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Ordem, cidadania, polícia federal Fábio Wanderley Reis Ninguém diria que as notícias econômicas são boas “como

nunca neste país”: manifestações variadas nas ruas, com maior ou menor violência; traficantes em guerra aberta e longa com a polícia; MST e invasões; Operação Navalha e evidência de corrupção em nova escala de políticos, burocratas e empresários; estudantes ocupando reitorias, agora com apoio de professores em greve; greves de outras categorias de funcionários públicos, incluindo a Polícia Federal... Por certo, o noticiário turbulento desses dias envolve coisas heterogêneas. Seria preciso separar, por exemplo, o que se refere à criminalidade comum e à corrupção do que poderia talvez ser visto como dizendo respeito aos valores da participação e da liberdade de expressão, ou ao bem-vindo dinamismo da “sociedade civil”. Mas temos um mau sinal quando as manifestações desta última começam a fazer que as ruas (ou os corredores e pátios, no caso da universidade) prevaleçam sobre a aparelhagem institucional, ou surjam como fonte por excelência de legitimação das ações – e justamente, em muitos casos, por se orientarem contra as instituições. O bom de instituições que funcionem de maneira apropriada é tornar dispensável que estejamos em permanente mobilização beligerante em praça pública para que nossos interesses sejam tidos em conta. Mas o ideal contemporâneo de cidadania, na complexidade de suas ligações tanto com o legado da “democracia dos antigos” quanto com o liberalismo moderno, envolve o processo pelo qual os interesses, em sua autonomia “civil”, se transformam em direitos, o que supõe a introdução e a vigência de normas “cívicas” e de uma ordem institucional ou constitucional. As normas criam, por um lado, obrigações e deveres para os demais e para o Estado, que devem respeitar e eventualmente promover os meus direitos. Mas a ordem supõe, é claro, que também eu passe a ter a obrigação de respeito às normas e aos direitos alheios, como contrapartida dos meus próprios direitos.
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Naturalmente, o espaço dos interesses nunca está delimitado de uma vez por todas no rol dos direitos e deveres institucionalmente consagrados em dado momento. Assim, não se suprime nunca o espaço do conflito de interesses, em particular o chamado conflito distributivo, em que surgem questões de justiça social. E há mesmo quem pretenda, como Bresser Pereira há algum tempo, definir a posição de “esquerda” como envolvendo a disposição de testar permanentemente os limites da ordem em nome da justiça. De todo modo, um aspecto crucial da aceitabilidade ou legitimidade do marco institucional é o do grau em que permite a luta por interesses e a demanda de direitos – eventualmente a busca de justiça – sem a necessidade de quebra das normas e da ordem. Por um lado, a criminalização excessiva, que tende a ocorrer em condições de autoritarismo político, é inaceitável, sendo indispensável a existência de caminhos que permitam o efetivo processamento institucional das reivindicações. Mas a presunção “revolucionária” de que seria imperioso quebrar normas (e às vezes portas de universidade, portões de hidrelétricas, quem sabe caras – ou pior) é igualmente inaceitável. Assim como é inaceitável a idéia, que circulou na imprensa, de que qualquer afirmação “política” de interesses seria como tal legítima, tornando também legítima, e supostamente diferente da ação do criminoso comum, qualquer tipo de ação de que se valha: é evidente que também a ação do criminoso comum pode envolver a busca de interesses. Um desdobramento possível, nas condições brasileiras, leva a perguntas com ingredientes paradoxais e de respostas difíceis. O desapego às normas, que pesquisas sistemáticas sugerem ocorrer com intensidade algo singular entre nós, se mostra em diversos níveis: na criminalidade e na violência em expansão; no clima difuso que vê como “bancar o otário” não jogar, como “todo mundo”, o jogo da esperteza e da corrupção; na longa instabilidade político-institucional que vivemos até há pouco (três golpes na madeira!). Até que ponto se poderia pretender que valesse num e noutro caso a alegação de “testar a ordem em nome da justiça”? Pondo de lado o jogo dos espertos, como lidar com o sentimento de injustiça que talvez se encontre em forma autêntica precisamente no criminoso da periferia social que se confronta com um mundo de oportunidades a que não tem acesso? E, na linha de indagações
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de Maria Inês Nassif em sua coluna neste jornal, que alternativa à retórica confusa e às formas truculentas de ação de MST e assemelhados oferecer aos setores passíveis de mobilização política, incluídos os estudantes, num mundo e num país em mudança e num quadro de partidos que se desmoralizam e desmancham? Talvez a única resposta esteja em não pôr de lado, sem mais, o jogo dos espertos. Em vez disso, insistir no esforço de reformas que venha a inibi-lo, quem sabe resultando num processo político mais sadio e num estado capaz de ser a um tempo democrático e eficiente tanto na garantia da ordem democrática quanto em ajudar a construir seu substrato econômico e social. Quando nada, no que presenciamos agora, cabe ver a eficiência que a Polícia Federal vem demonstrando como um avanço no rumo certo, apesar de certas denúncias não de todo surpreendentes quanto à ameaça ao estado de direito em suas ações. Alguém observou que a cada nova operação bem-sucedida da PF sobrevém um pedido de aumento salarial e uma paralisação dela. Não há dúvida de que a regulamentação adequada do direito de greve dos servidores públicos seria algo conveniente diante das preocupações que a agitação que experimentamos suscita. Mas eu diria que a Polícia Federal tem feito por merecer uns aumentozinhos.

Valor Econômico, 28/5/2007

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