A FUNÇÃO SOCIAL DA ESCOLA E A AVALIAÇÃO COMO INSTUMENTO FACILITADOR DO PROCESSO ENSINO E APRENDIZAGEM1 Zulsi Maria Teixeira Rohr2

Resumo

O presente estudo surgiu da constatação da dificuldade demonstrada por professores em discutir e problematizar as questões relacionadas à função social da escola e a avaliação. A escola, lugar de formação é um locus privilegiado para a reflexão sobre as causas do fracasso escolar e as conseqüências sociais dele decorrente. Os elementos da pesquisa revelaram as contradições existentes na concepção de avaliação dos professores e a função da escola enquanto instituição eminentemente promotora de avanços no sentido da aquisição de conhecimentos necessários à conquista da cidadania. A pesquisa também revelou a dificuldade em se construir uma ponte entre teoria e prática, principalmente no que diz respeito ao processo de avaliação. Os resultados demonstraram que pouco se tem arriscado no sentido de modificar a prática avaliativa e que, consequentemente o fracasso escolar resultante de uma prática equivocada vem se perpetuando décadas após décadas. A preocupação, por parte de alguns professores em desenvolver metodologias diferenciadas de avaliação, não atinge, ainda, a totalidade dos professores que, mesmo defendendo um ensino mais democrático, não compreendem que, para que este se efetive, é necessário que se tenha também, uma postura democrática diante da avaliação utilizada na escola. Tendo em vista os constantes questionamentos de que são alvo a avaliação e o fracasso escolar, um dos caminhos possíveis para chegar a uma metodologia que corresponda aos desafios de uma escola competente e democrática é conhecer com maior profundidade e objetividade os avanços, as deficiências e as limitações enfrentadas pelos educadores em sua prática pedagógica. Palavras-chave: função social da escola, avaliação escolar, fracasso escolar, trabalho professoral.

Abstract

1

. Artigo apresentado como trabalho final ao Programa de Desenvolvimento Educacional – PDE, sob a orientação da Profª. Drª. Monica Ribeiro da Silva da Universidade Federal do Paraná. 2 . Professora da Rede Pública Estadual do Paraná, PDE 2008 – e-mail - zulsi@seed .pr.gov.br

THE SCHOOL’S SOCIAL FUNCTION AND THE ASSESSMENT AS AN INSTRUMENT THAT FACILITATES THE TEACHING AND LEARNING PROCESS This study came up from the verification of difficulty shown among teachers when discussing and questioning issues related to the school’s social function and assessment. The school, a formation place, is a privileged place for reflection about the school failure reasons and its social consequences. The research elements have revealed the contradictions between teachers’ assessment conception and the school’s function as an institution that creates advance on the acquisition of necessary knowledge to conquer citizenship. The study also revealed the difficulty on making a connection between the practical and the theoretical, mainly on the assessment process. The results demonstrate that there are not enough attempts to modify evaluation’s manner and therefore the school failure, as a result of a mistaken manner, is perpetuated decades after decades. The concern among some teachers on developing different evaluation methodologies still doesn’t include the totality of teachers, which, even defending a more democratic education, don’t comprehend that, to achieve it, it’s necessary to have a democratic attitude about the evaluation used in school, as well. Analyzing the questioning about the assessment and the school failure, one of the possible paths to achieve a methodology that corresponds to the challenge of a competent and democratic school is to know deeper and objectively the advances, deficiencies and limitations endured by teachers on their pedagogical practice. Key words: school’s social function, school assessment, school evaluation, school failure, teacher’s work.

Introdução 1- A função social da escola X avaliação da aprendizagem

As possibilidades e limites do processo avaliativo são há muito questionados pela dogmática pedagógica para estabelecer a função social da escola. A maior controvérsia nesse assunto situa-se na dicotomia avaliação versus função social da escola, uma vez que o processo avaliativo muitas vezes se distancia de seu objetivo precípuo – qual seja, o de mensurar o conhecimento adquirido pelo aluno – e com isso não permite que a escola exerça a função social a que se destina.

