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UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ JOHN DAVID CARDOSO COSTA ANÁLISE E GERENCIAMENTO DE RISCO NO LICENCIAMENTO

UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ

JOHN DAVID CARDOSO COSTA

ANÁLISE E GERENCIAMENTO DE RISCO NO LICENCIAMENTO AMBIENTAL DAS INDÚSTRIAS QUÍMICAS

Rio de Janeiro

2010

JOHN DAVID CARDOSO COSTA

ANÁLISE E GERENCIAMENTO DE RISCO NO LICENCIAMENTO AMBIENTAL DAS INDÚSTRIAS QUÍMICAS

Monografia apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito para a conclusão do Curso de Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho com habilitação em Engenheiro de Segurança do Trabalho.

ORIENTADOR: FELIPE DA COSTA BRASIL

Rio de Janeiro

2010

JOHN DAVID CARDOSO COSTA

ANALISE E GERENCIAMENTO DE RISCO NO LICENCIAMENTO AMBIENTAL DAS INDÚSTRIAS QUÍMICAS

Aprovada em

Monografia apresentada à Universidade Estácio de Sá como requisito para a conclusão do Curso de Pós-Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho com habilitação em Engenheiro de Segurança do Trabalho.

de

de

BANCA EXAMINADORA

Professor Felipe da Costa Brasil (Orientador) Universidade Estácio de Sá

Professor (a)

Universidade Estácio de Sá

Professor (a)

Universidade Estácio de Sá

Dedico esta Monografia aos meus pais espirituais e terrenos.

"Aqueles que desenvolvem as tecnologias, que promovem a eles e estão para lucrar mais com eles, não são aqueles que sofrem os seus riscos. A análise das tecnologias é inclinada para o seu uso porque os promotores da tecnologia em geral, carecem de conhecimento e incentivo para analisar os riscos das tecnologias para a saúde humana e o meio ambiente ".

Patricia Hynes , autora de "The Recurring Silent Spring"

" Agora eu realmente acredito que nós, desta geração devemos entrar em acordo com a natureza, e eu penso que nós somos desafiados, como a humanidade nunca foi contestada, para provar nossa maturidade e nosso domínio, não da natureza, mas de nós mesmos." Rachel Carson, autora de Silent Spring

Agradecimentos

Agradeço, Ao Grande Arquiteto do Universo pela existência. Aos Senhores da Lei pela misericórdia de permitir que concluísse mais esta obra. Aos meus pais espirituais pela infinita paciência e misericórdia. Aos meus pais terrenos pela infinita paciência e amor. Ao meu irmão terreno pelo companheirismo e paciência. Aos Amigos do Curso de Engenharia de Segurança do Trabalho, pelo companheirismo, entusiasmo e alegria durante as aulas. E pelas novas amizades. Ao meu irmão Alessandro, por me acompanhar em mais esta jornada. Aos Professores do Curso de Pós-graduação, em especial, ao Professor Felipe Brasil, cujos conhecimentos passados, foram muito importantes no meu desenvolvimento profissional na Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Aos companheiros da SMAC: Arquiteta e Engenheira de Segurança Alessandra Elias, Eng. Química Débora Barros e ao Eng. Civil Luís André pelo material fornecido, que foram vitais na execução deste trabalho. A Geóloga Denise Glória pela orientação e revisão dos textos. Ao Eng. Mecânico Fernando Cappella e ao Eng. Químico Manoel Martins pelo incentivo na realização deste trabalho. E a todos que contribuíram direta e indiretamente a este trabalho, os meus sinceros e profundos agradecimentos.

E a todos que contribuíram direta e indiretamente a este trabalho, os meus sinceros e profundos

Resumo

Os grandes acidentes industriais das décadas de 70 e 80, como os acidentes de Flixborough (1974), Seveso (1976), Bhopal (1984) e Chernobil (1986), despertaram as atenções do mundo para necessidade de prevenir estes acidentes. É neste contexto que a Análise e o Gerenciamento de Risco surgem como ferramenta para prevenir acidentes, minimizando os riscos nas atividades industriais, sobretudo nas indústrias químicas e petroquímicas. Estes recursos normativos que os órgãos governamentais implementaram visando à proteção do meio ambiente e a saúde e segurança dos trabalhadores foram inseridos no processo de licenciamento ambiental. O presente trabalho propõe-se a apresentar uma abrangente revisão bibliográfica da analise e gerenciamento de risco usado no licenciamento ambiental das indústrias químicas e a sua relação com a Engenharia de Segurança do Trabalho.

Palavras-chave

Segurança Ambiental; Risco, Análise de Risco; Gerenciamento de Risco; Licenciamento Ambiental.

Abstract

The major industrial accidents from the 70s and 80s, such as accidents at Flixborough (1974), Seveso (1976), Bhopal (1984) and Chernobyl (1986), aroused the world's attention to the need to prevent these accidents. In this context, Analysis and Risk Management emerge as a tool to prevent accidents and minimize the risks in industrial activities, mainly in chemical and petrochemical industries. These normative sources that government agencies have implemented in order to protect the environment and health and safety of workers were placed in the environmental licensing process. This paper aims to present a comprehensive review and analysis of risk management used in environmental licensing of the chemical industries and its relationship with the Occupational Safety Engineering.

Keywords

Environmental

security;

Risk,

Environmental licensing

Risk

analisys;

Risk

management;

Sumário

1 Introdução

1

2 Conceitos e Definições

3

2.1. Risco e Perigo

3

2.2. Classificação dos Riscos

5

2.3. Percepção dos Riscos

9

3 Evolução Histórica da Análise de Risco e o do Prevencionismo

11

3.1. Antecedentes

11

3.1.1. Estudos de Heirinch

13

3.1.2. Estudos de Bird

14

3.1.3. Estudos da ICNA

15

3.1.4. Estudos de Flechter & Douglas

16

3.1.5. Estudos de Hammer

17

3.1.6. Estudos da DuPont

17

3.2. Os Grandes Acidentes Industriais

19

3.2.1. Refinaria de Duque de Caxias

22

3.2.2. Flixborough

23

3.2.3. Desastre de Seveso

24

3.2.4. Incêndio na Vila Socó

25

3.2.5. Acidente de Bhopal

26

3.2.6. Acidente nuclear de Chernobil

28

3.2.7. Incêndio na plataforma Piper Alpha

32

3.3. Programas Internacionais para Prevenção de Acidentes Industriais

34

3.3.1. Organização das Nações Unidas

34

3.3.2. Comunidade Européia

35

3.3.3. Estados Unidos

36

3.3.4. Conselho Internacional das Indústrias Químicas (ICCA)

37

4 O Licenciamento Ambiental e Estudo de Análise de Risco no Brasil38

4.1.

Surgimento da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA)

38

4.2. O Licenciamento Ambiental

41

4.2.1. Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental44

4.2.2. Estudo de Análise de Risco no Licenciamento Ambiental

45

4.2.2.1.

Classificação quanto a Periculosidade das Instalações

48

4.2.2.1.1.

Classificação dos Gases e Líquidos quanto à

toxicidade e inflamabilidade

49

4.2.2.1.2. Determinação da Massa Mínima de Referência . 50

4.2.2.1.3. Fator de Perigo (FP)

51

4.2.2.1.4. Fator de Distância (FD)

52

4.2.2.1.5. Determinação do Nível de Risco Preliminar

53

4.2.2.2.

Complexidade do EAR em função do Nível de risco

54

4.2.2.2.1.

Relatório de Segurança

54

5 Análise, Avaliação e Gerenciamento de Riscos Ambientais

56

5.1.

Estudo de Análise de Riscos

56

 

5.1.1. Avaliação Prévia

58

5.1.2. Identificação dos Perigos

58

5.1.2.1. Analise Preliminar de Perigo (APP)

60

5.1.2.2. Estudo de Perigo e Operabilidade (HAZOP)

62

5.1.3.

Avaliação de Riscos

67

5.1.3.1. Estimativa de Freqüências

67

5.1.3.2. Estimativa de Conseqüência e Vulnerabilidade

69

 

5.1.3.2.1. Vazamentos

70

5.1.3.2.2. Incêndios

72

5.1.3.2.3. Explosões

75

5.1.3.2.4. Analise dos Efeitos físicos

78

5.1.3.2.5. Análise de Vulnerabilidade

80

5.1.3.3.

Estimativa dos Riscos

87

5.1.3.3.1. Risco Individual

88

5.1.3.3.2. Risco Social

89

5.1.3.3.3. Indicadores de Risco

91

 

5.1.4.

Gerenciamento de Risco

93

 

5.1.4.1.

Programa de Gerenciamento de Risco (PGR)

95

5.1.4.1.1. Alocação de Responsabilidades do PGR

95

5.1.4.1.2. Informação sobre Segurança de Processo

96

5.1.4.1.3. Análise de Riscos no PGR

97

5.1.4.1.4.

Procedimentos Operacionais

97

5.1.4.1.5. Treinamento

98

5.1.4.1.6. Gerenciamento de Modificações

99

5.1.4.1.7. Manutenção

100

5.1.4.1.8. Plano de Ação de Emergências (PAE)

102

5.1.4.1.9. Auditorias

107

5.2. Equipe para realização do EAR

109

5.2.1.1. Importância do Engenheiro de Segurança do Trabalho na

realização do EAR

110

6 Conclusões

112

7 Referências Bibliográficas

113

11
11

Lista de figuras

Figura 1 - Seqüência de Eventos (Kirchhoff, 2004) 4

Figura 2: Classificação dos Riscos ambientais (Modificado de Cerri & Amaral, 1998) 6

Figura 3: Riscos Empresariais (Souza, 1995)

8

Figura 4: Pirâmide de Heirinch

13

Figura 5: Pirâmide de Bird (De Cicco & Fantazzini, 1993)

14

Figura 6: Dominó de Bird (Silva . S, 2008 apud Furnas, 2006) 15

Figura 7: Pirâmide da ICNA (De Cicco & Fantazzini, 1993)

16

Figura 8: Pirâmide da DuPont (Reis,2008 apud DuPont, 2008)

18

Figura 9: Pirâmide da DuPont para acidentes ambientais (Reis,2008 apud DuPont, 2008) 18

Figura 10: Evolução da produção industrial mundial (Moreira, 2008)

20

Figura 11: Crescimento populacional mundial. (Martins, 2009)

20

Figura 12: Jornal A Notícia de 30 de março de 1972

22

Figura 13; Planta da Nypro após as explosões (Pascon, 2009) 24

Figura 14: Equipe de socorro em Seveso (Almeida, 2008) 25

Figura 15: Vila Socó após o incêndio (Folha de São Paulo,

26

Figura 16: Sobreviventes do acidente de Bhopal (Feliciano,

27

Figura 17 – Mapa mostrando o avanço da radiação após o acidente (CIA

30

Figura 18: Criança nascida após o acidente (Duply. 2007) 31 Figura 19: O Sarcófago (Montgomery, 2006) 31

.34

Figura 21: Órgãos Estaduais que compõem o SISNAMA (Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais, Caderno de Formação, Volume 1, p 40, 2006) 40 Figura 22: Quadro sinóptico dos bens protegidos pela Constituição (Poveda,

Figura 20: Monumento em memória as vitimas do acidente (Wikipedia,

Handbook of International Economic Statistics,

2005).

