e todos e

independentemente, resulta em um utilitarismo 21 que para Weber (2001), estaria longe do espírito

capitalista, que prega a acumulação de capital, mas pela via da coerência e legalidade. Para este

autor, este utilitarismo é repreensível, mas, inevitável.

Se antes as pessoas com dinheiro disponível para investir tinham apenas o interesse em

extrair o produto excedente, para Bauman (1999), na contemporaneidade, mais do que desconexão

com os valores da sociedade, aqueles não se prendem de maneira alguma inclusive no espaço.

A terra, enquanto local de investimento em seus primórdios era ainda que ligeiramente

aprisionador do investimento em uma perspectiva de longo prazo, uma vez que o solo podia

21 O utilitarismo é compreendido neste trabalho com a definição que Bentham (1787) trabalha em sua teoria panoptista:

deve haver uma utilidade servil para tudo e todos. Neste sentido, só deve existir o que é útil e a utilidade das coisas e pessoas deve ser levada ao seu extremo, em detrimento que qualquer outro valor.

48

diminuir sua produção se fosse explorado sem a devida responsabilidade. Existia ainda, a

impossibilidade de a propriedade fundiária ser trocada.

Para o autor, estes fatores geravam limites para a desvinculação com os grupos e mais

ainda, levavam ao encontro com a alteridade, com o diferente. Contraditoriamente, o que está em

vigor atualmente é “uma desconexão do poder face a obrigações (

),

em suma, liberdade face ao

dever de contribuir para a vida cotidiana, e a perpetuação da comunidade(BAUMAN, 1999, p.16).

Portanto, a classe citada não têm conexões com qualquer que seja a “coisa” ali existente, a não ser

pela via do utilitarismo, do que lhes é útil, preferencialmente capital e poder.

Em continuidade com o seu raciocínio, o autor percebe que em todas as épocas, os ricos

sempre tenderam a criar uma cultura própria de desprezo às fronteiras que confinam as classes

inferiores. E isso pode ser atribuído também a sua ausência na comunidade local: os mesmos não

têm um entrelaçamento suficiente para ter conhecimento e proximidade. Ou talvez simplesmente,

não queiram ter.

Em alguma medida, a melhor maneira de descrever a discrepância das elites com a

localidade

em que

se encontram não

é pensar na

sua

não

inserção

naquela totalidade de

características. Ou ainda, na sua hibridação com valores externos, devido ao seu desprendimento

com o espaço físico do local.

A possibilidade de locomoção e acesso a outros valores teria um grande ícone a seu

favor: a tecnologia. Por esta via, a hibridação de valores pode ainda ser agravada, pois, enquanto

portadores de características estrangeiras pode-se pensar não apenas em elites, mas, na perspectiva

representada pela mobilidade, os valores locais têm encontrado em uma grande massa de indivíduos

moldados pelas relações com outros ambientes, um ativo instrumento para o desgaste de sua

comunidade.

Foi antes de mais nada a disponibilidade de meios de viagem rápidos que desencadeou o processo tipicamente moderno de erosão e solapamento das „totalidades‟ sociais e culturais localmente arraigadas (BAUMAN, 1999, p. 21)

49

Na contemporaneidade, no entanto, não se trata mais de pensar somente em conduções

por meio de viagens físicas. Navegações, sítios, endereços e correios eletrônicos, são vocábulos que

mostram que, intrínsecas às técnicas de condução, se manifestam também a difusão e acesso à

informação e um grande ícone, o computador.

Como esclarece Steven (2001), agora conectados à internet, os computadores são mais

representativos de um ambiente do que de uma máquina. Outros valores tornam-se mais acessíveis,

mesmo que dissonantes dos da comunidade local. Podendo-se estar em diversas plataformas em um

curtíssimo período de tempo, as pessoas podem, a cada momento, se tornar mais desconexos do

espaço e principalmente, do tempo local.

Outro fator que demonstra a capacidade de fragmentação do indivíduo representada

pelo computador é o que Chartier (2002), considera como a capacidade dos dispositivos formais, de

inscreverem em suas estruturas as expectativas e as competências do público que pretendem

alcançar ou ainda, de produzir uma área social de recepção. Em um espaço onde a acessibilidade é

cada vez mais alta, o individuo pode se cercar efetivamente daquilo que considera importante para

si, sem a necessidade de se sujeitar a aquilo que não lhe interessa. O individuo é a cada momento

mais cercado de si mesmo, suas idéias, aquilo no que acredita e no que acredita ser importante.

Torna-se mais embasado em sua realidade.

As alterações oriundas da tecnologia, porém, devem ser ponderadas. Não podem ser

consideradas enquanto ocupantes da realidade para todos os seres humanos, pois, como define

Bauman

(1999)

o

resultado

que

se

obtém

com

a

anulação

tecnológica

das

distâncias

temporais/espaciais é a polarização da condição humana: alguns conquistam a liberdade frente às

restrições territoriais e outros são confinados ao seu significado e da sua capacidade de doar

identidade.

50

No momento atual, os detentores do poder podem ser vistos como extraterritoriais e

ainda mais capazes de alterações no territorialmente definido. As elites escolheram o isolamento e

impediram os outros seres humanos de acesso ao que lhes interessa e são capazes de defender com

o seu poder (e com o seu poder carregaram também os espaços normatizadores, ou seja, os locais de

onde se pode influenciar nas decisões). Isso gera o que Bauman (1999) chama de guerra pelo

espaço, a partir do momento em que existem as resistências a esta movimentação.

O território urbano torna-se o campo de batalha de contínua guerra espacial, que às vezes irrompe no espetáculo público de motins internos, escaramuças rituais com a polícia, ocasionais tropelias de torcidas de futebol, mas travadas diariamente logo abaixo da superfície de versão oficial da pública (publicada) da ordem urbana rotineira. (BAUMAN, 1999, p. 29)

Tem-se, portanto, nas comunidades, uma aproximação de um estado de oposição, não

em uma continuidade que preencha todo o tempo do indivíduo, mas que em alguns momentos

emerge como que não sendo mais suportado no interior das intrincadas relações que formam a

sociedade. Surge nesse ínterim, novamente a incoerência entre o individualismo e o espaço

comunitário, em uma possibilidade que não abrange a totalidade do tempo cotidiano, mas que, em

alguns momentos se torna nítido.

Aliado ao racionalismo, o individualismo tende a origem de ações baseadas no que é

útil à intenção do individuo: em alguns momentos é interessante ir a favor do grupo, em outros,

contra. Através desta perspectiva, denota uma fragmentação não somente espacial, mas também

temporal do sujeito ao local.

Mas qual seria esse local? É importante, inicialmente, destacar que existem diversas

referencias, posto que diversos locais servem de matiz.

Para responder se os organismos sociais seriam incapazes de criar artifícios que

abrandariam a desconexão entre individuo e grupo, deve-se antes, pensar na possibilidade de

51

diferentes

locais.

Aqui,

tentar-se-á

analisar

dois

principais:

as

pequenas

comunidades,

inicialmente agrupadoras de individuos e sua posterior transição para o estado capitalista.

3.1 O Atrelamento do Estado à Fragmentação Social Através da Disciplina

As relações sociais, ao definirem possibilidades positivamente, determinam também

condutas que não devem ser executadas pelas pessoas. É factível esta percepção a partir da notória

influência das valorações socialmente atribuídas nas decisões individuais.

Para Elias (1994), em um tempo onde as pessoas estiveram ligadas umas às outras pelas

pequenas comunidades, a criação de valores seria subordinada a uma vida no cotidiano grupal, com

uma grande carga levada para as decisões da comunidade e pouco espaço para o individuo.

