ALENTEJO – uma SEARA VOCABULAR – 07 MEMÓRIAS DE MANEL LOENDRÊRO Luís Santa Maria Chiado Editora, Julho de 2011 07 Loendrero

José Rabaça Gaspar – 2012 11

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Nota a abrir com dados da ‘Nota Prévia’ de Luís Santa Maria: Luís Santa Maria (Luís Eduardo Perfeito Santa Maria) nasceu em 5 de Março de 1964, em Moura, licenciou-se em Engenharia Zootécnica, na Universidade de Évora, Mestrado em Lisboa, no Instituto superior de Agronomia e é professor na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Beja. “As ‘Memórias de Manel Loendrêro são histórias de ficção.” Estas crónicas foram publicadas, no jornal de Moura, “Planície” ao longo dos anos 1982 – 1986. … Quando iniciou a publicação destas ‘memórias’, Luís tinha 18 anos e estávamos em 1 de Junho de 1982, quando a primeira crónica foi publicada! Escreve Luís: “…todas as crónicas são originais bebendo aqui e ali de um ou outro episódio baseado em factos verídicos, conforme os das crónicas publicadas em 01/09/1983, 15/02/1984 e 15/04/1987.” … e, como foram escritas para divertir, estas crónicas foram escritas ‘em função da pronúncia… dando atenção ao som e não à grafia’… e por fim dá-nos um glossário para ajudar os leitores. Assim, faço aqui a recolha deste glossário seguido de cinco crónicas que me foram cedidas pelo autor. Na publicação, sem índice, já contei, pelo menos, 34 saborosas crónicas, que, na minha opinião e parece que também na do autor, são para ser lidas em voz alta, para serem OUVIDAS… Ver – linguagem popular – http://www.cm-mirandela.pt/index.php?oid=3926

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GLOSSÁRIO
Abêsporas Acariar Acomodar Agasturas Ainda bem não Albarda vespas juntar, reunir sossegar; aquietar vómitos; má-disposição de vez em quando cobertura que se colocava sobre o dorso dos burros para auxílio no transporte das mais variadas cargas e smultanearnente proteger o dorso do animal; também servia de sela. duvido; expressão de forte dúvida cesto largo e maleável, de duas asas enjoados; tontos - "lixado"; tramado pancada, pontapé, ou golpe, desferido com força mLondrero

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Alçará Alcôfa Almareados Amolado Apêjoada

Arrabicha

Armado em gala-peruas

o fundo do carro (leito) tinha por baixo uma série de longarinas em madeira, das quais a central se prolongava aproximadamente meio metro para fora, na parte traseira, a arrabicha. "armado em bom". O termo deriva da cópula dos galináceos (acto de galar); por vezes há galos que

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4 Arrematando Arremedar Arriba Arrimar Atabafado Atabão - tavoão Atabicada Atacado Aventar Ávondo Azevia Azuado Bajôlo Banhar Barranhão

além das galinhas também querem galar as peruas, apesar de muito mais pequenos, daí a comparação refilando imitar acima encostar; dar; bater fervido; a ferver tavoão; moscardo que usualmente parasita o gado completamente cheia carregado (quando se refere a uma espingarda) atirar; deitar fora versão alentejana de "ávonde"; significa basta, chega. estalada; bofetão tonto, com zumbidos nos ouvidos pedra nadar terrina grande de ir à mesa, aberta, usualmente

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Barreno Barruntar Bestas Bic-nic Birondas Bocana Bolego Bolegada Boletas Bolo da amassadura Bombinho Borrecheando Brabia (o) Burgau Cabedou Cabranchi Cachamorra

em forma de alguidar, podendo ser de louça, barro ou esmalte petardo; estouro; rebentamento perceber; pressentir; compreender mulas biquini Beatas de cigarro Parvo; estúpido pedra pequena; calhau pedrada bolotas bolo tradicional feito com massa de pão, banha e açúcar; por vezes também leva canela mangueira bebendo, no sentido depreciativo bravia; selvagem cascalho e areia grossa misturados coube eufemismo para "cabrão" o mesmo que cachaporra

