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ROÇAS ESCRAVAS NO UNIVERSO BRANCO: A ECONOMIA ESCRAVAVISTA PELOS VIAJANTES
Paulo Roberto de Almeida
Graduando em História e bolsista do Programa de Iniciação Científica – PIC do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais / Unileste-MG

Jezulino Lúcio Mendes Braga
Mestre em história social Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, professor do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais / Unileste-MG

RESUMO O estudo pretende refletir sobre a possibilidade aberta ao escravo de trabalhar em proveito próprio, em seus dias de folga, objetivando a compra de sua liberdade e de seus parentes. Além disto, procura também corroborar com as novas discussões historiográficas que enfatizam a importância de se compreender a organização do sistema escravista e seu funcionamento, tanto como forma de trabalho quanto sistema social, cultural, político e econômico, sendo utilizada como fonte primária a literatura de viajantes que passaram por Minas Gerais no século XIX. Os dados desta pesquisa indicaram que, nas Minas Gerais do XIX, o elemento cativo possuía uma economia interna própria como resultado de sua negociação com o senhor. Assim, verificou-se que a escravidão não foi tão rígida, como demonstrou por muito tempo a historiografia tradicional, mas sim um sistema que permitiu ao escravo criar certos tipos de instituições ou mecanismo capazes de lhe proporcionar-lhe pecúlio suficiente para a compra de sua alforria, assim como a de seus parentes ou membros da comunidade. Palavras-chave: Historiografia, Família, economia, autonomia, liberdade.

INTRODUÇÃO Este testudo pretendeu contribuir para as discussões historiográficas acerca da escravidão, referindo-se principalmente ao universo criado pela negociação entre senhor e escravo. Assim, coloca-se em discussão a economia própria do escravo esboçada na roça cativa, presente na Comarca de Vila Rica no período que se estende de 1850 a 1888. Inicialmente, há que se esclarecer a escolha espacial e temporal desta pesquisa. Entende-se que Minas Gerais teve um dos maiores plantéis de escravos do Brasil, devido principalmente à atividade mineratória iniciada no século XVIII, e a partir do momento que ocorre o cessar do tráfico atlântico-1850- tem-se início o tráfico interno interprovincial com o objetivo de manter a mão-de-obra escrava. Soma-se a isto, a reprodução natural por parte dos cativos, ao constituírem famílias Paiva & Libby (1995), Braga (2001). As balizas deste estudo se referem ao fim do tráfico de escravos, segunda metade do XIX momento em que Minas Gerais estava com uma economia sedimentada, voltada principalmente para o mercado interno Paiva (1995). E 1888, o ano da abolição, representa o momento definitivo em que o trabalho escravo deixa de existir. Portanto, pretendeu-se analisar a literatura de viagem apesar de ser um estudo etnográfico, antropológico e resultado de diferentes interesses, já que parte das representações sobre o Brasil, sobretudo do século XIX.

que concedia aos escravos pouco espaço de manobra ou de negociação. cultivando e até vendendo seus próprios alimentos.198). Tanto é que no caso de Minas desde o século XVIII. mesmo que este seja uma forma ou extensão do domínio senhorial. se tornava camponês. “Em trabalho publicado em 1987. Gorender (1991) e outros viam o escravismo como exploração irrestrita. a variação quanto a seu grau de importância no tempo e no espaço dependia da viabilidade da outra alternativa – o fornecimento a baixo custo de roupa e alimento aos escravos pelos senhores.1999. para a compreensão da historia do Brasil e de seu lugar dentro do desenvolvimento da economia mundiali. e da abundância de terras. sem contudo abalar ou modificar significativamente as estruturas do sistema escravista. o desejo e a capacidade dos escravos de cultivar e vender seus próprios alimentos. Sustenta agora que a luta entre escravo e senhor em torno da “brecha camponesa” era um elemento central na própria formação do “modo de produção colonial”. e do tempo para cultivá-la. realidades e formatos. também se estabelecia um acordo contratual. não se trata mais de uma fenda ou abertura em alguma coisa – a definição do vocábulo “brecha”. Um destes debates teóricos está representado pela obra de Cardoso e outros sobre a “brecha camponesa”. a de minimizar o custo de manutenção e reprodução da força de trabalho. no entanto. político e econômico para que se entenda suas conseqüências teóricas e sistemáticas mais amplas. Ciro Cardoso (1982. Quanto a este aspecto. cumpria uma função definida no quadro do sistema escravista colonial. para uso próprio ou para venda. cultural. como era possível ser ao mesmo tempo escravo camponês? Bem. A nova historiografia da escravidão brasileira deixa claro a importância de se compreender a organização da escravidão e seu funcionamento tanto como forma de trabalho quanto sistema social. a reescrevemos dando a ela novas perspectivas. a atribuição de uma parcela. 2) também do ponto de vista econômico. bem integradas ao mercado mundial como exportadora de produtos primários.1988). Argumentava que a “brecha” abria ao escravo um maior espaço psicológico e econômico. Ciro Flamarion Cardoso (1982) em seu livro Agricultura Escravidão e Capitalismo afirma que existem algumas hipóteses para a questão: 1) do ponto de vista econômico. mas do lugar privilegiado para a contenda entre escravos e senhores”(Slenes. Ao que parece. que garanta para a classe dominada certo direito. acredita -se que apesar de possuir este status de “coisa possuída”. Reis (1989) e Reis & Silva (1989) descobriram provas empíricas de escravos trabalhando na lavoura. A autonomia escrava passava pelo acesso a um pedaço de terra cedido pelo senhor. dada pelo dicionário-. Mas muito bem colocada. sobretudo na época de colheita. ele confere ao fenômeno uma importância mais significativa. o elemento cativo ao utilizar um tempo livre. com . p. uma vez que com sua produção era capaz de se alimentar melhor. Cardoso (1982) com o tema de “brecha camponesa” quis se referir à produção independente de alimentos pelos escravos. legal ou consuetudinário. é a questão de Cardoso (1982): se o escravo era uma propriedade. outras características do sistema escravista atuavam em sentido contrário ao que já indicado: trata-se da maximização da exploração do trabalho escravo. verifica-se a existência de unidades produtivas: a produção agro-pastoril escrava onde temos uma produção que já na sua origem volta para o mercado. e elaboração dos produtos na agricultura comercial de exportação. em determinadas atividades de subsistência: 3) no escravismo. juntar algum pecúlio para adquirir manumissão própria ou de algum familiar e vender seu excedente para o mercado local. fato que levanta a questão sobre as definições do “modo de produção” e dos papéis econômicos.2 PLANTANDO E COLHENDO A LIBERDADE: O CASO DA ROÇA ESCRAVA A história da escravidão no Brasil é dinâmica e multifacetada por que a todo instante.

