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Economia Internacional

A teoria do comércio internacional do mercantilismo é, por um lado, um aspecto fundamental de seu sistema e, por outro, o ponto de partida para o debate teórico nessa disciplina até os dias de hoje. Os temas introduzidos pelo mercantilismo que vão permear os debates futuros são: (i) Qual é a relação entre comércio exterior e riqueza nacional, ou, em uma terminologia moderna, entre comércio internacional e desenvolvimento econômico? (ii) 0 comércio exterior deve ser livre, como o comércio doméstico, ou este deve ser administrado, em benefício dos interesses nacionais? TEORIAS CLÁSSICAS DO COMÉRCIO INTERNACIONAL David Hume No campo da economia internacional David Hume é, sem dúvida, o primeiro economista moderno. Embora a influência de Hume como filósofo tenha ofuscado o brilhantismo de seu trabalho como economista, é de sua autoria uma hipótese que suplantaria os argumentos mercantilistas em defesa do superávit comercial. Essa tese, conhecida pelo seu nome em inglês, specie flow-price hypothesis (hipótese do preço-fluxo de metais preciosos), propõe que um superávit comercial continuado não é possível, nem desejável. Hume, tal como os mercantilistas, acreditava que um superávit comercial levaria necessariamente à transferência de metais preciosos ou moedas metálicas do país deficitário para o país superavitário. Mas, diferentemente deles, acreditava que tal transferência levaria não ao crescimento da riqueza de um país, e sim ao crescimento dos preços dos produtos produzidos domesticamente. Esse aumento do nível doméstico de preço teria como conseqüência fazer com que as exportações desse país ficassem relativamente mais caras no resto do mundo, reduzindo a procura delas no exterior. Da mesma forma, o país deficitário perderia metais preciosos. Isto reduziria o nível de preços doméstico, aumentando a procura de seus produtos no exterior. Desse modo, o país superavitário tenderia a exportar menos e importar mais, e o país deficitário a exportar mais e importar menos, e em ambos os casos a balança comercial tenderia para o equilíbrio. Mas o ponto central do pensamento econômico de Hume é a visão deique fatores reais, e não o aumento do meio circulante, determinavam a prosperidade de uma nação. E que tal prosperidade, e não o acúmulo de metais preciosos, era o único fundamento confiável para a segurança de uma naçào. Por sua vez, o aumento dos mercados que o comércio exterior promove, e o atendimento das necessidades internas que ele possibilita fazem com que o florescimento deste beneficie todas as nações mercantis. Em uma linguagem moderna: o comércio não seria, como pensavam os mercantilistas, um jogo de soma zero, mas sim um jogo de soma positiva. Hume escreveu pouco mais de cem páginas sobre assuntos econômicos. A maior parte desses escritos são panfletos contra as idéias mercantilistas. Mas sua influência sobre o pensamento econômico, em especial na área de economia internacional, não pode ser subestimada. Hume foi o primeiro defensor do livre comércio, como pode ser percebido por uma referência citada com freqüência: Deve-se... considerar que, pelo crescimento da indústria entre as nações vizinhas, o consumo de todas as diversas espécies de mercadorias também crescerá; e embora manufaturas estrangeiras interfiram com elas no mercado, a demanda por esses produtos podem ainda manter-se ou crescer... Nós não precisamos ficar apreensivos, que todos os objetos de nossa indústria irão acabar, ou que nossas manufaturas, enquanto elas se mantiverem no mesmo nível de nossos vizinhos, correrão o risco de ficar ociosas. A emulação pelas nações rivais serve principalmente para manter a indústria viva em todas elas. E todos os

povos serão mais felizes se possuirem uma variedade de manufaturas, que se tiverem uma única grande manufatura... Eu devo portanto ousar reconhecer que, não apenas como um homem, mas como um súdito britânico, eu rezo pelo florescimento do comércio da Alemanha, Espanha, Itália e mesmo da França. Eu contudo tenho certeza de que a GrãBretanha, e todas essas nações, prosperarão mais se seus soberanos e ministros adotarem esses amplos e benevolentes sentimentos uns para os outros.

À teoria de Hume foi a base do sistema monetário do padrão ouro. Os princípios do livre-cambismo, posteriormente desenvolvidos por Smith e Ricardo, combinaram~se com a hipótese de specie flow-price para a criação de uma nova ordem econômica internacional. Esta ordem pretendia ser liberal, politicamente simétrica, impessoal, com mecanismo de ajuste automático, dependendo apenas da flexibilidade dos preços domésticos e do crescimento da produção internacional de ouro para determinar os níveis domésticos de preço e o equilíbrio nas balanças comerciais de todos os países mercantis. Adam Smith e a teoria das vantagens absolutas Adam Smith, tal como Hume, foi um filósofo na tradição do empirismo inglês. Entretanto, ao contrário de Hume, seus escritos filosóficos, em especial seu interessante tratado Teoria dos Sentimentos Morais, foram ofuscados por seu trabalho como economista.' Sua grande obra econômica foi uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Ela é considerada a obra seminal da escola clássica de economia política. Seguindo a tradição de Devid Hume, uma parte importante do trabalho de Smith é de questionamento das idéias mercantilistas? 0 tema comércio internacional é um dos aspectos centrais de seu pensamento. A pergunta que dá nome ao livro, a natureza e as causas da riqueza das nações, que, corno já mencionamos, é uma questão essencial para os mercantilistas, é respondida de uma forma totalmente distinta destes. A riqueza das nações é o resultado do aumento da produtividade do trabalho.` Esta, por sua vez, é conseqüência da divisão do trabalho." A divisão do trabalho, é o resultado da propensão da natureza humana de trocar, negociar e vender um produto em troca de outro.` A divisão do trabalho, no entanto, é limitada pela extensão do mercado.` Uma vez que o comércio internacional aumenta o mercado para os produtos produzidos domesticamente, ele permite o aprofundamento da divisão do trabalho, contribuindo para aumentar a riqueza das nações. Por intermédio do comércio internacional um país exporta as mercadorias que consegue produzir mais barato que os demais, e importa aquelas que produz mais caro, produzindo, desta forma, mais dos produtos que faz com maior eficiência e consumindo mais produtos do que seria capaz na ausência do comércio internacional. Nos livros-textos de economia internacional, Smith costuma ser citado, quase que exclusivamente, como autor da idéia de vantagens absolutas. Isto é, para Smith, o_comércio internacional seria possível tão-somente quando o tempo de trabalho necessário para produzir pelo menos um produto fosse e inferior àquele do exterior." 0 pensamento de Smith, no entanto, é muito mais rico e complexo que isto. Ele, por exemplo, observa que quando o produto de qualquer ramo da indústria excede a demanda interna de um país, o excedente deve ser mandado para o exterior e trocado por alguma coisa que tenha demanda em casa. Para ele, "sem tal exportação uma parte do trabalho produtivo de um país deve cessar, e o valor de sua produção anual diminuir".` (Smith, 1776, p. 161) Ele também argumenta que o excedente do produto importado, pago com o excedente doméstico, pode ser trocado mais uma vez por um produto demandado domesticamente. Smith afirmava que os metais preciosos são um produto como qualquer outro. Portanto, um país grande produtor de metais preciosos seria naturalmente um exportador deste produto, porque o preço dos outros produtos cotados em ouro ou prata, no país com minas, seria mais alto do que no país sem minas. Esta seria a razão pela qual tanto Portugal como Espanha, mesmo com severíssima legislação contra exportação de metais preciosos, eram grandes exportadores desses produtos. A grande oferta doméstica de ouro e prata em Portugal e Espanha teria, então, como único efeito, fazer com que a produção de produtos

agrícolas e manufaturados ficasse desestimulada, sendo que a exportação de metais preciosos, reduzindo o nível de preços doméstico, seria favorável e não perniciosa a esses países. Finalmente, como bom observador de seu tempo, Smith recomendava que a liberalização do comércio exterior, da qual ele era um grande defensor, não fosse feita açodadamente. Para ele: 0 empreendedor de uma grande manufatura, que, em funcão da súbita abertura do mercado doméstico ao exterior, é obrigado a abandonar seu negócio, irá sem dúvida sofrer consideravelmente. A parte de seu capital que era normalmente empregada na compra de materiais e no pagamento dos empregados poderá, sem muita dificuldade, talvez achar outro emprego. Mas aquela parte que está imobilizada em prédios e instrumentos do comércio dificilmente poderá ser abandonada sem considerável perda. Um cuidado justo, portanto, com seu interesse requer que mudanças desse tipo nunca devam ser introduzidas subitamente, mas devagar, gradualmente, e após avisá-lo com muita antecedência. (Smith, 1776, p. 201) Adam Smith é um pensador de grande profundidade teórica e forte fundamento filosófico. Suas idéias são muitas vezes difundidas de forma caricatural, não sendo incomum a referência a elas por pessoas que nunca o leram. Sua contribuição para a teoria do comércio é de grande importância, não apenas em decorrência de sua argumentação sobre os ganhos do comércio, aspecto que seria mais apropriadamente tratado por Ricardo, mas por relacionar o comércio exterior à acumulação de capital, ou, em uma linguagem moderna, ao desenvolvimento econômico. David Ricardo e a teoria das vantagens comparativas A teoria do comércio internacional chega ao apogeu na economia política clássica corri David Ricardo. A principal contribuição desse autor foi sua teoria das vantagens comparativas. A proposição de que as vantagens comparativas são a causa última dos ganhos do comércio é uma idéia poderosa que sobreviveu a todo o debate acadêmico até os dias de hoje. A teoria neoclássica do comércio internacional, que tem no modelo Heckscher-Ohlin-Samuelson sua principal contribuição, é, em última análise, uma elegante discussão sobre os fundamentos do conceito de vantagens comparativas e os ganhos do comercio exterior, dentro do universo conceitual dessa corrente de pensamento. A teoria ricardiana de vantagens comparativas pode ser resumida na seguinte proposição: o comércio bilateral é sempre mais vantajoso que a autarquia para duas economias cujas estruturas de produçao não sejam similares. Isto é, se duas economias, produzindo cada uma dois produtos, por exemplo vinho e tecidos, empregarem na produção desses produtos uma quantidade de trabalho Lv e Lt, no país S, e Lv* e Lt*, no país N, é necessário e suficiente que Lv/Lt <> Lv*/Lt* para que o comércio entre eles sejapossível. Note-se que para Ricardo os salários w no interior de uma economia seriam sempre iguais. Levando-se em conta que o custo de se produzir uma unidade de vinho no país S seria Lv.w e uma unidade de tecidos seria Lt.w, logo os preços relativos no interior dessa economia dependeriam apenas da quantidade de trabalho necessária para produzir cada bem, e não do nível de salário. Em países distintos os salários podem seT diferentes, mas tam~ bém para o país N o custo de produzir uma unidade de vinho seria Lv*w*, e uma unidade de tecido seria Lt*w*, sendo igualmente apenas relevante as quantidades relativas de trabalho para produzir vinho e tecido. Nesse modelo é necessário e suficiente que as quantidades relativas de trabalho para produzir vinho e tecido em cada economia sejam distintas para que o comércio exterior seja vantajoso para ambas. Ricardo apresenta sua teoria usando o exemplo do comércio entre Portugal e Inglaterra, usado originalmente por Smith, para mostrar os ganhos do comércio exterior. Afirma esse autor que se Portugal não tivesse relações com o exterior, em vez de empregar a maior parte de seu capital na produção de vinhos, comprando tecidos para suas necessidades domésticas na Inglaterra, ele teria que dividir seu capital para produzir também estes produtos. Nesse caso ele certamente obteria menos tecidos, e com qualidade inferior, do que se recorresse à importação destes.

A quantidade de vinho que seria dada para a troca por tecidos na Inglaterra não é determinada, segundo o modelo ricardiano, pelas quantidades absolutas de trabalho para produzir os dois produtos em ambos os países. Pelo contrário: dependeria apenas da quantidade relativa destes. Assim, exemplifica Ricardo, suponha-se que na Inglaterra fossem necessários 100 homens por um ano para produzir uma determinada quantidade de tecido; e que fossem necessários 120 homens pelo mesmo tempo para produzir uma determinada quantidade de vinho. Imagine ainda que em Portugal fossem necessários 90 homens para produzir a mesma quantidade de tecido e 80 para produzir a mesma quantidade de vinho que na Inglaterra. Nesse caso seria do interesse da Inglaterra dedicar-se exclusivamente à produção de tecidos e de Portugal exclusivamente à produção de vinho. -Assim, embora a Inglaterra desse em pagamento pelos vinhos, que custaram o trabalho de 80 homens, tecidos que custaram o trabalho de 100, ela poderia obtê-los mais baratos do que se produzisse domesticamente. Nesse caso, a mesma quantidade de vinho iria custar o equivalente ao trabalho de 120 homens por um ano. Por outro lado, Portugal pagou por uma quantidade de tecidos que iria custar o equivalente ao trabalho de 90 homens durante um ano uma quantidade de vinho equivalente ao trabalho de 80 homens durante esse período. Desta forma, ambos lucraram com a operação. 0 modelo ricardiano de comércio internacional implica, portanto, a especialização de cada país na exportação do produto do qual tem vantagens comparativas. Quaisquer dois países lucrarão no comércio bilateral, a não ser na circunstância altamente improvável que a estrutura de custos relativos desses países fosse idêntica." 0 aumento da taxa de lucro da economia não é necessariamente um resultado do comércio exterior. A variação da taxa de lucro ocorre tão somente no caso de variação dos salários reais. A taxa de lucro do comércio exterior será necessariamente igual à taxa de lucro do resto da economia. (Ricardo, 1921 p. 129) Os salários reais, por sua vez, são determinados pelo custo dos produtos de sua cesta de consumo, em especial o custo do trigo. 0 custo do trigo, por sua vez, é determinado, entre outros fatores, pela renda da terra. 0 comércio exterior, ao impedir o uso da terra marginal que acarreta o aumento da renda da terra, permite assim a manutenção da taxa de lucro, ou rio caso de abandono de terras marginais, o aumento desta. Ricardo nem sempre explicitou as premissas de seu modelo. A atençao a essas premissas permite-nos compreender as limitações na aplicação dessa abordagem. O modelo ricardiano pressupõe o comércio de dois países, com dois produtos. Essa premissa, no entanto, é facilmente descartável. A segunda premissa do modelo e que só existe um fator de produção, o trabalho, e que este é perfeitamente móvel no interior de um país, e imóvel internacionalmente. A terceira premissa é que há diferentes tecnologias em diferentes países. Na verdade, o uso de diferentes tecnologias é uma explicação possível para diferentes estruturas de preços relativos em diferentes países. A quarta premissa é que a balança comercial está sempre equilibrada e o custo dos transportes é igual a zero. Finalmente, há rendimentos Constantes de escala. 0 conceito de vantagens comparativas é uma dessas idéias econômicas que ultrapassam em muito o limite do debate acadêmico, com frequência levando a uma confusão entre a teoria e doutrina, isto é, entre um modelo explicativo de como o mundo funciona, e uma recomendação de como o mundo deveria funcionar. 0 conceito de vantagens comparativas pode ser aplicado indistintamente em uma ordem internacional liberal ou em um mundo de economias planificadas. Por exemplo, o comércio exterior entre Cuba e a ex-União Soviética, durante os anos de Guerra Fria, pautava-se pela troca do açúcar cubano pelos manufaturados soviéticos. Esta estrutura de comércio entre esses dois países, que não se pautavam por sinais de mercado, pode ser perfeitamente explicada por vantagens comparativas, isto é, por custos diferenciados para produção de mercadorias distintas. Ou seja, o que podemos concluir do modelo ricardiano é que mais comércio é melhor que menos comércio, o que não implica necessariamente livre mercado. 20 Por fim, o conceito de vantagens comparativas não pode ser aplicado olhandose apenas para um país; este é um conceito relativo e, portanto, só tem sentido considerando-se a estrutura de produção de pelo menos dois países. Nosso desafio é, portanto, compreender o significado desse conceito no momento em que foi formulado, e ainda compreender suas limitações para aplicação ao mundo real. A TEORIA NEOCLÁSSICA DO COMÉRCIO INTERNACIONAL Origens

Os princípios básicos da chamada teoria pura do comércio internacional foram formulados por dois economistas suecos, Eli Heckscher e Bertil Ohlin. Mas foi o economista norte-americano Paul Samuelson que deu o formato analítico, com uso de argumentos baseados em linguagem matemática que, atualmente, caracteriza essa abordagem. Heckscher nasceu em Estocolmo, em 1879, e estudou história e economia na Universidade de Upsalla nos últimos anos do século XIX. Este notável economista sueco especializou-se em história econômica. Entre os 36 livros e 174 artigos em revistas acadêmicas que publicou, a maior parte classifica-se nessa especialidade. Seu livro sobre mercantilismo (Heckscher, 1931) é um dos mais importantes trabalhos de história econômica da literatura mundial, sendo até hoje a principal referência para o estudo do tema. Sua influência foi essencial para o crescimento dessa área na Suécia, sendo que deve-se essencialmente a ele a criação de cursos de pós-graduação em história econômica em várias universidades suecas. Mas foi um pequeno artigo sobre teoria do comércio internacional que o fez famoso na literatura econômica ocidental. Este artigo, publicado originalmente em sueco em 1919, foi traduzido para o inglês sob o título Effects of Foreign Trade on Distribuition of Income ("Efeitos do Comércio Exterior na Distribuição da Renda") .22 Este trabalho, posteriormente desenvolvido por seu ex-aluno Bertil Ohlin, foi a Origem da teoria do comércio internacional centrada nas relações entre as dotações de fatores de produção e padrões de comércio internacional. 0 ponto de partida do pensamento de Ohlin foi a versão de Cassel para o modelo walrasiano de equilíbrio geral. A determinação final das quantidades e preços relativos nesse modelo de equilíbrio geral dependia, em primeiro lugar, da dotação de fatores; em segundo, da tecnologia na forma de coeficientes de insumo-produto, e em terceiro, das preferências dos consumidores. Ohlin modificou esse modelo, inspirando-se em Heckscher, para aplicálo ao estudo do comércio internacional e inter-regional. Dessa forma, partiu de uma economia composta por regiões onde a mobilidade dos fatores era perfeita em seu interior, mas imperfeita ou inexistente entre elas. Essas regiões autárquicas seriam um sistema em miniatura do modelo de Cassel de equilíbrio geral em economias fechadas. 0 preço relativo dos produtos poderia ser diferente entre elas devido ao fato de possuírem distintas dotações de fatores de produção, distintas tecnologias e preferências dos consu~ midores. Ohlin alterou sua abordagem, em uma segunda aproximação, postulando que as regiões diferiam apenas na dotação dos fatores de produção, tendo portanto tecnologia e preferências similares. Esta seria a premissa um centro dinâmico, composto de países industrializados, e uma periferia, formada por países subdesenvolvidos, implicava que os ganhos do comércio exterior fossem desigualmente distribuídos entre esses dois conjuntos de países. Isso ocorreria porque nos países centrais a introdução de progresso tecnico e o respectivo aumento de produtividade em produtos de sua pauta de exportações refletiam-se, sobretudo, no aumento das remunerações do trabalho, e sé) acessoriamente no nível de preços, enquanto na periferia toda inovação significava redução do preço dos produtos exportados, com manutenção dos níveis de salários reais. Isto se daria porque o movimento sindical ativo nos países desenvolvidos obrigava o empresariado a atender parte de suas reivindicações salariais com os ganhos do crescimento da produtividade. Na periferia, no entanto, a existência de um setor tradicional, com imensa reserva de mão-de-obra desempregada ou subempregada, mantinha os salários reais no setor moderno da economia em níveis reduzidos. Esses dois fenômenos combinados levariam à deterioração dos termos de intercâmbio dos países periféricos com os países centrais. A teoria da estabilidade hegemônica foi originalmente formulada por Kindleberger (1970), mas foi desenvolvida e aprofundada por Keohane, 1980. Ela sustenta que estruturas hegemônicas de poder, dominadas por um único pais, são mais propícias ao desenvolvimento de relações econômicas internacionais baseadas em regras estáveis e aceitas, sendo que a decadência da potência hegemônica leva a uma maior instabilidade nas relações econômicas internacionais. Dessa forma, uma economia mundial liberal e aberta implicaria a existência de uma potência econômica claramente dominante. A decadência da Grã-Bretanha, sua relativa fraqueza no período entreguerras e a perda da hegemonia norte-americana no período recente explicariam, portanto, a instabilidade econômica internacional nesses períodos.

A teoria do sistema mundial moderno foi proposta pela primeira vez por Emmanuel Wallersteirt (1974), sendo que recentemente Giovarinni Arrighi (1996) tem sido um de seus principais teóricos. Tal abordagem supõe que a economia mundial contemporânea deve ser vista como um única unidade de divisão de trabalho com múltiplos sistemas culturais. A economia mundial é a unidade de análise relevante, sendo que o mundo moderno deve ser entendido como um sistema onde suas várias partes (os Estados nacionais) estão relacionadas por meio de diversos mecanismos, mas submetidas a uma dinâmica econômica que é fundamentalmente global. Essas três abordagens são apenas algumas das muitas teorias sobre a re]ação entre política e economia internacional. Várias proposiçoes discutidas acima foram testadas pelo estudo de experiências históricas, com maior ou menor grau de aderência à realidade. Entretanto, independente de seu poder explicativo, elas nos permitem concluir com segurança que as relações econômicas internacionais são um fenômeno complexo, e que elas não podem ser entendidas recorrendo-se apenas a alguns poucos modelos formais de análise econômica. A natureza das políticas comerciais estratégicas e suas implicações para a economia internacional podem ser, portanto, melhor compreendidas estudando-se a estrutura do comércio internacional em uma perspectiva histórica. Este será o objetivo da próxima seção. NEGOCIAÇÕES COMERCIAIS MULTILATERAIS, GATT E OMC A ordem econômica internacional do pós-guerra Ao fim da Segunda Guerra Mundial, o grande desafio a ser enfrentado pelos países ocidentais vencedores era a construçao simultânea de uma paz duradoura e de um novo modelo de sociedade capitalista. Esperava-se que essa nova institucionalidade não produzisse uma instabilidade política e econômica que levasse ao avanço do socialismo, então enormemente fortalecido. Para alcançar esses objetivos era preciso construir uma ordem econômica internacional que estabelecesse regras sob as quais as forças de mercado pudessem atuar, permitindo a previsibilidade das estratégias de investimentos empresariais. Por outro lado, era necessário estabelecer salvaguardas para evitar que os países europeus mais afetados pela guerra pudessem ser levados a crises ou à estagnação econômica que colocariam em risco a estabilidade dos países de influência ocidental. As experiências desastrosas de desvalorização competitiva e das políticas protecionistas do período entre guerras geraram uma profunda convicção entre os economistas britânicos e norte-americanos (que mais ativamente participaram do desenho dessa nova ordem econômica) de q ue taxas de câmbio fixas eram fundamentais para a estabilidade dessa nova ordem liberal. Embora houvesse profundas divergências quanto às bases do novo sistema financeiro internacional, isto é, se este deveria ter como pilar uma moeda escritural administrada supranacionalmente ou fundar-se na principal moeda da época (o dólar), havia consenso quanto à necessidade de criar-se um fundo de estabilização, gerido por uma agência supranacional, que fizesse face às crises temporarias de balanço de pagamentos. Este fundo abria um mecanismo de curto prazo para países que, sem esse suporte, só teriam como alternativa as condenadas políticas de desvalorização cambial ou protecionismo alfandegário. 0 FMI foi criado neste contexto para viabilizar um sistema multilateral de comércio e pagamentos que fosse compatível com elevados níveis d e emprego e renda, e, ainda, impedisse as práticas de depreciação competitivas que tinham gerado tanta instabilidade no período entre guerras.' 0 Banco Mundial, como passou a ser conhecido o BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), teria por função contribuir para a reconstrução da economia dos países destruidos pela guerra, incentivando os países beneficiários a desenvolverem políticas de crescirnento de longo prazo. Nesse sentido, a própria criação do BIRD implicava o reconhecimento de vantagens para políticas de planejamento economico e refletia, também, uma preocupação quanto à questão do desemprego, um fantasma ainda não completamente exorcizado depois da tragédia da década de 1930. Procurava-se, portanto, evitar que a desmobilizaçào dos exércitos levasse novamente à mobilizaçào de novos exércitos,

desta vez não de soldados, mas de desempregados - o caldo ideal para a difusão de idéias comunistas, p ara o nacionalismo radical ou qualquer onda de radicalismo. Na época temia-se principalmente a deflação do pré~guerra, sendo que a "inflação rastejante", com crescimento econômico e redução do desemprego, era preferível a um risco de deflação e crise econômica. (Prado,1993) A criação de uma Organização Internacional do Comércio (ITO International Trade Organization) seria, portanto, o terceiro pilar da nova ordem internacional, ao lado do Banco Mundial (BIRD) e do FMI. Seu papel seria construir um sistema de comércio mundial com regras definidas, o que facilitaria o funcionamento das forças de mercado onde as restrições ao comércio fossem progressivamente reduzidas. Esse sistema de comércio internacional teria, ademais, de estar subordinado à preocupação com a estabilidade política e econômica dos Estados nacionais, o que para a época significava a garantia de se relacionar o tema comércio com os temas emprego e desenvolvimento. A Carta de Havana e o GATT Em 1946 o Conselho Econômico e Social da recém-criada Organização das, Nações Unidas, em sua primeira reunião, aprovou uma resolução para realizar uma conferência para preparar os estatutos da ITO. Depois da reunião de um comitê preparatório em outubro de 1946, em Londres, realizou-se uma primeira assembléia em Genebra, entre os meses de abril e novembro de 1947. A reunião em Genebra tinha em sua agenda três grandes temas de negociação: a preparação da Carta da ITO, as negociações do acordo geral de redução multilateral de tarifas e o estabelecimento de regras gerais para as negociações sobre medidas tarifárias. Os Estatutos da ITO foram discutidos e aprovados em uma conferência mundial realizada em Havana, em 1948. Naquela ocasião foi assinada pelos 53 países presentes a Carta de Havana, criando a ITO em março de 1948. 0 documento aprovado estabelecia que a ITO tinha por objetivos: 1. Promover o crescimento da renda real e da demanda efetiva em uma escala mundial. 2. Promover o desenvolvimento economico, particularmente dos países não-industrializados. 3. Garantir acesso em igualdade de termos a produtos e mercados para todos os países, levando-se em conta as necessidades de se promover o desenvolvimento econômico. 4. Promover a redução de tarifas e outras barreiras ao comércio. 5. Impedir ações prejudiciais ao comércio internacional dos Estados nacionais mediante a criação de alternativas, isto é, oportunidades crescentes para o comércio e para o desenvolvimento econômico. 6. Facilitar negociações para problemas no campo do comércio internacional relativos a emprego, desenvolvimento econômico, política comercial, práticas empresariais e política de commodities. A não-ratificação pelo congresso norte-americano da Carta de Havana condenou a ITO à morte prematura. Seria impensáveI uma organização que tratasse de comércio que não tivesse a maior nação mercantil como parte. Nesse sentido, os últimos temas da reunião de Genebra de 1947, que formavam um acordo provisório chamado de GATT -Acordo Geral de Tarifas e Comércio -, cujos princípios tinham origem nas ações norte-americanas para redução negociada de suas elevadas tarifas da década de 1930, tornaram-se por default a base do sistema de comércio internacional por quase cinqüenta anos. Menos elaborado que a Carta de Havana, o GATT não era uma organização internacional, mas um tratado. Isto é, formalmente não deveria ter membros, mas partes contratantes ou países signatários. Este tratado estabelecia em seu artigo XXIX que, quando a Carta de Havana entrasse em vigor, a aplicação de sua parte II, que tratava dos aspectos mais substanciais da gestão do comércio internacional, seria suspensa. Vale a pena comparar alguns artigos do GATT com os artigos da Carta de Havana, para analisar as diferenças. 0 GATT é baseado em dois princípios básicos : (1) o príncipio da não discriminação; (2) o princípio de benefícios mutuos._ 0 primeiro é tratado no artigo I do GATT que estabelece a cláusula de nação mais

favorecida. Ou seja, os países membros comprometem-se a extender às outras partes contratantes qualquer vantagem, favor, imunidade ou privilégio concedido a qualquer outro país. O segundo é tratado no artigo XVIII, onde são estabelecidas as regras de negociações tarifárias que regerão as famosas rodadas do GATT. Neste artigo dois parágrafos são importantes: o que determina que as negociações devem ser efetuadas, principalmente, entre os países cujas trocas representam uma parte substancial de seu comércio exterior, e o que estabelece que a compensação para reduções tarifárias deve ser a concessão de vantagens que afetem um valor igual de fluxo de comércio. Outros artigos relevantes do GATT são: • 0 artigo XI, que proíbe restrições quantitativas às Importações; note-se, contudo, que o artigo XII estabelece as condições de não-aplicação do artigo XI, justificadas com salvaguardas para o balanço de pagamento. 0 artigo XIII, que estabelece que quotas devem ser aplicadas de forma não-discriminatória. 0 artigo XX111, que estabelece o princípio de nào-redução das concessões e vantagens outorgardas pelas partes e estabelece regras para a solução de disputas, 0 artigo XXIV, que estabelece as condições pelas quais a formação de áreas de livre comércio e união alfandegárias são permitidas.

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Enquanto na Carta de Havana as questões de natureza tarifária só aparecem a partir do capítulo IV (artigo XVI), depois de capítulos sobre Emprego e Atividade Econômica e sobre Desenvolvimento Econômico e Reconstrução, o GATT é um tratado preocupado quase que exclusivamente com a administração do comercio a partir do interesse das grandes nações mercantis. Somente depois que as Nações Unidas, pressionadas pelos países em desenvolvimento, conseguiram criar uma Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, sob a liderança de um dos mais criativos e certamente o mais influente economista latino-americano do pós-guerra, Raul Prebisch, é que o GATT incorporou, relutantemente, a parte IV, intitulada Comércio e Desenvolvimento. Esta, no entanto, nunca alterou de forma substancial o caráter do GATT. 0 GATT e a criação da OMC Em 49 anos de existência o GATT teve oito rodadas de negociações multilaterais de comércio.` A primeira foi em Genebra, em 1947, simultaneamente te com as negociações sobre a assinatura desse acordo. A segunda foi em Annecy, na França, em 1948. A terceira foi em Torquay, nos anos de 1950-51. A quarta foi novamente em Genebra, em 1955-56. As primeiras negociações, depois da Rodada de Genebra de 1947, trataram principalmente da ampliação de membros do tratado. Em 1947, 23 países, entre eles o Brasil, participaram das negociações, quando foram feitas 45 mil concessões tarifárias, cobrindo a metade do comércio mundial. Em 1955-56, na segunda Rodada de Genebra, o número de signatários chegou, com a adesão do Japão, a 33 países. No entanto, as rodadas de Annecy Torquay e Genebra (1955-56) progrediram muito pouco em termos de concessões tarifárias. A quinta foi a Rodada Dillon, em 1961-62, que, embora tenha sido realizada em Genebra, ficou conhecida pelo nome do secretário de Comércio dos EUA na época. Esta foi a primeira rodada depois da criação da Comunidade Econômica Européia (CEE) em 1957, e como conseqüência sua pauta se concentrou nas negociações em torno da tarifa externa comum desse tratado de integração. As concessões da nova comunidade em termos de produtos manufaturados foram reduzidas. Não foram feitas concessões na área de produtos agrícolas, embora essa fosse a mais afetada, em função da política agrícola comum empreendida pela recém-criada CEE. Ainda durante a Rodada Dillon foi negociado um acordo sobre produtos têxteis de algodão, que tratava esses produtos de forma distinta de outros produtos manufaturados. Nesse caso as regras do GATT não se aplicariam, já que esse produto era intensivo em mão-de-obra e relativamente pouco intensivo em tecnologia, permitindo que os países em desenvolvimento logo fossem competitivos nesses produtos. 0 acordo teve de início aplicação limitada, mas foi rapidamente estendido em tempo e abrangência.

A sexta foi a Rodada Kennedy, entre 1964 e 1967, também em Genebra. Este foi um período de rápido crescimento do número de países signatários. No início das negociações o GATT tinha 46 países membros, sendo que ao final da rodada esse número chegou a 74. Esse crescimento se deveu à entrada de grande parte dos novos países africanos, como resultado do processo de descolonização que caracterizou essa década. Na ocasião houve um grande avanço nas negociações tarifárias de produtos manufaturados, com uma redução média de 35% nas tarifas desses produtos nos países da OECD. Essa rodada também foi importante por ter incluído a Parte IV no tratado. Os artigos dessa parte foram negociados após o Grupo dos 77, isto é, o bloco de países em desenvolvimento nas Nações Unidas, ter conseguido criar a UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development) em 1964, pressionando por um tratamento diferenciado que vinculasse comércio internacional e desenvolvimento econômico. A sétima foi a Rodada Tóquio, entre 1973 e 1979. Nesta rodada 99 países, representando cerca de 90% do comércio mundial, participaram das negociações. A tarifa média de importações sobre produtos industrializados dos países desenvolvidos foi reduzida para 6%. Progressos foram feitos com a legalização de tratamento preferencial tarifário e não-tarifário para os países em desenvolvimento. Entretanto, as restrições ao comércio de produtos industrializados e agrícolas desses paises, particularmente no caso de têxteis e produtos alimentares, permaneceram. Também foram negociados nessa ocasião códigos que tratavam de produtos especiais ou de barreiras não-tarifárias. Esses códigos resultaram da objeção dos países em desenvolvimento à ampliação da disciplina do GATT em determinadas áreas. Essa resistência impedia que se alcançasse a maioria de dois terços necessária para emendar os artigos do GATT. Dessa forma, era possível que um conjunto de países chegasse a um acordo sobre um determinado tema, sem a participação de todos os signatários do GATT. A oitava e última foi a Rodada Uruguai, que se realizou entre 1986 e 1994. As negociações desenvolvidas nesse período foram de grande complexidade e abrangência, sendo a mais longa das rodadas. Como resultado dessas negociações, em abril de 1994 foi divulgada na Ata Final da Rodada Uruguai de Negociações Multilaterais a criação de uma Organização Mundial do Comércio (WTO - World Trade Organization). Entre 1947, quando se iniciou a primeira rodada do GATT em Genebra, e 1987, quando os acordos das negociações da Rodada Tóquio foram integralmente aplicados, o, GATT obteve expressivo sucesso na negociação de redução de barreiras tarifárias, sobretudo de produtos manufaturados. Depois do sucesso da Rodada Tóquio o comércio de manufaturados, em especial o comércio intra-industrial, voltou a crescer aceleradamente, após um período de desaquecimento. Isso foi decorrente em parte da estratégia glo~ bal das corporações transnacionais e, em parte, produto da recuperação das economias dos países industriais depois da instabilidade na economia internacional provocada pela "estagflação" nos países desenvolvidos nos anos 70 e a crise da dívida externa dos países em desenvolvimento nos primeiros anos da década de 1980. No entanto, a Rodada Uruguai veio com uma agenda que trazia grandes inovações: entre elas estavam a discussão da liberalização do setor de serviços (o GATS - General Agreement on Trade in Services), a discussão das TRIMs (Trade Related Investment Measures) e a questão da propriedade intelectual' (TRIPs - Trade Related Intelectual Property Rights). Os países em desenvolvimento, no entanto, tinham prioridades distintas nessa negociação. Como já foi dito, quando em 1987 o efeito total das reduções tarifárias da Rodada Tóquio se faziam sentir, a tarifa média dos países desenvolvidos era inferior, para a maior parte dos casos, ao custo do transporte. Entretanto, entre 1980 e 1990 as BNT (barreiras não-tarifárias) cresceram continuamente, sendo que em 1990, 17,5% do comercio mun ial de todas as origens era coberto por medidas nào-tarifárias. Para os países em desenvolvimento essa porcentagem era muito maior, representando cerca de 23% do comércio em 1990 (Tussie, 1994). Essas medidas são ainda fortemente concentradas na exportação de manufaturados intensivos em mãode-obra, o que implica que grandes segmentos do comércio internacional estão excluídos da liberalização ocorrida nesse período. 0 sistema de comércio a partir da Rodada Uruguai caminhou, no entanto, em direção distinta da pretendida pelos principais países em desenvolvimento. A agenda do GATT até a Rodada Tóquio era substancialmente uma agenda negativa, isto é, tratava apenas do que Diana Tussie chamou de "integração superficial" (shallow integration), em oposição a "integração profunda" (deep integration). A partir da Rodada Uruguai caminhou-se na direção de uma agenda positiva que implicava a regulação de políticas domésticas dos governos nacionais que tivessem efeitos sobre o comércio internacional (trade-interfering effects). Tais temas eram de escassa

relevância para países em desenvolvimento e, em alguns deles, eram francamente desfavoráveis. Por exemplo, a questão da harmonização dos direitos de propriedade intelectual, um dos temas mais caros da agenda, funda-se em lógica economica questionável. Foi acordado que os proprietários de patentes têm direitos de monopólio por vinte anos, sem obrigação explícita de produzir a patente localmente. Ainda mais, os proprietários de patentes terão direitos exclusivos de importação, ou seja, os acordos de patentes não contribuem para o livre comércio, mas impedem o livre comércio de produtos que foram resultado de pesquisa e desenvolvimento tecnológico (P&D). Nesse caso tal acordo poderá levar ao aumento do pagamento de royalties para inovadores estrangeiros, redução do potencial de competição e de oportunidades de P&D para os países do Terceiro Mundo e, ainda, a maiores preços para os produtos sob monopólio.` Tudo isso baseado no argumento de que sem tais medidas os investimentos em P&D que beneficiam toda a humanidade seriam reduzidos. Finalmente acordou-se que o resultado final da rodada implicava a adesão a um novo GATT - 1994. Isto é, os resultados da negociação acarretariam a assinatura de um novo tratado com um conjunto de normas aplicado a todos integralmente (single undertaking), evitando-se portanto as implicações legais de reformar-se o GATT - 1947. A criação de uma Organização Mundial do Comércio para supervisionar o GATT, o GATS e os acordos sobre os TRIPs foi proposta pelo Canadá, em 1990, e apoiada pela União Européia. Os Estados Unidos inicialmente se opuseram à idéia, uma vez que, tal como em 1947, o congresso norteamericano era extremamente avesso a tratados que limitavam a soberania desse país em assuntos comerciais. Entretanto, nas negociações sobre a ratificaçào ficava claro que tal organização não era distinta do GATT, rio que se refere aos riscos de prejudicar interesses, desse país (Hoekman & Kostecki, 1995, cap. 2). Por outro lado, uma organização com status similar ao Banco Mundial e ao FMI, com personalidade legal e imunidade diplomática em termos semelhantes às agências da ONU, aumentava a confiabilidade e efetividade da administração do comércio mundial. 0 ato final da Rodada Uruguai e a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) foram assinados pelos ministros dos países membros em 15 de abril de 1994. A nova organização, tal como o GATT, era baseada em dois princípios: reciprocidade e não-discriminação. 0 objetivo da OMC segundo seus estatutos, era ser "o quadro institucional comum para a condução das relações comerciais entre seus membros nos assuntos relacionados com os acordos e instrumentos legais conexos incluídos nos Anexos ao presente Acordo". Esses instrumentos legais conexos eram os Acordos Comerciais multilaterais, firmados sob a égide do GATT, e o GATT de 1994, documento que continha essencialmente as conclusões da Rodada Uruguai (ver Artigo 11 da OMC). A principal instância da OMC é a Conferência Ministerial, que deve ocorrer a cada dois anos. Entre elas a organização é gerida por um Conselho Geral; este é assessorado por um Órgão de Resolução de Controvérsias e por um órgão de Revisão de Políticas Comerciais (ver Figura 2.9). Três conselhos subsidiários e quatro comités operam subordinados ao Conselho Geral. A criação de urna Organização Mundial do Comércio com quase meio século de atraso levanta necessariamente a indagação de em que medida esta é uma reformulaçào do sistema de comércio internacional que de alguma forma possa recuperar algumas das questões da agenda da natimorta ITO, A OMC é um desenvolvimento da estrutura organizacional do GATT de 1947, acrescida das conclusões da Rodada Uruguai e etruturada para tratar de forma mais abrangente e rigorosa as questões relativas ao comércio internacional a partir da agenda proposta pelos países desenvolvidos, que é profundamente distinta dos fundamentos que levaram à assinatura da Carta de Havana, em 1948. 0 GATT criou as bases de um sistema de comércio internacional que pode ser melhor caracterizado como administrado do que liberal. 13 As regras do GATT nunca foram implementadas rigidamente quando os interesses dos países industriais avançados estavam em risco. Entretanto, na década de 1960 e início da

de 1970 conseguiu-se, em alguma medida, o reconhecimento da aceitabilidade, sob determinadas condições, das demandas por uma discriminação positiva dos países em desenvolvimento. A inversão dessa tendência deu-se, particularmente, a partir da segunda metade da década de 1970, com o crescente enfraquecimento dos Estados Unidos como potência hegemônica, o que levou este país a retornar à sua tradição do período anterior à Segunda Guerra Mundial de realizar ações agressivas bilaterais, ou plurilaterais, prioritaria ou paralelamente às discussões multilaterais`. Dois novos conceitos passaram a ser utilizados pelos negociadores norte-americanos a partir da Rodada Tóquio: comércio justo (fair trade), no lugar de livre comércio, e reciprocidade, no lugar de igualdade de oportunidades (Dias, 1996, p. 61). A ênfase, portanto, era em aumentar o grau de interferência no comércio mundial impedindo que mecanismos de mercado prejudicassem interesses concretos de grupos de pressão no interior dos EUA. Nesse contexto, para os países em desenvolvimento a OMC, com todas as suas limitações, parecia um mal menor do que a sujeição as pressões para concessões unilaterais por parte das grandes potências. Vários analistas, no entanto, expressam dúvida quanto à capacidade dessa organização de impedir na prática que os países ou grupos de países industriais utilizem o poder de suas economias e de seus mercados para o não-cumprimento de compromissos multilaterais.` Os argumentos a favor do comércio justo foram discutidos por Paul Krugman (1997) em instigante artigo. A idéia de comércio justo fundamenta-se na visão de que o livre comércio só é interessante se for recíproco, isto é, se os parceiros comerciais procederem de forma similar em sua política de liberalização comercial. Mas, afirma Krugman (1997, p. 113), se esse é o caso, a conclusão óbvia é que esses países devem também ter uma política econômica similar em questões que afetem o comércio no interior de suas fronteiras, não apenas no limite delas, Isto é, por que não exigir padrões internacionais para meio ambiente e relações trabalhistas, ou para política industrial e taxação doméstica?` Krugman critica tal visão argumentando que: (i) países distintos podem ter legitimamente diferentes visões sobre o que é o padrão razoável; e (ii) qualquer que seja a razão para a escolha de padrões diferentes de regulamentação, esta não é uma razão para impedir o comércio internacional, mas, ao contrário, tal como diferenças em gostos ou preferências, é mais uma razão para ganhos de comércio. Krugman recorre a James Mill para argumentar que um defensor do livre comércio não constrói sua doutrina no pressuposto da reciprocidade. 0 livre comércio seria vantajoso mesmo que o outro país não procedesse de forma similar. Isto é, usando-se a metáfora de Mill, o comércio internacional é apenas uma técnica de produção, uma maneira de produzir bens importáveis, produzindo primeiro bens exportáveis e depois trocando-os pelos primeiros. Desta forma, haveria ganhos de comércio, desde que os preços relativos mundiais sejam por qualquer motivos diferentes dos custos de oportunidades domésticos. Portanto, sob o ponto de vista dos ganhos nacionais não importa se os diferentes preços relativos são resultado da diferença de recursos, da diferença de tecnologia, de gostos, de leis trabalhistas ou de padrões de controle ambiental. Tudo o que importa é a existência de diferenças para que haja ganhos de comércio (Krugman, 1997, pp. 115). Krugman, como outros autores, adverte que ações unilaterais ou multi laterais que tentem impor padrões universais para normas ou legislações domésticas dos países membros da OMC podem prejudicar em vez de facilitar a liberalização do comércio mundial.` Entretanto, a tendência até ago~ ra demonstrada nas negociações na OMC, e em outros foros mundiais, é que essa prática vem se impondo no período recente. 0 futuro da OMC A OMC é o produto de cinqüenta anos de um comércio administrado que nunca foi completamente livre nem justo para os países em desenvolvimento. Por outro lado, a OMC poderá ser mais um foro onde as ações protecionistas mais agressivas de alguns países ou grupo de países industriais possam ser questionadas. Viviane Dias (1996) resume este dilema em um texto elegante:

Por um lado, países de desenvolvimento médio, como o Brasil, querem ter a proteção do direito internacional contra o poder arbitrário para definir as regras do jogo internacional exercido unilateralmente, nos últimos anos, pelos Estados Unidos. Mas, por outro lado, a inclusão de políticas nacionais na agenda internacional de comércio não só significa a redução da capacidade do Estado brasileiro para ajustar suas políticas às necessidades do desenvolvimento economico e social, mas também a aceitação de padrões, procedimentos e legislações de países mais avançados, nas áreas acordadas internacionalmente. 0 pior cenário será aquele no qual os países com maior poder não respeitem o cerceamento às suas leis por instituições multilaterais, mas utilizem o seu poder para que outros países cumpram os acordos internacionais. Relida meio século depois, sob a perspectiva de um país em desenvolvimento, a Carta de Havana seria uma melhor opção, como base de uma estruturação do comércio internacional, do que a OMC. Em especial a questão do emprego e a preocupação da relação entre comércio e desenvolvimento, como uma estratégia para associar uma ordem econômica liberal com uma ordem política estável, é mais relevante do que nunca. Por outro lado, este documento refletia um mundo com preocupações mais igualitárias, e em especial, profundamente influenciado por idéias keynesianas. A agenda da OMC, no entanto, trata de um mundo em que as idéias keynesianas expressas ria Carta de Havana parecem estranhas relíquias. Em vez de se buscar um novo pacto social - tal como o pacto social-democrata do pós-guerra - que permita um horizonte estável para que as empresas privadas planejem seus investimentos produtivos, os países desenvolvidos têm procurado culpados para suas próprias políticas econômicas fracassadas.` Por outro lado, a OMC será o fórum onde as questões do comércio internacional serão debatidas e onde será julgada a legalidade das ações unilaterais das grandes potências. Neste contexto, cumpre aos países de desenvolvimento médio, como o Brasil, terem uma diplomacia econômica ativa o bastante para lutar no sentido de que a ordem econômica mundial se aplique igualmente a todos. Nas décadas de 1950 e 1960 estes países lutavam com tenacidade contra a ordem internacional enviesada a favor dos países industriais e lutavam, ainda, por discriminações positivas favoráveis aos países em desenvolvimento. 0 presente contexto internacional é, no entanto, muito diferente; este obriga-nos à articulação de difíceis ações defensivas para evitar que os acordos estabelecidos na Rodada Uruguai sejam aplicados apenas contra os países politica e economicamente mais fracos.

A NOVA ECONOMIA INTERNACIONAL
o primeiro período de reconstrução após a Guerra da Coréia (1953-62) baseou-se essencialmente na promoção da substituição de importações. Duas dificuldades foram enfrentadas por essa estratégia coreana. A primeira era a alta propensão a importar da economia, com referência ao crescimento da produção industrial, devido à necessidade da importação de equipamentos e matérias-primas. A segunda era a dimensão relativamente reduzida do mercado interno. As exportações de produtos primários foram sempre reduzidas (menos de 1% do PIB) e, a poupança nacional, negligível. Nessas circunstâncias, fundos para os projetos de reconstrução e de desenvolvimento da infra-estrutura doméstica dependiam essencialmente de ajuda externa. Nesse periodo (1954-59) cerca de 70% de todos os projetos de reconstrução foram financiados por ajuda de outros países, particularmente os EUA (Sang-Mok Suk, p. 9). A principal característica desse período foi, no entanto, a grande ênfase na formação educacional, considerada uma virtude para o confucionismo, a filosofia de Estado da Coréia. A política de promoção de exportações iniciou-se no período 1963-71, sob o governo de Park Chung Hee, na medida em que verificou-se quel nas condições coreanas, essa era a única opção de crescimento. A promoção de exportações foi organizada pelo governo com subsídios diretos para exportação, incentivos fiscais, rebates tarifários, liberalizaçào de restrições creditícias etc. Por outro lado, o governo mantinha forte controle sobre a importação e o investimento estrangeiro, sendo que somente depois de 1967 o

governo muda de uma lista de controle de importações positiva para uma lista negativa. Isto é, somente após essa data o governo passa a publicar a lista dos produtos cuja importação era proibida, ou estritamente controlada, e não uma lista dos produtos cujas importações eram permitidas. No período 1972-79 o governo, por meio do Conselho de Planejamento Econômico, passou a promover fortemente a indústria pesada, enquanto fazia grandes transformações na estrutura socioeconômica doméstica. Para impedir que a disparidade entre as áreas rurais e urbanas aumentasse, o governo iniciou um forte programa de modernização rural, sustentado por política de suporte ao preço dos principais cereais, particularmente o arroz e a aveia, e subsidiando o uso de fertilizantes e a aquisição de maquinarias. Foram desenvolvidos programas como o Saemaul Undong (movimento de novas vilas), que pretendia melhorar as condições de vida no campo melhorando também a produtividade agrícola e a renda. Ao final da década de 1970 a Coréia passou por um processo de estabilização que não foi bem-sucedido em vista da eclosào do segundo choque do petróleo. Em 1980 esse país passou pela sua maior crise, com crescimento negativo de 4,8%. No início da década de 1980 a Coréia iniciou uma reforma estrutural para alcançar três objetivos: (i) estabilidade de preços; (ii) liberalização dos mercados e (iii) crescimento econômico equilibrado. Nas condições de distribuição de renda coreanas, e dado o grau de coordenação da economia, as políticas de preços e rendas foram bem-sucedidas, e esse país conseguiu reduzir as pressões inflacionárias. 0 número de itens que podiam ser importados livremente foi aumentado de forma progressi~ va, reduzindo-se aos poucos as tarifas de importação. Somente nessa época foram iniciadas a liberalização das restrições ao investimento e a proprieda de estrangeira em áreas consideradas de interesse nacional (Sang-mok Suh, 1992, p. 27). As políticas coreanas de substituição de importação, promoção de exportação e liberalização comercial e financeira foram feitas sempre sob o estrito controle do Estado, dentro de estrategias de longo prazo, implementadas por planos qüinqüenais. Nas condições específicas do caso coreano, essa era a única via de industrialização possível. A possibilidade de financiar a substituição de importações com a exportação de commodities não era uma via possível para a Coréia. Esse país, contudo, nunca foi uma economia liberal, e, da mesma forma que a experiência de substituição de importações latino-americana, se insere no modelo de crescimento deriva do da ação do Estado. Menos que o papel do Estado ou a política comercial, as grandes diferenças entre a Coréia do Sul e as economias latino-americanas - particularmente o Brasil, o país mais bem-sucedido durante o processo de substituição de importações - foram a estrutura relativamente equalitária que sempre caracterizou o desenvolvimento coreano e o alto nível de investimento na formação de recursos humanos. Essas duas diferenças são elementos importantes para explicar por que a América Latina tendeu a ampliar sua heterogeneidade estrutural com o crescimento industrial, enquanto a promoção da industrialização da Coréia se deu reduzindo as disparidades regionais e sociais. INTEGRAÇÃO ECONÔMICA E DESENVOLVIMENTO A teoria da integração econômica A integração econômica pode ser definida como o processo de criação de um mercado integrado, a partir da progressiva eliminação de barreiras ao comércio, ao movimento de fatores de produção e da criação de instituições que permitam a coordenação, ou unificação, de políticas econômicas em uma região geográfica contígua ou não. A economia da integração é um tema que vem adquirindo importância crescente nas últimas décadas.- Entretanto, esta não é urna discussão recente, remontando ao período de formação de alguns Estados nacionais, tais como a Alemanha e a Itália, no século XIX. Muitas das questões levantadas nesta discussão foram relevantes em períodos anteriores, em especial entre os séculos XVI e XVIII como conseqüência do fim do feudalismo e da difusão de políticas mercantilista nas economias nacionais européias.

Pode-se observar historicamente as seguintes formas de integração: 1. Área de livre comércio - definida como uma região em que os países membros eliminaram barreiras ao comércio intra-regional, mas mantêm políticas comerciais independentes com relação a países nào-membros. Isto é, uma área de livre comércio tem idealmente tarifa zero entre os países membros, mas com países nào-membros essas barreiras são definidas independentemente, sem considerar interesses ou conveniências dos outros países do bloco. Neste caso é necessário estabelecer os criterios que definem a nacionalidade de um produto para beneficiar-se da política tarifária regional. 0 instrumento que garante este benefício é o Certificado de Origem, com regras acordadas entre os países membros. Exemplos de tratados de livre comércio - NAFTA (Tratado de Livre Comércio Norte-Americano), EFTA (Associação Européia de Livre Comércio), ALALC (Associação Latino Americana de Livre Comércio). 2. União aduaneira - definida como uma área de livre comércio, onde os países membros acordam seguir uma política comercial comum com referência a não-membros. Isto é, adotam uma Tarifa Externa Comum (TEC), ou uma política setorial comum (por exemplo, a Política Agrícola Comum da União Européia), aplicáveis a países fora da região. Neste caso não há necessidade de Certificado de Origem, uma vez que qualquer produto que for importado será submetido às mesmas regras na região. Exemplos de união aduaneira - A união aduaneira formada pelos estados germánicos em torno da Prússia em 1834 (isto é, o Zollverein), O Mercosul, que embora tenha por objetivo construir um mercado comum, pode ser considerado atualmente apenas uma união alfandegária incompletata. 3. Mercado comum – é uma união alfandegária onde há livre circulação de fatores de produção. Insto é, mão-de-obra, capital e empresas podem mover-se livremente entre os países da região sem qualquer restrição a sua circulação. Exemplo de mercado comum - 0 melhor exemplo de mercado comum Comunidade dade Econômica Européia. Desde 1992 esta passou a se chamar União Européia, e estabeleceu um cronograma para a sua transformação em urna união monetária até o fim do século. Entretanto, deve-se ressaltar que a União Européia é, no momento, apenas um mercado comum. 4. União econômica ou monetária - é um mercado comum onde há unificação das políticas monetárias e fiscais. Com o estabelecimento da união económica, a unificação dos mercados é atingida. Com o estabelecimento de autoridades econômicas centrais, os países membros tornam-se efetivamente regiões em um único mercado. Em termos econômicos desaparece, portanto, a soberania de cada nação, que é totalmente transferida para a autoridade central. Além da união econômica há somente a formação de uma união política, ou uma confederação, onde a região transforma~se juridicamente em um unico pais. Deve-se observar que essas formas de integraçào não formam necessariamente estágios de integraçào. Várias dessas formas, tais como a área de livre comércio, ou o mercado comum, podem ser implementadas diretamente, sem que se tenha por objetivo seguir para níveis mais profundos de integração. As políticas de integraçào econômica podem ser positivas ou negativas. Medidas negativas são a remoção de barreiras ao comércio internacional, ou as restrições ao processo de liberalização comercial. Políticas positivas de integração são as modificações dos instrumentos existentes e a criação de instituições para permitir o aprofundamento da unificação dos mercados e seu efetivo funcionamento. A teoria de integraçào econômica tem duas vertentes teóricas: (i) a baseada em conceitos tradicionais da teoria pura do comércio internacional, que funda-se no conceito de vantagens comparativas estáticas e de especialização comercial;` (ii) a inspirada por argumentos protecionistas, tais como o conceito de List (1841) de indústria nascente e por conceitos da teoria do desenvolvimento. Estes incorporam ao debate as idéias de economias crescentes de escala e a preocupação com externalidades - isto é, a integração

econômica entre países em desenvolvimento seria um instrumento para viabilizar escalas mínimas de produção para o aprofundamento do processo de substituição de importações. Jacob Vinner criou as bases da teoria da integração econômica a partir da teoria pura do comércio internacional. A grande contribuição desse autor foi a distinção entre os efeitos de "criação de comércio" e "desvio de comércio" na criação de uma união aduaneira. Em seu modelo teórico, a união aduaneira só seria válida como uma segunda melhor alternativa (second best) na impossibilidade de uma política de redução tarifária multilateral, que seria a melhor alternativa (first best). Define-se criação de comércio como o mecanismo de ampliação das transações comerciais entre os países membros de urna união aduaneira, a partir da unificação dos preços dos produtos na região após a queda das barreiras tarifárias. Isto é, os produtores domésticos menos eficientes em cada país membro são preteridos em favor de produtores mais eficientes em outros países membros. 0 desvio de comércio é definido como o mecanismo de redução do comércio com os países não-membros da união aduaneira, em benefício do aumento do comércio intra-regional. Isto é, produtos importados de fora da região passam a ser preteridos por produtos produzidos na região, em função da estrutura da tarifa externa comum e da liberalização intra-regional. Embora Vinner e Balassa, formuladores da teoria neoclássica de integração economica, sejam os autores mais conhecidos sobre este tema, cabe destacar que, historicamente, os argumentos que motivaram a proposição de projetos de integração têm como matriz teórica a segunda vertente da teoria da integração. Foram argumentos de List, por exemplo, que motivaram a criação do Zollverein no século XIX.` Os primeiros tratados de integração européia foram também inspirados em concepções protecionistas tradicionais, mas foram influenciados pela idéia de que a aplicação na esfera regional de princípios de planejamento econômico prepararia a regiào para o desafio da concorrência com os EUA e o enfrentamento da ameaça soviética. 0 debate teórico sobre a economia do desenvolvimento no pós-guerra teve como principal conseqüência a difusão da idéia de que as vantagens comparativas não eram estáticas, mas dinâmicas. Essas, portanto, seriam construídas por políticas públicas adequadas. As estratégias de industrialização lideradas pela ação do estado viabilizariam, por meio de um crescimento equilibrado (Rosestein-Rodan) ou desequilibrado (Hirschman), a montagem de um setor moderno que, após implantado, seria capaz de competir com economias que se industrializaram em períodos anteriores. Entretanto, estratégias de crescimento liderado pela ação do Estado dependiam da capacidade deste de financiar sua intervenção econômica e, ainda, da dimensão do mercado doméstico para viabilizar uma escala mínima de produção compatível com os objetivos almejados. Mas, para a grande maioria dos países subdesenvolvidos, o mercado doméstico era restrito e, os recursos disponíveis para a ação do Estado, limitados. Nesse contexto, a integração econômica entre países em desenvolvimento seria uma alternativa para viabilizar uma estratégia de desenvolvimento que seria irrealizável nas dimensões de pequenas economias periféricas. Essas razões levaram Prebisch e os economistas da CEPAL a defender a necessidade da integração das economias latino-americanas. Assim, em 1957 o Comitê de Comércio da CEPAL criou um Grupo de Trabalho para o Mercado Regional Latino-Americano. Em 1960 foi assinado o Tratado de Montevidéu, criando a ALALC (Associação Latino-americana de Livre Comércio), ratificado por Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Paraguai, Peru, Urugua; e Venezuela. Ainda na década de 1960 vários outros tratados de integração econômica, de inspiração teórica similar, foram assinados na América Latina e Caribe. Esse período foi um dos mais ativos na tentativa de criar um sistema que viabilizasse a integração regional. Portanto, os projetos de integração propostos nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra eram entendidos por seus formuladores como instrumento político para construção de estratégias regionais de desenvolvimento econômico e de construção de suas vantagens competitivas. Embora a criação de

comércio em decorrência de reduções tarifárias fosse o principal objetivo da integração, esta era vista como uma forma de ampliar a escala de produção para viabilizar uma estratégia de desenvolvimento que não era possível de ser implementada no espaço econômico de cada país isoladamente. Este era um projeto político com implicações econômicas, e não um second best para negociações multilaterais. Essa estratégia foi bem-sucedida na Europa e fracassada na América Latina. A integração européia imaginada na década de 1950 era limitada à Europa ocidental, forjando-se no contexto político e econômico da Guerra Fria. Em sua essência havia uma relação ambígua e mal definida da solidariedade Atlântica. A Europa ambicionava tornar~se um parceiro equivalente em poder econômico e político a seu protetor, os EUA. Mas a Europa almejava também reconstruir-se como grande potência, libertando-se da pressão soviética, no oriente, e da tutela norte-americana, no ocidente (Wallace, 1990, p. 2). Desde que o Tratado de Roma entrou em vigor, em 1958, o núcleo original dos seis países aumentou para quinze países. Desde sua criação, o núcleo fundador foi acrescido do Reino Unido, Dinamarca e Irlanda em 1973, de Grécia, Portugal e Espanha na década de 1980. E ainda na década de 1990 a integração européia passa por nova reformulação, com as negociações para entrada de outros países escandinavos, de outros países do EFTA e ainda pela possibilidade de futura adesão de países de economias em transição da Europa central e oriental. Por outro lado, o processo de integraçao européia evoluiu, desde a década de 1960, de preocupações centradas principalmente em questões comerciais para questões de coordenação e integração de políticas públicas e estímulo à formação de redes e outros processos de integração informal (Bressand & Nicolaidis, 1990, p. 28). Isto é, a Comunidade Européia enfrentou com sucesso os desafios da integração comercial, que era a questão tratada pelas teorias tradicionais de integraçao econômica para tentar ir além, em busca de um modelo de integraçao compatível com os desafios enfrentados por essa região. Na América Latina, ao contrário, as tentativas de integração econômica, que se iniciaram aproximadamente na mesma época do processo de integração europeu, foram incapazes, até meados da década de 1980, de criar um modelo estável para a formacão de uma simples área de livre comércio. A liberalização comercial na América Latina não ocorreu após um processo de integração comercial bem-sucedido no continente, mas foi concomitante ou precedeu as recentes experiências de integração sub-regional. Uma explicação para o fracasso dessas políticas é o fato de que os governos latino-americanos viam seus mercados domésticos como um ativo estratégico, e seus vizinhos latino-americanos como concorrentes no fornecimento de produtos primários ou processados para um mercado internacional cuja demanda tinha baixíssima elasticidade -renda. Nesse sentido os mecanismos de Listas Nacionais de Concessões e Listas Comuns, empreendidos pela ALALC, foram muito pouco eficientes, na medida em que os governos dos grandes países relutavam em oferecer vantagens a vizinhos que consideravam mais concorrentes que parceiros. 0 Pacto Andino, que tinha entre as razões de sua criação a insatisfação com o comportamento dos grandes países (Argentina, Brasil e México) na ALALC, também não obteve resultados compatíveis com as expectativas que gerou. As razões de seu fracasso foram mais políticas que econômicas, tal qual a experiência do MCCA, que praticamente ficou estagnado desde a década de 1970. 0 modelo de substituição de importações começou a entrar em crise ainda na década de 1970. As experiências liberais no Cone Sul empreendidas na Argentina, Chile e Uruguai nessa década mostraram-se, entretanto, problemáticas.` Mas as tentativas de se aprofundar o processo de substituiçào de importações no Brasil e no México não impediram seu esgotamento. A moratória mexicana, depois da elevação da taxa de juros norte-americana a níveis estratosféricos no final da década de 1970 e no início da década de 1980, levou à crise econômica vários países latino-americanos, inclusive o Brasil, marcando definitivamente o ocaso desse modelo na América Latina. A partir de meados da década de 1980 vários países latino-americanos iniciaram ou aprofundaram programas de liberalização unilateral. Chile e Argentina, países que tiveram problemas com suas experiências de liberalização na década de 1970, empreenderam novos ciclos de reforma tarifária. Durante a primeira liberalização comercial do Chile, no período 1974-81, permitiu-se uma prolongada apreciação

cambial, vinculada à política crescentemente liberal com referência aos fluxos de capital privados. A segunda reforma chilena no período 1985-1991, no entanto, deu melhores resultados do que a primeira. Esta foi mais pragmatica do que aquela, sendo que a depreciação cambial foi um instrumento usado para estimular o crescimento de exportações não -tradicionais desse país. Pragmaticamente, desde 1989, o Chile vem tentando controlar a apreciação cambial por meio de vários mecanismos de restrição dos fluxos externos de capital de curto prazo que, desde essa época, moveram-se em grande volume para as economias latino-americanas (CEPAL, 1994, pp. 107-109). A Argentina iniciou em 1988 uma segunda experiência de abertura econômica, depois da fracassada experiência liberalizante da década de 1970, sob o ministério de Martinez de Hoz. A partir de outubro de 1988 iniciouse um forte processo de liberalização do regime comercial e a criação de um novo regime tarifário. Desde essa data até as reformas de abril de 1991 as tarifas moveram-se onze vezes para baixo. 0 processo de liberalização comercial e financeira culminou com um pacote que incluía a lei da conversibilidade, a abertura total da conta de capitais e a consolidação da reforma comercial (Cepal, 1994, p. 109). 0 ressurgimento das experiências de integração econômica na América do Sul e, em especial, o Tratado de Assunção, que iniciou o processo de integração do Cone Sul, devem ser analisados dentro do contexto das grandes des reformas econômicas empreendidas pelos países da região. 0 novo regionalismo Ao longo de suas rodadas de negociações o GATT conseguiu reduzir substancialmente as barreiras tarifárias entre os países membros. Esses fatos justificariam a afirmação de que as negociações multilaterais criaram uma economia internacional liberal, sendo irrelevantes discussões -sobre regionalismo ou sobre negociações bilaterai . Entretanto, desde meados da década de 1980, houve um ressurgimento dos debates sobre criação de blocos econômicos e a criação de vários novos tratados de integração: entre eles o do Nafta e o do Mercosul. 1 Esse movimento surge por diversas razões, sendo que duas de particular relevância: (i) a insatisfação com as negociações multilaterais no GATT e (ii) a procura de novas alternativas para dinamizar economias em desenvolvimento afetadas pela crise na década de 1980. A principal razão do sentimento de frustração com as negociações no GATT é que estas pareciam incapazes de impedir a expansão de barreiras não-tarifárias e o tratamento diferenciado para produtos agrícolas ou produtos manufaturados intensivos em mão-de-obra, como têxteis. Na verdade o GATT tinha sido bem-sucedido na redução das barreiras tarifárias de produtos industriais, mas essas eram menos importantes do que um grande número de expedientes para restringir o comércio internacional, tal como as VER (voluntary, export resttictions), OMA (organized marketing arrangement cotas de imposição unilateral etc. A existência dessas áreas cinzas, nem expressamente legais ou ilegais, são diametralmente opostas aos princípios fundamentais do GATT, porém essas persistiram e expandiram-se no período recente (Patterson & Patterson, 1990, p. 8). Por outro lado, um ponto de insatisfação dos EUA com o GATT eram as dificuldades que os chamados novos temas, tais como o comércio de serviços, a proteção aos investimentos (TRIM - Trade Related Investment Measures) e a questão da propriedade intelectual encontravam na Rodada Uruguai no início da década de 1990. 0 sentimento de insatisfação, justificado ou não, com as negociações no GATT por parte dos EUA, foi um dos importantes fatores que explicam a adoção do bilateralismo como alternativa estratégica desse país ao fim da década de 1980.` 0 primeiro acordo bilateral assinado pelos EUA foi de pequena importância estratégica: em 1985 foi assinado um tratado de livre comercio com Israel. A mudança na política comercial norte-americana tem como marco a assinatura do Tratado de Livre Comércio com o Canadá em 1988. As negociações para a criação do NAFTA iniciaram-se formalmente em 1 junho de 1991, um ano depois que George Bush e Carlos Salinas de Gortari declararam pela primeira vez seu apoio a um amplo acordo entre Estados Unidos e México e quatro meses depois que os dois presidentes concordaram em ampliar as conversações para incluir toda a América do Norte.

No Cone Sul, as negociações entre Brasil e Argentina tiveram início com a assinatura do PICE (Programa de Integração e Cooperação Econômica), instituído pela Ata para Integração Argentino-Brasileira, assinada em Buenos Aires em julho de 1986. Este foi seguido em 1988 pelo Tratado de Integração e Cooperação e Desenvolvimento firmado entre Brasil e Argentina e pelo Acordo de Complernentação Econômica N` 14, assinados pelos dois países no âmbito da ALADI, em dezembro de 1990. A motivação dessas negociações foi de início essencialmente política. Os governos de Sarney e Alfonsín eram frutos de um processo de transição democrática e viam tal aproximação como uma forma de aumentar seu poder de barganha em suas relações internacionais. Esses governos contavam, ainda, com prestígio interno e esperavam, por meio de planos de estabilização heterodoxos, reverter o processo de inflação com recessão. Esperava-se obter, com a aproximação comercial de seus países, ganhos de economia de escala e, ainda, beneficiar-se com a comp leme n raridade entre suas economias. Em julho de 1990, Argentina e Brasil decidiram prosseguir com a experiência da integração econômica com a assinatura da Ata de Buenos Aires que fixou em 31/12/1994 a data para a formação de uma união aduaneira entre os dois países. Posteriormente o Paraguai e o Uruguai juntaram-se às negociações, levando à assinatura do Tratado de Assunção em 26/3/1991, já nos governos de Collor e Menem. 0 fracasso das administrações de Sarney e Alfonsín levou a uma mudança na orientação política desses países. Dentro do espírito liberalizante dos novos governos, a integração regional seria um movimento compatível com a formação de blocos no espaço internacional. O Mercosul seria parte de um processo de liberalização mais amplo. Este se configura naquilo que a CEPAL viria a chamar de Regionalismo Aberto (CEPAL, 1994). Mercosul e NAFTA 0 Tratado de Assunção foi abrangente em seus objetivos e ambicioso no tempo para atingi-los. Ele vai além de uma área de livre comércio, visando à construção de um mercado comum que abrange uma tarifa externa comum, a livre circulação de fatores de produção, o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a terceiros paises, a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os países e a harmonização de suas legislações. 0 Tratado de Assunção não pode ser comparado com o Tratado de Roma. Este se inspira na Convencão Benelux, complementada pelo protocolo de Haia, que instituiu a união aduaneira entre Bélgica, Luxemburgo e Países Baixos (Almeída, 1992). 0 Mercosul, tal como o Benelux, não tem instituições supranacionais, mas sim intergovernamentais. A Convenção Benelux também objetivava estabelecer uma TEC e aproximar suas políticas econômica e social. No plano institucional ela seria implementada por conferências ministeriais entre os três países, assim como por órgãos mistos econômicos e técnicos, com funcào puramente consultiva. 0 órgão máximo do Mercosul é o Conselho do Mercado Comum, que é uma instituiçao intergovernamental. Os outros organismos do Mercosul têm caráter técnico ou consultivo. Esta é a característica do Conselho do Mercado Comum, da Comissão Parlamentar Conjunta e do Fórum Social e Econômico, estes dois últimos criados na VII Reunião do Conselho do Mercosul em dezembro de 1994, quando foi assinado o Protocolo de Ouro Preto. Embora com objetivos menos abrangentes do que os da União Européia, o Mercosul é muito mais ambicioso que o NAFTA. Este restringe-se a uma área de livre comércio, sem qualquer pretensão de aprofundar a integração além da redução de barreiras tarifárias e do compromisso dos Estados Partes de introduzir algumas legislações de interesse de seu maior membro, os EUA. Dessa forma, são os seguintes os objetivos do NAFTA: (a) eliminar barreiras ao comércio, e facilitar movimentos fronteiriços de bens e serviços entre os territórios das partes; (b) promover condições para uma competiçao Justa na área de livre comércio; (c) crescer substancialmente as oportunidades de investimento nesses territórios, (d) prover adequada e efetiva proteção e implementação dos direitos de propriedade intelectual no território de cada parte, (e) criar procedimentos efetivos para a implementaçào e aplicação deste Acordo, e de sua administração conjunta e solução de disputas; e (f) estabelecer uma estrutura para que cooperações futuras trilaterais, regionais e multilaterais se expandam e ampliem os beneficios desse acordo.

Embora nem sempre explicitado no Tratado do Nafta, a admissão de um país como membro implica a aceitação de regras harmonizadas em setores como investimentos, serviços e propriedade intelectual, áreas às quais a política comercial dos EUA vem recentemente dando grande ênfase. Porenglobar esses temas, que provocaram grandes controvérsias durante a Rodada Uruguai, vários autores consideram o NAFTA mais abrangente do que o Merco sul. 0 NAFTA é, sem qualquer dúvida, um tratado de grande amplitude temática, regulando vários aspectos da relação comercial entre os países membros. Essas regulações são de três ordens: (i) aquelas que atendem às preocupações dos setores sindicais dos EUA, e em menor medida do Canadá, ou seja, as que procuram impedir o que esses setores chamam de dumping social e dumping ecológico; (ii) aquelas que protegem investimentos de setores financeiros e industriais norte-americanos, ou seja, os acordos sobre serviços financeiros e direitos de propriedade intelectual; e (iii) aqueles que protegem setores industriais e agrícolas norte-americanos e canadenses contra a concorrência dos salários mais baixos mexicanos, ou seja, as salvaguardas, as regras de origem e as cotas para exportações agrícolas. A primeira ordem de regulações, que atende às pressões dos movimentos sindicais e organizações defensoras do meio ambiente, implica um argumento incompatível com a teoria pura do comércio internacional. Se os países exportam produtos intensivos no fator de produção com oferta doméstica relativamente abundante, seria natural que o México exportasse produtos intensivos em mão-de-obra. Os acordos nas áreas trabalhistas e de meio ambiente são uma forma de reduzir a vantagem relativa mexicana em setores intensivos em mão-de-obra. Nessa mesma linha, a terceira ordem de regulações, isto é, as regras de origem muito Severas, a perpetuação das cotas para produtos agrícolas e a possibilidade do uso de salvaguardas são artifícios defensivos para temores, fundados ou não, que vários segmentos da sociedade norte-americana têm da destruição de empregos naquele país, como resultado da concorrência dos salários mais baixos mexicanos. A segunda ordem de regulações tem o papel inverso de garantir mercados, e não de protegê-los. Essas regulações eliminam restrições ao comercio de serviços financeiros, estabelecendo que as empresas ou pessoas de um país membro poderão realizar sem restrições em outros países signatários qualquer tipo de operações bancárias, de seguros, compra e venda de valores e outros serviços financeiros que a legislação autorize aos naturais desses países. Os acordos sobre propriedade intelectual implicaram a reprodução da legislação norte-americana sobre o tema para os outros países signatários, sendo nesse sentido mais abrangente do que a aprovada na Ata Final da Rodada Uruguai, que foi posteriormente incorporada à OMC. 0 NAFTA não trata de temas como liberdade de circulação de mão-de-obra, ou de tarifa externa comum, e dificilmente haverá condições políticas de fazê-lo no futuro previsível. Portanto, apesar de esse tratado se restringira uma área de livre comércio, ele trata de um grande número de questões como a coordenação de políticas de investimento, meio ambiente, propriedade intelectual e alguns aspectos limitado da legislação trabalhista. 0 modelo do NAFTA, como área de livre comércio, está fora do debate da teoria de integração econômica tradicional. Como não pretende estabe lecer uma TEC (Tarifa Externa Comum), e a tarifa média norte-americana é baixa, o argumento de Vinner dos efeitos prejudiciais de desvio de comércio não se aplicaria. Portanto, o grande fator de atração do NAFTA e a possibilidade de tratamento diferenciado por parte dos EUA aos países membros quanto à imposição de BNTs (Barreiras Não-Tarifárias). Nesse caso, o trata mento preferencial dos EUA garantiria investimentos de subsidiárias de corporações transnacionais no México e no Canadá. Estas, por sua vez, ampliariam o comércio exterior desses países com os EUA (Weintraub, 1991, p. 49). 0 interesse do México e do Canadá pelo NAFTA seria, então, a disputa desses países por investimentos e por maiores garantias de acesso ao mercado norte-americano com menos restrições não-tarifárias as suas exportações.

Por outro lado, o interesse dos EUA no NAFTA segue uma lógica diferente. Inicialmente há um interesse econômico imediato de uma relação estreita com os países signatários. 0 Canadá é o maior e o México e o terceiro maior parceiro comercial dos EUA. Juntos, esses países absorveram 31% das exportações norte-americanas em 1993. Por outro lado, os EUA são de longe o maior mercado para as exportações mexicanas e canadenses. Assim, uma expansão das exportações desses países para os EUA, gerando crescimento da renda doméstica, reverteria em parte para os EUA por meio da importação de produtos norte-americanos. 0 segundo motivo do interesse norte-americano é de natureza política. 0 NAFTA foi em sua origem também uma sinalização para a União Européia e para o Japão de que os EUA poderiam partir para uma política de desenvolvimento de um mercado regional, implementando uma política mais contundente na defesa de seus interesses comerciais. Por outro lado, a sugestão de ampliação do NAFTA servia como um atrativo para a difusão no continente americano de legislação e politicas internacionais sediadas em Washington. No debate sobre o Cone Sul havia duas visões quanto aos objetivos, amplitude e fundamentos do Mercosul. A primeira, que chamarei de liberal, via a integração regional como um estágio em um processo de liberalização mais amplo, dentro de principios estabelecidos no programa de iniciativas das Américas, cujo modelo seria a ampliação do NAFTA, com a incorporação progressiva das áreas de livre comércio subregionais. A segunda abordagem, que chamarei de neodesenvolvimentista, sustentava que o Mercosul devia inserirse em um projeto de desenvolvimento regional, sendo que a própria criação de um mercado comum implicava o estabelecimento de coordenação das políticas macroeconômicas dos países envolvidos, não apenas em termos de políticas industriais articuladas, com prioridades comuns de promoção de crescimento setorial, mas ainda com intervenções articuladas para a administração dos conflitos causados nas economias nacionais pelo processo de integração. Essas duas visões do Mercosul reproduziam quase literalmente os debates sobre a integração econômica européia, onde as correntes “liberais” e “dirigistas” disputavam quais deviam ser os objetivos desse processo. Essas visões refletiam ainda as dias tradições da teoria da integração econômica anteriormente mencionadas. O Mercosul estruturou-se, no entanto, a partir de uma terceira visão – o regionalismo aberto. Este seria uma tentativa de se implementar uma integração econômica que procurasse produzir apenas o efeito de criação de comércio, reduzindo-se ao máximo os efeitos de desvio de comércio. Esse modelo seria, portanto, menos protecionista que a União Européia e ainda sem coordenaçãoou normatização sepranacional, porém mais profundo e abrangente que o modelo do NAFTA. 0 próprio conceito de regionalismo aberto, tal como definido em documento da CEPAL (1994), é ainda uma idéia controversa. 0 secretário executivo da CEPAL, Gert Rosenthal (1994) vê o conceito de regionalismo aberto como um processo de integração com grande grau de informalidade. Para ele esse -,cria "um processo de crescente interdependència econômica em nível regional, impulsionado tanto por acordos Preferenciais de integração como por outras políticas em um contexto de abertura e desregulamentação, com o objetivo de aumentar a competitividade dos países da região e de constituir, na medida do possível, um estímulo a uma economia internacional mais aberta e transparente”. Segundo essa definição, o regionalismo aberto seria essencialmente forinado pelos Acordos de Complementação Econômica (ACE), permitidos pela ALADI, para flexibilizar as relaçoes econômicas entre seus membros. Esse conceito seria desta forma, quase que sinônimo do que se convencionou chamar de "Acordos de Nova Geração”. 0 documento da CEPAL (1994), no entanto, permite uma interpretação diferente do conceito de regionalismo aberto. Este seria essencialmente uma idéia para contrapor as frustradas experiencias de integração na América Latina até o início da década de 1980, com as novas tentativas de regionalismo que

se iniciaram na segunda metade dessa década e prossegue até hoje. 0 nome regionalismo aberto vinha sendo usado em alguns debates na América Latina sobre essas novas experiências de integração desde o início da década de 1990. Em 1993, Revnolds, Thoumi e Wettmarm publicaram um estudo intitulado "A Case for Open Regionalisim in the Andes". Mas o documento da CEPAL (1994) foi a primeira formulação sistemática do conceito. Este é, ainda, aberto o suficiente para permitir várias interpretações e polêmico bastante para ensejar questionamentos vigorosos. 0 modelo do regionalismo aberto traz ainda como concepção algumas particularidades. Para que a redução tarifária entre os países membros não acarrete desvio de comércio, a TEC deveria ter níveis tarifários baixos, reduzindo-se significativamente a margem de preferência no interior da união aduaneira. Nesse caso, diferentemente das teorias tradicionais de integração econômica, esse processo depende menos dos aspectos comerciais da integração e mais de seus efeitos sobre as decisões de investimento de corporacões trarisnacionais, das grandes empresas nacionais dos países membros e de outros agentes econômicos. Isto é, a dinâmica desse processo para a integração informal. Esse aspecto pouco discutido passa a ser, portanto, um ponto essencial a ser discutido em um tratado de integracão como o Mercosul. 0 ambicioso cronograma de desagravação tarifária do Tratado de Assunção, conhecido como Calendário de Las Lenas foi cumprido em sua maior parte. Apesar de todas as dificuldades para o estabelecimento da TEC, em janeiro de 1995 iniciou-se a operação de uma união aduaneira, embora incompleta, no Cone Sul. 0 Mercosul contribuiu fortemente para a expansão do comercio regional. Na década de 1990 o Brasil foi o principal mercado para os produtos dos seus três parceiros do Tratado.` Por outro lado, a Argentina transformou-se no segundo maior importador dos produ-tos brasileiros. Como bloco, os países da ALADI representam, desde 1992, o segundo maior mercado para as exportações, brasileiras, atrás da União Européia e na frente dos EUA. 0 crescimento do comércio de bens e serviços como resultado de redução de barreiras tarifárias é um processo de "integração superficial" que abre caminho para outras formas de integração. Ou seja, a criacão de sistemas de produção cross border por empresas trarisnacionais (ETS) vem resultando em um processo de aprofundamento da integração, a partir da coordenação de um grande número de atividades em instalações industriais em distintos países.` Esse processo implicaria a difusão de estratégias de integração complexas das ETs e a formação de estruturas de rede. A integraçao econômica no Cone Sul, levando à progressiva integração dos mercados e, portanto, reforçada pelas mudanças recentes na estrategia das ETs. Até a década de 1970 a forma mais comum de estrururação das filiais das ETs era a estratégia multidornéstica. Isto é, as afiliadas operavam no exterior como se fossem empresas independentes, tendo como elo de ligação essencialmente a tecnologia, as marcas comerciais e o controle da administração pela matriz. Desde a década de 1980 cresce o número de ETS que evoluíram para formas de "integração simples", que implica um maior grau de articulação entre as estruturas produtivas das diversas afiliadas, ate a estratégia de integração complexa. Esta última acarreta a selecão em escala mundial ou regional de uma afiliada em um país, ou em um grupo de países, para produzir determinados componentes ou produtos os quais esses países demonstram ter vantagens competitivas (UNCTAD. 1993) Nesse sentido, os problemas do processo de integração no Mercosul situam-se em uma esfera que transcende a redução de barreiras tarifárias.

COMÉRCIO INTERNACIONAL

1. CONCEITOS BÁSICOS

Como os países não conseguem produzir todos os produtos de que necessitam, especializam-se nas atividades produtivas para os quais se encontram mais aptos, permutando os produtos entre si. Este comércio internacional ou comércio exterior submete os produtores internos a um maior grau de concorrência, reduzindo seu poder de mercado. Consequentemente, os consumidores internos compram produtos mais baratos, tanto dos produtores externos quanto dos produtores nacionais que devem manter seus preços em níveis competitivos. A política de comércio exterior de um país deve estar vinculada à sua política interna, no plano econômico, social e legal.

Pressupostos necessários para que um país possa atingir tais objetivos: • • • • • • • • economia interna baseada na livre iniciativa e liberdade de mercado; liberdade política e social no âmbito interno; controle do déficit público e da inflação; aprimoramento dos recursos humanos disponíveis para a produção; especialização e aprendizado das novas tecnologias existentes no mercado externo; aproveitamento racional e otimizado dos recursos naturais e de infra-estrutura; adoção de política racional para proteção da produção nacional; desenvolvimento de uma política de comércio exterior independente e vinculada à capacidade produtiva do país;

1.1 Mercado e Mercados

Diferenças existentes entre o comércio interno e o comércio internacional são devidas a diversos fatores, entre os quais: •

variações no grau de mobilidade dos fatores de produção – fator trabalho (mão de obra); facilidade de deslocamento; oposição, pelos outros países, de diversas restrições à entrada tanto de trabalhadores quanto de matérias primas e demais produtos;

natureza do mercado – o mercado interno apresenta maior unidade de idioma, costumes, gostos, hábitos de comércio, o que facilita a economia de produção em larga escala.

• • • •

Existência de barreiras aduaneiras – os impostos cobrados nos outros países refletirão diretamente nos preços de seus produtos, ocasionando perda de capacidade competitiva; Longas distâncias – despesas com transporte, o tempo gasto e os eventuais prejuízos aos produtos transportados; Variações de ordem monetária – alterações das taxas cambiais são fatores de risco; Variações de ordem legal – diferenças de ordenamento jurídico em cada país;

Estruturas de Mercado •

Concorrência Perfeita: • • • •

Número elevado de empresas compradoras e vendedoras, agindo independentemente; Inexistência de quaisquer diferenças entre os produtos ofertados; Perfeita permeabilidade – entram e saem empresas do mercado sem quaisquer tipos de barreiras; Impossibilidade de que atitudes e manobras isoladas venham alterar as condições vigentes

Monopólio: • • • • •

Existência de apenas uma empresa, dominando inteiramente a oferta considerado;

do setor

Inexistência de produtos capazes de substituir aqueles produzidos pela empresa monopolista; Inexistência de competidores imediatos – devido às barreiras existentes para o ingresso de outras empresas; Considerável influência sobre os preços e o regime de abastecimento do mercado; Dificilmente ocorrem à publicidade;

Oligopólio: • •

Número pequeno de empresas dominando o mercado; Produção de bens e serviços padronizados ou diferenciados;

• • •

Controle sobre os preços pode ser amplo – acordos, conluios e práticas conspiratórias são facilitadas; Concorrência extra-preço é considerada como vital - a “guerra de preços” prejudica todas as empresas do setor; Ingresso de novas empresas geralmente é difícil;

Concorrência Monopolista: • • •

Um grande número de empresas concorrentes; Condições de ingresso são relativamente fáceis; Algumas empresas possuem suas próprias patentes, capazes de diferenciação de seu produto – criam um segmento próprio, dominando-o e mantendo-o para si;

1.3 Marketing e Política Comercial

Marketing

é o processo social e gerencial através do qual indivíduos e grupos obtêm aquilo de que necessitam e desejam por meio de criação e troca de produtos e valores.

• • • • •

conceitos centrais mercados.

necessidades, desejos, demandas, produtos, troca, transações e

Significa trabalhar com mercados para conseguir trocas com o propósito de satisfazer necessidades e desejos. Mercado vendedor é aquele em que os vendedores têm mais poder e os compradores dependem mais do marketing Mercado comprador, os compradores têm mais força e os vendedores necessitam utilizarse do marketing mais ativamente. Antes de decidir vender ou não no exterior, uma empresa deve compreender completamente o ambiente de marketing internacional: as tarifas adotadas, as barreiras não-tarifárias, discriminação contra ofertas ou produtos originários de determinados países;

O país que adota um política comercial protecionista está na realidade impedindo os consumidores internos de adquirirem produtos melhores e mais baratos, motivo pelo qual a política que vem sendo adotada pela maior parte dos países é a mais liberal possível.

O marketing internacional adotado pelas maiores empresas é realizado por meio de um completo planejamento estratégico, que possa oferece condições de competitividade para que tenha possibilidade de atingir o mercado internacional, abrangendo as seguintes etapas: • • • • • Análise e estruturação interna da empresa, objetivando aumentar a produtividade e reduzir os custos de produção; Análise e seleção do mercado externo; Oportunidades comerciais oferecidas no comércio exterior, direcionando suas ações; Composto mercadológico – produto, preço, distribuição e promoção que são decisíveis na busca de competitividade; Controle no planejamento.

2. ACORDOS INTERNACIONAIS

GATT e OMC Assunto tratado no Capítulo V da disciplina RELAÇÕES ECONÔMICAS INTERNACIONAIS

ACORDO SOBRE A IMPLEMENTAÇÃO DO Art. VII DO GATT Este acordo é tratado no Capítulo X – Valor Aduaneiro

SISTEMA HARMONIZADO DE CLASSIFICAÇÃO DE MERCADORIAS Este assunto é tratado no Capítulo IV – Classificação Fiscal de Mercadorias

3. AS INSTITUIÇÕES INTERVENIENTES NO COMÉRCIO EXTERIOR NO BRASIL

3.1.

CONSELHO MONETÁRIO NACIONAL – CMN

é o órgão colegiado da estrutura do

Ministério da Fazenda; é o órgão deliberativo máximo do Sistema Financeiro Nacional, competindolhe: • estabelecer as diretrizes gerais das políticas monetária, cambial e creditícia;

• •

regular as condições de constituição, funcionamento e fiscalização das instituições financeiras; disciplinar os instrumentos de política monetária e cambial

O CMN é composto pelos seguintes membros: • • • Ministro da Fazenda (presidente do Conselho); Ministro do Planejamento; Presidente do Banco Central do Brasil

Atividades relacionadas com o Comércio Exterior: • • • • •

regular o valor externo da moeda e o equilíbrio do balanço de pagamentos; fixar as diretrizes e normas da política cambial; outorgar ao Banco Central do Brasil o monopólio das operações de câmbio quando ocorrer grave desequilíbrio no balanço de pagamentos; baixar normas que regulem as operações de câmbio; regular o exercício da atividade de corretores de câmbio.

3.2. CÂMARA DE COMÉRCIO EXTERIOR – CAMEX é integrada por: • • • • • • •

faz parte do Conselho de Governo;

Ministro do Desenvolvimento e Comércio Exterior (presidente); Ministro Chefe da Casa Civil; Ministro da Fazenda; Ministro do Planejamento; Ministro das Relações Exteriores; Ministro da Agricultura; Presidente do Banco Central do Brasil (convidado especial)

Objetivos da CAMEX •

formular as políticas e coordenar as atividades relativas ao comércio exterior de bens e serviços, bem como avaliar a repercussão das políticas econômicas sobre o comércio exterior

serve de instrumento de diálogo e articulação junto ao setor produtivo.

Competência da CAMEX • • •

definir as diretrizes da política de comércio exterior; manifestar-se previamente sobre as normas e legislação sobre o comércio exterior; estabelecer as diretrizes para: • • • • as alterações das alíquotas dos impostos de importação e exportação; as investigações relativas à práticas desleais de comércio; financiamento e seguro de crédito à exportação; desregulamentação do comércio exterior.

• • • •

avaliar o impacto das medidas cambiais, monetárias e fiscais sobre comércio exterior; fixar as diretrizes para a promoção de bens e serviços brasileiros no exterior; indicar os parâmetros para as negociações bilaterais e multilaterais relativas ao comércio exterior; atuar com um canal de comunicação entre o Governo e o setor produtivo.

3.3. SECRETARIA DE COMÉRCIO EXTERIOR – SECEX do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

é órgão da estrutura do Ministério

Competência da SECEX • •

formular propostas de políticas e programas de comércio exterior; propor medidas, no âmbito das políticas fiscal e cambial: • • • • • de financiamento; de recuperação de créditos à exportação; de seguro; de transportes e fretes; de promoção comercial.

• • • •

propor diretrizes que articulem o emprego do instrumento aduaneiro; participar das negociações relacionadas com o comércio exterior; implementar os mecanismos de defesa comercial; apoiar o exportador submetido a investigações de defesa comercial no exterior.

Atribuições

dentre suas atribuições, está a de AUTORIZAR OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO e EMITIR DOCUMENTOS

EXIGIDOS por acordos multilaterais assinados pelo Brasil.

3.4. BANCO CENTRAL DO BRASIL - BACEN Ministério da Fazenda,

é uma autarquia federal, vinculada ao

criada para ser o agente da sociedadae brasileira na promoção da

estabilidade do poder de compra da moeda brasileira.

Objetivos • • • •

zelar pela adequada liquidez da economia; manter as reservas internacionais do País em nível adequado; estimular a formação de poupança em níveis adequados; zelar pela estabilidade e promover o permanente aperfeiçoamento do Sistema

Financeiro Nacional;

A Constituição de 1988 consagra dispositivos importantes para a atuação do BACEN, tais como: • • •

exercício exclusivo da competência da União para emitir moeda; necessidade de aprovação prévia pelo Senado dos designados pelo Presidente da República para os cargos de presidente e diretores; vedação na concessão direta ou indireta de empréstimos ao Tesouro Nacional.

Proposição de objetivos nos macroprocessos seguintes: • • •

formulação e gestão das políticas monetária e cambial; regulamentação e supervisão do Sistema Financeiro Nacional; prestação de serviços de suporte às transferências financeiras e ao meio circulante.

Funções do BACEN •

Política Monetária •

tem por objetivo controlar a expansão da moeda e do crédito e

exercer controle sobre a taxa de juros, utilizando-se dos instrumentos clássicos: Operações de mercado aberto – maior versatilidade em acomodar as variações diárias da liquidez;

• •

Reservas compulsórias – influenciar a disponibilidade das reservas bancárias e controlar a expansão dos agregados monetários; Assistência financeira de liquidez – determina o custo no não cumprimento dessas exigibilidades compulsórias, influenciando a atuação dos agentes financeiros.

Controle das Operações de Crédito público; • • • divulga as decisões do CMN; baixa normas complementares;

atua no contingenciamento do crédito ao setor

executa o controle e a fiscalização a respeito das operações de crédito;

Política Cambial e de Relações Financeiras com o Exterior compete ao BACEN: •

Na área internacional,

Atuar no sentido de garantir o funcionamento regular do mercado de câmbio, a estabilidade relativa das taxas de câmbio e o equilíbrio do balanço de pagamentos;

• • • •

Administrar as reservas cambiais do País; Promover a contratação de empréstimos e a colocação de títulos no exterior; Acompanhar e controlar os movimentos de capitais; Negociar com as instituições financeiras e com os organismos financeiros estrangeiros e internacionais;

Supervisão do Sistema Financeiro Nacional • • •

atua no sentido de aperfeiçoamento das

instituições financeiras, de modo a zelar por sua liquidez e solvência; Formular normas aplicáveis ao Sistema Financeiro Nacional Conceder autorização para o funcionamento das instituições financeiras; Fiscalizar e regular as atividades das instituições financeiras;

Controle do Meio Circulante

destinam-se a satisfazer a demanda de dinheiro Em conjunto com a Casa da

indispensável à atividade econômico-financeira do País.

Moeda do Brasil – CMB (empresa pública), desenvolve projetos de cédulas e moedas

Outras Funções do BACEN • • •

regulamentar, autorizar e fiscalizar as atividades dos consórcios, fundos mútuos ou outras formas associativas; normatizar, autorizar e fiscalizar as sociedades de arrendamento mercantil, as sociedades de crédito imobiliário e as associações de poupança e empréstimos; acompanhar as operações de endividamento de estados e municípios;

3.5. SECRETARIA DA RECEITA FEDERAL – SRF

é o órgão central de direção superior,

subordinado ao Ministério da Fazenda, responsável pela administração, arrecadação e fiscalização dos tributos internos e aduaneiros da União, promovendo o cumprimento voluntário das obrigações tributárias, arrecadando recursos para o Estado e desencadeando ações de fiscalização e combate à sonegação.

Administra os seguintes impostos e contribuições: II, IE, IPI, IR, IOF, ITR, COFINS, PIS/PASEP, CSSL, CPSS – Contribuição para o plano de Seguridade dos Servidores; contribuição para o FUNDAF e CPMF.

A SRF foi criada com os seguintes objetivos: • • •

dinamizar a administração tributária; apresentar a administração tributária como uma representação única frente ao contribuinte; definir critérios claros e eficientes de descentralização.

Funções da SRF • • • •

planejamento; controle; supervisão; avaliação e execução das atividades de: arrecadação, fiscalização, tributação e tecnologia.

Atribuições na área de Comércio Exterior

• • • •

interpretar e aplicar a legislação fiscal e correlata, baixando os atos normativos e instruções para a sua fiel execução; preparar e julgar, EM PRIMEIRA INSTÂNCIA, os processos administrativos de exigência de créditos tributários da União; preparar e julgar, EM INSTÂNCIA ÚNICA, os processos administrativos de perdimento de mercadorias, no âmbito da legislação aduaneira; dirigir, supervisionar, orientar, coordenar e executar os serviços de administração, fiscalização e controle aduaneiro, além de controlar o valor aduaneiro de mercadorias importadas e exportadas;

• •

reprimir o contrabando, o descaminho e o tráfico de entorpecentes e de drogas afim; estimar e quantificar a renúncia de receitas administrativas e avaliar os efeitos da redução de alíquotas, de isenções tributárias e de incentivos ou estímulos fiscais.

3.6.

MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES – ITAMARATY

compete auxiliar o

Presidente da República na formulação da política externa, assegurar sua execução e manter relações com Estados estrangeiros. O MRE é o executor da política de comércio exterior, no âmbito externo.

Atividades na área de Comércio Exterior • • • • • a organização de feiras, eventos e promoções visando a divulgar as oportunidades comerciais do Brasil e atrair investidores estrangeiros; manutenção do cadastro de exportadores e importadores estrangeiros; realização de estudos e pesquisas sobre mercados estrangeiros; divulgação de oportunidades comerciais no Brasil; assistência a empresários brasileiros em visita ao exterior.

4. A CLASSIFICAÇÃO FISCAL DE MERCADORIAS

Conceito:

são sistemas de designação e codificação de mercadorias para uso na formulação das estatísticas de comércio exterior, nas negociações de preferências tarifárias e para uso aduaneiro.

TEC

é uma enorme relação de tipos diferentes de mercadorias associadas a códigos numéricos. A

cada tipo de mercadoria e correspondente código numérico é indicada a respectiva alíquota do imposto de importação.

5. A NOMENCLATURA COMUM DO MERCOSUL

NCM - Nomenclatura Comum do Mercosul

é a nomenclatura padronizada no âmbito do

MERCOSUL, e abrange todas as operações de comércio exterior; segue critérios bastante rígidos e definidos, estabelecidos em acordo internacional: o Sistema Harmonizado de Designação e

Codificação de Mercadorias – SH (criado em 1983 para facilitar as operações de comércio exterior, a qual o Brasil ingressou em 1986), no qual foi baseado e adotado para formulação da Tarifa Externa Comum (TEC) e da Tabela de Incidência do IPI (TIPI). •

alíquota ad valorem geral

é aplicável a todos os produtos da NCM e prevalecerá

sobre a alíquota convencional na hipótese em que, da aplicação das normas gerais, resultar tributação mais favorável ao contribuinte

Estrutura do Sistema Harmonizado

no Sistema Harmonizado, as

mercadorias estão

ordenadas de forma progressiva, de acordo com seu grau de elaboração.

Códigos Numéricos no Sistema Harmonizado

os produtos são representados por códigos numéricos de 6 dígitos.

NBM/SH – Nomenclatura Brasileira de Mercadorias

pelo fato do Sistema Harmonizado

ter como idiomas oficiais o inglês e o Francês, foi necessário a criação de um grupo de trabalho binacional Brasil-Portugal para efetuar sua tradução para o português. • o Brasil acrescentou mais 4 dígitos aos 6 do SH, que constituem itens e subitens.

NALADI/SH –

Nomenclatura da Associação Latino Americana de Integração como base comum para a realização das negociações

foi aprovada

previstas no Tratado de

Montevidéu de 1980, bem como para expressar as concessões outorgadas através de qualquer um de seus mecanismos e a apresentação das estatísticas de comércio exterior dos países membros.

TSP -

Tabela Simplificada de Codificação de Produtos

esta tabela pode ser utilizada na

formulação de Declaração Simplificada de Importação – DSI para o despacho aduaneiro.

6. MODALIDADE DE OPERAÇÃO E FORMAS CONTRATUAIS

Contrato Internacional de Compra e Venda

A venda de bens móveis (produtos e mercadorias) é

internacional se a mercadoria vendida for entregue em outro país diverso daquele em que ela se encontra no momento da conclusão do negócio.

Venda Internacional

de acordo com a legislação uniforme (Convenção de Haia, 1964), uma venda ou compra é internacional sempre que o estabelecimento ou, à falta deste, a residência habitual das partes se encontrem em território de diferentes Estados, e que ainda ocorra qualquer uma destas 3 condições:

que a coisa objeto do contrato esteja situada ou seja transportada entre territórios de Estados diversos;

• •

que os atos de oferta e aceitação sejam realizados em território de Estados diferentes; que a coisa deva ser entregue no território de um Estado diverso daquele em que se realizaram a oferta e aceitação.

Fórmulas Contratuais

as

fórmulas

contratuais

tem

como

principal

função

DETERMINAR o momento em que o vendedor (exportador) cumpriu suas obrigações, entregando a mercadoria ao comprador (importador), dentro dos requisitos legais, obtendo o direito de receber o valor transacionado. •

as fórmulas contratuais mais utilizadas são: • •

Definições Americanas Revisadas para o Comércio Exterior, utilizadas no comércio exterior dos EUA INCOTERMS – International Commercial Terms, que são aplicadas universalmente nas operações de comércio internacional.

Espécies de Documentos Comerciais •

contrato de compra e venda internacional – não necessitam de uma forma padronizada, mas devem conter todos os dados essenciais da operação, podendo inclusive ser sob a forma de uma fatura pró-forma (Proforma Invoice); é classificado, juridicamente, como CONSENSUAL, BILATERAL, ONEROSO, COMUTATIVO e TÍPICO

Fatura Comercial (Commercial Invoice) – emitida pelo exportador, contendo todas as informações sobre a operação, escrito na língua do país exportador ou em inglês;

Saque ou Letra Cambial (Draft) – emitida pelo exportador, é utilizado nos pagamentos a prazo, quando o importador retira mediante aceite. os documentos para desembaraçar as mercadorias

Conhecimento de Embarque – é um documento de transporte internacional emitido pela companhia responsável pelo transporte internacional; é escrito em inglês;

Romaneio de Embarque (Packing List) – emitido pelo exportador que descreve todas as características das mercadorias transportadas;

Certificados Especiais – geralmente necessários ao comércio de produtos agrícolas, médicos e perecíveis.

LEASING • • • •

é um contrato de arrendamento mercantil, cuja operação envolve 3 participantes: o fabricante, o intermediário e o arrendatário. Desenvolve-se em 5 fases: 1 – preparatória – a proposta do arrendatário à empresa de leasing ou vice-versa; 2 – essencial – contituída pelo acordo de vontade entre as partes; 3 – complementar - a empresa de leasing compra o bem ou equipamento ajustado com o arrendatário; 4 – arrendamento - a empresa de leasing entrega o bem ou equipamento ao arrendatário;

5 – tríplice opção do usuário - ao fim do contrato de arrendamento, o arrendatário poderá: continuar com o arrendamento; dá-lo por terminado, devolvendo-o; adquirílo, compensando as parcelas pagas.

Leasing Financeiro

forma mais comum e o verdadeiro modelo básico de leasing, pressupondo 3 participantes: arrendatário e o intermediário o fabricante, o financeira

(empresa

especializada neste tipo de operação)

Leasing Operacional

operação de arrendamento contratada diretamente com o fabricante; utilizado para produtos de boa aceitação no mercado e que tornam-se obsoletos em pouco tempo;

Lease Back

quase um leasing financeiro, distinguindo-se pelo fato que é o próprio arrendatário que vende os bens e equipamentos, mudando seu título jurídico em relação a estes bens, passando de proprietário a arrendatário;

Dummy Corporation

sociedade entre os investidores e arrendatários, que emitem debêntures, com as quais obtém numerário para a aquisição de bens, os quais são dados em locação ao arrendatário.

FACTORING

liga-se à necessidade de reposição do capital de giro nas empresas, geralmente nas pequenas e médias. •

assemelha-se ao desconto bancário, repousando na sua substância, numa mobilização de créditos de uma empresa.

Conventional Factoiring – a empresa negocia seus créditos cedendo-os à outra, que se incumbirá de cobrá-los, adiantando-lhe o valor desses créditos;

Maturity Factoring – no caso da empresa que cede seus créditos e recebe o valor pactuado somente no vencimento;

Em qualquer caso a empresa que adquiriu os créditos é obrigada a pagálos mesmo em caso de inadimplemento do devedor da empresa cedente.

Factor • • •

é a empresa que se incumbe de cobrar os créditos;

tem as

seguintes funções: Garantia – fica obrigada ao pagamento do crédito devido; Gestão de crédito – examina os créditos, providencia sua cobrança e incumbe-se da contabilidade e do faturamento; Financiamento – quando adianta os recursos referentes aos créditos cedidos;

TIPO DE CONTRATO FACTORING DESCONTO SEGURO

CRÉDITOS Exclusivos Não exclusivos Não exclusivos

GARANTIA Total Nenhuma Parcial (estipulada)

REMUNERAÇÃO Comissão Juros Prêmio

FRANCHISING

atua no campo da distribuição e venda de bens e serviços. É a operação pela qual um comerciante, titular de um marca, cede seu uso, num setor geográfico definido, a outro comerciante. O beneficiário da operação (franquiado) assume integralmente o financiamento de sua atividade e remunera o seu co-contratante (franqueador) com uma porcentagem calculada sobre o volume dos negócios ou mediante um valor fixo, pago de uma só vez ou em parcelas. • • repousa na cláusula de exclusividade, garantindo ao beneficiário, em relação aos concorrentes, o monopólio da atividade atua mais como forma de dominação do mercado e inclusive dos distribuidores, do que como simples técnica nova de venda. •

Características: • • • • • •

A importância da marca; Caráter continuado da operação; Independência formal do beneficiário (preso à idéia de

transferência de know-how) Contrato bilateral, consensual, oneroso, indeterminado; Objeto: cessão do uso da marca; Exclusividade ou delimitação territorial

JOINT VENTURES

é um contrato que permite associação de capitais de 2 ou mais empresas com o objetivo de colaboração e aproveitamento dos recursos, conhecimentos tecnológicos e demais vantagens, tudo isto sem a necessidade de estabelecimento formal de uma nova sociedade. •

geralmente, ocorre quando da necessidade de empresas que isoladamente não teriam condições de empreender um grande projeto e, com a união alcançada podem realizá-lo, sem perder a autonomia, ou sujeitar-se a outra empresa do mesmo porte ou maior.

É uma forma de empresas nacionais conseguirem,

por meio de

alianças com empresas internacionais, participar do comércio exterior em condições competitivas;

EXPORTAÇÃO DE SERVIÇOS

é a exportação de serviços em forma de projetos, licenças, assessorias, know-how, etc. A prestação de assessorias e consultorias internacionais são regidas e amparadas pelos Contratos de Exportação de Serviços

CONTRATO DE REPRESENTAÇÃO

é

o

contrato

pactuado

entre

a

empresa

exportadora estrangeira e as pessoas físicas ou jurídicas nos países importadores, que recebem a denominação de representantes comerciais, que INTERMEDIARÃO as operações mercantis

internacionais de compra e venda de produtos e serviços. •

os representantes comerciais podem ser assalariados, recebendo uma remuneração fixa, mais comissão pelas vendas ou trabalharem por conta própria, que é o mais usual no país, percebendo somente comissão sobre as vendas.

podem assumir os seguintes procedimentos: • Sole Agent – assumem as obrigações pelas vendas efetuadas;

Del Credere – assumem as responsabilidades pelas vendas efetuadas;

Consignação – só pagarão a mercadoria importada após a efetiva venda.

7. OS INCOTERMS – versões 1990 e 2000

são representados por meio de siglas (3 letras), tratando-se efetivamente de condições de venda, pois definem os direitos e obrigações (responsabilidades) mínimas do exportador e do importador quanto a fretes, seguros, movimentação em terminais, liberações em alfândegas e obtenção de documentos de um contrato internacional de venda de mercadorias. •

refletem a redação sumária do costume internacional em matéria de comércio, com a finalidade de simplificar e agilizar a elaboração das cláusulas dos contratos de compra e venda. A sua adoção é FACULTATIVA, mas se adotada configura norma contratual e assume valor jurídico.

as atualizações sucessivas do INCOTERMS desde 1936, têm ocorrido por inicativa da CCI – Câmara de Comércio Internacional

1. EXM – a partir do local de produção = •

a mercadoria é entregue ao comprador no estabelecimento do vendedor

é considerada uma venda no país de exportação.

2. FAZ – livre no costado do navio =

o vendedor cumpre sua obrigação de entregar as mercadorias no porto indicado para embarque

só pode ser usada no transporte aquaviário (marítimo, fluvial ou lacustre)

3. FOB – Livre a Bordo =

o vendedor cumpre sua obrigação de entrega quando as mercadorias cruzam a amurada do navio, no porto de embarque designado.

Só pode ser aplicada para o transporte marítimo ou de cabotagem

4. FCA – transportador livre = •

o vendedor deve entregar a mercadoria para o transportador indicado pelo comprador, no local determinado.

o comprador arca com todas as despesas a partir deste ponto;

5. CFR – custo e frete =

o vendedor deve pagar os custos e o frete necessário para levar as mercadorias até o porto de destino designado, todavia o risco de perda ou dano às mercadorias são transferidas do vendedor ao comprador no

momento em que a mercadoria é embarcada.

6. CIF – custo, seguro e frete =

o vendedor tem obrigação de arcar com todas as despesas, inclusive seguro marítimo e frete, até a chegada da mercadoria ao porto de destino.

• •

os demais encargos correm por conta do vendedor a condição CIF não é permitida nas importações brasileiras, uma vez que o seguro de transporte internacional de mercadorias importadas deve ser realizado através de seguradoras estabelecidas no Brasil.

7. CPT – transporte pago até ... = •

é o pagamento do frete pelo transporte das mercadorias até o destino designado pelo comprador.

o risco por perda ou dano, bem como quaisquer despesas adicionais que ocorrerem após as mercadorias serem entregues ao transportador, transferem-se do vendedor para o comprador.

• •

Este tipo de transporte pode ser realizado por meio ferroviário, térreo, marítimo, cabotagem ou por uma combinação destas modalidades, inclusive o multimodal. O termo CPT exige que o vendedor proceda ao desembaraço das mercadorias para exportação.

8. CIP – transporte e seguros pagos até ... =

é o pagamento do frete mais o seguro pelo transporte das mercadorias até o destino designado pelo comprador.

é idêntico ao modo CPT, somente que neste modo o seguro também é pago pelo vendedor;

9. DAF – entregue na fronteira =

o vendedor deve entregar a mercadoria no ponto combinado, mas antes da divisa aduaneira do país limítrofe.

• •

a partir deste momento, todas as despesas correm por conta do comprador; pode ser aplicado para qualquer modalidade de transporte, embora o transporte terrestre seja o mais utilizado;

10. DES – entregue a partir do Navio =

o vendedor deve colocar a mercadoria à disposição do comprador a bordo do navio, não

desembaraçada, no porto de destino designado. • • • o vendedor é responsável por perdas e danos que porventura a mercadoria vier a sofrer durante o transporte até o porto de destino o desembaraço para importação devem ser providenciados pelo comprador esta fórmula deve ser utilizada apenas para transporte marítimo ou de cabotagem;

11. DEQ – entregue a partir do cais =

o

vendedor

deve

entregar

a

mercadoria

desembaraçada ao comprador no cais do porto de destino • • é de responsabilidade do vendedor todas as despesas (inclusive direitos aduaneiros) bem assim como os riscos por perdas e danos até a entrega da mercadoria. Só utilizado para transporte marítimo ou de cabotagem

12. DDU – entregue direitos não pagos =

o vendedor deverá colocar a mercadoria à disposição do comprador, no ponto designado no país de importação.

o vendedor assume todas as despesas e riscos envolvidos até a entrega da mercadoria.

O comprador será responsável pelo pagamento de taxas e impostos aduaneiros e demais encargos oficiais incidentes na importação e dos custos e riscos do desembaraço

Este termo pode ser utilizado em qualquer modalidade de transporte; o vendedor deverá entregar a mercadoria no país do comprador, assumindo todas as despesas e obrigações, incluindo os tributos da operação, em local designado pelo comprador.

13. DDP – entregue direitos pagos =

• • •

ao contrário do termo EXM, este termo é o que representa o máximo de obrigações para o vendedor este termo pode ser utilizado em qualquer modalidade de transporte.

O saldo da Balança comercial de um país expressa a contabilização de suas operações comerciais em um dado período, e utilizam em seus cálculos OS VALORES FOB DAS EXPORTAÇÕES e OS VALORES CIF DAS IMPORTAÇÕES

INCO TERM S

Responsabilidade do Vendedor até ... Mercadoria a disposição

Frete

Seguro

Desembaraço

Meio de Transporte

EXM

do Comprador junto ao Vendedor, com todas as custas p/ o Comprador Mercadoria entregue no

Todas as despesas ficam por conta do Comprador. À escolha do É considerada uma venda no país de exportação. Comprador

FAZ

porto de embarque indicado pelo Comprador Mercadoria tenha cruzado

Todas as despesas ficam por conta do Comprador.

Somente Aquaviário Transporte Marítimo e de Cabotagem Qualquer modalidade de transporte

FOB

a amurada do navio, no porto de embarque Mercadoria entregue na

Fretes e Seguro ficam por conta Por do Comprador

conta

do

Vendedor

FCA

transportadora indicada pelo Comprador Mercadoria entregue no porto de destino

Fretes e Seguro ficam por conta do Comprador Fretes e Seguro ficam por conta do Vendedor, exceto custos por danos e perdas

CFR

Por

conta

do

Transporte Marítimo e de Cabotagem

Vendedor

CIF

Mercadoria entregue no porto de destino

Todas

as

despesas

(Frete,

Seguro, Impostos) correm por conta do Vendedor Todas as despesas são pagas pelo vendedor até o momento Por conta

Somente Aquaviário Ferrovia, do rodovia, mar, cabotagem ou combinação Ferrovia, Por conta do rodovia, mar, cabotagem ou combinação Ferrovia, rodovia, mar, cabotagem ou combinação Transporte Marítimo e de Cabotagem

Mercadoria com o frete CPT pago até o local designado pelo Comprador

da entrega da mercadoria ao Vendedor Transportador Todas as despesas são pagas pelo vendedor até o momento da entrega da mercadoria

Mercadoria com o frete e CIP o seguro pagos até o local designado pelo Comprador

p/Transportador, mais o seguro até o destino Todas as despesas são pagas pelo vendedor até o momento da entrega da mercadoria na fronteira.

Vendedor

Mercadoria entregue antes DAF da divisa aduaneira, no país limítrofe Mercadoria colocada no DES navio, no porto de destino, não desembaraçada INCO TERM S Responsabilidade do Vendedor até ... Mercadoria colocada no DEQ navio, no porto de destino, desembaraçada Mercadoria colocada no DDU local designado pelo Comprador, no país importador Mercadoria entregue no DDP país do Comprador, com todas as custas para o Vendedor

O vendedor é responsável pelas Por despesas até o porto de destino

conta

do

Comprador

Frete

Seguro

Desembaraço

Meio de Transporte

Todas

as

despesas

(Frete,

Seguro, Impostos) correm por conta do Vendedor

Por

conta

do

Transporte Marítimo e de Cabotagem

Vendedor

Todas

as

despesas

(Frete,

Seguro, Impostos) correm por conta do Vendedor

Por

conta

do

Qualquer modalidade de transporte

Comprador

Qualquer Todas as despesas ficam por conta do Vendedor. modalidade de transporte

8. TRANSPORTE E SEGURO INTERNACIONAL

Criação de Sistema de Transporte Internacional – unificação ou unitização da carga, que é o agrupamento de pequenos volumes de mercadorias, constituindo unidades maiores e padronizadas, facilitando o transporte, desde o carregamento até a descarga no local de destino. •

As mercadorias podem ser transportadas nas seguintes modalidades:

MODAL

transportadas em um só veículo através de um único meio de transporte, com apenas 1 contrato;

SEGMENTADO

transporte é feito utilizando-se vários veículos, em diferentes modalidades de transporte; pode haver vários contratos.

SUCESSIVO

transporte efetuado por um ou mais veículos, mas dentro da mesma modalidade de transporte; pode haver mais de 1 contrato;

INTERMODAL

transporte efetuado em 2 ou mais modalidades de transporte, mas com SOMENTE 1 CONTRATO. Exige obrigatoriamente contratos

individuais para cada trecho do transporte e pagamento individualizado a cada transportador dos diferentes modais..

Unidades de Carga Pallet é um estrado sobre cuja superfície são agrupadas as mercadorias;

“Pré-linguada”

é uma rede especial destinada à unitização de mercadorias;

Flat-Container

é um estrado de aço que serve de apoio lateral p/ as mercadorias;

Container

é um recipiente construído de material resistente, que possibilita o transporte sob condições técnicas e de segurança previstas pela legislação nacional e internacional; muito usado nos transportes Intermodais.

TRANSPORTE MARÍTIMO

contratados por meio dos Contratos ou Apólices de Fretamento (Charter-party), e o mais comumente usado é o Conhecimento de Embarque (Bill of landing – BL)

Contratos de Fretamento p/ Transporte Marítimo: • • • TRANSPORTE AÉREO Fretamento com entrega do navio; Por tempo (Time Charter); Por viagem (Voyage Charter);

destina-se ao transporte de cargas leves e urgentes; o contrato é formalizado no documento denominado Conhecimento Aéreo de Transporte Aéreo (Airway bill of landing)

TRANSPORTE TERRESTRE

pode ser rodoviário ou ferroviário, podendo ser efetuados pelos próprios exportadores ou por empresas especializadas.

SEGURO

de acordo com o estabelecido nos regulamentos aduaneiros, em caso de sinistro à mercadoria transportada, a responsabilidade é imputada: ao TRANSPORTADOR,

durante o transporte e descarga; ao RESPONSÁVEL, pelo seu armazenamento.

9. IMPORTAÇÃO

REGISTRO DO IMPORTADOR

é condição básica para a realização de operações de importação o registro no REI – Registro de Exportadores e Importadores

a pessoa física somente poderá importar mercadorias em quantidade que não revele prática de comércio.

Os importadores e exportadores serão inscritos automaticamente quando da 1ª operação, sem o encaminhamento de quaisquer documentos, os quais poderão ser solicitados, eventualmente, pelo DECEX, para verificação de rotina.

LICENÇA DE IMPORTAÇÃO

para se efetuar uma importação é necessário obter uma licença administrativa, fornecida pela SECEX, através do SISCOMEX; IMPORTAÇÃO é requisito essencial para A

que o registro da declaração de

importação seja efetivado; • •

Todas as operações estão sujeitas a licenciamento Alguns tipos de mercadorias ficam sujeitas à manifestação de outros órgãos, tais como: • • • animais vivos, carnes e miudezas comestíveis ficam sujeitas às exigências sanitárias do Ministério da Agricultura; produtos farmacêuticos ficam sujeitos às exigências do Ministério da Saúde; armas e munições, suas partes e acessórios, ficam sujeitas à anuência prévia do Ministério do Exército.

Licenciamento não automático

deverá

ser

providenciado

anteriormente

ao

embarque da mercadoria no exterior; sujeitam-se ao licenciamento não automático, as importações objeto de arrendamento operacional simples sob regime de admissão temporária a serem utilizados em atividade econômica,

IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO

SUJEITO PASSIVO

sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao pagamento do tributo ou penalidade pecuniária:

Contribuinte –

quando tenha relação pessoal e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador;

Responsável -

quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de expressa disposição de lei

São Contribuintes do Imposto de Importação:

- Importador -

qualquer pessoa que promova a entrada de mercadoria estrangeira no território nacional;

- Destinatário de remessa postal internacional - indicado pelo respectivo remetente;

- Adquirente de mercadoria entrepostada;

-

Consignatário de mercadoria submetida ao entreposto aduaneiro – ao nacionalizar a mercadoria e promover o despacho aduaneiro para consumo em seu nome

-

Entreposto Aduaneiro

é o regime aduaneiro especial que PERMITE, na importação e exportação, o depósito de mercadorias, em local determinado, com suspensão do pagamento de tributos e sob controle fiscal.

São Responsáveis pelo Imposto de Importação:

- Transportador -

quando transportar mercadoria procedente do exterior ou sob controle aduaneiro, inclusive em percurso interno;

- Depositário –

qualquer pessoa incumbida da custódia de mercadorias de terceiros sob controle aduaneiro nos armazéns de zona primária ou secundária. •

a responsabilidade pelos tributos apurados em relação a avaria ou extravio de mercadorias será de quem lhe deu causa;

INCIDÊNCIA

o Imposto de Importação, de competência da União, incide sobre a importação de produto estrangeiro; associa-se ao registro da Declaração de Importação. •

Incide também sobre mercadoria nacional ou nacionalizada exportada que retornar ao pais, salvo se: • • • •

Enviada em consignação e não vendida no prazo autorizado; Devolvida por motivo de defeito; Por modificações na sistemática do país importador; Por motivo de guerra ou calamidade pública;

Incide também sobre a mercadoria desnacionalizada que vier a ser importada e a mercadoria nacional ou nacionalizada que vier a ser

reimportada (quando descumpridas as condições do regime de exportação temporária do qual tenha sido beneficiada)

NÃO INCIDÊNCIA

o IMPOSTO DE IMPORTAÇÃO não incide sobre: •

mercadoria estrangeira que, corretamente declarada, chegue ao país por erro manifesto ou comprovado de expedição e que for redestinada ao exterior;

• • •

mercadoria objeto de troca;

mercadoria objeto da pena de perdimento;

mercadoria estrangeira DEVOLVIDA AO EXTERIOR antes do Registro da Declaração de Importação

FATO GERADOR

é a entrada de mercadoria estrangeira no território nacional. •

OCORRE na data do registro da declaração de importação de mercadoria despachada para consumo, inclusive a: • • ingressada no país em regime suspensivo de tributação; contida em remessa postal internacional, quando é aplicado o regime de importação comum;

OCORRE no dia do lançamento respectivo, quando se tratar: • • • mercadoria em remessa postal internacional; bens compreendidos no conceito de bagagem, acompanhadas ou não; mercadoria constante de manifesto ou documento

equivalente, cuja falta ou avaria for apurada pela autoridade aduaneira;

TAXA DE CÂMBIO P/ EFEITOS FISCAIS

para cálculo do Imposto de Importação é necessária a conversão do valor da mercadoria expresso em moeda estrangeira para moeda nacional, através da taxa de câmbio vigente na data em que se considera ocorrido o fato gerador.

"EX"- TARIFÁRIO:

foi criado por Portaria Ministerial, servindo para dar destaque a certas mercadorias classificáveis em determinado código tarifário da TEC. Tem o fim exclusivo de fazer com que tais mercadorias deixem de sofrer a incidência da alíquota normal do Imposto de Importação prevista na TEC para elas. Após a criação do “EX”, as mercadorias classificáveis no correspondente código tarifário passam a sofrer a incidência da alíquota reduzida, de acordo com o estipulado na Portaria. •

Para fazer jus à alíquota mais benéfica do "EX", a mercadoria importada deve se identificar totalmente com aquela nele descrita.

TRATAMENTO TRIBUTÁRIO DECORRENTE DE ACORDOS INTERNACIONAIS prevalecerá o tratamento previsto nos acordos firmados pelo Brasil, salvo se da aplicação das normas gerais resultar tributação mais favorável ao importador, ou seja, a aplicação da alíquota mais baixa para favorecer o importador. •

a prova da origem da mercadoria, para efeito da aplicação de benefício fiscal decorrente de acordos internacionais é feita, normalmente, através de Certificado de Origem.

BASE DE CÁLCULO DO IMPOSTO

é a quantidade total de mercadoria que está sendo importada, de acordo com a unidade de medida (metro, kilo, tonelada, etc) em que o produto está relacionado na TEC;

no caso da aplicação da alíquota AD-VALOREM, a base de cálculo será uma quantia em dinheiro que expresse o valor real de importação do produto, ou seja, será o VALOR

ADUANEIRO das mercadorias, conforme definido no Acordo de Valoração Aduaneira. •

para se configurar o fato gerador do imposto de importação e o momento de sua ocorrência, para fins de cálculo do imposto, são condições cumulativas: •

a

ENTRADA

DA

MERCADORIA

ESTRANGEIRA

NO

TERRITÓRIO ADUANEIRO e o REGISTRO NO SISCOMEX DA DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO PARA CONSUMO.

GATT – Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio

é um acordo internacional do qual

o Brasil faz parte. É administrado pela OMC – Organização Mundial de Comércio. •

para se regulamentar o artigo VII do GATT foi assinado outro tratado internacional – o Acordo de Valoração Aduaneira, que apresenta 6 métodos sequenciais para se encontrar o valor aduaneiro. Os métodos devem ser usados, obrigatoriamente, na ordem estipulada.

Para se encontrar o VALOR ADUANEIRO:

1. 2.

pelo valor da transação; pelo valor da transação da mercadoria importada idêntica à mercadoria objeto do despacho;

3.

pelo valor da transação da mercadoria importada similar à mercadoria objeto do despacho;

4. 5.

pelo valor da revenda da mercadoria importada; pelo valor computado, ou valor calculado da mercadoria importada;

6.

pelo valor obtido por meios razoáveis e compatíveis com o acordo.

PAGAMENTO

o pagamento dos tributos federais devidos na importação de mercadorias, no ato de registro, pelo SISCOMEX, da respectiva Declaração de Importação (DI), É EFETUADO, EXCLUSIVAMENTE, por débito automático em conta bancária em agência habilitada de banco integrante da rede arrecadadora de receitas federais, por meio de DARF eletrônico.

IPI VINCULADO À IMPORTAÇÃO

INCIDÊNCIA

O IPI, imposto de competência da União, incide tanto sobre produtos industrializados nacionais quanto sobre os produtos industrializados importados. O contribuinte do IPI vinculado à importação é o importador.

FATO GERADOR

O fato gerador do IPI, na importação, é o desembaraço aduaneiro de produto de procedência estrangeira.

não constitui fato gerador desembaraço aduaneiro de mercadorias que retornem ao País nas seguintes condições: • • • • •

enviada em consignação e não vendida no prazo autorizado; devolvida por defeito técnico, que exija sua devolução para reparo ou substituição; por motivo de modificações na sistemática de importação por parte do país importador; por motivo de guerra ou calamidade pública; por outros fatores alheios à vontade do exportador.

BASE DE CÁLCULO E Alíquotas

A base de cálculo é o valor por ocasião do despacho de importação, somado ao montante deste tributo e dos encargos cambiais efetivamente pagos pelo importador ou dele exigíveis.

ISENÇÃO

A isenção do IPI na importação não segue necessariamente a isenção do imposto de importação. Deve estar prevista em dispositivo próprio.

PAGAMENTO

é efetuado quando do registro da declaração de importação.

ISENÇÕES E REDUÇÕES

RECONHECIMENTO DE BENEFíCIO FISCAL

O importador, ao formular a DI, poderá pleitear benefício fiscal citando a lei ou ato internacional em que se fundamenta.

A legislação aduaneira que dispuser sobre a outorga de isenção ou redução do Imposto de Importação deve ser interpretada literalmente; A isenção

ou redução do imposto somente é reconhecida quando decorrente de lei ou de ato internacional. • No caso de mercadorias importadas por via marítima, o reconhecimento do direito a beneficio está condicionado: • • ao transporte em navio de bandeira brasileira ou em navio estrangeiro fretado por armador nacional; à dispensa de tal obrigatoriedade concedida pelo órgão competente do Ministério dos Transportes, por meio de documento de liberação de carga - waiver. •

Não estão sujeitas à esta obrigatoriedade: • • a importação de mercadorias em regime drawback; a importação de bens doados por pessoa física ou jurídica residente ou sediada no exterior. aduaneiro especial de

Na hipótese de não ser concedido o benefício fiscal pretendido, será exigido o crédito tributário correspondente

SIMILARIDADE

a isenção ou redução do Imposto de Importação só beneficia produto sem similar nacional. O órgão competente para a apuração de similaridade é a SECEX.

ISENÇÃO OU REDUÇÃO VINCULADA À QUALIDADE DO IMPORTADOR • Quando a isenção ou redução for vinculada à qualidade do importador, a transferência da propriedade ou o uso dos bens obriga ao prévio pagamento do imposto. •

Esta isenção é concedida às: • • missões diplomáticas e repartições consulares de caráter permanente; representações de órgãos internacionais de caráter permanente, de que o Brasil seja membro. •

Um exemplo de beneficio vinculado à qualidade do importador acontece quando instituições científicas ou educacionais obtêm o direito de importar equipamentos necessários ao cumprimento de suas finalidades.

ISENÇÃO OU REDUÇÃO VINCULADA A DESTINAÇÃO DOS BENS • fica condicionada à comprovação posterior do seu efetivo emprego nas finalidades que motivaram a concessão. •

É exemplo de beneficio vinculado à destinação dos bens, a importação de materiais de reposição e conserto, com isenção, para uso em embarcações ou aeronaves estrangeiras.

BAGAGEM

objetos novos ou usados destinados ao uso ou consumo pessoal do viajante, de

acordo com as circunstâncias de sua viagem, ou os objetos de pequeno valor, a serem oferecidos como presente. •

Incluem-se entre os bens de uso ou consumo pessoal aqueles destinados à atividade profissional do viajante, bem como utilidades domésticas.

Estão excluídos do conceito de bagagem: • bens cuja quantidade, natureza ou variedade configure importação ou exportação com fim comercial ou industrial;

• • • • • •

automóveis, motocicletas, motonetas, bicicletas com motor, casas rodantes e demais veículos automotores terrestres; aeronaves; embarcações de todo o tipo, motos aquáticas e similares, e motores para embarcações; cigarros e bebidas de fabricação brasileira, destinados a venda

exclusivamente no exterior; bebidas alcóolicas, fumo e seus sucedâneos manufaturados, quando se tratar de viajante menor de dezoito anos; bens adquiridos pelo viajante em loja franca, por ocasião de sua chegada ao País. • •

bagagem acompanhada: a que o viajante portar consigo no mesmo meio de transporte em que viaje, desde que não amparada por conhecimento de carga. bagagem desacompanhada: a que chegar ao País, ou dele sair, amparada por conhecimento de carga ou documento equivalente.

NÃO-INCIDÊNCIA DE IMPOSTOS -

Não incidirão impostos sobre os bens compreendidos no conceito de bagagem:

• • a)

de origem nacional; de origem estrangeira:

comprovadamente saídos do País como bagagem, quando do seu retorno, ainda que portados por terceiros, independentemente do prazo de permanência no exterior e das razões de sua saída;

b)

remetidos ao exterior, pelo viajante, para restauração, quando do seu retorno;

conserto, reparo ou

c)

enviados ao País, em razão de garantia, para substituição de outro anteriormente trazido pelo viajante.

ISENÇÃO DE CARÁTER GERAL -

A isenção aplicável aos bens que constituam bagagem de viajante procedente do exterior abrange o imposto de importação e o imposto sobre produtos industrializados.

BAGAGEM ACOMPANHADA: A bagagem acompanhada está isenta relativamente a:

I. Il.

livros, folhetos e periódicos; roupas e outros artigos de vestuário, calçados, para uso próprio do viajante; artigos de higiene e de toucador, e

III. IV.

outros bens, observado o limite de valor global de:

a)

US$ 500.00, quando o viajante marítima;

ingressar no País por via aérea ou

b)

US$ 150.00, quando o viajante ingressar no País fluvial ou lacustre.

por via terrestre,

O direito à isenção geral é pessoal do viajante, de forma que, por ocasião do despacho aduaneiro, é vedada a transferência, total ou parcial, da quota para outro viajante, ainda que seja pessoa da mesma família.

O direito à isenção a que se refere o item III somente poderá ser exercido uma vez a cada trinta dias.

BAGAGEM DESACOMPANHADA:

A bagagem desacompanhada está isenta de impostos relativamente a:

I. II.

livros, folhetos e periódicos; se usados: roupas e outros artigos de dor, e calçados, para uso próprio do vestuário, artigos de higiene e de touca viajante, em quantidade e qualidade

compatíveis com a duração e a finalidade da sua permanência no exterior.

ISENÇÃO DE CARÁTER ESPECIAL -

BRASILEIRO

OU

ESTRANGEIRO

QUE

RETORNA

AO

PAÍS

EM

CARÁTER

PERMANENTE: O brasileiro e o estrangeiro, portador de Cédula de Identidade de Estrangeiro expedida pelo Departamento de Polícia Federal, que tiverem permanecido no exterior por período superior a um ano e retornarem em caráter definitivo, terão direito:

I.

à isenção de caráter geral, em relação aos bens integrantes da bagagem acompanhada;

II .

à isenção de impostos para os seguintes bens, usados, trazidos como bagagem desacompanhada: a) roupas e outros artigos de vestuário, artigos de higiene e de toucador, e calçados, para uso próprio do viajante; b) c) móveis e outros bens de uso doméstico; ferramentas, máquinas, aparelhos e exercício de sua profissão, arte ou ofício; d) obras por ele produzidas. instrumentos necessários ao

FUNCIONÁRIO INTEGRANTE DO SERVIÇO EXTERIOR BRASILEIRO E IMIGRANTE: A isenção que é concedida a brasileiro ou a estrangeiro que retorna ao País em caráter permanente também é aplicada a:

I.

funcionário brasileiro de carreira integrante do Serviço Exterior Brasileiro ou o assemelhado à carreira de diplomata, quando removido de ofício para o País;

Il.

imigrante, que ingresse no País para nele residir.

DIPLOMATAS, SERVIDORES DE ORGANISMOS INTERNACIONAIS E TÉCNICOS ESTRANGEIROS: Estão isentos de impostos os bens ingressados no País, inclusive automóveis, pertencentes a estrangeiros:

I.

integrantes de missões diplomáticas e permanente;

representações consulares de caráter

II.

funcionários, peritos, técnicos e consultores de representações permanentes

de

órgãos internacionais de que o Brasil seja membro, beneficiados com trata mento aduaneiro idêntico ao outorgado ao corpo diplomático;

III.

peritos e técnicos que ingressarem no País para desempenhar atividades em decorrência de atos internacionais firmados pelo Brasil, nos termos neles previstos.

O funcionário consular honorário terá direito, apenas, à isenção de caráter geral para os bens que trouxer do exterior.

TRIPULANTE: A bagagem de tripulante procedente do exterior está isenta de impostos relativamente aos bens referidos nos subitens I e II do item "A" do tópico "ISENÇÃO DE CARÁTER GERAL "

TRIPULANTE DE NAVIO:

O tripulante de navio em viagem internacional, residente no País, que desembarcar definitivamente ou estiver impedido de prosseguir viagem por motivo devidamente justificado, terá direito à isenção do item "A" do tópico "ISENÇÃO DE CARÁTER GERAL" para os bens que trouxer como bagagem acompanhada.

BENS ADQUIRIDOS EM LOJA FRANCA:

Os bens adquiridos em loja franca, até o valor de US$ 500.00, GOZARÃO DE ISENÇÃO, desde que respeitados os termos, limites e condições que serão estudados no tópico "Regimes Aduaneiros

Atípicos", no Capitulo que trata dos "Regimes Aduaneiros".

DESPACHO ADUANEIRO DE IMPORTAÇÃO

Conceito:

é o procedimento administrativo fiscal mediante o qual se processa o desembaraço aduaneiro de mercadoria procedente do exterior, seja ela importada a título definitivo ou não.

Toda mercadoria procedente do exterior por qualquer via, destinada a consumo ou a outro regime, sujeita ou não ao pagamento do imposto, deverá ser submetida a despacho aduaneiro.

PROCESSAMENTO DO DESPACHO -

O despacho será processado no SISCOMEX com base em declaração a ser formulada pelo importador e apresentada à repartição sob cujo controle estiver a mercadoria, na zona primária ou na zona secundária.

INÍCIO DO DESPACHO - Tem-se por começado o despacho de importação na data do registro da DECLARAÇÃO DE IMPORTAÇÃO. Este registro consiste na NUMERAÇÃO da declaração, efetuada pelo SISCOMEX. Deverá começar até 90 dias da descarga, se a mercadoria estiver em recinto alfandegado de zona primária, ou até 45 dias após esgotar-se o prazo estabelecido para permanência em recinto alfandegado de zona secundária.

INTERRUPÇÃO DO DESPACHO -

Quando exigível o depósito ou o pagamento de quaisquer ônus financeiros ou cambiais ou o cumprimento de obrigações semelhantes, a tramitação do despacho ficará sujeita à prévia satisfação da exigência.

Caso o despacho venha a ser interrompido, por ação ou omissão do importador, por prazo superior a 60 dias, a mercadoria SERÁ CONSIDERADA ABANDONADA e sofrerá PROCESSO DE PERDIMENTO.

DISPENSA DE DESPACHO -

Fica dispensada de despacho de importação a entrada, no País, de mala diplomática.

DOCUMENTO BASE DO DESPACHO -

o documento base do despacho de importação é a Declaração de Importação.

OUTROS DOCUMENTOS DO DESPACHO

instrui o despacho aduaneiro de importação, além da Declaração de Importação registrada no SISCOMEX, os seguintes documentos:

• • • • •

conhecimento de carga original; a fatura comercial; o certificado de origem, quando se tratar de mercadoria que goze de tratamento favorecido em razão da origem; a guia de importação.

Em regra a declaração é formulada pelo importador no SISCOMEX. Não é permitido agrupar, numa mesma declaração, mercadoria que proceda diretamente do exterior e mercadoria que se encontre no País em regime aduaneiro especial ou atípico.

REGISTRO DA DECLARAÇÃO -

A declaração é registrada pelo SISCOMEX, por solicitação do importador. A numeração automática efetuada pelo sistema é única, seqüencial e nacional, sendo reiniciada a cada ano.

RECOLHIMENTO DO IMPOSTO -

é efetuado EXCLUSIVAMENTE POR débito automático em conta corrente do importador, em estabelecimento bancário habilitado, por meio de DARF eletrônico.

EXTRATO DA DECLARAÇÃO -

Efetivado o registro da declaração, o Sistema emitirá, a pedido do importador, o extrato correspondente, em duas vias.

RETIFICAÇÃO DA DECLARAÇÃO - a retificação de informações prestadas na declaração, ou a inclusão de outras, será feita em declaração complementar

INSTRUÇÃO DO DESPACHO DE IMPORTAÇÃO –

A declaração deve ser instruída com os seguintes documentos:

CONHECIMENTO DE CARGA -

O despacho de importação será instruído com o CONHECIMENTO DE CARGA ORIGINAL ou

documento equivalente, como prova de posse ou propriedade da mercadoria. •

a cada conhecimento de carga deverá corresponder um único despacho;

Carta Declaratória:

O conhecimento de transporte é documento que exterioriza o contrato de transporte. É, também, um título de crédito que faz prova de posse ou propriedade da mercadoria.

Ocorrendo situação em que determinada mercadoria venha a ser encontrada ao desamparo de conhecimento de carga, a prova de sua propriedade será feita com a apresentação de carta declaratória emitida pela empresa que efetuou seu transporte.

MANIFESTO DE CARGA •

a omissão de volume em manifesto de carga, desde que tal volume conste no conhecimento emitido regularmente, PODERÁ SER SUPRIDA se apresentada a mercadoria sob declaração escrita do responsável pelo veículo e anteriormente ao conhecimento da irregularidade pela autoridade aduaneira.

a não apresentação de manifesto de carga ou de documento equivalente em relação a qualquer ponto de escala no exterior será considerada DECLARAÇÃO NEGATIVA DE CARGA, sujeitando-se o responsável pelo veículo aos efeitos daí decorrentes.

Quando houver divergência, para menos, de peso ou de dimensão do volume em relação ao declarado no manifesto de carga ou documento equivalente, ou ainda, se for o caso, aos documentos que instruíram o despacho para trânsito, o TRANSPORTADOR é o RESPONSÁVEL para efeitos fiscais.

Se a autoridade aduaneira do local de descarga do veículo transportador constatar divergência entre os dados constantes do manifesto de carga e os do CONHECIMENTO CORRESPONDENTE, este terá prevalência, podendo a correção do manifesto ser feita de ofício.

FATURA COMERCIAL: O despacho de importação será instruído também com FATURA COMERCIAL, assinada pelo exportador, e que conterá TODOS os dados referentes à operação. Tem força contratual e possui valor para fins de tributação. •

Simples enganos ou omissões na emissão da fatura comercial, corrigidos ou corretamente supridos na Declaração de Importação, não acarretarão a aplicação de penalidades.

O conhecimento aéreo poderá EQUIPARAR-SE à fatura comercial, se contiver as indicações de quantidade, espécie e valor das mercadorias que Ihe correspondam;

GUIA DE IMPORTAÇÃO -

O importador deverá apresentar, por ocasião do despacho, a Guia de Importação ou documento equivalente, emitido pelo órgão competente, quando exigível na forma da legislação em vigor.

A guia de importação, concedida diretamente no SISCOMEX, é a licença administrativa para se importar determinada mercadoria.

CERTIFICADO DE ORIGEM - Além do extrato da declaração e dos documentos normalmente instrutivos do despacho de importação, outros podem ser exigidos em decorrência das condições da operação de importação ou da natureza da mercadoria, tendo em vista negociações em acordo internacionais ou em legislação específica. Merecem destaque especial: • • Certificado de Origem:

o Certificado de Origem; O comprovante de pagamento ou de exoneração do ICMS;

É o documento que comprova a origem da mercadoria. Em geral, é exigido para comprovar que determinada mercadoria é originária de país

com o qual o Brasil celebrou acordo internacional concedendo benefícios fiscais mútuos.

Comprovante de pagamento ou de exoneração do ICMS o fato gerador do ICMS, na importação, considera-se ocorrido no momento do desembaraço aduaneiro da mercadoria.

CONFERÊNCIA ADUANEIRA -

A conferência aduaneira tem por finalidade identificar o importador, verificar a mercadoria, determinar seu valor e classificação, e constatar o cumprimento de todas as obrigações, fiscais e outras, exigíveis em razão da

IMPORTAÇÃO . •

A conferência aduaneira PODERÁ ser realizada na zona primária ou na zona secundária. Deverá ser feita na presença do importador ou seu representante.

DESEMBARAÇO ADUANEIRO - Concluída a conferência sem exigência fiscal ou outra dar-se-á o desembaraço aduaneiro da mercadoria. •

Desembaraço aduaneiro é o ato final do despacho aduaneiro em virtude do qual é autorizada a entrega da mercadoria ao importador.

Não será desembaraçada a mercadoria sujeita a controles especiais, antes de cumpridas as exigências pertinentes.

ENTREGA DA MERCADORIA -

a mercadoria importada somente pode ser entregue ao importador após o desembaraço aduaneiro. Contudo, de acordo com a natureza da mercadoria, da operação de importação, e da via de transporte utilizada pode a entrega ser autorizada anteriormente ao desembaraço, destacando-se os casos de entrega antecipada e de entrega fracionada.

DESPACHO ANTECIPADO -

o despacho aduaneiro é iniciado após a chegada da mercadoria à repartição aduaneira onde será processado. Entretanto, de acordo com a natureza da mercadoria, a qualidade do importador

ou a via de transporte utilizada, é permitido o registro da declaração de importação antes da chegada da mercadoria.

ENTREGA ANTECIPADA -

é a entrega da mercadoria ao importador antes de totalmente realizada a conferência aduaneira, em situações de comprovada impossibilidade de sua armazenagem em local alfandegado ou, ainda, em outras situações justificadas, em vista da natureza da mercadoria ou de circunstâncias específicas da operação de importação.

Ex.: na importação de produtos químicos ou material explosivo, por questões de segurança da repartição aduaneira, pode ser autorizada a entrega antecipada dos produtos.

ENTREGA FRACIONADA -

No caso de partida que constitua uma só importação e que não possa ser transportada num único veículo, será permitido o seu fracionamento em lotes, devendo cada veículo apresentar seu próprio manifesto, e o conhecimento de carga do total da partida.

DESPACHOS SEM REGISTRO NO SISCOMEX - Assim, como exemplos, o despacho aduaneiro de importação é processado sem registro no SISCOMEX em caso de: •

amostras sem valor comercial, importações sem cobertura cambial, bens de missões diplomáticas e semelhantes, bagagem desacompanhada, doações a instituições de assistência social, catálogos, folhetos, manuais e semelhantes;

• • • • •

remessas expressas; remessas postais internacionais; medicamentos importados por pessoa física; bens para admissão no regime aduaneiro atípico de depósito afiançado - DAF; urna funerária contendo o corpo de pessoa falecida no exterior.

COMPROVANTE DE IMPORTAÇÃO - Após o registro do desembaraço aduaneiro no Sistema, será emitido o comprovante de importação em via única, a ser entregue ao importador.

O comprovante de importação não substitui a documentação fiscal exigida nos termos da legislação específica para efeito de circulação da mercadoria no território nacional.

REVISÃO ADUANEIRA - é o ato pelo qual a autoridade fiscal, após o desembaraço da mercadoria, reexamina o despacho aduaneiro, com finalidade de

apurar a regularidade do pagamento do imposto e demais gravames devidos à Fazenda Nacional ou do benefício fiscal aplicado e da exatidão das informações prestadas pelo importador.

MERCADORIA ABANDONADA -

As mercadorias e bens que ficam na zona primária ou em recintos alfandegados por prazo acima do permitido na legislação aduaneira (90 dias), assim como as mercadorias provenientes de naufrágio ou outros acidentes cujos interessados não foram localizados, são considerados abandonados.

A mercadoria ou bem abandonado sofre processo de perdimento e, após a aplicação da pena de perdimento, tem uma das destinações previstas na legislação, como a incorporação à Administração Pública ou a venda em leilão.

VISTORIA ADUANEIRA

A vistoria aduaneira destina-se a verificar ocorrência de avaria ou falta de mercadoria estrangeira entrada no território aduaneiro, a identificar o responsável e apurar o crédito tributário dele exigível.

a vistoria aduaneira não será realizada após a entrega da mercadoria ao importador, sob hipótese alguma

assistirão à vistoria, necessariamente, o DEPOSITÁRIO, o IMPORTADOR e o TRANSPORTADOR; facultativamente, o SEGURADOR ou qualquer pessoa que comprove legítimo interesse.

10. REGRAS DE ORIGEM

Geralmente os países realizam acordos concedendo benefícios recíprocos em suas trocas comerciais, estabelecendo, usualmente, a concessão de margens de preferência tarifária. Estas são aplicadas sobre a alíquota normal do imposto de importação fixada nas respectivas tarifas.

No MERCOSUL foi adotado o Certificado de Origem (que é exigido em todas as operações comerciais realizadas no MERCOSUL), que tem a finalidade de comprovar a origem de mercadoria constante de acordos comerciais estabelecidos entre os Estados-Parte. Assim, é indispensável a apresentação do certificado de origem em importação de mercadoria objeto de acordo comercial, para gozo do benefício acordado.

Regime de Origem do MERCOSUL -

é o instrumento que estabelece as regras para a determinação da nacionalidade dos produtos

intercambiados nas operações intra-zona.

Requisitos Específicos de Origem -

Os Estados-Partes poderão estabelecer, de comum acordo, requisitos específicos de origem, que prevalecerão sobre os critérios gerais de qualificação.

11. VALOR ADUANEIRO

a primeira tarefa para calcular o Imposto de Importação incidente sobre uma mercadoria consiste em determinar a sua classificação fiscal na Tarifa Externa Comum – TEC - do Mercosul, através da observância das regras gerais de interpretação e classificação. Obtida a classificação correta, verifica-se a alíquota aplicável ao item tarifário. A segunda tarefa diz respeito à apuração da base de cálculo do imposto. Sobre a base de cálculo apurada aplica-se a alíquota prevista, resultando no quantum de imposto devido. •

Na atualidade, a maioria dos países adota alíquotas ad valorem e daí decorre a necessidade de se determinar corretamente o valor dos bens importados. Se o valor desses bens não for adequadamente apurado, o direito aduaneiro a ele aplicado não desempenhará com eficiência a função tarifária a que se propõe.

O tributo poderá não ser arrecadado no seu montante correto e a proteção alfandegária estabelecida poderá ser frustrada.

O Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio - GATT, celebrado em 1947, estabeleceu, em seu artigo VII, princípios orientadores da apuração do valor aduaneiro: as regras deveriam ser equânimes, não discriminatórias e consistentes com as práticas comerciais..

O ACORDO DE VALORAÇÃO ADUANEIRA – AVA / GATT

Para os países desenvolvidos, o AVA/GATT entrou em vigor em 1981. No Brasil, em função da carência prevista, começou a vigorar somente no dia 23 de julho de 1986, quando foi promulga do pelo Decreto n" 92.930

De acordo com as normas do Acordo, o valor aduaneiro deve ser determinado pela aplicação de um dos seguintes métodos:

Primeiro método:

Valor de Transação da mercadoria importada;

Segundo método:

Valor de Transação da mercadoria importada idêntica à mercadoria objeto do despacho;

Terceiro método:

Valor de Transação da mercadoria importada similar à mercadoria objeto do despacho.

Quarto método:

Valor de revenda da mercadoria importada

Quinto método:

Valor computado da mercadoria importada

Sexto método:

Valor baseado em critérios razoáveis, condizentes com os princípios e disposições gerais do GATT, e em dados disponíveis no País •

Os métodos devem ser obrigatoriamente aplicados na ordem exposta, utilizando-se o segundo método somente quando o valor aduaneiro não puder ser determinado pelo primeiro, e assim sucessivamente.

• •

Para a aplicação de cada método, em regra, há condições e requisitos que se não satisfeitos, impedem a utilização desse método. O AVA / GATT, em regra, deve ser aplicado a todas as importações brasileiras, efetuadas a qualquer título.

12. PREÇO DE TRANSFERÊNCIA

Para fins tributários, Preço de Transferência é a prática de transferir resultados para o exterior, mediante a manipulação dos preços pactuados nas importações ou exportações de bens, serviços ou direitos, em operações com pessoas vinculadas, residentes ou domiciliadas no exterior ou residentes em países de tributação favorecida, quer sejam vinculadas ou não.

PRINCÍPIO DO PREÇO SEM INTERFERÊNCIA

"Transfer

Pricing"

-

Este

princípio

significa que o ajuste no preço de uma transação só deveria ser efetuado em nível de lucro, com o objetivo de assegurar que os preços das vendas de bens, serviços e direitos, em transações internacionais realizadas entre empresas relacionadas sejam, para efeitos fiscais, equivalentes aos que seriam praticados entre empresas independentes. MÉTODOS RECOMENDADOS PELA OCDE O primeiro país a disciplinar a matéria foi os

Estados Unidos, em 1928. Depois foi a Bélgica, em 1948. Nessas oportunidades não houve muito interesse por parte dos outros países. Organismos internacionais como a ONU e a OCDE contribuíram para que aumentasse a atenção dispensada ao tema.

Preços Independentes Comparados

Compara o preço de bens, serviços ou direitos transferidos em uma transação controlada com o preço cobrado em uma transação independente

comparável em circunstâncias semelhantes. E a forma mais direta e confiável para se aplicar o princípio do preço sem interferência.

Preço de Revenda

Compara o preço pelo qual um bem, que foi adquirido de uma empresa vinculada, é revendido a uma empresa independente.

Método do Custo + Margem de Lucro

Com base nos custos incorridos pelo fornecedor da propriedade do bem ou do serviço em uma transação controlada, aos quais se soma uma margem apropriada de lucro.

A dificuldade de aplicação desse método consiste em aferir os custos diretos e indiretos imputados pelas diferentes empresas, setores e países, de forma a ajusta e tratar estas inconsistências contábeis.

A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA

Foram estipulados métodos específicos para as operações de importação, operações de exportação e para operações financeiras.

MÉTODOS PARA OPERAÇÕES DE IMPORTAÇÃO

Preços Independentes Comparados – PIC

Definido como a média aritmética dos preços de

bens, serviços e direitos, idênticos ou similares, apurado no mercado brasileiro, ou de outros países, em operações de compra e venda, em condições de pagamento semelhantes.

Preço de Revenda menos Lucro - PRL • • • •

Definido como a média aritmética preços de revenda dos bens, serviços ou direitos, diminuídos:

descontos incondicionais concedidos; dos impostos e contribuintes sobre vendas; das comissões e corretagens pagas; de margem de lucro.

Custo de Produção mais Lucro – CPL

Definido como o custo médio de produção de bens, serviços ou direitos, idênticos ou similares, no país

onde tiverem

sido

originalmente produzidos,

acrescidos dos impostos e taxas cobrados pelo referido país, na exportação, e de margem de lucro de 20%, calculada sobre o custo apurado.

MÉTODOS PARA OPERAÇÕES DE EXPORTAÇÃO

Preço de Venda nas Exportações – PVEX

Definido como a média aritmética dos preços de venda nas exportações efetuadas pela própria empresa, para outros clientes ou por outra exportadora nacional de bens, serviços ou direitos, idênticos ou

semelhantes, durante o mesmo período de apuração do IR e em condições de pagamento semelhantes.

Preço de Venda por Atacado no País de Destino menos Lucro – PVA Definido como a média aritmética do preço de venda dos bens, idênticos ou similares, praticados no mercado atacadista do país de destino, em condições de pagamento semelhantes, diminuídos dos tributos incluídos no preço, cobrados no referido país, e de margem de lucro de 15% sobre o preço de venda no atacado.

Preço de Venda a Varejo no País de Destino menos o Lucro – PVV Definido como a média aritmética dos preços de venda de bens, idênticos ou semelhantes, praticados no mercado varejista do país de destino, em condições de pagamento semelhante, diminuídos dos tributos incluídos no preço, cobrados no referido país, de margem de lucro de 30% sobre o preço de venda no varejo.

Custo de Aquisição ou de Produção mais Tributos menos Lucro – CAP Média aritmética dos custos de aquisição ou de produção dos bens, serviços ou direitos exportados, acrescidos dos impostos e contribuições cobrados no Brasil e da margem de lucro de 15% sobre a soma dos custos mais impostos e contribuições.

MÉTODOS PARA OPERAÇÕES FINANCEIRAS

Juros Passivos

Dedutibilidade limitada ao montante que não exceda ao valor calculado com base na taxa Libor para depósitos em dólares pelo prazo de seis meses, acrescida de 3 % anuais a título de spread.

Juros Ativos

Reconhecer como receita financeira, correspondente à operação, no mínimo o valor apurado com base na taxa Libor, para depósitos em dólares pelo prazo de seis meses acrescida de três por cento anuais a título de spread.

13. PAGAMENTOS INTERNACIONAIS

A INTERVENÇÃO BANCÁRIA NO MECANISMO DE PAGAMENTO

No mercado interno não há problemas quanto aos pagamentos, pois a própria legislação proíbe que alguém se recuse receber a moeda nacional, além de proibir o uso de moedas estrangeiras nas operações internas.

Todavia, quanto às operações de comércio internacional faz-se necessário o pagamento das transações comerciais na moeda do país exportador. Os pagamentos feitos em moedas diferentes dão origem ao procedimento de câmbio, ou seja, a troca de moedas de diversos países. Para que

esta troca se realize é necessário estabelecer uma relação de equivalência, o preço de uma moeda em termos de outra, o que se denomina taxa cambial.

Os bancos mantêm contas de depósitos entre eles, para possibilitar as operações cambiais, quais sejam:

Nostro Account:

"nossas contas junto a outros bancos", ou seja, o banco mantém depósitos em diferentes moedas junto a outros bancos no exterior, com a finalidade de atender os pagamentos de diferentes moedas estrangeiras por parte de seus clientes.

Vostro Account:

“contas que os bancos

correspondentes mantêm junto a nós".

Assim, os

bancos estrangeiros manterão

contas em moeda nacional e outras moedas

estrangeiras junto aos bancos nacionais, com o mesmo objetivo de atender os seus clientes quando no Brasil.

Loro Account:

conta de um terceiro banco, com o qual os outros dois bancos estejam envolvidos em alguma transação, podendo ser em moeda nacional ou estrangeira. • Desse modo, é possível efetuar pagamentos internacionais sem a movimentação física de dinheiro.

Modalidades de transferência de valores em moeda para o exterior são:

Cheques:

são utilizados geralmente para pequenos valores, em virtude do risco de falsificações. São nominativos e emitidos em moeda conversível (dólar, libras, etc), podendo ser sacados nos bancos em qualquer país.

Traveller's Checks:

assemelham-se aos cheques comuns, mas são feitos em papel especial e com algumas características próprias com a finalidade de dificultar as falsificações. São emitidos em valores pré-determinados, geralmente em dólares americanos, possuindo uma grande aceitação no exterior. São assinados pelo possuidor quando de sua emissão no país de origem e quando de seu desconto o portador deve assiná-lo, o que aumenta sua segurança e por conseguinte sua aceitação.

Ordem de pagamento:

(via aérea, telex ou swift): são ordens de pagamento remetidas aos bancos do exterior da praça do beneficiário. O remetente optará, em função da

relação custo/benefício, pelo meio de transmissão: por via aérea, via telex ou pela rede Swift (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) que é um serviço de comunicações de dados voltado especialmente para o setor bancário.

Vale Postal Internacional:

serviço de remessa de valores ao exterior prestado pelos correios, destinado às remessas de pequeno valor, em virtude do custo e do prazo de remessa.

RISCOS E MODALIDADES DE PAGAMENTOS

As operações de comércio exterior apresentam riscos para os exportadores.

A modalidade

cobrança não oferece garantia ao exportador, mas são adotadas cautelas, como por exemplo, no caso da

modalidade de cobrança à vista -

os documentos que permitirão a retirada da mercadoria só

serão entregues ao importador após o pagamento da operação. Mesmo assim, em caso de recusa de pagamento pelo importador, o exportador terá de arcar com prejuízos referentes ao transporte da mercadoria ou então conceder vantagens ao importador, que muitas vezes age com este intuito.

modalidade de cobrança a prazo -

o risco é maior, pois o exportador já terá entregue a

mercadoria ao importador e, em caso de inadimplemento, só restará o uso de medidas legais (protesto, ação de cobrança) que, pela distância, torna-se impraticável.

As modalidades de pagamento utilizadas no comércio internacional são:

PAGAMENTO ANTECIPADO: Nesta modalidade de pagamento o risco fica para o importador, que deve remeter o valor da transação, pois somente após o exportador ter recebido o valor remeterá a mercadoria e a documentação. Esta modalidade de pagamento também é

conhecida por REMESSA ANTECIPADA.

REMESSA SEM SAQUE:

São as importações realizadas em que o importador recebe os documentos diretamente do exportador e promove o

desembaraço aduaneiro das mercadorias, remetendo o valor após o desembaraço. É uma modalidade que oferece riscos para o exportador, que fica sem garantias do recebimento da quantia. Apesar disto. oferece vantagens em custos, pois as taxas operacionais são consideravelmente menores do que as cobradas nas outras modalidades.

COBRANÇA À VISTA:

São operações realizadas por meio dos bancos. O exportador (cedente) entrega ao banco remetente os documentos de embarque e um saque contra o importador (sacado). O banco remetente enviará os documentos para cobrança na praça do sacado, por intermédio de uma banco correspondente (cobrador) Após o pagamento, o banco correspondente transfere o valor em moeda estrangeira para que o banco remetente efetue o pagamento ao exportador e entrega a documentação ao importador para que promova o desembaraço aduaneiro das mercadorias.

COBRANÇA A PRAZO: Trata-se de uma operação realizada nos moldes da cobrança à vista, mas com vencimento futuro. Assim, o importador receberá os documentos de desembaraço do banco correspondente (cobrador), mediante aceite, sem ter efetuado o pagamento. Neste caso, o exportador estará financiando o importador, correndo os riscos advindos do negócio.

RED CLAUSE:

A Red Clause (cláusula vermelha), assim chamada por geralmente vir grifada em vermelho, é uma cláusula muito utilizada no comércio exterior, que permite que o exportador receba antecipadamente o valor de seu crédito, total ou parcial.

é instituída quando o exportador necessitar de recursos para produzir o bem a ser entregue, pois só acertará as contas do adiantamento recebido quando entregar os documentos de embarque ao Banco. Assim como o pagamento antecipado, os riscos são por conta do importador, que só deve aceitar tal cláusula se confiar no vendedor.

CRÉDITO DOCUMENTÁRIO: Este tipo de modalidade de pagamento internacional é a mais utilizada e a que oferece maiores garantias, tanto ao exportador quanto ao importador.

Ex.:

um banco (banco emitente), atendendo seu cliente importador emite um

documento, comprometendo-se a efetuar um pagamento ao exportador, contra entrega de determinados documentos, desde que os termos e condições de crédito sejam cumpridos. •

O procedimento para a emissão do crédito documentário envolve as seguintes fases: abertura, utilização e liquidação.

Alguns tipos de Crédito Documentário (cartas de crédito) especiais, expostos a seguir:

Carta de Crédito Rotativa: utilizada para aquisições continuadas de mercadorias entre os mesmos importadores e exportadores. Há a emissão de apenas uma carta de crédito para diversas aquisições durante um período definido, com abertura de crédito rotativo.

Créditos Back-to-Back: operação envolvendo um importador que adquire mercadorias do exportador, que por sua vez, adquire a mercadoria de um outro produtor oferecendo em garantia a carta de crédito recebida.

Carta de Crédito de Viajante: carta de crédito remetidos por um banco a seus correspondentes no exterior para que façam o pagamento uma pessoa em trânsito.

Bid Letter of Credit:

é um documento

(também chamado bid bond) dado em caução para

participação em concorrências internacionais, como garantia em caso de desistência de cumprimento de contrato firmado como vencedor da concorrência.

Perfomance Letter of Credit:

é um documento (também chamado perfomance bond) dado em

garantia para o cumprimento do contrato assinado em caso de concorrências internacionais.

Refundment Letter of Credit: é um documento (também chamado refundment bond)

dado em

garantia pelo exportador em caso de pagamento de uma parcela antecipada pelo importador, como garantia em caso de descumprimento do contrato de entrega da mercadoria.

Standy by Letter of Credit: é um documento destinado a garantir operações de importadores norteamericanos, pois os bancos dos EUA não podem, por determinação legal, conceder cartas de garantia. Em caso de não pagamento, o exportador emitirá uma letra de câmbio contra o banco garantidor.

Em resumo, é o contrato pelo qual um banco assume o compromisso, em nome do importador, de EFETUAR O PAGAMENTO, mediante entrega dos documentos de embarque da mercadoria.

14. CONTENCIOSO ADUANEIRO

O contencioso Aduaneiro tem por objeto a resolução de um conflito de interesses submetido ao julgamento de um órgão atuando com função jurisdicional, tendo por um lado o Estado, credor de uma obrigação tributário-aduaneira, cujo crédito e sanção são por ele reclamados e por outro lado, o suposto infrator, o contribuinte ou o demandado, que procura a prestação de uma justiça e a defesa de seus direitos fundamentais

O Contencioso Aduaneiro no Brasil

a problemática do contencioso aduaneiro brasileiro é dividida em dois seguimentos:

• •

um em que se aplica o rito processual geral, comum a todos os tributos de competência da União; e o outro, ao qual se aplicam ritos especiais, diferenciados portanto daquele preconizado pelo Decreto regulamentador;

Processo de Determinação e Exigência de Créditos Tributários

A determinação e exigência de

créditos tributários decorrentes de infrações às normas aduanelras são apuradas mediante Processo administrativo fiscal. Os créditos tributários podem ser constituídos em virtude de: • •

Infrações apuradas no decorrer do despacho aduaneiro de mercadorias; Infrações apuradas em revisão do despacho aduaneiro procedida dentro do prazo decadencial de 5 anos a partir do registro da declaração de importação.

PROCESSOS ESPECIAIS

PROCESSO DE PERDIMENTO DE MERCADORIAS:

Perdimento do veículo

quando o veículo transportador estiver em situação irregular, quanto às normas que o habilitem a exercer a navegação ou o transporte internacional correspondente à sua espécie; ou quando o veículo conduzir mercadoria sujeita à pena de perdimento, se pertencente ao responsável por infração punível com aquela sanção.

Perdimento da mercadoria

se a mercadoria encontrar-se de alguma das maneiras abaixo, será passível de perdimento.

• • • • • •

oculta, a bordo do veículo ou na zona primária, qualquer que seja o processo utilizado; existente a bordo do veículo, sem registro no manifesto, em documento equivalente ou em outras declarações; estrangeira, encontrada ao abandono, desacompanhada de prova do pagamento dos tributos aduaneiros; estrangeira, exposta à venda, depositada ou em circulação comercial no Pais, se não feita a prova de sua importação regular; estrangeira, acondicionada sob fundo falso, ou de qualquer modo oculta.

Verificada a ocorrência de fatos que configurem dano ao erário, tal como definido na legislação, seja em ato de fiscalização externa ou interna, deve ser lavrado Auto de Infração.

DESTINAÇÃO DOS BENS:

Sendo desfavorável ao sujeito passivo a decisão, as mercadorias tem a destinação prevista na legislação e são as seguintes:

a)

por alienação, sendo o produto recolhido aos cofres públicos como receita da União:

b) c)

por incorporação ao patrimônio; inutilização:

PROCESSO DE VISTORIA ADUANEIRA:

A determinação e exigência do crédito tributário decorrente de vistoria aduaneira será formalizado

em notificação de lançamento, instruída pelo termo de vistoria. •

A vistoria aduaneira é o procedimento fiscal que objetiva a verificação da ocorrência de avarias ou falta de mercadoria estrangeira entrada no território aduaneiro, identificar o responsável e apurar o crédito tributário.

EXECUÇÃO DE TERMOS DE RESPONSABILIDADE: O termo de responsabilidade é um titulo representativo de direito liquido e certo em favor da Fazenda Nacional, cujo inadimplemento acarreta ao devedor a imediata cobrança administrativa. O não atendimento à intimação para satisfazer a obrigação espontaneamente implicará a sua remessa a Procuradoria da Fazenda Nacional para cobrança judicial.

15. IMPOSTO SOBRE IMPORTAÇÃO/EXPORTAÇÃO DE BENS VIRTUAIS •

Este tema é abordado no Capítulo 12 da disciplina Relações Econômicas Internacionais

16. CÂMBIO

MODALIDADES • • As trocas de moedas estrangeiras são realizadas em diversas modalidades, que são:

mercado de câmbio manual - é o comércio de dinheiro em espécie, quando uma ou todas as moedas que estiverem sendo trocadas forem de países estrangeiros.

mercado de câmbio sacado - compreende a maior parte das operações de câmbio realizadas pelos bancos, mormente compra e venda de divisas estrangeiras, letras de câmbio, cheques, ordens de pagamento, representadas por depósitos,

etc. As operações são feitas mediante

débitos ou créditos nas contas que os bancos mantêm junto aos estabelecimentos bancários correspondentes no exterior. •

mercado de câmbio primário - são realizadas operações entre o banco e os seus clientes, movimentando divisas, por exemplo, entre os exportadores e os importadores.

mercado de câmbio interbancário - em que são realizadas operações cambiais bancos.

entre os

mercado de câmbio à vista - são realizadas as operações prontas de cambio

(spot exchange)

que são operações de compra e venda de divisas para entrega imediata, de até dois dias úteis contados da data da operação. •

mercado de câmbio a termo - são realizadas as operações futuras de câmbio exchange). São operações de compra e venda de divisas estrangeiras, determinada na ocasião da contratação, a serem entregues em data evitar riscos de flutuações nas taxas cambiais.

(fonnrard

com taxa cambial

futura, com a finalidade de

OPERAÇÕES PRONTAS E OPERAÇÕES FUTURAS • •

Operações prontas (SPOT) são aquelas em que as moedas transacionadas devem ser entregues em até dois dias úteis (working days), contados a partir da data da realização da operação. Operações futuras são operações cambiais contratadas no presente, a uma taxa fixada no momento da contratação, mas prevendo entrega das respectivas moedas em uma data futura.

ARBITRAGEM •

Arbitragem de câmbio é a operação que consiste em remeter moedas de uma praça para outra, no sentido de se obter vantagens de temporárias diferenças de preços. Aproveitando-se das diferenças de cotações de uma moeda em diferentes mercados, procura-se a obtenção de lucro, comprando-a onde estiver com menor cotação para vendê-la onde o preço estiver mais elevado.

• •

Existem dois tipos de operações de arbitragem: direta e indireta.

Arbitragem direta

é aquela em que dois mercados de países diferentes arbitram suas

respectivas moedas nacionais;

Arbitragem indireta •

é aquela em que dois mercados localizados em países diferentes operam

com a moeda de um terceiro país. As operações de arbitragem produzem um efeito benéfico ao mercado, pois provocam alterações nas cotações das moedas, fazendo com que as eventuais diferenças desapareçam em pouco tempo. Pode-se dizer que estas operações transformam dois mercados separados em um mercado único, no sentido econômico.

SWAPS

Operação de swap consiste na compra o venda de cambio pronto CONTRA a simultânea venda ou compra de câmbio futuro, em um determinado prazo. Ex.: operacionaliza-se um swap entre dois bancos, um nacional e um outro estrangeiro. O banco nacional compra moeda estrangeira de que necessita efetuando a venda para o mesmo banco, em um determinado prazo. O banco estrangeiro, na mesma operação, adquire a moeda nacional, para posteriormente efetuar a troca. Este tipo de swap pode ser realizado entre bancos e outras empresas.

• •

outras modalidades de swap: swap e investimento: ocorre quando um banco ou uma outra empresa compra moeda em um

mercado estrangeiro para posterior venda em prazo determinado, permanecendo os fundos no exterior para aplicação em operações financeiras, definidas a critério do investidor. • swap de exportação: utilizado para financiamento de exportações. Uma empresa necessitando

de adquirir produtos do cómércio internacional, para depois exportá-los, efetua a operação de swap, comprando a moeda necessária à aquisiçao dos produtos, liquidando a operação quando do recebimento das exportações, com a finalidade de evitar riscos de possíveis elevações das taxas de câmbio durante o período entre importação das matérias-primas e a exportação dos seus produtos. • linhas de swap: acordos de crédito mútuo por um determinado prazo, entre bancos centrais de diferentes países com o objetivo de regular o mercado interna de câmbio evitando alterações das cotações de suas próprias moedas.

TIPOS DE TAXAS CAMBIAIS

Os operadores do mercado cambial necessitam de consultas recíprocas para determinarem as taxas em que vão efetuar seus negócios. Na determinação das taxas cambiais são levados em consideração fatores econômicos e políticos que podem ocasionar alterações das cotações das moedas. A partir disto são fixadas as taxas cambiais de abertura, que oscilarão à medida em que as operações forem sendo efetuadas, de acordo com a demanda por outra moeda. Os tipos de taxas cambiais podem ser resumidos da seguinte maneira:

Taxa de Câmbio de Repasse:

é a TAXA DE COMPRA DE MOEDA ESTRANGEIRA que o Banco Central adquire dos bancos comerciais;

Taxa de Câmbio de Cobertura:

é a TAXA DE VENDA DE MOEDA ESTRANGEIRA do Banco Central aos bancos comerciais.

Taxas de Câmbio Prontas:

são aquelas aplicadas em operações de compra e venda de moeda estrangeira para entrega em até 2 diais úteis, contados da data da operação.

Taxas de Câmbio Futuras:

são aquelas destinadas a operações de compra e venda

de

moeda estrangeira para entrega em um período de tempo determinado pelos negociadores.

Taxas de Câmbio Fixas:

são aquelas mantidas invariáveis em um determinado patamar, por determinação governamental. Difere da taxa estável, que se mantém em mercado, sem intervenção

um mesmo patamar devido ao próprio governamental.

Taxas de Câmbio Variáveis:

são aquelas que variam. Podem ser taxas flexíveis,

reajustadas

gradualmente dentro de pequenos intervalos de tempo ou taxas flutuantes, que oscilam livremente, de acordo com as

variações do mercado, embora possam sofrer intervenção governamental, em caso de flutuações exageradas.

Taxas de Câmbio Oficiais:

determinadas pelas autoridades monetárias, geralmente acordo com as próprias variações do mercado.

de

Taxas de Câmbio Livres:

provenientes das condições de oferta e procura do mercado de cambio, admitindo-se a atuação governamental mediante operações de compra e venda de moedas estrangeiras.

Taxas Cruzadas (Cross-Rates):

são

resultantes

das

comparações

das

respectivas uma terceira

cotações de duas moedas, expressas em moeda.

CONTRATAÇÃO, PRAZOS E LIQUIDAÇÃO

As operações de cambio devem ser formalizadas mediante um contrato de câmbio, que pode ser na forma de um contrato mercantil, nas operações de compra e venda internacional ou de maneira mais simplificada, nas operações de cambio manual, por exemplo. •

todas as operações de câmbio realizadas pelos bancos e corretores autorizados devem ser informadas diariamente ao Banco Central pelo sistema SISBACEN.

Os prazos de contratação das operações cambiais variam de acordo com a modalidade adotada. • •

Para exportação - são de ate 360 dias da data do embarque Para as importações - as operações devem ser com cláusula de pronta entrega da moeda estrangeira, ou se com carta de crédito, com prazo suficiente para o embarque, da mercadoria, geralmente de 30 dias mais o prazo de embarque. Nas importações, as operações com cláusula de pronta entrega não podem ser prorrogadas, somente admitindo-se prorrogação para as operações garantidas por carta de crédito, dentro do prazo de embarque e que a mercadoria não tenha sido embarcada.

As operações cambiais de importação devem ser liquidadas em até 2 dias úteis após a data da contratação se clausuladas para entrega pronta; ou dentro de 30 dias contados do embarque da mercadoria, se garantidas por carta de crédito.

• •

Na liquidação das operações de exportação, o banco só efetuará o pagamento após confirmar o recebimento do valor do importador, dentro do prazo de 5 (cinco) dias. No caso de operações de cambio manual, devem ser liquidadas no mesmo dia.

FORMAS DE CONTROLE CAMBIAL E O CONTROLE CAMBIAL DO BRASIL

As autoridades monetárias, atendendo os objetivos da política econômica governamental, intervêm no mercado cambial com a finalidade de adequá-lo às condições do país, visando restringir a demanda por divisas estrangeiras e corrigir os desequilíbrios no balanço de pagamentos do país.

O controle cambial é adotado principalmente quando dos períodos de instabilidade, em que é necessário evitar evasão de divisas do país. Porém, quando motivado pelo receio da situação econômica de um país, os detentores de divisas buscam alternativas de modo a burlar as medidas de controle cambial, mormente pelo mercado paralelo.

Os instrumentos utilizados para o controle cambial são: • • • • •

a fixação do cambio; as regulamentações; as suspensões de operações de compra e venda de divisas; a normatização das operações de importações e exportações.

Desse modo, as autoridades monetárias exercem o monopólio do mercado cambial, centralizando todas as operações que envolvam divisas. A adoção do controle cambial pode ser por prazo determinado ou não, de acordo com os motivos de sua implementação.

As formas de controle cambial mais utilizadas pelos países que o adotam são a centralização de divisas e o licenciamento de exportações e de importações.

Centralização de Divisas -

é uma forma que exige forte esquema de controle, pois os detentores de divisas tentarão de todas as maneiras possíveis burlar essa centralização, por meio de subfaturamento das exportações e superfaturamento das importações, fuga de capitais pelo mercado paralelo ou fraudes contábeis.

Licenciamento Prévio de exportações e importações apesar de significar um trabalho enorme no acompanhamento e verificação de todas as operações de comércio exterior efetuadas no país, permite o controle administrativo das compras e vendas internacionais e o conseqüente controle das remessas e recebimentos de divisas externas. •

Desde março de 1995, o governo brasileiro adota o sistema de faixas cambiais de flutuação, também denominadas de "bandas cambiais". O Banco Central intervém obrigatoriamente no mercado cambial toda vez que os limites das taxas de flutuação forem atingidos pelas taxas praticadas no mercado, bem como poderá intervir preventivamente, a fim de evitar oscilações nas cotações.

17. REGIMES ADUANEIROS

JURISDIÇÃO DOS SERVIÇOS ADUANEIROS

O Regulamento Aduaneiro logo em seu início, trata da questão da Jurisdição dos Serviços Aduaneiros. Não poderia ser diferente, uma vez que, antes de conhecer as normas que regem a área aduaneira, é imprescindível saber como e onde elas serão aplicadas. É necessário saber, também, de quem é a competência para aplicar tais mandamentos. •

Em sentido amplo, Jurisdição é a extensão e o limite do poder da autoridade para aplicar, na sua área de competência, a Lei ao caso concreto.

As autoridades que têm competência para tratar dos assuntos aduaneiros são os Auditores Fiscais da Receita Federal e os Técnicos da Receita Federal.

Território Aduaneiro

É O ESPAÇO FÍSICO NO QUAL É APLICADA SUA LEGISLAÇÃO ADUANEIRA. • •

o território aduaneiro compreende todo o território nacional. a jurisdição dos serviços aduaneiros é estendida por todo o território aduaneiro e abrange as zonas primária e secundária.

ZONA PRIMÁRIA compreende • • •

a área terrestre ou aquática, contínua ou descontínua, ocupada pelos portos alfandegados; a área terrestre ocupada pelos aeroportos alfandegados; a área adjacente aos pontos de fronteira alfandegados; • para efeitos da legislação aduaneira, as ZPE – Zonas de Processamento de Exportação (áreas de livre comércio com o exterior e que se destinam à instalação de empresas voltadas para a produção de bens a serem

comercializados exclusivamente no exterior) são consideradas zonas primárias para efeito de controle administrativo. •

zona secundária compreende •

a parte restante do território aduaneiro não compreendida pela zona primária, incluídas as águas territoriais e o espaço aéreo;

Portos, Aeroportos e Pontos de Fronteiras Alfandegados possam:

são ditos alfandegados desde que nele

I. II.

estacionar ou transitar veículos procedentes do exterior ou a ele destinados; ser efetuadas operações de carga, descarga, armazenagem ou passagem de mercadorias procedentes do exterior ou a ele destinadas;

III.

embarcar, desembarcar ou transitar viajantes procedentes do exterior ou a ele destinados;

somente pelos portos, aeroportos e pontos de fronteira alfandegados poderá efetuarse a entrada ou a saída de mercadorias procedentes do exterior ou a ele destinadas.

as operações de carga, descarga ou transbordo de veículo procedente do exterior só poderão ser executadas depois de formalizadas, pela autoridade aduaneira, a sua entrada no porto, aeroporto, ou repartição jurisdicionante do ponto de fronteira alfandegado.

Zona de Vigilância Aduaneira

para melhorar o controle sobre a entrada ou saída clandestina de mercadorias do território aduaneiro, o Ministro da Fazenda poderá demarcar, na orla marítima ou na faixa de fronteira, zonas de vigilância aduaneira, nas quais a existência ou circulação de mercadorias, veículos, pessoas ou animais ficarão sujeitas às exigências fiscais, poribições e restrições que forem estabelecidas.

Recintos Alfandegados

são lugares onde a Alfândega executa o controle e fiscalização aduaneiros sobre as mercadorias objeto de operações do

comércio exterior, procedentes do exterior ou a ele destinadas. Podem estar localizadas em zonas primárias ou secudárias. •

são RECINTOS ALFANDEGADOS DE ZONA SECUNDÁRIA: • • • • •

os entrepostos aduaneiros alfandegados; os depósitos especiais alfandegados; os terminais retro-portuários alfandegados; as estações aduaneiras interiores ou outras unidades destinadas ao armazenamento de mercadorias sob controle aduaneiro; as dependências destinadas ao depósito de remessas postais internacionais sujeitas a controle aduaneiro.

Lojas francas

são estabelecimentos autorizados a funcionar em zona primária de porto ou aeroporto, nos termos e condições fixados pelo Ministro da Fazenda, para venda de mercadoria nacional ou estrangeira a passageiros em viagens internacionais, contra pagamento em cheque de viagem ou moeda estrangeira conversivel.

Competência para Alfandegar

Alfandegar é o ato de estabelecer Alfândega em portos,

aeroportos ou pontos de fronteira, aparelhando-a para que possam receber veículos, passageiros e mercadorias procedentes ou destinadas ao exterior. •

A competência para alfandegar os portos, aeroportos e pontos de fronteira, os recintos de zona secundária e de zona primária é do Secretário da Receita Federal.

Exercício da Autoridade Aduaneira

A área que compreende a zona primária deverá ser demarcada pela autoridade aduaneira local, ouvido o órgão ou empresa a que esteja afeta a administração do porto, aeroporto ou estação de fronteira

A autoridade aduaneira poderá exigir que a zona primária, ou parte dela, seja protegida por obstáculos que a ela impeçam o acesso indiscriminado de veículos, pessoas e animais.

Precedência da Autoridade Aduaneira

a

administração

fazendária

e

seus

servidores fiscais TERÃO, dentro de suas áreas de competência sobre os e jurisdição, setores

precedência

demais

administrativos, na forma da lei.

Fiscalização Aduaneira

A fiscalização aduaneira deverá ser permanente na zona primária e continuada nos recintos alfandegados de zona secundária. A fiscalização é permanente quando exercida ininterruptamente; é continuada, quando exercida no dia ou horário em que haja manuseio ou movimentação de mercadorias.

Acesso a Recintos Alfandegados

O acesso a recintos alfandegados é restrito às pessoas que neles exerçam atividades

profissionais e aos veículos que estejam de serviço, podendo, no entanto, ingressar outras pessoas ou veículos, desde que, haja expressa permissão da autoridade aduaneira.

Terminais Alfandegados

Para a execução dos serviços aduaneiros, podem ser alfandegados terminais como estações aduaneiras ou terminais retro-portuários, quando dispuserem de condições para a realização do controle fiscal, desde que se situem em localidades que tenham fluxo de operações de comércio exterior que justifique a existência deles.

São terminais alfandegados de uso público:

a)

as Estações Aduaneiras de Fronteira - EAF;

b) c)

as Estações Aduaneiras Interiores - EADI; os Terminais Retro-portuários Alfandegados -TRA.

EAF - são terminais situados em zona primária de ponto alfandegado de fronteira, ou em área contígua, nos quais são executados os serviços de controle aduaneiro de veículos de carga em tráfego internacional, de verificação de mercadorias em despacho aduaneiro e outras operações de controle determinados pela autoridade aduaneira.

TRA - são terminais situados em zona contígua à de porto organizado ou instalação portuária, compreendida no perímetro de 5 Km dos limites da zona primária, demarcada pela autoridade aduaneira local, nos quais são executados os serviços de operação, sob controle aduaneiro com carga de importação e exportação

EADI - são terminais situados em zona secundária, nos quais são executados os serviços de operação com mercadorias que estejam sob controle aduaneiro. •

Nas EADI poderão ser realizadas operações com mercadorias submetidas aos seguintes regimes aduaneiros:

I. comum; II. suspensivos: a) b) c) d) e) f) g) entreposto aduaneiro na importação e na exportação admissão temporária; trânsito aduaneiro; drawback; exportação temporária; depósito alfandegado certificado e depósito especial alfandegado. entreposto internacional da Zona Franca de Manaus.

Os serviços desenvolvidos em terminais alfandegados de uso público poderão ser delegados a pessoas jurídicas de direito privado que tenham como principal objeto social, cumulativamente ou não, a armazenagem, a guarda ou o transporte de mercadorias.

A delegação será efetivada mediante PERMISSÃO de serviço público, salvo quando os serviços devam ser prestados em terminais instalados em imóveis pertencentes à União, caso em que será adotado o REGIME DE CONCESSÃO precedida da execução de obra pública.

Estações Aduaneiras

são os terminais alfandegado de uso público onde se executam serviços aduaneiros. Podem ser de fronteira, quando situada em zona primária de ponto alfandegado de fronteira ou em área a ela vinculada, ou interior, quando situada em zona secundária.

Estação Aduaneira de Fronteira – EAF

A estação aduaneira de fronteira será instalada em

imóvel da União e administrada pela SRF ou por empresa habilitada, como permissionária.

Estação Aduaneira Interior – EADI

A estação aduaneira interior poderá ser instalada em região

onde houver expressiva concentração de carga de importação ou destinada à exportação, sendo autorizada a operar com carga de importação e de exportação, ou apenas de exportação, tendo em vista as necessidades e condições locais. •

As Estações Aduaneiras do Interior - EADI -, usualmente conhecidas como portos seco (''dry ports") são terminais alfandegados de uso público situados em zona secundária e destinados à prestação, por terceiros, dos serviços públicos de movimentação e armazenagem de mercadorias sob controle aduaneiro. São instaladas, preferencialmente, nas proximidades de regiões produtoras ou consumidoras. Essa proximidade do domicílio dos agentes econômicos envolvidos proporciona grande simplificação de procedimentos para o contribuinte, acarretando considerável economia de custos.

Terminais Retro-Portuários Alfandegados – TRA

são instalações retro-portuárias onde se

executam serviços de controle aduaneiro. São recintos alfandegados de zona secundária cuja função é dar suporte aos portos no manuseio de containers, reboques e semi-reboques, realizando as tarefas de unitização e desunitizaçáo da carga recebida. Trabalham, quando autorizados, excepcionalmente com graneis ou cargas especiais.

REGIMES COMUNS

Regimes aduaneiros comuns ou normais de importação e de exportação são aqueles empregados na grande maioria das importações e exportações brasileiras. Nesses regimes as mercadorias importadas (ou exportadas) passam pelo despacho comum de importação (ou de exportação) quando são pagos os tributos incidentes na operação e satisfeitos os demais requisitos administrativos. Não há, portanto, suspensão das obrigações fiscais.

REGIMES ADUANEIROS ESPECIAIS

caracterizam-se como um ato ou negócio jurídico sob condição resolutiva, em que o fato gerador dos tributos considera-se ocorrido e existentes os seus efeitos desde o momento da prática do ato concessivo, sendo exigíveis os tributos retroativamente na hipótese de inadimplemento. •

São comuns à maioria dos regimes aduaneiros especiais as características seguintes: • suspensão da exigibilidade tributária; prazo e condições de permanência da mercadoria no regime; garantia dos tributos suspensos

São regimes aduaneiros Especiais:

1. Trânsito Aduaneiro; 2. Admissão Temporária; 3. Drawback; 4. Entreposto Aduaneiro; 5. Entreposto Industrial; 6. Exportação Temporária.

1 - TRÂNSITO ADUANEIRO

Conceito:

O regime especial de trânsito aduaneiro é o que permite o TRANSPORTE DE MERCADORIAS, sob controle aduaneiro, de um ponto a outro do território aduaneiro, com SUSPENSÃO DE TRIBUTOS.

Despacho

Concessão:

O pedido de concessão do regime será formulado na Declaração de Trânsito Aduaneiro - DTA, documento base do despacho, na qual é especificada a mercadoria objeto de transito.

Aplicação:

A autoridade fiscal, sob cuja jurisdição se encontra a mercadoria a ser transportada, ao conceder o regime fixará a rota, os prazos para execução da operação e para comprovação da sua chegada, e as cautelas fiscais julgadas necessárias.

2 - ADMISSÃO TEMPORÁRIA

Conceito:

A admissão temporária é o regime especial que permite a Importação de bens que devam permanecer no Pais durante prazo fixado, com SUSPENSÃO DE TRIBUTOS.

Despacho

Concessão e Aplicação:

O interessado pleiteia o regime, através de requerimento, que deve ser apresentado à repartição onde será processado o despacho aduaneiro da mercadoria, devendo constar de seu pedido, entre outros, o enquadramento legal cabível, a finalidade, o prazo pretendido, a descrição pormenorizada do bem e o local onde a mercadoria será utilizada.

Indeferida a admissão temporária, os bens devem ser reexportados no prazo de 30 (trinta) dias da ciência da decisão ou, alternativamente, nacionalizados e despachados para consumo, desde que observadas as exigências legais e regulamentares, inclusive as relativas ao controle administrativo das importações.

Para a concessão do regime, a autoridade competente deve observar, ainda, relativamente aos bens, o cumprimento cumulativo das seguintes condições: • • • sejam importados com o caráter de temporariedade, comprovada esta condição por qualquer meio julgado idôneo. sejam importados SEM cobertura cambial. sejam adequados à finalidade para a qual foram importados.

Extinção do Regime:

Extingue-se a admissão temporária com a adoção de uma das seguintes providências, que deve ser requerida pelo beneficiário, dentro do prazo fixado para a permanência dos bens no País:

I. II.

reexportação; entrega à Fazenda Nacional, livres de quaisquer despesas, desde que a autoridade aduaneira concorde em recebê-los;

III. IV. V. •

destruição, às expensas do interessado; transferência para outro regime especial; despacho para consumo, se nacionalizados.

os prazos de validade do regime de admissão temporária SÃO CONTADOS a partir do desembaraço aduaneiro, podendo ser dispensada a garantia para algumas empresas idôneas.

não pode ser concedido o regime de admissão temporária à importação de BENS DOADOS, a qualquer título, devendo-se utilizar do regime comum de importação.

3. DRAWBACK

Conceito:

O DRAWBACK é o regime aduaneiro especial que consiste na IMPORTAÇÃO, com RESTITUIÇÃO dos tributos pagos, SUSPENSÃO ou ISENÇÃO dos tributos incidentes nas IMPORTAÇÕES beneficiamento de mercadorias destinadas de à fabricação, PRODUTOS

complementação,

e/ou

acondicionamento

EXPORTADOS OU A EXPORTAR. •

A aplicação deste regime visa a dar poder competitivo à produção nacional, através da redução do custo final dos produtos que foram ou que serão exportados, conseguida pela redução da carga tributária incidente sobre as mercadorias estrangeiras neles utilizadas.

O Drawback é um estimulo à exportação e pode ser concedido à empresa industrial ou comercial.

Como se trata de estímulo à exportação, a mercadoria importada sob o regime de Drawback não está sujeita ao exame de similaridade nem à obrigatoriedade de transporte em navio de bandeira brasileira.

Os incentivos do Drawback abrangem: • • • •

Imposto de Importação; Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI; Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços de Transporte e de Comunicação - ICMS; Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante.

DRAWBACK Restituição:

É a modalidade de Drawback que possibilita a restituição do valor dos tributos pagos na

Importação de mercadorias, desde que estes tenham sido utilizados na fabricação de produtos já exportados. •

Ex: Uma empresa importa 100 microprocessadores pagando os tributos devidos na importação. Fabrica, com os processadores importados, 100 microcomputadores, que são exportados. Adquire, em razão do Incentivo do Drawback Restituição, direito de requerer a concessão do crédito fiscal para ser utilizado em futuras importações.

DRAWBACK Suspensão:

é a modalidade de Drawback que permite ao beneficiário importar, com suspensão de tributos, matérias primas, insumos, partes, peças e componentes para aplicação em produtos que deverão ser exportados.

Ex: Ao importar 100 microprocessadores para fabricação de 100 microcomputadores, o importador sabe que os computadores serão exportados, requer a suspensão dos tributos devidos, mediante garantia que se extinguira com a comprovação da efetiva exportação.

DRAWBACK Isenção:

É a modalidade de Drawback que permite ao beneficiário, através da importação com isenção, a reposição de estoque de mercadorias em quantidade e qualidade equivalente às utilizadas nos produtos exportados.

Ex: Ao importar 100 microprocessadores para fabricação de 100 microcomputadores, a empresa não cogitava a exportação dos computadores. Entretanto, encontrando melhores condições

comerciais no mercado externo, promoveu a exportação dos produtos. Ao efetivar a exportação, a empresa obteve direito, através do regime especial de Drawback Isenção, de importar outros 100 microcomputadores, com isenção de tributos, para a reposição de seu estoque.

DRAWBACK Verde-Amarelo (Interno):

Este incentivo à exportação consiste em isentar de impostos internos matérias-primas, intermediários e produtos material de

embalagem, de fabricação nacional, destinados à venda, no País, a empresas que irão industrializar

esses insumos e depois exportar o produto final. •

O Drawback Verde-amarelo não é um regime aduaneiro especial. É um incentivo à exportação, que utiliza sistemática à utilizada no regime aduaneiro especial de Drawback.

O Drawback Verde-amarelo também denominado de Drawback Interno, restringe-se ao IPI e ao lCMS.

4. ENTREPOSTO ADUANEIRO

Conceito e Permissionários:

Entreposto aduaneiro é o regime especial que PERMITE, na importação e na exportação, o depósito de mercadorias, em local determinado, com suspensão do pagamento de tributos e sob controle aduaneiro.

O regime tem como base operacional unidade de entreposto de uso público ou de uso privativo, onde as mercadorias ficam depositadas, salvo na modalidade de entreposto extraordinário de exportação, na qual as mercadorias podem também ser embarcadas diretamente.

É ADMISSÍVEL a exportação das mercadorias entrepostadas sem que sejam despachadas para consumo.

A exploração de entreposto aduaneiro de uso privativo será PERMITIDA NA EXPORTAÇÃO, na modalidade de regime extraordinário, relativamente a mercadoria adquirida por empresa comercial exportadora (“trading company”)

Prazo de Permanência

A mercadoria pode permanecer no regime pelo prazo de até um ano, prorrogável por período não superior a um ano. Em casos especiais, pode ser concedida nova prorrogação, respeitado o limite máximo de 03 anos.

Abandono

Se, após vencido o prazo de vigência do regime, acrescido, de 45 dias, o beneficiário não tiver tomado uma das providências previstas para extinção do regime, as mercadorias serão consideradas abandonadas para fins de aplicação da pena de perdimento.

Extravio ou Avaria

nestes casos, o depositário (permissionário do entreposto) RESPONDE PELO PAGAMENTO DOS TRIBUTOS

incidentes sobre as mercadorias e penalidades cabíveis, exigíveis na data da apuração do fato.

5. ENTREPOSTO INDUSTRIAL

Conceito:

é o regime aduaneiro especial que permite a determinado departamento de uma indústria IMPORTAR, com suspensão de tributos, mercadorias que, depois de submetidas à operação de industrialização, devem destinar-se ao mercado externo. •

Todavia, É PERMITIDO QUE PARTE DA PRODUÇÃO do entreposto industrial seja destinada ao mercado interno, desde que pagos os tributos suspensos relativos às mercadorias importadas utilizadas nos produtos finais.

O regime de entreposto industrial visa a: • •

facilitar a importação de insumos industriais para serem beneficiados ou agregados a produtos nacionais destinados à exportação; reduzir os custos dos produtos finais.

Concessão do Regime:

Compete ao Coordenador-Geral do Sistema Aduaneiro, por subdelegação de competência da Secretaria da Receita Federal, autorizar a instalação de entreposto industrial, bem como fixar condições e prazo para o seu funcionamento.

Permissionários e Beneficiários:

As

empresas

industriais

permissionárias

são

as

beneficiárias do regime de entreposto industrial.

Benefícios na Exportação:

As mercadorias produzidas no entreposto industrial, quando destinadas ao mercado externo, gozam de todos os benefícios fiscais concedidos à exportação.

6. EXPORTAÇÃO TEMPORÁRIA

Conceito:

Considera-se exportação temporária a saída, do País, de mercadoria nacional ou nacionalizada, CONDICIONADA À REIMPORTAÇÃO em prazo determinado, no mesmo estado ou após submetida a processo de conserto, reparo ou restauração. •

O regime visa a facilitar a salda dos bens que vão ao exterior para exposições, feiras, competições, testes, promoções, reparos, consertos, restaurações, ou em auxilio ou apoio a pessoa que viaja ao exterior deles necessitando para o exercício de suas atividades profissionais ou de lazer. Tem, portanto, grande importância econômica e cultural.

O imposto de exportação é garantido por termo de responsabilidade e exaure-se quando de sua concessão, não cabendo mais discutí-lo quando da reimportação, se este for o caso.

Reimportação: Considera-se reimportação a entrada no País de mercadoria que tenha sido exportada, definitivamente, ou em regime aduaneiro especial de exportação temporária.

Concessão do Regime:

poderá ser requerida à repartição que jurisdiciona o exportador ou aquela que jurisdiciona o porto, aeroporto ou ponto de fronteira de saída dos bens para o exterior.

a entrada no território nacional de PRODUTO REIMPORTADO que não cumpriu as condições do regime de exportação temporária CONSTITUI fato gerador do imposto de importação.

São cinco os regimes aduaneiros atípicos:

1. 2. 3. 4. 5.

Zona Franca de Manaus; Loja Franca; Depósito Afiançado; Depósito Especial Alfandegado; Depósito Franco.

ZONA FRANCA DE MANAUS ZFM

Conceito:

As Zonas Francas são áreas de um país, ou de um conjunto de países em integração econômica, especialmente demarcadas, onde o ingresso e a saída de mercadorias, do exterior ou para o exterior, gozam de benefícios fiscais, como a isenção de gravames e a não aplicação de restrições econômicas que existem em outras regiões do território do país ou conjunto de países.

Administração:

A ZFM é administrada pela Superintendência da Zona Franca de Manaus SUFRAMA - . autarquia com personalidade jurídica e patrimônio próprio, e vinculada ao Ministério do Planejamento e Orçamento.

Incentivos Fiscais:

A ZFM, desde sua implantação, tem sido contemplada com incentivos fiscais na área federal, estadual e municipal. Na realidade, é nesses incentivos fiscais que se encontra o fundamento básico para o incremento e continuidade da Zona Franca.

É isenta do Imposto de Importação e do Imposto sobre os Produtos Industrializados a entrada na ZFM de mercadorias estrangeiras destinadas: • • • • •

a seu consumo interno; à industrialização em qualquer grau, inclusive beneficiamento; à pesca e à agropecuária; à instalação e operação de indústrias e serviços de qualquer natureza; à estocagem para reexportação.

Excluem-se dos benefícios: • • • • •

armas e munições; fumo; bebidas alcoólicas; automóveis de passageiros; produtos de perfumaria ou de toucador;

Internação:

As mercadorias de origem nacional ou estrangeira, ao saírem da ZFM para outros pontos do Território Nacional, serão submetidas a um dos seguintes tratamentos tributários: •

Pagamento de todos os impostos exigíveis na importação, através da apresentação de Declaração de Importação / Internação - ZFM, quando se tratar de internação de mercadorias estrangeiras admitidas na ZFM

Redução do Imposto de Importação, calculado mediante a aplicação de coeficiente de redução e isenção do IPI, através da apresentação de

Declaração de Importação/lnternação - ZFM, quando se tratar da internação de produtos industrializados na estrangeiros • ZFM com a utilização de insumos

Isenção do IPI, quando se tratar da internação de produtos industrializados na ZFM com insumos 100% nacionais, mediante requerimento,

acompanhado de Nota Fiscal; •

Pagamento ou não do IPI, conforme o caso, quando se tratar da internação de mercadorias nacionais produzidas fora da apresentação da ZFM, mediante a simples

Nota Fiscal. O pagamento ficará condicionado ao tempo

de permanência da mercadoria na ZFM (prazo para isenção: 3 anos);

Saída Temporária:

as mercadorias importadas sob o regime instituído pelo Decreto-Lei 288/67 podem ser remetidas para qualquer ponto do território nacional, com suspensão de tributos. Ex.: produtos manufaturados e acabados para

conserto, reparo ou restauração.

Controle Fiscal:

Na ZFM, compete à Alfândega do Porto de Manaus o controle e a fiscalização da entrada e da saída de mercadorias importadas, bem como da saída de qualquer mercadoria com destino ao exterior ou ao restante do território nacional.

AMAZONIA OCIDENTAL E ÁREAS DE LIVRE COMÉRCIO

AMAZONIA OCIDENTAL:

A Amazônia Ocidental abrange os estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. O Governo Federal estendeu às áreas pioneiras, zonas de fronteira e outras localidades da Amazônia Ocidental alguns benefícios fiscais antes concedidos apenas para a ZFM.

OBS.:

As mercadorias que saem da ZFM com destino à Amazônia Ocidental, quando não incluídas na pauta interministerial, estarão sujeitas às regras estabelecidas para as internações no restante do País.

MERCADORIAS NACIONALIZADAS

são consideradas as

mercadorias estrangeiras

importadas a título definitivo, independentemente de serem despachadas para consumo.

ÁREAS DE LIVRE COMÉRCIO:

As Áreas de Livre Comércio - ALC, de importação e exportação, sob regime fiscal especial, foram criadas por lei com a finalidade de promover o desenvolvimento de regiões fronteiriças específicas da Região Norte do Pais e de incrementar as relações bilaterais com os países vizinhos, segundo a política de integração latinoamericana.

Assim, existem Áreas de Livre Comércio nas seguintes regiões:

Pacaraíma (RR), Bonfim (RR), Macápa (AP), Santana (AP), Tabatinga (AM), GuajaráMirim (RO), Basiléia (AC) e Cruzeiro do Sul (AC). •

Estas áreas ficam sob controle da Suframa e gozam de incentivos fiscais semelhantes aos previstos para a ZFM.

LOJA FRANCA

Conceito:

Na zona primária de porto ou aeroporto poderá ser autorizado, nos termos e condições fixados pelo Ministro da Fazenda, o funcionamento de LOJAS FRANCAS para venda de mercadoria nacional ou estrangeira a passageiros de viagens internacionais, contra pagamentos em cheque de viagem, conversível ou cartão de crédito internacional. moeda estrangeira

Autorização:

A autorização para instalar e operar loja franca será OUTORGADA à empresa selecionada em concorrência pública. O processo licitatório é realizado

conjuntamente com a entidade administradora do porto ou aeroporto.

Operacionalização: A admissão de mercadoria em loja franca será feita mediante: • •

Declaração de admissão, no caso de mercadorias estrangeiras; nota fiscal, no caso de mercadorias produzidas no Pais.

A loja franca deverá ter, no mínimo, um depósito para guarda das mercadorias de seu estoque, instalado em zona primária ou, em recinto previamente alfandegado de zona secundária. As mercadorias permanecerão depositadas, com suspensão de tributos e sob controle fiscal. Na venda dos produtos, a suspensão se CONVERTE em ISENÇÃO.

Controle Fiscal:

Compete à unidade da SRF jurisdicionante operações realizadas pela loja franca.

a fiscalização e o controle das

DEPÓSITO ESPECIAL ALFANDEGADO

Conceito:

O regime aduaneiro atípico de deposito especial alfandegado é o que permite a estocagem de partes, peças e materiais de reposição ou manutenção para veículos, máquinas, equipamentos, aparelhos e instrumentos, assim como de seus componentes, estrangeiros, nacionalizados ou não, nos casos definidos pelo Ministro da Fazenda.

Somente empresa que preste assistência técnica (reposição, reparo e manutenção) a veículos, máquinas e equipamentos, nas condições descritas acima, pode ser autorizada a operar na qualidade de beneficiária de Depósito Especial Alfandegado.

Base Operacional:

A base operacional do regime é de uso privativo e denomina-se, igualmente, Depósito Especial Alfandegado - DEA.

Autorização:

A autorização para instalar DEA será dada pelo Secretário da Receita Federal, a título precário, através de Ato Concessório.

Admissão:

São condições para admissão de mercadoria em regime de DEA: • •

a importação sem cobertura cambial, com Ministro da Fazenda;

exceção dos casos autorizados pelo

constar do Conhecimento de Transporte Internacional cláusula indicativa de que a mercadoria destina-se a DEA.

o despacho para consumo será feito pela empresa beneficiária OU, nos casos de isenção ou redução de tributos vinculados à qualidade do importador ou à destinação das mercadorias, poderá ser feito pelo adquirente das mesmas, até o 10º dia do mês subseqüente ao de sua saída do regime.

A mercadoria admitida em DEA pode ter uma das seguintes destinações:

- reexportação; - exportação: - transferência para outro regime atípico ou especial; - despacho para consumo; - destruição, com autorização do consignante, às expensas do beneficiário. •

O prazo de permanência da mercadoria no regime será de 5 anos, a contar da admissão, salvo em casos de interesse econômico relevante, autorizados pelo Ministro da Fazenda; será considerada ABANDONADA a mercadoria que permanecer no depósito além do prazo fixado.

Controle Fiscal:

O controle fiscal sobre as operações do DEA é da competência do órgão aduaneiro a que o estabelecimento está jurisdicionado.

DEPÓSITO AFIANÇADO

Conceito:

Depósito afiançado é o local alfandegado destinado, mediante autorização da autoridade aduaneira, à guarda de materiais de manutenção e preparo de embarcações e aeronaves utilizados no transporte comercial internacional, de empresas autorizadas a operar nesse serviço.

Base Operacional:

Os depósitos afiançados das empresas de navegação marítima ou aérea deverão LOCALIZAR-SE EM ZONA PRIMÁRIA, podendo localizarse na zona secundária os das empresas de transporte rodoviário.

Autorização:

A autorização para instalação de DAF é dada a título precário, pela autoridade aduaneira que jurisdiciona o local do depósito.

A autorização para o funcionamento de depósitos afiançados de empresas estrangeiras é condicionada a que estejam previstos em ato internacional firmado pelo Brasil, ou à comprovada existência de reciprocidade de tratamento (RA, 403).

A autorização para operar o regime de DAF em aeroportos internacionais está sujeita ao atendimento cumulativo das seguintes exigências:

-

a empresa deve ser titular de uma base operacional de depósito afiançado; as mercadorias devem ser importadas com suspensão dos tributos e sem cobertura cambial;

-

a empresa deve manter serviços de transportes aéreos internacionais regulares.

DEPÓSITO FRANCO

Conceito:

Depósito franco é recinto alfandegado, instalado em porto brasileiro, para atender ao fluxo comercial de países limítrofes com terceiros países.

Autorização:

Só é admitida a instalação de depósito franco quando autorizada em acordo ou convênio internacional firmado pelo Brasil.

O país interessado manterá, no Depósito Franco, delegados que representarão, nas relações com as autoridades alfandegárias brasileiras, os proprietários das mercadorias ali recebidas.

ZONAS DE PROCESSAMENTO DE EXPORTAÇÃO - ZPE

Conceito:

O Poder Executivo tem autorização para criar, nas regiões menos desenvolvidas, Zonas de Processamento de Exportações - ZPE - , sujeitas ao regime jurídico instituído por Lei, com a finalidade de reduzir desequilíbrios regionais, bem como fortalecer o balanço de pagamento e promover a difusão tecnológica e o desenvolvimento econômico e social do País.

18. EXPORTAÇÕES

SISCOMEX EXPORTAÇÃO

O Sistema Integrado de Comércio Exterior - SISCOMEX, é a sistemática administrativa do comércio exterior brasileiro. Integra as atividades afins da Secretaria de Comércio Exterior SECEX - , da Secretaria da Receita Federal - SRF - e do Banco Central do Brasil BACEN - , no registro, acompanhamento e controle das diferentes etapas das operações de exportação.

Registro do Exportador:

O exportador pode acessar o SISCOMEX diretamente de sua empresa, interligando-se ao sistema.

Para exportar, as pessoas físicas e jurídicas devem estar cadastradas no REI - Registro de Exportadores e Importadores da Secretaria de Comércio Exterior. A inscrição no REI é automática, no ato da primeira operação, sem o encaminhamento de quaisquer documentos, às quais poderão ser solicitados, eventualmente, pelo DECEX, para verificação de rotina.

Registro da Operação de Exportação:

através de um registro, o Registro de Exportação RE, e, eventualmente, de dois outros módulos: o Registro de Operação de Credito - RC - e o Registro de Venda - RV.

Registro de Exportação:

O RE é o conjunto de informações de natureza comercial, cambial e fiscal que caracterizam a operação de exportação de uma mercadoria através de enquadramento específico. É

considerado como FATO GERADOR, para efeito do cálculo do Imposto de Exportação, a data do registro da exportação no SISCOMEX.

Registro de Exportação Simplificado – RES :

Nas operações de exportação com valor de venda abaixo de US$ 10,000.00, pode ser utilizado o RES, desde que atendidas as

demais

condições

estabelecidas

no

Comunicado DECEX nº 25/98.

Registro de Operação de Crédito – RC :

O RC representa o conjunto de informações de caráter cambial e financeiro, nas exportações com prazo de pagamento superior a 180 dias.

ENTREPOSTO ADUANEIRO DE EXPORTAÇÃO

Conceito:

é o regime aduaneiro especial que PERMITE, na exportação, o depósito de mercadorias, em local determinado, com suspensão do pagamento de tributos e sob controle fiscal. Subsiste na modalidade de regime comum, a partir da data da

entrada da mercadoria na unidade de entreposto.

DESPACHO ADUANEIRO DE EXPORTAÇÃO

Definição e Processamento:

Despacho de exportação é o procedimento fiscal mediante o qual se processa o desembaraço aduaneiro de mercadoria destinada ao exterior, seja ela exportada a título definitivo ou não.

Documento Base:

O documento base do despacho aduaneiro de exportação e a Declaração de Despacho de Exportação - DDE - , formalizada pelo exportador e enviada à unidade de despacho da mercadoria via SISCOMEX.

Despacho sem DDE:

Em casos específicos, em razão da natureza da operação ou da mercadoria, pode ser autorizado o despacho aduaneiro de exportação sem registro da DDE no SISCOMEX.

Despacho sem Registro no SISCOMEX:

o despacho de exportação é processado sem registro no SISCOMEX, à vista de nota fiscal ou documento especifico. Isso ocorre, por exemplo, para:

• • • • •

mercadorias nacionais adquiridas no mercado interno, observados os limites e condições estabelecidos em normas próprias, amostras de diminuto ou nenhum valor comercial; pequenas encomendas sem cobertura cambial e donativos até o limite de US$ 1.000,00 ou o equivalente em outra moeda;

bagagem acompanhada; veículos, que saiam temporariamente do Pais, para uso de seu proprietário ou possuidor no exterior.

Fracionamento:

A mercadoria objeto de exportação por via terrestre poderá ter sua transposição de fronteira fracionada quando não puder ser embarcada em um único veículo ou composição.

Local de Despacho:

O despacho de exportação pode ser realizado em recintos alfandegados de zona primária ou de zona secundária ou, em certos casos, em locais nãoalfandegados, como. por exemplo, no próprio estabelecimento do exportador.

Instrução do Despacho de Exportação: • • • •

será instruído com os seguintes documentos:

nota fiscal; via original do conhecimento e do manifesto internacional de carga, nas exportações por via terrestre, fluvial ou lacustre; outros, indicados em legislação especifica.

Em caso de exportação para país membro do MERCOSUL, o manifesto internacional de carga será substituído: • pelo Manifesto Internacional de Carga Rodoviária/Declaração de Trânsito Aduaneiro rodoviário; • pelo Conhecimento - Carta de Porte Internacional/Declaração de Trânsito Aduaneiro - TIF/DTA. MIC/DTA, quando se tratar de transporte

Conferência Aduaneira:

é realizada de forma parametrizada pelo SISCOMEX, para um dos três canais de conferência seguintes: •

CANAL VERDE:

o desembaraço da mercadoria é procedido de sistema. Não há exame documental nem

forma automática pelo

verificação física da mercadoria; porém, nada impede que o chefe

da unidade da SRF onde se processou o despacho aduaneiro da mercadoria, após o seu desembaraço, mas antes da entrega ao importador, determine que se proceda à ação fiscal pertinente. • •

canal laranja: é efetuado somente o exame documental.

canal vermelho: é realizado o exame documental e a verificação física da mercadoria.

Esquematização de uma Operação de Exportação Usual:

1

Registro da solicitação do Despacho (SD) Informação da Presença da carga Recepção dos Documentos Averbação da SD Distribuição do Despacho Aduaneiro Seleção Parametrizada Desembaraço para Embarque Comprovante de Exportação

2 3 4 5 6 7 8

A concessão de incentivos fiscais às exportações, mediante a ISENÇÃO, a SUSPENSÃO ou a RESTITUIÇÃO DE TAXAS, tem por objetivo fundamental: •

Compensar a menor competitividade relativa de alguns setores da produção nacional, tornando os preços de seus produtos competitivos nos mercados de exportação.

No Brasil, a concessão de incentivos fiscais à exportação ENVOLVE IMUNIDADE do IPI, a NÃO INCIDÊNCIA do ICMS e ISENÇÃO do COFINS e do PIS.

19. MECANISMOS DE FINANCIAMENTO DO COMÉRCIO EXTERIOR

Os financiamentos concedidos às operações de comércio exterior visam aumentar a competitividade das empresas exportadoras nacionais, reduzindo os custos por meio de empréstimos para capital de giro ou aumentando os prazos para pagamento, tornando mais atraente aos importadores estrangeiros.

Os financiamentos obtidos pelos importadores nacionais podem ser feitos na modalidade cobrança ou por carta de crédito. Os importadores nacionais podem obter o financiamento diretamente com o exportador, na modalidade cobrança a prazo simples ou cobrança a prazo com aval do banco ou crédito documentário (carta de crédito) a prazo.

A forma mais comum de financiamento às importações é a concessão, por um banco nacional, de uma carta de crédito a prazo ao importador, geralmente com aval ou outro tipo de garantia bancária.

As operações cambiais são acertadas e formalizadas em um contrato de câmbio, onde se definem as obrigações contratuais do vendedor e do comprador. Uma vez formalizado o Contrato de Câmbio, a operação cambial objeto deste passa a ser IRREVOGÁVEL, embora sujeita a alterações acordadas pelas partes e previstas na legislação cambial.

EMPRÉSTIMOS DIRETOS

Adiantamento sobre contrato de câmbio (ACC)

Definição:

consiste na antecipação ao exportador, total ou parcial, do valor, em moeda nacional, do contrato de câmbio de exportação, antes do embarque das mercadorias. •

O exportador, a partir do momento da contratação do câmbio pode se beneficiar deste financiamento junto a qualquer estabelecimento bancário autorizado a efetuar operações cambiais até a data da entrega dos documentos de embarque no banco.

Os bancos podem negociar livremente as condições e taxas, dentro dos limites determinados pelo Banco Central, podendo adiantar até 100% do valor do valor do contrato de câmbio. Esse adiantamento variará em função do prazo determinado no contrato de câmbio, que não poderá ultrapassar 360 dias ANTES DO EMBARQUE das mercadorias

Adiantamento sobre cambiais entregues (ACE)

Definição:

é uma antecipação do valor do contrato de câmbio com as mesmas características do ACC, mas é concedido dentro do prazo de 180 dias APÓS O EMBARQUE das mercadorias, caracterizando-se como uma segunda fase da operação de ACC, e o valor do adiantamento será de 100 % do valor do contrato de câmbio, podendo inclusive complementar o valor do adiantamento já concedido em ACC.

Pagamento antecipado ou Pré-pagamento à exportação

Definição:

é aplicado nos casos em que o exportador solicita adiantamento diretamente ao importador, antes de efetuar a entrega da mercadoria vendida. Não é uma operação feita usualmente, pois demanda um risco muito grande ao importador. Como é uma transação direta entre o comprador e o vendedor não é controlada pelas autoridades monetárias, exceto no controle de entrada e saída de divisas dos países, e tampouco necessita de intermediação de instituições financeiras.

Câmbio travado

Definição:

operação em que o exportador fecha o câmbio com o banco antes de embarcar a

mercadoria, mas não recebe em troca o valor equivalente em moeda. •

A efetivação desta operação recebe a denominação de trava e, no momento em que é efetuada, fixa-se a taxa de conversão da moeda estrangeira, sendo que o exportador perderá a correção cambial do período. O banco pagará ao exportador um valor adicional (prêmio) pela não-utilização dos recursos em moeda estrangeira.

Flnamex (BNDES Exim)

Definição:

são operações financiadas pelo BNDES com a finalidade de proporcionar à empresas nacionais condições de competir no mercado internacional. E realizado pelos agentes financeiros da FINAME.

Programa de Apoio à Exportação de Produtos Manufaturados

Definição:

linha de crédito do BNDES destinada às empresas exportadoras de setores de produtos manufaturados (calçados, confecções, móveis, cerâmicos, ferramentas, eletrodomésticos, plástico, etc). produto BNDES Automático, Os financiamentos são concedidos no âmbito do com prazo de 15 meses, com carência de 9 meses e

amortizações em 6 parcelas mensais.

Pro-Commodities

Definição:

linha de crédito com recursos de bancos estrangeiros posta a disposição da produção rural destinada à exportação. Tais empréstimos não precisam do aval do Tesouro Nacional e não entram no estoque da divida externa, pois são realizados entre entidades privadas e têm vencimento de curto prazo, no máximo de um ano.

Programa de Financiamento às Exportações (PROEX)

Definição:

Em sua modalidade de financiamento, são linhas de crédito destinadas ao financiamento DIRETO ao EXPORTADOR e IMPORTADOR de bens e serviços, na fase pós-embarque, realizado pelo Banco do Brasil, com recursos do Tesouro Nacional.

São operações de empréstimos realizadas somente por agentes financeiros

credenciados

(Banco do Brasil), mediante análise e aprovação do Comitê de Crédito à Exportação (CECEX), órgão do Ministério da Economia.

OPERAÇÕES DE DESCONTO

É o tipo de financiamento concedido pelas instituições financeiras ao exportador, após a entrega das mercadorias, mediante desconto das cambiais resultantes das vendas. Assim como no mercado interno, no mercado internacional a concessão de prazo para pagamento é condição fundamental para incremento das vendas. As operações de desconto são as seguintes:

Supplier's Credit:

o financiamento é concedido por um banco ao exportador mediante o desconto das cambiais representadas pelas vendas a prazo. O exportador continua

responsável perante o banco financiador, que terá direito de regresso em caso do não-pagamento pelo importador. •

Os prazos destas operações variam de 30 dias ate 5 anos. No comércio exterior, os créditos com prazo de ate 180 dias são considerados de "curto prazo", destinando se aos bens de consumo. Prazos mais longos, de até 5 anos são destinados às equipamentos industriais. vendas de bens de produção, como máquinas e

Buyer's Credit;

modalidade de financiamento às exportações em que o empréstimo é concedido diretamente ao importador estrangeiro por um banco no exterior. Desse modo, apenas o importador responsabiliza-se pelo pagamento das cambiais de exportação. Para o exportador, as operações são à vista com entrada imediata de divisas para o pais exportador.

Forfaiting:

é uma cessão de crédito. O exportador vende suas mercadorias a prazo e recebe à

vista, com intermediação de um banco. O forfaiting é utilizado em vendas consideradas de alto risco, como as realizadas para países politicamente instáveis (países do Oriente Médio, por exemplo). •

A operação é feita da seguinte maneira: o exportador remete um saque cambial ao importador para aceite. Após, o banco analisará os ricos da operação e procederá ao desconto da cambial.

Factoring:

são operações semelhantes às de forfaiting, mas envolvem pequenos valores (operações de varejo).

CONCESSÃO DE GARANTIAS

São as operações de financiamento feitas pela cessão dos direitos sobre cambiais originadas de vendas de exportação ou de warrants. São as seguintes operações:

Export Notes:

são operações em que o exportador obtém recursos juntos aos bancos locais para financiar suas vendas ao exterior, mediante contratos de cessão de créditos de exportação.

A garantia da operação é feita por emissão de nota promissória pela empresa exportadora, responsabilizando-se pelo embarque e pagamento da mercadoria. O prazo para resgate varia entre 180 e 360 dias.

O banco repassa a operação a investidores, nacionais ou estrangeiros, geralmente empresas multinacionais, pois a export note é considerada um excelente investimento, principalmente pelo fato de ser em moeda estrangeira, constituindo-se em excelente oportunidade de hedge cambial.

A operação se completa quando ocorre o pagamento da mercadoria pelo importador, sendo que a empresa exportadora recebe em moeda estrangeira, efetua a conversão e resgata a nota promissória ao cambio do dia e o investidor receberá seu capital corrigido pela variação cambial do período mais os juros pactuados.

Debêntures cambiais:

são operações realizadas nos moldes das export notes, mas, neste caso, são garantidas por emissão de debêntures das empresas exportadoras baseados na média das exportações efetuadas ou em receitas da carteira de exportações futuras.

Envolvem valores muito expressivos (mínimo de US$ 1 miIháo) e prazo de 3 anos.

Desconto de Warrants:

são operações de financiamento realizadas através do desconto dos WARRANTS, que são os CERTIFICADOS DE DEPÓSITO DE MERCADORIAS destinadas à exportação, armazenadas nos recintos alfandegados das companhias de armazéns gerais).

A garantia dos empréstimos é o endosso dos certificados aos bancos financiadores, que se tornam os legítimos possuidores das mercadorias.

Securitização das exportações:

O exportador emite um papel (floating rate note), comprometendo suas exportações por um prazo determinado, com o objetivo de buscar financiamentos no exterior, com abertura de uma conta no exterior para pagamento posterior dos empréstimos, sob

acompanhamento do Banco Central. •

O Banco Central, ao realizar a securitização, com abertura desta conta no exterior, teve como principais objetivos eliminar da operação o "risco Brasil" e evitar qualquer suspeita de inadimplência dos pagamentos a serem feitos pelo exportador.

SEGURO DE CRÉDITO DE EXPORTAÇÃO (SCE)

este seguro funciona como instrumento de prevenção (análise e monitoramento constante da situação financeira do importador), como ferramenta de cobrança (atendendo a legislação

específica de cada país e com custos cobertos pelo seguro) e pode ser utilizado como garantia em operação de financiamento. Visa garantir ao exportador a indenização por perdas líquidas definitivas que vier a sofrer em conseqüência do não recebimento do crédito concedido a seus clientes no exterior.

Os riscos cobertos por esta modalidade de seguro são tanto de origem comercial (situações de insolvência do importador de bens e serviços ou mora no pagamento da dívida), quanto de natureza política e extraordinária (guerras internas ou externas, revoluções, embargos de importação e exportação, intervenções governamentais que impeçam o cumprimento do contrato, moratória governamental, restrições à transferência de divisas e desastres naturais).

Os limites de cobertura são determinados pelos fatores acima descritos e o teto de cobertura, limitado ao volume de 85% das perdas, está vinculado à capacidade de resseguros, que atualmente é monopólio estatal do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).

20. FONTES DE FINANCIAMENTO INTERNACIONAL

SISTEMA BANCO MUNDIAL

O Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), também conhecido como BANCO MUNDIAL, surgiu a partir da Conferência de Bretton Woods, juntamente com o Fundo Monetário Internacional (FMI). A administração do BIRD assemelha-se a do FMI, e os países membros do BIRD devem se inscrever antes como membros do FMI.

O BIRD não possui objetivo de lucros. Os juros e comissões cobrados são destinados para as despesas da instituição e para constituir um fundo de reserva.

Tem como principais objetivos:

contribuir para o desenvolvimento dos países associados,

promover investimentos de capitais estrangeiros, mediante sua participação em empréstimos, promover o crescimento equilibrado do comércio internacional, incentivando os investimentos internacionais no desenvolvimentos dos países associados e coordenar os empréstimos feitos ou garantidos pelo BIRD. • •

Desse modo, o BIRD é um captador de capitais internacionais para investimentos produtivos em países desenvolvidos. Estes empréstimos são efetuados pela Corporação Financeira Internacional (CIF), que tem como função propiciar financiamentos a longo prazo para os empreendedores particulares, sob a forma de empréstimos ou de participação em ações da empresa, caso em que a CIF não interfere na administração da empresa, a não ser em situação de perigo para seus interesses. • •

Não concede financiamentos a empresas públicas ou estatais.

Os prazos dos financiamentos variam de 7 a 15 anos, de acordo com as características do projeto financiado, assim como as taxas de juros cobradas.

CIF – Corporação Financeira Internacional - é um órgão do BIRD que capta recursos internacionais para investimentos produtivos em países desenvolvidos. Tem como função

propiciar financiamentos a longo prazo para os empreendedores particulares, sob a forma de empréstimos ou de participação em ações da empresa, caso em que a CIF não interfere na administração da empresa, a não ser em situação de perigo para seus interesses.

A Associação Internacional de Desenvolvimento (AID) é outro organismo filiado ao BIRD, com funções semelhantes ao do BIRD, de financiamento e empréstimos para o desenvolvimento de países subdesenvolvidos. A diferença básica com as operações realizadas pelo BIRD é que, por envolver regiões mais carentes, seus financiamentos são feitos em melhores condições de taxas e prazos.

EXIMBANK

O Export-lmport Bank (EXIMBANK) é uma instituição financeira do governo dos Estados Unidos, dirigido por uma diretoria composta de Presidente e diretores nomeados pelo Presidente e aprovados pelo Senado daquele país.

E a principal agência financeira operando na área internacional, com a finalidade de ajudar a promover a exportação de produtos ou serviços dos Estados Unidos. Além de seus recursos, pode levantar recursos junto ao Tesouro Americano e organismos financeiros privados. •

O EXIMBANK concede empréstimos nas seguintes modalidades: • • • •

empréstimos diretos a importadores estrangeiros para pagamento de mercadorias ou serviços aos exportadores norte-americanos.

desconto de títulos de financiamentos concedidos por instituições financeiras privadas, desde que relacionados com a exportação de produtos americanos. concessão de garantia em caso de empréstimo a um importador estrangeiro comprador de produtos norte-americanos. financiamento consorciado, em que o EXIMBANK coloca a disposição de uma instituição financeira estrangeira uma linha de crédito para ser usada no pagamento de exportações norte-americanas,

seguro de crédito de exportação, compreendendo riscos de créditos e riscos políticos.

LINHAS DE CRÉDITO COMERCIAL DE BANCOS PRIVADOS

Os bancos privados internacionais dos países desenvolvidos, principalmente dos países europeus, motivados pelo crescimento do mercado dos eurodólares, concedem empréstimos diretamente a

empresas estrangeiras, para as compras realizadas de empresas exportadoras de seus respectivos países.

Desse modo, a atuação destes bancos no comércio internacional é altamente positiva, pois estimula a produção nacional, gerando empregos e aumentando o nível de consumo interno, e equilibra o saldo do balanço de pagamentos de seus países.

21. INCENTIVOS ÀS EXPORTAÇÕES NO BRASIL

INCENTIVOS PREVISTOS NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL • •

O IPI NÃO INCIDE sobre produtos industrializados destinados ao exterior;

O ICMS não incide sobre operações que destinem ao exterior produtos industrializados, exceto os semi-elaborados definidos em lei complementar.

BEFIEX

É um programa de incentivo às exportações baseado na concessão de benefícios fiscais para a importação de bens que serão utilizados na fabricação de produtos para exportação •

Como incentivos fiscais deste programa, as empresas que tiveram seus programas de exportação aprovados, têm isenção do Imposto de Importação e do IPI vinculado à importação. Essas empresas, além dos demais benefícios fiscais existentes para as exportações comuns, gozam ainda de benefícios fiscais com relação ao Imposto de Renda.

PIS E COFINS

Atualmente, são ISENTAS da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social COFINS e Contribuição para o Programa de Integração Social - PIS - as receitas: •

da exportação de mercadorias para o exterior;

• • •

dos serviços prestados a pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior, cujo pagamento represente ingresso de divisas; vendas realizadas pelo produtor-vendedor às empresas comerciais

exportadoras, desde que destinadas ao fim específico de exportação para o exterior; vendas, com fim específico de exportação para o exterior, a empresas exportadoras registradas na Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio;

o Regime de incentivo às exportações passou a ter como características, a partir de 1990, a AMPLIAÇÃO DAS MEDIDAS FISCAIS e o GRADUAL REVIGORAMENTO DOS MECANISMOS DE FINANCIAMENTO e a MENOR ÊNFASE ÀS MEDIDAS CAMBIAIS.

22. DIREITO ADUANEIRO

Conceituado como o conjunto de normas jurídicas codificadas que servem para regular o comércio exterior e as atividades desenvolvidas pelas pessoas na intervenção perante as Alfândegas.

o Direito Aduaneiro tem como principais objetivos: • •

disciplinar e controlar a movimentação de bens, serviços, capitais e de pessoas o atendimento dos interesses nacionais em face do comércio internacional, respeitando as normas externas em vigor, notadamente os tratados internacionais sobre comercio exterior.

Direitos Aduaneiros são os tributos que o Estado faz incidir sobre as mercadorias que transpõem as fronteiras do território nacional, no ato da entrada ou da saída, ou seja, direitos de importação e direitos de exportação.

Mesmo que se reconheça como o principal objetivo dos direitos aduaneiros a captação de novas receitas, deve ser reconhecida a existência de outras normas que não visam captar novos recursos, mas o controle do comércio exterior, as denominadas Barreiras não-tarifárias, que são obstáculos não-tarifários, que desempenham papel importante na proteção da produção local.

Barreiras não-Tarifárias:

São aplicadas por meio de regulamentos que incidem sobre diferentes produtos e formas de comércio. Podem ser efetivadas por restrições quantitativas (fixação de quotas por determinados tipos de produtos), restrições de câmbio, regulamentos técnicos e administrativos, formalidades consulares, comércio de Estado e intercâmbio de determinados produtos.

Inserido no direito positivo brasileiro, o conjunto de normas sobre comércio exterior ainda não é reconhecido como um ramo autônomo do Direito, ou seja, o Direito Aduaneiro ainda é considerado um sub-ramo do Direito Tributário, o que, conforme exposto acima, não corresponde à realidade dos fatos, pois não se pode mais negar o reconhecimento do Direito Aduaneiro, o que vem acarretando conflito de competências entre os Ministério da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e das Relações Exteriores, contribuindo para a ineficácia de políticas no setor.

Política comercial brasileira

A política comercial brasileira pode ser considerada como resultante da interação de fatores internos e externos. Este estudo concentrará a atenção nos condicionantes externos, embora na seção final sejam considerados cenários quanto a condicionantes internos e externos. Os fatores externos que condicionam a política comercial brasileira podem, algo artificialmente, ser classificados como de dois tipos: os que resultam de negociações multilaterais, regionais ou sub-regionais em que o Brasil esteja envolvido diretamente; e os que decorrem de negociações entre parceiros brasileiros que tenham implicações importantes sobre interesses econômicos do país mas das quais o Brasil não participe. A capacidade de o governo brasileiro interferir diretamente com sucesso para flexibilizar as restrições externas oriundas de negociações em que não esteja diretamente envolvido é nula, restando apenas a possibilidade de tentar adotar iniciativas que cancelem as conseqüências desfavoráveis originais. Este trabalho está dividido em cinco seções, além desta introdução. Na Seção 2 são considerados de forma sumária os condicionantes internos à política comercial. A Seção 3 analisa a importância do Brasil na economia mundial e, portanto, em alguma medida, seu poder de barganha relativo, de acordo com vários possíveis critérios alternativos. Na Seção 4 são analisadas as grandes negociações nas quais o Brasil poderá estar engajado nos próximos três a cinco anos: Organização Mundial de Comércio (OMC), Área de Livre Comércio das Américas (Alca), União Européia-Mercosul e ampliação do Mercosul. A Seção 5 trata de negociações fora do âmbito multilateral que estejam tendo ou possam ter efeitos importantes sobre os interesses brasileiros do ponto de vista de desvio de comércio ou de investimentos: North American Free Trade Area (Nafta), ampliação da União Européia e criação do Asia-Pacific Economic Cooperation Forum (Apec). Na seção final são considerados cenários alternativos quanto ao progresso dessas diferentes negociações e incluídas conclusões baseadas no tratamento combinado das análises das seções anteriores, com particular ênfase nas características interdependentes das diversas negociações programadas, e também considerando cenários alternativos quanto a políticas internas, tal como analisados na Seção 2. Serão examinadas possíveis recomendações com base na avaliação das combinações mais prováveis de cenários relativos a diferentes negociações.

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2. Condicionantes Internos da Política Comercial
A consideração, mesmo que sumária, dos condicionantes internos à política comercial é necessária, pois na seção final serão combinados cenários relativos a restrições internas e externas para discutir alternativas à política comercial brasileira em prazo mais longo. Entre os fatores internos que condicionam a política comercial brasileira, podem ser mencionados como mais relevantes os relativos ao que se poderia chamar de economia política da proteção, a aspectos macroeconômicos e a fatores estruturais. Estes últimos podem estar relacionados tanto a deficiências competitivas internas às empresas (como, por exemplo, incapacidade de inovar) quanto a ineficiências relativas a fatores externos (como infra-estrutura). A “economia política da proteção” reflete não apenas o poder de barganha setorial diferenciado, que a experiência brasileira tem demonstrado ser distribuído de forma muito heterogênea entre setores, mas também o preço que a sociedade está disposta a pagar pela adoção de políticas que redundam na queda de seu nível de bem-estar e que não alcançam necessariamente os objetivos inicialmente propostos. Há, além disso, a conhecida assimetria entre os grupos de interesse favoráveis e contrários à tarifa alta: o primeiro é tipicamente composto por um número limitado de indústrias operando ineficientemente e/ou extraindo lucros extraordinários no mercado interno, freqüentemente em coalizão com sindicatos que representam os trabalhadores nelas empregados; e o segundo grupo é composto por um grande número de consumidores que pagam preços mais altos pelos bens que adquirem do que seria o caso se a tarifa fosse mais baixa. Embora o custo da proteção do ponto de vista do consumo seja alto em bases agregadas, isso é resultado da soma de um grande número de pequenas perdas de bem-estar. Conseqüentemente, os interesses desses consumidores são dispersos, enquanto os dos produtores são concentrados. O estímulo a uma ação política eficaz é muito maior para os produtores do que para os consumidores.1 Além disso, a persistência da proteção alta no Brasil teve a ver com uma peculiaridade brasileira. Dado que o país era market maker no mercado mun1 Embora esse argumento seja geralmente associado a Olson (1965), um precursor extremamente importante, inclusive porque concentra a atenção em temas da política comercial dos Estados Unidos, é Schattschneider (1935).

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dial de café, sua curva de custo marginal se refletia na curva de oferta mundial do produto. Tarifa alta significava custos mais altos de insumos importados. Quanto maior fosse a importância do café na economia e quanto melhor os custos de importações refletissem os custos agregados com insumos na cafeicultura, mais realista seria essa hipótese. É possível mostrar empiricamente que, durante longo período da história brasileira, variações no nível de proteção refletiram-se em variações no preço mundial do café. Assim, no Brasil, embora a imposição de uma tarifa de importação acarretasse as usuais distorções do ponto de vista do consumo e da produção, pelo menos parte do efeito desfavorável sobre o bem-estar era compensada pelos aumentos de preços internacionais do café. Dado que a demanda pelo produto era inelástica em relação ao preço, tais aumentos não afetavam de forma significativa as quantidades exportadas [ver Abreu e Bevilaqua (2000)]. É claro que esse argumento deixou de ter relevância à medida que se tornava mais diversificada a economia brasileira e que se esgotava de fato a possibilidade de substituir importações. De qualquer modo, com base na história remota e nos argumentos usuais quanto à indústria nascente, e dado o desempenho brasileiro extremamente satisfatório quanto ao crescimento econômico entre 1900 e 1980, consolidou-se a idéia, até hoje popular, de que proteção alta e crescimento rápido estariam de alguma forma associados. O aumento da importância de critérios de eficiência na definição da política comercial brasileira a partir do final da década de 80 certamente retratou o aumento da resistência, tal como refletida no processo decisório, à manutenção de proteção alta em um quadro de estagnação da renda per capita. Ambientes macroeconômicos diferentes têm implicações diferenciadas sobre a política comercial. Entre 1947 e o início da década de 90, a crônica instabilidade macroeconômica no Brasil, em certos períodos combinada com sobrevalorização cambial, levou ao uso contínuo de controle quantitativo das importações, de acordo com as regras então bastante frouxas do Gatt, com base no artigo XVIII:B. A incerteza quanto à capacidade de limitar importações levou também à baixa incidência de consolidações tarifárias brasileiras até a Rodada Uruguai. As disciplinas mais exigentes relacionadas ao artigo XVIII resultantes da Rodada Uruguai, bem como a consolidação de 100% das alíneas tarifárias brasileiras, tornam menos viável, ceteris paribus, a adoção de regimes cambiais que gerem desequilíbrios sistemáticos do balanço de pagamentos. Além disso, obviamente, diferentes

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regimes fiscais têm implicações muito diferenciadas sobre a política comercial, especialmente em situações de transição, como a que atualmente atravessa o país, nas quais critérios subótimos podem prevalecer na escolha da estrutura de taxação, com conseqüências indesejáveis sobre a competitividade externa. Um exemplo é o uso persistente de tributos que incidem sobre o valor da produção e são, portanto, de difícil desoneração nas exportações. A concentração da pauta de exportações brasileira em produtos e mercados de crescimento relativamente modesto é fato conhecido: infelizmente, as conclusões dos estudos do início da década de 90 continuam em geral válidas [ver BNDES (1993) e Batista (1998)]. A baixa sofisticação tecnológica das exportações brasileiras, que leva à rigidez estrutural da pauta, está associada, de forma importante, a deficiências internas à firma. Os fatores estruturais externos à firma que limitam a expansão das exportações (mas, em muitos casos, também as importações) foram exaustivamente analisados no quadro das discussões sobre o que se apelidou de “custo Brasil” e têm merecido, no passado recente, menos atenção do que fazia supor a ênfase original quanto a seus efeitos indesejáveis.

3. O Brasil na Economia Mundial
O Brasil é um país pequeno se for levada em consideração a sua importância no total das exportações (ou importações) mundiais. Em 2000, essa participação era de apenas 0,87% do total,2 comparada a um pico no século 20 de 2,2% em 1952, quando os preços do café cresceram espetacularmente. É claro que no caso de produtos específicos essa participação é substancialmente maior, especialmente em alimentos – entre outros, café (17,8% das exportações mundiais), tortas para animais (10,2%), soja em grão (15,5%), açúcar (13,5%) e suco de laranja (80%) –, mas também em produtos industrializados selecionados, tais como manufaturas de ferro e aço em formas primárias (6,3%). Comparada com a estrutura das exportações mundiais, a existente no Brasil caracteriza-se pela maior importância conferida aos alimentos (quase 30% das exportações totais em 1997, em comparação com menos de 9% para o mundo), compensada pela menor
2 Estados-membros de zonas de livre-comércio ou mercados comuns sendo considerados individualmente.

importância das exportações de manufaturas (54% do total contra a 75%). O agregado minérios e combustíveis é comparável no Brasil e no mundo (em torno de 11%), mas o país praticamente não exporta combustíveis, enquanto estes respondem por 8% das exportações mundiais totais [Unctad (2000b)]. Dados alternativos da OMC para 1999 confirmam a maior importância relativa das exportações brasileiras nos mercados de alimentos (3,2% do total mundial) e produtos siderúrgicos (2,5%), enquanto nas exportações de manufaturas em geral a participação é de apenas 0,61% [WTO (2000)]. Esses dados agregados merecem alguma qualificação. Embora o Brasil seja uma economia com exportações bastante diversificadas geograficamente quando comparada a todas as outras economias do hemisfério fora a dos Estados Unidos e as do Cone Sul, a importância comercial brasileira é muito maior nas Américas (Estados Unidos, Aladi e Mercosul) e na União Européia do que em outros mercados, especialmente na Ásia. Por outro lado, mesmo nos mercados nos quais o país tem maior presença, a composição do comércio varia substancialmente. Por exemplo, a proporção de manufaturados, segundo definição do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) no total das exportações brasileiras nos primeiros 11 meses de 2001 foi de cerca de 56%. Mas, enquanto a proporção foi de 90% nos mercados da Aladi, exclusive Mercosul, e no próprio Mercosul, e de 80% nos Estados Unidos, ficou em apenas 35% no mercado da União Européia, de acordo com dados do MDIC. Por outro lado, em relação a muitos dos temas que hoje tipicamente são incluídos em negociações comerciais, a variável mais relevante não é o fluxo existente de comércio, mas sim algo que reflita o tamanho dos mercados. Dado que a economia do Brasil é bastante mais fechada do que na média dos países, não é surpreendente que medidas tradicionais de abertura tendam a subestimar a importância relativa do país em negociações comerciais. A participação brasileira no PNB mundial em 1999 era de 2,54% (2,74% com base em critérios de paridade do poder de compra),3 enquanto a po3 Para as economias maiores do que a brasileira, as participações no PNB-PPC (PNB corrigido para levar em conta a paridade do poder de compra da moeda nacional) mundial eram em 1999 de 21,52% para os Estados Unidos, 20,16% para a União Européia, 10,6% para a China, 7,84% para o Japão e 5,53% para a Índia. O PNB-PPC do Canadá, interlocutor privilegiado dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão em vários foros internacionais, era apenas 1,87% do PNB-PPC mundial, segundo dados do World Bank (2001, p. 274-275).

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pulação representava 2,81% da população mundial e, portanto, o PNB per capita era algo inferior à média mundial (US$ 4.420 contra US$ 4.890). A área do Brasil, variável de forma genérica associada a possibilidades de expansão econômica futura, corresponde a 6,4% da área total mundial.4 A importância relativa do Brasil como destino de investimento estrangeiro direto (IED) é ainda maior do que a referente ao PNB mundial. A participação brasileira no estoque total de IED em 1999 era de 3,44% do total mundial (11,41% do estoque em economias em desenvolvimento). A participação do Brasil nos fluxos de IED do final da década de 90 foi relativamente alta, especialmente se comparada à retração da entrada de capitais na década de 80 e na primeira metade da de 90: 3,63% do total em 1999 (15,12% do fluxo para economias em desenvolvimento), conforme dados de Unctad (2000a, Anexo B).

4. Negociações Simultâneas: OMC, Alca, Mercosul-União Européia e Ampliação e Aprofundamento do Mercosul
Os acontecimentos dos últimos meses tenderam a confirmar que o Brasil enfrentará nos próximos anos uma agenda de negociações comerciais extremamente pesada, as quais se desenvolverão pelo menos em quatro direções, mesmo sem levar em conta novas iniciativas de natureza bilateral, em especial a aproximação em relação a outras grandes economias em desenvolvimento com renda per capita semelhante ou inferior à brasileira, tais como África do Sul, China, Índia ou Rússia.5 Em qualquer caso, essas iniciativas, embora possam ter implicações políticas importantes, mesmo que coroadas de sucesso no plano comercial, dificilmente terão grande impacto
4 Dados do World Bank (2001, p. 274-275), exclusive áreas árticas e antárticas, de pequenas economias e de certas economias excluídas da listagem principal do Banco Mundial. Se a proporção referir-se a áreas em princípio com possibilidades de aproveitamento econômico, certamente a proporção referente ao Brasil é significativamente maior, ainda segundo dados do World Bank (2001, p. 274-275). 5 Os níveis de PNB per capita PPC em 1999, segundo dados do World Bank (2001), eram de US$ 8.318 na África do Sul, US$ 3.291 na China, US$ 2.144 na Índia e US$ 6.339 na Rússia, enquanto o do Brasil atingia US$ 6.317.

no médio prazo sobre os fluxos comerciais bilaterais, dada a modéstia dos fluxos atuais.6 As negociações relativas à promoção de nova rodada de negociações multilaterais, em dúvida desde o abortado lançamento da Rodada do Milênio, em Seattle, foram coroadas de sucesso em Doha, onde se definiu que as negociações relativas ao programa de trabalho deverão estar concluídas até o início de 2005. No âmbito da Alca, a aprovação da Trade Promotion Authority pela House of Representatives dos Estados Unidos no fim do ano passado, embora acompanhada de condicionalidades que poderão comprometer o êxito das negociações, sugere que haverá aprovação pelo Senado, que legitimará a posição negociadora do Executivo norte-americano em processo que culminará também no início de 2005. As negociações entre Mercosul e União Européia estão em curso. Em julho de 2001, a União Européia apresentou sua oferta de negociação tarifária e não-tarifária relativa a bens, assim como propostas sobre serviços e compras governamentais. No final de setembro, o Mercosul apresentou sua proposta e, em princípio, a expectativa seria que o assunto fosse retomado no âmbito do Comitê de Negociações Bi-Regionais em reunião a ser realizada em Buenos Aires em março de 2002. O abandono da paridade argentina na virada do ano tem, entre suas conseqüências mais importantes, a possível superação, pelo menos no médio prazo, das crescentes dificuldades bilaterais entre Argentina e Brasil desde a desvalorização brasileira do início de 1999. É possível, e até provável, que sejam enfrentadas grandes tensões de curto prazo, na medida em que o populismo do peronismo tradicional tenha reflexos na política comercial e implique a adoção temporária de políticas de substituição de importações. Mas, passada a fase mais atribulada da aterrissagem de um regime cambial alternativo à paridade fixa, estariam criadas as condições para retomar as negociações quanto ao aprofundamento do Mercosul e, também, quanto a eventuais negociações para a inclusão de outros parceiros.

4.1. Negociações na OMC
As negociações comerciais multilaterais ocupam posição de destaque nas prioridades da diplomacia comercial do Brasil, em vista da diversificação geográfica de seu comércio. Em contraste com os demais países do hemis6 Esses mercados responderam por 0,6% (África do Sul), 3,4% (China), 0,5% (Índia) e 1,9% (Rússia) das exportações totais brasileiras nos primeiros 11 meses de 2001.

fério, o Brasil, os Estados Unidos e as economias do Cone Sul têm significativa participação em mercados extra-hemisfério. O lançamento de nova rodada na OMC, em Doha, em novembro de 2001, com a definição de um programa de trabalho que deverá estar concluído até o início de 2005, refletiu um compromisso bastante favorável aos interesses específicos brasileiros [ver WTO (2000)]. Um acordo paralelo permitiu conciliar os interesses relacionados à saúde pública com as regras preexistentes relativas à propriedade intelectual. Assim, foram bastante reduzidos os custos para os países em desenvolvimento associados à implementação da legislação relativa à TRIPs aprovada na Rodada Uruguai que seria implementada depois do período de transição previsto. De fato, a posteriori, ao contrário das expectativas dominantes antes da conclusão da Rodada Uruguai, era a legislação sobre a TRIPs que poderia ter implicações desfavoráveis mais significativas para os países em desenvolvimento. O Brasil em Doha esteve longe de ter objeções tão radicais quanto outros países em desenvolvimento importantes, como a Índia, em relação à incorporação no quadro da OMC de novas regras sobre os “temas de Cingapura”, concorrência e investimento estrangeiro direto. De qualquer modo, esses temas foram postos em banho-maria até a próxima reunião ministerial da OMC, dentro de dois anos, com a agenda limitada a trabalhos preparatórios. Negociações poderão então ocorrer, desde que haja “consenso explícito”. Com relação a meio ambiente, foi contida a proposta mais extrema da União Européia no que se refere à norma de precaução, e o texto foi qualificado pela reserva “sem implicar pré-julgamento quanto ao resultado das negociações”. De qualquer modo, as negociações não parecem oferecer ameaça, pois se concentrarão nas relações entre as regras da OMC e as obrigações comerciais específicas estabelecidas em acordos multilaterais sobre o meio ambiente. No terreno menos defensivo, os interesses brasileiros concentravam-se em dois temas: protecionismo agrícola, em particular o desmantelamento de subsídios à exportação, e legislação antidumping. Como membro da coalizão de Cairns, que reúne países favoráveis ao desmantelamento do protecionismo agrícola, o Brasil pressionou pela inclusão de menção explícita à eliminação de subsídios à exportação de produtos agrícolas (reductions of, with a view to phasing out, all forms of export subsidies), além de substancial melhoria no acesso a mercados e de considerável redução do apoio à produção doméstica que implique distorções no comércio de produtos agríco-

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las. A União Européia, embora tenha indicado sua discordância com relação à menção ao phasing out, preferiu não arcar com os custos do fracasso de uma outra tentativa de lançamento de uma rodada da OMC e satisfez-se com a reserva de que não havia implicação de pré-julgamento quanto ao resultado das negociações. A redação possui a grande virtude de poder servir de base a que todas as facções em disputa reivindicassem ter sido vitoriosas. Resta saber que repercussões concretas terá o compromisso diplomático nas negociações em Genebra. De forma similar, houve grande pressão em Doha sobre os Estados Unidos quanto à efetividade das regras multilaterais existentes com relação a antidumping, em particular as limitações impostas pelo artigo 17 sobre consultas e solução de controvérsias relativas a ações antidumping restringindo a ação de panels (grupos especiais) a questões factuais e os limites ao uso de legislações nacionais com finalidades protecionistas. A resistência norte-americana só foi contornada com uma linguagem de compromisso que, ao mesmo tempo, mencionou negociações visando à clarificação e à melhoria das disciplinas relevantes e enfatizou a preservação de conceitos básicos, princípios e eficácia dos acordos preexistentes. Também nesse caso a vitória foi reivindicada por todos, e a “prova do pudim” ficará por conta das negociações concretas em Genebra. As restrições recentemente impostas pela House of Representatives e pelo Senado dos Estados Unidos aos termos da Trade Promotion Authority concedida ao governo para negociações comerciais regionais e multilaterais sugerem que o “espírito de Doha” não chegou ao Congresso norte-americano. Na Subseção 4.2, a seguir, esse assunto será retomado. Do ponto de vista de países como o Brasil, um cenário extremamente favorável seria que um provável impasse com relação aos dois temas em Genebra pudesse ser resolvido por concessões recíprocas entre os Estados Unidos e a União Européia, de tal forma que aumentasse significativamente o ritmo de redução do protecionismo agrícola e fossem viabilizados controles multilaterais aos excessos decorrentes da implementação da legislação antidumping norte-americana. Esse cenário é certamente excessivamente otimista. Talvez sejam possíveis avanços modestos nos dois casos, mas ambos os temas fazem parte do âmago das posições mais renitentemente protecionistas nos dois lados do Atlântico. A história do Gatt e da OMC tem sido marcada pela sistemática vitória de formatos de negociação caso a caso, na base de trocas de concessões espe-

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cíficas definidas à luz de ofertas que não incluem o universo de produtos, a respeito do tratamento sem exceções de todas as barreiras tarifárias e não-tarifárias incidentes sobre o comércio de bens. A redução da proteção incidente sobre produtos ditos “sensíveis” foi sistematicamente protelada. Formou-se, assim, um significativo backlog de produtos à margem da liberalização multilateral, quase sempre, e não surpreendentemente, de interesse especial dos países em desenvolvimento, como ilustram os casos de produtos têxteis e agrícolas. Com base na história, é difícil evitar o ceticismo e considerar provável que, de fato, a nova rodada na OMC marque uma grande descontinuidade em relação ao passado. De qualquer forma, não é perda de tempo insistir que o antídoto para o backlog seria a adoção de fórmula de aplicação automática incidente sobre os equivalentes tarifários de todos os instrumentos de proteção.

4.2. Negociações Regionais no Âmbito da Alca
As preocupações brasileiras quanto às negociações da Alca podem ser sintetizadas como consistindo em três aspectos principais: distribuição temporal das concessões recíprocas referentes a acesso, especialmente no caso de bens; garantia de inclusão de temas de especial interesse brasileiro, em particular legislação antidumping, subsídios agrícolas e ajustes às regras relativas à propriedade intelectual; e garantia de que a inclusão de temas como normas trabalhistas e meio ambiente não sirva de base para o uso de instrumentos adicionais de proteção, especialmente nos Estados Unidos. A Trade Promotion Authority aprovada na House of Representatives no início de dezembro de 2001, em tramitação final no Senado, habilitará o Executivo, a negociar em diversos foros de negociação comercial. A tramitação no Congresso exigiu substanciais concessões por parte do Executivo, de tal forma que no formato que saiu da House of Representatives as condicionalidades correm o risco de inviabilizar o bom êxito das negociações, em especial na Alca, embora as referências a meio ambiente e a normas trabalhistas tenham sido relativamente inocentes, porque o escopo para concessões relevantes em cítricos, açúcar e têxteis foi consideravelmente restringido. Além disso, foi incluída uma espantosa cláusula sobre instrumentos para conter ameaças implícitas na possível manipulação da taxa de câmbio por governos estrangeiros, do que resultariam vantagens comparativas “ar-

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tificiais” no comércio internacional. O precedente aberto pela universalização dessa provisão inepta aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos constitui séria ameaça ao atual ordenamento das relações comerciais e não encontra amparo na legislação internacional. Assim, tanto do ponto de vista de acesso, no caso de exportações de bens, quanto dos temas mais caros ao Brasil, como antidumping e subsídios agrícolas, as perspectivas são pouco animadoras. O texto do Senado provavelmente incluirá emenda que viabilizaria a apreciação em separado de partes de acordos da atual legislação norte-americana de defesa comercial, afetando de forma crucial a autoridade negociadora do Executivo. É difícil imaginar que da conciliação dos dois textos surja algo animador quanto às perspectivas futuras das negociações comerciais em âmbito regional ou multilateral. Também na negociação relativa a bens no contexto hemisférico são enfrentados temas familiares aparentados aos do backlog na OMC. A liberalização da política comercial dos Estados Unidos no longo prazo ocorreu de tal forma que, embora a tarifa média do país seja muito baixa, os picos tarifários, as quotas tarifárias e as barreiras não-tarifárias, incluindo direitos discricionários aplicados à sombra da legislação antidumping, tornam o mercado norte-americano extremamente protegido no caso de diversos produtos agrícolas e, também, de insumos industriais. A tarifa média brasileira, embora significativamente mais alta que a dos Estados Unidos, retrata com muito maior precisão a real proteção de que goza a indústria doméstica frente às importações. Estudos recentes promovidos pela Embaixada do Brasil em Washington retratam essa disparidade, embora de forma rudimentar: enquanto a tarifa média incidente sobre os 15 mais importantes produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos foi de 45,6%, sobre as 15 mais importantes importações brasileiras provenientes dos Estados Unidos ela foi de 14,3%. O problema é que esses cálculos para a tarifa norte-americana foram feitos tomando como referência as tarifas incidentes sobre importações extraquota no caso das quotas tarifárias referentes a açúcar (338,7%) e fumo (350%), embora nesse último caso nem mesmo o volume além do qual se aplica a tarifa alta tenha sido alcançado. De qualquer forma, é difícil caracterizar, de um lado, o Brasil como país protecionista e, de outro, os Estados Unidos como país liberal [Embaixada do Brasil em Washington (2001, p. 92-94)]. Estudos sobre o impacto da Alca nos fluxos comerciais brasileiros indicam, ao fim da desgravação tarifária total, uma expansão relativamente modesta

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das exportações e bastante mais significativa das importações. Isso se deve, ao menos em parte, às dificuldades de levar em conta as barreiras não-tarifárias que afetam o comércio hemisférico, especialmente nos Estados Unidos.7 As estimativas de ganhos de bem-estar gerados pela Alca são modestas, talvez da ordem de 0,3% do PIB brasileiro, em comparação com uma taxa de 1,06% no caso de um acordo preferencial com a União Européia [ver Pereira (1997)]. A racionalização para as vantagens da Alca estaria relacionada fundamentalmente, como no caso do Nafta, não à esfera comercial, mas à redução do custo de capital que adviria da queda do diferencial de taxas de juros entre os Estados Unidos e o Brasil. No momento, as indicações são que os Estados Unidos vivem a ilusão de que a estratégia de something for nothing tem possibilidade de vingar. Parece improvável que, mesmo que não haja grande discontinuidade política no Brasil, seja fácil encontrar um compromisso mutuamente aceitável quanto ao timing de desgravação no período de transição. Entretanto, a viabilização política da Alca no Brasil depende crucialmente da capacidade de os Estados Unidos se mobilizarem internamente para que seja viável fazer ofertas relevantes quanto a subsídios agrícolas, legislação antidumping e/ou acesso de exportações brasileiras sensíveis no mercado norte-americano. Só assim seria possível pensar em romper as resistências à abertura total do mercado brasileiro em um prazo entre 10 e 15 anos. A não entrada do país em uma “Alca exclusive Brasil”, ou exclusive Mercosul, significaria um retrocesso para os Estados Unidos, cujos interesses comerciais hemisféricos fora do Nafta estão fortemente concentrados no Mercosul. O fracasso nos entendimentos entre Brasil (ou Mercosul) e Estados Unidos e a eventual constituição de uma área de comércio preferencial hemisférica sem a participação brasileira teriam sérias conseqüências sobre os interesses comerciais brasileiros, em vista da importância dos mercados latino-americanos, especialmente no caso de manufaturas. De fato, as exportações de manufaturas para a Aladi (exclusive Mercosul) em 2001 foram
7 Ver Carvalho e Parente (2000, p. 119). Neste estudo, estima-se que o impacto final da Alca (barreiras tarifárias) sobre as exportações e importações brasileiras seria de, respectivamente, 7% e 17%.

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quase tão importantes quanto para a União Européia e da ordem de 45% para os Estados Unidos. O cenário de fracasso tornaria necessária a implementação de uma estratégia brasileira de limitação de danos. Dado que, presumivelmente, as dificuldades principais teriam origem na impossibilidade de acomodação dos interesses recíprocos Mercosul-Estados Unidos, seria necessária a negociação de um grande número de acordos bilaterais, idealmente de livre-comércio, que limitassem o impacto da concorrência das exportações norte-americanas nos mercados da Aladi, exclusive Mercosul. Seria de alguma forma a generalização de uma desejável política de compensação dos desvios de comércio produzidos pelo Nafta especialmente no mercado mexicano, como se verá adiante.

4.3. Negociações entre Mercosul e União Européia
O interesse do Mercosul nas negociações com a União Européia está relacionado ao avanço de outras negociações comerciais tanto no âmbito da Alca quanto na nova rodada da OMC. O interesse nas negociações União Européia-Mercosul será tanto maior quanto mais rapidamente avancem as negociações da Alca, pois liberalizações paralelas minimizarão desvios de comércio e pendências futuras com parceiros comerciais com interesses prejudicados. Se as negociações na OMC não progredirem, a forma de replicar imperfeitamente as negociações multilaterais seria prosseguir paralelamente com as negociações na União Européia e na Alca. Em julho de 2001 a União Européia fez uma modesta oferta de negociação tarifária e não-tarifária ao Mercosul.8 A proposta tarifária é simétrica, isto é, os dois lados desgravarão sua tarifa de acordo com o mesmo cronograma. A média de importações da União Européia com origem no Mercosul em 1998/2000 foi de 18,4 bilhões de euros, dos quais 8,9 bilhões correspondem a produtos agrícolas, 8,8 bilhões a produtos industriais e 0,5 bilhão a produtos da pesca. Destes, respectivamente, 60%, 47% e 1% entram na
8 Ver www.europa.eu.int/comm/external_relations/mercosur, Fifth meeting of the European Union-Mercosur Biregional Negotiations Committee, 2-6 July 2001, Montevideo, Uruguay; Sixth meeting of the European Union-Mercosur Biregional Negotiations Committee, 29-31 October 2001, Brussels, Belgium [ver CNI (2001a)].

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União Européia sem tarifas. A proposta da União Européia trata, portanto, de importações de 3,1 bilhões de euros em produtos agrícolas, 2,1 bilhões em produtos industriais e 0,5 bilhão em produtos de pesca. Os bens foram divididos em seis categorias. As quatro primeiras teriam suas tarifas reduzidas anualmente em bases lineares nos prazos de zero, quatro, sete e 10 anos. Para todos os produtos, exceto os agrícolas, a desgravação estará completa em 10 anos, sendo que a maior parte da desgravação das tarifas sobre produtos industriais estará completa também em 10 anos. Para os produtos agrícolas, entretanto, a maior parte da desgravação só ocorreria depois de sete anos, sendo previstas duas outras categorias: na categoria 5 (vinhos e licores) haveria acordos específicos; e na categoria 6, que inclui ampla gama de produtos (cereais, azeite de oliva, lácteos, carnes, fumo, açúcar e algumas frutas e legumes processados), a União Européia estaria disposta a negociar maior liberalização na forma de quotas tarifárias preferenciais. Embora a proposta mencione que as importações relativas à categoria 6 correspondem a 0,9 bilhão de euros, é claro que esse número pouco significa em vista da alta proteção que afeta tais produtos na União Européia, cuja proposta é omissa quanto a barreiras não-tarifárias e prevê também uma proposta quanto à inclusão de serviços e de compras governamentais no escopo do acordo de livre-comércio. A contraproposta do Mercosul, apresentada no final de outubro de 2001, cobria a desgravação de 33% das importações da União Européia provenientes do Mercosul em 10 anos [ver CNI (2001b)] e tomava por base as tarifas da TEC e não os 35%-55% consolidados na OMC. Essa oferta aparentemente não foi condicionada a tratamento simétrico dos produtos do Mercosul que hoje se beneficiam do Sistema Geral de Preferências na União Européia, embora se tenha mencionado que o Mercosul pretende obter tratamento que leve em conta benefícios já existentes sob tal sistema. Parece difícil aceitar, com base em argumentos de reciprocidade, que, enquanto a proposta do Mercosul baseia-se em tarifas efetivamente aplicadas, a oferta da União Européia restrinja-se a tarifas consolidadas na OMC. As negociações devem incluir explicitamente barreiras não-tarifárias, eliminação de subsídios e barreiras internas, especialmente relevantes no caso de produtos agrícolas. A proposta é assimétrica, ou seja, enquanto a liberalização da União Européia seria de acordo com a sua proposta original, a proposta do Mercosul seria implementada mais lentamente, incluindo ainda, entre

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outros, temas tais como tratamento especial e diferenciado, redução de picos tarifários europeus e acordos sobre equivalência de medidas sanitárias e fitossanitárias. Em grande medida, as limitações da proposta do Mercosul são um reflexo das limitações da modesta oferta inicial européia. Nas negociações com outros países em desenvolvimento pouco competitivos em agricultura com os quais celebrou recentemente acordos de livre-comércio (México, por exemplo), a União Européia concordou com desgravação assimétrica, sendo a convergência para zero de suas tarifas para produtos industriais em dois anos e meio, enquanto a redução das tarifas mexicanas será implementada em quatro anos e meio. A proposta do Mercosul pode ser considerada um tour de force, tendo em vista o quadro de dificuldades por que passava a Argentina e que culminou na crise cambial do final de 2001, o que torna mais verossímil a negociação do Mercosul em bloco com a União Européia, uma vez superado o período mais traumático de ajuste às novas condições nos próximos meses. Caso fracassem as negociações com a União Européia, não há como conter as conseqüências relacionadas a atuais ou futuros desvios de comércio, em vista das características de mercado comum da União Européia e da conseqüente aplicação de uma tarifa externa comum por seus membros atuais, bem como por novos integrantes na Europa Central e Oriental. A evidência quanto ao ocorrido até 1996 indica que os produtos brasileiros foram deslocados por uma ampla gama de fornecedores na União Européia, mas principalmente pela China, pela Rússia e pelos países ibéricos (Espanha e Portugal), membros mais recentes da União Européia [ver Batista (2001, Quadro 7)].

4.4. Negociações sobre o Aprofundamento e a Ampliação do Mercosul
A situação de instabilidade que atravessa a Argentina torna ainda mais especulativas as considerações sobre eventuais aprofundamentos e expansões do Mercosul do que seria normalmente o caso. O colapso argentino faz mais verossímil futuras negociações relativas ao aprofundamento do bloco rumo ao mercado comum, mas torna mais difíceis as negociações quanto à sua expansão, pelo menos no médio prazo, pois certamente os últimos acontecimentos fizeram com que eventuais parceiros ficassem bas-

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tante relutantes quanto à conveniência de associação a uma zona de comércio preferencial com tão atribulada história de desequilíbrios macroeconômicos. A direção dos esforços continua a ser as economias do Pacto Andino e a África do Sul. Nesse último caso, a mobilização é fundamentalmente política, pois interessa ao Brasil sublinhar que a negociação da Alca não configura qualquer restrição à política externa brasileira em escala global. Só no longo prazo a integração do Mercosul com a Southern Africa Development Community poderá ter importantes conseqüências econômicas. Dadas as limitações do atual comércio entre Brasil e África do Sul, as negociações para implantação de uma área de comércio preferencial poderiam ser conduzidas de forma bastante radical, com cronograma de implantação muito curto, exceto para o caso de um limitadíssimo conjunto de produtos sensíveis, acompanhado de um sistema de salvaguardas para tratar de surtos de comércio que possam ter conseqüências temporárias indesejáveis para produtores nacionais competitivos com importações.

5. Interesses Brasileiros e Iniciativas de Integração que Excluem o Brasil
A criação de novas áreas de comércio preferencial e a ampliação das já existentes estão tendo ou poderão ter impactos importantes sobre o comércio de exportação brasileiro e também sobre a atração de investimentos diretos, o que inclui seguramente as conseqüências do Nafta e a ampliação da União Européia na Europa Central e Oriental, assim como, em um futuro mais remoto, o impacto da Apec. Em alguns casos, os prejuízos comerciais poderão ser atenuados por iniciativas brasileiras relacionadas com a celebração de acordos preferenciais bilaterais, de tal forma que sejam contrabalançados os desvios de comércio gerados pela área preferencial original. O mais importante caso recente de área de comércio preferencial que provocou desvios de comércio desfavoráveis ao comércio de exportação brasileiro foi o Nafta. A evidência indica que preferências tarifárias tiveram papel crucial no deslocamento das exportações brasileiras para os Estados Unidos e o México. A China e o México, e em menor medida o Canadá, foram os mais importantes competidores do Brasil no mercado dos Estados Unidos entre 1992 e 1996, respondendo por cerca da metade das perdas

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sofridas pelo país. Só o México respondeu por cerca de um terço das perdas líquidas brasileiras no mercado dos Estados Unidos nesse período. Similarmente no mercado mexicano, mais da metade das perdas brasileiras decorreram de competição direta das exportações norte-americanas.9 Presumindo que os obstáculos relativos a uma negociação bilateral com os Estados Unidos sejam dominantes, não há nada a fazer com relação à competição de exportações dos parceiros do Nafta no mercado norte-americano, a não ser com adesão à Alca. Mas para preservar o mercado mexicano seria em princípio possível negociar um acordo bilateral, embora estudos empíricos indiquem que as exportações mexicanas para o Brasil poderão expandir-se significativamente, conforme se pode depreender pelas conclusões de Batista (2000). Outra fonte de preocupação quanto a desvios de comércio refere-se à ampliação da União Européia, em particular quanto à expansão das exportações das economias do leste europeu. Nesse caso, não há postura defensiva possível, a não ser com a celebração de um acordo Mercosul-União Européia, dada a natureza da União Européia e sua política comercial comum e ao fato de que o Brasil não tem presença comercial importante no leste europeu. As preocupações brasileiras quanto à Apec, embora mais remotas, têm dois focos: de um lado, as preferências comerciais poderiam abarcar diversas economias cujas exportações que poderiam competir diretamente com as exportações brasileiras para os Estados Unidos no caso de não prosperar a Alca; e, de outro, o acesso preferencial dos Estados Unidos e do México, entre outros competidores brasileiros, aos mercados asiáticos poderia comprometer a estratégia que se pensa adotar no Brasil quanto à concentração dos esforços de promoção das exportações nos mercados asiáticos. A preempção de possíveis efeitos desfavoráveis relacionados às preferências no contexto da Apec recomendaria negociações bilaterais defensivas do Brasil com os seus principais parceiros comerciais potenciais no Oriente, certamente a China e possivelmente a Coréia do Sul e Taiwan, entre outros.
9 Ver Batista (2001, Quadro 7). Para um tratamento detalhado das conseqüências do Nafta sobre os mercados dos Estados Unidos e do México, ver Batista (2000, passim) e Batista e Azevedo (2000, passim).

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6. Conclusões: Cenários de Médio Prazo para a Política Comercial Brasileira
Diferentes cenários quanto aos desdobramentos políticos no Brasil em 2002 poderão afetar os rumos de sua diplomacia econômica, embora freqüentemente seja exagerada a margem de manobra para alteração radical do envolvimento ou mesmo da postura assumida pela diplomacia em diversos foros de negociação. Há elementos inerciais importantes que devem ser levados em conta: o Brasil continuará membro da OMC e com certeza honrará seus compromissos internacionais quanto a engajar-se em negociações internacionais e buscar resultados que estejam em sintonia com os interesses nacionais e tenham o necessário respaldo político. No quadro da economia política da proteção, é provável que na maioria dos cenários internos que hoje se pode vislumbrar a postura brasileira tenda a ser menos comprometida com o avanço da liberalização do que atualmente. Mas essa constatação não tem qualquer desdobramento substancial no plano multilateral. A nova rodada avançará ou não em função dos interesses dos Estados Unidos e da União Européia e, talvez, de coalizões permanentes ou temporárias de outros membros da OMC. No caso das negociações da Alca e no quadro Mercosul-União Européia, é claro que a posição brasileira tem muito mais peso e que em alguns cenários é certo que poderá haver grande resistência à abertura da economia à concorrência dos produtos industriais norte-americanos e europeus. No que se segue, supõe-se que prevaleça, no plano político, uma postura relativamente alinhada com a estratégia atual quanto à política comercial, ou seja, avanço da liberalização comercial brasileira condicionada à liberalização dos mercados de exportação do Brasil. As negociações na OMC servirão de marco de referência para as demais negociações comerciais nas quais estará envolvida a diplomacia comercial do país nos próximos três anos. Como já mencionado, um cenário ideal do ponto de vista brasileiro quanto ao desenvolvimento das negociações na OMC seria que os Estados Unidos e a União Européia trocassem como concessões recíprocas alguma reforma da legislação norte-americana antidumping por um compromisso efetivo da União Européia quanto ao protecionismo agrícola, especialmente com relação a subsídios às exportações. As negociações na Alca e entre o Mercosul e a União Européia poderiam então concentrar-se, no caso da Alca, nos picos de proteção norte-americanos (especialmente em produtos

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agrícolas) e, no caso da União Européia, no aprofundamento da liberalização multilateral agrícola e na melhoria das tímidas propostas quanto a produtos industriais apresentadas inicialmente. Um perigo a ser evitado no plano bilateral ou regional é que o Mercosul (ou o Brasil) faça concessões relativas à obtenção de seus objetivos centrais (antidumping e agricultura) nas negociações com os Estados Unidos e a União Européia e depois veja seu tratamento preferencial ser substancialmente erodido pelo desenvolvimento das negociações multilaterais. Desse ponto de vista, um cronograma ideal subordina as duas negociações não multilaterais aos avanços que possam ser obtidos em Genebra. Se realmente existir base para otimismo quanto ao avanço na OMC, o ritmo das negociações Mercosul-União Européia e Alca deveria ser desacelerado, e até mesmo adiado o fim das negociações. Se as negociações multilaterais não prosperarem em relação aos dois temas que são mais caros à diplomacia econômica brasileira, antidumping e agricultura, é muito improvável que tal aconteça no quadro da Alca ou das negociações com a União Européia, dada a assimetria de interesses em jogo. Seria bastante duvidoso que essas negociações chegassem a bom termo, pelo menos do ponto de vista do Brasil, mantidos os objetivos mencionados até agora.

Sistema financeiro internacional

O sistema monetário internacional tem hoje a reputação de ser uma fonte de instabilidade das taxas de câmbio, através da alta mobilidade dos capitais e da inexistência de um regime internacional provido de instituições e regras suficientemente eficazes para ordenar os ajustes dos mercados e prevenir os acidentes monetários e financeiros.

Após o desmoronamento do regime de Bretton Woods, vieram à luz inúmeras propostas para lançar as bases de uma regulamentação das relações entre os sistemas financeiro e monetário internacionais.

Ao término de um período de “relativo adormecimento”, a persistência das turbulências (crises mexicanas, crise do câmbio na Europa, crise asiática recente) acabou por recolocar na ordem do dia a conveniência de uma certa medida de institucionalização do quadro dos mercados financeiros e da criação de regras capazes de balizar o comportamento dos operadores desses mercados. Se a globalização financeira parece corresponder a uma perda de controle das autoridades públicas nacionais e internacionais, ganha cada vez mais terreno a idéia de que essa limitação não passa do reflexo de uma falta de organização do sistema financeiro internacional.

É sintomático que a proposta do chamado imposto Tobin, que remonta pelo menos a 1978 e que desde então se mantivera como uma curiosidade teórica, venha, desde o início dos anos noventa, despertando uma retomada do interesse e inspirando propostas similares, sob a forma de pseudotaxações. Globalmente consideradas, as propostas podem ser distribuídas em três blocos:

o bloco formado por um conjunto de medidas coercitivas, que assumem sobretudo a forma de uma taxação direta ou indireta das operações;

o bloco das medidas preventivas, que visam a estabelecer uma “normalização financeira” ou a intensificar as informações recíprocas entre as autoridades controladoras; e

o bloco dos dispositivos de coordenação entre poderes públicos nacionais e órgãos internacionais, ou entre os bancos centrais, a fim de prevenir ou absorver, através de medidas pontuais, os acidentes de percurso (o tema do emprestador internacional de última instância é uma das peças mestras desse bloco). A variedade das propostas e a incerteza quanto a seu impacto macroeconômico são tais, que surge um problema de esclarecimento. Ele concerne tanto aos objetivos exatos que elas visam quanto à avaliação de sua eficácia potencial em relação a esses objetivos. Este artigo tem por fim contribuir para esclarecer esse problema, cuja essência gira em torno da questão das relações entre a “instabilidade” dos mercados de câmbio e a “rotação internacional” dos capitais. Numa primeira parte, apresentaremos os dados empíricos, que muitas vezes são desconhecidos, enquanto os fatos estilizados são bem estabelecidos e expõem sem ambigüidade os dados do problema. A segunda parte faz um recenseamento e classificação das sugestões existentes e do estado das reformas em andamento. A terceira parte procura avaliar seu impacto, a partir de uma simples formalização teórica das relações entre a instabilidade dos mercados e a rotação dos capitais. I. O CONTEXTO: QUATRO FATOS ESTILIZADOS, DOIS PARADOXOS 1.1. Estabilidade da volatilidade individual e

instabilidade da volatilidade estrutural das taxas de câmbio Freqüentemente se acusa o sistema monetário atual de produzir uma acentuada volatilidade das moedas. Essa “idéia aceita” precisa ser esclarecida. Considerando-se o indicador habitual da volatilidade, ou seja, o desvio padrão das taxas de câmbio constatadas em relação a uma moeda de referência, verificase que, embora a aparente volatilidade das principais moedas seja hoje globalmente mais importante do que no regime de Bretton Woods, ela não evidencia uma deriva ascendente. O Gráfico 1 mostra que, nas relações de câmbio entre o dólar norte-americano e as outras moedas, a instabilidade média mantém-se relativamente constante desde meados dos anos setenta, apesar da existência de uma flutuação moderada (ligeiro aumento da volatilidade média durante a década de 1980). Estatísticas similares sobre as outras grandes moedas levam à mesma constatação (cf. Anexo 1). [$$ INTRODUZIR FIG. P. 3, LEGENDAS ABAIXO:] 1. Gráfico 1

2. 3. 4.

Volatilidade individual efetiva do dólar (em %)* Fonte: MacCauley, 1997. * A volatilidade é medida pelo desvio padrão anual das variações cotidianas da taxa

de câmbio efetiva (em percentagens) durante os doze meses do ano. O peso das moedas européias no cálculo do câmbio efetivo do dólar é de 77,3%. As linhas horizontais indicam as volatilidades médias. Traçando o movimento bilateral da taxa de câmbio de uma moeda em relação a outra, ou em relação a um conjunto de moedas, esse tipo de indicador concerne à volatilidade individual e temporal. Esta não pode explicar a dinâmica da estrutura das taxas de câmbio. Precisamos de um indicador que expresse o movimento do conjunto das taxas de câmbio, considerando o sistema monetário internacional como um todo. Para esse fim, construímos um indicador da volatilidade estrutural, definido como o coeficiente de variação das grandes moedas que compõem o núcleo do sistema monetário internacional. Esse coeficiente é definido como um indicador pontual da volatilidade da estrutura das taxas de câmbio. Em cada período  no caso, o trimestre , mede-se o desvio padrão das variações das taxas de câmbio das principais moedas (marco, franco, iene, libra e dólar canadense) em relação ao dólar. Essa operação é refeita periodicamente, ou seja, em relação a uma moeda que também varia, enquanto os indicadores habituais são calculados em torno de uma moeda histórica dada. Para eliminar o viés ligado a taxas de câmbio expressas em índices (base 100 em 1975) e à evolução “pesada” dos fundamentos (dentre eles, a tendência à depreciação do dólar a longo prazo), optamos por medir a volatilidade estrutural não pelo desvio padrão, mas pelo coeficiente de variação, definido como a relação entre o desvio padrão e a média (Gráfico 2). Observe-se que as relações de câmbio em questão representavam mais de 80% do volume total das transações recenseadas pela BRI em abril de 1995, de modo que, com as cinco moedas consideradas, apreende-se a essência da dinâmica das taxas de câmbio). [$$ INTRODUZIR FIG. P. 4, LEGENDAS ABAIXO:] 1. 2. variação) 3. 4. 5. (Marco, libra, iene e franco, variando em relação ao dólar) Dados trimestrais. 1975/1 = 100 Fonte: FMI Gráfico 2 Volatilidade estrutural das taxas de câmbio das principais moedas (Coeficiente de

Diversamente da volatilidade individual, a volatilidade estrutural evidencia uma tendência acentuada para um caráter não estacionário. No conjunto do período de 1975-1997, com efeito, a

volatilidade estrutural foi multiplicada por cinco e a tendência de crescimento manteve-se mais ou menos estável. Para sermos mais exatos, nota-se uma ligeira ruptura dessa tendência em meados dos anos oitenta; a partir dessa data, a taxa de crescimento da tendência pende um pouco para a baixa, mas sem que a volatilidade média chegue a se estabilizar em torno de um nível estacionário. É provável que essa ruptura não deixe de ter relação com a cooperação monetária internacional que desde então se desenvolveu, particularmente na Europa. A volatilidade do sistema de câmbio instaurado em meados dos anos setenta, portanto, faz surgir uma característica dupla e um paradoxo: A volatilidade individual das moedas manteve-se globalmente estacionária; Em contrapartida, a volatilidade estrutural passou por uma deriva regular para a alta. É essa deriva que se encontra na origem da atual idéia de que o desmoronamento do sistema de Bretton Woods teria feito o sistema monetário internacional entrar numa era de crescente volatilidade. A conjunção dessas duas constatações aparentemente contraditórias passou despercebida até o presente. 1.2. Financiamento internacional e movimentos de capital:

reciclagem da poupança e rotação dos capitais É comum atribuir-se ao atual sistema financeiro internacional e a sua liberalização o mérito de permitirem uma melhor circulação da poupança em escala mundial. Esse pretenso mérito requer uma avaliação precisa. Se tomarmos como indicadores, como se costuma fazer, as necessidades e a capacidade de financiamento das economias nacionais, ou indicadores semelhantes no plano continental, veremos que essa avaliação não parece ter fundamento no que concerne às duas últimas décadas. A tabela seguinte reúne os dados disponíveis por subperíodos de cinco anos, de 1975 a 1995: estabelece-se a relação entre o investimento e a poupança internos, o que dá uma indicação sintética da situação da capacidade de financiamento (razão inferior a 1) ou das necessidades de financiamento (razão superior a 1) e, conseqüentemente, do saldo da balança das operações correntes perante o exterior; esse saldo, evidentemente, é negativo (positivo) com uma razão superior (inferior) a 1. [$$ INTRODUZIR TABELA DA P. 5, LEGENDAS ABAIXO:]

1. 2. no período) 3. 4. 5. 6.

Tabela 1 RELAÇÃO (média

7. 8. 9. 10. 12.

Países África Ásia América Latina

em

desenvolvimento:

INVESTIMENTO/POUPANÇA

Países industrializados: Europa (15) Estados Unidos Japão

11. PECO Fontes: cálculos baseados nos do FMI e da UE.

A Tabela 1 mostra claramente que não se produziu uma tendência para o aumento da distância entre o investimento e a poupança internos e, portanto, que a “globalização financeira”, ao contrário das idéias aceitas, não esteve, ao menos aparentemente, na origem de uma melhor circulação da poupança dos países ou zonas com capacidade de financiamento para os países ou zonas com necessidade de financiamento. Esse dado bruto encontra-se no cerne da afirmação de Feldstein e Horioka (1980) de que, num mundo caracterizado por uma forte mobilidade do capital, devemos esperar correlações baixas entre a poupança e o investimento internos. Os testes efetuados por eles com 15 países industrializados, no período de 1960/1974, levaram-nos a concluir por uma forte correlação entre as taxas de poupança e as taxas de investimento internas, tanto em termos de níveis quanto de variações a médio prazo. Disso eles extraíram a dedução lógica de que, entre os países e no período considerado, a mobilidade do capital foi baixa e não aumentou com o correr do tempo. Os testes posteriores, realizados segundo a mesma lógica (Dooley et al., 1984; Oliveira Martins e Plihon, 1990; Bayoumi, 1990; Tesar, 1991; Dar et al., 1994), confirmaram, de um modo geral, as conclusões iniciais. Todavia, convém notar que esses resultados decorrem de uma definição particular da mobilidade do capital, como a condição segundo a qual as distâncias entre os lucros esperados do capital “de longo prazo” entre os diferentes países são eliminadas pelos fluxos líquidos de poupança, medidos pelos desequilíbrios das balanças correntes. Dentro dessa lógica, a conclusão que convém guardar em mente, segundo o nosso ponto de vista, é esta: em termos de fluxos líquidos a longo prazo, a circulação mundial da poupança final não foi impulsionada nem pela liberalização mundial dos mercados nem pelas inovações financeiras. Essa constatação básica contrasta com a imagem de um sistema financeiro internacional “febril”, manipulando massas consideráveis de capital. Essa imagem não é falsa: os mercados de câmbio, desde a derrocada do regime de Bretton Woods, foram plataformas giratórias de uma intensa circulação de capitais em escala mundial. Duas séries de dados permitem situar a importância desse fenômeno: A primeira série relaciona-se com a parcela dos fluxos financeiros brutos (estatísticas geralmente negligenciadas e cuja importância foi assinalada por D. Plihon [1996]) no total das operações

dos balanços de pagamentos. Essa parcela assinalou um aumento considerável nos últimos vinte anos. A título indicativo, a Tabela 2 fornece a estrutura dos fluxos reais e financeiros brutos que constituíram o balanço de pagamentos da França a partir de 1980.

[$$ INTRODUZIR TABELA DA P. 6, LEGENDAS ABAIXO:] 1. 2. Tabela 2 Estrutura do balanço de pagamentos francês 3. Distribuição dos fluxos brutos reais e financeiros como % dos fluxos totais 4. Participação no balanço global (% de fluxos brutos) 5. 6. Crédito Débito 13. 7. 8. 9. 10. 11. 12. Transações correntes Movimentos de capital (a) Investimentos em carteira Investimentos diretos Movimentos de capital como % do PIB Fonte: segundo os Relatórios anuais do balanço de pagamentos, Banco da França. (a) variação do ...

Os movimentos de capital, que representavam em 1980 aproximadamente 28% das transações externas da França, aumentaram sistematicamente, até atingirem mais de 85% em 1996. Em outras palavras, mais de 3/4 das transações monetárias efetivas da França em 1996 representaram operações sobre capitais, ao passo que, quinze anos antes, a relação era o inverso, em favor das operações correntes. A segunda série de dados é mundial e diz respeito às massas de capital que transitaram em todos os mercados de câmbio, considerando-se todas as moedas. A Tabela 3 traça a atividade dos mercados de câmbio, tal como foi regularmente levantada pela BRI em 1989, 1992 e 1995.

[$$ INTRODUZIR TABELA DA P. 7, LEGENDAS ABAIXO:] 1. 2. Tabela 3 Atividade nos mercados de câmbio* 3. (Médias diárias em bilhões de dólares americanos)

4. 5. 6. 7. 8. 9. 10.

Categoria Abril de 1989 Abril de 1992 Abril de 1995 Variação percentual, abril’95/abril’89 Montante Moeda corrente

11. 12. 13. 14.

A termo e swaps Futuros e opções Total geral Fonte: Banco de Compensações Internacionais [BIS]

15.

* eliminada a dupla contagem

Esse quadro indica que as transações cambiais cotidianas, consideradas todas as categorias, multiplicaram-se por mais de dois entre abril de 1989 e abril de 1995, o que é desproporcional à evolução das necessidades em termos do fechamento das transações correntes. Note-se desde já que a essência desse movimento deveu-se à explosão das transações em mercados futuros, o que atesta a importância das exigências de gestão dos riscos cambiais na explosão dos movimentos de capital. Examinar de perto os fatos estilizados relativos ao sistema financeiro internacional, portanto, faz surgir um paradoxo evidente. Por um lado, constata-se que o sistema financeiro internacional faz circular uma massa de capitais cada vez mais considerável, massa essa que transita pelos mercados de câmbio num volume cotidiano superior a um trilhão de dólares, a contar de 1995; por outro, constata-se, no final das contas, que nem por isso a função de financiamento “efetivo” das necessidades reais fica mais garantida. A explicação desse paradoxo reside na distinção entre o capital “de longo prazo”, objeto implícito do estudo de Feldstein e Horioka, cuja mobilidade  reduzida  decorre basicamente das condições de paridade não coberta das taxas de juros, e o capital “de curto prazo”, cuja mobilidade  acentuada  decorre mais das condições de paridade coberta das taxas de juros (Moosa, 1997). Essa distinção permitiria conciliar os resultados aparentemente contraditórios dos testes de mobilidade internacional dos capitais que decorrem de uma lógica explícita da paridade internacional dos rendimentos, concluindo por um nível elevado e crescente de integração financeira, e os dos testes “no estilo de Feldstein-Horioka”, que levam ao resultado inverso. Se essa explicação é correta, ela conduz, ao mesmo tempo, a situar o conceito de “rotação internacional dos capitais” no centro da análise e a indagar sobre as incidências da aceleração regular dessa rotação ao longo das últimas décadas.

A confusão que cerca a idéia de “rotação” internacional dos capitais não é sinônima de mobilidade internacional dos capitais, com a qual é freqüentemente confundida. A mobilidade do capital é relativa à liberdade de circulação espacial do capital entre espaços monetários desvinculados. Já a rotação do capital refere-se à velocidade de circulação do capital por unidade de tempo. As duas variáveis podem ter comportamentos opostos. Assim, pode haver um aumento da mobilidade internacional dos capitais em decorrência de uma liberalização dos mercados financeiros, por exemplo, sem que aumente simultaneamente a rotação internacional dos capitais. O grau de rotação internacional dos capitais depende estreitamente do regime cambial, enquanto o grau de mobilidade é uma variável estrutural que não tem relação direta com o regime monetário internacional. Num regime de câmbios fixos, por exemplo, podemos ter, simultaneamente, uma forte mobilidade potencial dos capitais (e portanto, uma intensa sensibilidade dos movimentos de capital aos diferenciais das taxas de juros) e um baixo grau de rotação dos capitais, se as taxas de câmbio oficiais tiverem credibilidade. O fato marcante da dinâmica do sistema financeiro atual é que ele está imbricado num sistema monetário internacional volátil, segundo uma lógica na qual o aumento da mobilidade internacional dos capitais traduz-se num aumento simultâneo de sua rotação internacional. Se a análise da mobilidade internacional dos capitais tem sido desenvolvida na literatura recente, o mesmo não acontece com a rotação internacional dos capitais. O objetivo deste artigo é justamente explorar as ligações entre a volatilidade das taxas de câmbio e a rotação internacional dos capitais, assim procurando construir uma explicação para os quatro fatos estilizados precedentes e os dois paradoxos que eles representam.

II. PROPOSTAS E DESAFIOS As constatações anteriores inscrevem-se num quadro em que os mercados financeiros não são controlados e no qual prevalecem riscos cambiais consideráveis, ligados à flutuação das moedas e à enorme heterogeneidade dos regimes de câmbio em vigor no plano mundial (cf. Anexo 2).

A falta de regulamentação explica a reiterada renovação do debate sobre a regulamentação ótima. Começaremos por um inventário da regulamentação, para em seguida apresentar as propostas de reforma.

2.1. Inventário da regulamentação e risco sistêmico Poderíamos ficar tentados, a priori, a qualificar o sistema financeiro internacional de um sistema totalmente anárquico, no qual cada Estado tem absoluta liberdade para estabelecer sua política em relação aos capitais externos. Se essa avaliação constitui o pano de fundo da realidade financeira internacional contemporânea, seria um exagero, no entanto, considerar que não existe nenhum sistema de restrições internacionais capaz de limitar a soberania financeira dos Estados. Esses elementos, embora em número ainda restrito, decorrem de dois tipos de lógica: uma série de medidas refere-se a dispositivos “ex ante”, enquanto outras concernem aos mecanismos de intervenção “ex post”, através dos organismos financeiros internacionais ou dos grandes bancos centrais. Se essas medidas não têm uma vocação específica para regulamentar as relações financeiras internacionais, ao menos elas estabelecem indiretamente uma base de harmonização e um quadro geral de implantação das condições de concorrência entre os espaços bancários e financeiros. No que concerne ao dispositivo “ex ante”, as autoridades reguladoras internacionais, a começar pelo Comitê da Basiléia, a princípio lançaram as bases de uma regulamentação comum a todos os estabelecimentos (cf. Anexos 4 e 5). Depois, incentivaram amplamente a descentralização da avaliação dos riscos através da instauração de sistemas internos de controle. Na totalidade dos casos, o conjunto dos dispositivos empregados visa fundamentalmente um objetivo: a prevenção da manifestação do risco sistêmico, ou seja, a prevenção da propagação dos acidentes financeiros localizados. A definição de risco sistêmico, no entanto, é complexa e expõe à arbitrariedade, uma vez que, em última instância, trata-se de distinguir os mercados em questão, as fontes potenciais de risco e insegurança, os agentes participantes e a natureza de seus objetivos e expectativas, e os processos de geração e iniciação dos riscos, com sua dinâmica de disseminação. Diante desses problemas, a regulamentação trata ao mesmo tempo dos riscos da liquidez, dos riscos do mercado, dos riscos do crédito e de outros.

Para as autoridades controladoras, de fato, o que importa não é o risco que correm individualmente os estabelecimentos de crédito ou os intermediários financeiros, nem o risco a que ficaria exposto um segmento do mercado, mas apenas o risco sistêmico, que se aparenta teoricamente com um brutal “efeito dominó”, para o qual os sistemas de pagamento e regulamentação desempenham o papel de canais de propagação. O risco sistêmico é uma dinâmica cumulativa de choques, disseminação e contágio que, a partir da fragilização de uma ou mais instituições participantes dos mercados, pode levar à crise dos sistemas de pagamento e regulamentação e à desordem macroeconômica. Além da complementaridade buscada entre esses dois níveis de controle e prevenção dos riscos, o dispositivo preventivo coordenado abrange, hoje em dia, duas práticas complementares (Léonard, 1997): 1. Maior eficiência e menor assimetria da informação. Os instrumentos já instaurados

ou em vias de ser criados consistem, por um lado, no reforço das trocas de informações entre os controladores bancários e, por outro, na abertura crescente para outros tipos de controladores, em especial a fim de restringir os riscos de contágio dentro dos conglomerados financeiros. Esse procedimento exige uma harmonização permanente das regras entre os mercados e a elaboração de normas contábeis mais fidedignas e, acima de tudo, mais transparentes, bem como a produção, em tempo real, de um fluxo eficaz de informações sobre os novos instrumentos financeiros. 2. Prevenção dos comportamentos geradores de risco. Quanto a esse aspecto, a

harmonização do quadro preventivo nasceu da regulamentação pioneira referente à adequação do capital próprio aos riscos de crédito (proporção de Cooke). Atualmente, ela se estende aos riscos de mercado em três classes de ativos: títulos de crédito, títulos de propriedade e divisas. Além disso, há uma grande inclinação para integrar elementos externos ao balanço na avaliação global dos riscos trazidos pelos estabelecimentos financeiros. A idéia é limitar, através de restrições ao capital, a amplitude das posições assumidas pelos estabelecimentos financeiros nos mercados, sendo estas avaliadas por seu valor de mercado (value at risk). Nesse nível, aliás, observa-se que a regulamentação afeta mais os mercados pulverizados (nos quais a compensação, quando muito, é bilateral) do que os mercados organizados (nos quais a compensação é multilateral e onde o capital próprio só deve ser constituído com base numa posição líquida). A eficácia do conjunto dessas medidas é assegurada pela gradação das sanções ou penalidades associadas ao desrespeito a esses princípios. Por ora, como boa parte das medidas ainda se

encontra em fase de projeto ou recomendação, não se pode considerar que estejamos lidando com um sistema coordenado e coerente em matéria de prevenção. Embora continue embrionária em sua dimensão “ex ante” (prevenção das crises), a cooperação caso a caso tem obtido alguns sucessos em sua forma “ex post” (gestão das crises), mesmo exibindo um progresso lento em sua forma de coordenação, que é a mais importante. Esta última abrange, ao mesmo tempo, a infra-estrutura dos mercados (principalmente seu aspecto de liquidez) e o quadro preventivo (credibilidade e robustez dos intermediários). O aspecto particularmente nocivo dos acidentes financeiros é que, mais para os bancos do que para outros setores, o contágio do problema  produz-se rapidamente;  difunde-se com mais amplitude dentro do setor;  leva a um número maior de falências;  acarreta prejuízos mais importantes para os credores;  propaga-se para além do setor bancário e induz a prejuízos substanciais no conjunto do sistema financeiro e na economia real. Poderíamos dizer que a dimensão “ex post” refere-se a um segundo tipo de risco: não o da ocorrência de um acidente financeiro localizado, mas o da transformação de um acidente financeiro inicial numa crise financeira e monetária. O objetivo maior da cooperação pública internacional, em matéria de controle e prevenção dos riscos, só pode ser de ordem sistêmica: o desafio, evidentemente, é consolidar as conquistas da cooperação caso a caso num conjunto institucional multilateral que assuma, não mais simplesmente de fato, mas sobretudo de direito, a missão de emprestador internacional de última instância. Ora, por enquanto, os avanços em matéria de controle preventivo ainda são sabidamente insuficientes para garantir uma probabilidade mínima de surgimento do risco sistêmico. Acima de tudo, porém, nessa eventualidade, as condições e formas de intervenção a título de socorro financeiro continuam totalmente indefinidas. Os progressos nesse nível deverão, daqui por diante, acompanhar imperativamente a intensificação do controle preventivo. Tabela 4 Reforma do sistema financeiro internacional:

Variedade das propostas Fluxos Tipo de considerados instrumento Todas as transações Taxação cambiais proporcional ao volume (0,5 a 1%?) EICHENGREEN/ Operações por Depósito não WYPLOSZ (1993) conta própria remunerado em moeda local no Banco Central: proporção da posição líquida a curto prazo em moeda local SPAHN (1995) Todas as transações Imposto uniforme cambiais (a termo e mínimo + taxação opções) da diferença entre a taxa de câmbio usada e o valor do limite da zona de referência GRIEVE SMITH Todas as transações Sustentação (1997) cambiais automática das taxas de câmbio SOROS (1998) Todos os fluxos Teto da dívida financeiros garantido pelos internacionais países EICHENGREEN/ Empréstimos a Estabelecimento de WYPLOSZ/TOBI curto prazo aos não um teto dos N (1995) residentes compromissos em SACHS (1998) relação aos não AGLIETTA (1998) residentes INSTITUTO DE Todos os fluxos Reforço da FINANÇAS financeiros cooperação entre as INTERNACIONAI internacionais autoridades S (1998) bancárias tutelares GREENSPAN/RU Todos os fluxos Revisão geral do BIN (1998) financeiros quadro internacionais regulamentar e preventivo internacional FUNDO Todos os fluxos Fortalecimento do MONETÁRIO financeiros quadro de INTERNACIONA internacionais informações e L preventivo (1998) Proposta TOBIN (1978) Campo de aplicação Todos os agentes Todos os intermediários financeiros Modo de operação Regulamentação pelos preços Regulamentação pelas quantidades

Todos os agentes

Regulamentação pelos preços

Mercados cambiais Regulamentação pelos preços Todos os agentes Todos os intermediários financeiros Regulamentação pelas quantidades Racionamento

Sistemas bancários Regulamentação preventiva Todos os agentes Regulamentação preventiva e regulamentação dissuasiva Regulamentação preventiva

Todos os agentes

Se o reforço da coleta de informações pertinentes, de seu controle e sua difusão, para fins de regulamentação financeira internacional, implica uma limitação das soberanias nacionais nessa

matéria, também convém lembrar que o “empréstimo” de última instância nunca é um ato contratual: é sempre uma intervenção monetária soberana, imprevista e não negociada (Aglietta, 1998), intervenção esta que não é praticada no interesse dos devedores, mas no da continuidade dos pagamentos internacionais. Pois bem, enquanto as informações pertinentes para identificar a formação das condições propícias às crises de liquidez não são reunidas, o que pressupõe uma conscientização política das conseqüências da globalização financeira, é perfeitamente lógico que a atenção fique polarizada nos meios de uma regulamentação “branda” dos movimentos de capital e, em particular, na possibilidade de restringir, por meio de princípios preventivos ou coercitivos, os créditos imprudentes a curto prazo dos bancos internacionais. 2.2. Uma tipologia das propostas de reforma A questão da reforma do sistema financeiro internacional  em particular, o exame das múltiplas propostas relativas à “contenção” dos movimentos de capital  não pode ser dissociada, evidentemente, do debate sobre os méritos e inconvenientes respectivos dos regimes cambiais alternativos. Nesta seção, todavia, interessamo-nos unicamente pelas propostas relativas à reforma do sistema financeiro internacional. Assinalemos desde já a característica comum a todas essas propostas: seu objetivo não é uma regulamentação das relações financeiras globais, mas o controle dos movimentos internacionais de capital, administrando-lhes um tratamento diferenciado no cotejo com as relações financeiras intranacionais. Essa orientação rompe com as tendências das reformas praticadas e discutidas no seio dos organismos internacionais, que procuram controlar melhor o conjunto das relações e sistemas financeiros, sem um tratamento discriminatório particular das relações internacionais. O leque de propostas é muito amplo, a despeito de a literatura haver preservado principalmente a proposta do imposto Tobin. Esta deu margem a trabalhos teóricos e econométricos. Todavia, não convém desprezarmos as outras propostas existentes. A Tabela 4 registra nove famílias de propostas que visam a ordenar melhor as relações financeiras internacionais. A principal deficiência do conjunto dessas propostas está em elas não haverem dado margem a uma avaliação da macroeconomia internacional. As avaliações, quando existem, limitam-se a exercícios de simulação microeconômica em equilíbrio parcial.

Não obstante, apresentaremos sucintamente os resultados desses exercícios, reservando para a terceira parte sua avaliação macroeconômica global, no contexto de um levantamento dos modelos dos sistemas monetário e financeiro internacionais. 2.2.1. O imposto Tobin: balanço dos trabalhos A proposta de instituição de um imposto sobre os movimentos internacionais de capital pode servir de referência, em virtude de sua aparente simplicidade. A discussão da proposta inicial de taxação dos movimentos de capital (Tobin, 1978, 1994) foi objeto, nos anos noventa, de uma literatura abundante. Como outras soluções coercitivas concorrentes, o imposto Tobin tem por vocação, na hipótese de paridade das taxas de juros, separar a taxa de juros interna das expectativas em relação à taxa de câmbio futura. Essa dissociação permite fortalecer a credibilidade da moeda interna, aliviando o custo de sua defesa (Bensaïd e Jeanne, 1996). O papel estabilizador do imposto age através de três canais complementares: Ele protege parcialmente a política monetária dos choques externos e, portanto, permite isolar as conjunturas (Ozkan e Sutherland, 1995); Alivia o custo da defesa da moeda pelas autoridades públicas, na medida em que os agentes do mercado são levados a rever na baixa suas expectativas de realinhamento (Jeanne, 1996); Em última instância, ele pode levar à eliminação da possibilidade de surgimento de uma especulação auto-realizadora, sob certas condições (Jeanne, 1996). Assim, o imposto aumenta significativamente a autonomia das políticas econômicas nacionais, reduzindo as exigências que os mercados financeiros lhes impõem. Na óptica do triângulo das impossibilidades “no estilo de Mundell”, o imposto geraria graus de liberdade em matéria de política monetária  e, em especial, de fixação das taxas de juros  para qualquer país inserido num universo de liberdade de circulação de capitais mas, ainda assim, em busca da estabilidade monetária. Esse argumento é tão mais forte quanto mais o objetivo primordial do imposto seja o de reduzir a probabilidade da ocorrência de transações entre divisas para explorar pequenas diferenças nas taxas de juros, ou pequenas

variações nas taxas de câmbio; ora, 80% das operações cambiais correspondem justamente a idas e vindas de um máximo de sete dias (Grieve Smith, 1997). Do ponto de vista formal, portanto, devemos ter em mente que a instauração de um imposto Tobin equivaleria a encolher a banda de flutuações num regime de paridade fixa ou numa zona alvo, ou o intervalo de rendimento esperado num regime de câmbio flexível. Esse efeito encontra-se no centro das implicações estabilizadoras esperadas e do modelo que será apresentado na terceira parte. A justificação do imposto Tobin provém, em geral, de uma leitura keynesiana dos mercados financeiros organizados. Segundo essa leitura, os custos de transação são muito baixos e o desconhecimento do futuro conduz, naturalmente, a um predomínio da especulação sobre a iniciativa empresarial. A importância dos volumes negociados e a volatilidade dos mercados são, portanto, sintomas dessa tendência patológica (Arestis e Sawyer, 1997). Mais precisamente, qualquer aumento do volume das transações cambiais não diretamente ligadas às necessidades comerciais tende a ampliar, pelo menos potencialmente, a volatilidade dos mercados. Assim, supõe-se que o imposto teria o efeito de reequilibrar os pesos dos fatores que influenciam a taxa de câmbio, principalmente as expectativas a curto prazo, passando para considerações de prazo mais longo, diretamente relacionadas com as exigências do comércio internacional. Assim, é claro, o imposto reduziria a importância das transações de curto prazo, essencialmente baseadas nas variações de preço, em relação às transações de longo prazo, baseadas nos níveis de preço, a partir do momento em que sua aplicação levasse, numa boa parte das primeiras, a um custo global de transação superior ao lucro esperado. De certa maneira, os mercados de câmbio veriam assim modificada a sua situação: descentralizados e regidos por intermediários, a instauração do imposto os transformaria em mercados centralizados e regidos pelas necessidades (Frankel, 1996). Todavia, permanece intacta a questão de saber qual seria o montante “ótimo” das transações cambiais necessárias para garantir as conversões finais exigidas pelo comércio, pelo investimento direto e pela carteira internacional. Nessa problemática, a volatilidade já não é necessariamente resultante da especulação. Ela expressa os problemas de financiamento do balanço de pagamentos e a falta de coordenação nas políticas monetárias nacionais; os chamados “especuladores”, portanto, são empresas que operam nos mercados de câmbio para se proteger das eventuais perdas de suas reservas de divisas; ao mesmo tempo, a multiplicidade dos interventores contribui mecanicamente para “produzir” a liquidez do mercado (Mendez, 1996).

Os obstáculos presumíveis à criação do imposto Tobin são sobretudo políticos. Esse imposto foi criticado por três razões (Arestis e Sawyer, 1997). A primeira é que ele deveria, logicamente, ser estabelecido com base num acordo internacional, que abrangeria, em última instância, a totalidade do planeta, a fim de evitar os desvios do trânsito financeiro. Podemos legitimamente duvidar que todos os países do mundo, em especial o conjunto dos países do G7, aceitem ao mesmo tempo a taxação das entradas de capital no presente contexto, que é de liberalização financeira e concorrência para atrair os capitais externos. A segunda crítica é que esse imposto equivaleria a uma nova postura em relação aos mercados financeiros, coisa da qual podemos duvidar, a julgar pelas estratégias públicas hoje dominantes, que consistem em acompanhar os mercados sem questionamento. Mais precisamente, essa orientação equivaleria a um ataque à renda extraída da especulação, renda esta que representa uma fonte de lucros consideráveis em alguns países, como o Reino Unido, por exemplo. Por fim, uma terceira crítica: o aparecimento de um novo tributo esbarraria na clássica aversão política à sobrecarga fiscal, a menos que ele fosse instituído como uma taxação substituta; nesse caso, porém, surgiria com agudeza a questão das arrecadações nacionais desiguais e de uma eventual distribuição equitativa do imposto.

O imposto Tobin e o regime de câmbios fixos O tema do controle dos capitais, levantado por Tobin a partir de 1978 (Tobin, 1978), esteve no centro das controvérsias relativas à interpretação da origem das crises do SME em 1992 e 1993 e ao contexto ótimo capaz de assegurar a passagem para a união monetária na Europa). O debate sobre o controle dos capitais contrasta duas leituras alternativas da natureza dos regimes de câmbio fixo, periodicamente ajustáveis ou não, e providos ou não de zonas-alvo: na primeira, esses regimes são considerados a priori como intrinsecamente estáveis. Decorre daí que os controles de capitais são não apenas inúteis, como podem, eles mesmos, revelar-se desestabilizadores em relação ao regime cambial. Os aspectos essenciais dessa abordagem foram recentemente desenvolvidos na literatura: assim, a simples previsão de um controle pode perfeitamente conduzir ao resultado inverso ao buscado, ou seja, a um aumento compensatório prévio da taxa de juros nos países passíveis de empregar essa medida (Goldstein et al., 1993); do mesmo modo, a ameaça ou o anúncio de um controle sobre um mercado financeiro é não apenas capaz de desencadear um verdadeiro desvio do trânsito em benefício de outros mercados (Grieve Smith, 1997), como também pode ter como resultado favorecer o surgimento, por parte dos agentes residentes, de ataques especulativos auto-realizadores, por serem destrutivos para as reservas cambiais do país (Gros, 1992; Dellas e Stockman, 1993). A probabilidade e, portanto, a freqüência das crises dos balanços de pagamentos seriam aumentadas, assim como a volatilidade das taxas de câmbio seria acentuada pelo estabelecimento de controles de capitais transitórios. A segunda leitura, ao contrário, enfatiza o caráter intrinsecamente instável dos regimes de câmbio fixo. As expectativas de ruptura do câmbio, por parte dos agentes privados, são auto-realizadoras e, portanto, desestabilizadoras, na medida em que aumentam o custo com que efetivamente arcam as autoridades públicas para manter a paridade da moeda. O controle dos movimentos de capital, de uma forma ou de outra, afigura-se, pois, o meio privilegiado, se não único, de proteger esses regimes de qualquer forma de ataque especulativo, uma vez que o eventual ataque não poderia ser justificado, de maneira alguma, pela existência de uma ruptura entre as condições do mercado e os fundamentos subjacentes: Wyplosz (1986); Park e Sachs (1987); Eichengreen e Wyplosz (1993); Ozkan e Sutherland (1995); Eichengreen, Tobin e Wyplosz (1995): Spahn (1995); Bensaïd e Jeanne (1996).

A primeira dessas críticas não tem o caráter redibitório que lhe costuma ser atribuído. Se considerarmos um conjunto monetário e financeiro significativamente importante e os índices de taxação geralmente aceitos (0,5 a 1%), poderemos imaginar que os desvios do tráfego financeiro são muito

modestos, se não nulos, se compararmos os custos com os lucros esperáveis, em virtude da redução do risco cambial para os operadores financeiros (Arestis e Sawyer, 1997). Visto que os índices de cobertura dos riscos cambiais nunca são inferiores ao índice máximo de um imposto Tobin, por mais elevado que ele seja, podemos esperar que os operadores financeiros pratiquem uma arbitragem que não seja desfavorável ao país ou à zona monetária que aplicar esse imposto, num contexto em que o resto do mundo se abstenha de fazê-lo. O caráter necessariamente universal do imposto Tobin não constitui, portanto, uma exigência absoluta. Garber e Taylor (1995), assim como Grieve Smith (1997), sublinham, com justa razão, que a viabilidade administrativa de tal projeto é um problema absolutamente secundário em relação à exigência de uma vontade política real. Simplesmente, e para ser eficaz, é imperativo que o imposto seja aplicado num campo ilimitado: depois de Tobin (1978), e em virtude, por um lado, da impossibilidade prática de isolar corretamente as transações decorrentes de uma lógica especulativa e, por outro, do risco da substituição de transações taxáveis por transações “isentas de imposto”, a maioria dos autores concorda em admitir que o imposto deve abranger todas as transações externas (à vista, a termo e com derivativos). Um outro argumento vem reforçar a necessidade de que a base do imposto seja ilimitada. Independentemente da viabilidade técnica, surge, com efeito, o problema da eficácia dessa medida. Kenen (1995) mostrou que o imposto reduziria não apenas o estímulo dos responsáveis pelas relações de comércio e dos investidores para apostar em amplos movimentos das taxas de câmbio, como também seu estímulo para apostar em pequenas variações dessas taxas. Desse modo, querendo conter as transações puramente especulativas e combater as crises cambiais, o imposto penalizaria as transações de câmbio que compõem a contrapartida das operações reais, ou seja, precisamente aquelas que contribuem para limitar a volatilidade das taxas de câmbio. Assim, a primeira crítica não destrói a viabilidade econômica da proposta, como se costuma supor. As outras duas decorrem de um problema de opção política e de redefinição do papel do Estado. Essa questão não nos interessa diretamente aqui. 2.2.2. As outras propostas de reforma Uma medida alternativa de controle dos capitais consiste em taxar os empréstimos de residentes a não residentes, feitos em moeda nacional. Essa proposta foi formulada muitas vezes,

sobretudo em relação ao exame das condições ótimas de passagem do SME para a União Monetária Européia (Wyplosz, 1986; Eichengreen e Wyplosz, 1993; Eichengreen, Tobin e Wyplosz, 1995). A pertinência dessa proposta alternativa decorre do fato de que ela evitaria, a priori, duas das principais críticas geralmente feitas ao imposto Tobin, quais sejam, seu irrealismo (campo geográfico de aplicação necessariamente ilimitado) e sua dimensão ultracoercitiva (taxação de todos os tipos de transações, monetárias e financeiras). A priori mais fácil de aplicar, esse imposto (que podemos chamar de “imposto Wyplosz”, usando o nome de seu principal defensor) visa também a um objetivo mais definido: ele atinge indiretamente os não residentes que obtêm empréstimos dos residentes em moeda local, para investi-los temporariamente em ativos financeiros estrangeiros, na expectativa de uma desvalorização que lhes permita pagar seus empréstimos em moeda depreciada. Concretamente, a medida consiste em obrigar os bancos e outras instituições financeiras que operem por conta própria a depositar no Banco Central, em moeda local, sob a forma de uma conta não remunerada, uma proporção (igual a um, no máximo) de todas as suas posições líquidas em divisas no dia-a-dia. Essa proposta tem a vocação de reduzir os movimentos de capital, tornando-os automaticamente mais sensíveis às taxas de juros domésticas. A propósito disso, observe-se que, diferentemente do imposto Tobin, que é neutro em relação ao nível das taxas de juros internas, o “imposto Wyplosz” tem a vantagem de sobrecarregar a sanção numa proporção direta ao nível dessas taxas de juros. Mantida a igualdade das demais condições, portanto, ele tem por vocação evitar que a autoridade monetária pratique taxas de juros exorbitantes, para barrar a especulação em períodos de dificuldades cambiais. Na prática, entretanto, e embora a medida não implique a priori uma cooperação internacional, a evasão continua possível. As transações cambiais são realmente afetadas, no caso de reequilibração das posições de câmbio: basta que um centro financeiro importante não coopere, para que as posições cambiais abertas num país que pratique tal taxação pendam para esse centro e, por conseguinte, não apareçam nos livros dos estabelecimentos domésticos afetados pelo imposto (Garber e Taylor, 1995). A partir daí, os bancos nacionais limitam-se a fornecer crédito em moeda nacional aos bancos estrangeiros, que vendem a moeda nacional e, desse modo, podem efetuar os pagamentos correspondentes nessa moeda.

Outro exemplo: se um Banco Central tiver necessidade de intervir no mercado para defender sua moeda, os bancos nacionais poderão, para se opor a essa medida, criar um verdadeiro “balcão de venda” de moeda nacional a esse Banco Central, através dos bancos estrangeiros. Os pagamentos serão simplesmente garantidos por empréstimos deles em moeda nacional aos bancos estrangeiros, tendo esses empréstimos como garantia um refinanciamento do Banco Central. Em todos esses casos, as instituições nacionais não registram posições cambiais em aberto e, desse modo, não efetuam depósitos no Banco Central. Com isso, a política de defesa da moeda acaba por se revelar totalmente inoperante (Garber e Taylor, 1995; Kenen, 1995). Os próprios Eichengreen, Tobin e Wyplosz (1995) reconhecem que, no contexto dessa regulamentação, um banco que quiser conceder um empréstimo em moeda nacional a um não residente sempre poderá contornar a punição, emprestando essa moeda diretamente a uma firma nacional, que em seguida a emprestará ao não residente em questão. Logo, seria preciso instaurar mecanismos de acompanhamento do empréstimo inicial e taxar todos os empréstimos eventualmente interligados a partir dele. O irrealismo, nesse caso, sem dúvida suplanta a pertinência técnica. As duas propostas que acabamos de examinar compõem a essência da literatura. Contudo, outras sugestões recentes devem ser lembradas. Spahn (1995), por exemplo, propôs um sistema de taxação em duas etapas, passível de disciplinar as zonas-alvo: um pequeno imposto geral sobre o conjunto das transações cambiais seria acrescido de um imposto específico, de índice altamente dissuasivo, aplicável a todas as transações (a termo, com derivativos) efetuadas além dos limites permitidos, proporcionalmente à distância entre o imposto sobre a transação e o imposto sobre o limite. Grieve Smith (1997), por sua vez, vê no retorno a uma manutenção automática das taxas de câmbio, através de uma estreita cooperação entre os bancos centrais, o elemento essencial de uma verdadeira reforma do sistema financeiro internacional, com vistas a eliminar sistematicamente qualquer forma de especulação. Assinalamos também o projeto de combinação da proposta inicial de Wyplosz com a idéia do estabelecimento de um teto dos compromissos bancários a curto prazo em relação aos não residentes (Eichengreen, Tobin e Wyplosz, 1995, retomada por Sachs, 1998). A proposta de Soros, por sua vez, consiste em garantir um teto da dívida por país: ela ganha sentido à luz da experiência asiática de 1997.

Além de toda sorte de sugestões coercitivas, entretanto, é a regulamentação preventiva, acima de tudo, que se coloca hoje em primeiro plano, pela constatação geral de que as finanças globalizadas precisam de uma regulamentação e de que esta não pode prescindir de uma intervenção soberana, imprevista e não negociada. Diante da indispensável continuidade dos pagamentos internacionais, a reflexão derivou para o conteúdo informativo e preventivo da reforma a ser feita. Aglietta (1998) coloca no centro desse processo a intervenção do emprestador de última instância. Sob diversas formas, o Comitê de Basiléia, o Instituto de Finanças Internacionais, o Fundo Monetário Internacional ou a Reserva Federal norte-americana concordam, hoje em dia, quanto à necessária revisão geral do quadro regulamentar e preventivo internacional e quanto a um desenvolvimento paralelo da cooperação entre as autoridades bancárias de controle. Essa idéia não é nova, mas a crise mexicana de 1994 e a crise asiática de 1997 levam a crer que, não sendo feita nenhuma reforma, a sucessão das crises se tornará cada vez mais grave e os efeitos de contágio serão mais prováveis: sem uma progressão conjunta das redes de segurança, a probabilidade de manifestação do risco sistêmico aumenta inelutavelmente, conforme o avanço da globalização dos mercados. Greenspan (1998) acrescenta que, se os mercados financeiros tornaram-se muito sofisticados, hoje eles punem muito depressa, e de maneira muito mais profunda do que no passado, os erros das políticas de governo, em especial a confusão dos poderes. A crise asiática demonstrou que foram assumidos enormes riscos privados, como se se tratasse de riscos soberanos. III. ESTUDO COMPARATIVO DAS IMPLICAÇÕES MACROECONÔMICAS DAS PROPOSTAS DE REFORMA 3.1. Modelo das ligações entre a volatilidade da estrutura das taxas de câmbio e a mobilidade dos capitais Diversamente das formalizações habituais, que se interessam por economias isoladas, procuramos aqui criar um modelo do conjunto das taxas de câmbio, isto é, do sistema monetário internacional como um todo. Considerando o sistema monetário internacional (SMI) como um conjunto, limitamo-nos ao estudo de suas inter-relações com o sistema financeiro internacional (SFI). No plano muito geral em que nos situamos, procuramos compor um modelo das relações entre dois valores sintéticos: a “volatilidade das taxas de câmbio”, grandeza característica do SMI, e a “velocidade de

rotação internacional do capital”, grandeza característica do SFI. Embora cada um desses valores seja próprio de cada um dos dois sistemas, existem interdependências entre eles, que são justamente as interdependências cujo modelo procuramos estabelecer. O objetivo desse exercício é explicitar as modalidades da interdependência e, mais precisamente, os fatores exógenos que determinam os valores de equilíbrio, a fim de avaliar as implicações das “reformas” do SFI. As interdependências entre o SMI e o SFI decorrem, evidentemente, do grau de mobilidade internacional dos capitais, que é, para nós, uma variável exógena. Esta última define os movimentos de capital associados à circulação da poupança mundial num período médio. Assim, existe ex post um “financiamento” ao final do período, ou seja, K. Partimos da suposição de que, durante o período considerado, essa massa de capitais encontra-se disponível e pode ser utilizada várias vezes. As operações financeiras efetuadas, portanto, são operações com cobertura dos riscos ou sem cobertura (“especulação”), isto é, operações que não têm uma contrapartida na balança das operações de base (que são as “transferências”). A rotação do capital daí resultante fornece a modalidade de movimentos de capital que nos interessa aqui. Podemos dizer que a primeira modalidade dos movimentos de capital (mobilidade internacional) é relativa à lógica dos fluxos compensatórios, e que a segunda (rotação internacional) relaciona-se com uma lógica das transferências. A idéia deste artigo é considerar que essas duas modalidades são dissociáveis: existe um volume de capital K (uma variação de estoque) disponível para tantas quantas forem as operações desejadas durante o intervalo de tempo considerado (fluxo). Os capitais que transitam durante esse período nos mercados cambiais, portanto, são uma função de k, a velocidade de rotação dos capitais. Supomos que K é fixado pelos dados reais da economia mundial e procuramos estabelecer o modelo de k (k≥1), variável que depende das interações entre o SMI e o SFI. Por definição, chamando C de quantidade de fluxos de capital que transitam pelos mercados de câmbio, temos C = kK. Apresentaremos sucessivamente a formação do modelo do SMI e a do SFI, antes de considerarmos o quadro global. 3.1.1. O modelo do SMI Para simplificar, vamos supor que todos os países que compõem o sistema internacional pratiquem o mesmo regime cambial, ou seja, um regime de câmbios flutuantes dirigidos, que é um regime

intermediário entre os câmbios fixos e os câmbios flexíveis. Supõe-se que o regime representativo seja o das zonas-alvo. O modelo das zonas-alvo foi suficientemente estudado pela literatura recente para ser considerado como a representação menos ruim, sem dúvida, da estrutura atual, pelo menos no que concerne às grandes moedas. Para simplificar o estudo, suporemos que a zona-alvo é perfeitamente digna de crédito; o caso da “crise monetária” fica excluído, portanto, e nós nos limitaremos às situações “normais”. Para não complicar desnecessariamente a formulação do modelo, suporemos ainda que os limites dessas zonas são simétricos em torno do valor básico da taxa de câmbio e são idênticos para todos os países. Nessas condições, definem-se duas “volatilidades” das taxas de câmbio. A primeira refere-se a sua aceitação habitual e concerne à volatilidade de uma taxa de câmbio em torno de seu valor estacionário (“volatilidade individual”). A importância dessa volatilidade decorre da natureza do processo estocástico que afeta a dinâmica do valor básico da taxa de câmbio e dos parâmetros do processo de filtração que o transforma na dinâmica da taxa de câmbio efetiva. Como é de praxe, suporemos que a marcha aleatória pode ser representada por um processo browniano, indicado por v, e que a dinâmica da taxa de câmbio (indicada por s) é dada por v e pelas expectativas. Ou seja, com uma representação logarítmica linear (Krugman, 1991): $$ INTRODUZIR FÓRMULAS (1) E (2) DA P. 19, A SEGUNDA PRECEDIDA PELA PALAVRA “COM” O valor f é o valor básico, na ausência de choques aleatórios. Podemos considerar, por exemplo, que f = m, onde m é a oferta de moeda nacional, ou f = m.m* com s como taxa de câmbio, cotada ao acaso em relação a uma grande moeda de referência e m* a massa monetária do país que emite essa moeda. As inovações introduzidas em relação a essa notação padronizada são as seguintes: 1) Considera-se que γ não é uma constante, mas depende da “velocidade de rotação

dos capitais”; quanto mais elevada é essa rotação, mais a taxa de câmbio deve ser considerada como uma reação às expectativas; em outras palavras, presume-se que o efeito ligado às expectativas depende apenas das operações de capital, o que é uma hipótese perfeitamente razoável; por conseguinte, γ = γ(k), onde k é a velocidade de rotação dos capitais,

e γ’>0 e γ ≥ 0; 0 = γ(1) e γ>0 para k>1. Esta última condição exprime a hipótese anteriormente explicitada, ou seja, a de que quando k=1, isto é, quando os movimentos internacionais de capital são apenas projeções passivas dos desequilíbrios de base na balança, não há operações de capital ligadas a uma lógica de transferências e as expectativas não desempenham papel algum nos mercados cambiais. 2) Passemos da “volatilidade individual” da taxa de câmbio para a “volatilidade

estrutural” do conjunto do SMI, considerando o desvio padrão das dinâmicas das taxas de câmbio, ou seja, σs. Ao normalizar convenientemente as taxas de câmbio, a média de todas elas torna-se nula. Uma vez que a curva em S, solução de (1) na hipótese (2) (tendo A como valor do limite), é correspondente a $$ INTRODUZIR ÚLTIMA FÓRMULA DA P. 19, PRECEDENDO A SEGUNDA PARTE DA PALAVRA “COM” obtém-se, nas hipóteses de simetria entre todas as dinâmicas de câmbio e para n países (portanto, n-1 taxas de câmbio expressas em relação a uma enésima moeda): $$ INTRODUZIR PRIMEIRA FÓRMULA DA P. 20 O desenvolvimento dá: [INTRODUZIR SEGUNDA FÓRMULA DA P. 20], com {INTRODUZIR TERCEIRA FÓRMULA DA P. 20] Em virtude de γ = γ (k) ser uma função crescente de k, σs é uma função decrescente de k. No plano k.σs, a função k é uma hipérbole que tem como assíntotas B, no eixo dos σs, e 1, no eixo dos k. A relação k = M(σs) define o que poderíamos chamar de uma macro-relação de ajuste monetário que vai de k a σs. Ela pode ser interpretada da seguinte maneira: quando k aumenta, o capital circula por um número maior de vezes e as taxas de câmbio são mais reativas às expectativas de mudança. Assim, com uma dada flutuação aleatória, com determinadas políticas monetárias e fundamentos dados e com determinados limites das zonas-alvo, as taxas de câmbio atingem mais lentamente os pisos ou os tetos e, portanto, são mais estáveis. Essa propriedade é o resultado do modelo de uma zona-alvo digna de credibilidade. Havendo credibilidade da zona-alvo, a probabilidade de intervenção é reforçada à medida que a taxa de câmbio se aproxima de seu piso ou seu teto e, portanto,

repercute automaticamente na apreciação ou depreciação esperada, o que estabiliza a taxa de câmbio (efeito “lua de mel”). Como uma zona-alvo com perfeita credibilidade é estabilizadora (as expectativas tornam a taxa de câmbio mais estável do que a base), o aumento da reatividade às expectativas, que resulta do aumento da velocidade de rotação dos capitais, age exatamente no mesmo sentido, ou seja, é um fator de estabilização. 3.1.2. O modelo do SFI O SFI faz transitarem nos mercados de câmbio três tipos de fluxo: as operações à vista, as operações a termo e o exercício de opções. Os fluxos C que transitam pelos mercados de câmbio excluem, por definição, as trocas de divisas, assim como as opções contratadas mas não exercidas. Devemos considerar que esses três tipos de fluxo são tão mais importantes quanto mais elevada é a volatilidade da estrutura das taxas de câmbio. Portanto, para um K fixo, o aumento de C deve traduzir-se num aumento da velocidade k. De fato, quanto maior é a volatilidade entre as moedas, mais existe uma subscrição de contratos a termo que se distanciam da média esperada. Quer se trate de operações com cobertura ou sem cobertura (“especulação”), o aumento da volatilidade age no mesmo sentido  o de um aumento dos volumes subscritos e, portanto, de um aumento da velocidade de rotação dos capitais segundo as hipóteses de nosso modelo, no qual a quantidade global de capital é fixa. O mesmo acontece com o exercício das opções. Quando a volatilidade é acentuada, as expectativas levam a uma variedade igualmente acentuada dos preços do exercício de opções, fator de aumento dos volumes de opções exercidas no momento do fim da opção (abaixo ou acima do preço de exercício). Nas operações à vista, as compras também são ativadas pelo aumento da volatilidade, em razão dos riscos previstos. A descrição completa do modelo exigiria que formalizássemos os três tipos de fluxo, o que seria uma exploração inútil em termos das necessidades da demonstração. Consideremos a existência de uma função F crescente: k = F (σs). Sem perder a generalidade, é razoável supormos que os operadores sejam sensíveis ao risco crescente, e portanto, que a segunda derivada dessa função seja negativa. Sabemos que o valor mínimo de k é 1; trata-se, pois, de produzir o modelo de k acima de 1, isto é, de fazer uma representação da sensibilidade de k à volatilidade. Uma especificação simples consiste em considerar uma função potencial de elasticidade constante α. Considere-se a função F, na hipótese de uma aversão crescente ao risco 0 < α < 1:

$$ INTRODUZIR FÓRMULA (4) DA P. 21 3.1.3. O modelo de análise As funções M e F definem, por si mesmas, os valores de equilíbrio ... e ... . A obtenção desse equilíbrio resulta de um processo dinâmico, uma vez que a função M associa a um determinado valor de k um σs, enquanto a função F determina um valor de k para um σs. O Gráfico 3 representa o equilíbrio e a dinâmica nos casos em que o processo é convergente. Gráfico 3 Determinação conjunta da velocidade de rotação dos capitais e da volatilidade estrutural das moedas $$ INTRODUZIR FIGURA DA P. 21 O processo dinâmico é: $$ INTRODUZIR FÓRMULA DA P. 22 Em outras palavras, é o SMI que produz a volatilidade para um dado valor da velocidade de rotação dos capitais fornecido pelo SFI; inversamente, é o SFI que produz a velocidade de rotação dos capitais para uma volatilidade dada pelo SMI. Cada sistema determina seu valor característico, mas os dois são sistemas subdeterminados (para k>1) e abertos um para o outro. É evidente que o conjunto formado pelo SMI e pelo SFI constitui um sistema de interdependência, e que a “estabilidade” de um subsistema (SMI ou SFI) implica a “estabilidade” do outro. No modelo, a convergência para os valores de equilíbrio de k e σs exige que se confirme uma condição nas respectivas inclinações das duas curvas. De maneira intuitiva, podemos dizer que a estabilidade do equilíbrio melhora quando a velocidade de rotação do capital é pouco sensível à volatilidade (α relativamente pequeno) e quando, inversamente, na curva M, a volatilidade é muito sensível à velocidade de rotação (por exemplo, quando γ é relativamente grande). Sendo o efeito financeiro relativamente desestabilizador, enquanto o efeito monetário é relativamente estabilizador, a convergência para o equilíbrio exige que o primeiro efeito não prevaleça sobre o segundo. Produz-se um processo divergente quando a mobilidade do capital é muito intensamente sensível às variações da

volatilidade das taxas de câmbio, nos casos em que, por seu lado, o efeito estabilizador da mobilidade do capital na volatilidade (o efeito monetário) é pequeno. Assim, as reformas que visam à “estabilização”, quando o sistema é divergente, devem contribuir para diminuir a sensibilidade dos movimentos de capital à volatilidade e para aumentar a sensibilidade da hierarquia das taxas de câmbio aos movimentos de capital. Deste ponto em diante, consideraremos que os parâmetros são tais que o sistema é convergente, para nos limitarmos aos problemas que consistem em atuar sobre os valores de equilíbrio ... e ... . 3.2. Ensinamentos do modelo para a análise dos impactos Inicialmente, consideraremos o problema em termos formais, antes de contemplar a avaliação das propostas existentes. 3.2.1. A assimetria dos efeitos É fácil constatar, com a ajuda do gráfico anterior, que os efeitos dos deslocamentos de funções e das mudanças de inclinação não são simétricos, quando consideramos as ações na curva M ou na curva F. Atribuamo-nos como objetivo, por exemplo, diminuir o valor de equilíbrio da “volatilidade” do SMI. Esse resultado pode ser obtido de duas maneiras. Pode ser obtido por um deslocamento da função M para baixo. Nesse caso, a redução da volatilidade é simultaneamente acompanhada por uma diminuição do valor de equilíbrio da velocidade de rotação do capital. Os meios que podem ser mobilizados para esse fim são descritos pela equação (3): pode-se tratar de uma diminuição plausível dos limites (redução de A), ou de uma diminuição do número de moedas presentes, ou ainda, de uma medida que vise a um valor menor das taxas básicas ou uma estabilização maior da variância da perturbação (diminuição da abcissa B da assíntota). A redução da volatilidade do sistema também pode ser obtida por uma ação na curva F, ou seja, através de uma segunda série de recursos. A curva F apóia-se no valor 1 e, por conseguinte, as únicas possibilidades de modificação concernem às mudanças de inclinação. O objetivo da diminuição da volatilidade pode ser atingindo aumentando-se a inclinação da F, o que significa uma ação no sentido do aumento da sensibilidade da velocidade de rotação dos capitais à volatilidade. Observe-se que as mudanças referentes ao SFI têm efeitos contrários em relação às mudanças no SMI:

as modificações que visam a diminuir a volatilidade levam a um valor mais alto de

equilíbrio da velocidade de rotação dos capitais; as medidas centradas na esfera financeira implicam, pois, um aumento dos capitais que circulam pelos mercados de câmbio, diversamente das ações centradas no sistema monetário;  o lucro obtido em relação ao valor de equilíbrio pode ter uma contrapartida

negativa, em termos da dinâmica, pois é possível que o equilíbrio se torne instável. Um aumento da sensibilidade dos capitais à volatilidade (aumento da inclinação de F), com efeito, é um fator capaz de desestabilizar uma dinâmica até então estável. Assim, os impactos são ambíguos, sobretudo se considerarmos as propostas de reforma que têm o efeito de modificar simultaneamente as duas curvas. 3.2.2. Classificação dos impactos das propostas As propostas existentes têm como efeito, principalmente, agir sobre dois dados do modelo: o limite A da função M, pois, em geral, elas resultam numa mudança do rendimento esperado dos capitais, e o valor α da inclinação da função F, pois elas modificam simultaneamente, em geral, a sensibilidade dos movimentos de capital à volatilidade, ou seja, o parâmetro de risco. Consideremos, primeiramente, os efeitos macroglobais de um imposto Tobin. Este leva a que se atue simultaneamente na curva M e na curva F. A princípio, o imposto tem o efeito de fechar os limites A da zona-alvo, diminuindo o rendimento esperado das aplicações de capital, como vimos anteriormente. Portanto, ele desloca a curva M para a esquerda, o que parece funcionar no sentido de reduzir a volatilidade cambial e frear os movimentos internacionais de capital. Mas, ao diminuir o risco, ele diminui ao mesmo tempo a sensibilidade dos movimentos de capital à volatilidade, isto é, a inclinação da função F, o que atua no sentido de uma freada dos movimentos de capital e fortalece o efeito monetário, mas funciona, inversamente, no sentido de um aumento da volatilidade das taxas de câmbio. Por conseguinte, se o efeito macroglobal de um imposto Tobin é, incontestavelmente, permitir uma diminuição da velocidade de rotação dos capitais, sua implicação na volatilidade é ambígua. A implementação de um imposto Tobin pode perfeitamente levar a aumentar a volatilidade do SMI, ou, em outras palavras, falhar em seu objetivo principal, caso esse objetivo seja estabilizar as variações cambiais.

Esse efeito perverso é fácil de interpretar: o imposto Tobin pode ter o efeito de diminuir demais a sensibilidade ao risco e, portanto, paradoxalmente, aumentar a volatilidade das taxas de câmbio, na medida em que estamos supondo que os movimentos de capital são intrinsecamente redutores da volatilidade, por força de sua intensidade. Tabela 5 Avaliação das implicações macroeconômicas Efeito em → Curva M Curva F Rotação de equilíbrio dos capitais Diminuição Diminuição Volatilidade de Condições de equilíbrio das estabilidade do equilíbrio taxas de câmbio Efeito ambíguo Efeito favorável Efeito ambíguo Efeito favorável

Medidas propostas ↓ Imposto Deslocamento proporcional para a esquerda (Tobin) Depósito não Deslocamento remunerado para a esquerda (Eichengreen/ Wyplosz) Taxa básica + Inalterada ou imposto com progressivo deslocamento (Spahn) muito pequeno Manutenção das Torna-se a taxas de câmbio vertical da (Grieve Smith) abcissa B Teto da dívida Inalterada por país (Soros) Teto dos Inalterada compromissos bancários (Eichengreen, Wyplosz e Tobin, Sachs, Aglietta) Reforço do Deslocamento quadro prepara a esquerda ventivo e regulamentar (Instituto de Finanças Internacionais, Tesouro e Reserva Federal dos EUA, Fundo Monetá-

Redução da inclinação Redução da inclinação Redução acentuada da inclinação Inalterada Redução da inclinação Indeterminada

Diminuição

Aumento

Efeito favorável

Diminuição Diminuição

Diminuição Aumento

Efeito favorável Efeito favorável Efeito indeterminado

Indeterminada Indeterminada

Redução da inclinação

Diminuição

Indeterminada

Efeito favorável

rio Internacional) Todavia, nota-se que, do ponto de vista dinâmico, um imposto Tobin continua a se prestar a reforçar as condições de estabilidade do equilíbrio, pois diminui a inclinação da função F, em troca de uma inclinação inalterada da função M. As implicações das outras propostas são fáceis de apreciar, à luz dos seguintes critérios: o efeito sobre os valores de equilíbrio e o efeito nas condições de estabilidade desse equilíbrio. A tabela abaixo permite classificar as implicações associadas às propostas constantes da Tabela 4. Para destacar as implicações contrastantes das diferentes propostas existentes, procuramos, na Tabela 5, levar ao extremo a lógica que caracteriza cada uma delas. CONCLUSÃO A análise precedente procurou mostrar que a instabilidade dos mercados de câmbio e dos mercados financeiros não exprime, necessariamente, um excesso de liquidez internacional, como se costuma supor. Se essa análise estivesse certa, ela significaria que qualquer estratégia destinada a restringir o nível das massas de capital falharia inelutavelmente em seu objetivo principal, que é o de agir sobre as velocidades de rotação. No modelo anterior, quisemos demonstrar a formação da velocidade de rotação internacional dos capitais, partindo da idéia de que essa velocidade não podia ser determinada nem no interior do sistema monetário internacional nem tampouco apenas no sistema financeiro internacional. Num contexto de análise da interdependência monetária e financeira, mostramos que a velocidade de rotação dos capitais não era indeterminada e podia estabilizar-se num “valor de equilíbrio”. Nesse mesmo quadro de análise, foi possível avaliar as implicações dos diferentes projetos de reforma do sistema financeiro internacional. Essa avaliação evidencia a necessidade de especificar os objetivos visados por tais reformas, a fim de aquilatar sua eficácia. Sob esse ponto de vista, consideramos algumas propostas gerais, mostrando que sua aplicação poderia ter efeitos contrastantes sobre a velocidade de rotação dos capitais e sobre a volatilidade das taxas de câmbio, bem como sobre as condições de estabilidade dos valores de equilíbrio. Alguns projetos traduzem-se, ao mesmo tempo, numa diminuição dos valores de equilíbrio da rotação e da volatilidade, ao passo que outros se traduzem numa troca entre a rotação e a volatilidade.

Visto por esse prisma, o artigo apresenta um primeiro arcabouço. A hierarquização exata dos méritos e inconvenientes comparativos dos diferentes projetos e a escolha de uma reforma apropriada implicariam ir mais adiante, com a ajuda de estudos teóricos e econométricos muito mais aprofundados. De qualquer modo, fica bastante claro que as escolhas e a hierarquização não são uma questão de doutrina que oponha uma filosofia “liberal preventiva” a uma filosofia “intervencionista coercitiva”. Cremos ter mostrado, ao contrário, que o debate pode ser analiticamente formulado, levando em conta as interações dinâmicas entre o sistema monetário internacional e o sistema financeiro internacional.

Anexo I Volatilidade das taxas de câmbio nominais1 (Médias anuais em %) País Bélgica Holanda França Dinamarca Espanha Alemanha Canadá Itália Suécia Estados Unidos Reino Unido Japão Austrália 19832-96 2,5 2,8 2,9 3,0 3,3 3,4 3,5 3,7 3,9 4,7 5,2 6,4 7,5 1993-94 3,0 2,6 2,8 3,2 4,6 3,7 4,4 5,4 6,8 4,2 4,9 7,2 8,0 1995-96 2,6 3,0 3,0 2,7 3,1 3,9 4,1 6,3 5,6 3,8 4,3 7,4 7,1

Fonte: Banco de Compensações Internacionais 1 A volatilidade é medida como o desvio padrão anual das alterações percentuais diárias das taxas de câmbio nominais efetivas, calculadas ao longo de um mês. As taxas de câmbio nominais efetivas baseiam-se nos fluxos de comércio de produtos manufaturados entre 25 países. 2 Outubro a dezembro.

Anexo 2 Evolução dos regimes cambiais Critérios de classificação1 Moeda cuja taxa é estabelecida em relação: ao dólar (EUA) ao franco francês Ao rublo russo a uma outra moeda ao DTS a um conjunto de outras moedas Regime com flexibilidade limitada em relação a uma única moeda Mecanismo de cooperação monetária Regime de ajuste da taxa de câmbio em função de um conjunto de indicadores Regime de flutuação dirigida Regime de flutuação independente Total: 27 29 156 23 44 167 29 56 175 33 58 178 44 54 180 45 52 181 48 51 181 5 3 4 3 2 2 4 10 4 9 4 9 4 10 4 10 4 12 4 12 24 14 4 6 33 24 14 6 6 5 29 21 14 8 4 26 23 14 8 4 21 22 14 8 3 19 21 14 9 2 20 21 15 5 11 2 17 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997

Fonte: Fundo Monetário Internacional. 1 No caso dos países que instituíram mercados de câmbio duplos ou múltiplos, o regime cambial indicado é o que está em vigor no mercado principal.

Anexo 3 Condições de estabilidade na especificação aceita

O processo é: [INTRODUZIR PRIMEIRA FÓRMULA DA P. 28 DO ORIGINAL].

O processo converge para um valor de equilíbrio quando: [INTRODUZIR SEGUNDA FÓRMULA DA P. 28 DO ORIGINAL].

com µ, a derivada de (3) em relação a k, ou seja: [INTRODUZIR TERCEIRA FÓRMULA DA P. 28 DO ORIGINAL]. Como µ é negativo e F’ é positivo, o produto µF’ é sempre negativo. A condição de estabilidade impõe apenas que o produto seja superior a -1, isto é, que: [INTRODUZIR QUARTA FÓRMULA DA P. 28 DO ORIGINAL].

Anexo 4 Principais iniciativas conjuntas dos bancos centrais: nível micropreventivo  Ano Campo Resumo  1975 Atividades bancárias transnacionais “Concordata” de Basiléia. Define os princípios diretores da distribuição das responsabilidades entre as autoridades do país de origem e do país hospedeiro no controle dos estabelecimentos bancários no exterior. 1983 Atividades bancárias transnacionais Revisão da “Concordata”. Introduz o princípio do controle

consolidado. Reforça o acordo inicial, de maneira a preencher as lacunas que possam resultar de um controle inadequado dos centros financeiros ou de estruturas específicas das companhias controladoras.

1988 Adequação do capital próprio Acordo de Basiléia sobre o capital próprio. Pretende assegurar uma convergência internacional da medida e das normas do capital próprio. Trata explicitamente apenas do risco do crédito. Define: (a) os elementos aceitos do capital próprio; (b) as diferentes ponderações de risco aplicáveis a várias grandes categorias de riscos de balanço e extra-balanço; (c) a proporção global mínima de 8% do ativo para o capital próprio, ponderada em relação ao risco, sendo pelo menos 4% para o núcleo (categoria 1) do capital próprio; a definição dos componentes do núcleo é plenamente harmonizada. 1990 Relações entre as autoridades Troca de controle de informações dos entre autoridades financeiros. controladoras Acordo sobre e a

interventores

mercados

necessidade de eliminação progressiva dos obstáculos à troca preventiva de informações entre as diferentes categorias de autoridades de controle. Examina os meios de facilitar o fluxo das

informações. 1992 Atividades bancárias transnacionais Normas mínimas para o controle dos grupos bancários internacionais e seus estabelecimentos no exterior. Reforça a Concordata de Basiléia, introduzindo normas mínimas acerca de alguns de seus aspectos, sobretudo sob a forma de condições destinadas a impedir a implantação, no estrangeiro, de

estabelecimentos bancários não submetidos a um controle efetivo consolidado, ou pertencentes a conglomerados obscuros. 1994 Instrumentos derivativos Diretrizes para a gestão dos riscos ligados aos instrumentos derivativos (relatório conjunto com a OICV). Define diretrizes para as autoridades controladoras e as organizações bancárias, no intuito de promover uma gestão interna sadia dos riscos ligados às atividades dos bancos com instrumentos derivativos; reúne os métodos utilizados pelos grandes bancos internacionais.

(Documento complementado, em 1995, por um Esquema de informações preventivas acerca das operações com instrumentos derivativos dos bancos e financeiras.) 1995 Instrumentos derivativos/ negociações Difusão de informações sobre as atividades de negociação e os instrumentos derivativos dos bancos e empresas financeiras (documento elaborado em conjunto com o OICV). Proporciona uma visão global das práticas em matéria de disseminação de informações e formula recomendações para aperfeiçoá-la; sublinha a necessidade da transmissão de informações suficientes para que se possa avaliar o caráter adequado dos sistemas de gestão dos riscos (com base num relatório de 1995 [ver o item anterior] e em alguns dos conceitos analisados num documento de trabalho de 1994 do Comitê Permanente de Euromoedas [bancos centrais do G-10], intitulado Public disclosure of market and credit risks by financial intermediaries [Revelação pública dos riscos de mercado

e de crédito pelos agentes financeiros], ou “Relatório Fischer”. 1995 Relações entre as autoridades Supervisão dos conglomerados financeiros. Relatório do Grupo controladoras Tripartite (informal) de autoridades controladoras dos bancos, empresas de investimento e companhias de seguros; examina alguns aspectos da supervisão e formula diversas recomendações para aprimorar as práticas de prevenção. 1996 Adequação do capital próprio Emenda ao acordo sobre o capital próprio, a fim de estendê-lo aos riscos de mercado. Estabelece normas mínimas sobre o capital próprio em relação aos riscos de mercado (os resultantes das flutuações das taxas de juros e dos preços das ações  somente carteira de negócios , bem como dos movimentos cambiais e dos preços das matérias-primas). Considera duas possibilidades: (a) método padronizado, baseado num dispositivo comum de mensuração dos riscos; (b) abordagem pautada nos modelos nacionais, que permite aos bancos utilizá-los para calcular o risco, desde que sejam observados alguns critérios qualitativos e quantitativos e de que sejam atendidos alguns controles ex post. 1996 Adequação do capital próprio Multilateral netting of forward value foreign exchange transactions [compensação multilateral de transações a termo em moeda estrangeira]. Emenda ao acordo de 1988 sobre o capital próprio, que entrou em vigor no fim de 1995 e estendeu o reconhecimento dos sistemas de compensação bilateral (como mecanismos destinados a reduzir a exposição aos riscos de crédito) a todos os que fossem considerados eficazes nos termos das leis

correspondentes, e que estivessem em conformidade com as normas mínimas definidas no Relatório Lamfalussy. O novo documento forneceu diretrizes sobre a determinação das

exigências de capital próprio no caso dos sistemas de compensação multilateral.

1996 Atividades bancárias transnacionais

Supervisão das atividades bancárias transnacionais. Relatório conjuntamente elaborado com o Grupo Offshore das autoridades de controle bancário, contendo 29 recomendações destinadas a reduzir os obstáculos a uma supervisão eficaz das atividades bancárias transnacionais.

1997 Risco da taxa de juros

Princípios para a gestão do risco da taxa de juros. Documento submetido a exame, formulando 12 princípios que permitem avaliar o caráter adequado da gestão do risco da taxa de juros pelos bancos.

1997 Princípios fundamentais

Princípios fundamentais para um controle bancário eficaz. Documento submetido a exame, estabelecendo 25 princípios preventivos que abrangem os seguintes campos: precondições de um controle bancário eficaz; credenciamento e estrutura dos estabelecimentos; regulamentação e exigências preventivas; métodos de controle bancário permanente; exigências em matéria de informação; poderes institucionais das autoridades

controladoras; atividades bancárias transnacionais. Destinado a servir de referência para as autoridades encarregadas da prevenção e outras dos diferentes países, bem como em escala internacional.  Fonte: Banco de Compensações Internacionais.

Anexo 5 Principais iniciativas conjuntas dos bancos centrais: nível macropreventivo  Ano Campo Resumo  1990 Compensação interbancária Relatório do Comitê sobre os sistemas de compensação interbancária dos bancos centrais dos países do Grupo dos Dez (Relatório Lamfalussy). Recomenda uma série de normas mínimas para o funcionamento dos sistemas transnacionais de compensação  divisas múltiplas  e define os princípios de um acompanhamento conjunto pelos bancos centrais. Sublinha a necessidade de uma base jurídica sólida e de mecanismos bem estruturados para a gestão dos riscos do crédito e da liquidez. Esses sistemas devem permitir, no mínimo, assegurar o pagamento no prazo previsto (dia a dia), caso o participante que apresenta a posição devedora líquida mais elevada fique impossibilitado de saldar seus compromissos. Esse é um documento de referência para todos os sistemas posteriores de compensação multilateral, inclusive os dispositivos de caráter exclusivamente nacional (com base num relatório de 1989). 1992 Pagamento de operações com Entrega contra pagamento nos sistemas de compensação de títulos títulos (G-10). Define e analisa os tipos e fontes de riscos associados ao pagamento de títulos entre participantes de um mesmo sistema. (Complementado, em 1995, por um relatório sobre os pagamentos transnacionais de títulos.)

1993 Sistemas de pagamento de grandes somas

Minimum common features for domestic payment systems (UE) [Características mínimas comuns para os sistemas de pagamento

nacionais (UE)]. Estabelece normas mínimas para os sistemas de transferência de grandes somas e recomenda a adoção, o mais cedo possível, de um sistema de pagamento bruto em tempo real (PBTR), para o qual deve ser direcionado o máximo desses pagamentos. Seguindo essa óptica, o IME lançou, em 1994, um projeto que pretende ligar os sistemas de PBTR nacionais (TARGET), complementado, em 1995, por um relatório detalhado. 1994 Moeda eletrônica Report on prepaid cards (UE) [Relatório sobre cartões previamente pagos (UE)]. Analisa essa nova técnica de pagamento e recomenda que somente os estabelecimentos de crédito (bancos) sejam autorizados a emitir cartões previamente pagos para utilização múltipla. 1996 Pagamento de operações cambiais Risco de pagamento nas operações de câmbio (G-10). Fornece uma definição clara do risco de pagamento nas operações cambiais, um método para medi-lo e uma estratégia para reduzi-lo. Esta última incentiva, em especial, as iniciativas dos

estabelecimentos, grupos profissionais e bancos centrais. 1996 Mercados de derivativos Proposal for improving global derivatives market statistics (G-10) [Proposta de aperfeiçoamento das estatísticas de mercado dos derivativos globais (G-10)]. Estabelece uma proposta minuciosa para a compilação e publicação periódicas (a cada seis meses) de estatísticas sobre os instrumentos derivativos pulverizados (dá continuidade a um relatório de 1995). 1996 Moeda eletrônica Implications for central banks of the development of electronic money (BRI) [Implicações do desenvolvimento da moeda eletrônica para os bancos centrais (BRI)]. Analisa os aspectos que apresentam interesse especial para os bancos centrais no que concerne à política a ser adotada, sobretudo para aqueles que estão ligados ao acompanhamento dos sistemas de pagamento, à

cunhagem de moedas, à política monetária e à regulamentação e controle dos bancos. 1997 Pagamento de operações com Disclosure framework for securities settlement systems (G-10 & títulos OICV) [Estrutura de divulgação de sistemas de pagamento de títulos (G-10 e OICV)]. Estimula a transparência no

funcionamento dos sistemas de pagamento de títulos, a fim de que os participantes possam compreender melhor seus direitos, obrigações e riscos. 1997 Sistemas de transferência de pagamentos de grandes somas 1997 Pagamento de operações com Clearing arrangements for exchange-traded derivatives (G-10) instrumentos derivativos [Acordos de compensação para derivativos vinculados ao câmbio (G-10)]. Descreve a estrutura dos acordos de compensação existentes e identifica os pontos fracos potenciais, tais como: insuficiência de recursos dos órgãos de compensação, em caso de falência de algum participante em conseqüência de flutuações acentuadas nos preços; falta de controles em tempo real sobre as posições dos membros; recurso a acordos de pagamento que não assegurem a quitação diária no prazo prescrito.  Fonte: Banco de Compensações Internacionais Sistemas de pagamentos brutos em tempo real (G-10). Trata da concepção desses sistemas e dos riscos que eles comportam.

A economia brasileira no Século XIX.
No início do século XIX, as autoridades das capitanias não tinham autonomia de ação administrativa, ainda eram subordinadas à autoridade do vice-rei , que cuidavam da ordem na colônia e dos interesses portugueses aqui estabelecidos. Os vice-reis eram responsáveis pelo correto envio da riqueza produzida no “Brasil colônia” para Portugal. Depois da vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil, em 1808, o Brasil fora elevado à Reino Unido de Portugal e Algarves, oficialmente em 1815. Analisando os aspectos econômicos do Brasil na época, percebemos um profundo atraso e estado de deploração. A agricultura no Brasil, ainda utilizava os mesmos mecanismos do século XVI, no início do século XIX, houve grande queda da atividade canavieira, do algodão e do tabaco. A pecuária estava concentrada em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, produzindo laticínios e charque, respectivamente. A mineração no início do século XIX, atingiu o seu mais baixo rendimento em virtude do esgotamento das jazidas brasileiras. No Brasil, não havia desenvolvimento industrial, pois a atividade era proibida desde 1785. O comércio, antes da abertura dos portos, era restrito ao monopólio da Metrópole. A atividade de transportes dependia de péssimas estradas que encareciam os produtos. Um dos fatores que incentivaram a vinda da Família Real ao Brasil, o Tratado de Fontainebleau, que estabelecia a divisão das colônias portuguesas entre França e Espanha, apressou a decisão de Dom João. A vinda da Família garantiu a instalação da indústria no Brasil e o acesso inglês ao mercado consumidor brasileiro, fortalecendo o comércio da colônia. Um grande número de firmas inglesas se estabeleceram no Brasil para difundir o consumo de artigos provindos da Inglaterra.

A EVOLUÇÃO DA ECONOMIA NA REPÚBLICA VELHA

A segunda metade do século XIX representou um período de grande transformação econômica da história brasileira. Esta transformação foi conseqüência da abolição do tráfico africano, ocorrida ainda no Brasil Imperial, após 1850, mas seus efeitos se fizeram sentir ao longo de toda a segunda metade do Século XIX, desencadeando um período de franca prosperidade e larga ativação da vida econômica do país, mas boa parte dos empreendimentos que se fez foi apenas resultado da especulação, estimulada pela liberação de capitais que antes eram utilizados no tráfico negreiro e também pela inflação de crédito e grandes emissões de papel-moeda. Inegavelmente, porém, podia se constatar que o país entrava numa fase antes desconhecida, em relação às atividades financeiras, surgindo um capitalismo, embora incipiente e foi na agricultura que se observaram os maiores crescimentos da produção brasileira, tendo seu ponto forte na lavoura do café do Rio de Janeiro, que contou com uma base financeira e de crédito, além de um aparelhamento comercial que permitiu considerável expansão. O período da Guerra do Paraguai, entre 1865 e 1870, serviu para comprometer as finanças do Brasil, porque o país teve que arcar com grandes gastos que causaram algum desequilíbrio financeiro que levaram o Império a ter dificuldades para equilibrar seus orçamentos. Os males foram agravados pelos empréstimos, principalmente externos, feitos durante a guerra, fazendo com que o Império se extinguisse vinte anos depois sem ter podido restabelecer a ordem financeira. Apesar disto, o progresso material do Brasil, já iniciado antes do conflito retomou o seu curso logo depois, num ritmo rápido e seguro. Os decênios de 70 e 80 foram de grande prosperidade para o país, mostrando capacidade de recuperação de um organismo econômico em pleno crescimento. O surto de atividades iniciado em 1850 não se interrompeu e já se podia observar a concentração de capitais de certo vulto, provenientes da agricultura, cuja prosperidade foi notável. Neste período também teve início a substituição do trabalho escravo por trabalhadores livres, que mobilizou os capitais antes investidos na propriedade humana.

Por outro lado a vida financeira do país aparelhou-se com a multiplicação de bancos, de empresas financeiras, de companhias de seguro, de negócios da bolsa, que permitiram captar e mobilizar em escala significativa as fontes de acumulação capitalista. A antiga colônia se modernizou com o esforço para sincronizar sua atividade com o mundo capitalista contemporâneo, mas os grandes empreendimentos industriais, indispensáveis para a realização de qualquer atividade posterior, estavam ainda abaixo das possibilidades do capital privado local que apenas dava seus primeiros passos, desta forma o capital estrangeiro, principalmente o inglês desempenhou um importante papel. O Império, quando em 1889 se extinguiu deixou coberta uma ampla e importante etapa da evolução econômica do país, que foi recebida pela República. O aparelhamento técnico havia se desenvolvido bastante, as estradas de ferro, que tiveram início em 1852 já somavam uma expressiva extensão, a navegação a vapor se estendera largamente através de linhas internacionais e uma bem feita articulação ao longo do litoral brasileiro desde o Pará até o Rio Grande do Sul, prolongando-se pelo Rio da Prata e pela bacia dos rios Paraná e Paraguai até Mato Grosso, não deixando de alcançar também o Amazonas. O Império deixou também desenvolvida uma rede telegráfica de quase 1000 km de linhas, articulando-se por todas as capitais e cidades mais importantes do país, isto sem contar com os cabos submarinos que ligavam o Brasil a diferentes partes da Europa e América. Juntava-se a isto o relativo progresso industrial, das manufaturas têxteis em particular nas vizinhanças das fontes de matéria-prima, o algodão. A energia para as indústrias que se concentravam no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e alguns centros do Nordeste, como Pernambuco e Bahia, era ainda um problema secundário. A questão de mão-de-obra nos maiores centros, onde a indústria se localizava, foi resolvida a baixo custo com uma população livre, mas pobre, porque para a indústria nascente o trabalho escravo se mostrou completamente ineficaz. Mas, a indústria brasileira estava apenas no começo e ainda tinha um longo caminho para percorrer antes de sair de sua mediocridade e teria que lutar com dificuldades que limitaram consideravelmente seus horizontes. Este painel apesar de todas as transformações se manteria porque faltava o que a moderna indústria fabril e mecanizada exigia como fundamental: um mercado amplo e em contínua expansão, que exigia condições sociais e econômicas que a grande massa da população brasileira não podia oferecer.

A economia brasileira estava assim presa num círculo vicioso que somente transformações futuras de vulto poderiam livrar: ela estava completamente dominada por uma atividade produtiva baseada no trabalho escravo e voltada inteiramente para uns poucos gêneros agrícolas destinados à exportação. Este fato se de um lado representava a riqueza do Brasil, por outro lado era a causa de suas limitações, porque estava restrita ao monopólio de um produto muito procurado nos mercados internacionais: o café, complementado apenas pela borracha, pelo açúcar e pelo cacau. Desta forma o Brasil tinha uma base econômica muito precária, dependente de uma conjuntura de incertezas que estava fora de seu controle e isto viria a ser demonstrado de forma dolorosa. Graças ao café esta fase foi marcada pela expansão da economia e das finanças públicas que apesar dos déficits constantes podia fazer frente às necessidades administrativas e realizar algumas obras de vulto; até a moeda sempre tão precária, se fortaleceu e dava à Monarquia certa estabilidade; o crédito brasileiro no exterior era sólido, o que assegurava aplicações de capitais estrangeiros, sobretudo em empréstimos públicos. Havia assim certo equilíbrio da economia, mas, esta situação embora sendo conveniente para o momento presente, representava um saque ilimitado sobre o futuro. O que impediu a ocorrência de problemas mais graves foi a coincidência entre os déficits crônicos das finanças públicas e a contínua expansão da economia do país, que de modo geral tinha numerário suficiente e as emissões não degeneravam em inflação. Mas pode-se dizer que o Brasil sob o Império não gozou, em nenhum momento de estabilidade e segurança financeira, e a instabilidade não permitiu a consolidação da vida econômica e social, o que seria fonte de problemas para o futuro. Uma importante contradição da evolução econômica nesta fase foi a questão do trabalho. A decadência da escravidão, representada pela redução contínua da massa escrava e a crise crônica da mão-de-obra, fazia com que o colapso do sistema produtivo fosse previsto e isto se refletia em largas agitações políticas no Parlamento, na imprensa, nas acirradas polêmicas da época, havia quem achasse que a abolição da escravidão decretaria o fim da economia da grande lavoura porque seria impossível conviver com o trabalho livre e assalariado substituindo a escravidão. Mas não foi isto que aconteceu, porque a lavoura do café continuou a se desenvolver sob o regime do

trabalho livre de imigrantes europeus, mas não se pode dizer que a adaptação tenha sido de fácil realização. Outro ponto que deve ser considerado foi a grande modificação do equilíbrio demográfico e geo-econômico do país na segunda metade do século XIX. Primeiramente porque a decadência de uma região densamente povoada desde a colônia, como a do Nordeste e seu empobrecimento, resultaram em correntes demográficas fortes e constantes, que partiam em demanda de regiões com melhores perspectivas de vida. e a grande seca de 1877-80 acelerou o processo e despovoou o interior nordestino do Ceará até a Bahia. As regiões que a população buscava eram sobretudo: o vale amazônico por causa da borracha; o sul da Bahia pelo cacau e finalmente São Paulo o grande pólo em crescimento. Outro fator importante e fundamental para o futuro foi a colonização estrangeira no extremo sul do país, particularmente o Rio Grande do Sul. Nesta região não existia a grande lavoura e o imigrante não se fixou como assalariado, mas encontrou facilidades para estabelecer pequenas propriedades e assim nesta região, ao invés de grande lavoura do tipo do café, açúcar ou algodão que produziam para o comércio exterior, surgiram pequenas culturas e outras atividades de caráter local, destinadas ao abastecimento interno do país. O Endividamento Externo e o "Saneamento" Financeiro Toda a transformação política e administrativa operada na história das finanças brasileiras, não poderia se estabilizar e normalizar sem anos de lutas e agitações, do Império unitário, o Brasil passou bruscamente com a República para uma federação largamente descentralizada que entregou às antigas Províncias, então Estados, uma considerável autonomia administrativa, financeira e até política. Não demorou muito para que o país entrasse em forte crise financeira, derivada das emissões incontroláveis e arbitrárias provenientes do Império, que se fazia sempre que havia falta de meio circulante suficiente. O Império chegou a autorizar a emissão de moeda por bancos particulares. A desorganização não permitia que fosse mantida uma política de emissões que permitisse o equilíbrio entre o volume monetário e as

necessidades financeiras, as emissões eram realizadas por medidas de emergência, sem qualquer controle. O grande progresso das atividades econômicas ainda aumentava mais a necessidade de emissões de moeda e no primeiro momento da República a arrecadação normal de tributos foi impactada pela transferência, para os Estados, de alguns tributos, com grande desfalque para as finanças nacionais e enquanto diminuía a receita, crescia consideravelmente os encargos com as insurreições armadas e golpes que se sucederam após 1891. Às emissões se associou um momento de grande especulação financeira, devido ao surgimento de grande número de novas empresas principalmente indústrias. A maioria dessas novas empresas, no entanto, eram fantasmas e não tinha existência senão no papel, organizadas para permitir a emissão de ações que eram despejadas no mercado de títulos, com o único propósito de obter valorizações sucessivas. Esta abertura de indústrias foi estimulada pelo governo positivista de Floriano Peixoto. Em fins de 1891 estourou a crise e se desmanchou o falso castelo levantado pela especulação. De um momento para outro despencou o valor da enxurrada de títulos que abarrotava a bolsa e o mercado financeiro. A débâcle arrastou muitas instituições de bases mais sólidas, mas que não resistiram à crise e as falências se multiplicaram, o ano de 1892 foi de quebradeira e liquidação e em conseqüência de desemprego. Paralelamente a situação deficitária da balança de pagamentos estava se agravando e tudo isto se refletia nos centros financeiros do exterior, determinando a suspensão de remessas de novos capitais para o Brasil e mais ainda a liquidação apressada de todas suas disponibilidades. O mercado externo passou a não investir no Brasil devido a instabilidade reinante e o resultado foi a queda do câmbio e uma rápida desvalorização da moeda nacional que não tinha lastro em ouro. A situação ainda foi agravada pela ação das finanças internacionais que conseguiram penetrar cada vez mais profundamente na vida econômica do país, conquistando fortes e sólidas posições no terreno da maior riqueza do país, o comércio do café, que passou daí por diante a ser estreitamente controlado em função dos seus interesses.

Todas as dificuldades somadas deram na crise e bancarrota de 1898. As falências se multiplicaram, o Tesouro não pode mais fazer frente a seus compromissos e o Brasil declarou falência: "Funding Load" que foi a moratória dos credores externos declarada no governo de Campos Sales quando era Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho, que implantou uma política econômica ortodoxa, de liberalismo, na qual o Estado não deveria influir na economia. Os compromissos externos passaram a ser os mais importantes nas finanças do país. Com o "Funding Load" as dívidas brasileiras foram unidas numa só e o Brasil conseguiu um prazo de três anos para o pagamento dos juros, enquanto que o principal só voltaria a ser amortizado em 1911. A suspensão dos pagamentos regularizou de imediato a situação do Tesouro Público e aliviou o mercado de câmbio fortalecendo a moeda cuja desvalorização chegou a proporções consideráveis. Nesta fase foram vendidas empresas, navios de guerra e até a alfândega foi hipotecada. O ajuste financeiro foi obtido, mas sob o ponto de vista social ele foi um desastre. O acordo resolveu a angustiosa situação financeira do país, o Tesouro Público bem como o mercado cambial foram desafogados, foi reencontrada a confiança perdida no descalabro dos anos anteriores e foi possível iniciar uma política enérgica de restauração, condição, aliás, imposta pelos credores e que obrigou o país a sacrifícios consideráveis. As despesas públicas foram cortadas com grande prejuízo para a administração e os impostos foram aumentados. Os grandes beneficiários das reformas de 1898 foram sem dúvida as finanças internacionais e o London & River Plate Bank foi quem ficou com a incumbência de monitorar o acordo. Campos Sales cumpriu o estabelecido e a situação financeira do Brasil pode encontrar alguma estabilidade, com o investimentos retornando ao país, cujas portas se abriram nas mais vantajosas aplicações. Os ajustes permitiram não somente o restabelecimento do equilíbrio das contas externas do país, mas a obtenção de um saldo que tornou possível o aparelhamento material e a sensível ascensão dos padrões da vida nacional, ajudada também pelo incremento da produção e das exportações, que permitiram efetuar os pagamentos ao exterior, tanto na remuneração dos capitais estrangeiros aqui invertidos, como nas importações maciças de bens e serviços que começaram a transformar a vida do país.

Naquele momento o Brasil e a República precisavam dar ao mundo uma imagem de país civilizado. O país se modernizou e a cidade do Rio de Janeiro, no governo de Rodrigues Alves, tendo como Prefeito Pereira Passos passou por grande transformação: o porto foi modificado e foi construída uma malha viária que abriu a Avenida Central, atual Rio Branco e modificou todo o seu centro, transformando a capital numa cidade limpa, arejada e moderna. Como parte dos investimentos da época começou a se expandir as linhas de trem para os subúrbios: Central do Brasil e a Leopoldina e também as linhas de bonde para a Zona Sul. Botafogo passou a ser o bairro mais "chic" da cidade. A situação folgada do comércio internacional e o aumento das inversões de capital estrangeiro permitiram que o Brasil equilibrasse sua vida financeira e consolidasse sua posição econômica. Mas este progresso não representou um efetivo e real passo para o progresso, todas as mudanças executadas representaram um aprofundamento na dependência do Brasil, com a vitória de um projeto de República Conservadora que Lima Barreto chamaria ironicamente de "República dos Conselheiros", título proveniente do Império. O progresso se deu dentro dos quadros tradicionais da economia brasileira sem modificações estruturais, mas apenas ajustando a um novo ritmo de crescimento, a estrutura fundamental do país que continuou a ser um produtor de uns poucos gêneros de grande expressão no comércio internacional baseando-se na organização herdada do passado: a grande propriedade e exploração fundiária. O país havia abolido a escravidão e transformado o regime de trabalho com a imigração estrangeira, havia rompido com os quadros conservadores da Monarquia, havia eclodido um novo espírito de negócios e especulação mercantil e havia acentuado e consolidado o domínio das finanças internacionais na vida econômica do país, mas tudo isto não deixou de representar passos preliminares e preparatórios para preparar a nação para se ajustar ao equilíbrio mundial moderno, mas mantendo o lugar de semicolônia no círculo internacional do imperialismo financeiro. A inserção do Brasil na nova ordem internacional se deu como o grande produtor de café.

O Apogeu de um Sistema

Os anos do primeiro decênio do Século XX representaram o apogeu da economia voltada para a produção extensiva e em larga escala, de matérias-primas e gêneros tropicais destinados à exportação. Para isto contribuíram, fatores externos como o grande aumento do comércio internacional, fruto do considerável desenvolvimento da população norte-americana e européia, como conseqüência da industrialização associada ao aperfeiçoamento técnico dos sistemas de transporte e do tráfico mercantil e financeiro, fazendo com que fossem aumentados os mercados, para os produtos de países como o Brasil. Nesta situação fatores internos também foram favoráveis para aumentar as possibilidades no terreno econômico, foi solucionado o problema da mão-de-obra, de um lado com a remoção do obstáculo para o desenvolvimento do trabalho livre; do outro, pela imigração subvencionada facilitada pelo superpovoamento de várias regiões da Europa, desta forma canalizando para o Brasil uma forte e regular corrente de trabalhadores. Este fluxo de imigrantes só foi possível graças ao aperfeiçoamento técnico da navegação e também ao próprio desenvolvimento econômico do país que contou com o progresso da técnica moderna que permitiu o acentuado desenvolvimento da produção brasileira, que pode utilizar uma maquinaria adequada e a energia necessária para acioná-la, bem como os transportes ferroviários e marítimos indispensáveis para a movimentação através de grandes distâncias, dos volumes imensos da produção agrícola. No terreno econômico pode-se observar a eclosão de um espírito que se não era novo, se mantivera na sombra ou em plano secundário no Império: a ânsia de enriquecimento, de prosperidade material que na Monarquia não era tido como um ideal legítimo e plenamente reconhecido. O novo regime fez despontar o homem de negócios, isto é, o indivíduo inteiramente voltado para o objetivo de enriquecer. A transformação foi tão brusca que classes e indivíduos dos mais representativos da Monarquia, antes ocupados unicamente com política e funções similares, que no máximo se preocupavam com suas propriedades rurais, se tornaram ativos especuladores e negocistas, com o total consentimento de todos.

As atividades brasileiras foram estimuladas por finanças internacionais mais multiformes e ativas que as inversões esporádicas de capital que antes se fazia, mas que passaram a ter participação efetiva, constante e crescente em diversos setores que ofereciam oportunidades de bons negócios. A produção cafeeira, a grande atividade econômica do país, foi naturalmente atingida e em torno dela se travou uma luta internacional, boa parte dos fundos necessários ao estabelecimento das plantações e custeio da produção foi proveniente dos bancos ingleses e franceses, ou então de casas exportadoras estrangeiras ou financiadas com capitais estrangeiros. O Brasil tornou-se neste momento um dos grandes produtores mundiais de matérias-primas e gêneros tropicais e ao café foi acrescentada na lista dos grandes produtos exportáveis, a borracha, que chegou quase a emparelhar-se a ele, o cacau, o mate, o fumo. A produção de gêneros de consumo interno, no entanto, diminuiu e se tornou cada vez mais insuficiente para as necessidades do país obrigando a importar do estrangeiro a maior parte até dos mais vulgares artigos de alimentação. As exportações maciças compensavam estas grandes e indispensáveis importações levando os saldos comerciais a patamares apreciáveis. Para atender aos compromissos e em reforço aos saldos comerciais, eram necessárias inversões de capitais estrangeiros e empréstimos públicos. Não era mais apenas o Governo Central que recorria ao crédito estrangeiro, os Estados, tornados autônomos pela República, dele se utilizavam largamente e as simples municipalidades seguiam o exemplo. A grande concentração de produção em poucos gêneros exportáveis, como base do crescimento das atividades do país, não levava a uma situação de estabilidade econômica, porque estava assentada em frágeis alicerces muito dependentes dos mercados internacionais e por isto bastante vulnerável. No caso do café, já ao final da primeira década do Século XX, se faziam sentir algumas perturbações sérias como: superprodução, queda de preços, dificuldade de escoamento da produção; mas o maior problema ocorreu com a borracha, que depois de 1910 teve que enfrentar a concorrência do Oriente e perdeu mercado. Em escala menor, situação semelhante aconteceu com o cacau.

O fator de instabilidade se manifestou também em relação à mão-de-obra, porque a introdução do trabalho livre teve que conviver com algumas dificuldades de adaptação: o trabalhador livre não se encontrava preso ao empregador e por isto não necessitava suportar passivamente a exploração de seu trabalho, podia buscar uma situação que lhe fosse mais favorável em outro lugar. Para forçar o trabalhador a permanecer no local se difundiu no Brasil o esquema de pagar salários reduzidos e vender por preços elevados os gêneros necessários ao seu sustento, mantendo os trabalhadores sempre endividados e impossibilitados de deixar o trabalho. O baixo nível cultural da massa trabalhadora do país, tão recentemente saída da escravidão facilitou o manejo arbitrário das contas, sempre em prejuízo do empregado. Com o tempo os obstáculos que foram criados para impedir a livre circulação dos trabalhadores não garantiram a sua estabilidade e o Brasil veio a conhecer, em lugar da atitude passiva do antigo escravo, a luta permanente por direitos e reivindicações que afetava muito seriamente a normalidade das relações de trabalho, os atritos eram intensificados porque os fazendeiros em geral acostumados com o regime servil tiveram grandes dificuldades para lidar com trabalhadores livres. Em São Paulo, principal centro da imigração estrangeira, a administração pública teve a iniciativa de adotar medidas de proteção ao trabalhador rural contra excessos de seus patrões, para não comprometer o bom nome do país e garantir a continuidade das correntes imigratórias necessárias à prosperidade. Foram criados aparelhos judiciários e administrativos para zelar pelo cumprimento dos contratos de trabalho por parte dos proprietários. Assim teve início a substituição da grande pela pequena propriedade, que foi uma ferramenta importante para o Brasil para remodelar a sua estrutura econômica e dar início a uma nova base para o desenvolvimento de suas forças produtivas. Desta forma, pode se ver que foi sob a ação de fatores contraditórios que evoluiu a economia brasileira: por um lado ocorreu um desenvolvimento do sistema da propriedade agrária, que teve seu máximo de expressão com o largo incremento de umas poucas atividades de grande vulto econômico e a exclusão de tudo o mais e de outro, os resultados, deste mesmo desenvolvimento comprometeram e destruíram a estrutura econômica tradicional do país: a grande propriedade agrária.

A Economia Cafeeira Nos primeiros anos da República houve uma expansão da economia cafeeira, principalmente em São Paulo, que passou a ser o principal produtor desbancando o Rio de Janeiro. Assim, o número de cafezais duplicou na década de 90 do Século XIX, enquanto o volume de produção triplicava no mesmo período. O fator decisivo que permitiu o aumento da lavoura cafeeira foi sem dúvida a imigração européia que forneceu os braços necessários para o trabalho.(1)

Para Celso Furtado as razões do Brasil se transformar no maior produtor de café, ao final do século XIX, foram: a oferta dos concorrentes estarem atravessando uma séria de dificuldades; estar resolvido o problema da mão-de-obra, porque com a descentralização, a imigração passou a ser feita pelos Estados, principalmente São Paulo; o crédito fácil permitiu a obtenção de recursos para financiar a abertura de novas terras e elevou os preços do produto em moeda nacional com a depreciação cambial.

Os empresários de economias exportadoras de matérias-primas, ao realizarem suas inversões, tinham de escolher entre um número limitado de mercadorias e no caso do Brasil, na época era o café, portanto era inevitável que a oferta do café crescesse, não só por causa da procura, mas por causa da mão-de-obra disponível e da quantidade de terras sub-ocupadas. O Brasil chegou a possuir 75% do mercado mundial, numa situação de quase monopólio. Por isto podia manipular os preços através da oferta, criando uma situação conveniente para o país, porém de fragilidade porque qualquer oscilação do mercado afetava profundamente a economia brasileira. A primeira crise derivada de fatores externos ocorreu com a queda dos preços internacionais em 1893. Os efeitos desta crise foram absorvidos devido a depreciação externa da moeda, que permitiu aos cafeicultores não terem prejuízos porque a moeda brasileira era desvalorizada e eles continuavam a receber o mesmo apesar da queda dos preços externos, numa situação chamada por Celso Furtado de "socialização dos prejuízos", porque toda a sociedade pagava para que os produtores não tivessem perdas.

Esta situação manteve-se até 1897, quando o governo não conseguiu mais aplicar a política de depreciação da moeda devido a situação de extrema pressão sobre os consumidores urbanos, gerando instabilidade, neste momento teve então início a Política de Valorização do Café. A crise econômica do Brasil em 1896 fez com que os bancos privados fossem proibidos de emitir, o crédito foi severamente reduzido e os investimentos e despesas públicas em geral bastante limitadas, mas estas medidas não foram suficientes para conter a crise. Em 1898 foi necessária a renegociação da dívida pública e o acordo feito com os credores externos limitou bastante a autonomia financeira da nação e o controle do comércio do café passou a ficar nas mãos dos agentes internacionais. Apesar de sofrer pressões, o Governo Federal resistiu em aceitar um papel ativo na defesa do setor cafeeiro, temendo neutralizar os esforços para solucionar a crise financeira resultante da expansão creditícia desregrada dos primórdios da República e também porque era contrário à filosofia liberal que pregava que o mercado deveria regular-se por sim mesmo. Política de Valorização do Café

Em 1905 foi vencido o argumento liberalista e o Congresso autorizou o Governo a estabelecer acordos com os Estados produtores de café para regular o comércio, promover a elevação de preços e estabelecer agências de propaganda do café no exterior. Em 1906, os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro se reuniram e assinaram o Convênio de Taubaté que estabelecia uma nova política para o café. Ficava estabelecido com o Convênio que: o Governo compraria os excedentes de café, com o objetivo de equilibrar a oferta e a procura; o financiamento para a compra dos excedentes se faria com empréstimos externos; deveria ser criado um novo imposto a ser cobrado sobre cada saca de café exportado, a ser paga pelo exportador; seriam estabelecidas políticas estaduais de desestímulo à produção, para resolver o problema em longo prazo, mas estas políticas nunca foram estabelecidas. A descentralização republicana havia reforçado o poder dos plantadores de café a nível regional e os empréstimos pedidos foram feitos pelos governos dos Estados

produtores, principalmente São Paulo, sem a interferência do Governo Federal. Só depois de a primeira valorização ser feita com sucesso o Governo Federal entrou no esquema. Em 1908 foi solicitado ao Governo Federal levantar um empréstimo no mercado internacional para levar à frente o plano de intervenção e muito embora tenham ocorrido protestos contra os sacrifícios impostos a toda a nação para garantir os lucros dos produtores de café, estas vozes não se fizeram ouvir num Congresso firmemente vinculado aos interesses dos cafeicultores e os empréstimos foram feitos. O êxito da solicitação de financiamento para o café, consolidou a vitória dos cafeicultores, que puderam por mais de um quarto de século impor sua política ao Governo Federal, porque ela permaneceu até 1929 e determinou que as fronteiras do café fossem expandidas pelo interior de São Paulo, montando uma bomba de efeito retardado. Entre 1925 e 1929 a produção de café aumentou 100%, mas as exportações mantiveram-se estabilizadas e a retenção da oferta mantinha os preços elevados no mercado internacional. Em 1929 o Brasil estava numa situação em que os estoques poderiam abastecer o mundo por três anos. O erro da política residiu no fato de se desconsiderar as características de uma atividade econômica de natureza tipicamente colonial. O equilíbrio entre a oferta e a procura era obtido: na procura quando se atingia a saturação do mercado e do lado da oferta quando se ocupavam os fatores de produção – a mão-de-obra e as terras disponíveis; nestas condições era inevitável, que a longo prazo, os preços sofressem queda e mantê-lo elevado fazia com que o desequilíbrio se aprofundasse cada vez mais. Com a crise mundial o Brasil ficou numa situação bastante vulnerável, existia um desequilíbrio estrutural entre a oferta e a procura e era óbvio que os estoques não poderiam ser utilizados economicamente num futuro previsível, com a crise terminaram os financiamentos externos, não permitindo mais que os excedentes fossem comprados e desta forma teve fim a Política de Valorização do Café. A partir de 1930, o Governo passou a comprar o café mais ao invés de estocar, ele era destruído. Era impossível deixar o café apodrecer nos cafezais porque o próprio

Governo e outros empreendedores necessitavam do café e todos seriam prejudicados, assim como toda a economia brasileira. O mal menor era comprar o café, porque colocava a economia em ação, ela mantinha ser ritmo, evitando-se o desemprego e o aumento da recessão. Quando o governo destruía o café estava estabilizando o preço que não caía a nível catastrófico, os recursos utilizados para a compra eram internos, de início emitindo moeda, que gerava inflação, depois deslocando recursos de outras áreas. Foi o que aconteceu entre 1930 e 34, fazendo com que o Brasil se recuperasse da crise mundial antes mesmo do que os Estados Unidos. O desequilíbrio setorial, representado pela longa duração de cerca de um século de preponderância do café, gerou condições para a industrialização, para a concentração demografia e para a urbanização da Região Sudeste, em particular de São Paulo. Desde então, entre o Sudeste e as demais regiões brasileiras, as disparidades se aprofundaram, à medida que a industrialização prosperava e mesmo na Região Sudeste o desenvolvimento não foi uniforme, os outros Estados não conseguiram acompanhar São Paulo e ficaram em posição secundária. Mesmo o Rio de Janeiro, apesar de sua importância como Capital perdeu para São Paulo sua supremacia. Os outros Estados, também se beneficiaram da industrialização, mas de forma precária e em um momento posterior.

A crise de 1929 e as décadas de trinta e quarenta
A década de 1930 foi um marco na história econômica e política do Brasil. Em decorrência da Grande Depressão da economia mundial, precipitada a partir da quebra da bolsa de valores de Nova Iorque, em 1929, o modelo econômico vigente, baseado na exportação de bens primários, entrou em colapso. Os cafeicultores perderam poder político e a economia transformou-se. Gradualmente, o país agrário foi dando lugar a uma sociedade de base urbano-industrial. É bem verdade que o processo brasileiro de industrialização não começou nos anos 1930. A indústria nacional começou a ter alguma importância econômica a partir do final do século XIX, mas é a partir de 1930 que esse processo se intensificou. A industrialização brasileira deu-se por meio de substituição de importações, ou seja, passamos a produzir domesticamente bens que anteriormente vinham do exterior. Pela sua menor complexidade, o país começou produzindo bens de consumo não duráveis e, posteriormente, passou a produzir também bens duráveis e bens de capital.

1. A QUEBRA DA BOLSA E A GRANDE DEPRESSÃO
As economias capitalistas parecem ser intrinsecamente instáveis. De acordo com a teoria dos ciclos econômicos, períodos de expansão dos investimentos, da produção e do consumo intercalam-se com períodos em que essas mesmas variáveis se contraem. O intervalo entre uma expansão e uma crise costuma variar entre sete e dez anos. Existem registros de várias crises econômicas ao longo da história do capitalismo. A Primeira Grande Depressão ocorreu entre 1873 e 1896; a Segunda Grande Depressão, que normalmente as pessoas chamam apenas de Grande Depressão, ocorreu entre 1929 e 1933. A crise de 1930 começou com a formação de uma “bolha especulativa” no mercado de ações. Bolha especulativa é um termo muito utilizado por analistas de mercados financeiros. O crash ocorrido na bolsa de Nova Iorque, em outubro de 1929, é, sem dúvida, a bolha especulativa mais famosa da história. Vejamos como tudo aconteceu. A economia norte-americana apresentava uma forte expansão na década de 1920, em conseqüência

houve um substancial aumento dos lucros das empresas daquele país. Logicamente, todos queriam aproveitar esse momento favorável e lucrar também, por isso muitos resolveram comprar ações. O crescimento brutal da demanda fez aumentar os preços desses ativos, formou-se, então, uma bolha. Em um determinado momento, várias pessoas perceberam que os preços estavam exageradamente elevados e resolveram sair do mercado. Essa saída, entretanto, não se deu de forma suave, muito pelo contrário, foi uma corrida para vender rapidamente os papéis antes que desvalorizassem. Os profissionais de mercado costumam chamar esse fenômeno de “efeito manada”. Como conseqüência, os preços desabaram e a bolha estourou. A quebra da bolsa foi o estopim de uma grande crise que afetou praticamente todos os países do mundo, exceto a União Soviética. Somente nos Estados Unidos, a crise gerou 85 mil falências e 15 milhões de desempregados. O comércio internacional também foi bastante afetado com a crise. Estimase que a sua redução tenha sido de dois terços nessa mesma época.

2. A RUPTURA DO MODELO PRIMÁRIO-EXPORTADOR
Conforme já dissemos, a década de 1930 foi um ponto de inflexão da economia brasileira. Até 1930, o Brasil era um típico exemplo de economia primário-exportadora, ou seja, o país era um mero fornecedor de produtos primários dos mercados internacionais. Entre os produtos exportados pelo Brasil, estavam: borracha, cacau, açúcar, tabaco, algodão, erva-mate e, logicamente, o café. A indústria era bastante incipiente e os produtos industrializados eram, em sua maioria, importados. Com a crise mundial, houve redução drástica das exportações brasileiras e, conseqüentemente, falência desse modelo. Gradualmente, nossa economia foi se diversificando, substituindo importações e voltando-se, cada vez mais, para o mercado interno. A crise mundial reduziu, drasticamente, as exportações de todos os produtos brasileiros, mas, como nossa economia era altamente dependente das exportações de café, a crise se manifestou com mais intensidade nesse setor. Desde o final do século XIX, o Brasil vinha sofrendo os efeitos de uma superprodução. O café era uma atividade altamente rentável, logo o lucro proporcionado pelas exportações do produto era convertido na produção de mais café. Como o Brasil detinha aproximadamente 75% da oferta mundial, isso acabou gerando excesso de produção e queda no preço. A Grande Depressão simplesmente precipitou o colapso inevitável desse modelo. Com a crise, o governo brasileiro adotou a controvertida

política de compra e posterior destruição da produção excedente de café. É verdade que a política de retenção de estoques começou a partir do Convênio de Taubaté, em 1906. Mas, com a crise, o governo passou a não somente comprar a produção excedente, mas também a destruí-la. Essa política aparentemente absurda continha uma lógica do ponto de vista econômico, primeiramente porque, ao reduzir a oferta, impediu que os preços caíssem a patamares ainda mais baixos. Em segundo lugar, porque gerou um aumento na renda que atenuou os efeitos da crise no país.

3. A REVOLUÇÃO DE 1930
As transformações decorrentes da crise do setor exportador não ficaram restritas à economia, atingiram também a esfera política. Os produtores de café perderam o poder para uma classe industrial ascendente. Todavia, não foi somente isso. Pode-se dizer que um Estado Oligárquico (onde poucos detinham o poder de fato) deu lugar a um Estado Populista (voltado para as massas urbanas). Vejamos como isso aconteceu. O aparente liberalismo político e econômico da Primeira República, marcada pela ampla autonomia dos Estados, pelo voto universal e não obrigatório e pelo liberalismo comercial, era, de fato, um engodo. O Estado brasileiro era atrasado, rural, oligárquico e patrimonialista. As eleições eram marcadas por fraudes que garantiam uma alternância entre presidentes paulistas e mineiros, por isso chamada de política do “café-com-leite”. A base dessa estrutura de dominação era o grande proprietário de terras, conhecido como “coronel”. Como o voto era a descoberto (não secreto), as populações rurais eram praticamente obrigadas a votar em quem o “coronel” determinasse, prática política que ficou conhecida como “voto de cabresto”. Se isso ainda não fosse suficiente para garantir a escolha do candidato “certo”, as eleições eram simplesmente fraudadas. A moralização do processo eleitoral brasileiro era uma antiga reivindicação de alguns setores da sociedade, principalmente dos trabalhadores urbanos que se sentiam totalmente alijados do sistema de representação. A mudança desse sistema foi uma bandeira empunhada também pelo movimento tenentista na década de 1920, cujo lema era “representação e justiça”. Não foi por acaso que os principais integrantes desse movimento apoiaram a Revolução de 1930.

A eclosão do movimento revolucionário deu-se a partir de uma crise política gerada durante a sucessão à Presidência da República. O Presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, era o sucessor natural do Presidente Washington Luís, de acordo com os arranjos instituídos a partir da política do café-com-leite. Washington Luis insistia, no entanto, em lançar, como candidato oficial, o político paulista, Júlio Prestes. Os políticos mineiros, logicamente, sentiram-se traídos, fizeram acordos com oligarquias rurais de outros estados e outras forças políticas que resultaram na criação da Aliança Liberal e no lançamento, como candidato à Presidência da República e adversário de Prestes, o Presidente do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas. Os esquemas políticos de voto de cabresto e fraudes eleitorais garantiram a vitória do candidato de São Paulo. Todavia, os derrotados não aceitaram o resultado das urnas e resolveram buscar por meio das armas o que não foi possível por meio do voto. No dia 03 de outubro de 1930, começaram as operações militares que conduziriam em pouco mais de vinte dias os revolucionários ao poder.

4. O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA
Conforme já foi dito, a crise de 1930 foi um momento de ruptura da economia brasileira. Vejamos, com mais detalhes, como a Grande Depressão funcionou como estímulo positivo ao processo de industrialização do país. Com a crise, houve redução na capacidade de importar do país. Como resultado, fomos obrigados a substituir importações e expandir a produção industrial. Mais precisamente, essa expansão entre 1929 e 1937 foi de 50%. Pela primeira vez na nossa história, o mercado consumidor interno passou a ser um fator preponderante na dinâmica da economia nacional. Convém ressaltar, no entanto, que o processo de substituição de importações continha certos limites e contradições. Por exemplo, ao substituir importações, gerava-se, simultaneamente, necessidade de novas importações. Vejamos como isso acontecia. A primeira indústria a ser implantada no Brasil, pela sua complexidade inferior, foi a de bens de consumo não duráveis, como têxteis, chapéus, círios, cigarros, cerveja etc. Todavia, essa indústria gerava uma demanda, até então inexistente, por bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens intermediários (matéria-prima), que não eram produzidos no país e que, por isso, teriam de ser importados.

Um outro problema dessa primeira etapa da industrialização por substituição de importações estava na sua incapacidade de acumular capital autonomamente. Para ampliar a capacidade de produção, o país dependia da importação de bens de capital do exterior, ou seja, havia, no Brasil, um problema de “industrialização restringida”, que só seria resolvido após a implementação do Plano de Metas, durante o governo do Presidente Juscelino Kubitschek, na década de 1950. Vejamos dois momentos diferentes da nossa história que ilustram bem esse segundo problema. Durante a Primeira Guerra Mundial, a redução de importações gerou um aumento da produção industrial brasileira. Porém, essa expansão se deu meramente por redução de capacidade ociosa. O Brasil não tinha como expandir sua capacidade produtiva, pois não dispunha de uma indústria de bens de capital. Da mesma forma, houve, também, durante a crise de 1930, um aumento da produção industrial, mas desta vez acompanhada de um aumento da capacidade produtiva. O país ainda não possuía uma indústria de bens de capital, porém, com as falências geradas pela Grande Depressão, foi possível comprar máquinas usadas no exterior por preços relativamente baixos, ou seja, nos dois casos, o país não tinha autonomia no processo de acumulação de capital.

A década dos cinquenta

Getúlio Vargas governou “provisoriamente” o Brasil de 1930 até 1934, quando foi eleito presidente por uma Assembléia Constituinte. Seu mandato deveria durar até 1938, mas, em 1937, Vargas lidera um golpe militar, dissolve o Parlamento e nomeia interventores nos Estados. Tem início então a fase ditatorial do seu governo conhecida como Estado Novo, que se estenderia até 1945. Com Vargas, há uma forte centralização do poder e o país assume um projeto desenvolvimentista, tendo o Estado como seu agente primordial. As dificuldades em atrair investimentos estrangeiros bem como a fragilidade do empresariado nacional, fazem o Estado assumir o papel de produtor direto. Nesse período, começa a implantação da indústria de base no país, com a criação da Companhia Siderúrgica Nacional (1941) e da Companhia Vale do Rio Doce (1943).

Com o final da Segunda Guerra, em 1945, há uma pressão pela redemocratização do país. Em 1945, é eleito presidente o general Eurico Gaspar Dutra. Sob o ponto de vista econômico, o fato mais marcante desse novo governo foi a implementação de uma política de controle cambial e de importações, decorrente de um problema de desequilíbrio do setor externo. O crescimento da produção industrial experimentado sobretudo nos primeiros anos do pós-guerra pode ser considerado uma decorrência dessa política de valorização cambial e seletividade nas importações.

Em 1951, Getúlio Vargas ocuparia novamente a Presidência da República, desta vez eleito pelo voto direto. Entre as suas principais realizações nesse segundo mandato, estão a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE)1 e da Petrobrás, respectivamente em 1952 e 1953. O desgaste político de Vargas começa em 1954, decorrente de uma polêmica proposta de aumento do salário mínimo em 100%. Essa proposta desagradou alguns setores da sociedade, que o acusavam de populista. Além disso, outros problemas de ordem econômica e denúncias de

corrupção no governo deixaram o presidente politicamente isolado. A oposição precisava apenas de um pretexto para depor o presidente. O atentado contra o deputado e virulento crítico do regime, Carlos Lacerda, serviu perfeitamente aos interesses dos oposicionistas. No dia 24 de agosto de 1954, ao saber, por meio de assessores que seria deposto, Vargas se mata com um tiro no peito. Com o suicídio de Vargas, assume o vice-presidente, Café Filho, que governou o país até a eleição de Juscelino Kubitschek.

OS “ANOS DOURADOS”
Juscelino assumiu o poder em 1956 e governou até 1960. O período JK normalmente costuma ser associado a uma espécie de “era de ouro” da história do país. Essa percepção coletiva de “anos dourados” extrapola o aspecto meramente econômico. O Brasil viveu neste período uma efervescência no campo das artes, da cultura e do esporte. É nessa época que surge a Bossa Nova, que o Brasil ganha a sua primeira Copa do Mundo e que é inaugurada a nova capital do país, de arquitetura arrojada e modernista.

TENTATIVAS DE PLANEJAMENTO NO BRASIL

Uma das marcas do governo Kubitschek foi a realização do Plano de Metas, a primeira tentativa bem sucedida de planejamento econômico no país. É bem verdade que o planejamento econômico era uma espécie de modismo em praticamente todo mundo após a Segunda Guerra. Vejamos como tudo começou. Em 1929, a antiga União Soviética pôs em prática o seu primeiro

plano qüinqüenal. Essa experiência extremamente exitosa fez a participação da produção industrial soviética em relação à produção mundial crescer de 5% para 18%, entre 1929 e 1938. Ao mesmo tempo em que a indústria se desenvolvia na União Soviética, o mundo capitalista vivia a maior crise de sua história, a Grande Depressão. Após a Segunda Guerra Mundial, com o advento da teoria keynesiana, que propunha uma intervenção maior do Estado na economia, o planejamento econômico ficou bastante popular também nos países capitalistas. No Brasil, a primeira tentativa de planejamento econômico ocorreu em 1947, durante o governo Dutra, com o Plano Salte, que previa investimentos nas áreas de saúde, alimentação, transporte e energia (daí o nome Salte). O plano não foi bem sucedido, na realidade, pode-se dizer que ele mal saiu do papel. A inexistência de formas definidas de financiamento pode ser considerada a principal razão do seu fracasso. Em 1951, durante o segundo governo Vargas, uma comissão formada por técnicos brasileiros e norte-americanos foi responsável pela segunda tentativa de planejamento no país. A partir dos problemas detectados pela Comissão Mista Brasil - Estados Unidos (CMBEU) seriam realizados diversos investimentos, financiados pelo Banco de Exportação e Importação dos Estados Unidos (Eximbank) e pelo Banco Mundial. Contudo, a eleição do candidato republicano, general Eisenhower, à presidência dos Estados Unidos, em 1952, abortaria essa segunda tentativa de planejamento. Com o acirramento da Guerra Fria, a prioridade do governo norte-americano passou a ser o combate ao comunismo. Logo ficou claro que o governo norte-americano não manteria os financiamentos dos projetos propostos pela Comissão Mista. Apesar desse revés, esse estudo teve grande importância, pois foi a partir dele que se detectou a necessidade de um banco de desenvolvimento no país e foi criado o BNDE, em 1952. A terceira tentativa ocorreu em 1953, também durante o governo Vargas, a partir da formação do Grupo Misto BNDE-Cepal. Essa equipe, formada por técnicos do BNDE e da Cepal - Comissão Econômica para a América Latina, órgão regional das Nações Unidas - levantou uma série de pontos de estrangulamento, relacionados sobretudo aos setores de transporte,

energia, alimentação, educação e indústria de base. Esse estudo é sem dúvida a base do Plano de Metas que seria implementado durante a gestão de Juscelino Kubitschek.

SOBRE O PLANO DE METAS
O Plano de Metas foi elaborado em 1956, pelo Conselho de Desenvolvimento, órgão diretamente subordinado ao Presidente da República, e começou a ser implantado no início de 1957. Cinco áreas foram priorizadas: transporte, energia, alimentação, educação e indústria de base No total, o plano continha 31 metas, entre elas estava a construção da nova capital federal, Brasília, que foi inaugurada no dia 21 de abril de 1960. De modo geral, costuma-se dizer que o plano foi bem sucedido, pois uma parte significativa das metas propostas foi atingida, conforme pode ser observado na tabela abaixo: Plano de Metas – Previsão e Resultados (1957-1961) Meta Energia Elétrica (mil quilowatts) Carvão (mil toneladas) Petróleo – produção (mil barris/dia) Petróleo – refino (mil barris/dia) Ferrovias (mil quilômetros) Rodovias – construção (mil quilômetros) Aço (mil toneladas) Cimento (mil toneladas) Carros e caminhões (mil unidades) Previsão 2.000 1.000 96 200 3 13 1100 1400 170 Realizado 1.650 230 75 52 1 17 650 870 133 % 82 23 76 26 32 138 60 62 78

Fonte: Banco do Brasil. Relatório e anuário estatístico, vários anos. Apud ABREU, Marcelo de Paiva. A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana, 1889/1989. Rio de Janeiro: Campus, 1990. O desenvolvimento industrial durante o período do Plano de Metas estava estruturado em um tripé, constituído por: empresas estatais, pelo capital privado nacional e pelo capital estrangeiro, sendo este último o agente

mais importante. As empresas multinacionais passaram a dominar os setores mais dinâmicos da economia brasileira, como bens de consumo duráveis e bens de capital. Por outro lado, a produção de bens não duráveis ficou a cargo das empresas privadas nacionais. É bastante clara a relação de subordinação do capital nacional em relação ao capital estrangeiro. Por vezes assistia-se a uma situação onde a atividade produtiva mais complexa era exercida por uma empresa estrangeira, enquanto as empresas privadas nacionais eram meras fornecedoras de insumos e componentes. O setor automobilístico é bom exemplo dessa situação. As empresas estrangeiras produziam os automóveis e as empresas nacionais forneciam autopeças. Os investimentos estrangeiros foram fundamentais para o sucesso do Plano de Metas. Mas quais razões levaram a esse aumento drástico da participação do capital estrangeiro no setor produtivo nacional nesse período? Sem dúvida, o nível de investimentos exigidos tornava inevitável a supremacia do capital estrangeiro, mas houve também um outro fator importante que merece ser analisado. A partir da segunda metade da década de 1950, há uma mudança na estratégia de investimento das grandes corporações internacionais. Terminada a Segunda Guerra, houve um grande esforço de reconstrução das economias mais atingidas, principalmente Europa e Japão. Em meados dos anos 1950, esse esforço já via sido praticamente concluído, começa então um movimento de transnacionalização dos investimentos na direção de outras regiões, inclusive áreas não desenvolvidas como a América Latina e o Brasil, mais especificamente. Cabe aqui fazer uma comparação entre o desenvolvimento industrial nos governos Vargas e JK. Conforme já foi visto na aula anterior, durante o período Vargas, o Estado foi o grande indutor do desenvolvimento industrial. Vargas criou várias estatais e ficou com pecha de nacionalista por conta dessa política. Por outro lado, durante a gestão JK, houve uma profunda internacionalização da produção industrial. Será que essa opção de Vargas pelo nacionalismo e de Kubitschek pelos investimentos estrangeiros tem alguma relação com o cenário externo? Na aula passada, chamamos a atenção para a importância do ambiente externo para se compreender a dinâmica da economia nacional. Não iremos aprofundar nessa discussão, mas é evidente que a opção pelo investimento público ou

pelo capital estrangeiro está condicionada a uma dinâmica internacional. Não era possível atrair investimentos estrangeiros durante o período Vargas, havia uma preocupação dos setores público e privado em reconstruir o que a guerra havia destruído e os movimentos de transnacionalização dos investimentos estrangeiros era algo ainda bastante incipiente. Essa situação muda radicalmente a partir da segunda metade dos anos 1950, durante o governo de JK. O modelo de desenvolvimento implementado durante o Plano de Metas, comportava uma certa contradição, de acordo com a análise de REGO & MARQUES (2005). Havia, nesse período, uma forte restrição às importações o que constituía uma reserva de mercado para a produção de vários bens. Essa política protecionista em relação ao comércio opunha-se a uma postura bastante liberal no que diz respeito aos investimentos estrangeiros. Não concordamos que haja aí uma contradição. Entendemos simplesmente que essa foi a estratégia de desenvolvimento adotado no período, restringir importações e incentivar os investimentos estrangeiros no setor produtivo. Entendemos que as críticas mais coerentes ao Plano de Metas dizem respeito ao impacto que este teve sobre a inflação e a distribuição de renda entre indivíduos e entre regiões. Vamos entender melhor essa questão. O financiamento dos gastos públicos se deu através da expansão dos meios de pagamento. Porém, em economia, infelizmente “não existe almoço grátis”, ou seja, tudo tem seu preço. Não é possível financiar investimentos sem nenhum custo, simplesmente emitindo moeda. Essa expansão dos meios de pagamento gerou inflação e, conforme ensina a teoria macroeconômica, a inflação tem um forte efeito concentrador de renda entre os indivíduos. A concentração se deu também entre regiões. Nesse período, já havia uma forte disparidade de renda sobretudo entre a região sudeste (a mais rica) e o nordeste (a região mais pobre). Os investimentos do Plano de Metas, todavia, concentraram-se principalmente na região sudeste, aprofundando ainda mais esse problema de desequilíbrio regional. Finalmente, falta comentar um outro aspecto importante do Plano de Metas. Com a implementação do plano, termina uma fase do processo

de industrialização por substituição de importações conhecido como “industrialização restringida”. Relembrando o que já vimos na aula anterior, o Brasil, até a década de 1950, não tinha condições de aumentar autonomamente a sua capacidade de produção. Não havia no Brasil uma indústria de bens de capital e bens intermediários, só através de importações era possível acumular capital. Com Vargas, começa a implantação da indústria de base no país, mas podemos dizer que, somente após os investimentos no setor de bens de capital ocorridos com o Plano de Metas, encerra-se esse ciclo e o país adquire a capacidade de “caminhar com as próprias pernas”.

A Crise Dos Anos 60
Os Governos Jânio Quadros E João Goulart
Em 1961, o ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, é eleito presidente e herda um conjunto de problemas macroeconômicos da gestão JK, tais como: aceleração inflacionária, déficit fiscal e pressão sobre o balanço de pagamentos. Para resolver essa questão, Quadros lança um pacote econômico ortodoxo, que incluía entre, outras medidas, a desvalorização cambial, a unificação da taxa de câmbio, a redução do gasto público e uma política monetária restritiva. Apesar de ter obtido apoio dos credores internacionais e do Fundo Monetário Nacional (FMI), Quadros não conseguiu levar adiante sua estratégia econômica. Proveniente do pequeno Partido Trabalhista Nacional (PTN), o presidente não conseguiu formar uma base de sustentação para o seu governo no Congresso Nacional, dominado pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e pelo Partido Social Democrático (PSD). Por fim, em agosto de 1961, após cumprir uma pequena fração do seu mandato, o presidente de hábitos excêntricos renuncia de forma tão enigmática quanto a sua própria personalidade.

De acordo com a Constituição da época, com a renúncia, o vice-presidente, João Goulart, que estava em viagem oficial pela China comunista, deveria assumir o poder. Considerado populista, de esquerda e muito ligado aos sindicatos, Goulart não era bem aceito pelos setores mais conservadores

da sociedade. Os opositores tentaram impedir a sua posse, o que faz surgir uma frente legalista, liderada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola (cunhado de João Goulart) exigindo a posse do vicepresidente. Visando reduzir a tensão política, o Congresso Nacional tenta uma medida conciliatória e aprova uma alteração do sistema de governo, de presidencialista para parlamentarista. O objetivo dessa mudança era diminuir os poderes do presidente. Em setembro de 1961, João Goulart toma posse sob um sistema parlamentarista de governo que, no entanto, não teria uma longa duração. O ato que estabeleceu o parlamentarismo no Brasil, previa a realização de um plebiscito em 1965, onde a população escolheria entre a manutenção do regime ou o retorno ao presidencialismo. Porém o presidente Goulart, sentindo-se tolhido em seus poderes, não queria esperar tanto e consegue antecipar a realização da consulta popular para 1963. No plebiscito, o presidencialismo sai amplamente vitorioso.

A Crise Econômica E O Plano Trienal
Apesar das tensões políticas, a economia brasileira foi relativamente bem até 1962. Em 1961, a taxa de crescimento foi de 8,6%, porém a inflação atingiu nesse mesmo ano 47,8%, frente a 30,5% no período anterior. Houve também, em 1961, uma redução da formação bruta de capital, o que denotava que o auge dos investimentos pesados característicos do processo de substituição de importações, já havia passado. Em 1962, frente à crescente deterioração do quadro econômico, o governo lança o Plano Trienal. O objetivo principal do plano era conciliar o combate à inflação com um crescimento econômico próximo a 7%. A equipe responsável pela elaboração do plano era liderada por Celso Furtado, que então ocupava a função de ministro extraordinário para assuntos do desenvolvimento econômico. A inflação foi diagnosticada como um problema de excesso de demanda. Como acontece nessas situações, optou-se por uma política de estabilização recessiva, baseada na contração monetária. Os resultados do plano foram bastante negativos. Em 1963, o crescimento foi de 0,6%, frente a uma taxa de 6,6% no ano anterior. Em julho de 1963, Celso Furtado deixa o governo.

A política recessiva adotada durante o Plano Trienal pode ter contribuído para a deterioração do quadro macroeconômico, mas a crise que estava começando a ganhar forma tinha na realidade um conjunto de causas variadas. Em 1961, a renúncia de Jânio precipitou uma crise política, reduzindo o nível de investimentos no país. Concomitantemente, havia na economia brasileira um problema de demanda reprimida decorrente da baixa renda per capita, da forte concentração da renda e da ausência de mecanismos de financiamento de longo prazo. Essa falta de demanda agregada gerava capacidade ociosa na indústria e aumento nos custos médios de produção. O agravamento da crise econômica aumenta cada vez mais o desgaste político do presidente João Goulart. O desfecho desse quadro é bem conhecido: o golpe militar de 1964, a interrupção do processo político democrático e o fim do populismo.

Ruptura Democrática E O Fim Do Populismo
Conforme dissemos na aula anterior, com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930, temos o fim do Estado Oligárquico (dominado por poucos) e o começo do Estado Populista. Entende-se por populismo um movimento político comum em países em desenvolvimento, sobretudo na América Latina. Suas características principais são o relacionamento direto de amplas massas populares com a cúpula do Estado e o surgimento do político carismático, que por vezes se coloca como defensor do povo. Na América Latina, o auge do populismo se deu com Vargas, no Brasil, e Perón, na Argentina. Mais recentemente, essa questão voltou ao centro do debate político, principalmente por conta da projeção internacional conquistada pelo presidente venezuelano Hugo Chaves. Políticos populistas podem por vezes adotar medidas econômicas sabidamente ruins com o objetivo de satisfazer os anseios da massa e obter apoio popular. Por exemplo, aumentos salariais superiores ao aumento da produtividade tendem a gerar inflação. Como se sabe, os segmentos de menor renda são os mais atingidos pela inflação e isso acaba tendo um efeito concentrador de renda. Logo, conclui-se que, se o objetivo é redistribuir melhor a renda, essa é uma péssima medida econômica e que

deveria logicamente ser evitada. Mas por vezes o político populista age exatamente dessa maneira, simplesmente para agradar seus eleitores. Quando algo semelhante a isso acontece, diz-se que está sendo posta em prática a pior versão do populismo, o chamado “populismo econômico”. Os militares que assumiram o poder em 1964, acusaram o regime deposto de populista. Os novos dirigentes da nação desejavam convencer a sociedade de que tinham um projeto de modernização para o país e que esse novo governo representava o fim do atraso populista. Convém aqui fazer uma ponderação. De fato, os militares assumiram o poder em meio a uma crise econômica. É verdade também que o Estado era populista no seu sentido político, mas discutível sob o ponto de vista econômico. Todavia, é inegável que o Brasil experimentou, durante o período populista, um desenvolvimento industrial e um crescimento econômico extremamente profundos. Segundo estudo realizado por MADDISON (1989), o Brasil foi o país de maior crescimento mundial entre 1870 e 1987. Outra crítica que os militares faziam ao regime deposto estava relacionada ao seu nacionalismo exacerbado. Segundo os militares, políticas hostis ao capital estrangeiro, como restrições às remessas de lucros ou estatização de empresas multinacionais tenderiam a afugentar investidores internacionais e aprisionar o país em uma situação de eterno subdesenvolvimento. Um caso emblemático desse nacionalismo desmedido foi a encampação das companhias telefônica e de fornecimento de energia elétrica (ambas norteamericanas) pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Uma das primeiras medidas adotadas pelo novo governo foi buscar uma maior aproximação dos países desenvolvidos, sobretudo dos Estados Unidos, e a normalização das relações com os organismos financeiros internacionais.

O PAEG
O Paeg (Programa de Ação Econômica do Governo) foi um plano de combate à inflação e reformas institucionais, elaborado pelos ministros Roberto Campos (Planejamento) e Octávio Bulhões (Fazenda) e colocado

em prática durante a gestão do presidente Castello Branco (1964-66). A causa essencial da crise econômica, de acordo com os elaboradores do plano, estava na aceleração inflacionária que afetava o país desde o início dos anos 1960. A inflação gerava um ambiente de insegurança no meio empresarial, reduzindo os investimos e o ritmo de crescimento do país. O diagnóstico da inflação brasileira era bastante ortodoxo. Segundo Campos e Bulhões, a inflação era decorrente de um excesso de demanda para uma oferta limitada de bens. Esse excesso de demanda tinha basicamente três causas, a saber: monetização dos déficits públicos, expansão do crédito privado e majorações salariais superiores aos aumentos de produtividade. O combate à inflação seria feito por meio de ajuste fiscal, de uma política monetária restritiva e de contenção salarial. A estabilidade de preços foi relativamente bem sucedida. Em 1964, a inflação foi de 92,1%, no ano seguinte já cairia para 34,2% e continuaria caindo nos anos seguintes até se estabilizar em torno de 19%. Apesar desse aparente sucesso, BACHA (1988) defende a teoria de que houve um erro no diagnóstico da inflação brasileira. Não havia excesso de demanda na economia, mas sim pressões dos preços agrícolas, decorrente de uma quebra de safra. De acordo com a análise desse autor, o governo colocou em prática uma política recessiva de combate a inflação desnecessariamente.

Síntese
.Você aprendeu nessa aula que o Brasil passou por uma forte crise política e econômica no início da década de 1960, que acabou ensejando no golpe militar de 1964. Os militares defendiam que, para se modernizar, o Brasil deveria abandonar as ultrapassadas políticas populistas e implementar um conjunto de reformas institucionais. Em 1964, o governo militar lançou o Paeg, um programa de estabilização e reformas (financeira e tributária). Apesar de várias críticas que podem ser feitas, a avaliação do Paeg, de forma geral, costuma ser positiva.

Reformas Institucionais
Por conta do forte impacto que teria nos rumos da economia brasileira nas próximas décadas, as reformas institucionais (financeira e tributária) promovidas pelo Paeg costumam ser consideradas mais importantes que o programa de estabilização dos preços. A reforma financeira criou duas importantes instituições dentro do Sistema Financeiro Nacional (doravante, SFN): o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central do Brasil (Bacen). O primeiro teria por função estabelecer as diretrizes básicas de política monetária e cambial, o segundo executaria essas políticas, bem como fiscalizaria as demais instituições financeiras do sistema. Outra importante inovação foi a criação dos bancos de investimentos privados. O SFN vigente na época era constituído basicamente de quatro tipos diferentes de instituições: i) bancos comerciais privados, que proviam as empresas de recursos de curto e médio prazo; ii) financeiras, que financiavam a aquisição de bens duráveis; iii) caixas econômicas estaduais e federais, que atuavam no crédito imobiliário e iv) bancos públicos (Banco do Brasil e BNDE), que eram as únicas instituições que proviam as empresas de recursos de longo prazo. A reforma financeira de 1964 criou os bancos privados de investimentos. Era basicamente o que faltava para completar o conjunto, uma instituição privada que fornecesse recursos de longo prazo. Os bancos de investimentos deveriam atuar de duas maneiras: como emprestador final (em menor escala) ou auxiliando as empresas na colocação de títulos no mercado de capitais. Outra importante inovação do SFN foi a instituição da correção monetária, até então a lei não permitia a indexação de contratos. No mercado de títulos públicos, a correção monetária se consubstanciaria através da criação, em 1964, da Ordem Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN) e no mercado de títulos privados, a correção monetária passava a ser permitida pela nova Lei dos Mercados de Capitais, de 1965. A reforma tributária implementada nesse mesmo período tinha duas finalidades básicas: aumentar a arrecadação de impostos e conferir uma maior racionalidade ao sistema tributário. Sob o ponto de vista da arrecadação, a

reforma foi bem sucedida. Entre 1963 e 1967, a carga tributária aumentou de 16 para 21% do PIB. Por outro lado, a reforma conferiu um caráter centralizador e regressivo ao sistema tributário nacional. Centralizador porque limitou a competência dos estados e municípios de legislar sobre matéria tributária. Regressivo porque incidiu proporcionalmente mais sobre os segmentos de menor poder aquisitivo, uma vez que predominava os impostos indiretos ou sobre consumo. Outra importante inovação promovida nesse período foi a criação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), em 1964. O FGTS é um fundo em nome do trabalhador, constituído a partir de depósitos mensais efetuados pelo empregador de 8% do salário nominal. O FGTS veio substituir a estabilidade no emprego a que o trabalhador tinha direito, após trabalhar por dez anos na mesma empresa. O objetivo dessa mudança foi o de promover uma maior flexibilidade no mercado de trabalho e com isso aumentar a oferta de empregos formais. A avaliação do Paeg, considerando o plano no seu todo, é positiva. O governo conseguiu reduzir a inflação e promoveu um conjunto de reformas fundamentais para o desenvolvimento do país. Todavia, algumas críticas podem ser feitas. A primeira delas é a argumentação de BACHA, de que houve um erro no diagnóstico da inflação brasileira e, por conta disso, a implementação desnecessária de uma política recessiva com pesados custos sociais. Além disso, podemos mencionar também um aumento na concentração da renda devido à contenção (ou arrocho) salarial e à instituição de um sistema tributário altamente regressivo.

O “Milagre” Econômico e o II PND
O “Milagre” econômico
Quando se fala em ditadura militar, as pessoas logo pensam em repressão, censura, prisões arbitrárias, deportações, desaparecimentos, torturas e uma série outros fatos que todos desejamos esquecer. Mas, por mais contraditório que isso possa parecer para alguns, foi justamente nesse período de cerceamento das liberdades individuais que a economia brasileira teve o melhor desempenho da sua história. Estamos falando do “milagre” econômico.

Para entender o “milagre”, vamos ter de retroceder até a gestão Castello Branco (1964-66). Como já foi visto na aula anterior, esse período foi marcado pela implementação do Paeg, plano de estabilização e reformas estruturais. Apesar do sucesso do Plano no que diz respeito aos seus próprios objetivos (estabilização e reformas), o pais continuava preso a um crescimento medíocre e errático (normalmente chamado de stop and go).

Em 1967, sob a administração agora do presidente Costa e Silva, há uma mudança radical na condução da economia. O novo presidente nomeia o Prof. Delfim Netto como Ministro da Fazenda. Havia naquele período uma forte necessidade de se legitimar o regime militar. O objetivo dos militares era o de justificar o golpe, de mostrar para que vieram, ou ainda, o de convencer a sociedade de que o novo governo era melhor que o deposto. E

isso somente seria possível através de crescimento econômico. Com a mudança da política econômica implementada por Delfim Netto, o crescimento tão cobiçado aconteceu. O “milagre” econômico ocorreu entre 1968-1973, durante os governos Costa e Silva e Médici. Nesses seis anos, o Brasil cresceu a uma taxa média de 11% ao ano. Crescer seis anos seguidos a uma taxa dessa já seria o suficiente para chamar esse período de milagre. Mas, além disso, o Brasil conseguiu a enorme façanha de conciliar esse crescimento vigoroso com inflação baixa e equilíbrio no setor externo.

Crescimento, Inflação e Equilíbrio Externo
Conciliar certos objetivos de política macroeconômica não é uma tarefa muito fácil. Pelo menos desde a década de 1950, já se sabe que existe uma certa dificuldade em se conseguir ao mesmo tempo inflação baixa e nível de emprego elevado. Atualmente sabemos também que quando uma economia cresce a um ritmo muito forte existe uma tendência de aceleração inflacionária e desequilíbrio externo. Você já ouviu alguma vez a expressão “crescimento sustentável”? Este conceito está bastante relacionado com o que estamos tratando aqui. Quando um país está crescendo a um ritmo muito acelerado, costuma-se dizer que aquele crescimento não é sustentável no longo prazo e que em determinado momento o governo deverá “frear” a economia. Se o governo não o fizer, é bastante possível que uma crise inflacionária ou do setor externo aborte o crescimento. Portanto, a Teoria Macroeconômica ensina que é melhor crescer mais lentamente, mas de forma contínua, que ter um crescimento rápido, mas que não se sustenta. Os economista até costumam dizer o seguinte: o crescimento não pode ser como um “vôo de galinha”, ou seja, algo que não se sustenta. Por que quando a economia cresce existe essa tendência de inflação e desequilíbrio externo? Bem, essa é uma questão complexa, que envolve algumas noções de Macroeconomia. Vamos tentar entender. Se a economia cresce muito rapidamente, alguns fatores de produção podem ficar escassos.

Por exemplo, se a economia começa a crescer aceleradamente, o fator de produção mão-de-obra pode ficar escasso. Nesse caso, o que irá acontecer com os salários? Deverão aumentar. Porém salários maiores representam aumento no custo de produção, o que pode significar aumento de preços. Compreendeu? E se o fator de produção matéria-prima se tornar escasso? O raciocínio é o mesmo. Além disso, o crescimento muito acelerado pode gerar desequilíbrio do setor externo. Vejamos como isso acontece. Quando a economia cresce, a renda dos consumidores também cresce, logo o consumo agregado aumenta. Esse aumento do consumo ocorre tanto em relação a produtos nacionais como importados. Portanto, pode-se concluir que quando a economia cresce, as importações crescem. Por outro lado, com relação as exportações, as coisas não acontecem necessariamente dessa forma. Para exportar mais, é necessário que a demanda externa cresça. Compreendeu o problema? O crescimento econômico gera aumento de importações, mas não de exportações. Consequentemente, há uma tendência de desequilíbrio nas contas externas. Você entendeu agora por que o “milagre” econômico tem esse nome? Seis anos seguidos de crescimento vigoroso com baixa inflação e sem desequilíbrio externo é realmente um milagre.

Concentração de Renda, Desequilíbrio Intersetorial e Dependência Externa
Até o milagre teve o seu “calcanhar de Aquiles”. Apesar das incríveis taxas de crescimento, associadas a inflação baixa e equilíbrio externo, o “milagre” tinha suas limitações. A principal crítica que se faz ao milagre econômico diz respeito à concentração de renda. Houve nessa época um aumento da desigualdade entre ricos e pobres. O vigoroso crescimento da economia não trouxe melhoria na qualidade de vida para todos os extratos sociais. Por isso a famosa frase atribuída ao presidente Médici. Ao ser indagado sobre a economia, teria respondido “a economia vai bem, mas o povo vai mal”. Esse aumento na concentração da renda tem um conjunto de explicações.

Primeiramente, com o crescimento econômico, houve um forte aumento da demanda por trabalhadores qualificados (engenheiros, administradores, economistas, etc.). Mas não houve um crescimento significativo da demanda por trabalhadores pouco qualificados. Em suma, o “milagre” fez com que a renda dos mais qualificados crescesse proporcionalmente mais que a dos poucos qualificados, gerando concentração na renda. Outro fator que deve ser levado em conta para compreender esse aumento de desigualdade de renda foi a contenção salarial imposta pelo regime militar. Com o objetivo de controlar a inflação, o governo militar fazia um rigoroso controle dos aumentos salariais e reprimia violentamente as manifestações de trabalhadores. Essa contenção (ou arrocho) salarial também contribuiu para aumentar o fosso entre ricos e pobres. Além disso, o milagre gerou um desequilíbrio entre os diferentes setores da indústria. Os investimentos realizados durante o período do ”milagre” se concentraram principalmente no setor de bens de consumo duráveis. Logo, começou a se formar um desequilíbrio entre os diferentes setores da indústria. A produção no setor de bens duráveis crescia a um ritmo mais acelerado que nos setores de bens de capital (máquinas e equipamentos) e bens intermediários (petróleo, fertilizantes, produtos químicos, etc.). Com o passar do tempo, esse desequilíbrio inter-setorial iria gerar um problema de dependência externa. Ou seja, o país, por não ter o setor de bens de produção (de capital e intermediários) suficientemente desenvolvido, dependia da importação desses produtos.

O Choque de Petróleo e a Crise Internacional
Essa situação de dependência externa iria ficar muito mais complicada a partir do primeiro choque do petróleo. Você se lembra quando nós discutimos a importância de se estudar fatos internacionais para se compreender os rumos da nossa economia? Bem, aqui nós teremos uma outra excelente oportunidade para verificar como isso é realmente verdade. No final de 1973, os países membros da Opep (Organização dos Países

Exportadores de Petróleo) tomaram a decisão radical de reduzir a oferta mundial desse produto, provocando o aumento do seu preço. Essa decisão estava relacionada a um problema geopolítico envolvendo a guerra entre árabes e israelenses. À crise que se inicia a partir daí, convencionou-se chamar de “primeiro choque do petróleo”, o segundo choque iria ocorrer em 1979, a partir da guerra civil do Irã. O Brasil tinha, como já vimos, um problema de dependência externa. O país precisava importar bens de capital e bens intermediários (petróleo, principalmente), uma vez que essa indústria era pouco desenvolvida. Com a crise, essa dependência se torna um problema crítico. O que fazer diante de uma situação como essa? O governo brasileiro tinha duas alternativas. A primeira possibilidade seria promover um ajuste recessivo. Conforme já dissemos, quando o país cresce menos, as importações diminuem. Logo, se a economia crescesse a um ritmo mais lento (ajuste recessivo), o gasto com importações diminuiria. A outra estratégia seria implementar um ajuste estrutural: Ou seja, realizar mais investimentos e diminuir a dependência por importações. Essa segunda estratégia era muito mais ousada, pois implicava aumentar o desequilíbrio externo em um primeiro momento para colher seus benefícios somente anos depois. Conforme já dissemos, o regime militar buscava sua legitimação e para isso deveria fazer o país crescer. Além disso, havia na sociedade (principalmente entre empresários e banqueiros) uma pressão por um ajuste não-recessivo. Pressionado, e necessitando justificar o golpe militar, o governo opta pelo ajuste estrutural (não recessivo). É justamente a partir dessa decisão de aprofundar o processo de substituição importações em meio a uma crise econômica internacional que nasce o II PND (Plano Nacional de Desenvolvimento Econômico).

O II PND
Se existiu um II PND, provavelmente deve ter existido também um I PND, correto? Bem, o I PND foi implementado entre 1972-1974, durante a gestão Médici, porém não costuma ser muito estudado por não ter tido um papel

muito importante na determinação dos rumos da economia nacional. O II PND, por sua vez, foi posto em prática ente 1975-79, durante a gestão Geisel. Esse plano é considerado a mais ampla experiência de planejamento econômico no Brasil depois do Plano de Metas e teve uma importância fundamental na consolidação do processo de substituição de importações ocorrido no Brasil. Um dos objetivos do II PND era o de solucionar o problema de dependência externa decorrente do desequilíbrio inter-setorial. Por isso comportava uma série de investimentos no setor de bens de capital e de bens intermediários. Todavia, para realizar todos os investimentos exigidos pelo II PND, seriam necessários, logicamente, recursos financeiros. Você se lembra que em economia “não existe almoço grátis”, não é mesmo? Pois bem, esses recursos viriam principalmente dos chamados “petrodólares”. Com o aumento do preço do petróleo ocorrido a partir de 1973, o valor das exportações dos países produtores do bem cresceu significativamente. Como não havia muitas opções para se aplicar esses recursos nesses países, a maior parte desses dólares foi depositada em bancos de países ricos. A partir disso, surgem os famosos petrodólares. Com o II PND, o Brasil se transformou em um dos maiores tomadores de recursos (petrodólares) no mercado financeiro internacional. A avaliação que se faz do II PND costuma ser positiva. De modo geral, pode-se dizer que os objetivos de mudança estrutural que motivaram o Plano foram alcançados. Contudo, os resultados concretos só vieram a acontecer entre 83-84, com a maturação dos investimentos realizados. Entre esses resultados, três merecem destaque: i) a reversão do saldo da balança comercial, que se tornou superavitária, ii) uma dependência menor das importações de petróleo, iii) uma maior diversificação na pauta de exportações do país, com predomínio de bens manufaturados (no lugar de bens primários, como era no passado).

A Economia Brasileira na Década de 80

A interrupção na década de oitenta, de uma longa história de crescimento que caracterizava o Brasil, é resultado de um amplo conjunto de causas entre as quais, o peso insustentável da dívida externa, o imobilismo gerado por uma excessiva protecção à indústria nacional, o fracasso dos programas de estabilização no combate à inflação e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento, baseado fundamentalmente na intervenção generalizada do Estado na economia, esgotamento esse assente na crise do Estado brasileiro que diminuiu sensivelmente a sua capacidade de investimento, retirando-lhe o grande papel de principal promotor do desenvolvimento.

No entanto, é no seu aspecto financeiro que a crise se torna mais aguda, levando a economia a uma espiral inflacionária, que provocou uma queda nos níveis de poupança do sector público, criando um ambiente de incertezas que dificultou a retomada dos investimentos e continua a provocar o alargamento dos desníveis sociais, com consequências imprevisíveis no futuro.

A partir de 1979, o padrão de crescimento baseado no financiamento externo ou estatal, através do investimento directo do Estado ou do investimento privado subsidiado, que tinha prevalecido durante a década de 70, entrou em crise, quando o fluxo de financiamento externo líquido cessou em 1982. Assim é que, em razão da crise nacional que se segue, emerge uma questão política básica, que é a de que nos anos oitenta, o Brasil perdeu o controlo do seu destino. Três factores contribuíram decisivamente para isso, frustrando os intentos de colocar o país na trajectória do progresso e da modernidade: a dívida externa, as elevadas taxas de inflação e uma profunda crise do Estado. Embora variem os graus de relevância destes três factores, eles estiveram sempre presentes na conjuntura da crise. Este trabalho procura assim, analisar as causas que provocaram a profunda crise brasileira da década de oitenta, crise que aliás se estenderia a praticamente toda a América Latina, naquela que é considerada pelos latino-americanos como a “década perdida”, bem como as consequências das sucessivas medidas económicas e planos de estabilização tentados pelos sucessivos governos, na tentativa vã de retornar a níveis de crescimento e de controlo inflacionário que permitissem a recuperação económica do país.

1. Introdução
Ainda que durante a década de oitenta o desempenho económico dos diferentes países latino-americanos não tivesse sido uniforme, com alguns conseguindo taxas de crescimento razoáveis e uma relativa estabilidade de preços, na maioria destes países porém, o que verificou foi a manutenção prolongada de elevadas taxas de inflação, problemas crescentes com a gestão das dívidas externas, estagnação económica e redução da renda por habitante. A crescente espiral inflacionária vivida na maior parte destes países, só foi parcialmente interrompida em períodos de congelamentos de preços, através dos chamados choques económicos heterodoxos, para logo a seguir voltar de uma forma geral a níveis iguais ou superiores aos anteriormente estabelecidos.

TABELA 1:

A CRISE NA AMÉRICA LATINA. ALGUMAS VARIÁVEIS MACROECONÓMICAS NOS ANOS 80

Variações percentuais % Crescimento do PIB (índice) Crescimento do PIB per-capita (índice) Investimento/PIB Inflação Dívida/ Exportações

1980 100,0 100,0 24,2 54,9 2,1

1985 103,5 92,2 16,3 274,7 3,5

1989 113,1 91,7 16,2 1.157,6 3,2

Fonte: CEPAL (Comissão Económica para a América Latina das Nações Unidas, Santiago, Chile), in Bresser, L.C. "A C RISE DO E STADO: E NSAIOS SOBRE A CRISE BRASILEIRA ".

Os dados contidos na Tabela 1, são elucidativos do tamanho da crise latino-americana. A renda por habitante na América Latina, reduziu-se em 8,3% no período de 1980 a 1989, enquanto a inflação que era em média de 54,9% no início dos anos 80, subiu para 1157,6% no final da década e a taxa de investimento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 24,2 para 16,2 1. Estes dados claramente negativos, levaram vários economistas a formularem diferentes teorias para o caos económico que se instalou no continente Latino-Americano, procurando detectar as causas da crise e orientar os governos para que estes implementassem as reformas necessárias. No caso do Brasil, o maior e mais rico país da América Latina, não foi diferente. Os economistas brasileiros dividem-se quanto ao grau de importância a conceder às principais causas da crise, mas são praticamente unânimes quanto a elas: A dívida externa excessiva, altas taxas de inflação, excesso de intervenção estatal na economia e uma crise fiscal profunda do Estado que lhe retirou toda a capacidade de poupança e praticamente o imobilizou. De qualquer forma não há como negar que a grave crise que se abate sobre as economias latino-americanas, inclusive a brasileira, está intimamente relacionada com o grande processo de endividamento externo. Durante os anos setenta, a abundância d e recursos em poder dos bancos internacionais viabilizou o crescente endividamento dos países da América Latina, que

ultrapassou em 1982 os US$ 300 bilhões. No entanto, desde 1979, os bancos credores mostravam já sinais de preocupação e impaciência, ao pressionarem os devedores com a recusa da concessão de novos empréstimos, deixando-lhes clara a necessidade de se ajustarem, adoptando políticas económicas ortodoxas com o objectivo de aumentar as exportações, reduzir as importações e combater a inflação já então em níveis bastante acentuados. As políticas económicas ortodoxas, em função dos desequilíbrios mais comuns destas economias, como a inflação e o desequilíbrio externo, estavam geralmente contidas nas recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e consistiam basicamente em:
• reduzir as despesas do Estado e equilibrar o orçamento público; • reduzir e controlar a quantidade de moeda em circulação; • liberalizar os preços de quaisquer tabelamentos; • liberalizar a taxa de juros, que dada a redução da oferta monetária, deverá aumentar; • liberalizar (geralmente desvalorizar) a taxa de câmbio; • eliminar todos os subsídios; • reduzir os salários dos sectores público e privado.

É possível observar que à excepção da proposta para os salários, todas as demais são liberalizantes. Aliás, uma constante das propostas ortodoxas de política económica, sempre foi o arrocho salarial, adoptado em nome do combate à inflação. Diagnosticar este tipo de política económica não é difícil. Se a inflação e o desequilíbrio externo decorrem das distorções do mercado e do excesso de procura agregada, há que corrigir essas distorções eliminando todo e qualquer controlo de preços e procurando reduzir a procura agregada, provocando uma recessão na economia. Assim, a redução das despesas do Estado, a redução da quantidade de moeda em circulação e a elevação da taxa de juros (que leva tecnicamente à redução dos investimentos) têm como consequência reduzir a procura agregada e provocar a recessão (aumentando as taxas de desemprego e diminuindo os níveis de produção). Como consequência, a inflação cairia, uma

TABELA 2:

BRASIL. TAXAS REAIS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB E DO PIB PER CAPITA 1970 / 1990

Taxas Reais de Variação Anual do PIB Anos Agropecuária Industria Serviços Total

Índice PIB Real População 1980=100 (Mil)

PIB Per Capita Taxa Real Índice Real de Variação 1980=100 55,6 8,6 9,2 11,2 5,6 2,7 7,6 2,4 2,5 4,2 6,9 -6,3 -1,4 -5,3 3,3 5,9 5,6 1,6 -2,0 1,3 -6,2 60,4 66,0 73,4 77,5 79,5 85,6 87,6 89,8 93,5 100,0 93,7 92,4 87,6 90,4 95,7 101,1 102,7 100,6 102,0 95,7

1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 10,2 4,0 0,1 1,3 6,6 2,4 12,1 -2,7 4,7 9,5 8,0 -0,5 -0,6 3,4 10,0 -8,0 15,0 0,8 2,9 -3,7 11,8 14,2 17,0 8,5 4,9 11,7 3,1 6,4 6,8 9,2 -8,9 0,0 -5,8 6,6 8,3 11,8 1,1 -2,6 2,9 -8,0 11,2 12,4 15,6 10,6 5,0 11,6 5,0 6,2 7,8 9,0 -2,3 1,9 -0,8 4,1 6,4 8,2 3,3 2,3 3,8 -0,8 11,3 11,9 14,0 8,2 5,2 10,3 4,9 5,0 6,8 9,2 -4,5 0,5 -3,5 5,3 7,9 7,6 3,6 -0,1 3,3 -4,4

43,7 48,6 54,4 62,0 67,1 70,6 77,8 81,7 85,7 91,6 100,0 95,5 96,1 92,7 97,6 105,4 113,4 117,4 117,3 121,2 115,8

93.139 95.450 97.818 100.244 102.731 105.280 107.891 110.568 113.311 116.122 118.623 120.918 123.256 125.640 128.070 130.547 133.072 135.646 138.270 140.944 143.670

Fonte: Fundação Instítuto Brasileiro de Geografia e Estatística (FIBGE)

vez que por definição é considerada como sendo causada por um excesso de procura. A redução da procura interna teria um efeito duplo sobre as contas externas. De um lado, a queda do consumo faria com que sobrassem mais mercadorias para serem exportadas. De outro, a queda no investimento implicaria numa menor procura por bens importados. Aumentadas as exportações e reduzidas as importações, a balança comercial tornar-se-ia superavitária e o balanço de pagamentos tenderia a equilibrar-se.

2. O Caso Brasileiro
O Brasil tentou aplicar esta política económica ortodoxa em diversas ocasiões, com mais efeitos negativos do que práticos. No entanto este tipo de política económica, começou a ser sugerido pelos credores externos, em virtude das desconfianças quanto à s egurança dos seus empréstimos, uma vez que no ano de 1979, ocorreram três choques externos que viriam a causar graves problemas aos países latino-americanos. Estes três choques foram o segundo choque do petróleo, que triplicou os seus preços, a elevação brusca das taxas de juros internacionais, que aumentou de forma significativa o total dos juros pagos pelos países devedores e finalmente a recessão norte -americana de 79/82, que se considera ter sido a mais grave desde a Grande Depressão de 1930. A triplicação dos preços de petróleo aumentava sensivelmente o valor das importações da maioria dos países latino-americanos (excepto o México e o Equador) e particularmente do Brasil. O aumento da taxa de juros elevava os pagamentos anuais de juros, decorrentes do grande volume de financiamentos externos, captados durante a década de 70. E finalmente a recessão norte americana reduzia as exportações latino-americanas para aquele país, claramente o seu principal parceiro comercial. A pressão destes três factores foi contundente, levando a América Latina na década de 80 à maior recessão de toda a sua história. Aqueles choques externos só poderiam ter sido compensados com uma aceleração do endividamento externo, o que a esta altura e frente ao elevado grau de endividamento dos anos 70, era impensável.

Dado o desequilíbrio externo, expresso por elevados défices na conta corrente do balanço de pagamentos e frente à decisão dos bancos internacionais de não continuarem a financiar esse défice com o aumento do endividamento e xterno, um processo de ajustamento capaz de equilibrar a balança comercial, reduzindo importações e aumentando exportações era inevitável. Se nesta fase, os países latino-americanos tivessem podido e querido unir-se e usar o seu poder de negociação para fazer face à questão da dívida, era provável que tivessem obtido reduções nas taxas de juros e financiamentos adicionais, que permitissem um ajustamento mais suave e gradual. Mas isso efectivamente não aconteceu. Os bancos credores aumentaram a pressão, sobretudo após a moratória do México em 1982. Esta pressão contava com o apoio dos seus respectivos países e também do Fundo Monetário Internacional. E o ajustamento acabou realizando-se nos termos determinados pelos bancos credores e por este organismo. Foi um ajustamento realmente drástico, que levou o PIB per capita da América Latina, a uma redução de 8,9% entre os anos de 198l e 1984. Os maiores prejudicados foram os trabalhadores, uma vez que as desvalorizações reais das moedas locais (as chamadas maxidesvalorizações) necessárias para estimular as exportações e conter as importações, mudaram os preços relativos, penalizando os salários e favorecendo o lucro dos exportadores. Há estudos mostrando ter havido uma queda nos salários reais da América Latina em 10% no mesmo período2. E a inflação que por exemplo, havia sido no Brasil de 93,5% em 1981, subiu em 1984 para 239%, tendo esta alta sido extensiva à generalidade dos demais países latino-americanos. Outra grave consequência foi que os países latino-americanos, de importadores de capital nos anos setenta, passaram a exportadores líquidos de capital nos anos oitenta. Só na primeira metade da década, cerca de 5% do PIB, passou a ser enviado directamente para o exterior, para pagar os juros da enorme dívida externa. O Brasil, a par dos demais países da América Latina viu assim iniciar-se a década de oitenta, a que os economistas chamaram a década perdida, como um período que viria a ser pródigo numa série de tentativas ortodoxas de estabilização na primeira metade da década e

TABELA 3: BRASIL. VARIÁVEIS MACROECONÓMICAS INTERNAS (%). 1970 / 1991

Anos

PIB Investim. Inflação %/Anual / PIB IGP/IPC

PIB Per Capita % Anual

Poupança (% PIB) Total Externa

1970 1971 1972 1973 1974 1975 1976 1977 1978 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991

8,3 11,3 11,9 14,0 8,2 5,2 10,3 4,9 5,0 6,8 9,2 -4,5 0,5 -3,5 5,3 7,9 7,6 3,6 -0,1 3,3 -4,4 0,9

25,5 26,0 26,1 27,2 30,2 31,7 27,1 25,7 26,5 22,0 23,3 21,1 21,2 16,9 16,4 17,0 19,2 22,2 22,7 24,8 21,5 18,9

19,8 19,7 15,7 15,5 34,5 29,4 46,3 38,8 40,8 77,2 99,7 93,5 100,3 178,0 209,1 239,1 58,6 396,0 994,3 1.863,6 1.585,2 475,1 8,6 9,2 11,2 5,6 2,7 7,6 2,4 2,5 4,2 6,9 -6,3 -1,4 -5,3 3,3 5,9 5,6 1,6 -2,0 1,3 -6,2 -1,0

24,1 23,4 23,5 25,2 23,5 26,4 23,3 23,5 23,2 17,5 17,2 16,8 15,4 13,6 16,5 19,0 17,1 21,7 24,0 25,0 20,7 18,6

1,4 2,6 2,6 2,0 6,7 5,3 3,8 2,2 3,3 4,5 5,1 4,3 5,8 3,3 -0,1 -2,0 2,1 0,5 -1,3 -0,2 0,8 0,3

Fonte: FIBGE/Banco Central do Brasil: A. Brasil - Programa Económico nº 35 - Dezembro de 1992. Editado pelo Departamento Económico do Banco Central do Brasil. B. Boletim do Banco Central do Brasil, Volume 29 - nº 1, Julho de 1993.

heterodoxas na segunda. Estes planos económicos de estabilização heterodoxos tiveram a sua máxima expressão em países como a Argentina e o Brasil, mas veremos que a exemplo das receitas ortodoxas do FMI, foram incapazes de resolver os problemas básicos que afligiam estas economias: a enorme dívida externa e interna, a quase hiperinflação e a profunda crise fiscal do Estado. A interrupção na década de 80, de uma longa história de crescimento que caracterizava o Brasil, é resultado de um amplo conjunto de causas entre as quais, o peso insustentável da dívida externa, o imobilismo gerado por uma excessiva protecção à indústria nacional, o fracasso dos programas de estabilização no combate à inflação e o esgotamento de um modelo de desenvolvimento, baseado fundamentalmente na intervenção generalizada do Estado na economia, esgotamento esse assente na crise do Estado brasileiro que diminuiu sensivelmente a sua capacidade de investimento, retirando-lhe o grande papel de principal promotor do desenvolvimento. No entanto, é no seu aspecto financeiro que a crise se torna mais aguda, levando a economia a uma espiral inflacionária que provocou uma queda dos níveis de poupança do sector público, criando um ambiente de incertezas que dificultou a retomada dos investimentos e continua a provocar o alargamento dos desníveis sociais, com consequências imprevisíveis no futuro. Na história do seu desenvolvimento capitalista, a economia brasileira não parou de crescer desde aproximadamente os anos 40 do século XIX, quando o desenvolvimento da cultura de café permitiu superar a crise que se arrastava desde meados do século anterior, quando se esgotara o ciclo do ouro. Isto permite-nos constatar que foram cento e cinquenta anos de extraordinário crescimento, mas a partir de 1981, a economia brasileira entra num longo período de estagnação que se arrasta por toda a década. A renda por habitante, que nos oito anos anteriores 1973/1980 crescera 52,7%, é menor em 1990 do que no começo da década. Essa redução da taxa de crescimento da economia brasileira para uma média praticamente constante ao crescimento da população durante a década, quando a sua taxa histórica de crescimento tinha sido de aproximadamente 7% ao ano desde os anos 40, não pode ser considerada acidental e está

intimamente ligada à queda do investimento no país. Esta taxa que tinha sido de 23% em média nos anos 70, baixou para 17,4% a partir de 19813. A crise brasileira configurava-se como uma crise estrutural, cujos sintomas básicos são a estagnação da renda por habitante e a drástica redução da poupança e investimento do país, como se pode observar na tabela 3. Observando esta tabela é possível examinar comparativamente o padrão de financiamento dos investimentos na década de setenta e na década de oitenta. Enquanto a taxa de crescimento do produto flutuou acentuadamente, as taxas de poupança e investimento declinaram significativamente. A redução da taxa de poupança está claramente relacionada com o declínio da poupança externa, e sobretudo com o da poupança do Estado, que era de aproximadamente 10% no início dos anos setenta, o que significava 42% do total e que caiu para zero em 1985, às vésperas do pr imeiro choque económico heterodoxo. De um valor máximo de 31,75 do PIB em 1975, o total da poupança caiu para 16,4% em 1984, recuperando-se posteriormente para o nível de 21,5% em 1990, mas com uma participação externa insignificante. Na verdade e durante este período, a poupança externa declinou de 5,3% para menos de 1%, chegando a ser negativa em alguns períodos. Os investimentos caíram de 31,7% do PIB em 1975, para 18,9% em 1990, através de uma forte redução dos investimentos públicos que eram em 1985 de zero, contrastando com os 8,2% de 1975, apesar dos investimentos privados se terem mantido praticamente ao mesmo nível. No Brasil, durante a década de 1970, o processo de financiamento dos investimentos seguiu o padrão clássico dos primeiros estágios de desenvolvimento, em que o investimento total era função do endividamento externo e do investimento estatal. Em 1974, o investimento externo rondava os 22% do investimento total, enquanto o investimento estatal se ficava em torno dos 27%. É necessário porém admitir que o investimento estatal foi superior a este valor, uma vez que além de investir directamente ou através das empresas estatais, o Estado subsidiou fortemente o investimento privado. Não há dados exactos sobre o montante desses subsídios, mas durante os anos setenta, havia subsídios para uma série de actividades, nomeadamente subsídios para exportação, crédito subsidiado, subsídios fiscais para sectores industriais e regiões e preços artificialmente baixos

de bens e serviços produzidos pelas empresas estatais, sobretudo os preços do aço e da energia eléctrica. Porém a partir de 1979, esse padrão baseado no financiamento externo ou estatal, com investimento directo do Estado ou com investimento privado subsidiado que prevaleceu durante a década de setenta, entrou em crise, quando o fluxo de financiamento externo líquido cessou em 1982. Assim é que, em razão da crise nacional, emerge uma questão política básica, que é a de que nos anos oitenta, o Brasil perdeu o controlo do seu destino. Três factores contribuíram decisivamente para isso, frustrando os intentos de colocar o país na trajectória de progresso e modernidade: a dívida externa, as elevadas taxas de inflação e uma profunda crise do Estado. Embora variem os graus de relevância destes três factores, eles têm estado sempre presentes na conjuntura da crise. Na verdade a estagnação e as altas taxas de inflação são assim as principais características da economia brasileira nos anos oitenta. O País que vinha ao longo de quase um século crescendo a ta xas elevadas, viu este ciclo de crescimento interrompido em 1981. Num primeiro momento, entre 1981 e 1983, a diminuição do ritmo de crescimento do PIB (4,5% em 81, 0,5% em 82 e -3,5% em 83) foi devida a um esforço de ajustamento imposto pela crise da dívida e pelos choques externos já citados. Entre 1984 e 1986, a crise parecia estar sendo superada, mas em 1987, um ano após a implementação do primeiro choque económico heterodoxo, o denominado Plano Cruzado, a crise volta a instalar-se na economia brasileira, com o PIB tendo uma taxa de crescimento negativa de 0,1% em 1988. Em 1989, a economia volta a apresentar um crescimento positivo embora modesto, de 3,3%, ao mesmo tempo em que a inflação chegava aos 50% mensais no final do ano, ou seja, uma taxa de inflação que se poderia inserir num processo hiperinflacionário. Em 1990, a economia volta a apresentar uma taxa negativa de crescimento do PIB em torno aos 4,4%, com a constatação de que o PIB per capita era em 1990, inferior ao de 1980. A crise da economia brasileira na década de oitenta pode ser explicada por várias causas. Está de facto bem clara a sua relação com a dívida externa e com a crise fiscal do Estado que se desenvolveu a partir desta dívida e que levou a economia a um prolongado processo de estagnação.

GRÁFICO 1. BRASIL. EVOLUÇÃO DAS TAXAS REAIS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB E DO PIB PER CAPITA. 1970 / 1990 ( 1980 = 100 )

140 120 100 80 60 40 20 0

P I B R e a l

PIB Per Capita Real

140

120

100

80

60

40

20

0 1970 1972 1974 1976 1978 1980 1982 1984 1986 1988 1990

P I B R e a l

PIB Per Capita Real

A aceleração da inflação durante este período, está fortemente associada à crise fiscal e à dívida externa, mas é o conflito distributivo, que caracteriza uma economia em que a renda é fortemente concentrada, a causa fundamental dessa inflação e da sua aceleração. A dívida externa, à medida que agiu ag ravando directa ou indirectamente o conflito distributivo, teve um papel importante como factor alimentador da inflação. Por sua vez, a inflação agrava o défice público, afasta os investimentos e diminui a produtividade do capital. Entre 84 e 86, quando se alcançou o equilíbrio na conta corrente, acreditou-se que a crise da dívida estava a ser superada e que o défice orçamentário estava sobre controlo, pelo que a única causa visível dos problemas do país era a inflação. Nos anos setenta, a taxa anual média de inflação no Brasil foi de 40%. Em 1979 essa taxa sobe para 77%, mantendo-se em torno aos 100% até 1982 e coincidindo com a crise da dívida, que se iniciara em 1979, com o segundo choque do petróleo e a subida dos juros internacionais. As principais causas para a subida da inflação nesse período foram uma maxi-desvalorização do cruzeiro em 1979, o aumento das taxas de juros internas, uma nova política salarial e o aumento de alguns preços dos bens públicos, que como veremos tinham sido mantidos artificialmente baixos no período 74/78. Em 1983, a inflação sofre uma nova aceleração para perto dos 200%, mantendo-se nesse nível até 1985, fruto de uma nova maxi-desvalorização do cruzeiro, associada a um aumento significativo dos preços agrícolas. As recessões profundas de 1981 e 1983, foram pois incapazes de controlar a inflação, o que levou um grupo de economistas brasileiros, a formular a teoria da inflação inercial e a propor como solução, um congelamento geral de preços, o que viria a ser chamado de choque heterodoxo. O Plano Cruzado, de Fevereiro de 1986 foi o resultado dessa proposição teórica. O fracasso desse plano atribuiu-se não à concepção original do plano, mas sim à administração populista que se lhe imprimiu. Esse plano assim como o Plano Bresser (Junho de 87) e o Plano Verão (Janeiro de 89), foram incapazes de eliminar a inflação.

GRÁFICO 2. BRASIL. EVOLUÇÃO DAS TAXAS DE VARIAÇÃO ANUAL DO PIB, INFLAÇÃO E TAXA REAL DO PIB PER CAPITA. 1970/1990 (1980 = 100)

1 5

1 2 0

1 0

1 0 0

Crescimennto

60 0 40 -5

20

-10

0

1970

1972

1974

1976

1978

1980

1982

1984

1986

1988

Média de crescimento do PIB PIB Per Capita

Taxas Anuais de Crescimento do PIB

Estes planos, baseados na mais importante contribuição dos economistas latino-americanos à teoria económica, a teoria da inflação inercial, fracassam devido fundamentalmente à incapacidade do governo de conter a procura agregada, na medida em que não se conseguiu reduzir o défice público, nem se praticou uma política monetária rígida que garantisse taxas de juros positivas, devido também à recusa do governo em corrigir os preços relativos que estavam distorcidos à época dos choques e devido ainda e sobretudo, à cont inuidade de uma dívida externa extremamente elevada e à incompatibilidade desta com a estabilidade dos preços internos.

1990

1980 = 100

5

% PIB Per Capita

80

Estes planos, baseados na mais importante contribuição dos economistas latino-americanos à teoria económica, a teoria da inflação inercial, fracassam devido fundamentalmente à incapacidade do governo de conter a procura agregada, na medida em que não se conseguiu reduzir o défice público, nem se praticou uma política monetária rígida que garantisse taxas de juros positivas, devido também à recusa do governo em corrigir os preços relativos que estavam distorcidos à época dos choques e devido ainda e sobretudo, à continuidade de uma dívida externa extremamente elevada e à incompatibilidade desta com a estabilidade dos preços internos. As razões para que somente um congelamento de preços combinado com tímidas medidas de política fiscal e monetária é incapaz de controlar a inflação, é que é necessário encontrar uma solução definitiva para a crise da dívida externa, que por sua vez condiciona a acção do Estado, através de uma evidente crise fiscal, só podendo ser eliminada através da redução da dívida pública interna e a eliminação do défice orçamentário. Sem estas medidas, a inflação não cede e estamos assim, perante um círculo vicioso cuja corrente é necessário quebrar, para de uma vez por todas eliminar definitivamente a crise instalada de uma forma visível e intensa na economia brasileira, sobretudo a partir do final dos anos setenta.

Anos Noventa
Na década de 1990 a dinâmica da economia brasileira sofreu alterações decorrentes não somente de uma política de estabilização, que garantiu a redução do processo inflacionário, mas também de mudanças no âmbito das empresas que se alinharam a um novo padrão tecnológico e organizacional predominante nos países capitalistas avançados. A industrialização brasileira apresentou, historicamente, diferenciais que distanciaram o seu parque industrial das demais economias latino-americanas, todas integrantes da denominada periferia do mundo desenvolvido capitalista. O avanço do desenvolvimento capitalista brasileiro, contudo, ocorreu paralelamente com a emergência de pressões inflacionárias, agravamento das contas externas e deterioração das finanças públicas que se manifestaram, de forma contundente, nos anos de 1980.

No prenúncio dos anos de 1990, a nova proposta de desenvolvimento econômico, alicerçado na abertura econômica, entre outros aspectos, e a política de estabilização, a partir de julho de 1994, propiciaram o realinhamento da economia brasileira a um novo contexto do desenvolvimento capitalista mundial em que palavras como globalização e neoliberalismo tornaram-se representativas do somatório de transformações e representações hegemônicas no período.

A abertura econômica é entendida aqui como a redução dos impostos incidentes sobre os bens importados, bem como a eliminação dos obstáculos, existentes nos regulamentos, leis, controles, normas, que impediam a livre movimentação das mercadorias e capitais estrangeiros. Esse processo ocorreu no Brasil ao longo da década de 1990 e representou o alinhamento do país à onda de expansão do comércio e de capitais liderados pelas empresas dos países desenvolvidos. O movimento de expansão, chamado de globalização, foi possível com as transformações tecnológicas.

A compreensão dessa nova realidade e o impacto no desenvolvimento capitalista brasileiro, bem como a forma pela qual o país enfrentou seus problemas, tornam-se fundamentais para traçar as perspectivas da economia brasileira, além apontarem os desafios (novos e velhos) para se atingir uma realidade social menos excludente.

1 A reestruturação da economia mundial nos anos de 1980
O desenvolvimento capitalista mundial entra em processo de desaceleração na década de 1970, depois de enfrentar uma expansão econômica sem precedentes, cuja origem encontra-se no pós-Segunda Guerra Mundial. O crescimento foi liderado pela economia norte-americana que, ao definir uma nova forma de integração com a economia mundial, garantiu a dinamização das demais economias capitalistas com a expansão de sua estrutura industrial e dos respectivos padrões de consumo baseado em bens duráveis. As empresas européias e japonesas nos anos de 1950, reagindo à expansão das empresas norte-americanas, iniciaram um esforço de atualização tecnológica, possibilitando, em um segundo momento, um novo avanço dos investimentos em direção aos países periféricos em resposta à ação dos EUA, cuja hegemonia passa a ser contestada pelas tendências policêntricas que se afirma mundialmente. O policêntrismo decorreu da ascensão, em suas respectivas regiões, da Alemanha Ocidental e Japão, dinamizando as respectivas economias regionais bem como seus parceiros comerciais. Os países periféricos ou pobres são as economias nacionais que apresentam a condição de subdesenvolvimento, formando um subsistema composto, entre outros, pelos países da América Latina, da África e Ásia Ocidental. Algumas economias periféricas sofreram profundas transformações nessa fase de expansão da economia mundial. O avanço das fronteiras do capitalismo, ao anexar as economias periféricas, produziu desequilíbrios industriais nos países com base produtiva em estágios distintos quando comparadas com países desenvolvidos. A eliminação (ou atenuação) dos desequilíbrios exigiu o fortalecimento dos estados nacionais que assumiram o papel de centralizadores de recursos e coordenadores do processo de industrialização, além de investidores em determinados segmentos econômicos e em infra-estrutura. O resultado não foi homogêneo, ocorrendo distintos avanços entre os países da periferia, pois, enquanto alguns países industrializaram-se, outros

permaneceram nas etapas iniciais do processo. Contudo, o mais importante a ser destacado é que ocorreu um processo de integração, desigual e marginal sem dúvida, das economias periféricas ao desenvolvimento capitalista mundial e, conseqüentemente, serão atingidas nos momentos de crise e reorganização da produção capitalista lideradas pelos países centrais. O esgotamento do ciclo mundial de crescimento, manifestado a partir da década de 1970, deve-se à perda da capacidade de difusão tecnológica nos setores que lideraram a expansão nos países capitalistas desenvolvidos, bem como de sua forma de internacionalização baseado nas empresas multinacionais que imprimiram transformações à economia mundial. Nas economias industrializadas, a queda da demanda somada ao elevado desemprego resultou em aumento da capacidade ociosa e do custo fixo e, por conseqüência, de níveis maiores de estoque e do índice de preços. A ação da política econômica não conseguiu evitar o colapso do modelo, e a crise econômica, que se manifesta também no âmbito social e político em inúmeros países, passa a exigir uma nova atuação do Estado e dos demais atores sociais de cada economia. A imposição ao final do ciclo, pelo padrão tecnológico vigente, da sobreutilização do uso dos recursos energéticos e matérias-primas aliadas a uma demanda crescente, resultou em elevação dos preços relativos e uma onda de especulação no comércio internacional. A exaustão da internacionalização das grandes empresas teve no choque do petróleo o estopim de uma crise estrutural cujos resultados imediatos foram uma queda dos investimentos, aceleração inflacionária e crise energética. A crise afeta o desenvolvimento econômico liderado pelos países capitalistas avançados bem como uma estrutura organizacional e uma base técnica que foram incapazes de adequar-se para assegurar a manutenção de uma tendência de crescimento até então apresentada pelos indicadores de desempenho econômico. A base técnica do modelo de desenvolvimento capitalista, até então, esteve alicerçada nas inovações ocorridas nas áreas de eletricidade, química, fundição do aço e também nos métodos de organização do trabalho baseado no método de administração científico denominado taylorismo, em homenagem a seu criador, Frederic W. Taylor. O padrão tecnológico e a produção em massa fundaram as bases para a obtenção de ganhos de produtividade, ou seja, do aumento da produção física por trabalhador, e de redução dos custos unitários de produção pelas empresas industriais, determinando patamares de indicadores de desempenho que irão balizar a competência das empresas no mercado. A crise manifesta-se quando da impossibilidade (técnica e organizacional) de manutenção (ou ampliação) dos indicadores de

desempenho, tais como custos, produtividade do capital e trabalho, obtidos no passado. Neste momento, a competência do desenvolvimento capitalista no sentido de apropriação de lucros crescentes dos investimentos realizados é questionada, forçando a adoção de um novo padrão tecnológico que permita recriar as condições de valorização do capital. Os empresários, para diminuir o custo médio de produção, irão cortar os custos de mão-de-obra para disporem de recursos financeiros necessários aos novos investimentos destinadas a repor maquinário, adquirir distintas máquinas e equipamentos e introduzir tecnologias de processos e produtos, capazes de aumentar as condições de competitividade para enfrentar a acirrada concorrência. A rigidez do sistema de produção das empresas, estruturado para produzir produtos padronizados e obter economias de escala (produção de bens em grandes quantidades para reduzir custos unitários), mostrava-se incapaz de responder à crise manifestada. As críticas aos conceitos e práticas gerenciais do modelo taylorista, ao longo dos anos de 1980, contrapunham-se à defesa do modelo de gestão “japonês”. As maiores críticas dirigiam-se às empresas norte-americanas enfatizando as estratégias implementadas, o atraso tecnológico e as inadequadas formas de cooperação entre as empresas.

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A emergência do novo paradigma tecnológico, organizacional e produtivo nos anos de 1990 na economia mundial

Na década de 1980 ocorre uma aceleração das mudanças tecnológicas nos países desenvolvidos, lideradas pelas tecnologias de informação (microeletrônica, computação e telecomunicações), com impacto nas estruturas industriais. Além disso, a integração dos mercados financeiros e de capitais, possível com o fim das restrições à entrada do capital financeiro internacional aos mercados nacionais, desemboca na chamada globalização financeira. A inovações tecnológicas e a globalização financeira são indicativos das transformações verificadas a partir dos anos de 1980 que irão impactar sobre a economia mundial, em particular nos países em desenvolvimento. O resultado foi a emergência de um ambiente mais competitivo, tornando as inovações um elemento estratégico central na busca da competitividade das empresas. A expansão das redes de cooperação tecnológica, entre as empresas dos países capitalistas, foi uma das respostas para enfrentar o ambiente competitivo na premência de incorporação e desenvolvimento de tecnologias,

estabelecendo mudanças nas formas de inter-relacionamento entre as grandes empresas. Outro movimento correlato foi à ampliação das fusões e aquisições visando a concentração (ou ampliação) dos recursos para desenvolvimento de tecnologias. As fusões, que representam a união de duas ou mais empresas formando uma única empresa, permitem o fortalecimento das empresas para enfrentarem a concorrência, ampliando o montante de recursos para realização de pesquisa e desenvolvimento e também uma melhoria da produtividade com a redução dos custos.
As empresas dos países desenvolvidos lideraram o processo de reestruturação da produção, determinando novos padrões de concorrência no mercado internacional

A entrada de novas empresas nos mercados agora mais dinâmicos, porque formados por empresas detentoras e geradoras de tecnologias pioneiras, tornou-se difícil, dado o conjunto de obstáculos ao ingresso de firmas isoladas de menor porte produtivo, financeiro e tecnológico. O núcleo dinâmico é formado pelas seguintes indústrias: automotiva, aeronáutica, farmacêutico-química, eletrônica de bens de consumo, material elétrico pesado, autopeças, metais não-ferrosos, minerais não-metálicos e bens de capital por encomenda e seriados. As políticas empresariais tornam-se concentradas nas matrizes dos grandes grupos, pois, graças a telemática, a gestão empresarial pode ser on line, ou seja, a empresa matriz pode rapidamente informar e implementar uma mudança de gestão nas empresas filiais localizadas nos diferentes continentes mundiais. Desta forma, atividades de suprimentos, pesquisa e desenvolvimento, armazenagem, transporte, produção de peças, produção de componentes e subcomponentes, conjuntos, sistemas complexos podem ser implementados em vários países, mas sob controle centralizado. A cooperação para a retomada do crescimento e a estabilização econômica verificada entre os países centrais nos anos de 1980 criaram condições para um novo ciclo de investimento capaz de alavancar essas economias. Os investimentos provocaram um forte impacto nessas economias, quando as modernas tecnologias são adotadas por inúmeras empresas industriais nos ramos considerados dinâmicos citados anteriormente. No mundo industrializado as condições para a emergência desse processo se fazem presente quando há um amplo e crescente uso das novas tecnologias, cuja oferta é capaz de atender à demanda acelerada. A utilização da tecnologia causa redução dos custos em várias etapas do processo de produção e aumenta a produtividade do trabalho humano.

Os novos processos de produção, ao contrário dos processos anteriores, tornam-se independentes da produção de grandes lotes para serem viáveis. Isto será possível porque certos tipos de produtos, como bens de capitais não seriados, passaram a ser produzidos a um custo mais baixo, face ao uso de máquinas de comando numérico, que viabiliza a produção em pequenas quantidades. A exigência do processo tecnológico produtivo mais avançado requer uma mão-de-obra mais qualificada. O critério “mão-de-obra barata e abundante” não se traduz em melhores resultados no mundo produtivo contemporâneo. Com a introdução da programação flexível, é preciso uma mão-de-obra capaz de operar e reprogramar os ajustes nos processos fabris, bem como que compreenda o processo produtivo em sua totalidade. Atualmente amplia-se a necessidade de investir nos denominados intangíveis (software aplicado, capacitação da mão-de-obra, coordenação de processos, desenho e conexões das diferentes áreas da empresa) que possa traduzir-se em vantagens competitivas para as empresas. Desta forma, o velho modelo de trabalho fragmentado, repetitivo, não criativo, cede lugar a um processo de organização do trabalho e da produção, em que o conhecimento, a organização e a criatividade tornam-se fundamentais. As empresas dos países desenvolvidos têm montado redes internas computadorizadas para centralizar vendas, produção, marketing, produção, além de estabelecer um distinto padrão de relacionamento com fornecedores, clientes e prestadores de serviços. Em parcerias com as universidades e centros de pesquisa e tecnologia são desenvolvidas inúmeras pesquisas para melhoramento e criação de produtos e processos. As grandes empresas multinacionais, nos últimos anos, implementaram uma série de alianças tecnológicas, inclusive entre suas concorrentes. Essas alianças foram consubstanciadas através de acordos de cooperação produtiva, de desenvolvimento conjunto de produtos e processos com propósitos específicos, fortalecendo as suas competências. Para os países centrais, a reestruturação produtiva e tecnológica não ocorreu apenas com a atuação do mercado e nem com políticas públicas passivas. O exemplo da Alemanha que em 1982, com o novo governo, registra uma atuação coordenadora e indutora do Estado e o empenho governamental foi específico e direcionado para que o país reconquistasse sua capacidade produtiva. A ação governamental na Alemanha possibilitou uma inserção soberana no contexto internacional encabeçando o projeto europeu de modernização das empresas dos países pertencentes à Comunidade Européia. O resultado desta política de competitividade foi um círculo virtuoso de crescimento alemão, que foi capaz de suportar a concorrência japonesa e americana no cenário mundial.

3 Os impactos da abertura comercial e da estabilização da economia brasileira nos anos 90
A economia brasileira, enquanto economia periférica ao desenvolvimento capitalista mundial, até a década de 1980 conseguiu avançar no seu processo de industrialização apresentando um parque industrial com empresas produtoras de bens de capital e de insumos modernos, além das produtoras de bens de consumo durável e não durável. A instabilidade macroeconômica marca o período seguinte que se estende até meados de 1994. A crise da dívida externa, impedindo o acesso a novas linhas de crédito, a deterioração das finanças públicas e a conseqüente inflação orientaram a implementação de políticas de ajuste impedindo que as empresas realizassem um efetivo alinhamento às mudanças organizacionais e tecnológicas dominantes no cenário econômico mundial. A prioridade das empresas será a adoção de estratégias defensivas, e de curto prazo, para enfrentar um cenário marcado pelo encarecimento e redução do crédito, contenção da demanda, congelamentos de preços, reformas monetárias, mudanças de regras contratuais, entre outros que marcam a economia brasileira nos anos de 1980 até o início dos anos de 1990. O contexto impede um esforço de desenvolvimento científico e tecnológico alinhando-se ao que ocorre em termos mundiais. Além disso, a Política Industrial e de Comércio Exterior (PICE) inaugurada com o Governo Collor a partir de 1990, pressiona para uma adequação das organizações em curto período de tempo. O fulcro da nova política industrial passa a ser questão da competitividade que se torna indicadora do objetivo empresarial a ser perseguido. Apesar da política industrial do Presidente Collor ser alicerçada em uma política de concorrência e uma política de competitividade, a primeira tornou-se mais efetiva com o processo de redução dos impostos incidentes sobre os bens importados, destacando-se pela desmontagem do sistema de proteção e de incentivos construídos nas décadas anteriores.
A abertura do mercado brasileiro e a valorização do real foram condicionantes do êxito do Plano Real, ou seja, para o combate à inflação ao aumentarem a quantidade e reduzirem os preços dos bens importados, respectivamente

O ajuste realizado pelas empresas para fazer frente à política industrial significou reestruturações dos processos produtivos, pois estas são direcionadas para priorizar as atividades internas em que as empresas são competitivas, eliminar as atividades até então realizadas e consideradas subsidiárias (terceirização),

implementar programas visando à melhoria de qualidade etc. A palavra de ordem era a busca de aumento da produtividade, obtida, nesta primeira etapa, com a redução de custos e a maior racionalização da produção. Ao fato de as indústrias, no período, utilizarem equipamentos e instalações defasados, além da deficiência de suas tecnologias de processo e produto, somou-se às deficiências da infra-estrutura em especial nos segmentos de energia, transportes e telecomunicações, atrasando a adoção do novo padrão tecnológico e organizacional vigente nas economias desenvolvidas. O longo período de ajuste da economia brasileira também resultou em um estado incapaz de articular e fomentar uma base de apoio ao avanço da competitividade industrial, pelo peso, em suas finanças, dos encargos da dívida externa e dívida interna e também das deficiências de seu aparato administrativo. As medidas implementadas, porém, não atingiram as deficiências do sistema empresarial e nem alteraram a estrutura industrial brasileira. Ainda não há estudos conclusivos sobre o impacto da liberação comercial na participação da indústria na produção total da economia e na estrutura industrial, pois não foram registradas queda efetiva da participação da indústria no produto total e a estrutura industrial não sofreu significativas mudanças, mantendo, em realidade, uma certa estabilidade. O destaque da estrutura industrial foi o crescimento do complexo automotivo, setor favorecido pela política industrial das décadas anteriores, e perda da participação do segmento produtor de bens de capital. A liberação comercial também foi fundamental para a queda da inflação obtida com o Plano Real em 1994, pois a ampliação da oferta de bens importados impediu movimentos de alta dos preços. Além disso, a valorização do real em relação às moedas estrangeiras, em particular ao dólar, no período de julho de 1994 a janeiro de 1999, ampliou o impacto competitivo da liberação comercial, pois reduziu os preços dos bens importados. Além da abertura comercial, outros fatores vinculados à situação macroeconômica também afetaram as decisões produtivas e de investimento industrial na década de 1990, entre eles: a manutenção de elevadas taxas de juros internas, as oscilações do nível de atividade econômica e a elevação da carga tributária advindos, em particular, da elevação da tributação cumulativa como o PIS, CPMF e Cofins. O perfil industrial ao final dos anos de 1990 caracterizou-se pelos seguintes aspectos: as empresas multinacionais aumentaram sua participação nos setores de alimentos, eletrodomésticos e autopeças; preponderância na estrutura industrial, como no passado, das indústrias produtoras de bens de

consumo duráveis e de bens intermediários, pois foram os segmentos que obtiveram os maiores ganhos de competitividade, bem como foram os dominantes em termos de introdução de novas técnicas visando qualidade e produtividade; a estrutura industrial não foi alterada e nem da pauta de exportações de bens industrializados; a desindustrialização, prevista com a abertura comercial, não ocorreu na magnitude preconizada ficando restrita a alguns segmentos como o produtor de bens de capital.

4 Os desafios da inserção competitiva da indústria brasileira no mercado mundial
Após a consolidação da estrutura superior da pirâmide industrial nos anos de 1970, objetivo já presente no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1955-1960), o Brasil, no início dos anos de 1980, se depara com uma economia mundial transformada, em vários aspectos. As mudanças tecnológicas, produtivas e organizacionais aliadas aos efeitos da abertura comercial e da relativa estabilização dos preços, resultaram na exposição do tecido econômico nacional frente à concorrência externa. As mudanças no papel do Estado, das instituições tradicionais de fomento e da forma como os organismos empresariais e financeiros atuam não têm gerado o resultado necessário para que o país recupere a sua capacidade de crescer. Com poucas exceções, a indústria brasileira ainda não estabeleceu uma sólida base em capacitação e inovação tecnológica que venha a refletir em alteração significativa na pauta de exportação e importação. Os resultados positivos na balança de comércio (de 2001 até 2002) são fruto muito mais da compressão das importações, advinda da desaceleração econômica, do que do incremento das exportações. A insuficiente capacitação tecnológica das empresas brasileiras, notadamente as de capital local, ao não desenvolverem em maior quantidade e qualidade novos processos tecnológicos e produtos, aliada à ausência de uma política industrial para a inovação e competitividade, constituem-se em entraves ao desenvolvimento nacional. O saldo do período inflacionário, agravado por uma substancial redução no volume e na qualidade do investimento público e privado nos últimos vinte anos, não contribuiu para que o país tirasse maior proveito da abertura econômica dos anos de 1990.

Nas economias desenvolvidas registra-se a diminuição da participação da indústria na composição do Produto Interno Bruto. No entanto, nesses mesmos países, é crescente a participação dos setores de alta tecnologia do valor adicionado do setor industrial, inclusive com a entrada de pequenas e médias empresas organizacionalmente avançadas. Nesses países, as políticas de competitividade para indústria são estruturadas para alavancar toda a cadeia de valor e uma das formas de realizar esse processo é o desenvolvimento de agrupamento de empresas conhecido por clusters industriais. O papel do governo tem sido ativo ao induzir, coordenar e aglutinar esforços para que a competitividade tenha a maior capilaridade possível, incluindo as pequenas e médias empresas. Exemplo disso são as aglomerações industriais, denominadas de cluster, de pequenas e médias empresas na Itália, Alemanha e EUA. Quais são os desafios a serem enfrentados pela indústria brasileira? São vários, passíveis de serem alcançados a médio e longo prazo, desde que sejam buscados no mais breve tempo possível. Podemos considerar quatro como os mais importantes para o contexto atual. Inicialmente deve ser destacado que segmentos líderes do crescimento econômico industrial com grande impacto não só na indústria, mas na agricultura e setor de serviços, são: informática, biotecnologia, telecomunicações, eletrônica, mecatrônica, novos materiais, aços especiais e outros. São setores intensivos em conhecimento e informação, recursos tão ou mais importantes que o capital.
A melhoria da competitividade econômica e o aumento das exportações devem ser incentivados como alternativas, entre outras medidas, para a retomada do crescimento da economia brasileira

Em segundo lugar, destacam-se a formação e a capacitação de recursos humanos necessários para transferir, criar, adaptar, desenvolver e aplicar tecnologia, de forma a reduzir a dependência tecnológica e financeira que o país tem frente ao exterior. Cabe aqui destacar o papel relevante a ser desempenhado por um competente Sistema Nacional de Inovações, em que a junção dos recursos e ações pública e privada pode acelerar a capacitação da força de trabalho para atuar na sociedade de conhecimento e da informação. A

produtividade e a inovação também podem ser incrementadas nos setores de atividades consideradas tradicionais, possibilitando, inclusive, a produção interna de muitas importações. Em terceiro lugar, aparece a formação de cadeias produtivas mais completas, em que a especialização produtiva contribuiria para o aumento da oferta interna de bens e serviços com maior qualidade e menor preço. As redes de empresas e os diversos arranjos produtivos locais estruturados, capazes de aumentar o grau de modernização, notadamente nas pequenas e médias empresas, configuram-se como instrumentos de aumento de competitividade, sendo um dos mecanismos de incremento de produtividade e de remuneração mais adequada à força de trabalho mais bem qualificada. Por último, a maior participação do mercado externo requer uma postura mais ativa do setor público e da classe empresarial. O denominado custo-Brasil, que são os custos ou despesas de produção que dificultam as exportações encarecendo os produtos quando comparados com os produtos importados, não é somente de responsabilidade do governo, pois 50% desse custo é derivado da burocracia estatal, do emaranhado de leis, decretos, portarias e editais; os outros 50%, porém, advém das empresas privadas. Realizar a reforma tributária, que desonere a produção, também é uma iniciativa importante, pois parte da melhoria do grau de competitividade está dependendo dessa mudança. Reduzir o desperdício e evitar retrabalhos são atividades que não dependem de ações do setor público. Há que se tomar medidas ativas, não apenas visando, no curto prazo, a reduzir os custos e o grau de endividamento, mas também estruturar e preparar a empresa brasileira para crescer, e buscar novas oportunidades de mercado, pois a lição das estratégias defensivas e de curto prazo, adotadas nos últimos vinte anos, resultaram em desnacionalização, perda de competitividade e encolhimento da empresa nacional. Buscar o crescimento sustentado é o grande desafio, pois um país que pretende ser moderno e respeitado no âmbito internacional não pode prescindir de uma atividade industrial significativa e eficiente.

A ECONOMIA BRASILEIRA SOB O GOVERNO LULA: RESULTADOS E CONTRADIÇÕES.

A economia brasileira passou por um longo processo de estagnação e inflação durante os anos 80 decorrente da crise da dívida externa que se abateu sobre todos os países endividados, em especial os da América Latina. Essa crise se manifestou através de um agudo processo inflacionário que chegou a 2.012,6% em 1989 e 2.851,3% em 1993, estimados pelo índice geral de preços (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas1. Assim, a segunda metade da década de 80 e a primeira da de 90 foi marcada por sucessivos planos de combate à inflação, que se iniciou com o Plano Cruzado em 1986 e foi concluído, finalmente, em 1994, com o Plano Real2. Esse período foi marcado, também, pelo esgotamento final do processo de industrialização conhecido como “de substituição de importações”, e pelo início da adoção das políticas neoliberais no Brasil. A última tentativa importante de continuidade da construção de uma economia industrial integrada e relativamente independente das grandes potências econômicas foi o ambicioso II Plano Nacional de Desenvolvimento, ainda no governo do General Ernesto Geisel que terminou em 1979, ano que marca o início da crise da dívida3. Após o II PND, os sucessivos governos enfrentam-se, por um lado, com a pressão externa decorrente dos vultosos pagamentos de juros e amortização da dívida e, por outro, no front interno, com a aceleração da pressão inflacionária. A economia passa, então, a ser redirecionada no sentido de ampliar o esforço exportador visando obter as divisas necessárias ao pagamento dos serviços da dívida. Em 1981 o saldo da balança comercial, que até então era negativo, torna-se positivo e cresce continuamente até 1994, quando volta a ser negativo. A média desse saldo nesses 14 anos supera os US$ 10,0 bilhões ao ano e todo ele é destinado ao pagamento dos juros da dívida externa.
Fabrício Augusto de Oliveira, Doutor em economia, professor do curso de mestrado da Fundação João Pinheiro. Email: fabricioaugusto@hotmail.com. ∗∗ Paulo Nakatani, Doutor em economia, professor do Departamento de Economia e do Programa de PósGraduação em Política Social da Universidade Federal do Espírito Santo. Email: pnakatani@uol.com.br. 1 IPEADATA. http://www.ipeadata.gov.br/ipeaweb.dll/ipeadata?70563390. 2 MARQUES, Rosa e REGO, José Márcio (Org.). Economia Brasileira. São Paulo: Saraiva, 2000. Partes 4 e 5.

Esse esforço transformou-se em um círculo vicioso infernal em que o governo, por um lado, estimulava as exportações e, por outro lado, comprava os dólares. A produção para exportação gerava produto e renda, em que o primeiro era exportado e a renda permanecia internamente. O resultado das exportações, as divisas, era adquirido pelo governo através da emissão de moeda e devolvido ao exterior pelo pagamento do serviço da dívida, e parte dessa emissão não era compensada pelo endividamento interno devido ao ambiente extremamente instável decorrente das pressões inflacionárias, que foram tornando-se incontroláveis. O resultado acumulado desse processo, durante quase uma década, culminou com os surtos hiperinflacionários de 1989 e 1993, que felizmente não produziram integralmente os desastres típicos desse fenômeno. A crise aguda que se desenrolou no início dos anos 80 foi acompanhada pelas grandes manifestações contra a ditadura militar e pelas eleições diretas para a presidência da república. Com a queda da ditadura e o novo governo civil, a economia recupera por pouco tempo as taxas de crescimento, mas não escapa do sufoco da dívida e nem das pressões inflacionárias, que aguçam ainda mais as contradições internas. É também neste contexto, de luta contra a ditadura militar, entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, que surge e se expande o movimento sindical dos operários da indústria paulista e o Partido dos Trabalhadores, cujo líder principal é Luís Inácio Lula da Silva. Durante os anos 80 e 90, o PT ganha corpo, estrutura e significativo peso político nacional, com centenas de milhares de filiados e militantes, tornando-se a principal força política de oposição aos governos de José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso (FHC). Assim, logo na primeira eleição direta à presidência da república, após a ditadura militar, Lula venceu o primeiro turno e caminhava para uma vitória no segundo. Entretanto, as classes dominantes retomaram rapidamente a iniciativa e iniciaram uma ampla ofensiva contra ele, na qual utilizou sem limites as redes de televisão, principalmente a rede globo de televisão. Dessa forma, elegeu Fernando Collor de Mello, candidato de um partido minúsculo e politicamente inexpressivo, que acabou renunciando em dezembro de 1992, para não ser cassado, sob acusações de corrupção e desvio de recursos públicos. Lula ainda foi candidato em 1993 e em 1998 e perdeu para Fernando Henrique Cardoso nas duas eleições. Nesse processo, a fração
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O impacto da crise da dívida externa brasileira foi agravada pela conversão da dívida privada externa em dívida pública, permitida pela Resolução 432/77 do Conselho Monetário Nacional.

majoritária, dirigente do PT, foi mudando gradativamente de posição e de estratégia eleitoral4, até a vitória de Lula em 2002. Durante esse período são gestadas as condições e adotadas as medidas de política econômica neoliberal, assim, o governo implementa progressivamente a liberalização do comércio internacional, dos fluxos de capitais especulativos, a privatização das empresas estatais, a reforma do estado, a reforma tributária e a reforma da previdência do setor privado5. Em junho de 1994, ainda durante o governo de Itamar Franco, o Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso comanda a execução do Plano Real que consegue controlar o processo inflacionário e reduzir a inflação a níveis muito baixos, com isso consegue eleger-se presidente da república por dois mandatos consecutivos.

2. O DESEMPENHO ECONÔMICO: O SUCESSO NOS FUNDAMENTOS. O Plano Real6 foi implantado em junho de 1994. Seu principal resultado foi a drástica redução da inflação, entretanto, sua concepção baseada em uma taxa de câmbio semi-fixa e supervalorizada, taxas de juros elevadas e forte ingresso de capitais estrangeiros, principalmente especulativo, estabeleceram seus próprios limites. As contradições internas desse plano aceleraram rapidamente o endividamento interno e externo, transformou o saldo positivo na balança comercial em déficit e aumentou o saldo negativo em transações corrente. Em conseqüência, o aumento da vulnerabilidade externa e as crises financeiras internacionais levaram-no ao colapso em fins de 19987. A reformulação da política macroeconômica foi baseada em três pontos: a implementação da política de metas de inflação, a mudança no regime cambial com taxa flutuante e as metas de superávit primário. São esses os novos elementos introduzidos

Encontramos uma análise detalhada desse processo em: NETO, João Machado Borges. Um governo contraditório. Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, no. 12, junho 2003. p. 7-27. 5 Não detalharemos esses pontos. Sobre essas questões em geral, ver FILGUEIRAS (2000). Sobre as privatizações, ver, BIONDI, Aloysio. O Brasil privatizado. Um balanço do desmonte do Estado. São Paulo: Perseu Abramo, 1999; sobre a reforma da previdência, MARQUES, Rosa.... 6 FILGUEIRAS, Luiz. História do Plano Real. São Paulo: Boitempo, 2000. 7 Para assegurar a vitória de Fernando Henrique Cardoso contra Lula, o FMI e a comunidade financeira internacional organizaram um gigantesco empréstimo de US$ 41,6 bilhões ao Brasil. Desse total, US$ 18,1 bilhões do próprio Fundo, mais de 600% da cota do Brasil, US$ 9,0 bilhões do Banco Mundial e do BID e US$ 14,5 bilhões dos Estados Unidos, Japão e Canadá.

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na política econômica pelo governo de FHC e que são mantidos e aprofundados pelo governo Lula8.
Tabela 2.1 Os resultados da política de metas de inflação
Tolerância Limite SELIC em em pontos superior da dezembro percentuais Meta 1999 8,00 2,0 10,0 19,00 2000 6,00 2,0 8,0 15,75 2001 4,00 2,0 6,0 19,00 2002 3,50 2,0 5,5 25,00 2003 4,00 2,5 6,5 16,50 2004 5,50 2,5 8,0 17,75 2005 4,50 2,5 7,0 18,00 Fonte: Bacen. Boletim do Banco Central do Brasil. Vários números. Anos Meta CMN IPCA 8,94 5,97 7,67 12,53 9,30 7,60 5,69

Em março de 1999, foi implementado o sistema de metas de inflação no Brasil com a utilização do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como meta e a substituição das Taxa Básica do Banco Central (TBAN) e Taxa de Assistência do Banco Central (TBC) por uma única taxa chamada de SELIC. Naquele momento, a taxa básica foi fixada em 45,0% ao ano, mas foi caindo rapidamente terminando o ano a 19,0%, para uma inflação, estimada pelo IPCA, de apenas 8,94%, em 1999. Considerando mais rigorosamente a meta de inflação, sem as tolerâncias, ela foi cumprida em um único ano, segundo se observa na tabela 2.1. Considerando as tolerâncias, as metas não foram cumpridas em 2001, 2002 e 2003 e não seriam cumpridas nos dois anos seguintes se o governo não tivesse aumentado novamente as metas e as tolerâncias além de manter as taxas básicas de juros a níveis elevadíssimos. A média da taxa Selic anualizada considerando 252 dias úteis, em 2004, foi de 16,24% e de 19,12%, em 2005, para uma inflação de 7,6% e 5,69%, respectivamente. Entretanto, como o objetivo da política de metas de inflação é o controle inflacionário, pode-se concluir que esse objetivo foi muito bem alcançado e o IPCA deve cair para menos de 5,0% em 2006. Além disso, a combinação de elevadas taxas de juros com uma inflação em declínio conduz a um aumento da taxa real de juros, que serve de base para a formação de toda a estrutura de juros da economia, em especial a taxa que incide sobre a dívida mobiliária federal. Esse mecanismo produz polpudos lucros para as instituições bancárias e financeiras, como os observados nos últimos anos9.

As demais medidas neoliberais, como as reformas tributária e da previdência, a privatização, a lei de falências e a liberação comercial e financeira continuam sendo impulsionadas pelo novo governo. 9 “Os balanços recém divulgados indicam um crescimento excepcional do lucro dos bancos em 2005. O lucro líquido dos principais bancos do país – Banco do Brasil (BB), Caixa Econômica Federal (CEF),

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A mudança na política cambial e o aprofundamento dos benefícios concedidos ao capital externo10, associado ao crescimento acelerado das exportações devido à conjuntura internacional favorável dos últimos anos, permitiram que o Governo Lula conseguisse uma significativa redução na vulnerabilidade externa. À primeira vista, todos os indicadores apresentados na tabela 2.2 são extremamente positivos, entretanto, nem tudo pode ser interpretado como resultado direto da política econômica.
Tabela 2.2 Indicadores de vulnerabilidade externa
Indicadores 2000 2001 Dívida externa total/PIB (%) 36,02 41,18 Dívida externa total líquida/PIB (%) 28,41 31,92 Dívida externa total/Exportações (razão) 393,79 360,57 Dívida externa total líquida/Exportações (razão) 310,57 279,45 Serviço da dívida/PIB (%) 8,15 10,35 Serviço da dívida/Exportações (%) 89,08 90,64 Juros pagos ao exterior/PIB (%) 2,84 3,46 Juros pagos ao exterior/Exportações (%) 31,04 30,26 Transações correntes/PIB (%) -4,02 -4,55 Transações correntes/Exportações (%) -43,98 -39,87 Reservas internacionais/Dívida externa total (%) 15,22 17,08 Reservas internacionais/Serviço da dívida (razão) 67,27 67,96 Fonte: Bacen. Boletim do Banco Central do Brasil. Vários números. 2002 45,87 35,88 349,08 273,08 10,09 76,80 3,33 25,31 -1,66 -12,65 17,95 81,59 2003 42,41 29,79 294,09 206,60 8,37 58,07 3,02 20,97 0,82 5,72 22,94 116,15 2004 33,29 22,43 208,73 140,66 8,03 50,32 2,53 15,85 1,94 12,14 26,29 109,03 2005 21,28 12,69 143,23 85,44 6,11 41,14 1,97 13,28 1,78 12,00 31,75 110,55

A dívida externa total representava 45,87% do PIB, no final do governo FHC, e caiu para 21,28% em dezembro de 2005, uma redução de mais de 50%, enquanto a dívida total diminuiu 19,55% e o PIB cresceu a uma taxa média real de apenas 2,6% ao ano. Esse fenômeno pode ser explicado pela forte desvalorização do real frente ao dólar, principalmente pelo ataque especulativo em 2002. Com isso, a taxa média de câmbio para a conversão do PIB aumenta até 2002 e passa a declinar a partir daí, depois que o governo assegura o mercado financeiro de que continuará a mesma política macroeconômica. O resultado foi uma forte queda do PIB avaliado em dólares, entre 2000 e 2002 e o contrário até 2005. Além disso, nem toda a dívida amortizada foi do setor público, este reduziu a sua parcela de US$ 110,4 bilhões para US$ 87,6 bilhões e o setor privado, de US$ 100,3 bilhões para US$ 81,9 bilhões entre 2002 e 2005. Se observarmos com mais cuidado a relação entre os juros pagos ao exterior e o PIB vemos que esse coeficiente aumentou de 8,15% em 2000, para 3,33% em 2002 e

Bradesco, Itaú e Unibanco – registrou um expressivo crescimento de 49,9%, somando R$ 18,8 bilhões” (DIEESE, 2006).
10

Em 15 de fevereiro de 2006, o Presidente Lula assinou a Medida Provisória 281, que isentou do Imposto de Renda e da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira o capital estrangeiro aplicados em títulos públicos. Ver também, ASSIS, J. Carlos de. Isenção de imposto para especulador estrangeiro. http://www.desempregozero.org.br/editoriais/insencao_de_imposto.php.

caiu para 1,97% do PIB, em 2005. Entretanto, o total de juros pagos em 2000 foi de US$ 17,1 bilhões, de US$ 15,3 bilhões em 2002 e de US$ 15,7 bilhões em 2005. Os indicadores mais impressionantes do sucesso do governo na construção de seus fundamentos são as relações entre o saldo em transações correntes e o PIB, e o mesmo saldo e as exportações. Ambos passaram de negativos para positivos entre os três últimos anos de governo de FHC e os três primeiros de Lula. O primeiro coeficiente sofre o mesmo problema de conversão cambial analisado anteriormente, mas um de seus componentes, a conta de rendas, não só é negativo, como cresce bastante no período, atingindo US$ 34,1 bilhões negativos em 2005. O governo Lula continuou e aprofundou a política de geração de superávits primários. Primeiro, aumento a meta de 3,75%, segundo o acordo com o FMI, para 4,25% do PIB. Enquanto o governo FHC atingiu 3,89%, em 2002, Lula conseguiu superar a própria meta, realizando 4,59% e 4,85%, em 2004 e 2005. Entretanto, a conta de juros foi de 7,26% e 8,13% do PIB, nos mesmos anos.

3. QUANDO OS FUNDAMENTOS NÃO AJUDAM O CRESCIMENTO Apesar de estar exibindo indicadores financeiros e variáveis econômicas bem mais favoráveis, de ter reduzido consideravelmente o grau de vulnerabilidade externa da economia e caminhar bem, na visão do mercado, no ajuste fiscal, o Brasil não tem se beneficiado dessas condições para os objetivos do crescimento econômico. Em 2005, o PIB cresceu apenas 2,3%, contra uma expansão de 4,3% registrada para a economia mundial. Na América Latina, que apresentou média de crescimento em torno da observada para o mundo, o Brasil só conseguiu melhor resultado do que o Haiti, um país mergulhado numa guerra civil que paralisou sua economia, para a qual se projetava expansão inferior a 1,5%. A Argentina, com um índice de crescimento de 9,1% no ano, a Venezuela, com 9%, e mesmo o México, com 3%, apesar de prejudicado pelos efeitos dos furacões na sua agricultura no último trimestre, confirmam que o Brasil não está conseguindo aproveitar a melhoria de seus fundamentos econômicos e nem o cenário externo favorável para reverter a trajetória de perda de importância relativa de sua economia em relação tanto ao mundo como à região. Desde o seu lançamento, em 1994, o programa de estabilização, conhecido como Plano Real, tem se mostrado inimigo do crescimento econômico. Apenas nos seus dois primeiros anos de vida – 1994-1995 – o Brasil conseguiu superar a média de

crescimento da economia mundial, como mostra a tabela 3.1. De lá para cá, situou-se sempre abaixo dessa média, aproximando-se desta apenas nos anos de 2000 e 2004, que foram marcados por um cenário externo excepcionalmente favorável. Em todos os demais, apresentou crescimento medíocre ou ficou estagnado como nos anos de 1998, 1999 e 2003.

Tabela 3.1 Taxas de Crescimento do PIB no Brasil e na economia mundial - 1994-2005
Taxa de crescimento do PIB (%) Brasil Economia Mundial 1994 5,9 3,8 1995 4,2 3,6 1996 2,7 4,1 1997 3,3 4,2 1998 0,1 2,8 1999 0,8 3,7 2000 4,4 4,7 2001 1,3 2,4 2002 1,9 3,0 2003 0,5 4,0 2004 4,9 5,1 2005 2,3 4,3 Fonte: CNI. Sem crescer, não há saída. Revista da CNI. São Paulo, CNI, no. 62, abril de 2006, p.16-21 Ano

Não há diferenças significativas, neste período, do ponto de vista do crescimento, entre os governos que comandam o país. Como mostra a tabela 3.2, no primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), a média de crescimento anual foi de 2,6%, enquanto no segundo (1999-2002) essa média caiu para 2,1%. Nos três anos do governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva o crescimento médio alcançou 2,6%, não devendo ser alterado de forma significativa com a expansão projetada em 3% para 2006. Na média dos últimos dez anos (1996-2005), o crescimento de apenas 2,2%, que pode ser considerado um nível medíocre para o país superar seus desequilíbrios, atender as necessidade de emprego da população e melhorar suas condições de vida.

Tabela 3.2 Brasil: taxas de Crescimento do PIB, por períodos e por governo - 1995-1998
Anos/períodos 1995-1998 1999-2002 Governo Fernando Henrique Cardoso Fernando Henrique Cardoso Taxas de crescimento do PIB (%) 2,6 2,1

1995-2002 2002-2005 2006 – projeção 1996-2005 Fonte: IBGE

Fernando Henrique Cardoso Luiz Inácio Lula da Silva Luiz Inácio Lula da Silva FHC e Lula

2,3 2,6 3,0 2,2

Em favor do governo Fernando Henrique Cardoso pode-se argumentar que este enfrentou uma série de intempéries econômicas internacionais e internas nos seus dois mandatos, que prejudicaram os objetivos do crescimento, embora não se possa atribuir exclusivamente a esses acontecimentos o insucesso de sua política econômica neste campo. No primeiro, as crises financeiras que se abateram sobre as economias mexicana (1995), do sudeste asiático (1997) e da Rússia (1998), que conduziram à falência e desvalorização do Real, em 1999. No segundo, a desaceleração da economia norteamericana, os ataques terroristas nos EUA (2001), a crise argentina e a crise na oferta de energia no país, ambas também em 2001. No governo Luiz Inácio Lula da Silva, contudo, tirante o primeiro ano (2003) em que a desconfiança em sua política econômica não havia sido desfeita, o Brasil navegou em águas tranqüilas e favoráveis do cenário internacional e, contando também com o apoio do mercado e das instituições financeiras internacionais, conseguiu melhorar consideravelmente, como visto na seção anterior, os indicadores financeiros, fiscais e de risco do país, o que o tem levado a acenar, desde que assumiu o governo, com a promessa de que ingressaremos num longo e permanente ciclo de crescimento. Até o momento, contudo, o fato é que, apesar de todas essas melhorias a economia se encontra com o crescimento travado, sem perspectivas de vislumbrar, no curto prazo, uma retomada mais forte e firme de seu ritmo. Os dados contidos na tabela 3.3 revelam, com maior clareza como, em virtude dessa performance, o Brasil tem ficado para trás em relação às economias desenvolvidas, às emergentes e, em boa media, às da América Latina. Nos últimos dez anos (1996-2005), a média de crescimento de seu PIB per capita foi de apenas 0,7% ao ano, apenas superior à observada para a Venezuela, que registrou taxa negativa de – 0,5%. Todos os demais países arrolados na tabela apresentaram crescimento superior, destacando-se a China (7,7%), a Índia (4,4%) e as economias emergentes da Europa, como a Polônia e a Rússia. Mesmo em relação às economias desenvolvidas, que convivem com taxas mais modestas de crescimento, o desempenho do Brasil tem sido pífio, situando-se, em alguns casos, em torno de um terço ou um quarto das que foram

por elas alcançadas. Com isso, não somente tem se ampliado a distância que separa o país das nações desenvolvidas, em termos de renda per capita, como dele se aproximam, rapidamente, países como a China e a Índia, que contam com populações superiores em mais de cinco vezes.

Tabela 3.3 PIB per capita: Taxa média anual de crescimento entre 1996/2005 e Valor em 2004 (em US$), ajustado pela paridade do poder de compra
Países Grupos País Estados Unidos Japão Alemanha Reino Unido França Itália Canadá Austrália Coréia do Sul Espanha Portugal Crescimento médio anual (1996/2005) (%) 2,2 1,0 1,2 2,4 1,7 1,2 2,4 2,4 3,7 3,1 1,6 Valor em 2004 (US$ ajustado pela PPP) 39.710 30.040 27.950 31.460 29.320 27.860 30.660 29.200 20.400 25.070 19.250

G7

Outras economias avançadas Emergentes:

China 7,7 5.530 Índia 4,4 3.100 Polônia 4,1 12.640 Europa Rússia 4,3 9.620 África África do Sul 1,7 10.960 Argentina 0,9 12.460 Brasil 0,7 8.020 América Latina Chile 2,8 10.500 México 2,1 9.590 Venezuela -0,5 5.760 Fonte. FMI e Banco Mundial. In: CNI Informa - Notas Econômicas. São Paulo, CNI, ano 7, n. 89, 15 de março de 2006. Ásia

Ora, se os fundamentos econômicos são, de fato, sólidos como vem sendo defendido pelo mercado e pelos gestores da política econômica, não se justifica o país abdicar do crescimento e não aproveitar, também como as demais economias emergentes, os ventos favoráveis da economia mundial. Afinal, a construção de fundamentos econômicos sólidos visa exatamente criar as condições para o crescimento sustentado. A menos que a estabilidade monetária alcançada no país tenha se transformado em um objetivo em si mesmo ou que estes fundamentos não sejam assim tão sólidos como se apregoa, o país estaria novamente perdendo a oportunidade de aproveitar essas condições para avançar na correção de seus desequilíbrios e de muitos de seus problemas. É o que se discute em seguida. 4. AS TRAVAS DO CRESCIMENTO: O MODELO DE ESTABILIZAÇÃO

Para se entender as razões que têm inibido o crescimento e impedido vôos mais altos dos governantes brasileiros nessa direção, é necessário lançar um olhar para as peças que compõem a arquitetura do modelo de estabilização, o Plano Real, desde a sua implementação em 1994: nele é possível identificar a armadilha em que o país se viu enredado para garantir a estabilidade monetária, em detrimento do crescimento econômico. Em sua primeira fase (1994-1998), o plano, para ser vitorioso no combate à inflação, valeu-se, na ausência de uma âncora fiscal confiável, da combinação de um câmbio sobrevalorizado, que cumpriu o papel de âncora nominal dos preços, com a manutenção de elevadas taxas de juros voltadas para manter desaquecida a demanda interna e garantir a atração de capitais externos para o país, ao mesmo tempo em que promoveu uma rápida abertura comercial, visando também obter ganhos no front inflacionário, embora com prejuízos para a produção nacional. Com esse mix de medidas, a inflação desfaleceu e caiu para níveis moderados (entre 5% e 10% ao ano), mas seus resultados foram desastrosos para as contas externas e para o aumento dos desequilíbrios fiscais do setor público: de um equilíbrio na balança de conta-corrente obtido em 1994, o país amargou um déficit de US$ 33 bilhões em 1998 e viu a relação Dívida Líquida do Setor Público/PIB evoluir de 30% para 43% (treze pontos percentuais do PIB em apenas 4 anos!). Diante desses números, alguns analistas não têm dúvidas em afirmar que a estabilidade só foi alcançada à custa de um brutal endividamento, o qual limitaria suas possibilidades de crescimento nos períodos seguintes11. Com o aumento de sua vulnerabilidade externa, o país tornou-se altamente sensível ao efeito-contágio das crises externas, que se abateram sobre a economia mundial a partir da metade da década de 1990, obrigando-o a promover fortes ajustamentos em sua economia. Com a crise da economia russa, em 1998, e a rápida fuga de capitais externos do país, não lhe restou outra alternativa senão a de recorrer ao FMI e sujeitar-se a adotar um novo modelo de estabilização, que, pela sua arquitetura, se revelaria ainda mais desfavorável para os objetivos do crescimento. Na sua segunda fase, que se inicia em 1999 e prossegue até os diais atuais, as peças do modelo foram ajustadas para estancar e reverter a trajetória de crescimento da dívida, e assegurar, ao mesmo tempo, a estabilidade de preços. No novo modelo, o
11

Para essa questão, ver Oliveira & Nakatani (2002)

câmbio tornou-se flutuante, a âncora de preços deslocou-se para o regime de metas inflacionárias estabelecidas pelo Banco Central (inflation targenting) e o compromisso com a geração de crescentes e elevados superávits fiscais primários foi nele incluído para garantir uma trajetória mais confiável para a relação dívida/PIB, com o pagamento de parcela de seus encargos para os credores do Estado. Eleitas como prioridades absolutas neste modelo, a estabilidade monetária e o controle da dívida não deixam muito espaço para o crescimento econômico, dada a interação de suas peças, a não ser em períodos em que a conjuntura internacional se mostre extremamente favorável, como nos últimos anos. Mesmo neste caso, se a política econômica não for suficientemente capaz de aproveitar essa oportunidade – como tem ocorrido no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, primando-se pelo conservadorismo – ou pelo medo de crescer! -, o país continuará fadado a conviver com baixas e medíocres taxas de crescimento. O fato de o modelo possuir um forte viés anti-crescimento explica-se por que os instrumentos que são manejados para viabilizar o atingimento das metas de inflação e da relação dívida/PIB asfixiam a atividade produtiva e operam contra os investimentos – públicos e privados -, aumentando o “custo-Brasil” e impedindo a remoção de gargalos estruturais da economia brasileira, o que é indispensável para a criação das condições necessárias para o crescimento sustentado. São três, basicamente, os instrumentos que têm sido utilizados para garantir o atingimento dessas metas: a taxa de juros, a carga tributária e os gastos públicos. A manutenção de elevadas taxas de juros reais (atualmente em torno de 11% ao ano, a mais alta do mundo) inibe o consumo, desestimula o investimentos e, também importante, garante um acentuado e permanente ingresso de capitais externos na economia brasileira, em busca de lucros rápidos e fáceis, valorizando a moeda nacional (o Real) e prejudicando o setor exportador. Embora este ainda venha apresentando um excelente desempenho, beneficiado pela continuidade do crescimento da economia mundial, vários setores já enfrentam dificuldades para sustentar suas atividades com a situação atual do câmbio, como os de calçados, vestuário e até mesmo o automobilístico, entre outros. Os sinais de que o crescimento da economia mundial pode se desacelerar nos próximos anos indicam que o Brasil pode enfrentar dificuldades com um dos poucos setores que ainda tem conseguido garantir algum dinamismo para sua economia. De quebra, e nem por isso menos importante, as elevadas taxas de juros

contaminam e expandem a dívida pública, exigindo esforços ainda maiores na geração de superávites primários para evitar seu descontrole. A elevação da carga tributária, instrumento preferencial que tem sido utilizado pelo governo, desde 1999, para garantir a geração de superávites primários, aumenta o “custo-Brasil”, reduz a lucratividade dos investimentos privados e inibe o mercado interno, ao reduzir a renda disponível da população. Não bastasse a forte elevação que conheceu nos últimos seis anos – entre 1998 e 2004 a carga tributária brasileira deu um salto de 29,7% para 35,9% do PIB – sua composição é ainda mais perversa para o crescimento econômico: contando com cerca de 80% de impostos indiretos em sua estrutura, o que torna o sistema tributário um forte instrumento de concentração de renda, cerca de 35% de toda arrecadação provêm de impostos cumulativos, também como conhecidos impostos “em cascata”, prejudiciais para a tão cara questão da competitividade no mundo globalizado e para a integração econômica regional. O terceiro instrumento de que tem lançado mão o governo para garantir a geração de superávites primários – os cortes de gastos públicos – não alimenta apenas as forças da recessão, mas impede que o governo realize os investimentos em infraestrutura econômica para remover os gargalos estruturais da economia que poderiam melhorar as expectativas do setor privado e dar um novo impulso aos seus investimentos, se convencido de que não encontraria rapidamente limites à expansão de sua capacidade produtiva. Isso porque, com o orçamento público, comprometido com despesas de caráter obrigatório e com o compromisso de pagamento de parcela expressiva dos juros da dívida pública, os cortes de gastos têm se centrado, predominantemente, nos investimentos públicos e em despesas sociais que não contam com receitas protegidas por alguma norma constitucional ou legal, como se verifica para os casos dos setores da saúde e da educação, por exemplo. Sem investimentos públicos, que atualmente estão reduzidos a algo em torno 0,5% do PIB não há como gerar um estado de confiança indispensável para a retomada dos investimentos privados e para o crescimento sustentado. Não sem razão, o Brasil vem apresentando as mais baixas taxas de investimento no mundo de acordo com levantamento realizado pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) apresentados na tabela 4.1. Como se percebe na tabela, enquanto se registrou para a economia mundial uma taxa média de investimento de 22,1% do PIB, no período 1995/2004, a observada para o Brasil não foi além de 19,3%. Essas diferenças se tornam ainda mais acentuadas quando se considera esses países por

blocos: as economias emergentes da Ásia investiram, em média, 32,6% ao ano neste período, seguidos pelos países do Leste e do Centro da Europa, com 23,9%. Apenas em relação aos resultados atingidos pela América Latina e África, o Brasil apresenta-se mais próximo, mas, ainda assim, em posição inferior.

Tabela 4.1 Grupos selecionados de países: investimentos em porcentagem do PIB
Grupos de Países Média 1995/2004 Economias Desenvolvidas 21,3 África 20,0 Leste e Centro europeu 23,9 Economias emergentes da Ásia 32,6 América Latina 20,8 Brasil 19,3 Mundo 22,1 Fonte: FMI e Banco Mundial. In: CNI Informa - Notas Econômicas. São Paulo, 89, 15 de março de 2006. 2004 20,6 21,3 24,5 35,4 20,4 19,6 21,9 CNI, ano 7, n.

Ora, com baixo nível de investimentos não há como crescer de forma mais expressiva a longo prazo. E mais grave: sem aumento na capacidade de oferta, qualquer pressão de demanda dele resultante termina gerando pressões adicionais sobre os preços, exigindo que a recuperação seja abortada para impedir o comprometimento das metas de inflação, como ocorreu no Brasil, por exemplo, em 2000 e 2004. Os instrumentos do modelo, neste caso, terminam sendo acionados e retorna-se ao circulo vicioso da armadilha da estabilização: elevação dos juros, desaquecimento do consumo, paralisia dos investimentos, contaminação da dívida pública, aumento do superávit primário, com mais cortes de gastos e ampliação da carga tributária, produzindo novo período de baixo crescimento ou de estagnação. Para o mercado e os responsáveis pela política econômica, a manutenção dessa estratégia, por tempo prolongado, poderá permitir, ao país, colher os frutos do crescimento sustentado e compensar os elevados custos impostos à sociedade. É uma questão de fé, da qual continua se beneficiando – e muito! – o capital financeiro. Para os críticos deste modelo, sem alterações e mudanças importantes em sua arquitetura, é mais fácil que produza a “paz dos cemitérios”, com o progressivo enfraquecimento do tecido econômico, o aumento do desemprego, da pobreza e da exclusão social. Por enquanto, os resultados dão razão aos últimos: depois de dez anos de baixo crescimento, não se vislumbra possibilidades de reversão dessa trajetória num futuro próximo,

enquanto o controle da dívida pública, o principal objetivo perseguido com o modelo, tem se mantido insistentemente em níveis superiores a 50% - e isso sem enfrentar nenhuma crise externa nos últimos anos.

Pensamento econômico e desenvolvimentismo no Brasil

Os cenários político e ideológico brasileiros, reforçados pela atual crise capitalista, apontam para um renascimento das teses desenvolvimentistas como uma saída da condição periférica do nosso país. No plano político, vemos o início de uma corrida presidencial em torno de candidaturas que se intitulam desenvolvimentistas ou, pelo menos, se dizem contrárias ao ideário neoliberal. No plano teórico, autores influentes do pensamento econômico nacional – tal como Luiz Carlos Bresser Pereira – buscam atualizar as teses desenvolvimentistas para o presente. Em um passado não muito distante, o marxismo brasileiro (e latino-americano) desenvolveu uma instigante e consistente linha de crítica às teses desenvolvimentistas. Esta crítica ganhou ainda mais força com o aparecimento de saídas socialistas para o impasse da condição periférica e dependente da América Latina e com o esgotamento histórico que o modelo de substituição de importações – expressão política e econômica daquelas teses burguesas – sofreu nos anos 1960/70. A presente comunicação tem como objetivo central resgatar a controvérsia que envolveu as teses dual-estruturalistas e as teses marxistas sobre o desenvolvimento desigual e combinado das nações periféricas nos anos 1960/70. Acreditamos que este resgate pode nos ajudar, feitas as devidas mediações, a entender os atuais rumos das teorias e da política brasileira e latino-americana. Como hipótese central, apresentamos o argumento que a categoria analítica do desenvolvimento desigual e combinado é um conceito-chave da crítica socialista à ideologia desenvolvimentista. I. O PENSAMENTO ECONÔMICO BRASILEIRO E A HEGEMONIA DESENVOLVIMENTISTA A bibliografia sobre a história do pensamento econômico (HPE) brasileiro é formada por poucos títulos; ela é basicamente composta de alguns artigos publicados
Pesquisador do Laboratório de Estudos Marxistas José Ricardo Tauile (LEMA)/UFRJ, doutorando da ESS/UFRJ e docente do UniFOA. A presente comunicação foi elaborada dentro do projeto de pesquisa O desenvolvimentismo no Brasil: um estudo sobre o pensamento econômico para o desenvolvimento nacional, coordenado pela profª Maria Malta (IE/UFRJ, LEMA) e financiado pelo IPEA. O autor agradece a Bruno Borja pelos valiosos comentários, eximindo-o de qualquer responsabilidade sobre o resultado final.

em revistas acadêmicas e coletâneas de artigos e entrevistas1. Os trabalhos mais significativos, entretanto, são duas teses de doutorado escritas na década de 1980 e que foram publicadas na forma de livros. Estamos nos referindo às obras A economia política brasileira, de Guido Mantega (1984) e Pensamento Econômico Brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo, de Ricardo Bielschowsky (1988)2. Bielschowsky desenvolveu sua tese de doutorado na UFRJ durante a década de 1980 sob orientação dos professores Leo Katzen e Carlos Lessa. O seu objeto de pesquisa era o pensamento econômico brasileiro na era desenvolvimentista. O método de pesquisa fundamentou-se em um diálogo crítico com a teoria de Schumpeter, que indica a necessidade do historiador do pensamento econômico dissociar os elementos analíticos e ideológicos nas obras inventariadas. Bielschowsky não promove tal dissociação, mas elenca como prioridade dos seus estudos os elementos ideológicos presentes no pensamento econômico brasileiro. Durante meio século, desde a Era Vargas até a década de 1980, a corrente desenvolvimentista, em particular a relacionada aos nacionalistas do setor público, obteve a hegemonia ideológica dentro do pensamento econômico brasileiro. O livro de Bielschowsky narra-nos com competência a história dos inúmeros embates políticos e controvérsias teóricas que levou ao resultado final da vitória desenvolvimentista. Neste período, tal hegemonia foi tão acentuada que as agendas teóricas e políticas dos liberais e até mesmo dos socialistas giraram em torno daquele projeto. Apesar da diversidade de correntes dentro do desenvolvimentismo3, podemos apontar algumas características básicas do seu consenso ideológico. O grande destaque analítico da corrente desenvolvimentista é sem dúvida a teoria do subdesenvolvimento formulada por Celso Furtado a partir dos seus estudos sobre a história das formações

Cf. Maria Rita Loureiro (org.), 50 anos de ciência econômica no Brasil: pensamento, instituições e depoimentos, Petrópolis, Vozes, 1997; Tamás Szmreczanyi e Francisco da Silva Coelho (orgs.), Ensaios de história do pensamento econômico no Brasil contemporâneo, São Paulo, Atlas, 2007; Ciro Biderman, Luis Felipe Cozac e José Márcio Rego, Conversas com economistas brasileiros, volume I, São Paulo: Editora 34, 1995; Guido Mantega e José Marcio Rego, Conversas com economistas brasileiros, volume II, São Paulo: Editora 34, 1999. 2 Ricardo Bielschowsky, em parceria com Carlos Mussi, voltou recentemente ao tema e escreveu um longo artigo sobre o pensamento econômico brasileiro, atualizando a sua antiga pesquisa até o ano de 2005. Cf. Ricardo Bielschowsky e Carlos Mussi, O pensamento desenvolvimentista no Brasil: 1930-1964 e anotações sobre 1964-2005, texto apresentado para o seminário Brasil-Chile: uma mirada hacia América Latina y sus perspectivas, Santiago de Chile, junho de 2005. 3 Dentro da era desenvolvimentista, Bielschowsky identifica três grandes correntes ideológicas: a neoliberal (Eugenio Gudin), a socialista (Caio Prado Jr. e Ignácio Rangel) e a desenvolvimentista, sendo esta subdividida em três subcorrentes, a saber, a do setor privado (Roberto Simonsen), a não-nacionalista do setor público (Roberto Campos) e a nacionalista do setor público (Celso Furtado).

1

econômicas do Brasil e da América Latina e das contribuições de Prebisch acerca do modelo centro-periferia de economia internacional. Segundo as formulações de Furtado, o subdesenvolvimento latino-americano deitava raízes profundas na formação do mercado mundial desde a expansão marítima e comercial européia. A divisão internacional do trabalho desenvolveu mecanismos de extração do excedente econômico produzido na periferia e canalizado para o centro, criando condições estruturais e sistêmicas de assimetria nas relações internacionais. As forças de mercado, deixadas ao sabor da sua lógica interna, não seriam capazes de mudar o estado de coisa vigente. Desta forma, a América Latina e, em particular o Brasil, estariam condenados ao subdesenvolvimento. Seria necessária a firme atuação de um agente externo ao mercado para o rompimento dos elos de dominação econômica, política e cultural que ligam a periferia ao centro. A promoção do desenvolvimento nacional seria resultado de uma política econômica orquestrada e conduzida pelo Estado, seja atuando diretamente como produtor de bens e serviços, seja como indutor de investimentos privados. Cabe destacar que o processo de industrialização e o planejamento estatal não previam o controle total da economia, como ocorria nas economias centralizadas socialistas. Uma das intenções era corrigir anomalias, desvios e suprir carências da otimização realizada pelos mercados. O Estado nacional era, assim, apontado como o agente social de transformação, preservando-se, todavia, uma autonomia relativa do empresariado. A ideologia desenvolvimentista ganhou força e se tornou hegemônica quando foi encampada pela burguesia (e por amplos setores organizados do proletariado) como arma de combate contra os interesses oligárquicos dos latifundiários agro-exportadores. Tal burguesia, conjuntamente com setores da burocracia estatal, tomou-a para si e transformou-a numa ideologia para seus projetos de industrialização e autonomia nacional. Nas primeiras formulações desenvolvimentistas, a industrialização era tida, inclusive, como condição suficiente para acabar com a concentração de renda e reproduzir os índices sociais homogêneos e convergentes do centro aqui na periferia. A história econômica, social e política da América Latina e a mobilização de organizações populares atestaram a falsidade (e a ingenuidade) dos desenvolvimentistas. A industrialização aprofundou, por exemplo, a heterogeneidade social e produtiva na periferia. A hegemonia burguesa ficou, assim, abalada, abrindo possibilidades de contestação ao projeto de desenvolvimento periférico pela via do capitalismo autônomo. Deste modo, apareceram críticas socialistas à ideologia desenvolvimentista.

II. A CRÍTICA CAPITALISTA

MARXISTA

AO

MITO

DO

DESENVOLVIMENTO

Desde os escritos de Marx e Engels, o marxismo desenvolve uma crítica ao desenvolvimento econômico sob o comando do capital. Talvez a principal síntese desta crítica esteja contida no capítulo XXIII de O Capital, intitulado A lei geral da acumulação capitalista. Neste trecho do livro, o processo de desenvolvimento econômico é analisado a partir da exploração da força de trabalho, da geração da maisvalia e da acumulação capitalista. Neste sentido, está explícita a crítica à visão tradicional dos economistas a respeito do desenvolvimento, entendido como um tema ligado fundamentalmente a taxas de crescimento do produto interno de um determinado país, bem como de inversão capitalista, emprego (ou desemprego) dos fatores de produção e distribuição de renda. Ainda no mesmo capítulo, Marx descreve de forma precisa os impactos sociais da acumulação capitalista na classe trabalhadora, resultando na riqueza das classes proprietárias e no pauperismo (relativo e, em alguns casos, absoluto) dos trabalhadores. Sob esta perspectiva, Marx entende o desenvolvimento econômico como um mito fundador do capitalismo, pois seus resultados – alienação, subsunção, dominação e pauperismo – são sempre desfavoráveis à classe trabalhadora. Em linhas gerais, para Marx, a acumulação capitalista não pode prover o bem-estar social para a totalidade da população, mas somente para uma fração. Desta impossibilidade, ele defende a revolução socialista como sendo a única saída para os trabalhadores construírem uma sociabilidade que atenda seus interesses próprios enquanto classe social. Apesar da profundidade desta crítica, o marxismo entende o tema do desenvolvimento para além das suas determinações econômicas mais diretas. É possível dizer que a porta de entrada do marxismo na temática é a sua abordagem histórica, que discorre a respeito das grandes transformações dos modos de produção, isto é, como eles se sucedem ao longo do desenvolvimento das forças produtivas, das revoluções políticas e como formas pretéritas de organização social sobrevivem e se articulam com o modo de produção capitalista. Isto está presente tanto nos clássicos internacionais quanto nacionais do marxismo. Algumas tradições dentro do marxismo, como as formuladas pelas II e III Internacionais, adotaram uma abordagem evolucionista para explicar o processo de desenvolvimento histórico dos modos de produção. Segundo esta visão, a história da

humanidade seria contada mecanicamente como uma sucessão ordenada de modos de produção: comunismo primitivo, asiático, antigo, feudal e capitalista. Por meio das crises ocasionadas pelas contradições geradas pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais de produção, um novo modo de produção sucederia o antigo na escala evolucionista. Alguns dos escritos mais influentes de Karl Marx demonstram certo grau de influência do evolucionismo na sua obra4. Já no final da sua vida, Marx, todavia, viu-se novamente envolto em questões a respeito do desenvolvimento histórico dos modos de produção. Por conta do seu contato com os socialistas russos, Marx recebeu uma carta que continha a seguinte pergunta: “Será verdade que todos os países do mundo devem, por uma necessidade histórica, passar por todas as fases da produção capitalista?” Em resumo, Vera Zasulitch, uma das líderes do movimento operário russo, questionava a forma evolucionista de sucessão dos modos de produção (do comunismo primitivo ao capitalismo). Este contato com o movimento operário russo obrigou-o a estudar com mais afinco a história, as estruturas de propriedade e as relações sociais de produção no campo daquele país então considerado atrasado. Examinada a literatura, Marx responde que, dentro de certas condições sociais, seria possível operar a revolução socialista na Rússia tendo como base a propriedade comunal do país. Ou seja, seria possível a transição para o socialismo por meio de elementos presentes em modos de produção não-capitalistas, sem passar necessariamente pela fase capitalista do desenvolvimento das forças produtivas. Na carta de resposta a Vera Zasulitch5, Marx declara que a forma de transição operada na Europa Ocidental do feudalismo para o capitalismo por meio da expropriação dos meios de produção dos camponeses trata-se de uma especificidade histórica daquela região. Esta forma de transição não deve ser entendida, segundo suas
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No Manifesto Comunista, o autor anota que “sob a ameaça da ruína, ela [a burguesia] obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção; força-as a introduzir a assim chamada civilização, quer dizer, a se tornar burguesas. Em suma, ela cria um mundo à sua imagem e semelhança”. No prefácio do livro Para a Crítica da Economia Política, afirma-se que “em grandes traços podem ser caracterizados, como épocas progressivas da formação econômica da sociedade, os modos de produção: asiático, antigo, feudal e burguês moderno. As relações burguesas de produção constituem a última forma antagônica do processo social de produção (...)”. Até mesmo em O Capital, aparecem traços evolucionistas na forma que Marx vê o desenrolar do processo histórico: “o país mais desenvolvido não faz mais do que representar a imagem futura do menos desenvolvido”. 5 Karl Marx a Vera Zasulitch, 8 de março de 1881. In: Dilemas do socialismo: a controvérsia entre Marx, Engels e os populistas russos. Rubem César Fernandes (org.). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982, p. 187188.

próprias palavras, como uma “fatalidade histórica”, como um modelo generalizável para todos os países. Assim, podemos concluir que:
Diversos escritos de Marx e Engels, em primeiro lugar o Manifesto do Partido Comunista, contêm, seguramente, aspectos de uma tendência evolucionista ou econômico-determinista na sua interpretação da História. Entretanto, é totalmente equivocado reduzir o conjunto do pensamento de Marx a uma visão da sociedade e da História resultante das leis naturais do desenvolvimento das forças produtivas, ou a uma série de etapas calcadas no modelo europeu6.

Após a morte dos epígonos, desenvolveram-se correntes dentro do marxismo que romperiam com a visão evolucionista da história dos modos de produção. O primeiro passo foi dado por Lênin na obra O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1898). Neste título, Lênin escreveu a respeito do desenvolvimento capitalista numa formação econômico-social periférica, averiguando como um mesmo país comportava diferentes níveis de desenvolvimento das forças produtivas entre setores como indústria e agricultura. Já na década de 1920, Antonio Gramsci e José Carlos Mariátegui escreveram a respeito da coexistência muito particular de diferentes modos de produção dentro de países periféricos tais como Itália e Peru, respectivamente. Nestas localidades, o desenvolvimento capitalista tinha uma história muito específica, que diferia enormemente, por exemplo, dos modelos clássicos da Inglaterra e da França. Lá setores modernos (industriais e mineração) e arcaicos (agricultura de subsistência de base familiar e indígena) conviviam em regiões dentro de uma mesma nação. Contudo, a primeira formulação mais bem acabada a respeito de uma visão dialética da história do desenvolvimento capitalista na periferia foi elaborada por Leon Trotsky a partir da lei do desenvolvimento desigual e combinado. Segundo esta lei7, a formação econômico-social russa é vista como uma formação histórica sui generis que escapa ao esquematismo evolucionista e mecanicista, pois ela mescla, de forma desigual e combinada, elementos modernos e arcaicos. Dos setores modernos, tinha-se a
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Michael Löwy, Nacionalismos e internacionalismos. São Paulo, Xamã, 2000, p. 30-31. “As leis da História nada têm em comum com os sistemas pedantescos. A desigualdade do ritmo, que é a lei mais geral do processus histórico, evidencia-se com maior vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob o chicote das necessidades externas, a vida retardatária vê-se na contingência de avançar aos saltos. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre outra lei que, por falta de denominação apropriada, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, que significa aproximação das diversas etapas, combinação das fases diferenciadas, amálgama das formas arcaicas com as mais modernas. Sem esta lei, tomada, bem entendido, em todo o seu conjunto material, é impossível compreender a história da Rússia, como em geral a de todos os países chamados à civilização em segunda, terceira ou décima linha”. Leon Trotsky, História da Revolução Russa, volume 1. Rio de Janeiro, Saga, 1967, p. 25.

indústria moderna trazida pelo capital estrangeiro internacional dos países imperialistas (Inglaterra, França e Alemanha). Dos setores arcaicos, o governo autocrático dos tzares e o baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas rurais. Ambas conviviam dentro de uma mesma totalidade – a formação econômico-social russa – e o setor arcaico não era tido como uma barreira ao avanço do capitalismo mas, ao contrário, proporcionava certos estímulos a ele, como a repressão autocrática do czarismo ao nascente movimento operário. Em suma, nas primeiras três décadas do século XX, certa tradição heterodoxa do marxismo – Lênin, Gramsci, Mariátegui e Trotsky – se colocou em posição de combate contra as tendências mecanicistas e evolucionistas proferidas pelos órgãos oficiais do movimento operário mundial, como as II e III Internacionais. Tais revolucionários, a partir de análises concretas de situações concretas, desenvolveram uma rica leitura dialética do desenvolvimento histórico dos modos de produção, estabelecendo os elos de ligação entre formas não-capitalistas e o capitalismo dentro de formações econômico-sociais periféricas, determinando, assim, suas especificidades históricas, e não simplesmente comparando-os com modelos ideais e clássicos do desenvolvimento capitalista. Anos mais tarde, este método marxista seria apropriado por diversos intelectuais brasileiros na tentativa de se decifrar a natureza do capitalismo neste rincão mais desigual do mercado mundial. Este será o tema da seção final do presente texto. III. A CRÍTICA DO MARXISMO HETERODOXO BRASILEIRO AO DESENVOLVIMENTISMO De acordo com a economia política cepalina, o subdesenvolvimento não deveria ser entendido como uma etapa primitiva e originária do desenvolvimento econômico. Segundo suas principais teses, o processo de desenvolvimento dos países atrasados não seria determinado naturalmente pela evolução temporal, ao contrário do que pregavam o modelo neoclássico de Rostow e as teorias sociológicas da modernização. O subdesenvolvimento significava uma condição histórica imposta pela expansão mundial do capitalismo, e nada garantia que os padrões de vida dos países centrais seriam alcançados pelos periféricos. Para lá chegar, argumentavam os desenvolvimentistas da CEPAL, as nações subdesenvolvidas deveriam fazer escolhas a partir de um determinado nível de consciência dos limites e possibilidades contidos em cada etapa

histórica, visando desenvolver ações políticas8 no sentido da industrialização, tida, como vimos, como a tábua de salvação da periferia.
O subdesenvolvimento, assim, não se inscrevia numa cadeia de evolução que começava no mundo primitivo até alcançar, por meio de estágios sucessivos, o pleno desenvolvimento. Antes, tratou-se de uma singularidade histórica, a forma do desenvolvimento capitalista nas ex-colônias transformadas em periferia, cuja função histórica era fornecer elementos para a acumulação de capital no centro.9

Tradicionalmente, a HPE brasileira aponta os seminais trabalhos da CEPAL como o ponto de partida de uma genuína teoria latino-americana. De fato, a economia política cepalina destaca-se pela postura combativa, força argumentativa e criatividade teórica nos embates ideológicos enfrentados nas décadas de 1950/60, em especial nas suas críticas ao a-historicismo dos neoclássicos e ao esquematismo histórico das teses dos Partidos Comunistas latino-americanos, que reproduziam as teses estalinistas da III Internacional a respeito do caráter feudal/colonial dos países periféricos. A nossa hipótese central é que, com maior profundidade e antes do desenvolvimentismo cepalino, o pensamento marxista heterodoxo gestou – na contramão da hegemonia estalinista dentro do pensamento e da ação comunistas na América Latina ao longo dos anos 1920/30/40 – uma teoria capaz de desvelar as especificidades históricas desta região e de apontar rumos políticos para determinados sujeitos históricos lutarem contra os elos externos e internos de dominação, exploração e dependência. Como exemplos dessa tradição heterodoxa do marxismo, podemos citar Mariátegui como o fundador nos anos 1920, seguido por historiadores do porte de Caio Prado Jr., Sergio Bagú e Marcelo Segall nos anos 1940. Já na década de 1960, temos o surgimento de diferentes teorias marxistas brasileiras que irão se bater frontalmente com as teses desenvolvimentistas e seus projetos políticos. Deste destacamos Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Francisco de Oliveira e os teóricos da dependência10.

No sentido de uma ação orientada para um determinado fim, os cepalinos valeram-se das teorias weberianas. Enquanto a teoria evolucionista darwinista da seleção natural opera por uma finalidade prédeterminada aos animais – a da reprodução das espécies –, a weberiana parte de ações realizadas com um sentido determinado pelo sujeito, a partir de escolhas. Ou seja, a evolução histórica das nações e sua posição relativa dentro do sistema mundial capitalista não são determinadas por questões naturais (como prega a teoria das vantagens comparativas de Ricardo), mas sim por escolhas políticas. 9 Francisco de Oliveira, “O ornitorrinco”. In: Francisco de Oliveira, Crítica a razão dualista/O ornitorrinco. São Paulo, Boitempo, 2003, p. 126. 10 Cf. Michael Löwy (org.), O marxismo na América Latina: uma antologia de 1909 aos dias atuais. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 1999.

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No nosso entendimento, a categoria analítica desenvolvimento desigual e combinado11 fornece boa parte do fundamento teórico-metodológico do marxismo heterodoxo latino-americana. Esta corrente do marxismo coloca questões importantes a respeito da constituição histórica da América Latina como uma região integrada aos circuitos comerciais, produtivos e financeiros do imperialismo, tais como a integração de setores pré-capitalistas na dinâmica da acumulação capitalista internacional, o papel das burguesias nacionais e a natureza da revolução na periferia. Chegamos a esta hipótese por uma dupla via. Em primeiro lugar, pelo estudo de obras do pensamento econômico brasileiro ao longo dos anos 2007-200812. A segunda via foi a leitura de uma interessante análise escrita pelo historiador Felipe Demier sobre a influência de Trotsky e sua lei do desenvolvimento desigual e combinado no pensamento nacional. No seu artigo, Demier expõem como a referida lei teórica trotskista “acabou por se constituir em uma matriz interpretativa para os estudos de renomados intelectuais acadêmicos brasileiros que, nas décadas de 1960-70, opuseramse às leituras ‘etapistas’ e ‘dualistas’ sobre as condições sócio-históricas do Brasil”13. Para isto, o autor cita as obras de Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Octávio Ianni, Francisco de Oliveira, Fernando Henrique Cardoso e Francisco Weffort como referências daquela influência – direta e/ou indireta – de Trotsky na intelectualidade brasileira. Cabe ressaltar que esta influência varia de caso a caso: por exemplo, a categoria desenvolvimento desigual e combinado está exposta de forma patente em Florestan Fernandes, Octávio Ianni e Francisco de Oliveira, mas como uma noção (difusa) em Caio Prado Jr. A nossa hipótese também pode ser corroborada nos escritos de Francisco de Oliveira sobre a produção bibliográfica de Celso Furtado. No livro A navegação venturosa, o cientista social pernambucano anota que
a tese cepalino-furtadiana da dualidade distingue-se da constatação geral e histórica do ‘desenvolvimento desigual e combinado’ da tradição marxista (Lenin e Trostki) precisamente porque para Furtado e a Cepal o desenvolvimento é desigual – tanto pelas diferenças de grau e ritmo de desenvolvimento quanto pelas diferenças qualitativas
Cf. Michael Löwy, “A teoria do desenvolvimento desigual e combinado”. In: Michael Löwy e Daniel Bensaïd, Marxismo, modernidade e utopia. São Paulo, Xamã, 2000, p. 160-167. 12 Em 2007 e 2008, o Laboratório de Estudos Marxistas José Ricardo Tauile (Instituto de Economia/UFRJ) organizou um curso de extensão intitulado Clássicos do Pensamento Social Brasileiro. Nesta atividade estudamos obras dos seguintes autores: Caio Prado Jr., Celso Furtado, Florestan Fernandes, Francisco de Oliveira, Ignácio Rangel, Nelson Werneck Sodré, Octávio Ianni e Ruy Mauro Marini. 13 Felipe Demier, “A lei do desenvolvimento desigual e combinado de León Trotsky e a intelectualidade brasileira”. In: Revista Outubro, nº16, 2007, p. 77.
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entre setores que se desconhecem entre si –, mas não é combinado. Os dois setores não têm relações articuladas: o setor ‘atrasado’ é apenas um obstáculo ao crescimento do setor ‘moderno’, principalmente porque, por um lado, não cria mercado interno e, por outro, não atende aos requisitos da demanda de alimentos. Nem sequer a clássica função de ‘exército [industrial] de reserva’ o ‘atrasado’ cumpre em relação ao ‘moderno’ (...)14.

De acordo com Chico de Oliveira, os cepalinos haviam conseguido perceber determinadas relações internacionais de dominação do centro frente à periferia e correlacionar a condição de subdesenvolvimento dos países do sul com o desenvolvimento dos países do norte. Este seria o grande mérito de Furtado, que não entendia o subdesenvolvimento como ausência de desenvolvimento, mas sim como condição histórica do processo de expansão espaço-temporal do capitalismo. A CEPAL, todavia, não conseguia transpor tais relações de dominação para o interior dos países periféricos, nem estabelecer os elos que ligam os setores modernos e arcaicos de cada formação econômico-social da América Latina:
O dual-estruturalismo não é de modo nenhum uma teorização vulgar. Sua força residiu, sobretudo, em apontar a emergência de processos que não eram perceptíveis nem importantes para as outras vertentes teóricas. A dualidade ‘atrasado-moderno’ escapa, por exemplo, tanto à a-historicidade do método neoclássico quanto ao mecanicismo das ‘etapas’ e dos modos de produção seqüenciais próprios do stalinismo convertido em oráculo do marxismo. Mas ele também – inclusive porque teoriza contemporaneamente os próprios processos que percebe – mascara os novos interesses de classe que se põem agora como ‘interesses da Nação’15

Em suma, temos no desenvolvimentismo cepalino a presença da noção do desenvolvimento desigual das forças produtivas entre regiões – centro e periferia – da divisão internacional do trabalho, bem como uma incapacidade teórica de articular dialeticamente as contradições internas entre os setores moderno e arcaico de um país. Ou seja, a economia política cepalina, ao contrário do marxismo heterodoxo brasileiro (e latino-americano), ignorava a dimensão combinada do desenvolvimento capitalista na periferia, persistindo no erro de ver o setor atrasado como uma barreira ao pleno desenvolvimento do capitalismo na periferia.

Francisco de Oliveira, A navegação venturosa: ensaios sobre Celso Furtado. São Paulo, Boitempo, 2003, p. 13, grifos originais. 15 Idem, ibidem, p. 15, grifos originais.

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