2 . Neste contexto pretendeu-se. uma das principais tarefas dos professores e especialistas em educação. . Com isso.quando da divulgação da ementa/conteúdos a serem exigidos para o concurso público para professores. existem hipóteses sobre o fracasso escolar que devem ser consideradas. O interesse pelo tema para elaboração desta pesquisa foi motivado pelos questionamentos direcionados à equipe pedagógica da escola pelo corpo docente sobre o significado do assunto . interpretá-lo e pensar propostas para tentar resolvê-lo é hoje. examiná-lo. Segundo Arroyo 1997. Com o objetivo de analisá-las de modo que contribuam para a reflexão sobre a função social da escola. Inúmeras teorias e hipóteses são utilizadas como meio de justificação para esse fracasso escolar.EFMP para que se pudesse melhor observar o estudo teórico.Fracasso escolar. perde-se muito na formação de cidadãos que possam exercer plenamente seus direitos e. demonstrar os dados práticos obtidos quando da observação in loco do Colégio Estadual Professora Dirce Celestino do Amaral. as aproximações possíveis Refletir sobre o fracasso escolar. outrossim. uma delas se refere à existência de “uma indústria. seleciona e exclui por meio da atribuição de notas. examinar a avaliação dos alunos para que se pudesse conferir à prática pedagógica um referencial crítico-teórico no contexto da nossa atual escola. ainda. conseqüentemente.A prática conservadora da avaliação implica no desfavorecimento dos alunos enquanto os classifica. é que se desenvolveu a presente pesquisa. Ao aprofundar o estudo sobre a avaliação escolar e sua importância como instrumento auxiliar do processo ensino e aprendizagem vislumbramos uma escola comprometida com o sucesso dos alunos. Almejou-se. não se verifica a função social preconizada pelo Estado.

semestral. (OLIVEIRA. 1994. p. nem sempre encontram sustentação na prática. Avalia-se para dizer quem passa e quem permanece. rotulando-o. para fazer julgamento final (mensal.3) A função social da escola e o compromisso ético do professor não é tornar um aluno melhor que o outro. uma passagem da concepção conservadora para a progressista. mas em função do próprio aluno. são práticas autoritárias. para classificar os alunos em bons / ótimos / fracos. É importante. anual). bimestral.uma cultura da exclusão” enquanto outra considera que “a cultura da exclusão está materializada na organização e na estrutura do sistema escolar. para atribuir-lhes nota dez (10). como indicação do estágio alcançado pelo aluno e da distância em que se encontra em relação ao padrão de referência determinado. Percebe-se que no discurso de muitos educadores a participação e a aplicação da avaliação são fatores relevantes. haja vista o grande interesse que desperta o tema nas jornadas pedagógicas. não em função do grupo. a teoria e o discurso desandam e o que se verifica. para o processo de mudança dessa mentalidade. cinco (5. mas trabalhar para que cada um deles se torne um cidadão capaz de entender a realidade em que vive e saiba lutar pelos seus direitos. acompanhando passo a passo o processo. Porém ao chegar à hora de colocar isso em exercício. É preciso ousadia para romper com os laços do continuísmo. Embora as teorias que se propõem a embasar o sistema educacional brasileiro sejam de concepções progressistas. Também é preciso compreender que começa a acontecer uma mudança. não classificar o professor dentro dessa ou daquela tendência.” As duas hipóteses encontram respaldo na prática avaliativa desenvolvida pela maioria dos professores.0) ou zero (0). da verificação) está vinculada à medição da quantidade de conhecimentos adquiridos pelo aluno. grupos de estudos e proposições de projetos acadêmicos. a prática de avaliação (ou melhor. exceto em raras exceções. segundo Oliveira : A avaliação como ato final para aprovar/reprovar é característica marcante na escola conservadora. mas perceber que cada uma delas exerce uma influência nas ações do professor e nas formas de avaliar o aluno e o seu próprio trabalho. A mudança de concepção leva o professor a encarar a avaliação como diagnóstico do desempenho do aluno. Para muitos professores. É o porquê se avalia. .