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Cachaperna Cagaçal Cagaitas Cagando azedas Caldeirão das migas Caliqueiragem Canifréu Capeia Carafo Carámelêjos

Carga de estoiro Cascos Casquêlhos Cegueira Chamiço Charôco

pernada de uma árvore barulho bocados de sujidade ir muito depressa. (Azedas ou erva azeda) utilizado como eufemismo de cabeça de caliqueira; significa não prestar o m.q. canifró ou canicalho, isto é, cão pequeno acto de capear, tourear com capa equivalente a "caraças sem "tradução" rigorosa; diz-se das luzinhas que se vêem após se ter sido encandeado pelo solou por luzes fortes. sova por vezes usa-se em sentido figurado para não dizer "cornos" cacos cegueira; entusiasmo galho fino proveniente da poda de oliveiras ou azinheiras vento frio e seco

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Chapada Charrôca Charroquice Cheiral Chocolates Chouriçada Chulice Chumbar Churdeiro Com elas todas na malhada Conchiro Conho

Corredoira Debrucinado Debrum De esgalha-bordão Depois de a agarrarmos

encosta parva parvoíce sítio; lugar longe indefinido o m. q. calmantes, isto é, copos de vinho pancada, pontapé ou golpe, desferido com força aquiIo a que agora se chama “curtIção” vernáculo para acto sexual chão sujo molhado; sujidade extrema situação de desconfiança ou dúvida; incerteza; insegurança deriva de conho; usado como exclamação palavrão de origem espanhola para órgão genital feminino, mas aceitável na linguagem corrente do Alentejo; usado como exclamação corredoura; feira de gado debruçado bordo à pressa; a toda a velocidade a bebedeira, subentende-se

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Desalvorido Desbarrunto Desencasquiado Desmaginava (desmaginar) EncalItro Ele não trigueirão Embelguei

desenfreado despesa limpo a fundo (tipo a escova e detergente). não deixar de fazer; continuar a faze eucalipto expressão de negação embelgar é fazer o primeiro rego de uma lavoura, dando-lhe a orientação para que os regos que se seguem lhe fiquem paralelos e dispostos na folha da forma mais adequada às operações seguintes e à sementeira; mais simplesmente também significa ir; ex: embelguei por ali (fui por ali). cair de bico: tropeçar; esbarrar atIraram-nos bolegos feito numa rodilha (trapo velho) cego de entusiasmo; muito entusiasmado borrado em brasa; afogueados estafas-te; cansas-te

Embicar EmboJegaram-nos Enrodilhado Ens(c)igueirado Esborreteado Esbrazeados Escalfas-te

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Escarapantar Esfatachar Esgumitar Espirolitar Estercar Estoiro Estralo Estramelos Estufego Esturreira Farrajo de pão Fazer metetes Feijões desnoitados Flit Flitar

Foêrada

espantar, assustar esfarrapar vomitar; (também se usa gumitar) salpicar fazer esterco; defecar pancada; pancadaria estalo estaladas; sopapos estrafego torreira; calor fatia grossa de pão fazer caretas e trejeitos feijões que ficam de um dia para o outro um dos primeiros mata-moscas em "spray" aplicar Flit; qualquer aplicação em "spray" passou a dizer-se "tlitar" ainda que fosse de outro produto qualquer. pancada desferida com foêro.; também se utiliza quando se quer descrever uma pancada ou pontapé violentos.

