Edição EspEcial

www.exameangola.com
Dezembro 2012 v 500 kz

SuStentabilidade
5
clima
projectos angolanos pioneiros no mercado mundial de carbono

lixo

Lista das empresas-modelo em responsabilidade social e ambiental em Angola

6

programa angola limpa investirá 6 mil milhões de dólares até 2025

mais

• o desafio da superpopulação • a era dos combustíveis verdes • chegou a lampâda inteligente

Chevron

empresa sustentável do ano

Sumário
chEvron: A primeira empresa sustentável do ano eleita pela EXAME

08 12 18 20 24 26 28 32 34 38 40 44 48

João Serôdio Para o professor da Universidade Agostinho Neto, o futuro do país pode estar na produção alimentar Alterações climáticas Conheça cinco projectos angolanos em fase de validação para receberem créditos de carbono Políticas públicas As novas leis para um novo ambiente Resíduos urbanos A revolução na gestão dos lixos já está em curso. Conheça as metas e os investimentos até 2025 Biodiversidade O plano para salvar a floresta do Maiombe Sociedade civil O caso da Juventude Ecológica Angolana Arte O perfil da artista plástica Daniela Ribeiro que cria obras a partir de telemóveis usados e outros desperdícios

EntrEvista

50 54 56 58 61 66 70 72 74 76 78 80

angola

Cradle to cradle A EXAME esteve em Petropólis para conhecer o biossistema que transforma esgotos em energia Aviação Os grandes fabricantes de aviões aderiram aos combustíveis verdes para reduzir as emissões de carbono Lâmpadas Mais luz com menos consumo de electricidade Reciclagem Garrafas de plástico que são 100% recicláveis Metodologia Saiba como a EXAME escolheu as seis empresas-modelo de sustentabilidade a operar em Angola e quem nos ajudou a seleccionar as melhores práticas Chevron A empresa sustentável do ano distingue-se pela protecção de pessoas e ambiente e o apoio às comunidades Odebrecht Os projectos Acreditar e Kukunga Pala Kukula são trunfos da construtora brasileira, em Angola há 27 anos BP A quarta maior empresa do mundo tem uma política de responsabilidade social baseada nas parcerias locais BESA Economia, social, ambiente e cultura são os quatro pilares para a sustentabilidade segundo o banco do planeta Total Nos últimos cinco anos, a petrolífera investiu cerca 64 milhões de dólares na política de responsabilidade social BAI O BAI Arte é a iniciativa mais mediática do banco. Conheça outros projectos na saúde, desporto e educação Como fazer Erros típicos dos programas de sustentabilidade Vladimir Russo Recomendações do mestre em Educação Ambiental pela Universidade de Rhodes, da África do Sul
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 3

inovaÇão

EmprEsas modElo

opinião

Eufrazina Paiva A deputada e ambientalista explica como é que Angola poderá aproveitar melhor a riqueza natural

Jeffrey Sachs O prestigiado economista americano diz que chegou a hora do mundo passar dos discursos à acção Ellen Shapiro A especialista em sustentabilidade alerta, no seu novo livro, para os danos ambientais na China Demografia Lidar com o crescimento da população, que hoje é de 7 mil milhões, será o maior desafio deste século Energia O mundo já entrou na “era dourada” do gás natural. Saiba quem lidera esta corrida à escala planetária Economia verde O tema que animou o debate na RIO +20

global

82

ExamE final

carta do director
JOãO Van dunem
Media Nova, SA
Presidente do Conselho de Administração: João B. V. Van Dunem Administrador Executivo: Filipe Correia de Sá

O

GasLand: O futurO é O que fazemOs aGOra

Director: João Van Dunem (joao.vandunem@medianova.co.ao) Director Editorial: Filipe Correia de Sá (filipe.sa@medianova.co.ao) Director Executivo: Jaime Fidalgo (jaimefidalgo@exameangola.com) Director de Arte: Jorge Ribeiro (jorgeribeiro@exameangola.com) Coordenadora editorial da Edição Especial: Cássia Ayres Colaboraram nesta edição: Andrea Vialli, Bruno Ferrari, Filipe Cardoso, Fabiane Stefano, José Alberto Gonçalves Pereira, Luiza Dalmazo, Mariana Segala, Sérgio Teixeira Jr. (texto), Eufrazina Paiva, Vladimir Russo (colunistas), Antónia Correia (secretariado) Fotografia: Carlos Moco (editor), Carlos Augusto, Daniel Miguel, Jacinto Figueiredo, Maura Gueve, Pedro Nicodemos (fotógrafos), Rosa Gaspar (assistente) Direitos Internacionais: Exame Brasil (texto e imagens), AFP, Graphic News e IStockPhoto Multimédia e Internet: Géraldine Correia (directora), e Isabel Dalla (site@exameangola.com)

documentário Gasland, nomeado para os Óscares de 2010, mostra cenas onde os moradores de fazendas acendem um isqueiro junto à torneira e a água se transforma literalmente em fogo. Realidade ou ficção? Para muitos o mundo já entrou na “era dourada do gás”. A Agência Internacional de Energia (AIE) estima que os investimentos na exploração do gás natural chegarão aos 20 biliões de dólares em 2035. O paradoxo: boas perspectivas para a indústria e preocupação para os ambientalistas que já falam na iminência de “fractura hidráulica” e apelam à aplicação rigorosa dos princípios do desenvolvimento sustentável. Curiosamente, enquanto os países desenvolvidos percebem na chamada economia verde uma oportunidade de confrontar a crise financeira que se instalou no planeta, os emergentes vêem o tema com desconfiança, supondo ser mais um instrumento de manobra dos ricos para restringir o desenvolvimento dos demais países. Continuar a crescer em índices satisfatórios, proporcionar a melhoria da qualidade vida das pessoas com uma produção baixa de carbono e no uso sustentável e eficiente dos recursos naturais é a receita da economia verde. Em 2011, a marca do crescimento humano atingiu os 7 biliões. Prevê-se que o planeta chegue a 9 biliões em 2050 e ultrapasse os 10 biliões até ao final do século. O desafio de alimentar 10 biliões de pessoas voltou a estar no centro do debate sobre sustentabilidade. Somos nós qualificados para mudanças em direcção a um mundo mais equilibrado e melhor? Para que um empreendimento humano seja considerado sustentável é preciso que seja: 1. Ecologicamente correcto; 2. Economicamente viável; 3. Socialmente justo; 4. Culturalmente diverso. Com base nestes pressupostos, a ExAmE decidiu lançar um desafio às empresas nacionais e estrangeiras em Angola, no sentido de medir o grau de envolvimento do empresariado local com os conceitos da sustentabilidade. Em última análise, uma consciência sustentável significa uma vantagem competitiva se integrar uma estratégia única da organização e não for considerada apenas como parte da política de marketing e comunicação. Que lições podemos aprender das empresas que investem em Angola? A resposta ao desafio da ExAmE fala por si nas páginas desta revista, permitindo-nos olhar para o panorama empresarial sobre uma nova óptica e um maior campo de consciência em que pontificam como marcos os indicadores do desenvolvimento humano. Termino com a mesma reflexão da carta da edição anterior da ExAmE, mas sob uma perspectiva localizada: Em 2030, uma criança nascida neste momento em Angola terá a idade para eleger e ser eleita. Que compromisso assumimos agora para com o seu futuro?

www.exameangola.com
222 006 409 comercial@medianova.co.ao
Comerciais: Bruno Fundões (918 200 106 / 923 791 605), Viviani Kanzóvia (918 800 981 / 924 079 696), Witman Luamba (918 800 982 /937 149 739) Facturação: Firmino Pinto (+244 918 800 980) Registo Minist. Comunicação Social: MCS-560/B/2009 Tiragem: 5 mil exemplares Depósito Legal: 261-09 Distribuição: Media Nova Distribuição Tel: +244 943 028 039 pontodevenda@medianova.co.ao

Publicidade

Antónia Correia: 927 954 034
antonia.correia@imprescrita.co.ao
Impressão: Damer Gráficas, SA EXAME — Condomínio Alpha, Ed. 6, 1.º Sector de Talatona; Luanda-Sul, Angola; Tel.: 222 003 275; Fax: 222 003 289;

assinaturas

exameangola@gmail.com
A revista Exame (Angola) é um licenciamento internacional da revista Exame (Brasil), propriedade da Editora Abril.

SuStentabilidade: o futuro contempla-noS no que fazemoS agora
4 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Propriedade: IMPRESCRITA Imprensa Escrita, SA N.º de Matrícula: 1279-07 Conservatória do Registo Comercial de Luanda

Viana ganhou um novo ritmo
No novo VIANA Restaurante & Casino irá encontrar a melhor gastronomia servida ao som dos melhores músicos locais, num espaço desenhado para despertar todos os seus sentidos. Visite-nos e embarque connosco nesta viagem.

Estrada de Catete, Km 17 • Viana • Angola Reservas: 923 234 807 · www.facebook.com/casinosdeangola

FeliPe cruz, director de sustentabilidade da odebrecht angola.

Para realizar grandes obras, como hidroelétricas, rodovias e projectos de saneamento básico, um amplo conjunto de acções voltadas à mitigação de impactos e à utilização racional dos recursos naturais é colocado em prática. A conservação do meio ambiente, da fauna, da flora e da biodiversidade juntamente com o desenvolvimento social e econômico (e isso é entendido e praticado em cada um dos projectos que contam com a participação da Odebrecht) fazem parte

do negócio. Não se trata apenas do cumprimento da legislação, por mais rigorosa que ela possa ser, mas de ir além, fazer mais do que o exigido, investir em iniciativas consistentes e avançadas, realizar pesquisas e estudos pioneiros que se tornem referência nacional e até internacional. A política de sustentabilidade da O-debrecht estabelece as referências sobre o tema para posicionamento interno e externo perante a sociedade de um modo geral e o mundo empresarial em particular.

reconhecimento em sustentabilidade
Recentemente a Odebrecht venceu o Prémio de Sustentabilidade na décima edição da Feira Internacional de Equipamentos e Materiais de Construção Civil, Obras Públicas, Urbanismo e Arquitetura “Projekta by Constroi Angola 2012” , realizada nas instalações da FIL/Luanda no período de 25 à 28 de Outubro. No evento que contou com a participação de 380 expositores, a Odebrecht recebeu também um “Prémio Especial” pela sua participação contínua, activa e dinâmica em todas as edições da Feira Projekta by Constroi Angola

A Odebrecht estabeleceu para si o desafio de ser reconhecida como uma empresa comprometida com a criação e o oferecimento de um legado às populações das áreas de influência de suas obras de engenharia e construção e de suas operações industriais .”
A Odebrecht estabeleceu para si o desafio de ser reconhecida como uma empresa comprometida com a criação e o oferecimento de um legado às populações das áreas de influência de suas obras de engenharia e construção e de suas operações industriais. Esse legado tem como pilar principal o conceito de inclusão: é essencial que as comunidades sejam envolvidas nesse processo de aprimoramento, com a participação directa de seus membros na manutenção, no aperfeiçoamento e na multiplicação das transformações realizadas e dos benefícios conquistados.

O desenvolvimento sustentável é parte do negócio da Odebrecht. Nossos empreendimentos e aqueles que realizamos para outros investidores devem realizar todo o potencial de resultados de que sejam capazes, para clientes, acionistas, comunidades, integrantes e parceiros. A nossa cultura fala de Sobreviver, Crescer e Perpectuar, e isto só é possível em um ambiente de desenvolvimento continuado e como tal sustentável. Na Odebrecht, a preocupação com a sustentabilidade está presente desde o momento em que se começa a pensar em um projecto, na sua viabilidade. Na sequencia, a nossa atenção é focada nos processos executivos e as melhores de mitigação de impactos gerados: às vezes, mudar o traçado de uma estrada entre dois pontos pode significar menos área desmatada, menos pessoas afetadas, menos impacto ambiental. Durante a fase da execução, uma outra sequencia de cuidados, como, por exemplo, tratar adequadamente os resíduos que geramos.”
afirma Felipe Cruz, director de Sustentabilidade da Odebrecht Angola.

sustentabilidade na odebrecht tem o foco em Pessoas, com ênfase no seu desenvolvimento e capacitação. São elas que detêm a capacidade para implementar um modelo de desenvolvimento que possa atingir simultânea e sinergicamente resultados relacionados ao desenvolvimento econômico e social, responsabilidade ambiental, participação política e valorização da cultura. Envolvimento com comunidades, melhoria da qualidade de vida, respeito ao cidadão, tudo isso está na nossa cultura. Praticamos isso muito antes de ser uma deman-

da externa e fazemos por iniciativa empresarial. Portanto, o grande desafio dos empresários não é criar iniciativas voltadas à sustentabiliade, mas, sim, incorporar práticas sustentáveis nas organizações, fazer com que a sustentabilidade esteja no quadro mental referencial de criação dos negócios. Hoje está claro que sustentabilidade e desenvolvimento fazem parte do mesmo lado da equação. Na Visão 2020 da Organização Odebrecht Sustentabilidade é um dos pilares fundamentais. A Odebrecht quer crescer, sim, mas de forma sustentável.

angola EntrEvista

a agricultura ” e o futuro ´
João Serôdio, professor de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto, acredita que o futuro de Angola estará na produção alimentar dirigida, sobretudo, aos países asiáticos. Defende que a educação ambiental deveria fazer parte do currículo escolar
CássiA AyrEs

J

oão Serôdio trabalha na área ambiental há 40 anos. Além de educador, começou por ser quadro do Ministério da Agricultura, primeiro como técnico médio agrícola e depois como médico veterinário. Foi vice-

-ministro do Ambiente entre 1997 e 1999. “Professor Serôdio”, como também é conhecido, é filho de um engenheiro silvicultor e entrou na área ambiental por influência do pai. Nesta entrevista, ele defende que a educação ambiental é a grande prioridade rumo ao desenvolvimento sustentável.

Qual é, na sua opinião, a relação entre a ecologia e a economia? Tudo está ligado à ecologia. Ambas as palavras advém de uma mesma raiz: ecos, que em grego é oikos, significa “casa”. São termos indissociáveis. Se a economia não tiver como base a ecologia, não sobreviveremos.

8 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Uma economia para ser válida, tem de ter uma garantia de continuidade ou de sustentabilidade para as próximas gerações. Algo que somente pode ser alcançado se tivermos conhecimentos de ecologia. Quais são os principais desafios do país rumo ao desenvolvimento sustentável? É a diversificação da economia. Teremos de dar uma grande atenção à agricultura tradicional. Angola enfrenta um problema grave, resultado dos 30 anos de guerra. Basicamente, houve uma ruptura do tecido social camponês, com a interrupção da passagem do conhecimento de uma geração para outra, das práticas agrícolas aprendidas durante alguns milhares de anos. Estes conhecimentos perderam-se com os fluxos migratórios entre as províncias. Por um lado, porque o conhecimento ancestral nem sempre é aplicável quando se muda de região, por outro, porque as gerações mais novas foram mobilizadas para as guerras, deixando de haver jovens para que os mais velhos passassem o testemunho. As consequências foram a estagnação da produção de alimentos — mesmo nos regime de auto-subsistência — e da silvicultura. Essa ruptura criou problemas sociais? Sim, dado que a agricultura familiar não apenas garantia o sustento, como gerava um rendimento mínimo para 8 milhões de indivíduos. Temos de levar em conta que esta imensa quantidade de pessoas não dispõe de outros conhecimentos para se dedicar a outras profissões. Daí que o Estado tenha de lhes garantir a possibilidade de executarem tarefas onde podem ser úteis, tanto a si próprios como à sua comunidade. Temos de deixar as pessoas fazerem aquilo que sabem fazer bem, para assim se sentirem felizes, logo estáveis emocionalmente. Quando estamos felizes, estamos estáveis Que soluções propõe para o regresso à agricultura familiar? É fundamental voltar a educar as pessoas. Criar centros de ensino agrícola pelo território nacional, mobilizando todas as pessoas com conhecimentos, mesmo que

sejam apenas práticos. Deveremos resgatar os conhecimentos empíricos perdidos, mesmo os que se baseavam apenas na “tentativa e erro”, e aliá-los aos conhecimentos técnicos e científicos actuais. E temos de fazer com que os mais jovens recuperem o gosto e o entusiasmo por trabalhar a terra, dando-lhe o devido valor. E como promover a agricultura mais sofisticada de tipo empresarial? O Governo tem de definir as zonas onde se pode praticar a agricultura familiar e a empresarial e, sobretudo, criar condições para que o homem volte ao campo, quer seja por uma via quer pela outra. A verdade é que a agricultura empresarial é o meio mais próximo para sustentar o crescimento económico do país. E ela pode ser feita seguindo-se critérios ambientalmente correctos, tal sucedia na agricultura tradicional. A industrialização, outra via do desenvolvimento, demorará mais a ser aplicada, pois carece de quadros técnicos mais especializados que ainda não temos, sendo necessário contratá-los fora, com todos os prejuízos ou riscos que essa medida pode acarretar. Como fazer uma agricultura lucrativa, mas com menos impacto ambiental ? Mais uma vez, coloco a educação ambiental como prioridade para se poder atingir bons resultados económicos na agricultura com um mínimo de impacte ambiental. O conhecimento do clima, dos recursos hídricos e dos solos são indispensáveis para se tirar da terra os maiores benefícios. A agricultura, como qualquer outra actividade biológica,

altera o ambiente local. Foi assim que chegámos aos actuais biomas e ecossistemas (Hipótese Gaia). A agricultura, em particular, cria o chamado “ecossistema agrário”, que num estádio de estabilidade, permite a sua utilização continuada, de preferência para sempre. Penso que na Europa, a exploração milenar de terras agrícolas criou muitos exemplos desses ecossistemas agrícolas estáveis. Essa estabilidade é indispensável para a conservação de zonas naturais que sirvam de reservas biológicas para as gerações futuras. Também a utilização de água para a agricultura assim como de defensivos agrícolas, deve ser muito bem ponderada. A ciência moderna já conhece os mecanismos para o fazer com inteligência. Inclusivamente o que se considera como resíduo, pode e deve ser reintegrado na produção, se necessário, utilizando os métodos tecnológicos adequados. Como vê a agricultura para os biocombustiveis? Não concordo que Angola perca muito tempo com essa actividade. O país não tem necessidade de avançar nessa senda, pois, segundo se prevê, é uma prática que não vai durar mais de 30 a 40 anos. Os hidrocarbonetos para os motores de combustão vão ser mais sofisticados no futuro próximo. Depois serão os motores eléctricos a dominar o panorama motriz. Desenvolver agora a produção de biocombustíveis, apenas servirá para a exportação, logo para permitir que os países desenvolvidos mantenham o status de bem-estar para as suas populações, em detrimento dos menos desenvolvidos, que no final ficarão com as suas terras degradadas. Quem ganha com os biocombustiveis? Os biocombustíveis só trazem vantagens para os países sem recursos petrolíferos (a excepção é o Brasil com o etanol) ou para os que tenham necessidade de reduzir as suas emissões de carbono. Creio que Angola deverá aplicar todas as suas capacidades agrícolas na produção alimentar. Essa, sim, será uma moeda forte nos próximos anos, principalmente nas trocas comerciais com os países asiáticos que começam a lutar pelo controlo económico do mundo.
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 9

temos de resgatar o conhecimento perdido e fazer com que os jovens recuperem o gosto e o entusiasmo por trabalhar a terra

angola EntrEvista

Mas não há vantagens ambientais... Enquanto os combustíveis fósseis são problemáticos depois da sua utilização, os biocombustíveis trazem problemas ainda antes, através da desmatação para novas terras agrícolas, da utilização maciça de agro-químicos e de grandes quantidades de água e, no final da cadeia, na acumulação dos resíduos da produção. Em vez de apostar nos biocombustíveis Angola deve, em alternativa, fazer um esforço de investigação científica, na busca de novas fontes de energia limpa. É aí que reside o futuro. Onde está o potencial para desenvolver energias limpas em Angola? A nossa matriz é a hidroeléctrica. Angola possui cursos de água em todo o país, até mesmo no deserto. A questão é que para a energia chegar às áreas mais isoladas os investimentos em linhas de transmissão são muito elevados. Por isso é que a energia eólica e solar devem ser desenvolvidas para alimentar os locais com menor concentração humana. A questão é que

as pessoas precisam de aprender a evitar os desperdícios. Aí entra mais uma vez a questão da educação ambiental. É preciso rever hábitos de consumo... Sem dúvida. O angolano consome de forma desenfreada o que gera desperdício e lixo. É frequente ver, na cidade de Luanda, pessoas com mangueiras de água a lavar viaturas, a “varrer” a calçada com jactos de água tratada, que posteriormente,

É frequente ver pessoas na rua com mangueiras a lavar viaturas. a água misturada com o lixo É uma fonte de doenças

misturada com o lixo, se vai acumular nas ruas, servindo de fonte para a multiplicação de mosquitos e outros focos de doença. Outro exemplo, é o edifício-sede do Gamek — Gabinete para o Aproveitamento do Médio Kwanza. Quando lá trabalhei, em 1988, não tinha interruptores para desligar as luzes. Ficava completamente iluminado 24 horas por dia. Esta prática correspondia ao conceito americano do século xx, que apagar as luzes da casa seria um sinal de “pessoas pobres”. Espero que esta situação já tenha sido superada. Em termos gerais, em Angola muitos de nós têm comportamentos de “novos ricos”, quando grande parte da nossa população vive com grandes dificuldades e carências de toda a ordem. Como é que se muda essa cultura de consumismo e desperdício? Precisamos de institucionalizar a educação ambiental, prioritariamente na idade entre os 9 e os 14 anos, onde os jovens têm maior interesse e receptividade às novida-

10 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Quatro razõeS de optimiSmo para uma angola maiS SuStentável

agricultura tradicional: É importante formar e resgatar as técnicas ancestrais de cultivo que não passaram para as gerações seguintes

1 2 3 4

Angola tem capacidades financeiras para preparar as políticas ambientais adequadas, mesmo que para tal tenha de recorrer a colaborações internacionais de qualidade inquestionável. Angola já tem recursos humanos capazes de darem resposta a muitos dos problemas das populações. É apenas necessário que haja o bom senso de utilizar esses recursos. Angola ainda está numa situação “confortável” quanto à preservação de recursos naturais, fruto da fraca densidade populacional em comparação com a sua extensão territorial. Angola fez, na década passada, um plano prospectivo até 2025, onde se equacionaram diversos cenários de desenvolvimento. Agora, apenas é necessário colocar essas premissas em prática. Podemos dizer que, felizmente, a grande maioria delas está a ser aplicada. Mas ainda há muito que fazer na área ambiental.

