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Roger Vadim Bardot, Deneuve e Fonda

Prefácio

Este livro é dedicado aos meus futuros netos. Se algum dia eles sentirem o impulso de descobrir como era seu avô ou sua avó, tremo só em pensar na imagem que iriam formar a partir dos milhares de artigos, histórias e biografias que apareceram em mais de cinqüenta países nos últimos trinta anos. O que tem sido publicado a respeito de Brigitte Bardot, Catherine Deneuve, Jane Fonda e Roger Vadim nem sempre é incorreto; mas a luz dos refletores costuma distorcer a verdade. Pior ainda é a distorção causada pelo hábito insaciável de nossa sociedade, ávida por informações, de rotular e classificar quem quer que seja. Não me agrada a idéia de ser enterrado com uma máscara mortuária que não reproduza meu próprio rosto. Entretanto, há uma outra razão para este livro: a necessidade de falar das alegrias, dos prazeres, do sofrimento e dos tumultos que conheci ao lado de três mulheres notáveis. Não pude resistir à tentação de abrir o cofre do passado, em que tantos tesouros ímpares foram armazenados. Não queria chegar ao fim da vida como um avarento colecionador dessas maravilhosas lembranças e imagens — imagens de contos de fadas, que algum dia terão desaparecido juntamente comigo, no mundo em que tudo é apagado. Brigitte, Catherine e Jane: três modernas princesas de contos de fadas. No entanto, os contos de fadas são também contos de

crueldade, embora, felizmente, costumem ter finais felizes. Quero falar dessas adolescentes, dessas jovens, e de quem eram antes de se tornarem princesas. Conheci bem essas futuras estrelas, com quem vivi antes que brilhassem nas telas do mundo todo. É de suas extraordinárias transformações, por vezes dolorosas mas sempre fascinantes, que lhes irei falar.

Parte 1

Bardot

A deusa do amor jamais fora vista emergindo do mar até que

Botticelli tivesse pintado sua Vénus a flutuar numa concha de madrepérola. Mas foi esse o espetáculo a que dois mil fuzileiros navais assistiram em 12 de maio de 1958, às onze e meia da manhã, do porta-aviões Enterprise, ancorado na baía de Cannes.

Primeiro avistaram as longas tranças flutuando na superfície do mar; depois o rosto, do qual escorriam gotas de água

resplandecentes como diamantes. Aquela boca inocente e sensual,

os olhos perfeitamente ovalados, o nariz delicado, as faces redondas

como as de uma criança tinham sido criados para o riso e o prazer. Duas mãos aristocráticas se agarraram à beirada do barco Chris- Craft, e a "aparição" ergueu-se, subindo a bordo: um pescoço delicado e uma cintura tão fina que um homem poderia envolver apenas com as mãos; um traseiro tão redondo, provocante e macio que causaria inveja até mesmo a Adônis e Afrodite; quadris perfeitamente curvos, coxas longas e firmes, tornozelos graciosos e pés arqueados de bailarina. O minúsculo biquíni, mais uma sombra que propriamente uma roupa, não escondia nada desse corpo sensual e glorioso. Os marinheiros do Enterprise sabiam reconhecer uma deusa ao se defrontarem com ela, mesmo desconhecendo-lhe o nome. Seus aplausos e assobios podiam ser ouvidos até nas escadarias do Palais du Festival, na Croisette. Correram em direção às amuradas, acotovelando-se na disputa de um lugar melhor.

De pé no Chris-Craft, Brigitte estourou numa gargalhada.

— Eles farão naufragar o porta-aviões!

Um oficial dirigiu-se à ponte de comando, acenando- lhe para que subisse a bordo. Era contra o regulamento, mas ele preferiu transgredi-lo a provocar um tumulto geral ou mesmo um motim.

Com sua natural espontaneidade, Brigitte aceitou o convite. Na ponte trocou cumprimentos, fez com que todos rissem de suas palavras em inglês e deixou que fotógrafos amadores tirassem quantas fotos desejassem. Aquilo era totalmente diferente das visitas de Bob Hope ou das estrelas pré-fabricadas made in Hollywood, a que os marinheiros estavam habituados. Ao deixar o navio, Brigitte tinha conquistado dois mil amigos. Antes de chegar à doca do Carlton Hotel, vestiu seus blue jeans. Gastou mais de meia hora para abrir caminho entre os fotógrafos e alcançar o hotel, e outra meia hora para atravessar o saguão. Finalmente, conseguiu desaparecer no elevador, mas outros fotógrafos estavam à sua espera no corredor do terceiro andar, onde ficava seu apartamento.

O

Festival de Cannes estava no seu auge. Era um tempo de loucura

e

diversão. As estrelas não sabiam, então, que tinham sido enviadas

à

Terra, como o Messias, para conduzir a humanidade, e os

jornalistas não as julgavam por sua consciência social ou por seus engajamentos políticos. Brigitte Bardot já havia participado de dois

filmes, mas, como ainda não era uma estrela, não fora convidada pela organização do festival. Estava em Cannes para acompanhar o marido, um jovem repórter da Paris-Match chamado Roger Vadim.

Brigitte e eu estávamos casados havia apenas quatro meses, e ela não queria ficar sozinha em Paris.

Apesar de sua aversão a recepções oficiais e entrevistas à imprensa,

e a despeito do fato de nenhum de seus filmes estar sendo exibido

no festival, um estranho fenômeno aconteceu na noite em que chegamos ao Carlton. Os fotógrafos abandonaram seu alvo habitual, os astros e as estrelas internacionais, e passaram a correr atrás de Brigitte. Foi uma verdadeira epidemia. Eles a seguiam por toda parte: nos restaurantes, na praia, nas lojas e até mesmo em nosso quarto.

Lembro-me de uma tarde em que eu era um dos poucos jornalistas

que estavam entrevistando Lollobrigida, Kim Novak e Kirk Douglas numa sala de convenções do Palais du Festival. Todos os demais repórteres estavam nas ruas perseguindo minha mulher, desde as lojas da Rue d'Antibes até as palmeiras da Croisette, a avenida principal de Cannes.

O fenômeno Bardot, a incrível fascinação que uma jovem de dezoito

anos podia exercer sobre os meios de comunicação franceses, não era nenhuma novidade. Mas foi em Cannes, naquele ano, que esse fascínio atingiu proporções internacionais.

Naquela noite, após a visita de Brigitte ao Enterprise, jantamos com alguns amigos numa pequena taberna de La Napoule. Tínhamos conseguido despistar os jornalistas (é estranho para um jornalista

ter de se esconder dos próprios colegas). No decorrer do jantar, um

homem veio até nossa mesa. Apresentou-se como um dos secretários particulares de Onassis.

Como foi que me encontrou aqui? — Brigitte perguntou.

Eu nunca revelo as minhas fontes, mademoiselle. É uma questão

de

princípios.

Seu patrão tem uma ótima organização — ela observou.

Pode-se dizer que sim. Ele me pediu que a convidasse para a

recepção que dará amanhã à noite a bordo do Christina. Todas as estrelas do festival estarão presentes. O sr. Onassis pediu-me

também que lhe dissesse que sem a sua presença a noite jamais terá o mesmo sucesso.

— Ele está absolutamente certo — disse Brigitte. — Mas

infelizmente estarei ocupada amanhã. Vou jantar com meu marido.

E, como o secretário já se voltava para mim a fim de estender-me o

convite, ela completou:

— A sós.

A beleza e a franca sensualidade de Brigitte são amplamente

conhecidas. Ela simbolizava todo o erotismo e o amor à vida de uma época. Entretanto, pouco se conhece das angústias, dos medos

e do pendor para a infelicidade que várias vezes a levou à beira da tragédia. Os amantes que passeiam e se beijam ao luar prateado nunca pensam no lado sombrio da lua, que jamais vê a luz do sol. O mesmo acontece com Brigitte: apenas um de seus lados é conhecido. Quem era, realmente, a pessoa que se escondia por trás da imagem radiante do último dos símbolos sexuais?

2

O ônibus de número 92 percorria a Avenue Paul Doumet em

direção ao Bois de Boulogne. O tempo tinha estado fechado nas primeiras semanas de outubro. Surpreendentemente, aquele dia amanhecera radiante. O sol de outono finalmente se apresentara, derramando sobre Paris a sua luz mais bela. A atmosfera estava suave, as árvores, douradas e vermelhas. Brigitte, parada na plataforma aberta do ônibus, revirava o confuso amontoado de malhas, sapatilhas, agendas e livros de sua enorme bolsa de lona,

." Tinha acabado de

enquanto murmurava: "Merde, merde, completar quinze anos.

O motorista do ônibus admirava sua nuca delicada e os seios fartos sob a blusa entreaberta.

— A mocinha perdeu alguma coisa?

— Meu livro de álgebra. Deve ter caído de minha bolsa quando estava com Boris.

O motorista invejou aquele Boris, fosse lá quem fosse. Como

poderia ele saber que Boris Kniaseff, que tinha sido professor de balé na corte do czar Nicolau II, dava aulas agora a Brigitte? Três vezes por semana, ao sair do colégio, ela se encontrava com esse brilhante tirano no Studio Walker, na Place Pigalle. Enlevé! Attitude!

Pirouette! Entrechat! Jeté battu!

Boris não tinha tempo para os amadores e os

engomados. Após o teste de Brigitte, ele disse: "Está bem. Mas você terrrá de trrrabalhar". O que significava, simplesmente, que ele estava convicto de que ela se tornaria uma prima ballerina. Brigitte saltou do ônibus na Place de la Muette e caminhou, com sua pressa habitual, em passos vaporosos, até a Rue de la Pompe, número 1-B. No antiquíssimo elevador hidráulico, que escalava o edifício com a velocidade de um fungo, ela pensava na melhor estratégia para convencer os pais a permitirem que fosse ao cinema com uma amiga. No quinto e último andar do prédio, saiu do elevador e deu três breves toques na campainha de seu apartamento. A empregada abriu a porta. Uma surpresa esperava por ela na sala de visitas. Sua mãe estava conversando com Hélène Lazareff, editora-chefe da revista Elie. Hélène estava à procura de um rosto desconhecido para ilustrar um artigo sobre as modernas jovens francesas. Era amiga da sra. Bardot e conhecia Brigitte. "É ela, estou lhe dizendo. É ela, mesmo", repetiu, quando a jovem entrou na sala. A sra. Bardot, Toti para os amigos, tinha algum receio com relação a jornais e publicidade. Para satisfazer Hélène Lazareff, concordou, afinal. "Contanto que não perca nenhuma aula", especificou ela. Brigitte, sempre favorável a qualquer acontecimento que rompesse a rotina familiar, ficou encantada. Naqueles tempos, outono de 1949, eu estava morando com Danielle Delorme e Daniel Gélin, ambos artistas do cinema francês. Várias vezes tomava conta de seu filho, Zazi, de três anos de idade. Como smpre adorei crianças, o papel de baby-sitter caía-me muito bem. Um dia, depois de já termos fingido que éramos barracudas na banheira, praticado tiro ao alvo mirando os transeuntes da Avenue Wagram e feito uma toga romana de um lençol velho, Zazi e eu estávamos sem idéias. — Faça-me um avião — disse ele.

Grand saut,

Um, dois, três. Cabeça erguida!

Rasguei uma página do último número de Elle e já estava dobrando- a na diagonal, quando um certo rosto me chamou a atenção. Zazi estava ficando impaciente, à espera de seu avião.

— O que você está fazendo?

— Estou vendo uma foto — respondi.

— Quem é?

— Seu nome é Brigitte.

Zazi arrancou a página de minhas mãos.

— Ela é bonita.

Zazi tinha bom gosto. No dia seguinte, mostrei a revista a Mare Allégret. Ele havia decidido filmar meu roteiro para Les lauriers sont coupés 1 , e ficou imediatamente convencido de que Brigitte era a perfeita encarnação da heroína de minha história. Escreveu ao sr. Bardot e a sua esposa manifestando o desejo de conhecer sua filha, com a intenção de conseguir-lhe um teste para o cinema. Havia cinco anos que terminara a Segunda Guerra Mundial, e a indústria cinematográfica ainda não estava aberta para os novos diretores. Mareei Carne, René Clair, Henri-Georges Clouzot, René Clement, Jean Renoir, Julien Duvivier e Mare Allégret, que tinham em média cinqüenta anos de idade, detinham o supremo reinado do cinema na França. Mare era famoso por ter descoberto um número impressionante de estrelas. Tinha um talento incomum para detectar talentos. Havíamos nos conhecido três anos antes. Um dia, durante as filmagens de Petrus, em que eu tinha um papel de figurante, Mare teve de deixar o set repentinamente, pois sua filha sofrera um pequeno acidente na escola. Estava no pátio do estúdio quando o vi entrar no carro e disparar a toda a velocidade. Voltei para o set, onde o aflito produtor roía as unhas. O tempo perdido estava custando muito caro, aquele dia. Estávamos

1 Todos os filmes citados apenas no original não foram exibidos comercialmente no Brasil. (N. do T.)

filmando uma cena de festival com trezentos figurantes. Fui até o pobre homem e disse-lhe que Mare Allégret me dera instruções para a próxima tomada. Nem por um instante o produtor poderia ter imaginado que alguém de dezessete anos tivesse pulso para dirigir uma seqüência complicada, com câmara em movimento e enquadramentos panorâmicos de cavalos de madeira, finalizando com um close-up de Fernandel, o astro do filme. Mas ele acreditou no que eu lhe disse. Ensaiamos e, duas horas depois, a cena já tinha sido rodada. Quando Allégret retornou, o produtor agradeceu-lhe calorosamente. "Sei bem o que é ser pai", disse ele. "Você podia, facilmente, ter saído sem deixar instruções." Eu estava pronto a desaparecer dali como um covarde, mas, em vez de perder a calma, Allégret retomou o trabalho. Observava-me de esguelha e, ao fim das filmagens daquele dia, chamou-me a seu escritório. Era a primeira vez que se dirigia a mim. "A cena ficou boa", disse ele. "Que idéia mais engraçada essa de dirigir o foco da câmara da cabeça do cavalo para Fernandel." O comentário provavelmente tinha relação com o fato de Fernandel ter um rosto um tanto eqüino. "Eu não tinha pensado nisso. Está livre para jan- tar?", completou. Mare Allégret se tornou meu mentor, meu amigo e cúmplice — em algumas situações que poderiam ser caracterizadas como um tanto picantes —, e, de certo modo, um terceiro pai. Meu verdadeiro pai, Igor Plemiannikov, um cônsul francês, morreu de um ataque cardíaco em 1937, aos trinta e quatro anos. Meu padrasto, Gerald Hanning, planejador urbano e colaborador de Le Corbusier, era um homem notável. Tinha dez anos menos que minha mãe, e eu o ad- mirava e o amava como a um irmão mais velho. Infelizmente, minha mãe e ele acabaram se separando. Apesar de me sentir bastante independente e dono de meu nariz desde os quinze anos, pude perceber, quando conheci Marc, que sentia falta de um pai.

Comecei meu aprendizado como assistente de direção em Londres,

no filme White fury, que Allégret estava rodando para sir Alexander

Korda. Vallerie Robson e Stewart Granger eram os atores principais.

Os sindicatos britânicos eram muito protecionistas, de modo que eu,

um estrangeiro, não podia receber nenhum pagamento. Mas não me importei. Estava hospedado numa suíte reservada para o diretor, no Dorchester Hotel, e fazia amor com as adoráveis jovens atrizes que conhecia no estúdio. Estava estudando tanto a língua inglesa como

os próprios ingleses.

Um ano depois, ainda em Londres, trabalhei com Mare no roteiro para um filme policial, Blackmail. Tinha de reescrever cenas no estúdio Hammersmith a cada noite ou a cada manhã. Havia ainda um papel de coadjuvante que não fora preenchido. Marc me levou a um clube privado — em Londres tudo era privado — para ver uma jovem que abria o show vestida com um traje de banho todo recoberto de lantejoulas prateadas, com três penas de avestruz presas à altura da base de sua coluna. Ela era encantadora e fazia sua apresentação com charme e humor. "Ela seria perfeita como Polly", disse Marc. E, durante três semanas, lutou para conseguir colocá-la no papel.

O produtor, cujo nome não irei mencionar por uma questão de

caridade cristã, nem queria ouvir falar no assunto. "Ela já fez três

testes", ele dizia. "Ninguém a quer. Ela tem um nariz impossível. Não há a mínima chance de essa garota fazer carreira." "Essa garota" era Audrey Hepburn. A amante de um dos financiadores do filme ganhou o papel.

Quando retornei à França, terminei o roteiro de Les lauriers sont coupês. Não havia nenhum adulto entre as personagens principais do enredo. Na época, a faixa de idade do público freqüentador de cinema estava na média de vinte e cinco a cinqüenta anos, e os filmes sobre adolescentes ainda não estavam em voga. No entanto, como Allégret havia concordado em dirigir o filme, um produtor seu amigo, Pierre Braunberger, pagou oitenta mil francos (duzentos

dólares) pelos direitos da história. Não significava nem a fama nem

a fortuna, mas a revista Cinémonde fez um pequeno artigo a meu

respeito, intitulado "Roger Vadim, o mais jovem roteirista da Europa".

No trem que ia de Londres a Paris, Mare e eu conhecemos a mais jovem e talentosa estrela do Ballet de Paris. Seu nome era Leslie Caron. Mare conseguiu-lhe um teste para o papel de Sophie e eu contracenei com ela. Mas o produtor não aprovou. Contudo, graças

a esse teste, Leslie apareceu na capa da Varis-Match, e logo em

seguida Gene Kelly a contratou para o papel principal de Sinfonia de Paris 1 .

O que Leslie eu sentimos um pelo outro foi mais do que simples

afeição. Passamos três semanas juntos numa estação de esqui dos Alpes franceses. Estávamos sobre a corda bamba do amor e nenhum de nós se atrevia a dar o primeiro passo. Eu era tímido, e ela estava tendo dificuldades para se refazer de um tumultuado romance com um de seus partners do Ballet de Paris. Principalmente por questões

de economia, dividimos o mesmo quarto no Hotel du Mont Blanc, em Megève. Leslie dormia apenas sobre um colchão. Sentindo-se culpada por passar as noites sem fazer amor com um homem a

quem tinha encorajado, ela se auto-punia deixando-me dormir confortavelmente na cama. Usava uma venda de veludo preto sobre

os

olhos, tal como uma velha senhora ou uma estrela de Hollywood

de

antes da guerra.

Depois de alguns meses em Hollywood, onde se preparava para filmar Sinfonia de Paris, Leslie estava muito sozinha e me escreveu uma longa carta, que terminava assim: "Por que não vem até aqui? Você poderia escrever em paz. Tenho certeza de que conseguiria

vender suas idéias para roteiros. Fico muito triste em saber que você

está tão longe. Quanto mais penso nisso, mais triste

Eu teria, sem dúvida alguma, aceito o convite, caso não tivesse ocorrido um fato importante em minha vida: cerca de um mês antes

1 An American in Paris. (N. do T.)

."

de receber a carta de Leslie, eu conhecera Brigitte Bardot. Eu agora sabia que o afeto, a amizade e a atração física que sentia por Leslie não eram amor. O máximo de aproximação que houvera entre nós fora um beijo. As chances de que a família Bardot respondesse à carta de Mare eram muito remotas, tendo em vista o futuro que imaginavam para sua filha: um casamento sensato com um banqueiro, um industrial ou, faute de mieux, um funcionário do governo. Mas, como não levava a sério esse teste e estava interessada em conhecer um diretor de cinema famoso, a sra. Bardot cedeu à insistência de Brigitte. Dizia para si mesma que o encontro não iria dar em nada e que, permitindo-o, evitaria as acusações e os maus modos de Brigitte. O encontro aconteceu na casa de Mare Allégret, na Rue Lord Byron, número 11-B, no fim da tarde, depois do colégio. Brigitte jamais esperara ser realmente convidada a trabalhar num filme. Além disso, o trabalho de atriz não a interessava. O que ela pretendia era fazer carreira como bailarina clássica. Por outro lado, estava sempre aberta para conhecer pessoas que não pertencessem ao círculo de amigos aprovado por seus pais. Tal como sua mãe, ela estava interessada em conhecer uma pessoa famosa, que imaginava que reinava sobre uma corte de estrelas e celebridades. Nem a sra. Bardot nem sua filha tinham sequer sonhado que esse encontro mudaria o rumo de suas vidas.

3

Quando conheci Brigitte, fiquei imediatamente impressionado com sua postura, seu andar e suas formas curvas. A cabeça tinha a altivez de uma rainha. Também fiquei admirado com seu modo de enxergar as coisas. Muitas pessoas sabem olhar, mas poucas conseguem enxergar.

Sua mãe tinha cabelos castanho-claros curtos, belos olhos amendoados, nariz fino e um tanto alongado. Sua boca tinha um desenho delicado, mas, injustamente, assumia um ar severo, pelo sorriso constantemente reprimido e pela mundanalidade apenas insinuada. Tudo isso conferia àquele rosto plácido uma jovialidade raramente encontrada nas mulheres parisienses de sua classe social aos trinta e oito anos de idade. Não se parecia em nada com a filha. Sua natureza fora abafada pela educação e pelas marcas de sua classe; a filha, pelo contrário, era toda espontaneidade, como um lé- pido riacho. No ensolarado apartamento de Mare Allégret, eu ouvia a sra. Bardot explicar ao diretor que, apesar de ter cedido aos caprichos de sua filha e ao seu próprio desejo de conhecer um homem tão talentoso, não via uma carreira cinematográfica no futuro de Brigitte. Dizia, tagarelando, que estava consciente de que Mare era o extremo oposto da imagem que ela e seus amigos faziam das pessoas ligadas ao mundo dos espetáculos. As boas maneiras de Mare e sua elegância no falar faziam com que parecesse mais um diplomata do que um inspirado diretor possuído por sua arte e comandando, aos gritos, os seis de filmagem. Sua cultura, da qual jamais se pavoneava, era bem mais profunda do que aquela que a sra. Bardot procurava mostrar. "Cultura é como geléia: quanto menos se tem, mais se procura espalhar", dizia o presidente Poincaré. Encantada com Mare, a sra. Bardot permitiu ser con- quistada. "Brigitte está numa idade em que se adoram as novas experiências", disse ele. "Um teste não irá comprometê-la com nada." Enquanto essa conversa se desenrolava, Brigitte observava o jovem que Mare tinha apresentado, de uma forma esquisita, como seu

colaborador. "Roger

está sempre atrasado e é talentoso demais para sua idade." Brigitte soltou uma risadinha espontânea e contagiante que me cativou de

Ele escreveu o roteiro. É preguiçoso,

imediato. Mais tarde, ela confessou que também tinha sofrido um "sério ataque de amor à primeira vista". Ficou decidido que eu iria ajudar Brigitte a decorar suas falas após suas aulas, nos dias em que não ia ao Studio Walker. A caminho de casa, a sra. Bardot se arrependeu de ter dito "sim" a Mare Allégret. Mas era uma mulher de palavra; jamais voltava atrás numa promessa. Tudo o que tinha a fazer era convencer seu marido. Quinze anos mais velho que sua mulher, o sr. Bardot, Pilou para os amigos, era um homem excêntrico, porém com todos os traços da tradicional classe média francesa. Tinha testa grande e cabelos grisalhos que lembravam uma mescla de sal com pimenta — no caso, com mais sal que pimenta. Os lábios eram finos; o queixo, pontudo e determinado, e os olhos possuíam uma forte expressão, intensificada quando seu olhar se fixava sobre um alvo através das grossas lentes de seus óculos. Ele poderia perfeitamente passar por um diretor de hospital psiquiátrico, por um coronel reformado ou pelo inventor da máscara contra gases. Na realidade, era o presidente e diretor administrativo de uma fábrica que produzia ar liquefeito. Sempre preciso, mesmo em meio à desordem, era o tipo de homem que planejava cada minuto de uma viagem de carro, repleta de paradas para descanso, calculando inclusive a velocidade média a ser mantida para obter uma quilometragem horária exata. Se ao longo do percurso ele se apaixonasse pelo olhar de uma vaca pastando pelo campo, ele a fotografaria durante uma hora; e então, para manter seu cronograma, iria dirigir como um louco, pondo em risco a vida de sua família a cada curva, apesar de seu único com- promisso ser a hora de chegada estipulada por ele mesmo em seu diário de bordo. O sr. Bardot adorava trocadilhos e piadas; andava sempre com um caderninho em que anotava histórias engraçadas. Era capaz de interromper uma conversa para abrir seu caderno e ler uma piada, confundindo totalmente seu desfecho, e rir tanto a

ponto de não perceber o embaraço de sua platéia. Estava convencido de que era ele quem tomava todas as decisões da família, mas, na verdade, era Toti quem conduzia as coisas.

Sua primeira resposta à notícia de que a filha iria fazer um teste para o cinema foi: "Não quero ter ciganos na família". E completou:

"Ela terá de passar sobre o meu cadáver antes de pôr os pés num estúdio".

— Papai, por enquanto você é o único que está sendo teatral — disse Brigitte. Toti acrescentou que ela mesma já havia concordado.

— Você concordou? — Pilou indagou.

— Sim.

O sr. Bardot estava diante de um clássico dilema: seria melhor sua esposa faltar com a palavra ou sua filha desonrar a família? Ele escolheu a segunda alternativa, dizendo a si mesmo que um teste de cinema, afinal, não era um compromisso. Assim, ele suspendeu seu veto. Brigitte chegou ao apartamento do Edifício Gélins, na Avenue Wagram, número 44, numa segunda-feira ao fim da tarde. Colocou seus cadernos numa das cadeiras do hall de entrada e me seguiu até a sala de visitas. — Você me lembra Sophie — disse a ela. Sophie era o nome da heroína de uma novela que eu escrevera quando ainda era adolescente. Ela se parecia com Brigitte, tal como uma irmã. Era vulnerável, dinâmica, romântica, terrivelmente sentimental e muito moderna em suas idéias sobre sexo e em sua aversão às regras morais pequeno-burguesas. Ela falava como Brigitte. Sua conversa, repleta de imagens, era impertinente e pontilhada de palavras cruas mas nunca vulgares. Mais tarde, quando Brigitte leu minha novela, Sophie se tornou seu apelido. Durante anos ela assinou todas as suas cartas de amor como Sophie. Ela afundou numa das poltronas da sala e começamos a trabalhar a cena que eu lhe havia pedido que estudasse. Foi com Charles

Dullin, de quem fui aluno dos quinze aos dezoito anos, que tive minha educação teatral. Embora não possuísse a experiência de meu ilustre professor, compreendi imediatamente que Brigitte era inimitável e que suas falhas poderiam, às vezes, passar por qualidades. Ela precisava mais de um jardineiro do que de um professor. Era do tipo de flor que se rega, mas não se cultiva. Seria um ato de vandalismo querer treinar aquela voz tão excêntrica. Ela não demonstrava o menor interesse em discutir a psicologia ou as motivações da personagem. Ou ela compreendia instintivamente ou não compreendia em absoluto. Quando digeria a personagem e a tornava real através de suas próprias emoções, o milagre acontecia. Brigitte tinha uma memória bastante peculiar. Era capaz de decorar uma cena inteira poucos minutos antes de ter de representá-la, mas podia esquecer completamente um texto estudado no dia anterior se, porventura, estivesse preocupada ou aborrecida com alguma coisa. Quando se despediu, após nosso primeiro encontro da semana, já sabia suas falas de cor. Dois dias depois, não conseguia lembrar uma palavra sequer. "Meu pai está quebrando todos os pra- tos", foi a sua desculpa. Sempre que ela falava de mim à mesa do jantar, Pilou erguia sua faca de prata e começava a tamborilar sobre o frágil prato de porcelana até que este se quebrava. "Minha mãe acha que você está nos custando um bocado caro", disse ela. Bergson escreveu que o riso é um dom peculiar do homem. Sempre imaginei que era uma das qualidades peculiares de Brigitte. Um dia, sentada no chão e encostada à parede, Brigitte ficou brincando com as pernas, batendo os joelhos. Ela estava usando uma saia e uma jaqueta. Esforcei-me em olhar apenas para seus olhos, mas ela sabia que eu estava excitado e a desejava. Ela disse:

"Que tal nos tratarmos um ao outro por 'tu'?" A língua inglesa, por exemplo, não permite nuanças delicadas pelo uso de diferentes formas do you, mas, em francês, essa forma de tratamento, tu, é reservada à família, aos amigos e aos namorados. Tomei aquele pedido pelo que ele era na realidade: uma velada declaração de

amor. Porém, não quis me aproveitar da situação. Nós estávamos ali para trabalhar, e eu tinha o cuidado de não permitir que nossos ensaios se transformassem em sessões de namoro. Sempre detestei a idéia de fazer uso das vantagens de minha profissão para fins pessoais. Naquela época, eu não era uma celebridade, nem mesmo um diretor, mas o fato de ser roteirista e assistente de Mare Allégret era infalível para impressionar uma jovem de quinze anos. Em toda

a minha carreira, jamais comecei algum romance no set de

filmagem. Tomei como norma rígida não dormir com nenhuma de minhas atrizes enquanto estivéssemos rodando um filme, a não ser,

é claro, que já estivéssemos vivendo juntos, como era freqüente acontecer.

Apesar de tudo, as sessões com Brigitte na Avenue Wagram, repletas como eram de gargalhadas e sentimentos ocultados, não eram destituídas de encanto.

O dia do teste chegou.

Brigitte demonstrou muita habilidade. Não tinha nenhuma experiência como atriz, mas deu a impressão de ter estado diante de uma câmara durante toda a sua vida. Estava orgulhoso de minha aluna, e Mare ficou impressionado.

Já estava escuro quando a levei para casa de táxi. Ela segurou minha

mão. Não tínhamos a menor idéia de qual seria o veredicto do produtor. Será que esse trajeto pelas ruas de Paris seria nosso último momento juntos? Antes de sair do táxi, ela me deu um rápido beijo, o primeiro, na boca.

O produtor não estava convencido de que Brigitte era adequada

para o papel. Ele não gostou de seus dentes; achava que ela abria demais a boca quando ria. Tal como Leslie Caron, Brigitte Bardot foi rejeitada, e as filmagens de Les lauriers sont coupés foram adiadas indefinidamente. Não vi Brigitte por várias semanas.