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Foêro

Frangalho Gazeando Gorpelha Gumitado Inquietar Ir às sortes Jardim Jaleco Jogo da pata

Lançar

varapau usado nos carros de parelha (de duas mulas); eram utilizados vários, dispostos à vertical em tomo do carro para servir de antepara e segurar carradas a granel de trigo, palha ou feno bocado grande de pão ou de outro alimento chorando alcova grande vomitado O mesmo que irritar Ir à inspecção militar Jardim Zoológico jogo tradicional muito popular entre as crianças de antigamente. Consistia basicamente em tentar lançar um pequeno pau (a pata) para dentro de um circulo que era defendido pelo outro jogador, que com o auxílio de um bastão rebatia a pata para o mais longe possível. Digamos que era uma espécie de baseball. no contexto de uma discussão significa passar ao

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Lavaredas Lavrar de atravessado

Lazeira Macacoa Macetada Macho Magrechenhito Mais valia umas botas Malazenga Malhada

Malucates Mandongo Manuais

confronto físico. labaredas discórdia; conversa ou acção em que as coisas não estão nos confor1es; adaptado dos trabalhos da lavoura quando esta não ia de acordo com o perfil do terreno fome ataque; colapso murro muito forte, como se fosse dado com uma maceta. macho da mula; não se emprega o termo "mulo" magrinho expressão de desapontamento doença abrigo rústico para gado nornllilmente feito de mato, mas a que se podem juntar outros materiais maluco manhoso Meloais; sing. manual

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Marafar Méchira Menréis Moenga Moiral

Mover Muideiras Munilha

Mum Murraça

zangar; irritar eufemismo para "merda" mil réis; um escudo porcaria; chatice guardador de gado; embora os tennos "pastor", "vaqueiro" e outros, também sejam utilizados, muitas vezes resume-se tudo ao tenno "moiral": moiral das vacas, moiral das cabras, etc. abortar chatices; aborrecimentos protecção que se colocava no pescoço do burro ou da mula, para o proteger da canga; usava-se a expressão "Assim para munilhas porque para albardas não chega" em alusão aos albardeiros que à falta de material suficiente para fazer uma albarda, faziam uma munilha; serve como expressão de desapontamento, abreviada apenas como "assim para munilhas!” mui; muito porcaria; sujidade; embora por vezes tronbém se

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Na estoira Nalgadas - nalgásios Não queiram tomar da bacina

Obrar de esguicho O mesmo que a burra ganhou em Maio Para a magana da mana Pateado Patêrada Patilhames Penalti Pepinada Pescar à lapa Pinaça

aplique a chuva miudinha a toda a velocidade açoites. Também se usa "nalgásios" "Não queiram tomar da vacina"; por comparação com os miúdos que não queriam levar as vacinas quando a vacinação se tornou obrigatória e que faziam grandes birras. “Ah não queres tomar da bacina? Tens que a tomar!". Normalmente o assunto resolvia-se com umas nalgadas. fazer cocó de esguicho; diarreia… em Maio (Primavera) é a época de reprodução dos equídeos... para longe pisado; espezinhado paulada patilhas grandes copo de vinho, grande pancada, pontapé, ou golpe, desferido com força pescar à mão, nos buracos (lapas) das rochas cambalhota mal enrolada

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Plengana Plenganada Poêjada Pólvaróu Por mor de Porquêra Prantar Punhada Quartelhas Ramejo Rento-me Rijeza Ripando umas laricas que já nem lhe víamos o rêgo Ronseando

terrina redonda de esmalte, barro ou porcelana, de ir à mesa. de plengana pancada, pontapé, ou golpe, desferido com força polvorosa por causa de; no Alentejo converteu-se em "por monde". porcaria pôr pancada com o punho; soco cubículos para alojamento de porcos ir ao ramejo: ir roubar fruta e hortaliça às hortas marimbo-me; estou-me nas tintas frio passando umas fomes que já não víamos a direito

termo que pode servir dois fins opostos dependendo do contexto: pode querer dizer chegar (veio-se ronseando cá para ao pé), ou

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Sebatelha Só me dás fezes Sopas de assobio

Survelheta Talocada Tanchar Tarantas Tarimbeco Tarraço

partir (foi-se ronseando). estalada; sopapo só me dás trabalhos, arrelias, preocupações. prato típico com temperos vários (alho, cebola, pimento, tomate), sopas de pão, um ovo (quando havia) e bocadinhos de toucinho; reza a história que estas sopas ganharam este nome, porque não tendo mais nada para dar de comer aos filhos, um homem fez um refogado a que acrescentou os bocadinhos de toucinho e as sopas de pão; chamou-lhe "sopas de assobio" porque quando os filhos encontrassem um bocadinho de toucinho no prato deviam assobiar estalada; sopapo pancada cravar; espetar; também se usa "estanchar" vespas de origem africana que chegaram ao Alentejo não se sabe bem como objecto imprestável ou de má qualidade objecto imprestável ou de má qualidade

