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A contracepção em uma perspectiva da relação entre teologia e bioética

Contraception under a perspective of relation between theology and bioethics

Sergio Danilas (PPGT CTCH PUCPR) sergio.danilas@pucpr.br Mario Antonio Sanches (PPGT CTCH PUCPR) m.sanches@pucpr.br

Resumo

Este artigo tem por objetivo fazer uma análise dos dados obtidos através da pesquisa feita com católicos participantes de Cursos de Extensão em Teologia Pastoral da Arquidiocese de Curitiba, nos anos de 2008 e 2009. Na pesquisa de campo foi aplicado um questionário abordando temas que relacionam sexualidade, reprodução humana, planejamento familiar, contracepção e aborto. A análise dos dados obtidos se ateve exclusivamente à questão dos vários métodos contraceptivos disponíveis atualmente e que são regularmente utilizados pelos sujeitos pesquisados. Na análise foi utilizado o método da estatística descritiva pelo qual os resultados foram sumarizados em gráficos percentuais e também em gráficos descritivos do tipo histogramas. Os resultados obtidos mostram uma independência de comportamento dos fieis católicos pesquisados em comparação com a moral familiar observada pelo magistério da Igreja. A utilização dos métodos contraceptivos apresentou um padrão variável com os perfis de estado civil, idade e escolaridade das pessoas pesquisadas.

Palavras-chave: Sexualidade, Reprodução humana, Planejamento familiar, Contracepção, Aborto.

Abstract

This article aims to make an analysis of data obtained from a research done with Catholics participants of Extension Courses in Pastoral Theology of the Archdiocese of Curitiba, in the years 2008 and 2009. In the field research it has been applied a questionnaire addressing themes that are related to sexuality, human reproduction, family planning, contraception and abortion. Analysis of the data obtained was adhered strictly to the subject of various contraceptive methods available today and that are regularly used by subjects surveyed. In the analysis it was used the method of descriptive statistics by which the results were summarized in percentage graphics and also in descriptive graphs of histograms type. The results obtained show a behavioral independence of faithful Catholics surveyed in comparison with the familiar moral observed by the Magisterial of the Church. The use of contraceptive methods presented a default variable with the profiles of civil status, age and educational level of the people surveyed.

Key-words: Sexuality, Human reproduction, Family planning, Contraception, Abortion.

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1. Introdução Este artigo faz uma análise dos dados da pesquisa 1 realizada na Arquidiocese de

Curitiba, nos anos de 2008 e 2009, em que foram aplicados questionários com perguntas

sobre sexualidade, reprodução humana, planejamento familiar, contracepção e aborto, que

foram dirigidas a cristãos católicos participantes de Cursos de Extensão em Teologia Pastoral.

O problema principal da pesquisa é saber como o cristão católico participativo, fiel aos

preceitos da Igreja, observador da história e da tradição, se defronta com e é afetado pelas

mudanças trazidas pelo desenvolvimento biotecnológico que transformam a sociedade

contemporânea.

A pesquisa procurou identificar a visão de sexualidade dos fiéis da Igreja católica que

estão inseridos nas comunidades e pastorais da Arquidiocese de Curitiba; identificar sua

compreensão da relação entre sexualidade e reprodução humana; e identificar o modo como

eles lidam com os temas de planejamento familiar, infertilidade, esterilidade humana e aborto.

A relevância deste estudo está além do próprio comportamento da pessoa em relação

com a sociedade, mas também importante é sua compreensão do fato em si para se posicionar

perante a comunidade religiosa que transmite a base moral para a convivência e a comunidade

política que produz as leis que regulamentarão o comportamento do cidadão perante temas tão

importantes relacionados à vida humana.

2. Fundamentação Teórico-Empírica A Igreja católica identifica o matrimônio como o espaço legítimo do exercício da

sexualidade, como deixa clara a exortação apostólica do papa João Paulo II Familiaris

Consortio (FC):

O ―lugar‖ único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimônio, ou seja, o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fazendo-a participante da Sabedoria Criadora (FC, 1981, n. 11).

1 A pesquisa de campo foi realizada por Ouphir Osório Pesch e Renato Barbosa dos Santos, então alunos do Curso de Bacharelado em Teologia da PUCPR, como projeto do grupo de pesquisa Teologia e Bioética sob a orientação do Prof. Dr. Mario Antonio Sanches. Parte da pesquisa de campo foi apresentada em agosto de 2009 ao Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica, Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, e teve suporte financeiro do órgão de fomento: Fundação Araucária / ICV. No presente trabalho, uma parte dos mesmos dados é re-analisada, com diferentes abordagens estatísticas.

