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Giovanni Seabra José Antonio Novaes da Silva Ivo Thadeu Lira Mendonça

(organizadores)

A Conferência da Terra

Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

Volume II

Editora Universitária da UFPB João Pessoa - PB

2010

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA reitor RÔMULO SOARES POLARI vice-reitora MARIA YARA CAMPOS MATOS EDITORA UNIVERSITÁRIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA

reitor

RÔMULO SOARES POLARI

vice-reitora

MARIA YARA CAMPOS MATOS

RÔMULO SOARES POLARI vice-reitora MARIA YARA CAMPOS MATOS EDITORA UNIVERSITÁRIA diretor JOSÉ LUIZ DA SILVA

EDITORA UNIVERSITÁRIA

diretor

JOSÉ LUIZ DA SILVA

vice-diretor

JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO

supervisor de editoração

ALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR

Capa: Éric Seabra Editoração: Ivo Thadeu Lira Mendonça E-mail: gs_consultoria@yahoo.com.br

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade. Volume II / Giovanni de Farias Seabra, José Antonio Novaes da Silva, Ivo Thadeu Lira Mendonça

(organizadores). – João Pessoa: Editora Universitária da UFPB,

2010.

675 p.: il.

ISBN: 978-85-7745-532-4

1. Meio Ambiente. 2. Mudanças climáticas. 3. Educação ambiental. 4. Ecossistemas terrestres e aquáticos. 5. Saúde global. I. Seabra, Giovanni de Farias. II. Silva, José Antonio Novaes da. III. Mendonça, Ivo Thadeu Lira.

UFPB/BC

As opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.

Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda.

Impresso no Brasil Printed in Brazil Foi feito depósito legal

GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda. Impresso no Brasil Printed in Brazil Foi feito

Sumário

SUMÁRIO

5

PREFÁCIO

9

UM NOVO PASSO

ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.

3. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL

10

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL

E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE

11

AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO

PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE

18

ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU

25

ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE

31

ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM

38

ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL

JATAÍ – GOIÁS, BRASIL

DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE

43

CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL

 

50

CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

58

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE

64

DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA

CONTRIBUIÇÃO

DA

PREFEITURA

DE

OLINDA

NA

UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL

69

EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO

DO ARAÇAGY

GLOBAL

75

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL

 

82

EDUCAÇÃO

AMBIENTAL,

EDUCAÇÃO

EMPREENDEDORA

E

DESENVOLVIMENTO

LOCAL

SUSTENTÁVEL

88

EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ

95

EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM

ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN

ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ –

102

108

EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE

CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA

114

EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE

122

EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE

128

MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS

134

O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA

142

O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO

INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR

FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS

O USO

E

SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO

DE

CARTILHA

COMO

INSTRUMENTO

DE

INFORMAÇÃO

DE

EDUCAÇÃO

AMBIENTAL

 

DE SÃO LUÍS/MA

158

OS

REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR

163

PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA

FRENTE ÀS DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE)

169

PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL AO LONGO DO RIO DAS MORTES

176

SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA

184

TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO

 

189

UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL

196

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA

SOCIEDADE DO CONSUMO

201

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE

206

A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO

213

A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA,

219

A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE

222

AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA-

229

ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE

235

ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL

GEOGRAFIA

NORMAL MÉDIO DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO

NO BAIRRO ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA

BAIRRO DA VÁRZEA RECIFE-PE

MAMANGUAPE

E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ

PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB

240

ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL

246

AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E

253

CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE

COXIXOLA - PB

QUALIDADE DE VIDA

261

CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ –

RN, SOBRE PROCESSOS EROSIVOS

267

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PERNAMBUCO

275

EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM OS CHACAREIROS DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO

PERMANENTE DO CÓRREGO GRANADA EM APARECIDA DE GOIÂNIA: UMA PROPOSTA EM PROL

DA VEGETAÇÃO

282

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS DA RDS PONTA DO TUBARÃO – RN: POTENCIALIDADES E

LIMITAÇÕES NA VISÃO DOS PROFESSORES

 

287

EDUCAÇÃO

AMBIENTAL

NO

MERCADO

DE

CONSUMO

GLOBAL:

A

IMPORTÂNCIA

DA

CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO

 

295

ESTUDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE CRIANÇAS RIBEIRINHAS PARA PLANEJAMENTO DE AÇÕES

301

FORMAÇÃO DE PROFESSORES E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO BÁSICO:

308

IDENTIFICAÇÃO DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS POR PROFESSORES DO

DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

UM ESTUDO NUMA CIDADE DO SERTÃO NORDESTINO

MUNICÍPIO DE AREIA BRANCA/RN

316

IMPACTO AMBIENTAL NA EXTRAÇÃO DE AREIA NA REGIÃO DO TABULEIRO DAS LAGOAS

322

LINHAS QUE SE SOBREPÕEM: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO GEOLÓGICO E

AS AÇÕES

HUMANAS

330

MEIO

AMBIENTE NOS OLHARES DE

ESTUDANTES DO ENSINO

FUNDAMENTAL II

DE

ESCOLAS

PÚBLICAS, JOÃO PESSOA-PB

 

336

O LIMITE, O MAR: USO DA MÚSICA NA INVESTIGAÇÃO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS

PADRÕES DE CONSUMO, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

349

PERCEPÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DOS FREQUENTADORES DAS PRAIAS DO BESSA E INTERMARES

355

PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS EM UMA ESCOLA NORMAL, NO CONTEXTO DAS SALAS DE

362

PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS EM UMA ESCOLA DA REDE PRIVADA NO MUNICÍPIO DE JOÃO

(PARAÍBA-BRASIL)

INCLUSÃO DA ESCOLA PÚBLICA, EM JOÃO PESSOA - PB

PESSOA –

371

PERFIL E PERCEPÇÃO DOS PARTICIPANTES DE TRILHAS INTERPRETATIVAS DO PARQUE ESTADUAL

378

POSSIBILIDADES E ATUAÇÃO SOCIO EDUCACIONAL DO COMPLEXO ALUIZIO CAMPOS – CAMPINA

DE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PE

GRANDE-PB

383

PRÁTICA DA AQUICULTURA NO ESTUÁRIO DO CANAL DE SANTA CRUZ: IMPACTOS AMBIENTAIS

390

PROPOSTA DO PLANO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA UFPB-CAMPUS I, JOÃO PESSOA - PB

397

RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS EM JAZIDAS DE INSTALAÇÕES DE PETROLÉO

404

REFLEXÃO SOBRE CONSCIÊNCIA AMBIENTAL NOS DIAS ATUAIS

410

RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ-RN

414

ROEDORES “VILÕES” DA PESTE NEGRA: RECONSTRUINDO O CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES NO

SERTÃO PERNAMBUCANO

419

UM JOGO NECESSÁRIO

425

4. MEGACIDADES E CIDADES SUSTENTÁVEIS

430

A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E A NATUREZA NA TRADICAÇÃO AFRICANA –BANTO

A ESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE DE PARNAMIRIM/RN E SUA

437

CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: ANÁLISE TEÓRICA COMO FERRAMENTA PARA O ESTUDO DA

431

IMPORTÂNCIA PARA A GESTÃO AMBIENTAL LOCAL

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA-PE

444

CONDIÇÕES DO MEIO AMBIENTE E GESTÃO AMBIENTAL EM MUNICÍPIOS PERNAMBUCANOS

450

POLUIÇÃO SONORA E SAÚDE

458

REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM MUNICÍPIOS DA BACIA DE

464

RISCOS SOCIAL, ECONÔMICO E EPIDEMIOLÓGICO DAS FAMÍLIAS RESIDENTES NO MORRO CRISTO

CAMPOS

REI EM CAJAZEIRAS – PB

471

SOCIA(BI)LIDADE E SOLIDARIEDADE EM COMUNIDADES DE BAIXA RENDA: PRÁTICAS PARA VIVER

479

UM OLHAR VOLTADO A DEMOCRATIZAÇAO POPULAR EM PLANOS DIRETORES VISANDO CIDADES

EM AMBIENTES HOSTIS

SUSTENTÁVEIS

 

487

CATADORES DE LIXO: REFÚGIO DO EXCEDENTE POPULACIONAL

 

492

MARECHAL

– COMUNIDADE PESQUEIRA LOCAL

DEODORO

AL

EM

FOCO:

CENÁRIO

E

PERSPECTIVAS

SOCIOAMBIENTAIS

DA

498

PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO NO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS/PE

505

5. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DOS RECURSOS HÍDRICOS

512

A LUTA CONTRA A POBREZA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAS REGIÕES SEMI-ÁRIDAS

PASSA PELO DESENVOLVIMENTO DA IRRIGAÇÃO A PARTIR DE PEQUENOS LENÇÓIS ALUVIAIS?

REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO NO NORDESTE BRASILEIRO

513

ARAGUAIA – RIO DE AMOR E POESIA

525

A

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS

532

A UTILIZAÇÃO DO GEOPROCESSAMENTO PARA CRIAÇÃO DE UNIDADES HIDROGRÁFICAS NO

539

AVALIAÇÃO DA QUALIDADE AMBIENTAL DE ASSENTAMENTOS NA BACIA HIDROGRÁFICA DA

ESTADO DA BAHIA: UM SUPORTE NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS

BACIAS HIDROGRÁFICAS: GESTÃO & DEGRADAÇÃO AMBIENTAL

555

CARACTERIZAÇÃO DO ÍNDICE DE DISPONIBILIDADE DE UMIDADE NA MICROBACIA HIDROGRÁFICA

DO AÇUDE DOS NAMORADOS, SÃO JOÃO DO CARIRI, PB

561

CARACTERIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: SISTEMA CATUAMA, MUNICÍPIO DE GOIANA-PE

566

DESPERDÍCIO DE ÁGUA NAS EDIFICAÇÕES DA CIDADE UNIVERSITÁRIA - UFPB

573

QUANTIFICAÇÃO DA INTERCEPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA EM ÁRVORES ISOLADAS E EM GRUPO

581

UTILIZAÇÃO DO MICROFITOPLÂNCTON NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DE ÁGUA DE UM

 

RESERVATÓRIO HIDROELÉTRICO TROPICAL

588

A

POLUIÇÃO DO AÇUDE MARECHAL DUTRA – O “GARGALHEIRAS”

598

ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS E MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DO AÇUDE DE BODOCONGÓ, CAMPINA

604

AVALIAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DADA PELOS MORADORES DA CIDADE DE MAMANGUAPE-PB SOBRE

609

AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE À EROSÃO NAS SUB-BACIAS DE CONTRIBUIÇÃO DOS

RESERVATÓRIOS CARPINA, GLÓRIA DO GOITÁ E VÁRZEA DO UNA, PERNAMBUCO, UTILIZANDO

GRANDE, PARAÍBA

O MEIO AMBIENTE, O CASO DO RIO BANDEIRA

TÉCNICAS DE GEOPROCESSAMENTO

614

DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DO RIO VERMELHO – MUNICÍPIO DE RIO TINTO/PB

621

EFEITO DA FRAGMENTAÇÃO SOBRE A DIETA DAS ESPÉCIES DE PEIXES EM IGARAPÉS DE BAIXA

ORDEM NA AMAZÔNIA

629

ESTUDOS PRELIMINARES DOS DADOS FÍSICO-QUÍMICOS DE 2007, RIO CUIÁ, JOÃO PESSOA/PB

637

IDENTIFICAÇÃO

E

MAPEAMENTO

DAS

ÁREAS

DE

PRESERVAÇÃO

PERMANENTE

DUNARES

NA

MICROBACIA DO RIO DOCE NATAL/RN

 

641

O REFLEXO DA POLUIÇÃO URBANA NOS ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS: O CASO DO MANGUEZAL

649

O USO DAS ÁGUAS SUBTERÂNEAS PARA IRRIGAÇÃO NOS MUNICIPIOS DE JOÃO DOURADO, IRECÊ E

656

RIO MANDACARU: UMA ABORDAGEM SOBRE A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E SITUAÇÃO SOCIAL DA

CHICO SCIENCE, COMPLEXO DE SALGADINHO, OLINDA-PE

LAPÃO - BAHIA

POPULAÇÃO RIBEIRINHA

 

662

RIO

MEKONG:

TRANSNACIONALIDADE,

DILEMAS

DE

AÇÃO

COLETIVA

E

COOPERAÇÃO

INTERNACIONAL

 

669

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

9

Um novo passo

Prefácio

A quecimento global ou resfriamento do Planeta Terra? Estas indagações fazem parte de um elenco de incertezas com que a humanidade se defronta diante da realidade ambiental do mundo atual, mais antropocêntrico e menos holístico. As questões ambientais estão

incorporadas no dia-a-dia das pessoas, invadindo as residências, as escolas e os ambientes de trabalho, incidindo na estrutura e hábitos da sociedade humana, tornando-se tema de destaque em reuniões de associações intelectuais e científicas. Os programas e ações ambientais são quase sempre sustentados pelas grandes corporações empresariais e políticas, cuja sustentação reside no capital multinacional e nacional e estes, paradoxalmente, constituem os maiores poluidores. Esta situação cria incertezas no pensamento individual e coletivo, exigindo ações de conscientização e mobilização efetivas e livres da pressão do capital. Somente assim teremos uma sociedade mais justa no Mundo ecologicamente correto. A Conferência da Terra surge como um importante instrumento de conscientização e mobilização da população, um movimento contínuo em prol da saúde planetária. A Conferência da Terra propicia a união de todos convergindo na perspectiva, do bem estar dos outros seres, e não somente dos homens. De nada adianta estarmos sós no Planeta, sem a atmosfera e a biodiversidade que nos permitem viver. Na segunda edição, a Conferência da Terra 2010 apresenta-se como mais uma oportunidade para representantes de instituições acadêmicas, sociedade civil e organizada, bem como entidades governamentais e privadas reunirem-se com o objetivo de trazerem soluções para a preservação do meio ambiente. Sob o tema “Aquecimento global, sociedade e biodiversidade”, damos um novo passo no intuito de despertar o censo crítico e instigar ações conservacionistas eficazes e livres das interferências políticas e institucionais. A Conferência da Terra, uma realização da Universidade Federal da Paraíba, com apoio de outras instituições, propiciou o acesso de todos os participantes ao que existe de mais novo, no tocante às experiências profissionais e acadêmicas de centenas de pesquisadores e cidadãos evolvendo meio ambiente, mudanças climáticas, educação ambiental, ecossistemas terrestres e aquáticos e saúde global.

Giovanni Seabra Ivo Thadeu Lira Mendonça

3. Educação Ambiental no Mercado de Consumo Global

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

11

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE

Karoline de Lucena Araújo Universidade Federal da Paraíba. Centro de Ciências Jurídicas. Programa de Pós-graduação em Ciências Jurídicas. Mestranda em ciências jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba. karolinerp@hotmail.com

RESUMO

O texto trata da importância da educação ambiental para a formação de uma população

consciente e, especialmente, de consumidores conscientes. A educação revela-se primordial para que haja uma mudança na forma de consumir o que levará a uma mudança, também, na forma de produzir, já que o sistema capitalista de produção tem como um de seus pilares o fomento ao consumo. Mostrar-se-á que a educação ambiental é uma previsão constitucional e, por isso, é reconhecidamente um instrumento para que a proteção constitucional do bem ambiental se concretize. Além disso, é de grande relevância também para a realização do consumo sustentável, que a forma de consumo que precisa ser fomentada diante da situação em que se encontra o meio ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Educação – Meio ambiente – Constituição – Consumo sustentável.

ABSTRACT

This paper addresses the importance of environmental education for the formation of a conscious population and especially conscious consumers. Education appears to be essential if there is a change in the way we consume leading to a change also in the form of produce, since the capitalist system of production has as one of its pillars promoting consumption. Show will be that environmental education is a constitutional provision and, therefore, is recognized as a means to the constitutional protection of environmental good will come true. Furthermore, it is also of great importance to the achievement of sustainable consumption, the pattern of consumption that needs to be encouraged about the situation you are in the environment. KEYWORDS: Education - Environment - Constitution - Sustainable consumption

1. INTRODUÇÃO

O Brasil vive hoje um sistema capitalista de produção. Tal sistema consiste na extração de

recursos naturais, como matéria prima dos mais diversos produtos, e no fomento ao consumo. O resultado dessa forma de produção já pode ser sentido e tal sensação não é das melhores, isso porque o que se pode observar que é a degradação do meio ambiente que culmina com a escassez de muitos de seus recursos. Diante desse quadro, iniciou-se um movimento em nível internacional de divulgação do estado em que se encontrava o meio ambiente e de formas de se prevenir e evitar novos danos a esse bem. Essa preocupação maior com meio ambiente ganhou relevo no início da década de 70, com a Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972, que publicou o documento conhecido como Declaração sobre o Meio Ambiente Humano. Esse evento teve como objetivo chamar a

atenção de todos os países para a necessidade de se viver em um ambiente de qualidade e que este, para tanto, precisava ser preservado. Foi quando se começou a falar em desenvolvimento sustentável. Tal desenvolvimento implica numa forma de produção que seja suportável pela natureza. Era preciso equilibrar o desenvolvimento com o meio ambiente de qualidade.

O presente trabalho traz, nesse diapasão, a educação como forma de esclarecer a população

para a importância do meio ambiente equilibrado para a manutenção da qualidade de vida. Para tanto, destaca a proteção constitucional dada ao meio ambiente e a previsão no mesmo diploma da promoção da educação ambiental como instrumento para proteger e preservar o bem ambiental.

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

12

Sendo assim, num primeiro momento do trabalho é feita localização do meio ambiente na Constituição e, principalmente, é colocada a educação ambiental como instrumento para se chegar à proteção determinada pela Lei Maior. É, ainda nesse momento, chamada atenção para o fato de que o Brasil possui uma Lei de Educação Ambiental que estabelece diretrizes e que ratifica a relevância da implementação da educação com foco ambiental para que a população contribua na prevenção de danos ao meio ambiente e na manutenção do meio ambiente de qualidade, premissa constitucional. E é nesse contexto que se chega ao mercado de consumo. O consumo sustentável é um dos sustentáculos para a mudança na forma de produção que, como dito, não possui nenhuma preocupação com manutenção do meio ambiente em equilíbrio. O consumidor, através de uma mudança de postura, vai estar mais atento ao que consome, pois tem conhecimento de como suas atitudes na hora de consumir são decisivas para que haja a preservação do meio ambiente e, assim, assegurar esse bem para outras gerações. Essas decisões serão positivas à medida que a população é esclarecida para a importância de uma postura consumerista ambientalmente responsável o que é possível através da educação ambiental.

2. EDUCAÇÃO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL E MEIO AMBIENTE A educação é uma das grandes riquezas, se não a maior, que o ser humano pode ter. Riqueza que pode ser acumulada ilimitadamente. Mas, não basta o acúmulo de conhecimento. A educação vai além. Ela se revela através dos atos de quem a adquire. Quando se diz que alguém é educado é porque ele se comporta bem no relacionamento em sociedade, mesmo que não possua conhecimento de muitas ciências. Assim, quando se fala em educação ambiental se quer dizer que é uma forma de orientar o indivíduo para que se relacione bem com o meio ambiente, “um grande movimento ético que deve permear toda a cultura, promovendo uma nova cosmovisão que integre e entrelace as várias partes do mundo” 1. Assim, a educação ambiental é uma forma de esclarecer as pessoas sobre as formas de proteger o meio ambiente e de assegurá-lo para as futuras gerações. A população precisa estar ciente de que meio ambiente precisa ser protegido sob pena de a própria vida humana estar condenada ao fim. Os problemas ambientais gerados por um sistema de produção descomprometido com o meio ambiente levaram muitos países, inclusive o Brasil, a incorporar em sua legislação e, principalmente, em sua Constituição o meio ambiente como bem protegido. O meio ambiente ganhou destaque constitucional com a promulgação da Constituição de 1988, consolidando e fortalecendo aquela proteção como aduz Antonio Herman Benjamin:

Assim configurada, a proteção ambiental deixa, definitivamente, de ser um interesse menor ou acidental no ordenamento, afastando-se dos tempos em que, quando muito, era objeto de intermináveis discussões científicas e poéticas. Aqui, o meio ambiente é alçado ao patamar máximo do ordenamento, privilégio que outros valores sociais só depois de décadas ou mesmo séculos lograram conquistar. 2

A Constituição Federal de 1988 traz um capítulo específico para o meio ambiente que se refere ao art. 225 daquele diploma. Ele ressalta a importância do meio ambiente para a vida humana e o coloca como direito de todos, assim como impõe o dever de proteção ao Poder Público e à população e, para tanto, destaca a importância da educação:

Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

1 SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano pág. 6. 2 BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 94.

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

13

§1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público:

[

]

VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a

preservação do meio ambiente;

Necessário se faz, então, que haja uma união de forças, tanto do Poder Público como de toda a população no sentido de preservar o meio ambiente, pois se é o ser humano que intervém no ambiente, estabelecendo riscos de degradação é ele também que deve buscar formas de evitá-los para protegê-lo como bem elucida Marcelo Abelha Rodrigues:

Ora, só haverá a possibilidade de preservar e proteger para as futuras gerações se e somente se o papel do ser humano for o de lutar pela sua preservação, pois caso contrário, permanecendo inerte ou em contínua destruição do meio, terá em pouco tempo assassinado a si próprio3.

Por isso, medidas que tenham como importância primeira a preservação devem ter lugar de destaque nas políticas públicas. E sem dúvida a educação é uma delas. Isso porque uma sociedade esclarecida dificilmente permite que seus direitos sejam violados e quando se transfere isso para a educação com foco ambiental, o ato de educar ganha ainda mais relevância, pois se transforma num grande instrumento de proteção ao meio ambiente.

A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO CONSTITUCIONAL

A Lei Maior constatou que a sadia qualidade de vida está condicionada ao equilíbrio ambiental e que, portanto, uma afronta a tal equilíbrio deve ser evitada sob pena de se está ameaçando a qualidade de vida de toda a coletividade, uma vez que o mesmo diploma define meio ambiente como bem de uso como comum, ocorrendo a “existência de um direito material constitucional caracterizado como direito ao meio ambiente, cujos destinatários são todos” 4 Uma população esclarecida dificilmente vai permitir que o meio ambiente ao qual tem direito, mas com qualidade, seja agredido por um sistema que põe em risco os recursos naturais e a saúde da população. A educação da população desde os primeiros anos de vida escolar é uma forma de se chegar ao equilíbrio do meio ambiente que é indispensável para a vida da pessoa que habita atualmente o planeta, bem como as gerações futuras e a Constituição Federal reconhece isso ao estabelecer a educação ambiental como um instrumento de proteção e como finalidade do Poder Público, como nas palavras de Édis Milaré:

A partir da tutela constitucional, o processo educativo relacionado com o meio ambiente adquire uma dimensão transcendental, visto que ele se associa às finalidades do Estado enquanto representação da própria sociedade

como decorrência de um pacto social. (

exigência nacional que engloba dois aspectos distintos, contudo complementares: trata-se da exigência social e natural – duas faces da mesma moeda.5

Vale dizer, a Educação ambiental, como preceito constitucional, é uma

)

O problema está no fato de que muitos não sabem da importância do bem ambiental para garantia da qualidade de suas vidas. Isso porque desde a colonização desse país ficou incutida na mente da população que os recursos naturais eram renováveis e que, portanto, a extração dos mesmos poderia ser feita sem qualquer tipo de cuidado. É preciso quebrar paradigmas, o que era visto como renovável não pode mais assim ser tido, além de que meio ambiente possui limites que precisam ser respeitados sob pena de o ser humano pagar preços altos em razão do desrespeito a tais limites. E é isso que deve ser esclarecido á população.

3 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.54.

4 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva, 2004. pág. 33.

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

14

Além do disposto na Carta Magna existe a Lei de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/99) que ratifica a premissa constitucional de proteção ambiental. Ela é um instrumento que concede eficácia à preservação disposta na Carta Maior, pois ela dá as diretrizes para o

desenvolvimento da política de educação ambiental que deve ser desenvolvida pelo Poder Público, incumbido a este a promoção da educação ambiental em todos os níveis de ensino. E esta promoção está prevista tanto no inciso I do art. 3º da Lei 9.795/99 quanto no inciso VI do citado art. 225 da Lei Maior, o que atesta a sintonia entre os dois diplomas.

É a mudança de postura da sociedade, educada e preparada para lutar por seus

direitos, nesse caso, pela preservação do meio ambiente, que determinará a mudança de postura daqueles que formam o poder econômico e colocam em risco a qualidade dos recursos naturais e, por conseguinte, da vida humana.

O meio ambiente é um direito de todos e de cada um assim como o é o dever de

protegê-lo, mas isso se torna uma tarefa árdua se toda a população não estiver atenta para isso. E foi por essa razão que a Constituição colocou como dever do Poder Público a garantia dessa educação, para que a população tivesse o conhecimento da importância de preservar o meio ambiente. A implementação da educação ambiental nas escolas e na comunidade repercute em todas as áreas que podem contribuir para preservação ecológica, já que uma população informada é exigente e atuante o que contribui para a preservação ambiental, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa:

A sociedade civil educada com enfoque ambiental terá visão ecossistêmica da ordem pública jurídica e social

e poderá assumir um papel mais participativo no controle da comunidade e do Estado, já que estará melhor qualificada

para conseguir provocar a ação socioambiental mais efetiva da Administração Pública, a fim de se fazer implementar as

Políticas Públicas de Educação Ambiental, dentre tantas outras (

)6.

Sendo assim, a educação foi um dos instrumentos eleitos pela Carta Magna para tornar eficaz seu objetivo de proteção do meio ambiente. Além disso, convém aduzir que é através da educação ambiental que se pode chegar a uma mudança importante na sociedade de consumo, pois este é um lado relevante do atual sistema de produção, já que se trata do destinatário final dos produtos e serviços para os quais é, na maioria das vezes, sacrificado o bem ambiental.

3. O consumo sustentável Como foi dito, no início do ensejo, a forma de produção atual se baseia na mercantilização de recursos e no estímulo ao consumo. Todos os dias as vitrines comerciais

apresentam produtos novos mais sofisticados, que desqualificam peremptoriamente o produto de ontem. Essa mensagem atinge diretamente o consumidor que se sente obrigado a adquirir um novo produto, sob pena de ser excluído da modernidade.

O consumo cresce cada dia mais, o que leva a crer que a cada dia o bem ambiental é

mais sacrificado, já que as tecnologias se modernizam objetivando o lançamento de produtos novos

no mercado, mas o que permanece caduca é a forma de produção, que não se preocupa com a sustentação de tal método produtivo pelos recursos ambientais. Em razão disso, quando se fala em desenvolvimento tendo em vista o meio ambiente, não se pode esquecer na mudança de postura que deve assumir tais consumidores. O consumidor precisa ser um consumidor consciente, ou seja, que conhece suas responsabilidades perante o meio ambiente e que a mudança de sua postura contribui sobremaneira para degradação ambiental. Afinal, “é o ritmo do consumo dos bens ambientais que determina a velocidade com esses bens passem a ser escassos”7 Optando por produtos ou serviços que sejam menos danosos ao meio ambiente, ou que, se quer, lhe causem danos, a sociedade de consumo forçará os fornecedores a colocarem

6 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direito

e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 448 – 449. 7 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: Ibidem. Pág. 187.

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produtos dessa natureza no mercado. Trata-se do consumo sustentável. Essa forma de consumo é, sem dúvida, a maior busca que deve haver por parte da população, já que qualquer pessoa tem obrigação de preservar o meio ambiente e, enquanto consumidor, está usufruindo dos recursos ambientais, devendo procurar fazê-lo de forma responsável, como ratifica Lafayete Josué Petter:

Aos consumidores são atribuíveis mais responsabilidades na proteção do meio ambiente. Como pondera a doutrina, a livre escolha do consumidor pode ser legitimamente limitada em nome da defesa do meio ambiente. Os consumidores, a cada dia precisam tornar-se mais conscientes da dimensão ecológica do processo de consumo em geral e de seu comportamento individual e particular8.