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Tarranadas Tóu Trilhar Tronqueirão Tronga Trujia Truve Vai de asa Vai-te balhando Venda Volta Zurragada Zurrague Zurrêra

torroadas; acto de atirar um torrão de terra contracção de "testou" ou "testó"; expressão utilizada para enxotar os cães magoar, aleijar tronco grande palavra insultuosa, sempre dirigida no feminino e sem definição precisa coisas imprestáveis, para deitar fora;tralha trouxe vai ferida de asa vai-te bailando; expressão de desaprovação ou mesmo de desprezo taberna voltada golpe desferido com zurrague chicote fumaceira

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MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 1 MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 1 - in A PLANÍCIE, 15/02/83 1. (sem título) - in A PLANÍCIE, 15/02/83 – ‘O de Lisboa’ digo eu… (ver p. 37) Vinha ê uma vez pá vila a cavalo no burro pa fazê o avio, condo óvi atrás de mim um altemoven de esgalha bordão por a estrada adiente. Passô por mim ca força toda... Tamein si nã passassi más valia uma botas e condo começô a subiri a barrêra do ôto lado da estrada, dê um estralo e começô às panderêtas até que se parô. "olhó! - pensi eu - já está escangalhado". Fui lá ó pei pa vê o que tinha acontecido. Tava o home olhando pa um pineu. Prigunti-lhe donde ele era e disse quera de Lisboa. Pá, tá tudo dito - pensi eu. Vinha-me imbora condo o vi priparado pa mudá o pineu mas volti pa trás, porque vi o baboso, que nã tinha gêto ninhum páquilo.

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Dexi-me do burro, desviio e comeci a mudar a roda, mas vi logo caquilo nã era só do pineu. Espoji-me no chão e espreti pa debaxo do carro pa vê o qué caquela moenga tinha e vi o enxo e a jente, tudo entrotado. Condo ia alivantar-me vi o home mexendo num ninho d'abêsporas. - Que bichos são estes? - preguntou eli. - Nã mexa nisso! Nã as trilhe! - Griti-lhe eu. Tá bem dexa! Foi mêmo o quele foi fazeri. As abêsporas alivanteram voio e hôve uma que le deu uma nicada nos bêços cu fez dar um berro, ôtra foi-se ó burro. O burro assim cas viu zunindo de roda das orelhas, escarampatô-se e esgalhô fugindo por a chapada arriba. Ê rasgui fugindo atrás deli pó apanhari. Daí a podaço condo volti todo esbrazeado, tava o ôtro cum lenço nos bêços quêxando-se. - Vocei é mesmo enchaparrado - Disse-leu. - Atã vocei nã sabe que na se pode mexeri num ninho d'asbesporas? E vá lá teve sorti, porque se fossem tarantas... Ati o burro a uma arve e fui veri so home tinha os beços munto enchados. Hei mãe! Tava com umas beçoletas que pareciom o bebrum dum penico! Atão o bocana nã queria pôr pomada naquilo?! Lá o convenci a pori lama nos bêços porque pá picada

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na há melhori. Condo tava cos beços enlameados, disse-le cu melhor era vir com migo à vila à busca dum mecânico. Montô-se, em cima do burro e lá fomos. O engraçado é que condo chigámos e me desmonti, olhi pa trás e ele nã estava lá. Devi ter escorregado da albarda, porque eles sabem andari de cu tremido, mas de burro, anda cá se queres... Já não volti pa trás, porque tinha de fazê o avio à minha Bia e despois fechavam as loges. Tóoouuuu! M.L. Nota de JRG: O mau estado das fotocópias que me foram fornecidas para a transcrição destas "Memórias", muitas vezes não me permitiram, possivelmente, uma transcrição correcta dos termos usados e grafados pelo autor, do que peço desculpa, e estou pronto para qualquer emenda a qualquer momento, esperando entretanto que o autor se decida apresentá-las ele próprio e sob a sua vigilância. Pela autorização verbal, que me concedeu de as poder usar nest' aminhaTEIAnaREDE, os meus melhores agradecimentos: JoRaGa.

