PSICOLOGIA COMPORTAMENTAL III Conjunto COMPORTAMENTO VERBAL E O CONTROLE DO COMPORTAMENTO HUMANO1 Tereza Maria de Azevedo Pires Sério2 O foco

central do interesse do estudioso da psicologia é o comportamento humano e foi com este interesse que conduzimos nosso estudo dos conceitos de comportamento operante e de comportamento respondente. Ao realizarmos este estudo, toda nossa atenção esteve voltada para as relações entre o organismo que se comporta e seu ambiente; para analisar essas relações recorremos a situações especialmente criadas para revelar a relação que, naquele momento, era o foco da análise, o que quase sempre significou uma situação experimental com sujeitos animais não humanos. Partindo de tais análises e, no caso do comportamento operante, das relações envolvidas (a) entre as respostas e suas conseqüências (que podem ser resumidas com o conceito de reforçamento) e (b) entre as respostas e a situação na qual elas produziram conseqüências (que podem ser resumidas com os conceitos de discriminação e generalização), chegamos a abordar uma relação considerada como tipicamente humana: o comportamento verbal. Este trajeto que parte da análise de relações pelo menos aparentemente simples e que chega à análise do comportamento verbal não deixa dúvidas sobre o compromisso da análise do comportamento com
1 2

o

comportamento

humano

como

objeto

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estudo.

E,

Material especialmente elaborado para fins didáticos, elaborado em 2004 Professora do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

a situação na qual ele ocorria e as conseqüências. afirmando que quando os homens passaram a ter com o ambiente uma nova relação que chamamos de comportamento verbal. além de se relacionar com o ambiente e ser alterados por tais relações. Elas descreviam seu comportamento. agora. os analistas do comportamento vêm estudando há algum tempo as possibilidades de novas relações entre o homem e seu ambiente abertas pelo comportamento verbal. então. . além de serem afetadas pelas contingências de reforço. vêm estudando algumas relações comportamentais que dependem do comportamento verbal para que possam ocorrer. descrever o que estava ocorrendo com eles. eles podiam. Em outras palavras.119) Skinner (1974) está. agora. As pessoas começam a falar sobre o que elas estavam fazendo e sobre o porquê estavam fazendo o que faziam. Skinner afirma: A chamada vida intelectual da mente sofreu importante mudança com o advento do comportamento verbal. além de viver as contingências. em outras palavras. Neste último texto. tais relações têm sido consideradas como tipicamente humanas. analisar essas contingências.2 efetivamente. elas começam a analisá-las. quando ele discute o processo de solução de problemas (1969) e quando discute os processos comportamentais chamados de pensamento (1974). (p. por exemplo. Qual a importância dessa nova aquisição comportamental? Que impacto ela produz na vida dos homens? Qual sua extensão? Um possível caminho para respondermos essas questões seria analisar o porquê dos homens passarem a analisar contingências. em outras palavras. Uma dessas possibilidades abertas pelo comportamento verbal foi abordada por Skinner em alguns de seus textos como. abriu-se para eles uma possibilidade até então inédita: eles podiam. identificar as conseqüências responsáveis pela instalação e manutenção das respostas de analisar contingências.

Falando de maneira mais direta: as respostas de descrever contingências produzem uma conseqüência especial que é a produção de novas respostas no repertório de uma outra pessoa. mais do que isso. concluiremos que sim. 1974). Ao realizarmos tal verificação. E esta é a conseqüência especial produzida pelas respostas de descrever contingências: gerar respostas novas sem que seja preciso modelá-las. esta constatação parece insuficiente para entendermos a instalação e manutenção dessas respostas específicas. então. verificar se há alguma característica especial no controle exercido pelas respostas de descrever contingências que indique as razões da seleção e manutenção dessas respostas específicas. É bem possível que você se lembre que a questão de como gerar respostas operantes já foi abordada e que a resposta que demos para ela foi a modelagem: por meio de reforçamento diferencial de respostas levemente diferentes da resposta que já está sendo emitida e reforçada. poderemos ver que a não dependência da modelagem para gerar novas respostas contém outras conseqüências que. respostas estas que surgem por variação.3 Uma primeira constatação é que nossas respostas de descrever contingências podem exercer controle sobre outras pessoas. revelam a real importância de . Entretanto. podem ser geradas respostas totalmente novas no repertório de um sujeito. estamos agora diante de uma nova possibilidade de gerar novas respostas no repertório de alguém sem que tenhamos que recorrer à modelagem de tais respostas. Como destaca Skinner nos dois textos indicados (1969. nossa simples presença poderia exercer tal controle. parece que há uma característica especial no controle exercido pela descrição de contingências. Precisamos. quando reconhecidas. pois qualquer outra resposta nossa poderia exercer controle sobre outros homens. ao descrever uma contingência para outra pessoa. podemos gerar respostas que essa outra pessoa ainda não tinha emitido antes. Pois bem. Se olharmos mais detalhadamente.