Somente uma prática pedagógica competente. tendo em vista a definição de encaminhamentos adequados para a aprendizagem. O compromisso principal da escola é o de fazer com que os indivíduos se apropriem dos conhecimentos produzidos pela humanidade para que por meio deles escrevam sua própria história e gerem suas próprias alternativas de ação. no sentido de verificar a eficiência dos elementos que permeiam a prática pedagógica bem como o seu desempenho. Também para o professor. assim se pronuncia Oliveira a respeito: Avaliar parece ser a questão mais clara para o professor conservador que supervaloriza o instrumento formal único: a prova. afinal por todos. 1994. p. O resultado é construído passo a passo. Ainda sobre prática pedagógica conservadora. a valorização da própria aprendizagem. que se preocupam em registrar muito mais o resultado. assumam responsabilidades. Uma concepção de avaliação que leve em conta a autonomia. bem como reflitam sobre as conseqüências de seus atos. A avaliação representa um dos pontos mais importantes para que a função social da escola se efetive. visto que o modelo atual é inadequado e tem como alvo o julgamento e classificação dos alunos. as grandes armas da escola e do professor. poderá ser aceita como . ainda. ou seja. através de notas ou menções. A manutenção do clima de tensão. o medo. A partir desses resultados.4). o professor tem a possibilidade de melhorar a compreensão dos alunos e do processo ensino-aprendizagem em sua totalidade. preocupação da escola progressista. parecem ser. resolvam problemas e conflitos. ( OLIVEIRA.Impõe-se pensar em como se efetivaria esse novo olhar sobre a educação. que leve ao sucesso todos os alunos. o dia-a-dia. emancipando-se e se tornando cidadãos. Na escola progressista começa a existir a valorização de outros instrumentos que não a prova: a observação do desempenho. do que avanços e retrocessos do aluno. muitas discussões vêm ocorrendo entre educadores(as) em relação a função social da escola e à necessidade de se promover mudanças no processo de avaliação do ensino aprendizagem. deve servir aos alunos como um instrumento de diagnóstico de sua própria situação. pelo professor e pelo aluno. a avaliação é importante. pois os resultados obtidos pelos alunos poderão contribuir para a análise reflexiva. No atual contexto educacional.

deixando à margem outras dimensões importantes como a social e a política. Fora desta ou contra esta. mas sim de levá-lo a conhecer-se melhor verificando o que sabe ou não sabe. os domínios requeridos. ( ARROYO. recoloca como central a relação entre formação e as disciplinas e os tradicionais processos de avaliação. pouco conhecemos acerca do desenvolvimento deste processo no interior da escola. não possui uma finalidade em si. nesta concepção. ela subsidia um projeto que visa a um resultado previamente definido. O aluno deve sentir que a avaliação não é somente uma obrigação. O professor não deve utilizar a avaliação como um instrumento para o exercício do autoritarismo e para o abuso do . a avaliação da aprendizagem. a aprovação-reprovação só adquirem sentido enquanto materializam um percurso formador diferenciado conforme a idade e a vivência sociocultural. O aluno. mas uma ação importante e necessária. Sendo assim. no caso específico. Arroyo reforça a função social da escola e a importância da avaliação quando evidencia que: Essa ênfase na escola como experiência sociocultural. mas reconhecemos que eles são meios para atingir determinados fins. A retomada da velha função da escola – educar – leva a velha função docente – ensinar -. Todavia. 1997. Como conseguem essas disciplinas e esses processos materializar a formação que se busca? Que eficácia e que limites impõem a um projeto de formação básica? Enfatizada a função formadora da escola ou o direito à educação básica. aprovadas ou reprovadas tendo por referência o direito à formação. as próprias disciplinas sua gênese e função passam a ser avaliadas. Os conteúdos disciplinares. seja avaliada como um dos componentes dessa função educativa mais ampla. entendemos que a avaliação não se restringe ao uso de testes ou de provas. A avaliação em geral e. comprometida com o projeto pedagógico da escola e com estratégias que conduzam a um diagnóstico eficaz para a continuidade das ações de formação dos sujeitos. formadora.24) Partimos do pressuposto de que a avaliação só é válida se for considerada como elemento integrante do processo de construção do conhecimento. sobretudo no que se refere à construção de instrumentos válidos e fidedignos. p. A avaliação escolar tem sido enfocada principalmente em sua dimensão técnica. deve estar consciente de que a avaliação não tem a finalidade exclusiva de obtenção de nota.instrumento de formação e emancipação. a função docente perde o sentido.

