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FRAGMENTOS DE UMA

ANTROPOLOGIA ANARQUISTA
DAVID GRAEBER

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Capa e editoração : Paulo Capra Tradução e Revisão: Coletivo Protopia S.A Agradecimento especial pelo esforço: Guilherme Heurich, Luiz Felipe Murillo e Rebeca Hennemann Vergara de Souza Graeber, David, Fragmentos de uma antropologia anarquista / David Graeber; Tradução Coletivo Protopia S. A – Porto Alegre; Deriva, 2011. ISBN: 978-85-62628-36-8

Este livro não possui copyright. Pode e deve ser reproduzido para fins não comerciais no todo ou em parte, além de ser liberada sua distribuição, preservando o nome do autor.

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’’Anarquismo: O nome dado a um princípio ou teoria de vida e conduta em que uma sociedade é concebida sem governo – harmonia em tal sociedade sendo obtida, não pela submissão a lei, ou pela obediência a qualquer autoridade, mas pelos livres acordos firmados entre diversos grupos, territoriais e profissionais, livremente constituídos com a finalidade de produzir e consumir, bem como de satisfazer uma infinita variedade de necessidades e aspirações de um ser civilizado.’’ Piotr Kropotkin, Enciclopédia Britânica

’’Basicamente, se você não é um utópico, é um imbecil.’’ Jonothon Feldman, Indigenous Planning Times

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SUMáRIO
Apresentação.............................................05 Por que existem tão poucos anarquistas na academia?........................07 Graves, Brown, Mauss, Sorel....................27 A antropologia anarquista que quase já existe....................................41 Explodindo barreiras................................69 Premissas de uma ciência inexistente..................................113 Algumas ideias sobre rumos de Pensamentos e Organização...................137 Antropologia...........................................167

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APRESENTAçãO
O que se segue é uma série de reflexões, rascunhos de teorias em potencial e pequenos manifestos – tudo com o intuito de permitir vislumbrar o esboço de uma teoria radical que não existe de fato, embora ela possa existir em algum momento futuro. Uma vez que existem boas razões pelas quais uma antropologia anarquista deva existir, poderíamos começar nos perguntando por que ela não existe – ou, nesse mesmo sentido, por que uma sociologia anarquista não existe; ou uma teoria econômica anarquista; ou uma teoria literária anarquista; ou, ainda, uma ciência política anarquista.

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POR QUE ExISTEM TãO POUcOS ANARQUISTAS NA AcADEMIA?
Esta é uma questão pertinente já que enquanto filosofia política, o anarquismo de fato está crescendo neste momento. Anarquistas ou movimentos inspirados pelo anarquismo estão surgindo em todos os cantos; os princípios tradicionais do anarquismo – autonomia, associação voluntária, autogestão, ajuda mútua, democracia direta – estão na base organizacional do movimento antiglobalização, assim como em movimentos radicais em todos os lugares. Revolucionários no México, Argentina, Índia e demais lugares, têm cada vez mais deixado de falar sobre tomar o poder. Está se germinando entre eles ideais radicais distintos sobre qual seria o significado da revolução. A maior parte das pessoas assume abertamente que tem receio de empregar a palavra “anarquista” em suas práticas. Mas como Barbara Epstein recentemente colocou, o anarquismo de longe

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tomou o lugar do marxismo nos movimentos sociais dos anos 60: mesmo aqueles que não se consideravam anarquistas perceberam que teriam que se posicionar em relação ao anarquismo e recorrer a suas ideias. Ainda assim, todo este fenômeno não se tornou alvo de nenhuma reflexão dentro da academia. A maior parte dos acadêmicos parece ter apenas uma ideia vaga do que o anarquismo defende; ou o reduz a estereótipos que apenas evidenciam sua própria ignorância (“Organização anarquista! Mas isso não é uma contradição em termos?”). Nos Estados Unidos existem várias centenas de acadêmicos marxistas das mais variadas linhas, mas dificilmente encontramos algumas dúzias de especialistas que se considerem anarquistas. Então seria a academia um espaço de exceção da ampliação do anarquismo? É possível. Talvez em alguns anos a academia seja amplamente ocupada por anarquistas. Mas não estou esperando para ver. Parece que o marxismo tem uma afinidade com a academia que o anarquismo nunca terá. O marxismo