finalmente. São esses aspectos que destacamos a seguir. 1974). conseqüência maior de independer da modelagem foram explorados em vários dos textos escritos por Skinner. Ao seguir instruções. Ao referir-se a este aspecto. quando é dito para ela que faça essas coisas. ela liga o carro. O futuro motorista teria de descobrir o que acontece quando ele move o câmbio. breca.120.) Aprender a dirigir simplesmente por meio de exposição às contingências [por modelagem] levaria um tempo muito longo. Em primeiro lugar.4 tal independência. pisa no breque etc e tudo isso com grande perigo para si mesmo. que seriam gradualmente reforçadas até que a resposta a ser finalmente gerada aparecesse e pudesse. ser reforçada. faz sinais etc. essa descrição aparece nas instruções dadas pelo instrutor): evitar danos que poderiam ocorrer caso a geração de novas respostas ocorresse por modelagem. por assim dizer. comporta-se como o próprio instrutor se comporta. muda a marcha. então. ao lado do aspecto de economia de tempo na geração de novas respostas. Além desses dois aspectos já indicados.. (. em especial nos dois já indicados (1969.(...) O instrutor [ao descrever as contingências] tornou possível ao aprendiz ficar sob controle delas rapidamente e sem dano. pressiona o acelerador. vira a direção. ele evita expor-se a muitas dessas contingências e. Skinner (1974) exemplifica-o recorrendo ao que supostamente acontece quando estamos aprendendo a dirigir um automóvel: Uma pessoa aprendendo a dirigir um carro responde ao comportamento verbal da pessoa sentada a seu lado. Estes aspectos contidos na. a descrição de contingências possibilita a geração de respostas novas em situações nas quais as conseqüências das respostas a serem geradas são tão . 121) Com este exemplo.. (pp. o fato de não precisarmos modelar uma resposta significa que não precisamos esperar pelo aparecimento de variações da resposta já emitida. no exemplo dado. Skinner (1974) ressalta um outro aspecto derivado do fato dessas respostas terem sido geradas a partir da descrição de contingências (deve-se notar que.

um grande fole produz a corrente de ar necessária para manter o fogo. entre outras coisas. . O fole era mais eficiente se fosse aberto completamente antes de ser fechado e se fosse aberto rapidamente e fechado lentamente. as descrições das contingências envolvidas elaboradas a partir da consideração de muitos episódios “podem capacitar as conseqüências a longo prazo a superar as imediatas” (p. Para ilustrar esta possibilidade. ele ilustra isto citando exemplos tais como fumar e consumir algo (para citar um caso conhecido. Um pequeno verso cumpria esta função: Para cima. para lembrar como fazer para operar o fole.5 atrasadas que fica difícil recorrer a elas para gerar e fortalecer tais respostas. nos dois casos. Para cima.298). passado algum tempo. Segundo Skinner (1969. mas a descrição pode ter sido útil para operar corretamente o fole ou. além de permitirem a geração de novas respostas sem o recurso da modelagem (com tudo que isto traz ‘embutido’). ainda. 1974). Para baixo. o autor recorre a possíveis relações presentes no trabalho de um ferreiro: Na forja de um ferreiro medieval. Skinner (1969) ressalta. Ele poderia ter aprendido a manipular o fole desta maneira sem descrever seu comportamento. Como indica Skinner (1969). como ressalta o autor. que tais descrições ganham especial utilidade quando as conseqüências imediatas das respostas são opostas a conseqüências atrasadas que deveriam ganhar controle sobre elas. o consumo de energia ou de água) gerando privação no futuro. ela pode deixar clara a relação entre a resposta e a conseqüência atrasada que ela produz. rápido. as respostas de descrever contingências. podem auxiliar no controle de respostas que foram instaladas por meio da modelagem. devagar. nesses casos a descrição da contingência da qual estas respostas fazem parte pode ser útil para gerar essas respostas já que. O ferreiro aprendeu a operar o fole desta maneira por causa dos resultados reforçadores da manutenção do fogo. Para baixo.

