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EFEITOS DA CONDENAÇÃO E
REABILITAÇÃO

___________________________

O juiz, após analisar profundamente os elementos carreados para o processo e


convencer-se de que o acusado cometeu, efetivamente, um crime, e, depois de ter
cumprido as fases necessárias à aplicação da pena, chegar a um resultado, com uma
quantidade e uma qualidade de pena, prolatará sua decisão, chamada sentença,
condenando o acusado a cumprir a pena estabelecida.

Condenação, conforme DAMÁSIO, é a imposição da pena ao agente do crime1.

A conseqüência principal, direta, imediata, da condenação é a imposição da pena ao


condenado. Será recolhido ao estabelecimento prisional apropriado, conforme o regime
estabelecido. Ou submeter-se-á à pena restritiva de direito ou pecuniária.

Falam os doutrinadores que a condenação criminal acarreta outras


conseqüências, porquanto

“produz também efeitos penais secundários, tais como a revogação do sursis e do


livramento condicional, a caracterização da reincidência se houver crime
posterior, a interrupção da prescrição quando caracterizada a reincidência, o
aumento de seu prazo etc.”2

Aqui, vamos falar, todavia, de outros efeitos, tratados nos arts. 91 e 92 do


Código Penal:

“Art. 91. São efeitos da condenação: I – tornar certa a obrigação de indenizar o


dano causado pelo crime; II – a perda em favor da União, ressalvado o direito
do lesado ou de terceiro de boa-fé: a) dos instrumentos do crime, desde que
consistam em coisas cujo fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua
fato ilícito; b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua

1 Direito penal: parte geral. 15. ed. São Paulo: Saraiva, 1991. v. 1, p. 555.

2FRANCO, Alberto Silva. Código Penal e sua interpretação jurisprudencial. 5. ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1995. p. 1074.
2 – Direito Penal – Ney Moura Teles

proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso.

Art. 92. São também efeitos da condenação: I – a perda de cargo, função


pública ou mandato eletivo: a) quando aplicada pena privativa de liberdade por
tempo igual ou superior a 1 (um) ano, nos crimes praticados com abuso de
poder ou violação de dever para com a Administração Pública; b) quando for
aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos
demais casos; II – a incapacidade para o exercício do pátrio poder, tutela ou
curatela, nos crimes dolosos, sujeitos à pena de reclusão, cometidos contra filho,
tutelado ou curatelado; III – a inabilitação para dirigir veículo, quando
utilizado como meio para a prática de crime doloso. Parágrafo único. Os efeitos
de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivadamente
declarados na sentença.”

Com base nas normas contidas nesses dois artigos do estatuto repressivo
brasileiro, extrai-se uma primeira conclusão. Os efeitos mencionados no art. 91 são
genéricos, aplicando-se a todo e qualquer crime, e automáticos, ao passo que os
descritos no art. 92, além de se referirem a certos tipos de crimes, dependem de
declaração expressa e motivada na sentença.

Em razão disso, vamos estudá-los separadamente.

20.1 EFEITOS GENÉRICOS AUTOMÁTICOS

20.1.1 Obrigação de reparar o dano

Quando a Constituição Federal consagrou o princípio da responsabilidade


pessoal, ou da personalidade da pena (art. 5º, XLV), expressou, claramente, a ordem de
que a sanção penal só pode ser aplicada ao condenado, e, pela vez primeira, elevou, à
categoria de preceito constitucional, a garantia à vítima de poder demandar a reparação
do dano causado pelo crime, enquanto ato ilícito, também contra os sucessores do
agente do crime, observado o limite do patrimônio transferido.

O crime é um fato típico, ilícito e culpável. Sua essência é voltar-se contra a


ordem jurídica, é ser a lesão ou exposição a perigo de lesão de um bem jurídico.

A condenação do agente de um crime é a declaração do Estado de que ele cometeu


um ato ilícito, além de típico e culpável. A ilicitude, do ponto de vista material, é a lesão
do bem jurídico, e se este foi lesionado, deve ser reparado. A sanção penal não repara o
dano causado, pois representa apenas a censura, a reprovação da sociedade pela
violação do preceito proibitivo e pela agressão ao bem jurídico. Seu titular, todavia, não
Efeitos da Condenação e Reabilitação - 3

vê, com a sanção penal, a recomposição do valor do bem atingido. Esta só é possível
com a indenização, com o ressarcimento do prejuízo, com a restauração da integridade
do bem violado, ainda que por uma ficção jurídica, transformando-se o bem destruído
num valor que será entregue ao ofendido.

Por isso, além da resposta penal, o direito deve conceder ao lesionado, ao


ofendido, o direito a ter o dano reparado.

Se o órgão encarregado da aplicação da pena teve que concluir pela existência de


um crime, não haveria necessidade de encarregar outro órgão para decidir
exclusivamente sobre a reparação do dano, porque o pressuposto da pena é o mesmo
pressuposto da indenização: a ilicitude do fato, sua relação de antagonismo com o
direito.

