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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA

JAST Nº 70017169335

2006/CÍVEL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL AGRAVO DE INSTRUMENTO. INVENTÁRIO. ART. 1.790, III, DO

AGRAVO DE INSTRUMENTO. INVENTÁRIO. ART. 1.790, III, DO CC/02. Tendo o Órgão Especial deste Tribunal julgado improcedente a argüição de inconstitucionalidade n.º 70029390374, reconhecendo a constitucionalidade do art. 1.790, III, deixa-se de suscitar novo incidente, apreciando-se o mérito do recurso, concluindo pelo provimento do mesmo.

Recurso provido.

AGRAVO DE INSTRUMENTO

Nº 70017169335

OITAVA CÂMARA CÍVEL

COMARCA DE PORTO ALEGRE

VERA

MARIA

DE

FREITAS

AGRAVANTE

BARCELLOS

 

OTAVIO

AUGUSTO

DE

FREITAS

AGRAVANTE

BARCELLOS

 

MARISA SOARES DA ROCHA

 

AGRAVADO

SUCESSAO DE PAULO CESAR DE FREITAS BARCELLOS

A CÓ R DÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

INTERESSADO

Acordam os Desembargadores integrantes da Oitava Câmara

Cível do Tribunal de Justiça do Estado, à unanimidade, em dar provimento

ao recurso, nos termos dos votos a seguir transcritos.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário, os eminentes

Senhores DES. CLAUDIR FIDÉLIS FACCENDA (PRESIDENTE) E DES.

ALZIR FELIPPE SCHMITZ.

Porto Alegre, 28 de janeiro de 2010.

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DES. JOSÉ S. TRINDADE, Relator.

R E L AT Ó RI O

DES. JOSÉ S. TRINDADE (RELATOR)

Ação. Trata-se de ação de inventário.

Partes: Agravantes: V.M.F.B. e O.A.F.B

Agravada: M.S.R.

Partes: Agravantes: V.M.F.B. e O.A.F.B Agravada: M.S.R. Decisão recorrida . A decisão de fls. 16/18 e

Decisão recorrida. A decisão de fls. 16/18 e 20, declarou inconstitucional a norma prevista no art. 1790, inc. III, do CC, por afronta ao art. 226, § 3º, da CF e determinou a exclusão dos parentes colaterais da sucessão. Indeferiu, ainda, o pedido de reserva de bens.

Objeto. Agravo de instrumento com pedido para que seja feita a reserva de bens suficientes para atender os direitos hereditários dos irmãos do falecido, por expressa disposição do art. 1790 do CC, ao menos, até que, em sede própria, se impugne a constitucionalidade do referido dispositivo legal.

Razões recursais: Alegam os insurgentes que a matéria atinente a inconstitucionalidade da nova regra sucessória instituída pelo art. 1790 do CC que entrou em vigor antes do óbito do inventariado, bem como a inaplicabilidade da atual disposição legal à situação sub judice, de igual sorte, seria de alta indagação, não tendo sido sequer examinada pelos Tribunais Superiores, a ensejar a remessa da discussão para outra sede que não os estreitos limites do inventário. Referem que a agravada está há cerca de três anos na posse, uso e gozo, do vultoso patrimônio, que incluiu herança havida pelo de cujus por falecimento de sua mãe, e que, sob hipótese alguma, poderia se comunicar com os bens da inventariante, ora recorrida. Sustentam que a decisão agravada atribui à companheira condição superior à de mulher casada, e não igual. Salientam que o

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL tratamento das relações afetivas, no âmbito do direito

tratamento das relações afetivas, no âmbito do direito de família, sempre foi diferente do tratamento dado ao direito sucessório. Asseveram que o art. 1790, inc. III, do CC deve prevalecer. Afirmam que se a companheira tem os mesmos direitos da cônjuge supérstite, no caso, como não houve formalização de qualquer pacto anterior ao início do relacionamento more uxorio, acerca do regime de bens, o regime a ser aplicado é o legal (comunhão parcial), hipótese em que a companheira tem direito àqueles adquiridos na constância da união estável, e tão somente a estes bens, e não a todo o patrimônio amealhado ao longo da vida pelo falecido. Destacam que o art. 1790 do CC não é inconstitucional, o qual já estava em vigor na data do óbito, que apenas restabelece, em parte, a situação anterior à própria Lei nº 8.971, com vantagem para a companheira, vez que, agora, além de meeira, herda parcela considerável dos bens que tocariam aos herdeiros colaterais. Mencionam que deve ser ressalvada a herança recebida pelo de cujus pelo falecimento de sua genitora, já que o regime de bens atribuído pelo magistrado ao caso foi o da comunhão parcial. Pede o provimento do recurso, para que seja feita a reserva de bens suficientes para atender os direitos hereditários dos irmãos do falecido, por expressa disposição do art. 1790 do CC, ao menos, até que, em sede própria se impugne a constitucionalidade do referido dispositivo legal (fls. 02/13).