Porém,

sem

as

conexões específicas

dos grupos anteriores,

o

controle

exercido

prioritariamente pelas comunidades (assim como grande parte de todo o sistema de relações sociais)

passa a ser em grande medida uma composição individual.

É possível que, quanto menos conectadas ao espaço e tempo de um sistema de relações

específico, menos sejam planificadas e homogêneas as ações particulares.

As pessoas passam a ser menos coesas com os grupos anteriores e aqui entra o papel do

estado, substituindo práticas locais pelas suas normatizações, tentando tornar-se o “único ponto de

referencia universalmente impositivo para todas as medidas e divisões do espaço” (Bauman, 1999

p. 36) o que culminou em uma subordinação funcional de todas as soluções arquitetônicas às

necessidades da cidade e sua separação de partes por função ou por qualidade de seus habitantes.

Isso, além de tornar ainda mais singularizado o cidadão urbano, contribuiu sobremaneira para a

continuidade do rompimento de seus laços com o espaço.

52

Elias (1994) percebe que na medida em que a transferência de funções relativas à

proteção e controle do indivíduo vão sendo transferidas de pequenos grupos (como guildas, tribos,

paróquias, feudos e pequenos Estados) para Estados altamente centralizados e urbanizados, as

pessoas adultas quebram laços com grupos locais próximos, baseados na consangüinidade, e há o

rompimento da coesão de grupos.

Ainda de acordo com Elias (1994), os indivíduos eram controlados pela presença

constante dos outros, o saber-se ligado a eles pelo resto da vida e o medo direto. Assim, para o

autor, os sujeitos se vêem a cada vez mais autônomos quanto às decisões antes envolvidas durante a

vida inteira pelas comunidades locais. Nesse sentido, ampliam-se consideravelmente as opções, que

impelem

a

uma

particularização

crescente.

E

esta

alteração

levaria

também

a

uma

maior

diversificação dos comportamentos humanos, agora menos controlados pelos pequenos grupos.

No entanto, a análise realizada por este autor é contrabalanceada por Foucault (1979).

Este não acredita que uma “ausência” de controle impeliu a uma individualização (que por sua vez

seria contrária aos mecanismos do poder), mas sim, que estes mecanismos do controle disciplinar

têm sua força máxima na particularização 22 , nos corpos e suas relações, através de uma subjetivação

específica.

Os

mecanismos

individualização.

da

disciplina

estatais

demandam,

reforçam

e

utilizam-se

da

Ou seja, o indivíduo não é o outro do poder: é um de seus primeiros efeitos. O indivíduo é um efeito do poder e simultaneamente, ou pelo próprio fato de ser um efeito, é seu centro de transmissão, o poder passa através do indivíduo que ele constitui (FOUCAULT, 1979, p. 183).

Percebe-se a relevância extremada dada ao indivíduo e o Estado precisou muito dos

mesmos na sua intenção de governamentalidade das populações. Suas táticas se cristalizam nas

idéias de justiça, administração e governabilidade.

22 Nas palavras do autor: “as disciplinas funcionam cada vez mais como técnicas que fabricam indivíduos úteis” (FOUCAULT, 1977, p. 185).

53

Em primeiro lugar o Estado de justiça, nascido em uma territorialidade de tipo feudal e que corresponderia grosso modo a uma sociedade da lei; em segundo lugar, o Estado administrativo, nascido em uma territorialidade de tipo fronteiriço nos séculos XV XVI e que corresponderia a uma sociedade de regulamento e disciplina; finalmente, um Estado de governo que não é mais essencialmente definido por sua territorialidade, pela superfície ocupada, mas pela massa da população, com seu volume, sua densidade, e em que o território que ela ocupa é apenas um componente. Este Estado de governo que tem essencialmente como alvo a população e utiliza a instrumentalização do saber econômico, corresponderia a uma sociedade controlada pelos dispositivos de segurança (FOUCAULT, 1979, p.

292).

É importante

destacar

que

os

pontos

fundamentais

destas

três

estratégias

da

governamentalidade são individualizantes. O Estado: de justiça pela analise e observação de cada

pessoa diante da lei, que pode resultar em punição, mas individual; o administrativo, pela

emergência da ciência do governo, pois passou a observar a família e própria população como

instrumento, sendo seu objetivo final a continuidade da existência do Estado 23 ; o de governo, que,

diante da problemática da gestão da população lança mão de dispositivos de segurança, como seus

mecanismos essenciais. Há uma forte tendência ao uso dos engenhos disciplinadores, apoiados em

grande medida na

diferenciação.

individualidade que,

A sociedade

tem,

portanto,

crescente e estimulada,

levam a particularização, a

através

de

certo

conhecimento

racional

construído,

possibilidades e forças de aglomeração, mesmo diante da problemática do esfacelamento das

comunidades e pequenos grupos. Seus efeitos mesmo em face dos mais diversos mecanismos,

resultam em um individuo que é muito mais relevante do que fora anteriormente. Agora é a vida

que é levada em consideração. Como define Foucault (1988), se antes o soberano poderia definir

sobre a morte das pessoas, agora é a sua vida que é extremamente importante para os processos do

poder.

E isso pode significar momentos em que se leva mais em consideração a parte que o

todo, a pessoa que a sociedade.

23 Emerge aqui a disciplina.

No entanto, seria essa capacidade de governo tendo como base o

54

indivíduo suficiente? Para Arendt (1989), Elias (1993) e Bauman (1999), o resultado final da

exasperação das ações individuais é o caos, que o poder sempre tentaria fugir, pois seu ideal é de

controle racional.

Alguns exemplos da utilização do conhecimento racional para a eliminação das relações

caóticas da sociedade, pode-se observar a construção das cidades utopistas que, segundo Bauman

(1999), têm todas uma preocupação comum com um certo ideal de racionalidade feliz em sua fuga

da multiplicidade de ordens existentes, sintoma do caos. Também são claros a situação da

transparência e da legibilidade como uma meta necessária a todas as relações dos indivíduos. A

interferência que o indivíduo enquanto referencia principal tem sobre o todo, ajuda a justificar ainda

mais a tentativa de precisar e planejar racionalmente os espaços e o controle na intenção de obter

resultados futuros mais distantes do caos.

No entanto, para Foucault (1977), a resposta para o alinhamento das ações individuais,

passa não somente por planejamentos e racionalizações do espaço onde os cidadãos se encontrarão,

mas também, pelo planejamento do próprio sujeito, pela tentativa de fazer da pessoa, o principal

espaço do poder. Para Foucault (1988), o poder emana da subjetivação dos indivíduos, de suas

atividades e sua subjetivação: se exerce através de diversos pontos; é imanente e produtor de uma

subjetividade; reside no mesmo local de onde emana a resistência.

De acordo com o autor, gera-se assim uma linha de força que pode se originar de

heterogeneidades, mas tem no fundo um efeito homogeneizador. O poder precisaria portanto, que as

pessoas sejam, em sua diversidade, capazes de se mover de acordo com ilações de efeitos

hegemônicos. O individuo assim, não é o outro do poder, é sim, sua maior força, na medida em que

introjeta e reflete as construções nas quais está submetido.

55

3.2 Autocontrole: uma Alternativa para o Alinhamento das Ações

A exasperação da tentativa de controle do caos, associada ao racionalismo instrumental,

geram uma nova possibilidade, o controle onipresente, exasperado. De acordo com Miller, (2000),

“o axioma que suporta o dispositivo Panóptico (

)

é que as circunstancias fazem o homem. Já que

aqui se trata de transformá-lo, é preciso dominar, banir o acaso. O Panóptico será o espaço do

controle totalitário” (Miller, 2000, p. 79). A máquina definida por este dispositivo segundo o

mesmo autor é uma tentativa de produzir uma imitação de Deus, de elevar o controle ao nível

máximo, trazendo através de uma gama enorme de artifícios de extremo detalhamento a noção de

que o indivíduo está constantemente sob controle.