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Além disso, a educação sexual é uma preocupação constante da Igreja católica, pois ela entende que essa é uma grande responsabilidade dos pais para com os filhos:

A educação para o amor como dom de si constitui também a premissa indispensável para os pais chamados a oferecer aos filhos uma clara e delicada educação sexual. Diante de uma cultura que ―banaliza‖ em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e a vive de maneira limitada e empobrecida coligando-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o serviço educativo dos pais deve dirigir- se com firmeza para uma cultura sexual que seja verdadeira e plenamente pessoal. A sexualidade, de fato, é uma riqueza de toda a pessoa corpo, sentimento e alma- e manifesta o seu significado íntimo ao levar a pessoa ao dom de si no amor (FC, 1981, n. 37).

Outra questão de suma importância abordada na pesquisa refere-se à possibilidade dos casais não poderem ter filhos naturalmente e neste caso se deveriam buscar, ou não, ajuda profissional para atingir o objetivo da parentalidade. Esta busca é apoiada pela Igreja, em alguns casos, conforme está registrado na Instrução Dignitas Personae (DP) da Congregação para a Doutrina da Fé:

No que se referem à cura da infertilidade, as novas técnicas médicas devem respeitar três bens fundamentais: a) o direito à vida e à integridade física de cada ser humano, desde a concepção até a morte natural; b) a unidade do matrimonio, que comporta o recíproco respeito do direito dos cônjuges a tornarem-se pai e mãe somente um através do outro; c) os valores especificamente humanos da sexualidade, que «exigem que a procriação de uma pessoa humana deva ser buscada como o fruto do ato conjugal específico do amor entre os esposos» (DP, 2008, n.

12).

É importante frisar que, para a Igreja, esses critérios excluem a reprodução assistida, afirmando que ―é eticamente inaceitável para a Igreja a dissociação da procriação do contexto integralmente pessoal do ato conjugal, pois a procriação humana é um ato pessoal do casal homem – mulher, que não admite nenhuma forma de delegação substitutiva‖ (DP, 2008, n.

16).

Sabe-se que a Igreja, no passado, legitimava o exercício da sexualidade apenas com

finalidade de procriação. Por outro lado, o pensamento atual da Igreja identifica ser a procriação um dos bens do matrimônio, mas não o único. Ou seja, ―o amor conjugal não visa

fins, é um fim em si mesmo, já que é sacramento

aquisição definitiva e irreversível‖ (BACH, 1980, p. 18). Para não instrumentalizar o matrimônio, o Concílio Vaticano II, através da Gaudium et Spes (GS), não fala mais de bens primários e secundários como antes, mas fala de bens e de fins do matrimônio:

um bem espiritual visa sempre uma

Mas o próprio Deus é autor do matrimônio dotado de vários bens e fins que são todos de máxima importância para a constituição do gênero humano, para o aperfeiçoamento pessoal e a sorte eterna de cada um dos membros da família, para a

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dignidade, estabilidade, paz e prosperidade da própria família e da sociedade inteira (GS, 1965, n. 47).

Entende-se que o matrimônio se assenta no amor conjugal e para um casal que ama, os filhos virão como a consequência necessária, como a coroação do amor. ―A genuína fecundidade humana consiste na superabundância do amor‖ (HAERING, 1979, p. 478). O Magistério da Igreja se percebe no papel - e na obrigação - de orientar as pessoas para que estas possam agir com responsabilidade e liberdade, como indica o papa Bento XVI quando da sua vinda ao Brasil: ―A Igreja quer apenas indicar os valores morais de cada situação e formar os cidadãos para que possam decidir consciente e livremente‖ (BENTO XVI, 2007, n.

4).