segundo ele. mas pode complementar as contingências responsáveis por tal instalação. aumentando a chance delas serem emitidas no ritmo apropriado) e. tendo interrompido o trabalho. como por exemplo. a descrição da contingência na forma do verso não foi necessária para instalá-las. já desde o início.6 Esta é a maneira de soprar. Segundo Skinner (1974).123) Como mostra este exemplo. p. as respostas de manipular o fole foram instaladas por meio de modelagem e estão sendo mantidas pela conseqüência imediata que produzem (a permanência do fogo acesso de forma adequada). (1974. auxiliando a emissão correta das respostas (por exemplo. Skinner (1974) analisa a difusão e a especialização das respostas de descrever contingências (as respostas de descrever contingências passam a fazer parte do repertório da maioria das pessoas e as descrições especiais). semelhante à regra do ferreiro. com todas as características apropriadas. que começam tal difusão a a e apresentar uma das as determinadas especializações características possíveis (aquela passou caracterizar descrições de contingências feitas por cientistas) acabam por dar relevo especial a este último aspecto destacado. pode ter sido usado para ensinar . mais. as descrições de contingências produzidas por cientistas (as leis dos vários ramos da ciência) surgiram das descrições que eram feitas por trabalhadores técnicos. Por esta razão fizeram-se pás e estacas compridas e algum conhecimento. Um agricultor cavando o solo um pedreiro erguendo uma pedra com uma estaca estavam controlados pelas contingências que envolviam alavancas: o solo ou a pedra eram movidos mais rapidamente se a força fosse aplicada tão longe quanto possível do ponto de apoio da alavanca. As primeiras leis científicas complementaram as contingências naturais do mundo físico. Como Skinner (1974) ressalta. pode auxiliar o ferreiro a. A partir deste mesmo exemplo. é claro que o ferreiro também poderia recorrer a esta descrição para gerar as respostas necessárias para operar o fole em um aprendiz de ferreiro. os artesãos e. voltar a ele.

fortalecer contingências que controlam comportamentos que seriam prejudiciais ao grupo ao qual o indivíduo pertence (contingências mantidas por ambientes sociais) e podem ser especialmente importantes quando há alterações bruscas em relações que vinham mudando lentamente: Quando contingências sociais características de uma comunidade pequena que muda lentamente são perturbadas. por exemplo. também um nestes casos. uma pessoa é capaz de comportarse efetivamente sob as contingências de um mundo extraordinariamente complexo.. orientações formais. inevitável no espaço de uma única vida. (.) Ao aprender as leis da ciência. Skinner (1974) destaca o papel que a descrição de contingências pode ter no controle que o grupo social pode ter sobre o indivíduo. A ciência também a coloca sob controle de condições que não poderiam tomar parte na modelagem e manutenção de seu comportamento. precisam ser invocadas.7 novos trabalhadores a como escolher e onde segurar pás e estacas. A ciência a leva além da experiência pessoal e além da amostragem incompleta da natureza.. as descrições sobre o como conseqüência controle especial comportamento de outras pessoas. já que cada um desses conjuntos de descrições atende a determinadas exigências e apresenta peculiaridades produzem próprias. Não é . 124) Tal como fizemos com as leis da ciência. as normas religiosas e governamentais como especializações de descrições de contingências. E. (p. (p. que antes eram desnecessárias.122) A análise apresentada até aqui das possíveis conseqüências produzidas pelas respostas de descrever contingências indicou que a imensa maioria delas envolve alterações no comportamento de outra pessoa e alterações que dificilmente ocorreriam de outra forma. Uma afirmação mais formal da lei da alavanca permitiu que o princípio fosse usado em situações nas quais o comportamento modelado por contingências fosse improvável ou impossível. tais descrições podem. segundo ele. podemos considerar as normas sociais.