Juízo de admissibilidade. O recurso é próprio, tempestivo e preparado (fl. 22).

restou

Efeito indeferida (fl. 27).

Contra-razões: Ao contra-arrazoar, a recorrida pugna pela confirmação da decisão agravada (fls. 33/64).

Ministério Público: Em parecer de fls. 91/93 v., o Procurador de Justiça opinou pelo provimento do recurso.

suspensivo.

A

suspensividade

pleiteada

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL Acórdão. Às fls. 97/106 foi proferido acórdão por

Acórdão. Às fls. 97/106 foi proferido acórdão por esta 8ª Câmara Cível, que, por maioria, rejeitou o incidente de inconstitucionalidade e negou provimento ao agravo de instrumento.

Recurso especial. Do julgamento supra citado foi interposto recurso especial (fls. 113/1120), o qual foi admitido neste Tribunal (fls. 200/203) tendo, no entanto, seu seguimento negado pelo STJ (fls. 207/209).

Recurso extraordinário. Contra o acórdão desta Câmara também foi interposto recurso extraordinário (fls. 122/132), ao qual foi negado seguimento pela 3ª Vice-Presidência deste Tribunal de Justiça (fls.

200/203).

Agravo de instrumento contra decisão da 3ª Vice- Presidência. Nos autos em apenso encontra-se o recurso interposto contra o despacho que inadmitiu o recurso extraordinário, tendo sido ofertadas contra-razões pela parte adversa.

Decisão do STF. Remetidos os autos ao STF, o Relator, Ministro Carlos Ayres Britto, deu provimento ao agravo de instrumento, interposto contra decisão que negou seguimento ao recurso extraordinário, e, quando do julgamento deste último recurso, monocraticamente, deu provimento ao mesmo, cassando o acórdão proferido por esta 8ª Câmara Cível e determinando o retorno dos autos a este Tribunal de Justiça, a fim de que se proceda novo julgamento, nos termos do art. 97 da CF.

É o relatório.

V O TO S

DES. JOSÉ S. TRINDADE (RELATOR)

O presente agravo de instrumento retorna para julgamento nesta Câmara, em razão da decisão monocrática proferida pelo Ministro CARLOS AYRES BRITTO, do colendo Supremo Tribunal Federal, em sede

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2006/CÍVEL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL do Recurso Extraordinário n.º 597/952/RS, que cassou o

do Recurso Extraordinário n.º 597/952/RS, que cassou o acórdão de fls.

97/106.

No acórdão de fls. 97/106, esta Câmara, por maioria, rejeitou a suscitação do incidente de inconstitucionalidade do art. 1.790,III, do CC/02, ante o Órgão Especial, e desproveu, também por maioria, o AI n.º 70017169335, entendendo que não se aplicava a regra contida no art. 1.790, III, do CC/02, por afronta aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e de igualdade, mantendo, assim, a exclusão dos parentes colaterais da sucessão, tendo a companheira o direito a totalidade da herança.

Através do agravo de instrumento interposto perante o Supremo Tribunal Federal, que se encontra em apenso, referido acórdão foi cassado, como se disse, pelo eminente Ministro Relator do precitado Recurso Extraordinário, sob o fundamento de que esta Câmara, no acórdão de fls. 97/106, afastou a aplicação do inciso III do art. 1.790 do CC/02 no caso concreto, sem a observância do disposto no art. 97 da Constituição Federal.

Sustenta o Ministro, também, que incide a Súmula Vinculante n.º 10 do STF, a qual dispõe que “Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, art. 97) a decisão do órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público, afasta a sua incidência no todo ou em parte”.