Sobre o aborto, a Igreja Católica tem sido clara em sua posição de condenar o ato do aborto e, nas palavras de João Paulo II na Evangelium Vitae (EV), em classificá-lo como ―crime abominável‖ (EV, 1995, n. 58). Esta posição decorre de princípios claros, como a obediência ao mandamento divino ―não matarás‖ (Dt 5,17). Por isso, João Paulo II assim se expressa, com toda consciência e responsabilidade de um sucessor de Pedro, ―declaro que o aborto direto, isto é, querido como fim ou como meio, constitui sempre uma desordem moral grave, enquanto morte deliberada de um ser humano inocente‖ (EV, 1995, n. 62). A Igreja tem revelado uma clara posição de condenação do aborto e de acolhida às pessoas que praticam o aborto, por estar ciente dos conflitos que envolvem esta situação. Esta postura da Igreja está expressa em inúmeras declarações de seu Magistério. Podemos enfatizar um dos mais recentes documentos da Igreja da América Latina e Caribe, em sintonia com o Sumo Pontífice, o Documento de Aparecida que exorta todos a ―acolher com misericórdia aquelas que abortaram, para ajudá-las a curar suas graves feridas e convidá-las a ser defensoras da vida‖ (CELAM, 2007, n. 469). Este estímulo a acolher com misericórdia aquelas que abortaram nasce da compreensão de que a mulher que praticou o aborto é uma ―vítima‖, e como tal ela sofre a situação, mais do que a promove. ―O aborto faz duas vítimas: por certo a criança, mas também a mãe‖ (CELAM, 2007, n. 469). Para a Igreja é o amor entre os cônjuges que permitirá integrar a parentalidade e as outras dimensões do matrimônio de maneira harmoniosa e não desastrosamente. ―Para as pessoas casadas que consideram sua união como participação na aliança salvífica entre Cristo e a Igreja, seu casamento será festa do amor, da qual todo o resto recebe o seu sentido‖ (HAERING, 1979, p. 478). A Igreja não obriga os casais a terem filhos imediatamente, mas também não aprova uma decisão de casar excluindo a possibilidade de ter filhos. ―É de excluir, como intrinsecamente desonesta toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou

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na sua realização, ou no desenvolvimento das suas conseqüências naturais, se proponha, com fim ou como meio, tornar a procriação impossível(FC, 1981, n. 32).

A Igreja foi muitas vezes apontada como aquela que desvaloriza a questão do

erotismo, ou a dimensão erótica do amor. Consciente destas críticas ela mesma se pergunta:

―Mas será mesmo assim? O cristianismo destruiu verdadeiramente o Eros?‖ (BENTO XVI, 2006, n. 4). Numa concepção atual percebe-se que a Igreja busca uma visão integral do amor, onde Eros e Ágape são vistos como complementares:

No debate filosófico e teológico, estas distinções foram muitas vezes radicalizadas até ao ponto de colocá-las em contraposição: tipicamente cristão seria o amor

descendente, oblativo, ou seja, a Ágape; ao invés, a cultura não cristã, especialmente

a grega, caracterizar-se-ia pelo amor ascendente, ambicioso e possessivo, ou seja,

pelo Eros. Se quisesse levar ao extremo esta antítese, a essência do cristianismo

terminaria desarticulada das relações básicas e vitais da existência humana e constituiria um mundo independente, considerado talvez admirável, mas decididamente separado do conjunto da existência humana. Na realidade, Eros e Ágape amor ascendente e amor descendente nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade,

embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o Eros seja inicialmente, sobretudo ambicioso, ascendente fascinação pela grande promessa de felicidade depois,

à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si

próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da Ágape; caso contrário, o Eros decai e perde mesmo a sua própria natureza. Por outro lado, o homem também não pode viver exclusivamente no amor oblativo, descendente. Não pode limitar-se sempre a dar, deve também receber. Quem quer dar amor, deve ele mesmo recebê-lo em dom. Certamente, o homem pode como nos diz o Senhor tornar-se uma fonte donde correm rios de água viva (cf. Jo 7,

37-38); mas, para se tornar semelhante fonte, deve ele mesmo beber incessantemente da fonte primeira e originária que é Jesus Cristo, de cujo coração trespassado brota o amor de Deus (cf. Jo 19,34) (BENTO XVI, 2006, n. 7).

O amor cristão, numa visão atual, valoriza a sua dimensão erótica, mas também

apresenta que o amor pode pedir sacrifícios que podem ocorrer nas vicissitudes humanas. Importa que a intimidade conjugal seja preservada e valorizada para que todas as outras realidades do matrimônio não caiam no vazio, ―Se não defendermos o matrimônio como pacto de amor, condicionando o direito de procriar a este pré-requisito essencial, vamos passar ao largo da realidade familiar sem ter entendido nada em absoluto do que constitui a sua essência e plenitude‖ (BACH, 1983, p. 88). Dessa maneira, a Igreja tem apresentado uma

contínua crítica ao pensamento atual marcado pelo hedonismo, visto como uma busca do prazer por si mesmo.