Para

Foucault

(1977),

o

processo

de

disciplinamento

justificado

pela

peste

em

determinado momento da história demonstra de alguma forma o processo: demandava uma divisão

maciça

e

binária

entre

uns

e

outros,

e

para além

dessa

afirmativa,

separações

múltiplas,

distribuições individualizantes. Era organizado profundamente pela vigilância e pelo controle, como

uma forma de ramificação do poder e objetivava, assim, evitar a mistura, a não adaptação dos

indivíduos às restrições. Procurava individualizar para controlar.

Emergem de contextos como esses, um conjunto de técnicas e de instituições que

assumem como tarefa medir, controlar e corrigir os anormais, fazendo funcionar os dispositivos

disciplinares que o medo da peste justificava.

No caso específico da peste, o sistema funcionava através de um policiamento espacial

restritivo, onde famílias foram reduzidas as suas casas e supervisionadas por um inspetor geral e por

um síndico da rua (ou outros responsáveis, desde que já pré-determinados). Esse “supervisor” se

informava constantemente sobre o estado de saúde dos ocupantes e alimentava o sistema de

informações como nome, idade e sexo. O interesse do sistema, representado na pessoa do guardião,

era o de impedir a movimentação não pré-definida, a multiplicação do que não está sob controle

disciplinar; a continuidade da peste, a força da natureza e do não previsto.

56

Apesar de, na maior parte das organizações o panóptico ser aplicável, a análise em

uma penitenciária mostra com muita nitidez um dos seus pontos mais importantes: todo o sistema

utiliza-se de uma forma de visibilidade que serve de armadilha, onde, além da divisão e da ordem o

preso está sujeito a simplesmente, não ver o que ou quem o vigia.

A multidão, massa compacta, local de múltiplas trocas, individualidades que se fundem,

efeito coletivo, é abolida em proveito de uma coleção de individualidades separadas. Do ponto de

vista do guardião, é substituída por uma multiplicidade enumerável e controlável; do ponto de vista

dos detentos, por uma solidão seqüestrada e olhada. Daí o efeito mais importante do Panóptico:

induzir

no

detento

um

estado

consciente

e

permanente

de

visibilidade

que

assegura

o

funcionamento automático do poder.(FOUCAULT, 1977, p. 177).

Portanto, como afirma Bentham (1787), quanto mais tempo as pessoas estiverem sobre

vigilância melhor e, se em todos os momentos, isso não for possível, o indivíduo deve sempre

pensar que está sob esta condição. Esta particularidade induz no indivíduo uma concepção de

onipresença do controle. A idéia é ter o controle total de mente sobre a mente, todo o tempo, ou de

que as concepções e valores coletivos, mesmo que investidos em algumas peças, sejam levadas a

cabo sobre a sociedade individualmente. O controle torna-se assim, atemporal e intangível.

Tem-se aqui uma extrema condição de dominação: o controle elevado ao seu máximo

nível é a possibilidade de, dentro de todas as lógicas, melhor dominar o indivíduo e a natureza da

qual sempre pode irromper uma pulsão ou uma atitude fora da intencionalidade do interesse do

poder.

A idéia disciplinar de controle é utilizada na sociedade para dominar a natureza presente

no individualismo irrefreado, ou se não isso, seus efeitos. Além dessa questão, com a laicisação da

racionalidade através do utilitarismo, tenta-se mais que controlar, usar a forma de domínio a favor

do sistema no qual o indivíduo se encontra. Assim, emergem idéias sobre trabalho enquanto se está

57

sobre vigília, sobre a utilização de artífices do sistema para reforçar outros artífices, etc. tudo

meticulosamente calculado, milimetrado capilarmente, adaptado ao dispositivo e a seu alvo.

Como define Miller (2000) o ideal panóptico é a servilização integral da natureza ao

útil. As necessidades mais elementares dever-se ia chegar a capturá-las no dispositivo para gerar

mais rendimento, mais produtividade futura. O Panóptico funciona conseqüentemente, como um

dispositivo que almeja a onipresença, ao ser relembrado constantemente, introjetando no próprio

individuo o controle e a disciplina, que passam a ser representados no seu ambiente. E a

possibilidade culminante de controle sobre a natureza do individuo foi realizada utilizando-se uma

característica da própria natureza: o fato da mesma ser constantemente rememorada e assim,

estando em todo o lugar, praticamente não esquecida ou ignorada.

Assim, a percepção de constância do controle, emaranhada nas cadeias de ramificações

da sociedade atual, recebeu também uma utilidade: dar suporte à tentativa do domínio do homem

sobre sua

natureza

inconstante. A utilização

do

controle

torna-se também coerente com o

capitalismo e o individualismo e gera sua faceta mais laicizante: o autocontrole 24 .

O autocontrole, como pode ser percebido na contemporaneidade, é em alguma medida

reforçado pelo próprio sistema de relações e demonstra fortes vínculos com o mesmo. Nessa

dimensão disciplinadora do poder podem-se notar aspectos que o transformam em uma rede forte e

extremamente presente, o que Foucault (1977) define como sendo sua microfísica: a existência de

um ponto central de vigilância, de onde emana o poder, demanda uma articulação capilarizada com

o espaço, minuciosamente orquestrada em detalhes que envolvem o sistema de relações sociais.

Como define o autor, a idéia de utilização do ser humano como um estandarte do poder

foi amplamente difundida na sociedade, através de diversos artifícios, como as escolas e as

penitenciárias. Talvez, no entanto, crer que este ideário se cristalizou em todas as partículas da

24 O autocontrole pode ser percebido através do trabalho de Foucault (1977), na medida em que se dão os treinamentos minuciosos e concretos das forças úteis. Na perspectiva da disciplina, o investimento nos corpos visa a fabricação do indivíduo, tornando-o uma engrenagem repetidora e renovadora dos efeitos do poder.

58

sociedade igualmente seja um erro. Durkheim (1999) percebia que uma dessas partículas tende a

substituição das outras, sugere e objetiva a si em detrimento das demais escalas sociais: a empresa

capitalista.

Esta fração da sociedade pode ser percebida com certa carga de relevância. No caso

deste trabalho, deve-se focar este fragmento também devido às propostas das linhas de discussão,

que já demonstrou certa quantidade de ligaduras entre o capitalismo e o individualismo. É

importante lançar luz sobre a relação entre o individuo e esta partícula específica, onde o imperativo

do lucro e da racionalização são levados a extremos. Nelas o atrelamento ao utilitarismo e

individualismo, são não só perceptíveis, mas estimulados.

3.3 A Complexidade da Referência à Classe de Trabalhadores

As empresas da atualidade demonstram uma capacidade relativamente alta de controle

sobre seus processos. Baseados em uma perspectiva racionalista, em que tudo o que existe deve ser

útil, e através de um complexo acompanhamento das etapas de produção e processos, estas

organizações têm, nitidamente, um poder de alinhamento de recursos e pessoas com seus objetivos,

em níveis extremados. E um foco é nitidamente perceptível: a máxima produtividade.

Segundo Silva (2004), é considerado hoje um dos grandes objetivos das empresas a

“produção enxuta” ou lean production. Esta por sua vez é conquistada através da maximização da

capacidade instalada, o corte dos tempos de ociosidade dos processos e a extração máxima da força

de trabalho, o que aproxima em muito a empresa do seu idealalmejado. Muito próximo também

do imaginário taylorista/fordista 25 , (que visava à máxima produção através de redução de “tempos

25 Tratado aqui também através do intento utilitarista, mas por meio de certa manipulação atrelada nesse momento ao dinheiro e divisão das funções, separação entre mãos e cérebro.

