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DISPOSIÇÃO DE COISA ALHEIA


COMO PRÓPRIA

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53.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

É também estelionato a conduta de “quem vende, permuta, dá em pagamento, em


locação ou em garantia coisa alheia como própria”. A pena é a mesma, reclusão, de um a
cinco anos, e multa (art. 171, § 2º, I, CP).

Protege-se o patrimônio.

Qualquer pessoa pode ser sujeito do crime. Sujeito ativo é quem realiza a conduta,
sujeito passivo quem sofre a lesão patrimonial.

53.2 TIPICIDADE

53.2.1 Conduta

São núcleos do tipo: vender, permutar, dar em pagamento, locar, dar em garantia
uma coisa alheia, como se própria fosse.

Conduta positiva. Nela o agente engana a vítima vendendo, permutando a coisa por
outra, locando-a ou dando-a em garantia de algum negócio.

53.2.2 Elementos objetivos e normativos

Vender é celebrar o contrato de compra e venda de que tratam os arts. 481 e seguintes
do Código Civil, através do qual uma pessoa “se obriga a transferir o domínio de certa
2 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

coisa, e o outro, a pagar-lhe certo preço em dinheiro”.

A venda de coisa móvel perfaz-se com a tradição, que é a entrega da coisa mediante o
recebimento do preço, mas o crime configura-se independentemente da tradição, bastando
o pagamento, que constitui o prejuízo para a vítima.

A venda de imóvel somente se realiza por meio de instrumento público, escritura de


compra e venda, bastando a lavratura desta para a realização do tipo, não sendo, pois,
exigido que seja levada ao registro imobiliário.

Só o proprietário da coisa pode vendê-la. Quem vende coisa alheia, enganando o


comprador, que pensa ser ele o proprietário, realiza o crime em comento. Comete esse
crime quem vende veículo automotor ou outro bem alienado fiduciariamente, ludibriando
o comprador que não sabe ser alheia a coisa comprada.

Vender não é prometer vender. Se há apenas a celebração de promessa de compra e


venda, não incide este tipo, mas o tipo do caput do art. 171.

Permutar é trocar uma coisa por outra, por meio de contrato regido pelas mesmas
normas já citadas, com as modificações do art. 533 do Código Civil. Quem troca coisa alheia,
apresentando-se como seu dono, comete o crime do art. 171, § 2º, II.

Locar é obrigar-se a ceder a uma pessoa, “por tempo determinado ou não, o uso e
gozo de coisa não fungível, mediante certa retribuição” (art. 565, CC).

Dar em pagamento é liquidar a dívida mediante a transferência do domínio de coisa,


que substitui a prestação originalmente pactuada.

Dar em garantia é empenhar, hipotecar ou dar em anticrese, o que só o proprietário


pode fazer.

O penhor é a “transferência efetiva da posse que, em garantia do débito ao credor ou


a quem o represente, faz o devedor, ou alguém por ele, de uma coisa móvel, suscetível de
alienação” (art. 1.431, CC). A anticrese é a cessão de imóvel ao credor, para que este
perceba, “em compensação da dívida, os frutos e rendimento” (art. 1.506, CC). A hipoteca
é a garantia constituída sobre bem imóvel, regulada pelos arts. 1.473 ss do estatuto civil.

O tipo menciona exclusivamente hipoteca, penhor e anticrese, de modo que, se o


objeto for outro direito, como na cessão de direitos hereditários inexistentes ou alheios e
na oferta de bens alheios à penhora, a conduta poderá amoldar-se ao tipo do caput do art.
171.
Disposição de Coisa Alheia como Própria - 3

Realizando as ações descritas no tipo, o agente dispõe sobre coisa alheia, como se lhe
pertencesse, causando, em decorrência, um prejuízo para a vítima que, como resta claro, é
lograda, ludibriada, enganada em sua boa-fé.

Se a coisa alheia encontrava-se licitamente na posse ou detenção do agente, sua


disposição como própria constituirá, como já se viu, a consumação do crime de
apropriação indébita do art. 168. Se se trata de coisa alheia furtada, igualmente, será post
factum impunível. Num e noutro desses casos, o agente responderá apenas pelo crime
antecedente, constituindo essa modalidade de estelionato o simples exaurimento do delito
patrimonial anterior.

53.2.3 Elementos subjetivos

Exige-se o dolo para o reconhecimento do tipo, devendo o agente estar consciente


de ser alheia a coisa que vende, permuta, loca ou dá em pagamento ou em garantia. Se erra
sobre esse elemento normativo, fica excluído o dolo e, portanto, a tipicidade, porque não
há modalidade culposa.

53.2.4 Consumação e tentativa

A consumação ocorre quando o agente obtém a vantagem ilícita em prejuízo da


vítima. Na hipótese de venda, no momento em que recebe o preço. Na permuta, quando
recebe a coisa permutada. Tendo locado a coisa alheia, há consumação no instante do
primeiro valor correspondente ao aluguel. Na dação em pagamento, com a quitação da
dívida.

Nessa última conduta típica, entretanto, de dação em garantia, penso que é preciso
distinguir duas situações.

Uma em que o agente contrai a dívida, dando a coisa alheia em garantia. A


consumação, nesse caso, ocorrerá com a obtenção do empréstimo, que ficará garantido por
coisa alheia, isto é, não garantido.

Outra situação é a da existência prévia da dívida em que o agente, solicitado pela


vítima, acaba por dar-lhe, em garantia, coisa alheia. Nesse caso, penso, a consumação
ocorre quando a vítima recebe a coisa em garantia. É que, nada obstante tratar-se de uma
4 – Direito Penal II – Ney Moura Teles

espécie de estelionato, o tipo deste inciso II não menciona expressamente o prejuízo como
resultado naturalístico, daí porque, tendo a vítima sido iludida na aceitação da coisa alheia
como garantia de dívida, há crime consumado.

A tentativa é possível.

53.2.5 Forma privilegiada e aumento de pena

Se o agente é primário e pequeno o valor do prejuízo, aplica-se a pena conforme


dispõe o § 2º do art. 155.

Se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público, ou de instituto


de economia popular, assistência social ou beneficência, a pena será aumentada de um
terço. Remete-se o leitor para os itens 52.2.5 e 52.2.6.

53.3 ILICITUDE

O credor anticrético, que recebe o imóvel do proprietário, que é seu devedor, para
perceber, em compensação da dívida, seus frutos e rendimentos, pode, à evidência, dar a
coisa em locação; de conseqüência, ao realizar a conduta do inciso II está agindo no
exercício regular de direito.

Também o usufrutuário tem direito à percepção dos frutos da coisa, que não lhe
pertence, podendo, pois, locá-la.

53.4 AÇÃO PENAL

A ação penal é pública incondicionada. É condicionada à representação do ofendido


que seja o cônjuge judicialmente separado, irmão, tio ou sobrinho com quem o agente
coabita (art. 182, I a III, CP).

Na forma típica sem causa de aumento, é possível a suspensão condicional do


processo penal, prescrita no art. 89 da Lei nº 9.099/95.