Rousseau e o direito Quando jovem ,a maior impressão que tive foi ler o capítulo sobre a escravidão de o “ Contrato Social”

e esta impressão cresceu ainda mais quando busquei me tornar advogado.Não compreendia bem a relação da norma heterônoma e seu caráter

mandatório,coercitivo ,com o princípio da justiça,que sempre me pareceu persuasivo e não impositivo. Trata-se de discutir as relações entre força e direito.Dentro do “ Contrato Social” ,Rousseau,a partir de suas premissas,quer criticar a posição de Hobbes e de Grotius,respectivamente,acusando o absolutismo do primeiro de não ter assegurado a paz,como prometia, e ao segundo estabelecer uma legitimidade da força como fundamento do direito. Vamos nos ater ao segundo. No rastro da construção do absolutismo,segundo este propósito político de garantir a paz pelo pacto dos súditos em relação ao monarca,o direito entre as nações justifica o direito da força,o direito de domínio.É uma época de formação de impérios e a ideologia justificadora era o pensamento de Grotius. Este autor,em seu “ De iure Belli AC Pacis”,”Do Direito de Guerra e Paz entre as nações”,formula o princípio de que o conquistador tem o direito dominar o conquistado e o mantém vivo,na medida em que este se escraviza para pagar a despesa da guerra do conquistador.Haveria no entender de Grotius um “ contrato’ entre o senhor e o

escravo.Grotius retirou esta noção de contrato,de theodore de Bèze*,professor de Calvino e integrante da seita dos monarcomacos,que eram contra os monarcas e queriam estabelecer um contrato entre os governados e governantes.

Sua teoria é claramente consentânea com a historia dos impérios.A historiografia moderna confirma aquilo que talvez não fosse claro para grotius e os teóricos da época,que não tinham esta visão do passado(porque não existia a ciência histórica).Diríamos hoje que o seu pensamento é uma ideologia justificadora dos impérios ou da luta pelos impérios que as nascentes nações da Europa encetaram a partir do século XVI. Tal esquema é objeto da crítica de Rousseau,nestes capítulos que citamos e que passamos a ler. O capítulo dois fala das primeiras sociedades e da primeira especificamente,que é a família.Na família predomina o amor do chefe por seus filhos e destes por seus pais.Se na família,como modelo das sociedades políticas,o amor dos pais é compensado pelo dos filhos,na política o prazer de comandar substitui este amor,que não é compensado pelos governados,pois o chefe não sente amor por eles. Aqui Rousseau começa a fazer crítica dos seus autores “ prediletos”,Grotius e

Hobbes.Ambos ,no entender de Rousseau negam que o poder seja em favor dos governados.O poder é imposto.Não há uma troca,mas uma necessidade ou fundamento que justifica esta imposição.Nisto Grotius e Hobbes seguiriam o pensamento de Aristóteles,que na política,afirmou que uns são feitos para governar,outros para serem dominados. As primeiras reflexões,dir-se-ia dialéticas,de Rousseau ,e as mais originais, Tb se iniciam neste passo porque ele critica o fundamento natural da escravidão para Aristóteles.Se existem escravos por natureza existem os contra a natureza,porque se fosse natural ser escravo não eram precisos grilhões.

A rigor Rousseau percebe que por trás destas assertivas existe uma tentativa de legitimação de um determinado poder histórico.Em nome da necessidade do poder criam-s e justificativas.Uma delas é a que está em Grotius:o direito do mais forte ,aquela premissa a que nos referimos. Mas ele contesta que a força crie este direito,porque,em decorrência da guerra da conquista,ninguém pode alienar(como diz grotius)aquilo que já não é seu,sua vontade.Não troca a sua vida pela sua liberdade,pois o elemento decisivo desta troca,para ser legítima,é a vontade,que não está mais nas mãos do dominado.De modo que para existir um tal contrato,pressupondo igualdade de manifestação da vontade é preciso que ela seja livre. O direito de fazer baseado na conquista não existe porque a força não cria,exatamente por estes motivos,o direito,pois este só é baseado na legítima e livre manifestação da vontade.Ninguém aliena aquilo que não tem. Este ponto de partida da obra de Rousseau é essencial para entender o seu pensamento político,mas o nosso interesse aqui é desenvolver as conseqüências jurídicas do seu pensamento,é interpretar os efeitos desta idéia renovadora sobre o

direito,especificamente na categoria da liberdade. Rousseau fundamenta o pensamento,de que não existe liberdade sem direito,sem norma.Ser autônomo é ser capaz de seguir regras,mas aqui aparece um problema:quais regras?as minhas ou as do grupo?Porque seguir as minhas pode significar ir contra o grupo social.Kant resolve esta questão com o imperativo moral categórico,mas Rousseau ,e isto é base para a rev francesa ,entende a liberdade como algo pessoal e intransferível,como a vontade.Toda a filosofia final da vida de Rousseau foi calcada naquilo que,desde o inicio ,ele defendeu,a felicidade do indivíduo,apesar dos outros,o

caminho pessoal em direção à liberdade,que ele só encontra no coletivo,no corpo político.Tal não significa que ele fosse contra norma,mas o direito é visto como algo inerente ao homem.Algo que lhe é inalienável. Para ficarmos especificamente na questão do direito nós não devemos tratar do problema da liberdade ou do amor de si ou de outrem,mas tratar do problema do contrato,do pacto social.Se não há uma formulação jurídica de Rousseau,em termos,há um fundamento,pelo qual a regra básica da sociedade é reconhecer as necessidades naturais da pessoa. Em Locke há necessidade de reconhecimento do direito à busca da felicidade,mas em Rousseau o pacto social visa a chegar o mais próximo possível da inocência perdida da natureza humana,identificada esta com o equilíbrio entre o homem e a natureza.O corpo do indivíduo é esta mediação,mas o corpo político é a expressão deste pacto social,com a sua finalidade.Eis que para Rousseau o fundamento do direito é o corpo político entendido por ele como a vontade geral soberana e indivisível.Se o direito de conquista não forma direito o direito só se forma a partir de relações iguais entre os integrantes deste corpo político.É a noção de contrato. O corpo político é um todo,não se refere a uma parte.tal distinção criaria partes desiguais do corpo político e todo o edifício contratual da sociedade desaba. A lei e o direito são definidos por Rousseau da seguinte maneira:

“Mas quando todo o povo estatui sobre todo o povo, só a si mesmo considera; e se se forma então uma relação , é do objeto inteiro sob um ponto de vista ao objeto inteiro sob outro ponto de vista, sem nenhuma divisão do todo. Então, a matéria sobre a qual

estatuímos passa a ser geral, como a vontade que estatui. A esse ato é que eu chamo uma lei.” Uma lei só é válida enquanto é feita do ponto de vista do todo e não da parte pois só assim se mantém o corpo político e a finalidade do contrato social. Kant formula de modo igual?Kant formula a partir dos valores,do transcendente,da norma,da forma,da razão.Rousseau defende a democracia direta,a relação igualitária entre todos como condição de sustentação jurídica do estado e neste sentido ele é um pensador utópico,gerador do socialismo e do comunismo moderno porque defende um regime igualitário e integral. A vontade pela vontade é compulsão.Para Rousseau o fundamento e finalidade da vontade é a liberdade,mas ele a associa à solidariedade coletiva,entendida como república,coisa de todos.

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