Apesar de todo esse conhecimento já pesquisado e sistematizado sobre a influência desses fatores no processo avaliativo. A prova disso são os índices inaceitáveis de reprovação e evasão na escola pública. A produção e a utilização do conhecimento em avaliação têm um grande potencial de pesquisa e de diagnóstico para o estudo sobre o fracasso escolar. Sabendo-se que todos estes aspectos interagem e influenciam na avaliação conclui-se que nenhum deles pode ser desconsiderado pela relevância que exerce sobre o processo educativo. pois que professor não sabe que “a avaliação é um processo contínuo que visa o diagnóstico.poder. mesmo este conhecimento estando disponível. É como rever um velho seriado. p.são inúmeros. mas é observado que. que já não disse “n” vezes para seus alunos que o importante não é a nota mas sim a aprendizagem. mesmo que aquele seja muitas vezes defendido.” (ARROYO. Se o discurso resolvesse não teríamos mais problemas com a avaliação. técnicos. ou ainda. econômicos. p.”? (VASCONCELOS. Mudar de discurso e falar em sucesso escolar resolverá o problema? Temos que reconhecer que o tema vem sendo recolocado nas preocupações dos profissionais da educação. mas a prática ainda é conservadora. não é garantida a sua posse por docentes e especialistas. 1997. vale lembrar que a mudança de mentalidade se expressa através da prática. “Falar em fracasso escolar não resulta atraente para os educadores. afetivos e tantos outros. tais como: fatores sociais. É comum observar que o discurso dos professores é progressista. por conseguinte na avaliação escolar . protegido e exigido pela escola. A prática pedagógica e as reflexões dos professores(as) têm revelado as dificuldades enfrentadas nas questões da avaliação na escola. . e marcadamente entre os filhos de famílias mais fragilizadas economicamente onde esse fracasso é mais freqüente. psicológicos.11). 1994. 53). As causas do fracasso escolar são muitas e os fatores que interferem na aprendizagem – e.

a não ser quando esse ‘bem comum’ pode ser uma premissa necessária para manter e reforçar as classes dominantes. citada por Carneiro: Não é necessário dizer que a educação imposta pelos nobres se encarrega de difundir e reforçar esse privilégio. Vale questionar. conforme acima mencionado. vale lembrar a lição de Ponce. até que ponto a permanência dos educandos e a qualidade da educação é suficiente à formação de todos que na escola ingressam. 2001. Nesse contexto. sobre o lugar que ele atribui aos indivíduos. É mister. aprendizagem e avaliação e que se aperfeiçoe e consubstancie a educação do indivíduo. Uma vez constituídas as classes sociais. ensino. portanto. pautar-se nas premissas que reforçam somente o trabalho. a riqueza e o saber. de forma elitizada. Isso nos leva a interrogar sobre o próprio modelo educativo escolar. Para estas.Historicamente a educação escolar foi construída a partir de interesses coloniais. mais ela é julgada adequada. Atualmente. o trabalho e a ignorância. à sua singularidade . outro conflito a ser analisado é a ideologia que associa a pobreza material à cultural e a recolocação do problema da escola pública enquanto direito de todos de acesso ao conhecimento elaborado. Sobre o assunto Dubet se pronuncia e pergunta: o que é uma escola justa? Sabemos que uma escola que destruísse e humilhasse os vencidos não seria justa. o Estado concede a todos os indivíduos o direito de freqüentar a escola. a realidade social e educacional requerem o enfretamento e a superação dos paradigmas existentes entre o direito fundamental à educação – defendido constitucionalmente pelo Estado – e a realidade material quando se trata da aplicação desse direito. passa a ser um dogma pedagógico a sua conservação. Já nem tudo o que a educação inculca nos educandos tem por finalidade o bem comum. de modo que se perpetuasse o modelo econômico há época existente. todavia. que o Projeto Político Pedagógico traga em seu bojo as concepções de conhecimento. e quanto mais a educação conserva o status quo. aos seus projetos. política e econômica sem. Nesse ínterim. contudo. à sua vida social. Indubitavelmente. p. (PONCE. para as outras. 28) Assim. para que se realize a função social da escola importa que esta possua um Projeto Político Pedagógico que considere a realidade social.