Isso confirma a relevância do consumidor para o movimento de preservação ambiental, através da sua mudança de postura não só com relação ao que está consumindo, mas também com relação ao destino dado ao produto quando este não mais servir para o uso. Ao optar por determinado produto, o consumidor passa a ser responsável pela repercussão que aquele produto terá no meio ambiente. É importante que o produto seja biodegradável, já que o lixo é outra forma de agressão ao meio ambiente, mas que pode ser amenizada se o consumidor for responsável também no momento de descartar o produto. Ainda acerca do consumo, é válido salientar que a mudança na postura da sociedade consumerista não pode ser, apenas na opção por um produto não, ou menos, danoso ao meio ambiente, mas também na quantidade de produtos que estes consomem. Assim, “o consumo verde lança novos desafios para a comunidade mundial: a mudança radical nos processos produtivos, assim como nos aspectos quantitativos e qualitativos do consumo”. 9 E aqui se está diante do dilema de se educar toda uma sociedade treinada para consumir o quanto puder, a consumir somente o necessário e ainda optar por aquele produto que não agrida a natureza. E a palavra dita foi a mais acertada. Educar. A educação com foco ambiental é grande um instrumento.

3.1 A sociedade de consumo e a influência cultural

A sociedade foi treinada, como dito, para consumir. Para tanto, alguns parâmetros foram estabelecidos para que esse consumo seja eficiente para o sistema de produção. Existe um parâmetro de beleza e para ter aquela beleza alguns produtos cosméticos são oferecidos para consumidor. Existe um padrão de vestir que é aquele ditado pela famosa indústria da moda. Enfim, isso acontece com os demais ramos da indústria. A preocupação com os danos que aqueles produtos causam ao meio ambiente e se a produção dos mesmos se utiliza de tecnologias que não agridem, ou amenizam a agressão, ao meio ambiente não faz parte das preocupações dos consumidores. Cria-se, então, uma cultura universal onde todos comem, vestem e calçam a mesma coisa, até aqueles ditos de estilo alternativo possuem um padrão. É a chamada indústria cultural que “insere no subconsciente humano a idéia de imitação, que passa a ser considerada como um valor absoluto.”10 Esse padrão de consumo precisa ser combatido e isso só é possível através da demonstração de que existem outros valores a serem observados. E formação desses novos valores para a formação de uma nova sociedade de consumo só ocorrerá através da educação ambiental. Como já foi dito, é através da educação que antigos paradigmas são quebrados. A educação ambiental possui um papel de grande importância para a mudança de parâmetro cultural da sociedade de consumo.

3.2 Educação ambiental para a formação de consumidores conscientes

8 PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. pág. 38. 9 SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que consumimos. In: Revista de Direito Ambiental. p. 215. 10 BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de Direito Ambiental. pág. 185.

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Antes mesmo de ser dispositivo constitucional a educação aliada ao meio ambiente já era pauta de alguns encontros de significativa importância, como é o caso da Conferência de Estocolmo em 1972 em que se destacou a importância de introduzir a educação ambiental nos estudos, principalmente de jovens e adultos com o fim de formar uma consciência de responsabilidade sobre a natureza. E mesmo depois na Conferência do Rio de 1992, em que se elaborou a agenda 21 que propôs a reorientação do ensino, devendo ser voltado para a consciência ambiental.

O certo é que a educação ambiental sempre foi e é mencionada como meio de grande

eficácia para a formação de uma postura responsável no consumo. A mudança na postura consumerista se tornou imprescindível para a sustentação da produção pelos recursos naturais e o, mais importante, para a preservação dos mesmos. E isso é relevante destacar que a preservação do bem ambiental não é apenas para que o sistema de produção continue, mas para que o meio

ambiente seja protegido e preservado para as futuras gerações como reza o dispositivo constitucional.

A educação ambiental é um instrumento de grande eficácia para que o consumo sustentável não seja um processo falacioso. É preciso que, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa:

A educação ambiental contemple a formação de valores e alterações de paradigmas arraigados em nossa sociedade, por um processo de aprendizado que é muito mais abrangente, capaz de despertar no individuo a cidadania, a responsabilidade social e a preocupação com o bem estar comum, criando uma consciência crítica acerca da necessidade de harmonizar as atividades humanas com a proteção ao Meio ambiente11.

A educação entra, assim, como válvula propulsora da mudança de comportamento. É

preciso que o consumidor esteja bem informado e o Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 31, garante o direito ao consumidor terem acesso a qualquer informação acerca do produto ou serviço que adquire. Sendo assim, o consumidor tem direito de optar por um produto que seja ou não menos danoso ao meio ambiente e essa opção só será benéfica ao meio ambiente se houver uma preparação do consumidor pra isso preparação essa que fica a cargo da educação ambiental. Assim, é muito mais do que ter direito à informação sobre o produto, mas ter a consciência de que tal produto é danoso ou apresenta riscos ao meio ambiente e que essa consciência influencie na escolha. “Dessa forma, se permite que a abertura comunicacional proporcionada pelo discurso ecológico atue diretivamente na orientação de qualquer conduta e atividade de intervenção sobre o

ambiente”12

A educação ambiental abre a comunicação para que a sociedade seja formada para

ter consciência ambiental e até se torne curiosa no sentido de buscar formas de proteger o meio

ambiente o que vai influenciar nas suas escolhas com relação, principalmente, ao que consumir e como consumir.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estágio atual em que se encontra a biota não se pode mais pensar em mudança de

postura da população como algo a ser deixado para depois. É preciso formar pessoas comprometidas com a preservação do meio ambiente urgentemente. E isso é possível através da promoção da Educação Ambiental. Foi visto no ensejo que a Constituição impõe ao Poder Público a implementação da educação ambiental nas escolas, o que mais tarde foi regulado também através de lei específica, qual seja a Lei nº 9.795/99, Lei de Educação Ambiental. Todas as pessoas são consumidoras em potencial. Portanto, formar uma população consciente é formar consumidores conscientes, que se preocupam com o impacto que seu consumo terá no meio ambiente. A educação ambiental deve fazer parte da prática escolar, mas também das

11 COSTA, José Kalil de Oliveira. Ob. cit. Nota 5. pág. 450. 12 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro:

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conversas em casa e também nas comunidades. Associações de bairro podem contribuir bastante para essa mudança na mentalidade de jovens, adultos e crianças. É preciso que haja uma mudança de valores, para que isso repercuta na forma de consumo e consequentemente obrigue uma mudança no próprio sistema. O que define a produção é

a demanda. Sendo assim, se os consumidores procurarem cada vez mais produtos que não agridam

a natureza e que seu descarte não gere tantos transtornos, o fornecedor indubitavelmente procurará suprir essa demanda. A educação é, pois, o caminho seguro para a formação de consumidores conscientes que protegem e preservam o meio ambiente seguindo o dever imposto pela Constituição Federal ao garantir o direito ao meio ambiente de qualidade.

5. REFERÊNCIAS BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem.

In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002. FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP,

2002.

FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva,

2004.

LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. Doutrina – jurisprudência – prática e glossário. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000. PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e

o alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002. SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano. SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que

consumimos. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,

2006.

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

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AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE

Niédja Maria Galvão Araújo e OLIVEIRA

Universidade de Pernambuco/UPE noliveir@oi.com.br

João Allyson Ribeiro de CARVALHO

Universidade de Pernambuco/UPE allysondecarvalho@hotmail.com

Mariana Mendes NOGUEIRA

Universidade de Pernambuco/UPE, Bolsista PIBIC/CNPq

ABSTRACT

The protection of areas susceptible to desertification in Brazil should be seen as a priority

to the welfare of the nature and of the society which inhabits them.

analyze the resources of nature, that are in process of degradation in the area of Serra Seca in Santa Maria do Cambucá-PE, while observing the continuation of a larger research project in this area. About the methods and techniques, it was used a methodology connected directly in the field, combined with analysis of staff, soil and interviews, all of these are the basis for a theoretical and practical work. Still, we present the identification of the area undergoing rapid desertification, which brings out a guiding of this process, through human activities, incompatible with the carrying capacity of the environment. KEYWORDS: Desertification; Mineral Extraction, Soil Degradation.

This research brings as aim to

RESUMO A proteção das áreas susceptíveis a desertificação no Brasil devem ser vistas como prioridade ao bem-estar da natureza e da sociedade que nelas habitam. A presente pesquisa versa à leitura de objetivo voltado a analisar os recursos da natureza e da sociedade que encontram-se em processo de degradação na área da Serra Seca no município de Santa Maria do Cambucá-PE, pautando-se em continuidade de uma pesquisa maior dentro da área. No que se refere aos métodos e técnicas, foram utilizadas a metodologia direta de campo consorciada com análises de gabinete, analise de solo e entrevistas. Elementos basilares para fundamentação teorico-prática ao trabalho com a identificação da área em acelerado processo de desertificação, apresentando características que norteiam a esse processo, desencadeadas por atividades antrópicas incompatíveis com a capacidade de suporte com o ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Desertificação. Extração Mineral. Degradação de Solos.

INTRODUÇÃO O processo de desertificação é um fenômeno que vem preocupando diversos países, face à sua grande perda da biodiversidade e inserção maléfica ao socioeconômico do lugar. O Brasil não está excluído dessa realidade degradativa: oito estados do Nordeste, além do norte de Minas Gerais sofrem riscos potenciais ao processo de desertificação. Muitos locais, já com variados níveis de ocorrência, como se faz sentir na região de Serra Seca, área objeto de estudo, localizada no Município de Santa Maria do Cambucá/PE, cuja posição geográfica é de 7º 48’ 45’’ de latitude S e 35º 52’ 50’’ de longitude W de Greenwich (Figura 01).

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

19

Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 19 Figura 01: Localização da área de estudo. Fonte: EMBRAPA,

Figura 01: Localização da área de estudo. Fonte: EMBRAPA, 2005.

O processo de desertificação vem sendo tratado desde os anos 30 do século passado. No entanto, a evolução dos modelos de recuperação de tal processo se deu em 1992, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro, quando foi possível delimitar conceitualmente o fenômeno desertificação, suas causas e efeitos, antes tratados com várias divergências entre os estudiosos. Na referida Conferência foi aprovado o documento discutido e válido até a atualidade. Pode-se exemplificar a partir da Agenda 21 nacional que em seu 12° capítulo define desertificação como:

“(

)

a degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de

vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”.

Antes da formulação da Agenda 21 nacional, ocorreram discussões referenciando-se aos fatores que atuavam na deflagração dos núcleos de desertificação, sem definição clara entre desertificação e desertos. Além da Agenda 21, Nimer (1988, p. 04) também tratou do assunto,

diferenciando deserto como sendo um estágio final de degradação, tendo características próprias, e

a

desertificação como um processo em que estas características se tornam variáveis de acordo com

o

grau da evolução degradante:

“Deserto e Desertificação, embora tenham a mesma etimologia e, de certa forma, fundamentos semelhantes, designam coisas distintas. Deserto é um fenômeno acabado e resultante da evolução de processos que alcançaram certa estabilidade final, e que pode ser definida como um clímax ecológico, isto é, por uma espécie de equilíbrio homeostático natural”.

Os impactos naturais vêm sendo visualizados, no ambiente, através da eliminação da cobertura vegetal com consequente redução da biodiversidade local, permitindo que os solos fiquem mais vulneráveis à erosão, como por exemplo: as águas da chuva que arrastam todos os seus nutrientes inorgânicos e orgânicos, provocando nos rios enchimento dos leitos, fenômeno este conhecido como assoreamento. Tais erosões fazem com que ocorram perdas, parcial ou total nos solos, seja por fenômenos físicos (voçorocas) ou fenômenos químicos (salinização e alcalinização). Além disso, a incapacidade de retenção de água nos solos aumenta à seca edáfica. Todos esses fatores afetam a fertilidade e a produtividade agrícola, impactando o ambiente.

Elementos esses, problemas à economia, como a queda na produção e produtividade agrícola, diminuindo a renda e o consumo da população, resultando na desorganização do mercado local e regional. Prejuízos sociais como estes, são caracterizados pela diminuição da qualidade de vida, o aumento da mortalidade infantil e diminuição da expectativa de vida da população. Em

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geral, pode-se afirmar que a população de Serra Seca é uma das mais pobres do Estado sem acesso à educação e à renda adequada.

Os impactos na região de Serra Seca não deixam de ser perceptíveis, assim como as áreas que sofrem com a desertificação, essa região padece consequências dos impactos citados acima, principalmente os que afetam os aspectos físicos, com a retirada da cobertura vegetal, e da areia para a construção civil, e os que afetam os aspectos econômicos com a perda da produção da castanha de caju, entre outros que existem na região, desestruturando a renda familiar e o comércio regional. A desertificação não é um processo irreversível, porém, as recuperações das áreas afetadas podem ser inacessíveis para muitos.

É preocupante que, na maioria das localidades brasileiras, o desenvolvimento sustentável ainda seja algo distante de ser percebido, principalmente, onde a desertificação e a seca estão presentes, devido à carência da população que nela habita. O trabalho em referência já se encontra em desenvolvimento desde 2008, na região do Sítio do Manduri, município em pauta, cujo norte de intensificação da área de pesquisa passou a massificação face o processo de desertificação não estar exclusivamente pontuado no Sítio do Manduri, mas que amplia-se em outras áreas implícitas no município e até mesmo estendendo-se até outros, como se exemplifica em Vertente do Lério. Esse último, através da extração do calcário. Diante do exposto, a pesquisa versa como objetivo de potencializar análises do meio físico e socioeconômicos, de modo a priorizar o processo emergente de desertificação na área e suas consequências no ambiente, associado a processos migratórios do município de Santa Maria do Cambucá para as áreas adjacentes de oferta de mão-de-obra.

METODOLOGIA Para a elaboração da pesquisa, foi necessário detectar o problema através da observação em campo, do reconhecimento da degradação ambiental, das entrevistas e as pesquisas bibliográficas no que diz respeito à desertificação, suas causas e consequências. Para obtenção dos resultados, necessário se fez a parceira com a Prefeitura Municipal de Santa Maria do Cambucá e a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco- SECTMA/CONSEMA.

No concernente à metodologia aplicada, estriba-se numa combinação peculiar para percepção das investigações a seguir: a revisão bibliográfica veio contribuir para o subsídio da fundamentação teórica necessária ao embasamento deste trabalho. Utilizaram-se ainda mapas climáticos, geológicos, pedológicos, hidrográficos, políticos e imagens de satélite. A coleta de amostras do solo, para análise químico-física e teor de matéria orgânica será imprescindível para verificação do grau de probabilidade ao processo de desertificação e ao mesmo tempo à execução de um manejo sustentável. Essas análises estão sendo aferidas em laboratório.

Nesse sentido, pluraliza-se viabilidades de conscientização no âmbito ambiental. Os participantes da pesquisa têm como objetivo fazer com que as famílias do município tenham condições de viver do cultivo do caju, utilizando-o não apenas para a extração da castanha, mas também aproveitando o seu pseudofruto, seja para a produção de doces e outros produtos. Para tanto, o tratamento da presente proposta está sendo desenvolvida a partir de encontros e oficinas com a população local.

Através das entrevistas foram coletados dados sobre a estrutura sócio-econômica do local, buscando soluções para a problemática. Tais soluções estão pautadas na adoção de alternativas como programas para a sensibilização das famílias residentes nas áreas de extração. Como material técnico, foram utilizados: bússola para a aferição do grau das vertentes, o GPS para a localização e avaliação do tamanho das áreas degradadas, altímetro, que junto com o GPS foi utilizado para

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medir as altitudes, sacos plásticos, pás e espátulas para a coleta de material, e trenas para a medição das vertentes.

RESULTADOS E DISCUSSÃO A extração de areia que acontece na área foco de trabalho é um espelho das condições em que vivem a população desfavorecidas da região. A necessidade e a desinformação são as principais causas das vendas e alugueis de lotes para comercialização de sedimentos. A partir desta lacuna aberta, as empresas propõem a estas famílias lucro imediato. Quem permite a extração em sua propriedade não tem consciência de que a terra se tornará improdutiva. No sentido de compreender

e solucionar essa problemática encontra-se em processo de realização a tabulação dos dados obtidos com as entrevistas realizadas com os moradores da área, uma vez que estes são os elementos fundamentais por serem os atores diretos do processo de degradação in loco.

Encontra-se em fase de trabalho a conscientização da população, com visitas a colégios locais e palestras abertas às pessoas diretamente ligadas à atividade de extração de areia. Essas atividades vêm sendo apoiadas através da Prefeitura. As entrevistas com os atores locais para a análise dos trabalhos encontram-se em desenvolvimento, portanto, as mesmas não deverão aparecer no texto em face de não representarem no momento a realidade do processo social em estudo.

Com a sequência de trabalhos técnicos de campo, percebeu-se que a extração de areia é feia a partir da venda ou aluguel de lotes de terra. Grande parte da areia retirada segue para municípios vizinhos, para a indústria de construção civil. E, na maioria das vezes, não mais com a retirada à base da pá (Figura 02), mas sim através de retro escavadeiras (Figura 03), retirando sedimentos em volume muito mais acentuado, chegando a alimentar indústrias de construção civil de grande porte na cidade do Recife.

de construção civil de grande porte na cidade do Recife. Figura 02: utilização da pá enquanto

Figura 02: utilização da pá enquanto ferramenta.

Recife. Figura 02: utilização da pá enquanto ferramenta. Figura 03: uso de escavadeira. No caso do

Figura 03: uso de escavadeira.

No caso do caju, também é utilizado para a extração da castanha, que segundo uma das entrevistadas, é comercializada com um lucro médio mensal de R$50,00. Esta prática pode

contribuir no combate à desertificação, já que para cessarem as vendas e os alugueis de terras, as famílias precisam de um trabalho que traga renda. O estudo realizado pela EMBRAPA (2009) mostra que o Município de Santa Maria do Cambucá possui 63% de aptidão para a cultura do caju,

o que é um bom percentual visto que o solo e o clima não são favoráveis para todos os tipos de

cultura. Porém, falta às famílias de produtores o aprimoramento desta atividade, como cursos de capacitação que os ajudem, a trabalhar a matéria-prima. Segundo outro entrevistado, foi construída uma Usina de Benefício do Caju e da Castanha, que ajudaria os agricultores no trabalho com o caju. Porém, segundo ele, a mesma foi construída longe da população (no centro urbano) e acabou por não fazer o trabalho para o qual se destinava. Todavia, a usina atualmente após esse trabalho de pesquisa, já se encontra lotada na área de produção, para seu beneficiamento.

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É notável que a desertificação gere múltiplos prejuízos econômicos e sociais. O êxodo

rural na região afetada é bastante comum. Considerando as entrevistas, foi percebido que as novas gerações das famílias residentes na área vêm para a capital, tentando fugir da pobreza, fato que vem

agravando os problemas de infra-estrutura já existentes. No caso do município de Santa Maria do Cambucá, o fenômeno do êxodo rural acontece quando as famílias percebem que a terra se tornou pouco ou totalmente improdutiva após a degradação. De acordo com a SECTMA (1993, p. 03), a degradação das terras causa sérios problemas econômicos. Isto se verifica principalmente no setor agrícola, como comprometimento da produção de alimentos. Além do enorme prejuízo causado pela quebra de safras e diminuição da produção.

Como a prática da retirada de areia é ativa em certos terrenos, é possível observar na Figuras 04 e 05 as áreas desnudadas após a partida de caminhões que levam o mineral.

após a partida de caminhões que levam o mineral. Figura 04: Área degradada. Solo estéril. Figura

Figura 04: Área degradada. Solo estéril.

levam o mineral. Figura 04: Área degradada. Solo estéril. Figura 05: Cratera após a retirada da

Figura 05: Cratera após a retirada da areia.

A retirada da areia junto ao lucro traz consigo uma condição irreversível para a terra, pois

o solo fica vulnerável à ação das chuvas, que escoam e carregam os nutrientes da área afetada, destruindo a cobertura vegetal e trazendo prejuízos a médio e/ou longo prazo. Este fato se dá pela falta de permeabilidade da rocha matriz, sendo esta formada pelo embasamento geneticamente de

origem do planalto da Borborema. A Figura 06 mostra o afloramento da rocha matriz após a extração da areia.

Os prejuízos em longo prazo são mais preocupantes neste município, pois a agricultura é o meio de subsistência da maioria das famílias residentes. Estas têm como principais atividades o cultivo de feijão, milho e do caju, que na sua maioria são para consumo próprio. Com as visitas de campo, foram coletados alguns dados sobre as crateras e locais degradados. Serão abordados a seguir alguns fatores que mudam após modelos de uso e ocupação do solo inadequado.

Atividade degradante: Em média 80% das crateras visitadas já são inativas, ou seja, chegaram a um ponto em que os nutrientes e sedimentos finos se extinguem só restando a rocha matriz. Nessas áreas podem ser observados troncos de árvores empilhados a serem comercializados. (Figura 07).

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Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 23 Figura 06: Afloramento da rocha matriz depois de retirada

Figura 06: Afloramento da rocha matriz depois de retirada indiscriminada de sedimentos.

matriz depois de retirada indiscriminada de sedimentos. Figura 07: madeira a ser comercializada proveniente do

Figura 07: madeira a ser comercializada proveniente do Cajueiro.

Unidade de relevo: Representada por pediplanos. Grande parte das áreas analisadas demonstra um relevo de depressão relativa, aplainado com baixas altitudes também causadas pelos processos intempéricos. O relevo estudado variou entre ondulado, levemente ondulado ou plano, não tendo grandes variações de altura, a não ser nas vertentes das crateras, que chegam até 7 metros, visualizado na Figura 06. Altitude: Foram aferidas com a ajuda do aparelho de GPS, medidas em cada ponto das vertentes formando um “X”, variando de 423m a 494m. Um fato importante para a interpretação ambiental da área, que por sua vez não apresenta declividades acentuadas apesar das consideráveis médias de altitude. Hidrologia: Antes da retirada da areia, poucas vezes o solo consegue reservar água em sua superfície pelo fato do relevo ser constituído de cobertura de regossolos, com altas taxas de permeabilidade. Solos: Foram encontrados os seguintes tipos de solo:

Regossolo: Em grande parte das áreas visitadas foi encontrado esse tipo de solo, quase massificado localmente. As areias quartzosas distróficas ocupam o segundo tipo de solo mais aflorante. Este solo como o regossolo possui grande poder de percolação, por ser um solo ácido não retém umidade em seu perfil. Esse fato agrava o problema da população local, pois não existem reservas para absorção de água necessária ao consumo. O Poder Público implementou nas áreas críticas cisternas para o armazenamento de águas pluviais. Vegetação: Foram encontrados tipos de vegetação arbórea, arbustivas e herbáceas retratando o domínio da caatinga, verificou-se algumas espécies atípicas a este domínio sendo a maioria frutíferas, como o caju nativo com predomínio, coco, pinha, limão, goiaba, tamarindo e jaca (cultura), que pelo que aparentavam estavam adaptadas ao ambiente. Dinâmica instável: Em alguns casos são encontradas moradias na proximidade das crateras. Porém, na grande maioria, não há população perto das atividades de extração, enfatizando- se, portanto, uma dinâmica voltada para a retirada indiscriminada de sedimentos. Aptidão Natural: A maior parte dos terrenos possui aptidão para o cultivo do caju. Também há, em alguns locais, aptidão para a palma, agricultura de subsistência, pecuária e laboratório para aulas práticas.

CONCLUSÕES A busca por condições sociais favoráveis nem sempre é bem sucedida. Na maior parte das vezes, quem vem para a cidade no intuito de buscar melhores condições sociais, acaba vivendo à margem da sociedade, não participando da força de trabalho e agravando a estrutura urbana. Para que a degradação ambiental progressiva do Município de Santa Maria do Cambucá seja reduzida, fazem-se necessárias Políticas Publicas que venham estimular a comunidade a se fixar no campo, evitando o êxodo.

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A degradação da área de Serra Seca ocorre devido à extração exacerbada das areias nas

áreas menos desenvolvidas, por meio da negociação com os proprietários dos lotes que alugam a área para a retirada da areia. Essa extração é muitas vezes feita por indivíduos de municípios vizinhos que procuram este tipo de solo para a retirada e utilização na construção civil. Esta prática vem trazendo grandes problemas para a população, desde a falta de terra fértil para o plantio, quanto à marginalização da parcela afetada por esta atividade.

A estrutura original da área se mostra por uma área de depressão relativa e em seu entorno,

testemunhos residuais do Planalto da Borborema e o calcário do município de Vertente do Lério. O relevo local e tipo de solos, em junção com a escassez relativa de pluviosidade torna bastante difícil o acúmulo de umidade no solo. Por ser de relevo de pediplano e solos porosa a água da chuva, escoa e infiltra de forma a não permitir a concentração de nutrientes e consequentemente retenção

de umidade.

Apesar de toda a dificuldade de fertilidade, o cajueiro é bastante comum no local, o que pode ser o ponto inicial da tomada para a sustentabilidade das famílias residentes ali, já que para a extração da areia faz-se necessária a retirada da cobertura vegetal, e consequentemente, do solo. Nessa instância, para que a cultura do caju possa progredir as retiradas de sedimentos precisam cessar urgentemente. A adoção de ações pautadas na Educação Ambiental deve subsidiar as atividades inseridas na área com vistas à meta do desenvolvimento local e sustentável. A presente meta está sendo perseguida a partir de pequenas, todavia, importantes ações propostas pelo presente estudo e com a anuência da Prefeitura Municipal. Só com o consórcio da comunidade, Poder Público e Academia, o futuro do Município de Santa Maria do Cambucá poderá assegurar aos seus cidadãos sustentabilidade local e ambiental.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Senado Federal. Conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente e

Desenvolvimento. Rio 92. Agenda 21. Brasília: Senado Federal; Subsecretaria de edições técnicas,

1996.

EMBRAPA, Zoneamento Pedoclimático do Cajueiro para o Estado de Pernambuco. Disponível em: http://www.uep.cnps.embrapa.br/caju/index.php?link=index. Acesso em:

20/11/2009.

NIMER, E. Desertificação: Realidade ou Mito? Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 50 (1): 7 – 39 jan/mar, 1988. PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Plano de desenvolvimento florestal e da conservação da biodiversidade de Pernambuco. Recife:Sectma- PE, 1993.

A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade

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ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU

ABSTRACT

BIANCHINI, Ilka Maria Escaliante Rede Estadual de Ensino SE - Professora ibianchini@yahoo.com.br LIMA, Josael Bruno de Souza Rede Estadual de Ensino SE – Professor jobs@infonet.com.br SANTOS, Lorena Xavier SENAI SE – Docente lorenasantos@se.senai.br RODRIGUES, José Lourenço SENAI SE – Docente joselourenco@se.senai.br

The necessity of protection for the aquatic environments has been assuming the projection of global order. The adaptation of managerial and domestic processes with relationship to the release of sewers and garbage is urgent and it requests of the competent organs a more critical glance in than says respect to the environmental preservation. In another sphere, the environmental education gone back to the riverine communities that a lot of times pollute the waters of the rivers for knowledge lack makes itself necessary, because the pollution of water by riverine besides being an environmental problem is also a public health problem. The objective of this work is to analyze the environmental perception of a riverine community in the Pantanal, located the river Poxim near the neighborhood Inácio Barbosa in Aracaju, Sergipe. Data collection through site visits and investigative questionnaires, showed us the list of people who live there with the river Poxim. KEYWORDS: Environmental degradation; Riparian; river Poxim.

RESUMO

A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem

global. A adequação de processos empresariais e domésticos quanto ao lançamento de esgotos e efluentes é urgente e requer dos órgãos competentes um olhar mais crítico no que diz respeito à preservação ambiental. Numa outra esfera, a educação ambiental voltada para as comunidades ribeirinhas que muitas vezes poluem as águas dos rios por falta de conhecimento faz-se necessário, pois a poluição das águas pelos ribeirinhos além de ser um problema ambiental é também um problema de saúde pública. O objetivo geral deste trabalho será o de analisar a percepção ambiental da população ribeirinha da comunidade do Pantanal, localizada as margens do rio Poxim, próximo ao bairro Inácio Barbosa em Aracaju, Sergipe. O levantamento de dados deu-se através de visitas “in loco” para aplicação de questionários investigativos, que se evidenciou uma relação de pessoas que ali habitam com o rio Poxim. PALAVRAS-CHAVE: Degradação ambiental; Mata ciliar; rio Poxim.

