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Escravidão e alforria na América Portuguesa (publicado em Cadernos do

PENESB, n 12, 2011)

Gabriel Aladrén (Doutor em História, UFF)

O estabelecimento e a expansão da escravidão no Brasil acompanharam o movimento de colonização entre os séculos XVI e XVIII. Na medida em que a colônia

se desenvolvia economicamente, as formas da escravidão também se alteravam. Nesta aula, serão discutidas algumas características gerais sobre a escravidão na América portuguesa sobre a prática da alforria e a vida dos libertos.

A expansão da escravidão africana

Com o objetivo de compreender o processo de proliferação da escravidão africana na América portuguesa, a historiografia apontou diversos fatores. Caio Prado Júnior, em uma obra pioneira, notou que a colonização portuguesa atendia aos interesses do capital mercantil europeu. Portanto, a economia colonial deveria ser orientada para a exportação de mercadorias, que só poderiam ser produzidas em grande escala com a utilização do trabalho escravo dos africanos. A ênfase na dimensão mercantil da colonização e da escravidão aparece, ainda que com algumas diferenças, nas obras de Celso Furtado e Fernando Novais. Críticas a essas abordagens apareceram na década de 1970, formuladas por historiadores como Ciro Flamarion Cardoso e Jacob Gorender. Estes autores centravam suas discordâncias na exagerada ênfase dada ao capital mercantil e na visão que privilegiava as orientações externas da economia brasileira. Eles propunham um olhar mais atento para as estruturas internas, explicando o desenvolvimento da escravidão na América portuguesa a partir de uma lógica própria, e não apenas como resultado dos interesses do mercantilismo metropolitano. Pesquisas posteriores sobre a escravidão, de autores como Stuart Schwartz, Silvia Lara, Mariza Soares, João Fragoso, Manolo Florentino e Sheila de Castro Faria, apresentam um quadro mais complexo da escravidão colonial. Procurando investigar as estruturas internas da sociedade colonial, esses historiadores mostraram que as relações escravistas eram muito variadas, tanto socialmente, quanto nas diferentes regiões do Brasil. Ao explorarem novos conjuntos documentais do período colonial (tais como inventários, testamentos, contabilidade de fazendas, processos judiciais e registros eclesiásticos), foi possível entender com mais detalhes o funcionamento dos engenhos de açúcar, a lógica de funcionamento do tráfico atlântico, as formas de controle social

sobre os escravos, os ritmos econômicos internos da colônia, as identidades étnicas e as expressões culturais dos afrodescendentes. Esse conjunto de trabalhos mostrou que os escravos na América colonial portuguesa não eram apenas propriedades de alguns grandes senhores, ou apenas utilizados na produção de mercadorias destinadas à exportação. Havia senhores que eram proprietários de poucos escravos, e o trabalho deles voltava-se para o abastecimento de alimentos que circulavam no mercado interno colonial. Mesmo nas grandes fazendas escravistas, os cativos podiam trabalhar em diversas atividades e muitos deles tinham acesso a roças de subsistência, onde cultivavam alimentos nos dias santos e feriados. Assim, podiam complementar as exíguas rações oferecidas pelos proprietários. O trabalho escravo também era muito difundido nas cidades e vilas coloniais. No meio urbano, os escravos tinham uma maior mobilidade espacial, raramente eram

controlados por um feitor. Muitos trabalhavam “ao ganho”, isto é, ofereciam seus

serviços (que podiam ser simples, como o de carregador, ou qualificados, como os de

sapateiro, alfaiate, ourives e carpinteiro) para quem os contratasse. Ao fim do dia, entregavam aos seus senhores uma quantia previamente estabelecida. Se trabalhassem arduamente, poderiam acumular pequenas somas de dinheiro para formar um pecúlio.