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2 MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 2 - in A PLANÍCIE, 15/06/83 2 – (sem título) - in A PLANÍCIE, 15/06/83 - A Pega, digo eu…( ver p. 75) Um demingo, lá no Taquale havia movemento que nunca más acabava: O Grupo de agarradores lá do monti ia pegar à aldêa. Ê eró cabo dêlis pa gandes aflições da minha bia, mas êle a mim pôco m'empotava qu'ela tivesse mêdo ô não, porqueê cá nã tinha mêdo nunhum. Ó despois de se termos trajado, lá formos agenti a caminho da aldêa. Nós, os agarradores, todos com grandis patilhâmes e alguns de bigote; Távamos tôdos munto calmos: só nos tremiom os joêlhos, as mãos, o coração dava saltos que nem um coelho bravo prendido poruma pata, e távamos fumando que nem umas bêstas, mas távamos calmos. Távamos era desejando pulare p'ra cima dos cornos dos bichos. Távamos comé que se diz?... Xitados. É isso conho! Chigámos l'á à aldêa, e dexi-me da relota e fui veri sus bichos já tinhom chigado. - Já! - Arrespondê-me o campino - Tã aleim!

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Fui lá a esprêt'á-los, e condo os vi tã prêtos até os cabêlos do pêto se me puseron brancos. Ma nã foi mêdo. Fiqui foi admirado co ma côr dêlis. Até luziom! Traziom terra no lombo e tudo. - Olhem rapazis! - dissê òs do mê grupo - Os bichos, é tudo prêto que nem caravão! - Ê que maaaus! Mas assim é qué boum! - Tão com mêdo? - Virámes-se tôdos, e démos de trombas co grupo de Val Picote que tamein vinha pegari. - O mêdo ga genti teim é o que le sobra a vocêis! - Dissê fechando os olhos uma migalhimha. - Atão mas tu julgas c'agenti têmos tante mêdo c'até nos sobra? - Nã julgo! Tenho a certeza! Boum, êle já tava atabafado comigo, ê tamein já nã o podia vêri e nã tardô munto cos dôs grupos não tivessem enleados à pazada.

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Boum, ma lá começô a corrida e cabedô à genti fazere a premêra pega. Abri-se a porta do curro e de lá saíu uma vaca mertolenga. - Ah mas isto é qu'ei? é isto que voceis vã pegari? - Diziom os de Val Picote no gôzo, é que tinha havido um engano e tinhom soltado um cabresto em vez dum boi. Por fim lá soltarom o bicho qu'era, e condo os de Val Picote o virom começarom a gozari dezendo qu'era dos encarnados que nã faziom mal ninhum. Mas condo o bicho dê ali umas corridas e le saíu o póu do lombo e ficô aleim prêto, calô-se tudo. - Levom gande sova! - Deziom os ôtros. E a genti calados. O cavalêro levô aleim fazendo o trabalho deli e condo chigô ó fim pediu más um ferro. - Sai daí piolhoso! - Gritames-le a genti - Pôste feio tanchando ferros no bicho! Boum, o cavalêro saíu e a seguiri vêi o capinha armado em boum. - Vô-me aí a ti patei-te tôdo! - Gritô-le o Zei Alacrau. atei que chegô a altura d'agenti se meter-mos lá drento. O nosso grupo era case tôdo fêto por jogadoris do Taquale. Chigui ó mêi do relvado do terreno... carafo! Chigui ó mêi d'arena e brindi ó pessoali que tava na bancada. Aperalti-me todo e lá fui ê derêto ó bicho.