CARACTERIZAÇÃO DO RIO POXIM

O rio Poxim, é um dos principais afluentes da margem direita da Bacia Hidrográfica do

Rio Sergipe, é considerado uma sub-bacia que abrange parte dos municípios de Itaporanga D’Ajuda, Areia Branca, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Aracaju recebendo as águas dos rios Poxim-Mirim, Poxim-Açu e Pitanga, tendo sua foz na maré do Apicum. A região estuarina do rio Poxim, está localizada na região sudoeste do Estado de Sergipe, possuindo uma extensão de aproximadamente 9 km, com cerca de 100 m de largura e profundidade média de 2 m. O estuário do rio Poxim é uma das principais fontes de abastecimento de água do Estado, recebendo uma grande carga poluidora decorrente da industrialização e do crescimento urbano desordenado. Levando-se em consideração que as concentrações de nutrientes (nitrogênio e

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fósforo), estão geralmente relacionadas à carga poluidora recebida pelo ecossistema aquático, onde elevados valores servem como indicativo do estado de eutrofização é, portanto, de grande importância o controle dos teores de nutrientes neste ambiente.

A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordem

global. O derramamento de óleo, despejos industriais e domésticos, rejeitos de origem hospitalar, contaminação por fertilizantes e pesticidas, desmatamento de manguezais, bem como, redução de espécies animais e vegetais, constituem foco da atenção a fim de estabelecer proteção adequada aos

recursos marinhos e aquáticos.

A área estudada compreende a região que fica localizada atrás do Conjunto Beira Rio, no

Bairro Inácio Barbosa e surgiu de uma invasão tendo às margens o Distrito Industrial de Aracaju (DIA), onde se encontram indústrias de produtos alimentícios, móveis, plásticos, produtos têxteis, químicos, dentre outras. Constitui-se em um dos principais afluentes do rio Sergipe, amplamente utilizado pela população do estado desde a captação de águas pela Companhia de Saneamento de Sergipe (DESO), ao uso indiscriminado pela população em geral e comunidades ribeirinhas, que apesar de retirar o sustento de suas famílias, possuem relações bem próximas com o rio no que diz respeito a lazer, prática de esportes, uso das águas para lavagem de roupas, despejo de lixo entre outros.

A destruição da mata ciliar e os desvios feitos em mananciais por fazendeiros da região

também vem contribuindo significativamente para a agressão ao rio, influenciando no volume de água. De acordo com o Comitê da bacia hidrográfica do rio Sergipe, a qualidade da água do rio Poxim em alguns trechos é sofrível, apresenta altos índices de metais pesados, coliformes fecais e pesticidas, prejudicando ainda mais o ecossistema do rio.

O lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento eleva os processos de

eutrofização do rio, comprometendo a vida do ecossistema e a vida das pessoas que utilizam as suas

águas. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede de saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas da área em questão, sejam eles orgânicos ou artificiais, são jogados diretamente no rio.

O estuário do Rio Poxim pode ser caracterizado como um ambiente bastante impactado,

com resíduos oriundos basicamente do aporte de efluentes industriais e domésticos que não tem

tratamento adequado. Seu estado de eutrofização é bastante elevado, o que requer ações de mitigação para colocá-lo em condições ambientais sustentáveis.

COMUNIDADE PANTANAL: A INTERAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOS ECOLÓGICOS E SOCIAIS O Pantanal fica localizado atrás do Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa na zona sul de Aracaju e surgiu de uma invasão a mais de 25 anos. Os problemas de infra-estrutura desta comunidade em maior ou menor grau condenam a qualidade de vida da população. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes média e média alta. No presente estudo, procurou-se conhecer as percepções relacionadas ao meio ambiente da população ribeirinha do Assentamento Pantanal as margens do Rio Poxim, no município de Aracaju, para que a questão ambiental pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interação entre os elementos ecológicos e sociais.

A população atual é genuinamente urbana e composta por aproximadamente 500 famílias, segundo pesquisa de 2005 realizada pela Secretaria Municipal de Saúde. Quem segue pelo primeiro trecho do conjunto Beira Rio, bairro regulamentado nas proximidades do rio Poxim, depara-se de repente com uma mudança radical de paisagem. O caminho inicial é repleto de casas grandes, algumas até luxuosas, e a pista é asfaltada. Alguns metros depois a situação é bem diferente. Não há mais asfalto, só uma estrada de terra. É aí então que começa a Comunidade Pantanal, margeando o

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rio Poxim. O acesso é feito por um estreito caminho chamado de Avenida Pantanal que segundo moradores, há muito tempo, foi a primeira avenida aberta na comunidade.

A área apresenta problemas de infra-estrutura que, em maior ou menor grau, condenam a

qualidade de vida da população e comprometem o ambiente natural onde a comunidade esta instalada. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que se ocorrido, poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes médias e médias alta.

Diante da crise ambiental que a humanidade está atravessando, à exploração equivocada dos recursos naturais e à poluição diversificada do planeta, as questões referentes ao meio ambiente adquirem grande importância. Entretanto, os problemas ambientais não estão restritos aos elementos ecológicos, cuja degradação está combinada com a rápida expansão populacional e com a visão fragmentada da sociedade. Esses problemas não podem ser entendidos isoladamente, pois são problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. As soluções para estas questões requerem mudanças de percepção em relação aos valores humanos, através de uma reflexão ética para com as atitudes em relação ao meio ambiente. A escola por sua vez, torna-

se parte integrante na agregação destes valores ambientais que devem ser abordados, auxiliando na

construção de conceitos e ampliando a visão dos cidadãos em todos os níveis da sociedade. O surgimento de metodologias de ensino participativas em prol da democracia, do exercício da cidadania e da qualidade de vida deve existir para todos da mesma forma, respeitando a diversidade

cultural e as identidades dos grupos sociais. Neste sentido, a escola apresenta grande potencial para

a identificação, diagnóstico e contribuição no esclarecimento das questões ambientais da

comunidade à sua volta, uma vez que estudantes, professores e funcionários levam suas vivências para a prática cotidiana escolar. Para tanto a identificação das representações desses sujeitos sobre

as questões ambientais deve ser o primeiro passo para a elaboração de um projeto de educação ambiental.

O conceito clássico de Bacia Hidrográfica explicita basicamente o conjunto de terras

drenadas por um corpo d’água principal e seus afluentes, numa perspectiva hidrológica (PIRES et. al, 2002). Esse conceito, porém, vem se expandindo, uma vez que a bacia hidrográfica vem se tomando uma unidade de planejamento e gerenciamento ambiental. Essa unidade é apropriada para

estudos ambientais integrados, pois sobre os sistemas hidrológicos, geológicos e ecológicos de uma bacia hidrográfica atuam forças antropogênicas, onde os sistemas biogeofísicos, econômicos e sociais interagem. (TUNDISI, 2003) A interação humana da comunidade Pantanal com o rio Poxim tornou-se foco principal no levantamento de dados norteadores acerca da percepção ambiental dos moradores desta região, com a finalidade de averiguar a estreita relação existente entre homem e meio ambiente. No presente estudo, o conhecimento da percepção ambiental da comunidade Pantanal sobre o Rio Poxim, no município de Aracaju, foi essencial para que a questão ambiental local pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interpretação da interação entre os elementos ecológicos e sociais.

A Comunidade Pantanal apresenta problemas de infra-estrutura que a mais de 25 anos,

engessam a elevação da qualidade de vida da população: saneamento básico precário e/ou improvisado, ausência de calçamento, iluminação pública deficitária, falta de segurança e dificuldade de acesso aos programas sociais e/ou educativos. O poder público municipal apenas se faz presente pela regularidade da coleta de lixo. O Pantanal se subdivide em duas etapas. Uma delas, provavelmente a mais antiga, é conhecida por muitos como Vila do Rato, parte da invasão que possui mais de vinte anos de existência e é a parte mais pobre do Pantanal. O acesso a esta

etapa é feito por um estreito caminho na beira do rio. As casas (barracos), improvisadas e sem condições de habitação, acompanham a margem direita do Poxim e se espalham por algumas ruas.

A segunda parte, cujos traços de urbanização são mais evidentes (guardadas às devidas proporções),

apresenta construções mais bem acabadas, feitas de alvenaria e um número mínimo de dependências (quarto, sala, cozinha e banheiro). Todavia, vale à pena sublinhar a existência de

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casas que, com dois quartos (amplos) e bem divididas, acabam por se destacar dentre as demais habitações. A partir de um questionário dirigido à comunidade no dia 08 de julho de 2009, foi possível adquirir algumas informações pertinentes ao trabalho visitando 70 residências, com média de 04 pessoas por família. Perguntadas inicialmente se sabiam quais os motivos principais que levam a escassez de água no Planeta Terra, 77% dos entrevistados afirmaram que sim, e apontaram o desmatamento, o desperdício de água, o aquecimento global, lixos domésticos e dejetos industriais como as maiores causas de degradação ambiental. Solicitados que justificassem suas respostas, aproximadamente 81% dos entrevistados demonstraram possuir informações mesmo que superficiais a respeito dos reais motivos que tem levado a escassez de água no planeta, e cerca de 19% desconhecem as suas reais causas. Para os moradores as causas que mais contribuem para a escassez de água no Planeta Terra são: o desperdício de água (50,8%), o desmatamento (15,4%) e a poluição (13,8%) de água no Planeta Terra. As tabelas a seguir ilustram muito bem esta realidade que constatamos a partir de depoimentos dos habitantes da região. As demais causas juntas representaram apenas 13,0%, consideradas, portanto desprezíveis para uma análise mais profunda. Os moradores foram indagados se conheciam quais as causas de agressão aos rios que banham a capital sergipana, especialmente o rio Poxim. Aproximadamente 94,40% dos entrevistados disseram que sim, cerca de 4,40% afirmaram desconhecer e os 2,20% restantes nada informaram. De posse destes dados, pedimos que citassem os principais agentes causadores desta poluição. Após a análise e discussão chegou-se aos seguintes resultados: 42% citaram o lixo comum, 21,74% os dejetos industriais, 16,31% citaram os esgotos domésticos e 9,79% a falta de conscientização da população. Os entrevistados citaram o lixo, os poluentes industriais e a falta de tratamento de esgoto com peso relevante para os resultados, ou seja, constituindo-se em 80,44% do problema. Foi possível observar que todo tipo de dejeto produzido nos barracos vão direto para o rio, nem todas as casas possuem fossa séptica e isso torna-se um grande problema para os moradores e para o rio. No inicio do assentamento pescadores e familiares se alimentavam do rio. O pescado hoje no Rio Poxim praticamente não existe, estando bastante escasso devido à poluição produzida pelas fábricas do Distrito Industrial de Aracaju e pelas residências da própria comunidade.

de Aracaju e pelas residências da própria comunidade. Uma das perguntas dirigida à comunidade é se

Uma das perguntas dirigida à comunidade é se conheciam o que pode causar as queimadas e a devastação das matas ciliares aos rios. O primeiro passo foi esclarecer o que é mata ciliar. Depois disso, alguns dos entrevistados disseram que as queimadas e a devastação das matas que circundam os rios, modificam a estrutura do solo provocando o assoreamento pela diminuição da capacidade para absorver as chuvas, afetando seriamente a pesca e a vida de outros organismos vivos. Outros destacaram o aumento do buraco da camada de ozônio da atmosfera e o aumento da poluição atmosférica como conseqüência principalmente das queimadas. Disseram que a poluição agride ao meio ambiente e à saúde do homem. Pode-se notar também que 37% dos entrevistados não responderam o que perguntamos, quem sabe, ou por não saber ou por não demonstrarem interesse. Segundo moradores que já vive na comunidade há muito tempo toda área no inicio do assentamento era uma lagoa de dejetos industriais. Para alguns as conseqüências de tudo isso são

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um número cada vez maior de ratos e doenças como leptospirose, cólera, doença de pele, verminoses, além de agentes biológicos como bactérias e tantos outros que a comunidade desconhece. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 58% dos moradores da localidade conhecem alguma lei que defende o meio ambiente de condutas que o prejudiquem, porém, quando perguntamos se sabiam citar todos responderam que não. É

importante ressaltar que as leis são reguladores externos do comportamento humano, indispensáveis

à sociedade. No entanto, para que sejam conscientemente respeitadas, faz-se necessário conhecer para que produza uma mudança interna nos indivíduos.

A educação para o meio ambiente, no entanto, deve ser de maneira ampla e geral, para que

possa favorecer uma nova ordem social consciente, crítica, e, sobretudo, responsável. Apesar de não citarem alguma legislação que defende o meio ambiente destacam o Ministério Público a ADEMA

e o IBAMA como órgãos de fiscalização e de encaminhamento de crimes ambientais. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 97% dos entrevistados disseram não ter hábito de poluir o Rio Poxim. Contradizem-se quando 61% afirmam que os dejetos sanitários são jogados no rio e 71% destacam a não existência em suas residências de fossa. Opondo-se a afirmação da maioria que dizem não poluir o rio, moradores talvez mais conscientes, disseram que sempre se encontra no seu leito animais mortos, sofá boiando, fezes dentro de sacos plásticos, móveis e eletrodomésticos. Apesar de 28% dos entrevistados afirmarem que suas casas possuem fossas, observa-se outra realidade. Encontramos ruas totalmente poluídas e sem nenhum saneamento básico, a

exemplo da Avenida Pantanal que uma das mais antigas do assentamento segundo moradores. Infere-se tudo isso a ausência do poder público, que pouco tem investido na educação para preservação da natureza, apesar da coleta de lixo na comunidade acontecer com freqüência pelo poder público municipal, ou seja, três vezes por semana, assim afirmaram 64% dos consultados. Para 33% dos indagados a coleta de lixo acontece com regularidade, porém, acreditam que deveria ser melhor. Apenas um afirmou que a coleta é rara. Ao analisar as informações a respeito do nível de escolaridade da comunidade percebeu-se que 57% possuem nível fundamental, 38% nível médio, 3% tem formação em nível de 3º grau e 1% concluiu curso técnico. Do universo de entrevistados foi encontrado apenas um analfabeto. Os dados levam-se a concluir, que 99% da população entrevistada é alfabetizada. Já tinha sido concluído anteriormente que 97% dos entrevistados afirmavam não jogar lixo no rio. O dado agora pesquisado concluir-se que quanto melhor for o nível de escolaridade, ou seja, as pessoas forem pelos menos alfabetizada, melhor também será seu nível de consciência. De acordo com a faixa etária das pessoas que moram na comunidade, verifica-se que do total analisado, a faixa etária de maior incidência está no intervalo de 27 a 35 anos, num total de 20, representando 32% do universo pesquisado, conforme pode ser visto na tabela 5 e no gráfico 5. Na seqüência, as pessoas consultadas estão nas seguintes faixas etárias: de 11 a 19 anos, num total de 11, representando 17%, de 19 a 27 anos, num total de 13 pessoas consultadas, o correspondente a 21%, de 35 a 43 anos, num total de 8, o que corresponde a 13%, de 43 a 51 num total de 7 pessoas, com um percentual de 11% e finalmente de 51 a 59 anos, 4 pessoas pesquisadas, representando 6%. Numa população tão jovem como a da comunidade pantanal, a aplicação de oficinas e palestras voltadas a comunidade em prol do desenvolvimento da percepção ambiental é uma maneira de construir quanto mais às pessoas participarem, mais elementos para desenvolvimento de uma consciência de respeito ao meio ambiente terão.

A partir do momento em que se consegue implantar nas mentes e nos corações de todos,

uma nova maneira de enxergar e de explicar a vida e tudo o que nela existe, os cidadãos bem orientados poderão contribuir para a preservação da vida respeitando o meio ambiente.

CONCLUSÃO

Concluiu-se que devido à falta de moradia apropriada para alguns aracajuanos, a comunidade teve início às margens do rio com casas construídas em madeira sem nenhuma estrutura nem tampouco rede de esgoto. O Pantanal é fruto de um processo de loteamento irregular

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efetivado em terras que pertence à União. Existe pelo menos há trinta anos segundo a pesquisa efetuada no local. Podemos compreender que se fizermos uma projeção desse dado a população hoje se aproxima de 3.000 moradores. Em conversas, através das entrevistas, pode-se perceber que 89% da população residem a menos de 11 anos no Pantanal e afirmam que no inicio não se via tanta destruição.

A comunidade observada hoje no Pantanal é jovem, boa parte instruída, fato que auxilia na

relação existente entre rio e comunidade. Os problemas sócio políticos que ali são verificados são

inúmeros, e concluiu-se que obras necessárias para o bem estar da população e promoção da qualidade de vida, falta da aplicação e planejamento de gestão ambiental de resíduos industriais tornaram-se uma constante em todos esses anos de assentamento, deixando a desejar e gerando uma desconfiança da população em torno das resoluções governamentais e da justiça ambiental. Diante do exposto, percebe-se que a preservação do meio ambiente deve ir além das

questões legais e políticas, partindo do social, a educação voltada para o jovem, futuros cidadãos atuantes, deve ser incentivada então no que se refere ao conhecimento do ambiente em que se vive e isso sim, deve ser levado em consideração.

O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede

de saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas, sejam eles orgânicos ou artificiais, são jogados diretamente no rio. Para alguns moradores o mau cheiro incomoda a população e afasta a clientela de alguns comerciantes. A ocupação desordenada e o despejo de lixo em locais inadequados favorecem aos altos índices de poluição. Os órgãos ambientais permanecem

monitorando e fiscalizando todos os pontos a fim de manter o controle dos índices de poluição. A Educação Ambiental tem a sua importância na possibilidade de, a partir do conhecimento das leis e o respeito ao meio ambiente, reduzir consideravelmente as agressões ambientais e, sobretudo, os danos à natureza. Configura-se, pois, como expressão incondicional de respeito à própria vida. A percepção ambiental, ou cognição ambiental, é o termo usado para se referir à tendência geral pelas quais as pessoas desenvolvem atitudes e sentimentos em relação ao ambiente. (ALTMAN; CHEMERS, 1989) Faz-se urgente o incentivo, a criação e aplicação de programas de educação ambiental seja por meio das escolas circunvizinhas, por meio de oficinas organizadas pela própria comunidade. A educação modifica o pensamento, o pensamento norteia as ações. Indivíduos bem informados buscam por melhores condições e a partir daí, desenvolvem força para requerer junto às autoridades os direitos que lhe assistem e lhe são tirados. Estas questões, como muitas outras, estão colocadas para a sociedade brasileira e exigem repostas bem fundamentadas de todos nós. (BEOZZO et. al,

2003)

REFERÊNCIAS

ALTMAN, I. CHEMERS, M.M. Cultura e Ambiente. Cambridge. Cambridge Universit Press, 1989. BEOZZO, José Oscar; REBOUÇAS, Aldo da Cunha; MALVEZZI, Roberto; SILVA, Marina; BARROS, Marcelo; CAPPIO, Luis Flávio. Água é Vida: Dom de Deus e Responsabilidade Humana. São Paulo: Paulus, 2003. PIRES, J. S. R. A utilização do conceito de Bacia Hidrográfica para conservação dos recursos naturais. Conceitos de Bacias Hidrográficas: teorias e aplicações Ilhéus: Editus, 2002. TUNDISI. J.G. Água no século XXI: enfrentando a escassez. São Carlos: RIMA IIE,

2003.

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http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/10950

http://pt.wikipedia.org/wiki/lista de paises limítrofes do Brasil

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ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE

Claryana Alves da CUNHA Pós graduada em Gestão Ambiental pela Faculdade Frassinete do Recife; 1º Ten Professora de Geografia; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife. Mônica Márcia VICENTE LEAL Mestre em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco; 1º Ten Professora de Biologia e Oficial de Meio Ambiente; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife.

RESUMO O presente trabalho visa realizar um levantamento quali-quantitativo dos resíduos sólidos em praias do município de olinda-PE. Foram delimitados 3 transectos de 5 metros de largura, estendendo-se desde o limite superior da praia até a linha de maré, nas praias do Carmo - A, Casa Caiada – B e Rio Doce – C. Os resíduos sólidos foram coletados nas luas novas e cheias, aos domingos, no período da tarde, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008 e agrupados em categorias. Os plásticos se destacaram com 2722 itens, 44% do total, seguido por alimentos (22,9%) e papel (17%). São necessárias políticas públicas direcionadas à população local e turistas quanto à limpeza, e conservação das praias de Olinda, uma vez que o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, na busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável. PALAVRAS-CHAVE: resíduos sólidos, praia, Olinda.

ABSTRACT This work aims making a research of quantity and quality of solid waster in beaches of Olinda, Pernambuco. Three transects of five meters large were delimited, which was extended from the top limit of the beach to the tide line on Carmo – A, Casa Caiada –B e Rio Doce – C beaches. The solid wastes were caught in new and full moons, on sunday afternoons, in December 2007, January and February 2008. Afterwards the wastes were grouped in categories. “Plastic” wastes were the most representative, reaching 2.722 items, 44% of the total, followed by “food” (22,9%) and “paper” (17%). It is necessary politics focused in the local population and and tourists regarding to cleaning and conservation of Olinda’s beaches, since solid wastes management is extremely relevant in order to mitigate impact derived from human activities on the beach environment, as well as to preserve the coast ecosystem in a search from a faired social development and environmentally sustainable. KEYWORDS: solid wastes, beach, Olinda.

1. INTRODUÇÃO Uma vez que a praia é um espaço de lazer bastante diversificado, sua exploração como recurso turístico gera empregos, demanda por serviços e renda para as populações locais (Bird,

1996).

Com o incremento do consumo consolida-se a cultura do desperdício, que é bastante presente no povo brasileiro. Segundo o último censo do IBGE a quantidade diária de lixo urbano coletado no Brasil é de 228.413 toneladas, o que representa 1,25 Kg diários per capita (IBGE,

2001).

O denominado lixo, em função de sua proveniência variada apresenta também constituintes bastante diversos, e o volume de sua produção varia de acordo com sua procedência, com o nível econômico da população e com a própria natureza das atividades econômicas na área onde é gerado (Braga et al., 2006). As praias olindenses são utilizadas por visitantes locais, e de várias regiões do Brasil e do mundo, e apresentam todas as nuances das questões aqui levantadas.

A Conferência da Terra: Aquecimento

global, sociedade e biodiversidade

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o presente trabalho tem por objetivo real izar um levantamento

quali-quantitativo dos resíduos s ólidos em praias do município de Olinda-PE , a fim de servir como ferramenta de apoio ao gerencia mento ambiental da área. Para tal, os itens q ue compõe os resíduos

sólidos existentes nas praias d e Olinda serão identificados,

quantificados e agrupad os em categorias de acordo com o tipo de re síduo e/ou natureza do material amostrado. Será ainda d eterminada a representatividade de cada cate goria e

a incidência espaço-te mporal destes resíduos, como subsídio ao planejamento e direcionamento d as medidas de gestão ambiental, com vistas das praias e conseqüentemente d e vida de seus usuários.

poder público para o a melhorar a qualidade

Em virtude disto,

2. DESCRIÇÃO DA ÁR EA DE ESTUDO

da Região Metropolitana do Recife – RMR , encontra-se entre os

longitude Oeste de

Greenwich, com uma área de 43, 55Km². Seus limites são: ao Norte o municíp io de Paulista, à Leste

o Oceano Atlântico, à Oeste e ao

é de 368.643 habitantes e a dens idade demográfica é de 8.991 hab/km². (IBG E, 2002 apud Beltrão et al,1995).

Sul o Recife. De acordo com o Censo 2000 do IBGE a população

paralelos 7°57’30” e 8°02’30” , latitude Sul e os meridianos 39°55’00”

Olinda, município

Sul e os meridianos 39°55’00” Olinda, município Figura 1: Localização d o município de Olinda-PE. Fonte:

Figura 1: Localização d o município de Olinda-PE. Fonte: Neves e Sá (2002).

2.2 – O litoral de Olinda

O litoral olindense é formado por 10,5km de costa aberta, cara cterizada por depósitos

Carmo, São Francisco,

do Farol, Bairro Novo, Casa Caia da e Rio Doce.

A linha costeira d e Olinda é sem dúvida o maior sítio paisagí stico municipal, sendo

de grande importância econômic a, onde está concentrada a maior parte da po pulação, bem como as atividades comerciais, de recreaç ão e de turismo. O Diagnóstico A mbiental de Olinda (Beltrão et al,1995) de finiu quatro áreas do litoral com problemas ambient ais tais como, erosão marinha, dificuldad e de acesso à praia,

disposição de esgoto doméstico, entre outros: Unidade1 – Praia do Istmo até dos Milagres; Unidade

2 – praias dos Milagres, Carmo

finalmente, unidade 4 – praias de Casa Caiada e Rio Doce.

e São Francisco; Unidade 3 – praias do F arol e Bairro Novo; e

arenosos, compreendendo, no se ntido Sul-Norte, as praias: Istmo, Milagres,

3. MATERIAL E MÉT ODOS

Inicialmente foi realiz ado um caminhamento ao longo de toda

se

estabelecer áreas específicas a s erem estudadas. Foram visualmente observ ados aspectos como a

a orla,

a fim

de

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existência de faixa de areia, a intensidade de freqüência de usuários e a presença de resíduos na areia e calçada. Desta forma, foram escolhidas para o estudo as praias do Carmo, Casa Caiada e Rio Doce, situadas nas unidades 2 e 4 definidas por (Beltrão et al,1995). A praia de Casa Caiada é a mais tradicionalmente freqüentada, constituindo-se num point da população jovem. A praia de Rio Doce apresenta a faixa de areia mais extensa e é também bastante freqüentada, não tendo, porém as mesmas condições de infra-estrutura da primeira. A praia do Carmo é a mais afastada dentre as praias com maior número de usuários. No entanto, a quantidade destes é visualmente muito inferior a das anteriormente citadas. Para a coleta de dados foram estabelecidos transectos piloto com 10 m de largura, reduzida para 5 m de largura para a amostragem, dimensionados por meio de uma trena de 50 m e georreferenciados com o auxílio de um GPS Etrex Garmin Estes transectos se estendiam do limite superior da praia (calçada, rua, etc.) até a linha de maré. Em cada praia foi estabelecido um transecto em um trecho fixo (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce) (Tabela 1). Foi realizada uma medição de cada transecto em dias de maré com amplitude significativamente baixa e alta, a fim de determinar a área amostral total em m², a mínima e a máxima dos transectos (faixa de areia exposta) a fim de determinar a densidade de lixo por área em m² em ambas as marés. Os horários de coleta foram entre 14 e 18 horas. A escolha dos dias de coleta de dados baseou-se nos trabalhos de Leal (2006) e Silva (2006) para as praias de Boa Viagem e do Pina. Os dias declaradamente preferidos de visita às praias foram domingos e sábados respectivamente. Com base nestas informações, foi estabelecido o período amostral na estação seca, de dezembro a fevereiro, aos domingos. A segunda autora afirma que o padrão de uso dos freqüentadores em sua pesquisa foi o mesmo para o verão e inverno, mas a freqüência foi três vezes maior nos finais de semana de verão, com destaque para o domingo. Foram feitas duas coletas por mês, num total de 6 coletas, nas luas novas e cheias. Os resíduos sólidos, incluindo fragmentos, foram coletados por catação manual, colocados em sacos de 100 litros e retirados do local para posterior triagem. Os itens identificados foram contados, agrupados em uma tabela e classificados em categorias por tipo, de acordo com a natureza do material que os constitui. Foi calculada representatividade em números absolutos e percentagem de cada categoria, bem como dos itens que se destacaram de forma isolada e em escala espaço-temporal.

Transecto Praia

Localização

Características

A Praia

41°21’52”S

Situa-se por trás da Agência dos Correios, sendo freqüentada por banhistas e pescadores. Apresenta construções (residencias) na pós-praia. Não apresenta vegetação, possui diques de contenção construídos no mar, paralelos à praia.

 

do

8º03’19” W

Carmo

 

Possui uma extensão de 100m na maré baixa.

B Praia

51º48’02”S

Área próxima ao Bompreço, em frente à casa nº 3425. É muito frequentada por banhistas. Apresenta construções (residencias) no alto da praia. O ambiente praial atinge 62 m de extensão da calçada à linha de praia na maré baixa.

 

de

7º58’55” W

Casa

Caida

C Praia

52º11’06”S

Fica em frente ao Bar do Vivaro, próximo à marina. É bastante freqüentada por banhistas. Apresenta cobertura de areia original que vai até as calçadas das casas. Neste ponto a extensão é de 63 m do limite superior até a linha da água.

 

de

7º58’15” W

Rio

Doce

Tabela 1: Caracterização dos transectos de amostragem (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce), perfazendo uma área de 825 m 2 de praia, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008.

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram identificados um total de 6.191 itens de resíduos sólidos nas três áreas, durante todo o período amostral. Os itens foram distribuídos nas seguintes categorias: Pl (plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (papel); Ma (madeira) e A (alimentos). (Tabela 2).