Cardoso faz a seguinte analise sobre a economia própria do escravo. resistência uma vez que o “trabalho era do tipo familiar. muito pelo contrário. não os libertando da condição de escravo. não mais o permitiria. De maneira alguma pode-se pensar no caso da roça escrava como algo a parte do escravismo. frente à pressões do escravismo” (Slenes. Era algo funcional que reproduz o próprio sistema escravista” (Cardoso. o senhor de escravo por meio deste ato poderia conseguir melhores trabalhos de seu cativo. Alem disso. com o intuito de adiquirir pecúlio. ademais. de acordo com Cardoso “não há dúvida de que as atividades camponesas dos escravos eram secundárias em relação ao escravismo dominante. 1999. a margem de autonomia representada pela possibilidade de dispor de uma autonomia própria era mais importante economia e psicologicamente. da criação e da exploração do mato tinham um valor de troca. desfrutando de melhores condições para suprir suas necessidades básicas. a atribuição de parcelas de terras e do tempo para cultivá-las era percebida como uma concessão revogável destinada a ligar o escavo à fazenda e evitar a fuga” Cardoso (1982. religiosos e marcados pelo cotidiano familiar. a partir do momento em que ele se sentisse prejudicado por este “tempo livre”. permitindo algumas reflexões.p.137). Na consciência social do senhor de escravo. se as observações de Cardoso estiverem corretas. p. “Já venda de alguns de seus produtos. Cardoso (1982) em suas hipóteses deixa claro que a roça escrava era uma concessão revogável que destinava ligar o escravo à fazenda e evitar a fuga. O acesso ao mercado local não modificava o caráter do sistema escravista e seu regime de trabalho a que estavam submetidos.196) . que trabalharia na espera de seu “momento livre”.195): Como já foi exposto anteriormente. ou também (clandestinamente ou não) as casas de negócio na vizinhança da fazenda. Os escravos. pois através desta autonomia construía seu próprio universo repleto de traços culturais. diário e vigiado com momento pessoal de trabalho. além de sua utilidade imediata. Entende-se economia escrava como sendo uma forma de adaptação ou resistência: adaptação porque conjuga trabalho obrigatório. “Para o escravo. como casos isolados. mas era um momento em que o escravo se sentia livre. seja apenas ao seu senhor. ou tão somente. com o intuito de aumentar a ração e adquirir liberdade. havia além da luta de classes própria da escravidão. p. é a unidade produtiva caracterizada pela mão-de-obra escrava na dupla atividade: agro-pastoril e minerador.137) A roça não está ligada apenas economicamente à vida do escravo. aproximando-se do mundo dos livres. Da mesma forma que o senhor poderia permitir que seu cativo tivesse para si um pedaço de terra. p. mesmo sendo de pequena valor simbólico para a manutenção da dignidade humana. Outro tipo.3 o objetivo especifico de expropriação do excedente gerado pelo escravo. Aqui também o excedente produzido se constitui no objetivo final para o qual se volta a empresa. terra permitida aos escravos. também mais freqüentemente teriam excedentes para vender ou poderiam até planejar suas atividades produtivas parcialmente em função dos incentivos do mercado” Slenes (1999. como afirma Slenes: “Os frutos da roça. a compra de objetos que. as contradições entre a visão do senhor e dos escravos sobre os propósitos de uma economia própria. como recomendava o Barão de Pati dos Alferes. embora a abertura das clareiras fosse responsabilidade coletiva”. porém. 1982. uma troca entre os pares. Ou melhor.