A investigação dos temas relacionados com sexualidade e reprodução humana está

sendo feita na perspectiva da relação entre a bioética, que busca uma avaliação ética do

avanço das ciências biológicas, e a teologia moral católica, particularmente expressa no

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ensinamento do Magistério da Igreja. Em termos gerais pode-se afirmar que as possibilidades

apresentadas pelo avanço das ciências biológicas na área de sexualidade e reprodução

humana, permitem tecnicamente a dissociação progressiva entre esses dois elementos, e estão

em rota de colisão e conflito com as posições da Igreja, visto que ela defende a necessária

unidade e associação entre sexualidade e reprodução. Estas são, portanto, as grandes questões

deste estudo: É ética e moralmente aceitável uma indiscriminada dissociação entre

sexualidade e reprodução humana? Há situações em que essa dissociação é aceitável? Pode a

moral católica aceitar algumas situações de reprodução medicamente assistidas, como

compatíveis com a sua visão de defesa do vínculo entre sexualidade e reprodução?

A investigação sobre tais temas deve aclarar também outra questão: que nem sempre o

posicionamento oficial da Igreja católica é vivenciado pelos seus fiéis. Muito se têm falado

que é cada vez mais evidente o hiato entre o que a Igreja ensina em matéria de sexo, e o que

se tornou crença e prática entre os seus fiéis. Nisto teriam influência os fatores sócio-culturais,

os conflitos internos do ser humano e uma teologia incapaz de formular o ideal cristão de

maneira adequada para o nosso tempo. Os teólogos precisam entrar em sintonia com as

ciências da atualidade e notar a concepção mais dinâmica da natureza expressa no Concílio

Vaticano II. Enfim, a teologia moral é desafiada a tentar articular uma teologia da sexualidade

que seja, ao mesmo tempo, coerente com a tradição e, no entanto, sensível aos dados

contemporâneos. É nesta perspectiva que se situa esta pesquisa de campo realizada, cujos

resultados abaixo buscam explicitar o que pensam os católicos comprometidos com a ação da

Igreja sobre a temática abordada.

3. Metodologia da Pesquisa

3.1 Caracterização da Pesquisa

A pesquisa é em parte de natureza qualitativa, pois as respostas refletem a opinião

daqueles que responderam ao questionário sobre os vários assuntos abordados, mas consiste

também em parte de caráter quantitativo, pois os dados obtidos foram classificados

quantitativamente e apresentados em forma de gráficos, ―pizzaou histogramas.

3.2 População e amostra Os questionários foram aplicados a cristãos católicos participativos da Arquidiocese de

Curitiba, isto é, aqueles que frequentaram os Cursos de Extensão em Teologia Pastoral, sendo

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oito turmas em 2008 e cinco turmas em 2009. Esta é considerada, portanto, a população

pesquisada.

A amostragem compreendeu 440 (quatrocentos e quarenta) questionários respondidos.

3.3 Coleta dos dados Os questionários foram aplicados da seguinte maneira:

a) Explicação e aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE)

o qual foi previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da

PUCPR;

b) Explanação a respeito dos objetivos e da relevância da pesquisa;

c) Aplicação propriamente do questionário também este previamente aprovado

pelo CEP da PUCPR.

3.4 Métricas de análise e definição das variáveis O método de análise utilizado foi o da estatística descritiva na qual os dados foram

sumarizados em gráficos descritivos do tipo histogramas quando as perguntas elaboradas no

questionário eram abertas, permitindo mais de uma possibilidade de resposta. Quando as

perguntas elaboradas eram fechadas, em uma única possibilidade de resposta, os resultados

foram apresentados em gráficos descritivos percentuais, do tipo ―pizza‖. Dentro do conjunto

de temas utilizados para a produção do questionário, neste artigo a análise dos dados ficou

limitada ao tema da contracepção, envolvendo assim as questões relativas a esse tema. E para

a tabulação cruzada com os dados do perfil dos sujeitos da pesquisa, foram escolhidas as

variáveis: estado civil, idade e escolaridade.

4. Apresentação e Análise de dados Com os dados coletados foram produzidas tabelas que geraram os gráficos. Para a

produção das tabelas e gráficos foram utilizados os aplicativos Excel 2007 e SPSS Statistics.

Na sequencia será identificado o perfil dos pesquisados, será feito o diagnóstico das respostas

sobre os métodos contraceptivos e o cruzamento com as variáveis relativas ao perfil dos

entrevistados.