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A categoria que se destacou foi a dos plásticos com um total de 2.722 itens, o que representa 44,0% do total amostrado. Silva (2006) encontraou este mesmo padrão de prevalência dos plásticos, para a praia de Boa Viagem, na qual esta categoria representou 40,2% do total da amostra.

Em segundo lugar destacou-se a categoria ‘alimentos’ com o total de 1.415 itens (22,9%). Vale salientar que os itens plásticos mais representativos dentro da amostra total foram copos, canudos e saquinhos (Tabela 2). Os vidros foram os menos representativos dentre todas as categorias, num total de 66 itens (1,1%), isto se deve ao fato de os principais itens desta categoria serem garrafas e fragmentos destas. As bebidas consumidas na praia, que são principalmente cerveja e refrigerante, são servidas em embalagens de vidro retornáveis, não sendo, portanto, descartadas na praia. As garrafas coletadas neste estudo foram de bebidas quentes (rum, whisky, campari, etc.), cujas embalagens não são retornáveis. Dentre os papéis, que representaram 17,0% da amostra total, os guardanapos tiveram uma predominância massiva. Dos 1.052 itens de papel encontrados, 840 foram guardanapos. Isto reforça a idéia de que o lixo existente nas praias de Olinda é proveniente de seus usuários e que a alimentação é uma das principais atividades desenvolvidas por estes.

Total de itens por categoria.

3000 2500 2000 1500 1000 500 0 Pl V Me Pa Ma A Total de
3000
2500
2000
1500
1000
500
0
Pl
V
Me
Pa
Ma
A
Total de itens

Categorias de resíduos sólidos

Figura 2: Representatividade em valores absolutos das categorias de resíduos sólidos coletados nas três praias estudadas em relação ao número total de itens. Pl (plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos).

Os metais, com 509 itens (8,2%) ficaram em 4° lugar. O número de tampas de garrafa foi alto dentro desta categoria (392 ou 77,0%), embora a quantidade de garrafas tenha sido de apenas 19. Como discutido antes, as garrafas de bebidas utilizadas na praia são retornáveis. Suas tampas, no entanto, são descartadas na areia. Com relação às latas, é importante salientar que dentre as 91 coletadas durante o período amostral, encontravam-se não somente as de alumínio, mas também as de ferro e aço. Não se pode deixar de mencionar que a catação de latas de alumínio como fonte alternativa de obtenção de renda é uma atividade bastante difundida entre a população mais carente. Isto faz com que dificilmente este item seja largamente encontrado nas praias. Os itens agrupados na categoria madeira representaram 6,9% da amostra total, com destaque para os palitos de churrasco (188 ou 44,0% do total da categoria). Os palitos de fósforo estão associados à presença de fumantes. Foram coletadas 972 pontas de cigarro, que, contudo, não constituem uma categoria por se tratar de um único item.

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1000 Quantidade de itens por mês de coleta. 800 600 400 200 0 Pl V
1000
Quantidade de itens por mês de coleta.
800
600
400
200
0
Pl
V
Me
Pa
Ma
A
Total de itens

Categorias de resíduos sólidos

mês de coleta. 800 600 400 200 0 Pl V Me Pa Ma A Total de

Dez

mês de coleta. 800 600 400 200 0 Pl V Me Pa Ma A Total de

Jan

mês de coleta. 800 600 400 200 0 Pl V Me Pa Ma A Total de

Fev

Figura 3: Variação quantitativa

mensal dos resíduos sólidos nos três transectos. Pl

(plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos).

Segundo Irapuã Muniz, Chefe do Departamento de Operações e Fiscalização da Limpeza Urbana do município de Olinda (Comunicação pessoal), a limpeza da faixa de areia das praias é realizada por um efetivo de 36 homens, divididos em duas equipes, distribuídos por cerca de 6 km de praia. O trabalho é realizado todos os dias, das 6:30 às 23:30, com troca de turno às 15:30. A limpeza é feita através de ciscação, seguida pelo ensacamento do lixo e sua disposição na calçada, para posterior recolhimento por veículo coletor convencional. Este faz 3 coletas ao dia, por volta das 11:00, 14:00-15:00 e à noite. Nos finais de semana são distribuídos, das 9:00 às 12:00, sacos plásticos aos usuários e comerciantes Ele acrescenta que a deficiência de infra-estrurura sanitária e de fiscalização da orla, além do compromisso de ambos, comerciantes e população em geral, em manter o ambiente limpo, torna difícil o trabalho. Durante o período amostral foi possível observar que na praia de Casa Caiada existem mais lixeiras, distribuídas em intervalos menores do que nas demais praias. Algumas estavam depredadas ou restavam apenas os suportes. Os resultados demonstram que no período amostral, janeiro apresentou a maior produção de resíduos, o que era esperado, por este ser um o mês das férias escolares do verão, o que aumenta a freqüência da população na praia (figura 9). As variações nas quantidades de resíduos descritas na (Tabela 1), sofreram influência das flutuações na quantidade de freqüentadores em cada dia de coleta. Das três áreas de coleta, a B, que corresponde à praia de Casa Caiada, destacou-se em número de itens em todos os meses de amostragem. Isto pode estar relacionado a uma maior presença de usuários neste local, atraídos por uma infra-estrutura mais diversificada (banheiros públicos, quiosques padronizados, segurança etc.). Fazendo uma comparação da quantidade de resíduos de cada trecho ao longo dos meses de amostragem, é possível constatar que houve um padrão de variação no qual o número de itens aumentou em janeiro e diminuiu em fevereiro, ficando este último, no entanto acima dos níveis do mês de dezembro. Esta tendência foi observada tanto com relação ao número total de itens por trecho por mês, quanto em cada categoria por área por mês, com exceção dos metais, cuja quantidade foi mais expressiva no último mês de coleta (fevereiro). Com relação às marés, a mais alta e a mais baixa do período de coleta de dados foram 2.2 e 0.3 metros de amplitude respectivamente. A medição da extensão dos transectos foi feita em marés com 1.9 e 0.4 m (www.dhn.mar.mil.br). Os dados estão agrupados na Tabela 3. Houve uma diferença de extensão de faixa de areia exposta entre a maré baixa e a alta, nos trechos A, B e C, de 49, 25 e 27 m. Isto significa uma redução de aproximadamente 50% da área dos transectos na maré alta.

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Quantidade total de itens por área/mês

1200 1000 800 600 400 200 0 DEZ JAN Meses de coleta FEV A B
1200
1000
800
600
400
200
0
DEZ
JAN
Meses de coleta
FEV
A
B
C
Total de itens

Figura 4: Variação quantitativa em números absolutos dos resíduos sólidos por áreas nos meses de amostragem nos transectos A, B e C.

A densidade dos resíduos, ou seja, a relação entre o número de itens por área em m² obteve valores mais elevados na maré alta em todos os trechos estudados. A área amostral total, resultante da soma das áreas dos três transectos, foi de 1.125 m² na maré baixa, com densidade de 5,5 itens/m², e 620 m² na maré alta, com densidade de 10 itens/m². O transecto B apresentou as maiores densidades de resíduos, em ambas as marés, corroborando as tendências já discutidas em relação a esta área. Quanto maior a densidade de resíduos sólidos num ambiente praial, maiores serão os impactos ambientais e prejuízos sociais decorrentes de sua presença.

 

A

B

C

Maré

Maré

Maré

Maré

Maré

Maré

baixa

alta

baixa

alta

baixa

alta

Extensão

do transecto

100

51

62

37

63

36

(m)

Área do

Transecto

500

255

310

185

315

180

(m²)

Densidade dos resíduos (nº de itens/m²)

3,7

7,3

7,6

12,8

6,0

10,6

Tabela 2: Variações na extensão dos transectos A, B e C, em relação à alternância das marés baixa e alta em metros; área correspondente em m² e densidade de resíduos em itens/m².

5- CONCLUSÕES

A grande quantidade de resíduos sólidos, principalmente plásticos, oferece riscos aos

usuários, além de prejudicar a condição estético-paisagística da praia, comprometendo o turismo e a economia do município. Diante deste quadro, constata-se a necessidade de se implementar programas e políticas públicas por parte da Prefeitura Municipal de Olinda direcionadas para a conscientização da população local e também dos turistas quanto à limpeza, manutenção e preservação das praias de Olinda, visando estabelecer princípios, normas, diretrizes e instrumentos, no sentido de incentivar a comunidade, os empresários, entre outros, a cuidar melhor das praias dessa região, tendo em vista que o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, como parte da busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável.

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Os resíduos sólidos nas praias de Olinda demonstrou que os mesmos são provenientes de fontes terrestres, sendo os principais geradores os próprios usuários.

6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELTRÃO, A. de L.; MAIA, J.T.A.; OLIVEIRA, M.L. de. et al. Diagnostico ambiental do município de Olinda: uma contribuição ao Plano Diretor. Recife: Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – CPRH, 1995. 160 p. BIRD, E.C.F. 1996. Beach management. New York: John Wiley & Sons, 281p. BRAGA, B; HESPANHOL, I.; CONEJO, J.G.; BARROS, M.T.; SPENCER, M.; PORTO, M.; NUCCI, N.;JULIANO, N.; EIGER, S. Introdução à Engenharia Ambiental . São Paulo: Prenice Hall, 2002. 305p. IBGE. Sinopse preliminar do censo demográfico 2000 – Brasil. 2001. Disponível em:

http://www.ibge.gov.br - Acesso em: 13/05/2008. LEAL, M.M.V. Percepção dos usuários quanto à erosão costeira na praia da Boa Viagem, Recife (PE), Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. NEVES, J. M.; SÁ, L.A.C.M. de. Utilização de um Sistema de Geoinformação para o Cadastro de Terrenos Foreiros – Olinda/PE, in: Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico Multifinalitário · UFSC Florianópolis · 6 a 10 de Outubro 2002. SILVA, J.S. Diagnóstico dos resíduos sólidos das praias da Boa Viagem e do Pina, Recife- PE, Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. Tábua de marés. Disponível em: http://www.dhn.mar.mil.br. Acesso em 10/11/2008.

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ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS, BRASIL

Kenia Alves Pereira LACERDA Carlos Cézar DA SILVA Ceila de Brito DIAS Vanêssa Batista GOUVEIA

RESUMO Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática é essencial na compreensão das práticas da sociedade, seus saberes, sua cultura e de como estes conhecimentos ou práticas afetam o meio ambiente. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. O estudo de percepção ambiental é uma dos meios utilizados pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados. O presente trabalho teve como principal objetivo mensurar a percepção ambiental dos moradores de um bairro da cidade de Jataí - Goiás, diante da instalação de aquecedores solares em suas residências, adquiridos através de programa governamental. A pesquisa foi realizada com intuito de saber como os moradores percebiam ou não a importância dos aquecedores em prol do meio ambiente. Notou-se, por meio desta pesquisa, que a percepção ambiental dos moradores entrevistados é muito pequena, quase inexistente, principalmente por parte das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há, por parte da comunidade pesquisada, conhecimento de práticas e ações para preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. A população não tem consciência que muito das atitudes estão colaborando para a degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipal, Estadual e Federal, que deveriam, no mínimo, conscientizar a população sobre a importância de se preservar o meio ambiente de uma maneira geral e utilizar corretamente os equipamentos distribuídos pelo programa, numa visão mais pontual. PALAVRAS-CHAVES: Percepção ambiental, educação ambiental, aquecedor solar.

ABSTRACT Search the environmental perception through systematic research is essential in understanding the practices of society, their knowledge, their culture and how this knowledge or practices affect the environment. These skills are undoubtedly important tools in the correct direction of an environmental education and transformative dialogue. The study of environmental perception is one of the means used by the ethno-science to gain knowledge of traditional communities and point the way to the practice of environmental education, especially in non- educated. This study aimed to measure the environmental perception of the residents of a neighborhood in the city of Goiás - Goiás, before the installation of solar heaters in their homes acquired through government program. The research was performed to find out how residents perceive the importance or not of the heaters in favor of the environment. It was noted through this research, the environmental perception of the residents interviewed is very small, almost nonexistent, especially from low-income and low education. There is, by the community surveyed, knowledge of practices and actions to preserve the environment, perhaps do not know how and where to start. The population is unaware that much of the attitudes are contributing to the degradation of nature and the environment. What it remains the responsibility of municipal governments, state and federal, that should at least raise awareness about the importance of preserving the environment in general, and correctly use the equipment distributed by the program in a more timely. KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, solar heater.

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INTRODUÇÃO

Em um cenário de crise ambiental e constantes catástrofes naturais, é preciso que haja uma

mudança na cultura e concepção dos valores de cada cidadão, objetivando uma maior relativa à responsabilidade individual para com o meio ambiente. Torna-se cada vez mais necessário a real implantação de uma Educação Ambiental, por meio dos órgãos públicos, pois “a maior contribuição social tem vindo através dos movimentos da própria sociedade civil, das entidades não- governamentais, dos veículos de comunicação, dos movimentos políticos e culturais (Carta Brasileira para Educação Ambiental - MEC. Rio-92)”. Nesta linha de pensamento, TOZONI-REIS (2004) manifesta:

Assim, se a educação é mediadora na atividade humana, articulando teoria e prática, a educação ambiental é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidades necessárias para a ação transformadora responsável diante do ambiente em que vivem.

A percepção ambiental oriunda de diferentes grupos de indivíduos de uma sociedade é

relevante para o correto posicionamento das políticas públicas de Educação Ambiental. A efetivação de sua práxis, partindo das necessidades emanadas sobre o meio ambiente em que estão inseridos, em uma relação próxima, muitas vezes com valores ambientais muito significativos, o que pode ser evidenciado nas indicações de Tuan (1980). Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática, é essencial na compreensão das práticas da sociedade, seus saberes e sua cultura. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. Contudo, o estudo de percepção ambiental é uma das ferramentas utilizadas pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados, Figueiredo (2009). A Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque implica em mudanças profundas e nada inócuas (Brasil, 1997). Atualmente já são notadas ações governamentais que demonstram uma preocupação ambiental como, por

exemplo, a instalação de aquecedores solares gratuitos em conjuntos habitacionais para população de baixa renda.

O aproveitamento da energia solar para aquecimento de água é crescente, principalmente

devido à preocupação com os impactos ambientais provocados pelas formas de energia mais utilizadas atualmente. Segundo Leite (2005), as construções de hidrelétricas interferem drasticamente no meio ambiente, alterando o clima devido ao aumento da temperatura, alterando a flora com a perda da biodiversidade, a paisagem natural, e fauna, pois vários animais morrem na inundação e poucos são reintegrados a natureza. Tudo isso interfere na ocupação terrestre e na base econômica da região. Conforme Global Energy Telecom (GET), 18% da capacidade de geração de eletricidade instalada no Brasil é acionada nos momentos de pico pelo conjunto de chuveiros elétricos residenciais. O uso de aquecedores solares reduz significativamente os consumos de energia elétrica para usuários de água quente sendo uma forma de desenvolvimento sustentável e racional, levando em consideração o impacto ambiental conseqüente da geração de energia elétrica além da quantidade de empregos diretos gerados pelas empresas de pequeno e médio porte no mercado de coletores solares. De acordo com relatório anual de responsabilidade socioambiental da Companhia Energética de Goiás (CELG, 2008), houve uma redução de demanda de 647 kilowattes por hora e economia anual de energia elétrica de 3.343 megawatts por hora devido à instalação dos aquecedores solares nos municípios de Jataí, Goiatuba, Catalão, Itapirapuã, Luziânia, Novo Gama, Formosa e Planaltina no Estado de Goiás.

O aquecedor de água por meio de energia solar consiste basicamente em dois elementos: Coletor de energia solar e depósito acumulador de água quente. Os coletores são projetados com materiais que possuem uma alta condutividade térmica para reduzir a resistência ao

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fluxo por condução, assim a placa irá absorver a energia dos raios solares, transformando em calor que transportado para a água irá aquecê-la. A água quente ficará armazenada no deposito acumulador de água. Resultados de trabalhos de pesquisa (MATAJS, 1997) que incluíram medições e levantamentos de dados por questionários, que a Universidade de São Paulo (USP) realizou em conjunto com a ELETROPAULO, no setor residencial, demonstraram que os chuveiros elétricos provocam aumento de potência média instalada de 121%, ou seja, a potência do chuveiro ultrapassa a soma de todos os outros eletrodomésticos juntos. Demonstra, ainda, que a inclusão do chuveiro elétrico eleva a demanda máxima média em 365%, ou seja, no momento em que é utilizado o chuveiro elétrico, a demanda sobe para mais de 4,5 vezes o consumo médio. A substituição do chuveiro elétrico pelo aquecedor solar traduz-se em economia, em médio prazo, principalmente para o usuário final, pois exige baixíssima manutenção e possui vida útil, em média, superior a quinze anos, proporciona economia na conta de energia elétrica e recupera o investimento num período de três a cinco anos. No ano de 2007, moradores do bairro Mauro Antônio Bento, no município de jataí – Goiás,

receberam como doação aquecedores solares para serem implantados em suas casas, que também foram adquiridas em programas governamentais de habitação em anos anteriores. Muitos empreendimentos nos municípios são geridos diretamente por pessoas que não possuem recursos técnicos adequados para tratar das questões ambientais. No entendimento de Farias (2002), seja por falta de tempo, conhecimento ou recursos financeiros, a gestão dos impactos ambientais é relevada em segundo plano.

O objetivo central deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos moradores do

conjunto habitacional Mauro Bento na cidade de Jataí e o impacto ambiental provocado pelo uso de aquecedores solares em suas residências.

Metodologia

O trabalho foi proposto e desenvolvido durante o segundo semestre de 2009 durante na

disciplina de Biologia Ambiental e Ecologia Humana, sendo coordenado pela professora e pesquisadora dessa área no curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal de Goiás – Campus Jataí.

A pesquisa foi realizada no Conjunto Habitacional Mauro Antônio Bento em Jataí, Goiás,

onde foram escolhidas aleatoriamente 100 residências como universo amostral. Foi aplicado um questionário com 18 questões por residência, visando avaliar a percepção ambiental. A pesquisa, feita através de questionário, foi baseada nos seguintes parâmetros: idade, sexo e moradores por residência.

Análise dos Resultados

O perfil etário dos moradores é heterogêneo, com predominância de casais jovens, 40%

têm entre vinte e trinta anos, enquanto 26% têm entre trinta e quarenta anos. Os demais 34% dos moradores têm até vinte ou mais de quarenta e um anos. No total são 66% de publico feminino e 34% masculino. 52% das casas são habilitadas por até três pessoas, enquanto 46% tem entre 4 e 6 moradores, 2% das residências abrigam acima de 7 pessoas. Quando questionados sobre os benefícios do aquecedor solar, a grande maioria dos moradores (86%) acredita apenas na redução do custo da energia elétrica. Apenas 4% vêem alguma importância para o aquecedor além da redução de custo com energia elétrica e os demais não responderam, não usam ou não verificaram qualquer diferença após a implantação do aquecedor solar. Mesmo após a instalação do aquecedor solar boa parte dos moradores ainda utilizam o chuveiro elétrico, 35% quando está muito frio, 15% quando está chovendo muito, 13% por outros motivos e apenas 37% não usam mais o chuveiro elétrico.

Quando questionados se o aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, 22% dos moradores conseguiram responder com exatidão e demonstraram ter conhecimento sobre o

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assunto. Os outros 78% não souberam responder, e ainda não perceberam a correlação existente entre aquecedores e meio ambiente. Ao perguntarmos para os moradores quem eram responsáveis pela manutenção e a qual era o tempo de garantia do equipamento, a maioria não souberam e não tiveram interesse em obter informações, embora no aquecedor seja informado o endereço eletrônico da empresa, bem como a forma de atendimento ao usuário. Os moradores quando entrevistados se haveria algum problema ambiental no bairro, poucos citaram o lixo eminente nas ruas, inclusive relatando que não apresenta nenhum problema ambiental. Um aspecto interessante é que diversos problemas, mesmo que amplamente divulgados pela mídia, não foram citados, entre eles: o problema ocasionado pela incidência de chuvas, a falta de esgoto, a degradação das nascentes, abuso no uso de agrotóxico, caça e pesca indiscriminada. A complexidade destes temas aliados à ausência de informações pode inibir este público para debates. Alguns moradores citaram como problema ambiental uma área de preservação permanente, que circunda parte do bairro, onde há muito lixo, transferindo a responsabilidade aos órgãos públicos do meio ambiente, omitindo o papel do cidadão. Segundo Morin (2006) “um cidadão é definido, em uma democracia, por sua solidariedade e responsabilidade em relação à sua pátria”. Alguns problemas ambientais locais como a deficiência na arborização urbana também não foram percebidos pelo grupo pesquisado. A orientação realizada pelos responsáveis pela instalação do aquecedor solar foi a recomendação de como utilizar o mesmo, não havendo uma preocupação em orientá-los a respeito do princípio de funcionamento e como o aquecedor contribui para preservação do meio ambiente. Em relação ao desempenho do chuveiro, poucos entrevistados alegaram que o mesmo não estava funcionando de forma adequada, citando que ele não aquece suficientemente durante o inverno.

Conclusão Não há duvida de que o uso de aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, pena que nem todos têm acesso ao mesmo, devido ao custo alto de compra. Mas alguns tendo acesso ao aquecedor solar por meio de projetos do governo, não vêem nenhuma vantagem em ter este, a não ser a economia no custo de energia elétrica no final do mês. Os entrevistados quando utilizam o aquecedor solar não se preocupam com a preservação do meio ambiente, isso ocorre porque não há um esclarecimento sobre esses aspectos. Na maioria das vezes há uma evidência apenas na redução no valor da quantia da conta de energia, assim a realização desta pesquisa se apresenta como uma alternativa para alertar indústria e os usuários no que diz respeito à forma de divulgação dos benefícios oriundos do uso do aquecedor solar e de que forma o mesmo colabora para a preservação do meio ambiente. A percepção ambiental ainda é muito pequena, quase inexistente principalmente por parte das populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há um interesse por parte dos moradores em preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. A população não tem consciência que muito dos nossos atos está ajudando na degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipais, Estadual e Federal.

BIBLIOGRAFIA BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Meio Ambiente, Saúde/ Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 128p. v.9. 1997. Eletrotécnica e Energia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997. FARIAS, J. S. ; A Pequena e micro empresa e o meio ambiente: A percepção dos empresários com relação aos impactos ambientais. Revista Organizações & Sociedades. Ed. Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, v.9, n.23, janeiro/Abril, 2006. FIGUEIREDO, J. NETO, G.G. ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE UM GRUPO DE EMPRESÁRIOS DE SINOP, MATO GROSSO, BRASIL. Monografia de conclusão

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do curso de Graduação em Biologia UFMT. Revista eletrônica Mestrado em Educação Ambiental , v.22, janeiro a julho de 2009. GET – Global Energy And Telecom Ltda, Aquecedor Solar reduz consumo de energia e

meio ambiente, disponível em

http://aquecedores.get.ind.br/index.php/tag/aquecedores-solares/ acesso em setembro 2009. LEITE, M. A. IMPACTO AMBIENTAL DAS USINAS HIDRELÉTRICAS. II Semana do Meio Ambiente. UNESP. Ilha Solteira, Junho, 2005. MATAJS, R.R. Demanda, consumo e custo das alternativas ao chuveiro elétrico no Estado de São Paulo. 1997. 156 f. Dissertação (Mestrado em Inter unidades em Energia) - Instituto de MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC), CARTA BRASILEIRA PARA EDUCAÇÃO AMBIENTAL, Workshop sobre Educação Ambiental, Jacarépaguá, Rio de Janeiro 1 a 12 de julho de 1992.

água

e

preserva

o

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ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE

Davi Aragão ROCHA Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC daviaragaorocha@gmail.com Antonio Jeovah de Andrade MEIRELES Prof. Dr. Departamento de Geografia UFC Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC. Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC jeovahmeireles@ufc.br

RESUMO Este estudo descreve as funções socioambientais dos ecossistemas manguezais, aprofundando-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó, em Fortaleza/CE. Estuda- se, a partir de publicações acadêmicas e documentos governamentais, os impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a população fortalezense. Observou-se que manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais, sendo ricas fontes de produção de material orgânico, muito atrativo a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Insere-se nesse contexto o ecossistema manguezal do Rio Cocó, que sofre com diversos problemas, como os impactos gerados pela especulação imobiliária e ocupação irregular. Para potencializar as funções e serviços ambientais, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação; amplo processo de saneamento básico e ações de implantação de políticas públicas para ampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados ao manguezal. Conclui-se que o ecossistema manguezal do Rio Cocó, por todas a funções socioambientais que presta, é essencial para o ecossistema urbano da cidade de Fortaleza. Assim, é de extrema importância a realização de estudos ambientais para a fundamentação das políticas públicas que envolvam esse ecossistema. PALAVRAS-CHAVE: Ecossistema, Manguezal, Rio Cocó, Impactos Ambientais

ABSTRACT This study describes the social and environmental functions of mangrove ecosystems, deepening the importance of mangrove ecosystem of Rio Coco in Fortaleza. It studies, using academic publications and government documents, the impacts that this ecosystem is suffering and the consequent effects on its biodiversity and on the population of Fortaleza. It was observed that mangroves are coastal ecosystems found mainly in tropical regions, and that they are rich sources of production of organic material, which is very attractive to several species of animals and prone to various kinds of plants, and microorganisms. Mangrove ecosystems lend various social and environmental services. In this context, the mangrove ecosystem of Rio Coco suffers several problems, such as the impacts created by land speculation and illegal occupation. To enhance the functions and environmental services, it is necessary the delimitation and demarcation of areas of permanent preservation; the removal of buildings installeds in areas of permanent preservation; restoration of vegetation; extensive process of sanitation and public actions to enlarge biodiversity, especially with the conservation of other environmental systems associated with the mangrove. We conclude that the mangrove ecosystem of Rio Coco, by all the social and environmental functions it provides, is essential to the urban ecosystem of Fortaleza. The environmental studies are of extreme importance for the public policy involving this ecosystem. KEYWORDS: Ecosystem, Mangrove, Rio Coco, Environmental Impacts

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1.

INTRODUÇÃO

O

Rio Cocó é o principal rio da cidade de Fortaleza, possuindo 45 km de extensão, dos

quais 24 km correm dentro desse município. Dessa forma, ele é historicamente, culturalmente, economicamente e socialmente importante para a capital cearense. O ecossistema manguezal em que o rio se insere realiza diversa funções essenciais ao ecossistema urbano da cidade. Nos últimos anos, os impactos que a expansão urbana causa nesse ecossistema são cada vez mais perceptíveis, chamando a atenção da população e da mídia para o problema, exigindo ações do poder público para a recuperação da área. Este estudo objetiva, assim, realizar uma descrição das funções socioambientais dos ecossistemas manguezais, demonstrando-se a importância histórica, cultural, econômica e ambiental. Aprofunda-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó. Partindo-se então para o estudo dos impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a população fortalezense. Utilizou-se, para o estudo, publicações de autores e órgãos governamentais, pesquisas acadêmicas e documentos do governo e do ministério público. Essa pesquisa é importante por demonstrar a essencial necessidade de estudos ambientais para a fundamentação das políticas públicas para a recuperação e ampliação dos ecossistemas urbanos, em especial o Rio Cocó. Serve ainda de fonte para outros estudos que tratem da temática ambiental, incluindo-se aí pesquisas dos campos do Direito, Arquitetura, Urbanismo, Ecologia, Biologia e Geografia, dentre outros.

2.

ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS

O

que é ecossistema? Eco origina-se do termo grego oîkos e , como se observa pelo,

significa “casa, domicílio, habitat” (ODUM & BARRETT, 2007). Sistema, por sua vez, também vem do grego, do termo systema (grupo, reunião), significando disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada. Sobre ecossistema, Fritjof Capra escreve o seguinte:

Quanto mais estudamos o mundo vivo, mais nos apercebemos de que a tendência para a associação, para o estabelecimento de vínculos, para viver uns dentro de outros e cooperar, é uma característica essencial dos organismos vivos. Lewis Thomas observou: “Não temos seres solitários. Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”. As maiores redes de organismos formam ecossistemas, em conjunto com vários componentes inanimados ligados aos animais, plantas e microorganismos, através de uma intrincada rede de relações que envolvem a troca de matéria e energia em ciclos contínuos. Tal como os organismos individuais, os ecossistemas são sistemas auto- organizadores e auto-reguladores nos quais determinadas populações de organismos sofrem flutuações periódicas. Em virtude da natureza não-linear dos percursos e interligações dentro de um ecossistema, qualquer perturbação séria não estará limitada a um único efeito, mas poderá propagar-se a todo o sistema e até ser ampliada por seus mecanismos internos de realimentação. Num ecossistema equilibrado, animais e plantas convivem numa combinação de competição e mútua dependência. Cada espécie te potencial suficiente para realizar um crescimento exponencial de sua população, mas essas tendências são refreadas por vários controles e interações. (grifou-se) (CAPRA, 2005)

Pode-se, portanto, entender ecossistema como uma rede de convivência dos seres habitantes de determinado meio ambiente – fauna, flora e microrganismos –, relacionando-se com os outros elementos deste e entre si, tendendo a um equilíbrio dinâmico e evoluindo ao longo do tempo.