Eu não a tinha esquecido, mas nossas vidas eram tão diferentes que não conseguia ver como elas poderiam ser compatíveis. Minha vida

era a de um pássaro livre, e eu dormia aqui e ali, de acordo com meu estado de ânimo ou os encontros do dia. Apesar de o número 44 da Avenue Wagram ser um paraíso para mim, não era, na verdade, o meu ninho. Vivia bastante em Saint-Germain-des-Prés, que era uma espécie de cidadezinha no meio da cidade grande. Muitos de meus amigos eram jovens anônimos, alguns dos quais se tornariam famosos; outros, no entanto, já tinham seus nomes conhecidos, como Jean Cocteau, Jacques Prévert, Bóris Vian, Jean Genet e uma infinidade de artistas do teatro e do cinema. Conhecia também Colette, Edith Piaf, Maurice Chevalier, Jean-Paul Sartre, Albert Carnus, André Gide, Salvador Dali e alguns músicos de jazz. As noites em Saint-Germain eram muito comentadas. Os círculos da moda bandeavam-se para lá em busca de prazer e diversão. Não tinha a menor importância se alguém estivesse a zero. Quando um de nós tinha um único centavo, pagava para os amigos. Os bares e discothèques davam-nos crédito por boas razões. Eram pessoas como eu, Christian Marquand, o diretor de vanguarda Michel de Ré, Juliette Greco e a cantora Annabel — atualmente casada com Bernard Buffet e mãe de família — que criavam um novo estilo e lançavam a idéia das casas noturnas localizadas em porões. Fui eu que criei o termo "discothèque". Um jornalista chamou-nos de "existencialistas". Os beatniks e os hippies viriam depois. Estávamos sempre nas primeiras páginas de tabloides como o Samedi Soir e o France Di-manche. A avidez dos meios de comunicação e dos comerciantes locais de tirar vantagem de um movimento espontâneo, que era mais um estilo de vida anárquicamente pacifista do que uma atitude política ou intelectual baseada na filosofia de Jean-Paul Sartre, não nos incomodava em absoluto. Contudo, não demoraria muito até que a verdadeira Saint-Germain do pós-guerra fosse sufocada por uma poluição verbal e transformada no parque de diversões que é atualmente. Mas, quando conheci Brigitte, estava vivendo tranqüilamente em Saint-Germain uma vida de aventuras, uma

após outra, que me proporcionou um contato íntimo com algumas das figuras mais cultas e interessantes daquela época. Às vezes aceitava um papel de figurante e, ocasionalmente, vendia um roteiro ou trabalhava como assistente de Mare Allégret durante o período de filmagens; entretanto, recusei-me a ter um emprego em tempo integral, pois aprendia muito mais sem fazer nada. Eu sentia esse período de grande liberdade que se seguiu aos sombrios anos da ocupação nazista como um acidente de pouca duração na história, e decidi aproveitá-lo ao máximo. Sob tais condições, era impossível para mim considerar um relacionamento com uma garota educada sob padrões rígidos, que tinha permissão apenas uma vez por mês para ficar na rua até meia- noite. Mas o coração tem uma lógica própria, que a mente não pode compreender. Eu não conseguia esquecer Brigitte, e ficava me lembrando da suave sensação de seus lábios tocando os meus. Num sábado à tarde, saindo de um cinema, percebi que tinha apenas alguns poucos francos no bolso. Tinha de escolher entre comprar um passagem de metrô e usar o dinheiro para dar um telefonema. Decidi telefonar para Brigitte. Jamais saberei a razão de ter telefonado naquele dia, e não em outro. Não foi por uma súbita inspiração, mas por necessidade. Era uma ordem de meu subconsciente, a que eu não podia desobedecer. Sou um tanto esquecido por natureza. Esqueço-me de comparecer a encontros cruciais para minha carreira, esqueço em que dia da semana estamos e até já me encontrei num estúdio errado para dirigir um filme. Mas tenho uma memória de computador quando se trata de números de telefone, o que é uma sorte, pois vivo perdendo minhas agendas de endereços. Eu lembrava o número de Brigitte, apesar de só ter ligado para ela uma única vez, um mês antes. Ao contrário de minhas expectativas, foi Brigitte quem atendeu ao telefone. Tinha encontrado uma desculpa para não passar o fim de semana em Louvecienne com os pais. Percebi, pelo tom de sua voz,

que estava muito contente por falar comigo. "Venha para cá imediatamente", ela disse. "Estou com uma amiga e com minha avó. Ela vai ficar aqui de sentinela até segunda-feira." Congratulando a mim mesmo por ter gasto o dinheiro do metrô de uma forma tão sábia, caminhei do Boulevard des Italiens até a Rue de la Pompe, uma distância de, aproximadamente, três quilômetros. Brigitte conhecia o meu fraco por chocolate com leite e preparou um copo de Ovaltine, quente e cremoso, para mim. Sentamo-nos na sala estilo Luís XVI e discutimos alguns assuntos enfadonhos com sua amiga. Era apenas cinco anos mais velho do que elas, mas me senti completamente estranho aos seus interesses. Havia todo um mundo a me separar dessas adolescentes que jamais conheceram, realmen- te, a guerra e que tinham uma vida bem organizada, apoiando-se nos pais para tudo. Quando sua amiga foi embora, pudemos falar de assuntos mais pessoais, mas a vovó, que desempenhava seu papel de dama de companhia com extrema seriedade, aparecia na sala a cada três minutos, tornando qualquer intimidade impossível. Às sete e meia a vovó deixou claro que já era hora de eu ir embora. Flagrei-a fazendo um sinal discreto para Brigitte, que sumiu com ela, por alguns instantes, para uma sala contígua. Ao se despedir de mim no patamar da escada, Brigitte mordia os lábios para segurar o riso. "Vovó me pediu para dar uma olhada em seus bolsos para garantir que não roubou as colherinhas de prata." Tomei-a em meus braços e nos beijamos. Foi um beijo longo e apaixonado, interrompido, cedo demais, pelo barulho dos passos de sua avó aproximando-se pelo hall. A opinião de vovó Bardot a meu respeito ilustra perfeitamente a atitude ainda reacionária da burguesia francesa dos anos 50. Exatamente como a realeza se deleitava com os bobos da corte, as modernas damas de sociedade orgulhavam-se de receber cantores famosos e atores. Achavam-nos charmosos, por vezes fascinantes, mas sempre suspeitos, especialmente o pessoal de cinema. As coisas

mudaram atualmente, porém nem tanto quanto se poderia esperar. Na França, por exemplo, ainda é inconcebível que um ex-ator se torne primeiro-ministro ou seja eleito presidente da República. Em tal ambiente, pode-se imaginar o pânico de vovó Bardot quando um jovem que trabalhava em filmes e quase arrastara a pobre Brigitte para seu mundo boêmio apareceu em sua casa. Os horizontes do sr. Bardot e de sua esposa já eram mais abertos. Tinham alguns amigos que trabalhavam com jornalismo, moda e teatro. Gostavam das artes. Não se assustavam com minhas camisas xadrez, minhas calças amarrotadas e meu cabelo comprido. Achavam que meu jeito indicava uma boa criação. Estavam muito bem impressionados, também, pelo fato de meu pai ter sido cônsul francês e de ter lutado contra os bolcheviques aos catorze anos. Pressionado pelas perguntas do sr. Bardot sobre minhas origens, resignei-me a relatar a história da família. Na verdade, meu nome era Roger Vadim Plemianni-kov. O nome que meus pais tinham escolhido para mim era Vadim; Roger teve de ser acrescentado porque a lei francesa exigia que se tivesse um nome oficialmente aprovado e, infelizmente, o nome de meu padrinho era Roger. Plemiannikov, o sobrenome de meu pai, significa "sobrinho", em russo. Nesse ponto de minha história, convidei os Bardots a viajarem no tempo comigo, até o século XIII, quando o grande Gêngis Khan vivia em nome de sua fúria. No seu leito de morte, ele dividiu seu império, que se estendia da China até as fronteiras da Europa, entre os filhos. Um deles recebeu uma região que abrangia parte da Polônia e a Ucrânia. Ao fim de seu reinado, não foi o filho mais velho mas seu sobrinho quem herdou a coroa. Daquele tempo em diante, o nome Plemiannikov (o sobrinho) permaneceu ligado a essa família. Quando meu pai, perseguido pela Revolução Russa de 1917, chegou à França, naturalizou-se francês. Tal como todas as crianças da aristocracia russa, ele ainda falava o francês fluentemente. Depois de se formar em ciências políticas, prestou exame para o

funcionalismo público, e foi aprovado com grande triunfo.

Nomeado cônsul aos vinte e oito anos, casou-se com uma francesa, Marie-Antoinette Ardilouze. Seu primeiro posto foi no consulado

de Alexandria, no Egito.

Nunca imaginei que algum dia iria dever minha aceitação numa sala de classe média francesa do século XX a esse meu longínquo ancestral que arrasou cidades e massacrou seus inimigos. No início cometi alguns atos falhos em meio a essa narrativa. Entre outras coisas, eu tinha o hábito de usar uma faca em vez de uma colherinha para quebrar o topo de meus ovos quentes. Toti ficou chocada com isso. Parecia que eu tinha algum problema com colherinhas junto à família Bardot. Apesar da preocupação que

sentiam por ver que Brigitte estava cada vez mais ligada a mim, Toti

e Pilou me queriam bem. Com uma certa resignação, aceitaram-me como membro honorário da família, embora isso não tenha acontecido da noite para o dia, é claro.

No início, visitava a Rue de la Pompe uma vez por semana. Depois

de um mês tive permissão para levar Brigitte ao cinema na sessão

das oito. Enquanto isso, nós havíamos aperfeiçoado um sistema de

encontros secretos. Nosso quartel-general era uma sala pouco mobiliada, no segundo andar do número 15 da Rue de Bassano, a trezentos metros dos Champs-Elysées. Ela fora emprestada ao meu melhor amigo, Christian Marquand, por seu pai. O sr. Marquand publicava um anuário para homens de negócios, e Christian tinha

de pagar o aluguel da sala colando selos em milhares de envelopes.

Às vezes eu o ajudava nessa horrível tarefa, o que nos ocupava várias horas a cada mês.

A única mobília era um grande divã, uma cadeira e uma mesa

pequena. Para conversar, nós nos esticávamos no divã ou sentávamo-nos no chão. Nosso abajur tinha sido decorado a caneta

e a lápis de cor por Jean Genet. Christian permitiu que eu usasse a sala sempre que precisasse.

Eram

encontro secreto.

— Eu deveria estar na aula de álgebra, mas optei pela liberdade — disse ela.

Aconchegou-se a mim e me ofereceu seus lábios. Beija-mo-nos e fomos para o divã. Brigitte me prevenira de que era virgem. Ainda não existia a pílula e, para não assustá-la, não lhe contei que nunca tinha feito amor com uma virgem antes. Tinha algumas noções sobre como proceder, mas, como todos sabem, há uma enorme distância entre a teoria e a prática.

Nunca tínhamos ido além do namorinho ligeiro. Era também a primeira vez que eu a despia. O que me deixou perplexo quando a

vi nua foi a extraordinária mistura de inocência e feminilidade, de

impudor e timidez.

Ela não conhecia absolutamente nada do amor, mas parecia uma mulher plenamente desabrochada. Tomou-me em seus braços e, muito suavemente, começamos a fazer amor.

três

horas

quando

Brigitte

chegou

para

nosso

primeiro

O

tempo de que podíamos dispor passou rapidamente. Já era hora

de

partir.

Enquanto se vestia, Brigitte perguntou:

— Sou uma mulher de verdade agora?

— Não muito — respondi. — Talvez uns vinte e cinco por cento.

Ela me olhou com um meio sorriso à Mona Lisa, sonhando com os setenta e cinco por cento que esperavam por ela. Ajudei-a a falsificar uma assinatura de sua mãe num bilhete que pedia sua dispensa da aula de álgebra. Depois, levei-a até o ponto de ônibus. Quando voltei à Rue de Bassano, dei de cara com a srta. Marie, a zeladora. Com cinqüenta anos de idade e pesando cem quilos, ela era o terror do edifício. Durante a ocupação nazista, tivera estreitas relações com as autoridades alemãs, ao preço da vida de judeus e resistentes que delatava. Quando da libertação da França, soube

lidar com o governo provisório do general de Gaulle, denunciando colaboradores.

— Quem é aquela moça? — perguntou, com seu forte sotaque

parisiense. Ela vira Brigitte saindo.

— Uma amiga — respondi. — Uma moça muito boa.

— Este é um prédio de respeito — resmungou a srta. Marie. — E

você não vai transformá-lo num bordel. Eu tinha uma nota de mil francos no bolso e passei-a, sorrateiramente, para suas mãos. O dinheiro sempre tinha um efeito tranqüilizador sobre ela. Se eu quisesse continuar a me encontrar com Brigitte, não tinha outra escolha senão pagar a esse cão de guarda. Satisfeita, ela voltou a sua toca, ou melhor, a seu cubículo.

Na segunda visita à Rue de Bassano, foi Brigitte quem me despiu. Aprendera rapidamente as regras do jogo, e já as estava aplicando à sua própria maneira. Depois de termos feito amor, apoiei minha cabeça sobre seu peito. Ela perguntou novamente:

— Sou uma mulher de verdade agora?

— Uns cinqüenta por cento — respondi. Em sua terceira visita, anunciei:

— Cem por cento.

Brigitte bateu palmas, correu até a janela e abriu-a tanto quanto pôde. "Sou uma mulher de verdade", exclamava ela, acenando para os transeuntes na rua, que olhavam para cima em estado de choque. Em seu entusiasmo, ela se esquecera de um detalhe: estava completamente nua.

4

Não há nada que alimente mais uma paixão do que o segredo. O comportamento intransigente do sr. e da sra. Bardot transformou o primeiro romance de sua filha num drama épico. Brigitte era Julieta e eu, Romeu. Para conseguirmos nos encontrar por duas horas que fosse, precisávamos de todo o engenho de um agente secreto. Tínhamos nossos cúmplices: Mare Allégret, minha mãe e Christian Marquand.

Havia também espiões inimigos para os quais tínhamos de estar alerta: sua irmã menor, os amigos dos Bardots e qualquer um que, intencionalmente ou não, pudesse mencionar que nos vira aqui ou ali. Sob tais circunstâncias, fazer amor não era apenas um prazer mas uma aventura.

Brigitte não considerava o sexo como sinônimo de pecado. Não tinha nenhum trauma psicológico em relação ao ato do amor, nenhuma ansiedade mística ou religiosa e nenhum traço da mixórdia judaico-cristã ligada à noção de prazer. Ela era Eva antes de Deus ter perdido a paciência no Paraíso. Era uma Eva particularmente talentosa ao fazer amor, e que parecia conhecer tudo a esse respeito sem nunca ter precisado aprender. Nunca encarou a nudez como uma arma secreta que habilitava a mulher a seduzir o homem. A nudez não era nem mais nem menos do que um sorriso ou a cor de uma flor. Nesse sentido, ela era mais uma pintora do que um modelo ou, talvez, tanto pintora como modelo.

Não obstante, havia contradições em sua natureza. Essa mulher, tão livre de problemas ligados a sexo ou a seu próprio corpo, era, acima de tudo, uma romântica. Sentimentos, atmosferas e cenários eram tão importantes para ela quanto o prazer sexual. Tinha necessidade de palavras de confiança,

iluminação

suave, às vezes de velas, para tornar poético seu

orgasmo.

Apesar de possuir o dom da infidelidade, sempre sofria quando tinha romances com mais de um homem ao mesmo tempo. Nunca

conseguiu resolver o conflito entre a fidelidade e o desejo de seguir

os anseios de seu corpo e de seu coração. Por mais de uma vez, ela

quase morreu em conseqüência desse conflito.

O mesmo acontecia a nível social. Havia duas Brigittes. Uma era

presa aos valores burgueses — parcimônia, medo de aventuras, preferência por moradias pequenas, um gosto definido para móveis e bugigangas. A outra era moderna, entusiasmada com o próprio tempo, independente a ponto de escandalizar a França e os cinco continentes. De qualquer forma, ela não estava preparada para lidar com o próprio gênio.

Aos quinze anos, não podia imaginar o impacto que teria sobre seus contemporâneos através do cinema e de outros meios de comunicação. Caso tivesse sido prevenida por algum oráculo ou espelho mágico, ficaria horrorizada e não iria, jamais, se tornar uma atriz.

Se você consegue ocultar alguma coisa por muito tempo, começa a

se tornar demasiadamente confiante. Foi exatamente o que aconteceu comigo e com Brigitte. Nós nos arriscávamos demais. Eram carícias trocadas em um corredor, num elevador ou no banco traseiro do carro de seu pai — meras provocações de início de tourada. Nas férias escolares, quando tive recursos, aluguei um quarto no hotel em que estavam hospedados os pais de Brigitte.

Durante a noite, ela caminhava descalça, pé ante pé, até meu quarto.

O inverno de 1950/51, em Megève, uma estância de férias, foi quase

um desastre para mim. A cena do crime foi o Le Megevan, um hotel agradável, construído inteiramente de madeira. O piso estalava terrivelmente e, para nossa desgraça, meu quarto ficava exatamente em cima do quarto do sr. e da sra. Bardot, um detalhe geográfico do qual eu não fora advertido.

Tendo sido despertado pelos estalidos no piso do andai superior, Pilou acabou por reconhecer a risada de sua filha e disparou em

direção ao meu quarto. Alertados em tempo pelo barulho de seus passos, tivemos meio segundo para pular pela janela em direção à neve gelada, dois andares abaixo. Ficar por dez minutos completamente nu com neve até o pescoço é uma experiência interessante, mas não do tipo que eu recomendaria. Só mesmo a juventude e o calor de nossas emoções impediram-nos de apanhar uma pneumonia. Brigitte e eu continuamos sendo audaciosos. Um dia, ao chegar à Rue de la Pompe para minha visita oficial quinzenal, Brigitte anunciou: "Meus pais saíram. Mijanou está na casa de vovó". Uma fada travessa nos deu a idéia de permanecermos na sala em vez de procurar a segurança do quarto de Brigitte. Fizemos amor numa cadeira Luís XVI. Passamos da cadeira para o sofá, espalhando nossas roupas pela sala toda. O poeta Lamartine clamou certa vez:

"Oh, Tempo, aprisiona o teu vôo!" Naquele dia, nós o aprisionamos um pouco além da conta. Quando a porta da frente se abriu, tivemos tempo apenas para apanhar nossas roupas e nos esconder atrás do cortinado das janelas francesas que davam para um balcão. O sr. Bardot entrou na sala junto com um importante banqueiro, que estava acompanhado de sua esposa e do filho, que certa vez empreendera uma vaga tentativa de namorar Brigitte. A sra. Bardot entrou na cozinha para preparar o jantar. Conseguir se vestir atrás de uma cortina sem ser notado não é uma tarefa fácil. O rapaz começou a falar sobre a inocência e a boa criação de Brigitte, qualidades raras nas moças modernas. Pilou e o banqueiro mudaram de assunto, passando para um tema menos frívolo: os perigos do comunismo na França. A esposa do banqueiro perguntou se a mobília Luís XVI era autêntica ou uma cópia bem- feita. — Onde está a adorável pequena Brigitte? — ela indagou subitamente.

— Sem dúvida está em seu quarto. Vou chamá-la — respondeu Pilou.

Brigitte, agora vestida, demonstrou um enorme autocontrole. Com a segurança de uma atriz subindo ao palco, abriu as cortinas e caminhou até o meio da sala.

— Olá — ela disse.

Uma vez passada a surpresa, Pilou indagou:

— O que você estava fazendo atrás da cortina?

— Estava me escondendo. Não queria que me visse com os cabelos desarrumados. Você teria ralhado comigo.

O filho do banqueiro achou muito divertido, e Pilou fingiu estar

encantado com esse aspecto surpreendente da personalidade da filha. Brigitte levou todos a seu quarto para mostrar sua coleção de bichinhos de pelúcia enquanto eu tratava de escapar do apartamento sem ser visto.

O sr. e a sra. Bardot tinham uma pequena casa em Saint-Tropez, no

fim de uma rua estreita. Os muros eram cobertos de videiras silvestres. Esse adorável porto no sul da França, famoso por seu

charme e suas praias de areias finas, e ainda pelas casas de Collette

e do pintor Dunoyer de Segonzac, não fora ainda invadido por

turistas e veranistas. Cannes, Antibes, Juan-les-Pins, Mônaco e Promenade des Anglais, em Nice, eram os lugares da moda, então. Descobri esse minúsculo paraíso que era Saint-Tropez quando ainda garoto, numa fuga de bicicleta durante a guerra. Retornava para lá todo ano. No verão de 1950, Brigitte e eu nos encontrávamos à sombra de alguns pinheiros, perto de uma pequena enseada deserta. Ela notou que as cigarras paravam de cantar quando começávamos a fazer amor. Esses insetos de asas longas deviam ficar quietos

simplesmente em sinal de respeito à música do amor. Brigitte, porém, inventou que, na verdade, estavam sendo pagos por seu pai para nos espionar.

Apanhamos duas delas e as batizamos de Espiã Número Um e Espiã Número Dois. Prometi que jamais iria me separar da Espiã Número Dois, a quem Brigitte interrogava todas as vezes que nos encontrávamos. Simulava uma grande demonstração de ciúme, fingindo que a Espiã Número Dois tinha me pego nos braços de uma jovem sueca ou da filha do dentista. Tenho de admitir que Brigitte tinha motivos de sobra para sentir ciúme. Eu não levava uma vida exatamente monástica em Paris. Viajava muito; algumas vezes para estar no set quando Allégret filmava, mas, o que ocorria com maior freqüência, apenas pelo gosto de viajar. Amava sinceramente Brigitte, mas não pretendia renunciar à minha liberdade. Ela era prisioneira de seus pais e nada podia fazer além de esperar. Brigitte se dedicava ao ato do amor com uma intensidade extraordinária. Às vezes segurava um espelho para poder nos ver fazendo amor, como se o toque não fosse suficiente. Antes de eu fazer alguma viagem, pedia-me que levasse fotos suas, com roupa e despida. Queria que eu a carregasse comigo: seu rosto, seu corpo, seu sexo. Ela era toda corpo e, ao mesmo tempo, a mulher mais emotiva que já conheci. Brigitte escrevia para mim todos os dias. Suas cartas eram uma mistura de infantilidade, apaixonadas declarações de amor, fantasias eróticas, sonhos românticos sobre o futuro e revolta contra os pais, que não a compreendiam. A mesma pergunta surgia sempre: "Vai me amar para sempre, não vai?" Eu não tinha percebido ainda que as mulheres, obcecadas pelo amor eterno, são mais suscetíveis a novos relacionamentos. "Vai me amar para sempre?" significa, na verdade, "Por favor, não deixe que eu me apaixone por outra pessoa". A maioria dos homens considera essas palavras como uma prova de que são os únicos. Na realidade, é exatamente o contrário. As mulheres românticas procuram o absoluto. E elas não o encontram em qualquer homem. Falam em eternidade, mas correm de presente em presente.

Brigitte desejava um elo sagrado. Queria uma vida que estivesse inserida num círculo celestial. Ela seria o sol, irradiando vida e calor, com satélites circulando de acordo com os ditames de seu coração. Nosso maior problema apresentava-se mensalmente. É difícil imaginar hoje em dia o absoluto terror que as jovens sentiam na época em que não possuíam nenhuma forma legal de contracepção. Em algumas famílias, uma garota que engravidasse era amaldiçoada, desonrada e, freqüentemente, atirada na rua. As pessoas achavam mais conveniente optar por um infeliz e malfadado casamento. A gravidez era sempre um pesadelo. Mães solteiras não tinham quase nenhuma assistência do governo. As coisas não eram muito melhores do que para as mulheres dos tempos de Cristo, quando as adúlteras eram apedrejadas. A cada trinta dias, a vida de Brigitte ficava por um fio. Ela tinha uma senha para o período: os russos. Todo mês eu esperava pela sensação de alívio que iria sentir quando ela anunciasse: "Os russos chegaram". Um ano depois de ter conhecido Brigitte, eu estava morando com Christian Marquand na île Saint-Louis, no Quai d'Orléans, num dos mais bonitos apartamentos de Paris. De minha janela, no oitavo andar, podia avistar os arcobotantes de Notre-Dame, a cúpula do Panthéon, o Sena e os telhados das casas de Sainte-Geneviève. Evelyne Vidal, a proprietária, que tinha se separado recentemente do marido, alugou-nos dois quartos com vista para os telhados. Evelyne era arrebatadoramente bela, de cabelos escuros e curtos, e imbuída de um grande senso de humor. O casamento fez dela uma mulher rica, e o divórcio, uma mulher feliz. Todo mundo imaginava que ela nos aceitara em sua casa porque éramos amantes. Era lisonjeiro, mas não verdade. Christian e eu conquistamos sua simpatia numa noite em que ficamos ouvindo Dave Brubeck, Thelonious Monk e MJQ. Terminamos pintando as folhas de uma medonha planta artificial, que ficava no hall, de carmim e violeta.

De manhã, Christian disse a ela: "Que droga, Evelyne, nós nos esquecemos completamente de fazer amor com você". Ela precisava de amigos e, assim, nós fomos ficando em sua casa. O aluguel equivalia a apenas setenta e cinco dólares por mês, mas nós jamais o pagamos. Brigitte vinha me ver constantemente no Quai d'Orléans. Um dia, estávamos sentados junto à janela olhando o Sena, quando ela disse:

"Sabe, os russos não chegaram. Estou com um dia de atraso". Ela sentia dores de cabeça e enjôos, e estava convencida de que ficara grávida. Eu a tranqüilizei. Eram sintomas de uma gripe que andava circulando em Paris. Christian e Evelyne tinham pegado na semana anterior e se curaram rapidamente, graças às doses maciças de vitamina C que eu lhes aplicara. (Tinha aprendido a aplicar injeções durante a guerra, quando vivia numa casa isolada nos Alpes franceses sem nenhum médico nas proximidades.) Brigitte concordou em tomar uma injeção. Ficou na sala esperando, enquanto eu preparava uma limonada quente. Um pouco depois, Evelyne estourou na cozinha, gritando que Brigitte estava verde e iria morrer. Corremos até a sala, onde Brigitte estava inerte, deitada no divã. Sua face esquerda, parte da boca e os dedos da mão direita estavam, de fato, esverdeados. — Não consigo respirar — ela disse. — Vou morrer. Já estou ficando verde. Olhe só para mim. Ela segurou minha mão e apertou-a junto ao peito. — Não quero morrer, Vadim. Sempre imaginei que as pessoas ficavam verdes após terem morrido. Mas guardei esse pensamento para mim. — Não é nada, querida. Deve ter sido uma picada de inseto — tentei acalmá-la. Eu estava, naturalmente, horrorizado. Evelyne já tinha chamado o dr. Lefranc, cujo consultório ficava no segundo andar de nosso edifício.

Brigitte mantinha minha mão em seu peito.

— Não conte para meus pais que estou morta. Eles não iriam

suportar. Já estava me vendo carregando Brigitte nos braços até a Rue de la Pompe e dizendo a seus pais:

— Ela não está respirando. Seu coração não está batendo. Ela está

verde. Mas não é nada sério. Ela não está morta. O dr. Lefranc entrou e ajoelhou-se junto de Brigitte. Afagou-lhe a testa, ergueu-lhe uma pálpebra, tomou seu pulso e se levantou. Olhou as próprias mãos, levou-as até os lábios e disse:

— É tinta.

Agora que sabia que não iria morrer, Brigitte se lembrou subitamente de ter ido ao lavabo depois que eu saíra. O banheiro tinha sido pintado naquela manhã, e o verde de seu rosto e de suas mãos vinha das paredes e da porta que ela havia tocado sem perceber.

No plano internacional, os alertas russos eram bem menos coloridos. A guerra fria estava no auge, o exército americano estava na Coréia e as forças expedicionárias francesas tinham sofrido sua primeira derrota em Lang Son, na Indochina. Na França, havia agitações sociais por toda parte e passeatas contra a guerra na Indochina. Eu estava a par dos assuntos domésticos tanto quanto dos internacionais. Sabia que passávamos por uma era de incerteza e perigo, mas isso não me impedia de gozar a vida e de me sentir otimista. Além de tudo, eu tinha apenas vinte anos. Apesar dos apuros mensais com Brigitte e do medo de ser pego em flagrante por seus pais, eu era feliz. Brigitte deixou de freqüentar a escola e só estava tomando aulas particulares, para poder dedicar mais tempo a seu curso de dança. Às vezes eu ia até sua sala de aula no Studio Walker e ficava abismado com seu desempenho, tão gracioso como o de uma sílfide. Ela se entregava de corpo e alma a sua arte. Nunca a vi em tão

perfeita harmonia consigo mesma num palco ou diante de uma câmara. Se não tivesse desistido de dançar, pelos motivos que irei contar adiante, poderia com certeza ter se transformado numa das maiores bailarinas de seu tempo. Depois do fracassado teste para Les lauriers sont cou-pés, ela jamais imaginou que iria fazer carreira como atriz de cinema. Tinha uma única vocação: a dança.

Nada no ambiente ou na família de Brigitte a destinava a uma carreira artística. Nada em sua educação encorajava sua natureza independente e inconformada, sua necessidade de se afirmar sem levar em conta um moralismo que sentia ultrapassado. Sempre dizia, referindo-se aos pais: "Eles ainda viviam na era dos dinossauros". Um fato ocorrido na infância impressionou-a profundamente. Tinha nove anos e sua irmã Mijanou, sete. Num domingo, as duas irmãs estavam sozinhas no apartamento. Para se divertirem, decidiram usar a cortina rendada de seu quarto para fazer trajes de gala. Quando os pais chegaram, ficaram furiosos. Pode-se imaginar e compreender sua fúria, mas o castigo que lhes impingiram foi desproporcional à travessura de duas menininhas que haviam sido deixadas sozinhas por um dia. — Não podemos mais confiar em vocês — eles lhes disseram. — De hoje em diante não terão mais o direito de dizer "tu" quando se dirigirem a nós. Terão de dizer "vous". "Sabe", disse-me Brigitte, "senti, realmente, naquele dia, que tinha perdido meus pais e que estava morando com estranhos." Tenho certeza de que Toti e Pilou não se deram conta do efeito traumatizante que sua punição teria sobre Brigitte. Penso assim porque sei que eles admiravam, achavam elegante e queriam imitar a tradição de algumas famílias aristocratas e de classe média alta, que determinava que os filhos usassem o "vous" quando se dirigissem aos pais. A cortina fora apenas um pretexto. Uma coisa é os pais usarem o "vous" com suas crianças quando estas estão

começando a falar; outra coisa completamente diferente é impor isso repentinamente a uma criança que já tem nove anos de idade. Além disso, Brigitte era obrigada a ir à missa todos os domingos, sem discussão. Como a igreja foi uma imposição, desenvolveram-se nela amargos sentimentos anticlericais, quando ainda era muito jovem. Aos doze anos, quando ia se confessar, inventava os mais abjetos pecados apenas para chocar o padre, que era amigo dos Bardots. Como tinha de manter em segredo a confissão, ele não deixava transpirar uma única palavra aos pais.

Já nos conhecemos há mais de um ano. O sr. Bardot nem sempre suspeitava de meu relacionamento com Brigitte, mas estava se mostrando mais e mais nervoso. Quando nos deram permissão para ir ao cinema, Mijanou foi incumbida de nos fazer companhia. Certa

vez, Mijanou contou a seus pais que eu beijara sua irmã no metrô. Pilou convocou-me a seu gabinete. Sentou-se, fantasmagóricamente pálido, com os lábios franzidos.

— Estou esperando — ele disse.

— Sinto muito, mas não estou entendendo — respondi, para ganhar tempo.

— Você beijou minha filha no metrô. Estou esperando uma

explicação. Percebi, em seu calendário, que estávamos em 21 de junho, e disse então:

— Foi para comemorar a entrada do verão. Ele ficou pensativo por um instante. — Costumamos comemorar com um beijo o 31 de dezembro, à meia-noite. Mas não o primeiro dia de verão — ele retrucou.

— Quis lançar uma nova moda — expliquei.

Ele não pôde evitar um sorriso. Mesmo assim, Brigitte e eu fomos proibidos de ir ao cinema juntos por duas semanas. Brigitte tinha cada vez mais dificuldade em agüentar os constrangimentos que lhe eram impostos pelos pais. Sentia-se nervosa, ansiosa e terrivelmente frustrada. Não via fim para o seu

sofrimento. Perdera as esperanças e chorava muito. Eu não conseguia argumentar com ela.

Certa noite, levei-a de volta à Rué de la Pompe com três horas de atraso. O sr. Bardot nos aguardava no balcão. A espera fez com que ficasse quase histérico. Enquanto eu me despedia de Brigitte, na frente do prédio, ele começou a atirar moedas em nós. Duas moedas atingiram a cabeça de Brigitte.

— Vamos pagar o metrô de amanhã com elas — ela disse.

Quando entrou, não se atreveu a me beijar, pois seu pai ainda nos observava. Ele a recebeu fazendo uma terrível cena.

— Não posso mais confiar em você. Jamais voltará a ver Vadim.

No dia seguinte, sem saber do decreto do sr. Bardot, toquei a campainha. Brigitte abriu a porta, levou um dedo aos lábios e disse que eu não podia entrar.

Eu estava querendo sair um pouco de Paris. Sussurrando, expliquei- lhe que estava tendo dificuldades para trabalhar no Quai d'Orléans, por onde uma infindável legião de amigos circulava o dia inteiro. Seria melhor terminar o roteiro que prometera a Marc Allégret na casa de minha mãe, em Nice, longe das tentações de Paris. Em três semanas estaria de volta. Brigitte me fixou com os olhos transbordando de tristeza. Deu-me um longo beijo na boca e então, apoiando-se no corrimão da escadaria, ficou observando o elevador descer vagarosamente os cinco andares. Se tivesse me contado a cena com o pai na noite anterior, eu não teria partido. Mas, ao me atirar o último beijo, gritou simplesmente:

— Não se esqueça nunca da pobre Sophie!

No momento da partida de meu trem para Nice, Mijanou, To ti e Pilou estavam se preparando para fazer uma visita aos monumentos de Paris. Pela primeira vez em onze anos, a luz dos refletores iria banhar os tesouros da capital. O Arco do Triunfo, o

obelisco da Place de la Concorde, o Opéra, a Notre-Dame e o Panthéon seriam iluminados até a meia-noite. Essa première marcava, simbolicamente, o fim do período pós-guerra. Paris era novamente a Cidade Luz. — Depressa — exclamou Mijanou para a irmã. — Você ainda nem arrumou os cabelos. — Eu não vou — disse Brigitte. — Não estou me sentindo muito bem. Quando seus pais saíram, Brigitte foi para o quarto.

Sentada em sua cama estreita, ela acariciava a cabeça felpuda do velho ursinho, que possuía desde os cinco anos de idade. Olhou para a parede onde estavam alguns retratos de família e seu saiote de aluna de balé, emoldurado por um velho par de sapatilhas e pelo programa do Rennes Opéra, onde dançara em público pela primeira vez. Sua coleção de bichinhos de pelúcia dividia a mesa de cerejeira com um bloco de papéis de carta, uma caixinha de música e algumas flores desidratadas. Levantou-se e caminhou até o espelho oval que fora comprado num mercado de antiguidades. Ela gostava de coisas antigas. Os objetos

novos amedrontavam-na. "Pobre

imagem. Apanhou uma folha de papel e uma caneta, saiu do quarto e atravessou o comprido corredor até a cozinha. Sábado era o dia de folga da empregada.

Sentou-se numa cadeira, colocou o papel sobre a mesa e escreveu:

"Para Toti e Pilou. Desculpem-me, mas não posso agüentar mais. Está muito difícil. Vocês não compreendem que eu amo Vadim de verdade e não quero viver sem ele". Foi até o fogão, abriu o gás, ajoelhou-se e enfiou a cabeça dentro do forno. O cheiro era desagradável, mas ela esperava que não durasse muito. Começou a sentir a cabeça ficar leve. Fechou os olhos e esperou a morte iminente.

.", disse ela para sua

Enquanto isso, no vagão-leito que me levava para Nice, fui tomado por uma súbita e irracional ansiedade. Pus meu livro de lado. Não conseguia entender aquele repentino ataque de inquietação que fez meu coração disparar. As paredes de madeira, muito bem polidas, pareciam fechar-se sobre mim. Senti-me como se estivesse trancado, como um prisioneiro. Pensei em Brigitte. Queria voltar logo. Queria estar de volta a Paris. Queria tomá-la em meus braços. Jamais havia sentido aquela tortura, física e mental. Depois de ter admirado o Arco do Triunfo e a Place de la Concorde, Mijanou começou a espirrar. A noite estava fria. Um pouco aborrecido, o sr. Bardot decidiu que iriam para casa apanhar um casaco para a filha. Se Mijanou tivesse colocado uma roupa mais quente antes de saírem, Brigitte jamais teria se tornado uma lenda. Ela já estava inconsciente quando os pais, alarmados pelo cheiro de gás, entraram na cozinha.

— Dez minutos mais e ela estaria perdida — disse o chefe dos

bombeiros, aliviado ao ver um pouco de cor voltar às faces da jovem sob a máscara de oxigênio. O sr. Bardot não era insensível, mas os hábitos de classe e educação eram tão fortes que suas primeiras palavras para Brigitte, quando já podia ouvir e entender, foram:

— Como pôde fazer isso conosco? Em seguida, acrescentou:

— Amanhã você vai para um internato na Inglaterra. A sra. Bardot, muito mais pragmática, pediu que ele se calasse e que a deixasse a sós com a filha.

— Minha querida — disse ela —, você conhece Pilou; não deve levar suas ameaças a sério. Você verá Vadim novamente.

Lembro-me de meu desejo urgente e absolutamente ilógico de deixar o trem e voltar a Paris. Mas não havia trem para Paris até a manhã seguinte. Não pude dormir a noite inteira. Vi o sol se erguer por sobre os ciprestes e as oliveiras em Vaucluse. Minha ansiedade se afundava no azul do Mediterrâneo.