p. eram razões eficazes (reduzir os custos com alimentação e vestuários)a suas necessidades de mão-de-obra. e manter o plantel escravo.de . teoricamente livres para fazer o que bem quisesse. os feriados religiosos e. vender o excedente ao mercado local ou ao proprietário. como parte de dois mundos. que a economia interna se destinava a manter o escravo preso à fazenda. uma vitória contra um regime brutal de trabalhos forçados e uma possível ruptura do sistema escravista. para fazer comprar a própria liberdade. o que quase sempre significava trabalhar em seus próprios terrenos e em suas próprias hortas. Estes pontos nos fazem pensar e perceber até onde o escravo tinha esta “independência”. Ao completar as quotas. de que a maioria dos escravos queria alcançar um grau de independência. “O custo de manutenção caíram. Schwartz. que era um direito por lei. mas também dentro do próprio engenho. de acordo com Schwartz. “estas oportunidades poderiam parecer uma abertura ou “brecha” no sistema escravista. os escravos estavam. existia uma lei que garantia suas atuações dentro do sistema escravista. e pelo lado do escravo. Para o escravo. às vezes. O do senhor que utiliza a roça escrava. esta economia interna representava para os escravos.4 Mesmo porque Cardoso nota a economia interna do escravo como um mecanismo de exploração da mãode-obra e como uma forma de minimizar os gastos com a escravaria. e manter a ordem (acesso a terra era garantido por lei). Terceiro. um acesso à liberdade e uma forma de subsistência. trata da questão da economia escrava como uma abertura dada ao escravo pelo senhor por se tratar de um direito: “Os escravos tinham permissão para usar um período Domingo( de “folga” em benéfico próprio. No caso do recôncavo baiano apontado por Schwartz o sistema de quotas (quantidade de trabalho similar a divisão existente na agricultura) não era só usado no plantio . ou de um ente querido Nota-se que Schwartz (1999) faz três indicações importantes: Primeiro. Em estudo recente Escravos Roceiros e Rebeldes Stuart B. dias reservados ao descanso. representava uma ruptura da estrutura escravista. como uma forma de diminuir os gastos com a mão . Além disso. O escravo que é proprietário não foge nem provoca desordem ampla” (Schwartz. recebiam incentivos de criar irmandades religiosas e de participar nas formas culturais da sociedade mais ampla” Schwartz (1999. embora fosse o ritmo do engenho que determinasse a velocidade do processo. os escravos podiam suplementar a dieta com a produção de sua própria horta. . os escravos trabalhavam em dias livres. isso o liga à terra pelo amor à propriedade.100) Desta forma. e até depois do horário de trabalho. Um manual de agricultura de 1847 era favorável a doação de hortas aos escravos. 1999. Acredita-se de fato. Ao utilizar os domingos. p. Em seus estudos Schwartz (1999) percebe a economia escrava.194) O autor aponta para o tempo livre como uma permissão dada pelo senhor. Segundo. de viver melhor e de participar diretamente do mercado local e para os outros agricultores. ceder parte de um lote aos escravos era garantir a mão–de–obra sem prejuízos. e quando guardava o dinheiro. o escravo tinha acesso a uma quota. no corte da cana e em outras tarefas da roça. poderiam até ter a possibilidade de vender seu excedente no mercado local ou para o senhor.obra. mas não anula a sua importância. Para uma articulação do senhor. e o agricultor que também soubesse calcular que após 20 anos recuperaria todas as poupanças do escravo na forma de manumissão. e há fortes indícios que na Bahia e em outras partes do Brasil. mas é claro que desde que isto não prejudicasse a produtividade dentro da lavoura ou do próprio engenho.

e poderemos cada hum tirar jacarandas ou outro quar pau sem darmos parte pª isso”. O mais comum era a combinação do dois sistemas. Em um artigo intitulado A função Ideológica da “Brecha Camponesa”. nos queremos pás e não queremos guerra.p. atendendo ao objetivo dos agricultores e aos desejos dos escravos Schwartz (1999. nos queremos pás e não queremos guerra. os homens querem que só tenhão tarefa de duas mãos e meia a as mulheres de duas mãos”. “Não nos hade obrigar a fazer camboas.5 Soma-se a isto. Na plantação de mandioca. Schwartz (1999) percebe esta economia como direito dos escravos ao analisar o Engenho Santana na Bahia em 1789. “Poderemos plantar nosso arroz onde quizermos. “A tarefa de farinha hade ser de cinco alqueres razos. Para tanto demonstra que estes escravos se rebelaram e fugiram do engenho pois não lhe são assegurados seus direitosii. Esta oportunidade do cativo trabalhar para si. citaremos o documento utilizado por ele ao estudar a economia interna do escravo: “Meu senhor. Se meu senhor também quizer a nossa pás há de ser nesta conformidade. apesar da existência deste direito. Vê-se portanto que os escravos queriam apenas ter a sua garantia de trabalhar. através da venda de seu excedente. seria utilizado para compra de sua liberdade. “Em cada semana nos has de dar o dia de sesta frª e de sabado pª trabalharmos pra nós não tirando hum destes dias por cauza de dia st” “Para podermos viver nos hade dar Rede tarrafas e canoas”. o fato de que este arranjo entre trabalho forçado e “propriedade” particular dos escravos indica uma forma de acordo entre o senhor e o escravo. Silva (1989) chamando a atenção para a explicação da negligência da historiografia brasileira acerca da margem de economia própria para o . pondo arrancadores bastantes pª estes servirem de pendurarem os tapetes”. e dos parentes. “Poderemos plantar nosso arroz onde quizermos. “Meu senhor. e poderemos cada hum tirar jacarandas ou outro quar pau sem darmos parte pª isso”. sem que pª isso peçamos licença. e quando quizer comer mariscos mande seus pretos Minas”. segundo a necessidade de mercado. pois era o senhor quem determinava.106). não tinha um acesso tão direto assim à terra. Ou seja ele não era o gestor de seu próprio tempo. o tempo livre para esta atividade. Outro ponto importante é a participação no mercado local. nem amariscar mande os seus pretos Minas”. Faça huma barca grande pª quando fo pª Bahia nnós metermos as nossas cargas pª não pagarmos fretes”. se quizer estar pello que nós quizermos a saber”. e em qulqr brejo. o tamanho do lote. e em qulqr brejo. Para enfatizar tal preposição. em proveito próprio em dias livres: “Em cada semana nos has de dar o dia de sesta frª e de sabado pª trabalharmos pra nós não tirando hum destes dias por cauza de dia st e ainda. Algo que Schwartz revela implicitamente é o fato de que os escravos. se quizer estar pello que nós quizermos a saber”. varia de um sistema escravista para outro dentro da Colônia Portuguesa. Se meu senhor também quizer a nossa pás há de ser nesta conformidade. Provavelmente o pecúlio adquirido nestes negócios. sem que pª isso peçamos licença. “Para o seu sustento tenha lanxa de pescaria o canoas de alto.