A vegetação do mangue – a floresta – produz grande quantidade de matéria orgânica, que é

decomposta pela microfauna existente na água e no solo (CEARÁ, 1992). O fluxo da água – que gera uma troca de elementos entre o mar e o rio (BRASIL, 2004) – encarrega-se de levar essa matéria orgânica para o mar, tendo nisso a colaboração dos peixes, ajudando no desenvolvimento

dos organismos aquáticos da costa; e “do mar traz consigo nutrientes de um tipo diferente daqueles

de forma que as contribuições se complementam” (VANNUCCI, 1999). Essa matéria orgânica

] [

também serve de alimento a outros seres, como alguns crustáceos e peixes. Essa interação entre água doce e água marinha mostra-se muito importante, por exemplo, em relação aos corais, que dependem dos manguezais, pois estes funcionam como controladores da qualidade da água costeira. Em contrapartida, os corais protegem os manguezais das ondas de forte

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energia, dissipando-as e criando águas de baixa força e baixa energia, o que é muito relevante para

o equilíbrio do manguezal. Uma das características do mangue é a grande quantidade de peixes, crustáceos e moluscos. A quantidade de peixes nos manguezais chega a ser muito maior do que nos habitat das zonas costeiras adjacentes. Segundo relatos, o número de peixes nos manguezais da Flórida, nos EUA, por exemplo, chega a ser 35 vezes maior do que na sua costa (RÖNNBÄCK, 1999). Saliente-se que, apesar de mais evidentes, os crustáceos e os peixes não são os únicos habitantes do manguezal; encontrando-se ainda várias espécies de mamíferos, aves, insetos e répteis, além de fungos e parasitas (VANNUCCI, 1999), que também mantêm uma rede de relações nesse ecossistema. Compreende-se que há uma grande complexidade de relações e de trocas nos ecossistemas manguezais. Complexidade que favorece o desenvolvimento de diversas espécies de animais. Os manguezais servem de zona de desova e de alimento de inumeráveis espécies de peixes, chegando a 80% dos recursos pesqueiros dependerem, direta ou indiretamente, deles; tendo, juntamente com arrecifes de coral e plantas herbáceas marinhas, função decisiva de armazenar e reciclar os elementos nutritivos, regulando o equilíbrio aquático e protegendo as terras da erosão (JUMA, 1997). Oferecem os manguezais uma abundância de alimentos bem maior do que nos ecossistemas costeiros próximos, contendo, como já dito, grande quantidade de matéria orgânica, tornando-se assim atrativo a larvas e peixes jovens. Estes têm, muitas vezes, como principal dieta filhotes de caranguejos, abundantes nesse ecossistema. Assim, peixes jovens e camarões encontram ali bons refúgios para proteção. Além da importância para a vida animal marinha e para a qualidade da água, muitos outros serviços ambientais são prestados pelos manguezais. Como explicitam Barbier e Cox (2004), “as florestas de mangue são uma das características primárias dos ecossistemas costeiros”, sendo, na verdade, um dos mais produtivos ecossistemas costeiros das regiões tropicais e subtropicais do mundo, produzindo, uma vez mais, bastante material orgânico. Alguns dos maiores serviços ecológicos promovidos pelos ecossistemas manguezais, de

acordo com UICN (2003) – The World Conservation Union –, que os classifica como categoria especial de terra molhada, são o controle de enchentes e de poluição, a reciclagem da água do solo e

a estabilização da linha costeira e bancos de rios (TUPINAMBÁ, 2004). O Relatório GT-Carcinicultura de 2005 da Câmara Federal diz que o manguezal, sendo um ecossistema dos mais complexos do Planeta, favorece a segurança alimentar advinda das atividades de subsistência, pois atua como suporte para a pesca e a mariscagem. Serve ainda à preservação das aves, por estar vinculado a rotas de migrações de várias espécies, e à geração e produção de vida animal, principalmente marinha, sendo um verdadeiro “berçário da vida”. Estão elencadas, no Quadro 1, uma série de serviços ambientais e ecológicos, citados por diversos autores, que são prestados pelos ecossistemas manguezais.

Quadro 1 – Serviços ambientais e ecológicos*

Fonte de produtos naturais diversos;

Proteção contra enchentes, furacões e ondas fortes;

Proteção e controle contra erosão pelo amortecimento da energia das marés através das raízes das

plantas;

Proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos;

Suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros;

Local de refúgio, desenvolvimento e alimentação de peixes – em especial marinhos – crustáceos e

outros;

Proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara;

Armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes;

Exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas

costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou

ecológica;

Aumento do desenvolvimento da pesca em geral através do fornecimento de detritos;

Manutenção, regulamento e diversificação da biodiversidade local;

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Regulação biológica de processos e funções ecossistêmicas;

Produção de oxigênio;

Influência nos climas locais e no clima global;

Habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras,

índios e agricultores);

Valores espirituais, culturais, religiosos e hereditários;

Inspiração artística;

Fonte de informação educacional e científica;

Turismo e recreação;

Vinculação a rotas migratórias de aves

*Fontes: BARBIER e COX, 2004; DESCH, 2004; IBAMA, 2005; Relatório GT-Carcinicultura da Câmara Federal, 2005; REIS ARAGÃO, 2004; RÖNNBÄCK, 1999; VANNUCCI, 1999; TUPINAMBÁ,

1994.

Apesar de todas essas importantes funções, os manguezais eram comumente considerados, no passado, como “terras baldias” (IBAMA, 2005), chegando-se inclusive a afirmar que deveriam ser transformados em terras “úteis e produtivas”. Dessa forma, os manguezais são atualmente um dos ecossistemas mais devastados, e estão desaparecendo de forma rápida em vários países (BARBIER & COX, 2004), pois foram ao redor do planeta gradativamente ocupados, urbanizados e, mais recentemente, degradados pela utilização para a carcinicultura. Os números assustam. Muitos países da América Latina e da África perderam entre 30% e 70% nos últimos 40 anos. Na Ásia, a Índia perdeu 50% entre 1963 e 1977; as Filipinas perderam 70% entre os anos de 1920 e 1990 (BARBIER & COX, 2004). A indústria pesqueira chegou a perdas anuais de 4,7 milhões de toneladas de peixes e 1,5 milhão de tonelada de camarão, em virtude da degradação dos manguezais (IBAMA, 2005). Assim, faz-se necessário procurarem-se formas de parar as fontes causadoras da degradação, ou de, pelo menos, atenuar seus efeitos, e de recuperar as áreas de manguezais depredadas, sendo imprescindíveis a vontade política e a pressão da sociedade civil para que haja políticas públicas voltadas para as questões sociais e ambientais inseridas nessa problemática.

3. O MANGUEZAL DO RIO COCÓ NO CONTEXTO URBANO O estado do Ceará apresenta atualmente cerca de 182 km² de manguezais, que se estendem ao longo dos seus aproximados 573 km de comprimento de zona costeira (CEARÁ, 2006). É nesse estado, mais precisamente na cidade de Fortaleza, que se encontra o manguezal do Rio Cocó e onde ele atinge o mar, na praia do Caça e Pesca. Formando uma zona estuarina, com terrenos sujeitos a inundação, a influência das marés chega, atualmente, no rio Cocó, até 13 km da foz. “Nesta zona, os bosques de mangue que conseguiram resistir ao desmatamento, ocupam uma área de cerca de 375 ha” (MIRANDA, 1988). Dos aproximados 45 km de curso do rio, 24 km percorrem o município de Fortaleza, onde a poluição torna-se um grande prejuízo à saúde do Cocó. Aí se insere, como forte contribuinte desse problema, a especulação imobiliária, que colabora com o aparecimento de esgotos a céu aberto, a construção de comunidades sem saneamento básico e desmatamento e aterramento do manguezal. Como já dito, a zona estuarina no Rio Cocó vai, atualmente, até cerca de 13 km da foz, sendo essa área a mais utilizada pela população de baixa renda (IBAMA, 2005). O bairro do Lagamar, por exemplo, localiza-se nessa faixa, sofrendo com alagamentos no período de cheias. Esses alagamentos ocorrem pelo aumento da permanência das águas sobre a superfície, consequência da impermeabilização do solo, fruto das edificações, pavimentações de ruas e aterro do manguezal. No documento “Proposta de Proteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó” (CEARÁ, 2003) são apresentados os impactos ambientais identificados por estudo da Superintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE, afirmando que em toda a extensão do rio “o homem tem provocado muitas alterações”, usando os recursos ambientais de forma

A

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irracional. Afirma ainda que, atravessando a Região Metropolitana de Fortaleza, a qualidade da água do rio torna-se crítica em quase todo o trajeto, recebendo diversos tipos de poluentes. Esse estudo evidencia que os principais impactos ambientais associados ao Rio Cocó são:

a) Disposição de resíduos sólidos (lixo doméstico), ressaltando-se a falta de infra-estrutura

dos locais vistoriados – lugares de moradias de baixa renda – e a tendência de agravamento do problema, em virtude do crescimento da população na área; b) Ocupações irregulares por barracos, problema esse que está diretamente ligado ao

anterior, tendo não apenas questões ambientais envolvidas, mas essencialmente profundos problemas sociais, que vão desde o desemprego à falta de moradia;

c) Construções irregulares de alvenaria, que invadem as áreas de preservação permanente

do rio, incluindo-se aí prédios e residências;

d) Lançamento de efluentes, incluindo-se desde efluentes de cemitérios e matadouros, a

efluentes de oficinas, lavagem de carros e troca de óleo.

e) Desmatamento da vegetação de mangue para implantação de equipamentos provados

nas margens do estuário e afetando diretamente a biodiversidade do manguezal;

f) Ocupação de áreas de preservação permanente do mangue e rio por avenidas, centros

comerciais e edifícios residenciais; reduzindo a área de influência do fluxo das marés e, consequentemente, impedindo a ampliação da vegetação de mangue; g) Supressão de áreas úmidas de fundamental importância para as reações ecológicas (habitat de anfíbios, aves de produtoras de nutrientes) e destinadas ao amortecimento das

inundações durante o período de cheias;

h) Impermeabilização de extensos trechos do leito principal do estuário, com a extinção de

áreas de recarga do aquífero, planície de inundação e de riachos afluentes do rio Cocó. Sobre o problema do lançamento de efluentes no rio, relatório de estudo técnico do Ministério Público Federal (2007) afirma:

a implantação de postos de combustíveis, oficinas mecânicas, indústrias e comércios em suas

adjacências, provocam forte pressão, inserindo diferentes tipos de tensores no meio [

implementadas sem as devidas adequações ambientais, já que inibem ou interferem na livre passagem do fluxo de águas

desses sedimentos, pois houve alteração

da fonte primária de energia ou remoção da energia armazenada pelo sistema, bem como implicam no incentivo a outros tipos de agressões, estimulando a deposição direta de lixo e de lançamento de esgotos in natura na área.

e,

foram

] [

],

haja vista que “(

)

(

),

modificam as taxas de sedimentação, acelerando as precipitações (

)”

Em trechos terraplenados, encontram-se extintos os sistemas ambientais destinados a amortecer as enchentes (planície de inundação e de maré, lagoas e riachos), evidenciando-se ações

irregulares na implantação de intervenções que ocupam fundamentais setores do rio para o controle das enchentes – promovendo impactos cumulativos. Posto isso, aumentarão os danos socioambientais relacionados com as áreas de risco vinculadas à bacia hidrográfica do rio Cocó, caso haja instalação e operação de novas edificações em áreas antes destinadas ao fluxo das marés e regularização dos eventos de cheias.

O conjunto de impactos promove desmatamento de vegetação de mangue,

impermeabilização do solo, supressão de unidades do ecossistema manguezal, extinção de setores da planície de inundação, planície de maré e demais áreas úmidas vinculadas ao sistema estuarino, representando intervenções em um sistema ambiental de fundamental importância para a cidade de Fortaleza.

Por tudo o que se mostrou, as funções e serviços ambientais do ecossistema em estudo

foram alteradas e modificadas, gerando consequências que interferiram na biodiversidade e na qualidade de vida dos fortalezenses. A biodiversidade vem sendo paulatinamente ameaçada e reduzida pela expansão da especulação imobiliária, com todos os seus impactos, que avança sobre a floresta e o rio, desrespeitando a legislação vigente e quebrando importantes elos das cadeias existentes no ecossistema, necessários à sua sobrevivência. O rio, aos poucos, morre, sendo poluído pelos efluentes advindos de vários pontos da cidade por todo o trajeto que percorre. Os efeitos para os fortalezenses são, por exemplo, problemas de saúde, perda de espaços de lazer e de memória coletiva, mudanças no microclima, perda de potenciais fontes de renda e produção, além de

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constantes – e cada vez maiores – enchentes, que provocam enormes transtornos à população e grandes perdas financeiras ao poder público. Nisso tudo, importa salientar que quem mais sofre é a população de menor renda, em especial a que vive irregularmente próxima ao rio, tendo perdas incomensuráveis. Por isso, é urgente a realização de políticas públicas transformadoras dessa realidade, através de obras de saneamento básico, de recuperação do ecossistema, de habitação e de fiscalização, além da necessária demarcação das áreas legalmente protegidas.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais, sendo locais de encontro e interação de águas doces dos rios com águas salgadas do mar, formando ambientes bastante característicos. Ressalte-se que apesar das características comuns, cada manguezal é único, com suas próprias relações, interações e espécies de seres. Diversos estudos apontam os ecossistemas manguezais como ricas fontes de produção de material orgânico, fruto das reações químicas e interações ambientais entre os seres vivos lá presentes e o ambiente abiótico, tornando esses ecossistemas muito atrativos, pela grande quantidade de nutrientes, a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Para diversas espécies de peixes e crustáceos, inclusive e especialmente marinhos, esses ecossistemas possuem a função de berçário por servirem de refúgio contra predadores e de local com fartura de alimento. Por isso, cerca de 70% da vida marinha depende dos manguezais, incluindo-se nessa dependência os corais, dos quais, por sua vez, dependem os ecossistemas em questão, existindo, como se percebe, uma interdependência. Além disso, os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Pode-se destacar: proteção contra enchentes; proteção e controle contra erosão; proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos; suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros; local de desenvolvimento e de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara; vinculação a rotas migratórias de aves; armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica; produção de oxigênio; influência nos climas locais e no clima global; habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); fonte de informação educacional e científica; turismo e recreação. Fortaleza vem sofrendo desde a década de 30 um processo de crescimento populacional desordenado, provocando forte pressão sobre o meio ambiente. Insere-se nesse contexto e no apresentado no início desta conclusão, o ecossistema manguezal do Rio Cocó, que apesar da importância para a cidade em que se encontra – Fortaleza – sofre com diversos problemas. Como exemplo, tem-se que antigamente o fluxo das marés conseguia chegar a até 22km da foz; hoje, porém, não passa dos 13km. A especulação imobiliária no entorno do Cocó é grande. Encontrando-se parte dele inserido em área nobre da cidade. Não apenas moradias de luxo fazem parte da paisagem, mas lojas, supermercados, oficinas, postos de combustível, entre outros. Vastas áreas de comunidades pobres cobrem também o entorno do rio, não possuindo o saneamento adequado. Vê-se de um lado a pressão do luxo, onde verde é vendido como jardim particular; de outro a pressão da pobreza, onde o rio toma a função do Poder Público de recolher o lixo da população. Não se pense, porém, que no primeiro caso não se polui. Acontece que lá, procura-se utilizar o rio como tapete, para onde se joga debaixo, furtivamente, os detritos do farto jantar. Para potencializar as funções e serviços ambientais relacionados ao manguezal do rio Cocó, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação; amplo processo de saneamento básico e ações implantação de políticas públicas para ampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados ao manguezal.

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5. REFERÊNCIAS ARAGÃO, A. C. R. A Percepção da Comunidade sobre as Opções de Lazer e de Conservação do Parque Ecológico do Cocó. Monografia (Graduação em Turismo). Fortaleza:

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CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL13

SANTOS, Carmem Lúcia Profª do IFS-SE, Doutoranda do NPGEO/UFS- Brasil carmemls@infonet.com.br COSTA, Boni Guimarães Prof. da SEED, Mestrando em Geografia do NPGEO/UFS- Brasil costaboni@hotmail.com

RESUMO A carcinicultura, assim como qualquer outra atividade produtiva demanda o consumo de recursos naturais e pode afetar adversamente o meio ambiente. Na região litorânea de Sergipe em meados de 1998, iniciou-se o cultivo de camarão marinho com a espécie lipopenaeus Vannamei adotando-se o sistema semi-intensivo. Neste contexto, este trabalho, baseado em fontes bibliográficas e documentais, busca discutir o processo de transformação nos espaços no litoral sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se intensificam com mudanças na produção e organização espacial. O presente estudo consiste em uma sistematização descritiva dos dados preliminares da pesquisa e fornece uma idéia da evolução e da organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Com base em estudos da Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe - CODISE o número de empreendimentos de carcinicultura em Sergipe cresceu entre 2004 e 2006 nas várias bacias hidrográficas do Estado. A atividade da carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para uma redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal. PALAVRAS-CHAVE: Carcinicultura, povoamento, corredor produtivo, espaço agroambiental e meio ambiente.

ABSTRACT

Shrimp farming, like any other productive activity demands the use of natural resources and can adversely affect the environment. In the coastal region of Sergipe in mid-1998, began the cultivation of marine shrimp species with lipopenaeus Vannamei adopting the semi-intensive system. In this context, this paper, based on bibliographic and documentary discusses the process of transforming the spaces in the Sergipe coast from the territory configuration of shrimp farming, where social relations are intensified with changes in production and spatial organization. This study consists of a systematic descriptive of the research and provides an idea of the evolution and organization of space-environment coastal Sergipe, introduces some aspects of the forms of organization of productive runner, especially shrimp. According to the Industrial Development Corporation and Mineral Resources of Sergipe - CODISE the number of projects in Sergipe shrimp grew between 2004 and 2006 in various watersheds. The activity of shrimp farming in coastal Sergipe contributed to a reduction and disappearance of habitats for many species, the deforestation of large areas of marsh causing direct interference in the production and distribution of nutrients to the estuary and continental shelf; extinguishing sectors of reproduction and food shellfish, birds and fish and reduction of biodiversity along the river basin. This leads to the expulsion of seafood, fishermen and crab

parte da avaliação final da disciplina “Dinâmica Ambiental e Agricultura” ministrada pela

Profª Drª. Rosemeri Melo e Souza do Programa de Pós-Graduação em Geografia – NPGEO/UFS, no 2º semestre de

2009.

13 Texto apresentado faz

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collectors of their work areas, or become obstacles to their access to productive areas of the area, estuaries and mangroves with the privatization of the land traditionally used for extraction plant and animal. KEYWORDS: Shrimp farming, settlement, running productive, space-environment and environment.

INTRODUÇÃO A globalização da problemática ambiental apresentou sérias conseqüências ao sistema mundo e acentuou-se, sobretudo, com as ações do capital com seus modelos desenvolvimentistas, sobre os ambientes naturais, desconsiderando a questão da sustentabilidade socioambiental. Isto pode ser visto pelo pouco envolvimento da sociedade em relação a elaboração de estratégias de proteção dos recursos naturais. Ross (2006, p. 64), nos lembra que a produção do espaço atual no território brasileiro é o resultado da combinação convergente de um conjunto de fatores naturais, técnico-científicos e político-econômicos que se associam aos diferentes momentos da história econômica brasileira, em que programas, projetos e planos dos governos federal e estaduais voltaram-se para uma política de planejamento que visa ao desenvolvimento econômico, sem preocupação maior com o social e o ambiental. Neste sentido, uma problemática que não pode deixar de ser considerada, é a realidade na qual se encontra a zona costeira brasileira. Ela é uma região associada a importantes momentos históricos e palco de grandes intervenções ao longo do tempo. Enquadra-se, portanto, num cenário desafiador e influenciador de re-configurações territoriais. Deniz (1981) classifica zona costeira a partir do termo litoraneidade, entendido como um conjunto de condições econômicas e ambientais submetidos ao processo histórico. O autor aponta três elementos como critérios de definição da litoraneidade: o povoamento antigo, clima quente e úmido e solos pobres e relevo suave. Para Diniz, o fato de estar junto ao mar dá fisionomia própria ao litoral e explica uma série de fatos ligados à ocupação do espaço. Não que o importante seja o mar propriamente dito, mas um conjunto de características associadas a essa posição, quer seja de relevo e solo, quer seja de clima, de povoamento ou de atividade econômica (DINIZ, 1981). Vasconcelos (2005) destaca que a ocupação humana de forma desordenada gerou rompimentos no equilíbrio dinâmico e sérios impactos negativos no ambiente costeiro brasileiro. Essa zona vem sendo objeto de acelerado processo de ocupação com sérios reflexos na produção do espaço geográfico e nas re-configurações dos territórios. Os reflexos dessa situação podem ser percebidos no litoral Sergipano que sofre do mesmo tipo de intervenções e transformações ocorridas no litoral brasileiro, com uma relativa concentração de atividades econômicas, indústriais, serviços, atividades primárias, concentração populacional significativa em função de importantes municípios costeiros e também sistemas naturais protegidos. Entretanto, não é difícil identificar na zona litorânea sergipana sistemas ambientais naturais transformados pelas práticas econômicas, em projetos de carciniculturas 14 e construções de viveiros nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos. Nesta zona se definem quadros problemáticos do ponto de vista da gestão ambiental, demandando ações de caráter corretivo, com a mediação dos múltiplos conflitos de uso. Diante deste cenário, busca-se discutir o processo de transformação nos espaços no litoral sergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais se intensificam com mudanças na produção e organização espacial. A realização do estudo considerou trabalhos científicos, dissertações de mestrados, teses de doutorado e relatórios de estudos de planejamento dos órgãos estaduais. Apesar deste trabalho consistir, ainda, em uma sistematização descritiva dos dados preliminares obtidos na pesquisa ele fornece uma idéia da evolução e da organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectos relativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Para melhor entendimento dos termos espaços agroambiental e corredor produtivo costeiro norte-sul, o trabalho teve como base as observações tecidas por Ross (2006) que: a partir da leitura

14 A carcinicultura é uma atividade que estabelece relações diretas com o ecossistema, podendo alterar sua dinâmica e funções ecológicas caso a atividade não seja conduzida respeitando os princípios de sustentabilidade ambiental.

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do processo histórico de ocupação do território brasileiro, discutiu a classificação das unidades geomorfológicas do país relacionadas com a vegetação e os sistemas naturais vegetais, sob a perspectiva do grau de alteração pelo homem, quando se transformam em espaços de atuação econômica: tanto em agropecuário quanto em extrativista. Nesse transcurso teórico foi possível identificar que existem vastas áreas pouco produtivas, com agricultura e pecuária no geral decadentes, combinadas com ambientes naturais degradados, ao lado de grandes espaços ainda pouco ocupados e também pouco produtivos, que se apresentam em condições ambientais ainda bastante preservados. Neste estudo, considerou-se o que foi determinado pela Política Nacional de Gerenciamento Costeiro do Ministério do Meio Ambiente quanto à classificação adotada pelos estudos para elaboração do Gerenciamento Costeiro em Sergipe. A zona costeira estadual encontra- se subdividida em três setores: i) Litoral Norte – 17 municípios: Barra dos Coqueiros, Neópolis, Nossa Senhora do Socorro, Laranjeiras, Riachuelo, Maruim, Santo Amaro das Brotas, Rosário do Catete, General Maynard, Carmopólis, Pirambu, Japaratuba, Pacatuba, Brejo Grande, Ilha das Flores; ii) Litoral Centro – Aracaju, e iii) Litoral Sul – 5 municípios: São Cristóvão, Itaporanga D’Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhi e Indiaroba.

1.1 Algumas Considerações sobre a Ocupação do Espaço Agroambiental do Litoral Sergipano A estrutura do espaço agroambiental sergipano é resultado de um longo processo, cujo ponto inicial pode ser fixado na formação do espaço colonial brasileiro. Aí a exploração açucareira representou seu grande instrumento de ocupação, sendo precedida pela pecuária extensiva, com o intuito de promover cada vez mais o alargamento de suas fronteiras agrícolas e como não haviam de deixar de ser, econômicos. Foi o cultivo da cana-de-açúcar, inicialmente no litoral da Capitania de São Vicente, hoje litoral paulista, e pouco mais tarde no litoral de Pernambuco e Bahia, que começa de fato o processo de ocupação do território, se estabelecendo uma incipiente transformação dos ambientes naturais em áreas cultivadas( ROSS, 2006, p. 99). No processo de formação do território sergipano a pecuária é uma dessas atividades em comum em todo o Estado, que não deve ser esquecida, inclusive pela forte influência que exerceu nos municípios litorâneos como um todo. Porém, é somente nos anos de 1970 e principalmente nos anos de 1980, que se comprova nitidamente a pecuarização. Os dados de mudanças nas formas de utilização da terra e na orientação da agricultura deixam evidente o predomínio das pastagens, mormente as plantadas, e do rebanho bovino (VILAR e VIEIRA, 2004). No final do século passado, o cultivo de arroz já se fazia presente no litoral sergipano, sobretudo nas áreas próximas ao atual município de Brejo Grande. Entretanto, o referido cultivo não tinha, naquela época a mesma importância da cana-de-açúcar e do sal, de exportação. Porém, para aumentar a dinamização econômica entre os estuários, foram construídos canais de conexão fluvial, permitindo a interligação das bacias hidrográficas dos rios Japaratuba e Sergipe, através da construção do Canal do Pomonga, e entre as bacias hidrográficas do Rio Sergipe e do Vaza-Barriz por intermédio do Canal de Santa Maria que facilitava a comunicação entre as áreas nucleares do espaço litorâneo sergipano. O litoral sergipano apresenta-se devastado na sua cobertura vegetal primitiva. De acordo com Santos e Andrade (1992), exemplo marcante é notado nos municípios de Pirambu e Pacatuba ao observar uma forte transição da floresta costeira “tanto para a mata de restinga, quando se encaminha para o litoral, quanto para o cerrado e mata não espinhosa, quando se dirige para o interior”. É possível afirmar, então, a substituição, sobretudo, nas áreas mais devastadas, dessa cobertura por cultivos perenes (exemplos do coco-da-baía e da manga) e temporários (cana-de- açúcar e mandioca), e ainda pelas pastagens e do rebanho bovino, caracterizando um nítido processo de pecuarização. Essas paisagens podem ser entendidas então, como um dos elementos fundamentais para o entendimento das organizações e relações espaciais. Levando em consideração a perspectiva humana pode ser evidenciada a partir dos estudos do geógrafo francês Georges Bertrand (2004, p.

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a paisagem não é a simples adição de elementos geográficos

disparados. É uma determinada porção do espaço, resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução. Fontes (1990), por exemplo, afirma que a parcela considerável dos mangues vem sendo devastada, ocorrendo sua ocupação, principalmente, por salinas, viveiros e canais artificiais, alterando profundamente a circulação da água, modificando os ciclos das marés e consequentemente reduzindo o ingresso de nutrientes. O aterro resulta, geralmente, da execução de obras de engenharia (aterro para construção de obras de engenharia (aterro para construção de leito de rodovias), que se interpõem isolando áreas de mangue. Caracteriza-se pela ação definitiva e irreversível na alteração do manguezal suprimindo completamente a fauna e a flora. Atualmente, ao longo de toda zona litorânea pode-se observar a presença da rodovia estadual (SE-100 e SE-318) que tem como meta interligar grande parte do litoral, os estados da Bahia, Sergipe e Alagoas, com recursos provenientes do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste - PRODETUR. Amplia-se assim de forma significativa o fluxo de ocupação e servindo de eixo estruturador do espaço.

