Você está na página 1de 4

Uma reflexão sobre “tipificação vegetal”: a classificação fisionômica da vegetação e os estádios de sucessão secundária

Eduardo Luís Martins Catharino 1 Sonia Aragaki 2

Atualmente encontramos diferentes definições de TIPOS DE VEGETAÇÃO e ESTÁGIOS ou ESTÁDIOS DE SUCESSÃO SECUNDÁRIA de formações vegetais utilizadas por técnicos envolvidos com licenciamento ambiental (DEPRN, p.e.) ou na avaliação da vegetação natural para diversos fins, inclusive na recuperação de áreas degradadas. Os diferentes conceitos ocasionam interpretações conflitantes na caracterização da cobertura vegetal e, muitas vezes, as definições legais não coincidem com aquelas adotadas em trabalhos científicos. De maneira geral há uma falta de uniformização nos critérios para a determinação em campo do tipo de vegetação e estágios de sucessão secundária, entre diferentes profissionais. Esse quadro pode gerar divergências na elaboração de laudos e licenciamento, quanto às análises de processos legais, ou mesmo no entendimento dos processos naturais de regeneração. No intuito de melhorarmos a qualidade técnica de trabalhos em RAD é necessário um entendimento comum, além de uma mínima padronização da terminologia na caracterização dos diferentes estágios de sucessão secundária, encontrados ou adotados em literatura científica e técnica, ou seja, temos de falar a mesma língua. Atualmente há um novo termo adotado amplamente na elaboração de laudos ou descrições da vegetação, a “tipificação vegetal”, efetuada a partir de critérios definidos em leis nacionais, estaduais ou mesmo municipais. Sucessão secundária Genericamente a sucessão secundária é aquela que ocorre em áreas que eram ocupadas por uma comunidade e que sofreu perturbações, favorecendo a colonização de espécies com o estabelecimento de um processo sucessional. Difere da sucessão primária que ocorre em áreas onde não havia uma comunidade estabelecida, cordões arenosos de deposição marinha recente, por exemplo. Formações secundárias são as de maior ocorrência em nosso

1 Pesquisador Científico IV do Instituto de Botânica de São Paulo (IBt-SP), mcatarin@uol.com.br

2 Pesquisador Científico I, IBt-SP, saragaki@uol.com.br

Estado e a sua caracterização é importante para definir parâmetros de licenciamento e

análise do entorno de áreas a serem recuperadas. À par da discussão científica sobre a

melhor terminologia a ser adotada, a vegetação primária e secundária é definida em leis,

notadamente as regulamentações do Decreto Federal 750/93 (Resoluções CONAMA

10/1993, 01/1994 e 03/1996 e Resoluções Conjuntas SMA/IBAMA 01/1994, 02/1994 e

05/1996). Desde as portarias DEPRN 8\89 e 3\90 define-se que a vegetação sucessora em

estágio inicial de desenvolvimento é susceptível ao corte e para a vegetação sucessora em

estágio médio e avançado de desenvolvimento apenas é permitido o manejo sustentado.

Porém a diferenciação desses estágios não é satisfatoriamente descrita em documentos

legais, acarretando conflitos de interpretação da regeneração da vegetação.

Deve-se tomar cuidado com termos similares, embora com sentidos diferentes, utilizados

por diferentes autores. Um cuidado maior deve ser tomado ao fazer a relação entre os

estágios de sucessão secundária citados nas portarias DEPRN com outras classificações,

dados os diferentes conceitos, conforme apresentamos resumidamente na TABELA 1.

TABELA 1. Comparação entre diferentes nomenclaturas utilizadas para estádios de regeneração de florestas

DEPRN/SMA/CONAMA

Loefgren (1896), Eiten

Budowsky (1965)

(1970)

Pioneiro

Campo driádico – campo sujo

-----

Inicial

Carrascal

Pioneiro

Capoeirinha

Médio

Capoeira

Secundário Inicial

Avançado

Capoeirão

Secundário Tardio

Mata/Vegetação Primária

Mata Virgem

Clímax

Para auxiliar a caracterizar os estádios de sucessão secundária já é hábito utilizar-se

Budowsky (1965) (traduzido e adaptado , TABELA 2). Ressalte-se que este trabalho foi

desenvolvido na Costa Rica e a tabela que apresentamos contém adaptações e observações

quanto a nossa vegetação e deve ser utilizada com cuidado, como referência.

TABELA 2. Características de componentes arbóreos dos vários estágios de uma floresta tropical úmida. Baseada em Budowsky (1965) e comparada com terminologias legais adotadas hoje, no estado de São Paulo.

Característica/

 

Comunidade

 

Comunidade

 

Comunidade

Comunidade

 

Terminologia

PIONEIRA

SECUNDÁRIA

SECUNDÁRIA

CLÍMAX

Budowysky (1965)

   

INICIAL

 

TARDIA

 

Terminologia

 

INICIAL

 

MÈDIO

 

AVANÇADO

CLIMAX

correspondente

     

Vegetação Primária

DEPRN,

Resoluções

CONAMA/SMA

 

1.

Idade

observada

1

a

3

5

a

15

20

a

50

mais de 100

 

em anos

     

2.

Altura (m)

 

5

a

8

12

a

20

20

a

30,

alguns

30

a

45,

alguns

     

alcançando 50

chegando até 60

 

3.

de

espécies

poucas, 1 a 5

 

poucas, 1 a 10

30

a

60

até

100

ou

pouco

arbóreas

   

mais

4.