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4.1 Identificação do perfil dos pesquisados O questionário apresenta 6 (seis) categorias de identificação dos sujeitos da pesquisa:

gênero, estado civil, filhos, idade, escolaridade e participação na Igreja. Estas categorias vão possibilitar a caracterização do perfil dos participantes.

Quanto à questão de gênero (figura 1), os dados apresentam uma predominância

feminina de 72% (setenta e dois por cento) na amostragem considerada. Isto sugere que

os cursos de extensão nas comunidades estão sendo freqüentados, em sua maioria

predominantemente por mulheres. Do senso comum se considera que as mulheres são

mais participativas na Igreja, os dados obtidos confirmam essa situação.

Quanto ao estado civil (figura 2), se encontrou uma maioria de 67% (sessenta e

sete por cento) de pessoas casadas. Quanto às pessoas não casadas, não houve nesta análise

o interesse em identificar solteiras, separadas ou divorciadas, para deixar evidente o conceito de família compatível com o

pensamento da Igreja, que considera o casamento como base familiar.

Feminino 72% (319) Masculino 26% (113)
Feminino
72%
(319)
Masculino
26%
(113)

N/Respond.

2% (8)

Figura1 - Gênero

Casado 67% (293) N/Casado 25% (111) N/Respond.
Casado
67%
(293)
N/Casado
25%
(111)
N/Respond.

Viúvo

4% (17)

4% (19)

Figura 2 - Estado Civil

Houve também a preocupação com o aspecto das pessoas terem filhos (Figura 3)

ou não, devido ao objetivo do projeto como um todo, que visa abordar as questões de

sexualidade vinculadas com a reprodução humana. Deste ponto de vista temos o

seguinte perfil da pessoa pesquisada nesta amostragem: predominantemente feminina, casada, com filhas ou filhos.

Tem filhos 68% (297) N/Tem filhos 28% (125)
Tem
filhos
68%
(297)
N/Tem
filhos
28%
(125)

N/Respond.

4% (18)

Figura 3 Filhos

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O perfil do grupo, quanto às faixas etárias, foi investigado nas três faixas de idade ao lado (Figura 4). Destaca-se que a pesquisa foi feita entre adultos. Deste modo chegou-se a um quadro que identifica os pesquisados em 70% (setenta por cento) de pessoas acima de 30 (trinta) anos.

31 - 50 anos 47% (208) 18 - 30 anos acima 50 23% anos (103)
31 - 50
anos
47%
(208)
18 - 30
anos
acima 50
23%
anos
(103)
23%
(100)
N/Respond.

7% (29)

Figura 4 Idade

A formação acadêmica

Ensino

8ª Serie

10% (45)

Médio 40% (177) Superior 18% (78) N/4ª Pós- Serie N/Respond. Graduação
Médio
40%
(177)
Superior
18% (78)
N/4ª
Pós-
Serie
N/Respond.
Graduação

4ª Serie

13% (55)

3% (12)

10% (45)

6% (28)

Figura 5 Escolaridade

escolaridade (Figura 5) foi também solicitada como um elemento para compor o perfil dos pesquisados. Nas pessoas que compuseram os grupos, percebe-se uma escolaridade de 64% (sessenta e quatro por cento) com o ensino médio concluído, dentre estas, 24% (vinte e quatro por cento) com curso superior ou pós- graduação.

Visto que os grupos pesquisados eram compostos de pessoas que estavam fazendo um

Curso de Teologia de duração média de 2 (dois) anos, entende-se que os pesquisados têm um

forte vínculo e atuação eclesial, pois o grande objetivo desses cursos é o aprofundamento na fé para melhorar a atuação dos agentes de pastoral na comunidade, especialmente pastoral familiar.

Para mapear melhor o perfil desta atuação eclesial, uma questão (Figura 6) pediu que fosse identificada a vinculação da pessoa com alguns espaços de atuação na Igreja. É notável perceber que 30% (trinta por cento) dos entrevistados não estão inseridos em nenhuma atividade eclesial, o que indica que estas pessoas podem estar fazendo o curso por uma

Ministros

Outras

Eucaristia Pastorais 12% (51) 15% (67) Catequistas 25% Leigos (110) 30% (130) Movimento 10% (45)
Eucaristia
Pastorais
12% (51)
15% (67)
Catequistas
25%
Leigos
(110)
30%
(130)
Movimento
10% (45)
Pastoral
N/Respond.