141) onde ele nos apresenta que: [

]

A CARCINICULTURA COMO ATIVIDADE DO CORREDOR PRODUTIVO

COSTEIRO NORTE-SUL Entendemos a organização espacial como sendo o conjunto de objetos ou formas espaciais efetivadas no processo histórico, através da atuação humana. Neste contexto são construídos campos de cultivos, pontes, rodovias, que facilitam os fluxos geográficos no litoral. “O conjunto de todas essas formas configura a organização espacial da sociedade. A organização espacial é a segunda natureza, ou seja, a natureza primitiva transformada pelo trabalho social” (CORRÊA, 2003b, p.54). Com Ross, (2006), obtivemos a compreensão de que existem dois macrocorredores de maior produção e produtividade agropecuária no Brasil, que se estendem na direção norte-sul, sendo um na parte central e o outro na zona costeira do país. Dentro desta zona encontra-se o litoral do Nordeste que apresenta grande dinâmica econômica onde a carcinicultura vem se instalando. No Brasil, a prática da carcinicultura foi iniciada em 1970 e se firmou como uma atividade industrial em 1980 a partir de articulação entre instituições de pesquisas regionais, governo e iniciativa privada no sentido do planejamento e da implantação de tecnologias tais como:

engenharia de projetos, insumos, equipamentos, biotecnologia entre outros. O investimento nesse setor no Brasil, especialmente na Região Nordeste, ampliou-se nos últimos dez anos devido às características edafoclimáticas, topográficas e hidrobiológicas que beneficiam o cultivo do camarão durante todo o ano permitindo realizar três ciclos anuais de produção, aos investimentos realizados em infra-estrutura da Região; e em razão de uma queda na produção dos países com grande participação no mercado mundial (FIGUEIREDO, GONDIM,

2003).

A viabilidade do cultivo comercial do camarão foi obtida com a aclimatação da espécie Litopenaeus vannamei que é originária da costa do Pacífico e teve uma excelente adaptação às condições tropicais de clima, solo e água principalmente as encontradas no litoral Nordeste. Por

isso, a região Nordeste detém a maior concentração de área produtiva e responde por quase a totalidade da produção nacional, especialmente, nos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia

e Pernambuco (ABCC, 2002).

Forjado (2008, p.48) nos evidencia que, as dinâmicas econômicas “modificam as paisagens (criando e recriando)”, produzindo, novas configurações territoriais.

Um subsídio teórico-conceitual de Raffestin, acerca da compreensão de espaço e território

é evidenciado nesse trabalho. Ele afirma que é essencial compreender bem que o espaço é anterior

ao território. O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por um

O território nessa

ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível [

perspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por

]

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conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original, o território é a

O espaço é, portanto anterior, preexistente a qualquer

ação. O espaço é de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria prima (RAFFESTIN, 1980). Seguindo o raciocínio de Raffestin, o ser humano constrói territórios a partir de interesses capitalistas e a carcinicultura é um exemplo, se constituindo em um segmento produtivo da aqüicultura15, derivada do processo de desenvolvimento tecnológico, associado ao crescimento da demanda mundial por tais produtos. Como resposta às exigências da modernização socioeconômica, a atividade além de utilizar recursos naturais progressivamente, proporciona agressões aos limites de tolerância dos ecossistemas, reprimindo e eliminando espécies de natureza viva, reduzindo, portanto, a biodiversidade (ALTVATER, 1995). Os problemas ambientais gerados pela criação de camarão em cativeiro são frequentemente relatados. Tahim (2004), por exemplo, aponta o desmatamento de mangues, lançamento de efluentes nos cursos d’água (causando mudanças das características físico-químicas das águas), bem como o uso de produtos químicos, erosão, inundações, alterações no regime hidrológico de rios gerando problemas socioeconômicos para as comunidades locais. Esse autor alerta que a implantação de viveiros de camarão é realizada em áreas que eram utilizadas para a pesca, mariscagem, uso de produtos da flora do mangue por parte das comunidades ribeirinhas. Porém, no lugar destas atividades a carcinicultura se introduziu, demarcando seu território impedindo o acesso dessas comunidades, já que são áreas disponíveis para o extrativismo, causando o que podemos chamar de privatização das terras da União. Os aspectos legais e sócio- culturais estão relacionados, por exemplo, ao uso de águas públicas, conflitos locais, entre outros fatores (ALTVATER, 1995). Os grandes projetos de carcinicultura marinha localizados nos estuários apresentam conflitos com o mangue, degradando–o através de supressão de sua vegetação para instalação/ampliação de viveiros ou para implantação de vias de acesso. O lançamento de fluentes e resíduos em seus corpos de água compromete em médio prazo a função desses ecossistemas (CPRH, 2003) e também o lançamento de resíduos da larvicultura no manguezal e corte de mangue para instalação de viveiros de camarão (CPRH, 2003). Saquet (2007) aborda a formação do território como fruto de relações econômicas, políticas e culturais efetivadas por um grupo social. Cotidianamente, são estabelecidas inúmeras relações/ ligações/conexões, que formam o que se chama de redes geográficas. A precarização socioespacial dominante na sociedade capitalista dá forma àquilo que se denominam aglomerados humanos de exclusão, exemplo mais estrito de des-territorialização, considerado por HAESBAERT (2006, p. 67) como “um processo de exclusão social, ou melhor, de exclusão socioespacial”.

prisão que os homens constroem para si [

]

3.ESPAÇOS PRODUTIVOS DO LITORAL SERGIPANO: A CARCINICULTURA O litoral de Sergipe tem uma extensão, de aproximadamente 163 km e ocupa uma superfície de 5.453 km 2 , composto de 23 municípios, classificados como costeiros, litorâneos ou estuarinos, distribuídos, e delimitados pelos critérios do GERCO - Programa Nacional de Gerenciamento Costeiro, fortemente marcado pela presença da planície Litorânea que recebe influência direta dos estuários dos rios: São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Piauí – Real.

Além disso, comporta variadas paisagens, assentadas sobre a formação de vastas áreas estuarinas e manguezais cujo potencial animal é constituído, basicamente, da fauna típica desses ambientes, onde se podem destacar crustáceos, moluscos, aves. Associado à vegetação, ao solo e as características hídricas dos estuários, a fauna típica é bastante diversificada, representada por várias espécies de crustáceos, moluscos, cuja captura desempenha importante papel na

15 Aqüicultura é uma atividade multidisciplinar, que constitui no “cultivo de organismo aquático incluindo peixes, moluscos, crustáceos e plantas aquáticas” (FAO, 1998). O cultivo implica em intervenção humana no processo de criação para aumentar a produção, tal como regulação dos estoques, alimentação, proteção de predadores, entre outros. Considerando, também, o potencial dos impactos econômicos com o crescimento da aqüicultura e a geração de emprego e renda.

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sobrevivência das populações locais. Além da pesca artesanal outra forma de utilização desse espaço é a instalação de viveiros para a prática de aqüicultura. Segundo Carvalho (2004) a ocupação com os carcinicultores e seus sistemas de produção, semi-intensivo, de natureza comercial do camarão marinho em Sergipe tiveram início em meados de 1998, com a espécie cultivada lipopenaeus Vannamei e o sistema de cultivo semi- intensivo. Este sistema conta com suporte de fertilizantes e/ou nutrientes externos. A espécie cultivada depende de consumo de organismos vivos, presentes no viveiro, e de suplementos alimentares. Conforme estudos desenvolvidos16, em 2004 havia 60 empreendimentos em produção com área total de 636,87 hectares, distribuídos em cinco bacias hidrográficas (figura 1), destacando- se, em número, a do rio Sergipe, com 21 unidades produtoras e, em área, a do São Francisco com 262,07 ha em produção. Com relação ao tamanho das unidades produtivas, 78,33% eram de pequeno porte, 16,33% possuíam porte médio e apenas 5% são de grande porte.

N SERGIPE O L MUNICÍPIOS QUE CULTIVAM S CAMARÃO MARINHO 2006 ALAGOAS 8892061 BAHIA BREJO
N
SERGIPE
O L
MUNICÍPIOS QUE CULTIVAM
S
CAMARÃO MARINHO
2006
ALAGOAS
8892061
BAHIA
BREJO GRANDE
8834276
PACATUBA
3,41
10,73
PIRAMBU
0,49
SANTO AMARO
DAS BROTAS
1,95
N. Sra. DO SOCORRO
BARRA DOS COQUEIROS
47,81
3,41
SÃO CRISTÓVÃO
11,71
ARACAJU
6,83
0,49
8776491
BACIAS HIDROGRÁFICAS
ITAPORANGA
D'AJUDA
ESTÂNCIA
4,88
RIO SÃO FRANCISCO
RIO JAPARATUBA
RIO SERGIPE
RIO VAZA-BARRIS
RIO PIAUÍ
RIO REAL
CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS
SANTA LUZIA DO ITANHY
LIMITE MUNICIPAL
BAHIA
3,90
MUNICÍPIOS COM
EMPREENDIMENTOS
REDE HIDROGRÁFICA
INDIAROBA
4,39
PERCENTUAL DE
0,49
EMPREENDIMENTOS
0
12
24 Km
Fonte: Atlas Digital - SRH, 2004.
Organização: Marcelo Alves dos Santos, 2010.
O C E A N O
A T L Â N T I C O
649955
718758

Figura 1: Empreendimentos de maricultura por bacias hidrográficas, 2006.

De acordo com a CODISE (2004), no estuário do Rio São Francisco existiam 17 estabelecimentos de produção de camarão cultivado, dos quais 14 localizam-se no município de Pacatuba, totalizando 259,77 ha produtivos, e 3 em Brejo Grande, com um total de 9,5ha. Estes empreendimentos correspondem à maior área produtiva do estado, totalizando 41,20% da área em produção. O estuário do rio Sergipe era o segundo maior em área produtiva de camarão cultivado ocupando 25,60% dos hectares produtivos. Dos 21 empreendimentos de carcinicultura, 10 estão localizados no município de Nossa Senhora do Socorro, 8 na Barra dos Coqueiros, 2 em Santo Amaro das Brotas e 1 em Aracaju. O município com maior área em produção é Nossa Senhora do Socorro, com 125,5ha. Com relação ao estuário do Rio Vaza Barris havia sete empreendimentos localizados em Itaporanga d’Ajuda, somando 37 hectares de produção, enquanto São Cristóvão apresentava apenas uma fazenda, que, no entanto, possui 70 ha em produção. Este estuário ocupava a terceira posição em termos de área produtiva no estado, com 16,80%. No estuário do rio Piauí existiam nove unidades produtivas de camarão cultivado, ocupando a quarta colocação em área produtiva do estado, com 8,25% hectares de espelho d’água em produção. Dos 52,70 ha em produção, 34,5 ha estão localizados no município de Estância e 18,2

16 Refiro-me os resultados da dissertação de Márcia Eliane Silva Carvalho, “A Carcinicultura na Zona Costeira do Estado de Sergipe”, defendida no NPGEO/UFS, em 2004.

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ha em Santa Luzia do Itanhy. Indiaroba é o único município sergipano localizado na bacia do Rio Real concentrando cinco empreendimentos, com 52 ha em produção, o que equivale a 8,15% da produção no estado. Com base nos dados da CODISE, em 2006 existiam 205 estabelecimentos distribuídos em 978 ha voltados para o cultivo do camarão marinho na planície litorânea sergipana com a maior incidência no estuário no rio Sergipe. Os municípios de Nossa Senhora do Socorro, São Cristovão e Pacatuba, totalizam mais de 70% do total de empreendimentos (CODISE, 2007). Percebe-se um crescimento do número de empreendimentos e a área de produção nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos na zona litorânea sergipana. A disponibilidade de área com essa destinação, segundo Fonseca et.al.(2008), 56,09% dos empreendimentos, instalados em estruturas pré-existentes, eram salinas ou viveiros de maré.

4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A MAIS A implantação da carcinicultura no litoral Sergipano constitui um espaço modificado a partir da relação do homem com a natureza configurando relações sociais por conta de novos

fatores territoriais onde tais relações se intensificam com mudanças na produção e organização da sociedade. Partindo deste pressuposto Milton Santos esclarece que, “a paisagem é um conjunto de formas, que num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações

Santos (2002, p. 103 apud CASTRO, s.d, s.p.). Essa

conceitualização evidencia que a partir de algumas atividades socioeconômicas (carcinicultura) nos permite entender os processos que produzem as paisagens. Com relação ao meio ambiente, a carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para uma

redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão de marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-se obstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com a privatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal.

localizadas entre homem e natureza [

]”

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CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Ana Gizelle da SILVA Mestranda em Geografia da UFG – Catalão/GO anagizelles@yahoo.com.br José A. Lima DOURADO Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO josephdourado@yahoo.com.br Klayton Marcelino de PAULA Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO klaytonmarcelino@yahoo.com.br Paulo Henrique Kingma ORLANDO Professor Dr. UFG – Catalão/GO phorlando@yahoo.com.br

RESUMO Ante aos desequilíbrios ambientais causados pelas atividades da sociedade e pela necessidade de mudar os paradigmas atuais regularizados primordialmente pelo crescimento econômico, a Educação Ambiental (EA) se apresenta como um instrumento de fundamental importância, visto que, somente uma sociedade esclarecida e consciente das limitações dos recursos naturais territorializados, poderá garantir a existência e o bem estar das atuais e futuras gerações, através de outro tipo de organização societária. A EA é uma prática educativa que surgiu em virtude da preocupação humana com a qualidade de vida, no entanto, seu contexto é muito amplo e abrangem aspectos que não se dissociam da natureza, estando interligados aos aspectos sociais, econômicos, políticos, éticos e culturais. Esse artigo faz uma análise das crises contemporâneas pela ótica crítica da EA dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, e que conduz a sociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial. PALAVRAS-CHAVE: Crise do Capital. Crise Ambiental. Educação. Educação Ambiental.

ABSTRACT With the environmental imbalance caused by the activities of society and for necessity to change the present paradigms settled primarily by economic growth, environmental education (ee) is presented as an instrument of fundamental importance, since only a company informed and aware of the limitations of territorial resources, can guarantee the existence and well being of present and future generations, through another type of corporate organization, ee is an educational practice that arose as a result of human concern for quality of life, however, its context is very huge and cover issues which do not dissociate from nature and are linked to social, economic, political, ethical and cultural aspects. This article is an analysis of contemporary crisis through the eyes of ee dialogi cal critical and emancipatory, which values all knowledge, and leading the company to a larger political role in support of a new position with the issues created by the land occupation. KEYWORDS: Crisis in the capital. Environmental crisis. Education. Environmental education.

INTRODUÇÃO O fim da primeira década do séc. XXI está sendo marcado por calorosos debates relacionados à crise ambiental, à crise do capital, à crise social, ou ainda, à crise da sociedade contemporânea. A crise ambiental não se dissocia da social, tendo em vista que o termo socioambiental é redundante, sendo comprovado pelo hibridismo homem/natureza, tão evidenciado por Latour (1994) em Jamais Fomos Modernos. Então podemos afirmar que nos resta uma única

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opção de crise que para efeito de análise pode ser discutida em seus dois focos: ambiental e do capital.

Partimos do princípio que os adjetivos que dão conotação às crises são extremamente amplos, imbricados de indagações e pormenorizados em detalhes, fazendo com que a Geografia saia na frente nesse embate teórico, por ter o privilégio de trabalhar a apropriação e uso da natureza pela sociedade. Soma-se a essa questão o uso do território dentro de uma formação sócio-espacial, pautado na lógica de máximo aproveitamento dos recursos naturais transformados em mercadorias. Nesse cenário a Educação Ambiental (EA) dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, torna-se um meio importante de conduzir a sociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial, num projeto de educação que baseado na ação possível do agora, promova mudanças individuais e coletivas mais precisas.

A educação aqui é tratada como um processo que deve ser explorado e efetivado, pois, a consideramos um mecanismo capaz de criar uma auto-reflexão no indivíduo, uma utopia no sentido de desejo de um mundo melhor e uma peça chave de sensibilização que leva ao desencadear da autoconscientização, portanto, a educação por si só e sem adjetivos exerce um papel primordial na melhoria da qualidade de vida. O problema passa a ser então como oferecer uma educação de qualidade e de cunho crítico? Como fazer cumprir as várias Leis existentes que organizam e programam o processo de efetivação específico da EA no ensino formal? Como desburocratizar o sistema e aproximar o educador do educando? Como facilitar o acesso do educador as fontes de informações necessárias a um bom trabalho? Nas várias concepções teórico-metodológicas sobre esse assunto existe um consenso: a relevância da educação de qualidade em todos os níveis, com caráter global e holístico. É preciso ir além das disciplinas “engavetadas”. Nesse sentido é preciso também ambientalizar a educação através do estudo efetivo das questões ambientais e do entendimento do homem como natureza. É dever dos pesquisadores acadêmicos a árdua tarefa de inserir no debate das Universidades a questão da formação dos professores como um todo, numa visão geral da educação formal, incitada pela nova ordem econômica e socioambiental com suas incoerências e deficiências. Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental na visão de Enrrique Leff Começaremos o diálogo com o doutor em Economia do Desenvolvimento Enrique Leff que se orienta fundamentalmente no sentido da análise de processos de articulação das ciências naturais e sociais. Ele tece suas discussões formulando uma teoria baseada na Racionalidade Ambiental (é preciso construir um saber diferenciado da razão produtivista dominante na economia e na própria ciência). Para esse autor o Saber Ambiental poderia ajudar a compreender a dinâmica ambiental lançando mão de outros saberes que não sejam só o científico. Leff (2000, p. 41) diz o seguinte: A crise Ambiental não só se manifesta na destruição do meio físico e biológico, mas também na degradação da qualidade de vida, tanto no âmbito rural como no urbano. Mais uma vez fica nítido o hibridismo homem/ meio, onde não existe prejuízo a um que não seja também do outro. Leff na mesma obra (p. 45) fala que toda a produção de valores de uso implica um processo social de transformação da matéria e da energia acumuladas no planeta. Ratificando a idéia de que a crise do capital leva a crise ambiental e que a crise ambiental promove a crise do capital, Leff escreveu:

Com a conformação do Modo de Produção Capitalista, as tendências dos processos ecológicos e culturais articulam-se, são assimiladas ou transformadas pela sobre-determinação que lhes impõe a racionalidade econômica de uso dos recursos. (LEFF, 2000, p. 107). Percebemos então, que tudo passa pelo patamar econômico, e que se não “doesse no bolso” a crise ambiental não seria tão relevante para a sociedade capitalista. Sobre esta questão o mesmo autor diz o seguinte: A expansão internacional da Economia induziu processos de destruição ecológica e étnica, pelo fato de a Natureza e a Cultura não terem valores contabilizáveis dentro da racionalidade econômica prevalecente. (Leff, 2000, p. 124). Esses valores se diferenciam dos

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valores dos bens produzidos, todavia, com a escassez generalizada dos “bens” naturais, existe uma tendência a valorização financeira dos mesmos, a exemplo da água e do petróleo.

A crise ambiental é uma crise do conhecimento: da dissociação entre o ser e o ente à lógica

autocentrada da ciência e ao processo de racionalização da modernidade guiado pelos imperativos

O saber ambiental vai derrubando certezas e

abrindo os raciocínios fechados que expulsam o ambiente dos círculos concêntricos do conhecimento. (LEFF, 2007, p. 13). Leff ainda afirma que a epistemologia ambiental funda-se a partir de um novo saber que emerge do limite do real (entropia), do projeto de unificação forçada do ser e da epopéia da ciência pela objetividade e transparência do mundo (2007 p. 15). Assim, problematiza e questiona os paradigmas existentes, entre eles o positivismo e propõe uma nova abordagem, onde nas entrelinhas se lê Educação Ambiental, ou seja, um projeto para pensar as condições teóricas e para

estabelecer métodos que orientem as práticas interdisciplinares. Fechando a linha de pensamento de Leff, vale citar o que ele disse no livro Saber Ambiental (2008, p. 15) A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Na atualidade, o discurso começou a mudar e a sustentabilidade busca reconciliar os contrários da dialética do desenvolvimento: o Meio Ambiente e o Crescimento Econômico. E o que se procura hoje é ecologizar a economia.

A problemática ambiental converteu-se numa questão eminentemente política. Os conflitos

socioambientais emergem de princípios éticos, direitos culturais e lutas pela apropriação da natureza que vão além da internalização dos custos ecológicos para assegurar um crescimento sustentado. (LEFF, 2008, P. 45). Eis aqui o grande desafio da sociedade, ou melhor, o grande desafio da classe trabalhadora que sustenta os modelos vigentes e que no “frigir dos ovos” é a maior prejudicada com os problemas socioambientais. Tal desafio ainda é maior por perpassar pela falta de ética generalizada do atual padrão político e econômico. As novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística Para dar inicio ao debate sobre mudanças escolhemos Frijot Capra. Destacamos que esse autor em sua obra O Tao da Física “desafiou a sabedoria convencional ao demonstrar os surpreendentes paralelos existentes entre as mais antigas tradições místicas e as descobertas da Física, no séc. XX”. Em O Ponto de Mutação (1982) Capra criticou o pensamento cartesiano e colocou a Física Moderna como responsável por uma revolução e transformação em todas as ciências, o que levou a nova visão de mundo e de valores.

A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituições

sociais; é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, como civilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo. (CAPRA, 1982, P. 30).

da racionalidade econômica e instrumental (

).

Nessa concepção, baseado na Física Quântica, o autor aumenta as margens da crise, tornando-a com uma dimensão incalculável. Capra diz que o pensamento racional é linear, ao passo que a consciência ecológica decorre de uma intuição de sistemas não-lineares. Desta forma, afirma (1982, p. 39) que nosso progresso, portanto, foi uma questão predominantemente racional e intelectual, e essa evolução unilateral atingiu agora um estágio alarmante, uma situação tão paradoxal que beira a insanidade. Dando seqüência ao debate citaremos as idéias de Edgard Morin que trata do Paradigma da Complexidade, partindo também de uma abordagem sistêmica. Esse autor acredita na necessidade de discutir a base da consciência humana como um ser que possui diversas identidades: Cósmica, terrena/biológica, cultural e pessoal. Nesse sentido. Os modelos explicativos fazem parte do cotidiano dos estudos do meio físico. A complexidade das relações, dos lugares e dos sistemas leva a necessidade de discussão.

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Seria preciso ensinar princípios de estratégias que permitam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a um arquipélago de certezas. (MORIN, 2004, p.16).

Pensando nisso, as noções de mundo e relações seriam ampliadas, ressaltando que o homem como indivíduo (identidade pessoal) é predominante na sociedade contemporânea. Sobre esse assunto escreveu Morin (2002, p. 63) A Terra não é a adição de um planeta físico, mais a biosfera, mais a humanidade. É uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, em que a vida é uma emergência da história da Terra. Esse autor (2002, p.46) também contribui para a justificativa da EA quando diz que nossa educação ensinou separar, compartimentar, isolar, e não ligar os conhecimentos. Nos faz conceber nossa humanidade de forma insular. Assim, podemos afirmar que o momento agora é de unir, aglutinar, ligar os conhecimentos, já que o desvelar da história nos mostrou que não existem ilhas para o saber e não é o sistema cartesiano o caminho das pedras.

Chegou o tempo do neoliberalismo, onde a concorrência passou a ser natural, ou talvez, um mal necessário. Existe competição em tudo: Blocos Econômicos, Países, Multinacionais, Pequenas Empresas, Trabalhadores e em vários outros setores. Para (Gonçalves, 2006, p. 51) o período atual da globalização neoliberal, difere dos períodos que o antecede pela especificidade do desafio ambiental.

O motor do mundo globalizado é a competitividade. E para que esse motor não pare de

funcionar, é alimentado pela “corrida” tecnológica. Chegar em primeiro lugar significa teoricamente ter a maior economia. Assim, trava uma incessante e “burra” disputa econômica em todas as escalas. “O Ter substituiu o Ser”. A razão “Cartesiana” questionada ou não, ainda permanece nas entrelinhas das relações sociais e da construção de conhecimento. No entender de Gonçalves (2006, p. 113) o mercado se mostrou hábil para encontrar mecanismos de remunerar os investimentos de acordo com seus riscos potenciais, o mesmo não se dá com relação aos riscos ambientais. O processo de globalização traz em si mesmo a globalização da exploração da natureza com proveitos e rejeitos distribuídos desigualmente. O estrago ambiental já foi feito. O lucro obtido com esse estrago não foi dividido entre os povos do planeta. Contrastam no mundo nações ricas com sociedade altamente consumista com nações pobres com a maioria da população de miseráveis famintos. O crescimento econômico

e tecnológico de algumas nações e o uso indiscriminado dos recursos naturais não foi acompanhado pelo desenvolvimento social.

A Educação Ambiental no contexto da Crise

Em decorrência do desenvolvimento tecnológico, da produção em larga escala e do consumismo, o meio ambiente tem passado por intensas transformações, induzidas pelo próprio homem. A primeira década do século XXI está sendo marcada por um debate mundial acerca das questões ambientais, o que fez difundir a idéia da finitude dos recursos naturais e das sutilezas do mecanismo natural do planeta. Juntamente com o crescimento das discussões sobre a problemática ambiental, cresce também, a preocupação coletiva com o futuro comum da humanidade, criando assim, a necessidade de frear o processo de destruição. É viabilizada então a Educação Ambiental como uma das propostas para alcançar uma nova relação da sociedade com o meio ambiente. Importante sublinhar que quando falamos EA, estamos falando de educação como protagonista de libertação da sociedade nos moldes de Paulo Freire e, portanto, sem a mitificação de que o indivíduo é o culpado por tudo, pela sua falta de ética e pelo seu consumismo. Só se consome porque se produz. Além das salas de aula e das nossas casas, existem um complexo sistema chamado capitalismo e uma estrutura política que maximizam os problemas ambientais. Assim, a EA é necessária tanto quanto a educação, no desvelar de uma sociedade mais consciente e critica. As necessidades humanas são atendidas com os recursos da natureza. Natureza complexa, impossível de ser estudada em todas as suas especificidades por apenas uma ciência, o que leva profissionais de todas as áreas a trabalharem juntos, tornando a Educação Ambiental um

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tema transversal, como é tratada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Sobre essa questão Guimarães disse:

A Educação Ambiental apresenta uma nova dimensão a ser incorporada ao processo

educacional, trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentes transformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída. (GUIMARÃES, 2005, p. 9). Essa discussão não está somente na educação formal em si, ela ultrapassa os muros das escolas e chega até a sociedade num contexto bem mais amplo, adquirindo força através do debate, para combater as desigualdades sociais, políticas e ambientais consideradas o tripé da insustentabilidade. A resolução dos problemas ambientais implica na solução de mazelas sociais vergonhosas como a fome e todos os problemas inerentes à condição humana, visto que, homem é natureza e não existe mal feito a um que não atinja o outro. Esse complexo sistema constitui a preocupação maior da EA. Para Carvalho (2008) EA é a uma mediação importante na construção social de uma prática político-pedagógica portadora de nova sensibilidade e postura ética, sintonizada com o projeto de uma cidadania ampliada pela dimensão ambiental. Segundo essa autora a EA crítica seria, portanto, aquela capaz de transitar entre os múltiplos saberes: científicos, populares e tradicionais, alargando nossa visão do ambiente e captando os múltiplos sentidos que os grupos sociais atribuem a ele.

A EA é um discurso, assim como é ação, atitude, prática que de alguma forma tenta

mitigar e recuperar os estragos causados ao meio ambiente pela ação humana. É também, protagonista de uma discussão necessária e comprometida com a transformação da sociedade, conclamando para uma leitura crítica da realidade, apresentando à ética como principal coadjuvante.