a utilidade da formação e a própria justiça das regras de seleção. a escola . O professor pela experiência sabe o que é importante ser ensinado. Como garantia de preservação desse modelo. as dimensões éticas da educação se tornam um bem de justiça. mas a metodologia o é.80). consequentemente trabalhando com quantidades.independentemente de sua performance. Essa avaliação quantitativa é denominada por Luckesi de “um contrabando entre qualidade e quantidade”. Uma avaliação consequente diminui ou minimiza os riscos do fracasso escolar. Portanto. é: AVALIAR PARA QUÊ? Já que a avaliação está tão comprometida com o sistema. nesse caso. Contrabando. . seleciona. p. por isso. 1994. entendemos que o não sucesso de uma grande parte dos alunos na escola é resultado de um modelo teórico de mundo e de educação. da mesma maneira que a cultura comum. o modo como o professor vai fazer para que os alunos aprendam mais e melhor os conteúdos é uma questão a ser discutida. que se concretiza na prática pedagógica. p. a prática escolar predominante hoje se realiza dentro de um modelo teórico que pressupõe a educação como um mecanismo de conservação e de reprodução. (LUCKESI. não seria melhor elimina-la da escola? Seria isto possível e desejável? A questão básica é avaliação ou o tipo de avaliação que se vem fazendo? (VASCONCELOS. Desse modo. (DUBET. p.15).43).por meio da ideologia dominante – pratica uma concepção de avaliação que defende o uso de notas e conceitos.1995. Sendo assim. Sobre a questão da avaliação e da nota Vasconcelos destaca seu posionamento ao dizer: A grande questão que se coloca. no sentido da marginalização e inculcação ideológica. é a equivalência numérica expressando quantidade ao invés de qualidade. o conteúdo não é negociável. depois da análise do problema. uma vez que estará voltada diretamente aos conteúdos não dominados e não para o que deveria produzir como resposta ao programa e as tarefas dele decorrente. 2008. classifica. Em outras palavras. exclui.

Importa ressaltar que a problemática enfrentada. somente pode ser melhor tratada quando do conhecimento desses fundamentos pedagógicos e análise das práticas desenvolvidas pelos professores. resolver problemas e conflitos e refletir sobre as conseqüências dos seus atos. portanto. assumir responsabilidades. CROCETTI.3 – O uso da avaliação na escola Para que se possa inferir na prática a utilização dos conceitos e realidades acima mencionados. O exame das práticas pedagógicas vivenciadas durante o Conselho de Classe no Colégio Estadual Professora Dirce Celestino do Amaral. faz-se necessária a apresentação dos fundamentos pedagógicos insertos no Caderno Temático “O enfretamento do fracasso escolar: problematizando a função social da escola. que o processo avaliativo não cumpre com a função social da escola e favorece ao modelo ideológico vigente. a avaliação e o trabalho docente” (ROHR. tornar-se cidadão.EFMP. 2008). a discussão em torno do sucesso ou do fracasso dos alunos perpassa pela revisão da função da avaliação escolar. percebe-se o alto índice de alunos reprovados e/ou desistentes – principalmente no período noturno. GODOY. Uma análise reflexiva acerca da função social da escola e dos resultados do aproveitamento escolar da escola pública leva a um questionamento básico: a avaliação escolar praticada pelos professores viabiliza o cumprimento da função social da escola? Se a função social da escola é proporcionar aos indivíduos aprender os conhecimentos produzidos historicamente pela humanidade para por meio deles poder opinar. o alcance da função social da escola. Ao se discutir os resultados do aproveitamento escolar coletados nas escolas públicas nos últimos anos. Deduz-se. qual seja. CAMPOS. ou seja. no primeiro bimestre. emancipar-se. o currículo. possibilitou a visualização mais abrangente dos resultados da avaliação da aprendizagem e a constatação de que os mesmos não .

205). 1988. A ultrapassagem de domínios preestabelecidos em cada disciplina e em cada série é precondição para a manutenção ou a perda irrecuperável do direito de uma experiência sociocultural formadora.correspondem ao compromisso da função social da escola. oriundos de diferentes grupos sociais. (ARROYO. por meio da análise dos resultados dos Conselhos de Classe das escolas. mesmo com o avanço da consciência do direito à educação básica. Constata-se. os quais refletiam os valores e as crenças que se desejavam preservar. 1997. continua a ignorar esse direito ao desenvolver uma concepção de avaliação que seleciona e exclui. . é inevitável que receba influência das épocas. constata-se que a escola que tem o direito de promover o desenvolvimento humano e preparar para a cidadania. as relações entre as pessoas. Sendo a escola uma instituição inserida numa sociedade. A escola como instituição . o tempo traz mudanças que se fazem sentir por diversos níveis: mudam os modelos teóricos e com eles os conceitos.não como boas vontades de seus mestres . seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A incursão pela história acerca da função social da escola. nossa forma de ver. Continua aquela estrutura piramidal.mantém a mesma ossatura rígida e excludente já faz um século. visto que o índice de aproveitamento dos alunos é muito baixo. ao reproduzir o fracasso escolar de uma grande maioria dos alunos. permite identificar uma concepção de educação presente em cada momento histórico. Art. Isto posto. as práticas.13). fica claro que. de pensar e interagir com o mundo. preocupada apenas com o domínio seriado e disciplinar de um conjunto de habilidades e saberes. Em todas as áreas da atividade humana. percebe-se muitas vezes sua utilização como meio de legitimar os interesses políticos e culturais. Os estudos mostram que os resultados abaixo da média obtidos pelos alunos da educação básica das escolas públicas e a repetição desses resultados medíocres não garantem esses direitos. p. que as mesmas não têm estrutura pedagógica para garantir que se cumpra o direito constitucional de educação como direito de todos para o “pleno desenvolvimento da pessoa. (BRASIL.