2004) 41 Figura 23: AR, PGR e PAE segundo GENERINO. (Caderno de Licenciamento

Ambiental, p. 44. MMA 2009)

48

Figura 24: Fatores que influenciam os estudos de análise de riscos em

48

Figura 25: Matriz de classificação de risco: Freqüência x Severidade (AGUIAR, 2001) 62 Figura 26: Fluxograma de tubulação e instrumentação com marcação dos nós

63

Figura 27: Fluxograma do procedimento de um HAZOP (Souza, 1995) 65

Figura 28: Exemplo de um diagrama de AAE para um evento indesejado

68

Figura 29: Exemplo de AAE com quantificação de probabilidade e custo

69

Figura 30: Tipos de Vazamentos (CETESB, 2008) 70 Figura 31: Jato de dispersão de gás pesado. (CETESB, 2008) 71

Figura 32: Jato de dispersão de gás neutro. (CETESB, 2008)

Figura 33: sistemas geradores de nuvem: dispersão por jato e flasheamento da

72

Figura 34: Efeito Dominó gerado por um incêndio. (Bozzolan, 2006) 73 Figura 35: Incêndio em poça. (NR comentada, 2009) 74 Figura 36: Bolo de Fogo. (NR comentada, 2009) 75

instalações industriais (CETESB 2003)

(adaptado, Pinto, 2009)

(Bozzolan, 2006

(Kichhoff, 2004)

71

poça (CETESB,2008)

Figura 37: Efeito dominó causado por uma explosão (Bozzolan, 2006)

77

Figura 38: Simulação de BLEVE usando o software ALOHA 5.4

80

Figura 39: Simulação dos efeitos de sobrepressão causados pela explosão de

83

Figura 40: Simulação de liberação de nuvem tóxica 87 Figura 41: Estimativa do número de vítimas para o cálculo do risco social

89

Figura 42: Exemplo de plotagem de contorno de risco individual (CETESB, 2008) 92 Figura 43: Critério de tolerabilidade para risco social (CETESB 2008) 93

Figura 44: Exemplo de Plotagem de dados no gráfico de tolerabilidade

um VCE

(CETESB, 2000)

(Kirchhof,2004)

93

Figura 45: Processo de Redução de Risco (CETESB, 2008)

94

Figura 46: Estrutura organizacional de um PAE (CETESB, 2008) 105 Figura 47: Fluxograma do desenvolvimento das Ações de Emergência 106 Figura 48: Cenário de um acidente e o planejamento das equipes (Araújo, 2005) 107

Figura 49: Foco da Auditoria Ambiental (Almeida, J., 2008)

108

Lista de tabelas

Tabela 1 - Acidentes com perdas acima de dez milhões de dólares (Silva,

S.,2008)

18

Tabela 2: Classificação das substâncias tóxicas pelo CL 50 (CETESB, 2000)

49

Tabela 3: Classificação das substâncias inflamáveis (CETESB, 2003)

50

Tabela 4: Classificação quanto à inflamabilidade dada pelo NR20 50

Tabela 5: Massa Mínima de Referência, em Kg, considerada a Toxicidade

(FEEMA, 2005)

51

Tabela 6: Massa Mínima de Referência, em Kg, considerada a inflamabilidade

(FEEMA, 2005)

51

Tabela 7: Determinação do NRP para gases e gases liquefeitos (FEEMA, 2005)

 

53

Tabela 8: Determinação do NRP para líquidos (FEEMA, 2005)

54

Tabela 9: Relação entre Probit e percentagem. (CETESB 2008)

81

Tabela 10: Níveis de Radiação térmica: Probabilidade de Morte x tempo de

82

Tabela 11: Porcentagem de morte por hemorragia pulmonar devido a

84

Tabela 12: Porcentagem de ruptura de tímpano devido a sobrepressão(CETESB 2008) 84 Tabela 13: Constantes para letalidade da equação de probit (AICHE, 2000) 85

exposição (CETESB 2008)

sobrepressão. (CETESB 2008)

Lista de quadros

Quadro 1: Termos e conceitos relacionados a risco (Rovisco, 2009) Quadro 2: Riscos Ambientais no ambiente de trabalho com as cores

7

5

preconizadas pela NR 5

Quadro 3: Riscos de morte por ano segundo (Modificado, Feliciano, 2008) 10

Quadro 4 – Alguns dos principais acidentes (Décadas de 70 e 80). (CETESB, 2008) 21

54

Quadro 5: Complexidade do EAR em relação ao NRP (FEEMA, 2005)

Quadro 6: Análise sumária comparativa entre três Principais tipos de Análise de

Risco (adaptação, Rovisco, 2009) 56

Quadro 7: Técnicas de identificação de riscos (Adaptação CETESB, 2008)

59

Quadro 8: Planilha de APP (Adaptado, NBR 15662/2009)

60

Quadro 9: Freqüência de ocorrência de cenários (AGUIAR, 2001)

60

Quadro 10: Categoria de Severidade (AGUIAR, 2001) 61 Quadro 11: Legenda da matriz de classificação de risco (AGUIAR, 2001) 62 Quadro 12: Palavras guias e seus significados ( adaptado, AGUIAR, 2001) 64 Quadro 13: Listas de desvios para HAZOP de processo contínuos ( adaptado,AGUIAR, 2001) 64 Quadro 14: Planilha HAZOP (NBR 15662/2009) 66 Quadro 15: Modelos matemáticos a serem utilizadas em função do estado físico do produto (CETESB, 2008) 78 Quadro 16: Principais modelos para avaliação de conseqüências (Feliciano, 2008) 79 Quadro 17: Efeitos potenciais da radiação térmica (Kichhhof, 2004) 82

85

Quadro 18: Danos às estrutura devido a sobrepressão (CETESB, 2008)

Quadro 19: Exemplo de lista de Responsabilidade e Comunicação (Araújo, 2005)

96

Quadro 20: Frequência para realização de testes e inspeções em equipamentos

(CETESB 2008)

101

Quadro 21: Funções dos integrantes da equipe que realizará o EAR

109

Lista de abreviaturas

AAE

Análise da Árvore de Eventos

AAF

Análise de Árvore de Falhas

AF

Arvore de Falhas

ABIQUIM

Associação Brasileira da Indústria Química

ABNT

Associação Brasileira de Normas Técnicas

AEGL

Acute Exposure Guidance Level

AICHE

American Institute of Chemical Engineers (Instituto Americano

de Engenheiros Químicos)

ALARA

As Low As Reasonably Achievable

ALARP

As Low As Reasonably Praticable

AMFE

Análise de Modo de Falhas e Efeitos

APELL

Awareness and Preparedness for Emergencies at Local Level

API

American Petroleum Institute

APP

Análise Preliminar de Perigos

APR

Análise Preliminar de Risco

AR

Análise de Risco

ARCHE

Automated Resource for Chemical Hazard Incident Evaluation

ASME

American Society of Mechanical Engineers (Sociedade

Americana de Engenheiros Mecânicos)

BLEVE

Boiling Liquid Expanding Vapour Explosion

CAER

Comunity Awareness and Emergency Response

CEE

Comunidade Econômica Européia

CEPP

Chemical Emergency Preparedness Program

CETESB

Companhia Tecnologia de Saneamento Ambiental

CFR

Code of Federal Regulations

CHARM

Complex Hazardous Air Release Model

CIMAH

Control of Industrial Major Hazards

CIPA

Comissão Interna de Prevenção de Acidentes

CLT

Consolidação das Leis Trabalhistas

CL 50

Concentração Letal 50

CMA

Chemical Manufacture Association

COMAH

Control of Major Hazards

CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente

CONFEA Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia

CREA Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia

CRFB Constituição da Republica Federativa do Brasil

DDT Dicloro-Difenil-Tricloroetano

DL 50

DR Distancia de Referência

EAR Estudos de Análise de Risco

EEGL Emergency Exposure Guidance Level

EIA Estudo de Impacto Ambiental

EPA U.S. Environmental Protection Agency

EPCRA Emergeny Planning and Comunity Right-to-Know Act

EST Engenheiro de Segurança do Trabalho

FD Fator de Distância

FEEMA Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente

FEPAM Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz

Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Dose Letal 50 Roessler FISPQ Ficha de Informação de

Dose Letal 50

Roessler

FISPQ Ficha de Informação de Segurança de Produtos Químicos

FMEA Failure Modes and Effects Analysis

GLP Gás Liquefeito de Petróleo

HAZOP Hazard and Operability Studies

IBAMA Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis

ICCA International Council of Chemical Associations

ICMESA Industrie Chimiche Meda Società Azionaria

ICNA Insurance Company of North America

IDLH Immediately Dangerous to Life on Health concentration

INEA Instituto Estadual do Ambiente

IPCS International Programme on Chemical Safety

IR Índice de Referência

ISO International Organization for Standardization

LI Licença de Instalação

LO Licença de Operação

LP Licença Prévia

MIC Isocianeto de Metila

MLA Massa Liberada Acidentalmente

MORT Management Oversight and Risk Tree

MMR

Massa Mínima de Referência

NFPA

National Fire Protection Association

NIOSH

National Institute for Ocupational Safety and Health

NR

Norma Regulamentadora

NRP

Nível de Risco Preliminar

NRDA

Natural Resource Damage Assessment

OEMAs

Órgãos Estaduais de Meio Ambiente

OHSAS

Occupational Health and Safety Assesment Series

OIT

Organização Internacional do Trabalho

OMS

Organização Mundial da Saúde

ONU

Organização das Nações Unidas

OSHA

Occupational Safety and Health Administration

PAE

Plano de Ação de Emergências

PED

Programa de Preparativos para Situações de Emergência e

PE

Socorro em caso de Desastre Ponto de Ebulição

PF

Ponto de Fulgor

PGR

Programa de Gerenciamento de Risco

POP

Poluentes Orgânicos Persistentes

PNMA

Política Nacional de Meio Ambiente

PNUMA

Programa das Nações Unidas para Meio ambiente

PPRA

Programa de Prevenção dos Riscos Ambientais

PSM

Process Safety Management

RCRA

Resource Conservation and Recovery Act

REDUC

Refinaria de Duque de Caxias

RIMA

Relatório de Impacto Ambiental

RMP

Risk Management Program

RMS

Royal Mail Steamship

RPT

Rapid Phase Transition

SAFETI

Software for Assessment of Flamable Explosive Toxic Impact

SEMA

Secretaria Especial do Meio Ambiente

SISNAMA

Sistema Nacional de Meio Ambiente

TCDD

Tetraclorodibenzoparadioxina

TCP

Triclorofenol

VCE

Vapor Cloud Explosion

1 Introdução

Os grandes acidentes industriais ocorridos nas décadas de 70 e 80, como os acidentes de Flixborough (1974), Seveso (1976), Bhopal (1984) e Chernobyl (1986), despertaram as atenções do mundo para necessidade de prevenir estes acidentes. É neste contexto que a Análise e o Gerenciamento de Risco surgem como ferramenta para prevenir acidentes, minimizando os riscos nas atividades industriais, sobretudo nas indústrias químicas e petroquímicas. Estas atividades sofreram grandes transformações após a segunda guerra mundial, sobretudo na década de 60, quando passaram a manipular grandes quantidades de produtos químicos perigosos. No Brasil, com a publicação da Resolução nº 1, de 23/01/86, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), que instituiu a necessidade de realização do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) para o licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, os Estudos de Análise de Riscos (EAR) passaram a ser incorporados nesse processo, para determinados tipos de empreendimentos, de forma que, além dos aspectos relacionados com a poluição, também fosse contemplado a prevenção de acidentes e desastres no processo de licenciamento. A prevenção de acidentes e a manutenção da saúde e segurança do trabalhador é o principal objetivo do Engenheiro de Segurança do Trabalho. Quando os acidentes extrapolam os limites da planta industrial, além dos danos a integridade do trabalhador, pode causar danos ao meio ambiente. Deste modo o Engenheiro de Segurança do Trabalho atuando nesta linha tênue entre o meio ambiente laboral e o meio ambiente geral, exerce um papel fundamental na prevenção dos acidentes industriais. Este desafio é pautado nos objetivos estabelecidos na Norma Regulamentadora 9 (NR9) que define as etapas para elaboração do Programa de Prevenção dos Riscos Ambientais (PPRA):