Sei que certos gêmeos experimentam, às vezes, comunicações telepáticas. Tive essa experiência várias vezes, mas apenas com Brigitte. Alguns dias depois, quando a jovem Brigitte, de dezesseis anos, recuperou o gosto pela vida, sua mãe lhe disse:

— Se ainda amar Vadim daqui a dois anos, e se ele ainda a amar, você terá permissão para se casar com ele. Não havia telefone no bairro de minha mãe em Nice, de modo que liguei para Brigitte do correio. Ela me contou seu acesso de depressão. "Amo você. Trabalhe depressa. Volte logo, meu querido. Não posso viver sem você." Foi numa carta da sra. Bardot que adivinhei o que acontecera:

"Brigitte fez uma bobagem. Ela está bem. Esperamos vê-lo em breve". Minha mãe gostava muito de Brigitte, mas sempre dizia: "Tenho pena dela". Achava-a por demais faminta de felicidade para conseguir saciar-se. "Ela nunca aprenderá a crescer. Acho que será sempre uma criança. Para ser feliz, é preciso saber amar. Ela tem paixão pelo amor, mas não sabe amar." Acho que ela quis dizer que, por esperar tanto da vida e do amor, Brigitte conhecia apenas uns poucos momentos de felicidade. Eu chamava aquilo de "doença da felicidade". Comparo-a com Lancelote perseguindo o sonho impossível: uma juventude em superlativo à procura do inacessível. O graal de Brigitte não era apenas a salvação do homem, mas a sua própria felicidade. No inconsciente, sabia disto: a pedra mágica, aquele diamante perfeito, não existia sobre a terra.

Quando voltei de Nice, Brigitte me contou sua tentativa de suicídio. Disse que não queria esperar até chegar aos dezoito anos para viver comigo. Ela tinha lido que na Escócia era possível casar sem o consentimento dos pais, antes da idade. Tive alguma dificuldade para fazê-la entender que esse tipo de casamento, por mais

romântico e pitoresco que fosse, não seria legalmente aceito na França. Além disso, não me agradava nem um pouco a possibilidade de ir parar na prisão por corrupção de menores. A idéia de seu amado definhar atrás das grades acabou convencendo Brigitte. Decidiu esperar pacientemente os dois fatídicos anos.

5

Nosso noivado foi anunciado oficialmente. O casamento foi marcado para dezembro de 1952, após o décimo oitavo aniversário de Brigitte.

Pela primeira vez, ela fora autorizada a passar uma semana comigo, durante os feriados de Natal. Minha mãe, que se desfizera de sua villa em Nice e alugara uma pequena casa a cerca de uma milha de Saint-Tropez, iria nos alojar e atuar como dama de companhia. Após fazer uma longa preleção, o sr. Bardot presenteou-a com uma lista de regras a serem observadas.

— Brigitte e Vadim não devem sair de casa sem especificarem um horário e um itinerário de suas atividades; não mais de dois jantares a sós durante a semana; fique de olho na aparência de Brigitte; ela jamais deve tomar café da manhã de camisola.

Minha

mãe

prometeu

seguir

essas

instruções,

e

cumpriu

sua

palavra.

Entretanto, Pilou se esquecera de mencionar um ponto importante. Parecia óbvio para ele que nós teríamos quartos separados, de modo que não deu nenhuma instrução sobre onde deveríamos dormir. Pela primeira vez nós dividimos a mesma cama sem medo de sermos descobertos.

Brigitte e eu íamos passear pelo porto num velho Bugatti conversível que eu comprara de minha mãe. Jogávamos pé-de-bebê,

uma espécie de futebol de botão, com os jovens do local, em alguns cafés atualmente famosos: Le Gorille, L'Escale, Le Café des Arts. Pegávamos as estradas do interior. Às vezes, o Bugatti dava solavancos até parar, e tinha então que ser empurrado, como um jumento teimoso. No caminho de volta, enchíamos o banco traseiro com galhos secos que apanhávamos nos bosques, para a lareira de nosso quarto. Assim, à noite, faríamos amor à luz tremulante do fogo. Nosso idílio terminou mais rapidamente do que esperávamos. Brigitte estava chocada. Não queria voltar a Paris.

— Vamos fugir — ela sugeriu.

— Para onde?

ou mesmo para o Taiti. Se me levar de volta

para meus pais, nunca mais seremos tão felizes como agora. Parecia infantil e irracional, mas num certo sentido ela estava certa.

Eu deveria ter me arriscado a enfrentar a ira e as ameaças de seus pais. Brigitte tinha apenas dezessete anos. Depois que tudo tivesse acontecido, não creio que me mandassem à prisão por corrupção de menores. Eu mesmo era muito jovem. Entretanto, o bom senso prevaleceu. Mas será que era bom senso mesmo? De volta a Paris, Brigitte sofreu algumas mudanças sutis. Embora não percebesse, alguma coisa dentro dela fora esmagada. Pilou soltava nossas rédeas, mas imediatamente se arrependia e transformava sua brandura numa explosão que deixava Brigitte apavorada. Certa manhã, ela telefonou para o Quai d'Orléans. Estava sussurrando, e percebi que algo de grave tinha acontecido.

— Preciso vê-lo imediatamente.

— Venha para cá. Estarei esperando — respondi.

— No seu apartamento, não. Seria muito perigoso.

— Itália ou

— Na Place Saint-Michel, na entrada do metrô. Está bem? — eu propus.

Quando nos encontramos, meia hora depois, no local combinado, vi que estava pálida. Atirou-se em meus braços.

— Você tem um revólver? — perguntou.

— Sabe muito bem que não tenho. Por quê?

— Você precisa conseguir um. Imediatamente.

Após

reconstituir o que

gabinete, abrira a gaveta de uma escrivaninha e dissera:

— Está vendo isto? Brigitte inclinou-se para ver.

— O que é isto? — Pilou perguntou.

— um

— Não se chama "gatilho", chama-se "revólver" — corrigiu Pilou. —

Agora, olhe bem para este revólver. Se alguma vez eu souber que você é amante de Vadim, vou atirar nele sem hesitar por um instante. Pasma demais para levar a sério a ameaça, Brigitte correu até sua mãe, que estava diante da penteadeira a se maquilar.

— Mamãe, acho que Pilou pegou uma insolação.

— Acho muito estranho — respondeu Toti. — Está chovendo há uma semana.

— Então, temos de interná-lo.

Brigitte contou a cena ocorrida no gabinete de Pilou.

— Aprovo integralmente a decisão de seu pai — Toti respondeu

calmamente. — Na verdade, se alguma vez passar pela sua cabeça a

idéia de dormir com Vadim antes de seu casamento, eu mesma vou usar o revólver, caso Pilou mude de idéia.

— Você deve estar brincando — disse Brigitte.

— Não. Falo com toda a seriedade.

Eu tinha certeza de que nem Toti nem Pilou se arriscariam ao escândalo de um julgamento para preservar a castidade da filha. Eles queriam assustá-la. Não perceberam que já era tarde demais.

cinco

minutos

de

confusas explicações pude fazê-la

havia acontecido. Seu pai a chamara a seu

— Brigitte respondeu, usando uma gíria.

Deixamos a Place Saint-Michel e caminhamos pelas margens do Sena. Minhas tentativas de acalmar Brigitte haviam falhado.

— No que diz respeito a mamãe, você provavelmente tem razão — ela disse. — Mas conheço Pilou. Ele é capaz de tudo.

Brigitte contou-me que, certa vez, seu pai se trancara no sótão da casa de campo após uma discussão com a esposa. Três horas mais tarde, como ainda não havia descido, Toti subiu para verificar o que estava acontecendo. Quando abriu a porta, o som de um tiro ecoou. Pilou estava sentado numa cadeira. Tinha colocado um revólver sobre a mesa, diante de si, e, usando um cordão e uma série de polias, ligara o gatilho ao trinco da porta, de modo que a arma disparasse quando ela fosse aberta. O tiro não o atingiu por poucos milímetros.

— Digamos que eu consiga uma arma — eu disse a Brigitte — e que

seu pai apareça aqui com o revólver dele. Não espera que eu vá

matá-lo, espera?

— Não vejo outra solução. Prefiro ficar órfã a ficar viúva.

— Não pode ficar viúva. Você não é casada.

— Pare de se apegar a detalhes idiotas — disse Brigitte, perdendo a paciência. — Sendo casados ou não, se você morresse eu ficaria viúva. Só me restava um único argumento:

— O que você dirá a nossos filhos quando crescerem? Diria a eles que o papai matou o vovô?

— Não quero ter filhos — disse Brigitte.

Tentei tranqüilizá-la, ligando para um amigo, Jean-Paul Faure, cujo

irmão possuía uma coleção de armas de guerra. Ele me emprestou um Colt do exército americano, embora eu não tivesse nenhuma munição. Por sorte, Brigitte não estava interessada em detalhes como esse. Para merecer a mão da princesa em casamento, eu tinha de realizar duas façanhas. A primeira era conseguir um emprego estável. A segunda, fazer meu catecismo.

Meus pais eram livres-pensadores, mas, para agradar a minha avó, fui mergulhado na água aos três meses de vida e declarado ortodoxo russo, de modo que não precisava de um batismo católico romano. Para me casar na igreja, entretanto, e educar meus futuros filhos na religião materna, tive de aprender o Velho e o Novo Testamento, as heresias luteranas e calvinistas — a fim de proteger meus hipotéticos filhos das tentações de Satanás — e umas vinte orações para rezar ao despertar, às refeições, à beira da morte, por arrependimento, e outras tantas de que não me recordo. Tinha também de me confessar. Brigitte achava tudo isso muito divertido, especialmente porque o padre responsável por minha educação religiosa era o mesmo que ela procurava chocar confessando pecados abomináveis. Ele, na verdade, era um homem do mundo. Era também sincero e me ensinou muitas coisas, que, embora não me ajudassem, podiam satisfazer minha natureza curiosa. Conseguir um emprego regular já era mais difícil. Ao contrário de Hollywood, a França não possui estúdios que fazem contratos anuais. De qualquer modo, jamais teria me submetido a tal espécie de escravidão. Então, o que me restava? Trabalhar no serviço postal? Num banco? Não era exatamente o meu estilo. Mas o jornalismo era uma possibilidade. Hervé Mille, o então editor-chefe da Paris-Match, era uma das mais brilhantes personalidades parisienses da época.

Ele e o irmão Gerard, um talentoso decorador, divertiam a todos em sua mansão na Rue de Varenne, número 72. Era deles a mais aberta e a mais fechada casa de Paris: aberta no sentido de que era possível ser ali admitido sem ter idade, fama ou fortuna; e fechada porque apenas o talento, a inteligência e a audácia eram bem-vindos. Os habitues da Rue de Varenne eram, em sua maioria, jovens des- conhecidos, alguns dos quais se tornariam famosos: repórteres, fotógrafos, dançarinos de discothèques, atores e brilhantes parasitas que elevaram sua recusa ao trabalho à condição de uma arte

refinada. Entre os freqüentadores regulares estavam também Marie- Hélène de Rothschild, a princesa de Savóia, Ali Khan, Jean Genet, Jean Cocteau e Marlon Brando. Gérard e Hervé Mille adoravam Brigitte. Na noite em que a apresentei a meus amigos, seu pai nos acompanhou. Depois de cumprimentar Marie-Laure de Noailles, o general Corniglion- Molinier, Juliette Greco e um jovem senador americano chamado John F. Kennedy, Pilou nos deixou, sentindo-se tranqüilizado. Entre os convidados estava uma mulher cujas aventuras amorosas tinham sido o assunto de Paris por mais de trinta anos. Simone Beriau, uma diretora teatral, tinha sido uma grande cortesã. Na época, com mais de cinqüenta anos, estava domesticada, mas continuava notória por sua linguagem desbocada. Resolveu se divertir atacando Brigitte. — Você é virgem? — ela perguntou à queima-roupa. Esperava constranger a jovem e fazê-la corar. Mas, sem

se perturbar, Brigitte respondeu:

— Não, madame. E a senhora?

Todos riram com Brigitte, que venceu o primeiro round com um nocaute.

A casa da Rue de Varenne tornou-se um dos lugares onde Brigitte e

eu podíamos nos encontrar sem receio. Mal suspeitava o sr. Bardot que aquelas pessoas não passavam o tempo apenas discutindo arte

e política. As noites dessa rua tão oficial, repleta de ministérios e embaixadas, eram sempre divertidas e extravagantes. De qualquer modo, Brigitte tinha de estar em casa à meia-noite.

Hervé Mille me deu um emprego na Paris-Match. Tornei-me, de boa vontade, um jornalista. O salário era modesto: dois mil dólares por mês, além de bônus e despesas pagas, mas representava um emprego regular.

Antes do reinado da televisão, as pessoas se informavam dos acontecimentos através das revistas, e a Paris-Match era um dos semanários de maior prestígio da Europa. Éramos vinte ou mais

repórteres e fotógrafos, bastante invejados por nossos colegas. Prontos para tudo e capazes de tudo, com meios que poucos jornalistas têm a seu dispor atualmente, éramos uma gangue com nossas próprias regras e vocabulário. Muitas expressões e gírias inventadas nos editoriais da Paris-Match tornaram-se parte da língua francesa. Criamos nosso próprio estilo de reportagem. Cobríamos um amplo campo — arte, esportes, revoluções, guerras, acidentes e desastres naturais. Estávamos em toda parte. Reis e princesas, pára-quedistas da Indochina, mercenários, astros do cinema e políticos nos recebiam, embora fechassem a porta para muitos de nossos colegas. Fui imediatamente aceito nesse clube privado de jornalistas, pois conhecia a maior parte dos repórteres e fotógrafos que dele faziam parte. Mas, acima de tudo, éramos almas gêmeas. Eu pertencia à mesma raça de garotos astutos, simpáticos e cínicos educados pela dura realidade da ocupação nazista. O preço da aventura era terrivelmente alto. Em dez anos, mais da metade de meus amigos morreu em acidentes de carro ou de avião, e das formas mais diversas, na Indochina, na África, em Budapeste, Suez ou Cuba. Era sempre eu quem saía em viagens, mas, certa vez, os papéis se inverteram. Com a permissão dos pais, que conheciam um dos comandantes do navio, Brigitte aceitou um convite para dançar para os passageiros de um cruzeiro do lle-de-France. Uma amiga chamada Capucine a acompanhou. Capucine não era nenhuma dama de companhia ou hahy-sitter profissional, e sim uma das modelos mais famosas do início dos anos 50. Ela prometeu a Pilou que ficaria de olho em Brigitte. Apesar de alguns escorregões, devido ao movimento do navio, a bailarina do lle-de-France se divertiu imensamente e foi um grande sucesso. Não obstante, foi em seu retorno daquele cruzeiro que decidiu desistir da dança. "Não posso ser uma bailarina e ficar com você. Estaríamos separados o tempo todo."

Não foi uma decisão fácil. Ela sabia que estava negando a si mesma a realização de seu sonho de criança e adolescente, sua única ambição verdadeira, a de se tornar uma prima ballerina. No entanto, nunca me responsabilizou pelo sacrifício que fez, nem mesmo durante nossas piores brigas. Tendo aberto uma nova página em sua vida, decidiu assumir a responsabilidade total pelo futuro que escolhera. Para Brigitte, o amor vinha antes da vocação. Uma vez que decidira abandonar a dança, a idéia de se tornar uma atriz de cinema não parecia tão incongruente. Ela sabia que minha ambição era dirigir filmes; assim, se ela se tornasse atriz, poderia trabalhar e, ao mesmo tempo, estar ao meu lado. Brigitte freqüentemente atraía a atenção de produtores e diretores, especialmente quando se encontrava na casa de Mare Allégret. Sempre recusara propostas para atuar em filmes. Mas, tendo mudado de idéia, decidiu aceitar o papel de uma ingênua numa comédia romântica, felizmente destinada ao esquecimento. Bourvil, um ator genial que ainda não era um grande astro, atuou como coadjuvante. Uma noite, quando conversávamos a respeito de Brigitte, ele disse: "Ela será uma estrela. É uma pena que ela não goste realmente de sua profissão". Não foi o título do filme, Le trou normand, nem o roteiro nem o diretor que atraíram Brigitte ao projeto, mas o fato de que seria rodado a apenas oitenta quilômetros de Paris. A locação tinha a dupla vantagem de protegê-la do constante contato com a família e,

ao mesmo tempo, permitir que em apenas uma hora de viagem seu

namorado estivesse com ela. Isso porque, desde que estava trabalhando na Paris-Match, eu comprara um Simca Aronde, que, apesar de não ser tão singular quanto o Bugatti, era mais veloz e estava em melhores condições.

A primeira experiência de Brigitte no cinema não lhe trouxe

nenhuma novidade. Ela desempenhou seu trabalho com boa vontade e atenção. Mas passara a maior parte do tempo contando as

horas que a aproximavam do dia 20 de dezembro, a data que seus pais haviam escolhido para o nosso casamento. "As pessoas sempre contam os minutos que as separam de um acontecimento feliz", dizia ela. "Mas elas se esquecem de que a morte faz o relógio parar. A morte é o único banqueiro que se enriquece com a perda de seu capital." Alguns anos depois, também em relação à morte, ela dizia: "A morte me deixa maluca. Às vezes, tenho vontade de atrapalhar todos os seus planos chegando antes, sem avisar, só para enfurecê- la e poder dizer: 'Ganhei de você' ". Para surpresa de Jean Boyer, o diretor de Le trou normand, vários jornalistas foram até as locações à procura de Brigitte. Eu ajudara essa jovem atriz a se tornar conhecida, mas certamente não tinha nenhum poder para influenciar a imprensa. A inesperada atração que Brigitte exerceu sobre eles não podia ser explicada pelo fato de meu nome estar aparecendo há dois meses no expediente da Paris- Match. Fora eu o primeiro a sucumbir diante de seu charme, não precisava de nenhuma outra referência para compreender que minha pequena e romântica bailarina era uma sereia. Sua voz, seu corpo ou seu canto atraíam marinheiros para os recifes da modernidade. Tornou-se uma celebridade antes mesmo de as pessoas saberem quem era. Havia o "mistério Bardot", mas Brigitte nunca era misteriosa. "Os jornalistas são uns chatos", dizia ela. Nessa época, seus cabelos eram escuros.

Duas semanas após o término de Le trou normand, Brigitte foi à Córsega para fazer um outro filme, intitulado A moça sem véu 1 . O diretor dessa obra horrenda pensava que entendia alguma coisa de erotismo.

1 Manina, la filie sans voiles. (N. do T.)

Sendo a censura o que era nos anos 50, só nos foi permitido ver Brigitte emergindo de uma onda do mar vestindo um biquíni. As pessoas começaram a comentar o charme explosivo da jovem Bardot. Pilou e Toti, apesar de serem defensores do decoro, não se sentiam ofendidos ao ver fotos em que Brigitte aparecia em trajes de banho do tamanho de um selo. Não eram totalmente fechados. Embora inadaptados à vida moderna e à moralidade em transformação, mostravam-se capazes de progredir em suas idéias. Eu aconselhei Brigitte a trabalhar em filmes que fossem, no mínimo, inadequados para ser exibidos na cinemateca de Henri Langlois. "Você decidiu atuar no cinema, ótimo. Tem de começar por projetos pequenos. Você não tem experiência, mas ninguém irá julgá-la enquanto estiver aparecendo em empreendimentos menores. Afinal, ninguém critica um pintor amador até que ele comece a expor em galerias elegantes", disse a ela. Mencionei vários atores talentosos cujas carreiras terminaram abruptamente, apesar de seus filmes de estréia terem sido feitos com grandes diretores. Todos acabavam esperando demais de seu segundo filme, e eles não estavam preparados. Ou começavam tudo de novo ou eram logo esquecidos. "Não dê ouvidos às pessoas que a aconselham a recusar todos os convites até receber um telefonema de René Clement ou de Henri-Georges Clouzot. Elas não sabem o que dizem."

Leva tempo aprender como dar expressão a um talento. Há poucos Maiakóvskis, Raymond Radiguets ou Rim-bauds. De qualquer modo, eles morreram jovens, o que não recomendo a atores.

Em setembro, a sra. Bardot comprou um pequeno apartamento com um quarto, uma sala de estar, uma sala de jantar e uma cozinha.

— Não quero encorajar sua tendência à preguiça — disse-me ela —, mas você precisa de um ninho para modificar seus maus hábitos. Depois do casamento, o apartamento será de vocês por três anos.

Pilou ainda vigiava a castidade da filha.

— Vadim — disse-me ele —, por algum tempo eu o julguei mal. É

um homem honrado. Posso ser antiquado e um pouco ingênuo, mas estou contente por minha filha ainda ser virgem ao se deitar na cama do marido, em sua noite de núpcias. Vamos, deixe-me abraçá- lo.

Ele me beijou em ambas as faces. Eu gostava daquele homem antiquado, "dos tempos dos dinossauros", como Brigitte o caracterizava. Não tínhamos praticamente nada em comum, mas eu o compreendia. Mais de vinte anos depois, ele seria enterrado num belo cemitério de Saint-Tropez. Eu tinha chegado dos Estados Unidos, enviuvado por um novo divórcio; Brigitte não me pedira que fosse ao funeral. Juntei-me à multidão de amigos fiéis e espectadores curiosos e os segui até o mausoléu. Tinha ido para me despedir de Pilou. O caixão desceu à cripta, que jamais veria a luz do sol. Ali estava o som que separa a morte futura da morte presente. Ali estava também o silêncio da reflexão e da meditação. Brigitte se voltou e me disse:

— Viu o que ele fez comigo?

Pensei na cena da cozinha, no apartamento da Rue de la Pompe, quando Brigitte, acabando de escapar da morte, ouvia seu pai dizer:

"Como pôde fazer isso conosco?" Brigitte tinha tantas expectativas em relação a nosso casamento que ele se tornou uma espécie de devaneio, uma abstração para mim. Não o via como o início de uma vida diferente, mas antes como o término de um estado de ansiedade, nervosismo e frustração diária. Numa noite, após o jantar na Rue de la Pompe, fizeram minha cama no sofá da sala de jantar. Na manhã seguinte, ainda sonolento, eu procurava encontrar o caminho do banheiro quando ouvi a voz de Brigitte. Ela e a mãe estavam discutindo sobre a cor das cortinas de nosso futuro

apartamento. Naquele instante, percebi que era um estranho, um enxerto naquela árvore genealógica. Eu não era como eles. Fui até o banheiro e escovei os dentes. Brigitte entrou pouco depois. Abraçou-me e beijou-me na boca, sem se importar que estivesse todo lambuzado de pasta dental. — Oh, Vadim! Só faltam oito dias para nós. Estou tão feliz!

6

Brigitte concebeu o modelo e escolheu o material para o vestido branco, que foi feito à mão pela sra. Ogive, costureira da Rue de Passy. Estava à altura das mais elegantes peças das coleções de Chanel ou Balenciaga. Seria usado no domingo, na Igreja de Auteuil.

A cerimônia civil foi celebrada no dia anterior, na prefeitura do 16.°

Distrito 1 . A noiva vestia uma saia e uma blusa, e o noivo, um terno azul-marinho com uma gravata azul combinando.

O juiz, perturbado pelo meu sobrenome, fez uma prédica sobre a

importância de casamentos internacionais, que encorajam a paz mundial, saudou nossa união como "um símbolo da amizade franco-soviética". Brigitte teve grande dificuldade em conter suas risadinhas.

Quando deixamos o edifício da repartição, ela se atirou em meus braços. — Finalmente, sou a sra. Plemiannikov!

O jantar, na Rue de la Pompe, restringiu-se à família e aos amigos

mais chegados. Por volta de onze horas fui ver Brigitte, que havia se

1 Desde que Maria Antonieta foi guilhotinada, o casamento religioso não é considerado legal na França. Os noivos devem cumprir uma cerimônia civil. (N. do T.)

retirado para o seu quarto. Já deitada e nua sob uma camisola muito

romântica

Sentei-me à beira da cama.

Meia hora depois, Pilou entrou no quarto.

ligeiramente transparente, ela irradiava felicidade.

e

Meu caro Vadim — ele falou —, acho que já está na hora de você

se

retirar.

Retirar-se? Para onde? — perguntou Brigitte.

Nós já preparamos a cama dele na sala de jantar.

Mas nós estamos casados, papai. Você não se lembra? Você

assinou, mamãe assinou, e as testemunhas assinaram. Eu disse

uma

mulher

— Você estará casada amanhã, depois da cerimônia religiosa —

disse Pilou, imperturbável.

— Está maluco! — gritou Brigitte, sentando-se na cama. — Papai enlouqueceu. Socorro! Pilou está louco!

— Não se comporte como uma criança — o sr. Bardot respondeu.

Seu rosto estava se tornando perigosamente tenso; a boca era apenas uma linha estreita e fina. — Nesta manhã apenas cumprimos uma formalidade. Nada mais. Vadim se tornará seu marido amanhã,

"sim", e Vadim disse "sim". Estou casada,

na

igreja.

O

rosto de Brigitte estava vermelho de ódio. Ela estava à beira de

uma explosão.

— Vou dormir com meu marido esta noite. Nas ruas, na calçada, se for necessário.

A cena, que eu achara engraçada no começo, estava se tornando

séria. Pedi a Pilou que me deixasse a sós com Brigitte por um instante.

— Isso é demais! — gritou Brigitte, ainda revoltada. — Esperei três anos pelo direito de dormir com você. Estou casada. Legalmente. Vou dormir e fazer amor com meu marido em minha cama. Ou na

Que me importa! Mas não vou dormir

cama dele, ou na do papa sozinha esta noite!

Tirou a camisola e correu para o closet.

— Vou me vestir e vamos sair daqui.

Eu a segurei quando passou por mim e tomei-a nos braços. Depois de alguns chutes, ela parou de se debater. Expliquei a ela que aquele

não era o momento para brigar com os pais. A situação era um tanto ridícula, mas devíamos demonstrar bom senso. Não queria que ela se arrependesse, algum dia, por ter rompido com a família num im- pulso repentino. Finalmente ela se acalmou e até mesmo começou a rir.

— Quer dizer que vai passar sua noite de núpcias sozinho, na sala

de jantar? Só podia mesmo acontecer com você. Assim, passei minha noite de núpcias num estreito sofá, após ter desposado a mais bela das parisienses, a quem °s jornais um dia descreveriam como o sonho impossível de todo homem casado.

Brigitte e eu tínhamos concordado com um casamento religioso para agradar a seus pais. Ficamos ambos surpresos com a emoção que sentimos durante a cerimônia na igreja, repleta de amigos. O órgão, a voz do padre ecoando sob a abóbada, a luz filtrada através dos vidros coloridos, a magia dos candelabros resplandecendo com as velas, o respeitoso silêncio dos convidados — não há dúvida de que era tudo teatro, mas um teatro que tocava o coração. Mare Allégret, meu padrinho, parecia bastante emocionado. Lembro que minha mãe e minha irmã Hélène, que eu considerava pouco vulneráveis a esse tipo de clima, choraram. Brigitte olhou para mim. Seus lábios entreabertos estavam trêmulos e lágrimas escorriam pelo seu rosto. Após a cerimônia, a luz do dia, os fotógrafos e o aplauso dos amigos nos trouxeram de volta à terra. A recepção no apartamento dos Bardots foi um grande sucesso. Ao anoitecer, Brigitte e eu tomamos o velho elevador hidráulico aberto, que tantas vezes nos separou, e descemos os cinco pavimentos. Nossas malas estavam no bagageiro de meu Simca Aronde. Como reza a tradição, partimos para nossa lua-de-mel.

Perto de Fontainebleau, a cerca de sessenta quilômetros de Paris, Brigitte pediu-me que parasse o carro no acostamento.

— Estou com medo — disse ela.

— De quê?

— De tudo. Quero ir para casa, voltar a Paris.

Evitei lembrar-lhe que, na noite anterior, ela quase fugira de seu apartamento no meio da madrugada, sem pensar nas conseqüências. Sabia que essa disposição repentina não era nem um jogo nem um capricho. O futuro e os lugares distantes sempre amedrontaram Brigitte. Megève, nosso destino, ficava a apenas quatrocentos quilômetros de distância, mas o que a assustava era não poder imaginar qual o rumo que sua vida acabava de tomar. Chorou durante meia hora com a cabeça apoiada em meu ombro e depois se acalmou. Nunca mais ela falaria em voltar para a casa dos pais.

No final de 1952, ninguém sabia quem era Roger Va-dim. Duvido que alguém se lembrasse do artigo daquela revista de cinema de três anos antes, que mencionara o mais jovem roteirista da Europa. Quanto a Brigitte, era fotografada com freqüência pela imprensa, mas não era, de forma alguma, uma estrela. Por isso, ficamos um tanto surpresos ao ver as fotos de nosso casamento amplamente di- vulgadas, com a publicação de uma matéria de quatro páginas na Paris-Match, algo normalmente reservado à nobreza ou às estrelas. Pensei que as fotos tiradas pelos amigos da revista durante o casamento fossem terminar em nosso álbum de família, e não nos jornais. Novamente, isso era parte do "mistério Bardot". Alguns grandes atores esperam toda uma vida pela atenção dos meios de comunicação. Brigitte se casou e, sem ter a menor intenção, criou um acontecimento.

Tínhamos reservado um quarto num pequeno hotel, aconchegante e confortável, chamado La Gerentière, que foi premiado com uma estrela no guia Michelin após nossa estada. Nossas primeiras discussões sérias ocorreram durante tempestuosas partidas de monopólio. Sou bastante calmo nos momentos importantes da vida, mas perder nesse jogo infantil me fazia ferver.

— Você acaba de perder a Rue de la Paix. Deve-me trinta mil

francos.

— Tirei seis. Tenho mais uma jogada.

— Você tirou cinco. Está parado na Rue de la Paix. Sou um exímio

esquiador, de modo que Brigitte não tentou me acompanhar nas colinas. Ficava apenas sentada no terraço dos restaurantes tomando banho de sol. O único esporte que já praticara ou pelo qual se interessara era a natação. Quando ia a

um jogo de futebol ficava espantada ao ver os jogadores correndo

atrás de uma bola. "Deviam dar-lhes várias bolas. Assim, parariam de brigar", disse-me certa vez. Passamos noites animadas e alegres em Megève, mas Brigitte mal podia esperar para voltar a Paris. Seu maior desejo era mobiliar e decorar nosso apartamento. Para as jovens ansiosas por saberem a receita do sucesso, ou para os leitores intrigados ou fascinados pelos caminhos que levam à fama, devo dizer que a futura estrela internacional não deu a menor importância a suas fotos na Paris-Match ou aos futuros contratos com o cinema. Seus pensamentos se voltavam para a cor do tapete da sala e para a possibilidade de tomar emprestado o jogo de porce- lana de Limoges, cor de cravo, de sua mãe.

O apartamento da Rue Chardon-Lagache era pequeno mas

ensolarado. Um balcão, grande o bastante para abrigar vasos de flores, dava para a delegacia de polícia. Como não havia elevador,

tínhamos de subir três andares por uma escada bastante estreita. A sra. Ledieu, a zeladora, era muito idosa, muito gentil e muito sentimental. Seu melhor amigo e companheiro, Tino, era

acinzentado, media uns poucos centímetros do bico até a cauda e morava numa gaiola. Era um rouxinol e, como todos os rouxinóis, sujeito a depressões. Quando Tino deixava de trinar, a sra. Ledieu deixava de entregar a correspondência e não varria as escadas. Nunca entendi se as variações de humor do pássaro eram psicosso- máticas ou estavam ligadas às mudanças climáticas, mas tinham uma influência direta sobre o conforto dos inquilinos da Rue Chardon-Lagache, número 79. Certas manhãs, a sra. Ledieu exclamava alegremente: "Ele está cantando". E sabíamos que, por uma semana, tudo correria bem. Brigitte desempenhava seu papel de dona-de-casa com muita seriedade. Seus pais tinham nos emprestado o apartamento, mas não tínhamos uma única peça de mobiliário. Nas primeiras semanas, dormíamos no chão sobre um colchão. Talvez eu devesse descrever as cenas comoventes do casal construindo seu ninho dia a dia. Na verdade, porém, a mobília, as cortinas e o equipamento de cozinha pouco interesse despertavam em mim. Não consigo sequer me lembrar de quando chegou a cama. Achava apenas um tanto aborrecido ter de levar o lixo todas as noites pela escadaria abaixo. Também desejava que tivéssemos um telefone. Brigitte tinha um comportamento estranho com respeito à economia de nosso dinheiro. Era capaz de gastar uma fortuna em táxi, rodando Paris inteira, para economizar trinta cêntimos numa peça de tecido. Disse-lhe que aquela sua economia era muito dispendiosa. "Você não entende", respondeu ela. "É uma questão de princípio. Não há razão para se pagar seis francos e catorze cêntimos por um metro de veludo, quando se pode obtê-lo por seis francos e dez cêntimos." Deixei que Brigitte economizasse à sua maneira. Meu salário era suficiente para nos manter, embora não pudéssemos adquirir móveis. A oferta de um papel num filme que seria rodado em Nice colocou Brigitte num dilema. Precisava de dinheiro para decorar o

apartamento, mas não poderia fazê-lo estando Ionge de Paris. Foi isso, sem dúvida, o que a convenceu a aceitar um papel na peça de Jean Anouilh, Convite ao castelo 1 . Brigitte estava assumindo uma tarefa difícil. Os mais consagrados atores disputavam a honra de atuar numa peça de Anouilh, e foi com bastante relutância que o diretor, André Barsacq, resolveu ceder diante do que considerava um dos caprichos do autor. Como poderia aquela principiante, sem nenhuma experiência teatral, se defender sobre um palco? Jean Anouilh raramente ia ao cinema, mas tinha assistido a dez minutos de Le trou normand por causa de Bourvil. Foi Brigitte que o surpreendeu e o cativou. Logo nos primeiros ensaios, no Théâtre Atelier, ela percebeu o grande risco a que concordara submeter-se. "Devo estar louca", disse ela. "Podemos esperar pelo sofá e pelo tapete. Vou cair fora." Consegui convencê-la a não se atirar de um trem em movimento e ajudei-a a descobrir a personagem que interpretava, ensaiando em casa com ela. Fiz Brigitte jurar que não iria dizer uma única palavra sobre isso a André Barsacq, um dos diretores de mais alta reputação da França. O orgulho de um grande homem irrita-se tão facilmente quanto o bumbum de um recém-nascido. O desempenho de Brigitte foi milagroso. Na noite de estréia surpreendeu não apenas a platéia, mas também os demais atores. Sua voz estava perfeita e ela provocava o riso da platéia nos momentos exatos. O encanto, a autoconfiança e a autenticidade de seu desempenho ajudaram os espectadores a esquecer sua falta de experiência profissional. Os críticos não a aclamaram como a nova Sarah Bernhardt, mas ficaram favoravelmente impressionados. Foi um golpe de mestre na carreira da jovem principiante, cujo talento, diziam as más-línguas, estava na estreiteza de sua cintura. O sucesso não subiu à cabeça de Brigitte. Sabia que, apesar de ter se saído vitoriosa daquela vez, ainda não estava pronta para uma

1 L'invitation au château. (N. do T.)

carreira no teatro. Além disso, não gostava da idéia de ter de representar o mesmo papel todas as noites, dia após dia, semana

após semana. "Isso é uma prova suficiente de que não fui feita para

o palco", disse-me ela.