Assim, conforme se vê da decisão que se encontra às fls. 279/282 do apenso, o acórdão proferido no presente agravo de instrumento foi expressamente cassado, “a fim de que se proceda a novo julgamento, nos termos do art. 97 da Constituição Federal”.

A matéria sempre foi controvertida nas Câmaras integrantes do presente 4.º Grupo Cível.

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2006/CÍVEL

TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL Desde a vigência do Código Civil de 2002,

Desde a vigência do Código Civil de 2002, firmei posicionamento no sentido de que não se aplicava a regra contida no art. 1.790, no inc. III, do CC/02, por afronta aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e de igualdade, já que o art. 226, § 3º, da CF, deu tratamento paritário ao instituto da união estável em relação ao casamento. Nesse sentido votei no presente recurso, cujo acórdão foi cassado.

Assim, meu entendimento era efetivamente no mesmo sentido do externado na decisão interlocutória agravada (fls. 16/18). Contudo, recentemente o colendo Órgão Especial deste Tribunal, em sessão realizada em 09 de novembro de 2009, julgou a Arguição de Inconstitucionalidade n.º 70029390374, e vencido o relator, o eminente Des. Leo Lima, redatora para o acórdão a eminente Desa. Maria Isabel de Azevedo Souza, o julgamento foi de improcedência da argüição, pela grande maioria, reconhecendo-se a constitucionalidade do art. 1.790, III, do Código Civil. Embora o acórdão oriundo da precitada argüição de inconstitucionalidade, no Órgão Especial, não tenha sido publicado ainda, seu resultado foi proferido na sessão respectiva, e tem conhecimento este relator que os fundamentos para reconhecer a constitucionalidade do art. 1.790, III, do CC/02, pela douta maioria, é que não há equiparação constitucional entre a união estável e o casamento, e que também o legislador, no Código Civil, valendo-se da Constituição Federal, tratou diferentemente os dois institutos – união estável e casamento, sendo uma escolha do legislador que não leva à inconstitucionalidade do precitado dispositivo, conforme fundamentou a redatora para o acórdão, Desa. Maria Isabel de Azevedo Souza. Assim, devendo ser aplicado o art. 211 do RITJRGS, que dispõe expressamente que “A decisão declaratória ou denegatória da

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL inconstitucionalidade, se proferida por maioria de dois

inconstitucionalidade, se proferida por maioria de dois terços, constituirá, para o futuro, decisão de aplicação obrigatória em casos análogos, salvo se algum órgão fracionário, por motivo relevante, entender necessário provocar pronunciamento do Órgão Especial sobre a matéria”, outro caminho não há senão prover-se o agravo de instrumento e desconstituir a decisão interlocutória que excluiu os parentes colaterais da sucessão de Paulo César.

DES. CLAUDIR FIDÉLIS FACCENDA (PRESIDENTE)

Estou votando pelo provimento do recurso.

Na medida em que o colendo OE já se manifestou sobre o tema, mesmo que em decisão ainda não publicada, não há razão para que se submeta, novamente, a matéria ao OE. Com a decisão do colegiado maior, em sede de incidente de insconstitucionalidade, tenho que as Câmaras separadas e o próprio Grupo devem alinhar-se a decisão superior, evitando-se, com isso, retardo nos julgamentos dos feitos que chegam e, especialmente, insegurança jurídica.

Portanto, reconhecida a constitucionalidade do art. 1.790, inc. III, do CCB, o recurso deve ser provido.

DES. ALZIR FELIPPE SCHMITZ

Considerando que o Tribunal Pleno, Órgão Especial já se pronunciou pela constitucionalidade do artigo 1790, inciso III, do CCB, embora ainda não publicada a decisão, estou em, acompanhando o voto do eminente Des. Claudir Fidélis Faccenda, dar provimento ao recurso, aliás, como proposto pelo douto relator.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA JAST N º 70017169335 2006/CÍVEL DES. CLAUDIR FIDÉLIS FACCENDA - Presidente - Agravo

DES. CLAUDIR FIDÉLIS FACCENDA - Presidente - Agravo de Instrumento nº 70017169335, Comarca de Porto Alegre: "DERAM PROVIMENTO. UNÂNIME."

Julgador(a) de 1º Grau: CAIRO ROBERTO RODRIGUES MADRUGA