59

mortos” de operação e alto controle sobre os indivíduos, submetidos a uma velocidade ditada pela

empresa), mas com uma sofisticação maior.

Além disso, levar o indivíduo a um trabalho com produtividade máxima, tensionando ao

limite, transmite razoavelmente a exasperação utilitarista compreendida ainda no panóptico, de

Bentham (1787). Apenas, o máximo. Quer dizer, o útil pelo útil: não é esta a lei que vimos, ao

longo de tudo, reinar sobre as construções benthamianas? Tudo deve ser útil, relacionar-se com

outra coisa além de si mesma, servir(MILLER, 2000, p. 98).

Visa-se racionalizar, utilizar os recursos de forma que contribuam ao nível mais

culminante possível. Outro artifício benthamiano que pode ser percebido é a fragmentação da classe

de trabalhadores em grupos, com a intenção de conhecer melhor os detalhes, de utilizar e reutilizar

suas forças. Individualiza-se e cataloga-se o desempenho (conhecimentos, habilidades, atitudes,

resultados

anteriores)

e

características

de

todos

(sexo,

cor,

idade,

estado

civil,

etc.)

tudo

minuciosamente guardado em bancos de dados. “É o poder de individualização que tem o exame 26

como instrumento fundamental” (FOUCAULT, 1979, p. 107) e leva a individualidade a se tornar

elemento pertinente para o exercício do poder.

Entre o ideal de produtividade e a realidade, as empresas tentam fugir da possibilidade

de alteração dos seus planos devido à interação com o “fator humano”, através de um sistema

complexo, que visa um controle fino das pessoas, ou como delimita Silva, (2004), o controle

individualizado

dos

operadores,

através

de

fichas

dos

desempenhos

particulares.

“O

acompanhamento da performance do trabalho segue de perto todos e cada um” (SILVA, 2004, p.

22).

Por esta via, fica claro que as empresas na atualidade têm mais uma conexão com o

ideal panóptico: a visibilidade. O propósito é a comparação entre o indivíduo particular e os grupos,

26 De acordo com as análises de Foucault (1979) o exame é observado como a vigilância permanente, classificatória, que permite distribuir os indivíduos, julgá-los, medi-los, localizá-los e, por conseguinte, utilizá-los ao máximo.

60

fazendo com que se tornem conhecidos os mais produtivos e também os de menor performance

para a organização. Dessa maneira, se instala na organização um ideal de competitividade e de

valoração dos melhores, mas não somente entre empresas, e sim entre os próprios membros do

grupo, agregando pressão ao sistema.

O controle a partir desta premissa reforça a individualização através da competição e da

visibilidade. Pela dimensão da visibilidade, o ideal de controle onipresente induz o ser humano a se

perceber no espaço trabalhando em grupo, mas controlado individual e minuciosamente pela

empresa. Isola-se, pela necessidade de controlar-se, de voltar-se a si, de saber como está em relação

ao desejado pela organização que conhece a realidade de seu desempenho.

Na dimensão da competição, percebe-se que um sujeito tolhido pelo paradoxo da

realidade organizacional: pode ser

ajudado

e ajudar colegas, que a um mesmo

tempo

são

concorrentes. A cada momento é compelido à realização de resultados grupais cujo seu resultado

pode ser importante ou até preponderante (o que aumenta sua culpabilidade, já que é responsável

pela meta também do grupo), a cada momento dependente mais de um conjunto que pode estar

repleto de oponentes. Isola-se, o indivíduo, pela frugalidade das relações com o grupo.

A questão entre coletivo e individuo se distorce, trazendo mais uma vantagem à

empresa: a adequação à sua estrutura, como preponderante. Silva, (2004), entende que, através das

tendências de trabalhos em grupo, em equipes, times ou células de produção, que demonstram uma

tentativa de quebra das solidariedades civis clássicas, consagradas pelo antagonismo de classes,

acontece uma construção de solidariedades baseadas na empresa. E neste mesmo movimento, a

relação do operador com o trabalho tem sido muito mais valorizada.

Para o autor, se pode identificar a transformação em curso, que consiste na substituição

da referência coletiva da classe de trabalhadores pela referência individual do trabalhador dentro da

organização e, para além disso: uma tendência de separação entre o mundo do trabalho e o mundo

fora dos muros da fábrica, reproduzindo modalidades de privatização do público dentro da empresa,

61

que poderiam ser percebidas somente em uma esfera social mais ampliada. Já Durkheim, (1999),

entendia o meio profissional como preponderante e não coincidente com o meio territorial ou

familiar. Ao contrário, notava Durkheim (1999), tende a substituição dos outros, à valorização da

empresa em detrimento

das demais

escalas

sociais.

A organização

visaria simplesmente o

envolvimento total do trabalhador, sua dedicação à empresa preponderantemente.

Nesse sentido, para Silva (2004), o envolvimento do individuo com a organização será

negociado, e dependerá do formato e sentido das negociações dos diversos espaços privados deste

tipo, como o ramo de atividade, empresas, funções, características dos funcionários, etc. A

perspectiva da negociação e do envolvimento com a organização, denotam certa porosidade das

fronteiras entre coletivo e individual.

Enquanto a negociação pressupõe diferenças entre as partes, a noção de envolvimento

pressupõe certo pendor comunitarista:

a negociação caminha no sentido de que as partes conflitantes encontrem um parâmetro coletivo que sirva de referência para categorias inteiras de representados; o envolvimento é individualizante e fluido, por causa do arbitrário que informa seu conteúdo: qual é a margem para que alguém defina a si mesmo como „envolvido‟ ou para que o proponente sinta-se satisfeito com o

Diremos que a negociação está

„envolvimento‟ oferecido pela contraparte?(

dentro do campo semântico do contratualismo, enquanto o envolvimento está dentro do campo semântico da pessoalização e do arranjo ad hoc, em vez do direito (SILVA, 2004, p. 11).

)

Silva, (2004), nota ainda que, sempre houve processos que atrapalhavam a noção de

“classe

de

trabalhadores”:

clivagens

sociais

operadas

pelas

diferenças

de

raça,

gênero,

nacionalidade. Na contemporaneidade, porém, a classe trabalhadora experimentou uma relativa

estabilidade, de 1945 a 1975, onde emprego e salário somavam energias, levando os sindicatos a

conter as forças fragmentadoras da identidade coletiva da classe trabalhadora. Logicamente, porém,

este período representa uma pequena parcela dos acontecimentos político-econômicos da história da

humanidade e, mostra que “na verdade, ocorre o contrário: a identidade de classe é a exceção, pois

62

vigora durante poucos períodos, em geral aqueles períodos de „regulação‟, em vez de crise”

(SILVA, 2004, p. 15).

Além da problemática da referência a uma classe, as pessoas no interior das empresas se

vêem ainda mais fragmentadas, como percebe Silva, (2004), pelo aumento do ritmo de trabalho,

conquistado através da redução do número de ajudantes e a “polivalência” dos que restaram, os

bônus por produtividade e o redesenho das células de produção (em formato de “U”, para facilitar o

deslocamento das pessoas entre os processos).

O aumento da velocidade de produção divide ainda mais os grupos entre melhores e

piores. A velocidade e a competição são ampliadas ainda, pelos prêmios e pela disputa entre turnos,

que agrega mais um fator de divisão: pessoas diferentes transitando constantemente no mesmo local

de trabalho.

Note-se que o sistema de células, cuja retórica enfatiza a necessidade de perenidade nas relações sociais internas ao grupo, choca-se com o vai-e-vem mais ou menos constante dos operários entre turnos, o que não seria saudável para a constituição de uma sociabilidade própria à célula (SILVA, 2004, p. 26).