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- Eh prêêêto! Eh biiicho! - continui fazendo barulho mas o boi ná'via mêi de se voltari. Até quê lá ia ó mêi da praça cond'êli me viu e vei drêto a mim que parcia mêmo um'altometôra. (Continua no próximo número)

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3 MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 3 - in A PLANÍCIE, sem data legível - 1983? 3. (sem título 3 - in A PLANÍCIE, data ilegível ) - Tornêo em Lesboa, digo eu – (ver p. 47 do livro, 01704/1983) Uma vez, chigô ò Taquali um gajo com um jornali, onde vinha dezendo que s'ia fazeri em Lesboa, um tornêo entre piquenos clubis, pa ver se descobriom novos jogadoris. - Já tá - Disseu - Sagenti já formos ficamos todos convocados. Começamos atão a tratari das coisas pá viage. Premêro viémos a moira pa alugari uma carrêra e condo iamos chigando à parage das caminetes queim éi ca gente vêi? A enquipa dos Trigues do Alvarrão, que tinhom ganhado a taça à genti com uma manchêa de ciganices. - Qué que vêim fazeri? - Préguntamos. - o cagente queri. Porquêi? - Porque sim! Vá!!!

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- Boum. Já que querem saberi - disse o capitã delis em ar de gozo - viémos alugari uma caminete pa irmos a Lesboa. - Ê o quêi? Quem vai é a genti! Boum, começamos a lavrari d'atravessado, até que s'alançámos uns ós ôtros pôs antão. Condo acabámos com aquilo, fomos a falari cu home das caminetes e ele podiu munto denhêro pá viage. Ora nem a genti nem os do Alvarrão podiamos pagari a nã ser que se juntássomos. Mas coma genti na se chupava, teve mau pa se decedir. Até que resolvemos ir mêmo com elis que nã tinhamos ôtro remédio. Condo se montámos na caminete dêxámos o lado da soalhêra pó dos Alvarrão. Forom à esturrêra o caminho entêro. Condo chigámos ó Cento Destágio ô lá ó quer aquilo iom esbrazeados até má não! e a gente rinde-se. O pió foi que nã criom receber a genti, porque nã le tinhômos dito nada antis. De manêras que tivémos de dromir na caminete nessa nôte, e só no ôtro dia é c'arranjarom cartos à genti. O Cento D'estágio, foi o sítio onde ê comi a comida más mal fêta da minha vida! De manheim, em vez de nos darem pã com lenguiça ô tôchinho e uma punicada de cafêi, deromnos lête e pã torrado com marmelada. A genti nem le tocámos. Ò almoço quisemos açorda, derom-nos pêxe. Ò jantari, quisémos uns fêjanitos com orelha de porco, derom-nos frango com batatas. Boum, lá comêmos porque tinhômos passado o dia entêro em fraqueza ripando umas laricas que já nem le viômos o rêgo. Tevémos lá uma semana e todos s'admirarom munto cagente porquem vez de se peorcuparmos com trênos e o tornêo, passássemos os dias entêros espojados debaxo das arves

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fumando, e bobendo vinho. Até porqu'iamos jogari com uma enquipa alemôa, quêles tinhom trazido pa jogari com as enquipas todas, e a que tivesse jogadores milhores, é qu'ia jogari contró Benfica e o Sport. Chigô o dia do jôgo, e nunca más m'esqueço daquilo que senti, condo pisi a premêra vez um campo arrelvadu, era cá uma macieza nos péis! ê dantes só tinha jogado em campos cheios de bajôlos - foi atão que repairi cu Cara de Cinoira, tava arrancando a erva pra brento dum saco, pa dá òs coelhos lá no monti. Condo eli acabô, lá se preparámos todos, ia começá o jôgo. (continua… ver livro pp. 48 - 50)

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4 MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 4 - in A PLANÍCIE (data - 1983?) 4 – (sem título) 1/2/1983 - A Excursão, digo eu… Uma vez lá no Taquali alembrasmos-se de fazê uma eiscursão. - Vamos a Lisboa ver os Giròlmos! - Disse o Abel Tengirina. - Nã sinhoira. Vamos ó Algarvi! - Disse o Zéi Alacrau. - E porquê ó Algarvi e nã ós Girólmos? - Porque no Algarvi podes banhari e nos Girólmos nã podes. Fomos atão ó Algarvi. Pensámos em iri no tractori do Cara de Cinoira mas levava munto tempo. De manêras c'acabámos por alugari uma Carrera, que sempre era melhó estamporte. Por o caminho fomes-se todos devertindo menos a minha Bia, que se farto de gumitari. - Tu vês más algueim gumitari? - Prêgunti-leu - Ês mêmo charrôca!