Antecipação, Reconhecimento, Avaliação, Monitoramento e Controle. O Licenciamento Ambiental é uma oportunidade deste profissional trabalhar na

fase de antecipação, reconhecimento e avaliação dos riscos ambientais, quando a industria ainda está na fase de projeto. Além disso, o projeto e execução dos sistemas de segurança de combate e prevenção contra incêndios e explosões são atribuições do Engenheiro de Segurança do Trabalho, sendo estas conseqüências, as principais causas de acidentes catastróficos nas indústrias químicas e petroquímicas. O presente trabalho propõe-se a apresentar uma abrangente revisão bibliográfica da analise e gerenciamento de risco usado no licenciamento ambiental das indústrias químicas. O trabalho foi organizado em 6 capítulos, sendo o primeiro apenas introdutório. No capítulo 2, são apresentados os conceitos e definições que aparecem em todo o trabalho. No Capítulo 3, é apresentado o breve histórico da análise de risco, buscando suas raízes teóricas e sua conexão histórica com a prevenção de acidentes. Neste capítulo é apresentado os principais acidentes indústrias das décadas de 70 e 80, bem como os programas internacionais que surgiram em reação a estes eventos. No Capítulo 4, é estudada a legislação ambiental brasileira desde sua criação até a incorporação do EAR no processo de licenciamento ambiental. No Capítulo 5, são apresentadas as técnicas de Análise e Gerenciamento de Risco utilizadas no Licenciamento Ambiental e os profissionais necessários para sua realização. No Capitulo 6, são apresentadas as conclusões relativas ao tema. No Capitulo 7 são apresentadas as Referências Bibliografias usadas no trabalho.

2 Conceitos e Definições

2.1.Risco e Perigo

A conceituação moderna de risco advém da combinação entre a probabilidade de ocorrência de evento fortuito e a magnitude das perdas e danos, caso este ocorra. A fonte causadora destes danos seria o perigo propriamente dito, ou seja, o perigo é uma propriedade da situação ou coisa capaz de causar dano. Usando o exemplo de Orkrent, 1980:

duas pessoas cruzando um oceano, uma em um navio e outra em

um barco a remo. O principal perigo de águas profundas e grandes ondas são o mesmo nos dois casos, porém o risco (ou seja, a probabilidade de acontecer algum dano) é muito maior para a pessoa que está no barco a remo."

“[ ]

Sendo assim, risco é a “probabilidade de acontecer algum dano” e depende da exposição ao perigo, visto que o perigo não pode ser controlado ou reduzido, mas sua exposição pode ser gerenciada. Assim podemos dizer que:

R= PxE

(1)

Onde:

R é o Risco

P é o perigo

E quantifica a exposição.

a

segurança, sendo estas medidas de redução da exposição ou sistemas de proteção e salvaguarda:

de

Podemos dizer

que

o risco

é

razão do perigo e as medidas

Risco =

Perigo

Salvaguardas

(2)

A exposição ao perigo pode ser substituída pela freqüência de ocorrência do evento indesejado em relação à magnitude do dano. Assim teremos a seguinte equação:

Onde:

Ri= Fi x Mi

(3)

Ri é o risco associado ao evento indesejado.

Fi é a freqüência de ocorrência do evento

Mi é a magnitude da conseqüência do evento ou conseqüência do dano.

assim o risco pode ser estimado quantitativamente e

qualitativamente, desde que conhecido os perigos, a magnitude de suas conseqüências e a freqüência de ocorrência do evento indesejado. Assim podemos modelar o risco como uma seqüência de eventos, conforme figura abaixo:

Sendo

uma seqüência de eventos, conforme figura abaixo: Sendo Figura 1 - Seqüência de Eventos (Kirchhoff, 2004)

Figura 1 - Seqüência de Eventos (Kirchhoff, 2004)

Segundo Canter & Knox (1990), a quantificação do risco inclui definir o perigo, identificar o evento inicial causado pela fonte de potencial dano, as conseqüências ao sistema receptor e atribuir freqüências de acontecimento desse evento. No presente trabalho usará os conceitos baseados na OHSAS 18.001:

Perigo: Fonte ou situação com potencial para provocar danos em termos de lesão, doença, dano à propriedade, meio ambiente, local de trabalho ou a combinação destes.

Risco: Combinação da probabilidade de ocorrência e das conseqüências de um determinado evento perigoso.

Além do conceito de risco há outras definições associadas que merecem destaque no que tange a sua conceituação e estão relacionadas no Quadro 1.

Quadro 1: Termos e conceitos relacionados a risco (Rovisco, 2009)

Acidente

Ao contrário do conceito de risco, acidente é um fato já ocorrido, evento não intencional que pode causar ferimentos, pequenas perdas e danos materiais e/ou ambientais, mas é prontamente controlado pelo sistema de gestão (exemplo: incêndio em uma indústria, controlado pelos bombeiros).

Evento

Assim como o acidente, evento é um fato já ocorrido, fenômeno com características, dimensões e localização geográfica registrada no tempo, onde não foram registradas conseqüências sociais e/ou econômicas (perdas e danos).

Frequência

Número de ocorrências por unidade de tempo.

Desastre

Evento não intencional que pode causar ferimentos médios e graves, danos materiais/ambientais razoáveis, e é parcialmente controlado pelo sistema de gestão (exemplo: vazamento e explosão de material inflamável, com contaminação de curso de água e solo).

Perigo

Condição ou fenômeno com potencial de ameaçar a vida humana, a saúde, propriedade ou ambiente, trazendo conseqüências desagradáveis.

Vulnerabilidade

Grau de fragilidade de um dado elemento, grupo ou comunidade dentro de uma determinada área passível de ser afetada por um fenômeno ou processo.

Área de Risco

Área passível de ser atingida por fenômenos ou processos naturais e/ou induzidos que causem efeitos adversos. As pessoas que habitam essas áreas estão sujeitas a danos a integridade físicas, perdas materiais e patrimoniais. Normalmente no contexto das cidades brasileiras, essas áreas correspondem a núcleos habitacionais de baixa renda (assentamentos precários).

2.2.Classificação dos Riscos

Segundo Cerri & Amaral (1998), os riscos podem ser classificados segundo a origem dos eventos potencialmente causadores de danos aos seres humanos e ao meio ambiente sendo eles de origem natural ou antrópico (Figura 2).

Riscos Ambientais Antrópico Naturais Tecnológicos: Sociais: Físicos Biológicos Terrorismo, Vazamentos de
Riscos
Ambientais
Antrópico
Naturais
Tecnológicos:
Sociais:
Físicos
Biológicos
Terrorismo,
Vazamentos
de
Assaltos, guerras,
produtos
tóxicos
e
atentados,
Associado a
Atmosférica:
inflamáveis,
radioativos, colisões
massacres,
Flora: Pragas,
Furacões,
genocídios etc.
plantas
descargas
de
aviões
e
venenosas etc.
atmosféricas,
automóveis etc.
granizo.
Associadas a
fauna: Doenças
Hidrológicos:
causadas por
Enchentes e
vírus, animais,
inundações
pragas
(roedores e
Geológicos
gafanhotos)
Endógenos: Vulcanismo
e Maremotos
Exógenos:

Escorregamentos, erosão, assoreamento.

Figura 2: Classificação dos Riscos ambientais (Modificado de Cerri & Amaral, 1998)

Cabe ressaltar a classificação dada pela Norma Regulamentadora 9 (NR9)- PPRA, para os riscos no ambiente de trabalho, classificando segundo as fontes de dano a saúde do trabalhador que podem gerar o pagamento do adicional de insalubridade dependendo do grau de exposição estabelecidos na NR15 – Atividades e Operações Insalubres . Apesar da NR9 só considerar os Riscos Físicos, Químicos e Biológicos para o PPRA, a Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho também considera como riscos ambientais,

os chamados riscos ergonômicos e de acidentes e estão caracterizados no quadro 3. Estes são previstos pelo mapa de risco contido na NR 5 - CIPA, não são legalmente exigidos quando da elaboração do PPRA. Algumas empresas optam por relatar estes riscos em seu PPRA, porém será uma iniciativa própria, não amarrada a qualquer exigência da legislação trabalhista.

Quadro 2: Riscos Ambientais no ambiente de trabalho com as cores preconizadas pela NR 5

Riscos

Riscos

 

Riscos

 

Riscos

 

Riscos

de

Físicos

Químicos

Biológicos

 

Ergonômicos

Acidentes

Compreendem

Representados

Compreendem microorganismos como bactérias,

Compreendem

Ocorrem

em

grandezas

de

pelas

disfunção

entre

função

das

natureza

substâncias,

o

indivíduo

e

condições

física,

tais

compostos

e

fungos, vírus, e

seu

posto

de

físicas

do

como:

ruído,

produtos

que

outros,

e

são

trabalho,

trabalho

e

vibrações,

possam

capazes

de

postura

tecnológicas

pressões

penetrar

no

desencadear

inadequada

no

impróprias,

anormais,

organismo

doenças devido à contaminação

trabalho,

pouca

capazes

de

temperaturas

pela

via

iluminação

dos

colocar

em

extremas,

respiratória,

e

pela

própria

ambientes,

risco

a

radiações

nas formas de

natureza

 

do

trabalho

integridade

ionizantes

e

poeiras,

 

trabalho.

 

repetitivo,

física

do

não

fumos, névoas,

 

isolamento,

trabalhador, tais

ionizantes.

neblinas,

 

levantamento

como

arranjo

gases

ou

excessivo

de

físico

vapores,

ou

peso,

falta

de

inadequado,

que,

pela

organização

no

maquinas

sem

natureza

da

processo

proteção,

EPI

atividade

de

produtivo

e

as

inadequado,

exposição,

situações

de

armazenamento

possam

ter

conflito

inadequado,

contato ou ser

comportamental.

ferramentas

absorvido pelo

defeituosas,

organismo

 

falta

de

através

da

sinalização, etc.

pele

ou

por

ingestão.

Os riscos empresariais e econômicos devem ser considerados no gerenciamento de risco, segundo De Cicco & Fantazzini (1994), sendo estes classificados em riscos puros (estáticos, possibilidade de perdas) e especulativos (dinâmicos, possibilidade de ganhos) representados na figura 3.