Familiar

5% (23)

3% (14)

Figura 6 Participação na Igreja

10

necessidade pessoal de aprofundamento na fé.

Por outro lado é interessante observar que 25% (vinte e cinco por cento) entrevistados

são catequistas e que podem atuar também em outras pastorais, pois este tipo de ação não

exige exclusividade.

4.2 Questões sobre contracepção

um panorama dos métodos

contraceptivos utilizados pelas pessoas entrevistadas. Um resultado de 18% (dezoito por

cento) das pessoas que responderam não utilizar método algum, precisa ser amenizado pelo

fato de ser um número menor do que a percentagem de pessoas viúvas mais as não casadas

sem filhos indicadas no perfil acima. É interessante observar que dos três métodos mais

empregados, dois deles (pílula e cirurgia) são basicamente usados na mesma percentagem de

22% (vinte e dois por cento) e o terceiro (camisinha) em quantidade menor de 13% (treze por

cento). O método natural oficialmente recomendado pela Igreja é usado por apenas 6%

(seis por cento) dos entrevistados, mostrando claramente a falta de sintonia entre o que é

observado pela Igreja e o que é praticado pelos fiéis.

A

questão

da

contracepção

(Figura

7)

mostra

Outro método (11) 3% Sem método (60) N/Respondeu(79) 14% 18% Método natural (27) Camisinha (58)
Outro método (11)
3%
Sem método (60)
N/Respondeu(79)
14%
18%
Método natural (27)
Camisinha (58)
6%
13%
Método definitivo
(cirurgia) (97)
Pílula (99)
22%
22%
Dispositivo Intra-
Uterino (DIU) (9)

2%

Figura 7 Método contraceptivo

A pílula do dia seguinte é um assunto novo e controverso. Uma questão (Figura 8)

sobre esse tema foi colocada entre as questões de contracepção. Sem se aprofundar no aspecto

biológico, faz-se aqui uma ressalva de que esse procedimento, também chamado de plano B,

pode ser entendido como um método anticoncepcional quando evita a fertilização, ou como

um método abortivo de primeiro momento, quando impede que aconteça a implantação do

embrião no útero, a chamada nidação. Por tudo isso é preocupante que 6% (seis por cento)

11

dos entrevistados afirmem fazer uso dela, ocasionalmente. Comparando-se com a questão

sobre o aborto (Figura 9), em que somente 3% (três por cento) declaram-se a favor, entende-

se que a resposta positiva ao uso da pílula do dia seguinte pode ter acontecido sem

conhecimento de causa. Em vista de tratar, portanto, de assunto tão controverso, entende-se

que é extremamente necessário um maior esclarecimento sobre o funcionamento e a utilização

de tal método ―contraceptivo‖ ou ―abortivo‖.

Nunca tomou (318) 72% N/Respond (95) 22% Já tomou (27) 6%
Nunca tomou (318)
72%
N/Respond
(95)
22%
Já tomou (27)
6%

Figura 8 Pílula do dia seguinte

Contra o aborto e a legalização 75% (330) Contra o aborto, a favor da legalização
Contra o aborto e a
legalização
75% (330)
Contra o aborto, a favor
da legalização
16% (69)
A favor do aborto e
legalização
N/Respond
3% (16)
6% (25)

Figura 9 Aborto

4.3 Correlacionando contracepção com estado civil, idade e escolaridade Ao se relacionar a contracepção com o estado civil (Figura 10), se observa que

proporcionalmente no grupo dos não casados (Figura 11), que combina os solteiros (jovens ou

não), os separados e os divorciados, a ausência de um método regular (27,0%) é o que mais se

destaca, neste caso seguido da pílula (19,0%). A camisinha é somente o terceiro método tanto

para não casados (11,7%) como para casados (14,6%).

12

Tanto no grupo dos casados (Figura 12), como no grupo dos viúvos (Figura 13), o uso da cirurgia como método definitivo de contracepção é o mais utilizado, respectivamente com (28,3%) e (35,3%), seguido da pílula respectivamente com (24,6%) e (11,8%).

Sem método 90 (58) 80 Camisinha 70 (56) 60 50 Pílula (95) 40 30 DIU
Sem método
90
(58)
80
Camisinha
70
(56)
60
50
Pílula (95)
40
30
DIU (9)
20
10
0
Cirurgia (97)
Natural (25)
Outro (10)

Figura 10 Contracepção x Estado Civil

N/Resp.

