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APROPRIAÇÃO DE COISA HAVIDA


POR ERRO, CASO FORTUITO OU
FORÇA DA NATUREZA

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49.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

Contém o art. 169 do Código Penal o seguinte tipo: “apropriar-se alguém de coisa
alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza”. A pena é
detenção, de um mês a um ano, ou multa.

Novamente, a norma penal protege o patrimônio da pessoa.

Qualquer pessoa pode ser sujeito ativo. Sujeito passivo é o proprietário da coisa
apropriada pelo agente.

49.2 TIPICIDADE

49.2.1 Conduta, elementos objetivos e normativos

O tipo descreve uma espécie de apropriação indébita. Contém o mesmo núcleo, busca
proteger o patrimônio, refere-se à coisa alheia móvel e pode ser praticado por qualquer
pessoa que esteja na posse ou detenção da coisa, sendo vítima o proprietário.

A conduta, assim, é idêntica à da apropriação indébita, já comentada.

A diferença está em que, na apropriação indébita, a coisa está em poder do agente em


razão de uma relação contratual, de um compromisso aceito por ela, ao passo que, no
crime do art. 169, a coisa vem ao poder do agente em virtude de erro, caso fortuito ou força
2 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

da natureza. Em outras palavras, a posse ou detenção da coisa não é transferida ao agente


através de um ato do proprietário.

Erro é a falsa percepção da realidade. A coisa pode ir ao poder do agente em


decorrência de erro de quem a entrega, incidente sobre a própria coisa ou de engano sobre
a pessoa a quem ela é entregue.

A coisa pode ser entregue por engano quando, encontrando-se oculta no interior de
outra, que a contém, passa à posse ou detenção do sujeito que, então, dela se apropria.
Esse erro incidiu sobre a própria coisa, que não deveria ser entregue. Seu proprietário, às
vezes, nem sabe que ela foi entregue ao agente.

Noutra situação, a coisa é entregue por engano à pessoa diversa da que deveria
recebê-la. O agente então dela se apropria. Nesse caso, o erro incide sobre a pessoa.

Caso fortuito é o acidental. A coisa vem ao poder do agente por si mesma, como é o
caso do semovente que se perde do rebanho ou do gado durante o transporte, ficando
retido em propriedade alheia. É o que se chama de arribada.

A coisa também pode ser levada para a posse ou detenção do agente pela ação de uma
força natural. Uma enchente ou uma ventania pode levar coisa à propriedade do vizinho
que, então, dela se apropria.

49.2.2 Elementos subjetivos

Também os elementos subjetivos desse tipo são os mesmos do tipo do art. 168.
Dolo, que é a vontade livre e consciente de se tornar dono da coisa alheia, passando a
exercer sobre ela os poderes inerentes à propriedade. Ânimo de assenhoreamento.

Indispensável que o agente tenha consciência da natureza da posse ou detenção que


exerce sobre a coisa, isto é, saiba que ela veio a sua posse por erro, caso fortuito ou força da
natureza. Deve, também, ter a intenção de locupletar-se em desfavor do proprietário.

Não há modalidade culposa.

Quando o agente percebe o erro, no momento em que a coisa está vindo a suas
mãos, aproveitando-se dessa circunstância para tê-la consigo visando a se apropriar, estará
cometendo estelionato, porque, nesse caso, é inegável sua intenção de obter vantagem
ilícita. É o dolo ab initio.

Haverá erro de tipo, excludente do dolo, quando o agente imagina que a coisa é sua
Apropriação de Coisa Havida por Erro, Caso Fortuno ou Força da Natureza - 3

ou lhe foi doada, desconhecendo, portanto, o verdadeiro título da posse ou detenção.

49.2.3 Consumação e tentativa

Consuma-se, na forma comissiva, quando o agente realiza ato de proprietário,


vendendo, ocultando, dispondo da coisa como se sua fosse. Na forma omissiva, quando se
recusa a devolvê-la a seu proprietário. Possível a tentativa no crime comissivo.

Será privilegiada a apropriação quando o agente for primário e a coisa tiver


pequeno valor.

As observações feitas na análise do art. 168 são pertinentes, cabendo ao leitor


considerá-las, no que couber.

49.3 AÇÃO PENAL

A ação penal é de iniciativa pública incondicionada, possível a suspensão


condicional do processo penal, nos termos do art. 89 da Lei nº 9.099/95. Será, todavia,
condicionada à representação do ofendido, se este for o cônjuge judicialmente separado,
irmão, tio ou sobrinho com quem o agente coabita (art. 182, I a III, CP).