Isto que dizer que em algum momento. orientações. que não fazem referência 3 Existe. em alguns casos. 1974). e mais. entre eventos ambientais. de conselhos. leis governamentais. quando falamos em ordens. ou mesmo observou alguém se relacionando com o ambiente e descreveu a contingência presente3. que as respostas de descrever contingências tenham se mantido. máximas. a própria resposta e as conseqüências produzidas por essa resposta nessa situação e você pode ter muitos exemplos de conselhos. pelo menos no caso de relações operantes entre o sujeito e seu ambiente. tenham se difundido e tenham assumido formas e características variadas. uma contingência envolve sempre uma inter-relação entre a situação na qual a resposta foi emitida. não é de surpreender que tantas pessoas apresentem com muita freqüência respostas de descrever contingências e que gastem tempo e esforço ensinando outras pessoas a descrever contingências. conselhos. nada mais nada menos. instruções etc. provérbios. Pode ser que pensando em alguns exemplos de ordens. de leis você não os identifique como uma descrição de contingências porque. diante do produto de respostas de descrever contingências. remoto ou não. por exemplo. . ou seja. ou participou de uma determinada relação com o ambiente. avisos. Segundo Skinner (1969. em cada caso. Apenas para facilitar a leitura do texto esta possibilidade não está sendo considerada no corpo do texto. alguém observou uma relação entre eventos ambientais.8 de surpreender. É possível que o reconhecimento da presença quase que constante de tais respostas em nosso repertório comportamental seja facilitado se notarmos que as respostas de descrever contingências têm sido nomeadas de diferentes formas. avisos. instruções. como indica Skinner (1969) uma quarta possibilidade que é a descrição de uma contingência a partir da análise de descrições já formuladas. Independentemente da forma que tais descrições apresentam hoje. em todos esses casos estamos. estamos. estamos descrevendo uma relação entre um sujeito e seu ambiente ou. na realidade. então. falando em descrições de contingências. leis religiosas e leis científicas.

na verdade. Isto é. Assim. é preciso para produzir essa alteração. faça tal coisa se não.). uma ordem pode falar apenas da resposta (por exemplo. Por exemplo. é possível que a esta altura você esteja se perguntando por que será que. ou apenas a resposta e sua conseqüência) e talvez este tipo de descrição seja o que encontramos diferentes mais freqüentemente. afinal parece ser esta a conseqüência que nos mantém emitindo as respostas de descrever contingências. além da própria descrição. indicam as chances que a descrição tem de alterar o comportamento do outro e a que recorre aquele que descreve para produzir tal alteração. o que distingue uma descrição de outra a ponto delas receberem nomes diferentes são as condições que elas têm de alterar o comportamento de outro e o que mais. recorremos a diferentes nomes para falar dessas descrições? Ainda segundo Skinner (1969. nem sempre descrevemos todos os elementos constitutivos de uma contingência. apresenta os três elementos característicos da contingência operante. É claro que nem sempre uma ordem.. Bem. se chamamos uma descrição de contingências de uma ordem é porque há poucas chances desta descrição não alterar o comportamento de quem a está ouvindo. de Mais do de que uma reconhecer descrição as de possibilidades apresentação contingências. podemos ter descrições de contingências que não são descrições completas. 1974). se em todos esses casos estamos falando de descrições de contingências. por parte daquele que . ou pode falar da resposta e da conseqüência (faça tal coisa se não.. ou pode falar dos três elementos (em tal situação. que são descrições parciais de contingências (descrevemos apenas a resposta. os nomes diferentes.)..9 a estes três elementos. por exemplo. ou apenas a resposta e a situação na qual deve ser emitida. isto possivelmente porque uma descrição que chamamos de ordem parece sempre envolver. seria importante nos perguntarmos sobre o impacto da completude ou incompletude da descrição na geração de respostas.. faça tal coisa).

Mais uma vez. um traço característico dos diferentes grupos humanos. É por esta razão que Skinner (1974) enfaticamente afirma: Não precisamos descrever as contingências de reforço para sermos afetados por elas. por parte daquele que descreve. ou seja. se chamamos uma descrição de um conselho. possivelmente porque uma descrição de contingências que chamamos de conselho não envolve nenhum outro tipo de controle.127) . Resumindo. podemos dizer que respostas de descrever contingências são. pelo menos. além de apresentar a descrição. A presença de tais respostas é tão marcante que é muito comum acreditarmos que as descrições de contingências são um elemento necessário para que nos comportemos ou. algum tipo de controle adicional (isto é. De qualquer forma.10 descreve. que as descrições estão sempre presentes quando nos comportamos. o controle de quem descreve se estende às conseqüências da referida alteração. parece que as pessoas que ouvem o conselho podem ou não ser alteradas por ele (elas podem ou não seguir o conselho dado). o poder de prover conseqüências para as alterações que a descrição deveria gerar. além da apresentação da descrição) sobre a alteração no comportamento do outro. estamos dizendo que quem descreve tem. além do poder de apresentar a descrição. quando chamamos uma descrição de ordem. dificultar nossa compreensão do papel das descrições de contingências na construção do comportamento humano. seria interessante identificarmos quais os aspectos envolvidos na relação da descrição com a alteração no comportamento de outras pessoas que são responsáveis por nomearmos descrições de contingências com diferentes nomes. chegando até a obscurecer sua importância. Os organismos inferiores presumivelmente não descrevem contingências. hoje. contraditoriamente. mais do que reconhecermos a presença de uma descrição em cada um desses diferentes nomes. nem a espécie humana fazia isso antes de ter adquirido comportamento verbal (p. Esta crença tão difundida entre nós pode. Já.