des. A sustentabilidade é uma disciplina que tem de vir no currículo escolar. A África do Sul fez isso. Investiu dez anos em programas maciços e os resultados hoje são evidentes. Angola não tem nenhum programa significativo de educação ambiental. Como é que estamos a tratar os nossos resíduos sólidos? Tratamos muito mal a questão. Para nós, ecologistas, não há lixo. Há, sim, matéria-prima que não sabemos, ou não queremos, aproveitar. Angola ainda está numa posição onde seria fácil evitar problemas futuros, porque tem pouca população, tem pouco desenvolvimento industrial. Nós podemos ter uma política correcta, dando um tratamento adequado ao lixo, aproveitando melhor o potencial energético e reduzindo a procura de matérias-primas. Como é que o lixo pode gerar riqueza? Tudo gera riqueza e pode evitar a poluição. O alumínio, por exemplo, que é um metal caro de explorar, pode ser reciclado para

em angola nós não aproveitamos nada. atiramos os desperdícios para um aterro. poluímos terras e linhas de água
sempre, pois as suas propriedades não se alteram. Aqui nós não aproveitamos nada e somente geramos “lixo”. Atirar com os desperdícios todos para um aterro e poluir as terras e as linhas de água, não nos trará nenhum benefício em termos de saúde. O que se está a fazer ao nível do ensino superior na área do ambiente? Apenas posso falar enquanto membro da Universidade Agostinho Neto. Desde há

muito tempo que a universidade tem procurado unir esforços de forma a contribuir para a solução dos problemas que realmente afectam as nossas gentes. Só agora podemos dizer que estamos no bom caminho, com a inauguração do campus universitário, onde finalmente poderemos concentrar pessoas e competências para trabalharem em equipa. Até agora, a dispersão das diversas faculdades pela cidade de Luanda e a falta crónica de fundos financeiros para trabalhos que não sejam exclusivamente ligados ao ensino, limitava-nos a capacidade de desenvolver estudos científicos e mesmo tecnológicos. Agora, o encontro diário com os outros colegas das diversas especialidades permitiu a realização projectos conjuntos de trabalho. Neste momento, está em curso a possibilidade da Universidade Agostinho Neto colaborar com outras estruturas do Governo em leis ligadas à segurança das populações contra as catástrofes naturais, por exemplo. Os investigadores da Universidade Agostinho Neto podem ajudar a prever essas situações. h
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 11

AngolA AlterAções ClimátiCAs

os projectos pioneiros ...
barragem de cambambe
Abrange a requalificação e ampliação da barragem. A segunda fase do projecto, a ampliação da barragem de Cambambe, situada na província do Kwanza-Norte, iniciou-se em Janeiro, com a construção da segunda central eléctrica, com capacidade para produzir 700 megawatts. A nova central estará dotada de quatro grupos geradores, cada qual com capacidade de 175 megawatts, requer um investimento inicial de 400 milhões de dólares e será concluída em 2014. Recorde-se que a primeira fase foi iniciada em 2009, com a reabilitação e modernização da primeira central.Já a terceira fase, ainda em projecto, vai abarcar o alteamento da barragem de 102 para 132 metros, visando o maior aproveitamento do curso das águas do Kwanza.

barragem do gove
Inaugurada em Agosto, a barragem hidroeléctrica do Gove, localizada na província do Huambo, tem uma capacidade de produção de 60 megawatts e irá fornecer energia ao centro e sul de Angola, nomedamente as cidades do Huambo, Caála e Kuito (Bié). O projecto representou um investimento de 279 milhões de dólares e foi executado pelo grupo brasileiro Odebrecht. Recorde-se que a construção da barragem data de 1969 e foi interrompida em 1975. A retoma dos trabalhos só surgiu em 1983 sendo novamente suspensa três anos depois. Em 1990, foi alvo de um explosão que a destruiu parcialmente. Os trabalhos recomeçaram em 2001 e só este ano foram concluídos.

...e A listA coMpletA

energia hidroeléctrica
• Central Hidroeléctrica de Laúca • Ampliação da central Hidroeléctrico de Cambambe • Mini-hídrica Cuando • Mini-hídrica Liapeca • Mini-hídrica N’harea • Mini-hídrica M’Bridge /N’Zeto • Mini-hídrica Cuemba • Mini-hídrica Chiumbe • Mini-hídrica Kuito 2 (Katermo) • Mini-hídrica Andulo

MercAdo de cArbono chegA A AngolA
Usar tecnologias amigas do ambiente vale dinheiro. Muito dinheiro. Angola já tem cinco projectos em fase de validação, de forma a receberem créditos de carbono que poderão ser comercializados internacionalmente
CássiA AyrEs e JAiME FidAlgo
12 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

parque eólico do tombwa
O Governo vai construir o primeiro parque eólico de Angola, na região do Tombwa, província do Namibe. Este parque, um dos maiores de África, terá capacidade para 100 megawatts, tem 50 aerogeradores de 2 megawatts, e representa uma forte aposta por parte do Ministério da Energia e Águas (Minea) nas energias renováveis (a par de projectos ligados à biomassa e de sistemas fotovoltaicos). Funcionará também como centro de formação e experimentação de novas tecnologias. Segundo a directora nacional para as energias renováveis, Sandra Cristóvão, foi encontrada nesta região potencial eólico com ventos de 5,2 metros por segundo tornando o local ideal para a construção de um parque.

Angola lng — gás natural liquefeito
É um projecto ambicioso, iniciado em Dezembro de 2007, que permitirá a produção de gás natural liquefeito, reduzindo a queima de gás e as emissões de carbono. Está localizado no Soyo (província do Zaire) e tem como accionistas a Sonangol (22,8%), Chevron (36,4%), Total (13,6%), BP (13,6%), e ENI (13,6%). Com uma capacidade de produção de 5,2 milhões de toneladas por ano e um potencial de 1000 milhões de metros cúbicos por dia, já está em fase de exploração (apesar de ainda não ter sido inaugurado oficialmente) e teve um impacto significativo na comunidades local ao nível da reabilitação de infra-estruturas, da geração de empregos e da responsabilidade social.

energias renováveis
• Aldeias Solares — Energia fotovoltaica nas áreas rurais • Projecto Onda Verde — Distribuição de lâmpadas eficientes • Parque eólico do Tombwa —Namibe • Angola LNG —Soyo

indústria
• Fábrica de reciclagem de resíduos — Grupo Neuerth • Fábrica de reciclagem de alumínio — Neuerth • Fábrica de Reciclagem de Resíduos — Universal Minerals & Metals • Fábrica de reciclagem de alumínio — Universal Minerals & Metals • Fábrica de cimento Nova Cimangola (geração de energia a partir do calor)

A

lterar a matriz produtiva dos países industrializados em nome das alterações climáticas é algo que vai levar muito tempo e custar muito dinheiro. Para permitir a adequação das economias desenvolvidas às metas de redução dos gases de efeito estufa (GEE) definidas no protocolo de Quioto, foi criado o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL). Através deste mecanismo, é possível obter as reduções certificadas de emissões com projectos sustentáveis, os chamados créditos de carbono, que depois podem ser comercializados no mercado internacional. O mecanismo funciona numa via em dois sentidos, que apoia tanto os países do designado Anexo 1 (países industrializados com obrigações de redução de emissões de GEE no âmbito do Protocolo de

o mercado de carbono movimentou 179 mil milhões de dólares em 2011. África representa menos de 1% do total
Quioto) como os do Anexo 2 (países em desenvolvimento, isentos dessas obrigações), para que se desenvolvam economicamente seguindo critérios sustentáveis. Na prática, tanto os governos como os privados ganharão um incentivo financeiro, se provarem que os seus projectos industriais adoptam tecnologias limpas capazes de parar os temidos GEE: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). O mercado de carbono visa dois grandes incentivos: a redução das emissões; e o incentivo ao investimento em tecnologias amigas do ambiente. Mas também permite que os países desenvolvidos comprem toneladas de CO2 que não foram emitidas por países em desenvolvimento graças à implantação de tecnologias limpas em diferentes áreas. Um crédito de carbono equivale a 1 tonelada não emitida (por isso o esquema é apelidado pelos críticos de “licença para poluir”). Na lista dos sectores elegíveis (ou seja, abrangidos pelo MDL), destacam-se a geração, distribuição e conservação de energia (renovável ou não renovável), as indústrias de transporte, mineração, construção e produção de metais e ainda
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 13

AngolA AlterAções ClimátiCAs
de 3,6 mil milhões de dólares na mitigação das alterações climáticas. Só que o valor dos créditos de carbono apoiados pela ONU, as chamadas reduções certificadas de emissões, caiu cerca de 70% ao longo dos últimos 12 meses, devido à grande oferta de créditos (a fasquia de 1000 milhões de certificados emitidos foi batido em Setembro) e à queda na procura devido à desaceleração global da economia. Hoje a cotação da tonelada de carbono está entre 5 e 16 dólares. Durante a conferência da UNFCCC, em Durban, em Dezembro no ano passado, na África do Sul, o preço chegou ao menor patamar de sempre: 3 dólares — dez vezes abaixo do pico das cotações em Março de 2006. O problema de fundo é que os grandes produtores de GEE não ratificaram o Protocolo de Quioto, caso dos Estados Unidos ou da China e da Índia (que, sendo países em desenvolvimento, não têm essa obrigação). As atenções estão voltadas para a Europa em plena crise económica. No ETS (European Union’s Emissions Trading System), o maior mercado de carbono do mundo, com 11 mil empresas, cada crédito vale hoje 8,32 euros (cerca de 10,5 dólares), quando há um ano a média foi de 13 euros (16,5 dólares). Mas o que realmente preocupa os investidores é a insegurança sobre o futuro do acordo de Quioto e o do próprio mercado europeu de carbono que aguarda decisões quanto à sua eventual reformulação. Este é um dossiê “quente” que está nas mãos da dinamarquesa Connie Hedegaard, comissária da União Europeia para as Alterações Climáticas. 19 projectos em curso No meio da incerteza uma coisa é certa: o mercado de carbono é uma grande oportunidade para os países em desenvolvimento como Angola. Mas até receber os créditos, os investidores precisam de seguir as fases do MDL, um processo burocrático que pode demorar 18 meses e inclui a aprovação do projecto como “elegível”, a validação (por parte de uma entidade internacional), a obtenção da aprovação do país anfitrião (pela Autoridade Nacional Designada — AND) o registo, a implementação do projecto, a verificação e a certificação (pela Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas) para que haja a emissão de créditos de carbono. Angola, que aderiu à Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, já deu passos firmes desde a fundação da AND em 2010. O órgão, que está ligado ao Ministério do Ambiente, cria os critérios de avaliação dos projectos que pretendem concorrer ao mecanismo de desenvolvimento limpo. Já estão em fase de validação os cinco primeiros projectos, todos na área de energia — barragem de Cambambe (um de reabilitação e outro de ampliação), barragem de Gove, parque eólico do Tômbwa e o Angola LNG de gás natural. Juntos, somam 24 milhões de toneladas por ano em créditos e colocam Angola como o terceiro país do continente, atrás da Nigéria e da África do Sul. Existem ainda outros projectos em curso como a substituição de lâmpadas antigas por outras mais “amigas do ambiente” (projecto Onda Verde). A lista completa, com 19 iniciativas, incluem a nova central hidroeléctrica de Laúca, diversas mini-hídricas espelhadas pelo país, fábricas de reciclagem de alumínio e de outros resíduos, a instalação de energia fotovoltaica nas áreas rurais ou a melhoria dos fornos da Cimangola para que reduzam as emissões. “Este é um mercado com grande expectativa de retorno, tendo em vista a elevada procura por parte das economias desenvolvidas pelos créditos, que visam a adequação às metas de Quioto”, afirma Giza Martins, titular da AND. A opinião da especialista é comprovada pelas estatísticas. A expectativa para o mercado de carbono é que atinja os 500 milhões de dólares em dez anos. “Os projectos das mini-hídricas, onde se espera instalar 52 unidades, e o dos sistemas fotovoltaicos isolados, por exemplo, representam um horizonte no MDL onde essas receitas financeiras poderão fazer a diferença na viabilidade

novo centro de estudos
Inaugurado a 8 de Agosto o CETAC (Centro de Ecologia Tropical e Alterações Climáticas), visa desenvolver estudos e investigações aplicadas para assegurar a melhoria da qualidade ambiental e da gestão da água. O criação do novo centro permitiu a inserção no mercado de trabalho de 42 jovens licenciados com especializações em Engenharia Florestal, Engelharia Agronóma ou Veterinária e estudantes do Instituto Superior Politécnico. Em declarações à imprensa, a ministra do Ambiente realçou que o CETAC tem laboratórios com meios modernos para investigar a qualidade de água e irá celebrar protocolos com universidades angolanas e outras instituições ligadas ao estudo das alterações climáticas.

a agricultura, e os projectos em prol da biodiversidade, como a reflorestação de áreas degradadas. Outras iniciativas que valem créditos de carbono são os aterros sanitários com captura de gás metano, o aproveitamento de biogás a partir da agricultura ou da compostagem de resíduos sólidos urbanos e a incineração de lixo. Segundo um estudo do Banco Mundial, o mercado mundial de carbono movimentou 179 mil milhões de dólares em 2011. A Europa representa o maior mercado, enquanto África tem menos de 1% do total. Segundo a revista The Economist, o MDL ajudou a reduzir 1000 milhões de toneladas de carbono em sete anos, atraiu 215 mil milhões de dólares em “investimentos verdes” para os países em desenvolvimento e teve um impacto estimado

angola é o terceiro país do continente. projectos valem 24 milhões de toneladas por ano em créditos de carbono
14 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

AngolA AlterAções ClimátiCAs

o essenciAl sobre o MercAdo de cArbono
o que é Surgiu a partir da criação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC, em inglês), durante a ECO 92, no Rio de Janeiro. Em 1997, na reunião de Quioto, Japão, os países signatários concordaram em assumir compromissos mais rígidos para a redução das emissões de gases que agravam o efeito estufa. Para que o documento, designado por Protocolo de Quioto, entrasse em vigor, deveria ser assinado por 55% dos países responsáveis por 55% das emissões, o que só aconteceu depois que a Rússia o ratificou em Novembro de 2004. O objectivo central é que os países limitem ou reduzam as suas emissões de gases de efeito estufa (GEE). quAnto vAleM As eMissões 1 tonelada de dióxido de carbono (CO2) corresponde a um crédito de carbono que pode ser negociado no mercado internacional. A redução da emissão de outros gases geradores do efeito estufa, também pode ser convertida em créditos de carbono, utilizando-se o conceito de “carbono equivalente”. Para ajudar os países a alcançarem as suas metas de emissões e para encorajar o sector privado e os países em desenvolvimento a contribuírem para os esforços de redução das emissões, o protocolo inclui três mecanismos de mercado: o comércio de emissões; a implementação conjunta de projectos; e o mecanismo de desenvolvimento limpo (veja ponto seguinte). o que é o MecAnisMo de desenvolviMento liMpo Este mecanismo permite projectos de redução de emissões em países em desenvolvimento, que não possuem metas de redução de emissões no âmbito do Protocolo de Quioto. Estes projectos (em regra nos sectores energético, transporte e florestal) podem ser transformados em reduções certificadas de emissões (veja ponto seguinte), que podem ser negociados com os países com metas de redução de emissões definidas no Protocolo de Quioto. Um projecto só é considerado elegível se for aprovado pela Entidade Nacional Designada de cada país. A funcionar desde 2006, este mecanismo já registou mais de mil projectos, que valem mais de 2,7 mil milhões de toneladas de CO2 equivalentes. o que são os créditos de cArbono Também chamados de “redução certificada de emissões” significa simplesmente comprar uma permissão para emitir GEE. O preço, negociado no mercado, deve ser necessariamente inferior ao da multa que o emissor deveria pagar. Os créditos de carbono podem ser gerados em qualquer lugar do mundo e são auditados por uma entidade independente do sistema das Nações Unidas. onde podeM ser trAnsAccionAdos O Protocolo de Quioto, representa o “mercado regulado”, onde os países possuem metas de reduções a cumprir de forma obrigatória. Existe, por sua vez, um “mercado voluntário”, onde empresas, ONG, instituições, governos, ou até cidadãos, tomam a iniciativa de reduzir as emissões voluntariamente. Além destes dois tipos de mercado, outra forma de financiar projectos de redução de emissões são os chamados fundos voluntários, caso do Forest Carbon Partnership Facility, do Banco Mundial. Hoje o maior mercado mundial de comércio de emissões é o European Union Emission Trading Scheme (EU ETS) que abrange 11 mil empresas de 30 países (os 27 da União Europeia, mais a Noruega, Islândia e Liechtenstein).
Fonte: UNFCCC — www.unfccc.int

projectos AuMentAM, MAs os preços desceM
Quanto vale o mercado global dos créditos de carbono
Preço 25 20 15 10 5 0
2008 09 10 11 12 (em dólares)

Reduções certificadas de carbono emitidas 1,0

(mil milhões)

0,8 0,6 0,4 0,2 0
Fonte: The Economist /CDM Policy Dialogue.

do projecto”, revela Giza Martins. “Para se ter uma ideia da rentabilidade, se um projecto gerar uma substituição equivalente a 10 milhões de toneladas de carbono por ano, algo perto daquilo que fará o projecto Angola LNG (avaliado em 12 milhões de toneladas de CO2) e multiplicarmos por um preço de 4,8 euros, isso significa contar com um montante de 48 milhões de euros por ano em recursos adicionais”, completa. É importante salientar que os lucros dos créditos pertencem a quem adopta a tecnologia limpa, sejam eles actores públicos, privados, ou mistos. Outra vantagem

é que, segundo a AND, a comercialização de créditos de CO2 adiciona entre 1% e 10% à taxa de retorno sobre investimento. Estes factos levam a crer que Angola tem um grande potencial em termos de projectos elegíveis, sobretudo no sector da energia. Ainda assim, o mercado é olhado com desconfiança por alguns países em desenvolvimento que vêem no mecanismo uma licença para as nações ricas continuarem a poluir socorrendo-se da aquisição dos créditos em economias emergentes. Assim pensam alguns países da América Latina (Venezuela, Colômbia e Bolívia) que con-

corre directamente com África na atracção de projectos. Outros argumentam que o mercado de carbono foi uma forma inteligente dos países em desenvolvimento terem acesso às tecnologias limpas de vanguarda. Abias Huongo, responsável do Ministério do Ambiente pela área das alterações climáticas, reconhece as virtudes do mercado de carbono, mas considera que “os verdadeiros problemas do planeta só se resolverão quando os países poluidores mudarem a sua matriz energética”. Até lá, Angola, como se vê, já entrou a todo o “gás” na rota do carbono. h

16 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

AngolA Políticas Públicas
feirA do AMbiente: Ponto de encontro do sector já vai na segunda edição

ColoCAndo o AMbiente nA AgendA
Os últimos quatro anos foram decisivos para a criação das principais políticas ambientais no país. Em jeito de balanço, o Ministério do Ambiente – Minamb, destaca a consolidação da lei de base do ambiente, o regulamento de avaliação de impacte ambiental e a criação da comissão multisectorial, medidas que trouxeram o tema para a agenda de todos os ministérios
CássiA AyrEs

o

Ministério do Ambiente é relativamente jovem em Angola. Teve início em 1992, ano que marca a 1.ª Conferência das Nações Unidas para o Ambiente, realizada no Rio de Janeiro. Naquela época, o Minamb era apenas uma secretaria de Estado e, ao longo da sua evolução, chegou a partilhar funções com a área das pescas e, mais tarde, com o urbanismo. Hoje, é um Ministério dinâmico que tem ganho um protagonismo crescente no país devido à transversabilidade da sua actuação.

Nos últimos quatro anos, só no quadro jurídico, foram criados 20 novos regulamentos dentro da lei de base do ambiente em áreas consideradas estratégicas, como água, resíduos, biodiversidade, petróleo e clima. A preocupação das outras áreas do Governo e da sociedade civil com o ambiente cresceu desde a criação da comissão multisectorial, em Junho de 2010. Ao todo, são mais de 15 instituições a discutir a relação das questões ambientais. “A transversalidade é a principal marca do Minamb. As informações compartilhadas com outros sectores criam os pressupostos para o desenvolvimento sustentável, onde cada um faz

a sua parte”, resume Abias Huongo, responsável pela área das alterações climáticas. Na governação, os destaques estão na definição de estratégias para três áreas consideradas prioritárias para as políticas do Executivo que derivaram da participação de Angola na cimeira do Rio 92 — a biodiversidade, as alterações climáticas e a desertificação — onde novos mecanismos e programas estão a ser desenvolvidos. visibilidade internacional No circuito mundial da sustentabilidade, Angola, que outrora era um participante espectador, também tem tido uma posi-

18 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

MAurA GuEvE

teMAS eM AgendA nA CoMiSSão MultiSeCtoriAl
• Estratégia nacional para as alterações climáticas. • Plano estratégico para gestão de resíduos urbanos. • Plano de contingência contra derrames de petróleo. • Plano de contingência contra derrames de petróleo no mar. • Decreto presidencial sobre as substâncias que empobrecem a camada do ozono. • Regulamento sobre a qualidade da água. • Regulamento para prevenção e controlo da poluição das águas nacionais. • Relatório nacional sobre saúde e ambiente. • Plano estratégico da rede nacional de áreas de conservação.

...e áreAS prioritáriAS do MiniStério

1

A novidade é o Centro de Ecologia Tropical e Alterações Climáticas, inaugurado em Agosto, na província do Huambo. O novo centro investigará a qualidade do ar, água, solo e os avanços de fenómenos com a desertificação e as alterações climáticas. A sua missão consiste em produzir e disponibilizar informações ao Governo, à comunidade científica e às empresas privadas que necessitam de dados desta natureza para desenvolverem as suas actividades. O centro tem uma parceria com a Universidade José Eduardo dos Santos, do Huambo.

QuAlidAde do AMbiente

3

Ainda em fase de estudos, o Minamb tem um projecto para a gestão de terras que visa promover a agricultura sustentável. A iniciativa vai testar as práticas existentes e introduzir inovações quanto a prevenção da desertificação, o aproveitamento da água e a redução dos produtos químicos tóxicos na agricultura. O Ministério fez a implantação efectiva da convenção do Rio 92 no que se refere aos temas: • Inventário de emissão de gases de efeito estufa — concluído em 2011. • Estratégia nacional de alterações climáticas — concluída em 2007. • Estratégia nacional — projectos da autoridade nacional designada — em curso. • Projecto de substituição de lâmpadas de baixo consumo — Em curso em Luanda, Huíla e Benguela.