Saiba o que era o pecúlio para os escravos

O pecúlio era uma soma em dinheiro que os escravos podiam acumular, a partir

de doações, heranças e trabalho próprio, desde que com o consentimento do senhor. Muitos escravos usavam o pecúlio arduamente economizado durante anos para comprar sua alforria.

A escravidão na América portuguesa entre os séculos XVI e XVIII

A produção de açúcar na colônia portuguesa foi iniciada na década de 1530, ao mesmo tempo em que a coroa portuguesa estabelecia as capitanias hereditárias. Apesar da experiência anterior nas ilhas da Madeira e de São Tomé, a atividade açucareira começou a deslanchar somente em fins do século XVI, principalmente em Pernambuco e na Bahia. No início, a mão-de-obra empregada nas lavouras e engenhos era quase toda

formada por indígenas escravizados. As epidemias e a intensidade da exploração econômica levaram a uma diminuição acentuada da população indígena no litoral nordestino. Ao mesmo tempo, o tráfico atlântico recebeu um grande impulso, barateando o preço dos escravos africanos e tornando sua importação viável para os

senhores de engenho e lavradores de cana. No início do século XVII os africanos tinham substituído os indígenas como a força de trabalho predominante na produção do açúcar.

As guerras contra os holandeses, a concorrência da produção antilhana e a crise econômica européia de fins do século XVII desestabilizaram a indústria açucareira brasileira. Apesar disso, no século XVIII o açúcar ainda se mantinha como o principal artigo de exportação brasileiro, mesmo após o início da exploração do ouro. A quantidade de africanos traficados cresceu na segunda metade do século XVII e a presença da escravidão passou a dominar as paisagens brasileiras. A descoberta do ouro em Minas Gerais só fez ampliar este quadro, introduzindo a escravidão em novas regiões do Brasil e diversificando a economia colonial. Durante o século XVIII, uma quantidade ainda maior de africanos foi importada e a mão-de-obra escrava passou a ser utilizada em uma ampla gama de atividades, que incluía os antigos engenhos de açúcar, as minas de ouro e diamante, a pecuária e a produção de alimentos. Ao mesmo tempo, cresceu a escravidão urbana, tanto nas antigas cidades de Salvador, Recife e Rio de Janeiro, quanto nas novas vilas criadas com o surto minerador. A partir de 1780, em resposta a uma série de modificações econômicas e políticas no mundo atlântico (a Revolução do Haiti, que desestabilizou a economia açucareira da ilha, as hostilidades entre a França e a Inglaterra e a intensificação da demanda européia por produtos agrícolas em razão da Revolução Industrial) a colônia portuguesa viveu um

“renascimento agrícola”.

O açúcar e o fumo recuperaram antigos níveis de produção em Pernambuco e na Bahia, a produção de açúcar se expandiu nos Campos dos Goitacazes e em São Paulo, o algodão passou a ser produzido em larga escala no Maranhão e em outras regiões do Nordeste. A produção de alimentos para o mercado interno também se fortaleceu, com o trigo e o charque no Rio Grande do Sul e os produtos pecuários e agrícolas (milho, arroz, feijão e mandioca) em São Paulo e Minas Gerais. Em todas essas atividades era utilizada a mão-de-obra escrava.

Alforria e hierarquias de cor

A população em fins do período colonial era bastante diversificada. Aproximadamente 38% era constituída de escravos, 28% de negros e mulatos livres, 28% de brancos e 6% de indígenas. Os escravos podiam ser africanos ou crioulos (assim eram chamados aqueles que nasciam no Brasil) e os homens livres eram divididos entre brancos, pretos e pardos (conforme as designações da época), além dos índios.

Os negros e mulatos livres correspondiam a uma parcela muito importante da população. Ela começou a crescer desde o século XVII, principalmente por causa dos índices de alforria relativamente altos. Apesar da maior parte dos escravos ter poucas probabilidades de conseguir sua liberdade, a alforria foi mais comum no Brasil do que em outras regiões escravistas, como no Caribe inglês e francês ou nos Estados Unidos.