( 33)

Sem

Outro (8) método 11% 3% (25) 9% Camisinha (43) 15% Cirurgia Pílula (83) (72) 28%
Outro (8)
método
11%
3%
(25)
9%
Camisinha
(43)
15%
Cirurgia
Pílula
(83)
(72)
28%
25%
DIU 7)
2%

Natural

(22)

7%

Figura 12 Casadas (os) (293)

Sem método (30) N/Resp. 27% ( 32) Camisinha 29% (13) 12% Pílula (21) 19% Cirurgia
Sem
método
(30)
N/Resp.
27%
( 32)
Camisinha
29%
(13) 12%
Pílula
(21)
19%
Cirurgia
(8)
7%
Natural

2%

(3)

2%

27% ( 32) Camisinha 29% (13) 12% Pílula (21) 19% Cirurgia (8) 7% Natural 2% (3)

DIU (2)

2%

Outro (2)

Figura 11 - Não casadas (os) (111)

Outro (0)

Camisinha

0%

(0)

0% N/Resp. ( 6) 35% Sem método Cirurgia (3) (6) Pílula (2) 18% 35% 12%
0%
N/Resp.
( 6)
35%
Sem
método
Cirurgia
(3)
(6)
Pílula (2)
18%
35%
12%
DIU (0)
0%

0%

Natural (0)

Figura 13 Viúvas (os) (17)

Quando os métodos de contracepção são correlacionados com a faixa etária (Figura 14) podem-se notar duas grandes tendências. O uso da pílula é proporcionalmente mais utilizado pelos mais jovens, com (37,9%) para os da faixa de 18-30 anos (Figura 15) e (23,1%) para os da faixa de 31-50 anos (Figura 16). Já o uso do método definitivo (cirurgia) é mais utilizado com o passar da idade, (27,4%) para a faixa de 31-50 anos e (33,0%) para os acima de 50 anos (Figura 17).

13

Sem método 60 (56) Camisinha 50 (49) 40 Pílula (99) 30 DIU (8) 20 Cirurgia
Sem método
60
(56)
Camisinha
50
(49)
40
Pílula (99)
30
DIU (8)
20
Cirurgia (97)
10
0
Natural (24)
18 - 30
31 - 50
acima
Outro (10)
anos
anos
de 50
(103)
(208)
anos
N/Resp (68)
(100)

Figura 14 Contracepção x Idade

Outro N/Resp Sem Natural (10) (23) método (14) 6% 11% (27) 7% 13% Cirurgia (57)
Outro
N/Resp
Sem
Natural
(10)
(23)
método
(14)
6%
11%
(27)
7%
13%
Cirurgia
(57)
27%
Pílula
(48)
23%
Camisinha
DIU (6)
(27)
3%
13%

Figura 16 Idade de 31 - 50 anos (208)

Natural

(3)

Outro (2)

Cirurgia 2% 3% (7) N/Resp. 7% 2% (17) Sem 16% método (18) Pílula 17% (39)
Cirurgia
2%
3%
(7)
N/Resp.
7%
2%
(17)
Sem
16%
método
(18)
Pílula
17%
(39)
Camisinha
38%
(15)
15%

DIU (2)

Figura 15 Idade de 18 - 30 anos (103

Outro (2)

Sem

método 2% (11) N/Resp. 11% (11) 11% Cirurgia (33) Pílula 33% (12) 12% Camisinha (7)
método
2%
(11)
N/Resp.
11%
(11)
11%
Cirurgia
(33)
Pílula
33%
(12)
12%
Camisinha
(7)
7%

Natural

(7)

7%

DIU (0)

0%

Figura 17 Idade acima de 50 anos (100)

Na terceira tabulação cruzada, na qual a contracepção foi relacionada com a escolaridade (Figura 18) identificamos também duas fortes tendências. Na menor escolaridade, o método que mais se destaca é o método definitivo, da cirurgia, com (25,0%) para os não completaram nem a 4ª Serie, (25,5%) para os com a 4ª Serie completada e (31,1%) para os com a 8ª Serie completada. A figura 19 apresenta os 3 (três) grupos somados. Para a escolaridade média, aqueles que completaram o Ensino Médio, a pílula é o destaque com (26,6%), conforme a Figura 20. Também para os grupos de maior escolaridade a pílula é o destaque, com (29,5%) para os que fizeram um Curso Superior e (46,4%) para aqueles que chegaram à Pós-Graduação. Estes dois últimos grupos aparecem somados na Figura 21.