Assim, a condenação a uma pena criminal, de reclusão, detenção, prestação de


serviços etc., não poderia deixar de significar também a obrigação, pelo condenado, de
reparar o dano causado por seu comportamento.

É o que diz o art. 91, I: “a condenação criminal torna certa, exata, a obrigação de
indenizar o dano causado pelo crime”. Decidida, definitivamente, a condenação, o
titular do bem jurídico atingido, seu representante ou seus herdeiros promoverão, com
base na decisão criminal, a execução civil da obrigação de reparar o dano (Código de
Processo Penal, art. 63).

É certo que a decisão prolatada pelo juiz criminal não cuida da reparação do dano,
mas apenas da existência do crime – do fato típico, ilícito e culpável – e de sua
conseqüência legal, a pena, não determinando ao acusado a obrigação de indenizar,
mas o art. 475-N, do Código de Processo Civil, estabelece: “São títulos executivos
judiciais: (...); II – a sentença penal condenatória transitada em julgado.”

De conseqüência, o titular do bem jurídico atingido pela conduta injusta culpável


é, igualmente, titular do direito de executar o condenado pelo dano causado, bastando
que promova a liquidação da obrigação, para determinar apenas o quantum debeatur,
vale dizer, o valor da indenização, já que a obrigação de indenizar é então matéria
indiscutível.

DAMÁSIO E. DE JESUS explica com sua indiscutível autoridade:

“A condenação penal irrecorrível faz coisa julgada no cível para efeito da


reparação do dano, não se podendo mais discutir a respeito do an debeatur,
mas somente sobre o quantum debeatur. Significa que o causador do dano não
poderá mais discutir no cível se praticou o fato ou não, se houve relação de
causalidade entre a conduta e o resultado ou não, se agiu licitamente ou não,
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se agiu culpavelmente ou não. Só pode discutir a respeito da importância da


reparação.”3

Não podia ser diferente. Se o órgão do Poder Judiciário já decidiu,


definitivamente, irrecorrivelmente, que Gervásio cometeu crime, decidiu que ele
realizou comportamento ilícito, vale dizer, causou dano ao titular do bem jurídico
objeto do crime. Se realizou comportamento ilícito, lesivo ou expositivo a perigo de lesão
de um bem, deve reparar o dano, segundo manda a regra do art. 927 do Código Civil.

Constatada, pelo órgão julgador, a violação do direito, ou a causação do prejuízo, a


obrigação da reparação do dano é indiscutível. Seria absurdo que o direito exigisse do
ofendido a promoção de outro processo judicial visando provar o que já está provado na
jurisdição penal. Bastará a ele demandar a fixação do valor da indenização.

Caberá ao ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros promover a prévia


liquidação da sentença penal, na forma estabelecida nos arts. 475-A e seguintes do Código
de Processo Civil, observado que não cabe execução provisória, eis que a sentença penal
condenatória deve ter transitado em julgado.

20.1.2 Absolvição na jurisdição penal e reparação do dano

E se o acusado da prática de crime vier a ser absolvido pelo juiz criminal, o


ofendido, a vítima, poderá demandar a reparação do dano?

A absolvição do acusado pode-se dar por várias razões.

20.1.2.1 Porque o fato não ocorreu

A primeira delas é ser absolvido porque o fato a ele atribuído, comprovadamente,


não aconteceu. Ora, se há prova de que o fato típico não aconteceu, não há sequer
indício de ilicitude, de lesão. Se o órgão do judiciário decidiu que existem provas de que
o fato não aconteceu, não existiu materialmente, não se pode sequer pensar em que ele
pudesse ser ilícito. Só se pode imaginar a ilicitude de algo que aconteceu, nunca daquilo
que se comprovou não ter ocorrido.

Nesta hipótese, a vítima não poderá demandar a reparação civil e, se o fizer, terá
sua pretensão rechaçada porquanto o poder judiciário já terá decidido que o fato não
aconteceu. Se o fato não ocorreu, não se pode sequer pensar em existência de dano.

3 Op. cit. p. 557.


Efeitos da Condenação e Reabilitação - 5

20.1.2.2 Porque não há prova de que o fato ocorreu

Outra hipótese é não haver prova de que o fato aconteceu. Aqui, a situação
é diferente. Se a justiça criminal não conseguiu provar a ocorrência do fato, porque o
depoimento das testemunhas apresentadas não autoriza condenação, enfim, por não
ter sido produzida prova cabal da existência do fato, nem por isso se pode concluir que
o fato não aconteceu. Apenas que não houve provas de sua existência. Tal situação
implica a absolvição do acusado, mas não impõe a conclusão de que não houve o fato.

Nessa hipótese, o ofendido poderá, querendo, promover a reparação civil do dano


que julgar ter sido causado, incumbindo-lhe, é certo, provar, no âmbito da jurisdição
civil, não só a existência do fato, mas também a do dano, da relação de causa e efeito
entre o fato e o prejuízo e, ainda, da responsabilidade de seu causador.

20.1.2.3 Porque o fato é atípico

Outra situação é a de que, julgando o processo criminal, o juiz conclua que o


fato descrito na peça inicial, apesar de ter ocorrido, não constitui crime, vale dizer, não
é típico.