Riscos Empresariais e Econômicos Puros Especulativos De Inovação Á propriedade Políticos Ás Pessoas
Riscos
Empresariais e
Econômicos
Puros
Especulativos
De Inovação
Á propriedade
Políticos
Ás Pessoas
Administrativos
De
Responsabilidade

De Mercado

Financeiro

De Produção

Figura 3: Riscos Empresariais (Souza, 1995)

Os riscos puros são aqueles que envolvem possibilidade de danos a terceiros, pessoas ou propriedades. Os prejuízos decorrentes de danos à propriedade são provenientes de incêndios e explosões, vandalismo, roubo, sabotagem, danos aos equipamentos e ações naturais (ventos, inundações, etc.). Os riscos as pessoas são aqueles relacionados a doenças e acidentes de trabalho (morte, invalidez, incapacitação e doenças laborais). Os riscos de responsabilidade são os riscos que resultam em pagamento de prejuízos causados a terceiros e ao meio ambiente (Souza, 1995). Os riscos especulativos representam as incertezas administrativas, mudanças políticas, incertezas de mercado e inovações tecnológicas, fatores externos que influenciam nas decisões internas da empresa que estão sempre em constantes mudanças.

2.3.Percepção dos Riscos

A percepção dos riscos está associada à compreensão do perigo e a sua capacidade de reconhecimento. Segundo Slovic, 1987:

“A percepção de riscos é entendida pelos seus analistas como os julgamentos intuitivos do risco, utilizados pela maioria das pessoas leigas em oposição aos métodos tecnologicamente sofisticados empregados pelos especialistas.”

Sendo assim no processo de percepção dos riscos, o individuo atribui valores e significados adquiridos pela sua experiência no sistema. Um evento que pode parecer perigoso para um, não será perigoso para outro. Apesar disso, haverá sempre a probabilidade de falha humana, visto que as situações de perigo podem ser subestimadas pela percepção humana:

Em 14 de abril de 1912 o White Star a vapor RMS Titanic, quando se aproximava de uma região povoada de imensos blocos de gelo, chocou-se com um iceberg. O navio, o qual estava realizando a sua viagem inaugural, afundou em aproximadamente 2 horas e 40 minutos despejando no mar gélido um total de 2201 passageiros, dos quais apenas 712 conseguiram sobreviver. O navio possuía botes salva-vidas para apenas 1176 pessoas, o que satisfazia as exigências do Board of Trade (980 lugares) para uma embarcação daquele tamanho. O Titanic foi considerado por muitos como indestrutível, embora seus construtores não compactuassem com esta idéia. Porém, como o representante dos construtores, um dos

projetistas do navio, e o capitão pereceram no desastre, pode-se assumir que os responsáveis pelo projeto e operação do Titanic não esperavam que ele porventura afundaria. (Jackson & Carter, 1992)

Entretanto, correr riscos é uma opção da sociedade industrializada (Araújo, 2005). Em inúmeras situações ou atividades do dia-a-dia onde há riscos, entretanto são aceitáveis ou voluntariamente estamos nos submetendo a estes (quadro 3).

Quadro 3: Riscos de morte por ano segundo (Modificado, Feliciano, 2008)

Atividade

Frequência

Fumar (20 cigarros por dia)

5 x 10 -3

Beber (Garrafa de vinho por dia)

7,5 x 10 -5

Jogar futebol

4,0 x 10 -5

Corrida de Carros

1,2 x 10 -3

Leucemia

8,0 x 10 -5

Meteoros

6,0 x 10 -11

Transporte químico

2,0 x 10 -8

O quadro 3 demonstra o risco associado à atividade segundo a percepção concebida no Reino Unido. Podemos perceber que risco zero não existe, visto que este é uma combinação da frequência e gravidade (Araújo, 2005). A percepção dos riscos influência na análise e gerenciamento dos riscos de uma atividade, visto que a aceitabilidade do risco depende também de fatores cognitivos.

3Evolução

Prevencionismo

Histórica

3.1.Antecedentes

da

Análise

de

Risco

e

o

do

Desde tempos pré-modernos, as novas tecnologias por si trazem perigos.

O homem na Antigüidade, com o advento do fogo, ao passar a aprender a

manuseá-lo, percebeu o perigo que este novo conhecimento trazia. O fogo trouxe todos os benefícios que conhecemos tais como: o cozimento de

animais, iluminação, calor e proteção contra predadores, mas também trouxe o perigo de incêndios e queimaduras. O poder destrutivo do fogo era de tal magnitude que sua força era usada como arma de guerra e causava destruição

de agrupamentos populacionais inteiros. Se por um lado o fogo trouxe riscos à

humanidade, também foi responsável pela sua sobrevivência e o seu grau de desenvolvimento. O fogo era um presente dos deuses, segundo a mitologia grega, e o perigo advindo do seu uso nada mais que um ato divino, não imputado a uma

conduta errada humana. Assim o primeiro conceito de risco, não imputava falha

ou

responsabilidade ao ser humano e era considerado como um evento natural

no

qual pouco poderia se fazer, a não ser minimizar os seus impactos.

A palavra risco começou a ser utilizada na época das grandes

navegações (séculos XV e XVI), quando os exploradores se referiam as suas viagens em mares desconhecidos. A noção de risco era associada à insegurança e aos perigos das viagens marítimas (Ewald, 1993). O conceito de

risco nesta época ainda era associado à vontade de uma força maior, alheio as ações humanas.

As sociedades apenas começaram a tentar entender e mensurar os riscos

com o advento da probabilidade. A primeira tentativa de tentar calcular o risco

está documentada no Talmud (livro sagrado dos judeus), havendo um raciocínio sobre a legitimidade ou não de um homem se separar de uma mulher pela desconfiança de que ela poderia ter tido relações sexuais antes do casamento, usando um conjunto de perguntas baseadas em um conjunto de

possibilidades (Goldim, 1997). Apesar do raciocínio probabilístico, ainda não havia o cálculo matemático de probabilidade e a quantificação dos riscos. A tentativa de calcular as possibilidades viria com advento dos jogos de azar. Em 1654, foi proposto a Blaise Pascal (1623-1662), responder a uma questão clássica proposta pelo frei Lucas Pacciolli (1445-1517) que consistia em jogo interrompido de dois apostadores, no qual um deles havia ganhado seis vezes e outro havia ganhando cinco vezes e como seria divido o dinheiro das apostas. Pascal e o matemático Pierre de Fermat (1601-1665) começaram

a trocar correspondências afim de resolver a questão. Eles começaram a

calcular a probabilidade de alguém ganhar ou perder e mensurar os riscos nos jogos de azar. Os estudos de Pascal e Fermat foram um marco, pois foi uma ruptura com o passado no sentido de que as tomadas de decisões já não se baseariam apenas nas crenças. Daniel Bernouli (1700-1782) introduz no seu estudo de probabilidades e mensuração de riscos, aspectos sobre o comportamento humano. Thomas Bayes (1702-1762) e Pierre Simon de Laplace (1749-1827) contribuíram para

que a mensuração do risco fosse utilizada em outras áreas do conhecimento tais como as ciências sociais, meteorologia, área financeira, jurídica etc. Assim

o uso da probabilidade como medição de risco passou a ser também um

processo de investigações usadas em diversas áreas do conhecimento. Laplace chegou a afirmar que os eventos não são casualidades naturais e acontecem por causa de eventos precedentes:

Os eventos presentes estão ligados aos eventos precedentes por um vínculo, baseado no princípio óbvio de que uma coisa não pode

ocorrer sem uma causa que a produza (

mesmos aqueles que, devido a insignificância, não parecem seguir as grandes leis da natureza, resultam delas tão necessariamente como das resoluções do sol. (Bernstein, 1997)

Todos os eventos

)

As grandes transformações sociais impetradas pela revolução industrial inglesa no século XVIII, introduziram novas tecnologias, como a máquina de tear e a máquina a vapor de James Watts (1736-1819). Neste contexto o trabalhador, base da sociedade que se formava, era uma mera engrenagem da máquina e atendia os ditames de acumulação de capital da classe patronal. Neste contexto, o trabalhador sofria com os riscos das novas tecnologias

(perigos de mutilações), das jornadas excessivas (fadiga) e da insalubridade das unidades fabris (umidade, ruído, falta de iluminação e poeiras). Cabe ressaltar que a poluição ambiental trazida pelas máquinas e o crescimento desordenado das cidades foram conseqüências nocivas desta revolução tecnológica. Em meados do século XIX, com a organização da classe operária, surge a preocupação com as acidentes de trabalho e os riscos, que eram freqüentes no interior das fábricas. Surgem as primeiras legislações, como o Factory Act de 1833, com intuito de assegurar os direitos dos trabalhadores e diminuir o índice de acidentes. As correntes prevencionistas surgiram neste contexto e se espalharam pela Europa e pelo ocidente, sobretudo nos Estados Unidos, onde pensadores como Heirinch, Bird, Fletcher, Douglas e Hammer deram sua contribuição para fomentação da Análise e Gerenciamento de Riscos.

3.1.1.Estudos de Heirinch

Em

1931,

Hebert

William

Heirinch,

publicou

no

seu

livro

Industrial

Accident Prevention, A Scientific Approach que havia uma relação direta entre

os custos indiretos e os custos dos acidentes, sendo essa pesquisa fundamentada em dados estatísticos da indústria americana da década de 20. Heirinch conclui, investigando vários relatórios de acidentes, que maioria dos acidentes são causados por “falha humana”. Ele definiu que acidente como todo evento indesejado capaz de interromper uma atividade econômica. As proporções mostradas em seus estudos estão representadas na figura 4.

As proporções mostradas em seus est udos estão representadas na figura 4. Figura 4: Pirâmide de

Figura 4: Pirâmide de Heirinch

Deste modo, os acidentes com ou sem lesões, devem levar em consideração as atitudes do trabalhador quanto à realização de atos inseguros e as condições inseguras do ambiente. Segundo Alberton,1996, Heinrich e R. P. Blake propuseram um conjunto de medidas, com base na análise dos dados estatísticos obtidos. Sugeriram que as empresas deveriam se preocupar não apenas com a segurança dos empregados, mas também com os acidentes de qualquer natureza. A análise permitiu chegar à conclusão de que os acidentes que ocasionavam perdas materiais e lesões aos trabalhadores, tinham origens semelhantes. Em 1965, os acidentes com danos materiais nas empresas superavam em quase duas vezes, os acidentes de trânsito de 1964, ficando as perdas em um valor de US$ 1,5 bilhões para estes e de US$ 2,8 bilhões para aqueles (Alberton, 1996).

3.1.2.Estudos de Bird

Em 1966, Frank E. Bird Jr. (1921-2007), baseando-se na análise de

90.000 acidentes ocorridos na industria siderúrgica Luckens Steel durante um

período de sete anos, observou que de um total, 145 acidentes incapacitantes,

15.000 com lesão e 75.000 acidentes com danos a propriedade, chegando a

proporção demonstrada na figura 5.

opriedade, chegando a proporção demonstrada na figura 5. Figura 5: Pirâmide de Bird (De Cicco &

Figura 5: Pirâmide de Bird (De Cicco & Fantazzini, 1993)

A proporção alcançada por Bird não é mais significativa que a de Heirinch, cada empresa deve chegar às próprias proporções com os próprios

dados levantados em campo. A importância dos estudos de Bird deve-se ao fato que seus estudos apresentam projeções estatísticas e financeiras, além das perdas materiais e lesões. Seus estudos ficaram conhecidos como Teoria do Controle de Perdas e Administração e Gerenciamento de Perdas podem ser sintetizadas no “Dominó de Bird” representado na figura 6.