ao mesmo tempo que fornecia uma válvula de escape para as pressões resultantes da escravidão” (Silva. do novo retrato e sucesso na incorporação da estrutura escravista ao mercado internacional” (Silva. sendo a ultima permitir que os escravos tenham roças e se liguem ao solo pelo amor a propriedade. 2) Ter armamento correspondente ao número de pessoas livres. o compra de títulos de nobreza. as novas produtivas nas fazendas e construção de “palácios” e Igrejas na foça. ao ceder um pedaço de terra em usufruto e a folga semanal para trabalhá-la. um conjunto de seis medidas. Tanto é que os cafeicultores do município de Vassouras preocupados com os perigos das insurreições negras. 5) “promover por todos os meios o desenvolvimento da idéias religiosas”. Segundo ele. 1989. 6) ”permitir que os escravos tenham roças e se liguem ao solo pelo amor da propriedade” (Silva. A chamada “brecha camponesa”. 3) manter os escravos sob vigilância. a chamada “brecha camponesa”. a acumulação sem precedentes de terras e escravos. ao contrário. mas no decorrer do trabalho mostra que a autonomia própria do cativo esteve presente na estrutura escravista que estava ligada a um mercado internacional. finalmente.192) Desta forma a escravidão cafeeiro teria todo um arquétipo idealizado pelo Barão de Pati. uma determinada proporção entre pessoas livres e escravos. ao mesmo tempo em que fornecia uma válvula de escape para as pressões resultantes da escravidão. acreditava que por ser o escravo propriedade. De início. 1989. p. conforme suas experiências cotidianas contidas em sua Memória da Fundação de uma Fazenda de Café na Província do rio de Janeiro em 1847.196) . o escravo que possui bem. além dos mecanismos tradicionais de manutenção da ordem escravocrata como Estado e Igreja. nem faz desordem. a importação de objetos de luxo e o embarque de filhos para estudar na Europa. o senhor aumentava a quantidade de gênero para alimentar a escravaria. “As três primeiras eram medidas repressivas : 1) manter nas fazendas. Ao ceder um pedaço de terra em usufruto e a folga semanal para trabalhá-la. raramente (quase nunca) colocaram o problema. As outras três apelavam para o caráter ideológico: 4) “permitir ou mesmo promover divertimento entre os escravos”. recomendavam ao final. Silva (1989) trata esta questão como um mecanismo ideológico de dominação. aponta para dois motivos: primeiro. valorizavam-no como indicativo da “liberalidade do senhor”. sem perceberem por isso. “Em meados do século XIX.194) A economia escrava servia para manter a ordem e ser um complemento da ração para seu contingente de escravos. mais um sistema de controle e manutenção da ordem escravista? A que tudo indica. 1989. p. viabilizar-se apenas pela força. existia essa margem de economia própria para o escravo dentro do sistema escravista. as suas motivações. para Eduardo Silva a autonomia escrava era uma forma de manutenção da ordem. Silva (1989) deixa claro que a autonomia escrava foi deixada em segundo plano. não foge. Seria a economia do escravo. o senhor aumentava a quantidade de gênero disponível para alimentar a escravaria numerosa. em 1854. e. “Um outro mecanismo de controle e manutenção da ordem escravista foi a criação de uma margem de economia própria para o escravo dentro do sistema escravagista.6 escravo. concluindo que como qualquer outro sistema. E segundo. por falta de contato com arquivos. as correntes tradicionais quando esbarravam com o fenômeno. p. não poderia a escravidão. não poderia Ter um economia própria. eram indicativos do tempo de opulência.