Alguns fatos atípicos são, todavia, ilícitos civis, administrativos, previdenciários,


trabalhistas etc. Não sendo típicos, jamais seriam crimes, mas podem constituir ilícitos
para outros ramos do Direito. Deixar de pagar a nota promissória no dia do vencimento
coloca o credor na situação de poder requerer a execução forçada por quantia certa
contra devedor solvente, requerendo a citação deste para, em três dias, efetuar o
pagamento da dívida.

Assim, na hipótese de o fato atípico ser ilícito civil, o ofendido pode pleitear a
reparação do dano.

20.1.2.4 Porque não há prova de que o réu concorreu para o crime

Nessa situação, o fato é típico, devidamente provado; todavia, não se consegue


provar que o acusado é seu autor ou se conclui que são insuficientes as provas de que o
réu tenha concorrido para a realização do procedimento típico, razão pela qual deverá
ser absolvido da imputação.

Se a sentença penal absolveu o acusado por falta de prova de autoria ou de


participação, não estará o ofendido impedido de promover a ação civil. Se a sentença,
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contudo, tiver afirmado categoricamente que o acusado não é o autor, nem partícipe do
crime, será impossível a reparação civil.

Essas conclusões são autorizadas pelos comandos do art. 66 do Código de


Processo Penal:

“Não obstante a sentença absolutória no juízo criminal, a ação civil poderá ser
proposta quando não tiver sido, categoricamente, reconhecida a inexistência
material do fato.”

E do art. 935 do Código Civil:

“A responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo


questionar mais sobre a existência do fato, ou quem seja o seu autor, quando
estas questões se acharem decididas no juízo criminal.”

20.1.2.5 Porque há dúvidas

O princípio do in dubio pro reo manda o juiz criminal absolver o réu quando
não houver prova suficiente para a condenação.

A condenação penal deve ser extreme de dúvidas. Só pode haver o juízo


condenatório diante de provas robustas e insofismáveis, bem assim diante da certeza de
que o acusado não agiu lícita nem culpavelmente. Por essa razão, diante da incerteza
quanto à prova do fato ou da autoria, ou da dúvida quanto à incidência de uma causa de
exclusão da ilicitude ou de culpabilidade, o juiz deverá absolver o réu.

Nessa hipótese, a ação civil poderá ser proposta, em seu âmbito haverá de ser
desfeita a dúvida, pelo menos quanto à reparação do dano.

20.1.2.6 Porque o réu agiu licitamente

Se ficar reconhecido na sentença que o acusado agiu sob o pálio da legítima


defesa, do estado de necessidade, do estrito cumprimento do dever legal, do exercício
regular de direito, ou de outra causa de justificação, o fato típico terá sido praticado em
harmonia com o ordenamento jurídico, permitido pela norma penal justificante. Não
terá havido crime, mas um fato típico lícito, devendo o acusado ser absolvido.

Se o acusado praticou um fato lícito, justificado, permitido pelo direito, não há


lugar para se falar em lesão do bem jurídico, pelo que ausente a lesão, impossível a
reparação civil. Esta é a regra geral. A perda da vida do agressor, morto por alguém em
legítima defesa, não será indenizada.
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Diz, a propósito, o art. 65 do Código de Processo Penal:

“Faz coisa julgada no cível a sentença penal que reconhecer ter sido o ato
praticado em estado de necessidade, em legítima defesa, em estrito
cumprimento do dever legal ou no exercício regular de direito.”

Apesar de referir-se exclusivamente às causas descritas no art. 23 do Código


Penal, aplica-se igualmente às normas justificantes da parte especial.

Todavia, nas seguintes situações, mesmo tendo o agente agido licitamente, a ação
civil poderá ser promovida, visando à reparação do dano.

A primeira diz respeito à pessoa atingida, ou à coisa sacrificada, por alguém em


estado de necessidade. Se a pessoa atingida ou o dono da coisa não foram os
responsáveis pela situação de perigo que ensejou o estado de necessidade, terão eles
direito ao ressarcimento do dano, que será deduzido contra o agente do fato típico. Este
terá, contudo, o direito de ressarcir-se frente ao causador da situação de perigo.

São as normas dos arts. 929 e 930 do Código Civil, respectivamente:

“Art. 929. Se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art.


188, não forem culpados do perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do
prejuízo que sofreram.

Art. 930. No caso do inciso II do art. 188, se o perigo ocorrer por culpa de
terceiro, contra este terá o autor do dano ação regressiva para haver a
importância que tiver ressarcido ao lesado.”

Quando se tratar de legítima defesa, haverá direito à indenização na hipótese de


que o agente, sofrendo agressão injusta, atual ou iminente, repele-a com o uso
moderado do meio necessário, mas, em vez de atingir seu agressor, atinge, por erro na
execução, pessoa diversa, configurando caso de aberratio ictus. Se tivesse matado o
agressor, a família deste não teria direito à reparação do dano, mas, se matou terceiro
inocente, a família deste poderá promover a reparação civil.