ou seja. para uma espécie que deve ter alguns milhões de anos). Talvez deva ser notado que. podemos mudar nosso foco e colocá-lo no comportamento de quem é afetado pela descrição. antes do aparecimento do comportamento verbal (deve ser destacado. isto é. Você deve ter notado que toda a análise apresentada até aqui envolveu sempre o comportamento de duas pessoas: a que apresenta a descrição da contingência e a que é afetada por esta apresentação. podemos passar a analisar não mais o comportamento de descrever contingências e sim os comportamentos que estão sendo gerados por tais descrições. que o próprio comportamento verbal é produto dessas relações com o ambiente que não podiam ser descritas). aqui. de há de uma contingência para que a) ser tal o um duas afirmações contingências importantes: deve comportamento descrever comportamento tipicamente humano e b) um comportamento com história recente na espécie humana. isto é. pode emitir a resposta de descrever contingências. na tentativa de completar a análise apresentada. Skinner (1974) oferece duas razões para esta conclusão: a) organismos não humanos são afetados por suas relações com o ambiente e b) os seres humanos foram afetados por suas relações com o ambiente antes de poderem descrever tais relações. Até aqui falamos do comportamento de descrever contingências. mesmo que tais relações não tenham ainda sido descritas por nós mesmos ou por qualquer outra pessoa. com tal argumento. produzem mudanças em nós. nosso foco de análise esteve no comportamento da pessoa que. temos pelo menos duas pessoas se comportando: aquela cujo comportamento é o foco de nossa análise. junto com a afirmação da não necessidade contingência da nos descrição afete. Porém. a que descreve . só pode ter ocorrido depois do surgimento do comportamento verbal (cerca de 100 a 50 mil anos atrás.11 Nossas relações com o ambiente nos afetam. Quando o foco de nossa análise é o comportamento de descrever contingências. tendo um determinado repertório verbal estabelecido.

então. a seguinte contingência estaria sendo analisada: estímulos antecedentes relação observada entre um sujeito (que pode ou não ser o próprio A) e o ambiente4 resposta descrever contingência (pessoa A) Conseqüências a gerar comportamentos em outro (no caso. continuamos tendo duas pessoas envolvidas. ou seja. . que a seguinte contingência está sendo analisada: estímulos antecedentes descrição de uma contingência (apresentada por A) resposta resposta especificada na descrição apresentada (respostas de B) conseqüências alterações ambientais produzidas diretamente pela resposta especificada na descrição e/ou alterações ambientais produzidas por seguir a 4 Como foi indicado em nota anterior. neste caso. naquela pessoa que poderá ser afetada pela descrição apresentada. aquela cujo comportamento é conseqüência para as respostas da primeira pessoa (vamos chamá-la aqui de B). nosso foco agora está nas respostas da pessoa B. podemos dizer.12 a contingência (vamos chamá-la aqui de A). ou seja. entretanto. poderiam aparecer também contingências já descritas como estímulos antecedentes da resposta de descrever contingências. em B) Ao fazermos a mudança de foco. enquanto que algumas respostas da pessoa A passam a ocupar o lugar de estímulos antecedentes para as respostas geradas na pessoa B (a descrição de contingências passa a ser a condição que antecede a emissão de respostas de B) e outras resposta de A podem também ter o papel de conseqüências para as respostas de B. e a pessoa que é alterada pela descrição apresentada.