AgriCulturA SuStentável

2

Durante os anos 90, houve um forte engajamento das organizações não governamentais (ONG), caso do JEA e da Rede Mayombe, na sensibilização da sociedade para o ambiente. Contudo, a falta de financiamento externo influenciou a qualidade e o alcance das acções de educação. O Ministério reconhece que sem o apoio da sociedade civil será difícil alcançar resultados e tem como meta redefinir os projectos de relevância de forma a funcionar como um mediador junto dos agentes privados.

eduCAção AMbientAl

4

AlterAçõeS CliMátiCAS

ção activa, com participação plena dos seus quadros em grupos de estratégicos de decisão. Neste momento, Angola preside ao Fórum das Autoridades Nacionais Designadas, integra o grupo de peritos para a elaboração das comunicações nacionais e do Plano Nacional de Adaptação às Mudanças Climáticas. Todos relativos aos países do Anexo 2 (países emergentes sem obrigações com o Protocolo de Quioto para a redução de gases de efeito estufa — GEE). No âmbito das grandes cimeiras internacionais, vale a pena recordar que durante a Rio+20, Angola levou uma delegação com 70 integrantes que participaram em painéis paralelos e representaram o país num stand temático. No seu discurso, o (na altura) vice-presidente Fernando da Piedade, defendeu a criação de uma agência especializada do Ambiente na ONU, com poderes de execução e autonomia superiores ao do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Há um ano, na COP 17, na cidade de Durban, Angola discutiu as alterações climáticas e os efeitos para os países africanos. Na opinião

o ministério do ambiente Possui Poucos recursos financeiros. rePresenta menos de 3% do orçamento geral do estado
de Abias Huongo, Angola vai ao mundo para mostrar as suas potencialidades em recursos naturais e as suas estratégias para o crescimento sustentável. “Contudo, não nos podemos esquecer de que somos um país africano e por este motivo ainda precisamos de ajuda externa para concretizar esse desenvolvimento.” Mas se por um lado, há muito trabalho a ser feito por parte do Minamb, por outro, faltam receitas financeiras para aplicar os planos de acção que se pretendem. A fatia do Ministério representa menos de 3% do Orçamento do Geral do Estado. “Somos os que menos dispõe de recursos, o que infelizmente não é um caso isolado no contexto global”, afirma Kâmia Víctor de Carvalho, directora Nacional do Ambiente. Para a responsável o dilema entre realizar o urgente em detrimento do necessário, influencia grande parte das decisões dos gestores públicos. “No caso de África, parece que sempre existiu um consenso sobre as verdadeiras prioridades das populações. Oferecer água, alimentos, habitação e educação às populações são problemas que assumem maior urgência se comparados com as questões do ambiente. A questão fundamental é que todos esses problemas acabam por ser influenciados pelo ambiente. É um assunto transversal à sociedade.” Abias Huongo não poderia estar mais de acordo: “Este é um Ministério dinâmico, não apenas pelo cenário mundial que o inspira, mas pela maneira como todos reagimos a ele.” Convém que esse espírito não se perca neste novo ciclo iniciado após as eleições de Agosto. h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 19

AngolA resíduos

Por umA AngolA mAis limPA
Já foi dado o pontapé de saída para um Plano Estratégico de Gestão de Resíduos Urbanos em Angola — PESGRU que pretende reconstruir, capacitar e alargar as infra-estruturas fundamentais em todo o país. Mais do que um nome sugestivo, o Programa Angola Limpa é a meta do Executivo que repensa a cadeia produtiva dos resíduos até 2025
CássiA AyrEs
20 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Aterro de mulenvos: Lixo de Luanda está concentrado num único local

QuAnto serÁ investido no ProgrAmA
2012-2017

Angola Limpa prevê investimentos de 6 mil milhões de dólares até 2025
2018-2025 Mínimo Máximo

(em milhões de dólares)

Mínimo

Máximo

Custo da recolha indiferenciada (1) Alargamento do âmbito da recolha indiferenciada (2) Recolha e deposição do passivo disperso Infra-estruturas de tratamento e deposição final Valor total de investimento
(intervalo estimado por período)

1 428 875 25 161 1 061

2 166 1 334 50

1 904 3 264 25

2 888 4 971 50

1 383 1 545 4 672 6 404

ObserVações
XXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXXX XXXXXXXXXXXXX

• Estimativas baseadas em projecções de acentuado crescimento demográfico (de 20 milhões para 29 milhões de habitantes) e económico (14% ao ano até 2016 e 5% ao ano de 2017 a 2025). • Custos unitários da recolha assumidos nesta estimativa poderão diminuir até 20% com a optimização de práticas e a melhoria das infra-estruturas de base. • Investimento em infra-estruturas pode diminuir em virtude de economias de escala e da consolidação de estruturas através dos planos provinciais de acção. • Investimento apresentado não inclui: incineração, recolha selectiva, capacitação do MINAMB e optimização de infra-estruturas de base (exemplo: rede viária).
(1) Assumindo a realidade actual. (2) Investimento adicional a somar ao actual custo da recolha indiferenciada em Angola, cujo valor total para 2012 se estima entre 240 milhões e 360 milhões de dólares/ano. Fonte: PRESGRU — MINANB.

A

gestão dos resíduos é indicador de desenvolvimento das sociedades modernas e, ao mesmo tempo, um dos problemas mais complexos devido às suas repercussões ambientais e de saúde pública. O crescimento demográfico e económico coloca uma forte pressão sobre o sistema de gestão de resíduos urbanos que leve Angola a alcançar os objectivos de desenvolvimento do milénio e transforme o lixo em oportunidade de negócio com benefícios sociais. A situação actual é preocupante. Segundo a Elisal, empresa angolana de recolha de resíduos na capital, Luanda produz 5 mil toneladas de lixo diariamente (aproximadamente 1 quilo por habitante), o que coloca a cidade acima da média dos países emer-

luanda produz 5 mil toneladas de lixo por dia (1 quilo por habitante), valor acima da média dos países emergentes
gentes na produção de lixo por habitante. O lixo colectado vai para o único aterro sanitário da cidade, o de Mulenvos. Mas o passivo restante é acumulado nas ruas, onde milhares de indivíduos convivem directa e diariamente com todos os perigos para a saúde pública que daí advêm. Se observamos o mesmo cenário nas províncias, o número cai para 460 gramas por habitante, mas, segundo as projecções até 2025, a tendência é que o descarte passe para o dobro por habitante. Os números advêm da pesquisa realizada com as administrações provinciais em 80% do território nacional, juntamente com empresas que fazem a recolha de dados para a ONU. A boa notícia divulgada pelo Ministério do Ambiente (Minamb) à EXAME é que a legislação que coloca em prática o plano foi aprovada pelo Conselho de Ministros, em Julho, e deve entrar em vigor ainda este ano após a apresentação da Comissão Multissectorial para o Ambiente que disseminará o tema para as outras instâncias do Executivo.
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 21

AngolA resíduos

onde FiCArÃo os Centros de trAtAmento
Rede de CTV * terá abrangência nacional e uma implementação faseada
Centro/PlAtAFormA de triAgem

2017
Aterro/vAlA sAnitÁriA

50% das capitais de província

2017

Até 2022

Todas as capitais de província

Restantes capitais e em cidades com produção >70kton./ano

2022

APós 2022

Todas as sedes de município

nas restantes cidades

Centro/PlAtAFormA de ComPostAgem eCoCentro

2017

2017

Todas as capitais de província

Capitais de província com centro de triagem

2022

2022

Todas as sedes de município

Restantes capitais e em cidades com produção >70kton./ano
* CTV (centros de tratamento e valorização). Dimensão da rede pode ser optimizada com estações/plataformas de transferência.

O projecto contém o princípio dos três “R” — reduzir, reutilizar e reciclar — que reforça quatro eixos de acção: alargamento e optimização da recolha indiferenciada; implementação do modelo de tratamento, de valorização e de deposição dos resíduos; recolha e deposição do passivo existente; e, por fim, o lançamento da recolha selectiva com a estruturação de fluxos específicos. Para o efeito, o plano propõe acções de formação e sensibilização, a construção de um modelo institucional e um outro modelo para o financiamento. Neste último aspecto, entram em jogo, o aumento das dotações do Executivo, a capitalização de fundos internacionais, a entrada nos mecanismos de financiamento de carbono e um sistema tarifário que garanta a sustentabilidade do sector. A face económica do lixo A recuperação dos resíduos para a geração de energia e a promoção de uma indústria de reciclagem também estão nas ambições do Minamb com o PESGRU. “Repensar a cadeia dos resíduos irá potencializar as oportunidades do mercado do ambiente.

até ao fim de 2013, serão criados novos regulamentos e a autoridade nacional de gestão do instituto de resíduos
As empresas que entrarem neste negócio vão ter o benefício de implementar projectos prioritários com o Governo, através de parcerias público-privadas”, esclarece Kâmia Victor de Carvalho, directora Nacional do Ambiente. A aplicação do programa será faseada com o início em 2017 e o final em 2025. Vai compreender a construção de aterros sanitários, ecocentros, plataformas de triagem e de compostagem. No total, os investimentos andarão na ordem dos 6 milhões de dólares até 2025. Assim que o plano entre em operação, o Minamb quer dar um salto qualitativo no quadro legal e institucional com a aprovação do Regulamento Geral de Resíduos e a constituição de uma Autoridade Nacional de Gestão do Instituto de Resíduos, a concluir até ao final de 2013. Mas assegurar a eficiência do serviço, com qualidade de cobertura e frequência da recolha em todo o território angolano, também gerará novos custos. A taxa de recolha irá crescer e será partilhada pelas províncias segundo critérios de zonas urbanas estruturadas (100%), zonas periurbanas (100%) e aglomerados das zonas rurais (80%) de acréscimo. Além dos benefícios sociais e ambientais inerentes a gestão, o PESGRU reforça o aspecto económico quando propõe inserir no mercado de trabalho, mais mão-de-obra especializada, incrementar a produção de energia e potencializar o sector turístico. “Este conjunto de medidas darão uma nova cara ao Ministério, os benefícios serão os mais visíveis até aqui”, reforça Kâmia. Revelar a outra face do lixo em Angola é o todos esperam para ver. h

22 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

angola BIODIVERSIDADE

Angola preside à “Iniciativa transfronteiriça da floresta do Maiombe”, que reúne a RDC e o Congo. O plano para a conservação da biodiversidade até 2017 precisa de um investimento de 40 milhões de dólares. A FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, vai dar um ajuda
FILIpE CArDoSo

Salvem o maiombe
Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que anunciou um apoio incondicional à iniciativa. “Estamos disponíveis para apoiar este projecto, sobretudo nas áreas de reforço das capacidades, de preservação e protecção assim como a gestão e o aproveitamento dos recursos florestais. Julgamos importante que as comunidades

P

rimeiro surgiu o apelo. a ministra do ambiente, Fátima Jardim, durante um encontro realizado em Luanda com a classe empresarial, representantes de órgão das Nações Unidas em Angola (como o PNUD e a FAO), além dos representantes do sec-

tor público-privado e diplomatas, pediu apoios para a implementação da “Iniciativa transfronteiriça da floresta do Maiombe”, que reúne Angola e as repúblicas do Congo e Democrática do Congo (RDC). A resposta surgiu rápida por parte de Maria Helena Semedo, representante regional para África da Organização das Nações

24 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

FloreSta do maiombe: “Engloba Angola, RDC, Congo e Gabão e tem uma dimensão comparável à de 290 mil campos de futebol

decorrer estes mês em Doha (Qatar), na qual o plano estratégico quinquenal (2012 a 2017) será apresentado. Fátima Jardim justificou o pedido dizendo que os esforços dos parceiros do projecto “devem ser contínuos para que seja um exemplo em matéria de preservação do ambiente”. Acrescentou que Angola, que preside a esta iniciativa, continua “empenhada para que os objectivos traçados sejam uma realidade”. O problema de “fundo” é que o plano precisa de 40 milhões de dólares para cumprir as metas de protecção da biodiversidade. um plano em três fases A estratégia traçada prevê a gestão sustentável dos ecossistemas florestais do Maiombe, que, numa primeira fase, vai concretizar-se na zona florestal, no Baixo-Congo, incluindo a reserva do Uki, na RDC. A floresta do Maiombe, na província de Cabinda, na parte sul, e a dos dois Congos serão alvos de intervenção ambiental na segunda fase do projecto. Por fim, a parte norte da floresta, entre a RDC e Gabão, será revista na terceira. Recorde-se que desde a assinatura do memorando tripartido (Angola, RDC e República do Congo), em 2009, que já foram efectuados estudos de viabilidade que determinam os corredores biológicos e os instrumentos jurídicos que visam proteger a floresta do Maiombe, com uma dimensão comparável a de 290 mil campos de futebol.

-se ao Parque Nacional de Cabinda, que está inserido na floresta do Maiombe. O projecto vai formar 45 fiscais, todos ex-militares, para o patrulhamento da zona. Acrescentou que a floresta do Maiombe é um território importante para a promoção da economia verde, alertando, porém, que “o conceito tem um foco diferente em África, dado que assenta em prioridades como o bem-estar da população, o acesso à água potável e a infra-estruturas que promovem o desenvolvimento”. Recorde-se que, segundo o Ministério do Ambiente, 12,56% do território nacional já estão classificados como área de conservação (parques ou reservas naturais). Destaque também para projectos em curso como o estudo e a protecção de espécies em vias em extinção — caso da palanca negra gigante, na província de Malanje — e o levantamentos da flora nas províncias de Cabinda e Maiombe. Apesar do Plano Nacional da Biodiversidade ter sido aprovado em 2007, os responsáveis reconhecem que ainda há muito a fazer para combater ameaças à biodiversidade tais como a caça furtiva e a falta de consciência ambiental da população. Tal cenário também é visível na floresta tropical do Maiombe, tal como alerta a organização Mundial para a Conservação da Natureza, (IUCN). Além da caça ilegal com intuitos comerciais, existem outras ameaças diagnosticadas pela organização,

A CAçA fuRtivA E A fAltA DE ConsCiênCiA AmbiEntAl DAs populAçõEs são os GRAnDEs inimiGos DA pRotECção Dos ECossistEmAs floREstAis Do mAiombE
Agostinho Chicaia, o coordenador do projecto transfronteiriço, afirmou à Angop, que está tudo pronto para o estabelecimento e ligação das cinco reservas ou parques existentes na zona verde dos três países, que é alimentada pela bacia do Congo e constituída por árvores com mais de 50 metros. Estas zonas em Angola, vão ligartais como a caça de sobrevivência, a degradação da própria floresta, o conflito sempre latente entre “o homem e o animal”, a falta de cultura de educação ambiental, o uso insustentável da terra ou as obras relacionadas com a mineração. Tudo razões de sobra para que o alerta de Fátima Jardim seja ouvido: “Salvem o Maiombe.” h

sejam inseridas nas várias fase do projecto”, afirmou e alusão às mais de 1 milhão de pessoas, sobretudo agricultores de subsistência, que vivem e dependem da riqueza natural da floresta do Maiombe. Agora falta saber o que pensam os participantes da 18.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, a

dEsiREY MiNKoH / AFp

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 25

AngolA Sociedade civil

Por umA juvEnTudE mAis EcologicA ´
CássiA AyrEs

Durante os anos 90, um grupo de jovens foi pioneiro do movimento da sociedade civil pela preservação do ambiente. A Juventude Ecológica Angolana fez de um assunto ainda pouco conhecido no país, uma causa de vida para centenas de jovens. O seu trabalho já foi reconhecido com o Prémio Ambiental Global 500 da ONU

E

nquanto muitos jovens da sua idade pensavam no Mussulo como destino de praia e na Ilha do Cabo como fonte de diversão nocturna, estes jovens tinham algo diferente em mente. Eles reuniam-se aos fins-de-semana em campanhas de limpeza e de plantação de árvores nas praias do Mussulo e da Ilha. Cerca de dois anos depois, já eram um grupo organizado com mais de 200 voluntários que se dividiam em acções de sensibilização ambiental nas comunidades e nas escolas. Assim foram sendo delineados os princípios e as metas daquilo que é hoje a principal ONG ambiental no país. A Juventude Ecológica Angolana (JEA) foi constituída oficialmente em 1991 e cedo ganhou notoriedade devido à ousadia das suas acções e à capacidade de engajamento voluntário da juventude. Ao regressarem da Cimeira da Terra, na Rio 92, o grupo tinha como meta a educação ambiental dos jovens como forma de sensibilizar o resto da população a partir de boas práticas. “A estratégia tinha de ser atractiva junto do

público. Caso contrário não haveria adesão. Por isso, pensámos em fazer actividades divertidas e cativantes, tais como programas de rádio e jogos educativos”, resume José Silva, representante da organização. Foi dessa ideia que nasceu o primeiro programa radiofónico ambiental em Angola criado em 1995 e denominado Telefone Verde, feito pela Rádio LAC. O programa que era exibido semanalmente, com o formato de uma hora de duração, incluía debates, curiosidades, notícias e denúncias dos abusos cometidos ao meio ambiente (a sua rubrica mais polémica e popular). Outro momento marcante para a história da educação ambiental em Angola foi a realização entre 1999 a 2004 do concurso interescolar denominado “Olimpíadas do Ambiente”, realizado nas províncias de Lunda, Huíla e Benguela. O projecto envolveu, anualmente, mais de 2 mil jovens estudantes do ensino médio de escolas públicas e privadas e teve como lema “Conhecer para Conservar”. Consistia no desenvolvimento de várias actividades teóricas e

práticas à volta do ambiente. Como resultado, os participantes passavam a integrar a JEA e a tornarem-se novos activistas e educadores ambientais. “Ambos os projectos tornaram-se referências, tanto a nível nacional como internacional ”, salienta José Silva com indisfarçável orgulho. Trabalho de formiguinha A partir de 1996, a JEA entrou num ciclo de actividades de formação de formadores em metodologias de educação ambiental. O que antes parecia não ter resultados aparentes, tomou corpo quando o conhecimento chegou às escolas, outras ONG parceiras, instituições governamentais, igrejas, os meios de comunicação social e a sociedade civil em geral. “É um processo quase invisível, mas que surpreende quando é feito por muitas mãos”, sintetiza. A força e entusiasmo destes jovens pioneiros fez com que a JEA conte actualmente com mais de 1500 membros voluntários, desde estudantes a trabalhadores, e tem delegações em oito províncias do país: Ben-

26 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

com EsPíriTo dE missão: jovens estiveram na Feira do ambiente a fazer pedagogia

a juventude ecológica angolana conta com mais de 1500 membros voluntários — desde estudantes a trabalhadores — e está presente em oito províncias
guela, Cabinda, Cunene, Huíla, Kwanza-Sul, Lunda, Malanje e Namibe. Tem ainda representações, através de núcleos dinamizadores, na Lunda-Norte, Cuando-Cubango e Zaire (este em reactivação). Mas a organização atingiu o seu ponto mais alto quando em 2002 teve o seu trabalho reconhecido mundialmente com a atribuição do Prémio Ambiental Global 500 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Daí em diante, alcançou voos mais altos internacionalmente. Hoje, a JEA é membro da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN/IUCN) e da Associação de Educação Ambiental da África Austral (EEASA), CNJ — Conselho Nacional da Juventude, Plataforma das Organizações Juvenis Angolanas e membro fundador da Rede Maiombe (o fórum das organizações ambientais em Angola), além de participar em vários acordos, protocolos e convenções em todo o mundo. À medida em que ampliava o seu raio de acção, após duas décadas de trabalho, a JEA também alcançou a diversificação da sua área de trabalho que além da educação ambiental, advocacia e lobby, actua também na investigação, pesquisa e divulgação em questões transversais como o associativismo e participação, HIV/SIDA, direitos humanos e combate à pobreza. O financiamento e o apoio material são garantidos por parceiros no Ministérios da Juventude e Desporto, do Ambiente e da Educação, governos provinciais, Conselho Nacional da Juventude, Embaixada da Suécia (através da ASDI), Grupo África da Suécia, Instituto Holandês para áfrica Austral (NIZA), além de inúmeras empresas privadas atentas à responsabilidade social ambiental. A mais recente actividade pública da JEA ocorreu durante a Feira do Ambiente, realizada em Maio deste ano, em Luanda. A organização criou um stand com dez membros que circularam durante os dias da feira pelo pavilhão da FIL para abordar expositores e visitantes sobre a temática ambiental. Foi como que um exército de formigas, laboriosas e determinadas, a pedir passagem rumo a uma juventude angolana mais saudável e ecológica. h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 27

AngolA cultura

O trabalho da artista angolana Daniela Ribeiro tem estado ligado aos desperdícios tecnológicos e à sua reutilização. Depois da estreia, em 2009, com a exposição de máscaras Tchokwe futuristas, fará em Janeiro uma reinterpretação dos símbolos nacionais a partir de telemóveis usados. Mal esperamos para ver...
Jaime Fidalgo
28 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

E sE do lixo sE fizEssE ArtE?

FoTos: pEdro pinA

trAdição E modErnidAdE: Máscaras tribais adornadas com desperdícios tecnológicos foi a base da primeira exposição. Agora, a artista foi desafiada a reinterpretar os símbolos nacionais

A

artista plástica daniela ribeiro, tal como tantos angolanos, tem dois passaportes: o de Portugal e o de Angola. Paradoxalmente não nasceu em nenhum deles, mas, sim, em Moçambique (Nampula), para onde o pai, Luís Ribeiro, tinha sido enviado para uma missão temporária. Daniela ficou por lá até ter 1 ano de idade e nunca mais voltou. As suas origens e, mais importante do que tudo, o seu coração, sempre estiveram aqui. Daniela faz parte de uma quinta geração de angolanos, espalhada pelas províncias de Luanda, Huambo, Uíge e Benguela.