20.1.2.7 Porque o réu não agiu culpavelmente

Quando o acusado é absolvido por não ser culpado, porque foi considerado
inimputável, por ter agido sob coação moral irresistível, em obediência hierárquica, ou
em erro de proibição inevitável, inclusive no caso de descriminante putativa, o fato
típico terá sido ilícito, mas não culpável. Sendo ilícito, terá havido lesão ao bem
jurídico, e, presente esta, deve ser ressarcido o dano.
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Assim, o ofendido poderá promover a ação civil indenizatória.

20.1.3 Confisco de instrumentos e produtos do crime

O inciso II do art. 91 do Código Penal estabelece que a sentença condenatória


acarretará

“a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de


boa-fé: a) dos instrumentos do crime, desde que consistam em coisas cujo
fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito; b) do produto do
crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente
com a prática do fato criminoso”.

Esse efeito da condenação é denominado confisco, que não se confunde com a


pena de “perda de bens”, autorizada pela Constituição Federal no art. 5º, XLVI, b,
adotada pelo legislador da Lei nº 9.714/98 como pena alternativa à prisão.

Melhor teria sido que a lei a cominasse para algumas espécies de crimes, como os
chamados “do colarinho branco”, os contra a ordem tributária e a ordem econômica.

O confisco – efeito genérico da condenação – só pode incidir sobre instrumentos


e produtos do crime. A pena de perda de bens, como já abordado, recairá sobre
qualquer bem de propriedade do condenado.

A norma ressalva o direito da pessoa lesada ou do terceiro que, de boa-fé, vier a


sofrer prejuízo em razão do crime, o que significa que a União só receberá tais bens se
não pertencerem à terceira pessoa ou ao sujeito passivo do crime, diretamente
interessado. A vítima e o terceiro de boa-fé, preferencialmente, receberão os
instrumentos do crime que lhes pertencerem, ainda que consistam em coisas cuja
fabricação, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito, bem assim o produto
do crime, e outros bens derivados, desde que lhes pertençam.

20.2 EFEITOS ESPECÍFICOS NÃO AUTOMÁTICOS

O art. 92 do Código Penal cuida de outros efeitos da condenação, referentes a


algumas espécies de crimes, que somente incidirão se a sentença condenatória
estabelecê-los em decisão motivada. Somente se aplicarão para determinados crimes, e
desde que o juiz os estabeleça, na sentença, dando as razões de sua aplicação, que
deverá ser justificada.

Por essa razão, são chamados de efeitos específicos não automáticos.


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20.2.1 Perda de cargo ou função pública

A Lei nº 9.268, de 1º-4-1996, deu nova redação ao inciso I do art. 92, que ficou
assim redigido:

“São também efeitos da condenação: I – a perda de cargo, função pública ou


mandato eletivo: a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo
igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou
violação de dever para com a Administração Pública; b) quando for aplicada
pena privativa de liberdade por tempo superior a quatro anos nos demais casos.”

Pelo sistema antigo, da reforma penal de 1984, se o agente tivesse praticado


qualquer crime com abuso de poder ou violação de dever para com a administração, e o
juiz aplicasse pena de privação de liberdade superior a quatro anos, poderia também
declarar, como efeito administrativo da condenação, a perda do cargo ou da função
pública exercidos pelo agente.

Agora, nessa hipótese basta que a pena seja superior a um ano de privação de
liberdade, e não mais a quatro, para que seja possível declarar a perda do cargo ou da
função pública.

A outra novidade é que, nos crimes cometidos sem abuso de poder ou sem violação
de dever para com a administração pública, o efeito poderá ser declarado apenas
quando a pena for superior a quatro anos.

Doravante, se o crime tiver sido cometido com abuso de poder ou violação de


dever funcional, o efeito poderá ser declarado se a pena for superior a um ano. Se o
crime não tiver sido cometido com abuso ou violação de dever, a perda do cargo ou
função só poderá dar-se se a pena for superior a quatro anos.

Na primeira situação, o efeito poderá ser aplicado nos casos de crimes definidos
nos arts. 312 a 326 do Código Penal – peculato, concussão, corrupção passiva,
prevaricação, violência arbitrária etc. – bem assim em qualquer hipótese de crime
praticado por funcionário público durante o exercício de sua função, com abuso de
poder e com violação de dever funcional, como homicídio, estupro, atentado violento ao
pudor, furto, roubo etc.

Policiais que praticam lesões corporais ou atentado violento ao pudor contra


preso, se condenados a pena superior a um ano, poderão ver declarada na sentença
condenatória a perda do cargo público.

A imposição desse efeito deverá ser fundamentada e dependerá da necessidade


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para a prevenção e reprovação do crime, devendo o juiz levar em conta as


circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal.

Nos demais crimes cometidos sem abuso ou violação de dever funcional, a


declaração da perda do cargo ou da função pública só será possível se a condenação for
superior a quatro anos.

A perda de cargo ou função pública, como efeito permanente da sentença


condenatória, não se confunde com a pena restritiva de direito prevista no art. 47, I, do
Código Penal, que é interdição temporária do exercício do cargo ou função pública ou
do mandato eletivo.