Composição

Euphorbiaceae,

 

Cecropia,

Trema,

mistura,

muitas

mistura,

exceto

nas

florística

 

das

Cecropia, Trema*

freqüentemente

Leguminosae,

associações edáficas.

dominantes

   

Croton*

 

Myrtaceae

e

   

Lauraceae

5.

Distribuição

muito ampla

 

muito ampla

 

ampla

incluindo

usualmente

restrita,

geográfica

 

das

   

regiões áridas

endêmicas

 

dominantes

 

freqüentes.

6. Número de estratos

1, muito denso

 

2, bem diferenciados

3,

com

a

idade

4-5,

difíceis

de

 

aumenta a dificuldade

diferenciar.

em diferenciar

 

7. Dossel

 

homogêneo, denso

 

ramificação

 

homogêneo

incluindo

copas

com

formas

   

verticilada,

copas

copas amplas

variadas

 

horizontais finas

 

8. Estrato inferior

 

denso, entrelaçado

 

denso, freqüência de espécies herbáceas grandes

relativamente esparso,

esparso,

 

com

   

incluindo

espécies

espécies tolerantes

tolerantes

9. Crescimento

 

muito rápido

 

muito rápido

 

dominantes

é

rápido,

lento ou muito lento

     

outras lento

10.

Período de vida das

muito curto, menor que 10 anos

curto de 10-25 anos

usualmente 40-100 anos, algumas mais

muito

longo,

dominantes

 

100-1000,

 
     

provavelmente

algumas mais

11.

dominantes à sombra

Tolerância

das

muito intolerante

 

muito intolerante

na jovem, posteriormente tornam-se intolerantes

tolerantes

fase

tolerantes, exceto na fase adulta

12.

Regeneração

das

rara

 

praticamente

 

ou abundante com grande mortalidade nos primeiros anos

inexistente

abundante

 

dominantes

   

inexistente

 

13.

Disseminação

de

pássaros,

morcegos,

vento,

pássaros,

principalmente vento

gravidade,

 

sementes

 

das

vento

 

morcego

mamíferos, roedores

dominantes

     

e pássaros

 

14.

Madeira

e

tronco

muito leve, diâmetro pequeno

muito leve, diâmetros menores que 60cm

leve para meio dura,

dura

e

pesada,

das dominantes

alguns

troncos

muito

incluindo

troncos

     

grossos

grossos

15.

Tamanho

das

pequeno

 

pequeno

 

pequeno para médio

grande

 

sementes

ou

frutos

dispersos

       

16.Viabilidade

 

das

longa,

latente

no

longa, latente no solo

curta para média

curta

sementes

 

solo

 

17.

Folhagem

das

sempre verde

 

sempre verde

 

muitas decíduas

sempre verde

 

dominantes

       

18.

Epífitas

 

ausentes

 

poucas

 

muitas em número, mas poucas espécies

muitas espécies e formas de vida

19. Lianas

abundantes,

abundantes,

abundantes, mas algumas são grossas

abundante, incluindo

herbáceas,

mas

herbáceas,

mas

espécies

lenhosas

poucas espécies

poucas espécies

 

muito grossas

20. Arbustos

muitos, mas poucas espécies.

relativamente

poucos

poucos em número, mas muitas espécies

abundantes,

mas

 

poucas espécies

 

21. Gramíneas

abundantes

abundantes

ou

escassas

escassas

escassas

* Para o domínio de Mata Atlântica, as mais freqüentes são as Compositae e Melastomataceae como pioneiras e Cecropia, Trema e Leguminosae como secundárias iniciais.

É importante observar que para caracterizarmos o estágio de regeneração de uma floresta

devemos sempre levar em consideração o maior número de características possíveis, ou

seja, nunca analisar determinada característica isoladamente.

Para a definição de vegetação sucessora de cerrado o problema é ainda maior, pois o

cerrado "sensu lato", no conceito de Coutinho (1978), é um complexo de formações

oreádicas e os estádios de regeneração secundárias são similares às formas naturais deste

trecho de vegetação

oreádica pode ser estruturalmente natural ou ter uma estrutura artificialmente induzida.".

Assim, o cerradão é quase sempre natural e as demais formas fisionômicas podem estar em

quatro situações:

tipo de vegetação. Como já ressaltava Eiten (1970) "

qualquer

1. em estado de desequilíbrio, sendo rapidamente degradado por perturbação

forte (usualmente queimadas);

2. estágio em mudança lenta de equilíbrio para estado mais degradado, devido a

agentes destruidores, cuja intensidade é um pouco mais forte que a capacidade regeneradora da vegetação (como queimadas, pastoreio, corte leve e constante para lenha).

3. em equilíbrio relativo com as forças periódicas de perturbação, isto é, um

“disclimax".

4. estágio numa mudança lenta de equilíbrio para uma forma mais densa e alta.

Referências importantes:

Budowsky, G. 1965. Distribution of tropical American rain forest species in the light of successional processes. Turrialba, 15:40-42.

1970. The distinction between old secondary and climax species in tropical Central American Lowland Forests. Tropical Ecology, 11:44-48.

Coutinho, L.M. 1978. O Conceito de Cerrado. Revista Brasileira de Botânica, 1:17-23.

Eiten, G. 1970. Vegetação do Estado de São Paulo. Boletim do Instituto de Botânica, São Paulo, 7.

1983. Classificação da Vegetação do Brasil. Brasília, CNPq. p. 11-30.

Veloso, H.P., Rangel, Fº, A.L.R. & Lima, J.C.A. 1991. Classificação da Vegetação Brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro, IBGE, Depto de Recursos Naturais e Estudos Ambientais. 124p.