A filha cresceu na capital, na “fase quente”, até aos 12 anos. Era uma eximia desportista — aos 9 anos já era nadadora profissional do Petro. “Foi uma infância inesquecível. Passei pelas modas todas. Fazíamos natação até que a piscina sofria um rombo e íamos todos para o xadrez. Depois faltavam as peças que vinham da União Soviética e íamos para o ténis. Também experimentei a ginástica rítmica. Faltava tudo em Luanda, por isso tínhamos de ser inventivos e construir os nossos próprios brinquedos a partir do que encontrávamos à nossa volta”, recorda. Outra memória que retém é o fascínio pelas matérias-primas. O pai, engenheiro mecânico de

formação, chegou a ser vice-ministro das Indústrias Pesadas. “Passei a minha infância nas fábricas”, resume. Também recorda com nostalgia a escola de artes plásticas e de trabalhos manuais do Barracão. “Foi lá que aprendi a mexer com o barro, com as colas.” Todas estas influências seriam decisivas na sua carreira como artista plástica. “Desde pequena que pegava em coisas que encontrava na rua para fazer esculturas.” Mas não foi menos importante a sua abertura para o mundo. É que Daniela, tal como sucedeu com tantos angolanos da sua geração, foi estudar para o exterior. Como havia feito o Liceu Francês em Angola a escolha

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 29

AngolA cultura

recaiu sobre um colégio interno em Lyon (França), onde viveu até aos 16 anos. “Não foram momentos fáceis. Eu era alvo de piadas por vir de Angola e falar português. Mas a cultura francesa até acabou por me marcar nalgumas coisas. Ao nível do pensamento filosófico ou dos grandes ideais dos direitos humanos, por exemplo.” Seguiu-se Portugal onde, em 1993, fez um curso de Design, Imagem e Criação por Computador e, em 1998, se licenciou em Relações Internacionais. Estagiou no Centro de Estudos Europeus e passou pelo Ministério da Economia e o Gabinete da Presidência da República portuguesa. As coisas até não lhe corriam mal, mas o trabalho administrativo não era a sua “praia”. “Era um mundo diferente do meu. Demasiado elitista. Eu vinha de Angola onde éramos todos camaradas. Nada me apaixonava. Nada vinha do coração”, justifica. A opção de se tornar artista, sempre desaconselhada pelos pais, só foi tomada aos 30 anos. Começou quase por acaso. “Houve uma altura em trabalhei na organização de eventos. Mal dava por mim já estava a construir e a decorar as salas. Quando arranjei

coragem para me despedir, resolvi pintar quadros. Comecei por aguarelas, acrílicos e óleos. O meu processo era intuitivo. Funcionava por tentativa e erro. Fechava-me em casa e experimentava mexer em tudo até acertar.” A sua primeira exposição foi um sucesso. “Em duas horas, vendi tudo. As pessoas gostavam daquele experimentalismo e dos padrões e traços africanos.” Daniela, no entanto, também investiu na sua formação. Em 2000, frequentou o curso de Pintura da Sociedade Nacional de Belas Artes e, em 2006, o curso de Escultura na ARCO. No mesmo ano, especializou-se em Moldes de Resina e Silicone na Escola Pascal Rosier, em Paris. “No fundo, andava a fazer coisas que já tinha aprendido no Barracão”, diz divertida. uma ascensão meteórica A sua carreira, embora tardia, teve uma ascensão meteórica. Desde 2002 que passou a expor em diversas galerias e espaços nobres como o Convento do Beato, em Lisboa. Em 2005, participa na Feira Art de Madrid e nesse ano é convidada para criar quatro obras para o mediático restaurante Terreiro

do Paço, em Lisboa (mais tarde, criou painéis para o átrio de entrada do grupo Rentipar ou da sede do Banco Mais). É também em 2005 que cria o Artin Park, uma associação sem fins lucrativos que apoia artistas em início de carreira. Três anos depois, a convite da Italian Motors, muda-se para o Spazio Dual, um espaço de 1000 metros quadrados na Avenida da República. Leva consigo 11 artistas de áreas distintas como as artes plásticas, joalharia, fotografia, moda, graffiti, design, pintura, Web e vídeo. “É uma espécie de incubadora que promove o intercâmbio com jovens talentos de outras nacionalidades.” O projecto foi vantajoso para todos. “Nós ganhámos um espaço fantástico e os nossos artistas deram vida ao show-room de automóveis”, justifica. Hoje, a Artin Park tem outro espaço no Beato, vocacionado para a escultura. A Praça Martins Moniz, o Casino de Lisboa e as Olaias (graças a um protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa que deseja revitalizar os bairros sociais) são locais em vista para galerias. Daniela Ribeiro também quer replicar o conceito, em Luanda, no “comboio” do Miramar.

30 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

dAniElA ribEiro: Os painéis à base de resina, inspirados nas imagens do telescópio Hubble, foram expostas em Londres, durante os Jogos Olímpicos

Importa referir que durante todo este período a artista nunca quebrou os laços com a “terra”. Mas a primeira exposição individual em Angola só surgiu em 2009, no Edifício Escom, com o apoio da Fundação Sindika Dokolo. Chamada “Unicidade do Tempo” apresentou máscaras tribais africanas (Tchokwe) adornadas com jóias feitas a partir de peças de telemóveis, ecrãs, chips, teclados, auriculares e fios, numa combinação única de tradição e modernidade. “Esta ideia da reutilização é muito africana. Existe uma tradição de se aproveitar tudo”, refere. No ano seguinte, a Fundação Portuguesa de Comunicações pediu-lhe um ensaio artístico sobre o futuro das tecnologias de informação. Daniela Ribeiro aceitou o desafio e criou um projecto composto por 14 olhos biónicos, criados a partir de componentes electrónicos de 2 mil telemóveis. Daniela Ribeiro considera que o seu estilo se insere na corrente do “surrealismo científico”. “É um movimento que está para a pintura como a ficção científica está para o cinema”, esclarece. Foi também nessa linha que lançou a exposição Sun, Moon and

A IDEIA DA REUTILIZAÇÃO DE MATERIAIS É MUITO AFRICANA. EXISTE UMA CULTURA E UMA TRADIÇÃO DE SE APROVEITAR TUDO
Earth, patente na prestigiada Art Gallery londrina, em plena Cork Street, durante os Jogos Olímpicos deste ano. “Fiquei muito orgulhosa de ter os meus painéis expostos na ala do Rodin, em frente à famosa escultura O Beijo”, diz. As obras gigantescas de Daniela Ribeiro (com 2 por 2 metros de dimensão) foram inspiradas em imagens da Terra vistas do telescópio espacial Hubble e vendidas a investidores do Reino Unido, Estados Unidos e Hong-Kong. Feitas à base de resinas, transportam-nos para um mundo encantando feito das cores do pôr-do-sol e o azul cristalino dos oceanos. “Os painéis foram inspirados nas minhas memórias de infância e nas tonalidades da cultura visual africana”, confessa. Os próximos desafios da artista terão novamente Luanda como palco. Em Novembro, terá uma obra no leilão anual da Cruz Vermelha (um embondeiro feito com base em peças de telemóveis). Em Janeiro, fará uma exposição para o BAI Arte que a desafiou a reinterpretar símbolos nacionais como a estátua do Pensador, a rosa-de-porcelana ou a beleza da mulher angolana. A EXAME ainda não viu as obras, mas conhece a matéria-prima: dois contentores de telemóveis usados cedidos pela Unitel. A escolha é propositada. “A tradição da comunicação oral sempre foi uma característica dos povos africanos”, justifica. Para o futuro, a artista deixa um desejo e um sonho. O desejo é que as empresas angolanas, impulsionadas pela nova lei do mecenato cultural, reforcem a sua aposta na cultura. O sonho é que se crie um museu de arte contemporânea. “É algo que existe em todas as capitais progressistas do mundo. Porque não em Luanda?, questiona. h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 31

FoTos: ricArdo quArEsMA viEirA

opinião
Eufrazina paiva AmbientAlistA e pArlAmentAr, FundAdorA dA AssociAção embondeiro

angola,

32 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

istockphoto

um país rico Em capital vErdE

a

ngola, como a maior parte dos estados africanos, é um país muito rico em recursos naturais, cuja maior parte desta exploração está muito aquém das suas possibilidades. Florestas, mares, bacias hidrográficas, mangais e outros biomas estão hoje a ser mais valorizados no mundo inteiro, tendo como base os serviços ecossistémicos que prestam à economia, na geração de bens e serviços, mas sobretudo à manutenção da vida saudável no planeta. Com a contínua degradação da biosfera, começamos a ensaiar uma nova forma de exploração sustentável desses recursos, tendo em vista estender a sua manutenção, garantindo o melhor aproveitamento, em especial daqueles que não são renováveis. Estão aí, por exemplo, o REDD (Reducing Emissions from Deforestation and Degradation), que valoriza os ecossistemas florestais e o Cradle to Cradle (berço ao berço) que repensa o ciclo de produção da indústria, preservando recursos logo à partida e gerando menos resíduos. Numa outra perspectiva, foi criado em 2010, durante a COP 16, no México, o chamado “Fundo Verde”, onde 194 nações acordaram transferir um montante de 100 biliões de dólares anuais aos países em desenvolvimento. Os valores que estarão disponíveis em 2020 pretendem mitigar efeitos das mudanças climáticas em países com maior vulnerabilidade. Em ambos os casos, seja em estratégias para preservar ou em mitigar efeitos humanos no ambiente, as nações declararam uma intenção precisa de avançar no sentido de valorização da biodiversidade numa forma mais oficial e universal de finanças. O que as economias mais desenvolvidas apoiadas pelo Banco Mundial e o FMI estão a ensaiar é a inclusão do capital verde nos orçamentos públicos, tarefa a ser exercida pelos mecanismos institucionais. Insere-se aí o conceito da “economia verde” como um novo modelo de desenvolvimento sustentável que traz na base o conhecimento da economia ecológica. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), ela resulta em melhoria do bem-estar e equidade social,

reduzindo significativamente os riscos ambientais e a escassez ecológica. A sua característica mais marcante em relação ao modelo vigente é a avaliação directa do capital natural e serviços ecológicos quantificados e qualificados em valor monetário (capital verde) e um regime de contabilidade de custo total em que os custos externos para a sociedade através de ecossistemas são rastreados e contabilizados como passivos da entidade que faz o mal ou negligencia um activo ambiental. O capital verde oferece uma gama de serviços essenciais para a sociedade e que outrora eram considerados commodities sem qualquer valor acrescentado. Ele também pode ser quantificado com base naquilo que o homem investiria para substituir o serviço que a natureza lhe prestou “gratuitamente”. Se tomarmos como exemplo as zonas pantanosas saudáveis, veremos que elas passaram a ser valorizadas por serem fonte de água natural purificada, bem como a protecção contra as enchentes e captação de dióxido de carbono. Em Angola, as florestas ocupam cerca de 35% do território nacional e a sua importância é fundamental à manutenção de um ambiente saudável e não poluído, pois as suas raízes ajudam a evitar a erosão do solos e manter preservados os lençóis freáticos e regular o clima. Além disso, elas assumem importância económica com impactos na geração de rendimento das populações quando incluímos a extração sustentável da madeira, a silvicultura e a medicina tradicional. Os recifes de corais estão estimados entre 172 mil milhões e 375 mil milhões de dólares por ano. Estes cumprem serviços como a pesca, manutenção da biodiversidade marinha e o turismo. O mesmo vale para os mangais e os rios que acrescentam valor económico e social às comunidades ribeirinhas. Angola precisa atribuir o verdadeiro valor aos seus recursos naturais. Somos um país de riquezas não aproveitadas. O sector financeiro precisa estabelecer um compromisso ambicioso e começar a incluir o capital verde no Orçamento Geral do Estado. Isso permitirá o seu uso mais eficiente e sustentável e a garantia de que futuras gerações possam gozar de bem-estar e inclusão social. h

ANGOLA PRECISA DE ATRIBUIR O VERDADEIRO VALOR AOS SEUS RECURSOS NATURAIS. SOMOS UM PAÍS DE RIQUEZA NÃO APROVEITADA
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 33

entrevista jeffrey sachs

menos conversa e mais ~o acça
Para o famoso economista americano Jeffrey Sachs, encontros como a Rio+20 só beneficiam advogados e diplomatas. Ele diz que a fase de discutir já passou. Agora é tempo de se colocar os projectos em prática
MAriAnA sEgAlA

Há quem culpe o crescimento económico pelos problemas ambientais. Isso faz sentido? A ideia de que precisamos de travar a economia para não agredir o ambiente está errada. A redução da pobreza depende do progresso económico. Mas é preciso desvincular o crescimento da destruição da natureza. Há quem diga que combinar as duas coisas não é possível, pois o uso de recursos naturais cresceu nas últimas décadas e não podemos prescindir deles. Creio que não devemos olhar para trás, mas, sim, para a frente. É bom lembrar que, para os países pobres, o crescimento é uma questão de vida ou morte. Eles precisam de apoio para adoptar tecnologias novas, mais caras e que conservem os ecossistemas. Além da tributação sobre as emissões de carbono, defendo que os países de altos rendimentos paguem pelas suas emissões, criando um fundo global que financie os países pobres. Investimentos desse tipo podem ser parte da saída para a crise. É viável propor essa medida num momento de crise económica? É verdade que os políticos não gostam de falar de novos impostos. Os americanos são alérgicos a essa palavra como se percebeu na recente campanha presidencial. Sei que as minhas sugestões estão fora da agenda política, mas a verdade é que a estratégia actual não resulta. Quando a crise se abateu sobre os Estados Unidos, em 2008, o consumo caiu. Para o retomar, alguns defenderam cortes de impostos, outros sugeriram benefícios especiais. Sempre achei que nenhuma delas funcionaria porque os consumidores estão endividados. Defendi que apostássemos numa retoma baseada em investimentos em tecnologias limpas, com um horizonte de dez anos. Infelizmente, o Presidente Barack Obama optou por estímulos de curto prazo. Estamos com a economia estagnada, sem consumo e sem um plano de investimento.

s

obram advogados e faltam engenheiros. Esse é, em resumo, o problema de conferências como a Rio+20 e de outros eventos que se propõem a discutir soluções para as questões ambientais, na visão do americano Jeffrey Sachs, um dos mais prestigiados economistas actuais, professor da Universidade Columbia, em Nova Iorque. Para ele, a preocupação central desse tipo de encontros deveria ser como tornar as energias alternativas (nomeadamente a eólica e solar) comercialmente viáveis — e não produzir documentos de centenas de páginas com ideias sobre como salvar o planeta.

Conselheiro da Organização das Nações Unidas (ONU), Sachs está à frente dos Objectivos do Milénio, um projecto criado em 2000 para reduzir a pobreza no mundo. Ele orgulha-se da simplicidade da iniciativa: há oito metas, que podem ser descritas numa folha de papel. Nem tudo o que está escrito foi colocado em prática, mas houve alguns avanços importantes. Segundo os dados da ONU, o número de pobres já caiu para metade. Obviamente, que a aceleração do crescimento económico nos países emergentes foi essencial. “A humanidade gosta de progresso, claro. Mas é preciso crescer, sem destruir a natureza”, disse ele em entrevista à EXAME.

34 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

orjAn F. EllingvAg/corbis/lAtinstock

os países ricos devem pagar pelas emissões de carbono, criando um fundo global para financiar os mais pobres

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 35

entrevista jeffrey sachs

MArkEl rEdondo/pAnos

A boa notícia é que países como os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) hoje são muito mais poderosos economicamente. Há mais nações para liderar esse esforço. Qual deveria ser a prioridade? É necessário desenvolver tecnologias que nos permitam crescer, usando menos combustíveis fósseis, que representam 80% do consumo global de energia. Há duas alternativas: ou usamos mais as energias limpas, como a eólica e a solar, ou capturamos o carbono emitido quando consumimos combustíveis fósseis em vez libertá-lo no ambiente. Qual é a correcta? Não sabemos.

E não se muda da noite para o dia a forma como abastecemos os carros ou aquecemos as casas. Mas é preciso começar por algum lado. Entrámos numa fase perigoso das alterações climáticas. Os estragos vão piorar mais rapidamente se não agirmos. E já vê alguns sinais de mudança? Sim, mas caminhamos de forma lenta. Eventos como a Rio+20 têm demasiada conversa e pouca acção. Há 20 anos, na Eco92, assinámos um bom acordo para enfrentar as mudanças climáticas. Consagrámos o conceito de desenvolvimento sustentável. Discutimos de forma consis-

tente como conciliar desenvolvimento económico com preocupações ambientais. Só que o documento, a Agenda 21, tinha centenas de páginas de intenções. Muito extenso, muito complicado. Na prática, não ajudou a mudar nada. Um sistema com base em acordos leva os problemas para o nível da negociação. Desde então houve encontros em Cancum, Copenhaga ou Durban, onde diplomatas que não conhecíamos discutiram durante dias. E as soluções ficaram sempre para o ano seguinte. Esse sistema está a beneficiar advogados e diplomatas. Mas nós precisamos é de engenheiros capazes de solucionar problemas quotidianos.

36 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

geração de energia eólica na província chinesa de gansu: Há iniciativas para a produção de combustíveis alternativos em diversos países; o desafio é tornar esses modelos economicamente viáveis

nas primeiras eleições, obama disse que a questão climática era uma prioridade. desta vez, nem mencionou o assunto
Perdemos 20 anos? Sim, e não podemos perder mais 20. Porque não se criam objectivos do desenvolvimento sustentável, nos moldes dos objectivos do milénio, lançados em 2000. As pessoas percebem que algo está errado. Há mais secas em certos lugares, enquanto noutros as inundações aumentam. Mas os governos já não falam disso. Nesta campanha Obama nem sequer abordou a questão climática, embora tenha chegado à Casa Branca a dizer que isso seria prioridade. Como tornar as energias alternativas economicamente vantajosas? Faltam investimentos. Já existem iniciativas interessantes. Há veículos eléctricos com piloto automático que, com base em coordenadas de GPS, são mais eficientes em termos energéticos do que os guiados por motoristas. Na maioria dos países, não há impostos que repassem aos consumidores o custo, em poluição e mudança climática, do uso de combustíveis fósseis. Se fossem cobrados 4 dólares por tonelada de carbono emitida pelos países ricos, e uma parte desse valor aos países em desenvolvimento, seria possível arrecadar cerca de 100 mil milhões de dólares por ano. Isso certamente favoreceria a mudança h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 37

Global ÁSia

judith shapiro, da american university: “Se a China não parar de poluir, o resto do planeta sofrerá”

A maior autoridade sobre o meio ambiente chinês, a americana Judith Shapiro, diz que o país está a exportar os seus problemas, e o mundo pagará por isso
LuizA DALMAzo

uma factura made in china
por produtos made in China, os preços caíram — o que, nalguns casos, ajudou a controlar a inflação —, mas tudo isso teve um custo. Para a antropóloga americana Judith Shapiro, directora do Programa de Recursos Naturais e Desenvolvimento Sustentável, da American University, em Washington, a principal vítima do pro-

e

m apenas duas décadas, a china saiu de uma situação de quase irrelevância no cenário económico para o posto de maior potência industrial do mundo, responsável por quase 20% da produção global. As lojas e os supermercados de todos os continentes foram invadidos

gresso chinês foi o meio ambiente. Este é o tema do seu último livro China’s Environmental Challenges (Os desafios ambientais da China”, numa tradução livre). “A sua ânsia por matérias-primas e as suas fábricas poluentes estão a deixar marcas que extrapolam as fronteiras do país”, diz Judith, na entrevista exclusiva à EXAME.

38 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

para outros lugares. As emissões de gases da China e das suas empresas no exterior não são um problema exclusivo dos chineses, mas de todo o planeta. Os países desenvolvidos também fizeram o mesmo no passado. Poluir não é um direito da China para também crescer? Parte do governo defende que o país pode seguir o mesmo modelo de industrialização que os países do Ocidente adoptaram no passado. Há várias razões para isso. Apesar dos progressos das últimas décadas, a China ainda tem milhões de pobres. Por outro lado, manter o crescimento económico e o sonho da ascensão social é uma garantia para se evitar os protestos sociais. Dado o histórico dos países ricos na área ambiental e a situação política chinesa, muitos membros do Partido Comunista sustentam que o país poderia passar por uma etapa de poluição para depois se “limpar”. Esse caminho é possível? Infelizmente, não. Essa lógica já não funciona hoje. Existem substâncias novas e muito mais tóxicas do que no passado. É bem possível que não se consiga limpar amanhã o que hoje se suja. Quando se destrói um ecossistema, se mata um rio ou se deposita lixo nuclear numa região, não dá para a recuperar depois. Hoje, o ar já está tão poluído que milhões de chineses não se sentem saudáveis. Todos se perguntam se existem formas de desenvolvimento que combinem crescimento e sustentabilidade. O mundo está a tentar encontrar soluções. E a China não pode ficar de fora. A China é a líder mundial em produção de painéis solares e turbinas eólicas. Poderemos esperar uma transição para um modelo menos poluente? O impacto ambiental desse esforço é menor do que parece. A China ainda depende muito da queima de carvão, que gera graves problemas ecológicos. A expectativa para os próximos anos é que o país continue a emitir grandes quantidades de dióxido de carbono. O problema é que, para cada notícia boa sobre energias limpas na China, há muitas outras desanimadoras. h

Qual é a real dimensão dos danos ambientais na China? Vinte das 30 cidades mais poluídas do mundo estão na China, principalmente devido ao uso intensivo de carvão. Cerca de 75% dos rios e lagos do país estão tão sujos que a água é salobra, inclusivamente para a utilização agrícola. Cerca de 560 milhões de moradores das áreas urbanas chinesas respiram ar com uma qualidade inaceitável. Estima-se que 750 mil pessoas morrem anualmente devido a questões relacionadas com a poluição de alimentos. A população chinesa está a ficar cada mais consciente deste problema. Num regime autoritário como o chinês será que essa insatisfação popular se pode traduzir em mudanças concretas? Alguns sectores do governo já perceberam a importância do desenvolvimento sustentável. A opinião pública mais esclarecida está a favor dessa mudança. As metas do país para os próximos cinco anos demonstram essa preocupação. Mas é certo que

ainda há limitações. Como há corrupção, as leis não são seguidas rigidamente. A sociedade poderia ter um papel importante se tivesse coragem de denunciar mais casos irregulares, como o que aconteceu com o leite em pó que contaminou milhares de crianças há alguns anos. No seu novo livro argumenta que a China está a exportar a sua poluição... A maioria das questões ecológicas na China tem impactos que vão muito além das suas fronteiras terrestres. Há barragens que estão a ser construídas na China e que afectam o abastecimento de água de países vizinhos como o Laos, Tailândia e Vietname. Levados pelo vento, os poluentes produzidos na China chegam ao Paquistão, Japão, Rússia e até aos Estados Unidos. A China, por exemplo, é a maior fonte de poluição de mercúrio no Oeste americano. Também é preciso não esquecer que, para alimentar as suas fábricas, os chineses importam matérias-primas de várias partes do mundo. Isso levou os chineses a transferirem as suas fábricas mais poluentes

MArk HEnLEy/pAnos

GiLbErto tADDAy

datonG, na china: A poluição ainda é encarada como um mal necessário”

EXAME SUSTENTABILIDADE • EDição EspEciAL 2012 | 39

Global Demografia

RUMo aos

Lidar com o crescimento da população do planeta — e com as
40 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

10 MIL

inevitáveis tensões geopolíticas — será o grande desafio deste século
SérgIo TEIxEIrA jr., em Nova Iorque

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 41

RAndy olson/nAtionAl GEoGRAphic sociEty/coRbis

MILhões

Global Demografia

Plantação de alGodão no Mato-GRosso (bRasil): Menos de metade da produção agrícola mundial é usada como alimento humano

o

primeiro bilião surgiu no início do século xix. O segundo levou menos tempo: cerca de 120 anos. Nos últimos 50 anos, o crescimento da população da Terra acelerou de vez. Os 3 biliões de 1960 tornaram-se 4 biliões em 1974, 5 biliões em 1987 e 6 biliões em 1998. Em 2011, a marca chegou aos 7 biliões. Devido ao enriquecimento das populações e à urbanização, o ritmo de crescimento está a diminuir. Ainda assim, o planeta deve chegar aos 9 biliões em 2050 e passar os 10 biliões até ao final do século. Um cenário malthusiano (alusão ao pensador inglês Robert Malthus no século xviii) de fome generalizada e esgotamento dos recursos naturais não parece razoável, embora haja quem leve essa ameaça a sério. O desafio de alimentar 10 biliões de pessoas voltou a estar no centro dos debates da sustentabilidade.