20.2.2 Perda do mandato eletivo

O mesmo inciso I do art. 92, com a nova redação dada pela Lei nº 9.268, de 1º-
4-96, repete, como efeito específico e não automático, ao lado da perda de cargo ou
função pública, a perda do mandato eletivo.

A Constituição Federal de 1988, todavia, em seu art. 15, III, assim estabelece:

“É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará


nos casos de: (...) III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto
durarem os seus efeitos.”

O art. 55, VI e § 2º, da Carta Magna estabelece que os deputados e senadores


perderão o mandato na hipótese de sofrerem “condenação criminal em sentença
transitada em julgado”, dispositivo que se aplica também aos deputados estaduais por
força do disposto no art. 27, § 1º.

São três normas distintas, que aparentemente se contradizem. A norma


constitucional do art. 15, III, da Constituição Federal, afirma que a condenação
criminal transitada em julgado implica a suspensão dos direitos políticos. A norma do
art. 55, VI, c.c. o § 2º, da Carta Magna, informa que a condenação criminal transitada
em julgado poderá ensejar a perda do mandato do deputado e do senador, desde que a
casa legislativa a que pertencer o parlamentar assim o decida. E a norma do art. 92, I,
do Código Penal, diz que a perda do mandato é efeito específico não automático da
sentença condenatória.

O Direito é um sistema harmônico e suas normas não se contradizem; impossível


qualquer conflito entre elas. Como resolver o aparente conflito? Entre as três normas,
duas estão no mesmo nível constitucional, e se sobrepõem, vinculando a outra, uma
norma ordinária federal. A interpretação deve, é óbvio, iniciar-se pelas normas
Efeitos da Condenação e Reabilitação - 11

fundamentais.

A primeira delas cuida de direitos políticos de todos os cidadãos, a outra, de


mandato eletivo de senadores, deputados federais e deputados estaduais, por força do
que dispõe o art. 27, § 1º, da Constituição Federal.

A norma do art. 15, III, da Constituição Federal, trata dos direitos políticos para
dizer, em primeiro lugar, que sua cassação é vedada, proibida. Mas, o preceito admite a
perda e a suspensão dos direitos políticos. Necessário, pois, distinguir cassação de
perda, e de suspensão. Por cassação há de se entender a anulação, a invalidação, a
usurpação, a subtração autoritária dos direitos políticos do cidadão, por ato unilateral,
imotivado ou injustificado. O regime autoritário instalado no Brasil a partir de 1964
inaugurou a prática antidemocrática de tornar sem efeito mandatos eletivos,
utilizando-se da expressão cassação. Também por aquele tempo foi comum a prática de
suspender direitos políticos por dez anos.

Atento à história recentíssima de nosso país, o legislador constituinte de 1988


teve a feliz idéia de inserir, na Constituição, a proibição da cassação de direitos
políticos, porquanto consistiria na pura e simples eliminação, violenta e arbitrária, dos
direitos políticos do cidadão.

Possível é, todavia, a perda ou a suspensão dos direitos políticos. A norma do art.


15, III, da Constituição Federal, é clara: o indivíduo perderá seus direitos políticos
apenas em duas únicas hipóteses: (a) quando tiver cancelada sua naturalização, por
sentença transitada em julgado; ou (b) quando tiver declarada sua incapacidade civil
absoluta.

Não podia ser de outro modo. Se o estrangeiro naturalizado perder a


nacionalidade, não poderá, é de todo óbvio, gozar dos direitos inerentes apenas aos
cidadãos brasileiros. Nesse caso, o indivíduo perde os direitos políticos que tinha, o de
votar, o de ser votado e o de exercer atividade partidária. De notar que tais direitos
foram por ele adquiridos em razão da naturalização e, ao depois, perdidos, como
conseqüência do cancelamento da naturalização. E, como ficou expresso, somente
ocorrerá a perda em processo regularmente instaurado e desenvolvido com respeito ao
due process of law, e após o trânsito em julgado da sentença.

Declarada a incapacidade civil absoluta, igualmente perderá os direitos


políticos.

A outra situação preconizada no mesmo art. 15, III, da Constituição Federal, é a


da suspensão dos direitos políticos. Em verdade, os direitos políticos não são
suspensos, mas seu exercício fica proibido, enquanto durar a condenação criminal
12 – Direito Penal – Ney Moura Teles

transitada em julgado.

O comando normativo é no sentido de que o exercício do direito político será


impedido quando seu titular for definitivamente condenado por sentença condenatória.
Em outras palavras, o condenado definitivamente não poderá exercer direitos políticos,
enquanto durarem os efeitos da condenação, podendo voltar a exercê-los quando tais
efeitos tiverem cessado.