PESSOAS/PROPRIEDADE ACIDENTE CAUSA IMEDIATA CAUSA BÁSICA FALTA DE CONTROLE
PESSOAS/PROPRIEDADE
ACIDENTE
CAUSA IMEDIATA
CAUSA BÁSICA
FALTA DE CONTROLE

Figura 6: Dominó de Bird (Silva . S, 2008 apud Furnas, 2006)

Em síntese, um controle administrativo eficaz poderia atuar na base da pirâmide, o que minimizaria as demais ocorrências, ou seja, cada dominó representa um conjunto de fatos negativos que desencadeia o conjunto subseqüente, a queda do dominó gera a queda de todos os dominós subseqüentes, na qual, a ocorrência de um grupo de fatos negativos representados em um dominó gera a ocorrência do imediatamente posterior e assim sucessivamente (Furnas, 2006) Apesar desta nova visão de segurança cujo foco é combater qualquer forma de acidente, quer ele seja laboral ou material, não diminuíram significativamente a quantidade de acidentes, mas diminuíram a taxa de gravidade dos mesmos.

3.1.3.Estudos da ICNA

Em 1969, a Insurance Company of North América (ICNA) publicou um

estudo a partir de dados estatísticos de 297 empresas americanas que

empregavam um montante de 1.750.000 operários, onde foram relatados 1.753.498 ocorrências (Alberton 1996). Com esta amostragem se chegou a uma proporção mais significativa que a de Bird e Heirinch, sintetizados na figura 7.

que a de Bird e Heirinch, sintetizados na figura 7. Figura 7: Pirâmide da ICNA (De

Figura 7: Pirâmide da ICNA (De Cicco & Fantazzini, 1993)

Pode ser observada a inclusão de um elemento novo: o “quase-acidente” ou incidente que são os acidentes que não ocasionam perda e nem paralisação da atividade, mas teriam potencial para tal. Apesar do objetivo da ICNA ser exclusivamente econômico-financeiro, os resultados apresentados são de grande importância não só para evitar as perdas materiais, mas também para evitar as perdas pessoais, já que se o acidente "quase ocorreu", a perda também "quase aconteceu" e se realmente ocorresse, poderia ser tanto material como pessoal (Alberton 1996).

3.1.4.Estudos de Flechter & Douglas

Em 1970, quatro anos mais tarde, John A. Fletcher e H.M. Douglas aprofundaram o trabalho de Frank Bird, propondo um programa de Controle Total de Perdas contemplando os acidentes ocupacionais e materiais, mas também a proteção ao meio ambiente e a segurança dos processos. Objetivando reduzir e eliminar todos os acidentes que pudessem interferir ou

paralisar o sistema, os programas de Controle Total de Perdas preocupam-se com todo e qualquer tipo de evento que interfira negativamente no processo produtivo, prejudicando a utilização plena do pessoal, máquinas, materiais e instalações. O Programa de Fletcher & Douglas é o que mais se aproxima dos programas modernos de segurança.

3.1.5.Estudos de Hammer

A corrida espacial e a guerra fria criam na década de 70 a Engenharia de Segurança de Sistemas. Foram desenvolvidas várias técnicas de avaliação de riscos através de metodologias oriundas da indústria militar e aeroespacial americanas. Willie Hammer foi o responsável por trazer e adaptar estas metodologias para a área da indústria civil (Castellan, 2008). Seus antecessores, Bird, Heirinch e Fletcher, focavam os programas na parte administrativa. Os estudos de Hammer vieram ajudar a compreender melhor os erros humanos, que na maioria das vezes, são provocados por projetos ou materiais deficientes e, por este mesmo motivo, devem ser debitados à organização e não ao executante - o operário (Alberton 1996).

3.1.6.Estudos da DuPont

Em meados do século XX, sobretudo os anos 80, a maioria das empresas tinham programas prevencionistas. Cabe ressaltar, neste período, os estudos da DuPont Safety Ressource que chegou a uma proporção, baseado na pirâmide de Bird, em que são considerados os desvios de processo. Estes desvios nada mais são que avisos do que poderiam acontecer e podem culminar ou não em um “quase-acidente” ou incidente, portanto merecem ser investigados. Esta proporção está representada na figura 8. A figura 9 faz uma alusão aos acidentes ambientais 1 , utilizando os mesmos conceitos. Podemos perceber a linha tênue entre os acidentes laborais e os que afetam o meio ambiente.

1 No caso um vazamento de algum produto químico de uma industria.

Figura 8: Pirâmide da DuPont (Reis,2008 apud DuPont, 2008) Figura 9: Pirâmide da DuPont para

Figura 8: Pirâmide da DuPont (Reis,2008 apud DuPont, 2008)

Figura 8: Pirâmide da DuPont (Reis,2008 apud DuPont, 2008) Figura 9: Pirâmide da DuPont para acidentes

Figura 9: Pirâmide da DuPont para acidentes ambientais (Reis,2008 apud DuPont, 2008)

Apesar da difusão dos programas de segurança, os números de acidentes com perdas materiais de grande vulto, só aumentavam. A tabela 1 ilustra essa evolução nos números de acidentes. Estes acidentes se devem as novas descoberta tecnológicas e o avanço da indústria química no sentido de descobertas de novas substâncias químicas.

Tabela 1 - Acidentes com perdas acima de dez milhões de dólares (Silva, S.,2008)

Período

Números

Perdas (em milhões US$)

1948-1957

5

169

1958-1967

13

442

1968-1977

33

1.438

1978-1989

56

3.966

Nas décadas de 70 e 80, acidentes de grande repercussão despertaram a sociedade para questões relativas à proteção do meio ambiente e a inclusão da análise e gerenciamento de risco no processo de licenciamento.

3.2. Os Grandes Acidentes Industriais

Após a segunda guerra mundial, sobretudo na década de 60, com o aumento significativo da população mundial, as indústrias foram forçadas a se adequar para atender a demanda de consumo no período pós-guerra, que se deu no primeiro momento, na ampliação da capacidade de produção e posteriormente nas melhorias do processo e da qualidade (Silva, S, 2008 apud Machado, 2000). Podemos fazer esta leitura através da figura 9 e 10 que mostram o acentuado aumento na produção industrial e consumo de recursos naturais de um lado, e de outro a explosão demográfica a partir desta década. Com isto as indústrias passaram a consumir mais matérias primas, energia e a movimentar mais substâncias químicas, aumentando consideravelmente a complexidade de suas operações. Nesta época a produção teve uma ênfase exagerada, valorizando o “fazer a qualquer custo”, sem que os empresários se dessem conta dos riscos que estavam correndo, e é justamente nesta época que os acidentes de grande repercussão começam a acontecer no mundo (Silva, S.,2008).

Figura 10: Evolução da produção industrial mundial (Moreira, 2008) Figura 11: Crescimento populacional mundial.

Figura 10: Evolução da produção industrial mundial (Moreira, 2008)

Evolução da produção industrial mundial (Moreira, 2008) Figura 11: Crescimento populacional mundial. (Martins, 2009)

Figura 11: Crescimento populacional mundial. (Martins, 2009)

Os acidentes industriais ocorridos nas décadas de 70 e 80 fizeram as autoridades mundiais buscarem métodos para prevenir esses eventos catastróficos com o objetivo de proteger a sociedade e o meio ambiente. A partir destes acidentes catastróficos as indústrias de petróleo, química e petroquímica incorporaram a Análise de Riscos no seu sistema de gestão ambiental e de segurança, tanto em novos projetos quanto na operação das unidades em funcionamento. O quadro 3 mostra os acidentes mais significativos deste período, com as substâncias químicas envolvidas.

Quadro 4 – Alguns dos principais acidentes (Décadas de 70 e 80). (CETESB, 2008)

Data

Local

Atividade

Substância

Causa

Conseqüência

 

30/03/72

Rio

de

Estocagem

GLP

BLEVE

37 mortes, 53 feridos

Janeiro,

Brasil

13/07/73

Potchefstro

Estocagem

Amônia

Vazamento

18

mortes,

65

om,

África

intoxicados

 

do sul

 

01/06/74

Flixborough

Planta

de

Ciclohexano

Explosão

28 mortes, 104 feridos Perdas de US$ 412 milhões

,

Reino

Caprolacta

Unido

ma

09/07/76

Seveso,

Planta

de

TCDD

Explosão

Contaminação de grande área devido a emissão de dioxina

Itália

processo

16/03/78

Portsall,

Navio

Petróleo

Encalhe

227000

toneladas

Reino

Amoco

Perdas

de

US$

85,2

Unido

Cadiz

milhões

 

11/07/78

San Carlos,

Caminhão

Propeno

VCE

216

mortes, 200 feridos

Espanha

tanque

 

24/02/84

Cubatão,

Duto

Gasolina

Incêndio

Vazamento de 700 m²

Brasil

508

mortes

19/11/84

Cidade

do

Estocagem

GLP

BLEVE

650 mortes Perdas de US$ 22,5 milhões

México,

incêndio

México

 

03/12/84

Bophal,

Estocagem

Isocianato de

Emissão

4000 mortes 170.000 intoxicados

 

India

metila

tóxica

28/04/86

Chernobyl,

Usina

Urânio

Explosão

135.000

pessoas

Ucrãnia

nuclear

evacuadas

06/06/88

Mar

do

Plataforma

Petróleo

Explosão

167

mortes

Norte, Grã-

–Piper

incêndio

 

Bretanha

Alpha

03/06/89

Ufa, Rússia

Duto

GLN

VCE

645

mortes

500

feridos

24/03/89

Alasca,

Navio-

Petróleo

Encalhe

40.000

toneladas

 

EUA

Exxon

35.000

aves mortas

Valdez

 

3.2.1. Refinaria de Duque de Caxias

No dia 30 de março de 1972, durante drenagem de esfera contendo GLP (gás liquefeito do petróleo), o operador perde o controle da operação, a válvula de bloqueio do dreno congela e o vazamento de gás se espalha até atingir um ponto de ignição. A esfera de gás ficou sendo aquecida por esta chama que ardeu bem na sua base e, após aproximadamente meia hora ocorre o primeiro BLEVE. Houve lançamento de fragmentos que atingiu o centro da cidade de Duque de Caxias, a 7 quilômetros de distância, bem como as ondas de choque que ocasionaram, o estilhaçamento do vidro das esquadrias das edificações nesta mesma distância. O acidente teve um total de 38 mortos e 300 feridos. Este acidente, até hoje é lembrado pelos moradores mais antigos e pelos trabalhadores da REDUC (figura 12) que guardam noticias daquela época, sendo este fato um marco para os acidentes acontecidos na indústria petroquímica brasileira.

os ac identes acontecidos na indústria petroquímica brasileira. Figura 12: Jornal A Notícia de 30 de

Figura 12: Jornal A Notícia de 30 de março de 1972

3.2.2.Flixborough

No dia 1º de junho de 1974, na cidade de Flixborough no condado de Humberside, região nordeste da Inglaterra, ocorreu uma ruptura em uma tubulação de uma planta de caprolactama 2 da Nypro Ltda que ocasionou o vazamento de ciclohexano quente, cuja a massa foi estimada em torno de 30 á 50 toneladas 3 (Pascon 2009, apud Parker 1975). As ondas de choque causadas pela explosão causaram a morte de 28 pessoas, lesões graves em 36 funcionários e 53 pessoas do público dos arredores da fábrica. A planta foi totalmente destruída e os danos se estenderam num raio de 13 quilômetros. Um dos reatores havia sido removido para reparos e no lugar de instalaram uma tubulação formado um by-pass do sistema, com os outros reatores em linha. A tubulação não foi devidamente fixada no local, apresentando o vazamento de ciclohexano após 3 meses de operação. Além disso, não houve um projeto específico para a tubulação que necessitaria de um especialista:

O projeto de tubulações de grande calibre, submetidas a tensão, para operar em pressões e temperaturas elevadas é um dos ramos de especialização da engenharia mecânica. Mas a equipe de manutenção em Flixborough não sabia disto, como também não percebeu que deveria ter chamado um projetista de tubulação. Eles não poderiam ser tomados como culpados. Eles não tiveram o treinamento profissional que os possibilitaria enxergar quando uma

intervenção especializada se faz necessária. (

A responsabilidade

era dos gerentes que pediram para executar uma tarefa para a qual eles não eram qualificados. (Pascon 2009, apud Parker 1975)

)

O layout da planta também contribui para o desastre. Após a forte trepidação na tubulação do by-pass que a fez romper e liberar o ciclohexano, este atingiu uma unidade de hidrogênio quente que destruiu a casa de controle de operação. Após perder a casa de controle, não havia como impedir isolar várias partes da planta e assim impedir o chamado efeito dominó. Após 54

2 É um composto orgânico o qual é uma lactama de ácido 6-aminohexanóico e o uso industrial primário é como um monômero na produção de nylon.