“O que teremos de fazer para que todos os habitantes do planeta possam levar uma vida produtiva e próspera?”, interroga-se Jeffrey Sachs, professor de Economia da Universidade Columbia, em Nova Iorque. São dois os pontos principais, aponta Sachs. O primeiro, é uma mudança tecnológica que reduza o impacto ambiental de todas as actividades humanas. Isso significa tornar realidade uma economia menos dependente do carbono. Nas palavras do próprio Sachs, “isso vai exigir uma cooperação global sem precedentes”. Mas o segundo ponto, é mais controverso: estabilizar o crescimento populacional. “A redução das taxas de natalidade deveria ser incentivada nos países pobres. Uma rápida e voluntária redução na natalidade como sucedeu na China, por exemplo, seria desejável”, escreveu Sachs num artigo recente. O cenário descrito por Thomas Malthus há dois séculos, afirma Sachs, é uma ameaça

que persiste, mas deve ser tomada como um aviso, não como algo inevitável. Há inúmeros dados para comprovar esta tese. Metade do planeta sobrevive com 2 dólares ou menos por dia. Mais de 800 milhões de pessoas vivem em musseques. E há um número similar de não alfabetizados. Quase 1000 milhões de pessoas não se alimentam devidamente ou sofrem de desnutrição. Os estudos dizem que as calorias dos alimentos produzidos no planeta seriam suficientes para alimentar cerca de 9 biliões a 11 biliões de pessoas. Mas menos de metade da produção agrícola é dirigida à alimentação humana. Uma parte dirige-se aos animais domésticos e a maioria tem as indústrias como destinatários. Perante números assim, é difícil ser optimista. Mas eles ainda existem. “O mundo é capaz de providenciar comida, abrigo e prosperidade a todos os seus habitantes”, diz Joel Cohen, do laboratório de popula-

42 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

dElfiM MARtins

esPiRal de cResciMento

De 1000 a 10 mil milhões em três séculos

8,9
2050

2100
1920

10

8,6
2040
2030

1,9

1930

2,1

2,3
1940

2,5
1950

1,8
1910
1900

8,1

1,7

1850

1,3

1800

1

1960

3

3,7
1970

7,5
2020
©lAtinstock

4,4
2011

táxis conGestionaM as RUas de nova ioRqUe: Os países ricos não querem prescindir de hábitos como o uso do automovél

7

2000

6,1

5,3
1990

1980

População mundial em mil milhões. Fonte: UN Population Division.

Os PrOgraMas de PlaneaMentO faMiliar Para reduzir a natalidade custariaM 6,7 Milhões de dólares POr anO. É MenOs dO que Os aMericanOs gastaM nO hallOween
ções da Universidade Rockefeller e da Universidade Columbia. Cohen argumenta que o crescimento populacional médio é metade do que se registava nos anos 60. Desde 1950 que a média de filhos por mulher reduziu para metade — de cinco para 2,5, desde 1950. E desde o início da Revolução Industrial, em 1820, que o PIB per capita aumentou 11 vezes. Equacionar esses dois lados da questão é o grande desafio. O fracasso da reunião de Copenhaga, em 2009, provou que conciliar os interesses de quase 200 países é uma tarefa impossível. Os países ricos, maiores responsáveis pelo consumo de energia, não querem impor mudanças impopulares aos cidadãos, seja através de impostos “verdes” seja em medidas que reduzam o nível de conforto dos americanos e europeus. Por outro lado, chineses, indianos e demais emergentes não aceitam travar o ritmo do desenvolvimento económico para pagar os erros que outros cometeram. PolaRiZação social Não é apenas no consumo de energia que as tensões geopolíticas tendem a acentuar-se. O crescimento das populações dos países pobres ou em desenvolvimento, muitas delas com problemas crónicos de acesso a recursos essenciais, pode intensificar a polarização social entre os que têm e os que não têm. Os custos, aponta Cohen, não são tão altos quanto possam parecer. Programas de planeamento familiar para pessoas necessitadas custariam cerca de 6,7 mil milhões de dólares por ano — menos do que os americanos gastam no feriado do Halloween. Fornecer educação primária e secundária universal custaria entre 35 mil e 70 mil milhões de dólares anuais. Não é pouco. Para mais quando os países ricos se afundam na austeridade. Mas é um preço pequeno a pagar perante um desafio com muito mais zeros — 10 biliões. h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 43

Global Combustíveis

a era dourada do Gas ´ Natural
A exploração de reservas subterrâneas de gás nos Estados Unidos continua. E o coro de protestos dos ambientalistas também...
sérgio tEiXEirA jr., em Nova iorque

N

o relatório anual que traça os cenários energéticos globais da Agência Internacional de Energia (AIE) foram apontadas algumas dúvidas importantes. A mais contundente refere-se ao futuro das centrais nucleares. Embora a AIE

não tenha reduzido as previsões de crescimento dessa fonte de energia, muitos países já decidiram não investir mais nessa opção. O motivo foi o acidente ocorrido na central de Fukushima Daiichi, no Japão. Mas se o futuro do nuclear é incerto o do gás natural está garantido. A AIE afirma que o mundo já entrou na “era dourada do gás”.

No passado recente, o gás natural era considerado o parente pobre dos combustíveis. Mas a procura crescente de energia por parte dos países emergentes, as incertezas políticas no mundo árabe e a inovação tecnológica têm causado um interesse jamais visto pelas reservas espalhadas pelo planeta (veja quadro “Gás para mais de meio

44 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Gás Para mais de meio século
10 maiores reservas do mundo
1.º 2.º 3.º 4.º 5.º 6.º 7.º 8.º 9.º 10.º Rússia 44,6 (21,4%) iRão CataR 33, (15,95) 25 (12%)

tuRquemenistão 24,3 (11,7%) estados unidos 8,5 (4,1%) aRábia saudita emiRados áRabes Venezuela nigéRia 8,2 (3,9%) 6,1 (2,9%) 5,5 (2,7%) 5,1 (2,5%)

aRgélia 4,5 (2,2%)

Valores em biliões de metros cúbicos. Quotas de mercado entre parêntisis. Dados relativos a 2011. Fonte: BP (Statistical Review of World Energy 2012).

extração de Gás Natural No estado da PeNsilvâNia: uma riqueza gigantesca no subsolo dos Estados Unidos

século”). Mais do que isso: a combinação da alta dos preços com os novos métodos de extracção gerou uma “corrida ao gás” em áreas que antes eram consideradas pouco atraentes do ponto de vista económico. A AIE estima que os investimentos na exploração de gás natural chegarão aos 20 biliões de dólares até 2035. As maiores reservas

estão no subsolo dos Estados Unidos, e são esses poços que geraram uma das maiores controvérsias ambientais dos últimos anos. “O potencial dessas reservas não convencionais é desconcertante”, diz Andrew Leach, da Universidade de Alberta, no Canadá. “O volume pode ser 10 a 12 vezes maior do que todo o petróleo consumido na história.”

Hoje, as reservas de gás já são consideradas um elemento essencial na política energética dos Estados Unidos. Estima-se que, até 2020, metade do gás natural usado no país venha dessas fontes subterrâneas. O problema é que a exploração está sob a mira dos ambientalistas. O método usado é conhecido como “fractura hidráulica”

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 45

dANiEl AckEr/gEtty iMAgEs

Global Combustíveis

documeNtário GaslaNd, Nomeado Para os Óscares: alerta para o perigo de beber água em áreas de exploração de gás

Com a EConomia a prECisar dE gás, os Estados Unidos têm tido difiCUldadEs Em EnContrar Um EqUilíbrio EntrE os intErEssEs das grandEs EmprEsas E os dos ambiEntalistas
(fracking, em inglês, um nome que dá azo a trocadilhos menos próprios). O processo consiste em fazer perfurações horizontais e injecções de água e químicos no subsolo a alta pressão, de modo a libertar os gases. O problema é que as substâncias usadas para expelir os gases podem contaminar os lençóis freáticos. E esse risco não é explicado aos proprietários dos terrenos (em regra pequenos produtores rurais) que os alugam às grandes empresas. O documentário Gasland, nomeado para os Óscares de 2010, mostra cenas onde os moradores dessas fazendas acendem um isqueiro junto à torneira, e a água, literalmente, transforma-se em fogo. Trata-se de um filme de culto para os críticos do fracking. A contestação à extração do gás também se faz sentir nos Reino Unido, onde a exploração ainda está no início. Uma das pioneiras, a Cuadrilla, admitiu ter sido responsável por dois pequenos tremores de terra que ocorreram este ano devido à injecção de água no subsolo. Neste caso, existem soluções alternativas. Uma delas, já testada no Canadá e nos Estados Unidos com sucesso, consiste em fazer injecções com gel de propano. Este tem o mesmo efeito da água — ajudar a expelir o gás das formações rochosas profundas —, mas apresenta uma diferença fundamental: o calor e a pressão fazem com que o gel evapore e volte à superfície sob a forma de gás. Nessa altura o propano pode ser recapturado e reaproveitado. Por todas estas razões, o braço-de-ferro com os ambientalistas não dá sinais de abrandamento. Nos Estados Unidos, o governo parece estar do lado da indústria. Afinal de contas, não se pode ignorar uma fonte de energia barata e produzida em casa. Porém, o Presidente Obama, decerto recordado do que sucedeu no Golfo do México com o petróleo, nomeou uma comissão parlamentar para estudar o impacto da exploração no subsolo que deixou vários alertas. “O impacto ambiental tem de ser reduzido”, disse o presidente da comissão, John Deutch, professor do MIT. O problema é que a economia precisa de “gás”. Daí que o país não possa enjeitar a possibilidade de entrar na “era dourada do gás natural”. h

46 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

AlfrEdo cAliz/pANos

GLoBaL ideias

Rumo à Economia VERdE
Continuar a crescer a índices satisfatórios, proporcionar a melhoria da qualidade de vida às populações, com base numa produção de baixo carbono e no uso sustentável e eficiente dos recursos naturais. Este é a receita da economia verde que esteve no centro dos debates da Rio+20
CássiA AyrEs

E

nquanto os países desenvolvidos percebem na designada “economia verde” uma oportunidade de dar a volta à crise financeira que se instalou num planeta de recursos em extinção, os emergentes, vêm o tema com desconfiança, supondo ser mais um instrumento de manobra dos ricos para restrin-

gir o desenvolvimento dos demais países. Este foi o cenário que justificou o impasse das negociações durante a cimeira RIO+20, realizada em Junho (veja EXAME n.º 28), que pretendiam definir metas concretas, responsabilidades e cumprimento de prazos. Mais uma vez, frustrou-se uma excelente oportunidade para se passar do discurso à acção durante os trabalhos da conferência.

Mas para os peritos do PNUMA, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, com sede em Nairóbi (Quénia), é possível conciliar crescimento económico com sustentabilidade. A conclusão está no recente relatório “Rumo a uma economia verde: Caminhos para o desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza — uma síntese para os tomadores de decisão”.

48 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Tim Jackson: Autor de palestras muito populares na TED sobre crescimento sustentável

Quanto ao financiamento da economia verde, os especialistas dizem que esses valores podem advir do mercado de carbono, de incentivos fiscais e das licenças governamentais concedidas ao sector privado para promover os investimentos em inovações verdes e em formação. Como parte do tratamento, eles prescrevem que os governos melhorem os regulamentos ambientais e eliminem os subsídios à produção convencional nas energias, pesca e agricultura, que hoje representam 1% a 2% do PIB global. Remédio amargo, mas eficaz Os especialistas confirmam que a resposta às medidas da economia verde gerariam mais empregos e mais benefícios sociais e reduziriam a pobreza. Segundo eles, uma melhor gestão dos recursos naturais traz benefícios para os mais pobres, sob a forma de actividades como a agricultura familiar, silvicultura, artesanato, ecoturismo, medicina tradicional e segurança contra desastres naturais. A economia verde propõe, em suma, um novo paradigma económicos que visa o bem-estar das populações. “A crise económica levou o mundo à beira de um desastre e abalou os alicerces do modelo económico dominante. À medida que a economia se expande, o impacto nos recursos naturais é cada vez maior. Hoje, a obsessão com crescimento tornou-se algo insustentável para o planeta”, diz o especialista britânico em desenvolvimento sustentável, Tim Jackson. O autor do aclamado livro Prosperidade Sem Crescimento, acrescenta que “a partir de certo ponto o crescimento económico já não gera maior bem-estar para as pessoas. Actualmente, o conceito de prosperidade é algo que transcende as questões meramente materiais”. A boa notícia é que a adopção da economia verde já está em curso, não só nos países ricos, mas também nos emergentes, onde os investimentos em energia limpa têm subido significativamente. Efeitos colaterais? Sim, eles também existem nesta transição. Alguns deles, são desconhecidos num modelo que sempre dependeu do petróleo e das investidas contra o ambiente. Longe de ser somente um novo bálsamo, a economia verde é complexa e propõe a recuperação plena de um sistema em fase terminal. h

“a partir de um certo ponto, mais crescimento da economia não gera mais bem-estar”
O documento afirma que um investimento de 2% do PIB global (cerca de 1,3 biliões de dólares) até ao ano 2050, em dez sectores-chave — agricultura, construção civil, energia, transporte, pesca, silvicultura, indústria, turismo, gestão de resíduos e água — poderia dar início a uma transição para a economia verde. Na prática, essa mudança de paradigma consiste em mudar a forma como hoje se produz de modo a optimizar os resultados e em usar a inovação tecnológica ao serviço de uma economia com menos resíduos. O caminho traçado pelo documento toma como ponto de partida a estimativa da ONU para 2045 de um mundo com 9 mil milhões de pessoas (veja texto nesta edição da EXAME) e pretende que esta população possa aceder à qualidade de vida, saúde, segurança alimentar, água potável, habitação e bens de consumo. Mas a verdade é que hoje, num mundo de 7 mil milhões, mais de um quarto sobrevive com menos de 2 dólares por dia. Mas o remédio verde é também amargo para os tomadores de decisão. As medidas propostas pelo documento sugerem que empresas e governos incorporarem os custos das externalidades (carbono, água, por exemplo); dupliquem a produção agrícola sem aumentar as áreas cultiváveis nem o consumo da água; acabem com o desflorestação potenciando o rendimento das florestas plantadas; reduzam para metade as emissões de carbono no planeta a partir da utilização de recursos renováveis e permitam o acesso a modelos energéticos com baixa emissão de carbono.

lUiZ roBErT o liMA/FUTUrA prEss

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 49

inovação CASO

Quando nada se perde e tudo se transforma...
Imagine um sistema capaz de digerir resíduos biológicos que advêm dos dejectos de seres humanos e de animais. E que transforma esse material tóxico e poluente em nutrientes capazes de serem reaproveitados pela natureza infinitamente. Bem-vindo ao mundo dos biossistemas
CássiA AyrEs, em Petrópolis (Brasil)
50 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

geralda arruda e jorge fernando: O arquitecto desenhou o sistema que providencia energia gratuita a 1000 famílias de Vila Ipanema

p

rovavelmente nunca ouviu falar em biossistema. Trata-se de um biodigestor capaz de transformar os dejectos de seres humanos e animais em nutrientes. É uma solução simples e barata, mas com efeitos comprovados na produção de biogás, biomassa e biofertilizantes, cuja utilização tem crescido em comunidades carenciadas em todo o mundo. A EXAME visitou o funcionamento de um biossistema no bairro de Vila Ipanema, em Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro. A experiência de direccionar resíduos do sistema de saneamento daquela comunidade para ser aproveitada biologicamente é pioneira no Brasil. “O sistema é totalmente limpo e não utiliza mais nada além dos detritos que vêm das residências, a partir da rede de canalização”, esclarece o arquitecto Jorge Fernando, da empresa Arquitectura Positiva.

o primeiro biossistema foi construído no rio de janeiro e tornou-se uma referência em tecnologia sustentável
Naquela comunidade carioca, a implantação do biossistema já “alimenta” mais de 1000 habitantes. A única creche da localidade já usufrui de gás metano para a preparação da merenda escolar e alguns moradores começaram a receber, gratuitamente, o gás canalizado. Este é o caso de Geralda Alves de Arruda que, segundo confidenciou à EXAME, há seis meses não compra gás. Jorge Fernando revela que o próximo passo da empresa é levar o sistema a outras localidades carenciadas do país. O modelo original nasceu na Alemanha, em 1993, fruto da colaboração com o Hamburger Umweltinstitut (HUI) e do trabalho dos professores Michael Braungart (da HUI) e José Lutzemberger, (Fundação Gaia) e os conceitos de engenharia do professor Georg Chan (Fundação ZERI). E o primeiro biossistema foi construído em Silva Jardim, no Rio de Janeiro, considerado uma referência em tecnologia sustentável durante a Eco92. Outra experiência bem-sucedida ocorreu no Haiti, depois do terramoto em 2010, através da ONG Viva Rio que executou os projectos e preparou a população para a construção de biossistemas. “Como resultado, não só reduzimos a proliferação de doenças, como produzimos gás metano para
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 51

inovação CASO

Como funCiona o Biossistema

Conheça as etapas do tratamento natural de esgotos

O esgoto produzido nas casas é canalizado até ao biodigestor. Lá dentro, o material sólido desprende-se da água e decanta

Filtro anaeróBico Biodigestor Bactérias alimentam-se da matéria orgânica, produzindo o biogás, mistura de metano e gás carbónico

Zona de raíZes O material orgânico que deixa o biodigestor está cheio de nutrientes e serve para reuperar solos

tanque com macróFitas

tanque de peixes

A água sai limpa do biodigestor e também vem cheia de nutrientes, pode até ser usada num tanque de peixes

a manutenção das cozinhas nos aldeamentos”, revela Jorge Fernando. Em três anos, a ONG executou 20 projectos no Haiti e criou condições para que a população seja auto-suficiente na implementação. Hoje, existem mais de 80 biossistemas integrados com 50 metros cúbicos de capacidade, que geram biogás suficiente para substituir 900 botijas de GPL (gás de petróleo liquefeito), 4 mil litros de diesel ou 50 mil Kwh por ano. O investimento é de apenas 60 a 80 dólares por pessoa. Isso deve-se à simplicidade do engenho, de fácil manutenção, feito à base de betão, de fabrico chinês, instalado pela mão-de-obra local. água sem riscos para a saúde “À semelhança de um estômago humano, o biossistema tem como base o ciclo de decomposição da natureza. Num sistema fechado, ele acelera as reacções químicas com a ajuda das bactérias anaeróbicas próprias das substâncias ali contidas. Sem adição de qualquer componente externo, o sistema faz uma reciclagem segura de bionutrientes”, resume o arquitecto.

à semelhança de um estômago humano o biossistema industrial tem como base o ciclo de decomposição da natureza
Depois dos resíduos chegarem ao biodigestor, as bactérias anaeróbicas começam a sintetizar os componentes nocivos por meio de processos químicos e biológicos. A reacção completa-se quando sobre o sistema se plantam os papiros, uma espécie de plantas capaz de purificar a água armazenada. Dessa forma, o sistema separa o que é tóxico do que é nutriente. Assim, aquilo que antes era esgoto, transforma-se em biogás (metano) e biomassa (plantas aquáticas e papiros) que podem servir para adubo e alimentação do gado. Por sua vez, a água resultante do processo, rica em nutrientes orgânicos, pode alimentar peixes criados em cativeiro (técnica conhecida como aguaponia) e servir para a fertilização e irrigação de culturas agrícolas. A água que resulta do biosistema não tem riscos de contaminação para a natureza, dado que apresenta níveis de toxicidade abaixo dos padrões internacionais exigidos pelo Conselho Nacional do Ambiente do Brasil — CONAMA, órgão que legisla a qualidade da água para o uso humano. “Com o biodigestor, 99% da toxicidade desaparecem. Assim, tudo volta ao início, com o aproveitamento máximo de nutrientes e o mínimo impacto para o ambiente”, diz Jorge com orgulho. A ideia não é propriamente nova. Alguns aspectos desta tecnologia, que visa devolver a água à natureza sem riscos de contaminação, têm sido aplicados há vários séculos. Afinal, como dizia o francês Antoine Lavoisier, considerado o pai da física moderna, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”... h

52 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

de volta ao iníCio
O ciclo biológico de todos os materiais na natureza serviu de inspiração para uma plataforma de inovação nos negócios que revê o desenho dos processos industriais, a partir da infinita utilização de recursos. Dito por outras palavras, tenta reproduzir o ciclo da natureza no mundo industrial. O conceito intitulado “Cradle to Cradle” (ou “berço ao berço”, também chamado “design regenerativo” ou simplesmente “C2C”) é da autoria do químico alemão Michael Braungart e do arquitecto britânico William McDonough (autores de um livro de culto com o mesmo título, publicado em 2002). Pretende transformar o relacionamento entre os membros da cadeia de produção e de consumo — fornecedores, transformadores, consumidores e indústria de reciclagem — em torno da chamada “economia circular”, através da qual, todos os materiais que um dia partiram da natureza, possam ser reciclados e reutilizados infinitas vezes. “O Cradle to Cradle elimina o conceito de lixo que passa a ser uma matéria-prima valiosa para a economia, as pessoas e o ambiente”, resume Alexandre Fernandes, director da KCA Consulting, empresa que popularizou o conceito no Brasil e que organizou a visita guiada da EXAME ao biossistema de Petrópolis, no decurso da cimeira Rio + 20. Fraldas que se transformam em adubo quando se decompõe, tapetes que filtram o ar e podem ser reciclados inúmeras vezes e até o referido biodigestor, são alguns exemplos que constam de uma lista de mais de 400 produtos que já receberam a certificação Cradle to Cradle no mundo. Segundo o conceito, cada produto é constituído de nutrientes, sejam eles biológicos ou não. Todos eles — desde alimentos a automóveis ou até computadores — podem ser reaproveitados e transformados em novos produtos, sem ser necessário extrair mais recursos da natureza ou acumular mais resíduos. Transformar resíduos em nutrientes é uma ideia simples e eficaz que tem um espaço para florescer em África. pi

William mCdonough

miChael Braungart manifesto do design regenerativo: A obra de culto da dupla de mentores do design ecológico aplicado à indústria

o Que é o Cradle to Cradle
Plantas

Quando a indústria se inspira nas leis da natureza

Materiais orgânicos e sintéticos

Matérias-primas

Nutrientes

ciclo Biológico

Produtos orgânicos

Separação do lixo

ciclo técnico

Fabrico

Consumo animal

Degradação biológica

Produto

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspECiAl 2012 | 53

INOVAÇãO aviação

A CORRIdA VERdE ChEGA AOs CEus ´
Grandes fabricantes de aviões ou pequenas empresas de tecnologia. Todas querem combustível verde para se reduzir as emissões de carbono do sector
fAbiAnE stEfAno