e diminuir os gastos de manutenção. é preciso que prestemos atenção em elementos que nos permitam perceber tal preposição. uma vez que o escravo dentro deste arranjo acessava o mercado local e poderia comprar sua liberdade. mas mesmo assim o cativo poderia trabalhar para alcança-la algum dia. garantia ao senhor em fins do tráfico negreiro.7 Isto tudo se faz necessário uma vez que “ o sistema escravista não poderia se manter apenas pela força. Pode-se perceber que este tipo de atividade desempenhado pelo escravo revela muito mais que a realização de uma atividade extra. não passava de uma articulação do sistema para manter o cativo sob controle. Dentro deste aspecto Machado (1988) percebe que a abordagem do tema autonomia escrava é complexo. por se tratar da década em que celebramos o centenário da abolição. . ou tão somente do Rio de Janeiro. que de certo modo. p. retendo para si o pecúlio. uma vez que trata-se de historiar as atividades informais dos cativos em sua variedade de formas ao longo do tempos. Assim entende-se que Machado (1988) vê a autonomia escrava como um processo de transição do trabalho escravo para o trabalho livre. e impedindo o cativo de adquirir manumissão. era para o escravo a garantia de um acesso ao mercado e até à liberdade. Isto porque a historiografia brasileira. uma flexibilização do sistema escravista. Nota-se ainda. esta economia interna do escravo. Outro trabalho interessante que merece ser comentado é a reflexão que Machado (1988) traça em seu texto Em Torno da Autonomia Escrava. como também de utilizá-lo como instrumento para melhor compreender os parâmetros da organização social escrava. negligenciado pela historiografia tradicional. Na ótica de Silva (1989) a autonomia escrava. era uma forma de retirar do cativo algum dinheiro na forma de manumissão e por fim. novos temas e novos objetos de estudo que demonstrassem uma nova realidade do sistema escravista antes. Entende-se que a economia escrava não poderia se situar neste processo de transição pois se está prática era uma forma de o senhor manter seu plantel. Principalmente. se buscou novas fontes. facilita ao escravo o acesso à liberdade. Foge do apontamento de Silva o que Schwartz percebe ao analisar a autonomia escrava: a economia interna seria uma forma de o senhor diminuir os gastos com compra de roupas. na ótica dos proprietários e uma forma de resistência e acesso a liberdade por parte dos escravos. no qual a autora considera que os estudos sobre a escravidão têm buscado redimensionar suas análises delimitando a dinâmica interna da sociedade como ponta modal das transformações históricas. Com isto. mas sim todo um jogo de interesses e formas de organização estrutural que provocassem a passagem do trabalho escravo para o trabalho livre. apesar de ser um direito garantido por lei. Porém. a presença do escravo em suas fazendas não tendo assim que recorrer a outros meios.144). 1988. É claro que o senhor poderia trapacear. em especial a historiografia sobre a escravidão passava por um novo dirigir dos rumos. não que fosse um mecanismo restrito de algumas regiões. Alias. “buscou-se uma renovação do conhecimento histórico da sociedade brasileira” (Machado. evitar qualquer tipo de revolta por parte dos negros. e melhor condição alimentar para seu plantel. Ou seja. mas por outros meios”. ele não teria que se preocupar com o emprego de trabalhadores livres.

Saint – Hilaire – Mas. não sente algumas vezes saudade da sua terra? Escravo – Não: isto aqui é melhor. São feitas de varas que. Teve início. Saint – Hilaire – É casado? . porque a temática do negro nos relatos dos viajantes seguiram o curso dos acontecimentos que marcaram a própria história da Província e do País no século XIX. período que se estende desde o cessar do tráfico de africanos até a abolição da escravatura. se juntam na parte superior como caibros de um teto. quando passando por uma região em 1816. pranto milho e mandubis (Arachis) com isso arranjo algum dinheiro. E segundo. Trabalho para mim aos domingos. Diante da barraca ele viu um negro sentado no chão comendo” e este. aqui você é escravo. Verificado a existência desta variável dentro do sistema escravista. que viria a constituir o município de Juiz de Fora. enterradas obliquamente na terra. “da maneira mais graciosa”. pretende-se analisar os relatos de viajantes com o objetivo de observar esta economia na comarca de Vila Rica no período de 1850 a 1888. Escravo – Isso é desagradável. deixou um relato riquíssimo em detalhe. além disso eu trabalho. Saint – Hilaire – Você é da costa da África. habituei-me com a vida que passo. o viajante aproveitou o entardecer “para ir herborizar nas matas”. testemunharam grande parte das transformações decorrentes da substancial queda da produção aurífera e ao mesmo tempo que a expansão das fronteiras agrícolas. diminuição dos gastos com alimentação e vestimentas e acima de tudo uma pressão que os escravos exercem sobre seu senhor para que estes não retirem seus direitos. Isto por dois motivos: primeiro.8 OLHARES BRANCOS SOBRE A ROÇA ESCRAVA A historiografia recente vem demonstrando que dentro do sistema escravista existia uma economia própria do escravo que lhe era permitido aos domingos e dias santos. então um pequeno núcleo populacional banhado pelo rio Paraibuna – afluente do Paraíba do Sul . me dá bastante o que comer: ainda não me bateu seis vezes desde que me comprou. e me deixa tratar da minha roça. não tinha ainda barba quando vim para cá. Algumas vasilhas de barro e recipientes feitos de cabaça cortadas pelo meio no sentido do comprimento. não pode jamais fazer o que quer. Após se instalar para a pernoite. Tornam-se significativas as informações colhidas em Saint – Hilaire. chegou a um milharal no meio do qual se elevava uma fumaça anunciando “uma choçaiii qualquer de negro”. ofereceu em uma cabaça “pedaços de tatu assado sobre carvões” acompanhado de angu. Esta vertente percebe que esta economia se dava por muitos motivos ”forma de controle do senhor sobre seu plantel. Em sua caminhada. Saint – Hilaire – Você naturalmente se aborrece vivendo muito só no meio do mato? Escravo – Nossa casa não é muito afastada daqui. uma conversação da qual o viajante não teria modificado “uma única palavra”. é verdade. rumando nesta direção encontrou “uma dessas barracas que os pretos das Províncias das Minas têm costume de levantar quando são obrigados a dormir no campo.no qual a cafeicultura começara a ser organizada. mas o meu Senhor é bom. e cobrem de folha de palmeira na maioria das vezes dispostas sem ordem. compõem todo o mobiliário desses mesquinhos abrigos”. então.