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Fomos ralhando os dois o caminho todo. Por fim chigámos à praia ô lá o quera aquilo. Ê fiqui parvo! Ê sabia cu mari era uma rebéra grandi, mas assim tamém não! Atã e aqueli podaço d'arali? E arêa boa! O Cara de Cinoira até enche uma saca pa fazê um raboco lá pá malhada dos porcos. Atã e o gentio? E os altemóvens? Erom por demais. Lá se despimos até ficarmos só com as calças, e fomos a enterrar um agarrafão do Cartaxo lá adiente, drento d'água. Foi atão que vimos uns bocanas a jogari à bola. Fizemos uma enquipa contra elis pa mostra como se joga. Eles olhavam pá gente e riom-se, nã sê porquêi. Sairom elis. Hôve um que fintô o Zei Alacrau, e já eli ia atrás deli pa lhe dá uma foêrada, condo ê le dissi: - Dêxó comigo Zéi! - O ôtro, julgava que mia fintari, mas ê di-le uma pupinda nas canelas cu fiz dá 2 voltas no ari. Parcia um piã d'Alvito. -Se calha, cuidavas que passavas não? - Disse-leu.

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Daí a podaço numa jogada dagenti o guardaredis delis ia a sairi ós peis do Cara de Cinoira, e eli fez-le um truqui dos deli: Dêtô-le um punhado d'arêa pós olhos e marco o golo. Elis disserom logo que já nã criom joga mais. - Voceis nã querem jogar e a gente vamos pa drento d'água. - Bora! - Gritámos fugindo. Mal entrámos n'água diz o Zéi: - Eh! A água é salgada! - Ah! Éi agora! - Não? Atã porvem lá. Pusemes-se tôdos a provari a água. - Qué lá saberi! Banho na mêma. Mal tínhamos começado a banhari aparece um gajo a dizeri: - Os senhores nã podem tomar banho hoji. Nã vêem a bandêra virmelhe?

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- Atã e condo é que se podi? - Condo estiver verde. - Atã prantem lá uma bandêra verdi! Essa é boa! - Ê banho memo porque quero - Disse o Cara de Cinoira e abalô lá mais pó mei do pego. Ora enleô-se nas ondas, tiveram cu ir vescar de barco. E éli banhava beim. Despois tiverem cu fazê gumitá a água e arrespiração bocaboca, com o salva vidas dando-le bêjos nos bêços. Aquilo era memo nojento, carafo! … A minha Bia e as ôtras, andarom até horas d'almoço mulhando-se inté às curvas das pernas. Despois almoçámos, bobemos uns escolates valentis e tivemos a tarde entêra cantando à alentejana na praia até o soli se pôri é que se viemos imbora. O pió desse dia é candámos todos uma mancheia de tempo com as costas e o pêto empolados até más não.