N

a trilogia CINEMATOGRÁFICA “regresso ao Futuro”, um clássico dos anos 80, o personagem vivido pelo actor Michael J. Fox viaja pelo tempo a bordo de um DeLorean, um carro desportivo que era abastecido com lixo e voava. Os carros ainda não voam, mas o lixo já está a alimentar aviões, ou quase. Na corrida pelo “combustível verde” para a aviação, vale qualquer tipo de matéria-prima. Plástico reciclável, serradura, palha, óleo de cozinha e algas são algumas das opções que estão a ser estudadas para entrar no tan-

que dos aviões. A pressão por alternativas sustentáveis tem recaído sobre os principais fabricantes do sector e não pára de aumentar. Proporcionalmente, os aviões são o meio de transporte que mais polui. As cerca de 17 mil aeronaves comerciais em actividade no mundo respondem por 2% das emissões dos gases de efeito estufa. E os 1000 milhões de carros em circulação respondem por 15% dos poluentes. Segundo a Associação Internacional do Transporte Aéreo, a meta do sector é reduzir as emissões de carbono em 50% até 2050, tendo como base o ano 2005. Tal como tantas vezes sucede quando o

54 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

AVIãO dA bOEING: O aparelho cruzou o Pacífico com uma mistura de diesel e óleo de cozinha

CARO E pOLuENTE

Os combustíveis fósseis são um problema financeiro e ambiental para as companhias aéreas

Em duas décadas, o número de voos comerciais cresceu no mundo...
por ano

tações no motor, isso acaba por fazer subir os custos. Actualmente, a fabricante brasileira, em parceria com a americana Boeing e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, estuda outras alternativas, como o bagaço de cana. dO VERMELhO AO VERdE Atraídas pelas oportunidades criadas pelo sector aéreo, até algumas empresas de pequeno porte estão a investir numa solução verde. A irlandesa Cynar, por exemplo, criou um diesel para aviação a partir de plástico reciclado — obtido de vários utensílios domésticos e de embalagens de produtos. O material é derretido a altíssimas temperaturas e os gases expelidos no processo são convertidos em combustível líquido. Para cada tonelada de lixo plástico é possível extrair 662 litros de diesel. Em Novembro, o combustível da Cynar deverá fazer o seu primeiro grande teste. Um pequeno avião Cessna fará a rota desde Sydney, na Austrália, a Londres, no Reino Unido. “A vantagem do nosso produto é que ele é menos poluente e reduz a quantidade de plásticos no meio ambiente”, diz o presidente Michael Murray à EXAME. Nas Filipinas, a empresa Polygreen desenvolveu outra versão verde a partir do plástico, cujo preço seria 20% menor do que o do querosene comum da aviação. Nos Estados Unidos, a Swift Fuels criou um biodiesel com alta capacidade de conversão em energia. “A nossa alternativa é menos poluente e reduz a dependência dos países que importam petróleo”, diz Chris d’Acosta, presidente da Swift. Além dos protestos dos ambientalistas, há um incentivo financeiro para a adopção de uma opção sustentável no sector aéreo. Nas últimas duas décadas, o preço do querosene multiplicou-se por seis. As medidas aplicadas desde a década de 70 para aumentar a eficiência energética, como novos motores, têm surtido efeito. Com a mesma quantidade de passageiros e querosene, voa-se o dobro da distância. Apesar disso, os gastos com o combustível ainda são o maior custo das companhias aéreas. Falta passar das contas a vermelho para o verde dos lucros. h

milhões 1992

15

28
milhões 2012

por galão, em dólares (1) 0,56

...o preço do combustível para as companhias aéreas disparou...
3,14

1992

2012

em milhões de toneladas 600

...e as emissões de CO2 da aviação aumentaram
810

LUCY NICHOLSON/rEUtErS

1999

2006

(1) A preços correntes Fontes: Banco Mundial, Agência Internacional de Energia, Iata e OCDE.

assunto é meio ambiente, os europeus deram os primeiros passos. No ano passado, a Comissão Europeia, companhias áreas e fabricantes de biodiesel assinaram um pacto para produzir 2 milhões de toneladas de combustível sustentável até 2020, o que equivale a 14% do consumo de querosone da aviação na Europa. Com base nesse compromisso, em Março, a francesa Airbus entrou num consórcio com empresas australianas para estudar o potencial do eucalipto para o fabrico de biocombustível. Em Abril, um 787 da concorrente americana Boeing cruzou o Pacífico com os tanques abastecidos com

uma mistura de diesel e óleo de cozinha reutilizável. O mais recente anúncio ocorreu no dia 24 de Setembro. A Airbus e a petrolífera chinesa Sinopec assinaram um acordo para desenvolver um combustível mais verde de biomassa e óleo reciclado. No Brasil, desde 2005, a Embraer fabrica aviões agrícolas que são abastecidos com etanol. O combustível, porém, não é considerado o ideal para jactos por apresentar dificuldades técnicas. O poder calorífico do produto (a quantidade de energia por unidade de massa) é bem menor do que o do querosene, o que reduz a autonomia de voo. Para mais, como o etanol exige adap-

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 55

inovação sustentabilidade

A era das lâmpadas incandescentes está a chegar ao fim. As novas tecnologias de iluminação prometem reduzir a conta de electricidade — e o impacto no ambiente

Uma lUz no deBate amBiental
Bruno FErrAri

U

ma das invenções mais importantes da história só poderá ser vista em museus dentro de alguns anos. A lâmpada incandescente, inventada por Thomas Edison, em 1879, terá a sua venda proibida em diversos países do mundo até o final do ano. O problema das incandescentes está no consumo de energia. Essas lâmpadas apenas convertem 5% da electricidade consumida em luz — o restante é eliminado sob a forma de calor. Num mundo cada vez mais preocupado com as questões de sustentabilidade e da redução de custos, deixou de fazer sentido continuar com esse desperdício. O argumento favorável à reforma das incandescentes ganha força quando se examinam as opções disponíveis — e as novidades que estão a caminho. Os especialistas dizem que chegou a vez da iluminação ganhar destaque no que se convencionou chamar eficiência energética. Um frigorífico hoje gasta metade da energia dos seus antecessores em 1993. Uma lâmpada de LED (sigla em inglês para díodo emissor de luz) gasta um décimo da energia de uma incandescente e dura muito

mais, até 40 anos. Por enquanto, o seu preço ainda é uma barreira. Nos Estados Unidos, custa, em média, 15 dólares. Mas, segundo um estudo da consultora americana McKinsey, tal custo tenderá a descer. A previsão é que os valores tenham uma queda de 30% ao ano até 2016. A McKinsey calcula que, dentro de oito anos, a tecnologia LED passará dos actuais 7% de quota no mercado mundial de iluminação para 50%. A confirmar-se este cenário, as novas lâmpadas seguirão o padrão de outros produtos tecnológicos inovadores. Na década de 50, com o início da popularização das televisões, as famílias americanas gastavam 10% do seu rendimento anual para comprar um aparelho. Hoje, o preço de um produto comparável equivale a 0,8% dos rendimentos. O que dá sustentação à ideia de que as lâmpadas mais eficientes se vão espalhar pelo mundo é o incentivo financeiro. Ao aderir, os consumidores gastam menos em energia. De acordo com estimativas, para cada tonelada de carbono que uma empresa deixa de produzir ao trocar as suas lâmpadas, há uma redução de 183 dólares por ano nos gastos com energia.

Bioluminescência
A lâmpada biológica na verdade é uma bactéria anaeróbia, que vive dentro da água e se alimenta de resíduos como o lixo doméstico. Consumo: Não gasta electricidade. Vida útil e preço: Ainda não tem aplicação comercial.

Segundo os cálculos do Departamento Nacional de Energia dos Estados Unidos, a troca de lâmpadas incandescentes pelas LED nos lares das famílias gerará uma poupança de até 50 dólares por ano. “Os gastos com a iluminação representam, em média, 20% do consumo mensal de energia de uma residência”, diz um relatório recente do instituto americano. “Com a troca de lâmpadas, as contas de electricidade podem cair para menos de 10%.”

56 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

Uma nova geração de tecnologias oferece a mesma quantidade de luz e menos consumo de energia — e já há estudos de lâmpadas que funcionam sem depender da electricidade

génios da lâmpada

oled
A tecnologia substitui o bulbo por uma placa fina de polímero plástico, um composto orgânico que se auto-ilumina na presença de energia. Consumo: 20 a 25 watts (para a mesma quantidade de luz de uma lâmpada incandescente de 65 watts). Vida útil e preço: Dura 25 anos e custa 450 dólares.

luminescência por elétrons
A VU1, livre de mercúrio, tem um bulbo revestido com um tipo diferente de fósforo e oferece uma luz semelhante à lâmpada incandescente. Consumo: 19 watts (para a mesma quantidade de luz de uma lâmpada incandescente de 65 watts). Vida útil e preço: Dura 10 anos e custa 15 dólares

A lâmpada Switch usa um sistema de refrigeração com silicone líquido que aumenta a sua durabilidade. Consumo: 21 watts (para a mesma quantidade de luz de uma lâmpada incandescente de 100 watts). Vida útil e preço: Dura 20 anos e custa 40 dólares.

Além das lâmpadas de LED, começam a aparecer alternativas nas prateleiras dos supermercados dos países ricos. A startup americana Switch acrescentou um sistema de arrefecimento líquido às lâmpadas de LED. Lançada no início deste ano, a tecnologia faz com que elas durem mais de 20 anos. Nos laboratórios da multinacional holandesa Philips as inovações prometem ser ainda mais radicais. Nos seus laboratórios testam-se bactérias biolumi-

nescentes que produzem luz processando restos de material orgânico como o lixo. No famoso Massachusetts Institute of Technology (MIT), a ideia é fazer o LED absorver o calor do ambiente e convertê-lo em luz. “No futuro, apenas uma pequena parcela da energia que é utilizada pelos LED de hoje será necessária”, diz Rajeev J. Ram, professor de Engenharia Eléctrica, no MIT. Nas últimas décadas, os electrodomésticos ficaram mais eficientes em termos energéti-

cos, mas como surgiram milhões de novos consumidores que tiveram acesso a eles, o consumo de electricidade acabou por aumentar. Caso as investigações da Philips ou do MIT tenham sucesso, as lâmpadas poderão inverter essa tendência. Com essa poupanças ao nível da eficiência energética, talvez seja possível levar luz às 1,4 mil milhões de pessoas que ainda vivem na escuridão — sem aumentar a conta e sem agredir o meio ambiente. h

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 57

fotos: Rene van deR Hulst; James maRcus-Wade ; divulgação.

led com aRReFeCimento líquido

AMBEv ULTRApASSA A cOcA-cOLA NA cORRIDA EcOLógIcA: Agora as garrafas de Guaraná Antarctica são 100% verdes

gARRAfAS 100% REcIcLAvEIS ´
A Ambev, que integra o maior grupo de cervejas do mundo, lançou a primeira garrafa de PET 100% reciclável. Um exemplo de inovação no qual a florescente indústria de bebidas angolana se deveria inspirar
AndrEA viAlli

N

o Brasil, AS LATAS DE ALUMÍNIO SÃO AS ESTRELAS da reciclagem. Mais de 98% das latas, depois de usadas, regressam à indústria. Reciclar latas parece ser um bom negócio: 1 tonelada de alumínio prensado vale 1500 dólares.

Mas há outros materiais que, infelizmente, não têm o mesmo status. É o caso das embalagens de plástico PET (muito usadas nas águas, sumos e refrigerantes), cujo índice de reciclagem no Brasil é de apenas 57%. Por esse motivo, a maioria das garrafas vão parar ao lixo ou, pior ainda, são descartadas em terrenos baldios e rios.

Este ano, no entanto, a Ambev, maior fabricante de bebidas do país e que faz parte do maior grupo mundial do sector, decidiu conferir ao plástico a mesma atractividade que hoje é patente na lata de alumínio. A empresa começou a introduzir no mercado o Guaraná Antarctica de 2 litros, numa garrafa de PET que é 100%

58 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

INOvAçÃO reciclagem
No mercado ninguém questiona o mérito ambiental da nova embalagem da Ambev. Além de contribuir para reduzir a geração de lixo, a fabricação de uma garrafa PET reciclada requer, em média, 70% menos energia e 20% menos água do que a de uma garrafa feita de material virgem. falta mais recolha selectiva Mas existem dúvidas sobre até que ponto a iniciativa pode realmente influenciar a indústria de reciclagem. Afinal, face ao volume total de PET consumido no Brasil — 514 mil toneladas no ano passado —, as sete piscinas olímpicas da Ambev não parecem ser assim tão grandes. Para Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET (Abipet), a empresa terá de usar um volume bem maior de PET reciclado se quiser realmente fazer a diferença no sector. Para mais, há o facto de que, hoje, o problema na cadeia de reciclagem do plástico não está na falta de destinos de reutilização para o material (ainda que a descoberta de mais um deles seja vista com bons olhos). A indústria têxtil, por exemplo, é responsável por 39% do plástico descartado. “O problema da reciclagem do PET é a falta de recolha selectiva. Nalgumas alturas do ano, as empresas de reciclagem chegam a ficar com uma taxa de não ocupação de 30%”, afirma Auri Marçon. O vice-presidente da Ambev diz que a estratégia de reciclar o PET a 100% vai ajudar a subir o preço desse material no mercado e estimular a recolha (hoje a tonelada da resina PET vale cerca de 768 dólares). Ricardo Moreira também não teme que a empresa sofra com a falta do material, uma vez que espera receber parte importante do volume necessário directamente das 134 cooperativas de “catadores” que apoia. O executivo não se compromete, porém, quanto à expansão da política para as outras marcas do grupo. “Para já queremos alargar a garrafa PET reciclada a todo o portefólio de Guaraná Antarctica até 2014”, diz. A Ambev é uma empresa conhecida por ter metas agressivas para absolutamente tudo e por se esmerar em cumpri-las. Espera-se que essa determinação também seja visível na PET verde. E que a florescente indústria angolana de bebidas se inspire nela. h

LATAS DE ALUMÍNIO USADAS: 98% delas são recicladas e reutilizadas pela indústria

reciclável. As garrafas de guaraná já eram verdes na cor. Agora ficaram ainda mais “verdes” aos olhos do consumidor, pois são feitas de embalagens de PET descartadas. A corrida da Ambev para lançar a garrafa PET 100% reciclável começou em 2009, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do Brasil, depois de oito anos de discussões, permitiu que o PET reciclado fosse usado em embalagens de alimentos e bebidas. A Coca-Cola, a principal concorrente da Antarctica, partiu primeiro ao lançar, em 2011, uma embalagem produzida com 20% de PET reciclado. A Ambev demorou mais tempo para encontrar os fornecedores aptos a responder ao desafio. Valeu a pena esperar. Hoje, 12% das embalagens PET de 2 litros do Guaraná Antarctica são 100% recicláveis. Para 2013, a meta é chegar aos 20%. Isso significa reintroduzir no mercado 66 milhões de garrafas PET descartadas — ou seja, sete piscinas olímpicas do material prensado. “Com esta medida, vamos aumentar a demanda do PET e estimular a reciclagem desse material”, afirma Ricardo Moreira, vice-presidente da Ambev.

LOUcOS pOR pLáSTIcO
Consumo anual
(em toneladas) 94 000 1993

O consumo de PET pelo sector de embalagens cresceu 542% nos últimos 18 anos...
514 000

2011

... mas as taxas de reciclagem são inferiores às do alumiínio ou papelão (em % do total)
Alumínio (latas) Papelão PET Vidro Papel Embalagens longa vida Plásticos em geral

98% 70% 57% 47% 28% 25% 19%

Fonte: Cempre, Abai e Abipet. Valores relativos ao Brasil.

EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 59

MAtEus BruXEl/Ag rBs

André vAlEntiM

Experience the dream Viva o sonho
Lisbon, Portugal T. +351 211 107 600 . F. +351 211 107 601 . www.myriad.pt

n

Empresas-modelo
Chevron A empresa sustentável do ano
Finalistas

*

• Odebrecht • BESA • BP • TOTAl • BAI

* Os textos sobre as empresas foram baseados, exclusivamente, nas suas respostas a um questionário padronizado, desenvolvido pela EXAME Brasil em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e adaptado pela equipa editorial da EXAME Angola. Dito por outras palavras a EXAME não entrevistou posteriormente as empresas (a não ser para esclarecer eventuais duvidas sobre alguns dos números referidos) de modo a que todas estivessem em igualdade de circunstâncias no que se refere ao veredicto do júri.

Pesquisa Critérios

Foco no desenvolvimento humano

62 | EXAME SUSTenTABILIDADe 2012 | www.exameangola.com

A primeira pesquisa sobre sustentabilidade realizada pela EXAME identifica que grande parte dos investimentos sociais das empresas a operarem em Angola foi aplicado na melhoria da qualidade de vida das comunidades locais. Siga os bons exemplos nas páginas seguintes
cássiA AyrEs

a

responsabilidade social empresarial, o investimento social privado e a sustentabilidade corporativa são práticas recentes no contexto empresarial angolano. Os dez anos de paz assinalados em 2012, coincidem com o período em que Angola fez a sua transição da economia planificada para a de mercado. A reconstrução das infra-estruturas apoiada no aumento da produção do petróleo levou ao país números recorde de crescimento mundial (de dois dígitos desde 2002, excepto durante o período da crise económica global). Infelizmente, o progresso económico não tem sido acompanhado de um crescimento do bem-estar das populações na mesma proporção. Não obstante as melhorias evidentes, o desempenho no sector social (nomeadamente na educação e na saúde) continua aquém do desejado, conforme demonstram os rankings internacionais como o Índice do Desenvolvimento Humano, da ONU. Esse papel activo no sector social, como se sabe, não cabe apenas ao Estado. O aumento dos investimentos públicos trouxe competitividade ao sector privado que, por sua vez, tem a obrigação ética e moral de partilhar os seus resultados económicos com os seus colaboradores e as comunidade onde está inserido. As grandes empresas, neste sentido, têm uma responsabilidade acrescida. Não surpreende, por isso, que as eleitas pela EXAME como exemplos de excelência na sustentabilidade sejam das maiores empresas a actuar em Angola.

A lista das seis empresas-modelo é dominada pelas multinacionais do petróleo (que representam metade das finalistas), uma de construção e obras públicas e duas representantes da banca (entre elas o maior banco de Angola). A pesquisa realizada pela EXAME junto dessas empresas que se destacaram como sendo socialmente responsáveis revela que os seus investimentos estão sobretudo focados no atendimento directo às comunidades e ao público interno (funcionários) em programas de saúde, educação, geração de rendimentos e mitigação de impactos no meio ambiente. A mudança do paradigma da filantropia e do assistencialismo para programas e projectos estruturantes, emancipatórios e com visão longo prazo, foi outro aspecto altamente meritório detectado durante este estudo. Outros critérios importantes como a governanção e a transparência nas relações com o Governo e com outros stakeholders das empresas (públicos de interesse) foram também comprovados nos seus relatórios anuais de sustentabilidade (publicados a par dos seus relatórios oficias de contas anuais). Está também a crescer o apoio a eventos artísticos e culturais, algo que a nova legislação sobre mecenato cultural dará certamente mais um impulso. Contudo, o factor mais importante e que demonstra a evolução da responsabilidade social em Angola está na tomada de consciência da organização como um compromisso público, patente na sua ética interna e inserida na sua filosofia de gestão. Vale a pena conhecer estes exemplos de boas práticas de gestão nas páginas seguintes. h

conFerência nacional de resPonsabilidade emPresarial em abril de 2013
A EXAME aproveita esta oportunidade para saudar o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento — PNUD, que se propõe realizar um estudo, a ser divulgado em Janeiro de 2013, que visa mapear a responsabilidade social em Angola, retratando actores, áreas de actuação, números investidos, destinatários e impactos gerados. “O estudo oferecerá elementos importantes para a definição de prioridades das empresas, do Governo, das ONG e agências multilaterais. Será algo que poderá suscitar a associação directa entre os actores que, segundo os dados preliminares deste estudo, tendem a actuar por núcleos isolados”, revela Glayson dos Santos, coordenador do Programa Empresarial Angolano do PNUD, o (PEA). O referido estudo será divulgado durante a Conferência Nacional de Responsabilidade Social Empresarial, a realizar em Abril de 2013. Os debates serão acompanhados de uma exposição que trará casos práticos e modelos de participação das empresas.

EXAME SUSTenTABILIDADe • Edição EspEciAl 2012 | 63

Pesquisa Critérios

a escolha das melhores
O presente “Guia exame anGOla de respOnsabilidade sOcial empresarial”, foi inspirado e concebido a partir da edição homóloga brasileira exame, da editora Abril. O processo teve início com o envio de 16 cartas-convite a empresas a actuar em Angola, comprovadamente envolvidas com projectos sociais no país. Infelizmente, nem todas responderam aos questionários e algumas fizeram-no já depois da data limite. Mas se a quantidade de participantes esteve aquém do desejável, a qualidade das respostas dificultou a tarefa do júri na selecção das melhores, cujo processo explicamos seguidamente.

a selecção Passo a Passo
o PerFil dos conselheiros

Professor de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto e com mais de 40 anos de experiência em ambiente.

João serôdio

As empresas receberam um questionário baseado em quatro critérios elaborados pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da Fundação Getúlio Vargas (Brasil) para a revista exame que elaborou uma versão resumida e adaptada ao contexto de Angola.

1

Preenchimento do questionário

as quatro dimensões
Procura apurar como a empresa lida com a questão da sustentabilidade internamente; a quem cabe essa responsabilidade e como é que ela se insere na estratégia global da empresa e nas relações com os funcionários e demais interessados.
Peso Peso

15

Geral

2

análise e aProvação do conselho

Mestre em Educação Ambiental é director técnico da empresa de consultoria ambiental Holísticos.

vladimir russo

Os questionários foram encaminhados ao grupo composto por três conselheiros (à esquerda) com reconhecida experiência no tema da sustentabilidade em Angola e no exterior. Cada membro pontuou as seis empresas nos quatro critérios definidos pela EXAME apurando seis empresas-modelo finalistas.

Procura medir o desempenho ambiental da empresa em temas como a biodiversidade, as mudanças climáticas, a ecoeficiência e a preservação dos recursos naturais.
Peso

25

ambiental

Glayson dos santos

Coordenador executivo do Programa Empresarial Angolano no âmbito do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).

3

emPresa sustentável do ano

Como é que a empresa actua na responsabilidade social perante os seus stakeholders (ou públicos de interesse), caso dos funcionários, clientes, consumidores, comunidade, Governo e organizações da sociedade civil.
Peso

35

social

A empresa com a maior pontuação atribuída pelo conselho deliberativo foi considerada a “Empresa Sustentável do Ano”.

Qual é o desempenho económico e financeiro da empresa e que parcela dos seus resultados que são afectos às áreas da responsabilidade social e ambiental.

25

económica

64 | EXAME SUSTenTABILIDADe 2012 | www.exameangola.com

DAMOS MAIS CRÉDITO AO

FUTURO DE ANGOLA
Mais actividade económica, mais emprego, mais produção nacional, mais lucro, mais sucesso, mais riqueza, Mais Angola.

