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CONDESCENDÊNCIA CRIMINOSA

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96.1 CONCEITO, OBJETIVIDADE JURÍDICA E SUJEITOS DO


CRIME

No art. 320 do Código Penal está definido o delito denominado condescendência


criminosa, assim:

“deixar o funcionário, por indulgência, de responsabilizar subordinado que


cometeu infração no exercício do cargo ou, quando lhe falte competência, não
levar o fato ao conhecimento da autoridade competente”.

A pena: detenção, de quinze dias a um mês, ou multa.

O bem jurídico tutelado é a Administração Pública, é o interesse na lisura do


comportamento dos funcionários públicos e sua responsabilização pela prática de conduta
infracional de seu dever.

Sujeito ativo é o funcionário público que seja superior hierárquico de outro, possível a
participação de não-funcionário.

Sujeito passivo é o Estado.

96.2 TIPICIDADE

96.2.1 Conduta e elementos do tipo

Cuida-se de crime omissivo puro. Realiza-se por duas formas. Na primeira o agente,
superior hierárquico de um funcionário que cometeu infração no exercício do cargo, deixa
de responsabilizá-lo. Na segunda, não tendo o agente competência administrativa para
2 – Direito Penal III – Ney Moura Teles

promover a responsabilização do funcionário faltoso, deixa de levar o fato ao conhecimento


da autoridade competente para tal.

Para a realização do tipo é indispensável que entre o agente e o funcionário que


comete a infração exista uma relação de subordinação hierárquica.

Além disso, é necessário que o funcionário subordinado pratique uma infração, penal
ou administrativa, no exercício de seu cargo. Não basta a condição de subordinado, nem a
prática da infração, esta deve guardar nexo de causalidade com o exercício do cargo que
ocupa. Condutas praticadas pelo subordinado fora do exercício do cargo, ainda que
configurem faltas disciplinares, não são alcançadas pelo tipo penal.

O agente – tendo o dever de promover a responsabilização do subordinado,


instaurando o procedimento com vistas na apuração dos fatos e na aplicação das sanções
cabíveis – comete o delito ao omitir-se em seu dever legal. Ou, não sendo o competente,
tem o superior hierárquico o dever de comunicar o fato à autoridade competente, mas
omite-se, cometendo o crime em comento.

A omissão deve ser dolosa, portanto, consciente o agente de que o subalterno


praticou infração, penal ou administrativa, no exercício do cargo, agindo com vontade
livre de omitir-se. Além disso, deve atuar por indulgência, que é a compaixão, a
condescendência, a complacência, a tolerância. Se agir por interesse ou sentimento
pessoal, o crime será o de prevaricação. Se para obter vantagem indevida, a pedido de
alguém, poderá realizar o tipo de corrupção passiva.

96.2.2 Consumação e tentativa

Consuma-se a condescendência criminosa no instante em que o agente, tomando


conhecimento da infração praticada pelo subordinado, deixa de praticar os atos iniciais
visando a sua responsabilização ou, não sendo competente, deixa de comunicar ao
funcionário competente para agir.

Não é possível a tentativa, como acontece em todo crime omissivo puro.

96.2.3 Aumento de pena

Se o agente ocupa um cargo em comissão ou exerce função de direção ou


assessoramento de órgão da administração direta, de sociedade de economia mista,
Condescendência Criminosa - 3

empresa pública ou fundação instituída pelo poder público, a pena será aumentada de um
terço (art. 327, § 2º).

Não há esse aumento de pena quando o agente é dirigente ou exerce função de


assessoramento em empresa privada conveniada ou contratada para executar atividade
típica da administração pública.

96.3 AÇÃO PENAL

A ação penal é de iniciativa pública incondicionada, competente o juizado especial


criminal, possível a suspensão condicional do processo penal.