O apartamento ficou bastante confortável, e sempre convidávamos amigos para o jantar. Brigitte cozinhava, embora não fosse exatamente uma cozinheira cordon bleu. Uma noite em que Lilou, a irmã de Christian Marquand, estava em nossa casa, fomos

surpreendidos por uma espessa nuvem de fumaça vinda da cozinha. A banha do carneiro que estava sendo assado pegou fogo,

e do forno saíam imensas labaredas. Lilou correu para apagar o

fogo jogando água no fogão, o que apenas contribuiu para au- mentar o desastre. Horrorizada, Brigitte trancou a amiga na cozinha. Lilou começou a esmurrar a porta, mas Brigitte segurava firme a maçaneta, sem querer abri-la.

— Você está louca! — eu gritei. — Abra imediatamente essa porta.

— Se eu a abrir — respondeu Brigitte —, toda a minha mobília

ficará em chamas. Empurrei Brigitte para o lado e salvei Lilou de ser queimada viva. Usando toalhas, consegui controlar o princípio de um sinistro. Nossas discussões, freqüentes e um tanto violentas, eram sempre provocadas por algum motivo infantil. Lembro-me de nossas fúrias

e dos mútuos insultos, porém não tenho a menor lembrança de seus

motivos. Por outro lado, jamais esquecerei o episódio da porta.

Uma discussão acalorada teve início na cama, após o jantar,

degenerou numa briga na sala e atingiu o clímax na cozinha. De repente, sem nenhum motivo aparente, Brigitte se acalmou. Aquilo não era próprio dela, e eu devia ter suspeitado.

— Você se esqueceu de levar o lixo para baixo — disse ela. — Vá,

querido. Seja bonzinho. Eu o espero na cama. Apanhei a lata de lixo e saí. No instante em que pisei na escada percebi que tinha cometido um erro. Mas era tarde demais. Brigitte

acabava de fechar a porta atrás de mim e pude ouvi-la passar a chave. Eu estava apenas com a parte de baixo do pijama. Vestido dessa maneira, seria difícil pegar o carro e ir até a casa de um amigo. Além disso, eu não estava com as chaves. Dormir na escada com a parte de baixo do pijama, ao lado da lata de lixo, também não me parecia uma boa idéia. Tentei arrombar a porta atirando-me de ombros contra ela, mas esse

é um truque que, aparentemente, só funciona nos filmes. Pensei,

então, numa outra saída. A escada era bastante estreita. Se apoiasse as costas no corrimão, poderia empurrar a porta com os pés. O ódio deve ter me dotado de uma força adicional, pois a porta desmoronou quase imediatamente. Brigitte parecia apavorada e correu até o quarto para se esconder. Fui atrás dela. Minha vontade era surrá-la, mas jamais erguera um dedo para uma mulher em toda

a minha vida, e não iria fazê-lo agora, apesar da raiva que sentia.

Era terrivelmente frustrante. Tive então uma idéia que agora me parece um pouco extravagante, mas naquela hora me pareceu excelente. Consegui arrastá-la para o denso tapete de lã, arranquei o colchão da cama e o atirei sobre ela. Então, comecei a saltar sobre o colchão, com os pés, restringindo-me à área que cobria suas nádegas.

Repentinamente, todo o meu ódio desapareceu. Brigitte, no entanto, continuou aborrecida comigo por um bom tempo. Não por eu ter saltado sobre o colchão, pois não a machuquei muito, mas por causa da porta. A madeira havia rachado e teríamos de comprar uma nova. Quatro anos mais tarde, quando decidimos nos divorciar, o advogado de Brigitte pediu que enumerasse suas queixas contra mim.

— Nada tenho a dizer contra ele — disse Brigitte.

— Mas, certamente, se está querendo se divorciar, é porque o acusa de alguma coisa.

— Não. Sempre discutíamos, mas a culpa era tanto minha quanto dele.

— Mas, madame, tenho de estabelecer os autos para o juiz. Tente se lembrar de algo. Encontre alguma coisa para mim.

— disse Brigitte. — Existe um fato, e eu

jamais o perdoarei por isso.

— Muito bem. Então me conte.

— Foi a porta. Certa vez ele pôs abaixo a minha porta. Tinha

acabado de ser envernizada. Da mesma forma que Brigitte não pôde fornecer a seu advogado material para os autos, eu também era incapaz de encontrar uma única queixa contra ela. Ela me amava. Era fiel, ou pelo menos eu achava que era. Além disso, caso desconfiasse que ela fora infiel durante uma viagem, eu ficaria, sem dúvida, um pouco triste, mas não teria me sentido traído. Sabíamos como rir e como nos divertir. Tínhamos bons momentos na cama — e em outros lugares. Havia, é claro, as discussões freqüentes, brigas de crianças teimosas e amantes desenfreados, mas eram simples palavrórios, e não vendavais. Eram o som de duas personalidades fortes a se chocarem, sem se destruírem. Pelo contrário, tínhamos muita consideração um pelo outro. Foi, provavelmente, o caráter profundamente infantil de Brigitte (um ponto a que voltarei várias vezes, já que é essencial para quem deseja compreendê-la) que dificultou nosso casamento. Tal como uma criança, ela exigia demais daqueles a quem amava. Se alguém deixasse de lhe dar atenção por um momento, ficava cheia de ansiedade. "Estou triste. Estou com medo", dizia ela. O trabalho me forçava a viagens constantes, e isso destruiu alguma coisa dentro dela. Precisava de mim a seu lado para poder respirar tranqüila. De dia ou de noite, em Paris ou durante uma filmagem no interior do país ou no exterior, ela pedia por socorro, e eu tinha que ir correndo para junto dela. Quando chegava, às vezes tendo deixado interrompido algum trabalho importante, seu humor já tinha

mudado. Tudo estava ótimo, como acontece com crianças que se esquecem de um pesadelo na manhã seguinte. Nesse sentido, ela

era muito egoísta. Havia também as longas horas entre o anoitecer e

o amanhecer, em que eu tinha de exorcizar seus demônios e

encorajá-la. "Estou com medo, Vadim. Diga que vai me amar para sempre."

Mudava de idéia da mesma maneira que mudava de humor. No último instante, era capaz de cancelar um convite para jantar que já tinha aceito uma semana antes. Era capaz de se recusar a falar com jornalistas que tinham se deslocado de Roma ou Nova York apenas porque ela concordara em ser entrevistada. E não mudou muito. Jantei com ela um ano atrás e ela me disse:

— Você foi o único que me permitia mudar de idéia. Agora não tenho mais esse direito. É duro. É bem verdade que alimentei vários de seus caprichos, como faria mais tarde com meus filhos. Mas as crianças crescem e se adaptam a uma nova fase, chamada "idade da razão". Brigitte não cresceu. Pelo contrário, quanto mais atenções o sucesso lhe trazia, mais ela pedia de minha dedicação. Não era o caso, como acontece com certas mulheres dominadoras, de ela querer controlar tudo e tomar todas

as decisões; era uma espécie muito mais sutil de tirania, uma sede

insaciável de amor. Esse tipo de servidão começou a pesar demais para mim.

Por outro lado, Brigitte era mais sensata do que eu com respeito às coisas materiais, o dinheiro e a organização de nossa vida. Na verdade, era sensata demais para o meu gosto. Suas discussões com

o açougueiro sobre o preço de uma costeleta, sua obsessão por

bugigangas e móveis lembravam-me muito sua educação burguesa. Gosto de dinheiro e de luxo na medida em que posso desfrutá-los sem ser escravizado por eles. Ao contrário da maioria das pessoas, nunca fui capaz de dotar as coisas materiais de valores morais. No entanto, não havia nada de previsível nela. Vi Brigitte ralhar com a empregada por ter comprado uma costeleta de vitela cara

demais e, no mesmo dia, oferecer um carro para sua doublée, para que esta não tivesse de se levantar às cinco horas na manhã seguinte para conseguir tomar um ônibus. Muitos anos antes de E Deus criou a mulher 1 ter aparecido, Brigitte não era, de forma alguma, uma estrela. Mas a Warner Brothers lhe ofereceu um contrato fabuloso. Olga Horstig, sua agente, falou da quantia envolvida com a voz trêmula de excitação: mil e quinhentos dólares por semana no primeiro ano, três mil por semana no segundo ano e cinco mil por semana no terceiro ano. Além disso, ela teria uma casa com piscina em Beverly Hills e um automóvel.

— Quanto é isso em francos? — perguntou Brigitte. Olga fez os cálculos. Brigitte não conteve um assobio de admiração. — Merde — disse ela —, o pessoal de Hollywood não é nada mesquinho. Perguntou-me se viveria com ela na América.

É claro — respondi.

O

contrato foi devidamente assinado e enviado de volta à Warner

Brothers.

Foi somente então que Brigitte se deu conta do que concordara em assumir. Sim, ela ganharia rios de dinheiro e muita fama na capital do mundo cinematográfico. Mas teria também uma vida nova, completamente diferente, num país em que as pessoas não falavam francês. Teve uma crise de pânico.

— Jamais vou conseguir fazer um canto para mim lá — disse ela. — Eu sei disso.

Para Brigitte, "fazer um canto" significava recriar seu habitat num novo lugar. Uma raposa ou um coelho, tirados de sua toca, morrem

se seu habitat não for recriado. O mesmo acontecia com Brigitte.

Chorou todas as noites durante uma semana. Nada que eu dizia conseguia animá-la.

1 Et Dieu créa la femme. (N. do T.)

— Não há saída — ela disse. — Se for morar lá, vou morrer. Se ficar aqui, serei processada e vou passar o resto da minha vida pagando a eles. Fui procurar Olga e lhe disse que a ida de Brigitte a Hollywood estava fora de questão. Desapontada, a agente conseguiu que cancelassem o contrato. Brigitte voltou a sorrir e pude dormir novamente. Para completar sua felicidade, alguém presenteou minha mulher com um filhote de cocker spaniel preto, ao qual ela deu o nome de Clown. Foi o nosso primeiro e único filho.

7

Uma das grandes qualidades de Brigitte era não ser esnobe. Conhecíamos várias celebridades, mas ela jamais se impressionava com nomes ou fortunas. Era, sim, mais inclinada a encarar com suspeita as personalidades famosas. Gostava de sair e se divertir, mas não nos lugares da moda, onde todos os rostos eram famosos. Conseguir levá-la a uma estréia era um trabalho e tanto. Não obstante, tínhamos amigos íntimos que eram famosos. Acima de todos, estava Marlon Brando. Conheci Marlon mais ou menos na mesma época em que conheci Brigitte. Eu estava sentado com Christian Marquand no terraço de um café, no Boulevard Montparnasse, quando um jovem extraordinariamente belo, na mesa ao lado, nos chamou a atenção. Havia tirado o sapato e massageava os pés descalços, que colocara sobre a mesa, entre uma garrafa de Perrier e um cinzeiro. Grunhindo extasiado, como uma mulher prestes a ter um orgasmo,

ele repetia:

Isto é muito

Isto é muito

bom".

Começamos a conversar e aquele Adônis nos explicou que um de seus maiores prazeres na vida era massagear os pés após uma longa caminhada. Apresentou-se como Marlon Brando e contou-nos que estava sozinho em Paris, morando num desconfortável hotelzinho da Rive Gaúche. Sentira uma súbita necessidade de fugir de Nova York e fora até a França, embora não conhecesse ninguém lá. Simpatizamos de imediato com ele e o convidamos a dividir conosco nosso pequeno apartamento da Rue de Bassano. No dia seguinte, contou-nos que era ator e que acabara de estrelar Um bonde chamado Desejo de Tennessee Williams, na Broadway. Apesar de já ser famoso em Nova York, nós nunca tínhamos ouvido falar dele. Tornou-se um amigo próximo, meu e de Christian, logo de início, e ainda somos um pouco como irmãos. Por motivos que nunca procurei analisar, Marlon e Brigitte nunca tiveram uma real afinidade. Gostavam um do outro, eram muito amáveis e cordiais, mas isso era tudo. Parecia-me que duas criaturas tão espontâneas e tão profundamente sensuais se compreenderiam uma à outra. Brigitte não ficou, de forma alguma, deslumbrada com o aspecto físico de Marlon; ele a achava graciosa, nada além disso. Não o tendo jamais visto atuar, ela descobriu o seu génio de uma forma totalmente inesperada. Christian, Marlon, Brigitte e eu tínhamos tido uma divertida noitada, indo do Club Saint-Germain ao Tabou, e de lá para o Les Halles. Tínhamos tomado alguns drinques, mas não estávamos bêbados; Brigitte nunca bebia demais. Andávamos pelos Champs- Elysées quando, na esquina da Avenue Georges V, diante do Fouquet, uma taberna bastante conhecida pelo pessoal de cinema, Marlon percebeu que as cadeiras e as mesas estavam acorrentadas juntas, para que não precisassem recolhê-las naquela noite. Sem dizer uma palavra, ele arrancou as correntes e espalhou as cadeiras

1 A streetcar named Desirc. (N. do T.)

pela calçada. Então, começou a dizer as primeiras falas de Um bonde chamado Desejo, fazendo todas as personagens. Estava amanhecendo. Em poucos instantes, não estávamos mais nos Champs-Elysées mas num pequeno e sufocante cômodo em Nova Orleans. Marlon recriara a verdadeira magia do teatro apenas com umas poucas cadeiras e duas mesas de bar. Homens e mulheres amuados, ainda sonolentos, caminhando para tomar o primeiro trem do metrô para irem ao trabalho, pararam por curiosidade ou por deleite. Mas, depois de observarem Marlon por um momento, ficaram encantados, fascinados. E, podem acreditar, os parisienses são um tanto entediados para se impressionar com a bufonaria de pessoas fazendo algazarra às primeiras horas da manhã. Mas, mesmo que não entendessem uma palavra de inglês, sabiam reconhecer um autêntico talento.

Existe um consenso generalizado de que eu inventei Brigitte. Porém, é precisamente por Brigitte não ser produto da imaginação de ninguém que nem seus pais nem a sociedade nem a profissão afetaram sua natureza mais íntima. E é pela mesma razão que ela foi capaz de chocar, seduzir, criar um novo estilo e, finalmente, explodir pelo mundo como um símbolo sexual. A nudez, mais ou menos dissimulada, sempre existiu no cinema. Mas a alegre e inocente nudez de Brigitte excitava e, ao mesmo tempo, irritava as pessoas. De qualquer forma, ela não precisava estar nua para chocar os fariseus e moralistas. Durante uma de minhas batalhas com os censores, após as filmagens de E Deus criou a mulher, um deles me criticou por causa de uma cena em que, segundo ele, Brigitte saía da cama completamente nua diante de seu jovem cunhado. Projetei a cena para ele. Brigitte era vista saindo da cama, vestindo um pulôver que chegava até o meio das coxas. O censor pensou tê-la visto nua, e está convencido até hoje de que, antes da projeção, eu substituí a cena de Brigitte nua por outra que a apresentava vestida.

Não inventei Brigitte Bardot. Simplesmente ajudei-a a desabrochar e a aprender seu ofício, permanecendo fiel a si mesma. Pude protegê- la da estagnação das regras já prontas, que no cinema, como em outras profissões, sempre destroem os talentos mais originais quando procuram enquadrá-los. Acima de tudo, dei-lhe um papel que era o casamento perfeito entre uma personagem de ficção e a pessoa que ela era na vida real. Em algum momento da carreira de toda grande estrela acontece o milagre de um papel que parece ter sido feito para ela. Para Brigitte, esse papel foi o de Juliette em E Deus criou a mulher. Ela já fizera dezesseis filmes. O décimo sétimo fez dela uma estrela. Brigitte tinha tendência a fechar a porta para repórteres e fotógrafos. Passou a vida decepcionando jornalistas de todas as partes do mundo. Eu consertava as situações e a ajudava, o mais que podia, em seu relacionamento com a imprensa. Ela mesma nunca visava à publicidade. Mas o fato é que sempre criava algum acontecimento. Brigitte aceitara um papel secundário num filme inglês, A noiva do comandante 1 , estrelado por Dirk Bogarde. Era uma comédia deliciosa, mas sem dúvida não era o filme do ano. A produção seguiu os procedimentos usuais: uma foto da estrelinha francesa juntamente com uma pequena biografia foram distribuídas pela imprensa. Nenhum de seus filmes fora exibido em Londres, mas o público, sem sombra de dúvida, a conhecia de nome. A primeira surpresa foi encontrar, em vez de meia dúzia de jornalistas, como era de se esperar, mais de trinta, reunidos na suíte do Dorchester Hotel reservada para a entrevista coletiva. Brigitte estava atrasada. Eu não conseguia fazê-la sair do quarto naquele dia. Ela estava se sentindo "podre". Quando se dirigiu à sala de conferências, os docinhos já haviam desaparecido e as poucas garrafas de champanhe tinham sido esvaziadas de longa data. Pude sentir o

1 Doctor at sea. (N. do T.)

mau humor no ar. Porém, de novo, aconteceu um milagre. O magnetismo de Brigitte surtiu efeito. Usava um vestido simples de jérsei que lhe caía como uma luva. Era discreto e indecente ao mesmo tempo. Os fotógrafos gastaram todos os seus rolos de filme. Esqueceram, ou então perdoaram, o fato de que estava atrasada e não havia mais uma gota de champanhe. Um jornalista perguntou:

— Qual foi o melhor dia de sua vida?

— Uma noite — ela respondeu.

As perguntas surgiam uma após a outra.

— Qual é a pessoa que mais admira?

— O sr. Isaac Newton.

— Por quê?

— Ele descobriu que os corpos se atraem. Risadas.

— Existem pessoas às quais detesta?

— Os médicos que praticam vivissecção em animais e o presidente

Eisenhower, por ter mandado os Rosenbergs à cadeira elétrica. Tinha também um estoque de respostas que causavam grande impacto. Por exemplo: "Quando um homem tem várias amantes, dizem que é um dom-juan. Quando uma mulher tem vários amantes, dizem que é uma vagabunda". No dia seguinte ela estava na primeira página do Daily Telegraph, do Evening Express e do Guardian. Dez outros jornais publicaram sua foto e falaram da "gatinha francesa".

Levei Brigitte para jantar num clube privado muito elegante. Ela já fora alertada de que os ingleses gostavam da comida demasiadamente cozida, e procurou no dicionário a tradução da palavra "saignant". A tradução dada era "bloody" ("maldito").

Um maître d'hôtel, muito britânico e muito digno, veio anotar os pedidos. Brigitte fez seu pedido da seguinte forma:

—I want a steak. But a bloody steak. (Quero um filé. Mas um filé maldito.)

O maître d'hôtel nem piscou. Inclinando-se em direção a Brigitte,

sugeriu num tom impassível:

— Com umas batatinhas do cacete, talvez?

Entre o ano em que nos casamos e o verão de 1954, Brigitte fez uma comédia com um diretor francês e um melodrama spaghetti na Itália. Aprendeu mais sobre a função de representar quando aceitou pequenos papéis em Mais forte que a morte 1 , de Anatole Litvak, com Kirk Douglas, e em Se Versalhes falasse 2 , de Sacha Guitry.

Tinha encontrado agora seu próprio estilo. Deixava o cabelo cair pelos ombros, ou fazia um rabo-de-cavalo, e usava franja, enquanto as blusas decotadas revelavam a curva de seus seios e ombros. Acentuava sua cintura fina e usava saias ligeiramente acima dos joelhos, de modo a deixar aparecer o babado de sua combinação. Não usava meias com suas sandálias sem salto. Na França, na Itália e na Inglaterra, na verdade em todos os países não-socialistas da Eu- ropa, no campo e nas cidades, havia milhares de cópias de Brigitte. Em 1954, Brigitte e eu fomos a Roma. Robert Wise acabara de escolhê-la para viver o papel da confidente de Rossana Podesta em Helena de Tróia 3 , uma superprodução ítalo-americana. Era a Roma

da

dolce vita, que Fellini iria imortalizar alguns anos depois. Estrelas

de

todas as partes do mundo podiam ser encontradas em Cinecittà,

a Hollywood do Tibre. Ficamos num quarto com terraço, no sétimo andar do Hotel de la Ville, no topo da Escadaria Espanhola. De nossas janelas, tínhamos a vista dos lindos telhados da cidade santa, ondulantes como um oceano ocre e carmim no horizonte.

Foi um período breve e alegre, que compartilhamos com amigos italianos, franceses, ingleses e americanos. Frequentávamos as casas noturnas, é óbvio, mas me lembro dos jantares com serenatas de

1 Act of love. (N. do T.)

2 Si Versailles m'était conté. (N. do T.)

violão, das longas caminhadas noturnas pelas ruas estreitas do

Trastevere e dos mergulhos à meia-noite em Óstia, nas águas puras do Mediterrâneo ainda não poluído de piche e resíduos químicos.

As drogas ainda não eram imprescindíveis, e nada havia de

artificial nesse paraíso romano.

Nosso amigo Daniel Gélin tinha raptado uma encantadora jovem

germano-suíça, de dezessete anos, de um internato próximo a Genebra. Essa jovem, romântica e sonhadora em excesso, sofria com

a

vida agitada e as infidelidades de seu amante. Deixara sua família

e

seu país e corria o risco de ser apanhada pela polícia por causa de

seu grande amor. Em Roma, percebeu rapidamente que fazia parte

do harém de Gélin. Certa noite, chegou ao Hotel de la Ville em prantos, trazendo apenas uma pequena mala e perguntando se podíamos hospedá-la. — Minha pobre querida — disse Brigitte —, gostaríamos muito que ficasse, caso não se importe por termos somente uma cama. Ela é grande, veja só. Há lugar suficiente para nós três.

E foi assim que me aconteceu de dividir uma cama com Brigitte Bardot e Úrsula Andress por uma semana. Sei que meus leitores ficarão decepcionados, mas nós três não chegamos sequer a flertar, muito menos a fazer sexo. Brigitte nunca foi adepta do sexo grupai. Na verdade, sentia-me um tanto frustrado. Mas quanto prazer só de olhar para elas! Lembro-me de que, certa manhã, estava sentado no terraço, onde o café acabara de ser servido. As janelas francesas estavam bem abertas, e o sol se derramava na cama em que Brigitte

e Úrsula descansavam seus corpos nus e dourados,

despudoradamente, ao calor do verão. Sussurravam segredos uma à outra e davam risadinhas. Nem nos filmes nem na presença de grandes obras-primas em museus pude sentir, jamais, o mesmo arrebatamento pela arte que senti então.

Tive de deixar Roma e Brigitte duas semanas antes do término das filmagens. Hervé Mille dera pela minha falta na Paris-Matcb. Estava dirigindo pela Via Aurélia, rumo à fronteira francesa, quando duas jovens, carregando pesadas bagagens, fizeram sinal com o dedo pedindo carona. Parei e perguntei-lhes para onde estavam indo. — Para Nice — responderam. Maria era morena e exuberante, para não dizer roliça. Um pouco vulgar. Tinha os lábios grossos, as nádegas em constante movimento sob a saia justa e olhos escuros que pareciam engolir tudo o que captavam. Seu pai era dono de um pequeno restaurante em Veneza.

Francesca era uma loira alta, de rosto oval como o de uma figura de Botticelli e olhos verdes, ingênuos ou perversos, dependendo de seu humor. Era muito bonita. Seu marido era soprador na fábrica de vidros de Murano. Uma estava fugindo da família; a outra, do marido. Na praia do Lido, em Veneza, haviam conhecido um senhor de cinqüenta anos que dissera ser diretor de produção dos estúdios Victorine, em Nice. Eram esperadas em Nice por esse "mr. Robert", que faria delas grandes estrelas do cinema. Com suas economias, compraram passagens de trem e de ônibus para Pisa. Estavam exaustas, suadas

e convictas de que uma deslumbrante carreira cinematográfica

esperava por elas. Mas, antes, tinham de chegar a Nice. Havia um grande problema: nenhuma das duas tinha passaporte.

Paramos no melhor hotel de San Remo. (A Paris-Match não pagava bem seus jornalistas, mas era generosa quanto às contas de despesas.) A recepcionista torceu o nariz ao ver minhas duas caronistas, mas as cinqüenta mil liras que escorregaram para suas mãos trouxeram de volta o sorriso e a melifluidade de sua profissão.

O jantar e o champanhe foram servidos em minha suíte. Maria

começou a falar de sua vida de pobreza e do pai ciumento, que passava a mão em suas coxas enquanto ela servia bebidas no bar.

Falou-me de sua mãe, que achava que seu câncer no seio era um castigo de Deus por não se ter casado virgem, e dos irmãos, que partiam para a briga com qualquer homem que apresentasse algum sinal de ereção após ter dançado com ela. Francesca falou de seu tímido marido, que, antes do casamento, masturbava-se no banheiro quando ia visitá-la. Um dia, ao entrar no banheiro para escovar os dentes, ela o apanhou com a calça aberta segurando o pênis. Ao ouvir sua ruidosa gargalhada, o pai foi até o banheiro. Francesca não era responsável pela conduta indecente do jovem rapaz, mas aos olhos do pai fora maculada. Só havia um caminho para endireitar a situação: o casamento. Ela não amava Franco, mas casou-se com ele. O tímido onanista revelou-se um tirano ciumento. Surrava Francesca quando ela se ma-quilava ou quando um amigo dele a olhava à mesa do jantar. Estava grávida de dois meses e abortou. "Deus a castigou porque o filho não era meu", disse ele. Quando voltou do hospital, foi surrada furiosamente. E, como tinha hemorragia, ele a obrigava a beber o próprio sangue. "Beba o sangue do pecado", berrava ele, empurrando as bandagens encharcadas para dentro de sua boca. Eu estava constrangido, e também fascinado, ao ouvir essa mulher de rosto angelical contando tais histórias de horror como se fossem problemas domésticos do cotidiano. Maria achava tudo muito divertido. Tarde da noite, Maria começou a folhear um exemplar da revista Grazia, que tinha sido deixado sobre a mesa, e viu um retrato de Brigitte Bardot e seu marido, quando tinham sido levados à Via Veneto por um paparazzo. Meu status social repentinamente subiu como um foguete: elas estavam na presença do marido de BB! Maria correu até o banheiro. Dois minutos depois, voltou vestindo apenas sutiã e calcinha, e com o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Fazia uma ótima, mas para mim dolorosa, imitação de La Bardot. A italiana carnuda, vulgar, sincera e grotesca escolhera o diretor errado para impressionar. Parecia ter saído diretamente de um filme

de Fellini. Não possuo a crueldade desse alucinante gênio católico. Não sabia como dizer a Maria que ela escolhera a profissão errada. De qualquer modo, ela não teria acreditado em mim. Francesca suspirou:

— Eu não sou sexy (pronunciava "sexchy"). Nunca vou conseguir.

Após uma última taça de champanhe, elas foram para seu quarto. Deixaram a porta aberta, e juntei-me a elas. Estavam nuas sob os lençóis. Subitamente se sentiram acanhadas, mas, mesmo assim, estavam decididas a retribuir a carona, o champanhe e sua primeira noite num palácio com o único artigo que possuíam: seus corpos. Talvez estivessem também excitadas pela idéia de fazer amor com o marido de Brigitte Bardot. Sentei-me na beira da cama e conversamos sobre a dificuldade de atravessar a fronteira sem um passaporte. Aconselhei-as a tomar um atalho interno, ao norte da rodovia principal. Durante a guerra, tinha ajudado judeus e membros da Resistência a atravessarem a fronteira suíça, de modo que possuía alguma experiência no assunto. Maria não achou a perspectiva de uma caminhada de quinze ou vinte quilômetros, a pé, muito atraente.

— Por causa das malas — ela justificou. — Vamos afanar um barco

no porto. Quando chegarmos a Nice, escreveremos ao dono do barco para que vá buscá-lo. Ofereci-me para levar as bagagens no meu carro, mas Maria agarrou-se à idéia do barco. Pela manhã, levei-as ao porto e fiquei observando as duas enquanto se afastavam com suas malas. Eram muito vulneráveis e, apesar disso, tinham confiança num futuro glorioso. Eram vítimas dos filmes e das revistas. Mas eram, acima de tudo, vítimas de seu meio e de uma moralidade ultrapassada.

No dia seguinte à minha volta a Paris, Gaston Bonheur, o poeta e editor da Paris-Match, chamou-me a seu escritório.

— O sr. Roux está questionando a conta de sua despesa no hotel de San Remo — disse-me ele. O sr. Roux era o contador ao qual apresentávamos nossos recibos de despesas. Ele me respeitava como um chefe de polícia respeita um ladrão talentoso, mas sonhava em me apanhar num flagrante. Dei início a uma de minhas explicações matematicamente inexpugnáveis, muito invejadas pelos colegas. Porém, Gaston Bonheur me interrompeu logo nas primeiras palavras:

— Não desperdice sua imaginação com o sr. Roux. Chamei-o até aqui por outro motivo. Acho que você meteu a colher num caso internacional. Talvez seja um furo. Ele acabara de receber um chamado do DST, O serviço secreto francês. No dia anterior, um tal Riva, que tinha sido roubado em San Remo, fora atingido por uma tempestade e naufragara na costa rochosa entre Menton e Nice. Seria um acidente razoavelmente comum, se o dono do barco não fosse um iugoslavo que se acreditava estar a serviço da polícia secreta do marechal Tito. Os corpos de duas jovens italianas, cujas malas haviam sido encontradas no barco, foram resgatados pela polícia, perto do local do naufrágio. Na mala de uma das moças, encontraram um nome e um endereço: Roger Vadim, Rue Chardon-Lagache, número 79. Contei a história toda para Gaston Bonheur. Ele concordou ser bastante improvável que minhas caronistas fossem, na verdade, novas Mata Haris. Contudo, tive de ir até Nice para dar meu depoimento à polícia e identificar os corpos. As moças estavam quase irreconhecíveis, mas não tive dúvidas quanto a sua identidade. Uma era a figura de Botticelli que segurara em meus braços; a outra era a fã de Brigitte Bardot. Aquele incidente teve uma influência direta na carreira de Brigitte e na minha. Assim que retornei a Paris, pedi uma licença por tempo indeterminado, sem remuneração.

O motivo principal de minha decisão foi Maria e sua súbita admiração por mim ao saber que era marido de BB. Senti, então, uma necessidade urgente de fazer um nome próprio. Meu cocker spaniel, cujas únicas qualidades eram o pêlo brilhante e o jeito gracioso, era mais conhecido do que eu. Brigitte e eu costumávamos jantar no Elysée-Matignon, que congregava a elite do show business. Certa noite, eu estava lá e Brigitte ligou para mim avisando que iria diretamente para casa quando saísse do teatro. Deixei minha mesa e fui até a chapelaria. Como não havia ninguém para me atender, decidi eu mesmo apanhar meu capote. Pude, então, ler a etiqueta presa ao forro. Estava escrito "sr. Clown". A guardadora sabia o nome de Brigitte e de seu cachorro, mas não o meu. Se tivesse lido "sr. Bardot", eu ficaria aborrecido; achei "sr. Clown" divertido. Mas o incidente, sem dúvida, ficou em meu subconsciente, e Maria tinha ativado algum mecanismo de liberação. O título de príncipe consorte repentinamente me pareceu intolerável. Eu não fora criado para apenas observar e relatar acontecimentos, mas para criar histórias. Chegara o tempo de começar um trabalho sério.

8

Brigitte parecia correr o risco de se tornar uma eterna estrelinha. Só encontrava papéis principais em filmes medíocres, realizados por diretores medíocres. Duas dessas produções, no entanto, foram campeãs de bilheteria na Europa. Mas, se deram dinheiro a seus produtores, pouco contribuíram para realçar a imagem de Brigitte como atriz. Os grandes diretores — Marc Allégret, de A mais linda vedete 1 , com Jean Marais, e René Clair, de As grandes manobras 2 ,

1 Futures vedettes. (N. do T.)

com Gérard Philipe — só lhe ofereciam papéis pequenos. Tendo deixado a Paris-Match, dediquei todo o meu tempo a escrever roteiros. A persistência e o talento sempre dão resultados, no final das contas. Meu primeiro sucesso aconteceu graças a Jean Cocteau. Marc Allégret ia dirigir um filme baseado na encantadora novela de Louise Vilmorin, Juliette, para Pierre Braunberger, o produtor que reprovou Brigitte em seu primeiro teste para o cinema. O projeto fora concebido em torno do nome de Jean Marais, que era muito amigo de Jean Cocteau. Uma semana antes das filmagens, porém, Jean Marais desistiu do roteiro. Era uma catástrofe para o produtor, que já tinha vendido a fita. Allégret me pediu que o ajudasse, reescrevendo o roteiro. Jean Marais indagou a Jean Cocteau se poderia confiar no jovem roteirista de Mare Allégret. Cocteau disse:

"Vadim? Pode confiar. De olhos fechados". Modifiquei e reescrevi os diálogos em poucos dias. O filme foi um grande sucesso. Tinha sugerido o nome de Brigitte como protagonista feminina. Mas, apesar do apoio de Mare Allégret, contrataram uma estrela da época chamada Dany Robin. No mundo do cinema as notícias correm rapidamente.