Tem-se no ambiente de trabalho uma contradição: coletivo em competição, grupo em

fragmento. A diferenciação é preponderante, a competição e a fragmentação, ressaltadas.

O individuo ainda vive pressionado não apenas pela corporação capitalista, mas sim,

entre as contradições inerentes a esta (que não existe para gerar bem estar, mas sim, lucro) e a

arriscada questão de não estar trabalhando. “O que está na base do comportamento de competição e

de sua tendência subjacente de fragmentação em vez de solidariedade do coletivo operário é a

insegurança representada pelo mercado de trabalho” (SILVA, 2004, p. 22). Configura-se na

organização, a eterna vigilância e a prontidão permanente para não perder o seu lugar no mercado

de trabalho. Isso leva o trabalhador a perder ainda mais vínculos com os outros, fixando-se

sobremaneira à empresa.

63

Com relação ao mercado de trabalho e emprego, portanto, existem dois vetores

principais: aquele que impele o ser humano a fazer parte de alguma empresa, pois não trabalhar

recebe uma conotação negativa na sociedade, além de gerar conseqüências econômicas individuais

catastróficas (o que o arrebata em uma competição com os outros pelo emprego); e aquele que, uma

vez estando no quadro de funcionários, o leva a uma fragmentação e competição se não igual, ainda

maior, pois além dos desempregados, lutaria com os colegas de trabalho, cotidianamente. “Na

verdade, o que se observa a partir da marcha dos novos métodos de organização do trabalho é uma

tendência forte na direção da diferenciação e da individualização” (SILVA, 2004, p. 11).

Portanto, se encontra o sujeito perpassado por muitas inconsistências, dicotomias entre

coletivo e grupo, entre satisfação e suas necessidades, entre seus desejos e sua realidade. Um fator

ainda mais complexante é a extremada força com a qual o sistema de produção capitalista leva as

pessoas a adentrarem em suas organizações: trabalho tem uma carga extremamente positiva na

sociedade, além de ser uma resposta para atendimento das necessidades monetárias. A grande parte

das pessoas encontra-se, desta forma, entre possibilidades de decisão que só pode levar a um

caminho.

Mas, apesar de uma imensa maioria sujeita a esta relação, existiriam alternativas?

64

4 AS COOPERATIVAS E O SISTEMA DE PRODUÇÃO CAPITALISTA

Na contemporaneidade é possível a perceber organismos sociais que buscam uma

alternativa para a problemática

capitalistas.

inerente ao

sistema de produção

cristalizado

nas

empresas

Melman, (2002), nota que “de fato, o controle do pessoal e dos fluxos financeiros

tornou-se peça importante da atividade gerencial no capitalismo (

)

(MELMAN, 2002, p. 538),

porém, o mesmo autor, localiza movimentos que conseguem em alguma medida, trazer respostas

diferenciadas à necessidade de trabalho imposta pelo sistema atual. “Em cooperativas e semelhantes

iniciativas de trabalho comunitário, a desalienação por projeto desafia a busca convencional de

lucros e poder por meio da concorrência predatória e da hierarquia” (MELMAN, 2002, p. 481).

Diante da possibilidade, algumas dúvidas centrais se descortinam, como: qual a

efetividade destas respostas distintas no sentido de uma nova noção de grupo solidário, o quanto

elas são diferentes das organizações capitalistas, mesmo estando em um mesmo sistema e sendo

obrigadas a se manter, por assim dizer, vivas, ou ainda, se são mesmo capazes de minimizar no seu

interior, os efeitos do individualismo e da competição exacerbados. Torna-se importante uma

investigação maior a respeito das cooperativas, organizações sobre as quais estará o maior enfoque

deste trabalho.

4. 1 Raízes do Cooperativismo no Mundo e Emergência no Brasil

Lechat

(2008)

percebe

o

surgimento

das cooperativas

dentro

do

movimento

do

socialismo utópico, e aparece como resposta a crises econômicas. Para a autora, durante o séc. XIX

varias comunidades ou aldeias cooperativas foram criadas nos Estados Unidos e na Inglaterra, de

onde se tem um exemplo de cooperativa de consumo importante, denominada de Pioneiros

65

Equitativos de Rochedale, que criou uma carta de princípios conhecida e utilizada mundialmente

como parâmetro até os dias atuais. Estas Cooperativas, no entanto, receberam forte pressão, sendo

fechadas devido às influencias da classe patronal e dos interesses do governo daquele período,

declaradamente hostil à idéia.

O movimento cooperativista seguiu de 1830 a 1840, por meio de

sociedades de socorro mútuo, balcões alimentícios e cooperativas de produção. Criadas por operários ou por artesãos que se negavam a tornar-se proletários essas iniciativas tentavam amenizar os sofrimentos trazidos pelos acidentes, pelas doenças e pela morte. A partir de 1848, no entanto, a repressão se abateu sobre estas associações (LECHAT, 2008, p. 5).

Para Lechat (2008) novas oscilações positivas no número de cooperativas emergem com

força, durante a grande crise dos anos 1873 a 1895, compostas por entidades agrícolas e de

poupança, como forma de soluções de sobrevivência encontradas pelos pequenos produtores.

Em momento posterior, as cooperativas também já haviam se tornado uma solução

apresentada pelos operários: durante a

Estado.

grande crise de 1929, antes mesmo da intervenção do

Como movimento mais recente, a autora percebe que houve outra crise e o decorrente

fechamento de empresas e desemprego a partir de 1970. Novamente, no entanto, as cooperativas se

mostraram como alternativa para a solução.

Floresceu então, a partir de 1977 e até 84, uma série de iniciativas para salvar ou criar empregos, através de empresas autogeridas pelos próprios trabalhadores e isto com o apoio de alguns sindicatos progressistas. Entre 1980 e 85 foram criadas em massa cooperativas de trabalhadores em toda a Europa (Defourny, 2001) 27 . Por outro lado, os inúmeros movimentos sociais e étnicos trouxeram uma nova visão do social, da sua relação com o econômico e da relação do homem com o meio ambiente (LECHAT, 2008, p. 6).

27 DEFOURNY, Jacques. Entrevista concedida a Noëlle Lechat pelo Diretor do Centre d’Études Sociales. Liège, 15 jun. 2001.

66

Com relação a este movimento no país, Heiden, (2008) acredita na cooperativa como

um sistema organizacional que vem atuando desde 1969 com sucesso no Brasil no segmento de

prestação de serviços, constituindo-se num novo mercado que está gerando muitos postos de

trabalho(HEIDEN, 2008, p.51). Porém, o cooperativismo neste país é um movimento anterior,

mesmo em uma forma primitiva.

o cooperativismo teve uma forma inicial “primitiva” quando os jesuítas se uniram no trabalho coletivo voltado para a “persuasão” de povos indígenas nas práticas do amor e auxílio mútuo cristãos em meados do século XVII. As primeiras cooperativas implantadas no Brasil foram as de consumo, cujo objetivo é distribuir produtos/serviços aos seus sócios, buscando as melhores condições de preços e de qualidade (GALLO, 2008, p. 47).

Eid (1998) 28 , apud. Gallo (2008) também localizou uma colônia organizada nessas

bases, fundada por um grupo de europeus, em 1847, mas:

Posteriormente a esse fenômeno, somente no final do século XIX e início do século XX retomou-se a criação de cooperativas de consumo. As primeiras foram na região Sudeste e depois na região Sul do país. No entanto, a partir da década de 1960, as cooperativas de consumo entraram em crise. Concomitante as cooperativas de consumo, foram criadas também as cooperativas agropecuárias e de crédito rural principalmente na região Sul do país. Ao longo dos anos, outros tipos de cooperativas foram sendo criadas como as de produção, de trabalho e educacionais. Em 16/12/1971 com a lei 5.764, ainda em vigor, ficou definido o regime jurídico, a constituição e o funcionamento do sistema de representação das cooperativas e os organismos de apoio. (GALLO, 2008, p. 48).