3 Vários autores divergem quanto à quantidade exata, ficando estimado entre estas duas quantidades.

segundos da destruição da casa de controle, há uma explosão que destrói toda a fábrica (figura 13).

há uma explosão que destrói toda a fábrica (figura 13). Figura 13; Planta da Nypro após

Figura 13; Planta da Nypro após as explosões (Pascon, 2009).

3.2.3. Desastre de Seveso

No dia 9 de julho de 1976, em Seveso, na província de Milão, Itália, ocorreu à ruptura do disco de segurança de um reator de em uma planta

industrial da empresa ICMESA (Industrie Chimiche Meda Società Azionaria)

que fabricava produtos domissanitários. A ruptura acarretou na emissão de uma nuvem tóxica de vários componentes, entre eles o triclorofenol (TCP), etilenoglicol e 2,3,7,8- tetraclorodibenzoparadioxina (TCDD). A nuvem se espalhou numa área aproximada de 5 quilômetros quadrados, contaminando pessoas, animais e o solo. No momento do acidente, a planta encontrava-se paralisada, pois era um final de semana. A presença de etilenoglicol e hidróxido de sódio causaram uma reação exotérmica descontrolada que fez a pressão interna do reator exceder a tensão de ruptura do disco de segurança. Além disso, a temperatura interna entre 400ºC e 500ºC, contribuiu para formação da dioxina de TCDD. O reator não possuía um sistema de resfriamento automático e como era um final de semana, havia poucos funcionários para realização manual da operação.

A vegetação nas proximidades da área afetada, morreu de imediato devido ao contato com os compostos clorados. Foi denominado de Zona A, uma área de 108 hectares que possuía uma alta concentração de dioxina TCDD, cujos moradores foram proibidos de retornar após a descontaminação e permaneceu isolado por muitos anos (figura 14). A concentração de dioxina na área era de 240μg / m² , as equipes de socorro tiveram que usar proteção

completa (figura 10), pois a dioxina é altamente inflamável e letal a uma dose de 1μg / kg .

Foram afetados pelo evento cerca de 30.000 habitantes, somando os habitantes locais e de províncias vizinhas. Cerca de 250 pessoas contrariam cloroacne, dermatose provocada pela exposição a compostos clorados e até hoje os efeitos à saúde são monitorados. Na época o Vaticano autorizou o aborto entre as grávidas que sofreram os efeitos da intoxicação. Os custos com a evacuação, remediação ambiental e descontaminação foram estimados em US$ 10 milhões.

e descontaminação foram estimados em US$ 10 milhões. Figura 14: Equipe de socorro em Seveso (Almeida,

Figura 14: Equipe de socorro em Seveso (Almeida, 2008)

3.2.4. Incêndio na Vila Socó

Na madrugada do dia 25 de fevereiro de 1984, aconteceu um incêndio em um duto que passava em baixo de uma ocupação irregular com quase 6000 moradores na Vila Socó, Cubatão, Estado de São Paulo. A ocupação irregular estava situada em uma área alagadiça e os barracos eram edificados sobre

palafitas. Nesta área passava um duto da Petrobras. No dia do acidente, houve uma falha operacional que resultou no alinhamento de uma tubulação de gasolina fechada, esta começou a transferência e por conseqüência, vazou aproximadamente 700 mil litros de gasolina. Os moradores recolheram o combustível para fins lucrativos. Com a movimentação das marés, o liquido foi disperso por toda a área, resultando na ignição dos vapores. O incêndio se alastrou, consumindo as palafitas (figura 15). O número oficial de mortos chega a 93, mas estima-se que houveram mais mortes não contabilizadas, como denunciam os moradores:

“O que mais me revolta é ouvir que morreram 93 pessoas. E os bebês que derreteram? E os corpos que acharam em pedaços, divididos? Morreram mais de 200", (Maria do Carmo da Silva Fagundes, dona de casa 59 anos, a Folha de São Paulo, edição do dia 15 de fevereiro de 2004).

de São Paulo, edição do dia 15 de fevereiro de 2004). Figura 15: Vila Socó após

Figura 15: Vila Socó após o incêndio (Folha de São Paulo, 25/02/1984).

3.2.5.Acidente de Bhopal

Quando funcionários fizeram a limpeza dos dutos de uma fábrica da Union Carbide, na cidade de Bhopal, estado de Madhya Padresh, na Índia, acidentalmente água usada para lavar os dutos foi admitida em um dos vasos ocasionando uma reação exotérmica que resultou na expansão e vazamento de 40 toneladas 4 de isocianeto de metila. Na madrugada do dia 3 de dezembro

4 Diversos autores divergem quanto a quantidade.

de 1984, uma nuvem tóxica da substância vazou expondo 500.000 pessoas. Quase 4000 pessoas morreram quando entraram em contato com a nuvem,

outros 10.000 morreram após 72 horas a exposição e outros 25.000 morreram com doenças relacionadas a exposição as substancias químicas. O isocianeto de metila (MIC) era uma substância usada na fabricação de inseticidas como o Sevin e o Temik, sendo “uma das ironias do acidente de

Bhopal, foi que o praguicida que estava sendo manufaturado [

do DDT num intuito de evitar os riscos desse praguicida organoclorado” (Feliciano, 2008). Há diversas teorias de como a água foi admitida no tanque, a mais plausível é que as válvulas das tubulações estivessem em péssimo estado de conservação. Além disso, os sistemas de refrigeração do tanque de MIC falharam no momento crítico, no qual poderia ter evitado o desastre. Outro fato é a localização da planta, um local densamente povoado da cidade, sem plano de emergência e carente de recursos médicos. As torres de depuração que deveriam neutralizar os gases emitidos estavam desativadas quando o produto foi liberado na atmosfera. Ao menos 150 mil sofrem hoje de doenças crônicas resultantes do vazamento, tais como úlcera nas córneas, câncer de pulmão e doenças de pele (figura 16), e 20 mil permanecem sob o risco de serem envenenados pelo lixo tóxico deixado no local, que inclui vários tipos de poluentes orgânicos persistentes (POPs) e metais pesados, como mercúrio, de acordo com estudos científicos do Greenpeace realizados em 1999, 2002 e 2004. Os sobreviventes e suas crianças ainda sofrem de problemas de saúde como câncer ou tuberculose, ou defeitos de nascimento (Greenpeace, 2004).

] era substituto

de nascimento ( Greenpeace , 2004). ] era substituto Figura 16: Sobreviventes do acid ente de

Figura 16: Sobreviventes do acidente de Bhopal (Feliciano, 2008).

3.2.6.Acidente nuclear de Chernobil

Na madrugada do dia 26 de abril de 1986, aproveitando um desligamento de rotina, procederam-se à realização de alguns testes para observar o funcionamento do reator a baixa energia. Os técnicos encarregados desses testes não seguiram as normas de segurança e pelo fato de o moderador de nêutrons ser à base de grafite, o reator poderia apresentar instabilidade num curto período de tempo. O quarto reator da usina de Chernobil - conhecido como Chernobil-4 - sofreu uma catastrófica explosão de vapor que resultou em incêndio, uma série de explosões adicionais, e um derretimento nuclear. Os habitantes locais foram alertados 30 horas depois do acidente, até então, tudo havia sido mantido em segredo:

“Boa tarde, meus camaradas. Todos vocês sabem que houve um inacreditável erro – o acidente na usina nuclear de Chernobyl. Ele afetou duramente o povo soviético, e chocou a comunidade internacional. Pela primeira vez, nós confrontamos a força real da energia nuclear, fora de controle”. (Mikhail Gorbachev, líder soviético da União soviética admitindo o acidente nuclear ao mundo)

Há duas teorias oficiais sobre a causa do acidente. A primeira foi publicada em agosto de 1986, e atribuiu a culpa aos operadores da usina. A segunda teoria foi publicada em 1991 e atribuíram o acidente a defeitos no projeto do reator, especificamente nas hastes de controle. Ambas as teorias foram fortemente apoiadas por diferentes grupos, inclusive os projetistas dos reatores, pessoal da usina de Chernobil, e o governo. Alguns especialistas independentes agora acreditam que nenhuma teoria estava completamente errada. O defeito mais significativo do projeto era o desenho das hastes de controle. As pontas das hastes de controle eram feitas de grafite e os extensores (as áreas finais das hastes de controle acima das pontas, medindo um metro de comprimento) eram ocas e cheias de água, enquanto o resto da haste - a parte realmente funcional que absorve os nêutrons e, portanto para a reação - era feita de carbono-boro. Com este projeto, quando as hastes eram inseridas no reator, as pontas de grafite deslocavam uma quantidade de água para resfriar. Isto aumenta a taxa de fissão nuclear, uma vez que a grafite é um

moderador de nêutrons mais potente. Então nos primeiros segundos após a ativação das hastes de controle, a potência do reator aumenta, em vez de diminuir, como desejado. Este comportamento do equipamento não é intuitivo (ao contrário, o esperado seria que a potência começasse a baixar imediatamente), e, principalmente, não era de conhecimento dos operadores. Além disso, os operadores violaram procedimentos, possivelmente porque eles ignoravam os defeitos de projeto do reator. Também muitos procedimentos irregulares contribuíram para causar o acidente. Um deles foi a comunicação ineficiente entre os escritórios de segurança (na capital, Kiev) e os operadores encarregados do experimento conduzido naquela noite. Para reduzir custos, e devido a seu grande tamanho, o reator foi construído com somente contenção parcial. Isto permitiu que os contaminantes radioativos escapassem para a atmosfera depois que a explosão de vapor queimou os vasos de pressão primários. Depois que parte do teto explodiu a entrada de oxigênio, combinada com a temperatura extremamente alta do combustível do reator e da grafite moderador, iniciando o seu incêndio. Este incêndio contribuiu para espalhar o material radioativo e contaminar as áreas vizinhas. A maior parte da radiação foi emitida nos primeiros dez dias. Inicialmente houve predominância de ventos norte e noroeste. No final de abril o vento mudou para sul e sudeste. As chuvas locais freqüentes fizeram com que a radiação fosse distribuída local e regionalmente (Figura 17). Cerca de 1800 helicópteros jogaram cerca de 5000 toneladas de material extintor, como areia e chumbo, sobre o reator que ainda queimava. Os habitantes da cidade de Pripyat foram evacuados, somando cerca de 130 mil pessoas. Muitas pessoas sofreram de câncer e diversas doenças relacionadas à exposição a radiação, inclusive transmitindo a seus descendentes (figura 18). Em novembro de 1986 foi construído o “sarcófago” (figura 19), destinado a absorver a radiação e conter o combustível remanescente. Considerado uma medida provisória e construído para durar de 20 a 30 anos, seu maior problema é a falta de estabilidade, pois, como foi construído às pressas, há risco de ferrugem nas vigas. Em 12 de dezembro de 2000, após vários acordos internacionais, a usina de Chernobyl foi desativada.