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foi, no final de contas, o único grande movimento social inventado por um Ph.D., mesmo que depois tenha se tornado um movimento que pretendia se vincular à classe trabalhadora. A princípio, a maioria dos relatos históricos a respeito do anarquismo sugere que sua origem seria basicamente similar: o anarquismo teria surgido como fruto das cabeças de certos pensadores do século XIX – Proudhon, Bakunin, Kropotkin, etc. – e depois inspiraria as organizações da classe trabalhadora e começaria a envolver-se em lutas políticas, divididas em seitas... O anarquismo, nesse tipo de relato comum, normalmente aparece como o primo pobre do Marxismo, teoricamente malformado, mas com paixão e sinceridade, compensado por algumas mentes. Porém, na melhor das hipóteses, a analogia é meio forçada. Os “pais fundadores” não se pensavam como inventores de algo novo. Os princípios básicos do anarquismo – auto-organização, associação voluntária, ajuda mútua – faziam referência a formas de comportamento humano que se pensava existir desde o início da humanidade. O mesmo vale para a rejeição ao Estado e a

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todas as formas de violência estrutural, desigualdade, ou dominação (anarquismo significa literalmente “sem governantes”), inclusive para a premissa de que todas essas formas estão, de alguma forma, relacionadas e reforçam umas às outras. Nada disso foi apresentado como uma doutrina brilhantemente nova. E de fato não era: podemos encontrar registros de pessoas defendendo posições similares por toda a história – ainda que haja razão para acreditar que, em grande parte dos momentos históricos e lugares, tais opiniões fossem as menos prováveis de terem sido colocadas no papel. Estamos falando, então, mais de uma atitude do que um corpo teórico, ou talvez, alguém poderia dizer, de uma fé: a rejeição de certos tipos de relações sociais; a confiança de que outras relações sociais seriam muito melhores na constituição de uma sociedade e a crença de que tal sociedade poderia de fato vir a existir. Mesmo se compararmos as escolas históricas do marxismo e do anarquismo, podemos perceber que lidamos com projetos completamente distintos. Escolas

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marxistas possuem autores. Assim como o marxismo veio da cabeça de Marx, temos os Leninistas, Maoístas, Trotskistas, Gramscianos, Althusserianos... (Note que a lista começa com chefes de estado e desloca-se, sem nenhuma costura, até professores franceses). Pierre Bourdieu percebeu, certa vez, que, se o campo acadêmico é um jogo no qual estudiosos lutam pelo domínio, então você sabe que ganhou quando outros estudiosos começam a pensar sobre como fazer de seu nome um adjetivo. E é, presumivelmente, para preservar a possibilidade de ganhar o jogo que os intelectuais insistem, ao discutir entre eles, em dar continuidade a este tipo de teoria histórica de Grandes Homens, rejeitando qualquer outro contexto. As ideias de Foucault, assim como as de Trotsky, nunca são tratadas como o produto de um certo meio intelectual – como algo que emergiu de conversas infindáveis e argumentos envolvendo centenas de pessoas – mas sempre como se tivessem emergido da genialidade de um homem singular (ou, ocasionalmente, de uma mulher). E tam-

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bém não é que a política marxista tenha se organizado como uma disciplina acadêmica ou que tenha se tornado um modelo para a maneira como os intelectuais radicais, ou cada vez mais, todos os intelectuais, tratam a si mesmos; ao invés disso, ambas se desenvolveram uma depois da outra. Pela perspectiva da academia, isso levou a muitos resultados salutares: o sentimento de que deveria haver alguma centralidade na moral, de que as preocupações acadêmicas deveriam ser relevantes para a vida das pessoas – porém, também levou a muitos resultados desastrosos: transformou muito do debate acadêmico numa paródia da política sectária, com cada um tentando reduzir o discurso do outro a caricaturas ridículas de forma a declará-las não somente erradas, mas também maléficas e perigosas – mesmo que o debate geralmente se desenrole em uma linguagem tão enigmática que quem não puder bancar cinco anos de graduação não é capaz de saber que o debate está de fato acontecendo. Agora considere as diferentes escolas do anarquismo. Há anarcossindicalistas,

