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EMPREGO IRREGULAR DE VERBAS


OU RENDAS PÚBLICAS

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90.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

No art. 315 do Código Penal está a descrição típica: “dar às verbas ou rendas
públicas aplicação diversa da estabelecida em lei”. A pena cominada é detenção, de um a
três meses, ou multa.

O bem jurídico protegido é a Administração Pública, especialmente a regularidade


da aplicação das verbas e rendas públicas.

Sujeito ativo é somente o funcionário público que tem poder de decidir sobre a
aplicação de verbas ou rendas públicas, o chefe do poder executivo, seus ministros ou
secretários, dirigentes de empresas públicas etc. Quando o crime é praticado pelo Prefeito
Municipal, incide a norma do art. 1º, inciso III, do Decreto-lei nº 201/67. Tratando-se do
Presidente da República ou dos Ministros de Estado, Governadores e Secretários de
Estado, poderão responder também por crime de responsabilidade definido no art. 11 da
Lei nº 1.079/50, sancionado com a perda do cargo e inabilitação para o exercício de
qualquer função pública, por cinco anos, em processo político.

O não-funcionário pode ser co-autor ou partícipe do crime.

Sujeito passivo é o Estado, o ente público, União, Estado, Município, autarquia,


empresa pública etc.

90.2 TIPICIDADE

90.2.1 Conduta e elementos do tipo

O núcleo do tipo é o verbo dar, no sentido de empregar ou aplicar verbas ou rendas


2 – Direito Penal III – Ney Moura Teles

públicas.

Verbas são os valores monetários que, segundo a lei orçamentária, devem ser
empregados em determinados serviços ou fins de utilidade pública. A lei determina o
serviço ou a finalidade em que devem ser aplicadas as verbas e só a lei pode modificá-lo. Ao
administrador cabe observar as regras impostas.

Rendas são os valores que a Administração Pública arrecada ou percebe de qualquer


modo ou os que lhe pertencem, a qualquer título. Igualmente só poderão ser aplicadas em
conformidade com as leis que tratam dos orçamentos públicos.

A realização do tipo não exige a obtenção de vantagem para o agente ou outra pessoa,
podendo, inclusive, não haver qualquer lesão ao erário, porque o fato incriminado é
simplesmente a aplicação indevida das verbas ou rendas públicas, que se dá em outros
serviços ou fins públicos. A aplicação é irregular, mas é feita em benefício da própria
Administração Pública. O que a norma pune é o desrespeito à lei orçamentária, o que afeta
a regularidade da ação administrativa.

Cuida-se de crime doloso. O agente conhece a lei orçamentária, sabe que está
aplicando o dinheiro público em finalidade diversa da estabelecida e atua com vontade
livre, sem qualquer outro fim especial.

90.2.2 Consumação e tentativa

A consumação acontece no instante em que a verba ou renda pública é efetivamente


aplicada.

A tentativa é possível desde que haja início de execução do procedimento típico, o que
se dá, por exemplo, quando o agente determina a aplicação irregular, a qual, todavia, não é
concretizada por circunstâncias alheias à sua vontade.

90.3 ILICITUDE

Situações emergenciais, de calamidade pública, por exemplo, podem levar o agente a


modificar o destino das verbas ou rendas públicas sem autorização legal, socorrendo
vítimas ou construindo obras exigidas pela situação, o que constitui estado de necessidade,
excludente da ilicitude.
Emprego Irregular de Verbas ou Rendas Públicas - 3

90.4 AÇÃO PENAL

A ação penal é de iniciativa pública incondicionada, competente o juizado especial


criminal, possível a suspensão condicional do processo penal.