Quando o sr. Senamaud, um produtor de filmes classe B, soube de minha intervenção milagrosa, pediu-me que lhe reescrevesse um roteiro. O projeto já fora vendido na Itália, mas Jean Bretonnière (uma cantora de operetas muito em voga em 1955), a estrela que tinham em mente como protagonista, não gostara do roteiro. Concordei em refazê-lo sob duas condições: Brigitte Bardot iria desempenhar o papel principal, e o diretor seria Michel Boisrond, primeiro-assistente de René Clair. Ainda não era a época dos inspi- rados meninos da Nouvelle Vague. Michel Boisrond estava a meio caminho entre um consagrado homem de cinema e um desconhecido. Se não podiam ter o mestre, aceitariam seu discípulo. Pela primeira vez, Brigitte desempenhava um papel escrito para ela, e numa linguagem moderna. Além disso, o diretor era de formação

clássica e estava realizando seu primeiro filme. Mlle Pigalle 1 foi um sucesso. Poderia ser considerado o similar francês de um filme de Dóris Day, mas era mais ousado, mais atrevido. Escrevi, então, uma outra comédia para Mare Allégret, intitulada Desfolhando a margarida 2 . Foi um trabalho de rotina, baseado numa idéia do produtor, que era tudo, menos original: uma jovem de boa família, expulsa de casa pelos pais, chega a Paris sem um tostão e se emprega numa boate para fazer striptease. Mudei o enredo e escrevi uma história consideravelmente divertida, romântica e sexy. Nosso amigo, o notável ator Daniel Gélin, fazia o protagonista masculino. Pela terceira vez, ganhei uma medalha de prata. Em Hollywood, isso teria me assegurado uma carreira de roteirista. Na França, os roteiristas não tinham o mesmo prestígio, e não eram sequer razoavelmente pagos. Mas Brigitte passou de sua posição de estrelinha para o status mais digno de atriz "negociável". Tinha vencido minha primeira batalha.

O pessoal de cinema sabia que eu era mais do que um simples

roteirista de Allégret ou de Boisrond. Participava da concepção e da direção, e freqüentemente ensaiava os atores. Chegara o momento

de me transferir do texto para a câmara. Eu estava pronto. Tudo o

que precisava era de uma oportunidade e de sorte. A oportunidade veio sob a forma de Raoul Lévy. Alguns anos mais velho que eu, esse homem, que esbanjava encanto, punha exaustos todos à sua volta com sua energia extraordinariamente viva e intelectual. Quando não restava mais ninguém, ele consumia a si mesmo. Sabia sempre onde encontrar dinheiro e era, talvez, o único homem capaz de roubar a si mesmo. Numa noite, quando estava bêbado e sabia que não iria se lembrar de nada no dia seguinte, abriu seu cofre e

tirou todo o dinheiro, cerca de três mil dólares, que perdera antes

do amanhecer em três partidas de jogo contra o rei Faruk, no Clube

1 Mam'zelle Pigalle. (N. do T.)

de Aviação. No dia seguinte, Raoul encontrou seu cofre vazio e deu parte à polícia.

Belga de origem russa, Raoul Lévy alistara-se na RAF em 1943 e logo conquistou a reputação de pior navegador da força aérea. Graças à sua falta de talento para ler mapas e demarcar posições, as vacas européias sofreram mais danos do que as máquinas de guerra do Terceiro Reich. Em sua última missão conseguiu superar-se. Após ter lançado bombas algumas centenas de quilômetros longe de seu verdadeiro alvo, a fortaleza alada que estava sob seu comando perdeu-se na neblina e logo ficou sem combustível. Raoul viu, então, uma pista logo abaixo, e deu sinal verde ao piloto para aterrissar. — É Dover — ele falou. — Há algo de errado com o rádio. Não consigo entender o que os rapazes da torre de controle estão dizendo. Não era Dover, mas Stuttgart, na Alemanha. Como a façanha ocorreu umas poucas semanas antes da rendição alemã, ele não permaneceu por muito tempo como prisioneiro de guerra. Raoul Lévy pertencia àquela extinta espécie de produtores aventureiros que amavam o cinema e o entendiam. Não possuía os meios para financiar uma produção de alto custo e, assim, decidiu arriscar. Seus dois trunfos eram o jovem roteirista chamado Roger Vadim e sua esposa, Brigitte Bardot. Ele me propôs que escrevesse e dirigisse um filme a ser estrelado por Brigitte. Havia comprado os direitos de Le petit genius, um romance do sobrinho do maior jurista francês, Maurice Garçon. A história não era das mais inspiradas, e não havia muito o que fazer com ela. Um pouco desanimado, fui a Roma com Brigitte, que tinha um encontro com um produtor para discutir um projeto importante. Ao menos, foi o que sua agente, Olga Horstig, havia lhe dito. Mas eu sabia que, para os italianos, tudo sempre é "importante".

Estávamos de volta ao nosso quarto do Hotel de la Ville um ano

depois. Nada havia mudado, exceto a paixão, que nos abandonara.

A deterioração de nosso amor nada tinha a ver com o sucesso

profissional de Brigitte. A fama não a transformou. Minha falta de

paixão a incomodava, e ela já estava à procura da intensidade do desejo novo e violento nos olhos de outros homens. Estava terrivelmente atormentada por essa necessidade. Certas noites abraçava-me com desespero nos olhos, perturbada pelo medo e pela dor de pensar no destino reservado a nosso relacionamento. Eu sabia o que passava por sua cabeça: "Segure-me. Não deixe que me apaixone por outra pessoa. Eu não quero. Seria como morrer". Estava sofrendo da doença da felicidade novamente. Sempre

desejava tudo e ainda mais, e imediatamente. A paixão era seu ópio.

E, como acontece com todas as drogas, iria escravizá-la por toda a

sua vida. Mas eu a amava. Era minha mulher, minha filha e minha amante. Tínhamos momentos de intenso prazer sexual, mas eu não podia ser

o graal por que ela ansiava. Sabia que, se não prosseguisse em sua

eterna procura através de outros homens, minha mulher morreria.

Na Casa dei Orso ela conheceu um guitarrista italiano bastante sedutor. De nossa mesa, pude vê-los dançando. Ela estava radiante

e deslumbrante, transpirando uma incrível sensualidade; era

mulher, animal e obra de arte. Lembrei-me da jovem Brigitte do

Studio Walker, dando saltos e piruetas, alongando-se e transpirando regiamente.

Ficou por mais de duas horas na pista de dança. Foi então que me lembrei de um caso incomum, que tinha lido nos jornais, do julgamento de uma jovem que fora amante de três irmãos, um após

o outro. Ela matara um deles. O que me deixou perplexo não foi o

assassinato, mas a personalidade criminosa da jovem, sua atitude diante do júri e a maneira como respondia aos advogados e ao juiz. Num lampejo de inspiração, encontrei o tema para meu filme com Brigitte. Pedi algumas folhas de papel e fiz anotações pelo resto da

noite. Quando terminei, já tinha meu roteiro em dez páginas rabiscadas apressadamente, como se tivesse sucumbido a um acesso de escrita automática. Voltamos ao hotel por volta das três da manhã. Por toda a noite, Brigitte agarrou-se a mim como um náufrago a uma bóia. Na manhã seguinte, decidi retornar a Paris. Sabia que ela iria ver seu guitarrista novamente. Era inevitável. Eu não queria mentiras, falsos remorsos ou lágrimas. E não queria sofrer inutilmente. Dirigi durante vinte horas sem parar, até me encontrar com Raoul Lévy. — Esqueça Le petit genius — eu lhe disse. — Já tenho a nossa história. Falei durante uma hora sobre minhas idéias. Ele se convenceu. — Está bem. Você já tem um título? Só descobri o título meses depois. Acho que foi um bom título: E Deus criou a mulher.

9

Brigitte queria que nosso casamento sobrevivesse, mas seu romance com o guitarrista italiano desencadeou uma irreversível sucessão de acontecimentos. Ela havia começado e não conseguia parar. Lutava com todas as suas forças contra essa espécie de embriaguez. Apesar de nosso distanciamento, havia momentos raros e preciosos, em que recuperávamos o ardor e a ternura do passado. Mas eu não me dei- xava levar pela ilusão. Aceitava como inevitável o fim de nosso casamento. Brigitte não compreendia essa atitude, in-terpretando-a como desistência de minha parte. Havia também um problema para o qual, infelizmente, eu não tinha solução. Fazer amor com Brigitte já não me excitava tanto. Compreendi, de repente, o significado da expressão "cumprir as

obrigações conjugais". Talvez fosse recíproco, mas, de minha parte,

o enfado era indesculpável quando se lembra que, aos vinte e um

anos, Brigitte estava no auge da beleza. Qualquer homem teria vendido sua alma para ocupar o meu lugar na cama com ela. Certos

casais desenvolvem uma nova forma de amor e harmonia após a intensidade sexual dos primeiros anos de convivência. Sabia que com Brigitte esse tipo de mudança para um amor mais espiritual estava fora de questão. Era tudo ou nada.

Alguns anos depois, ela diria a uma revista inglesa: "Se Vadim ao menos tivesse ciúme, as coisas se resolveriam". O ciúme pode servir

de

muleta para um amor vacilante, mas apenas por pouco tempo. Se

os

tormentos do divórcio se prolongam, você se separa na condição

de

inimigo. Não queria isso por nada deste mundo.

Na verdade, eu sentia ciúme, mas à minha maneira, isto é, sem demonstrá-lo. Admito que nesse ponto não sou um exemplo a ser

seguido. Levei a elegância da falta de ciúme um pouco longe demais. Tal atitude, resultante de um sen-

tido de decência e não de indiferença, foi freqüentemente interpretada como a quintessência do cinismo ou da decadência. "Como é possível, a um homem que ama sua mulher, despi-la diante dos olhares do mundo inteiro e, pior ainda, entregá-la a outros homens, diante de uma câmara?" Não tenho ciúme do contato físico, mesmo sexual, de uma mulher com outro homem. É a cumplicidade com outro, a mentira, o flerte e

a aventura que me tornam ciumento. Sofro se a mulher que amo

sorri para outro homem, ou toca-lhe as mãos, mesmo que isso não

leve a nada; não fico perturbado se outro homem a observa enquanto ela toma banho.

A nudez num set de filmagem não me deixa, de modo algum,

embaraçado. Vários pintores retrataram nuas as mulheres que adoravam, exibindo as telas com grande orgulho. Qual é a diferença entre o pincel de um artista e as lentes de uma câmara? Os técnicos

do estúdio? Bem, sempre havia visitantes nos ateliês de Rubens e Renoir.

Brigitte estava atravessando a primeira crise "adulta" de sua vida. Percebeu que nosso casamento estava afundando. Tinha seu destino nas mãos e isso a aterrorizava. Estávamos estirados no sofá ouvindo Le petit cheval, uma canção de Brassens.

— Você não me ama mais como antes — ela falou abruptamente. —

O que fiz para magoar você? Devolvi a pergunta a ela.

— Você não me ama mais como antes. O que fiz para magoar você?

Ela ficou pensativa por um momento. — Talvez não seja culpa de ninguém — disse então. — Quando Tino morreu, sabia que algo terrível iria me acontecer.

Tino, o rouxinol da sra. Ledieu, a zeladora, fora devorado pelo gato da delegacia de polícia. Esse tipo de lógica adotado por Brigitte estava além de minha compreensão, de modo que fiquei quieto. Ela continuou:

— É como o que aconteceu com sua aliança de casamento. Aquilo

também foi um sinal. Eu devia ter percebido. Brigitte estava se referindo a um misterioso desaparecimento. Como não estava acostumado a usar anéis, criei o hábito de tirar a aliança do dedo e ficar brincando com ela. Um dia, no escritório do

produtor de Mlle Pigalle, a aliança caiu. Por duas horas, toda a equipe de produção a procurou, de quatro, sem nenhum resultado. Tinha literalmente desaparecido no ar. Um ano depois, na mesma noite dessa conversa com Brigitte, estava sozinho no escritório de Senamaud. Aborrecido, comecei a brincar com a chave da gaveta de sua mesa de cerejeira. E encontrei minha aliança de casamento. Como num passe de mágica, ela havia escorregado pela chave e fixara-se em torno da fechadura. Fora impossível distinguir o ouro do latão. A coincidência era extraordinária. Mas entre dizer isso e

clamar que era um aviso dos céus havia uma distância que eu não me atreveria a transpor. Brigitte, porém, não teve dúvidas.

— Foi um sinal — repetiu.

— O rouxinol e a aliança. Parece um conto chinês — eu disse.

— Ou russo. Eu devia ter escutado minha avó e ter tomado mais cuidado com os russos. Russos sujos! Começou a rir e me beijou.

Passamos uma noite adorável desempenhando nossas "obrigações conjugais", que foram, dessa vez, prazeres conjugais.

— É engraçado — Brigitte falou de repente. — Fazemos tudo ao

contrário. Quando os casais estão juntos por muito tempo, inventam jogos para se excitarem. Nós fizemos isso no começo. Escondíamo- nos nus atrás da cortina da sala de visitas. Fizemos amor na neve. Lembra-se de Megève? Você me deu um espelhinho para que eu pudesse me observar fazendo amor. Quando ia viajar, você

À medida que envelhe-

ço estou me tornando terrivelmente normal.

— Você acabou de fazer vinte e um anos, apenas — lembrei a ela.

— É. Não é muita idade. Mesmo assim, meu velho lado burguês

está começando a predominar. Suspirou. Não quis lembrar-lhe que a moça "burguesa" não parecera muito comportada algumas semanas antes, em Roma, dançando desenfreadamente com seu guitarrista. Ao amanhecer, isto é, por volta das nove horas, o telefone me despertou. Era Raoul Lévy.

— Ainda está dormindo? — perguntou.

— Estou.

— Será que consegue fazer suas malas enquanto dorme?

— Nunca tentei.

costumava levar fotos de mim sem

— Bem, agora é sua chance. Estarei à sua espera às dez e quarenta e dois na Gare de l'Est, plataforma 12. O expresso de Munique. Seguiu-se um longo silêncio.

— Repita — ordenou Raoul.

— Munique — eu respondi.

— Perfeito. E o mais importante: não se atrase. Desligou.

— O que está fazendo? — perguntou Brigitte, abrindo os olhos com dificuldade.

— Arrumando uma mala.

— Mala? Para quê? Foi tão boa a noite passada!

— Não estou de saída. Vou a Munique.

— Se não está de saída, como vai chegar a Munique?

— Raoul está à minha espera na estação.

— Por que vão para lá?

— Não perguntei. Estava com muito sono.

— Está de saída para Munique e não tem a menor idéia do porquê? Esses meninos são malucos.

Virou-se de lado e voltou a dormir. Encontrei Raoul na estação.

— Que tal fazer um filme em cores e em cinémascope? Não pude

acreditar no que acabava de ouvir. Naquele tempo, na França, já era um milagre para um jovem de vinte e seis anos ter a chance de fazer um longa-metragem. Rodar seu primeiro filme em cores e em tela panorâmica parecia impossível. Contudo, essa era minha ambição secreta. Tinha idéias sobre como utilizar a cor e a tela grande.

— Venha — falou Raoul. — No trem eu lhe explicarei. Esperou o

trem começar a andar para me dizer alguma coisa. — A Columbia me dará dinheiro para produzir um filme em cores e em cinémascope, sob uma condição — hesitou. — Eles querem Curd Jurgens. É a ele que vamos encontrar em Munique.

— Para qual papel? — perguntei. — O da mãe?

Os únicos papéis importantes que havia na história eram os dos três irmãos — de quinze, vinte e vinte e cinco anos —, que já estavam preenchidos. Poujouly, que atuara como o garoto de Brinquedo proibido 1 , era agora um adolescente e iria fazer o papel do irmão

mais jovem. Jean-Louis Trintignant iria fazer o irmão do meio e Christian Marquand, o mais velho.

Curd Jurgens era então um astro internacional, mas já passara dos quarenta. Não conseguia imaginar como, com seu forte acento germânico, poderia interpretar um jovem pescador de Saint-Tropez.

— A menos que transformemos o filme num pastelão e convidemos

o Gordo e o Magro para fazerem os outros dois irmãos — sugeri.

— Tem razão — Raoul concordou. — Jurgens não pode ser nenhum dos irmãos.

Estava desapontado, porém não desistira de seu sonho. Pouco antes de chegarmos a Saarbrücken, nossa primeira parada, estava tentando retirar minha mala do bagageiro, quando Raoul segurou meu braço e disse:

— Tenho uma grande idéia. Você irá desenvolver a personagem do

rico comerciante de armas, tendo em mente Jurgens para o papel.

— Impossível. Ele não vai aceitar um papel secundário.

— "Impossível" não é francês.

— Você é belga e eu sou metade russo — observei. Ele riu. Permanecemos no trem. Quando chegamos a Munique, Raoul me trancou numa suíte do Hotel Quatro Estações com caviar, salmão defumado e vodca à vontade. Mas o maior luxo era Maria, uma camareira espetacular, que era também datilografa. Terminei a nova versão de meu roteiro em dois dias. Curd Jurgens recebeu-nos com elegância e gentileza em sua soberba villa bávara, num lago não muito distante de Munique.

Tinha acabado de assinar um contrato para quatro filmes com um estúdio de Hollywood, mas não pretendia ir à Califórnia antes do verão.

— Vou ler seu roteiro esta noite — prometeu. — Se concordar em fazer o filme, poderei dar-lhes quatro semanas em maio.

1 Les jeux interdits. (N. do T.)

No dia seguinte, ele nos telefonou:

— Vou fazê-lo.

— Veja só — exclamou Raoul —, milagres acontecem mesmo. Basta

acreditar neles e fazê-los acontecer! São poucos os que possuem esse dom. Quando já estávamos rodando o filme em Nice, perguntei a Curd o que o fizera aceitar um papel secundário, com um diretor que estava apenas iniciando carreira, enquanto os grandes mestres do cinema o esperavam em Hollywood.

— Vários motivos — ele respondeu. — Primeiro, o script. Seu tom é

arejado, muito diferente dos roteiros que normalmente me oferecem. Brigitte Bardot, é óbvio, deixa-me intrigado. Não consigo

imaginar como seja exatamente. É um fenômeno que gostaria de observar de perto. E a dupla Lévy-Vadim. Senti que o filme iria sacudir a poeira. Achei divertido ser uma parte do empreendimento.

10

Uma suave luz matinal filtrava-se através da cortina. Olhei para Brigitte, que dormia. Com os longos cabelos dourados esparramados pelos travesseiros e o jeito infantil dos lábios inchados pelo sono, seu rosto assumia um caráter inocente e poético. "Quando uma mulher olha para seu companheiro, enquanto ele dorme, e lhe vêm lágrimas aos olhos, é porque está realmente apaixonada", disse-me Brigitte certa vez. "Será que ainda a amo?", perguntava a mim mesmo. A resposta era "sim". Mas era um amor diferente. Eu a amava como a uma filha, como a uma criança que precisa ser protegida. É estranho viver com

uma pessoa e compartilhar com ela uma rotina diária, sabendo que o fim do percurso está na próxima curva. Já lhe aconteceu acordar de manhã no meio de um sonho fascinante e tentar recapturá-lo fe- chando os olhos? Era mais ou menos essa a minha sensação naquele momento.

Saí da cama e fui até a cozinha para preparar o café da manhã: suco de laranja fresco, chá e torradas com manteiga. Quando voltei para

o quarto, Brigitte estava abrindo os olhos. Acordara com as

lambidas de Clown, que tinha bem menos respeito por seu sono do que eu. Sentei-me na beira da cama e coloquei a bandeja do café sobre a colcha de retalhos.

— Oh, que beleza! — ela exclamou.

Tomou o suco de laranja e comeu a torrada com seu habitual apetite. Nunca a vi preocupada com regimes. Quando estava com

fome, comia o que bem entendia. Não dava a mínima importância

às cruéis calorias, proteínas e carboidratos que escravizam a mulher

moderna. Tinha uma vida ativa mas, com exceção do chá-chá-chá e

do merengue, não dançava mais. Não substituíra os abandonados

exerci-

cios do Studio Walker por ginástica ou esportes. Ainda assim, seu corpo continuava firme e elástico. Empurrou a bandeja do café para o lado e pulou da cama. No verão ela dormia nua, mas estávamos no início de março, e ela usava uma

daquelas camisolas vetustas encontradas no mercado de antiguidades e roupas usadas. Brigitte descobriu o charme das rendas e dos tecidos do século XIX muito antes dos hippies. Brincou com o cachorro por alguns instantes. Fui até a sala para atender o telefone, quando me chamou:

— Vava!

Corri de volta para o quarto e encontrei Brigitte olhando-se no

espelho da porta do guarda-roupa. Quando me viu, ela levantou a barra da camisola e perguntou:

— Ainda consegue envolver minha cintura com as mãos?

Apertando-a bastante, consegui envolver sua cintura e juntar a ponta dos dedos. — Ainda está tudo bem — disse ela. Saiu em direção ao banheiro, seguida por Clown.

Tínhamos combinado um almoço com Raoul Lévy e Jean-Louis Trintignant no Fouquet. Brigitte ainda não conhecia o homem escolhido para fazer o papel de seu marido no filme. Jean-Louis nunca havia trabalhado no cinema. Eu o descobrira no teatro. Seu charme um tanto tímido, um certo magnetismo físico camuflado por um maneirismo desajeitado e, é claro, seu talento convenceram-me de que estaria perfeito no papel de Michel. Brigitte o observou com olhar crítico por toda a refeição. Isso o deixou tão constrangido que ele foi embora antes do café. Mal havia se distanciado, e Brigitte exclamou:

— Ele é um pateta!

— Não é nenhum Brando, mas tem um sorriso muito cativante —

disse Raoul.

— Ninguém vai para a cama com um sorriso — ela respondeu.

— Ninguém está pedindo que vá para a cama com ele — repliquei.

— Não. Mas "fingir que" é ainda pior! Jamais conseguiria convencer a quem quer que fosse de que estou apaixonada por esse sujeito. Você poderia encontrar outra pessoa.

Brigitte era cabeça-dura, e nunca se podia mudar suas opiniões

discutindo-as. Por sorte, Juliette não está apaixonada por Michel no início do filme; é apenas gradualmente que ela o vai conhecendo e se apegando a ele.

— Não se preocupe — disse eu a Raoul, que estava desalentado

com o resultado do primeiro encontro entre Brigitte e Jean-Louis. —

Ele tem muito charme. Acho também que é muito perspicaz. Brigitte vai mudar de opinião sobre ele em pouco tempo. Mal podia imaginar o quão proféticas se mostrariam minhas palavras.

A primeira vez que a câmara entrou em ação para filmar E Deus criou a mulher foi numa pequena praia da baía de Cannoubiers, não muito longe de Saint-Tropez. O tempo estava bom. Eu sabia exatamente o que queria, não experimentei nenhuma das ansiedades que se poderiam esperar de um diretor que está fazendo seu primeiro filme. Naquele tempo, o uso da cor e do cinemascope apresentava problemas técnicos que, longe de me assustarem, estimulavam minha imaginação. Estava cercado por assistentes de primeira classe e por atores escolhidos em total concordância com meu produtor. Tal como Bonaparte no início de sua campanha na Itália, tinha certeza da vitória. As dúvidas dos técnicos veteranos em trabalharem com um novato e dentro de novos padrões cinematográficos foram logo afastadas. Contrariando minhas expectativas, foi Brigitte quem me criou problemas no princípio. Acostumada a atuar em filmes divertidos, eróticos e superficiais, não se deu conta de que era necessário um tipo de autenticidade que ela jamais tivera oportunidade de expressar no cinema. Para se transformar em Juliette, teria de revolver as profundezas de seu ser. Despir-se diante de uma câmara nunca a deixava embaraçada. Mas a idéia de despir sua alma e revelar sua natureza mais íntima a apavorava. Eu costumava embaraçar seus cabelos antes de cada cena. Proibi que acrescentasse maquilagem entre as tomadas. Ela se sentia nua e vulnerável. Estava em pânico. De minha parte, sabia que esse striptease psicológico, independentemente do quão desagradável pudesse ser, era indispensável para o sucesso do filme, e para o sucesso de Brigitte. Ela se acostumara a ser uma estrelinha. Eu estava criando uma estrela. Uma semana depois, pudemos ver os primeiros copiões nos estúdios Victorine, em Nice. Brigitte estava chorando, ao deixar a sala de projeções. Achava que estava feia, detestava seu cabelo e sua maquilagem. Entramos em meu carro e fomos até a praia no final da Promenade des Anglais. Era fim de abril, e tudo estava deserto. Fiz com que se sentasse nos seixos junto de mim. Tinha parado de

chorar, mas ainda reclamava do cosmético, que fazia seus olhos arderem.

— Vou estar com uma aparência fantástica esta noite, com estes olhos de gambá.

— Como são os olhos de um gambá?

— São vermelhos!

Sempre imaginara que os gambás tivessem olhos azuis, mas não fiz nenhum comentário.

— E para mim isto aqui não é uma praia. É mais um barranco com

pregos para algum faquir ou para velhinhas inglesas que nunca

tiram os sapatos — esbravejou ela. Finalmente se acalmou, e até riu de seu acesso de raiva.

— Lembra-se de como se sentia em relação a seus pais? —

perguntei-lhe então. — Você não acreditava quando eu dizia que algum dia seria feliz e eles seriam seus amigos. Mas você confiou em mim.

— E você estava certo.

— Bem, então confie em mim agora, com relação ao filme. Já magoei você alguma vez?

— Já, mas sem querer.

Encarei-a, um pouco chocado, e continuei:

— Mesmo que não entenda por que estou lhe pedindo para fazer

uma determinada coisa, não resista. Se o fizer, ambos estaremos perdendo. E será pior para mim do que para você. Você já está contratada para fazer um outro filme depois desse. Sua carreira não corre nenhum risco. Se eu falhar, tudo isso irá representar apenas um filme de terceira categoria, que logo será esquecido. Se eu

acertar, algo de muito importante irá nos acontecer. Promete confiar em mim, mesmo que não concorde com tudo aquilo que lhe peço?

— Sim, prometo — disse Brigitte.

Apesar de mudar de idéia freqüentemente, Brigitte sempre mantinha suas verdadeiras promessas.

Após três semanas de locações em Saint-Tropez, a equipe dirigiu-se

a Nice para prosseguir as filmagens nos estúdios.

Brigitte passou a se sentir à vontade com meu estilo de direção e começou a se identificar cada vez mais com sua personagem, a ponto de começar a sentir na vida real a transformação emocional de Juliette em relação ao marido, interpretado por Jean-Louis

Trintignant. Para as filmagens, tentei, tanto quanto possível, seguir

a seqüência cronológica do script- A realidade se misturava com a

ficção a cada dia. Brigitte ainda não estava apaixonada por Jean-Louis, ao menos conscientemente, mas passou a haver uma espécie de cumplicidade entre eles. Estava meditando sobre a grande cena de amor entre Brigitte e Jean- Louis. Ela estaria nua na cama. Ele, também nu, se juntaria a ela e os dois fariam amor. Brigitte, que se despira em seu camarim e vestia um roupão, se juntou a nós no set. Estava completamente relaxada, e ria com o pessoal da equipe. Jean-Louis parecia tenso e embaraçado. Procurei analisar meus sentimentos objetivamente e descobri que não estava com ciúme. Não estabeleci nenhuma relação entre o que estava acontecendo no set e a realidade. Era como folhear um livro de gravuras. Brigitte tirou o roupão e estirou-se na cama. Jean-Louis, tal como pedia a cena, deitou-se a seu lado e tomou-a nos braços. Quando eu ordenei: "Corta!", os dois permaneceram imóveis. Uma camareira cobriu-os com um roupão de banho. Mais tarde, no mesmo dia, estava rodando uma outra cena. A câmara enquadrava Brigitte em close-up, enquanto ela, de pé, beijava Jean-Louis. Ele se ajoelhava diante dela, e seu rosto deixava a tela. A câmara permanecia em Brigitte, que tinha de fingir estar sendo acariciada pelo marido. O jeito como movia os lábios, prendia a respiração e semicerrava os olhos era tão realista que, depois da filmagem, perguntei-lhe:

— Você estava pensando em Jean-Louis ou em mim?

— Nem em você nem nele — respondeu. — Estava pensando no

prazer. Um dia, depois do almoço, estava vadiando com Brigitte por um dos corredores dos estúdios Victorine, quando avistamos um homem caminhando em nossa direção a passos lentos, com o auxílio de uma bengala. A princípio, pensei que fosse Orson Welles, mas lembrei-me de que ele não era tão velho. Quando cheguei mais perto, reconheci Sir Winston Churchill. Estava acompanhado de um homem que eu conhecia bem, o general Corniglion-Molinier, e ao qual cumprimentei. Corniglion-Molinier, que também já conhecia Brigitte, apresentou-nos a Churchill. Brigitte era sempre ela mesma,

fosse na presença de sua camareira ou na de uma das maiores personalidades do mundo. Após a costumeira troca de formalidades, houve um silêncio. Churchill tinha os olhos brilhantes ao encarar a jovem atriz, e não dizia uma palavra. Parecia estar imaginando que banalidade viria daquela boca sensual, feita para o amor e para as telas. Como que por um acordo tácito, Corniglion- Molinier e eu tivemos o cuidado de não perturbar o silêncio.

— Quando eu tinha oito anos e o escutava pelo rádio, o senhor me assustava — falou enfim Brigitte. — Mas agora me parece tão gracioso, considerando que é uma lenda! "Gracioso" não seria uma palavra que as pessoas normalmente usariam para descrever Churchill cara a cara. O grande orador permaneceu calado.

— O que está fazendo em Nice? — perguntou Brigitte, a fim de

quebrar o silêncio.

— Estou pintando — respondeu Churchill. — Você é uma atriz, e eu sou um pintor. Temos a arte em comum.

— Meu pai comprou uma de suas paisagens — disse Brigitte.

— Eu não vendo meus quadros.

— Bem, então seus amigos os vendem. O quadro que meu pai

comprou tem uma montanha, um pinheiro na frente e o mar ao fundo. Lembra-se dele?

— E à direita uma giesta florida?

— Sim. O senhor gosta de pintar?

— Adoto. Mas jamais entrarei para a história ao lado de Cézanne.

— Sabe, meus filmes não chegam nem perto de seus quadros. E nunca ganhei uma guerra.

— Isso não fez tanta falta — concluiu Churchill. Com um sorriso que parecia um trejeito amigável, ele

se foi em direção à sala de projeção.

Dois dias depois, o general Corniglion-Molinier me telefonou. Churchill se divertira muito com Brigitte. Gostaria de encontrá-la novamente e pediu ao general que a convidasse para jantar com

alguns amigos em comum. No último momento, Brigitte se recusou

a ir. Suspeitei que tivesse planejado se encontrar com Jean-Louis

naquela noite. Não tenho certeza de quando Brigitte e Jean-Louis fizeram amor pela primeira vez. Mas percebi que já tinham se tornado amantes quando estávamos rodando uma das cenas principais. Na história, Juliette está fisicamente atraída por um dos três irmãos, o mais velho, chamado Antoine. O papel era interpretado por Christian Marquand. No entanto, ela se casa com Michel, o irmão do meio, para evitar uma volta ao orfanato. No momento em que descobre as profundas qualidades de seu marido, passa a amá-lo. Antoine retorna para viver com eles. Juliette se dilacera entre o de- sejo de felicidade e harmonia com o marido e a atração visceral por Antoine. Não quer ser levada pela paixão física por Antoine, mas sabe que acabará cedendo. Certa noite, Michel desperta e percebe que sua mulher não está no quarto. Encontra-a na praia, perto da casa. Eis um trecho da cena:

MICHEL: Você não está feliz?

(Juliette sorri tristemente. Michel acaricia seu rosto. De repente ela agarra

a camisa dele, com o rosto cheio de angústia.)

JULIETTE: Você deve me amar um bocado. MICHEL: Sou louco por você. (Close-up de juliette.) JULIETTE: Então diga. Diga que me ama, que sou sua, que você precisa de mim. Beije-me, Michel. Beije-me! (Michel está impressionado com a intensidade trágica da voz dela.) JULIETTE: Estou com medo. MICHEL: De quê, meu bem? (Juliette não responde. Vai deslizando para a areia com extraordinária

suavidade. Seu corpo é fluido como água. Seu rosto e o canto da boca tocam

a areia.)

JULIETTE (doce e quase tranqüila): É difícil ser feliz.

Nunca Brigitte, a atriz, tinha sido tão profundamente honesta e desesperada. Ela era realmente Juliette, que queria amar o marido e salvar seu casamento, sabendo que jamais conseguiria fazer isso. Era também Brigitte, ainda apegada ao marido e apavorada pela idéia de abandoná-lo por um homem que acabara de conhecer, e ao qual não podia resistir. Era como um mundo de espelhos, com uma sutileza piran-delliana. Jean-Louis Trintignant, seu marido no filme, passou a representar seu marido na vida real. Quando disse para a câmara que estava com medo, Brigitte-Juliette estava, na verdade, falando comigo. Já em nosso quarto, no Hotel Negresco, após a filmagem, perguntei a ela:

— Ele é seu amante, não é?

— Sim.

— Você o ama?

— Estou com medo.

Antes de ir dormir, ela murmurou:

— É difícil ser feliz.

Até hoje não sei ao certo se ela repetiu deliberadamente a fala do filme ou se estava dizendo o que sentia. Nossa suíte no Hotel Negresco dava para o mar. Jean-Louis Trintignant, sempre misterioso e ligeiramente maquiavélico, insistiu em ficar numa hospedaria em La Colle sur Loup, uma cidadezinha provençal muito romântica nas colinas, a cerca de quinze quilômetros de Nice. Foi ali que fizeram amor pela primeira vez, contou-me Brigitte mais tarde. — Não há nada menos afrodisíaco que fazer amor diante de uma câmara — explicou-me ela. — É como tentar fazer amor ao lado de um policial que estivesse orientando o trânsito na Place de la Concorde. Ele grita: "Vire um pouco para a direita; um pouco para a esquerda; não mostre demais a língua. Um pouco mais de sentimento, por favor. Feche os olhos. Abra os olhos. Não babe. Pelo amor de Deus, não gema tão alto!" É horrível, se você gosta real- mente de seu coadjuvante. Então, Jean-Louis disse: "Deveríamos ensaiar sozinhos. Para o nosso próprio prazer". Falou em ensaio, mas parecia mais uma estréia! Ele realmente não tinha contado nada sobre seus talentos. É de se imaginar que eu fosse pegar Jean-Louis pelo colarinho e dizer-lhe para esfriar sua paixão. Essa foi uma das soluções que considerei, embora tivesse pouco sentido. Ele me apanhou de calça curta, contudo, ao ameaçá-la: "Se não abandonar seu marido para viver comigo, não a verei nunca mais, tão logo termine o filme". Encontrava-me em nosso quarto no Negresco com Brigitte em prantos (novamente!), implorando que eu salvasse sua vida; isto é, que eu a deixasse ir ao encontro de seu amante em La Colle sur Loup. Era uma situação delicada. Por um lado, sabia perfeitamente que nosso casamento não tinha futuro. Então, por que não a deixar ir com Trintignant, de quem eu até mesmo gostava, em vez de com um guitarrista? Mas, por outro lado, eu era o capitão do time, cujo respeito fizera por merecer. O que iriam pensar todos de um diretor que passa sua mulher para as

mãos do protagonista? Tinha de dirigir cenas de amor entre Jean-

Louis e Brigitte. Já podia até ouvir os comentários: "Para ele, deixar que a mulher seja infiel não é o bastante. Tem de cedê-la com todo o alarde". Compreendia que um jovem, tornado selvagem por um amor com o qual não conseguia lidar como adulto, pudesse perder a cabeça. Entretanto, ele me colocara numa posição delicada. Se pedisse a Brigitte para não ceder às ameaças de Trintignant, as três semanas de filmagem que restavam seriam, indubitavelmente, um inferno. Estava fora de questão, para mim, colocar-me na posição de implorar ao amante de minha mulher que me concedesse um favor. — Só lhe peço que continue vivendo comigo até o término das filmagens — disse a Brigitte.