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anarcocomunistas, insurrecionários, cooperativistas, individualistas, plataformistas... Nenhuma delas recebe seu nome a partir de algum Grande Pensador; ao invés disso, elas são invariavelmente nomeadas com base em uma prática ou, mais frequentemente, devido a um princípio organizacional. (De forma significante, as tendências marxistas que não possuem o nome de indivíduos – tal como o Autonomismo ou o Comunismo de Conselhos – são as mais próximas do anarquismo). Anarquistas gostam de se distinguir dos outros pelo que fazem e pela forma como se organizam para fazê-lo. E, de fato, os anarquistas gastaram a maior parte do seu tempo pensando e discutindo sobre isso. Anarquistas nunca tiveram muito interesse nas amplas questões filosóficas e estratégicas que preocuparam historicamente os Marxistas – questões como: são os camponeses uma classe potencialmente revolucionária? (Anarquistas pensam que isso é algo que os camponeses devem decidir.) Qual a natureza da forma mercadoria? Em vez disso,

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eles tendem a discutir sobre qual é de fato a forma mais democrática de se tocar uma reunião, em que ponto uma organização deixa de possibilitar o empoderamento e começa a esmagar a liberdade individual. Ou, por outro lado, sobre as questões éticas implicadas na oposição ao poder: o que é ação direta? É necessário (ou correto) condenar publicamente alguém que assassinou um chefe de Estado? Pode o homicídio – especialmente se for para evitar algo terrível como uma guerra – ser um ato moral? Quando se pode quebrar uma janela? Em resumo, então:
1 – O marxismo tendeu a ser um discurso analítico e teórico sobre estratégia revolucionária. 2 – Anarquismo tendeu a ser um discurso ético sobre prática revolucionária.

Obviamente, tudo o que eu disse foi um pouco caricatural (houve grupos anarquistas extremamente sectários, e muitos marxistas libertários orientados para a prá-

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tica, incluindo, discutivelmente, eu mesmo). Porém, mesmo dito dessa forma, isso sugere uma boa dose de complementaridade potencial entre os dois. E de fato ela existiu: mesmo Mikhail Bakunin, com suas batalhas infindáveis com Marx sobre questões práticas, traduziu pessoalmente O capital, para o russo. Mas isso também ajuda a entender porque existem tão poucos anarquistas na academia. Não é que o anarquismo não tenha tendência a ser empregado em teorias de alto nível. É que ele está mais preocupado com questões práticas; e que, antes de mais nada, nossos meios devem estar de acordo com nossos fins; não se pode criar liberdade por meios autoritários; na verdade, é preciso incorporar o máximo possível, nas relações com inimigos e aliados, a sociedade que se quer criar. Isso não combina muito bem com atuar dentro de uma universidade, talvez a única instituição ocidental – com exceção da igreja católica e da monarquia britânica – que tenha sobrevivido à Idade Média com o mesmo formato, realizando duelos intelectuais em

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conferências em hotéis caríssimos e tentando fingir que isso, de alguma forma, dá continuidade à transformação. Ao menos, imaginaríamos que ser um professor abertamente anarquista significaria desafiar a forma como as universidades são dirigidas – e tampouco me refiro a demandar um departamento de estudos anarquistas – e isso, é claro, trará problemas muito maiores que qualquer coisa que se possa escrever.

Isso não significa que teorias anarquistas sejam impossíveis
Isso não significa que anarquistas tenham que ser contra teoria. Afinal de contas, anarquismo é, em si, uma ideia, mesmo que seja uma ideia bem antiga. E é também um projeto, o qual se dirige para a criação das instituições de uma nova sociedade “dentro da casca da antiga”; para expor, subverter e minar as estruturas de dominação, mas sempre, enquanto o faz, procedendo de modo democrático, uma