Saiba mais sobre a alforria no Brasil

A alforria, também chamada de manumissão, era uma forma legal de libertação dos escravos. Normalmente era concedida pelos senhores por meio de cartas de alforria, que muitas vezes eram registradas pelos ex-escravos em cartório, para assegurar sua liberdade. A alforria também podia ser concedida em testamento ou no ato do batismo. De qualquer maneira, até a Lei do Vente Livre de 1871, alforriar um escravo era uma prerrogativa exclusiva do senhor.

Saiba mais sobre a alforria no Brasil A alforria, também chamada de manumissão, era uma formahttp://www.terrabrasileira.net/folclore/origens/africana/alforria.htm Referência: DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Livraria Martins, 1940. " id="pdf-obj-3-9" src="pdf-obj-3-9.jpg">

Jean Baptiste Debret. Negras forras vivendo de seu trabalho Fonte http://www.terrabrasileira.net/folclore/origens/africana/alforria.htm Referência: DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. São Paulo, Livraria Martins, 1940.

Os escravos que tinham maiores chances de receber a alforria eram os crioulos, as mulheres e os pardos. Os homens nascidos na África, portanto, eram os menos beneficiados. A população negra e mulata livre cresceu ao longo dos séculos XVIII e XIX, pela incorporação de mais escravos alforriados, mas principalmente pela reprodução natural. Inicialmente, a classificação hierárquica da população contemplava as categorias de escravos (também chamados de negros), de brancos (necessariamente livres) e de índios. Os escravos que recebiam a alforria eram chamados de pretos forros ou libertos. No entanto, assim que a população de negros e mulatos nascidos livres começou a aumentar, essa classificação hierárquica se tornou problemática. Como diferenciar o liberto (ex-escravo) do negro ou mulato já nascido livre?

Essa questão era importante, pois o Brasil colonial, por estar inserido no conjunto mais amplo do Império português, refletia algumas características das hierarquias sociais do Antigo Regime, no qual a ascendência era um requisito básico de distinção. Nascer escravo, conforme esses critérios era muito diferente de nascer livre, ainda que a cor da pele fosse a mesma. Segundo Hebe Mattos, a solução encontrada foi a criação da categoria “pardo” que indicava aqueles indivíduos que, fossem negros ou mulatos, já nasciam livres, mas tinham ancestrais escravos. Assim, respeitavam-se critérios cujas origens remontavam ao Antigo Regime português (como o defeito mecânico e a mancha de sangue) e ao mesmo tempo mantinha-se a discriminação por cor (fundamental para as hierarquias de uma sociedade escravista moderna). Com essas características, o termo pardo começou a ter um uso generalizado à medida que a população negra e mulata livre crescia nos séculos XVIII e também XIX.

Curiosidade

No Antigo Regime português, o defeito mecânico estigmatizava as pessoas que

trabalhavam com as mãos, como os sapateiros, alfaiates, carregadores, marceneiros,

lavradores etc. Seus descendentes também ficavam marcados, e eram impedidos de receber privilégios e ocupar determinados cargos. A mancha de sangue seguia a mesma

lógica, e restringia os indivíduos de “sangue impuro”, descendentes de judeus, mouros,

ciganos e indígenas. No início do século XVII, os negros e mulatos foram incluídos

entre as “raças infectas”.

O desenvolvimento econômico da colônia portuguesa dependeu profundamente da escravidão negra. A lavoura de exportação, a mineração, a produção de alimentos e as mais diversas atividades urbanas eram realizadas por escravos. A disseminação da escravidão na sociedade brasileira marcou as hierarquias e as classificações sócio- raciais. A divisão básica que polarizava os homens brancos livres, de um lado, e os escravos africanos e afro-descendentes, de outro, se tornou mais complexa com o aumento da população alforriada e negra e mulata livre ao longo dos séculos XVIII e XIX, depois da Independência do Brasil (1822).

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