— Eu entendo — ela respondeu.

Passou a noite em meus braços mas não conseguiu dormir. Às oito horas da manhã, trouxeram nosso café. Brigitte estava muito pálida. Não comeu.

Reconsiderei as coisas. Se Brigitte estava de acordo em sacrificar seu amor para proteger minha imagem no set, eu deveria ser capaz de sacrificar meu orgulho.

— Pode fazer suas malas — disse a ela. — Eu iria me odiar para

sempre por ter usado meus direitos conjugais para proteger minha vaidade.

— Você está muito pomposo — disse ela, procurando sorrir.

Coloquei-a em meu colo e a abracei. À noite, após as filmagens do dia, ela foi embora no carro de Trintignant. Imaginei que, como um homem que lançava mão de tais recursos para manipular uma mulher, Trintignant teria poucas chances de mantê-la por muito tempo. Mas essa idéia não me reconfortou de forma alguma. Não falei de minha decisão a ninguém, nem mesmo a meu amigo, Christian Marquand. Estava prestes a experimentar uma das

maiores surpresas de minha vida. No set, desde o maquilador até o

eletricista-chefe, do diretor de fotografia ao membro mais humilde da equipe, cada ator, funcionário e mesmo os que apenas por ali transitavam e que, é claro, sabiam de tudo, todos se comportaram com a mais absoluta discrição. Eles não apenas se isentaram de caçoar às minhas costas como atribuíram a mim uma lisonjeira reputação, semelhante à de um cavalheiro de alma nobre. Com os jornais foi diferente. Virei um Maquiavel. Brigitte estava nua. Trintignant entrou no quarto conjugal. Ela se sentou na cama e afastou os lençóis. Abriu os braços como se fosse um pássaro e abraçou o marido, envolvendo-o com um gesto de possessividade. Cena número 152. — Corta. Muito bom. Eu não tinha ciúme. Não estava sequer sofrendo. Pelo contrário, as últimas semanas de filmagens foram uma espécie de exorcismo para mim. A dor maior após uma separação vem da obsessão pelo desconhecido: como são os dois juntos? Como se comportam quando estão fazendo amor? Será que o rosto dela fica diferente quando tem um orgasmo agora? Como diretor, eu espiava, literalmente, um caso de amor que perdera todo o mistério para mim, na medida em que estava todo exposto. Não esperava nem desejava ter Brigitte de volta, mas estava feliz. E, devo admitir, até me divertia um pouco com essa inesperada terapia que me poupou da amargura que normalmente sobrevêm ao término de um romance. Voltamos a Saint-Tropez para o último dia de filmagem. Brigitte estava vivendo com Jean-Louis, mas, de certa forma, o cordão umbilical que havia entre nós ainda não fora cortado. No set, eu ainda era seu irmão mais velho e seu amigo. Confiava em mim e pedia conselhos. Foi Jean-Louis quem ficou ciumento.

Num certo sentido, eu trocara

conspirador, e ele, aquele contra o qual se conspira. Mas, uma vez

o

de

papel

com

ele.

Eu

era

que o filme estivesse pronto, ele levaria os espólios de guerra. Como iria eu reagir ao ficar sozinho depois de sete anos com Brigitte? Aluguei o barco Chris-Craft e decidi ir por mar até a praia onde iríamos filmar. Minha mãe, que viera de Paris, estava comigo. No

meio da baía, ficamos sem gasolina. Para mim, era apenas um incidente irritante, mas para o produtor aquilo era um desastre, pois

ele não poderia arcar com mais um dia de filmagem.

Por uma feliz coincidência, um barco de pesca que retornava à orla identificou meus sinais de socorro. Porém, era muito frágil para rebocar o Chris-Craft até o ancoradouro. Assim, pedi a minha mãe que permanecesse ali para que a lancha não fosse declarada abandonada 1 .

Mandarei um barco de resgate em uma hora — prometi a ela.

O

pescador me

deixou próximo ao

set. Pedi a meu primeiro-

assistente, Paul Feyder, filho do conhecido diretor Jacques Feyder,

que chamasse as autoridades portuárias.

Às seis e meia, depois de a última seqüência ser filmada, gritei:

— Corta!

O cordão umbilical que me unia a Brigitte fora finalmente rompido.

Ela olhou para mim e disse:

— Gostaria de falar com você.

— Muito bem.

— Daqui a uma hora. No La Ponche. Está bem?

— Sim.

Quando

autoridades portuárias. Estava surpreso por não ter visto minha

mãe o dia inteiro.

— Os senhores trouxeram meu barco até o porto? — perguntei.

— Que barco?

cheguei

a

Saint-Tropez,

fui

direto

à

delegacia

das

1 A legislação marítima francesa estabelece que qualquer embarcação abandonada a mais de cinco quilômetros da costa torna-se propriedade da pessoa que a encontrar e a trouxer a terra firme. (N. do E.)

Meu assistente se esquecera de dar-lhes o recado.

Liguei para um amigo, Paul Albou, para que me emprestasse sua lancha, que possuía um motor possante. Ao anoitecer, resgatei minha mãe, a dez quilômetros da costa. Não sabia como me desculpar.

— Não estava nem um pouco preocupada — disse-me ela. — Não

sou rica o bastante para você se beneficiar de meu testamento. Fiz alguns exercícios de ioga enquanto esperava.

Fomos voltando devagarinho, à velocidade de uns cinco nós, pois o Chris-Craft devia ser rebocado.

— Tinha um encontro com Brigitte no La Ponche — disse para

minha mãe. — Agora ela já deve ter deixado Saint-Tropez. Fico

imaginando o que estaria querendo me dizer.

— Ela não estava querendo lhe dizer nada.

Devo tê-la encarado com um ar confuso, pois minha mãe acrescentou:

— Brigitte, como todas as crianças, não sabe o que é ter remorsos.

Ela apenas queria se certificar de que você ainda a ama.

11

Foi uma surpresa. Em vez da terrível depressão por que esperava, sentia-me feliz, livre e despreocupado novamente. O lazer do passado havia voltado, temperado, porém, com o sucesso. Era delicioso. Saint-Tropez estava no auge. As praias eram nossas. Os restaurantes estavam à nossa espera; o Esquinade, a única boate daqueles tempos, existia apenas para os momentos mais frenéticos. O caminho amarelo do Mágico de Oz estava aberto. A cortina se abria para o conto de fadas com o sol da manhã, e parecia que jamais iria

se fechar. A jovem, célebre, indómita, mas muito sábia Françoise Sagan disse-me certa vez:

— Você deve comemorar o fim de um relacionamento como a morte é celebrada em Nova Orleans, com música, risos e muito vinho. O amor, como o fogo, não deve ser armazenado. Deve ser esbanjado. Às vezes, nas horas incertas do crepúsculo, sentia apenas um toque de melancolia. Mas, à minha espera, estava sempre a noite, repleta de rostos e promessas efêmeras. Foi no Esquinade que conheci um tímido e sentimental rapaz alemão que estava deslumbrado com nossa turma e pronto a fazer o que fosse para ser aceito como um de nós. Fui o único a conversar com ele. Seu nome era Gunter Sachs von Opel. Acho que cairia duro se alguém lhe contasse que dez anos mais tarde ele viria a ser o terceiro marido de Brigitte Bardot. Onde estava Brigitte? O que estaria fazendo? Toda a semana eu ia a Nice para trabalhar na edição do filme com a sra. Victoria Spiri-Mercanton, conhecida como Toto. Essa notável mulher, de procedência russa, distinguira-se por ter feito do celulóide não inflamável uma

norma na França. Após dois incêndios, nos quais ela perdeu seu diretor, que foi queimado vivo, assim como parte de seu cabelo e seu casaco favorito, o governo expediu uma lei garantindo a segurança das salas de edição: "Você compreende", disse-me Toto com seu forte sotaque eslavo, "eu queria poder fumar meus Gauloises durante o trabalho". Temida por todos os diretores, mas muito requisitada, pois não se pode prescindir dos gênios, reinava sobre a movida como uma rainha. Quando as pessoas souberam que um novato, que apenas acabara de dirigir seu primeiro filme, iria cair sob seu comando de ferro, ficaram temerosas, mesmo as que me invejavam. Mas foi amor à primeira vista, para mim e para Toto, embora ela fosse vinte anos mais velha do que eu. Os bate-bocas eram freqüentes. Mas nos amávamos e compreendíamos um ao outro.

Foi por meio de Toto que recebi notícias de Brigitte.

— Brigitte veio aos estúdios com aquele ator dela para ver alguma coisa na edição — contou-me Toto.

— Você lhe mostrou? — perguntei.

— Eu disse: "Mostre-me a autorização assinada pelo diretor".

— Como ela estava?

— Perguntei-lhe como andava a vida com seu novo brinquedo. Ela respondeu que estava loucamente feliz, e caiu em prantos.

— Ela está sempre chorando. Isso não quer dizer nada.

— Quer dizer que ela ama você. E é uma prova de que é uma

completa idiota. Queria saber onde você estava morando em Saint- Tropez. Mandei-a para o inferno e disse a ela que o deixasse em paz, e que você encontraria mulheres melhores. Ela me beijou e correu para o ator, que estava apertando a buzina do carro havia mais de dez minutos.

Depois de ficarmos sentados na frente da moviola por duas horas, gritando um com o outro, muito zangados, finalmente entramos num acordo com relação às mudanças na cena da praia. Fomos até o bar do estúdio para alguns drinques. Subitamente, Toto estendeu- me uma folha de papel e falou:

— Você já é grande o bastante para ser responsável por suas tolices. O bilhete dizia: "Vava, nada está como antes. Mas como era antes? Estou feliz agora. Não choro mais. As manchas que está vendo neste bilhete não são de lágrimas. São por culpa de Charles Trenet. Lembra-se daquela música,

Está chovendo em meu coração? Estou cansada da chuva borrando minhas cartas. Tive problemas no hotel em que estivemos na Itália, porque eles ainda me chamam de Mme Plemiannikov. Quando estivermos velhos, com cabelos grisalhos, ouviremos a canção de Piaf, Padam, padam. Clown está lhe mandando beijos. Sophie". Pedi mais um uísque.

— Você não vai se embebedar ou, pior ainda, ficar sentimental, vai?

— perguntou Toto.

— Fico lúcido quando estou bêbado e cínico ao me tornar sentimental — repliquei.

— Amanhã, vão levar o equipamento. Vou terminar a edição no

Billancourt. E vou precisar de você.

— Estarei em Paris em uma semana.

— Enquanto isso, não vá bancar o bobo com seu Lancia. Tenho um

belo filme na lata, que não merece ficar órfão. Foi o primeiro elogio que recebi pelo filme. Vindo de Toto, valia o mesmo que um Oscar. Após essas férias, voltei a Paris. A Rue Chardon-Lagache pertencia ao passado e, assim, aluguei um quarto no terceiro pavimento do Hotel Bellman.

12

A chuva caía com tamanha intensidade que fui forçado a dirigir com farol baixo. Às três horas da manhã, no início do outono, a Rodovia 7 estava deserta, exceto por um ou outro caminhão que passava cegando-me com a luz alta. Não tirara o pé do acelerador desde que saíra de Paris. Já havia gasto os três mil dólares recebidos pela direção de E Deus criou a mulher. Tivera até de vender meu monstrinho, o Lancia Sport 2000, na semana anterior, e estava dirigindo meu velho Simca Aronde, que atingia o máximo de cento e trinta quilômetros por hora. De qualquer modo, a velocidade era excessiva para uma noite em que a estrada estava tão escorregadia quanto um rinque de patinação.

Graças ao fato de ter guiado por milhares de quilômetros, percorrendo toda a Europa como jornalista da Paris-Match, tinha a

perícia e os reflexos de um piloto de corridas e já escapara de situações perigosas centenas de vezes. Nessa noite, porém, estava maluco. Só mesmo meu instinto de sobrevivência e os reflexos condicionados mantinham-me na pista. De tanto provocar o demônio, desencorajei meu anjo da guarda, que me abandonou em meio a uma curva. Derrapei com as quatro rodas. Um, dois, três giros. Não pisei nos freios; o carro escorregou em direção à vala lateral. Tentando controlar a derrapagem, pisei no acelerador, endi- reitei o carro no último segundo, passei por cima da vala e disparei por entre duas árvores a mais de oitenta quilômetros por hora. Fui parar em um campo de alfafa e bati a cabeça no teto do carro. De repente, tudo estava quieto. O motor enguiçara, embora as luzes ainda estivessem acesas. Eu estava coberto de lama, mas não apresentava grandes

danos. Respirei profundamente, estiquei as pernas, apoiei a cabeça no encosto do banco e decidi dormir. E, então, pude "ver" a mim mesmo. Não era a primeira vez que acontecia de me fragmentar em dois seres diferentes. Podia "ver" a mim dentro do carro, com minha cabeça jogada para trás, meus olhos fechados. O limpador de pára- brisa ainda estava funcionando. A chuva deixava turva minha imagem entre cada movimento para a frente e para trás. Essa alucinação — estou usando a palavra "alucinação" para não irritar os leitores que tenham preocupações científicas — durou menos de um minuto. Abri os olhos e desliguei os faróis e o limpador de pára- brisa, para não descarregar a bateria. Estava então perfeitamente calmo, embora confuso com esse repentino ataque de loucura, uma espécie de possessão que me atingira brutalmente como um raio em céu aberto. Não o entendi na ocasião e não o entendo agora. Naquele dia, eu me encontrara com Raoul Lévy no Elysée- Matignon. Enquanto jantávamos, eu estava descontraído e bem- humorado. Falamos de meu próximo filme, Aconteceu em Veneza 1 ,

baseado num romance inédito de minha autoria, escrito alguns anos antes. Era uma história de amor com a estrutura de um policial. Raoul insistiu em mudar o local da ação, que no romance era Paris, para a Itália. Queria também que Françoise Arnoul, jovem estrela francesa bastante requisitada na época, fosse a protagonista. — Será melhor para sua carreira não trabalhar exclusivamente com Brigitte — disse-me ele. Não me convenci. Adivinhei suas verdadeiras razões. E Deus criou a mulher ainda não fora lançado, e Raoul, que era um produtor astuto, queria nos dar uma segunda chance no caso de o filme não ser bem recebido. Naquele momento, Brigitte e Trintignant entraram no restaurante. Foi um encontro inesperado, pois os dois raramente eram vistos juntos em público. Desde o término das filmagens, em Saint-Tropez, tinham conseguido manter sua ligação em segredo para a imprensa. Eu já os vira antes, mas num contexto puramente profissional, quando tinham ido ao estúdio para dublar o filme. Beijei Brigitte no rosto e cumprimentei Jean-Louis. Dirigiram-se uma mesa reservada para os dois. A convite de Raoul, juntaram-se a nós para um café. Jean-Louis não estava muito falante. Brigitte estava amável, quase meiga. Dava-me a sensação de querer conversar e estar a sós comigo. Sem dúvida, era minha imaginação. Saíram antes das dez horas. Deixei o restaurante logo depois, peguei meu Aronde, que estacionara num autêntico estilo parisiense, com duas rodas sobre a calçada, e rumei para Saint-Germain-des-Prés, na expectativa de encontrar alguns amigos no La Discothè-que ou no Castel. Não sei qual o demônio que me inspirou, mas fiz um retorno em "U", fui dirigindo ao longo das margens do Sena até o Boulevard Exelmans e parei na esquina da Rue Chardon-Lagache. Queria ver as janelas

do apartamento em que vivera com Brigitte por mais de quatro anos. No mesmo instante, a porta da frente se abriu. Brigitte saiu do edifício, levando Clown por uma das mãos, enquanto a outra se apoiava no ombro de Trintignant. Os dois passeavam pela calçada conversando. Não pude decifrar o que falavam. Olhando para a janela do terceiro andar, pude ver que a luz do quarto fora deixada acesa. Pela primeira vez me dei conta, com uma consciência visceral e física, de que ela estava fazendo amor e, pior ainda, dormindo com outro homem em nossa cama. Clown deveria ter me farejado, pois seguia para a frente com força, puxando a coleira. Gostava muito daquele cachorro, que era como um membro da família. Fiquei observando o casal e o pequeno cocker spaniel. Senti-me como se fosse vítima de um roubo, de uma traição, de um crime de amor ferido. Desabei. Foi brutal, irracional e totalmente inesperado. Não estava exatamente triste, mas dominado por uma personalidade que até então desconhecia. A partir daí, minhas ações pareciam comandadas; destituído de qualquer vontade própria, eu funcionava como um piloto automático. Tomei a direção do Bellman a uma velocidade razoável, parando nos faróis vermelhos. No hotel, subi até meu quarto e escrevi duas cartas: uma para Raoul, outra para Brigitte. Entretanto, Raoul jamais chegou a entregar a carta que escrevi a ela. Ele a devolveu a mim, fechada, com uma fotocópia da carta que havia escrito para ele, com o intuito de me fazer sentir-me envergonhado. Pobre Raoul. Quinze anos mais tarde, ele atiraria contra seu próprio estômago, com um rifle de caça, por um miserável caso de amor. Ao 1er essas cartas, não me sinto envergonhado, mas não consigo entender. Até minha letra estava diferente. "Raoul: gosto muito de você. Estou partindo esta noite. Acabarei morto sob uma árvore ou, então, chegarei a meu destino batendo o

recorde automobilístico do Tour de France." Seguia-se uma página

de extravagante sentimentalismo.

A carta para Brigitte não estava datada. Terminava da seguinte

maneira: "Pode me considerar um estrangeiro. Venho de outro país.

Você jamais conhecerá esse país. Só se chega a ele pelo coração". Fui até a Rue du Boccador, número 24, onde morava Raoul Lévy, e pus as duas cartas na caixa do correio. Quando saí do edifício, a chuva se derramava sobre Paris como se

fosse o primeiro dia do Grande Dilúvio. O carro estava estacionado

a poucos metros dali, mas, mesmo assim, fiquei completamente

ensopado. Dez minutos depois, passei pela Porte d'Italie, e tomei a Rodovia 7,

o caminho para o sol.

Num campo de alfafa, a vinte quilômetros de Avallon, estiquei-me no banco do carro e dormi. O sol já surgira há mais de uma hora quando acordei. Saí do carro e urinei sobre as ervas, que exalavam vapores com o calor da manhã. Um fazendeiro, a caminho do trabalho, concordou em puxar meu carro atolado até a estrada com seu trator. Andei alguns quilômetros e parei num vilarejo para um delicioso desjejum: café com leite e pão caseiro com manteiga. "Nunca mais", dizia a mim mesmo, como o corvo de Edgar Allan

Poe. "Nunca mais." Desde então, sofri de muitos males do coração. Fiquei desnorteado, solitário e, por vezes, profundamente infeliz, mas nunca mais permiti que esse desconhecido demônio se apossasse de meu corpo

e de minha alma. Tornei-me imune ao vírus para sempre.

Cada um costuma criar suas próprias referências. Para mim, a fronteira invisível que separa a França do Mediterrâneo passa por

Montélimar, a cidade famosa por seu nougat, um doce feito com mel

e amêndoas. Pouco antes da primeira confeitaria, um painel me

chamou a atenção. Sob o cabeçalho France Soir, nome do mais importante vespertino diário, lia-se: "Por favor, envie-me notícias suas. Sophie". Esses painéis eletrônicos eram novos na França. Ima-

ginei que se tratasse de um slogan para um filme ou um best seller. Vinte quilômetros depois, li a mesma frase: "Por favor, envie-me notícias suas. Sophie". Ao entrar em Avallon, vi a mesma mensagem perto do posto de gasolina onde parei para abastecer.

— Este anúncio é novo — comentei com o frentista.

— Não é um anúncio — replicou ele. — É uma nova idéia do France

Soir para passar recados aos motoristas em trânsito. Ontem estava escrito: "Armand. Volte. Urgente. Rosa piorou". Uma vez, foi o dono de uma oficina tentando avisar um cliente de que tinha se esquecido de prender a caixa de direção. Era tarde demais. 0 sujeito já tinha se espatifado numa árvore ao sair de Cavaillon. Subitamente entendi: Sophie era Brigitte. Ela estava me enviando uma mensagem. Liguei para Raoul imediatamente.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Sim, estou bem. Não se preocupe com seu filme. Sou um imbecil. Desculpe-me.

Eu havia imaginado que Raoul só encontraria minhas cartas pela manhã. Mas, em vez de ir para casa após o jantar, ele ficara até tarde no Fouquet, com um produtor americano. Por volta de meia-noite, contrariamente a seus hábitos, abriu a caixa de correspondência e encontrou as duas cartas. Preocupado, ligou para Brigitte, esperando que ela pudesse ter alguma notícia minha. Pierre Lazareff, o editor-chefe do France Soir, era amigo nosso. Brigitte o arrancou da cama, à uma da manhã, e pediu-lhe que desse ordens no jornal para enviar-me sua mensagem pelos duzentos painéis espalhados pela França.

— Não quero que chame Brigitte — disse a Raoul. — Apenas lhe

diga que o velho russo sobreviveu a sua depressão. E cante-lhe uma

antiga canção de Brassens por mim. Você a conhece: Sou uma erva daninha.

Raoul, que não cantava nem o Frère Jacques sem desafinar, continuou em silêncio do outro lado da linha. Recomecei:

— Ficarei com minha mãe em Toulon por algum tempo. Vou terminar o roteiro lá. — Preciso dele em três semanas. Pode terminá-lo até lá? — Vou tentar — respondi. Minha mãe é uma feminista que nunca marchou pelas ruas nem nunca insultou o sexo opressor com manifestos, artigos em jornais ou injúrias pela televisão. Fez melhor que isso. Muito antes de os vários movimentos pela liberação da mulher serem organizados e ganharem notoriedade, ela já praticava sua própria filosofia de igualdade. Depois da morte prematura de meu pai, em 1938, viu-se sem dinheiro e sem habilitações profissionais. Podia contar apenas consigo própria. E, mesmo sendo bonita, e não lhe faltando preten- dentes, nem por um instante chegou a pensar em se casar novamente apenas para assegurar aos filhos educação e conforto material. Fez todo tipo de trabalho: foi operária numa fábrica de produtos químicos, tecelã doméstica, lavadeira, diretora de um albergue para jovens. Quando se casou, durante a ocupação alemã, com o arquiteto Gerald Hanning, foi por amor. Na época, ele era apenas uma boca a mais para ser alimentada. Jamais sacrificou sua vida amorosa pelos filhos nem os filhos por sua vida amorosa. Ensinou-me a respeitar as mulheres sem temê-las e a ver o amor como a mais importante das qualidades humanas. Era uma mulher forte, mas nunca procurou impor suas idéias aos demais. Era também vulnerável e meiga. Foi dela que adquiri um gosto pela independência e pela liberdade que caminha ao lado do respeito pelos outros. E é em parte graças a minha mãe que sempre ajudei as mulheres a quem amei a desabrocharem e a se realizarem, sem temer que seu sucesso as afastasse de mim. "Você não pode aprisionar o amor", ela me dizia sempre. Alguns anos depois da guerra, ela e Gerald Hanning se separaram. Ele se tornara obcecado por seu trabalho. Seus projetos na Argélia e

em outros países africanos forçavam-no a viajar continuamente, e minha mãe, apesar de amá-lo, não podia se resignar a ser apenas parte da bagagem de um arquiteto. Todavia, não é comum uma mulher optar por viver sozinha aos cinqüenta anos sem ter recursos materiais consideráveis. Naquela época, minha irmã e eu não tínha- mos nenhuma condição de ajudá-la financeiramente. Ela encontrou novos trabalhos, tais como o de negociante de antiguidades e diretora de documentários. Nos fins de 1956, tinha acabado de se mudar para Toulon, onde iniciara um negócio com casas pré-fabricadas. Não a avisara da ida a Toulon, já que não previra mínha fuga de Paris. Não se surpreendeu por me ver chegar sem bagagem. Adivinhou o motivo de minha repentina viagem, mas não fez nenhuma pergunta. Sabia que eu acabaria falando no momento em que sentisse necessidade. Tudo o que ela disse foi:

— Andei preocupada com você por alguns dias. Resolvi usar o ovo cerzidor.

Para minha mãe, "usar o ovo cerzidor" significava projetar mentalmente uma linha de amor até mim ou minha irmã sempre que imaginava estarmos sofrendo ou correndo perigo. Era uma espécie de casulo espiritual. Senti-me em paz. Minhas energias voltaram, e terminei o roteiro de Aconteceu em Veneza em três semanas. Na noite anterior à minha partida, minha mãe leu as cartas para mim:

— Vejo muita felicidade para você, querido. E um grande sucesso.

Não imediato. Mas também não muito distante. Vejo uma loura. Uma estrangeira. Contudo, não era uma loura que estava à minha espera em Paris, mas os críticos de cinema. No dia 28 de novembro, houve uma exibição exclusiva de E Deus criou a mulher no Cinema Normandie, nos Champs-Elysées.

13

Estava sentado na primeira fila. Brigitte ficou à minha esquerda e Raoul, à minha direita. Exceto Jurgens, que filmava em Hollywood, Trintignant e os demais atores também estavam lá, naturalmente. Quando as luzes se acenderam de novo no amplo cinema, o público e os convidados aplaudiram. Foi mais do que um aplauso cortês, embora não verdadeiramente entusiástico. Muitos dos que gostaram do filme não sabiam o que dizer, e balançavam a cabeça negativamente quando os outros falavam em pornografia ou em atentado ao pudor. Mas fiquei satisfeito com os calorosos e sinceros cumprimentos de homens como Jacques Prévert, Jean Cocteau e Bóris Vian. Cocteau chamou Brigitte de "O mais feminino dos seres andróginos". Jacques Prévert achou o filme encantador. Ele pensava que, devido precisamente a suas qualidades — o tom novo e audacioso e o estilo bastante livre e incomum nas telas —, os críticos tentariam arrasá- lo.

— Os imbecis são previsíveis, mas não verdadeiramente perigosos

— disse-me ele. — Eles se contradizem desavergonhadamente a

cada mudança de moda. Brigitte, que já tinha visto o filme, considerou seu desempenho "bom", mas nem por um instante imaginou que fosse ter algum impacto sobre sua carreira.

A festa de Raoul Levy para comemorar a estréia foi um grande sucesso. Brigitte estava em seus melhores dias, charmosa e engraçada. Tivemos um bate-papo agradável. Antes de sair, ela me beijou e sussurrou:

— Seu bobo, você nos deu um susto medonho. Estava se referindo à minha tempestuosa partida para Toulon. Seguindo um hábito que mantenho até hoje, não li as

críticas que apareceram nos dias seguintes. Não tinha o menor desejo de me dilacerar em virtude de julgamentos precipitados e raramente objetivos. Depois de algum tempo, pode-se ler com calma as críticas, tanto as boas quanto as más e as maliciosas. Às vezes, pode-se tirar algum proveito delas. Raoul, no entanto, mergulhou nos jornais. — Li onze críticas — disse ele. — Nenhuma verdadeiramente positiva. Não boto muita fé em jornalistas, mas isso é perturbador. Abriu o jornal Combat. — Ouça isto: "Seria melhor ir a um striptease em Pigalle. As moças são tão deliciosas quanto a srta. Bardot e, normalmente, até mais do que isso. Sabem se mexer com sutileza. O erotismo é uma arte". Citei o trecho porque é típico. A nudez e o erotismo eram aceitáveis numa mulher apenas se ela fosse um objeto. Uma vagabunda ou uma prostituta era até melhor. Você pagava, e ela se tornava sua propriedade. Não era perigosa. O autor do artigo não ficaria alarmado com uma prostituta em Pigalle, pois ela não representava nenhum desafio a suas prerrogativas masculinas. Mas Brigitte o assustava. E, já que não podia morder, ele ladrava. Na conclusão escreveu: "Felizmente para a reputação francesa, este filme não tem a menor chance de ser exibido no exterior". Que grande profeta! No dia seguinte, um jovem crítico de cinema escreveu um longo artigo sobre E Deus criou a mulher numa das mais respeitáveis revistas de arte da época. Adorou o filme e vaticinou que ele deixaria marcas em seu tempo e abriria novos horizontes para o cinema francês, que estava se fossilizando. Seu nome era François Truffaut. No início de 1957, Raoul pediu-me que o acompanhasse aos Estados Unidos para encontrar alguns executivos da Co-lumbia Pictures. Como o estúdio de Nova York não mostrava a mínima pressa em dar uma data definitiva para o lançamento do filme na América,

Raoul decidiu ir a Hollywood primeiro, a fim de visitar Harry Cohn, o presidente do estúdio. Os motores a jato não haviam ainda substituído os convencionais, de modo que a viagem demorou vinte e quatro horas, com paradas na Groenlândia e no Canadá. Antes de chegarmos a Winnipeg, dois dos motores pegaram fogo, e o piloto teve de aterrizar com metade das hélices empenadas. O incidente deixou Raoul perturbado, apesar de ter sido um herói de guerra da RAF. Ele decidiu tomar um soporífero para continuar a viagem. Havia comprado Nembutal em Paris, mas, sem se dar conta de que eram supositórios, chupou meticulosamente três deles. Sentiu-se tão mal que não conseguiu fechar os olhos pelo resto da jornada. Harry Cohn nos convidou para jantar em sua casa, em Bel Air. Eu conhecia a fama de tirano daquele capitão de indústria e estava ansioso por conhecê-lo. Para mim, Harry Cohn era a personificação da lendária Hollywood, um dos últimos sobreviventes dos pioneiros da idade épica do cinema. Ele mostrou-se encantador. Interessava-se pela situação do cinema europeu e lamentava que Brigitte não estivesse conosco. — Sei reconhecer um diretor quando vejo um. Não acontece todos os dias — ele me falou. Previu um grande futuro para mim. Depois do desprezo e dos insultos por parte dos mercenários críticos franceses, essas palavras, vindas de um dos grandes de Hollywood, eram estimulantes. E Deus criou a mulher tornou-se a menina dos olhos de Harry Cohn. Para contrariar os agentes do escritório de Nova York, que não queriam distribuir o filme, alegando que não tinha chances de bilheteria, organizou uma série de exibições privadas para as quais convidou os maiores astros, certos produtores e alguns jornalistas criteriosamente selecionados. O enorme sucesso das apresentações convenceu Harry Cohn de que estava certo com respeito ao filme.

— Amanhã darei ordens a esses idiotas cabeçudos para que apressem o lançamento — disse-nos ele.

Certa noite, à uma hora da manhã, decidiu me dar um presente para comemorar nosso encontro. Pegou o telefone e acordou o chefe

do departamento de cenografia.

— Consiga-me um visor — ordenou ele. — Mande gravar nele o

seguinte: "Para Roger Vadim, de Harry Cohn". Estarei esperando em minha casa.

Não posso imaginar que, hoje em dia, um presidente da Columbia tire da cama um funcionário seu para satisfazer um capricho. Teria

de arcar com uma greve no dia seguinte. Mas, em 1957, Harry Cohn

ainda podia se permitir essa forma extravagante de comportamento. Trouxeram-lhe o visor, gravado com sua própria caligrafia, às duas e meia da manhã.

Isto irá lhe trazer boa sorte, meu amigo — disse ele.

O

próprio Harry Cohn nunca tinha imaginado que o filme fosse

alcançar um sucesso tão enorme ou que criasse o escândalo que criou. Comitês de proteção à moral foram organizados em mais de cem cidades para evitar sua exibição. Sermões em igrejas e templos ameaçavam Brigitte e os responsáveis pela "satânica" obra com o fogo eterno do inferno. As mulheres eram as mais indignadas. Não defendiam a igualdade sexual, mas a tradicional instituição do casamento e do sexo frágil na sociedade. Essa reação violenta não ficou limitada à América. Estendeu-se à Europa, à África e também ao Japão. A comoção criada pelo filme no exterior teve um efeito bumerangue na França. Um estranho fenômeno aconteceu: seis meses após a estréia em Paris, os cinemas, que tinham estado vazios, apresentavam-se lotados. Contudo, o alvoroço era baseado num mal-entendido. As pessoas fingiam chocar-se com a nudez e a imperturbável sensualidade de Brigitte quando, na verdade, estavam atacando um filme que defendia, sem hipocrisia, o direito da mulher de desfrutar o sexo,

um direito até então reservado aos homens. Não era Brigitte tomando banho de sol nua que irritava as pessoas "decentes", mas sim a cena em que, após a cerimônia religiosa, Brigitte fazia amor com o marido, enquanto seus pais e amigos aguardavam por ela na sala de jantar. Era a Brigitte divertida, sem complexos. Em meio à festa, ela aparecia só de roupão, com os lábios inchados de fazer amor, e apanhava algumas maçãs e coxas de galinha para alimentar seu amante, pois, mesmo casada, tratava o marido como um amante, e não como um amo. A mãe perguntava: "Como ele está se sentindo?", e a resposta de Brigitte era: "Nada mal". A mãe insistia:

"Por que ele não desce? Precisa de alguma coisa?" E Brigitte: "Estou cuidando disso". Ia até a escada com sua bandeja e, apesar de o sol ainda estar a pino, dizia boa-noite aos convidados. Os filmes sempre tiveram maior impacto sobre as pessoas do que a palavra escrita. Os livros de Simone de Beau-voir jamais assustaram alguém. O aparecimento de Brigitte nas telas, encarnando uma mulher considerada "imoral", causou pânico. Em conseqüência das reações exageradas, o filme foi um sucesso. Em poucos meses, Brigitte se tornou uma estrela internacional.