A linha de crédito bonificada MPME’s, foi criada para facilitar o financiamento das PME’s em investimentos de imobilizado corpóreo ou para o reforço do fundo de maneio. Pretendemos contribuir para o alargamento do tecido empresarial Angolano, contribuindo para o aumento da oferta de produção nacional e estimular e fortalecer o espirito de empreendedorismo. Visite já o balcão Caixa Totta mais perto de si.

EmprEsa sustEntávEl do ano Chevron
do r a venCe

2o3t4 s p n o

uma amEriCana Em Cabinda
Em 2010, a Chevron foi galardoada pelo Ministério do Ambiente com o Prémio Palanca. Um reconhecimento da sua política de responsabilidade social e ambiental que actua na prevenção dos danos da actividade petrolífera, na preservação dos ecossistemas terrestres e marinhos e no apoio às comunidades locais nas áreas da saúde, educação e empreendedorismo

a

Chevron está em angola há mais de 75 anos. Tem participações em quatro concessões, duas das quais opera, sendo a maior empregadora estrangeira da indústria de petróleo em Angola. As quatro concessões estão no Bloco 0, ao largo da costa da província de Cabinda; Bloco 14, em águas profundas, Bloco 2, que fica na zona marítima do Noroeste de Angola, e no Bloco Fina Sonangol Texaco de zona terrestre. Alguns dos mais importantes investimentos em Angola são a fábrica de queima de gás do Malongo; o projecto Mafumeira Sul, o projecto Benguela Belize–Lobito Tomboco e a fábrica de gás natural liquefeito, no Soyo (Angola Liquefied Natural Gas Limited ou Angola LNG), um empreendimento conjunto de gás natural liquefeito na zona terrestre.
66 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

“Proteger as pessoas e o ambiente” é um dos valores fundamentais da Chevron, que possui normas ambientais rigorosas para a monitorização da água (devido às descargas e fluidos de perfuração), do ar (queima contínua do gás) e do solo (eliminação do lixo e protecção das águas subterrâneas). A empresa reconhece que as suas operações podem causar sérios danos à biodiversidade. Um risco que a levou a criar o sistema de gestão de excelência operacional, uma abordagem consistente para a conservação da biodiversidade, que vai desde a concepção de novas instalações à realização das operações petrolíferas que visem minimizar os riscos e impactos, especialmente em ambientes sensíveis. Outro importante investimento da Chevron está na educação ambiental, através da norma de procedimentos operativos, SOP 57 — Vida Selvagem de Malongo, que proíbe qualquer per-

sobre a Empresa nome: Chevron — Cabinda Gulf Oil Company. área de negócio: Energia (produção e exploração de petróleo e gás). Presente em Angola com actividade comercial desde a década de 30. Tem operações de produção e exploração de petróleo desde a década de 50. onde actua: Província de Cabinda (na cidade de Cabinda e com um campo de operações em Malongo — área operacional dos Blocos 0 e 14), Luanda (onde se encontra a sede) e Zaire (área operacional — do Angola LNG no Soyo e do Bloco 2). Âmbito nacional (área de responsabilidade corporativa, com impacto nas 18 províncias). número de Funcionários: Mais de 3700 empregados em Angola (mais de 3100 dos quais são angolanos, os quais representam 88% da actual força de trabalho no país). desempenho Porque se destacou (em números)

a chevron já investiu mais de milhões de dólares em programas de apoio às necessidades de saúde, educação, economia, ambientais e sociais dos angolanos. desse montante, milhões de dólares foram investidos nos últimos três anos e mais de 20 milhões foram investidos no ano passado.

180

60

milhões de pessoas e cerca de em 2011, quase instituições beneficiaram directamente dos programas apoiados pela chevron e parceiros.

2

75

nos últimos três anos, foram mais de milhões os beneficiários directos das iniciativas apoiadas e promovidas pela companhia e os parceiros em cada uma das 18 províncias.

10

turbação, alimentação, captura, morte ou ferimento de animais selvagens. As medidas de educação ambiental estendem-se às comunidades locais e às ONG. “A cada seis meses, a empresa patrocina fóruns especiais durante os quais se partilham experiências sobre as melhores práticas para a preservação do ambiente e oportunidades de parceria no domínio da protecção ambiental”, diz Filipe Silva Rodrigues, responsável pelo departamento de comunicação e imagem da Chevron em Angola. Na área da biodiversidade, a multinacional tem acções específicas como o programa de Monitorização da Tartaruga Marinha nas praias do campo de Malongo, criado há mais de dez anos, que tem ajudado a proteger as espécies ameaçadas. Há ainda o projecto de Monitorização de Mamíferos Marinhos, que visa minimizar as perturbações de ruídos em operações offshore, a captura e devolução de espécies aos seus habitat naturais e ainda a promoção de recifes artificiais — aproveitando as plataformas desmanteladas das operações no fundo do mar para a atracção de peixes e outras centenas de espécies marinhas, tal como sucede num recife natural. Outra das normas ambientais da Chevron consiste em identificar a pegada ambiental das suas operações no formato de um mapa de cobertura do uso da terra (conhecido pela sua sigla na língua inglesa: LULC).

No âmbito da actividade petrolífera, a Chevron tem um programa de monitorização da quantidade da água, dos sedimentos e dos peixes e um plano de prevenção e de resposta rápida a derrames. A operação do aterro sanitário iniciou-se em 2010, eliminando a queima de resíduos no campo do Malongo. A Chevron também tem investido na redução da queima rotineira em projectos como o da fábricas de gás de Cabinda e a do Angola LNG. Esta última, ainda não inaugurada oficialmente, representa um investimento de 10 mil milhões de dólares e visa processar diariamente 1,1 milhões de pés cúbicos de gás natural, com uma média de vendas diárias de 670 milhões de pés cúbicos de gás natural liquefeito regaseificado e até 63 mil barris de líquidos de gás natural. Mas nem só do petróleo vive a gigante americana, oitava maior empresa do mundo segundo a revista Fortune. A Chevron Technology Ventures está a estudar métodos avançados que visam aproveitar a energia solar no país. O uso de células fotovoltaicas é uma das alternativas usadas pela Chevron para levar energia eléctrica às povoações nas províncias sem acesso a electricidade. Na área da responsabilidade social, o destaque vai para a Iniciativa de Parceria em Angola, iniciada em 2002. No total, a Chevron já investiu mais de 180 milhões de dólares em programas de apoio às necessidades de saúde, educação, economia, ambientais

a chevron é o maior accionista do projecto de gás natural liquefeito — angola lng — que beneficiou a província do zaire
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 67

EmprEsa sustEntávEl do ano Chevron

ErradiCação da pólio: doação de 1 milhão de dólares e sociais dos angolanos (60 milhões de dólares, os quais foram investidos nos últimos três anos). Em 2011, cerca de 2 milhões de pessoas e 75 instituições foram apoiadas pela Chevron que tem na cantora Yola Semedo, a embaixadora para os programas sociais em Angola, em particular, no rastreio, prevenção e tratamento de doenças como a anemia falciforme, HIV/SIDA, malária e cancro da mama. Em Cabinda, a Chevron apoia o banco de sangue e o programa Sangue Seguro. Investiu 13 milhões de dólares em três novos centros de saúde e 6 milhões num programa que envia médicos às populações carenciadas. Este ano, doou 1 milhão de dólares ao Ministério da Saúde para o combate à poliomielite. erguendo a bandeira da angonalização Na educação, os destaques vão para a competição educacional Aprenda Brincando, que promove a aprendizagem fora da sala de aula; um concurso de redacção que abrangeu dez escolas primárias públicas, a compra de 1600 livros para bibliotecas escolares em Cabinda e a associação à Parceria Global Educativa do Discovery Channel e ao Ministério da Educação, que visa a introdução da tecnologia audiovisual e de vídeos educativos para melhorar a qualidade do ensino. Há ainda um programa de capacitação, que forma administradores, funcionários e professores dos ensinos primário e secundário nas 18 províncias e a concessão de 60 bolsas a estudantes universitários de Cabinda. No apoio aos negócios, a Chevron lançou o projecto de Agricultura Integrada, em 2008, para promover a produção sustentável e a assistência técnica a milhares de agricultores e existe um projecto de apoio ao sector pesqueiro de Cabinda que abrangeu 2700 famílias. Recorde-se que a Chevron tem uma participação de 7% no Banco BAI Microfinanças e que, nos últimos dois anos, contribuiu com 1,75 milhões de dólares para um projecto da ONU e do Ministério da Educação, que visa introduzir o empreendedo-

yola sEmEdo: embaixadora dos projectos sociais da chevron rismo como matéria curricular nas escolas secundárias de Angola (hoje está implementado em 45 escolas de nove províncias). Em 2011, a Chevron investiu 310 mil dólares para a reabertura da Biblioteca Municipal de Cabinda e mais 45 mil num programa de ensino do Inglês para 30 mil estudantes. Em parceria com a Africare, foram abertas pequenas bibliotecas e centros de informática em Cacuso, província de Malanje Na cultura, a Chevron possui, na sede em Luanda, um valioso espólio de centenas de peças de arte angolanas. Em 2011, foi o principal patrocinador do programa televisivo de talentos musicais Angola Encanta. No desporto, a Chevron e os parceiros dos Blocos 0 e 14 financiaram com 1 milhão de dólares cada um o Sporting Clube de Cabinda e o Atlético do Namibe e subsidiaram a compra de equipamento desportivo para 24 escolas de Cabinda, participantes no programa anual de torneios de futebol. Na frente interna, os princípios de gestão de recursos humanos estão definidos no documento The Chevron Way (À maneira da Chevron). Uma das bandeiras da companhia em Angola é a “angolanização”, um processo contínuo de desenvolvimento, recrutamento e formação do talento angolano. O ano passado, os trabalhadores nacionais perfizeram 88% da força de trabalho, estando 76% em cargos profissionais e de supervisão, e 45 angolanos em missões de serviço fora do país. Recorde-se que a Chevron tem o seu próprio centro de formação, localizado em Malongo, com professores próprios. Destaque ainda para o programa da Chevron de Oportunidades de Voluntariado. Além da prática de campanhas de marketing social, visando promover a adesão da população aos programas sociais, a Chevron produz um site externo e público, uma revista trimestral para os seus beneficiários a nível nacional e um programa de rádio, Juntos com a Comunidade. Está ainda presente nas redes sociais através do Facebook, Twitter e YouTube. h

76% dos cargos dirigentes são preenchidos por angolanos. existem 45 colaboradores em missões de serviço no exterior
68 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

FInalIstas Odebrecht
r 1.º luga

22t6s pOn O

sustentabIlIdade cOm sOtaque brasIleIrO
Há 27 anos presente em Angola, o grupo Odebrecht tem uma política de sustentabilidade definida para dentro e fora do “canteiro de obras”. No apoio social, destacam-se os projectos Acreditar e Kukunga Pala Kukula

O

grupo Odebrecht foi fundado no Estado Brasileiro da Bahia, em 1944, estando presente em vários países da América, África, Europa e Médio Oriente. A Construtora Norberto Odebrecht assinou o seu primeiro contrato em Angola em 1984, para a construção da hidroeléctrica de Capanda, num consórcio russo-brasileiro. Desde então, o grupo fincou raízes em solo angolano, actuando em diversos projectos em sintonia com o esforço de recuperação do país. Salientam-se projectos como a reabilitação do Canal da Matala, na província de Huíla, que possibilitou a irrigação da região considerada um dos celeiros de Angola, ou o redesenho urbanístico de Luanda Sul e o sistema de captação, tratamento e distribuição de água potável das Águas de Luanda e de Benguela, entre várias outras
70 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

obras. A Odebrecht Angola possui outros investimentos e participações, tais como o condomínio Atlântico Sul e participa em consórcios para a produção de diamantes e de petróleo. O grupo Odebrecht tem a sua política de sustentabilidade baseada naquilo que é o ADN da empresa — a Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO) — uma cultura que enfatiza princípios como: “Sobreviver, crescer e perpetuar.” Para a Odebrecht a perpetuidade só é possível num ambiente de desenvolvimento sustentável. Por isso, é que em cada um dos cerca de 20 contratos celebrados em Angola existe, pelo menos, um programa social dirigido às comunidades locais. Com esta metodologia, esclarece o director de sustentabilidade, Felipe Cruz, a empresa consegue contribuir para transformar cada um dos seus empreendimentos num indutor de desenvolvimento sustentável e um vector de prospe-

sobre a empresa nome: Odebrecht Angola. Áreas de negócio: Construção civil, infra-estruturas, energia, imobiliário, projectos especiais. Onde actua: Luanda, Benguela, Huambo, Malanje, Lubango, Huíla, Kwanza-Sul, Kwanza-Norte, Lunda-Norte, Uíge, Bengo, Zaire e Lunda-Sul. número de Funcionários: 20 mil (nacionais e expatriados), sendo 92% angolanos.

desempenho Por que se destacou (em números)

dos contratos incluem projectos sociais para as comunidades.

100% 100%

dos resíduos oleosos são armazenados em locais limpos e ajustados.

100% 100%

dos resíduos são colectados e têm uma reutilização adequada.

97%

dos efluentes sanitários e industriais recebem tratamento adequados.

das obras e das centrais industriais controlam as emissões atmosféricas.

das obras têm um programa de prevenção que contempla: a recuperação de áreas degradadas e a redução do consumo de recursos (água e energia).

80%

ridade na micro-região em que está implantado. “A Odebrecht entende que não pode nem deve substituir-se ao papel do Estado, mas ainda há muito a fazer para criar acções estruturantes, coerentes com nossos valores filosóficos”, afirma o gestor. Dentro e fora do seu “canteiro de obras”, o compromisso com a sustentabilidade da Odebrecht tem cinco vertentes: meio ambiente; mudanças climáticas; programas sociais; saúde ocupacional; e promoção da saúde e segurança do trabalho. Dentro da área da engenharia e construção, a Odebrecht faz um inventário anual de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Os impactos ambientais são avaliados desde a fase de viabilidade até à executiva de um empreendimento. “Por exemplo, a frota de equipamentos é monitorizada via satélite para evitar o uso indevido ou a queima não apropriada de combustíveis, há cuidados com o descarte de óleos, filtros e outros componentes, sendo promovida a reciclagem de materiais. Num dos contratos, reciclamos óleo queimado que gera sabão para a comunidade do Zango”, justifica. Na responsabilidade social, a Odebrecht manifestou particular orgulho em dois projectos ambicioso. O primeiro é o programa Acreditar, criado no Brasil em 2009 e reproduzido em Luanda e em Benguela, que consiste em oferecer formação integral a profissionais para que possam estar mais capacitados para o mer-

cado de trabalho. O segundo é o projecto Kulonga Pala Kukula, baseado na província de Malanje, voltado para o abastecimento de água e a promoção da agricultura familiar na região do Pólo Agroindustrial de Capanda. No âmbito deste projecto, a Odebrecht oferece assistência técnica para que as comunidades rurais produzam e comercializem os seus produtos nos mercados. Na vertente da saúde, a empresa criou campanhas de prevenção e de combate à malária e às doenças sexualmente transmissíveis e tem programas de orientação sobre planeamento familiar, de ajuda às parteiras que são treinadas nas próprias comunidades e investe fortemente na limpeza e geração de resíduos. Recorde-se que o grupo criou, em 2010, o Prémio Odebrecht para o Desenvolvimento Sustentável, um concurso dirigido a jovens universitários de Engenharia, que estudam nas universidades angolanas, e premeia as melhores contribuições de engenharia para o desenvolvimento sustentável. A segunda edição deste prémio, realizada no ano passado, teve 23 grupos inscritos, num total de 45 alunos, 23 orientadores e 9 universidades. Foram premiados os três melhores projectos, no valor de 7500 dólares para os estudantes; 7500 dólares para o professor orientador e 7500 dólares para a universidade. Aos alunos vencedores foi oferecido um estágio na Odebrecht Angola. h

O PROJECTO ACREDITAR É DIRIGIDO À FORMAÇÃO. O KULONGO PALA KUKULA VISA FORNECER ÁGUA E PROMOVER A AGRICULTURA RURAL
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 71

Finalistas BP
ar 2.º lug

9o 1ont7s P

uma GiGante GloBal com Parceiros locais
Com nove concessões em Angola, com relevo para o campo Grande Plutónio, a postura socialmente responsável da BP destaca-se pelas parcerias com comunidades locais. Tem um protocolo com a Universidade Agostinho Neto desde 2005, segundo o qual financia o mestrado em Direito do Petróleo

a

britânica British Petroleum (BP), quarta maior empresa do mundo por volume de facturação, está em Angola desde os anos 70. Hoje, tem quatro grandes licenças no offshore angolano (Blocos 15, 17, 18 e 31 — lidera a operação nos dois últimos) e acesso a mais cinco licenças (Blocos 19, 20, 24, 25 e 26). O primeiro grande projecto da multinacional foi o campo Grande Plutónio, Bloco 18 (50% do capital), que iniciou a produção em 2007. A multinacional também é accionista do Angola LNG, onde tem uma participação de 13,6%. Presente em 80 países, a BP emprega cerca de 80 mil pessoas e a operação angolana representa 7% da produção petrolífera do grupo.
72 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

A BP inovou na sua metodologia de intervenção social, ao sair do modelo de investimento directo nas comunidades para outro que privilegiasse a participação de parceiros locais (organizações governamentais e não governamentais, líderes comunitários, igrejas, instituições académicas e cooperativas de pequenos empresários) em projectos e programas estruturantes. “Esta estratégia reforça as capacidades institucionais e humanas dos agentes sociais, habilitando-os a serem indutores do desenvolvimento sustentável”, afirma Gaspar Santos, director de sustentabilidade. Os resultados directos têm sido sentidos em várias províncias do país em sectores como a educação, desenvolvimento empresarial, energia e combate à pobreza, saúde, segurança e ambiente.

sobre a empresa nome: British Petroleum (BP) Angola. Áreas de negócio: Pesquisa e produção de petróleo. onde actua: Luanda, Zaire e Bengo offshore. número de Funcionários: 747, sendo 627 nacionais (84%) e 120 expatriados (16%).

Desempenho Porque se destacou (em números)

2000 2639

empreendedores rurais foram apoiados pelo projecto microcrédito grande plutónio.

4200 82

árvores foram plantadas na província do namibe, no âmbito do projecto namibe verde.

35 000

agentes de trânsito capacitados em angola pelo projecto road safety.

membros foram beneficiados pelo projecto SAN de apoio à agricultura nas províncias de cunene e cuando cubango.

famílias têm abastecimento de energia solar graças ao projecto paranhos, localizado a norte de luanda.

É o caso do projecto Mabuia, realizado na Comuna da Funda pela CLUSA (National Cooperative Business Association), que visa o apoio às associações de camponeses na melhoria das condições técnicas de irrigação. A norte de Luanda, em Paranhos, a BP financia um projecto de energia solar que visa fornecer energia eléctrica aos lares, escola, clínica e bomba de água. Outros exempos são os projectos: SAN, que visa reforçar a capacidade técnica na prática da agricultura nas províncias do Cunene e de Cuando Cubango; o Namibe Verde, que já plantou mais de 4200 árvores; e o Road Safety, que capacitou 35 mil agentes de trânsito. Destaque também para o projecto Microcrédito Grande Plutónio, implementado pela ADRA (Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente), que já ofereceu crédito a cerca de 2 mil microempreendedores rurais nas províncias de Benguela e Huambo (o programa venceu o galardão Global Partnership Award) e o Kixicrédito, em curso desde Maio de 2009, na cidade do Soyo, e que oferece serviços financeiros a mais de 650 clientes. A BP também apoia o CAE/CCIA, um centro de negócios que visa capacitar as empresas angolanas para participarem mais activamente na indústria petrolífera e do gás (a base de dados inclui 640 PME de Luanda, Cabinda e Benguela, das quais 127 já ganharam contratos no valor de 60 milhões de dólares).

Outra aposta forte da empresa é a educação. A BP financia, desde 2007, o mestrado em Direito do Petróleo e Gás, da Universidade Agostinho Neto, e tem apoiado a faculdade, desde 2005, no aumento do número de engenheiros e cientistas angolanos. A multinacional também suporta projectos em diversas escolas, orfanatos, institutos de formação de professores e um projecto de estágios comunitários, que permite aos estudantes universitários participarem em projectos de carácter social. Juventude Responsável por uma Paz Duradora é o nome de outro programa recente que, no seu auge, atingirá 1330 jovens. A estratégia consiste em instalar 10 centros de resolução de conflitos em municípios de Luanda. Inspirado no conceito do jango, onde ocorrem importantes decisões das comunidades, o espaço albergará formações em educação cívica, liderança e mediação de conflitos. A ideia é permitir que a juventude utilize os conhecimentos adquiridos para aplicá-los na comunidade, de uma forma interactiva, com as autoridades locais e com a sociedade civil. Como curiosidade, refira-se que a BP apoia o Petro Atlético do Huambo, cujo craques de futebol participam activamente na sensabilização da população local para o combate e a prevenção do HIV/SIDA. Embora o clube não esteja na divisão principal (Girabola) esta é uma ideia, pela sua originalidade, à campeão. h

127 pequenas e médias empresas nacionais já ganharam contratos com a bp no valor de 60 milhões de dólares
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 73

FInalIstas BESA
ar 3.º lug

9o 1ont6s p

DEZ anos a salvar o planEta
O “banco do planeta”, distinção recebida pela Unesco em 2009, assenta a sua estratégia de sustentabilidade em quatro pilares — economia, social, ambiente e cultura. Nesta última, destaca-se a aposta forte na fotografia. Uma das suas exposições “Salvar o Planeta” ganhou uma enorme visibilidade internacional

H

á dez anos em angola, o compromisso com o desenvolvimento sustentável do Banco Espírito Santo Angola (BESA) está reflectido em quatro pilares: economia (oferecer serviços e produtos de elevada qualidade); social (igualdade, respeito e mais qualidade de vida); ambiente (utilização racional dos recursos e protecção dos sistemas naturais); e cultura (promover a divulgação cultural e surgimento de novos artistas), valores expressos no seu relatório de sustentabilidade publicado desde 2010. Leonor de Sá Monteiro, directora de comunicação e imagem, diz que “a actividade do BESA está muito mais além do que a prestação de serviços financeiros, procurando envolver-se em projectos que promovam uma melhor qualidade de vida para a população.” Entre esses projectos, destacam-se a parceria com o Ministério do Ambiente para o lançamento do Kit de Educação Ambiental
74 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

em várias escolas de Luanda, Huíla e Huambo e o projecto Eco BESA que consiste na reconversão de garrafas de plástico de água em vassouras e visa promover a reciclagem e reutilização e melhorar as condições de vida da comunidade no Zango (Luanda). No âmbito da saúde destaca-se a prevenção da malária, diabetes, hipertensão, cancros do colo útero e da mama, tuberculose, hepatite B e HIV/SIDA, através da realização de palestras, rastreios, campanhas de sensibilização, recolha e doação de sangue. Com o Ministério da Saúde foi lançado o projecto Luanda a Sorrir, dirigido a crianças, que visa a realização de rastreios gratuitos de saúde oral e a sensibilização sobre práticas diárias de prevenção. O BESA apoia o Jornal da Saúde, um projecto promovido pelo Ministério da Saúde e Ordem dos Médicos de Angola. Há ainda o projecto Omufiati, para o qual o banco disponibilizou duas clínicas móveis para a província do Cunene.

sobre a Empresa nome: Banco Espirito Santo Angola (BESA). Áreas de negócio: Banca. onde actua: Território nacional. número de Funcionários: 600 (nacionais e expatriados).