ora consistem no anseio do governo em resultados (aprovação dos alunos sem parâmetros). sem deixar de considerar como importante e causa do sucesso e dos desacertos da prática pedagógica. os professores manifestam-se de formas diferentes. elementos que compõem a especificidade do trabalho pedagógico. Fato é que os professores sentem-se . O modelo de escola que perseguimos é o que tem como horizonte uma prática pedagógica coerente com os ideais de cidadania plena. As indagações que permeiam o sistema educacional atingem diretamente a relação professor-aluno.Em educação as coisas não são diferentes.2) “No contexto contemporâneo. Questionados sobre quais as questões que possibilitam os avanços e quais os limites que impossibilitam uma prática pedagógica competente. Schwendler. Silva.7). p. A escola que não oferece os recursos tecnológicos suficientes e alunos desinteressados também se configuram como justificativas para a prática pedagógica ineficiente. as dúvidas são muitas e de natureza diversa. distante da função social que deveria exercer. 2005. onde os elementos que constituem a especificidade do trabalho pedagógico estejam voltados para a função social da escola. ou seja. Gouveia. (2005. no dizer de Souza. SILVA. principais sujeitos das incertezas do ato avaliativo. GOUVEIA. o planejamento e o currículo. ao mesmo tempo em que se busca ampliar estes espaços e tempos – da formação de homens e mulheres capazes de exercer plenamente sua cidadania”. Para a maioria dos professores a função social da escola nem sempre está muito clara. Neste setor. Em nossa vida profissional somos atingidos diariamente por infindáveis perturbações de natureza didático-pedagógica referentes à metodologia de ensino e consequentemente à prática avaliativa. p. (SOUZA. Muitos desses discursos são desculpas que objetivam validar a catastrófica situação do ensino público. um dos elementos definidores da função social da escola é a garantia – nos espaços e tempos disponíveis. SCHWENDLER. com falas desencontradas: ora os elementos para argumentar o fracasso na aprendizagem se concentram em fatores fora da relação ensino e aprendizagem (como desinteresse das famílias e drogas).

Ou seja. p. 2001. cabe à escola.impotentes para exercer o seu papel docente atuando como mediador entre o saber escolar e os alunos. um trabalho organizado de construção de um Projeto Político Pedagógico baseado em princípios socializantes e democráticos para que não se torne um instrumento alienante. Com este mesmo intuito. O baixo aproveitamento escolar dos alunos comprovados pelos dados estatísticos divulgados pelo MEC/INEP. 2003). 41). relatório SAEB 2001 e SAEB 2003. Tomando-se esses dados por base. Dentro de suas possibilidades. são confirmados por meio da análise dos resultados das práticas pedagógicas visualizadas através dos Conselhos de Classe. é necessário refletir sobre as possíveis causas que justificam tão baixo rendimento na aprendizagem. (BRASIL. substituir o atual modelo baseado no capitalismo selvagem por uma organização social desprovida de exploração e substituir. com gestão compartilhada. democrática. principalmente nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática comprovam o desempenho crítico e muito crítico dos dados do SAEB 2001 e SAEB 2003. . na escola. fora da realidade para a qual se destina. é mister constatar-se que os mesmos não correspondem ao compromisso da escola com a formação de cidadãos críticos e comprometidos com uma organização social mais justa e democrática. Segundo Luckesi “a reversão implica em romper com o atual modelo de sociedade e com a pedagogia que o traduz”. 1995. Alguns avanços nas discussões sobre como ensinar mais e melhor para reverter os índices do fracasso escolar apontam para a necessidade de se romper com a atual organização do trabalho pedagógico que se encontra enraizada no contexto escolar e se fundamenta no modelo liberal conservador. A ação norteadora desta organização deve ser o compromisso com uma prática pedagógica que dê conta de promover os sujeitos envolvidos no processo ensino e aprendizagem. (LUCKESI. o autoritarismo e a centralização das decisões por uma organização mais aberta. Os gráficos abaixo apresentam o desempenho do primeiro e do segundo bimestres/2009 de uma turma de primeiro ano do Ensino Médio noturno do Colégio pesquisado e os dados apresentados.

