Você está na página 1de 3

Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

A CARTA QUE FEZ AZEDAR OS DEPUTADOS


Disponibilizamos aqui a carta de uma colega, cuja identificação preservada
até que a própria nos dê permissão para revelar, embora já circule por e-
mail.
Como a colega está cheia de razão!
C/conhecimento:

Exmo. Sr. Presidente Da Assembleia da República


Grupos Parlamentares
Exmos. Srs. Deputados do P.S.

Ao longo dos últimos três/ quatro meses dirigi-vos várias "cartas", creio ser
esta a quarta. Nunca obtive qualquer resposta da Vossa parte nem tão pouco
a (pequena) delicadeza de acusar a sua recepção (tão só, de uma que fosse).
É com profundo pesar que vos dirijo esta missiva.
Talvez a minha concepção de Política, baseada na Verdade e em Valores (para
muitos subjectivos) de Consciência Ética - Cívica e Moral, esteja em desuso
numa sociedade que faz vingar a mentira, a aparência e a dissimulação. Não
me interessam os jogos político-partidários, que confesso abominar no
contexto da política actual - sou apenas uma desconhecida mas cumpridora
cidadã e profissional que sempre conduziu, e continua a procurar conduzir, a
sua actuação por princípios de Verdade, Honestidade, Verticalidade,
Integridade e Justiça.

Gostaria apenas de vos lembrar que os docentes portugueses são uma classe
profissional com habilitações académicas/científicas que, no mínimo, se
situam ao nível da Licenciatura para que, de ânimo leve, sejam
continuadamente insultados, humilhados e rebaixados até e, nomeadamente,
na sua capacidade de leitura, de interpretação e de avaliação das
consequências/impactos (designadamente de enquadramentos jurídicos) como
reiteradamente o tem feito o M.E.

A estratégia do Governo por Vós sustentado e apoiado assentou no


desprestígio social / degradação da imagem pública do Professor, com suporte
na Mentira, na desinformação da opinião pública, no medo e na intimidação,
na divisão dos cidadãos deste país e dos próprios professores.

Como é possível vir apelar-se à união dos Portugueses em torno de um


objectivo comum, quando aquilo que se fez foi virá-los uns contra os outros.
E, que causa comum?:

- o combate às desigualdades sociais? – Não!;

- o combate ao fosso crescente entre os mais ricos e um número crescente de


pobres? – Não!

- o combate ao empobrecimento da classe média com as consequências


conhecidas ao nível da própria actividade económica? – Não!

- o combate à corrupção, aos clientelismos e à falta de transparência? - Não!;


- o combate ao desemprego e encerramento de pequenas e médias empresas
que, de resto, não são apenas de agora? – Não!;

- o combate para serviços de saúde capazes de prestar assistência de


qualidade, em tempo oportuno e em condições de dignidade aos portugueses?
– Não!;

- o combate para uma Justiça eficaz, célere, acessível à generalidade dos


cidadãos e consequentemente justa? – Não!

- o combate a tantas Imoralidades existentes neste país de escassa riqueza? –


Não!

-…

O combate central da Política do Governo e, ao que parece, o problema


fulcral da Nação é … a Avaliação dos Professores.

A vós, deputados da nação, representantes (por via da Constituição) de todos


os cidadãos portugueses:

- NADA vos disse… as concentrações de cem/cento e vinte mil professores;

- NADA vos disse… a profunda participação dos professores nas duas últimas
greves;

- NADA vos disse… os constantes e frequentes problemas que ao longo dos


tempos foram equacionados e publicamente divulgados, nomeadamente, por
professores;

- NADA vos disse… as reiteradas posições de Escolas e Professores que


argumentaram e muitos vos enviaram sucessivos documentos;

- NADA vos disse a mobilização de professores que criaram


movimentos/associações e outras formas de organização sem filiação política
ou sindical;

- NADA vos disse… as posições que, por via da actuação dos professores ou
seus representantes legais, foram tomadas pela Procuradoria /Provedoria da
Justiça;

- Nada vos disse … a posição da Inspecção Geral da Educação no sentido de ser


inexequível a sua participação no Processo de Avaliação tal como foi
concebido;

- NADA vos disse … a posição do Conselho Científico da Avaliação dos


Professores – CCAP (criado "na dependência directa do membro do Governo
responsável pela área da educação") e o seu "não funcionamento";

- NADA vos disse … a posição do Conselho das Escolas, também criado pelo
M.E.;
- NADA vos disse … as petições assinadas e entregues;

- NADA vos diz … as injustiças que têm sido equacionadas;

- NADA vos disse … as palavras com que, em quatro anos, foram "diabolizados"
os sindicatos que em matéria laboral ainda são, legalmente, o parceiro
negocial do governo;

- NADA vos disse … as posições recentes de Conselhos Executivos,


nomeadamente de "Escolas Públicas de Referência" a nível nacional;

-…

- NADA vos disse … Absolutamente NADA!

"A manutenção dos grandes privilégios da classe profissional", insustentável


quando comparada com as outras, foi o argumento que vos satisfez. Pois bem,
atrever-me-ia a sugerir-vos uma troca: que, durante um ano, viésseis
beneficiar dos meus imensos privilégios e grandes benesses.

"Corporativismo e instrumentalização" foram as palavras que bastaram: a uns


para se considerarem donos da razão e a outros para tudo sustentar.

A vós, pouca diferença farão as minhas palavras que continuareis, longe dos
problemas e longe das pessoas, sentados nas cadeiras desse parlamento ou em
outras a que tereis "direito": não por competência; não decorrente de
qualquer sistema de avaliação; não por mérito especial; não pelo
cumprimento dos vossos deveres, nomeadamente na fiscalização continuada,
das garantias da legitimidade/ legalidade/ constitucionalidade no tratamento
dos cidadãos; não por uma actuação
de rigor, de isenção, de imparcialidade e de justiça na apreciação das
questões que afligem ou lesam direitos; mas tão só decorrente de um sistema
político/parlamentar ultrapassado e distante dos eleitores.

Termino, senhores deputados, com palavras abruptas dirigidas a um órgão que


deveria merecer todo o meu respeito: Não nos surpreendamos quando a
Europa recuperar e nós (a população) continuarmos cada vez mais na sua
cauda. Talvez, Portugal, esteja condenado (há muito/assim continuará e
percebe-se porquê) à Mediocridade!

Respeitosamente,

Lisboa, 22 de Janeiro de 2009


[Assinatura]
(Cidadã e contribuinte Portuguesa e Professora da Esc. Secundária ... )