Figura 17 – Mapa mostrando o avanço da radiação após o acidente ( CIA Handbook

Figura 17 – Mapa mostrando o avanço da radiação após o acidente (CIA Handbook of

International Economic Statistics, 1996).

O acidente da usina nuclear de Chernobil foi considerado a maior catástrofe nuclear da história, e as suas conseqüências até hoje são visíveis:

o reator que explodiu, o trabalho dos “liqüidadores”,esses

oitocentos mil bombeiros, soldados do contingente e voluntários que,

com perigo de suas vidas, apagaram o fogo do reator, varreram o lixo radioativo e construíram o sarcófago. Verão também a cidade de Pripyat, onde viviam os trabalhadores da central e suas famílias, cinqüenta mil pessoas ao todo que foram evacuadas 36 horas depois da explosão. Essa cidade está lá, quase intacta, mas privada de vida pelos próximos vinte mil anos. Verão também o processo dos responsáveis. O mais duro de ver são as fotos dos bebês monstros que nasceram de mães que tiveram a infelicidade de estar grávidas em Pripyat, naquele 26 de abril de 1986.” Jean-Pierre Dupuy ,Retour de Tchernobyl. Journal d’un homme en colère (Duply, 2007).

] [

Figura 18: Criança nascida após o acidente (Duply. 2007). . Figura 19: O Sarcófago (Montgomery,

Figura 18: Criança nascida após o acidente (Duply. 2007).

.

Figura 18: Criança nascida após o acidente (Duply. 2007). . Figura 19: O Sarcófago (Montgomery, 2006).

Figura 19: O Sarcófago (Montgomery, 2006).

3.2.7. Incêndio na plataforma Piper Alpha

No dia 06 de julho de 1988, no Mar do norte, Grã Bretanha, na

plataforma marítima de petróleo Piper Alpha, uma bomba de condensado falha

e os operadores partem, então, a bomba reserva que retornara da manutenção

naquele mesmo dia, um pouco mais cedo. Nesta manutenção a válvula de alívio tinha sido retirada e reposta, porém sem ter sido feito teste de vedação. Ocorre um vazamento de gás que entra imediatamente em ignição. O resultado foi uma explosão que destruiu os sistemas de combate a incêndios e de comunicação da plataforma. As linhas e depósitos de óleo e gás da plataforma adjacente continuam a alimentar os incêndios por cerca de uma hora. Outras linhas rompem e a plataforma afunda tomba na água. O plano de emergência

previa a evacuação da plataforma por helicóptero, porém as explosões

tornaram este escape impossível. Poucos operadores escaparam da morte ao se atirarem no mar de uma altura aproximada de 50 metros. Morreram 167 operadores e a plataforma foi completamente destruída. (Silva, S.,2008).

O grupo de investigação coordenado por Lord Cullen foi estabelecido em

novembro de 1988 para descobrir as causas do desastre. Em novembro de 1990, ele concluiu que o vazamento inicial era resultante de trabalho de manutenção sendo realizado simultaneamente numa bomba e sua válvula de

segurança. A Occidental Petroleum, responsável pela operação da plataforma,

foi declarada culpada de ter procedimentos de manutenção inapropriados.

O evento que iniciou a catástrofe foi à tentativa do turno da noite de ligar

a bomba reserva que estava inoperante por estar em manutenção. Os

operários do turno da noite desconheciam que esta bomba estava em manutenção, por não haver encontrado a ordem de serviço correspondente. Numa instalação industrial, o conhecimento das ordens de serviço em andamento é crucial para o andamento do processo produtivo e para a segurança. Foram verificadas diversas falhas de projeto. O sistema dilúvio coletava

a água do mar para o sistema abaixo da plataforma, próxima do local onde os mergulhadores tinham que trabalhar em algumas etapas de perfuração. Para segurança dos mergulhadores, o sistema de coleta de água era colocado em

manual cada vez que havia trabalho com mergulho nas proximidades, para evitar que os mergulhadores fossem sugados pelas bombas. Com o tempo, os procedimentos foram relaxados e o sistema passou a ser deixado em manual sempre, independente de haver ou não trabalho de mergulho nas proximidades. Isso dava segurança para os mergulhadores, mas foi fatal para a plataforma e para outras 167 pessoas, pois quando o sistema foi necessário, estava inoperante. As paredes corta-fogo não foram projetadas para resistir a explosões. A explosão inicial as derrubou, e o fogo subseqüente se espalhou, quando poderia ter sido contido se as paredes corta-fogo tivessem também resistido à explosão. Estações mais novas têm paredes de explosão que evitariam uma repetição das fases iniciais do desastre. O posicionamento dos alojamentos no projeto dificultou o escape da tripulação nos momentos críticos do incêndio, todas as rotas para os barcos salva-vidas foram bloqueadas por fumaça e chamas, e na falta de qualquer outra instrução, saltaram ao mar à espera de serem salvos por barco. Foram salvos sessenta e dois homens desta forma; a maioria dos outros 167 morreram sufocados em monóxido de carbono e fumaça na área de alojamentos. Outro fator relevante foi à falta de treinamento da tripulação. Embora houvesse um plano de abandono, três anos haviam se passado sem que recebessem treinamento nestes procedimentos. Planos de Ação de Emergência são inúteis se existem apenas no papel e as pessoas não tomam conhecimento dele. Foi criado um monumento no Haziehead Park, em Alberdeen (figura 19) em lembrança das vítimas do desastre de Piper Alpha, considerado um dos maiores acidentes em plataformas de petróleo. Este acidente é amplamente utilizado nos cursos de gerenciamento de risco, pois mostra todas as falhas mais comuns que ocasionam em sinistro, tais como falha de projeto, falha nos procedimentos de manutenção, falha de procedimentos de segurança, falta de treinamento e um plano de emergências inadequado.

Figura 20: Monumento em memória as vitimas do acidente (W ikipedia, 2005). 3.3. Programas Internacionais

Figura 20: Monumento em memória as vitimas do acidente (Wikipedia, 2005).

3.3. Programas Internacionais para Prevenção de Acidentes Industriais

3.3.1.Organização das Nações Unidas

Em 1980, a Organização das Nações Unidas (ONU) implementou o

com o objetivo de

estabelecer bases científicas para o uso de substancias químicas, desenvolver

metodologias para avaliação de risco e capacitar recursos humanos nesta área com o objetivo de dar suporte aos países membros. O programa conta com a

International Programme on Chemical Safety (IPCS)

colaboração da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Programa das Nações Unidas para Meio ambiente (PNUMA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). O PNUMA mantém programas relacionados à substancias químicas. Entre eles o que merece destaque é o APELL (Awareness and Preparedness for Emergencies at Local Level), cujos objetivos são de estimular o desenvolvimento de alertas públicos quanto à existência de possíveis perigos na comunidade, estimular o desenvolvimento de planos de cooperação e estimular a prevenção de acidentes indústrias. No Brasil o manual do APELL foi traduzido pela Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM). Neste sentido a OIT, na 80º sessão da Conferência de Genebra (1993), aprovou a convenção nº 174, que traz recomendações para implementação de programas de prevenção de acidentes em instalações industriais, contemplando ações a serem adotadas pelas indústrias, governo e pelos trabalhadores. A OMS possui um programa intitulado Programa de Preparativos para Situações de Emergência e Socorro em caso de Desastre (PED). Um dos principais objetivos do programa é apoiar programas nacionais de ação em eventos desastrosos junto ao Ministério da Saúde, desenvolvendo capacitação na área de desastres e desenvolver atividades relacionadas a acidentes químicos.

3.3.2.Comunidade Européia

Tendo em vista os acontecimentos dos acidentes de Seveso e Flixborough, a Comunidade Econômica Européia (CEE) adotou o uma série de providências com vista à prevenção de acidentes. Em 1982, foi publicada a Diretiva de Seveso que foi o primeiro grande acordo mundial sobre o tema (CETESB, 2008). Segundo a diretiva, os países membros da CEE comprometeram-se em implementar programas preventivos junto às unidades industriais que manipulassem substâncias químicas perigosas. Mais tarde os países membros fizeram uma revisão levando em consideração os acidentes de Bhopal e na Cidade do México, os quais indicaram uma maior preocupação com o

zoneamento urbano afim de evitar a proximidade destas atividades com zonas residenciais e ter mais controle do uso e ocupação do solo, que foi chamada de Diretiva de Seveso II. Após a publicação da Diretiva de Seveso, o Reino Unido implementou denominada Control of Industrial Major Hazards (CIMAH) que mais se tornou o Control of Major Hazards (COMAH), com a finalidade de implementar as ações previstas na Diretiva de Seveso II. A regulamentação se aplicava as indústrias químicas com armazenamento de produtos perigosos e plantas nucleares, onde as quantidades das substâncias eram acima dos limites estabelecidos.

3.3.3.Estados Unidos

Após os acidentes de Bhopal e da Cidade do México, a Chemical Manufacture Association (CMA) iniciou o desenvolvimento de um programa

voluntário denominado

(CAER) com intuito de desenvolver programas de atendimento a emergência junto à comunidade local. Paralelamente, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) desenvolveu um programa conhecido como Air Toxic Strategy, com o intuito de controlar as emissões de produtos químicos tanto em situações normais quanto em situação de emergência. Mais tarde, foi desenvolvido um programa especifico para liberações acidentais de substancias químicas, que ficou conhecido como Chemical Emergency

Preparedness Program (CEPP). Com o estabelecimento do EPCRA (Emergeny Planning and Comunity

Right-to-Know Act) em 1986, as empresas americanas foram obrigadas a fornecer informações sobre as substancias perigosas e vazamentos em suas instalações, sendo as informações utilizadas por comitês formados por instituições da comunidade local, bem como órgãos públicos, tais como o corpo de bombeiros, instituições de saúde e órgãos ambientais. Atualmente, o governo americano instituiu os programas de prevenção de risco conhecidos como RMP (Risk Management Program 5 ) e o PSM (Process

Comunity

Awareness

and

Emergency

Response

5 Programa de Gerenciamento de Risco

Safety Management 6 ). O RMP é coordenado pela EPA, estabelece que a empresa deva criar seu plano de emergência baseado no pior caso possível. O

PSM é coordenado pela OSHA (Occupation Safety Health Administration), é

voltado para saúde e segurança ocupacional, abrangendo as atividades de terceiros que operem nas indústrias assistidas pelo programa.