Neste caso.13 descrição (possivelmente reações de A às respostas de B) Podemos também. nesta outra possibilidade. teríamos s seguinte contingência sendo analisada: estímulos antecedentes descrição da contingência estímulos que evocam a resposta especificada pela descrição resposta resposta especificad a pela descrição Conseqüências alterações ambientais produzidas diretamente pela resposta especificada na descrição e/ou alterações ambientais produzidas por seguir a descrição (possivelmente reações de A às respostas de B) . a descrição da contingência geraria respostas em B alterando a função de determinados estímulos que passariam. então. ter uma outra possibilidade para a contingência que descreve o comportamento de B. quando os comportamento de B são o foco da análise. a descrição poderia ser vista exatamente com um estímulo condicional. isto é. Para compreender esta outra possibilidade precisaremos recorrer ao conceito de estímulo condicional (o estímulo que altera a função de SD ou SΔ dos estímulos antecedentes de uma contingência tríplice) pois. a ter função de SD.

estímulos discriminativos.14 Contingências que têm descrições de contingências como estímulos antecedentes foram inicialmente descritas por Skinner (1963. que é o comportamento que foi modelado pelas suas conseqüências. 275) Catania (1999) é. Catania (1999) preferiu chamar tais comportamentos de ‘comportamento governado verbalmente’: Algumas vezes o que as pessoas fazem depende daquilo que elas foram instruídas a fazer. uma discriminação condicional) e sempre que falamos em discriminação falamos em uma história de reforçamento diferencial tendo como critério os estímulos na presença dos quais a resposta é emitida. as pessoas freqüentemente seguem instruções. Isto que dizer que uma descrição de contingências só vai gerar respostas se descrições tiverem sido estabelecidas como estímulos . no segundo. também. um dos autores que reconhece as duas possibilidades das descrições como estímulos antecedentes: É importante observar que esses antecedentes verbais [as descrições] não são. a descrição da contingência ela participa é parte ela mesma de uma outra contingência.(p. em vez de funcionarem como estímulos discriminativos. nas duas possibilidades indicadas. 1969) que se referia aos comportamentos descritos por essas contingências como ‘comportamento governado por regras’. Mais recentemente...) Muitas instruções alteram as funções de outros estímulos. O comportamento determinado principalmente por antecedentes verbais é chamado de comportamento governado verbalmente (algumas vezes também chamado de governado por regras). como estímulo antecedente (estímulo discriminativo ou estímulo condicional) desta outra contingência e para que isto aconteça é necessário que ocorra reforçamento diferencial tendo como critério a presença da descrição.275) Como podemos notar. nos dois casos. Ou seja. uma discriminação simples. necessariamente. ( p. (. estamos diante de uma contingência que descreve controle de estímulos antecedentes (no primeiro caso. suas propriedades diferem das do comportamento governado por contingências ou modelado por contingências.

não é a simples presença de uma descrição que produzirá alterações em nós. De certa forma. dois aspectos bastante presentes podem ser visto como indicação desse reconhecimento: a) o extenso. nenhum controle sobre nós. como sugerem Andery e Sério . o que exigirá uma longa história de reforçamento diferencial na qual na presença de descrições respostas de segui-las tiverem sido reforçadas. Assim. eles não exerceriam nenhuma influência. como no caso de qualquer estímulo. contingências a e compreensão do impacto do que comportamento ele pode ter de para descrever o próprio comportamento humano depende. passamos com para tal seguir regras.148). como um estímulo discriminativo” (p. Como você pode notar. esta necessidade de reforçamento diferencial tem sido reconhecida em nossa vida cotidiana. uma descrição seria apenas “um objeto no ambiente”. na ausência de uma história de reforçamento diferencial com as características acima indicadas. encontraremos uma regra que já não traga junto. a descrição “é efetiva como parte de um conjunto de contingências de reforçamento. organizado e difundido aprendizado instruções e pelo b) qual e. explicita ou implicitamente. uma lei etc não é condição suficiente para que elas produzam qualquer alteração em nós. Como afirma Skinner (1969).15 discriminativos. as conseqüências de segui-la. uma instrução. A simples presença de uma ordem. se não tivermos passado por uma história de reforçamento diferencial na presença desses “objetos do ambiente”. dificilmente mesmo aprendizado. a descrição só produzirá alterações se tiver adquirido função de estímulo discriminativo ou de estímulo condicional por meio de reforçamento diferencial. o reconhecimento das descrições como estímulos antecedentes com funções determinadas em uma contingência nos obriga a rever algumas crenças razoavelmente arraigadas que temos sobre o comportamento humano. conselhos. Este é um aspecto importante pois nos obriga a reconhecer que. um conselho.