Percebe-se nessa afirmativa que, mesmo com uma linha de desenvolvimento, é factível

a interpretação, oriundo das movimentações cooperativistas, de diversas representações que o

intento cooperativista encerrara com o decorrer de sua história neste país, na tentativa de adaptação

28 EID, F. “COOPERATIVISMO”. Curso de Especialização Lato Sensu. Departamento de Engenharia de Produção, UFSCar, 1998.

67

às realidades impostas pelo sistema de produção excludente. Em certa medida, ss cooperativas

tornaram-se uma alternativa importante.

4.2 A Disparidade e Conexões do Continuum Cooperativista

Mesmo

oriundas

de

bases

comuns,

as

cooperativas

se

tornaram

organizações

diferenciadas, adaptadas em grande medida às necessidades dos cooperados e do ambiente em que

se encontravam. Nos relatos de Ide, (2005), as cooperativas podem ser compreendidas por uma

noção de doutrina moral, social e econômica, uma noção de lugar e outra de organização.

Tendo

como

foco

a noção

cooperativista

enquanto

doutrinária,

foi

observada

a

possibilidade de construir uma “República Cooperativa”, idéia ainda inerente ao socialismo utópico,

mas em paralelo com o mesmo. Pregava que “o cidadão, como produtor, é antes um servidor ou

escravo da coletividade” (IDE, 2005, p. 72).

Com uma visão ainda aproximada à doutrinária, observa-se que as cooperativas eram

vistas também como lugar, enquanto construto simbólico onde pessoas se afirmavam membros

pertencentes de acordo com valores comuns. Como afirma Ide, (2005), um dos seus preceitos

reforçadores era o de que seria justo a venda de produtos de boa qualidade e na quantidade exata

por parte dos cooperados aos outros participantes (uma vez que à época, era comum a troca de

mercadorias e a venda de produtos em uma quantidade inconsistente).

Neste trabalho, a representação das cooperativas que será principalmente analisada é a

última possibilidade, verificada enquanto noção organizativa, que é uma conotação contemporânea,

prevista na legislação federal brasileira, caracterizada por forma jurídica própria e criada para

prestar serviços aos associados. Uma vez que, em se tratando dos cooperados “é para eles e por eles

que ela existe e vai trabalhar” (HEIDEN, 2008, p. 51), esta representação atual das cooperativas é

importante, pois, “Ao contrário da sabedoria popular, em que elas são geralmente apresentadas

como experimentos excepcionais, as cooperativas têm sido altamente bem sucedidas como grupos

68

de empresas” (MELMAN, 2002, p. 482). O autor se refere à cooperativa Mondragon que opera

na região basca do noroeste da Espanha como uma das mais importantes, com faturamento de mais

de seis bilhões de dólares já em 1996.

No

Brasil,

de

acordo

com Gallo

(2008),

em

1999,

haviam

5.600

cooperativas

registradas na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) com 5,5 milhões de cooperados

registrados. E esta grande quantidade de organismos encerra em seu movimento características

extremamente diversificadas (mesmo ainda caracterizados enquanto noção organizativa):

autogeridas; pequenas e médias associações ou cooperativas de

produção ou comercialização; cooperativas agropecuárias formadas pelo Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); cooperativas de trabalho e de serviços, formadas por Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares; cooperativas de serviços de diversos tamanhos, boa parte agrupadas nas Federações de Cooperativas de Trabalho estaduais.(SINGER,1999 29 apud GALLO, 2008, p.

49).

)empresas (

As cooperativas podem ser percebidas, por meio de sua diferenciação, como uma

alternativa flexível, no contexto atual. Mas existem características que se mantiveram.

Como afirma Bhowmik (2008), os princípios básicos das cooperativas são baseados

ainda nos construtos desenvolvidos em Rochdale, e foram adaptados pelo movimento em todo o

mundo. São eles: um voto por cada membro (

);

as vendas são efectuadas de acordo com os

preços do mercado; a distribuição dos lucros entre os accionistas tem como base as acções detidas; e

a existência de um número limitado de acções por pessoa” (BHOWMIK, 2008, p. 40).

No entanto, Singer (2008), não acredita na forma de exposição de um destes fatores.

Para o autor, na empresa solidária não há lucro porque nenhuma parte de sua receita é distribuída

em proporção às cotas de capital e, para além dessa afirmativa, as chamadas sobras anuais, têm

uma destinação definida pelos próprios trabalhadores, o que deixa clara outra característica: a

autogestão da cooperativa.

29 SINGER. P. Cooperativismo e sindicatos no Brasil. Sindicalismo e Economia Solidária. 1999.

69

Os dois autores concordam, no entanto, sobre a intenção principal das cooperativas,

que seria trabalhar através de princípios de igualdade e democracia, por meio de uma efetiva

solidariedade entre parceiros 30 .

Lechat (2008) considera a economia solidária como sendo a junção entre as dimensões

do econômico, social e o político, capaz de gerar um desenvolvimento solidário. De acordo com

estes princípios, Singer (2008a), define as empresas solidárias como a negação da separação entre

trabalho e posse dos meios de produção, ou seja, o trabalho e o capital estão fundidos porque todos

os que trabalham são proprietários da empresa e não há proprietários que não trabalhem na empresa.

E

a propriedade da empresa é dividida por igual entre todos os trabalhadores, para que todos tenham

o

mesmo poder de decisão sobre ela(SINGER, 2008a, p. 4).

A economia solidária seria, portanto, uma alternativa ao sistema capitalista de produção

que para Singer (2008a), pressupõe a separação entre trabalho e posse dos meios de produçãoao

mesmo tempo em que se constitui numa parte dele.

A economia solidária constitui um modo de produção que, ao lado de diversos

outros modos de produção - o capitalismo, a pequena produção de mercadorias, a produção estatal de bens e serviços, a produção privada sem fins de lucro -, compõe a formação social capitalista, que é capitalista porque o capitalismo não só é o maior dos modos de produção mas molda a superestrutura legal e institucional

de acordo com os seus valores e interesses (SINGER, 2008a, p. 6).

A fragmentação das realidades vividas entre indivíduo e coletivo na contemporaneidade

é em alguma medida levada ao extremo nos cooperados, de onde culmina a separação marcante da

contradição entre competição e cooperação: dentro, deteriam um laço extremamente forte e comum:

são

iguais

e

parceiros;

fora,

indivíduos

suscetíveis

a

toda

espécie

de

particularização

e

diversificação, pois vivem em uma sociedade influenciada pelo capitalismo.

30 Os autores localizam as cooperativas dentro do conceito de economia solidária, que se mistura após determinado momento, com o conceito de terceiro setor.

70

E o próprio capitalismo gera crises internas que levam ao surgimento de contradições

entre o particular e socializado, entre as referências de individualismo e solidariedade. E, por

conseguinte, gera também possibilidades do surgimento de movimentos da economia solidária.

A questão principal que emerge, trata do seguinte ponto: até onde os laços solidários

serviriam de referencia principal aos cooperados, diante de tamanha valorização do individual fora

das cooperativas?

4.3 Entre Diversidade e Solidariedade

A solidariedade é um dos pontos principais do intento cooperativista, que detém

também conceitos como igualdade e democracia. Para haver solidariedade, no entanto, pode-se

pensar primordial a existência de desigualdade, para que alguém ajude a outrem.