se não o mais completo de todos os outros viajantes aqui utilizados. Meu Senhor me ofereceu primeiro uma crioula. de acordo com a gramática (profunda) da família –linhagem” (Slenes. p. uma roupa melhor para ele. tal aspecto denunciado pelo relato. uma Vez que revela elementos importantes deste momento de autonomia e da economia própria do cativo. essa é da minha terra e fala a minha língua. teriam lutado com uma determinação ferrenha para organizar suas vidas. diferente do que acontecia nos cafezais e/ou nos equipamentos de beneficiamento. pois estava no momento da conversa. De acordo com o viajante. para qual os vários povos originários da África preferiam o casamento entre pessoas da mesma região ou até do mesmo grupo único. “Em vista disso. a mobilidade do escravo. rejeitando a anteriormente escolhida por seu senhor. Por meio do casamento endogâmico se perpetuaria a língua. revela a existência de certa autonomia por parte do escravo tanto é que escolhe sua companheira. comida diferente da habitual. Segundo Slenes (1999. Ocorria que ao trabalharem em sua roça. muito pelo contrário. na medida do possível. A roça seria a sua forma própria de economia.p. Porém. os costumes cotidianos e até mesmo a linhagem. a religião. mas não a quero mais: as crioulas desprezam os negros da costa. o mais interessante é destacar o que se pretende através desta escolha: a roça era um caminho pelo qual o elemento cativo. acentuando-se a divisão quando se tratava de africanos . dão aos negros tanta terra quanto podem cultivar nos momentos de lazer (a lei lhes concede para este fim os domingos e feriados). ai mesmo plantado e tecido” (Mawe. em frente a uma barraca que servia para dormir. Alem disso. sempre só. Cabe aqui fazer uma observação: o relato se refere a comarca do Rio das Mortes e não de Vila Rica. mas é claro que seria ingenuidade pensar que fosse uma forma de abrandamento da instituição escravista. os escravos não eram vigiados. p.150). o coração não fica satisfeito. além de planejar sobre seu próprio casamento. abrindo-lhe uma porta de acesso ao mercado dando-lhe o retorno de “algum dinheiro”. que poderia ser usado na compra do tabaco. revelando sua preferência pelo casamento endogâmico – queria uma mulher africana que falasse seu idioma. ela não existiria se os cativos não fizessem uma negociação e ou pressão sobre os senhores . pode-se perceber que a roça escrava era uma oportunidade dada ao cativo pela lei. o escravo sugere ter a possibilidade de escolher a própria mulher. em cujo interior havia algumas vasilhas. e se fosse casado para sua mulher e seus filhos. articulava a manutenção de uma herança cultural. 1999. trazem como vestimenta camisas e calças compridas de pano de algodão. isto não é regra geral para todos os escravos. mas se faz necessário. quando estivesse no campo. Além de ser usado na compra de sua alforria. há indícios de que dentro do precário “acordo”que os escravos extraiam de seus senhores. Vou me casar com outra mulher que a minha senhora acaba de comprar. e podem dispor avontade do produtos de seu trabalho. Mas sem dúvida.147). Situação demonstrada pela historiografia.9 Escravo – Não: mas vou me casar dentro de pouco tempo. cultivada aos domingos. quando se fica assim. No relato deste. Outro relato importante é o de John Mawe que viajou pelo Brasil em 1816 e observou em uma Fazenda do Conde de Linhares situada na Comarca de Vila Rica que: “Esta raça é aí tratada com a bondade e a humanidade a que faz jus a seu bom procedimento. supõe-se que os africanos trazidos ao sudeste do Brasil apesar da separação radical de suas sociedades de origem. o casar-se significava ganhar maior controle sobre o espaço da “moradia”.139). 1978. Percebe-se ainda no mesmo diálogo.