14

Sem 50 método 45 (58) 40 Camisinha 35 (46) 30 25 Pílula 20 (96) 15
Sem
50
método
45
(58)
40
Camisinha
35
(46)
30
25
Pílula
20
(96)
15
10
5
DIU (8)
0
Cirurgia
(90)
Natural
(25)

Figura 18 Contracepção x Escolaridade

Outro (3)

Natural

(7)

4%

Camisinha Sem N/Resp (20) método (29) 11% (32) 16% 18% Cirurgia (35) Pílula 20% (47)
Camisinha
Sem
N/Resp
(20)
método
(29)
11%
(32)
16%
18%
Cirurgia
(35)
Pílula
20%
(47)
27%
DIU (4)
2%

2%

Figura 20 Escolaridade até Ensino Médio (177)

Sem

método (14) N/Resp 12% (13) (27) 11% 24% Pílula Cirurgia (13) (31) 12% 28%
método
(14)
N/Resp
12%
(13)
(27)
11%
24%
Pílula
Cirurgia
(13)
(31)
12%
28%

2%

Camisinha

DIU (2)

2%

Outro (2)

Natural

(10)

9%

Figura 19 Escolaridade até a 8ª Serie (112)

N/Resp.

Camisinha

Natural

(8)

7%

(7) Sem (13) Outro (4) 7% método 12% 4% (12) 11% Cirurgia (24) Pílula 23%
(7)
Sem
(13)
Outro (4)
7%
método
12%
4%
(12)
11%
Cirurgia
(24)
Pílula
23%
(36)
34%
DIU (2)
2%

Figura 21 Escolaridade Superior (106)

5. Considerações Finais, Limitações e Recomendações Nesta análise dos resultados da utilização de métodos contraceptivos por fiéis

católicos participantes de Cursos de Extensão em Teologia Pastoral na Arquidiocese de

Curitiba, se entende que no mundo atual com a propagação de métodos artificiais de

contracepção e com sua correspondente divulgação e facilidade de acesso, fica difícil para o

católico seguir o magistério da Igreja e se limitar ao método natural. Não se preocupar com

um planejamento familiar adequado e necessário é ficar limitado como pessoa em um mundo

competitivo em que as dificuldades sócio-econômicas atingem todas as sociedades.

15

A limitação deste trabalho acontece por questão de espaço. A análise se limitou a uma

parcela dos dados obtido no questionário, mais precisamente a questão da contracepção.

Fica a recomendação para que outros interessados se utilizem dos dados já coletados e

disponíveis em outros temas de estudo importantes para a moral familiar, das relações entre

sexualidade e reprodução humana, planejamento familiar e aborto. Os métodos contraceptivos

devem ser debatidos e esclarecidos para que seu uso seja feito com liberdade e

responsabilidade. O uso da pílula do dia seguinte é um tema novo, polêmico e mal

esclarecido, pois paira ainda a dúvida, conforme os resultados, de tratar-se ou de um método

contraceptivo ou de um método abortivo, ou ambos.

Referências

BACH, J. Marcos. O sentido espiritual da sexualidade. Petrópolis: Vozes, 1980.

O futuro da família: tendências e perspectivas. Petrópolis: Vozes, 1983.

BENTO XVI. Deus caritas est. Carta encíclica sobre o amor cristão. São Paulo: Paulinas,

2006.

Discurso na cerimônia de boas-vindas. 09 mai. 2007. Aeroporto Internacional de São Paulo Guarulhos. Disponível em:

CELAM Conselho Episcopal Latino-Americano. Documento de Aparecida. São Paulo:

CNBB; Paulinas; Paulus, 2007.

CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. 07 dez. 1965. 15. ed. São Paulo: Paulinas, 2007.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Dignitas Personae. Instrução sobre algumas questões de bioética. 08 set. 2008. Disponível em:

1208_dignitas-personae_po.html. Acesso em: 07 jun. 2011.

FIELD, Andy. Descobrindo a estatística usando SPSS. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

HAERING, Bernhard. Livres e fiéis em Cristo: I Teologia moral geral. São Paulo:

Paulinas, 1979.

JOÃO PAULO II. Familiaris Consortio. Exortação apostólica sobre a missão da família cristã no mundo de hoje. 22 nov. 1981. Petrópolis: Vozes, 1992.

Evangelium Vitae. Carta encíclica sobre o valor e a inviolabilidade da vida humana. 25 mar. 1995. 6. ed. São Paulo: Paulinas, 2009.