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maneira que demonstra como tais estruturas são desnecessárias. Qualquer projeto desse tipo, claramente, precisa de ferramentas de compreensão e análise intelectual. Talvez não precise de Grandes Teorias (High Theory), no sentido hoje familiar do termo. Certamente, não precisará de uma única Grande Teoria Anarquista. Isso seria completamente distante de seu espírito. Muito melhor, penso eu, seria algo com o espírito dos processos anarquistas de tomada de decisão, aplicados em tudo, desde pequenos grupos de afinidade até conselhos gigantes de milhares de pessoas. Muitos grupos anarquistas operam através de um processo de consenso, o qual tem sido desenvolvido, de várias formas, para ser o extremo oposto dos processos arbitrários, divisores e sectários tão populares entre outros grupos radicais. Aplicado à teoria, isso implicaria em aceitar a necessidade de uma diversidade de grandes perspectivas teóricas, unidas somente por alguns compromissos e entendimentos mútuos. No consenso, todo mundo concorda, desde

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o início, com alguns princípios amplos de unidade e sentido de existência do grupo; mas, além disso, aceita-se como uma coisa natural que ninguém vai converter completamente uma pessoa ao seu ponto de vista, e que provavelmente seja melhor nem tentar; e que, portanto, a discussão deve focar em questões concretas relativas à ação e à elaboração de um plano com o qual todos consigam conviver e no qual ninguém sinta que seus princípios tenham sido fundamentalmente violados. Podemos ver um paralelo aqui: diversas perspectivas, conectadas por um desejo compartilhado de compreender a condição humana, e movê-la na direção de uma liberdade maior. Ao invés de estarem baseadas na necessidade de provar que suposições fundamentais dos outros estão erradas, tentar encontrar interesses particulares que reforcem uns aos outros. Somente porque as teorias são incomensuráveis em alguns aspectos não significa que não possam coexistir ou inclusive se reforçarem mutuamente; da mesma forma que o fato dos indivíduos terem visões de

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mundo únicas e incomensuráveis não significa que não possam se tornar amigos, ou amantes, ou trabalhar em projetos comuns. Ainda mais que Grande Teoria, o que o anarquismo precisa é o que pode ser chamado de Pequena Teoria: uma forma de agarrar as questões reais e imediatas que emergem de um projeto transformador. O mainstream das Ciências Sociais realmente não ajuda muito, porque normalmente, no mainstream das Ciências Sociais, esse tipo de coisa é geralmente classificada como “assuntos políticos”, e nenhum anarquista com respeito próprio teria alguma coisa a ver com isso.
Contra políticas públicas (um manifesto minúsculo)1 A noção de “políticas públicas” pressupõe um Estado ou aparato governamental que impõe sua vontade sobre os outros. “Políti1 A distinção policy/politics na língua inglesa não possui equivalente no Português. Por esse motivo, traduzimos “policy” por política publica (expressão que se encontra mais próxima e pode ser entendida com base no contexto de ocorrência), e “politics” por política (em sentido amplo) (Nota do T.)

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ca públicas” [policy] é a negação da política; políticas públicas é, por definição, algo concebido por algum tipo de elite, a qual presume saber melhor do que os outros como os assuntos deles devem ser conduzidos. Ao participar em debates de políticas públicas, o melhor que se pode fazer é reduzir os danos, visto que a própria premissa é inimiga da ideia de que as pessoas devem administrar os seus próprios assuntos.

Então, nesse caso, a questão se torna: que tipo de teoria social seria de verdadeiro interesse para os que estão tentando ajudar a produzir um mundo em que as pessoas sejam livres para governar suas próprias questões? Este panfleto é essencialmente sobre isso. Para começar, eu diria que tal teoria teria que iniciar com algumas suposições básicas. Não muitas. Provavelmente duas. Primeiro, teria que partir da suposição que, tal como diz aquela cantiga brasileira, “um outro mundo é possível”. Pressupor que instituições como Estado, capitalismo, racismo e dominação masculina não são inevitáveis; que seria

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possível haver um mundo onde essas coisas não existissem e que, como resultado, estaríamos todos melhores com isso. Comprometer-se com um princípio desses é quase um ato de fé, pois como podemos ter certeza dessas coisas? Talvez seja possível que um mundo desses não seja possível. Mas também poderíamos argumentar que essa mesma indisponibilidade de um conhecimento absoluto é o que faz do comprometimento com o otimismo um ato moral: visto que não podemos saber se um mundo radicalmente melhor é algo impossível, não estamos traindo a todo mundo ao insistir em continuar justificando, e reproduzindo, a bagunça que temos hoje? E, de qualquer jeito, mesmo se estivermos errados, talvez cheguemos muito mais perto.
Contra o antiutopismo (outro manifesto minúsculo) Aqui, é claro, precisamos lidar com uma objeção inevitável: que o utopismo levou ao horror absoluto quando Stalinistas, Maoístas e outros idealistas tentaram

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esculpir formas impossíveis na sociedade, matando milhões no processo.