p. forçados pelos escravos (Reis & Silva. Inicialmente. Há de se fazer uma ressalva nesse relato por demonstrar uma visão eurocentrica. . mas em qualquer outro lugar. negociando livremente o diamante encontrado. revela quão móvel era a escravidão nas Minas Gerais do novecentos. o autor nos faz pensar a “liberdade” permitida pelo senhor a este escravo para que acessasse o mercado local. bem como a da mulher e vários filhos” (Gardner. Talvez. demonstra a intencionalidade do sistema que cria condições de o escravo se auto gerir sem prejuízo do tempo empregado na empresa. tão importante quanto a primeira informação ilustrada. Mawe nos leva a pensar a garantia legal para este tipo de trabalho.10 para que lhe cedessem dias de folga. os senhores se desobrigavam de parte de seus investimentos na subsistência dos escravos” (Leite.206) Apesar de também não se tratar da Comarca de Vila Rica. e acumular ao mesmo tempo. por muitos anos trabalhou na lavagem do diamante como escravo. a liberdade. O que não fica claro é a quantidade de terras que este poderia usar. Seria um mecanismo de opressão. teve fortuna de encontrar em quantidade suficiente para comprar sua alforria. Outro viajante que nos permite identificar a economia escrava é Georg Gardner. colocando a concessão de terra como uma bondade do senhor. p. 1996. Muito mais que poder escolher. Dando ao escravo tempo livre e terra para plantar. sabe-se que o sistema escravista era rígido em suas estruturas e que o escravo era uma propriedade. Outra informação. 1975. racista e preconceituosa da escravidão. um bem. aparecem desde os primeiros tempos e não podem ser explicadas apenas pela via do paternalismo.p. em seus momentos de trabalho para si: quantidade suficiente para comprar a sua alforria.199) O viajante revela que o escravo tinha a possibilidade de fazer o que quisesse com seus produtos “podem dispor à-vontade do produtos de seu trabalho”. Mesmo porque . Para que os escravos conseguissem este momento. uma forma de benevolência para com o escravo. é dada: “uma das casas era pequena venda pertencente a um escravo”. para sua alimentação. mas são em boas medida. pecúlio para a compra de sua alforria. seja agrícola ou mineradora. que permitia a um escravo trabalhar por conta própria em uma mina de diamante e alcançar a liberdade por meio de uma descoberta. 1989. o escravo teve a liberdade de escolher o que fazer com seu dinheiro. não nas minas de seus senhores. ou realizar tarefas com fim liberativos.p. 1975. mas pelo uso proveniente deste privilegio de trabalho por conta própria nos domingos e feriados. traz a tona a finalidade do pecúlio adquirido pelos escravos. A afirmação de que a lei lhes concedia para estes fins. Esta negociação entre os pares. que viajando pela Comarca de Serro Frio relata que “os escravos tem permissão de trabalhar por conta própria aos domingos e feriados. Ou seja.209) E ainda: “Uma das casa era pequena venda pertencente a um negro que me informou ser natural da África. exceto nas minas da coroa” (Gardner. foi preciso arranjos e pressão destes sobre seus senhores para que conseguissem fazer valer seus direitos. Alem disso. tal fato. demonstra a finalidade ultima destes momentos. este viajante vem corroborar para nossas discussões. Além disso percebe-se que os trajes eram feitos pelos próprios escravos uma vez que eram de algodão e que eram plantados ali mesmo. completando assim sua ração diária. Isto nos leva a crer que o escravo acessava o mercado local para obter melhores produtos. É sabido que não é assim.13). bem como a da mulher e varias filhos”.

uma ação paternalista por parte do senhor de escravos. lenha ou capim para vender” (Burton. como forma de pagamento. demonstra uma visão abrandada da escravidão.234) Nota-se que o escravo possuía sua própria economia. ou carregar água. sabe-se que muitas das conquistas obtidas pelos escravos. vestidos e alojados. Para tanto. quais foram as ações dos escravos em seu cotidiano para que fizessem valer seus direitos? Certamente houve um embate no cotidiano que corroborou para as conquistas dos escravos. qual é o motivo ou razão determinantes desta atitude por parte do senhor? Segundo. mas em qualquer uma. Se não. se tiverem de trabalhar dias santos. George Gardner define quando e onde os escravos poderiam trabalhar por conta própria: “trabalhar aos domingos e feriados” e “não nas minas de seu senhor. 1976. foram conquistadas por meio de conflitos tanto ideológicas quanto armados. 1976. “Seus escravos são bem alimentados. mas a liberdade de viver. Surge ao . Até mesmo nos faz pensar que era facultativo ao escravo vender seus produtos. revelando uma visão abrandada e humanitária da escravidão por parte do viajante. haveria motivos para tal tratamento dispensado as cativos? Ao que tudo indica. os diligentes iriam cuidar das hortas. vestidos e alojados. dos porcos e das galinhas. p. Primeiro. seja ele agrícola ou minerador.208) Quanto a compra de sua liberdade revela: “Um outro costume permite-lhes comprar a própria liberdade e aplicar seus bens na manumissão das esposas e dos filhos” (Burton. Fica claro. dos porcos e das galinhas. não a liberdade de mobilização.254) Este trecho. carregar lenha ou capim para vender”. mais adiante. todavia. não perpassam a negociação entre os pares. Estes aspectos da vida escrava segundo estes viajantes. mas existe a priori. inspirados por algum outro levante. Também Richard Burton em visita a Mina de Morro Velho relatou a vida e o cotidiano dos escravos: “Terminado a revista (quer era realizada de dois em dois domingos ) ambos os sexos todas as idades se dirigiam a Igreja. ilustra claramente a relação do senhor para com seus escravos: seus escravos são bem tratados. 1976. Isto indica a margem de autonomia do escravo que por um outro “costume podia comprar a própria liberdade. do ir e vir. o fim deste era a liberdade. os escravos se aproveitaram da situação e fizeram pressão que resultou em uma negociação. exceto da Coroa”. de alguma forma se sentiu ameaças pelo seu plantel que se organizou em algum momento para lutar por sua reivindicações. Monlevade tratava seus escravos. O viajante relata sem querer a autonomia que os escravos tinham depois da revista. que posteriormente negociaria estes no mercado local. quer ressaltar a forma como eram tratados os escravos.11 Já no primeiro relato. que seu intuito era ressaltar a forma como J. Monlevade. das casas. a visão do cativo é excluída Por outro lado. primeiro a seu senhor. negociando por conta própria sua mercadoria. os diligentes iriam cuidaar das casas e das hortas. Não muito diferente dos já citados relatos. Não obstante fica claro que acessado um mercado local. J. que era direcionada pela atividade agrícola nos dias santos e no Domingo: “depois da revista. p. de seus filhos e da esposa”. passando por São Miguel do Piracicaba observou uma propriedade pertencente a um colono francês J. eles aproveitam o Domingo para lavar ouro no córrego e muitas vezes fazem 1$000 durante o dia. todavia revela uma relação senhor/escravo marcada por contradições. Monlevade. p. recebem uma pequena quantia a titulo de indenização” (Burton. iriam lavar roupa e costurar. O certo é que ele não tem o objetivo de analisar uma forma de economia ou ate mesmo a autonomia escrava.