As pessoas sempre se perguntam por que uma atriz que adquiriu tanta celebridade nunca fez um filme em Hollywood. Já contei a história de Brigitte implorando à sua agente que cancelasse o contrato que assinara com a Warner Brothers. Um outro acontecimento merece ser mencionado. Em março de 1958, Raoul e eu nos encontramos com Frank Sinatra no Fontainebleau Hotel, em Miami, a fim de discutir a realização de um musical com ele e Brigitte, que se chamaria Paris by night. Tínhamos o esboço da história, mas o roteiro ainda não fora escrito. Sinatra se interessou e concordou em que eu lhe contasse a história. Muitas pessoas falavam de seu temperamento caprichoso, seu mau humor e suas explosões violentas; conosco foi sempre amável e gentil. Levava-nos com ele aonde quer que fosse. Infelizmente, em meio a guarda-costas, advogados, agentes, louras bonitas, músicos,

amigos — entre os quais se encontrava Ella Fitzgerald — e algumas figuras misteriosas saídas diretamente de algum romance de Mario Puzo, foi difícil encontrar um momento em que pudéssemos estar a sós. Passara-se uma semana, uma semana da qual tenho lembranças maravilhosas, e eu ainda não tivera oportunidade de contar-lhe a história de Paris by night. Sinatra decidiu deixar Miami e ir a Chicago, onde assistiria a dois grandes eventos: o funeral de Mike Todd, que morrera num desastre aéreo no México, e a revanche entre Carmen Basilio e Sugar Ray Robinson. Fomos com Sinatra para Chicago. Após o funeral, voltamos para sua suíte de hotel com um "poderoso chefão" da Máfia e um chefe de polícia de Chicago. Uma limusine levou-nos até o estúdio onde iria acontecer a disputa de boxe. Uma escolta de motocicletas policiais ia à frente, abrindo caminho por entre o trânsito. Sentei-me num acento dobrável, de frente para o chefe de polícia. Não me lembro de seu nome, mas digamos que se chamava John. John já fora diversas vezes a Paris. Ele gostava da cidade e nos demos bem. Após a soberba luta de quinze rounds, vencida por Robinson, Sinatra levou-nos a um restaurante em Cicero, onde o chefão estava oferecendo um jantar para comemorar o noivado de sua filha. Comida italiana, muito vinho, anedotas picantes e bom humor generalizado. Coppola não inventou nada. Enquanto esperávamos pelo café, John puxou-me de lado. — Siga-me — ele disse. — Vou lhe mostrar algo que vocês não têm em Paris. Saímos à rua, e John me levou a um café que nada tinha de especial, exceto o fato de que parecia um pouco encardido. John empurrou uma porta atrás do bar e entramos numa sala pequena e enfumaçada, em que cerca de vinte homens assistiam, com olhos devoradores, a uma jovem que se despia sem muita convicção. Tinha um corpo bonito. Eu disse a John que tínhamos garotas igualmente belas em Paris.

— Aguarde — disse-me ele.

Fiquei esperando, e, de fato, algo totalmente inimaginável para os Estados Unidos de 1958 aconteceu: a garota tirou tudo. John tinha razão. Mesmo em Pigalle as dançarinas não chegavam a tirar suas minúsculas peças íntimas. Após alguns saltos e um desajeitado spaccato 1 , a garota deixou o palco para dar lugar a sua colega. Sem nenhum requinte, fiz uma exagerada demonstração de surpresa. John estava satisfeitíssimo.

— Naturalmente, esse tipo de show é completamente ilegal. — Riu e

acrescentou: — Mas, se está comigo, você não tem nada a temer. Mais tarde, contou-me que não era a prefeitura, mas a polícia que tinha a responsabilidade de censurar os filmes em Chicago.

— Cortei doze minutos de E Deus criou a mulher. Pensei em guardar

os cortes como lembrança, mas, como você é amigo, vou mandar recolocar as cenas censuradas em todos os cinemas. Foi assim que algumas pessoas, ao menos em Chicago, puderam assistir a meu filme em sua versão não censurada. No dia seguinte, Frank Sinatra me concedeu duas horas de conversa em particular. Gostou de minha história. Decidiu confiar em mim e pediu que seu agente me entregasse um acordo por escrito, confirmando sua intenção de fazer Paris by night com Brigitte Bardot. Todo mundo nos havia dito que não conseguiríamos nada de Sinatra, mas, mais uma vez, Raoul aproveitara uma chance e fora bem sucedido.

Comecei a trabalhar imediatamente com o roteirista Harry Kurnitz.

A dupla Sinatra-Bardot era um sucesso garantido, e Raoul não teve

a menor dificuldade para financiar o filme. Infelizmente, ele não

previu um pequeno de talhe: Brigitte pediu uma cláusula estabele -

1 Spaccato: passo de balê que consiste em sentar-se no chão com as pernas abertas em direções opostas. (N. do E.)

cendo que o filme seria inteiramente rodado em Paris. Não queria nem ouvir falar em Hollywood. Sinatra se recusou a passar quatro meses em Paris. Também ele tinha seus hábitos. Assim, Paris by night jamais chegou a ser realizado.

14

Os esqueléticos cães que rondavam em torno da cantina do estúdio vagavam à sombra dos muros. Os policiais em serviço, com seus revólveres nos coldres pesados e os rifles às costas, suavam nos uniformes aflanelados. Um dos eletricistas do set, onde não havia ar-refrigerado, desmaiou, queimando-se gravemente no metal incandescente de um arco voltaico. Desde a hora do almoço, já fora necessário refazer a maquilagem de Brigitte três vezes. No início de agosto de 1957, Madri experimentava a pior onda de calor deste século. Fazer um filme sob tais condições era uma agonia, e o temperamento espanhol, inflamado por natureza, beirava o limite do alarmante. O menor incidente transformava-se num drama. Sob a ferrenha ditadura de Franco, os trabalhadores eram tratados como servos. Sem o menor traço de humanidade, o diretor de produção espanhol abusava dos direitos conferidos por estatutos que beneficiavam apenas os poderosos. Quando tínhamos de filmar tarde da noite, além do expediente, a fim de terminar uma seqüência, os trabalhadores e técnicos, alegando as condições infernais de trabalho causadas pelo calor, pediam um segundo intervalo para jantar e um bônus pelo trabalho noturno. Era-lhes negado. Como no tempo das galeras romanas, a revolta crescia entre os escravos. Às duas horas da manhã, ao término da última

tomada, estávamos deixando o set quando o diretor de produção cometeu um erro grave. Chamou um dos homens, que ameaçava se demitir, de "uma mulher delicada às vésperas de ficar menstruada". Isso é um insulto supremo para uma raça absurdamente orgulhosa de sua virilidade. Toda a turma formou um semicírculo e foi avançando lentamente na direção do diretor de produção e de sua equipe. Subitamente, o homem entrou em pânico e fez um sinal

ao policial em serviço para que chamasse seus colegas. Meia dúzia deles invadiu o set, de rifles em punho. Também dominados pelo calor, esses homens esperavam apenas por um motivo, ainda que pequeno, para disparar sobre a multidão. O menor sinal de reação trazia o risco de deflagrar um massacre. Mas estávamos imóveis, conforme as regras do ritual, num palco de confrontações verbais.

iQue st! — gritavam os operários.

iQue no! — respondia o diretor de produção.

iQue sí!

iQue no!

Tentei intervir, apelando para o diretor de produção. Mas ninguém queria ceder. Tentei falar com o oficial de polícia mais graduado. Ele empurrou-me para o lado violentamente.

Brigitte poderia ter escapado e se refugiado em seu camarim, mas estava inflamada pelo modo como os operários tinham sido

tratados e, ficando ali, demonstrava seu apoio a eles. Era uma atitude corajosa, que, infelizmente, não podia alterar em nada o curso dos acontecimentos. Os ânimos estavam muito exaltados. Ela teve, então, uma idéia genial. Começou a cantar em ritmo de samba, muito popular na época, reproduzindo as palavras da

discussão: "Que sí, que

irmão de Christian, sempre muito vivo e divertido, entendeu as intenções de Brigitte imediatamente. Iniciou um dueto com ela:

"iQue sí! iQue no! iQue sí! iQue no!

" Meu assistente, Serge Marquand,

"

Dançando o samba, correram para o meio dos operários e dos policiais, cujos rifles ainda estavam empunhados. Após um momento de hesitação, alguns trabalhadores começaram a cantar com Brigitte. Foram logo acompanhados pelos demais. O diretor de produção e sua equipe também entraram na brincadeira. "iQue sí! iQue no!" O drama se transformou numa comédia musical. Como a honra de ambas as partes ficou intacta, não houve derramamento de sangue. Esses homens, muitos dos quais ainda se lembravam dos banhos de sangue da Guerra Civil, dificilmente se abalavam, mas ficaram profundamente impressionados com a coragem e a rapidez de raciocínio de Brigitte. No dia seguinte, em seu camarim, ela encontrou um buquê de flores com um cartão assinado por cada membro da turma, desde o faxineiro até o primeiro-assistente, Pedro Vidal.

— Nunca tinha achado as flores tão lisonjeiras — disse-me ela.

Desde nossa separação, que ainda não estava oficializada, eu não fizera nenhum filme com Brigitte. No início do ano, dirigira Aconteceu em Veneza, que para muitos cinéfilos foi e continua sendo meu melhor filme. Jean-Luc Godard escreveu que meu segundo filme rompia com a tradição, o que, naquela época, era o maior elogio possível. Tendo abarrotado de dólares os cofres do tesouro francês, enriquecido seus produtores, lançado Brigitte ao estre-lato e aberto as portas dos estúdios para os jovens diretores, E Deus criou a mulher deu a Raoul Levy uma oportunidade que ele não deixaria escapar. Outro filme da dupla Bardot-Vadim era imperativo. Adquiriu os direitos de um romance francês intitulado Les bijoutiers du clair de lune 1 . Era uma linda história de amor entre um salteador de estradas e uma jovem de boa família, ambientada em Alver-ne no século XIX.

1 No Brasil, Vingança de mulher. (N. do T.)

Raoul, que agora fazia parte do invejado grupo de produtores de fama internacional, caiu na mesma armadilha que seus colegas, ao esquecer que não se produzem filmes da mesma forma que automóveis ou feijão enlatado. A fim de utilizar as pesetas da Columbia Pictures, retidas na Espanha, decidiu transpor a história para a Andaluzia do presente. Contratou um roteirista chamado Remi, porque um filme policial para o qual ele trabalhara fazia grande sucesso em Paris. Remi era um homem encantador, aquém de seu tempo e totalmente desprovido de talento. Mas concordei com Raoul. Estava sob contrato exclusivo, e não queria declarar guerra contra esse homem que tinha como um amigo leal. Estava convencido de que no curso das filmagens poderia transformar aquele script banal numa boa fita. Mas isso não aconteceu. Restaram, porém, algumas tomadas magníficas do sul da Espanha. Eu devia ter me lembrado de que era um diretor, e não um pintor ou fotógrafo. Nesse ínterim, Brigitte retomou a rotina das inocentes comédias franceses. Fez Brotinho do outro mundo 2 e O príncipe e a parisiense 3 .

Seu romance com Jean-Louis Trintignant estava afundando. Estirada num colchão à beira da piscina do Savoy Hotel, ela me confidenciou:

— Eu deveria ter caído em prantos quando ele foi convocado para o serviço militar. Em vez disso, dei graças a Deus. Conhecera um famoso cantor francês que estava no auge de sua carreira. Vou chamá-lo de X, já que seu romance com Brigitte não é muito conhecido. Era nervoso, imaginativo e um pouco maluco. Tinha olhos e cabelos escuros. — Não acho que o ame — disse-me Brigitte. — Mas não posso viver sem paixão. Tenho de estar, ao fim de um telefonema, com o

2 La mariée est trop belle. (N. do T.)

3 Une parisiene. (N. do T.)

coração aos pulos. Meu pobre coração! Como se não lhe bastasse ter de bombear todo aquele sangue por minhas veias, ainda tem de se envolver em meus casos de amor, da manhã até a noite. Riu com uma certa tristeza, como se caçoasse de seu excessivo romantismo. Estava sozinha e vulnerável.

— Meu Vava — disse ela, segurando minha mão — você é a

única pessoa que me conhece de verdade. Referia-se a mim, normalmente, como "Vava" ou "meu velho russo"; Vadim era reservado para ocasiões especiais. Naquele momento, uma mulher cuja beleza radiante chamava a atenção de todos os homens presentes caminhou em nossa direção. Tinha cabelos dourados da cor do girassol, olhos tão azuis que desafiavam a cor do céu. A pele luminosa era branca como leite e tão suave para os olhos como para o toque; o nariz, ligeiramente adunco; a boca, tão deliciosa quanto uma bala de fruta; o corpo, repleto de belas curvas. Era a autêntica essência da feminilidade, porém mais uma deusa que um manequim, sem a menor insinuação de uma sexualidade agressiva. Vestia uma blusa chinesa, de crepe, sobre o maio para cobrir sua barriga, pois estava grávida de cinco meses. O filho era meu. Beijou Brigitte e sentou-se a nosso lado. Fora no início daquele ano que eu conhecera Annette e sua irmã, Merete, que era menos bela mas tão dinâmica e sexy que alcançou tantos pontos quanto sua irmã na escala do sucesso. As duas moças dinamarquesas tinham acabado de chegar a Paris e estavam enlouquecendo todos os play-boys da cidade. O pai delas, um médico, cometera suicídio ao ser abandonado pela esposa. Na época, as meninas tinham apenas oito e nove anos de idade. Sua mãe, uma enfermeira, vivia com um homem estranho e brilhante, um erudito e herói da resistência contra os nazistas. Mas o casal era pobre, e as moças, assim que cresceram o bastante, deixaram Co-

penhague. Annette fora baby sitter e instrutora de esqui aquático na Inglaterra. Merete posava para revistas de moda. Embora tivessem chegado falidas a Paris, recusaram as investidas de Ali Khan, o marajá de Baroda, de Darry Zanuck e de outros milionários à procura de amantes glamourosas. Disseram "não" para relacionamentos baseados no dinheiro e para casamentos de conveniência. Isso as tornou ainda mais desejadas. Certa noite, estava na discothèque da Rue Saint-Benoit com Annette e Merete. Levantei-me a fim de dançar uma música lenta com a mais velha. Andávamos flertando nos últimos dias. Mas Annette falou com seu indescritível sotaque:

— Não, você vai dançar comigo. As duas irmãs já haviam discutido qual delas ficaria comigo. Nunca pude saber quais eram seus critérios, mas Annette havia vencido. Com a certeza de que são sempre as mulheres quem decidem, embora permitam aos homens a ilusão de as ter conquistado, achei que essa transação escandinava pouparia tempo para nós três. Dancei com Annette, levei-a ao Bellman na mesma noite, fiz amor com ela e nos apaixonamos. Ficamos juntos a partir de então. Ela me acompanhou a Veneza, onde eu estava filmando Aconteceu em Veneza.

Em 26 de janeiro, comemoramos meu aniversário com toda a equipe na Grappa di Uva. Depois disso, no elevador do Hotel Bauer Grünwald, ela tirou seu casaco de caxemira e começou a desabotoar

a blusa. Continuou seu striptease no terceiro andar, atirando para os

lados os sapatos, a saia, o sutiã e, finalmente, a calcinha, enquanto

percorríamos o corredor em direção ao nosso quarto. Ao chegarmos

à porta, estava nua, como Eva no Jardim do Éden. Virou-se para

mim e estendeu as mãos abertas. Uma pequena serpente, um tesouro, estava enrolada nelas. Era uma corrente de ouro com a inscrição: "Para o meu Pipfugl".

Pipfugl quer dizer "pardal", em dinamarquês. Era o apelido que me dera.

— Você é o mais rico e o mais pobre dos homens — disse ela. — Tal como um pardal, você vê tudo e compreende tudo, mas não possui uma conta bancária.

Soube mais tarde que vendera seus dois vestidos de Balenciaga para me comprar aquele presente. Não tive tempo para agradecer-lhe, pois já havia gente saindo do elevador.

— Onde está a chave? — gritou Annette.

Eu me esquecera de apanhá-la na recepção. Era tarde demais para recolher as roupas esparramadas pelo corredor. Um casal de turistas americanos passou por nós. Annette sorriu-lhes com a mesma graciosidade com que uma senhora, em trajes de gala, retribui a um cumprimento, desculpando-se por não estar reconhecendo as pessoas que a ela se dirigem. Tirei minha jaqueta e coloquei-a em suas costas. A seguir, ouvi uma gargalhada. Era a gargalhada retumbante, generosa e apocalíptica de Orson Welles, que vinha em nossa direção, seguido por um carregador que trazia sua bagagem. Tinha apanhado pelo caminho as peças de roupa espalhadas pelo corredor, o que motivara seu ataque de riso. Reconheceu-me e fez um cumprimento amigável com a cabeça, mas tinha os olhos fixos em Annette. Esse amante da beleza não distribuía cumprimentos ocos. Olhando maliciosamente, de soslaio, para Annette, que apertava a jaqueta contra o peito, procurando ocultar ao máximo sua nudez, disse:

— Desculpe minha aparência. Vim dirigindo desde Milão e não estou muito apresentável.

— Nossa porta está trancada — gaguejou Annette. — Esquecemos a chave.

— Por favor, venha e vista-se em meu quarto.

Sem esperar por uma resposta, Orson se dirigiu a sua suíte. Enquanto Annette se vestia, ele abriu uma garrafa de Dom Ruinart. Já tínhamos bebido um bocado no Grappa di Uva e, conhecendo o potencial etílico de Welles, preparei-me para uma longa noite. Ele estava em Veneza para tratar com um produtor italiano de um projeto muito excitante, mas que, novamente, não viu a luz do dia. Perguntou a Annette se ela tomava parte em meu filme. — Não quero trabalhar no cinema — respondeu ela. — Um dia — replicou ele —, descobrirá que a vida é verdadeiramente um cinema e que o cinema é uma forma excelente de se voltar para a vida.

Eu tinha uma filmagem na manhã seguinte, mas Orson Welles não nos deixou sair. Abriu outra garrafa. — O sol lava nossos pecados — disse ele. — Esperemos pelo nascer dele. Ao amanhecer, retornei a meu quarto com Annette. Ainda estávamos fazendo amor quando meu assistente bateu à porta.

Seis meses depois estávamos passando por um calor insuportável, e Annette, já grávida, tinha uma enorme dificuldade para enfrentá-lo. Brigitte disse que eu era um monstro de egoísmo por fazê-la ficar comigo. Deu alguns conselhos sensatos à futura mãe, que decidiu voltar à casa dos pais em Copenhague. Annette chorou quando nos despedimos no aeroporto. Sem amor e sem amante, Brigitte andava deprimida. Passamos algumas noites agradáveis com os ciganos e os dançarinos de flamenco, mas, na maior parte do tempo, ela se retirava para junto de seu pequeno séquito: a maquiladora Odette, o cabeleireiro, a substituta e outros admiradores prontos para atendê-la em seus mínimos desejos. Conhecia a tendência de Brigitte de cercar-se de puxa-sacos. "Sim, Bribri, você está totalmente certa" e "Deixe que falem, Bribri. Eles não sabem de nada", era o que queria escutar.

Encorajada pelo sucesso, faltava-lhe sempre disciplina ou coragem intelectual para escolher seus filmes. Mas, como já mencionei, não gostava do cinema. Não tinha caprichos. Durante as filmagens de Vingança de mulher, sua conduta foi exemplar, apesar das condições estafantes de trabalho. Após a partida de Annette, nos mudamos de Madri para Torremolinos, um pequeno vilarejo andaluz que viria a se transformar numa Saint-Tropez espanhola alguns anos mais tarde. Um pequeno burro tinha uma importante participação no filme. Brigitte, que o chamava de Romeu, não podia aceitar a idéia de devolvê-lo a seu dono, comprou Romeu, mas o hotel não permitiu que ele dormisse na garagem. Assim, Brigitte o levou para seu quarto. Certa manhã, ela me chamou. Encontrei-a na cama com o burrico deitado a seu lado, sobre as cobertas. Ela então me falou:

— Vadim, não agüento mais. Vou voltar a Paris. Conto com você para cuidar de Romeu.

Foi embora no dia seguinte. Estava completamente exausta e não teria conseguido terminar o filme sem algumas semanas de descanso. Filmar sem ela acarretou- me uma série de problemas. Em todo caso, Raoul estava coberto pelo seguro. Tomei conta de Romeu. Após a onda de calor, veio a pior inundação jamais registrada no sul da Espanha: seiscentos mortos em Valência e dois mil afogados em Málaga e na costa andaluza. As enchentes da Califórnia, que recebem tanta publicidade na televisão e nas primeiras páginas dos jornais, não são nada quando comparadas ao cataclismo que submergiu um terço da Espanha naquele ano. Serge Marquand e eu nos refugiamos no primeiro pavimento de nossa casa, observando a inundação com uma espécie de mórbida fascinação. Vimos um velho sentado numa cadeira sendo levado

pela correnteza. O homem também nos vira e fazia gestos desesperados com uma das mãos, enquanto com a outra se agarrava

ao braço da cadeira.

— Temos de ajudá-lo — disse eu.

— Não — disse Serge. — Ele está apenas dizendo "alô".

Contudo, Serge foi o primeiro a pular na água. Acompanhei-o. Conseguimos apanhar o velho e sua cadeira no alto de um pórtico e

erguê-lo até a janela do segundo pavimento. A casa fora evacuada. Enquanto jorrávamos água e lodo, o velho nos insultava:

— Filhos da puta! Minha cadeira! Vocês perderam minha cadeira!

Ensopado e meio afogado, exigia que lhe pagássemos cento e vinte e cinco pesetas, preço da cadeira para turistas.

O que você acha? — perguntou Serge. — Atiramos o velho

de

volta à água?

A

inundação foi seguida por uma chuva fina e maçante, que não

parava nunca. O filme, é claro, fora interrompido. Raoul Lévy averiguava a possibilidade de concluir o filme num estúdio em Nice. Fiquei doente. Por três dias, tive uma febre violenta e soluços incessantes. Tinha certeza de que iria sucumbir àquele soluçar infernal, como Pio XII. Raoul chamou o dr. Louis Schwartz, meu médico em Paris. Ele diagnosticou uma infecção no pâncreas, causada por algum vírus bizarro, que normalmente ataca animais, em especial burros. Estava fraco demais para acertar contas com Romeu, mas me divertia maquinando algumas torturas cruéis para ele, assim que me levantasse da cama. Após prescrever algumas injeções intravenosas de antibiótico, o dr. Schwartz retornou a Paris. A enfermeira espanhola era uma freira carmelita que não acreditava em injeções. Fez-me engolir as doses com suco de laranja. Dizia que Franco, El Caudillo, permanecia jovem porque se recusava a tomar

injeções. "Deus criou sete orifícios no homem: os ouvidos, o nariz, a boca, o pênis e o ânus. Não vou abrir um outro buraco para permitir que o demônio penetre no senhor. Parece ser um bom rapaz e merece morrer como um cristão." Graças aos princípios da enfermeira, minha febre não cedeu. Estava morando numa casinha a cerca de trezentos metros de um hotel onde havia um telefone. Uma noite, acordei suando profusamente e obcecado pela idéia de que devia telefonar para Brigitte. Levantei-me, apesar da febre de mais de trinta e nove graus. Depois de dez dias de cama, mal podia ficar em pé. Caminhei sob a chuva, à beira da praia, sempre pensando em ligar para Brigitte. Fui ao hotel, entrei no escritório e sentei-me numa cadeira junto ao quadro de operações; o operador já tinha ido dormir há tempos. Enfiei os plugues naquele painel de antes da guerra e consegui contatar a central telefônica de Málaga. De lá transferiram- me para Madri e, finalmente, por algum milagre, para o número do telefone de Brigitte na Avenue Paul Doumer. Ninguém atendeu. Liguei para seus pais, e um novo milagre aconteceu, levando-se em conta que às vezes era necessário esperar dois dias por uma ligação entre a Espanha e Paris. Pilou atendeu:

— Acordei você? — perguntei.

— Não — ele respondeu. — Estava tocando serrote musical.

O serrote musical é um dos mais arcaicos instrumentos conhecidos. Consiste num serrote de marceneiro que se curva e se estica enquanto é friccionado por uma espécie de arco.

— Pilou, vá até a casa de Brigitte.

— Por quê? Ela acabou de jantar conosco. Parecia estar muito bem- humorada.

— Por favor, ligue para ela. Se ninguém atender, vá até lá.

Ele não compreendia as razões de minha súbita ansiedade. Mas prometeu fazer o que eu estava lhe pedindo.

Ao ligar para Brigitte, surpreendeu-se por não haver resposta. Ao deixá-los, Brigitte dissera que iria para casa dormir. Foi, então, até o apartamento dela. Tocou a campainha e bateu na porta, mas não houve resposta. Já estava saindo quando sentiu cheiro de gás. Arrombou a porta do apartamento e encontrou Brigitte caída no banheiro. As chaves do sistema de calefação estavam abertas ao máximo. Não foi o gás, mas pílulas de Veronal, que a deixou inconsciente. Pilou abriu as janelas e chamou um médico. Brigitte não teve de ser levada a um hospital. Seu pai chegara a tempo. Três dias depois desse incidente, já sem febre, retornei a Paris. Como bom cristão, perdoei Romeu por minha infecção no pâncreas. Fiz a viagem num caminhão que transportava as peças do cenário para os estúdios Victorine. Fui ver Brigitte, que estava melhor do que quando deixara Torre-molinos. — Assim que cheguei a Paris, vi X novamente — ela me contou. — Ele falou de como me amava, com lindas palavras. Mas me escondeu dos jornalistas em seu camarim, no teatro. Tinha medo de ser visto a meu lado num restaurante. Só comíamos sanduíches, e numa mercearia. Um dia, levou-me até sua casa. Quando estávamos fazendo amor, um amigo chegou. Lá estava eu apanhando minhas roupas espalhadas pelo quarto, às pressas, e correndo para o banheiro. Como numa comédia de Feydeau. Ele saiu com o amigo sem me dizer uma palavra. Podia ter inventado alguma desculpa como "esqueci minhas chaves" e voltar para dizer: "Desculpe-me, preciso ir embora. Telefono para você à noite". Mas ele nem sequer fez isso. Fiquei sentada, falando a mim mesma: "Não sou nada, nada". Não é que seja tão difícil ser nada. Era a pretensão dele que me matava. Ele é um poeta brilhante quando fala de amor. E eu, a estrela, o sonho impossível dos homens casados, a Marilyn Monroe francesa, o grande símbolo sexual, estava lá sentada numa banheira! Que belo símbolo! Queria que meus admiradores e as mulheres que

têm medo que eu lhes roube o marido pudessem me ver! Estava triste e furiosa, mas não pude deixar de rir quando me olhei no espelho. Pensei em X, que estaria cantando: "minhas mãos, como

Os homens são qualquer coisa. Carinhosos, loucos de

amor e tudo o mais. Apenas palavras. Quando algo dá errado, dão no pé. Senti-me humilhada, decepcionada, infeliz. Queria morrer. Então, quando cheguei em casa, fiz aquela bobagem. Na verdade, não por causa de X, mas por causa de tudo. Talvez porque seja tão difícil ser mulher, ou simplesmente um ser humano. Amo demais a vida para suportar suas traições.

uma

Terminamos de filmar Vingança de mulher um mês depois, em Nice. Annette voltou de Copenhague, aos oito meses de gravidez, mais linda do que nunca. Em 7 de dezembro de 1957, que era também seu aniversário, deu à luz uma menina de três quilos e meio, no Hospital Americano, em Neuilly. Registrei-a no cartório da cidade como Nathalie Plemiannikov.

15

No que diz respeito à minha carreira, o ano de 1958 foi notável por um aspecto: falta de sorte. Tinha acabado de voltar dos Estados Unidos quando fiquei sabendo que Brigitte se recusava a ir a Hollywood para filmar Paris by night. Raoul, a quem raramente faltavam idéias, sugeriu que substituíssemos o musical por uma história bastante divertida com base numa garota ingênua mas desembaraçada que se envolve, contra sua vontade, com a Resistência. Brigitte ficou apavorada com

a idéia de ter de saltar de pára-quedas, mas acabou aceitando o papel principal de Babette vai à guerra 1 , sob a condição de que uma figurante tomasse seu lugar quando necessário. Raoul chamara-me, junto com um roteirista americano, para trabalhar o tema do filme. Alguns dias depois, Vingança de mulher foi lançado. Como eu temia, não teve sucesso. Já estava trabalhando havia mais de um mês no roteiro de Babette quando soube, por meio dos jornais, que Raoul Lévy contratara um outro diretor, Christian Jacque, para dirigir a fita. Que Raoul, decepcionado com o fracasso de nosso último filme, se encontrasse temeroso e tivesse decidido substituir-me era aceitável. Eu compreendia até mesmo o fato de não ter tido coragem para me dizer isso pessoalmente. O que me surpreendeu foi a atitude de Brigitte. Ela poderia ao menos ter me telefonado e dito que achava Christian Jacque um diretor mais adequado para esse tipo de filme. Fiquei desconcertado e triste. Mas resolvi parar de ter pena de mim mesmo e não pedir explicações a meus dois amigos. Durante o verão, fiquei com Annette e o bebê numa casa de campo, cercada de videiras e eucaliptos, próxima a Saint-Tropez. Por sorte, tenho a capacidade de esquecer acontecimentos desagradáveis quando sei que nada posso fazer a respeito deles. Apaguei Vingança de mulher, Paris by night e Babette de minha mente. Minhas alegrias eram Annette e Nathalie. Adorava Nathalie e observava a agitação ditada por aquela cabecinha com grande entusiasmo. Sabia dar-lhe mamadeira e trocá-la, e podia adivinhar, pelo modo como chorava, se tinha dor de barriga ou se estava apenas requisitando atenções. Inventei centenas de brincadeiras e falava com ela como se conversa com um ser humano, evitando aquela imbecil linguagem de bebês com que certos pais costumam dirigir-se aos filhos. Não tínhamos babá. Uma vizinha, que também tinha filhos, tomava conta do bebê quando saíamos à noite. Durante o dia, levávamos Nathalie a toda

1Babette s'en va-t'en-guerre. (N. do T.)

parte. Claude Bourillot, um piloto de corridas amigo meu, apresentara-me ao velho comendador Enrico Ferrari. Sua fábrica estava lançando novos modelos de carros esporte. Verdadeiros monstros, considerando-se a época: 320 HP, doze cilindros e velocidade máxima de duzentos e oitenta quilômetros por hora. Eu concordara em participar de várias corridas e ralis, incluindo a Volta da França. Em troca, o comendador me vendeu seu último modelo pelo preço de fábrica de um Ford. Era o único Ferrari naquele ano em Sàint- Tropez. Françoise Sagan dirigia um Aston-Martin, e Gunter Sachs, futuro marido de Brigitte, um Mercedes 300 SL. Ocorrera uma enorme mudança no tímido turista que eu conhecera dois verões antes no Esquinade. Sachs herdara as indústrias Opel alemãs, e administrava, agora, uma imensa fortuna. Era um amante

da diversão e gastava seu dinheiro como um rei.

Nossa gangue tinha uma terrível reputação. O público, mal- informado por publicações de autênticos ou falsos escândalos, via- nos como devassos bons vivants. Éramos, de fato, crianças crescidas, um tanto exuberantes demais para nossa idade e inofensivamente anarquistas. Organizávamos torneios aquáticos entre Rivas. Nossas armas eram extintores de incêndio, que cobriam nossos adversários

de espuma. Fazíamos esqui aquático na areia úmida, à beira da baía

de Pampelonne, chocando os veranistas. No Epi-Plage, um clube privado onde as celebridades e estrelas do momento se encontravam, nossas épicas guerras de tortas teriam deixado o Gordo, o Magro e Mack Sennet verdes de inveja. Nada muito

detestável, como qualquer um pode constatar.

O que tornava Saint-Tropez especial era a alegre mistura entre o

novo e o antigo, riqueza e classe. Uma pessoa sem dinheiro podia viver como um milionário, e um milionário podia se divertir como um boêmio.

É estranho imaginar que uma época tão liberal continuasse oficialmente puritana. A polícia perseguia os nudistas mesmo que estivessem fora do alcance da vista, atrás de arbustos.

Havia uma curva na estrada, a trezentos metros da praia de Tahiti. No meio da curva, havia um pinheiro enorme. A estrada bifurcava-

se à direita e à esquerda dessa árvore.

Certa noite, o som de um Ferrari abafou o dos grilos. O ronco de um Mercedes 300 SL respondia ao da Ferrari. Era um duelo.

A

largada fora a cento e cinqüenta metros do pinheiro. Ao ser dado

o

sinal (um assobio), os carros dispararam. Os dois pilotos não

podiam ver um ao outro, e cada um tinha de adivinhar se o adversário iria pegar o caminho da direita ou o da esquerda. Se ambos se encontrassem do mesmo lado da árvore, seria impossível cruzar para a outra pista. Haveria, então, uma colisão de frente, a não ser que um dos dois se rendesse, arremessando seu carro para dentro da vala. Era uma espécie de roleta russa com automóveis, exceto pela diferença de que o perdedor tinha alguma chance de sair com vida. Gunter estava na direção do 300 SL. E u dirigia o Ferrari. Os juízes eram Françoise Sagan, Christian e Serge Marquand, Maurice Ronet e Marión Brando. Havia um máximo de três rounds no torneio. Primeiro round: o Ferrari foi pela esquerda; o Mercedes pela direita. Segundo round: o Mercedes e o Ferrari viram-se face a face no lado esquerdo da árvore. Tivemos uma fração de segundo para tomar uma decisão. Gunter perdeu a cabeça e aterrizou na vala. Não se machucou. No dia seguinte, um guindaste resgatou o 300 SL da vala. Iria custar a Gunter vários milhares de francos pintar a carroçaria e consertar o chassi. Para ele, de qualquer forma, era uma ninharia.