na realidade. então. perguntas: a) quais as condições envolvidas na transformação de um determinado comportamento nosso em estímulo discriminativo para respostas de observar e descrever? b) quais as condições envolvidas na transformação dessas descrições em estímulos discriminativos para respostas que elas especificam? Mais uma vez. as autoras chamam este momento de ‘contingência primária’. pois estudando a construção de estímulos duas discriminativos estaremos respondendo. precisamos. Ao viver tais interações. Ao reconhecer a descrição como um comportamento. basicamente. estaremos. mais especificamente. este é o terceiro momento que deveríamos estudar. Segundo Skinner (1969. Como acabamos de ver. descrever a contingência que tem a descrição como estímulo antecedente com função discriminativa ou de estímulo condicional. pelo menos o estudo de três momentos distintos. Como indicam as autoras. a pessoa e o ambiente são transformados. ao adotarmos esta perspectiva. o fato de existir uma descrição não indica nada sobre os efeitos dessa descrição sobre os comportamentos de quem elaborou a descrição ou de outras pessoas. Um primeiro momento refere-se às interações com o ambiente vividas ou observadas por uma pessoa. 1974). este seria o segundo momento a ser estudado.16 (2002). a descrição não ocorre automaticamente. esta maneira de analisar a produção de descrições e. entretanto nada garante que essa interação seja descrita pela própria pessoa ou por outra. estamos nos defrontando pelo menos com duas crenças difundidas: a crença de que nosso contato com nossos comportamentos é imediato e automático e a crença de que a existência de uma descrição é condição suficiente para que ela nos afete. as possibilidades dessas descrições alterarem nosso comportamento acaba também superando (ou pelo menos tratando de outra maneira) algumas . ao estudarmos esses três momentos. precisamos identificar a contingência que o descreve. como você pode notar.

se analisarmos a produção de descrições de interações homem-ambiente e a relação dessas descrições com a geração de comportamentos no homem da forma aqui proposta. Como antecedentes vimos. Dentre as dezesseis dicotomias analisadas por Skinner (1974). e. em determinados momentos. ‘deliberados’. essas diferenças até aqui tratadas como características ou traços opostos podem ser entendidas como diferenças entre comportamentos gerados por descrições e comportamentos gerados por modelagem. o que quer dizer conseqüências sociais. intuitivos ou emocionais. São essas características das contingências que nos levam a qualificar os comportamentos envolvidos nesses casos como ‘racionais’. seriam dificilmente. possíveis se portanto. ou mesmo explicar episódios do cotidiano: razão X paixão. tal como são formuladas essas dicotomias parecem supor uma oposição entre diferentes dimensões. nesses casos. Entretanto. podemos citar como exemplos algumas oposições que são oferecidas para caracterizar. argumento lógico X intuição. intelecto X emoção.17 dicotomias que são bastante comuns entre nós. as contingências da que têm como estímulos entre as ‘descrições contingência’ incluem conseqüências que as constituem ‘alterações ambientais produzidas por seguir a descrição’. ou como ‘apenas seguindo nossa vontade’. o que chamamos de conseqüências extrínsecas). deliberação X impulso. ‘lógicos’ ou guiados pelo ‘intelecto’. Tais qualificações comportamentos fossem produto de modelagem e se nossas respostas estivessem sob controle de conseqüências intrínsecas. traços ou características humanas que. nossos descreveríamos nossos comportamentos como impulsivos. conseqüências planejadas e liberadas por outra pessoa (ou seja. mais especificamente. podem se manifestar ou determinar certas maneiras de agir. dificilmente nos sentiríamos como ‘fazendo aquilo que queremos’. .

(1969). e Sério. New York: Appleton. Skinner. Londrina. Contingencies of Reinforcement: Analysis. (1974). P. F. B. M. B. About behaviorism. (2002). T. P. Skinner. de A. M. F. a Theoretical . New York: Alfred Knopf. Curso ministrado no XI ENCONTRO BRASILEIRO DE PSICOTERAPIA E MEDICINA COMPORTAMENTAL.Century – Crofts. A Análise Experimental do Comportamento na Análise do Comportamento Humano. A.18 Referências Bibliográficas Andery.

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