A primeira indagação surgida foi: o preceito constitucional seria auto-aplicável ou


dependeria de regulamentação? O Supremo Tribunal Federal enfrentou a questão, e
vale transcrever a ementa do Agravo Regimental no RMSA-22470/SP, julgado em 11-6-
96, publicada no DJ, de 27-9-96, do qual foi relator o Ministro CELSO DE MELLO, assim:

“SUSPENSÃO DE DIREITOS POLÍTICOS – CONDENAÇÃO PENAL


IRRECORRÍVEL – SUBSISTÊNCIA DE SEUS EFEITOS – AUTO-
APLICABILIDADE DO ART. 15, III, DA CONSTITUIÇÃO. A norma inscrita no
art. 15, III, da Constituição reveste-se de auto-aplicabilidade, independendo,
para efeito de sua imediata incidência, de qualquer ato de intermediação
legislativa. Essa circunstância legitima as decisões da Justiça Eleitoral que
declaram aplicável, nos casos de condenação penal irrecorrível – e enquanto
durarem os seus efeitos, como ocorre na vigência do período de prova do sursis
– , a sanção constitucional concernente à privação de direitos políticos do
sentenciado. Precedente: RE nº 179.502-SP (Pleno), Rel. Min. MOREIRA ALVES.”

A Suprema Corte nominou essa suspensão dos direitos políticos de “sanção


constitucional” que decorre de toda e qualquer condenação penal transitada em
julgado. Como conciliá-la com a norma do art. 55, VI, e § 2º da mesma Carta
Constitucional, que exige a declaração, pela casa legislativa, da perda do mandato do
parlamentar no caso de condenação criminal definitiva, se é de todo óbvio que o
pressuposto do exercício de qualquer mandato eletivo é o gozo, pelo titular, dos direitos
políticos?

Ora, com a Emenda Constitucional nº 35/2001, o regime original da imunidade


parlamentar processual foi alterado, não havendo mais necessidade de autorização
legislativa para a instauração ou seguimento de processo penal contra parlamentar.
Agora, somente quando por fato cometido após a diplomação, o processo pode ter seu
curso sustado. Houve, pois, mudança substancial.

No item 5.3.2.2, manifestamos nossa opinião no sentido da incompatibilidade do §


2º do art. 55 da Constituição Federal com o novo sistema de imunidades parlamentares
advindo com a Emenda Constitucional nº 35/2001, o qual está, a nosso ver,
Efeitos da Condenação e Reabilitação - 13

tacitamente revogado.

De conseqüência: a condenação criminal transitada em julgado acarreta


automaticamente a suspensão dos direitos políticos do condenado, enquanto durarem
os efeitos da condenação. Mesmo que a pena privativa de liberdade tenha sido suspensa
pelo sursis, ou ainda que esteja sendo cumprida em regime aberto, não importa. Até no
caso de ser o agente condenado a uma pena de multa, desde que haja o trânsito em
julgado, seus direitos políticos ficam suspensos. Nesse caso, se ele estiver exercendo
mandato eletivo, este será automaticamente perdido, em razão da suspensão dos
direitos políticos, e não será recuperado com o pagamento da multa. Paga a multa, o
condenado recupera os direitos políticos, mas não o mandato, que se extinguiu no
momento exato da condenação.

De conseqüência, norma do art. 92, I, do Código Penal, na parte que trata da perda
do mandato eletivo, é inaplicável, remanescendo seu comando apenas com relação à
perda de cargo ou função pública. Não pode a lei ordinária contrariar a norma
constitucional, nem regulamentá-la dispondo de modo contraditório. Não há menor
harmonia entre a norma do art. 92, I, do Código Penal, e o preceito constitucional.

Em razão desse preceito, é de se entender que a perda de mandato eletivo é


conseqüência do efeito automático e genérico da suspensão dos direitos políticos que se
dá em razão de toda e qualquer condenação penal transitada em julgado pela prática de
crime, e não apenas efeito específico, não se aplicando, pois, o disposto no art. 92, I, do
Código Penal, mas o preceito constitucional.

Se um dos requisitos para o exercício de qualquer mandato eletivo – uma condição


de elegibilidade – é o pleno exercício dos direitos políticos (art. 14, § 3º, CF), de todo
óbvio que aquele que tiver seus direitos políticos suspensos, pelo tempo que durar os
efeitos da condenação, não poderá, durante esse lapso temporal, exercer qualquer
mandato eletivo.

Se o condenado com sentença transitada em julgado não pode ser eleito, não pode,
igualmente, continuar o exercício do mandato para o qual tiver sido eleito
anteriormente à condenação. É da mais límpida obviedade.

20.2.3 Incapacidade para o exercício do pátrio poder, tutela ou


curatela

Se o agente tiver praticado crime doloso sujeito à pena de reclusão contra seu
próprio filho, um tutelado ou curatelado, o juiz, ao condená-lo, poderá declarar,
14 – Direito Penal – Ney Moura Teles

fundamentadamente, sua incapacidade permanente para o exercício do pátrio poder,


da tutela ou da curatela, desde que necessária para a prevenção e reprovação do crime.

Os requisitos para a imposição desse efeito são: (a) seja o crime doloso; (b) seja
cominada pena de reclusão; (c) tenha sido praticado contra o filho, o tutelado ou o
curatelado do agente; (d) seja necessário, para os fins de reprovação e prevenção do
crime.