Gunter ofereceu um grande jantar no Restaurante Tahiti, para congratular o vencedor e consolar o perdedor. Havia uma exótica orquestra e cento e cinqüenta convidados. No meio da festa, quatro

taitianas trouxeram um prato enorme. A princípio, pensamos que se tratasse de um salmão gigante ou de um peixe-espada. Porém, o peixe não era "comestível": o que estava sendo servido era um Serge Marquand nu, habilmente decorado com maionese e pepino.

— Pipfugl, pode dar um banho no bebê? — gritou Annette da

cozinha, onde preparava um fregadele, um prato nacional dinamarquês constituído de almôndegas com legumes.

— Esta noite, não. Estou em greve. Antes de colocar o fregadele no forno, Annette queria dar o banho e a janta do bebê. Apanhou Nathalie, agora com nove meses, que estava sentada em meu colo, mastigando as últimas páginas de um romance de Agatha Christie.

— Você jamais saberá quem matou a marquesa — disse Annette

rindo. Entrou no banheiro. Cinco minutos depois, ouvi um berro. Fiquei aguardando sem me mexer. Annette saiu correndo, trazendo Nathalie, sem roupas, sob o braço. Estava segurando uma carta enviada pelo correio, que eu escondera na fralda de Nathalie. Dizia:

"Nanette (na intimidade normalmente a chamava de Nanette):

Está livre no sábado, 27 de agosto? Tenho de ir ao cartório da cidade, em La Londe-les-Maures, e depois almoçar no La Reine Jeanne de Paul-Louis. Sua presença seria muito apreciada. Com amor, Pipfugl.

P.S.: Nosso amigo, o conde de Leusse, juiz de La Londe, estará à minha espera no cartório, a fim de celebrar um casamento."

Annette e eu havíamos falado em casamento. Mas ela nunca insistira nisso. Entretanto, eu sabia por meio de seus amigos que nada neste mundo a faria mais feliz. Vivendo com um homem cuja

profissão levava a constantes contatos com diversas atrizes e importunada pela imprensa, que se referia a ela como "a última descoberta de Roger Vadim", ela não tinha uma auto-imagem muito segura. Além disso, ao contrário do que muitos imaginam, os dinamarqueses eram bastante tradicionais com relação ao casamento. Em Copenhague uma mãe solteira não era exatamente um símbolo de emancipação feminina. Havia, também, a imagem de Bardot, a quem todos a comparavam. Afinal, eu me casara com Brigitte. "Por que ele não se casa com você?", perguntavam-lhe os jornalistas. "Brigitte nem mesmo teve um filho com ele." Não considero o casamento nem uma prova de amor nem uma necessidade social. Na verdade, tenho tão pouco respeito pela instituição que nem sequer tenho preconceitos contra ela. Mas, se a assinatura de um documento no cartório pode simplificar sua vida, reduzir seus impostos, proteger seus filhos de mexericos na escola ou aumentar a confiança de sua mulher em relação ao amor que tem por ela, por que não? Casei-me com Brigitte porque de outro modo seus pais não teriam permitido que vivêssemos juntos. Se o casamento iria fazer Annette feliz, era um presente que me sentia capaz de lhe oferecer. Para desespero dos advogados, que não poderiam usá-lo para sua publicidade pessoal, meu divórcio de Brigitte fora praticamente uma formalidade. Porém, a lei francesa estipulava que não era permitido um novo casamento até nove meses depois de a separação ser ratificada pelo juiz. O período de espera acabara de expirar. Nosso casamento foi uma autêntica comemoração, sem protocolo ou tradição. Na França, os nomes dos futuros cônjuges devem ser afixados na porta do cartório três semanas antes do casamento. Optei, então, por me casar no pequeno vilarejo de La Londe porque o juiz de lá, o conde de Leusse, um ex-oficial da Legião Estrangeira que eu conhecera no Marrocos quando era repórter, havia

concordado em passar por cima da lei e não publicar o proclama de casamento. Assim, poderíamos nos casar discretamente e evitar a imprensa, que teria transformado a cerimônia num circo. Annette estava mais dourada e radiante do que nunca. Usava um vestido de verão da mesma cor de seus olhos. Eu vestia uma calça e um paletó de algodão, sem gravata. Nossos amigos estavam presentes. Mantiveram o casamento em segredo, de modo que não houve fotos, exceto a foto oficial para o cartório, nem câmaras de televisão. Depois da cerimônia tomamos um banho de arroz, e todos os convidados, incluindo o juiz, foram para La Reine

Jeanne, a villa que pertencia a nosso amigo, o comandante Paul- Louis Weiller. Foi construída numa praia, ao pé da fortaleza de Bregançon, onde o presidente da França passa, todo ano, duas semanas de férias. Paul-Louis Weiller foi, indiscutivelmente, o último dos grandes mecenas. Vendera a Air France para o governo. Sempre que um avião decolava ou aterrissava, ele recebia royalties. Mas isso era apenas uma pequena parte de sua renda. O almoço de casamento foi dado em uma grande mesa, instalada numa gruta natural. Estávamos todos em trajes de banho. As únicas pessoas inteiramente trajadas eram o duque e a duquesa de Windsor, que, como vizinhos, vieram para um café.

Nos dias seguintes, o sr. e a sra. Plemiannikov sofreram uma invasão. Nossa casa de campo nas vizinhanças foi sitiada. Os fotógrafos subiam nos eucaliptos e até mesmo no telhado. Era difícil sair para um restaurante, e impossível passear pelo ancoradouro. É estranho que uma assinatura no fim de um documento possa criar tamanha comoção. Sabia que, exatamente como um bebê que logo se cansa de um brinquedo novo, a imprensa não tardaria a perder o interesse por nós. A melhor solução era esperar.

No início de setembro, Annette, Nathalie e eu muda-mo-nos para o Hotel des Ambassadeurs de Hollande, de propriedade de Paul- Louis Weiller, na Rue du Temple, número 72. Pierre Feroz, secretário de Carlo Ponti, propôs-me, então, a realização de um filme baseado no romance erótico de Choderlos de Laclos, As ligações perigosas. René Clement, Luchino Visconti, Alberto Lattuada e outros já haviam demonstrado interesse em adaptar a história para o cinema, mas tinham abandonado o projeto. O romance, que causara escândalo no século XVIII, mas que no momento fazia parte do currículo dos estudantes de literatura de várias universidades européias, apresentava difíceis problemas a um diretor. Contudo, fiquei bastante entusiasmado com a idéia de mostrar que, no que diz respeito à moralidade, pouca coisa havia mudado desde que o rei da França interditara a publicação do romance de Laclos, em 1778. Mas, para que o público compreendesse isso, a obra teria de ser transposta para o século XX.

Minha resposta a Carlo Ponti foi: "Tudo bem, se eu puder ambientar o filme em Paris, em 1959". O marido de Sophia Loren, um grande produtor mas não exatamente um inovador, vendeu a idéia a Edmond Tenoudji, presidente da Marceau Films, que acabou assumindo a produção. Trabalhei em três versões distintas do roteiro, com três roteristas diferentes. O roteiro final estava quase definido, porém eu não estava completamente satisfeito. Pensei, então, em Roger Vailland, que acabara de receber o prêmio Goncourt. Ele concordou em escrever diálogos adicionais. Gerard Philipe e Jeanne Moreau foram contratados para os papéis principais. Tinha, ainda, de encontrar uma atriz capaz de interpretar a esposa-modelo, de beleza angelical, cujo sacrifício de honra e fé por sua paixão a conduz à morte. Com a mesma ingenuidade com que demonstrara que queria se casar, Annette me fez saber que queria ser uma atriz. Trabalhar juntos só iria nos aproximar. Aborrecia-se de passar a vida dentro

de casa, esperando pela volta do diretor, como Penélope à espera de Ulisses. Além disso, ela nem sabia tecer. Annette tinha o tipo físico perfeito para o papel, de modo que resolvi fazer um teste de câmara. Estava longe de ser uma atriz, mas seu sotaque, seu encanto e sua maleabilidade convenceram-me de que poderia fazer o papel. Sem dúvida, era uma tarefa difícil, pois ela iria contracenar com dois dos maiores atores do cinema francês.

Brigitte tinha feito um filme excelente, dirigido por Claude Autant- Lara, intitulado Amar é minha profissão 1 . Seu parceiro foi Jean Gabin. Os críticos ainda se regalavam com a idéia de a graciosa bonequinha ser engolida pelo bicho-papão. Ficaram desapontados.

O talento de Gabin não ofuscara a espontaneidade de Brigitte. Pela

primeira vez, falaram das qualidades de Brigitte como atriz, e não apenas de seu charme. Enquanto eu terminava As ligações perigosas, Brigitte estava fazendo Babette vai à guerra. Seu parceiro era Jacques Charrier, um jovem ator que começava a fazer nome. Era bonito, segundo os padrões tradicionais, e conseguira parecer-se com um requintado salafrário.

Ela se apaixonou novamente. No fim de maio telefonou-me:

— Vadim, preciso vê-lo.

Quando me chamava de Vadim, o caso era sério.

— Vamos jantar juntos — eu lhe propus.

— Não. Num restaurante não. Se Jacques descobre, ele me mata.

— E em sua casa?

— Você está louco?

Decidimos nos encontrar na Porte de la Muette, próximo ao Bois de

Boulogne.

— segurando uma rosa amarela.

Você

me

reconhecerá

disse

Brigitte

porque

estarei

—,

1 En cas de malheur. (N. do T.)

Cheguei em meu Ferrari. Estava chovendo. Brigitte já estava lá, esperando por mim. Lembro-me de que usava uma roupa de verão. Sentou-se a meu lado no Ferrari.

— Aconteceu — disse ela.

— Está grávida?

— Sim. De um mês.

Não estávamos longe de seu apartamento. Olhava, apreensiva, pela

janela de trás do carro. Liguei o Ferrari, engatei a segunda e fui dirigindo lentamente na direção do Bois de Boulogne.

— Ninguém entende por que estou com tanto medo de ser mãe —

disse ela. — Nem meus pais nem meus amigos. Você é o único com quem posso falar.

— Quer um endereço na Suíça?

— Não. Estou tentando pensar em todas as possibilidades — falou, olhando-me fixamente. — Será que sou um monstro?

— Por estar com medo de ter filhos?

— Claro. Gosto de cães, gatos, ratinhos e pombos, mas tenho

verdadeiro pavor de crianças.

— O fato de ter medo não significa que não possa amar.

— Você não está dizendo nenhuma bobagem. Mas isso não muda a

questão. Fico com a criança ou faço um aborto? Por um instante, entrei em pânico. Adoro crianças, e meu instinto me dizia que deveria aconselhá-la contra um aborto. Mas e se ela viesse a odiar a criança? E se morresse no parto? Eu iria causar a infelicidade de seres humanos em nome da moralidade? Sem romantismo, disse a mim mesmo: "Subconscientemente, ela já

decidiu ter a criança. Só está querendo um incentivo".

— Está com medo de perder seus atrativos com a gravidez?

— Estou. Mas esse não é o motivo principal.

— Você se ama? Ou melhor, você se respeita? Silêncio.

Ela então respondeu:

— Acho que sou muito melhor que três quartos da humanidade.

— Então não gosta dos homens?

— Gosto demais, e esse é o meu problema. Contive um sorriso e acrescentei:

— Eu estava me referindo à humanidade. — Acho que os homens são cruéis e

os mais

importantes geralmente são os piores. Nunca esquecerei que Eisenhower, o salvador da Europa, matou os Rosenbergs.

— Mas você amava os Rosenbergs?

— Sim, porque foram vítimas. Eu não os conhecia.

— E você ama Jacques? — perguntei-lhe.

— Boa pergunta. Sim. Acho que o amo. Mas achar que se ama

alguém não é o mesmo que amá-lo. Ele quer se casar comigo. Os homens são intragáveis. Desejam os olhares, os suspiros e as fraquezas que fazem o amor, mas têm de colocar tudo num papel. Um "sim" na cama não lhes basta. Precisam de um contrato. Bem, se

isso fizer Jacques feliz, vou dizer "sim" também ao juiz. Olhou para o painel do carro e perguntou:

— Quanto custou seu Ferrari?

— Uns vinte e cinco mil dólares.

— Vinte e cinco mil dólares! E não tem nem mesmo um rádio. Você foi logrado.

— Na verdade, paguei apenas três mil.

— Você o roubou?

— Não. Publicidade. Vou participar da Volta da França com

Bourillot daqui a oito dias.

— Está maluco? Eu o proíbo de fazer uma coisa dessas novamente.

Riu e acrescentou:

— Desculpe-me. Esqueci que não somos mais casados. Andávamos à beira do lago.

— Pare — disse Brigitte.

Saiu do carro e caminhou até o lago. Tirou alguns pedaços de pão seco dos bolsos de seu capote e alimentou os patos.

Esperei por ela no carro. Ela voltou e se encostou na lataria. A janela estava aberta.

— Alugamos um chalé perto de Chamonix — disse ela. — Bem nas

montanhas. Nenhum vizinho a quilômetros de distância. Foi incrivelmente romântico. Fizemos amor o tempo todo. Mas Jacques costumava trancar a porta do banheiro. Ele realmente quer ser pai. E aqui estou eu, grávida.

— Deve ter a criança, Brigitte. Se não tiver, vai passar o resto da vida fazendo a mesma pergunta a si mesma.

— E se eu não gostar dela? Ou se ela não gostar de mim?

— Ela terá um pai.

— Tem razão.

Em 18 de junho, Brigitte se casou com Jacques Charrier, em

Louveciennes. Em 11 de janeiro de 1960, deu à luz um menino, Nicolas.

16

Nos anos 50 o presidente de Gaulle governava uma nação traumatizada por duas guerras impopulares: a da Indochina e a da Argelia. Fora eleito para o poder por urna arrasadora maioria. Imagine o que aconteceria se os Estados Unidos, tendo sofrido a Guerra do Vietnam, encarasse uma nova guerra, dessa vez a apenas quarenta e cinco minutos de avião de suas fronteiras. A situação era ainda mais dolorosa para os franceses, pois dois milhões e meio deles viviam na Argélia há mais de um século e consideravam aquele país como parte da França. O interesse virou ansiedade, e passeatas se converteram em revolta pura. Boa parte do exército apoiava a causa desses franco-argelinos, chamados de pieds noirs. Falava-se de um ataque de pára-quedistas argelinos a Paris.

Tanques do exército bloquearam os aeroportos de Orly e Le Bourget. O governo estava em reuniões de emergência havia três dias. Nos Champs-Elysées, novecentas pessoas se aglomeravam diante das portas fechadas do Colisée. Não era uma caserna mas um dos mais modernos cinemas de Paris. Na multidão, entre dezenas de outras celebridades, estavam Audrey Hepburn e seu marido, Mel Ferrer. Eles me perguntaram se havia estourado alguma revolução. Tinham nas mãos um convite para a estréia de As ligações perigosas. — Não, essas pessoas não são agitadores perigosos. São meus convidados. O governo resolveu interditar a exibição do filme. Os censores não tinham se tornado mais brandos depois de E Deus criou a mulher. Muito pelo contrário. Com a República do general de Gaulle, a moralidade estreita tornara-se, mais do que nunca, a ordem do dia.

A batalha tivera início com alguns processos instaura-

dos contra mim pela Sociedade de Autores. "Não se pode brincar com a herança cultural da França", diziam eles, referindo-se ao livro de Choderlos de Laclos, que visara, precisamente, sacudir os moralistas e hipócritas de seu tempo. Meu advogado era François Mitterrand, atualmente presidente da França. Durante o julgamento, pediu permissão para chamar uma testemunha. — Ela já se registrou com o escrivão? — indagou o presidente da corte. — Não. Ela está morta. Mas deixou um testamento por escrito — respondeu Mitterrand. Leu algumas cartas escritas por Choderlos de Laclos, em que ele prevenia a posteridade contra os moralistas que viriam a se ocultar sob a herança artística de autores falecidos. François Mitterrand venceu a causa, abrindo um precedente.

O filme foi submetido à censura e proibido.

Edmond Tenoudji, o produtor, estava, compreensivelmente,

alarmado. Mas tínhamos um recurso legal. O ministro da Cultura era investido de um poder discricionário que lhe permitia anular a decisão da comissão de censura. Sugeri que apresentássemos o filme a André Malraux, o ministro da Cultura de De Gaulle. Malraux assistiu ao filme e o adorou, mas, tendo em vista o explosivo clima político da época, recusou-se a tomar qualquer decisão sem a concordância de um certo número de colegas seus.

A estréia havia sido marcada para uma quarta-feira. Tinham sido

enviados convites para grandes nomes das artes, da política e da

imprensa. Na terça-feira à noite, informaram-nos que as exibições particulares para o governo não se realizariam antes de quinta-feira, às nove horas da manhã. Tenoudji quis cancelar a estréia.

— Como vai avisar novecentas pessoas? — perguntei.

— Por telefone. Ou pelo rádio.

— Não. Não se preocupe. Os convidados voltarão se o filme for

aprovado na quinta. Pode imaginar uma publicidade melhor?

— Se houver um tumulto, enviarão a polícia. O ministro do Interior não quer a exibição do filme. Usarão a desordem nas ruas como pretexto para proibi-lo para sempre.

O argumento era válido, mas eu ainda achava que devíamos correr

o risco. Telefonei para Maurice Papon, o chefe de polícia de Paris, que concordou em encontrar-se comigo no Elysée-Matignon. Aliás, tenho ainda em meus arquivos uma foto desse encontro. Disse-lhe que era tarde demais para cancelarmos a estréia. Dada a irritabilidade dos parisienses na época, a visão de policiais armados

às portas fechadas do Colisée poderia provocar sérios distúrbios.

— Tenho de enviar mais de cinqüenta policiais. São ordens do

ministro — respondeu Papon.

— E ele ordenou que estivessem de uniforme?

Maurice Papon era um homem de cultura, um humanista com uma honestidade intelectual que normalmente não se espera encontrar num chefe de polícia. Prometeu-me que não haveria policiais uniformizados diante do Colisée. Mandaria os cinqüenta homens à paisana. No dia seguinte, apesar da imensa multidão e da atmosfera tensa, não houve incidentes. Na quinta-feira pela manhã, nove ministros assistiram ao filme. Foi uma exibição histórica, tendo em mente que o governo estava sentado numa bomba-relógio. Esse júri me absolveu por uma votação de cinco contra quatro. As ligações perigosas podia agora ser lançado. Bateu todos os recordes de bilheteria durante sua temporada. Annette também saiu vencedora, no fim de tudo. Conseguira segurar-se em meio a um elenco notável. Certos jornalistas criticaram-me, mas todos eles elogiaram os atores. Annette foi particularmente aplaudida por ser capaz de colocar-se em pé de igualdade com Gérard Philipe, Jeanne Moreau, Bóris Vian e Jean- Louis Trintignant. Sim, eu dera uma nova chance a Trintignant. Ele retornara do serviço militar e já fora substituído nas afeições de Brigitte por um novo amante. Annette assumiu sua nova profissão com seriedade. Ainda estávamos filmando nos estúdios Billancourt quando um jovem vestido com uma calça e um paletó surrados, impossíveis de descrever, veio até mim no bar do estúdio. Usava óculos escuros muito antes de os astros do rock os transformarem em moda. Murmurou seu nome, mas não tive a indelicadeza de pedir que o repetisse. — Tenho um papel para sua mulher — disse ele. Sempre estive aberto para ajudar os jovens que querem vencer na selva do mundo cinematográfico. Apesar de estar sendo pressionado no set, roubei algum tempo para conversar com ele. — Você tem um roteiro? — perguntei.

— Sim — disse.

Estendeu-me uma caixa de fósforos aberta. Pude decifrar algumas palavras: "Ele é um baderneiro. Obcecado pelos heróis dos filmes americanos. Ela tem sotaque. É vendedora do New York Herald Tribune. Não é um amor de fato, é a ilusão do amor. Acaba mal. Bem, não. No fim acaba bem. Ou acaba mal".

— É esse o roteiro?

— Sim. — E completou: — Fiz documentários. Sou um gênio.

Já tinha conhecido centenas de excêntricos, todos futuros gênios. Mas, por algum motivo, acreditei naquele rapaz. Pediu café, tirou um cubo de açúcar do bolso de seu paletó e o deixou cair na xícara. — Roubo açúcar dos bares — explicou ele. Diante dele havia um recipiente repleto de cubos de açúcar. Pelo que pude entender, o açúcar roubado era mais saboroso.

— Vou conversar com Annette — disse-lhe. Apontou para a caixa de fósforos e sugeriu:

— Mostre a ela o roteiro.

Falei com Annette sobre o assunto no set.

— Há um rapaz querendo que você atue em seu filme.

— Quem é ele?

— Não sei. Mas parece que sabe o que quer.

Ela havia lido em algum lugar que os grandes atores e atrizes nunca aceitam um papel antes de terem lido o roteiro final.

— Ele tem um script?

— Tem.

Mostrei-lhe a caixinha. Ela caiu na gargalhada.

— Você deveria conversar com ele — disse eu.

— Você está caçoando de mim.

Dirigi a seqüência seguinte e voltamos ao bar. O homem de óculos escuros ainda estava ali.

— Ela quer um roteiro com diálogos — disse-lhe eu.

— Ah, sim. Isso é natural.

Apanhou

agradeceu-me e foi embora. Meu assistente, Jean-Michel Lacor, que viera à minha procura, indagou:

— Você o conhece?

— Não.

— É Jean-Luc Godard.

Lamentei não lhe ter agradecido por sua crítica de

Aconteceu em Veneza. O roteiro que escrevera na caixa de fósforos viria a se tornar o filme Acossado 1 , com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, que fez o papel oferecido a minha mulher. Para o filme seguinte de Annette, tive a idéia de fazê-la interpretar uma vampira. Num papel desse tipo, sua beleza poderia encobrir a falta de experiência. Deveria ter procurado um analista para descobrir por que estava sacrificando minha carreira para satisfazer os desejos de uma beldade dinamarquesa que subitamente imaginara ser uma atriz. Depois do sucesso de As ligações perigosas, recebi vários convites e poderia ter dirigido uma importante produção internacional. Mas não fui ao analista e, no início de 1960, em Roma, comecei a rodar Rosas de sangue 2 , com Annette Vadim, Elza Martinelli e Mel Ferrer. Foi um trabalho estranho, um pouco avançado para seu tempo, embora tenha sido bem recebido por alguns devido a suas qualidades estéticas. Durante as filmagens, soube por meio dos jornais que Brigitte tinha dado à luz um filho. Fiquei curioso em saber como estaria reagindo ao fato de ser mãe. Quando terminamos o filme, decidi passar alguns dias esquiando em Klosters, na Suíça, antes de voltar a Paris para supervisionar a montagem. Eu reservara quartos no Chesa Kiruna, um hotel muito romântico e confortável, e não podia entender por que Annette

1 À bout de souffle. (N. do T.)

alguns

cubos

de

açúcar

do

recipiente,

levantou-se,

demonstrava tão pouco entusiasmo pela viagem. Uma semana depois de nossa chegada, começou a chover. Juntamente com Serge Marquand, nossos amigos Peter Viertel e o falecido Irwin Shaw, assim como uma charmosa mulher italiana, a condessa H., decidimos esquiar de qualquer maneira. A três mil metros de altitude, a visibilidade era quase nula e, para piorar as coisas, eu esquecera meus óculos. Achando que estava seguindo o rastro de Serge Marquand, saltei por sobre um penhasco e me vi descrevendo um movimento de queda livre. Aterrissei trinta metros abaixo na neve profunda. Estava tudo bem, exceto por meu tornozelo direito, que se quebrou em mais de dez partes. Vou omitir os detalhes do resgate no auge de uma tempestade, do retorno para a estação de esqui e da visita ao médico, que apenas engessou-me o tornozelo.

Já vivi nas montanhas. Durante dois verões fui membro do time de esqui do Espoirs de l'Équipe de France e estou bastante familiarizado com os problemas relativos a ossos fraturados. Se quisesse salvar meu tornozelo, havia uma única maneira: consultar um especialista imediatamente. Todos os vôos para a França

estavam lotados. A condessa H. ligou para Milão e falou com seu amigo Gianni Agnelli, proprietário da Fiat Motores, que enviou seu avião particular até Zurique. Algumas horas depois, eu estava no consultório do professor Robert Judet, em Paris.

— Temos duas opções — disse ele. — A operação tradicional, que

recuperará vinte por cento da mobilidade de seu tornozelo, ou a

aplicação de um método novo, que poderá lhe devolver a mobilidade quase completa.

— Há uma única escolha — disse eu.

— Até agora só experimentei o método em macacos — acrescentou Judet. — Você será minha primeira cobaia humana. Decidi ser sua cobaia.

A operação durou mais de quatro horas. Quando despertei, no meio

da noite, estava sozinho em meu quarto. Não foi Annette mas a srta.

Millet, babá de Nathalie, quem surgiu. — Madame saiu com nossa Pulga. Tomou o Trem Azul. Acho que para Saint-Tropez. Pulga era o apelido dado pela srta. Millet a nossa filha. Terão sido os efeitos colaterais do Pentothal o que abriu as portas de meu subconsciente? Não sei, mas a verdade se tornara, de repente, óbvia, cristalina como a luz do dia. A exorbitante conta telefônica de Roma, as mudanças no estado de humor de Annette, sua falta de entusiasmo por nossa ida a Klosters, tudo isso conduzia a um nome:

Sacha Distei. Esse jovem cantor, muito comentado nos últimos meses, fora visto freqüentemente com Annette quando eu tinha ido aos Estados Unidos. E, tal como Hollywood e Nova York, Paris é uma província: não há segredos. Ao voltar, indaguei a minha mulher se era uma ligação inocente. Annette estourou numa gargalhada: "Você está maluco! Sacha é um

bom amigo, e isso é tudo". Esse "bom amigo" já fora notado pela imprensa por ocasião de seu nada discreto romance com Brigitte Bardot. Decepcionada com sua aventura com X, ela resolveu se consolar nos braços desse cantor fisicamente atraente, então desconhecido, mas não destituído de talento. A graciosa casa que ela acabara de comprar em Saint- Tropez, na baía de Cannoubiers, foi um ninho aconchegante para esse novo e grande caso de amor.

A imprensa realizou, imediatamente, o "noivado" de Brigitte com

seu cantor, que passou a ser o "sr. Bardot". Ed Sullivan convidou-o a

ir a Nova York para cantar em seu show. Mas não foi o charmoso

cantor francês Sacha Distei quem Sullivan apresentou para quatro milhões de telespectadores; foi o "homem mais sortudo do mundo", o homem que tinha Brigitte Bardot nos braços. Uma surpresa esperava por Sacha ao retornar a Paris. Em sua ausência, Brigitte conhecera Jacques Charrier. Mas, se Distei perdeu

sua noiva, não tinha perdido seu tempo. Seu nome logo iria brilhar

nos neons das marquises do music hall. Confinado a minha cama de hospital, eu revirava essas imagens na mente. Sacha parecia ter uma forte inclinação por minhas mulheres. Era um tributo ao meu bom gosto que eu dispensaria de bom grado. Eu insistia com os amigos que me visitavam para que me contassem quais eram as fofocas. Eles me confirmavam que Annette fora de Paris para a Côte d'Azur com Sacha Distei. Poderia ter escolhido uma ocasião melhor, pensei.

— O que vai fazer? — perguntou-me Claude Brûlé, um bom amigo meu, que era jornalista do Paris-Presse.

— Vou me divorciar — respondi.

Na manhã seguinte, a notícia apareceu em primeira página. No outro dia, Annette estava de volta a Paris. Tomou o primeiro avião assim que leu a notícia. Entrou em meu quarto, com Nathalie, e começou a chorar. — Pipfugl, não é possível. Não pode nos abandonar.Deixei o hospital, de muletas, dez dias depois, sem saber se meu tornozelo responderia à operação tão bem quanto os dos macacos do dr. Judet. Mancar ou não mancar, essa era a questão. Acabara de alugar um apartamento no nono andar de um moderno edifício da Avenue Ingres. As janelas davam para o Bois de Boulogne. A vida com Annette e Nathalie voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Com um sincero desdém pela lógica, ela se tornou ferozmente ciumenta. Esquecendo seu recente caso com Sacha Distei, era capaz de arrancar de minhas mãos o último número de Vogue caso eu estivesse demonstrando interesse em demasia pelas fotos de alguma modelo exuberante.Em maio, Brigitte começou a filmar A verdade 1 , com Henri-Georges Clouzot, o grande mestre do suspense e do film noir. Como diretor, ficou bastante conhecido em toda parte por As diabólicas 2 .

1 La vérité. (N. do T.)

Clouzot pertencia àquela estirpe de diretores que via na tortura a

maneira ideal de extrair o que há de melhor num ator. Sua crueldade era particularmente reservada às atrizes. Com Brigitte, no entanto, escolheu a vítima errada. No terceiro dia de filmagem, no meio de uma tomada, ele a agarrou pelos ombros e sacudiu-a violentamente, berrando:

— Não preciso de amadores em meus filmes! Quero uma atriz!

Brigitte não tolerava nenhum tipo de agressão física. O fato de o agressor ser um gênio não a impressionava nem um pouco. Esbofeteou o diretor em ambas as faces, na frente da equipe petrificada. — E eu preciso de um diretor. Não de um psicopata. Feito isso, deixou o set. Como muitos sádicos, Clouzot não podia resistir aos prazeres do masoquismo. Alguns anos antes de morrer, admitiu para mim:

— Foi a primeira vez que uma mulher me bateu em público. Eu

adorei! As filmagens prosseguiram sem outras confrontações físicas. Mas eram difíceis e desgastantes. Brigitte, que ainda não estava acostumada à tirania do diretor, sofreu um bocado. Sua vida emocional seguia o ritmo vacilante de costume. Durante as filmagens de E Deus criou a mulher, ela se apaixonara por Trintignant. Durante Babette vai à guerra, apaixonara-se por Charrier. Assim, em A verdade, apaixonou-se por seu jovem parceiro. Sami Frey tinha todos os atributos necessários a um sedutor: olhar penetrante, sorriso tímido e devastador, um charme dos diabos. Seria um perigoso terrorista ou um poeta perdido num mundo cruel? Cabia às mulheres decidir. Faltava-lhe humor, talvez, mas não mistério. E Brigitte se derreteu por ele. Estava casada havia menos de um ano, era mãe havia apenas quatro meses, mas seu coração novamente lhe aplicou um golpe sujo. Como sempre, caiu em pânico porque tinha de fazer uma escolha.

Pediu-me que fosse até o estúdio para vê-la. "Algo deve estar andando mal", pensei. Brigitte nunca me chamava apenas para manter-se em contato ou para contar as boas novas. Encontrei-a em seu camarim, com os pés apoiados sobre a

penteadeira. Vestia um roupão e estava comendo um sanduíche de ovo e alface, acompanhado de vinho rosé.

— Vava, que bom que veio me ver! Beijei-a.

— Afinal, não cortaram fora sua perna. Ainda estava caminhando de bengala.

— Pedi vodca e caviar para você.

Percebi que havia cento e vinte e cinco gramas de ovas de esturjão de Petrossian e uma pequena garrafa de vodca sobre a bancada da penteadeira. — O sujeito está me deixando louca. Adivinhei que estava se referindo a Clouzot.

— Não é preciso enlouquecer as pessoas para ser um bom diretor — disse ela. — Ah, e que idade tem sua filha?

— Dois anos e meio. Diga-me, que tal ser mãe?

— Acredite se quiser, mas não sinto nenhuma diferença. Nem por um momento e de modo algum. Estou esperando que cresça para ver como iremos nos dar.

Depois de minha terceira colherada de caviar, começou a falar de seu real problema. Estava apaixonada por Sami Frey, mas não podia suportar a idéia de abandonar Charrier.

— Mesmo assim, não vou ficar pulando de um amante para outro

até ficar velha. Se os homens fossem como o sol, poderia passar o resto da vida deitada, bronzeando-me em paz. Mas com os homens tenho de estar sempre em movimento. Levantou-se. O roupão abriu-se parcialmente sobre o corpo perfeito, que a maternidade não alterara em nada. Sua figura ainda desafiava as leis da gravidade: o macio abdômen não estava flácido nem demasiadamente arredondado, as coxas estavam firmes e longas. Abraçou-se a mim.

— Vadim, estou tão infeliz! — disse ela.

A estrela não conseguira ainda eclipsar a menininha Brigitte.

Odette, sua maquiladora e confidente, entrou no camarim e começou a retocar a maquilagem, que já se desmanchava. Levou dez minutos para consertar o estrago. Eu não podia ajudar Brigitte. Além disso, ela não queria conselhos. Queria apenas desabafar e ser reconfortada sem receber críticas. Por isso, continuava apegada a mim. Eu não a julgava.

Minha linda esposa dinamarquesa ainda não se esquecera totalmente de Sacha Distei. Fez tentativas louváveis, porém sua força de vontade era tão frágil quanto uma pluma ao vento. Era um manual ambulante de boas intenções, que raramente punha em prática.

Eu havia fascinado aquela garota apesar do fato de muitos homens correrem atrás dela. Eu a introduzi num mundo que ela pensava compreender, mas que estava além dela. Transformei-a numa estrela, mas ela confundiu talento com fotos em revistas. Mostrou ser vulnerável a conselhos de pessoas falsas, especialistas em destruir o equilíbrio sempre delicado de um casal. "Está vivendo à sombra de um diretor famoso", elas lhe diziam. "Tem de tomar as rédeas de sua própria vida." Com Sacha Distei, achou que estava declarando sua independência e ficou intoxicada de poder. Annette atravessava os primeiros estágios da famosa "crise de identidade", que era o slogan das mulheres nos anos 60. Detestava estar sempre associada à imagem de Brigitte, e eu a compreendia. As pessoas a consideravam uma criação minha; ela queria ser uma deusa por si mesma. Mas, como outras profissões, a de deusa deve ser aprendida e merecida. Esqueceu, ou melhor, não entendia isso.

Esperando que o tempo a dotasse de uma imagem mais sóbria de si

e do mundo, sugeri que me acompanhasse ao Taiti, onde eu iria escolher algumas locações para um projeto da Paramount.

Iriam fazer um filme baseado na novela de Serstevens, Satan. A viagem foi uma aventura maravilhosa. Os taitianos e suas ilhas não tinham ainda sido poluídos pela bomba atômica francesa nem pelo filme O grande motim 1 ,