Lechat (2008), no entanto, não concorda com esta afirmativa, pois, a solidariedade só

denota que no momento de sua aplicação, há uma desigualdade entre que dá e quem recebe, mas

não indica uma desigualdade intrínseca. Para o autor, a solidariedade supõe um laço recíproco,

diferentemente da caridade, que teria como fator principal um dever unilateral. Tocqueville (2000)

percebe na solidariedade a doutrina do bem comum, que demandaria pequenos sacrifícios em prol

dos outros, cotidianamente.

Durkheim (1999) também desenvolve conceitos de relacionados à solidariedade, sendo

a mecânica aquela que liga o individuo diretamente ao grupo devido a similitudes, e a mecânica

outra, que cria relação de dependência do individuo com as partes que compõe a sociedade através

da especialização e divisão do trabalho. A primeira tende a ajudar a coletivização e a não

personificação do sujeito, a segunda à diferenciação para a tentativa do sujeito de conseguir

conquistar mais trabalho alheio, uma vez que as necessidades seguem uma escalada contínua. A

segunda possibilidade, no entanto, geraria uma vinculação mais forte devido a uma relação de

71

dependência, e denota certa aproximação à realidade do sistema capitalista. Segundo Smith

(1778) o aprimoramento do processo produtivo através da divisão do trabalho dos trabalhadores,

levou a sociedade até um processo de acumulação de riquezas para aquisição de mais trabalho

alheio. Para o autor, a especialização do individuo em um único trabalho agrega produtividade.

Este processo consolida algumas formatações individualistas: aumenta a relação de

interdependência, amplia a configuração da competição agora para aquisição de mais trabalho

alheio e, em outra faceta, cria a necessidade de maior liberdade individual e menor restrição por

parte de todos às movimentações de bens e riquezas. Para Smith (1778) até mesmo entre países,

pode-se observar uma tendência

maior a movimentação,

uma

vez que tendem a depender

sobremaneira uns dos outros. A divisão do trabalho cria organismos internos que existem com o

intuito de atender necessidades diferentes, de pessoas diferentes, em momentos diferentes.

Confirmando isso, Durkheim (1999) percebe que as sociedades tendem a se assemelhar,

mas não os sujeitos de cada uma. Segundo o autor, “a divisão do trabalho une ao mesmo tempo que

opõe; faz convergir atividades que diferencia; aproxima aqueles que separa” (DURKHEIM, 1999,

p. 275). E para dividir as funções a comunicação deve ser constante. “Para que as unidades sociais

possam diferenciar-se, é necessário antes de mais nada que sejam atraídas ou agrupadas em virtude

das semelhanças que apresentam” (DURKHEIM, 1999, p. 278).

Através

da

solidariedade

tem-se

a

diferenciação,

um

dos

pontos

principais

do

individualismo. Segundo Durkheim, (1999), à medida que o trabalho se divide, a flexibilidade e a

liberdade se tornam maiores, pois os indivíduos precisam se adaptar. Além disso, a mobilidade do

capital exige que os trabalhadores estejam prontos para segui-lo e, por conseguinte, segui-lo nos

diferentes tipos de empregos. Quando a divisão do trabalho atinge um nível muito alto, o

trabalhador se isola em sua tarefa e não se sente mais parte de um todo, não tem mais a noção de

uma obra comum. A consciência coletiva diminui, à medida que a divisão do trabalho evolui, e sua

evolução leva a cada vez mais tendências centrífugas, que podem ser percebidas também como

conseqüências do individualismo.

72

Porém, ainda segundo o autor, “a sociedade consiste inteiramente na cooperação,(

)

não tem outro objetivo senão adaptar o individuo ao seu meio físico” (DURKHEIM, 1999, p. 355).

Portanto, a liberdade de ações individuais resulta das regulações sociais.

É o que percebe também Nietzsche (2007), quando delimita o que se descortina

inexoravelmente no horizonte: quanto mais livre, mais preso dos valores que o tornam livre. Quanto

mais individualista, mais suscetível aos valores do ambiente que servem de troca, que o torna

satisfeito em relação a algo. E à medida que os valores são mais cambiáveis, surge um novo fator:

para ser trocado, ou ser mais valorado em relação a outro, um valor não pode ter uma valoração

extrema, deve ser móvel.

A subjetividade do ser humano se transforma em uma frivolidade de subjetivações

contínuas, com o individuo em constante mutação. Neste arcabouço, as relações de solidariedade

orgânica levam à competição e individualização, ao mesmo tempo em que a solidariedade mecânica

vê-se no meio de um fluxo constante, ora sendo fator relevante, ora sendo mais um fator não

prioritário

momentaneamente.

Talvez Lechat

(2008)

esteja certa,

pois aqui não

se observa

desigualdade intrínseca, e sim instantânea. Mas em uma instantaneidade inerente.

Poderia parecer uma luta entre a referência aos laços de solidariedade da cooperativa, e

a referencia a algo maior, mas o problema que se descortina sobre a subjetividade contemporânea é

mais complexo.

O que se coloca para as subjetividades hoje não é a defesa de identidades locais contra identidades globais, nem tampouco de identidade geral contra a pulverização; é a própria referencia identitária que deve ser combatida, não em nome da pulverização (o fascínio niilista pelo caos) mas para dar lugar aos processos de singularização, de criação existencial, movidos pelo vento dos acontecimentos(LINS et al., 1997, p.23).

73

Dessa forma, pode ser que não existam efetivamente as referencias individuo e

sociedade, mas sim,

Tomando-se como referencia qualquer sociedade, poder-se-ia dizer que ela vive permanentemente a contradição entre as particularizações de experiências restritas a certos segmentos, categorias, grupos e até indivíduos e a universalização de outras experiências que se expressam culturalmente através de conjuntos de símbolos homogeneizadores e paradigmas, temas, etc (VELHO, 1999 p. 18).

Portanto, individual e coletivo são referencias individuais construídas na coletividade

que, de acordo com Elias (1994), pendem em momentos específicos para um lado da balança e em

algumas ocasiões para o outro.

O individuo vive em constante processo de subjetivação

devido às necessidades

percebidas na sociedade em que está inserido. A frivolidade das relações põe fim às subjetividades

estruturalistas essenciais, mas através de uma coerência caótica, interpreta a realidade a partir dos

diversos pontos de referência individuais, sejam eles coletivistas ou não.

74

5 METODOLOGIA

Esse trabalho acadêmico é eminentemente indutivo e teve como objetivo, após pesquisa

bibliográfica que lhe deu embasamento, analisar duas unidades, correspondentes às Cooperativas A

e B 31 , no município de Salinas, Minas Gerais. Ambas têm um histórico de inicio com mais de 130

cooperados que posteriormente foram reduzidos para 22 e 15 cooperados. Foram escolhidas

exatamente por existirem ali, possibilidades de contradição entre individuo e grupo que pudessem

estar contribuindo para a evasão de pessoas.

Como a pesquisa analisou apenas 2 unidades, optou-se pela utilização de metodologia

baseada em um estudo de caso, pois, como descreve Greenwood (1973) 32 , apud Lopes (2000, p.45),

o estudo de caso consiste em um exame intensivo de uma unidade de análise. Já Duarte; Furtado

(2002) percebem como uma fase ou a totalidade do processo social de uma unidade. Foi, portanto,

um meio de se organizar os dados, preservando o caráter unitário do projeto social estudado. Ainda

em conformidade com os objetivos, verificou-se a necessidade da formulação do estudo de caso do

tipo descritivo: conforme delimita Duarte; Furtado (2002) as pesquisas descritivas descrevem um

fenômeno

ou situação

mediante um estudo

realizado

em determinado

contexto

espacial ou

temporal.