portanto. Nesse contexto. que a avaliação pedagógica não condiz com o escopo da função social pretendida. Língua Portuguesa. Depreende-se. uma vez que não possibilitou aos alunos a compreensão dos conhecimentos repassados pelos professores. Infere-se.A realidade da prática educativa é exposta mais facilmente a partir da análise gráfica. SERE – 2009 . Os dados demonstrados pretendem examinar qual o aproveitamento dos alunos. PARANÁ. Biologia. qual o conhecimento assimilado pelos mesmos de modo que correspondam a sujeitos influenciados pela função social da escola. Matemática. Geografia. o gráfico apresentado não pretende analisar quais alunos alcançaram – ou não – a “nota” necessária para que “passassem de ano”. que a maioria dos alunos da turma analisada não assimilaram nem 60% do conhecimento repassado pelos professores nas disciplinas citadas. ou seja. Logicamente. vale dizer. a prática pedagógica não foi eficiente para corroborar a função da escola. Importa observar que na maior parte das disciplinas (Arte. visualmente. que no período analisado. Química e Inglês) mais de 50% dos alunos sequer alcançaram a média pretendida pelo Estado. Física.

Desempenho dos Alunos 30 28 27 26 25 26 24 23 23 23 21 20 20 20 20 19 18 17 17 16 15 15 14 13 11 11 11 10 11 9 8 7 6 8 15 15 14 13 12 12 16 15 20 19 19 19 18 20 19 23 22 21 21 21 22 25 Quantidades de Alunos 20 15 13 13 14 14 14 14 Acima da Média Abaixo da Média 10 5 0 MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA MEDIA 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre 1º Bimestre 2º Bimestre Ingles MEDIA Arte Biologia Ed.2009 Porcentagem de Notas Acima da Média (60) 80% 70% 68% 62% 59% 59% 59% 56% 50% 47% 44% 41% 41% 38% 38% 32% 29% 32% 26% 24% 24% 21% 18% 44% 44% 44% 41% 38% 35% 35% 47% 68% 1º Bimestre Notas acima da Média 60% 50% 40% 30% 20% 10% 0% 2º Bimestre MEDIA Po rtu gu es a M at em at ic a Ed . SERE . SERE – 2009 Li ng ua H ist or ia Fi si ca In gl es Ar te .F is ica G eo gr af ia Q ui m ic a Bi ol og ia Disciplinas PARANÁ. Fisica Fisica Geografia Historia Lingua Portuguesa Matematica Quimica Disciplinas/Bimestres PARANÁ.

Para que isso aconteça. tendo muito clara a concepção de homem. o Projeto Político Pedagógico. Precisamos também desenvolver na escola novas práticas avaliativas e isso só é possível fortalecendo a organização pedagógica. crítico e reflexivo é necessário para transformar a prática e trilhar caminhos diferentes daqueles usados para discriminar através de uma avaliação que assume a tarefa de classificar e excluir. para organizar a escola. 4 . Alternativas que favoreçam o desenvolvimento de um processo avaliativo abrangente. Uma nova pedagogia deverá romper de vez com os equívocos de atribuir o fracasso na aprendizagem dos menos favorecidos. como possibilidade de superação pelo coletivo das relações fragmentadas e autoritárias da escola. deverá reorientar também o Conselho de Classe como instância colegiada de avaliação permanente da prática pedagógica. A ação norteadora desta organização deve ser o compromisso com uma prática pedagógica que dê conta de promover os sujeitos envolvidos no processo ensino e aprendizagem. cabe à escola um trabalho organizado de construção de um Projeto Político Pedagógico baseado em princípios socializantes e democráticos para que não se torne um instrumento alienante.A consciência política e a democratização do ensino Para que se possa exercitar a democracia na escola é inadiável a criação de espaços de debate para a renovação de conceitos e de valores além da superação de posturas preconceituosas. exercitando a consciência . às condições de vida dos alunos e às más condições de trabalho do professor. é necessário romper com a atual estrutura do trabalho pedagógico. saudosistas e elitistas. fora da realidade para a qual se destina. além de fortalecer as bases para o trabalho participativo e coeso na escola. de sociedade e de educação que se quer. inculcando e convencendo os marginalizados socialmente.Dentre as possibilidades de avanço. Entretanto. assumido como fruto da discussão coletiva e constituída como processo. de que o lugar que ocupam na sociedade é o que merecem.