Desempenho Porque se destacou (em números) projecto Eco Besa,
que transforma garrafas de plástico em vassouras, abrange 500 famílias realojadas no Zango.

projecto luanda a sorrir,
sobre higiene oral, contemplou 500 crianças da escola 3022 e será alargado a todo o país.

Beneficiou 250 crianças
na Escola Kassai do Lobito, trabalhando temas como as drogas ilícitas, o álcool, a prostituição e a gravidez precoce.

Concurso BEsafoto,
realizado em parceria com o World press photo, e que já vai na sexta edição, reuniu 172 candidatos e mais de 1500 trabalhos.

Exposição “salvar o planeta”,
que englobou cinco artistas africanos, passou por angola, estados unidos, frança, finlândia, suécia e reino unido.

apoiou o

1.º Movimento de Jovens artistas angolanos,
no qual nove artistas expuseram as suas obras nas agências.

No âmbito do envolvimento com a comunidade, foi lançado o Centro de Excelência para Ciências e Sustentabilidade em África, instituição que acolherá pós-doutorandos que se dedicarão à pesquisa de soluções de desenvolvimento sustentável em África. Paralelamente, o banco continua a apoiar o programa de Reintegração de Refugiados Angolanos, do Alto Comissariado das Nações Unidas. Existe ainda um Fundo de Solidariedade, criado em 2005, dedicado à acção social. O fundo apoiou, entre outros, os esforços do bispado do Cunene no atendimento médico, educação, acolhimento de crianças e socorro à comunidade em alturas das cheias; criou a estrutura do posto de assistência no Zango, onde também participou num programa de assistência à população sénior e, por fim, financiou o projecto Kassai, no Lobito, que integra uma escola, lar de idosos e posto médico. Apoiou também iniciativas como o Jardim do Livro Infantil (promoção do livro e da leitura) e as Associações Pacto (para a formação de formadores comunitários) e Tchiweka (que visa contribuir para preservar a memória e aprofundar o conhecimento sobre a luta de libertação). Na área da cultura, a grande aposta está na fotografia. O BESAfoto, maior evento do país nessa área, já vai na sexta edição. É um concurso dirigido a jovens talentos, realizado em parceria com a prestigiada World Press Photo (veja EXAME n.º 32). No ano pas-

sado, as agências do banco acolheram as obras dos artistas da 1.ª edição do Movimento de Jovens Artistas Angolanos (JAANgO). Nas exposições, o destaque vai para “Salvar e Preservar o Planeta”, que foi apresentada em Angola, nas sedes das Nações Unidas, em Nova Iorque, e da Unesco, em Paris, e em eventos na Finlândia, Suécia e Reino Unido. Esta iniciativa apresentou os trabalhos de fotógrafos de cinco países africanos — Angola, gana, Zimbabué, Quénia e Tanzânia — que percorreram províncias de Angola para retratar temáticas relacionadas com o desenvolvimento sustentável. Outra exposição, a “Mulher Angolana — Ao Encontro do Desenvolvimento Sustentável”, foi apresentada em São Paulo, na Praça Victor Civita (um espaço nobre dedicado a sustentabilidade) na câmara e na estação metropolitana de Santa Cecília. Dirigido aos seus clientes, o banco promove a iniciativa Plante Uma Flor, que consiste na oferta de cartões que incluem uma semente. Tanto empenho rendeu ao BESA o reconhecimento internacional em 2009 — “Best Sustainability Bank” — galardão conferido pela revista financeira Emeafinance. Na qualidade de “Banco Oficial do Planeta Unesco”, o BESA esteve presente em 2011, pela segunda vez consecutiva, na sessão anual das Nações Unidas, realizada na sede em Nova Iorque, para apresentar o seu projecto de sustentabilidade em Angola. h

o besa foi à sede da onu, pela segunda vez consecutiva, apresentar o seu projecto de sustentabilidade em angola
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 75

Finalistas ToTal
ar 4.º lug

75 1ontos p

Uma história com mais de cinco décadas
A responsabilidade social da Total E&P Angola, filial da francesa Total, assenta em quatro pilares: ambiente, educação, saúde e desenvolvimento económico. O investimento da petrolífera ascendeu a 64 milhões de dólares nos últimos cinco anos

a

história da total em angola começa em 1952 quando se estabeleceu em Angola, a partir da atribuição de uma concessão à antiga empresa Petrofina. A primeira descoberta comercial deu-se em 1955 na bacia do Kuanza. Três anos depois, surgiu a refinaria operada pela então Petrangol (Fina). Depois da Dipanda, em 1980, o Bloco 3 é atribuído à Elf que começou a laborar em 1985. Até ao fim dessa década, seguiram-se 15 descobertas no Bloco 17, um dos mais prolíferos do mundo (atingiu a marca de 1000 milhões de barris em 2010). Foram lá que nasceram os FPSO (floating production, storage and offloading) Girassol (2001), Dalia (2006) e Rosa (2007) — o próximo chama76 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

-se CLOV (acrónimo de cravo, lírio, orquídea e violeta). No ano passado, surgiu o Pazflor, que passou a ser o maior projecto da Total, em Angola (com uma produção estimada de 220 mil barris por dia), e um dos mais sofisticados tecnologicamente do mundo. Durante as mais de cinco décadas de operação, a Total E&P Angola, filial do grupo francês Total, tem desenvolvido uma política de responsabilidade social que contempla quatro sectores prioritários: saúde, educação, meio ambiente e desenvolvimento económico. Nos últimos cinco anos, investiu cerca de 64 milhões de dólares (50% com fundos próprios) em programas nas quatro áreas citadas. Na sua política de sustentabilidade, definida no código de conduta, está o foco no desenvolvimento humano.

sobre a empresa nome: Total E&P Angola. Área de negócio: Petróleo. onde está: Luanda e em offshore. número de Funcionários: 1635 (sendo 1220 nacionais e 415 expatriados).

desempenho Porque se destacou (em números)

milhões de dólares investidos em acções de responsabilidade social em fundos próprios nos últimos cinco anos. apoiou a construção de escolas do ensino secundário, nas províncias do bengo, malanje, Kwanza-norte e cunene, com uma capacidade de 576 alunos.

32

4

ofereceu bolsas de estudos em instituições de ensino nas disciplinas ligadas ao sector dos petróleos, representando um investimento de mais de 17 milhões de dólares entre 2005 e 2012.

700

jovens em seis ramos de especialidades foram ajudados a ser formados profissionalmente com a associação religiosa dom bosco.

1200

árvores autóctones foram plantadas em 100 escolas espalhadas por diversas províncias, associada aos programas de tracking on-line.

10 000

Na área do ambiente, a petrolífera assumiu compromissos com parceiros de peso, tais como os Ministérios do Ambiente e dos Petróleos e o Instituto Nacional de Investigação Pesqueira. Com o primeiro, celebrou um memorando de entendimento para a instalação do Centro de Alterações Climáticas e Biodiversidade, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, a Campanha Nacional de Protecção à Biodiversidade e Reflorestação (que implica a plantação de 10 mil árvores autóctones em 100 escolas) e o Projecto de Protecção e Conservação da Palanca Negra, em Malanje. Na educação, em parceria com o respectivo Ministério, construiu quatro escolas Eiffel, do ensino secundário, nas províncias do Bengo, Malanje, Kwanza-Norte e Cunene, com uma capacidade global de 576 alunos. Destaque ainda para os programas de formação de 100 professores realizados com a ONG Mulemba em Viana; o de formação de instrutores rurais com a ONG ADPP nas províncias do Zaire, Bié e Malanje e de o formação profissional de 1200 jovens com a Associação Religiosa Dom Bosco. Há ainda programas de alfabetização e aceleração escolar desenvolvidos com a Cáritas; de formação das mulheres empresárias em Porto Amboim com a FMEA (Federação de Mulheres Empreendedoras de Angola) e de bolsas de estudos ligadas ao sector dos petróleos (foram atribuídas 700, desde 2005).

Na saúde destacam-se os programas de capacitação das famílias para os cuidados primários de saúde com a Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, em Viana; o de formação de técnicos de vacinação com a ONG Africare, em Malanje, o de erradicação da poliomielite com a Unicef e a prevenção e combate à HIV/SIDA com a CAJ (Centro de Apoio aos Jovens). Um outro programa ambicioso foi realizado com o Ministério da Saúde e a DSF (Douleurs Sans Frontières) e visou lutar contra a mortalidade materno-infantil, formar parteiras e enfermeiras e vacinar a população da província do Zaire. O pilar económico está ligado ao incentivo à cultura do empreendorismo. Nesta vertente, destacam-se os programas de formação de cooperativas agrícolas em Malanje com a ADRA (Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente); o programa Zimbo, que visa facilitar o acesso ao microcrédito e o CAE (Centro de Apoio às Empresas) que forma PME para o fornecimento de serviços no sector petrolífero. O destaque final vai para o desenvolvimento de um estudo do tecido económico em três províncias (Kwanza-Sul, Benguela e Luanda) para seleccionar alguns sectores económicos estratégicos a apoiar no futuro. Futuro esse que, como se vê pelos números da exploração petrolífera, se avizinham brilhantes para, pelo menos, outras cinco décadas. h

a petrolífera celebrou acordo com o ministério do ambiente de apoio ao programa nacional de gestão ambiental
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 77

Finalistas Bai
ar 5.º lug

3o 1ont2s p

a riqueza de um país (tambem) esta nas artes ´ ´
O maior banco angolano, que está entre os 25 maiores de África e os 100 maiores do mundo, tem no BAI Arte a sua iniciativa de responsabilidade social mais mediática. Conheça outros projectos relevantes nas áreas da saúde, do desporto e da educação

C

om 16 anos de actuação em angola e presente em todas as províncias do país, o Banco Angolano de Investimentos (BAI) é um grupo financeiro angolano de referência (maior banco angolano, 22.º no ranking africano e 686.º no mundial). Construiu a sua reputação não apenas com serviços bancários, mas sobretudo pela capacidade de atrair, desenvolver e reter os melhores profissionais e de criar valor para os accionistas e a sociedade, algo que está expresso na missão da instituição. Em Angola, o grupo também possui o BAI Micro Finanças, instituição dedicada ao microcrédito (que resultou da aquisição do Novo Banco, em 2007); um “braço” nos sectores da construção
78 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

civil, engenharia e ambiente através da subsidiária Griner e uma participação maioritária na Nossa Seguros. Internacionalmente está presente em Portugal, com o BAI Europa, em Cabo Verde com o BAI Cabo Verde, na África do Sul com um escritório de representação, e com parcerias em São Tomé e Príncipe e Brasil. O grupo assinalou no dia 14 de Novembro o 16.º aniversário, data marcada pela inauguração oficial da academia de formação, no Morro Bento. O desenvolvimento da cultura e das artes, através do incentivo aos artistas nacionais, é um dos principais focos da instituição no que diz respeito à responsabilidade social. O projecto com maior visibilidade é o BAI Arte, que se tornou uma referência de mecenato cultural privado, promovendo os valores culturais angolanos

sobre a empresa nome: Banco Angolano de Investimentos (BAI). Áreas de negócio: Banca. onde está: Em toda Angola (103 pontos de atendimento), com sede em Luanda. número de Funcionários: 1636 (nacionais e expatriados, em Junho de 2012).

desempenho Porque se destacou (em números)

250 000 75 000

dólares de apoio à construção de centro paroquial e escola em Caxito.

dólares para o Hospital Neves Bendinha, o único do país para doentes com queimaduras que ainda não disponha de um gerador.

92 000

dólares para a reabilitação da pediatria do Hospital Américo Boavida, que se debatia com a falta de equipamento de reanimação a crianças em estado grave.

dólares para o projecto TISA, que visa disponibilizar tecnologias de informação nas salas de aulas.

60 000

e contribuindo para o fortalecimento da memória colectiva e da identidade nacional. O projecto apoia artistas angolanos nas áreas da pintura, escultura, música e dança assim como a pesquisa noutras áreas como antropologia, museologia e história que contribuem para o entendimento, preservação e afirmação da cultura angolana. O BAI Arte tem crescido nos últimos 11 anos e, em 2011, realizou-se, pela primeira vez, fora de Luanda, em Cabinda, uma exposição subordinada ao tema “Investimos nos artistas da Terra”. Já este ano, a província de Huíla acolheu o BAI Arte Lubango, de 14 a 21 de Agosto. A mostra, da responsabilidade do artista plástico Jorge Gumbe, incluiu diversas esculturas e 20 quadros de Paulo Kussy, Pascoal Kadu, Andre Malenga, Lázaro Cruz, Rebeca Lua e Aguinaldo Faria. “O BAI vê na cultura uma extensão da sua actividade, já que a indústria cultural contribui para o PIB, gera empregos e impostos e promove a mão-de-obra qualificada e mais riqueza material com a vertente do turismo cultural”, resume o director de marketing, Diala Monteiro. Outra área que o BAI aposta é a saúde. No âmbito do projecto BAI 15 Anos adquiriu geradores para a unidade de queimados do Hospital Neves Mendinha e um equipamento de reanimação para as urgências da pediatria do Hospital Américo Boavida (ao qual já patrocinara a ala da cirurgia pediátrica). No ano passado, manteve

outros apoios regulares, tais como o fornecimento mensal de alimentos ao lar de idosos Beiral e às populações carenciadas do Mussulo (projecto Criskari) e o apadrinhamento do Centro Arnaldo Janssen “Padre Horácio” de acolhimento de crianças. Outros projectos sociais relevantes, em parceria com a igreja católica, foram a construção de um centro paroquial e de uma escola em Caxito, o apoio a diversas iniciativas da diocese de Cabinda e a construção de um seminário missionário arquidiocesano. Na área da educação, merece especial referência o projecto TISA, que visa promover o acesso à informática das crianças do ensino básico, através da disponibilidade de computadores e de professores (a primeira acção decorreu em Maio do ano passado na Escola Primária n.º 60 do Lubango). O BAI apoiou também as jornadas alusivas ao Dia Mundial da Luta Contra a SIDA, realizadas em Novembro. “O nosso objectivo é aumentarmos a aproximação às comunidades locais”, sintetiza Diala Monteiro. No desporto, além do apoio ao BAI Basket (a primeira divisão nacional da modalidade) o ano passado, foi marcado pelo lançamento de um torneio de minibasquetebol nas províncias de Benguela e Huíla. No futebol, patrocina o Petro de Luanda e é o banco oficial dos Palancas Negras. Trata-se, em suma, de um grupo financeiro jovem (16 anos), mas que já é um orgulho nacional. h

O BAI ARTE JÁ SE REALIZOU EM LUANDA, CABINDA E HUíLA. A ACADEMIA DE FORMAÇÃO FOI INAUgURADA EM NOVEMBRO
EXAME SUSTENTABILIDADE • Edição EspEciAl 2012 | 79

como fazer sustentabilidade

faça você mesmo...
A sua empresa já tem um programa de sustentabilidade? Anote os erros típicos
José alberto goNçalves pereira

1

m

aquiLHagem verde. É assim que os ambientalistas chamam às empresas que dizem proteger o meio ambiente para melhorar a sua imagem. Visão de curto prazo, escassez de dados, falta de transparência na comunicação e baixo envolvimento dos funcionários são outras falhas comuns que podem inviabilizar os mais bem-intencionados projectos. Anote os sete erros mais frequentes na gestão de programas de sustentabilidade.

2

visão de curto prazo Muitas empresas estabelecem metas na área da sustentabilidade de três anos para acções que exigiriam 5 a 20 anos para gerar resultados. Quando isso acontece, os profissionais envolvidos ficam desmotivados, o que prejudica o relacionamento da empresa com as comunidades. Infelizmente, poucas empresas estão focadas no longo prazo. publicidade enganosa A ansiedade em mostrar que contribuem para um mundo mais sustentável faz com que empresas divulguem acções ambientais que ainda não saíram do papel. Ainda mais grave é quando elas fazem campanhas de publicidade que exageram a sua actuação ambientalmente responsável.

4 6
Pouca transparência Mu itas empresas optam por redigir relatórios de sustentabilidade apenas com informações genéricas que omitem os assuntos polémicos. A BP, por exemplo, acabou por usar o trágico
vazamento De PetróLeo na bacIa De camPos em 2011: a Chevron levou 11 dias para detalhar informações sobre o acidente

3

Dados escassos Poucas empresas têm um sistema eficiente de recolha e avaliação de dados para monitorizar a sua política de sustentabilidade. Muitas vezes, o objectivo é apenas ter números para publicar no relatório de sustentabilidade. Ou seja, esses indicadores não são usados como informação de gestão.

5

derrame no Golfo no México para rever todos os processos de extracção de petróleo. falta de poder Há departamentos de sustentabilidade formados por equipas pequenas (ou até uma única pessoa), cujo papel é meramente decorativo. Nesses casos, é raro que o responsável reporte directamente ao presidente. Logo, ele não tem voz nas decisões. Outro problema típico é terem orçamentos escassos para gerir os projectos orçamentados. falta de envolvimento Algumas empresas preocupam-se mais em divulgar os seus relatórios de sustentabilidade aos investi-

7

dores e aos meios de comunicação, do que em incorporar o assunto no dia-a-dia dos funcionários. Quando a sustentabilidade está confinada aos gestores de topo da empresa, isso é um péssimo sinal quanto à eficácia desses programas. Ignorar as partes interessadas Um projecto de sustentabilidade pode parecer muito interessante, mas dificilmente resultará se não ouvir a opinião dos beneficiários ou se ignorar a posição das ONG que actuam no local. Em áreas remotas, sobretudo nas zonas de exploração de recursos naturais, a empresa corre o risco de gastar muito dinheiro em acções que as populações locais não irão valorizar. h

ExamEFinal
Vladimir russO Mestre eM educação aMbiental na universidade de rhodes eM GrahaMstown, África do sul

O quE Eu aprEndi sObrE a EducaçãO ambiEntal Em ÁFrica
Redigir relatórios de sustentabilidade não faz com que a Terra seja um melhor planeta para se viver

a

o longo de mais de uma década de trabalho envolvendo a educação ambiental na África austral aprendi que há três importantes factores a ter em consideração. Estes factores são a base de algumas ideias gerais sobre o papel da educação ambiental na divulgação e implementação do conceito de sustentabilidade no nosso país. Em primeiro lugar, a educação ambiental não é uma “coisa” que se transmite de um ser humano para o outro. É um processo de aprendizagem onde actores individuais (indivíduo) e colectivos (organizações, grupos, associações, educadores) constroem, em conjunto, valores, conhecimentos, atitudes, habilidades e competências para melhor gerir o ambiente, tanto o natural, como o construído. Este conjunto de valores e competências tem como objectivo comum a garantia de um ambiente sadio e não poluído, conforme recomendado no Artigo 39.º da nossa Constituição, assim como a sustentabilidade da humanidade. A sustentabilidade é vista como um conceito abrangente assente na interdependência de três componentes fundamentais — a ambiental, a social e a económica — visando a perpetuidade da satisfação das necessidades humanas. Por ser um conceito bastante amplo, e ao mesmo tempo com interpretações diferenciadas — dependendo da disciplina em análise, e do contexto do indivíduo ou da colectividade que o analisam ou empregam —, este termo é muitas vezes usado como um “chavão” sem um significado claro. Deste modo, tratar o conceito “sustentabilidade” nos processos de educação ambiental é uma tarefa complexa, tanto para quem ensina, como para quem aprende. Em segundo lugar, a educação ambiental não é apenas o processo de passagem de informação de uma pessoa para outra, de uma forma estruturada ou informal, através dos meios de comunicação social ou dos sistemas formais de ensino. Os processos de educação ambiental incluem também uma análise crítica da informação recebida e uma construção e desconstrução do significado dos conceitos, situações e mensagens. Este processo permite ao educador analisar a mensagem que quer partilhar e ajudar na sua interpretação. Olhemos, por exemplo, para o conceito de “desenvolvimento sustentável” (do qual mais tarde emana o conceito de “sustentabilidade”) que muitas pessoas con82 | EXAME SUSTENTABILIDADE 2012 | www.exameangola.com

cordam que deve ser aplicado a todos os sectores. Este conceito, que desde a sua apresentação, em 1987 pela Comissão Brundtland, foi tendo vários significados, é definido como sendo o “desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades das gerações actuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades”. Enquanto educador ambiental, é necessário analisar o significado deste conceito para melhor poder discutir com os alunos, público e colegas. Nessa análise, podemos compreender que neste conceito se assume saber quais são as nossas necessidades actuais (independentemente da situação económica de cada um, a sua localização geográfica e as suas expectativas de vida). Será que estamos a falar de necessidades básicas? Por outro lado, é explícito neste conceito que as necessidades das gerações futuras serão iguais às actuais. Algo que com o avanço tecnológico, alterações climáticas, aumento populacional, não parece correcto assumir. Em terceiro lugar, os processos de educação ambiental não levam à imediata mudança de atitude das pessoas, mas devem ser desenvolvidos no sentido de levar à tomada de acção e resolução de problemas. No contexto da sustentabilidade, os processos de educação ambiental devem incidir na construção de valores, conhecimentos, atitudes, habilidades e competências que permitam às pessoas, associações, sector privado e Estado serem mais proactivas. Desenvolver relatórios de sustentabilidade, políticas descrevendo os princípios de desenvolvimento sustentável, realizar estudos ambientais, fazer campanhas de marketing socioambiental não faz com que a Terra seja um melhor planeta para se viver. Aqui, o papel da educação ambiental reveste-se de crucial importância. Primeiro, porque é feita de um modo contínuo. Segundo, por ajudar na análise crítica das nossas actividades resultando numa melhor compreensão dos problemas ambientais. Terceiro, por traduzir o conhecimento em acções práticas de protecção do ambiente e que se reflectem na qualidade de vida das pessoas. Educação ambiental no contexto da sustentabilidade em Angola deve, no meu entender, fomentar o debate crítico sobre os três pilares da sustentabilidade (social, económico e ambiental), a sua aplicação prática na vida de cada um e como os nossos conhecimentos e habilidades podem traduzir-se em acções que diminuam a nossa pegada ecológica. h

Plantando juntos Para uma angola mais verde
Projecto Namibe Verde
mais de 4200 árvores plantadas no deserto do Namibe

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful