A CONCEPÇÃO DIALÉTICA DA HISTÓRIA EM HEGEL

O presente estudo visa compreender porque para Hegel a história é dialética, e como é possível interpretar os fatos à luz da História Universal, conseqüência racional da ação dos homens ao longo do tempo, que encontra sua máxima expressão no Estado. Na concepção dialética dos acontecimentos a história é o resultado do embate do atual (tese) com o diferente (antítese) que entram em conflito, e em um segundo momento, provocam o novo (síntese). Desse modo, para Hegel, a história dialética compreende o nexo entre os acontecimentos particulares e a relação destes com o seu contexto universal. Introdução Na obra “Filosofia da história” Hegel procura encontrar o vínculo que existe entre os acontecimentos ao longo do tempo. Marcuse afirma que a Filosofia da história expõe o conteúdo histórico da razão. Assim, a história é o resultado racional do confronto dialético das ações dos homens, tendo em vista que estes agem em função de objetivos. A história dialética é dinâmica, pois cada ação (tese) comporta uma reação (antítese), que em conflito com a tese resulta em uma nova realidade (síntese), a qual comporta as qualidades do antigo e do novo espírito. Em Hegel a história é o topos no qual a humanidade e os seres humanos se constroem enquanto processo dialético em marcha. Além disso, afirma que a História Universal, que é passível de racionalidade, pode ser apreendida pela reflexão filosófica. Desse modo, a história filosófica, que trata da filosofia da história, é a observação refletida. Somente ela, por meio do raciocínio dialético, pode compreender a história universal, que é o real existente, porque o real pode ser compreendido pelo método dialético. A história considera o que é e o que foi, ou seja, acontecimentos e ações. Já a filosofia, contempla a história, porque é nela que a razão se encontra. Consequentemente, a história universal é um processo racional. A filosofia aborda a história como matéria-prima para a reflexão. O objetivo do raciocínio dialético de Hegel, aplicado à história, é o de conhecer os acontecimentos particulares, que em conjunto, formam a História Universal. Portanto, não basta acumular conhecimentos fragmentados sobre o real, porque os fatos isolados não falam por si, e por isso, não podem revelar a história. Logo é preciso examinar os dados por intermédio da razão para que eles revelem a consciência do mundo.

Hegel. 7). Esse processo se desenvolve indefinidamente. “na acepção moderna. O raciocínio dialético A dialética. antítese e síntese formam a estrutura da dialética. por sua vez. 2006 p. a superação dialética é simultaneamente a negação de uma determinada realidade. entretanto. a síntese do processo. p. a conservação de algo de essencial que existe nessa realidade negada e a elevação dela a um nível superior” (KONDER. demonstrar uma tese por meio de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão” (KONDER. o modo de compreendermos a realidade como essencialmente contraditória e em permanente transformação” (KONDER. p. Do choque das duas surge uma nova idéia que é o resultado.2 Para Hegel. por sua vez. Aristóteles considerava Zênon de Eléa o fundador da dialética. é contraposta outra idéia. No primeiro é apresentada uma determinada idéia. que força a mudança (síntese). a qual transforma o real. a compreensão dialética que Hegel tem da história. Na modernidade esse diálogo foi sistematizado em três momentos. 26). “Dialética era. no diálogo. na Grécia antiga. posteriormente. porque é a marcha racional da humanidade em direção a autoconsciência da liberdade do espírito universal encarnado no Estado. Konder exemplifica essa afirmação em O que é dialética com o conceito de trabalho. a investigação histórica deve ser realizada de forma empírica. o estudo da História Universal deve levar em conta tudo o que nela aconteceu racionalmente. para se desfazer de todo mito e invenção. provocado pela negação (antítese). mas que . Por isso. à qual. Para compreender a dialética aplicada à história. a partir dela. passou a ser a arte de. que consiste no questionamento do real (tese). retoma a concepção dialética do real para. incorporando e conservando as qualidades da antiga tese (passado). Por isso. Assim. dialética significa outra coisa: é o modo de pensarmos as contradições da realidade. Aos poucos. interpretar a história. Por isso. a síntese (presente) exclui as contradições. é preciso analisar o movimento dialético histórico. Nele a matéria é destruída (negada) para assumir outra forma. 2006. reflete a história dos povos que se organizaram racionalmente. a tese. já existia na antiguidade no pensamento grego. “para ele. arte do diálogo. tese. E a síntese. 2006. a arte do diálogo. Para tanto. 8). conserva o que há de melhor da tese e da antítese. que passam a coexistir com o novo no presente. O diálogo consistia na troca de idéias para aperfeiçoar o pensamento. Como conseqüência do processo dialético.

“o único pensamento que a filosofia aporta é a contemplação da história.3 conserva o material do objeto transformado. sonhos e fins. “Portanto. sem ter a preocupação de encontrar continuidades. Assim. e digna dela somente.. numa situação dada” (KONDER. 17). o estudo da história universal resultou e deve resultar em que nela tudo aconteceu racionalmente. O conceito de história Em Hegel a história é a ciência que narra o passado a partir de métodos e técnicas próprios. 1995. por isso. À história. resultado da negação da negação. o trabalho. “É da alçada da meditação filosófica. 57). Por isso. Por isso. p. mas com a História Universal. Por isso. 1995. não existe. p. p. 18). ao percorrermos o passado – não importa qual a sua extensão -. acontecimentos e ações. não interessa propriamente encontrar as causas que desencadeiam os acontecimentos. só lidamos com o presente” (HEGEL. mas à filosofia. Ela se ocupa do que foi e do que é. a antítese e. porque o ser humano que faz a história usa da razão e age racionalmente em vista de objetivos.. Assim. portanto. 37). 72). p. e que. tomar a história no ponto em que a racionalidade começa a entrar na existência mundial” (HEGEL. a matéria inicial é a tese. Portanto. que ela foi a marcha racional e necessária do espírito universal. Na teoria do conhecimento a síntese é o instrumento pelo qual podemos abranger a maior parte das estruturas que compõem o real. a história narra uma série de histórias paralelas e sucessivas. os quais formam o real que é racional. “quando lidamos com a idéia do espírito e consideramos tudo na história universal como a sua manifestação. A ação do ser humano no tempo é um processo racional. o ser humano se torna aquilo que ele faz. somente existe o presente. mas tão somente de relatar os fatos. a síntese. A razão na história é a garantia de que o mundo e a ação dos personagens históricos não estão entregue ao acaso. 1995. 2006. a dialética é a contradição que se encontra tanto na consciência do sujeito. a nova forma. “A síntese é a visão de conjunto que permite ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta.” (HEGEL. a história universal é também um processo racional” (HEGEL. o Espírito que não está no presente e não age. é a simples idéia de que a razão governa o mundo. A concretização do Espírito é a sua própria ação. p. para Hegel. Hegel não se preocupa em dar exemplos ou apontar fatos particulares da história. Os elementos da natureza do espírito são a razão . Pelo raciocínio dialético o passado enquanto tempo real não existe mais. 1995. quanto na realidade objetiva.

mas possui uma lógica interna. que conserva as qualidades do antigo no novo. porque é ele o único capaz de realizar alguma revolução significativa. de modo geral. Os métodos de interpretação da história Normalmente os historiadores afirmam que a história teve início com a escrita. enquanto natureza.” (HEGEL. a História Universal. ações. na qual os acontecimentos se interpenetram. procura compreender-lhe o sentido profundo e descobrir uma evolução dos valôres sob uma mudança de instituições. pois ele é o pensamento racional que se encontra em todos os homens. somente a história narrativa pode conservar alguns fragmentos do que foi o passado. A história objetiva não existe mais. já é passado. porque para ele só é fato histórico aquilo que transforma a realidade. é. O espírito é a força que move a história universal. porque tudo tem uma razão de ser e faz parte do universal. Todos os grupos humanos possuem história objetiva.. Logo. a história é aquilo que fica do que foi esquecido. então. Em suma. Assim. p. .. Tanto os fatos simples como os grandes eventos não acontecem por acaso. “a história universal é o progresso na consciência da liberdade. Por isso. para Hegel. Por isso. tendo em vista que os fatos não podem ser compreendidos separadamente. ela começou com o advento do Estado. 63). se exterioriza no espaço” (HEGEL. “A história universal. as ações que desencadeiam mudanças de atitudes e destinos. Hegel afirma que a história é a racionalidade do todo. Logo. os fatos repetitivos do cotidiano de um povo não são objetos de memória. para Hegel. e o sujeito capaz de fazer as maiores transformações é o Estado.” (Introdução à filosofia da história de Hegel p. contudo para que essa história objetiva seja preservada é preciso formular a história subjetiva em forma de narrativa. 1969. 25). p. a exteriorização (Auslegung) do espírito no tempo. e sim. A história surge. 1995. pois são parte de uma totalidade. Hegel faz essa afirmação. Contudo.4 e a liberdade e ele existe em si e por si mesmo sem depender de forças externas. esse processo não acontece aleatoriamente. Entretanto. sabemo-lo. advento e queda de indivíduos e Estados. a história é uma realidade complexa feita de continuidades e rupturas no tempo e no espaço. Desse modo a história é um imenso quadro de mudanças. 25) O cumprimento de um espírito gera ao mesmo tempo seu declínio e o surgimento de outro. “Hegel não se detém no evento histórico. pois. modifica e aperfeiçoa o seu espírito. quando o ser humano toma consciência de sua liberdade. se chocam e se contradizem. como a idéia.

1995. a palavra. o palco da História Universal e o seu centro é o Mediterrâneo. Segundo Hegel a história pode ser interpretada de três modos diferentes: história original. 2001. os princípios de suas metas e atos” (HEGEL. Existem quatro tipos de história refletida. A história refletida ultrapassa o presente em seu espírito para compor. Caracteriza-se por uma vasta compilação. Nela. 46). 2001. 12). “a cultura do autor e a dos acontecimentos criados em sua obra. escrevem uma história contemporânea e não refletem sobre os acontecimentos. Entretanto. O primeiro é a história geral. ela é não menos fato do que narrativa (geschichtserzählung)” (HEGEL. por Heródoto e Tucídides. a consciência de seus relacionamentos políticos. serve para referir-se tanto ao fato em si que é real. história une o lado objetivo e o subjetivo significando tanto historiam rerum gestarum como também res gestas. Ainda. Por isso. tem início na Europa a partir do momento em que ela se separa da literatura e assume métodos próprios para estudar a realidade histórica. Hegel afirma que a história é aquilo que dá identidade a um povo. a história geral.5 A história começa com a constituição do Estado. porque aconteceu. “Uma história desse gênero. “Nesses discursos. descreve os feito e acontecimentos de maneira pessoal e tendenciosa. por exemplo. história. para poder escrever a totalidade da história de um país. que depende do conhecimento que o historiador tem do conteúdo histórico. pois ela já é a história de um povo consciente da diferença entre fantasia e realidade. O espírito que escreve a história não é o mesmo do período narrado. quanto à reconstrução desse fato. refletida e filosófica. “Em nossa língua. . 59). e por isso. O Velho Mundo é. como sua natureza ética e moral. essas pessoas exprimem as máximas de seu povo e de sua própria personalidade. 1969. se chama História Universal. p. o espírito do autor e o das ações que ele relata são o mesmo” (HEGEL. então. os mitos já se encontram excluídos dessa história. porque “somente em um Estado com a consciência das leis existem ações claras e essa consciência é clara o suficiente para fazer com que os registros sejam possíveis e desejáveis” (HEGEL. costumes e instituições. a partir de uma visão total da história. A história original feita. a partir da interpretação do historiador. a história refletida é aquela que é capaz de examinar a história dos povos e do mundo. p. Logo. narram seus próprios objetivos como história. p. E é por meio dela que um povo toma consciência do processo de seu espírito expresso em leis. A história narrativa propriamente dita. p. Os historiadores da história original transformavam os acontecimentos em representações mentais elaboradas segundo seus conceitos de mundo. Nela o historiador fala de períodos diferentes do seu. 113). e sim.

A filosofia não se ocupa do passado ou do futuro. precisa abdicar. o geral.. De fato. E. 14). p. pois compreende um ponto de vista geral dividido em segmentos. p.. . como abordamos aqui. “Não é a história em si. Uma história universal precisa abreviar eventos e ações para que seja possível fazer uma síntese. do direito. p. 1995. 16). o pensamento está subordinado aos dados da realidade. mas em refletir sobre ela e encontrar a sua razão de ser.6 que pretende englobar longos períodos ou toda a história universal. Ela tem por objetivo ler o passado segundo a ótica do presente.. 1995. A história refletida serve de transição para a história filosófica do mundo. que mais tarde servem como guia e base para os historiadores” (HEGEL. p. “Todavia. Nessa acepção. a que interessa a Hegel. o contexto é único. “os acontecimentos são diversos. Nesta o historiador mais julga a história. Por último. p. vem a história refletida parcial. “na história. O terceiro modo de ser da história refletida é o crítico. 14).” (HEGEL. sua tarefa é abordar a história de forma racional para entender sua lógica e dela extrair a razão que governa o mundo. ou seja. de fato. pois a idéia é sempre presente e o espírito é imortal. O segundo tipo de história refletida é a pragmática. do que busca compreender o significado dos fatos. em geral a filosofia da história nada mais significa do que a sua observação refletida” (HEGEL. para ela não há passado nem futuro. Considerando-se que a filosofia é a “ciência” do raciocínio lógico especulativo. o estado atual das coisas é tido como conseqüência do passado. 2001. apenas um agora essencial” (HEGEL. emitindo juízos de valor. entretanto. o essencial. como história da arte. da política. p.. da apresentação individual da realidade e reduzir-se a abstrações. É o método capaz de contemplar a história analiticamente no tempo presente. é a história filosófica. sem entrar nas particularidades de cada povo. 15). mas uma história da história. Não consiste propriamente em escrever a história. Isso anula o passado e torna o acontecimento presente” (HEGEL. Isso quer dizer que o presente contém a síntese de todos os estágios anteriores do Espírito. a razão. O passado é atualizado e os acontecimentos passam a fazer parte da vida no presente. 1995. “. Para a história filosófica não existe tempo. 52). um julgamento das narrativas históricas e uma investigação de sua verdade e credibilidade” (HEGEL. 1995. 72). Esta tem por objetivo tirar lições morais e políticas do passado para instruir o presente. Apesar de fazer sínteses e empregar abstrações ela é a mediania entre a história factual e a história universal filosófica.. da religião etc. 1995. A terceira via de interpretação da história. mas daquilo que é em sua existência perene. tendo em vista que o passado está incorporado ao presente na síntese.

as mulheres e crianças estavam excluídos. Por seu turno. é um processo racional em busca da liberdade. “A história universal representa pois a marcha gradual da evolução do princípio cujo conteúdo (gehalt) é a consciência da liberdade” (HEGEL. 1969. pois só o monarca absoluto era livre. 57). a história interpreta a materialização ou o desfecho da ação humana ao longo do tempo. políticos e geográficos. isto é. e da relação da Razão com a História Universal. já na Modernidade. onde aparecem a consciência. “A investigação filosófica pode e deve começar o estudo da história apenas onde a Razão começa a manifestar sua existência no mundo. p. Porém nele somente alguns eram livres. Hegel. os estrangeiros. Para ele o Antigo Oriente era governado por déspotas. A dialética dos períodos históricos Assim como a história tradicional é dividida em períodos: Antiga. no qual todos se tornaram livres. foi o despótico oriental (Tese). Portanto. e por isso. para Hegel. Os súditos obedeciam ao seu soberano como os filhos pequenos são obrigados a obedecer aos seus pais. O primeiro período do desenvolvimento do Espírito. p. vivido pelos gregos e os romanos. históricos. posto que os acontecimentos são conseqüências de ações racionais. sendo venerado como um deus e um pai. a vontade e a ação e não onde tudo isso ainda é uma potencialidade irrealizada” (HEGEL. E o terceiro momento no desenvolvimento da História Universal. 111). Sua tarefa é identificar a razão que governa o mundo. Ela é a síntese. Hegel visa chegar a História Universal a partir da história filosófica. porque a história. que é a leitura analítica dos fatos e da relação que esses têm entre si. os cidadãos da pólis e do império. para além da sucessão dos fatos. A filosofia busca revelar o espírito do real que permanece na história. Moderna e Contemporânea. já transformado pelo embate entre a tese e a antítese em uma nova realidade. Esse processo dialético .7 A contribuição da filosofia para a história está em encontrar a razão na história. dentro da História Universal na Antigüidade. segundo critérios filosóficos. mas conserva o espírito do mundo. Medieval. dividindo-a em três momentos dialéticos. O sistema político era o teocrático e a sociedade era governada pelo patriarcalismo. O segundo período da Antigüidade (antítese do despotismo) foi o democrático e o aristocrático. é o monárquico ou germânico (síntese). eram escravizados. 2001. também faz a sua classificação da História Universal. o resultado do movimento dialético gerado pelo conflito que supera os fatos. Não tinham direito a vontade própria. entretanto. E o método utilizado para esse fim é o estudo da Razão que se encontra nos fatos. já os escravos.

contraditoriamente. agindo por vontade própria e não por medo ou ignorância. Por isso. que ainda não é Estado. 1995. Por conseguinte. a história dialética é caminho rumo à consciência da liberdade. A legitimidade do poder se fundamenta no paternalismo e na família. o direito à liberdade não é respeitado no estado natural. justamente. mas precisa ser conquistada pelo conflito dialético entre o estado atual de escravidão e a possibilidade da liberdade. e se . pois giram em torno de um único centro. único capaz de garantir a liberdade e suplantar a violência. Nesta forma de organização social existe um único sujeito. Naturalmente todos os seres humanos têm direto à liberdade. Neste momento surge a liberdade. só é válida a ética universal que seja aplicável a todos. 94). No sistema despótico as pessoas não exercem a sua individualidade de espírito. porque não há antítese na instituição. porque se transforma. dentro da História Universal a Grécia representa a juventude da humanidade e que.8 demonstra que “a liberdade substancial é a razão da vontade existente em si. através da consciência de si. medo e alienação. porque os cidadãos começam a decidir e a agir segundo parâmetros racionais. os povos germânicos chegaram à conclusão de que todos os seres humanos são livres e iguais por direito natural. A superação da escravidão se deu quando a Razão entrou na história e os homens começaram a ter consciência de si. Além do mais. onde não há transformação histórica. em Hegel. p. essa liberdade não é dada a priori. Por isso. desde a antiguidade a principal revolução da Razão foi a evolução da consciência de liberdade. patriarca que governa e se utiliza de seus súditos como servos particulares. na maior parte da história da humanidade somente alguns foram livres. É a moral dos espíritos particulares que se impõem. Em suma. Porém nem sempre foi assim. despertou o Espírito para a individualidade. Neste modelo a história é a-histórica. logo não há mudanças. porque ainda não há a instituição do Estado. Os sujeitos da História Universal Para Hegel. não há história. segundo Hegel. diferentemente da natureza. Somente no mundo grego é que os espíritos individuais vão se formar como vontade própria. Por último. porém. o déspota. a história é a luta pela superação da vontade individual e pela implantação dos interesses coletivos através do Estado. tudo permanece estático. e não mais por ignorância. No entanto. na qual todos foram se tornando senhores de si. somente leis universais. e se não há mudanças. que se desenvolve no Estado” (HEGEL. a humanidade produz história.

” (HEGEL. “o sujeito último da história é chamado por Hegel o espírito do mundo (weltgeist)” (MARCUSE. porém. Êles nada mais são que executores da vontade da história. Por isso. Entretanto. 1971. Logo. 1978. pois ele transcende a convergência da coletividade e se torna autônomo. o Estado é mais que a simples soma das vontades particulares. Foi preciso um longo processo de discernimento com muitos erros e acertos. o passado é invocado pelo Estado para justificar e legitimar o seu modo de ser como resultado de um processo que se . “na história do mundo. não são os sujeitos efetivos da história. Todos os homens são sujeitos históricos. sendo que. só se mantém devido à consciência do passado que sustenta a sua razão de ser no presente. o qual vai exercer o poder sobre os demais. o Estado é feito para os indivíduos que o compõem e ao mesmo tempo é a obra dêstes” (HYPPOLITE. 65). “Portanto. ele passa a governar. ninguém consegue dominar o Estado. contudo. O Estado é uma criação da razão que tem por finalidade garantir a liberdade individual. o interesse particular coincide com o interesse geral de sua época. p. apenas administrá-lo. ele é a entidade na qual as leis universais se materializam. p. 214). ele é o verdadeiro sujeito da história. os ‘indivíduos’ de quem devemos tratar são os povos. A união das vontades subjetivas com a razão gera o conjunto do Estado. e cada época possui um estado que encarna o que há de mais desenvolvido do espírito do mundo. nem a razão nos governos e constituições” (HEGEL. 1978. direcionar e decidir a História Universal. Cesar ou Napoleão. costumes e organização. p. Assim. 2001. p. cada época possui um conceito diferente de liberdade. mas são a própria racionalidade. p. 214). p. Portanto. Na concepção de Hegel. Assim. O Estado é uma encarnação particular do espírito do mundo. Os principais sujeitos da história são os povos e os indivíduos que incorporam o espírito do mundo e desenvolvem a História Universal. O Estado com suas leis. “a liberdade não predominou repentinamente nos Estados. Desse modo. 57). 88). como foram as de Alexandre. mas que pode ser aperfeiçoado através da razão. eles são totalidades que são Estados” (HEGEL. fazem a história e são coagidos pela história.9 transforma porque é livre. que indiretamente produziram conseqüências universais no desenvolvimento da história. se originaram em interesses pessoais. Por isso. 57). desse modo. 2001. As ações de indivíduos históricos universais. os agentes do Espírito do Mundo” (MARCUSE. os estados particulares representam os indivíduos dentro da História Universal. Dentro dele só vale a liberdade que seguir sua lei e moral conforme a razão. Porque “as leis da ética não são acidentais. Então. “Mesmo êstes homens históricos. 2001.

e não o indivíduo. a moral do cidadão é a moral do Estado baseada na racionalidade. “O indivíduo enquanto matéria-prima para a eficiência histórica do Espírito do Mundo é essencialmente força. indispensável a sua sobrevivência e segurança. o herói. nada acontece e nada é realizado sem que o sujeito também se satisfaça. Por isso. 1978. necessidades e ações do indivíduo” (MARCUSE. o indivíduo autônomo. Pois. Sua necessidade de poder para se manter em segurança. muito menos. o conteúdo verdadeiro é a realização da autoconsciência da liberdade. Entretanto. “o verdadeiro sujeito da história é o universal. e a vítima penalizada pela história. o Estado comporta quatro tipos de indivíduos: o cidadão que sustenta o Estado. Ele não cria o espírito de seu tempo. 220). desenvolvem ao mesmo tempo o Espírito do Mundo: “Os homens histórico-universais. O herói coordena e executa a vontade geral de um povo como possibilidade de ação. Hegel cita como exemplo a luta de Cesar para conquistar o poder. 36). A vítima é o objeto da história. Por isso. cuja direção é determinada pelo Espírito” (HEGEL. este não é toda a racionalidade. Logo. A racionalidade é o que une o cidadão ao Estado. Os homens históricos universais são aqueles que ao realizarem seus objetivos pessoais.. o ultrapassa” (HEGEL. 211). pois é o indivíduo que não consegue acompanhar o espírito de seu tempo. p. 1978. p. para não sermos vítimas da história devemos encontrar suas tendências. O sujeito histórico é aquele que sabe aproveitar as circunstâncias favoráveis que o espírito de seu tempo fornece. 2001. p. levando-se em conta que. Na concepção hegeliana. Então. O sujeito histórico que está empenhado em algo universal não o faz somente por amor à pátria. pois ele é apenas um período na história do mundo. O herói está a serviço do espírito de um povo. e não os interêsses. Ela é atropelada pela história. apenas o revela e executa. “. a força motor da história. não quem é submetido por ela. as fôrças que tendem a uma forma histórica mais alta” (MARCUSE.10 fixou no tempo. p. sujeito da história. “ninguém fica atrás do seu tempo e. para Hegel. o que consequentemente deu vida a um império. O herói é aquele que une a consciência absoluta individual ao Espírito do Mundo encarnado e particularizado em um povo que desenvolve a idéia.. 50). só é sujeito quem decide a história. o estado procura preservar o interêsse do que está estabelecido tolhendo. O herói histórico é o verdadeiro sujeito da história. E o cidadão é a racionalidade particular e o Estado é a racionalidade universal. As personalidades históricas se satisfazem quando agem em conformidade com o Espírito universal e o realizam. justamente porque não tem consciência histórica. com isto. 1995. fez com que ele unisse as províncias. os . pois na concepção de Hegel.

seus discursos são o que existiu de melhor na época” (HEGEL. como acabamos de dizer. A história dialética A história da humanidade e dos indivíduos é movida por idéias. a história não é o resultado do acaso. que é histórica. os povos e as grandes personalidades. a partir da consciência de si e passa a transformá-la. em um segundo momento. 2001. porque parte do pressuposto de que a realidade produzida pelo ser humano. p. o próprio real. pensamentos e ideologias. o desenvolvimento e o progresso para algo mais perfeito. a pólis sustentada pela escravidão. que assumem o Espírito Absoluto encarnado no Estado. diz Hegel. só é sujeito histórico quem tem o poder de determinar a história. a democracia se manteve em um Estado concreto. por isso. o espírito humano se liberta da natureza. 50). 1995. 56). no início. e por isso. ou seja. é que os indivíduos são sacrificados e abandonados e só o espírito permanece renovado e fortalecido. o pensamento se emancipou e se emancipa continuamente da matéria e da própria idéia. o qual gera um conhecimento sobre o real. pode ser entendida racionalmente. Hegel demonstra que o real é racional e o racional é real. Assim. não evolui. Enfim. 33). os sujeitos históricos são os Estados. e. Assim. o destino de uma nação é definido pela inteligência e pela vontade consciente que a governa. Já o ser humano evolui porque possui um espírito livre capaz de criar cultura e conhecimento. por isso real. e é também. A natureza não faz história. exatamente porque segue sempre as mesmas leis universais e imutáveis. o particular é insignificante diante do universal. 1995. segundo Hegel. Assim. dos condicionamentos instintivos de sobrevivência e produz sua própria cultura. pois cada indivíduo. Quando Sócrates contrapôs ao . resultado do embate dialético entre a matéria e o espírito.11 heróis de uma época. determinado pelo grau do seu desenvolvimento histórico” (HEGEL. devem. Assim. mais do que deixou de fazer ou do que não é. Desse modo. para Hegel. Por outro lado. Segundo Hegel. por isso. “O espírito de um povo é um espírito particular e determinado. a histórica dialética em Hegel demonstra que a história é a mudança. Na Grécia. “a Razão é o pensamento determinando-se em absoluta liberdade” (HEGEL. ser reconhecidos como sábios: suas ações. p. p. Consequentemente pratica ações e por meio delas se transforma. Desse modo. povo ou civilização goza do que construiu e é. Hegel cita a democracia grega como exemplo de processo dialético rumo à consciência da liberdade na história.

ou seja. 1971. de sua constituição política. Hegel afirma que nada no mundo acontece de grande sem paixões. pois. a democracia parcial da Grécia que excluía os escravos. de seus costumes e também de sua ciência. 61). como a história não é fruto do acaso.44). da violência.. porque um povo é uma encarnação concreta. pois só o fato de os gregos saberem que eram livres não lhes garantia a liberdade. pois a razão governa os acontecimentos.” (MARCUSE. as culturas línguas e religiões que não são lembradas deixaram de contribuir para o desenvolvimento do ser humano e da história. de sua moralidade objetiva. Esses impulsos não se comprazem em respeitar leis e moralidades. Pois “a razão é o pensamento . de seu sistema jurídico. 40). que impulsionam os seres humanos em busca de suas realizações. não influem na consciência do ser humano. Por isso. 1978. a história da humanidade é a história da opressão. p. temporariamente. que ela foi o processo racional e necessário do espírito universal (weltgeistes) – espírito que é uno e idêntico à natureza. arte e habilidade técnica” (HEGEL. ações egoístas. p. “o sujeito livre só nasce quando o indivíduo não aceita mais a ordem vigente e a ela resiste. teve que ser aprimorada para sobreviver. Desse modo.. Assim como os fatos se sucedem no tempo. da injustiça e da guerra do homem sobre o homem. esforço e luta. A história é racional porque os homens que fazem a história são racionais. pois ela é um espírito vivo. os bárbaros e os estrangeiros.. uma realização individual do espírito. 1995. a consciência de que todos têm direto à cidadania. Pois. é ao mesmo tempo uma totalidade e uma individualidade” (HYPPOLITE. porque não ficaram registrados. Portanto. “é na história que uma nação encontra o cunho comum de sua religião. “do exame. Assim. mas em dominar e submeter. logo ela é racional. Os séculos e milênios que se passaram antes da história não contam para o desenvolvimento do espírito do mundo. mas que exterioriza (explicirt) esta sua única natureza na existência universal (weltdasein)” (HEGEL. tendo em vista que agem em busca de metas. “. Entretanto.12 Estado concreto a sua idéia universal da igualdade entre os homens. Disso resulta que. 224). isto é. p. objetivos e fins. a antítese foi o pensamento de Sócrates. dinâmico que se transforma e evolui. e a síntese. e a história será a dialética dos povos. contrário a desigualdade. o que excluía os não cidadãos. logo. A razão não segue leis imutáveis como o movimento do sistema solar. A História Universal se manifesta concretamente nas individualidades de modo contingente. 1969.. essa foi uma mudança lenta que demandou tempo. p. A tese era a cidadania de poucos. da história universal se infere que tudo ocorre racionalmente. pois são elas. também os espíritos são substituídos uns pelos outros ou melhorados.

conceitos de direito. a atividade humana.. enfatiza: “compreendo. é o resultado indireto de uma vontade particular e não seu objetivo principal. liberdade e ética. o bem comum. 47). Hegel também afirma que “explicar a história é revelar as paixões do homem. aqui. A relação desses fatos com o contexto. pois agem a partir de costumes. por isso.. 43). a história é o altar no qual é sacrificada a felicidade dos povos e a virtude dos indivíduos. ou. seu gênio e suas forças operativas. p.. 1995. Para Hegel. para Hegel. já que elas se utilizam de meios perversos para atingir seus fins. p. sem a guerra um povo pode perder seu sentido de liberdade e. 50). por isso. 1971. Desse modo. derivando de interesses particulares. com efeito. Por conseguinte. portanto. e afirmam a sua liberdade ou caem na escravidão” (HYPPOLITE. igualmente. O trabalho do pensamento é encontrar conceitos universais que sejam racionais. a guerra é a saúde dos povos. o espírito de um povo. de intenções egoístas. enfraquecer sua identidade.13 totalmente livre determinando-se a si mesmo” (HEGEL. de fins especiais. leis e práticas morais incutidas em suas mentes e tomadas pelos indivíduos como naturais. 1995. cada um é filho de seu povo e. Hippolite afirma que para Hegel “a guerra é a grande prova da vida dos povos. válidos para todos. pois as paixões não são necessariamente boas. se se quer. de modo geral. 79). e. expressa o espírito da história que Hegel chama de História Universal. possuem sua lógica interna. “Essa totalidade temporal é uma essência. um filho de seu tempo – se o seu Estado se encontra em processo de desenvolvimento” (HEGEL. p. 1969. Logo. 1969. Desse modo. p. Em Hegel os fatos dentro da história não estão isolados entre si. 19). tanto os fatos particulares como os acontecimentos universais. desde que ponha tôda a energia de seu querer e de seu caráter em tais fins. 42). É através dela que os povos fortalecem a sua identidade. p. apegando-se somente a interesses materiais e particulares. E “a razão é o pensar livre e determinante de si mesmo” (HEGEL. Os indivíduos pertencem a ele. o pensamento . quando é realizado. Por ela é que êles manifestam externamente aquilo que são no interior.. Os homens assumem o espírito de seu tempo e se tornam representantes dele. Juntamente com a razão estão os anseios e paixões que impulsionam o ser humano à ação.” (HEGEL. Por isso. p. Já a ação individual ocorre predominantemente de maneira egoísta e particular. logo é possível encontrar razão na história.” (HEGEL. que é racional. mas fazem parte de um contexto maior que os unifica. direitos e deveres vigentes com a possibilidade da mudança que se impõe. Nas tensões históricas os conflitos ocorrem devido à colisão das leis. 1969.

de fazer revoluções e de se transformar. Assim sendo. morais e culturais são preteridos. limita a compreensão de muitos aspectos da própria história. Hegel. estrutural e jurídico. 68). Os povos são suas ações. rumo à consciência da liberdade. o progresso histórico é precedido e guiado por um progresso do pensamento” (MARCUSE. Desse modo. identifica a história apenas com o poder dominante com suas revoluções. o papel do Estado é reconciliar o interesse particular com o coletivo ou impor o interesse coletivo sobre o particular. as transformações históricas são constituídas pelo processo histórico para o progresso. “pois ele considera a maneira de ser do povo a que pertence como um universo acabado e fixo. Ainda. independentemente do seu grau de importância. Aspectos sociais. mas a história da hegemonia do Estado Absoluto sobre os demais. 1978. as leis e o direito se aperfeiçoaram. guerras e conflitos como acontecimentos significativos. controlam o comércio mundial e que tem um parlamento. Em suma. quando o pensamento descobre a razão que proporciona e garante mais liberdade e igualdade entre os homens. p.14 gerado a partir da autoconsciência da liberdade entra em choque com as instituições que não respondem mais às necessidades de seu tempo. Então o desenvolvimento é o aumento do controle do Estado sobre as forças destrutivas e egoístas dos indivíduos. cada indivíduo procura identificar-se com as qualidades de seu povo. p. como se pode observar ao longo da história. É por isso que as instituições. ao qual ele deve incorporar-se” (HEGEL. Hegel entende que a história progride. “Segundo Hegel. não faz a história dos estados. Assim como o tempo destrói a sua própria criação. ético e desenvolvido que o precedente. citando o exemplo dos ingleses que se denominam como aqueles que navegam os oceanos. mesmo que haja períodos de retrocesso. ao identificar a História Universal com a história do Estado. e da história com o Estado. Os limites da identificação da história com o Estado A identificação que Hegel faz da Razão com a história. O esgotamento de uma instituição ou de um Estado estabelecido força o surgimento de um novo Estado mais universal. 1995. 221). A identificação da história com o Estado restringe a leitura do passado somente ao âmbito político. pois o espírito humano é capaz de evoluir. o pensamento destrói o pensamento estabelecido pela dinâmica da dialética histórica. afirma Hegel. “Ser . ignorando que todas as ações humanas são históricas.

períodos obscuros que degradam ainda mais a condição humana. A modernidade impôs o monopólio do paradigma iluminista. Além disso. significa apenas que o espírito alcançou.15 depositário deste movimento de condensação não significa. p. ou a versão da história. 1995. Geralmente a história que permanece. Por isso. Os períodos felizes são as páginas em branco. a ética e a verdade que se impõe na história é o do mais forte. pois também há retrocessos. pela liberdade e pelo progresso. Por isso. são os períodos dos acordos. A moral. o Estado onipotente. Todas as ações e acontecimentos ao longo da história da humanidade foram desencadeados na luta pela sobrevivência. Marcuse assevera que a História Universal não se desenvolve contínua e unilinearmente. o particular é considerado insignificante diante do universal. interpretava os fatos históricos como sinais que indicavam o caminho do homem em direção à razão” (MARCUSE. 277). a antítese do progresso. das oposições ausentes” (HEGEL. 209) No entanto. tal como uma manus militari. Segundo Marcuse. que constituía um elemento essencial do Iluminismo francês. o seu nível mais elevado de concreção de si” (ROSENFIELD. concebe a História Universal como uma história teleológica com sentido único. No entanto. independente de terem ocorridos em tempo de paz ou de guerra. “A história universal não está. essa é uma visão restrita da história. 30). pois todos os acontecimentos são passíveis de se tornar históricos. é a dos vencedores. Porém. em qualquer acontecimento. “a história universal não é o palco da felicidade. como se em tempos de paz não houvesse acontecimentos. todas as grandes teorias do século XVIII adotaram a concepção filosófica de que a história caminha em direção ao progresso. que estabelece um modelo único de verdade e de desenvolvimento para o progresso de alguns. p. O desenvolvimento iluminista estabelece a ciência como critério de verdade e o direito da individualidade e da propriedade privada como inviolável. 276). Também faz uma história de linear e contínua. contudo. “A idéia de progresso. diz Hegel. Hegel diz que os momentos de paz são páginas em branco da história. em nome do progresso foram cometidos muitos crimes. mas é essencialmente a culminação desse processo. então. 2001. no momento. 1995. Aqueles que não conseguem acompanhar o progresso estão condenados à morte. Porque para Hegel. sobre outros povos ou Estados contemporâneos. e em muitas ocasiões o progresso cedeu lugar a catástrofe e a ruína. p. é que os indivíduos são sacrificados e abandonados e só o espírito permanece renovado e fortalecido. limitando a história somente aos períodos de conflito. como se tudo o que acontece levasse ao progresso. 1978. Assim. que o povo em questão tenha um direito absoluto. . graças ao qual o espírito aparece a si” (ROSENFIELD. p. produzindo assim.

para Hegel. a humanidade teria que recomeçar tudo do princípio a cada época. educação e moradia. Hegel não considera que os indivíduos sejam fins em si. 2001. Daí. o preço da conquista é socializado com todos. mas as conquistas são repartidas somente com os que estão de posse do Espírito do Mundo. Assim. A moral individual não tem poder de julgar e punir o Estado. elas definem em maior ou menor medida o presente. “É o particular que se desgasta em conflitos. a maneira de agir e a vontade particulares” (HEGEL. trabalho. pois cada nação disputa a posição de Estado Absoluto.16 colocado a serviço do poder. o passado é a base material na qual está assentado o presente. contudo. p. A localização da moral é o sentimento individual. sendo em parte destruído. são descartáveis. os quais sofrem todo o desgaste do conflito. da dominação e da política ignora o direito dos vencidos. quando essa consegue se libertar das mazelas do Estado. o presente é a plenitude do passado. mas somente na existência particular. seja ele ético ou imoral. a consciência pessoal. porque o estado atual das coisas (síntese) é o resultado da história dialética em marcha. O Herói e o Estado são “monstros” que após ganhar a vida devoram seus próprios criadores. p. pois nela não existe nada mais poderoso que o Espírito Absoluto encarnado no Estado. a felicidade individual não se encontra no Estado. mas a idéia ou o espírito são aperfeiçoados e saem do conflito ilesos e carregando as glórias da conquista. alimentação. 1995. só os líderes que se apossam do espírito do mundo é que usufruem das conquistas da revolução. sofrimento e dor. ser impossível criar uma liga universal das nações. Não é a idéia geral que se expõe ao perigo na oposição e na luta. mata seus inimigos e não se submete aos interesses de todos. Ela se mantém intocável e ilesa na retaguarda” (HEGEL. constatamos que as ações do passado nunca se repetem enquanto acontecimento particular. que é uma pessoa jurídica. Sendo assim. 35). Conclusão Da análise dos conceitos de dialética e história em Hegel. As pessoas físicas têm necessidades básicas a ser supridas. Portanto. não tem outra meta a não ser sua autopreservação. pois lutam fracassam e morrem. Desse modo. 118). Afirma que os indivíduos. de outra forma. conclui Hegel. logo. No Estado Absoluto. “a história do mundo está em um nível mais elevado do que o da moral. a história e suas injustiças. morte. mas o Estado Absoluto a serviço do poder. . tenham primazia sobre o Estado e possuam direito a autonomia histórica. O Estado iluminista julga seus cidadãos.

57). mas em situação de conflito. Segue que. porque ninguém fica atrás de seu tempo. surge o novo (futuro) que conserva alguns traços do antigo. na perspectiva de que os fatos sejam simplesmente substituídos uns pelos outros. o autodesenvolvimento do Espírito em progresso. suas forças ativas” (HEGEL. 2001. contudo na concepção dialética da história. seu caráter. Por conseguinte. No entanto. basta compreender a relação que os fatos têm entre si. 2001. a História é a autodeterminação da Idéia em progresso. “Explicar a história significa revelar as paixões dos homens. “Assim. Hegel entende que a mudança histórica. como também ninguém consegue o ultrapassar. p. e em afirmar que os fatos não falam por si. contudo recorre a categorias próprias para construir os fatos pela reflexão racional. de maneira geral. em Hegel. p. “o aperfeiçoamento é na verdade algo quase tão indeterminado como o é a mutabilidade em geral. envolve o avanço em direção ao melhor e mais perfeito. a História é o progresso da liberdade” (HEGEL. 17). a história da humanidade é o desenvolvimento do espírito do mundo no tempo presente. quando o antigo (passado) se encontra com o diferente (presente). objetivo ou padrão de mudança” (HEGEL. a história universal. concluímos que a história não é nem cíclica como a natureza. indo além dos acontecimentos particulares. os acontecimentos não estão dispostos harmoniosamente. 106). o Espírito é aquilo no qual se transformou e com o qual está em constante conflito. pois possui uma direção. precisam ser interpretados pelo historiador. . só pode ser compreendida a partir do poder de interpretação do historiador. que analisa a conexão dialética entre as múltiplas histórias individuais. Também conclui que os indivíduos são filhos de seu povo e de seu tempo. para delas. nem linear. o processo dialético da história não é desordenado. que diante deles não age de modo passivo. pois somente a mudança no reino do espírito pode gerar o novo aperfeiçoado. Portanto. ele não tem meta. Consoante a concepção dialética. e que por isso. Todavia. que contém toda a essência do real.17 A contribuição de Hegel está em analisar a história de forma mais ampla. diferentemente dos ciclos repetitivos da natureza. que a cada ano repete os mesmos fenômenos. e desse conflito. ela se compara a um espiral. extrair a História Universal governada pela razão. p. 2001. Além disso. como o Espírito é livre por sua natureza interior. Logo.

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