Esse argumento esconde um erro fundamental: que imaginar mundos melhores era o problema em si. Stalinistas e sua corja não matavam porque sonhavam grandes sonhos – na verdade, Stalinistas eram famosos por serem um pouco limitados na imaginação – mas porque achavam erroneamente que seu sonhos fossem certezas científicas. Isso os levou a pensar que tinham o direito de impor suas visões através de uma máquina de violência. Anarquistas não propõem coisas desse tipo, de nenhuma forma. Eles entendem que o curso da história não é inevitável e que o curso da liberdade não pode ser desenvolvido através da criação de novas formas de coerção. De fato, todas as formas de violência sistêmica são (entre outras coisas) agressões ao papel que a imaginação cumpre enquanto um princípio político; e o único meio de começar a pensar em eliminar a violência sistemática é reconhecendo isso. E, é claro, poderíamos escrever livros muito longos sobre as atrocidades cometi-

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das, ao longo da história, por cínicos e outros pessimistas... Essa é, então, a primeira proposição. A segunda, eu diria, consistiria na rejeição consciente, por qualquer teoria social anarquista, de qualquer traço de vanguardismo. O papel dos intelectuais, definitivamente, não é o de formar uma elite que possa formular as análises estratégicas e, depois, conduzir as massas a segui-la. Mas se não isso, o quê? Esta é uma razão pela qual chamo este ensaio de “Fragmentos de uma Antropologia anarquista” – porque se trata de uma área na qual entendo que a antropologia está particularmente bem posicionada para ajudar. E não somente porque a maioria das comunidades autogovernadas e das economias do dom2 atualmente existentes
2. Economia do dom, economia da doação ou economia da dádiva ou ainda cultura da dádiva é uma forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo ou num mercado. Todavia, a obrigação de reciprocidade

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no mundo foram estudadas por antropólogos e não por sociólogos ou historiadores. É também porque a prática da etnografia fornece algo como um modelo – ainda que bruto e incipiente – de como uma prática intelectual revolucionária pode funcionar. Quando conduzimos uma etnografia, observamos o que as pessoas fazem e depois tentamos extrair as lógicas – simbólicas, morais ou pragmáticas – escondidas sob suas ações; tentamos percorrer o caminho no qual os hábitos e as ações das pessoas fazem sentido através de caminhos que tais pessoas desconhecem. Um papel óbvio para um intelectual radical é fazer precisamente isso: olhar para aqueles que estão criando alternativas viáveis; tentar descobrir quais são as implicações mais amplas do que eles (já) estão fazendo; e, então, oferecer de volta tais ideias, não como receitas, mas como contribuições, possibilidades – dádivas. Isso é mais ou menos o que eu estaexiste, não necessariamente envolvendo as mesmas pessoas, mas como uma corrente contínua de doações que reforça as relações sociais.

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va tentando fazer alguns parágrafos atrás quando sugeri que a teoria social poderia se reformular na forma de um processo de democracia direta. E, tal como esse exemplo deixa claro, tal projeto necessitaria, de fato, de dois aspectos ou momentos: um etnográfico e outro utópico, ambos suspensos em diálogo constante. Nada disso tem muito a ver com o que a antropologia, mesmo a antropologia radical, tem sido nos últimos cem anos ou mais. Ainda assim, tem havido uma estranha afinidade ao longo dos anos entre antropologia e anarquismo, a qual é significativa em si mesma.

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Fragmentos de uma Antropologia Anarquista David Graeber
Editora Deriva Você pode adquirir esse livro completo no site: www.deriva.com.br Outros Títulos da Deriva: Coleção Hakim Bey Apoio Mútuo Piotr Kropotkin Como a não-violência protege o estado Peter Gelderloos Tin Tin: Construindo a Liberdade J. S Daniel

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