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5 MEMÓRIAS DE MANUEL LOENDRÊRO 5 - in A PLANÍCIE (data - 1983?) 5 (Sem título) – 15/5/1983 - A Escola, digo eu… Conde era rapazinho p'aí com uns 7 ò 8 anos, a minha mãe disse-me quê tinha d'ir pà escola aprende a ler e a escreveri. -Nã quero!- Griti eu - Se me chegom a tanchar na escola fujo de casa! Com'a minha mãe pa estas coisas era mais má c'uma dôr de barriga, dê-me um estramelo nas ventas que me fez ver as estrelas 3 dias pa lá do solposto. De manêras que na ganhi nada com a torada que fiz e acabarom por me pôri na escola da Dfesa. Lá ia ê todos dias mais os ôtos do mê tamanho a péi até à escola. E erom uns quilómetros valentis! E ódespois tinhamos que passar a ponte do Ardile adonde ficávamos banhando o maior parte das vezis. Encontê andi à escola, nã hôve nem um dia (nem um diazinho sequer), quê chigasse a horas. Todos dias levava uma carga de estoiro e nã me desmanginava. O pió de tudo era a passage da ponti: ó iamos pescar à lapa ó íamos banhari, e escola... visteza! A pressôra préguntava ondé ca gente tinha andado e a gente dezia sempri:

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-Fomos ós ninhos, m'sôra! No fim ela dava dez réguadas a cada um, e mandava-nos pó canto de castigo. Êramos sempe os mesmos: ê, o Zéi Alacrou e o Cara de Cinoira. Desde piquininos c'andámos sempe juntos! Uma vez (esta nunca mais me esqueci), no entervalo armámos uma garreia, e condo a pressôra foi lá ròbámos o sino leváme-so ò Ardile e tanchámos com eli no fundo do Pego dos Marmelêros. Ódespois abalámos cada um pa sê chêral lá pa longi; de manêras que condo a perssôra quis meter a genti na sala teve c'andar fugindo por aquelis cabeços, chamando a genti. Eh que torada! Já nã hôve escola nesse dia qu'ela nã conseguiu apanhar nengueim. O pió foi no dia a seguiri quela dê uma sova de réguadas na gente todos, e ódespois fez preguntas. Condo chigô a minha vez, quis saber quem é que tinha sido o premêro Rei de Portugali. -Sê lá eu! Algum pante-minêro! -Levas dez réguadas! -Qu'é lá saberi! Nã me doiem! -Batê-me ca força toda e passô ò Cara de Cinoira.

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-D. Dinis! - Responde eli. Mái estoiro, A seguir foi o Zéi Alacrau. -Ê cá nã fui! Eh! A pressôra chamô-le tudo! Dê-le uma mã cheia de réguadas co Zéi até arroto a pirum seco ódespois fez-nos um ditado. Condo o corregiu, disse quê era o que linha tido menos erros. Fiquei todo babado. - Atã e contos tive msõra? -Quatorze! -Sóu?! Eh! A última vez que fizemos o ditado, tive alguns dezanovi. Tô a ficá boum! Levi quatr'anos pa fazè a sigunda classi, e dezia sempe ó mê pai que passava, todos os anos de manêras quele julgava quê já andava na quarta. -Atâ e este ano? Passas? - Préguntô-me eli. -Tá um becado malote! -Tá um becado malote? Atã mas que conversa é essa? Tarei quir a falar ca pressôra ?

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Ei céu! Esconfique até as unhas dos péis se me puserom brancas! O mê pai chigô lá à escola e préguntô que tal ia eu. A pressôra disse quê nã era munto mau, mas naqueli ano não devia passari. -Tameim! A quarta classi é uma migalhinha puxada! Quarta classi? Condo ela lhe dissi quê só andava na sigunda, ele dê um pulo até às nuves. Parecia que le tinha picado um atabão! Picô o burro drêto ô Taquali com vontadis de me esfolar vivo, ma condo lá chigô, já ê tinha fugido. Ora Boum! Andi fugido alguns dois dias, ma memo assim nã me livri da sova. E foi por casa destas capeias que só acabi a 4ª classi com alguns dezassete anos. Nota – é provável que a digitalização destas transcrições, que foram feitas a partir dos recortes dos jornais e já um pouco deteriorados, não coincida com as crónicas publicadas na livro, e foram revistas pelo autor. Aqui fica a minha nota, com um ABRAÇO ao Luís – o ‘Manel Loendrêro’, JRG

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trabalho realizado por @ JORAGA Vale de Milhaços, Corroios, Seixal 2012

JORAGA JORAGA

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José Rabaça Gaspar
Corroios - www.joraga.net - 2012