Pode-se afirmar como colocado por Lopes (2000, p. 45), que o estudo de caso do tipo

descritivo teria como finalidade descrever um caso em toda a sua complexidade sem vislumbrar

obter a forma geral, mas apenas pistas, fragmentos ou possibilidades, uma vez que influenciado

pelo contexto do espaço tempo circunscrito.

O universo desta pesquisa compreendeu o grupo total de cooperados freqüentes às

cooperativas, num total de 14 na Cooperativa B e 8 na Cooperativa A, que serão as organizações

31 Nomes fictícios, utilizados para preservar a integridade das entidades.

32 GREENWOOD, E.Metodos principales de investigacion social empirica. Buenos Aires,Paidos, 1973.

75

estudadas. A amostra obteve um total de 12 cooperados, correspondendo a aproximadamente

55% da população.

O estudo de caso teve sua base eminentemente qualitativa devido aos aspectos a serem

estudados, que requerem métodos diferenciados para este caso. Como delimita Trujillo (2001), a

pesquisa qualitativa visa investigar se uma qualidade está presente, e não quantificar a presença da

mesma como seria a pesquisa quantitativa. A perspectiva qualitativa foi observada em todas as

etapas, desde entrevistas e observação a analise bibliográfica e documental.

- Pesquisa documental: como delimita Lakatos; Marconi (2003), é caracterizada pela fonte

de coleta de dados restrita a documentos, escritos ou não, constituindo o que se denomina de

fontes primárias. À partir desta técnica, pôde-se analisar as características das empresas, bem

como particularidades de seu histórico, através de documentos como atas de reuniões e seu

estatuto, que denotam fundamentos básicos sobre a realidade vivida nesta escala social.

- Entrevista: definida neste trabalho como “um encontro entre duas pessoas, a fim de que

uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação

de natureza profissional”(LAKATOS; MARCONI, 2003, p.195). A modalidade de entrevista

utilizada é a não-estruturada, mas focalizada, que se caracteriza por liberdade do entrevistador

mediante um roteiro de tópicos relativos ao problema a ser analisado. Efetivou busca de

elementos que permitissem inferir sobre conexões com o tema abordado a partir das respostas,

e foi aplicada a todos os elementos da amostra. As respostas foram gravadas com auxilio de

equipamento de som e posteriormente transcritas para análise, por meio da digitação feita pelo

pesquisador.

- Observação: como evidencia Lakatos; Marconi (2003), é um método que utiliza os

sentidos na obtenção de certos aspectos da realidade. Por não ser realizada em situações

controladas, e nem ter determinado de antemão aspectos relevantes, caracteriza-se por uma

metodologia assistemática. Foi realizada durante as entrevistas, na tentativa de conseguir

76

informações não mencionadas pelos entrevistados, sendo que estas informações foram

assinaladas no bloco de anotações do pesquisador.

Finalizado

o

processo

de

levantamento

dos

dados,

os

mesmos

foram

selecionados,

codificados e transcritos, para que fossem então realizadas ilações sobre seu conteúdo: “(

)

produzir inferências em análise de conteúdo tem um significado bastante explícito e pressupõe a

comparação dos dados, obtidos mediante discursos e símbolos, com os pressupostos teóricos de

diferentes concepções de mundo, de indivíduo e sociedade(FRANCO, 2008, p. 31). Para tanto, os

dados foram:

- Analisados na tentativa de evidenciar as relações existentes entre o fenômeno estudado e

outros fatores como define Lakatos; Marconi (2003);

- Interpretados, sendo esta a fase onde se

procura dar um significado mais amplo às

respostas, vinculando-as a outros conhecimentos.

- Tabulados, objetivando assim obter uma maior organização e clareza na transmissão da

informação.

Assim,

como

delimitam Henry; Moscovici (1968) 33 apud Franco

(2008), trata-se de

procedimento

fechado, uma vez que estes textos serão observados mediante referencial de

determinado quadro teórico pré-estabelecido e não modificado, para o qual as teorias estudadas são

primordiais. É importante ainda ressaltar que durante a analise e interpretação dos dados, na etapa

das entrevistas, as informações recebidas foram agrupadas em índices 34 primários e posteriormente

em grupos maiores, onde podem estar reunidos a outros. Os conjuntos de índices primários foram

tratados com a nomenclatura de índices secundários, para facilitar a compreensão e denotar sua

profunda conexão com os primeiros.

Uma vez que “para grande parte das investigações, qualquer que seja o tema explicitado, o

mesmo passa a ter mais importância para a análise de dados quanto mais freqüentemente for

33 HENRY, P.; MOSCOVICI, S. Problemes de l’analyse de contenu. Langage, n II, Set. 1969.

34 Os índices são compreendidos em conformidade com a análise de Franco (2008): trata-se de menção, explícita ou subjacente de certo tema em uma mensagem.

77

mencionado.” (FRANCO, 2008, p. 58), para findar o artifício metodológico utilizado, os índices

secundários foram quantificados para verificar sua freqüência em relação a outros temas igualmente

presentes.

78

6 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Antes de um trabalho mais rebuscado a respeito dos grupos de análises apreendidos pelos

resultados das inferências feitas a partir das respostas dos entrevistados, é importante ressaltar

alguns dados que informem a realidade sob a qual as cooperativas se encontram inseridas.

Segundo arquivos da Biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,

2007a) 35 , a descoberta de jazidas de sal na região contribuiu sobremaneira para seu povoamento,

uma vez que este produto era escasso e por isso tinha um alto valor. O nome inicial da cidade era

Santo Antonio de Salinas, muito em função da doação de terras para a construção de uma primeira

capela, batizada sob a proteção daquele santo. O povoamento teve inicio então, quando os

exploradores das jazidas se assentaram nos arredores da igreja.

Ainda segundo o IBGE (2007a), a região onde se deu esse primeiro povoamento era

pertencente a uma área onde se encontra o município de Rio Pardo de Minas, de onde surgiu o

distrito de Santo Antonio de Salinas se em 1855. O distrito foi emancipado e em 04 de outubro de

1887, recebeu a titulação de cidade já com o nome de Salinas.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,

2007b), o município de Salinas se encontra na região norte do do Estado de Minas Gerais, que, do

ponto de vista geopolítico, ocupa uma área de 120.701 Km², correspondente a 20,7% do território

do Estado. Engloba 92 municípios, com 1.416.334 habitantes. Predominam os municípios de

pequeno porte (80 municípios), que possuem infra-estrutura urbana deficiente e níveis mais baixos

de qualidade de vida, com economias locais baseadas nas atividades agropecuárias e extrativistas.

As características geofísicas da região, com seus ecossistemas de cerrado e caatinga, seu clima

semi-árido e as precárias condições de vida da maior parte da sua população, muito se assemelham

às características predominantes no Nordeste brasileiro.

35 http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/minasgerais/salinas.pdf

79

79 FIGURA 01- Localização do município de Salinas no Estado de Minas Gerais. Fonte: IBGE, 2007.

FIGURA 01- Localização do município de Salinas no Estado de Minas Gerais.

Fonte: IBGE, 2007.

Ainda de acordo com o IBGE (2007b), o município de Salinas, ao qual estão subscritas as

duas cooperativas pesquisadas, tem área total de 1.897 Km², população igual a 37.370 habitantes e

possui um PIB total de R$ 168.202.370,00 totalizando um valor per capta de R$ 4501,00. Seu PIB

tem um valor agregado de 7,2% pela agricultura, 14,81% pela indústria e 77,98% pelos serviços, ao

passo que o Estado de Minas Gerais agrega respectivamente 9,31%, 32,47% e 58,23%, nos mesmos

setores. Isso denota uma fraca afinidade do município com o segmento da indústria e assim uma