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DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES
SIGILOSAS OU RESERVADAS
ASSIM DEFINIDAS EM LEI

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31.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

Na verdade são dois os tipos de crime introduzidos pela Lei nº 9.983/2000.

O tipo básico está no § 1º-A do art. 153 do Código Penal:

“Divulgar, sem justa causa, informações sigilosas ou reservadas, assim definidas


em lei, contidas ou não nos sistemas de informações ou banco de dados da
Administração Pública.”

A conjugação do disposto no § 1º-A com o § 2º do mesmo artigo, também


introduzido pela referida lei, revela outro tipo de crime, assim:

“Divulgar, sem justa causa, informações sigilosas ou reservadas, assim definidas


em lei, contidas ou não nos sistemas de informações ou banco de dados da
Administração Pública”, resultando prejuízo para esta.

A pena é, para os dois tipos, detenção, de um a quatro anos, e multa.

No primeiro tipo o bem jurídico protegido é a intimidade da vida privada de qualquer


pessoa. É o direito de a pessoa ter preservado o sigilo de informação a respeito de sua
intimidade, que decorre da sua liberdade individual.

No segundo a objetividade jurídica é o sigilo da informação de interesse da


Administração Pública. Melhor teria sido que esse tipo tivesse sido incluído dentre os
Crimes Contra a Administração Pública.

Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo de qualquer dos crimes.


2 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

No primeiro tipo o sujeito passivo é a pessoa cujo segredo é revelado. No segundo, é o


Estado e, caso a divulgação atinja também o particular, qualquer pessoa.

31.2 TIPICIDADE

31.2.1 Conduta

O núcleo de ambos os tipos é o verbo divulgar, empregado no mesmo sentido do


delito do art. 153. Deve o agente levar as informações sigilosas ou reservadas ao
conhecimento de um número indeterminado de pessoas, utilizando-se, para tanto, de
qualquer meio de comunicação, escrita, oral, verbal, diretamente ou por intermédio da
imprensa, rádio, televisão ou Internet.

31.2.2 Elementos objetivos e normativos

As informações objeto da divulgação devem ser sigilosas ou reservadas, conforme


definição legal. Trata-se, pois, de norma penal em branco, que exige o complemento de
uma outra lei.

A Lei nº 8.159, de 8 de janeiro de 1991, dispõe, no art. 23, sobre documentos


sigilosos produzidos por órgãos públicos, assim:

“Art. 23. Decreto fixará as categorias de sigilo que deverão ser obedecidas pelos
órgãos públicos na classificação dos documentos por eles produzidos.

§ 1º Os documentos cuja divulgação ponha em risco a segurança da sociedade e do


Estado, bem como aqueles necessários ao resguardo da inviolabilidade da
intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas são
originariamente sigilosos.

§ 2º O acesso aos documentos sigilosos referentes à segurança da sociedade e do


Estado será restrito por um prazo máximo de 30 (trinta) anos, a contar da data de
sua produção, podendo esse prazo ser prorrogado, por uma única vez, por igual
período.

§ 3º O acesso aos documentos sigilosos referente à honra e à imagem das pessoas


será restrito por um prazo máximo de 100 (cem) anos, a contar da sua data de
produção.”
Divulgação de Informações Sigilosas ou Reservadas assim Definidas em Lei - 3

Embora o tipo mencione informações e não documentos, certo é que aquelas estão
contidas nestes; logo, se o documento é sigiloso, é porque contém informação sigilosa.
Assim, por informação sigilosa deve-se entender a contida em documento cuja divulgação
ponha em risco a segurança da sociedade e do Estado, bem como a necessária ao resguardo
da intimidade da vida privada, da honra e da imagem das pessoas.

A Lei n° 11.111, de 5.05.2005, trata do mesmo tema, e o Decreto n° 5.301, de


9.12.2004, alterou a redação de alguns artigos do Decreto n° 4.553/02.

A mesma Lei nº 8.159/91 delegou ao Chefe do Poder Executivo o poder de classificar


os documentos sigilosos em suas diversas categorias, o que foi feito através do Decreto nº
4.553, de 27 de dezembro de 2002, cujo art. 2º, reiterando as disposições do art. 23, faz
menção expressa a dados e informações.

A norma incriminadora em comento também se refere a informações reservadas,


todavia a Lei nº 8.159/91 não emprega a expressão em nenhum momento. O Decreto nº
4.553/02, de sua vez, ao classificar as informações e dados sigilosos, considera reservados
os dados e informações sigilosos “cuja revelação não autorizada possa comprometer
planos, operações ou objetivos neles previstos ou referidos” (art. 5º, § 4º). Assim,
informação reservada é uma espécie de informação sigilosa. Segundo o mesmo Decreto, os
dados e informações sigilosas classificam-se em: ultra-secretos, secretos, confidenciais e
reservados.

As informações podem ou não estar contidas nos sistemas de informação ou nos


bancos de dados da Administração Pública, ou seja, de todos os órgãos da administração
federal, estadual ou municipal.

A tipicidade do fato depende da presença desse outro elemento normativo: sem justa
causa, já examinado anteriormente. O consentimento do interessado na manutenção do
sigilo da informação, quando esta for de seu exclusivo interesse, exclui a tipicidade.

O interesse da Administração Pública não se confunde com o interesse do governo. O


que a norma protege é o interesse daquela, que é o interesse público. Assim, só haverá
crime quando a divulgação importar em prejuízo para a Administração. Quando causar
danos apenas ao governo, não haverá crime.

Na primeira figura típica basta a divulgação da informação, mas na segunda é


necessário que ocorra algum prejuízo, de natureza material ou moral, qualquer prejuízo,
portanto, para a Administração Pública.
4 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

31.2.3 Elemento subjetivo

É crime doloso. Deve o agente ter consciência da conduta, da natureza sigilosa das
informações, da ausência de justa causa e a vontade livre de divulgá-las, realizando o tipo.
Errando sobre um desses elementos, a tipicidade desaparece por exclusão do dolo.

31.2.4 Consumação e tentativa

Consuma-se no instante em que o agente narra para pessoas indeterminadas o


conteúdo das informações protegidas. O prejuízo para a Administração Pública é apenas o
exaurimento do crime. Possível a tentativa, tanto quanto no crime de divulgação de
segredo.

31.3 ILICITUDE E CULPABILIDADE

A ilicitude será excluída no âmbito da própria tipicidade quando o agente age


devidamente autorizado pelo destinatário ou se tem o direito de revelar o segredo por razões
de interesse público, ainda quando contrariando o interesse do governo.

A culpabilidade pode ser excluída ou diminuída por erro de proibição, no caso de o


agente imaginar que está autorizado a divulgar o segredo ou que sua revelação atende a um
interesse relevante e justificado.

31.4 AÇÃO PENAL

Em relação à primeira figura típica, em que não há prejuízo para a administração, a


ação penal é pública condicionada à representação do ofendido, competente a justiça
estadual.

Na segunda é de iniciativa pública incondicionada, de competência da justiça


federal, se o interesse for da União.