A noção de avaliação escolar para aprovar ou reprovar deve ser ultrapassada porque se os determinantes políticos fogem do nosso controle. fortalecido no seu coletivo. Só podemos começar a modificar a sociedade se iniciarmos agindo na nossa própria escola. contrário ao modelo individualizante. assunto de cidadania e construir no interior da escola um instrumento de promoção humana. técnicas e recursos que permitam implementar o paradigma da cooperação e da autonomia. Para isso. é preciso que cada professor. é que a sociedade está passando por mudanças e que. 5. tornando-o capaz de participar ativa e criticamente da sociedade. onde cabe à escola formar o novo homem. os pedagógicos são de nossa inteira responsabilidade. A solidariedade é uma dimensão da cidadania. portanto. O conhecimento da realidade das escolas é importante para tomarmos consciência das condições contemporâneas da educação. reprodução. . assumindo a educação como assunto de direito. frieza e ausência de emoções com as pessoas e com a natureza. na escola devemos criticar os tempos e procurar desenvolver um trabalho solidário e cooperativo. Em outras palavras. a nova escola democrática precisa se organizar apropriandose de metodologias.Considerações finais Os estudos em torno da prática avaliativa possibilitam a reflexão e o aprofundamento do tema. permitindo a compreensão de novas perspectiva para a prática pedagógica. perceba o espaço social que lhe pertence e procure conquistá-lo. o que se pretende dizer diante dessas alternativas possíveis. se as previsões para o futuro são de fragmentação.política da democratização do ensino e tendo sempre como compromisso o sucesso da aprendizagem dos alunos.

mas também. O trabalho de intervenção na escola destacou as distorções da avaliação já há muito percebidas como. material didático.A pesquisa revelou indícios das prováveis causas das distorções no processo ensino e aprendizagem e do fracasso escolar principalmente nas camadas mais pobres da população. Parece que todo o resto – professor. tenha respondido muitas questões referentes ao ato de ensinar. reprodutora e burocrática em um instrumento auxiliar do processo ensino e aprendizagem. sobre as prováveis causas do fracasso escolar. Se no preceito constitucional a escolarização é obrigatória não faz sentido um sistema competitivo e excludente na escola onde os menos aptos ficam relegados e fadados à repetência. Não se trata. de achar novos culpados. A proposta de refletir criticamente sobre a função social da escola. por exemplo. mas sim verificar o que precisa ser mudado para garantir a aprendizagem e a construção de um novo projeto comum de escola e de sociedade. seletiva. por ser um ato eminentemente humano. metodologia e todos os outros elementos que permeiam prática pedagógica – estão acima de qualquer suspeita. Na fala dos professores é possível perceber que os mesmos têm consciência de que a avaliação que praticam não condiz com a função social da escola. . Outrossim. a avaliação da aprendizagem e o estabelecimento de uma média como aceitável para promover os alunos. Todavia. ficam em aberto muitos outros questionamentos. sua aplicação restrita ao aluno. currículo. captando avanços e retrocessos do processo avaliativo. aprender e avaliar. é repleta de possibilidades de mudanças e avanços na prática através da teoria. a educação escolar é passível de erros. temos a consciência de que. no entanto. Admitem que são conscientes quanto ao desfavor que um modelo de avaliação que usa a nota para registrar o aproveitamento do aluno presta à uma prática competente. compreendem que não existe co-relação entre a função social da escola. Embora o trabalho de investigação. colocou no centro das preocupações a vontade política de transformar a avaliação classificatória.

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