Reconhecemos que estamos imersos numa era de imprevisibilidades, em meio a uma

transição muito turbulenta, e precisamos estar preparados para o que vai ocorrer nos próximos anos. Reconhecemos que estamos diante de um sistema cada vez mais limitado para responder os anseios -

das sociedades, e que vivenciamos as diversas crises humanas – ambientais, sociais, econômicas que são meros sintomas de uma crise ambiental mais profunda, cujas raízes se encontram na perda e aquisição de novos valores humanos e na carência de ética. (DIAS, 2004, p.94). A globalização das questões ambientais vem despertando uma preocupação sem precedentes em relação à degradação causada pelo desenvolvimento tecnológico/industrial. A propagação da idéia que Desenvolvimento e Meio Ambiente constituem um binômio que deve ter valores e prioridades equivalentes promoveu o entendimento que é essencial desenvolver economicamente, mas é vital que os recursos naturais sejam poupados para que não faltem. Esta visão apresenta fortes contradições. Mesmo dentro das limitações da EA, assim como da Educação, é possível afirmar que a Educação permanente transforma a realidade. Não existe quem sabe tudo, tão pouco quem não sabe nada, o homem assim como os outros animais é um ser inacabado e se diferencia pelo fato de ter consciência disso, essa consciência ao ser desenvolvida pode transformar tornando-se crítica, e a partir daí suscitar mudanças. Considerações Finais No novo cenário mundial de crises é necessária uma visão humanista da escola e do mundo e uma visão crítica da realidade socioespacial. Nesse sentido, tentamos analisar a crise ambiental/capital ou vice-versa, pelo prisma da EA, convocando a mesma para uma elucidação dos problemas ambientais/econômicos vigentes. Nosso intuito foi beneficiar os estudos dessa área do conhecimento e fortalecer o debate sobre as questões ambientais na Universidade a qual o projeto que deu origem a esse artigo está vinculado. Enfatizamos que as colocações feitas aqui são tangíveis de discussão e aprofundamento teórico e se pautam numa pergunta essencial: tem como ser sustentável dentro dos marcos que regem a sociedade atual? Iniciamos citando Enrrique Leff que fez grandes contribuições ao diferenciar Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental e ao afirmar que a crise ambiental é também uma

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crise de conhecimento. Na seqüência, falamos sobre as novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística. Nesse momento da discussão tentamos deixar claro nosso real objetivo ao pesquisarmos Educação Ambiental, ou seja, conhecer para propor mudanças de atitudes e valores. Ao falarmos da Educação Ambiental no contexto da crise, fizemos um recorte no tempo, para melhor entendê-la, e assim, clarificar sua necessidade e justificar o título do artigo que diz: CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL:

uma discussão à luz da Educação Ambiental. Referências CAPRA, fritjot, O Ponto de Mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix,

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CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008.

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Epistemologia Ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela. 4. ed.

SATO,

Michèle;

SANTOS,

José

Eduardo.

Tendências

nas

pesquisas

em

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CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA

DE OLINDA NA

EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL

Maria de Fátima Faro Cleide Amorim Sônia Brandão Maria Helena Peixoto Luiza Maria Barros Grupo da Sala Verde / Diretoria de Meio Ambiente da Prefeitura de Olinda-PE

O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso, CEA, situado na Secretaria de

Orçamento Participativo e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Olinda, é um local de Reedição de Práticas Ambientais, onde a comunidade olindense tem oportunidade de ser sensibilizada em relação à problemática ambiental, através da exposição de temas ambientais, debates, pesquisas e vivência de demonstrações de práticas ambientais. O CEA dispõe de uma Sala Verde, Sala de Capacitação, Oficina de Papel, Oficina de Ecoartes e Pátio para Atividades de

Compostagem. Este espaço vem funcionando desde a sua inauguração em junho de 2006.

SALA VERDE Sala Verde é um projeto do Ministério do Meio Ambiente que consiste em uma biblioteca

interativa sobre questões ambientais, onde os interessados encontrarão um acervo significativo relacionado ao meio ambiente. Este acervo está disponível para leitura, pesquisa e consulta na forma de livros, cartilhas, periódicos, folders, CDs, DVDs, fitas de vídeo. Podendo ser utilizado por professores, estudantes e

a comunidade em geral.

O objetivo do espaço é democratizar o acesso da população às informações, materiais e

publicações ambientais, oferecendo atividades diversas como: capacitações, palestras, oficinas, vivências, campanhas, entre outras experiências, viabilizando uma participação ativa do processo de

conservação da cidade. Sendo a cidade de Olinda Monumento Nacional e Patrimônio Cultural da Humanidade, com rico acervo arquitetônico, urbanístico e cultural, a Sala Verde vem enriquecer na formação de reeditores ambientais, visando melhorar a qualidade de vida e consequentemente a cidadania ambiental. A Sala Verde funciona de segunda à sexta-feira no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas.

OFICINA DE PAPEL RECICLADO Na década de 80 foram introduzidas tecnologias alternativas em Olinda pelo governo

municipal como solo cimento, compostagem do lixo, sistema condominial de esgotamento sanitário

e a reciclagem de papel.

O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso-CEA continua com a prática da

reciclagem do papel para demonstração didática, através da Oficina de Papel, proporcionando à comunidade a vivência do passo a passo do reaproveitamento do papel já utilizado. A oficina de papel funciona de segunda à sexta no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas.

EXPERIÊNCIA DE COMPOSTAGEM EM OLINDA A prática da compostagem em Olinda, iniciada desde a década de 80, tendo sido referência no tratamento alternativo de resíduos sólidos orgânicos, prática ecologicamente correta.

A compostagem é realizada em pequena escala, no CEA, para demonstração didática, a

partir da Coleta Alternativa de uma pequena área de difícil acesso no entorno da Secretaria. Consta de um processo biológico no qual o lixo orgânico é transformado em composto rico

em nutrientes, o húmus, o qual é utilizado nos jardins das praças olindenses.

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Tal prática é mais um estímulo à reciclagem do Lixo vivenciado pela comunidade.

Oficina de Ecoartes

Nesta oficina, as arte educadoras do CEA desenvolvem produtos elaborados a partir da reciclagem de papel, garrafas plásticas e outros materiais recicláveis, junto a comunidade. Existe um atendimento a grupo da 3ª idade todas as segundas pela manhã. E atendimentos eventuais a partir da demanda por esta atividade.

Capacitações

Á cada mês são desenvolvidos pelo menos dois temas do Calendário Ecológico, sendo

apresentado e discutido com o público presente. Podendo também ser apresentados outros temas ambientais, dependendo do interesse do público alvo como Erosão Marinha, Hortas e outros. A cada visita inicial de um grupo é realizado um tour pelo CEA, onde são recepcionados com conceitos de Meio Ambiente e Cidadania, depois acompanham o passo a passo da Compostagem, recebem informações sobre os cuidados e responsabilidades sobre a questão do Lixo e, aprendem e praticam o passo a passo da Reciclagem do Papel. Sendo Olinda uma cidade litorânea, enfatizamos a preocupação com o lixo nas praias e suas consequencias na Biota Marinha.

Por fim é apresentada a Sala Verde, colocando a disposição dos interessados todo o nosso

acervo.

Em ocasiões especiais a capacitação é apresentada de forma lúdica através do Teatro de Fantoches.

Outro Projeto do CEA: Coletivos Educadores

Outra atividade do Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso é a integração ao programa do Ministério do Meio Ambiente Coletivos Educadores para Municípios Sustentáveis, focando o fortalecimento da Educação Ambiental no nosso território e a melhoria da nossa realidade socioambiental.

O Coletivo Educador é constituído pela articulação de instituições que trabalham com

formação em Educação Ambiental, Educação Popular, Ambientalismo e Mobilização Social, estabelecendo parcerias para implementar uma proposta integrada de Educação Ambiental na base territorial, a partir de uma reflexão crítica acerca da problemática socioambiental local. Por meio desse processo de formação, o Coletivo forma educadores ambientais populares que tem como compromisso promover intervenções no território voltadas para a sustentabilidade socioambiental,

sendo apoiados pelo Coletivo de forma contínua e permanente.

MATA DO PASSARINHO

A Mata do Passarinho, resquício de Mata Atlântica em Olinda, definida como Reserva

Ecológica pela Lei Estadual nº 9.989/87, Área de Proteção Especial pela Lei Orgânica do Município e Zona de Preservação Ambiental Especial pelo Plano Diretor, foi desapropriada pela Prefeitura de Olinda em 1998, passando a ter um Núcleo de Educação Ambiental.

É um espaço onde as pessoas vivenciam, através das trilhas de caráter educacional, a

dinâmica e a biodiversidade da mata, reconhecendo o seu papel na Natureza. Desde a inauguração do Núcleo de Educação Ambiental em 2002, foi visitado por inúmeras escolas das redes municipal, estadual e particular, grupos da 3ª Idade, e público em geral. Este espaço, aberto ao público pode ser visitado no horário da manhã de segunda à sexta, após agendamento na Diretoria de Planejamento Ambiental da Secretaria de Orçamento Participativo e desenvolvimento Urbano.

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ROTINAS DO CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA

66 ROTINAS DO CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA 1. Recepção dos visitantes 2. Demonstração do

1. Recepção dos visitantes

DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA 1. Recepção dos visitantes 2. Demonstração do Processo de Compostagem 3.

2. Demonstração do Processo de Compostagem

AMBIENTAL - CEA 1. Recepção dos visitantes 2. Demonstração do Processo de Compostagem 3. Capacitação sobre

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Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 67 4. Oficina de Papel Reciclado 5. Capacitação Calendário

4. Oficina de Papel Reciclado

e biodiversidade 67 4. Oficina de Papel Reciclado 5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde 6.

5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde

67 4. Oficina de Papel Reciclado 5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde 6. Capacitação com

6. Capacitação com a 3ª Idade

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REFERÊNCIA BIBLIOGFAFICA DELORS, Jacques e outros (1996) Educação: um tesouro a descobrir. Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI Paris: UNESCO/ Rio Tinto: ASA,

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DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY

Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Janaíne Lira VIEIRA biologajana@hotmail.com Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Hadryan Lima RODRIGUES

hadryan11@yahoo.com.br

Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil.

RESUMO O presente trabalho objetiva fazer um estudo de caso na zona costeira do Maranhão, especificadamente na área da praia do Araçagy, para analisar as condições ambientais da área, caracterizando os impactos e/ou problemas ambientais gerados pelas desordenadas ações antrópicas. Quanto à metodologia, utilizou-se, principalmente, a observação in locu, a partir das visitas periódicas realizadas no local, simultaneamente, foi feito um levantamento sobre tais impactos e registro dos mesmos. A partir dos dados obtidos, sentiu-se a necessidade de realizar ações de Educação Ambiental na área, voltadas para o desenvolvimento da consciência crítica dos barraqueiros e banhistas freqüentadores da praia, orientando-os sobre a importância da tomada de atitudes ambientalmente corretas, no que diz respeito a conservação e preservação dos recursos naturais, ainda existentes na área. PALAVRAS-CHAVES: zona costeira, educação ambiental, impactos ambientais.

ABSTRACT The present paper aims at studying the shoreline of Brazilian Maranhao state, specifically Araçagy beach, in Sao Luis, in order to analyze the environmental conditions in that area, characterizing the impacts and environmental problems generated by anthropic disorderly actions. Regarding methodology, one used, mainly, in locu observation, from periodical visits made to the location. Simultaneously, a study was made about the impacts and their records. From the obtained data, arised the need for Environmental Education actions in the area, aimed at the development of critical conscience of bar owners and attenders of the beach, giving them orientation about the importance of environmentally correct attitudes, regarding conservation and preservation of the natural resources which still exist in the area. KEYWORDS: shoreline zone, environmental education, environmental impacts.

1 INTRODUÇÃO Desde o surgimento da humanidade na superfície terrestre, a mais de um milhão de anos, o homem vem transformando a natureza. No principio, essas transformações causava impactos irrelevantes sobre o ambiente, exatamente pelo fato de haver um pequeno número de pessoas vivendo no planeta. Assim, é possível verificar que o limite entre o homem submisso à natureza e o grande agente modificador do espaço natural é marcado indiscutivelmente pela Revolução Industrial. Nessa perspectiva, os principais impactos ambientais decorrentes da capacidade humana de transformação da natureza, passaram a crescer em ritmo acelerado, não somente locais, como também em escala global. A ilha do Maranhão, situada no Golfão Maranhense, possui mais de 1000 km², sendo composta pelos municípios de São José de Ribamar, Raposa, Paço do Lumiar e São Luís. Juntos, estes municípios perfazem uma população em torno de 1.211.270 habitantes (IBGE, 2008). Limita-

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se, ao norte, com o Oceano Atlântico; ao sul, com o Estreito dos Mosquitos; a leste, com a Baía de São José, e a Oeste, com a Baía de São Marcos. No que se refere à zona costeira da capital maranhense, pode-se constatar que se trata de uma das áreas de maior atração populacional, que como conseqüência da concentração das atividades humanas, vem se constituindo numa das áreas mais afetadas pelo processo de degradação ambiental, provocando sérios impactos e diminuindo a qualidade paisagística. Neste sentido, impacto ambiental caracteriza-se como:

qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente afetam: a saúde, a segurança, o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; a qualidade dos recursos naturais. (Resolução CONAMA n0001/86 apud (et.al), 200p.133).

Entretanto, pode-se espreitar que os impactos ambientais decorrentes das ações antrópicas na praia do Araçagy extendendo-se ao Porto do 400, área de estudo, prejudicam toda a dinâmica do ambiente, podendo-se arrolar, como exemplo; a degradação da paisagem, devido a construções inadequadas, especialmente de edifícios que por suas dimensões, formas, cores e matérias-primas utilizadas, podem ser consideradas arquitetonicamente inadequadas ao local; aumento da utilização e da necessidade de abastecimento da água potável; contaminação da água do mar, devido ao aumento de efluentes não tratados e contaminação por resíduos; degradação da fauna e da flora; aumento da geração de resíduos sólidos. Assim como também podemos citar como exemplo, o aumento do tráfego de veículos ocasionando conseqüentemente a redução da qualidade do ar; dos ruídos; os assoreamentos da encosta, com destruição de corais, recifes, mangues, restingas e dunas, onde se destacam os constantes aterros para aumentar a área urbana; necessidade de implantação de obras de infra- estrutura causadoras de impactos ambientais tais como: estradas, sistemas de drenagem, aterros com grande movimentação de terra, entre outros. As praias são ambientes costeiros que oferecem grande oportunidade para uma imersão inicial no estudo do meio marinho, possibilitando um melhor entendimento da zonação do mar e das características do oceano consideradas de maior interesse ecológico. Os ambientes marinhos possuem maior diversidade animal do que os ambientes terrestres ou de água doce. Isso ocorre devido maior estabilidade de seus fatores ambientais durante o tempo geológico (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002). A Zona Costeira abriga um mosaico de ecossistema de alta relevância ambiental. A sustentabilidade das atividades humanas na Zona Costeira depende de um meio marinho saudável e vice-versa (VIDIGAL et al., 2006). A caracterização física da Zona Costeira Brasileira leva em consideração aspectos como: localização geográfica, geomorfologia, clima e a produtividade (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002).

2 OBJETIVOS

2.1 Objetivo Geral

Identificar o estado atual das condições naturais da Praia do Araçagy, fazendo um levantamento sobre as características apresentadas, bem como analisar os diferentes graus de impactos ambientais ocorridos na área da zona costeira decorrentes das ações antrópicas.

2.2 Objetivos Específicos

Levantar dados no que tange os impactos ambientais ao longo do litoral;

Estabelecer relações entre os diversos tipos de degradação ambiental; Observar e registrar a paisagem natural da área; Caracterizar a zonação e fatores abióticos da praia; Divulgar os dados obtidos através de artigo cientifico.

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3 MATERIAL E MÉTODOS Para a percepção do ambiente natural da praia realizou-se uma caminhada ao longo da linha e poças de maré e pedras, com o objetivo de averiguar inicialmente o modo de vida ali existente.

Foi feito in loco: a medição dos parâmetros de temperatura e salinidade, a caracterização da zonação e a observação dos fatores abióticos, registrado através de GPS, refrator e termômetro em alguns pontos estratégicos do local, bem como a identificação das zonas intertidais, supratidais e subtidais da região. Após a coleta dos dados supracitados, realizou-se uma entrevista (informal) com alguns visitantes abordando principalmente as questões das potencialidades e/ou problemas da praia. Na ocasião da entrevista, aproveitou-se da oportunidade para conversar informalmente um pouco sobre Educação Ambiental com os banhistas freqüentadores da orla marítima com a intenção de fazer um trabalho de conscientização ambiental com os mesmos. Todas as observações feitas foram registradas com fotografias e anotações para uma posterior análise e compreensão acerca da temática abordada. Pensou-se ainda na possibilidade de coletar esses dados e resultados obtidos para publicar em forma de artigo científico como um dos objetivos do trabalho.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

O Brasil é um país com uma vasta zona costeira, tendo o nordeste vantagem sobre

outras regiões pelo seu clima e pela geomorfologia. No Estado do Maranhão, que tem o segundo maior litoral no país, com 640 km, encontramos uma diversidade de paisagens que variam de planaltos, tabuleiros, planícies, planície de maré areno-lamosa, planície flúviomarinha, cordões arenosos, falésias, florestas, capoeira, campos, vegetação de dunas ou restingas, mangues, apicuns e entre outros.

4.1 ÁREA DE ESTUDO

4.1.1 PRAIA DO ARAÇAGY

A Praia do Araçagy localiza-se nas coordenadas S 02º 27’911’’ e W 044º20’03’’

localizada na cidade de São José de Ribamar/MA, fica no litoral da ilha do Maranhão, também conhecida como Ilha de Upaon-Açu. Toda a praia possui uma orla de dunas com vegetação rasteira típica.

Ao longo da visita realizada à praia, pôde-se conhecer as seguintes zonações:

intertidal ou litoral (superfície do mar que sobe e desce com as ondas), supratidal (região localizada acima da zona intertidal), e subtidal (é a região abaixo da zona intertidal). Numa oportunidade seguinte visitou-se também na praia do Araçagy o projeto “Orla Viva” que recebe entidades de todos os níveis de ensino e é aberta para visitação pública. Já possui 5 anos de existência. De março 2007 a dezembro de 2008 recebeu em média 4.164 visitantes sendo 80% estudantes. Para estudantes de instituição privada é cobrada uma taxa para manutenção do projeto. Já passaram visitantes de 13 países, 23 estados brasileiros e 42 municípios. O referido projeto é uma importante iniciativa voltada para o estudo das espécies marinhas encontradas na área, assim como também para despertar uma consciência ecológica ligada à preservação e conservação da biodiversidade da zona costeira maranhense.

4.1.2 PORTO DO 400

O Porto do 400 que é uma área limite de mangue e praia, localiza-se nas coordenadas

S 02º27’15’’ e W 44º09’33’’. Os manguezais são ecossistemas costeiros, estuarinos, sujeitos a inundações periódicas pelas marés e por águas doces. São sistemas abertos no tocante a entrada e saída de matéria e energia. Geralmente, ocorre nos manguezais entrada de sedimentos, água doce e nutrientes e saída de água e matéria orgânica para os estuários (Araujo & Maciel, 1979; Cintrón, Lugo & Martinez, 1980).

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No Porto do 400 pode-se observar a presença de caranguejos do gênero Uca rapax que é um componente bastante presente na macrofauna bentônica dos manguezais da Ilha do Maranhão. Apesar de não possuir valor econômico esse táxon destaca-se, juntamente com as outras espécies do gênero, por contribuírem grandemente na retenção de nutrientes e energia pelo consumo da maioria do folhiço, aumentando a degradação das folhas, remineralizando os nutrientes e promovendo a oxigenação pela atividade de alimentação e escavação de tocas, as quais parecem estimular a produção de árvores dos manguezais (Schaeffer-Novelli, 1989). Constituem as florestas de mangue: Mangue vermelho (Rhizophora), Mangue Branco (Laguncularia) e o Mangue de Seriúba (Avicennia). Vivem na zona das marés, apresentando uma série de adaptações: raízes respiratórias, capacidade de ultrafiltragem da água salobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem posteriormente dispersas pela água do mar. A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies como a samabaia do mangue, a gramínea spartina e o hibisco. Todo esse cenário tem passado por inúmeras modificações que são verdadeiros reflexos das ações antrópicas desordenadas, que visa defender seus interesses particulares. Vale ressaltar que existe uma série de fatores que agravam ainda mais a evolução do processo erosivo, como a devastação da cobertura vegetal como efeito da especulação imobiliária e o próprio crescimento populacional, que acaba impulsionando a ocupação desordenada de áreas de ecossistema frágil como manguezais, dunas e margens de rios. As zonas costeiras estão em uma fase de supervalorização e em São Luís isso não é diferente, visto que o processo de urbanização tem crescido consideravelmente nessas áreas.

4.2 PRINCIPAIS PROBLEMAS DETECTADOS *MAU USO E OCUPAÇÃO DA ZONA COSTEIRA Uma ocupação espacial de sistemas ambientais inadequada, com ações desenfreadas que coduz a um anexo de agressões ao meio ambiente, que se manifesta por meio de verdadeiros desastres que afetam o equilibrio ecológico, podendo até se tornar um caso irreversível.

ecológico, podendo até se tornar um caso irreversível. Figura 1: Ocupação da zona costeira *DESTRUIÇÃO DA

Figura 1: Ocupação da zona costeira

*DESTRUIÇÃO DA MATA CILIAR Na área de estudo, encontram-se conjuntos faunisticos representados pelo mangue e florestas secundarias, já bastante reduzidos devido a expanção urbana da cidade de São Luis.

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Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 73 Figura 2: Destruição da mata ciliar *CONSTRUÇÃO DE

Figura 2: Destruição da mata ciliar

*CONSTRUÇÃO DE EDIFICAÇÕES E EROSÃO PROVENIENTE DAS CONSTRUÇÕES Com a grande concentração populacional, a apropriação desenfreada e desorganizada e contruções inadequadas de edificios, geram alterações no ambiente. Devido ao mau planejamento, as dunas invadiram contruções feitas para o lazer.

as dunas invadiram contruções feitas para o lazer. Figura 3: Edificações e erosão proveniente de

Figura 3: Edificações e erosão proveniente de construções

*ACUMULO DE RESÍDUOS Neste aspecto, observou-se que as grandes quantidades de resíduos acumulados na área são provenientes das atividades comerciais realizadas pelos barraqueiros da praia, onde os mesmos até tentam organizar os resíduos produzidos, mas dependem diretamente do serviço público de coleta de lixo, que passam no local em dias alternados, sendo insuficiente para a grande quantidade de resíduos produzidos.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os problemas ambientais decorrentes das ações antrópicas associadas a um mau planejamento do uso e ocupação do solo da zona costeira do Maranhão desencadearam uma série de obstáculos ao desenvolvimento sustentável e à manutenção e/ou preservação dos recursos hídricos dos quais se destaca a área de estudo. As alterações causadas pela intervenção do homem resultaram na quebra do equilíbrio natural, acarretando não só o empobrecimento do solo como conseqüência do modo de exploração, mas provocou também o surgimento de outros elementos prejudiciais ao homem e ao meio ambiente. Dessa forma, as principais transformações ocorridas resultaram numa paisagem

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pontuada de formas residuais que encenam caracteres de antigos ambientes, esses testemunhos encontram-se ao longo do litoral. O ambiente é o maior patrimônio que a humanidade possui; quanto maior for sua qualidade, maiores serão os benefícios. Assim sendo, o que se pretende com esse trabalho é caracterizar os impactos ao longo da Praia do Araçagy, e criar ações que possam minimizá-los, para que assim se tenha um meio ambiente, equilibrado e sadio. Partindo desta premissa, foi discutido e analisado os aspectos apontados ao longo das visitas in locu e pensou-se em tomar algumas medidas que pudessem pelo menos minimizar os impactos já mencionados, em caráter emergencial, tais como:

Realização de mutirões de limpeza ao longo da orla por educadores ambientais devidamente identificados para chamar a atenção dos banhistas. Na ocasião, orientar as pessoas da importância em tomar certas atitudes voltadas para a preservação e conservação das características naturais da zona costeira, através de conversas informais e entregas de panfletos educativos. Posteriormente consolidar o trabalho com a elaboração de projetos em Educação Ambiental Marinha para serem desenvolvidos com os barraqueiros e banhistas freqüentadores da praia. Assim como também, implantar uma sede de estudos e ações em Educação Ambiental Marinha na zona costeira de São Luís-MA, para o desenvolvimento de ações e produções acadêmicas de Educação Ambiental realizadas nas praias de São Luís-MA.

REFERÊNCIAS ARAÚJO, D. S. D. & MACIEL, N.C. Os manguezais do recôncavo da Baia de Guanabara. Cadernos FEEMA, ser. téc., 10/79: 1-115. 1979. BANCO DO NORDESTE. Manual de impactos ambientais. Fortaleza: Banco do nordeste,

1999.

CINTRÓN, G; LUGO, A. E. & MARTINEZ, R. Structural and functional propeties of mangrove forests. Symp. Signaling the Completion of the flora of Panama, p. 53-66. 1980. ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. PEREIRA, R. C.; SOARES-GOMES, A. (Orgs). Biologia marinha. Rio de Janeiro:

Interciência, 2002. SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Perfil dos ecossistemas litorâneos brasileiros com especial ênfase sobre o ecossistema manguezal. S. Paulo: Publicação esp. Inst. oceanogr., 1989. SILVA, Pedro Paulo de Lima [et. al.]. Dicionário brasileiro de ciências ambientais. Rio de Janeiro: Thex editora, 2005. T. S. Oliveira e [et. al.]. Alometria no crescimento de uca rapax (crustacea, decapoda, ocypodidae) na ilha de são luís, maranhão. Caxambu – MG: Anais do VII Congresso de Ecologia do Brasil, Setembro de 2007. VIDIGAL, A. A. F. [et. al.] Amazônia azul: o mar que nos pertence. Rio de Janeiro: Record, 2006.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL

Bruno Soares de ABREU Economista - Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG abreu.ufcg@gmail.com Vera Antunes de LIMA Prof. da Unidade Acadêmica de Eng. Agrícola - CTRN/UFCG antuneslima@gmail.com Silvana FERNANDES NETO Geógrafa – Doutoranda em Recursos Naturais - CTRN/UFCG silfeneto@gmail.com Geraldo Moura BARACHUY NETO Administrador, Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG baracuhy@gmail.com

RESUMO As ações antrópicas em favor do consumo global têm aumentado gradativamente a degradação ambiental em todo planeta, fazendo com que, os problemas ambientais se tornem cada vez mais preocupantes. Notoriamente, a revolução industrial, o avanço tecnológico e o consumo desenfreado pela população, favoreceram o desencadear de uma crise ambiental, outrora não tão evidenciada. Assim sendo, a busca incessante por medidas que minimizassem tal situação passou a ser foco principal mediante encontros, relatórios e convenções. A disseminação de informações de caráter educativo sobre a necessidade de proteger e melhorar o meio ambiente, possibilitando o desenvolvimento do homem de forma sustentável, em todos os sentidos, foi se tornando essencial principalmente na era do consumo global. Nesse contexto, a educação ambiental versa para uma sustentabilidade equitativa e duradoura, sendo um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação apresenta enfoque humanístico e participativo, afirmando valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedades socialmente justas. Incorporar a educação ambiental vai além das mudanças de comportamento, paradigmas conceituais e metodológicos; busca a responsabilidade individual e coletiva e a relação de interdependência e diversidade. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Consumo. Sustentabilidade. Meio ambiente e desenvolvimento.

ABSTRACT The human actions encouraged by a global consumption have increased gradually throughout the world environmental degradation, causing environmental problems become increasingly worrying. Notably, the industrial revolution, technological advances and unbridled consumption by the population, favored the onset of an environmental crisis, once not so evident. Thus, the incessant search for measures that might minimize this situation came to be the main focus through meetings, reports and conventions. The dissemination of information of an educational nature on the need to protect and improve the environment, enabling the development of mankind in a sustainable way, in every sense, was becoming essential, particularly in the era of global consumption. In this context, environmental education versa for a fair and lasting sustainability, being a continuous learning process and ongoing, based on respect for all life forms. Such education has humanistic and participatory approach, affirming values and actions that contribute to ecological preservation and processing of socially just societies. Incorporate environmental education goes beyond the behavior changes, conceptual and methodological paradigms; search the individual and collective responsibility and the relationship of interdependence and diversity. KEYWORDS: Environmental education. Consumption. Sustainability. Environment and development.