Alguns crimes, como os de natureza sexual, por exemplo, são de molde que esse
efeito seja imposto, devendo é claro constar da sentença, motivadamente.

O pai que estupra a própria filha não tem, é da mais límpida lógica, a mínima
condição de continuar exercendo o pátrio poder. O tutor que favorece a prostituição de
sua tutelada, igualmente, deve ser destituído desse dever.

20.2.4 Inabilitação para dirigir veículo

A inabilitação para dirigir veículo somente poderá ser declarada quando o


condenado tiver utilizado o veículo como meio para a prática de um crime doloso.

Trata-se de um efeito permanente da sentença condenatória, que deverá ser


explicitado, desde que se harmonize com o princípio diretor da aplicação da pena,
consubstanciado na necessidade e suficiência para a reprovação e prevenção do crime.
Não se confunde com a pena restritiva de direito prevista no art. 47, III, do Código
Penal, que é a interdição temporária do direito de dirigir veículo, que tem aplicação nos
crimes culposos de trânsito, como manda o art. 57 do Código Penal.

Este efeito só é possível quando o veículo tiver sido utilizado para a prática de um
crime doloso, por exemplo, um homicídio, um crime de lesão corporal, ou o tráfico
ilícito de entorpecentes.

20.3 REABILITAÇÃO

20.3.1 Conceito

Toda e qualquer condenação penal, ainda que a uma pena restritiva de direito ou de
multa, e mesmo depois de integralmente cumprida, constitui um estigma, um sinal, uma
marca na vida do condenado, acompanhando-o por todos os seus dias.

Muitas vezes, cumprida a pena, continua o indivíduo a sofrer as conseqüências da


condenação anterior, não conseguindo emprego lícito, recebendo a pecha de criminoso,
que o marginaliza e impede sua reinserção social: o mais importante dos fins da pena.
Efeitos da Condenação e Reabilitação - 15

O direito penal, atento a esse problema, criou a reabilitação a fim de, se não
eliminar, pelo menos diminuir as conseqüências indesejáveis da condenação.

É o instituto por meio do qual o condenado tem assegurado o sigilo sobre os


registros acerca do processo e de sua condenação, podendo, ainda, por meio dele,
readquirir o exercício de direitos interditados pela sentença condenatória, com a
suspensão condicional de alguns efeitos penais da condenação.

A reabilitação, por isso, é a recuperação, pelo condenado, de seu status quo


anterior à condenação. Por ela, terá ficha de antecedentes ou boletim de vida pregressa
sem qualquer referência à condenação sofrida, sem nenhuma notícia do crime
praticado.

Esse sigilo, ensina ALBERTO SILVA FRANCO, “já existe automaticamente a partir do
cumprimento ou da extinção da pena, diante do que dispõe o art. 202 da LEP4”:

“Cumprida ou extinta a pena, não constarão da folha corrida, atestados ou


certidões fornecidas por autoridade policial ou por auxiliares da Justiça,
qualquer notícia ou referência à condenação, salvo para instruir processo pela
prática de nova infração penal ou outros casos expressos em lei.”

A norma do caput do art. 93 do Código Penal, in fine, não é, todavia,


desnecessária. O sigilo sobre o processo e a condenação deve ser observado por toda e
qualquer pessoa e não apenas pela autoridade policial e pelos auxiliares da Justiça, aos
quais se destina a norma do art. 202 da Lei de Execução Penal.

É da mais alta importância o respeito a essa norma para que o condenado possa
alcançar efetivamente a reinserção social. Enquanto for estigmatizado, marginalizado,
impedido de obter trabalho lícito, por força de informações sobre a condenação, o
egresso do sistema penitenciário não terá mínimas possibilidades de voltar ao convívio
social normal em condições que possibilitem sua recuperação.

O respeito ao sigilo imposto pelo art. 93 dirige-se a todas as pessoas, que não
podem lançar mão de informações contidas no processo, nem acerca da condenação
sofrida pelo reabilitado.

O sigilo somente não será respeitado à vista de requisição de juiz criminal, como
manda o art. 748 do Código de Processo Penal:

“A condenação ou condenações anteriores não serão mencionadas na folha de


antecedentes do reabilitado, nem em certidão extraída dos livros do juízo, salvo

4 Op. cit. p. 1100.


16 – Direito Penal – Ney Moura Teles

quando requisitadas por juiz criminal.”

Não podia ser diferente, pois a reabilitação é, como se verá adiante, condicional,
podendo ser revogada, daí que, instaurado novo processo penal, é do interesse do juiz
saber sobre o passado do acusado.

20.3.2 Requisitos

O condenado somente poderá requerer a reabilitação depois de transcorrido o


prazo de dois anos da data em que a execução da sanção penal estiver encerrada ou, de
qualquer modo, a pena tiver sido extinta. Em outras palavras, terminada a execução da
pena e após o decurso do prazo de dois anos, poderá ser requerida a reabilitação. Se a
condenação tiver sido a uma pena de multa, conta-se o prazo da data de seu
pagamento.