um processo de tráfico interno com o objetivo de abastecer as Minas Gerais. dentro de seus próprios padrões culturais” (Slenes. Ocorre então.189) Mas na verdade. apesar deste cessar atlântico. a mínima idéia de que tinha certa liberdade. Mesmo assim. os escravos. Apesar de certos historiadores perceberem esta prática como uma forma de manter o plantel sobre controle. O direito que o escravo tem de folga aos domingos e dias santos é uma adaptação que o senhor faz às suas necessidades. CONSIDERAÇÕES FINAIS Há de se notar que ao caminhar para a abolição muitos senhores passaram a se preocupar com suas propriedades. para que este cedesse a este interesse. como se viu. existia por parte destas categorias sociais espaços para se ceder ao interesses do outro? De certa forma. quando este direito não foi respeitado. A roça escrava pode se entendida em tal período. e mesmo depois da abolição. abarcando pelas tradições africanas.1999. pois abolida a escravidão. mas principalmente de outras províncias principalmente da Bahia. Cedendo parte de sua terra ao escravo. os escravos tinham consciência de que através desta economia. mas por necessidades e interesses. criava neste. por parte dos escravosiv. Mesmo porque. havia uma alta taxa de reprodução natural. poderia transgredir as estruturas rígidas do escravismo e criar seu próprio universo liberto. da seguinte forma: a partir do momento que há necessidade de se manter a mão – de – obra. Desta forma. pode-se dizer que por parte dos escravos. se rebelaram. podia ter mais esperança de tornar sua vida na escravidão uma vida de “gente”. ao casar-se. que era positiva. anterior aos distúrbios causados pelo tráfico transatlântico. Minas continuou tendo um dos maiores planteis de escravos do Brasil Imperial. Porém. da mesma forma como na África eles e seus pais. “Desta forma. eles teriam reconhecido na roça um espaço que não lhes era estranho e teriam elaborado maneiras de usa-la em seu proveito. do além mar. p. esta conquista escrava é fruto de relações políicas com seu senhor. diminuir os gastos com alimentação e vestuário.12 redor da questão algumas indagações: o que estaria por trás desta pretensa liberdade? Sabe-se que a partir de 1850 cessa-se o tráfico atlântico de africanos. não mais de fora. passa a exportar a mão–de–obra escrava. ao pensar a economia escrava no período pós-tráfico e pré abolição. os primeiros não agiam pelo amor divino. . Estão. esta margem de autonomia é uma articulação do senhor para manter seus escravos subjugados e presos à sua propriedade. podia pensar em conseguir mais controle sobre sua economia domestica. liberto permaneceria ligada a terra. a roça era um caminho aberto para sua liberdade que não abriria mão. e o segundo quer buscar também o seu interesse. conservavam a memória da época relativamente pacífica e próspera. o escravo. seriam os únicos a arcar com seu prejuízo. a formação da família fazia sonhar com mais recurso. Quando senhor e escravo se encontram para negociar. além do tráfico interno. os escravos no Brasil definitivamente não tinham ilusões sobre as condições em que viviam como cativos. verifica-se a preocupação dos senhores de manter seu plantel inalterado. quais seriam as limitações deste choque de interesses? Ou ainda. que neste caso é a liberdade de viverv. Uma jogada que o senhor usa para manter seu escravo/liberto a seu mundo. No mínimo. e que a província de Minas Gerais. com o intuito de pressionar seu proprietário. Neste sentido. em nome de outrem.

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