3.3.4.Conselho Internacional das Indústrias Químicas (ICCA)

O Programa Responsable Care foi criado pelo Canadian Chemical

Producers Association e implementado em mais de quarenta países pelo ICCA 7 . O programa propõe um sistema de gerenciamento de risco envolvendo os aspectos ambientais, de segurança ocupacional e segurança de processos. No Brasil o programa recebeu o nome de Atuação Responsável e é coordenado pela ABIQUIM que ao longo dos anos vem implementando-o junto as indústrias. A ABIQUIM desenvolveu 6 códigos adaptados para realidade brasileira com os seguintes temas: Segurança de Processo, Segurança e Saúde do Trabalhador, Proteção Ambiental, Transporte e Distribuição, Gerenciamento de produtos e o ultimo, Diálogo com a Comunidade, Preparação e Atendimento a Emergências.

6 Gerenciamento de Segurança de Processos

7 International Council of Chemical Associations

4 O Licenciamento Ambiental e Estudo de Análise de Risco no Brasil

4.1. Surgimento da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA)

Nas sociedades contemporâneas há uma crescente preocupação com a degradação do meio ambiente trazida pela revolução tecnológica e as complicações geradas a saúde e bem-estar do ser humano. Esta preocupação se dá por causa das constantes agressões ao meio ambiente tais como despejo de resíduos industriais no solo e nos aqüíferos, desmatamento, emissões de poluentes atmosféricos e derramamentos de óleos e acidentes industriais de grande vulto e de difícil reparação. O meio ambiente era visto como uma fonte de recursos inesgotáveis para serem explorados, pois se acreditava que a capacidade de regeneração da natureza era capaz de absorver a poluição ambiental causados pela sua exploração. Assim os sistemas industriais eram dissociados da natureza e sua exploração era feita de maneira descontrolada. As constantes agressões ao meio ambiente despertaram as sociedades no entendimento que a poluição ambiental ameaça seriamente a sobrevivência e a qualidade de vida da humanidade. Em 1962, foi publicado o livro Primavera Silenciosa 8 de Rachel Carson, cujo tema principal era sensibilizar a opinião pública para os riscos do uso DDT. O estudo apresentado no livro não só fez com que o governo controlasse o uso da substancia, mas também criou uma forte comoção da comunidade científica e na opinião pública, sobre a preservação da natureza. Em 1972, o Clube de Roma 9 , produziu o chamado relatório de Meadows que causou grande impacto na comunidade científica. Este relatório se apoiava na tese do “Crescimento Zero”, ou seja, a industrialização acelerada, forte

8 Silent Spring

9 É um grupo de cientistas, políticos e industriais, fundado em 1968, que se reúnem para discutir assuntos ligados a política, meio ambiente, economia e desenvolvimento sustentável.

crescimento populacional, insuficiência crescente da produção de alimentos, esgotamento dos recursos naturais não renováveis e degradação irreversível do meio ambiente levariam o crescimento econômico ao limite. Outro marco para o despertar da consciência ecológica no mundo neste mesmo ano, foi a Conferencia das Nações Unidas sobre Meio Ambiente em Estocolmo, Suécia. Segundo Oliveira (2005), a posição defendida pelo Brasil na conferência foi mal interpretada pela opinião pública internacional, sendo considerado que o país “preconizava o desenvolvimento econômico a qualquer custo, mesmo devendo pagar o preço da poluição em alto grau”. Na realidade o Brasil defendia que a “proteção ambiental deveria ser o Homem”, sendo tão danosa a falta de saneamento básico e de cuidados com a saúde pública, bem como a poluição industrial. Como forma de mudar esse quadro, foi criada a Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA), pelo Decreto 73.030 de 30 de setembro de 1973, uma autarquia da administração direta ligado ao Ministério do Interior. O SEMA tinha atribuições específicas:

"Acompanhar as transformações do ambiente através de técnicas de aferição direta e sensoriamento remoto, identificando as ocorrências adversas e atuando no sentido de sua correção". As demais também representam notável progresso, basta ver que entre suas competências estava a de "promover a elaboração e o estabelecimento de normas e padrões relativos à preservação do meio ambiente, especialmente dos recursos hídricos, que assegurem o bem-estar das populações e o seu desenvolvimento econômico" (Inagé 2009).

O SEMA foi a primeira tentativa do Poder Público de elaborar normas relacionadas ao meio ambiente. Elaborado pelo SEMA e discutido no Congresso Nacional, em 1981 foi sancionada a Lei 6938/81 que instituiu a Política Nacional de Meio Ambiente. Com isso um dos instrumentos de controle e planejamento instituído pelo PNMA foi o Licenciamento Ambiental e a Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) das atividades consideradas efetivamente poluidoras. Cabe ressaltar que a PNMA, atrelou o sistema de licenciamento aos órgãos estaduais e ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (IBAMA). Junto com o Conselho Nacional de Meio Ambiente

(CONAMA), integram o Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA) e são responsáveis pela proteção do meio ambiente (figura 20).

responsáveis pela proteção do meio ambiente (figura 20). Figura 21: Órgãos Estaduais que compõem o SISNAMA

Figura 21: Órgãos Estaduais que compõem o SISNAMA (Programa Nacional de Capacitação de Gestores Ambientais, Caderno de Formação, Volume 1, p 40, 2006)

Compete ao IBAMA o licenciamento de atividades cuja localização ou impactos ambientais ultrapassem os limites de mais de um estado ou os limites territoriais do país. Cabe ressaltar que há consulta aos órgãos ambientais do Estado e do município em que o empreendimento será implantado. Os principais órgãos licenciadores, em termos quantitativos, são órgãos Estaduais de Meio Ambiente (OEMAs). Compete aos municípios o licenciamento de empreendimentos e atividades de impacto local. A Constituição da República Federativa do Brasileira (CRFB) de 1988 nos diz no artigo 225:

“Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,

impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.”

Cabem então ao Estado, ações preventivas para evitar a poluição ambiental e a responsabilização do dano que possa advir da atividade poluidora para o bem da sociedade. A CRFB de 1988 define os bens ambientais a serem protegidos pela legislação considerados de interesse publico que estão ilustrados na figura abaixo (figura 21).

Meio Ambiente Natural Laboral Artificial e Cultural • Água: Superficial e Subterrânea Saúde e segurança
Meio Ambiente
Natural
Laboral
Artificial e Cultural
• Água: Superficial e
Subterrânea
Saúde e segurança do
trabalhador
• Patrimônio
Histórico:
Artístico,
• Solo
Terra:
e
turístico,
subsolo
paisagístico.
• Fauna
• Meio Urbano

Figura 22: Quadro sinóptico dos bens protegidos pela Constituição (Poveda, 2004).

4.2. O Licenciamento Ambiental

O Licenciamento Ambiental é o procedimento administrativo que visa estabelecer condições “para que o empreendedor, pessoa física ou jurídica, de

direito privado ou de direito público, implante, amplie ou opere o empreendimento sob sua responsabilidade” que seja potencialmente poluidora (Araújo, 2002). Foi baseado no principio do poluidor-pagador do direito francês. Conforme Machado (1991) “a atividade poluente acaba sendo uma apropriação pelo poluidor do direito de outrem, pois na realidade a emissão poluente

representa um confisco do direito de alguém (

ou seja, o agente poluidor

recebe o bônus e o lucro de sua atividade em detrimento do direito da sociedade em gozar de meio ambiente saudável. Assim o agente poluidor deve

)”,

pagar a sociedade, a autorização para a poluição do meio ambiente, dentro de normas e padrões estabelecidos. Cabe ainda citar o princípio da precaução que presume que em caso de dúvida cientifica sobre os riscos de uma atividade, produto ou processo, devem ser adotadas medidas para evitar os danos ao meio ambiente e a saúde pública. A adoção de tal princípio faz com que se assuma a postura de “não esperar para tomar ações contra sérias ameaças até que seja providenciadas evidências cientificas” (Kichhoff 2004, apud Vrom, 2003). Também importante, o princípio da prevenção que preconiza que se sabendo dos riscos de uma atividade, estes devem ser prevenidos. Ambos são importantes, pois norteiam a legislação ambiental brasileira. (Kirchhoff 2004) Sendo assim o licenciamento ambiental, impõe normas e procedimentos para implantação e operação de atividades poluidoras, com o intuito de prevenir os impactos ambientais antes que possam ocorrer. Segundo Resolução CONAMA nº 001/86 entende-se como impacto ambiental:

qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas

do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente,

afetam:

I - a saúde, a segurança e o bem-estar da população;

II - as atividades sociais e econômicas;

III - a biota;

IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente;

V - a qualidade dos recursos ambientais. [

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O Decreto 88.351, de 1º de junho de 1983, que regulamenta a PNMA,

instituiu três tipos de licenciamento ambiental: a Licença Prévia (LP), Licença

de Instalação (LI) e Licença de Operação (LO), para as fases de planejamento, construção e operação, respectivamente.

A Licença Prévia é onde órgão ambiental faz a análise prévia do

empreendimento antes da sua implantação, verificando a sua viabilidade e impondo condições para as próximas etapas do licenciamento. Nesta etapa é verificado, através do zoneamento municipal, se o empreendimento é tecnicamente viável para o local pretendido. Outros tipos de estudos podem ser

pedidos nesta fase, como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) Quando todas as condicionantes da licença prévia são cumpridas, é expedida a autorização para implantação do empreendimento através da LI. O empreendimento é implantado conforme projetos apresentados e aprovados na licença anterior, com novas medidas de controle ambiental referentes à construção do empreendimento. A LO é a autorização para que o empreendimento possa a funcionar dentro das condicionantes estabelecidas e medidas de controle ambientais, desde que sejam cumpridas as exigências das licenças anteriores. Diferente da licença administrativa, a licença ambiental não confere ao possuidor, direito adquirido pela mesma. Fixa prazos e validade em suas condicionantes com o objetivo de evitar a manutenção de padrões tecnológicos ultrapassados.

Pela necessidade de revisão dos procedimentos e critérios utilizados no licenciamento, de forma a efetivar a utilização do sistema como instrumento de gestão ambiental, CONAMA instituiu, em 19 de dezembro de 1997, a Resolução n° 237 que, inclusive, aplicou seus efeitos aos processos de licenciamento em tramitação nos órgãos ambientais. Esta resolução estabelece quais atividades estão sujeitas ao licenciamento ambiental.

A partir da vigência da Lei de Crimes Ambientais, Lei n° 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, a sociedade brasileira, os órgãos ambientais e o Ministério Público passaram a contar com um instrumento que lhes garantira agilidade e eficácia na punição aos infratores do meio ambiente. Essa lei veio em decorrência do § 3° do artigo 225 da Constituição Federal, o qual estabelece:

§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

Assim, condutas consideradas lesivas ao meio ambiente passam a ser punidas nas esferas civil, administrativa e criminal, ou seja, constatada a degradação ambiental, o poluidor, além de ser obrigado a promover a sua recuperação, responderá com o pagamento de multas e responder processos criminais. A importância do licenciamento ambiental encontra-se destacada no seu artigo 60:

“Construir, reformar,