Se tiver sido concedida a suspensão condicional da pena, sursis, ou o livramento


condicional, o tempo do período de prova será contado, para efeito da reabilitação.
Assim, se ele tiver sido submetido a um período de prova de dois anos, não será
necessário esperar nem um dia, podendo requerer a reabilitação imediatamente após o
período de prova. Claro que, se tiver havido revogação do sursis ou do livramento, o
prazo só começará a contar da data da extinção da pena.

Extinta a pena, pelo cumprimento efetivo – tempo de prisão transcorrido, multa


paga –, pelo decurso do período de prova – no sursis e no livramento condicional –
ou pela prescrição, indulto etc., começa a correr o prazo de dois anos após o qual pode
ser pleiteada a reabilitação.

Não basta esse requisito, pois o condenado deve ter permanecido com seu
domicílio no país durante os dois anos após o cumprimento ou extinção da pena. A
prova do cumprimento desse pressuposto poderá ser feita documentalmente, com
atestado de residência ou por testemunhas idôneas, e ainda por quaisquer outros meios
lícitos.

Além disso, o condenado deve provar que teve, durante o período de dois anos,
bom comportamento público e privado. A existência de outras ações penais, e até
mesmo de inquéritos policiais em curso, instaurados durante o prazo de dois anos,
iniciado após a extinção da pena, é suficiente para obstar a concessão da reabilitação,
pois indica comportamento insatisfatório. Por comportamento privado deve-se
entender aquele relativo a sua vida no âmbito do meio familiar, de suas relações com
filhos, mulher ou companheira, que deve, igualmente, ser satisfatório.
Efeitos da Condenação e Reabilitação - 17

A lei não exige comportamento exemplar, de alguém que se purificou, mas tão-
somente comportamento positivamente bom.

Um último requisito é o ressarcimento do dano causado pelo crime, salvo absoluta


impossibilidade de fazê-lo, até o dia do requerimento. Se o condenado não tiver
mínimas possibilidades de reparar o dano, deverá, evidentemente, demonstrá-lo.
Podendo e não ressarcindo o prejuízo à vítima ou seus sucessores, não poderá obter a
reabilitação.

Os juízes devem ser mais rigorosos com esse requisito, pois a vítima deve merecer
especial atenção do direito penal.

Será considerado preenchido esse requisito se a vítima renunciar ao direito à


indenização, ou se tiver celebrado, com o condenado, a novação da dívida.

A novação é um instituto de direito privado, de que tratam os arts. 360 a 367 do


Código Civil, que consiste na substituição da dívida anterior por outra nova. Nesse caso,
a dívida resultante do dano causado pelo crime será substituída por outra, de natureza
puramente civil.

O parágrafo único do art. 94 permite ao condenado que tiver seu pedido de


reabilitação indeferido formular outro posteriormente, desde que o instrua com novos
elementos de prova que satisfaçam aos requisitos não preenchidos no pedido anterior.

20.3.3 Efeitos

Além do sigilo que todos devem observar,

“a reabilitação poderá, também, atingir os efeitos da condenação, previstos no


art. 92 deste Código, vedada reintegração na situação anterior, nos casos dos
incisos I e II do mesmo artigo” (parágrafo único do art. 93, CP).

Reabilitado o condenado, não poderá exercer a função ou o cargo público perdido


em razão da condenação, embora não esteja impossibilitado de obter outro cargo ou
função. Do mesmo modo, não voltará a exercer o pátrio-poder, o cargo de tutor, ou
curador, em relação à vítima do crime. Poderá, sim, exercer esses direitos e obrigações
relativamente a outras pessoas, vale dizer, readquirir o direito de voltar a exercer o
pátrio-poder, a tutela e a curatela relativamente a outros.

A habilitação para dirigir veículo automotor, perdida nos termos do art. 92, III,
será readquirida com a reabilitação, sem qualquer restrição.
18 – Direito Penal – Ney Moura Teles

20.3.4 Revogação

A reabilitação é condicional.

Sua revogação se dará, de ofício, ou a requerimento do órgão do Ministério


Público, se o reabilitado vier a ser condenado, definitivamente, na situação de
reincidente, a uma pena privativa de liberdade.

São dois os requisitos para a revogação:

a) a condenação transitada em julgado posterior deve ser a uma pena privativa de


liberdade;

b) a condenação deve dar-se com o reconhecimento de que o reabilitado é


reincidente.

O fato pelo qual o reabilitado será condenado deverá ter ocorrido após o trânsito
em julgado da sentença penal que o condenou pelo crime anterior (art. 63, CP). Se,
todavia, tiver transcorrido cinco anos entre a data do cumprimento da pena anterior ou
de sua extinção e o fato novo, computado nesse tempo o período de prova do sursis e do
livramento condicional, não se falará igualmente em reincidência (art. 64, I, CP).

Não basta que o reabilitado seja indiciado em inquérito policial, e tampouco que
seja denunciado. Instaurado o processo, não há, ainda, motivo para a revogação da
reabilitação.

Finalmente, nada impede que o condenado que teve sua reabilitação revogada
volte a obter outra reabilitação, desde, é óbvio, que preencha todos os seus
pressupostos.