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INTRODUÇÃO A realidade socioeconômica e ambiental, não apenas em escala nacional, mas também em nível global, tende a ficar cada vez mais obscura quando nos dispomos a investigar de forma um tanto quanto minuciosa e detalhada, como o atual modelo de desenvolvimento socioeconômico do sistema capitalista vem causando danos muitas vezes irreparáveis à humanidade como um todo em prol de seu desenvolvimento e consumo desenfreados. Cada vez mais nos deparamos com as crescentes incertezas e instabilidades que pairam na mente das pessoas no que dizem respeito aos caminhos que devem ser implantados para que se possa alcançar a plenitude de um desenvolvimento econômico e social mundial de forma igualitário, equitativo, inclusivo e duradouro. Mesmo com a busca constante de um desenvolvimento equitativo e igualitário proposto pelos princípios da sustentabilidade, observamos que o tão glorioso desenvolvimento social, econômico e ambiental, articulado e imposto pelos grandes capitalistas vem nos provando o contrário. Estes, sempre trazem em seus braços uma série de impactos e modificações geralmente negativas nas quais, hoje a sociedade já começa a despertar e a questionar o seu tão impiedoso modo de agir. Atualmente, os impactos sociais, econômicos e ambientais vêm aumentando de forma exponencial, provocando a destruição dos ecossistemas e causando alterações do meio ambiente a partir das atividades humanas que afetam a saúde, a segurança, o bem estar da população, as atividades socioeconômicas, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente como um todo. Diante desse contexto, este trabalho tem por intuito, a realização de uma retrospectiva histórica acerca dos mecanismos que possibilitaram a observação gradativa dos problemas sociais, econômicos e ambientais decorrentes da extração de recursos naturais para o consumo, bem como a introdução de uma educação ambiental que versa para uma sustentabilidade equitativa e duradoura, atraves de um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida onde tal educação apresenta um enfoque humanístico e participativo, e afirma valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedades socialmente justas.

Revisão teórica Atualmente, em todas as áreas do conhecimento, a questão ambiental e seus desafios vêm sendo bastante refletidos por se tratar de uma preocupação mundial. Historicamente, a forma irracional adotada na busca do desenvolvimento e consumo sócio-econômico vem causando danos alarmantes não só ao meio ambiente, mas também a humanidade como um todo. Os avanços científicos e tecnológicos, a globalização da sociedade, a mudança dos processos de produção e suas conseqüências na educação, trazem a tona novas exigências à conscientização das pessoas objetivando reverter o atual quadro em que se encontra a questão ambiental. Observou-se na segunda metade do século XVII, na Europa, o surgimento dos primeiros movimentos que se preocupavam com questões relacionadas à preservação de áreas naturais, como reação à degradação do meio ambiente promovida pela revolução industrial. E, a partir do século XIX, foram criados os primeiros parques nacionais nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, como exigência da sociedade local. No século XX, mais precisamente na década de 60, começaram a surgir as primeiras articulações de movimentos ambientalistas preocupados com questões referentes à preservação ambiental, cujas informações sobre as ameaças que o planeta estava sofrendo, difundia-se rapidamente entre as sociedades fazendo com que estas começassem a adquirir a noção de equilíbrio ecológico e a consciência sobre a necessidade de preservar os recursos naturais e os ecossistemas. Nos anos 70, o termo “ambiente” passou a constituir a agenda mundial no bojo da crise econômica na maioria das nações do planeta, quer sejam estas desenvolvidas ou não. Nesse contexto, observou-se um novo componente na crise e que este tinha relação direta com a redução

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do índice de qualidade de vida de uma grande parte da população mundial: a poluição, a degradação ambiental, que juntamente com a possibilidade de saturação dos recursos naturais interferia no presente e no futuro da humanidade.

A degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização marcada pelo

modelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza. A questão ambiental problematiza as próprias bases da produção; aponta para a desconstrução do paradigma econômico da modernidade e para a construção de futuros possíveis, fundados nos limites das leis da natureza, nos potenciais ecológicos, na produção de sentidos sociais e na criatividade humana (LEFF, 2001).

A partir de então, o tema passou a aparecer em diversos estudos, relatórios e programas internacionais dedicados ao meio ambiente, embora de formas e com ênfases distintas, onde na maioria das vezes vieram deturpar a visão da sociedade para as reais necessidades de preservação do meio ambiente com intuito de minimizar o processo de degradação ambiental com a qual nos deparamos na atualidade. Segundo Leff (2001), a degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço da desigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise do mundo globalizado. A sustentabilidade é o “significante” de uma falha fundamental na história da humanidade; crise de civilização que alcança seu momento culminante na modernidade, mas cujas origens remetem a concepção do mundo que serve de base à civilização ocidental. A sustentabilidade é o tema do nosso tempo, do final do século XX e da passagem para o terceiro milênio; da transição da modernidade truncada e inacabada para uma pós-modernidade incerta, marcada pela diferença, pela diversidade, pela democracia e pela autonomia. Mediante tais constatações surge o conceito de desenvolvimento sustentável que, segundo Barbosa (2007), é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações de prover as suas próprias necessidades. Nesse sentido, o desenvolvimento sustentável implica necessariamente em uma ação interligada e interdependente com as variáveis econômicas, sociais e ambientais de maneira estável e equilibrada, pois, até então, a produção material, a reprodução e a conservação dos recursos naturais não são corrigidas pela economia de mercado. Busca-se uma nova forma de racionalidade do sistema capitalista frente às contradições do mundo moderno.

A noção de desenvolvimento sustentável tem como uma de suas premissas fundamentais o

reconhecimento da “insustentabilidade” ou inadequação econômica, social e ambiental do padrão de desenvolvimento das sociedades contemporâneas. Esta noção surge da compreensão da finitude dos recursos naturais e das injustiças sociais provocadas pelo modelo de desenvolvimento vigente na maioria dos países

(BECKER, 1999).

De acordo com Leff (2001), o princípio de sustentabilidade surge no contexto da globalização como marca de um limite e o sinal que reorienta o processo de civilização da humanidade. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos que impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Ultimamente, surge de maneira crescente, à adesão a essa idéia mesmo que de forma genérica e pouco precisa. Nos anos 80, após a publicação em vários idiomas do “Relatório de Brundtland”, a noção de desenvolvimento sustentável apresentada vem se tornando bastante usual em múltiplos espaços sociais nos dias atuais. Notoriamente, a implementação do desenvolvimento sustentável percorre um processo de discussão e comprometimento da sociedade como um todo, uma vez que implica em mudanças no modo de agir dos agentes sociais. Vale salientar que, foi a partir da publicação do Relatório de Brundtland que se tornou possível se problematizar algumas concepções e idéias do desenvolvimento sustentável, onde a essência do que foi apresentado em tal documento vem recair sobre uma ótica mais crítica da

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exploração que ocorre com os recursos naturais, da orientação dos investimentos e das compatibilidades entre preservação e desenvolvimento. O mesmo também reafirma o fosso profundo entre países centrais e países subdesenvolvidos (GIANSANTI, 1998). Dessa maneira, fica evidente que a garantia de sustentabilidade do patrimônio natural integrada a um desenvolvimento econômico e social, necessita da elaboração e aquisição de vários outros conceitos que possibilitem garantir um desenvolvimento justo, equitativo e duradouro. De acordo com Giansanti (1998), o Relatório de Brundtland, referencia ao atendimento das

“necessidades essenciais dos pobres no mundo”. Inegavelmente, tal meta possui grande mérito, mas

há evidentes dificuldades em definir essas necessidades, diferenciando as coisas que realmente

devem ser produzidas das coisas supérfluas. Consoante, Leff (2001) evidencia que o discurso da sustentabilidade leva, portanto, a lutar por um crescimento sustentado, sem uma justificação rigorosa da capacidade do sistema econômico

de internalizar as condições ecológicas deste processo.

A Organização das Nações Unidas (ONU), que é constituída por quase todos os países do planeta, vem abordando a temática ambiental durante a realização de suas conferências. Dois desses

eventos que se destacaram e focaram a tal questão no mundo foram a Conferência de Estocolmo (1972) e a Conferência do Rio (1992). Nessas conferências foram estabelecidos princípios que serviram de caminho para a resolução das questões abordadas, como também a concretização de compromissos assumidos em convenções. Embora se saiba que existe um longo caminho a ser percorrido entre o que se tem em

mente e o que se deseja pôr em prática, é de suma importância conhecermos e valorizarmos o esforço das Nações Unidas, pois este constitui-se em um grande passo para que as mudanças necessárias ocorram. A questão ambiental tornou-se uma preocupação mundial a partir do que foi declarado em Estocolmo, passando a fazer parte do que era negociado internacionalmente. O primeiro passo constituiu na criação de um mecanismo institucional para cuidar de questões ambientais no âmbito das Nações Unidas. No ano de 1972, surge o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Segundo Giansanti (1998), nos anos 70, a preocupação básica da Conferência de Estocolmo, era conter as várias formas de poluição, sendo que os debates foram marcados pela polarização entre os defensores do chamado crescimento zero, que advogavam pela contenção dos índices de crescimento econômico dos países pobres diante da ameaça de esgotamento dos recursos naturais que o ritmo de exploração da natureza poderia causar e os desenvolvimentistas, que eram compostos praticamente de representantes de países subdesenvolvidos que reivindicavam o direito

ao desenvolvimento, mesmo trazendo impactos ambientais. Ainda em 1972, durante a Conferência de Estocolmo, não só o Brasil como os países em desenvolvimento opunham-se à problemática ambiental alegando que proteção ao meio ambiente teria sido uma estratégia criada pelos países desenvolvidos para impor barreiras a industrialização em andamento dos países subdesenvolvidos. Desta forma, o Brasil não reconhecia que as questões ambientais assumiam dimensões muito mais responsáveis e complexas. Em junho de 1992, as Nações Unidas convocaram outra conferência a ser realizada no Rio

de Janeiro, denominada Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento

(CNUMAD), para discutir conclusões e propostas do Relatório que introduziu o conceito de desenvolvimento sustentável e ainda comemorar os 20 anos da Conferência de Estocolmo. Na Conferência do Rio foram produzidos documentos fundamentais ao conceito de desenvolvimento sustentável, entre os quais podemos citar a criação da Agenda 21, um amplo programa de ação com a finalidade de dar efeito prático aos princípios aprovados na declaração do Rio.

Em síntese, a Agenda 21 constitui um plano de ação estratégico, que possuiu a mais ousada

e abrangente tentativa já feita de realizar, em escala planetária, um novo padrão de

desenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica. Assim, estabelecendo uma parceria entre governos e sociedades, ou seja, um programa estratégico,

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universal, para alcançarmos o desenvolvimento sustentável no século XXI. Com isso, a implantação da Agenda 21 pode proporcionar um Meio Ambiente equilibrado para as futuras gerações (ABREU,

2009).

A construção e implementação de alguns processos da Agenda 21 tem o intuito de sensibilizar a população através da educação ambiental, transformando e impulsionando as políticas públicas ambientais, levando-se em consideração as demandas populares pela equidade de um desenvolvimento social, econômico e ambiental. O papel da educação na promoção do desenvolvimento sustentável é tratado mais especificamente no Capítulo 36 da Agenda 21, que trata da promoção do ensino, da conscientização e do treinamento; propõe um esforço global para fortalecer atitudes, valores e ações que sejam ambientalmente saudáveis e que subsidiem o desenvolvimento sustentável. Antes mesmo do surgimento da Agenda 21, segundo Sorrentino (1998), foi a partir da Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA), no ano de 1977, que se iniciou um amplo processo em nível global orientado que visava criar as condições que para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios da complexidade.

Ainda segundo o autor, tal campo educativo tem sido fertilizado transversalmente, e isso vem possibilitando a realização de experiências concretas de educação ambiental de forma criativa e inovadora por diversos segmentos da população e em diversos níveis de formação. Na Cidade de Tessalônica, Grécia em 1997, foi realizada a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, onde o seu documento chama a atenção para a necessidade de se articularem ações de educação ambiental baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e participação e práticas interdisciplinares. Segundo Godard (1997), a interdisciplinaridade é com efeito, o tema ideal de discursos enfáticos e abstratos, suscetíveis de inflamar as paixões e de alimentar longos debates, onde cada qual se considera suficientemente competente de emitir uma opinião tão definitiva quanto distante de um conhecimento prático comprovado. Ainda segundo o autor, quanto mais a aproximação interdisciplinar apontar na direção da simbiose, tanto mais ela necessitará dispor de amplos horizontes temporais, considerados suficientes para que o conhecimento mútuo e a confiança possam se estabelecer, e para que se possa construir uma crônica de fases alternadas do conhecimento disciplinar isolado e de fases de forte interação e de realizações comuns. Assim, a educação ambiental pode ser indicada como um dos possíveis instrumentos interdisciplinar capaz de capacitar e ao mesmo tempo sensibilizar a população em geral acerca dos problemas ambientais nos quais se deparam a humanidade na atualidade. Através desta, torna-se possível a elaboração de métodos e técnicas que facilitam a tomada de consciência das pessoas a respeito da gravidade e necessidade da implementação de providências urgentes no que diz respeito aos problemas ambientais globais. De acordo com Minnini (1994), a Educação Ambiental enfatiza o desenvolvimento de valores e comportamentos diferentes na inter-relação homem e meio ambiente, defendendo a necessidade de um conhecimento integrado da realidade e procedimentos baseados na investigação dos problemas ambientais, utilizando estratégias interdisciplinares. Diante disto, a educação é um meio para que aconteça a transformação na sociedade. No entanto, essa mudança depende da práxis educativa do educador, que deve oferecer condições para que o educando se torne independente, crítico, consciente, livre, responsável com o mundo, com a vida e consigo mesmo. Educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo social, reconhecendo no processo histórico um tempo de possibilidades inesgotáveis. Desta forma, podemos dizer que o processo educativo configura-se como um "ensinar a pensar de forma autônoma”. É um "que fazer dialogado, co-participado", integrado e por isso não pode de modo

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algum tornar-se produto de uma mente burocratizada e estagnada, ao contrário exige dos seus participantes uma reflexão crítica reflexiva da prática e do contexto histórico, político e cultural no qual encontra-se inserido (FREIRE, 1987). Sendo assim, a educação é um processo contínuo, devendo nunca se distanciar da realidade concreta do educando e do educador, buscando a coerência entre o dizer e o fazer, entre o pensar e o agir, entre o sentir e o falar. Partimos da concepção de que, a educação ambiental também é um processo contínuo, interdisciplinar, direcionada a toda sociedade e, por isso mesmo, deve promover uma vinculação estreita com as práticas sociais e políticas, com as nossas formas de intervir na realidade. A educação, assim como a educação ambiental, não se restringe apenas a uma mera transferência de conhecimentos, mas a um ato de compromisso, de conscientização e de testemunho de vida. Por conseguinte, a educação terá um papel determinante na criação da sensibilidade social necessária para reorientar a humanidadade (ASSMANN, 2001, p. 26). De acordo com Freire (1977 apud Philippi Jr., 2005), a educação como prática de liberdade não é a transferência ou a transmissão do saber nem da cultura; não é a extensão de conhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos; não é a perpetuação dos valores de uma cultura dada, nem o esforço de adaptação do educado a seu meio. A tarefa do educador, então, é problematizar aos educandos o conteúdo que os mediatiza, e não dissertar sobre ele. Dessa forma, ele (o educador) aprofunda-se e compromete-se com o processo, enquanto os educandos o captam, o analisam e o compreendem (PHILIPPI JR.,

2005).

Nesse contexto, o processo de conscientização e sensibilização acerca das questões sociais, econômicas e ambientais necessita do envolvimento e participação dos sujeitos, que por meio das responsabilidades buscarão a ação e participarão na tomada de decisões para a solução dos problemas ambientais. Desta maneira, a educação ambiental pode contribuir de forma significante na formação da cidadania crítica e responsável, capaz de participar de forma democrática das decisões políticas, econômicas do desenvolvimento das futuras gerações. Assim, precisamos tratar a educação ambiental a partir de sua vinculação direta com a ética e a cidadania, situando-a numa reflexão mais ampla, o que envolve uma visão sociológica e uma visão política de mundo. Nessa perspectiva, é importante que a educação ambiental desperte nas pessoas o sentimento de que somos co-responsáveis pela mudança de atitude, que não só promova a preservação da vida, mas uma nova mentalidade essencial para criar um novo tipo de desenvolvimento - o desenvolvimento sustentável - onde as sociedades sustentáveis combatem o desperdício, levam em conta o processo coletivo, e o bem comum sem violar os direitos individuais das pessoas. Além disso, não basta apenas apontar problemas decorrentes de uma ação do homem em relação ao meio ambiente, é imprescindível, entender o ambiente não somente como um meio para satisfazer as necessidades humanas, mas como o meio ambiente do ser humano, que condiciona a própria sobrevivência. Este ambiente tem sua própria dinâmica, suas regras e exigências e a humanidade pode interagir com ele (PENTEADO, 1994). Segundo Philippi Jr. (2005), a educação ambiental deve, portanto, capacitar ao pleno exercício da cidadania, permitindo a formação de uma base conceitual suficientemente diversificada, técnica e cultural, de modo a permitir que sejam superados os obstáculos à utilização sustentável do meio. Ainda de acordo com o mesmo autor, educação ambiental não é ecologia; pressupõe conhecimentos disciplinares diversos, que permitam uma visão integral dos problemas e seu enfrentamento de forma interdisciplinar.

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Metodologia

A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo partiu de uma abordagem

com natureza bibliográfica que, na visão de Gil (1991), é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Na desenvoltura do mesmo foi realizada uma análise documental referente às literaturas em alguns autores que enfocam a questão da Educação Ambiental, consumo e sustentabilidade, assim como periódicos (revistas e jornais) que serviram para enriquecimento, ampliação e verificação das questões levantadas. Após a coleta e revisão do material, foi feita uma análise dos dados escolhidos e dado início a escritura do mesmo.

4 Conclusão

A educação ambiental é um tema sempre presente nas discussões de âmbito educacional

nas últimas décadas. Entretanto, é possível perceber que embora esta temática seja amplamente debatida, estudada, percebemos a cada dia, em uma velocidade assustadora, a destruição do meio ambiente em prol do desenvolvimento e consumo estipulado pela humanidade. Nesse sentido, é imprescindível apresentar caminhos metodológicos para a implementação de políticas de gestão do meio ambiente na escola e na sociedade, objetivando a formação de consciências individuais e coletivas no sentido de alcançarmos a sustentabilidade ambiental. Diante do exposto, cabe-nos observar que o educador, o gestor, o pesquisador tem um papel importante na formação de um sujeito crítico, participativo e criativo, com argumentação e visão dialética do contexto sócio-político-ambiental e do processo de desenvolvimento sustentável, pois, educar ambientalmente é um processo de educação política, é formar atitudes que predisponham à ação.

REFERÊNCIAS

ABREU, Bruno Soares. Gestão e resíduos sólidos e seus aspectos sociais econômicos e ambientais. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Campina Grande, 2009. ASSMANN, H. Reencantar a educação rumo à sociedade aprendente. 5 ed. Petrópolis:

Vozes, 2001. BARBOSA, Erivaldo Moreira. Introdução ao direito ambiental. Campina Grande:

EDUFCG, 2007. BECKER, Dionizar Fermiano. Desenvolvimento Sustentável: Necessidade e/ou Possibilidade.2.ed. Santa Cruz do Sul:Edunisc, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 27 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GIANSANTI, R. O desafio do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 1998. GODARD, O. A relação interdisciplinar: problemas e estratégias. In: VIEIRA, Paulo Freire; WEBER, Jacques (Eds). Gestão de recursos naturais renováveis e desenvolvimento. Novos desafios para a pesquisa ambiental. São Paulo: Cortez, 1997, pp. 321-360. LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001. 343p. MININNI, N.M. Elementos para a introdução da dimensão ambiental na educação escolar – 1º grau. Amazônia: uma proposta interdisciplinar de educação ambiental. Brasília, IBAMA, 1994. PENTEADO, H.D. Meio ambiente e formação de professores. São Paulo: Cortez, 1994. PHILIPPI JR., A. Saneamento, saúde e ambiente – fundamentos para um desenvolvimento sustentável. São Paulo: Manole, 2005. SORRENTINO, M. De Tbilisi a Tessaloniki, a educação ambiental no Brasil. In: JACOBI, P. et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo:

SMA.1998. p.27-32.

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EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL

Hadryan Lima RODRIGUES

hadryan11@yahoo.com.br

Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil.

RESUMO As questões ambientais geram diversas manifestações, principalmente contra a utilização de “tecnologias poluentes”, o que de uma forma ou de outra nos conduz para a necessidade de implantação de um processo de desenvolvimento mais responsáveis com o ambiente. Observando esse contexto, a realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados com as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento das múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar os impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis locais, regionais e intrarregionais. PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, consumo sustentavel, sociedade.

ABSTRACT Environmental issues generate several manifestations, mainly against the use of “polluting technologies”, which leads us to the need for implementation of a development process more responsible regarding environment. Observing this context, this study arose from the interest in discussing problems related to the several forms of environmnet consumption and making the connection with the several knowledges related to environmental education practices, in order to supply with subsidies for the understanding of multiple situations related to anthropic action with the environment. It also aims at analyzing the socieoeconomical impacts of these relations, as well as contributing for the development of actions leading to the improvement in local, regional and interregional levels. KEYWORDS: environmental education, sustainable consumption, society.

1 INTRODUÇÃO A Educação Ambiental constitui-se em uma ação educativa permanente. É também através dela que a comunidade educativa toma consciência de sua realidade global, do tipo de relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas decorrentes destas relações e de causas mais profundas. Ela desenvolve, mediante uma prática que vincula o educando com a comunidade, valores e atitudes que promovem um comportamento dirigido a transformação superadora dessa realidade, tanto em seus aspectos naturais quanto sociais, desenvolvendo no educando as habilidades e atitudes necessárias para esta transformação. No dia 27 de Abril de 1999 a Educação Ambiental tornou-se lei. Trata-se da Lei N° 9.795 – Lei da Educação Ambiental – que em seu Art. 2° afirma:

A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal (BRASIL, 1999).

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Ocorre que, muitas vezes em nome do desenvolvimento técnico-científico, tem se efetivado o consumo cada vez mais desordenado do ambiente. Esse aspecto deixou claro os problemas de ordem ambiental, fazendo com que essa problemática acabasse por agravar os questionamentos sobre essa forma de consumo do espaço. Nesse cenário, as manifestações contra a utilização de “tecnologias poluentes” também aumentaram, o que de uma forma ou de outra vai nos conduzindo para a necessidade de implantação de um processo de desenvolvimento mais responsável com o ambiente. Conforme Rosa (1992), é exatemente o desenvolvimento sustentável que vai apresentar uma síntese para responder as demandas sociais emergentes desse contexto. Em uma visão empresarial, o espaço constitui-se cada vez mais em um produto de

consumo. Sob essa perspectiva, um outro problema surge dessa situação: a ocupação, a produção e

o consumo do meio ambiente geralmente é desacompanhada de uma preocupação ambiental, o que

contribui para o agravamento dos aspectos relacionados degradação ambiental. Entretanto, é possível afirmar que estão sendo implantadas medidas, ainda que de forma pouco abrangentes, para se promoverm uma melhoria do ambiente, mesmo que sejam para possibilitarem a otimização das margens dos lucros empresariais.

A degradaçao ambiental se manifesta de diversas formas e sob variadas cirunstâncias.

Nesse sentido, concordamos com Borrero (1990) quando afirma que a lógica da ciência e da tecnologia, a falta de uma política social coerente e a procura por necessidades básicas que garantam a sobrevivência faz com que muitas pessoas sejam “cúmplices involuntárias da degradação ambiental”. Sendo assim, constata-se mais um agravante: a difusão da idéia de que a implentação de ações que promovam a justiça social são impossíveis de acontecerem em países que ainda estão em vias de desenvolvimento. Sabe-se que a produção industrial descontrolada ameaça signficativamente a vida no planeta. Desta forma, é possível afirmar que há uma relação direta entre a atividade de consumo realizada pelo homem com os padrões de sustentabilidade do ambiente. Além desta constatação,

pode-se afirmar, ainda, que o ambiente não é fonte inesgotável de recursos, bem como não assegura

o crescimento econômico permanente entre as nações.

Levando-se em consideração o contexto atual, aponta-se para a necessidade de efetivação de um consumo sustentável que possa auxiliar na mitigação dos problemas decorrentes das diversas formas de produção e consumo ao qual estamos todos submetidos. Deve-se destacar, ainda, que o conceito de consumo sustentável passou a ser construído a partir do termo desenvolvimento sustentável, divulgado com a Agenda 21, documento produzido durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, na cidade do Rio de Janeiro, em 1992.

A Agenda 21 relata quais as principais ações que devem ser tomadas pelos governos para

aliar a necessidade de crescimento dos países com a manutenção do equilíbrio do ambiente. Os temas principais desse documento falam exatamente sobre as modificações dos padrões de consumo, do manejo ambiental dos resíduos sólidos e do saneamento, bem como abordam o fortalecimento do papel do comércio e da indústria. Desta forma, o consumo sustentável se trata de um desafio que nos remete ao pensamento sobre a importância de se adotar um comportamento mais comprometido com a necessidade de reciclar, bem como de se adotar um novo estilo de vida que nos conduza a novos padrões de consumo. Sabe-se, ainda, que esta deve ser uma tarefa pertinente a todas as esferas, sejam governamentais, sociais ou mesmo empresariais. Segundo Portilho (2004), é exatamente a partir do crescimento dos movimentos ambientalistas, que vão surgir novos argumentos contra os hábitos ostensivos e consumistas de nossa sociedade. Essa prerrogativa deixa evidente que o padrão de consumo das sociedades ocidentais, além de se apresentar de forma socialmente injusta, também é imoral e ambientalmente insustentável. Sobre esse assunto a autora se manifesta da seguinte forma:

A crise ambiental mostrou que não é possível a incorporação de todos no universo de consumo em função da finitude dos recursos naturais. O ambiente natural está sofrendo uma exploração excessiva que ameaça a estabilidade dos seus sistemas de sustentação (exaustão de recursos naturais renováveis e não renováveis, desfiguração do solo,

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perda de florestas, poluição da água e do ar, perda de biodiversidade, mudanças climáticas etc.). Por outro lado, o resultado dessa exploração excessiva não é repartido eqüitativamente e apenas uma minoria da população planetária se beneficia desta riqueza. (PORTILHO, 2004)

A realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados com as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento das múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar os impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para o desenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveis locais, regionais e intrarregionais. Se levarmos em consideração o princípio ético de igualdade, em que todos os habitantes do planeta, das presentes e das futuras gerações, possuem o direito a usufruir os recursos naturais, poderemos chegar a constatação de que enquanto os países desenvolvidos continuarem distribuindo de forma desigual a riqueza e os recursos naturais, os países do subdesenvolvidos poderão continuar reivindicando o direito de adotar o mesmo padrão de comportamento, tornando impossível a contenção do consumo global dentro de limites considerados sustentáveis. Nesse sentido, os riscos de conflitos gerados a partir do interesse de consumo pelos recursos naturais tenderão a aumentar. Esse dilema conduz para a percepção ética de que todos os povos devem ter direitos proporcionais no acesso e na utilização dos recursos naturais. Sendo assim, para se promover a redução das disparidades socioeconômicas, é necessário estabelecer um nível mínimo e um máximo para os padrões de consumo. Entretanto, cada sociedade possui o direito e o dever de desenvolver o seu estilo de vida, mas não sem antes estabelecer uma condição de vida e de consumo que não comprometa a qualidade de vida da própria humanidade. O que é Educação Ambiental (EA)? O que é consumo sustentável? Qual é a relação entre a EA e os níveis de consumo da humanidade? Quais os valores éticos referentes a prática do consumo sustentável? Que tipos de ações em EA poderiam ser realizadas para se garantir uma melhor relação entre consumo e qualidade de vida? Focalizar esta realidade significa, portanto, contribuir não somente para o desenvolvimento da área das ciências sociais numa perspectiva acadêmica. Trata-se, também de produzir conhecimentos que possam ser utilizados no campo da Educação Ambiental, dando suporte às estratégias de desenvolvimento de ações que culminem na formação de cidadãos mais críticos e responsáveis com o ambiente.

2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL Recorrendo a Portilho (2004), percebe-se que a qualidade de vida, a felicidade e a qualidade ambiental estão sendo cada vez mais associadas ou reduzidas às conquistas materiais. Essa constatação leva a um ciclo vicioso, onde o indivíduo trabalha não somente para manter um determinado nível de consumo, mas também para ostentar uma condição materialista de sucesso social. Esta situação reduz o tempo destinado ao lazer e a própria felicidade a mercadorias que devem ser consumidas para alimentar a características inerentes ao modelo econômico do qual fazemos parte. Por este ângulo, é conveniente destacar que a expansão da Sociedade de Consumo, amplamente influenciada pel